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Comunicação em Blogs como Redes Sociais

Fábio Júnior Diniz

Resumo: o presente artigo tem por finalidade realizar uma


análise do processo de comunicação que ocorre entre os
blogs e seus leitores, e de que forma essa comunicação
cria comunidades sociais virtuais.

Palavras-chave: blog, comunicação, redes sociais.

Introdução

A popularização da internet nos dias de hoje tem aumentado de maneira


cada vez mais rápida e maciça. A cada dia, mais e mais pessoas estão
conectadas a websites, sejam eles comerciais, informativos, de entretenimento,
pesquisa etc. Neste contexto, as redes sociais virtuais têm um grande
destaque, e especificamente os blogs (ou weblogs) têm demonstrado um papel
fundamental na socialização e na comunicação da internet.
O fenômeno dos blogs é de certa forma recente. Segundo Rebecca
Blood (2000), no início de 1999 haviam na internet 23 blogs conhecidos1.
Porém, sua expansão se deu a partir do surgimento dos sistemas de
gerenciamento via web, como o Blogger, um dos principais serviços online
gratuitos, que facilitaram a criação e a utilização dos blogs através da
simplificação das “tecnologias” HTML2, umas das principais barreiras. Segundo
o estudo “State of the Blogosphere 2008” do conceituado site Technorati, até o
ano de 2008 já haviam no mundo todo aproximadamente 133 milhões de
blogs3.
De funcionamento relativamente simples, os blogs se caracterizam
tecnicamente pela facilidade de edição e publicação – “posts” – e pela
possibilidade de atualização freqüente. Os posts geralmente são reduzidos, e
1
http://www.rebeccablood.net/essays/weblog_history.html
2
Hypertext Markup Language – Linguagem de Marcação de Hipertexto, a linguagem de
programação utilizada para produzir páginas da web.
3
http://technorati.com/blogging/feature/state-of-the-blogosphere-2008/
2

se organizam cronologicamente, sendo que as postagens mais novas são


dispostas no topo do website.
Os blogs são em sua maioria publicações de conteúdo pessoal. Quanto
a este conteúdo, Recuero (2002) classifica-os em três categorias principais:
diários eletrônicos – onde o autor utiliza o blog como canal de sua própria
expressão; publicações eletrônicas – seu conteúdo é naturalmente informativo,
com notícias e comentários acerca de um determinado assunto, voltado
geralmente a um tema central do blog; publicações mistas – uma mistura das
categorias anteriores, mesclando assuntos pessoais do autor com informação.
Esta classificação demonstra como errônea a idéia difundida de que
blogs são exclusivamente diários on-line, uma vez que são muitas as formas de
utilização dos mesmos, tanto pessoais quanto informacionais.
É importante para este estudo salientar a interatividade presente entre o
autor do blog e seus leitores. Esta interação é possível através da ferramenta
de comentários, que acompanha cada post. Por meio desta ferramenta, os
leitores podem comentar o que leram, comentar outros comentários e indicar
outros websites e blogs – inclusive os seus próprios – através de links,
estabelecendo relações sociais mútuas entre leitores e autores, formando
assim redes sociais virtuais.
Para melhor compreender este processo de comunicação e socialização
nos blogs, veremos a seguir alguns conceitos teóricos que nos elucidarão em
nosso estudo.

Cibercultura e virtualização
A nova face da informação que a internet proporciona possui um traço
distintivo que nos interessa neste estudo: a virtualidade.
Segundo Lévy (2000), em uma concepção filosófica, “é virtual aquilo que
existe em potência e não em ato”, ou seja, a virtualidade “encontra-se antes da
concretização efetiva ou formal”, é a existência de algo sem o mesmo estar
presente, sem nenhum tipo de fixação espaço-temporal.

É virtual toda entidade “desterritorializada”, capaz de gerar diversas


manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados,
3

sem contudo estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular.


(LÉVY, 2000, p. 47)

Sob este aspecto, a informação digitalizada nos computadores, uma vez


que estes estejam interligados ao ciberespaço, serão quase virtuais, uma vez
que praticamente não dependem de uma localização espaço-temporal
determinada. Mesmo que esteja fisicamente armazenada em algum ponto do
ciberespaço, a informação encontra-se virtualmente disponível em cada ponto
da rede.
Lévy conceitua ciberespaço como o “espaço de comunicação aberto
pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos
computadores”. Esta concepção nos traz a idéia da internet como um espaço
de circulação da informação, um canal de comunicação onde se dá a
virtualização e o compartilhamento da informação, através das redes de
computadores. O desenvolvimento dessas redes favorecem também os mais
variados movimentos de virtualização da comunicação, encorajando relações
sociais que de certa forma passam a não depender de localização geográfica
ou temporal. Assim, as características próprias do ciberespaço permitem que
indivíduos de um grupo social “se coordenem, cooperem, alimentem e
consultem uma memória comum, e isto quase em tempo real, apesar da
distribuição geográfica e da diferença de horários (LÉVY, 2000, p. 49)”.
Esta forma de socialização baseada na virtualidade existe desde o
princípio da internet. Os primeiros usuários da rede criaram comunidades
virtuais como a USENET e os BBS, moldando e difundindo as formas e o uso
da rede, como envios de mensagens eletrônicas, fóruns e salas de chat. O
surgimento de novas tecnologias atuou como suporte para a socialização no
ciberespaço, através da possibilidade cada vez maior de criação de redes
sociais virtuais. Manuel Castells faz a seguinte observação sobre as redes
sociais virtuais:

A melhor maneira de compreendê-las é vê-las como redes de


sociabilidade, com geometria variável e composição cambiante, segundo a
evolução dos interesses dos atores sociais e a forma da própria rede. Em
grande medida, o tema em torno do qual a rede on-line é montada define
seus participantes. (CASTELLS, 2003, p. 109)
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Castells propõe duas características fundamentais e comuns às


comunidades sociais virtuais: o valor da comunicação livre – que personifica “a
prática da livre expressão global, numa era dominada por conglomerados de
mídia e burocracias governamentais censoras”; e a formação autônoma de
redes – a “possibilidade dada a qualquer pessoa de encontrar sua própria
destinação na Net, e, não a encontrando, de criar e divulgar sua própria
informação, induzindo assim a formação de uma rede”.
Diante destes conceitos, é possível analisar os blogs como comunidades
sociais virtuais, a partir da observação de alguns aspectos.

Blogs como redes sociais


A utilização dos blogs como redes sociais pode ser percebida ao
analisarmos como ocorrem os processos de comunicação e socialização entre
os blogs e seus leitores.
Primeiramente, é importante ressaltar como se inicia a comunicação
através dos blogs. Conforme visto anteriormente, os blogs possuem como uma
de suas características fundamentais a facilidade de edição e publicação de
conteúdo. Partindo para uma visão comunicacional, percebemos aí claramente
elementos como o emissor e a mensagem. Ora, para que o processo de
comunicação se complete, é necessária a presença do receptor. Contudo, em
um ambiente repleto de informação como a internet, torna-se clara a
importância da audiência, cuja existência só se torna possível na medida em
que o público esteja disponível. É neste sentido que nota-se como fundamental
a credibilidade dos blogs, para a persuasão e fidelização de seus leitores.
Paulo Serra (2006) enfatiza que a credibilidade depende de três fatores: a
competência do autor naquilo que escreve; a fiabilidade, que é a confiança que
o autor passa de suas informações; e a boa vontade, a preocupação do autor
com seus leitores e como o que escreve. Soma-se a estas características o
que o autor chama de “credibilidade reputada” – que é o reconhecimento, seja
através de prêmios ganhos, por outros media, ou por outros websites e blogs.
Assim, percebe-se a credibilidade de um blog como um pilar na
construção de comunidades virtuais, pois leva-o a se vincular – através de
hiperlinks – a outros blogs, que por sua vez ligam-se a outros blogs, formando
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uma rede de relações sociais virtuais no ciberespaço, de leitura e interação


mútua.

Webrings
Raquel Recuero utiliza o termo “webring” para definir “círculos de
bloggeiros (sic) que lêem seus blogs mutuamente e interagem nestes blogs
através de ferramentas de comentários”. Segundo a autora, os blogs funcionam
assim como representações de seus autores no ciberespaço.

Os blogs são linkados uns nos outros e formam um anel de interação


diária, através da leitura e do comentários dos posts entre os indivíduos,
que chegam a comentar os comentários uns dos outros ou mesmo deixar
recados para terceiros nos blogs. (RECUERO, 2003, p. 7)

Neste contexto, os comentários são fundamentais, pois proporcionam


uma interatividade necessária para construir diálogos entre o blogueiro e seus
leitores, e entre os leitores entre si, que utilizam a ferramenta não só para a
comunicação com o autor, mas com o webring como um todo, reforçando as
relações sociais na comunidade virtual através desta interação.
Assim, podemos finalmente perceber que, mais do que simples diários
pessoais ou publicações eletrônicas no ciberespaço, os blogs funcionam como
comunidades sociais virtuais, onde os indivíduos se encontram e travam entre
si relações sociais, construindo laços e interagindo das mais diversas formas
com os demais elementos da comunidade.
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Referências bibliográficas
CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. 2.ed. São Paulo: Editora 34, 2000.
POLISTCHUK, Ilana; TRINTA, Aluizio Ramos. Teorias da comunicação:
o pensamento e a prática da comunicação social. 5.ed. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2003.
RECUERO, Raquel. Weblogs, Webrings e Comunidades Virtuais. 2003.
Disponível em http://pontomidia.com.br/raquel/webrings.pdf. Acessado em 23
de novembro de 2009.
SERRA, Paulo. Web e credibilidade – O caso dos blogs. 2006.
Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/serra-paulo-web-credibilidade-
blogs.pdf. Acessado em 20 de novembro de 2009.
WOLF, Mauro. Teoria das comunicações de massa. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.