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As Raízes do Amor

Um guia para a Constelação Familiar

entendendo os laços que nos unem e o caminho para a liberdade

Svagito R. Liebermeister

Tradução

Daniela Nogueira
Guilherme Ashara

Fortaleza - Ceará
1ª Edição
2013
"Este livro é para pessoas que querem entender os conhecimentos básicos
da Constelação Familiar. [...] pode ser usado como um manual de formação
para as pessoas que querem facilitar sessões de Constelação Familiar e é
também oferecido àqueles que querem procurar um entendimento mais
profundo das relações pessoais e familiares.”

Svagito R. Liebermeister
nasceu na Alemanha em 1957.
É formado em Psicologia pela Universidade de Munique, com mais de 25
anos de experiência como terapeuta. Estudou uma vasta gama de
abordagens terapêuticas, incluindo massagem dos tecidos profundos,
respiração neorreichiana e trabalho da energia, massagem p síquica e
aconselhamento. Paralelamente ao seu interesse pela terapia, é discípulo
do místico indiano Osho, desde 1981, e explorou muitas técnicas de
meditação. Em 1995, incluiu a "Constelação Familiar" em seu trabalho,
estudando com o seu fundador, Bert Hellinger, e, desde 2000, insere os
próprios programas de treinamento nesta nova e fascinante abordagem à
terapia. Svagito combina a terapia com a meditação e já treinou centenas
de praticantes em todo o mundo na arte de trabalhar com pessoas. É
atualmente o coordenador do Programa Anual de Treinamento de
Terapeutas no Osho Meditation Resort, em Pune, na Índia, um dos maiores
centros de crescimento pessoal no mundo. Oferece cursos e programas de
treinamento em mais de 15 países da Europa, Ásia, América Centr al e outras
partes do mundo, onde seu trabalho já conquistou reconhecimento.
Copyright © Svagito R. Liebermeister 2006
Fundação Demócrito Rocha
Presidente
João Dummar Neto
Edições Demócrito Rocha (EDR)
(Marca registrada da Fundação Demócrito Rocha)
Editora
Regina Ribeiro
Editor Adjunto
Raymundo Netto
Coordenador de Produção
Sérgio Falcão
Editor de Design
Amaurlcio Cortez
Capa e Projeto Gráfico
Deglaucy Jorge Teixeira
Diagramação
Dhara Sena
Tradução
Daniela Nogueira e Guilherme Ashara
Catalogação na Fonte
Ana Kelly Pereira
1 a reimpressão
1.000 exemplares
www.family-constellation.net
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada
em sistema de recuperação ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico,
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Liebermeister, Svagito R.
L716r As raízes do amor, um guia para a constelação familiar:
entendendo os laços que nos unem e o caminho para a liberdade. /
Svagito R. Liebermeister; Tradução, Daniela Nogueira e Guilherme Ashara. - Fortaleza:
Edições Demócrito Rocha, 2013.
284 p.; il. color.
ISBN 978-85-7529-563-2
1 . Autoconhecimento 2 . Constelação Familiar 3 . Meditação I. Nogueira, Daniela II. Ashara,
Guilherme. IV. Título
CDU 82-053.2/7
Edições Demócrito Rocha
Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora - Cep 60.055-402 - Fortaleza-Ceará Tel.: (85) 3255.6270 -
3255.6148 - 3255.6256 - Fax (85) 3255.6271 edicoesdemocritorocha.com.br I edr@fdr.com.br I
livrariaedr@fdr.com.br
Um nascimento foi dado a você por seus pais, o outro nascimento está
esperando. Ele tem de ser dado a você por você mesmo. Você tem que
'paternizar' e 'maternizar' a si mesmo.
Osho

Agradecimentos
Gostaria de expressar minha gratidão a Osho, meu mestre espiritual, que tem sido
a minha maior fonte de inspiração, pessoalmente e no meu trabalho como
terapeuta. Ele tem me ajudado a encontrar a coragem para questionar atitudes
convencionais, conquistar percepções mais profundas na vida e apreciar o
elemento de mistério que permeia todos os aspectos da experiência huma na.
Sou grato a Bert Hellinger, por ter criado a abordagem terapêutica da Constelação
Familiar, em especial as novas perspectivas que ela abriu para mim, pessoal e
profissionalmente.
Sou grato à minha mãe, que me ensinou o amor incondicional, e ao meu pai, que
me ensinou o respeito pela liberdade. Agradeço à minha amada parceira e esposa,
Meera, que compartilha a minha viagem comigo e que está sempre pronta para
despertar minha felicidade e meu senso de aventura.
Também quero agradecer a Savita, que começou o projeto deste livro comigo, e a
Subhuti, que completou. Sem a ajuda e o encorajamento delas, eu não teria nem
começado a escrever, e sem a habilidade de Subhuti, em manter o tom da luz na
minha escrita "ao ponto", este livro não teria surgido.
Sinto-me grato a todos os meus professores e parceiros no trabalho de
Constelação Familiar, especialmente a Suravi, que faz um ótimo trabalho ao ajudar
a espalhar esta forma de terapia na Espanha, e a todos os meus alunos e
participantes de grupos, cuja confiança e amor me tocaram profundamente. Eles
enriqueceram a minha vida, o meu trabalho e ajudaram a minha compreensão a
crescer. Muitas das histórias deles foram incluídas neste livro, mas tive de mudar
os nomes - e, em alguns casos, os países - para proteger a privacidade deles.
Sumário

Introdução ................................................................................................................. 13
Expressões Específicas ............................................................................................ 15
1 Compreendendo a Constelação Familiar ........................................................ 16
Capítulo Um
Sistemas Familiares: como eles funcionam ........................................................ 16
O que é uma constelação? ..................................................................................... 19
Somos parte de um coletivo ................................................................................. 21
Quem pode se beneficiar com a Constelação Familiar? ................................. 22
Configurando uma Constelação ........................................................................... 23
O método de uma sessão ...................................................................................... 24
Uma sessão típica de Constelação Familiar ....................................................... 26
Capítulo Dois
Consciência: a força propulsora ........................................................................... 29
Consciência pessoal: a necessidade de pertencer ............................................ 31
A necessidade de equilíbrio .................................................................................. 33
Ordem Social e Etiqueta ......................................................................................... 34
Nossa consciência coletiva .................................................................................... 36
A Lei do Pertencimento .......................................................................................... 36
A Lei da Hierarquia .................................................................................................. 37
A Lei do Equilíbrio ................................................................................................... 37
O bem-estar de todo o sistema ............................................................................ 39
O pessoal contra o coletivo ................................................................................... 40
Capítulo Três
Exclusão: quem foi deixado de fora? ................................................................... 43
Uma avó excluída ..................................................................................................... 45
O que exclusão significa ......................................................................................... 48
Completando o passado - incluindo os excluídos ........................................... 48
Do amor cego ao amor consciente ...................................................................... 50
Quem pertence ao sistema familiar ..................................................................... 51
Casos narrados como exemplo ........................................................................ 52
Capítulo Quatro
A Ordem Sagrada ..................................................................................................... 53
A Ordem do Amor: pais e filhos ........................................................................... 58
Respeitando os pais ................................................................................................ 59
Expressando a honra ............................................................................................... 63
Devolvendo a carga com amor ............................................................................. 64
Capítulo Cinco
A culpa familiar: a necessidade de equilíbrio .................................................... 67
A culpa coletiva ........................................................................................................ 69
Resolvendo a culpa familiar................................................................................... 73
Resumo ....................................................................................................................... 76
Capítulo Seis
A vítima e o perpetrador ........................................................................................ 76
Desistir do papel do juiz ........................................................................................ 80
Aplicando essa dinâmica em uma sessão........................................................... 81
O que é identificação? ............................................................................................ 82
Conflitos nacionais e culturais .............................................................................. 84
Trabalhando com essas dinâmicas como facilitador ....................................... 87
Capítulo Sete
Os mortos e os vivos ............................................................................................... 88
Agarrando-se aos mortos ...................................................................................... 93
A ilusão da autoimportância ................................................................................. 94
Morte no parto ......................................................................................................... 95
Pessoas reais e eventos reais ................................................................................ 97
Quando os mortos aprendem com os vivos ...................................................... 99
Capítulo Oito
O movimento interrompido para a mãe .......................................................... 101
Restaurando o vínculo ......................................................................................... 104
Capítulo Nove
As dinâmicas familiares por trás das doenças: os padrões básicos de
emaranhamento .................................................................................................... 107
Seguir ....................................................................................................................... 109
Assumir .................................................................................................................... 109
Expiar por culpa ..................................................................................................... 111
Lidando com as doenças ..................................................................................... 111
Um tumor no útero ............................................................................................... 114
Esclerose Múltipla ................................................................................................. 115
2 Compreendendo as relações atuais .............................................................. 117
Capítulo Dez
A relação homem-mulher ................................................................................... 117
O equilíbrio entre dar e receber ........................................................................ 118
Onde os problemas começam ........................................................................... 119
A troca positiva e negativa ................................................................................. 123
O vínculo no relacionamento ............................................................................. 127
Ordem na relação ................................................................................................. 130
Capítulo Onze
Crescendo no relacionamento ........................................................................... 134
Respeitando o oposto .......................................................................................... 135
Mesmo sexo: polaridades mais fracas .............................................................. 136
Recebendo as diferenças familiares ................................................................. 137
O vínculo negativo é mais forte ........................................................................ 139
Respeitando o emaranhamento do parceiro .................................................. 140
O aprofundamento das relações ....................................................................... 142
Demonstrando proximidade em uma sessão ................................................. 144
Exercício .................................................................................................................. 145
Cenário 1: ................................................................................................................ 146
Cenário 2: ................................................................................................................ 146
Capítulo Doze
A evolução de uma relação ................................................................................ 147
Quando a lua de mel acaba ................................................................................ 148
Expandindo no amor ............................................................................................ 150
Reconhecendo as limitações .............................................................................. 152
Amor desigual ........................................................................................................ 155
Reconhecendo ex-parceiros ............................................................................... 156
Separar-se tranquilamente ................................................................................. 160
Capítulo Treze
Ter filhos ................................................................................................................. 161
Separar-se com filhos .......................................................................................... 166
Quem é o cliente? ................................................................................................. 168
A rivalidade entre irmãos .................................................................................... 168
Capítulo Catorze
As dimensões do amor ........................................................................................ 169
Sexo .......................................................................................................................... 170
Amor ........................................................................................................................ 171
Compaixão .............................................................................................................. 172
Aprender sobre nós mesmos ............................................................................. 173
Capítulo Quinze
Tópicos especiais: incesto, aborto, adoção, homossexualidade, triângulos
amorosos ................................................................................................................ 175
Incesto e Abuso Sexual ........................................................................................ 176
Aborto ...................................................................................................................... 180
Adoção .................................................................................................................... 183
Homossexualidade ................................................................................................ 185
Parceiros múltiplos e triângulos amorosos ..................................................... 187
3 Facilitando as Constelações Familiares ........................................................ 189
Capítulo Dezesseis
Passos para colocar uma Constelação ............................................................. 190
Identificando a questão real ............................................................................... 191
Qual família primeiro? ......................................................................................... 192
Quem precisa ser representado? ....................................................................... 193
Colhendo feedback ............................................................................................... 195
Do diagnóstico à solução .................................................................................... 196
Capítulo Dezessete
A atitude do facilitador ........................................................................................ 196
Qualidades de Presença ...................................................................................... 197
Trabalhando sem Preconceito ............................................................................ 198
A arte da auto-observação ................................................................................. 199
Cara a cara com o medo ..................................................................................... 201
A necessidade da sinceridade ............................................................................ 202
Além da consciência pessoal .............................................................................. 204
Conectando-se com os pais ............................................................................... 205
Desencorajando a transferência ........................................................................ 206
Soluções imprevisíveis ......................................................................................... 208
Respeitando os campos de energia .................................................................. 209
Apoiando os movimentos de cura .................................................................... 211
Capítulo Dezoito
Diretrizes para o facilitador ................................................................................ 212
Duas questões básicas ......................................................................................... 213
Três Princípios ........................................................................................................ 216
Capítulo Dezenove
Três elementos: Ordem, Realidade e Energia ................................................. 216
Ordem ...................................................................................................................... 217
Realidade ................................................................................................................ 220
Recolhendo fatos .................................................................................................. 220
Usando fatos em uma sessão ............................................................................. 223
Energia ..................................................................................................................... 225
Todos os três são necessários ............................................................................ 228
Capítulo Vinte
Frases que curam .................................................................................................. 229
Capítulo Vinte e Um
Movimentos da alma ............................................................................................ 234
Um fluxo contínuo ................................................................................................ 236
Movimentos de emaranhamento, movimentos de cura .............................. 237
Uma sabedoria maior ........................................................................................... 240
Passado e presente ............................................................................................... 241
Diferentes emoções .............................................................................................. 242
Permitindo que a energia cresça ....................................................................... 243
4 O papel da meditação na Constelação Familiar ......................................... 245
Capítulo Vinte e Dois
A arte da meditação ............................................................................................. 245
Capítulo Vinte e Três
Sessões individuais e seminários ....................................................................... 252
Sessões individuais ............................................................................................... 252
Seminários: Trabalhando em grupos ................................................................ 255
Rodadas ................................................................................................................... 256
Exercícios ................................................................................................................ 257
Meditações ............................................................................................................. 259
Capítulo Vinte e Quatro
O contexto do trabalho ....................................................................................... 262
Terapia e Meditação ............................................................................................. 262
Dois tipos de felicidade ....................................................................................... 264
Duas maneiras de fazer Constelação Familiar ................................................ 265
Um modelo de realidade ..................................................................................... 266
O ponto de vista transcendente ........................................................................ 268
Além do sistema de crenças ............................................................................... 270
Aprendendo Constelação Familiar .................................................................... 272
Significado profundo das Leis da Constelação Familiar .............................. 273
A Lei do Pertencimento ....................................................................................... 273
A Lei da Ordem ...................................................................................................... 273
A Lei do Equilíbrio ................................................................................................ 274
Honrando os Mortos ............................................................................................ 274
Vítimas e perpetradores ...................................................................................... 274
Em sintonia com a vida ........................................................................................ 275
O caminho para a liberdade ............................................................................... 277
Apêndice ................................................................................................................. 279
Perguntas mais frequentes ................................................................................. 279
Com que frequência deve-se fazer uma constelação? ................................ 279
Quando você interrompe uma constelação?................................................. 281
Pode-se fazer uma constelação para outra pessoa? ..................................... 282
E se nada parece mudar depois de uma sessão? .......................................... 282
Constelações com objetos, sentimentos e abstrações ................................. 283

Introdução
Todo mundo tem uma mãe e um pai. Isso é um fato universal e
autoevidente que nós tomamos como certo, na maioria das vezes, e
nos esquecemos disso às vezes. No entanto, esses são dois dos
relacionamentos mais significativos nas nossas vidas. Por meio dos
nossos pais, entramos na forma física e no mundo; por meio deles,
chegamos à vida. Como o místico Osho diz:
"Metade do seu ser é composta por sua mãe e a outra metade é
composta por seu pai. Você está aqui por causa deles; se eles não
estivessem aqui, você não estaria também. Tudo o que está
acontecendo com você é, de certa forma, por causa deles... Tem-se
que tomar consciência disso."
Cada um de nós, consciente ou inconscientemente, é profundamente
conectado aos pais, sentindo amor por eles ou ressentimento contra
eles, talvez querendo permanecer perto deles ou, inversamente,
fazendo o possível para fugir deles. Raramente, existe alguém que é
simplesmente indiferente em relação a eles.
A "Família" é considerada a raiz de toda a miséria ou a fundação de
uma sociedade saudável e as dinâmicas das relações familiares têm
sido objeto de estudos científicos por décadas.
Constelação Familiar é uma forma relativamente recente de terapia
desenvolvida por Bert Hellinger, um terapeuta alemão, e rapidamente
ganhou interesse mundial. No núcleo desta abordagem está a
descoberta de leis básicas que regem os sistemas familiares e que são
os mesmos em todas as culturas.
Este livro é para pessoas que querem entender os conhecimentos
básicos da Constelação Familiar. Ele pode ser usado como um manual.
Nele, eu discuto os principais pontos em uma linguagem simples e os
coloco em um contexto mais amplo que vai além da terapia. Resumo
as descobertas de Bert Hellinger, acrescento as minhas percepções e
introduzo a meditação como uma abordagem paralela e
complementar que conecta as pessoas à Constelação Familiar de uma
forma mais ampla e mais profunda. Os estudos de caso que uso como
exemplos são extraídos principalmente da minha experiência, que
abrange vários países, e são claramente indicados no texto.
Este livro pode ser usado como um manual de formação para as
pessoas que querem facilitar sessões de Constelação Familiar e é
também é oferecido àqueles que querem procurar um entendimento
mais profundo das relações pessoais e familiares. Na primeira parte,
discuto as leis que regem a relação entre pais e filhos, aplicando essas
leis para a família de origem na qual nascemos.
Na segunda parte, examino a singularidade do relacionamento
homem-mulher e como podemos nos relacionar com nossos
parceiros de uma maneira mais saudável.
A terceira parte aponta os fatores que precisam ser considerados ao
conduzir sessões da Constelação Familiar.
Na parte quatro, descrevo uma maneira de combinar a Constelação
Familiar com a meditação, com a compreensão de que este método
não é uma maneira de "consertar" as pessoas, mas um trampolim para
se aproximar de nossa verdadeira natureza, para descobrir o que
norteia nosso comportamento... e o que está além.
Também na quarta parte, trago o trabalho de Hellinger, junto com os
insights de Osho, um místico indiano que desenvolveu muitas técnicas
diferentes de meditação. A abordagem básica de Osho para a
psicoterapia, incluindo métodos como a Constelação Familiar, que é
um método útil para desobstruir a mente para que possamos nos
mover mais facilmente para o silêncio e para quietude da meditação.
Expressões Específicas
Há um determinado vocabulário que acompanha a Constelação
Familiar; o significado se tornará mais evidente à medida que
progredirmos com o livro. No entanto, será útil cobrir alguns pontos
básicos aqui:
Quando nos referimos a um membro da família em uma sessão de
Constelação, estamos nos referindo ao representante que está 'de pé'
fazendo o papel daquela pessoa. Os membros reais da família,
geralmente, não se apresentam durante a sessão.
O cliente é quem está recebendo a constelação. São as suas relações
familiares que estão sendo examinadas.
O líder da constelação é referido como o terapeuta ou facilitador.
Eu uso esses termos indistintamente.
Um representante ou substituto é uma pessoa que é colocada pelo
cliente em uma constelação para representar um dos membros da sua
família, ou ele próprio.
Uma frase de solução é uma declaração dada a uma representante,
ou ao cliente, geralmente pelo facilitador, para dizer a outra pessoa
na constelação.
A palavra destino é usada para indicar a forma como a vida se
configurou para alguém... com todos os seus aspectos bons e difíceis.
Um movimento é um movimento físico de um representante ou uma
agitação emocional interna ou um sentimento.
A expressão emaranhamento significa o envolvimento emocional de
uma pessoa na vida de outro membro de sua família ou de seu grupo
social.
Quando nos referimos a alguém ser "pequeno" ou "grande" não
significa o tamanho físico, mas indica uma atitude psicológica, como
é explicado no livro.
Uma vez que estamos sujeitos ao fato de que a língua inglesa não
tem pronome pessoal para se referir a homens e mulheres, às vezes
usamos "ele" e "dele", e em outras vezes "ela" e "dela", para incluir
ambos os sexos.
Nota da tradução para a língua portuguesa:
Neste livro falamos sobre dois tipos de consciência que são
traduzidas para o português com uma única palavra. A primeira
palavra em inglês é conscience que é um espaço de consciência
limitada conectada com as referências sociais e culturais que dão
identidade ao indivíduo. Ela pode ser reconhecida quando o autor fala
da consciência pessoal e coletiva. O autor se refere a esse nível de
consciência no Capítulo Dois, onde ela é definida por Svagito como
"...um mecanismo da mente que sabe quais valores devem ser
seguidos e quais não devem ser seguidos."
A outra palavra em inglês é consciousness que é uma consciência
ampla, de nível espiritual. Ela indica a percepção instantânea daquilo
que é. No seu livro O Amor do Espírito, Bert Hellinger coloca "...a
consciência espiritual supera as limitações das outras duas
consciências, limitações estas que surgem através da diferenciação
entre bom e mau e da diferenciação entre pertencimento e exclusão."
Neste livro Svagito fala deste nível de consciência no Capítulo V inte
e Dois quando define meditação como "...um estado iluminado de
consciência, uma estado contínuo em que o processo de pensamento
cessou, no qual existe apenas silêncio, paz e quietude."

Compreendendo a Constelação Familiar

Capítulo Um
Sistemas Familiares: como eles funcionam
Há mais de 100 anos, Sigmund Freud, o fundador da psicologia
moderna, descobriu que a relação com nossos pais na infância afeta
cada pequeno detalhe de nosso desenvolvimento psicológico. Em
particular, ele viu como o relacionamento com nossas mães, com sua
nutrição e provimento, também poderia levar à neurose, à confusão
e ao desespero.
Por um tempo, a mãe foi responsável sozinha pelo aspecto negativo
da nossa vida psicológica. Já que acreditavam nisso, virou moda fazê-
la responsável por todos os pequenos eventos que não se encaixavam
no nosso percurso. Nos círculos de terapia, culpar os pais,
especialmente a mãe, tornou-se a forma padrão para representar a
infelicidade.
Então, na década de 1960, psiquiatras pioneiros como R.D. Laing,
Thomas Szazz e outros exploraram dinâmicas de toda a família, não
apenas os pais, mostrando como é neurótico e psicótico o
comportamento que é frequentemente resultado de mensagens
conflitantes vivenciadas no início da vida familiar. Tratar crianças
perturbadas e adultos infelizes como parte de todo o seu sistema
familiar logo encontrou seu espaço na corrente predominante da
psicoterapia.
Quando você pensa sobre isso, faz sentido. Tal como na física
quântica, tem sido determinado que cada parte de um complexo
sistema de partículas atômicas está afetando e sendo afetada por
todas as outras partes; o mesmo também é verdadeiro para todos os
tipos de sistemas de grande porte, incluindo os padrões climáticos
globais, as cadeias alimentares animais e a família humana.
As leis e as influências que regem os sistemas familiares foram
desenvolvidas por Virginia Satir e outros e, em seguida, na década de
1990, um psicoterapeuta alemão inovador, Bert Hellinger, atraiu a
atenção mundial ao apresentar uma abordagem totalmente nova para
trabalhar com as famílias e as organizações. Agora, em mais de 25
países, consultores, terapeutas e outros profissionais de constelações
familiares e organizacionais estão trabalhando com a abordagem
Hellinger.
Psicanalista classicamente treinado, Hellinger reuniu vários elementos
diferentes de observação psicológica e teoria sistêmica da família e
os integrou com a sua experiência pessoal sobre como as tribos sul -
africanas zulus lidam com as relações familiares. Ele observou isso
durante os anos em que atuou como missionário. Além desses
diversos elementos, ele criou uma forma breve e intensa de terapia
chamada de Constelação Familiar, ou Constelações Sistêmicas.
No seu novo método, Hellinger também adotou e modificou
elementos do psicodrama, originalmente desenvolvido por Jacob
Moreno, e da escultura familiar, criada por Virginia Satir.
O psicodrama torna visíveis os problemas emocionais do início da
vida do cliente de uma forma teatral, em que um grupo de
participantes, incluindo o próprio cliente, atua em papéis familiares
como se estivesse em um palco, tentando ilustrar e resolver os
problemas do cliente e, muitas vezes, projetando melhores soluções
e resultados mais positivos do que o que realmente está acontecendo
na família naquele momento.
Satir, que muitas vezes é chamada de "A Mãe da Terapia Sistêmica
Familiar", também usou participantes para representar as cenas
familiares, mas de um modo mais simbólico. Ela foi quem primeiro
observou que a distância entre as pessoas bem como as posturas
delas indicavam algo sobre a sua relação com o outro. Satir começou
a trabalhar com familiares reais do cliente, mas, quando alguns
membros da família não apareciam um dia, ela tinha de chamar
estranhos para representá-los e, dessa forma, descobriu que outras
pessoas na posição deles poderiam sentir, e realmente sentiriam o
que o membro real da família sentiria.
Hellinger refinou a percepção de Satir, usando apenas representantes
para se posicionarem diante dos membros originais da família e deu
a esses representantes a liberdade para seguir o que eles sentissem
dentro de si mesmos, sem serem influenciados pela interpretação
pessoal do cliente.
Hellinger também se inspirou na obra de Eric Berne, um psiquiatra
canadense que foi o fundador da análise transacional. Berne observou
que todo mundo passa pela vida seguindo um "roteiro secreto da
vida", criado há muito tempo na infância, que pode ser trazido para a
luz do dia, conscientemente reconhecido e, em seguida, mudado.
No entanto, Berne não foi além da vida pessoal de alguém, enquanto
Hellinger descobriu que um roteiro pode ser tomado de uma pessoa
de uma geração anterior e adotado como próprio. Tendo descoberto
o roteiro oculto da vida, ambos, Berne e Hellinger, então,
introduziram "frases de solução" para ajudar uma pessoa a sair do
confinamento de um determinado roteiro.
É importante perceber que, apesar do trabalho de Hellinger dever
muito a outras formas de terapia, a Constelação Familiar é muito mais
do que a soma de suas partes. É um sistema orgânico em si mesmo e
uma das mais profundas e poderosas terapias já inventadas. Em uma
única sessão, com duração de talvez menos de 20 minutos, são
reveladas verdades profundas sobre nossas famílias e nós mesmos
que podem curar, transformar, libertar e mudar radicalmente as
nossas vidas para melhor.
O que é uma constelação?
A técnica de uma sessão de Constelação Familiar é enganosamente
simples. Alguém que quer examinar sua dinâmica familiar é levado a
um grupo de pessoas do qual ele seleciona indivíduos para
representar diferentes membros da sua família, incluindo um para
representar a si mesmo. Sem lhes dar qualquer explicação ou
instrução, o cliente posiciona essas pessoas para representar os
membros reais da família, organizando-os na sala de qualquer forma
que ele sentir.
O que temos aqui é um retrato de uma família: a configuração
expressa algo sobre o grau de intimidade, dor, amor ou sentimento
de abandono, que cada membro da família sente em relação ao outro.
Muito rapidamente, dentro do grupo, os representantes começam a
sentir as coisas que o membro original da família realmente sentiu,
um fenômeno que tem sido corroborado muitas e muitas vezes por
relatos de membros reais da família. Não é raro os representantes
relatarem uma sensação no corpo que acaba sendo uma
representação precisa de uma deficiência pertencente ao membro da
família que estão representando, alguém sobre quem eles não sabem
nada.
Em uma ocasião, o representante do avô de um cliente sentiu uma
dor forte na perna direita e, após perguntarmos, soubemos que o avô
dele havia sofrido uma lesão na perna durante a guerra. Em outra
ocasião, um representante sentiu uma dor na garganta; descobrimos
que o parente que ele estava representando morreu de asfixia.
Frequentemente, uma fala espontânea feita por um representante
replica exatamente o tipo de coisa que a pessoa original poderia ter
dito.
Essas sincronicidades são tão comuns na Constelação Familiar que
deixaram de ser notáveis, embora a forma exata como elas acontecem
escape da compreensão racional. Parece que um certo campo de
energia existe onde pessoas aleatórias podem ter acesso aos
sentimentos e às percepções das pessoas que elas representam. É
como entrar no campo de energia de um sistema familiar e
imediatamente ser capaz de perceber certas verdades sobre as
relações dentro desse sistema. Este fenômeno é conhecido por
diferentes comentaristas como um 'campo morfogenético', um
'campo de informação' ou um 'campo de conhecimento'.
Durante o curso da sessão, os representantes mudam de posição e
são dadas breves frases a serem ditas, geralmente sentenças simples,
que revelam verdades profundas sobre as relações entre os membros
da família que eles estão representando. À medida que o processo se
desenrola, eles encontram diferentes posições em relação aos outros
e, por fim, todo mundo se sente mais à vontade.
O cliente continua a ser um observador passivo na maior parte da
sessão, mas em muitos casos é posicionado dentro da constelação no
fim da mesma, substituindo a pessoa que o estava representando.
Não obstante ele participe diretamente, a conclusão esmagadora de
tais sessões é que o cliente experimenta uma nova compreensão e
alívio em relação a certas preocupações, problemas ou tensões
quanto à sua família.
Em outras palavras, a Constelação Familiar é muito eficaz ao produzir
resultados positivos para o cliente dentro de um curto tempo.
Somos parte de um coletivo
A partir de experiências com este trabalho, passamos a compreender
que não somos apenas indivíduos isolados que apareceram do nada.
Descobrimos que somos uma parte integrante do sistema familiar a
que pertencemos - gostemos ou não. Nós também estamos
profundamente mergulhados na cultura e na sociedade em que essa
família nos criou e somos diretamente afetados por tais influênc ias
culturais.
A terapia de um-para-um tende a isolar o cliente. Leva-o através das
relações que moldaram sua vida, enquanto trabalha com ele sobre ele
mesmo, como um indivíduo. A Constelação Familiar olha para o
quadro inteiro. Tal como na medicina holística, que olha para o corpo-
mente como um sistema dinâmico, a Constelação Familiar procura
visar ao indivíduo como parte de um sistema familiar, que funciona
como uma unidade orgânica.
Quando, em uma sessão, o terapeuta altera a posição de outros
membros da família ou muda a maneira como eles falam com o outro,
é fácil ver a maneira como o indivíduo é afetado. Por exemplo, quando
o irmão mais novo falecido de uma pessoa, que poderia ter sido
posicionado atrás da constelação onde ninguém pudesse vê-lo, é
removido para um ponto focal no centro da família, nós
imediatamente notamos o efeito que tem sobre todos os membros
da família, não só sobre o representante do cliente.
As pessoas podem visivelmente respirar fundo, sentirem-se ansiosas
ou podem começar a chorar. Desse modo, todos os participantes das
sessões de Constelação Familiar tornam-se mais conscientes de que
cada um de nós é parte de um coletivo ao qual estamos
emocionalmente ligados e começamos a ver que essa sintonia com o
sistema maior a que pertencemos nos ajudará a viver em mais
harmonia com nós mesmos e com aqueles que nos rodeiam.
O trabalho de Constelação Familiar nos dá a chance de compreender
a maneira pela qual, na verdade, nenhum homem é uma ilha.
Ninguém é uma entidade isolada, sem laços. É uma ilusão imaginar
que, de alguma forma, desembarcamos neste planeta de uma maneira
desconectada de nossos pais e sem ligação com as gerações que nos
precederam. Estamos todos relacionados, especialmente aos
membros da nossa família e aos nossos antepassados, mesmo que
nem saibamos quem são essas pessoas. A Constelação Familiar nos
ajuda a experimentar isso por nós mesmos.
Ela nos ajuda a abrir nossos corações para aqueles que vieram antes
de nós e vêm influenciando nossa vida, sem que saibamos disso. E
isso nos ajuda a ficarmos enraizado na força da vida que foi
transferida para nós pelas gerações.
Quem pode se beneficiar com a Constelação Familiar?
Todos nós viemos de um ou outro tipo de família e, embora possamos
não saber, todos nós temos algo não resolvido em nosso
relacionamento com nossa família. Então, todos que têm uma mãe e
um pai têm algo a ganhar com esta abordagem terapêutica.
Qualquer um que tenha a oportunidade de agregar os membros de
sua família em uma constelação a partir do trabalho de Hellinger vai
descobrir que isso representa com precisão as suas relações com cada
um dos membros e revela significados escondidos para aquele que a
está colocando.
Mas as dificuldades da família podem não ser o único problema para
uma sessão de Constelação Familiar. Você pode ter um problema que
parece não ter nada a ver com sua família. Talvez, você não consiga
encontrar um parceiro amoroso ou está tendo dificuldade de
continuar um relacionamento. Ou você pode estar brigando com um
trabalho do qual você não gosta ou pode estar com problemas de se
sustentar. Você pode até ter uma doença que você acha que pode ter
origens psicossomáticas. Ou talvez não haja nada específico
acontecendo, mas você sente que sua vida está vazia e sem sentido.
A Constelação Familiar pode olhar para qualquer coisa que traga
problemas emocionais ou práticos em nossas vidas, porque muitos
desses problemas psicológicos podem ser rastreados até chegar a
questões familiares não resolvidas. Os problemas que nos impedem
de viver uma vida alegre não vêm do nada. Somente compreendendo
que as minhas dificuldades pessoais são parte de alguma desarmonia
maior que envolve todas as pessoas com as quais eu cresci, e aqueles
que os antecederam, permite-me relaxar.
Configurando uma Constelação
Digamos que um cliente chega a um terapeuta de Constelação
Familiar e está com um problema de saúde, como uma crise repetida
de psoríase, uma doença comum de pele que, muitas vezes, tem suas
raízes em questões psicológicas. O cliente quer observar algum
aspecto de sua família de origem que sente que pode ajudá-lo.
Para criar a sua constelação, o terapeuta começa reunindo um grupo
de pessoas um pouco maior do que os membros importantes da
família de origem do cliente. No início da sessão, o cliente é
convidado a escolher alguém para representar o pai dele, alguém para
a mãe, alguém para representar ele mesmo e, em seguida, talvez
outros membros importantes, que pertencem ao seu sistema familiar.
Ele pode ser solicitado a acrescentar mais pessoas no futuro. Quem é
importante ao sistema será discutido mais adiante no livro.
O cliente, então, pega cada pessoa com as duas mãos e, de acordo
com sua intuição, move-a para um espaço dentro da sala. Faz isso
sem dizer nada, colocando cada pessoa em qualquer lugar na sala que
pareça certo para ele, olhando em qualquer direção. Esses
representantes não recebem nenhuma postura ou gesto determinado
e não dizem nada. Cada pessoa simplesmente fica em qualquer
posição em que tenha sido colocada.
Esta é a maneira clássica de fazer uma constelação. É uma
configuração espontânea, usando o espaço na sala, refletindo a
maneira em que o cliente sente que os membros de sua família se
relacionam entre si.
Em sessões individuais, em que nenhuma outra pessoa está presente,
o terapeuta utiliza diferentes meios para representar os membros da
família: almofadas, cadeiras ou pedaços de papel. Algumas pessoas
até usam sapatos. Mas, quando o sistema familiar é colocado dentro
do contexto de uma oficina, pessoas reais representam os membros
familiares.
O cliente, depois que coloca a sua família, senta-se e assiste ao que
acontece, como um observador passivo. Os representantes foram
posicionados e uma certa conexão entre os membros individuais da
família começa a vir à tona.
A função do terapeuta, ou facilitador, é compreender a raiz do
problema que está sendo trazido à luz, por meio desta configuração
do sistema familiar do cliente. Ele pode, então, iniciar um movimento
para a resolução, no curso do mesmo, ele pode perguntar aos
representantes como estão se sentindo nas suas posições, bem como
ajudá-los a encontrar um lugar novo e mais harmonioso dentro do
sistema.
Como meu objetivo aqui é explicar o formato básico, não vou mais
continuar com esse exemplo. Haverá muitas oportunidades ao longo
deste livro para ver como essas sessões se desenvolvem.
O método de uma sessão
Uma constelação é feita melhor quando há uma real motivação ou
urgência do cliente para entender ou ter um insight sobre uma
questão.
Mesmo que muitos clientes não saibam a verdadeira questão e ficarão
surpresos quando ela surgir, geralmente é útil que eles tenham uma
ideia do que gostariam de conseguir a partir de uma constelação.
A Constelação Familiar é praticada em uma única sessão em vez de
uma sequência de sessões. O terapeuta, ou facilitador - usamos esses
termos indistintamente - olha para uma dinâmica especial na família,
ajuda o cliente a compreender e absorver qualquer resolução ou
mudança que tenha ocorrido e, em seguida, conduz a sessão ao fim,
deixando a experiência para o cliente trabalhar da sua própria forma
e no seu próprio tempo. O mesmo cliente pode querer fazer outra
constelação em data posterior, quando algo dentro de sua
consciência tenha mudado, mas isso também será como uma única
sessão individual.
Aqueles que participam como representantes fazendo o papel dos
membros da família não precisam ter tido qualquer experiência
anterior, nem ninguém precisa saber nada sobre a história do cliente
anteriormente. Além do fato de que normalmente escolhemos
pessoas para representar alguém do mesmo sexo; caso contrário, não
faz qualquer diferença quem representa quem.
Não há passos práticos para o cliente dar depois de uma sessão.
Qualquer impacto que a sessão provocou nele continuará a trabalhar
silenciosamente, por conta própria, de dentro da parte inconsciente
da sua mente. É suficiente que ele tem contatado algo profundo
dentro de si mesmo.
Após a constelação, tendo entendido algo de dentro da sua dinâmica
familiar, o cliente pode se sentir motivado para conduzir os aspectos
da sua vida de uma maneira diferente, mas isso será uma resposta
espontânea, não uma decisão ou um plano intelectual. Se haverá uma
mudança, isso vai surpreendê-lo a partir de algum lugar mais
profundo do seu ser.
É a profundidade da revelação que inicia a mudança. Quando você
percebe que as ameixas que estavam prestes a comer são, na verdade,
nada além de pedras, você não as coloca na boca nem morde. Da
mesma forma, quando você compreende algo que muda a sua gestalt
pessoal, você constata que não pode fazer as coisas da maneira que
fazia antes.
Você pode ter tido certos conflitos familiares trazidos
dramaticamente para a sua atenção; você pode ter uma nova
compreensão sobre eles e, como resultado, estar ciente da ação
correta a tomar.
Muito depende do quão profundamente você é capaz de perceber e
receber o que aconteceu na sua sessão de constelação. Durante uma
sessão, por exemplo, algo pode ter vindo à tona sobre a relação entre
você, sua ex-mulher e sua filha. Depois, você pode dizer para si
mesmo: "Certo, é hora de ter mais responsabilidade com a minha
filha". Parece certo que você, como pai dela, agora deve dar mais
apoio à sua filha.
É importante lembrar que a terapia da Constelação Familiar não
"trabalha em cima de" questões de uma maneira psicológica
convencional, finalmente, chegando a uma conclusão específica ou
resolução. Esta forma de terapia tem um conceito diferente, apesar
de muitos clientes começarem com a ideia de que algo deve ser
"resolvido" para eles. O que é importante é que entramos em contato
com uma certa verdade ou realidade sobre nós mesmos e sobre o
emaranhamento de nossa família. Nós vemos algo que é significativo
e isso por si só é o benefício. Claro que, muitas vezes, dentro de uma
sessão haverá um movimento, as coisas mudam e as pessoas se
movem para mais perto de um ponto de reconciliação, mas nem
sempre.
As pessoas tendem a pensar que somente um sentimento de
harmonia e paz é importante, o que é compreensível, mas é uma
atitude simplista. Talvez permanecer em uma situação difícil, relaxar
com ela e deixar a compreensão e o discernimento amadurecerem no
seu próprio tempo é mais valioso do que encontrar uma solução
rápida. Mesmo se o terapeuta conclui uma constelação quando
aparentemente nada mudou, no longo prazo, esse pode ser o
resultado que é necessário. Hellinger disse muitas vezes a um cliente:
"Eu não posso fazer nada por você", o que parece duro, mas que pode
ser o único caminho, neste momento, para mover o problema do
cliente para uma resolução futura.
Portanto, em geral, a mudança real acontece depois de uma sessão,
não durante. Em outras palavras, você se percebe deixando antigas
crenças e ideias fixas sobre si mesmo, sentindo-se mais natural, livre
e autêntico e, em seguida, as forças maiores da vida movem você para
frente. O crescimento interior é um acontecimento natural, não o
"fazer" de alguém planejado deliberadamente.
Uma sessão típica de Constelação Familiar
Max, um austríaco de cerca de 40 anos, tem dificuldade em fazer
contato com as pessoas. Ele se sente solitário e é incapaz de expressar
o que está acontecendo dentro dele. Na entrevista antes da sessão,
eu soube que o pai da mãe dele morreu quando ela tinha apenas três
ou quatro anos de idade.
Quando pedimos para escolher os representantes para si mesmo e
para seus pais de um grupo de cerca de 25 participantes, Max colocou
todos eles olhando em uma direção, a mãe e o pai lado a lado, e ele
na frente dos dois, com as costas viradas para eles. A mãe começa a
olhar fixamente para o filho, enquanto o menino olha para o chão
com uma cara triste.
Pergunto aos representantes como eles estão se sentindo e a mãe
relata que o filho é muito importante para ela e que ela não está muito
ciente do marido. O representante de Max relata que ele não pode
ver seus pais e se sente muito triste.
Eu agora trago um homem para representar o avô morto e o
posiciono deitado no chão na frente do filho. A mãe continua olhando
para o filho, enquanto o filho é atraído para o seu avô e se deita ao
lado dele. A mãe agora começa a mostrar algum grau de desconforto
e mal-estar, enquanto o filho parece mais relaxado e confortável perto
do avô.
Convido o filho a se levantar e a mãe a se deitar no lugar dele, perto
do pai dela. Ela se sente bem lá e o filho dela agora se move em
direção ao pai, dando um profundo suspiro de alívio e abraçando-o.
Peço a todos para se levantar e deixar a mãe encarar o pai dela, o que
faz com que ela exploda em lágrimas e, finalmente, ela o abraça. Em
seguida, colocamos todos em uma nova constelação, que pode ser
chamada a constelação de solução: primeiro, o avô; em seguida, a
mãe ao lado dele, à sua esquerda; então, o pai e, finalmente, o filho.
Neste momento, convido o cliente a tomar o seu lugar na constelação
e seu representante se senta. Peço-lhe que olhe para o avô e se curve
diante dele com respeito, dizendo-lhe: "Querido avô, eu honro você!".
Então, ele olha para a mãe e diz: "Querida mãe, o seu pai tem um
lugar no meu coração. Eu sou somente seu filho e não posso substituir
o seu pai. Por favor, olhe para mim como seu filho e, por favor, me
permita ir ao meu pai". Então, ele se move em direção ao pai, o abraça
com muito carinho e uma sensação de alívio e diz a ele: "Querido pai,
por favor, me deixe ficar com você I".
Vamos examinar o que aconteceu aqui: o olhar atento da mãe para o
filho indica que ele representa uma pessoa importante do passado
dela ou que ela espera que o filho faça alguma coisa no lugar dela. O
filho olhando para o chão indica que ele está olhando para uma
pessoa morta - isso foi verificado em muitas constelações, que uma
pessoa olhando para o chão está realmente olhando para alguém que
morreu. Ambas as observações são embasadas pelos sentimentos dos
representantes. Parece que o filho está fazendo algo pela sua mãe.
Ao saber que o pai da mãe morreu muito cedo, podemos supor que
Max pode estar olhando para o avô. Como vou explicar nos capítulos
seguintes, Max carrega o sentimento da mãe dele, levando a dor de
uma perda precoce que ela pode nunca ter se permitido sentir
sinceramente, enquanto ao mesmo tempo se identifica com o avô. Ao
representar o próprio pai de sua mãe, ele se torna emocionalmente
ligado à mãe de uma forma não natural, incapaz de se afastar dela,
mesmo que ele já seja um adulto maduro. Como resultado, ele terá
dificuldades para se conectar com o próprio pai e será incapaz de
encontrar a sua força como homem... tudo isso pode estar
contribuindo para o seu atual problema.
Inicialmente, esta é apenas uma hipótese não comprovada e tem,
portanto, de ser testada vendo como os representantes respondem,
e isso é feito, trazendo a pessoa 'ausente' - neste caso, o avô - para a
constelação. Se não houver nenhum efeito visível sobre os outros
representantes, a hipótese provavelmente seria errada. Se há um
efeito forte, tal como neste caso, então, o mais provável é que esteja
certa.
Neste caso, a identificação de Max com o avô torna-se clara quando
o seu próprio representante sente-se atraído por ele. Quando isso
vem à tona, a solução para o problema é também evidente: a mãe tem
de completar a relação inacabada com o pai dela, enfrentando a dor
de perdê-lo, e o filho tem de deixar essa dor com ela e se aproximar
do pai dele.
Em cada passo no processo de resolução, o alívio de cada pessoa
envolvida e especialmente do cliente é visível para todos os presentes.
A expressão de Max é como se um grande fardo tivesse sido tirado
dos seus ombros.
Esses são bons sinais de que tenhamos, precisamente, entendido o
problema e estamos nos movendo fortemente em uma direção de
resolução, relaxamento e alívio. Conhecer as causas subjacentes de
tais envolvimentos familiares é a chave para resolvê-los e isso nós
vamos examinar nos capítulos seguintes.

Capítulo Dois
Consciência: a força propulsora
Quando olhamos para o que orienta o nosso comportamento, o que
nos diz o que é 'certo' ou 'errado', o que fazer e não fazer, nós
geralmente nos referimos a uma sensação interna descrita como
consciência. É um mecanismo da mente que sabe quais valores devem
ser seguidos e quais não devem ser seguidos.
Como podemos conhecer esses valores? Aprendemos esses valores a
partir de um determinado grupo social: uma nação, uma tribo, um clã
ou uma seita, em que nascemos e ao qual pertencemos. Dentro desse
grupo social, o principal instrumento para transmitir esses valores
para nós é a família, especialmente os nossos pais.
Pertencer a um grupo social garante a nossa sobrevivência. Querer
pertencer a um grupo é um instinto antigo, que data dos tempos dos
nômades primitivos, quando a alienação da tribo significava morte
certa; por isso, o instinto de pertencimento está profundamente
arraigado em nós e é considerado essencial por quase todo mundo.
Nossa vontade de aprender e estar em conformidade com os valores
ditados por nosso grupo social está intimamente ligada ao instinto de
sobrevivência. Nascemos em um estado de desamparo e ignorância e
os nossos pais querem que a gente sobreviva; então, eles ficam
ansiosos para ter certeza de que crescemos no caminho certo,
desenvolvemos as atitudes "certas" e fazemos a coisa "certa". Eles
querem que nos "encaixemos" e sejamos aceitos como novos
membros do grupo deles.
Você já se perguntou por que seus pais eram tão preocupados com o
que os vizinhos pudessem pensar se você fez algo ruim, como jogar
papel de bala por cima do muro ou gritar muito alto enquanto
brincava no quintal ou deixar brinquedos quebrados na entrada da
garagem? Você consegue se lembrar da expressão assustada no rosto
da sua mãe?
Não era apenas o medo de seus vizinhos imediatos que os deixava
tão preocupados. Isso tem suas raízes no antigo instinto de
sobrevivência que motivava a consciência dela. O medo subjacente
dela era de isolamento e rejeição social - tanto para si mesma como
para o seu filho - que, nas camadas inconscientes da nossa memória
coletiva, significa morte.
Você deve se lembrar experimentando algo semelhante, se você foi
infeliz ao ser rejeitado ou excluído de uma panelinha social na escola
- pode ser uma experiência muito traumática, muito maior do que a
ocasião parece evidenciar, porque mexe com essas raízes antigas.
A consciência é como um barômetro social: se estamos nos sentindo
relaxados, inocentes e confortáveis, sabemos que estamos seguindo
as regras e nosso direito de pertencer está assegurado. Se estamos
nos sentindo culpados, sabemos que fomos contra as regras. Quand o
nós queremos pertencer a muitos grupos - família, clube social,
religião, nação e time de futebol -, nós desenvolvemos uma
consciência diferente relacionada com cada um deles, embora a
probabilidade seja de que todos eles compartilhem dos mesmos
valores gerais.
Nós temos mesmo duas consciências ligeiramente diferentes
relacionadas com a nossa mãe e o nosso pai. Quando criança,
aprendemos muito rápido do que o pai gosta, o que a mãe espera e
como se comportar em relação a cada um deles. Por exemplo, uma
criança que come os doces do pote pode não sentir receio algum em
relação ao pai indulgente, mas desesperadamente culpada em relação
à mãe que é consciente da saúde.
Então, a consciência guia nossas vidas diárias e algo notável é que, à
medida que crescemos, nós nos tornamos convencidos de que este
código de conduta interno é o nosso próprio conjunto de opiniões e
crenças, privado e independente. Seja o que for que nos compele a
nos comportar corretamente, tem sido tão bem enraizado no nosso
caráter que sentimos isso como intrínseco à nossa personalidade e
identidade.
A consciência não é esculpida na pedra. Algo considerado "bom" em
uma cultura pode ser considerado "mau" em outra. Na maioria das
sociedades ocidentais, se você receber um presente, é educado diz er
"obrigado". No entanto, há circunstâncias em que, por exemplo,
alguém que vive na índia pode se sentir ofendido quando agradecido
por um presente.
O comportamento tabu dentro de uma religião pode ser considerado
inócuo em outra. Os cristãos bebem vinho e comem depois do pôr do
sol; isso é simplesmente impossível para um membro da religião
jainista. Os hindus consideram normal arranjar casamentos para os
filhos quando eles ainda são muito jovens, o que é uma ideia muito
estranha para os judeus ou os cristãos.
Estar em desacordo com as exigências do meu grupo particular me
deixa em profundo conflito. Quanto mais eu quero pertencer, mais eu
irei me adaptar e mais eu precisarei fazer distinções entre os valores
do meu grupo e os valores dos outros grupos. Este choque de
consciências antagônicas é a causa básica de todas as guerras e
conflitos sectários. Nos últimos anos, temos visto como os fanáticos
terroristas praticam atos terríveis em nome de sua religião ou fé com
uma consciência absolutamente leve.
Quanto mais rigorosos nossos valores morais, mais poder tem nossa
consciência sobre nós. Então, as pessoas que são muito moralistas
geralmente se sentem fortemente atados por laços familiares, valores
religiosos e culturais.
Consciência pessoal: a necessidade de pertencer
A consciência pessoal é algo que sentimos como indivíduos: quando
eu me sinto culpado, eu geralmente vou responder tentando fazer o
que puder a fim de realizar as coisas certas; assim, a desagradável
sensação de culpa vai embora e eu terei a certeza de que ainda estou
seguindo as regras que me permitem pertencer ao meu grupo. O
marido que acabou de flertar com a secretária no escritório pode se
sentir compelido a comprar flores para a esposa no caminho de casa.
A criança que pegou moedas da bolsa da mãe para comprar doces
pode sentir que precisa confessar tudo para ela, para ser capaz de
dormir naquela noite.
Essa consciência pessoal tem suas origens no início da infância. A
criança não quer nada mais do que pertencer à mãe dela e, um pouco
mais tarde, ao pai. Ela adora os pais incondicionalmente, porque a sua
sobrevivência depende disso. É um instinto profundo, a mais
poderosa força instintiva dos mamíferos e o modo de a natureza
garantir a sobrevivência da criança. Sem esse vínculo com a mãe, a
criança simplesmente murcha e morre e, assim, ela fará qualquer coisa
que puder para ficar perto da mãe.
À medida que crescemos, esta necessidade de ligação se amplia,
incluindo outros membros da nossa família e, dessa forma,
adquirimos uma identidade familiar. Além da família, começamos a
encontrar outras pessoas e gradualmente a adquirir uma identidade
social pela ligação com um grupo maior. Este desejo de ser parte de
um coletivo social, desde grupos pessoais de amigos até de
organizações religiosas em todo o mundo, satisfaz a nossa
necessidade de um senso de lugar e posição no mundo.
A nossa necessidade de pertencer é tão grande que, quando
deixamos o nosso país, geralmente exageramos os rituais que
definiram nosso grupo original. Por exemplo, uma indiana vivendo
como parte da comunidade asiática de Toronto pode se engajar mais
às tradições culturais de seu país de origem do que a irmã dela que
mora em Nova Déli. Ela pode seguir os ritos de sua religião mais
estritamente e aderir mais fortemente às regras.
O grupo dela, se tiver medo de ser dominado por um número maior
de outras religiões, pode ficar mais junto e se separar dos não
asiáticos à sua volta. Da Rua Orchard em Nova York até a Brick Lane
em Londres, as comunidades de imigrantes em todo o mundo têm se
unido para não serem excluídos pelos outros, a fim de consolidar a
identidade do grupo e garantir a sua sobrevivência.
Em suma, todo mundo tem uma necessidade de pertencer a um grupo
ou outro. Cada grupo é um "sistema" que cria uma sensação de
pertencimento, regido por nosso senso de certo e errado. Tudo o que
fazemos, seja a favor do que dita a consciência pessoal, seja contra
ela, fortalece ou enfraquece a nossa ligação ao sistema. Se fazemos
algo que põe em risco o nosso pertencimento, temos uma consciência
pesada, nos sentimos culpados e esperamos ser punidos. Na verdade,
muitas vezes recebemos bem a punição porque nos absolve de uma
das piores formas de tratamento punitivo de qualquer sociedade - a
exclusão.
Claramente, essa sensação de pertencimento e de lealdade que
sentimos em relação a qualquer indivíduo ou grupo depende de quão
importante cada relacionamento é para nós. E, como eu disse, o
vínculo com os nossos primeiros relacionamentos, nossos pais, será o
mais forte. Nosso primeiro contato humano com a mãe será o mais
forte de todos.
A necessidade de equilíbrio
A consciência pessoal também responde a uma força menos poderosa
do que a necessidade de pertencer, mas ainda muito significativa. É
algo que podemos chamar de um senso de equilíbrio. O equilíbrio
está relacionado com a reciprocidade. Isso significa, por exemplo,
que, quando eu lhe dou um presente, você sente que gostaria de me
dar algo de volta. Quando você me deu algo de volta, talvez eu sinta
que quero lhe dar algo mais.
Se a troca tem uma qualidade lúdica ou amorosa, cria uma energia
que aprofunda nossa conexão a cada troca. Os relacionamentos
crescem e se enriquecem com variações desta forma de equilíbrio.
Isso é parte integrante da alegria de relacionar-se e são mecanismos
de ligação essencial que mantêm as pessoas juntas.
Não é raro, quando recebemos um presente, sentirmos o dever de dar
algo em troca. No mínimo, devemos agradecer a quem nos
presenteou e dizer '"obrigado", nos sentimos incomodados por um
sentimento de incompletude. Igualmente, se fui eu quem deu o
presente, vou sentir o direito de receber um "obrigado" e sentirei que
alguma coisa está faltando se não vem.
Na maior parte do tempo, estamos em um estado de dívida com
alguém que nos deu algo, ou alguém se sente em dívida conosco,
geralmente de pequenas formas que demonstram parentesco,
amizade ou intimidade que foram criadas lentamente, ao longo do
tempo.
Imagine dar um presente de mil dólares a um sobrinho que precisa
pagar os estudos universitários e, em seguida, dizer "não, obrigado"
ao buquê de flores que ele traz à sua casa. Se você joga as flores dele
de lado ou menospreza o significado delas, você estará negando a
necessidade dele de expressar gratidão e pode ofendê-lo seriamente.
Rejeitar o presente é pôr em risco o relacionamento. Em um nível, o
sobrinho quer o alívio de uma consciência inquieta; ele sente que
recebeu muito dinheiro e, então, literalmente, "diz isso com as flores".
Se você quiser manter o equilíbrio do relacionamento, seu papel é o
de aceitar as flores graciosamente - mesmo que você não goste de
rosas e seja alérgico ao cheiro delas.
O equilíbrio se manifesta negativa bem como positivamente. Assim
como nós queremos dar amor e carinho quando isso é demonstrado
para nós, o desejo de vingança e reparação surge quando nos
sentimos magoados ou feridos. Alguns de nós que se sentiram
seriamente prejudicados podem entender o apetite humano por
"acertar os pontos", uma força primitiva e convincente que pode nos
assombrar ao longo de nossas vidas. Nossa consciência pessoal nos
impulsiona a fazer alguém "pagar" por qualquer "injustiça" que
sentimos que recebemos. A necessidade de vingança é tão básica à
lei humana que atravessa as fronteiras das nações, religiões ou
diferenças tecnológicas e tem ressonância em todos no curso comum
da nossa mitologia, nossa literatura e nossos filmes.
Mas, é claro, essas coisas não estão presentes apenas na literatura e
no cinema. A tapeação, a mentira e a ferida emocional que são o
material do mito e da dramaturgia também fazem parte de nossas
vidas reais.
Ordem Social e Etiqueta
Outra situação administrada pela consciência pessoal diz respeito a
nossas relações sociais. O que acontece quando nos comportamos em
uma comunidade de uma forma estranha ou desastrosa? Em um jantar
formal, por exemplo, quando você acidentalmente come o peixe com
o talher de massa ou bebe vinho em um copo de água. Ou você
aparece na noite de abertura da ópera de camiseta ou chega em um
vestido de noite a uma festa informal. Se o seu vestuário não se
encaixa na situação, você se sente constrangido e desconfortável,
como também as pessoas à sua volta.
A ordem social se refere à demanda coletiva em que você reconhece
e obedece a certas regras que regem o comportamento e a
propriedade nas configurações sociais de qualquer grupo ao qual
você pertença. Este aspecto da consciência pessoal é a menor ligação
dos nossos três princípios, mas, mesmo assim, é conhecido por
produzir algumas situações cômicas. No Japão, é costume fazer um
som quando você toma a sopa de macarrão - uma espécie de sugar
com barulho que mostra que você está gostando da comida. Mas, na
Europa, fazer barulho ao levar a comida à boca é considerado maus
modos e, por mais difícil que seja não fazer barulho ao tomar a sopa,
todos nós fazemos o possível para evitar esses ruídos.
Da mesma forma, em alguns países do Oriente Médio e das Ilhas do
Pacífico, um bom arroto no fim de uma refeição mostra ao anfitrião
você está mais do que satisfeito. Mas arrote na Inglaterra e você verá
as sobrancelhas se levantando em desaprovação.
Transgredir a consciência que está relacionada à ordem social
geralmente cria menos culpa do que os outros dois princípios e é
certamente mais fácil de superar, mas ainda pode nos afetar
profundamente. Nós ainda podemos nos sentir constrangidos ao nos
lembrarmos de tais incidentes, mesmo que tenham ocorrido anos
atrás.
Para resumir os efeitos da consciência pessoal: ela faz com que eu me
sinta culpado quando eu vou contra as suas regras de conduta; ela
me obriga a fazer reparações por algo que fiz de errado, a dar algo
em troca do que foi recebido e, ter a certeza de que me encaixo na
ordem social, exibindo o comportamento correto na ocasião certa.
Nossa consciência coletiva
A Consciência coletiva é uma força bem mais poderosa, oculta e
insidiosa. Ela funciona de maneira invisível. Não anuncia a sua
presença por meio de sentimentos de culpa se formos contra ela; não
temos consciência de onde ela vem e ela existe sem sermos capazes
de identificá-la diretamente.
Em vez de habitar a mente do indivíduo e revelar-se ao responder às
escolhas pessoais dele, a consciência coletiva opera de dentro da
família como um todo e, como já indiquei, faz isso sem os seus
membros terem conhecimento.
Da mesma maneira que podemos identificar uma corrente elétrica
apenas pelo efeito que tem sobre a lâmpada, podemos reconhecer a
consciência coletiva só pelas formas como afeta o comportamento
das pessoas.
Nosso trabalho na Constelação Familiar é identificar essa consciência
coletiva. Quando entendemos as leis desta consciência, podemos
trazê-las à luz, compreender as implicações e suas intenções, curar o
desequilíbrio do sistema familiar e ajudar o cliente a aceitar o que
aconteceu.
Vamos agora olhar para essas leis mais profundamente.
Da mesma maneira que a consciência pessoal tem três objetivos, a
consciência coletiva tem três princípios: Pertencimento, Ordem e
Equilíbrio.
A Lei do Pertencimento
Todo mundo que faz parte de uma família tem um direito igual de
fazer parte dessa família. Cada membro da família, independente de
quem seja, de quando tenha chegado, ou do que tenha feito, tem
igual direito ao seu lugar.
Um filho pode ser um músico talentoso, outra pode ser doente ou ter
necessidade especial, outra pode ter problemas de comportamento
antissocial - não faz diferença. Mesmo na família maior, se alguém
morreu jovem ou cometeu suicídio, nada muda em relação a este
direito básico de pertencer. Todo mundo tem que ser incluído e
respeitado igualmente.
A Lei da Hierarquia
Dentro de um sistema familiar, os membros da família são
classificados de acordo com o momento da chegada deles. Aqueles
que vieram antes ter uma classificação "mais alta" do que aqueles que
vieram depois. Os irmãos mais velhos têm prioridade sobre os mais
jovens; a primeira esposa tem de ser lembrada como a primeira; a
segunda mulher deve ser lembrada como aquela que vem antes da
terceira esposa, e assim por diante.
O que vem primeiro vem primeiro; o que vem depois vem depois - a
ordem cronológica tem prioridade absoluta. Isso não é uma lei feit a
pelo homem no sentido de que ela tem sido deliberadamente criada
como parte de um conjunto de crenças morais. É existencial; vem
simplesmente com o nascimento dentro um sistema familiar.
Esta noção de dar prioridade a quem vem primeiro está
profundamente arraigada em nosso inconsciente coletivo, algo que
instintivamente sentimos em uma ampla gama de ações ordinárias,
nas situações do dia a dia. Por exemplo, quando fazemos fila na
bilheteria do teatro, ou reservamos um assento no avião, nós
automaticamente assumimos que aqueles que vêm em primeiro lugar
terão os melhores lugares; ou quando um mal-estar se espalha em
uma empresa porque um recém-chegado é promovido, em vez de
alguém que está lá há anos, todos nós pensamos: "que injusto!".
É o mesmo com nossas famílias. Lá no fundo, somos governados por
um senso de hierarquia baseado no tempo de chegada e isso é
acionado quando, ao se comportar de maneira inadequada para a
posição, algum membro da família não está "em seu lugar" ou "está
agindo acima da sua posição". A língua inglesa é cheia de termos que
expressam essa forma de pensar: "não estava na sua posição para
fazer isso", "ele estava fora de ordem", "ele não estava no lugar de
dizer tal coisa".
A Lei do Equilíbrio
Qualquer injustiça feita a um membro da família em uma geração
anterior, ou cometida por um membro da família nessa geração
anterior, deve ser equilibrada por atos de um membro posterior da
mesma família.
Em um nível pessoal, como já mencionei, estamos cientes do desejo
de equilibrar algo que aconteceu conosco, devolvendo um favor ou
uma ferida que tenhamos recebido.
Mas há uma força muito mais poderosa em ação dentro de um
sistema familiar. Ela nos obriga a pagar, não por nossos próprios
delitos, mas por algo que nossos antepassados podem ter feito. Sejam
quais forem, os atos negativos que entraram no sistema familiar no
passado e não foram expiados, irão se manifestar em gerações
posteriores - como se fosse um vírus que está no corpo prestes a
emergir como uma doença mais tarde.
Portanto, não é uma questão de retribuição imediata, um "olho por
olho", ou "você me bateu e eu vou bater em você de volta". É um
fenômeno operacional muito mais amplo e profundo em uma escala
transgeracional. Ecoa a noção da Bíblia que nos diz que "os pecados
dos pais serão punidos sobre os filhos". Isso significa que, se meu avô
matou a amante dele, há chance de que, de alguma maneira
inconsciente, eu esteja pagando por isso.
Eu preciso enfatizar que esta não é uma injunção moral sobre como
devemos nos comportar. Não é um código de conduta fabricado. É
simplesmente uma verdade existencial. A descoberta dessas leis não
aconteceu por meio do raciocínio ético, mas a partir da observação
pura - a partir do que é conhecido nos círculos acadêmicos como uma
abordagem "fenomenológica" para a realidade.
Em outras palavras, no sistema familiar, esta é apenas a forma como
as coisas são e uma das leis básicas que regem esses sistemas é que,
se um membro da família não assume a responsabilidade por seus
atos, alguém na família o fará. A consciência coletiva passa a bola da
retaliação de geração em geração até que seja, finalmente,
endereçada, reivindicada e cancelada.
A consciência pessoal me faz querer equilibrar algo que eu fiz de
errado. A consciência coletiva me compele, sem que eu saiba, a
equilibrar algo em nome de um membro de uma família que, com
toda a probabilidade, eu nem mesmo sei quem é.
Com a pessoal, me sinto culpado; com a coletiva, me sinto
impulsionado por uma força inconsciente. Em última análise, o que
isso mostra é que existe uma camada coletiva em nossas mentes que
nos mantém responsáveis por tudo o que fazemos e pelo efeito que
nossas ações têm sobre os outros. Todos são responsáveis, quer
reconheçam isso, quer não.
Existe outra distinção a ser feita entre a pessoal e a coletiva que se
relaciona diretamente com o nosso desejo de maturidade. O
crescimento individual depende de sermos capazes de
permanecermos sozinhos, apesar de todas as pontadas de
consciência pessoal que possamos sentir em relação aos nossos pais
e aos nossos sentimentos de obrigação e dever para com eles. Mas,
com a consciência coletiva, nós podemos alcançar essa "solitude"
apenas em um certo grau; em outras palavras, precisamos estar
prontos para carregar um certo destino que vem com a nossa vida e
aceitar o fato de que somos parte de uma família em particular e da
sua história. Quando aceitamos isso, podemos começar a crescer -
antes, não.
O bem-estar de todo o sistema
A consciência coletiva trata cada membro igualmente, ignora as
diferenças entre eles e trabalha para o bem-estar e a sobrevivência
do todo. Esta lei protege o direito de cada membro de pertencer à
família e também restringe as pessoas ao seu lugar dentro do sistema.
Nas sociedades tradicionais, nas quais a continuidade entre as
gerações é muito venerada, essas leis são a base para todas as
interações sociais. As tradições da hierarquia existem em todas as
tribos primitivas e os anciãos são profundamente respeitados. Eles
têm um status privilegiado sobre as gerações mais jovens e presidem
sobre regras rígidas de prioridade, que são observadas de uma forma
que não existe mais em nosso mundo moderno.
Na sociedade ocidental, o indivíduo agora é sacrossanto e vemos,
muitas vezes, filhos e filhas que vão contra os desejos de seus pais.
Nos grupos primitivos, ninguém poderia nem se opor aos mais velhos.
Os interesses do grupo, representados pela hierarquia rígida, vem
antes dos interesses individuais. Todos no grupo sabem disso, aderem
a isso e aceitam a responsabilidade em conformidade.
Por exemplo, eu ouvi uma história verídica de um homem que
pertence a um grupo de tribos nômades africanas que machucou
gravemente a perna. Quando os outros membros da tribo trouxeram
o homem para o hospital, o médico disse à família que, se a perna do
homem não fosse amputada, ele iria morrer e que eles deveriam
decidir se ele seria operado ou não.
Em vez de responder imediatamente, o grupo foi para casa e sentou -
se junto para discutir o assunto. Quando eles voltaram, disseram ao
surpreso médico que a operação não deveria ocorrer - o homem teria
que morrer.
Algo que pode parecer brutal à nossa mente ocidente mostra como
as necessidades do coletivo governam todas as escolhas dentro
dessas culturas; mostra como o bem-estar do grupo é sacrossanto.
Sendo nômades, essas pessoas eram obrigadas a se mudarem
continuamente, viajando por rotas tradicionais que permitiriam o
gado pastar em gramíneas de baixa densidade e plantas e, em
seguida, se mudarem assim que o pasto local estivesse acabado. Um
homem sem uma perna iria atrasá-los e isso colocaria em risco a
sobrevivência do grupo; então, eles tiveram que deixá-lo morrer.
Todos, até mesmo o homem, estava ciente disso e de acordo com a
decisão.
O pessoal contra o coletivo
Podemos ver essas leis sociais coletivas operando em tribos
primitivas. O que é difícil, no entanto, é ver as mesmas leis operando
dentro das nossas próprias famílias modernas do século XXI.
O desenvolvimento da consciência pessoal tende a criar valores
diferentes dentro de um grupo, baseado na convicção de que alguns
têm mais direito de pertencimento do que outros. Por exemplo,
quando eu faço algo que está de acordo com os valores do meu
grupo, eu sinto que tenho mais direito de pertencer do que alguém
que vai contra a norma e não se sujeita.
Este é um dos elementos da famosa história bíblica do filho pródigo.
O filho "bom", que ficou em casa e ajudou o pai, sente que tem mais
direitos do que o filho que gastou sua herança, em viagens e
extravagâncias. 0 melhor bezerro deveria ter sido morto para ele, não
para o irmão inútil.
Ou, para tomarmos um exemplo moderno, um membro de uma
empresa que, durante anos, trabalhou com afinco e lealdade vai sentir
que tem mais direito de ser parte daquela empresa do que alguém
que está sempre atrasado e usurpa artigos de papelaria.
No entanto, esse elemento pessoal pode colocar o interesse do
indivíduo em oposição ao coletivo, porque o coletivo não faz essas
distinções. No que diz respeito ao coletivo, cada filho tem o mesmo
direito de pertencer à família e cada membro da empresa tem o
mesmo direito de ser parte da companhia.
O que vemos na Constelação Familiar é que a consciência coletiva é
muito mais poderosa do que a consciência pessoal e pode até mesmo
fazer com que as pessoas realizem coisas contra a sua consciência
pessoal, a fim de cumprir suas leis.
Para ficar com o exemplo do filho pródigo: se eu decidir enganar meu
irmão tirando a herança dele, porque ele abandonou a família
enquanto eu trabalhava duro para ajudar todos os nossos parentes,
isso é justificado pela minha consciência pessoal que diz: "Eu tenho
mais direito ao dinheiro do que ele!",
Mas, mais tarde, posso perder todo o meu dinheiro a partir de uma
necessidade inconsciente de me punir por enganá-lo. Deste modo,
sob a influência da consciência coletiva, vou equilibrar o mal e me
colocar de volta em um nível de igualdade com o meu irmão. Ou, se
eu não criar este equilíbrio, outro membro da nossa família pode ter
de fazê-lo por mim.
Nas sociedades tradicionais, havia uma forte ênfase sobre o que as
pessoas têm em comum e as diferenças individuais eram suprimidas
objetivando o bem-estar geral da comunidade. Esse tipo de
orientação era vital para a sobrevivência do grupo, porque a vida
estava focada no cumprimento das necessidades bem básicas. Para
combater as dificuldades, como secas, inundações, fome, frio, animais
selvagens e inimigos tribais, o bem-estar do grupo era soberano.
Hoje em dia, em ricas sociedades ocidentais, a urgência em relação à
sobrevivência do grupo não está mais presente. Agora, há espaço
para a variedade e diferenças individuais, o qual é uma direção natural
para a evolução social - mais liberdade de escolha pessoal.
A desvantagem desta tendência relativamente recente é que
esquecemos quase totalmente nossas conexões familiares. Mas as leis
que regem essas conexões não se esqueceram de nós. Elas ainda
existem e, gostemos ou não, ainda controlam nossas ações.
O adolescente rebelde de hoje pode acreditar que ele é livre para
fazer o que gosta e, em um certo nível, ele é certamente mais livre
para agir e viver de forma diferente dos membros da geração dos seus
avós. Mas, em outro nível, ele está profundamente ligado ao seu
grupo social e este vínculo coletivo vai forçá-lo a fazer coisas, mesmo
contra a sua ideia de ser livre.
Lembro-me do caso de uma jovem australiana, a quem chamarei de
Tracy, que vivia de uma maneira muito selvagem e livre e, quando
mais jovem, usou drogas, tornou-se hippie, perambulou pela índia
durante anos e achava que a gravidez na adolescência e a decisão de
dar sua filha para adoção haviam sido deixadas para trás.
Mas, quando entraram em vigor as novas leis que permitiram que os
filhos adotados rastreassem os pais naturais, Tracy, agora em torno
dos 40 anos de idade, concordou em encontrar a filha. Pouco depois,
a filha se suicidou, deixando sua própria filha para ser criada pela avó
materna, Tracy. Algum tipo de equilíbrio ocorreu, ditado pela
consciência coletiva desta família. Vamos ver mais exemplos dessa
necessidade de equilíbrio à medida que o livro progride.
Assim, se um indivíduo vai superar os emaranhamentos dos laços
familiares, ele primeiro precisa entender e estar em sintonia com a
consciência coletiva da sua família. Quando o equilíbrio for
restaurado, quando as contas antigas tiverem sido resolvidas, quando
tudo e todos estiverem na ordem correta, só então ele pode se
considerar verdadeiramente livre para explorar as suas preferências
individuais.
Esse é o objetivo do trabalho a que chamamos de Constelação
Familiar.

Capítulo Três
Exclusão: quem foi deixado de fora?
Uma das descobertas mais surpreendentes e poderosas na dinâmica
familiar que tem sido trazida à luz pelo trabalho de Hellinger é ver
como um membro posterior da família, um filho, se identifica com um
membro antecessor sem ter qualquer ideia que isso está
acontecendo. Ele carrega sentimentos do parente como se fossem
dele mesmo e faz o papel dessa pessoa, como se fosse uma réplica.
Isso ocorre, na maioria das vezes, sem que ninguém na família tenha
consciência disso e a pessoa que se sente compelida a fazê-lo pode
nunca ter encontrado essa pessoa que ele está representando.
Qual é o segredo por trás desse fenômeno surpreendente?
No caso de Max, o austríaco que citamos no primeiro capítulo,
soubemos que, quando a mãe de Max era ainda uma menina muito
jovem, ela perdeu o pai. Quando uma criança perde um pai tão cedo,
como neste caso, a dor é enorme. O vínculo com o pai é tão forte que
a criança não pode lidar diretamente com essa perda e com a
separação. Uma forma como ela pode lidar com isso é experimentar
e excluir o impacto da morte dele na memória.
Esquecendo seu pai e a morte dele, a mãe de Max o exclui da sua vida
e isso vai de mãos dadas com a necessidade dela de evitar a dor. No
entanto, o problema é que nenhuma dor nunca pode ser totalmente
evitada e nenhum pai pode ser esquecido dessa maneira. Então, a mãe
de Max permanece como um disco preso no momento em que seu
pai morreu, incapaz de realmente deixá-lo ir.
Para completar sua relação com o pai morto, ela teria de reconhecer
plenamente que ele morreu e reexperimentar a dor da perda, mas
essa é exatamente a mesma dor que ela tem evitado por tanto tempo.
Ela pode pensar que pode simplesmente deixar tudo para trás, mas a
ferida que foi criada no seu coração e a ruptura profunda que ocorreu
no sistema familiar não permitem isso.
Sob a influência da consciência coletiva, que exige que cada membro
da família seja lembrado e reconhecido, um membro posterior da
família, o filho dela, Max, terá de representar o pai esquecido da sua
mãe dentro do sistema familiar.
Como todos os filhos, Max precisa do amor e da atenção de mãe;
precisa se vincular à sua mãe, o que é uma parte natural, saudável e
importante de qualquer relação normal de um filho com seus pais.
Mas Max sente que a mãe não está totalmente disponível para ele.
Sem realmente entender o que está acontecendo, ele pode sentir que
o coração dela ainda está secretamente atado ao do pai, que morreu
quando ela era uma garotinha. Ao se identificar com o avô e
carregando a dor da mãe, Max tenta obter o amor e a atenção da
mesma. Ele começa a agir como se fosse um pai para a própria mãe -
algo que chamamos de "parentificação".
Como você pode imaginar, as demandas da consciência coletiva são
difíceis para a criança recém-chegada. Ao se comportar como fosse
um pai, Max tenta dar amor para a mãe em vez de receber dela, o que
é uma inversão da direção natural. Max permanece vazio, subnutrido
como uma criança no sentido emocional e ainda, ao mesmo tempo,
ligado à mãe. À medida que ele cresce, é incapaz de separar-se dela
e, portanto, não pode se entregar totalmente para outra mulher. Ao
mesmo tempo, seu próprio senso de masculinidade foi prejudicado e
a razão é clara: Max não foi capaz de receber o apoio masculino e a
atenção que precisava do seu próprio pai, porque ele não estava
realmente agindo como filho do seu pai.
Em suma, o menino não pode realmente ser ele mesmo e não sabe
por quê. Um emaranhamento básico, a tentativa má sucedida da mãe
para esquecer o pai, cria cada vez mais complexidades. Já que Max
não tem sido capaz de receber totalmente o amor e o apoio da mãe,
ele pode tentar obtê-lo de outra mulher como se fosse um filho, ou
dos próprios filhos, se ele se tornar pai. Então, os filhos vão querer
dar a ele, em vez de quererem receber, e toda uma gama de padrões
de relacionamentos confusos continuará de forma aturdida de uma
geração para a outra.
Max pode até desenvolver uma tendência de negar a vida, que
poderia continuar até torná-lo propenso a acidentes ou ao suicídio,
dependendo de quão forte é o apego que a mãe tinha ao pai dela.
Isso é a consciência coletiva operando. É a consciência coletiva
querendo incluir os parentes esquecidos, excluídos ou perdidos, de
modo que todos na família tenham seu lugar e sejam totalmente
lembrados. Isso é o que determina que a criança tenha que
representar o seu avô esquecido.
A razão para não se lembrar de alguém é geralmente a dor não vivida.
Quanto mais jovem alguém seja, mais difícil é para ele lidar com essa
dor - especialmente uma dor tão grande como a perda precoce de
um dos pais. Sempre que amamos alguém, profunda e
inocentemente, como fazem as crianças, a abertura desse estado cria
a possibilidade de dor intensa, se perdemos alguém que amamos. Ser
plenamente capaz de lidar com a dor requer uma certa maturidade
que a criança simplesmente não tem.
Quanto mais cedo é a perda, mais graves são as consequências para
a criança. De acordo com os psicólogos que aderem à "teoria das
relações com o objeto" do desenvolvimento do ego humano, a perda
precoce de um pai carrega um sério risco de prejudicar a formação
saudável da identidade da criança.
Uma avó excluída
Vejamos outro exemplo.
Antonella é uma italiana de 35 anos, que pediu uma sessão enfocando
o fato de que ela nunca teve um relacionamento com um homem por
muitos anos. Em uma entrevista preliminar, eu soube que o pai deixou
a família quando ela era adolescente e que ela não o viu por 20 anos.
Ela também me contou que o avô paterno tinha deixado a mulher, a
avó dela, com dois de seus filhos. O avô ficou sozinho com o terceiro
filho, o pai de Antonella.
Eu começo a sessão convidando Antonella a selecionar três pessoas
de um grupo de 25 para representar o pai, a mãe e ela mesmo e
colocá-las em uma constelação. Ela posiciona o pai em frente a ela,
portanto, se entreolhando e coloca a mãe ao lado. A representante
dela imediatamente relata que está se sentindo muito agitada e que
não consegue olhar para a mãe; o pai relata que está focado em
Antonella e a mãe diz que se sente como uma forasteira.
Quando acrescentamos uma representante para a avó, a
representante de Antonella se sente muito aliviada. O pai dela
também se sente melhor e imediatamente a atenção dele vai para a
mãe. Antonella expressa muito amor à avó. Quando trazemos também
o avô para o quadro, Antonella revela que tem raiva dele por ele ter
mandado embora sua avó. Então, o que está acontecendo nessa
família?
A avó é a pessoa que foi excluída nessa família e Antonella está
carregando o fardo ao se identificar com ela. Ela carrega a raiva que
a avó deve ter sentido em relação ao marido, mesmo que não tenha
sido Antonella que fora mandada embora.
Esse é um exemplo típico de como uma criança, por amor - o que
chamamos de amor cego - inconscientemente intervém no destino de
outro membro da família e, então, sofre as consequências na sua
própria vida. Na relação, a jovem Antonella agora expressa raiva não
pelo avô, que morreu há muito tempo, mas pelo próprio pai e por
outros homens, razão pela qual ela tem dificuldade de estabelecer
relações com os homens.
Chamamos isso de "dupla transferência".
1. Antonella está se comportando como sua avó- uma transferência
na identidade do sujeito.
2. Antonella está expressando a sua raiva não pelo avô, mas pelo pai
e por outros homens - uma transferência no objeto de suas emoções.
Nesse caso, a situação é ainda mais complexa. O pai de Antonella teve
de ficar com o pai dele, o avô dela, enquanto secretamente sentisse
falta da mãe e das irmãs e secretamente estivesse com raiva dele.
Agora, o pai de Antonella, como uma criança, não conseguia confiar
completamente nos seus pais, ou receber o amor deles, porque um
dos pais não está disponível e ele sente raiva pelo que permaneceu.
Assim, na vida dele, ele vai procurar a mãe, talvez tentando encon trá-
la em uma esposa ou uma filha. Ao mesmo tempo, ele vai se
identificar com o pai e sentir uma forte tendência em repetir o que
ele fez - deixar a família - que é precisamente o que aconteceu.
Ao colocar essa constelação familiar, quando olhamos para o lugar de
Antonella de frente para o pai, podemos ver a repetição do confronto
entre o avô e a avó. O pai dela se identifica com o pai dele, carrega o
fardo da culpa, enquanto ao mesmo tempo procura a mãe. Antonella
se identifica com a avó, está com raiva e direciona sua raiva para o
pai. Que o pai dela tenha deixado a família só completa a sua raiva.
Qual é a solução? Em primeiro lugar, Antonella começa a sentir um
certo grau de alívio quando percebe que o pai não está liberto.
Quando criança, ele ficou emaranhado em eventos fora do seu
controle, além mesmo do seu entendimento. Esse insight a ajuda a se
abrir para ele.
Ao honrar a avó e deixando o conflito original entre os avós para os
próprios avós, ela agora pode assumir seu lugar como filha. Como
filha, ela pode agora reconhecer o quanto sentia falta do pai,
reconhecendo que - considerando as circunstâncias da infância dele
- ele fez tudo o que podia fazer.
Agora que ela se sente mais livre da vinculação complexa à família do
seu pai, ela pode começar a olhar para a sua própria mãe. Você deve
se lembrar de que, na colocação da constelação original, ela não
estava olhando para a mãe de jeito nenhum. Ela agora se sente apta
a se mover em direção a ela, o que é um grande alívio para a mesma.
Agora, também, ela pode olhar para os homens com novos olhos, sem
a raiva, a suspeita e a desconfiança que predominava antes.
Aqui, fomos capazes de expor a origem do conflito e deixá-lo no lugar
ao qual pertencia: com os avós.
O que exclusão significa
Como vimos no caso de Antonella, uma pessoa esquecida ou excluída
não é necessariamente alguém que morreu de forma prematura. É,
sim, um parente que não foi reconhecido, a quem não foi dado o seu
lugar legítimo no sistema familiar.
Assim, a exclusão abrange muitas possibilidades. O parente pode ter
sido ignorado, nunca mencionado, nunca reconhecido como um ser
de valor; ou pode ter sido levado para longe da família, porque era
portador de alguma deficiência física ou mental. Ou talvez tenha
ficado ausente em um hospital por muito tempo ou foi enviado para
um colégio interno; ou, o mais significante de todos, foi dado para
adoção. Ele pode ter sido excluído por meio de um profundo
julgamento moral sobre o seu comportamento que resultou no
banimento do amor familiar.
Os mitos e as histórias de todo o mundo contêm esses almas
negligenciadas: pessoas excluídas cuja memória, de alguma maneira,
não foi honrado.
Em uma sessão, as informações colhidas durante a entrevista inicial
dá a indicação sobre quem é a pessoa excluída e também indica quem
talvez precisemos trazer para o quadro familiar. Depois disso, deve -
se examinar dentro da constelação para ver se esta hipótese está
correta e se trazer essa pessoa para a constelação tem algum efeito.
Depois de ouvir a história da família de Antonella, cheguei à
conclusão de que a avó dela poderia ser importante, mas ainda assim
precisei testar esta hipótese na constelação real. As respostas dos
representantes mostraram que eu estava no caminho certo, que eu
tinha encontrado a pessoa "que faltava". Se não tivesse sido a pessoa
certa, os representantes não teriam respondido de forma significativa
quando a avó foi colocada na constelação.
Completando o passado - incluindo os excluídos
A Constelação Familiar é um trabalho de cura. Consiste em tentar
reconfigurar as relações familiares e trazer de volta um membro
excluído para o retrato de família. Estamos tentando concluir algo que
não pôde ser completado no momento em que realmente aconteceu.
Na verdade, todo o trabalho de terapia é um trabalho de conclusão;
é um esforço para terminar uma gestalt incompleta, de modo que não
deixe uma ressaca psicológica.
Qualquer tipo de trabalho de crescimento pessoal ou de
desenvolvimento individual depende do mesmo princípio básico: o
que quer que tenha sido excluído, qualquer aspecto da personalidade
de alguém que tenha sido rejeitado, precisa ser localizado, aceito e
precisa ter um lugar no coração. Exatamente da mesma maneira,
dentro das gerações de uma família, os membros familiares que foram
excluídos precisam ser trazidos de volta; precisam ser incluídos,
reconhecidos e lembrados com amor.
Um elemento essencial deste princípio é o entendimento de que o
que nós rejeitamos permanecerá poderoso enquanto continuarmos a
rejeitá-lo. Isto ocorre porque o próprio ato de rejeitar dá a ele poder
sobre nós, dá a ele energia para nos perseguir. O fantasma que você
acha que é um fantasma se agarra à energia necessária para
assombrá-lo durante o tempo em que você estiver convencido de que
é um fantasma. Quando você vê que é uma teia de aranha no vento,
isso deixa de assustá-lo. Quando dizemos "sim" e aceitamos o que
não aguentamos olhar, algo muda dentro de nós. Não é só uma
questão de aceitar, é uma questão de se abrir aos fantasmas que
tememos e, finalmente, encontrar uma fonte de amor por eles dentro
de nós mesmos.
Este princípio de abertura para as nossas partes não amadas fornece
a base para toda a psicoterapia. Tudo o que jogamos no porão da
mente, nas camadas inconscientes da mente, torna-se uma centena
de vezes mais poderoso e retorna para nos punir.
A dor é uma questão fundamental aqui. O problema todo é criado
porque queremos evitar a dor. Nós podemos dizer que todos os
problemas são criados em torno da prevenção da dor. Na verdade,
uma das funções compulsivas da mente é tentar nos poupar de
experimentar o desconforto de qualquer natureza e ela faz isso nos
distraindo. Assim, o processo de cura consiste, em primeiro lugar, do
reconhecimento de que a dor é parte da vida e que a dor psicológica
é como qualquer outra dor. Não pode ser evitada.
Quando a morte está na questão, a natureza, em si mesmo, não tem
qualquer julgamento de valor. Uma morte precoce ou uma morte por
velhice são simplesmente dois destinos diferentes; uma não é mais
significante do que a outra. É nossa opinião muito humana, mas
puramente arbitrária, dizer que uma morte prematura é uma tragédia
e a morte é um horror que deve ser postergada o maior tempo
possível, sob quaisquer circunstâncias.
Compreender a neutralidade da morte faz com que seja possível
reconhecer uma pessoa que teve um destino difícil, ou que pode ter
morrido jovem, sem sentir pena dele. Esse é o trabalho que tentamos
realizar na Constelação Familiar, para que a cura possa ocorrer.
Do amor cego ao amor consciente
O que é aparente nos nossos exemplos de Max e Antonella é que é
muito importante encontrar qual o membro da família o filho está
representando, aquele com quem o filho se identifica, e trazer essa
pessoa de volta para a imagem familiar para que todos possam vê-lo.
Se essa pessoa é vista e reconhecida com amor, a necessidade de
representá-lo chega ao fim e a criança fica livre para ser ela mesma -
ela fica livre da identificação.
Identificação significa que o filho não consegue ver o outro como uma
pessoa separada. É um esforço sem sucesso da consciência coletiva
de dar à pessoa excluída um lugar na família - sem sucesso, porque
essa pessoa ainda permanece excluída, mesmo que um filho a esteja
representando.
No momento em que Max olha nos olhos do avô, no momento em
que Antonella olha para a avó com amor e respeito, a identificação
termina. O filho volta para o legítimo lugar dele. Imediatamente, a
relação pai-filho é curada e nutrida. Max pode agora dizer para a mãe
que ele respeita o pai dela, que ele respeita a dor dela pela perda
precoce dele e restabelece a conexão de amor com ela. Antonella
pode dizer ao pai que ela se lembra da mãe dele e sentir a conexão
de amor com ele restaurada.
Muitas vezes, isso é um grande alívio para o pai; outras vezes, eles
podem reviver a dor que foi reprimida ou sentem dificuldade em
deixar os pais irem - cada situação é única e desdobra-se de
diferentes formas. O ponto significativo é que, ao reviver a dor, o
amor oculto normalmente vem à tona e o amor é que é a cura real.
No seu amor original e cego, Max se identificou com o avô. Agora que
ele reconheceu o avô, não precisa mais se identificar com ele. Seu
amor se tornou mais consciente e, agora, no amor consciente, ele
pode simplesmente honrar o homem mais velho. É este "amor que
honra" que torna impossível Max continuar a representar o seu avô.
Max também agiu por amor à mãe. A necessidade dele de pertencer
a ela o levou a fazer qualquer coisa na esperança de aliviar a dor dela
e ganhar o seu afeto. Chamamos isso de amor "cego" ou "amor de
vinculação". O filho sempre sente, de acordo com sua consciência
pessoal, que é capaz de fazer o que for preciso para ajudar os pais a
suportar a dor; que ele tem o direito de fazer essas coisas.
É uma espécie de pensamento mágico que os filhos têm: "Alguém tem
de sofrer; então, se eu sofrer em nome da minha mãe, ela vai sofrer
menos". Claro que não é verdade; na realidade, o sofrimento é
simplesmente dobrado. O amor cego viola a consciência coletiva que
rege a "ordem sagrada" das coisas e, finalmente, não ajuda ninguém.
Vou falar mais sobre isso no próximo capítulo.
Quem pertence ao sistema familiar
Todos os membros da família na linhagem primária estão sujeitos à
consciência coletiva. Isso inclui os pais, os filhos, bem como qualquer
criança que tenha morrido jovem, natimortos e todos os avós. Tias e
tios também estão incluídos, mas não os filhos deles. Em alguma
ocasião, bisavós e trisavôs podem ser incluídos. Esses são os parentes
que compõem a família estendida para o propósito da Constelação
Familiar.
Existem também pessoas que não são parentes, mas que forjaram
uma forte ligação, vinculando-se à família devido a algo que ocorreu
entre elas e um membro da família. Essas pessoas pertencem agora
ao sistema familiar e estão sujeitas às leis da consciência coletiva. Elas
também terão de ser representadas por um membro posterior da
família. Se houve um antigo parceiro amoroso de um dos pais, que
teve de sair do caminho para abrir espaço para o pai atual, ele ou ela
precisa ser incluído.
Nós também incluímos pessoas que maltrataram ou mataram um
membro da família e isso inclui aqueles envolvidos em eventos graves
como matança étnica, como os nazistas ou pessoas envolvidas na
guerra civil (essas questões são tratadas no capítulo seis). Além disso,
o inverso se aplica: uma pessoa que sofreu nas mãos de um dos
membros da família - alguém assassinado com certeza será incluído,
mas também um antigo parceiro de negócios que foi enganado nos
seus direitos. Qualquer um que foi gravemente maltratado por um
dos membros da família deve ser trazido para a constelação.
Casos narrados como exemplo
Alguns exemplos revelam como um membro excluído de uma família
é representado por um filho e a importância de trazer essa pessoa
para o sistema:
Em uma constelação, uma cliente posiciona a primeira filha, que tem
deficiência mental, de frente para ela. Quando perguntamos,
soubemos que a irmã mais velha da cliente era uma filha natimorta
que tinha deficiência física. Assim que é mencionada, a filha da
cliente, que tem deficiência mental, quer se deitar. Depois de trazer a
irmã natimorta da cliente para a imagem, a filha que tem deficiência
mental sente um grande alívio. A partir desses dois desenvolvimentos,
supomos que a filha teve de representar a tia morta na família.
Um avô e alguns de seus filhos foram mortos por nazistas. Quando o
cliente, uma mulher, escolhe os representantes para o avô, tios e tias
- as vítimas do nazismo -, ela é totalmente incapaz de reconhecer o
avô, ou os que tinham morrido no campo de concentração. A
constelação chega a um impasse, até que eu introduzo alguém para
representar os próprios nazistas. Imediatamente, ela sente alívio e se
vê atraída pela pessoa que representa os nazistas e fica ao lado dele.
Isso mostra que, nessa família, são os nazistas que foram excluídos e
tiveram a memória suprimida; portanto, um dos filhos teve de
representá-los.
Uma mulher tem dificuldade com a filha, que não a respeita. Acontece
que o marido tem uma ex-mulher a quem ele deixou de forma
estranha e a filha se identificou com ela. Quando perguntamos, a filha
diz que sente raiva do pai e ciúmes da mãe. O alívio vem quando eu
apresento a ex-parceira na cena e quando os pais honram a primeira
esposa do pai.
Para resumir: o trabalho da Constelação Familiar é nos reconciliar com
as necessidades da consciência coletiva e reconhecer cada membro
de nossa família, lembrando-nos deles de uma maneira amorosa que
vai criar harmonia em nossas vidas.
O que vimos nesses exemplos é que, sempre que uma pessoa que
pertence a uma família é excluída, a consciência coletiva exige que ela
seja lembrada. Se ela não é lembrada, cria-se uma situação em que
um filho mais tarde se identifica com essa pessoa para trazê -la de
volta, de modo que, de alguma maneira, ela continua a viver dentro
do nexo familiar.
Vemos como, apesar dessa complexa estratégia, o membro original
da família ainda permanece excluído, porque o filho que o representa
só pode ser uma distorção da pessoa real. A consciência da verdadeira
situação traz uma mudança existencial que libera os dois.
Quando satisfazemos a consciência coletiva, trazendo a pessoa
excluída à sua devida posição no círculo familiar, quando ele é
lembrado e reconhecido, há uma sensação de paz e alívio para todos.
Só então, aquele que o representa na geração presente pode deixar
a carga e ser livre.

Capítulo Quatro
A Ordem Sagrada
A palavra "ordem" tem muitos significados: mandar alguém fazer
algo, organizar as coisas em um certo padrão, pedir uma refeição (em
inglês) ou entregar itens comprados, além de implicar uma certa
arrumação, como "ela mantém a casa dela em ordem". Também me
lembro das cenas barulhentas na Câmara dos Comuns britânica,
quando os membros eleitos perderam o controle e o porta-voz
precisou se levantar e gritar: "Ordem! Ordem!".
Na Constelação Familiar, usamos "ordem" em um sentido específico:
como uma forma de descrever uma certa sequência e precedência - a
linha cronológica de quem veio antes de quem - junto com um senso
de criar de um arranjo adequado das coisas. A partir da mistura destes
dois, criamos o nosso emprego da palavra.
Hellinger chamou de "a ordem do amor", querendo dizer que quem
vem em primeiro lugar vem em primeiro lugar; quem vem depois vem
depois e o amor flui melhor em um sistema familiar quando esta
ordem é respeitada. Superficialmente, o nosso uso da palavra ordem
se refere à aparência no tempo, enquanto, em um nível mais
profundo, sugere uma sensação de conforto e simetria. Colocando de
outro modo: o tempo de pertencimento define a posição de alguém
dentro da família e, quando esta ordem é observada, surge uma
sensação de bem-estar e relaxamento.
Geralmente, quando não há desequilíbrios escondidos em um sistema
familiar, uma boa posição para os membros de uma família nuclear
em uma constelação é que os pais fiquem em primeiro lugar e, depois,
juntem-se os filhos, de acordo com a idade deles, em sentido horário,
com o filho mais velho mais perto dos pais.
Às vezes, os filhos ficam de frente aos pais, olhando para eles, que
também pode ser pensado como um arranjo no sentido horário, se
pensarmos todos como parte de um círculo imaginário. Essa é a
formação em que cada membro da família se sente mais à vontade;
cada um sentindo que está "no lugar certo".
Esta ordem não foi criada ou inventada por psicólogos ou terapeutas
de família. É existencial. Foi descoberta a partir da prática das
constelações fazendo, inicialmente por Hellinger e, em seguida,
confirmada por outros. Ela espelha o fato de que percebemos o
mundo ao nosso redor organizando tudo mentalmente - todo o nosso
input sensorial - em termos de tempo e espaço e isso surge nas
imagens interiores que carregamos sobre nossas famílias. Nossas
mentes dão significado para uma posição específica a cada membro
da família.
Emaranhamentos familiares não resolvidos normalmente requerem
alterações no posicionamento dos membros da família e, com cada
constelação, precisamos explorar e descobrir este posicionamento de
novo, encontrando o arranjo mais harmonioso ao ouvir o feedback
dos representantes da família.
Assim, o tempo de chegada à cena, ou de fazer parte de um sistema
familiar, determina o lugar que uma pessoa tem na família, que é
traduzida em uma posição na constelação. A consciência coletiva
guarda este posicionamento, o que significa que todos na família têm
um profundo conhecimento interior sobre o fato de eles estarem no
lugar certo. Na mente de todos, sejam eles conscientes disso ou não,
há um sentido estrito de "ordem familiar", que depende do tempo de
chegada.
Vejamos o exemplo de Maureen, uma cliente irlandesa que tinha sete
irmãos, quatro dos quais haviam morrido muito cedo, ou
imediatamente após o nascimento ou ainda dentro do útero. Maureen
se queixa de que é atormentada por confusão e dúvida em muitos
aspectos da sua vida e tem dificuldade em focalizar um projeto
específico ou de um objetivo profissional e carrega isso a partir de
uma conclusão satisfatória.
Como passo inicial, Coloquei a ordem familiar dela: os pais primeiro,
com todos os filhos em frente, de acordo com a idade deles, da direita
para a esquerda. Nesta linha, incluí todos os irmãos e irmãs de
Maureen que já morreram, e este simples posicionamento acabou por
ser um grande alívio para a cliente. É a primeira vez que ela sente que
todo mundo está presente, que todo mundo que faz parte da família
está aqui e tomou o seu lugar na linha familiar.
Para tornar isso mais claro, peço a Maureen para entrar na
constelação como ela mesma e ficar na frente de cada um dos seus
irmãos falecidos e honrar a posição de cada um na linha familiar,
dizendo frases simples como: "Você é o segundo" ou "Você estava
aqui antes de mim, você se foi cedo e eu vou mais tarde" ou "Eu sou
um pouco mais velha e você é um pouco mais jovem e você pertence
à nossa família e tem o seu lugar".
Pode parecer muito simples, mas isso prova ser uma experiência
poderosa e curadora para Maureen. Pela primeira vez na vida, ela é
capaz de encontrar, reconhecer e lidar com os irmãos mortos e, mais
importante ainda, encontrar o lugar dela na ordem familiar,
terminando, assim, a confusão que ela sempre sentiu sobre a sua
situação.
O direito de cada filho ser parte da família está sendo respeitado, o
que traz uma sensação de paz a todos aqueles que estão
representando os membros da família e, sobretudo, é claro, a
Maureen.
Assim, a posição que uma pessoa tem em uma constelação pode
mostrar "ordem" ou "desordem". Quando, por exemplo, uma filha é
colocada ao lado do pai e a mãe é colocada atrás dela, isso sinaliza
que a filha é muito importante. Devido a alguns desequilíbrios no
sistema familiar, ela está ocupando o lugar da mãe. Então, ela vai
olhar para o pai como se fosse a parceira dele e deprecia a sua própria
mãe.
Todos na constelação podem imediatamente sentir que algo não está
certo. Entretanto, quando colocamos a mãe perto do pai e quando a
filha vem depois dela, todo mundo sente que é mais adequado e
todos os que estão representando os membros da família
experimentarão um certo relaxamento e alívio.
Existem sistemas mais complexos, como aqueles que envolvem um
ex-parceiro de um dos pais e, talvez, seus filhos. Então, este primeiro
parceiro e os filhos da relação precisam estar em primeiro lugar,
seguidos dos parceiros e filhos posteriores, mais uma vez em um
posicionamento no sentido horário e de acordo com o tempo de
pertencimento de cada um ao sistema. A cada um tem que ser dado
o lugar de direito e este não pode e não deve ser tomado por
ninguém. Como veremos nos próximos capítulos, muitos problemas
nas relações surgem porque os parceiros anteriores não estão sendo
lembrados.
Portanto, a ordem não se refere apenas às relações entre pais e filhos,
mas, em geral, à posição de um membro posterior da família em
relação àqueles que o precederam.
Agora, eu gostaria de convidar você, leitor, a participar de um
exercício de imaginação que irá ajudá-lo a compreender algumas das
dinâmicas básicas das quais estou falando.
Primeiro junte alguns pequenos objetos que podem facilmente ser
manipulados, como canetas, moedas, capas de CD, uma caixa de
óculos, uma flor, um relógio de pulso. A principal coisa exigida de
cada objeto, ou a partir do formato dele, é que ele deve ser capaz de
apontar para uma determinada direção, para que você possa ver o
caminho que está indicando. Coloque esses objetos sobre uma mesa
na sua frente; tenha a certeza de que você está sentado
confortavelmente e não será interrompido por alguns minutos,
enquanto faz esta experiência.
Quando estiver pronto, feche os olhos e comece a recordar cada
membro de sua família original, incluindo qualquer figura sombria da
qual ninguém gosta de falar. Dê um tempinho para cada um,
reconheça como você se sente em relação a cada um; observe se é
difícil ou fácil se lembrar de cada um. Passe um tempinho a mais
naqueles dos quais você teve dificuldades para se lembrar.
Agora, entre os pequenos objetos que você juntou, escolha um objeto
que representa cada membro da família; então, coloque-os na mesa
um com relação ao outro e seja claro sobre a direção que cada
"pessoa" olhando.
Olhe para a imagem na sua frente e imagine como cada pessoa se
sente em relação a todos os outros. Quem está de frente para quem?
Quem está excluído? Quem não está no lugar certo? Quem gostaria
de ir embora? Pode haver uma pessoa que esteja faltando e que você
não considerou até agora?
Nós não vamos fazer este exercício em uma sessão completa, mas é
útil visualizar as dinâmicas complexas que surgem imediatamente ao
fazer uma constelação pessoal deste tipo.
A Ordem do Amor: pais e filhos
Em toda família, os pais vêm primeiro - sem os pais, não há filhos.
Em outras palavras, o primeiro e principal presente que os pais dão
ao filho é a vida dele na Terra. Alguém é pai, simplesmente porque dá
à luz um filho; essa é a essência de ser pai. Neste sentido, é um pacote
completo; não precisa nada ser acrescentado ou tomado a partir desta
definição da relação pai-filho. Neste sentido, também, todos os pais
são iguais e são igualmente bons.
Após o nascimento, o filho recebe nutrição dos pais em tempo
integral: alimentos nutritivos para ajudá-lo a crescer, proteção contra
quaisquer ameaças externas, suporte amoroso para incentivá-lo por
anos de aprendizagem e assim por diante. Esse processo continua de
várias maneiras até que ele se torne um adulto independente e
autossuficiente.
Essencialmente, o pai dá e o filho recebe e é importante compreender,
a partir da perspectiva da Constelação Familiar, que isso é um fluxo
de uma mão no qual o pai só pode dar o pacote inteiro e o filho só
pode receber o pacote inteiro.
Neste sentido, a relação pai-filho é muito desequilibrada e um filho
nunca poderá pagar diretamente, na mesma forma, o que foi entregue
a ele. O ato de dar dos pais, que a maioria de nós toma como
garantida, é surpreendente na abundância e na duração. Ele continua
sem parar desde o nascimento até a idade adulta. Há, assim, muitos
presentes que os filhos não podem devolver de maneira nenhuma.
Apenas um sentimento e uma expressão de gratidão podem
compensar.
Em última análise, entretanto, o filho vai pagar o que foi dado
devolvendo o presente, não aos pais, mas aos próprios filhos. Dessa
forma, a natureza está constantemente cuidando da reprodução da
vida, trabalhando de uma geração para outra, ajudando não apenas a
sobrevivência do indivíduo, mas também das espécies.
Como vimos, receber um presente cria um desejo de dar algo de volta
de igual valor, mas nenhum filho pode fazer isso. Entender o que os
pais fizeram e não ser capaz de criar equilíbrio dando de volta pode
dar um poderoso motivo subjacente pelo qual os filhos sintam que
devem fazer algo significativo para os pais. Se os pais estão com
alguma dor ou sofrimento, vai ser difícil para um filho tolerar e ele
pode tentar aliviar esse ônus, não percebendo que é impossível levar
a carga ou o destino de outra pessoa.
Na tentativa de "ajudar" os pais, o filho se sente aliviado de culpa.
Mas vai contra a ordem natural dos pais, segundo a qual os filhos
precisam receber e pais têm que dar. Em vez disso, o filho se torna
pai dos próprios pais e, portanto, os reduz a filhos, o que coloca a
natureza da relação inteira de cabeça para baixo.
Vemos também filhos com raiva dos pais e isso pode ser visto como
outra forma de eles lidarem com a sensação de serem incapazes de
dar de volta o que receberam. Finalmente, o desequilíbrio pode levar
os filhos a deixar os pais, utilizando a raiva como uma forma de
justificar a partida. Mas isso não é mais do que superficial, porque
nunca podemos realmente deixar uma pessoa de quem sentimos
raiva. A raiva, como o amor, é uma relação de forte ligação.
Assim, vemos esses dois padrões nos filhos: ter raiva dos pais ou
tentar fazer alguma coisa para eles. Em ambos os sentidos, o filho
permanece ligado sem ser capaz de se separar verdadeiramente.
A forma natural e madura de lidar com a situação seria sentir e
expressar uma profunda gratidão para com os pais pelo que eles
fizeram. Por um lado, essa conexão nos liga a eles e nos dá força; por
outro lado, ela nos permite a independência e nos devolve para nós
mesmos.
Respeitando os pais
A Constelação Familiar trabalha com o entendimento de que, se a
ordem familiar não é respeitada, uma desarmonia aparece e cria uma
tensão entre os membros da família, inevitavelmente resultando em
conflito. No momento em que mostramos o respeito à ordem familiar,
como fazemos neste trabalho, o caminho está aberto para a harmonia
ser restaurada e é por isso que nos referimos a ela como a "Ordem
Sagrada", e não por razões religiosas, mas simplesmente para indicar
a sua importância central como um meio de restaurar o equilíbrio e a
harmonia em qualquer sistema familiar.
Se o filho consegue expressar gratidão e respeito aos pais, há uma
mudança na gestalt. Se ele consegue dizer "Obrigado por me dar a
vida" ou "Sem você, eu não estaria aqui", e abraçar a presença deles
em sua vida, então, ele pode plenamente receber a contribuição deles,
e não está mais dividido contra si mesmo.
A linguagem simplificada que usamos na Constelação Familiar para
reconhecer este senso de ordem pode parecer estranha de início,
porque ela usa palavras como "grande" e "pequeno" que contêm
todos os tipos de implicações - para uma coisa, o filho pode ser
fisicamente muito maior do que os próprios pais.
No entanto, usamos essas palavras porque elas são reconhecidas pela
alma como verdadeiras e porque apontam para uma ordem
existencial mais profunda das coisas. Quando, em uma sessão, um
filho diz para o pai: "Você é grande e eu sou pequeno", ele está
reconhecendo a Ordem Sagrada. Ele não está se referindo ao tamanho
físico, mas à precedência - os pais são maiores do que o filho, porque
eles são a fonte do ser dele.
Quando nós respeitamos a nossa "pequenez" em relação aos nossos
pais, somos capazes de receber a energia deles e ganhar força para
dar da mesma maneira aos nossos filhos. Por outro lado, se tentamos
ser "grandes" e dar aos nossos pais, vamos acabar tentando receber
dos nossos filhos ou dos nossos parceiros amorosos e tudo ficará
confuso.
Há muitas maneiras pelas quais o respeito aos pais pode ser expresso,
dependendo da situação que precisa ser reconhecida. Por exemplo,
um filho que estava tomando um dos lados em uma briga entre os
pais precisa se retirar, reconhecendo que ele é apenas um filho e não
tem o direito de se envolver. Respeitar os pais também significa
incondicionalmente concordar com o que o pai decidiu para nós.
Tais gestos podem parecer inadequados ou injustos a um mente
adulta e madura, especialmente quando vemos que a nossa
interferência ou rebelião parecem justificadas, porque os nossos pais
parecem terem-se comportado de uma maneira cruel ou estúpida,
mas a Constelação Familiar funciona de uma forma muito mais
pragmática e sem julgamento. É realmente apenas uma questão de
ajudar ao cliente a desvendar o emaranhado e a linha de fundo, que
é a Ordem Sagrada, tem que ser reconhecida e respeitada se os
"fantasmas" da nossa família tiverem de ser postos para descansar.
Hanna, uma alemã, nunca viu o verdadeiro pai. A mãe teve um caso
com um soldado norte-americano, casou-se com um alemão e nunca
disse à Hanna que este segundo parceiro não era seu verdadeiro pai,
mas, sim, o padrasto. Mais tarde, Hanna descobriu a verdade.
A convite meu, Hanna configura a constelação posicionando a mãe e
o pai biológico, o soldado norte-americano. Ela faz isso de uma
maneira que lhes permite olhar uns para os outros. Depois de um
longo tempo, a mãe se move em direção ao homem, mas, como ele
não responde, ela dá um passo para trás e olha para o lado.
Quando colocamos um representante para Hanna na imagem, a mãe
sente vergonha e raiva e tenta ficar em uma posição na qual Hanna
não possa ver o pai natural. Quando peço à filha para lhe dizer: "Se
isso ajuda você, eu não vou ver ou procurar o meu pai", a mãe relaxa
e de repente começa a chorar, sentindo uma profunda dor.
Hanna, agora estando como ela mesma, reconhece a dor da mãe, mas
também afirma que está deixando isso com ela e, pela primeira vez,
permite-se olhar para o verdadeiro pai.
A mudança significativa ocorreu quando Hanna concordou com a
decisão da mãe, que não tinha contado a ela sobre seu verdadeiro
pai. Concordar com o que os nossos pais decidiram por nós nos leva
novamente para um relacionamento correto com eles, no qual nós
somos inocentes e deixamos a responsabilidade para eles. A Ordem
Sagrada é restabelecida.
Quando nos queixamos ou nos irritamos com os nossos pais por causa
das ações passadas deles, estamos julgando-os como errados e, por
conseguinte, tomando uma posição superior. Do ponto de vista da
Ordem Sagrada, estamos tentando tornar os nosso pais "pequenos"
e nós "grandes", e isso viola a consciência coletiva. Como resultado,
mais cedo ou mais tarde, vamos nos punir por isso como uma maneira
de criar equilíbrio.
Existe uma lei pouco compreendida operando nos assuntos humanos
e que precisa ser reconhecida aqui: nós sempre permanecemos
ligados ao que rejeitamos. Sempre que nos queixamos sobre os
nossos pais, estamos dizendo "não" para a maneira pela qual eles
participaram de nossas vidas e não conseguimos receber o que quer
que eles nos deram. Ao rejeitá-los, pensamos que estamos nos
separando e ficando livres, mas não podemos genuinamente nos
separarmos deles dessa forma negativa - a rejeição ainda é uma
relação de ligação.
Nós somos nossos pais. Quando dizemos "sim" a eles, dizemos "sim"
a nós mesmos. Não é o "sim" de obediência; é o "sim" de aceitação,
um "sim" ao que é o caso simplesmente. Além disso, estamos dizendo
"sim" para as partes alienadas de nós mesmos, pois o que eu não
gosto no meu pai é talvez exatamente o que eu não gosto em mim
mesmo. Se eu reconheço os meus pais de coração, se eu "aceito os
meus pais", então, eu também me aceito de coração.
Como indivíduos, nós subimos para o nosso pleno potencial quando
aceitamos as falhas dos nossos pais e simplesmente honramos os dois
por nos terem trazido para este mundo. Não que isso seja fácil. É
comum acreditar que seria muito melhor se os nossos pais fossem
diferentes:
mais compreensivos, mais solidários, menos críticos, menos rigorosos
e, talvez até mesmo mais rigorosos. Alguns de nós podem até pensar
que seria melhor se tivéssemos pais diferentes, querendo ter como
nosso ideal a mãe ou o pai de um amigo ou aqueles pais da televisão.
Mas, com pais diferentes, eu seria uma pessoa diferente. Ao pedir
novos pais, estou me comportando como se eu quisesse ser outra
pessoa. Como posso estar em paz comigo mesmo, se o tempo todo
estou desejando ser outra pessoa?
Do ponto de vista da Ordem Sagrada, só há uma maneira de estar em
paz comigo mesmo: honrar sinceramente os pais que eu tenho. É um
gesto de profundo respeito, quase um ato espiritual, um gesto
sagrado. Quando você honra seus pais, você não honra apenas sua
mãe e seu pai, você também honra seus avós, seus bisavós; todas as
pessoas que vieram antes de você. Você se curva para o lugar de onde
veio, para quem o trouxe aqui, para o modo de vida que flui a partir
de você agora.
Em uma profunda reverência, você se curvar ante as origens e a fonte
da sua vida.
Expressando a honra
As pessoas que permanecem com raiva dos pais e querem algo
diferente vindo deles vivem em um estado de esperança, em vez de
aceitação, com um fundo de carência e expectativa. Essencialmente,
elas se veem como vítimas, o que as deixa impotentes e, assim, negam
a possibilidade de mudança. Elas estão se concentrando no amor que
não tiveram e não podem reconhecer o amor que já receberam nem
podem receber o amor que ainda possa estar disponível para elas.
Desse modo, constantemente com vontade de algo mais vindo dos
pais, elas permanecem fixadas neles.
A maioria de nós vive este doloroso dilema em algum momento de
nossas vidas. Sempre que queremos mudar alguma coisa sobre a qual
não temos o poder, somos presos pela própria coisa que estamos
tentando mudar. Pensamos que queremos mudar, porque isso cria
angústia e desconforto, mas realmente é o desejo de mudança e
nossa incapacidade de fazê-lo que cria a nossa angústia.
Então, vivemos nesse infeliz apego duplo: toda a nossa atenção está
naquilo que não gostamos e somos incapazes de apreciar as coisas
que realmente temos. O filho não pode se separar dos pais nem pode
recebê-los de todo coração. Por outro lado, no momento em que ele
diz: "Eu agradeço pelo que você me deu", e quer dizer isso, naquele
momento, ele pode se desapegar e seguir em frente. Paradoxalmente,
no momento em que se inclina para os pais e os honra, ele introduz
a possibilidade de se liberar deles.
Há muitas maneiras de expressar essa honra em uma sessão da
Constelação Familiar. Uma forma seria a pessoa que está
representando o cliente, ou o próprio cliente, se dirigir a um dos pais
assim:
"Você é minha mãe e eu lhe agradeço por me dar a minha vida. Eu
recebo isso de você como um grande presente, com tudo o que vem
com ele. Agradeço pelo preço que você pagou e eu pago também. Eu
vou fazer alguma coisa com a minha vida em sua honra; para isso não
ter sido em vão. Você é a mãe certa para mim e eu sou o seu filho
certo. Você é grande e eu sou pequeno. Você dá, eu recebo."
Isso mostra o reconhecimento do cliente pelo lugar que a mãe tem
na família. Esta honra é a única maneira pela qual ele pode se separar
totalmente dos pais. Qualquer outra maneira tende a ser parcial. Isso
se aplica igualmente a todos os filhos, mesmo aqueles que foram
abusados pelos pais ou que têm algum tipo de deficiência.
Devolvendo a carga com amor
Em nossos exemplos anteriores de Max e Antonella, vimos como um
filho se identifica com o avô para representá-los na família. Por
exemplo, Max, identificando-se com seu avô, olhou para a mãe como
se ela fosse a própria filha, tentando carregar a carga da dor dela nos
próprios ombros.
Ao trazer o avô de volta para a imagem da família por meio do neto,
a consciência coletiva procura ter certeza de que ninguém será
excluído. No entanto, ao fazê-lo, isso vai contra a lei da Ordem
Sagrada, que nos diz que um filho deve ser "pequeno" e uma mãe
deve ser "grande".
Então, agora temos um conflito. Um filho, por amor aos pais, quer
carregar alguma bagagem psicológica por eles. Mas, quando ele
assume, mesmo que uma pequena porção dos problemas deles, ele
alterna os papéis, torna-se maior do que eles e vai contra a Ordem
Sagrada.
A programação da consciência coletiva trabalha em oposição aos
interesses próprios do filho e o que é possível para a maturidade dele.
Então, ele está aprisionado dentro situação e é difícil para ele sair,
porque ele se sentiria culpado se não tentasse assumir o sofrimento
da mãe. Para ele, isso seria como se a estivesse traindo.
No entanto, ninguém pode cumprir o destino de outra pessoa.
Ninguém pode assumir as cargas psicológicas de outra pessoa, apesar
de todos os filhos, impulsionados por um profundo e primitivo
instinto de sobrevivência - a necessidade de pertencer - queira fazer
isso por um pai que está sofrendo. Esse amor cego pelos pais, esse
profundo vínculo biológico de apego do filho pela mãe ou pelo pai,
é tão poderoso que os filhos querem, por vezes, morrer pelos pais .
Nós chamamos isso de "amor cego", porque o filho não consegue ver
a impossibilidade dos seus esforços. Ele não entende e é incapaz de
levar em consideração o fato de que cada um de nós tem de lidar com
os eventos que acontecem em nossas vidas, embora dolorosos, por
nós mesmos.
Esta é a diferença entre ser uma criança e ser um adulto. Crescer
significa que nos tornamos conscientes do fato de que somos seres
distintos, incapazes de viver a vida de qualquer outra pessoa. Mas,
como dissemos anteriormente, as crianças vivem vidas ricas em
fantasia e cada criança tem a ideia mágica de que pode aliviar os pais
do sofrimento, pensando que, se ela sofrer, o pai vai sofrer menos.
Mas o resultado é sempre o mesmo: em vez de reduzir a dor pela
metade, a dor é dobrada. Agora, em vez de uma pessoa sofrer, duas
pessoas sofrem. Adotando a dor da mãe, o filho nega o direito dela
de enfrentar e transcender o próprio sofrimento. Não só isso, ele não
percebe que a mãe também o ama e não gostaria que ele tivesse os
mesmos traumas que ela sofreu. O sofrimento dele não é apenas
inútil; ele ainda aumenta a carga da mãe.
Um cliente, que é casado e tem um filho, configura uma constelação
em que o seu próprio representante se sente puxado para longe da
família e quer ficar com seu pai, que se suicidou quando o cliente era
jovem. Aqui, vemos o padrão familiar de um filho tentando adotar
algumas das dores do pai. Mas o representante do pai, percebendo o
que está acontecendo, torna-se irritado. Ele não quer que o filho
assuma, ou interfira no seu destino pessoal e segue empurrando o
filho para longe dele, de volta para sua própria família.
Compreender a inutilidade de tentar assumir o sofrimento de outra
pessoa é um grande passo do amor cego para uma forma mais
consciente de amor. No contexto da Constelação Familiar, o amor
inconsciente do filho pode dizer: "Querida mãe, você teve muita dor
em sua vida e agora eu quero carregar isso por você". Enquanto isso,
um amor consciente pode se dirigir à mãe assim: "Querida mãe, eu
agradeço a você pela minha vida e por tudo o que você fez por mim.
Reconheço a dor que você teve em sua vida e agora eu deixo isso com
você e deixo você carregá-la sozinha".
Esta é uma abordagem mais madura, mas não pode ser feita de uma
forma fria e distante, como se quisesse se livrar da mãe e dos
problemas dela. Somente se for feita de uma forma sincera e amável,
irá levar a carga de volta para os pais; caso contrário, ela realmente
não irá nos deixar.
Este gesto profundo de devolver o ônus do sofrimento é difícil de
fazer, porque o filho enfrenta um forte sentimento de culpa, que
decorre do desejo dele de pertencer à mãe, de estar perto dela. Ao
não ajudar a mãe com o seu fardo, o filho vai inevitavelmente se sentir
culpado. Vou discutir a questão da culpa mais detalhadamente no
capítulo seguinte.
Assim, na realização de uma sessão de Constelação Familiar, tentamos
calcular o quanto um cliente está pronto para dar este passo do amor
cego para o amor consciente e devolver a carga. É um grande
investimento desistir. Ao transportar algo em nome de nossos pais,
nós nos sentimos profundamente ligados e conectados a eles e isso
é algo que não queremos perder. Ninguém realmente quer ficar por
sua própria conta, mas, no momento que dizemos aos nossos pais:
"Deixo tudo isso com vocês e agradeço por tudo", estamos por nossa
conta.
Não há outra maneira de crescer. Quando agradecemos
profundamente aos nossos pais e dizemos a eles que eles fizeram o
suficiente, estamos fazendo uma declaração de que não precisamos
de nada mais deles. Ainda assim, resistimos em nos afastar do
aconchegante ninho familiar. É menos assustador ficar debaixo das
asas deles, por mais sufocante que isso possa ser, do que tomar voo
e descobrir o nosso verdadeiro lugar no mundo. Isso é o modo como
nós permanecemos imaturos e infantis, mesmo quando adultos.
Em última análise, existe uma grande força a ser encontrada ao se
ficar de pé sobre os próprios pés, mas para dar esse passo, para
mostrar prontidão para ser independente de nossos pais e trazer o
amor consciente em nossas interações com eles, é preciso coragem.

Capítulo Cinco
A culpa familiar: a necessidade de equilíbrio
Vimos como a culpa age a serviço da consciência para obrigar uma
pessoa a se comportar de acordo com os valores do grupo social ao
qual ela pertence. Este sentimento de culpa é algo que podemos
reconhecer em nós mesmos e isso nos afeta quando nosso
comportamento vai contra os valores do grupo.
Vimos também como experimentamos a culpa em relação ao
equilíbrio de dar e receber. Por exemplo, se machuquei alguém, me
sinto culpado até que eu pague, de alguma forma, pelo que fiz.
Censurar os sentimentos de culpa mostram que eu ainda não assumi
a responsabilidade por meus atos nem restaurei um senso de
equilíbrio pessoal.
De acordo com a lei de equilíbrio, a melhor maneira para lidar com
esta situação é reconhecer o que fizemos, concordar com a nossa
"culpa", aceitar as consequências que resultam de nossas ações e
fazer algo que restaure a sensação de equilíbrio. Poderíamos chamar
isso de "assumir a responsabilidade". Isso pode tomar muitas formas,
desde concordar em ficar mais tempo no escritório depois do
trabalho, a fim de equilibrar um erro devido a algum descuido ou,
para um homem, assumir a responsabilidade como pai, embora ele
não tenha escolhido ter um filho com mulher que ele engravidou.
Se concordarmos em assumir a responsabilidade dessa forma - ou, de
outra forma, se "carregamos" a nossa culpa -, nós não sofremos com
os sentimentos de culpa; em vez disso, nós nos sentimos aliviados.
Basicamente, é uma compreensão de que estamos essencialmente
sozinhos para enfrentar o resultado de nossas ações e não podemos
culpar ninguém, nenhum professor, nem nosso parceiro, nem nossos
pais. Quando tentamos criar desculpas ou justificar nossas ações, ou
reclamar, ou culpar os outros, o que estamos realmente fazendo é um
esforço para requerer inocência e evitar a responsabilidade.
Queremos nos livrar dos sentimentos de culpa, mas sem pagar o
preço. A prontidão para desistir desse falso tipo de inocência e se
tornar "culpado" é um requisito essencial para uma pessoa crescer
psicologicamente.
No entanto, mais uma vez, precisamos fazer uma pausa aqui por um
momento e reconhecer uma distinção importante entre a dinâmica
das leis da constelação e qualquer sistema de moralidade socialmente
aceito. Esta distinção precisa ser enfatizada; caso contrário, as leis da
Constelação Familiar podem levar à aparência de um sistema moral e
pode ser usado como uma arma nos debates sociais. Por exemplo,
como um argumento contra o aborto pelo movimento do "direito à
vida" dos Estados Unidos.
Tal argumento pode ser usado quando uma mulher fica grávida; ela
agora é mãe e deve cumprir a sua responsabilidade dando à luz a
criança, a qual ela realmente não quer, e deve criá-la. Já que o homem
que a engravidou agora é um pai, ele deve apoiar a mãe a fim de
manter o equilíbrio.
Isso é um equívoco. Na Constelação Familiar, o foco está em
reconhecer e aceitar o simples fato do que aconteceu, não o que se
"deveria" fazer. Ao engravidar uma mulher, o homem se torna pai. Ao
ficar grávida, a mulher se torna mãe. Isso são fatos. Mas a questão de
como as pessoas cumprem a responsabilidade, depois de aceitar
esses fatos, é algo que só elas podem decidir, não alguma autoridade
externa nem qualquer código de conduta social ou religioso. Visto
sob esta perspectiva, uma mulher pode aceitar a responsabilidade e
ainda decidir fazer um aborto. Vou falar mais sobre a questão do
aborto em um capítulo sobre tópicos especiais.
Em geral, podemos dizer que a necessidade pela terapia da
Constelação Familiar surge a partir do hábito humano profundamente
enraizado de tentar evitar a responsabilidade por nossas ações. Isso
cria um fardo de desequilíbrio que é carregada dentro do sistema
familiar, ou pelo membro da família que criou o desequilíbrio, ou por
gerações posteriores. Como vimos, a função do terapeuta da
Constelação Familiar é encontrar o desequilíbrio que está afetando o
cliente dentro da família dele, ver onde reside a responsabilidade,
reconhecê-la e, em seguida, ajudar o cliente a encontrar uma resposta
apropriada. Descobrir a verdadeira responsabilidade e agir em
conformidade é um desafio e uma conquista pessoal.
As leis da Constelação Familiar não são sistemas morais. Elas têm sua
origem na vontade biológica de viver e, como já observamos, essas
leis têm a sua própria inteligência, uma vez que elas se desenvolveram
ao longo de milhares de anos com a intenção de maximizar as chances
do indivíduo de vinculação a um grupo e maximizar as chances do
grupo de sobreviver em um ambiente hostil.
Nesse contexto, o que garante a sobrevivência é o "certo", e o que
põe o indivíduo ou o grupo em perigo é o "errado". Essas leis antigas
precisam ser entendidas e honradas, porque o que quer que tenha
sido feito "errado" vai precisar ser equilibrado; caso contrário, as
pessoas dentro de um sistema familiar vão carregar o fardo e sofrer
desnecessariamente.
A culpa coletiva
A necessidade de recuperar o equilíbrio se torna mais complexa pelo
fato de que as gerações posteriores de família não podem usualmente
ver o que estão carregando de membros anteriores do mesmo
sistema. Como expliquei no capítulo dois, há uma forma de culpa que
é mais profunda, mais poderosa e mais invisível do que a culpa
pessoal. É uma culpa que não sentimos ou reconhecemos
conscientemente, mas que é entendida por uma camada mais
profunda de nossas mentes, uma camada que Carl Gustav Jung, um
dos pioneiros da psicologia moderna, chamou de "o inconsciente
coletivo".
Alguns praticantes da Constelação Familiar chamam isso de nossa
"alma", mas pode ser confuso, pois na verdade é uma profunda
camada oculta da mente. É melhor fazer uma clara distinção entre a
mente e a nossa consciência mais profunda, que, segundo os místicos,
está além da mente humana e de todas as suas camadas. Vou abordar
mais sobre esse assunto na quarta parte do livro.
O que quer que chamemos isso, esta parte mais profunda da mente
sabe da nossa responsabilidade com o sistema familiar e nossa
compulsão em obedecer às suas leis. Por exemplo, uma mulher que
fez vários abortos pode desenvolver câncer de útero como uma
maneira de equilibrar seus atos. Ou um homem que deixou a primeira
mulher e os filhos sem razão significativa pode não ser capaz de
encontrar uma nova parceira. Ou, em geral, se rejeitamos os nossos
pais, vamos encontrar alguma maneira de punir a nós mesmos por
fazer isso - não importa o quão severamente eles nos maltrataram
como filhos - e sofrermos como uma forma de expiação.
No entanto, não somos apenas obrigados a equilibrar o que fizemos
pessoalmente, mas também o que foi feito por alguém de uma
geração anterior da nossa família. O filho de um homem, cujas irmãs
foram dadas para adoção, pode abrir um lar para órfãos. Uma mulher
cuja família, no passado, se tornou rica explorando as pessoas pode
continuar perdendo dinheiro. Descendentes de um membro da
família que assassinou alguém pode se sentir fortemente atraído a
cometer suicídio.
Dependendo da gravidade de um ato, o impulso para equilibrar pode
afetar as gerações posteriores. Muitas pessoas observam a saga da
família Kennedy, a proeminente dinastia da Nova Inglaterra, que teve
um presidente, três senadores e vários outros políticos e que sofreram
mortes prematuras, escândalos sociais e graves tragédias mais do que
a maioria dos habitantes de pequenas cidades.
Diz a lenda que esta família é amaldiçoada, mas, para um praticante
da Constelação Familiar, é óbvio que membros posteriores da família
Kennedy estão expiando por desequilíbrios não resolvidos causados
por gerações anteriores e seria um desafio fascinante para qualquer
terapeuta da Constelação tentar desvendar a história inteira dos
Kennedy, para ver onde está o problema verdadeiro.
A necessidade subjacente de equilibrar atos praticados dentro de um
sistema familiar é o terceiro princípio da nossa consciência coletiva,
que nós chamamos de "Lei do Equilíbrio".
O equilíbrio é um princípio universal em que duas polaridades
procuram encontrar o equilíbrio entre si. Pode ser observado no
símbolo taoísta do Yin e Yang, em que os opostos em preto e branco
são incorporados um no outro dentro de um círculo unificado e, na
lei hindu do karma, em que os atos de vidas passadas são trazidos
para determinar o que acontece na vida atual. Também pode ser visto
no conceito de dialética de Karl Marx e George Hegel, em que a tese
e a antítese culminam na síntese; e na poesia de Wiliiam Blake, que
chamou este fenômeno de "os contrários, sem os quais não haveria
progressão".
Assim, quando olhamos para as famílias, vemos a força da nossa
consciência coletiva trabalhando para equilibrar o que ocorreu dentro
do sistema familiar. Se alguém de uma geração anterior fez algo e
não carregou as consequências completas de suas ações, então, sem
que ninguém saiba sobre isso, a força de equilíbrio vai obrigar os
filhos das gerações posteriores a carregar essas consequências por
ele.
Na Constelação Familiar, a lei de equilíbrio não funciona de forma
isolada. Apesar de eu ter separado as três leis básicas de
pertencimento, ordem e equilíbrio, a fim de explicar cada uma , na
prática, elas sempre andam juntas e funcionam de uma forma
conjunta, como nos exemplos seguintes.
* A mãe de um cliente era esquizofrênica durante a maior parte da
vida do cliente. Descobrimos que a avó tinha tido 11 abortos e, na
constelação, isso mostra que a mãe do cliente (a filha da avó) estava
pagando pela culpa da mãe dela, tornando-se doente para equilibrar
os atos da mãe. Na verdade, ela estava identificada com as crianças
abortadas e com a mãe como vítimas e criminosa e, dessa forma,
tornou-se esquizofrênica.
* Em uma família basca, havia membros do movimento separatista
chamado ETA, que perpetrou muitos atos de violência em um esforço
para libertar a região do domínio espanhol. O tio do cliente (irmão da
mãe) foi baleado e morto acidentalmente pela polícia espanhola.
Descobriu-se que ele assumiu a culpa dos membros da família dele,
que faziam parte do ETA e, dessa forma, foi morto.
* O irmão de um cliente desapareceu e nunca foi encontrado;
assumiu-se que ele estava morto. O próprio cliente sofre com o medo
de que ele pode ser morto ou cometa um assassinato - no passado,
ele esteve muito associado a uma organização mafiosa. O pai de
ambos os filhos matou a própria mãe e depois cometeu suicídio. As
dinâmicas ocultas: os filhos querem pagar pelos atos dos pais (lei de
equilíbrio), razão pela qual um irmão desapareceu; e eles vão copiar
também as vidas dos pais, razão pela qual a vida do irmão
sobrevivente é cheia de medo por sua própria tendência homicida.
* Uma cliente é descendente direta do imperador de um país (dez
gerações anteriores). Ela e o pai carregam o orgulho de vir de uma
família real. O pai foi torturado por um regime comunista e ela sofre
continuamente com as perdas financeiras. A constelação revela que
tanto ela quanto o pai dela estão pagando pela culpa do ancestral
imperial, o imperador. Quando colocamos o imperador na
constelação, ele fica indiferente ao sofrimento do seu povo sob o seu
regime autoritário. Muitas vezes, gerações posteriores pagam o preço
pela exploração que seus antepassados infligiram aos outros.
Como podemos ver nesses exemplos, as gerações posteriores querem
expiar, ou pagar o preço, por seus ancestrais, mesmo que não estejam
pessoalmente envolvidas. Da mesma forma, se um dos antepassados
foi maltratado por outras pessoas, ele vai querer se vingar, o que é
uma das razões para conflitos que ocorrem entre nações, religiões,
culturas (discutiremos mais isso no capítulo seis).
O que é importante entender aqui é que isso acontece sem uma
percepção ou concordância consciente de ninguém.
Conscientemente, nós provavelmente atribuímos certo
comportamento aos eventos de nossa vida pessoal, porque nós
podemos nem conhecer a pessoa relevante da geração anterior. Ainda
assim, a consciência coletiva fará com que carreguemos a sua culpa.
Resolvendo a culpa familiar
O que fazemos em uma sessão de constelação é tentar mostrar
abertamente um certo ato que nós, ou um membro anterior da nossa
família, cometeu e descobrir com quem está a responsabilidade
original.
Se alguém cometeu um assassinato, isso tem que ser claramente
reconhecido e o homicida precisa ser chamado de assassino; se
alguém deixou a esposa ou enganou outra pessoa por causa de
herança, isso tem que ser visto e exposto. Ninguém pode ser
desculpado, nem tem permissão para se desculpar, já que todo
mundo é totalmente responsável por o que quer que tenha feito na
sua vida.
Se uma mãe sente muito pela vida do irmão, que fazia parte de um
grupo terrorista e quer protegê-lo de punição - porque ele é o irmão
amado dela -, então, muito provavelmente seu próprio filho terá de
pagar pelo que o tio fez. Esta é a Lei do Equilíbrio em ação. O alívio
para o filho só virá quando a responsabilidade do tio for reconhecida.
Profundamente em nossas mentes, todo mundo sabe a intrínseca
responsabilidade que vem com cada ato que praticamos e ninguém
pode retirar isso. Pode ser seu irmão, pai, alguém que você ama,
mesmo assim, você não pode aliviá-lo da responsabilidade pelo que
quer que ele tenha feito na sua vida. No momento em que uma pessoa
conscientemente percebe isso e aceita, ela se rendeu às leis coletivas
e algo nela fica em paz, assim como sentimos um certo relaxamento
quando tomamos o nosso lugar apropriado na família de acordo com
a "ordem correta".
Voltando aos nossos exemplos, isto é o que mostraram estas
constelações.
* A avó com onze abortos sabia da culpa e queria se deitar próximo
às crianças abortadas; ela queria estar morta também. A dificuldade
era para a filha deixá-la ir, deixá-la carregar a própria culpa, em vez
de fazer isso por ela.
* Na família basca, era mais fácil para um filho descendente morrer
pelos atos dos membros antigos da família (e o irmão da mãe
realmente foi morto) do que reconhecer abertamente que havia
membros do ETA na família. Era mais fácil manter o segredo e carregar
a culpa do que declarar isso abertamente e deixar a culpa a quem
pertencia.
* O pai que havia matado a sua mãe não queria que o filho pagasse
o preço por ele. Na constelação, ele fisicamente empurrou o filho para
longe dele várias vezes e queria que ele ficasse com o próprio filho.
Quando o filho e o neto quiseram segui-lo, ele se sentiu incomodado
por isso e não se sentiu honrado.
* O imperador começou a suavizar quando confrontado com a
realidade de que todos os seus descendentes haviam tomado a culpa
dele nos ombros. Foi a primeira vez que ele pôde olhar para as
pessoas a quem governou e não se sentiu indiferente; ele se tornou
humano. O primeiro passo para a resolução é sempre trazer à tona a
realidade do que aconteceu: houve um evento no passado, dentro do
sistema familiar, que causou um desequilíbrio e havia uma pessoa
responsável por ele.
O próximo passo pode variar de acordo com a situação específica.
Pode ser que o ancestral aceite a responsabilidade e não queira que
o sofrimento continue, como no caso do pai que matou a mãe e a si
mesmo. Ou um descendente pode ter de enfrentar o seu antepassado
com responsabilidade, como no caso do imperador, que precisou ser
lembrado de que ele era um explorador.
Quando o pai que matou a sua mãe se deita ao lado dela no chão e
o amor que existia entre eles é visto, o filho-cliente se sente aliviado.
Quando o imperador é capaz de abrir o coração para as pessoas que
ele explorou, quando a avó, que teve onze abortos pôde se deita ao
lado deles, ou quando o separatista basco pode começar o luto por
suas vítimas, a resolução começa a ocorrer.
O que isso significa é que, finalmente, o assassino e a vítima, o
explorador e o explorado, o trapaceiro e o trapaceado têm de encarar
um ao outro e reconhecer o que aconteceu para chegarem a um
estado de paz um com o outro. Então, em uma constelação, pedimos
a eles que se olhem e observamos a interação que ocorre entre eles,
sem permitir que o filho-cliente interfira no processo.
Pode levar um longo tempo até que eles possam se encontrar e isso
pode não acontecer em uma única constelação, mas, na maioria dos
casos, um movimento começa que leva finalmente à reconciliação.
Muitas vezes, a reconciliação é um simples reconhecimento de que
ambos agora estão mortos e que na morte eles são iguais.
Para descobrir de quem é a culpa que o cliente está carregando, nós
trazemos os membros da geração anterior para a constelação e
observamos por quem o cliente é atraído, por quem ele tem um forte
sentimento ou afinidade. Então, o movimento em direção à resolução
pode começar.
0 que aparece nestes casos é que, ao assumir transgressões de
alguém de uma geração anterior, nós retiramos o seu poder. De uma
maneira sutil, tentamos interferir nas vidas deles e os deixamos
incapazes de resolver seus próprios assuntos inacabados. Isso é
igualmente verdadeiro, não importa se estão vivos ou mortos.
Assumir a responsabilidade pelas ações de outra pessoa pode
realmente privar essa pessoa de sua dignidade como ser humano. Por
exemplo, se a nossa avó foi maltratada pelo marido, ou por homens
em geral, e ela não pôde, ou não iria, fazer nada sobre isso - ela não
demonstrou a sua raiva, por qualquer razão - então, é uma arrogância
nossa nos tornarmos zangados no lugar dela, ou querer ajudá-la,
como se soubéssemos melhor o que é "certo" ou "justo" para a nossa
avó do que ela própria. Isso viola a lei da Ordem Sagrada, em que os
membros "maiores" da família não podem ser ajudados pelos
"menores" bem intencionados.
Como eu disse antes, o que emerge a partir dessas constelações é que
todo mundo é totalmente responsável por seus atos; todo mundo tem
de viver sua vida da sua própria maneira e aguentar todas as
consequências por suas ações. Ninguém pode fazer isso por ninguém
e, se alguém tentar, essa pessoa está fadada a falhar e criar mais
sofrimento. O perpetrador geralmente sabe, profundamente dentro
de si, que ninguém pode assumir a responsabilidade pelo que ele fez
e, usualmente, não quer que os outros se envolvam.
No fim, um estado de paz e de resolução pode ser encontrado
somente quando há uma verdadeira reconciliação entre perpetrador
e vítima, quando há os primeiros sinais de amor entre eles e tudo isso
pode levar algum tempo - nós vamos explorar esta questão no
capítulo seguinte.
Resumo
Para resumir os três princípios de pertencimento, ordem e equilíbrio,
como descrito nestes três capítulos:
A Lei do Pertencimento se refere à maneira pela qual todos em um
sistema familiar têm um lugar igual naquele sistema e têm o mesmo
direito de pertencer como todos os outros. Ninguém no sistema pode
ser julgado melhor ou pior, ninguém tem mais ou menos direito de
fazer parte da família.
A Lei da Ordem Sagrada mostra que somos todos únicos. Cada pessoa
dentro do sistema familiar tem a sua posição específica em relação
aos outros, de acordo com o momento em que entrou na família.
Ninguém mais pode tomar esse lugar.
A Lei do Equilíbrio se refere à maneira pela qual somos todos
considerados plenamente responsáveis pelo que fazemos. O que quer
que alguém faça em um sistema tem um efeito sobre o todo. Nós
influenciamos e somos influenciados pelo que acontece ao nosso
redor. No entanto, cada indivíduo tem de arcar com as consequências
dos seus atos, qualquer que seja o resultado.

Capítulo Seis
A vítima e o perpetrador
O tema da vítima e do perpetrador está completamente ligado aos
capítulos anteriores, sobre equilíbrio e pertencimento, e logo nós
veremos por quê. Sempre que há um sério conflito entre as pessoas,
a primeira coisa que todos querem saber é quem está "certo" e quem
está "errado". Se é um conflito forte em que as pessoas estão
gravemente feridas, estes tipos de desacordos são levados para a
justiça, que então abre uma ação, e a questão de quem está certo e
errado é decidida por outras pessoas, e não por nós mesmos.
No entanto, aconteça o que acontecer no plano legal, os atos
violentos perpetrados contra os outros têm um poderoso efeito de
ondulação, afetando profundamente a psicologia coletiva da família
em que ocorrem. A relação entre quem comete os danos e quem os
recebe é uma dinâmica única que exige atenção especial.
Se um assassinato, ou alguma grande agressão, lesão ou injustiça, for
cometido por um membro da família, um vínculo será criado com essa
pessoa que, muitas vezes, é mais forte do que os vínculos entre os
próprios familiares. Devido a esta ligação, a pessoa atingida, que pode
não ser um parente, tem de ser considerada parte do sistema familiar.
Ela passa a pertencer à família e está sujeita à consciência coletiva,
que cuida para que todos os membros do sistema tenham o seu lugar
provido e precisam ser lembrados.
O que vemos nas constelações é que a dinâmica do vínculo vai nos
dois sentidos. Se um membro da família comete um crime, a vítima
começa automaticamente a pertencer à família e, se um membro da
família for maltratado, então, o perpetrador começa a pertencer.
Quando uma pessoa esteve na guerra, ou em um campo de
concentração, as pessoas que estavam com ela começam a fazer parte
da sua família, especialmente os opressores. Por exemplo, os nazistas
na Segunda Guerra Mundial ou, de fato, qualquer tipo de situação de
maus tratos envolvendo violência ou injustiça tem a probabilidade de
produzir uma ligação deste tipo.
No nível da consciência pessoal e de valor e julgamentos, os membros
da família, naturalmente, tendem a tomar partido, formar opiniões e
tomar decisões sobre quem está certo e quem está errado. Tentamos
criar uma separação entre a pessoa que é "boa" e virtuosa e aquela
que é "ruim" ou maldosa. Queremos chegar a uma conclusão sobre
quem tem a culpa, nós acusamos ou simpatizamos, identificamo-nos
com alguns dos envolvidos e excluímos outros.
No entanto, nas camadas mais profundas da mente, no inconsciente
coletivo, tais distinções não são feitas. Como já aprendemos, a
consciência coletiva quer somente dar a todos o seu lugar. Ela quer
cuidar para que todos e cada um sejam lembrados sem discriminação
e não faz diferença se ele é um herói grandioso ou um monstro
despótico. Tanto quanto concerne à consciência coletiva, todos os
assassinos e todas as vítimas, todos os oprimidos e todos os tiranos
têm igual direito de pertencer.
Em um nível mais superficial, conduzido pelas nossas atitudes
convencionais e moralistas, quando julgamos os outros da família
como errados ou ruins, temos a tendência de excluí-los. Nós os
ignoramos, cortamos essas pessoas de nossas vidas, banimos de
nossos corações e dos álbuns da família. Reprimimos a memória deles
de modo que não sintamos a angústia que isso causa e tentamos
esquecer que eles existiram.
O dilema é, no entanto, que, por mais insistentemente que os
membros da família tentem excluir outro membro do sistema - por
exemplo, um assassino -, mais forte será a demanda pela consciência
coletiva de que essa pessoa deva ser representada e alguém de uma
geração posterior será forçado a fazê-lo.
Nós sempre vemos isso em uma sessão de constelação: ninguém cuja
existência não seja reconhecida pode ser abandonado totalmente. Ele,
ou ela, vai ser representado em uma geração posterior, gostemos ou
não.
Como podemos imaginar, isso pode ser uma pílula amarga difícil de
ser engolida. Uma família judaica, que perdeu um ou mais membros
no holocausto, pode sentir que reconhecer grupos de extermínio
nazistas como parte do seu sistema familiar seria profundamente
insultante. Uma família alemã, cujos membros suspeitam que os seus
antecessores estavam envolvidos em horríveis experiências médicas
com prisioneiros em campos de concentração, pode simplesmente
querer negar que isso aconteceu.
Como vimos em um exemplo no capítulo três, uma mulher era incapaz
de reconhecer o próprio avô, que foi morto pelos nazistas, até que
alguém foi introduzido na constelação para representar os próprios
nazistas, trazendo-os para o sistema familiar. A cliente sentiu alívio
imediatamente e foi atraída para a pessoa que representava os
nazistas, mostrando que a própria cliente estava representando os
opressores - e, portanto, rejeitando a vítima, o avô - por terem sido
excluídos e tido a memória suprimida.
Aqui está outro exemplo:
Anne, da Suécia, vem com o problema de que o pai é violento com
ela e, na constelação, ela se coloca de frente a ele, ilustrando seu
conflito com o pai.
Ao perguntar sobre a história de sua família, descobrimos que o avô
dela (pai do seu pai) foi assassinado. Quando incluímos o avô (vítima)
e alguém para representar o homem que o matou (opressor),
descobrimos que o pai da cliente carrega a energia do agressor e a
cliente se identifica com o avô, a vítima.
Os dois lados estão representados e a violência que aconteceu com o
avô está sendo repetida por gerações posteriores. O pai se identifica
com o agressor e torna-se violento, agindo como o agressor com a
filha, que se identifica com a vítima. Dessa forma, um conflito entre
vítima e perpetrador é repetido por um conflito entre filha e pai; é
uma dupla transferência.
Por que isso acontece? De acordo com a dinâmica da constelação, a
vítima se torna focada no seu assassino e vice-versa, criando um
vínculo forte entre eles. No sistema familiar de Anne, o foco do avô
no seu assassino faz com que o filho tente atrair sua atenção pela sua
identificação com o perpetrador. Então, porque o filho está focado no
pai, a filha dele se identifica com a vítima (seu próprio avô), a fim de
chamar a atenção do seu pai. Assim, a violência entre pai e filha tem
suas raízes no esforço da criança em chamar a atenção dos pais.
Não obstante o expliquemos, a solução continua a mesma:
descobrimos o conflito original e deixamos perpetrador e vítima
olharem um para o outro sem que ninguém interfira. Anne precisa se
afastar do avô e respeitar o destino dele. Ao reconhecer o amor do
pai ao pai dele, ela é capaz de desistir do desejo por mais atenção, o
que a ajuda a se afastar do conflito com ele. Ela encontra um lugar
seguro com a mãe.
O que vemos nessas constelações é a extraordinária força do vínculo
entre a vítima e o perpetrador e, para deixá-la totalmente visível,
precisamos colocar os dois na constelação. Esta ligação é, muitas
vezes, mais forte do que a conexão com suas próprias famílias, e o s
membros posteriores devem, de alguma forma, respeitar essa
dinâmica, o que é muitas vezes difícil para eles.
Os membros posteriores de uma família podem querer se vingar em
nome da vítima, ou pagar o preço pelo agressor, mas, como vemos
repetidamente, ao tomar tais cargas eles apenas criam mais
sofrimento. Na verdade, eles não têm o direito de interferir nestes
assuntos. Abster-se da interferência é um passo difícil de dar e as
pessoas são, muitas vezes, relutantes em se manter fora de uma
situação em que se sentem tão intrinsecamente envolvidas. Elas
pensam que estão sendo desleais com o parente envolvido, como se
o estivessem abandonando ou decepcionando.
Desistir do papel do juiz
Encontrar alívio por deixar para trás as complicações dos
emaranhamentos passados pode ser algo que pensamos que
queremos, mas na prática, muitas vezes, é problemático, porque nos
obriga a ir além tanto na consciência pessoal quanto da coletiva.
Tal passo demanda que desistamos da posição de juiz. Não tomamos
partido. Renunciamos ao desejo de acusar o perpetrador, ou ter pena
da vítima. Preferencialmente, honramos as vítimas e nos afastamos
dos agressores. Abandonando o juiz nos obriga a ir além das noções
de bem e de mal, de divisões de certo e errado. Deixamos a culpa nas
mãos do perpetrador e reconhecemos que o desenlace para a vítima
é algo com que só ele, ou ela, pode lidar.
É também uma questão de ser capaz de desistir de sentir-se unido à
sua família, que demanda coragem e pode até fazer com que o cliente
se sinta culpado, porque, se nós estamos muito identificados com a
nossa família, muito ligados, não seremos capazes de ver a imagem
maior.
Nós também precisamos ter cuidado como descrevemos o
perpetrador. Se um homem assassina outro homem, então ele é
chamado de assassino. Mas ser chamado de assassino não precisa ser
uma condenação de sua essência como homem. Ele é chamado de
assassino por causa de seu ato de matar outro ser humano e, claro,
ele merece arcar com as consequências disso.
No entanto, uma distinção mais precisa - uma distinção sem
condenação - seria chamá-lo de um "homem que matou alguém", em
vez de usar um termo que implica um estado contínuo e habitual da
intenção homicida. Dessa forma, nós não continuamos em julgamento
sobre ele como um ser humano, mas apenas reconhecendo o ato de
matar, e isso vai tornar mais fácil para nós incluí-lo no sistema
familiar, no contexto do pertencimento e do equilíbrio.
De um modo inverso, o mesmo é verdadeiro para a vítima. Se um
homem é morto, ou sofreu de uma forma incomum, ele ainda merece
ser visto como um ser humano completo, em vez de uma figura
trágica e sem esperança, de quem agora devemos sentir pena.
Uma mulher que tem uma deficiência devido a um acidente e agora
vive em cadeira de rodas pode ser vista apenas como uma aleijada.
Mas ser deficiente físico, dessa forma, é apenas uma parte de sua vida.
Na verdade, ela é uma mulher como qualquer outra - uma mulher que
passou a usar uma cadeira de rodas - e se o fato dela estar na cadeira
de rodas é o resultado da direção imprudente de alguém, nós não
temos o direito de procurar compensação; só ela tem esse direito. Se
tornamos isso nosso próprio projeto, como as pessoas que querem
se vingar em nome de outros fazem, estamos retirando dela um pouco
da dignidade como um ser humano.
Esta é certamente uma posição difícil para nós tomarmos e exige um
discernimento e maturidade consideráveis. Precisamos ver,
compreender e apoiar os princípios fundamentais das dinâmicas
familiares, que não seguem as nossas noções pessoais de justiça e
equidade, por mais que queiramos isso.
Aplicando essa dinâmica em uma sessão
Na Constelação Familiar o que geralmente fazemos é encontrar quem
foi excluído e quem agora está identificado com a vítima ou com o
perpetrador. Torna-se visível, a partir da posição em que o cliente os
coloca em uma constelação, e também é indicado a partir de reações
físicas e sentimentos relatados pelos representes.
Normalmente, colocamos o cliente em frente ao membro da família
com quem ele se identifica. Isso traz à tona o amor que o cliente sente
por essa pessoa. Alternativamente, podemos colocar o cliente
próximo a essa pessoa, onde ele tende a se sentir mais relaxado e à
vontade. Trazer esse amor à tona é em si uma profunda mudança para
o cliente, porque ele começa a ver a motivação que tem feito com
que ele realize certas coisas. Isso acontecia a partir do amor por um
membro precedente da família.
Isso já é muito para ser absorvido pelo cliente. Às vezes, depois de
ver o real motivo para suas ações, a vida toma um rumo diferente e o
cliente pode ser capaz deixar de interferir no destino de alguém que
foi morto, ou pode deixar a culpa para quem foi o assassino. Mesmo
se o cliente não puder deixar completamente a situação, ele, contudo,
vai tender a recuperar um pouco da sua inocência e parte da carga
causada pela identificação é removida.
O que é identificação?
A identificação é um processo profundamente inconsciente e, em
grande parte, não reconhecido. Quando eu me identifico com alguém,
não consigo ver essa pessoa com clareza, porque eu me transformei
nele, ou nela. É como ter seu nariz pressionado contra uma tela de
televisão; você está tão perto que não pode realmente elaborar
nenhuma imagem que está passando lá.
No entanto, quando eu conscientemente dou um passo atrás e olho
nos olhos de uma pessoa com quem eu tenha me identificado, tudo
muda. O contato direto com a pessoa me obriga a ver que eu sou
diferente; isso me traz para o momento presente, para a realidade.
Esse olhar vai me tirar da minha identificação e faz com que eu me
reconheça como separado do outro.
Então, e só então, é que se torna possível reconhecer o que aconteceu
com essa pessoa, honrar o seu destino ou culpa, dependendo se eu
me identifiquei com uma vítima ou um perpetrador. Isso significa que
posso agora dar crédito, sinceramente, ao seu direito de carregar o
seu destino sem a minha interferência, incluindo o meu
reconhecimento da dor que ele teve de passar, devido ao que
aconteceu na sua vida.
Em uma situação ideal, o alívio mais profundo para o cliente é
testemunhar a reconciliação entre a vítima e o perpetrador; assim, em
uma constelação frequentemente incluímos os dois e deixamos que
se encarem, fazendo com que olhem um para o outro e, em seguida,
observar o que ocorre entre eles.
Há talvez muitos sentimentos profundos envolvidos, tais como dor,
ódio, medo, agressividade, desespero, culpa, vergonha; todos podem
surgir nos representantes de ambos, vítima ou perpetrador,
dependendo da situação específica e do avanço do movimento em
direção à reconciliação.
Numa fase final, eles podem deitar lado a lado, indicando que estão
mortos, ou, se o perpetrador ainda está vivo, indicando que ele
merece morrer também; ou eles se encontram em um abraço.
Naturalmente, nem sempre chegamos ao ponto no qual esse tipo de
resultado positivo e de cura ocorre em uma constelação.
O movimento em direção à reconciliação só pode ocorrer entre o
perpetrador original e a vítima original. Um membro posterior da
família, como o cliente, que se tornou identificado com um deles, tem
que recuar e deixar isso com eles; caso contrário, o movimento em
direção à reconciliação é impedido.
No momento em que a vítima e o perpetrador olham um para o outro,
um processo de cura se inicia e, uma vez iniciado, realmente não
importa quanto tempo leve para ser concluído. No fim, as duas forças
opostas serão puxadas uma em direção a outra - há sempre um
movimento interno em direção à reconciliação, para fazer a paz,
refletindo o princípio universal de que, quanto mais duas energias se
opõem uma a outra, mais elas se atraem.
Em uma constelação, isso mostra o alívio que o perpetrador e a vítima
sentem quando se deitam no chão, um próximo do outro; a
reconciliação deles aconteceu na morte. É um processo que não
precisa ser completado nesta ou em outras sessões de constelação.
Ela tem que se completar no reino dos mortos, em seu próprio tempo.
Em uma constelação, simplesmente ajudamos esses dois adversários
a se encarar com honestidade e sinceridade. Isso irá mudar a situação
para o cliente, o filho descendente, que se identificou com um deles
e, ao pedir que o filho não tome partido e olhe para uma força maior
além de ambos, também ajudamos vítima e perpetrador a chegar a
um acordo sobre o que aconteceu. Funciona das duas maneiras.
Conflitos nacionais e culturais
Existem muitos exemplos de duas forças opostas dentro de um
sistema familiar e, da mesma forma que há oposição, existe também
um forte impulso coletivo para que elas se encontrem. A identificação
com um lado da família por um membro posterior é um esforço cego
e sem sucesso de representar a parte excluída e, em vez de ajudar a
reconciliação, evita a verdadeira reconciliação entre aqueles com os
quais o conflito começou.
A identificação com um lado contra o outro é uma dinâmica que
também está na raiz dos conflitos entre nações e entre as facções
políticas antagônicas dentro de uma única nação. Por exemplo,
sempre me deparo com clientes de países onde houve uma guerra
civil; eu tenho percebido que a luta continua dentro da família do
cliente, muitas vezes ao longo de muitas gerações.
Sebastian é de Barcelona e os pais são espanhóis. O pai do pai dele
estava do lado dos republicanos na guerra civil e passou sete anos
em um campo de concentração depois que o conflito terminou. A
família da mãe estava do lado dos nacionalistas e do general Franco,
que, depois de derrotar os republicanos, governou a Espanha como
ditador por muitos anos.
Quando colocamos a constelação, vimos mãe e pai ficarem separados
e os filhos ficaram divididos entre os dois lados, com o cliente mais
perto da mãe do que do pai. A mãe não consegue olhar para o marido;
ele é como um inimigo. A imagem dá a impressão de duas facções em
guerra uma contra a outra; os dois partidos da guerra civil são
representados por pais e filhos, a linha de frente passa diretamente
por esse sistema familiar peculiar.
Sebastian, o cliente, está perto da mãe, mas, ao mesmo tempo, olha
para o avô, que estava no campo de concentração, e se identifica com
ele. A constelação mostra que a mãe não está permitindo que seu
único filho chegue perto do pai, porque ela está se identificando com
os nacionalistas e família do marido era republicana.
Quando colocamos todos os mortos de ambos os lados da guerra civil
e os deitamos no centro um próximo do outro e, quando todos olham
para eles, algo relaxa na mãe e ela consegue começar a olhar para o
pai. Isso acaba por ser um grande alívio para o cliente.
Finalmente, mais para o fim da constelação, ele é capaz de dar um
espaço no seu coração para ambos os lados da guerra civil, para
ambos os partidos, sem julgamento - e, claro, para o seu avô.
Muitas vezes, a reconciliação pode ser encontrada quando as facções
adversárias deram uma boa olhada nas perdas de sua luta. Quando
elas olharam longa e arduamente, não apenas para os seus próprios
mortos, mas para todos aqueles que foram mortos - toda a peagem
dos mortos - elas podem lamentar juntas e isso, muitas vezes, os
aproxima, terminando o conflito.
Banu é uma bonita turca, em seus trinta e poucos anos, que relata ter
um problema contínuo com abandono. Sempre que ela tem uma
relação amorosa com um homem, ela pensa que ele vai deixá-la. Além
disso, ela tem um irmão que foi diagnosticado psicologicamente
como "borderline".
Na constelação, o pai dela está afastado da família, com o irmão no
caminho dele. Após a instrução, ficamos sabendo que os avós dela,
do lado do pai, eram turcos que tiveram de deixar a Grécia com a
queda do Império Otomano. Houve uma troca em massa de
populações naquele tempo, quando as fronteiras nacionais foram
criadas e redesenhadas: os turcos foram expulsos da Grécia para o
estado recém-criado da Turquia e os gregos foram forçados a sair de
suas antigas regiões otomanas, de volta à Grécia. Muitas pessoas
morreram de ambos os lados.
Quando acrescentamos representantes para a Grécia e a Turquia, e
também para o cristianismo e o islamismo, o conflito de séculos entre
as duas nações e as duas religiões vêm à tona e percebemos como é
carregado nesta família.
O pai de Banu carrega pela família dele a dor de perder sua terra natal,
a Grécia, que é aprofundada pelo fato de que a família teve de deixar
a maior parte da sua riqueza para trás, e ele também carrega a raiva
contra os cristãos. O seu filho, irmão de Banu, se identifica com os
cristãos gregos, que são excluídos e odiados na família, mas também
com os turcos muçulmanos, que são as vítimas nesta saga. Esta
divisão parece ser a causa da sua doença psicológica. Banu, nossa
cliente, se identifica mais com os turcos e carrega a raiva contra os
cristãos em nome do pai e da família dele.
A solução para a cliente é honrar os cristãos, que também sofreram e
foram mortos durante a revolta e, dessa forma, se afastar do seu
envolvimento no conflito, enquanto, ao mesmo tempo, reconhece o
sofrimento da família do seu pai. Desse modo, descobrimos que a
obsessão dela em ser abandonada é um sentimento que ela vem
carregando pelos avós, que tiveram de deixar suas casas na Grécia e
com quem ela se identificou a fim de obter a atenção do seu pai.
Em um nível mais profundo, o trabalho aqui continuaria ao deixar os
representantes do islamismo e do cristianismo olharem uns para os
outros e para as vítimas das guerras entre eles.
Eu tenho trabalhado com muitos exemplos semelhantes, incluindo
clientes de Taiwan, cujas famílias foram divididas na guerra entre
nacionalistas e comunistas; franco-vietnamitas, cujas famílias
continuam carregando o conflito entre colonialistas franceses e
nacionalistas vietnamitas; e clientes da Irlanda do Norte que carregam
o conflito entre católicos e protestantes.
Sempre que há uma polaridade, como as que descrevemos, é preciso
haver uma compreensão de que nós carregamos ambas as partes no
sistema familiar em maior ou menor grau, dependendo do grau o qual
uma parte tenha sido excluída. A verdadeira paz e a unidade s ó
podem ser encontradas se permitimos que ambos os lados se tornem
um em nossos corações.
Isso pode ser ajudado por uma pequena meditação que foi sugerida
por Bert Hellinger e vou apresentá-la aqui de uma forma modificada.
Sente-se confortavelmente com os olhos fechados e imagine um forte
conflito que aconteceu entre os membros de sua família. Pode ter
ocorrido várias gerações atrás.
Identifique as duas pessoas que estavam lutando, ou os dois partidos
opostos, e olhe para elas em sua imaginação; primeiro, para um dado,
depois, para o outro.
Observe se há algum julgamento ou um sentimento de tomar partido.
Lentamente, deixe que seu coração se abra para os dois lados,
especialmente abrindo espaço para a pessoa - ou o grupo nacional
ou religioso - que parece difícil para você abraçar, ou de quem você
fez um julgamento negativo.
Agora, imagine como se ambos os lados estivessem se encontrando
dentro do seu coração, tornando-se um.
Hellinger descobriu que, em casos de esquizofrenia, existe um
assassinato escondido em algum lugar na família, e a pessoa
esquizofrênica simultaneamente representa o assassino e a vítima,
mudando de uma identificação para a outra, criando a dupla
personalidade que o esquizofrênico frequentemente habitará. A cura
seria trazer este assassinato à tona, ajudando a cliente a sair da
identificação e deixando que os dois lados opostos se encontrem.
Trabalhando com essas dinâmicas como facilitador
O desafio para um facilitador de Constelação Familiar que trabalha
com a questão de vítima e perpetrador é renunciar qualquer
tendência de fazer juízos de valor. Ele precisa evitar a escolha entre
um lado e o outro, expandindo suficientemente para incluir os dois
lados aparentemente diametralmente opostos. Isso significa que os
facilitadores precisam ter trabalhado com suas próprias dinâmicas
familiares e atingido um ponto em que ele, ou ela, pode permanecer
sem julgamento ou moralismo. Isso é um requisito absoluto.
Ao mesmo tempo, o facilitador deve estar preparado para a
resistência dos clientes que acham essa inclusão inaceitável. Alguém
pode ver quão difícil é quando alguém considera, por exemplo, a
atitude moderna da Alemanha no Terceiro Reich. É difícil, mesmo
agora, para os alemães darem lugar aos nazistas nos anais da história
alemã e aceitarem que essas pessoas eram também alemães como
eles. A tendência é expulsá-las da memória pessoal e fingir que nunca
existiram. Ou melhor, no caso do Terceiro Reich, não é que os alemães
hoje finjam que os nazistas nunca existiram, mas foram educados a
dizer: "Devemos sempre lembrar, para que isso nunca aconteça de
novo", que é uma maneira diferente de não deixar algo ter fim.
Por isso, Hellinger é uma figura controversa na sua Alemanha natal,
porque ele descreve a natureza da consciência coletiva e sua
demanda por pertencimento, sem referência a "bom" ou "ruim", sem
tentar decidir quem tem se comportado de uma forma inaceitável e
sem cobrir estas dinâmicas básicas da constelação com cosméticos
socialmente aceitáveis.
De fato, para a maioria das pessoas a sua posição neutra seria difícil
de defender e compreender, se não fosse pelo fato de que esta é
apenas a maneira como as coisas são. Nas sessões de constelação,
muitas vezes vemos que a maior força de cura para um sistema
familiar vem dos perpetradores, e não das vítimas, já que eles são, na
maioria das vezes, os excluídos. Quanto mais continuamos a julgá-los,
ou negar sua existência, mais os recriaremos repetidamente. A
consciência coletiva não permitirá que eles sejam esquecidos, e
podemos ver isso na ascensão de movimentos neonazistas na
Alemanha moderna.
Tomar ofensivamente, ou negar, não é a maneira de acabar com os
conflitos e guerras em que nossos antepassados estiveram
envolvidos.

Capítulo Sete
Os mortos e os vivos
A maioria de nós tende a encarar a vida e a morte, como se estivessem
uma em oposição à outra, como se a morte fosse uma calamidade
que tem de ser adiada o maior tempo possível. Ou temos a tendência
de viver como se a morte não existisse, distraindo-nos de sua
inevitável chegada, ou vivemos com medo constante dela.
Consequentemente, tendemos a criar uma separação rigorosa entre
os membros da nossa família que estão mortos e os que estão vivos,
sem perceber que, para a consciência coletiva, há uma continuidade ,
mesmo que os mortos e os vivos, obviamente, pertençam a esferas
diferentes.
Se deixarmos de lado nossa relutância em enfrentar o tema da morte,
é evidente que aqueles que viveram antes de nós tiveram um papel
importante em todo o sistema familiar em curso e afetaram as vidas
das gerações que os seguiram.
Talvez esta seja uma razão pela qual é uma prática central em todas
as culturas primitivas enfatizar o culto e a veneração dos
antepassados, porque elas sabem intuitivamente que, de muitas
formas, os mortos ainda ditam o nosso comportamento. Elas
entendem que os mortos não estão realmente mortos; o que ocorreu
nas vidas deles é parte da nossa vida agora; o que ocorreu com eles
no seu tempo está nos afetando e nos influenciando.
Quando observamos em uma constelação como os nossos avós são
parte da nossa vida, começamos a ver como a influência deles pode
tomar duas direções opostas com resultados diferentes. Pode ser
indistintamente uma influência positiva ou negativa, dependendo de
como nos relacionamos com esses ancestrais através das gerações.
Digamos que você tenha um tio que morreu muito jovem. Um
resultado positivo seria que esse tio foi plenamente reconhecido e
apreciado pelo seu pai, como irmão e como aquele que morreu e, em
seguida, foi dado a ele uma despedida sincera. Por outro lado, se o
seu tio foi, de alguma forma, ignorado por seu pai, ou esquecido pelo
resto da família, pode ter uma influência negativa sobre você -
negativa no sentido de que a demanda pela consciência coletiva para
o reconhecimento pode compelir você a se identificar com ele e,
assim, representá-lo dentro do seu sistema familiar.
Um exemplo de como os mortos influenciam os vivos ocorreu quando
Harold, um cliente da Inglaterra, veio com uma questão que ele se
sente afastado do pai, que nunca pareceu lhe dar muita atenção
durante sua vida.
Colocando a constelação da família de Harold, soubemos que o avô
dele (o pai do seu pai) passou vários anos como soldado da linha de
frente na Primeira Guerra Mundial, testemunhando eventos
horrendos e condições desumanas. Na constelação, ele é puxado da
família para o lado dos mortos - aqueles que estavam com ele na
guerra e que morreram na linha de frente.
Só depois que o representante do cliente honrou todos os mortos
dessa guerra e reconheceu o sofrimento do avô, o avô pôde se virar
e olhar para o filho e o neto, pela primeira vez. Em seguida, também
o pai conseguiu ver o filho, nosso cliente. Antes, ele havia seguido o
impulso do pai em direção aos mortos e não conseguia olhar para
seus próprios descendentes.
Este é um exemplo de como as vítimas de guerra, mesmo quando não
são parentes, têm uma forte influência sobre uma família. Neste caso,
houve uma conexão tão forte entre o avô e seus companheiros
soldados que os mortos se tornaram os "membros da família"
excluídos, que exigiam reconhecimento.
Da mesma maneira que a psicoterapia envolve abordar as partes
rejeitadas de nós mesmos, na Constelação Familiar nós lidamos com
as pessoas esquecidas do passado, permitindo que aquelas que
pertencem ao nosso sistema familiar se tornem presentes para nós
agora. Precisamos reconhecê-las no sistema familiar, no presente
momento e dar-lhes um lugar digno no nosso coração.
As pessoas do passado da nossa família que tendem a ser esquecidas
são aquelas cujas vidas têm divergido da norma. São os únicos que,
de uma forma ou de outra, sofreram com circunstâncias incomuns -
aqueles que morreram jovem, que cometeram suicídio, que
realizaram atos de violência incomum, que foram submetidos à
violência. Às vezes, eles são a ovelha negra, os playboys, ou
desertores, aqueles sobre quem você "prefere não falar".
Mas são justamente as pessoas sobre quem preferimos não falar que,
acima de tudo, precisam ser lembradas. Quando fazemos isso, quase
sempre achamos que não há maus sentimentos ou ressentimentos
residuais e elas costumam nos dar as suas bênçãos, que é um
importante gesto de reconciliação e curativo dentro do sistema
familiar.
Bênçãos dos mortos
O estudo de caso a seguir mostra como uma pessoa morta pode dar
uma bênção.
Rosella é uma cliente italiana. Sua tia, que era a irmã mais velha da
sua mãe e a primeira filha da sua avó, morreu ao nascer. Ela não é
lembrada na família.
No início da sessão de constelação, Rosella posiciona representantes
para si mesma, para a mãe e a avó de forma que todos são deixados
olhando em uma só direção, não vendo uns aos outros, e isso indica
que uma pessoa está faltando no sistema familiar.
Presumimos que a tia está faltando; por isso, o representante dela é
introduzido e colocado em frente às três mulheres. O representante
de Rosella imediatamente se sente melhor, feliz por ver a tia, e
quando colocamos a tia deitada no chão - indicando a sua morte -,
Rosella se deita ao lado dela, uma indicação de que ela se sente
intimamente conectada com a tia.
Peço ao representante de Rosella para se levantar e ir até a mãe dela;
a avó, então, se move para mais perto da filha morta. A avó começa a
sentir dor e, chorando, se ajoelha e abraça a tia de Rosella. Todos na
constelação se sentem emocionados e aliviados.
Criando uma imagem de solução, coloco as mulheres em ordem:
primeiro, a avó, a tia, e, então, a mãe de Rosella, e, em seguida, a
própria Rosella (a representante dela agora deixa a constelação).
Então, eu convido a avó a apresentar a sua primeira filha, a tia, para a
segunda filha, a mãe de Rosella, usando as sentenças: "Esta é a sua
irmã mais velha. Ela partiu muito cedo; ela é a primeira, você é a
segunda".
A tia e a mãe de Rosella, as duas irmãs, olharam uma para a outra
com amor. A mãe diz: "Eu estou feliz em vê-la e ter você como minha
irmã mais velha. Você sempre tem um lugar no meu coração".
Apontando para Rosella, ela acrescenta: "E esta é a minha filha; por
favor, olhe para ela de uma forma amigável".
Agora, Rosella se inclina para a avó e, em seguida, para a tia, dizendo:
"Querida tia, eu sou sua sobrinha, por favor, me abençoe."
A tia sorri para ela com carinho.
Em seguida, Rosella olha para a mãe e diz: "Querida mãe, sua irmã
tem um lugar no meu coração. Eu sinto o quanto você sente a falta
dela. Obrigada por ficar comigo."
Rosella e a mãe se abraçam e a sessão chega ao fim.
Como podemos ver, um membro da família que está morto e não é
lembrado adequadamente tem uma forte influência sobre toda a
família. A avó não tinha terminado o luto pela primeira filha, talvez
ela não conseguisse lidar com a dor de perdê-la e, inconscientemente,
queria segui-la na morte. Nessas situações, muitas vezes, o filho da
geração posterior dirá: "Eu faço isso no seu lugar", como podemos
ver no caso de Rosella. Uma das consequências pode ser que Rosella
se comporte na vida como se ela estivesse morta, não se permitindo
viver plenamente.
Quando a tia morta é incluída na imagem e tem a ausência lamentada,
alguma coisa é concluída e ela abençoa Rosella, que, então, está mais
livre para viver sua própria vida sem qualquer resíduo. As frases
utilizadas na constelação mostram a solução através do
reconhecimento da pessoa que está faltando e respeitando a ordem
correta. A ligação de amor não resolvida da avó para com a primeira
filha é a raiz de todo o emaranhamento.
As bênçãos dos mortos emergem como uma influência positiva e
poderosa. Se nós recebermos o reconhecimento deles, depois de nos
lembrarmos deles sinceramente e de coração aberto, provavelmente
nos sentiremos aliviados, encorajados e apoiados. Se formos
incapazes de nos lembrar deles, ou reconhecer a importância deles na
nossa vida, não iremos receber a força que eles têm para nos passar
nem ficaremos livres deles. Sob a influência da consciência coletiva ,
vamos permanecer identificados com o destino deles e totalmente
incapazes de buscar os objetivos da nossa própria vida.
Agarrando-se aos mortos
Esquecer uma pessoa cuja partida provocou nosso sincero sofrimento
é uma das maneiras mais comuns de tentar evitar a dor. Mas há outra
maneira também, que é oscilar para o extremo oposto e se agarrar à
memória da pessoa que morreu. Isso parece ser um padrão comum
do comportamento humano: quando não temos problema ao lembrar
algo doloroso, somos geralmente incapazes de esquecê-lo - outra
maneira de não permitir que uma experiência chegue ao
encerramento.
Esse apego pode se manifestar como uma decisão de permanecer em
um estado sem fim de luto, como o famoso e histórico caso da rainha
Vitória da Inglaterra, que, após a morte do amado marido, o príncipe
Albert, se vestiu de preto para o resto da vida e, por um longo tempo,
forçou os filhos a fazer o mesmo. Ou, talvez, falamos sem parar sobre
a pessoa falecida, ou colocamos essas pessoas em pedestais e
escrevemos elogios sobre elas.
Quando as gerações futuras em um sistema familiar fazem isso, torna-
se um tipo de desrespeito, porque viola a consciência coletiva. A
pessoa que perdemos esteve aqui antes de nós e o que aconteceu
com ela é parte do destino pessoal dela. Só porque perdemos essa
pessoa não significa que somos donos dela. O resultado da vida dela
é exclusivamente dela, pertence somente a ela e os descendentes da
família não têm o direito de se envolver.
Aqueles que não conseguem esquecer os mortos podem reconhecer
o significado e o lugar deles dentro do sistema familiar, mas ainda
assim não pode deixá-los em paz. Existem muitas maneiras pelas
quais exigimos a atenção deles: nós sentimos que não os amamos
suficientemente e, por isso, devemos agora exagerar o nosso amor na
ausência deles; sentimos que eles nos devem alguma coisa por terem
nos deixado; estamos com raiva deles, como se a sua morte fosse
deliberadamente com a intenção de nos ferir.
No entanto, o que muitas vezes é mostrado nesse tipo de constelação
é que os mortos estão perfeitamente de acordo com seu destino e
também nos querem bem. Do lado deles, não há problema. Somente
nós, seus descendentes, não estamos em concordância com a forma
como a vida continua.
A ilusão da autoimportância
Uma variação frequente na forma em que estamos presos a eventos
passados é o sentimento de responsabilidade. É comum nos
sentirmos pessoalmente responsáveis quando morre um ente
querido, como se nós mesmos estivéssemos diretamente envolvidos
na razão da sua morte. Uma mãe cujo filho morre de pneumonia, por
exemplo, é provável que sinta que não fez o suficiente para proteger
o filho da doença. Ela se sente culpada. Ela se questiona se, caso
tivesse arranjado a sua vida diferentemente, os acontecimentos
poderiam ter acabado menos tragicamente.
Quando nos sentimos responsáveis, ou culpados, vivemos sob a
impressão que estava em nossas mãos ter criado um resultado
diferente. Em vez de aceitar a realidade existencial do que ocorreu,
nós nos torturamos com autoacusações. Em vez de se lembrar do filho
com amor e gratidão, depois seguir adiante, a mãe permanece presa
ao bebê morto, fixada no próprio sofrimento e a autocensura.
Se isso perdura, pode haver outros filhos, mas ela não estará
disponível para eles. Se ela ficar nesse estado, a sua preocupação será
com o filho que morreu, em vez de se preocupar com os que estão
vivos e brincando aos seus pés agora.
Há outra dimensão para este cenário, que é talvez menos evidente:
quando uma mãe se culpa pela perda do filho e continua fixada nisso,
ela interfere não só em si mesma, mas também no destino do seu
bebê. Ela não acredita ao seu bebê uma existência independente, um
destino pessoal próprio. Ela vê o filho como uma extensão de si
mesma, com o destino intrinsecamente ligado ao dela.
No caso de um bebê, é talvez compreensível para uma mulher
experimentar esse nível de identificação; a criança, afinal, acabou de
sair do seu ventre. Mas imagine se fosse uma irmã que tenha morrido,
ou um marido. Ela poderia sentir uma quantidade igual de culpa,
contudo, eles também não mereceriam um destino independente?
Um exemplo disso veio à tona em uma sessão recente em que a irmã
mais nova de uma mulher foi morta em um campo de concentração
e, em toda a sua vida, ela se sentiu culpada e responsável porque a
irmã morreu, enquanto ela mesma sobreviveu.
Agora, o que isso significa? Isso significa, em primeiro lugar, que ela
acha que poderia ter sido diferente. Talvez se ela tivesse feito algo
diferente, a irmã não teria morrido. Esse, claro, não é o cas o; ela não
poderia ter feito nada.
Em segundo lugar, por se sentir responsável, ela se protege de sentir
totalmente a dor de perder a irmã.
Terceiro, ela interfere no destino da irmã. O destino da irmã dela era
morrer, enquanto o seu próprio destino era sobreviver. Não se
permitir viver plenamente, sem culpa, significa que ela não está nem
respeitando o destino da sua irmã nem o dela mesma.
Em quarto lugar, isso significa que ela não vai estar totalmente
disponível como mãe dos próprios filhos.
Isso é, naturalmente, uma experiência muito traumática ter visto a
própria irmã ser morta, e quase ninguém vai ser capaz de viver uma
vida normal depois de um evento traumático desses. É doloroso, é
difícil continuar, é fácil sentir-se culpado, ou sentir que os fatos
poderiam ter sido diferentes.
Mas o fato é que nós devemos seguir nosso próprio caminho único,
em nosso próprio tempo e precisamos fazê-lo sem o emaranhamento
emocional de segurar os entes queridos que morreram. Tornar-se
consciente dos processos por trás dos nossos apegos pode ser o
primeiro passo para nos tornarmos livres deles.
Morte no parto
Uma das questões mais fortes de uma constelação é quando uma mãe
morre no parto. Isso pode afetar os filhos por muitas gerações. O que
acontece é que a morte da mãe é considerada quase como um
assassinato pela consciência coletiva, como se o homem que a
engravidou a tivesse assassinado. Em certo sentido, isso é verdade:
fazendo amor com ela, engravidando-a, ele provocou a morte dela. É
claro, não foi intencional, mas, no entanto, foi o resultado.
Podemos especular que uma das razões para isso ser considerado
"crime" pela consciência coletiva era a imensa importância das
mulheres nas culturas primitivas como as portadoras de novos
membros para o sistema tribal, e a ameaça para a sobrevivência do
clã é representada pela morte de uma mulher jovem e fértil.
A fim de atender à demanda de inclusão e equilíbrio pela consciência
coletiva, uma filha posterior do mesmo sistema familiar pode carregar
um sentimento de culpa - ainda que nenhum crime fosse cometido -
, talvez por se recusar a ter filhos ou rejeitar homens.
A solução é trazer à tona os fatos reais; então, o que realmente
aconteceu pode ser conscientemente compreendido. Em uma
constelação para abordar esta questão, a mãe que morreu de parto
tem de ser honrada dando-se a ela um lugar central e todo mundo
precisa se curvar diante ela. Incluí-la e reconhecê-la desta maneira
significa que honramos o risco que ela corria ao dar à luz,
especialmente em gerações passadas, nas quais o parto podia ser uma
questão de vida e morte - e que ela queria fazer. Isso lhe confere
dignidade.
Comumente, isso não é suficiente, já que o marido permanece
excluído, visto que a consciência coletiva o mantém responsável.
Quando o levamos para o quadro, é muitas vezes o caso em que os
familiares posteriores não querem olha-lo, ou honrá-lo; eles o
percebem como uma ameaça. Essa é uma incompreensão sobre o que
realmente aconteceu. Mostra que a consciência coletiva é poderosa,
mas injusta e cega também.
A solução é deixar o homem e a mulher que morreram olharem um
para o outro, trazendo à tona o amor entre eles. É emocionante ver
isso. Eles reconhecem a perda um do outro: ela perdeu a vida e ele
perdeu a mulher e, às vezes, o filho morreu também. Havia amor,
havia risco e o fato é que a mãe morreu. Isso tem que ser trazido
abertamente. Isso dá força para os descendentes da família,
especialmente quando sentirem esse amor como a força que também
os criou.
Hoje em dia, uma mãe morrer no parto é um evento relativamente
raro, mas as mães podem ainda morrer jovens e isso é geralmente um
desastre para a criança que é deixada. Perder a mãe na infância é um
dos acontecimentos mais traumáticos da vida - torna-se maior, talvez,
porque o trauma vai para as camadas inconscientes da mente e é
"esquecido" pela mente consciente. Trataremos disso no capítulo
seguinte.
Pessoas reais e eventos reais
Quando nos referimos aos mortos em uma sessão de constelação,
estamos falando sobre as pessoas reais do passado do cliente q ue
morreram, ou estamos abordando a parte da sua psique a qual a
memória deles está agora ocupando? Esta questão também se aplica
à família viva do cliente, no sentido que, em carne e osso, nenhuma
dessas pessoas está realmente presente na sala. Então, elas estão
realmente aqui, ou não?
Na verdade, a consciência coletiva não faz qualquer distinção entre
os mortos e os vivos. Quando colocamos uma constelação, operamos
a partir do entendimento de que os representantes não somente
representam aqueles que pertencem a esse sistema familiar, vivos ou
mortos, mas, na verdade, de acordo com as interações do campo
coletivo, eles, de alguma forma, se "tornam" eles.
É claro, eles não começam a se parecer com eles, nem assumem uma
aparência macabra de pessoas mortas, mas, de alguma maneira
misteriosa, agem como transmissores para esses seres. Eles carregam
a dor deles; sentem a verdade de suas histórias; têm o poder de
libertar os laços entre as gerações, uma vez que os que têm sido
ignorados ou excluídos sentem que são lembrados e honrados. Neste
sentido, os representantes são as pessoas reais.
Esse entendimento não é baseado na teoria ou na especulação. É uma
observação empírica com base nos experimentos de Hellinger e
outros. Assim, na constelação familiar, estamos sempre trabalhando
com pessoas reais. Essas pessoas podem estar "na nossa psique", mas
são um memória, não uma invenção. Não estamos lidando com
sonhos e fantasias da mente inconsciente. Nós trabalhamos com a
pessoa real, sabendo que as pessoas reais estão afetando as nossas
mentes, e trabalhamos com fatos reais, sabendo que eles também
estão deixando a sua marca na nossa psique.
Não estamos preocupados com as histórias que criamos sobre esses
eventos. Não nos importamos com que o cliente pensa sobre o que
aconteceu, ou "como" e "por quê" nossos pais fizeram algo a nós, ou
se estavam certos ou errados.
Estamos lidando é com os próprios acontecimentos. Fatos reais, como
ocorreram no espaço e no tempo, são o carne e molho deste trabalho.
O que, factualmente, aconteceu é o que importa. Os fatos influenciam
a dinâmica da constelação, e não como nós os interpretamos ou os
julgamos.
Os sentimentos que surgem durante uma sessão de constelação são
o resultado desses eventos; por isso, uma pergunta para um
facilitador, em relação aos sentimentos, seria: o cliente está lidando
com o fato, reconhecendo e aceitando isso, em cujo caso a expressão
emocional pode ajudar a pessoa passar pela experiência e curá-la; ou
esse sentimento é apenas uma maneira de evitar lidar com alguma
questão dolorosa? Esta é uma distinção entre uma emoção primária,
que deixa uma pessoa mais forte posteriormente, e uma emoção
secundária, que drena a energia de uma pessoa. Abordaremos este
assunto de modo mais aprofundado no capítulo 21.
Na maioria dos casos, as pessoas que falam continuamente sobre seus
sentimentos em uma sessão estão mais interessadas em serem
ouvidas e em puderem falar do que realmente em mudar alguma
coisa. Muitas vezes, elas já têm a própria interpretação sobre uma
determinada situação e não querem que suas teorias e crenças sejam
perturbadas. A real importância do que ocorreu é perdida em meio a
uma longa análise.
Por exemplo, eu conduzi uma sessão com alguém cujo avô foi morto
em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.
Quando falei com esse homem, abordando o fato da morte do avô
dele, isso o deixou em profunda dor, mas ele também teve uma forte
tendência de falar sobre o que aconteceu entre ele e o pai e as queixas
sobre ele.
Ele continuou querendo falar de outra coisa, obviamente querendo
evitar o fato do que ocorreu com o avô dele e, dessa forma, evitar
sentir a dor que ele também carregava pelo próprio pai. Ficar com a
simples realidade da morte do avô teria lhe levado não apenas ao
contato com a dor, mas também ao contato com um profundo amor
pelo pai. Então, em vez de ficar em um círculo vicioso - focalizando
na raiva dele pelo seu pai, analisando, expressando isso e assim por
diante -, eu sugeri que ele deveria manter o foco no fato do que
aconteceu com o avô e pular as outras histórias.
Na maioria dos casos, a função de uma história é evitar ou confundir
o terapeuta - em outras palavras, evitar ser orientado em direção ao
desconforto ou à dor. Assim, na Constelação Familiar pedimos as
pessoas para se manterem conectadas a acontecimentos importantes
na família e sentir o impacto deles, sem dar quaisquer outros
comentários.
Quando os mortos aprendem com os vivos
O que vemos a partir dessas histórias de casos é o quanto os vivos
têm para aprender com os mortos. Antes de a lição ser totalmente
internalizadas e a cura possa ocorrer, devemos pagar nossa dívida
com aqueles que morreram. Quando tivermos feito isso, por meio das
interconexões em uma sessão de Constelação Familiar, tornamo-nos
livres para avançar em nossas vidas com menos fardo do passado.
Em uma constelação, essas interconexões ocorrem quando colocamos
um representante para aquele que morreu e convidamos a pessoa
viva a olhar para ele, às vezes curvando-se para ele, como descrito
anteriormente, e lembrando-se dele com amor. Um gesto deste tipo
é geralmente suficiente. A pessoa que morreu vai se sentir
reconhecida e valorizada; ela retribuirá o olhar com carinho e afeto e
vai se sentir satisfeita com a sensação de completude. Algumas vezes,
ela ainda dará a quem está vivo uma bênção e, se ela faz isso, então
a pessoa viva recebe algo daquele que está morto.
Na ocasião, também há uma mensagem, como: "Estou em paz agora"
ou "Estou orgulhoso de você" ou "Quero que você siga com a sua
própria vida" ou, ainda, "Não quero que você se envolva com o que
eu experimentei, isso não é da sua conta". Dessa forma, a pessoa viva
aprende algo com a pessoa que morreu. Ela vê algo mudando dentro
de si mesmo, seguido por uma sensação de relaxamento cheio de paz.
Em alguns casos, essa dinâmica funciona no sentido inverso: o morto
tem de aprender alguma coisa com os vivos; por exemplo, no caso de
uma morte súbita ou acidental. O que podemos ver nesta situação é
que quem morreu não percebeu totalmente que está morto. Ele se
comporta como se ainda estivesse vivo e se torna como um fantasma.
Ele se liga a uma pessoa viva de modo que o vivo sente a presença da
alma morta agarrada a ele.
Um homem, Paul, perdeu o irmão quando era menino em uma colisão
de barco e, ainda hoje, já adulto, ainda sente a presença do irmão ao
redor dele. Quando colocamos o irmão na constelação, ele não sente
que morreu e quer interagir com o irmão como se estivesse vivo e
isso mostra que ele é muito apegado ao irmão.
Neste caso, lembramos ao irmão morto que ele realmente está morto.
Na constelação, convido Paul a dizer ao irmão morto: "Você é meu
irmão e você se afogou em um acidente. Você está morto e estou
vivo".
Assim que ele diz isso, o irmão morto olha como se estivesse
acordando de um sonho, como se até agora não tivesse percebido
claramente que o irmão Paul tinha sobrevivido e ele não, e que eles
já não estavam mais juntos.
Neste caso raro, aquele que morreu precisa reconhecer que ele
pertence ao mundo dos mortos, não dos vivos. Quando ele não
reconhece isso, há uma certa experiência de 'deixar ir' para ambos os
irmãos, um relaxamento que vem com o reconhecimento de uma
realidade factual e o abandono de um sonho.
Os mortos e os vivos estão sujeitos à consciência coletiva, mesmo que
eles pertençam a diferentes esferas ou reinos. Às vezes, os vivos se
esquecem dos mortos e precisam se lembrar conscientemente deles,
sem ignorar o fato de que eles estão em dois mundos diferentes. E às
vezes, mais raramente, os mortos precisam ser lembrados de que já
não pertencem à esfera dos vivos. Assim, uma pessoa morta tem de
ser permitida estar morta e uma pessoa viva deve tomar sua vida
totalmente em suas mãos e vivê-la da forma mais total possível.

Capítulo Oito
O movimento interrompido para a mãe
No trabalho com dinâmicas familiares, Bert Hellinger descreve duas
principais razões para o sofrimento. Uma é por causa do
emaranhamento no sistema familiar, a origem do qual está
geralmente em uma geração anterior e é isso que temos analisado
nos capítulos anteriores. A outra é o movimento interrompido, que se
origina na história de vida de um indivíduo.
Para emaranhamentos, uma sessão de constelação é recomendada;
para o segundo tipo de problema, Hellinger sugere um tipo diferente
de intervenção, que descreveremos neste capítulo. Este tipo de
intervenção é semelhante à "Terapia do Abraço", que foi
originalmente desenvolvida pelo Dra. Jirina Prekop, uma psicóloga
pioneira bem conhecido na Alemanha pelo trabalho com crianças.
Toda criança tem um instinto natural incorporado para chegar até a
mãe; um movimento que podemos descrever como "amor primário".
Esse amor é muito poderoso e incondicional e, como discutimos
anteriormente neste livro, é como a natureza garante a sobrevivência
da criança. Da mesma forma, a mãe tem um instinto incorporado de
cuidar do filho e, como resultado dessas duas unidades instintivas, a
mãe e o filho desenvolvem um vínculo profundo um com o outro.
Um movimento interrompido "de alcançar" é o distanciamento
emocional do filho em relação à mãe, ou às vezes ao pai. A causa está
em um evento traumático na vida pessoal da criança e não é o
resultado dos problemas de emaranhamento que temos discutido até
agora.
Esse evento normalmente ocorre muito cedo na vida, durante a
gravidez da mãe, por exemplo, ou durante o nascimento, ou mais
tarde e, é muito doloroso para a criança. Talvez o trauma mais
prejudicial seja uma separação precoce entre mãe e bebê, como
quando a mãe morre logo depois do parto ou, por algum motivo,
quando ela não pode cuidar do filho por um longo período, talvez
quando o bebê nasce prematuramente e tem de ser mantido em uma
incubadora, ou quando a mãe fica doente.
Também pode ocorrer quando o nascimento é uma experiência de
ameaça à vida para a mãe ou para a criança, ou quando existem
situações externas de risco à vida durante a gravidez, como guerra.
Qualquer forma de separação precoce da mãe ou de experiência de
ameaça à vida - dentro do útero, durante o parto ou logo após - pode
causar uma interrupção no movimento natural da criança em direção
à mãe. Quando este movimento é parado ou interrompido,
permanece fragmentado e não é levado à conclusão ou ao
cumprimento.
Para entender o significado deste evento, temos que imaginar a
situação de um bebê recém-nascido que é totalmente dependente da
mãe para a sobrevivência. Ele não é apenas dependente, ele está em
uma união simbiótica com ela, ele ainda não desenvolveu os seus
próprios limites e é incapaz de distinguir entre si mesmo e a mãe.
No curso normal do crescimento, ele iria lentamente se mover desta
união total com a mãe para uma percepção de si mesmo cada vez
mais separado, um processo de amadurecimento que chamamos de
individualização. O bebê amadurece e cresce em direção à criança e,
à medida que cresce, pouco a pouco, adquire a sua própria identidade
e a estruturação dos seus limites. A criança lentamente muda de ser
una com a mãe para ser una consigo mesma. Esse é o modelo básico
do desenvolvimento da criança.
Ser uma criança, por definição, é estar no processo de separar-se dos
próprios pais. Uma criança pode gradualmente se tornar um
indivíduo, mas ela ainda não tem uma personalidade integrada e
muito tem que acontecer até que ela possa se manter sobre seus
próprios pés. Enquanto ela ainda é jovem, os pais continuarão a ter
uma função essencial de sustento dela.
Assim, quando uma criança perde um dos seus pais muito cedo, isso
acontece em uma período em que ele ainda está passando por esse
processo de maturação e enquanto ele ainda é dependente deles.
Perder um dos país nesta fase de transição ou ser separado deles por
um longo período é uma experiência profundamente perturbadora.
Quanto mais cedo isso acontece, mais traumático é para a criança e,
quando isso acontece antes da idade de dezoito meses, leva à
situação que descrevemos neste capítulo. Como a mãe é a figura mais
importante para qualquer criança, o contato interrompido com ela é
normalmente muito traumático.
Uma criança é muito vulnerável, muito imatura, para ser capaz de
digerir a dor de tal separação do jeito que um adulto pode. Não há
nenhuma maneira pela qual ela possa absorver o impacto total da
experiência; então, ela entra em choque. A psique responde com
barreiras e compensações de todos os tipos. Por mais que isso
aconteça, algo em sua psique permanece no limbo, preso como um
disco emperrado num arranhão.
O que surge de um bebê negligenciado é bem conhecido a partir da
pesquisa sobre o desenvolvimento da criança: no começo, ela chora
de raiva e desespero; ela chora cada vez mais até um momento em
que se torna silenciosa. Não é o silêncio de um bebê satisfeito e
tranquilo; é o silêncio de uma criança que desistiu, que abandonou a
tentativa de obter a atenção da mãe e refugiou-se dentro de si.
A criança contraída agora aprendeu a não pedir o que precisa. Ela vai
parar de ir em direção à mãe e se tornará incapaz de seguir os seus
próprios impulsos de sustento de vida para receber o que precisa da
mãe, mesmo que a mãe volte mais tarde e esteja de novo disponível
para ela. Assim, o período de separação é crucial para determinar s e
a criança irá desenvolver uma personalidade desconfiada e retraída e,
mesmo depois de se tornar um adulto, é provável que desenvolva um
padrão de não chegar perto das outras pessoas. Normalmente, uma
pessoa assim - já adulto - irá se aproximar até uma certa linha
limítrofe e, então, se moverá em círculos em vez de ir em direção a
alguém para receber o amor de uma forma direta.
Nós, às vezes, experimentamos um padrão semelhante em nossas
próprias vidas, quando supomos que vamos nos machucar e tentamos
nos proteger. Podemos querer amor ou carinho de alguém, mas, em
vez de ir em direção a eles para obtê-los, nós temos medo, paramos
e andamos para trás ou tomamos um caminho sinuoso e
permanecemos a uma certa distância, esperando algo ruim, enquanto,
ao mesmo tempo, evitamos qualquer possibilidade de obter a coisa
que estamos desejando.
O que estamos fazendo aqui, é claro, é evitar ser rejeitado. Uma
pessoa adulta que está intensamente presa nesse padrão - além das
lições de sua experiência real de ser rejeitada - está, quase sempre
inconscientemente, sendo manipulada pelo seu passado, tentando
evitar a repetição de uma experiência dolorosa de rejeição na infância.
Esta é a fonte de muitos tipos de comportamento neuróticos. Em vez
de ir em linha reta em direção a um objetivo para tê-lo, nós nos
movemos para os lados ou para trás, ou de algum forma indireta que
não leva à sua realização e nos traz de volta ao ponto inicial, onde
nada é ganho ou alcançado.
Restaurando o vínculo
Uma vez que entendemos o cenário original da primeira infância, a
solução em uma sessão de terapia se torna clara. O terapeuta pode
tentar restaurar o movimento interrompido, o vínculo, o fluxo do
amor entre pai e filho. Ele pode ajudar o cliente a completar o
movimento de alcançar - completar o que não pôde ser concluído no
momento adequado.
Ele pode desempenhar o papel da mãe e ajudar a restabelecer o
vínculo por meio da criação de uma situação segura em que o cliente
pode reexperimentar, em pequenas doses, algumas das dores que
ocorreram na infância, quando a mãe não estava lá. Desta vez, porém,
ele não é deixado sozinho, mas o terapeuta, que representa a mãe,
está apoiando-o enquanto ele passa por essas emoções dolorosas.
Esse é um processo de cura que permite que o que aconteceu na
infância possa ser integrado à vida adulta do cliente.
Em vez de criar uma constelação, Hellinger sugere que o terapeuta
deve se sentar em frente ao cliente e, depois de criar uma atmosfera
de confiança e segurança, convidá-lo a colocar os braços em volta
dele; então, ele pode ser abraçado pelo terapeuta. Além disso, o
terapeuta pode incentivar o cliente a respirar profundamente e, em
um curto espaço de tempo, o cliente estará em contato com a
necessidade básica de toda criança pelo amor da mãe, assim como
com a dor que vem quando a conexão do amor é cortada pela
separação.
A principal coisa que o terapeuta tem de fazer, enquanto isso está
acontecendo, é abraçar o cliente como uma mãe abraça o bebê - é
uma técnica simples, mas tem um efeito profundo.
Até certo ponto, o cliente revive a experiência de ter sido separado
da mãe, de quase morrer, sentindo a antiga dor que talvez ele não
tenha se permitido reconhecer desde a experiência traumática
original. Como medida de sobrevivência, ele isolou a dor de si mesmo
e permaneceu dormente, ou congelado, mas agora ele pode reviver
com segurança o que aconteceu enquanto se deita nos braços do
terapeuta.
Desta maneira, a experiência negativa de ter sido separado é
sobreposta pela experiência positiva de agora ser abraçado e
apoiado. É uma técnica bem conhecida da Programação
Neurolinguística (PNL), em que se apaga uma experiência negativa
sobrepondo uma positiva. A experiência positiva é "ancorada" no
corpo, porque agora o terapeuta, que funciona como uma mãe
substituta, está abraçando o cliente.
Este processo pode ser a única coisa que o terapeuta precisa fazer
somente em uma sessão. Isso demanda do terapeuta a capacidade de
ser paciente, apoiador e continuar contendo o cliente, mesmo que -
em algum momento de reviver o abandono original -, a pessoa possa
tentar empurrar o terapeuta para longe, o que, às vezes, pode parecer
uma luta física.
O terapeuta tem de continuar apoiando o cliente enquanto ele
atravessa todas as diferentes fases da experiência e permanece até
que a pessoa chega a um ponto de completude, que será indicado
por respirações lentas e profundas, tornando-se calmo e sereno. O
cliente irá, finalmente, estar pronto para sair do abraço e olhar para o
terapeuta, que está representando a mãe e que pode sugerir algumas
frases para dizer à mãe, a fim de completar o processo de cura. Por
exemplo, pode-se pedir ao cliente que, conscientemente, agradeça à
mãe por ter lhe dado à luz e, dessa forma, indicar a sua prontidão
para receber dos pais.
É claro, este trabalho de restaurar o movimento interrompido não
pode ser concluído em uma única sessão e pode tomar formas
ligeiramente diferentes de acordo com cada indivíduo. Além disso,
pode haver questões relativas ao sistema familiar, chegando, ao
mesmo tempo para o cliente e o terapeuta deve escolher o tema mais
importante para ser trabalhado, deixando as outras questões para
outro momento. Não é aconselhável misturar as duas abordagens
dentro de uma sessão.
Se o problema de um cliente está relacionado com um movimento
interrompido, ou está mais relacionado a um emaranhamento
familiar, é algo a ser decidido de acordo com as informações colhidas
na entrevista da pré-sessão. Por exemplo, se existem determinados
fatos que indicam uma separação precoce da mãe, ou se é um evento
traumático.
Como mencionei antes, um movimento de obter interrompido pode
também ser relacionado ao pai se, por exemplo, ele morreu quando a
criança era muito nova; neste caso, seria útil convidar a mãe para ser
um elo, ligando o filho e o pai. Para todos os filhos, a mãe é a figura
mais importante e ela pode precisar guiar o filho-cliente ao pai e
apresentá-lo - às vezes, a mãe e o pai abraçam juntos o filho.
É importante notar que um movimento interrompido na primeira
infância é a única circunstância em que o movimento de reconciliação
deve partir dos pais. A criança não pode se mover por conta própria;
é a mãe que deve fazer o movimento em direção a ela. O trauma
original ocorreu em um momento em que, ainda como um bebê muito
pequeno, o cliente poderia fazer nada por si mesmo, de modo que o
terapeuta que representa a mãe replica o que a mãe real não fez, ou
não pôde fazer, que é abraçar o filho e cuidar dele.
Na maioria dos outros casos, o movimento de reconciliação tem vir
do filho/cliente; é o filho que tem se mover em direção à mãe para
receber alguma coisa, e não vice-versa. Normalmente, em uma sessão
de constelação, o filho vai até os pais, se inclina e se torna disponível
para receber deles. Durante o curso dessa ação, os pais têm o papel
de doadores e funcionam como uma presença abundante.

Capítulo Nove
As dinâmicas familiares por trás das doenças: os
padrões básicos de emaranhamento
Até agora, vimos diferentes padrões de como uma pessoa pode estar
"emaranhada" na vida de um membro anterior do sistema familiar
ampliado. Esses padrões não só influenciam a psicologia e o
comportamento do indivíduo em questão, como também pode ser a
causa de certas doenças, como câncer, depressão, doença cardíaca ou
esclerose múltipla. Em outras palavras, as doenças que não são
causadas por vírus ou bactérias.
O emaranhamento ocorre quando uma pessoa se identifica com um
membro excluído do sistema familiar e assume os sentimentos e
atitudes dele ou dela. É como se alguém "se transforma" em outra
pessoa, identificando-se com ela em um esforço inconsciente para
manter a memória de um membro da família esquecido através da
repetição do sofrimento dessa pessoa.
Hellinger descreveu um caso típico: uma família em que o primeiro
filho morreu cedo e os filhos que vieram depois cresceram usando
copos com o nome dele escritos neles. A cada filho desta família foi
dado um copo com o nome do irmão mais velho, morto, indicando a
sua identificação com o irmão que morreu. Uma criança em uma
situação como essa pode crescer pensando que está vivendo a própria
vida, com suas próprias atitudes e sentimentos, enquanto o tempo
todo ele está agindo como se fosse o irmão.
Explicamos como este processo de emaranhamento não é decisão de
ninguém, mas é o resultado de uma força inconsciente coletiva - a
consciência coletiva - e nós também mostramos como é difícil para o
membro de uma família se libertar dessa força. O cliente pode nem
mesmo conhecer o membro anterior da família, com quem ele está
identificado, pode nem ter ideia do que aconteceu a essa pessoa e a
situação pode ser ainda mais complicada por um segredo de família
que ninguém quer revelar.
Os efeitos da identificação irão variar de acordo com a situação
específica que causou o desequilíbrio na família, mas pode incluir
transtorno emocional, doença psicossomática e até mesmo a psicose.
Inevitavelmente, isso afeta a capacidade de alguém se relacionar com
os outros, como se não estivesse realmente sendo ele próprio; na
verdade, ele é um estranho para si mesmo.
A solução para essa identificação é encontrar a pessoa excluída e
ajudar o cliente a vê-lo como um ser separado, reconhecendo sua
existência e destino de uma forma separada. Para facilitar esse
processo, usamos frases de solução que vão ajudar a resolver o
emaranhado que ocorreu, e essas frases, às vezes, precisam ser
repetidas várias vezes até que o cliente possa reconhecer claramente
o outro como separado.
Então, ele pode se retirar. Muitas vezes, esse gesto de cura de se
retirar requer que o cliente se aproxime de outro membro da família,
geralmente um dos pais, como uma espécie de proteção; por
exemplo, quando o cliente se identifica com alguém da família da
mãe, ele pode precisar se aproximar da esfera de influência do pai, ou
vice-versa.
Hellinger descreve três padrões básicos de emaranhamento familiar,
que pode levar à doença ou ao sofrimento. Ele os chama de "seguir",
"assumir" e "expiar por culpa". Vamos ver cada um deles,
separadamente.
Seguir
Se houve uma morte prematura, de uma pessoa família, como um pai
morrer de acidente, guerra, doença ou crime, haverá uma tendência
para um dos filhos da família em dizer: "Eu quero seguir você", e esse
filho tende a se tornar propenso a acidentes, suicídio ou desenvolver
alguma doença, como se simbolicamente virasse as costas para a vida
e dissesse ao pai: "Se você está morto, eu não quero viver. Eu quero
seguir você na morte".
Novamente, vemos aqui o amor cego do filho. Se o filho fosse capaz
de conscientemente olhar para o pai e considerasse o que o pai
desejaria para ele, ele provavelmente não consideraria segui-lo, uma
vez que, na vasta maioria dos casos, o pai gostaria que o filho ou a
filha vivessem.
Exemplos de uma criança inconscientemente querer seguir um
membro morto da família foram dados em capítulos anteriores. Por
exemplo, no capítulo um, Max, um cliente, quer seguir o avô, que
morreu cedo; no capítulo sete, uma mulher quer seguir a irmã, que
foi morta em um campo de concentração; também no capítulo sete,
Rosella quer acompanhar a tia na morte.
Assumir
Rosella também diz para a avó: "Eu faço isso por você", que é o
segundo cenário que causa sofrimento - querer assumir o fardo de
outra pessoa. A estrutura "assumir" pode começar com um pai que
quer seguir um antecessor da família para a morte e continua com um
dos seus filhos, que, percebendo essa tendência no pai, diz: "Antes eu
morra, do que você, querida mãe/pai". Em outras palavras, querer
assumir a tendência do pai, querer salvar o pai/mãe, a partir de uma
lealdade cega. A dinâmica do "antes eu do que você" pode fazer com
que uma criança fique doente por uma mãe doente, ou, de alguma
outra forma, tente assumir o sofrimento de um membro da família.
Hellinger descreveu o caso de uma família muito pobre, em que a mãe
estava grávida e ela e o marido estavam preocupados com a falta de
dinheiro e de um espaço para viver. Um dos filhos pequenos soube
desses problemas, provocados pelo fato de que um novo membro da
família estava chegando e, assim, ficou doente e acabou morrendo;
dessa forma, tentou dar espaço para a nova criança.
Nós descrevemos como as crianças funcionam muitas vezes a partir
da crença mágica de que uma pessoa pode aliviar o sofrimento ou
ônus de outra pessoa; se alguém que veio antes na família está
doente, então, alguém pode tomar isso para si e, assim, salvar a outra
pessoa. É claro, isso é uma crença infantil, embora profundamente
emocionante, não está em conformidade com a realidade. Na
verdade, agora as duas pessoas ficarão doentes.
Novamente, se a criança estivesse plenamente consciente de todas as
implicações, inclusive como uma mãe se sentiria - ao ver o filho
desnecessariamente tentando tomar para si o sofrimento dela - então,
é claro, a criança não seria tão facilmente desviada. Mas, no amor
cego, alguém só vê a si mesmo, enquanto, no amor consciente ou que
sabe, consegue-se ver todas as implicações e entender os motivos das
outras pessoas envolvidas.
Esta transição crucial do amor cego para o amor consciente é o que
acontece em uma sessão de Constelação Familiar, quando o cliente
olha para seus pais e outros membros da família, recebendo o
feedback direto sobre como se sentem e o que eles querem,
compreendendo como ele vem carregando inconscientemente uma
atitude infantil para a sua vida adulta.
Nem sempre é uma tarefa fácil deixar para trás o fardo e o vínculo. A
verdadeira separação exige coragem, uma disponibilidade para ficar
sozinho e um desejo para tolerar um sentimento de culpa - um
reconhecimento de que, mesmo que queiramos ajudar, não há nada
que possamos fazer. A prática de "honrar" que usamos na Constelação
Familiar nos leva a esse ponto crucial, em que podemos nos
inclinarmos em respeito e deixar um fardo que inconscientemente
assumimos. Quando, em seguida, nos levantamos e deixamos o
destino da pessoa para ela mesma, estamos verdadeiramente
separados e por nós mesmos.
Por exemplo, no capítulo três, Antonella está assumindo a raiva da
avó contra o avô e a expressa contra o pai; no capítulo cinco, o cliente
assume o impulso assassino do pai, que havia matado a sua própria
mãe; no capítulo seis, existem muitos exemplos de assumir por vítimas
e agressores.
Expiar por culpa
Outra razão para o adoecer surge a partir do que Hellinger chamou
de "expiar por culpa". Isso pode se relacionar à culpa pessoal. Por
exemplo, uma mulher que teve muitos abortos de forma casual, sem
compreender as implicações mais profundas deste comportamento,
pode desenvolver câncer de útero, como forma de expiação. Ou uma
mulher que rejeita a mãe pode ter câncer de mama como uma espécie
de autopunição, porque a consciência coletiva não permite uma
rejeição profunda de um dos pais.
Também pode estar relacionado com a culpa de outro membro da
família, que o cliente "assumiu", como descrevemos no capítulo cinco.
Por exemplo, se um assassino não foi punido por seu ato, um filho
pode tomar para si a culpa do que seu antepassado fez e estar
disposto a cometer suicídio ou ficar doente.
Outros exemplos do capítulo cinco: uma mãe se tornou esquizofrênica
por assumir a culpa da sua mãe, que teve onze abortos; um membro
da família se matou para expiar a culpa de um terrorista membro
precedente de sua família.
Esses são os principais padrões de emaranhamento que são
descobertos em constelações e podem ser causas psicológicas de
doenças provocadas por sistemas familiares desequilibrados.
Lidando com as doenças
Frequentemente, pensamos na doença como um inimigo, como algo
para nos livrarmos, enquanto que, na verdade, é uma mensagem do
corpo que precisamos decodificar. Às vezes, o corpo quer curar uma
velha questão psicológica ou ferida emocional por meio da doença e
podemos ser capazes de descobrir e compreender a mensagem. Às
vezes, também, uma doença permanece inexplicável mesmo com os
nossos melhores esforços para compreendê-la e isso precisa ser
recebido e entendido como algo além do nosso alcance, além do
nosso controle.
Em ambos os casos, alguém tem de aprender a romper o entranhado
hábito social de ver a doença como uma inimiga que tem que ser
combatida. Esta atitude combativa é, infelizmente, muito prevalente
no nosso mundo de alta tecnologia médica, em que tendemos a
pensar em termos de "dominar" a doença - veja, por exemplo, o título
do livro: "Como Dominar o Câncer", e você vê imediatamente o ponto.
A tentação é pensar que nós estamos no controle e somos capazes
de derrotar a doença, simplesmente por meio da aquisição de mais
dados científicos e introduzindo equipamentos médicos cada vez
mais complexos e caros.
O que passamos a ver nas constelações é que, muitas vezes, uma
doença está nos forçando a olhar para uma pessoa excluída e o
esforço para se livrar da doença é semelhante à maneira como alguém
quer "se livrar" ou excluir uma pessoa do sistema familiar. Nesse
contexto, uma doença é um esforço de cura da consciência coletiva.
Tomar a doença em nosso coração, aceitá-la dessa forma, reflete a
maneira que nós podemos tomar essa pessoa em nosso coração.
Então, por vezes, a necessidade de permanecer doente não é mais
pertinente. Quando o coletivo é curado, a pessoa também pode ser
curada.
Um cliente com uma descendência judaica tinha uma forte dor de
cabeça durante a maior parte da sua vida e parecia ocorrer aos
sábados, que é o feriado judaico. Ele não se considerava muito
religioso nem mesmo pensava muitos sobre os antepassados judeus.
No trabalho, descobrimos que a avó dele tinha fugido da Polônia e
perdeu a maior parte da família no Holocausto. Depois que ele honrou
profundamente esses antepassados e lhes disse: "Eu também sou
judeu", a dor de cabeça dele desapareceu e nunca mais voltou. Como
efeito colateral, a miopia crônica dele melhorou drasticamente.
Neste caso, os sintomas físicos do cliente lembravam-no de sua
origem, que ele havia esquecido, mas o coletivo não permite que
acontecimentos dessa magnitude sejam simplesmente ignorados.
Quando ele conscientemente se lembrou e reconheceu o que havia
acontecido e de onde ele veio, a dor de cabeça não era mais
necessária.
Em suma, quando estamos prontos, de alguma forma, para abraçar a
doença e compreender as suas origens, podemos tanto curar a
doença quanto nos tornar conscientes da pessoa excluída.
Deve-se, no entanto, ter uma atitude de humildade diante desses
mistérios, em vez de pensar que uma certa terapia, seja médica ou
psicológica, irá resolver todos os problemas. Algumas coisas podem
ser reveladas a nós pela vida desta maneira e nós podemos entendê-
las, mas muitos acontecimentos permanecem ocultos de nossas
mentes. Lidar com doenças também requer de nós o reconhecimento
dos mistérios da vida e das limitações da compreensão humana.
Também podemos ver nas constelações que uma pessoa doente tem
um pacto secreto com a doença. Por exemplo, ao lidar com muitos
desses casos, pode-se ver muitas vezes um sorriso oculto no rosto de
uma pessoa quando ela fala sobre a doença. Isso espelha o acordo
secreto que ela pode ter quando está identificada com uma pessoa
excluída no sistema familiar.
Se um cliente tem uma questão sobre um problema físico, ou uma
doença, uma abordagem para o problema é colocar um representante
para o cliente e outro para a doença em uma constelação. Ver a
interação dos dois pode tornar evidente que o representante da
doença é, na verdade, um membro da família de origem da pessoa;
talvez alguém que tenha sido excluído ou rejeitado.
Como eu disse antes, quando o cliente inclui conscientemente as
pessoas que estão faltando no seu coração, a necessidade da doença
pode já não mais existir. No entanto, o nosso trabalho com
constelações não é primeiramente destinado à cura do cliente, mas a
revelar uma certa verdade, que estava escondida. Não é sobre livrar -
se de um problema, ou mudar a realidade, mas sobre criar
compreensão - uma abertura para algo ou alguém. A doença é parte
da vida e não pode desaparecer por meio da nova compreensão da
dinâmica familiar de alguém. Toda a arte da boa terapia é não ter
objetivo e investigar a questão sem saltar para conclusões ou ideias
preconcebidas.
Um tumor no útero
Uma cliente, uma norte-americana de meia-idade chamada Nora,
quer entender a dinâmica subjacente por trás da doença dela, um
tumor no útero. Colocamos uma representante para Nora e um para
o tumor, um em frente ao outro, um pouco afastados. O tumor
imediatamente olha para baixo, para o chão, indicando que ele está
olhando para uma pessoa morta e é incapaz de olhar para a
representante de Nora.
Então, pergunto a própria Nora: "Quem você acha que o tumor está
representando?" Depois de um tempo, a cliente diz: "Acho que é meu
pai". Então, pergunto: "Quem morreu?" A cliente responde: "Minha
mãe, quando eu tinha cinco meses de vida".
Nós introduzimos um representante para a mãe e pedimos para que
ela se deitasse no chão, entre o representante de Nora e o tumor, no
local para o qual o tumor estava olhando. Agora, peço ao tumor para
representar o pai da cliente. Os representantes da mãe e da cliente
estão muito emocionados e, depois de um tempo, o pai consegue
olhar para a cliente. Então, peço à mãe para se levantar e olhar para
a filha. A cliente não consegue chegar perto da mãe, porque, como
vimos no capítulo oito, a separação aconteceu tão cedo que a criança
não consegue se mover por conta própria até a mãe. Eles olham um
para o outro por um tempo; então, peço que a mãe se aproxime da
cliente e a abrace, o que ela faz e, logo, o representante da cliente
está soluçando.
Neste ponto, trago Nora para substituir a representante dela e
experimentar este abraço ela mesma. Ela o faz e, chorando, se acalma
visivelmente. Convido Nora a olhar para a mãe e dizer: "Obrigada".
Então, ela olha nos olhos da mãe e diz a ela: "Em mim, você ainda está
presente.
Agora eu permanecerei", o que significa que agora ela tem a vontade
de viver e a intenção de sobreviver à doença. Ela também olha para o
pai e diz a ele a mesma coisa: "Agora, eu permanecerei com você. Por
favor, olhe para mim como sua filha".
O pai é convidado a dizer para a filha: "Vou cuidar de você e olhar
para você como minha filha". E mais, "você me lembra sua mãe e me
lembra o quanto eu amava sua mãe". Nora está visivelmente
emocionada, vai espontaneamente até o pai e o abraça. Ela repete:
"Agora vou ficar com você como sua filha".
A expressão "como sua filha" é importante, bem como o
reconhecimento da mãe, para impedir que a filha tenha de substituir
a mãe. Além disso, é importante que ela vá até o pai, e não vice-versa.
Ela não conseguia se mover até a mãe, porque ela era muito pequena
quando a perdeu, mas agora ela pode se mover para o pai.
Neste exemplo, a doença pode ter sido uma maneira para a filha,
inconscientemente, dizer à mãe: "Eu quero seguir você na morte".
Quando ela assume conscientemente a mãe em seu coração, a
necessidade de segui-la pode não estar mais lá. Mas precisa ser
enfatizado que o trabalho do terapeuta é trazer esta dinâmica à tona,
não tentar curar a doença. A cura pode ser um efeito secundário; não
pode ser a principal preocupação. Na verdade, até mesmo perguntar
depois sobre o efeito do trabalho sobre o cliente - se a doença
melhorou - é uma sutil interferência no desenlace da vida do cliente.
Esclerose Múltipla
Uma inglesa chamada Jennifer quer entender a causa da sua doença,
esclerose múltipla, que tem se desenvolvido rapidamente durante o
ano que passou. Quando coloco representantes para ela e para a
doença em uma constelação, logo é revelado que ela está carregando
muita agressão, indicado pelo fato de que ela está apertando as mãos
nos punhos; na verdade, parece que ela está carregando a energia de
um assassino.
Depois de algum tempo, interrompo a constelação e pergunto sobre
sua família de origem. Ela me diz que, do lado do pai, a primeira
esposa do avô morreu no parto de um filho - morreram a mãe e o
bebê.
Como discutimos anteriormente, quando uma mulher morre no parto,
muitas vezes, é percebida pelo sistema familiar como se a mulher
tivesse sido assassinada. Isso explicaria a agressividade da cliente.
Vamos agora arranjar uma nova constelação, colocando
representantes para o avô, a primeira esposa dele e para a criança
que morreu. A criança se deita no chão e deixo que o avô e a esposa
se movam por conta própria. O avô está em uma luta interna
profunda, em um primeiro momento tentando ficar longe da criança
e da esposa - ele deve ter se sentido culpado pela morte da esposa -
e, em seguida, se vira de volta e se move lentamente para mais perto
de sua esposa. Eles ficam bem perto, ela inclina a cabeça no ombro
dele e, em seguida, ela se deita ao lado da criança, enquanto o avô
está muito emocionado e começa a chorar. Então, ele se deita com
eles. A cliente e o pai dela estão observando e ficam muito comovidos.
Eles se aproximam um do outro e se abraçam profundamente.
Em geral, doenças como a esclerose múltipla, a epilepsia e também
ataques de pânico são frequentemente resultado de um impulso
homicida reprimido, o que, de acordo com Hellinger, indica que
houve um assassinato na família, ou, como no presente caso, algo
percebido como assassinato. A cliente se identifica com os agressores
excluídos, tomando a energia para si mesma, e a doença pode ser
vista como uma manifestação do esforço dela em segurar esse
impulso agressivo. Neste exemplo, a cura está em trazer à tona o
verdadeiro amor que existia entre o avô e a primeira esposa,
entendendo que ninguém foi assassinado, ou responsável pela morte
dela, e, em seguida, honrar a ela e à criança.
No caso da esquizofrenia, muitas vezes quando há um assassinato na
família e a pessoa que é esquizofrênica se identifica com a vítima e
com o perpetrador ao mesmo tempo, é porque ambos foram
excluídos da família. Essa dupla identificação é uma das razões para a
criação de uma dupla personalidade, que é típico da esquizofrenia e
também da depressão maníaca.
A relação entre o trabalho da Constelação Familiar e diferentes
doenças tem sido bem documentada em outros livros; por isso é
necessário dar mais exemplos aqui. Hellinger fez muito trabalho de
pesquisa com pessoas doentes, incluindo aquelas que sofrem de
câncer e esquizofrenia. Como resultado, ele descobriu certa dinâmica
por trás dessas doenças, que foram brevemente mencionadas aqui e
que podem ser usadas como hipóteses de trabalho em sessões de
constelação.
Naturalmente, é importante confirmar se alguma das dinâmicas
relativas à doença se encaixa aos fatos de uma determinada sessão
de constelação e o terapeuta deve estar pronto para ajustar os
conceitos teóricos com a realidade. Isso é o que Hellinger chama de
"abordagem fenomenológica". Olha-se para os fenômenos e conclui-
se com base nessas observações, sem qualquer ideia fixa ou
preconceito.

Compreendendo as relações atuais

Capítulo Dez
A relação homem-mulher
Existem dois tipos básicos de relações no sistema familiar: uma, entre
um superior e um inferior, como a relação entre pais e filhos, e outra,
entre iguais, como um homem e uma mulher que se tornam marido e
mulher ou que concordam em viver juntos.
Neste capítulo, tentamos compreender as características de uma
relação entre iguais, entre um homem e uma mulher, e tentamos ver
como ela é diferente e também afetada pelas dinâmicas das relações
primárias, entre pais e filhos.
Quando olhamos para a diferença entre uma criança e um adulto, o
que é imediatamente evidente é que uma criança e relativamente
desamparada e, portanto, não tem muita responsabilidade, enquanto
um adulto é mais responsável pelo que faz.
Para crescer, precisamos estar prontos para desistir do sentimento de
criança de não ter responsabilidade e de ser cuidado por outros.
Mesmo que isso pareça óbvio, a verdade é que, muitas vezes, nos
encontramos nos relacionando com um parceiro adulto como se ele
ou ela devesse dar algo para nós e nós nos comportamos como uma
criança desapontada se isso não ocorre. De uma forma ou de outra,
estamos resistindo ao processo natural de cuidar de nós mesmos e
ainda queremos que alguém cuide de nós.
O equilíbrio entre dar e receber
Quando examinamos o que ocorre entre um pai e um filho, vemos
imediatamente um desequilíbrio: a criança é dependente do adulto; a
mãe ou o pai dá mais e a criança recebe mais. Quando olhamos para
a relação entre casais, vemos um equilíbrio, uma reciprocidade entre
dar e receber em que ambos os parceiros desempenham os papéis de
doador e recebedor em quantidades aproximadamente iguais.
Em essência, o homem está recebendo da mulher o que ele está
precisando e dando à mulher o que ela está precisando; a mulher está
recebendo do homem o que ela está precisando e dando a ele o que
ele está precisando. Ambos devem estar prontos para a troca de uma
forma equilibrada. Eles devem estar prontos para mostrar que
precisam de algo do outro.
Esta troca de dar e receber ocorre em todos os níveis - material,
sexual, emocional, mental, espiritual - e é a força de sustentação que
mantém o relacionamento, aprofundando o compromisso de ambos
os parceiros. Quanto mais eles dão e recebem um do outro, mais forte
será o vínculo entre eles.
Na relação pai-filho, a ligação já é um fator embutido; uma criança é
biologicamente ligada aos pais, quer goste, quer não. Na rela ção
entre um homem e uma mulher, há uma escolha para se juntarem,
mas, quando eles criam um vínculo por meio da troca, a separação se
torna difícil. Esta é uma razão pela qual as pessoas muitas vezes
sentem medo de dar ou receber muito, porque temem que vão perder
a liberdade de fazer o que elas querem.
Na relação pai-filho, as frases que usamos para expressar as
dinâmicas intrínsecas são: "Você é grande e eu sou pequeno; você dá,
eu recebo". Em um relacionamento homem-mulher, é mais
apropriado dizer um ao outro: "Eu tenho algo de que você precisa e
eu estou pronto para dar a você; também, você tem algo de que eu
preciso e eu estou pronto para recebê-lo de você".
Onde os problemas começam
Os parceiros trazem para o relacionamento a carga que eles trazem
da família de origem; por isso, está claro que a relação pai-filho terá
um forte impacto na relação homem-mulher. Se uma pessoa quer
"dar" aos seus pais, é uma situação que, como vimos, é um
emaranhamento que vai contra a hierarquia natural e a ordem de um
sistema familiar, então, ela pode querer compensar recebendo do
parceiro, como se o parceiro fosse seu pai. Dessa forma, tudo está
virado de cabeça para baixo.
O que precisa acontecer para reparar a situação e restaurar o
equilíbrio é que ele tenha de se "encolher" e tornar-se "menor" em
relação aos pais - tornar-se filho em vez de atuar como pai - e, em
relação ao parceiro, ele precisa crescer "mais", aprender a assumir
responsabilidade e dar mais.
No processo de dar e receber, uma relação normal entre um homem
e uma mulher vai oscilar entre momentos de desequilíbrio, e um
desejo de restaurar o equilíbrio e qualquer tensão entre os parceiros
está geralmente contido nesta dinâmica.
Mas há muitas situações em que o problema ocorre de forma mais
profunda. Por exemplo, podemos encontrar uma mulher que se
comporta com o parceiro igual a uma criança em relação aos pais. Ela
pode se tornar indefesa e dependente; mostrando ao homem que ela
não tem nada de valor para oferecê-lo e que ela precisa muito mais
do que ela pode dar. Como resultado, ela se torna carente em
situações adultas; ela espera apoio ilimitado e manipula as coisas de
tal jeito que está sempre sendo cuidada.
Por exemplo, em uma sessão de constelação, uma mulher que,
durante toda a vida, tomou conta da mãe doente se comporta, com o
marido, como uma criança carente. Na constelação, ela fica perto dos
dois filhos, como se ela fosse outra criança, não a mãe. Ela está
recebendo mais no relacionamento e é ela quem finalmente deixa o
casamento, deixando também os filhos com o marido, para que ele
cuide deles - é geralmente quem recebe mais quem deixa a relação.
Mas, neste caso, o marido também é responsável por perder a esposa.
Na constelação, é revelado que ele sistematicamente age como um
pai para a mulher, dando tudo sem esperar que ela peça e se
comportando como se ele não precisasse de nada para si mesmo. Ele
mostra para sua mulher que ele está pronto para dar o que ela quiser
e não há necessidade dela dar nada de volta porque, basicamente, ele
não precisa de muito. Ela não tem chance de restaurar o equilíbrio,
de se nivelar a ele e de aprender a assumir a responsabilidade de mãe
e esposa.
Em outro exemplo, um homem em uma relação é tratado como um
príncipe; todos os desejos deles são realizados e é ele quem
finalmente deixa a parceira. Essa é a reação típica em uma situação
em que o desequilíbrio fica insuportável. É, geralmente, mais difícil
receber do que dar; sente-se a pressão para retribuir e, quando não
há chance, parte-se. Quando, no relacionamento seguinte, a parceira
desse homem foi mais exigente com ele, funcionou melhor, no
momento em que ele tomou consciência das próprias necessidades e
qualidades como um homem.
Quando um parceiro, inconscientemente, pede ao outro para ser seu
pai, ou adota um papel de pai, o equilíbrio entre dois iguais é
perturbado, afetando o equilíbrio do relacionamento. O que se exige
de um homem e de uma mulher que se unem em um relacionamento
é que peçam alguma coisa do outro e sejam, ao mesmo tempo,
cientes do que eles devem para o outro. O desafio é tomar uma
posição no relacionamento em que os dois parceiros deem apenas
tanto quanto o outro esteja disposto, ou seja, capaz de retribuir, ou
recebam somente tanto quanto o outro está pronto para receber de
volta.
Este tipo de visão penetrante quanto à dinâmica do relacionamento
requer uma compreensão profunda. Geralmente, os desequilíbrios
acontecem sem que os parceiros estejam cientes do que está
acontecendo; a doação abundante ou o recebimento compulsivo são
inseridos nos seus padrões de comportamento por condicionamentos
familiares de infância e incluem, muitas vezes, uma tendência de se
retirar da relação quando o desequilíbrio se torna grande demais.
Veja o exemplo de um jovem casal que veio me ver recentemente. A
esposa tinha se afastado do marido e deixou os dois filhos para que
ele cuidasse. Ela estava com a impressão de que ele havia criado o
problema entre eles por ele ter tido um breve caso e foi ela quem
insistiu para que eles fossem à terapia.
O que emergiu durante a sessão foi que o problema na verdade estava
com a esposa, na sua tendência de deixar os homens na menor
oportunidade. Ela havia feito isso várias vezes antes, sempre citando
infrações menores na relação como desculpas e sempre culpando o
homem. Verificou-se que o marido estava se colocando mais no
relacionamento do que ela e exigia muito pouco em troca. A
tendência dele, o que conspirava com a da esposa, era sentir -se
incapaz e indigno e colocar toda a culpa em si mesmo.
Neste caso, eu fui capaz de ajudar a mulher a tomar responsabilidade
por sua raiva contra os homens, algo que ela tinha tomado da mãe,
que havia deixado seu pai. Eu também consegui ajudar o marido a
não assumir mais a culpa que não era dele. Este casal não continuou
o relacionamento, mas foram capazes de se separar pacificamente.
Em qualquer relação entre um homem e uma mulher como parceiros
amorosos, há geralmente uma resposta saudável para os casais que
fazem demandas um ao outro, contanto que seja equilibrada por
tentativas agradáveis de troca e manutenção do equilíbrio. Os
problemas começam a surgir se um dos parceiros não estiver pronto
para mostrar as suas necessidades e ser um recebedor, ou não se
sentir capaz ou disposto a dar. Do mesmo modo, haverá problemas
se um dos parceiros continuamente se comportar como um pai ou
como um filho. Nas duas situações, haverá um problema de
desequilíbrio na relação, e, se tais problemas continuarem ao longo
de um período de tempo frequentemente, ocorre o divórcio.
Lars, um homem casado, da Finlândia, é excessivamente preocupado
com a filha de oito meses de idade e assume muita responsabilidade
da mulher em cuidar da criança. Esta tendência mostra uma falta de
força, uma falta de confiança na sua própria "masculinidade", e nós
soubemos que o pai de Lars perdeu o pai muito cedo. Depois de criar
uma linha de homens em seu sistema familiar, com o pai e o avô atrás
dele e receber a força deles, Lars descobre que ele pode começar a
relaxar quanto à própria família. No fim, ele diz, rindo: "Agora eu me
sinto menos importante". Isso mostrou que ele carregava a dor pelo
pai e sentia-se responsável por ele; então, ele, por sua vez, não tinha
força como marido e pai.
Se nós iremos realmente manter o equilíbrio, temos de ser um filho
para aqueles que nos deram a vida, um adulto com quem escolhemos
como parceiro em um relacionamento e pais com os nossos próprios
filhos. Em vez de reclamar que não tivemos o amor suficiente de
nossos pais, nós assumimos a responsabilidade pelo nosso lugar de
adulto no mundo e pelo papel que desempenhamos como pais.
Quanto às questões da dinâmica familiar, o que importa na vida é o
que nós fazemos e como agimos. Um homem que é pai é responsável
pelos filhos porque ele escolheu ser pai, e não por qualquer outra
razão; e, neste contexto, é irrelevante como ele se sente quanto a isso.
O modelo de personalidade social da Constelação Familiar pode ser
resumido nesta simples afirmação: em relação aos nossos pais: somos
pequenos e eles são grandes; em relação aos nossos filhos, somos
grandes e eles são pequenos; e em relação aos nossos parceiros
amorosos, somos iguais.
Só para enfatizar a questão: se nos sentimos "pequenos" em um
relacionamento adulto, ou tratamos o nosso parceiro como uma
criança, então, o relacionamento se tornou desequilibrado, devido a
algo não resolvido da família de origem, ou de um parceiro anterior.
Este desequilíbrio pode estar relacionado a um parceiro, e não ao
outro, ou aos dois.
Existem muitas ocasiões em que os problemas não resolvidos nos dois
criam uma harmonia funcional entre eles; onde ambos os parceiros
estão encenando papéis que se encaixam às necessidades um do
outro tão bem que a disfunção nunca vem à tona. Por exemplo, um
masoquista precisa de um sádico, uma pessoa dominante precisa de
alguém que tenha a necessidade de ser dominado e, se essas pessoas
se encontram, elas às vezes criam um ajuste perfeito. Um homem que
quer uma mãe pode encontrar uma mulher que procura um filho. Um
homem que não respeita as mulheres pode encontrar uma mulher que
não acredita que ela merece o respeito dos homens.
A troca positiva e negativa
Construir o equilíbrio entre dar e receber é um movimento sutil de
um pêndulo oscilante. Isso significa que, se eu fizer alguma coisa para
você, haverá um momento em que esse gesto levará à necessidade
da sua parte de fazer algo para mim em retorno. Isso não é uma troca
contratual consciente de negócios, parece mais uma dinâmica natural
de relacionamento construída internamente, criado por nossa
consciência pessoal.
É óbvio ver como isso funciona em uma relação quando está
trabalhando de forma positiva: nós nos conectamos um com o outro
por meio de um harmonioso ato de dar e receber. Meu amor por você
cria o desejo em mim de lhe dar algo e, quando você recebeu algo
bonito de mim, isso, por sua vez, cria um desejo em você de dar algo
de volta, e assim por diante, aprofundando o relacionamento com
cada balanço do pêndulo. Isso é o que chamamos de uma troca
positiva.
No entanto, a oscilação do pêndulo é válida também quando funciona
de forma negativa, quando, em uma relação, fazemos coisas difíceis,
dolorosas ou obstrutivas um para o outro. Isso quer dizer que, se eu
trato você mal - se, em um nível material ou emocional, eu tiro algo
de você - você provavelmente vai sentir o desejo de tirar algo de mim
em troca.
Tome o exemplo de uma mulher que enganou o parceiro. Ela saiu com
outro homem e isso feriu a relação. Superficialmente, podemos
pensar que, se o marido for compreensivo e perdoar a esposa, esta é
a resposta mais madura e civilizada.
Mas não de acordo com as leis da dinâmica familiar; a Lei de Equilíbrio
requer um verdadeiro sacrifício a ser feito da parte da mulher, a fim
de manter o equilíbrio no relacionamento. O marido teria de pedir
alguma coisa à esposa que é difícil para ela dar; ela precisa desistir de
algo que ela valoriza a fim de dar a ele algo que ele valoriza. Por
exemplo, pode ser que ela cancele um compromisso importante de
trabalho para ir com ele a uma viagem de fim de semana para as
montanhas. Esse sacrifício precisa ser uma experiência subjetiva - tem
de ser sentida pelo parceiro que ofendeu como uma perda real -, não
apenas um gesto vazio.
O perdão é um ideal estimado na maioria das sociedades cristãs, mas,
em termos de sistemas familiares, isso implica uma humilhação do
outro, porque você é obrigado a se colocar acima do seu parceiro em
uma posição moralmente superior - "sou mais santo do que você".
Ninguém tem o direito de perdoar ou pedir perdão, porque isso
destrói o equilíbrio da relação. Além disso, ao pedir para ser
perdoado, deseja- se algo do outro, em vez de mostrar uma
disponibilidade para lidar com quaisquer consequências do que
aconteceu. Há uma diferença entre dizer: "Eu sinto muito" e "Por
favor, me perdoe". Provavelmente, o parceiro "que perdoou" vai
continuar trazendo novamente a questão em ocasiões posteriores,
indicando que a igualdade na relação foi perdida.
Outros exemplos: uma esposa não está tão disponível para o marido,
por estar emaranhada nos destinos da sua família de origem; então,
o homem "equilibra" tendo um caso. Uma mulher, que teve um filho
com um homem casado que nunca deixou a esposa para ficar com ela
e nunca ajudou a educar a criança, vinga-se e não permite que o pai
veja o seu filho.
Essa é a oscilação entre dar e receber na forma negativa. Se, a cada
oscilação do pêndulo, cada parceiro pede um pouco menos do que o
outro fez, a relação não é danificada e o equilíbrio é restaurado. Se,
por outro lado, o ato que se destina a reparar o equilíbrio é maior do
que a ofensa original, há o perigo de um ciclo vicioso, um
aprofundamento da troca negativa. Neste caso, o outro dá de volta
mais negatividade e faz um dano maior do que foi feito a ele e, dessa
forma, entramos na esfera de vingança.
Se um marido enganado fosse dar de volta desproporcionalmente
mais do negativo, por exemplo, excluindo a parceira e tendo uma
série de casos com outras mulheres, então, o amor entre o casal logo
seria danificado. Se ele continua desta maneira, então, essa forma
vingativa de reparar o equilíbrio irá destruir o relacionamento. Na
relação saudável, no entanto, o casal vai retornar o negativo, mas em
menor grau, e isso, por sua vez, permite a eles voltar a uma troca
positiva.
Assim, na troca positiva, damos um pouco mais e, na negativa, um
pouco menos; em ambos os casos, porque nós amamos um ao outro.
A base diária de medir e equilibrar as coisas boas ou más que fazemos
uns aos outros é uma questão difícil e parece exigir uma consideração
cuidadosa. No entanto, a maioria de nós saberá, no fundo de nossos
corações, se estamos dando mais do que recebendo, se estamos
recebendo mais do que damos. Em algum lugar, lá no fundo, por mais
que muito pouco queiramos aceitar, normalmente sabemos se nós
nos sentimos ofendidos por todas as doações que fazemos, ou se
somos muito exigentes no que queremos receber do outro.
Essas ideias podem não estar no primeiro plano da nossa mente
consciente e podemos não querer admiti-las abertamente, mas, em
um nível mais profundo, geralmente percebemos se há ou não
equilíbrio em uma relação e, como resultado, a verdade emerge no
curso de uma sessão de constelação. E, se à primeira vista não está
claro, é provável que seja óbvio para uma terceira pessoa -
geralmente o terapeuta ou facilitador, que está trabalhando com o
casal.
Um italiano se apaixonou por uma mulher de outro país e convidou-
a a sair do emprego em seu país de origem para se mudar para a Itália
e viver com ele. Ela acabou concordando, deixou o emprego e foi para
Milão ficar com ele. No entanto, ela imediatamente percebeu, mesmo
sendo recebida por ele no aeroporto, que ele não estava muito
confortável em vê-la ali com a mala, na verdade, dizendo: "Aqui estou
eu para ficar com você".
Em vez de assumir o "papel de vítima" e culpá-lo, ela levantou a
questão com muito tato, levou-o ao ponto em que ele pudesse
admitir seus verdadeiros sentimentos e, em seguida, pediu a ele para
pagar a passagem de volta, e foi o que ele fez. O presente da
passagem a ajudou a superar qualquer ressentimento pessoal e a
sensação de ser vítima, mas também ajudou o homem - por corrigir a
promessa que não cumpriu - a superar os sentimentos de culpa.
Esse é um exemplo simples de como precisamos pedir o que
merecemos e como precisamos dar o que devemos. O conceito de
equilíbrio nos ajuda a tomar consciência dessa necessidade. Se o
"inocente" não faz a sua demanda, assim, de acordo com a Lei do
Equilíbrio, se transforma em "virtuoso" no relacionamento e se coloca
em uma posição superior ao parceiro, que então tem de assumir o
papel de "pecador".
Em muitos casos, é a arrogância dos inocentes que acaba um
relacionamento. As pessoas que sentem a sua confiança foi traída,
que se sentem justamente indignadas, ou mais santas do que o outro,
são muitas vezes mais responsáveis por destruir o equilíbrio em uma
relação do que o parceiro "pecador", que fez algum mal, mas que,
pelo menos, geralmente sabe disso - os pecadores são mais humildes
e menos arrogantes do que os santos.
A noção de virar a outra face é um importante pilar recomendado pela
prática cristã, mas esta injunção bíblica bem conhecida turvou a
necessidade natural por amigos e amantes de criar equilíbrio entre
eles. A Lei do Equilíbrio deixa claro que, às vezes, temos o direito de
pedir algo ao nosso parceiro e, às vezes, o outro tem o direito de
pedir algo de nós. A fim de manter um relacionamento, devemos ouvir
o que o outro está demandando de nós.
Pedir algo do outro é um assunto íntimo. Testa o relacionamento e
nos faz explorar os seus limites. Temos de conhecer os nossos
próprios limites e verdadeiras capacidades, sem pretensão. Essas são
coisas que todos em um relacionamento têm que encontrar por si
mesmos; pode ser uma arte delicada e ardilosa, mas faz parte do
amadurecimento interior. Deixa claro que, com todas as nossas
fragilidades e deficiências, somos simplesmente humanos e, por mais
compreensivos que possamos ser, não somos capazes de amar
incondicionalmente.
O vínculo no relacionamento
No momento em que um homem e uma mulher se unem no ato
sexual, um vínculo é criado. É uma conexão biológica, um impulso
instintivo da natureza que quer que os pais se vinculem um ao outro,
a fim de cuidar da criança que, sem os métodos modernos de
contracepção, normalmente resulta da união sexual de um homem e
uma mulher. É realmente uma forma de a natureza garantir a
sobrevivência da espécie e é, muitas vezes, confundida com amor,
porque une duas pessoas e é difícil para elas se separarem.
O vínculo pode ser acompanhado por alguma forma de amor ou
carinho, mas, igualmente, pode ser que não. Naturalmente, sempre
que o amor é combinado com o sexo, a união é mais forte e,
frequentemente, as pessoas têm uma ligação muito forte com o seu
primeiro amor. A partir de então, a força da ligação tende a diminuir
a cada novo parceiro.
A maioria de nós já experimentou mais dor na separação dos
primeiros parceiros do que nos parceiros posteriores, e talvez a pior
dor de todas tenha sido a separação do nosso primeiro amor. A dor
vivida na separação indica a intensidade do vínculo que existia entre
os dois parceiros. No momento em que nos separamos do nosso
quinto ou sexto parceiro, tendemos a sentir muito menos dor e
"superar isso" mais cedo.
A qualidade do amor que está presente em um relacionamento
posterior pode ser mais profunda do que as experiências de amor
anteriores, enquanto o vínculo biológico pode ser muito pequeno e,
quando visto desta perspectiva, é fácil para nós entender como o
amor e o vínculo são duas coisas distintas.
Ao avaliar a força de um vínculo particular, precisamos examinar cada
caso por seus próprios méritos. Por exemplo, um caso de uma noite
não vai necessariamente provocar uma forte ligação, mas não
podemos ignorar o fato de que essa ligação tenha sido criada. No
caso de um estupro, a ligação pode ser maior do que a de um caso
de uma noite por causa da violência envolvida; quando uma mulher é
forçada a se submeter contra a sua própria vontade, a dor e raiva
envolvidas neste ato, muitas vezes, criam um vínculo mais forte do
que o amor.
Às vezes, podemos ter relações sexuais com um parceiro casual sem
dar muita atenção a ele depois, mas, na verdade, no momento em que
você tem relações sexuais com alguém, algo de significativo ocorreu
e precisa ser dado o seu devido valor. Para compreender as forças
inconscientes no trabalho da dinâmica familiar, toda relação sexual,
mesmo de curta duração, precisa ser reconhecida e considerada.
Não é tão fácil se dissolver um vínculo, uma vez que ele tenha sido
criado. Podemos realmente deixar um antigo parceiro somente se
formos gratos a essa pessoa e reconhecermos a importância dela na
nossa vida. Se não fizermos isso, não nos separamos realmente e a
ligação continua, tornando difícil ou impossível um novo parceiro
chegar perto de nós. Além disso, o novo parceiro é obrigado a sentir
uma certa simpatia pelo parceiro anterior. Por exemplo, se um homem
deixa uma mulher de modo descuidado, sem sentir qualquer dor ou
perda, a nova mulher dele pode ficar preocupada se ela vai ser a
próxima a ser tratada da mesma forma; então, como ela pode
realmente se abrir e confiar nesse homem?
Um casal veio para uma sessão, porque sente que não pode atingir a
profundidade da intimidade que os dois desejam. A mulher tinha um
ex-marido e teve uma filha com ele. Quando trazemos os dois homens
para a imagem da constelação, a atenção da representante da mulher
vai para o marido anterior e o atual namorado fica de lado.
Perguntamos à cliente o que ela vê nesta imagem; ela diz: "Casar com
esse homem foi um erro". Em outras palavras, ela manteve a atitude
de culpar o ex-marido, que parece ter sido violento com ela e ela não
consegue reconhecê-lo. Desse modo, ela tem sido incapaz de deixar
o ex-marido ir; a raiva dela cria um vínculo forte e ela não está
realmente disponível para o novo relacionamento.
O impacto de um primeiro relacionamento está fadado a ser forte, o
que não significa que uma relação é intrinsecamente melhor ou pior
do que outra. Significa que precisamos compreender que tudo o que
fazemos na vida tem um efeito e leva a consequências. Isso é
especialmente verdadeiro em algo tão íntimo e biologicamente
fundamental como o sexo.
O grau de vinculação também afeta o quanto de desejo existe para
duas pessoas se manterem juntas, independente dos altos e baixos
por que passaram. Sem vínculo, um casal tenderá a se separar assim
que houver alguma dificuldade. Se o vínculo é forte, eles serão
capazes de tolerar períodos difíceis e ficar juntos.
O vínculo tem outros aspectos também. Sempre que houver amor
entre os parceiros, o vínculo é fortalecido e, quando há uma troca
ativa e saudável de dar e receber, a ligação será muito mais reforçada.
Dito tudo isso, parece, pelo nosso trabalho em Constelação Familiar,
que os seres humanos têm uma limitada capacidade para um vínculo
profundo. Como já mencionei, a energia para isso é mais forte quando
somos mais jovens e tende a diminuir a cada nova relação, tornando-
nos menos prováveis a ter vínculos mais fortes depois de termos tido
muitos relacionamentos.
Não é nem bom nem ruim ter um ou vários parceiros, mas cada
escolha tem determinadas consequências que são diferentes das
outros, e não podemos fingir que, tendo feito certa escolha, todas as
nossas opções continuam abertas. Nossa vida toma uma forma
determinada de acordo com as nossas escolhas anteriores e isso
significa que temos de encarar o que fazemos, ou fizemos, em no ssas
vidas.
Mesmo que você não esteja profundamente apaixonado, qualquer
relacionamento sexual terá uma influência maior ou menor na sua
vida, por nenhuma outra razão de que vocês ficaram juntos e esse
fenômeno precisa ser reconhecido. Por exemplo, se uma cliente em
uma constelação quer completar uma antiga relação em que ela, de
alguma forma, ainda está emaranhada, podemos convidá-la a dizer
ao ex-parceiro: "Obrigada pelo tempo em que estivemos juntos. Isso
me trouxe muito e o que você me deu vai ficar comigo. O que eu lhe
dei, eu dei com amor e você pode manter com você".
Quando ela faz isso, ela reconhece que esse homem esteve na vida
dela e, tendo feito isso, ela pode ficar em paz com ele. Quando a
honra ocorre desta forma sincera, completa-se um relacionamento
antigo e a energia agora está livre e disponível para se conectar com
um novo parceiro.
O que começou no amor só pode ser completado no amor. Quanto
mais nós amamos uma pessoa, mais vamos sentir a dor da separação,
e sentir essa dor é necessário e curador - uma maneira de reconhecer
o efeito da outra pessoa em nossas vidas. Se não fizermos isso, uma
camada profunda da mente e do coração ainda sente o vínculo e não
permite que sigamos adiante. Uma vez que reconhecemos isso,
estamos enriquecidos e poderosos, livres para nos aproximarmos com
amor e totalidade de quaisquer novos encontros que venham em
nossa direção.
Ordem na relação
Como já discutimos, de acordo com a Lei da Ordem Sagrada, os pais
vêm em primeiro lugar e os filhos, em segundo. No caso dos casais
de uma família, no entanto, não há primeiro ou segundo. O homem e
a mulher começam a relação ao mesmo tempo e, em termos de
tempo, não há precedência entre o homem e a mulher.
No entanto, em um nível prático, a partir da observação da dinâmica
familiar em muitas sessões de Constelação Familiar, descobrimos que
os familiares muitas vezes se sentem mais à vontade se o homem está
representado na primeira posição em uma imagem da constelação. A
razão para isso não é difícil de compreender: tradicionalmente, o
homem é quem mais sustenta e protege a família. No sistema, ele
representa o bem-estar da família e geralmente é responsável pela
segurança externa dela, enquanto a mulher está mais perto dos filhos
e é a pessoa principal "dentro" da família. Essa é a razão pela qual o
homem geralmente fica em primeiro lugar em uma imagem da
constelação, se ele é quem cuida da família externamente.
O posicionamento do homem primeiro, no entanto, não é uma regra
absoluta e o facilitador tem de decidir para cada cliente que posição
é a mais adequada. Isso pode ser uma questão controversa,
especialmente no clima fortemente debatido de hoje em dia das
políticas de gênero e sensibilidade social no que concerne a qualquer
inferioridade feminina implícita.
Atualmente, por vezes, a mulher é responsável pela segurança externa
da família; então, ela pode precisar estar no primeiro lugar. Há
também ocasiões muito específicas em que é essencial que a mulher
esteja em primeiro lugar; por exemplo, quando há uma história difícil
na família da mulher, um acontecimento extraordinariamente
doloroso, como uma mãe que morreu no parto. Em um caso como
esse, para reconhecer as dores do passado, muitas vezes é melhor
para a mulher ficar na primeira posição. Assim, a função do homem
ou da mulher dentro da família, o papel que ele ou ela desempenha,
ou o peso de eventos trágicos no passado, vão ajudar a decidir quem
fica em primeiro lugar na ordem familiar. Por ordem, refiro-me à
forma como organizamos os representantes da família em um círcul o
no sentido horário, procurando um lugar onde eles se sintam mais à
vontade uns com os outros.
Para entender melhor a precedência do sexo masculino, vamos
observar as culturas tribais, porque a dinâmica da constelação familiar
tem raízes profundas em nossa herança ancestral, em um tempo em
que os perigos externos à família eram muito reais e muitas vezes
com risco à vida. Neste tipo de cultura primitiva, ninguém questiona
a responsabilidade do homem pela segurança da esposa e dos filhos
e, de fato, pela segurança do clã inteiro. A posição dele neste papel
exige que, em tempos de perigo, toda a família o siga, porque, a não
ser que eles façam isso, ele não pode protegê-los.
Em casos como esses, o homem está inegavelmente no comando; não
há discussões ou votações. A autoridade dele é absoluta e questionar
isso pode colocar em perigo todo mundo. Portanto, na medida em
que a ordem em uma constelação está em xeque, aquele que é
responsável pela segurança do todo prevalece no posicionamento da
família e esse normalmente é o homem.
No entanto, é a mulher e, especificamente, a mãe que é a figura
principal dentro da família, porque ela é a única que dá a vida e cuida
das crianças. Então, tudo o que o homem faz tem que estar a serviço
do que podemos chamar de "feminino". Por feminino, não queremos
dizer que ele deve servir à mulher em si - um homem que serve à sua
mulher corre perigo de tratá-la como mãe -, mas servir ao princípio
feminino, à proteção de sua mulher, à necessidade de nutrição dos
filhos e ao bem-estar da tribo como um todo. O homem trabalha a
favor da família e a autoridade dele tem de operar a serviço da sua
mulher, dos filhos e das gerações futuras.
Foi Bert Hellinger que disse: "A mulher segue o homem, o homem
serve o feminino", uma afirmação que, previsivelmente, foi recebida
com um bom grau de controvérsia. Foi mal interpretada como um
apoio à dominação das mulheres pelos homens e à supremacia do
princípio masculino. Mas, em vez de tomá-la literalmente, considere
metaforicamente: a questão de Hellinger é que, se o homem está
atuando a serviço do feminino - não preso às ostentações do
chauvinismo masculino -, é certo que a mulher o siga, contanto que
ele esteja na posição de fornecer bem-estar material e financeiro para
a família.
Novamente, é preciso salientar que não estamos falando sobre
nenhum princípio idealista, filosófico ou de mente social moderna.
Estamos olhando para as regras básicas da dinâmica familiar e
tentando compreendê-las em um esforço para nos desemaranharmos
de cargas desnecessárias trazidas do passado. Nas sessões de
constelação familiar, o terapeuta precisa ver como essas leis se
aplicam em cada caso particular, a fim de trazer paz, alívio e liberdade
ao cliente.
Pegue um casal em que a mulher vem de um país e o homem, de
outro. O que notamos é que, quando a mulher segue o homem ao
país dele e eles se estabelecem lá, eles geralmente têm mais chance
de um relacionamento bem-sucedido do que se o homem seguir a
mulher.
Tradicionalmente, é assim que tem sido na maioria das culturas: a
jovem esposa vai para a casa do marido, ou ao local de origem dele,
e lá estabelece o lar. Raramente, é o homem que vai ao lugar de
origem da mulher e, quando o faz, muitas vezes as coisas não
funcionam bem. Isto não significa que é impossível, mas há mais
probabilidade de haver obstáculos que criam problemas.
Por outro lado, quando reconhecidos esses padrões em uma sessão
de constelação, há mais chance de que as dificuldades sejam
entendidas, o equilíbrio recriado e os problemas corrigidos.
Hoje em dia, na Europa, nos Estados Unidos e no mundo
desenvolvido, as coisas são muitas vezes muito diferentes e nós
precisamos levar em conta as mudanças na sociedade -
especificamente, as diferenças radicais nos papéis desempenhados
pelos sexos. Homens e mulheres já não têm mais papéis sociais
claramente definidos. Isso faz parte de um processo contínuo de
homogeneização e não é bom nem mau. Na verdade, tem havido uma
indefinição quanto às fronteiras de divisão de papéis entre os
gêneros. Os códigos sexuais morais, as divisões de classe e gênero,
que, até 80 anos atrás, ligavam a maioria das sociedades, têm
desaparecido nos países tecnologicamente avançados.
Assim, em Constelação Familiar, tomamos famílias e relacionamentos
como os encontramos e examinamos as coisas como novas, sem
qualquer preconceito ideológico. Se queremos encontrar as melhores
soluções em um dado relacionamento, ou em uma dada família,
precisamos estar preparados para ignorar ambos os hábitos
tradicionais e as atitudes modernas e tratar cada caso objetivamente,
observando o que acontece e decidindo cada caso por seus próprios
méritos.
O aumento acentuado nos últimos anos na confusão de gêneros criou
insegurança em ambos os sexos. Nisso, a Constelação Familiar pode
ser uma grande ajuda. Ao examinar os papéis entre os membros da
família e entre casais em particular, a Constelação Familiar ajuda as
pessoas a concentrar as suas energias em torno de seus pontos fortes
e naturais como homens e mulheres e encontrar o seu lugar certo
dentro da matriz familiar.

Capítulo Onze
Crescendo no relacionamento
A prática natural de todos os animais é encontrar um companheiro, e
os seres humanos não são exceção. A atração sexual entre homens e
mulheres não só os une, mas os mantém juntos e, com a chegada dos
filhos, os transforma em famílias. Claramente, não haveria espécie
sem filhos, mas a força principal que começa a fazer as coisas
acontecerem é a atração das polaridades que nós chamamos de
masculino e feminino. Nos animais, isso é conhecido como
acasalamento. Nós, seres humanos, chamamos de amor, sexo ou
casamento.
Quando olhamos para a dimensão sexual, podemos ver um homem e
uma mulher como polos positivo e negativo de um ímã, atraídos por
algo que geralmente está além do controle deles e que opera a
despeito deles. Quanto mais fortemente o homem está enraizado em
sua energia masculina e a mulher em sua energia feminina, maior é a
polaridade entre eles e mais forte é a atração.
O homem e a mulher querem estar juntos, eles querem fundir-se um
no outro e tornarem-se um e, para fazer isso, devem dissolver as suas
diferenças. Esse é um dos anseios profundos de uma relação de amor:
o desejo de banir as diferenças e se tornar um com a pessoa amada.
No entanto, assim que a força que os atrai na direção um do outro os
aproximou, a polaridade é perdida e surge a necessidade de se afastar
para encontrá-la novamente. Você pode observar em muitos
relacionamentos que há um movimento principal que une os amantes
e um movimento secundário que os afasta, então, existe um
movimento constante para aproximar e para afastar um do outro.
A polaridade sexual implica uma diferença profunda entre os dois
parceiros, uma divisão que pode perfeitamente ser resumida pela
expressão: "homens são de Marte e mulheres são de Vênus". Assim,
paralelamente a uma forte atração, um homem e uma mulher têm
diferenças que podem ficar no caminho da harmonia e tornar difícil
que eles se unam, e isso tende a criar um certo dilema na relação.
O marciano e a venusiana observam o mesmo mundo a partir de olhos
diferentes e cada um anseia pelo outro para compartilhar essa visão.
O homem quer que sua mulher veja as coisas à maneira dele e a
mulher quer que seu homem sinta como ela sente. Por exemplo, ela
pode se perguntar por que ele é tão frio, teimoso e não consegue
entender os humores dela e ele pergunta por que ela não consegue
ser mais racional sobre as coisas e menos instável emocionalmente.
Em outras palavras, os homens e as mulheres esperam que o outro
veja as coisas da maneira que eles próprios veem, sinta as coisas como
eles sentem, conheça o mundo por meio dos seus próprios valores,
sensibilidades e expectativas.
Respeitando o oposto
Uma das lições básicas de relacionamento é respeitar o outro como
diferente e igual. Tendo reconhecido a diferença entre os sexos,
pode-se aproveitá-la em vez de tentar manipulá-la ou destruí-la. Para
um homem, uma mulher pode permanecer um mistério, um enigma
intrigante que nunca é resolvido - nem precisa ser - e, para uma
mulher, um homem pode ser inexplicável; não há necessidade de
compreender o outro completamente.
Quando se inclui o polo oposto como igual, torna-se completo, como
o símbolo chinês bem conhecido do yin e yang e, dessa forma, dois
opostos aparentes se tornam complementares e cada parceiro torna -
se mais do que uma mera metade.
Por exemplo, Martin e Stephanie são um casal alemão que está junto
há mais de 10 anos. Stephanie tem uma mente rápida, que salta de
uma coisa para outra e ela consegue fazer muitas coisas ao mesmo
tempo e ainda ficar muito relaxada - algo que Martin nunca é capaz
de fazer.
Quando Martin faz alguma coisa, se ele quer ficar relaxado, ele faz
apenas uma coisa de cada vez e termina e não quer nenhuma
distração. Se Martin tentasse trabalhar da mesma maneira que
Stephanie, fazendo cinco coisas ao mesmo tempo, ele logo ficaria
tenso e tudo sairia errado.
O conflito surge quando Stephanie começa um trabalho com uma
abordagem caótica e a inclinação de Martin é pará-la e incentivá-la a
ir na mesma direção metódica que ele, presumindo que ela, assim
como ele, tende a ficar perdida e confusa, e isso vai retardar as coisas.
Se Martin puder abandonar a ideia de que Stephanie deve fazer as
coisas à maneira dele e, em vez disso, deixá-la continuar sem
interferir, ele permite uma expansão do relacionamento. Quando
Martin pode dizer: "Ah! Então, é assim que ela faz as coisas... e, ei, isso
funciona para ela e é tão válido quanto o modo como eu faço as
coisas", então, ele aprofundou a compreensão do princípio feminino,
que é menos sistemático e menos orientado para objetivos e ampliou
a compreensão do mundo em torno dele. Martin pode até ter
descoberto uma nova maneira de fazer as coisas, abrindo-se para um
potencial inexplorado dentro de si.
Esse é um dos primeiros desafios de um relacionamento entre
homem-mulher. Apaixonar-se e querer viver juntos é uma coisa, mas
se envolver de tal forma que você está pronto para aprender e crescer
com seu parceiro amoroso é um passo mais desafiador a dar.
Mesmo sexo: polaridades mais fracas
Até agora, temos falado sobre as relações heterossexuais. Quando se
trata de relacionamentos homossexuais, estamos lidando com uma
situação diferente. O que tende a faltar em uma relação homossexual
é a polaridade entre duas energias opostas, a atração magnética entre
as forças contrastantes do masculino e do feminino.
É verdade que, em muitos relacionamentos homossexuais longos, um
dos parceiros assume o papel "feminino", enquanto o outro assume
o papel "masculino", mas em geral eles não incluem extremos opostos
polares tão grandes como parceiros heterossexuais. Assim, para
casais homossexuais é mais fácil estar relaxado e em harmonia com o
outro, mas a desvantagem é que há uma tensão menos dinâmica,
menos mistério, menos possibilidade de crescimento pessoal e
transformação.
De um modo geral, os homossexuais estão propensos a aprender
menos da sua intimidade um com o outro do que os heterossexuais
em um relacionamento mais profundo.
Recebendo as diferenças familiares
Quando avaliamos o quão difícil é permitir as diferenças dentro de
uma relação de amor heterossexual, imagine quão mais difícil é
quando um de nós está estreitamente ligado à família de origem.
Nossa família de origem é responsável pela maior parte do nosso
sistema de crenças, nossos valores e nossa visão de mundo. Além
disso, é da nossa família que adquirimos nossa impressão sobre o
sexo oposto, especificamente a impressão da nossa mãe sobre
homens e a impressão do nosso pai sobre mulheres.
Portanto, a segunda lição importante a ser aprendida em um
relacionamento é ser capaz de ver o seu parceiro não apenas como
um membro do sexo oposto, mas também como uma pessoa que vem
de uma família com crenças e valores que podem ser diferentes dos
seus - às vezes, até mesmo alguém de uma cultura completamente
diferente.
Quando você se apaixona, não é apenas um homem ou mulher que
você recebe em sua vida; ele, ou ela, vem com a experiência de toda
uma família como parte do pacote. Isso significa que você deve não
só aprender a amar uma pessoa que é diametralmente oposta de você
em termos de polaridade sexual, mas você também precisa amar e
respeitar os pais do seu parceiro e uma família que é diferente da sua.
Isso pode ser ainda mais difícil.
Por exemplo, imagine que você é um católico que se apaixonou por
uma protestante. Se você é leal à sua família e à sua infância católica
e ela é leal à família protestante dela, então, mesmo dentro de uma
única religião cristã, haverá diferenças de prática e sistemas de
crenças que podem tornar difícil para o casal encontrar um terreno
comum. Isso, por sua vez, irá interferir nas chances de ficar realmente
próximo a ela.
Agora, se você tem filhos, haverá mais dificuldades. Sua esposa pode
querer que o seu filho siga o caminho da família dela; você, como pai,
pode querer que o filho veja as coisas da maneira que sua família vê.
Se isso acontecer, haverá conflito constante sobre como educar o seu
filho.
Para ser capaz de ficar junto de um parceiro e respeitá-lo, você vai
precisar reconhecer e apreciar os sistemas de crença e
comportamento dele e, talvez, valorizá-los assim como os seus e, para
isso, você terá de se distanciar da sua própria família. Vocês dois, em
uma certa medida, precisam ser capazes de sair da família de origem
e deixá-la para trás.
É claro, é um passo difícil de dar, porque significa ter de se afastar da
sua profunda identificação com os valores da sua própria família e o
seu parceiro precisa tomar uma distância semelhante da família dele.
Neste caso, você, o homem católico, precisaria reconhecer que a
formação protestante do seu parceiro não é nem melhor nem pior do
que a sua.
Isso não é tão fácil. Pense em contar à sua família católica que os
valores dela não são melhores nem piores do que os de um
protestante. É provável que façam você se sentir muito culpado,
porque parece que você está abandonando a própria família e sendo
desleal a eles.
Lorena, uma espanhola, tem dois filhos com o ex-parceiro cubano. A
intenção dela nesta sessão é fazer as pazes com ele em seu coração -
ele a deixou e se mudou para os Estados Unidos. No início, a sessão
segue lentamente, mas, quando colocamos uma pessoa na
constelação para representar a Espanha e outra para Cuba, as coisas
começaram a se mover. O representante de Cuba fecha os punhos
para a Espanha e, em resposta, a Espanha se move para trás. Fica claro
que o ex-parceiro de Lorena se identifica com Cuba; ele carrega o
ressentimento nacional de todos os cubanos contra as atitudes
colonialistas espanholas e a história da conquista no Caribe. Ele a
deixou porque não poderia ficar com uma parceira espanhola - seria
fazê-lo se sentir muito culpado em relação aos seus antepassados.
Lorena agora entende a dinâmica da situação e pôde curvar-se
profundamente a Cuba, a todos os cubanos e pôde finalmente fazer
as pazes com seu ex-parceiro e honrá-lo como o pai de seus filhos.
Recentemente, durante uma sessão de aconselhamento, conversei
com uma jovem israelita que tinha um namorado alemão e estava
tencionando se casar com ele. No entanto, quando a mãe judaica
ouviu a proposta de casamento da filha, ela cortou contato com ela e
se recusou a ver ou falar com ela. Além disso, os amigos israelitas da
jovem ficaram do lado da mãe dela e diziam: "O que você está fazendo
à sua pobre mãe?".
Agora, de qualquer forma que esta jovem se mova, ela estará em
dificuldade - presa entre a cruz e a espada. Ou ela vai se casar e se
sentir culpada em relação à mãe ou ela não vai se casar e se sentir
culpada em relação ao namorado.
Ser capaz de aceitar a separação da mãe e tolerar um grau de culpa
será um sinal de grande maturidade. É esta qualidade de força interior
que é necessária para qualquer forma de crescimento pessoal. Ao se
desistir da proximidade da família de origem, torna-se mais sozinho
e mais centrado no próprio ser.
Uma conclusão inevitável dessas situações é que, para ser capaz de
respeitar o seu parceiro e ficar com ele, você deve ser capaz de
suportar, ou tolerar, um sentimento de culpa que vem como resultado
do afastamento da sua própria família. A capacidade de cada parceiro
de deixar a aproximação da família de origem efetivamente define o
que é possível em termos de alcançar a proximidade em seu próprio
relacionamento. Isso, geralmente, fica claro desde o início, quando
eles se encontram.
O vínculo negativo é mais forte
Em adição ao apego positivo aos valores com os quais fomos criados,
existe também a possibilidade de uma reação negativa para com a
própria família. Muitas pessoas rompem com dor e raiva, em uma
oposição aberta aos valores de sua família e até mesmo dizendo que
aqueles das outras famílias são melhores. Mas, em termos da
dinâmica familiar, como já descrito em um capítulo anterior, uma
reação negativa com os pais normalmente indica uma vinculação
ainda mais forte e, como resultado, podemos estar,
inconscientemente, seguindo os valores da nossa família mais do que
aqueles que não rompem. É uma lei do paradoxo: nós estamos perto
de nos tornarmos aquilo a que nos opomos e não queremos nos
tornar, pois somos compelidos pelo que rejeitamos. A raiva é o amor
de cabeça para baixo.
Respeitando o emaranhamento do parceiro
Todos, de uma forma ou de outra, carregam os negócios não
resolvidos da família de origem. Todos nós carregamos dores pelos
nossos membros familiares, em um maior ou menor grau, ou nós nos
identificamos com alguém da nossa família estendida, mesmo sem
conhecê-lo. Assim, quando um homem e uma mulher se unem, eles
não só têm de reconhecer a família da outra pessoa, eles também têm
de reconhecer o que a outra pessoa está carregando daquela família,
que ele ou ela está provavelmente emaranhado de alguma maneira.
Isso cria uma limitação no âmbito da relação, que irá durar enquanto
o emaranhamento original não tiver sido dissolvido. Assim, cada
relacionamento tem as suas possibilidades e os seus limites,
dependendo do quanto estamos ligados à nossa família.
Sempre que os parceiros querem ajudar um ao outro a superar seus
emaranhamentos, por exemplo, inconscientemente oferecendo-se
como um substituto para um pai ausente, de alguma maneira
desrespeita esses limites. Em uma forma indireta, eles estão
desrespeitando o parceiro e o amor dele para com a sua família de
origem. Em vez disso, precisamos reconhecer o que o outro carrega e
o que nós carregamos e mantê-los separados.
Muitas vezes, esta é uma das dificuldades básicas em um
relacionamento: um homem tenta resolver com a sua mulher algo que
foi deixado sem solução com a mãe dele, enquanto uma mulher pode
tentar resolver alguma coisa com o parceiro que só pode ser resolvida
com o pai dela. A razão mais profunda para querer aliviar um parceiro
da dor é que nós mesmos não podemos tolerar isso. Quando as
pessoas confortam as outras, muitas vezes não é tanto por amor, mas
porque isso nos lembra da nossa própria dor, o que nós mesmos não
desejamos reconhecer.
Nós, naturalmente, queremos estar o mais próximo possível do nosso
parceiro, mas um marido que está ligado à mãe não pode se
aproximar muito da esposa, enquanto uma mulher que está
emaranhada com o pai não pode ficar muito perto do marido. Em vez
de tentar fazer o marido desistir dos laços com a mãe, o que a esposa
pode realmente dizer é: "Eu respeito o seu amor pela sua mãe". Se
ele, por sua vez, projeta a mãe nela, ela tem o direito de dizer: "Eu
não sou a sua mãe", mas ela não tem o direito de mudá-lo nem de
ajudá-lo a superar isso.
Em termos de dinâmica familiar, nós não somos capazes de tirar
ninguém dos seus emaranhamentos nem temos o direito de fazê-lo.
Quanto mais tentamos, mais provável é que a relação seja destruída.
Por exemplo, quanto mais Lorena tentou segurar em si o parceiro de
Cuba, mais bravo ele se tornou, até que finalmente ele saiu. Se ela
tivesse simplesmente reconhecido o amor dele pelos ancestrais
cubanos, sem tentar se envolver, teria havido uma chance muito maior
de ele ficar.
Esses tipos de complicações aparecem de várias formas. Em diversas
ocasiões, tenho falado com homens que foram enviados a sessões de
aconselhamento pelas esposas. No entanto, as esposas não tinham
conhecimento de que existe uma tendência embutida nessas
situações de um homem sabotar esses esforços bem intencionados
da esposa para "consertá-los". De fato, a mulher está agindo como
uma mãe e, portanto, interferindo na relação do homem com a sua
mãe. Assim, um homem deve isso a si mesmo e a sua dignidade no
sentido de destruir esse esforço; desse modo, prova que sua esposa
não é sua mãe.
A maturidade em um relacionamento significa ser capaz de dizer ao
outro: "Eu vejo o que você traz da sua família de origem e eu respeito
isso. Não vou tentar mudá-lo ou salvá-lo, nem de qualquer forma
tentar fazer diferente para você". Nessa linha, é preciso um ser capaz
de dizer para o outro, sobre si mesmo: "Isso é o que trago comigo da
minha família e o que eu preciso fazer por amor pela minha mãe e
pelo meu pai. Por favor, permita-me carregar isso sem interferência".
Aceitar a própria impotência diante do sofrimento do outro, muitas
vezes, é uma experiência difícil e muitas relações andam em
dificuldade nesta área. Mas, se pudermos aceitar os limites do outro,
também podemos sentir como cada relação de amor é uma grande
oportunidade de crescimento pessoal. Muito depende do quão
profundamente podemos ver por baixo do comportamento superficial
dos nossos relacionamentos e compreender as dinâmicas familiares
envolvidas.
Quando os parceiros estão em relacionamentos miseráveis, mas são
incapazes de se separar, é principalmente porque eles projetam uma
figura paterna ou materna no outro. Quando sentimos que não
podemos viver sem o outro, estamos nos sentindo como uma criança,
indefesa que precisa de um pai e não podemos ver o parceiro
amoroso como um ser humano comum. Pelo contrário, este parceiro
é visto quase como um demônio ou um deus, com um total poder
sobre nós, algo bastante inadequado para uma relação entre iguais.
Em uma relação normal, sem essas projeções, pode parecer difícil
viver sem o outro, mas não impossível, e na verdade - quando a
separação realmente acontece - isso frequentemente vem como uma
surpresa o quão facilmente podemos nos afastar e ficar sozinhos.
Em uma sessão de constelação, às vezes é útil lembrar uma pessoa
sobre a natureza comum de um relacionamento adulto e ajudá-las a
sair das projeções de infância dizendo para o outro parceiro: "Eu
posso viver sem você e você pode viver sem mim".
O aprofundamento das relações
Nós demonstramos a necessidade de nos separarmos da família de
origem, a fim de ter um relacionamento mais profundo. Por
aprofundamento, eu quero dizer um relacionamento em que os dois
parceiros se desenvolvem e amadurecem como resultado de suas
experiências mútuas e, para entender como isso funciona precisamos
olhar para as origens da relação pai-filho e como a criança se
desenvolve em um adulto.
Na maioria das culturas tribais, o crescimento de um garoto jovem da
infância à masculinidade é marcado por rituais significativos e,
particularmente no momento da puberdade, quando a autoridade
sobre ele é transferida da mãe para o pai. Depois dessas cerimônias,
o menino já não pode mais dormir na mesma área que os parentes
do sexo feminino; ele abre mão da intimidade com a mãe e é
formalmente iniciado no mundo dos homens e não pode mais voltar
atrás.
Ele é agora um homem e tem de entrar na esfera dos homens. A
cerimônia de iniciação deixa a força masculina do pai disponível para
ele e agora ele recebe essa energia paterna e a toma para si como sua
própria. Isso faz dele um adulto maduro. Somente como um adulto
maduro ele está pronto para entrar em um relacionamento com uma
mulher.
Em nossa sociedade ocidental moderna, ritos de passagem são menos
óbvios, mas ainda existem. Um menino pode imitar um pai que corta
madeira, mexe com a mecânica de uma moto ou carro e prepara
apetrechos de pesca para ir ao lago local. São atividades superficiais
que espelham mudança interior e são uma maneira para um menino
trazer a força e a energia do pai para si mesmo.
Para uma menina, o processo é diferente. A menina também começa
a vida perto da mãe, mas, a uma certa idade, quando ela começa a
amadurecer, ela se move em direção ao pai, a quem ela idealiza e
reverencia. Ele se torna o foco da atenção da menina em crescimento,
que explora o despertar de sua sexualidade por meio do
relacionamento com ele - não há uma conexão sexual real entre eles,
mas ele é o primeiro homem na vida dela e é natural que, por meio
dele, ela conheça a atração homem-mulher. Ela começa até a seduzir
o pai, brincando com a energia masculina incorporada nele.
No entanto, apesar dessa atração, em uma certa idade, ela precisa
desistir da proximidade com o pai e voltar para a mãe. É uma espécie
de rendição para a mãe, um reconhecimento de que a mãe é a mulher
de seu pai e que ela deve desistir do seu namoro infantil com ele, se
ela quer reivindicar o seu próprio potencial como mulher.
Ela novamente honra a mãe como a mais importante dos pais - dessa
vez, de uma maneira nova. Por meio da mãe, ela se torna enraizada
na sua própria força feminina, recebe a energia feminina dela e
encarna a essência da feminilidade em seu impulso de buscar um
companheiro e se tornar mãe também.
Assim, para o menino, é um único movimento, se afastando da mãe
em direção ao pai. Para a menina, é um movimento duplo: se
afastando da mãe em direção ao pai e, em seguida, novamente de
volta para a mãe.
Demonstrando proximidade em uma sessão
É fácil demonstrar em uma constelação como a proximidade de uma
mãe ou de um pai pode perturbar a relação entre dois parceiros
amorosos. Por exemplo, um homem e uma mulher podem ser
colocados de frente um para o outro para representar um casal e, em
seguida, a mãe do homem pode ser colocada próxima dele, enquanto
o pai da mulher pode ser colocado próximo dela. Quando observamos
os representantes do casal, geralmente é fácil ver o desconforto deles;
ver como a energia do homem está preocupada com a mãe e ele não
está realmente disponível para a mulher, enquanto, do mesmo modo,
a preocupação da mulher é com o pai e ela não está realmente
interessada no seu homem.
Quando, porém, eu coloco o pai do homem atrás ou ao lado dele e a
mãe da mulher atrás ou ao lado dela, ambos imediatamente se
sentem mais fortes e mais interessados no parceiro. Eles veem um ao
outro como homem e mulher e têm mais respeito e atração entre si.
Como experiência, uma linha inteira de homens pode ser colocada
por trás do homem e uma linha inteira de mulheres atrás da mulher e
o efeito é um reforço notável das respectivas energias masculina e
feminina.
Essa simples demonstração mostra que é necessário para homens e
mulheres serem fortes o suficiente para criar um relacionamento
duradouro. Um homem precisa desistir da proximidade com sua mãe
e se aproximar do pai e uma mulher precisa desistir do seu pai e se
aproximar da mãe.
Então, desistir do pai do sexo oposto é um dos requisitos básicos para
o aprofundamento de um caso de amor. Quando fazem isso, o homem
se torna mais conectado à sua masculinidade e a mulher se torna mais
enraizada em suas qualidades femininas. Os dois aprendem com o
pai/mãe do mesmo sexo o que os faz incorporar plenamente a sua
identidade sexual.
Quando trabalho com um cliente sobre essa questão, rapidamente
torna-se evidente a partir do comportamento dos representantes,
onde está o problema e se uma pessoa foi capaz de se separar do seu
pai/mãe do sexo oposto ou se continuou a ser o "menino da mamãe"
ou a "menina do papai" - se ele, ou ela, tem sido capaz de honrar o
pai/mãe do mesmo sexo ou não.
Se uma mulher não consegue encarar um homem forte, isso indica
que ela pode precisar recorrer à mãe e receber a energia dela antes
de entrar mais fundo no relacionamento com o parceiro. Isso pode
levar tempo e indica o grau em que alguém está preparado para um
encontro maduro entre homem e mulher.
Ao aproximar-se de um parceiro, pode-se começar a ver como uma
determinada força está faltando e, em seguida, começar a explorar o
que precisa ser recebido dos pais, especialmente ao se aproximar do
genitor do mesmo sexo, ou se distanciar mais do genitor do sexo
oposto. Dessa forma, aprende-se também como se aproximar de um
parceiro amoroso e compreende-se o lugar apropriado dentro do
relacionamento.
Exercício
Este é um exercício de imaginação para ajudar o leitor a compreender
os efeitos da consciência e da culpa familiar e os conflitos que surgem
como resultado.
Certifique-se de que você está sentado confortavelmente, em um
local tranquilo e não será perturbado por cerca de 15 minutos. Feche
seus olhos.
Imagine que você vem de uma rígida família católica, em que seus
pais vão à igreja todo domingo. Porque você está agora na
universidade e está desenvolvendo suas próprias ideias, seus pais
relutantemente percebem que você vive um estilo de vida diferente
do deles. Recentemente, você se apaixonou por um colega, alguém
que você sente que pode se tornar seu parceiro ideal. Depois de se
encontrar algumas vezes, você descobre que ele ou ela vem de uma
família judaica, mas isso não importa muito para você.
Cenário 1:
Depois de várias semanas juntos, você quer apresentar o novo
parceiro amoroso aos seus pais e logo eles convidam vocês para um
jantar em casa. A data do encontro chega e você sabe que sua mãe
ou pai vai querer fazer algumas perguntas ao seu parceiro, sobre ele
e sobre a religião dele.
Como é esta sensação?
Imagine-se sentado à mesa do jantar.
Como você se sente quando você olha para os seus pais?
Como você se sente quando você olha para o seu amado?
Cenário 2:
Você evita falar sobre seus pais e nunca mais quer que seu parceiro
chegue perto da casa dos seus pais.
À medida que o seu relacionamento se desenvolve, pergunte a si
mesmo: como você se sente quando visita a casa dos seus pais e eles
perguntam sobre seu parceiro? Como você se explica?
Além disso, pergunte-se: como você se sente, em relação ao seu
parceiro, quanto ao futuro de vocês dois juntos? Como você vê isso
funcionando? Como você vai equilibrar esses dois mundos que você
está tentando manter separados?
Esse exercício vai ajudá-lo a ganhar uma compreensão de como a
consciência funciona e como a nossa consciência em relação à nossa
família de origem está frequentemente em conflito com a nossa
consciência em relação ao nosso parceiro.
Capítulo Doze
A evolução de uma relação
Em geral, uma relação de amor entre um homem e uma mulher se
amplia ao longo do tempo de um foco estreito como raio laser para
uma ampla expansividade. No início, os amantes estão focados um no
outro e tendem a esquecer o resto do mundo. Cada um olha apenas
para a pessoa amada, sentindo que aquela é a única pessoa na Terra
que pode trazer para ele, ou para ela, tudo o que sempre quis ou
precisou.
Nesse estado de lua de mel, afogados na intensidade de seus
sentimentos um pelo outro, os amantes consideram as outras pessoas
como intrusos indesejáveis em seu mundo privado. Eles podem
perder o interesse nos detalhes da vida cotidiana e tornarem-se cegos
a quaisquer obstáculos que exista no seu caminho. Os amantes estão
tão envolvidos com a outra pessoa que sentem o que o outro sente,
lutam pelos problemas do outro e se envolvem com tudo o que o
outro está envolvido. Eles experimentam a alegria quando o outro
está se sentindo alegre, a angústia quando o outro está angustiado;
eles querem estar com o amado o tempo todo, não se cansam dele e,
muitas vezes, se sentem perdidos sem ele.
Ellyn Bader e Peter Pearson, no livro "In Quest of the Mythical Mate"
(em uma tradução livre, "Em busca do parceiro mítico") chamam esse
estágio da relação amorosa de "estágio simbiótico" - o estágio de
união e identificação com a pessoa amada. Se duas pessoas vão
formar um vínculo e entender o que é se fundir com o outro, é
essencial que eles passem por essa fase de lua de mel da relação.
Nesta fase, podemos omitir as diferenças e ampliar as semelhanças.
Nós não vemos o outro como ele ou ela realmente é; ao contrário,
vivemos em um sonho. Há razões bioquímicas ocultas para isso:
enquanto estamos experimentando o "verdadeiro amor", o corpo está
ocupado liberando hormônios que ativam partes do cérebro
responsáveis pelo prazer e desativa aquelas partes responsáveis pela
lógica da tomada de decisão. Em outras palavras, o amor romântico é
estimulado por um processo biológico; é uma maneira de a natureza
manter os casais juntos o tempo suficiente para a vinda do bebê e a
alimentação inicial e, desse modo, assegurar a sobrevivência das
espécies.
Chamamos isso de "se apaixonar" ou "cair no amor" ("falling in love")
e, de algum modo, é um tipo de 'queda', porque nós tendemos a
perder todo o senso de proporção, nos perdemos em sonhos,
sucumbimos à nossa unidade biológica e nos rendemos às forças da
natureza. Essa queda no amor nos obriga a nos comportarmos
impulsivamente, muitas vezes nos leva a fazer mudanças em nossas
vidas que nenhuma outra força poderia nos convencer a fazer, como
desistir de um emprego estável, juntar todas as nossas coisas, dizer
adeus à nossa família e mudar para outro país, só para estar com a
pessoa amada.
No entanto, apesar de estarmos sendo conduzidos pela nossa
biologia, isso não significa que o amor romântico não tem
significância. Afinal, ele pode muito bem ser a nossa primeira
experiência de dissolução, de separar-se do "eu". Estar em harmonia
com o amado é provável que seja nossa primeira experiência de largar
as fronteiras do nosso ego, das nossas defesas psicológicas, da nossa
armadura protetora e fundir-se com algo maior que nós mesmos.
Fazer amor neste estado pode oferecer uma experiência mística e
extática, na fronteira da percepção do Tantra, o caminho espiritual
indiano que ensina que, por meio da união sexual profunda, os dois
parceiros podem obter um vislumbre do eterno. No orgasmo,
podemos entrar em um espaço interior de meditação que pode ser
um incentivo para seguir com o crescimento espiritual individual
depois que a fase romântica deste relacionamento terminar.
Quando a lua de mel acaba
Acordar da fase de lua de mel de um relacionamento amoroso pode
ser uma experiência abrupta e decepcionante, especialmente quando
o equilíbrio hormonal é restaurado no cérebro e o processo racional,
de tomada de decisão se reafirma. Em vez de olhar por meio de óculos
escuros rosa, que veem apenas os aspectos bonitos da pessoa amada,
gradualmente nós tomamos consciência das falhas e defeitos do
outro. Pode ser difícil, de repente, ver que a pessoa que você ama
apaixonadamente é tão cheia de imperfeições humanas como você.
Às vezes, o contraste é tão drástico que você pode achar que o outro
mudou, ou talvez enganou você de alguma forma, ou até mesmo traiu
você. Esse é o momento em que as pessoas que estão habituadas a
trocar de parceiro costumam levar o romance ao fim, de modo que
podem ter a oportunidade, em algum momento futuro, de se
apaixonar novamente e reativar a experiência que a mudança
hormonal gera.
Por outro lado, esse é também o momento quando algo mais real e
duradouro pode começar. É só agora que você realmente começa a
aprender a amar de uma forma madura. Durante a fase de lua de mel,
tudo é fácil, porque pouco é exigido de você; a biologia do corpo está
fazendo a maior parte do trabalho por você.
Mas, agora, você começa a encontrar o outro de novo, como pela
primeira vez - reconhecendo os lados bons e os lados ruins, os
aspectos bonitos e feios. Agora, você está explorando viver junto,
crescendo de modo mais íntimo com esse estranho.
À medida que o relacionamento vai além da lua de mel, os parceiros
começam a restabelecer os seus limites e perceber maneiras pelas
quais eles não são iguais. Bader & Pearson chamam essa fase de
"diferenciação". Os autores comparam as fases de um relacionamento
amoroso ao desenvolvimento de uma criança que se move de uma
junção simbiótica com a mãe para uma sensação de separação,
tomando gradualmente mais distância da mãe e expressando seus
desejos e preferências, os quais podem ser diferentes dos nutridos
pelo pai ou pela mãe.
Do mesmo modo, uma relação saudável precisa ser capaz de se
desenvolver a um ponto em que possa conter uma grande variedade
de conflitos e diferenças. Os parceiros têm de aprender a amar as
peculiaridades do outro e aceitar o que, a princípio, não gostavam.
Hellinger cunhou a expressão "amor à segunda vista", que define
perfeitamente essa fase do relacionamento. Amor à segunda visão
não é biologicamente motivado; portanto, é menos apaixonado,
menos dirigido, menos fora de controle. Ele pode começar com
desapontamento, mas é uma realização pessoal para ambos os
parceiros superar esse obstáculo e dar um passo consciente para um
novo nível de harmonia.
Depois de "cair no amor", podemos chamar essa fase de "ascender no
amor". Nós ascendemos em relação aos nossos sonhos, nossas
desilusões e diferenças, expandindo nossas capacidades de incluir em
nosso coração alguém muito diferente de nós mesmos. Agora, você
olha para o seu parceiro revigorado. Você não o vê como gostaria que
ele fosse, mas como ele realmente é, e isso também pode significar
reconhecer os limites do que ele pode oferecer quanto ao
cumprimento das suas expectativas. Você se torna consciente de que
alguns aspectos da sua vida podem ser facilmente compartilhados,
mas em outros o seu parceiro é muito diferente de você e o fazer
junto nessas áreas pode não ser possível.
Para muitas pessoas, é muito difícil dar um passo, é também um
grande desafio. Elas não conseguem suportar passar por essa
discórdia e lidam com isso se separando ou virando a relação no que
Bader & Pearson chamam de "casal hostil-dependente", em que
ambos os parceiros não gostam um do outro, culpam o outro pela
infelicidade deles, mas não querem enfrentar a vida sozinhos, fazem
concessões e concordam em continuar vivendo juntos.
Expandindo no amor
A fim de continuar, uma relação amorosa tem de crescer no sentido
de ser mais inclusiva, não exclusiva. Tem que expandir e abraçar mais
gente. Pode-se ver que, quando um relacionamento amadureceu, as
outras pessoas não são mais vistas como ameaças à intimidade, mas,
ao contrário, são convidados a participar. Afinal de contas, um
relacionamento é projetado pela natureza para fornecer uma
atmosfera de nutrição para a criança crescer e nada é mais "intrusivo"
do que um bebê recém-nascido. Quando esse novo ser entra no
mundo dos pais, o isolamento e a privacidade que eles aproveitavam
como casal são perdidos para sempre. Agora, os parceiros trouxeram
outra pessoa para suas vidas e a relação se expandiu.
É por isso que a chegada de uma criança normalmente ajuda a relação
a se desenvolver - o casal encontrou uma nova razão para estar junto.
Isso lhes deu uma causa comum para o amor e a criatividade deles,
permitindo-lhes se mover mais fundo em conhecer um ao outro. Para
os parceiros sem filhos, muitas vezes é mais difícil sustentar essa fase
de um relacionamento. Para continuar crescendo e evoluindo, eles
podem achar necessário criar um projeto comum juntos, tal como um
empreendimento de negócios.
Quando um cliente coloca dois representantes em uma constelação
para indicar a dinâmica de um relacionamento amoroso, cada imagem
indica uma situação específica. Por exemplo, se os dois são colocados
de um modo que eles estão olhando para outro lugar, isso pode
significar que eles não estão tão interessados um no outro, mas estão
preocupados com uma terceira pessoa, que pode ter que ser trazida
para a imagem - talvez um parceiro anterior ou alguém da família de
origem.
Tipicamente, no entanto, os amantes são colocados olhando um para
o outro, um de frente para o outro, porque, como descrito
anteriormente, o principal interesse deles é eles mesmos e eles não
veem ninguém mais. Mas essa absorção com o outro pode não durar
para sempre e, se os parceiros que estão juntos há muito tempo são
colocados frente a frente por um cliente, isso poderá indicar que ele,
ou ela, está passando por um sério conflito dentro do relacionamento.
Por outro lado, se eles se tornaram literalmente "parceiros" no sentido
de se unirem em um projeto ou objetivo, talvez sendo pais de uma
criança ou executando um negócio, eles irão geralmente ser
colocados próximos um do outro, olhando juntos na mesma direção
para alguém ou para alguma coisa. Desse modo, eles se apoiam e o
foco deles não é mais o outro, mas algo além de ambos.
Quando os filhos do casal são colocados em uma constelação, eles
geralmente são mais felizes e satisfeitos quando veem seus pais ao
um lado do outro e eles gostam de estar perto deles. Se eles veem os
pais de frente um para o outro, eles muitas vezes se sentem mais
seguros quando estão atrás e mantêm alguma distância dos pais.
Por exemplo, em uma constelação, o cliente colocou os pais de frente
um para o outro e em um sério conflito. Os dois filhos foram
colocados muito perto dos pais, quase no meio deles e estavam
claramente tensos e infelizes nesta posição. O terapeuta guiou os
filhos a darem alguns passos para trás dos pais e lá eles puderam
respirar mais profundamente, se olharam e sorriram, experimentando
um forte sentimento de alívio. Com os filhos fora do caminho, os pais
foram obrigados a olhar para o outro e lidar com algo que, até aquele
momento, foram capazes de evitar com a ajuda dos filhos.
Reconhecendo as limitações
Pode-se descrever o desenvolvimento de uma relação como passando
de um estado inicial de fantasia para uma atitude mais perto do chão;
ou seja, a relação gradualmente se torna mais enraizada na realidade.
Como mencionado anteriormente, isso pode ser um processo
doloroso, mas também pode trazer uma experiência acolhedora de
relaxamento, quando os dois parceiros podem agora largar seus
esforços para fazer com que as coisas funcionem, o que é
essencialmente uma ilusão - e, afinal de contas, sustentar um alto
nível de excitação pode ser um fenômeno muito extenuante.
Robert, um homem de 30 e poucos anos que tem uma parceria
amorosa, vem para um aconselhamento, porque acha que a mulher
não está tão disponível quanto ele imaginava que ela seria quando se
conheceram. Ele é relutante em desistir do alto grau de expectativa
que sentiu durante a fase de lua de mel e agora está ressentido c om
ela. Durante o curso da sessão, no entanto, ele percebe que lidar com
a frustração por conta própria, sem exigir constantemente a presença
do outro, está trazendo a ele uma inesperada força interior. Ele
começa a entender que estava projetando a mãe em sua mulher e, à
medida que essa projeção se dissolve, ele percebe que ela precisa
conduzir com a sua própria vida e isso dá a ele a liberdade para
conduzir a própria vida também.
Neste tipo de situação, cada pessoa em um relacionamento tem que
descobrir de novo o que ele, ou ela, realmente quer e onde há um
solo comum para a união. Onde um casal tem falado de "nós" antes,
agora eles começam a usar "eu" com mais frequência. Na verdade,
deve haver um certo equilíbrio entre "nós" e "eu". Há coisas que um
casal tem em comum, representadas pelo "nós" e há coisas que
pertencem ao indivíduo sozinho; daí, a necessidade do "eu". Se os
casais só falam de "nós", estão geralmente emaranhados um com o
outro e emaranhados nos assuntos de suas famílias de origem, e se
eles falam apenas do "eu", podem estar tentando manter-se a uma
distância segura um do outro, porque ambos estão com medo de
perder suas identidades.
Tanto o "nós" quanto o "eu" precisam estar presentes em uma relação
saudável, indicando a habilidade de fundir-se e perder a si mesmo,
simultaneamente, a capacidade de manter os seus próprios limites e
um senso adequado de identidade separada. Em uma situação ideai,
pode-se dizer que dois indivíduos integrados que encontraram
satisfação em suas próprias vidas desenvolveram um vínculo que é
igualmente nutritivo e inspirador.
É claro, nem toda relação se desenvolve desta maneira. Se um homem
ainda está ligado à sua mãe, ele pode não ter força para tolerar o fato
de que sua esposa não parece estar preenchendo todas as
necessidades dele. Ou, se uma mulher ainda está apaixonada pelo o
pai, ela pode ficar incomodada se o seu homem não está se
comportando mais como o Príncipe Charmoso a maior parte do
tempo. Nesses tipos de situações, muitas vezes os amantes
encontram parceiros que se encaixam um com o outro: a "Princesinha
do Papai" vai encontrar o "Principezinho da Mamãe" e nenhum deles
estará totalmente disponível para o parceiro.
Por outro lado, se um deles começa a se tornar mais maduro dentro
da relação - digamos que a "menina" do papai começa a crescer e se
torna uma mulher -, então, o outro parceiro também precisa crescer
se o relacionamento tiver de continuar. É preciso dois para dançar
tango, como diz o velho ditado, e cada um de nós é 50% responsável
pelo que acontece dentro de qualquer relação amorosa.
O amor como uma dança é uma bela metáfora. Quando um parceiro
avança, o outro deve recuar; quando um indica um movimento para a
direita, o outro deve mover-se para a esquerda, para permanecer em
harmonia com ele. Assim, entre os casais, há um intercâmbio
constante entre autoafirmação e rendição, avanço e recuo,
desenhando um limite pessoal e sendo complacente com o outro.
Essa dança de energia para frente e para trás precisa ser um
movimento constante nos dois sentidos se o relacionamento tiver de
sobreviver.
Sempre que casais se juntam numa relação eles experimentarão que
o seu amor tem limitações. Uma vez que eles aceitem essas limitações,
o relacionamento pode funcionar de uma forma realista e contínua.
Além disso, como cada pessoa resolve questões relacionadas com a
sua família de origem, a capacidade mútua de se relacionar livremente
dentro do relacionamento irá crescer e o amor deles pode
amadurecer.
Claudia, uma sul-americana de 30 e poucos anos, está preocupada
porque os filhos estão carregando os problemas dela. Em uma
constelação, ela coloca o marido e ela mesma próximos um do outro
e os dois filhos bem na frente deles, mas virados de costas para eles,
então todos eles ficam como um grupo, olhando na mesma direção.
O pai e a mãe se sentem desconfortáveis.
Depois de pedir mais informação, soubemos que a mãe de Claudia
estava sofrendo de esquizofrenia por 20 anos. Colocamos a mãe dela
na constelação e Claudia imediatamente chorou profundamente e a
abraçou.
Colocamos as crianças ao lado do casal, juntos, onde eles se sentem
melhor. Agora, os pais ficam frente a frente e a mãe de Claudia está
perto dela. O marido se sente confuso e nós soubemos que, na
família, o pai tinha um irmão esquizofrênico. Quando colocamos o pai
ao lado dele, ele se sente melhor, mas não consegue ir para muito
perto da esposa.
Quando ambos reconhecem o que eles carregam pelos pais, vendo
que esse emaranhamento não permite que eles cheguem muito perto
um do outro, há uma nova sensação de equilíbrio e relaxamento entre
eles. Ambos concordam em manter uma certa distância, respeitando
o outro e compreendendo o que cada um faz para o pai ou a mãe.
Em outro passo, convidamos Claudia a reconhecer o sofrimento da
mãe, agradecer a ela e, em seguida, se afastar dela; dessa forma,
experienciando isso, ela consegue deixar o sentimento de que precisa
ajudar a mãe. Claudia diz à mãe: "O que você fez para mim foi o
suficiente e eu agradeço por isso. Eu me cuido muito bem. Tenho dois
filhos e sou muito orgulhosa deles". Então, ela olha com orgulho para
os filhos, com um sorriso e sem a preocupação anterior de que ela
estava passando os seus problemas para eles.
Amor desigual
Em um relacionamento em que os parceiros estão vivendo em sonhos,
pode, ou não, ser um problema. Mas se um está sonhando e o outro
está se tornando mais alerta e consciente, certamente haverá
problemas. Se eles permanecerem juntos, agora existem duas
possibilidades: ou o parceiro menos maduro irá se inspirar pelas
mudanças no outro e vai querer se desenvolver, ou o mais maduro vai
começar a recuar e fazer concessões - a segunda opção é mais
provável de acontecer se o medo de separação for muito grande. A
verdadeira maturidade, entretanto, significaria tornar-se menos
temeroso da separação, mais pronto para apoiar-se em si mesmo.
Para uma relação de amor contemporânea funcionar e ser saudável,
é evidente que, após a lua de mel, a relação não deveria ser a principal
preocupação na vida dos parceiros, porque isso colocará o outro em
um pedestal muito alto, o que significa que você vai esperar muito
dessa pessoa e também sentir que vai precisa dar muito em retorno.
Consequentemente, você vai ver seu parceiro e você mesmo aquém
de suas expectativas, criando uma sensação de frustração contínua
que vai destruir o relacionamento.
Colocando de outra forma: quanto mais você coloca um parceiro
amoroso acima de você, mais você o está vendo como seu pai. Por
conseguinte, uma relação entre duas pessoas "extraordinárias", que
elevam uma a outra, vendo-se como Romeu e Julieta, ou o Príncipe
Encantado e a Cinderela, provavelmente não vai durar muito tempo,
mas duas pessoas comuns com defeitos comuns têm uma boa
possibilidade de se desenvolver juntas.
Se um cliente vem para um aconselhamento com o problema de se
separar do parceiro amoroso, a decisão sobre o que fazer geralmente
se concentra no que é importante para o crescimento deles. É melhor
para eles ficarem juntos e passarem por quaisquer dificuldades que
estão experimentando atualmente? Eles devem tentar desenvolver
habilidades para lidar com o conflito, juntando forças para se manter
sozinhos, enquanto permanecem no casamento? Ou devem
reconhecer que todo relacionamento está fadado ao fim, mais cedo
ou mais tarde, e aceitar o fato de que os caminhos deles agora levam
a direções diferentes - que eles se separaram um do outro?
Mudar de parceiros quando um obstáculo aparece é tão infantil
quanto se apegar ao outro quando o amor acabou e as duas situações
mostram uma ligação com um dos pais. Em muitos casos, vemos que
o homem está se agarrando à mãe, ou a mulher ao pai.
Pela própria natureza, o amor é um fenômeno em mutação e o amor
entre um homem e uma mulher muda mais do que qualquer outro
tipo. O amor entre pais e filhos é biológico e, portanto, mais estável.
Não é uma escolha nossa; é dado pelo nascimento, por isso, não
somos livres para mudá-lo. Mas a relação entre um homem e uma
mulher surge da livre escolha. Nós escolhemos isso para nós mesmos
e é por isso que é tão frágil, porque o mesmo mistério que nos juntou
pode nos separar a qualquer momento. Essa fragilidade é uma das
principais razões pelas quais o amor cria tanta ansiedade - algo tão
frágil é facilmente quebrado.
A linha fundamental para qualquer relação de amor deve ser: quando
não podemos mais crescer em uma relação, esta é a hora da
separação.
Reconhecendo ex-parceiros
É uma grande arte separar-se no fim de um relacionamento amoroso
sem ficar com raiva nem ceder a um comportamento repulsivo. Isso
significa que vocês estão cientes de que as coisas mudaram,
reconhecem e aceitam a nova situação e concordam em seguir
caminhos separados.
Nesse momento delicado, é importante ver onde está a sua
responsabilidade pelo fim do relacionamento e carregar esta
responsabilidade na quantidade exata, nem mais nem menos.
Carregar menos significa comportar-se como uma criança e culpar o
outro pelo que aconteceu; carregar mais significa tomar uma
quantidade injusta de responsabilidade e dar nenhuma ao parceiro,
tratando-o como uma criança.
Vale lembrar que nenhum relacionamento futuro realmente
funcionará se você carregar resíduos do passado. Da mesma forma
que você pode se agarrar aos seus pais de uma forma negativa, culpar
um ex-amor é apenas uma maneira de se segurar em algum tipo de
ilusão - "se apenas ele, ou ela, se comportasse de forma diferente,
nós ainda estaríamos juntos".
Lin Shu, uma mulher de Taiwan, tem dois filhos, um rapaz de 21 e uma
garota de 17 anos, do primeiro marido, e ela agora vive com eles no
segundo casamento, enquanto ainda carrega ressentimento do
primeiro marido. Em uma entrevista na pré-sessão, nos informamos
que a mãe cometeu suicídio quando ela tinha dez anos.
Quando colocamos a constelação, o primeiro marido estava fora da
figura e, portanto, excluído, enquanto o segundo homem se coloca
numa posição como se fosse o pai dos filhos dela. O representante da
cliente fica como uma criança, perto dos filhos e ambos os filhos e o
homem se sentem muito desconfortáveis.
Quando trazemos o primeiro marido para dentro da constelação e o
colocamos na frente do grupo inteiro, todo mundo se sente aliviado.
No trabalho que segue, ajudamos Lin Shu a reconhecer o primeiro
marido, a quem ela excluiu, e assumir a responsabilidade de não estar
disponível para ele, devido ao fato de que ela inconscientemente
queria seguir a sua mãe na morte. Essa nova compreensão ajuda tanto
a cliente quanto ao primeiro marido a se abrir um para o outro
novamente e remover qualquer culpa residual pela forma que relação
terminou.
O próximo passo é ajudar Lin Shu a assumir a responsabilidade como
mãe, que é exatamente o que a mãe dela não pôde fazer - daí, o
suicídio dela - e aqui vemos como os padrões de comportamento
tendem a se repetir de geração em geração. A filha está, na verdade,
seguindo a mãe, da mesma forma que a mãe seguiu algum membro
anterior da família.
Para dar força a Lin Shu, precisamos ajudá-la a emergir da raiva contra
a mãe e deixá-la ir com amor e isso se torna possível quando ela
reconhece totalmente o emaranhamento da própria mãe na família
anterior dela. No curso desse processo, verificamos regularmente com
as crianças para ver se elas estão sentindo algum alívio e se elas
podem começar a confiar na mãe. A reação das crianças nos dá uma
indicação clara se a sua mãe é ou não é realmente capaz de ser
responsável e cuidar deles.
Essa constelação mostra como um relacionamento pode terminar por
causa do que se carrega da família de origem. Além disso, deixa claro
que a cura tem de acontecer agora, no presente, e o alívio vem por
meio do reconhecimento do emaranhamento de cada parceiro com o
passado.
Renée é uma norte-americana de 42 anos, que foi casada e agora está
separada do marido. A filha tem 13 anos e ficou com o pai após a
separação. O marido já tinha três filhos de um casamento anterior
antes de se unir com a cliente. Renée foi dada para adoção pela
própria mãe aos quatro meses de nascida.
A colocação de representantes mostra que a filha de Renée é muito
"grande" nessa constelação e está irritada com ambos os pais. Ela se
comporta em relação ao pai como uma amante irritada, identificando-
se com a primeira esposa do seu pai e também sente raiva de Renée,
nossa cliente, por deixá-la - desse modo, replicando os sentimentos
de Renée em relação à própria mãe.
À medida que a sessão progride, incluímos a primeira esposa do pai,
que relaxa a filha, especialmente depois que o pai reconhece seu amor
por essa mulher. Em seguida, a mãe, nossa cliente, também honra a
mulher, reconhecendo-a como a primeira esposa do seu marido: "Eu
a respeito como a primeira. Por favor, olhe amigavelmente para a
minha filha".
Em outro passo, ajudamos Renée a se reconciliar com a mãe biológica,
agradecendo-lhe por ter-lhe dado a vida e, em seguida, se
distanciando dela pela concordância com a decisão da mesma de doar
a filha. Então, ela consegue se mover para a mulher que é sua mãe
adotiva.
Olhando para a filha, Renée diz: "Eu mantive você" e "Eu também
estava com raiva da minha mãe, em princípio". Isso dá força a el a e
ajuda a filha a sair do ressentimento em relação a Renée.
No fim, a nossa cliente foi capaz de olhar para a filha com orgulho. A
filha está agora curtindo a sensação de estar perto da sua mãe e fica
claro que seria melhor para a filha viver agora com a mãe.
Esse caso mostra a importância de honrar um ex-parceiro e ilustra
como ambos os parceiros tinham um assunto inacabado que não
permitia que o relacionamento continuasse. Nós também vemos
como uma criança em uma família - a filha de Renée - identifica-se
com um ex-parceiro de um dos pais. O parceiro antigo sofreu uma
perda e a consciência coletiva tenta equilibrar isso; então, um filho de
um casamento posterior se sente designado a representar o ex-
parceiro e tende a se comportar como um amante irritado ou
decepcionado com o pai.
Aqui, vemos duas razões pelas quais o relacionamento de Renée não
continuou:
1) Renée, como segunda esposa, sente lealdade à parceira anterior do
marido e, como resultado, não se permite tê-lo totalmente - isso
acontece muitas vezes quando há filhos do primeiro casamento.
2) Ela escolheu um homem que não está totalmente disponível,
refletindo o fato de que ela mesma não está totalmente disponível,
porque ela permaneceu ligada à mãe biológica, que a doou. Isso
também parece ser a razão pela qual ela não ficou com a filha após a
separação, porque ela estava sentindo falta da força maternal.
O principal trabalho aqui para a nossa cliente é agradecer à sua mãe
que deu à luz e deixá-la ir. As outras etapas, em seguida, tornam-se
relativamente fáceis: pedir a primeira mulher para ser amigável com
sua filha, agradecer ao homem por ter um filho dele, reconhecer o
fato de que ambos não estavam totalmente disponíveis e, finalmente,
tornar-se pronta para apoiar a filha como mãe.
Separar-se tranquilamente
Para se separar de forma pacífica e com amor de um ex-parceiro, um
cliente precisa encontrar uma maneira de se sentir grato a essa
pessoa. Isso se torna possível se o cliente consegue reconhecer o que
aconteceu de uma forma verdadeira e realista e está pronto para
assumir a responsabilidade da sua parte. Se a verdade for expressa,
se os fatos são vistos como eles são, vai ser um alívio para ambos os
parceiros, como vimos nos exemplos acima.
Em outros casos, eu posso pedir a um cliente para dizer a um ex-
parceiro: "Eu sou grato pelo tempo que passamos juntos e agradeço
a você pelo que você me deu - isso vai ficar comigo. E tudo o que eu
dei a você, eu dei com amor e você mantém. Deixo com você a
responsabilidade pelo que deu errado entre nós e carrego comigo a
minha responsabilidade. Agora, eu deixo você ir e você, por favor, me
deixe ir também".
Outras vezes, eu posso pedir para a pessoa dizer: "Eu honro o que
guia você e eu honro o que me guia", referindo-se a uma força maior
que move a nossa vida em uma certa direção, ou talvez referindo-se
a emaranhamentos dentro da família de origem.
Às vezes, eu convido o cliente a ficar de frente ao ex-parceiro e, de
forma espontânea, sentir o que precisa ser expresso, a fim de honrar
o amor que um dia existiu entre eles. A resposta do representante
para o ex-parceiro nos dá uma indicação sobre se o cliente está sendo
sincero. Se um ex-parceiro se sente reconhecido, ele geralmente está
pronto para deixar qualquer apego e se move fora da cena.
Essa é uma forma amorosa de se separar. Essas experiências nos
mostram que uma atitude amorosa pode continuar entre os ex-
amantes, mesmo depois de terem seguido os seus próprios caminhos
- o amor nada tem a ver com estar juntos ou separados. Estar em um
relacionamento e estar no amor não são sinônimos, e isso se mostra
em uma relação entre pais separados: eles tiveram filhos; então, eles
vão sempre estar fortemente vinculados, embora eles não estejam
mais em uma relação. A experiência de muitas sessões mostra que é
possível se separar completamente somente quando o amor for
reconhecido. Em outras palavras, o verdadeiro amor dá liberdade.

Capítulo Treze
Ter filhos
A evolução da relação entre um homem e uma mulher é impulsionada
por seus instintos naturais na direção de ter filhos. O impulso mais
básico da natureza é na direção de sustentar a vida e assegurar a
sobrevivência das espécies, de modo que homens e mulheres devem
se encontrar e formar vínculos a fim de criar vida nova... em outras
palavras, ter bebês.
É o vínculo entre o homem e a mulher que assegura o bem-estar da
criança, razão pela qual uma força poderosa e coesiva está
relacionada ao sexo, não ao amor. O vínculo garante que a mãe e o
pai vão ficar juntos o tempo suficiente para suprir a nova criança, que
não pode sobreviver por conta própria, que depende da atmosfera de
nutrição fornecida pelos pais.
Não é só a criança que cresce nesse ambiente. A criança também
ajuda aos pais a crescer, no sentido de que eles são obrigados -
simplesmente pela chegada de um novo membro na família - a incluir
outra pessoa no relacionamento, para expandir e ir além de si
mesmos; além do que eles, pessoalmente, queiram, gostem ou não
gostem. A decisão de ter um filho, ou vários filhos, vai moldar toda a
vida deles. Eles se deixam tornarem-se um veículo de uma força maior
de vida, e concordando com todas as consequências desta decisão,
eles podem crescer além dos limites pessoais e ganharem força.
Os parceiros que decidem não ter filhos não experimentam o mesmo
impulso biológico para se expandir, mas eles podem atingir uma
expansão similar e se fortalecer de outras maneiras, como dedicando-
se a um grande projeto ou a um caminho espiritual. A motivação
principal é que eles estejam prontos para se dedicar a algo para além
dos seus desejos pessoais - talvez algo que eles sintam no fundo de
seus corações - e deixem-se guiar por isso. Em seguida, eles também
se expandem.
Quando olhamos para a relação pai-filho em capítulos anteriores, foi
do ponto de vista da criança. Agora, olhamos para o mesmo
fenômeno a partir do ponto de vista do pai. De certa forma, é a mesma
perspectiva: a criança tem de ser uma criança, um pai tem de ser um
pai; as mesmas leis da Constelação Familiar se aplicam. Mas o desafio
em ser um pai é muito diferente. Um pai é obrigado a permanecer na
sua força própria e assumir a responsabilidade de ser um pai ou uma
mãe, o que significa dar-se incondicionalmente à criança. Quando isso
acontece, a criança está à vontade e não precisa carregar nada pelos
pais; ela pode simplesmente receber o que os pais lhe dão. Dessa
forma, ao longo do tempo, ela se tornará plena e, em seguida, como
um adulto, será capaz de transmitir aos seus filhos o que foi dado a
ela. É o ciclo natural de manter a vida de geração em geração e um
modo natural de salvaguardar as espécies.
Por outro lado, se os pais têm filhos, principalmente por outras
razões, tais como, por exemplo, um desejo por parte da mulher de
segurar um determinado homem ficando grávida dele, como uma
forma de ligá-lo a ela, ou se um, ou os dois parceiros, quer ter filhos
como uma forma de evitar uma sensação de falta de sentido na vida,
as chances são de que eles mesmos sentem falta de alguma coisa de
seus pais. Como resultado, eles vão querer receber dos próprios filhos
o que não receberam quando ainda eram crianças.
Como já vimos, as crianças são muito sensíveis às necessidades dos
pais e, por um profundo e poderoso instinto de pertencimento, estão
prontas para fazer qualquer coisa por eles. Assim, vão tentar dar aos
próprios pais, o que significa que não estão no seu lugar de direito
como crianças, de acordo com a ordem familiar. Desse modo, elas
permanecem vazias e depois, quando crescerem, vão querer receber
dos seus filhos e assim por diante... Dessa forma, as cargas do passado
são transmitidas de geração em geração.
Quando os pais assumem as suas responsabilidades e são capazes de
experimentar a sua própria força como doadores, eles vão se sentir
confortáveis em seus papéis de mãe e pai e seus deveres de pai
acontecerão facilmente para eles. Eles não vão se preocupar muito
sobre ser uma boa mãe ou bom pai; eles vão encontrar satisfação em
dar ao filho e, como resultado, o filho normalmente ficará satisfeito e
bem orientado. Quando, no entanto, os pais se preocupam
continuamente em serem bons demais, a criança é compelida a
perceber isso e vai também se sentir insegura e desconfortável.
Outro ponto importante a lembrar é que uma criança essencialmente
recebe metade dos seus dons do pai e metade da mãe. Nesse sentido,
a criança incorpora os pais. Isso significa que, quando um pai ama um
filho totalmente, ele deve, ao mesmo tempo, amar o outro parceiro,
porque o parceiro está presente na criança a quem ele ama. Não se
pode odiar o parceiro e verdadeiramente amar uma criança que é o
resultado de um encontro sexual com esse parceiro.
Quando, em um estudo de caso anterior, uma mulher diz: "Casar-se
com este homem foi um erro", uma consequência da sua atitude é
que ela expressa também a antipatia pelo próprio filho. Essa é uma
das implicações de um relacionamento em que o amor não foi
reconhecido e tem de ser evidente para os clientes que vêm a sessões
de Constelação Familiar com esses tipos de problemas. Examinamos
no capítulo anterior como as crianças representam antigos parceiros
dos pais e isso é porque algum reconhecimento do amor ainda está
faltando.
A razão pela qual todo filho quer que os pais fiquem juntos é que ele
se sente inteiro; ele não precisa dividir lealdades. É claro, isso não
significa que os pais nunca devem se separar, mas certamente
significa que, se eles realmente amam seus filhos, eles vão manter um
sentimento de amor e gratidão pelo ex-companheiro. Então, uma
criança fica à vontade, mesmo que seus pais não continuem na
relação amorosa - nós vimos exemplos disso no capítulo anterior.
Outro ponto importante é que, tendo um filho, o homem e a mulher
dizem o último adeus aos seus próprios pais, porque agora eles
mesmos assumem esse papel. Se eles não derem esse passo, eles não
estarão realmente disponíveis como pais para seus filhos e,
consequentemente, os filhos podem ser levados a assumir os destinos
da família de origem dos pais.
Patrícia, uma cliente de Sidney, na Austrália, é mãe de duas filhas.
Quando colocamos a família atual dela na constelação, as filhas estão
olhando para algo, ou alguém. Uma olha para baixo, a outra olha para
cima e as duas olham para longe da mãe, que está olhando para elas.
Perguntada sobre o que aconteceu na sua família de origem, Patrícia
nos diz que a mãe e o pai perderam duas irmãs cedo. Quando nós
trazemos essas tias mortas e as deitamos no chão, as duas filhas de
Patrícia se sentiram muito atraídas por elas.
Conforme a sessão progride, vemos que a mãe da cliente queria
seguir suas duas irmãs na morte. Mas a filha, Patrícia, está dizendo:
"Eu faço isso no seu lugar", e as filhas da cliente agora estão dizendo
a ela: "Fazemos isso no seu lugar".
Nesse ponto, Patricia não está pronta para deixar a mãe com a dor
que ela sofreu com a perda das duas irmãs; a cliente continua
determinada a tentar ajudar a mãe, mesmo quando a consequência é
clara que as suas duas filhas estão sendo atraídas para a morte e são
incapazes de viver plenamente as próprias vidas.
Depois de ver essa dinâmica e a incapacidade da cliente de ir além
disso, nós interrompemos a constelação.
Em um momento posterior, conseguimos continuar o trabalho e
pudemos completar o movimento que foi iniciado. Patrícia está
pronta para se curvar diante da mãe, honrá-la e deixá-la ir para as
irmãs mortas, dizendo: "Eu deixo você ir para as suas irmãs e eu vou
ficar com minhas filhas". Agora ela encontra forças para enfrentar as
filhas, dizendo-lhes: "Eu sou a sua mãe e vou ficar com vocês". Ela é
capaz de resistir à sua tendência de colapsar no choro, o que tem sido
o seu padrão durante as duas sessões, e agora está feliz por abraçar
as suas filhas.
Vemos aqui o conflito de uma mãe, dividida entre a própria mãe e os
filhos. Por fim, é o amor pelos filhos que a ajuda a dizer adeus à sua
mãe e a permanecer com eles, como uma mãe no seu direito. Assim,
ser pai pode ajudar as pessoas a tornarem-se maduras e deixar para
trás um emaranhamento com um membro da família de origem,
tornando-se uma pessoa integrada.
Dessa forma, ter uma criança pode ser um desafio. Pode fazer você
enfrentar questões não resolvidas no seu sistema familiar, chegar a
um acordo com a realidade e ajudá-lo a encontrar os seus recursos
para ser pai, cuidar e alimentar. Pode ser um convite para que você
se distancie dos apegos infantis e lhe ajude a tornar-se maduro. Tudo
depende do indivíduo e se ele, ou ela, pode crescer para o desafio.
Uma implicação importante dessas leis do sistema familiar é que os
pais precisam assumir a responsabilidade de tomar certas decisões e
agir em nome dos filhos sem sentir a necessidade de consultá-los.
Hoje em dia, vemos muitas vezes exemplos de pais que são incapazes
de decidir, porque eles carecem de uma certa força e integridade;
então, perguntam às crianças o que elas querem, pensando que isso
é útil para elas, quando, na verdade, estão simplesmente indicando
uma falta de força e de responsabilidade dos pais.
Esse é um ponto delicado. Não estamos aqui defendendo qualquer
sistema de educação autoritário nem um retorno aos dias em que "as
crianças deviam ser vistas e não ouvidas", mas as tendências sociais
oscilam de um extremo ao outro, do pró-autoritário ao antiautoritário
e retornam novamente. Quando pais tomam uma decisão, deve ser
verdadeiramente a favor da criança e uma das coisas que se torna
evidente em uma constelação é se os pais veem apenas a si mesmos
e os seus problemas - estando emaranhados no passado - ou se eles
realmente podem ver a criança e estão agindo com responsabilidade.
As crianças são geralmente muito jovens e imaturas para fazer
escolhas de decisão de vida e, se forem consultadas, tudo depende
se elas são realmente capazes de compreender o problema e fazer
uma escolha verdadeira. Por exemplo, se os pais estão se separando,
a criança geralmente não deve ser chamada a tomar uma decisão
como com quem ela quer morar. É como perguntar a uma criança: "A
quem você ama mais?", colocando-a em uma situação insuportável.
Se os pais decidem com quem a criança deve morar, ela pode
permanecer inocente e pode continuar a amar igualmente ambos os
pais. Perguntar à sua filha se ela prefere ir com você, ou com o pai, é
uma situação muito perturbadora para uma criança de qualquer
idade. Os pais costumam recorrer a essa estratégia quando não
conseguem chegar a um acordo amigável. No entanto, como esperar
de uma criança a decisão de algo tão importante? Intrinsecamente,
uma criança ama ambos os pais. Se ela é forçada a seguir com um
deles externamente, então, internamente ela vai seguir o outro.
Um exemplo extremo disso seria uma situação em que o pai de um
menino é um criminoso e a mãe o impede de vê-lo para se certificar
de que ele não vai ser como o pai. Neste caso, o garoto pode parecer
seguir a mãe por não ter contato com o pai, mas pode desenvolver
um comportamento delinquente na escola como forma de expressar
o amor pelo pai excluído.
Separar-se com filhos
Nós falamos sobre os problemas na separação dos casais. Se existirem
filhos, o vínculo entre os parceiros será mais forte e a separação será
mais difícil. No entanto, todos nós sabemos que muitos casais chegam
a um ponto em que precisam seguir caminhos separados; não
obstante difícil e doloroso, é seu direito e liberdade fazer isso.
O maior perigo para o bem-estar do filho é que os pais muitas vezes
se separam com sentimentos de amargura, aspereza e culpa, às veze s
cortando todos os laços um com o outro e, dessa forma, depositando
um pesado fardo de angústia no filho, cujas lealdades com a mãe e
com o pai estão agora irremediavelmente divididas.
Nessa situação traumática, o óbvio é negligenciado: cada filho é o
produto dos dois pais. Apesar da divisão amarga, apesar da distância
que o homem e a mulher colocarem entre si, cada filho vai fazer
relembrar o pai/mãe no ex-companheiro. Um filho, em essência, é o
resultado do amor entre um homem e uma mulher e vai continuar
assim mesmo quando todo o amor morrer entre eles.
O que muitos casais negam e são incapazes de aceitar é que o amor
de ambos continua no filho. Quando um pai olha para o menino, ou
a menina, em algum nível ele também vê a ex-mulher. Ele não pode
dizer, como muitos pais divorciados fazem: "Eu amo meu filho, mas
eu odeio minha ex-mulher". Segundo a terapia sistêmica familiar, se
você odeia o seu ex, você não pode amar plenamente o seu filho. É
por isso que é essencial, para o máximo bem-estar da criança, que os
pais se separem com amor.
Os tribunais decidem casos de custódia usando diferentes critérios,
mas na Constelação Familiar tendemos a dizer que o filho, como regra
geral, deve ficar com o pai que é mais capaz de amar o ex-parceiro -
aquele que pode olhar para o filho e, por meio dele, sinceramente
receber a presença do outro pai, sentindo algum resíduo de amor e
gratidão pelo que foi compartilhado no relacionamento.
É frequente, mas nem sempre a mulher ser a mais irritada após a
separação. Desse ponto de vista, em um caso de custódia em que a
mãe ainda esteja zangada com o ex-marido, é provável que o filho
fique mais seguro e mais feliz com o pai do que com a mãe. No
entanto, cada caso tem de ser examinado em seu mérito, levando em
conta a natureza específica de cada emaranhamento com a família de
origem e o seu efeito em cada um dos pais. Como regra geral, os
filhos ficam mais seguros com o pai menos sobrecarregado e isso vale
para pais separados ou não.
Uma espanhola é divorciada do marido e existem dois filhos da união.
Durante a sessão de constelação, descobrimos que o pai da mãe dela
foi morto por um pelotão de fuzilamento na guerra civil e que ela se
identifica com a pessoa que atirou no avô. Depois de ver e
compreender o seu emaranhamento, ela é então capaz de honrar o
ex-marido e dizer: "Sinto muito, eu não pude ficar com você". Neste
caso, os filhos estão mais seguros com o pai.
Um homem, cujo pai e avô faziam parte da máfia, é casado e tem dois
filhos. A constelação mostra que os filhos se identificam com as
vítimas da máfia. O lugar mais seguro para eles é com a mãe.
A idade do filho é também um fator importante a ser levado em conta.
Obviamente, um bebê tem de permanecer com a mãe.
Uma criança fica menos sobrecarregada sempre que o pai pode dizer:
"Quando eu olho para você, eu me lembro de quanto eu amava a sua
mãe", ou quando a mãe pode dizer: "Se você se tornar como seu pai,
está perfeitamente bom para mim". Enquanto essas coisas podem ser
sentidas e expressas com equanimidade, o filho vai se sentir relaxado
e relativamente feliz.
Quem é o cliente?
Quando trabalhamos com essas questões em uma constelação,
precisamos estar claros desde o início com quem estamos
trabalhando - estamos trabalhando com um cliente que tem uma
questão de emaranhamento com seus pais ou o cliente é pai e tem
uma questão sobre seu filho ou sua filha?
No primeiro caso, temos que tirar a responsabilidade do filho e
entregar ao pai, permitindo que o filho tenha menos carga e seja
inocente. Mas se, por exemplo, uma mãe vem como cliente e tem uma
questão sobre seus filhos, nós temos que ajudá-la a reconhecer e a
aceitar a própria força como uma mulher adulta, assumindo a
responsabilidade por si mesma e não sobrecarregando o filho.
Portanto, é importante saber quem é o cliente, porque a sessão se
manifestará de forma diferente dependendo por qual ângulo estamos
abordando a constelação. Durante o curso de uma sessão,
observamos que, geralmente, o movimento reconciliatório entre pais
e filhos tem que começar pelo filho. O filho tem de ir ao pai. Se é o
pai que quer se mover na direção do filho, isso normalmente significa
que ele quer alguma coisa e isso significa que ele corre o risco de
sobrecarregar o filho.
Um homem vai até o filho com lágrimas e chorando; eles se abraçam.
Pelo comportamento do homem, é claro que ele está se comportando
como uma criança, não como um adulto. Quando colocamos o seu
pai atrás dele, ele imediatamente para de chorar e se sente mais forte.
Seu filho relaxa.
A rivalidade entre irmãos
É comum encontrar clientes que vêm para uma sessão para resolver
os problemas com o irmão ou a irmã. O que vemos muitas vezes em
constelações é que o conflito entre irmãos, na verdade, pertence aos
seus pais, ou a algum outro parente. Um conflito entre os membros
anteriores da família está sendo assumido pelos filhos que se
identificaram com alguém da família estendida; eles não estão em seu
lugar "legítimo"; eles estão emaranhados.
Podemos, algumas vezes, resolver um conflito desse tipo ajudando os
irmãos a encontrar o seu lugar na hierarquia - a ordem familiar. Mas,
se o conflito persistir, isso normalmente significa que a identificação
é mais profunda. Por exemplo, um conflito entre irmãs pode, às vezes,
ser amenizado se a mãe é trazida para a imagem. Se isso não ajudar,
significa que uma das irmãs não pode honrar a mãe; em vez disso, ela
toma o lugar da mãe e os irmãos não ficam confortáveis com isso e
estão resistindo a isso. Se o conflito original pode ser resolvido em
uma sessão de constelação, a irmã pode retornar para seu lugar
correto na ordem familiar e a harmonia será restaurada.
Uma frase de cura para uma irmã dizer a outra pode ser: "Mesmo que
eu sou um pouco mais velha/mais jovem do que você, eu sou ape nas
sua irmã. Nós ambas somos filhas". Dessa forma, elas lembram uma a
outra que, como filhas dos mesmos pais, elas estão, na verdade, no
mesmo barco.
Acontece também de um filho querer seguir um irmão ou irmã que
morreu cedo, ou sente que deve substituir um irmão morto no elo
familiar. A solução pode ser trazer a criança esquecida para a cena e
convidar o cliente a reconhecê-lo e honrá-lo. Às vezes, é curativo para
o irmão vivo dizer para o irmão que morreu: "Você é meu irmão
querido/minha irmã querida e você se foi muito cedo, mas eu me
lembro de você com amor. Por favor, seja amigável, se eu permaneço
um pouco mais. Vou me juntar a você quando chegar a minha hora".

Capítulo Catorze
As dimensões do amor
Nós falamos sobre amor e relacionamento como uma troca de dar e
receber entre os parceiros. No entanto, o amor tem muitas dimensões
e opera em diferentes níveis; neste capítulo, olhamos para as várias
formas pelas quais o amor se manifesta em nossas vidas.
Sexo
A primeira e mais básica dimensão do amor é o sexo. O sexo é uma
energia animai e é o fundamento da vida. O desejo sexual está
relacionado com a sobrevivência da espécie e naturalmente
desempenha um papel significativo na relação homem-mulher. É uma
necessidade biológica fortemente sentida pelo corpo, como comer e
dormir. Um encontro sexual cria um vínculo entre casais e, como
dissemos antes, se o sexo for acompanhado pelo amor, esse vínculo
é mais forte.
Sexo sem amor é uma troca de energia, uma situação de dar-e-
receber, mas não exige nenhuma gratidão ou respeito com o outro
parceiro e isso, às vezes, se revela em sessões de constelação como
uma forma de exploração mútua - a outra pessoa é usada para
satisfazer a necessidade biológica do corpo. Se esta é a verdade da
situação, precisa ser reconhecida, em vez de fingir estar apaixonado
ou criar qualquer tipo de ilusão no outro parceiro. Geralmente, em
seus corações, os parceiros sabem o que está acontecendo, podem
concordar secretamente com isso e, se isso for abertamente admitido,
eles começarão a relaxar.
Às vezes, as pessoas carregam uma atitude de culpa por um encontro
sexual, afirmando que o outro parceiro só queria sexo e não está
disposto a aceitar a sua quota de responsabilidade com o que
aconteceu entre eles. Em uma situação como essa, o facilitador pode
convidar um parceiro em uma constelação para dizer ao outro: "Eu
usei você", deixando claro que ele estava interessado apenas no
prazer sexual, e o outro responde: "E eu permiti que você me usas se".
Isso pode trazer clareza, ajudando um parceiro a sair do papel de
vítima e o outro a deixar a vergonha e a culpa. Os dois parceiros
queriam que o seu prazer sexual fosse satisfeito, o que é
perfeitamente satisfatório, desde que haja reconhecimento disso, sem
condenação ou expectativas por nada mais.
O reconhecimento dos fatos, vendo as coisas como elas são, cria um
senso de equilíbrio e responsabilidade mútuos entre os dois
parceiros. Dessa forma, eles expressam um certo respeito pelo outro,
que, por sinal, também significa que a relação ganha uma dimensão
extra e agora está mais do que puramente sexual - respeito como uma
forma de amor.
Em termos de dinâmica familiar, a negação e a culpa não são
resultados úteis de qualquer evento sexual e até mesmo um breve ou
superficial romance precisa ser visto e honrado por aquilo que é.
Amor
Quando vamos além do nível biológico, o amor é uma necessidade
psicológica e uma experiência das qualidades do coração humano,
incluindo cuidado, sensibilidade e gratidão em relação ao outro. Sem
amor, nós nos sentimos sozinhos e isolados no mundo. Neste nível, o
amor é um relacionamento entre dar-e-receber, uma troca entre duas
pessoas que é realizada com respeito e gratidão. Com amor, nós não
nos relacionamentos com o outro como um objeto, mas como um ser
humano inteiro.
Se duas pessoas envolvidas em um relacionamento sexual também
estão apaixonadas uma pela outra, elas estão propensas a sentir
gratidão pela outra. Elas não só se tornam conscientes das suas
próprias necessidades, mas também das necessidades do parceiro.
Elas dão ao outro o que ele precisa e recebem dele o que precisam.
Assim, a prontidão em mostrar a sua necessidade para o outro é
importante neste nível de amor. Isso não é a necessidade de uma
criança que precisa de um pai, mas de um adulto, que é consciente
de sua incompletude como homem ou mulher.
O amor, como o sexo, é uma troca mútua de energia, mas com a
dimensão acrescida do coração, incluindo qualidades como
intimidade, confiança e respeito. Eu sou grato ao meu parceiro por
receber meus presentes e sou grato a ele por compartilhar seus
presentes comigo, dando-nos um sentimento de proximidade,
harmonia e uma sensação de estar em casa no mundo.
Na terapia, lidamos principalmente com esse nível de amor - como o
amor se expressa nas relações. A noção da Constelação Familiar de
que "o amor tem de seguir a ordem" leva em conta a diferente
natureza das relações entre pais e filhos e entre os parceiros. Mas o
relacionamento não é um fim em si mesmo; é um meio para aprender
sobre o amor, é uma lição de vida sobre amar e ser amado. Quando
a nossa relação é combinada com compreensão e consciência, ela tem
o potencial de nos ensinar tão plenamente sobre o amor que
podemos aprender sobre um estado de amor-sem-objeto, de uma
amizade amorosa. Quando o amor não está endereçado e é aberto a
todos, torna-se compaixão.
Compaixão
Os místicos falam sobre uma dimensão mais elevada de amor, que
pode ser mais bem descrita como compaixão. A compaixão não é uma
relação de dar-e-receber; tudo é dado e não há expectativa de receber
nada em troca. Na verdade, não é realmente uma relação. A
compaixão é um estado de ser, um excesso de amor e a mais pura
forma de partilha.
No amor comum, nós nos sentimos gratos pelo que o outro parceiro
está nos dando, enquanto na compaixão uma pessoa é grata quando
o outro recebe. Dessa forma, a compaixão é uma forma de amor
incondicional. Ela não exige nada e não é, portanto, vinculado a
qualquer impulso de equilibrar as necessidades mútuas; não há
contrato nem acordo fixo nem expectativas; transcende as diferenças
de gênero e não tem nada a ver com ser homem ou mulher nem com
duas pessoas que se apaixonam. A compaixão é o amor na sua forma
mais pura, desvinculado de laços de sangue ou de gênero.
Isso significa que a compaixão está muito além de quaisquer relações
que estamos examinando na terapia sistêmica familiar, mas, ainda
assim, vale a pena observar aqui, porque é reconhecida como a mais
elevada forma de amor e é significativa precisamente porque vai além
da dinâmica familiar.
A compaixão não é algo desconhecido para as pessoas comuns.
Mesmo em nossas vidas diárias, a maioria de nós tem momentos
vividos do amor incondicional, os casos de dar, em que não há
expectativa de receber nada em troca, dar a partir de um
transbordamento abundante por nenhum outro razão além da alegria
da partilha.
Menciono estes três estados - sexo, amor, compaixão - para deixar
claro que o amor tem muitas dimensões e não pode ser
completamente definido por teorias e conceitos. Nossa capacidade
de criar teorias sobre a vida vem do aspecto lógico e racional da
mente humana, que, por sua própria natureza, busca explicar tudo em
termos práticos e é intimidado por coisas que ele não pode reduzir a
uma formula. Visto por essa perspectiva, as nossas ideias e teorias
sobre relacionamentos, incluindo a Constelação Familiar, não
conseguem explicar tudo o que há para saber sobre o amor; os
recipientes que oferecem para a compreensão são muito pequenos.
As dinâmicas dos relacionamentos fornecem percepções importantes,
mas o amor mesmo é e sempre será, um mistério; por isso, quando
discutimos o relacionamento em sessões de constelação, precisamos
estar cientes disso. Muitas vezes, como um estranho, só podemos
ficar por trás e observar com espanto a imensidão do amor que move
as pessoas. É impossível defini-lo ou fazer algum sentido dele. Mas,
felizmente, não precisamos mesmo tentar; é suficiente que ele deva
se manifestar e expressar-se em nossas vidas.
Aprender sobre nós mesmos
Outro problema com a teoria do relacionamento é que ela tende a
ignorar outras dimensões de crescimento pessoal. Por exemplo, eu
me vejo tendo que contradizer algumas das declarações de Bert
Hellinger, nas quais ele diz que, para um relacionamento funcionar,
um homem tem que ser um homem e não desenvolver as suas
qualidades femininas e uma mulher tem que ser uma mulher e não
desenvolver as suas qualidades masculinas.
Isso só é verdade dentro de uma determinada moldura. Pode-se
aplicar a uma relação normal, que é mantida por necessidades mútuas
e na qual a união entre um homem e uma mulher é desejável. Mas
isso deixa de lado qualquer desenvolvimento desses dois parceiros e
o desejo que eles possam ter para explorar camadas mais profundas
de si mesmos.
C. G. Jung foi o primeiro pensador ocidental a descobrir que cada
pessoa tem um aspecto psicológico masculino e feminino. O homem
geralmente se identifica mais com seu lado masculino, enquanto seu
lado feminino permanece escondido na parte inconsciente de sua
mente, mas esse elemento escondido se reflete de volta para ele pelas
mulheres que entram em sua vida. De fato, em muitas formas, a
impressão da sua mulher interior dita as escolhas dos tipos de
mulheres por quem ele se sente atraído. Do mesmo modo, uma
mulher geralmente se identifica mais com seu lado feminino,
enquanto seu lado masculino permanece inconsciente e se reflete de
volta para ela por meio dos seus parceiros masculinos.
A teoria de Jung está agora amplamente compreendida e existem
muitos tipos de cursos, incluindo os que lidam com Tantra, que
ajudam o homem a descobrir e explorar sua "mulher interior", e uma
mulher a se familiarizar com seu "homem interior". O objetivo
principal dessas explorações tântricas é ampliar a experiência de fazer
amor dos dois parceiros, dando-lhes um gostinho do que o outro
está, naturalmente, experimentando como um membro do sexo
oposto. Também se torna mais fácil para as pessoas nos
relacionamentos entender os seus parceiros - como eles pensam, o
que eles querem, o que eles experimentam.
Não quero discutir a psicologia integral da polaridade homem e
mulher aqui, mas sinto que é necessário mostrar que existem modelos
de dinâmicas humanas que retratam diferentes aspectos da
autocompreensão e também diferentes dimensões da relação
homem-mulher. A partir da Constelação Familiar, chegamos a
compreender um certo aspecto do relacionamento, o que é
perfeitamente válido, mas não é toda a história.
Em todo o trabalho de relacionamento, estamos realmente
aprendendo sobre nós mesmos a partir da relação com os outros. A
necessidade pelo outro reflete a necessidade de entrar em contato
com aspectos renegados da nossa individualidade, para tornarem-se
inteiros em nós mesmos. Assim, a partir do outro, estamos realmente
nos relacionando com nós mesmos, aprendendo a amar e possuindo
tudo o que foi suprimida, oculto e inexplorado.
Uma vez que tenhamos sido capazes de nos tornarmos indivíduos
completamente integrados, a nossa dependência às outras pessoas
torna-se menor, ou talvez até mesmo desaparece. Então, o amor tem
uma qualidade diferente; não é mais uma necessidade ou um apego.
Assim, duas coisas são necessárias para o nosso desenvolvimento:
reconhecer nossa necessidade pelo outro e curtir o desafio de um
relacionamento íntimo enquanto, ao mesmo tempo, crescer em
compreensão e em amor a um ponto em que ele não seja mais um
relacionamento no sentido usual.

Capítulo Quinze
Tópicos especiais: incesto, aborto, adoção,
homossexualidade, triângulos amorosos
Alguns leitores podem se sentir incomodados com este capítulo, pois
ele oferece insights controversos sobre eventos que podem ocorrer
na família de origem ou família atual, incluindo incesto, aborto,
adoção, homossexualidade e triângulos amorosos.
Um dos problemas em lidar com essas questões, que são bastante
difíceis para as pessoas vivenciarem por si mesmas, é que elas estão
rodeadas por atitudes morais, opiniões e perspectivas que nublam e
confundem os eventos que sempre têm sido parte da vida humana.
As pessoas que tomam uma posição moral têm ideias fixas sobre
como as coisas devem ser e são incapazes de ver os eventos
claramente porque as atitudes pré-concebidas ficam no caminho. De
fato, em vez de ajudar, os moralistas são geralmente as pessoas que
tornam impossível para os outros encontrarem soluções verdadeiras
para as dificuldades da vida e isso, por sua vez, contribui para uma
alienação maior, infelicidade e mais problemas não resolvidos.
Na terapia de Constelação Familiar, se queremos compreender essas
situações e sermos úteis aos clientes, precisamos deixar para trás
todas as atitudes morais, ideologias e sistemas de crenças e
abandonar qualquer noção sobre o que é bom e ruim. Quando
dizemos que algum ato ou fato tem certas consequências, estamos
nos referindo às consequências que podemos observar em uma
sessão de constelação: vemos o problema, vemos a que ele leva e
vemos quais os passos que resultam em alívio e resolução para o
cliente. Em outras palavras, é uma abordagem totalmente pragmática,
que visa beneficiar o cliente. Não pretende ser uma palavra final sobre
a forma como qualquer indivíduo, ou sociedade em geral, deve lidar
com essas questões.
Este capítulo irá fornecer apenas um breve resumo das dinâmicas
familiares por trás de cada tema, como uma forma de introduzir essas
questões. Não é possível cobrir cada área em detalhe aqui - livros
inteiros foram escritos sobre esses assuntos - e não há solução fixa
cobrindo todas as situações possíveis.
Incesto e Abuso Sexual
Existem muitas variações de abuso, dependendo do grau do abuso e
de quem o fez. Em geral, podemos dizer que, sempre que um cliente
do sexo feminino vem a uma sessão de constelação com uma história
pessoal de abuso sexual ou incesto na família, o terapeuta pode
normalmente observar duas coisas acontecendo: há o perpetrador
óbvio, o pai; e nos bastidores, há o perpetrador oculto, a mãe. O
reconhecimento de um acordo tácito e mútuo entre o pai e a mãe
pode provocar objeções daqueles que sentem que comprometer a
mãe e fazê-la parcialmente responsável vai desculpar o
comportamento do pai e permitir-lhe escapar de todo o peso de sua
responsabilidade.
Esta reação é compreensível, mas se resultar em uma decisão de
ignorar o papel da mãe, não vai ser útil para levar o cliente a um
estado de resolução e cura. O que vemos nas sessões de constelação
que lidam com este problema é que a mãe tem uma tendência de
abandonar a família atual ou não estar sexualmente disponível para
seu marido, ou as duas coisas. É frequente o caso em que a mãe está
carregando algo da família de origem que a puxa para longe do
marido; então, há um desequilíbrio no relacionamento - a mulher não
pode, ou não quer, dar-se igualmente na relação e, como resultado,
ela pode rejeitar o seu parceiro sexual. Para equilibrar esta tendência,
ela inconscientemente oferece a filha no seu lugar.
Natasha é de uma família russa, que vive em Londres e foi abusada
sexualmente quando criança pelo pai. Na constelação, a mãe olha
para longe, não vê o marido nem a filha. O pai olha para a filha, mas
não como se ela fosse uma criança; em vez disso, ele sente atração
sexual por ela. A dinâmica indica que, como a mãe não está disponível
como parceira, a filha entra no meio, o que cria a relação incestuosa
entre a cliente e o pai dela.
A partir da entrevista, temos uma ideia do motivo pelo qual a mãe é
puxada para fora. Os avós dela e antepassados eram judeus que
tiveram de fugir da Rússia durante o pogrom do fim do século 19. A
mãe parece carregar uma profunda saudade da Rússia, da sua família
e também um ressentimento permanente sobre o que aconteceu lá.
Quando colocamos os avós e uma pessoa representando a Rússia na
frente da mãe, ela se sente melhor e, finalmente, está pronta para
virar e olhar para a filha, nossa cliente. Isso vem como um grande
alívio para Natasha, já que agora ela não precisa mais tomar o lugar
da mãe.
As frases de solução refletem a dinâmica original que levou ao
incesto. Ela diz para a sua mãe: "Eu tomei o seu lugar por amor a
você". E ao pai: "Eu fiz isso por amor à minha mãe". Isso a ajuda a
voltar para a posição de uma criança, que é inocente e age por amor
aos pais e, dessa forma, ela pode deixar todos os sentimentos de
responsabilidade com eles.
Isso é típico de dinâmicas nas sessões de Constelação Familiar que
lidam com questões de abuso sexual e mostra por que uma filha entra
em uma relação incestuosa: o representante do pai sente atração
sexual pela filha, enquanto a representante da mãe olha em outra
direção. Como estamos usando representantes que não são
relacionadas com o cliente e que não têm nenhum investimento
pessoal na forma em que a sessão se desenvolve, podemos concluir
que isso indica um padrão geral em tais casos, o que implica, como já
foi observado, em um contrato mútuo não declarado entre os pais,
em que a filha é oferecida como substituta da mãe.
Assim, ambos os pais são igualmente responsáveis: o pai sendo a
parte obviamente culpada e a mãe, a parte culpada encoberta.
Usualmente, o pai é quem é condenado por atos incestuosos de
abuso infantil e o papel menos óbvio desempenhado pela mãe e o
grau de culpa dela, é muitas vezes ignorado.
Como uma forma de resolver a situação, precisamos trazer à luz como
a criança se envolveu por amor pela mãe e, quando isso acontece,
geralmente, restabelece-se o contato entre mãe e filha. Desse modo,
a filha fica aliviada do fardo de substituir a mãe e pode voltar a ser a
filha. Geralmente, neste ponto, o interesse do pai nela como um
parceiro sexual também desaparece. Afinal, o pai realmente queria a
mãe como parceira sexual e a filha estava servindo como substituta.
Quando essas dinâmicas são reveladas, fica mais fácil para a cliente
se mover para além da raiva, da mágoa e da culpa que sente em
relação ao pai e ela pode deixar a responsabilidade e a culpa com ele
por ter prejudicado a própria filha. Se a cliente permanecer bloqueada
na raiva, ou em um sentimento de culpa, ela está, de fato, carregando
consequências negativas por algo que não fez - foi algo que o seu pai
fez.
Permanecer com raiva vai criar mais dificuldades para a cliente e,
finalmente, impedir qualquer solução. Primeiro de tudo, a raiva é um
sentimento de ligação entre duas pessoas e, em segundo lugar, irá
impedir o reconhecimento do vínculo sexual que aconteceu com o
pai, tornando difíceis as relações sexuais futuras.
Como dissemos antes, a primeira conexão sexual cria um vínculo
forte, que precisa ser reconhecido para as relações sexuais posteriores
terem sucesso. Se uma filha abusada permanece fechada em sua
atitude negativa em relação ao pai e continua a culpá-lo, não pode
haver reconhecimento desse vínculo e nem solução. Em última
análise, isso significa que ela será incapaz de superar o trauma e se
mover para outro parceiro. Isso é frequentemente a razão pela qual
os clientes que sofreram incesto ou outro abuso sexual têm
dificuldade em relacionamentos posteriores.
Outro ponto a considerar é que, apesar de um mal óbvio ter sido feito
a ela, a filha pode ter obtido alguma forma de prazer do
relacionamento incestuoso com o pai e também pode ter havido uma
qualidade de amor envolvido; por mais que distorcido. Quando a
cliente permanece em uma atitude de culpa e condenação com
relação ao perpetrador, ela não pode se permitir reconhecer isso, o
que, mais uma vez, torna difícil para ela aproveitar plenamente outras
relações sexuais.
Inicialmente, uma cliente pode até mesmo se sentir ofendida pela
sugestão de que pode ter havido algo prazeroso na experiência. No
entanto, é uma dinâmica que tem sido observada em muitas sessões
de constelação que lidam com essa questão e não deve ser evitado.
A terapia que valida a raiva de um cliente, que simpatiza e apoia esta
emoção como resposta legítima a um perpetrador pedófilo
incestuoso, o pai, pode impedir a cliente de chegar a uma solução.
Uma catarse da raiva, liberando as emoções que têm sido reprimidas
por um longo tempo, pode ser útil como um passo inicial, mas não
pode ser vista como uma solução final.
A solução em uma sessão de constelação pode estar em convidar a
filha a dizer à mãe: "Eu fiz isso por amor a você", e dizer ao pai: "Eu
fiz isso por amor à minha mãe". E depois dizer aos dois: "Eu sou
apenas uma criança. Eu sou inocente. Deixo a responsabilidade e a
culpa sobre o que aconteceu com vocês".
A inocência da criança abusada tem de ser restaurada e a posição dela
como uma criança na relação precisa ser reafirmada. Quando isso for
esclarecido e resolvido, a cliente está livre para deixar para trás
qualquer raiva residual que sente em relação ao pai.
Outra forma de a cliente se dirigir ao pai seria dizer a ele: "O que você
fez foi errado. Eu sou apenas uma criança. Agora vou deixar a
responsabilidade e a culpa pelo que você fez com você e eu deixo
você carregar todas as consequências disso". É importante, no
entanto, que isso seja dito de uma maneira calma e neutra, sem raiva
ou culpa e sem pensar em si mesma como uma vítima. Se essa
equanimidade não está presente, significa que ainda há algo
incompleto a ser abordado e compreendido.
Para um terapeuta, o desafio nesses casos é evitar cair no papel de
um aliado simpático na hostilidade do cliente com o perpetrador. S e
ele permite que isso aconteça, o terapeuta perde qualquer
possibilidade de ajudar o cliente. Embora tendo sempre os melhores
interesses do cliente no coração, o terapeuta, ainda assim, tem de
resistir a tomar partido nos problemas. Quando retiramos o
julgamento, permanecemos neutros e observamos uma situação com
o verdadeiro bem-estar do cliente no coração; as soluções aparecem
com mais facilidade e clareza.
O terapeuta também precisa reconhecer que uma criança bem no
fundo quer pertencer a ambos os pais, e casos como esses nos
mostram o enorme poder desse vínculo familiar. Podemos considerar
os pais como sendo cruéis, violentos ou indignos de criar um filho,
mas, do ponto de vista da criança, não importa o que os pais sejam;
eles são os seus pais.
Aborto
Não é um aborto em si que cria sequelas, mas como uma mulher lida
com isso. Como vimos na Constelação Familiar em geral, nunca é o
evento em si - o crime, o aborto ou a morte precoce - que cria
emaranhamento em um sistema familiar, mas a maneira inconsciente
de uma pessoa lidar com isso, ou melhor, tentar evitar lidar com isso.
Tipicamente, isso significa não reconhecer totalmente e não assumir
a responsabilidade por um evento, pela dor da separação, e isso cria
um resíduo - algo deixado incompleto.
Nas sessões de constelação em que o aborto é a questão, é
perceptível a partir das respostas de quem está representando os
filhos não nascidos que ele está, geralmente, de acordo com o seu
destino e não está muito preocupado em não ter sido autorizado a
entrar na vida, mas quer ser reconhecido como filho desses pais.
Essa exigência pelo reconhecimento é um tema básico na dinâmica
da Constelação Familiar: assim como é importante honrar todos os
nossos parceiros sexuais, quem quer que eles tenham sido, é
importante honrar todas as crianças que concebemos, incluindo
aquelas que morreram muito cedo, as crianças encaminhadas para
adoção, as não nascidas, aquelas abortadas ou natimortas. Todas as
concepções precisam ser reconhecidas.
Para criar resolução e cura, Bert Hellinger sugeriu um ritual simples,
mas poderoso para reconhecer o que acontece no caso do aborto.
Um representante da criança abortada é convidado a se sentar na
frente da mãe e a mãe olha para ele, coloca a mão na cabeça dele e
diz algo como: "Eu sou sua mãe, você é meu filho. Eu tomei tudo, você
deu tudo. Agora eu lhe dou um grande lugar no meu coração".
Normalmente, isso leva a mãe a um contato com a sua dor, que
provavelmente ela não sentiu antes de forma consciente e deliberada.
O pai também pode fazer esse ritual.
Durante a sessão, vai se tornar óbvio ou não se a mãe pode assumir
a responsabilidade por aquilo que ocorreu, ou se ela permanece
congelada, ou tenta encontrar desculpas, ou se comporta de alguma
forma como uma criança - qualquer dessas reações é uma forma de
não assumir a responsabilidade. Às vezes, podemos encontrar uma
maneira de dar à mãe força suficiente para olhar para o filho e
reconhecer o destino dele, colocando a mãe dela atrás dela.
Uma vez que a mãe reconhece seu filho, ela pode olhar para o seu
parceiro e juntos eles podem reconhecer cada responsabilidade um
do outro. Então, após um período de luto, que pode durar algum
tempo, a mãe precisa deixar a criança ir e permitir-lhe encontrar a sua
paz.
Um aspecto importante desse tipo de sessão é verificar se a mãe, ou
o pai, é sincero. Como facilitador, pode-se sentir isso a partir da
qualidade da tristeza dos pais e a partir da resposta do representante
da criança. Como mencionei em um capítulo anterior, quando
trabalhamos com os pais, testamos a verdade do que eles dizem ou
fazem, por meio da resposta dos filhos. Se a criança sente alívio,
geralmente é verdadeiro; se a criança não sente nada, então, os pais
não estão sendo honestos, ou não são capazes de assumir a
responsabilidade como pai nesse momento.
O que vemos, a partir das sessões desse tipo, é que os abortos são
eventos significativos no sistema familiar e precisam ser reconhecidos
como tal. A cura pode ocorrer por meio de um sentimento de amor
do cliente para com a criança não nascida e reconhecendo o seu
sacrifício. Um cliente, que, sem culpa, tenta explicar por que não havia
outra escolha, se recusa a reconhecer a sua parte no caso. Racionalizar
é uma maneira sutil de não querer assumir a responsabilidade, não
querer sentir a dor da perda.
A opinião de Hellinger sobre essa questão costumava ser que o
aborto é um assunto privado que interessa aos dois parceiros adultos
e não afeta os filhos. Mais tarde, ele inverteu a opinião, dizendo que
as outras crianças do casal também são afetadas. Na minha opinião,
o impacto sobre as outras crianças dependerá de quantos abortos um
casal teve, em que mês de gravidez ocorreu e quão doloroso ou
traumático a experiência foi para a mulher.
Quando algum dos parceiros se beneficia tendo um aborto, a nível
biológico, ele, ou ela, está dizendo "não" para a completude da
relação sexual e, de alguma forma, isso significa que ele, ou ela, está
dizendo "não" para o outro parceiro. Essa é a razão pela qual, na
maioria dos casos em que o aborto ocorre, a relação não é mais como
era antes e, muitas vezes, chega ao fim. Geralmente, pode-se ver que
um aborto foi o ponto onde a relação realmente acabou, mesmo se
os parceiros permanecerem juntos depois.
O aborto é sempre uma descontinuidade de um relacionamento. Se
os parceiros permanecem juntos depois, eles estão começando uma
nova relação e, como discutimos anteriormente, uma nova relação só
pode funcionar se o que se passou entre os parceiros já foi resolvido
com êxito.
Na Constelação Familiar, vemos que todas as decisões em relação à
gravidez têm consequências de um tipo ou de outro. Por exemplo,
pessoas que se opõem ao aborto frequentemente recomendam a
adoção como a solução preferida para um nascimento indesejado,
mas, como discutiremos daqui a pouco, uma mãe dar o seu filho
também é um evento muito significativo que é susceptível de criar
sofrimento para a criança, perturbar o sistema familiar e criar um
fardo para quem nasce posteriormente. Outra opção, a de dar à luz e
criar uma prole indesejada, é também susceptível de criar miséria e
sofrimento para a infeliz criança.
O ponto aqui não é que um curso da ação é melhor do que outro,
mas que cada ação tem de ser analisada pelas suas consequências.
Adoção
No caso da adoção, uma criança é tirada da mãe e do pai e, portanto,
das suas raízes. A decisão de dá-la para a adoção pode ser a escolha
dos seus pais, porque eles não querem a criança, ou porque os pais
morreram - em um acidente, por exemplo. A última situação é
geralmente mais fácil para a criança lidar na vida.
Da perspectiva da Constelação Familiar, se uma criança tem de ser
separada dos pais naturais, geralmente a melhor opção para ela é ser
dada aos parentes mais próximos, como seus avós, tias ou tios. Ficar
com esses parentes é a situação menos preocupante para a criança,
já que ela permanece perto de suas raízes biológicas. Se isso não for
possível, a próxima melhor opção será ela ser dada a pais de criação,
porque nesta situação ela geralmente mantém o próprio nome, sabe
quem são seus pais verdadeiros e permanece de alguma forma ligada
a eles.
Na adoção, no entanto, a criança perde a sua identidade original e
pode nunca saber dos seus pais biológicos. O que nós, muitas vezes,
vemos é que as adoções não são realizadas com o interesse da
criança, mas com o interesse dos pais, biológicos ou adotivos, que se
recusam a aceitar as suas responsabilidades ou seus destinos. Por
exemplo, um casal pode querer um filho, mas pode não conseguir ter,
talvez porque eles são inférteis, ou por algum outro motivo, e não
estão dispostos a aceitar ficar sem filhos. Uma criança é, assim,
adotada e tratada pelos novos pais como se eles fossem seus pais
biológicos e, às vezes, nem é dito a ela que ela é adotada.
Saber que perdeu os pais de nascimento ou ter sido dada por eles é
sempre difícil para uma criança, que pode se sentir profundamente
indesejada. O que vemos nas sessões de constelação que lidam com
essa questão é que uma pessoa adotada frequentemente permanece
irritada com os pais biológicos, especialmente quando eles der am a
criança sem uma necessidade clara - por exemplo, simplesmente
porque ela é uma menina, como muitas vezes é feito na China ou na
Índia.
No entanto, como vimos em situações anteriores, permanecer
zangado com os pais biológicos é manter-se envolvido com eles e,
inconscientemente, também pode ser uma forma de o cliente agarrar-
se à esperança de que, um dia, os pais de sangue vão voltar e levá -lo
de volta. É muito difícil para uma criança aceitar como final e
irreversível o fato de que ela, ou ele, foi doado pelos pais...
inconscientemente, há sempre algum elemento de esperança de que
a situação pode mudar.
O fato de que a sua mãe carregou você por nove meses no ventre,
entregou você para o mundo e, em seguida, deu você, pode ser
desolador. É um adeus final que é extremamente doloroso, mas
encarar e concordar com esta realidade é a única maneira de um
cliente ter a força para deixar o passado para trás e avançar na vida.
Uma possível solução para a questão da adoção, em uma constelação,
é convidar o cliente a olhar para seus pais de nascimento e dizer:
"Obrigado por me dar vida. Isso é tudo o que eu recebi de vocês, mas
vou tomar isso de vocês como um grande presente. E agora eu vou
para os meus novos pais, como vocês decretaram para mim. Vocês
me deram para sempre e eu deixo vocês irem agora de coração". Isso,
frequentemente, parece o melhor para todos os envolvidos.
Quando um cliente é capaz de aceitar a decisão dos pais de
nascimento e a finalidade disso, ele pode, pela primeira vez, ser capaz
de conectar-se profundamente com os pais adotivos e expressar
gratidão por ter sido criado por eles. Tal cliente pode dizer:
"Obrigado, vocês me ajudaram a sobreviver". Ou, "agora eu tomo
vocês como meus novos pais".
É importante lembrar que essas frases não podem ser tomadas como
uma fórmula fixa, pois cada caso é único e não é possível dizer
exatamente qual será em todos os casos. O elemento mais importante
é que o cliente precisa se manter na posição de uma criança na sua
resposta, tanto para os seus pais biológicos quanto para os seus pais
adotivos, que inclui concordar com a decisão dos pais biológicos de
doá-lo.
Além disso, é importante ser claro para quem a sessão está sendo
realizada: para uma criança que foi adotada ou para os adultos que
fizeram a adoção. A clareza sobre isso ditará precisamente como
proceder. Como regra geral, a criança tem que recuperar a sua
inocência deixando a responsabilidade para os pais e eles precisam
recuperar a sua dignidade, aceitando a responsabilidade pelo que
aconteceu.
Uma das questões que podem surgir em uma sessão de constelação
é que os pais adotivos podem se sentir culpados por terem levado a
criança para longe dos pais naturais. Ou eles podem estar tendo um
senso deslocado de arrogância, especialmente quando são de um país
rico, com tecnologia avançada e tomaram a criança de um ambiente
pobre de um país do Terceiro Mundo. O que é necessário para os pais
adotivos é honrar os pais biológicos por terem trazido a criança ao
mundo. Eles não vão substituí-los, mas apenas continuam o que eles
não podiam ou não estavam dispostos a fazer. De modo semelhante,
os pais biológicos teriam de respeitar o que os pais adotivos fizeram
para a criança e concordarem com o fato de que eles tomaram a
decisão final de doar a criança.
A consciência coletiva não está interessada em nossas boas intenções
nem em nossas ideias sobre a caridade global e a compaixão pelos
pobres, mas em tomarmos a nossa plena responsabilidade pelas
nossas decisões e suas consequências.
Homossexualidade
A Constelação Familiar descobre que há, muitas vezes, uma dinâmica
familiar particular por trás de casos de homossexualidade. Um
homossexual pode ser analisado de duas maneiras: primeiro, como
alguém que tem dificuldade em se identificar com seu sexo biológico;
segundo, se sente como um estranho, já que a homossexualidade está
fora da norma heterossexual. Como já vimos, as raízes do
emaranhamento familiar têm a ver com identificação - alguém na
família atual se identifica com alguém da família de origem. É o
mesmo caso com um homossexual; ele, ou ela, muitas vezes se
identifica com alguém da família anterior, e é esta identificação que
leva a uma tendência homossexual.
Hellinger descreve três razões principais para uma criança tornar -se
homossexual:
1) No caso de um homem gay, um garoto tem de representar um
figura feminina de sua antiga família e, porque não há nenhuma
menina na família, o menino tem de representá-la e, como resultado,
torna- se homossexual.
2) A mãe não permite que o filho se aproxime do pai; o pai é, então,
rejeitado e o menino permanece sob a influência da mãe.
3) A criança tem de representar um membro anterior da família que
é um pária, ou é um estranho de alguma forma e, tornando-se
homossexual, ele torna-se um estranho também.
A primeira situação é a que tem raízes mais profundas das três
possibilidades e é a mais susceptível de criar uma identidade sexual
inabalável e perpétua como um homossexual, enquanto as outras são
menos fixas. No capítulo seis, Sebastian de Barcelona não foi
permitido pela mãe de chegar perto do pai e, ao mesmo tempo, ele
estava identificado com um avô excluído, que esteve em um campo
de concentração. Sebastian, portanto, tinha dois fatores de motivação
para se tornar um homossexual, embora, neste caso particular, o
problema do cliente na sua sessão de constelação não era a sua
homossexualidade.
A homossexualidade raramente é reversível, mesmo se o cliente
descobrir a dinâmica familiar envolvida e, de qualquer modo os
homossexuais não costumam com frequência querer inverter a sua
preferência sexual. De modo geral, é mais importante considerar a
questão que o cliente traz para a sessão e encontrar uma boa solução
para isso, em vez de se deter a qualquer homossexualidade que possa
aparecer durante uma sessão. A homossexualidade não é mais do que
um destino entre muitos outros que cada um de nós carrega,
decorrente da família na qual nascemos.
Parceiros múltiplos e triângulos amorosos
O que significa para um homem casado ou uma mulher casada ter
outro parceiro fora do casamento? Triângulos não são nada novos.
Reis sempre tiveram concubinas, políticos e artistas sempre tiveram
amantes e a sociedade tem respondido a isso de maneiras diferentes,
dependendo do clima moral do país e dos tempos em que eles
ocorreram.
Na moderna Taiwan, por exemplo, não é incomum parceiros
permanecerem casados quando ambos têm outro parceiro amoroso,
que pode até mesmo ser alguém que os dois conheçam, que pode ser
casado com outra pessoa. Nos países europeus e nos Estados Unidos,
embora possa ser mantido secreto, é bastante comum casais terem
relações extraconjugais ao longo do tempo.
Olhando para este fenômeno a partir da perspectiva da Constelação
Familiar, isso significa que a pessoa que está tendo casos não é um
parceiro estável e confiável. Ele, ou ela, mantém outras vias abertas e
está sempre pronto para escapar. Da mesma forma, a escolha de um
parceiro que já está em um relacionamento pode ser uma indicação
de que não se está realmente disponível para um relacionamento
sério.
Pode haver muitas razões por trás do comportamento padrão de um
marido infiel. Um dos mais comuns é que, em vez de ser ligado ao
pai, ele permanece sob a influência da mãe. Assim, quando esse
homem encontra uma parceira amorosa, ele em primeiro lugar a vê
como uma mulher desejável e sexual, mas, uma vez que um
relacionamento está estabelecido, ele começa a vê-la como sua mãe.
Quando ela se torna a mãe dele, ela vai perder sua atratividade sexual
para ele e o homem vai precisar de outra mulher para preencher esse
papel.
É o mesmo caso de uma mulher que é a menininha do pai, ela não
está perto da sua mãe e está faltando a força feminina. Desejar o
homem reflete o desejo pelo seu pai e não estar totalmente disponível
para ele reflete o sentimento dela de inadequação como parceira de
seu pai; então, ela precisa de outro alguém. Como Hellinger diz, o
filhinho da mamãe e a filhinha do papai podem ter um romance
apaixonado, mas não estão comprometidos com o relacionamento.
Um relacionamento é um risco, no sentido de que você nunca pode
ter certeza sobre o momento seguinte e se um caso de amor vai
continuar ou não. Um medo comum é o de que, sem um parceiro
reserva, você pode terminar totalmente sozinho; consequentemente,
parece mais seguro ter mais de um amante. No entanto, se você não
tiver a força ou a capacidade de estar só, você está propenso a achar
que não pode viver sem o primeiro parceiro, não importando com
quem mais você esteja. Seu primeiro parceiro representa o pai/mãe,
de quem você não se separou. Os casais que permanecem casados
mesmo depois de terem novos parceiros em grande parte se
enquadram nesta categoria.
De acordo com a dinâmica familiar, quando um homem que já está
em uma relação constrói outro relacionamento e tem um filho com
essa segunda mulher, o melhor resultado ocorre quando ele deixa a
primeira parceira e vai morar com a nova. Ele precisa respeitar a sua
ex-mulher, honrando o que eles tiveram juntos e reconhecendo que
este relacionamento terminou agora e isso vai torná-lo mais capaz de
comprometer-se totalmente com a nova parceira e especialmente
com o novo filho. É a forma mais adulta de assumir a responsabilidade
pela situação.
Na terapia sistêmica familiar, um sistema novo tem precedência sobre
o anterior. Então, se o homem não deixa a sua família por uma nova,
é a criança quem vai pagar o preço. Uma criança na nova família terá
de representar um dos parceiros anteriores de seus pais e isso é
porque o primeiro parceiro dos pais não foi plenamente honrado - e
o ato de honrar não ocorre quando, de alguma forma, o homem
permanece emaranhado com essa parceira anterior.
Assim, ao contrário do que se possa normalmente presumir, deixar
um parceiro anterior pode não ser cruel ou desrespeitoso para com
ele, mas, pelo contrário, pode ser uma resolução adequada e
cuidadosa. Na maioria dos casos, a dificuldade real para o cliente é
ceder ao apego da primeira família e de tudo o que ela representa e
passar pela dor da separação.
Dentro de um único sistema familiar, de acordo com a lei da Ordem
Sagrada, os membros anteriores da família têm precedência sobre os
posteriores. Mas, entre dois sistemas familiares, o inverso é o caso: a
nova família tem precedência sobre a anterior. Então, se um homem
tem um filho com outra mulher, ele precisa deixar a sua mulher
anterior e ficar com sua nova mulher e a criança.
Isso é semelhante à forma com que nos afastamos de nossa família
de origem: uma mulher jovem se apaixona por um homem; ela
constrói a sua própria família e desiste da ligação com sua família de
origem. A nova família dela e os filhos dela têm precedência sobre o
amor por sua família de origem. Da mesma forma, começar uma nova
relação e talvez até ter um filho juntos, alguém se afasta da família
atual para dentro de uma situação nova que tem precedência sobre a
primeira.
Em ambos os casos, podemos ver, no fundo, como a natureza cuida
da sobrevivência das espécies, dando prioridade à nova configuração
familiar.

Facilitando as Constelações Familiares

Esta seção do livro é principalmente para as pessoas que querem


aprender a facilitar as sessões de Constelação Familiar, mas também
será interessante para quem quer entender mais profundamente esta
forma atual e inovadora de terapia.

Capítulo Dezesseis
Passos para colocar uma Constelação
No início de uma sessão, o terapeuta e o cliente precisam ter tempo
para assentar. Aqui, a pressa pode ser o pior inimigo. Alguns
facilitadores são muito apressados e perguntam imediatamente ao
cliente: "Qual é a sua questão?" ou "Qual é o seu problema?", como
se essa pessoa fosse uma máquina com defeito e o terapeuta fosse
algum tipo de mecânico que pudesse corrigi-lo imediatamente. Às
vezes, também, o cliente está impaciente para começar e começa a
falar como em um roteiro premeditado, oferecendo ideias pré-
concebidas sobre o que está acontecendo na sua vida sem abrir as
camadas mais profundas da percepção.
As camadas intelectual e racional da mente humana são relativamente
superficiais e querem ir para conclusões rápidas, enquanto as
camadas mais profundas têm um ritmo mais lento e mais difícil de
penetrar - neste nível profundo, muitas questões permaneceram
inalteradas durante toda a nossa vida. Por isso, é importante tanto
para o cliente quanto para o terapeuta conectar um com o outro e
"chegar" ao presente momento, sem galopar imediatamente para a
ação. Às vezes, nada é dito no início, mas um processo interior de
percepção começa, apenas estando presente e dando tempo
suficiente.
Depois de um tempo, o terapeuta pode perguntar ao cliente por que
ele veio, qual é o interesse dele, se ele tem alguma pergunta, ou se
ele está trazendo algum problema que o incomoda. À medida que o
cliente responde, é importante que o terapeuta não o permita
embarcar em histórias longas - apenas algumas frases simples.
Hellinger disse que ele permite a um cliente apenas três frases de
explicação; qualquer coisa a mais é provável que seja uma cortina de
fumaça destinada a confundir o terapeuta e não é necessária para
uma solução. A minha abordagem pessoal é menos rigorosa, mas eu
vejo o ponto que Hellinger está citando: muitos clientes querem
apenas falar sobre os seus problemas; eles realmente não querem
mudar e estão acostumados a repetir os seus "problemas" para si e
para outros de novo e de novo, precisamente como uma forma de
não lidar com eles. Começar com uma longa história muitas vezes é o
prelúdio para uma longa análise, durante a qual a energia do
terapeuta pode ser desviada para "falar sobre" e, portanto, pouco
resta para a resolução.
Existem muitas maneiras de trabalhar e cada facilitador tem o seu
próprio estilo, ou talvez uma variedade de estilos. Aqui, eu vou
simplesmente fornecer alguns princípios gerais de como uma sessão
pode se desenvolver.
Identificando a questão real
É significativo se um cliente pode ou não formular sua questão de
forma clara e direta; por exemplo, "Eu tenho dificuldade com meu pai"
ou "Minha filha não quer falar comigo" ou "Eu tenho um problema
em fazer relacionamentos". Essas respostas iniciais indicam o quanto
uma pessoa já está em contato com uma questão e vai determinar se
uma sessão pode começar imediatamente, ou se mais tempo tem de
ser gasto com o terapeuta identificando a questão real.
Recentemente, eu trabalhei com uma mulher de meia-idade em
Taiwan que estava ansiosa para experimentar uma sessão de
constelação comigo e tinha escrito sua linha familiar inteira com os
membros e todas as coisas que aconteceram com eles. Ela falava tão
rapidamente que não conseguia fazer uma pausa para respirar.
Intuitivamente, eu resisti ao desejo de trabalhar com o que ela estava
me dizendo e, em vez disso, pedi-lhe que parasse de falar e fechasse
os olhos. Sempre que ela abria os olhos para começar a falar de novo,
eu gentilmente insistia que devíamos permanecer em silêncio. Após
vários minutos, durante os quais nada foi dito, algo mudou nela e sem
fazer nada, lágrimas começaram a sair dos seus olhos. Podia-se ver
que ela havia tocado algum sentimento interior profundo, que havia
sido impedido de vir à tona por causa de todo seu falatório. Curvando
ligeiramente a cabeça, ela começou a relaxar e, quando abriu os olhos
novamente, ela parecia mudada. Ela me disse que estava satisfeita.
Nós não fizemos mais nada nesse momento. Não perguntei nada a
ela. Foi o suficiente.
Este caso é uma exceção. Geralmente, o terapeuta perguntará ao
cliente informações sobre a sua família atual e de origem. Deve-se
estar muito atento enquanto essa informação está sendo dada, pois
qualquer alteração no tom da voz do cliente, ou sinal de emoção
enquanto ele fala, vai ajudar a indicar onde está a questão real. Com
essas pistas, um terapeuta experiente pode começar a sessão no
ponto certo e não precisará saber a história da família inteira.
Em outros momentos, a situação pode não ser tão clara e o terapeuta
terá de perguntar a um cliente em mais detalhes quem pertence ao
sistema familiar e que eventos importantes ocorreram nessa família.
Em sua abordagem mais recente, que ele chama de "movimentos da
alma", Hellinger mudou muito o seu procedimento e pode nem
perguntar a uma pessoa sobre os detalhes acerca de sua família.
Hellinger aprendeu a confiar em sua leitura intuitiva sobre a
disposição geral do cliente, postura corporal e energia, e não no que
o cliente está dizendo. Vamos discutir melhor isso no Capítulo 21.
Qual família primeiro?
Após a entrevista, o terapeuta, ou facilitador, tem de tomar uma
decisão: que sistema colocar, a família de origem ou a família atual.
Às vezes, começa-se com um sistema familiar e, depois, acrescentam-
se as pessoas do outro sistema - isso é possível. Tudo depende da
questão do cliente, ou questões, e que aspecto vai ser abordado em
primeiro lugar. De um modo geral, lidamos primeiro com coisas que
estão mais próximas do momento presente na história pessoal do
cliente e, apenas quando isso não pode ser resolvido, voltamos ao
passado. Assim, como regra geral, examinamos primeiro a família
atual, especialmente se houver crianças, e só depois olhamos para a
família de origem, mesmo se os problemas do cliente têm suas
procedências lá.
Essa ênfase no presente reflete a importância de assumir a
responsabilidade por quaisquer decisões de vida que um cliente
tenha feito. Por exemplo, o momento em que uma pessoa decide ter
filhos, não importa que fardos ela carrega do seu passado; ele é
totalmente responsável por sua decisão, por sua escolha e
"desculpas" não podem ser permitidas. As dinâmicas familiares
demandam que assumamos o que escolhemos fazer em nossas vidas,
mesmo que tomemos essas decisões de modo inconsciente ou
descuidado, sem considerar as consequências. Colocando de outra
forma: mesmo se nos sentimos como uma criança, no momento em
que nós mesmos o temos um filho, somos um adulto e um pai. Como
eu disse antes, o que importa na dinâmica familiar é o ato em si, não
o que sentimos sobre ele. Muito frequentemente, as pessoas ficam
confusas sobre essa importante dimensão da terapia sistêmica
familiar e querem dar mais importância a um sentimento pessoal, em
vez de reconhecer o que se tornou manifesto.
Então, de forma geral, começamos com a família atual, mas precisa
ser salientado que essa é apenas uma orientação e, em certos casos,
pode não se aplicar. Por exemplo, se algum evento importante do
sistema de origem exige atenção imediata. Cada cliente é único e,
com cada novo cliente, o terapeuta tem de decidir por onde começar
e com qual sistema familiar trabalhar.
Quem precisa ser representado?
Tendo tomado a decisão, o terapeuta precisa, então, decidir quem são
os membros importantes do sistema que precisam ser representados
na constelação, quais são essenciais com o propósito de chegar a uma
solução para o cliente. Algo que pode parecer óbvio, mas o que
precisa ser lembrado durante uma sessão é que nós estamos
trabalhando para um determinado cliente, a fim de trazer mais
compreensão e cura à vida dessa pessoa, e não para outra pessoa
dentro desse sistema familiar.
Como princípio geral, trabalhamos com o número mínimo de
representantes da família - é melhor usar bem poucos do que demais.
Por exemplo, um cliente pode ter muitos irmãos e irmãs, todos eles,
é claro, pertencem ao sistema dele, mas alguns deles podem não ser
necessários nessa constelação específica. Muitos representantes
podem diminuir o impacto de uma constelação e criar confusão
desnecessária. É sempre possível adicionar representantes mais tarde,
se descobrir que alguém está faltando.
Como uma preferência pessoal, muitas vezes eu gosto de trazer os
membros excluídos da família, que eu sei desde o início que serão
importantes em um momento posterior. Dessa forma, todos podem
ver e sentir o impacto desta figura-chave quando ele ou ela aparecer
na imagem da constelação. Se não houver nenhum impacto, isso será
também uma indicação útil, porque vai me dizer que a minha hipótese
original pode estar errada.
Quando o facilitador decidiu quem deve ser colocado na constelação,
ele pode pedir ao cliente para escolher representantes para esses
membros da família a partir de um grupo de participantes: alguém
para representar seu pai, mãe e irmã, por exemplo. Às vezes, como
facilitador, eu escolho os representantes.
Não é importante que um representante se pareça com o membro da
família que ele, ou ela, está representando. Na verdade, é melhor
quando o cliente não procure semelhanças nas pessoas que ele
escolhe, porque, então, ele está em contato com algo mais essencial,
que não está relacionado com a característica, ou aparência física, de
um membro familiar específico.
Se uma constelação requer muitos representantes, então, antes de
colocá-los, é geralmente uma boa ideia organizar todos na ordem
natural deles - os primeiros membros na primeira linha - e, em
seguida, repetir o papel de cada um como membro da família para
evitar confusão. Agora, o facilitador convida o cliente a tomar as duas
mãos de cada representante e guiar essa pessoa a um lugar na sala
seguindo a sua intuição pessoal, não de acordo com qualquer plano
pré-concebido. O cliente coloca cada representante em relação aos
outros, sem dar quaisquer instruções ou dizer qualquer coisa para
eles. Além disso, o cliente precisa colocá-los sem solicitar qualquer
postura especial ou gesto. Quando este processo for concluído, a
constelação está criada e o cliente se senta. O cliente e o terapeuta,
em seguida, olham juntos para esta imagem visual da família, que dá
uma certa impressão e tem um certo impacto em qualquer
observador.
Às vezes, há desvios dessa maneira clássica de fazer uma constelação,
o que será discutido em mais detalhes no capítulo 21. Em tais casos,
o cliente pode não colocar os representantes ele mesmo e pode-se
solicitar aos representantes que sigam seus próprios impulsos
internos e se movam de acordo com eles, sem nada dizer.
Colhendo feedback
No método clássico de fazer constelações, após receber a própria
impressão dessa imagem da família e o que ela pode indicar, o
terapeuta vai de representante em representante, perguntando a cada
um como ele se sente na posição em que foi colocado e se ele está
consciente de quaisquer sensações corporais, humores ou
sentimentos em relação a outros membros da família.
Este processo de feedback é eficaz, porque cada representante está
conectado ao campo de energia do sistema familiar e à posição única
dele ou dela neste campo. O feedback não está relacionado com o
que normalmente chamamos de "caráter" de uma pessoa; na verdade,
evitamos colher informações que se relacionem com a personalidade
de um membro da família. Nós não queremos saber que tipo de
pessoa ele pode ser, porque estamos procurando algo que motiva as
pessoas a partir de um lugar mais profundo.
Um facilitador experiente geralmente tem alguma ideia sobre como
cada pessoa deve estar se sentindo em uma constelação e isso pode
ser suficiente para guiá-lo sobre como proceder. Mas, às vezes,
informações mais detalhadas e sutis podem ser obtidas perguntando
a cada representante diretamente. É claro, a resposta do
representante está sujeita a ser ligeiramente colorida por sua própria
personalidade, mas isso não é importante. O que é importante são as
sensações que ele recebe como resultado de estar em uma posição
específica e é por isso que diferentes representantes do mesmo
membro da família observarão algo semelhante - eles estão em
contato com o "campo de informação".
De certa forma, todos, o facilitador e os representantes, estão
explorando juntos, cooperando em resolver um enigma. Os
representantes estão se identificando com certos membros da família
e o facilitador, como alguém de fora, tem a visão geral. Ele não deve
se identificar com qualquer membro da família nem com o cliente. Ele
tem de estar em uma posição neutra, enquanto, ao mesmo tempo,
mantém os melhores interesses do cliente no coração. Vamos discutir
isso com mais detalhes no próximo capítulo.
Do diagnóstico à solução
Nesta fase da sessão, o terapeuta, por meio de suas próprias
percepções, ou por meio do feedback que recebe dos representantes,
pode chegar a um primeiro "diagnóstico" do que está acontecendo
nesse sistema familiar e pode começar a trabalhar na direção de uma
solução. Esse trabalho inclui alterar as posições dos representantes
ou permitir que eles se movam de acordo com os seus próprios
sentimentos, trazendo as pessoas "que estão faltando", reunindo mais
informações do cliente quando necessário e sugerindo frases de
solução para os representantes dizerem um ao outro.
Cada movimento é guiado por observações do facilitador e pelo
feedback que ele recebe dos representantes, verbal ou não verbal. Em
cada passo, diferentes camadas da realidade escondida de um sistema
familiar, além dos emaranhamentos do cliente, podem vir à luz. O
objetivo do trabalho é encontrar um lugar mais harmonioso no seio
do sistema familiar para todos, seguindo os princípios da Ordem
Sagrada, das leis de pertencimento e do equilíbrio, tudo o que nós
discutimos anteriormente.

Capítulo Dezessete
A atitude do facilitador
Quais são as qualidades exigidas de uma pessoa que deseja facilitar
uma sessão de Constelação Familiar? Qual é o melhor estado de
espírito de um terapeuta para isso? Neste capítulo, discutiremos os
fatores dos quais um facilitador precisa estar ciente quando ele
começa a dar sessões e as qualidades pessoais que permitirá a ele, ou
ela, estar confortável no trabalho e trazer soluções satisfatórias.
Existem duas principais qualidades que um terapeuta precisa ter se
ele quer ajudar as pessoas: em primeiro lugar, ele tem que
desenvolver uma qualidade de "amorosidade" quando trabalha com
um cliente e, segundo, ele precisa de uma certa presença. Essas duas
qualidades se combinam para criar uma abordagem que é descrita
melhor como uma atitude de "amor frio".
Amor frio não é algo que geralmente se está familiarizado. A maioria
de nós conhece apenas um tipo "quente" do amor que tem a ver com
paixão e atração mútua entre homens e mulheres, ou o tipo de ligação
de amor que existe entre pais e filhos, criados pela natureza para
manter a família juntos. Amor frio é mais como a compaixão,
enquanto presença é a qualidade de estar disponível no presente
momento e estar alerta a tudo o que está acontecendo aqui e agora,
sem se distrair com o conhecimento acumulado, teoria ou pensando
sobre o passado ou futuro. Muitos místicos descreveram essa
qualidade de "estar presente" como um estado de meditação.
Qualidades de Presença
A presença para um terapeuta significa duas coisas:
1) Ele está pronto para abandonar todas as ideias pré-concebidas que
pode ter acumulado durante o curso do seu trabalho em experiência
com clientes anteriores e com seus problemas e é capaz de olhar para
cada nova pessoa com novos olhos, abordando a situação como se
ele nunca tivesse visto um caso como esse antes. Em outras palavras,
embora ele trabalhe com uma profunda compreensão com base em
experiências passadas como terapeuta de Constelação Familiar, ele
também precisa deixar esse passado continuamente.
2) O terapeuta também precisa largar qualquer plano, qualquer ideia
pré-formulada e qualquer noção sobre o que pode ser "bom" para o
cliente. O que é bom para um cliente não é algo que o terapeuta
possa saber; na verdade, como todos nós, ele não pode realmente
saber o que é bom para alguém, exceto talvez para si mesmo. Ele
pode ter ideias sobre o assunto, e todos os terapeutas usualmente
têm, mas em última análise, não há nenhuma maneira de saber antes
do tempo o que vai funcionar, ou não funcionar, para outras pessoas.
Além de que, ninguém precisa saber porque nenhum cliente, ou, na
verdade ninguém, precisa ser protegido ou salvo por qualquer outra
pessoa - o desejo ou a intenção de salvar alguém é essencialmente
uma atitude arrogante. Em Constelação Familiar, um bom terapeuta
precisa largar qualquer ideia do que deve ser o resultado de uma
determinada sessão e relaxar em um estado de investigação aberta,
um desejo de explorar e experimentar, e acima de tudo, uma atitude
de "não saber".
Se um facilitador é capaz de fazer essas duas coisas - esquecer sobre
o passado e o futuro e relaxar no não-saber - uma qualidade da
presença surge naturalmente. Neste estado, o terapeuta não precisa
de nada do cliente e, uma vez que ele não tem expectativas, pode
relaxar e aceitar a situação simplesmente como é. O amor é, então,
experienciado de uma nova maneira. Presença e amorosidade andam
de mãos dadas, elas ocorrem ao mesmo tempo, ou estão ausentes
juntas ou presentes juntas.
Trabalhando sem Preconceito
Em meus cursos de formação, descobri que ser simples e sem
preconceitos, é comumente mais fácil para aqueles que não estão nas
profissões de ajuda e não são terapeutas praticantes. Isso porque
"amadores" não têm conceitos preconcebidos e estão, portanto, livres
para simplesmente observar o que aparece em uma sessão de
constelação. Eles não têm uma compreensão especial da teoria
psicológica nem de outros tipos de conhecimento especializado, que
tendem a criar teorias desnecessárias e conclusões sobre o que está
acontecendo.
Por exemplo, vamos imaginar uma constelação em que todos os
membros da família estão olhando em uma direção. Provavelmente
será óbvio para qualquer observador que eles estão olhando para
algum lugar ou para alguma coisa. Se permitirmos que essa imagem
tenha um impacto sobre nós, sem ter qualquer teoria em mente, uma
conclusão que podemos chegar é que alguém na família está ausente
- o que irá ser autoevidente para um facilitador que olha para essa
imagem inocentemente. Mas se a mente das pessoas está cheia de
teorias psicológicas, elas podem não ser capazes de ver uma coisa tão
simples e óbvia. Em vez disso, elas podem tentar interpretar o estado
de espírito do cliente, dizendo que ele deve estar sofrendo de
depressão ou neurose. Dou este exemplo porque aconteceu em um
dos meus treinamentos e é típico desse tipo de dificuldade enfrentada
por um profissional.
A melhor abordagem para qualquer terapeuta de Constelação
Familiar é observar com o mínimo de preconceito possível,
perguntando a si mesmo o que esse quadro poderia indicar e, em
seguida, introduz uma hipótese a partir de suas experiências
anteriores com a qual começa a trabalhar. É, no entanto, importante
testar se a hipótese é válida nessa situação. Se não for, permanecer
flexível o suficiente para tentar outra coisa.
Quanto mais de mente aberta um terapeuta puder ser, mais ele pode
permitir que a imagem real tenha um impacto tal como ela é nesse
momento. A observação pura não é fácil para a maioria das pessoas,
incluindo muitos terapeutas, pois eles geralmente respondem a uma
solicitação de observação com uma interpretação do que está
acontecendo e, às vezes, não conseguem nem distinguir a diferença
entre os dois. O sistema educacional deles os treina para rotular as
coisas e chegar rapidamente a conclusões, o que impede o incomum
ou improvável de emergir.
Em meus cursos de treinamento, eu apresento exercícios para as
pessoas para que elas possam praticar a arte da observação, como
perceber a linguagem do corpo de um cliente e refleti-lo de volta para
ele sem julgamento, desse modo, criando ressonância entre cliente e
facilitador. A Programação Neurolinguística (PNL) - que chama esse
processo de "rapport" - tem investigado este campo de espelhamento
em detalhes e observou como ele cria uma qualidade especial de
confiança no cliente.
A arte da auto-observação
A arte de observar os outros não é a única qualidade que um
terapeuta precisa desenvolver. O que é mais fundamental é ser capaz
de observar a si mesmo. Estranhamente, na maioria dos treinamentos,
essa habilidade essencial é raramente mencionada, muito menos
ensinada. A maioria dos treinamentos se concentra em como lidar
com clientes e raramente fornece qualquer instrução sobre como
manter-se em contato consigo mesmo. As pessoas devem passar por
uma terapia pessoal intensiva como parte de um treinamento e estar
apto a conhecer questões pessoais, pontos cegos e problemas não
resolvidos que, como um terapeuta, eles podem projetar no cliente,
ainda assim a eles não é ensinada a arte de ficar alerta para o seu
processo interno de pensamentos e emoções, que é a única maneira
de prevenir-se de cair nessa armadilha.
Esta forma de auto-observação, olhando para o próprio processo
interno momento a momento, pode ser chamada de "centramento",
e é um ingrediente vital para a prática da terapia porque permite que
um facilitador aborde uma situação sem preconceitos, expectat ivas
ou ideias preconcebidas.
Centramento significa ficar alerta em momentos críticos quando um
terapeuta pode, de outro modo, perder o contato consigo mesmo e
é apanhado "ajudando" ou "salvando" o cliente, ou assumindo um
ponto de vista pessoal. Isso significa permanecer consciente do
próprio estado de consciência e, desse modo, não se perder no cliente
nem nas questões do cliente.
Há muitas maneiras de ajudar as pessoas a desenvolver a qualidade
do centramento, que também pode ser descrito como um estado de
"repouso em si mesmo" e eu vou falar mais sobre isso na parte quatro
deste livro.
Um benefício importante de ser capaz de praticar a auto-observação
é que ele ajuda um facilitador a não cair no hábito de ser um
"terapeuta profissional", que, no seu pior, é uma mistura da rotina e
repetição de um certo método psicológico. A identificação com o
papel de terapeuta é talvez uma das maiores dificuldades que
enfrenta uma pessoa que quer ser um bom terapeuta, porque ele fica
suscetível a se identificar com o sofrimento do cliente, categorizar
seus problemas e prescrever fórmulas de soluções, impedindo-o
assim de ver com olhos frescos e inocentes o que realmente está
acontecendo.
Em Constelação Familiar, vemos como a identificação dos clientes
com outros membros da família cria dor e esse sofrimento é uma força
poderosa. O sofrimento tende a preocupar as pessoas, preencher as
suas vidas e dar a elas um senso de propósito e motivação para
encontrar uma maneira de sair deste sofrimento. Ele também traz um
sentimento de autoimportância e poder e uma das principais tarefas
do terapeuta é evitar apoiar o investimento do cliente neste
sentimento de poder e significância por meio do sofrimento.
Se o terapeuta pode evitar ser puxado para dentro do sofrimento de
seu cliente, se ele pode evitar se tornar emocionalmente envolvido
em qualquer nível, permanecendo centrado e tranquilo - que não
significa ser frio e distante - então, de alguma forma ele destronou o
problema do cliente e retirou parte do seu poder. Essa habilidade de
um terapeuta de permanecer descomprometido é uma das maneiras
mais eficazes para trazer um cliente em contato com a sua realidade
mais profunda.
Cara a cara com o medo
O trabalho de um terapeuta é ajudar o cliente a entrar em sintonia
com a sua vida como ela é agora, como está se manifestando no
presente e aceitar as suas consequências. Isso requer uma certa
maturidade por parte do terapeuta, uma confiança na vida que, por
sua vez, requer uma certa profundidade de experiência de vida que
não pode ser ensinada. Então, sempre haverá facilitadores diferentes,
cada um operando da sua própria maneira, de acordo com seus
próprios níveis de experiências pessoais.
É esse processo de crescimento e maturidade que elimina o elemento
do medo quando se trabalha com a Constelação Familiar. Se ele
concorda com a vida como ela é, o terapeuta cresce em coragem e se
torna mais capaz de ver o que é, sem medo. Então, ele não precisa
proteger o cliente, nem mesmo da morte - se é essa a direção para
onde o cliente está indo.
Requer coragem ver o que está acontecendo em uma constelação,
dizer isso em voz alta e permitir as suas consequências. Como Bert
Hellinger disse em seu livro Der Austausch, "Mudança", parafraseando
aqui, na minha própria tradução: "Se alguém tem a coragem de olhar
a realidade como ela é e expor isso, nada de ruim pode acontecer
porque a realidade em si nunca pode ser ruim. Somente o medo de
olhar para a realidade pode ser ruim porque naquele momento algo
se reprime na parte inconsciente da mente e trabalha contra nós a
partir daí".
Os clientes são mais resilientes do que imaginamos e o terapeuta
pode confiar neles para lidar com situações como elas realmente são.
Muitas vezes, é o terapeuta que tem medo, não o cliente. Quando
quer que o terapeuta possa confiar em sua intuição e dizer o que ele
vê como verdadeiro em um determinado momento, embora possa
parecer duro para o cliente, normalmente tem um efeito positivo e
muitas vezes ele vai agradecer ao terapeuta depois. Existe um pode r
ao se dizer a alguém: "Você quer morrer", se isso é o que revela uma
constelação. Mas, se o terapeuta tenta suavizar esta mensagem
dizendo, por exemplo, "parece que você pode querer morrer", ou
atuando como um salvador ou ajudando o cliente a evitar fazer o que
a constelação mostra o que ele realmente quer fazer. Por exemplo,
deitar-se ao lado de um pai morto - nesse caso, o cliente não pode
ser ajudado ou curado e a oportunidade de mudança é perdida.
O nosso trabalho como terapeutas de Constelação Familiar é ajudar
clientes a olharem para uma certa realidade, não é o nosso trabalho
resgatar pessoas. É a verdade que dá força, enraizamento e a
oportunidade para o cliente salvar a si mesmo. É a verdade deste
momento que ilumina qualquer constelação.
A necessidade da sinceridade
Coragem e sinceridade são necessárias por parte do terapeuta. Já
falamos sobre a coragem, mas a sinceridade tem um papel especial a
desempenhar também. Sinceridade, nesse caso, significa ver e
consentir com as limitações pessoais como um facilitador, para saber
o que se pode enfrentar, e o que não se pode. Se há um problema
que traz à tona o medo no facilitador, ele deve respeitar isso, e
também reconhecer que isso é algo com o qual ele não pode
trabalhar.
Não importa se é porque um terapeuta não tem experiência suficiente
ou simplesmente porque faz com que ele tenha medo. Não há
necessidade de haver uma razão para isso. Pessoalmente, eu teria
mais confiança em um facilitador que diz diretamente que não pode
trabalhar com um determinado problema do que em alguém que diz
poder, depois finge ser quem não é.
Isso, por sua vez, é um convite para o terapeuta estudar e explorar
uma área desconhecida ou tabu dentro de si, tornando-se
familiarizado com ela como um prelúdio para torná-la parte de seu
trabalho. Enfrentar tais desafios é útil, naturalmente, se o terapeuta
tem enfrentado situações semelhantes em sua própria vida. Mas isso
não significa que ele pode lidar apenas com os problemas que
enfrentou - como se ele só pudesse lidar com abuso na infância, por
exemplo, se ele tivesse sido abusado na sua própria infância.
Certamente, todavia, ele precisa ter humildade para aprender com a
vida de uma pessoa abusada e compreender a situação familiar que
ele ou ela tem vivido.
Todo mundo pode crescer além dos limites pessoais. Sempre que um
terapeuta está empaticamente disponível, ele pode aprender com o
cliente e, desta forma, transformar-se, também. Ele toma
conhecimento de outras vidas, outras motivações, outros sacrifícios,
ambições, ansiedades, outras formas de agir das pessoas, o que pode
ser muito diferente da sua própria experiência de vida.
A abordagem básica de um facilitador de Constelação Familiar deveria
ser continuamente confrontar suas próprias limitações e estar aberto
a novas possibilidades. Quando um terapeuta depara com uma de
suas limitações - algo que acontece todo o tempo - ele precisa
reconhecer isso e descobrir como ir além, por exemplo, sob a
supervisão de alguém que tem mais experiência neste campo.
Quando um terapeuta de Constelação Familiar está comprometido
com o crescimento, o que todos os terapeutas devem essencialmente
estar, ele pode, a algum momento, chegar a uma barreira em que ele
sente que não pode ir além. Mas, mesmo que pareça que ele está
batendo a cabeça contra uma parede repetidamente, ele precisa
continuar aprendendo até que compreenda algo sobre isso. Sessões
que não vão bem ou são difíceis de alguma forma, geralmente,
acabam sendo mais importantes para o terapeuta do que as sessões
de sucesso. Quando uma sessão vai bem, ele pode ganhar confiança
e sentir satisfação, mas não vai aprender muito. Quando uma sessão
é um fracasso, o terapeuta tem a oportunidade de aprender muito -
e, em particular, ele aprende humildade.
Além da consciência pessoal
No contexto da Constelação Familiar, um terapeuta com pontos cegos
está provavelmente sendo constrangido pela sua consciência pessoal,
ligando-o à sua família de origem e tornando isso difícil para ele
reconhecer, ou mesmo ver certas situações ou certas pessoas. Se, por
exemplo, a mãe de uma terapeuta foi espancada pelo marido, pode
ser difícil para essa terapeuta abrir seu coração e reconhecer o marido
violento de sua cliente, pois isso poderia fazê-la sentir-se desleal com
a mãe.
Um exemplo mais extremo: imagine que uma terapeuta foi estuprada
no passado e tem uma cliente que vem com o mesmo problema. Por
um lado, ela pode ser capaz de compreender a cliente bem, mas por
outro lado ela pode encontrar dificuldade para ajudar a cliente fazer
as pazes com seu estuprador, se ela não foi totalmente capaz de fazer
isso com o homem que a estuprou.
No primeiro exemplo, um terapeuta cuja mãe foi espancada,
provavelmente, carregará a raiva de sua mãe por homens e surge a
pergunta: como pode alguém que está zangado com os homens
ajudar alguém a tornar-se aberto a eles? Em uma situação como esta,
um marido excluído da cliente pode ser negligenciado inteiramente
sem que ninguém perceba. Pode-se entender que a identificação com
um cliente pode impedir a solução e que é importante ser capaz de
distinguir entre empatia com o cliente e identificação com as
questões do cliente.
A identificação é onde não há distinção entre o terapeuta e o cliente.
Sua dor é a dor do terapeuta. Suas angústias são as ansiedades do
terapeuta. A identificação é largamente inconsciente e se aplica a
qualquer questão que faça com que o terapeuta invista uma grande
quantidade de sentimento ou emoção na constelação e seu resultado.
Empatia, por outro lado, é mais como um sentimento consciente,
semelhante à simpatia, mas sem a necessidade de refazer ou mudar
o cliente de alguma maneira. A empatia é um sentimento paralelo, no
qual o coração, a mente e mesmo o corpo podem ressoar com a dor
do cliente sem o terapeuta pensar que é dele mesmo. Ele pode ter a
sensação dela, senti-la, compreendê-la profunda e existencialmente
enquanto é exposto a ela, ou por quanto tempo desejar, sem sentir
que foi apanhado por ela como se fosse sua própria dor.
A identificação é como uma pele extra. Empatia é como um chapéu:
o terapeuta pode colocá-lo e também pode tirá-lo.
Assim, no caso de um terapeuta do sexo feminino, cuja mãe tem sido
espancada pelo marido, ela precisaria manter uma certa distância da
sua mãe - uma distância dos preconceitos e preferências pessoais da
mãe e do resultado de sua vida. Em outras palavras, essa terapeuta
precisará ser capaz de aceitar uma certa quantidade de culpa em
relação à sua mãe. Se ela for capaz de fazer isso, ela terá a força para
lidar com a questão que seu cliente traz, sem tomar partido ou ficar
cega por ideias preconcebidas.
O ponto principal aqui é que um facilitador precisa ter trabalhado em
seu próprio sistema familiar com alguma profundidade e ir além das
limitações da sua consciência pessoal. Seria difícil imaginar como uma
terapeuta pode ajudar uma cliente a superar as consequências de um
estupro, se ela ainda está em fúria contra um ex-marido que era
violento com ela. Isso pode parecer óbvio, mas eu frequentemente
deparo com clientes que trabalham como terapeutas de Constelação
Familiar que rejeitam ardentemente um ou outro de seus pais.
Conectando-se com os pais
Um facilitador de Constelação Familiar deve estar conectado aos
próprios pais de uma forma saudável; ele precisa ter os pais no
coração. Só então ele tem a força necessária e os recursos emocionais
para encontrar um lugar em seu coração para os pais do cliente
também. A verdadeira ajuda para um cliente vem quando o terapeuta
pode honrar e respeitar os pais do cliente quem quer que eles sejam,
o que quer que possam ter feito, e isso só pode acontecer se ele fez
o mesmo com os próprios pais.
Hellinger, em muitas ocasiões, se recusou a trabalhar com pessoas
que insistentemente rejeitam seus pais. No entanto, o respeito que
Hellinger exige para os pais não se dirige a qualquer coisa que eles
possam ter feito, mas por quem eles são intrinsecamente, pelo fato
de que eles são simplesmente pais. É uma importante diferenciação
que muitas pessoas acham difícil de resolver: ser capaz de fazer uma
distinção emocional entre a feiura de um ato e a humanidade
essencial da pessoa que o comete.
Quando o terapeuta pode honrar os pais do cliente simplesmente
pelo que são, em um nível profundo, ele honra o cliente também. Se
ele faz isso independente de o seu cliente ter ou não rejeitados os
pais, ele está profundamente em sintonia com o desenrolar da vida
do seu cliente. Então, ele tem o poder de trabalhar da maneira que
sente adequada, que pode até mesmo incluir certas decisões “não
terapêuticas" como escolher não facilitar uma determinada
constelação, ou mesmo 'abortar' uma sessão pela metade, e ambas
são intervenções válidas por elas próprias.
Desencorajando a transferência
Na Constelação Familiar, nós não trabalhamos com o conceito de
transferência, segundo o qual o amor de um cliente pelos seus pais é
projetado sobre o terapeuta. De fato, em vez de incentivar a
transferência, nós fazemos o contrário e desencorajamos a
transferência desde o início.
A transferência geralmente envolve o cliente transformando seu
terapeuta no pai ideal e, em algumas escolas de psicanálise, um
analista pode permitir e encorajar isso como um método adequado
por meio do qual tenta resolver os problemas do cliente. Na
Constelação Familiar, não substituímos os pais; em vez disso, desde o
início, nós ajudamos o cliente a se conectar diretamente com os seus
pais verdadeiros e, como resultado, a transferência é mínima. Com a
transferência mínima, o facilitador da Constelação Familiar não
precisa tratar o cliente como criança e, desde o início, ele deixa toda
a responsabilidade pela vida do cliente nas mãos dele.
Não assumir a responsabilidade pelo cliente significa que o facilitador
não precisa se envolver na resolução de problemas ou encontrar
soluções. O trabalho dele é acompanhar o cliente e ajudá-lo a
encontrar uma ligação profunda e saudável com os seus pais. Nesse
sentido, ele precisa adotar uma abordagem humilde e não permitir
qualquer dependência se desenvolver.
A ideia de "trabalhar sobre" uma questão não é apropriada na
Constelação Familiar, que é uma das razões pelas quais cada sess ão é
completa em si mesma. Em vez disso, algo muito diferente ocorre: o
facilitador ou terapeuta coloca uma constelação, criando o campo
sistêmico - ou campo de conhecimento - da família de um cliente e
supervisiona a posição dos representantes. À medida que o terapeuta
entra neste campo e se expõe a ele, recebe insights, que, em seguida,
reflete de volta para o cliente. Tendo feito isso, ele deixa a nova
compreensão ter seu impacto no cliente e se retira; ele não precisa
nem saber o que acontece depois.
Em outras palavras, o papel do facilitador é se conectar com uma força
maior do que ele mesmo e funcionar como um instrumento dessa
força - pode-se dizer que ele se torna um veículo ou um canal. Dessa
forma, um facilitador não pode querer fazer algo sozinho; ele apenas
se fez disponível. Muitas vezes, ele mesmo pode ser surpreendido
com o rumo dos acontecimentos que ocorrem em uma sessão. De
fato, um bom terapeuta frequentemente aprende tanto a partir de
uma constelação quanto o cliente e, assim, expande sua compreensão
do trabalho.
Então, o que um terapeuta pode fazer em uma sessão e até onde pode
ir não está realmente em suas mãos. Ele olha para a imagem da
constelação familiar e se move com a dinâmica oculta até que chega
a um ponto em que ele para por sua própria vontade. Nesse ponto, o
terapeuta também precisa parar e se retirar, porque ele só pode ir até
onde o movimento de reconciliação dentro desse sistema familiar
está pronto para ir nessa etapa. Igualmente, ele vai tanto quanto ele
mesmo pode permanecer em contato com esse movimento, ou força,
e quanto mais experiência ele tiver, mais ele será capaz de sair do
caminho e permitir que essa força se mova.
Um terapeuta iniciante pode tentar arduamente, pode sentir-se com
um grande desejo de ajudar, pode estar muito determinado a criar
harmonia em um sistema familiar e, desse modo, colocar pressão
sobre o cliente. Um bom terapeuta aprende quando avançar e quando
recuar e não ter medo dos dois. A paciência e a habilidade de esperar
receptivamente são necessárias. Quando um facilitador pode ficar em
um estado passivo de espera, muitas vezes um novo impulso ou
insight vem por si só. Ele precisa ser capaz de confiar que esse
momento vai chegar e, então, confiar novamente, quando ele for
embora, de modo que saiba instintivamente como proceder e quando
parar.
Em suma, a abordagem básica da Constelação Familiar envolve ver
qual é o caso, relaxar com essa compreensão, repousar em um espaço
de aceitação e permitir que a dinâmica natural da sessão torne o
próximo passo visível - o que não é nada mais, nada menos, do que
permitir que a própria vida seja o guia do terapeuta.
Soluções imprevisíveis
Uma solução verdadeira é sempre um "acontecimento"; é não
planejada, inesperada. O terapeuta não tem nenhuma maneira de
saber para onde uma constelação vai se levar. Mesmo que uma
determinada constelação possa parecer ao terapeuta como uma dúzia
de outras que ele já facilitou, fundamentalmente não há duas
situações iguais e, durante o trabalho cada uma vai se revelar
diferente.
Em um caso, a dinâmica familiar pode chegar a uma resolução e todo
mundo será profundamente tocado, enquanto que, em uma situação
aparentemente idêntica, nada se moverá e todos vão se sentir
esgotados. É importante permitir essa qualidade imprevisível, esse
mistério, sem tentar descobri-lo, ou "ajeitar" o resultado. Isso pode
ser desconfortável no início, especialmente em momentos em que o
terapeuta viu uma possível solução, uma hipótese, a qual, quando
testada na constelação não funciona de fato... E nenhuma ideia nova
chega para substituí-la.
Muitas vezes em uma sessão de constelação essa lacuna aparece e o
terapeuta não sabe como proceder. Relaxar nessa lacuna e esperar
até que algo se manifeste pode ser desconfortável, porque,
essencialmente, o terapeuta está à espera de um insight que não faz
parte da sua aprendizagem, ou da sua formação, ou não está
relacionado a quaisquer noções pré-concebidas sobre o que ele pode
pensar que deve ocorrer neste caso, mas essa é uma das coisas mais
importantes que um facilitador pode aprender. Os insights
verdadeiros sempre surgem dessas lacunas.
Tendo enfatizado a necessidade de abraçar o misterioso e o intuitivo,
talvez eu deva equilibrar a minha abordagem neste livro, afirmando
que não sou contra as explicações racionais ou uma compreensão
intelectual do que acontece na dinâmica de um sistema familiar. Afinal
de contas, este livro é, em si, uma explicação racional dessas normas
e dessa dinâmica. Mas eu preciso destacar a importância de uma
terapeuta permanecer ciente da presença de forças maiores
envolvidas na terapia de Constelação Familiar; diante disso, nós
somos, e provavelmente sempre seremos, ignorantes. A vida, em sua
essência, é misteriosa e a Constelação Familiar reflete essa realidade.
Respeitando os campos de energia
Cada sistema familiar tem seu próprio campo de energia e isso é algo
que emerge espontaneamente sempre que uma nova constelação é
criada. É por meio desse campo de energia, ou campo de
conhecimento, que os representantes são capazes de sentir o que está
acontecendo dentro de um determinado sistema familiar e refletir
isso de volta para o cliente e o terapeuta. Pessoalmente falando,
quando eu trabalho como facilitador, estou muito ciente desse campo
de energia e mostro meu respeito movendo-me ao redor da sala com
tanta sensibilidade quanto eu possa. Por exemplo, se existe um
conflito se desenvolvendo entre duas pessoas no sistema familiar, eu
não estou diretamente na frente deles, ou andando entre eles. Estou
ciente de que eu sou um estranho e preciso respeitar a relação deles.
Às vezes, se não tenho clareza de como uma determinada posição é
sentida, posso me colocar ao lado do representante para sentir isso,
mas em geral eu confio no que representantes dizem sobre as suas
percepções internas.
Eu não permito qualquer movimento desnecessário na sala durante
uma sessão de constelação, já que isso pode perturbar o que acontece
no meio da sala ou interferir nos movimentos dos representantes.
Peço às pessoas para não se mover ou sair da sala quando uma
constelação está se formando. Uma vez que o processo começa, todo
mundo deve ficar no seu lugar. Às vezes, energias muito sutis vêm à
tona e qualquer coisa de fora pode ser um distúrbio.
Como eu disse antes, o terapeuta trabalha nos melhores interesses do
cliente e isso, por sua vez, significa que ele está trabalhando
principalmente em nome daqueles que foram excluídos de um
sistema familiar, porque essas são as pessoas que estão afetando o
cliente - vamos discutir mais isso no capítulo seguinte. Ele precisa
descobrir quem foi mal julgado, ignorado e não honrado de alguma
forma e, em seguida, levar os interesses da pessoa para o coração,
não de uma forma tendenciosa, com preconceito, mas com um
entendimento de que a principal fonte de energia em todo sistema
familiar é sempre encontrada com os membros excluídos - é essa
energia que dá ao terapeuta o poder para criar um movimento em
direção à solução.
Digamos que houve um assassinato em uma família e o assassino foi
posteriormente condenado por outros membros da família e excluído
dela. Isso significaria que, para encontrar uma boa solução para o
cliente, o terapeuta precisará criar um lugar em seu coração para esse
assassino, como ele faria com qualquer outro antecedente
perpetrador. Agora, se o terapeuta tem um julgamento moral ou uma
atitude condenatória em relação ao assassino, ele não será capaz de
ajudar o cliente a sair do emaranhamento familiar. Essa capacidade
de abraçar o perpetrador não é fácil às vezes, já que muitas vezes
significa que o terapeuta tem de estar sozinho diante dos julgamentos
de todo um grupo, ou sociedade, como se manifesta por meio dessa
família em particular. No entanto, se ele deve conduzir o cliente com
sucesso a uma solução realista, é essencial que seja capaz de deixar
os preconceitos morais e os valores sociais que, de formas sutis,
podem distorcer sua percepção.
Apoiando os movimentos de cura
O trabalho de um terapeuta é permitir que aconteça um movimento
em qualquer direção que ele queira ir e em ocasiões isso levará o
cliente à fronteira da morte. Por exemplo, se é revelado em uma
constelação que o cliente inconscientemente quer seguir seu pai que
morreu quando ele era criança, o terapeuta precisa permitir isso, por
mais que ele mesmo não goste da ideia. Em um caso como este, ele
pode convidar o cliente a deitar no chão ao lado do seu pai morto. O
terapeuta deve estar atento a não tentar salvar o cliente da propensão
de seguir seu pai, mas confiar nesse movimento, mesmo que possa
parecer que o está levando na direção de algo com o qual o próprio
terapeuta se sente desconfortável.
Se o terapeuta permite que esse movimento vá ao seu extremo, pode
chegar a um ponto onde o próprio filho sinta que isso não está certo;
ele começou a ter uma percepção da lei da Ordem Sagrada e
compreendeu que é inapropriado para ele seguir seu pai. Na verdade,
esse é todo o sentido de permitir que a constelação vá tão longe: de
modo que um ponto natural de retorno possa surgir
espontaneamente, porque, quando uma constelação se moveu a tal
extremo, a revelação do cliente de que isso não está certo pode
ocorrer mais facilmente. Além do mais, o cliente pode receber o
comentário da pessoa que representa seu pai que ele preferiria ver
seu filho vivo, bem e feliz.
Nas Constelações Familiares, um terapeuta lida com dois tipos de
movimentos: movimentos de cura e movimentos de emaranhamento
(discutiremos os movimentos no capítulo 21). Primeiro, o terapeuta
ajuda os movimentos emaranhados virem à tona e então apoia a
emersão dos movimentos de cura à medida que eles se manifestam
dentro do sistema familiar. Por exemplo, o cliente que quer seguir o
seu pai na morte é pego em um movimento emaranhado e uma vez
que ele experiencia profundamente isso e suas implicações, ele pode
estar pronto para se levantar, reverenciar o pai morto, se virar e se
mover para frente na direção da sua própria vida.
Isso seria a manifestação do movimento natural de cura. Mas, como
é possível também, ele pode permanecer deitado ao lado do seu pai.
O terapeuta não pode saber o resultado quando inicia a sessão e ele
precisa respeitar o que quer que o representante sinta em fazer.
Tipicamente, em tal caso, o representante sentirá primeiro o
movimento emaranhado e então, depois de um tempo, o movimento
de cura se revela.
Olhando para a imagem maior, cada sistema quer curar a si mesmo e
tem uma urgência embutida pela saúde, continuidade e
sobrevivência, da mesma forma que todos os organismos vivos têm.
Mas como e de que forma isso irá acontecer e em que período de
tempo, um terapeuta de Constelação Familiar não tem nenhuma
maneira saber.

Capítulo Dezoito
Diretrizes para o facilitador
Ao realizar uma sessão de constelação familiar, Bert Hellinger afirma
que sua prioridade é obter uma imagem da família inteira. "Eu olho
primeiro para aqueles que estão faltando no sistema, aqueles a que
tem sido negado o reconhecimento ou o amor", explica Hellinger.
"Meu coração está com os excluídos e justamente porque o meu
coração está com eles, posso trazê-los de volta. Não é ficar ao lado
de um indivíduo, mas permanecer com a totalidade. Quando estou
com os excluídos, os outros são forçados a uma nova orientação e
como eu contenho o todo, os outros entram em um relacionamento
com aqueles que foram excluídos".
Já mencionamos que um facilitador tem de estar do lado de uma
pessoa excluída em um sistema familiar. Mas pode não estar claro que
desde o início qual pessoa foi excluída. Normalmente, o facilitador
começa com uma certa hipótese, ou teoria, uma espécie de suposição
inteligente, com base na informação que ela reúne a partir do estudo
da imagem da constelação em frente a ele e da entrevista da pré -
sessão com o cliente. O excluído é geralmente uma pessoa com um
destino difícil, ou alguém cuja lembrança pode despertar memórias
dolorosas em outros membros da família.
A procura por uma pessoa excluída tem prioridade porque - como já
foi observado - exclusão, como tal, cria consequências dolorosas para
os membros descendentes da família, que ficaram emaranhados por
tentar representar essa pessoa, impulsionado a fazer isso por uma
consciência coletiva que exige que cada membro de um sistema
familiar tenha o mesmo direito de pertencer e ser reconhecido.
A principal razão pela qual o terapeuta pede informações sobre certos
eventos na história da família é porque ele está procurando pelo
excluído ou por aquele que está faltando. Se ele acha evidência que
indica exclusão então, com base nisso, ela constrói sua hipótese, que
tem de ser verificada por meio da dinâmica real da sessão de
constelação. Ele observa se a introdução desta pessoa dentro do
sistema tem o efeito esperado, que é medido pela resposta dos
representantes dos outros familiares, quando tal pessoa é trazida para
o cenário.
Duas questões básicas
Essa é uma maneira de proceder. A outra maneira é simplesmente
criar uma constelação com todos os membros da família que podem
ser importantes e, em seguida, olhando para a imagem que se revela,
o terapeuta faz duas perguntas básicas:
1) Quem está faltando?
Quem foi excluído, esquecido ou de alguma forma desconsiderado
neste sistema familiar?
2) Quem quer ir?
Quem quer deixar essa família - que energia está saindo do sistema?
Um membro da família excluído geralmente fica ao lado de uma
imagem da constelação, separado dos outros, ou atrás... e ninguém
está olhando para ele. Ele geralmente se sente como um estranho,
não visto, solitário, não amado ou respeitado.
Quando o facilitador muda a sua posição de modo que ele seja visto,
ou vira os outros, para que eles possam vê-lo, há geralmente uma
notável mudança na atitude de outros membros da família. Todo
mundo se sente mais vivo ou torna-se interessado no que está
acontecendo, ou começa a se sentir tocado de alguma forma; além
disso, o membro excluído se sente mais à vontade e menos
sobrecarregado.
Uma pessoa que quer deixar o sistema familiar pode ter os olhos
focados em algo, ou alguém, muito longe, ou ela pode estar olhando
para o chão como se olhasse para um morto, ou ela pode
simplesmente ter vontade de ir para longe dos outros membros da
família. Às vezes, deixar essa pessoa seguir o seu impulso de se afastar
irá trazer alívio para o resto da família; em outros momentos, pode
haver uma criança que quer seguir essa pessoa ou que está em seu
caminho para impedi-la de sair.
Claro que, olhar para longe, ou para o chão, pode ser uma indicação
de que existe uma pessoa desaparecida que ainda não está na
imagem e o facilitador pode perguntar ao cliente o que aconteceu
nessa parte da família, ou ela pode simplesmente colocar uma pessoa
na direção para onde o representante está olhando. Frequentemente,
essa intervenção vai trazer alívio para a pessoa quer ir e o amor por
alguma pessoa ausente virá à luz. Ela mostra, em primeiro lugar, por
que alguém queria deixar a família - por amor àqueles que estão
faltando - e às vezes a pessoa que queria ir está agora pronta para
ficar com a família ao ser colocada próxima ao excluído, a quem é
agora dado um lugar de honra no sistema familiar.
Às vezes, essa dinâmica é ilustrada muito dramaticamente quando
todos os membros de uma família específica estão olhando em uma
única direção. Quase sempre, isso indica que há alguém, ou talvez
muitas pessoas, faltando no sistema. Essa imagem muitas vezes
ocorre no caso dos sobreviventes do Holocausto, em que os membros
descendentes de uma família estão juntos olhando na mesma direção
- para os que morreram. Quando essas vítimas são colocadas dentro
do sistema, geralmente há um grande alívio, conforme se torna claro
que esta é para onde a atenção do resto da família estava sendo
atraída.
Naturalmente, há tantos cenários possíveis em uma Constelação
Familiar que orientações para a condução de uma sessão não pode
ser precisa. Cada caso tem sua dinâmica única. Mas, em geral, é um
bom método para um facilitador deixar-se guiar por essas duas
questões básicas: descobrir quem está faltando e quem quer sair.
Então, torna-se claro quem precisa ser incluído, quem precisa ser
reconhecido e honrado; quem precisa ter permissão para ir ou precisa
ser deixado para o seu próprio destino.
Às vezes, por exemplo, um pai pode querer ir para um parente da
família que carrega culpa ou para alguém que morreu precocemente
e o filho tem que respeitar este desejo e permitir que o pai vá. Em tais
casos, isso significa que o filho precisa respeitar os desejos do pai e
não mais interferir em seu destino. Esse tipo de respeito sendo uma
forma de amor mais madura e maior do que tentar agarrar-se ao pai,
tentando ficar perto, ou fazendo exigências.
O movimento de cura em uma constelação está normalmente ligado
a estas questões básicas: chegar mais perto de um certo membro da
família ou permitir uma certa distância, tomar alguém mais para
dentro do coração, ou deixar alguém ir. Muitas vezes, por exemplo,
um cliente está muito perto de um dos seus pais e, a fim de encontrar
a paz e criar reconciliação, ele precisa deixar essa proximidade e se
mover para perto do outro progenitor. Não será apenas um alívio para
ele, mas também para seus pais.
É claro que é totalmente outra questão se o cliente está ou não pronto
para se afastar de um pai em particular ao qual ele está ligado. Em
muitos casos, o cliente quer permanecer emaranhado, o que para ele
pode parecer mais fácil e mais inocente, porque abrir mão da
proximidade de um dos pais muitas vezes cria culpa em uma criança.
Renunciar a essa proximidade e estar pronto para estar sozinho é um
desafio difícil para muitas pessoas. E aqui o terapeuta só pode
oferecer ao cliente a oportunidade de mudar; ele não pode obrigar o
cliente a se afastar.
No entanto, existe uma consideração importante que pode ajudar o
cliente: lembrá-lo sobre a Ordem Sagrada do sistema, de acordo com
ela, cada um tem o seu lugar legítimo na família, os filhos têm de ser
filhos e os pais, pais.
Três Princípios
Como a consciência segue três leis, pertencimento, equilíbrio e
ordem, então o facilitador precisa considerar três princípios: ele inclui
os excluídos, permite àqueles que querem ir que partam e afirma a
ordem correta. Esses princípios podem orientar um facilitador e
ajudá-lo a seguir o movimento de uma constelação específica,
permanecendo focados sem se perder em questões colaterais.
Usando as suas habilidades, o terapeuta segue o movimento que quer
acontecer. Por exemplo, se ele vê que alguém quer deixar a família -
talvez um dos pais - ele pode ajudar essa pessoa, pedindo-lhe para
dar alguns passos a mais na direção em que ela está olhando e em
seguida, observar o efeito que isso tem sobre os outros
representantes da família. Ou, se o terapeuta vê que alguém precisa
ser incluído, ele pode ajudar essa pessoa, trazendo-lhe para mais
perto da imagem da família e, novamente, observando o efeito.
Um movimento pode levar a outro e, passo a passo, a energia da
constelação orienta o terapeuta em uma determinada direção. Após
cada movimento, alguém pode se sentir tocado, alguém pode querer
chegar mais perto. Muitas possibilidades surgem e podem ser
seguidas, ao mesmo tempo em que sempre se mantêm os três
princípios fundamentais em mente.

Capítulo Dezenove
Três elementos: Ordem, Realidade e Energia
Ao realizar uma sessão de Constelação Familiar, um facilitador vai
achar que é útil ter em mente três elementos que apoiam o sucesso
da constelação. O terapeuta alemão Bertold Ulsamer chamou os
elementos de "ordem, realidade e energia" e eles são úteis para
analisar por que uma sessão não vai mais fundo ou chega a um
impasse. Neste capítulo, vou discutir a relevância deles e como podem
ser utilizados em constelações.
Ordem
A "Ordem" refere-se ao fato de que o terapeuta deve manter sempre
em mente a posição e o lugar de cada pessoa na hierarquia da família.
A ordem de um sistema familiar é determinada por quanto tempo
cada membro tem sido parte dele e discutimos isso em detalhes no
capítulo quatro.
Em uma constelação, ordem ou desordem encontra expressão na
maneira como os representantes são colocados, portanto, um
facilitador precisa lembrar quem é o pai, quem o filho, quem é o
"grande", quem é o "pequeno", quem estava aqui primeiro, quem veio
mais tarde. Então ele será capaz de compreender se os representantes
estão se comportando adequadamente. Por exemplo, se uma criança
está realmente se comportando como uma criança ou mais como um
pai, se um pai age como tal ou mais como uma criança, se uma
declaração feita por um membro da família para outro está de acordo
com a Ordem Sagrada.
Uma mulher se coloca próximo de seu pai em uma constelação e sua
mãe fica de lado. A partir desta imagem da constelação, o terapeuta
pode supor que ela está tomando o lugar da mãe, se colocando como
mulher do pai e olhando para sua mãe como se ela fosse uma criança.
A ordem está distorcida e, secretamente, essa mulher vai punir-se por
estar usurpando o lugar de direito da mãe. O terapeuta troca as
posições da mãe e da filha, colocando a mãe ao lado do pai e a filha
no lado oposto. Ambos os pais sentem que esse novo posicionamento
é "correto" e, após a resistência inicial, a filha também admite. O
terapeuta convida a filha para reverenciar a mãe dizendo: "Eu sou
apenas uma criança. Eu nunca serei capaz de tomar o seu lugar. Sinto
muito. Eu fui um pouco estúpida. Você é grande e eu sou pequena".
Dessa forma, a ordem é restabelecida e traz relaxamento e paz para
toda a família.
Uma constelação revela que o filho carrega a dor de seu pai. O filho
é convidado a dizer a seu pai: "Eu quero fazer tudo por você, mesmo
que isso custe a minha felicidade". Depois de os representantes
confirmarem a verdade desta sentença, a terapeuta então apresenta
uma frase que está de acordo com a ordem natural: "Querido pai, eu
deixo a sua dor com você, com amor, porque eu sou apenas seu filho.
Agradeço-lhe o que você fez por mim. Agora, em minha própria vida,
eu o farei algo em sua honra... eu vou ser feliz". De acordo com a
ordem, um membro mais novo, uma criança, não é permitida interferir
ou carregar qualquer coisa em nome de um membro antecedente da
família.
A fim de ajudar um cliente, o facilitador pode, quando necessário,
insistir para que ele respeite a ordem. Ele pode pedir ao cliente - como
uma criança na família de origem - para se curvar diante de seus pais,
mesmo que o cliente não queira fazer isso. Este tipo de intervenção
pode levar a um profundo insight para algumas pessoas, que
repentinamente se sentirão mais leves e perceberão que elas vêm
carregando um fardo por outro membro da família, sem nem mesmo
perceber.
Claro que o terapeuta precisa ser capaz de determinar se o gesto de
respeito do cliente é superficial ou se toca um espaço profundo na
sua psique. Se há resistência, então algum outro aspecto da dinâmica
familiar do cliente, tal como identificação com um membro
antecedente da família, terá de ser considerado primeiro e isso será
revelado ao se seguir o movimento dos representantes no sistema.
Como orientação geral, o terapeuta primeiro observa para onde a
energia no sistema quer ir - eu vou dizer mais sobre isso em seguida
- e, na continuidade da sessão, ele introduz mais elementos que têm
a ver com o reconhecimento da ordem. No entanto, o equilíbrio entre
impor a ordem e permitir que a energia se mova por si mesma é muito
delicado e pode ser dominado somente com experiência.
Insistir no reconhecimento da ordem é uma abordagem mais
"diretorial" para o trabalho de um facilitador, mas se ele for contar
com isso em demasia é provável que o trabalho se torne mecanicista
e superficial e pode trazer à tona uma resistência no cliente. Também,
pode conduzir a uma sensação de que tudo depende do terapeuta e
da sua capacidade de reposicionar os representantes e fazer a coisa
"certa" que, naturalmente, que não é a verdade.
Por outro lado, às vezes é importante para o terapeuta usar a sua
autoridade. Depender apenas da observação dos representantes, para
onde eles querem se mover e como eles se sentem em relação aos
outros membros da família, pode levar a um impasse e nenhuma
solução será encontrada, visto que todos permanecem dentro do
emaranhamento original. O terapeuta, como um estranho, pode ver
coisas que são negligenciadas pelas pessoas de dentro do sistema e,
portanto, ele precisa fazer uso de suas ideias e confiar em sua intuição
de uma forma determinada, sem hesitação.
Quando, em uma sessão, o terapeuta percebeu uma identificação do
cliente com um perpetrador nazista, ele pediu ao cliente para ficar
junto ao agressor. Após uma resistência inicial, o cliente assim o fez e
realmente sentiu-se melhor em pé ao lado dessa pessoa. Ele foi
pedido a dizer para o perpetrador: "eu sinto por você", o que
demonstrou ser verdadeiro.
O perigo de confiar demais em uma abordagem diretorial é que o
terapeuta pode seguir as suas próprias ideias preconcebidas, sem
realmente conectar com a energia do sistema com o qual ele está
trabalhando. Isso é, por vezes, sentido pelos representantes, que
seguem as sugestões dos terapeutas de má vontade e qualquer
solução encontrada desta forma está fadada a ser superficial e parecer
forçada. Isso acontece aos facilitadores que não têm experiência e é
geralmente uma consequência de um terapeuta tentando encobrir
sua própria insegurança. Nesses casos, é bom observar de perto a
respostas dos representantes para qualquer diretiva e desacelerar os
procedimentos. Menos intervenção é amiúde melhor do que demais.
Outra desvantagem da abordagem diretorial é que mais energias sutis
e emaranhamentos ocultos tendem ser negligenciados.
Uma constelação é um processo no qual o terapeuta é também um
aprendiz e suas intervenções devem ser orientadas pelas respostas
dos representantes. Ao observar a interação dos representantes e
receber o feedback, o terapeuta gradualmente penetra e compreende
a dinâmica familiar subjacente, incluindo emaranhamentos que são
muito complexos.
Então, como vimos, sabemos que a ordem sequencial - quem tem
precedência sobre quem - funciona como uma diretriz geral. Isso
ajuda o terapeuta a estar enraizado nas leis básicas da Constelação
Familiar, mantendo uma certa direção e visão global e o impede de
se perder nos sentimentos e movimentos energéticos que acontecem
entre os representantes. A partir dessa perspectiva, ele pode
geralmente compreender por que é que há desordem em um sistema
familiar e o que é necessário para trazê-lo para a harmonia e o
equilíbrio.
Os facilitadores que estão acostumados a trabalhar com essa
estrutura, acham fácil estabelecer a ordem natural do sistema familiar,
enquanto que aqueles que são mais intuitivos e acostumados a
trabalhar com a energia precisarão lembrar-se quem é realmente o
pai neste sistema e quem é o filho. É bom reconhecer o que os vários
membros da família sentem uns sobre os outros, mas no fim o que
importa mais é reconhecer a Ordem Sagrada.
Por exemplo, quando um terapeuta se depara com a situação em que
uma criança no sistema continua se sentindo superior à sua mãe, será
útil convidar a criança para dizer a sua mãe: "Eu me sinto grande, mas
eu sou pequeno". Ou, no caso de um pai, que se sente como uma
criança, dizer a seus filhos: "Mesmo que eu me sinta pequeno, eu sou
seu pai". Isso mostra que o que realmente importa na Constelação
Familiar são os fatos da vida - em outras palavras, a ordem familiar
correta e não o que sentimos sobre elas.
Realidade
Isso nos leva ao segundo elemento, que podemos chamar "a
realidade". Realidade refere-se aos eventos que aconteceram em uma
família - também podemos chamá-lo de "os fatos", incluindo quem
pertence ao sistema e o que eles fizeram. Esses fatos são geralmente
reunidos em uma entrevista com um cliente antes do início de uma
sessão, mas mais informações podem também ser coletados a partir
do cliente depois que a sessão começar.
Recolhendo fatos
Como sabemos, os membros da família mortos são parte do sistema,
de modo que o terapeuta pode perguntar se aconteceu alguma morte
precoce - "precoce", nesse contexto, significa que o cliente perdeu
um dos pais ou irmão na infância. Se um dos avós do cliente morreu
quando ele era criança, isso não seria considerado precoce. Outros
eventos importantes da família incluem doença, acidentes, alguém
que partiu ou foi mandado embora, alguém que participou de uma
guerra ou experiências relativas aos tempos de guerra. Crimes de
membros da família ou vítimas de um crime também são eventos
importantes, bem como separação precoce dos pais, ou se um dos
pais teve um amante anteriormente. Também pode ser importante
saber se os pais dos clientes vêm de dois países diferentes, ou foram
forçados a sair de um país.
Um facilitador irá reunir esses fatos em sua pré-sessão de entrevista,
mas, muitas vezes só descobrimos na própria sessão de constelação
quais desses eventos são verdadeiramente relevantes. No trabalho de
Constelação Familiar, um mínimo de informação é necessário; não há
necessidade de entrar em detalhes de histórias de família.
Naturalmente, a maioria dos clientes vai tocar sentimentos. Às vezes,
sentimentos muito fortes acerca de tais eventos e, por vezes, também,
pode ser difícil para um cliente simplesmente relatar os fatos sem
imediatamente avaliá-los. Pode ser também que um evento específico
foi tão grande que o cliente pode não querer reconhecer o que
aconteceu.
Se um cliente começa a falar sobre informações irrelevantes, tais
como o pai que estava sempre com raiva ou a mãe que nunca foi feliz,
ou quer contar uma história longa sobre o que aconteceu em sua
família etc., o facilitador pode interrompê-lo e explicar o tipo de
informação que é útil na Constelação Familiar.
Uma maneira de ajudar o foco no cliente no que é essencial, como foi
mencionado anteriormente no livro, é pedir-lhe para descrever o seu
problema e sua família em apenas algumas frases. Oferecer uma
interpretação dos eventos pode ser uma forma inconsciente de tentar
levar o terapeuta em um caminho errado, evitando assim o problema
real. Ao permitir que um cliente use só poucas frases, o terapeuta se
protege de ficar distraído.
É típico de clientes que falam muito que eles estão tentando evitar a
dor profunda. Permitindo-lhes mencionar apenas palavras essenciais
tira sua estratégia usual e leva-os direto para o contato com a questão
principal. Pedir a uma pessoa para desacelerar ou respirar
profundamente entre as frases, ou apenas pedir-lhe para ficar em
silêncio por um tempo, serve para a mesma finalidade. Outros clientes
podem dar uma enxurrada de informações como "fatos", caso em que
o terapeuta precisa selecionar o que é evento importante para esta
sessão particular e que tem um impacto mais forte.
É possível trabalhar com bem pouca informação, por exemplo, nos
casos em que o cliente não sabe muito sobre a sua família de origem.
Aqui, tem que se confiar mais em feedback ou movimentos dos
representantes que compõem a própria constelação. Muitas vezes,
também acontece que um cliente se lembra de eventos importantes
só mais tarde, especialmente se esses eventos dizem respeito a um
membro da família que foi excluído.
Outras vezes, os clientes não sabem que informação é relevante e em
tais casos pode ser útil explicar, no início, como a constelação familiar
funciona. Se um cliente é incapaz de fornecer qualquer informação, o
terapeuta pode guiá-lo para perceber o que é importante ou, em uma
situação de grupo, pode ser convidado a assistir às constelações de
outros em primeiro lugar.
Há tantos cenários diferentes que é difícil cobrir todas as
possibilidades, mas é sempre relevante encontrar quem pertence a
um sistema familiar e com quem o cliente tem experienciado
dificuldades.
Além de reunir informações, a pré-entrevista pode também ser uma
forma do terapeuta avaliar como um cliente está "em contato"
consigo mesmo, com seus sentimentos, com sua compreensão do que
vem acontecendo em sua família. Isso dará ao terapeuta uma ideia do
que é possível para esse cliente em uma sessão de constelação
familiar.
Alguns terapeutas usam questionários para coleta de informações e
isso pode ajudar os clientes a se lembrar de eventos e pessoas, mas
pessoalmente eu nunca permito que um cliente leia para mim o que
ele escreveu. Eu quero ouvir o cliente falar sobre essas coisas, porque
então eu serei capaz de detectar quais eventos e quais membros da
família acionam sentimentos e carregam emoções; e esses serão
indicadores úteis de onde procurar desequilíbrios nesse sistema
familiar.
Usando fatos em uma sessão
Trabalhando com a realidade em uma sessão de constelação significa
lembrar fatos sobre um sistema familiar, incluí-los no trabalho, por
exemplo, por meio do pedido para um assassino dizer a sua vítima
"Eu matei você", ou uma esposa para o marido que a deixou "Eu tenho
dois filhos com você", ou uma criança para pais que lhe deram para
adoção "Você me deu". Esses fatos não são diretamente visíveis por
meio da constelação, de modo que o terapeuta tem que encontrar
maneiras de incluí-los. Por exemplo, dando uma frase em particular
para um membro da família dizer para outro - frases bem curta,
diretas e factuais, sem qualquer emoção ou indicação de moralidade.
Por exemplo, pode acontecer de uma mulher ainda estar apaixonada
por um antigo parceiro, mas a realidade é que ela é agora casada com
outra pessoa, com quem tem filhos. Isso tem que ser reconhecido
aberta e diretamente. Ou um pai, que morreu cedo por causa de
doença, pode precisar dizer para seu filho que não era sua escolha
sair da família dessa forma. Se ele cometeu suicídio, seria diferente e
ele pode precisar dizer: "Eu queria partir". A partir de tais sentenças,
os membros da família são obrigados chegar a termos com o que
fizeram ou com o que aconteceu e enfrentar a realidade.
A função do terapeuta é dar plena importância à realidade, por isso
ele deve ser objetivo, neutro e sem medo de chamar as coisas pelos
seus verdadeiros nomes - por exemplo, chamar um assassino de
assassino, ou para ajudar uma pessoa com câncer avançado a
enfrentar a morte. Se um terapeuta quer fazer coisas para manter a
"boa aparência" e tem medo de ver a verdade nua e crua ou é incapaz
de confrontar as pessoas com suas responsabilidades, então a
realidade da situação não pode ter seu impacto total em uma
constelação e o resultado pode ser vago, sem uma solução clara.
Por exemplo, é importante pedir que um cliente conte exatamente o
aconteceu em uma determinada situação e não deixá-la vaga. Em vez
de usar a expressão "abuso" como um termo geral, muitas vezes é
melhor descrever o que realmente aconteceu. Como regra geral, os
clientes não precisam ser protegidos da realidade de sua vida e
encontrarão mais relaxamento se as coisas forem esclarecidas. Para
um homem que não ama sua parceira, pode ser mais útil para ele dizer
"Eu usei você" em vez de " Eu me senti atraído por você no início, mas
isso desapareceu com o tempo". Vai ser mais forte dizer "eu quero
matar você" em vez de "Eu me sinto violento".
Geralmente, expressões abstratas são menos poderosas do que
comunicar diretamente o fato real. Pode ser fácil para um cliente dizer
a seu pai "Eu honro você", mas difícil dizer "Eu respeito o seu amor
por sua mãe e o deixo carregar a sua dor". Da mesma forma, um
cliente pode dizer que ele está em paz com seu ex-parceiro, mas,
quando se trata de reconhecer o direito desse parceiro como o pai de
seus filhos, uma realidade bem diferente pode ser revelada.
O terapeuta também precisa ser capaz de distinguir entre os
sentimentos que surgem no cliente por meio da negação da realidade
e os sentimentos que resultam do reconhecimento da realidade. Esta
distinção é importante, pois o objetivo é ajudar as pessoas a encarar
a verdade do que aconteceu em vez de apoiar fantasias que não levam
a lugar nenhum. Encarar a realidade é a única maneira para se ter
força e integridade e, por isso, o trabalho do terapeuta é ajudar o
cliente a concordar com a realidade, como ela é, o que muitas vezes
traz o cliente para fora de uma situação irreal.
Uma cliente que perdeu o pai muito cedo na sua vida, lacrimejando
diz ao terapeuta que se ela não se apegar à memória do pai, ela sente
que não será capaz de seguir com sua vida. O terapeuta lembra que
ela tem vivido sem o pai a maior parte de sua vida, tendo agora mais
de 40 anos de idade e um filho dela mesma. A cliente imediatamente
sai daquele sentimento e sorri.
Muitos terapeutas apoiam os clientes a entrar em sentimentos sem
distinguir se a sensação vem de um "sim" à vida como ela realmente
é, ou de um desejo de ter coisas de forma diferente. Naturalmente,
depois de viver algo doloroso, um cliente pode passar por uma
emoção forte, mas isso usualmente dura apenas um curto período de
tempo. Geralmente, no momento em que uma pessoa concorda com
uma realidade, ela sente uma certa força e, ao mesmo tempo, relaxa.
Uma mulher que perdeu a mãe cedo na sua vida, permanece zangada
com ela, como se sua mãe a tivesse traído por ter morrido. Depois de
encarar e confrontar totalmente a morte de sua mãe e sentir a dor
dessa perda, a cliente sente-se revigorada e é capaz de ficar de frente
para sua mãe, encará-la e dizer que agora ela vai ser feliz em sua vida,
por respeito e amor à sua mãe.
Energia
O terceiro elemento a ser lembrado é a energia e como ela influencia
uma sessão de constelação. Energia é movimento, sensação, impulso,
vitalidade; é dinâmica, vital e está sempre mudando, algo que todos
podem sentir, mas que por vezes fica perdido ou esquecido quando
as pessoas ficam envolvidas em teorias, ideias e conceitos. À medida
que uma sessão progride, o facilitador observa os representantes, sua
linguagem corporal, como se movem, para onde se sentem atraídos,
quaisquer sentimentos ou sensações que eles relatam. Estes
indicadores guiam o facilitador durante todo seu trabalho e ajuda-o
a encontrar o próximo passo.
Energia sempre tem a ver com este momento presente. Está se
manifestando agora e é algo a que todos na sala sentem. Às vezes, a
dinâmica da energia do sistema é óbvio desde o início, como uma
forte atração entre dois representantes, mas pode ser também mu ito
sutil e requerer um estado de alerta do terapeuta para detectar. A
energia decide se há vida em uma constelação ou não, se é
emocionante acompanhar o que está acontecendo ou se está se
tornando chato, banal e cansativo.
Um facilitador tem de estar conectado à energia de um cliente, à
energia de cada representante na constelação, à família como um
todo e também à energia das pessoas que estão presentes como
observadores, porque mesmo o comportamento de espectadores
passivos pode dar pistas sobre o que está acontecendo em uma
constelação. Por exemplo, se eles parecem entediados e estão
olhando para os seus relógios pode indicar que uma constelação
precisa ser interrompida ou continuada numa direção diferente.
No decurso de uma sessão, o terapeuta pode mover as pessoas por
toda parte na constelação, ou pedir-lhes para dizer frases uns aos
outros, mantendo um olhar de perto sobre como todos são afetados
por cada desenvolvimento. Por exemplo, se uma pessoa desaparecida
é trazida para a imagem e todos na constelação se viram
espontaneamente para olhar para essa pessoa, ou o cliente dá um
profundo sinal de alívio, é geralmente uma indicação para o terapeuta
que ele introduziu a pessoa certa.
Desde o primeiro momento, quando encontra um cliente, o terapeuta
está lidando com ele em um nível energético. Essa energia se expressa
de uma forma mental, por meio de palavras, mas também é
comunicada de formas mais profundas, tais como a partir de emoções
e linguagem corporal. Um cliente pode, e muitas vezes faz, apresentar
atitudes contraditórias, dizendo uma coisa e indicando algo
inteiramente diferente pela maneira que ele senta, gesticula e,
geralmente se comporta e é o trabalho do terapeuta decodificar o
que o cliente está realmente tentando comunicar. Trabalhar com o
cliente apenas em um nível intelectual frequentemente falta
profundidade, ao passo que trabalhar apenas em um nível emocional
ou físico pode faltar direção e clareza.
O terapeuta precisa estar sempre atento se a comunicação do cliente
está tocando-o de alguma forma, não no sentido de que ele se
identifica com o que está sendo expresso, mas no sentido de que ele
pode reconhecê-lo como verdadeiro.
Os terapeutas que usam uma abordagem teórica ou acadêmica na
Constelação Familiar, geralmente, dão demasiada importância ao que
o cliente está comunicando verbalmente. Outros, que são mais
intuitivos e sensíveis à energia, podem perceber sentimentos reais do
cliente entre as palavras, mas podem se perder nos altos e baixos da
expressão emocional sem dar à sessão uma direção clara.
Uma constelação expõe a energia oculta em um sistema familiar,
incluindo o amor entre os membros da família. Ela torna essas
qualidades visíveis a partir das posições nas quais os representantes
estão colocados, através das reações físicas, expressões faciais e
verbais e de maneiras mais sutis que podem tornar-se aparentes
quando o terapeuta pede aos representantes para relatar o que estão
sentindo ou experienciando.
É, naturalmente, uma arte perceber e sentir energia e o terapeuta
geralmente desenvolve essa capacidade a partir da experiência. Por
exemplo, se um filho se curva para seu pai, um terapeuta qualificado
saberá imediatamente se o arco está sendo feito com relutância ou se
é uma expressão genuína de amor e respeito. Ou, observando um
abraço entre uma criança e sua mãe, o terapeuta pode perceber se o
cliente está realmente abraçando sua mãe como uma criança,
permitindo-se ser segurado por ela, ou se ele permanece na posição
de um adulto, abraçando sua mãe como se ela fosse a "pequena".
Existem muitas diferenças sutis e significativas como estas para ser
observadas em uma constelação.
O que pode ser ainda mais importante é perceber que parte do
sistema familiar contém a maior parte da energia: o lado materno e
seus antecedentes ou o lado paterno e sua família. Além disso, o
facilitador precisa manter uma visão geral de todo o sistema, vendo
o que precisa ser tratado de imediato e o que é uma questão lateral,
abraçando a imagem inteira sem se perder em detalhes e,
especialmente, mantendo os melhores interesses do cliente no
coração.
Nenhuma solução pode ser encontrada se o facilitador não respeita a
energia de um sistema. Ele pode mover as pessoas ao redor de acordo
com a ordem 'correta', mas logo encontrará tanta resistência dos
representantes que terá que ceder. Pode ser um indicador importante
para um terapeuta perceber quando ele está ficando cansado, ou fizer
muito esforço e, frequentemente, isso significa que ele não está
seguindo a energia. Então, em vez de dizer para onde os
representantes devem se mover, o terapeuta pode perguntar se eles
sentem algum impulso e onde gostariam de estar, permitindo-lhes
mover de acordo com seus próprios sentimentos. Isso pode indicar
onde estão os emaranhamentos familiares.
É um pouco como o trabalho em equipe: os representantes sentem
os membros da família que eles estão representando e o que está
acontecendo dentro deles e o facilitador é como um coordenador,
ajudando estas dinâmicas a se manifestarem.
Há, obviamente, muitos níveis de energia. Geralmente, a energia que
se encontra no início de uma constelação é um emaranhamento
ligado a um amor "cego" ou "vinculado". Por exemplo, um filho quer
deitar ao lado de seu pai morto, indicando que ele não quer continuar
a viver sem o pai. Mais tarde na sessão, uma camada mais profunda
de energia pode ser revelada, através da qual os membros da família
se tornam cientes de uma forma mais consciente de amor. Por
exemplo, o filho pode decidir dizer adeus a seu pai morto, com
lágrimas e querer levantar-se e virar-se para sua própria vida.
Iremos discutir movimentos de energia com maior detalhe no capítulo
sobre "movimentos da alma". O que é importante lembrar aqui é que
seguir a energia em uma constelação tem limites. Permitir que as
pessoas sigam os seus impulsos não pode conduzir a uma solução,
visto que estes movimentos podem apenas indicar o "amor cego" da
criança. A fim de ter uma influência positiva e de cura, o amor do
cliente tem que se tornar mais consciente, mais maduro, mais
enraizado na realidade e introduzindo um elemento de ordem dentro
do sistema, como lembrando a alguém que ele é apenas uma criança
- pode também ser visto como uma maneira de trazer mais
consciência para a situação.
Todos os três são necessários
Podemos ver que todos os três elementos - energia, ordem e
realidade - precisam ser trazidos para a cena em uma única sessão.
Geralmente, se uma constelação não se move, é porque um desses
elementos não foi levado em conta. Isso significa que o facilitador se
esqueceu de respeitar a ordem, ou negligenciou um fato importante
sobre o que aconteceu na família, ou é insensível à energia do
sistema. No momento em que o elemento que falta é inserido, a
reconciliação é possível.

Capítulo Vinte
Frases que curam
Em uma sessão de Constelação Familiar, o terapeuta geralmente não
permite que os representantes falem uns com os outros diretamente,
mas, em vez disso, atua como um canal entre as suas comunicações,
pedindo-lhes para informar a ele sobre o que eles sentem em relação
a outros membros da família e, em seguida, sugerindo frases para
serem ditas um ao outro. A razão para isso é clara: no nosso modo
habitual de falar uns com os outros, nós muitas vezes não assumimos
a responsabilidade por aquilo que sentimos; ao contrário, nossa
tendência é culpar os outros e falar mais sobre o que as pessoas vêm
fazendo a nós, ao invés de expor nossos verdadeiros sentimentos.
Além disso, muitas vezes estamos fora de contato com o que está
acontecendo em um nível mais profundo de nossa psique. Por
exemplo, podemos dizer a alguém que estamos zangados com ele,
enquanto a verdade mais profunda pode ser que sentimos a falta dele.
Desta forma, um sentimento secundário irá encobrir o sentimento
primário. Assim, em nossa maneira normal de falar, é frequente o caso
em que perpetuamos as dificuldades em vez de resolvê-las, mantendo
conflitos pessoais vivos em vez de curá-los, nos defendendo e talvez
até enrijecendo as nossas posições, desse modo tornando a solução
mais difícil. Muitas vezes, as pessoas se sentem mais feridas do que
estavam antes depois de participar deste tipo de "comunicação".
Na Constelação Familiar, evitamos essa tendência de canalizar a
comunicação a partir do terapeuta, o qual introduz um senso de
responsabilidade, uma perspectiva neutra e sentenças mais precisas.
Ele pode fazer isso porque não tem nenhum investimento em apoiar
qualquer membro particular do sistema familiar. Além disso, ele vai
ter um feedback imediato da pessoa a quem ele deu uma frase
específica, se parece verdade, meia verdade ou não verdadeira de
forma alguma, e pode ajustar suas intervenções nesse sentido. Desse
modo, uma constelação lentamente ganha profundidade e o que os
membros da família dizem um ao outro começa a ressoar com
veracidade em vez de se mover em círculos de acusação, desculpa e
justificativa. Um terapeuta experiente rapidamente traz todos ao
ponto essencial de uma questão de relacionamento.
Por exemplo, em vez de permitir que o cliente acuse outro membro
da família pelo que ele fez, o terapeuta pode sugerir a frase "Sinto
raiva porque você me deixou". Depois de reconhecer este sentimento,
o cliente pode, então, ser convidado a experimentar uma verdade
mais profunda, dizendo: "Eu sinto muito sua falta". Além disso,
reconhecendo que estes sentimentos são mais fortes do que pode ser
explicado pelo que realmente aconteceu, o cliente pode lembrar a
perda precoce de um dos pais e pode ser convidado a dizer algo
como: "Sinto falta da minha mãe, ela morreu muito cedo. Isto não tem
nada a ver com você, você não é o responsável, você não é a minha
mãe", ou compreendendo que ele tem sido incapaz de sustentar uma
relação de amor como adulto, devido à partida antecipada de sua mãe
quando ele era criança, ele pode estar apto a dizer para uma ex -
parceira: "Eu escolhi você como parceira, porque eu sabia que você
me deixaria".
Por meio dessas frases, mais consciência dos emaranhamentos
básicos dessa família está sendo introduzida e o cliente pode começar
a assumir a responsabilidade por seu próprio comportamento. Ao
saber algo sobre a história do passado do cliente, talvez a partir da
entrevista de pré-sessão e por observar a energia da constelação se
desenvolver, o terapeuta pode formular uma hipótese sobre o
problema do cliente, o que ele então pode verificar nas frases que
sugeriu.
Se um facilitador não tem muita informação sobre o histórico do
cliente, ele pode contar com a sua compreensão usual das dinâmicas
da constelação familiar - por exemplo, que os parceiros são
normalmente responsáveis em igual medida pelo resultado do seu
relacionamento - ou em seu conhecimento da Ordem Sagrada em um
sistema familiar. Muitas vezes vemos, por exemplo, que um cliente
escolhe uma parceira, que mais tarde o deixa, precisamente porque,
inconscientemente, precisa que isso aconteça e quando a causa
subjacente é revelada, a acusação por aquele que partiu se dissolve e
o cliente relaxa. No entanto, qualquer hipótese como esta tem que
ser testada em sua verdade na constelação real.
Muitas vezes, em sessões de constelação, o terapeuta usa frases que
têm um certo padrão, como "Você é grande e eu sou pequeno" ou
"Eu honro você" ou "Você dá e eu recebo", e assim por diante. Vimos
esses tipos de frases aparecendo sempre. Elas são o que alguns
facilitadores chamam de "frases da alma", mas é mais preciso dizer
que elas ressoam em um nível profundo e coletivo da mente humana,
onde são reconhecidas e aceitas como verdadeiras. Elas não são frases
que normalmente diríamos a alguém no cotidiano, mas se referem à
ordem natural de um sistema familiar, o qual está influenciando nosso
comportamento de uma forma invisível.
Se elas são introduzidas muito cedo em uma sessão de constelação,
tais sentenças podem parecer estranhas e superficiais, mas, quando
as camadas superficiais do emaranhamento se tornaram evidentes,
estas sentenças podem ter um efeito profundo sobre as pessoas,
criando profundos insights sobre as causas de um sofrimento pessoal.
Assim, se essas frases são para tocar o coração e curar o cliente, o
momento de introduzi-las é muito importante.
Em geral, as sentenças se relacionam aos três aspectos básicos de
uma sessão de Constelação Familiar: a ordem em um sistema familiar,
a energia nesse sistema e a realidade do que aconteceu nessa família.
Exemplos de frases que refletem ordem incluem: "Você foi o primeiro
lugar, eu vim mais tarde" e "Eu sou apenas a criança". Frases que
refletem a energia de um sistema incluem frequentemente uma
expressão de sentimento, tais como "Eu estou com raiva de você" ou
"Eu me sinto muito grande", ou podem indicar, também, que uma
pessoa quer se mover. Por exemplo, "eu quero seguir você" ou "Eu
não posso mais ficar de pé, eu quero deitar-me". Frases que refletem
a realidade estão claramente descrevendo, sem avaliação ou
julgamento, algum acontecimento específico da família, tais como
"Você me matou" ou "Eu deixei você e me casei com outra pessoa"
ou "Eu tive um acidente e morri".
A fim de ter poder e ser eficaz, as sentenças precisam ser mantidas
simples, curtas e claras; elas não devem carregar nenhuma acusação
ou julgamento e precisam ser expressas com a voz alta e limpa. Pode
ser que o representante necessite repetir uma frase algumas vezes, a
fim de ajudá-lo a sentir como isso o afeta. Se uma frase não é
adequada, a pessoa geralmente se recusa a dizer, ou profere as
palavras sem qualquer sinal de que está sendo tocada por elas.
A frase que contém verdade imediatamente dá poder a pessoa que a
expressa. Verdade, como tal, dá força; não importa o que seja; encarar
e afirmar é o suficiente. Por exemplo, se é revelado que um cliente
deseja seguir um membro antecedente da família que morreu, o
facilitador precisa expor esta realidade, convidando o cliente para
dizer claramente: "Eu quero seguir você na morte", sem tentar
suavizar a afirmação.
Às vezes, o terapeuta pode introduzir frases para mostrar a um cliente
que consequências seus atos terão com relação aos outros. Por
exemplo, num caso em que uma mãe quer deixar sua família atual,
sua filha pode ser convidada a dizer à mãe: "Se você partir, eu vou
tomar o seu lugar com o papai, por amor a você". A declaração ousada
das consequências de certos atos por vezes pode levar a um ponto
de mutação que faz a mãe mudar de ideia.
A fim de provocar a força em tais pessoas, o facilitador não deve ter
medo de expor claramente as consequências e isso pode significar ir
ao extremo. Por exemplo, um assassino pode ser confrontado por um
outro membro da família que diz: "Você merece morrer". Um pai, que
quer seguir seu próprio pai na morte, é confrontado por seu próprio
filho com a frase: "Se você partir, eu te seguirei".
Geralmente, no início de uma sessão, as sentenças se referem a coisas
que são óbvias para todos os envolvidos e, em seguida, move-se para
verdades mais profundas. Às vezes é bom começar sem frases,
permitindo que a energia de movimento dentro do sistema exponha
uma certa realidade e, em seguida, introduzir as frases de cura.
Penetrando nas realidades mais profundas de qualquer sistema
familiar é como descascar uma cebola, camada por camada, e muito
depende da experiência de o facilitador ver por meio das situações e
fatos sem ser enganado. Se o terapeuta permanece em contato com
a energia do sistema, evita a interpretação e não tem nenhuma meta
específica, a verdade geralmente se revela.
Às vezes, como mencionamos no capítulo anterior, é bom combinar
dois elementos em uma frase, tal como: "Mesmo que eu me sinta
como uma criança, eu sou seu pai", que contém a energia do
sentimento, ao passo que respeita a ordem familiar; ou "eu te deixei
e agora eu sinto muito por ter magoado você. Carregarei as
consequências", que contém a realidade da situação e o sentimento
da pessoa que partiu; ou "Eu respeito o seu amor por seu irmão, que
morreu cedo e deixo essa dor com você", que contém a declaração
da realidade e o reconhecimento da ordem.
O principal perigo de se trabalhar com frases é que elas podem ser
usadas apenas como fórmulas rotineiras, caso em que elas não irão
tocar os corações das pessoas envolvidas nem ter um efeito profundo.
O mesmo será verdade se a terapeuta está com pressa e não permite
ao movimento da energia no sistema atingir a um ponto em que a
introdução de frases é adequada e eficaz. Mesmo uma frase "correta"
dada em um momento "errado" pode revelar-se ineficaz e então um
terapeuta deve manter-se estreitamente afinado com o campo de
energia do sistema, porque essa sintonia criará insights repentinos, a
partir dos quais sentenças podem surgir que são mesmo tempo únicas
e adequadas - como já dissemos antes, cada sessão de Constelação
Familiar é diferente e única, por mais semelhante que possa parecer
no início.
O poder de uma sentença reside na sua capacidade de criar uma
resposta em todos, expressando uma verdade tão claramente que
ninguém no sistema familiar é possível permanecer o mesmo uma vez
que tenha sido proferida. Às vezes, também, exagerar no
emaranhamento pode ser eficaz, tornando assim evidente a todos os
que estão envolvidos. Por exemplo, um filho cuja mãe não quer que
ele conheça o pai é dada a sentença para que diga a ela: "Eu sempre
estarei com você". Ou o terapeuta pode deliberadamente pedir a uma
pessoa que diga o contrário da verdade, tal como: "É tudo culpa sua!",
que pode provocar o cliente a reconhecer a inverdade disso.
Hellinger trabalha muito com essas intervenções paradoxais,
sugerindo frases que aparentam manter o problema no lugar, mas
que, efetivamente, plantam uma semente de transformação.
Frases podem também exagerar uma energia, ou um movimento, que
está se manifestando em uma constelação. Por exemplo, em vez de
convidar um cliente ou representante para dizer: "Eu quero ir", o
terapeuta pode dar a sentença "Eu quero morrer". Ou então, uma
criança do sexo masculino é convidada a encarar uma linha de
homens na família e dizer: "Eu sou mais forte do que todos vocês". De
repente, o cliente pode ver o ridículo de uma declaração dessas e
compreender as consequências de suas ações, o que pode conduzir a
uma transformação da sua atitude. Como mencionado anteriormente,
o efeito de uma frase e a sua cura ou poder de transformar, pode ser
visto pelas reações de todos os envolvidos na constelação. Uma
sentença que contém tanto poder quanto verdade pode mudar
permanentemente a percepção de um cliente de seu relacionamento
com a sua família.

Capítulo Vinte e Um
Movimentos da alma
Alguns anos atrás, Hellinger desenvolveu e mudou o seu trabalho
para o que ele chama de "Movimentos da Alma", em que há uma
menor intervenção do terapeuta durante uma sessão de constelação
e menos instrução aos representantes para moverem-se de uma
maneira específica ou dizer coisas uns aos outros. Nesse novo estilo
de trabalho, o facilitador confia mais na energia que se manifesta
espontaneamente durante uma sessão de constelação e como essa
energia se expressa através dos movimentos e da linguagem corporal.
Anteriormente neste livro, preveni contra o uso da palavra "alma"
porque é um termo vago que inclui tanto as camadas mais profundas
da mente humana quanto a consciência que existe além da mente,
mas permitirei a sua utilização aqui porque tem sido dada por
Hellinger como o nome de uma método específico.
Nos movimentos da alma, o trabalho depende mais da capacidade de
cada representante de pôr de lado qualquer ideia pré-concebida e ser
capaz de observar e seguir os impulsos que surgem espontaneamente
do interior, como resultado de ter entrado no campo sistêmico de
uma família.
O facilitador dá liberdade a esses representantes para seguir qualquer
direção em que seus corpos desejam se mover. Por exemplo, afastar -
se de um certo membro da família, ou aproximar-se de outro membro,
ou deitar-se no chão, ou deixar o sistema, ou permitir alguma outra
forma de expressão, tal como tremer, e fazer tudo isso sem falar.
O terapeuta precisa limitar o número de pessoas que podem mover-
se dessa forma - geralmente não mais de três - caso contrário, muitos
representantes se movendo ao mesmo tempo pode levar a confusão
e caos. Às vezes, será apenas duas pessoas e, por vezes, até mesmo
uma. Os outros membros do sistema familiar são imaginados como
presentes e os que são colocados também estão representando todo
o sistema.
Como os representantes estão sendo movidos pela energia do campo
sistêmico, já não é tão importante que um cliente pessoalmente
escolha e os posicione em uma constelação, como descrito
anteriormente no livro. Por vezes, é suficiente que uma terapeuta
escolha dois representantes para certos papéis e coloque-os um
oposto ao outro e, em seguida, observe a sua sutil interação não
verbal.
Depois de um tempo, certos movimentos ou expressões corporais
começam a se manifestar. Por exemplo, um representante pode
começar a tremer ou dar um passo para trás ou olhar para o chão ou
olhar distante, indicando um emaranhamento com outro membro do
sistema familiar. 0 terapeuta pode então adicionar a pessoa que falta
na constelação e observar como isso afeta a maneira que os
representantes se movem. Assim, os representantes se movem. Mais
tarde, ele pode sugerir certos movimentos, por exemplo, que alguém
deva olhar para outra pessoa ou deitar-se. Ou, ele pode dar palavras
aos representantes para que digam uns aos outros, mas sempre
mantendo suas intervenções a um mínimo.
Às vezes, o movimento de cura surgirá por si só e nenhuma
intervenção do terapeuta será necessária. No entanto, a presença
atenta do terapeuta é um grande fator contribuinte. Ele é o
catalisador, afetando a mudança por meio da abordagem taoísta de
"fazer por meio do não fazer".
Embora esse método seja muito diferente do estilo clássico de
trabalhar, ele é baseado nas mesmas leis familiares de ordem,
equilíbrio e pertencimento.
Um fluxo contínuo
O nome "Movimentos da Alma" reconhece o fato de que a vida é um
fluxo constante em que nada permanece estático ou fixo e que os
seres humanos estão ligados a uma realidade maior - podemos
chamá-la de "existência" ou "natureza universal" - que
constantemente nos influencia, estando conscientes disso ou não. Em
contraste, a palavra "constelação" e a ideia de uma "solução" dá a
impressão de que uma determinada situação familiar é estática e que
as mudanças só podem ocorrer na forma de uma mudança de uma
'constelação emaranhada' para uma mais "saudável", que é então
considerada como a "solução" após a qual a ordem familiar está 'no
lugar'.
Isso não é assim. A vida continua e, dentro do seu fluxo contínuo, o
indivíduo descobre que não há um fim para o crescimento pessoal.
Encontrar uma "solução" final ou "resposta" para o nosso
questionamento de vida seria de fato o fim do desenvolvimento
pessoal e aprendizagem.
Visto desta perspectiva, uma constelação familiar é como uma
imagem momentânea de uma relação dinâmica que está em
movimento contínuo. É como tirar uma foto de um rio: a imagem pode
parecer estática, mas o rio em si está sempre se movendo e mudando;
se outra foto é tirada, o mesmo rio pode parecer muito diferente; ele
pode ter mudado o seu curso, pode estar mais profundo ou mais raso,
fluindo mais rápido ou mais lentamente.
Em Movimentos da Alma, essa realidade dinâmica está sendo refletido
e também mostra que não é a terapeuta que traz mudanças ao
sistema; ele está, de fato, simplesmente criando um espaço no qual
um determinado movimento pode se mostrar e se expressar.
Portanto, o terapeuta é menos ativo nesse tipo de sessão.
Movimentos de emaranhamento, movimentos de cura
Os movimentos da alma têm diferentes camadas: há movimentos que
surgem a partir de emaranhamentos e há movimentos de cura.
Movimentos de emaranhamento levam ao sofrimento enquanto
movimentos de cura conduzem à reconciliação e para ser capaz de
trabalhar com esse método o terapeuta precisa ser capaz de
reconhecer a diferença entre os dois.
Por exemplo, um abraço entre uma criança e um pai pode surgir a
partir de um emaranhamento ou pode ser uma reconciliação,
dependendo de quem está apoiando quem. O movimento de
reconciliação tem que vir da criança em relação aos pais e os pa is
devem ter a força de esperar até que seu filho aproxime-se deles -
com exceção do movimento interrompido descrito no capítulo 8. Se
um pai vai em direção ao filho para abraçá-lo, isso geralmente indica
a carência do pai e, muitas vezes pode-se observar uma certa
hesitação na criança. A criança representa, provavelmente, alguém da
família de origem dos pais e não é realmente vista como uma criança
de forma alguma. Em tal situação, o terapeuta intervém para proteger
a criança de ser sobrecarregada pelo pai.
Um facilitador tem que ser capaz de reconhecer essa distinção e irá
usualmente intervir uma vez que o movimento de emaranhamento se
torne manifesto, ou, por vezes, aguarda para permitir que o amor por
baixo deste emaranhamento venha à tona, de modo que um
movimento de cura possa, então, começar.
Movimentos de emaranhamento podem ser vistos como tentativas
para completar algo de maneiras malsucedidas - é mais como repetir
um evento traumático sucessivas vezes. Movimentos de cura
conduzem a uma conclusão bem sucedida, em que um evento
passado é trazido a um fechamento e o amor que tem sido
emaranhado está livre para fluir em uma nova direção. Essa
completude pode ser uma sequência com vários passos. Por exemplo,
"honrar" um membro precedente da família pode tomar a forma de
se curvar, mas só está completa quando o cliente se levanta
novamente. Primeiro, ele se aproxima e se curva para aquele que veio
antes dele, então, se levanta, se vira e se move na direção da sua
própria vida.
As pessoas que querem se separar de seus pais precisam curvar-se
diante deles primeiro, caso contrário, nunca podem realmente
afastar-se. Sem reconhecer pais, o cliente tende a permanecer em
uma posição congelada e isso geralmente significa que ele nunca será
capaz de conseguir a separação. Outros não têm problema em curvar-
se, mas depois descobrem que não querem levantar de novo - eles
não querem deixar ir. A maioria das vezes, quando um cliente deseja
um resultado particular, tal como separar-se de seus pais, ele precisa
fazer primeiro o oposto, isto é, aproximar e mostrar a gratidão pelo
lugar dos seus pais na sua vida. Só então o cliente pode seguir seu
próprio caminho sem carregar quaisquer fardos do passado.
Às vezes, trabalhar com um movimento pode levar a mais
profundidade em uma constelação do que trabalhar com base apenas
no reconhecimento da ordem.
Uma cliente perdeu o pai logo depois que ela nasceu. O terapeuta
simplesmente coloca o pai e a cliente em uma constelação e, em
seguida, convida os representantes a seguirem quaisquer sentimentos
e moverem-se em conformidade. Primeiro, a representante da cliente
não quer olhar para o pai e se vira, mas então ela se torna curioso e
começa a olhar para ele, depois de algum tempo, ela entra em contato
com uma dor profunda e começar a soluçar e, finalmente, após um
longo período de tempo, ela pôde se aproximar do pai. Tudo isso
acontece após um longo período de tempo em que nada é falado e o
terapeuta não faz nada, mas apenas provê um espaço para esses
movimentos se manifestarem, um após o outro.
Em uma abordagem mais convencional para a mesma situação, o
terapeuta pode pedir ao cliente para olhar para seu pai e curvar -se
diante dele, reconhecendo-o como seu pai de acordo com a Ordem
Sagrada na sua família, mas em comparação isso parece superficial e
não irá tocar o coração. Permitir as energias submergir lentamente
cria uma diferente profundidade. Nos Movimentos da Alma muitas
energias sutis e movimentos que ninguém pode antecipar revelam-se
e esses são essenciais para prover a solução, a profundidade e o
significado.
Trabalhar com Movimentos da Alma requer que um terapeuta espere
pacientemente, mesmo que pareça que nada está acontecendo. Ele
está confiando em uma força maior que está se manifestando por
meio dos representantes, sem saber para onde ela vai levar. Isso exige
coragem e uma certa autodisciplina que o contenha de dar frases de
solução para os representantes como uma forma de assumir o
controle e tentando empurrar a dinâmica em uma determinada
direção. Quaisquer palavras ditas enquanto esses movimentos sutis
acontecem pode ser uma perturbação. É como dizer a alguém que
está se sentindo profundamente triste e que está prestes a começar a
chorar, "Como você se sente agora?". Para encontrar o momento certo
de intervir como facilitador necessita-se experiência e sensibilidade.
Falando de um modo geral, pode-se dizer que trabalhar com a Ordem
Sagrada no método "clássico" de constelação tende a ser mais
superficial e toca menos o coração, embora possa ser 'correto',
enquanto, por outro lado, a abordagem do "não-fazer" dos
Movimentos da Alma pode alcançar camadas mais profundas da
nossa psique que estão além da nossa percepção normal. Além disso,
uma verdade pode se revelar que está além das nossas ideias do que
é correto ou bom.
Uma sabedoria maior
A abordagem dos Movimentos da Alma reconhece que há uma
sabedoria maior na vida do que podemos logicamente ou
intelectualmente compreender e não é o terapeuta nem o cliente nem
os representantes que são responsáveis pela cura, mas uma força
maior. É um pouco como ter uma lesão no corpo, podemos limpar a
ferida, aplicar pomada e Band-Aid e isso vai ajudar, mas há um poder
dentro do corpo que repara a ferida e esta é realmente a força
curativa. Nós não estamos realmente fazendo muito.
Da mesma forma, pode-se dizer que há uma força maior de vida -
Hellinger chama de "grande alma" - na raiz de toda cura e é a minha
experiência pessoal, ao longo de muitas sessões de constelação, que
há um movimento profundo dentro de cada um de nós em direção à
reconciliação e resolução. Se, em uma constelação, chegamos a esta
profundidade e por meio dos nossos pais somos capazes de amar a
totalidade da vida, a cura já aconteceu. Vendo a constelação familiar
dessa maneira, honrar os nossos pais é um ato espiritual, que dizer
"sim" para a vida como ela chega até nós, sem reclamar, sem qualquer
ideia que as coisas teriam sido melhores se os nossos pais tivessem
sido diferentes. Em vez disso, nós olhamos além de nossos pais para
a vida que chega a nós através deles. Nesse sentido, todos os pais são
perfeitos, todos eles dão a vida e, portanto, são igualmente "bons" e
"corretos".
A terapia da Constelação Familiar oferece ao cliente a oportunidade
de desenvolver sensibilidade suficiente e consciência para ser capaz
de ficar em sintonia com a vida e viver em harmonia com o seu fluxo
e movimentos. A cura ocorre quando estamos nesse estado de
harmonia ou unicidade e o trabalho principal da Constelação Familiar,
e em qualquer terapia espiritual, é remover quaisquer obstáculos que
possam estar no caminho, reconhecendo que os nossos problemas
estão realmente surgindo a partir da nossa resistência à vida. Este
processo também pode trazer uma percepção de que há coisas na
vida que não são apenas maiores do que nós, mas estão além da
nossa compreensão e é importante confiar e respeitar esse mistério.
Para um terapeuta que está apenas começando a trabalhar com
Constelação Familiar, é bom que primeiro aprenda a maneira clássica
de fazer sessões de constelação antes de explorar os Movimentos da
Alma. O último método pode parecer simples - permitir que os
representantes se movam como eles sentem - mas é uma tarefa
delicada detectar se um representante está profundamente em
contato com um movimento maior ou está simplesmente seguindo
uma ideia pessoal dele próprio.
Apenas quando se sabe como usar as ferramentas básicas do método
clássico, tal como a ordem familiar, um terapeuta pode começar a
trabalhar eficazmente sem elas.
Quanto mais experiência se tem, mais se pode confiar e permitir que
as energias de um sistema familiar se movam por si mesmas. Mas,
mesmo assim, é bom limitar o número de representantes que são
convidados a seguir os seus movimentos, não somente para evitar
confusão, mas também para manter o foco da sessão sobre o cliente.
Nós fazemos uma constelação para um determinado cliente e o
terapeuta precisa manter isso em mente e não se distrair, tentando
encontrar uma solução para cada membro de uma família.
Por exemplo, se alguém vê a mãe de um cliente querer seguir uma
pessoa morta da sua família de origem, o trabalho deve ser o de
encontrar uma solução para o cliente - talvez o apoiando a se
conectar com seu pai - em vez de tentar ajudar a mãe a permanecer
viva. Isso pode parecer óbvio, mas muitos facilitadores se enganam
nesse ponto importante.
Passado e presente
Às vezes é difícil para um terapeuta decidir quando explorar eventos
passados e quando manter o foco no presente. Uma orientação
importante é certificar-se de que o cliente não vai procurar desculpas
em eventos passados para evitar honrar seus pais e continuar a culpá-
los - que eles fizeram isso ou aquilo e como consequência ele se
justifica em colocá-los para baixo. Se lembranças de eventos passados
ajudam o cliente a compreender um emaranhamento, é útil explorar
isso, mas é o cliente, como uma criança, que precisa mudar e
reconhecer seus pais - não são os pais que precisam mudar.
Por exemplo, se o pai de um cliente é uma criança adotada e mantém-
se atraído pelos pais de sangue, então, seu filho, o cliente, pode ter a
sensação que "meu pai não estava lá para mim". Mas o terapeuta não
apoia essa visão da situação. Na verdade, o oposto é verdadeiro: o
pai não repete o que seus pais fizeram, ele não doa seu filho, o que
mostra uma certa força. A fim de reconhecer este resultado positivo,
o filho pode ser convidado a dizer a seu pai: "Obrigado por me
manter".
Também é importante entender o que é curativo para uma criança
saber sobre sua família de origem, e o que não é; por exemplo, no
caso de segredos de família. Há segredos que merecem ser
protegidos, por que não é o negócio da criança saber sobre eles,
como um acontecimento do passado que criou culpa nos pais. E há
segredos que uma criança deve saber como, por exemplo, um evento
relacionado a um irmão esquecido.
De um modo geral, ir ao passado pode ser considerado significativo
se isso ajuda um cliente a sentir mais amor e compreensão por seus
pais e lhe dá forças para assumir responsabilidade por sua vida atual.
Algumas pessoas querem olhar para o passado com a intenção de
encontrar desculpas pela sua falta de vontade de assumir
responsabilidade sobre suas vidas neste momento. Um terapeuta não
deve apoiar isso se ele quer ajudar o cliente a mudar efetivamente a
sua vida. Olhar para o passado precisa ser feito com a intenção de
completar algo que se manteve como um resíduo, de modo que a
energia do cliente pode se virar inteiramente para o presente. Assim,
essas duas coisas são necessárias: viver plenamente no presente e
compreender que resíduos do passado estão nos impedindo de viver
plenamente este momento.
Diferentes emoções
Outro aspecto importante é ser capaz de distinguir entre diferentes
tipos de emoções. Existem emoções que estão simplesmente sugando
e são aparentemente intermináveis, nunca levando a uma
completude. Hellinger as chama de emoções "secundárias", em
contraste com as emoções "primárias", as quais são geralmente
curtas, apoderando e capacitando uma resposta adequada a um
determinado evento. Emoções secundárias costumam ajudar uma
pessoa a não enfrentar uma realidade dolorosa e tendem a encobrir
um sentimento mais profundo. Por exemplo, o cliente pode tornar -se
raivoso em vez de sentir-se ferido, ou pode começar a chorar quando
está realmente zangado. Às vezes, as emoções secundárias se
parecem com uma exigência, no caso em que são projetadas para
manipular outro membro da família - crianças frequentemente fazem
isso com a sua mãe.
Emoções primárias são uma resposta direta a um evento, elas duram
um curto espaço de tempo e quando o cliente pode permitir-lhes
totalmente, ele imediatamente se sente revigorado, fortalecido e é
capaz de agir. Como terapeuta, é preciso aprender a distinguir entre
as duas e desencorajar a expressão emocional secundária. Por
exemplo, se um cliente está chorando, o terapeuta precisa se
perguntar se esta expressão está ajudando o cliente a se tornar mais
integrado e forte ou se é simplesmente exaustiva. A resposta pode
não ser sempre imediata, mas se uma emoção continua durante um
longo período de tempo sem qualquer sinal de conclusão, muito
provavelmente é algo do tipo secundário. Emoções primárias são
sempre para aliviar um cliente, elas não duram muito tempo e deixam
a pessoa com mais força do que antes.
Existem outros tipos de emoções que frequentemente vemos em
sessões de constelação, que podemos chamar de "sistêmicas". Elas
são tomadas pelo cliente de outra pessoa do sistema familiar e há
alívio quando são devolvidas - o cliente se sente leve.
Geralmente, o terapeuta tem de ser capaz de distinguir entre uma
expressão que é uma defesa do cliente para não sentir uma emoção
desconfortável e uma expressão que é uma liberação saudável da
própria emoção. Por exemplo, expressando a raiva, muitas vezes,
negamos a nossa própria impotência ou tentamos evitar a dor do
amor.
Permitindo que a energia cresça
Como eu disse antes, mesmo que muitos sistemas familiares sejam
parecidos, é bom lembrar que cada sistema é único. Duas pessoas
podem ter tido um destino semelhante em suas respectivas famílias,
mas em um caso tudo pode se arranjar em seu lugar facilmente e
todos serão tocados profundamente, enquanto, no outro caso, nada
está realmente resolvido e nenhuma solução pode ser encontrada.
Pode haver muitas razões para isso; por exemplo, pode ser que fatos
essenciais sobre uma família não tenham vindo à tona ou o cliente
está evitando o problema real de alguma forma, mas basicamente o
terapeuta terá que aceitar que este é o caso. Naturalmente, as
habilidades do terapeuta são também um fator importante; pode ser
que ele tenha capacidade para intervir e resolver facilmente
emaranhamentos de um certo tipo, encontrando mais dificuldade em
outros.
A fim de permitir uma certa energia crescer - por exemplo, para uma
qualidade de amor ou para que uma raiva venha à tona - a medida
do tempo em uma sessão de constelação é importante. O terapeuta
precisa ser paciente, sem forçar a situação para se mover e estar
sempre pronto para largar suas ideias anteriores. Movimentos
acontecem em seu próprio tempo e um cliente pode precisar ficar de
frente para um de seus pais por um longo tempo sem intervenção,
antes que qualquer movimento surja. Por meio do esperar, mais pode
ser feito do que por meio do fazer, mas precisa ser um tipo inteligente
de espera: centrado e atento, pronto para agir a qualquer momento.
Se, depois de algum tempo, nada acontecer, o terapeuta precisa ser
capaz de perceber que a energia está acabada e parar com a
constelação. A habilidade de sintonizar com a energia é importante
nesse tipo de trabalho, enquanto, ao mesmo tempo, conhecer a
ordem correta dará direção e clareza.
Ambos os estilos de trabalho, a Constelação Familiar "clássica" e os
Movimentos da Alma têm a suas vantagens e desvantagens
intrínsecas. Usar frases muito frequentemente pode ser superficial, ou
tornar-se um estereótipo, enquanto dar uma sentença no momento
exatamente certo traz clareza. Permitir um movimento espontâneo
pode tocar um espaço interior profundo, mas o significado pode
permanecer vago se não complementado por uma sentença de cura.
Não há dúvida de que, dos dois estilos, Movimentos de Alma é o mais
polêmico, mesmo entre terapeutas de Constelação Familiar e isso
pode ser porque Hellinger, o gênio criativo por trás de ambos os
métodos, se contenta em ser mais misterioso e indefinível em
trabalhar com Movimento da Alma.

O papel da meditação na Constelação Familiar

Nesta seção, descrevo o trabalho da Constelação Familiar no contexto


da meditação, mostrando como a dimensão adicional da meditação
pode aprofundar a compreensão da dinâmica familiar, tanto em
termos de conhecer a si mesmo como ver a natureza inconsciente dos
laços que nos atrelam uns aos outros.
Na minha experiência pessoal, sendo um terapeuta de Constelação
Familiar, eu descobri que não é nem tanto o método terapêutico, nem
a técnica, que é importante em ajudar as pessoas, e, sim, o grau de
percepção ou consciência do facilitador que está guiando o processo.
Uma vez que a meditação é basicamente um método para ampliar a
autopercepção, o seu significado reside no fato de que ela pode
ajudar aos terapeutas, bem como aos clientes, a serem tão
conscientes quanto possível.

Capítulo Vinte e Dois


A arte da meditação
Neste capítulo, discuto mais detalhadamente o que é meditação e
como ela pode contribuir para a Constelação Familiar e, naturalmente,
à terapia em geral. Tradicionalmente, a palavra meditação tem s ido
utilizada de duas maneiras:
1) Para se referir aos métodos de meditação que podem ajudar uma
pessoa a olhar para dentro de sua própria psique e explorar a sua
realidade interior. Nesse contexto, a palavra refere-se a uma técnica
particular que está sendo utilizada com o propósito de observar o
funcionamento da mente e acessar estados de consciência que
existem além dela.
2) Para se referir a um estado iluminado de consciência, uma estado
contínuo em que o processo de pensamento cessou, no qual existe
apenas silêncio, paz e quietude. Esse estado foi chamado de muitas
coisas: os monges zen se referem a ele como "Não-Mente", ou, mais
coloridamente, como "o Silêncio Rugidor"; os místicos indianos têm
chamado de "Samadhi", ou "Moksha"; os místicos cristãos têm
chamado de "a paz que ultrapassa o entendimento".
As duas definições estão intimamente ligadas, uma vez que o objetivo
de métodos de meditação é, eventualmente, chegar a um contínuo e
permanente estado de meditação.
Neste capítulo, eu uso a palavra meditação no primeiro sentido,
referindo-se a métodos que ajudam as pessoas a tocar
profundamente a verdade dentro de si, que, por sua vez, conduz
frequentemente a uma experiência de relaxamento e silêncio. Talvez
eu devesse mencionar aqui que, durante os últimos 28 anos, tenho
explorado diversos tipos de técnicas de meditação, principalmente
sob a orientação do místico indiano Osho, e tenho utilizado
juntamente com uma grande variedade de métodos terapêuticos pela
maior parte desse período.
Na meditação, como na Constelação Familiar, estamos tentando
entrar em contato com algo dentro de nós que é mais profundo do
que nossos pensamentos, desejos e esperanças. Os místicos têm
chamado esse "algo" de nosso ser, 'self', essência, espírito ou Deus.
Hellinger chama de "alma". O nome realmente não importa, pois de
qualquer maneira a experiência é essencialmente indefinível, mas eu
prefiro a expressão "ser interior", visto que parece ser a menos
contaminada por qualquer ideologia.
Normalmente, na nossa consciência desperta do dia a dia, não temos
percepção do nosso ser interior. Estamos muito preocupados com o
mundo exterior das atividades, de coisas a serem feitas, de manter
programações, pessoas para encontrar e também estamos muito
presos em nossos humores, sentimentos, ideias, atitudes e crenças -
em outras palavras, absorvido por eventos externos e nossa contínua
atividade mental e emocional.
Nós não estamos cientes de quem está por trás de tudo isso, aquele
que está ciente de todos esses acontecimentos, aquele que, em um
sentido, está simplesmente assistindo a essas atividades à medida que
elas ocorrem. Este estado de observação, ou testemunho, não se
aplica apenas ao mundo que nos rodeia, mas também a nossas
reações a ele - em outras palavras, a como estamos nos sentindo em
um dado momento.
Por exemplo, há uma diferença entre dizer: "Eu estou com raiva" e
"Estou ciente de que a raiva está surgindo em mim". Pode parecer ser
o mesmo, mas experimental e existencialmente não é. A meditação
está preocupada com essa diferença, com essa pequena lacuna, ela
nos faz conscientes da nossa capacidade de observar eventos; ela nos
coloca em contato com aquele dentro de nós que está observando
tudo que acontece a nós. Os místicos de todas as eras têm afirmado
que este é quem nós realmente somos - aquele que testemunha tudo,
mas que não é tocado por nada.
Uma das contribuições feitas por Osho para tornar a meditação mais
acessível e contemporânea é chamar a atenção para o fato de que
testemunhar é a raiz de todas as técnicas autênticas de meditação.
Por exemplo, em seus comentários sobre Vigyan Bhairav Tantra, um
antigo texto indiano que contém nada menos que 108 técnicas
diferentes, Osho repetidamente chama a atenção para a subcorrente
sutil - presente em todas elas - de um contínuo, estado interior de
consciência.
Pode-se compará-lo com sentar em um cinema e assistir a um filme.
Na tela, todos os tipos de coisas estão acontecendo e, se o filme é
bem produzido, é provável que nos identifiquemos com um ou mais
dos personagens. Nós iremos chorar, rir ou ansiosamente
esperaremos para ver se o herói e a heroína vão sobreviver qualquer
que seja a situação perigosa em que se encontrem.
Ao mesmo tempo, alguma parte de nossa consciência está ciente de
que tudo isso é apenas um drama; estamos sentados em uma cadeira,
assistindo a uma história que foi fabricada para nosso entretenimento
e que não tem nada a ver conosco. O momento em que lembrarmos
que não estamos realmente envolvidos nesse drama, podemos
relaxar, mas, quando nos esquecemos, tendemos a nos tornarmos
tensos, envolvidos, emocionados, excitados.
A meditação é semelhante. Ela nos dá o entendimento de que, ao
longo de nossas vidas, não importa o que aconteça, não importa
como nos sentimos, há uma testemunha silenciosa no âmago mais
profundo de nossa consciência que está simplesmente sentada em
uma cadeira, observando os dramas que se desenrolam. Nada nunca
acontece a este observador, apenas para aquele que está atuando no
filme.
Na realidade nós somos ambos: na superfície, somos aquele que está
atuando, e no âmago, somos aquele que está observando. Aquele que
está observando é a nossa realidade mais profunda, mas a maioria de
nós não tem a consciência meditativa necessária para penetrar tão
longe em nosso ser interior; assim, tendemos a ficar muito mais
identificados e envolvidos com aquele que está atuando no drama.
Uma das qualidades mais significativas que surge ao descobrir o
nosso ser interior é um estado de autoaceitação, ou amor próprio,
porque nos dá uma compreensão profunda de que a paz e a
satisfação que estávamos procurando sempre foi uma parte intrínseca
da nossa natureza. Imediatamente, todos os autojulgamentos,
autodúvidas e autocríticas cessam. Nós aceitamos quem somos, e
podemos dizer "sim" à vida como ela é, sem tentar melhorar ou alterar
qualquer coisa.
A Constelação Familiar está relacionada à meditação neste sentido:
em ambos os casos, estamos tentando descobrir como as coisas são,
não como gostaríamos que fossem. Hellinger deu um título muito
apropriado para um de seus livros: "Acknowledging What Is"
("Reconhecendo o que é"), e é isso que também oferece a meditação:
olhar para dentro de si mesmo, ver o que é, e dizer "sim" a isto.
Nos meus cursos, eu às vezes uso um exercício que dá aos
participantes um gosto de como ele se sente quando dizemos 'sim'
para nós mesmos e aos acontecimentos em nossas vidas. É uma
técnica simples, mas eficaz desenvolvida por Sagarpriya Delong
Miller, um psicoterapeuta americano que passou muitos anos
explorando formas de fazer uma ponte entre a terapia e a meditação.
Nesse exercício, as pessoas são convidadas a se moverem dentro de
uma sala, permitindo que seus corpos façam o que quiserem, sem ser
controlados ou guiados de modo algum. À medida que fazem isso,
eles são convidados a falar em voz alta para si mesmos, dizendo frases
que começam com as palavras: "Se eu disser sim para o meu corpo,
eu faria...", acrescentando no final o que o corpo espontaneamente
quer fazer a cada momento. Por exemplo, uma pessoa que se move
ao redor da sala com o braço direito levantado ao ar vai dizer: "Se eu
disser sim ao meu corpo, meu braço irá se mover para cima"; outro,
que começou a correr, irá dizer: "Se eu disser sim para o meu corpo,
ele irá correr ao redor da sala...", e assim por diante.
A cada momento, os participantes anunciam para si mesmos o que
quer que o corpo esteja espontaneamente fazendo e, desta forma,
eles testemunham que está acontecendo, enquanto ao mesmo tempo
prestam atenção a qualquer alteração na qualidade do seu estado
interior. Depois de um tempo, eles são convidados a descrever esse
estado com palavras simples e isso geralmente reflete uma reação
positiva como "expandido", "relaxado", "leve", "alegre" e "vivo".
As técnicas de meditação oferecem experiências semelhantes. Por
exemplo, o método budista chamado de "Vipassana", que tem sido
utilizado por centenas de anos, é constituído essencialmente por
sentar em silêncio, sem fazer nada, prestando atenção à própria
respiração e também às sensações que surgem no corpo e
pensamentos que surgem na mente. Não há nenhuma tentativa de
avaliar ou julgar qualquer sentimento, pensamento ou ideia que
surjam enquanto sentado. O meditador simplesmente nota, ou
observa, tudo o que ocorre e, através deste método, chega a um
estado de tranquilidade interior, uma sensação de harmonia com a
vida e um sentimento de autoaceitação.
Na meditação, as pessoas não tentam mudar ou consertar nada, mas,
sim, tornar-se consciente do seu ser interior, seu estado testemunho
de consciência. No momento em que isso acontece, toda a luta e
esforço cessam. Daí, muitos místicos ensinaram relaxamento e
ausência de esforço como um caminho para experimentar a natureza
interior.
Na Constelação Familiar, as pessoas estão olhando como elas estão
relacionadas com as suas próprias famílias, aprendendo a aceitar e
abraçar estas raízes e deste modo entram em contato com uma força
de vida universal que move a todos nós. Quando as pessoas são
gratas aos seus pais, no mesmo instante elas experimentam um
sentimento mais amplo de autoaceitação, entrando em sintonia com
a inteireza da vida.
Ao ver e compreender as maneiras as quais elas estão vinculadas às
suas famílias, as pessoas também entendem por que se comportam
de uma determinada maneira. Quando aceitam que essa é a forma
como elas são, algo mais reluz, algo do ser interior, da alma, ou da
essência, que é eterno e não parte das camadas superficiais da
personalidade humana.
Realmente, é uma qualidade espiritual que surge nesses momentos.
Imagine, por um momento, um inválido ou deficiente que é incapaz
de executar e experimentar muitas coisas na vida que as pessoas
comuns fazem. A maioria dos "normais" olha para esta pessoa como
se ela tivesse uma desvantagem e, de fato, ela pode se sentir assim.
Mas se ela é capaz de concordar plenamente com seu destino e entra
em sintonia com ele, é provável que ela desenvolva uma certa força e
bem-estar que outras não tem.
De certa forma, nossas objeções ou desacordos com a vida funcionam
como um obstáculo. Podemos pensar, por exemplo, que ela teria sido
melhor se a nossa infância fosse diferente, ou se os nossos pais
tivessem se comportado de forma diferente, ou se tivéssemos nos
comportado diferente em nossos relacionamentos. As oportunidades
de arrependimento ao rever a nossa história de vida pessoal são
infinitas. Mas, fazendo isso, estamos na verdade tirando algo de nós
mesmos, porque a realidade dos fatos não vai mudar; tudo que
estamos fazendo é nos negando as experiências positivas que surgem
a partir da aceitação de nós mesmos e do nosso passado.
Na meditação, como na Constelação Familiar, estamos tentando
entrar em harmonia com algo maior do que nós mesmos. Hellinger
chama isso de "Grande Alma", eu prefiro a palavra "Existência".
Crescimento pessoal e maturidade, no meu ponto de vista, é o
processo de estar mais e mais em sintonia com essa força maior e
desistir da ideia de ser separado.
Aplicada à dinâmica familiar, isto significa dar a nossos pais e todos
os membros da nossa família um lugar em nossos corações e
concordando com o que aconteceu no passado, sem julgá-lo como
"bom" ou "mau" - na verdade, sem ter qualquer opinião sobre ele.
Fazer isso é uma conquista pessoal considerável. Isso nunca é fácil.
Imagine, por exemplo, o que isso requer de uma pessoa cujos pais
foram mortos. Ela terá de descartar qualquer atitude de ódio para
com o assassino e entender que concordar com o destino de seus pais
é a única maneira de realmente honrá-los. No momento em que uma
pessoa é capaz de fazer isso, ela está indo além, na consciência
pessoal e coletiva.
Paradoxalmente, no momento em que se quer ir além da prisão da
consciência não se pode. No momento em que se sente: "Eu quero
deixar para trás os fardos da minha família", estamos presos por essas
cargas. Para realmente atingir a libertação, precisa-se aceitar e
cumprir o destino da nossa família. Em outras palavras, precisa -se
deixar para trás a ideia de querer se livrar do que quer que estejamos
carregando dos nossos antepassados. Quando nós concordamos com
isso, no mesmo momento, o passado perde o seu poder sobre nós e
nos descobrimos abençoados com um sentimento de força e
liberdade.
A meditação oferece a mesma experiência. Ao nos aproximar do
centro do nosso ser e nos desidentificarmos com a personalidade, o
mesmo estado de autoaceitação é alcançado. O desejo de mudar
alguma coisa sobre nós mesmos é substituído por uma profunda
aceitação do que quer que a vida tenha nos dado.
Cada desejo é uma barreira, incluindo o desejo de deixar para trás
uma carga particular. Como Osho salientou: "A transcendência ve m
através da experiência. Você não pode manobrá-la. Não é algo que
você tem que fazer. Você simplesmente passa por muitas experiências
e essas experiências o tornam mais e mais maduro".
Uma ou duas coisas mais a serem observadas sobre meditação:
praticar regularmente técnicas de meditação nos ajuda a nos tornar
acostumados a perceber o nosso mundo interior - o mundo das
sensações corporais, pensamentos, sentimentos, estados de espírito -
e, portanto aumenta a sensibilidade do indivíduo. Isso, por sua vez,
torna mais fácil e mais acurado para os representantes perceber
mudanças de humor quando representam os membros de uma
família. Ao mesmo tempo, a prática do testemunhar e se
desidentificar de atitudes e crenças pessoais torna mais fácil para o
cliente deixar fardos que estão sendo carregados por antecedentes
do sistema familiar.

Capítulo Vinte e Três


Sessões individuais e seminários
Sessões individuais
Geralmente, a Constelação Familiar é feita no formato de um grupo,
mas, quando nenhum representante está disponível, também é
possível realizar sessões individuais. A fim de marcar as posições dos
membros da família do cliente em uma constelação, utiliza-se
símbolos para representá-los e esses símbolos têm de ser capazes de
indicar a direção em que cada um dos membros da família está
olhando.
Alguns profissionais usam sapatos para marcar as posições, outros
usam folhas de papel com símbolos nelas. Eu normalmente uso
almofadas, para as quais eu dou uma direção colocando guardanapos
de papel sobre as mesmas. Isso, para mim, é a maneira mais
conveniente, já que não gosto de transportar grandes quantidades de
sapatos comigo, além de achar melhor do que o papel visto que você
ver as posições facilmente de uma certa distância. Pode ser inventivo
em como representar os membros da família em tais sessões, mas é
sempre importante saber em que a direção a pessoa colocada está
olhando.
Depois de identificar o membro da família representado por cada
símbolo, o terapeuta pode convidar o cliente para colocar os símbolos
em uma constelação. Ou, como eu prefiro fazer, o terapeuta pode
pedir ao cliente para pegar um símbolo e entregá-lo para o terapeuta,
então - enquanto visualiza este membro específico da família- ele
guia o terapeuta para um lugar na sala onde esse membro da fa mília
deve ficar.
O terapeuta então deixa o símbolo lá, certificando-se de que a direção
está clara. Dessa forma, o posicionamento continua até que todos os
membros relevantes sejam colocados.
A vantagem de fazer dessa maneira, embora possa demorar mais
tempo, é que o terapeuta tem o sentimento imediato de cada membro
da família enquanto segura e coloca cada almofada.
Depois de cada membro da família ter sido colocado, o terapeuta
pode pedir ao cliente para olhar a imagem e descrever o que vê,
dizendo o que o impacta sobre esse retrato da família. Em seguida, o
terapeuta pode dizer ao cliente sobre sua própria percepção das
relações na constelação. Ou o terapeuta pode ir para uma, ou talvez
para todas as posições, pisando em cada almofada e relatando para
o cliente o que ele percebe e como se sente representando essa
pessoa.
Às vezes, o cliente pode ser convidado a fazer o mesmo, imaginar, por
sua vez, como cada pessoa se sente. Isto, naturalmente, requer uma
certa capacidade do cliente de sintonizar com os outros membros da
família, porém normalmente é produtivo. Pode ser interessante para
o cliente experimentar como cada um de seus familiares mais
próximos pode se sentir, mas o terapeuta precisa estar atento para
que o cliente esteja sentindo e relatando o sentimento verdadeiro
naquele exato momento, em vez de contar com ideias preconcebidas
sobre determinados membros da família.
Em algumas sessões, o trabalho pode começar ao se pedir ao cliente
para dizer uma frase para outro membro da família, endereçada à
almofada que representa essa pessoa. Ou o terapeuta pode fazer
comentários a partir dos locais de outros membros da família. Cada
sessão se desenvolverá diferentemente e o terapeuta precisa confiar
em sua percepção sobre o que pode ser útil ou possível.
Trabalhar com símbolos pode ser semelhante a trabalhar com pessoas
reais: mudar posições, dar sentenças, pedir o cliente que perceba
alterações no humor ou no sentimento que pode acontecer enquanto
a sessão continua. Naturalmente, o terapeuta não vê as mudanças de
energia em representantes diretamente, tais como ocorrem em
constelações usando pessoas reais - isso é a desvantagem de não ter
pessoas disponíveis - mas é uma alternativa prática quando não se
pode trabalhar com um grupo e os resultados são semelhantes.
Dificuldades podem surgir se for necessário voltar às gerações
anteriores onde não há muita informação disponível, porque sem
representantes é muito problemático decidir como cada membro da
família se sente, meramente a partir do arranjo de almofadas ou
outros símbolos.
Aqui, o terapeuta precisa focar mais no presente e limitar o trabalho
a esse aspecto da dinâmica familiar. Em geral, é bom manter o número
de símbolos a um mínimo. Às vezes colocar o cliente de frente para
um dos pais é o suficiente no início, permitindo o cliente permanecer
durante um longo período de tempo em frente da sua mãe ou pai,
enquanto o terapeuta observa mudanças na energia e na linguagem
corporal, o que pode então levar a uma sugestão para a pessoa dizer
alguma coisa ao pai, ou fazer um movimento ou gesto.
Em trabalho de grupo, o terapeuta pode começar a trabalhar com um
cliente específico e, em seguida, decidir interromper a constelação, a
fim de continuar em um momento posterior, permitindo que este
participante volte a se sentar e observe enquanto os outros membros
do grupo exploram o seu próprio sistema familiar. Mas isso não é
possível em trabalho individual - essa pessoa reservou um horário
para uma sessão e está aqui por um tempo determinado - de modo
que mais conversa pode ser necessária no início para criar a
abordagem correta e, talvez, uma breve meditação para ajudar o
cliente a entrar em contato com questões mais profundas e
sentimentos.
Seminários: Trabalhando em grupos
A beleza e a singularidade da Constelação Familiar tornam-se mais
evidentes quando se trabalha com grupos. Os representantes são
colocados pelo cliente e, a partir desse momento, o cliente é
basicamente um observador enquanto o jogo de inter-relações da
constelação se desdobra em frente dele. Ele permanece livre para
recebê-lo ou não.
Durante a maior parte do tempo, o cliente simplesmente senta e
permite-se ser tocado pelo que está ocorrendo à sua frente. Mesmo
sem muita informação sobre o sistema familiar do mesmo, o trabalho
se desenrola conforme os representantes se tornam parte do campo
energético dessa família específica. É uma forma elegante e eficaz
para ultrapassar qualquer resistência em um cliente, visto que o
terapeuta pode trabalhar com o mesmo de uma forma indireta por
meio dos representantes.
No formato de seminário, eu costumo trabalhar com um mínimo de
15 participantes e um máximo de 50. Em grupos menores, tento
garantir que haja um bom equilíbrio entre homens e mulheres. Nestes
seminários, não dou garantia de que todos os participantes terão a
sua constelação pessoal feita.
Muitos benefícios podem derivar tanto de observar quanto de
participar como representante em uma sucessão de diferentes
constelações, que fornecem insights para todos os presentes. Na
minha experiência, as pessoas que tentam insistir em receber sua
própria constelação não estão geralmente em contato com o que
realmente importa no trabalho. Na prática, não é essencial de quem
a constelação está sendo realizada; a constelação de qualquer pessoa
pode tocar um participante e criar um movimento na direção da cura
e resolução. Em geral, eu confio na energia do momento, o que
significa que a pessoa "certa" vai ter uma constelação no momento
"certo". É importante para os participantes desenvolver a confiança
que as soluções acontecem no seu próprio tempo e não podem ser
forçadas fazendo-se contratos ou acordos.
Quanto à configuração, sempre que possível eu convido pessoas para
sentar em cadeiras, pois isso ajuda a todos a ver a constelação melhor
e evita desleixo e sonolência que às vezes acontece quando as
pessoas se sentam em almofadas no chão. Geralmente, as cadeiras
são colocadas em um círculo com um espaço livre ao meu lado, onde
o cliente da vez vai sentar-se e as sessões de constelação acontecem
dentro do círculo.
No início de um seminário, eu costumo dizer algumas palavras sobre
Constelação Familiar e, em seguida, faço uma "rodada" introdutória
que explicarei brevemente. O workshop típico consiste de
constelações individuais, rodadas, exercícios e várias meditações.
Rodadas
Esta forma de partilhar em grupos que foi abraçada por Bert Hellinger
e eu a utilizo da mesma maneira, às vezes com pequenas variações.
Em uma rodada, todo mundo é convidado a dizer algumas palavras
sobre como está se sentindo ou o que está acontecendo para ele
nesse momento. Na primeira rodada de um seminário, peço às
pessoas para fazer uma apresentação breve, dizendo por que vieram,
e na última rodada eu as convido a dizer o que foi importante para
elas após a participação.
A partilha é geralmente curta. Eu não quero que as pessoas entrem
em longas histórias ou interpretações de eventos em suas vidas. Às
vezes, peço a todos que digam apenas uma palavra sobre como eles
estão se sentindo em um determinado momento, como uma
verificação rápida para ver onde a energia do grupo está focada.
Nas rodadas, ninguém está autorizado a comentar sobre qualquer
outra coisa, todo mundo tem o mesmo direito de falar e a conversa
tem que ser pessoal - cada pessoa só fala sobre si mesma. É
importante que qualquer facilitador que conduza um seminário de
constelação familiar tenha cuidado para que essa regra seja
respeitada.
Eu uso rodadas a qualquer momento em um seminário para ter um
sentimento do grupo como um todo e para saber quem está mais
pronto para receber uma constelação, ou que problema é mais
interessante nesse momento. Pode ser útil, após uma intensa
constelação, usar uma rodada para dar tempo aos participantes
integrarem o que os afetou, ou para reunir a energia do grupo para
continuar o trabalho. Às vezes, posso interromper uma rodada para
trabalhar com alguém de imediato, para só mais tarde voltar para a
rodada.
Exercícios
Em minhas oficinas, uso os exercícios de vez em quando, nos quais
todos são convidados a participar. Isso prepara as pessoas para
trabalhar com constelações, pois desencadeia um processo interno
claro de movimento de energia. Também ajuda a mover a energia
física, já que as pessoas precisam estar ativas, pois de outro modo
elas só sentam e observam. O corpo e a mente são uma unidade e se
há muito "movimento interior", ou do trabalho psicológico, como em
sessões de Constelação Familiar, é útil equilibrar isso com algum
movimento físico. Assim, eu uso meditações ativas, dança e exercícios
como um suporte diário.
Eu nunca insisto que todos devam seguir esses exercícios exatamente
como instruídos, uma vez que a natureza e o tipo de participante em
qualquer seminário podem variar amplamente e algumas pessoas vão
realmente apreciar o exercício, enquanto outras ficarão menos
motivadas.
Após a primeira rodada de apresentação, costumo pedir que as
pessoas sentem-se com um parceiro e, então, conduzo-os através de
uma meditação guiada para relembrar suas famílias de origem e os
antecedentes de seus pais, incluindo quem pertenceu a esses sistemas
e os eventos que ocorreram. Dou exemplos dos tipos de eventos que
são considerados relevantes na Constelação Familiar e, em seguida,
convido-os a conversar com seu parceiro sobre suas famílias,
enquanto o parceiro ouve em silêncio, notando o que o toca sobre os
eventos que estão sendo compartilhados. Esta é uma boa preparação
para levar as pessoas a contatar com seu sistema familiar e com os
fatos importantes que ocorreram dentro dele.
Outro exercício que posso usar a qualquer momento durante a oficina
é novamente feito em pares, com parceiros em pé, opostos um ao
outro; um representa a si mesmo como uma criança, enquanto que o
outro desempenha o papel de pai para essa pessoa.
O parceiro pai funciona apenas como uma presença. Aquele que é a
criança olha para o pai e se torna consciente de qual o sentimento ao
ficar nessa posição, nessa relação, observando se ele se sente 'maior'
ou 'menor' do que esse pai, ou se ele sente em se aproximar ou recuar.
Depois de algum tempo, eu posso pedir que a criança se curve diante
do pai, em seu próprio modo e tempo, então os papéis são invertidos
e no fim os dois parceiros compartilham o que perceberam em si
próprios e na outra pessoa. Isso ajuda as pessoas a entrar em contato
com a realidade de suas relações com seus pais, o que muitas v ezes
é bem diferente do que elas pensavam.
Às vezes, dividindo um grupo grande em pequenas unidades de
quatro ou cinco pessoas, eu apresento um exercício no qual um
participante atua como o cliente e outro como o facilitador, os demais
como representantes. O facilitador ajuda o cliente a colocar seu pai,
mãe e um representante por si mesmo, em uma miniconstelação.
Nenhum trabalho profundo é feito com esta constelação, é apenas
um retrato da família para levar as pessoas a se envolverem no
processo. Os representantes podem ser convidados a relatar o que
eles percebem em suas posições, mas, além de coordenar essas
respostas, a pessoa que atua como facilitador não está realmente
fazendo algo, embora no curso de formação isso será desenvolvido
mais além.
Em outro exercício que eu uso em cursos mais longos - já descrito no
capítulo quatro - peço às pessoas que tragam símbolos, objetos
pequenos que têm um certo formato e possam ser facilmente
arrumados. Em grupos de três, cada participante cria uma constelação
com seus símbolos, no chão ou sobre uma mesa, com cada símbolo
representando uma pessoa da sua família de origem. Cada
participante coloca o quadro da sua família na sua vez, enquanto os
outros olham e comentam o que observam na imagem. O participante
é convidado a ir de um símbolo para o outro, perguntando a si mesmo
como cada membro da família nessa posição deve estar se sentindo.
Existem muitas outras estruturas e exercícios que eu utilizo, por
exemplo, para demonstrar como a consciência funciona, ou como
você se sente ao se relacionar com um parceiro amoroso quando um
pai está atrás de você, mas não há necessidade de descrevê-los todos
aqui. Os exemplos acima serão suficientes para dar a ideia geral.
Meditações
Já descrevi o que eu quero dizer com meditação no capítulo anterior.
O trabalho de Constelação Familiar ajuda a pessoa a mover-se mais
profundamente em meditação, uma vez que ela limpa a mente de
conflitos não resolvidos e incentiva o hábito de perceber o próprio
sentimento, pensamento e comportamento.
A meditação, por outro lado, ajuda a uma pessoa ir mais
profundamente em uma constelação, pois o torna consciente de sua
realidade interior e movimentos internos - funciona das duas
maneiras.
Em minhas oficinas, eu faço ambas as estruturadas: meditações e
meditações guiadas. Por exemplo, pela manhã e no fim do dia
fazemos meditações ativas que seguem uma estrutura fixa, levando
da atividade física à quietude e ao testemunho. Eu uso,
principalmente, duas técnicas ativas desenvolvidas por Osho:
Meditação Dinâmica pela manhã e Meditação Kundalini à noite.
Ambas duram uma hora e ajudam as pessoas a integrar o que quer
que tenha sido tocado, provocado ou movido durante as sessões de
constelação.
As meditações guiadas são geralmente mais curtas e podem
acontecer a qualquer momento durante o dia, preparando as pessoas
para o trabalho posterior - por exemplo, após uma pausa, ou antes
da primeira sessão - e também para ajudar as pessoas a absorver e
processar as suas emoções após uma constelação particularmente
intensa.
Essas meditações são guiadas pelo terapeuta e são uma resposta
espontânea ao que é requerido em um certo momento para todo o
grupo. Aqui estão alguns exemplos de meditações guiadas que eu
poderia utilizar em meus seminários. As instruções que você vê abaixo
são dadas ao longo de um período de tempo, com lacunas que
permitem aos participantes integrar cada sugestão. Os participantes
estão em pé ou sentados.
1) Recebendo força dos antecessores familiares
Feche os olhos. Imagine que o seu pai está de pé atrás de seu ombro
direito e sua mãe está de pé atrás de seu ombro esquerdo. Observe
como se sente. Observe se você sente que um progenitor está mais
próximo do que o outro.
Agora imagine que por trás de seus pais ficam os pais deles; seus avós
estão de pé exatamente da mesma maneira - os pais de seu pai atrás
dele e os pais de sua mãe atrás dela.
Então, imagine por trás deles estão os pais deles, seus bisavôs... e por
trás deles os pais deles, e assim por diante. O número de pessoas está
crescendo conforme você volta no tempo, mas nem mesmo um único
pode ser deixado de fora. Cada um é necessário, cada um contribuiu
para a sua existência, cada um deu continuidade à vida que ele, ou
ela, recebeu.
Agora imagine que você está inclinado sobre todos eles e recebe o
apoio deles por trás. Sinta a força que flui para você a partir desta
longa linhagem dos antecessores de sua família.
2) Sentindo suas raízes
Fique em pé com os joelhos ligeiramente flexionados e imagine que
suas pernas são raízes, atingindo profundamente a terra em baixo de
você.
À medida que você inspira, imagine que você está penetrando dentro
da terra com essas raízes para receber sua nutrição. Permita que os
seus joelhos dobrem mais junto com a sua inspiração.
Quando expirar, permita que seus joelhos estiquem, como se você
estivesse empurrando a terra para baixo a fim de levantar-se, como
uma árvore que quer crescer para fora da terra na direção do céu.
Conectado ao seu ritmo de inspiração e expiração, permita que os
seus joelhos dobrem e estiquem, de tal modo que haja um movimento
contínuo entre ser alimentado por suas raízes e alcançar a direção do
céu. Faça isso por um tempo.
Agora imagine que essas duas raízes, suas pernas, vêm de seus pais -
uma de sua mãe, a outra do seu pai. Imagine o quão profundo essas
raízes penetram na terra, quão longe elas atingem em sua linhagem
familiar. A maioria desses antepassados você nunca conheceu, você
nunca será capaz de vê-los, ainda assim todos apoiam e nutrem você.
Agora, sinta como essas duas linhas da família se conectam em você,
com as duas raízes se encontrando no seu centro sexual. Cada célula
do seu corpo vem desse encontro de seu pai e sua mãe, ambos
contribuíram igualmente.
3) Observando em uma sala de cinema
Com os olhos fechados, torne-se consciente do seu corpo e quaisquer
tensões que possam estar presentes em qualquer parte do mesmo.
Em uma perna, uma mão, no pescoço, ombros e assim por diante.
Permita que eles estejam lá sem tentar mudar nada. Note onde no
seu corpo você se sente à vontade, expandido, leve ou alegre.
Observe o padrão de sua respiração, o ritmo da sua inspiração e
expiração. Esteja ciente de quaisquer movimentos que queiram
acontecer, surgindo de dentro de seu corpo, e de qualquer
sentimento que possa surgir. Permita essas sensações sem precisar
fazer nada. Da mesma forma, torne-se consciente do fluxo contínuo
de pensamentos que passam através da sua mente.
Agora, imagine que você está sentado relaxado em um assento no
cinema, assistindo esses pensamentos, imagens, movimentos e
sentimentos, como se estivessem acontecendo na tela à sua frente.
Deixe que tudo aconteça por si só, sem fazer nada, sem julgar ou
querer interferir ou alterar nada no filme que está se desenrolando.
Como em qualquer filme, você vai experimentar momentos bonitos,
momentos de amor, momentos de dor, alegria, medo... todos eles
vêm e vão, tudo muda e você está simplesmente assistindo...
Esses são alguns exemplos de como uma meditação guiada pode
acontecer. Normalmente, elas são respostas à energia do grupo em
um determinado momento e não são pré-planejadas, pois elas se
destinam principalmente a ajudar as pessoas a contatar com camadas
mais profundas de sua personalidade e preparando-as para uma
constelação real.
Esses exercícios podem parecer simples, mas eles normalmente têm
um efeito profundo. Nossa mãe, nosso pai e seus antecessores são a
nossa ligação com a própria vida e a maneira que nos sentimos sobre
eles reflete a maneira que nos sentimos sobre a vida. Em um nível
físico, material, eles representam a nossa origem e todo mundo vai
sentir isso de alguma forma. No fundo, todos, são movidos por essa
compreensão, negativa ou positivamente.
Em adição às meditações guiadas e técnicas estruturadas, meditação
pode também nos levar um passo além da terapia e isso discutiremos
no próximo capítulo.

Capítulo Vinte e Quatro


O contexto do trabalho
Terapia e Meditação
Por definição, terapia é uma forma de cura, um modo de apoiar a
nossa capacidade intrínseca a entrar em equilíbrio. Nesse sentido, a
terapia tenta mudar o nosso estado presente em um que é imaginado
como mais saudável, ou "melhor", e este por sua vez requer uma
compreensão do que um estado mais saudável pode ser.
No que diz respeito ao corpo e suas doenças, a orientação para uma
melhor saúde parece clara, mas quando tentamos aplicar o mesmo
conceito para o nosso estilo de vida do dia a dia, com todos os seus
desafios e dificuldades, a tarefa fica mais difícil e nós achamos que é
quase impossível definir qualquer padrão objetivo.
Por exemplo, podemos assumir que qualquer conceito geral de saúde
humana vai incluir uma sensação de felicidade, bem-estar e
satisfação, mas, após uma investigação, logo verificamos que o que
uma pessoa deseja para torná-la contente é o oposto do que outra
pessoa considera como "felicidade".
Uma pessoa pode querer ser mais autoassertiva, dinâmica e confiante
no trabalho, com vista a traçar uma carreira e subir mais na escala
corporativa, enquanto outro pode estar à procura de maneiras de ser
mais relaxado, calmo e menos dirigido pela competição. Uma pessoa
pode estar à procura de forças para ficar sozinha, enquanto outro
pode querer aprender as habilidades básicas de melhorar a
intimidade com os outros.
A terapia que trabalha com esses tipos de questões pode ser
enquadrada sob o título de "autoaperfeiçoamento" ou "autoajuda" e
visa ajudar um indivíduo a realizar seus planos sobre o que produzirá
um estado desejado de bem-estar. No entanto, o problema é que, a
menos que esses desejos estejam em acordo com as forças mais
profundas da vida, tal como vimos em sessões de Constelação
Familiar, é improvável que eles produzam o estado desejado por
muito tempo.
Nesse tipo de trabalho de autoaperfeiçoamento, em vez de ajudar
uma pessoa a entrar em contato com o seu ser e ter mais aceitação
da realidade, o terapeuta pode estar apoiando os sonhos ou fantasias
do cliente sobre quem ele quer ser. Esses sonhos podem nem mesmo
ser dele próprio; eles podem ser valores sociais absorvidos da
coletividade ou modismos que foram absorvidos pela mídia e cultura.
Após esse tipo de terapia, um cliente pode dizer que ele está "mais
feliz", mas, se ele olha profundamente dentro de si, ele pode achar
que está mais tenso e temeroso, pois realmente ele aprendeu apenas
a reprimir certas partes da sua personalidade e projetou outros tipos
de comportamento que foram aprendidos ou adicionados. A qualquer
momento, a máscara social que foi adquirida tão recentemente pode
escorregar, expondo uma realidade diferente por baixo.
Realmente, só pode haver um critério para a felicidade duradoura: a
minha felicidade depende do exterior, de circunstâncias externas, de
conseguir aquilo que eu quero, ou ela está enraizada dentro de mim?
Se ela tem de ser apoiada a partir do exterior, é um fenômeno
transitório; se é uma qualidade natural do meu ser, é autenticamente
minha.
Visto dessa perspectiva, uma maneira verdadeiramente útil de fazer
terapia é aquela que leva uma pessoa à sua interioridade, em vez de
apoiar sonhos, e o terapeuta, que a oferece precisará ser alguém que
tem compreensão pessoal e experiência de meditação. Por quê?
Porque, como temos visto, meditação não é nada mais nada menos
do que a arte de familiarizar-se com a própria interioridade.
A terapia baseada na meditação vai ajudar a pessoa a desenvolver
uma profunda confiança no que é, em vez do que é desejado, e vai
levá-la para um estado interior de relaxamento que existe
independentemente dos altos e baixos diários da vida.
Dois tipos de felicidade
Precisamos distinguir entre dois tipos de felicidade: Um tipo surge da
mente humana, com todos os seus desejos, fantasias e sonhos sobre
o que nos fará feliz, com foco em conseguir o que queremos do
ambiente social que nos rodeia. Não há nada de errado com esse tipo
de felicidade, não é para ser condenado, mas ela tem uma falha básica
que é frequentemente ignorada: ela não dura e é periodicamente
seguida por frustração e descontentamento. Você deve ter notado
que, mesmo quando atinge um certo objetivo que tem desejado,
dentro de um tempo relativamente curto você se encontrará
novamente ansiando por algo mais. Como Osho e outros místicos têm
apontado, é um hábito crônico da mente humana nunca estar
satisfeita, portanto, qualquer tipo de felicidade que dependa de
circunstâncias externas está fadada a ser momentânea.
O outro tipo de felicidade vem profundamente de dentro e é o
resultado de se estar em contato com o ser interior e este será mais
duradouro, uma vez que não depende de eventos externos. É uma
subcorrente que está constantemente presente, mais como um estado
do que como uma experiência e, geralmente, se manifesta em
momentos de relaxamento profundo e quando se é capaz de estar
totalmente presente sem preocupação mental.
Nós todos conhecemos o primeiro tipo de felicidade e em algum grau
muitos de nós teve lampejos do segundo tipo e um terapeuta tem de
ser capaz de distinguir claramente esses dois estados quando trabalha
com o seu cliente.
Igualmente, em nossa explanação sobre Constelação Familiar,
descrevemos dois tipos de amor, o cego e o consciente, e dois tipos
de alegria, um que surge porque a criança está perto de seus pais e o
outro como resultado de ver os pais em sua totalidade. No primeiro
caso, a criança está "feliz" e se sente inocente porque ela está
emaranhada e ligada aos seus pais, mesmo que ela possa carregar um
fardo de dor por eles. No segundo, ela se sente sozinha e talvez até
culpada, assim que ela deixa qualquer dor que pertence a seus pais,
mas está menos sobrecarregada e experimenta a felicidade de um
modo totalmente novo e diferente. É a felicidade de uma perspectiva
madura e adulta sobre vida e por não ser controlada pelo passado.
É importante para um terapeuta ser capaz de detectar estes dois
estados em seu cliente - o amor infantil e o amor maduro.
Duas maneiras de fazer Constelação Familiar
Como já citado em capítulos anteriores, a Constelação Familiar pode
ser abordada de duas maneiras e ambas são de valor para o cliente.
Em primeiro lugar, como um método terapêutico que conduz à
compreensão de emaranhamentos familiares e ajuda um indivíduo a
superar quaisquer problemas relacionados ao seu sistema familiar.
Deste modo, funciona mais ou menos como qualquer outra terapia,
fornecendo insights sobre a natureza humana que estão se tornando
a corrente principal do conhecimento psicológico em muitos países
em todo o mundo.
Em segundo lugar, pode-se abordar a Constelação Familiar como uma
maneira de entrar em contato com o que nos move profundamente
na vida, como uma preparação para contatar o nosso ser interior além
da consciência pessoal e coletiva. Esta abordagem tem uma dimensão
mais espiritual e talvez esta seja a razão pela qual Bert Hellinger
chamou esse aspecto de seu trabalho de "filosofia aplicada". Nós
também podemos chamá-lo de uma "abordagem meditativa".
Em geral, a terapia trabalha com o nosso corpo, mente e emoções e
procura trazer harmonia em como eles funcionam juntos, desse modo
tentando liberar o indivíduo de conflitos, estresse e tensão.
Meditação, por outro lado, é a percepção de que somos algo mais,
algo que se encontra bem além da estrutura corpo-mente. Nesse
sentido, pode-se descrever meditação como a forma suprema de
terapia, uma vez que só quando estamos profundamente enraizados
na meditação podemos ser verdadeiramente livre de estresse.
Até a chamada "mente pacífica" terá tensões, mesmo um sistema
harmonizado é susceptível de se tornar instável novamente e reverter
para um estado de conflito ou tensão. A solução verdadeira é trazida
pela percepção de que não somos nem o corpo nem a mente, que o
drama da vida é apenas um jogo existencial e a única dificuldade é
que nos esquecemos de que somos atores nela. Nós a tomamos como
real.
A autêntica terapia, na minha opinião, é uma preparação que leva uma
pessoa para a busca espiritual, uma vez que qualquer interesse em
autoaperfeiçoamento, se for autêntico, a levará firmemente para mais
dentro de si mesma, mais fundo na investigação "Quem sou eu?".
A terapia é um primeiro passo útil, limpando o terreno de detritos
para que possamos fazer a viagem interior com mais facilidade. Se
estamos cheios de tensão e estresse, não haverá energia sobrando
para a meditação, então a maioria das pessoas constatará que a
terapia os descarrega da bagagem psicológica e os permite ver a
natureza essencial da busca espiritual.
Um modelo de realidade
Na Constelação Familiar aprendemos que o indivíduo é parte de uma
coletividade, uma família, que o forma e isso explica muito de seu
comportamento. Dessa forma, estamos olhando não apenas para uma
história individual, mas para um sistema maior e vendo seu efeito
sobre um cliente. No entanto, seria errado considerar que um
indivíduo é apenas o produto do seu passado familiar. Em certo
sentido, ele é seus pais, mas ele também é algo mais - um ser humano
único, com muitas dimensões.
Um modelo não é suficiente para explicar toda a complexidade de
como cada pessoa funciona. Uma árvore pode ser olhada de muitos
ângulos e aparece sempre diferente, dependendo de onde estejamos,
embora seja a mesma árvore. Da mesma forma, talvez seja necessário
olhar-nos de muitos pontos de vista diferentes e obter insights com
a ajuda de diferentes modelos terapêuticos, de modo que possamos
finalmente ser capazes de nos ver diretamente. Como Hellinger diz:
"A plenitude da vida não pode ser reduzida a um caminho".
Vamos considerar, por um momento, o relacionamento entre homem-
mulher, em que a Constelação Familiar oferece muitas percepções,
incluindo a necessidade de equilíbrio entre dar e tomar, que
discutimos no capítulo dez. Olhando para uma relação amorosa só
por esse ângulo pode levar alguns as pessoas a concluir que uma
relação amorosa é uma transação de negócios, na qual se deve
calcular continuamente quanto dar ou o que se deve receber. Isto não
só destrói a espontaneidade do amor como também é contrária à
experiência suprema do amor em que duas pessoas se percebem
dissolvendo-se numa unidade - embora que por poucos efêmeros
momentos - e entrando em um estado transpessoal de êxtase onde o
pensamento para.
Tal mal-entendido pode ocorrer se foca-se muito sobre o mapa do
amor e muito pouco no terreno real. Um modelo, mapa ou uma
percepção de outra pessoa pode ser uma ajuda para que se abra a
visão, mas isso não pode ser um substituto para a experiência pessoal
e a investigação. A relação de amor entre homens e mulheres é um
fenômeno muito grande para ser encapsulado em um único conceito
ou até mesmo em muitos conceitos. Para saber o que o amor
realmente é, tem-se que entrar nele por si mesmo.
Talvez seja esta a razão pela qual muitos místicos não ensinam um
sistema filosófico específico. Mestres zen, por exemplo, são
conhecidos por serem muito contraditórios, dizendo uma coisa em
um momento e o oposto no momento seguinte, como uma
provocação para se abandonar o pensamento linear e lógico, e se
confiar em uma camada mais profunda da consciência que está além
do reino das ideias fixas e crenças.
Voltando à questão da relação de amor, podemos dizer que, se o
amor é consciente, então há de haver um certo equilíbrio entre o dar
e o receber, mas sem ter que pensar sobre isso, ou calcular o ganho
e a perda. Da mesma forma, se o amor para com os pais alcançou um
certo nível de consciência e compreensão, isso incluirá o que
aprendemos sobre a Ordem Sagrada e a reverência aos nossos
antecessores, enquanto ao mesmo tempo transcendemos isso.
Gratidão real, ou respeito, acontece quando não precisamos lembrá-
los; eles são apenas parte do nosso comportamento natural e
espontâneo.
O ponto de vista transcendente
Quando abraçamos um ponto de vista transcendente, todas as
verdades parecem relativas. Por exemplo, entendemos que os pais
precisam dar e as crianças receber, o que é verdade para a dimensão
biológica do seu relacionamento. No entanto, se considerarmos a
dimensão espiritual, também é verdade dizer que uma pessoa com
mais consciência é mais capaz de dar, em termos de amor e
compaixão, do que uma pessoa com menos consciência. Nesse nível
é possível para os filhos dar a seus pais, mas isso não será um dar
material nem implica em qualquer forma de conhecimento
hierárquico; será um dar sem ação, sem 'fazer'. Vai ser a presenç a, ou
o ser, da criança que constituirá o presente, desde que,
evidentemente, o pai esteja aberto a recebê-lo.
Em um nível biológico, dar à luz é a maior criatividade possível, pois
é por meio desse ato que a sobrevivência de ambos as tribos e a
espécie é assegurada. Visto a partir de uma perspectiva espiritual, no
entanto, o mesmo ato é bastante ordinário e mundano, já que todo
animal está fazendo a mesma coisa. Por outro lado, se tornar mais
conscientes, dar a luz a si mesmo, ao seu próprio ser interior , é agora
considerado como o ato mais criativo possível. Ambas as perspectivas
são verdadeiras; depende do ponto de vista que você está olhando.
Outro exemplo faz referência a respeito e honra. Em Constelação
Familiar, temos a visão de que os nossos pais merecem o nosso
respeito por nenhuma outra razão senão porque deu à luz a nós -
simplesmente porque eles são nossos pais. Se isso é tomado como
uma verdade absoluta, começa a criar problemas, especialmente em
termos de colocar uma grande ênfase social no respeito cego e
obediência à autoridade, uma doença que tem atormentado a
humanidade durante milhares de anos.
Hoje, estamos mais conscientes das implicações de tais atitudes e
agora é uma compreensão social mais aceita comumente que uma
pessoa deve ser respeitada não por quem ela é ou por quão velha
seja, mas pelo que ela faz e diz. Em outras palavras, um progenitor
deve ser respeitado apenas se ele merece respeito, não porque ele é
um pai, não porque ela é uma mãe. Ambos os pontos de vista parecem
ser corretos e são contraditórios apenas na aparência, cada um
apontando para uma verdade diferente.
Respeitar um pai, independentemente do que ele faz, não significa
que a criança tem que aprovar todas as ações de seu pai. Da mesma
maneira, se a criança não aprova algumas das ações de seu pai, isso
não significa que ele falta com respeito pela pessoa que é seu pai -
isso não precisa ser um julgamento sobre a pessoa.
No passado, era presumível que um pai soubesse mais sobre trabalho,
artesanato e habilidades profissionais do que seu filho, que por
necessidade era sempre um iniciante no tipo de trabalho o qual seu
pai estivesse engajado. Em tais circunstâncias, respeito pelo pai era
natural e fácil. Mas hoje em dia a flexibilidade do status social e a
rápida taxa de mudança nas habilidades de trabalho, especialmente
em áreas como tecnologia e computação, pode significar
provavelmente que o conhecimento do pai é ou inútil para seu filho
- e ele escolhe um outro tipo de trabalho - ou é ultrapassado. Em tal
situação, um filho pode ter mais conhecimento do que seu pai e pode
ter um olhar superior com relação ao mesmo.
Então, respeitar um pai não significa que se precise seguir o seu
conselho. Respeito e gratidão não implicam em obediência, como
tantas vezes foi entendido no passado. Seguir alguém e ser grato são
fenômenos contrários. De fato, como a história mostra
frequentemente, os seguidores têm a tendência não de serem gratos,
mas antes ressentidos.
Entender realmente o significado de respeito e honra não é fácil.
Quando assumimos a atitude que uma pessoa deve ser respeitada
somente se ela merece, podemos evitar que nos tornemos seguidores
cegos, mas podemos simultaneamente cair na armadilha de julgar ou
condenar nossos pais, como muitos têm feito. Então, torna-se difícil
entender a perspectiva da Constelação Familiar que os pais merecem
respeito só porque eles são pais.
Além do sistema de crenças
Qualquer modelo ou sistema que reflete o funcionamento da psique
humana pode ajudar as pessoas a crescer em consciência, seja
Constelação Familiar, tipos corporais Reichianos, tipos de
personalidade do Eneagrama ou a psicologia Junguiana dos
arquétipos do masculino e do feminino interior, mas o mesmo sistema
pode facilmente tornar-se apenas conhecimento - algo que
acreditamos ser verdadeiro sem nós mesmos termos testado, algo
passado para nós pelos outros. Com isso em mente, a orientação
deveria ser sempre usar um sistema para aprofundar a nossa própria
compreensão, ou questionar atitudes ou suposições antigas sobre nós
e nossas crenças.
Muitas vezes acontece que as pessoas que ganham uma compreensão
mais profunda com a ajuda de um modelo particular tornam-se
fascinadas e muito identificadas com ele. Vira uma espécie de
doutrina, uma perspectiva fixa através da qual se quer ver o to do da
vida. Elas podem ser clientes, professores, não importa, qualquer
ensinamento pode tornar-se uma ideologia, algo perigoso porque
pode dar a ideia de conhecimento sem autoinvestigação e experiência
própria. Em muitas ocasiões, Hellinger lembrou aos seus alunos que
o que ele disse era relevante apenas em um determinado contexto e
em um dado momento e não deve ser considerado como mais do que
isso.
Aqui, a diferença pode ser vista entre um professor comum e um
grande professor. O professor comum transmite um modelo, um
método ou um sistema, repassando conhecimentos de uma forma
consistente e fazendo seus alunos se sentirem mais à vontade e
seguros. Um grande professor transmite uma visão, mas ao mesmo
tempo desafia a inteligência e a vigilância dos seus estudantes,
destruindo sistemas de crenças sem criar reposições fixas. Com um
professor nos sentimos confortáveis e seguros, com um visionário
tendemos a nos sentir inseguros e apreensivos, já que ele nos deixa
sozinhos para descobrir as coisas por nós mesmos.
Muitas pessoas são atraídas para um determinado modelo ou
metodologia porque lhes dá a sensação de saber o que fazer ou de
como olhar para a vida e as salva da incerteza de confrontar o novo
na vida, momento a momento, de uma maneira espontânea e
inocente. No entanto, eu pessoalmente não gostaria de adotar a
Constelação Familiar como um guia para o comportamento "correto".
De preferência, eu gostaria que as ideias apresentadas neste livro,
incluindo as de Hellinger e Osho, fossem entendidas como hipóteses
de trabalho que precisam ser verificadas por cada leitor
individualmente.
Tenho notado que há clientes que fizeram várias sessões e
participaram como representantes de outras constelações, que
parecem desistir do impulso de olhar para dentro, em vez de
produzirem um esforço para efetivamente fazê-lo. Eles já sabem a
frase de solução "correta" e para quem se curvar, mas o sentimento é
automático e, às vezes, lembra os cerimoniais de uma Igreja.
De forma similar, alguns facilitadores sugerem frases de solução e
fazem perguntas de forma rotineira que indica uma expectativa pré -
determinada; eles não se deram o trabalho de ver cada situação e
cada cliente como novo. Por exemplo, em uma circunstância
particular, pode ser mais verdadeiro para o cliente expressar sua raiva
para com o pai em vez de se curvar diante dele, especialmente se a
reverência é feita a partir do conhecimento do que se imagina fazer.
Ou como facilitador, pode ser mais sincero, em uma situação
particular, admitir que não se sabe como proceder.
O que é importante é permanecer aberto para questionar e confiar na
própria experiência. Neste ponto, gostaria de reconhecer a
flexibilidade do próprio Hellinger, que tem repetidamente mudado
suas percepções, mesmo ao ponto de contradizer coisas que ele disse
anteriormente. Pela mesma razão, eu gostaria de reconhecer Osho
como um místico que insiste na responsabilidade individual como o
alicerce para
a autoinvestigação - a compreensão de que a verdade não pode ser
emprestada ou transferida de uma outra pessoa. Todo mundo precisa
evoluir e crescer da sua própria e única maneira e a teoria deve
sempre seguir a experiência pessoal, e não vice-versa.
Aprendendo Constelação Familiar
Uma constelação é um processo de aprendizagem não só para o
cliente, mas também para os representantes e facilitadores. Esta
aprendizagem tem vários níveis:
Um representante, fazendo o papel de um membro de uma família,
entra em contato com os sentimentos dessa pessoa e como resultado
pode ter uma experiência que nunca teve antes em sua vida. Da
mesma forma, um facilitador pode ter novas experiências quando
conectar com cada pessoa em um sistema através da sua abertura e
empatia. Dessa forma, representantes e facilitadores ganham
experiência de vida sem que ela tenha passado por eles
pessoalmente.
Aprender Constelação Familiar como uma ferramenta terapêutica traz
uma compreensão mais profunda da função da consciência, da
"ordem do amor" que existe em cada família e das leis que regem um
sistema familiar.
Além disso, é importante para os facilitadores perceberem que
existem ferramentas adicionais necessárias para se dominar a arte de
ajudar as pessoas que não estão diretamente relacionados com a
Constelação Familiar. Por exemplo, um facilitador precisa de uma base
de aconselhamento e ferramentas de comunicação, saber como
permanecer centrado em si mesmo, compreender o fenômeno da
projeção... para mencionar apenas algumas.
Além disso, é útil compreender o significado da linguagem corporal,
reconhecendo que o que o corpo expressa pode ser muito diferente
do que o cliente está dizendo. Frequentemente, em constelações,
olhamos para os movimentos sutis e gestos do corpo ao invés de
confiar no que está sendo dito. Experiência no trabalho de liberação
emocional também é útil, aprendendo a distinguir entre os tipos de
expressões emocionais que merecem ser apoiados e aqueles que não.
Significado profundo das Leis da Constelação Familiar
Como discutido anteriormente, nas Constelações Familiares estamos
em contato com leis que nos movem profundamente na vida e, se as
aplicamos em um contexto mais amplo, elas podem nos prover de
alguns princípios valiosos que vão muito além da terapia.
A Lei do Pertencimento
A Lei do Pertencimento se refere ao fato de que todos nós temos um
lugar na existência. Ninguém tem mais ou menos direito de estar aqui,
independentemente se ele é um pecador ou um santo. Como dizem
os místicos, a menor folha de grama é tão necessária como a maior
das estrelas, nada é excluído, e não há questão de comparação. É a
mente humana, que exclui, faz divisões entre melhor ou pior, maior
ou menor, bom ou ruim, mas nada pode, na verdade, ser excluído
porque a existência que nos rodeia é universal, tudo abrangendo e
tudo incluindo; tudo continuará presente e continuará a ter influência.
A Lei da Ordem
A Lei da Ordem atenta para o fato de que cada um de nós é único,
não há dois seres humanos iguais, de modo que cada indivíduo tem
um lugar especial na existência que não pode ser tomado por
qualquer outra pessoa. Aqui vemos uma versão expandida do que
temos chamado de Ordem Sagrada, na qual o nosso lugar está
garantido pela nossa própria singularidade.
A Lei do Equilíbrio
A Lei do Equilíbrio nos lembra que o que quer que qualquer um faça
tem consequências; não passa despercebido. Nós influenciamos o que
acontece ao nosso redor e somos influenciados por isso. Não somos
dependentes nem independentes, mas sim, vivemos em uma vasta
rede de interdependência. É como um pêndulo, quando você o
empurra para um lado, você está na verdade criando momentum para
que ele eventualmente oscile para o outro lado. Existe um equilíbrio
na vida, a maré alta é seguida pela maré baixa, o verão pelo inverno,
o dia pela noite; se você trabalha duro há necessidade de repouso; se
você magoar alguém, de alguma forma você também se machuca.
Todo mundo é e sempre será totalmente responsável por aquilo que
faz. Hellinger chama isso de "carregar a própria culpa", o que significa
também carregar a sua própria responsabilidade.
Honrando os Mortos
Reconhecer a importância dos mortos nos lembra que vida e morte
caminham juntas, uma não pode existir sem a outra e na verdade, a
vida tem valor apenas por causa da morte. É uma questão de
contraste. Na sala de aula, os alunos podem ler a escrita branca só
por causa do quadro negro em que está escrito. Da mesma forma, a
dança da vida emerge do útero da morte, ou do nada, o que Gautama
- o Buda - chamou de "shunyata", ou vazio. Uma sociedade que não
lembra os mortos não tem nenhuma força existencial.
Vítimas e perpetradores
Trazer à tona a conexão entre vítimas e perpetradores nos mostra que
polos opostos são realmente parte de um todo orgânico e um existe
por causa do outro; não se pode ser uma vítima sem um criminoso e
vice-versa; eles mutuamente definem um ao outro. Na verdade, esses
opostos polares também existem dentro de cada indivíduo: um lado
é visível enquanto o outro permanece escondido e vem à tona
somente quando a oportunidade surge. As vítimas frequentemente
carregam a violência escondida dentro de si, enquanto que os
assassinos, frequentemente, se sentem como vítimas. É uma
tendência da mente humana tentar e manter separados os polos
opostos que de fato pertencem juntos, mas, quanto mais tentamos
separá-los, mais forte fica a força que os atrai para uni-los.
Em sintonia com a vida
Quando um cliente abre o seu coração a todos os membros de sua
família, ele está realizando um ato espiritual que o leva a uma
profunda harmonia com a vida. Mesmo os chamados "maus" em um
sistema familiar são movidos pelas mesmas forças fundamentais que
os chamados "bons" e, nesse sentido, todos são iguais, ninguém é
superior, ninguém é inferior.
Quando julgamos ou condenamos alguém, estamos realmente
tentando negar o seu direito de pertencer, o que é contra o
movimento de uma força de vida que aceita todos
incondicionalmente. Podemos não entender porque as pessoas se
sentem compelidos a agir de determinadas maneiras, mas isso não
significa que temos o direito de condená-las. Em qualquer caso,
somos capazes de compreender apenas uma fração do porquê as
coisas acontecem da maneira que acontecem e por que as pessoas
agem de determinada maneira. A maior parte da vida permanece
misteriosa, além da nossa compreensão e tudo o que podemos fazer
é nos curvar diante do misterioso e do inexplicável.
Todos os eventos importantes na vida são acontecimentos e não
ideias pré-concebidas que tentamos colocar em ação. O amor é um
bom exemplo: não podemos criar o amor nem sabemos por que ele
acontece e essa qualidade elusiva e misteriosa contribui para a sua
beleza. Somos transportados por misteriosos movimentos da vida,
como se fosse uma onda, algo é trazido à superfície por um tempo,
em seguida desaparece novamente no desconhecido.
A vida, como vimos, se move entre polaridades, entre o conflito e a
resolução, entre o amor e o ódio, entre o positivo e o negativo, o
homem e a mulher. Nesse contexto, vale lembrar que, se tivéssemos
que experimentar somente a paz e a harmonia, iríamos achar a vida
chata e enfadonha. Portanto, há um movimento na vida em direção
ao conflito e outro movimento em direção à resolução, reconciliação
e cura. Vemos isso nas constelações, especialmente quando
trabalhamos com movimentos. Se existe um conflito entre parceiros,
existe também um movimento profundo de reconciliação; ele pode
levar seu tempo para se completar, mas sempre podemos vê-lo.
Como mencionei anteriormente, uma constelação é como tirar uma
foto instantânea de onde esse movimento chegou nesse momento e
olhando para ela podemos ser capazes de ajudar esse movimento a
dar o seu próximo passo.
Eu dei uma sessão para Brigitte, uma mulher cuja família veio de
Danzig, na antiga Alemanha Oriental que tinha perdido tudo após a
guerra, já que fugiram para o oeste para escapar dos russos. Sua mãe
posteriormente se casou com um homem russo, que mais tarde
deixou-a com o primeiro filho deles. Brigitte era uma filha posterior
dessa mulher.
Na constelação descobrimos que a avó, mãe da mãe de Brigitte, está
muito zangada com os russos. Vimos também um esforço
malsucedido de sua filha, a mãe da cliente, para encontrar a
reconciliação ao se casar com um russo, enquanto que ao mesmo
tempo inconscientemente permanece leal a sua mãe e assim repete o
destino de sofrimento de sua mãe - perdendo seu marido - e termina
sentindo a mesma raiva.
Só na próxima geração, com Brigitte, nós encontramos uma certa
completude do movimento de cura entre alemães e russos, incluindo
o reconhecimento do fato de que os alemães eram os agressores
iniciais. Brigitte finalmente diz para sua mãe e avó: "Eu amo os russos
também".
A declaração de Brigitte imediatamente prova ter um profundo efeito
curativo sobre todos os participantes em sua constelação.
Aqui, como em outros conflitos, precisa-se abrir mão da raiva e da
identificação, permitindo que a dor do que aconteceu venha à tona
sem fazer acusações. Tanto alemães quanto russos sofreram
imensamente com a guerra. Reconhecer essa verdade fundamental
permite que as duas forças opostas se encontrem e a reconciliação
aconteça, o que por vezes ocorre apenas no coração de um membro
posterior da família. Isso significa reconhecer que o "outro lado"
estava também sob a influência de uma força maior e, nesse sentido
era impotente também.
O caminho para a liberdade
Olhando para as coisas em um contexto mais amplo, descobre-se que
nunca há realmente qualquer oposição na vida, todos os opostos
pertencem a um todo. É porque nos identificamos somente com um
aspecto, com um lado, que experimentamos conflito. Muitos místicos,
a partir de Gautama Buda, têm mostrado que estar identificado cria
sofrimento e ser capaz de se libertar da identificação é a verdadeira
liberação. Normalmente, nós nos identificamos com muitas coisas: a
nossa profissão, os relacionamentos, a nação, a fé, o grupo étnico e,
acima de tudo, a nossa própria mente e corpo. Como mencionei antes,
meditação é uma maneira de perceber que não somos essencialmente
nenhuma dessas coisas. A Constelação Familiar, em essência, conduz
à mesma percepção e, portanto, nos aproxima de um estado de
meditação.
Por exemplo, quando Brigitte é capaz de dizer que ama os russos, ela
simultaneamente deixa a sua identificação com seus antepassados
alemães e com a sua raiva. Ela está de fato dizendo que os alemães e
os russos são iguais, ambos sofreram imensamente, ambos são seres
humanos, o que é uma verdade mais profunda do que qualquer
identidade superficial. Ao reconhecer e respeitar quem somos e de
onde viemos, somos capazes de ir além dos rótulos nacionalistas.
A identificação é uma parte natural e necessária do crescimento,
ajudando-nos a criar um senso de identidade pessoal, mas uma
compreensão mais profunda e madura da vida leva-nos além de todos
esses rótulos. Desse modo, transcendência é vista não como um ato,
mas como um efeito colateral que acontece uma vez que respeitamos
profundamente as nossas raízes.
Nas palavras de Osho: "Não há nenhuma ação após a compreensão.
A compreensão é a ação em si. Não é que você traga a luz para dentro
do quarto, depois expulsa a escuridão. Compreensão é luz. No
momento em que você compreende, não haverá sofrimento para ser
eliminado, para largar, para se livrar. A compreensão simplesmente
limpa você".
Pode ser útil salientar aqui a diferença entre identificação e respeito.
Identificação acontece inconscientemente, quando escolhemos "isso"
contra "aquilo", tornando-nos um com a pessoa com quem estamos
nos identificando. O respeito é um ato consciente que não é a favor
ou contra alguém ou alguma coisa. Percebemos a nossa existência
separada, que libera ambas as partes, deixando para trás uma
fragrância de amor.
Para Brigitte, respeitar sua avó significa olhar para ela, ver as
circunstâncias de sua vida, entender por que ela sente raiva, mas
deixar o sofrimento, a dor e a raiva com ela. Neste momento, Brigitte
já não está mais cegamente identificada com a avó e está livre para
ver e reconhecer o outro lado, os russos e não se sujeita a nenhum
dos lados.
Respeito e honra são palavras facilmente mal interpretadas. Elas não
significam que é preciso fazer alguma coisa para identificar e assumir
uma certa fidelidade. O verdadeiro respeito resulta da compreensão,
é um efeito colateral que ocorre quando somos plenamente capazes
de reconhecer uma pessoa e toda a sua experiência de vida sem
nenhuma interferência.
Isso pode ser uma das razões pelas quais Hellinger não usa ma is
frases de solução, como "Eu honro você", com tanta frequência como
ele fazia. O amor não é um fazer, mas uma profunda reverência para
com alguém e uma aceitação da solitude de cada um.
Liberdade também é uma palavra muito mal compreendida. A maioria
das pessoas acha que significa "fazer o que eu quero fazer". Mas,
como já vimos, a verdadeira liberdade só vem com grande percepção
e consciência. Quando as pessoas falam de liberdade, geralmente
serve a um propósito determinado, como uma criança dizendo "não "
a um dos pais ou um adulto deixando um parceiro amoroso. O
propósito é afrouxar o vínculo de um relacionamento. Esse é um tipo
negativo de liberdade, que pode ser descrito como "liberdade de",
mas ele não tem orientação positiva ou criativa por si mesmo. É
apenas quando descobrimos a dimensão expandida de "liberdade
para" que a nossa abordagem à vida inclui um verdadeiro "sim" e
torna-se preenchedora.
Nesse sentido, a função da terapia é nos dar a experiência de
"liberdade de", enquanto a função da meditação, como um segundo
passo, é criar a possibilidade de "liberdade para". Em outras palavras,
nos desemaranhar de nossas travas psicológicas é um bom primeiro
passo, mas fundamentalmente é a dimensão espiritual que dá à vida
seu verdadeiro significado. O que dá à Constelação Familiar seu
significado maior como uma forma de terapia e o seu potencial para
servir de ponte a esses dois tipos de liberdade. Um cliente pode se
sentir atraído para o processo como um modo de resolver um certo
problema pessoal e pode, então, se sentir atraído por uma apreciação
mais profunda sobre as formas que a vida se move e pela busca para
descobrir e experienciar quem realmente somos.

Apêndice
Perguntas mais frequentes
Com que frequência deve-se fazer uma constelação?
A Constelação Familiar é um método de uma sessão e, como tal,
baseia-se em um conceito diferente das terapias que "trabalham
sobre" uma dificuldade ou um problema de personalidade. Você não
vem uma vez por semana para uma sessão por três anos. A
constelação ajuda um cliente a entrar profundamente em contato
com sua realidade e o ajuda a ganhar uma nova compreensão de
como ele está emaranhado com outros membros da família. Aqui, o
trabalho termina. É como encontrar uma nova direção ou perspectiva
na vida. Uma mudança interior aconteceu e, desse ponto em diante,
todos os detalhes vão se desdobrar por si mesmos. No entanto, é
possível que nem todas as dinâmicas importantes foram desatadas
em uma única sessão, especialmente se houver uma grande
quantidade de relações complexas na família de origem. Então, é
possível se fazer uma outra constelação. Por razões semelhantes, o
cliente pode precisar de uma constelação para sua família atual e uma
para sua família de origem. Ou pode ser que o tempo passou e novas
revelações ou fatos sobre a família do cliente emergiu; então,
também, ele pode decidir fazer outra constelação.
Normalmente, quando uma pessoa foi profundamente tocada, ela não
vai nem mesmo pensar em repetir uma constelação. O processo de
absorção continuará muito tempo depois que a sessão realizada tiver
acabado.
O que devo fazer depois da minha constelação?
Esta questão surge a partir da ideia de ter que gerenciar ou controlar
o resultado de uma sessão. Praticamente é melhor não pensar no que
fazer depois de uma sessão, mas, sim, confiar que, tendo
compreendido algo profundo sobre a própria situação familiar, as
mudanças vão ocorrer naturalmente e estão além da ideia usual de
'fazer'.
Os terapeutas que insistem que uma pessoa deve mudar sua atitude
ou estilo de vida como resultado de uma sessão estão interferindo na
vida do cliente. O que quer que um cliente faça depois de uma sessão
não deve ser preocupação do terapeuta. Então, obviamente, os
critérios normais para avaliar se uma sessão foi bem-sucedida não
podem ser aplicados a um trabalho de constelação.
O que significa "orientada para a solução"?
Quando dizemos que uma Constelação Familiar é uma abordagem
orientada para a solução, queremos dizer que o terapeuta olha para
o que está tendo um efeito positivo sobre o cliente em uma
constelação e depois faz o mínimo necessário para apoiar essa
mudança. Às vezes, dando uma única frase ou pedindo a alguém para
se virar ou abrir os olhos, já é o suficiente para que a situação se
desenvolva.
No trabalho de Constelação Familiar há uma tendência de se perder
explorando as causas de emaranhamento, então o terapeuta deve se
abster de qualquer tipo de curiosidade sobre um sistema familiar, ou
por que algo aconteceu, a menos que seja essencial para o cliente
saber. O facilitador não é um diretor, ou guia, mas mais um
coordenador - ele olha para a pedra chave que mantém o problema
no lugar. Quando isso é encontrado, tudo muda automaticamente.
Fazer mais do que o necessário, como colocar mais representantes do
que o necessário em uma constelação, retira a atenção sobre a
questão verdadeira e enfraquece o impacto de uma sessão.
O quão importante é colocar o cliente na constelação?
Geralmente, não importa se o próprio cliente é colocado em uma
constelação ou se alguém o está representando, já que estamos
trabalhando com o campo energético de um sistema de toda a família.
A especialidade e a elegância da Constelação Familiar é que um
cliente pode assistir como testemunha e permitir ser tocado sem
participar diretamente. Em certo sentido, o facilitador não lida com o
cliente diretamente, mas indiretamente, através do trabalho com os
representantes e com o campo sistêmico, que é uma abordagem não
intrusiva e também uma forma eficaz de evitar qualquer relutância do
cliente de encarar certas realidades. Dessa forma, o cliente pode
absorver o que quer que seja revelado do seu próprio modo e tempo,
sem ter que lidar com qualquer expectativa real ou imaginária do
facilitador. Ele permanece livre. Muitas vezes, um cliente é colocado
na constelação no final de uma sessão para sentir diretamente a sua
posição no sistema, ou para reconhecer um membro da sua família,
mas às vezes o facilitador pode sentir que isso vai ser demasiado, ou
o cliente não está disponível para receber o resultado. Neste caso, o
cliente permanecerá como uma testemunha, sentado em sua cadeira.
Quando você interrompe uma constelação?
Geralmente, uma constelação necessita ser interrompida quando não
há mais energia para continuar, quando fatos importantes estão
faltando ou quando o facilitador encontra resistência forte partindo
do cliente. Interromper uma constelação não é uma punição, mas uma
intervenção importante em si mesmo que pode levar a uma mudança
de atitude do cliente, que pode permitir que uma constelação seja
retomada em um momento posterior.
Às vezes, é uma questão delicada para decidir se uma constelação
está emperrada, não está se movendo e se deve, portanto, ser parada,
ou se é apenas um momento em que a paciência é necessária para
que algum problema invisível ou um novo insight possa vir à tona a
seu próprio tempo.
Pode-se fazer uma constelação para outra pessoa?
Vimos que todos os membros de um sistema familiar são afetados
por uma constelação, mesmo que apenas um membro esteja
realmente presente. Então, constelações podem ser feitas para
alguém que não está realmente presente e pode ter uma influência
curativa sobre essa pessoa. Essas constelações "por procuração"
acontecem, por exemplo, durante uma sessão de treinamento,
quando uma pessoa que está sendo treinada como um facilitador
apresenta o caso de um de seus clientes, colocando uma constelação
para alguém que não está realmente no salão. O treinador, ou
supervisor, faz a constelação sem ter encontrado o cliente e o
estagiário poderá beneficiar-se, ganhando novos insights sobre como
continuar a trabalhar com esse cliente.
Em outros casos, no entanto, é importante estar claro se alguém pediu
ajuda dessa maneira e deu permissão para uma constelação ser feita
embora não esteja pessoalmente presente. Se se é abordado, como
um assistente social ou terapeuta, por um cliente, esta é, obviamente,
uma declaração de permissão e o caso pode ser apresentado em um
seminário de treinamento. Mas querer fazer uma constelação para um
amigo o qual achamos que precisa de ajuda, mas que pode não saber
que ele, ou ela, é o objeto de um estudo de Constelação Familiar, é
uma questão diferente e não deve ser encorajada.
E se nada parece mudar depois de uma sessão?
Transformação pessoal é um processo de se adquirir compreensão e
consciência sobre si mesmo e sobre a sua vida. Às vezes, quanto mais
desejamos uma certa mudança em nossas vidas, mais ela se torna
impossível. Realmente, isso mostra que não compreendemos por que
algo está acontecendo, porque no momento em que entendemos, o
desejo de nos livrarmos de um determinado hábito, atitude, ou
situação irá desaparecer e, simultaneamente, esse será o momento no
qual a mudança ocorre por si mesma. Mas não será pelo nosso fazer
pessoal. Este é o segredo da transformação interior.
A motivação para fazer uma constelação não deve ser mudar alguma
coisa, mas ganhar mais percepção, porque o trabalho de Constelação
Familiar é sobre "reconhecer o que é".
O benefício disso pode ser experimentado imediatamente, não em
algum momento no futuro, embora sejam provavelmente efeitos
duradouros.
Assim, se não houver mudança depois de uma sessão, ou alguma
verdade ainda não veio à luz ou algo não foi compreendido
profundamente - pelo cliente ou terapeuta - ou uma pessoa ainda
não está disposta ou não é capaz de largar um apego.
Constelações com objetos, sentimentos e abstrações
Às vezes, o terapeuta pode precisar colocar um representante para
um conceito abstrato em uma constelação. Por exemplo, uma pessoa
pode ser necessária para representar um pais, Deus, a morte, o
destino, a guerra ou uma doença. Em certas circunstâncias, pode-se
mesmo começar uma sessão com esse representante, tal como
alguém para representar a morte num caso de uma doença terminal.
Pode-se também colocar uma pessoa para representar um problema,
tal como abuso de álcool ou um sentimento, como o medo.
Em geral, eu sou cauteloso sobre a introdução de representantes que
não são pessoas reais porque nós estamos realmente trabalhando
com relacionamentos e os nossos sentimentos são o resultado desses
relacionamentos. Muitas vezes, vemos que um representante de um
país é realmente uma certa pessoa ou um grupo de pessoas dos
antepassados do cliente. O mesmo acontece quando colocamos um
representante para o abuso, ou uma doença, pois eles representam
muitas vezes membros excluídos da família que podem ser
identificados.
No entanto, às vezes pode ser útil para mover a energia de uma
sessão pela introdução de uma pessoa representando uma abstração
e então um problema básico pode se tornar claro. Por exemplo,
colocar um representante para a guerra pode ajudar um cliente a
perceber que havia um movimento maior envolvido na história de sua
família, muito além de qualquer controle individual. Colocar um
representante para o destino junto a uma mãe que morreu de repente
pode lembrar a seu filho que todos nós somos impotentes diante das
forças mais profundas e desconhecidas da vida.
Exceto no caso de doenças, ou no fato de alguém ter que enfrentar a
sua própria morte, eu raramente começo uma constelação
introduzindo um conceito abstrato, porque isso tende a perder
profundidade e clareza. Por exemplo, quando um cliente está irritado
com uma mulher, então colocar seu representante e outro para a
emoção da raiva, provavelmente não levará muito longe. Geralmente,
é melhor colocar ele e a mulher, ou encontrar a pessoa relevante em
sua família de origem. No entanto, existem facilitadores que fazem
uso de constelações dessa forma abstrata e relatam resultados bem -
sucedidos.

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Outras informações úteis


Sobre os cursos e os treinamentos de Svagito Liebermeister: www.family-
constellation.net
Sobre Bert Hellinger e o seu trabalho: www.hellinger.com ou
www.hellingerschule.com
Sobre Osho e a sua abordagem para meditação: www.osho.com