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ABRAÃO, O PAI DA FÉ

Jurandir Gouveia

É corrente entre os cristãos modernos a afirmação de que Abraão foi o pai da fé. O peso simbólico dessa
afirmação toma conotações diferentes em diferentes contextos. Em alguns casos, essa afirmação se refere ao
desprendimento com o qual ele abandonou o conforto de sua vida sedentária para se tornar um nômade em
busca da terra prometida. Outras vezes se refere às demais demonstrações de fé, principalmente o (quase)
sacrifício de Isaque. Para muitos, essa afirmação é uma alusão a sua suposta origem monoteísta (Josué 24:2 nos
ensina que os antepassados de Abraão eram politeístas)1. Abraão seria o pai da fé monoteísta, pois teria sido o
primeiro a crer em um único Deus.

O primeiro elemento importante a se analisar é que em nenhum lugar da Bíblia Abraão recebe o título de “pai
da fé”. Apesar da popularidade da expressão, ela não encontra lugar no Antigo ou Novo Testamentos. Essa é
uma expressão derivada de uma frase escrita por Paulo em Romanos 4:11-12 onde se lê:
“E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai
de todos os que creem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça, e pai da circuncisão,
isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai,
antes de ser circuncidado. ”

Desse modo, Abraão não é o pai da fé. Nas Escrituras ele é o pai daqueles que tem fé. A diferença é muito
grande. Ao afirmarmos ser Abraão o pai da fé, atribuímos a ele uma característica não bíblica de que nele e
apenas a partir dele a fé começa a se manifestar na humanidade. Mas o que dizer dos personagens anteriores a
ele? O próprio livro de Hebreus nos apresenta uma galeria da fé contendo outros três personagens anteriores a
Abraão: Abel, Enoque e Noé. Obviamente que esses personagens também manifestaram fé e foi assim que
agradaram a Deus (Hebreus 11:6).

Sendo assim, chamar Abraão de pai da fé não reflete o entendimento natural do texto e é anacrônico, pois
denota que os anteriores personagens bíblicos não possuíam essa característica ou que sua justificação se dava
por obras, uma forma de visão dispensacionalista2.

Vamos então ao contexto da afirmação de Paulo em Romanos 4. Neste capítulo, Paulo está argumentando sobre
a paternidade abraâmica. Para o judeu, ser filho de Abraão era a prova de sua superioridade sobre outras nações
(João 8:39,53; Mateus 3:9).

Nos versos 1 e 2 Paulo começa seu argumento questionando qual seria a natureza da justificação de Abraão, se
ele foi justificado pela fé ou pelas obras.

Logo em seguida, no verso 3, ele usa o texto de Gênesis 15:6 para elaborar sua tese da justificação de Abraão
por meio da fé, pois “Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça”. A sequência do texto mostra
que Abraão foi considerado justo apenas após crer. A fé precede a justificação e a justiça é imputada, creditada,
a Abraão em decorrência da fé.

Paulo continua seu argumento nos versos 4 e 5 racionalizando as implicações da “imputação” da fé. Se a
justificação tivesse sido pelas obras, não haveria imputação, mas dívida, pois Deus estaria devendo justiça a
Abraão, afinal, este mereceria a justiça por tê-la conquistado através de suas obras. O salário de Abraão seria

1
Roitman elabora esse argumento ao apresentar a literatura judaico greco-romana e a tradição rabínica como fonte da
tradição de Abraão como pai do monoteísmo e uma espécie de filósofo (Roitman, Adolfo D. Bíblia, Exegese e Religião:
Uma leitura do judaísmo. 1. ed. São Paulo: Editora Vida, 2005, págs. 17-20)
2
O dispensacionalismo costuma colocar Abraão na quarta dispensação, conhecida como Dispensação da Promessa,
baseada nas várias promessas feitas por Deus ao patriarca e sua descendência. Ao afirmar que a interpretação de Abraão
como o pai da fé é de certa forma dispensacionalista não se deve confundir com o conteúdo do dispensacionalismo, mas
como a forma de se enxergar as Escrituras em blocos de relacionamento onde a forma de se relacionar com a
humanidade bem como a própria justificação do homem muda com o passar do tempo.
justiça e Deus não estaria fazendo mais do que Sua obrigação em considerar Abraão justo. Mas foi a fé, não as
obras de Abraão, que resultou em sua justificação.

Nos versos 6-8 Paulo cita Davi em seu Salmo 32 para elaborar a imputação da justiça como perdão de pecados.
“Deus atribui justiça independentemente de obras” e isso, para Paulo, equivale ao perdão dos pecados do
pecador arrependido e a um olhar de Deus para o homem que não leva em consideração o pecado por este
cometido.

Finalmente, Paulo traz a circuncisão de Abraão como símbolo da fé, não de obras, nos versos 9-12. É no contexto
da explicação sobre a circuncisão que Abraão é chamado de pai daqueles que tem fé. A circuncisão era
considerada um símbolo da justiça pelas obras e do sacrifício humano para se adquirir a justiça diante de Deus.
Paulo, todavia, quebra este argumento ao afirmar que a justificação de Abraão (Gênesis 15:6) aconteceu antes
da circuncisão (Gênesis 17:23-27). Por isso, Paulo apresenta a circuncisão como um símbolo externo da fé. Seu
argumento é o de que as boas obras são fruto da fé operada no interior e da justificação imputada por Deus.

Paulo então conclui seu raciocínio dizendo que, por isso, Abraão tornou-se “o pai de todos os que creem, embora
não circuncidados”. Se os judeus eram filhos de Abraão pela carne, os gentios são herdeiros das promessas feitas
a Abraão pela fé. Ser filho da fé para Paulo é manifestar, como Abraão, fé antes das obras.

Sendo assim, Abraão não é o pai da fé, mas o nosso pai espiritual. Por meio da mesma fé manifestada por Abraão
nos tornamos parte do povo de Deus, herdeiros da Canaã espiritual, da pátria superior (Hebreus 11:13-16).