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PREFÁCIO

Ia Edição
A Obsessão e Seus Mistérios é uma tentativa de Carlos Bernardo
Loureiro de colocar, nas páginas de um só livro, a longa experiência
obtida em mais de trinta anos de pesquisas na seara da mediunidade e de
trabalhos junto a Espíritos obsessores dos mais variados níveis e
tendências.

Sendo impossível colocar, nesta obra, tudo o que Carlos Bernardo


Loureiro tem realizado no campo da obsessão, tentamos editar, em
poucas páginas, assuntos que mais suscitam dúvidas nas pessoas que,
habitualmente ou não, freqüentam as instituições espíritas em busca de
esclarecimento sobre a Doutrina Espírita ou tratamento espiritual.

Sem a pretensão de querer se tornar um “manual contra a obsessão”,


este livro vem nos alertar quanto aos diversos mecanismos empregados
pelos Espíritos obsessores, visando a alcançar os seus objetivos nefastos.
Constituindo-se, assim, numa obra para ser lida atentamente e com
reflexão.

Finalmente, sinto-me, desde já gratificado, em poder contribuir para


que você, leitor, obtenha um pouco mais de conhecimento sobre este
tema, ainda tão cheio de mistérios, que é a Obsessão.

Marcelo Loureiro
Ao Leitor,

Tivemos, em todos esses anos, oportunidade de lidar com Espíritos


da pior espécie, tanto encarnados como desencarnados. Observamos, de
perto, o seu modus operandi: não poupavam esforços para conseguir os
seus tenebrosos objetivos. Iam fundo n’alma de seus desafetos ou não,
tentando perscrutar-lhes as fraquezas, examinar-lhes as tendências
perniciosas, e, então, de posse de um satisfatório resultado, atacavam-
nos, como abutres famintos. A loucura se instala, gerando o desespero,
a inquietação, a desgraça no seio de famílias moralmente desamparadas.
Louvam-se, enfim, tais seres infelizes, da ignorância generalizada,
quanto ao processo obsessivo.

A maioria das pessoas foi educada para negar, peremptoriamentc (e


mesmo violentamente), a sobrevivência e a comunicabilidade dos
Espíritos. Os obsessores, de todos as matizes, atuam, assim, com
desenvoltura, zombando dos métodos que os encarnados põem em
prática para se defenderem do que, na verdade, desconhecem. Ficam às
tontas; não sabem para quem apelar. Entopem-se de medicamentos; caem
em depressões; apelam, em última e dolorosa instância, para o suicídio,
ou, então, para os vícios que embrutecem e degeneram a personalidade.

Esses Espíritos precisam ser tratados com energia, levando-os à


conscientização da realidade, muitas vezes brutal, mas imprescindível,
da Lei Natural, ao operacionalizar-se mediante reencarnações
redentoras.

Carlos Bernardo Loureiro


Sumário

O Processo Obsessivo ................................................................................................................... 6


Áreas de Atuação Obsessória ....................................................................................................... 8
Mental ....................................................................................................................................... 8
Emocional ................................................................................................................................. 8
Psicológica ................................................................................................................................ 9
Moral ......................................................................................................................................... 9
Corporal..................................................................................................................................... 9
A Interpenetração Fluídica No Processo Obsessivo .................................................................... 10
O Vampirismo.............................................................................................................................. 16
Jesus, Obsidiados e Obsessores .................................................................................................. 21
O obsidiado de Gerasa ............................................................................................................ 23
Por que Jesus não doutrinava os obsessores? ............................................................................ 25
Os Terríveis Espíritos Mistificadores-Obsessores ....................................................................... 26
Os Espíritos Obsessores Nos Consideram “Coisas” ..................................................................... 29
A Loucura Obsessional ................................................................................................................ 32
Obsessão e Criminologia ............................................................................................................. 42
Os Horrores do Suicídio............................................................................................................... 47
As Técnicas do suicídio – A influência dos Obsessores Encarnados ....................................... 51
Quando o Sofrimento é Um Freio ............................................................................................... 54
A Obsessão Coletiva .................................................................................................................... 59
O Estranho Método do Dr. Wickland .......................................................................................... 64
Uma técnica singular de Desobsessão .................................................................................... 66
O pensamento e a obsessão ................................................................................................... 67
A não conscientização da morte ............................................................................................. 68
O Dr. Wickland e a reencarnação ............................................................................................ 71
A Obsessão e a Eficácia da Prece ................................................................................................ 75
Nos Labirintos da Auto-Obsessão ............................................................................................... 80
As Crianças e a Obsessão ............................................................................................................ 82
A Ação dos Obsessores Durante o Sono ..................................................................................... 85
As Obsessões Simuladas e as Doenças Fictícias .......................................................................... 89
Os Espíritos Interferem em Nossas Vidas (Mais do que Supomos) ............................................ 92
Obsessão Por Encomenda ........................................................................................................... 94
Missa negra – A Liturgia da Obsessão ......................................................................................... 97
Os “Skoptzi” Brasileiros e os Beatos ......................................................................................... 100
Cobiça e Obsessão ..................................................................................................................... 106
Alergia e Obsessão .................................................................................................................... 112
O Processo Obsessivo

A obsessão apresenta características bem diversificadas, desde a


simples influência moral sem sinais exteriores perceptíveis, até a
perturbação total das faculdades mentais e do organismo.

A obsessão poderá ocorrer nas seguintes formas:

1º - Espírito desencarnado atua sobre o encarnado.

2º - Espírito desencarnado atua sobre o desencarnado.

3º - Espírito encarnado atua sobre o desencarnado.

4º - Espírito encarnado atua sobre o encarnado.

Assim como as enfermidades são resultantes das imperfeições


físicas, que tornam o corpo acessível às influências perniciosas
exteriores, a obsessão sempre é o resultado de uma imperfeição moral.
A uma causa física, opõe-se uma força física; a uma causa moral, é
mister contrapor-se uma força moral. Para se prevenir contra as
doenças, fortifica-se o corpo; para se garantir contra a obsessão (flagelo
da humanidade), é necessário fortalecer a alma. Daí ser preciso que o
obsidiado lute, com determinação, para renovar-se, tentando mudar as
suas posturas mentais e sociais.

Deve-se observar, a propósito, que a desobsessão, levada a efeito


nas casas espíritas, é de fundamental importância para o reequilíbrio do
obsidiado; entretanto, se ele não fizer a parte que lhe compete, como
assinalamos acima, o tratamento desobsessional a que se submeteu
termina por se estiolar, ensejando, até mesmo, o recrudescimento da ação
perniciosa do obsessor. Não foi sem razão que Jesus, o Mestre das
Almas, advertiu:

Ora havendo o Espírito mau saído do homem, anda por lugares áridos,
buscando repouso e não o encontra.

Então diz: voltarei para minha casa, de onde saí. E, chegando, acha-a
desocupada...

Então vai e leva consigo outros sete Espíritos piores do que ele e,
entrando, habitam ali; e o último estado desse homem vem a ser pior do que
o primeiro (Mateus, 12).
Áreas de Atuação Obsessória 1

Há cinco áreas fundamentais sujeitas à obsessão: mental, emocional,


psicológica, moral e corporal, numa escala que varia do primeiro ao
segundo e, deste, ao terceiro grau. A cada tipo fundamental da área
peculiar proceder-se- á à ligeira avaliação, ressalvando que, cada uma
delas, poderia dar margem a que se escrevessem verdadeiros tratados a
respeito.

Mental

As induções desta natureza levam o paciente a sensações e


manifestações de pensamentos absolutamente alheios à sua natureza
mental, podendo tal estado atingir culminâncias paradoxais quanto ao
modo de ser do paciente, a ponto de verificar-se, no mesmo, flagrante
dicotomia personal a qual a psicoterapia clássica dá o nome de dupla
personalidade.

Emocional

Este tipo de envolvimento visa desestabilizar o quadro emocional


do obsidiado de sorte e inflingir-lhe estados de mortificação, exaltação
passional, descontrole afetivo, tristezas e hipocondrias profundas, e
outras disfunções congêneres, das quais, muitas vezes, decorrem
agripnias, fobias, anorexias, a par de falsas sensações de abandono e
desalento sem causas aparentes.

1
Trabalho baseado em artigo do jornalista Hélio Rossi, publicado na Revista Internacional
do Espiritismo, da Editora O Clarim..
Psicológica

O açodamento psicológico se reveste de sutilezas quase


imperceptíveis de certas manobras indutivas levadas a efeito pelo
obsessor, buscando inspirar desconfiança no alheio, motivação do amor-
próprio exagerado, exacerbação de susceptibilidades incoerentes,
narcisismo extravagante, intemperança no trato e na fala. Tudo isso
resulta no desajustamento do paciente ao meio social.

Moral

O obsessor, encarnado ou desencarnado, sugere ao paciente


pensamentos vis, ao tempo em que estimula apetites subalternos, muitas
vezes, infelizmente, correspondidos. Daí surgem perniciosas atitudes
tendentes a levar o obsidiado à completa desmoralização,
comprometendo, assim, a sua reputação.

Corporal

E grande o número de enfermidades cuja causa é devida a processos


obsessivos. Entre todas as regiões anatômicas do corpo humano, a que
mais freqüentemente padece efeitos da transpatologia obsessória, isto é,
transmissão de enfermidades por indução espiritual, é a região
compreendida pelo plexo-solar, constituída do aparelho
gastroenterólogo, a saber: estômago, intestino, fígado e órgãos
subsidiários ao sistema digestivo.

Além da região do plexo solar não é menor a etiologia


transpatológica que afeta outros sistemas fisiológicos do homem:
cardíaco, renal, vascular, pulmonar, fonal, auditivo, dermatológico,
neurológico etc.
No campo das agressões físicas, conta-se, no quadro das
transpatologias, como uma das mais insólitas molestações provocadas
por Espíritos perversos, a que consiste em fazer surgir, no interior do
corpo do obsidiado, toda a sorte de materiais estranhos, como agulhas,
pedaços de lâminas, pregos, filamentos, panos e objetos outros. Esses
casos têm assombrado o mundo médico, que se sente impotente para
determinar a sua etiologia, emitindo teorias as mais absurdas e até
ridículas.

A Interpenetração Fluídica No Processo Obsessivo

Se um Espírito desencarnado quiser agir sobre uma pessoa, dela se


aproxima, envolve-a com o seu perispírito, como num manto; seus
fluidos a penetram, os dois pensamentos e as duas vontades se
confundem e, então, o Espírito pode servir-se daquele corpo como se
fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar
etc. Assim, os Espíritos agem com os médiuns.

Se o Espírito for bom, sua ação sobre o indivíduo será suave e


benéfica e só fará boas coisas; se for mau fará maldades; se for perverso
e mau, ele o constrange, até paralisar-lhe a vontade e a razão, que abafa
com seus fluidos, como se apaga o fogo sob um lençol d’água. Fá-lo-á
pensar, falar e agir por ele; leva-o contra a vontade a atos extravagantes
ou ridículos; numa palavra, o magnetiza e o cataleptiza e o indivíduo se
torna um instrumento cego de sua vontade. Tais são as causas da
obsessão e da subjugação que se mostram em diversos graus de
intensidade.

O paroxismo da subjugação é geralmente chamado de possessão.


Deve notar-se que, neste estado, muitas vezes o indivíduo tem
consciência do ridículo daquilo que faz, mas é constrangido a fazê-lo.
Allan Kardec conta, a propósito, o seguinte:

Numa reunião em Bordeaux, em meio a uma evocação, o médium, um


jovem de caráter suave e perfeita urbanidade, de repente começa a bater na
mesa, com violência, levanta-se com olhar ameaçador, mostrando os
punhos aos assistentes, proferindo pesadas injúrias e querendo atirar-lhes
um tinteiro. A cena, tanto mais chocante quanto inesperada, durou uns dez
minutos, depois do que, retornou à calma habitual, desculpou-se do que se
havia passado, dizendo que sabia muito bem o que havia dito e feito, mas
que não pudera impedir.

O caso foi levado à consideração dos Espíritos da “Sociedade


Parisiense de Estudos Espíritas” - SPEE. Os instrutores espirituais
responderam que o Espírito que o havia provocado era mais farsante do
que mau e que, simplesmente, tinha querido divertir-se, apavorando os
assistentes.

Ainda nessa reunião, quiseram evocar o Espírito de Sr. Beck, um


antigo chefe de orquestra do Teatro de Bordeaux, e pedir-lhe uma
explicação sobre uma experiência mediúnica que tinha vivido durante
vários anos antes de morrer, realmente um fenômeno singular. Todas as
noites, ao sair do teatro, parecia-lhe que um homem lhe saltava às
costas, cavalgando as suas espáduas, até chegar à porta de casa. Aí,
quando a entidade galhofeira descia de suas costas, o Sr. Beck se sentia
aliviado. Foi, então, que o Espírito farsante achou por bem forçar o Sr.
Beck, que era médium, a representar uma cena terrível, pois nele
encontrou, sem dúvida, as necessárias disposições fluídicas para
obedecer.

Aquilo que não passou de acidental, por vezes toma um caráter de


permanência, quando o Espírito é mau, porque para ele o indivíduo se
torna verdadeira vítima, à qual ele pode dar a aparência de real loucura.
Dizemos aparência, porque a loucura propriamente dita sempre resulta
de uma alteração dos órgão cerebrais, ao passo que, nesse caso, os
órgãos estão intatos como os daquele jovem médium. Não há, pois,
loucura real, mas aparente, contra a qual os medicamentos (sempre
depressivos) são inoperantes, como o prova a experiência. Ao lado de
todas as loucuras de natureza patológica, convém, pois, acrescentara
loucura obsessional, que requer meios especiais de tratamento.

Reportando-se ao que tratou no início de suas considerações, sobre


a maneira por que age o Espírito, Allan Kardec oferece o exemplo de
um médium envolvido e penetrado do fluido perispiritual de um mau
Espírito. Para que o fluido do bom Espírito possa agir sobre o médium
é necessário que penetre esse envoltório, e sabe-se que, dificilmente, a
luz penetra um nevoeiro espesso. Conforme o grau da obsessão, o
nevoeiro será permanente, tenaz ou intermitente, mais ou menos fácil
de dissipar.

O correspondente da SPEE em Parma, Itália, Sr. Superchi, enviou


a Allan Kardec dois desenhos feitos por uma vidente representando
perfeitamente esta situação. Num, vê-se a mão do médium envolta numa
nuvem escura, imagem do fluido perispiritual dos maus Espíritos,
atravessada por um raio luminoso que vai clarear a mão. É o bom fluido
que a dirige e se opõe à ação do mau. No outro, a mão está na sombra;
a luz está envolta do nevoeiro, que não pode penetrar.

Resta uma pergunta: por que os Espíritos protetores não forçam a


retirada do(s) intruso(s)? Sem dúvida, o podem e, por vezes, o fazem.
Mas, permitindo a luta, deixam o mérito da vitória ao assediado. Se
deixam se debatendo pessoas de mérito é para provar sua perseverança
e fazer que adquiram mais força no Bem. É para elas uma espécie de
ginástica moral.

Em seguida, Allan Kardec responde a um coronel do Estado-Maior


do exército austríaco, que o consultara sobre uma afecção atribuída a
maus Espíritos:

No que concerne à moléstia que sofreis, não vejo prova evidente da


influência de maus Espíritos, que vos obsidiariam. Admitâmo-la, pois, por
hipótese. Só haveria uma força moral a opôr a outra força moral e aquela
não pode vir senão de vós. Contra um Espírito é necessário lutar de Espírito
a Espírito; e o mais forte vencerá. Em casos semelhantes é preciso esforçar-
se por adquirir a maior soma possível de superioridade pela vontade, pela
energia e pelas qualidades morais, para ter o direito de lhe dizer: “Vade
retro!” Assim, se estiverdes neste caso, não será com a espada de coronel
que o vencer eis, mas com a espada do anjo, isto é, a virtude e a prece. A
espécie de terror e angústia que experimentais nesses momentos é um sinal
de fraqueza, de que o Espirito se aproveita. Dominai o medo e com a vontade
triunfareis. Tomai a iniciativa resolutamente, como o fazeis contra o inimigo
e crede-me, vosso muito dedicado e afeiçoado.

Há quem prefira métodos exóticos e ritualísticos de expulsar


Espíritos, usando palavras sacramentais, fórmulas e talismãs. Aliás, os
maus Espíritos se riem dessas práticas inúteis.

A verdade é que, como afirma Allan Kardec, antes de se dominar


um mau Espírito, deve-se dominar a si mesmo. E, de todos os meios,
para adquirir a força de o conseguir, o mais eficaz é a vontade,
secundada pela prece de coração e não aquelas nas quais a boca
participa mais que o pensamento.
Seria justo que se apelasse para os Espíritos bons; mas, não se deve
esperar que eles, simplesmente, expulsem os obsessores. Faz-se mister
rememorar o axioma: Ajuda-te e o céu te ajudará. “Ajuda-te” quer
dizer: vencer as más inclinações, porquanto são exatamente elas que os
atraem, como a podridão atrai as aves de rapina, na acepção de Allan
Kardec. Outro expediente, também válido e estratégico, é orar pelos
Espíritos obsessores, conforme, aliás, preconiza o Mestre Jesus. Desse
modo, pode-se anular ou pelo menos minimizar, a ação deletéria do
agressor, não se legitimando, assim, a violência. Entretanto, há casos
de subjugação que paralisam a vontade do obsidiado. Em tais casos,
torna-se imprescindível a desobsessão que se deve processar em um
grupo espírita, idôneo, sério, responsável, estudioso da Doutrina
Espírita e dos Evangelhos.

O trabalho de doutrinação é penoso e demorado. Exige paciência


de ambos os lados, especialmente da parte dos que conduzem o
obsidiado à casa espírita. Surge, ao longo do tratamento desobsessional,
uma série de impedimentos que devem ser vencidos com paciência e
obstinação.

Outro fator importante a ser observado pelos dirigentes das


reuniões de desobsessão é que, nos primeiros contatos, o assistido pode
apresentar uma sensível piora. E o obsessor (ou grupo de obsessores)
que reage, isto é, assume franca e refratária oposição ao tratamento. A
sua indisposição, traduzida pela raiva e pelo inconformismo, repercute,
psíquica e organicamente, naquele que é, pelos menos aparentemente,
a sua vítima. Cabe, então, aos responsáveis pela sessão, agir com muita
cautela, esclarecendo o porquê do recrudescimento dos distúrbios que
acometem o assistido. Tais esclarecimentos são absolutamente
necessários, evitando-se a fuga dó assistido e de seus prepostos das
sessões, que, assim procedendo, fazem, infelizmente, o jogo dos
Espíritos obsessores.

Esse mecanismo vem sendo observado pelo autor desta obra, há


vários anos, na cidade do Salvador, nas sessões de desobsessão de que
fez parte ou que dirige. Não raras vezes, os Espíritos logram êxito nos
seus nefastos objetivos, ficando o obsidiado inteiramente à mercê dos
seus desafetos, muitas vezes sedados e escravizados por poderosos e
inibidores medicamentos. Essas criaturas, apáticas, deprimidas, vagam
pelas dependências dos sanatórios psiquiátricos, pelos cômodos de seus
apartamentos, pelos corredores de suas casas ou pelas ruas, como
verdadeiros zumbis. Ainda que a situação que vivenciam, obsessores e
obsidiados, seja desesperadora, sempre há uma saída, propiciada pela
Lei Natural, acionando recursos que possibilitam a reconciliação entre
os desafetos. Em casos extremos, os mecanismos da reencarnação são
acionados, dando-se início ao sacrificial reajuste, que demanda tempo,
muito tempo...
O Vampirismo

O Dr. Julien Ochorowicz escreveu um livro com o título Sugestão


Mental, fruto de suas observações sobre a existência de indivíduos que,
embora inconscientemente, absorvem, com maior ou menor facilidade,
a vitalidade daqueles que os rodeiam. A esse fenômeno se chamou
vampirismo, e tais indivíduos, obviamente, vampiros. Lugaro, um
pesquisador italiano, tenta explicar esse processo, denominando tal
transfusão de vitalidade como fenômeno bio-elétrico.

Na obra do Dr. Ochorowicz, lê-se:

O fato de transfusão fisiológica entre o corpo de uma criança e de um


velho está empiricamente averiguado. Até o presente, a Ciência não se
ocupou deste assunto, mas a antiga ciência achava o fato mais natural e a
tradição dos povos a consagra. Contaram-me vários casos de cura,
realizada somente pelo contato das pessoas.

No livro de Sheyla Ostrander e Lyn Schroeder, Psychic Discoveries


Behind the Iron Curtain [Experiências Psíquicas Além da Cortina de
Ferro (Ed. Cultrix), registra- se o seguinte:

A Ciência está realmente começando a dizer alguma coisa. E, por mais


estranho que pareça, estão com a palavra os cientistas soviéticos que, nos
últimos dez anos, mergulharam fundo e a sério na pesquisa dos fenômenos
do espírito humano. É claro que a terminologia é outra e ainda infestada de
conotações materialistas, mas surpreendemos lúcidas as observações,
quando consideramos o “background” ideológico em que vivem e laboram
os pesquisadores.

Importantes pesquisas foram realizadas por um grupo de cientistas


em um laboratório que fica perto do Centro Espacial, no Kazakstan, em
Alma Ata. Biólogos, bioquímicos e biofísicos investigaram a
descoberta do casal Kirlian: uma câmara de alta freqüência que,
ultrapassando a barreira da matéria densa, mostra a contraparte
imaterial dos seres vivos.

Mais tarde, uma Comissão, constituída pelos doutores Inyshin,


Grischichenko, Vorobev, Shouiski e outros, chegou à conclusão que
todos os seres vivos - plantas, animais e seres humanos - não têm,
apenas, um corpo físico, formado de átomos e moléculas, mas, também,
como contraparte, um corpo de energia a que denominaram de Corpo
de Plasma Biológico.

Segundo Galiano (Publius Licinius Egnatius Gallienus, 218-168,


imperador romano), os médicos gregos tinham, desde há muito,
reconhecido essa transfusão vital, verificando que o leite de uma mulher
nova e cheia de saúde é capaz de produzir resultados verdadeiramente
inesperados em casos de debilidade. Cappivacius, vendo o herdeiro de
uma nobre casa da Itália sem a menor vitalidade, consegue-o manter
vivo, deitando-o entre duas fortes e saudáveis mulheres 2. Casos de
absorção de vitalidade aconteceram e vêm acontecendo,
imperceptivelmente, ao longo do tempo

O Dr. Georges, médico e filósofo francês (1757-1808), autor do


Tratado do Físico e da Moral do Homem, relata que, nas Montanhas de
Auvergue, região histórica da França, havia o estranho costume de,
quando qualquer viajante cansado chegava a uma estalagem, fazerem
deitar, previamente, na sua cama, um rapaz cheio de vida e saúde A

2 Diz a História que o rei David conseguiu prolongar sua vida da mesma forma.
noite, quando o hóspede se deitava, absorvia a vitalidade que o jovem
havia deixado na sua cama, e, no dia seguinte, acordava reanimado e
bem disposto.

Alguns pesquisadores mais atentos têm notado que, em reuniões de


efeitos físicos, certos indivíduos caem numa sonolência, sem saberem
explicar o motivo. Chegou-se à conclusão de que essas pessoas, em vez
de exteriorizarem energia vital, como seria desejável, assimilam a que
é exteriorizada pelos outros participantes da sessão. Nesses casos, os
fenômenos são difíceis de acontecer, a não ser que, entre os assistentes,
exista um médium capaz de fornecer quantidade de energia que
possibilite o trabalho dos mortos, independente da absorção referida.

Um indivíduo que suga a energia vital dos outros, conquanto


inconscientemente, é um vampiro. Há, porém, quem vampirize de modo
consciente, deliberado. Eliphas Levi3 conta o caso de um sábio que
amava profundamente a sua jovem e bela mulher, a quem dedicara a
própria vida.

Esta, porém, muito vaidosa, julgava-se superior ao marido, e


começou a rejeitá-lo de tal forma que resolveu abandonar a casa,
passando a viver com um velho destituído de qualidades morais e
intelectuais. O sábio, revoltado, disse à mulher

3 O abade Afonso Luiz Constant nasceu, em Paris, a 8 de fevereiro de 1810, e aí faleceu, a


31 de maio de 1875. Adotou o pseudônimo de Eliphas Leví. Tomando-se mundialmente
conhecido como um dos maiores cultores da Grande Ciência (Magia). Publicou várias
obras, destacando-se: A Chave dos Grandes Mistérios, Dogmas e Ritual da Alta Maria, O
Grande Arcaito, História da Magia, lançados, no Brasil, pela Ed Pensamento, S.P.
- Eu vos tomo a vossa inteligência e a vossa beleza.

Os meses se passaram e com eles a transformação dessa mulher.


Um ano depois, ela não era a mesma, não apresentando mais aquela
beleza de que tanto se orgulhara. Três anos depois, estava feia, e, sete
anos mais tarde, enlouquecia. Processou-se, desta forma, uma obsessão
de Espírito encarnado para Espírito encarnado.

Antonio Cardoso, antigo redator da revista Estudos Psíquicos,


fundada em Lisboa, Portugal, por D. Maria Gonçalves Duarte dos
Santos, cita, na referida revista de fevereiro de 1951, o caso de uma
mulher que sugava a vitalidade das damas de companhia que entravam
para o seu serviço. Por melhor que fosse a saúde dessas jovens, passado
pouco tempo, viam-se definhar sem qualquer explicação plausível e,
por fim, morriam.

A última dama de companhia - filha de um cocheiro - sentindo-se


definhar e conhecedora da fama de que a velha gozava, não titubeou e
se queixou à polícia. Esta, com o concurso de vários médicos, estudou
o caso, chegando à conclusão que seria fatal para a jovem se continuasse
a viver em companhia de tão estranha criatura. Vendo-se privada da
vitalidade de jovens, que era o seu alimento, a mulher começou a perder
peso, debilitando-se de tal forma que, em pouco tempo, faleceu.

Segundo o Prof. Herculano Pires, na vida material como na vida


espiritual, o vampirismo é um processo comum e universal do
relacionamento afetivo e mental das criaturas. Em seguida, o ilustre
autor de Agonia das Religiões, relaciona as várias formas de se
vampirizar os indivíduos:

- O sacerdote que fanatiza um crente e o submete às suas exigências


para explorá-lo com a promessa do Céu;

- O demagogo político que fascina os adeptos de suas idéias e os


leva ao sacrifício inútil e brutal da revolta e do terrorismo;

- O espírita e/ou o médium que fascina os ingênuos com a


falsificação de poderes que não possui, revelando-lhes supostas
reencarnações deslumbrantes e conduzindo-os ao delírio das suas
ambições de grandeza;

- O negocista esperto que suga as economias de seus clientes com


falsas promessas para um futuro improvável;

- O galanteador donjuanesco que se apossa da afeição de mulheres


inseguras para explorá-las;

- O alcoólatra ou o toxicômano que semeia a desgraça ao seu redor;

- O Espírito sagaz ou vingativo que suga as energias das criaturas


humanas e subjuga outros Espíritos para agir na conquista e dominação
de outras, e assim por diante, na imensa e variada pauta do vampirismo
material e espiritual.

O assunto é vasto e complexo, merecendo uma pesquisa em


profundidade por parte dos estudiosos espíritas.
Jesus, Obsidiados e Obsessores

Estava na Sinagoga, em Jerusalém, um homem possuído por um


Espírito atrasado que bradou, em voz alta, à vista de Jesus:

- Ora, que importa a nós e a ti, Jesus de Nazaré, o que este sofre? Vies
te a perder-nos? Eu sei que és o enviado de Deus.

Jesus repreendeu-o, dizendo:

- Cala-te e sai dele!

E, tendo-o lançado por terra no meio de todos, o Espírito


desencarnado saiu dele sem tê-lo magoado. Todos ficaram admirados,
e perguntaram uns aos outros:

- Que palavra é essa, pois com autoridade e poder ordena aos Espíritos
atrasados e eles saem?

E por todos os lugares da circunvizinhança divulga-se sua fama.


(Lucas, 4:31-37 - tradução direta do original grego).

Como lhe era de hábito, nos sábados, Jesus visitava a Sinagoga.


Não esclarecem os textos se os discípulos o acompanhavam; entretanto,
a tradição afirma que ele se fazia acompanhar de alguns de seus
seguidores mais chegados, a exemplo de Pedro, André, Tiago e João.
Na Sinagoga, era costume convidar os visitantes e assistentes para falar,
o que muito contribuiu para que o Mestre, vez que outra, usasse da
palavra, pregando, àquela gente envolvida pela ortodoxia escriturística,
a BOA NOVA, plena de conceitos e valores realmente revolucionários.

O evangelista Marcos destaca a admiração dos circunstantes pela


autoridade com que Jesus se expressava, não exatamente como os
escribas (os intelectuais da época), que, de ordinário, levavam, ao
cenáculo da Sinagoga, seus comentários devidamente decorados. Os
freqüentadores do Templo estavam, pois, acostumados a ouvir as
arengas dos escribas, recheadas de sentenças adredemente elaboradas,
distanciadas, pois, de qualquer senso crítico. A palavra de Jesus diferia,
em tudo, desta postura. Ela era toda feita de interpretações vivas e
palpitantes, elaboradas à luz de maravilhosa análise dos caracteres
humanos. Jesus, na realidade, desceu aos labirintos da alma e de lá
exumou as suas mazelas, os seus traumas, os seus mais recônditos
sentimentos, e, debruçado sobre eles, elaborou o mais notável Código
de Ética jamais concebido.

Jesus defrontou-se com o Espírito obsessor no Templo. Apenas lhe


impõe silêncio e o desliga do obsidiado, pondo em prática a mais
estranha e fantástica técnica de desobsessão não igualada em tempos
posteriores. O ato de desligamento provoca violenta agitação, e a
perspectiva da separação que já estabelecera, provavelmente, uma
estranha simbiose entre subjugado e subjugador causa, no subjugado,
forte reação, e ele grita!

O que aconteceu na Sinagoga, ante os olhares espantados dos seus


freqüentadores, que, na verdade, não estavam entendendo nada, ocorre,
guardadas as devidas proporções, nos recessos das casas espíritas que
promovem sessões de desobsessão em que o indivíduo obsidiado e o
Espírito obsessor têm a oportunidade salutar e regeneradora de se
enfrentar, sob a égide de Espíritos superiores que seguem, conquanto
palidamente, a metodologia desobsessional do Mestre de Nazaré.

Lucas afirma que o subjugado foi lançado por terra, como se lhe
faltasse o chão. Aliás, essa reação é natural em semelhante processo de
desobsessão, aos moldes, por exemplo, de alguns casos relatados por
Allan Kardec, na Revue Spirite.

É evidente que a fama de Jesus se espalhou por todos os recantos


da Judéia. Diziam, as boas e as más línguas, que Jesus de Nazaré era
senhor de forças notáveis, acima do comum dos homens. O resultado
dessa fama inesperada é que muita gente passa a procurar o Mestre,
levando seus enfermos e obsidiados à sua presença. Jesus atendia a
todos, indistintamente, com o mesmo empenho e benevolência.

O obsidiado de Gerasa

Mateus (8:28-35), Marcos (5:1 - 20) e Lucas (8:26- 39) referem-se


ao famoso episódio de Gerasa, em que Jesus topou com uma legião de
Espíritos inferiores que subjugavam um pobre coitado da região.

A iniciativa de ação pertence ao subjugado, que Mateus afirma


terem sido dois:

- Tendo ele - Jesus - chegado à outra margem, à terra dos gerasenos,


vieram-lhe ao encontro dois obsidiados em extremo, furiosos.

É provável que tenham sido dois, embora um deles fosse o célebre


louco violento e o outro apenas uma espécie de comparsa, que não
chegou a chamar a atenção dos demais evangelistas.

Marcos apresenta maiores dados do episódio que ouvira dos lábios


de Pedro, testemunha ocular:

- Quando Jesus desembarcou, veio logo ao seu encontro, dos túmulos,


um homem obsidiado por Espírito não purificado o qual morava nas
sepulturas e nem mesmo com cadeias podia alguém segurá-lo.
Ao vê-lo vir a si, Jesus ordena, energicamente, que abandone a sua
presa, chamando-o Espírito não-purificado (pneuma akátharton), ou
seja, inferior. 0 Espírito obsessor vocifera, blasfema, irrita-se. Jesus
pergunta-lhe o nome, ao que o Espírito responde legião! O que é o
mesmo que falange. Não quer dizer, porém, segundo pretendem alguns
comentaristas, que se tratava, efetivamente, de 300 Espíritos (número
de que se compunha uma legião de soldados romanos), mas, apenas,
como explica o Espírito obsessor incorporado, porque somos muitos.

Ainda segundo Marcos, o Espírito obsessor pede que não seja


mandada a falange para fora do território-, e, segundo Lucas, que não a
mande para o abismo.
Por que Jesus não doutrinava os obsessores?

Jesus, realmente, não se preocupou em doutrinar essa falange ou


legião de Espíritos obsessores, como, aliás, nenhum outro Espírito mau
que foi por ele afastado. Ou as entidades espirituais superiores se
encarregavam disso, ou esses obsessores eram ainda tão involuídos que
não adiantava doutrinação e se devia aguardar um pouco mais de
evolução para que pudessem compreender a necessidade de corrigir- se.

Os Espíritos obsessores de Gerasa estavam justamente nessa


situação, e não poderiam entender qualquer tipo de providência
desobsessional, senão aquela posta em prática pelo Mestre de Nazaré.

Após o acontecimento, os moradores de Gerasa correram até o


local do histórico episódio e viram, sentado aos pés de Jesus, o ex-
obsidiado, risonho, feliz, em seu juízo perfeito, ele que, antes, tanto
pânico vivia a causar na região e que por todos era bem conhecido.

No momento em que Jesus se prepara para partir daquele lugar, o


ex-obsidiado solicita-lhe lugar entre os discípulos. Sem dar os motivos,
o Mestre se recusa a mantê-lo a seu lado, mas nem por isso deixa de lhe
confiar tarefa de significativa responsabilidade: a pregação, sobretudo
pelo exemplo. Humildemente, o ex-obsidiado aceita a tarefa. Sabe-se,
mais tarde, que ele passou a percorrer a região do Decápole, falando
dos maravilhosos poderes de Jesus.
Os Terríveis Espíritos Mistificadores-Obsessores

Afirma a médium Yvonne Pereira, na obra Devassando o Invisível


(FEB), que é variada a classe das entidades mistificadoras
desencarnadas, chegando a se estabelecer confusão com a classe das
entidades obsessoras. Às vezes, é difícil, em determinados casos,
separar uma da outra. Tratemos de uma espécie de Espíritos
mistificadores, incluídos na classe dos obsessores.

Deve-se admitir que existem Espíritos mistificadores levianos e


brincalhões. Na Terra, como no Espaço, eles proliferam, sem
prejudicar, senão, a eles mesmos. Mas o que, na verdade, interessa ao
nosso estudo, são aqueles Espíritos hipócritas, cínicos, perigosos, que
infestam o plano | corpóreo e incorpóreo, causando, no âmbito de ambas
as dimensões, terríveis desequilíbrios. Investem contra a estabilidade
emocional, psicológica e social daqueles que se deixam envolver por
suas atitudes sedutoras e profundamente enganadoras.

Na esfera do Movimento Espírita, os mistificadores desencarnados


pintam e bordam, infiltrando-se entre os médiuns presunçosos, bem
como no ambiente onde se pavoneiam, orgulhosos e prepotentes,
aqueles despreparados dirigentes de instituições espíritas.

Os efeitos desse pernicioso assédio são, não raras vezes,


devastadores. Entretanto, o modus operandi dessa classe de Espíritos
poderá ser desmascarado por adeptos prudentes, bons conhecedores do
terreno prático da Doutrina, bem assim de sua filosofia. Agindo com
equilíbrio e perseverança, sob a égide de entidades espirituais
esclarecidas, não será difícil anular a ação nefasta dessas criaturas,
restabelecendo-se a harmonia, embora se deva lutar para a
concretização das medidas saneadoras, com a teimosia e estado de
fascinação dos dirigentes enredados na trama dos invisíveis.

Yvonne Pereira aponta uma terceira classe de Espíritos


mistificadores, a mais impressionante com que deparou ao longo do
exercício de sua faculdade mediúnica, a mais perturbadora e perigosa,
a mais astuta e mais difícil de ser combatida, porque geralmente
ignorada sua existência pelos próprios adeptos do Espiritismo. Tais
Espíritos agem nas instâncias invisíveis, exercendo pertinaz assédio às
entidades desencarnadas comprometidas moralmente, assim corno
atuam, com certa desenvoltura, sobre os encarnados, levando-os a
estados de alucinação e obsessivos, pelo simples prazer de fazerem o
Mal. Esses Espíritos não são inimigos de suas presas; são simplesmente
espécie de predadores, que não tiveram com elas quaisquer
relacionamentos anteriores. Mas, se obtêm sucesso em seus perversos
propósitos, é porque encontram, de qualquer sorte, receptividade. O
obsidiado se torna, como se diz, um prato feito. Adverte Yvonne Pereira:

A encarnados e desencarnados que lhes ofereçam, pois, afinidade,


essas desagradáveis criaturas freqüentemente desgraçam, impelindo-os a
desastrosas ações, até mesmo nos setores da decência dos costumes, cujas
conseqüências, sempre lamentáveis, requererão daqueles que se deixaram
embair por suas artimanhas, longos períodos de sofrimentos e reparações
inapeláveis, muitas vezes através de reencarnações amargurosas.

A verdade é que a bibliografia mediúnica está povoada desses seres


perversos que têm, como tarefa precípua, perturbar os recém-
desencarnados imprevidentes. Essas falanges são constituídas de
criaturas disformes, grotescas, extravagantes. Elas têm o poder,
alimentado prodigamente pelas nossas imperfeições, de nos aterrorizar,
plasmando fantasmagorias que, às suas vítimas, parecerão incríveis
alucinações surrealistas, além de as manipularem na satisfação de seus
caprichos e de suas aberrações sexuais.

E freqüente os Espíritos suicidas se queixarem, através de


comunicações mediúnicas, do assédio de tais falanges, pelo que, ainda
mais, aumentam os seus suplícios. Pensavam esses pobres indivíduos,
que deixaram a vida de modo abrupto e violento, que tudo se extinguiria
com a morte.
Os Espíritos Obsessores Nos Consideram “Coisas”

Caso típico de assédio múltiplo e especialmente peculiar é narrado


na obra A Vida íntima de uma Esquizofrênica (Ed. Imago - 1972).

A autora do referido livro - Barbara O’Brien - é perseguida por


uma coorte de perturbadoras entidades espirituais.

Certo dia, ao chegar a casa, deparou com um grupo de Espíritos


instalados em seu quarto de moça solteira, vendo-os como se fossem de
carne e ossos. Durante seis meses, conviveu com essas estranhas
criaturas. O curioso é que, em meio ao desespero de Barbara, surgiu
uma entidade espiritual que disse chamar-se Vovó, que a orientava sem
dar-se a perceber aos malfeitores.

Já no início das conversas debochadas com a jovem, as entidades


perversas afirmaram que ela era uma coisa e eles, os operadores.
Coisas - esclareceram - são pessoas de vontade fraca, fáceis de dominar,
que obedecem aos operadores. Sem dúvida, estes Espíritos eram
habilidosos obsessores, treinados na técnica de manipular encarnados e
desencarnados, mediante sofisticado processo mental.

Barbara O’Brien afirma, na obra antecitada, que os Espíritos


operadores agem com extrema perversidade e sem compaixão.
Argumentam que as coisas exploram tudo o que podem. E, com refinada
ironia, arrematam:

- Não há nada mais cruel do que uma Coisa. Uma Coisa pode ser
influenciada principalmente porque é extremamente ambiciosa, só pensa em
dinheiro, sexo e poder.

A respeito deste caso de inusitada e terrível obsessão, conta-nos


Carlos Toledo Rizzini, em seu livro Evolução para o Terceiro Milênio
(Ed. Edicel):

Os obsessores, logo de começo, no primeiro diálogo com Barbara


O’Brien, estabeleceram uma distinção muito adequada aos seus propósitos.
(...) Declaram poder ler os seus pensamentos sem dificuldades, isto era
banal para “qualquer operador” que tivesse sintonizado. (...) Podiam,
também, injetar ferramentas nela à vontade, governando o seu
comportamento.

Eis que aí se caracteriza o processo obsessivo em que o móvel


principal não é a vingança, mas a expressão da maldade, que consegue
atingir as raias da loucura. Afinal de contas, esses operadores, que
certamente já foram coisas, viveram entre os encarnados e muito
aprenderam a exercitar os seus sentimentos inferiores. Ao se
transladarem para a esfera incorpórea, uma vez que não podem viver
sem fazer o Mal, juntam-se em coortes sinistras e retornam ao palco de
seu tenebroso aprendizado.

As pessoas que, porventura, leiam estes arrazoados e que não


tenham conhecimento desse mecanismo da maldade, pensarão que tudo
não passa de um relato surrealista, assombroso, “spilbergiano”. Mas, se
elas perscrutarem à sua volta, penetrarem o fundo da sociedade em que
vivem, vão identificar, aqui e ali, sem muito esforço, um sem-número
de operadores encarnados, atormentando-se e atormentando a
existência de seus semelhantes, sem a menor cerimônia, sem o menor
constrangimento. Infelizmente, por tudo isso e mais do que isso, a dor
e o sofrimento têm sido companheiros inseparáveis de Espíritos
encarnados e desencarnados.

No momento em que o Homem se dispuser a estudar e a analisar o


porquê da vida, não simplesmente sob o prisma religioso, mas ético, aí,
provavelmente, ele deverá partir para realizar a esperada, desde remotas
eras, renovação moral, reformulando valores para adequá-los às suas
fecundas prioridades espirituais.

Voltando ao entrevero entre coisas e operadores, estes, após seis


longos meses, desapareceram para sempre da casa de Barbara,
deixando, porém, as impressões de uma brutal realidade: a incapacidade
humana de, em algumas vezes, superar as suas inferioridades,
embrenhando-se nos sorvedouros da insanidade.

O desprezo que tais Espíritos votam à Humanidade, de que eles


próprios são parte integrante, já antes fora assinalado pelo místico
sueco Emmanuel Swedenborg, quando revelou a existência de seres
espirituais que dominavam as criaturas e que as subjugavam, à feitura
dos operadores, à condição de míseros escravos.
A Loucura Obsessional

E fato notório que milhares de homens e mulheres, ora


hospitalizados em instituições para doenças mentais em todo mundo,
estão sujeitos a tratamento inadequado. São testemunhas vivas da
trágica ignorância da Psiquiatria a respeito da problemática espiritual e
da fanática orientação religiosa. Uma percentagem substancial dessas
pessoas nada mais é que indivíduos nos quais a faculdade natural da
mediunidade demonstra sinais evidentes de desenvolvimento. A
aberrante terapia aplicada pretende a mutilação do aparelho psíquico,
através do qual a faculdade se manifesta. A ignorância do psiquiatra e
as inclinações religiosas do grupo familiar ao qual pertence o médium
incipiente são responsáveis pela tragédia que infelicita o indivíduo.
Essa tragédia vincula a nossa era aos séculos medievais que
encadeavam os chamados insanos ao patíbulo da ignorância humana e
à miséria do sofrimento moral e físico.

Um tremor de revolta consciente sacode a alma do pesquisador


quando observa que a mediunidade incipiente está sendo destruída pela
mutilação do cérebro por meio da lobotomia frontal 4 ou quando o
aparelho psíquico provido pelos mecanismos espirituais,
instrumentalizados pelo perispírito para manifestação da faculdade, é
igualmente mutilado, entravado ou tornado inoperante por meio de
choques bioquímicos e elétricos, ou embotado pela terapia ataráctica
(passividade absoluta). E esses atos são perpetrados em nome da
Ciência! Aqueles que praticam essas heresias etiológicas riem, hoje, de

4 Lobotomia frontal: incisão na matéria branca do centro oval do lobo frontal do cérebro.
Esta técnica mutiladora de uma porção do cérebro, para tratamento da insanidade, foi
iniciada no tempo em que predominava a ignorância ctiológica.
seus colegas que, no passado não muito remoto, tentavam resolver o
mesmo problema por meio de sangria, de prolongadas e drásticas
purgações e outras terapias bizarras, quando suas vítimas não eram
reduzidas a cinzas, nas fogueiras.

A Psiquiatria, porém, decifrará o enigma desse importantíssimo


processo no dia em que acordar para a realidade. Quando uma pessoa
fisicamente sadia e hígida a procura para queixar-se de que está ouvindo
vozes e tendo visões, esse ou essa paciente não está doente nem
sofrendo de alucinações ou de qualquer outra aberração mental. Está,
sem dúvida, vendo e ouvindo os Espíritos que habitam em dimensões
não admitidas, teimosamente, pela Ciência oficial. Até Allan Kardec
lançar a Codificação Espírita, ninguém sabia onde e como pesquisar a
identidade dessas manifestações, que podem evoluir para estados
dolorosos de desequilíbrio, enquadrando-se no capítulo das obsessões
pertinazes.

A ação fluídica do obsessor sobre o cérebro - adverte o Dr. Bezerra


de Menezes em A Loucura sob Novo Prisma - se não for removida a tempo,
dará necessariamente, em resultado, o sofrimento orgânico daquele órgão,
tanto mais profunda quanto mais tempo estiver sob a influência deletéria do
obsessor.

No princípio, enquanto os fluidos maléficos do obsessor não têm


produzido lesão cerebral, deve-se procurar elevar os sentimentos do
obsidiado, incutindo- lhe, na alma, a paciência, a resignação e o perdão
para seu perseguidor. Alcançado esse desiderato, deve-se atrair o obsessor
e trabalhar com ele no sentido de removê-lo da perseguição, fazendo-o
conhecer a lei pela qual terá de pagar, em dores, todas as que tem feito sua
vítima sofrer, sem o que jamais poderá tomar a via que conduz às regiões
da felicidade.

Foi justamente o que aconteceu nos idos de 1866, no “Círculo


Espírita de Cazères”, na França, fato relatado e apreciado por Allan
Kardec na Revue Spirite, de fevereiro daquele ano. Era um caso típico
de loucura obsessional que se levou a bom termo, graças à dedicação
dos integrantes daquele “Círculo” espírita.

A obsidiada tinha 22 anos de idade e gozava de saúde perfeita. De


repente, foi acometida de acesso de loucura. Os pais a trataram com
vários médicos, mas inutilmente, pois o mal, em vez de desaparecer,
tornava-se mais e mais intenso, a ponto de, durante as crises, ser
impossível contê-la, dado o nível de violência que demonstrava. A
jovem, nesses momentos, possuía a força de vários homens.

Diante disso, os pais, sem condições de tê-la em casa e a conselho


médico, resolveram interná-la num hospício de loucos, onde seu estado,
durante a sua permanência ali, não apresentou nenhuma melhora; ao
contrário, cada vez mais a jovem mergulhava em um estado
aparentemente irreversível de alienação mental. Os pais jamais
cogitaram consultar os Espíritas; ignoravam, a bem da verdade, a
existência do próprio Espiritismo. Mas, alguém interessado no bem-
estar da doente sugeriu-lhes que consultassem o grupo espírita local.
Assim o fizeram, como último recurso.

Nada se garantiu quanto à recuperação da inditosa jovem, antes de


se conhecer a causa do mal. Consultados os Espíritos mentores do
“Círculo de Cazères”, informaram, de pronto, que a jovem estava
subjugada por um Espírito rebelde que acabaria sendo levado, após o
devido tratamento, ao bom caminho. Os pais foram avisados da
possibilidade de cura da jovem. Atraíram o Espírito obsessor durante
oito dias seguidos, conseguindo-se, à custa de criteriosas
argumentações, mudar as suas disposições, fazendo-o renunciar a seus
nefandos propósitos.

Conforme anunciaram os Espíritos mentores, a jovem readquiriu a


sua sanidade, retornando ao convívio de sua família.

Entre mil outros casos - conforme esclarece Allan Kardec - esta é


uma nova prova da existência da loucura obsessional, cuja causa é
outra que não a loucura patológica, e, ante a qual, a Ciência falhará
enquanto se obstinar em negar o elemento espiritual e sua influência
sobre os encarnados. Aqui o caso é bem evidente: uma jovem que
apresenta uma sintomatologia de loucura, a ponto de os médicos se
enganarem, e que é curada a quilômetros de distância, por pessoas que
jamais a viram, sem nenhum medicamento ou tratamento médico, mas,
apenas, pela moralização do Espírito obsessor.

Há, pois, Espíritos obsessores cuja ação pode ser perniciosa à razão
e à saúde de um modo geral. Não é certo que se a loucura tivesse sido
ocasionada por uma lesão orgânica qualquer, esse meio teria sido
impotente? Se se objetasse que essa loucura podia ser devida a uma
causa fortuita, responderíamos que se se citasse apenas um fato, sem
dúvida seria temerário, daí, deduzir a afirmação de um princípio tão
importante, mas os exemplos de curas semelhantes são numerosos. Não
são privilégios de um indivíduo e se repetem todos os dias em diversos
lugares, sinais inquestionáveis de que repousam sobre uma lei da
natureza.

Encontramos, na Revue Spirite, várias curas do mesmo gênero,


notadamente nas publicadas em fevereiro de 1864 e janeiro de 1865,
que contêm duas relações completas eminentemente instrutivas. Eis um
outro caso, não menos característico, obtido em um grupo de
Marmande, na França.

Numa cidadezinha a alguns quilômetros de Marmande, havia um


camponês atingido por uma loucura tão furiosa que perseguia as pessoas
a golpes de forcado para matá-las e, cm falta de pessoas, atacava
animais com o mesmo ímpeto. Corria incessantemente pelos campos e
não voltava mais para casa. Sua presença era perigosa. Assim foi fácil
obter-se autorização para interná-lo no hospício de Condillac, um pouco
distante de Marmande. Não foi sem vivo pesar que a família se viu
obrigada a adotar essa providência.

Antes, porém, de o levar, um dos parentes, tendo ouvido falar das


curas obtidas pelo grupo espírita de Marmande em casos semelhantes,
resolveu procurar o seu dirigente - o Sr. Dombre - e lhe disse:

- Senhor, disseram-me que curais os loucos. Por isso vim vos pedir
ajuda para um parente meu que se encontra em estado completo de
alienação mental. A família pretende interná-lo no hospício de
Condillac. Que se poderia fazer pelo pobre homem?

Meu bravo irmão - disse-lhe o Sr. Dombre - não sei quem me atribui
esta reputação de curar loucos; é verdade que algumas vezes consegui
devolver a razão a infelizes alienados; mas isto depende da causa da
loucura. Verei o que se pode fazer pelo seu inditoso parente.

Tendo ido imediatamente à casa de seu médium habitual, obteve,


em comunicação rápida, a certeza de que se tratava de uma obsessão
grave, mas que, com perseverança, ela chegaria a termo. Então disse ao
aflito parente da vítima:
- Esperai ainda alguns dias, antes de levar o pobre homem a
Condillac; vamo-nos ocupar do caso; voltai, de dois em dois dias, para
dizer-nos como ele se encontra.

No mesmo dia, puseram-se em ação. A princípio, como acontece


em casos semelhantes, o Espírito obsessor mostrou-se pouco amistoso.
Com o tempo, porém, acabou cedendo às ponderações sensatas do Sr.
Dombre, sob a orientação dos mentores espirituais, renunciando,
finalmente, de levar adiante os seus terríveis objetivos. Uma
circunstância muito particular: declarou o Espírito não ter qualquer
motivo de ódio contra aquele homem; que atormentado pela
necessidade de fazer o Mal, havia se agarrado a ele como poderia fazê-
lo com qualquer outro, desde que servisse a seus propósitos.
Reconhecia estar errado, pelo que pediu perdão a Deus.

O parente do obsidiado retomou dois dias depois e disse ao Sr.


Dombre que seu parente estava mais calmo, mas ainda não tinha voltado
para casa e se ocultava nos matos. Na visita seguinte, ele já havia
voltado, mas estava um tanto sombrio e se mantinha afastado de todos;
entretanto, já não procurava bater em ninguém. Alguns dias depois, ia
à feira e fazia seus negócios, como antes da loucura. Assim, oito dias
haviam bastado para o trazer ao estado completo de sanidade mental, e
sem nenhum tratamento físico. E mais que provável que se o houvessem
encerrado com os loucos, ele tivesse perdido a razão completamente 5.

Os casos de obsessão são tão freqüentes que não é exagero dizer

5 No grupo que dirigimos na cidade do Salvador, no Teatro Espírita Leopoldo Machado,


vários processos de loucura obsessional têm ali aportado, apresentando as mesmas
características assinaladas nos casos supracitados.
que, nos hospícios de alienados, mais da metade de seus infelizes
ocupantes tem, apenas, a aparência de loucos. Nestes casos, o
tratamento convencional não tem efeito.

A despeito de estar sendo posta em prática há mais de um século,


a etiologia de tais processos obsessivos permanece inalterada. Os
Espíritos obsessores, que nada mais são que as almas do que viveram
no plano corpóreo, prosseguem perpetrando os seus nefastos
propósitos, e, assim, infelizmente, continuarão por tempos afora,
enquanto não prevalecer, na Terra, o primado da Fraternidade, corolário
da convivência pacífica.

O Espiritismo nos mostra, na análise dos processos obsessivos em


seus variados matizes, uma das causas perturbadoras da convivência
humana, ao tempo em que oferece os meios de as remediar. Mas, como
são reconhecidas essas causas, senão pela atração dos Espíritos
obsessores? Dessa forma, o trabalho de atração de Espíritos
perturbadores possibilita o estudo dos estados de aparente loucura que
confundem, sobremodo, os alienistas.

É evidente que os que não admitem a alma individual e nem a sua


sobrevivência, ou que, admitindo-a, não se dão conta do estado do
Espírito após a morte, devem olhar a intervenção de seres invisíveis,
em tais circunstâncias, como uma quimera; mas o fato brutal dos males
e das curas está lá. Não poderiam ser levadas à conta da imaginação as
curas operadas a distância, em pessoas que jamais foram vistas, sem
emprego de qualquer agente material.

Por outro lado, a doença não pode ser atribuída às práticas


espíritas, desde que aquela atinge, também, os que não acreditam no
Espiritismo, bem como crianças que dele não têm qualquer idéia 6.
Entretanto, aqui nada há de espantoso; são efeitos naturais que sempre
existiram, em todas as épocas, que, então, não eram compreendidos e
que se explicam do modo mais simples, agora que se conhecem as leis
em virtude das quais se produzem.

Não se vêem, entre os vivos, seres maus atormentando outros mais


fracos, até os deixarem doentes e até matá-los, e isso sem outro motivo
senão pelo prazer de fazerem o Mal? O conhecimento que agora temos
do mundo invisível no-lo mostra povoado dos mesmos seres que
viveram na Terra, uns bons outros maus. Entre estes últimos, uns há
que se comprazem, ainda, no Mal, em conseqüência de sua inferioridade
moral e porque não se despojaram de seus instintos perversos. Vivem
em meio a nós, como quando vivos, com a única diferença que, em vez
de terem um corpo material, têm-no fluídico, buscando sempre, como
já assinalamos, ocasiões de fazerem maldades, encarniçando-se sobre
as suas vítimas.

Na verdade, os efeitos da obsessão pertinaz são, na maioria das


vezes, devastadores. As funções mentais do indivíduo assediado se
alteram, seus hábitos mudam, sua razão declina e a vontade enfraquece.
É comum que o obsidiado chegue a tal estado de subjugação que venha
a ser considerado um débil mental. Assim, é levado aos manicômios,
onde é tratado como verdadeiro louco e submetido a severos
tratamentos psiquiátricos com administração de drogas pesadas. Por

6 No Teatro Espírita Leopoldo Machado, é mantida, semanalmente, uma sessão


especificamente destinada ao tratamento desobsessivo de crianças, cujas idades variam de
meses a anos. Os resultados têm sido surpreendentes, animando o grupo de abnegados
médiuns a prosseguirem na abençoada tarefa que já realizam há vários anos.
isso, Allan Kardec, que já se preocupava com o problema, adverte que
não se deve confundir a loucura patológica com a influenciação de
Espíritos maus. Esta não é provocada por nenhuma lesão cerebral,
embora tenha a aparência da loucura propriamente dita.

O Espiritismo, tornando conhecida essa forma de perturbação


mental, fornece, também, os meios de a combater, agindo, não apenas
sobre o doente, mas, paralelamente, sobre o Espírito obsessor, através
de métodos e técnicas específicos.

A distinção entre loucura e obsessão é feita, pois, pelo Espiritismo


que considera os fatores orgânicos e os fatores espirituais de
desequilíbrios psíquicos ou mentais. As escolas psicológicas e
psiquiátricas ignoram a obsessão, mas as pesquisas parapsicológicas
sérias revelam a existência de casos de desequilíbrio e perturbação
mental produzidos por ação telepática. Freud foi o primeiro a perceber
a ocorrência telepática em alguns casos tratados pela Psicanálise.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, dedica o capítulo IX, à


questão da intervenção dos Espíritos desencarnados no cotidiano dos
indivíduos. O meio utilizado nesse processo nada mais é que a indução,
para o Bem ou para o Mal, através do pensamento. Tais idéias, lançadas
pelos Espíritos, podem ser repelidas ou não pelo receptor. Dizem os
Espíritos codificadores que as entidades perturbadoras fazem várias
tentativas para atingir seus objetivos escusos e que:

(...) Quando não há nada a fazer, eles cedem lugar; entretanto


aguardam o momento favorável, como o gato a espreita o rato. (L. E.,
questão 468)

E as ciências psíquicas estão, aos poucos, chegando à conclusão


espírita da influência do pensamento, como se observa nas obras: O
Novo Mundo do Espírito, do Prof. Joseph B. Rhine; Os Canais Ocultos da
Mente, de Louise Rhine e Novas Dimensões da Análise Profunda, de Jean
Ehrenwal.
Obsessão e Criminologia

Pode a obsessão levar alguém à prática de um crime? Ressalta-se,


a partir daí, uma categoria não prevista nas classificações penais: o
delito praticado em decorrência da obsessão. Os penalistas,
influenciados pelas concepções pragmáticas dos valores existenciais,
jamais admitiriam a obsessão como causa de delinqüências,
simplesmente porque não crêem na imortalidade da alma e,
conseqüentemente, não admitem que um Espírito exerça influência
sobre quem quer que seja.

Embora respeitemos a posição dos penalistas, advertimos que a


tese da obsessão já foi largamente demonstrada. Na medida em que um
Espírito, conforme visto anteriormente, pode causar perturbações
orgânicas de profundos e imprevisíveis resultados, pode, também, em
determinadas situações, induzir alguém à prática de um ato criminoso.

Segundo Deolindo Amorim, autor do livro Espiritismo e


Criminologia (Ed. Mundo Espírita), a obsessão é uma forma de
constrangimento e varia muito, de acordo com a resistência que o
indivíduo possa oferecer à sugestão e aos contatos do Espirito
desencarnado.

Conquanto a figura do obsidiado não esteja incorporada à


terminologia penal, a questão não deve ser posta à margem, sob o
apressado e insubsistente pretexto de que se trata de uma teoria
estratosférica.

O Espiritismo pode, neste particular, oferecer eficientes elementos


de elucidação para ampliar os horizontes da Criminologia.
Na verdade, a obsessão é um entrave ao livre-arbítrio, porque o
indivíduo, no estado depressivo acentuado ou agudo, apresenta reações
absolutamente diferentes de seu comportamento habitual, embora não
apresente qualquer tipo de anomalia própria da insanidade mental.

A obsessão pode, pois, ser um fator de delinqüência, o que


estabelece pontos de contatos entre a Doutrina Espírita e a
Criminologia. A obsessão também se manifesta por meio de idéias
fixas. E o que é, afinal, idéia fixa?

Para os que vêem o problema sob a ótica da Psiquiatria, a idéia fixa


é uma forma de psicopatia; para quem admite a obsessão, conforme
conclusões espíritas, a idéia fixa pode, também, decorrer de causas
espirituais, isto é - a ação pertinaz de um Espírito sobre o pensamento
e a vontade do obsidiado.

O Espiritismo não descarta a possibilidade, até certo ponto, da


existência de casos em que a idéia fixa se enquadra na sintomatologia
das doenças mentais. O que não se pode negar, evidentemente, é a
existência, já comprovada, de outros tipos de idéia fixa, oriundos de
causas espirituais. Aliás, a idéia fixa é uma das formas mais perigosas
de obsessão, porque se transforma em verdadeira subjugação.

A subjugação espiritual pode ser física e moral: a subjugação física


pode conduzir o subjugado à prática de atos ridículos; a subjugação
moral pode mudar completamente os hábitos e a orientação do
indivíduo porque o subjugado é solicitado a adotar deliberações
absurdas e comprometedoras que, por uma espécie de ilusão, julga
sensatas. É como uma fascinação: anula, com o tempo, todo o potencial
de resistência do subjugado, levando-o aos vícios e à delinqüência.
Esclarecemos que, em casos típicos de obsessão, a idéia fixa
desaparece quando se consegue afastar o Espírito subjugador, mediante
os meios indicados pela terapêutica Espírita. Assim, se os distúrbios
cessam diante dos métodos postos em prática pelos doutrinadores
espíritas, não é possível negar a existência de uma causa estranha ao
indivíduo, e, conseqüentemente, reconhecer a ação espiritual.

O problema da obsessão, portanto, tão mal compreendido c


interpretado pelos adversários do Espiritismo, não está, como parece,
deslocado na seara criminológica, seja como objeto de observação, seja,
também, como subsídios para a interpretação de certos aspectos ainda
não definidos em matéria criminal.

Os fatos, até então observados, já nos permitem dizer que a


obsessão, como causa de certos delitos, também deverá entrar em
cogitação nas classificações mais adiantadas, embora saibamos que, em
todos os ramos da ciência humana, as classificações nunca podem ser
absolutamente exatas e muito menos perfeitas.

A classificação de Ferri, um dos pais da Escola Criminalista


Italiana, que Afrânio Peixoto, erudito psiquiatra brasileiro, considera a
menos imperfeita das classificações dos criminosos, prevê apenas cinco
tipos de criminosos: natos, loucos, habituais, de ocasião e por paixão.

A obsessão, entretanto, não se enquadra nas concepções correntes


em Criminologia. Mas não será por isso que deve ser desprezada pelo
criminalista, desde que examinada sem part pris, sem preconceito de
religião ou de convenções acadêmicas.

Assim procederam vários e ilustres pesquisadores europeus e


norte-americanos, face à obsessão. Dr. James Hyslop, Professor da
“Universidade de Columbia” (Estados Unidos da América), entre
numerosos casos de obsessão por ele investigados, conta o de um jovem
que vivia aflito com todos os sintomas alucinatórios. Dois médicos
especialistas diagnosticaram uma forma incipiente de demência. Apesar
disso, o Dr. Hyslop resolveu apelar para as experiências mediúnicas.
Fê-lo com todas as precauções, servindo-se de médiuns escolhidos e
conseguiu, por fim, identificar o Espírito que atormentava o jovem.

A vasta bibliografia espírita é plena de registro de casos


obsessionais e de seus tratamentos à luz da metodologia ainda estranha
às ciências médica e jurídica.

Em conclusão: Como se deve encarar a situação do obsidiado? É


um louco? É um tipo vesânico?

Não é um caso inteiramente adequado aos diagnósticos habituais.


Nem por isso deixaria de haver, na obsessão, um aspecto que deve
interessar às preocupações dos penalistas, uma vez que o
comportamento do obsidiado colide com as normas de equilíbrio social.

Surge, por fim, uma última pergunta: pode o Direito Penal


classificar o obsidiado, para todos os efeitos punitivos, sabendo-se que,
embora não seja doente nem louco, não é senhor de sua vontade, uma
vez que está sob uma forma de coação? A obsessão, nos casos agudos,
tem ação positivamente coatora. E evidente que o Direito Penal ainda
não aceita a intervenção de forças espirituais na prática de delitos, tanto
mais que a noção de obsessão, entre penalistas, é muito diferente do
conceito espírita, justamente porque o Espiritismo parte de uma base de
fatos e experiências em que demonstra a influência direta de Espíritos
nas ações humanas, tanto para o Bem como para o Mal. E passamos a
palavra ao Professor Deolindo Amorim:
A cura da obsessão pode evitar muitos crimes. O assunto não deve,
portanto, ser relegado, principalmente quando se verifica, e com provas
flagrantes, a imprecisão com que alguns luminares da Criminologia, da
Medicina Legal, da Psiquiatria definem o Espiritismo, a mediunidade e a
obsessão.

Os preconceitos, afirmamos conscientemente, são terríveis


propagadores, desde as postulações do Professor Arthur Ramos (vide
Introdução à Psicologia Social), que, tomando por base os cultos
fetichistas (VODU), tentou definir o Espiritismo, incorrendo, data
vênia, em grave equívoco. Não lhe ficou atrás o eminente Professor
Afrânio Peixoto em seu livro: Medicina Legal. Aliás, este inspirou
aquele, quanto a considerar, sem exame prévio, a Doutrina Espírita no
mesmo nivel das manifestações rudimentares dos nativos do Haiti.

O verbalismo das escolas superiores é, por vezes, um expediente


para se furtarem a dificuldades, porque ali é defeso empregar-se a
inteligente e honesta expressão - NÃO SABEMOS! - Kant.
Os Horrores do Suicídio

Após tantos fidedignos testemunhos, chega-se à conclusão que a


idéia do suicídio decorre de variadas e complexas causas, entre as quais
despontam: as expressões objetivas e subjetivas de sentimentos
negativos, que sempre afrontam os ordenamentos renovadores da Lei
Natural, e o assédio pernicioso de Espíritos ignorantes ou inimigos.

No primeiro caso, estabelece-se uma identidade ou harmonia


vibratória entre dois ou mais Espíritos, encarnados ou desencarnados.
Configura-se, no particular, entre esses comparsas, uma poderosa
afinidade moral, de cujas conseqüências, desponta o suicídio. No
segundo caso, de maior e profunda complexidade, o móvel do suicídio
é o ódio e o desejo incontrolável e tresloucado de vingança.
Geralmente, o obsessor (ou grupo de obsessores) consegue concretizar
os seus propósitos, em virtude, principalmente, da fragilidade moral de
sua presa, envolvida pela psicosfera malsã do próprio Planeta Terra,
onde os valores morais imperantes são refratários à Ética Cristã.

Os exemplos que, dolorosamente, ilustram as hipóteses


assinaladas, proliferam, de modo assustador, por todo o mundo.
Prevalecem, nas sociedades terrenas, além da exacerbação amoral dos
sentimentos, posturas francamente voltadas para a negação, pura e
simples, da existência do Espírito. A maioria esmagadora alimenta, no
íntimo, a certeza de que tudo se esgota no túmulo; que a questão
espiritual é atribuição exclusiva da religião a quem cumpre proceder à
ligação entre a criatura humana e Deus. Ledo e perigoso engano!

A questão espiritual jamais esteve sob a responsabilidade de


qualquer doutrina ou religião na face da Terra. Na verdade, ela deveria
ter sido objeto das reflexões do Homem, ao longo do tempo,
especialmente após o advento do Cristianismo. O a cada um segundo as
suas obras é, e sempre será, um convite à análise da conduta humana. A
Humanidade deu as costas a esse ordenamento que poderia levar o
Espírito a se conduzir, nas sociedades terrenas, com discernimento,
responsabilidade e satisfatório equilíbrio, pesando os prós e contras de
suas atitudes. Mas, entre outras, as sensatas admoestações do Cristo se
estiolaram por entre as dobras de interpretações tendenciosas, bem ao
talante de interesses subalternos. Os Evangelhos ficaram sepultados sob
os escombros da preconceituosa exegese humana que não quis
identificar, na mensagem do Mestre de Nazaré, a Constituição Moral
da Humanidade.

O certo é que os processos obsessivos que levam o indivíduo à


loucura, ao homicídio e à autodestruição, têm sua gênese, em última
análise, nas infelizes concepções humanas sobre o problema do ser,
circunscrito a inteligentes e cultas interpretações, mas profundamente
distanciadas de sua ontológica realidade espiritual.

Almerindo Martins de Castro, em sua obra Martírio dos Suicidas,


oferece constrangedores exemplos da ação nefasta e destruidora de
entidades trevosas, atraídas pelas posturas mentais de Espíritos
encarnados e desencarnados. As conseqüências são desastrosas,
culminando, entre os Espíritos encarnados, pelo auto-aniquilamento; e,
entre os Espíritos desencarnados, em estados mórbidos e desesperadores,
levando-os aos sorvedouros da insanidade. Segue-se um dos casos
analisados pelo autor, de um testemunho dado por um Espírito.

Certo rapaz de sobrenome Ribeiro, que fora do exército, sentia


raivosa inveja ante qualquer pessoa feliz, próspera ou bem dotada em
inteligência, alegria e beleza. Em tais ocasiões, seu pensamento vibrava
em ondas de ódio e revolta; ódio por não ter o bem alheio, revolta por
não poder destruir a felicidade que coubera a outrem.

Numa noite, transitando à beira do cais do porto, estrugindo de raiva


a propósito de fatos relacionados com grandes venturas de terceiros, mais
uma vez ruminou a idéia de morrer, para não assistir ao espetáculo das
alegrias e prosperidades de quem quer que fosse.

E pensou mesmo no suicídio, olhando para as águas sinistramente


quietas do rio Guajará.

Súbito, sentindo uma espécie de impulso de origem imprecisa,


pensou em lançar-se à água, e sentiu, também, que seis vigorosos braços
de entes invisíveis o projetavam no rio. Lutou em vão. Sofreu a aflição
da asfixia durante um tempo imensurável na sua imaginação, na treva
mais completa c no desespero maior que um revoltado possa conhecer.

Só depois de um período, cuja duração não lhe foi possível medir,


sentiu que alguém dele se aproximava e o conduzia ao cenáculo onde fez
a sua narrativa e confissão:

Sei que fui vítima dos meus maus sentimentos. Não me suicidei,
verdadeiramente, porque fui precipitado ao rio; mas, esse ato foi provocado
por mim, que atraí, por meus sentimentos inferiores, Espíritos capazes de
partilhar das tendências malsãs do meu coração, sentindo-se felizes de
atirar na desgraça espiritual mais um irmão gêmeo na maldade e no atraso
moral. Sei, também agora, que aos maus não faltam auxílios, para a prática
dos mais espantosos crimes ... Se reagisse, tê-los-ia afastado; ignorante das
verdades evangélicas - que só o Espiritismo explica em realidade - afundei
no abismo da morte espiritual. Felizes os que repelem os maus impulsos,
pois só assim não se tornam futuros escravos dos Espíritos da treva, desses
que, no momento oportuno, levam, irresistivelmente, a criatura à prática do
crime.

Allan Kardec, por sua vez, transcreve, na Revue Spiríte, um


interessante e esclarecedor artigo divulgado no jornal Droit, muito
parecido, por sinal, ao relatado por Almerindo Martins de Castro:

O Sr. Jean-Baptiste Sadoux, fabricante de canoas em Joinville-le-Pont,


testemunhou um fato que o deixou perplexo e angustiado: um jovem que,
depois de ter vagado durante algum tempo sobre a ponte, subiu no parapeito
e se atirou no rio Mame. Imediatamente, foi em seu socorro e, ao cabo de
sete minutos, o retirou das águas frias. Mas, a asfixia já era completa e todas
as tentativas para reanimar o tresloucado jovem foram infrutíferas.

Uma carta encontrada em um de seus bolsos o faz reconhecer como o


Sr. Paul D... ., de vinte e dois anos, residente na rua Sedaine, em Paris. A
carta, dirigida pelo suicida a seu pai, era extremamente tocante. Pedia
perdão por abandoná-lo e dizia que havia dois anos era dominado por uma
idéia terrível, por uma irresistível vontade de se destruir. Acrescentava que
lhe parecia ouvir uma voz que o chamava sem descanso e, a despeito de
todos os esforços, não pôde resistir a tais e insistentes apelos. Encontraram
no bolso do suicida uma corda nova, na qual tinha sido feito um laço
corredio. Depois do exame médico-legal, o corpo foi entregue à família.

A obsessão, nestes dois casos, está bastante evidente. Um dos


Espíritos mentores do grupo do Sr. Jean-Baptiste Sadoux deu instruções
a respeito do ocorrido. Ressaltou ele que, malgrado o arrastamento a que
o jovem cedeu para sua infelicidade, não sucumbiu à fatalidade. Tinha o
seu livre-arbítrio e, com maior vontade, poderia ter resistido. Se tivesse
sido espírita, teria compreendido que a voz que o assediava com nefastos
propósitos não poderia ser, senão, de um mau Espírito.
O Grupo Desliens, de Paris, consultando os mentores espirituais,
recebeu esclarecimentos a respeito do assunto.

A causa deste caso de obsessão estava no passado. O próprio


obsessor foi impelido, em vida passada, ao suicídio por esse que acaba
de fazer cair no abismo. Era sua mulher 11a existência precedente e tinha
sofrido, consideravelmente, com o deboche e as brutalidades de seu
marido. Muito fraca para aceitar a situação, buscou, na morte, o refúgio
para seus males. Ela, mais tarde, conseguiu se vingar, levando o seu ex-
marido ao suicídio. O Espírito comunicante solicitou, dos participantes
do Grupo Desliens, muita oração para ambos e atormentados Espíritos
que fizeram de suas vidas um verdadeiro inferno.

As Técnicas do suicídio – A influência dos Obsessores Encarnados

Como se não bastassem os insidiosos ataques dos seres das sombras,


sempre prontos a levarem os incautos para os caminhos da amargura e
do desespero, escrevem-se manuais ensinando como se deve praticar o
suicídio. Uma dessas obras foi publicada e dada a lume nos Estados
Unidos, sob o título Final Exit [Saída Final], tomando-se, em pouco
tempo, verdadeira best seller. E um trabalho destinado a doentes
terminais que desejam extinguir as suas vidas, mas pode ser utilizado por
qualquer pessoa que pense em se retirar da vida, malversando o livre-
arbítrio.

O autor de Final Exit é o norte-americano Derek Humphry, militante


da causa da eutanásia e do suicídio assistido. Derek é diretor-executivo
da Hemolock Society, organização com milhares de filiados, todos
voltados à luta pelo direito à morte e ao suicídio. Esclarece o confrade
Aguinaldo Gabarrão, em excelente artigo publicado no periódico
paulista Correio Fraterno do A B C (junho de 1992), que Derek Humphry
tem ainda, em seu currículo, a desvantagem de ter ajudado sua primeira
esposa, Jean, a suicidar-se. Mais recentemente, sua outra esposa, Ann,
suicidou-se, depois de crises depressivas aumentadas, segundo algumas
pessoas, pelo marido.

Em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, em 8 de


dezembro de 1991, Derek vangloriava-se da vendagem de 500.000
exemplares do manual Final Exit [Última Saída], apenas na América do
Norte. E acrescentou:

- O meu livro é indicado aos doentes terminais, para ajudá-los a chegar


à morte. Mostro todas as etapas. Acho que é um livro responsável, nesse
sentido.

A verdade é que livros do quilate de Final Exit refletem a situação


de absoluta descrença a que chegou o ser humano, em qualquer latitude
terrena. Significa dizer que as religiões falharam fragorosamente,
porquanto os seus discursos que, muito antes, encontravam franca
receptividade, esborroaram-se diante dos avanços das concepções
modernas em torno da problemática do ser, da vida e do mundo.
Estabeleceu-se, destarte, uma defasagem profunda e irrecuperável entre
estas e aquelas concepções.

O suicídio sempre foi uma prática, ao longo dos séculos, do homem


desesperado e aflito que foge da vida em busca do nada, e se vê a braços
com a dor e o sofrimento. Diria, a propósito, o poeta lusitano Antero de
Quental, no soneto Fatalidade:

Crê-se na Morte o Nada, e, todavia

A Morte é a própria Vida ativa e intensa,


Fim de toda a amargura da descrença,

Onde a grande certeza principia.

O meu erro, no mundo da Agonia,

Foi crer demais na angústia e na doença

Da alma que luta e sofre, chora e pensa,

Nos labirintos da Filosofia...

E no meio de todas as canseiras

Cheguei, enfim, às dores derradeiras

Que as tormentas de lágrimas desatam!...

Nunca, na Terra, a crença se realiza,

Porque em tudo, no mundo, o homem divisa

A figura das dúvidas que matam.

A mensagem elucidativa foi transmitida através do médium


Francisco Cândido Xavier e se encontra no livro Parnaso de Além
Túmulo. (Editora FEB, R.J, 1935)
Quando o Sofrimento é Um Freio

No livro Dramas da Obsessão (Ed. FEB), escrito por Bezerra de


Menezes através da médium Yvonne Pereira, a Primeira Parte, item V, é
dedicada à Catequese de Obsessores.

Informa o autor espiritual que os métodos utilizados na doutrinação


de Espíritos variam, dependendo das circunstâncias. Deve-se observar,
em cada caso, as suas especificações e peculiaridades ditadas pela
situação em que se encontra o Espírito obsessor. São situações que têm
raízes, de ordinário, no passado próximo ou remoto.

Não se pode avaliar, sem mais nem menos, um problema de ordem


eminentemente moral sem um prévio e detido exame. Daí, pois, o
cuidado que o doutrinador deve ter no (rato com criaturas que se lhe
apresentam, nas sessões mediúnicas, por exemplo, cheias de mágoas,
geradas por traições e profundos dissabores.

O processo da obsessão envolve obsessor e obsidiado. Não é,


destarte, uma atuação isolada, unilateral, respeitando- se as exceções de
praxe. No momento em que o doutrinador se coloca numa posição
persuasiva, tentando demover o Espírito de seus nefastos propósitos,
deve ter em mente todos esses pressupostos. Não pode esperar, de uma
hora para outra, a renovação definitiva daquele ser atormentado por
tantas e antigas angústias. Deve, sim, procurar entender o seu drama, a
sua atitude, levando-o a compreender, na medida do possível, que ele
vem ferindo a Lei de Deus - a lei do amor! Não é fácil esta tarefa,
principalmente quando se sabe que o próprio doutrinador caminha, não
raramente, pelas mesmas e tortuosas estradas por onde transitou, e ainda
transita, o obsessor: a estrada dos sentimentos inferiores.
Quanto ao obsidiado, há quem pretenda livrá-lo, sem-mais-nem-
menos, do assédio pernicioso e deletério do obsessor, como se este fosse,
na verdade, um perigoso vírus, que se incrustou no organismo do
“coitadinho”. Todavia, não é bem assim que se deve tratar o problema.

O bom-senso aconselha um tratamento ao obsidiado, levando-o a


proceder a uma renovação de posturas mentais e sociais, não
simplesmente para fugir das garras do Espírito obsessor, mas, sobretudo,
para coadjuvar, positiva e eficazmente, o trabalho da desobsessão.

No grupo mediúnico que dirigimos na cidade do Salvador, na sede


do Teatro Espírita Leopoldo Machado, inúmeros casos têm sido tratados,
ao longo do tempo. Iniciamos essa abençoada tarefa com Abel
Mendonça, diretor da Casa de Emmanuel, tradicional instituição espírita
da Capital da Bahia, e, ainda, adotamos o seu método aliado a outras
técnicas baseadas em Allan Kardec.

O trabalho de tratamento da obsessão é feito, sempre, com os


médiuns diante dos assistidos em estado de obsessão. Os resultados têm
sido profundamente compensadores e - porque não dizer? - gratificantes.
Ali, em contato com aquelas criaturas atormentadas, destilando duras
palavras cheias de ódio, aprendemos, realmente, o que é o Espiritismo e
o que essa doutrina pode e tem condição de fazer pelos Espíritos
encarnados e desencarnados. Todos nós, trabalhadores do grupo, sem
exceção, aprendemos, na prática, os superiores desígnios da Lei de
Causa e Efeito.

Certa feita, uma senhora da sociedade baiana foi levada, ao nosso


grupo, por um assíduo freqüentador, para tratamento desobsessional. A
situação da assistida era deveras constrangedora. Presa de Espíritos
perseguidores, vivenciava, em conseqüência, um problema
pneumológico de profunda gravidade. Isto quer dizer que o assédio
pertinaz, sistemático, deliberado das entidades espirituais afetou, de
modo irreversível, os pulmões daquela senhora.

Devido a certos aspectos estranhos do caso, procuramos saber, e


sem ferir susceptibilidades, os trâmites de sua doença desde a sua gênese.
Ela já havia percorrido inúmeras clínicas especializadas, em várias partes
do Brasil e do Exterior. Após exames de toda a natureza, não se chegou
a um diagnóstico. A origem de sua enfermidade era desconhecida. O
certo é que a nossa assistida, por recomendação médica, submeteu- se a
uma traqueotomia 7, com que iria conviver pelo resto de sua vida,
acoplada a um botijão de oxigênio, que não podia ser desligado nem
mesmo para o asseio pessoal e para dormir. Ela chegou ao nosso grupo,
com a sua inseparável garrafa de oxigênio, causando, em todos nós, uma
inusitada emoção. A infeliz criatura era o retrato vivo da tristeza, do
desalento, da desesperança.

Iniciamos o trabalho. As entidades obsessoras se apresentaram,


destilando ódio e ressentimento. Contaram, com o transcorrer das
sessões, a vida pregressa da assistida, plena de lances aterradores.
Quantos conflitos! Quantas misérias perpetradas! Quantos atos
tresloucados, em nome do poder e da fortuna! Estávamos diante de um
quadro que pensávamos somente possível nos romances mediúnicos.
Mas, ali, ao vivo, em cores terríveis, desenrolava-se toda uma trama
obsessional de palingenésica repercussão. Tentamos a doutrinação
daqueles seres que se colocavam na posição de justiceiros, de autênticos

7 Traqueotomia: operação cirúrgica que consiste em incisar, em abrir a (traquéia, em geral


para restabelecer ou facilitar a respiração (conf. Novíssima Enciclopáedia DELTA
LAROUSSE, Ed, DELTA S/A).
verdugos. Alguns se sensibilizaram diante de nossas argumentações;
outros, usando do livre-arbítrio, permaneceram inacessíveis, impávidos
em seus nefandos objetivos.

Passaram-se os meses e o quadro obsessional permanecia quase


inalterável. Consultamos os mentores, em busca de orientação para
aquele especioso caso. A resposta veio de imediato. Aquela senhora,
atualmente sob o guante de sistemática obsessão, proviera de um passado
assaz delituoso que ora lhe cobravam.

Por questões éticas, os Espíritos preferiram não detalhar os horrores


que, levada por concepções distanciadas da Lei de Deus, ela perpetrara
contra seus semelhantes.

Esclareceram os mentores que aquele apêndice ligado ao aparelho


implantado em sua traquéia, que tanta compaixão causava, na verdade
era o freio de que aquele Espírito necessitava para não se comprometer
moralmente, mais do que já estava comprometido, frente aos
ordenamentos da Lei Divina. Livre, certamente daria vazão a inferiores
e infelizes impulsos, alimentados pelos seus algozes, que a queriam,
ansiosa e definitivamente, do outro lado da vida, e, mais facilmente, a
seu alcance. Recomendaram, então, os mentores que o tratamento se
limitasse aos passes. Era só o que se podia fazer naquele estranho caso.

Com o passar do tempo, a nossa assistida foi rareando a sua ida ao


Centro, até que desapareceu de todo. Até quando tivemos notícia,
soubemos que ela continuou usando o aparelho e sempre acompanhada
do frasco de oxigênio que a mantinha viva, neste plano, sofrendo o
perene assédio dos seus comparsas de vidas anteriores, numa confraria
de rancores não resolvidos provavelmente por várias existências
pregressas.
Em futuro desconhecido, todos esses Espíritos, comprometidos
entre si, hão-de reabilitar-se perante eles próprios e a Lei de Deus,
através da reencarnação, o competentíssimo instrumento de renovação
espiritual, aplicado, à hora certa, àqueles que têm fome e sede de justiça,
conforme o preceito evangélico.
A Obsessão Coletiva

A obsessão e a subjugação são, de ordinário, individuais; mas, às


vezes, são coletivas. Quando uma falange de Espíritos maus se abate
sobre uma localidade, é como se fosse uma tropa inimiga que a tomasse
de assalto. O número de pessoas assediadas por esses Espíritos é
alarmante.

Um dos casos mais incríveis de obsessão coletiva verificou-se na


localidade francesa de Morzine. Eis como o jornal Magnéíiseur,
publicado em Genebra (Suíça), em seu número de 15 de maio de 1864,
noticiou o nefasto acontecimento:

A epidemia demoníaca que, desde 1857, reina no burgo de Morzine e


nos casebres vizinhos, situados entre as montanhas da Alta-Sabóia, ainda
não cessou a sua devastação. O governo francês, desde que a Sabóia lhe
pertence, preocupou-se com o caso. Enviou ao local homens especializados,
inteligentes e capazes, inspetores dos hospícios de alienados etc., afim de
estudar a natureza e observar a marcha da doença. Tomaram algumas
medidas, tentaram o deslocamento e transportaram as jovens doentes para
Chambéry, Annecy, Evian e Thonon etc. Mas os resultados dessas tentativas
não foram satisfatórios. Malgrado o tratamento médico, as curas foram
inexpressivas. E quando as infelizes jovens retornam as suas casas, recaem
no mesmo estado de sofrimento. Depois de haver atingido, inicialmente, as
crianças e as mocinhas, a epidemia estendeu-se às mães de famílias e as
senhoras idosas. Poucos homens lhe sentiram a influência; contudo, custou
a vida de um deles. Esse infeliz meteu-se no estreito espaço entre o fogão e
a parede, de onde dizia não poder sair; ali ficou um mês, sem se alimentar
- morreu de esgotamento e inanição.

Nossos leitores sabem que o flagelo atribuído pelos camponeses de


Morzine e, o que é mais desagradável, por seus condutores espirituais “ao
poder do demônio”, se manifesta naqueles que são tomados por convulsões
violentas, acompanhadas de gritos, de perturbações do estômago e gestos
exóticos, sem falar dos escândalos que promovem quando os obrigam a
entrar numa igreja.

Em vão prodigalizam preces e exorcismos: em vão levaram os doentes


para hospitais de várias cidades distantes. Enfim, frustrados todos os meios,
quiseram tentar um grande golpe: Monsenhor Maguim, bispo de Annecy,
anunciou que iria a Morzine para ensinar os meios de vencer a terrível
doença. A boa gente da aldeia esperava maravilhas dessa visita.

Ela ocorreu sábado, 30 de abril e domingo, 1º de maio de 1864 e eis as


circunstâncias que a marcaram.

No sábado, pelas quatro horas, o prelado aproximou- se da aldeia.


Estava a cavalo, acompanhado por grande número de padres. Tinham
procurado reunir os doentes na igreja; alguns levados à força. “Desde que
o bispo pisou em terras de Morzine”, diz uma testemunha ocular, “os
possessos foram tomados de convulsões as mais violentas, e, em particular,
as que eram mantidas na igreja soltavam gritos e urros, que nada tinham de
humano. Todas as moças que, em diversas épocas, tinham sido atingidas
pela doença, sofreram a sua volta e viram-se diversas outras que há cinco
anos não eram atingidas, vítimas do mais terrível paroxismo dessas crises
horríveis”, O próprio bispo empalideceu ao ouvir os urros que acolheram
a sua chegada. Não obstante, continuou a avançar para a igreja, malgrado
a vociferação de alguns doentes que haviam escapado das mãos de seus
guardas para se atirarem à sua frente, injuriando-o. Ele apeou-se à porta
do templo e entrou. Apenas acabou de entrar, a desordem redobra. Então
foi uma cena verdadeiramente infernal.
As possessas, cerca de setenta, com um único rapaz, juravam, rugiam,
saltavam em todos os sentidos. Isto durou horas. E quando o bispo quis fazer
o crisma, o furor redobrou. Tiveram que arrastar as jovens para junto do
altar. Sete ou oito homens tiveram que reunir seus esforços para vencer a
resistência de algumas. Os policiais deram mão forte. O bispo devia partir
às quatro horas; às sete da noite ainda estava na igreja, onde não lhe
puderam trazer três doentes; conseguiram arrastar duas, arquejantes, com
espuma na boca, blasfêmias nos lábios, até junto ao bispo. A última resistiu
a todos os esforços. Vencido de fadiga e de emoção, ele teve que renunciar
a lhes impor as mãos. Saiu da igreja trêmulo, desequilibrado, as pernas
cheias de contusões recebidas das possessas, enquanto estas se agitavam
sob sua bênção.

Saiu da aldeia deixando aos habitantes boas palavras, mas sem lhes
esconder a profunda impressão de estupor que havia experimentado em
presença de um mal que não podia imaginar tão grande. Terminou
confessando “que não se tinha sentido bastante forte para conjurar a chaga
que tinha vindo curar e prometendo voltar, ao menos munido de poderes
maiores.

Um outro jornal, Courrier de Alpes, assim se manifesta:

Todos conhecem a triste e singular doença que, há anos, aflige a


comunidade de Morzine, à qual não se sabe que nome dar. A ciência aí se
perde - eis uma confissão da impotência. Então, que é que farão os médicos?
Os alienistas fracassaram. Ora, desde que a ciência em si se perde, o que é
uma grande verdade, os alienistas não são mais especialistas que os
cirurgiões... Tudo revela uma causa moral e enviam homens que só
acreditam na matéria. Procuram na matéria e ai nada encontram. Isto prova
que não procuram onde é preciso. Se querem médicos mais especialistas,
que os escolham entre os espiritualistas e não entre os materialistas. Ao
menos aqueles poderão compreender que possa haver algo fora do
organismo.

A religião não foi mais feliz: usou suas munições contra os diabos,
sem poder chamá-los à razão. Então os diabos são os mais fortes, a menos
que não sejam diabos. O que se conclui de tudo isso é que nada do que
os religiosos empregaram deu resultado e não terão melhor resultado
enquanto se obstinarem em não buscar a verdadeira causa onde ela está.

Um estudo mais atento dos sintomas evidencia estar na ação do


mundo invisível sobre o mundo visível, ação que é a fonte de mais
afecções do que se pensa, e contra as quais a Ciência falha, porquanto
ataca o efeito e não a causa. Numa palavra, é o que o Espiritismo designa
pelo nome de obsessão, levada ao mais alto grau, isto é, de subjugação
ou possessão. As crises são efeitos consecutivos - a causa é o obsessor.
E sobre este que se deveria agir.

Dirão que esse sistema é absurdo. Absurdo para os que nada


admitem fora do mundo tangível, mas muito positivo para os que
constataram a existência do Mundo Espiritual e a presença de seres
invisíveis em torno de nós. Aliás, o sistema é baseado na experiência e
na observação, e não numa teoria preconcebida. A ação de um ser
invisível malévolo foi observada numa porção de casos isolados, tendo
completa analogia com os fatos de Morzine, de onde é lógico concluir
que a causa seja a mesma, desde que os efeitos são semelhantes. A
diferença está no número.

Ora, desde que libertaram os doentes atingidos pelo mesmo mal,


sem exorcismos, sem medicamentos e sem polícia, o que se fez alhures
poderia ser feito em Morzine.
A igreja acredita nos demônios (crença sempre revalidada por
dispositivos papais), isto é, numa categoria de seres de uma natureza
perversa e votados, eternamente, ao Mal, por isso mesmo,
imperfectíveis. Com tal idéia, ela não procura melhorá-los. Ao contrário,
o Espiritismo reconheceu que o mundo invisível é composto de almas ou
Espíritos dos homens que viveram da Terra e que, após a morte,
povoaram o espaço; nesse número há os bons e os maus, como entre os
homens que se compraziam, em vida, em fazer o Bem ou o Mal, se
comprazem, ainda, em fazê-lo após a morte. Mas todos, sem exceção,
estão submetidos à lei do progresso e podem evolver. Não são, pois,
demônios, mas Espíritos imperfeitos.

Sua ação sobre os homens se exerce, ao mesmo tempo, sobre o físico


e a moral. Daí uma porção de afecções que não têm sede no organismo e
loucuras aparentes refratárias à qualquer medicação. É um novo ramo da
patologia, que se pode designar pelo nome de PATOLOGIA
ESPIRITUAL. A experiência ensina a distinguir os casos desta categoria
dos que pertencem à PATOLOGIA ORGÂNICA.

Finalmente, alguém pode perguntar:

- Por que Deus permite que os maus Espíritos atormentem os vivos?

Com igual razão poder-se-ia perguntar:

- Por que permite que os vivos se atormentem entre si e se destruam


mutuamente?

Afinal de contas, o mundo corporal e o mundo espiritual se


compõem dos mesmos seres em dois estados diferentes.
O Estranho Método do Dr. Wickland

O trabalho do Dr. Karl A. Wickland foi notável, embora utilizasse o


estranho método do choque elétrico, ou seja, a eletricidade estática para
deslocar o Espírito obsessor. Os resultados que obteve, no campo da
desobsessão, foram surpreendentes, livrando um sem-número de
pacientes da tristíssima clausura em manicômios e sanatórios
psiquiátricos, onde iriam, inevitavelmente, encharcar-se de barbitúricos.

Na capa de seu livro Thirty Years Among the Dead [Trinta Anos Entre
os Mortos], editado em 1924 e reeditado na década de 1970 pela
Spiritualist Press (de Londres), estampa-se a opinião de Sir Arthur Conan
Doyle, o criador do legendário Sherlock Holmes e autor da obra História
do Espiritismo.

A demonstração psíquicafeita pela Senhora Wickland - opina o


célebre escritor britânico - foi certamente uma extraordinária realização
e nos deixa a todos em estado de estupefata admiração ... Foi muito
impressiva. Jamais encontrei alguém que possuísse tão ampla experiência
dos invisíveis como o Dr. Wickland. Seu sistema é baseado em considerável
quantidade de experimentação direta e observação. Se ele conseguir
convencer, e acho que conseguirá, seu nome será lembrado como o de
Harvey ou Lister ou qualquer outro grande mestre revolucionário da ciência
médica - e, no entanto, todo o seu sistema não passa de uma volta ao
princípio que era lugar-comum ao tempo do Cristo.

No prefácio da obra, Dr. Wickland escreveu Leia, não para


considerar, mas para ponderar e considerar. E, adiante, afirma que não
pretende promulgar nenhum “ismo” ou culto, mas apresentar os relatos
e deduções de trinta anos de pesquisa experimental na ciência da
psicologia normal e anormal. No capítulo a que deu o título - O Inter-
relacionamento dos Dois Mundos, dirige-se aos que apenas crêem no que
pode ser aferido pelos sentidos:

A natureza visível não é mais do que o incrível, o Real, tornando


manifesto por meio de uma combinação de elementos (...)

(...) nenhum outro assunto tem sido tão bem autenticado através dos
tempos e em toda a literatura como o da existência do Espírito e a vida
futura.

E, à guisa de exemplo, o pesquisador retroage à Grécia clássica, a


Roma e aos primórdios do Cristianismo, quando a crença no Espírito era
uma questão de ordem natural, simplesmente consolidada. Entre os
notáveis pensadores, que criam na imortalidade da alma, citados pelo Dr.
Wickland, destacam-se: Heródoto, Sófocles, Eurípedes, Platão, Horácio,
Virgílio, Plutarco, Flavius Josephus e os luminares da Escola de
Alexandria. Modernamente, lembra a figura de John Wesley, conhecido
teólogo reformista, autor do livro O Mundo Invisível, onde se inserem
estas palavras:

É fato que os ingleses em geral - na verdade a maior parte dos sábios


europeus - consideram os relatos de feiticeiras e aparições como fábulas.

John Wesley protesta, com veemência, contra esse radicalismo.

Outros pesquisadores são citados pelo Dr. Wickland, permitindo-


lhe, ante as opiniões por eles formuladas, dizer que o mundo espiritual e
o físico estão em constante interação. O plano espiritual não é uma vaga
intangibilidade, mas real e natural, uma vasta zona de substância
refinada, de atividade e progresso, e a vida ali é uma continuação da vida
no mundo físico.
Uma técnica singular de Desobsessão

A revista alemã Zeitschriffuer Metapsychisclie Forschung, do ano


de 1932, veicula uma matéria de autoria do Dr. Wickland, psiquiatra
sueco, naturalizado norte-americano.

É um trabalho muito citado como um clássico da literatura psíquica.

Na supracitada revista alemã, o Dr. Wickland relata um caso


intrigante de obsessão, em que uma menina, que apresentava uma
aparência senil, via-se pertinazmente assediada por uma velha senhora
desencarnada em 1870.

Para nós - elucida o Dr. Wickland no preâmbulo do artigo - Já não


existe mais a pergunta: haverá realmente uma continuação da vida do
Espírito depois da morte? O que devemos fazer para despertar a
Humanidade do seu sono de letargia e convencê-la que a vida além-túmulo
é um fato. Mais ainda: que as almas dos desencarnados muitas vezes
intervém nos acontecimentos de nossa vida corpórea?

Relatamos, aqui, os trâmites do caso referido.

O médico Dr. S. levou para uma sessão de cura (desobsessão) no


“National Psychical Institute”, dirigido pelo Dr. Wickland, uma menina
de 12 anos, cujo sofrimento tivera resistido a todos os tratamentos
regulares da ciência oficial. Há três anos que essa jovem tornara-se
inválida, tendo perdido, por completo, o domínio sobre os seus membros.
Às vezes, passava vários dias em surdez e absoluto mutismo, dos quais
ninguém conseguia demovê-la, e apresentava a aparência de uma velha.

O Dr. Wickland, ao comprovar que se tratava de um singular


processo obsessivo, empreendeu, em vão, todos os meios persuasivos
para conseguir a manifestação do Espírito. Recorreu, então, ao método
extremo - choques elétricos na paciente - forçando o afastamento do
obsessor, que incorporou na médium, sua esposa, Sra. Anna Wickland.

Seguiram-se as perguntas e respostas, como acontece em sessões


espíritas de doutrinação. O Espírito, após demorado trabalho de
persuasão, admitiu a realidade da vida espiritual e contou a sua história.
Fizera parte de uma seita religiosa, onde prevaleciam a superstição e um
profundo fanatismo religioso. Ao final dos diálogos, o Espírito
perturbador arrependeu-se e pediu ao Dr. Wickland que dissesse à jovem
que nunca mais iria perturbá-la. Em seguida, despediu-se dizendo que ia
embora com esta gente8 que se achava em redor...

Daí em diante, a menina Jennie Brown começou a transmudar a sua


feição física; ressurgiu na plenitude e no frescor de seus doze anos,
transbordando de alegria.

O pensamento e a obsessão

Exatamente como ensina a Doutrina Espírita, Dr. Wickland chegou


a conclusão que o fenômeno da morte ocorre de maneira tão natural e
simples que grande número de pessoas, depois de abandonarem o corpo
físico, não têm consciência de que a transição se deu e, sem
conhecimento da vida espiritual, ficam totalmente inconscientes do fato
de haverem passado para outro estado do ser.

Ademais, a morte não transforma ninguém em santo ou um


ignorante em sábio. E as reações dos desencarnados variam. Há os que

8 Referia-se, provavelmente, a Espíritos que auxiliavam a menina obsidiada na libertação


de seus tormentos.
não conseguem libertar-se dos interesses materiais; a maioria, na
verdade, fica perdida e confusa. Não raramente, impelidos por
inclinações maldosas, buscam evasões para essas tendências,
permanecendo em tais condições até que esses desejos destrutivos sejam
superados, quando os Espíritos evoluídos conseguem alcançá-los e
ajudá-los.

Em dado momento, o Dr. Wickland trata do problema obsessional.


Às linhas tantas, observa:

(...) os pensamentos e impulsos do Espírito pesam sobre u ser


encarnado, provocando distúrbios de toda a sorte, confusão de sentimentos,
angústias e sofrimentos. São os “demônios “ de todos os tempos (...)

A influência dessas entidades é a causa de muitos acontecimentos


inexplicáveis e obscuros da vida terrena e em grande parte da infelicidade
do mundo. Pureza de vida e de motivação, ou elevada intelectualidade não
oferecem necessariamente proteção contra a obsessão; a identificação e
conhecimento desses problemas são a única proteção.

A Humanidade está envolvida pela influência do pensamento de


milhões de seres desencarnados que ainda não alcançaram integral
compreensão dos objetivos mais elevados da vida. O reconhecimento desse
fato explica uma grande porção de pensamentos indesejáveis, emoções,
estranhos presságios, estados de depressão, irritabilidade, impulsos
desarrazoados, explosões irracionais de temperamento, paixões
incontroláveis e inúmeras outras manifestações mentais.

A não conscientização da morte

Relata o jornalista e escritor Hermínio Miranda a respeito do


trabalho de desobsessão praticado pelo psiquiatra:
O Dr. Wickland sabia que a experimentação às cegas poderia suscitar
problemas sérios e deformações mentais. Conhecia casos em que pessoas
sem experiência e invigilantes ficaram seriamente perturbados em
conseqüência de brincadeiras, tidas por inocentes, com o copo ou com o
indicador alfabético. Isso, porém, não invalida seus propósitos; pelo
contrário, o estimula a enveredar pela pesquisa para descobrir as razões
ocultas dos fenômenos.

O Dr. Wickland verificou que sua esposa era médium dotada de


grandes recursos, que evitava a experimentação por julgar que estava
perturbando os mortos indevidamente. A isso responderam os Espíritos
comunicantes que as concepções usuais sobre a sociedade póstuma
estavam completamente equivocadas. Explicaram que, na realidade, não
existe a morte, mas uma simples transição do mundo visível para a
invisível, e que muitos Espíritos se esforçam para se comunicar com os
homens, a fim de os esclarecer e ajudar. E mais: se o Dr. Wickland
quisesse, eles, os Espíritos, se incubiriam de trazer entidades
atormentadas para tratamento e observação; manteriam tudo sob estrita
vigilância e controle. A proposta foi aceita. Seguiram-se alguns
fenômenos convincentes, ilustrando o mecanismo que o médico
começara a analisar com a inestimável colaboração de Anna Wickland.

O Dr. Wickland, certo dia, ao voltar para casa à tarde, teve uma
surpresa. Sua mulher manifestou súbito mal-estar, queixando-se de
estranhas sensações. Estava quase a cair, quando se empertigou e disse:

- Que história é essa de me cortar?

O Dr. Wickland estivera, há pouco, fazendo um estudo de Anatomia,


dissecando a perna do cadáver de um homem de 60 anos. Respondeu-
lhe, então, que não estava cortando ninguém, mas o Espírito indignado,
replicou:

- Naturalmente que está. Você está cortando a minha perna...

O Dr. Wickland logo deduziu que o manifestante era o dono do


cadáver e se dispôs a uma longa conversação com ele. O Espírito não
aceitava o procedimento do Dr. Wickland, pois se sentia “vivo”. Com o
passar do tempo, a entidade espiritual cedeu às lúcidas argumentações
do doutrinador, admitindo, finalmente:

- Acho que devo estar naquele estado a que chamam de ‘morto Então,
de nada me serve mais o meu velho corpo. Se você pode aprender alguma
coisa cortando-o, prossiga e corte o que quiser.

E daí, pediu um pouco de fumo para mascar, sendo-lhe negado. Este


desejo do Espírito serviu como elemento comprobatório, porque o Dr.
Wickland, reexaminando, posteriormente, o cadáver, constatou tratar-se,
o Espírito que o animou em vida, de um inveterado consumidor de
tabaco.

Uma pergunta poderia então surgir, observa o Dr. Wickland:

- Por que as inteligências mais evoluídas não tomam conta dos


Espíritos perturbados para esclarecê-los sem necessidade de recorrer ao
médium?

E que muitos desses Espíritos se acham de tal maneira envolvidos


pelas suas fixações e impressões terrenas que somente se tomam
acessíveis quando postos em contato com as condições físicas que
experimentavam quando na carne. Uma vez conscientes do novo estado
em que se encontram depois da morte, torna-se mais fácil o caminho da
recuperação total. Muitos deles são difíceis de doutrinar e esclarecer por
causa do entranhado dogmatismo de suas opiniões ou de suas paixões,
ódios e frustrações. Quanto à médium, refere-se à esposa, Anna
Wickland:

(...) a despeito de tão longos anos de trabalho psíquico e de demonstrar


toda aquela terrível seqüência de distúrbios mentais temporários, jamais
sofreu qualquer disfunção psíquica. Foi sempre equilibrada, sadia, positiva,
racional. Exerceu sua faculdade mediúnica durante 35 anos.

O Dr. Wickland e a reencarnação

Embora Hermínio Miranda considere a obra do Dr. Wickland séria


e construtiva, adverte que apenas um senão, aliás muito importante,
infiltrou-se sutilmente no acervo de dados que reuniu pacientemente ao
longo dos anos:

(...) ele não apenas recusava a idéia da reencarnação, como tentou


demonstrar que chegava a ser prejudicial à evolução do Espírito.

No Capítulo XV de sua obra Thirty Years Among the Dead, por


exemplo, o médico norte-americano declarou, equivocadamente, que:

“a crença na reencarnação na Terra é falaz e impede o progresso às


mais elevadas esferas espirituais depois da transição, ao passo que
numerosos casos de obsessão trazidos ao nosso cuidado são devidos a
Espíritos que, na ânsia de se reencarnarem em crianças (!), encontraram-
se prisioneiros de suas auras magnéticas, causando grande sofrimento tanto
às suas vítimas como a si mesmos.”

Tais afirmativas revelam que o Dr. Wickland desconhecia, por


completo, o princípio da reencarnação, assumindo, entretanto, uma
postura incisiva a respeito, fruto das deduções extraídas das
comunicações de Espíritos perturbados, e não evoluídos. Relata alguns
casos que evidenciam o desacerto de suas teses anti- reencamacionistas.

O primeiro caso é o do menino Jack T., de Chicago, que, a partir dos


cinco anos de idade, começou a manifestar estranhos sinais de
perturbação e, sob certos aspectos, precocidade. Preocupava-se com
ninharias, permanecia longas horas acordado durante a noite, ruminando
pressentimentos e manifestações, às vezes, apresentando um
temperamento incontrolável. Queixava-se de sua velhice e de sua feiura.
A família procurou o Dr. Wickland, que procedeu à desobsessão através
de sua esposa.

O Espírito atraído disse chamar-se Charles Herrman. Sabia que


havia morrido e declarou ser muito feio e que ninguém gostava dele.
Como alguém lhe dissera, um dia, que as pessoas morrem e reencarnam,
ele só pensava em renascer num corpo bonito e elegante, no qual fosse
amado.

Sem conhecimento de nenhum dos mecanismos do plano espiritual,


pensou que poderia tomar conta do primeiro menino bonito que
encontrasse. E, assim, ligou-se a Jack T., a quem transferiu os seus
problemas espirituais.

Baseado neste e em casos semelhantes, o Dr. Wickland tentou


demonstrar que a reencarnação é causadora de obsessões, confundindo
os fatos, evidentemente.

Mas, vale a pena citar o que aconteceu ao menino J. A., de sete anos,
assediado pelo Espírito que, em vida, recebeu o nome de Eduardo
Jackson, e que tentava reencarnar a todo o custo. Era a sua quarta
experiência nesse sentido, sempre procurando apossar-se do corpo de
uma criança. Em dado momento da comunicação, o experimentador
pergunta:

- Você não acha que é melhor parar com essas tentativas de


reencarnação ? ...

Realmente, era uma tentativa inútil e equivocada do processo de


renascimento através de uma incorporação no médium.

Em janeiro de 1920, manifestou-se uma entidade que disse chamar-


se Ella Wheeler Wilcose, cujas idéias esposadas e transmitidas através
da Sra. Anna Wickland vêm confundir, ainda mais, o espírito do
investigador, sobre a palingenesia, quando diz:

Seja cauteloso na procura da verdade, pois a estrada é perigosa...


Houve uma época em que eu admiti a reencarnação. Fui por algum
tempo teosofista. A Teosofia é uma boa doutrina, seus pensamentos e
ensinamentos são belos, mas por que deveremos reencarnar neste
pequeno planeta? Eu não gostaria de voltar ao plano terrestre, exceto
para falar a vocês acerca da vida mais elevada e real que os espera.
Não gostaria de voltar a este plano terrestre novamente para ser um
bebezinho.

Não vejo por que eu deveria fazer isso, pois o que teria eu a aprender?
Poderiam as almas como nós voltar a ser crianças e sentirem-se satisfeitas?

A comunicação do Espírito Ella Wheeler Wilcose se encaixava,


como uma luva, nestas oportunas advertências de Allan Kardec,
inseridas na Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Sabe-se que os Espíritos, em conseqüência das suas diferenças de


capacidade, estão longe de possuir, individualmente, toda a verdade; que
não é dado a todos penetrar certos mistérios; que o seu saber é proporcional
à sua depuração, que os Espíritos vulgares não sabem mais que os homens;
que há, entre eles, como entre estes, presunçosos e falsos sábios, que crêem
saber aquilo que não sabem; sistemáticos, que tomam suas próprias idéias
pela verdade (...)

Segundo a Doutrina Espírita, os Espíritos desencarnados


expressam opiniões pessoais limitadas ao conhecimento que tenham
sobre determinado assunto. Exatamente como ocorre na Terra, nem
tudo está ao alcance do saber de todos os Espíritos.
A Obsessão e a Eficácia da Prece
A oração é uma força tão real como a da lei da gravidade.

É o único poder no mundo que parece vencer as chamadas leis da natureza.

Alexis Carrel

Após muitos anos de militância espírita, sabemos que, nos trabalhos


mediúnicos, a prece é indispensável. Quando um Espírito maligno exerce
a sua nefasta influência sobre alguém, por motivos aqui referidos, um
dos expedientes a ser adotado é a prece; a prece fervorosa, e, sobretudo,
confiante.

Numa sessão que o Dr. Carlos Imbassahy, autor de O Espiritismo à


Luz dos Fatos, dirigia, falava ele sobre pontos evangélicos, quando uma
jovem presente tomou o aspecto de louca furiosa e quis rasgar-se.
Depois, investiu contra os assistentes. Houve pânico, que aumentou
quando a viram quase a atirar-se de uma janela.

Uns a seguraram; outros davam-lhe passes; outros traziam-lhe


coisas para cheirar; cada qual alvitrava um meio, todos inteiramente
inúteis, todos lamentavelmente anódinos.

Interveio, por último, o Dr. Carlos Imbassahy, fazendo com que se


retirassem os curiosos; e cercado de um grupo de médiuns, procurou dar
passes na possessa. Estes a enfureceram ainda mais. Ela se lançou a eles,
dizendo os maiores impropérios, e esbofeteava, arranhava e rasgava as
roupas dos médiuns, que já estavam exaustos. Transcrevemos, então o
relato do Dr. Imbassahy:

Os amigos entreolhavam-se atônitos, desanimados. Era preciso


chamar a ambulância. Mas seria o escândalo. Seria a confissão completa
de falência de todos os nossos processos.
As lágrimas vieram-nos aos olhos. Compreendemos, então, a extensão
de nossas fraquezas. Apelamos para o Pai. E orámos. E orávamos e
chorávamos. Porque negar a nossa fragilidade? Éramos os responsáveis
pela reunião.

Chorávamos e orávamos.

Quando já ia descer as escadas, em busca do telefone, diz a jovem, com


voz mudada, com timbre masculino:

Ah! Puderam mais do que eu, desta vez!

E acalmou. E acordou. E perguntou-nos, sorridente, ingênua,


ignorante de tudo que se passara: Que foi? Que foi que houve?...

Estava curada. Estava curada pela prece!

O caso supracitado lembra o que se conta, nos Evangelhos, sobre


um jovem, possuído por um Espírito perverso, cujo pai pedira a Jesus
que o livrasse daquela constrangedora e doentia coação, depois de o
terem tentado, em vão, os discípulos.

Vendo estes que, a uma ordem enérgica do Mestre, o terrível


Espírito obsessor deixara imediatamente a sua vítima, o jovem, que antes
vivia acorrentado feito louco indomável, aproximaram-se de Jesus, em
particular, e indagaram:

- Por que não podemos nós expulsá-lo?

- Esta casta de Espíritos - esclareceu Jesus - só se consegue expelir à


força de oração.

Na Revue Spirite de janeiro de 1863, volume I, Allan Kardec reporta-


se a um caso em que é notória a eficácia da prece em caso de doença
agravado pela influência de maus espíritos.

Certa jovem, contrariada em suas inclinações, havia se casado com


um homem a quem não amava. A mágoa que sofreu levou-a a distúrbio
mental, sob o domínio de uma idéia fixa, perdeu a razão e teve de ser
internada. Ela jamais ouvira falar de Espiritismo. Se dele se tivesse
ocupado teriam dito que os Espíritos lhe haviam transtornado a cabeça.
O mal provinha, assim, de uma causa moral acidental e exclusivamente
pessoal. Compreende-se que, em tais casos, os remédios normais
(psiquiátricos) nenhum efeito produzem. E, como não havia obsessão,
podia-se, também, duvidar do efeito da prece.

Um amigo da família e membro da Sociedade Espírita de Paris


julgou dever interrogar um Espírito superior, que respondeu:

- A idéia fixa dessa jovem, por sua mesma causa, atrai em sua volta
uma porção de Espíritos maus, que a envolvem com seus fluidos e alimentam
suas idéias, impedindo que lhe cheguem as boas influências. Os Espíritos
dessa natureza avultam sempre em semelhantes meios e constituem
obstáculo à cura dos doentes. Contudo, podereis curá-la, mas para tanto é
necessário uma força moral capaz de vencer a resistência; e tal força não é
dada a um só. Cinco ou seis espíritas sinceros se reúnam todos os dias,
durante alguns instantes, e peçam, com fervor, a Deus e aos bons Espíritos
que a assistam; que a prece seja, ao mesmo tempo, uma magnetização
mental; para tanto não necessitam estar junto a ela, ao contrário. Pelo
pensamento podem levar-lhe uma salutar corrente fluídica, cuja força estará
na razão do intento. Por tal meio poder-se-á neutralizar os maus fluidos que
a envolvem.

Seis pessoas se dedicaram a esta obra de caridade e, durante um mês,


não faltaram à missão aceita. Depois de alguns dias, a doente estava
sensivelmente mais calma. Quinze dias mais tarde, a melhora era
evidente e, agora, voltou para a sua casa em estado perfeitamente normal,
ignorando, ainda, de onde lhe veio a cura.

A prece é, realmente, um meio poderoso para auxiliar na libertação


dos obsidiados, mas não uma prece de palavras, ditas com indiferença e
como se fosse uma fórmula banal, o que não produziria efeito. E
necessário que seja uma prece ardente, uma espécie de magnetização
mental. A prece, portanto, não somente tem como efeito levar ao doente
um socorro adicional, mas, também, o de exercer uma eficaz ação
magnética.

Exclama Allan Kardec na Revue Spirite de janeiro de 1863:

- Que não poderia fazer o Magnetismo ajudado pela prece!

Em resumo, a prece fervorosa, saída do fundo d’alma, e os esforços


persistentes para se melhorar são os únicos meios de afastar os maus
Espíritos, que reconhecem e temem a força daqueles que, sincera e
evangelicamente, praticam o Bem, ao passo que as fórmulas e
expedientes exorcistas os fazem rir, assim como as práticas fetichistas
(desenvolvidas na quimbanda) excitam-lhes de tal sorte que podem levar
suas vítimas ao hospital ou ao túmulo.

A ineficácia do exorcismo e quejandos, nos casos de subjugação, é


constatada pela experiência, e está provado que, na maioria das vezes,
tais procedimentos aumentam o problema em vez de abrandá-lo. A razão
disso é que a influência está toda no ascendente moral exercido sobre os
maus Espíritos, e, não, num ato exterior.
O exorcismo e atos semelhantes praticados nos círculos fetichistas
consistem em cerimônias e fórmulas das quais os maus Espíritos
escarnecem. Eles vêem e sentem que querem dominá-los por meios
impotentes, que pensam em intimidá-los com práticas vãs, e, por isso,
procuram mostrar que são mais fortes, redobrando sua ação. São como
cavalos espantadiços que lançam por terra cavaleiros inábeis, e que se
submetem quando encontram quem os domine com habilidade e
competência. Ora, o verdadeiro senhor é, aqui, o indivíduo de coração
puro, porque é o mais atendido pelos bons Espíritos.
Nos Labirintos da Auto-Obsessão

A auto-obsessão decorre de um processo de polarização mental. É a


polarização mental que conduz o indivíduo a um estado de
condicionamento mental, ou seja, é uma auto-sugestão. Basta uma
criatura credenciar uma determinada coisa, fixando a sua atenção sobre
a mesma com persistência, para condicionar o seu pensamento, levando-
a ao processo auto-obsessivo.

A verdade é que, e segundo o psiquiatra espírita Alberto Calvo 9,


quando a criatura fixa o pensamento numa determinada direção, faz com
que todas as coisas da sua vida, todas as atividades intelectuais, sociais,
esportivas etc., sejam conduzidas àquela direção. Esse direcionamento,
pela prevalência absoluta, evolui para uma polarização da mente,
gerando um condicionamento. Todo condicionamento é uma idéia fixa,
e toda idéia fixa, sem dúvida, leva a criatura à exaustão das energias
biopsíquicas. Há um desgaste muito grande do fluido bio-magnético e,
ao mesmo tempo, a criatura, em face da polarização mental, passa a
executar atividades que envolvem determinados centros cerebrais, em
muito maior intensidade do que seria adequado, para a função
psicológica.

Quando a mente se polariza no sexo, por exemplo, são os centros


cerebrais que, ativados exageradamente, controlam e transformam, em
sensações objetivas, a função sexual. Esses centros cerebrais, ativados
até seu limite máximo, impedem que a pessoa credencie outras
atividades, e, dessa maneira, o sexo passa a ocupar todos os espaços da

9 Palestra proferida no Centro Espírita Nosso i.ar. São Paulo, em 1985, no C1CLO DE
ENCONTRO COM A CULTURA
sua mente. Toma-se, pois, a finalidade básica de sua vida.

Finalmente, quando o indivíduo altera um ponto de seu perispírito 10,


pela sua polarização mental, pelo seu condicionamento mental, altera,
conseqüentemente, a função de um determinado centro perispiritual,
resultando em determinada característica vibratória. Um Espírito invade
o território de outro através desse ponto, dessa porta de entrada. Esta
porta é o ponto de toque; é aquele ponto em que ambos vibram numa
mesma faixa.

Sentindo-se mais estimulado, aquele que recebe a atuação pensa que


está muito bem, mas não se dá conta dos maus efeitos que aquele
estímulo lhe acarretará a curto, médio ou longo prazo. E se compraz. É
o processo obsessivo.

No decorrer do tempo, essa sintonia vai influenciando as outras


esferas do pensamento e gerando, gradativamente, desequilíbrios
psicossomáticos.

10 À luz da Filosofia Espírita, o Homem é uma entidade ternária: está constituído de


ESPÍRITO, PERISPÍR1TO E CORPO. Segundo o Espiritismo essencialista e clássico, o
perispírito é instrumento de natureza dialética, pois é por ele que o Ser desenvolve as suas
propriedades latentes. A função dialética do PERISPÍRITO pode comprovar-se pelo que
realiza na vida do Ser. O PERISPÍ RITO, formado de moléculas psíquicas - o que levou
Léon Denis a dizer que era um mundo radiante - expande forças para o exterior e absorve-
as no interior. O materialismo desconhece o PERISPÍ RITO, mas só por ele se explica a
economia do Ser integral. Além disso, sem PERISPÍRITO não haveria encarnação dos
Espíritos, nem percepção sensorial.
As Crianças e a Obsessão

É um notório tabu, no ambiente espírita, falar de crianças


obsidiadas. Há, até, quem, desavisadamente, bata pé firme negando a
possibilidade de uma inocente criança ser vítima da obsessão. O processo
obsessivo é uma coação, muita vez irresistível. A bibliografia a respeito
é quase nenhuma. Entretanto, por um longo período participando de
sessões de Socorro Espiritual ou, mais feqüentemente dirigindo-as,
tenho encontrado um sem-número de crianças, de várias faixas etárias,
assediadas por tenebrosas entidades espirituais. Criamos, por esse
motivo, um espaço nessas sessões especificamente destinado à
desobsessão dessas criaturinhas, sempre acompanhadas dos pais ou
responsáveis.

Em princípio, os adultos relutam em levar seus filhos, parentes ou


conhecidos a esses lugares. Mas, o amor e a solidariedade falam mais
alto. Ademais, já bateram a todas as portas, restando a do Espiritismo...
Por isso mesmo, o(a), pequeno(a) obsidiado(a) chega à Casa Espírita em
estado deveras lastimável. Devido, algumas vezes ao estado da criança,
nada ou pouco se pode fazer de concreto, a não ser conversar com os
Espíritos coatores informando-os sobre os trâmites silenciosos e eficazes
da Lei de Causa e Efeito. Pelo menos eles não irão dizer, mais tarde,
que não conheciam esse perfeito dispositivo legal que rege a vida moral
do seres encarnado e desencarnado em ambas as dimensões da
existência.

Pessoas que ouviam falar da nossa iniciativa ficavam horrorizadas,


considerando-a um absurdo! Por que a estranheza? Será, caro leitor, que
o Espírito que anima um corpinho de criança não pode sofrer perseguição
ou ser influenciado por outro Espírito, encarnado ou desencarnado? O
Espírito obsessor deveria esperar a criança crescer, tomar- se adulta, para
proceder aos seus nefastos intentos? Entretanto, ele não tem tais
escrúpulos. Afinal de contas, o processo é de Espírito para Espírito, e
este processo, pelo que nos consta, ainda é motivo de muita especulação.

Na verdade, a despeito das pesquisas já realizadas, no passado, não


se pode e não se deve agir de uma forma apriorística, preconceituosa,
devendo-se, isto sim, investigar o assunto, com cuidado, criteriosamente.
Foi assim que procedi. Desde o início das observações, constatei, sob
todos os aspectos possíveis, o problema, chegando a uma conclusão: a
obsessão na infância é uma realidade!

O certo é não se deixar levar pela opinião deste ou daquele autor,


especialmente brasileiro, que não é chegado à pesquisa e prefere emitir
seus pontos de vista baseado em suposições. Alguns repetem o que os
mais famosos afirmam, como se fossem os donos da verdade.

Entre os múltiplos casos que observamos, destaca-se o da menina


M(...) Um caso realmente espantoso. Era uma garotinha de apenas cinco
anos, que via um Espírito e com ele conversava. A entidade tinha uma
aparência de menina e dizia chamar-se LENE. Esta entidade costumava
brincar com especialmente quando sua mãe se ausentava de casa, um
velho sobrado situado em um dos sítios históricos da cidade do Salvador.
M(...) contou à genitora que LENE sempre lhe pedia para se jogar da
janela do sótão do sobrado, que dava para um pátio interno, que ela a
apararia. Ela ainda não o fizera porque sentia muito medo de se ferir. Na
verdade, o Espírito estava induzindo a criança ao suicídio.

A mãe de M(...) entrou em pânico. Pensou, imediatamente, que a


filha estivesse sofrendo de distúrbios mentais graves. Levou-a, de
imediato, a psicólogos e psiquiatra. LENE, o Espírito, passou a ser
chamado pelos profissionais que atenderam M(...) de consciente
subliminal e coisas que tais. Com o tratamento, a situação piorou. Dir-
se-ia que o obsessor ficara irritado com as providências da mãe.
Desesperada, esta, verificando que não se resolvia o caso ao correr de
tempo, procurou-nos, por indicação de pessoas amigas da família,
freqüentadoras da casa Espírita que dirijo em Salvador. Não foi fácil
atrair a entidade, que oferecia tenaz resistência. Por fim, eis que ela se
comunica através de um dos médiuns, plena de ódio e de desejo de
vingança.

No transcorrer das sessões, o ânimo do Espírito arrefeceu,


permitindo que chamasse a mãe de M(...) para conhecer a história que se
ocultava por trás daquele drama.

LENE, na verdade, era um Espírito sofrido, cheio de mágoas,


traumatizado, obcecado por um entranhado afa de vingança. Mas, era
respeitado, levando-se em consideração as suas idéias, embora torpes,
porque julgara ser justo fazer justiça com as próprias mãos, uma vez que
o seu desafeto escapara da LEI dos homens por tráfico de influência, em
virtude do poder de que desfrutava na sociedade em que ambos, obsessor
e obsidiado, viveram.

Com o bom desfecho do episódio, que serviu de lição para os


integrantes da sessão, tudo voltou ao normal. M(...) hoje, é uma
adolescente saudável, adepta da Doutrina Espírita. LENE não deu mais
notícias. Certamente, a LEI traçou os planos para a sua trajetória
existencial. Quem sabe tornará ao convívio de seu antigo inimigo, dentro
do que determina a Alquimia Moral, que transforma o ódio em amor?
A Ação dos Obsessores Durante o Sono

Os Espíritos reveladores ensinam que, durante o sono, os laços que


unem a alma ao corpo se afrouxam. Então a alma percorre o Espaço e
entra em relação mais direta com outras almas.

Indaga-se, a propósito, como se pode avaliar a liberdade da alma


durante o sono. Pelos sonhos - ainda informam os seres invisíveis
esclarecidos, e acrescentam - quando o corpo repousa e a alma dispõe de
maiores faculdades que no estado de vigília. Tem a lembrança do
passado e, às vezes, a previsão do futuro (retro e pré-cognição) e pode
entrar em contato com outros seres de sua espécie.

- Tive um sonho bizarro, um sonho horrível, mas que não tem nenhum
sentido.

Engana-se quem assim pensa. Na verdade, é, de ordinário, uma


reminiscência de lugares onde se viveu e de coisas vistas numa existência
transata.

Stephen King, mestre dos contos de terror, vivenciou, certa ocasião,


terrível pesadelo. Vê-se trabalhando numa sala quente e apertada,
enquanto uma mulher com aparência de louca, escondida atrás da porta
de um sótão, o espreita, tendo nas mãos, ameaçadoramente, um afiado
bisturi. O novelista acorda, em suores gelados, no momento em que a
mulher irrompe pela porta, brandindo a arma para agredi-lo.

- Os maus Espíritos - elucida Allan Kardec - se servem dos sonhos


para atormentar as almas que, com eles, de alguma forma, se identificam.

Um espírita conhecido, já desencarnado, viu-se, certa ocasião,


assediado por elemento da esfera espiritual, rancoroso e vingativo.
Segundo narrou, o Espírito queria transformá-lo em joguete de sua ação
maléfica. Descrevera uma vidente a figura ameaçadora do obsessor:

(...) escuro, baixote, mal-encarado, com uma cicatriz do lado do rosto,


o busto nu e peludo; na mão erguida, num gesto brutal, um longo punhal.

Algum tempo depois, o ilustre confrade soube o porquê de tal


vingança.

A história tivera sua origem em existência anterior. Por muito


tempo, esse Espírito criou uma série de contratempos, perturbando,
quase que diuturnamente, o sono de sua vítima que procedeu a um
processo de doutrinação, logrando êxito ao cabo de algum tempo.

Os exemplos a respeito do assédio de Espíritos durante o sono


avultam; vão desde a obsessão simples à inteira subjugação. Neste
particular, desponta o caso de uma jovem que, ao sair do corpo pelo sono,
ia em busca da própria mãe internada em um sanatório, submetendo-a,
em conluio com seres desencarnados perversos, aos seus tenebrosos
caprichos.

O estudo desse escabroso processo de subjugação revelou uma


terrível trama que teve sua gênese em remoto passado. Mãe, filha e seus
comparsas viveram, em tempos transcorridos, dolorosas experiências
que tiveram, ao longo dos séculos, a sua continuidade.

O Espírito dessa jovem foi evocado, enquanto seu corpo dormia, em


sessões realizadas na cidade do Salvador. Ele comparecia a contragosto,
revoltado, compulsoriamente, às horas mortas da noite. No curso do
lento e paciente trabalho de doutrinação, a entidade encarnada relatou o
que realmente aconteceu entre ela, a mãe e seus asseclas.
Pertenciam à alta sociedade de antiga civilização. Usufruíam dos
privilégios historicamente inerentes às classes nobres. Os prazeres e a
vida de ócio que levavam contribuíram para lhes minar o caráter já por
si só vulnerável. Descambaram todos para libertinagem que alcançaria,
com o passar do tempo, índices de profunda degradação.

A então mãe da jovem obsessora apaixonou-se pelo amante da filha


e fugiu com ele para lugar ignorado. Esta atitude contribuiu, ainda mais,
para agravar o desequilíbrio da filha traída, que cometeu o suicídio,
ingerindo poderoso veneno. Os mecanismos da reencarnação reuniram-
nas sob o mesmo teto, tentando levar ambos os Espíritos à reconciliação.

Os objetivos da Lei, porém, não surtiram os efeitos colimados,


recrudescendo, até, o ódio que a filha votava à mãe que sofria, quando
fora do corpo, quer pelo sono quer pelo efeito da medicação psiquiátrica,
implacável e radical assédio.

Esses dois Espíritos, que não conseguiram superar o ódio que os


unia, tiveram, infelizmente, um fim trágico - a jovem, mais uma vez,
apelou para o suicídio, jogando-se do edifício onde morava. A mãe,
tempos depois, em virtude de uma overdose de medicamentos, teve uma
parada cardíaca.

Aí está um caso que reflete a situação de muitos outros Espíritos


que, afrontando a Lei Natural, constroem sua via crucis, por onde
transitam sob o peso de inenarráveis sofrimentos.

Os sonhos, na realidade, representam uma parcela ponderável de


nossas existências passadas e presente, levando-se em consideração o
continuum espiritual, o que significa dizer que não há, para o ser
espiritual, solução de continuidade, a despeito das vidas sucessivas. O
Espírito é, pois, o fulcro de todo o processo de ajustamento e reabilitação
de que trata a Lei de Causalidade, esteja ele encarnado ou desencarnado.
As Obsessões Simuladas e as Doenças Fictícias

Na Revue Spirite referente a janeiro de 1869, insere-se interessante e


peculiar mensagem do Espírito Dr. Demeure sobre as obsessões
simuladas. A referida mensagem sobre a especiosa questão é, em
verdade, uma resposta dada, pela esclarecida entidade, a Allan Kardec:

A piedade pelos que sofrem não deve excluir a prudência e poderia ser
uma imprudência estabelecer relações com todos os que se apresentam a
vós, sob o império de uma obsessão, real ou fingida. É ainda uma prova pela
qual deverá passar o Espiritismo, e que lhe servirá para se desembaraçar
de todos os que, por sua natureza, embaraçariam o seu caminho. Troçaram,
ridicularizaram os espiritas; quiseram amedrontar aqueles a quem a
curiosidade atrai para vós, colocando-vos sob o patrocínio do demônio.
Nada disso teve êxito; antes de se render, querem desmascarar, numa última
bateria que, como todas as outras, resultará em vosso proveito. Não mais
podendo acusar-vos de contribuir para o aumento da loucura, enviam-vos
verdadeiros obsidiados, diante dos quais esperam que fracasseis, e
obsidiados simulados, que vos será impossível curar de um mal imaginário.
Tudo isso em nada de terá o vosso progresso, mas com a condição de agir
com prudência e aconselhar os que se ocupam dos tratamentos obsessionais
a consultar os seus guias, não apenas sobre a natureza do mal, mas sobre a
realidade das obsessões que poderiam ter de combater.

Allan Kardec observa que não é só contra as obsessões simuladas


que se deve pôr em guarda, mas contra pedidos de comunicação de
qualquer natureza, tais como: evocações, consultas a Espíritos que
exercem a Medicina etc, que podem ser armadilhas à boa-fé utilizadas
pelos que agem com intenção malévola. Convém, pois, não ceder a todos
os pedidos dessa natureza, senão com conhecimento de causa e em se
tratando de pessoas conhecidas ou devidamente recomendadas.

Além disso, os adversários do Espiritismo, levados por uma auto-


obsessão, aguardam e provocam situações de flagrar em faltas os
dirigentes e médiuns, quer para acusá-los, quer para levá-los ao ridículo.
Em semelhantes casos, conforme alerta Allan Kardec, é melhor pecar por
excesso de circunspecção do que por imprevidência.

A questão de que tratam Dr. Demeure e Allan Kardec, suscitada há


mais de um século, permanece, por assim dizer, na ordem do dia, isto é,
atualíssima. Há casos, realmente, de pessoas movidas pelo torpe desejo
de desmoralizar a Doutrina Espírita, lançando-a, e a seus adeptos, no
descrédito. Fingem-se de obsidiadas ou portadoras de fictícias doenças;
buscam as instituições espíritas, onde encontram a oportunidade de
concretizar os seus nefastos objetivos. Às vezes, obtêm êxito, pela
invigilância, despreparo ou, mesmo, boa-fé de seus dirigentes.

Os métodos de que se utilizam são variados. Certamente as falanges


contrárias à Terceira Revelação inspiram essas criaturas que nada, na
verdade, lucram com a derrocada, não do Espiritismo que é inatingível,
mas dos abnegados trabalhadores da seara do Bem.

São conhecidos casos em que Espíritos obsidiados, fingindo boas


intenções, investiram contra seareiros honestos e dedicados com o intuito
de os levar à desmoralização. O sucesso, não raramente, foi alcançado,
saindo-se vencedores os representantes das trevas. Dessa forma,
eliminam mais um foco de divulgação da Doutrina Kardecista e
enfraquecem o Movimento Espírita.

Todos quantos se voltam para a abençoada tarefa da desobsessão e


do nobre exercício da medicina espiritual, devem proceder, não somente
como recomendam Allan Kardec e o Dr. Demeure, mas, também, como
preconiza Jesus:

- Sede mansos como as pombas e prudentes como as serpentes.

Afinal de contas, vivemos em um plano notoriamente inferior, em


que o Espiritismo, com seus ensinamentos objetivos e moralizadores,
constitui-se em poderoso libelo a tantos quantos lutam para o anular,
porquanto se nutrem, como verdadeiras sanguessugas, das fraquezas
morais de seus semelhantes.
Os Espíritos Interferem em Nossas Vidas (Mais do que Supomos)

Allan Kardec esclarece que os Espíritos não são seres vagos e


indefinidos. São seres reais, determinados, circunscrito... que gozam de
nossas faculdades e de outras que nos são desconhecidas, porque
inerentes a sua natureza.

Os Espíritos constituem todo um mundo, toda uma população que


enche o Espaço, circulam ao nosso lado, envolvem-se em tudo que
fazemos e entram em contato conosco quando estamos, pelo sono,
desprendidos de nossos invólucros carnais.

Se se viesse a levantar o véu que no-los oculta, vê-los-íamos em


redor de nós; indo e vindo; seguindo-nos ou evitando-nos segundo o grau
de simpatia ou antipatia; uns indiferentes, outros ocupados quer consigo
mesmos, quer com os homens aos que se ligam, com um propósito mais
ou menos louvável, segundo as qualidades que os distinguem. Numa
palavra, veríamos uma réplica de gênero humano, com suas boas ou más
qualidades, com suas virtudes e seus vícios.

Esse acompanhamento, ao qual não podemos escapar, porque não


há recanto bastante oculto para se tornar inacessível aos Espíritos,
especialmente durante o sono, quando participamos, de modo natural, de
sua esfera de existência, exerce sobre os humanos uma influência
permanente, ou seja, obsessiva. Muitas vezes, as nossas determinações
são resultantes de suas sugestões. Felizes aqueles quando têm juízo
suficiente para discernir o bom ou o mau caminho por onde os procuram
levar.

Dado que os Espíritos são os próprios homens despojados do seu


invólucro grosseiro, ou almas que sobrevivem aos corpos, segue-se que
há seres humanos no Universo. São - como bem afirmou Allan Kardec -
uma das forças da Natureza.

Infere-se que os maus Espíritos aparecem onde alguma coisa os


atrai; encontram receptividade no meio onde se apresentam. Entre as
causas dessa atração, colocam-se, em primeiro lugar, as imperfeições
morais de toda a espécie e a credulidade excessiva, denunciadora de
perigoso fanatismo. Assim, vemos pessoas honestas e sinceras em seus
propósitos serem envolvidas por Espíritos velhacos, enganadores, como
acontece no mundo com as pessoas decentes, ludibriadas pelos patifes.
Mas, quando se adotam sérias e equilibradas precauções, os Espíritos
embusteiros desistem de seus nefastos intentos. Assim ocorre na relação
entre Espíritos encarnados e desencarnados.

Quando uma pessoa honesta é por eles enganada, pode sê-lo por dois
motivos: o primeiro, pela confiança absoluta que a leva a prescindir de
todo o exame: o segundo, porque as melhores qualidades não excluem
certos lados fracos que dão ensejo ao assédio desarmonizante dos
Espíritos.

Não falamos do orgulho, da ambição e das paixões. Falamos de uma


certa fraqueza de caráter que esses Espíritos são hábeis em explorar,
levando as suas presas à dependência psíquica, cujas conseqüências são
profundamente desastrosas.
Obsessão Por Encomenda

Há quem não acredite, mesmo no ambiente espírita, que certos


Espíritos inferiores, que convivem com os praticantes da feitiçaria ou da
quimbanda, promovem, às expensas de determinadas e sedutoras
promessas, os mais terríveis e escabrosos processos obsessivos.

Em inúmeras ocasiões, o autor deste trabalho teve a oportunidade


de entrar em contato com entidades desse jaez, que atormentavam, não
apenas uma pessoa, mas toda uma família. Tais seres invisíveis se julgam
incriados.

Cada Espírito assume características e nomes específicos e é


acompanhado, segundo se propala, por uma espécie de séquito de
escravos. Tudo é fruto, naturalmente, de um atávico condicionamento
cultural e sentimentos inferiores, como a vaidade exacerbada,
preservados e cultuados através de sistemáticos movimentos que se
encontram disseminados, não somente no Brasil, mas por diversos
países. Em alguns locais, chega-se a criar uma espécie de aparthaid ou
segregacionismo.

Na verdade, esses Espíritos são manipulados pelos líderes


encarnados que os utilizam, de comum acordo, na prática de atos que
ferem a Lei Natural, recebendo diversas denominações, de acordo com a
cultura da localidade onde residem seus seguidores. Assim, temos magia
negra, vudu, feitiçaria, macumba etc.

Os trabalhos, realizados em troca de gordos pagamentos, obedecem


a uma tabela de preços, conforme a complexidade do serviço a prestar, e
se destinam a atender os clientes em uma série de propósitos, geralmente
de interesse material, desde uma simples conquista amorosa até um
crime tenebroso.

Nesses casos, identifica-se uma espécie de processo obsessivo que


muitos estudiosos do Espiritismo insistem em ignorar. Mas é uma
realidade que deveria ser objeto das cogitações dos que militam nas
sessões de desobsessão, onde casos que se apresentam revestidos dessas
características não são tratados adequadamente.

Esses Espíritos obsessores, que não têm qualquer ligação com suas
vítimas, quer em passado palingenésico ou no presente, são obstinados
em seus intentos. E bastante dificultoso fazê-los desistir de assediar, de
modo tão determinado e nefando, as suas presas, que, por sinal, lhes
oferecem os elementos morais de que precisam para consolidar as suas
pretensões. Considerados verdadeiros vampiros por alguns estudiosos
dos fenômenos espirituais, tais entidades viciadas anulam e embrutecem
suas vítimas, põem-nas em sanatórios psiquiátricos, levam-nas à loucura,
atiram-nas ao suicídio e ao homicídio.

Tive oportunidade de tratar de casos tais, sendo, diga-se de


passagem, constantemente ameaçado por criaturas perversas e astutas
que agem com toda a consciência do que estão fazendo. Não têm
escrúpulo nem piedade; não poupam velhos, nem adultos, nem crianças.
Não fosse a proteção de Espíritos esclarecidos e conscientes do perigo
que representam esses seres, que teimam em imaginar que pertencem a
um espécie de Olimpo Sagrado, é evidente que as entidades amorais
conseguiriam colimar os seus ameaçadores objetivos. Os Espíritos
inferiores agem, a bem da verdade, protegidos pelas trevas da ignorância
e da descrença da Humanidade.

Os feiticeiros e magos de outrora incluíam, em seus rituais, o


sacrifício de animais e, mesmo, de seres humanos. Portanto, essa bizarra
e aterradora metodologia vem desde os tempos bíblicos, quando se
faziam sacrifícios de animais a Jeová, com anuência de um deus que, até,
ensinava, aos seus sanguinários adeptos, como deveriam saborear os
restos de tais oferendas.

Dir-se-ia que, para esses corifeus da magia negra nas terras do


Cruzeiro do Sul, nada mudou. Tudo continua no mesmo, e contando,
pasmem, com o beneplácito das autoridades governamentais, que lhes
concedem privilégios de toda ordem, que vão desde a imunidade fiscal à
doação de terrenos e ajuda financeira para que construam os seus templos
que, infeliz e aberrantemente, denominam de Casa Espírita.

Deve-se observar que inúmeras entidades oriundas dos cultos


africanos têm acorrido às nossas sessões de desobsessão. Aí, em vez de
serem sumariamente rejeitadas, são recicladas pelos Espíritos mentores
que as levam a se conscientizar de sua própria e intrínseca realidade
espiritual, filhas que são, como todos nós, da Inteligência Suprema. Na
escalada evolutiva, deixarão, certamente, de se arrastar pelas sarjetas do
ódio e da promiscuidade, descompromissando- se, a pouco a pouco, com
os ordenamentos redentoriais da Lei Natural.
Missa negra – A Liturgia da Obsessão

Os crimes a que tem conduzido a missa negra não podem ser


ignorados, pois a História relata-os a cada passo. Na época de Luiz XIV,
por exemplo, na França, viveu um dos seus períodos mais vivos nesse
aspecto, e centenas de pessoas encontraram a morte. Voisin - uma bruxa
célebre - para suas missas, nos quais era preciso sacrificar uma criança,
recorria ao miserável expediente de comprar recém-nascidos às mães
solteiras que desejavam desfazer-se dos produtos dos seus amores
ilícitos, e, quando isto não era suficiente, seqüestrava os filhos d aqueles
que estavam a seu serviço. Essas infelizes criaturinhas eram
barbaramente assassinadas e o seu sangue servia para embeber a hóstia
negra que era servida durante o macabro e obsessivo ritual.

Eis a descrição pormenorizada de uma missa negra, na qual se vê


até aonde o Homem pode chegar, quando desce a escada da maldade e
da sensualidade, fundamentos maiores do processo obsessivo em
altíssimo grau. Vide a obra Madame de Montespan e a Magia Negra, de A.
Vieira d’Areia.

Para surtir efeito, a Missa Negra tinha que ser celebrada por três
vezes. A primeira realizou-se na Capela de Vellebousin; a segunda,
quinze dias ou três semanas depois, numa habitação mais arruinada, em
Sant-Denis; a terceira em Paris. E esta última que nos descreve d’Areia
e parece ter-se realizado num pavimento que existia ao fundo do jardim
de uma casa da rua Beauregard, pertencente à Marquesa de Montespan,
amante oficial de Luiz XIV. A ela assistiram a bruxa Voisin, sua filha e
mais duas bruxas.

Uma das bruxas trouxera uma criança de poucos dias, comprada por
um escudo de ouro. Acendeu-se o fogo para derreter a banha de um
homem enforcado, fornecida pelo carrasco parisiense Guillaume, amante
da bruxa Voisin. Tratava-se de besuntar, com a banha humana, o círio
negro que iluminava a cerimônia, em que pululavam Espíritos da pior
espécie, desses que infestam os lugares onde prevalecem as paixões
abjetas e a desmedida cobiça.

Embora fosse aquela a terceira vez que se preparava para o estranho


ritual, a Marquesa de Montespan, a quem a bruxa Voisin ajudava a
desnudar-se, mostrava-se nervosa. Teve um estremecimento quando a
roupa caiu, para que, inteiramente nua, servisse de altar.

A bruxa recomendou-lhe coragem, ao senti-la hesitante:

- Bem sabe que, para o pacto que vai celebrar com o poderoso Espírito
das Trevas é preciso que o seu corpo fique nu.

- E o sangue da criança cairá sobre mim!... murmurou a Marquesa.

E, em seguida, apavorada:

- Não! Não quero!

A bruxa insiste, tentando estimular sua cobiça:

- Pense no trono da França!

Vendo que a marquesa hesita, a bruxa a estimula:

- Pense no amor do rei! Nada receie. Satanás apreciará a oferenda de


tão belo corpo.

A marquesa, convencida pela bruxa, preposta dos Espíritos


malignos, dirigiu-se ao altar improvisado com algumas cadeiras cobertas
com um pano negro.

Na pequena quadra, o silêncio era impressionante. A luz trêmula das


velas negras dava cambiantes dourados à carne magnífica que a negrura
da toalha realçava. De incensários dispostos aos pés e à cabeça da
marquesa desprendia-se um odor acre, mistura de incenso com ervas e
pós misteriosos.

A cerimônia desenrolou-se num ignóbil maqueamento. A bruxa


agita uma campanhia... Aproxima-se o instante supremo.

O oficiante mistura no cálice cinzas e pós inomináveis. Falta o


sangue quente e virgem para fabricar a pasta esconjuratória. Entrega-se
a criança, que chora de mansinho, ao oficiante, que a suspende acima da
cabeça e exclama:

- Satanás! Sacrifico-te esta criança para que me concedas o que te


peço.

Com uma lanceta, golpeia o pescoço da pequena vítima, que solta


um grito agudo, aterrador!

O oficiante deixa que se esgote todo o sangue do corpinho da


criança, entregando-o, já inerte, aos seus ajudantes. Será incinerado,
como tantos outros, no forno da bruxa Voisin.
Os “Skoptzi” Brasileiros e os Beatos

Quem analisou o caso skoptzi11 no Brasil foi o alienista Xavier de


Oliveira, que escreveu um livro sob o título Espiritismo e Loucura,
prefaciado pelo psiquiatra Juliano Moreira.

Observa-se que o trabalho do Dr. Xavier de Oliveira é tendencioso.


Afinal de contas, ele rezava pela cartilha de Afrânio Peixoto e Arthur
Ramos que, a propósito, confundiram, sem exame, o Espiritismo com o
culto vodu, do Haiti. Diria ele, então:

Lá, como aqui, a possessão espírito-fetichista é um fenômeno muito


complexo, ligado a vários estados mórbidos (vide; “As Culturas Negras
no Novo Mundo”).

Outros especialistas não discreparam dessas especiosas concepções,


como é o caso do próprio Juliano Moreira, e de Leonídio Ribeiro e Nina
Rodrigues.

Mas, voltando ao caso do skoptzismo no Brasil, reportemo-nos a 29


de agosto de 1921, quando um cidadão chamado Manuel das Virgens de
Oliveira dava entrada numa clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro, a fim
de submeter-se a um tratamento sob a orientação profissional do Dr.
Xavier de Oliveira, que relatou os trâmites que antecederam a entrada do

11 SKOPTZl-significa homem mutilado sexual. Houve um único caso no Brasil,


representado por Manuel das Virgens de Oliveira, de cor parda, natural do Estado da Bahia,
região sertaneja, para os lados do antigo arraial de Canudos. Segundo Jean Finot, existiu
uma seita na Rússia, à época do Czar Pedro 111, seguida por homens (“skoptzi”) e mulheres
(“sestritzi”), praticando estas a amputação dos seios. No começo do século XX, os
“skoptzi”eram um contingente de mais de sessenta mil adeptos. A seita se extinguiu ( ou
desapareceu) com o advento do comunismo.
paciente no manicômio.

Conta o alienista que poucos dias antes de sua entrada no Instituto


de Psicopatologia, teve ocasião de ver Manuel das Virgens de Oliveira
pregar um sermão em frente a um cinema da Avenida Rio Branco (Rio
de Janeiro), aí por volta das seis horas da tarde. Cercado de uma
verdadeira multidão de curiosos, as vestes mal cuidadas, em completo
desalinho, muito agitado, a gesticular como um orador exaltado, bradava
ele a plenos pulmões:

- Jesus Cristo disse: aquele que ouvir a palavra dos Evangelhos e não
comer da vinha do Senhor será condenado às penas eternas!

E lá se ficou a repetir conceitos da Bíblia, em tom de orador sacro,


convicto, exaltado, ainda que não convincente, quando o deixei, certo de
que, dentro em poucos dias, encontrá-lo-ia no Instituto.

O Dr. Xavier de Oliveira, preliminarmente, submeteu o místico


baiano a um interrogatório sobre sua vida e obra. O paciente era operário
de uma fábrica de sabão, mas, segundo acreditava, foi obrigado, por
ordem divina, a abandonar os trabalhos braçais para se ocupar, apenas,
das coisas espirituais. Disse ele:

Deus veio a mim, em pessoa e ordenou-me que saísse pelo mundo a


pregar os santos Evangelhos. Desde então, minha vida é toda milagrosa,
nada me faltando, pois recebo tudo das mãos divinas - dinheiro, roupa,
alimento, tudo.

Fazendo uma pausa em sua exposição, prossegue o psiquiatra:

Manuel levantou-se, ergueu o dedo indicador, espetando o espaço, e lá


começou o seu sermão costumeiro na sua logorréia de sempre12. Sempre as
mesmas frases, dogmáticas, proferidas em tom declamatório, e em que se
ouve, em destaque - ‘Jesus Cristo disse... O Espírito Santo disse ... para
redimir os pecados do mundo, morreu pregado na cruz... Mortificai a carne,
que ela é a origem de todo o Mal... Ide e pregai por toda parte a palavra de
Deus... Aquele que não comer da vinha do Senhor, será condenado às penas
eternas...

A maneira fanática de interpretar os preceitos evangélicos levou o


beato, em um terrível estado obsessório, a castrar os próprios órgãos
genitais e a estimular seus seguidores a praticar a mutilação, para que
não caíssem em pecado.

Aproveitando um momento de serenidade, o Dr. Xavier de Oliveira


interrogou o paciente que lhe respondia de acordo com as interpretações
distorcidas da mente de um ignorante:

Por que praticou a amputação do órgão genital?

- Isto não vale de nada.

- Mas, por que o cortou?

- Foi Deus que mandou, dizendo que, de agora em diante, a


multiplicação do gênero humano se vai fazer por milagre.

- Como cortou?

12 LQGORRÉlA - fluxo de palavras desordenadas que caracteriza certas perturbações


mentais.
- Com uma navalha.

- Você nunca foi casado?

- Isto não vale de nada.

Neste posto da entrevista, Manuel levantou-se repentinamente,


demonstrando grande irritação e bradando:

- Todos devem obedecer a palavra de Deus e fazer o que eu fiz!...

A seguir, caiu numa espécie de prostração, embora continuasse a


responder às perguntas do psiquiatra. Adiante, como se estivesse
completamente exaurido por um estranho desgaste físico, ele pediu água
e comida.

- Peça a Deus - sugeriu maldosamente o inquisidor.

Manuel, parecendo recobrar as forças, gritou a plenos pulmões:

- Eu não preciso de nada do mundo!

E tentou erguer-se da cadeira onde estava sentado, mas não o


conseguiu. Caiu prostrado.

O beato permaneceu quinze dias no Instituto de Psicopatologia.


Durante o período de internação, ele apresentou os seguintes sintomas;
dias de grande agitação, em que passava horas a fio a pregar aos doentes;
dias de depressão, em que mal podia levantar-se da cama.

O curioso deste caso e o que deixou os psiquiatras confusos foi que


os exames nada revelaram de anormal, não escapando, porém, da
rotulação psiquiátrica: Manuel sofria de psicose-maníaco-depressiva.... E,
assim foi diagnosticado até o seu falecimento em 1927, na Colônia de
Jacarepaguá. A sua necropsia não revelou quaisquer anormalidades,
segundo laudo médico.

Não estaria ele, sob um estado profundo de obsessão que poderia ser
tratado pelos métodos do Espiritismo? Muitos exemplos semelhantes já
foram analisados e tratados em sessões espíritas de desobsessão, num
trabalho conjugado com a Medicina oficial.

Além de Manuel das Virgens de Oliveira, o psiquiatra Xavier de


Oliveira examinou outros misticopatas, como eram denominados os
indivíduos que se voltavam de forma exaltada para pregação dita
religiosa. Podem ser citados, entre outros beatos, Francelino Elias,
Teófilo da Conceição e o “Profeta da Gávea”, Leureano Ojeda, de
nacionalidade mexicana.

O Dr. Xavier de Oliveira utilizava expressões do psiquiatra francês


Esquirol13, e sempre se conduziu de forma preconceituosa em suas
análises dos “misticopatas” ou “demonopatas”, criaturas que encheram
e ainda enchem os asilos deste mundo. Não houvesse o tremendo
preconceito contra o Espiritismo e suas práticas de cura da obsessão, o
Dr. Xavier de Oliveira teria realizado um trabalho notável. Ao contrário,
enveredou-se pelos caminhos da ortodoxia, tratando, como dementes,
indivíduos em profundos conflitos espirituais.

Como adverte o Prof. Deolindo Amorim, em Espiritismo e

13 Jeane Éttiene Dominique ESQUIROL- nasceu em Toulouse (1771), e faleceu em Paris


(1840). Foi aluno do médico francês Philipe Pinei (1745-1826), autor da obra Nosografia
Filosóficai, onde expressa as suas concepções sobre o tratamento moral da loucura.
Criminologia (cap. III, 3a. ed. Federação Espírita do Paraná):

Em matéria científica, não se pode estabelecer posição dogmática. Por


que devem prevalecer certas afirmativas como se fossem conceitos estáticos,
quando a observação está demonstrando, a cada momento, que os juízos
científicos não podem ser inabaláveis, desde que apareçam novos meios de
elucidação?

O tema merece análise, em maior amplitude, de parte dos psiquiatras


espíritas. Afinal de contas, os estudos sobre obsessão e auto-obsessão
ainda estão, sem embargo, em seus primórdios, devido à flagrante
complexidade das manifestações da alma em ambos os planos da
existência.
Cobiça e Obsessão

Por alguns anos, dirigi uma reunião de desobsessão em um dos


centro espíritas da cidade do Salvador. Eram oito abnegados médiuns, a
maioria constituída de mulheres, que se dedicavam, às noites de
domingo, ao exercício amoroso e responsável da mediunidade, faculdade
de que sabiam ser, apenas, instrumentos de reabilitação moral diante da
Lei de Deus, inscrita, conforme preconizaram os Espíritos da
Codificação do Espiritismo, na consciência do Homem.

Os resultados dessas reuniões eram notáveis. Quantos Espíritos


encarnados e desencarnados não foram ali esclarecidos? Muitos,
chegavam aflitos, em busca de justas explicações sobre o porquê de seus
revezes e sofrimentos. Era, sem dúvida, difícil, para mim, fazê-los
entender, à luz meridiana dos princípios espiritistas, as causas reais de
seus problemas. Os seus condicionamentos culturais e religiosos não
permitiam que eles assimilassem, de pronto, a realidade processual da
Lei de Causa e Efeito.

Ainda assim, consegui, com o passar do tempo, auxiliar um sem-


número de criaturas dominadas por pertinazes obsessões, procendendo
de igual modo com os Espíritos obsessores, levando-os a considerar que
os atos nefandos que perpetravam lhe causariam sérios transtornos
imediatos ou mediatos.

Demovidos de seus intentos, eles reconheciam que, insensatamente,


estavam contribuindo, não apenas para derrocada moral de seus
desafetos, mas, sobretudo, de si mesmos, envolvidos que estavam em um
mecanismo mentalmente estiolante e de dolorosas conseqüências.

Os casos tratados eram, antes, submetidos a uma triagem, abrindo


exceção para aqueles considerados de urgência. Nessa época, era
atendida uma média de três pessoas por sessão.

Certa feita, foi trazido à reunião um casal de meia idade, irmãos,


que estavam passando por terrível assédio espiritual. A sua história era
incrível.

Há alguns anos, após a desencarnação do irmão mais velho, iniciou-


se um processo de desequilibro emocional e orgânico em ambos, que lhes
causava grandes sofrimentos. Ademais, a casa onde moravam, sede de
antiquíssima fazenda do interior da Bahia, passou a ter o seu alicerce
seriamente comprometido por estranha erosão. Na verdade, a base da
velha construção estava apodrecendo.

Os técnicos em engenharia consultados pelos herdeiros, depois de


demorados e minuciosos exames, não conseguiram identificar as causas
do inusitado fenômeno. O fato se espalhou pelas circunvizinhanças da
fazenda, atraindo a atenção de comunidades místicas da região que
enviaram seus representantes a fim de investigar, espiritualmente, as
suas origens. A nada chegaram, tal como os engenheiros consultados.

Desesperados, os irmãos recorreram a uma pessoa de suas relações,


que era espírita, tendo esta encaminhado os dois a nossa sessão.

Em um domingo estival do mês de junho, chegaram eles à


instituição, na expectativa de ali encontrar o porquê de seus dissabores.
Após as apresentações, ambos sentaram-se em um dos ângulos da sala,
que não era grande, enquanto sentávamos, eu e os médiuns, à longa mesa
de reuniões. Via-se que os visitantes nada conheciam das práticas
espíritas. Mostravam-se, até, um pouco nervoso.
Iniciada a sessão, obedecendo-se aos procedimentos de praxe,
solicitei, dos presentes, total concentração. Todos assim o fizeram. O
silêncio, no ambiente, era absoluto. De repente, um dos dirigentes
espirituais dos trabalhos, solicitou, através da médium, maior
concentração. Todos sentiram, no íntimo, que algo de estranho iria
acontecer, naquela noite fria de domingo.

Uma das médiuns, por sinal a mais experiente do grupo, começou a


gemer baixinho e continuadamente, ao tempo em que todos, contritos,
oravam. Em dado momento, ela começou a falar. Era uma voz gutural,
forte e grave.

Perguntei ao Espírito comunicante quem era ele e o que desejava.


Ele resmungou alguma coisa ininteligível, para, depois, num assomo de
raiva incontida, apontando com o dedo em riste na direção dos dois
visitantes, gritar:

- Assassinos! Assassinos!

E irrompeu num choro convulsivo, incontrolável. Tentei controlar o


Espírito revoltado. Em vão. Ele não se acalmava. Ao contrário, tanto
chorava como lançava impropérios contra o casal que, a esta altura,
demonstrava surpresa e temor. De repente, a mulher perguntou
timidamente:

- Alfredo (nome fictício)? É você?

O Espírito com voz firme respondeu:

- Sim! Sou eu!

E, virando-se para os presentes, disse, num misto de ressentimento,


raiva e desgosto:

- Eles me mataram! De forma estúpida!

Pedi ao Espírito que tentasse esclarecer o que acontecera entre ele e


seus irmãos, a fim de comprovar a veracidade da história e a sua
identidade. O que se ouviu a seguir foi uma trama terrível, em que
pontificaram a cobiça, a ambição e a inveja.

Viviam todos, juntos, na casa grande da fazenda, uma das muitas


propriedades rurais de Alfredo, adquiridas à custa de duros trabalhos e
incansáveis lutas. Conseguira tornar-se um dos fazendeiros mais
prósperos do Estado da Bahia. Os irmãos sempre dependeram dele para
sobreviver. No entanto, ele jamais os humilhou ou os afrontou com sua
fortuna. Ao contrário, viajavam e possuíam gordas contas bancárias,
usufruindo, enfim, de todo o conforto que a riqueza pode proporcionar.
Contudo, ambos eram muito ambiciosos. Não se contentavam com o que
recebiam do generoso irmão. Queriam, na verdade, tudo que ele possuía.

Até que, os dois, macomunados, resolveram eliminar o seu


benfeitor. Estudaram, por longo tempo, como iriam eliminá-lo, sem que
se levantassem suspeitas. Finalmente, encontraram um meio eficaz de
levar o irmão à morte, uma morte limpa, um crime perfeito. E, assim, o
fizeram, enganando a despreparada polícia local. Tudo pareceu um
acidente.

Após o sepultamento do corpo do inditoso fazendeiro, os


criminosos, aos poucos, foram tomando posse de seus bens. Ficaram
muito ricos.

O tempo passou e ninguém mais se lembrava de Alfredo. O ato


doloso foi esquecido até mesmo pelos assassinos. Estes estavam
interessados em gozar a vida, sentir o doce e inebriante prazer de gastar
sem medida. Viagens ao Exterior sucediam umas após outras, incluindo
custosos safáris na África, quando problemas inexplicáveis começaram
a acontecer.

Angustiados em verem o patrimônio que tanto cobiçavam se


destruindo rapidamente, os criminosos apelaram para tudo, chegando,
enfim, ao Espiritismo. Queriam resolver os problemas materiais, quando,
na realidade, a causa de seus distúrbios era de fundo moral. Era o Espírito
do irmão assassinado que lhes cobrava a traição, mas eles jamais
acreditaram naquelas coisas. Daí, a ânsia hedonista que os dominava.

Mas, naquela sala em penumbra, eles sentiram - tenho certeza - o


peso de seu ato, diante do irmão morto que os acusava publicamente.

O silêncio no ambiente era constrangedor.

Após a prece e sem comentários sobre o sucedido, encerrei a


reunião. As luzes se acenderam. Os irmãos, profundamente
acabrunhados, despediram-se de todos em voz baixa.

Acompanhei-os à porta. No corredor, a sós, o homem perguntou


baixinho com voz trêmula:

- Vocês vão nos denunciar à polícia?

Parei um pouco a refletir e lhe respondi:

- Não, nós não os denunciaremos. Vocês já estão entregues à Justiça


Divina que saberá qual o melhor meio de fazê-los retificar os erros
cometidos.
Orem bastante. Roguem ao seu irmão que aplaque o seu ódio e desista
de seus intentos. Se ele é um Espirito de bons sentimentos como demonstrou
durante a vida, naturalmente desistirá da vingança e deixará que a Lei de
Deus siga seu curso normal e inexorável.

Este foi o primeiro e único dia que vi aquelas inditosas criaturas.


Não mais soube de seus destinos...

De nossa parte, só nos cabia orar.


Alergia e Obsessão

Esta mensagem, do Espírfto Dias da Cruz, foi a primeira recebida


psicofonicamente pelo médium Francisco Cândido Xavier (Reformador;
Feb; R.J.).

“Quem se consagra aos trabalhos de socorro há-de convir, por certo,


que a obsessão é um processo alérgico, interessando o equilíbrio da
mente.

Sabemos que a palavra alergia foi criada neste século, pelo médico
vienense Von Pirquet, significando a reação modificada nas ocorrências
da hipersensibilidade humana.

Semelhante alteração pode ser provocada no campo orgânico pelos


agentes mais diversos, quais sejam os alimentos, a poeira doméstica, o
pólen das plantas, os parasitas da pele, do intestino e do ar, tanto quanto
as bactérias que se multiplicam em núcleos infecciosos.

As drogas largamente usadas, quando em associação com fatores


proteicos, podem suscitar igualmente a constituição de alérgenos
alarmantes.

Como vemos, os elementos dessa ordem são exógenos ou


endógenos, isto é, procedem do meio externo ou interno, em nos
reportando ao mundo complexo do organismo. A medicina moderna,
analisando a engrenagem do fenômeno, admite que a ação do anticorpo
sobre o antígeno, na intimidade da célula, liberta uma substância
semelhante à histamina, vulgarmente chamada substância “H”, que,
agindo sobre os vasos capilares, sobre as fibras e sobre o sangue, atua
desastrosamente, ocasionando variados desequilíbrios, a expressarem-
se, de modo particular, na dermatite atípica, na dermatite de contato, na
coriza espasmódica, na asma, no edema, na urticária, na enxaqueca e na
alergia sérica, digestiva, nervosa e cárdio-vascular.

Evitando, porém, qualquer preciosismo da técnica científica e


relegando à Medicina habitual o dever de assegurar os processos
imunológicos da integridade física, recordemos que as radiações
mentais, que podemos classificar por agentes “R”, na maioria das vezes
se apresentam, na base de formação da substância “H”, desempenhando
importante papel em quase todas as perturbações neuropsíquicas e
usando o cérebro como órgão de choque.

Todos os nossos pensamentos, definidos por vibrações, palavras ou


atos, arrojam de nós raios específicos.

Assim sendo, é indispensável curar de nossas próprias atitudes, na


autodefesa e no amparo aos semelhantes, porquanto a cólera e a irritação,
a leviandade e a maledicência, a crueldade e a calúnia, a irreflexão e a
brutalidade, a tristeza e o desânimo, produzem elevada percentagem de
agentes “R”, de natureza destrutiva, em nós e em torno de nós, exógenos
e endógenos, susceptíveis de fixar-nos, por tempo indeterminado, em
deploráveis labirintos da desarmonia mental.