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BRUNS, B.; EVANS, D.; LUQUE, J.

Achieving World-Class Education in Brazil:


The Next Agenda. World Bank Publications, 2011.

PAG. 12 – PREFÁCIO

O Brasil tem realizado grandes avanços na educação ao longo dos últimos 15


anos e tem estabelecido audaciosas metas nacionais para atender aos níveis de qualidade
da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE
(Organization for Economic Cooperation and Development – OECD) para 2021. A
crescente proeminência política e integração econômica do país provavelmente acelerou
o mais importante progresso que já aconteceu na educação. Em 1990, o comércio
constava de somente 15% do Produto Interno Bruto – PIB (Gross Domestic Product –
GDP); de 2005 a 2010 o comércio atingiu uma média de 20%¹. Neste mesmo período, o
sistema de educação brasileiro expandiu significativamente, mas enquanto a parcela de
adultos com nível superior completo apresenta média de 35% nos países membros da
OCDE, esse valor é de apenas 11% no Brasil. Uma faixa estreita de conhecimento
especializado para embasar a oitava maior economia do mundo.

Este livro tem por objetivo estimular e apoiar o progresso nacional do Brasil em
direção a uma educação de nível mundial. O foco está na educação básica, a qual em
qualquer país é a base para todos os outros progressos educacionais². Ele é dividido em
três sessões. A primeira sessão coloca os desafios futuros em perspectiva, traçando os
notáveis avanços na educação básica na última década e meia. A segunda sessão destaca
a atuação recente do Brasil em comparação com outros países em desenvolvimento e
aqueles da OCDE, com foco em três funções críticas: o desenvolvimento da força de
trabalho para a economia do século XXI; contribuição para a pobreza e redução das
desigualdades sociais; e transformação eficiente dos gastos com educação em resultados
educacionais. A terceira sessão foca nas mais problemáticas áreas de atuação da
educação da atualidade e retrata a mais recente pesquisa para o Brasil e outros lugares
que podem suportar o modelo de reformas sólidas e programas rentáveis. Este livro será
bem sucedido se convencer uma ampla audiência de políticos e cidadãos brasileiros de
que o país está fazendo impressionantes progressos na educação, mas que é crucial
seguir as metas apresentadas.

______________________

¹ Banco Mundial 2010.


² A educação básica no Brasil historicamente tem consistido em um primeiro ciclo de 8 séries (chamadas
de educação primária nesse trabalho e conhecida como “ensino fundamental” no Brasil) e um Segundo
ciclo de 3 séries (educação secundária). Em 2006, o país adotou a legislação estendendo a duração da
escolaridade obrigatória por um ano e criando um nono ano no ciclo primário. A idade oficial de ingresso
na educação primária foi reduzida de 6 para 7 anos. O ciclo pré-escolar foi reduzido proporcionalmente
para atender de 4 a 5 anos, ao invés de 4 a 6. Em 2009 foi o primeiro ano de implantação da nova
reforma, para realizar uma comparação histórica coerente dos dados, nós usamos a definição antiga (4ª
série, 8ª série, etc.) ao invés da nova nomenclatura (5º ano, 9º ano) ao longo deste estudo, a menos que
seja especificado de outra forma. A educação superior foi o foco das duas publicações anteriores do
Banco Mundial, Conhecimento e Inovação para a Competitividade no Brasil, 2008 (Knowledge and
Innovation for Competitiveness in Brazil, 2008) e Educação Superior no Brasil: Desafios e Opiniões,
2002 (Higher Education in Brazil: Challenges and Options, 2002).
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PAG. 13 – I. EDUCAÇÃO BRASILEIRA: 1995-2010 – TRANSFORMAÇÃO

Em 1994, uma criança brasileira de seis anos de idade nascida na mais baixa
classe social em termos de distribuição de renda era provável que vivesse no Nordeste
rural, tivesse uma mãe que nunca frequentou a escola, e tenha completado não mais que
as primeiras poucas séries da escola primária por vontade própria – mesmo depois de
passar vários anos frequentando, presa em um ciclo de sucessivas repetências. A escola
primária local era uma estrutura de uma ou duas salas, sem eletricidade ou água e
desprovida de livros ou materiais³. Seus professores eram normalmente contratados em
virtude de alianças políticas estabelecidas com o prefeito. Em 60% dos casos, a
professora não tinha completado a educação secundária; em 30% dos casos, ela não
havia completado a educação primária. Em uma visita não anunciada, professores e
alunos nem seriam encontrados na escola; quando pesquisadores em educação avaliando
o financiamento do Banco Mundial para o projeto EDURURAL no final de 1980
visitaram pela segunda vez sua amostragem de 600 escolas primárias ao longo de três
estados Nordestinos, mais de 30% tinham parado de funcionar4.

O acesso à escola e a sua qualidade eram menos precárias em cidades maiores e


em regiões mais ricas do país. Mas em 1990, em qualquer imaginável indicador
educacional o Brasil ficava bem abaixo dos países em desenvolvimento da América
Latina e perdia dramaticamente daqueles da OCDE5. Somente 38% das crianças
estavam matriculadas no ciclo de três anos (9ª a 11ª séries) da escola secundária, em
comparação com mais de 70% na Argentina e Chile e 91% nos países da OCDE. A
média de escolaridade da força de trabalho em 1990 era de 3,8 anos – menos que
metade da média da Argentina, Chile e países da OCDE. Nacionalmente, menos de 20%
dos professores da educação primária tinham ensino superior completo. O salário dos
professores em muitas áreas rurais era menos da metade de um salário mínimo. Não
foram produzidos dados nacionais a respeito do aprendizado do aluno.
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Tabela 1: Formação Escolar Média da População Adulta, Países Selecionados 1960-


2010

___________________________
³ Em 1992, a agência federal de livros didáticos FAE distribuiu 8,8 milhões de livros didáticos, menos que
10% da estimativa necessária de 100 milhões para mais de 30 milhões de estudantes da educação
primária e secundária.
4
Harbison e Hanushek, Educational Performance of the Poor: Lessons from Rural Northeast Brazil,
IBRD, 1992, p. 39.
5
Como indicado na nota de rodapé 2, a menos que seja especificado de outra forma neste estudo
usaremos a nomenclatura usada antes de 2009 (4ª série, 8ª série, etc) ao invés da nova nomenclatura (5º
ano, 9º ano), para facilitar as análises de tendências históricas nos dados.

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Avançando para 2010. Uma criança de seis anos de idade nascida na mais baixa
classe social em termos de distribuição de renda hoje completará pelo menos duas vezes
mais anos de estudo que seus pais. Não importa em que local do país a sua escola é
localizada, a despesa por aluno estará em um nível adequado para garantir cadeiras,
eletricidade, água, livros, lápis e cadernos. Seu professor terá pelo menos o ensino
secundário, e 60% dos professores nacionalmente possuem qualificação de nível
superior. Não importa onde a escola é localizada, seus professores ganharão pelo menos
R$1.000 por mês, duas vezes mais que um salário mínimo. Talvez a mudança mais
significante de todas, é que o sistema escolar em todos os níveis sabe o quanto que
aquela criança está aprendendo.

Tabela 2: Quantidade Bruta de Matrículas na Educação Secundária, Países Selecionados


1990-2008
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Como resultado de uma execução notável de 15 anos de continuidade política e


reformas subsidiadas, os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos
(Program for International Student Assessment - PISA) promovido pela OCDE em 2009
confirmaram que o Brasil tem feito um progresso substancial na educação. Este estudo
expõe um importante plano de metas a se seguir, mas não há dúvidas de que os esforços
do Brasil nos últimos 15 anos estão gerando bons frutos. De 1990-2010, o aumento na
escolaridade da força de trabalho brasileira foi um dos mais rápidos já registrados
inclusive mais rápido que o da China, que tem sido líder global na expansão escolar nas
décadas anteriores (Tabela 1). As matrículas nas escolas secundárias brasileiras têm
aumentado rapidamente e hoje é maior que em outros países da América Latina e Caribe
– ALC (Latin America and the Caribbean – LAC), apesar de parte dessa taxa refletir
altos índices de repetência (Tabela 2). Outras grandes lacunas nos países em
desenvolvimento da ALC e em qualquer outro lugar são bem delimitadas, tais como a
conclusão da escola primária e cobertura do pré-escolar. Em áreas chave como a
avaliação da aprendizagem do aluno e o monitoramento do desempenho educacional
mais geral, o Brasil em 2010 pode ser considerado não somente um líder na região da
ALC, mas também um modelo mundial.

O que tem conduzido o avanço educacional brasileiro? Houve muitas inovações


na política educacional brasileira nos últimos 15 anos, em nível nacional, estadual e
municipal e este estudo destaca uma série deles. No entanto, as forças mais importantes
por de trás do progresso do Brasil são três áreas críticas onde a política nacional tem se
comprometido com as melhores práticas globais e a implantação tem sido sólida e
eficaz:

 Equalização do financiamento da educação;

 Medição dos resultados;


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 Transferências condicionais de recursos financeiros para aumentar o nível de


escolaridade da população de baixa renda.

Financiamento da educação. A transformação do papel do governo federal no


financiamento da educação no Brasil nos últimos 15 anos foi a mudança revolucionária
que possibilitou todos os outros progressos. Antes da criação do fundo de equalização
de recursos da educação básica, FUNDEF (Fundo de Desenvolvimento do Ensino
Fundamental) em 1996, existiam grandes disparidades de custos por estudante nas
diferentes regiões do Brasil, e em diferentes escolas em funcionamento nessas regiões.
Enquanto a Constituição de 1988 tinha delegado a responsabilidade pelas creches e
serviços pré-escolares aos municípios e a educação secundária para os estados, a
educação primária foi uma responsabilidade dividida entre estados e municípios. O
cenário nacional parecia uma confusão administrativa de escolas estaduais e municipais
que eram geograficamente próximas, mas tinham níveis de recursos por estudante e
qualidade bem diferentes. A Constituição estabelece que 25% das receitas dos impostos
e transferências dos estados em nível municipal e estadual sejam destinadas à educação,
mas a obrigatoriedade não leva em conta as grandes variações quanto à cobertura do
ensino e as receitas fiscais das diferentes jurisdições. Como resultado, enquanto o custo
por estudante na escola municipal em partes do Nordeste do Brasil era menor que R$
100 por ano – menor que na Nicarágua e Bolívia naquela época – esse custo podia ser
de R$ 600 ou mais em escolas estaduais na mesma região e R$ 1.500 ou mais por ano
nos sistemas estadual e municipal do Sudeste – ou similar a escolas na Coréia e
Singapura.

O FUNDEF atacou essas disparidades por meio de uma estratégia de três passos.
Primeiro, é garantido um nível mínimo nacional de custo por estudante na educação
primária, que foi estabelecido em R$ 315 em 1998, o primeiro ano de implantação do
FUNDEF. Isto representou um aumento significante nos recursos destinados a
estudantes primários nos estados do Nordeste, Norte e Centro-oeste e particularmente
em escolas sob a gerência do município. A garantia desse nível de capitação significou
que o financiamento iria "seguir o aluno”, o que criou um incentivo significativo para os
sistemas escolares – e especialmente sistemas municipais com poucos recursos – para
expandir as matrículas. Há evidências da instituição municipal de sistemas de ônibus
escolares, campanhas de matrículas, merenda escolar e outros incentivos para atrair
crianças para a escola pela primeira vez depois de 1998. Houve um aumento
significante no total de matrículas no primário, com a taxa líquida de matrículas no
Nordeste e Norte aumentando de 77 e 82%, respectivamente, para 94% em 2008, e
houve uma grande mudança global no número de matrículas primárias nas escolas
estaduais para as municipais após o FUNDEF (Figura 1).

O financiamento poderia seguir o estudante por conta da segunda característica


do FUNDEF – um sistema de determinação federal de redistribuição de recursos no
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qual a arrecadação dos estados é complementada com recursos federais administrados


pelo governo federal. Era requerido que os estados realizassem a divisão dos recursos
para seus municípios, dessa forma todas as escolas estaduais e federais em cada estado
poderiam atingir o limite de custo por estudante. O fundo federal redistribuiu os
recursos fiscais para estados incapazes de atingir esse valor com sua própria receita
tributária. De repente em 1998, o FUNDEF redistribuiu R$ 30,6 bilhões (25 % do total
dos gastos da educação primária) para seis estados. Em média, o FUNDEF
complementa por ano os recursos da educação para seis dos 26 estados do Brasil (e
Distrito Federal).

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Figura 1: Matrículas na Educação Primária, por provedor 1990-2009

Fonte: MEC/INEP

A terceira característica chave do FUNDEF foi a obrigatoriedade de que 60% da


distribuição total por estudante deve ser gasta em salários de professores e 40% em
outros custos operacionais. Estados e municípios eram livres para gastar acima do piso
estabelecido pelo governo federal e muitos o fizeram. Mas o impacto dessa
determinação em seus primeiros anos foi um aumento de em média 70% dos salários
dos professores nos municípios mais pobres do Nordeste e Norte6.

O FUNDEF foi projetado com uma cláusula de caducidade após oito anos e um
dos mais importantes exemplos de continuidade política entre as administrações de
Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva foram a reautorização e
expansão do FUNDEF em 2007 como FUNDEB – Fundo de Manutenção e
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Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação.


O FUNDEB expandiu o cenário da equalização para cobrir a educação pré-primária
(tanto os serviços de creches para crianças entre 0 e 3 anos quanto de pré-escola para
crianças de 4 a 6 anos) e a educação secundária (9ª a 11ª séries). O FUNDEB também
garantiu explicitamente níveis mínimos de financiamento per capita para matrículas em
programas de educação para as comunidades indígenas e quilombolas e educação de
jovens e adultos (Educação de Jovens e Adultos). O nível mínimo de financiamento por
estudante estabelecido pelo FUNDEB para os diferentes níveis de educação são
apresentados na tabela 4.

Tabela 3: Níveis de Gastos Estabelecidos pelo FUNDEB em 2010 (R$)

_____________________________________
6
GORDON, N.; VEGAS, E. Education Finance Equalization, Spending, Teacher Quality, and Student
Outcomes: The Case of Brazil’s FUNDEF. In: VEGAS et al. Incentives to Improve Teaching: Lessons
from Latin America, 2005.

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Ao aumentar o nível mínimo de gastos na educação básica, FUNDEF e


FUNDEB tem conduzido um aumento significante nos gastos educacionais gerais no
Brasil desde 1998, em termos reais e como proporção do PIB. De aproximadamente 2%
do PIB em 1995, os gastos na educação básica subiram para 4% em 2008. Considerando
que os gastos na educação superior adicionam mais 5,2% de investimentos do PIB do
Brasil, essa parcela continua a aumentar. No capítulo 2 deste estudo, nós comparamos o
nível e a distribuição dos gastos da educação brasileira com tendências em outros países
em desenvolvimento os membros da OCDE. A principal mensagem aqui é que a
reforma FUNDEF/FUNDEB tem transformado o Brasil tanto estimulando um
crescimento geral nos gastos com a educação básica após 1998 quanto melhorando a
equidade dos gastos pelas regiões e jurisdições (Figura 2).

Figura 2: Gastos do FUNDEF/FUNDEB entre 1998 e 2010 (em bilhões reais – valores
equivalentes a 2010)
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Fonte: Tesouro Nacional, 2010.

Medição dos resultados. Partindo de um ponto inicial de ausência de informações sobre


a aprendizagem do aluno em 1994, os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula da
Silva tem construído sistematicamente um dos mais impressionantes sistemas para
mensurar resultados na educação. Em muitos aspectos a avaliação estudantil Prova
Brasil/Provinha Brasil e o índice composto da qualidade do sistema de educação IDEB
(Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) desenvolvido por uma subdivisão de
avaliação do Ministério da Educação INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais

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Anísio Teixeira) é superior a prática atual dos EUA e outros países da OCDE em
quantidade, relevância e qualidade das informações que são fornecidas a respeito dos
estudantes e do desempenho escolar. Igualmente importantes, eles são as medidas
âncora para uma nova onda de políticas no Brasil destinadas a criar fortes incentivos
para professores e escolas. O Quadro 1 descreve o caráter inovador da ferramenta
IDEB.

O Brasil iniciou um sistema de avaliação estudantil tecnicamente bem projetado,


baseado em amostras (Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB) em 1995. O
SAEB conduzia testes bianuais de matemática e português para uma amostra
representativa dos estudantes brasileiros nas 4ª e 8ª séries da escola primária e no 3º ano
da escola secundária. O SAEB foi projetado para fornecer resultados representativos em
nível estadual (mas não municipal) e permitir a visualização da tendência padronizada
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do processo de aprendizagem ao longo do tempo. Em 2000, o Brasil adotou o Programa


Internacional de Avaliação de Alunos (Program for International Student Assessment -
PISA) da OCDE e trabalhou no sentido de garantir a possibilidade de comparação entre
as escalas de pontuação nacional e internacional. Em 2005, o Ministério da Educação
expandiu o SAEB para cobrir todos os estudantes na 4ª e 8ª séries em matemática e
português a cada dois anos, e renomeou o exame como Prova Brasil (o SAEB continua
como uma avaliação baseada em amostragem na 11ª série). A mudança para um
aplicativo baseado no levantamento total da educação primária significava que, pela
primeira vez, os dados sobre o desempenho médio de aprendizado em cada escola
administrada pelos 5.564 municípios do Brasil estavam disponíveis. Em 2007, o
Ministério adicionou um teste voluntário para a 3ª série avaliando a compreensão de
letras e números, chamada de Provinha Brasil.

O capítulo 2 aborda em detalhes o que os dados do SAEB, Prova Brasil e PISA


revelam sobre a qualidade da educação no Brasil hoje. O Capítulo 3 examina como os
dados dos testes são cada vez mais utilizados pelos responsáveis por formular políticas
de educação em todos os níveis para acompanhar o progresso, criar incentivos positivos,
e estabelecer apoio suplementar para as escolas. A criação de instrumentos e capacitação
técnica para a realização de medidas periódicas e uniformizadas dos resultados da
aprendizagem dos alunos por quase 40 milhões de estudantes em 175.000 escolas
primárias e secundárias é o maior feito da educação brasileira ao longo dos últimos 15
anos.

Redução dos gastos escolares para crianças de baixa renda. A terceira política
educacional chave desenvolvida e mantida ao longo dos dois últimos governos é o
programa de suporte financeiro para famílias de baixa renda para proteger a formação
escolar de suas crianças. A bolsa escola, um pagamento mensal para famílias das mais
baixas classes sociais lançado no governo do Fernando Henrique Cardoso em 2001
seguindo a base conceitual de outros programas de Transferência Condicionada de
Renda TCR (Conditional Cash Transfer – CCT) na América Latina, como o programa
Progresa/Oportunidades no México – essa transferência pública permite que chefes de
famílias de baixa renda invistam adequadamente em educação e saúde para seus filhos,
foi crucial para quebrar a transmissão intergeracional da pobreza. A partir do
desenvolvimento desses canais inovadores de distribuição, tais como cartões para serem
usados em caixas automáticos (Automated Teller Machine – ATM) para mães de baixa
renda que nunca tiveram uma conta bancária antes, a bolsa escola quebrou novas
barreiras em termos de administração de programa e no sentido de atribuir mais poder
às mulheres.

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Quadro 1: Metas que evitam incentivos perversos: Índice de Desenvolvimento da


Educação Básica (IDEB)
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O Ministério da Educação brasileiro introduziu em 2007 uma ferramenta


inovadora para o monitoramento sistemático do progresso da educação básica em cada
escola, em nível municipal, estadual (e o Distrito Federal) e regional do país. A
inovação reside no índice do IDEB combinado com o fluxo dos resultados das medidas
de aprendizagem dos estudantes (progressão de série, repetição, graduação, etc.).
Porque o índice é o produto tanto da pontuação nos testes quanto das taxas de
aprovação, isto desencoraja as escolas a realizarem a aprovação automática de quem
não está aprendendo. Contudo, isso desestimula também as escolas a manterem as
crianças a fim de impulsionar resultados de aprendizagem. Evitar incentivos para a
repetência é importante para o Brasil, uma vez que a média das taxas de repetição na
escola primária é de aproximadamente 20%, o maior índice da América Latina.

O IDEB baseia-se no progresso que o Brasil tem feito na ampliação de seu


sistema nacional de avaliação de estudantes a uma avaliação tecnicamente bem
conceituada da aprendizagem que é aplicada a cada dois anos para todos os estudantes
de 4ª e 8ª séries em matemática e português – chamada Prova Brasil. A medida do IDEB
combina os resultados dos testes da Prova Brasil com os dados administrativos de
matrículas nas escolas, repetição e progressão de série. A escala bruta dos exames se
estende entre 0 a 500, e a escala padronizada fica entre 0 e 10. As taxas de aprovação
são calculadas baseando na informação fornecida em cada escola para o Censo Escolar
Nacional, aplicado anualmente pelo Ministério da Educação.

O índice do IDEB para cada nota por matéria é calculado como o produto da
pontuação normalizada da Prova Brasil para a última nota na série e a média de
aprovação para a série avaliada (π):

IDEBasj = ProvaBrasilasj * πasj

onde a é a disciplina avaliada (português ou matemática); s é a série avaliada; e j é a


escola. A média de aprovação na série varia entre 0 e 1 (é 1 se a taxa de aprovação
equivale a 100%). Dessa maneira, a medida padronizada do IDEB varia entre 0 e 10.

O IDEB foi rapidamente aceito no Brasil como principal instrumento para medir
o desempenho relativo tanto individual das escolas quanto dos sistemas municipais e
estaduais. Os resultados do IDEB bianual são amplamente divulgados na mídia e o
governo federal tem estabelecido metas para melhorar os resultados da educação
primária e secundária para cada um dos 26 estados do Brasil e o Distrito Federal, e os
5.564 sistemas de escolas municipais. Dentro dos estados e municípios, o IDEB revela o
desempenho relativo de diferentes escolas. No nível secundário, o índice é baseado nos
resultados dos exames do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) (o qual é
aplicado em uma amostra representativa de escolas de cada estado e do Distrito Federal)
e no fluxo de dados do estudante. Dessa maneira, isso gera uma pontuação em nível
estadual, mas não em níveis escolar ou municipal.
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Um dos exemplos de seus impactos é a maneira como o IDEB tem facilitado a


implantação do programa de bônus aos professores em ambos os níveis estaduais e
municipais ao longo dos três últimos anos. Embora os diferentes programas estaduais e
municipais em funcionamento tenham um número de características de concepções
alternativas, todas são baseadas nas metas anuais para melhoria nas medidas do IDEB.
A partir do ponto de vista da política educacional federal, isso criou uma poderosa
plataforma para análises comparativas das inovações do estado (e Distrito Federal) e
município na educação básica.

Fonte: Reynaldo Fernandes (2007), INEP (2008)

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Em 2003, a administração do Lula da Silva renomeou o programa para Bolsa


Família e o ampliou ainda mais, convertendo vários outros fundos e programas de
transferência similares em um sistema unificado de distribuição e administração
simplificada. Em 2009, a Bolsa família abrangeu mais de 12 milhões de famílias no
país, ou 97,3% da população alvo7. Diferentemente da TCR do México
Progresa/Oportunidades, nem a Bolsa escola, nem o Bolsa família foi introduzido em
etapas de tal forma a permitir uma rigorosa análise dos seus impactos em relação a
famílias de um grupo controle. Várias análises baseadas em métodos menos robustos
encontraram algumas evidências de impactos positivos em uma série de resultados na
educação, incluindo matrícula, frequência, progressão de séries, taxas de reprovações, e
mesmo tempo de estudo de alunos de famílias beneficiárias8.

Tabela 4: Expansão da Bolsa Escola/Bolsa família 2002-2009

Fiscalização federal. Em geral, o governo federal após 1995 começou a assumir um


papel mais forte e eficaz em várias áreas que são fundamentais para a gestão de um
sistema de educação grande e descentralizado. Na educação básica, isso inclui a função
normativa de estabelecer um quadro jurídico base para o setor (Lei de Diretrizes e
Bases), diretrizes para o currículo nacional, desenvolvimento de uma lista nacional de
livros didáticos a serem utilizados e livros paradidáticos, apoio ao desenvolvimento e
execução de programas de treinamento e capacitação de professores, e fornecendo
assistência técnica e financeira fundamentais para sistemas educacionais de baixo
desempenho por meio de uma iniciativa do Plano de Ações Articuladas de 2008. Em
2009, o governo também começou a aplicar um amento na duração obrigatória da
educação primária, de 8 para 9 anos. Antes da reforma, o clico de dois anos da pré-
escola começava aos quatro anos de idade, o atual ciclo de nove anos da educação
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primária se inicia aos seis anos (ao invés de sete anos), e os três anos da escola
secundária começa aos 13. Isso faz do ciclo educacional obrigatório no Brasil um dos
mais longos da região. No nível secundário, o governo do Lula também investiu
substancialmente na expansão de uma rede de institutos técnicos federais de alta
qualidade (CEFET).

Apesar de esse estudo ser focado na educação básica, também houve avanços na
política de ensino superior. O ProUni, um programa adotado em 2004, é um exemplo
notável. Projetado para expandir o acesso à educação superior subsidiando os custos de
uma universidade privada para estudantes com excelente desempenho provenientes de
família de baixa renda, mais de 120.000 estudantes por anos tem sido beneficiados pelo
ProUni desde seu lançamento. Ainda assim a taxa de participação de estudantes de baixa
renda no nível superior continua muito baixa, o ProUni está ajudando a mudar isso para
uma direção positiva. Em outras áreas importantes, o governo do Lula continua as
iniciativas inovadoras do Fernando Henrique para medir a qualidade da escola
secundária a partir de um exame unificado aplicado ao final desta, o ENEM, e
estabelecer um ponto de partida para

_______________________________________
7
MDS em Números, www.mds.gov.br/gestaodainformacao/mdsemnumeros
8
Para efeitos positivos na frequencia, reprovação, e tempo de estudo, veja Oliveira A, An Evaluation of
the Bolsa Familia Program in Brazil: Expenditures, Education and Labor Outcomes, PAA 2009.
Para efeitos na frequencia, progressão de série, e reprovação, veja Glewwe P. e Kassouf A. L., The
Impact of the Bolsa Escola/Familia Conditional Cash Transfer Program on Enrollment, Drop Out
Rates and Grade Promotion in Brazil, v. 9, nov. 2008. Um total de 1 milhão de famílias com crianças
entre 0 a 6 anos de idade foram subsidiadas pelo Programa Bolsa Alimentação.

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avaliar a qualidade relativa dos programas de educação superior a partir de exames


finais para disciplinas chave aplicadas para universitários das graduações de todo o país
(Provão, agora denominado ENADE, Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).
O governo do presidente Lula também aumentou o financiamento para a pesquisa
científica, distribuído a partir de um mecanismo competitivo de revisão por grupos
semelhantes, e direcionando-se para o aumento da autonomia institucional e atribuição
de responsabilidades pelos resultados em universidades públicas.

Todavia, a política de educação superior parece ser um desafio importante para a


próxima administração. Pelo padrão mundial, a parcela de jovens matriculados na
educação de nível superior parece extremamente pequena e os gastos públicos por
estudante de graduação é excessivamente alto. Mais de 80% das matrículas no ensino
superior são em instituições privadas e são consideradas de baixa qualidade acadêmica.
A alta qualidade das melhores universidades – aquelas que são líderes na região da ALC
e superam muitas universidades europeias em publicações e citações de pesquisas – são
fontes justificáveis de orgulho. Mas a eficiência interna, se medidas como número de
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alunos por professor (o qual é a metade da taxa nos países da OCDE) ou a média de
anos que um estudante leva para completar um programa de quatro anos é baixa.

Conclusão. O cenário da educação no Brasil está mudando. Reformas profundas no


sistema de educação básica nos últimos 15 anos em um nível federal tem direcionado a
estrutura institucional no sentido de um sistema de educação básica de excelente
qualidade. Um número impressionante de governadores e prefeitos tem feito das
reformas educacionais uma prioridade política. Dinâmicos secretários de educação estão
avançando com programas criativos e ousadas reformas que eram inimagináveis há duas
décadas. As políticas educacionais estão começando a suportar rigorosas avaliações de
impactos para determinar quais programas realmente funcionam. Exemplos da
realização de reformas promissoras e a evidência de seus impactos estão destacados
nesse estudo. O próximo capítulo avalia o desempenho da educação brasileira em um
contexto global. O capítulo 3 analisa em profundidade as áreas onde o progresso ainda é
mais necessário e analisa a pesquisa do Brasil e em outros lugares em termos de
políticas e programas capazes de estimular o desenvolvimento.

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Quadro 2: Valores Básicos sobre a Educação Básica Brasileira, 2009

Nota: (1) O número total de estabelecimentos escolares é menor que o número de “escolas” primárias e
secundárias porque as pré-escolas, escolas primárias e secundárias funcionam no mesmo prédio.
Similarmente, o número total de professores é menor que a quantidade de professores por nível porque
alguns professores trabalham em vários níveis. (2) Os dados de 2009 refletem a nova extensão do ciclo
primário de 8 para 9 anos de educação, iniciando com 6 anos de idade. A implantação dessa mudança
começou em 2009 e criou uma quebra nos dados de matrícula tanto da pré-escola (que previamente
abrangia as idades de 4 a 6 anos e agora cobre de 3 a 5) quanto na escola primária, em comparação com
as matrículas dos anos anteriores.