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  ingressar

  na   universidade,   o   estudante   se   depara   com   muitas   perguntas:


Ao  
 Como   se   deve   estudar?   Qual   a   diferença   entre   artigo   e   ensaio?   Como   fazer
 uma  apresentação  oral?  A  maneira  de  se  fazer  pesquisa  nas  áreas  de  humanas
é  a  mesma  de  se  fazer  pesquisa  na  área  de  exatas?  
 Este   Manual   de   Sobrevivência   Universitária,   do   professor   Luciano   Amaral
 Oliveira,   ajuda   o   estudante   a   construir   respostas   para   essas   perguntas.
 Também   oferece   algumas   dicas   a   respeito   da   apresentação   de   trabalhos   orais
 e   escritos,   projetos   de   pesquisa   e   monograLia.   Tudo   isso   para   ajudar   o
 estudante   a   sobreviver   na   universidade   durante   a   sua   jornada   acadêmica.
 Usando   uma   linguagem   simples,   objetiva   e   envolvente,   o   autor   fornece
 informações   e   faz   provocações   importantes   para   auxiliar   os   estudantes   na
 construção   de   suas   próprias   respostas.   Uma   leitura   incontornável   para
estudantes  universitários  de  todas  as  áreas.
APRESENTAÇÃO
O ENEM e o vestibular se tornaram ritos de passagem marcantes na
vida de muitos brasileiros. Os estudantes passam anos se preparando e se
estressando por causa desses exames. Muitos ingerem doses cavalares de
guaraná-em-pó e café, tomam muitos analgésicos para aliviar as constantes
dores de cabeça e bebem muito chá para evitar as tradicionais dores de
barriga. Há estudantes que fazem promessas a vários santos. Não é à toa,
portanto, que, ao localizar seu nome na lista dos aprovados para o curso
que escolheu, o quase universitário entra em um estado de alegria intensa.
Passadas as celebrações e pagas as promessas, chega o momento de
matricular-se na faculdade. Uma vez consumada a matrícula, o estudante
acrescenta mais uma característica à sua identidade: ele passa a ser um
universitário. Junto com esse upgrade identitário, o estudante ganha de
bônus um pacote de perguntas sobre a vida na universidade. Algumas
dessas perguntas são mais filosóficas, beirando as raias da metafísica;
outras são mais pragmáticas. Por exemplo: “o que é ser universitário?”, “o
estágio é necessário?”, “como se deve estudar?”, “qual a diferença entre
ensaio e artigo?”.
Pensando em ajudar você, estudante, a construir suas respostas a essas
perguntas, decidi escrever este Manual de Sobrevivência Universitária.
Assim, este livro propõe algumas respostas que devem ser vistas apenas
como um ponto de partida para suas reflexões. Afinal, sua sobrevivência
universitária depende de suas reflexões e de sua postura crítica no
processo de construção dos seus conhecimentos.
Este livro está organizado de uma maneira bem simples. Em primeiro
lugar, discuto o que ser universitário significa. É importante que o
estudante tenha consciência do seu papel e de suas responsabilidades
dentro da faculdade. O segundo capítulo oferece algumas respostas para a
pergunta “como se deve estudar?”. Essa é uma pergunta que muitos
estudantes fazem. Contudo, a leitora e o leitor perceberão que não há
métodos universais de estudos. Apesar disso, é possível sugerirem-se
algumas práticas e atitudes que ajudam o estudante a otimizar seu tempo
de estudo.
Como os trabalhos acadêmicos são essenciais para a sobrevivência do
estudante universitário, quatro capítulos são dedicados a eles. No terceiro
capítulo, trato da apresentação oral, discutindo os elementos que o
estudante tem de observar para realizar uma apresentação oral na sala de
aula ou em congressos e encontros estudantis. Dou algumas dicas para os
estudantes que não se sentem à vontade para falar em público. No quarto
capítulo, comento os trabalhos escritos com o objetivo de esclarecer ao
estudante quais são as diferenças entre resumo e resenha e entre ensaio e
artigo. Mostro, também, as características de um relatório. O quinto
capítulo é dedicado ao projeto de pesquisa, já que muitos estudantes têm
que elaborar um projeto para o seu trabalho de conclusão de curso.
Comento as partes integrantes do projeto, situando-o na discussão acerca
da construção do conhecimento científico. Abordo a monografia, produto
mais frequente do projeto de pesquisa, no capítulo seguinte, no qual
comento a respeito da redação, do plágio e da relação orientador-
orientando. O sétimo capítulo é dedicado às normas da ABNT devido à
importância que a normalização de trabalhos acadêmicos tem para a
sobrevivência do estudante. No capítulo final, intitulado “Últimos Toques”,
convido o estudante a refletir sobre as rotinas nas faculdades, sobre a
relação professor-aluno, sobre a diferença entre estágio e programa de
trainee, e sobre os cursos de pós-graduação.
Aproveito para agradecer a Mayrant Gallo, pelo incentivo para reeditar
este manual, e a Antonio Marcos Pereira, pelos comentários valiosos sobre
os gêneros textuais acadêmicos.
Espero que este Manual de Sobrevivência Universitária seja útil
para a sua vida acadêmica.

Salvador, janeiro de 2015.

Luciano Amaral Oliveira


1

O QUE É SER UNIVERSITÁRIO?


Em 1982, passei no vestibular. Ainda não havia ENEM. Eu acabara de
completar 18 anos e tornara-me universitário. Havia algo de especial nisso,
pois eu me sentia adulto, maduro. A sensação de maturidade que
acompanha a maioridade é natural. Mas por que tornar-me universitário
me fazia sentir-me maduro? Uma razão aparentemente irrelevante era o
fato de eu não precisar mais usar fardas colegiais: eu tinha o direito de
escolher minhas roupas. Para um adolescente, isso já é um grande avanço
em direção à liberdade e à afirmação da sua individualidade. A outra razão
era de natureza política. O Brasil ainda se encontrava sob as rédeas
ditatoriais impostas pelo golpe civil-militar e as universidades públicas
simbolizavam a resistência e o protesto contra a falta de liberdade de
expressão, contra o abuso de poder cometido pelos militares.
Ser universitário, portanto, significava, naquele contexto, posicionar-se
ideologicamente. Além dos estudantes que se posicionavam contra o
regime político vigente, havia estudantes que defendiam o governo por
serem oriundos de classes que se nutriam daquele sistema político ou
porque desejavam fazer parte dessas classes. Havia também estudantes
que não participavam de passeatas, que nunca sentiram o cheiro de bomba
de gás lacrimogêneo e que não sabiam o que é correr de cães policiais.
Esses estudantes acreditavam piamente não estarem envolvidos em
questões ideológicas exatamente por evitarem debates e confrontações.
Entretanto, ficar em cima do muro também é uma atitude ideológica, é uma
posição política, pois significa assumir passivamente a bandeira do status
quo dominante, legitimando-o. Afinal, ao nascermos em uma determinada
sociedade, nós já estamos politicamente implicados. Não há como fugir
disso.
Assim, naquele turbilhão político que eram os anos 1980, ser
universitário significava participar de um debate ideológico bastante
apaixonado. Ser universitário sempre envolve questões ideológicas, mas
talvez hoje não mais com a mesma energia e envolvimento daquela época,
talvez não mais de uma maneira tão explícita e intensa como era. E isso é
natural porque os valores mudam, as bandeiras mudam, as formas de
dominação ficam mais sofisticadas e simbólicas, e, por isso, sutis e
silenciosas. Mas, não se engane: ao ingressar na universidade, você estará
imerso, até o pescoço, em questões ideológicas, mesmo que você não
perceba, mesmo que você não queira. Por exemplo, a grade curricular do
seu curso refletirá os valores ideológicos dos professores que a criaram. Os
livros e artigos que seus professores recomendam e os livros e artigos
sobre os quais eles silenciam são reflexos dos valores ideológicos que eles
possuem.
Observe que esta é parte da minha leitura do que era ser universitário
na época em que eu estava na faculdade. Você é quem vai fazer a sua leitura
do que é ser universitário no momento em que você lê este livro, na
instituição na qual você se encontra numa posição de sujeito bem
específica: a de estudante universitário. E aqui vai um pequeno exercício
para ajudar você a começar a construir uma resposta à pergunta-título
deste capítulo: no contexto acadêmico em que você se encontra, como você
se vê politicamente?
Ser universitário também é usar a universidade como fórum de
discussões acerca da sociedade em que estamos inseridos. Afinal, se um
estudante está na faculdade só para conseguir um pedaço de papel
timbrado no qual se lê “diploma”, será que ele está sendo universitário?
Obviamente, essa é uma pergunta retórica. E ela atravessa todos os cursos.
Será que os cursos da área de saúde estão formando profissionais
preparados para lidarem com seres humanos ou estão gerando
profissionais que apenas lidam com corpos físicos que são vistos como um
meio necessário para o acúmulo de suas riquezas materiais e a geração de
lucros pelos grandes laboratórios transnacionais? Será que os cursos de
Letras estão realmente formando profissionais interessados em ajudar os
estudantes a se tornarem cidadãos mais conscientes e críticos, capacitados
para ajudarem outras pessoas a desenvolverem sua capacidade de usar a
língua portuguesa, ou estão levando os estudantes a acreditarem que têm
apenas de decorar as formas linguísticas consideradas corretas pelos
puristas lusófilos? Será que os cursos das áreas de ciências exatas estão
incentivando seus estudantes a pesquisarem e a desenvolverem
tecnologias que possam ajudar o Brasil a depender menos das tecnologias
dominadas pelas grandes potências econômicas ou estão apenas formando
operários de luxo para empresas petroquímicas e de tecnologia de ponta? É
claro que estou forçando um pouco a mão com essa caricatura dicotômica
do “ou-ou”, mas a ideia aqui é levar você a perceber que ser universitário
significa também refletir sobre o papel que o estudante exercerá dentro da
nossa sociedade após concluir sua graduação.
Tentar responder à pergunta que dá título a este capítulo implica
reflexões bastante complexas, principalmente se entrarmos na esfera
ideológica. Entretanto, podemos olhar para essa pergunta por outro viés e
nos concentrarmos no seu lado pedagogicamente mais pragmático. O que é
ser universitário em termos de aprendizagem?
Proponho uma resposta da qual, acredito, ninguém de sã consciência
discordará: ser universitário é ser autônomo. Isso eu aprendi rapidamente
quando estava na faculdade: ou o estudante trabalha ativamente para
construir seus conhecimentos ou ele se senta e espera um milagre
acontecer. Nesse sentido, se ele optar por esperar um milagre, ele será
jubilado, pois o milagre não acontecerá.
É por essa razão que um estudante universitário não deve depender do
professor. E é necessário que fique claro que não depender do professor
significa não aceitar tranquilamente a falácia de que o professor transfere
conhecimentos para o estudante. Afinal de contas, quem vê o ensino como
uma transferência de conhecimentos acredita também na ideia de que o
professor é quem tudo sabe e o estudante é quem nada sabe. Paulo Freire,
um dos maiores educadores brasileiros, chamou esse tipo de crença de
concepção bancária da educação:

Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação


dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação
que se funda numa das manifestações instrumentais da
ideologia da opressão — a absolutização da ignorância, que
constitui o que chamamos de alienação da ignorância,
segundo a qual esta se encontra sempre no outro.
O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições
fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os
educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas
posições nega a educação e o conhecimento como processos
de busca (FREIRE, 1987, p. 58).

As palavras de Freire ajudam a desmascarar a falácia mencionada


acima. Entretanto, minha intuição me diz que ainda há professores e
estudantes que se comportam de acordo com essa crença. Se há
professores que concebem a educação de maneira bancária, a explicação
para a existência de tais professores pode ser encontrada na sua má
formação pedagógica ou em um complexo de inferioridade sublimado pelo
prazer sádico subjacente ao uso abusivo e autoritário da hierarquia e do
poder. São aqueles professores, por exemplo, que acham que nenhum
estudante merece tirar um dez na prova e que comentam sorrindo que
houve muitas notas baixas na sua turma. Mas essa é uma questão para
Sigmund Freud e Erich Fromm analisarem. Limitemo-nos aos estudantes.
O universitário autônomo não adota aquele discurso vitimista que se
ouve de alguns estudantes passivos: “Não aprendi nada porque aquele
professor não ensina nada”. Observe-se que esse discurso deixa
transparecer a crença na concepção bancária da educação. E é conveniente
para aqueles estudantes que se recusam a assumir a responsabilidade pelo
seu aprendizado. Ao jogar a culpa no professor, o estudante se exime de
suas responsabilidades. É realmente uma postura bastante cômoda, mas
também passiva e inútil. Aliás, os estudantes que culpam o professor pelo
seu não aprendizado em uma determinada disciplina deveriam dizer
também que os méritos do seu aprendizado em outra disciplina são do
professor e não deles: “não passei por causa do professor” e “passei por
causa do professor”. Em outras palavras, se o estudante não aprende, a
culpa é do professor; se o estudante aprende, a culpa é do professor. Ora, o
estudante se transforma em uma simples marionete dentro dessa
concepção de ensino-aprendizado, sendo ele bem ou mal manipulado, bem
ou mal manuseado pelo professor. Acredito que nenhum estudante queira
se sentir nessa posição de marionete.
“Mas, espere aí! E o que é que o professor faz?”, você pode estar-se
perguntando. Afinal, se ele não transfere conhecimentos, se ele não ensina
nada ao estudante, se o estudante é o responsável pelo seu aprendizado, o
que é que o professor faz? Essas perguntas são legítimas, mas elas se
originam no hábito de se ver o professor como aquele que transfere
conhecimentos. O papel do professor é ensinar. Isso é inegável e óbvio até.
Entretanto, é necessário que se tenha clareza a respeito do que ensinar
significa, pois o ato de ensinar não é tão óbvio quanto parece.
Ensinar significa orientar o estudante, significa oferecer-lhe caminhos
que facilitem seu processo de construção de aprendizagem. Daí o termo
facilitador ser hoje muito popular nos meios acadêmicos. Facilitar o
processo de aprendizagem engloba uma série de atos: tratar o estudante
com respeito; oferecer um ambiente afetivo na sala de aula que propicie o
aprendizado; ouvir o estudante; sugerir estratégias de aprendizagem;
recomendar leituras; estimular o estudante a pesquisar; transmitir
informações relevantes para o processo de construção de conhecimento
dos estudantes. E não custa repetir: conceber o ato de ensinar como a
transmissão de conhecimentos não faz sentido.
Ser autônomo é essencial para o sucesso acadêmico. Observe que
“sucesso acadêmico” não é entendido aqui apenas como o recebimento de
um diploma, mas também como a construção de conhecimentos, a tomada
de consciência a respeito de questões sociais e de cidadania, a preparação
não apenas para adquirir experiência profissional no mercado de trabalho,
mas também para construir conhecimentos mais aprofundados.
Ser um estudante autônomo propicia vantagens dentro da
universidade e fora dela. Por exemplo, às vezes, ouvem-se estudantes
comentando que um determinado professor não ensina bem, dá aulas
confusas e não contribui muito para o processo de construção de
conhecimentos. Nesse caso, o estudante passivo e não autônomo se
lamenta o tempo todo e não toma nenhuma atitude no sentido de
compensar a falta de contribuição por parte do professor. Ele apenas culpa
o professor pelo seu insucesso, repetindo o gesto de Adão apontando o
dedo para Eva. O estudante autônomo se lamenta, reclama, sim, pois
ninguém é de ferro. Contudo, ele também busca meios de diminuir o
impacto negativo que o professor está causando: faz mais leituras, conversa
com outros professores, estuda com colegas.
A autonomia que o estudante desenvolve na universidade é muito útil
fora da instituição. Isso porque o estudante se torna uma pessoa
independente, que sabe se virar para sistematizar seus estudos para um
concurso público e para pensar em soluções de problemas que enfrenta no
trabalho, por exemplo.
Uma pergunta, então, pode estar vindo à sua cabeça neste momento: se
o estudante pode se virar sozinho, então para que ele vai precisar de
professor? A lógica subjacente a essa pergunta é correta já que um
estudante pode aprender tudo sozinho: é o caso extremo de autonomia,
que se materializa nos autodidatas. Entretanto, fazer tudo sozinho é muito
trabalhoso e consome muito tempo. Não por acaso, deve haver poucos
autodidatas por aí. E é por isso que o professor existe: para facilitar o
trabalho do estudante, propondo leituras e atividades, provocando
reflexões. Daí o termo facilitador.
Todavia, pode acontecer de o estudante ter um professor que não é um
facilitador, mas, sim, um complicador da sua aprendizagem — é um
professor que falta às aulas com frequência ou que cobra na prova assuntos
que não discutiu em sala ou que não planeja as aulas ou que é grosseiro
com os alunos, etc. Nesse caso, o estudante precisa ser autônomo o
suficiente para fazer o seu trabalho sozinho na disciplina que o professor
complicador leciona. Obviamente, se a maioria dos professores que o
estudante tem for mais complicadores do que facilitadores, ele deverá se
transferir para outra instituição.
Uma característica do estudante autônomo é a sua iniciativa para ler.
Dizem que muitos estudantes leem pouco. Não sei se isso é verdade. Talvez
o que ocorre seja o fato de a maioria dos estudantes não ler o que muitos
professores acham que eles deveriam ler (ou seja, os clássicos), limitando-
se, geralmente, a ler os textos e os livros que ‘caem’ na prova ou em
trabalhos acadêmicos.
Se realmente houver uma falta de hábito de leitura que caracterize
muitos estudantes universitários, ela pode ser causada por fatores
distintos. Um deles é o advento das formas midiáticas velozes, como a
televisão e a internet. Alguns estudantes são preguiçosos para ler livros e
revistas, mas não o são para assistir à televisão ou para surfar na net, onde
leem mensagens instantâneas em sites de relacionamento. Há também o
fato de os pais de alguns jovens não estimularem seus filhos a ler. Muitas
vezes, os próprios pais leem pouco, o que acaba servindo de mau exemplo
para os filhos, no caso das famílias de classes sociais mais elevadas. No caso
das famílias mais pobres, há, infelizmente, uma exclusão dos pais do
processo de escolarização, o que acaba causando uma falta de hábito de
leitura e até da existência de livros e revistas em casa. O elevado preço dos
livros no Brasil pode ser apontado como mais uma causa da suposta falta
de hábito de leitura. Em suma, é interessante que os jovens criem o hábito
de consumir livros e revistas, e não se limitem a consumirem apenas
roupas, acessórios, celulares e outros produtos de consumo de massa.
Infelizmente, a maioria das editoras e das livrarias no Brasil pratica
preços relativamente altos, se comparados com a capacidade de compra da
maioria dos brasileiros. Por isso é que sua faculdade possui uma biblioteca.
Claro que o ideal seria você ter a sua própria biblioteca, mas isso você
constrói com o tempo. Enquanto não dá para ter a sua própria, e se não
sobrar grana para comprar livros, vire um rato de biblioteca (mas nunca
um predador de livros!).
Um estudante que lê, com frequência, textos sobre assuntos diversos
tem duas vantagens. A primeira é a mais óbvia: ele aumenta bastante o
volume de informações que possui, o que é necessário para a construção de
seus conhecimentos gerais e específicos. Um aluno bem informado tem
base para questionar o que lê e o que ouve do professor e de palestrantes,
além de ter conteúdo para escrever. Ler criticamente e ouvir criticamente
são características do estudante universitário autônomo. A segunda
vantagem é redacional: quanto mais nós lemos, mais nos expomos à
estrutura discursiva da língua, no nosso caso, a língua portuguesa, e quanto
mais nós ampliamos os nossos conhecimentos de mundo mais aptos nos
tornamos para escrevermos sobre um maior número de temas (afinal, não
se pode escrever sobre um tema se não se tem nada a dizer sobre ele). Isso
é muito importante para melhorar a qualidade da nossa escrita. E vale
lembrar que a pouca habilidade para redigir textos é uma característica de
muitos estudantes brasileiros, tanto na graduação quanto na pós-
graduação. Por isso, não custa lembrar um ensinamento do filósofo alemão
Arthur Schopenhauer (2005 [1851], p. 32): “a primeira regra do bom estilo,
que por si só já é quase suficiente, é ter algo a dizer: oh, com ela se vai
longe!”
Se você acha que lê poucos livros, revistas e artigos sobre assuntos
variados, então trate de modificar seu hábito de leitura. Um estudante
universitário com frequentes e variadas leituras tende a ser um estudante
com mais chances de se destacar no ambiente acadêmico. Se você não
escreve com fluência, procure frequentar um curso de produção de textos.
Talvez sua universidade ofereça um curso de extensão em produção
textual. Essas iniciativas provavelmente trarão muitos benefícios para você,
não só na faculdade, mas também no mercado de trabalho. Muitas
empresas realizam processos seletivos para contratarem novos
funcionários e, nesses processos, os candidatos são submetidos a testes de
conhecimentos gerais e conhecimentos específicos, e à produção de um
texto. Portanto, fique ligado: desenvolva sua escrita e intensifique e varie
suas leituras.
2

COMO SE DEVE ESTUDAR?


Uma das situações mais comuns na universidade é aquela em que o
estudante conversa com algum professor e pede sugestões de como
estudar. Em verdade, não se pode dizer que essa ou aquela maneira de
estudar é a melhor, a mais eficiente. Tal impossibilidade é decorrente do
fato de cada pessoa ser diferente da outra, o que leva cada estudante a se
sentir mais ou menos confortável com uma ou outra forma de estudar.
Essas diferenças individuais estão relacionadas com aquilo que o
psicólogo Howard Gardner chamou de inteligências múltiplas, tema de
muitos estudos, discussões e polêmicas no meio acadêmico. Para Gardner,
o ser humano tem mais de um tipo de inteligência: a lógico-matemática; a
pictórica; a musical; a intrapessoal; a interpessoal; a espacial; a linguística;
a corporal-cinestésica.
Quando uma pessoa realiza uma atividade, mais de um tipo de
inteligência estão envolvidos, mas geralmente um ou outro tipo se
sobressai em relação aos demais. Assim, por exemplo, há pessoas que têm
mais facilidade com a resolução de problemas que requerem raciocínio
lógico do que com atividades musicais e linguísticas: são as pessoas em que
prepondera a inteligência lógico-matemática. Há estudantes que têm
facilidade para apresentar um trabalho oralmente, mas que precisam se
esforçar muito para aprender passos de dança e manobras esportivas: são
os estudantes que possuem mais inteligência linguística do que corporal-
cinestésica. Esses exemplos bastam para ilustrar diferentes inteligências e
deixar você curioso para pensar sobre quais os tipos de inteligência que são
mais desenvolvidas em você e de quais tipos você precisa e/ou deseja
desenvolver.
Obviamente, essas diferenças individuais impedem que se prescrevam
fórmulas universais e infalíveis de como se estudar. Entretanto, elas não
impedem que se façam sugestões acerca de hábitos e comportamentos que
são benéficos para o aprendizado. Neste capítulo, portanto, sugiro algumas
estratégias de estudo que podem ser úteis a você.

CONCENTRE-SE!

“Concentrar-se é importante.” Essa parece uma coisa óbvia demais


para se dizer a um estudante, não acha? Infelizmente, há muitos estudantes
que, por algumas razões, têm uma dificuldade imensa de se concentrar. Por
isso, nunca é demais lembrar ao estudante que ele precisa se concentrar se
quiser aprender alguma coisa.
Há alguns sintomas que indicam a pouca capacidade de concentração
dos estudantes. Um deles é o fato de o estudante entrar e sair da sala de
aula várias vezes: são os estudantes que poderíamos chamar de “nômades
acadêmicos internos”, que se movimentam da sala de aula para a cantina,
daí para a sala de aula, daí para o banheiro e, depois de darem um tempo
no corredor, voltam para a sala de aula, num ciclo interminável de
deslocamentos espaciais, geralmente sem objetivos muito claros. O entra-e-
sai dos nômades acadêmicos internos, além de irritante e desrespeitoso
para com o professor e os outros estudantes, leva-os a não se concentrarem
em nada do que esteja ocorrendo na sala de aula e nem no que esteja
ocorrendo fora dela. (Você deve estar-se perguntando se não existe algo
como um “nômade acadêmico externo”. Há, sim. São aqueles estudantes
que mudam de curso e de faculdade com uma frequência impressionante. O
que os dois tipos de nômades acadêmicos têm em comum é o fato de
aparentemente estarem perdidos, sem saber o que realmente querem fazer
academicamente.)
A causa desse entra-e-sai pode ser justificável ou totalmente
injustificável. Entre as causas justificáveis, encontram-se problemas de
saúde, como a diarreia e a coriza, que levam os estudantes a se dirigirem ao
banheiro durante o período da aula. Entre os motivos injustificáveis para o
entra-e-sai, há um que é terrível: o telefone celular. Alguns estudantes
chegam ao cúmulo de assistir às aulas com o celular na mão ou no colo,
aguardando ligações. É importante que se diferenciem esses estudantes
daqueles que realmente precisam estar com o aparelho ligado por causa de
parentes com problemas de saúde, o que os leva a esperar por informações
sobre a pessoa doente. Esses estudantes têm uma razão justificável para
manter o aparelho ligado e, geralmente, comunicam a situação para o
professor no início da aula, o qual provavelmente dará a permissão para
deixá-lo ligado na função vibra call.
Infelizmente, há aqueles estudantes que ficam à espera das ligações de
amigos para decidirem aonde irão se divertir naquele dia ou simplesmente
para jogarem conversa fora ou que ficam enviando mensagens de texto
durante a aula. Além de esse comportamento ser uma tremenda falta de
educação e um ato bastante desrespeitoso, os estudantes que saem da sala
para atender o celular, e aqueles que chegam ao extremo de usar o
aparelho na própria sala de aula, atrapalham os colegas e o professor. O
pior é que tais estudantes ainda têm a petulância de se zangarem quando o
professor reclama do seu comportamento. Ora, se o estudante deixa o
aparelho ligado durante a aula e ainda o mantém na mão ou no colo ou no
bolso, ele dificilmente estará concentrado na aula já que estará à espera de
alguma ligação.
Há ainda outros aparelhos que contribuem para a falta de atenção do
estudante: o notebook, o tablet e o smartphone (este tende a levar o celular
para o museu). Como as universidades estão se democratizando cada vez
mais em termos de acesso a redes wi-fi, os estudantes que levam esses
aparelhos para a sala de aula ficam tentados a surfarem na Internet
durante a aula. E isso é não apenas ruim para sua concentração, mas
também desrespeitoso para com o professor.
Portanto, aí vai uma dica para ajudar na sua concentração durante a
aula, caso você tenha esse hábito: mantenha seu celular ou smartphone
desligado ou, no máximo, na função vibra call em um local onde você não
perceba a vibração para que você só possa identificar as ligações e retorná-
las após a aula. Outra dica: use o notebook e o tablet como cadernos
virtuais, mas não os utilizem para ficar surfando na Internet durante a aula.
Outro motivo de desconcentração é a conversa paralela (e às vezes
diagonal, circular e em outras formas geométricas ainda não identificadas).
Não existe coisa mais chata do que dois (três, quatro, …) estudantes
batendo papo na sala durante a apresentação do professor ou de outros
colegas. Obviamente, os estudantes que conversam durante a aula não
conseguem se concentrar. Nem praticando yoga, esses estudantes
conseguiriam fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Isso iria requerer anos
de treinamento com os yogis indianos, muito incenso e muita reza. Até
alcançar algum resultado, o estudante já teria acabado o curso (ou o curso
já teria acabado com o estudante). Evitar as conversas paralelas é, assim,
uma forma de manter a concentração no estudo. Aliás, muitos dos
estudantes que não respeitam o professor nem os colegas ficam chateados
quando fazem apresentações e ninguém presta atenção. Não é
interessante? Isso é o exemplo da chamada hipocrisia: faça o que eu digo,
mas não faça o que eu faço.
Mas não se estuda só na sala de aula. O estudo em casa é decisivo para
o aprendizado do universitário. Afinal, quanto mais o estudante se expõe
aos assuntos abordados nas diversas disciplinas, mais ele tende a aprender
e a apreender esses assuntos. Dessa forma, ao estudar em casa, devem-se
evitar os fatores que tendem a desviar a concentração do estudante, como
ouvir música, manter longas conversas telefônicas com os amigos ou
engajar-se numa troca frenética e interminável de mensagens de texto. Se
você tem tendências compulsivas ao uso do telefone, desligue-o na hora do
estudo. Se não for possível desligá-lo, seja breve nas ligações e firme com os
colegas que não sabem respeitar seu horário de estudo. Quanto a ficar o
tempo todo enviando e recebendo mensagens de texto, eternamente atento
ao WhatsApp, a sugestão é a mesma: tente deixar o aparelho longe de você
para evitar a tentação. E que tal ouvir música na hora do estudo? É verdade
que existem pessoas que gostam de estudar ouvindo música e que
garantem conseguir se concentrar. Há quem acredite até que ouvir música
clássica e estudar ao mesmo tempo pode aumentar a produtividade. Se
você consegue estudar e ouvir música ao mesmo tempo, continue.
Entretanto, se você não consegue fazer isso, pense duas vezes antes de ligar
o rádio para estudar história, física quântica, anatomia, linguística, teoria
das vantagens comparativas, turismo cultural ou estrutura de dados, por
exemplo.
O importante é que você consiga criar o ambiente mais propício para
os seus estudos, de forma que sua concentração possa ser estimulada. Do
contrário, as provas finais e as reprovações podem se tornar mais do que
possibilidades em sua vida acadêmica (e não adianta bater três vezes na
madeira se você não estudar, viu?).

NÃO SEJA UM POÇO DE DÚVIDAS

Conta-se que, no Templo de Delfos, localizado na Grécia Antiga e em


cujo portal havia a inscrição Homem, conhece-te a ti mesmo, Sócrates teria
proferido uma de suas mais famosas frases: “O que eu sei é que nada sei”.
Essa frase, tão emblemática quanto enigmática, move discussões profundas
em círculos filosóficos e ordens iniciáticas. Entretanto, quando essa frase é
proferida por um estudante universitário, o ouvinte, geralmente o
professor ou outro estudante, tende a interpretá-la de uma forma mais
profana e literal. Seria uma interpretação do tipo: “Rapaz, tou mais perdido
que charuto em boca de bêbado”.
Às vezes, no final de uma aula, quando o professor pergunta aos
estudantes se têm alguma dúvida, um ou outro estudante desfere um golpe
quase mortal no professor: “Não entendi nada.” Isso é terrível para o
professor e mais ainda para o aluno. Como é que a criatura não entendeu
nada ao final da aula? O professor fica com uma sensação de frustração e o
estudante fica com a complicada tarefa de explicar o porquê de não ter feito
uma intervenção com antecedência, no momento em que começou a “não
entender nada”.
Dizer que não entendeu nada ao término de uma aula não ajuda o
estudante em nada. Muitas vezes, ele tem uma dúvida no começo da aula e
espera até o final para dizer que tem a tal dúvida. Isso é problemático, pois
a dúvida pode ser sobre um ponto essencial para o entendimento do
restante da aula. Resultado: essa dúvida compromete toda a sequência da
aula para o estudante. É importante que ele ajude o professor a ajudá-lo no
processo de construção de conhecimentos, esclarecendo exatamente que
parte da aula ele não entendeu no exato momento em que a dúvida surge.
Há estudantes que têm dúvidas em várias aulas e, somente no dia da
revisão que o professor geralmente faz antes de uma prova, declaram que
não sabem nada. Aí já é tarde demais. Afinal, o que o estudante quer que o
professor faça? Um milagre?! Ele quer que o professor conecte a cabeça
dele à sua e faça um transplante de conhecimentos, no melhor estilo do
chapéu-pensador do Professor Pardal? Olha aí a concepção bancária da
educação vindo à tona! Isso simplesmente não acontece.
Nessa hora o estudante percebe que o professor não pode transferir
seus conhecimentos para ele. É impossível. E não adianta o estudante rezar:
não há santo que dê jeito porque o aprendizado não é um milagre. Lembre-
se do ditado popular: “Deus ajuda quem se ajuda”. Se o estudante não se
ajuda, não há como o professor o ajudar e, muito menos, Deus.
Podemos pensar em três causas mais comuns para a origem das
dúvidas dos estudantes. Uma delas é a falta de concentração durante a aula,
o que favorece o não entendimento por parte do estudante. Como vimos
anteriormente, sem concentração, fica muito difícil processar as
informações que são transmitidas e acompanhar as discussões que surgem
na aula. Uma segunda causa está na possibilidade de o professor se enrolar
todo para explicar as coisas e para transmitir informações. Essa dificuldade
de comunicação e falta de habilidade didática por parte do professor
dificultam o processo de aprendizagem do estudante. Nesse caso, o
estudante precisa conversar com o professor e mostrar-lhe que a forma
como está conduzindo a aula não está ajudando muito no seu processo de
aprendizado. Mas, um aviso: é importante que o estudante tenha certeza de
que o problema esteja realmente na maneira de o professor lecionar para
que ele não seja injusto para com o professor. Às vezes, o problema reside
na falta de base do estudante, o que se constitui na terceira causa para suas
dúvidas. Se o estudante resolve, por exemplo, fazer um curso na área de
ciências exatas, mas não tem bons conhecimentos básicos de matemática,
ele terá muitas dificuldades para acompanhar o curso. Afinal, o que o
professor de Cálculo terá que fazer em sua aula? Revisar as operações
básicas e funções? Claro que não. Essa não é uma obrigação dele, embora
ele deva conversar com o estudante sem base e sugerir um curso de ação.
Resolver o problema da falta de base exigirá do estudante muito tempo e
dedicação, estudando sozinho ou tomando aulas particulares. É importante
que o estudante tenha consciência disso para não atribuir ao professor a
responsabilidade pelas suas dificuldades e pelos eventuais insucessos que
venha a ter na disciplina.
E aqui vai uma dica importante acerca das disciplinas optativas 1. Elas
são importantes para a formação do estudante porque se configuram em
oportunidades de ele concentrar seus estudos em uma determinada área
temática. Contudo, há disciplinas optativas para o Bacharelado
Interdisciplinar em Humanidades, por exemplo, que são obrigatórias para o
curso de Letras, que exige uma ou mais disciplinas como pré-requisitos
para cursá-las. E aí reside um problema. Imaginemos que um estudante do
Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades da Universidade Federal da
Bahia decida se matricular em uma disciplina, digamos, Ensino de Leitura e
Escrita em Língua Portuguesa, oferecida pelo Departamento de Letras
Vernáculas. Essa disciplina tem como pré-requisitos as disciplinas Língua
Portuguesa no Brasil, Introdução à Semântica e Introdução à Análise
Textual, as quais o estudante em questão não cursou. Podemos facilmente
prever que ele provavelmente terá muitas dúvidas relativas a conceitos
teóricos pelo fato de não ter cursado os pré-requisitos. E o professor não
poderá fazer muita coisa para ajudá-lo a dirimir suas dúvidas. Logo, a dica é
esta: verifique se as disciplinas optativas em que você deseja se matricular
possui pré-requisitos nos seus cursos de origem. Se possuírem, avalie a
viabilidade de cursar essas optativas.
Você pode estar se perguntando: “Vem cá. Por que um curso oferece
disciplinas optativas que possuem pré-requisitos em seus cursos de origem
se isso pode ser uma poderosa fonte geradora de dúvidas para os
estudantes?”. Bem, como se diz na minha terra, quem souber morre!
Apenas saiba que essas coisas existem, coisas sem lógica. Não pense que as
universidades são perfeitas, pois elas não são.
Enfim, é essencial que o estudante não seja um poço de dúvidas. Do
contrário, ele entra em estado de desespero acadêmico, que causa dores de
cabeça, dores de barriga, gastrite, estresse e notas baixas. Portanto,
esclareça suas dúvidas assim que elas apareçam. Mas, lembre-se: somente
os estudantes que se concentram nas aulas podem ter dúvidas legítimas;
somente os estudantes que estudam com frequência podem ter dúvidas
legítimas sobre os assuntos estudados. E o que é dúvida legítima? É aquela
decorrente do processo continuado de aprendizado, durante a aula e fora
da sala de aula. Aquelas dúvidas que o estudante diz ter porque não
prestou atenção à aula, porque saiu da sala para atender o celular ou
porque resolveu estudar todo o conteúdo de dois meses em apenas uma
noite são resultantes da falta de seriedade ou da falta de organização do
estudante e não são dúvidas legítimas. Por isso, é necessário que o
estudante faça revisões estruturadas e organize o seu tempo para que suas
dúvidas sejam legítimas e mereçam ser consideradas pelo professor.

FAÇA REVISÕES ESTRUTURADAS

Por algum motivo equivocado, existe uma crença no meio estudantil de


que revisão é algo que só se faz na véspera da prova. É comum que o
professor faça uma revisão antes das provas, porém isso não significa que o
estudante deva fazer revisões somente antes das provas.
Os estudantes devem se lembrar de que a revisão é uma estratégia de
estudo importantíssima. Conscientemente ou não, o estudante revela saber
disso quando diz concordar com a ideia de que “não se deve acumular
assuntos”. Não acumular assuntos significa ler a respeito dos assuntos de
maneira sistemática e frequente.
Por isso, é importante que você estruture suas revisões, anotando o
título dos textos que você lê e anotando os pontos e os exercícios que
causam dúvidas. Dessa forma, você poderá conversar com seu professor e
com seus colegas a respeito delas ou buscar outras fontes de pesquisa para
esclarecer os pontos duvidosos. Evite fazer revisões monstruosas, ou seja,
revisões em que você pretende revisar todo o conteúdo de dois meses em
um dia. Faça revisões menores e com mais frequência — pelo menos uma
vez por semana. É isso que vai evitar o tal acúmulo de assuntos.
Neste momento, você pode estar levantando uma questão de ordem
prática: fazer revisões estruturadas com certa frequência requer tempo. E
se o estudante não tiver muito tempo assim? Bem, para responder a essa
pergunta, vou abrir outra seção.
ORGANIZE SEU HORÁRIO

Como disse Aristóteles, “o equilíbrio está no meio”, que, na minha


terra, é traduzida por “nem oito nem oitenta”. São palavras sábias, que
deveriam ser lembradas por todos os estudantes universitários. Equilíbrio
é essencial para que eles consigam organizar seu tempo para os estudos.
Eles não devem passar o tempo todo estudando e nem devem passar dias
sem pegar em um livro. Todavia, se o estudante pretende levar o seu curso
a sério, ele precisa se conscientizar de que precisa de tempo fora do horário
das aulas para estudar, organizar suas anotações, fazer leituras extras e
pesquisar.
Tempo é uma questão de prioridade. Muitas vezes, o estudante
universitário tem de fazer escolhas entre as atividades que desempenha no
seu dia a dia e o estudo que precisa fazer quando não está na sala de aula.
Talvez a praia, o barzinho e a novela precisem ser sacrificados em várias
ocasiões em função das obrigações acadêmicas. Aliás, muitos estudantes
que deixam para “estudar” só na véspera da prova, sabem muito bem
esquecer a televisão, o smartphone, o barzinho e a praia para tentar operar
o milagre de “aprender” em um ou dois dias todos os assuntos que foram
abordados em um ou dois meses.
Há estudantes que se lamentam dramaticamente, contando aos
professores que trabalham 12 horas por dia, têm meia dúzia de filhos para
criar, blá-blá-blá, e que, por isso, não têm tempo para estudar. Alguns
chegam ao extremo da petulância e da falta de ética ao pedirem ao
professor para “aliviar na prova” e não cobrar muitos assuntos. Ou, então,
pedem para o professor “passar um trabalho” como uma forma de ajudá-
los. Curioso, né? Fazer um trabalho, teoricamente, dá trabalho.
Ora, uma perguntinha só: se o estudante é casado, tem filhos, trabalha
e não tem tempo para estudar, o que é que o professor tem a ver com isso?
Nada, é claro. Se a pessoa decide ingressar na universidade, ela o faz
sabendo que terá a obrigação de estudar. Se ela não tem muito tempo, isso
é um problema dela. Usar a falta de tempo como um argumento para que o
professor seja paternalista e leniente é um comportamento, no mínimo,
inadequado e descabido ao qual subjaz a busca por privilégios.
Se o estudante tem muitas atividades durante a semana, ele tem três
opções quanto ao seu horário. A primeira é abrir mão de algumas das
atividades que realiza durante a semana para estudar. Assim, ele poderá
ainda ter tempo livre no final de semana para se divertir. A segunda é abrir
mão de atividades que realiza no final de semana, caso ele não possa abrir
mão das atividades que realiza durante a semana. Aí ele estudaria nos
finais de semana. É o caso das pessoas que trabalham e, obviamente, não
podem deixar de trabalhar. A terceira opção é tentar levar o curso adiante
não estudando quase nada e se lamentando constantemente da vida, o que
não parece ser uma opção muito interessante. (Note-se que nem vou
sugerir a opção mais extrema, que é a desistência do curso.)
Há ainda outra possibilidade: o estudante pode diminuir o número de
disciplinas em que se matricula no semestre. Algumas faculdades,
conscientes das diferenças existentes entre os estudantes do turno diurno e
os estudantes do turno noturno, oferecem um determinado curso diurno
com duração mínima de quatro anos e oferecem o mesmo curso no turno
noturno com duração mínima de cinco ou seis anos. O objetivo é óbvio:
permitir aos estudantes do curso noturno aproveitarem melhor o curso
matriculando-se em um número menor de disciplinas a cada semestre.
Observe-se que os cursos matutinos podem ter aulas das 7:00 às 13:00 e os
vespertinos, das 13:00 às 19:00. Ou seja, eles têm três faixas de horários. Já
os cursos noturnos oferecem apenas duas faixas de horários, das 18:30 às
22:30 ou das 19:00 às 23:00. Logo, um curso que é oferecido nos turnos
matutino ou vespertino com duração mínima de quatro anos não pode ser
oferecido com a mesma duração no turno noturno. É uma simples questão
de aritmética.
E não podemos nos esquecer de um hábito terrível que muitos
estudantes têm: deixar tudo para a última hora. Se há prazos para cumprir,
o estudante deve cumpri-los. Algumas vezes, o descumprimento ocorre por
motivos realmente justos. Muitas vezes, porém, o descumprimento é
causado por pura falta de organização do tempo ou por falta de seriedade
do estudante.
Se um professor, por exemplo, dá um prazo de um mês para que os
estudantes preparem um trabalho acadêmico, eles têm a obrigação de estar
com o trabalho pronto dali a um mês. Se os estudantes considerarem o
tempo muito curto para o tipo de trabalho a ser elaborado, eles devem
negociar o prazo com o professor no exato momento em que ele anuncia o
prazo, e não na véspera da data final para a entrega do trabalho.
Organizando seu tempo, você terá chances de aprender muito mais. E
não se esqueça de três provérbios realistas:
• Devagar se vai ao longe… mas se leva muito tempo.
• Quem espera sempre é alcançado.
• Os últimos sempre serão os primeiros… mas apenas em caso
de retirada.

SAIBA COMO ESCOLHER UM LIVRO

Já falamos a respeito da importância da leitura e da importância de


frequentar bibliotecas e livrarias. Porém, uma questão precisa ser
abordada aqui: como saber se um determinado livro pode ser útil para
você? Bem, antes de tudo, ao escolher um livro para ler ou comprar, você
não deve se limitar a ler o título do livro. Às vezes, o título pode passar uma
ideia equivocada acerca do conteúdo. Por causa dessa possibilidade, você
deve sempre ler o texto da quarta capa do livro (aquele que fica na capa de
trás do livro), bem como suas orelhas, seu sumário e, se possível, sua
introdução ou apresentação. Isso vai garantir que você tenha uma ideia
razoável do conteúdo do livro, apesar de não garantir que o livro será do
seu agrado ou que trará um benefício maior do que o custo.
Deixe-me dar dois exemplos para ilustrar a importância dessa questão
da escolha de livros. Em uma determinada ocasião, uma estudante estava
interessada em ler acerca da história da ética. Foi à biblioteca da sua
faculdade e viu um livro com o título Histórias sobre ética. O título levou a
estudante a pensar que o livro trata da história da ética. Altamente
procedente, né? Entretanto, ao chegar a sua casa e abrir o livro, a estudante
percebeu que o livro é, na verdade, uma coleção de contos que lidam, de
alguma forma, com questões éticas, e não um texto teórico sobre a questão
da ética. O outro exemplo é uma situação que aconteceu comigo. Fui a uma
feira de livros em Salvador e, quando estava saindo, vi um livro com o título
O Eufemismo e o disfemismo no português moderno. Como eu estava
interessado no tema do disfemismo e estava com pressa, comprei o livro
sem olhar o texto da quarta capa ou o sumário. Resultado: ao chegar a
minha casa e ler o texto da quarta capa, percebi que não comprara o que eu
queria. O livro apresenta, na verdade, um corpus de material linguístico, ou
seja, uma lista de palavras e expressões, sem nenhuma consideração
teórica a respeito do tema que me interessava.
A aluna teve apenas que devolver o livro à biblioteca, mas eu
desperdicei dinheiro comprando o livro errado. Pelas razões levantadas
acima, preste bem atenção quando você for escolher os livros para a sua
leitura e, principalmente, quando for comprar livros para compor a sua
própria biblioteca.

ORGANIZE O VOCABULÁRIO TÉCNICO

Ao ingressar na faculdade, você começa a fazer parte de um grupo de


pessoas que compartilham interesses acadêmicos e uma linguagem
específica à área em que o seu curso se encontra inserido. Os termos
específicos de uma determinada área acadêmica e profissional constituem
aquilo que se chama de jargão.
Um dos jargões mais veiculados pela mídia de massa no Brasil é o
economês, a linguagem usada por economistas: taxa de juros, risco-Brasil,
balança de pagamentos, fundos de renda fixa, taxa de câmbio e muitos
outros termos são usados o tempo todo em telejornais, jornais e revistas
devido aos muitos problemas econômicos que o mundo capitalista tem
enfrentado há décadas. Na área médica, não se diz ferida na sola do pé mas,
sim, ulceração na região plantar. Um estudante de Letras tem a obrigação
de saber a diferença entre fonética e fonologia, e deve saber o que variação
diastrática e competência comunicativa significam. Analogamente, o
estudante de Turismo precisa saber o que significam as expressões
capacidade de carga e patrimônio imaterial. O bacharel em Sistema de
Informações precisa dominar o informatiquês, que inclui, entre outros
termos, backbone, mainframe, firewall, drivers e spool. O biólogo tem de
saber que a orca, a baleia assassina, apesar de ser um cetáceo, não é uma
baleia, mas, sim, o maior tipo de golfinho que existe. Para o leigo, a baleia
assassina é uma baleia e cetáceo parece um nome feio (experimente
chamar alguém de cetáceo para ver o que acontece).
O estudante universitário, portanto, deve organizar sistematicamente
o vocabulário específico da sua área de estudo para que se familiarize, o
mais rapidamente possível, com o jargão. Eles representam conceitos
teóricos essenciais para o domínio dos assuntos. Se o estudante seguir essa
sugestão, quando fizer leituras de textos acadêmicos e técnicos, os termos
especializados não lhe causarão dificuldades durante o processo de leitura.
Uma forma de se fazer isso é ter um caderno ou uma caderneta somente
para registrar os termos que se vão encontrando nos textos.
Experimente organizar o vocabulário que você for aprendendo nas
aulas e nas leituras, criando uma lista de termos técnicos. Vale lembrar que
é importante visitar esse caderno ou essa caderneta de tempos em tempos
para se certificar de que se lembra daqueles conceitos.

SAIBA A DIFERENÇA ENTRE TOMAR NOTAS E COPIAR

Uma estratégia de estudo importante é o ato de tomar notas. Fazer


anotações durante aulas, palestras e leituras é muito eficiente no sentido de
fornecer ao estudante subsídios para elaborar textos a partir de suas
anotações e para auxiliar nas suas revisões estruturadas. Entretanto, é
preciso esclarecer aqui que tomar notas não é a mesma coisa que copiar.
Há estudantes que têm o hábito de copiar tudo o que o professor fala na
aula e alguns deles ainda se vangloriam dizendo: “Copiei tudinho que o
professor disse.”
A provável justificativa para esse hábito é a crença de que a cópia
servirá como a melhor fonte de estudos para o estudante. Essa justificativa,
contudo, não procede por uma razão bem simples: o estudante que passa a
aula ou a palestra copiando literalmente tudo que o professor ou o que o
palestrante fala não se concentra no conteúdo da fala do professor. Nesse
caso, a concentração está voltada para a forma que o conteúdo toma. Afinal,
para copiar muitas coisas no tempo real da fala é necessário que se utilize
apenas a memória de curto prazo. Consequentemente, isso impede que o
estudante se concentre no conteúdo e interaja com ele. A prova disso é que,
ao lerem a cópia depois da aula ou da palestra, alguns estudantes não
conseguem dar um sentido coerente a algumas coisas copiadas.
O ideal é o estudante tomar notas dos pontos mais importantes da aula
ou da palestra. Dessa forma, ele pode se concentrar no conteúdo, no quadro
geral da aula ou da palestra, e ser capaz de discernir quais pontos são tão
relevantes que precisam ser anotados. Tendo tomado nota dos pontos
importantes e tendo prestado atenção ao conteúdo, o estudante pode
redigir um texto a partir das notas que tomou.
A maneira de se tomarem as notas varia de pessoa para pessoa.
Algumas usam apenas palavras-chave; outras usam símbolos junto com
palavras e frases; outras escrevem períodos completos e os comentam.
Descubra qual a forma mais confortável e mais eficaz para você tomar
notas. O importante é que você entenda o que você anota: rabiscos
apressados podem-se transformar em símbolos indecifráveis, sabotando
todo o trabalho que você teve de tomar aquelas notas.
Pense a respeito dessa diferença entre copiar e tomar notas. Se você
tem o hábito de “copiar tudo o que o professor diz”, experimente apenas
tomar notas. E eis uma pergunta que você poderia me fazer: a cópia nunca
deve ser feita pelo estudante universitário? Bem, há uma situação em que a
cópia tem uma função importante na vida acadêmica, materializando-se
naquilo que é conhecido por fichamento, tema do próximo ponto.

ACOSTUME-SE A FAZER FICHAMENTOS

Uma técnica que é bastante útil para o estudo é o fichamento. Apesar


de o próprio nome indicar o uso de fichas, o estudante pode fazer o
fichamento em um caderno ou em folhas avulsas arquivadas em um
classificador ou no computador. O importante é o estudante perceber a
utilidade dessa técnica.
Muitos estudantes gostam de destacar, em livros e textos, os trechos
que consideram mais relevantes. Esse destaque é feito com uma caneta
marcadora de texto ou com um lápis e é bem útil. Entretanto, não se deve
fazer isso quando o livro pertence a um colega, a um professor ou a uma
biblioteca. Esse ato representa uma falta de respeito para com o dono do
livro e um ato de vandalismo quando é feito em um livro pertencente ao
acervo de uma biblioteca pública. Infelizmente, há muitos estudantes mal-
educados e egoístas pelo Brasil afora, os quais riscam livros das bibliotecas
universitárias e até arrancam algumas de suas páginas.
Então, o que fazer para registrar os trechos relevantes que se
encontram em livros que não nos pertencem? Uma possibilidade que vem à
cabeça é fazer a fotocópia dos trechos. Só que essa é uma possibilidade
mais cara e menos prática do que o fichamento: se você estiver consultando
um livro em uma biblioteca que não permite a saída do livro ou se você
estiver em casa, no domingo ou em um dia de semana à noite, lendo um
livro que tomou emprestado, a possibilidade da fotocópia se complica.
Além disso, muitas vezes, o estudante quer transcrever três ou quatro
linhas de uma página, o que não justifica todo o trabalho de ir a uma
copiadora fazer a fotocópia daquele trecho.
A melhor alternativa para o estudante é o fichamento, que é mais
barato e prático do que a fotocópia. O fichamento ainda traz a vantagem de
servir como um meio de fixar aquele trecho na memória do estudante pelo
fato de ele ter que copiar manualmente o trecho em questão.
O fichamento pode ser de dois tipos: bibliográfico e de conteúdo.
Geralmente, os dois vêm juntos. A ficha bibliográfica contém o nome do
autor, o título da obra, o assunto e, caso ele não pertença ao estudante, o
local onde o livro se encontra arquivado. A ficha de conteúdo contém, além
das informações bibliográficas, o resumo da obra e/ou a cópia de trechos. A
cópia é útil no momento em que o estudante necessita citar o autor da obra
em algum trabalho acadêmico. Por isso, é importante arquivar as fichas em
um envelope ou classificador, se você não usar um caderno, ou digitar os
trechos relevantes arquivando-os no computador ou no pen drive. Dessa
forma, quando você precisar rever algo que você escreveu, basta recorrer
às fichas ou ao caderno.
Há livros de metodologia científica ou de metodologia da pesquisa que
sugerem um formato para as fichas. Entretanto, você não tem de seguir um
padrão rígido para fazer seu fichamento. Conforme mencionei acima, você
pode usar até mesmo um caderno ou um computador para fazer seus
fichamentos.
Vejamos um exemplo. Suponha que um estudante de Psicologia esteja
fazendo uma pesquisa a respeito do comportamento humano em relação à
liberdade e à obediência. Ele descobre um livro que parece muito
interessante na biblioteca da sua faculdade. O livro se intitula O medo à
liberdade, escrito por Erich Fromm. Durante a leitura desse livro, o
estudante se depara com um trecho que lhe parece relevante. Esse trecho
mostra que Fromm assume uma posição diferente daquela assumida por
Freud a respeito dos impulsos humanos e o estudante resolve, então,
registrar esse trecho para futuras necessidades, como uma possível citação
no trabalho que está realizando para uma disciplina no seu curso de
Psicologia. Seu fichamento deve conter as seguintes informações:

a) o local onde o livro foi encontrado (o estudante pode precisar


usar duas ou mais bibliotecas, institucionais ou particulares,
para realizar uma pesquisa e, anotando o nome da biblioteca em
que encontrou aquele livro, ele não terá que quebrar a cabeça
tentando se lembrar de onde o livro se encontra caso precise
consultá-lo novamente);
b) o nome do autor (observe que o sobrenome vem, em caixa alta,
antes do nome);
c) o título do livro (destaque-o, aspeando-o ou sublinhando-o, por
exemplo);
d) a edição do livro (isso é importante porque, às vezes, uma edição
mais recente traz mudanças e atualizações em relação a edições
anteriores);
e) o nome do tradutor (às vezes, um livro possui mais de uma
tradução e, às vezes, uma tradução é superior à outra);
f) o local, a editora e o ano de publicação;
g) o título original;
h) a(s) página(s) onde se encontra o trecho copiado;
i) o assunto de que trata o trecho copiado;
j) o trecho copiado exatamente como está no livro.

Além desses elementos, o estudante pode, naturalmente, escrever


comentários a respeito do trecho fichado. Esses comentários são
importantes porque geralmente refletem ideias e insights que nos ocorrem
no momento do fichamento, os quais podemos esquecer posteriormente.
Veja, a seguir, como ficaria o fichamento do trecho selecionado pelo
estudante:

(biblioteca da faculdade)

FROMM, Erich. O medo à liberdade. 14. ed. Tradução de Octávio Alves


Filho. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983. Título original: Escape from
freedom.

(p. 20) Fromm vs. Freud — impulsos humanos

Embora haja certas necessidades — como fome, sede e satisfação


sexual — comuns a todo homem, os impulsos que contribuem para as
diferenças de caráter dos homens, como amor e ódio, a sede de poder e
o anseio de submissão, fruição do prazer sensual e o medo deste, são
todos produtos do processo social. As mais belas, assim como as mais
feias inclinações do homem, não são parte de uma natureza humana fixa
e recebida biologicamente, mas provêm do processo global que forma o
homem. Por outras palavras, a sociedade não tem somente uma função
supressora — conquanto também a tenha —, mas igualmente uma
função criadora. A natureza do homem, suas paixões e ansiedades são
um produto cultural; de fato, o homem mesmo é a mais importante
criação e realização da continuidade do esforço humano, a cujo registro
damos o nome de História.

De vez em quando, estudantes me perguntam sobre como fazer


fichamentos porque algum professor deles designou o fichamento de um
livro como uma atividade para nota. Digo-lhes para perguntarem ao
professor acerca do formato do fichamento que ele exige. Isso porque,
insisto, fichar um texto ou um livro é uma estratégia de estudo e tem
variações em sua forma a depender do estudante. Além disso, não consigo
compartilhar com a lógica de se usar o fichamento como uma forma de
avaliação. Parece-me que é mais uma forma paternalista de se patrulhar se
o estudante leu os textos ou não. De qualquer forma, há professores que
fazem isso. Então, pergunte a esses professores porque estão usando o
fichamento como forma de avaliação e que formato eles vislumbram para o
fichamento.

USE A INTERNET COMO FONTE DE PESQUISA

Na minha época de estudante de graduação, as coisas eram mais


difíceis do que são hoje em termos de encontrar informações e até de
produzir um texto. Eu tinha de usar a máquina de datilografar para
preparar os trabalhos acadêmicos. Quando eu errava alguma coisa na hora
em que estava datilografando, dava o maior trabalho para corrigir o trecho
com problema. Era terrível. Muitas vezes, dava raiva e eu arrancava a folha
da máquina, amassava-a e a jogava na cesta de lixo. Agora, os estudantes
têm, à sua disposição, o computador, que proporciona um processador de
textos com muitas facilidades para a elaboração de trabalhos escritos. Os
processadores têm até corretor de ortografia e de gramática, sem se
mencionar o fato de o computador possibilitar o armazenamento do texto e
a reprodução de quantas cópias se quiserem. Com a máquina de
datilografar, quando eu queria uma cópia, tinha de usar papel carbono para
datilografar. Era muito trabalhoso. Os estudantes de hoje são felizes e não
sabem, no que diz respeito à tecnologia de produção de textos.
E na hora que eu tinha de fazer pesquisas sobre assuntos não muito
comuns? Olha, não era mole, não. Eu tinha de ralar muito para descobrir
onde eu podia encontrar livros e periódicos especializados. Hoje, o
computador traz uma possibilidade fantástica: a Internet.
Desnecessário tecer maiores comentários sobre a grande rede
mundial, mas uma coisa que tenho notado é o fato de muitos estudantes
usarem frequentemente a Internet para interagirem com outras pessoas
em sites de relacionamento. Isso é bom porque indica que os estudantes
estão ficando cada vez mais íntimos com a Internet. Contudo, o estudante
precisa se acostumar a fazer dela também uma ferramenta de pesquisa, que
lhe dá acesso a artigos, a ensaios, a teses e até a livros inteiros. Em suma, a
ideia é usar a Internet não apenas para acessar sites de relacionamento,
mas também para fazer pesquisas acadêmicas.
E aqui vai uma dica sobre os catálogos de busca. Há vários deles, mas
um se apresenta como o mais eficiente no momento em que redijo a
terceira edição deste livro (pode ser que surjam outros catálogos mais
interessantes em um futuro próximo): o Google. Quando você quiser
pesquisar tópicos formados de uma só palavra, basta digitá-la no retângulo
indicado no catálogo. Entretanto, se seu tópico tiver mais de duas palavras,
você deve digitá-lo entre aspas duplas. Isso ajuda o catálogo a especificar
bem a busca. Experimente e faça da Internet uma ferramenta importante
de pesquisa.

FAÇA AUTOAVALIAÇÕES

Uma última dica para você aproveitar bem seus estudos: faça
autoavaliações com certa frequência. Preferencialmente, após as revisões
estruturadas, você deve se perguntar o que está sabendo, o que não está
sabendo e sobre o que tem dúvidas. Assim, você vai estar sempre
consciente de sua situação em cada disciplina, sabendo que pontos está
dominando, quais precisa estudar mais e em que pontos vai precisar da
orientação do professor. Lembre-se: autonomia, autonomia…

*…*…*

Espero que as sugestões apresentadas neste capítulo sejam úteis para os


seus estudos na universidade. No capítulo seguinte, trato de um assunto
que preocupa muitos estudantes universitários: as apresentações orais,
que fazem parte dos trabalhos acadêmicos, dos quais a sua sobrevivência
universitária depende.
3

E NA HORA DE FAZER UMA


APRESENTAÇÃO ORAL?
Parte das rotinas acadêmicas é a avaliação, que pode tomar o formato
de provas, trabalhos escritos e apresentações orais. Neste capítulo, vamos
nos concentrar nesta última forma de avaliação, pois as apresentações
orais estão presentes na agenda de avaliações de professores de diversas
disciplinas em todos os cursos universitários.
Há estudantes que não gostam de fazer apresentações orais. Ora, o fato
de eles não gostarem de falar em público não os isenta da obrigação de
fazer apresentações orais quando o professor as estabelece como parte das
avaliações. Geralmente, esses estudantes dizem que a razão para não
gostarem de fazer apresentações orais é a sua timidez. Existem estudantes
que alegam temer as críticas dos colegas. Há ainda os que detestam fazer
apresentações em grupos porque, às vezes, há colegas que não fazem nada
e querem ‘pongar’ no trabalho dos estudantes sérios. Deixe-me abordar
cada um desses aspectos.

VOCÊ É TÍMIDO PARA FALAR EM PÚBLICO?

A timidez realmente é uma barreira a ser transposta se o estudante


quiser fazer uma apresentação oral. Ninguém tem culpa de ser tímido e de
não se sentir à vontade para falar em público.
Para o desespero dos estudantes tímidos, há professores que adoram
designar aos seus alunos os famosos seminários, que são apresentações
orais sobre um texto ou sobre um tema não necessariamente baseado em
um texto específico. E quando o professor institui o seminário como uma
forma de avaliação, não há escapatória: ou os alunos apresentam o
seminário ou, por causa da timidez, eles não o apresentam e ficam com
nota zero.
Entretanto, o estudante tímido não deve se desesperar. Ele precisa
aproveitar os seminários a ele designados e utilizá-los como oportunidades
preciosas para superar a barreira da timidez, para criar autoconfiança.
Após as primeiras apresentações, a tendência é o estudante ir superando,
cada vez mais, as dificuldades impostas pela sua timidez.
Insisto neste ponto: o estudante precisa aproveitar a faculdade como
um espaço de prática de apresentações orais. Afinal, ele deve se lembrar de
uma coisa importante: ao sair da faculdade, ele pode se encontrar em
situações nas quais precisará falar na frente de outras pessoas, situações
como dinâmicas de grupo em um processo de recrutamento realizado por
uma empresa, assembleias de sindicatos de trabalhadores e apresentações
de projetos para clientes em potencial. É por isso que o estudante tímido
precisa fazer um esforço e usar o espaço oferecido pela faculdade para
melhorar esse aspecto de sua personalidade.
Deixar-se tomar pelo medo de se apresentar em público tem
consequências bem diferentes a depender do contexto em que o estudante
se encontre. Na faculdade, tremer e gaguejar, e até o extremo de preferir
não apresentar o trabalho e ficar com nota zero, implica, no máximo, a
reprovação em uma disciplina. É possível, até mesmo, que o estudante seja
reprovado na banca de mestrado ou de doutorado. Por outro lado, no
contexto profissional, em uma dinâmica de grupo ou em uma apresentação
de um projeto para uma empresa, a timidez pode levar o indivíduo a deixar
de conseguir o emprego ou perder um negócio, e numa assembleia de
sindicato de trabalhadores o indivíduo pode deixar de convencer seus
colegas a tomar uma decisão mais inteligente.
Relato agora dois casos verídicos para que você tenha consciência das
consequências que o não querer falar em público pode ocasionar. O
primeiro aconteceu com uma estudante de Turismo. Parte da avaliação da
disciplina Metodologia do Estudo era exatamente uma apresentação oral.
Ela disse ao professor que não gostava de fazer apresentações em público e
se recusou a apresentar o trabalho. O resultado disso foi que ela ficou com
nota zero e precisou fazer prova final. O segundo caso aconteceu com um
estudante também do curso de Turismo. Ele foi a uma dinâmica de grupo
como parte da seleção de emprego de uma empresa: estava precisando
muito de uma fonte de renda. Em um determinado momento, a pessoa
responsável pela condução da dinâmica solicitou que ele se apresentasse e
falasse um pouco sobre ele e sobre sua experiência profissional e
acadêmica. O estudante se levantou, olhou para aquela pessoa e para as
outras ali presentes e disse: “Com licença”. E se retirou. Não conseguiu o
emprego naquele momento, mas tomou consciência de que precisava
vencer aquela barreira. (E conseguiu: um ano depois, voltou à mesma
empresa, fez a seleção, apresentou-se e falou um pouco sobre ele, e foi
contratado.)
Como se vê, a consequência no contexto acadêmico é séria, mas não
tão séria quanto a consequência no contexto profissional. Por isso, a sala de
aula na faculdade deve ser usada como um laboratório, um espaço para
experimentação e superação, para que o estudante possa chegar ao
mercado de trabalho sem sofrer as consequências da sua timidez.
Aqui vão algumas dicas para você tentar superar seu medo de falar em
público por causa da sua timidez:

• Não fique repetindo para você e nem para ninguém que você
é tímido. Se você é tímido e você tem consciência disso, ficar
repetindo esse fato o tempo todo não vai ajudar você de forma
alguma. Pelo contrário, só faz reforçar a sua timidez. Não fique
verbalizando isso. Lembre-se daquela famosa frase: “No
princípio era o verbo e depois se fez carne”.

• Encare sua timidez de frente. Não deixe de fazer apresentações,


mesmo que isso signifique um esforço emocional grande para
você no começo. Se você não começar a tentar superar sua
timidez, você não irá superá-la nunca. As mãos ficam frias, as
pálpebras tremem, o estômago dói? Respire fundo e comece a
falar. Dê um passo, depois outro, e continue assim. Mas não
recue. Caminhe para frente, ou seja, comece sua apresentação e
termine-a. Se não for uma grande apresentação do ponto de vista
técnico, não tem problema. Uma coisa de cada vez. A ideia é
primeiro adquirir a capacidade emocional de fazer
apresentações. A capacidade técnica para fazer apresentações
virá com o tempo. E mais uma coisa: você pode se surpreender
com o que você é capaz de fazer. Eu já tive alunos que me
disseram que ficavam nervosos para apresentar um trabalho e
que não queriam fazer apresentações, mas que acabaram
fazendo uma exposição oral excelente.

• Nunca diga à plateia que você está nervoso. Eu já ouvi


estudantes começarem assim uma apresentação: “Boa noite.
Olha, eu estou um pouco nervoso. Por isso, deem um desconto
aí”. Uma abertura de apresentação desse tipo cria na plateia, e
em você mesmo, uma expectativa em torno de uma possível má
apresentação. Se você estiver nervoso, não diga isso para
ninguém e nem para você mesmo. Inspire e depois expire
lentamente. Faça de conta que está calmo. Quando você menos
perceber, o faz-de-conta já será realidade.
Outra razão para o estudante se sentir pouco à vontade para fazer
apresentações orais é o medo das críticas por parte dos colegas. Nesse caso,
o estudante tem de refletir a respeito de duas coisas. Em primeiro lugar, o
estudante deve se perguntar se ele faz as mesmas coisas com os colegas, ou
seja, se ele também critica negativamente os colegas quando eles fazem
apresentações na sala de aula. É muito fácil criticar as pessoas, mas é muito
difícil se colocar na posição de quem está sujeito a críticas. Por isso,
lembre-se de não deixar seus colegas desconfortáveis se você não gosta de
ser deixado desconfortável também. Esse medo pode ser uma projeção nos
colegas daquilo que você faria se estivesse na plateia. Em segundo lugar,
pense em uma coisa bem objetiva: por que temer as críticas dos colegas?
Você precisa se preocupar é com o que você pensa de si próprio. Se você
sabe que precisa superar o bloqueio da apresentação em público, então
precisa reconhecer que pode progredir mais ou menos rapidamente. O fato
de estar na frente da sala de aula, sentindo-se um pouco ou muito nervoso,
falando para seus colegas e professores, já representa um grande passo em
direção à superação do seu medo de falar em público. Portanto, ignore as
críticas dos colegas se elas não tiverem um caráter construtivo. Considere
apenas as críticas construtivas, pois elas são fundamentais para o seu
crescimento acadêmico.
A última razão para alguns estudantes não gostarem de fazer
apresentações orais é um tipo terrível de colegas: os parasitas. E aqui vai
uma sugestão para você: jogue duro com esse tipo de colegas. Obviamente,
você não vai ser grosseiro ou algo parecido com os colegas parasitas. “Jogar
duro” quer dizer ser firme, não aceitar ser usado. Aqueles indivíduos que
não fazem nada e tentam sugar de você suas energias não merecem ser
levados a sério no que diz respeito a trabalhos em grupo. Se o colega não
quer fazer nada, não queira esse colega em seu grupo. Ponto final.
Ah, você está preocupado porque os colegas parasitas podem achar
você egoísta e se afastarem de você? Olha, cá entre nós, se tiver colegas que
condicionam a amizade deles ao seu ato de carregá-los nas costas, você
precisa manter a distância deles mesmo. São estudantes sem ética e sem
seriedade. A relação interpessoal é algo muito valioso em qualquer grupo
em que nós nos encontramos, seja na universidade, na família, no trabalho
ou em outro contexto. As pessoas são diferentes e as diferenças precisam
ser respeitadas, mas isso não significa que você deva se permitir ser
explorado ou manipulado para manter a política da boa vizinhança e ter
uma relação superficialmente boa com seus colegas.
Entretanto, não se esqueça de que, às vezes, um colega do seu grupo
pode ter dificuldades reais para realizar seu trabalho, como, por exemplo,
doença, morte de um familiar, uma audiência na Justiça. Nesse caso, você e
os outros membros do grupo devem dar uma força ao seu colega e ajudá-lo.
Ao fazerem isso, vocês estarão ajudando ao grupo, ou seja, a vocês
próprios. Afinal, esse é o espírito de um grupo: solidariedade e união. É
importante saber separar o joio do trigo: o colega parasita é uma coisa; o
colega sério, mas com dificuldades, é outra coisa. Pense a respeito disso.

APRESENTAR O QUÊ? PARA QUEM? COMO?

Conforme vimos no capítulo anterior, as pessoas diferem umas das


outras em termos do tipo de inteligência que prepondera em cada uma
delas, o que leva cada estudante a preferir uma ou outra forma de fazer
apresentações orais. Por exemplo, alguns preferem fazer apresentações
usando imagens; outros, lendo textos em voz alta; ainda há os que preferem
falar sem usar nenhum recurso visual. Entretanto, apesar dessas
preferências, alguns pontos têm de ser levados em consideração por
qualquer pessoa que deseja (ou tenha de) fazer uma apresentação oral.
O primeiro ponto é o público-alvo, elemento de extrema importância
para qualquer apresentação oral. No seu caso, que fará apresentações orais
na sala de aula, o público será formado por seus colegas e professores, o
que facilita as coisas para você. Conhecendo bem seu público-alvo, você já
sabe de antemão que linguagem usar na apresentação, com que
profundidade deve tratar o assunto e que tipo de material pode usar.
Quando você for apresentar um trabalho em um encontro de estudantes ou
em um congresso, perceberá a importância de se conhecer o público para
quem você direcionará sua apresentação. O fato de não conhecer o público-
alvo da apresentação é um dos elementos que levam palestrantes a fazerem
apresentações muito superficiais ou excessivamente complexas e
insuportavelmente chatas. Lembro-me de um caso em que um professor
convidado estava fazendo uma palestra na Universidade Estadual de Feira
de Santana e um jovem, que estava sentado na primeira fila, começou a
dormir com a cabeça recostada no ombro da namorada. Aquela situação
incomodou tanto o palestrante que ele, no meio da palestra, parou de falar
sobre o tema de que estava tratando e disse à namorada do estudante:
“Acorde ele”. E ela respondeu de imediato: “Venha acordar, você. Foi você
que fez ele dormir”. Acho que o palestrante mereceu ouvir aquilo, e, se ele
souber processar feedback negativo, aprenderá a adequar sua apresentação
oral à plateia.
O segundo ponto é o objetivo da sua apresentação, o qual vai nortear
suas decisões quanto ao assunto, aos procedimentos e aos recursos que
você usa na apresentação. Percebe-se, pois, a importância desse elemento
para a sua apresentação oral. Se seu objetivo for transmitir informações e
dados a respeito de um determinado assunto, você provavelmente
necessitará de algum recurso visual para mostrar esses dados para o
público. Se seu objetivo for problematizar uma determinada posição
teórica, você talvez não tenha necessidade de usar um recurso visual. Se
seu objetivo for provocar os seus colegas para que reflitam a respeito de
um determinado assunto, você terá que escolher bons argumentos para
convencer a plateia a respeito de alguns pontos que podem provocá-la e
levá-la a refletir.
Seja qual for o seu objetivo, é importante que você tenha consciência
de aonde você quer chegar com sua apresentação. Até aqueles estudantes
que só querem conseguir uma nota para serem aprovados precisam saber
exatamente aonde eles pretendem chegar ao término da apresentação,
senão podem não conseguir a nota que desejam, que era seu objetivo
principal.
O assunto é outro ponto sobre o qual o estudante deve refletir para
que possa fazer uma boa apresentação. Dominar o assunto é de
fundamental importância para o sucesso da apresentação. Um estudante
que domina o assunto, mesmo sendo tímido, pode ter um ótimo
desempenho na apresentação.
E é bom que fique claro que dominar o assunto não é o mesmo que
memorizá-lo. Às vezes, pode-se presenciar uma cena interessante pelos
corredores de faculdades: estudantes sentados em um canto, ou andando
de um lado para o outro, parando de vez em quando, com um texto na mão,
falando sozinhos, tentando decorá-lo para apresentá-lo em uma aula. Se
esse esforço for devido a uma apresentação dramática, a memorização não
só é justificável como essencial para a apresentação cênica. O problema é
que alguns estudantes decoram textos para fazerem apresentações orais de
disciplinas que não são parte dos cursos de artes cênicas e de literatura,
que oferece a oportunidade de se realizarem leituras dramáticas de
poemas. Resultado: eles acabam não apresentando o assunto que o texto
aborda, mas, isto sim, recitando o texto que memorizaram.
Apresentações feitas com base na memorização de textos tendem a ser
monótonas e podem oferecer uma situação embaraçosa para o estudante
no momento em que ele é questionado a respeito de um ponto. Como ele só
fez decorar o texto, ele tem extrema dificuldade para responder a
perguntas sobre o assunto abordado no texto. Por isso, é necessário que o
estudante estude o assunto que vai apresentar para que o domine e, assim,
possa falar a respeito dele com fluência e segurança, evitando o improviso
excessivo e a repetição mecânica de palavras memorizadas.
Um hábito que algumas pessoas têm, quando fazem uma apresentação
oral, é o de ler textos em voz alta. Essa prática é justificável quando se faz
um discurso em situações formais como formaturas, posses e eventos
políticos por razões variadas. Em eventos sociais, a emoção pode tomar
conta do orador e atrapalhar a sua linha de raciocínio. Os políticos
precisam ter cuidado com o que falam para não causarem embaraços
políticos e nem econômicos, pois uma frase impensada do presidente da
república ou de um ministro de estado, por exemplo, dita de improviso,
pode provocar uma queda na bolsa de valores. Foi o que aconteceu no dia
18 de fevereiro de 2002, quando o então presidente estadunidense, George
W. Bush trocou a palavra deflação por desvalorização em um discurso
sobre a economia japonesa. Resultado: a bolsa de valores de Tóquio teve
perdas significativas até desfazerem o equívoco de Bush.
Entretanto, o público exposto a discursos tende a ficar entediado. E,
para entediar a plateia, não é preciso que se façam discursos longos, no
estilo Fidel Castro, os quais chegavam a durar absurdas cinco horas. Se
você já foi a uma palestra em que o palestrante leu um texto em voz alta
durante uma hora ou se já foi a uma formatura e ouviu os discursos do
paraninfo, do patrono, do amigo da turma e do orador da turma (Ufa! Haja
discurso!), você tem uma ideia bem clara do que é ficar entediado com
leituras de textos em voz alta.
Em toda minha vida, a única pessoa que eu vi e ouvi ler um texto em
voz alta e fazer um excelente trabalho foi o então Secretário para Relações
Internacionais do Ministério da Educação e Cultura da Hungria, Péter
Medgyes, na Conferência da Organização Laurels para Formadores de
Professores de Inglês realizada em Maceió em julho de 1998. Foi um fato
raro, que surpreendeu não só a mim mas a todos os presentes, incluindo
outros palestrantes europeus, evidenciando que, também na Europa, ler em
voz alta tende a ser considerado algo muito chato.
Por que será que ler em voz alta tende a ser tão monótono? A resposta
a essa pergunta está na diferença entre a estrutura discursiva dos textos
escritos e a estrutura discursiva dos textos falados. Quando se lê um texto
escrito em voz alta, impõe-se uma estrutura discursiva escrita à fala, ou
seja, um texto criado para ser lido silenciosamente toma a forma oral. Na
prática, não há fala: há uma oralização da escrita. Isso é problemático
porque os textos escritos, em comparação aos textos falados, apresentam
um maior número de conjunções, mais encaixes sentenciais e um
vocabulário de mais baixa frequência. É por isso que decorar um texto para
‘declamá-lo’ em uma apresentação tende a tornar a apresentação chata: o
estudante não está falando, mas, na verdade, lendo em voz alta a partir de
um texto que está arquivado em sua memória e que não foi escrito para ser
lido em voz alta.
Além disso, como lembra Joaquim Mattoso Camara Jr. (1993), a
concatenação das palavras na fala fluente não equivale ao que está escrito
no papel. Apesar de as palavras estarem separadas por espaços no papel,
não há separação entre as palavras faladas que, na verdade, formam blocos
de palavras na cadeia oral: se quebrarmos esses blocos, a fala fica artificial
e estranha. Camara Jr. chama esses blocos de “palavras fonológicas”. Por
exemplo, vou transcrever, a seguir, algo que acabei de falar para uma
pessoa:

Voudarumacorridanaorlamanhã / depoisquerodarum-
mergulhonoPortodaBarra

Aí estão duas palavras fonológicas. A barra (/) indica uma pausa entre
elas. Note que não há espaços entre as palavras quando falamos, conforme
a transcrição acima evidencia. Tais espaços só existem no texto escrito —
não na fala. Só há uma pausa aí entre os dois blocos de palavras. Repito:
falamos blocos de palavras; não falamos palavra por palavra
separadamente.
E o que isso tem a ver com a leitura em voz alta ser chata? Tem tudo a
ver. Quando se lê em voz alta um texto que não foi escrito para ser lido em
voz alta, corre-se o risco de se fazerem pausas indevidas, quebrando-se os
blocos de palavras e, consequentemente, quebrando-se o ritmo da língua. E
isso causa dificuldades para os ouvintes, que acabam achando a leitura em
voz alta algo extremamente monótono. Camara Jr. faz uma analogia
interessante que ilustra essa quebra:
[…] essas interrupções, desprovidas de valor rítmico, se
tornam tão desagradáveis e chocantes para o auditório
como para os passageiros de um veículo as paradas bruscas
e inesperadas que rompem o ritmo da marcha (CAMARA JR.,
1993, p. 38).

Portanto, em vez de ler um texto em voz alta ou de decorá-lo, você


deve estudar e dominar o assunto da sua apresentação. Do contrário, você
tende a ler ou recitar textos sem ritmos naturais e acaba torrando a
paciência da plateia.
Tendo estudado o assunto, você precisa estar atento à sequência da
sua apresentação. Certifique-se de que você inicia sua apresentação e
desenvolve o assunto de maneira lógica, com uma conclusão apropriada.
Uma boa técnica é organizar a sequência em forma de palavras-chave que
servem para ir guiando você ao longo da sua apresentação. Essas palavras-
chave podem ser colocadas de maneira esquemática no quadro, em slides
ou simplesmente em uma folha de papel só para sua orientação.
Ao usar slides, lembre-se de que eles são recursos visuais, não recursos
audiovisuais. Isso parece óbvio, não é? Entretanto, este lembrete deve-se ao
fato de muitas pessoas usarem slides de maneira inadequada durante uma
apresentação: elas projetam um texto e o leem em voz alta. Ora, se é
necessário ler o texto que está sendo projetado em voz alta é porque o
público não sabe ler ou porque as letras projetadas na tela estão muito
pequenas para serem vistas pelo público. Nesses dois casos, fica óbvio que
usar esses recursos visuais é totalmente desnecessário. (E ainda há umas
criaturas que ficam de costas para uma parte da plateia enquanto leem o
que está nos slides em voz alta. É mole?)
O uso de slides se justifica na medida em que a visualização de dados,
gráficos, imagens, frases, palavras-chave, equações, fórmulas ou pequenos
trechos de textos seja importante para que o público acompanhe a
apresentação. Portanto, se você decidir usar algum recurso visual,
certifique-se de que você sabe como e por que usar esse recurso.
Aliás, vale lembrar um comportamento curioso que se vê nas
universidades: muitos estudantes, ao ouvirem que terão de fazer uma
apresentação, imediatamente perguntam ao professor se será
disponibilizado o data show. Mesmo quando não perguntam isso por
saberem que sua sala de aula tem o aparelho de projeção, eles pensam
imediatamente no data show. Ora, por que esse comportamento é curioso?
Exatamente porque eles, e muitas outras pessoas, associam imediatamente
apresentação oral a uso de data show. O problema é que essa associação
não deveria ser imediata, pois muitas apresentações não precisam de data
show: apenas aquelas, repito, em que é realmente necessário exibir
imagens, gráficos, dados. Portanto, se você vai fazer uma apresentação oral,
pense se você realmente necessitará do uso do data show.
Depois que você estuda o assunto, estabelece a sequência da sua
apresentação e decide se usará recursos visuais, você deve ensaiar a sua
apresentação. Cronometre sua apresentação para ter certeza de que ela
vai se encaixar no período de tempo que você terá à sua disposição. No
ensaio (ou nos ensaios), você perceberá se está fluente em relação ao
assunto e se há algum ponto que precise estudar mais. Ensaiar a
apresentação é muito importante para que ela ocorra da melhor forma
possível. Mas aqui vai um lembrete: ensaiar a apresentação não tem o
objetivo de levar você a decorar o que vai dizer. O objetivo é exatamente
ajudar você a fazer uma apresentação segura, organizada e fluente.
Durante a apresentação oral, você precisa estar atento a outros
elementos importantes. Um desses elementos é o contato visual com o
público. Há estudantes que olham o tempo todo para o professor ou para
um determinado colega quando fazem apresentações orais na sala de aula.
Quando fazem isso, a mensagem que passam é a de que só aquele colega
específico ou só o professor importam. Essa mensagem pode levar os
outros colegas a se desligarem da apresentação e começarem a conversar, a
ler, a brincarem com o smartphone, a navegarem na Internet e até a sair da
sala de aula.
Certa feita, alguns alunos me contaram que uma professora havia
recomendado que eles olhassem para um ponto fixo na parede durante a
apresentação para superar o nervosismo. Isso ainda é mil vezes pior do que
olhar só para uma única pessoa. Afinal, uma única pessoa continua sendo
uma pessoa, mas um ponto fixo na parede… não é uma pessoa. Imagine-se
falando para seus colegas e professor em uma sala de aula, os quais olham
para você enquanto você olha para um ponto fixo inexistente na parede
atrás dessas pessoas. Imaginou? Então, você percebe como é algo esquisito,
anormal e sem sentido. Recomendo que você não faça isso.
Manter contato visual com todos é importante também para que o
estudante tenha uma noção a respeito do nível de interesse da turma. Por
exemplo, se você notar que dois colegas estão conversando, você pode
olhar para eles mais demoradamente, inibindo a continuação da conversa.
É através do contato visual que você pode perceber quando seus colegas
não estão entendendo sua apresentação ou se estão discordando de alguma
coisa que você diz ou se estão interessados no que você está apresentando.
Assim, faça bom uso do contato visual, evitando se concentrar em apenas
uma ou duas pessoas e evitando olhar para a parede. O contato visual é
importante para você decidir se deve manter ou alterar o ritmo e a forma
da sua apresentação.
O uso da voz é outro elemento importante. Um estudante que mantém
os mesmos tom e volume de voz do começo ao fim da apresentação tende a
levar os colegas à desconcentração. Camara Jr. (1993, p. 19) lembra que
“um tom único é tão inadequado à comunicação oral que monótono se
tornou sinônimo de enfadonho”. Aprenda a fazer da sua voz um
instrumento de motivação em apresentações orais. Você percebe que
alguns colegas estão desconcentrados? Então, eleve seu tom de voz para
que concentração deles retorne à sua apresentação. Experimente usar sua
voz para controlar o ambiente durante suas apresentações.
Outro ponto importante é a postura durante a apresentação. Evite
ficar com as mãos dentro dos bolsos. Deixe-as à vontade e gesticule
naturalmente. Se o seu corpo físico estiver tenso, sua mente também ficará.
Escolha uma posição na qual você possa ver todos os seus colegas. E não
fique de costas para ninguém e nem atrapalhe a visualização dos slides —
esse é um erro muito comum em apresentações orais.
Finalmente, não deixe de fazer uma coisa muito importante: antecipe
problemas. Por exemplo, se você planejou usar data show na sua
apresentação, esteja pronto para imprevistos. O projetor ou o notebook
podem não funcionar, seu pen drive pode dar estar corrompido, ou você
pode se esquecer de levá-lo para a faculdade. Se isso acontecer, chorar e
lamentar-se não ajudam em nada. Além disso, um imprevisto desse tipo
não é razão suficiente para você decidir não fazer a apresentação. Você
sempre deve ter um plano B no bolso.
E eu não posso deixar de citar um exemplo importante de uma
situação para a qual você deve estar preparado: a apresentação feita por
um grupo de estudantes. Geralmente, os membros do grupo dividem a
apresentação em partes, cada parte ficando sob a responsabilidade de um
membro. Até aí, tudo bem. O problema começa quando, no dia da
apresentação, um membro não aparece e o restante do grupo pede ao
professor para não se apresentar por causa da ausência do colega. Ora, a
ausência de um membro ou de mais membros não é justificativa suficiente
para suspender a apresentação. Os membros presentes têm a obrigação de
estar preparados para assumir a parte do colega ausente, mesmo que não o
façam com a fluência que o colega ausente o faria. Muitas vezes, o
calendário dificulta o reagendamento da apresentação do grupo. E aí? O
professor faz o quê?
A questão é que muitos trabalhos em grupo se transformam, na
verdade, em trabalhos individuais emendados uns nos outros de forma
estanque — cada membro lê somente o material referente à sua parte sem
se preocupar em conhecer minimamente a parte dos outros membros. Há
estudantes que têm de apresentar um texto e chegam ao cúmulo, ao
ridículo, de não lerem o texto inteiro: cada um só lê apenas as páginas que
lhe cabe apresentar. É por isso que o problema ocorre. Se o trabalho é em
grupo, mesmo que cada membro seja responsável por uma parte da
apresentação, todos os membros têm a obrigação de conhecer a parte de
cada um dos colegas, não apenas para apresentar a parte dele caso ele falte
mas, principalmente, para que tenham uma visão global e coesa do trabalho
que apresentam, articulando de forma lógica uma parte com as outras. No
frigir dos ovos, o trabalho não é de grupo: é um amontoado de trabalhos
individuais emendados uns aos outros, o que se configura em uma espécie
de Frankenstein acadêmico.
Na próxima seção, veremos uma forma específica de apresentação oral
que é muito importante para os estudantes que participam de eventos.

O QUE É COMUNICAÇÃO?

Um tipo de apresentação oral que é muito comum no meio acadêmico


é a comunicação, que é feita em congressos e encontros de estudantes,
tendo por objetivo geralmente a apresentação de resultados de pesquisas.
As comunicações geralmente duram de 15 a 20 minutos, após os quais a
plateia tem 5 ou 10 minutos para fazer perguntas e comentários.
É muito comum, em congressos, ver não apenas estudantes, mas
também professores doutores apresentando comunicações por meio da
leitura em voz alta de textos que foram escritos para serem lidos
silenciosamente. Essa é uma prática geralmente extremamente monótona,
como já mencionei antes. Para você ter uma ideia de quão inadequada essa
prática é, há uma criaturas que fazem referência pelo sistema autor-data
durante a leitura do texto, como se a plateia estivesse com as referências de
seus textos em mãos naquele momento. Tenha a santa paciência!
Não há razão para que se leia em voz alta em uma sessão de
comunicações a não ser a falta de segurança ou a falta de competência para
se fazer uma apresentação oral. Se você quiser apresentar uma
comunicação algum dia, basta planejar a sua apresentação para um período
de 15 a 20 minutos e ensaiar antes do dia marcado para a realização do
evento. Esse ensaio permite a você se certificar de que sua apresentação
caberá no período de tempo que será reservado para a comunicação.
Ter a versão escrita da comunicação é importante para que você possa
publicá-la nos anais do evento. Entretanto, insisto, isso não significa que
você tenha de ler o texto em voz alta em vez de fazer uma apresentação
oral da forma mais natural possível.
Apresentar comunicações é essencial para que você se habitue aos
rituais de congressos e eventos similares, além de render pontos para o seu
currículo. Mas, insisto: não leia um texto em voz alta quando for apresentar
uma comunicação. Isso é extremamente chato e depõe contra sua
capacidade de fazer uma apresentação oral. E isso implica também não
encher slides de textos e ficar lendo a partir dos slides porque dá no mesmo
que ler a partir de um texto impresso. Por favor, contribua para diminuir a
chatice em que se transformaram as sessões de comunicações em muitos
eventos acadêmicos. A plateia agradecerá.

*…*…*

Ser capaz de fazer apresentações orais, portanto, é importante para


sobreviver às avaliações na faculdade e para ter sucesso na participação de
eventos acadêmicos, científicos e profissionais. Por isso, acostume-se a
fazer apresentações orais. A seguir, trataremos dos trabalhos escritos.
4

DICAS SOBRE OS TRABALHOS


ESCRITOS
Como mencionamos no início do capítulo anterior, a avaliação na
faculdade geralmente é feita sob a forma de provas, de apresentações orais
e de trabalhos escritos. Destes, os mais comuns são o resumo, a resenha, o
relatório, o artigo, o projeto de pesquisa e a monografia. Já o ensaio é
raramente solicitado. Muitos livros de metodologia científica ou de
metodologia do estudo já foram escritos abordando esses trabalhos, o que
pode ser constatado na biblioteca da sua faculdade. Por isso, não entrarei
em detalhes sobre eles, mas darei algumas dicas a seu respeito. Espero que
elas sejam úteis para você.
Neste capítulo, nós nos concentraremos no resumo, na resenha, no
relatório, no artigo e no ensaio. Ao projeto de pesquisa e à monografia
dedicarei capítulos específicos.
Antes de comentarmos sobre esses trabalhos acadêmicos, uma dica:
quando um professor “passar um trabalho sobre o tema X”, pergunte ao
professor o que ele quer dizer quando fala “trabalho”, palavra que tem sido
usada de modo muito vago em algumas faculdades. O trabalho é um
resumo, um ensaio, um relatório ou outra coisa? Fique atento. Cobre isso
do professor. Bem, sigamos em frente.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE RESUMO E RESENHA?

Em muitos cursos universitários, resumos e resenhas são


frequentemente exigidos pelos professores. Ambos são formas de
oportunizar ao estudante a prática da leitura e da escrita ao mesmo tempo
em que o incentiva a entrar em contato com conteúdos específicos das
disciplinas do seu curso. A diferença principal entre resumo e resenha é o
fato de esta incluir a apreciação crítica do estudante, o que leva a resenha a
figurar com mais frequência do que o resumo no conjunto de trabalhos
exigidos pelos professores universitários.
Note-se que há professores que falam de tipos diferentes de resenha:
resenha crítica, resenha descritiva, resenha temática, resenha científica,
resenha técnica, etc. Considero essa tipologia uma perda de tempo, que só
faz confundir o estudante. Por exemplo, pensemos no que seria uma
resenha descritiva: seria a descrição de um texto sem a apreciação crítica
de quem a elabora. Ora, desse jeito, já não é uma resenha, pois a apreciação
crítica é característica inerente ao gênero textual resenha, o que torna o
termo resenha crítica uma redundância. E como diferenciar uma resenha
científica de uma resenha técnica? Provavelmente, aqueles que tentarem
diferenciá-las utilizarão critérios vagos. No final das contas, todos os
supostos tipos distintos de resenha se resumem a uma coisa só: resenha.
Por isso, tratarei aqui apenas de resumo e resenha.
Para que você redija um resumo e uma resenha, é necessário, antes de
tudo, que você compreenda o texto que lê, sendo capaz de identificar nele
as ideias mais importantes. Pelo menos duas leituras do texto a ser
resumido ou resenhado são necessárias. Na primeira leitura, você se
familiariza com o texto, identificando o tema central do texto e, na outra
leitura (ou nas outras leituras, o que é ideal), você identifica os pontos mais
importantes, os quais farão parte do texto que irá redigir.
Nunca é demais salientar que você deve usar suas próprias palavras
para redigir o resumo e a resenha. É claro que você pode usar algumas
palavras do autor. O alerta é para aqueles estudantes que acreditam ser
possível retirar orações inteiras do texto as quais contêm as ideias mais
importantes e, com elas, montar o resumo ou a resenha. Esse ato de
recortar e colar é complicado porque o resultado tende a ser algo sem
organização textual e sem lógica.
O resumo e a resenha são condensações de um texto, que pode ser um
artigo acadêmico ou científico, um capítulo de um livro ou um livro inteiro.
Isso faz com que o tamanho de um resumo e o de uma resenha variem
muito: depende do tamanho do texto original. Entretanto, uma
característica óbvia se mantém: o resumo e a resenha são sempre bem
menores do que o texto original. É por isso que você deve ter o cuidado de
não incluir em seus resumos e em suas resenhas informações não
essenciais, citações do texto e, principalmente, informações que não estão
no texto. A única coisa que não está no texto e que você deve incluir na
resenha, não no resumo, é a sua apreciação crítica do texto.
Se você tem dificuldade para resumir textos, tente um exercício
interessante que eu aprendi em um curso de escrita e leitura não
acadêmicas. Você redige um texto em, digamos, uma página. Depois,
“enxuga” o texto para que ele caiba em meia página. Finalmente, você o
reduz para a metade de meia página, ou seja, o tamanho do texto do
resumo vai ser de aproximadamente um quarto do tamanho do texto
original. Esse exercício força você a decidir o que é mais e menos relevante
no texto.
Outro exercício importante é ler resumos e resenhas publicados em
periódicos especializados, que você pode encontrar na biblioteca da sua
faculdade e na Internet. Isso vai fornecer a você pistas a respeito da
estruturação de resumos e resenhas. Experimente esses exercícios.
Como afirmei no começo desta seção, a diferença entre o resumo e a
resenha reside na apreciação crítica que você faz do texto original. No
resumo, você não inclui sua opinião sobre o texto. O que você tem de fazer
é oferecer ao leitor as ideias mais importantes do texto original. No caso da
resenha, além de apresentar as ideias mais importantes do texto, você deve
incluir sua apreciação a respeito dos seguintes pontos:

• o estilo de escrita do autor (o texto foi redigido de forma objetiva,


clara, prolixa, simples ou complicada?);
• o público-alvo do texto (o texto é indicado para estudantes,
profissionais ou o público em geral? por quê?);
• a importância do texto (o texto contribui para a formação
acadêmica dos estudantes da sua área? contribui para as
pesquisas e para a construção de conhecimentos dos
profissionais da área ao qual se destina? por quê?).

Além da inclusão da apreciação crítica, a resenha costuma incluir


também informações a respeito do autor: sua formação acadêmica e
profissional e sua produção bibliográfica. Tais informações dão ao leitor da
resenha uma dimensão da importância do autor dentro de uma área
acadêmica específica.
Como afirmei antes, você pode encontrar por aí livros afirmando a
existência de uma diversidade de tipos de resenha: crítica, descritiva,
científica, acadêmica, etc. Contudo, no frigir dos ovos, essas diferenças são
irrelevantes. O que você precisa realmente saber é isto: a resenha é, na
verdade, um resumo com alguns acréscimos, ou seja, com as informações
sobre o autor e, principalmente, com uma apreciação crítica.

O QUE É EXATAMENTE UM RELATÓRIO?

O relatório é um documento que relata atividades realizadas em um


determinado período de tempo. O relatório é um texto, portanto,
essencialmente descritivo-narrativo. Entretanto, há uma parte do relatório
em que você coloca seus comentários, críticas e sugestões, a qual vem no
final do documento. Apesar de poder servir de base para um debate ou
para alguma teorização, o objetivo do relatório é apresentar informações,
fatos, dados. No ambiente acadêmico, um relatório é geralmente exigido
pelo professor após uma pesquisa, um experimento laboratorial ou uma
visita técnica.
Você pode dividir o relatório em seções ou elaborá-lo na forma de
texto corrido. O relatório deverá conter uma introdução (seção ou
parágrafo), na qual você informa o assunto de que trata o relatório,
contextualizando-o, e esclarece quais foram os objetivos das atividades
realizadas, que são o objeto do relato. Em seguida, você descreve as
atividades que realizou e narra o processo de realização dessas atividades,
usando uma linguagem clara e concisa. Vale ressaltar que, no momento
específico do relato, ou seja, da descrição e da narração, você deve informar
e não opinar a respeito das atividades.
Após relatar as atividades, você informa se os objetivos foram
atingidos ou não, ressaltando dificuldades e problemas que foram
encontrados, adicionando quaisquer informações necessárias para o leitor,
e fazendo sugestões que forem pertinentes. É este o momento de você
colocar sua voz no relatório, o momento de você opinar.
Por fim, você anexa documentos que foram usados nas atividades
realizadas, se for esse o caso, como, por exemplo, questionários
respondidos em entrevistas e fotografias feitas durante as atividades.
Não se esqueça de colocar capa e folha de rosto no seu relatório. Os
detalhes sobres esses dois elementos de apresentação você encontra no
sétimo capítulo deste manual.
Na próxima seção, discuto dois gêneros textuais acadêmicos
igualmente muito importantes para a vida acadêmica e cuja diferença causa
dificuldades para muitos estudantes.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE ENSAIO E ARTIGO?

Alguns estudantes já me fizeram a pergunta que dá título a esta seção.


A dificuldade para se diferenciar artigo de ensaio é percebida observando-
se as tentativas de definição oferecidas por alguns autores de livros de
metodologia. Por exemplo, João Bosco Medeiros (1996, p. 178), escreve o
seguinte sobre artigo científico: “artigo científico trata de problemas
científicos, embora de extensão relativamente pequena. Apresenta o
resultado de estudos e pesquisas. E, em geral, é publicado em revistas,
jornais ou outro periódico especializado”. Ele explica que o propósito do
artigo é a publicação e que o assunto de que trata o artigo são problemas
científicos. Ele deixa isso claro. Entretanto, um problema que salta aos
olhos nas suas palavras é a frase “de extensão relativamente pequena”.
Essa é uma característica muita vaga e não pode, portanto, servir para
caracterizar um artigo científico. Afinal, quantas páginas deve ter um artigo
para que ele seja considerado de extensão relativamente pequena? Bem,
mais adiante em seu livro, Medeiros escreve acerca do conteúdo do artigo
científico:

Quanto ao conteúdo, em geral os artigos científicos


apresentam abordagens atuais, às vezes temas novos.
Devem versar sobre um estudo pessoal, uma descoberta.

O conteúdo de um artigo científico pode ser muito variado,


como, por exemplo, discorrer sobre um estudo pessoal,
oferecer soluções para posições controvertidas (MEDEIROS,
1996, p. 179).

As palavras de Medeiros deixam transparecer, de forma inequívoca,


que não existe nenhum tipo de conteúdo inerentemente vinculado a artigos
científicos: o conteúdo pode variar de resultados de pesquisas a estudos
pessoais. Não podemos deixar de notar que estudos pessoais destoam
daquilo que é considerado científico pela academia. Ou seja, estudos
pessoais não são objetos de artigos científicos.
Agora, observe o que esse mesmo autor escreve sobre ensaio: “É uma
exposição metódica dos estudos realizados e das conclusões originais a que
se chegou após apurado exame de um assunto” (MEDEIROS, 1996, p. 181).
Dá para notar alguma diferença entre ensaio e artigo científico em termos
de conteúdo seguindo-se as palavras do autor? Percebe-se que não. A
vaguidade dos termos metódica, originais e apurado mostra que essas
características não são úteis para diferenciarmos ensaio e artigo.
Medeiros (1996, p. 181) menciona Massaud Moisés, que sugere uma
distinção entre ensaio informal e ensaio formal. O ensaio informal é
caracterizado “pela liberdade criadora e pela emoção”; o ensaio formal,
pela “brevidade, serenidade (deixa de lado a polêmica e o tom enfático),
uso da primeira pessoa. Além disso, o ensaio é problematizador,
antidogmático e nele devem sobressair o espírito crítico do autor e
originalidade”. Ora, o espírito barroco que permeia a posição de Moisés
sobre ensaio formal é visível: o ensaio é sereno e sem polêmica, ao mesmo
tempo em que é problematizador e que revela o espírito crítico do autor.
No final das contas, após analisarmos as suas considerações,
percebemos que a diferença entre artigo e ensaio não fica, de forma
alguma, clara, no que diz respeito ao conteúdo e à estrutura discursiva.
Continuemos, então, refletindo sobre a diferença entre esses dois gêneros
textuais.
Há pessoas que acoplam o modificador científico ao termo ensaio.
Entretanto, uma rápida pesquisa na Internet mostra que ensaio científico
pode significar coisas diferentes para acadêmicos diferentes. Por exemplo,
em 02 de novembro de 2003, em
<www.vademecum.com.br/natros/ensaio.htm>, estava disponível a
seguinte definição de ensaio científico: “O chamado ensaio científico é uma
sequência de procedimentos na qual o pesquisador manipula variáveis
preditivas e verifica o comportamento das variáveis dependentes,
controlando o efeito de variáveis estranhas”. No mesmo dia, em
<www.urcamp.tche.br/site/ccei.normas#>, encontrava-se disponível a
seguinte definição para ensaio científico: “Ensaio é o texto científico que
desenvolve uma proposta pessoal do autor a respeito de um determinado
assunto”. Quando se pensa em uma modalidade de trabalho escrito dentro
do universo acadêmico, essa segunda definição parece ser a mais
apropriada, pois um ensaio é um texto em que a posição do autor está
claramente demarcada. Contudo, há um problema na junção do termo
ensaio com o termo científico, como veremos mais adiante.
O site <www.livrariaconceito.com.br>, em 02 de novembro de 2003,
trazia um texto do jornal Folha de São Paulo datado de 21 de maio de 2002
e intitulado “Morre o Paleontólogo Stephen Jay Gould”. Neste texto, a Folha
lembra que foi Gould quem salvou a “arte moribunda do ensaio científico”.
E como ele fez isso? Contando “histórias de insight científico juntando
ideias ou coisas não relacionadas (ele começou um ensaio juntando
Abraham Lincoln e Charles Darwin, ao notar que os dois nasceram no
mesmo dia)”.
Até agora, essas informações não estão nos ajudando a distinguir
ensaio de artigo, né? Então, continuemos, pois há um ponto que vai nos
iluminar a esse respeito: o destino do artigo e do ensaio no contexto
acadêmico.
O artigo é escrito para ser publicado (o que não significa que todo
artigo seja publicado, pois isso depende de alguns fatores, como a
qualidade do artigo, a posição teórica do conselho editorial e dos
pareceristas, etc.), enquanto o ensaio não tem esse objetivo inicialmente
(embora possa ser publicado eventualmente). Os artigos são publicados em
periódicos especializados. É interessante notar que a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, mais conhecida por CAPES,
ao avaliar a produção bibliográfica dos cursos de pós-graduação, considera
artigos, livros, capítulos de livros, trabalhos completos publicados em anais
de congressos e até resumos publicados, mas ela não leva em consideração
ensaios publicados. Se ela os leva em consideração, não os anuncia. Curioso,
né?
Nas universidades, existe uma pressão para os professores publicarem
artigos a qual é resumida em um ditado que expressa claramente o raso
espírito produtivista que impera na academia: “Publique ou pereça!”. E é
exatamente o objetivo acadêmico da publicação que aponta as diferenças
cruciais entre artigo e ensaio. O artigo é um gênero textual vinculado a um
periódico científico, o que implica que o sujeito, autor do texto, deve ser
apagado, em nome da lógica cientificista, para mostrar sua suposta
imparcialidade e irrelevância diante do objeto da sua pesquisa. Isso é
marcado discursivamente no uso da terceira pessoa ou até da primeira
pessoa do plural. Aliás, com todo respeito à esquizofrenia, o uso da
primeira pessoa do plural quando só há um autor não deixa de ter um
aspecto esquizofrênico: “nós” quem?! O artigo também é marcado
estruturalmente, tendo o sujeito que seguir o padrão exigido pelo periódico
científico.
Ora, por trás desse apagamento forçado do sujeito, encontra-se um
posicionamento ideológico que permeia as universidades: a concepção
positivista de ciência, segundo a qual os cientistas são neutros e, por isso,
não interferem na produção dos conhecimentos. Não por acaso, o filósofo
francês Michel Foucault, provocou a academia, no curso que deu no Collège
de France em meados da década de 1970, quando foi indagado sobre o
discurso científico, sobre esse viés ideológico:

Quais tipos de saber vocês querem desqualificar no


momento em que vocês dizem ser esse saber uma ciência?
Qual sujeito falante, qual sujeito discorrente, qual sujeito de
experiência e de saber vocês querem minimizar quando
dizem: ‘eu faço esse discurso, faço um discurso científico e
sou cientista’? (FOUCAULT, 2005, p. 15).

Se o artigo é um gênero textual considerado científico, ele acaba sendo


prestigiado na academia. Não por acaso, fala-se muito mais de artigos do
que de ensaios na universidade, dada a aura cientificista com que ela
recobre o artigo, colocando o ensaio em uma posição menos valorizada. Por
isso, ao ensaio fica liberado o uso da primeira pessoa do singular, pois o
sujeito não se apaga. Pelo contrário, espera-se de um ensaísta seu ponto de
vista na redação do seu texto, espera-se que sua voz apareça ali de maneira
inequívoca. E aqui vale citar Michael Hall para reforçar essa ideia:

Em uma era fascinada pelas implicações da nova filosofia e a


descoberta do Novo Mundo, o ensaio forneceu um tipo de
composição de prosa particularmente adequada para o
exame de uma opinião recebida, e a descoberta de novas
ideias e insights — um tipo de discurso escrito que permitia
ao autor pensar livremente fora das amarras da autoridade
estabelecida e das formas retóricas tradicionais (HALL,
1989, p. 78).

Isso me faz voltar ao termo ensaio científico. Afirmei anteriormente


que há um problema na junção do termo ensaio com o termo científico, e
acho que você já deve estar percebendo que problema é esse. Se a academia
permite, no ensaio, o uso da primeira pessoa, o não apagamento do sujeito
e o posicionamento pessoal do sujeito na redação, ela coloca o ensaio em
um espaço não científico de escrita. Consequentemente, o termo ensaio
científico pode ser considerado um oximoro, ou seja, uma contradição em
termos. E vale a observação arguta do meu colega Antonio Marcos Pereira,
feita por e-mail, para quem o termo ensaio científico só faz sentido se “o
tema do ensaio for a ciência, como no caso dos textos de Stephen Jay Gould,
sua história, seus reveses, suas vicissitudes. Ele não será, assim, científico
por seu método, mas apenas por seu tema — eu, obviamente, sou a favor da
elisão do adjetivo”. E eu faço minhas as palavras de Antonio Marcos.
De qualquer forma, ressalte-se que não existe imparcialidade, não
existe neutralidade na ciência por duas razões básicas. A primeira é o fato
de as pesquisas científicas serem financiadas por órgãos governamentais
ou por empresas privadas. Logo, as pesquisas devem seguir os propósitos
de seus financiadores. A segunda razão é fato de o cientista ser humano, ser
um sujeito que nasce e cresce imerso em um contexto que é histórica,
política, social e culturalmente situado. É um sujeito cuja identidade está
sempre em formação a partir de sua interação com seus familiares, amigos,
colegas de profissão, livros, professores, instituições, enfim, com a
sociedade. De sua própria subjetividade nenhum cientista escapa, por mais
que tente. Por isso, falar em neutralidade científica, em apagamento do
sujeito pesquisador, é altamente improcedente e indefensável.
Feitas essas considerações sobre a natureza filosófica, ideológica e
acadêmica do artigo, vejamos algumas características normalizadoras
desse gênero textual. Afinal, você vai ter de, em algum momento na sua
vida universitária, redigir um artigo.
Como seu destino é a publicação, ele deve seguir as normas específicas
do veículo no qual será publicado, as quais podem variar de periódico para
periódico, de instituição para instituição. Entretanto, podemos pensar em
algumas normas que são comuns à maioria dos artigos.
O primeiro ponto a mencionar a respeito dessas normas é que não se
coloca capa nem folha de rosto em artigos. Uma aluna, certa vez, me
questionou acerca disso, pois ela teve professores que exigiram a capa e a
folha de rosto nos artigos que ele designou como avaliações. Sugeri-lhe algo
simples e eficaz para acalmar sua inquietação: “Consulte qualquer
periódico e observe se os artigos ali publicados possuem capa e folha de
rosto”. Obviamente, eles não possuem nem capa nem folha de rosto. Os
professores precisam ajudar seus alunos a conhecerem, minimamente, as
características formais dos gêneros textuais acadêmicos. Mas, às vezes, em
vez de ajudar, eles acabam confundindo a cabeça dos alunos.
O segundo ponto diz respeito à formatação do texto. A primeira página
é iniciada pelo título do artigo em negrito, em fonte Times New Roman ou
Arial, tamanho 12, alinhado ao centro. Duas linhas abaixo do título,
alinhado à direita, escreve-se o nome do autor e, logo abaixo, também
alinhado à direita, o nome da instituição de origem (da faculdade ou
universidade) do autor. Duas linhas abaixo, sem recuo, coloca-se o resumo
do artigo, justificado. Aliás, a partir daí, todo o texto passa a ser justificado.
Duas linhas depois, colocam-se as palavras-chave do texto, geralmente
entre três e cinco, as quais são palavras que se referem ao tema central do
artigo e servem para dar uma ideia ao leitor a respeito do assunto tratado
no artigo. Duas linhas após as palavras-chave, coloca-se a versão em língua
estrangeira do resumo (Abstract, em inglês; Résumé, em francês; Resumen,
em espanhol). Note-se que há publicações que optam por colocar essa parte
no final do artigo. Duas linhas depois, coloca-se a versão das palavras-
chave. Em seguida, após duas linhas, redige-se o corpo do artigo, o qual
pode ser dividido em seções ou não. Duas linhas após o corpo do artigo,
coloca-se a seção Referências.
Finalmente, não podemos nos esquecer de que se usa a terceira pessoa
ou a primeira pessoa do plural na redação do artigo. Embora eu não goste
de nenhuma dessas duas possibilidades, sugiro que você use a terceira
pessoa para satisfazer os desejos positivistas da universidade. O uso da
primeira pessoa do plural é, conforme já comentei, extremamente esquisito
se o texto não for escrito por mais de uma pessoa. Para ser sincero com
você, leitora e leitor, aos estudantes que eu oriento, recomendo que usem a
primeira pessoa do singular para marcarem sua posição de sujeito, para
marcarem sua autoria nos textos que produzem.
Agora, um pequeno exercício: vá à biblioteca da sua faculdade, procure
por três diferentes periódicos especializados (preferencialmente na sua
área), e veja como os artigos desses periódicos foram estruturados.
Observe as diferenças e as semelhanças entre eles.
Quanto ao ensaio, você também não deve incluir nem capa nem folha
de rosto. Diferentemente do artigo, o ensaio não costuma ter resumo e
palavras-chave, a não ser que um periódico permita a publicação de
ensaios e exija dos seus autores que incluam o resumo e as palavras-chave.
O uso da primeira pessoa do discurso é característica importante do ensaio.
Por isso, você não precisa marcar a sua posição escrevendo coisas como “eu
acho que”, “eu acredito que” ou “em minha opinião”.
Ao redigir um ensaio ou um artigo, lembre-se de que cada parágrafo
deve conter apenas uma ideia principal que vem expressa em uma oração e
desenvolvida pelas outras orações do parágrafo, exatamente como você
aprendeu em suas aulas de redação no ensino médio. Os parágrafos são
organizados em uma sequência lógica, revelando conexões, relações entre
as ideias contidas em cada um deles. Essa sequência lógica constitui a
unidade do seu texto e as relações dizem respeito ao que se chama de
coesão textual quando estão na superfície do texto. A coesão de um texto é
explicitamente marcada por elementos gramaticais importantes, como as
conjunções e os pronomes. O domínio sobre os mecanismos de coesão é
essencial para que você possa redigir bons textos.
Há alguns mecanismos muito comuns de coesão textual, com os quais
você precisa estar familiarizado:

a) os conectores que expressam relação lógica de contraste:


entretanto, mas, contudo, todavia, por outro lado, etc.;
b) os conectores que expressam relação lógica de causa: devido a,
por causa de, porque, etc.;
c) os conectores que expressam relação lógica de conclusão:
portanto, por isso, consequentemente, por essa razão, etc.;
d) os conectores que expressam relação lógica de adição: além disso,
e, etc.;
e) os conectores que expressam relação lógica de propósito: para,
para que, a fim de, etc.;
f) os conectores sequenciais: em primeiro lugar, em segundo lugar,
inicialmente, finalmente, etc.;
g) os pronomes.

Lembre-se de que um texto é escrito para alguém e com um propósito.


Um artigo é escrito, como vimos, para ser publicado e, assim, divulgar os
resultados de uma pesquisa junto à comunidade científica e acadêmica. Um
ensaio pode vir a ser publicado, mas geralmente o professor universitário
pede ao estudante que escreva um ensaio como uma forma de avaliação
dos conhecimentos do estudante. Por isso, você deve ter sempre em mente
quem vai ler o seu texto, pois é esse alguém que vai interagir com o que
você escreveu, lidando com os sentidos das suas palavras para construir
sentidos.
Observe este exemplo: se você escreve um artigo ou um ensaio sobre o
fluxo turístico de Massarandupió, você não deve partir do pressuposto de
que o leitor sabe onde essa localidade está situada, qual o tamanho dela e
qual o seu principal diferencial turístico. Você precisa contextualizar o
tema, ou seja, fornecer informações que ajudem o leitor a (re)construir os
sentidos que você colocou no texto. Entretanto, se você escreve um artigo
ou um ensaio sobre o fluxo turístico de Massarandupió para o professor
que levou sua turma a essa localidade em uma visita técnica, você não
precisa incluir aquelas informações mencionadas acima porque você sabe
que seu leitor, ou seja, seu professor, já dispõe desses dados. Se você não
sabe quem é o leitor, você terá que informar que Massarandupió é uma
praia localizada no município de Entre Rios, na Bahia, que fica a cerca de
140 km de Salvador e na qual se pratica naturismo. De qualquer forma, se
você escrever um artigo, certifique-se de usar a terceira pessoa do discurso,
de apresentar o problema, objetivo e a justificativa da pesquisa que você
empreendeu naquela localidade, apresentando os dados coletados e a sua
análise desses dados. Note que, à exceção da pessoa do discurso, que deve
ser a primeira pessoa do singular, todos esses elementos podem ocorrer
em um ensaio, que deverá apresentar sua motivação pessoal acerca de
escrever sobre o naturismo em Massarandupió, posicionando-se a respeito
sem estar preso a amarras cientificistas.
Bem, do que foi apresentado neste capítulo, fica clara a complexidade
que envolve a diferenciação entre artigo e ensaio. Espero que você escreva
artigos e ensaios interessantes durante sua vida universitária.

*…*…*

No próximo capítulo, abordaremos outro tipo de trabalho acadêmico: o


projeto de pesquisa.
5

FILOSOFANDO UM POUCO SOBRE O


PROJETO DE PESQUISA
Quando estiver a, pelo menos, três semestres do final do seu curso,
você deverá começar a se preparar para o estágio obrigatório, no caso dos
cursos de licenciatura, ou para o trabalho de conclusão de curso (TCC), no
caso dos cursos de bacharelado. O TCC pode tomar a forma de artigo, de
direção de uma peça teatral, da produção de uma campanha publicitária, de
uma monografia. É esta última que nos interessa aqui já que o TCC
geralmente toma a forma de uma monografia, elaborada a partir de uma
pesquisa que precisa ser planejada e sistematizada na forma de um projeto
antes da sua realização.
E por que você deve começar a se preparar com antecedência? A
resposta é simples: para que você possa decidir com clareza o tema da sua
pesquisa e sistematizar o que irá fazer a partir daí. Uma vez decidido o
tema, você poderá começar a levantar dados e fazer leituras iniciais acerca
do assunto, possibilitando a elaboração do projeto de pesquisa.
O formato do projeto pode variar de instituição para instituição. Há
instituições que determinam um modelo a ser seguido pelos estudantes.
Alguns modelos, por exemplo, incluem uma introdução, que não faz parte
de outros modelos. Entretanto, qualquer que seja o formato, há alguns
elementos que todo projeto de pesquisa deve conter: o tema, o problema, a
hipótese, a justificativa, o objetivo, a metodologia, o referencial teórico, o
cronograma, o orçamento e as referências bibliográficas.
O tema é o assunto do qual você vai tratar na monografia e é a
resposta à pergunta “O que você está propondo pesquisar?”. O tema situa a
sua pesquisa em uma determinada área de conhecimento. É extremamente
importante que você tenha clareza sobre qual é o seu tema de pesquisa e
que você escolha um tema que seja do seu agrado. Isso é muito importante,
pois trabalhar com um tema que não nos dá prazer é um martírio
horroroso. Por isso, fique alerta: não deixe o orientador forçar a barra para
você pesquisar um tema que ele quer que você pesquise. Se o seu
orientador insistir para que você pesquise o que ele quer e você não quiser
pesquisar o que ele impõe a você, mude de orientador.
Além de escolher um tema que seja do seu agrado, considere o grau de
complexidade do tema. Se você escolher um tema que, embora
interessante, é algo complexo, você provavelmente terá dificuldades em
excesso para realizar sua pesquisa. Um tema complexo vai requerer muito
mais tempo de leituras e pesquisa do que o que você tem disponível na
graduação. É melhor deixar um tema assim para o doutorado.
Finalmente, outro ponto a considerar quando você for escolher seu
tema de pesquisa é a viabilidade. Se o acesso a informações e a dados
referentes ao tema for muito difícil e se as despesas necessárias para
realizar pesquisas de campo, por exemplo, forem elevadas, você terá
muitos problemas para realizar sua pesquisa, que provavelmente ficará
inviável e forçará você a mudar de tema. Portanto, preste atenção à
viabilidade do tema que você escolhe pesquisar.
Uma questão muito importante é a delimitação do tema. Por exemplo,
imagine que você escolha como tema “o turismo”. É impossível pesquisar
esse tema por ser extremamente abrangente. Você teria de recortá-lo, de
delimitá-lo. Se o delimitássemos para “o turismo em Fortaleza”, por
exemplo, tornaríamos a pesquisa menos inviável. Precisamos delimitar o
tema mais um pouco: “a redução do fluxo turístico para Fortaleza no
período 2011-2013”. Agora, sim, o tema ficou delimitado. Entendeu a
lógica? Delimitar o tema é torná-lo possível de ser pesquisado e não o
deixar amplo.
Uma vez delimitado o tema, é preciso realizar o passo seguinte, que é
problematizá-lo, fazendo uma pergunta sobre ele. Essa pergunta é o
problema, que responde à pergunta “O que exatamente dentro do tema
você está propondo pesquisar?”. Resumindo: o problema é um recorte do
tema, elaborado em forma de pergunta. Por exemplo, para o tema “a
redução do fluxo turístico para Fortaleza no período 2011-2013”,
poderíamos perguntar: “O que provocou a redução do fluxo turístico para
Fortaleza no período 2011-2013?” A pesquisa, então, seria realizada para
responder essa pergunta.
Uma observação importante: evite vaguidade na linguagem usada na
construção do tema e do problema. Por exemplo, expressões e palavras
como de grande porte, melhor, ruins, muitos, alguns e jovens são vagas. A
linguagem usada na construção do tema e do problema deve ser precisa,
exata.
A delimitação do tema e, principalmente, a elaboração do problema
constituem a espinha dorsal do projeto. De posse deles, o resto do projeto
fica menos complicado de ser elaborado.
À pergunta proposta ao problema, o pesquisador oferece respostas
provisórias, ou seja, hipóteses. Quando a pesquisa prevê identificar
relações de causa e efeito entre fatos ou fenômenos, as hipóteses são úteis.
Por exemplo, para o problema sugerido anteriormente, podemos propor as
seguintes hipóteses: (1) a crise financeira mundial provocou a redução do
fluxo turístico para Fortaleza no período 2011-2013; (2) o aumento do
fluxo turístico para a Salvador provocou a redução do fluxo turístico para
Fortaleza no período 2011-2013.
Contudo, a presença da hipótese no projeto de pesquisa não é um
ponto pacífico. Vejamos o que o teórico Guy Lefrançois afirma sobre as
hipóteses:

[…] os teóricos partem de certas hipóteses (crenças não


comprovadas) sobre o comportamento humano, com base,
talvez parcialmente, em suas observações sobre a
regularidade e a previsibilidade do comportamento. Como
resultado, desenvolvem explicações sobre o que observam,
o que os leva a acreditar que certas relações existem — se
isso, então aquilo. Essas afirmações se-então ou as previsões
fundamentadas, são chamadas de hipóteses. Isso posto, o
teórico vai em busca de observações (dados) para testar a
validade das hipóteses. Como lembra Sommer e Sommer
(2002), é extremamente importante, na pesquisa científica,
que as hipóteses possam ser testadas. Hipóteses não
testáveis não têm lugar nas teorias científicas (LEFRANÇOIS,
2008, p. 8, grifos do autor).

Lefrançois é bem explícito na qualificação: pesquisa científica, teorias


científicas. E não deixa dúvida quanto à necessidade de uma hipótese ser
testável. Ora, o que um pesquisador da área de antropologia, por exemplo,
que pretende observar as práticas de letramento em uma comunidade
pobre do interior do Piauí vai fazer com uma hipótese? Como ele vai testar
hipóteses nesse tipo de pesquisa? Seria o caso, então, de não considerar
científica a sua pesquisa?
Parece-me lógico e razoável afirmar que a pesquisa nas ciências exatas
e naturais possuem objetos de investigação de natureza diferente da
pesquisa feita nas ciências sociais e humanas. Logo, parece-me igualmente
lógico e razoável afirmar que nem todo o repertório metodológico
costumeiramente usado na pesquisa em ciências exatas e ciências naturais
seja útil ou adequado para a pesquisa em ciências sociais e ciências
humanas e vice-versa. Por isso, é válido afirmar que nem toda pesquisa
requer a elaboração de hipóteses. Um projeto de pesquisa exploratória de
cunho qualitativo que visa ao conhecimento de um determinado fenômeno
social em uma comunidade indígena no interior da Amazônia pode
tranquilamente ficar sem hipóteses. Por isso, converse com sua orientadora
ou seu orientador sobre a pertinência de se incluir ou não hipóteses no seu
projeto.
É necessário esclarecer o propósito da pesquisa que você está
propondo no projeto, ou seja, é preciso determinar os objetivos da
pesquisa, os quais respondem à pergunta “Para que você está propondo
essa pesquisa?”. Em algumas universidades, há professores que
recomendam distinguir, dentre os objetivos, o geral ou principal e os
específicos ou secundários. O objetivo geral aponta para o resultado que se
pretende obter com a pesquisa, o qual deve ter natureza acadêmica ou
social. Os objetivos específicos apontam para metas parciais, das etapas da
pesquisa, as quais contribuirão para se atingir o objetivo geral. Na redação
dos objetivos, usam-se verbos na forma infinitiva, e.g. identificar as causas
de um fenômeno, descrever um fenômeno, explicar os desdobramentos de
um fenômeno, etc. E eis um lembrete importante: os objetivos da pesquisa
devem ser de natureza acadêmica ou social, não pessoal. Por essa razão,
“ampliar meus conhecimentos sobre o tema”, por exemplo, não se
configura em um objetivo da pesquisa acadêmica.
A justificativa é a razão pela qual você está se propondo a pesquisar o
tema que escolheu. Ela deve expressar a relevância da pesquisa proposta,
do ponto de vista acadêmico ou social (e não do ponto de vista pessoal,
assim como no caso do objetivo). A justificativa é a resposta à pergunta
“Por que você propõe essa pesquisa?”. Saber a razão pela qual você decide
realizar uma pesquisa sobre determinado tema é muito importante para
que você possa convencer uma banca a aprovar seu projeto ou convencer
uma instituição de fomento a financiá-lo.
O referencial teórico diz respeito à teoria ou às teorias que você
usará para dar suporte à sua pesquisa. Por exemplo, um estudante de
psicologia que se propõe a pesquisar um determinado fenômeno, precisa
decidir se pesquisará esse fenômeno seguindo uma ótica freudiana,
lacaniana, junguiana, reichiana ou outra. Um fenômeno econômico
estudado do ponto de vista marxista não vai apresentar, certamente, as
mesmas conclusões se ele for estudado sob a ótica neoclássica.
Analogamente, problemas de saúde analisados por médicos que seguem os
princípios da medicina holística tradicional chinesa tendem a apresentar
resultados distintos daqueles apresentados por estudos feitos de acordo
com o ponto de vista não holístico, adotado pelos médicos alopatas
ocidentais.
É por causa do referencial teórico (também chamado de
“fundamentação teórica” ou de “arcabouço teórico” por alguns professores)
que é necessário se fazer aquilo que é conhecido por revisão da literatura: o
estudante precisa ler os livros e artigos mais importantes a respeito do
tema proposto para conhecer quais as posições teóricas existentes em
relação a ele e o que já foi pesquisado e escrito sobre o tema até o
momento. Só assim o estudante poderá escolher, com segurança, um ponto
de vista teórico para nortear seu trabalho e para evitar a reinvenção da
roda. Afinal, se já foram feitas pesquisas sobre um determinado tema que
produziram dados relevantes, em vez de se começar do zero, pode-se usar
esses dados em algum momento da pesquisa.
Outra parte essencial do projeto de pesquisa é a metodologia, que diz
respeito ao modo como você vai realizar sua pesquisa e responde,
obviamente, à pergunta “Como a pesquisa será realizada?”. Você
provavelmente cursará uma disciplina chamada Metodologia Científica ou
Metodologia da Pesquisa (o nome da disciplina pode variar de instituição
para instituição), na qual você terá acesso a um instrumental teórico e
metodológico que permitirá a você pensar como desenvolver sua pesquisa.
Na metodologia, você descreve cada uma das etapas da sua pesquisa, na
sequência em que elas ocorrerão. Nessa parte, você também descreve o
tipo de pesquisa (e.g. experimental, etnográfica, etc.), o objeto da sua
pesquisa, o instrumento de pesquisa (e.g. questionários, entrevistas, etc.) e
os passos que você seguirá para realizar a sua pesquisa.
Uma forma de se apresentar a metodologia é listando-se os passos
metodológicos. Vejamos um exemplo tendo como ponto de partida o
problema “O que provocou a redução do fluxo turístico para Fortaleza no
período 2011-2013?”:

Passos metodológicos:

1. realização de leituras para a construção do referencial teórico;


2. construção do instrumento de pesquisa;
3. teste do instrumento de pesquisa;
4. aplicação do instrumento de pesquisa para coleta de dados;
5. análise dos dados;
6. redação da monografia para divulgação dos resultados.

O cronograma, obviamente, responde à pergunta “Quando cada passo


previsto na metodologia começará e terminará?”. É a parte do projeto na
qual você estabelece o tempo necessário para realizar cada uma das etapas
previstas na metodologia, sempre tendo como referencial o prazo limite
para você finalizar a sua pesquisa.
E fique atento ao cronograma, que não deve ser visto meramente como
uma obrigação protocolar que deve ser cumprida para se elaborar o
projeto: ele deve servir como sua bússola temporal. Os estudantes que não
são disciplinados em termos de tempo, que dizem coisas como “Ah, ainda
tenho tempo de sobra pra fazer esse negócio”, geralmente acabam tendo
grandes dificuldades para finalizar o trabalho e, muitas vezes, não o
finalizam e precisam repetir a disciplina TCC no semestre seguinte. Eis um
exemplo ilustrativo de cronograma feito com base nos passos
metodológicos apresentados anteriormente e com base no período de 12
meses para a realização da pesquisa:

O orçamento é parte do projeto na qual você inclui o montante de


dinheiro necessário para realizar sua pesquisa. Assim como o cronograma,
parece algo meramente decorativo no projeto, mas não é. O orçamento
indica a viabilidade financeira da pesquisa que você está propondo. Às
vezes, o estudante pensa em um tema de pesquisa muito interessante e
academicamente útil, mas descobre que, para realizar a pesquisa, precisará
fazer várias viagens a locais distantes da sua residência. E aí, percebendo
que precisará de bastante dinheiro, decide propor um tema de pesquisa
diferente.
A última parte de um projeto de pesquisa é intitulada Bibliografia. Ela
responde à pergunta “Que fontes você irá consultar para realizar sua
pesquisa?”. Por isso, essa parte traz as informações bibliográficas
referentes ao livros, artigos e ensaios que você leu e lerá para levar sua
pesquisa a cabo.
Eu conheço instituições que chamam essa parte de Referências em vez
de Bibliografia, o que eu considero um erro. Afinal, uma bibliografia é uma
lista de livros, de artigos e ensaios enquanto que as referências são uma
lista de livros, artigos e ensaios aos quais o autor de um texto se refere.
Assim, para mim, faz mais sentido falar-se de Bibliografia em um projeto de
pesquisa, pois ela é a lista de textos que o pesquisador pretende consultar,
embora o projeto de pesquisa possa ter também uma parte intitulada
“Referências”, caso o estudante cite textos de outros autores, o que é
inevitável quando se elabora o Referencial Teórico.
Apresentadas as partes de um projeto de pesquisa, eu gostaria de tecer
alguns comentários para que você fique atento a determinados aspectos
metodológicos.
Uma teoria científica resulta de estudos realizados ao longo da história
que refletem, consequentemente, as marcas culturais da sociedade na qual
a teoria é elaborada. O corolário disso é duplo: a teoria científica é mutável
e a neutralidade na ciência é um mito.
Lembra-se da história de que a Terra era plana e de que o Sol girava ao
redor dela? Depois de certo tempo, admitiu-se que a terra era redonda. E
apesar da pressão da Igreja, que queria manter o Sol girando em torno da
Terra, a Terra passou a girar em torno do Sol, graças à teoria de Galileu
Galilei, que fez a teoria geocêntrica cair por terra (sem trocadilhos). E o que
dizer do salto que a física quântica deu em relação à física clássica
newtoniana a partir dos trabalhos de Einstein e de Heisenberg? E a Guerra
do Paraguai, hein? Será que ela foi mesmo um evento heroico do qual os
brasileiros devem se orgulhar ou foi uma empreitada genocida a serviço
dos interesses mercantilistas ingleses da qual os brasileiros devem se
envergonhar? Bem, aí vai depender de que autor você leia — se os
historiadores autorizados pelo Império ou se Julio José Chiavenatto.
Os posicionamentos teóricos mudam e dependem do
comprometimento do pesquisador com essa ou aquela instituição (religião,
universidade, empresa privada, governo, partido político, etc.). Afinal, não
há teorias neutras. Logo, a ciência não é neutra e nenhum acadêmico é
neutro. A ciência e a academia são inescapavelmente políticas,
ideologicamente implicadas.
O filósofo austríaco Karl Popper (2003, p. 55) lembra que “será sempre
uma questão de decisão ou de convenção saber o que deve ser denominado
‘ciência’ e quem deve ser chamado ‘cientista’”. As palavras de Popper não
devem ser ignoradas. O que se convencionou chamar de científico foi aquilo
praticado pelas ciências naturais, as ciências que estudam os fenômenos
naturais, como a biologia, a física e a química. No livro Como se faz uma tese,
Umberto Eco pergunta “que é cientificidade?” e responde, corroborando as
palavras de Popper:

Para alguns, a ciência se identifica com as ciências naturais


ou com a pesquisa em bases quantitativas: uma pesquisa
não é científica se não se conduzir mediante fórmulas e
diagramas. Sob este ponto de vista, portanto, não seria
científica uma pesquisa a respeito da moral em Aristóteles;
mas também não o seria um estudo sobre consciência de
classe e levantes camponeses por ocasião da reforma
protestante (ECO, 1977, p. 21).

Os estudos sociológicos e filosóficos, portanto, não são considerados


científicos por muitos teóricos de orientação positivista. Observe-se que a
maioria das universidades brasileiras segue uma orientação positivista
para a elaboração de projetos de pesquisa, mesmo em áreas de ciências
humanas, nas quais aquilo que Popper chamou de problema de
demarcação vem mais à tona.
Problema de demarcação é o problema de se demarcar o limite entre
ciência empírica e metafísica, o qual leva muitos acadêmicos a disputar o
rótulo de científico para a sua área de pesquisa. A disputa por esse rótulo
tornou-se importante no século XX exatamente por causa da forte
influência dos positivistas, levando muitas áreas de pesquisa a incorporar
métodos de pesquisa das ciências naturais. Os estudos sobre a língua, por
exemplo, só passaram a ser encarados com mais seriedade quando o
linguista suíço Ferdinand de Saussure buscou dar cientificidade a esses
estudos, delimitando o objeto de estudo e os métodos de pesquisa para a
linguística, que passou a ser definida como o estudo científico da língua.
Você já notou que o termo cientista leva muitas pessoas a imaginarem
um homem com cara de maluco, descabelado, de óculos, trajando guarda-
pó branco, trabalhando em um laboratório cheio de tubos de ensaio,
fumaça, máquinas mirabolantes e cobaias? Pois é. Essa é uma imagem
sexista e distorcida de cientista, herança do pensamento patriarcal e
positivista dos séculos XIX e XX, que atrelou a imagem da ciência à prática
empírica e aos homens (não às mulheres).
Vale a pena lembrar que positivismo é a corrente filosófica iniciada por
Augusto Comte, influenciado que foi pelo empirismo de David Hume. Os
positivistas acreditam que só se pode pesquisar aquilo que é observável no
mundo real por meio dos nossos sentidos, ou seja, aquilo que é empírico,
buscando sempre o máximo de objetividade. Dessa forma, o positivismo
nega o status de ciência à metafísica ao mesmo tempo em que o concede às
ciências empíricas. Popper (2003, p. 40, grifos dele) lembra que “o sistema
que se denomina ‘ciência empírica’ pretende representar apenas um
mundo: o ‘mundo real’, ou o ‘mundo de nossa experiência’”.
Ora, algumas perguntas surgem a partir das palavras de Popper: o que
é “mundo real”? É algo que nos é dado ou é uma construção da nossa
experiência? Existe apenas um mundo real ou existem dois, três ou mais
mundos reais? A ciência natural é um retrato objetivo e imparcial da
natureza? Para os convencionalistas, segundo Popper (2003, p. 83), a
ciência teorética natural é apenas uma construção lógica e não um retrato
da natureza. Como mencionamos anteriormente, para os antigos, o “mundo
real” era uma Terra plana que tinha o Sol girando ao seu redor. O meu
“mundo real” não é o mesmo mundo daquelas pessoas. O mundo que
Newton observou não é o mesmo mundo que faz parte da teoria quântica e
do princípio da incerteza de Heisenberg. Aliás, vale observar que a física
quântica está se aproximando, cada vez mais, da filosofia oriental, para o
desespero dos defensores da cientificidade das ciências naturais e da não
cientificidade da metafísica. Fica, portanto, essa dificuldade para os
positivistas: definir “mundo real”.
De qualquer forma, cabe aqui outra pergunta: é possível observar-se o
“mundo real” como um todo ou só é possível observarem-se apenas partes
dele? Essa pergunta leva os positivistas a outro problema, pois, segundo
Dirce Solis, do ponto de vista empirista, existe uma preocupação demasiada
em esgotar o objeto: o grande problema para o positivista consiste em
tomar o maior número possível de indicadores que cubram todas as
variáveis, o que o leva a um “objeto restritivo e minuciosamente tratado: o
objeto em seu nível máximo de especificidade” (SOLIS, 1995, p. 176).
É por essa razão que os professores que orientam estudantes na
elaboração de projetos de pesquisa recomendam que os orientandos façam
um recorte da realidade. Por exemplo, você não deve fazer um projeto de
pesquisa sobre a política macroeconômica, mas sobre a política
macroeconômica no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva; um
projeto de pesquisa sobre o ecoturismo é muito abrangente, mas um
projeto de pesquisa sobre o fluxo de ecoturistas na Chapada Diamantina no
período de 2010 a 2012 é muito mais viável. Esse recorte é fundamental
para que se possa dizer que se pesquisou o objeto de estudo de forma total
e para que se possam fazer, a partir daí, afirmações generalizadoras e
universais sobre o “mundo real” (se o objeto de pesquisa fosse o tal
“mundo real” em sua totalidade, a pesquisa seria impossível!).
Esse método de se observar um pedaço do “mundo real” e de se
afirmar algo sobre o todo do “mundo real” é chamado de método
hipotético-dedutivo. Nas palavras de Mona Clark et al. (1998, p. 10-11):

A principal expressão da abordagem positivista para a


pesquisa é o método (de pesquisa) hipotético-dedutivo, o
qual geralmente acredita-se governar os procedimentos da
investigação científica-natural. Diz-se que os cientistas
naturais (químicos, biólogos e físicos) veem o mundo como
sendo exterior, ‘lá fora’, o qual possui uma existência real
(no final das contas) escapando de ser mal construído pelos
humanos. Em outras palavras, a investigação racional do
mundo real dos fenômenos, no final das contas, produzirá
verdades universais sobre a natureza e o comportamento de
tais fenômenos.

Podemos concluir, portanto, que os projetos de pesquisa que trazem


hipóteses a respeito de um problema são aqueles de orientação positivista.
Veja como Clark et al. (1998, p. 11) definem hipótese:

O cientista, então, começa com um fenômeno para estudar e


gera ideias sobre sua natureza e seu comportamento. Essas
ideias são cristalizadas em uma hipótese. Em um sentido
geral, uma hipótese é qualquer afirmação sobre as
qualidades e comportamentos de um fenômeno, a qual é
antecipada para ser testada. Testando-se a hipótese, o
pesquisador busca estabelecer se a afirmação ali contida é
sustentável. A hipótese é então colocada em teste mais
comumente por meio de experimentação nas ciências
naturais, mas outras formas de coleta de dados claramente
realizam um importante papel em alguns campos de
investigação científica.

Assim, por exemplo, imaginemos que um estudante de biologia se


propõe pesquisar a influência da pimenta no canto do sabiá e hipotetiza
que o consumo de pimenta pelo sabiá jovem é o responsável pela sua
capacidade de canto. Essa afirmação é a hipótese lançada pelo estudante.
Ele, então, terá de coletar dados para verificar se essa hipótese é
verdadeira ou falsa. Para isso, ele deverá ter dois grupos de sabiás jovens
que ainda não cantam: um grupo de sabiás que consomem pimenta e outro
grupo de sabiás que não consomem pimenta. Dessa forma, ele poderá
observar a influência dessa variável no ato de cantar do sabiá. Feitas as
experimentações, após alguns meses, o estudante redigirá sua monografia
informando os seguintes pontos: qual o seu tema e o problema
pesquisados; que hipótese ele pretendeu provar como sendo verdadeira ou
falsa; que teoria ou teorias serviram de norte para sua pesquisa; suas
conclusões; e as referências dos textos que consultou.
Na pesquisa em ciências naturais, é relativamente menos complicada a
tarefa de realizar os experimentos para a falsificação ou não das hipóteses,
já que o cientista natural geralmente pode controlar as condições de
laboratório para pesquisar o que ele quer. Entretanto, o mesmo não pode
ser dito a respeito das ciências humanas. Afinal, como podemos controlar
as condições nas quais o comportamento humano se manifesta a fim de
realizar pesquisas? É essa dificuldade que levou sociólogos e filósofos a
criticarem o uso da abordagem positivista nas pesquisas realizadas nas
ciências humanas. Nas instituições onde os cursos da área de ciências
humanas são mais independentes, os projetos de pesquisa tendem a não
ser seguir uma orientação positivista.
Clark et al. lembram que a abordagem positivista continua a ser
largamente usada nas pesquisas sobre o mundo social, apesar dos
protestos de sociólogos e filósofos. Mas, como atingir o ideal de
objetividade positivista em pesquisas sobre o mundo social? Eles
respondem:

Se a experimentação é a expressão da objetividade


positivista nas ciências naturais, então, nas ciências sociais
(especialmente na sociologia), esse papel tem sido realizado
pela pesquisa social de campo, frequentemente requerendo
a coleta de dados (por exemplo, através de questionários) e
a análise de tais dados de acordo com os rigores do método
hipotético-dedutivo expressos através de testes estatísticos
(CLARK ET AL., 1998, p. 14).

Quanto à coleta de dados, os estudantes dos cursos da área de


humanidades precisam aprender a elaborar adequadamente um
questionário e a realizar adequadamente entrevistas. Se você precisar
elaborar um questionário para realizar a sua pesquisa, seu professor
orientador ajudará você no processo. Entretanto, aqui vão algumas
perguntas que Clark et al. (2000) sugerem que o pesquisador faça a si
próprio antes de elaborar o questionário:

a) Quanto você sabe sobre o assunto a ser pesquisado?


b) Quanto os sujeitos a serem entrevistados sabem sobre o assunto?
(Afinal, não faz o menor sentido fazer perguntas a alguém que
não sabe nada sobre o assunto.)
c) O que exatamente você estará investigando com seu
questionário? Comportamentos? Opiniões? Crenças? Avaliações?
(Ter isso em mente é importante para evitar, na elaboração das
perguntas, o uso de palavras vagas, posições tendenciosas e
perguntas hipotéticas.)

Além disso, o pesquisador precisa ter um conhecimento mínimo de


estatística se ele quiser realizar uma pesquisa seguindo a orientação
positivista. Às vezes, ouvem-se estudantes da área de humanas reclamando
da presença de disciplinas de exatas, mais especificamente de Estatística,
na grade curricular do seu curso. Esses estudantes precisam entender a
relevância de se saber fazer análises estatísticas básicas no momento de
elaborar pesquisas qualitativas que, em um determinado momento, pedem
o uso de um instrumento de pesquisa quantitativo.
Bem, quando você for elaborar seu projeto de pesquisa, fique atento à
natureza da pesquisa exigida pela linha de pesquisa em que você e seu
orientador se inserem e à adequação dessa linha ao seu tema de pesquisa. E
lembre-se dos elementos que seu projeto deve ter: tema, problema,
hipótese (se você seguir uma linha positivista), objetivos, justificativa,
metodologia, referencial teórico, cronograma, orçamento e referências.

*…*…*

Na próxima seção, veremos alguns pontos a respeito da monografia, mas,


antes de finalizar esta seção, reproduzo aqui as palavras de Rubem Alves,
para que você possa refletir um pouco a respeito dos termos ciência,
científico e cientista:

O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque


ele induz o comportamento e inibe o pensamento. Este é um
dos resultados engraçados (e trágicos) da ciência. Se existe
uma classe especializada em pensar de maneira correta (os
cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação
de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas
mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz
perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será
que você se pergunta se o médico sabe como os
medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e
toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar,
porque acreditamos que há indivíduos especializados e
competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por
nós. E depois ainda dizem por aí que vivemos em uma
civilização científica… O que eu disse dos médicos você pode
aplicar a tudo. Os economistas tomam decisões e temos de
obedecer. Os engenheiros e urbanistas dizem como devem
ser as nossas cidades, e assim acontece. Dizem que o álcool
será a solução para que nossos automóveis continuem a
trafegar, e a agricultura se altera para que a palavra dos
técnicos se cumpra. Afinal de contas, para que serve a nossa
cabeça? Ainda podemos pensar? Adianta pensar? (ALVES,
1981, p. 11).
6

ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE A


MONOGRAFIA
A monografia é um texto dissertativo que trata de um tema, como o
prefixo mono indica. Ela é a forma mais comum de se divulgar os resultados
de uma pesquisa elaborada por estudantes tanto na graduação quanto no
mestrado (aí a monografia se chama dissertação) e no doutorado (aí a
monografia se chama tese).
Quando cursar a disciplina Metodologia da Pesquisa ou Metodologia
Científica, você terá a oportunidade de analisar o processo de elaboração
da monografia. Por isso, o objetivo deste capítulo é tecer alguns
comentários para que você possa ficar consciente a respeito de
determinados aspectos durante a elaboração da sua monografia. Não se
esqueça de que sua formatura dependerá também da qualidade do seu TCC.

FAÇA UM ESQUELETO DA SUA MONOGRAFIA

A escrita da monografia começa quando começamos a pensar nela. E o


primeiro passo após começarmos a pensar nela é fazer o seu esqueleto. O
que isso quer dizer? Simplesmente que devemos pensar em um título para
ela, em quantos capítulos ela vai ter e nos títulos desses capítulos, em
quantas seções cada capítulo terá e nos títulos dessas seções, e colocar tudo
isso no papel. Esse esqueleto se materializa na forma de sumário no caso da
monografia.
Obviamente, o sumário inicial não pode ser visto como uma camisa de
força, pois ele pode ir se alterando à medida que você vai redigindo sua
monografia. E isso não é um problema. O importante é que você tenha uma
ideia clara do ponto de partida e do ponto de chegada, mesmo que o
caminho de um ponto a outro se altere por razões metodológicas ou
teóricas.
Esqueletar um texto é sempre uma boa ideia, independentemente do
gênero textual em questão. Para escrever este livro que você está lendo, eu
elaborei o sumário com antecedência e ele sofreu algumas alterações até
tomar a forma definitiva. Por isso, siga este conselho: acostume-se a fazer o
esqueleto de todos os textos acadêmicos que você precisar produzir.

EXPLICITE OS TERMOS TEÓRICOS QUE VOCÊ INTRODUZ


Geralmente, os leitores da sua monografia serão os professores que a
avaliarão. Entretanto, não use esse fato para redigir de uma forma
preguiçosa, achando que os professores vão entender o que você quis dizer.
Afinal, uma das razões de ser da monografia é a avaliação, é servir como
evidência de que você sabe algo minimamente para ser aprovado pela
banca examinadora. Assim, se você introduz termos teóricos, certifique-se
de que você os define de forma que não cause ambiguidade para os leitores.
Eco faz o seguinte comentário, que está relacionado com esse ponto:

[…] em geral os textos que não explicam com grande


familiaridade os termos que empregam deixam a suspeita
de que seus autores são muito mais inseguros do que
aqueles que explicitam cada referência e cada passagem. Se
você ler os grandes cientistas ou os grandes críticos, verá
que, com raríssimas exceções, eles são sempre claros e não
se envergonham de explicar bem as coisas (ECO, 1977, p.
113).

Por que é necessário explicitar o sentido dos termos teóricos que você
introduz na monografia? Pelo fato de poder haver sentidos distintos para
um mesmo conceito a depender da perspectiva teórica que se adote. Por
exemplo, os termos língua, significado e fonema significam coisas diferentes
a depender da linha teórica do linguista que os emprega. Similarmente,
turismo, ecoturismo e turismo sustentável podem significar coisas diferentes
para teóricos diferentes. Assim, ao introduzir um termo teórico em sua
monografia, defina-o com clareza para evitar que os membros da banca
façam uma leitura que não seja interessante para você.

ESCREVA COM CLAREZA

Você provavelmente já presenciou aquela cena em que o estudante


recebe a prova corrigida pelo professor e diz para ele: “Poxa, Prof.! Você
não considerou isso aqui, oh. O que eu quis dizer foi …”. A frase “o que eu
quis dizer foi…” pode significar uma de três coisas:
a) que o estudante não expressou o que ele realmente queria
expressar;
b) que o trecho parece claro para o estudante, mas não está claro
para outras pessoas, o que significa que o estudante não
escolheu a maneira mais adequada de expressar o que pensou;
c) que o professor não entendeu o trecho da forma como o
estudante entendeu porque o professor, por alguma razão, não
conseguiu enxergar o sentido que o estudante realmente colocou
ali devido a uma ambiguidade estrutural, por exemplo.

Esse tipo de situação pode e deve ser evitada no momento de se redigir


uma monografia. Você precisa ter certeza de que seu texto está o mais claro
possível. Se você achar que um ou outro trecho podem parecer confusos
para outras pessoas, peça que alguém os leia e os comente para você antes
de entregar a monografia. É muito chato para o professor ficar tentando
entender o que o estudante quis dizer por causa da má redação. Uma
redação clara é confortável para o leitor, especialmente se ele vai avaliar o
texto para dar uma nota. Lembre-se disso.
Ah, e não podemos nos esquecer de que você pode ter a intenção
deliberada de deixar uma passagem ambígua, pois a ambiguidade pode
provocar efeitos estilísticos interessantes. Nesse caso, certifique-se de que
tais efeitos são apropriados para o gênero textual que você está redigindo e
para o público-alvo para o qual você está redigindo.

SEJA ÉTICO: EVITE O PLÁGIO

Este é um ponto importantíssimo. Uma monografia feita pelo


estudante universitário pode ter problemas teóricos e redacionais.
Contudo, esses problemas podem ajudar o estudante a melhorar sua
capacidade de produção textual no momento em que o professor dá o
feedback sobre eles. Entretanto, há estudantes que cometem um erro grave,
que se constitui em falta de ética e, pior, crime de falsidade ideológica: o
plágio.
Alguns estudantes podem até plagiar por ingenuidade, uma situação
rara mas possível. São aqueles estudantes que passaram a vida na escola
“fazendo” trabalhos escolares da seguinte forma: pesquisavam em
enciclopédias ou na Internet, encontravam textos que tratassem do assunto
que o professor indicou, copiavam esses textos, colocavam neles uma capa
incrementada com seu nome e os entregavam aos professores como se
fossem deles. E ao entregar o trabalho ao professor, geralmente esses
estudantes diziam: “Não está lindo?”. Infelizmente, para alguns estudantes
e professores do ensino fundamental e médio, encontrar os textos e copiá-
los é suficiente para comprovar que o estudante pesquisou o tema
proposto. Muitas vezes, o estudante que faz isso nem lê totalmente o texto
que copiou.
O problema é ainda mais grave quando os estudantes plagiam
conscientemente, que é o caso mais comum. Eles copiam algo de um livro
ou de um texto disponível na Internet e colocam-no na monografia como se
fossem eles que tivessem produzido. Às vezes, é difícil para o professor
perceber a armação, mas, outras vezes, é fácil detectar quando o estudante
faz isso. Como? Ora, por meio da estrutura discursiva do texto. Um
estudante que escreve com um estilo simples e com desvios da norma
padrão não pode, de repente, no meio do trabalho, começar a redigir com
um estilo mais apurado e vocabulário menos frequente e com uma voz
discursiva diferente. Às vezes, o professor não se dá o trabalho de tentar
descobrir a fonte da qual o estudante copiou o trecho, mas, às vezes, o
professor resolve procurá-la e a encontra. Aí é que o estudante se vê em
maus lençóis. Deixe-me ilustrar essa questão com duas situações que
realmente aconteceram.
Em 2000, fui um dos três professores que participaram de uma banca
que analisou uma monografia de estudantes do primeiro semestre de um
curso de Turismo de uma determinada instituição particular. O tema de um
dos grupos era complexo: o turismo na Bahia sob um olhar semiótico. Após
começar a ler a monografia, notei que o texto, repentinamente, passava a
apresentar uma redação com um estilo mais denso e rebuscado, tratando
da questão semiótica com muita profundidade e com uma redação bem
revisada. O problema era a maneira confusa com que o texto tratava do
assunto. Não havia unidade textual, não havia uma sequência temática
coerente.
Achei aquilo estranho e, inicialmente, pensei que o problema estava
nos meus poucos conhecimentos de semiótica. Por isso, reli os trechos que
me pareciam confusos. Reli-os de novo e de novo. Foi então que suspeitei
de plágio. Chequei a bibliografia e escolhi dois livros nos quais eu
acreditava encontrar aqueles trechos. Fui à biblioteca e analisei os livros,
página por página, até que encontrei os trechos exatamente como estavam
na monografia. Aliás, quase exatamente — e foi esse “quase” que me causou
dificuldades na leitura.
A confusão que constatei no texto apresentado pelos estudantes, a qual
impediu meu entendimento do texto, se devia ao fato de eles terem copiado
trechos do livro fora da ordem, destruindo a organização temática do texto
que copiaram do livro. E como eles fizeram isso? Fazendo uma colagem
aleatória dos trechos: pegavam um parágrafo de uma página e o colocavam
em seguida a um parágrafo de outra página e assim sucessivamente,
criando uma colcha de retalhos textuais. Durante a banca, sinalizei para os
estudantes a pesquisa que eu havia feito e recomendei que o grupo
refizesse a monografia para que ela pudesse ser julgada de novo, embora
eu pudesse ter dado nota zero a eles. As duas professoras que compunham
a banca concordaram e eles tiveram uma segunda chance.
A segunda situação aconteceu em 2011 na Universidade de São Paulo
(USP). Fábio Takahashi (2014) informa que um professor-doutor de
dedicação exclusiva que trabalhava na USP há 15 anos liderava um grupo
de pesquisa que objetivava, dentre outras coisas, “investigar se uma
substância isolada da jararaca é útil contra o vírus da dengue”. Além desse
professor, nove outros cientistas participaram da pesquisa, cujos
resultados foram publicados na revista especializada Biochemical
Pharmacology. O problema foi que imagens usadas na publicação foram
copiadas de outros autores sem o devido crédito. Em outras palavras, eles
teriam plagiado as imagens. Resultado: o professor em questão foi
despedido e uma das pesquisadoras, que havia sido sua orientanda no
doutorado na mesma instituição, teve o título de doutora retirado pela
universidade. Ainda segundo Takahashi (2014), o então reitor da USP disse
que a punição foi necessária para preservar a credibilidade da
universidade.
Observe que eu poderia ter sido mais rígido no caso envolvendo os
alunos de Turismo e tê-los reprovado por plágio. Felizmente para eles,
resolvi encarar o gesto deles como um gesto de estudantes mal preparados
e ingênuos, recém-ingressos na universidade, e dei-lhes outra chance.
Entretanto, nem todos os professores podem estar dispostos a dar uma
segunda chance a casos como esses (e nem eu estou mais disposto a dar
uma segunda chance em tempos em que muito se fala sobre o plágio). Já o
caso da USP foi fortemente punido. Há quem considere exageradas as
punições dadas pela reitoria da universidade ao professor e à
pesquisadora. De qualquer forma, plágio é crime e deve ser coibido e
punido quando for descoberto. Por isso, o melhor a se fazer é ser ético e
evitar o plágio para evitar consequências indesejáveis.
Quando você tem a necessidade de citar o trecho de algum livro ou de
outro tipo de publicação no seu trabalho acadêmico, indique a fonte e deixe
claro que as palavras não são suas. Ou seja, deixe claro de quem é a autoria
daquelas palavras, daquelas ideias. E lembre-se de uma coisa importante: o
fato de você usar as suas próprias palavras para explicar as palavras ou as
ideias dos outros não altera o fato de você estar usando as ideias dos outros
no seu texto. Continua sendo uma citação, mesmo com suas próprias
palavras. Está claro isso?
E citação é exatamente isto: a transcrição, para o seu texto, de trechos
e de ideias que estão presentes no trabalho de outro autor. Você pode citar
as exatas palavras do autor. Nesse caso, a citação é direta. Ou você pode
parafrasear as palavras do autor usando suas próprias palavras. Nesse
caso, a citação é indireta. Quando a citação for direta, você deve colocar o
trecho citado entre aspas dentro do parágrafo se ele ocupar até três linhas
do seu texto. Se o trecho citado ocupar mais de três linhas, você deve
transcrevê-lo fora do parágrafo, sem aspas, com o recuo de 4 cm da
margem, espaço entrelinhas simples e o tamanho da fonte 11 ou 10.
Observe que as citações ao longo deste manual não seguem
necessariamente isso que estou recomendando por uma razão simples: as
editoras não são obrigadas a seguir as mesmas normas que são seguidas
nas universidades. De qualquer forma, tanto na citação direta quanto na
indireta, seja em livros ou em trabalhos acadêmicos, a fonte é indicada de
três maneiras possíveis:

a) Nome Sobrenome (ano, p. x), na primeira vez em que você citar o


autor e no caso de haver dois autores com o mesmo sobrenome
e obras publicadas no mesmo ano;
b) Sobrenome (ano, p. x), a partir da segunda vez que você cita o
autor;
c) (SOBRENOME, ano, p. x), quando o autor vem entre parênteses.

Enfim, a questão da autoria é muito importante para a vida acadêmica.


Não a negligencie: evite plágios. E não caia na tentação de pagar a alguém
para fazer seus trabalhos. É disso que trato na próxima seção.
SEJA INTELIGENTE: NÃO COMPRE MONOGRAFIAS

Nos últimos anos, um mercado vem se expandido no Brasil, apesar dos


períodos de dificuldade econômica que nosso país tem enfrentado. Refiro-
me ao mercado de trabalhos acadêmicos. Você pode estar se perguntando:
“Como assim? Existe quem venda monografias e artigos?!” Pois é. Existe,
sim. Acredite se quiser. Há pessoas que ganham dinheiro aproveitando-se
da mediocridade, incompetência e burrice de alguns estudantes: essas
pessoas elaboram resenhas, relatórios e monografias, e os vendem a esses
estudantes por uma determinada quantia em dinheiro. A cara-de-pau é
tanta que há pessoas que anunciam seus serviços na Internet.
Sei que não preciso dizer para você que o estudante que paga para
alguém fazer seu trabalho e que apresenta esse trabalho como se fosse dele
está cometendo um ato ilícito, mais especificamente um crime federal de
falsidade ideológica, pois está assinando como seu um trabalho que não fez.
Contudo, eu não podia deixar de aproveitar o espaço aqui para chamar sua
atenção para essa prática nefasta, que não merece maiores comentários…
só punições.
E uma punição exemplar foi o que aconteceu na Universidade
Metodista em 2005, segundo nos informa Raquel Bocato (2005). Um
mestrando e um doutorando foram expulsos dessa instituição porque
haviam comprado trabalhos acadêmicos e isso foi descoberto e
comprovado.
É impressionante como alguns estudantes conseguem ingressar em
programas de mestrado e de doutorado e decidem correr o risco de jogar
tudo fora comprando um trabalho pronto. Se eles têm algum tipo de
dificuldade justificável, é mais inteligente solicitar um trancamento do
curso para que eles se deem tempo para colocar as coisas em ordem.
Bem, fica a lição de um antigo ditado: é melhor prevenir do que
remediar.

DEIXE A INTRODUÇÃO POR ÚLTIMO

A Introdução é a parte da monografia na qual você informa qual é o


tema da sua pesquisa e o situa em um determinado contexto acadêmico e
teórico, justificando a escolha do tema e indicando o objetivo que você
pretendeu atingir com sua pesquisa. Nessa parte, você também informa
sobre o problema, as hipóteses (se houver), a justificativa e a metodologia
adotada na pesquisa. Em outras palavras, vários dos elementos que fazem
parte do projeto de pesquisa são organizados, de forma clara e objetiva, no
corpo do texto da Introdução.
Além desses elementos, a Introdução apresenta ao leitor a maneira
como a monografia foi organizada, abordando brevemente o conteúdo de
cada capítulo. Por isso, a Introdução é a última parte a ser redigida em uma
monografia.
Vale lembrar que Umberto Eco (1997) sugere que se redija logo a
Introdução e que se vá reformulando-a à medida que se redige a
monografia. Entretanto, se o esqueleto da monografia, ou seja, seu sumário,
já foi elaborado, você pode tranquilamente deixar para lidar com a
Introdução ao final do processo de produção da sua monografia.

SAIBA QUAL É A FUNÇÃO DO ORIENTADOR

Quando você realizar uma pesquisa e elaborar uma monografia, haverá


um professor que será seu orientador. É importante que você saiba o que é
obrigação do orientador e o que não é obrigação dele. A função do
orientador é acompanhar e supervisionar a pesquisa e o processo de
elaboração da monografia. Ele funciona tanto como um interlocutor, uma
pessoa que ouve o estudante e troca ideias com ele, quanto como um
conselheiro, uma pessoa que faz sugestões ao estudante, e leitor da sua
monografia. É o orientador quem sugere leituras e quem informa se o
trabalho do orientando está no caminho certo.
Entretanto, o orientador não tem a obrigação de “ficar no pé” do
orientando: paternalismo e orientação não se misturam. Lembra-se da
nossa discussão sobre autonomia no primeiro capítulo? Pois é. Essa é uma
das horas em que o estudante que não é autônomo pode passar por sérios
problemas se o orientador não for paternalista (e a maioria dos
orientadores não é). O estudante é quem tem de tomar as iniciativas para a
elaboração da sua monografia.
Além disso, ao orientador não cabe a função de revisor de textos. Que
isso fique bem claro. Quando você escreve um texto, é necessário que faça
uma revisão da redação para corrigir problemas de ortografia, pontuação,
concordância, regência e sequência temática. O trabalho de revisão requer
muito tempo, principalmente quando há muitos erros na monografia. Por
isso, a revisão textual é realizada profissionalmente por algumas pessoas,
que cobram por esse serviço.
Se você tiver problemas de redação e não se sentir seguro para fazer a
revisão, contrate alguém que forneça esse serviço. Contudo sugiro que você
aprenda a revisar seus próprios textos não apenas por uma questão de
autonomia, mas também por uma questão de economia. Afinal, o serviço de
revisão não é barato: em valores de 2015, o valor da revisão pode variar de
R$7,00 a até R$20,00 por página. E isso sem a garantia e a certeza de que o
profissional contrato é eficiente. É claro que você pode dar a sorte de ter
um orientador que se disponha a fazer a revisão, mas lembre-se: isso será
um golpe de sorte, pois, repito, revisar os textos do orientando não é
obrigação do orientador.
O psicanalista Renato Mezan faz um comentário interessante sobre a
relação orientador-orientando nos cursos de pós-graduação, mas que se
aplica também à relação orientador-orientando nos cursos de graduação:

O fato é que se trata de uma relação sui generis, de grande


intimidade por um lado e de necessária distância por outro;
às vezes o orientador é o ombro amigo, às vezes o
confidente das divagações do orientando; às vezes precisa
ser firme e restaurar a disciplina da pesquisa — mas é
sempre o interlocutor privilegiado, o primeiro leitor de
escritos que significam bastante para seus autores e sobre
cujo valor estes têm dúvidas muitas vezes justificadas. O
tato e a capacidade de julgamento são as qualidades
requeridas deste personagem, bem mais do que o
conhecimento do assunto específico sobre o qual versa a
pesquisa do orientando, embora este tampouco possa ser
excessivamente pequeno. Tato quer dizer aqui possibilidade
de avaliar quais críticas podem ser ouvidas pelo aluno, e
quais outras teriam o efeito de desestimulá-lo ou de
humilhá-lo (MEZAN, 2003).

Mezan está certo. A relação que se estabelece entre o orientador e o


orientando é muito importante. Muitas vezes, o estudante quer que um
determinado professor seja seu orientador porque gosta dele. A relação
emocional é importante, mas não é tudo. A capacidade que o professor tem
de orientar o estudante também é essencial. É por isso que você deve se
perguntar se a linha da sua pesquisa está compatível com a linha de
pesquisa do professor que você quer escolher como orientador (caso seja
possível escolher quem vai orientar você). A boa relação afetiva não é
suficiente para se tomar uma decisão quanto a quem vai orientar você.
Em suma: o orientador é um interlocutor, um conselheiro, que pode
também ser seu amigo, mas com limites e tarefas claramente estabelecidos.

LEMBRE-SE: A ESCRITA É DIFERENTE DA FALA

A qualidade da redação é de extrema importância para a sua


monografia. Portanto, lembre-se de que a linguagem oral e a linguagem
escrita são diferentes, embora obviamente parecidas por serem ambas a
materialização de uma mesma coisa: a língua. Quando falamos, somos
redundantes, interrompemos as orações pela metade, nos esquecemos das
imposições normativas de concordância e de regência. E isso não é
problema, apesar de os preconceituosos puristas sapatearem quando
ouvem frases do tipo “Ques cara chato!” em vez de “Que caras chatos!”.
(Experimente pronunciar essas duas frases. Qual é a mais confortável de se
pronunciar?)
Entretanto, a linguagem escrita exige o seguimento de determinadas
normas por uma razão prática: a língua portuguesa é heterogênea, ao
contrário das delirantes afirmações prescritivamente homogeneizantes dos
puristas. Logo, não se escreve como se fala, o que torna necessária a
existência de um código linguístico escrito compartilhado por todos os
falantes do português brasileiro para facilitar a comunicação. Por exemplo,
em algumas regiões do país, costuma-se falar gabiru em vez de rato, para se
referir àquele animal que anda pelos esgotos e pelo lixo e que é usado em
experimentos científicos. Contudo, em várias outras regiões, não se
conhece a palavra gabiru. Por essa razão, se um pesquisador de uma região
onde se usa a palavra gabiru escrever um artigo científico em que trata de
uma pesquisa realizada com 100 animais dessa espécie, ele deve usar a
palavra rato por ser mais comum do que gabiru. Imagine um artigo no qual
se lê que “foram pesquisados 100 gabirus”. Com certeza, haverá
pesquisadores em Salvador que não saberão que cobaias foram essas.
Como já sugeri anteriormente, se você acha que não redige bem,
procure um curso de redação e procure ler mais. Enquanto isso, faço, a
seguir, algumas sugestões para que você possa evitar determinados
problemas quando redigir sua monografia (e seus outros trabalhos
acadêmicos).

Preste atenção aos elementos de coesão textual

Se você está, por exemplo, enumerando argumentos com marcadores


sequenciais, certifique-se de que os está usando adequadamente. Se você
escreve “Em primeiro lugar” para introduzir um determinado elemento,
como, por exemplo, um argumento, isso quer dizer que haverá outros
elementos a serem mencionados depois desse, requerendo o uso de outros
marcadores, como “Em segundo lugar” e “Finalmente”.
Contudo, de vez em quando, encontro textos de estudantes em que
escrevem “Em primeiro lugar”, e eu fico esperando aparecer “Em segundo
lugar” ou “Em seguida”. Espero em vão. Eles não aparecem. Lembre-se: se
você usa um marcador sequencial, inevitavelmente você terá de usar pelo
menos mais um.
Outro ponto: quando usar um pronome (ele, ela, sua, etc.), certifique-se
de que você está estabelecendo uma referência clara, de modo a evitar
ambiguidade. Para isso, basta reler o que escreveu e se perguntar se a
referência que o pronome estabelece no texto está clara. Por exemplo, no
trecho abaixo, o pronome ele não tem um referente claro:

O Governador disse ao Prefeito que ele deve assumir a construção da


nova etapa do metrô em Salvador.

Note que ele pode se referir tanto à palavra Governador quanto à palavra
Prefeito. O leitor fica sem saber quem é que o Governador acha que deve
assumir a construção da nova etapa do metrô.
Fique atento para evitar esse tipo de confusão no uso dos pronomes.
Cuidado com as formas verbais

O uso do infinitivo dos verbos terminados em -ar, -er e -ir e a forma da


terceira pessoa singular no presente do indicativo desses verbos tem
confundido muitos estudantes. Por exemplo, quais das orações abaixo
estão de acordo com as normas da língua escrita?

a) Os deputados não vão estar no Congresso hoje.


b) Os deputados não vão está no Congresso hoje.

c) Posso ver seu livro?


d) Posso vê seu livro?

e) Para conseguir um emprego, você deve ter um diploma.


f) Para consegui um emprego, você deve ter um diploma.

g) Aquele cara é muito estranho. Ele não gosta de rir.


h) Aquele cara é muito estranho. Ele não gosta de ri.

Em construções verbais locucionais, ou seja, nas construções formadas


por mais de um verbo, o segundo verbo só pode assumir uma forma
impessoal: infinitivo, como nas orações a) e c); particípio passado, como em
“Eu não tinha chegado quando meu chefe me procurou.”; ou gerúndio,
como em “Eu estava dormindo quando você ligou.” Quando um verbo é
complemento de uma preposição, como nas orações e) e g), ele deve ficar
na forma infinitiva. Fique ligado!

Aprenda a escrever definições

Um hábito que muitos estudantes demonstram ter no momento de


definir algum termo é usar a frase é quando. Observe como ficam estranhas
as seguintes definições:
a) “Infarto” é quando as coronárias ficam entupidas e obstruem a
passagem do sangue.
b) “Concepção bancária da educação” é quando o professor pensa
que ele sabe tudo e os estudantes não sabem nada.

Ora, nem o infarto nem a concepção bancária são momentos. Por isso,
preste atenção quando você for definir termos, evitando o uso equivocado
de é quando, que é uma expressão legítima e comum na linguagem oral
informal, mas que é considerada incorreta na redação acadêmica.

Cuidado com o uso de onde

Essa palavra pode funcionar como um pronome interrogativo ou como


um pronome relativo e, como você sabe, diz respeito a lugares. Entretanto,
muitas pessoas a utilizam para introduzir uma oração relativa sobre nomes
que não são lugares. O uso do onde nas orações a) e c), a seguir, está
incorreto. Já na oração b), o uso de onde está correto. Observe:

a) Behaviorismo é a corrente filosófica onde a aprendizagem ocorre


através de um mecanismo de estímulos e respostas, reforçando
os hábitos bons e eliminando os hábitos ruins.

b) Berna é a capital da Suíça e uma das cidades onde Einstein


morou.

c) Concepção bancária é a visão de ensino-aprendizagem onde o


professor é quem sabe tudo e o estudante é uma pessoa que não
sabe nada.

Preste atenção à grafia de palavras e de expressões

Há algumas palavras e expressões que costumam causar confusão aos


estudantes. Se você tem dificuldades com ortografia, consulte um guia
ortográfico e faça exercícios para fixar as formas adequadas. Vamos fazer
um pequeno teste. As alternativas abaixo trazem pares de palavras e
expressões, retiradas de textos escritos por alguns estudantes. A primeira
forma de cada par está correta. A segunda está incorreta e é comumente
encontrada em textos redigidos por estudantes. Observe:

• a partir de / apartir de
• a fim de / afim de
• quiser / quizer
• opinião / opnião
• atrás / atraz
• adquirir / adiquirir
• desestimular / desistimular
• discussão / discursão
• usufruir / usurfluir
• intitulado / entitulado
• pejorativo / perjorativo
• estão / estam

Além de estar atento a essas questões pontuais, você também precisa


se acostumar com o Novo Acordo Ortográfico. Há vários sites na Internet
que disponibilizam as regras do Novo Acordo e ainda as comentam.
Procure um desses sites e estude as novas regras, tá? Afinal, as revistas
especializadas só aceitam publicar textos se seus autores seguirem as
regras estabelecidas pelo Novo Acordo. Por isso, é importante que você
esteja familiarizado com essas regras.

Cuidado com as preposições

A regência é um dos elementos gramaticais que mais causam


dificuldades para os estudantes. Uma das razões disso é o fato de eles
deixarem a oralidade influenciar a sua escrita. Por exemplo, embora o
verbo gostar seja regido pela preposição de, nenhuma pessoa normal diz:
“A cerveja de que mais gosto é Corona” ou “A cerveja da qual eu mais gosto
é Corona”. A pessoa normal diz: “A cerveja que mais gosto é Corona”.
Na oralidade, nós, brasileiros, independentemente da classe social e do
grau de escolaridade, estamos omitindo as preposições das orações
relativas que as exigem. Por exemplo, em vez de dizermos “O livro sobre o
qual eu falei ontem esgotou”, dizemos “O livro que eu falei ontem esgotou”.
As orações relativas que exigem uma preposição a qual nós omitimos são
chamadas de relativas cortadoras. O nome é irrelevante para nossa
discussão aqui. O que é relevante é o fato de, na oralidade, a omissão dessas
preposições não ser um problema, pois a fala possui suas próprias
gramáticas. Mas as gramáticas da escrita, principalmente a gramática que
rege os textos acadêmicos, têm exigências de outro tipo. E uma dessas
exigências é o uso das preposições quando a construção sintática as exige.
Correto? Fique atento para não criar relativas cortadoras nos textos
escritos.
Outro ponto relacionado à regência é a existência de dois verbos que
costumam ser usados de forma equivocada na academia (e aí incluo
estudantes e professores): implicar e visar. Observe os exemplos a seguir:

a) A decisão implica em uma redução de custos.


b) A decisão implica uma redução de custos.

c) O projeto visa a elevação da arrecadação tributária.


d) O projeto visa à elevação da arrecadação tributária.

A regência do verbo na primeira oração de cada par está incorreta segundo


as gramáticas normativas. Muitas pessoas na academia estão usando o
verbo implicar com a preposição em, embora ele não seja regido por
preposição, e estão usando o verbo visar sem preposição, embora ele seja
regido por essa preposição a. Esse uso está tão frequente que acredito na
sua legitimação pelas gramáticas normativas daqui a algum tempo. Porém,
enquanto essa legitimação não acontece, sugiro que você use a regência
ainda considerada a correta pela gramática normativa.
Um último ponto merece comentário aqui. Existe uma conjunção que
costuma causar confusão quanto à contração da preposição que o compõe
com um artigo que a segue: apesar de. É o mesmo caso da expressão o fato
de. Observe as orações a seguir:
e) Apesar da população protestar, o governo continuará com o
projeto.
f) Apesar de a população protestar, o governo continuará com o
projeto.
g) Apesar do protesto da população, o governo continuará com o
projeto.
h) O fato da presidenta Dilma estar de férias não altera a agenda do
Congresso.
i) O fato de a chuva estar forte nos impede de realizar o teste com o
novo balão meteorológico.

Quando apesar de e o fato de são seguidos por um artigo, não se pode


contrair a preposição de com o artigo que a segue se o artigo fizer parte de
um sujeito de uma oração. É por essa razão que os trechos sublinhados nas
orações e) e h) estão incorretos segundo as gramáticas normativas
(embora corretos segundo as gramáticas da fala informal). Fique atento a
essa regra.

Evite os fragmentos oracionais

Nós aprendemos, nas aulas de língua portuguesa, que a oração é


formada de sujeito e predicado, que é, por sua vez, composto por um verbo
e, se necessário, complementos. (Ah, não podemos nos esquecer de que
existem as tais orações sem sujeito, como aquelas nas quais o verbo
principal é um verbo que expressa um fenômeno meteorológico, por
exemplo.) Pois bem, quando uma oração exige um sujeito e não tem
nenhum, ou quando não há nenhum verbo na oração ou falta o predicado, a
oração não é uma oração: ela é apenas um fragmento oracional. Por
exemplo, leia o trecho abaixo e descubra onde há um fragmento oracional e
decida como você corrigiria esse trecho:

O governo federal resolveu elaborar uma medida provisória para


resolver a questão da transposição do São Francisco. Por causa da seca
em algumas microrregiões nordestinas. Provavelmente, haverá reações
contrárias no Congresso.
Descobriu? Pois é. “Por causa da seca em algumas microrregiões
nordestinas” é um fragmento oracional. Na verdade, percebemos que esse
trecho deveria fazer parte da primeira oração.
Fique atento para não colocar fragmentos oracionais nos seus textos.
Vejamos agora uma coisa simples, mais relevante para a escrita e para a
leitura de textos acadêmicos.

CONHEÇA AS ABREVIATURAS MAIS COMUNS

Ao longo da sua monografia, você pode precisar usar algumas


abreviaturas. Você já conhece “etc.”. Aqui estão algumas outras que podem
ser úteis no momento de redigir seus textos. (Eu usei algumas delas neste
manual, como está indicado entre parênteses.)

• e.g. significa “por exemplo”; é a abreviatura de exempli gratia.


(Observe o uso que fiz dessa abreviatura no Capítulo 4.)
• i.e. significa “isto é”; é a abreviatura de id est. (Observe o uso que
fiz dessa abreviatura no Capítulo 4.)
• apud significa “citado por”. Você deve usar essa abreviatura
quando você fizer uma citação de um trecho de um autor que foi
citado por outro autor. Por exemplo, suponha que um estudante
de História esteja escrevendo um texto sobre o trabalho
capitalista, e decide citar um trecho de Louis-René Villermé a
respeito da exploração desumana que o capital impunha aos
trabalhadores nos primórdios do capitalismo. Esse trecho o
estudante encontrou no livro O direito à preguiça, de Paul
Lafargue, militante do movimento operário internacional. O
estudante, então, faz o seguinte:

De acordo com Louis-René Villermé (apud Lafargue, 1983, p. 32-33):

[…] ao cansaço de um dia desmedidamente longo, uma


vez que dura pelo menos quinze horas, acrescenta-se,
para esses infelizes, a fadiga das idas e das vindas tão
frequentes, tão penosas. Resulta que à noite chegam
em casa assaltados por uma necessidade de dormir, e
que no dia seguinte, saem antes de terem conseguido
repousar completamente, a fim de estarem na fábrica
no início do expediente.

Percebe-se, nas palavras de Villermé, o grau de exploração a que eram


submetidos os trabalhadores nas fábricas capitalistas do século XIX.

• cf. significa “confira”. Você pode usar essa abreviatura em uma


nota de rodapé, quando você quiser remeter o leitor a um outro
texto ou a uma outra parte do seu trabalho.
• ibid. (que é a abreviatura de ibidem) significa “na mesma obra”.
Entretanto, as revistas especializadas estão proibindo o uso
dessa abreviatura.
• et al. significa “e outros”; é a abreviatura de et alli. (Observe o uso
que fiz dessa abreviatura nas Referências.)
• in significa “em” e é usada em referências bibliográficas. (Observe
o uso que fiz dessa abreviatura nas Referências.)

SAIBA USAR AS NOTAS DE RODAPÉ OU DE FIM DE TEXTO

Você deve usar as notas de rodapé ou de final de documento com os


seguintes propósitos:

g) apresentar o trecho original de um texto em língua estrangeira


quando você cita o trecho traduzido a partir desse original;
h) fazer algum comentário que está apenas indiretamente
relacionado ao seu trabalho, mas o qual você considera
pertinente;
i) introduzir alguma digressão.
Eu recomendo que você evite usar notas ao máximo. Se for realmente
necessária a nota, sugiro que você use notas de rodapé e não de final. Para
quem lê, é extremamente chato ficar procurando as nota no final do texto.
Lembre-se de que não é nada interessante levar os membros da banca a
fazerem uma coisa chata. São eles que vão avaliar seu trabalho e dar uma
nota.

SIGA A FORMATAÇÃO ADEQUADA

Que o conteúdo de uma monografia é seu aspecto mais importante,


isso você sabe. Entretanto, a formatação da sua monografia é também de
muita importância. Já pensou se cada estudante escolhesse o tamanho da
letra, o tipo de fonte, a cor da tinta e o tamanho de papel para apresentar
sua monografia? Haveria estudante que usaria letra tamanho 14 ou 16 com
espaço duplo e margens grandes para forçar um volume grande de folhas,
por exemplo. Outros usariam fontes bastante exóticas para que seus
trabalhos ficassem diferentes.
É por isso que existe uma coisa chamada ABNT, que desperta até raiva
em alguns estudantes pelo fato de eles serem obrigados a formatarem seus
trabalhos de acordo com o que ela diz. Mas, o que é a ABNT? É dela que
trataremos no próximo capítulo.
7

O QUE É ABNT?
Algumas abreviaturas e siglas já fazem parte do vocabulário do
estudante brasileiro, tais como, FMI, ONU, IBGE, MST, GLBT, OAB e ONG. E
há uma abreviatura que todo estudante universitário tem de conhecer para
sobreviver na universidade: ABNT, abreviatura do nome da Associação
Brasileira de Normas Técnicas. No site da ABNT (www.abnt.org), você
descobre que essa associação é uma entidade privada sem fins lucrativos
responsável pela normalização técnica no Brasil. Ah, normalização,
segundo o site da ABNT, “é a atividade que estabelece, em relação a
problemas existentes ou potenciais, prescrições destinadas à utilização
comum e repetitiva com vistas à obtenção do grau ótimo de ordem em um
dado contexto”.
A normalização realizada pela ABNT se espalha por todas as áreas que
você puder imaginar: turismo, saúde, construção civil, aeronáutica,
agropecuária e muitas outras. A necessidade de se normalizar os serviços e
as atividades produtivas é clara: padronizar as atividades. A necessidade de
padronização existe em todo o mundo, o que se reflete no famoso ISO,
como é conhecida a International Organization for Standardization
(Organização Internacional para a Padronização), representada no Brasil
pela ABNT.
Ao se estabelecer um padrão, as empresas, por exemplo, se esforçam
para melhorar seus serviços ou seus processos produtivos para receber um
certificado comprovando que elas atingiram aquele padrão. A normalização
tem, assim, um efeito positivo sobre as empresas e outras organizações no
que diz respeito às atividades repetitivas que elas desempenham.
Agora que já teve informações breves, mas suficientes, sobre a ABNT,
você deve estar se perguntando: e o que é que a ABNT tem a ver comigo?
Na verdade, tem tudo a ver. Lembra do último ponto abordado no capítulo
anterior? “Siga a formatação adequada”. Pois é. A apresentação das
monografias não deve ser feita de acordo com o que o estudante acha que é
melhor, mas, sim, de acordo com que a ABNT acha que é melhor.
A existência de um conjunto de normas para reger a formatação de
trabalhos acadêmicos faz sentido. Afinal, como a elaboração de
monografias é uma atividade repetitiva, ou seja, ocorre com muita
frequência em todas as instituições de ensino superior, é importante que
haja um mínimo de padronização. Entretanto, a normalização das
atividades acadêmicas ainda permanece uma ilustre desconhecida de
muitos estudantes. Por isso, é importante que você comece a se acostumar
com as normas técnicas de apresentação de trabalhos acadêmicos.
E aqui vai um conselho: não gaste energia inutilmente irritando-se com
as normas da ABNT. É chato seguir todas elas? Sim. É muito chato. Você
tem como escapar delas? Não. Logo, não faz o menor sentido ficar irritado
com elas. Apenas siga as normas e pronto. Deixe a sua irritação para outras
coisas que mereçam a sua irritação. OK?
Há muitos livros e manuais de metodologia que trazem vários
exemplos dessas normas, que mudam de vez em quando, mas não tão
frequentemente como alguns estudantes acreditam. Além disso, a
biblioteca da sua faculdade tem a obrigação de disponibilizar as normas da
ABNT para os estudantes interessados nelas. Por essa razão, não vou me
delongar aqui fazendo uma apresentação minuciosa das normas. Vou
apenas tecer alguns comentários a respeito de alguns elementos da
normalização.
A norma NBR 14724 de 17 de abril de 2011 trata da apresentação do
trabalho acadêmico. De acordo com essa norma, você deve usar papel
branco ou reciclado no formato A4 e digitar apenas no anverso da folha. A
única folha do trabalho na qual você também digita no verso é a folha de
rosto da monografia, da dissertação ou da tese porque você coloca ali a
ficha catalográfica. Portanto, nada de papéis cor-de-rosa ou amarelos só
porque você acha bonitinho.
Observe-se que essa norma é omissa quanto à fonte a ser usada. Sugiro
que você use Times New Roman por ser a fonte mais comumente usada em
trabalhos acadêmicos, embora algumas pessoas prefiram usar Arial.
A NBR 14724 de abril de 2011 recomenda também que se use fonte
tamanho 12 para o corpo do texto e para a capa e folha de rosto, exceto
para notas de rodapé e citações de mais de três linhas, que devem ficar fora
do corpo do parágrafo. Sugiro usar fonte tamanho 10 para as notas de
rodapé e tamanho 11 para as citações com mais de três linhas. E não se
esqueça do espaçamento entrelinhas: 1,5 para o corpo do texto; simples
para citações com mais de três linhas, notas de rodapé e referências; e
duplo para separar os títulos das seções.
As margens das folhas devem estar de acordo com os seguintes
parâmetros: margens esquerda e superior de 3 cm, e direita e inferior de 2
cm (exceto para o verso da folha de rosto, cujas margens direita e superior
devem ter 3 cm, e cujas margens esquerda e inferior devem ter 2 cm). No
caso do verso da folha de rosto, as margens direita e superior devem ter 3
cm e as margens esquerda e inferior, 2 cm.
Dá para você perceber que há um monte de pequenos detalhes com os
quais temos de nos preocupar? Né mole, não. Mas tem mais coisas ainda
para nos torrar a paciência.
Essa norma também nos diz que a monografia é composta de
elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais. Os elementos textuais são
formados pela Introdução, a Conclusão e todos os capítulos que se
encontrem entre elas, que são os capítulos que desenvolvem o texto. Tanto
os elementos pré-textuais quanto os pós-textuais são formados por
elementos obrigatórios e por elementos opcionais. Vejamos esses
elementos agora.

ELEMENTOS PRÉ-TEXTUAIS

Esses elementos estão listados a seguir na sequência exata em que


devem aparecer na monografia, com exceção da folha de aprovação, que é
um elemento pré-textual de dissertações de mestrado e teses de doutorado.
Você notará que coloco entre parênteses, ao lado do título de cada
subseção, a indicação de obrigatoriedade do elemento pré-textual em
questão.
Eis uma informação importante sobre os elementos pré-textuais: de
acordo com a NBR 14724 de 17 de abril de 2011, as páginas pré-textuais
não devem ser numeradas, mas devem ser contadas a partir da folha de
rosto (mas desconsiderando-se seu verso). Isso significa que a primeira
página numerada é a da Introdução.

Capa (elemento obrigatório)

Para o desespero dos estudantes que eram amantes da estética das


capas dos trabalhos quando estavam na escola, a capa da monografia não
deve conter figuras, fotografias ou letras coloridas. Ela deve conter apenas
as informações necessárias para a identificação do documento: o nome da
instituição, o nome do departamento ou do programa ao qual a disciplina
está vinculada, o nome do estudante, o título do trabalho, o local e o ano em
que o trabalho foi elaborado. No máximo, você pode colocar a logomarca da
instituição na capa, junto ao nome da instituição.
Um comentário sobre o título faz-se necessário. Às vezes, os alunos
querem colocar um título criativo, diferente, e isso não é um problema em
si. O problema surge quando o título não remete o leitor ao tema abordado
pela monografia. Por isso, é importante que o título seja claro, objetivo, e
que remeta o leitor imediatamente ao tema abordado. Afinal, um trabalho
acadêmico, como uma monografia, não é um trabalho de arte. Logo, por
mais criativo e diferente que você deseje ser no momento de construir o
título da sua monografia, você precisará se certificar de que seu título é
claro e objetivo.
Veja, a seguir, um exemplo de capa de uma monografia. Observe a
disposição dos elementos que menciono no parágrafo anterior. O
alinhamento é centralizado para todos eles. O nome do autor e o título da
monografia ficam em caixa alta, enquanto os outros elementos têm apenas
as iniciais maiúsculas. Alguns desses elementos são repetidos na folha de
rosto, como mostra a seção 7.1.2.

Universidade da Bahia
Departamento de Ciências Sociais Aplicadas
Curso de Turismo

FULANO DE TAL

A OPACIDADE FISCAL DO TURISMO BAIANO

Salvador
2015

Folha de rosto (elemento obrigatório)

A folha de rosto tem anverso e verso. Observe, no exemplo a seguir, as


informações contidas no anverso da folha. Veja como é parecida com a
capa.

FULANO DE TAL

A OPACIDADE FISCAL DO TURISMO BAIANO

Monografia apresentada ao Curso de Turismo da Universidade


Baiana como requisito parcial obrigatório para a obtenção do
título de Bacharel em Turismo.
Orientador: Prof. Dr. Fulano de Tal

Salvador
2015

Percebeu que alguns dos elementos que constam na capa também se


encontram no anverso da folha de rosto? Já o verso da folha de rosto traz a
ficha catalográfica, que contém informações sobre o tema e as
características físicas da monografia. Essa ficha é importante para facilitar
o arquivamento da monografia na biblioteca da universidade. Muitas
faculdades não exigem que os estudantes coloquem a ficha catalográfica
nas monografias, o que não acontece com as dissertações de mestrado e
teses de doutorado, as quais são arquivadas na biblioteca das faculdades
onde são produzidas e defendidas.
Para fazer uma ficha catalográfica, peça ajuda à bibliotecária ou ao
bibliotecário da sua faculdade. Por que é necessário pedir essa ajuda? Veja
a ficha catalográfica da minha tese de doutorado e entenda a razão pela
qual é necessário pedir auxílio a uma bibliotecária ou a um bibliotecário:

O48i
Oliveira, Luciano Amaral
Implicação da estrutura lexical para a tradução: o significado lexical a priori. / Luciano
Amaral Oliveira. – Salvador: UFBA / Instituto de Letras, 2003.
x, 242f. : il. ; anexo ; 29,5 cm.
Orientador: Luiz Angélico da Costa
Tese (doutorado) – UFBA / Instituto de Letras / Programa de Pós-Graduação em Letras e
Linguística,
2003
Referências bibliográficas: f. 193-210
1. Tradução. 2. Semântica. 3. Linguística Aplicada – Tese. I. Costa, Luiz Angélico. II.
Universidade Federal da Bahia, Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras e
Linguística. III. Título.

Percebeu que há muitos detalhes técnicos? Pois é. Somente os profissionais


de biblioteconomia os conhecem direitinho.

Errata (elemento opcional)

Imagine a seguinte situação: você finalmente terminou a sua


monografia, imprimiu-a e encadernou-a. Fez quatro cópias dela. Agora você
está bastante aliviado. Mas, de repente, folheando uma das cópias, você
localiza algo que parece ser um erro. Ou melhor, dois erros. Você acha que
olhou errado, e olha de novo. Não são dois erros: são cinco! De repente,
você encontra mais dois erros. Você fica chateado, mas precisa corrigi-los.
Como sua monografia já está pronta, você não vai desencadernar o
material para colocar uma página corrigida. Isso daria muito trabalho.
Além disso, é possível que a correção de alguns erros faça com que a
numeração das páginas se altere, o que forçaria você a imprimir tudo de
novo e fazer outras quatro cópias. Então, a solução mais simples para esse
problema é você elaborar uma errata, que é uma folha avulsa em que você
informa a página e a linha onde o erro se encontra, indica qual é o erro e
aponta a correção. O formato da errata é o seguinte:

Dedicatória (elemento opcional)


A dedicatória é uma homenagem que você presta a uma pessoa ou a
algumas pessoas, dedicando-lhe(s) sua monografia. Não há um formato
padrão para a dedicatória.

Agradecimentos (elemento opcional)

Nessa parte você agradece a quem ajudou você de alguma forma no


processo de elaboração da monografia. Obviamente, é de bom tom
agradecer à sua orientadora ou ao seu orientador. Nem que seja em nome
da política da boa vizinhança.

Epígrafe (elemento opcional)

A epígrafe é uma frase, com a indicação do seu autor, que você resolve
colocar na monografia por estar relacionada, de alguma forma, com o tema
do seu trabalho.

Resumo na língua vernácula (obrigatório)

O resumo da monografia deve ser um texto conciso, claro e objetivo.


Nele você informa o tema da sua monografia e resume as ideias principais
nela contidas, respeitando a sequência na qual elas aparecem. No resumo,
você já apresenta também as conclusões a que chegou na sua pesquisa.
Duas linhas abaixo do resumo, você deve incluir as palavras-chave. A lógica
do resumo da monografia é a mesma que rege o resumo do artigo, como
vimos no quarto capítulo.

Resumo em língua estrangeira (elemento obrigatório)

O resumo em língua estrangeira vem logo após as palavras-chave do


resumo em língua vernácula. É a versão em inglês (Abstract), francês
(Résumé) ou espanhol (Resumen) do resumo, seguido da versão das
palavras-chave em inglês(Key-words), em francês (Mots-clés) ou em
espanhol (Palabras-clave).
E aqui vai um conselho: não faça as traduções usando aqueles
tradutores automáticos encontrados na Internet. A tradução geralmente
fica horrorosa.

Sumário (elemento obrigatório)

O sumário é a listagem dos capítulos e das seções dos capítulos na


sequência exata em que aparecem na monografia.

Lista de ilustrações (elemento opcional)

Caso sua monografia possua ilustrações, como figuras, quadros,


tabelas e gráficos, você as deve enumerar. Se você achar necessário
elaborar uma lista com essas figuras para ajudar o leitor, organize-a de
acordo com a enumeração dada a elas e com as páginas onde se encontram.
Essa lista funciona como um sumário de ilustrações.

Lista de abreviaturas e siglas (elemento opcional)

Se sua monografia versar sobre um tema que envolve muitas


instituições que são conhecidas pelas suas siglas e abreviaturas, é uma boa
ideia listar todas essas abreviaturas e siglas. Essa situação ocorre muito
com monografias que tratam de comércio exterior, relações internacionais
e ciências de saúde. A diferença entre a lista de ilustrações e a lista de
abreviaturas e siglas é que esta é apresentada em ordem alfabética e não
numérica.
Lista de símbolos (elemento opcional)

Se você considerar importante incluir uma lista de símbolos, ela


também deve ser organizada em ordem alfabética. O uso de símbolos é
comum em monografias que tratam de física, por exemplo.

Bem, esse foi o último elemento pré-textual. Mas, antes de passarmos


ao elementos textuais, preciso dar uma informação importante sobre um
aspecto da formatação dos elementos pré-textuais: os títulos desses
elementos são centralizados e não numerados. A exceção fica por conta da
folha de aprovação, da dedicatória e da epígrafe, as quais não possuem
títulos.

ELEMENTOS TEXTUAIS

Iniciam-se os elementos textuais com a Introdução, sobre a qual já


comentei. É nela que se inicia paginação da monografia, com algarismos
arábicos, posicionados no canto superior direito da folha, a 2 cm da borda
superior. Os outros elementos textuais são os capítulos que desenvolvem o
tema, abordando o referencial teórico e a análise dos dados, e a Conclusão.
Aqui, vale uma observação: há uma informação equivocada circulando
em algumas faculdades de que o último elemento textual pode ser
intitulado “Considerações finais” em vez de “Conclusão” porque uma
pesquisa nunca esgota o entendimento de um tema. Ora, isso não procede
pelo simples fato de a Introdução e a Conclusão serem elementos
canônicos, obrigatórios, da monografia. A palavra conclusão não tem nada a
ver com a ideia de esgotar-se um tema: tem a ver, simplesmente, com a
ideia de concluir-se a monografia. Nada mais, nada menos. Se algum
professor seu disser para você escrever “Considerações finais” em vez de
“Conclusão”, dê essa explicação para ele, tá?
Vejamos agora quais são os elementos pós-textuais, cujas páginas, vale
lembrar, continuam sendo numeradas, seguindo a sequência da numeração
das páginas dos elementos textuais.
ELEMENTOS PÓS-TEXTUAIS

Segundo a NBR 14724 de 17 de abril de 2011, existem quatro


elementos pós-textuais. A seguir, apresento cada um deles na sequência
exata em que aparecem na monografia.

Referências (elemento obrigatório)

A seção Referências é uma parte extremamente importante da sua


monografia porque mostra aos professores examinadores se você
consultou as publicações mais relevantes sobre o tema pesquisado e
porque fornece informações para outras pessoas que estiverem
interessadas no assunto sobre o qual você escreveu. As publicações devem
ser listadas em ordem alfabética, com base no sobrenome do autor
principal ou do organizador da publicação. Se houver mais de uma
publicação do mesmo autor, a mais antiga vem antes.
As referências apresentam uma ou outra peculiaridade a depender do
tipo da publicação (livro, revista, jornal, Constituição, etc.) Como o objetivo
deste capítulo é dar a você uma ideia acerca das normas técnicas propostas
pela ABNT, vou abordar apenas o caso da referência de livros e artigos de
revista, jornal e sites da Internet, os quais são as fontes de consulta mais
frequentes. Para os outros casos, você deve consultar a norma NBR 6023 de
agosto de 2002, ainda vigente.
Os elementos essenciais de uma referência são o(s) autor(es), o título,
a edição, o local de publicação, a editora e a data de publicação. Vejamos
alguns casos.
Comecemos pelos livros. O título vem depois do autor e é destacado
em negrito, itálico ou grifo. O negrito e o itálico são as opções mais comuns.
Seja lá a forma que você escolha, certifique-se de usá-la consistentemente.
Por exemplo, se escolher negrito, não o misture com itálico. Em seguida,
você coloca o seguinte: a indicação do tradutor, se houver; informações
sobre edição, reimpressões, etc.; o local de publicação, seguido da editora e
do ano de publicação; o título original, no caso de obras traduzidas. Quando
o livro tiver dois autores, separe-os por ponto-vírgula. Observe os
exemplos abaixo:
OLIVEIRA, Luciano Amaral. Coisas que todo professor de português
precisa saber: a teoria na prática. 1. reimp. São Paulo: Parábola, 2011.

TOBEN, Bob; WOLF, Fred Alan. Espaço, tempo e além: rumo a uma
explicação do inexplicável. Tradução Hernani Andrade e Newton
Eichenberg. São Paulo: Cultrix, 1998. Título original: Space-time and
beyond.

Eis, agora, um exercício para você fazer e adicionar informações sobre


a normalização referente às referências: vá à última parte deste manual,
Referências, observe as referências ali contidas e responda às perguntas
abaixo:

a) Quando a edição do livro não é a primeira, onde e como se coloca


essa informação? E se ela for uma reimpressão?

b) Quando há mais de três autores, não é necessário que se


escrevam os nomes de todos eles. Que recurso podemos utilizar
para economizar tempo e espaço, fornecendo apenas o nome de
um dos autores?

c) Há recuo na margem esquerda?

d) Quando o livro é uma tradução, onde se colocam o nome do


tradutor e o título original?

e) E se você usou um texto de uma coletânea? Como incluí-lo nas


Referências?
f) Sendo a Internet uma fonte importante de consulta e pesquisa,
você pode baixar textos e usá-los para a sua monografia. Como
incluí-los nas Referências? Simples. Lembra-se do comentário do
psicanalista Renato Mezan, que transcrevi no capítulo anterior?
Veja como eu inclui as informações sobre esse texto nas
Referências.

Finalmente, vejamos o caso dos textos de revistas e de jornais. Observe


os exemplos abaixo e descubra como fazer a indicação bibliográfica nas
referências:

KENSKI, Rafael. Como Hitler pôde acontecer. Super Interessante, São


Paulo: Editora Abril, n. 194, p. 62-70, nov. 2003.

Se o artigo não tivesse autoria, você começaria pela primeira palavra


do título em caixa alta:

COMO Hitler pôde acontecer. Super Interessante, São Paulo: Editora


Abril, n. 194, p. 62-70, nov. 2003.

No caso de um texto de jornal com autoria:

GALLAGHER, Paul. Holanda libera maconha contra dor. Jornal A Tarde,


Salvador, 02 set. 2003. Caderno 1, p. 18.

Se o texto não tivesse autoria, você começaria com a primeira palavra


do título em caixa alta:

HOLANDA libera maconha contra dor. Jornal A Tarde, Salvador, 02 set.


2003. Caderno 1, p. 18.

Apêndice (elemento opcional)


O apêndice é um texto, por exemplo, um questionário, que você
elaborou e que usou na sua pesquisa. Ao incluí-lo na monografia, você o
disponibiliza para os examinadores.

Anexo (elemento opcional)

O anexo é um documento que não foi elaborado por você, mas que
você usou como fonte de pesquisa para sua monografia. Geralmente, o
anexo é um documento não publicado que você decide incorporar à sua
monografia para provar que ele existe e para disponibilizá-lo para outras
pessoas.

Glossário (elemento opcional)

O glossário é uma lista de definições de termos técnicos. Se sua


monografia tiver muitos deles e você achar que uma lista desse termos
pode facilitar a leitura por parte dos examinadores ou de outras pessoas
que venham a ler seu trabalho, elabore um glossário e insira-o na
monografia.

*…*…*

Dá para perceber que a normalização de textos acadêmicos é cheia de


detalhes, né? E é muito chata mesmo! Infelizmente, não há como fugir dela
quando você elaborar monografias, dissertações e teses. Algumas dessas
normas se aplicam aos outros trabalhos escritos, como a que trata das
referências e a que trata de citações. Portanto, acostume-se com essas
normas.
Aproveito para reforçar o conselho que dei a você anteriormente: não
perca tempo nem energia reclamando e se lamentando por ter de seguir as
normas da ABNT. Afinal, não vai adiantar nada, pois delas nenhum
estudante universitário escapa. Economize seu tempo e sua energia para
coisas mais importantes.
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ÚLTIMOS TOQUES
Para finalizar este manual de sobrevivência, quero abordar alguns
pontos mais gerais. O primeiro ponto diz respeito às regras existentes na
universidade. Algumas delas podem desagradar a você, mas no momento
em que ingressa numa instituição de ensino superior e se matricula, você
aceita as regras que regem essa instituição. Você pode até tentar modificar
algumas regras negociando com a diretoria da faculdade, com os
professores e com outros estudantes. Entretanto, algumas não estão
sujeitas a negociação porque são determinadas pelo Ministério da
Educação e Cultura (MEC).
A chamada, por exemplo, é uma dessas regras que desagradam a
muitos estudantes. Contudo, por mais que você discorde dela, a chamada é
uma rotina obrigatória nos cursos presenciais. É verdade que há
professores mais flexíveis com relação à chamada e professores que são
bastante intransigentes e que chegam a cometer atos que passam longe do
bom senso, principalmente aqueles não conseguem manter os alunos na
sala de aula a não ser por meio desse instrumento de controle. Mas a
chamada, até o momento em que finalizo este manual, é ainda exigida pelo
MEC. Por isso, se você se matricula em uma disciplina em um determinado
horário e em determinados dias da semana, sua obrigação é estar na sala de
aula nesses dias e nesse horário. A matrícula é um contrato entre você e a
instituição em que você estuda.
O máximo que você pode fazer, no âmbito da sua faculdade, é
conversar com seu professor a respeito de alguma dificuldade pontual que
você tenha, como ocorre com os estudantes que estudam à noite em
faculdades localizadas em áreas urbanas sujeitas a congestionamentos de
trânsito. Em um caso como esse, o estudante pode pedir ao professor para
ser mais flexível quanto à chamada feita no primeiro horário, o que não
significa que a flexibilidade por parte do professor esteja automaticamente
garantida. Lembre-se disso: ele não tem nenhuma obrigação de ser flexível.
Outra coisa que faz parte das rotinas acadêmicas de algumas
instituições é a prova final. Ninguém se sente bem em fazer provas finais.
Entretanto, isso pode ocorrer. Se o estudante precisa fazer uma prova final,
ele deve ter maturidade acadêmica suficiente para não colocar a culpa no
professor por seu insucesso. É verdade que pode acontecer a situação em
que o professor seja, de alguma forma, responsável pelo insucesso do
estudante. Mas, intuitivamente, posso afirmar que, na maioria das vezes, o
estudante é o responsável por ter de fazer provas finais. Há estudantes que
chegam ao cúmulo de dizer ao professor “Por favor, não me deixe ir para a
final. Eu não posso ir para a final.” Bem, sem comentários, né? Afinal, não é
o professor que “deixa” ou “não deixa” o estudante ir para a prova final.
E o que dizer a respeito da aproximação de notas? Há situações em
que o estudante precisa de frações de um ponto para passar sem prova
final e ele acha que o professor tem a obrigação de aproximar essa nota.
Ora, se a média para aprovação é 7.0 e o estudante atinge média 6.7, por
exemplo, o estudante não está aprovado. Isso é óbvio. E se o professor não
aproximar a nota, não há razão para o estudante acusar o professor de
“casquinha” ou “gente ruim” ou coisa parecida, distorcendo os fatos e
propagando aos quatro ventos que ficou na final por causa do professor.
Agora, se o professor quiser aproximar a média do estudante para 7.0, isso
é uma decisão do professor, e não sua obrigação. Que isso fique claro.
Aliás, essa discussão a respeito do que é obrigação do professor é
muito importante, principalmente nas faculdades privadas. No final da
década de 1990 e na primeira metade da década seguinte, o Brasil
testemunhou o surgimento de muitas faculdades particulares, o que é
socialmente muito importante no sentido de dar a uma camada maior da
população oportunidades de fazer um curso superior, reduzindo a exclusão
social no âmbito da educação superior. Contudo, surgiu um problema
curioso em muitas dessas instituições: há estudantes que pensam que o
professor é seu empregado simplesmente porque eles estão pagando pelos
serviços prestados pela faculdade. Entretanto, o estudante precisa lembrar-
se de que o professor é empregado da faculdade e não dele. O fato de o
estudante estar gastando dinheiro, que é muito difícil de ganhar (pelo
menos, para a maioria das pessoas), pressiona-o a quere ser aprovados nas
disciplinas para não ter de repeti-las e, consequentemente, gastar mais
dinheiro. Só que isso não dá ao estudante o direito de tratar o professor
como empregado ou como o responsável pelo seu insucesso. A relação
entre professor e estudante é uma relação acadêmica (e não comercial) na
qual a diferença hierárquica é clara e deve ser respeitada e não distorcida.
Outro ponto importante diz respeito à aquisição de experiência
profissional. O aprendizado que ocorre na faculdade é importantíssimo
para a vida profissional que o estudante terá ao se formar, mas não é
suficiente. A experiência adquirida no ambiente de trabalho é fundamental
para a sua formação. É por isso que existe o estágio: para proporcionar ao
estudante a oportunidade de ele fazer uma ponte entre aquilo que aprende
na faculdade e a realidade profissional.
Entretanto, você precisa ficar alerta por causa das arapucas que várias
empresas armam: há estágios que duram oito ou seis horas diárias. Por que
arapucas? Ora, a explicação é simples e gira em torno da aritmética. Se o
estudante fica na faculdade, pelo menos, quatro horas por dia e trabalha, ou
melhor, estagia, oito ou seis horas por dia, ele não terá tempo para estudar
fora da sala de aula. Afinal, são doze ou dez horas por dia entre aulas e
estágio, sem contar o tempo de deslocamento de casa para os outros locais
e o tempo para comer, tomar banho e dormir. Basta fazer as contas. O
estágio deve ter, no máximo, quatro horas por dia. As empresas que
oferecem estágios com oito ou seis horas diárias estão, na verdade, se
utilizando dos estudantes para evitar os encargos trabalhistas que
funcionários regulares acarretam. Em outras palavras, é exploração
mesmo!
O estudante que embarca em um estágio de oito horas diárias pode
ficar duplamente prejudicado. Além de ele não ter tempo para estudar
durante a semana, ele geralmente realiza atividades, no seu
pseudoemprego disfarçado de estágio, que nada têm a ver com sua área de
formação. Por isso, fique atento aos estágios que as empresas oferecem.
Informe-se sobre os estágios e não aceite a exploração.
Ainda a respeito da experiência profissional, há um ponto que deve
ficar claro para você: estágio não é a mesma coisa que programa de
trainees. O estágio é temporário, apesar de você poder conseguir um
emprego na empresa em que estagia, caso você demonstre seriedade,
interesse e competência, e caso a empresa tenha vagas.
O programa de trainees oferece uma boa oportunidade para o
estudante que se encontra no último ano do curso ou que é recém-
graduado porque o trainee é um funcionário contratado e treinado pela
empresa para assumir um determinado cargo após o período de
treinamento. Como a empresa investe tempo e dinheiro na capacitação do
trainee, é praticamente certa a sua permanência na empresa.
Portanto, fique atento aos programas de trainee oferecidos por muitas
empresas ao longo do ano e esteja preparado para a seleção. Entenda o que
“estar preparado para a seleção” significa: redigir adequadamente, falar
fluentemente e articuladamente em público, ter raciocínio lógico e dominar
uma ou mais línguas estrangeiras. Conforme comentei anteriormente,
redigir adequadamente é necessário porque geralmente há uma redação
para o candidato fazer durante a seleção.
Falar com desenvoltura em público é importante por causa das
dinâmicas de grupo e das entrevistas a que o candidato é submetido. Como
vimos no terceiro capítulo, a pouca fluência e a timidez excessiva não
ajudam em nada na hora de falar em público.
Além disso, muitas empresas hoje querem funcionários que tenham a
capacidade de aprender rapidamente e de pensar sob pressão, o que as leva
a submeter os candidatos a um teste de raciocínio lógico. Existem livros
com exercícios voltados para o desenvolvimento de raciocínio lógico que
podem ser úteis para você, caso você não se sinta muito seguro para
realizar testes de raciocínio lógico. Procure-os em livrarias físicas ou em
livrarias virtuais.
Finalmente, dominar uma língua estrangeira pode ajudar a se
conseguir um emprego em algumas empresas grandes e a se ter acesso a
outras culturas. Com a globalização se intensificando, as empresas estão
passando por um processo de transnacionalização que as leva a precisar de
funcionários que dominem outras línguas. Por enquanto, a língua franca é o
inglês, a língua mais usada para os negócios em todo o mundo e,
exatamente por essa razão, é uma língua que vale a pena você aprender.
Com o surgimento do MERCOSUL, o espanhol passou a ter grande
importância para muitas empresas no Brasil. Portanto, se você não domina
nenhuma dessas línguas, considere a possibilidade de entrar em um curso.
Muitas universidades oferecem cursos de extensão em línguas
estrangeiras, embora algumas delas cobrem um valor muito alto dos
estudantes, contrariamente à ideia de extensão universitária.
Meu último toque para você é a respeito dos cursos de pós-
graduação. Pode ser que você se interesse em fazer um curso após a sua
formatura. Nesse caso, você precisa saber quais são os tipos de cursos de
pós-graduação oferecidos pelas universidades. Atualmente, no Brasil,
muitas pessoas se referem aos cursos de especialização como ‘pós’.
Entretanto, os cursos de pós-graduação se dividem em dois grupos: a pós-
graduação lato sensu, da qual fazem parte os cursos de especialização, e a
pós-graduação stricto sensu, da qual fazem parte o mestrado e o doutorado.
Os estudantes que querem direcionar sua formação para uma área
bem específica de atuação devem fazer um curso de pós-graduação lato
sensu, que dura de um ano a um ano e meio. O mestrado dura de dois anos a
dois anos e meio, enquanto que o doutorado dura de três a quatro anos. Se
você pretende seguir uma carreira acadêmica, o caminho mais indicado é a
pós-graduação stricto sensu. No mestrado, você tem de defender uma
dissertação e, no doutorado, você tem de defender uma tese. Conforme
afirmei anteriormente, tanto a dissertação quanto a tese são monografias. A
diferença entre elas é o grau de aprofundamento, teoricamente maior no
caso da tese, e o fato de a tese tratar de um tema inédito (embora haja
dissertações bem melhores do que muitas teses por aí).
Um estudante pode, teoricamente, fazer o doutorado sem fazer o
mestrado. Contudo, é mais aconselhável que o estudante faça o mestrado
antes de se enveredar pelo doutorado para que possa adquirir experiência
com as rotinas acadêmicas da pós-graduação. Para o estudante fazer o
mestrado e o doutorado com tranquilidade, é necessário que ele seja
autônomo e que tenha certeza de que deseja fazê-los. Além disso, o
estudante precisa ficar focado e concentrado na elaboração da sua
dissertação ou tese. É no curso de pós-graduação que o estudante percebe a
importância da leitura e da escrita — sem muita leitura e sem uma redação
eficiente não dá para se fazer um curso satisfatório.
Portanto, se você quiser fazer um curso de pós-graduação, você
precisará ter sobrevivido com seriedade no curso de graduação. Se, ao se
formar, você tiver adquirido o hábito de ler com frequência, tiver
desenvolvido a capacidade de redigir fluentemente e adequadamente, e for
autônomo e ético, você terá tudo para se dar bem nos cursos de pós-
graduação e no mercado de trabalho. Pense a respeito.
1 Uso o termo disciplina, mas, aos poucos, o termo componente curricular está sendo usado com mais
frequência em vários cursos, principalmente nos Bacharelados Interdisciplinares (que,
curiosamente, possuem o termo disciplina cravado em seu nome).