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Profª Mônica M.

Perny
MÓDULO 4

O BRINCAR COMO PROCESSO PSICANALÍTICO

4.1 - SIGMUND FREUD

4.2 - CONTOS: REPETIR PARA ELABORAR

4.3 - CONTOS DE FADAS, SONHOS E FANTASIAS

4.4 - MELANIE KLEIN

4.5 - DONALD WOODS WINNICOTT

4.6 - FRANÇOISE DOLTO

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

6 – REFERÊNCIAS
O BRINCAR COMO PROCESSO PSICANALÍTICO

O brincar possui uma longa história na Psicanálise, tornando-se


um caminho favorável para estabelecer a comunicação com as crianças.
Através dos jogos e brincadeiras, a criança é capaz de expressar seus
medos, desejos, ansiedades e entre outros, o que teria dificuldades de
expressar com palavras.

4.1 - SIGMUND FREUD

Sigmund Freud revolucionou o pensamento a respeito da criança


em vigor na época, com suas teorias sobre a dinâmica do inconsciente,
a sexualidade infantil e o complexo de Édipo. Freud (1908) no texto
“Escritores criativos e devaneios” já discutia a relação entre as fantasias
da criação poética e o brincar da criança.

Acaso não poderíamos dizer que, ao brincar, toda


criança se comporta como um escritor criativo, pois
cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os
elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe
agrade?

Ao pensar em brincar à luz da psicanálise, se faz necessário


discorrer a respeito do jogo do Fort-Da.
Freud começou a se interessar pela questão do brincar a partir da
observação de uma brincadeira do próprio neto, Ernstl, de 18 meses de
idade, descrita em sua obra “Além do princípio do prazer”, de 1920.
O menino tinha um carretel de madeira com um
pedaço de cordão amarrado em volta dele. Nunca lhe
ocorrera á puxá-lo pelo chão atrás de si, por exemplo,
e brincar com o carretel como se fosse um carro. O
que ele fazia, era segurar o carretel pelo cordão e com
muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua
caminha encortinada, de maneira que aquele
desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo
que o menino preferia seu expressivo ‘ó-o-ó’. Puxava
então o carretel para fora da cama novamente, por
meio do cordão, e saudava o seu reaparecimento com
um alegre ‘da’ (FREUD, 1920).

Nesse jogo de atirar e trazer de volta o carretel, repetidas vezes,


tem relação com a partida e o retorno de sua mãe. Freud faz referência
a renuncia pulsional o fato da criança ter a capacidade mental de lidar
com a ausência da mãe e assim lidar com a frustração que serve de
estimulo para brincar.
Desta forma, a compulsão a repetição vista no jogo, a criança
busca transformar uma situação passiva em ativa, repetir situações
satisfatórias e elaborar o que lhe foi sentido como traumático. O jogo
possibilitou o bebê transformar uma situação na qual estava passivo
para outra na qual passa a ser ativo. Para Freud (1920) a criança não se
mostrou indiferente a partida da mãe.
Assim a repetição desse jogo, produz um gozo para-além do
princípio do prazer. O principal axioma de Lacan (1964), é: ”o
Inconsciente é estruturado como linguagem”, portanto, somos
estruturados a partir da fala e da linguagem. Para o psicanalista “as
palavras fundadoras, que envolvem o sujeito, são tudo aquilo que o
constituiu, seus pais, seus vizinhos, toda a estrutura da comunidade,
que o constituiu não somente como símbolo, mas no seu ser” (apud
JERUSALINSKY, 1984).
Jacques Lacan, no Seminário 11, faz referência ao jogo do fort-da
e retoma a questão da repetição em Freud. Para Lacan, o jogo do fort-
da instaura a entrada da criança na linguagem pela utilização de um
primeiro par significante. O ato de tornar presente o “ausente” marca a
entrada do sujeito no simbólico. ao brincar (simbolizar) a partida e o
retorno da mãe, a criança pode integrar de maneira positiva em sua
realidade psíquica uma experiência desagradável, elaborando-a. Assim
a criança através da sua brincadeira simboliza a ausência da mãe, de
maneira que esta esteja a mercê do seu desejo. Simbolizar é, portanto,
sentir a perda. É olhar e substituir o objeto perdido por outro.
O texto mostra a importância e a função da simbolização na
constituição da criança. Este é o olhar do psicanalista que observa uma
criança brincando espontaneamente.
Sem dúvida, pode-se afirma que Freud estabeleceu os marcos
referenciais básicos para entender a natureza e a função da atividade
lúdica na criança, e ainda que a compreensão do brinquedo só é
possível a partir da noção do inconsciente.
Assim ele aponta que a criança brinca não somente para viver
situações satisfatórias, mas também para elaborar as que lhe foram
dolorosas e traumáticas.

4.2 - CONTOS: REPETIR PARA ELABORAR

A repetição significante é a simbolização de uma presença-


ausência que articulada a palavra faz com que a relação mãe-bebê
passe a ser mediada pela linguagem. Apesar da criança repetir
inúmeras vezes a primeira ação, foi a segunda, considerada como fonte
de prazer, que chamou a atenção de Freud. Mas para Lacan, o que está
em jogo é a repetição da saída da mãe, gerando a cisão do sujeito.
Segundo Lacan (2008) o que o jogo visa é o que não está lá enquanto
representado, pois o jogo é essencialmente o Repräsentanz da
Vorstellung. Logo, o que precisa ser assimilado pelo sujeito é o que se
repete, porém nunca da mesma maneira; "a repetição demanda o novo"
(Lacan, 1998). Por isto, por mais desagradáveis que sejam as
experiências vividas pelas crianças, elas irão aparecer como tema das
suas brincadeiras.
Na obra freudiana encontram-se muitos exemplos da
interconexão entre Psicanálise e a Arte, mais especificamente a
Literatura. Freud utiliza peças dramáticas como “Édipo-Rei”, de Sófocles
e “Hamlet”, de Shakespeare, para articular questões pertinentes ao
sujeito e à cultura. Em “O Estranho”, Freud (1919) utiliza “O Homem da
Areia”, de Hoffmann, para falar do sentimento estranho, mas tão familiar
do sujeito, e que lhe aparece como estranho, como um duplo. Freud, no
texto “O tema dos três escrínios” (1913) faz uma interpretação de um
tema muito comum nos contos de fadas, que é o da escolha entre três
mulheres, que versa sobre uma escolha do destino.
O psicanalista Jacques Lacan também usou referências da
literatura para explicar algumas questões que ele coloca, em sua
releitura de Freud. No seminário sobre “A carta roubada”, conto
traduzido por Baudelaire (Lacan, 1998) ele discorre a sua teorização
acerca do significante, do significado que desliza sob a cadeia
significante, das posições em que se colocam os sujeitos a partir da
posse ou não da carta, do saber possuir, achar que possui e saber que
o outro possui ou não, no percurso sob o significante que é a carta.
Para o psicanalista Bruno Bettelheim,
O prazer que experimentamos quando nos permitimos
ser suscetíveis a um conto de fadas, o encantamento
que sentimos não vêm do significado psicológico de
um conto (embora isto contribua para tal), mas de
suas qualidades literárias – o próprio conto como uma
obra de arte. O conto de fadas não poderia ter seu
impacto psicológico sobre a criança se não fosse
antes de tudo uma obra de arte (BETTELHEIM, 1980).
Não há duvidas quanto às relações que a Psicanálise estabelece
com a Arte e em especial com a Literatura. Neste ponto, torna-se
importante refletir sobre os aspectos da teoria psicanalítica acerca da
Literatura infantil, tomando como base as seguintes questões: Qual o
valor terapêutico dos contos para a criança em análise? Qual a função
dos contos para o desenvolvimento psíquico do sujeito?
Quando uma criança nasce inicia o seu ciclo de aprendizagem.
Desde os primeiros dias ela aprende que para satisfazer suas
necessidades necessita comunicar-se: primeiro com choro e gritos,
depois com gestos e palavras e, por fim, com ações muitas vezes
inconscientes.
A capacidade de simbolizar nasce com o ser humano e estrutura-
se a partir de dois movimentos: conhecer o objeto e perder o objeto.
Desde o nascimento a criança passa por momentos de perdas
importantes: as castrações (umbilical, do desmame, a fálica). Estes
processos vivenciados até os cinco anos são importantes para a
formação semiótica e permitem a criança simbolizar o mundo.
Assim, a criação literária, para Freud seria semelhante ao brincar
infantil por sua tentativa de reajustar o mundo. A criança, em seu
brincar, se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo de
fantasia que é levado a sério, “no qual investe uma grande quantidade
de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a
realidade.” (1908).
De acordo com Freud, o que preserva a relação entre o
brincar infantil e a criação poética é a linguagem.
O principal axioma de Lacan (1985) é: “o Inconsciente é
estruturado como linguagem”, ou seja, somos estruturados a partir da
fala e da linguagem. Disso decorre que estamos sujeitos ao efeito do
inconsciente, uma vez inseridos no mundo da linguagem, lidamos todo o
tempo com palavras, com imagens e com símbolos que se articulam
continuamente. Portanto, o sujeito da psicanálise é o sujeito do
inconsciente enquanto manifestação única e singular.
Sigmund Freud introduziu a técnica da associação livre na clinica
psicanalítica em substituição ao método catártico. A técnica da livre
associação tem como objetivo trazer para a mente inconsciente às
memórias ou os pensamentos reprimidos, causadores do sintoma do
paciente. Antes de utilizar a associação livre como técnica psicanalítica,
Freud já havia lido a respeito do processo.
O autor, Ludwig Börne chamou a atenção de Freud, quando este
ainda era adolescente. Segundo Freud, Börne, “fora primeiro autor em
cujos escritos penetrara profundamente” (FREUD, 1920). Ludwig Börne
em 1823 escreveu “A Arte de Tornar-se um Escritor Original em Três
Dias”. É um breve ensaio de apenas quatro páginas e meia, com o qual
Freud veio a ter contato muitos anos depois. Ele termina o ensaio com o
seguinte parágrafo:
E aqui temos a aplicação prática que foi prometida.
Pegue algumas folhas de papel e por três dias a fio
anote, sem falsidade ou hipocrisia, tudo o que lhe vier
a cabeça. Escreva o que pensa de si mesmo, de sua
mulher, da Guerra Turca, de Goethe, do julgamento
de Fonk, do Juízo Final, de seus superiores e, quando
os três dias houverem passados, ficará
espantadíssimo pelos novos e inauditos pensamentos
que teve. Esta é a arte de tornar-se um escritor
original em três dias (BORNE, 1923 apud FREUD,
1920).

Na leitura das obras de Freud observar-se que, a ideia de uma


tendência à repetição sofre modificações teóricas no seu percurso,
tornando-se um conceito de grande importância para a Psicanálise.
Apesar de, o termo compulsão ter sido documentado numa carta ao
médico alemão Wilheim Fliess em 1894, o conceito de compulsão à
repetição aparece pela primeira vez na obra freudiana em Recordar,
repetir e elaborar escrita em 1914 (ROUDINESCO & PLON, 1998).
O psicanalista francês Jacques Lacan (1963-1964) em O
seminário, livro, 11 a considera como um dos quatro conceitos
fundamentais da psicanálise.
Desde os primeiros textos de Freud a ideia de uma tendência à
repetição (Widerholung) liga-se à de compulsão (Zwang). A repetição
funde-se ao funcionamento psíquico inconsciente.
Tanto na criança como no adulto, se o inconsciente é recalcado e
nega-lhe passagem à consciência, a mente consciente do sujeito sofrerá
intervenções de derivados desses elementos inconscientes, que
tentarão a todo custo se tornar conscientes. Os contos de fadas
escondem as questões inconscientes. Nesse sentido, o conto de fadas
permite que a criança entre em contato com estes conteúdos que nem
sempre são tocados por outras atividades.
Os contos de fadas apresentam “uma variação sobre o mesmo
tema: o ser humano se buscando e buscando o sentido de sua vida”
(BONAVENTURE, 2003). Portanto os contos não relatam apenas
histórias imaginárias, mas algo que se refere a nós mesmos. Assim, a
criança é capaz de reconhecer qual história é significativa para sua
necessidade momentânea e também é capaz de perceber onde a
história lhe fornece uma forma de poder enfrentar e resolver um conflito
interno. De acordo com Bettelheim,
Só escutando repetidamente um conto de fadas e
sendo dado tempo e oportunidade para demorar-se
nele, uma criança é capaz de aproveitar integralmente
o que a estória tem a lhe oferecer com respeito à
compreensão de si mesma e de sua experiência de
mundo. Só então as associações livres da criança
com a estória fornecem-lhe o significado mais pessoal
e assim ajudam-na a lidar com problemas que a
oprimem. (1980).

Por esta razão a criança pede para ouvir a mesma história


diversas vezes. A criança volta ao mesmo conto para ampliar seu
significado ou substitui-lo por novos. Caso a historia não seja repetida
ou não for dado um tempo para a criança poder apreendê-la, algo ficará
perdido.
Isto explica porque um conto pode ser favorito em um momento
da infância, e depois de um tempo não ser tão apreciado. Quando a
criança passa a querer ouvir outro conto, significa que ela já acomodou
a mensagem trazida por ele e que este já cumpriu a sua função de
ensinar.
Os contos de fadas são histórias difundidas desde a Antiguidade.
Sua origem é incerta, mas sempre presente na cultura oral em todos os
continentes, que retrata um mundo fantástico, de sonhos, fadas,
princesas e magias.
As histórias infantis contadas e recontadas no decorrer dos
tempos, através da metáfora são capazes de apresentar os dramas e
conflitos principais por meio do simbólico, assim,
Para regular os problemas psicológicos do
crescimento (superar as decepções narcísicas, os
dilemas edipianos, as rivalidades fraternas; ser capaz
de renunciar às dependências da infância, afirmar sua
personalidade, tomar consciência de seu próprio valor
e de suas obrigações morais), a criança tem
necessidade de compreender o que se passa em seu
ser consciente, para fazer face igualmente ao que se
passa em seu inconsciente (BETTELHEIM, 1980).
4.3 - CONTOS DE FADAS, SONHOS E FANTASIAS

Na teoria freudiana o sonho visa realizar um desejo. A partir do


momento em que alguns desejos não são satisfeitos o sujeito começa a
fantasiar e a desejar.
Sob a ótica da psicanálise o sonho e a realidade têm uma
estrutura idêntica:
O ser humano sonha continuamente, esteja dormindo ou
acordado, sempre movido pela fantasia inconsciente que não apenas
representa para ele a sua realidade como lhe fornece meios para se
relacionar com seu mundo real (JORGE, 2010)
No universo infantil, as fantasias revelam-se através dos sonhos,
das brincadeiras, da música, da arte, bem como através dos contos de
fadas.
A obra freudiana mostra que os contos de fadas são similares
aos sonhos e fantasias com uma linguagem simbólica idêntica. Segundo
Bettelheim (1980) há diferenças bem significativas entre os sonhos e os
contos de fadas.
Os sonhos resultam de pressões internas, que não encontram
alivio; de problemas que bloqueiam o sujeito, para as quais ele não
conhece nenhuma solução. Nos sonhos não é possível o sujeito
controlar os eventos oníricos, embora a censura interna influencie o que
podemos sonhar, este controle ocorre no nível inconsciente e assim, o
sujeito consegue satisfazer seus desejos de maneira disfarçada.
Os Contos de fadas promove no sujeito uma projeção do alívio de
todas as pressões internas e não só oferece formas de resolver os
problemas, mas promete uma solução “feliz” para ele. Através dos
contos a satisfação dos desejos pode ser expressa abertamente. Os
enredos encontrados nos contos, em grande parte resultam do conteúdo
comum consciente e inconsciente tendo sido moldado pela mente
consciente, não de uma pessoa especial, mas do consenso de várias a
respeito do que consideram problemas humanos universais, e o que
aceitam como soluções desejáveis.
Segundo Bettelheim (1980) não se deve analisar os sonhos das
crianças em análise, pois: são muito simples; contém um conteúdo
inconsciente que permanece praticamente não moldado pelo ego e
ainda, porque as funções mentais mais elevadas mal entram na
produção de seu sonho.
Portanto, a utilização dos contos é mais eficiente, uma vez que
eles têm como função expor pela criança as suas fantasias que na
maioria das vezes causam insegurança e medo. A criança ao falar dos
personagens, pode falar abertamente de seus medos, desejos e
fantasias, pois não está falando de si, não é a sua fala, mas a dos
personagens.
Destarte, a literatura infantil é de grande valia na clinica
psicanalítica com crianças. Ouvir / ler contos de fadas pode ser
considerada uma atividade simbólica e terapêutica em análise com
crianças, pois servem como instrumentos mediadores entre o
inconsciente e o consciente que favorecem os processos de
autoconhecimento e de transformação pessoal.

4.4 - MELANIE KLEIN

Melanie Klein (1882-1960) foi o principal expoente da segunda


geração psicanalítica mundial e contribuiu consideravelmente para o
desenvolvimento da escola inglesa de psicanálise. Foi uma das
primeiras psicanalistas a trabalhar como crianças. Em 1924, no
congresso de Würzburg apresentou o trabalho intitulado “A técnica da
análise de crianças pequenas”. Recebendo o seguinte comentário de
Karl Abraham: “O futuro da psicanálise é inseparável da análise pelo
brincar” (THOMAS, 1995).
M. Klein publicou sua primeira obra em 1932, “A psicanálise com
crianças”, na qual discorria sobre as bases estruturais de sua teoria.
A psicanalise com crianças possui uma especificidade. Em
psicanálise o método de tratamento é o mesmo para todos os pacientes,
tendo como regra as associações livres. Porém o psiquismo da criança
é diferente do adulto, e esta diferença se manifesta no brincar.
Na criança não existe uma associação verbal, pois ela não faz
associação livre. Ela não o faz porque não sabe falar ou porque não seja
capaz de traduzir seus pensamentos em palavras, mas porque sua
angústia opõe uma resistência às associações verbais (THOMAS,
1995).
Pautada nesta observação Klein instaura a técnica do brincar
(Play-Technique), para o tratamento psicanalítico com crianças. Para
Klein a técnica do brincar não deve ser confundida com a ludoterapia
(Play-Terapy). Para Klein a ludoterapia favorece ao paciente uma ab-
reação, uma descarga emocional capaz de fazê-lo liberar um afeto
desagradável, por estar ligado à lembrança de um acontecimento
traumático que ele repetiria inconscientemente, portanto “o
ludoterapeuta não está qualificado para interpretar o brincar da criança,
pois não tem a menor ideia de como interpretar a transferência negativa”
(THOMAS, 1995).
No tratamento analítico o brincar adquire o estatuto dos sonhos.
Segundo Klein “no brincar as crianças representam simbolicamente
fantasias, desejos e experiências” (apud THOMAS, 1995).
Mas para que o brincar alcance o estado de formação
inconsciente favorecendo a escuta analítica, Klein pontua cinco
parâmetros indispensáveis a serem observados:
1º - é preciso estar atento aos mais ínfimos detalhes durante as
brincadeiras, para que haja uma interpretação efetiva, pois, certamente
na sequencia do brincar, surgirão os encadeamentos;
2º - o material oferecido e escolhido pela criança também deve
ser levado em conta: brinquedo, dramatização, água, recorte ou
desenho;
3º - a maneira como brincam;
4ª - a razão por que as crianças passam de uma brincadeira a
outra, e;
5º - os meios que escolhem para suas representações.

Quanto à interpretação, M. Klein só o fazia quando a criança


exprimia o mesmo material psíquico em versões diferentes (THOMAS,
1995).
Em oposição a M. Klein, Hermine Von Hug-Hellmuth entendia o
brincar como uma satisfação das pulsões, pois “somente o brincar
oferece à criança a possibilidade de chegar impunemente até o fim de
suas pulsões” (THOMAS, 1995). Hermine também acreditava que a
observação analítica da criança brincando, permitiria ao analista
compreender seu comportamento. Mas apenas a observação analítica
colocaria o analista numa posição se voyeurista. Assim, para
psicanálise, também se faz necessário privilegiar uma escuta, num
encadeamento subjetivo e transferencial.
4.5 - DONALD WOODS WINNICOTT

Donald Woods Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista


britânico, foi um dos grandes teóricos sobre o brincar. Em 1958 publicou
o livro “Da Pediatria à Psicanálise”, no qual apresentou o conjunto de
suas posições sobre o tema (ROUDINESCO e PLON, 1998).
Para Winnicott (1975), a psicanálise é uma “forma altamente
especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e
com os outros”.
Na busca por um conceito sobre o brincar, Winnicott
compreendeu que as brincadeiras infantis não se encontram nem na
realidade psíquica interna nem na realidade externa. Destarte, considera
haver uma zona intermediária, na qual ocorrem os fenômenos
transicionais.
Winnicott criou a expressão objeto transicional em 1951 para
designar um objeto material (por exemplo, um brinquedo, ponta de uma
coberta e etc.) que a criança chupa e aperta contra si, o qual ela elege,
notadamente no momento de adormecer e que lhe permite efetuar a
transição entre a primeira relação oral com a mãe e uma verdadeira
relação de objeto (ROUDINESCO e PLON, 1998). Winnicott inclui no
mesmo grupo certos gestos e diversas atividades bucais, a que chama
de fenômenos transicionais. Estes comportamento são visto
frequentemente em crianças entre os quatro e doze meses de idade. O
objeto transicional mantem seu estatuto por um longo tempo até perder
seu valor progressivamente e, poderá reaparecer mais tarde em
momentos de uma depressão (LAPLANCHE e PONTALIS, 1992;
COSTA, 2010).
Também é possível não haver objeto transicional,à excessão a
mãe, ou mesmo a criança pode apresentar um grau de
comprometimento emocional no seu desenvolvimento a ponto de afetar
a fruidez do seu estado de transição, e ainda, a sequência dos objetos
de transição usados é rompida ou ainda, podem estar ocultas. O objeto
transicional é simbólico a algum objeto parcial, como por exemplo o
seio. Destarte, a importância não está no simbólico, mas na sua
realidade. Segundo Winnicott (1975), “o fato dele não ser o seio (ou a
mãe), embora real, é tão importante quanto o fato de representar o seio
(ou a mãe)”.
Portanto o objeto transicional e o fenômeno transicional
petencem ao domínio da fantasia, e se extenderão ao longo de sua
vida, fazendo-se presente nas artes, religião e outros e, desde o início
serão sempre importantes para o sujeito.

4.6 - FRANÇOISE DOLTO

Françoise Dolto (1908-1988) foi a grande percussora da


psicanálise freudiana. Junto como J. Lacan e outros fundou a Sociedade
Francesa de Psicanálise em 1953. Para Dolto desde o nascimento, o
bebê é um ser de fala. Seu método privilegiava a escuta capaz de
traduzir a linguagem infantil, ou seja, o psicanalista deveria usar as
mesmas palavras que a criança e comunicar-lhe os seus próprios
pensamentos sob seu aspecto real (ROUDINESCO e PLON, 1998).
Dolto rejeitou as brincadeiras do seu método psicanalítico com
crianças, usando a fala, o desenho e a modelagem (COSTA, 2010).
Durante as sessões, Dolto disponibilizava para a criança apenas
papel, lápis, massa de modelar e sua fala. Estes serviriam como
mediadores para a criança associar. Usava como consigna:
Você vai dizer em palavras, nos desenhos ou na
modelagem tudo o que pensar ou sentir enquanto
estiver aqui, mesmo as coisas que, com outras
pessoas, você sabe ou acha que não convém dizer
(LEDOUX, 1995).

Ao término da atividade, Dolto pedia para a criança falar sobre seu


desenho ou modelagem. Para Dolto, o resultado das produções das
crianças era equivalente ao sonho e fantasias que surgiam na análise
com adultos e, compreendidos como testemunhos da vivencia histórica
e transferencial.
O método usado por F. Dolto enfatizava que para o psicanalista
poder ouvir a criança, pensar como ela pensa, é preciso se colocar no
lugar dela, sem sair da posição de analista (LEDOUX, 1995).

5-CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da brincadeira a criança é capaz de aliviar as pressões


internas, uma vez que a angústia frequentemente se faz presente na
brincadeira infantil. Na brincadeira simbólica a criança é capaz de liberar
grande parte de sua agressividade.
O processo de globalização, com o avanço das TICs
(Tecnologias da Informação e Comunicação), sem dúvida tem afetado
consideravelmente o universo de brincadeiras infantis. Atualmente,
muitos pais superlotam as agendas de seus filhos com diversas
atividades tais como aulas de reforço, natação, judô, balé, escolinha de
futebol, inglês, informática entre outras, não deixando espaço para a
criança brincar. As crianças contemporâneas passam por pressões cada
vez mais intensas. Muitos pais acreditam que seus filhos estarão
sempre à frente e, que estarão garantindo um futuro melhor para seus
filhos, se as crianças dedicarem mais tempo às atividades culturais e
esportivas do que brincando. Não que isto esteja errado, mas é
necessário deixar um tempo livre para a criança possa brincar e
devanear.
Também é comum ouvir de pais que trabalham fora de casa, o
relato a cerca da falta de tempo para brincarem com os filhos. Acreditam
que presentear a criança com um brinquedo caro ou que ela deseje
muito naquele momento, irá entreter a criança e sobrar tempo para o
descanso dos pais. O brinquedo deve ser entendido como uma
ferramenta que a criança utiliza para se desenvolver e se divertir e ele
não supre a falta de interação entre pais e filhos tão necessária para o
equilíbrio afetivo e emocional da criança.
Não raro adultos sentirem-se frustrados ao presentear a criança
com brinquedos caríssimos e ela sentir-se mais atraída pela
embalagem. Criança necessita de tempo livre para devanear e criar
suas próprias brincadeiras e brinquedos, para expressar sua criatividade
sem imposições dos adultos.
Muitos pais e educadores demonstram preocupação quando um
menino tem interesse em brincar com uma boneca ou quando a menina
pede de presente um carrinho. A questão da brincadeira de gênero é
uma questão cultural. Cabe ainda lembrar que o sexismo existente no
mundo adulto não se faz presente nas brincadeiras infantis. Portanto, a
criança deve ser livre para escolher do quer brincar sem a intervenção
dos adultos, exceto se houver risco para integridade física da criança.
Brinquedo é para ser “brincado”, pode e deve ser usado de inúmeras
formas pela criança.
A brincadeira na infância torna-se essencial uma vez que,
proporciona meios básicos para integrar os mundos interno e externo. A
mídia diariamente divulga histórias de jovens que abraçam ideias
extremas e muitas das vezes macabras, na crença que suas fantasias
podem ser realizadas. É possível que estes sujeitos não tenham tido a
oportunidade de aprender com suas brincadeiras na infância a respeitar
as limitações que a realidade impõe na realização de suas fantasias.
Assim, os brinquedos e materiais disponibilizados a criança
durante o trabalho psicanalítico servem como mediadores entre o
inconsciente e o consciente. A leitura das produções da criança ocupa o
lugar da associação livre do adulto. Por isso, independente do método
utilizado no trabalho psicanalítico faz- se necessária uma escuta atenta.
Não cabe ao analista interpretar os desenhos de seus pequenos
pacientes, mas sim os conteúdos do seu discurso. Também a maneira
como a criança brinca e sua relação com o brinquedo muito terá a dizer.
Portanto, muitas brincadeiras que podem fazer pouco ou nenhum
sentido e até as que podem parecer desaconselháveis, uma vez que
não se sabe a que propósito serve ou como terminará desde que, não
coloque em risco a vida da criança, não deve sofrer interferência do
observador.
A especificidade da clinica psicanalítica com crianças impõe ao
analista que ele tenha seus sentidos aguçados, pois, qualquer palavra,
frase, entonação e/ou gesto da criança poderá ser uma rica fonte de
informação.
Conclui-se que refletir o universo infantil à luz da psicanálise
sugere um contínuo aprofundamento teórico.
6 - REFERÊNCIAS

ARCANGIOLI, A.M. Introdução à obra Winnicott. In: Introdução às obras de Freud,


Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan. NASIO, J. D.(Org.) Rio de Janeiro:
Zahar, 1995.

ARIÈS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC - Livros Técnicos e
Científicos Editora, 1981.

ARRUDA, J.J. de; PILLETTI, N. Toda a história: história geral e do Brasil. São Paulo:
Ática, 1999.

BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

______. Uma vida para seu filho. Rio de Janeiro: Campus,1988.

BONAVENTURE, J. O que conta o conto? São Paulo: Paulus, 2003.

BARROS, R. R. do Rêgo. Alguns comentários sobre a solução fóbica, in: A ordem do


sexual. Rio de Janeiro: Campus, 1988, p. 33.

CORSO, D. L.; CORSO, M. Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto
Alegre: Artmed Editora, 2006.

COSTA, T. Édipo. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

______. Psicanálise com crianças. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

FERREIRA, A.B. de H. Dicionário Aurélio Eletrônico – Século XXI. Rio de Janeiro:


Editora Nova Fronteira, 1999. CD-ROM.

FREUD, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard Brasileira
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Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
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