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3.

A FILOSOFIA

Depois de tudo o que acabo de dizer, serei breve


sobre os dois últimos personagens do nosso teatrinho:
a fjlosofia e a concepção do mundo.
A filosofia está presente no curso de Monod sob duas
formas: sob a forma de termos filosóficos tomados de
empréstimo das filosofias existentes) e que funcionam
no interior da sua filosofia espontânea de cientista. Na
medida em que estes termos são tomados de empréstimo
das filosofias existentes, eles reenviam-nas para estas
filosofias.
A filosofia está nele apresentada sob a forma de de-
senvolvimentos filosóficos explícitos. Monod sabe o que
são as filosofias, em todo o caso sabe que elas existem,
e sabe que as filosofias estão particularmente interessa-
das com o que se passa nas ciências. Cita. sob este as-
pecto Aristóteles, a filosofia de Kant e de Hegel, 00
materialismo dialéctico, Engels (a quem reserva uma
ponta de florets eléctrica), Nietzche e Teilhard de Char-
din. Monod é particularmente perspicaz no seu momento
materiaHsta sobre, isto é, contra a filosofia de Teilhard.
Diz 'que ela não é nova, o que nos dá bastante prazer,
mas não dará prazer a toda a gente. Monod não se con-

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tenta em citar os filósofos, faz fi.losofia. Propõe mesmo vezes a ética do conhecimento com o próprio método
uma definição da filosofia, dizendo 'que a sua função é científico. Mas o método é uma epistemoloqia normativa,
«antes de mais nada estabelecer um sistema de valores», não é uma ética. O método diz-nos que -proouremos.
para o opor às ciências, que ignoram os valores. En- Mas quem nos manda procurar, e para isso adaptar o
trega-se sobre este tema a todo um desenvolvimento método, com a ascese que ele implica?» Ciências, método
filosófico. científico, epistemologia normativa, ética do conheci-
Os termos filosóficos mais notáveis presentes no mentos, walores, filosofia. Monod faz bem 0' seu trabalho
curso de Monod são os seguintes: noosferajbiosfera de filósofo: traça linhas de demarcação. e propõe uma
(Teilhard, condenado como filósofo explorador da bio- linha, que é para ele e para todo o filósofo, uma «linha
logia ressurge corno filósofo positivo da noosfera, isto
justa».
é, da história humana); alienação, praxis, nada (do Não se trata de fazer chicanas a Monod sobre certas
lado de Nietzsche) ,etc. Além disto, toda uma série de
expressões filosóficas, pois ele não é filósofo de pro-
noções de aparência inocente são. empregadas e funcio-
fissão, e seria injusto. Pelo contrário, devemos-lhe muito
nam filosoficamente em Moncd: por exemplo, a noção
reconhecimento por nos ter exposto a sua filosofia e,
de homem. na frase «a linguagem que teria criado o
através dela, a sua relação com as tendências filosóficas
homem mais do que o homem a linguagem». Inútil ir
mais longe, Estamos numa atmosfera fiicsófíca de matiz existentes.
idealista (certas palavras nunca são pronunciadas: ma- Tendência filosófica de Monod (resultante da com-
terialismo, dialéctica, etc.) , mais precisamente existen- paração entre o género de termos que ela adopta e do
cialista-espiritualista-nietzscheana-ateia. O ateísmo de- desenvolvimento filosófico que nos dá): tendência idea-
clarado desponta na palavra final, em que Sartre corno Iista-espiritualista acrescida duma declaração de ateísmo
Nietzsche teriam tanta dificuldade em desmentir como categórico. Resultado: primado duma moral ateia. O espi-
em reconhecer o seu filho: «Que ideal propor aos homens ritualismo é cortado das suas amarras religiosas pela
de hoje, que esteja acima ou para lá de si próprios, senão declaração de ateísmo, fica como último termo. uma
a reconquista, pelo conhecimento, do nada que eles pró- moral ateia: moral da ciência, muito precisamente, ética
prios descobriram»? da prática científica. Moral ascétíca, austera, aristocrá-
Mais interessante é o facto de Monod nos dar um tica na austeridade, sem outro objecto de referência que
verdadeiro capítulo de filosofia no sentido forte: isto a prática do conhecimento (recusa de dar a esta moral
é, de filosofia precisamente sobre a relação entre a filo- por fundamento a felicidade da humanidade, o seu poder
sofia e as ciências. Distinção entre as ciências e a filo- material, ou o «conhece-te a ti próprio») ,
sofia. Às ciências o conhecimento, mas não os valores O que nos interessa mais precisamente é a relação
À filosofia 0'S valores. Distinção entre o método cientí- orgânica existente entre ·a filosofia de Monod e a sua
fico e a ética científica. «Ainda hoje se confunde muitas F.E.C.

lJ56 1'57
:111

Mesma tendência 'idealista ateia. Mesmo acento sobre da história, permítíndo à exaltação da ética do conhe-
a prática científica. Na filosofia como na F. E. C., pre- cimento manter o seu lugar nesta filosofia da ciência.
sença duma referência objectívista, materialista) cujo Este conteúdo comum pode escrever-se sob a forma duma
núcleo derradeiro é o conhecimento científico e a sua sequência de igualdades transformadas:
prática, mas simultaneamente, tanto na filosofia como (emergência da noosfera) história= noosfera = reino
na F. E. C., mesmo investimento da tendência materia- do conhec'imento (científico) =ética do conhecimento
lista sob a tendência idealista que a domina. Vimos como
científico.
se efectuava 'este investimento na F. E. C. de Monod,
Observámos o mesmo investimento idealista na filosofia Esta sequência, que se pode pormenorizar, assenta
de Monod: mas o que é extremamente notável, e peço-vos em última análise sobre as duas igualdades seguintes:
que anotem este ponto, pois é da mais alta importância, história = noosiera = ciêncials).
este investimento não se opera, na filosofia de Monod,
sob a forma duma inversão de sentido cujos momentos Portanto, aquilo que permite em última anáãise à
e termos nós podemos observar e descrever, em por- filosofia de Monod comunicar com a sua F. E. C. é o
menor, empiricamente. Há uma certa tensão, portanto, operador filosófico nooejera, cujo sentido (efeito da sua
uma certa presença da luta de tendência entre o mate- intervenção) podemos traduzir muito simplesmente di-
rialismo e o idealismo na filosofia de Monod (pode-se zendo que representa uma concepção da história per-
considerar que o facto de falar da ciência representa feitamente clássica desde o século XWII, desde o Aufklii-
qualquer coisa como um eco da tendência materialista, rung, para quem as ciências são a base e o motor da
sobretudo pela sua recusa da religião; pode-se considerar história, para quem a 'história se reduz definitivamente
que a moral representa abertamente, e de forma do- à história dos conhecimentos, das ciências e das ideias
minante, a tendência idealista), mas pode-se considerar científicas.
que esta tensão, portanto este conflito são de ante- Mas a filosofia da ciência de Monod não passa de
mão requlados, em benefício da tendência idealista que uma filosofia da ciência: é, como toda a filosofia da
triunfa sem combate na exaltação da ética do conheci- ciência, uma filosofia da história, mais ou menos con-
mento. O que é que, no mais profundo destes laços, fessada. Se Monod é neste ponto exemplar, é porque
são a simples observação de relações objectivas, une a ele confessa a sua filosofia da história. Mas, por ela,
filosofia de Monod à sua F. E. C.? Aquilo que elas têm entramos no último objecto da nossa análise: a con-
essencialmente em comum, mais precisamente aquilo 'que cepção do mundo.
tem de comum a filosofia e o Elemento 2 da F. E. C. :
uma filosofia idealista da ciência, fundando a extensão
das categorias biológicas à «noosfera», autorizando uma
concepção da «noosf'era», que funda uma teoria idealista

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:1
I

!II

4. A CONCIDpÇÃO DO MUNDO DE MONOD


(C.D. M.)

Lembrem-se do que dissemos sobre a diferença que


• distingue uma filosofia de uma concepção do mundo.
Numa concepção do mundo, pode tratar-se da ciência,
mas uma concepção do mundo não é nunca centrada
sobre a ciência como o é a filosofia. Não mantém com
as ciências as relações que a filosofia mantém com a
ciência. Uma concepção do mundo é centrada sobre aLgo
diferente das ciências: sobre o que nós chamamos 'Os
valores das ideologias práticas. Uma concepção do mundo
exprime as tendências que atravessam as ideologias
práticas (religiosa, jurídica, política, etc.). Uma C. D. M.
tem sempre directa ou indirectamente pontos de con-
tacto com questões que pertencem a estes domínios:
problemas da religião, da moral, da política e, duma
maneira mais lata, problema do sentido da história, da
salvação da história humana. Toda a C. D. M. exprime
fina:1mente uma certa tendência de carácter ou matiz
político.
O que é notável em Monod é que tudo. nele é claro.
No centro da sua C. D. M., o problema da alienação
do mundo moderno e da salvação do mundo moderno.
Alienação do mundo moderno: criado, tecido pela
ciência, é estranho ao seu próprio país. Porquê ?

161
«A alienação do homem moderno) em relação à cul- Ora há na contradição do mundo moderno entre as
tura científica) que no entanto tece o seu universo, re- ciênci~ actuaís e os valores antigos, anacró.nicos, ao
vela-se sob formas distintas do ingénuo horror expresso mesmo tempo a mais grave alienação e o meu>de sal-
por Verlaine. VeJo neste dualismo um dos males mais vação) contido na ética do co.nhecim~to ~ientífico.
profundos de que sofrem as sociedades modernas) causas O que vem a ser esta teoria da auenação do mundo
(dum desiquilíbrio tão grave que ameaçam desde já a moderno? Aparentemente uma descrição dum certo nú-
realização do grande sonho do século XIX: a emergência mero de factos empíricos. Na realidade, duas coisas:
futura duma sociedade não mais oonstruiâa sobre o
homem) mas para ele». 1. uma teoria da históriaj
A alienação do mundo moderno ameaça, pois, o grande 2. uma política.
sonho socialista. Monod é pelo socialismo, mas inquieto A teoria da história pode ser resumida assim: Monod
com o seu futuro. sabe que a história da humanidade não é constituída
A alienação: dualismo. Entre: a ciência e a cultura exclusi,vamente por aquilo que se passa na ordem do
científica que tecem o mundo moderno de um lado, e conhecimento científico. Existe assim a ordem da
os valores tradicionais do outro ('«ideias ricas em con- «praxis», do poder material, das paixões religiosas,
teúdo ético»). morais, políticas, etc. Mas Monod pensa que ° especí-
«Bstamo«, pois) diante da seguinte contradição: as fico do homem, que fez dele um ser social e histórico,
sociedades modernas vivem) afirmam) ensinam ainda que constituiu a «noosfera», é a linguagem e o conhe-
- sem de resto acreditar nisso - sistemas de valores cimento científico, que dela brotou num certo momento.
cujas bases estão arruinadas; quando afinal) tecidas Em todo o caso, tornou-se claro para Monod que, no
pela ciência) estas sociedades devem a sua emergência mundo moderno, é a ciência que é a base da história,
à adopção, a maior parte das vezes implícita) e por um que é a actividade do cientista que tece o mundo mo-
número de homens muito pequeno) desta ética de conhe- derno e que é a ética científica que pode salvar o mundo.
cimento que elas ignoram. Eis as raízes da própria alie- Esta teoria da história desagua numa política: po-
nação moderna». lítica de elaboração e de difusão da ética do conheci-
Dupla contradição : mento.
- ciências modernasje valores religiosos morais ca- A base do mundo moderno é o conhecimento cíentí-
ducas, com bases arruinadas; \. fico. O motor da salvação da história moderna pode
_ ciências modernasje a ignorância em que se está, ser a ética do conhecimento. Monod afirma, pois, uma
em que os próprios cientistas estão, em que os ho- C. D. M. que propõe uma política de educação, de difusão
mens estão, de que estas ciências e a sua prática im- e de propaganda moral. Uma certa moral, mas uma
plicam uma disciplina moral, uma verdadeira ética moral, da qual ele espera efeitos políticos, incluindo, se
do conhecimento. bem entendo, a esperança da chegada do socialismo.

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Dois pontos a notar: nem os valores morais tradlcionais fundados sobre a re-
1. Na C. D. M. de Monod, existe uma unidade de ligião (portanto, luta contra as C. D. M. religiosas), mas
consequência interna entre a filosofia da história (idea- uma nova moral, não religiosa, ateia, ascética, fundada
lista, fazendo do conhecimento a essência e o fermento sobre a prática científica, a moral dos cientistas.
da história) e a política (moral). Toda a C. D. M. está Contra a C. D. M. marxista) afirma que é o desenvol-
directa ou indirectamente em relação com uma certa vimento do conhecimento e seus valores próprios que é
poUtica. Toda a C. D. M. propõe ,e traça, explícita ou o motor da história moderna, portanto - visto que para
implicitamente, directa ou indírectamente, uma certa ele é aí que reside a possibilidade de pôr fim à alienação
política. Ê o caso de todas as C. D. M. Uma C. D. M. do mundo moderno - uma certa moral subjectiva aris-
religiosa põe o acento sobre a religião, os valores re- tocrática-intelectual, e não a «moral marxista» fundada
Iígíosos: é propor uma escolha entre os diferentes va- na luta de classe proletária. Notar-se-à este ponto muito
lores, é propor uma política que se pode traduzir nos importante: Monod não se distingue da mesma maneira
factos. Uma C. D. M. moral idem. Uma C. D. M. jurídica destas duas C. D. M. Distingue-se da C. D. M. religiosa
também (pôr o acento no direito, considerado de facto lutando abertamente contra ela, 'para a suprimir) pois
como o essencial na díaléctica da história, é querer julga-a nefasta e em desuso. Distingue-se também da
produzir certos efeitos históricos: os juristas são useiros C. D. M. marxista, mas sem a querer suprimir. Declara
neste género de C. D. M., mas não são eles os únicos). guerra à primeira e não declara guerra à segunda. Não
Uma C. D. M. política põe o acento nos 'Valores políticos: renunciou ao «sonho» 'que ela encarna ainda para ele, ao
considera que é a política que constitui o essencial da «socialismo».
história, que é a política o motor da história, etc., dela A concepção do mundo de Monod é, pois, muito pre-
espera efeitos. cisa. Ê uma C. D. M. que propõe uma teoria da história
2. Uma C. D. M. não existe sozinha: não existe ou filosofia da história capaz de fornecer uma interpreta-
senão num campo definido, em que procura situar-se ção da conjuntura histórica actual e o meio de sair dela,
em relação às concepções do mundo existentes, portanto que acaba naturalmente numa política. Gomo C. D. M.,
distinguir-se das C. D. M.existentes, definir-se em re- esta concepção toma partido, situa-se necessariamente
lação a elas como diferentes delas, incluindo por opo- entre as C. D. M. existentes: toma partido entre uma
sição a certas dentre elas. Uma C. D. M. não se põe senão C. D. M. tradicionalista dominada por uma política moral
opondo-se, no limite lutando contra as C. D. M. diferentes I religiosa e uma C. D. M. marxista dominada por aquilo
dela. Na sua C.D.M., Monod procura manifestamente dis- que podemos provisoriamente chamar uma «moral» po-
tinguir-se essencialmente de duas C. D. M: a C. D. M. lítica.
(tipo Teilhard) e a C. D. M. marxista. Mas aqui vamos ver as coisas inverte-se, não do
Contra a C. D. M. reliqiosa, afirma que não são os ponto de vista das declarações de Monod, mas do ponto
valores religiosos que podem salvar o mundo moderno, de vista do conteúdo real das suas teses teóricas. Pois esta

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posiçao 'intermédia não é igual. Monod não se situa a contradição com a maneira como ele situava a sua
igual distância entre as duas C. D. M. O que separa C. D. M. em relação às C. D. M. religiosa e marxista.
Monod da C. D. M. religiosa que ele combate resoluta- A contradição, a oposição essencial, já não diz respeito
mente não põe em causa a validade da moral como motor à C. D. M. religiosa, mas à C. D. M. marxista, não já ao
da história: simplesmente a moral que ele propõe não idealismo, mas ao materialismo.
é uma moral religiosa, é uma moral ateia centrada sobre Uma última palavra: como se estabelece a relação
uma ética espontânea do conhecimento científico, mas entre a C. D. M. de Monod e a sua filosofia? Por inter-
esta moral permanece uma moral. Pelo contrário, o que médio da moral do conhecimento científico. A filosofía
separa Monod da C. D. M. marxista é muito mais impor- de Monod é uma filosofia da ciência, a C. D. M. de Monod
é uma C. D. M. da moral científica. A filosofia e a
tante: é uma grave divergência de concepção que incide
C. D. M. de Monod têm em comum a ciência. A ciência
sobre o pa;pel da moral na história. Para Monod, a moral
está no centro da F. E. C. de Monod. A ciência é enfim
é tida, porque proposta, como o meio de salvação da
a actividade de Monod.
história moderna, portanto, como o motor, senão da
Daí uma última conclusão: se se dispõe graficamente
história, pelo menos da história moderna. Para o mar-
as quatro personagens, as quatro componentes que se
xismo, a moral, mesmo política, não é o motor da história) podem encontrar no texto de Monod (ciência, F. E. C.,
nem da história passada, nem da história moderna. Na filosofia, C. D. M.), chega-se a um cruzamento muito
expressão que empreguei: «moral política», é a palavra particular figurado neste gráfico:
política que conta para os marxistas; e política quer
dizer «luta de classes de massa», conforme aos dois
grandes princípios do marxismo: 1) são as massas que
fazem a história (e não os indivíduos, não os intelectuais,
mesmo cientistas); 2) é a luta de classes que é o motor
da história, e não a moral, fosse ela a moral ateia, ascé-
)
..-..
Nl

N2
tica, pura e desinteressada dos mais desinteressados in-
telectuais,os cientistas.
No coração das C. D. M., o que divide as C. D. M., é
efectívamente qualquer coisa que toca em definitivo a t
C F.E.C. qJ •
C.D.M.
sua tendência política através do seu conteúdo ideoló-
gico. Idealismo = crença que são as ideias que conâueem. o que significa:existência de dois núcleos irradiantes.
o mundojMaterialismo=crença que é a luta de classes 1. Núcleo l=a realidade da ciência que existe na
de massa que é o motor da história. Sobre este ponto realidade dos resultados científicos que Monod expõe,
fundamental, as teses teóricas de Monod entram em os quais remetem para a realidade da prática científica

166 161
e para a realidade da história da produção dos conhe- A F. E. C. e a filosofia e a C. D. M. de Monod são a
cimentos biológicos. Tendência materialista. títulos diferentes, eem função da proximidade de cada
Este núcleo 1 irradia todo o conjunto da sua ten- um destes núcleos, compromissos entre estas duas ten-
dência materialista dialéctica. Está presente na ten- dências.
dência do Elemento 1 da F. E. C. de Monod. Presente O ponto em que se afrontam estas duas tendências
duma forma muito modificada e extremamente atenuada da maneira mais aberta é a F. E. a.; na contradição entre
na filosofia de Monnod. Alguns traços negativos (moral o Elemento 1 e o Elemento 2. Nesta contradição, o Ele-
ateia) na C. D. M. de Monod. mento dominante é o Elemento 2. Aí também obser-
2. Núcleo 2=a realidade) o que está no centro da vamos, mais perto da confrontação das duas tendências,
C. D. M. de Monod : uma tomada de posição política)
mais perto do núcleo-realista-materialista, isto é, da
prática científica, a lei que eu enunciei mais atrás: do-
contra outras tomadas de posição políticas. Uma ten-
minação do Elemento 1pelo Elemento 2. Exploração do
dência idealista que se afirma de forma subordinada
Elemento 1 pelo 'Elemento 2.
contra a tendência religíosa-espiritualista, mas que se
afirma de forma dominante contra a tendência materia-
lista da luta de classes.
Este núcleo 2 irradia todo o conjunto dos elementos
presentes no texto de Monod: a sua tendência irradiante
é idealista. Aí também, mas em sentido inverso, de forma
cada vez mais atenuada, mas a filiação e a dependência
são nitidamente reconhecíveis: na filosofia (filosofia
idealista da ciência); no Elemento 2 da F.E. C.: in-
terpretação idealista do conteúdo material'ista do E1e-
mento 1.
Este resultado é simples, mas muito importante:
dois núcleos irradiantes, centros de tendências opostas,
uma tendência materialista irradiante a partir do nú- "
eleo material-objectivo da prática científica e da própria '
ciência (núcleo 1), uma tendência idealista irradiante
a partir das tomadas de posição 'ideológicas de Monod
em face dos «valores» implicadasem problemas sociais-
-políticos-ideológicos que dividem o mundo moderno (nú-
deo 2).

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DUAS CITAÇOES DE MONOO

Tal corno certas diferenciações extremas) primeiro


:fontes de sucesso, conduziram grupos inteiros à sua
perda num contexto ecológico modificado (tais os gran-
des répteis da era secundária), assim também vemos
hoje que a extrema e soberba rigidez doçmâtica de
certas religiões (tais o islamismo) o catoüoiemo), numa
noosfera que não é já a nossa) torna-se hoje causa de
fraqueza extrema que conduzirá, senão à sua âesapa-
riçõo, pelo menos a dilacerantes revisões.
Também desejaríamos bem conhecer o futuro e a
~ sorte da mais poderosa ideia que jamais emergiu na
noosfera: a ideia de conhecimento objectioo, definida
como não tendo outra fonte senão a confrontação siste-
mática da lógica e da experiência.

171
íNDICE

1.' Curso... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 11

2
I. NOÇõES DE BASE... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 13

o único fim) o valor supremo) o «sumo bem» na ética 1. o negativo . 16


do conhecimento) não é) oonjessêmo-lo, a felicidade da 2. O positivo . 19
humanidade) menos ainda o seu poder temporal ou o A. 1.0 nível 20
seu conforto) nem sequer o «conhece-te a ti próprio» B. 2.° nível 22
socrâtico, é o próprio conhecimento objectivo. Penso C. 3.° nível 25
que é necessário dizê-lo) que tem de se sistematizar esta
ética) extrair dela as consequências morais) sociais e rr. UM EXEMPLO 29
políticas, que é preciso espalhar e ensinar, pois) criadora
do mundo moderno) ela é a única compatível com ele. 1.0 Relações entre as ciências exactas . 31
É preciso não esconder que se trata duma ética severa a) Relações de apUcação . 3'1
e constrangedora que, se respeita no homem o suporte b) Relações de constituição . .. 34
do conhecimento, define um valor superior ao próprio 2. Relações entre disciplinas científicas e disciplinas
homem. Ética conquistadora e, em certos aspectos) niet- literárias ... ... ... ... ... ... ... ... ... 36
zscheoma, porque ela é uma vontade de poder: mas 'de 3. Relações entre disciplinas literárias ... ... ... ... ... 42

poder unicamente na noosiera. Ética que ensinará por


2.' Curso . 55
conseguinte o desprezo pela violência e pela dominação
temporal. Ética social) pois o conhecimento objectivo
Filosofia e justeza . ... ... '" ... ... ... '" '" 57
não pode ser estabelecido como tal senão no seio duma
A respeito das ciências: a prática científica ... 71
comunidade que lhe .reconhece as normas.

172
3.° Curso '" .
0'0 0'0 0'0 0'0 0'0 0'0 0'0 0'0 0'0 0'0 0'0 0'0

85

I. Existe uma exploração das ciências pela filosofia 91 ,


lI. Existe uma filOSofia espontânea dos cientistas
(F. E. C.) ... '" '" '" ... '" '" ...
0.0 0'0 0'0 0'0 0'0

109
APlllNDICE SOBRE JACQUES MONOD ...
0'0 0'0 0'0 0'0 0'0

131

1. A ciência biológica moderna ... '"


2. A filosofia espontânea do cientista 135
(biólogo) 137
Elemento 1 (da F. E. C.)
1-37
'a) Materialismo '" ...
138
b) Dialéctica .... ... ... '"
139
Elemento 2 (da F. E. C.)
11410
a) MateriaHsmo
1:40
b) Dialéctica . '" ...
144
3. A filosofia '" .
155
4. A concepção do mundo de Monod (C. D. M.)
161

ESTE LIVRO
ACABOU DE SE IMRIMIR EM 1979
PARA A EDITORIAL PRESENÇA. LDA.
NA TIPOGRAFIA MINERV k DO Coo.fÉRCIO
LIS'BOA