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Resumo do primeiro capítulo do livro “Escola e Democracia”, de Dermeval

Saviani.

Como explicar a marginalização e o fracasso escolar? Neste ponto as teorias


educacionais se dividem em dois grupos: teorias que entendem a educação
como instrumento de equalização social e superação da marginalidade, e teorias
que entendem a educação como um fator de marginalização.

Para o primeiro grupo, a sociedade é estruturalmente harmoniosa, e


a marginalização seria como um acidente, algo específico que acontece a
alguns indivíduos. A educação seria uma maneira de corrigir essas distorções,
promovendo a integração de todos os indivíduos. A educação seria o meio de
construir uma sociedade igualitária. O autor chama estas teorias de “não
críticas”, que buscam entender a educação a partir de si mesma, sem considerar
o contexto no qual está inserida.

Já o segundo grupo entende a sociedade como sendo marcada pela divisão


entre grupos e classes, que se relacionam na base da força. Portanto a
marginalidade seria um fenômeno próprio da estrutura da sociedade, já que
o grupo que tem maior força se torna o dominante, e se apropria dos resultados
da produção social. Assim, a educação depende de uma estrutura social que
gera marginalidade, tendo a função de dominar e legitimar a marginalização.
Portanto, ela reproduz a marginalidade social, e se torna um instrumento para
marginalização, neste caso, a cultural e escolar. O autor chama essas teorias de
“Crítico-reprodutivistas”, pois buscam entender a educação dentro de seus
condicionantes sociais e entendem que a educação tem como papel a
reprodução da sociedade.

Vamos entender agora o que o autor fala sobre cada uma dessas teorias.

Teorias não-críticas

1. Pedagogia tradicional
Inicialmente, a escola teria como objetivo libertar os indivíduos, que já tinha
poder aquisitivo porém não tinham acesso ao conhecimento. A burguesia
queria também ter acesso ao saber. Seu objetivo é converter os “súditos em
cidadão”. Neste contexto, a marginalidade era justificada pela ignorância,
ficava de fora da sociedade quem não era “esclarecido”. A escola então tinha
o papel de transmitir os conhecimentos acumulados pela humanidade, de
maneira sistematizada. Era centrada no professor, que deveria transmitir
essas informações de uma forma lógica aos alunos. Com o tempo, esse
objetivo de “desmarginalizar” através do conhecimento foi perdendo sua força,
pois nem todos tinham acesso a escola, e nem todos que entravam
conseguiam acompanhar as tarefas propostas. Por fim, nem todos que
conseguiam ser bem-sucedidos na escola conseguiam se adaptar à sociedade
da maneira esperada.
2. Pedagogia nova
As críticas à pedagogia tradicional deram origem à Pedagogia Nova. Ela
mantém a crença no poder da escola e seu papel de promover igualdade
social. Para o ponto de vista desta pedagogia, o marginalizado não seria o
ignorante, mas o rejeitado. Começa a se medir a inteligência através de testes,
e busca-se respeitar as diferenças individuais no ensino. Ou seja, entende-se
que todos são diferentes, têm ritmos de aprendizado diferentes, portanto a
anormalidade não se dá nas diferenças, mas na desadaptação ou
desajustamento no indivíduo. Portanto a marginalidade será superada quando
os membros da sociedade se aceitarem em suas diferenças e
individualidades. A Pedagogia Nova deslocou “o eixo da questão pedagógica
do intelecto para o sentimento, do lógico para o psicológico, do conteúdo para
o método, do professor para o aluno, do esforço para o interesse, da disciplina
para a espontaneidade, do diretivismo para o não-diretivismo, da quantidade
para a qualidade” (Saviani, p. 20, 1999). Ou seja, o importante não era mais
aprender, mas “aprender a aprender”, pois o aluno guiaria seus próprios
conhecimentos. A escola agrupava alunos segundo áreas de interesse, e a
iniciativa principal de aprender dependia exclusivamente do aluno. A
aprendizagem seria resultado de um ambiente estimulante e livre. Esta
proposta não teve grande aderência pois exigia custos muito altos, um
professor para um pequeno grupo de alunos. Assim, a Pedagogia Nova
proporcionou um ensino melhor para a elite, enquanto o restante da sociedade
absorveu de maneira rasa esses conceitos e aplicou-o sobrepondo-se à
Pedagogia Tradicional, jogando ao aluno maior responsabilidade por seu
aprendizado, porém sem dar à ele a estrutura necessária para tal.
3. Pegadogia Tecnicista
A Pedagogia Nova se mostrou ineficaz em resolver o problema da
marginalidade. Então a Pedagogia Tecnicista surge baseada no pressuposto
da neutralidade científica e da produtividade, buscando reorganizar o processo
educacional para torná-lo mais eficiente e operacional. É uma objetivação do
trabalho pedagógico, no qual o aluno deve se adaptar ao processo,
executando as tarefas necessárias para alcançar seus objetivos. Ela foi
organizada com o objetivo de impedir que a subjetividade do sujeito pudesse
atrapalhar o processo de aprendizagem. O principal elemento aqui é o método,
a organização dos meios de maneira racional, dando ao aluno e ao professor
posições secundárias. O processo define como, quando e quem fará as
atividades. Para a Pedagogia Tecnicista, o marginalizado será o
incompetente, que não foi capaz de ser eficiente com o método proposto. Aqui
o que importa é aprender a fazer.

Teorias crítico-reprodutivistas

Estas teorias postulam que não é possível compreender a educação sem seus
condicionantes sociais, e entendem que a função da educação seria a
reprodução da sociedade na qual ela está inserida.

1. Teoria do sistema de ensino enquanto violência simbólica


Os autores partem da ideia de que toda sociedade se estrutura como um
sistema de relações de força entre grupos, tanto força material quanto
simbólica. A ideia é que o poder que impõe significações e as diz legítimas,
escondendo as relações de força que estão na base de sua força, acrescenta
a força simbólica a estas relações de força. Ou seja, o poder usa do simbólico
para legitimar e fortificar sua dominância através da dissimulação. Portanto, a
ação pedagógica seria uma imposição da cultura dos grupos dominantes
sobre os dominados. Para os autores, os marginalizados seriam então as
classes dominadas, porque não possuem força material nem simbólica, e a
educação reforça essa situação.
2. Teoria da escola enquanto aparelho ideológico do estado
Para o autor, os aparelhos ideológicos do Estado funcionam massivamente
pela ideologia. A escola seria o instrumento de reprodução das relações de
produção da sociedade capitalista, inculcando em todas as crianças os
“saberes práticos” da ideologia dominante. Para estes autores, os
marginalizados são a classe trabalhadora.
3. Teoria da escola dualista
A escola seria dividida em duas redes, que correspondem à divisão da
sociedade capitalista: a burguesia e o proletariado. A escola teria duas funções
básicas: “contribuir para a formação da força de trabalho e para a inculcação
da ideologia burguesa”. Os autores entendem que há uma ideologia do
proletariado, porém ela está fora da escola.

Referências

SAVIANI, D. Escola e Democracia,

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