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JORNADA NO IMPÉRIO

Traduzido do original em inglês:


THE WOLF FROM SCOTLAND
THE STORY OF ROBERT REID KALLEY -
PIONEER MISSIONARY

Copyright © Evangelical Press

ISBN N o. 85-99145-15-0
Primeira edição em português © 2006 Editora Fiel

Todos os direitos reservados. É proibida a


reprodução deste livro, no todo ou em parte,
sem a permissão escrita dos Editores.

Tradução: Maurício Fonseca dos Santos Junior


Revisão: Marilene Paschoal
Ana Paula Eusébio Pereira
Francisco Wellington Ferreira
Diagramação: Christiane de Medeiros dos Santos
Capa: Edvanio Silva
Direção de Arte: Rick Denham

EDITORA FIEL DA
MISSÃO EVANGÉLICA LITERÁRIA
Caixa Postal 81
12201-970 São José dos Campos - SP
“S enhor, Tu conheces todas as minhas fraquezas,
toda a minha insensatez, meus pecados, minha completa
incapacidade. Mas aqui estou. Oh! toma-me; faze de
mim segundo a tua vontade; envia-me onde quiseres,
faze comigo o que teus olhos vêem ser o melhor, e apenas
deixa-me sentir que Tu estás comigo, que Tu me amas e
me usas, e Tu serás glorificado pelas tuas obras feitas
através de mim!”

Dedicatória do Dr. Kalley,


após sua conversão
D R . R OBERT R EID K ALLEY
ÍNDICE

PREFÁCIO ......................................................................................... 7
INTRODUÇÃO .................................................................................... 11
PRÓLOGO ........................................................................................ 13
1 COMO TUDO COMEÇOU ............................................................... 15

PARTE 1 - MADEIRA
2 A CHEGADA EM MADEIRA ............................................................ 25
3 O CHAMADO DE DEUS ................................................................ 31
4 TEMPO DE PLANTAR E DE COLHER ............................................... 39
5 A TEMPESTADE SE APROXIMA ...................................................... 49
6 NASCE UMA IGREJA ..................................................................... 63
7 A TEMPESTADE DESABA .............................................................. 69
8 RENASCIDA DAS CINZAS .............................................................. 81

INTERLÚDIO
9 UMA PAUSA E UMA PESSOA ......................................................... 93
PARTE 2 - BRASIL
10 A ESCOLHA É FEITA ................................................................... 105
11 A TERRA DA CRUZ SEM CRISTO .................................................. 111
12 UMA PORTA ABERTA .................................................................. 121
13 GERNHEIM ................................................................................. 127
14 VENHA E AJUDE-NOS .................................................................. 133
15 OPOSIÇÃO E ENCORAJAMENTO .................................................... 139
16 EXPANSÃO ALÉM DO RIO ............................................................ 149
17 TRABALHOS COROADOS COM SUCESSO ........................................ 157
18 UM NOVO AJUDANTE E UM NOVO LAR ....................................... 167
19 LIDANDO COM OS PROBLEMAS .................................................... 173
20 UMA PAUSA BEM MERECIDA ...................................................... 181
21 ATIVIDADE RENOVADA NO RIO .................................................... 189
22 ALICERÇANDO A IGREJA NO RECIFE .............................................. 199
23 ÚLTIMOS DIAS NO BRASIL .......................................................... 213

PARTE 3 - MISSÃO CUMPRIDA


24 CAMPO VERDE .......................................................................... 221
25 NOVIDADES DO BRASIL .............................................................. 227
26 MISSÃO CUMPRIDA .................................................................... 237
EPÍLOGO .................................................................................... 243
APÊNDICE 1 ............................................................................... 249
APÊNDICE 2 ............................................................................... 251
APÊNDICE 3 ............................................................................... 253
PREFÁCIO
A lgum tempo atrás, a Sociedade Evangélica das Igrejas
Congregacionais me pediu que escrevesse uma biografia do Dr. Robert
Reid Kalley, missionário pioneiro em Madeira e no Brasil. Neste último
país, sob sua inspirada orientação, uma igreja nacional desenvolveu-
se, tendo uma forma abrasileirada de igreja congregacional em toda a
sua administração. Não era algo simplesmente importado da Inglaterra
ou dos Estados Unidos, e sim tão natural ao Brasil quanto as florestas
tropicais da Amazônia. Para o Dr. Kalley isto já era uma grande
conquista.
Compilar esta biografia foi um trabalho de grande amor, desde
que me tornei mais um de uma longa linhagem de “herdeiros” espirituais
e eclesiásticos dos árduos trabalhos de Dr. Kalley. No Brasil, pude
conhecer intimamente alguns dos contemporâneos do doutor: Pastor
Fanstone, que colocou os fundamentos da Igreja Pernambucana em
Recife; Dona Albertina, uma enteada do vendedor ambulante de
livros cristãos que trouxe o evangelho para Pernambuco; Viana, que
se lembrava de quando era criança e sentava-se no colo da Sra.
Kalley na escola dominical; Manoel de Souza Andrade, o mais idoso
estadista da Igreja Pernambucana, que traçou suas raízes espirituais
à visita de Dr. Kalley ao Recife; a família Braga, filho e neto do
8 JORNADA NO IMPÉRIO

patriarca José Fernandes Braga. Muito do que hoje sei a respeito do


Dr. Kalley e sua esposa, Sarah, aprendi em conversas com essas
pessoas.
Sinto-me em débito com as obras de outras pessoas – O Apóstolo
da Madeira, do Dr. Michael P. Testa, e o manuscrito ainda não
publicado do Reverendo Manoel Porto Filho, O Apóstolo em Três
Continentes – A Epopéia das Ilhas da Madeira, sendo que ambas
as obras estão em português e extremamente bem documentadas.
Alguns sentirão que eu deveria ter citado minhas fontes com detalhes,
como fizeram estes dois notáveis escritores, mas sinto-me escrevendo
para o público em geral, e constantes referências e notas de rodapé,
ainda que sejam essenciais aos estudiosos, podem ser uma distração,
e até mesmo algo irritante, para os leitores comuns.
Também devo confessar minha imensa dívida com a Canning
Library, em Londres, por ter me emprestado importantes livros que,
provavelmente, eu não acharia em nenhum outro lugar, e igualmente
com a Igreja Evangélica Congregacional Fluminense por me dar acesso
à sua extensa biblioteca. E, com relação a isto, sou especialmente
grato à bibliotecária, Dona Esther Monteiro, por sua competência e
paciência em tornar disponível para mim um rico material sobre
Kalley.
Quando estava escrevendo, tentei sempre conservar em mente
que estava escrevendo não somente para leitores brasileiros, mas
também para britânicos, e que estes, em sua maior parte, ignoram
completamente o que diz respeito à Madeira e ao Brasil. Madeira é
conhecida apenas como uma atração turística, e até mesmo sua
localização no globo é desconhecida! O Brasil, o maior dos países do
terceiro mundo, com seus múltiplos problemas, é um pouco mais
conhecido devido à proeminência que tem recebido na mídia. Ao público
geral, no entanto, seu passado é algo encoberto pela névoa do tempo;
de forma que faço freqüente menção aos eventos históricos mais
relevantes.
Confesso ter sucumbido à tentação de introduzir alguns breves
relatos sobre os cooperadores dos Kalleys, tanto os da Madeira quanto
os brasileiros. Sem a dedicação e sacrifício deles, o doutor e sua esposa
poderiam nunca ter atingido o que conseguiram. Acredito que eles
PREFÁCIO 9

gostariam de dar total crédito a estes ajudantes na história da vida


deles.
É impossível narrar este capítulo da história das “missões
estrangeiras” sem fazer qualquer referência à perseguição sofrida
pelo casal de missionários e seus convertidos. Escrevo com
conhecimento e experiência pessoais da violência resultante de tal
fanatismo religioso – tendo sido levado em custódia pela polícia,
ameaçado de expulsão do país como alguém “indesejado”, apedrejado,
tendo de passar às pressas por entre uma multidão irada e hostil, etc.
– uma série completa de perseguições. A situação mudou drasticamente
logo após o Segundo Concílio do Vaticano e, desde então, continua
mudando devido ao apoio dos clérigos que defendem a Teologia da
Libertação na Igreja Católica Brasileira. Os protestantes não são mais
chamados “hereges”; são “irmãos separados”.
Finalmente, devo agradecer sinceramente a todos aqueles que
têm me encorajado a escrever e a completar este trabalho, e de uma
forma muito especial devo agradecer à minha esposa, Brenda, com
quem estou em grande dívida por seus comentários construtivos e por
seu árduo trabalho digitando meu manuscrito.

W. B. Forsyth
Wiveliscombe.
Dezembro de 1988

Finalmente, Jornada no Império (The Wolf from Scotland)


foi publicado em português, no Brasil. Isto é algo que eu desejava
há muito tempo, mas faltavam os recursos financeiros para
realizá-lo. Agradeço a iniciativa da Editora Fiel em assumir a
responsibilidade total pela publicação do livro.
Espero que este livro seja uma bênção para muitos e que
esta edição faça parte das celebrações do 150º aniversário da
chegada do Dr. Kalley ao Brasil.
W. B. Forsyth
dezembro de 2005
INTRODUÇÃO
M adeira e Brasil! O que estes dois países têm em comum?
Ambos foram descobertos e colonizados pelos portugueses e, de acordo
com os decretos do pacto colonial, deveriam ser também cristianizados.
No século dezesseis, ambos eram parte do vasto território de Portugal.
Há também uma grande ligação entre eles na história do trabalho
missionário: Dr. Robert Reid Kalley foi o pioneiro “fundador de igrejas”
tanto em Madeira quanto no Brasil.
O Dr. Robert Reid Kalley (1809-1888) é desconhecido para a
maioria, até mesmo para aqueles mais versados na história das mis-
sões – um fato bastante surpreendente, quando muitos dos missionários
contemporâneos dele são homens bem conhecidos e grandemente
estimados. William Carey foi para a Índia em 1793 e Robert Morrison
para a China em 1807. Adoniram Judson navegou até a Birmânia em
1812, e John Williams para a Polinésia em 1817. Robert Moffat dei-
xou sua terra e seguiu para a África em 1816, seguido por David
Livingstone em 1841. Estes, e muitos outros, eram nomes familiares
nos círculos missionários nas igrejas, e foram aclamados por toda a
nação como homens de grandes realizações. Livingstone foi enterra-
do na Capela de Westminster! O Dr. Kalley, igualmente notável,
permaneceu desconhecido e foi enterrado num canto qualquer de um
12 JORNADA NO IMPÉRIO

cemitério em Edimburgo, que é raramente visitado, e tudo o que ele


conseguiu realizar no campo missionário permanece não reconhecido
até os dias de hoje.
Por quê? Muitas razões podem ser apresentadas para esta rele-
gação ao esquecimento, mas entre elas, duas são de maior importância.
Primeiro, temos o fato de que ele não foi para um local que fosse
considerado genuinamente como campo missionário – uma terra pagã
como a “África em trevas” ou a Índia, China, Birmânia ou os mares
do sul. Estes eram países pagãos, habitados por idólatras, seguidores
de falsos cultos, que andavam na escuridão e, por isso mesmo, preci-
savam urgentemente da luz do evangelho. Por outro lado, Madeira e
Brasil, e também todas as outras colônias portuguesas, eram conside-
rados “cristãos”, domínios da “Santa Madre Igreja”, e como tal não
precisavam da “conversão protestante”. Uma segunda razão porque
o Dr. Kalley permaneceu no anonimato é que ele não representava
uma igreja ou sociedade missionária. Ele era independente; não tra-
balhou sob o patrocínio de uma igreja especificamente, nem era
dependente da qualquer sociedade missionária para seu sustento. O
Dr. Kalley era um homem de recursos; na linguagem de seus dias, um
missionário aristocrata. Ele, portanto, não teve a publicidade que uma
sociedade missionária poderia lhe ter dado; também deve ser dito que
ele mesmo nunca buscou ou desejou o reconhecimento público. Na
verdade, ele evitava isso.
Isto nos leva a um terceiro fator – a personalidade do próprio
homem. Ele mesmo se ocultava, colocando-se em segundo plano; era
um homem de profunda humildade. Como Moisés, Dr. Kalley era
“muito manso”; um leão, quando os interesses do Senhor e seu reino
estavam em jogo; porém, “humilde e manso de coração”, quando
interesses de natureza simplesmente pessoal eram ameaçados. Era
bem conhecido e muito admirado apenas por um limitado círculo de
amigos; fora deste círculo, era desconhecido e toda a sua dignidade
não era reconhecida.
Quem, então, era Dr. Robert Reid Kalley? O que se segue é uma
tentativa de tornar conhecidos a vida e o trabalho de um dos grandes
pioneiros de Deus no Brasil e de dar ao doutor a honra devida.
PREFÁCIO 13

PRÓLOGO
N o segundo domingo de agosto de 1846, uma missa aconteceu
na rústica capital da ilha da Madeira, Funchal, em honra à padroeira,
Nossa Senhora do Monte. Era um evento anual, mas naquele ano a
excitação entre os devotos foi extremamente exaltada. A catedral
estava lotada e a multidão se aglomerava até mesmo na praça em
frente. Do altar, o cônego da catedral discursava para a multidão,
incitando-a a ter atitudes mais violentas. O clima começava a ficar
bastante tenso. Havia murmurinhos nervosos (o veneno do ódio faná-
tico) crescendo em volume, conforme o discurso se aproximava de
seu final. A multidão impaciente esperava o sinal para agir. Do lado de
fora, na praça, o sinal foi dado: um foguete zuniu no ar e explodiu com
um barulho que podia ser ouvido por toda a cidade; e suas reverbera-
ções foram realmente ecoadas por todo o país. O dia de São Bartolo-
meu, em Madeira, havia chegado. Liderados pelo cônego, ainda em
suas vestimentas sacerdotais, a multidão lançava-se para a praça da
catedral e continuava seguindo pelas ruas estreitas em direção ao
subúrbio de Santa Luzia. Frases ensaiadas eram cantadas por todos:
“Longa vida à Nossa Senhora do Monte”; “Morte aos calvinistas”;
“Longa vida à Santa Madre Igreja”; “Morte aos leitores da Bíblia”;
“Morte a Kalley – o Lobo da Escócia”.
14 JORNADA NO IMPÉRIO

O que Kalley fizera para atrair sobre si a fúria da Igreja Católica


e a violência da multidão? Nada havia no início de sua vida e em sua
formação que pudesse indicar o quão honrada, e muitas vezes
turbulenta, sua vida seria.
CAPÍTULO 1
COMO TUDO COMEÇOU
O Dr. Kalley nasceu em Mount Florida, Glasgow, em 8 de
setembro de 1809. Era o filho de Robert Kalley, um rico e bem sucedido
mercador, e de sua esposa, Jane Reid Kalley. Sua irmã Jane havia
nascido apenas um ano antes. Seus pais eram membros da Igreja da
Escócia, e àquela igreja o jovem Robert Reid foi apresentado em 16
de outubro de 1809.
Antes que Robert completasse um ano de idade seu pai faleceu, e
dois anos depois sua mãe casou-se com David Kay, também viúvo e
com quatro filhos. Alguns anos depois, em 1815, a mãe de Robert
também veio a falecer, mas tanto Jane quanto Robert foram muito
bem tratados na casa de seu padrasto, o duas vezes viúvo Sr. Kay.
Eles e os filhos de Kay eram uma grande e feliz família. Anos mais
tarde, o próprio Robert confessou o quanto ele devia a seu padrasto:
“Quando eu era jovem ele foi um verdadeiro pai para mim: perseverou
comigo, dando-me uma educação moral e espiritual através de seu
exemplo e preceitos – juntamente com muita oração”.
Robert freqüentou primeiro a Rennie School, depois foi para a
Glasgow Grammar School e, finalmente, com apenas dezesseis anos,
foi matriculado no curso de Artes na Glasgow University. Seus estudos
incluíam retórica, latim e grego avançados – as línguas que o colocariam
16 JORNADA NO IMPÉRIO

numa posição vantajosa, mais tarde, em sua vida. A respeito de sua


educação, ele escreveu: “Quando eu era jovem, minha educação tinha
o propósito de preparação para o ministério na Igreja da Escócia,
visto que meu avô havia sido o patrono da comarca onde fica sua
propriedade, e o salário de um ministro era um valor considerável
(350 libras por ano). Mas, tornando-me um infiel ao ir à faculdade,
não podia suportar o pensamento de ser obrigado a pregar aquilo que
eu considerava nada mais que um monte de mentiras. Portanto, desisti
completamente da idéia de ser um ministro da Palavra e fui estudar
medicina”.
Ele matriculou-se no Laboratório Farmacêutico ligado à Glasgow
Royal Infirmary, recebendo seu diploma em 1o de setembro de 1827.
Dois anos mais tarde, especializou-se em Farmácia e Cirurgia pela
Glasgow Faculty of Medicine and Surgery. Porém, foi alguns anos
depois, em 1838, que conseguiu seu diploma na Glasgow University e
tornou-se um “Doutor em Medicina”. Seus estudos confirmaram sua
descrença. Mais tarde, ele confessou que, quando olhava, pelo mi-
croscópio, para todas aquelas maravilhas invisíveis aos olhos nus ou,
então, quando, pasmado, observava os céus através de um telescópio,
vendo a vastidão do universo, simplesmente não conseguia ver Deus
em todas estas coisas. Ele não acreditava na existência de um ser
Eterno, Criador e Sustentador do universo. Deste período, ele escre-
veu: “Pensei, então, que o cristianismo era apenas uma desilusão, e
fazer uma confissão de acreditar nisso era o suficiente para provar
que um homem certamente é ou um tolo ou um patife”.
Em 1829, como um jovem graduado, ganhou experiência servindo
como médico em navios que navegavam de Glasgow para Bombaim
e para o Extremo Oriente. Pouco se conhece sobre as viagens que
fez neste período, mas sabe-se que um dos portos que visitou foi na
Ilha da Madeira. Ele escreveu: “Passei por lá durante minha viagem
para as Índias Orientais (1831)… e, se alguém me dissesse que no
futuro eu seria preso lá (em Funchal) por ter distribuído Bíblias e
ensinado as suas doutrinas, eu, provavelmente, pensaria nisto como o
mais improvável que poderia ser preconcebido a meu respeito”.
Visitar Madeira era uma mera rotina para os marinheiros, mas
para o Dr. Kalley foi algo que teria uma grande influência na história
COMO TUDO COMEÇOU 17

de sua vida. Depois, foi chamado para outra viagem, mas recusou,
felizmente, como se verificou mais tarde, visto que o navio no qual
deveria ter ido perdeu-se no meio de uma tempestade. Esta foi a
segunda vez que escapou da morte. Certa vez, quase morrera afogado,
ainda garoto, quando nadava junto de outros meninos, no rio Clyde.
Naquela ocasião, ele se encontrava em dificuldades e foi salvo por
alguém que passava por ali.

PASSOS RUMO À FÉ
O Dr. Kalley começou a emergir do conhecimento incompleto a
partir do momento em que se estabeleceu como médico em Kilmar-
nock, Ayrshire, em 1832, onde, apesar de sua juventude, logo conseguiu
ter uma reputação de excelente cirurgião. Socialmente ele também
tinha sucesso. Era extrovertido e um amante dos esportes – muito
popular em todas as festas, de forma que logo recebeu o apelido de “o
médico dançarino de Kilmarnock”. Era ainda um ateísta e fazia ques-
tão de mostrar isto a todos, mas sua nova experiência como médico
iria penetrar naquilo que ele considerava ser inquestionável – sua au-
toconfissão como pagão. Certa vez, um paciente o impressionou muito;
era um homem humilde e muito pobre, embora fosse rico em fé, e ele
testemunhou para o doutor a respeito da graça salvadora de Jesus
Cristo. Não havia dúvidas a respeito da sinceridade daquele homem e
da realidade de sua fé em Cristo.
Outra impressão mais forte ainda foi deixada no doutor pelo
testemunho de uma paciente, uma mulher também muito pobre,
morrendo de câncer. Sua fé triunfante no meio de tanta miséria e dor
impressionou o jovem médico mais do que ele queria admitir. Ela
suportou suas provações de pobreza e dor não meramente com
serenidade, mas com regozijo! O quarto onde ela estava poderia estar
precisando das coisas mais básicas, mas para o doutor, quando fazia
suas freqüentes visitas, o quarto parecia ter uma qualidade etérea,
algo que sua mente científica não podia explicar. O Senhor que está
nos céus fazia sua presença e glória ser uma realidade para sua humilde
serva, no momento das terríveis dores. O seu testemunho balançou os
18 JORNADA NO IMPÉRIO

alicerces da descrença do Dr. Kalley. Poderia realmente haver um


Deus? “Leia o Livro”, ela pedia insistentemente; “está tudo no Livro”.
Poderia ser Cristo e todas aquelas coisas verdadeiras? Ele começou
a estudar as Escrituras diligentemente, num esforço para descobrir o
segredo da vitória daquela mulher sobre a destruição que a doença
produzia, o desamparo da pobreza e, ultimamente, a própria morte.
A fé não veio de forma fácil ou dramática; ela foi se desenvolvendo
lentamente. Ele foi ajudado a seguir os passos rumo à fé por um livro,
Night Thoughts on Life, Death and Immortality (Meditações
Vespertinas sobre a Vida, Morte e Imortalidade), famoso nos dias
em que foi publicado e escrito por Edward Young (1683-1765). Este
livro era resultado de tragédia e sofrimento; o autor havia perdido a
esposa e sua enteada, o que o deixou desolado. O Dr. Kalley confessou
que o capítulo da “Nona Noite”, intitulado “Consolação”, “compeliu-
me a confessar a existência de algo eterno”.
O texto desta parte do livro argumenta logicamente: “O que sou
eu? E de onde vim? Apenas sei que existo e nada mais; e uma vez que
existo, só posso concluir que sou algo eterno”. A meia-irmã de Kalley,
Mary, uma cristã comprometida, ao se corresponder com seu irmão,
recomendou fortemente que ele lesse os trabalhos de autores com
uma perspectiva mais evangélica.
Foi um livro de uma categoria muito diferente que o impeliu em
direção a uma fé mais completa – Fulfilled Prophecy (Profecia
Cumprida), escrito pelo Dr. Keith. Vestígios de dúvida sobre a fé
cristã e preocupação quanto ao que ele considerava ser a ingenuidade
dos cristãos professos ainda obscureciam sua mente. “Mas, enquanto
eu lia as predições a respeito dos judeus”, escreveu ele, “e o
cumprimento literal de todas elas, deparei-me com um argumento
razoável em favor da revelação”. Isto o levou a uma investigação
ainda mais intensa das profecias, especialmente Deuteronômio, e,
então, a uma pesquisa nas outras áreas da evidência cristã, o que
resultou em uma convicção “de que o ateu é mais crédulo que o
cristão”.
Anos depois, em 1845, ele falou à Assembléia Geral da Igreja
Livre da Escócia nos seguintes termos: “Eu era um ateu, e me deleitava
na frieza, na escuridão, na sensação de declarar abertamente minha
COMO TUDO COMEÇOU 19

descrença. Quando descobri, digo-o para a minha satisfação, que há


um Deus e que este livro [apontando para a Bíblia] vem de Deus,
senti que todo cristão é chamado para entrar naquele campo de serviço
no qual ele pode usar, para a glória de Deus, os variados talentos com
que cada um foi dotado pelo próprio Deus. Quanto a mim, tinha de
pensar seriamente de que forma um médico cristão como eu poderia
melhor servir o Filho de Deus”.

CONVERSÃO E CHAMADO MISSIONÁRIO


Todo o estilo de vida do Dr. Kalley havia mudado completamente.
Ele se tornou um membro ativo da Igreja da Escócia em 1833, tendo
sido admitido para a comunhão. Mas, não estando plenamente satisfeito
em apenas pertencer a uma igreja, ele tomou a iniciativa de ajudar
aqueles que mais necessitavam de auxílio. Reuniu um grupo de rapazes
pobres de seu dispensário e os ensinava nas noites de domingo e quinta-
feira. Ele datava sua genuína conversão daquele período (1834). A
igreja estabelecida parecia não lhe dar muito encorajamento para
continuar com este trabalho. Um grupo de ministros o condenou por
“intromissão em um trabalho que ele, como médico cristão, não tinha
o direito de fazer, reunindo um grupo de rapazes pobres e ignorantes
para ensinar-lhes as Escrituras”. A ajuda, no entanto, viria de ministros
de igrejas, muitos dos quais mais tarde abandonariam a igreja
estabelecida durante o Rompimento.
Assim foram os anos que levaram a este Rompimento. A Igreja
da Escócia estava no meio de um caloroso e pungente debate,
principalmente quanto à questão da interferência e do amparo do Estado
em oposição a um tipo de igreja mais livre e democrática – um debate
que culminaria num cisma devastador. Centenas de clérigos e leigos,
liderados pelo Dr. Thomas Chalmers, se levantaram e saíram da
Assembléia Geral para formar a Igreja Livre da Escócia. A situação
era desoladora e muito triste para o jovem convertido. Toda esta
experiência influenciaria sua vida mais tarde em relação a como
administrar uma igreja.
Ao mesmo tempo, o movimento missionário estrangeiro estava
20 JORNADA NO IMPÉRIO

crescendo. Notícias dos esforços pioneiros de Robert Morrison, a fim


de levar o evangelho à China, mexeram com o entusiasmo do jovem
médico sobre evangelização. Próximo ao tempo de sua conversão, as
notícias da morte solitária de Morrison, em Canton, chegaram ao Reino
Unido. Que vida proveitosa ele tivera! Morrison obtivera sucesso em
lançar as bases sobre as quais outros iriam construir, e realmente
construíram, quando a China abrisse suas portas para a pregação do
evangelho, oito anos depois. Em 1818, Morrison tinha terminado a
tradução da Bíblia em chinês e três anos mais tarde produziu um
dicionário. Estas são as duas pedras angulares do esforço missionário
– a Bíblia e a língua. Se a situação da Igreja da Escócia entristecia o
Dr. Kalley, as favoráveis perspectivas oferecidas no serviço missionário
em outros países o animavam e atraíam.
Em uma revista publicada pela Sociedade Missionária de Londres,
ele leu um apelo solicitando médicos missionários. Para ele, aquele
apelo era algo pessoal, e o chamado era irresistível. Uma única
consideração agora era importante em seus pensamentos –- a insistente
demanda do próprio Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o
evangelho”, com a seguinte promessa: “E eis que estou convosco
todos os dias até à consumação do século”. O Dr. Kalley enviou um
requerimento à Sociedade Missionária da Igreja da Escócia pedindo
para servir na China. A Sociedade expressou seu pesar: “Não nos
parece certo entrar em qualquer campo de trabalho [missionário] que
não seja aqueles nos quais a Igreja da Escócia já está envolvida”.
Nada, porém, o desanimava, e ele fez um novo requerimento, desta
vez, para a Sociedade Missionária de Londres (SML), em 1837. A
SML precisava urgentemente de um médico missionário na China,
tornando o seu pedido mais que bem-vindo. Ele teve de viajar muitas
vezes para Londres, a fim de ser entrevistado pelo Comitê de Diretores,
e, finalmente, foi aceito para o serviço na China. A minuta do Comitê
de 7 de novembro de 1837 diz: “Foi decidido que o Dr. Robert Reid
Kalley, da Igreja da Escócia, Kilmarnock, indicado pelo pastor e
Reverendo John Ward, ministro da Igreja Congregacional de lá, seja
aceito como missionário assistente e médico para o trabalho na China”.
O Comitê deu-lhe permissão para ficar na Escócia até 1839, “a fim de
serem incrementados seus conhecimentos, tanto médicos quanto
COMO TUDO COMEÇOU 21

teológicos”. Ele vendeu imediatamente sua casa e sua clínica em


Kilmarnock para o Dr. Miller, seu futuro cunhado, e matriculou-se na
Glasgow University para completar seus estudos de acordo com os
desejos da Sociedade. Dr. Miller, que se casou com Jane Kalley,
encarregou-se de continuar com as aulas aos garotos pobres de
Kilmarnock.

UMA PORTA É FECHADA


Então, um grande obstáculo surgiu. O Dr. Kalley noivou com uma
jovem conhecida sua há muitos anos e cujo excelente caráter cristão
e testemunho já o haviam impressionado, mesmo quando ele ainda
era incrédulo. Seu nome era Margareth Crawford, de Paisley. O doutor
escreveu muito entusiasmado para a SML a respeito dela – sua
dedicação a Cristo e à sua causa; sua aptidão para o trabalho
missionário, ótima educação, larga experiência como secretária na
empresa de seu pai; sua extrovertida e alegre disposição; seu vívido
interesse em missões; sua mente treinada e disciplinada que a
capacitaria a escrever, ensinar ou, até mesmo, engajar-se em outros
trabalhos que o campo missionário demandasse. Havia, no entanto,
um grande obstáculo: sua saúde era frágil. Seu médico, porém, havia
feito um bom relatório a respeito de sua situação, dizendo que, embora
não fosse robusta, ela havia, desde a infância, gozado de boa saúde.
Havia também outro fator que o Dr. Kalley pode não ter considerado
seriamente: ela havia sido criada em circunstâncias muito confortáveis
– o que nem sempre era o melhor tipo de preparação para as
dificuldades do campo missionário! O pastor dela também escreveu
uma excelente carta de referência: ela fora apresentada ainda criança
à igreja, por ele; havia participado de suas aulas para jovens e, vale
citar: “Eu tenho tido boas oportunidades de verificar suas habilidades
e caráter. Ela possui talentos naturais muito respeitáveis e desde sua
juventude tem se conduzido com grande retidão. Ela foi desde cedo
iniciada no conhecimento das Sagradas Escrituras, é evangélica em
suas atitudes e, eu acredito, decididamente piedosa. Seu coração tem
sido levado, há algum tempo, em direção ao trabalho missionário, para
22 JORNADA NO IMPÉRIO

o qual eu a considero muito bem preparada” (Paisley, 27 de janeiro de


1838).
A SML, no entanto, não estava impressionada. As regras da
missão estipulavam que nenhum candidato aceito para o serviço
missionário poderia iniciar qualquer relacionamento com vistas a
casamento, sem a aprovação e permissão expressa do Comitê. E esta
regra havia sido violada. Em correspondência com a missão, o Dr.
Kalley expressou seus profundos sentimentos por qualquer problema
ou inconveniência que seu noivado pudesse ter causado e reembolsou
a missão por qualquer custo proveniente de seu pedido e aprovação
para o serviço. A SML não tinha outra alternativa a não ser aceitar
sua resignação. A minuta da missão, datada de 30 de janeiro de 1838,
termina com uma graciosa nota: “Se alguma vez ele sentiu ser sua
obrigação servir no campo missionário sob o patrocínio da SML, então
uma atenção especial deve ser dada a qualquer pedido que ele possa
fazer”.
O jornal Glasgow Herald, em sua edição de 26 de fevereiro de
1838, trazia o seguinte anúncio: “Casado em Oaksham House, Pais-
ley, no dia 22 deste mês, Ilmo. Sr. Robert R. Kalley, cirurgião, com
Margareth, filha mais velha do falecido Ilmo. Sr. John Crawford, de
Paisley”.
Outro fator importuno logo surgiu. Pouco tempo antes do casa-
mento, Margareth pegou um resfriado que logo se desenvolveu em
pneumonia, e descobriu-se que era o início de uma tuberculose, doen-
ça com a qual ela teria de lutar até o fim de sua vida. A porta para o
serviço missionário na China estava agora completamente fechada,
mas o Dr. Kalley nutria a esperança de que esta situação não perdu-
raria por muito tempo. Ainda assim, a China recebeu uma grande
ajuda de seu ministério. Em janeiro de 1838, ele foi convidado para
falar numa reunião da Sociedade Missionária da Igreja da Escócia, na
qual falou sobre a necessidade urgente de se alcançar o Extremo
Oriente com o evangelho. Conforme ele falava, um jovem rapaz sen-
tiu o chamado para se oferecer ao serviço missionário. Aquele jovem
rapaz era William Chalmers Burns, que, em 1846, finalmente chegou
à China com o apoio da Sociedade Missionária Presbiteriana Inglesa
e iluminou um caminho na China pelo qual outros poderiam seguir.
PARTE 1
MADEIRA
CAPÍTULO 2
A CHEGADA EM
MADEIRA
O Dr. Kalley, devido ao amor e à lealdade por sua esposa, deu
à saúde dela total prioridade. Durante os meses de verão tornou-se
evidente que ela deveria ser poupada do rigoroso inverno escocês.
Seu marido não podia pensar num clima melhor para ela que o de
Madeira, a melhor das ilhas, “a Pérola do Atlântico”, “um jardim
flutuante”, e o lugar ideal para se recuperar depois de uma grave
doença. Realmente, um panfleto daquela época declarava: “Madeira
é um refúgio para doentes de muito bom gosto!” As altas montanhas
protegem o sotavento da ilha dos ventos gelados do nordeste. O porto
de Funchal localiza-se em um anfiteatro natural aos pés destas
montanhas, um lindo e magnífico local, a capital da ilha.
Em outubro de 1838, os Kalleys iniciaram a viagem de navio de
Greenock para Funchal, com a intenção de passar o inverno ali.
Estavam acompanhados da mãe de Margareth e suas duas irmãs,
uma das quais também estava doente e precisando de um clima mais
ameno. Não pensavam em fixar residência permanente na ilha, mas o
Dr. Kalley também não pensava em aceitar qualquer emprego na
Escócia. Ali, lhe fora oferecido um cargo importante, o qual poderia
26 JORNADA NO IMPÉRIO

assumir após os poucos meses de convalescença em Madeira.


Entretanto, ele recusou. A China ainda era seu objetivo principal,
mesmo que no futuro mais imediato tivesse de permanecer em Madeira.
Mal sabiam eles que passariam oito anos na ilha e muito menos que o
ministério deles lá resultaria no que o Dr. Andrew Bonar chamou de
“o maior acontecimento na história moderna das missões”.

A ILHA DA MADEIRA
Madeira foi descoberta por João Gonçalves Zarco, em 1419, um
dos intrépidos marinheiros da famosa escola de navegação em Sa-
gres, Portugal, fundada e supervisionada pelo Príncipe Henrique, o
Navegador (1349-1460). A tradição diz que o Príncipe Henrique ou-
viu sobre a “ilha paradisíaca” de uma forma extraordinária. Um lendário
casal inglês, Robert e Ann, foi impedido por seus pais de continuar
com seu romance. Eles decidiram fugir do país e embarcar para o
continente. Porém, fortes tempestades tiraram o navio de seu curso, e
eles finalmente foram parar na costa da ilha de Madeira. Eles haviam
descoberto um paraíso, tão maravilhosas eram as belezas naturais:
montanhas, florestas, flores, pássaros, etc. Junto dos marinheiros eles
exploraram o interior da ilha, mas, ao retornarem para a costa, desco-
briram que o barco deles havia sido carregado por uma tempestade.
Os marinheiros então iniciaram o árduo trabalho de preparar algum
tipo de embarcação que fosse própria para o alto-mar, mas o romance
do jovem casal foi de vida curta. Ambos morreram em pouco tempo,
um logo após o outro, e foram enterrados pelos marinheiros num lugar
que agora é o porto de Machico. A tripulação finalmente se lançou ao
mar, mas foram logo capturados por piratas bárbaros. Porém um de-
les conseguiu escapar das mãos dos piratas e chegou a Portugal. Ele
informou o Príncipe Henrique da descoberta, e como resultado, a ex-
pedição de Zarco foi montada.
Zarco não encontrou qualquer habitante na ilha; apenas densas
florestas cobriam as grandes montanhas vulcânicas. Ele decidiu dar
um nome bem descritivo à ilha, Madeira. Um outro desses exploradores
do mar também tinha ligações bem próximas com Madeira. Cristóvão
A CHEGADA EM MADEIRA 27

Colombo casou-se com uma mulher de família madeirense e por alguns


anos chegou inclusive a morar lá, no Porto Santo.
A posição geográfica da ilha, que se tornaria a principal rota de
navios da Europa para as Américas Central e do Sul, África e Extremo
Oriente, fez dela algo de extrema importância estratégica. Ela se tornou
um porto de parada obrigatória para todos os navios, pois era a última
oportunidade para comprar suprimentos. Na virada do século dezenove,
até cinqüenta ou sessenta navios podiam ancorar ao mesmo tempo no
porto protegido na Baía de Funchal, para comprar produtos frescos,
água e até mesmo vinho.
A ilha para a qual os Kalleys estavam indo era realmente solo
estrangeiro, mas com uma forte presença britânica. Portugal é o mais
antigo aliado da Inglaterra, sendo que a aliança data do casamento de
Phillipa, filha de John de Gaunt, com João, rei de Portugal, em 1387.
No século dezenove, Madeira era, sem sombra de dúvidas, uma colônia
comercial do Reino Unido; um século antes, ela tinha quase se tornado
uma colônia britânica de fato! Quando Charles II casou-se, em 1662,
com Catarina de Bragança, uma princesa portuguesa, recebeu um
dote de 500.000 libras, juntamente com Tangier e – de imensa
importância para a Grã-Bretanha – a ilha de Bombaim, que se tornou
a pedra fundamental na construção do Império Indiano. Registros
mostram que Madeira foi também considerada para ser inclusa no
dote! Caso isso tivesse ocorrido, teria sido uma valiosa adição para as
colônias britânicas.
Logo após a fundação de Funchal em 1508, a Grã-Bretanha havia
forjado fortes relações comerciais com Madeira. No século dezoito, a
Fábrica Inglesa, uma corporação de homens de negócio britânicos,
havia se tornado o fator mais importante na economia da ilha da
Madeira. A Fábrica Inglesa dominava todo o comércio da ilha – açúcar,
vinho, tecidos, bordados, trabalhos de vime, velas e carregamentos
em geral. Ela quase constituía um Estado dentro de outro Estado, com
seu próprio clube, igreja, capelão, médicos, hospital, cemitério e
programas de caridade, incluindo pensão para os exilados em
necessidade, juntamente com tratamento médico e sepultamento
gratuitos. A Fábrica Inglesa era muito restrita. Ninguém poderia se
tornar um membro da corporação “a menos que tivesse um
28 JORNADA NO IMPÉRIO

estabelecimento comercial respeitável, por seis anos ininterruptos”!


Durante as Guerras Napoleônicas, a importância estratégica da ilha
da Madeira era tão vital para os interesses britânicos, especialmente
para a Marinha, que uma força militar britânica, com milhares de
homens, ocupou a ilha como uma medida de precaução, primeiramente
durante os anos de 1801 e 1802, depois entre 1808-1814, quando
Napoleão invadiu a Península Ibérica.

OS KALLEYS CHEGAM EM MADEIRA


A entrada para Funchal era bastante conhecida pelo Dr. Kalley,
mas para sua esposa e sua família deve ter sido uma experiência
emocionante. Um escritor contemporâneo descreve a chegada à ilha
da seguinte maneira: “A aproximação à Madeira pelo mar era
comovente. Depois que o navio contornava o Cabo de Garajua, a
vista da cidade de Funchal era gradualmente descoberta. Os pontos
brancos aumentavam até que alguém os pudesse identificar como
sendo as casas locais. As dos ricos, com torres usadas para avistar os
navios e pavimentos superiores com grades, eram facilmente
distinguidas das casas das pessoas mais pobres. Muito mais acima,
quase no topo do monte, podia ser visto, entre as folhas das árvores,
as duas torres brancas da Igreja da Nossa Senhora do Monte… para
o oeste, o forte militar espanhol, o Forte Pico (1632)… para o leste, o
Forte de Santiago… bem em frente, atrás da praia de seixos, o edifício
São Lourenço, uma mistura de estilos arquitetônicos que servia para
os múltiplos usos de palácio, fortaleza, quartel e residência do
governador… no meio da praia, havia algo ímpar, o Pilar de Banger,
uma coluna construída por um homem inglês, John Light Banger (1726-
1798), para segurar as cordas de ancoragem dos navios mercantes”.
Tudo isto, junto a uma paisagem de beleza majestosa – as imensas
montanhas do centro da ilha. Não havia um cais que servisse de
ancoradouro; os navios fundeavam na própria baía. Os Kalleys iriam
ser transferidos do navio para pequenos barcos que eram remados
em direção à praia e, então, carregados pela parte rasa até a margem.
Ao desembarcar, eles se sentiriam membros de uma colônia
A CHEGADA EM MADEIRA 29

consideravelmente grande de seus conterrâneos – residentes,


convalescentes e turistas – um enclave britânico com arredores muito
agradáveis. As casas, lojas e todos os prédios davam à cidade um
sabor genuinamente português. Ruas íngremes, com pavimentação
de pedras arredondadas, geralmente estreitas, mas algumas ruas um
pouco mais largas, abrindo em praças e ocasionalmente em alamedas.
Com o mesmo clima temperado praticamente o ano todo e sua
agradável aparência, Funchal era o lugar ideal para se viver, ainda
que por um breve período. Os Kalleys e os Crawfords alugaram uma
casa, localizada num largo terreno, no Vale Formoso, com vista para a
cidade.
Uma vez que havia tantos inválidos e convalescentes na comuni-
dade britânica, possivelmente mais de 300, o Dr. Kalley se encontrava
sobrecarregado de trabalho. Logo, ele estava completamente ocupa-
do dando conselhos médicos e tratamento, e, como um cristão
comprometido, sentia-se constrangido a cuidar de suas almas tam-
bém. Seus dons como evangelista pessoal encontraram bom uso. A
Igreja da Inglaterra estava bem estabelecida em Funchal e por longas
décadas teve cultos regulares para os britânicos. O prédio da igreja
era de construção recente, tendo sido erguido em 1822 pela Fábrica
Inglesa, e era notável por seu estilo de arquitetura. As leis portugue-
sas proibiam uma igreja protestante de ter aparência externa como de
um prédio eclesiástico. A igreja era, portanto, circular, um estilo de-
pois adotado pelos Cavaleiros do Santo Sepulcro. Havia um capelão
também, o Sr. Lowe. Quanto aos presbiterianos escoceses, eles ape-
nas pagavam, de forma quase que mecânica, um tributo ao dia do
Senhor e à Igreja Escocesa e pensavam que nada mais seria requeri-
do. Para muitos deles, a observância rigorosa do dia do Senhor como
haviam conhecido na Escócia não era mais necessária para viver na
ilha da Madeira. Para o doutor, tal atitude era o sinal visível de uma
doença interna. Ele observava rigorosamente o Dia do Senhor, pelo
motivo correto. Para ele, este dia não era apenas um peso enfadonho
sem qualquer sentido, um jugo para ser descartado assim que as cir-
cunstâncias permitissem; mas era, verdadeiramente, o Dia do Senhor,
e como tal deveria ser santificado, separado; um dia para a adoração
na casa de Deus, com o povo de Deus; um dia de descanso e renova-
30 JORNADA NO IMPÉRIO

ção, quando a rotina diária era suspensa e reduzida ao mínimo. Não


eram as regras da diretoria da igreja, nem os costumes da sociedade
contemporânea que orientavam a vida do Dr. Kalley, e sim a obediên-
cia e lealdade ao Senhor, que santificou o dia.
No primeiro domingo em Funchal, o doutor foi ao culto na Igreja
Anglicana, mas achou a adoração tão formal e tediosa para a alma
que decidiu nunca mais voltar lá. No domingo seguinte, conduziu o
culto em sua própria casa para sua família e os servos portugueses.
Logo descobriu entre seus conterrâneos alguns que estavam desejo-
sos de se encontrar para estudar a Bíblia e orar, e, como resultado
disso, no início de dezembro, começaram a realizar cultos, ainda que
informalmente, numa casa particular, de acordo com as tradições es-
cocesas.
CAPÍTULO 3
O CHAMADO DE DEUS
O Dr. Kalley era um talentoso evangelista pessoal; ele podia
falar com uma pessoa de forma calma, graciosa e informal, e ainda
assim prender sua atenção sem causar qualquer embaraço ou hosti-
lidade. Ainda em Madeira, sentia-se ansioso por fazer mais do que
apenas conversar individualmente, numa base mais pessoal; ele que-
ria conduzir cultos também. E, nisto, deparou-se com uma conside-
rável desvantagem. Recordou suas experiências em Kilmarnock,
quando os ministros e presbíteros da Igreja Escocesa questionaram
seu direito de se engajar em atividades religiosas – ensinar, pregar e
conduzir cultos – questões que eles consideravam fora do âmbito de
atuação de um médico. Quem mais condenava a iniciativa do Dr.
Kalley em alcançar seus conterrâneos residentes na ilha da Madeira
era o capelão da Igreja Anglicana. Ele alertava o povo contra um
homem que não acreditava na regeneração batismal, ensinava a Bí-
blia e deixava de ensinar o Livro de Orações da Igreja Anglicana.
Muitas cartas escritas naquele período revelam o dilema pelo qual
passava o Dr. Kalley. Ele deveria procurar a ordenação? Mas isso
não iria prendê-lo a alguma igreja de forma a cercear sua liberdade?
Estas e outras cogitações dão uma idéia bem vívida de sua persona-
32 JORNADA NO IMPÉRIO

lidade e também de seu positivo espírito independente.

ORDENAÇÃO AO MINISTÉRIO
Em 30 de janeiro de 1839, o Dr. Kalley escreveu, da ilha da Ma-
deira: “Vai ser meu trabalho levantar o padrão da verdade. Eu gosta-
ria tanto de fazer isso de uma vez… pois não considero essencial a
permissão de qualquer grupo de homens, antes de pregar as boas-
novas da salvação para as almas que estão sucumbindo. A mensagem
é de Deus, e não dos homens, e a permissão necessária é, portanto, a
permissão de Deus, e esta me parece tão claramente dada por sua
Palavra que eu não teria qualquer hesitação neste assunto. Mas tais
são os pontos de vista e sentimentos de meus conterrâneos, que pou-
cos participariam, a menos que eu fosse oficialmente ordenado… como
sou extremamente avesso a qualquer coisa que possa arruinar minha
própria utilidade, prefiro fazer-me tudo para com todos, com o fim de,
por todos os modos, salvar alguns – assim como também considero a
ordenação desejável, ainda que não essencial para a pregação, e como
seria muito interessante poder administrar o batismo e a Ceia do Se-
nhor – que segundo meu ponto de vista atual eu não estaria autorizado
a fazer como um leigo, estaria disposto a ir à Inglaterra nesta prima-
vera, fazer um curso de estudos, se for necessário, para eu poder ser
ordenado e, então, retornar para este lugar… quanto ao corpo de
cristãos do qual eu poderia desejar a ordenação, considero de pouca
importância se eles apenas mantiverem as grandes verdades essenci-
ais e me permitirem liberdade para ser guiado por meus próprios pon-
tos de vista em assuntos menores da Palavra de Deus”.
No dia seguinte, ele escreveu para a Sociedade Missionária de
Londres. A minuta do Comitê de Candidatos da SML, datada de 25 de
março de 1839, diz: “Foi lida uma carta do Dr. R. R. Kalley, médico,
datada de 1o de fevereiro de 1839, remetida de Funchal. Nesta, ele
oferece seus serviços como agente desta Sociedade, para trabalhar
em Madeira. Os membros deste Comitê devem, portanto, considerar
aquele lugar dentro da esfera de serviço e solicitar a ordenação do
Dr. Kalley como pregador do evangelho, tanto para seus conterrâne-
os quanto para os portugueses residentes na ilha. Resolução:
O CHAMADO DE DEUS 33

Recomendamos ao Conselho que, de acordo com a opinião deste


Comitê, a oferta não seja aceita, uma vez que Madeira não está den-
tro da esfera de atuação desta Sociedade. Também foi decidido que,
estando alguns membros do comitê, no exercício de sua autoridade
pessoal, prontos a ordenar Dr. Kalley um pregador do evangelho, seja
ele imediatamente informado desta decisão, a fim de que possa vir a
Londres para este propósito”.
Indubitavelmente, a sugestão de pedir à Igreja da Escócia
ordenação partiu de seus amigos escoceses em Madeira. O Dr. Kalley,
no entanto, não concordava com aquela sugestão, pois a considerava
um grande atraso. Ele argumentava que “o presbiterianismo exige ao
menos três ou quatro anos de estudo teológico, e isto estava fora de
questão, uma vez que os assuntos do Rei exigem pressa”, e que
“Madeira estava viva e esticando suas mãos para o evangelho”. Uma
prolongada ausência de Madeira era impensável. A ordenação episcopal
foi sugerida como uma alternativa, mas as fortes convicções
presbiterianas do Dr. Kalley impediam-no de fazê-lo. Em Funchal,
1842, num fragmento de papel que sobreviveu a um incêndio iniciado
por seus perseguidores, ele expressa estas convicções: “Sem me deter
por mais tempo, deve ser suficiente dizer que meus pontos de vista
são os mesmos dos padrões da Igreja da Escócia, de forma que em
relação ao batismo e à Ceia do Senhor nossas opiniões coincidem”.
Este fragmento era o parágrafo final de uma Confissão de Fé que o
Dr. Kalley havia preparado para sua ordenação em 1839.
Em 5 de abril de 1839, o Reverendo John Arundel, secretário da
SML, escreveu para o Dr. Kalley, em Madeira: “Muitos ministros em
Londres, membros da Sociedade [SML], não fariam objeção a se
unirem para a sua ordenação, a saber, Dr. Henderson, Dr. Rood,…
etc. Tenho, no entanto, que deixá-lo decidir se utilizará esta oferta, e
quando a utilizará. Ficarei feliz em dar-lhe toda a assistência possível
para marcar a reunião e solicitar o envolvimento de todos os diferentes
participantes. Na verdade, o meu próprio local de adoração oferecerei
prontamente para o culto e, quando souber a época de sua chegada,
prosseguirei imediatamente com as providências necessárias; claro,
não como um membro da Sociedade, mas como um dos ministros de
Cristo nesta metrópole que lhe conhece e estima e estará pronto para
34 JORNADA NO IMPÉRIO

fazer tudo o que for possível, a fim de promover o importante objetivo


que é contemplado”.
Mais tarde, Dr. Kalley escreveu: “Houve um campo profunda-
mente interessante se abrindo para mim, e foi muito precioso, em
tais circunstâncias, ter a companhia dos pastores na igreja de Cristo
– alguns dos quais tinham envelhecido em seu serviço – para orar
comigo e por mim, colocando suas mãos sobre minha cabeça e di-
zendo-me: ‘Deus o abençoe’ no serviço do Senhor. Foi confortante
e animador ter homens no serviço do Senhor concordando reconhe-
cer em mim os dons que creio ter Deus me conferido para trabalhar
no serviço dEle mesmo. Este foi o meu motivo para ir a Londres.
Desejava que fossem homens de Deus aqueles que estivessem to-
mando parte desta solene obra, aqueles cujos trabalhos tiveram
sucesso em trazer os pecadores a confiarem no Messias Jesus.
Conheci alguns homens assim em Londres e pouco me importava
com a denominação ou organizações com as quais eles estavam
associados – contanto que se unissem naquilo que eu almejava e
deixassem-me livre de qualquer organização, de forma que não hou-
vesse interrupções daqueles pontos de vista e sentimentos universais
nos quais me deleito. Eu desejo ainda sentir que todos os verdadei-
ramente crentes no Senhor Jesus são membros ativos de um glorioso
corpo e que nenhuma forma de ordenação nem diferentes visões
sobre a forma de administrar a igreja me separariam de qualquer um
desses homens. Eu não queria aparentar estar me separando deles,
por juntar-me a uma organização, pois o que realmente desejava era
o carinhoso ‘Deus o abençoe’ de seus fiéis servos”.
Mais uma vez ele escreveu: “Em Madeira, eu assegurava ao povo,
como era a mais pura verdade, de que os meus feitos se davam
inteiramente por iniciativa própria, sem qualquer conexão com igrejas
ou organizações”. Também: “Estou angustiado com os males do
sectarismo e permaneço não relacionado com uma denominação ou
organização cristã mais do que com outra”. Durante o Rompimento,
ainda que ele simpatizasse profundamente com os separatistas, recusou
unir-se a eles, visto que, em sua opinião, fazer tal coisa comprometeria
sua independência.
Em 1o de junho de 1839, deixou Madeira e foi para Londres, via
O CHAMADO DE DEUS 35

Lisboa. Já havia solicitado um diploma português de medicina, que o


capacitaria a tratar os madeirenses, e não apenas seus conterrâneos
britânicos. Após ser aprovado no exame oficial e receber seu diploma
da Escola Médica Cirúrgica de Lisboa, em 17 de junho, continuou sua
viagem para Londres, chegando em 1o de julho. Foi ordenado, ou como
ele mesmo preferia dizer “reconhecido”, em 18 de julho, na Capela do
Dr. Bennet, em Londres. Durante sua breve visita procurou “aprender
todas as idéias possíveis sobre métodos de ensino e ouvir todos os
pregadores mais populares, para me preparar para as obrigações que
provavelmente me aguardariam em meu retorno”. Também confessou
ter sido “muito tocado pelo movimento religioso em Kilsyth”, uma
cidade da qual, através do ministério de William Chalmers Burns, o
fôlego do avivamento se espalhou por toda a região de Highlands.

A SITUAÇÃO EM MADEIRA
O que o Dr. Kalley quis dizer ao declarar que “Madeira está viva,
esticando suas mãos para o evangelho” e, também, na Grã-Bretanha,
“preparei-me com esforço para as obrigações que provavelmente me
aguardariam ao retornar para Madeira”? Obviamente ele imaginava
que em seu retorno da cerimônia de ordenação, seu ministério cresceria
consideravelmente e se estenderia além dos limites da colônia britânica.
A colônia britânica em Madeira, assim como outros enclaves além-
mar, era muito gregária e isolada das outras. Tais colônias procuravam
manter o modo de vida britânico, mesmo que em outra cultura. O
“clube da cidade” e o “clube de campo”, com seus bares e recreações
– críquete, futebol, tênis – eram igualmente privativos. A igreja com
seus cultos em inglês, seus próprios capelães e ministros e seu
exclusivismo religioso era completamente britânica e profundamente
nula de visão missionária. O contato com os “nativos”, os madeirenses,
era o mínimo possível – apenas negócios e, somente em circunstâncias
excepcionais, social. A maior parte dos britânicos sequer se preocupava
em aprender a língua local. Havia um contato, no entanto, que não
podia ser evitado, com os servos. Todas as casas tinham seus servos,
“nativos”, e a relação entre senhor e servos tinha de existir.
Os Kalleys também tinham seus servos, madeirenses camponeses.
A C ATEDRAL EM F UNCHAL - S ÉCULO XVIII
O CHAMADO DE DEUS 37

Para eles estes servos não eram apenas posses, seres ignorantes e
estúpidos, um mal necessário e às vezes conveniente para uma conversa
durante o chá! Para eles, os servos eram seres humanos e deveriam
ser tratados como tais. Dr. Kalley, com seu conhecimento de latim,
facilmente aprendeu a língua deles, o português, e começou a se
comunicar com eles e a entender suas necessidades. Ele estava
aterrorizado com a ignorância e superstição deles. Nenhum sabia ler
ou escrever, e sua religião havia degenerado para um paganismo
cristianizado. Em sua volta para Madeira, o Dr. Kalley estava pronto
para agir. A situação dos madeirenses era desesperadora em todos os
sentidos. Estavam num tempo de recessão econômica. A indústria do
açúcar, antes o suporte principal da economia da ilha, estava agora
em declínio. As vinhas, conhecidas mundialmente pela excelência dos
vinhos ali produzidos, não eram capazes de sustentar a situação
sozinhas. As autoridades em Lisboa haviam proibido a manufatura de
qualquer produto na ilha; todos os manufaturados deveriam ser
importados. Móveis de vime e bordados eram trabalhos que os
madeirenses ainda não tinham direito de executar. Os camponeses
levavam uma vida miserável cultivando os terraços nos íngremes
flancos das montanhas. Os poucos que tinham a felicidade de possuir
uma vaca não podiam colocá-la para pastar, uma impossibilidade em
montanhas tão altas, de forma que elas tinham de ficar presas em
cabanas. A vida era muito difícil para eles. Viviam isolados até mesmo
uns dos outros. Não havia estradas; as trilhas serpenteavam seu
caminho pelas perigosas e íngremes montanhas, geralmente seguindo
os canais de irrigação. A pobreza era abundante, assim como os males
associados a ela, tais como a ignorância e as doenças. Tal pobreza
opressiva tocou o Dr. Kalley profundamente, porém o que mais o
comoveu foi a completa ausência da genuína religião. A urgência desta
necessidade constituía seu chamado missionário para o serviço em
Madeira.
Madeira, assim como os Açores, era inabitada quando os portu-
gueses a descobriram. Eles a colonizaram e levaram consigo seu pró-
prio tipo de catolicismo romano. Basicamente, ele diferia do catolicismo
medieval no resto da Europa. Os mouros, durante os séculos em que
dominaram a Península Ibérica, introduziram um elemento de fatalis-
38 JORNADA NO IMPÉRIO

mo na religião do povo. Em tempo de crise, os portugueses simples-


mente encolheriam seus ombros e se resignariam ao destino, com a
atitude: “Deus quer assim”. O catolicismo romano reivindicava Ma-
deira como seu domínio exclusivo. Todos os outros ramos do cristia-
nismo eram considerados hereges e conseqüentemente banidos. Para
confirmar tal reivindicação, em 1554, imediatamente após a ocupação
portuguesa, a catedral em Funchal foi construída, a primeira catedral
a ser erguida fora do território português propriamente dito.
Em termos práticos, os pontos principais da religião não eram a
missa e a confissão, importantes como geralmente são no catolicismo,
mas sim os dias dos santos. Em tais dias, o clima era como o de
carnaval: o santo era carregado acima dos ombros das pessoas durante
a procissão, as casas eram decoradas para a ocasião, flores eram
jogadas no caminho, todos com as melhores roupas e festejando. Um
agradecimento superficial era dado ao santo através de uma missa,
com as mulheres se apinhando dentro da igreja e os homens todos do
lado de fora. A missa terminava, e as festividades começavam de
fato. O santo era esquecido e a sensualidade prevalecia. A religião
era apenas uma mistura de ignorância, superstição e credulidade. O
cristianismo bíblico era desconhecido. Na alma do Dr. Kalley, no
entanto, o fogo do evangelho queimava. Ele estava pronto para agir
em seu retorno para Funchal, em outubro de 1839, qualificado como
um médico em território português e ordenado um ministro do
evangelho; e ele realmente agiu. Os pobres não recebiam nenhuma
assistência médica, então ele usaria o ministério médico não apenas
para ir de encontro a esta necessidade, como também para servir de
ponto de partida para seu objetivo principal – pregar sobre Cristo aos
pobres. Ele iria tratar de suas feridas físicas, mas também iria cuidar
das feridas da alma. Ele escreveu em seu diário: “Estou ocupado durante
toda a tarde e noite, das 3 às 9 horas, com apenas uma hora livre para
tomar chá e fazer o culto doméstico, mas a alegria deste trabalho é o
melhor de tudo”. Anos mais tarde ele contou à Assembléia Geral da
Igreja Livre da Escócia: “Eu confesso que acho estranho estar numa
pequena ilha, no meio do oceano, ao invés de estar onde achava que
deveria ser meu campo de serviço – a China. No entanto, posso dizer:
‘Usa-me, Pai, da melhor maneira que parecer aos teus olhos’”.
CAPÍTULO 4
TEMPO DE PLANTAR
E DE COLHER
O s Kalleys estavam morando em Santa Luzia, distrito de
Funchal, não muito longe da suntuosa casa do líder inglês da ilha,
Henry Veitch, o cônsul-geral.

TRABALHO MÉDICO
Foi em Santa Luzia, no Caminho do Monte, no ano seguinte, que
ele abriu a clínica, a qual mais tarde foi ampliada para um “hospital
caseiro” com doze leitos. Ele rapidamente ganhou fama como o médico
da ilha, tendo como paciente até mesmo o bispo da Igreja Católica
Romana. Tratava a todos, ricos e pobres. Como ele mesmo disse
certa vez, o preço cobrado dos pacientes ricos era muito alto, mas isto
servia para dois propósitos: desencorajava os ricos de procurarem
sua assistência profissional – havia outros dois médicos britânicos na
cidade – de modo que ele tinha mais tempo para tratar dos pobres; e
também o provia com fundos para que tivesse condições financeiras
de tratar os pacientes mais pobres. Estes ele tratava gratuitamente:
40 JORNADA NO IMPÉRIO

consultas gratuitas, remédios gratuitos, e, se fosse necessário,


hospitalização gratuita. O Dr. Kalley tratava em média cinqüenta
pacientes por dia, muitos dos quais eram trazidos até sua clínica em
uma rede presa numa grande vara, na qual dois carregadores podiam
segurar, um em cada ponta, e não raramente eles viajavam pelas trilhas
rústicas e perigosas das montanhas. Muitos destes chegavam doentes
demais para responderem ao tratamento. Até mesmo a cunhada do
Dr. Kalley morreu de tuberculose nesta época, apesar de toda a
atenção médica que lhe foi dispensada.
Dr. Kalley era um médico muito capaz, mas era essencialmente
um missionário. Como havia planejado, sua habilidade médica provou
ser um meio para o progresso do evangelho. Ele era firme e intrépido
em seu testemunho, como é deixado bem claro por seu costume de
ajoelhar-se aos pés da cama de seus pacientes, quando chamado para
tratar uma pessoa doente em sua casa, para pedir a Deus orientação
durante o tratamento e suas bênçãos para todos os presentes. Ele
colocava um versículo em todas as suas receitas e, na clínica, insistia
que os pacientes participassem de um período devocional de manhã, o
que incluía uma breve leitura e exposição de uma passagem bíblica e
oração. O resultado de tal ministério era quase que previsível. Os
pobres nunca tinham tido ninguém que se importasse com eles, e agora
havia um que se “sentava com eles”, que descia até o nível deles,
entrava em sua experiência de pobreza, opressão e privações, alguém
para quem os madeirenses eram irmãos. Uma grande onda de gratidão
para com o “santo inglês” se espalhou por toda a ilha. Ele era aclamado
como o “bom doutor”. O interesse pelo evangelho havia sido
despertado: as pessoas queriam saber mais sobre aquelas boas-novas.
Elas viam o seu poder sendo testemunhado pela vida do “bom doutor”.
Até mesmo os padres estavam entre os seus pacientes, alguns
dos quais se tornaram bastante amigáveis. Dr. Kalley, naturalmente,
conversava com eles sobre assuntos espirituais e era muito cuidadoso
em evitar assuntos que causassem controvérsias, como os santos, a
missa, o purgatório, a transubstanciação, a confissão e coisas do tipo.
Ele adotou uma atitude positiva, e as conversas se restringiam aos
pontos essenciais do evangelho – a pessoa de Cristo, a eficácia de
sua salvação através da morte na cruz, a fé que leva à salvação e à
TEMPO DE PLANTAR E DE COLHER 41

santidade e o amor, essenciais na vida cristã. Um dos padres viajou de


Seixal, na costa norte, para descobrir por si próprio o segredo do sucesso
do doutor com um povo tão ignorante, como os camponeses – ele os
havia feito entender a verdade do evangelho.

UM LÍDER GRACIOSO
Certa vez, quando a saúde do doutor estava adversamente afetada
pelo esforço de uma atividade tão intensa, seus amigos o persuadiram
a descansar nas montanhas, uma viagem de seis horas saindo de
Funchal. As notícias rapidamente se espalharam a respeito de onde
ele estava, e as pessoas logo começaram a se juntar atrás do doutor.
A certa altura, num lugar chamado São Jorge, 1500 pessoas se
reuniram para ouvi-lo falar sobre as Escrituras. Outro acontecimento
interessante é que o padre da paróquia local intrepidamente anunciou
a reunião do púlpito e deu ao doutor sua cooperação incondicional!
Mais tarde, quando o padre foi acusado de colaborar com o “estrangeiro
herege”, ele se defendeu dizendo: “Longe do Dr. Kalley ter falado
qualquer coisa ofensiva ou ilegal naquela ocasião, ele leu extensivamente
a Bíblia Sagrada e não falou nada contra o que a Santa Igreja Católica
Apostólica Romana nos ensina a acreditar”. O “bom doutor” não era
um fanático intolerante. Se um paciente no hospital desejasse a visita
de um padre, a permissão para tal era dada instantaneamente.
Ele também não negligenciava seus conterrâneos, mas conduzia
regularmente, ainda que informalmente, cultos para eles. Na falta de
um ministro da Igreja da Escócia, ele, como um ministro ordenado,
presidia a celebração bienal da Ceia do Senhor.
O doutor tinha uma personalidade bastante enérgica, ainda que
sempre graciosa. Sua constituição física e comportamento digno
fizeram dele um líder natural. Ele era um típico escocês, engenhoso,
asperamente independente, resoluto em suas ações e honesto em todo
o seu procedimento. Sua fé era franca e sóbria, forjada não nos
corredores das faculdades teológicas, e sim nos problemas práticos
da vida cotidiana. Seu professor havia sido o Espírito Santo, e seu
livro-texto a Bíblia. E também era um ótimo aluno: tinha uma mente
42 JORNADA NO IMPÉRIO

cuidadosa e disciplinada, o que o capacitava a compreender e a segurar


firme as verdades reveladas. Seus artigos de fé, que se mantiveram
fieis através dos anos, testificam isto.
Era um pragmático no sentido filosófico: as verdades nas quais
ele ardentemente acreditava deveriam ser colocadas em teste através
de seus contatos com os companheiros. Pela Palavra, o Cristo que
está vivo tinha lhe garantido nova vida e propósito; similarmente, ele
esperava que outros também pudessem ter esta mesma experiência.
Eles também tinham de nascer de novo.
Como um cristão comprometido, ele foi ricamente dotado com as
graças de seu Mestre – mansidão e humildade. Numa completa
abnegação, obedecia à ordem das Escrituras de não ter “cada um em
vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos
outros”.
Até mesmo seus “inimigos gratuitos” testificaram sua dignidade.
Um dos mais nobres deles, Padre Fernando Augusto da Silva, escreveu
no Elucidário Madeirense: “Ele era um homem de talentos
extraordinários e um notável médico-cirurgião, possuidor do raro dom
de persuadir as multidões com seus discursos sugestivos e eloqüentes,
e este era o segredo da efetividade de sua propaganda (religiosa)…
Ele era, sem dúvidas, um verdadeiro crente, mas acima de tudo, era
também um fanático. De início, limitou suas atividades apenas à doação
de remédios e desta forma tornou-se notável por sua caridade com os
pobres e também pela fundação de escolas gratuitas. Isto, juntamente
com sua personalidade atrativa e suas palavras influenciadoras,
resultaram na criação de uma aura de simpatia, estima e respeito ao
redor de seu nome por todas as classes da sociedade”.
Um biógrafo brasileiro, Dr. Manoel Porto Filho, fez uma compa-
ração entre Dr. Kalley e John Robinson. O último era um líder dos
Separatistas Puritanos, primeiramente em Scrooby Manor e, depois,
em Leyden, Holanda; é mais conhecido como o pastor dos emigran-
tes do Mayflower [navio no qual as pessoas deixaram a Inglaterra
em direção aos EUA no séc. XVII], por um desencargo de consci-
ência. Ambos procuraram exercitar um ministério conciliatório,
caracterizado por cortesia e espírito compreensivo, que buscava evitar
confrontações ou polêmicas.
TEMPO DE PLANTAR E DE COLHER 43

Em Funchal, o Dr. Kalley visitou o bispo da Igreja Católica em seu


palácio, numa tentativa de deixar seus motivos e objetivos bastante
claros. Ele conversou livremente com os padres mais tolerantes da
Igreja Católica, evitando argumentos fúteis. Tinha grande facilidade
para comunicar as verdades divinas em uma linguagem de fácil
entendimento. Além disso, ilustrava o evangelho com figuras da vida
cotidiana. Também possuía aquele raro dom de lidar com uma pessoa,
de qualquer classe social, dando-lhe toda a sua atenção; era como se
ninguém mais existisse naquele momento, e os pobres amavam isso.
Dr. Kalley deixou registrada uma autodescrição, incompleta mas
reveladora: “Você talvez queira saber alguma coisa sobre o escritor!
Ele tem [em 1846] trinta e sete anos de idade, é careca e tem costeletas
pretas, mede em torno de 1,77m; nada tem de um semblante
melancólico; não muito particular em seu modo de vestir, mas usando
geralmente preto”.

ESCOLAS PARA O POVO


Motivado pelo desejo de ensinar adultos a lerem a Bíblia, Dr. Kalley
abriu sua primeira escola antes do fim de 1839. A Bíblia fora de central
importância em sua conversão e era também central em sua vida
pessoal e em seu testemunho. Ela seria a pedra angular de seu método
educacional, acreditando que assim como o Espírito Santo havia
descoberto as verdades para ele, o mesmo Espírito faria algo idêntico
pelos camponeses iletrados, à medida que aprendiam a ler as páginas
sagradas. A rede de escolas se espalhava por todo o interior da ilha.
Madeira nunca tivera escolas gratuitas, de forma que apenas as
classes sociais mais elevadas recebiam algum tipo de educação, que
era, na melhor das hipóteses, rudimentar. Educação superior só podia
ser encontrada em Portugal. Na ilha propriamente dita, a educação
deixava muito a desejar. O filho mais velho era geralmente mandado
para a escola dos padres a fim de ser ensinado, e o restante da família
limitava-se a assimilar qualquer conhecimento que conseguisse catar
do favorecido irmão mais velho. O Dr. Kalley abriu escola após escola
para os pobres que haviam sido condenados à permanência na
44 JORNADA NO IMPÉRIO

ignorância. Ele provia os professores, móveis e os outros materiais


necessários para as aulas. A escola era gratuita para as crianças durante
o dia, e para os adultos, à noite. Os prédios eram bem primitivos,
geralmente em um quarto, num chalé. Os alunos chegavam das
vizinhanças mais próximas, mas à noite os homens vinham após um
duro dia de trabalho, no campo, e freqüentemente após andar grandes
distâncias, todos ansiosos para aprender a ler. Os professores tinham
apenas a mais básica educação, entretanto, motivados pelo entusiasmo
do Dr. Kalley, dedicavam-se à importante tarefa de ajudar seus
vizinhos. Qualquer remuneração que tenham recebido veio dos bolsos
do próprio doutor, mas deve ter sido um valor relativamente
insignificante. Apesar de todas as dificuldades, as escolas progrediam,
e gradualmente, conforme os alunos aprendiam a ler, o sistema de
cada-um-ensina-mais-um começou a desenvolver-se, um século antes
que Dr. Laubach introduzisse este método de ensino no mundo todo.
Tão logo algum deles aprendesse a ler, aperfeiçoava esta habilidade
ensinando outra pessoa a ler. Logo havia em torno de vinte escolas
com mais de 800 alunos. Dois livros eram usados: o “ABC” português
e a Bíblia.
A respeito destas escolas, um conterrâneo do Dr. Kalley escreveu:
“Estive presente durante os testes de alguns alunos, e para mim foi
uma fonte de grande admiração ver o quão avançados estavam em
seus estudos e, conseqüentemente, o quão gratos estavam ao Dr.
Kalley pelo ensino que recebiam. Não penso que exagero ao dizer
que centenas deles aprenderam muito em um pequeno espaço de
tempo. Antes, eram tão estúpidos quanto os burros que os carregavam,
mas agora, em contraste, eram inteligentes leitores da Bíblia”.
Citando uma carta escrita pelo Dr. Kalley: “Centenas de homens,
após um dia duro de trabalho no campo, iam à escola à noite e, em
quase todos os casos, eram motivados pelo desejo não meramente de
ler as palavras de homens, mas sim a Palavra de Deus. Eu penso que
quase dois mil e quinhentos freqüentaram as escolas entre 1839 e
1845, e, destes, mais de mil entre as idades de quinze e trinta anos
aprenderam a ler as Escrituras inteligentemente e a estudá-las por si
mesmos”. A Bíblia era o livro-texto, e durante estes anos em torno de
três mil cópias dela foram distribuídas nas escolas e entre a população
TEMPO DE PLANTAR E DE COLHER 45

em geral. Estas eram as únicas cópias da Bíblia na ilha da Madeira,


exceto por oitenta Bíblias de uso do clero, enviadas em 1842 pela
vontade expressa de D. Maria II, rainha de Portugal. Ela admoestou
os padres a lerem a Bíblia para sua própria edificação e também para
a de seu rebanho!
Em sua carta, Dr. Kalley acrescentou: “Em 1839, alguns
demonstraram grande interesse em ler e escutar mais da Palavra de
Deus. Em 1840, este interesse cresceu de forma que muitos adultos
foram à escola porque queriam aprender a ler a Bíblia. Em 1841 o
interesse cresceu ainda mais. No ano seguinte, especialmente durante
o verão e o outono, as pessoas ajuntavam-se em grandes números
para ouvir as Escrituras serem lidas e explicadas”.
Naturalmente, toda esta atividade atraiu a atenção das autoridades,
mas a opinião popular estava muito inclinada a favor do doutor, de
modo que elas hesitaram em agir, assim como os principais sacerdotes
da época de Jesus “temiam o povo”. Sobre aqueles dias, Dr. Kalley
escreveu: “No início de meu relacionamento com os madeirenses
encontrei poucos deles que já haviam visto uma Bíblia ou que pareciam
saber que o Novo Testamento havia sido escrito por homens que
andavam junto do Senhor Jesus Cristo, quando Ele habitou na terra.
Ao lhes ser mostrada uma parte do Novo Testamento como sendo
trabalho de Pedro, e outra parte como sendo trabalho de João, e ainda
uma terceira parte de Mateus, alguns duvidaram e queriam provas.
Outros ouviram, com grande atenção, enquanto uma porção dos livros
era lida como exemplo dos conteúdos”.
O Dr. Kalley, dentre seus variados talentos, possuía também o
dom de escrever hinos. Ele compôs um grande número de hinos e os
ensinou ao povo, para que cantassem. Conforme a capacidade do
povo de ler e escrever crescia, ele escreveu vários livretos e panfletos.
Antes que deixasse a ilha, traduziu para o português o livro de Bunyan,
O Peregrino, uma parte dele possivelmente enquanto estava na prisão,
tal como o próprio Bunyan, ao escrever que, “caminhando pelos desertos
deste mundo, parei em certo lugar onde havia uma caverna; e deitei-
me ali para dormir…”
46 JORNADA NO IMPÉRIO

DIAS AGITADOS
Estes dias agitados são descritos por alguém que também passou
por eles: “Em 1842, especialmente no verão e no outono, as pessoas
vinham em grandes quantidades para ouvir a leitura das Escrituras e
também a explicação do texto lido; muitas delas caminhavam até dez
ou doze horas e escalavam montanhas de quase três mil metros de
altura! As reuniões eram solenes, os ouvintes escutavam tudo com
incansável atenção, uma mão era vista limpando uma lágrima que
caía, e às vezes havia uma expressão geral e audível de admiração.
Este era especialmente o caso quando o assunto era o amor de Deus
em não poupar seu próprio Filho, mas entregá-Lo para morrer pelos
pecados de todo o mundo, e o amor de Cristo em voluntariamente
tomar para si mesmo a ira e maldição que nós merecemos. Por muitos
meses, eu acredito, não havia menos que mil pessoas presentes em
cada domingo; geralmente elas excediam a duas mil pessoas;
ocasionalmente alcançava três mil, e em pelo menos uma ocasião
foram contadas cerca de cinco mil pessoas. Nesta última ocasião
mencionada, setenta Novos Testamentos foram vendidos, e muitos
que pretendiam comprar saíram desapontados. Estas reuniões eram a
céu aberto. Imagine o interesse que tal acontecimento trouxe neste
país católico!”
“Em alguns lugares, quando as pessoas andavam pelas estradas
ou descansavam um pouco do trabalho no campo, os assuntos comuns
das conversas cotidianas eram a Palavra de Deus, o amor do Senhor
Jesus Cristo, a paz de Deus, a esperança da glória, a insensatez da
adoração às imagens, a inutilidade das penitências. Muitas vezes,
durante a semana, os hinos de domingo eram ouvidos entre os campos
e vinhedos; e havia muita pesquisa nas Escrituras a fim de conhecer o
que o Senhor declara sobre muitos assuntos que eram trazidos até
eles.”
O Dr. Kalley explica como este avivamento foi trazido naqueles
dias: “O tratamento médico gratuito induziu muitos a nos visitarem e
experimentarem os benefícios que tanto apreciavam. Conseqüente-
mente, tratavam-me como um velho amigo. Quando conversava com
TEMPO DE PLANTAR E DE COLHER 47

eles sobre as doenças de seus corpos e os medicamentos que teriam


de ser empregados, precisava de pouco esforço para mudar a aten-
ção deles rumo ao assunto da doença da alma, o Médico, o remédio e
os resultados. Desta forma, eles ouviam com menos preconceito do
que teriam em outras circunstâncias”.
A Missão Médica de Edimburgo deixou registrado que o sucesso
do Dr. Kalley como médico missionário era insuperável em qualquer
outro campo missionário. Tal habilidade como médico, tal percepção
como um educador, tal poder como um pregador e tal fé e desenvoltura
como evangelista pessoal poderiam resultar apenas no imenso poder
de Deus sendo revelado.
A BAÍA DE FUNCHAL - SÉCULO XVIII
CAPÍTULO 5
A TEMPESTADE SE
APROXIMA
M adeira não estava apenas “esticando suas mãos para o evan-
gelho”, mas agora estava enchendo estas mãos com o evangelho. Tal
sucesso na pregação não poderia continuar por muito tempo sem qual-
quer oposição. Nuvens de tempestade se aproximavam no horizonte
e rapidamente escureciam, para finalmente explodirem com enorme
ferocidade sobre a jovem igreja madeirense. Tão violenta e concen-
trada foi a perseguição, que Madeira foi equiparada a Madagascar,
outra ilha onde a brutalidade satânica dizimou a igreja.

UM TESTEMUNHO PÚBLICO
Em 25 de maio de 1841, uma expressão de gratidão ao Dr. Kalley
por seus esforços filantrópicos a favor dos pobres, doentes e analfa-
betos foi registrada na ata de uma reunião do Conselho Municipal em
Funchal. A ata dizia: “Esta Câmara foi informada através do Adminis-
trador do Conselho, em um documento oficial com data de hoje, que
Robert Reid Kalley, cidadão britânico e doutor em medicina, tem con-
50 JORNADA NO IMPÉRIO

tinuamente se ocupado com a mais nobre filantropia. O Dr. Kalley


mantém, com fundos próprios, escolas primárias nas várias paróquias
deste distrito; prescreve e ministra remédios livres de qualquer custo
para a população que vem até ele; próximo à sua casa mantém, com
seu próprio dinheiro, um hospital onde sempre há muitos pacientes
internados; explica para as pessoas que desejam ouvi-lo o evangelho
das Sagradas Escrituras, sem tomar parte em qualquer polêmica que
possa contrariar de alguma forma os dogmas e disciplinas da Igreja
Católica; exorta todos sobre a necessidade de satisfazer as demandas
morais da religião deles; portanto, está decidido que honorável men-
ção de todos estes atos de caridade deve ser feita por esta Câmara e
em nome do município que ela representa, e que uma cópia desta ata
seja enviada ao já citado Dr. Kalley, como expressão de gratidão pú-
blica a ele”.

PRESSÕES CRESCENTES
Ainda que a gratidão estivesse sendo expressa publicamente, os
protestos contra a expansão missionária do doutor estavam crescendo.
O bispo de Madeira, que não só era paciente do “bom doutor” como
também um amigo pessoal, alertou-lhe que uma carta havia sido
recebida de Lisboa, advertindo que “deveriam ser imediatamente
interrompidas todas as atividades médicas e educacionais que pusessem
em risco a lei e a ordem”. Aquilo, obviamente, se referia ao Dr. Kalley!
A carta pode também ter incluído um decreto promulgado pela Igreja
Católica Romana em Portugal:
“Qualquer um que faltar com respeito à religião oficial do reino, a
Igreja Católica Apostólica Romana, deverá ser condenado à prisão
pelo período de um a três anos e a uma multa proporcional à sua
renda, em cada um dos seguintes casos:
1 Contrariar a já citada religião publicamente, em qualquer dog-
ma, ato ou objeto de adoração, por um ato ou palavra ou publi-
cação em qualquer forma;
2 Tentar, pelos mesmos meios, propagar doutrinas contrárias aos
dogmas católicos definidos pela igreja;
A TEMPESTADE SE APROXIMA 51

3 Tentar, por qualquer meio, fazer neófitos ou conversões para


uma religião diferente ou seita condenada pela igreja;
4 Celebrar atos públicos de adoração, que não sejam os de fé
católica, nos quais cidadãos portugueses estejam presentes.

Além disso, surgiu uma grande oposição dos médicos portugueses


em Funchal. Eles fizeram tudo o que estava ao seu alcance para
desacreditar o “bom doutor inglês”. Profissionalmente, eles não podiam
acusá-lo de qualquer falta, mas poderiam declarar que a sua filantropia
nas áreas médica e educacional era apenas um disfarce: sua verdadeira
intenção era propagar sua religião e enfraquecer o apoio popular à
religião oficial. Ele era um elemento perturbador da ordem.
Havia também uma grande dificuldade na importação de Bíblias
da Sociedade Bíblica de Londres. Uma remessa havia sido detida na
alfândega. Miraculosamente, a própria Rainha de Portugal interveio e
ordenou que as Bíblias fossem liberadas imediatamente, repreenden-
do severamente aqueles que procuraram restringir as atividades be-
neficentes do médico inglês!

O BISPO E O JUIZ
O doutor não estava completamente sem amigos que procurassem
defendê-lo. Certo número de clérigos da ala mais moderada com os
quais o Dr. Kalley tinha um relacionamento amigável, preparou um
documento, assinado por todos eles, defendendo-o contra as acusações.
O vigário geral levou o documento ao doutor para seus comentários e
apreciação. Ele havia sido mal escrito, e boa parte expressava-se
numa linguagem que ele provavelmente não aprovaria. Uma declaração
era definitivamente equivocada – que o doutor pregava a mesma
mensagem pregada pelos clérigos em seus púlpitos! Ele e o vigário
geral tentaram reescrever o documento, mas não obtiveram sucesso.
A Sra. Margareth Kalley escreveu em seu diário: “Robert pensa que
aquele documento não deveria ser assinado nem enviado. Ele e o
vigário estão tentando reescrevê-lo. Eu acho que o tempo da livre
propagação do evangelho está chegando ao fim”. O doutor enviou ao
52 JORNADA NO IMPÉRIO

bispo uma cópia da Bíblia que ele estava distribuindo. O bispo


respondeu: “Meu caro amigo e senhor, Deus, nosso bom Pai, muitas
vezes permite que sejamos perseguidos por nossos inimigos, a fim de
que possamos triunfar sobre as maquinações deles, após nossa
paciência ter sido provada com os sofrimentos. Deus nos salvará,
porque é todo-poderoso, bom e justo. Eu recebi a cópia das Escrituras
e estou muito grato. Seu amigo, Januário”.
O bispo apelou ao doutor para que fechasse sua clínica e suas
escolas, mas ele se recusou. O doutor afirmava estar cumprindo a
missão que Deus lhe confiara e recebendo bênçãos. Pelo constrangi-
mento divino, ele deveria continuar seus trabalhos com o mesmo zelo
de sempre. Ele não estava infringindo a Constituição Portuguesa com
estas atividades.
O doutor apelou ao juiz da suprema corte em Madeira, pedindo
uma decisão a respeito da legalidade do tratamento hostil e arbitrário
ao qual ele estava sendo sujeito, e neste apelo muitos amigos dos
Kalleys juntaram vozes de protesto.
Após a devida consideração, o juiz emitiu seu parecer oficial em
31 de março de 1843: Primeiramente, não existia lei alguma que
condenasse o ensino educacional e religioso exercido pelo doutor, uma
vez que ele não estava infringindo nenhuma cláusula do Tratado de
1842, assinado pela Grã-Bretanha e Portugal. Em segundo lugar, o
doutor não se opôs à religião oficial em encontros públicos, até mesmo
porque as únicas reuniões que ele mantinha eram aquelas em sua
própria residência, ou aquelas para os simpatizantes do protestantismo
que vivem nas adjacências ou, em certas ocasiões, em lugares como
São Jorge, onde, com a presença dos clérigos católicos, ele foi
convidado para expor as Escrituras.
As autoridades civis e religiosas estavam furiosas com a decisão
do juiz e levaram o caso para a corte em Lisboa. Lá, em 5 de julho de
1843, a decisão do juiz da ilha da Madeira foi anulada!

O CRESCIMENTO LEVA À PERSEGUIÇÃO


Em 1842, o número de escolas cresceu rapidamente. As escolas
A TEMPESTADE SE APROXIMA 53

noturnas eram especialmente populares, principalmente porque a Bíblia


era o livro-texto, e explicações de seu conteúdo faziam parte das lições.
Muitos dos que freqüentavam as escolas mudaram do que agora
consideravam ser uma idolatria supersticiosa para uma fé pessoal e
simples em Cristo, como o Salvador e Senhor de suas vidas. A Sociedade
Bíblica não conseguia fornecer Bíblias em número suficiente para
atender a grande demanda. Hinos e salmos, preparados pelo Dr. Kalley,
também eram muito populares. As pessoas os cantavam enquanto
trabalhavam, viajavam, quando se encontravam na escola e,
especialmente, quando compareciam nos cultos de domingo. Estes
cultos aconteciam abertamente nas montanhas; a hora para os cultos
secretos ainda não havia chegado.
O clero se enfurecia cada vez mais. A oposição tornou-se vocife-
rante e abusiva sob a liderança do cônego da catedral, Carlos de
Menezes. Suas tentativas para incitar a ira das pessoas em geral fa-
lharam de início. Do púlpito, ele e outros que pensavam da mesma
forma, atacavam violentamente a “nova seita”. Na escola dos padres
era ensinado às crianças como ridicularizar e escarnecer dos “calvi-
nistas”. Panfletos inflamatórios contra esses “leitores da Bíblia –
hereges” eram publicados e largamente distribuídos. Esforços inces-
santes eram feitos para incitar a população a se levantar e expulsar o
“intruso”, o “lobo” – Dr. Kalley – e erradicar qualquer vestígio do
evangelho que ele proclamava.
A Igreja Livre da Escócia escreveu para o Dr. Kalley recomen-
dando que ele deixasse a ilha, dando como justificativa o texto de
Marcos 6.11: “Se nalgum lugar não vos receberem nem vos ouvirem,
ao sairdes dali, sacudi o pó dos pés, em testemunho contra eles”. O
doutor replicou: “Você cita a ordem de nosso Senhor: ‘Quando, po-
rém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra’ (Mt 10.23).
Lembre-se, no entanto, que também está escrito em João 10.12-13:
‘O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas,
vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e
dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado
com as ovelhas’. Se eu sair daqui, as pobres ovelhas do rebanho de
Cristo sofrerão um terrível golpe, e o lobo as devorará. O Senhor
pode me salvar das presas do leão e do urso. É verdade que Ele
54 JORNADA NO IMPÉRIO

alimentará as ovelhas que ficarem aqui em minha ausência; mas sem-


pre é bom examinar a nós mesmos, apropriada e completamente, a
fim de discernir qual é a vontade de Deus – nem sempre devemos
fugir quando ouvimos o rugido do leão”.
Um fator que facilitou a perseguição e deu-lhe ainda mais ímpeto
foi a nomeação de um novo bispo e de um novo governador civil, que
já haviam declarado suas intenções de erradicar o evangelho da ilha
da Madeira e expulsar o Dr. Kalley.

ATAQUES NO TRABALHO MÉDICO E NAS ESCOLAS


Em setembro de 1843, o doutor foi proibido de administrar remédios
com base numa lei de que somente um farmacêutico qualificado poderia
administrar remédios. Ele fez imediatamente solicitação para prestar
os exames necessários, a fim de legalizar este lado da prática médica,
mas logo foi informado que, se exercesse a função de farmacêutico,
não poderia trabalhar também como médico: “Ninguém pode exercer
ambas as profissões ao mesmo tempo!” Este foi um golpe mortal no
seu costume de administrar os remédios gratuitamente para a população
pobre. Ele confessou: “Que serventia há em tratar os pobres, se não
posso lhes dar remédios, e eles não têm condições de obtê-los?”
A oposição, então, voltou suas atenções às escolas. Foi ordenado
que a polícia supervisionasse as escolas, a fim de verificar se nada
subversivo estava sendo ensinado. O Dr. Kalley também estava sempre
sob vigilância, cada movimento seu era relatado. No entanto, era
impossível para a polícia supervisionar adequadamente uma rede tão
extensa de escolas caseiras, de forma que o resultado final foi o
fechamento de todas as escolas próximas da capital, enquanto as mais
distantes, dispersas pelo interior, continuaram a funcionar.

CRENTES ENCARCERADOS
Em 11 de janeiro de 1843, um professor, sua esposa e filho foram
detidos, acusados de desobediência civil e condenados a quatro meses
A TEMPESTADE SE APROXIMA 55

de prisão por lecionarem sem possuir diploma oficial. No mesmo dia,


um crente também foi condenado à prisão por ter sido pego lendo e
expondo a Palavra de Deus. Em abril, dois madeirenses, Nicolau
Tolentino e Francisco Pires Soares, convertidos do catolicismo romano,
foram recebidos como membros da Igreja Escocesa e participaram
da Ceia do Senhor com a congregação. Ambos eram renomados
cidadãos e muito respeitados. Foram sumariamente excomungados
pela Igreja Católica Romana com todas as formalidades e publicidade:
“Que ninguém lhes dê fogo, água, pão ou qualquer outra coisa
necessária para sua sobrevivência. Que ninguém lhes pague as dívidas.
Que ninguém lhes ajude em qualquer caso que tragam ao conhecimento
da justiça. Que todos os deixem de lado, como membros decaídos,
excomungados; foram separados do seio e do serviço da Santa Madre
Igreja Católica, como rebeldes e contumazes. Pois, se alguém fizer o
contrário, o que Deus proíbe, eu apresento e considero apresentado,
sobre esta pessoa uma excomungação maior, etc, etc”.
Estes dois homens sofreram tanto nas mãos de seus perseguidores
que foram obrigados a se esconderem numa caverna nas montanhas
por mais de um ano.
No entanto, foi a conversão de um homem rico e influente, Arsê-
nio Nicos da Silva, descendente de uma notável família, que fez tremer
as bases da Igreja Católica em Madeira. A única filha de Arsênio, a
quem ele era extremamente dedicado, adoeceu seriamente. Os médi-
cos em Funchal foram consultados, e todos deram a menina como
perdida; em desespero, o pai apelou pela ajuda do Dr. Kalley. Este
visitou a paciente e confirmou o diagnóstico de seus colegas madei-
renses de que a jovem menina estava gravemente doente, mas, após
um cuidadoso exame e avaliação, deu àquele pai um fio de esperan-
ça. Ele ajoelhou-se e orou para que o Grande Médico guiasse o
tratamento e abençoasse a menina e sua família. A condição da filha
de Arsênio foi melhorando aos poucos, até que ela estava completa-
mente recuperada.
Quando a recuperação era visível a todos, Arsênio fez uma visita
ao Dr. Kalley a fim de expressar sua gratidão, e o doutor o presenteou
com uma Bíblia. Ele a leu ansiosamente, ávido por entender o
significado do evangelho e o segredo de uma vida consagrada como a
56 JORNADA NO IMPÉRIO

do doutor. O que leu foi muito perturbador, pois não conseguia achar
base bíblica para as tradições romanas nas quais lhe haviam ensinado
a crer. Virando as páginas do Novo Testamento, ele descobriu as
epístolas de Pedro – Pedro, o primeiro papa! Pedro certamente
esclareceria a verdade e lhe tiraria as dúvidas; mas, para seu assombro,
descobriu que o evangelho de Pedro concordava completamente com
o de Paulo e dos outros escritores do Novo Testamento. Ele ouviu o
Dr. Kalley pregando sobre o novo nascimento e, pouco depois,
experimentou o novo nascimento. Ele era agora um crente, mas sua
esposa e filha, ainda que o amassem, não seguiriam sua liderança
espiritual; elas permaneceram fiéis à Igreja Católica. Os padres
inicialmente tentaram persuadir Arsênio a voltar à igreja; quando isto
não mostrou qualquer resultado, eles instituíram uma violenta
perseguição contra ele. Porém, ele não somente fora convertido, como
também pregava o evangelho aos outros com resultados incríveis.
Sua completa dedicação à causa do evangelho e a conseqüente
identificação com humildes crentes resultaram na perda de todos os
seus antigos amigos. Mesmo sendo perseguido, incitou Dr. Kalley a
continuar com seu ministério e não abandonar o rebanho. Ele sabia
que era bem provável que chegasse um dia quando os fiéis teriam que
fugir da ilha, mas tal dia ainda não havia chegado!
Com a conversão de Arsênio, a perseguição aos crentes foi ainda
mais intensificada. Em torno de vinte e seis “hereges” foram
aprisionados, e um deles, rico fazendeiro, foi deportado para a África
Ocidental Portuguesa, por causa de Cristo. Na prisão, junto aos
delinqüentes, assassinos e outros tipos de criminosos, os crentes deram
um bom testemunho de sua inabalável fé em Cristo. Receberam grande
conforto da Palavra de Deus e dos hinos preparados pelo Dr. Kalley
para eles.
Maria Joaquina Alves, mãe de sete filhos, foi presa e acusada de
apostasia, heresia e blasfêmia. Após dezesseis meses, foi levada a
julgamento para responder às acusações feitas contra ela. A última
acusação, blasfêmia, foi escolhida para receber atenção especial.
“Você acredita”, eles perguntaram, “que a hóstia consagrada é o
verdadeiro corpo, o verdadeiro sangue, a alma humana e divindade de
Cristo?” Sua vida dependia da resposta que ela desse, mas firme e
A TEMPESTADE SE APROXIMA 57

claramente respondeu: “Eu não acredito nisto”. O juiz a sentenciou à


morte. Aproximadamente um ano depois esta sentença foi anulada
pela corte de Lisboa, mas apenas em conseqüência de um erro técnico
cometido durante o julgamento. A sentença, portanto, não poderia ser
executada. No dia seguinte à sua libertação, Maria Joaquina foi ao
culto de uma igreja e pediu para ser aceita como membro, pois nesta
época a igreja evangélica em Madeira já havia sido fundada. Ela se
tornou um exemplo vivo, para todos os seus companheiros crentes, de
como haviam sido chamados para sofrer pela causa do evangelho e,
no sofrimento, manterem-se firmes e leais a Cristo.

O DOUTOR NA PRISÃO
O ministério do Dr. Kalley estava agora severamente restrito.
Não podia mais tratar dos pobres, suas escolas foram interditadas, e,
finalmente, foi proibido de continuar pregando. Explicou ele, em agosto
de 1845, à Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, que ocorreu
em Inverness: “Quase ao mesmo tempo da promulgação da lei que
afetou meu trabalho como médico, outra ordem oficial foi dada pelo
tribunal em Lisboa. Ela declarava que era ato criminoso um cidadão
britânico ensinar doutrinas contrárias à religião oficial do Estado, com
a participação de portugueses. Após receber uma cópia desta ordem,
não me senti livre para continuar meus encontros com os irmãos
portugueses, e cessei de ministrar para eles publicamente”.
A igreja e o Estado conspiravam contra o “bom doutor”. Mais de
uma vez, as autoridades oficiais invadiram sua casa durante os
encontros que ele fazia ali, e, finalmente, com base numa lei sancionada
pela Inquisição, em 1603, contra todas as heresias, as autoridades
aprisionaram Dr. Kalley. Visto que o crime cometido era passível de
pena de morte, lhe foi negada a fiança. Em conseqüência disso, houve
uma grande onda de protestos. A Igreja Livre da Escócia, a Sociedade
Missionária de Londres, juntamente com outras instituições britânicas,
assim como pessoas individualmente, combinaram seus esforços para
assegurar a libertação do Dr. Kalley. Estes esforços foram, no entanto,
sem sucesso. As autoridades portuguesas se recusaram a ceder à
58 JORNADA NO IMPÉRIO

pressão, mesmo em se tratando de tal aliado como a Grã-Bretanha.


A vida na prisão era severa, mas não impossivelmente dura para
um homem da capacidade de Dr. Kalley. Ele tinha sua própria cela, e,
uma vez estabelecido relacionamento amigável com o carcereiro –
algo em o que o doutor era especialmente talentoso – a porta de sua
cela não era trancada. Também lhe era permitida a liberdade do pátio
da prisão. Quanto à alimentação, esperava-se que os prisioneiros con-
seguissem a sua própria ou que pelo menos pagassem pela escassa
comida da prisão. As refeições do doutor eram preparadas em sua
própria casa e trazidas por um de seus servos. Não há registro de sua
influência tanto no carcereiro quanto nos outros prisioneiros, mas uma
coisa é certa: todos eles tiveram o evangelho explicado em calmas e
amigáveis conversas. Mais tarde, quando a perseguição foi generali-
zada, e os crentes eram presos, o carcereiro permitia que alguns deles
saíssem discretamente à noite para ir aos cultos! Ele sabia que podia
confiar no retorno deles após a reunião! A maior de todas as prova-
ções para o Dr. Kalley foi a perda de sua liberdade.
Embora estivesse na prisão, Dr. Kalley recebeu alguns privilégios,
incluindo o direito de visitas. A cada domingo os crentes, seus filhos
espirituais, se enfileiravam do lado de fora da prisão para uma breve
visita. Era permitido que entrassem em grupos de três no pátio do
prédio; visto que o dia não era suficientemente longo para que todos o
vissem, eles recebiam permissão para voltarem durante a semana.
Embora Dr. Kalley fosse proibido de ler a Bíblia ou cantar hinos com
os crentes, ele sempre tinha uma palavra de conforto para cada um.
Paulo, na prisão em Roma, declarou: “A Palavra de Deus não está
algemada”. Como Paulo, Dr. Kalley poderia dizer: “Meu aprisionamento
é por Cristo”. Enquanto seus amigos esperavam sua vez de entrar na
prisão, eram sujeitos a todo tipo de abuso verbal; até mesmo eram
cuspidos por seus inimigos que se juntavam para atormentá-los. A
prisão era próxima da catedral!
Dentre os visitantes que o Dr. Kalley recebia, alguns eram muito
distintos – a Duquesa de Manchester, cristã fervorosa, um Membro
do Parlamento, chamado Scott, e o Capitão Allan Gardiner, cujo zelo
missionário se igualava ao do próprio doutor. O navio do Capitão esta-
va ancorado no porto para que fizessem as compras necessárias. Ele
A TEMPESTADE SE APROXIMA 59

viajava para a América do Sul – Argentina, Paraguai e Bolívia – para


estudar a viabilidade de iniciar um trabalho missionário entre a popu-
lação indígena, as numerosas tribos indígenas. Mais tarde, o que viu
enquanto passava pelo Brasil o convenceu de que não apenas os índi-
os, mas também os assim chamados povos civilizados encontravam-se
em profunda necessidade de ouvir o evangelho. No pátio da prisão, os
dois homens conversavam livremente. O Capitão Gardiner deixou
registrado sua impressão da dignidade do Dr. Kalley e sua admiração
pelo trabalho que ele havia realizado em tão pouco tempo. O Capitão
também lamentou que o governo de Vossa Majestade permitisse um
britânico definhar numa prisão estrangeira sob acusações fraudulen-
tas.
Em dezembro, uma reunião singular aconteceu na cela do Dr.
Kalley. A ata desta reunião está registrada na Igreja Escocesa de
Funchal, da qual o Dr. Kalley era um presbítero: “Confirmação da
nomeação do Reverendo Wood como ministro da Igreja Livre da
Escócia nesta localidade. Funchal, 15 de dezembro de 1843. Presentes:
Sr. Fullerton, Presbítero Grant, Dr. Kalley, Sr. Innes e o Reverendo
Julius Wood”. Os signatários haviam sido enviados para Madeira
especialmente a fim de visitar o Dr. Kalley e comunicar-lhe o amor e
preocupação que toda a igreja sentia por ele.

A RAINHA E AS BÍBLIAS
Em outubro, o bispo de Madeira, Dom Januário Vicente Camacho,
publicou uma carta pastoral para ser lida em todos os púlpitos. Esta
declarava que as Bíblias distribuídas na ilha, ainda que fossem a versão
da Igreja Católica Romana, traduzidas da Vulgata pelo Padre Antônio
Pereira de Figueiredo, eram falsas; eram na verdade uma imitação do
texto autorizado! O Dr. Kalley havia tomado o cuidado de pedir para
a Sociedade Bíblica esta versão católica, sem os livros Apócrifos, ao
invés da versão protestante, traduzida por João Ferreira de Almeida, a
fim de assegurar aos madeirenses que a Bíblia distribuída por ele era
a versão autorizada pela Igreja Católica. O bispo condenou a leitura
da Bíblia e excomungou, conseqüentemente, qualquer um que a
60 JORNADA NO IMPÉRIO

possuísse ou lesse. Dr. Kalley se preparou para refutar a acusação,


mas isto se mostrou desnecessário, pois outra pessoa defendeu
valentemente a autenticidade das Bíblias publicadas pela Sociedade
Bíblica. E esta pessoa era ninguém menos que a Rainha de Portugal.
Um jornal da ilha de Terceira, em Açores, ao mesmo tempo em
que denunciava a acusação feita pelo bispo, citava um édito promulgado
em Lisboa, datado de 17 de outubro de 1842. Este declarava como
verdadeiras as Bíblias da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira,
recebidas pelo Cônsul Britânico, Thomas Carew-Hunt, em Ponta
Delgada, para distribuição em Terceira. O artigo seguia dizendo que
Vossa Majestade, a Rainha de Portugal, com aprovação do arcebispo
Francisco D. Luiz, tinha aprovado a versão da Sociedade Bíblica e a
recomendara para livre distribuição em Terceira, visando ao benefício
moral e espiritual de seus súditos! Dr. Kalley não precisava falar mais
nada após tão valiosa defesa.

UMA TRÉGUA
Com alguma relutância o governo britânico cedeu à pressão e
interveio à favor do doutor, através do Embaixador Britânico em Lisboa,
Lord Howard de Walden. A Corte de Apelação do reino de Portugal
resolveu, em 12 de dezembro de 1843, que a recusa em aceitar fiança
foi ilegal, assim como a prisão e detenção do doutor. Os britânicos
alegaram que o Dr. Kalley, sendo um cidadão britânico residente em
Funchal, não havia de forma alguma infringido qualquer artigo do
Tratado de 1842. Em vista da decisão da Corte de Lisboa, Dr. Kalley
foi libertado da prisão. Ele ficara confinado por seis meses.
Uma vez que sua prisão havia sido considerada ilegal e não
recebera acusação alguma, ele retornou a suas atividades normais.
No entanto, se ausentou de Funchal por um certo período, quando ele
e sua esposa se mudaram para um local afastado nas montanhas,
Quinta das Ameixeiras. Isto permitiu que concentrasse seus dons
pastorais numa congregação em grande crescimento nas montanhas,
em Santo Antônio da Serra. Este local logo se tornaria um dos mais
importantes centros de fé evangélica na ilha. Dr. Kalley escreveu:
A TEMPESTADE SE APROXIMA 61

“Fui libertado da prisão em janeiro de 1844 e retomei o trabalho que


havia sido interrompido. Fiz isto porque o único juiz autorizado a dar
um veredicto declarou que não ocorrera quebra de lei, nem da
constituição do país. A polícia continuou a seguir os meus passos,
mas, apesar de todas as dificuldades, em torno de seiscentas pessoas
se juntavam todos os domingos, durante os meses de verão para o
culto de adoração em Santo Antônio da Serra, e aproximadamente
trinta, uma noite por semana”. Em agosto daquele ano, Dr. Kalley
celebrou a primeira Ceia do Senhor em português e em setembro
retornou para sua casa em Caminho do Monte, Santa Luzia, Funchal.
A pressão crescia cada vez mais. Os “calvinistas hereges” em
geral e Dr. Kalley em particular foram acusados de criar desordem
pública. Em um esforço para acalmar a situação e diminuir a pressão
sobre seu rebanho, Dr. Kalley e sua esposa deixaram Madeira em
janeiro do ano seguinte e passaram algumas semanas em Lisboa. Ele
tomou a oportunidade para discutir a situação com o Embaixador Bri-
tânico em Lisboa, e chegaram a um acordo. Lord de Walden insistiria
com as autoridades portuguesas na interrupção permanentemente de
todos os procedimentos legais contra Dr. Kalley, e este por sua vez,
desistiria de processar as autoridades por prisão ilegal.
CAPÍTULO 6
NASCE UMA IGREJA
E nquanto estavam em Lisboa, os Kalleys tiveram a surpresa de
encontrar com o Reverendo William Hepburn Hewitson e souberam
de sua ida à Madeira, após ser comissionado pela Igreja Livre da
Escócia para cuidar dos crentes madeirenses, organizá-los em uma
igreja com os costumeiros presbíteros e diáconos, ampliar e desenvol-
ver o trabalho educacional elementar. Dr. Kalley não fora consultado
a respeito da nomeação do Sr. Hewitson para este cargo, visto que o
doutor era totalmente independente, nem sequer tinha recebido qual-
quer ajuda da Igreja na Escócia ou até mesmo da Igreja Presbiteriana
em Funchal. Um homem de caráter inferior teria ficado ressentido
com tal flagrante falta de cortesia e interferência deliberada. Mas, ao
invés disso, ele deu as boas-vindas a seu novo colega e juntos retorna-
ram para Madeira.
Logo após a chegada deles, outra crise se formou. O Dr. Kalley
foi mais uma vez preso, sob a acusação de que, em sua casa, mantinha
reuniões nas quais cidadãos portugueses estavam presentes e ensinava
doutrinas contrárias à religião oficial do Estado. Desta vez, no entanto,
ele pôde pagar fiança. O Secretário Britânico de Relações Exteriores,
Lord Aberdeen, advertira Dr. Kalley de que, se continuasse a fazer
reuniões com a presença de cidadãos portugueses, o governo britânico
64 JORNADA NO IMPÉRIO

não o protegeria da expulsão de Madeira como alguém “indesejado”.


O doutor estava enfrentando uma dificuldade insuperável. Se
continuasse a fazer reuniões, seria expulso da ilha e os madeirenses
seriam privados de sua liderança moral e espiritual. Ele, no entanto,
estava pronto para ceder seu lugar ao Reverendo Hewitson, deixando
sob sua liderança o cuidado pastoral e a administração do trabalho.
Ele escreveu: “Se não houvesse ninguém para continuar meu trabalho,
eu ficaria extremamente pesaroso, mas, graças a Deus, temos aqui
alguém melhor do que eu para lapidar estes diamantes brutos”.

O NOVO PASTOR

O Reverendo Hewitson era um jovem extraordinário. Como um


estudante em Edimburgo, ele recebeu as mais altas honras acadêmicas,
mas, ao se esforçar tanto, sua saúde, que nunca fora robusta, sofreu
um grande baque. Não era só um intelectual, mas um rapaz
profundamente espiritual. Certa vez, ele escreveu: “Ser cristão
evangélico vem do coração, do espírito, não da erudição; tem glória
não proveniente de homens, e sim de Deus – se Cristo está em nós,
então as evidências de sua graciosa presença não são confusas ou
ilegíveis – a fé que faz a vida também ilumina, porque fé é precisamente
a graça do Salvador que habita em nós, de forma que o Salvador é
nossa vida, e esta vida é a luz dos homens”.
Apesar da frágil saúde, ele implorou à igreja que o ordenasse e lhe
concedesse um local para fazer o trabalho missionário. Finalmente,
foi decidido que Madeira era o local adequado, e ele foi devidamente
ordenado em novembro de 1844, pelo Presbitério de Edimburgo, da
Igreja Livre da Escócia. A Igreja Livre, desta forma, assumiu a juris-
dição do trabalho missionário em Madeira. O Reverendo Hewitson
foi a Lisboa onde permaneceu por três meses, a fim de aprender
português, e lá encontrou o Dr. Kalley. Mais tarde, o próprio doutor
confessou que seu jovem colega “começou com grande zelo e amor o
trabalho para o qual Deus graciosamente, e de maneira tão extraordi-
nária, o havia preparado. Sua presença foi providencial. Que o Senhor
NASCE UMA IGREJA 65

da colheita mande muitos trabalhadores como ele para seu campo”.

A IGREJA É ESTABELECIDA

Tranqüila e modestamente, o Sr. Hewitson juntou o rebanho


perseguido de maneira similar à da Grã-Bretanha, quando se marcavam
cultos secretos nos difíceis dias que seguiram o Ato de Uniformidade
de 1662. Ele celebrou a Ceia do Senhor em português pela primeira
vez em 25 de março de 1845. Trinta e quatro madeirenses sentaram-
se à Mesa do Senhor. Duas semanas antes, na casa de uma mulher
inglesa, Srta. Dennison, ele realizou batismos da forma mais secreta
possível. Os pais haviam andado por quatro horas, durante a noite, a
fim de chegar na casa sob a proteção da escuridão. Apesar das
ameaças de prisão, um crescente número de convertidos solicitava
membresia à Assembléia da Igreja Escocesa e admissão à Mesa do
Senhor. No mês seguinte, sessenta e uma pessoas foram recebidas
na comunhão da igreja. Uma testemunha escreveu que tal acontecido
a fez lembrar-se das reuniões da igreja citadas nos tempos do Novo
Testamento: “Muitos eram movidos por grande emoção. O Sr.
Hewitson falou do filho pródigo. Fiquei muito impressionado com sua
fluência no português – seu completo domínio da língua e sua excelente
pronúncia”. A igreja foi oficialmente organizada em 8 de maio de
1845, e presbíteros e diáconos foram devidamente empossados. Foi a
primeira igreja estabelecida em solo português para súditos
portugueses.
O fato de que a Igreja Madeirense em Funchal era “presbiteriani-
zada” parecia, para alguns, comprometer a posição do Dr. Kalley
como um independente. Ele negou veementemente que isso fosse
verdade. “A organização de uma igreja e a ordenação de diáconos e
presbíteros em Funchal foram inteiramente de responsabilidade do
Reverendo Hewitson, que fora enviado pela Igreja Livre da Escócia,
sem a minha solicitação. Ele não estava de forma alguma sob meu
controle. O fato de que a Igreja Livre da Escócia é presbiteriana
deveria ser suficiente em si mesmo para convencer qualquer pessoa
de que não foi algo feito por mim – eu não sou presbiteriano nem
66 JORNADA NO IMPÉRIO

estou em contato com qualquer tipo de igreja – sou irmão de qualquer


cristão independente de sua denominação” (palavras do Dr. Kalley
ao escrever para o Sr. Reginald S. Smith).
Alguns dias depois do estabelecimento da igreja, o Sr. Hewitson
escreveu para sua igreja na Escócia: “Os horizontes tornam-se cada
vez mais escuros. Dois ou três dias atrás, durante um banquete, o
Bispo de Madeira disse claramente que declararia guerra contra a
Bíblia. Afirmou ter as autoridades ao lado dele e estar determinado a
exterminar qualquer um que houvesse abandonado a Igreja Católica
Romana”.
Uma vez que o rebanho estava sendo muito bem cuidado pelo Sr.
Hewitson, Dr. Kalley e sua esposa deixaram a ilha em agosto e
seguiram para a Escócia, buscando um breve período de descanso e
recuperação.
Sr. Hewitson era incansável no ministério com suas dispersas
congregações. Isto o envolveu em árduas e contínuas jornadas por
trilhas perigosas nas montanhas. Os madeirenses da zona rural viviam
isolados, o terreno montanhoso tornava quase impossível a formação
de vilas ou aldeias. Apesar dos problemas de saúde, resultado de uma
tuberculose, ele visitava os grupos de crentes em todas as partes da
ilha. A ameaça de aprisionamento estava sempre presente. Do chefe
de polícia recebeu uma intimação que ordenava a extinção das reuniões
organizadas por ele em sua casa, ou seria processado. Ele escreveu
com esmero para sua igreja: “Se eu for preso, pego durante os cultos,
serei mandado para a prisão, mas o Senhor é meu defensor. O
carcereiro é agora um bom homem; ele tem permitido que os crentes
na prisão saiam durante a noite para participar dos cultos. Ele sabe
que os crentes na Bíblia são aqueles verdadeiramente obedientes à
sua Palavra”.
Ameaças e perseguição não detiveram aqueles desejosos de
saber mais sobre o evangelho; o número de convertidos continuava
a crescer. Tal era o sucesso da pregação do evangelho em Madeira
que o Reverendo Dr. Andrew Bonar declarou à Assembléia da
Igreja Livre, em maio de 1846, que o caso de Madeira era o mais
fantástico acontecimento na história moderna das missões. No fim
do ano, havia 105 nomes no rol de membros da igreja.
NASCE UMA IGREJA 67

A IGREJA SOB ATAQUE

Em outubro de 1845, o ritmo da perseguição foi consideravelmente


avançado. Os crentes estavam sujeitos ao tormento crescente por
parte de seus vizinhos, empregadores e autoridades.
O Sr. Hewitson descreveu a terrível situação num relatório para a
Comissão Colonial da Igreja Livre da Escócia: “As pessoas de Serra
ainda estão presas, e não há qualquer certeza sobre quando serão
levadas a julgamento. O número de crentes aprisionados por lerem a
Palavra de Deus é de vinte e oito. Seis deles foram pegos algumas
semanas atrás. O seu crime foi o de se reunirem numa noite de domingo
para mútua edificação através da leitura da Bíblia e oração. Outros
três foram presos ao mesmo tempo, mas acabaram sendo libertados
quando a ilegalidade de sua prisão foi provada. Outra família de três
pessoas recebeu um aviso de que seria sentenciada a sete anos de
deportação na África e ainda teria de pagar uma pesada multa. Eles
fugiram para Demarara antes da publicação da sentença. Aqueles
que têm abraçado a fé cristã, com raras exceções, estão suportando
firmes, apesar dos ataques violentos de seus perseguidores. Estou
certo de que há muitos outros que lêem a Bíblia secretamente e cuja
única esperança de salvação é a fé em Jesus Cristo, mas aos tais falta
coragem para declarar isto abertamente. Apenas Elias confessou sua
fé publicamente, mas havia sete mil que não se dobraram a Baal! Eles
adoravam o verdadeiro Deus em segredo”.
A saúde do Sr. Hewitson deteriorava-se progressivamente, ele
sobrecarregava a si mesmo. Também a ordem para a sua expulsão
não poderia ser adiada por muito tempo. Na verdade, ela se tornou
inevitável quando foi convertido um homem mau, empregado pelos
padres para liderar o mais violento ataque dos perseguidores. Tal ato
da graça de Deus foi anátema para seus empregadores. O destino do
Sr. Hewitson estava selado – expulsão como um “indesejável”. Dr.
Kalley, que retornara recentemente da Escócia, recomendou
veementemente a seu colega que partisse de Madeira o mais rápido
possível. Embora relutante, o Sr. Hewitson embarcou para a Escócia
68 JORNADA NO IMPÉRIO

em maio de 1846, reassegurando seus tristes companheiros de que


logo estaria junto deles novamente.
RENASCIDA DAS CINZAS... 69

CAPÍTULO 7
A TEMPESTADE DESABA
O Supremo Tribunal em Lisboa agora ordenava que muitos dos
crentes detidos na prisão fossem libertados. Tal ato de clemência serviu
apenas para incendiar ainda mais os perseguidores, de forma que,
por volta de agosto de 1846, a tempestade alcançou sua fúria completa.
A imprensa pró-católica incitava o uso da violência para controlar a
ameaça atribuída aos “calvinistas hereges”. O Imperial declarou serem
o chicote, o tronco ou até mesmo o enforcamento, os únicos argumentos
que os camponeses poderiam entender. Foi sugerido que houvesse
outra “Noite de São Bartolomeu” – a noite quando, na França, milhares
de huguenotes foram massacrados. O clero incitava a multidão a
cometer atrocidades, e os crentes eram cruelmente atacados,
espancados com porretes e, em muitos casos, deixados neste estado
para morrer. Suas casas foram incendiadas, e os seus bens, saqueados.
Os perseguidores clamavam que não havia qualquer lei protetora dos
“calvinistas”, e as autoridades não intervinham. Os perpetradores da
violência nunca foram punidos.
Os cemitérios foram fechados para os crentes. O primeiro
convertido de Dr. Kalley, Antônio Fernandes da Gama, morreu e seu
enterro foi proibido. Em vão a comunidade britânica suplicou às
autoridades eclesiásticas permissão para enterrá-lo no cemitério
70 JORNADA NO IMPÉRIO

privado deles. Elas diziam que ele deveria servir de exemplo, sendo
enterrado numa encruzilhada, de forma que seu túmulo fosse profanado
pelos pés de todos os passantes!
Muitos da colônia britânica simpatizavam com Dr. Kalley e
admiravam grandemente o trabalho que ele fazia pelos pobres. Setenta
e sete deles assinaram uma petição endereçada ao Lord Howard de
Walden, em Lisboa: “Nós, signatários, cidadãos britânicos, ouvimos
que certas acusações serão feitas pelo governador de Madeira para o
governo de Lisboa contra o nosso estimado conterrâneo, Dr. Robert
Reid Kalley. Sabendo que tais acusações podem afetar a permanência
dele na ilha, consideramos tal fato uma calamidade para os habitantes
em geral e especialmente para aqueles mais pobres. Portanto,
desejamos informar Vossa Excelência de nossa estima pelo Dr. Kalley
como pessoa e de nossa verdadeira apreciação por sua benevolência
desinteressada e incansável em prover educação, tanto secular quanto
religiosa, para os pobres, assim como em fornecer-lhes tratamento
médico gratuito…”

AS ACUSAÇÕES DO BISPO
As acusações citadas foram encaminhadas para Lisboa pelo
próprio bispo. Ele as compilou num panfleto intitulado Uma Visão
Histórica do Proselitismo Anticatólico Praticado pelo Dr. Robert
Reid Kalley, Médico Inglês, na Ilha da Madeira, desde 1838 até
Agora. A publicação foi largamente distribuída numa tentativa de
conseguir a simpatia tanto das autoridades religiosas quanto das
seculares e abrir caminho para os meios violentos que estavam para
ser utilizados, com a finalidade de silenciar o doutor e assegurar sua
expulsão de Madeira. O doutor respondeu, tanto em Funchal quanto
em Lisboa, publicando sua defesa, também na forma de panfleto, A
Exposição dos Fatos, e expressou-se em termos incisivos, porém
educados.
Em seu panfleto, o bispo resumia as acusações contra o Dr. Kal-
ley. Este era acusado de protestantismo, presbiterianismo, calvinismo,
fanatismo; foi culpado de proselitismo desinibido, de maneira tanto
A TEMPESTADE DESABA 71

sutil quanto apaziguadora, sob o disfarce da filantropia – tratamento


médico gratuito para os pobres, fornecimento de consulta, medica-
mentos e até mesmo hospitalização, se fosse necessário; educação
gratuita, com escolas noturnas abertas para todos, e professores pa-
gos pelo próprio doutor ou por contribuições recebidas de seus
simpatizantes britânicos. Trazendo os imprudentes e ignorantes cam-
poneses sob seu encanto, ele os doutrinava com sua interpretação de
ensino bíblico e, ao fazê-lo, atacava a Santa Madre Igreja Católica
Romana, a religião oficial. Censurou a Trindade, a virgem Maria, as
imagens dos santos, a missa, o purgatório e outros dogmas católicos,
sabendo que os madeirenses nativos, já tendo sido batizados na infân-
cia, de acordo com o ritual católico, eram, em sua totalidade, membros
daquela igreja; todos os madeirenses eram católicos. Dr. Kalley re-
presentava uma ameaça para toda a comunidade da ilha: a solidariedade
e a fidelidade da população em geral foi ameaçada e, logicamente, o
Estado também. Ele estava abusando da boa vontade e da hospitali-
dade que Madeira lhe demonstrava. E, acima de tudo, o bispo declarou
que Dr. Kalley, numa conversa pessoal, prometera não continuar com
sua pregação!

A RESPOSTA DO DR. KALLEY


Dr. Kalley, de sua parte, fez duas coisas em seu panfleto: defen-
deu sua ortodoxia como protestante e tomou a defesa de seus direitos
civis. Não admitiu as acusações de que não aceitava as doutrinas da
Trindade e do Nascimento Virginal. Ele dizia que todos os homens –
católicos, protestantes ou pagãos – tinham necessidade da glória de
Deus e precisavam da salvação, que Deus em sua misericórdia provi-
denciou através da morte expiatória de seu Filho, Jesus Cristo; uma
salvação para ser recebida pela fé e que, uma vez experimentada,
leva a uma vida santa e a boas obras. Ao pregar o evangelho, ele
obedecia à ordem do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o evan-
gelho a toda criatura”. Sua pregação era positiva. Não atacava a
Igreja Católica utilizando uma atitude negativa. Expunha as verdades
do evangelho mostradas na Bíblia e permitia que a verdade falasse
72 JORNADA NO IMPÉRIO

por si mesma. Naturalmente, como um protestante, ele não podia acei-


tar tradições e dogmas baseados simplesmente na tradição humana.
Com grande habilidade, citava as leis Tridentinas, assim como um
catecismo elaborado por Carlos Joaquim Colbert, bispo de Montpelli-
er (1776).
Quanto aos direitos civis, o doutor perguntava por qual lei ele
permanecia condenado, e citou a constituição portuguesa, que garantia
aos cidadãos portugueses o direito de manter seus próprios pontos de
vista religiosos e proibia a perseguição daqueles que tinham uma religião
diferente da oficial. Também citou o tratado recentemente atualizado
entre a Grã-Bretanha e Portugal (1842), que garantia o direito de um
cidadão britânico praticar sua religião e de, até mesmo, dentro de
limites, construir lugares de adoração. A propriedade de um cidadão
britânico era inviolável e deveria ser protegida pelas autoridades
portuguesas.
Também citou as decisões de dois juizes portugueses independen-
tes que, em duas ocasiões distintas, rejeitaram as acusações trazidas
contra ele, de que mantinha reuniões em sua casa com a presença de
cidadãos portugueses. Os juízes decidiram não haver lei que proibia
um homem de receber visitas em sua própria casa, e muito menos
alguma legislação a respeito dos tópicos de conversas que acontecem
nas casas, sejam assuntos religiosos ou de qualquer outro tipo. O dou-
tor assegurou corretamente não haver quebrado qualquer lei, ao
demonstrar compaixão cristã pelos pobres – em cuidar de seu bem-
estar físico, da instrução de suas mentes e de ir ao encontro de suas
almas necessitadas através do ensino bíblico.

A VIOLÊNCIA DA MULTIDÃO
Em 2 de agosto, na casa da Srta. Rutherford, uma inglesa cuja
casa situava-se à rua Quinta das Angústias, um grupo de aproximada-
mente trinta madeirenses, liderados por Arsênio, encontrou-se para
orar e ler uma carta do Reverendo Hewitson. Viviam com a Srta.
Rutherford duas irmãs suas, das quais uma estava seriamente doente.
Conforme a reunião terminava, um problema começava lá fora, na
A TEMPESTADE DESABA 73

rua. Uma multidão, liderada pelo Cônego Telles Menezes, um padre


jesuíta, que havia sido educado na Inglaterra, ajuntou-se ao redor da
casa. Os poucos crentes que se aventuraram a sair foram obrigados a
passar por entre uma multidão furiosa que os insultava e socava. Os
outros, em sua maioria mulheres e crianças, refugiaram-se na ampla
cozinha aos fundos da casa. A Srta. Rutherford, que falava português
fluentemente, alertou a multidão de que estavam agindo contra a lei,
avisou-lhes que sua irmã estava gravemente doente e, finalmente,
disse que, se achavam que ela estava acolhendo criminosos, chamas-
sem a polícia para fazer as prisões necessárias. Eles demandavam
que ela pusesse os madeirenses para fora, o que ela se recusava a
fazer.
Durante horas, eles cercaram a casa, gritando obscenidades
misturadas com vivas a “Nossa Senhora do Monte” e à “Santa Madre
Igreja Católica Romana”. A multidão aumentou, e o furor cresceu até
um clímax abrasador que finalmente explodiu em ação. A casa foi
atacada violentamente, as janelas foram despedaçadas, e a porta foi
posta abaixo. A multidão entrava em alvoroço pelo andar térreo,
procurando cômodo por cômodo, esperando desentocar qualquer
crente que estivesse se escondendo nos cantos escuros. A escuridão
impedia o progresso deles, enquanto havia mais de vinte cômodos
para procurar! Mas finalmente chegaram à cozinha, e grandes
gargalhadas surgiram; haviam descoberto o esconderijo.
E a polícia? O oficial responsável pela força policial esperava
ordens do governador para dominar o tumulto, mas tais ordens não
chegaram. Ele decidiu agir por iniciativa própria, de forma que che-
gou com seus homens bem a tempo de impedir um massacre. Um
homem mais velho já tinha sido arrastado para o jardim, sangrando
profusamente de uma pancada na cabeça; a multidão pretendia gol-
peá-lo até a morte. A polícia interveio e logo restaurou a ordem. Então,
os crentes foram escoltados até suas respectivas casas.
A Srta. Rutherford protestou ao Consulado Britânico, assim como
certo Capitão Tate que também estava presente na hora da desor-
dem. Dr. Kalley também fez ouvir sua voz de protesto. O cônsul, no
entanto, não aceitaria qualquer responsabilidade: “É papel da polícia
manter a lei e a ordem”, ele declarou. O que o atormentava não era
74 JORNADA NO IMPÉRIO

os cidadãos britânicos terem sido assediados pela multidão descome-


dida, e suas vidas expostas ao perigo, mas sim o fato de que a Srta.
Rutherford tenha permitido que tal reunião acontecesse em sua casa!
Nenhuma acusação foi apresentada contra os líderes do tumulto, e
nenhuma investigação foi feita por parte das autoridades portuguesas
ou britânicas. A completa anarquia reinava. Multidões vociferavam
nas ruas e se aglomeravam na porta das casas da Srta. Rutherford e
do Dr. Kalley. Insultos eram proferidos com violência a qualquer um
que entrasse ou saísse das casas; nem a vida nem a propriedade esta-
vam a salvo. As autoridades davam garantias verbais, mas os eventos
subseqüentes provaram que sua palavra não seria honrada.

CONSPIRAÇÃO CONTRA O DOUTOR


Com a saída do Reverendo Hewitson da ilha, o Cônego Telles
dirigiu sua fúria fanática contra o Dr. Kalley. Rumores indicavam que
um plano havia sido elaborado para matar o Dr. Kalley e saquear sua
casa e hospital em Santa Luzia, e estes rumores eram contínuos. O
cônsul foi avisado de que o doutor corria risco de vida, mas o aviso foi
negligenciado. O doutor apelou para o chefe de polícia, mas seu
mensageiro foi severamente espancado pela multidão. O governador
civil, maior autoridade em Madeira, ao receber o apelo, só mostrou
hostilidade. Ele acusou o doutor de ser a causa de todos os distúrbios,
e disse ser aquela situação “o fruto da árvore que o próprio doutor
havia plantado, uma árvore capaz de produzir apenas discórdia e
confusão”. O governador reiterou sua determinação em erradicar o
protestantismo da ilha, ao menos entre os madeirenses. Quando tomou
posse, em 1843, tinha declarado que usaria todos os seus poderes
para erradicar a Bíblia e os leitores dela do território sob sua jurisdição.
Era comum dizer que o Dr. Kalley não escaparia desta vez, “a não ser
que ele seja o diabo em pessoa”.
Durante a semana, os eventos aconteceram rapidamente. As
famílias inglesas conhecidas por simpatizarem com a causa do
evangelho foram sujeitas a constantes tormentos pelas gangues sem
A TEMPESTADE DESABA 75

lei. Por trás de tudo isso estava o Cônego Telles e outros clérigos
incitando o ódio e violência. A Sra. Kalley e outras mulheres acharam
refúgio no consulado britânico. O cônsul, deliberadamente, escolheu
se ausentar por um período e passar este tempo em sua casa de campo
nas montanhas! No sábado, dia 8, ficou muito claro ao Dr. Kalley que
ele não poderia contar com qualquer tipo proteção, portuguesa ou
britânica. Com ajuda de amigos, ele procurou bloquear todas as janelas
e portas. O chefe de polícia tinha enviado um destacamento policial
para guardar o portão que dava para o quintal e a casa propriamente
dita, mas o doutor os ouviu discutindo com um grupo de homens
mascarados, se o ataque deveria começar lá e naquela mesma hora
ou se deveriam esperar o sinal que eles já haviam planejado! Às duas
horas da madrugada, ferrolhos e barras foram verificados, e o doutor
se disfarçou de camponês. Seus amigos insistiram em que ele deveria
escapar imediatamente. Ele escalou um muro nos fundos, desceu num
vinhedo e subiu a colina para uma casa segura. Seus amigos o seguiram
pelo muro e depois se dispersaram.

O DIA DE SÃO BARTOLOMEU EM MADEIRA

Domingo, 9 de agosto, amanheceu, e naquele ano, de acordo com


a expectativa de todos, era o Dia de São Bartolomeu em Madeira. O
Cônego Telles fez um discurso bombástico para uma congregação
apinhada na catedral: “Defendam sua santa padroeira, Nossa Senhora
do Monte; defendam a Santa Madre Igreja Católica; os métodos
pacíficos de impedir que a heresia se espalhasse falharam; então, os
métodos violentos terão de ser usados agora; mostrem seu zelo pela
religião de seus antepassados, expulsando violentamente os ‘calvinistas’
e devastando suas propriedades. Suas armas são agora a espada e o
fogo”.
Do lado de fora da catedral, na praça, um foguete riscou o ar,
seguido rapidamente por um segundo foguete. O sinal havia sido dado,
e suas repercussões seriam sentidas por toda a terra. O Dia de São
Bartolomeu havia começado. A violência explodia na cidade e
76 JORNADA NO IMPÉRIO

finalmente se espalhou por toda a ilha. A “heresia calvinista” estava a


ponto de ser exterminada de uma vez por todas.
As casas e chácaras dos crentes ficaram sob ataque contínuo.
Um oficial da marinha britânica, que simpatizava com os perseguidos,
registrou: “Todos os dias ouvimos novos casos de violência e crueldade
contra os crentes. Eles não têm alternativa, senão fugir para salvar
suas vidas”. Hebreus 11.36-38 voltava a acontecer. Em Santo Antônio
da Serra e em Lombo das Faias, as autoridades invadiram as casas
dos crentes durante a noite e expulsaram as famílias que viviam ali. A
polícia e os soldados se regalavam livremente com qualquer coisa
que encontrassem – vinho, porcos, galinhas, cereais estocados;
qualquer coisa e, na verdade, tudo estava sendo saqueado. Tratava-
se de uma estratégia para destruir tudo o que os inimigos “calvinistas”
pudessem usar para sua sobrevivência. Os crentes eram abandonados
sem casa e privados de qualquer outro recurso. As mulheres e meninas
eram sujeitas a todo o tipo de humilhações, enquanto os homens eram
cruelmente espancados. Vinte e oito homens e mulheres, algumas
destas apenas meninas, foram ajuntados num calabouço asqueroso;
porém, de lá, era possível ouvir uma música sendo cantada, um dos
hinos do Dr. Kalley: “Aqui nós sofremos dores e tristezas…” Era um
testemunho eloqüente para o espírito inabalável dos sofredores.
Aqueles foram dias de agonia para qualquer associado com o
movimento evangélico e até para os de nacionalidade britânica. Os
madeirenses que conseguiam escapar das mãos dos perseguidores
fugiam para se esconderem nas florestas e cavernas das montanhas,
mas até nestes lugares não estavam seguros. Seus inimigos os
perseguiam implacavelmente. As autoridades civis tinham perdido
completamente o controle da situação. Grupos de saqueadores
vagueavam pela ilha em grande agitação, sendo que alguns deles eram
criminosos e outros eram simplesmente pessoas motivadas pelo
pensamento de que estavam numa cruzada santa contra os hereges.
Naturalmente, os mais moderados dentre a população nativa e os
estrangeiros residentes em Funchal estavam horrorizados com os
acontecimentos, e protestavam vigorosamente contra tal fanatismo e
atos de barbaridade.
E o que aconteceu com Dr. Kalley naquele dia decisivo? A
A TEMPESTADE DESABA 77

multidão, liderada pelo Cônego Telles, vagava pelas ruas estreitas da


cidade em direção a Santa Luzia. Eles cantavam orquestradamente
frases como: “Longa vida à Nossa Senhora do Monte!”, “Longa vida
à Santa Madre Igreja Católica Romana”, “Morte ao Lobo da Escócia”,
“Morte a Kalley”. Toda a onda de animosidade e ódio estava agora
concentrada no doutor.
A multidão se posicionou na rua e, quando foi dado o sinal, invadiu
violentamente a casa e o hospital do doutor. As barreiras que ele ha-
via colocado para proteger a casa foram atiradas longe, e imensa
multidão de assassinos, jurando vingança, revistou tudo. Estava vazia.
Dr. Kalley não estava lá, e era ele que a multidão queria; eles preten-
diam arrancá-lo da casa e linchá-lo ali mesmo na rua. O governador
da ilha e o chefe de polícia estavam presentes, aparentemente para
verem com os próprios olhos que o trabalho de destruição havia sido
completamente feito! O cônsul britânico se aproximou montado em
seu cavalo, porém muito tarde para ser de alguma utilidade. Como
não conseguiu achar o doutor, a multidão deu vazão ao seu ódio e
destruiu os pertences dele. Toda a mobília da casa e do hospital, assim
como uma valiosa coleção de livros, foram levados para o meio da rua
e queimados numa grande fogueira, e nenhum esforço foi feito para
acalmar o tumulto.

A FUGA
A busca pelo doutor continuou implacavelmente. Ele havia
encontrado refúgio na casa de dois irmãos, seus convertidos, na Quinta
da Boa Vista. Sua vida estava em perigo; era preciso encontrar um
meio de colocá-lo a bordo de um navio britânico ancorado no porto e
com destino às Índias Ocidentais. O cônsul pensava que Dr. Kalley
deveria ser escoltado pelo governador e uma companhia de soldados,
da cidade até o local de embarque e desembarque na praia. Quando
ouviu esta idéia, a Sra. Kalley se opôs. Corretamente, ela acreditava
que em tal companhia seu marido estaria em perigo ainda maior – o
governador era seu inimigo declarado, os soldados eram traiçoeiros, e
a multidão estava sedenta pelo sangue do doutor. Nem sua esposa
78 JORNADA NO IMPÉRIO

nem seus amigos poderiam concordar com tal plano; então, inventaram
um engenhoso, mas extremamente perigoso, método de fuga. Em
Funchal havia várias formas de transporte: um tipo de trenó puxado
por bois, uma padiola levada por carregadores, e a rede, presa numa
vara de madeira e carregada em revezamento pelos carregadores –
método geralmente utilizado para transportar de um lugar para outro,
pessoas doentes. Uma rede foi obtida e com extrema dificuldade
conseguiram contratar os carregadores. Dr. Kalley foi disfarçado como
uma mulher velha e doente! Quando ele estava na rede, foi possível
um disfarce completo pelo costume da cobrir os doentes dos pés à
cabeça com um lençol. Os carregadores estavam desconfiados.
Suspeitavam que estivessem carregando um falso paciente, e um dos
bem pesados! Por mais de uma vez eles colocaram a rede no chão e
disseram que não continuariam a andar. Por todo o tempo, enquanto
atravessavam a cidade, passaram por aglomerações de pessoas
discutindo os eventos daquele dia. A multidão estava certa de que o
doutor havia conseguido chegar até o consulado britânico, de forma
que se aglomerou lá, exigindo que o doutor fosse entregue nas mãos
deles. Um dos carregadores desistiu do trabalho, exatamente quando
estavam dentro do campo de visão da multidão, e a situação começou
a se tornar desesperadora. Outro carregador foi compelido a assumir
aquele lugar, e a jornada para a praia seguiu em frente. Durante a
demora em conseguir outro carregador, alguém notou que o servo do
Dr. Kalley estava ajudando a carregar a rede. Os gritos vieram logo
em seguida: “Kalley! Kalley!” Os gritos ecoaram por todas as ruas,
mas, na confusão que se seguiu, os carregadores foram capazes de
chegar à praia, antes que a multidão saísse em perseguição a eles. O
barco que levava até o navio estava esperando, e a rede foi colocada
nele. Minutos depois, a turba frustrada, andando pela praia, assistiu o
barco sendo levado em direção ao navio.
Enquanto isso, aqueles que ainda estavam ao redor do consulado
continuavam em grande agitação. Insistentemente, exigiam que o Dr.
Kalley fosse trazido de seu esconderijo até eles. Invadiram o pátio do
consulado e ergueram as vozes: “Fogo! Tragam fogo!” A perigosa
situação foi colocada sob controle pelo capitão do navio que havia
chegado para conversar com o cônsul a respeito do Dr. Kalley. Com
A TEMPESTADE DESABA 79

coragem e determinação, ele encarou a multidão e os convenceu de


que o doutor não estava no consulado, e sim em seu navio, o Forth.
Ele os expulsou do local, dispersou a todos e restaurou a ordem. Mais
tarde, a Sra. Kalley se juntou a seu marido a bordo do navio. Eles
estavam em segurança, mas haviam perdido tudo: pertences pessoais,
propriedades, mobília, livros – tudo havia sido consumido pelas
chamas.
O fogo, no entanto, continuou a queimar. As cabanas das
montanhas, que uma vez tinham sido escolas, as casas de seu amado
rebanho, estavam em chamas, e na praça central foram acesas
fogueiras para queimar as Escrituras. A multidão arruaceira estava
violentamente incontrolável, saqueando, pilhando e queimando. À noite,
o Forth levantou âncora e partiu para as Índias Ocidentais, enquanto
isso, de volta a Madeira, o bispo enviou uma carta pastoral para ser
lida aos “fiéis” durante a missa em cada igreja. Ela dizia: “O Senhor,
tendo compaixão de vossa atribulada situação, condescendeu em
encorajar e dirigir, por meio de moderação e caridade, vosso puro zelo
religioso e energia nacional. Ele, de um modo extraordinário, e talvez
estranho aos olhos do mundo, arrancou do meio de vós, seu rebanho,
já destruído em pedaços, aquele lobo da Escócia”.
O parágrafo seguinte é parte de um sermão do Dr. Kalley, resgatado
do fogo em Madeira, baseado em Isaías 53.10: “E a vontade do
SENHOR prosperará nas suas mãos”.
“A prosperidade do cristianismo é o grande objetivo do verdadeiro
cristão. Ele anseia por isso, ora por isso e trabalha por isso – ele vive
e pode morrer por isso. A salvação das almas é o prazer de Deus.
Está nas mãos de Cristo. E deve prosperar nas mãos dEle… Alguns
homens têm sua principal alegria em comer e beber… Outros em
adicionar mais terras às terras que já possuem, e também há aqueles
que gostam do cheiro do sangue, homens cujo prazer está nos campos
de batalha, e, me parece, em pisotear seus semelhantes. O prazer de
Deus é de acordo com seu caráter, àquilo que é característico de seu
ser. No caráter de todo homem, há geralmente alguns traços marcantes,
algumas características que o distinguem. Um pode ter vívida
imaginação, outro possui uma mente clara e confiável, e outros têm
uma incrível energia, decisão de caráter… A característica marcante
80 JORNADA NO IMPÉRIO

do caráter de Deus é o amor. E o que poderia trazer mais prazer, mais


alegria a um Ser de tal caráter que a salvação das almas? O que
poderia agradar – ou (permitam-me usar esta palavra) satisfazer –
sua amorosa bondade mais do que livrar as almas do inferno…?”
CAPÍTULO 8
RENASCIDA DAS
CINZAS...
O
tor?
que as ovelhas fariam agora que não tinham mais seu pas-

Tendo completado a devastação em Funchal, os perseguidores


concentraram sua fúria e violência nas ovelhas dispersas que haviam
encontrado refúgio nas densas florestas e montanhas. Estes perse-
guidores fanáticos têm sido descritos como animais selvagens ferozes
e famintos; e certamente agiram como tais. Nas montanhas, os cren-
tes estavam, até certo ponto, protegidos por aqueles que dentre eles
conheciam os segredos dos esconderijos seguros e que, trazendo ris-
co para si mesmos, os supriam com comida, sempre que possível.
Durante as duas primeiras semanas da fuga do Dr. Kalley, a desuma-
na “cruzada santa” continuava firme. Prisões eram feitas diariamente
e nenhuma misericórdia era mostrada àqueles acusados de serem
leitores da Bíblia. Não havia justiça também. Pesadas multas eram
impostas, e até aqueles que estavam presos eram obrigados a pagar
pelos gastos de seu aprisionamento! Todos eles foram excomunga-
dos, e a maldição da igreja, jogada sobre eles. Isso significava que
ninguém poderia lhes vender comida ou fazer qualquer tipo de negó-
82 JORNADA NO IMPÉRIO

cio. Foram condenados ao ostracismo e tratados como párias. Mira-


culosamente, houve apenas um mártir, Antônio Martins; ele foi
cruelmente espancado até a morte.

OS CRENTES FOGEM
Havia apenas uma opção para aquelas almas atribuladas por amor
a Jesus Cristo: a fuga da ilha. Por coincidência, ao tempo destas
demonstrações de fanatismo e intolerância em Madeira, os britânicos
recrutavam trabalhadores para as lavouras de cana-de-açúcar nas
Índias Ocidentais. Os escravos tinham sido libertos, e era difícil
conseguir a força de trabalho necessária. Madeira era um dos portos
no qual ancoravam os navios especialmente fretados para esta
finalidade, a fim de trazer os trabalhadores necessários para o Caribe.
Como a fúria inicial da perseguição começou a diminuir, no fim de
agosto, o navio William, de Glasgow, ancorou na baía. Os arranjos
necessários foram feitos para que à noite, os barcos do navio pegassem
secretamente os refugiados, nos calmos braços do mar ao longo da
costa, e os transportasse até o navio. Eles escapavam com suas vidas,
mas tudo o que possuíam tinha de ser deixado para trás. Estavam tão
maltrapilhos que a tripulação lhes deu roupas melhores. Dentre estes
madeirenses havia alguns que, como Saulo de Tarso, uma vez pensaram
estar fazendo o serviço de Deus, ao perseguirem os leitores da Bíblia,
mas que, através do testemunho silencioso e inabalável dos perseguidos,
acabaram sendo ganhos para a fé, e agora eles próprios eram vítimas
da perseguição!
Quando o William navegou para as Índias Ocidentais, em 23 de
agosto, mais de 200 crentes se apinhavam a bordo. Abandonar sua
terra natal tão repentina e inesperadamente lhes partiu o coração,
mas estavam juntos, unidos no sofrimento pelo amor de Cristo e cheios
de esperança de que no Novo Mundo, para o qual estavam indo, seriam
livres para adorar a Deus de acordo com os ditames de suas
consciências. Alguns dias depois, mais de 500 de seus irmãos os
seguiram a bordo do Lord Seaton. Nos meses que se seguiram, as
autoridades proveram os emigrantes protestantes com vistos de saída
RENASCIDA DAS CINZAS... 83

– era um excelente modo de livrar a ilha dos odiosos “calvinistas”.


Um total de 2000 crentes abandonou Madeira e seguiu para Trindade,
Antígua, St. Kitts, Demerara e Jamaica.
O governo britânico finalmente obrigou as autoridades portuguesas
em Lisboa a pagar os prejuízos do Dr. Kalley pelas grandes perdas
que ele havia sofrido; no entanto, os madeirenses não receberam
compensação alguma pelas perdas sofridas. Para eles, era um completo
recomeço de vida, porém, agora, com Cristo. Dr. Kalley investiu a
compensação recebida e usou seus rendimentos para ajudar os
madeirenses e, mais tarde, os brasileiros na tarefa de evangelização.
Em 30 de outubro de 1846, o bispo, em um artigo no jornal local,
atacou fortemente o “Lobo da Escócia” e exortou os fiéis: “Vamos
unir nossas orações àqueles da Santa Igreja em agradecimento ao
Senhor por ter livrado seu povo da pestilência da heresia com a qual
Ele os visitou, nos dias de sua cólera”. A igreja e o Estado pensaram
que finalmente haviam erradicado da ilha a Bíblia e seus leitores. Quão
enganados estavam!

CHEGADA NAS ÍNDIAS OCIDENTAIS


Em Atos capítulo 8, está escrito: “Levantou-se grande persegui-
ção contra a igreja… e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos…
Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a
palavra”. Tal como na Palestina, aconteceu em Madeira. A persegui-
ção dispersou os crentes, mas não ofuscou seu testemunho. Os
madeirenses chegaram nas Índias Ocidentais em diversas levas; gru-
po após grupo desembarcou em Trindade e nas ilhas vizinhas. Não
era difícil achar trabalho, pois a escravidão fora abolida e as planta-
ções de cana-de-açúcar absorviam facilmente a mão-de-obra que
chegava. O clima tórrido, no entanto, tão diferente daquele da ilha
natal deles, provou ser muito debilitante e até mesmo insuportável
para alguns. Muitos ficaram doentes e outros morreram. A situação
tornou-se tão séria que o governador de Trindade, Lord Harris, inter-
veio transferindo os madeirenses para as plantações de café e cacau
nas altas montanhas, que eram mais protegidas dos ferozes raios de
84 JORNADA NO IMPÉRIO

sol e tinham temperatura mais amena. Os imigrantes tinham dificul-


dades com a língua também, mas ainda assim eram capazes de
comunicar sua gratidão por toda a gentileza recebida dos habitantes
das ilhas, os quais falavam o idioma inglês. Os portugueses têm uma
tendência natural para o comércio, e, logo, vários dos recém-chega-
dos madeirenses estabeleceram pequenos negócios em diferentes áreas
– como barbearia, sapataria, alfaiataria, carpintaria, etc.
Como crentes, eles foram bem ensinados pelo Dr. Kalley e pelo
Reverendo Hewitson sobre o viver bíblico; e mantiveram seu
testemunho. Eram Puritanos de formação e continuavam a viver
simples e piedosamente nas novas circunstâcias. Nisto eles diferiam
dos freqüentadores da igreja caribenha, educados numa tradição mais
liberal e menos exigente. Etnicamente, os madeirenses também diferiam
dos nativos, e isso foi mais um fator que contribuiu para seu isolamento.
Eles mantiveram seus próprios cultos, reunindo-se da mesma forma
que faziam em Madeira, para os cultos normais de domingo, estudo
bíblico e reuniões de oração. Em Porto da Espanha, mais de 300
pessoas se reuniam aos domingos, e seu fervor e testemunho bíblico
influenciaram muitos fora de seu círculo de convivência, resultando
em constantes conversões.

A VISITA DO SR. HEWITSON


Em janeiro de 1847, o Reverendo Hewitson foi comissionado pelo
Conselho Colonial da Igreja Livre da Escócia para visitar Trindade:
“Não apenas para trazer conforto ao rebanho, mas também para
reorganizar a igreja de uma maneira ordenada, adaptada ao novo
ambiente”. Durante a viagem, o Reverendo Hewitson fez uma visita
discreta e sem pompas a Madeira, a fim de fortalecer os crentes que
ainda estavam ali e encorajar os novos convertidos. A igreja em Madeira
tinha sido dizimada, mas conseguiu sobreviver à perseguição e estava
crescendo. Em Trindade, o Reverendo Hewitson foi recebido de forma
muito alegre. Estas são suas palavras ao descrever o momento de sua
chegada: “A reunião foi, tanto para o pastor quanto para o rebanho,
uma ocasião de grande alegria. Os laços de afeição que nos mantiveram
RENASCIDA DAS CINZAS... 85

juntos como um só, desde Madeira em diante, laços fortalecidos pelos


perigos e dificuldades, foram mais que suficientes para assegurar que
as manifestações de alegria mútua fossem muito acima do esperado”.
Ele organizou escolas para os filhos dos madeirenses estudarem durante
o dia e para os adultos durante a noite. Também preparou os novos
convertidos para o batismo e para serem membros da igreja,
assegurando-se de que eles não somente tinham a Palavra de Deus,
como também a unção do Espírito. Apesar da saúde delicada, o pastor-
missionário viajava incessantemente, seu itinerário cobria não só a
ilha de Trindade, mas também todas as outras ilhas onde estivesse
algum membro de seu antigo rebanho.
Suas cartas daquele período mostram o quão infatigável ele era:
“Ontem, fui a Santa Cruz, algo em torno de dez milhas daqui, procurando
por crentes madeirenses. Encontrei vinte deles vivendo na mesma
fazenda e lá tivemos um culto, após terminados os serviços do dia. Foi
uma reunião excelente, embora este clima não ajude muito minha
saúde!” “Quarta-feira passada, parti numa condução às seis horas da
manhã e viajei por dez milhas. Preguei para quarenta madeirenses
num culto a céu aberto, sob a sombra de uma árvore. Depois disso, fui
mais seis milhas adiante e preguei para mais vinte portugueses, desta
vez num tipo de barracão. Retornei algumas milhas e novamente
preguei em uma pequena cidade para um grupo de crentes que tinham
se reunido ali, vindo de um raio de duas milhas ou mais, após um dia
de trabalho. Depois do café da manhã, na quinta-feira, deixei a vila.
Se Deus quiser, espero voltar lá mais uma vez no domingo, para
ministrar a Ceia do Senhor e pregar duas vezes. Domingo passado,
dei a comunhão para aproximadamente oitenta portugueses”.
Em maio, o Reverendo Hewitson teve uma triste despedida de
seu amado rebanho e embarcou para Glasgow. No curto período de
três meses, havia organizado a igreja, lançado as fundações para um
futuro espiritualmente próspero e fundado escolas para crianças e
adultos. Em sua chegada na Escócia, serviu como ministro em Dirleton
por um breve tempo, mas sempre mantinha contato com seus irmãos
do outro lado do oceano. Morreu em 7 de agosto de 1850, vítima de
uma pérfida doença que o acompanhava desde seus dias de estudante,
a tuberculose.
86 JORNADA NO IMPÉRIO

ARSÊNIO TORNA-SE PASTOR


Durante a última etapa de seu ministério em Trindade, o Reverendo
Hewitson contou com grande ajuda e encorajamento da parte de
Arsênio. Depois do tumulto de 9 de agosto, Arsênio foi obrigado a
fugir com os outros para as montanhas. Ele possuía propriedades lá e,
por um tempo, pôde se sustentar. Não acompanhou os grupos que
procuraram refúgio no Caribe, pois desejava começar vida nova com
sua esposa e filha, se possível, em Portugal, no continente. Ele se
esforçou para visitar sua família secretamente à noite, mas logo
descobriu que sua casa estava sob vigilância constante; seus
perseguidores se anteciparam a tal tentativa e estavam prontos para
prendê-lo. Estando incapacitado de se comunicar diretamente com
sua esposa, entrou em contato com ela através de um servo fiel,
expondo-lhe seu plano de fixar residência em Portugal, e pediu-lhe
dinheiro para a viagem. Ela enviou o dinheiro, mas não lhe deu nenhuma
esperança de que o seguiria para o continente. Ele procurou refúgio
em Oporto, onde recebeu uma carta do Dr. Kalley. O doutor sugeria
que ele seguisse para Trindade e lá assumisse o pastorado do rebanho.
Arsênio aceitou o desafio e viajou para o Caribe. A Igreja Livre da
Escócia ordenou-o para servir aos irmãos em Porto da Espanha, e lá,
por dois anos, trabalhou arduamente.
Quase no fim de 1847, a situação dos refugiados de Madeira piorou
consideravelmente. As Índias Ocidentais e a indústria do açúcar
estavam em sérias dificuldades financeiras. Os madeirenses haviam
chegado desprovidos de todas as suas posses e agora não ganhavam
o suficiente para manter até o seu simples estilo de vida. A Igreja
Livre da Escócia, conhecedora da situação através de um relatório
enviado pelo Reverendo Hewitson, entrou em negociações com a
Sociedade Protestante Americana e a União Cristã Americana pedindo
“a concessão de terras boas para o cultivo nos Estados Unidos, onde
eles [os madeirenses] possam viver próximos uns dos outros, construir
uma igreja e iniciar uma escola para seus filhos, e onde possam ganhar
honestamente seu pão diário e render adoração ao Senhor Deus em
espírito e verdade”. Em resposta, foi assegurado que os irmãos
RENASCIDA DAS CINZAS... 87

madeirenses receberiam uma calorosa recepção, terras para cultivar


e ajuda financeira.
O Reverendo Arsênio adoeceu tão gravemente, que a igreja insistiu
em que ele acompanhasse um emissário da Sociedade Protestante
Americana com destino a Nova Iorque, a fim de receber tratamento
especializado. Ele tinha esperanças de continuar sua jornada até a
“terra prometida”, no Estado de Illinois, mas sua condição piorou.
Quando lhe restavam poucos momentos de vida, fez um último pedido:
que uma carta fosse enviada a sua esposa, contando-lhe sobre sua
morte e exortando-a a ler novamente todas as suas cartas e a meditar
nas verdades do evangelho nelas contidas. Arsênio sacrificara tudo
em sua vida – família, fortuna, seu país e sua saúde – e morreu entre
estranhos, numa terra estrangeira. Tinha realmente considerado “tudo
como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo
Jesus”, por quem ele poderia dizer: “Por amor do qual perdi todas as
coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo”. Ganhar a
Cristo ele conseguiu, e mesmo os estranhos com os quais esteve no
fim de sua vida o admiraram por ser um imitador de Cristo e por sua
profunda dedicação. Seu rebanho seguiu em direção ao norte para os
Estados Unidos, e sucessivos grupos de crentes logo se dirigiam a
Nova Iorque ou Baltimore. E, desta forma, iniciou-se o acréscimo
mais extraordinário para a população protestante nos EUA.

ILLINOIS
Em novembro de 1848, num domingo, um grupo de aproximada-
mente 100 madeirenses desembarcou em Baltimore. Eles foram
recebidos entusiasticamente, ganhando roupas quentes para o inver-
no e alojamentos. O presbítero Francisco de Souza Jardim escreveu:
“Apenas pela intervenção de nosso bom Deus, após todas as perse-
guições que já temos sofrido por causa do evangelho, e isto em nossa
própria terra, podemos agora ser recebidos de braços abertos numa
terra estranha e ter todas as nossas necessidades supridas”.
A Sociedade Protestante Americana fez ainda mais. Enviou um
representante para Trindade, o Reverendo Manoel G. Gonçalves. Ele
88 JORNADA NO IMPÉRIO

próprio era um madeirense e, quando criança, seus pais se mudaram


para os Estados Unidos. Naquele país, foi convertido, estudou e foi
ordenado ministro pela Igreja Batista para um serviço especifico:
evangelizar centenas de portugueses de Açores que trabalhavam como
pescadores na costa da Nova Inglaterra. Ninguém estava mais bem
preparado que ele para avaliar a situação dos crentes, seus
compatriotas, nas Índias Ocidentais. O Reverendo Manoel maravilhou-
se com a sinceridade e simplicidade da sua fé e muito mais com as
privações que tiveram de enfrentar pela causa do evangelho. Ele
escreveu: “Estas pessoas sacrificaram suas propriedades, bens, família,
amigos e seu país também – tudo pelo evangelho e obediência às
ordens de Deus”.
Ao retornar aos Estados Unidos, levantou fundos para a fase final
da retirada dos crentes das Índias Ocidentais rumo aos Estados Uni-
dos. Três navios foram fretados e, em maio de 1849, nada menos que
500 crentes embarcaram, ansiosos para começar vida nova na Amé-
rica do Norte. Terras entre Jacksonville e Springfield, em Illinois, foram
concedidas para a colônia de exilados. Em torno de 300 pessoas que
fizeram a viagem de Nova Iorque pelo mar e pelos Grandes Lagos
foram bem recebidas pelas igrejas em ambas as cidades e lhes foi
dada toda ajuda necessária para seu estabelecimento na nova propri-
edade. A barreira da língua ainda constituía uma dificuldade, assim
como a brusca mudança de um clima tórrido nas Antilhas para a zona
temperada do Norte dos Estados Unidos.
Um segundo e depois um terceiro grupo vieram, e, finalmente,
uma considerável colônia estava estabelecida e prosperando em Illi-
nois. Deus também preparou líderes espirituais para as igrejas. Na
época da perseguição, em Madeira, dois promissores jovens converti-
dos tinham sido enviados para a Escócia, a fim de estudarem na Divinity
Hall da Glasgow University. As igrejas portuguesas, presbiterianas
em sua forma de administração, na área de Jacksonville e Springfield,
pediram à Igreja Livre da Escócia que ordenasse estes dois jovens
homens e os mandasse aos Estados Unidos, para se encarregarem do
rebanho. O Reverendo Antônio de Matos foi devidamente ordenado,
mandado imediatamente para os Estados Unidos e empossado para o
pastorado. O outro jovem, o Reverendo Henrique Vieira, foi mandado
RENASCIDA DAS CINZAS... 89

para Trindade, a fim de liderar a florescente congregação que ali ha-


via.
Em Madeira, algumas Bíblias haviam escapado das fogueiras. Elas
foram cuidadosamente escondidas em lugares seguros – até sob pedras
nas lareiras das casas. À noite, estas Bíblias eram tiradas de seus
esconderijos e estudadas por pequenos grupos que se encontravam
com este propósito. A chama da verdadeira fé era fraca a princípio,
porém soprada pela fúria incessante dos religiosos zelosos, em vez de
apagar, brilhou ainda mais intensamente. As autoridades da ilha estavam
perplexas com o fluxo contínuo de madeirenses que optavam pela
liberdade de adoração, ainda que isso significasse exílio numa terra
estranha. Muitos procuraram refúgio na América do Norte, tendo
ouvido da maravilhosa liberdade que seus companheiros crentes
desfrutavam lá. Eles receberam ajuda financeira do Dr. Kalley e de
amigos na Escócia para a viagem. A colônia em Illinois já possuía
mais de mil pessoas. Um bom número permaneceu em Madeira, e
foram os meios de revitalização da Igreja Escocesa em Funchal e
também de estabelecimeto de igrejas próprias dos madeirenses em
centros escolhidos na ilha.
A firme aderência do Dr. Kalley ao seu mais alto chamado em
Jesus Cristo e sua inabalável persistência face à amarga perseguição
redundaram em abundante recompensa: uma igreja próspera em
Trindade, uma comunidade cristã ainda mais próspera em Illinois, e,
miraculosamente, renascida das cinzas, surgiu uma forte igreja em
Madeira. O sangue dos mártires é realmente a semente da igreja.*

__________________________________

* Um indício do impacto causado pelo Dr. Kalley em Madeira é que


nenhuma história do século dezenove em Madeira está completa sem
alguma referência a ele e a sua cruzada evangélica.
INTERLÚDIO
CAPÍTULO 9
UMA PAUSA E
UMA PESSOA
D urante todas estas perseguições e mudanças com os crentes
madeirenses, o que aconteceu com os Kalleys?
Em seu retorno daquela viagem forçada para as Índias Ociden-
tais, em janeiro de 1847, eles haviam fixado residência em Sto.
Leonards-on-Sea, Sussex, mas não por muito tempo. A ordem do
Mestre e a terrível situação dos pobres e necessitados incitaram o
doutor a agir novamente. Ele começou um período de ministério itine-
rante, primeiro na Irlanda, depois em Malta e, finalmente, na Palestina.
Fiel a seu chamado de médico missionário e também como um ho-
mem de recursos próprios, ele estava livre para percorrer os países
pela causa do evangelho.

IRLANDA
A crise de escassez de batatas na Irlanda tinha começado em
1842 e devastou todo o país. Cinco anos depois, como conseqüência
de tal desastre, pobreza, fome, doenças e profunda miséria ainda
94 JORNADA NO IMPÉRIO

prevaleciam entre a população dizimada. Tal notória necessidade


desafiou o doutor de tal forma que ele se mudou do conforto e
comodidade da costa de Sussex, para Cork, o centro de uma região
em calamidade pública. Como sempre, ele imediatamente dedicou-se
ao serviço daqueles que, em necessidade clamorosa, precisavam de
sua ajuda. Utilizando seus próprios recursos, providenciou não apenas
os remédios que prescrevia, mas também comida. Logo descobriu
que o catolicismo romano irlandês era tão fanático quanto o madeirense,
mas cuidadosamente evitou qualquer tipo de confrontação. Ele tinha
vindo à Irlanda não para atacar as crenças católicas, mas para curar
os doentes e cuidar dos necessitados, e, de sua própria maneira discreta,
tornar conhecido para eles os confortos do evangelho. O clima úmido
e abafado da Irlanda do Sul, no entanto, se mostrou prejudicial à saúde
da Sra. Kalley, e, visto que o bem-estar dela era uma preocupação
constante a seu marido, três meses depois eles se mudaram para Malta,
que possuía um clima mais ameno.

A MORTE DA SRA. KALLEY


Enquanto esteve em Malta, o doutor trabalhou como médico
missionário, educador e evangelista. O clima ainda não era o mais
apropriado para a Sra. Kalley, de modo que dois anos depois, tendo
deixado sua marca em Malta, eles se mudaram novamente, desta vez
para Beirute, na esperança de que o famoso clima saudável do Líbano
poderia ser benéfico a ela. Estabeleceram-se nas colinas atrás da
cidade, e ele se devotou completamente a cuidar de sua esposa, cuja
condição estava piorando rapidamente. Por anos, ela teve o desejo de
ser batizada como uma verdadeira crente, convencida de que seu
batismo quando criança não possuía o mesmo sentido do apresentado
no Novo Testamento. Ela pretendia ser batizada em um ato público de
testemunho, mas devido a seu péssimo estado de saúde teve de se
contentar com uma cerimônia privada. Na terça-feira, 7 de janeiro de
1851, em uma simples mas tocante cerimônia em sua casa, o doutor
batizou sua esposa por aspersão. Alguns meses depois, em 15 de
setembro, ela faleceu e foi enterrada em Beirute. O culto fúnebre foi
UMA PAUSA E UMA PESSOA 95

conduzido tanto em inglês quanto em árabe por insistência do doutor,


pois queria que os pranteadores árabes ouvissem da esperança cristã,
que é a ressurreição. A Sra. Kalley tinha sido uma sombra por trás da
atividade missionária de seu marido, visto que sua saúde aparentemente
nunca permitia que ela se envolvesse mais com o trabalho. Qualquer
menção feita a ela é apenas casual e sem maiores detalhes. Durante
todos os anos de casamento, seu marido a havia protegido, tomado
conta e tratado dela com muito carinho; e ela, sempre leal a seu esposo,
sofreu junto dele pela causa do evangelho. Limitada pela frágil saúde
e pelas constantes viagens, ela tinha suportado o calor e as obrigações
de todos os dias.
Dr. Kalley tinha imprimido, no lado oposto do cartão que notificava
a morte de sua esposa, o seguinte texto: “Caro companheiro mortal,
você já ouviu o apelo? ‘Eis que venho como o ladrão.’ Esta é a voz do
Filho de Deus. Você está pronto? Sentiu que como um pecador você
está arruinado para a eternidade? Sua única esperança está em Jesus
– Jeová, nossa Retidão. Você está se regozijando nEle? Está servindo-
Lhe com coração alegre sob a orientação de seu Espírito, no trabalho
que gostaria de estar desempenhando quando Ele voltar? Se a resposta
é sim, prossiga no nome dEle – Vigie!
Dr. Kalley, Beirute, 15 de setembro de 1851” .

PALESTINA
Após a morte de sua esposa, o doutor estava livre para fazer algo
que há muito tempo desejava fazer: explorar a Palestina. Desde sua
conversão e da época de seus estudos a respeito da profecia, ele
ansiava o dia em que poderia estar na mesma terra que Deus escolheu
para seu povo, os judeus.
Na Terra Santa, viajou extensivamente e tornou-se uma autorida-
de em sua história, geografia e costumes. Parte do tempo, acompanhou
um amigo missionário escocês. Dr. William M. Thomson, autor do
livro The Land and the Book. Ele passou algum tempo em Safed,
possivelmente a “cidade edificada sobre um monte” a que Nosso Se-
nhor se refere no Sermão do Monte. Ela foi construída numa montanha,
96 JORNADA NO IMPÉRIO

com as casas todas enfileiradas em camadas, com os telhados das de


baixo servindo como ruas para as de cima. A cidade fora completa-
mente devastada por um terremoto e estava sendo reerguida dos
montes de entulho, quando o Dr. Kalley se fixou nela por um certo
período. Safed tinha uma história. Nela, os expedicionários das Cru-
zadas construíram um castelo e mantiveram-no como um de seus
pontos de resistência. Para os judeus era uma das quatro cidades
santas em Israel, onde os preceitos da lei eram obedecidos fanatica-
mente e onde se ofereciam orações a cada semana para “salvar o
mundo da destruição”. Na verdade, de acordo com a tradição rabíni-
ca, ela será um dia o assento do trono do Messias. Convenientemente,
uma vez que a cidade ficava perto das tumbas dos grandes rabinos
eruditos, Hillel entre eles, uma famosa escola rabínica foi estabeleci-
da ali. Apesar de seu status de “santa”, a vida na região judaica da
cidade era “simplesmente uma miséria repugnante, pois o povo era
intoleravelmente sujo e as habitações tão imundas que a febre explo-
dia, quando a chuva se misturava e formava lama nas ruas”.
Provavelmente o que atraiu o Dr. Kalley para Safed foi a luta daquela
comunidade para reconstruir suas vidas em condições tão terríveis de
pobreza e miséria após o terremoto. Era um desafio para o doutor, um
local de testes tanto para suas habilidades de médico quanto para seu
zelo missionário. Quando foi embora da cidade, já havia organizado
uma pequena congregação composta de muçulmanos, judeus e cris-
tãos nestorianos.

DUAS VIDAS – UMA DIREÇÃO


Foi Beirute, no entanto, que se tornou um ponto marcante, uma
virada na vida do Dr. Kalley; esta cidade marcou o fim de uma fase e
início de outra. Em março de 1852, ele estava para deixar Beirute e
voltar para a Escócia, mas descobriu que o navio partiria no domingo.
Era contra seus princípios iniciar uma viagem como aquela no dia do
Senhor; então, adiou a viagem. Enquanto esperava, um homem
chamado Sr. Wilson lhe pediu que fosse ver seu filho que estava muito
doente, com tuberculose. O jovem havia sido enviado ao Egito numa
UMA PAUSA E UMA PESSOA 97

tentativa de encontrar a cura para sua doença, mas agora estava com
seu pai e sua irmã mais velha, Sarah Poulton Wilson, em Beirute. Dr.
Kalley não podia fazer nada pelo jovem, que morreu pouco tempo
depois. Entretanto, como resultado da visita, o doutor tornou-se mais
próximo da família Wilson, e especialmente de Sarah. Ela ouvira sobre
a perseguição em Madeira e estava mais que interessada em encontrar
o médico missionário envolvido naquilo tudo. Dr. Kalley retornou para
a Inglaterra no mesmo navio que os Wilsons, e durante a viagem, ele
e Sarah estavam freqüentemente na companhia um do outro,
conversando. Sua amizade cresceu e logo se tornou amor, e em
dezembro de 1852 casaram-se na Igreja Congregacional de Albany
Road, em Torquay.
A vida tomou uma nova dimensão. Toda a sua vida e ministério
foram enriquecidos. E dificilmente poderia ter sido de outra forma, já
que a Sra. Sarah Kalley tinha uma personalidade talentosa e irresisti-
velmente atrativa. Ela exercia grande influência em todos que a co-
nheciam. Sarah Poulton Kalley e Robert Reid Kalley se completavam.
Há alguns casais cujas vidas são tão entrelaçadas que é impossível
separá-las, como por exemplo, Priscila e Áquila, nas Escrituras. Um
nunca é mencionado sem o outro. Após o casamento, aconteceu o
mesmo com Sarah e Robert: eles eram inseparáveis. A biografia dele
torna-se então a biografia deles.
Sarah nasceu em Nottingham, em 1825. Seu pai, William Wilson,
era um rico industrial, e sua mãe, também chamada Sarah, era irmã
de um famoso político do período Vitoriano, Samuel Morley. Sua mãe
morreu quando ela era ainda jovem, e seus primeiros anos foram vivi-
dos, em parte, em sua própria casa e, em parte, com os parentes de
sua mãe, os Morleys, em Londres. Desde sua infância, mostrava um
entusiasmo genuíno pela vida: transbordava de vitalidade e de um ví-
vido humor. Mesmo quando mais velha, esta característica
permaneceria inalterada. Ela manteve seu prazer juvenil pela vida e,
mesmo idosa, ainda atraía jovens para perto de si. Era muito inteligen-
te e, como pertencia a uma família rica, fora muito bem educada,
falando fluentemente tanto francês quanto alemão, tendo viajado ex-
tensivamente por todo o continente europeu. Seus dons artísticos eram
muitos: música, poesia, pintura – era talentosa em tudo isso. Algumas
98 JORNADA NO IMPÉRIO

de suas aquarelas ainda existem e demonstram amplamente suas ha-


bilidades como artista. Seus talentos em música e poesia seriam de
grande utilidade nos anos seguintes.
Seu maior trunfo, no entanto, era sua profunda e duradoura
espiritualidade. Desde o início de sua vida, se dedicava a Cristo e a
seu serviço, de todo o coração e decididamente. Para ela, o viver era
Cristo. Sua primeira oportunidade para o serviço cristão veio em
Torquay. Uma calamidade na família, tuberculose, levou-a por completo
para um resort no litoral, em Devon, que era conhecido como o lugar
ideal para o tratamento da assim chamada “praga branca”. A própria
Sarah não foi afetada, mas dois de seus irmãos sim, e ambos morreram,
apesar do tratamento intensivo, tanto em casa quanto no exterior.
Em Torquay, Sarah se juntou à Igreja Congregacional de Albany
Road, construída por seu pai e, naquele tempo, um centro de atividades
não-conformistas na cidade. A igreja iniciou uma escola não apenas
para as crianças pobres, mas também para os adultos. Na escola,
Sarah tinha uma aula bíblica para meninos adolescentes. Ela exercia
uma influência poderosa e duradoura nestes jovens, muitos dos quais
se tornaram cristãos comprometidos e obreiros dedicados a Cristo,
tanto em sua terra natal quanto em outros países. Um amigo íntimo
declarou certa vez que, conforme ela avançava em suas experiências
de vida, a “santidade brilhava em seu rosto”. Quando ela fazia um
discurso, fosse na informalidade de sua sala de visitas, ou em ocasiões
mais formais na igreja, sempre o fazia de uma forma “vívida e
efervescendo com humor e uma profunda reverência, quando falava
de Nosso Senhor e de sua obra salvadora”.
Sobre seu ministério em Albany Road, o Reverendo Nicholas Hurry
escreveu: “Eu a conheci em 1848, quando me tornei pastor em Albany
Road, Torquay. Logo vi que se tratava de uma professora zelosa,
inteligente e bem-sucedida. Ela estava iniciando um curso de vida útil,
o qual, graças a Deus, foi honrada em continuar até agora”. Sua fé no
Salvador, seu intenso amor por Ele e sua preocupação pela redenção
dos pecadores eram as coisas mais importantes de sua vida.
“Atrás de todo grande homem há uma grande mulher.” Este ditado
é particularmente aplicável ao Dr. Kalley.
UMA PAUSA E UMA PESSOA 99

UM NOVO COMEÇO
Durante os dois anos imediatamente posteriores ao casamento, o
doutor e sua esposa fizeram aquela que seria sua última visita aos
madeirenses, nas Índias Ocidentais e na América do Norte. Em am-
bos os lugares, tiveram uma arrebatadora recepção. Em Trindade, no
Caribe, onde a maioria dos crentes agora vivia, o doutor conduziu
cultos, estudos bíblicos e, com sua esposa, visitou os crentes individu-
almente em suas casas. O amor fraternal estava completamente em
evidência. Dr. Kalley e seu rebanho tinham sofrido juntos em Madei-
ra, e os laços do amor mútuo e estima os mantinham próximos.
Em Illinois, a recepção foi igualmente cordial. Os madeirenses
declararam feriado de um dia para celebrar a chegada de seu amado
pastor. Foi um dia de grandes festividades – culto de ação de graças
com louvores e hinos, festejos e também lágrimas de alegria. Dr. Kalley
se engajou em intensivas atividades, tanto pastorais quanto
evangelísticas, enquanto a Sra. Kalley ensinava piano aos jovens, e
mantinha aulas regulares de canto para toda a congregação. Ela
acreditava corretamente que a verdadeira igreja é aquela que canta e
cujo canto congregacional deveria ser da mais alta qualidade possível.
Como resultado destes meses de trabalho tão dedicado, a igreja cresceu
consideravelmente.
Enquanto isso, vendo pessoalmente as bênçãos desfrutadas por
estes madeirenses, antes perseguidos, mas agora alegremente
assentados em sua terra prometida, o doutor intensificou seus esforços
para atrair a Illinois o remanescente de seu rebanho que ainda sofria
em Madeira. Muitos emigraram, com as despesas da viagem pagas
pelo doutor e seus amigos americanos. Dr. Kalley insistia que era um
dever sagrado destes madeirenses que falavam português fazer o nome
de Cristo conhecido em toda parte do mundo onde se falava português.
Ele próprio deu o exemplo, pois foi quando estava em Springfield,
Illinois, que considerou seriamente a possibilidade de servir em outros
campos missionários. Com a sua idade, beirando os cinqüenta, outros
homens ficariam contentes em se aposentar, mas a natureza dinâmica
do doutor não permitiria que ele descansasse. Em uma carta para
100 JORNADA NO IMPÉRIO

Springfield, escrita de Nottingham, em janeiro de 1855, ele fez um


pedido: “Por favor, orem para que Deus possa abrir a porta para o
campo missionário no qual Ele quer que eu sirva. Sinceramente, espero
que seja entre os povos de fala portuguesa, onde ainda não há nem
Bíblias nem pregadores do evangelho; e, se isto acontecer, talvez alguns
de vocês sintam grande alegria em orar e servir para que a verdade
de Deus possa ser conhecida entre aqueles que falam a língua de
vocês. Contudo, nenhuma certeza há, por enquanto”.
Enquanto esteve nos Estados Unidos, Dr. Kalley leu o livro do
Reverendo Daniel Kidder, Sketches of Residence and Travels in
Brazil. Kidder, um missionário da Igreja Metodista Americana, narrou
tão vívida e detalhadamente suas experiências como vendedor
ambulante de livros religiosos no Brasil, de 1837 a 1842, que a leitura
do livro deixou uma forte impressão na mente do doutor. Ele começou
a imaginar se o Brasil poderia ser seu próximo campo missionário.
Kidder era um homem culto e prudente em sua abordagem para o
problema de introduzir o evangelho no Brasil. Sua personalidade
cativante o tornou bastante aceitável aos brasileiros e um convidado
bem-vindo em suas casas. Ele fez muitos amigos entre os ricos e
influentes e os apresentou à Bíblia. Com a ajuda deles, Kidder tentou
induzir as autoridades a usar a Bíblia como livro-texto em escolas
estaduais! O clero interveio decisivamente, e a tentativa foi frustrada.
Um clérigo da Igreja da Inglaterra, em conversas com um bispo católico
romano, ouviu seu assombro pelo fato de que a versão que Kidder
queria introduzir nas escolas era uma versão incompleta, cheia de
erros! Era a versão de Figueiredo, com aprovação da Igreja Católica
- uma grande ignorância por parte do bispo, a qual o Dr. Kalley
agradeceria mais tarde! Kidder viajou muito, principalmente no Estado
de São Paulo, e, em pelo menos uma ocasião, deixou um lote de Bíblias
com um padre que havia se oferecido para distribuí-las entre os fiéis!
Kidder retornou aos Estados Unidos sem deixar, no entanto, re-
sultado tangível no Brasil: nenhum convertido, até onde se sabe, e
certamente nenhuma igreja foi formada. Poderia alguma outra pes-
soa ter sucesso onde um homem tão capaz quanto Kidder havia falhado?
Esta questão estava sempre na mente do doutor durante os meses
seguintes, quando ele e sua esposa ponderavam sobre as possibilida-
UMA PAUSA E UMA PESSOA 101

des. Eram ambos movidos pela pobreza espiritual dos brasileiros, e


sentiam que as experiências anteriores do Dr. Kalley em Madeira
tinham sido uma boa preparação para o serviço no Brasil. Sua famili-
aridade com a cultura portuguesa, sua fluência na língua, e acima de
tudo, seu conhecimento sobre os métodos da Igreja Romana, o quali-
ficavam para o trabalho de propagar o evangelho no Brasil.
Nestes dias, Dr. Kalley recebeu uma carta do Reverendo R. Baird
da Sociedade Bíblica Americana, pedindo que dois ou três dos crentes
de Illinois fossem empregados como vendedores ambulantes de livros
religiosos no Brasil. A sugestão tinha vindo originalmente de Kidder,
mas era algo com que o doutor não poderia concordar. Ele sabia que
a Sociedade Bíblica, inevitavelmente, precisaria fazer certa publicidade
a respeito das atividades de seus agentes e, ao fazer isso num país
como o Brasil, onde a pregação do evangelho certamente encontraria
forte oposição, colocaria em risco tanto o trabalho quanto os
trabalhadores. Em sua resposta ao Sr. Baird, o doutor reconheceu a
imensa necessidade de levar o evangelho ao Brasil; porém, a
experiência em Madeira havia lhe ensinado a necessidade de prudência,
ao ser empreendida tal tarefa.
As necessidades espirituais do Brasil constituíam o chamado de
Deus para o serviço neste campo. Humildemente e com um grande
senso de sua própria inadequação, Dr. Kalley e sua esposa aceitaram
o desafio e começaram os preparativos para seguirem ao Brasil.
PARTE 2
BRASIL
“Deixar o Reino Unido teria sido insuportável, se não fosse o
sentimento de que isto significava levar palavras de paz com Deus a
criaturas rebeldes, na esperança de ver os frutos de nossas provações
e labores, frutos que permaneceriam para sempre. Este é um objetivo
digno de nos esforçarmos, sofrermos e lutarmos por ele, assim como
é digno de gastarmos nossa vida para alcançá-lo.”

Palavras do diário do Dr. Robert Kalley, em 8 de abril de


1855, ao deixar Southampton rumo ao Brasil.

“Agrade-se o Deus todo-poderoso em capacitar-me a falar durante


o tempo que Ele me permitir neste ano, para honra e glória de Jesus
Cristo. E que eu mesmo entenda que sou membro de seu corpo — em
união vital com o Senhor da glória — guiado pelo Espírito Santo, tendo
sempre diante de mim o que ele mesmo disse:
1. ‘Sem mim nada podeis fazer’;
2. ‘Peça-me e darei tudo o que for necessário’;
3. ‘Quem der a beber, ainda que seja um copo de água fria.... de
modo algum perderá o seu galardão’;
4. ‘Muito bem, servo bom e fiel.... entra no gozo do teu senhor’.”

Dr. Robert Kalley


Resolução de Ano Novo — 1867
D R . ROBERT R EID K ALLEY E SUA E SPOSA
S ARAH P OULTON K ALLEY
CAPÍTULO 10
A ESCOLHA É FEITA
N o turbulento período da independência do Brasil, no ano de
1822, todo o futuro do país parecia depender de apenas uma palavra:
“Fico”. Foi a decisão do futuro imperador, D. Pedro I, não voltar a
Portugal como lhe havia sido ordenado por seu pai, D. João VI, em
Lisboa. Ele permaneceria no Brasil e lideraria a nação para a completa
independência e liberdade. Ele declarou: “Se for para o bem de todos,
e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”. Trinta e três anos
depois, em 1855, a mesma palavra, desta vez no plural, ficaremos, foi
dita por aqueles que iriam liderar os brasileiros numa liberdade espiritual
inspirada pelo evangelho.

CHEGADA AO RIO DE JANEIRO


Ao romper do dia 10 de maio de 1855, o “colosso dos mares”, o
navio a vapor propelido a rodas, Great Western, célebre por ser o
ganhador do Blue Riband, em 1838, por ser o navio a cruzar o Atlântico
mais rapidamente (quinze dias), lançou âncora na Baía de Guanabara,
Rio de Janeiro. A viagem de Southampton tinha levado um mês. A
bordo estava o casal Kalley. Conforme amanhecia e o navio passava
106 JORNADA NO IMPÉRIO

lentamente pelo Pão de Açúcar, guardião da baía, a vista que os saudava


justificava completamente o que a Srta. Marianne North – uma viajante
inglesa – havia escrito: “A linda baía do Rio é certamente a paisagem
mais encantadora em todo o mundo; até mesmo Nápoles e Palmero
devem se contentar em ficarem com a segunda posição em relação
às belezas naturais…” O panorama deve ter sido para eles causador
de tanta admiração quanto o foi para a Srta. North; e para os viajantes
através dos séculos passados, desde que os portugueses descobriram
a baía no início do século dezesseis. Ao sul, a Serra do Mar,
completamente coberta pela floresta, com as grandes montanhas
conhecidas como Gávea e Corcovado brilhando sob o sol do início da
manhã; ao norte e ao leste, a Serra dos Órgãos, com o “gigante
adormecido” claramente delineado pela silhueta dos picos; além desta
primeira cordilheira, estava o extraordinário pináculo de granito
apontando em direção ao céu, o Dedo de Deus. E a própria baía, com
seus inúmeros braços e algumas poucas ilhas, uma paisagem que
definitivamente jamais ficaria em segundo lugar quanto às belezas
naturais. Na costa sul, uma estreita faixa de terra cercada pelas
montanhas de um lado e o mar do outro, o Rio de Janeiro ou, para dar
seu nome completo, São Sebastião do Rio de Janeiro; e, na costa
norte, orlando uma longa faixa de belas praias, a cidade de Niterói
completava a cena. Era o início de um novo dia para os Kalleys e
também para o Brasil.
Então, ocorreu toda a agitação provocada pelo desembarque –
hordas de barulhentos e gesticuladores, supostos carregadores de
bagagem, agentes de hotéis, vendedores dos mais variados tipos de
produtos – todos clamando por atenção, vindos em pequenos barcos
agitados, competindo entre si, a fim de encontrar a melhor posição
perto do navio. Os Kalleys tinham uma vantagem: falavam português
e pechincharam diretamente com os pretensos ajudantes. Embora
fossem viajantes experientes, sempre achavam estressante
supervisionar o descarregamento de sua bagagem, para finalmente
descer pela escada do navio e subir numa lancha.
Que multidão os aguardava no local de desembarque! Comissio-
nado pelo recém-chegado rei, João VI, o artista francês Jean Baptiste
Debret, retratou cenas das ruas do Rio em 1816 e, entre elas, a mul-
A ESCOLHA É FEITA 107

tidão se juntando no local de desembarque. Os escravos estavam em


evidência: negros fazendo suas humildes tarefas de carregar a carga,
levando e trazendo informações – ou apenas vagueando ociosos; ne-
gras vendendo doces ou bebidas em potes de barro; também havia
soldados do quartel vizinho em serviço ou somente conversando; e
cidadãos fazendo suas coisas. O quadro nos dá uma boa idéia do povo
que os Kalleys viram no dia que desembarcaram. Havia ainda a pre-
ponderância de escravos africanos, dando a impressão de que os
brasileiros eram mais africanos que sul-americanos! Isto é verdade
apenas em parte, pois o genuíno brasileiro é uma mistura de portugue-
ses, índios e, com a chegada dos escravos, mais esta linhagem foi
agregada à raça. Embora os Kalleys ainda não tivessem notado ne-
nhuma evidência disso na própria cidade, o governo havia recentemente
iniciado uma política de imigração, atraindo colonizadores alemães e
suíços para ocupar as vastas áreas de terra ainda não cultivada. As
autoridades deram a este afluxo de europeus o nome de “processo de
branqueamento”!

RIO DE JANEIRO
Ao desembarcarem, os Kalleys contrataram um veículo e
percorreram a cidade na esperança de encontrar uma casa adequada
que pudessem alugar. Não tendo sucesso nisso, hospedaram-se num
hotel chamado Pharoux, de frente para o mar, não muito longe do
ponto de desembarque. A agitação e tensão da manhã tinham sugado
todas as energias deles. Durante a ancoragem do Great Western na
baía, a cidade parecia tão bonita, contudo, uma olhada mais de perto,
à medida que andavam pelas ruas, lhes deu uma impressão bem
diferente e desagradável. Estavam desiludidos – as coisas não eram
do jeito que esperavam que fossem. A cidade era decepcionante,
embora o lugar fosse atrativo com suas quatro montanhas e vales
entre elas, e suas terras baixas. Em todo lugar havia igrejas e prédios
monásticos feios e de aparência desagradável, pertencentes às
diferentes ordens religiosas. Eles cobriam as montanhas e se
espalhavam pelas praças abaixo. Padres, monges e frades eram muito
108 JORNADA NO IMPÉRIO

evidentes nas ruas. As próprias ruas eram muito estreitas, mal


pavimentadas, se é que eram pavimentadas, e durante a noite eram
mal iluminadas, pois os lampiões à gás, instalados naquele ano, não
eram em número suficiente para dar uma boa luz. Não existiam
encanamentos de esgoto, de forma que o esgoto corria a céu aberto
no meio das ruas, enchendo-as de uma sujeira muito mal cheirosa, à
espera de chuvas que lavassem tudo isso, limpando a cidade. Não
havia boas casas nem prédios públicos. Até mesmo o palácio era pouco
atraente e desinteressante. Os jesuítas tinham sido expulsos do Brasil,
e o governo havia tomado seus prédios para alocar os vários
departamentos governamentais. Como um brasileiro observou certa
vez, eles conseguiram seus prédios públicos por uma ninharia!
Havia casas geminadas de dois ou três andares, com fachadas
cobertas de belos azulejos portugueses, sacadas de ferro batido e
venezianas de madeira, mas a maioria das casas eram baixas e
geralmente térreas. Os Kalleys não conseguiam encontrar uma casa
que suprisse suas necessidades. E com relação à cidade concordaram
completamente com um escritor brasileiro daquele período, que disse:
“A cidade é uma vila imensa e feia, faltando conforto e sobrando
epidemias”. Faltava à cidade a dignidade de uma capital.

FICAR OU NÃO FICAR


Uma vez instalados no hotel, o doutor e a Sra. Kalley avaliaram a
situação – o calor excessivamente úmido, as moscas e o mau cheiro
que invadiam o quarto deles. Mais tarde descobriram que o hotel estava
situado próximo do lugar onde os escravos jogavam lixo e esgoto sobre
o quebra-mar. Tudo isso combinado era por demais terrível para se
expressar com palavras. Eles sentaram-se em silêncio, sabendo
exatamente o que o outro estava pensando: “Por que nós estamos
aqui? Conseguiremos nos acostumar com este calor? Na verdade,
não temos nenhum motivo para estar aqui. Somos desconhecidos;
não conhecemos ninguém, então, por que ficar? O navio ainda está no
porto. Por que não embarcamos e fazemos o trabalho do Senhor num
lugar mais agradável? Há uma grande abundância de colônias
A ESCOLHA É FEITA 109

portuguesas esperando pelo evangelho!” O doutor olhou para sua


esposa enigmaticamente. Ele havia tomado sua decisão, mas não sem
o choque de pensamentos conflitantes. A que conclusão ela havia
chegado? Calma e decisivamente ela declarou: “Ficaremos”. A crise
havia passado. Estavam de acordo em sua decisão de permanecer,
uma decisão da qual nunca se arrependeriam.
Mesmo depois que a importante decisão havia sido feita, dúvidas
quanto à sensatez disso ainda perturbavam seus pensamentos. O doutor
escreveu em seu diário: “Sarah está sempre inquieta. Deus, mostre-
nos o que fazer! Se voltarmos e desistirmos do trabalho aqui, isto
desencorajará o esforço cristão no Brasil, mais do que nunca. Se
voltarmos agora, seremos perdedores e mereceremos perder o respeito
e confiança dos cristãos; seremos considerados como aventureiros
especulativos – toda a influência será perdida em todo lugar. Isto,
portanto, não deve ser pensado, a não ser que Deus, em sua providência,
nos dê clara indicação, mandando-nos ir. Embora isto possa nos custar
a vida e tudo o que temos – nós precisamos ficar”.

REFLEXÕES EM SUA JORNADA


Os Kalleys, portanto, realmente ficaram. Se tivessem tido tempo
para pensar durante o alvoroço destes primeiros dias, teriam se
lembrado da viagem maravilhosa, quando vieram da Grã-Bretanha.
Estavam entusiasmados, e os amigos e parentes desejaram-lhes boa
viagem. O navio havia feito uma parada em Lisboa, mas o melhor
momento foi quando ancoraram na Baía de Funchal, em Madeira. A
irmã do Dr. Kalley, Jane, e seu marido, Dr. Miller, ainda moravam em
Madeira, e os receberam durante o dia. Eles visitaram lugares antigos
– a casa em Santa Luzia, onde o doutor havia morado; a casa um
pouco mais acima da colina, onde havia achado refúgio, enquanto
fugia da multidão; o Consulado Britânico, a rota que seus carregadores
seguiram quando o levavam na rede por questões de segurança. O
único lamento da Sra. Kalley foi não ter visto a prisão onde seu marido
ficara por seis meses, encarcerado.
O barco também parou em Recife, Pernambuco, e depois em
110 JORNADA NO IMPÉRIO

Salvador, Bahia, mas eles não chegaram a desembarcar. Foram


apresentados ao Brasil e seu povo, quando muitos senadores brasileiros
haviam embarcado, a caminho da nova sessão parlamentar no Rio de
Janeiro. Eram políticos muito distintos – Francisco Xavier Paes Barreto,
presidente do Estado da Paraíba; Francisco Gonçalves Martins,
Visconde de São Lourenço; Domingos Souza Leão, Barão de Vila
Bela; João Lustoso Cunha, Marquês de Paranaguá, além de outras
figuras menos importantes. Dr. Kalley conversou com estes homens
e achou pelo menos dois deles muitos amigáveis. Um deles, o Visconde
de São Lourenço, tinha a reputação de ser “um dos maiores talentos
do império” e com ele o doutor conversou livre e detalhadamente. Ele
se tornou um grande amigo do doutor e provou ser de grande ajuda a
Richard Holden, um missionário na Bahia. No convés do Great Western,
os Kalleys tiveram seu primeiro contato com a cultura brasileira.

FIXANDO RESIDÊNCIA
Fixar residência no Rio de Janeiro era mais difícil do que haviam
pensado. Nem mesmo suas experiências no Oriente Próximo e nas
Índias Ocidentais tinham lhes preparado para o choque cultural que
experimentaram na capital do Brasil. O calor, os odores, a
predominância de escravos africanos, o trânsito de cavalos, mulas,
veículos públicos, carruagens, pedestres de todos os lados, atropelando-
se nas ruas estreitas – tudo era desconcertante, decepcionante,
desencorajador... Eles tinham cartas de apresentação dirigidas a várias
pessoas, tanto britânicos quanto brasileiros, e as entregaram
pessoalmente. Cada um destes novos conhecidos foi presenteado com
um relógio de ouro, trazido da Inglaterra especialmente para este
propósito! Enquanto prosseguiam com este trabalho, acabaram
conhecendo alguém que se tornaria um amigo íntimo deles e que
também seria de grande ajuda: o Dr. José Martins da Cruz Jobim, um
senador, médico do imperador, diretor de instituições médicas. Eles
aprenderiam com ele uma característica da cultura brasileira – a
importância de ter amigos em altas posições. Um brasileiro faz qualquer
coisa em favor de um amigo!
CAPÍTULO 11
A TERRA DA CRUZ
SEM CRISTO
O s Kalleys permaneceram no Brasil por vinte e um anos, e ao
ficar, fizeram tudo aquilo que os outros falharam em fazer no passado,
isto é, plantar a cruz do Cristo vivo na “terra da cruz sem Cristo” – e
isto de uma forma firme e duradoura.
Uma “cruz sem Cristo”? Para entender exatamente o que esta
frase quer dizer é necessário pesquisar brevemente a história, e, ao
fazer isto, sair da história dos Kalleys.
Por 500 anos, do século oito ao treze, os mouros ocuparam Portugal,
e a cruz era subserviente à lua crescente [símbolo do islamismo].
Com a derrota e expulsão dos mouros, a cruz vitoriosa tornou-se um
símbolo nacional como o próprio estandarte real. Esta cruz, no entanto,
era feita apenas de materiais extrabíblicos, ou seja, tradições
eclesiásticas. Padres e monges moldaram-na e, então, instilaram sua
imagem na mente das pessoas. Cristo estava na cruz apenas na forma
de um crucifixo, como uma figura que estava morrendo, tão patética
que era capaz apenas de causar sentimentos de pena. Cristo, como
uma viva realidade, era desconhecido. Além da cruz, na mente das
pessoas, Ele também existia no céu, mas como uma figura remota,
112 JORNADA NO IMPÉRIO

vaga, envolto em glória e completamente inalcançável, a não ser pela


mediação de Maria e dos santos. Maria era uma realidade – sua
imagem, em uma infinita variedade de aspectos, podia ser encontrada
em todo lugar. O mesmo ocorria com os santos, aqueles que através
da acumulação de méritos ganharam para si mesmos a canonização.
Suas imagens e estátuas eram extremamente comuns. Em vão, a Igreja
Católica ensinava que as imagens eram para serem veneradas e que
somente Deus deveria ser objeto de adoração; o povo rendia a Maria
e aos santos a adoração devida a Deus. Na verdade, era dito que
Cristo estava presente na missa, mas tão-somente através da
transubstanciação da hóstia e do vinho; estes se tornavam o corpo e
sangue do próprio Senhor, “da mesma forma como eles existem no
céu”. A cruz, com todos os seus ornamentos, era, portanto, desprovida
de qualquer realidade com relação ao Senhor que vive. Esta não era a
cruz dEle.

A CRUZ É IMPLANTADA
O objetivo dos portugueses em empreender suas grandes viagens
de exploração no século dezesseis não era meramente achar e clamar
novos territórios para a Coroa, mas também implantar a cruz nestas
terras. Uma viagem de descobrimento era uma cruzada. A militância
tão característica do islamismo era agora o fator dominante da cruz
exaltada. A cruz de oito pontas dos Cavaleiros do Santo Sepulcro,
agora a ordem militar de Cristo, resplandecia em seu vermelho brilhante
nas velas das caravelas que carregavam os exploradores. Uma fé
fanática pela cruz queimava na alma destes homens, e eles acreditavam
que a mesma credulidade deveria ser introduzida nas almas dos pagãos
que eles conquistavam, ainda que para isso fosse necessário o uso da
espada.
Quando, em 1500, Pedro Álvares Cabral navegou de Tagus, no
comando de uma pequena frota de navios, comissionado para implantar
uma colônia portuguesa em Calcutá, o vento e as correntes marinhas
o levaram a uma costa desconhecida, que mais tarde se mostrou ser o
Brasil. Fiel à sua fé, ele chamou a primeira montanha que apareceu
A TERRA DA CRUZ SEM CRISTO 113

no horizonte de Monte Pascoal, e a terra que descobriu foi nomeada


de “Terra da Santa Cruz”. Na expedição havia tanto monges quanto
soldados. Os índios que testemunharam a chegada dos aventureiros
na praia de Porto Seguro viram coisas estranhas naquele dia – navios,
homens brancos, armaduras, armas e a mais estranha de todas, uma
cerimônia realizada logo após o desembarque. Homens vestidos
diferentemente dos outros fizeram um monte de pedras e nele erigiram
uma grande cruz de madeira. Entoavam palavras estranhas e, enquanto
todos estavam ajoelhados, exaltaram a hóstia e o cálice. Os nativos
estavam tão impressionados com tudo aquilo, que durante o ritual
imitavam cada ação dos estranhos, ajoelhando-se e levantando-se,
erguendo seus braços ao mesmo tempo que os outros. Impressionados,
os franciscanos escreveram entusiasticamente em cartas despachadas
para Lisboa, que estes filhos da floresta seriam logo convertidos à
nova fé. Os índios se tornaram familiares com o padre, a cruz, a missa
e também com as imagens dos santos, procissões e promessas – tudo
aquilo que a Igreja Católica Romana implantou na Idade Média. Contra
todas estas coisas, estranhas à Bíblia, os Reformadores tinham atacado,
como sendo de nenhum valor para a alma.
Os índios não se mostraram maleáveis como os frades pensaram
inicialmente; eles se tornariam “cristãos”, mas sob forte coerção.
Inevitavelmente, eles iriam inserir nos dogmas e práticas católicas
seu próprio paganismo. Isto também aconteceu com os escravos
africanos, só que numa extensão muito maior. Estes eram batizados
no mar quando estavam embarcando na África e marcados no peito
com uma cruz, a fim de que pudessem ser vendidos como “cristãos”
em sua chegada no mercado de escravos no Brasil e, desta forma,
alcançar melhor preço. Eles eram obrigados a beijar a cruz, mas em
seus corações permaneciam pagãos. Não apenas eram batizados e
recebiam nomes cristãos, mas inevitavelmente seus deuses eram
“batizados” e reencarnados como santos. Na “Terra da Santa Cruz”,
a cruz não era apenas sem Cristo, mas arraigada na ignorância,
superstição e idolatria do paganismo.
O Brasil permanecia em desesperadora necessidade do evange-
lho. Em seu livro Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre, um
eminente sociólogo brasileiro, escreve: “Ninguém hoje é tão iludido a
114 JORNADA NO IMPÉRIO

ponto de pensar que nós brasileiros – quase todos de nós, até mesmo
aqueles de São Paulo e do Rio Grande do Sul, como nossos primos
negros – somos realmente um povo latino e, ainda menos exatamente,
cristão… Nós somos concordantes de que o catolicismo foi um fator
poderoso na integração do Brasil, mas um catolicismo que, em seus
contatos, na Península Ibérica, com as religiões africanas, adquiriu
uma cor mais escura, mais mulata. Desta forma, ele próprio se adap-
tou às condições de vida nos trópicos e ao nosso povo de origem
mestiça. As portas dos santuários se abriram completamente para
admitir ídolos africanos disfarçados como São Cosme e Damião, as
figuras negras de São Benedito e Santa Efigênia, Nossa Senhora do
Rosário de pele escura e outros santos negros que tomaram seus
lugares ao lado de Santo Antônio, querubins com cabelos dourados,
em uma fraternização que sobrepujou aquela encontrada entre os
humanos. Santos e anjos, tradicionalmente loiros, foram forçados a
imitar o povo, tornando-se mais como eles, os parentes de negros e
mulatos. Nas mãos de nossos escultores de imagens, até mesmo Nossa
Senhora tomou traços mulatos para si, algumas vezes simulando a
pele e adquirindo os seios de uma mãe negra. E a imagem mais popu-
lar no Brasil é a de um judeu escuro, abatido, com cabelo preto ou
castanho; o cabelo e a barba não são loiros como nas representações
históricas ou ortodoxas do Redentor no Norte da Europa. Se os pa-
dres tivessem insistido em impor às pessoas os santos loiros, talvez
afastassem um grande número de brasileiros do catolicismo, e pode-
ria ter surgido ao redor dos altares e dos santos um clima de frieza e
indiferença, assim como ocorreu ao redor do trono dos imperadores e
regentes loiros. Há indícios de verdade na improvável alegação de
que o primeiro imperador perdeu o trono por não ser um brasileiro
nativo, e o segundo, por não ser mulato”. O catolicismo havia sido
mesclado com raízes pagãs, estas contaminando aquele. O Dr. e a
Sra. Kalley podem não ter compreendido isto completamente quando
desembarcaram, mas logo entenderam, ao se estabelecerem no Bra-
sil.
A TERRA DA CRUZ SEM CRISTO 115

EXILADOS FRANCESES TRAZEM O EVANGELHO


Em 1555, exatamente 300 anos antes da chegada dos Kalleys, um
grupo de protestantes franceses chegou à Baía de Guanabara,
procurando asilo, ao fugir da perseguição. O Almirante Coligny, cabeça
da minoria huguenote na França e principal mártir na noite do Massacre
de São Bartolomeu, deu-lhes sua bênção e aprovou seu líder,
Villegagnon, um homem cuja reputação de ousadia fora criada quando
atravessou o bloqueio inglês, trazendo a jovem Mary, rainha da Escócia,
seguramente para a França. Os franceses tomaram posse de uma
ilha na baía, fortificaram-na, formaram uma aliança com os índios
Tamoios que perambulavam pela costa do continente, e tiveram sucesso
em fundar uma colônia, à qual deram o grandioso nome de “França
Antártica”. A intenção deles era formar uma verdadeira comunidade
cristã sob os cuidados pastorais de ministros de Genebra. Na verdade,
a primeira data importante do calendário da igreja evangélica brasileira
é 10 de março de 1557, o dia em que o pastor francês Pedro Richier
conduziu um culto de acordo com a fé reformada, pela primeira vez
em solo brasileiro. O sucesso da colônia foi de vida curta, uma vez
que Villegagnon logo revelou sua profunda aversão à fé que ele tinha
tão entusiasticamente exposto, quando estava animado com a
expedição na França. Ele dispersou todos os fiéis. Três deles sofreram
grandes martírios; foram estrangulados e seus corpos jogados no mar.
Outros escaparam de barco, mas poucos conseguiram finalmente voltar
para a França. Os portugueses já estavam firmemente estabelecidos
mais para o sul e norte, ao longo da costa, e consideravam todo o
território brasileiro como pertencente a eles. Suas tropas, sob o comando
de uma das mais famosas personalidades brasileiras, Estácio de Sá,
expulsaram o remanescente dos franceses da baía. Uma batalha final
foi travada contra os Tamoios e vencida no dia de São Sebastião; e,
para evitar outras incursões estrangeiras no território português, Estácio
de Sá fundou uma cidade e a batizou de São Sebastião do Rio de
Janeiro.
Um dos pastores franceses, conhecido na história brasileira como
João de Boles, encontrou refúgio por pouco tempo em São Vicente, o
116 JORNADA NO IMPÉRIO

primeiro assentamento português no Brasil, hoje em dia o porto de


Santos, no litoral próximo de São Paulo. Ele propagou o evangelho tão
zelosamente, tanto entre índios quanto entre os portugueses, que atraiu
as atenções hostis dos jesuítas. Eles silenciaram efetivamente seu
testemunho, ao ordenar sua prisão e, após anos de aprisionamento e
sofrimento, o condenaram à morte. Anchieta, um padre jesuíta
celebrado na história brasileira como um pacificador entre os índios,
reivindicou ter finalmente convertido o herege, e, temendo que João
de Boles o desmentisse, ele próprio ajustou o nó da corda para que
sua vítima morresse o mais rápido possível. Com a morte de Boles, o
último vestígio da França Antártica foi completamente varrido, e a
primeira tentativa de implantar o evangelho no Brasil, totalmente
frustrada. Mem de Sá, pai de Estácio, proclamou vitoriosamente: “O
Senhor não queria luteranos e calvinistas estabelecidos nesta terra do
Brasil”.
Os militantes da cruz haviam vencido uma batalha sobre a verdade
bíblica.

COLONIZADORES HOLANDESES FUNDAM IGREJAS


A segunda tentativa de levar o evangelho ao Brasil foi feita pelos
holandeses. Eles, no início do século dezessete, fundaram a Companhia
das Índias Ocidentais, esperando explorar a riqueza das Américas,
assim como a Companhia das Índias Orientais vinha fazendo com
grande sucesso no Oriente. O Brasil foi seu primeiro objetivo. Em
1624, conseguiram uma precária base de operações em Salvador,
naquela época a capital da colônia, mas foram forçados a recuar. Seis
anos depois, estabeleceram uma cabeça-de-ponte em Pernambuco, e
de lá foram gradualmente estendendo suas conquistas até tomarem o
controle de todo o nordeste brasileiro. Reconstruíram a devastada vila
de Recife e fizeram dela a melhor cidade de toda a região. Tanto em
planejamento quanto em beleza arquitetônica, Recife ultrapassava
qualquer coisa que o país conhecera até então. Os holandeses se
enriqueceram com as plantações de cana-de-açúcar, e, sob a sábia
administração de João Maurício, príncipe de Nassau, a colônia
A TERRA DA CRUZ SEM CRISTO 117

prosperou. O príncipe procurava educar o povo trazendo intelectuais


europeus, artistas e outros, e, contrariamente ao costume da época,
permitia completa liberdade religiosa. Os holandeses eram de fé
reformada e fundaram numerosas igrejas tanto para as comunidades
holandesas quanto brasileiras. A igreja se focalizava no serviço
missionário e planejava levar o evangelho às tribos indígenas. Estes
planos, no entanto, nunca maturaram, pois, após longa luta, os
brasileiros, um bando guerrilheiro consistituído de colonizadores
portugueses, escravos africanos e índios, juntamente com numerosos
mestiços, conseguiram expulsar os invasores. A campanha é conhecida
na história como a “Insurreição Pernambucana”, e os homens que a
lideraram – o chefe indígena Camarão, o africano Henrique Dias, o
português Vieira e o brasileiro Negreiros – são reverenciados como
os progenitores da independência brasileira, uma vez que conseguiram
a vitória sozinhos, sem qualquer ajuda de Lisboa.
Desta forma, em 1654, a segunda tentativa de espalhar o evangelho
no Brasil falhou. Mais uma vez a cruz sem Cristo tinha vencido mais
uma batalha sobre a verdade bíblica do evangelho. Todos os traços da
fé reformada foram sistematicamente erradicados: os templos dos
protestantes holandeses foram adequados ao uso do catolicismo; os
índios influenciados pelo evangelho foram forçados a voltarem à fé
católica; nada sobrou que indicasse ter sido fielmente proclamado por
quase trinta anos, o evangelho no nordeste do Brasil.

LAÇOS COMERCIAIS COM A INGLATERRA


Pelos próximos cento e cinqüenta anos o Brasil foi uma terra
isolada. Todos os invasores haviam sido expulsos – os franceses, que
haviam se estabelecido no Norte e fundado a cidade de São Luiz do
Maranhão, e até mesmo os britânicos, que haviam construído dois
fortes no extremo Norte. Os portugueses colonizaram todos os pontos
importantes na costa e fecharam efetivamente o território para
comerciantes e hereges. Apenas através de Lisboa se podia fazer
contato com o resto do mundo. Qualquer estrangeiro sem rumo certo
que chegasse ao Brasil era imediatamente julgado e condenado, pela
118 JORNADA NO IMPÉRIO

Inquisição, a ser queimado como judeu. Houve, no entanto, uma


exceção muito interessante.
Em 1703, a Inglaterra, como um aliado de Portugal, obteve uma
concessão, pelo Tratado de Methuan, para que quatro famílias britânicas
residissem e fizessem comércio nas três principais cidades – Bahia,
Rio e Recife. Uma mudança era iminente, contudo; o rei Dom João
VI e sua corte, sob a instigação e proteção britânica, fugiram de
Portugal para o Brasil, dos perigos da Invasão Napoleônica na Península
Ibérica. Foi então, em 1808, que os portos brasileiros foram abertos
para o comércio mundial, e o comércio direto com outros paises foi
estabelecido. A lei que proibia a manufatura de qualquer produto em
solo brasileiro foi revogada, e iniciou-se certo desenvolvimento
industrial. Os britânicos se beneficiaram grandemente da abertura que
lhes foi feita. Em apenas um ano, os mercadores britânicos se
estabeleceram nos centros comerciais, e o fluxo de produtos britânicos
para o Brasil se iniciou – ferro, vidro, porcelana, chá, uma infindável
lista. A indústria britânica e os empreendimentos seguiram este fluxo
rapidamente – fundições, estradas de ferro, saneamento básico,
mineradoras de ouro, transportadoras, bancos, gás e, algum tempo
depois, telégrafo, cabos submarinos e eletricidade. Em todos os
departamentos da vida comercial brasileira, a influência britânica se
fez sentir. Em 1881 foi dito que a Inglaterra possuía mais laços
comerciais com o Brasil que com qualquer outro país. Os brasileiros
dizem que George Canning (1770 – 1827), político britânico e o primeiro
a reconhecer os Estados Livres da América do Sul, foi o “padrinho”
da independência brasileira, tão grande foi seu esforço para fazer
disso uma realidade.
Outro serviço que os britânicos prestaram ao Brasil foi o de
identificar e fazer conhecido para todo o mundo a imensa riqueza da
fauna. Dr. G. Gardener, superintendente do Jardim Botânico no Ceilão,
viajou extensivamente no Brasil de 1836 a 1841, representando Kew
e Glasgow. Quatro anos depois, outro inglês, Dr. T. Bridges, quando
explorava um afluente do rio Mamoré, descobriu numa calma piscina
natural a mais maravilhosa vitória-régia já vista. Em sua animação
pela descoberta, ele teria mergulhado no lago para nadar até o local
onde a vitória-régia boiava, se os guias indígenas não o tivessem
A TERRA DA CRUZ SEM CRISTO 119

impedido. O lago estava infestado de jacarés, alguns dos quais tomavam


banho de sol a apenas alguns metros da flor. Bridges conseguiu
sementes e as levou para Kew. As plantas se desenvolveram, e uma
delas foi enviada às estufas de Chatsworth. A Victoria Regis é agora
mundialmente conhecida e admirada. Como Gilberto Freyre, renomado
escritor brasileiro, certa vez disse, “os britânicos tiveram a habilidade
de combinar o útil com o belo”. Ele poderia ter adicionado à frase, “e
o agradável também”, pois foram os britânicos que deram ao Brasil o
seu esporte nacional, o futebol!

O PROTESTANTISMO CONSEGUE O RECONHECIMENTO


OFICIAL
Havia um assunto importante que continuava pendente – a questão
da liberdade religiosa. Os britânicos, já bem estabelecidos no Brasil, e
os colonizadores, principalmente alemães e suíços, convidados pelo
governo para ocupar e cultivar os vastos territórios do interior, exigiam
que pudessem gozar de liberdade para adorar de acordo com os ditames
de suas consciências. Eles já haviam defendido esta causa nos Estados
Unidos, outro país em desenvolvimento, e eles defendiam que assim
fosse também no Brasil. A Igreja Católica Romana, no entanto, se
opunha a tal política de liberdade religiosa. Os britânicos, que formavam
colônias cada vez maiores nas grandes cidades, insistiam no direito de
terem capelães da Igreja da Inglaterra para ministrar às suas
necessidades espirituais. A oposição da hierarquia católica tornou-se
mais tenaz; eles eram inflexíveis em sua recusa de permitir que uma
igreja protestante entrasse no Brasil sob qualquer tipo de pretexto. Os
britânicos finalmente ganharam a causa, quando um velho e sábio
dignitário da comunidade católica involuntariamente tornou-se aliado
deles. Ele sabiamente lembrava seus colegas clérigos de que os
britânicos lutavam persistentemente por algo, até obter o que
desejavam, mas, uma vez que o conseguiam, simplesmente o
negligenciavam e se esqueciam daquilo. “Deixe que eles tenham sua
igreja, pois este é o meio mais seguro de fazê-los esquecer isto e
nunca freqüentar seus cultos.”
120 JORNADA NO IMPÉRIO

Um tratado foi esboçado entre os governos britânico e brasileiro,


de forma que uma capelania foi estabelecida em cada colônia britânica.
Foi estipulado, no entanto, que as igrejas não deveriam ter a aparência
externa de um lugar de adoração – sem sinos, torres, vitrais nas janelas,
e, acima de tudo, não deveria haver qualquer tentativa de converter
os brasileiros. Mais tarde, os luteranos obtiveram uma concessão
similar para as colônias alemãs encravadas nos Estados do Sul do
país.
O protestantismo havia chegado ao Brasil, mas não como uma
força militante. Tinha obtido reconhecimento oficial, mas seu
testemunho fora anulado pelas restrições impostas sobre ele. Como
resultado desta interferência mortal, nem a Igreja da Inglaterra e nem
a Igreja Luterana tiveram qualquer participação na evangelização do
Brasil. Ainda era a “Terra da Santa Cruz”; a dominante influência
daquela cruz permanecia incontestada. O país suportara todas as
tempestades dos séculos, mas seu maior desafio ainda estava
chegando. Foi apropriado que os cidadãos da Inglaterra, país mais
beneficiado com a política de livre comércio do Brasil, Dr. e Sra.
Kalley, introduzissem este desafio. Eles trariam ao Brasil aquilo que
em última análise tinha feito a grandeza da Grã-Bretanha – a Bíblia, o
evangelho, o Cristo que vive.
CAPÍTULO 12
UMA PORTA ABERTA
Q ual era o ambiente do Brasil na ocasião em que Dr. Kalley
introduziu o evangelho? Com relação ao clero, o número de clérigos
nativos era reduzido ao mínimo; os monastérios estavam vazios e
praticamente não havia voluntário para o sacerdócio. Aqueles que
estavam nas ordens santas eram, em sua maior parte, negligentes
com relação à moral e às doutrinas e inteiramente desprovidos de
visão e zelo apostólicos. As igrejas das cidades tinham a prioridade e
atraíam os poucos padres disponíveis, enquanto as comunidades mais
afastadas no vasto interior do país tinham de se contentar com visitas
ocasionais dos padres, geralmente por motivo de alguma festa do santo
local. A simonia – compra e venda de coisas sagradas e espirituais –
também era abundante.
Na falta do padre, as próprias pessoas procuravam suprir suas
necessidades espirituais. Qualquer pessoa dotada de uma mente mais
interessada nos assuntos religiosos poderia liderar a comunidade numa
recitação de rezas, a novena. Kidder descreveu este acontecimento
vividamente, quando ficou em uma fazenda: “Durante a noite, meia
hora era devotada às rezas. Vi algumas pessoas negras entrarem num
quarto e se cumprimentarem mutuamente com as mãos cruzadas so-
bre o peito: ‘Louvado seja o nosso Senhor Jesus Cristo’. Depois,
122 JORNADA NO IMPÉRIO

começavam a entoar as rezas. Ajoelhavam-se em frente ao oratório,


devidamente decorado com adornos e lantejoulas e iluminado por ve-
las. Neste caso, a pessoa que liderou as rezas era um leigo, um velho
homem de cor”. Kidder continua: “Estas reuniões de escravos à noi-
te, ou às vezes no início da manhã, são comuns. O prazer que os
escravos sentem em tais ocasiões, que são muito freqüentes, visto
que os dias dos santos são muitos, indubitavelmente constitui um po-
deroso calmante para a condição servil deles”.
Tais reuniões, nas quais a laicidade desempenhava tão proemi-
nente papel, aliado ao amor pela música, prepararam o caminho para
o culto evangélico. Estas pessoas tinham experiência em organização
de reuniões que um deles liderava. Conseqüentemente, não acharam
estranho se reunirem numa casa, ao redor da Bíblia, e escutar a expo-
sição ministrada por um deles mesmos. Uma coisa é certa, eles
aprenderam mais da verdade ouvindo a Palavra de Deus exposta por
um humilde crente do que de todos aqueles anos acumulados na mais
meticulosa observância dos dias dos santos, ou até mesmo das exi-
gentes cerimônias da Semana Santa!

TOLERÂNCIA OFICIAL
Nos círculos oficiais, o espírito de tolerância prevalecia. Estava
na moda ser tolerante. As nações protestantes, Inglaterra e Prússia,
haviam destronado Napoleão e protegido o trono português nas mãos
da família Bragança. A Inglaterra contribuíra decisivamente para a
independência brasileira. O protestantismo, ao menos em teoria, senão
na prática, estava em ascendência. Muitos dos clérigos nativos eram
liberais, como Kidder descobriu em suas viagens como vendedor de
livros. Eles se auto-intitulavam discípulos de Jansênio, um teólogo
holandês que expunha livre e plenamente as doutrinas de Sto.
Agostinho. Seu dogma tornou-se um estudo básico nos seminários do
Rio e Recife. Os clérigos treinados nestas escolas eram favoráveis à
distribuição irrestrita da Palavra de Deus e prontamente se
encarregaram de doar as cópias das Escrituras que Kidder deixara
com eles. Infelizmente havia uma forte mistura de padres e prelados
UMA PORTA ABERTA 123

estrangeiros que eram fanáticos defensores dos dogmas tridentinos e,


como tais, se opunham fortemente à leitura da Bíblia, especialmente
pela classe popular, que era a maioria!
O líder político brasileiro, Padre Feijó, era um clérigo nativo típico
da ala liberal. Além de padre, era um intelectual que começou sua
carreira política como deputado, Ministro da Justiça e senador. Feijó
atingiu o auge de sua carreira quando, em 1837, tornou-se Regente
durante a menoridade do jovem Imperador Dom Pedro II. Assim como
Jansênio defendia, Feijó visava a reforma da Igreja Católica no Brasil,
conseguindo através disto uma elevação do nível espiritual do país
como um todo. Ele buscava autorização para que os padres pudessem
se casar e, desta forma, pôr em ordem a confusão que era a vida
doméstica deles. Ele até sugeriu que o Marquês de Barbacena, então
em Londres, convidasse os irmãos morávios para virem ao Brasil fazer
a mesma coisa que haviam feito em outros países – evangelizar e
ensinar o povo. Acima de tudo, ele tencionava romper com Roma e
estabelecer uma Igreja Católica Brasileira, semelhantemente ao que
Henry VIII fizera na Inglaterra. Kidder era um amigo próximo do
Regente e simpatizava completamente com suas aspirações.

A ATITUDE DO IMPERADOR
Dois outros fatores que pesavam muito em favor do evangelho
eram a atitude do jovem imperador e a política de imigração de seu
governo. Dom Pedro II tinha sido proclamado imperador quando seu
pai foi deposto. Ele nascera no Brasil, e o povo o aceitava como um
verdadeiro brasileiro; e, sob a tutela de Feijó, cresceu o amor de D.
Pedro II por seu povo e seu país. Ele era um governante sábio e
tolerante, interessado no bem-estar de toda a nação. Professava ser
católico romano, mas tinha grande aversão por Roma. Simpatizava
profundamente com o movimento que procurava romper com o
Vaticano e deixava, assim, a igreja livre para sua verdadeira missão
de ministrar às necessidades espirituais do povo. Era essencialmente
um estudante das artes e ciências, e isto pode ter contribuído para seu
profundo desprezo pela mensagem da igreja oficial. Acreditava num
124 JORNADA NO IMPÉRIO

evangelho social, numa igreja que apoiaria o governo em seus esforços


para combater os males sociais e melhorar o nível de vida da população
em geral. Caso tivesse liberdade para agir de forma completamente
independente, certamente teria transformado cada padre e frade num
professor ou tutor, e cada oficial do exército num cientista ou
engenheiro.
Em seu livro de viagens e pinturas, Vision of Eden, a Srta. Mari-
anne North escreveu sobre uma visita que fez ao imperador, no Rio
de Janeiro, em 1873: “O Imperador era um homem a quem valeria a
pena conhecer, mesmo que fosse o mais pobre dos cavalheiros; ele é
eminentemente um cavalheiro e repleto de informações e conheci-
mentos gerais sobre todos os assuntos. Vive mais a vida de um estudante
que aquela à qual os príncipes comuns se condenam. Ele não costu-
mava receber o povo, mas, em certos dias, ele e a Imperatriz recebiam
os súditos mais pobres que gostavam de levar suas reclamações a
ele. Gentilmente marcou um horário especial comigo, durante a ma-
nhã, e passou mais de uma hora examinando minhas pinturas e
conversando sobre elas e outros assuntos, dando-me os nomes e qua-
lidades de diferentes plantas que eu sequer conhecia. Então, tomou
em seus braços todas elas – que não pesavam pouco – e as carregou
para mostrá-las à Imperatriz, dizendo-me para o seguir. Ela também
era muito amável, com maneiras gentis e doces, e ambos haviam apren-
dido em sua viagem pela Europa (da qual nunca se cansavam de
falar) a cumprimentar da maneira inglesa! Eles também tinham, pre-
maturamente, cabelos brancos, trazidos provavelmente em razão do
grande sofrimento pela perda da filha e da terrível guerra contra o
Paraguai. Em minha segunda visita ao palácio, o Imperador foi bom o
suficiente para me mostrar seu museu, no qual há uma maravilhosa
coleção de minerais”.
Quatro anos mais tarde, pouco tempo depois que a Srta. North
tinha retornado de uma visita ao Extremo Oriente, o imperador lhe fez
uma visita em seu apartamento em Londres. “Ele olhou todas as minhas
antiguidades e pinturas e falou sobre os meus amigos em seu país,
com sua maravilhosa memória, sem esquecer de ninguém em quem
eu pudesse me interessar.”
O imperador, assim como seus ministros mais cultos, viram a
UMA PORTA ABERTA 125

necessidade de imigração e a encorajaram. Alguns dias antes da


chegada do Dr. Kalley, o imperador, ao discursar no trono, na abertura
da Terceira Assembléia Nacional, disse: “Meu governo dará atenção
especial à promoção da colonização da qual o futuro do país depende”.
Ele se espelhou em países protestantes, a fim de extinguir a grande
necessidade do Brasil – mais pessoas – e tomou como exemplo a
sábia política colonial dos Estados Unidos, com sua liberdade de
adoração e consciência, juntamente com a igualdade de direitos civis
e políticos.
Kidder estava correto em seu resumo da situação no Brasil, como
ele a compreendia – que em nenhum outro país católico romano no
mundo se encontraria um espírito tão tolerante. Ainda assim, embora
Dr. Kalley pudesse dizer como Paulo: “Porque uma porta grande e
oportuna para o trabalho se me abriu”, ele também podia terminar a
frase: “E há muitos adversários”.
CAPÍTULO 13
GERNHEIM
O s Kalleys se mudaram para um hotel distante da praia. O
Hotel dos Estrangeiros localizava-se no centro da cidade, na praça
conhecida como Praça do Catete. Lá, o clima era mais saudável e a
vida mais tolerável. Sua preocupação mais importante era a de
encontrar uma casa adequada. Precisava ser apropriada ao status
social deles, ficar numa das áreas mais saudáveis da cidade, ter um
cômodo grande o suficiente para acomodar as reuniões que pretendiam
fazer, e, finalmente, mas não menos importante, ser facilmente
acessível. Os Kalleys andaram por toda a cidade na esperança de
encontrar o local ideal, mas não tiveram sucesso na busca, mesmo
depois de semanas de incessante empenho. Por duas vezes, pensaram
ter encontrado a casa certa, mas em ambos os casos não tiveram
sucesso. A situação era extremamente frustrante. O doutor escreveu
em seu diário: “Sarah desanimou. Parecemos não estar fazendo nada
por nós mesmos ou pelos outros; estamos inertes e inúteis, sem nos
comunicarmos com ninguém. Talvez pudéssemos ser mais úteis em
casa… A memória, o coração e nosso próprio julgamento parecem
estar vacilantes, embora meu privilégio seja tão grande comparado
aos comerciantes de maior sucesso – ingleses ou brasileiros”.
Naturalmente, eles desejavam permanecer incógnitos, temendo
128 JORNADA NO IMPÉRIO

que a experiência do doutor em Madeira se mostrasse prejudicial ao


trabalho que esperavam realizar no Brasil. Entretanto, quase
imediatamente ele foi reconhecido e saudado por um de seus antigos
pacientes em Madeira! A realidade não podia ser disfarçada, o “Lobo
da Escócia” havia chegado ao Brasil!

PETRÓPOLIS
Os Kalleys tinham sido assegurados por conhecidos brasileiros
de que certamente achariam na cidade vizinha, Petrópolis, situada no
alto das Montanhas dos Órgãos, aquilo que não encontraram no Rio.
O Rio de Janeiro não era exatamente o lugar mais saudável para se
viver: o saneamento básico era inexistente, a água era escassa, o
clima pesado e úmido, e com a chegada da estação quente, de outubro
a março, ele se tornaria sufocante. A febre amarela e a febre tifóide
vinham fazendo inúmeras vítimas, especialmente entre os moradores
britânicos. As lápides no cemitério britânico no distrito de Gambôa
testificavam eloqüentemente o perigo de se residir em um clima tão
prejudicial.
Petrópolis fora construída alguns anos antes com o propósito de
ser residência de verão do imperador e sua corte. Sua localização nas
montanhas atrás do Rio era ideal: um clima agradável, belas paisagens,
e situada no principal caminho entre a capital do Estado e Minas
Gerais, com sua riqueza proveniente do ouro e das pedras preciosas.
A cidade era bastante espaçosa, livre de toda a sujeira característica
do Rio de Janeiro, e parecia mais uma capital que o próprio Rio. Os
departamentos governamentais eram localizados em prédios bem
planejados; o palácio do imperador era muito imponente e a aristocracia
havia construído para si palácios residenciais. Era uma cidade
agradável para se fixar residência. Era lá também que o impacto da
política de imigração do governo foi mais aparente – trabalhadores
alemães e suíços juntaram-se naquele local, morando em fileiras de
humildes cabanas. Havia até mesmo uma Igreja Luterana Alemã, uma
concessão aos recém-chegados.
Os Kalleys finalmente ouviram o conselho de amigos brasileiros e
GERNHEIM 129

fizeram uma visita exploratória a Petrópolis. Foram privilegiados pelo


fato de que a ferrovia naquela direção acabara de ser construída – a
primeira estrada de ferro no Brasil. A viagem não era fácil, de maneira
nenhuma, como a Srta. Marianne North descobriu vinte anos depois.
Ela escreveu: “De barco, fui da Prainha, na baía, até Mauá, onde um
trem esperava para nos levar sobre o pântano até o pé das montanhas
de Petrópolis. Finalmente atingimos uma região com uma aparência
mais saudável e paramos na ‘Raiz da Serra’, onde fui colocada numa
carruagem com mais três brasileiros e levada dez milhas acima por
uma estrada em ziguezague. A carruagem era arrastada por quatro
mulas, que mantinham um trote contínuo durante a subida de três mil
pés. Mais duas milhas a toda brida, nos levaram montanha abaixo
para Petrópolis”. Uma viagem muito agitada, como quadros daquela
época mostram: a estrada sempre lotada – carroças, mulas de carga,
escravos a pé, carruagens da aristocracia – cheia de postilhões e
batedores! A Srta. North não ficou impressionada com a cidade,
comparando-a com um “balneário alemão de segunda classe”, e ficou
apenas dois dias; de acordo com suas próprias palavras, foram dias
de “chuva, frio e solidão; eu trabalhei, caminhei, fiquei encharcada e
resfriada”. Mais tarde, ela corrigiria sua opinião num tempo melhor e
em mais agradável companhia.
Em Petrópolis, o Dr. e a Sra. Kalley encontraram exatamente
aquilo que estavam procurando – a casa apropriada, situada num vasto
terreno entremeado por cabanas de trabalhadores alemães. Era a casa
do embaixador americano, e logo ficaria vaga. O nome da propriedade
era Gernheim, “amado lar”, indicando o quão agradável ela era. Visto
que poderiam ocupar a casa somente em outubro, os Kalleys
continuaram a residir no Rio até o fim de julho e, então, se acomodaram
temporariamente em um hotel de Petrópolis.
Ao escolher esta cidade como o lugar onde iniciariam o trabalho
missionário, foram indubitavelmente influenciados pela presença de
muitos alemães protestantes. Citando o diário: “Provavelmente nunca
haverá um grupo tão grande de protestantes estrangeiros, nem
circunstâncias tão promissoras para a propagação da verdade na corte
[área do Rio e Petrópolis] deste país degradado”.
Eles se tornaram conhecidos de muitas pessoas; o status social,
130 JORNADA NO IMPÉRIO

além da fluência lingüística deles no alemão, português e inglês deu-


lhes uma grande vantagem. Havia, no entanto, um grande obstáculo –
a alta sociedade brasileira suspeitava deles. Foram espalhados rumo-
res, por madeirenses de boa reputação, de que o doutor tinha sido
expulso de Madeira como alguém “indesejado”, um causador de pro-
blemas. Dr. Kalley era primeiramente um missionário, um embaixador
de Cristo, com um dom único para o evangelismo pessoal. Com gran-
de facilidade e sem causar embaraço, ele “conversava” sobre o
evangelho, e o fazia em toda e qualquer circunstância. Com relação a
um ministério público, ele ainda estava cauteloso. Suas experiências
em Madeira tinham lhe ensinado os perigos da confrontação com as
autoridades, sejam eclesiásticas ou civis, de forma que, neste estágio
inicial de seu ministério no Brasil, ele evitava ter qualquer tipo de culto
formal.

PEQUENOS COMEÇOS
O Brasil, em toda a sua vastidão e profundas necessidades,
permanecia aberto ante eles, mas agora que os Kalleys estavam
acomodados, como poderiam iniciar sua missão? Começaram
exatamente onde estavam, na situação em que se encontravam. Os
filhos das famílias protestantes, suíças e alemãs, assim como os filhos
dos britânicos e americanos, precisavam de uma escola dominical onde
pudessem aprender as histórias da Bíblia. Alguns dias após sua chegada,
em 19 de agosto, a Sra. Kalley juntou os filhos do embaixador
americano e os de uma família inglesa, em um cômodo em Gernheim,
gentilmente emprestado pelo próprio embaixador, e lhes contou a
história de Jonas.
Assim como o poderoso Rio Amazonas tem seu início nas altas
nascentes dos Andes peruanos, o poderoso rio de águas vivas que
agora corre livremente pelo Brasil teve seu início naquela pequena
reunião em Petrópolis. A missão dos Kalleys no Brasil havia começado.
Daquele domingo em diante a escola foi crescendo, e, uma vez que os
Kalleys tomaram posse de seu novo lar, foi seguido um padrão
estabelecido. Primeiro, as crianças alemãs se encontravam às três
GERNHEIM 131

horas; mais tarde, os alunos portugueses e brasileiros se reuniam; e


finalmente, os ingleses e americanos. O Dr. Kalley também não estava
perdendo tempo. Reuniu em sua casa um grupo de homens para um
estudo bíblico, todo domingo à tarde e, no mesmo dia, reunia-se com
um grupo de negros. A cultura daquela época não permitia que escravos
africanos sentassem com seus senhores. Até mesmo na Igreja Católica
Romana as distinções raciais eram seguidas à risca, existindo, portanto,
uma igreja diferente para cada tipo de pessoa – brancos, negros e
mulatos. Anos depois, quando a igreja evangélica estava bem
estabelecida, estas diferenças desapareceram. Em Cristo Jesus, todos
nós somos um.
Em Gernheim, o culto doméstico acontecia todos os dias. Os três
servos, duas criadas alemãs e um jardineiro português participavam
destas orações diárias. Deste modo, foi dado um exemplo para os
outros seguirem. No estágio pioneiro do trabalho, o culto doméstico
nas casas dos crentes seria uma das formas principais de propagar o
evangelho. Os crentes eram ensinados: “Convide seus amigos e vizinhos
para cantar hinos, ler a Bíblia e orar em sua casa”.
CAPÍTULO 14
VENHA E AJUDE-NOS
D r. Kalley percebeu plenamente que uma base bem estabelecida
no Rio de Janeiro era essencial para que as boas notícias pudessem
se irradiar por todo o Brasil. Ele sabia que outros obreiros eram
necessários, pois ele próprio, de sua casa em Petrópolis, nunca poderia
iniciar um trabalho no Rio; e também não era conveniente que ele
fizesse isso na situação em que se encontrava. Após deixar os Estados
Unidos, Kalley tinha escrito uma carta pastoral para as igrejas em
Illinois, exortando-as a estarem sempre prontas para pregar o
evangelho nas colônias portuguesas em toda parte do mundo.
Agora, no início de 1856, um convite urgente foi enviado a três
famílias madeirenses para que viessem ao Brasil em sua ajuda. Assim
como o próprio Senhor, ele convocou homens de profissões comuns
para irem pregar o evangelho.

RESPOSTA IMEDIATA
Houve uma resposta imediata, porém inesperada, à carta que Dr.
Kalley enviara aos crentes madeirenses em Illinois. Um homem inglês,
William Drayton Pitt, que, quando garoto, freqüentava as aulas de
134 JORNADA NO IMPÉRIO

estudo bíblico da Sra. Kalley, em Torquay, e que tinha emigrado aos


Estados Unidos, esteve em contato com os madeirenses residentes
em Illinois. Ele respondeu ao apelo e chegou de Nova Iorque em
dezembro de 1855. Sua chegada criou um problema para a Sra. Kalley,
pois seu espírito de classes sociais ainda estava muito evidente. Ela se
recusava a ter William Pitt, um jovem de origens humildes e carpinteiro
de profissão, sentado à mesa com ela e seu esposo. Dr. Kalley, no
entanto, passou por cima destas objeções e recebeu Pitt como um
convidado de honra. A Sra. Kalley aprendeu naquele dia algumas das
implicações de todos os crentes serem “um em Cristo Jesus”!
Então, de onde menos se esperava, vieram problemas. Uma
epidemia de cólera que varria todo o país, chegou a Petrópolis e tomou
alarmantes proporções. Alguns dias após sua chegada, Pitt contraiu a
doença, e por dois dias sua vida esteve por um fio. Ele se recuperou e,
pouco depois, empregou-se em um estaleiro no Rio, como carpinteiro.
Durante este período, ele não apenas se sustentou como também iniciou
o processo de integração à vida brasileira.
O doutor, de sua parte, decidiu oferecer seus serviços às
autoridades da área de saúde e foi devidamente autorizado para tratar
aqueles que estavam sofrendo desta praga. Suas experiências médicas
em Madeira estavam sendo revividas. Ele concentrou suas atenções
nos mais pobres, naqueles que teriam morrido não somente pela doença,
mas principalmente pela negligência. Era o “bom doutor” mais uma
vez. Embora tratasse dos ricos, quando chamado para fazê-lo, pobres
e ricos eram tratados igualmente, de maneira cuidadosa e sensível.
No Brasil, tal como em Madeira, Dr. Kalley nunca tratava de um
caso, sem antes orar e ministrar algum conforto e força por meio das
Escrituras. Um infortúnio configurou-se numa dolorosa perda para
ele: seu velho jardineiro sucumbiu à cólera. Ele participara fielmente
das reuniões de oração na casa de seu empregador e professara sua
conversão, de forma que morreu firme na fé, invocando o nome do
Senhor.

O CUSTO DO CHAMADO
O doutor tinha sido bastante específico em seu convite aos crentes
VENHA E AJUDE-NOS 135

nos Estados Unidos, inclusive citando o nome de três homens que


deveriam vir com suas respectivas famílias – Francisco da Gama,
Francisco de Souza Jardim e Manuel Fernandes. Não foi fácil a decisão
de aceitar o desafio. Era um sacrifício caro desarraigar-se novamente,
logo após terem se estabelecido em Illinois. Eles haviam perdido tudo
em Madeira, depois trabalharam arduamente nas plantações das Índias
Ocidentais e, agora, mais uma vez, estavam sendo chamados a deixar
tudo por amor ao evangelho. Isso significaria trocar sua liberdade
recentemente conquistada, pelas restrições, perseguições e intolerância
fanática que prevaleciam no Brasil.
Suas cartas em resposta ao convite refletiam seus pensamentos a
respeito do chamado. Francisco da Gama escreveu, em abril de 1856,
que estava vendendo tudo o quanto possuía em Springfield, a fim de
preparar-se para a viagem ao Rio de Janeiro. E acrescentou:
“Recebemos o seu convite para nos juntarmos a você, e fiquei contente
em ouvir sua voz, chamando-me para uma tarefa tão preciosa. Sempre
desejei trabalhar pelo meu Salvador”.
Em sua carta, Francisco de Souza Jardim é mais explícito ainda:
“Quando Gama recebeu sua carta, eu já tinha comprado um terreno e
construído uma casa de madeira, onde eu e minha família estávamos
vivendo. Sua carta convidou três famílias para irem ao Brasil, e, caso
nenhuma delas desejasse aceitar o convite, você pediu que a carta
fosse, então, destruída. Minha esposa resumiu as dificuldades: as
crianças, a mudança para uma outra terra, a longa viagem, a vida em
um país estrangeiro, e todas as incertezas envolvidas. Mas vi o Senhor
apontando-me para este caminho. Falei para ela que, se não fôssemos,
todo o prazer na vida se perderia. Nós oramos juntos e pedimos que o
Senhor fizesse clara a sua vontade. Em pouco tempo concordamos
em aceitar o convite. Resolvemos as pendências e estamos prontos
para a viagem”.

OS AJUDANTES DA MADEIRA

A história da conversão de Francisco de Souza Jardim testifica o


136 JORNADA NO IMPÉRIO

fato de que o trabalho do Dr. Kalley em Madeira não acabou quando


ele foi expulso de Funchal, em 1848. Jardim estava na cidade alvoroçada
naquele dia memorável de agosto, embora não tenha exercido papel
importante na perseguição aos crentes. Pouco depois, uma serva da
casa na qual ele se empregara convidou-o a acompanhá-la numa
reunião clandestina de estudo bíblico, que acontecia numa humilde
cabana de um trabalhador de fazenda. Ele continuou a participar destas
reuniões; à medida que participava e aprendia as verdades do
evangelho, as transmitia entusiasticamente aos outros. Dr. Miller,
residente em Madeira, batizou Jardim. Tão zeloso novo convertido
certamente não poderia passar despercebido da perseguição, de forma
que sua permanência em Madeira tornou-se insustentável. Seguindo
um conselho do Dr. Miller, Jardim emigrou para os Estados Unidos, e
juntou-se a seus conterrâneos madeirenses que já estavam lá, e, em
1854, veio a conhecer o Dr. Kalley pessoalmente.
Jardim e seus amigos deixaram Baltimore em 7 de junho e
chegaram ao Brasil dois meses depois. Na chegada ao Rio de Janeiro,
foram recebidos por William Pitt que logo os acomodou numa casa
que alugara, à Rua da Boa Vista. Tão logo soube da chegada deles, o
Dr. Kalley saiu de Petrópolis e foi até o Rio de Janeiro, e, naquela
mesma noite, todos eles, que somavam dez pessoas, celebraram a
Ceia do Senhor com “alegria e singeleza de coração, louvando ao
Senhor”.
Jardim encontrou trabalho imediatamente no estaleiro. Francisco
da Gama, que não tinha qualquer profissão, foi empregado pelo próprio
Dr. Kalley como seu vendedor de livros ambulante, vendendo as
Escrituras e também panfletos de porta em porta; enquanto Manuel
Fernandes acompanhou o doutor de volta a Petrópolis e iniciou o
trabalho como um vendedor de livros naquela cidade.
É interessante notar que, quando percebeu precisar de ajuda, caso
desejasse que o evangelho fosse realmente apresentado no Brasil,
Dr. Kalley não recorreu aos seus conterrâneos para serem enviados
como missionários. Ao invés disso, escolheu três homens comuns,
admiravelmente apropriados para a tarefa: portugueses de nacionali-
dade e cultura, convertidos do catolicismo, bem-experimentados nos
estratagemas da Igreja Romana, homens que sofreram por sua fé –
VENHA E AJUDE-NOS 137

Francisco da Gama fora aprisionado em Funchal por muitos meses.


O testemunho deles era atrativo, fosse durante as orações familiares
em suas casas, no trabalho como vendedores ambulantes de livros ou
até mesmo na ocupação diária no estaleiro. Eles eram extremamente
desinibidos em seu testemunho do evangelho e destemidos também.
Para eles, toda a igreja no Brasil está em grande débito. Homens
leigos, com pouca ou até mesmo nenhuma educação formal, mas muito
bem ensinados “nos sofrimentos de Cristo por seu corpo, que é a
igreja”, eles eram as pedras fundamentais daquela igreja no Brasil. A
respeito deles, o Reverendo Porto Filho, um líder da Igreja Congrega-
cional, no Brasil de hoje, escreveu: “Gideão teve seus trezentos
homens, Davi teve aqueles que escolheram se juntar a ele; e Kalley
teve estes quatro – Pitt, Gama, Jardim, Fernandes, e suas esposas,
igualmente dedicadas e heróicas, tendo deixado tudo para seguir o
chamado que seus maridos haviam recebido. Eles devem ser honra-
dos pelo exemplo dado às igrejas que vieram a existir por meio da
semeadura da Palavra, na terra que haviam irrigado com o próprio
sangue, suor e lágrimas, igrejas que se tornaram fortes pelo sacrifício
que eles fizeram por um povo desconhecido numa terra estrangeira”.
Em Petrópolis, além das reuniões de oração familiares e do
tratamento médico aos pobres, havia agora o trabalho ambulante de
venda de livros, com a chegada de Francisco. O trabalho pastoral
feito pelo doutor passou a ter um papel ainda mais importante, tanto
através de cartas quanto através de freqüentes visitas aos crentes no
Rio de Janeiro. Um problema que surgiu foi o de onde achar
hospitalidade para o doutor em tais visitas. O espírito de classes ainda
prevalecia, e Gama, um antigo camponês, não podia ousar oferecer
hospitalidade para alguém de classe profissional, especialmente um
“cavalheiro”! Um amigo britânico, próspero homem de negócios,
disponibilizou ao doutor sua casa na Tijuca, no pé da serra. Lá ele
poderia ter conforto, além de um clima bastante saudável, mas, ao
invés de aceitar a oferta, ele conseguiu arranjar um quarto à sua
disposição na casa de Gama.
138 JORNADA NO IMPÉRIO

UMA VISITA A GRÃ-BRETANHA


Então, o inesperado aconteceu. Dr. Kalley recebeu notícias em
Petrópolis de que a tia de Sarah, Mary Morley, adoecera gravemente
na Inglaterra, assim como sua avó Wilson. Eles ficaram num dilema –
deveriam retornar à Inglaterra para uma curta visita ou deveriam
continuar em Petrópolis? Finalmente decidiram ir. “Minha querida
Sarah”, escreveu Dr. Kalley, “amava tia Mary como uma mãe, irmã e
tia”. Na verdade, ela foi grandemente responsável pela educação de
Sarah. Os Kalleys embarcaram no Rio de Janeiro, em 1857, tendo já
comprado as passagens de volta, totalmente determinados a voltarem
ao Brasil. Chegaram na Inglaterra a tempo de ver a tia Mary, que
morreu pouco depois da chegada deles. A Sra. Wilson, no entanto, se
recuperou de sua doença.
Enquanto estavam na Inglaterra, aproveitaram a oportunidade para
tratar de assuntos que afetavam o trabalho deles no Brasil: o suprimento
das Escrituras, panfletos, publicações, etc., e a Sra. Kalley conseguiu
em Londres uma série de lições com desenhos. No início de outubro,
porém, estavam de volta ao Brasil e passaram alguns dias no Hotel
dos Estrangeiros, antes de subirem até Petrópolis.

AQUELES QUE HONRAM A DEUS


A Sra. Kalley deixou registrado que durante aqueles poucos dias
no Rio, seu marido conversou com o Sr. Clarke, proprietário de uma
companhia britânica de sapatos – Clarke´s of Street, Somerset –
sobre a observância do domingo. Como resultado o Sr. Clarke informou
que no futuro suas lojas seriam fechadas aos domingos. Estava
absolutamente certo de que as vendas seriam seriamente afetadas,
mas, para sua surpresa, elas acabaram aumentando e continuaram a
crescer. Novas lojas foram abertas em muitas cidades do Brasil e
todas elas prosperavam. O Dr. Kalley acreditava e pregava que aqueles
que honram a Deus, o próprio Deus também os honra, e o Sr. Clarke
provou ser isto uma verdade.
CAPÍTULO 15
OPOSIÇÃO E
ENCORAJAMENTO
E m seu retorno para Gernheim, se por um lado os Kalleys
continuavam com seu testemunho consistente e despretensioso, que
trazia resultados, por outro lado continuavam sujeitos a desconfiança
e aborrecimentos. Eles se sentiam sob constante vigilância e logo
tiveram provas reais de que sua correspondência estava sendo
manipulada – suas cartas estavam sendo censuradas. Dificilmente
poderia ter ocorrido de outra forma, uma vez que a hierarquia da
Igreja Católica tinha sido alertada que o “Lobo da Escócia” estava
morando no Brasil, e isto, certamente, constituía uma ameaça para a
religião oficial do Estado.
As classes mais ricas e influentes hesitavam em se associar com
o doutor e sua esposa. Por exemplo, com os Kalleys eles não seguiam
o costume brasileiro de fazer visitas de cortesia. Embora não fossem
completamente condenados ao ostracismo, todos mantinham certa
distância, que era tanto desagradável quanto embaraçoso para os
Kalleys. Nem mesmo os relacionamentos com a comunidade britânica
eram fáceis. Estes eram beberões e mundanos, com pouco ou nenhum
interesse nas coisas espirituais e, certamente, com nenhuma paciência
140 JORNADA NO IMPÉRIO

para um missionário, ainda que ele fosse um médico! Vendo a terrível


situação de seus conterrâneos, o doutor pediu que enviassem da
Inglaterra literatura sobre a abstinência do álcool.

O PRIMEIRO CONVERTIDO
A abordagem usada pelo doutor em seu trabalho missionário con-
tinuou a ser cuidadosa, e ele decidiu que limitaria suas atividades ao
que fosse permitido por lei. Os cultos não-católicos poderiam ser con-
duzidos em alemão ou inglês para as congregações que consistissem
de pessoas destas nacionalidades, mas não havia qualquer lei proibin-
do, dentro dos limites do lar, conversas informais em português a respeito
de assuntos religiosos. Resultados positivos, no entanto, começaram a
aparecer. O Dr. Kalley batizou seu primeiro convertido, um portugu-
ês, José Pereira de Souza Lauro.
Embora o doutor pertencesse à Igreja da Escócia, e em Madeira
tivesse sido um presbítero da Igreja Escocesa, no Brasil ele apenas
batizaria os crentes, e faria isso pelo método da aspersão. As igrejas
brasileiras fundadas por ele seguiriam sua liderança: apenas aqueles
que professassem fé em Cristo eram batizados e recebidos como
membros da igreja. Anos mais tarde, e após muita discussão, membros
de outras igrejas protestantes que haviam sido batizados na infância
foram recebidos como membros mesmo sem ter de passar por outro
batismo, mas em um ponto o Dr. Kalley era inflexível – convertidos
da Igreja Romana deveriam receber novo batismo. E com isto as
igrejas concordaram.
Imediatamente após sua conversão e batismo, José Lauro começou
a testificar sua nova fé, lendo e explicando a Bíblia para grupos de
amigos e vizinhos. Ele alcançou pessoas além de seu próprio círculo
de amigos e vendeu uma Bíblia para duas mulheres aristocratas da
corte do imperador.

A IGREJA FLUMINENSE
Mais tarde, quando a estação quente de 1858 aproximava-se do
OPOSIÇÃO E ENCORAJAMENTO 141

fim, uma epidemia de febre amarela varreu todo o Rio de Janeiro,


dizimando parte da população. O doutor se entregou completamente
ao combate da praga, não apenas cuidando dos doentes, mas também
escrevendo e distribuindo largamente um panfleto defendendo medidas
profiláticas de contaminação. A imprensa local elogiava o doutor por
sua valiosa contribuição na luta contra a terrível doença.
Em Petrópolis, um “velho soldado” foi batizado. O doutor, no
entanto, não tentou organizar o grupo em uma igreja – eles eram um
“grupo caseiro”, mas em 11 de julho daquele ano, teve a alegria de
batizar seu primeiro brasileiro convertido no Rio de Janeiro, Pedro
Nolasco de Andrade. Com este batismo, organizou a primeira igreja
nacional verdadeiramente evangélica no Brasil. Quatorze membros
foram inscritos, consistindo-se de um brasileiro e o resto de britânicos
e portugueses. No entanto, não demorou muito para que mais dois
brasileiros fossem batizados, Phillip Nery e João Manoel Gonçalves
dos Santos, sendo que o último foi destinado a primeiro pastor brasileiro
da recém-fundada igreja.
A igreja foi chamada simplesmente de “Igreja Evangélica”; o nome
da região na qual estava localizada foi adicionado depois – Fluminen-
se. Trata-se da mais antiga igreja protestante no Brasil. Era o desejo
do Dr. Kalley que as igrejas não propagassem as distinções denomi-
nacionais conhecidas nos países que enviavam os missionários. Sua
vontade era que todos seguissem o exemplo da Igreja Evangélica Flu-
minense, ou seja, apenas adicionar o nome da cidade ou bairro no qual
a igreja estivesse situada, ao simples título de Igreja Evangélica. Este
plano seguiu adiante na região do Recife e de São Paulo.
A Igreja Evangélica Fluminense, tão humilde em seus primórdios,
corretamente reivindicava estar na sucessão apostólica. Cada membro
era um missionário. Um vislumbre na vida e trabalhos daqueles que
foram batizados durante o ministério do Dr. Kalley no Brasil revela
isto. O principal interesse deles, na verdade o seu único interesse, era
a propagação do reino de Cristo. Seus nomes estão gravados no rol
de membros da igreja militante, e suas obras estão escritas no céu;
homens de origem humilde, cheios das fraquezas humanas, assaltados
pelos mesmos problemas comuns a todos os homens, mas homens
trazidos da obscuridade pelo Senhor que os “escolheu e os ordenou
142 JORNADA NO IMPÉRIO

para que fossem adiante e rendessem frutos que permaneceriam para


sempre”.

PERSEGUIÇÃO AOS CRENTES


Alguns daqueles homens estavam empregados, juntamente com
Pitt, no estaleiro, no Rio de Janeiro. Durante os cinco anos em que
trabalharam naquele local, foram intrépidas testemunhas de Cristo.
Seus colegas de trabalho os ridicularizavam, jogavam água suja sobre
eles e os submetiam a todo tipo de perseguição. Aconteceu que um
supervisor passava quando Jardim era vítima de algum tipo de
grosseria. Ele interveio e ouviu de Jardim a razão de tal tratamento.
Como resultado, ordenou estritamente que os crentes não fossem
molestados, mas isso foi completamente inútil. Uma séria onda de
perseguição surgiu contra os crentes. Um deles, chamado Carvalho,
ao deixar o trabalho, foi abordado por um mendigo que pediu “esmolas
para comprar velas para a Santa Trindade”. Carvalho respondeu que
ele teria muita boa vontade para dar esmolas aos pobres, mas uma
vez que foi a própria Santa Trindade que criou o sol, Deus não
necessitaria da luz de uma mísera vela! O filho do mendigo, um dos
funcionários daquele estaleiro, acusou Carvalho de ter insultado seu
pai e o espancou vigorosamente. Carvalho, que era um homem forte
e poderia facilmente ter esmagdo seu agressor, apenas o tirou do
caminho e seguiu adiante. Duas noites depois, uma multidão formada
pelos trabalhadores do estaleiro atacou os crentes. No domingo
seguinte foi ordenado a um deles que participasse de uma missa na
Igreja Católica, o que ele se recusou a fazer. No dia seguinte, todos os
protestantes receberam a notícia de que deveriam deixar seus
empregos no estaleiro, pois causavam distúrbios e estavam infectados
com a mania de tentar induzir os outros a aceitarem suas idéias a
respeito da religião.
Em Petrópolis a oposição também se endurecia. O vendedor de
livros, Manoel Fernandes, foi preso e acusado de vender livros sem a
licença. Em vão ele argumentou que não sabia da necessidade de tal
licença. Foi detido e interrogado, especialmente no que diz respeito ao
OPOSIÇÃO E ENCORAJAMENTO 143

seu relacionamento com o Dr. Kalley, mas foi finalmente libertado e


acabou recebendo a licença necessária.
O que levou os problemas a um ponto de crise, no entanto, foi a
conversão de duas mulheres às quais José Lauro vendera uma Bíblia.
D. Gabriella Augusta Carneiro Leão, irmã do Marquês do Paraná e
do Barão de Santa Maria, e sua filha Henriqueta leram a Bíblia
diligentemente e, como conseqüência, foram convertidas.
A hierarquia da Igreja Católica estava enfurecida: que pessoas
das camadas mais baixas da sociedade fossem convertidas era
suficientemente alarmante, mas que os proeminentes e bem
relacionados membros da alta sociedade abandonassem a Igreja
Católica era intolerável. As duas professaram sua fé reformada em
janeiro de 1859 e em fevereiro começaram a participar das reuniões
informais em Gernheim, primeiramente como espectadoras, mas
depois como membros completamente integrados na congregação.
Algumas semanas mais tarde, um panfleto que os atacava
violentamente, foi distribuído aos fiéis durante a missa. O Dr. Kalley
foi intimado a comparecer no escritório do chefe de polícia e, embora
tivesse garantido a liberdade de propagar sua fé, foi proibido de
praticar medicina. O núncio apostólico protestou nos termos mais
fortes possíveis contra esta atitude tolerante em relação à propagação
do evangelho. Como resultado, em junho, o Ministro de Relações
Exteriores do Brasil, Cons. J. N. da Silva Paranhos, intimou o
representante diplomático da Grã-Bretanha no Brasil, William Stuart,
a comparecer ao seu escritório. Ele informou ao Sr. Stuart que o
governador do Estado do Rio de janeiro, Barão de Vila Franca,
formulara fortes argumentos contra o Dr. Kalley: que este pregava
para as pessoas em geral e particularmente aos seus pacientes e
suas famílias; que devido a tais práticas ilegais ele fora expulso de
Madeira e Trindade como perturbador da paz. Em tudo isto, ele
afirmava que a Sra. Sarah Kalley o ajudava e encorajava. O Cons.
Paranhos, disse que a constituição brasileira era tolerante, mas não
tão tolerante a ponto de permitir tais violações como as praticadas
pelo Dr. Kalley.
144 JORNADA NO IMPÉRIO

O DOUTOR E A CONSTITUIÇÃO
O Sr. Stuart informou o doutor da situação. Em resposta às
acusações, o Dr. Kalley informou o Sr. Stuart que não tinha sido o
instrumento para a conversão de qualquer brasileiro em Petrópolis –
as duas mulheres já eram convertidas quando ele as conheceu; e que,
enquanto manteve reuniões informais em sua própria casa, não
realizara nenhum culto formal em português. O doutor anexou à sua
carta uma cópia do veredicto de três importantes juristas brasileiros,
e suas respostas a onze perguntas que lhes havia feito, com vistas a
esclarecer o significado da constituição brasileira. As perguntas, de
natureza retórica com exceção da última, embora expressas em
termos simples e diretos, progrediu inexoravelmente para o clímax, a
interpretação crucial dos Artigos 276 e 277 da Constituição Brasileira.
Estas perguntas, tão lógicas e tão persuasivas, revelam a sagacidade
mental do doutor:

“ 1 Os cidadãos brasileiros têm o direito de seguir a religião que


assim desejarem?

2 Se um cidadão consulta outro cidadão a respeito de sua fé,


ele não tem o direito de receber uma explicação?
3 É um ato criminoso aconselhar tal pessoa?
4 Importa se a pessoa citada está em sua casa ou em qualquer
outro lugar?

5 Caso tal cidadão decida seguir uma religião que não seja aquela
oficial do Estado, ele é um criminoso, um apóstata, um blasfe-
mador, etc.?

6 Uma sociedade que recebe tal pessoa está incorrendo em


alguma penalidade?

7 É um ato legal para estrangeiros fazerem cultos domésticos


em suas próprias casas?
OPOSIÇÃO E ENCORAJAMENTO 145

8 Se um brasileiro está presente em tal ocasião isto é conside-


rado um ato criminoso?

9 Se uma reunião de ‘estrangeiros’ acontece em um prédio que


não possui o formato e características tradicionais de uma igreja,
com as portas completamente abertas para qualquer um que
desejar entrar, isto será então considerado um ato criminoso?

10 Um estrangeiro pode ser forçado a deixar sua casa ou ser


deportado, antes de formalmente acusado de quebrar a lei?

11 Qual é o significado da palavra ‘publicamente’ e ‘reuniões


públicas’ nos Artigos 276 e 277 da Constituição Brasileira?”

As respostas dos três, Dr. Joaquim Aurélio Nabuco, Dr. Urbano


Pessoa de Melo e Dr. Caetano Alberto Soares foram unânimes: pela
constituição, missionários estrangeiros eram livres para pregar a fé
reformada ao povo. A opinião considerada destes três derrubou a
interpretação até então mantida e apoiada pela igreja oficial. Foi uma
grande vitória. Constitucionalmente, o doutor era livre para propagar
sua fé.
O Sr. Stuart informou ao Lord Malmesbury, no Ministério das
Relações Exteriores em Londres, ter sido aceita pelo governo brasileiro,
a explicação do Dr. Kalley, sem mais ações demandadas. Seja dito,
no entanto, que o doutor incluíra em sua carta uma ameaça disfarçada
de que, caso ele fosse expulso do país, faria se tornar largamente
conhecido nos países dos quais o Brasil pretendia atrair um número
cada vez maior de imigrantes que na questão de liberdade religiosa
este país era intolerante, em contraste com os Estados Unidos!
Quanto à prática da medicina, Dr. Kalley, seguindo a sugestão
das autoridades, solicitou à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro
o reconhecimento de seu diploma. Pediram-lhe que fizesse um
exame e escrevesse uma tese. Ele os fez e em agosto de 1859 foi
registrado como um médico no Brasil.
146 JORNADA NO IMPÉRIO

OS ATOS DO IMPERADOR
Apesar da atitude oficial, a situação não melhorou. Dois pacientes
do doutor morreram, e as autoridades locais se recusaram a aceitar o
atestado de óbito assinado pelo doutor. Mais problemas para os crentes
foram aparecendo, e duas aristocratas do local foram tão ameaçadas
que decidiram deixar Petrópolis. Os Kalleys começaram a sentir que
também teriam de ir embora. Eles estavam confiantes, no entanto,
que, mesmo se tivessem de deixar o país, o futuro do evangelho estava
garantido; a semente plantada continuaria a render frutos. As coisas
estavam ruins quando o inesperado aconteceu. O próprio imperador
interveio!
Ele fez uma visita aos Kalleys em Gernheim, em 28 de fevereiro
de 1860. Infelizmente o doutor estava doente, confinado em sua cama,
e incapaz de vê-lo. A Sra. Kalley, no entanto, o recebeu e assegurou-
lhe de que seu marido ficaria feliz em recebê-lo assim que se
recuperasse. Rumores se espalharam de que o imperador exigira que
os Kalleys deixassem o país! Alguns dias depois Dom Pedro
novamente visitou os Kalleys. Ostensivamente, ele disse que desejava
conversar com o doutor sobre a Terra Santa, mas na verdade estava
assegurando ao casal que defenderia a completa liberdade religiosa
dentro do império. Ele convidou o doutor ao palácio para dar à família
real e aos outros nobres uma palestra esclarecedora sobre a Palestina.
Os resultados destes gestos de amizade do imperador foram vistos
imediatamente. Membros da aristocracia e políticos passaram a visitar
os Kalleys em Gernheim, entre eles o proeminente senador Jobim.
Eles eram tantos que, em uma carta para seu pai, Sarah Kalley nem
sequer mencionou a todos pelos nomes. Muitos se tornaram firmes
amigos dos Kalleys e continuaram a sê-lo, mesmo quando eles
finalmente se mudaram para o Rio. É interessante notar que estes
contatos iniciais entre Dom Pedro II e os Kalleys ocorreram ao mesmo
tempo que chegou em Petrópolis, com sua comitiva, o núncio apostólico
– o mesmo homem que exercera toda a sua autoridade para silenciar
e expulsar o doutor.
O novo embaixador americano, General Watson Webb, era
OPOSIÇÃO E ENCORAJAMENTO 147

freqüentemente convidado à hospitaleira mesa dos Kalleys. O Sr.


Baillie, da Missão Diplomática Britânica, sobrinho do Duque de
Manchester e cristão comprometido, se mostrou um leal ajudante aos
Kalleys, durante os distúrbios que eles ainda experimentariam no Rio
de Janeiro. Também entre os visitantes naquela época estavam o
Príncipe Albert, Duque de Edimburgo, filho da Rainha Vitória.
Os novos amigos do Dr. Kalley tiveram mais tarde um importante
papel na luta pela liberdade religiosa. O Senador José Martins de Cruz
Jobim propôs no Parlamento que a completa liberdade religiosa fosse
garantida e que os oponentes fossem acusados de crime. No caloroso
debate que se seguiu, ele definiu sua crença: “Eu não acredito em
nada além do que Cristo ensinou; e, quanto a todas as outras coisas,
tenho grandes dúvidas, e não as considero de qualquer importância”.
O Dr. Kalley teve muitas conversas com Jobim, e os resultados foram
bastante aparentes quando ele professou suas crenças.
Logo no início de 1860, Gernheim foi vendida, e os Kalleys se
mudaram para outra casa alugada, chamada Eyrie. Por volta desta
época, a irmã de William Pitt, Marianne, chegou ao Brasil e se tornou
uma companhia para a Sra. Kalley.
CAPÍTULO 16
EXPANSÃO ALÉM
DO RIO
E nquanto isso, no Rio de Janeiro, a jovem Igreja Fluminense
estendia seu campo de atividades evangelísticas por meio do
testemunho de seus membros.

SALVADOR
Um dos mais corajosos destes apóstolos do século dezenove era
Thomas Goulart, espanhol de nascença e membro da Igreja Flumi-
nense. Dr. Kalley, agora associado ao trabalho de venda de livros
com o recém-chegado agente da Sociedade Bíblica Britânica e Es-
trangeira, enviou Goulart para Salvador, capital do Estado da Bahia.
Salvador era a “Atenas” do Brasil colonial, centro tanto da cultura
quanto da religião, cidade na qual se dizia haver tantas igrejas quanto
os dias do ano. Muitas delas são preciosidades da arquitetura barroca,
ricamente adornadas, em alguns casos até mesmo com ouro! A cida-
de foi a primeira capital do Brasil, o centro do mercado escravista e,
como tal, um lugar de tradições profundamente arraigadas e de gran-
150 JORNADA NO IMPÉRIO

de fanatismo ao catolicismo romano. Foi em Salvador que Henry


Martyn chegou durante sua rota para a Índia, quando seu navio foi
desviado para fora de curso e precisou ser carregado com mais supri-
mentos, antes de prosseguir viagem. Aquele jovem missionário visitou
o Convento de São Francisco, o tesouro da arquitetura colonial brasi-
leira, e ali, usando o latim como meio de comunicação, entrou numa
discussão com os frades sobre as verdades do evangelho!
Nesta orgulhosa, opulenta e fanática cidade, chegou o humilde
vendedor ambulante de livros Thomas Goulart, alguns anos depois de
Henry Martyn. Ele estava sozinho. Que impacto poderia ter na vida
de tal lugar? Contudo, dentro de poucos dias a cidade estava
tumultuada. Era abril de 1862. Os jornais denunciavam a presença do
“falso professor”. O arcebispo publicou uma pastoral para ser lida em
todas as igrejas e nela descrevia Goulart como “um homem que nas
ruas vende Bíblias falsas e livretos de religião, os quais pela boa
qualidade de impressão, pequeno tamanho e baixo preço são vendidos
com grande facilidade”. Alguém tomou as dores do recém-chegado
e, assinando um artigo na imprensa como o “Amigo da Verdade”,
refutou as alegações do bispo, provando que as Bíblias não eram falsas
nem os livretos eram contra a religião. A Igreja Católica respondeu
prontamente, ameaçando com a maldição eterna qualquer um que
fosse encontrado de posse de uma “falsa” Bíblia. Goulart seguiu
indiferente ao tumulto que ele mesmo havia causado. Até confrontou
os padres que o haviam denunciado na relativa segurança de seus
próprios vicariatos. Miraculosamente, ele permaneceu ileso; ninguém
ousou tocar-lhe com mãos violentas. Ele escreveu: “Dou graças ao
nosso Rei que, fora de qualquer perigo, me habilitou a falar livremente
até agora, em seu nome, para brancos e negros, para ricos e pobres,
para nobres e também aos artesãos, a juízes, barões, conselheiros e
senadores”. Seus esforços pioneiros ainda renderiam muitos frutos
nos anos seguintes.
Enquanto Goulart estava em Salvador, dois dos cidadãos mais
importantes noticiaram na imprensa seus planos de comparar o Novo
Testamento, publicado em Londres, com a genuína Bíblia Católica
Romana, publicada em Lisboa. Eles prometeram tornar públicas todas
as suas descobertas. No devido tempo, o seguinte texto foi publicado
EXPANSÃO ALÉM DO RIO 151

na imprensa: “Agora estamos autorizados a declarar que não existe


em português uma edição de qualquer livro tão acurada e perfeita
quanto a edição de 1860 do Novo Testamento, traduzido por Antônio
Pereira de Figueiredo. Assinado: Um católico-protestante”.
Goulart foi ajudado em seu trabalho pelo representante local da
Sociedade Missionária Estrangeira Episcopal Protestante, o Reverendo
Richard Holden, um escocês. Ele provou ser de grande valia e lhe deu
muito encorajamento.
Onde quer que os mensageiros da cruz fossem perseguidos no
Brasil, sempre haveria alguns homens, mais observadores e menos
preconceituosos, que se levantariam para defendê-los.

A CONVERSÃO DE BERNARDINO
A conversão de Bernardino G. da Silva ilustra as táticas seguidas
pelos membros da Igreja Fluminense que tinham a mente voltada para
o trabalho missionário. Bernardino morava de frente ao mar, em San-
ta Luzia, distrito do Rio de Janeiro. Era um homem próspero, dono de
dois negócios, um açougue e um armazém. Um de seus clientes tinha
um vizinho que trabalhava com Jardim, no estaleiro, e àquele homem
Jardim pregou o evangelho. Toda noite, o homem contava ao seu vizi-
nho tudo o que Jardim lhe dissera durante o dia, e o amigo por sua vez
contava tudo a Bernardino. Este tinha uma Bíblia e diariamente exa-
minava suas páginas para descobrir se o evangelho era como Jardim
declarava. Logo chegaram ao estaleiro notícias de que em Santa Lu-
zia havia uma alma interessada no evangelho, então, Jardim foi conhecer
a loja, no domingo seguinte, enquanto Bernardino vendia camisas a
um cliente. Jardim perguntou se ele tinha uma Bíblia e se costumava
lê-la. Relutantemente, até mesmo temeroso, Bernardino confessou
ter uma Bíblia e que, sim, ele a lia. Estava esperando ser acusado de
algum crime e até mesmo preso! Mas, ao invés disso, Jardim pergun-
tou se ele acreditava na Bíblia e, se acreditava, porque não guardava
o dia do Senhor, ao abrir sua loja no domingo. Bernardino deu as
desculpas de sempre: seus concorrentes abriam as lojas no domingo;
era o dia de maior movimento; se ele deixasse de abrir aos domingos,
152 JORNADA NO IMPÉRIO

seus clientes o abandonariam, e ele perderia seu ganha-pão; e adicio-


nou que tinha uma família para sustentar. Com um gesto de impaciência,
característico do expressivo testemunho daqueles dias, Jardim deixou
de lado todas as desculpas do homem e abriu a Bíblia em Hebreus
13.5,6: “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas
que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nun-
ca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor
é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?” A
conversa durou três horas, mas ao final Bernardino foi ganho para
Cristo. No sábado seguinte, foram colocados nas portas de ambas as
empresas, avisos notificando que Deus ordenara que os homens tra-
balhassem seis dias e guardassem para Ele o sétimo; portanto, as
lojas não seriam abertas no dia seguinte. As perdas durante o primeiro
mês foram tão grandes que Bernardino quase faliu, mas seus novos
amigos na Igreja Fluminense o ajudaram e gradualmente a prosperi-
dade material retornou. Ele aprendeu uma primeira e valiosa lição,
como o inglês Clarke aprendera, que o Senhor não é devedor do ho-
mem, mas honra aqueles que O honram.
Bernardino começou a realizar reuniões em sua própria casa durante
a semana. No início, as reuniões eram bem freqüentadas, mas, no
decorrer de poucas semanas, o número de pessoas foi caindo e o
interesse desvanecendo. Ele também aprendeu uma segunda lição:
que nenhum homem pode vir ao Pai a menos que Ele o chame.

CRENTES SÃO PRESOS


A perseguição era inevitável. Certa noite, na cozinha de Bernardino,
nove homens estavam sentados à mesa estudando a Bíblia. Nas
sombras, sentados junto às paredes estavam mulheres e crianças
ouvindo a exposição da Palavra de Deus. Foi quando alguém bateu à
porta! Um inspetor da polícia entrou, seguido por um destacamento
policial, e ordenou a prisão imediata de todos os homens presentes.
Ele levaria as mulheres e crianças também, caso Bernardino não tivesse
dito que os homens eram os culpados e que as mulheres e crianças
deveriam ter permissão para retornarem a suas casas. No dia seguinte,
EXPANSÃO ALÉM DO RIO 153

enquanto os homens estavam em custódia, as mulheres foram visitadas


pela polícia que tentou intimidá-las, a fim de que renunciassem sua fé.
Embora estas mulheres fossem ignorantes e iletradas, cada uma delas
respondeu às perguntas propostas com tal segurança, que as
autoridades foram finalmente forçadas a desistir e deixá-las em paz.
Quando os homens foram levados à prisão, criaram um tumulto
na vizinhança. Cada crente era escoltado por dois policiais, e todo o
povo se juntava para vê-los descendo a rua. No devido tempo cada
um deles foi chamado a juízo ante os magistrados e cuidadosamente
examinado com relação a suas crenças e modo de vida.
O depoimento de Jardim foi semelhante ao depoimento que todos
os outros já haviam dado. Ele explicou como se reuniam para adoração
e estudo da Palavra de Deus, aprendendo assim do amor de Deus
para com os homens pecadores e de sua salvação através de Cristo.
Jardim citou as Escrituras com tanta facilidade que o inquisidor chefe
confiscou a Bíblia, primeiramente ordenando que as passagens citadas
fossem claramente marcadas. Próximo do fim da entrevista, o
inquisidor sentiu que não podia mais confiar no que ele próprio estava
ouvindo, visto que os depoimentos se referiam às coisas do mundo por
vir. Ele encerrou o processo declarando: “Basta, basta! Até parece
que estou em outro mundo!”
Os prisioneiros foram enviados para a Corte de Polícia Central e
lá compareceram perante o juiz. Este alto dignitário, pensando ter
ante si um grupo de homens ignorantes das classes mais pobres, os
advertiu veementemente sobre os perigos de ler uma falsa Bíblia
publicada pelos britânicos, os quais torceram o significado para adaptá-
lo ao seu próprio modo de pensar. Ele disse ainda que a verdadeira
Bíblia foi publicada pela Igreja Católica Romana – a versão de
Figueiredo traduzida diretamente da Vulgata. Sua perplexidade foi além
de qualquer limite quando Jardim, com muita erudição, provou que
não havia uma diferença significativa entre a versão protestante e a
católica – ambas eram traduzidas por Figueiredo! Outro alto oficial,
presente no depoimento, escarneceu deles dizendo que se ele, um
doutor, tinha dificuldade para entender o significado da Bíblia, quanto
mais um “bando de camponeses ignorantes” como eles. Quando ele
disse isso, Jardim abriu sua Bíblia e pediu ao juiz que lesse em Lucas
154 JORNADA NO IMPÉRIO

10.21: “Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou:


Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas
coisas aos sábios e instruídos e as revelastes aos pequeninos. Sim, ó
Pai, porque assim foi do teu agrado”. A corte ficou perdida com relação
ao que fazer, e, preferindo não continuar na discussão por mais tempo,
o caso foi encerrado e os prisioneiros libertados.
Quatro deles, no entanto, não foram libertados, uma vez que o
inspetor de polícia responsável pelas prisões não estava satisfeito com
a decisão da corte. Ele demandou que Jardim e os outros assinassem
um documento afirmando que não mais realizariam reuniões em suas
casas, mas eles preferiram permanecer na prisão, ao invés de assinar
tal documento. Pitt os visitou na prisão e retornou à igreja dizendo que
eles estavam regozijando em seu sofrimento pela causa de Cristo.
Eles estavam no meio de uma reunião de oração, quando chegou a
ordem de autoridades mais altas para que fossem imediata e
incondicionalmente libertados. Nenhum dos homens levantou seus
joelhos até que a oração terminasse. A polícia confessou nunca ter
lidado com prisioneiros tão estranhos!
O resultado final da perseguição foi bom – fortaleceu a fé daqueles
crentes; a polícia e também os criminosos na cadeia ouviram o
evangelho; as autoridades aprenderam que estavam lidando com
homens de convicções muito fortes e bem fundamentadas em sua fé;
a publicidade do evento pela imprensa fez surgir maior interesse pelo
evangelho. No entanto, em mais de uma ocasião, multidões violentas
tentaram pôr um fim nos encontros.

A VIOLÊNCIA DAS MULTIDÕES


Em agosto de 1861, por exemplo, uma multidão enfurecida, insti-
gada por fanáticos, juntou-se do lado de fora da casa onde as reuniões
aconteciam. Nesta altura, Francisco da Gama tinha se mudado para
um local mais cômodo, a fim de receber melhor a congregação que
não parava de crescer. Nesta ocasião, o próprio doutor estava pre-
sente, assim como cidadãos da Grã-Bretanha, Portugal, França, Suíça,
Espanha e EUA, formando uma congregação realmente internacio-
EXPANSÃO ALÉM DO RIO 155

nal. A polícia apareceu, mas não fez nenhuma tentativa para deter a
violência. Pedras choveram no telhado e foram atiradas nas janelas.
A certa altura, a multidão tentou invadir a casa. Felizmente esta tinha
sido construída numa rocha bem acima da estrada e chegava-se nela
através de uma escada feita na própria pedra, de forma que uma
garrafa bem mirada, atirada de cima, acertou a parede derrubando
cacos de vidro sobre as pessoas que tentavam atacar. Isto indubita-
velmente salvou os crentes de serem severamente maltratados. Um
inspetor de polícia apareceu, silenciou a multidão e pediu, de modo
cortês, para falar com o Dr. Kalley pessoalmente. O pedido foi aten-
dido e como resultado dois policiais foram deixados de guarda na porta
e a multidão foi dispersa. Havia, no entanto, mais problemas, pois as
casas dos crentes tinham sido bastante danificadas pela multidão.
Mais tarde, cenas parecidas foram testemunhadas do outro lado
da Baía de Guanabara, em Niterói, onde a pregação do evangelho
estava atraindo grandes multidões. Lá, em 1864, a multidão se tornou
tão violenta que somente a intervenção direta da polícia, com as espadas
desembainhadas, impediu que o Dr. e a Sra. Kalley fossem linchados.
Neste caso, um dos desordeiros foi preso, mas depois libertado sem
receber qualquer punição. O Dr. Kalley fez uma reclamação formal
com os embaixadores britânico e americano e com o chefe de polícia.
Ele também conversou pessoalmente com o governador do Estado, o
que resultou na implementação de uma política de repreensão severa
de tais distúrbios. A ordem foi restaurada e os encontros passaram a
ocorrer sem mais nenhuma outra perturbação.
Estes incidentes serviram como exemplos para a violência das
multidões contra os protestantes evangélicos nos anos seguintes. Os
fanáticos, geralmente os próprios padres, incitavam a população à
violência, até que o Estado foi pressionado o suficiente para intervir.
Prisões simbólicas foram feitas, entretanto, os desordeiros presos sai-
ram impunes. A Igreja Católica Romana era a igreja oficial, mas era a
política do Estado mantê-la subordinada. Em círculos oficiais, a Igreja
Católica não era popular, mas tratava-se de uma organização muito
poderosa para ser contrariada, a não ser por razões constitucionais.
Os crentes jamais pressionariam, sob quaisquer circunstâncias, pela
condenação de seus perseguidores: os crentes oravam por eles e pro-
156 JORNADA NO IMPÉRIO

curavam ganhá-los para Cristo, muitas vezes com sucesso! As auto-


ridades locais, também, até mesmo quando eram grandes simpatizantes
da causa do evangelho, evitavam tomar medidas mais severas contra
os ofensores, a fim de evitar que os católicos os transformassem em
mártires. Era uma política bem conhecida dos padres turbulentos pro-
vocar a própria prisão, com a finalidade de levar seus seguidores a um
furor ainda maior – “o fiel pastor do rebanho”, atrás das grades por
causa dos detestáveis protestantes!
CAPÍTULO 17
TRABALHOS COROADOS
COM SUCESSO
D r. Kalley provou ser um verdadeiro missionário estadista. Ele
convidara homens leigos experientes a deixarem seu recém-descoberto
refúgio de liberdade e conforto, nos Estados Unidos, e irem ao Brasil
para servir como o núcleo ao redor do qual a igreja brasileira seria
construída. Embora leigos, Dr. Kalley os dotou de autoridade na nova
igreja; eles e seus convertidos reuniam-se sob a presidência do pastor
– nos primeiros dias, o próprio doutor – para decidir e legislar a respeito
dos assuntos da igreja.

A IGREJA FLUMINENSE E SEUS LÍDERES


A forma congregacional de administração de uma igreja foi esta-
belecida, sendo as reuniões formais dos membros da igreja assembléias
para a tomada de decisões. Esta era independente, não sujeita a qual-
quer organização superior, e seus membros co-responsáveis pelo
bem-estar dela. Presbíteros e diáconos foram apontados para servir,
não como um corpo legislativo, mas sim como conselheiros. Nas reu-
158 JORNADA NO IMPÉRIO

niões da igreja eles eram meros membros votantes, como todos os


outros.
Dr. Kalley era presbiteriano de berço e criação, mas no Brasil sua
visão da política na igreja mudou; ele se tornara um congregacionalis-
ta praticante. Muitas razões podem ser apresentadas para esta
mudança em sua visão. O doutor era um independente declarado.
Negava veementemente que fosse presbiteriano e se considerava um
cristão, membro da igreja de Cristo. Esteve em estreita aproximação
com a Igreja Congregacionalista, na Grã-Bretanha; foi um ministro
congregacional que se responsabilizou por seu pedido de inclusão na
Sociedade Missionária de Londres, sendo congregacionalistas a mai-
or parte dos membros desta sociedade; casou-se com uma mulher da
família Wilson-Morley, tradicionalmente fiéis dissidentes congregaci-
onais. Havia, no entanto, um fator muito importante de natureza prática:
a maturidade espiritual e a integridade de caráter dos crentes da re-
cém-fundada Igreja Fluminense; assuntos eclesiásticos poderiam ser
deixados seguramente com eles. William Pitt, Francisco da Gama e
Francisco de Souza Jardim estavam entre os membros fundadores, e
outros de igual calibre vieram depois, como por exemplo, Bernardino
Guilherme da Silva. Um outro desempenharia papel de liderança na
congregação, José Luiz Fernandes Braga. Sua personalidade dinâmi-
ca e consagrada faria sua influência perceptível em todas as atividades
da igreja por aproximadamente cinqüenta anos.
Em outubro de 1868, um pequeno grupo de crentes remou até um
navio da Europa, que se achava ancorado na Baía de Guanabara.
Havia noventa passageiros a bordo, sendo oitenta e dois deles
portugueses. Os crentes foram apresentar as verdades do evangelho
aos recém-chegados no Brasil. Foi realizado um culto e entre os
imigrantes que ouviram a mensagem estava um jovem chamado José
Luiz Fernandes Braga. Ele interessou-se ligeiramente no que ouviu,
mas nunca imaginou que, assim como Paulo, estivesse destinado a
levar a mensagem do evangelho e o nome do Senhor “diante de reis e
governantes”. Ele tinha vindo ao Brasil com grandes esperanças de
fazer fortuna. O Brasil certamente lhe oferecia oportunidade de
consegui-lo, e ele possuía as características essenciais dos bem-
sucedidos homens de negócio: inteligência, iniciativa, firmeza de
TRABALHOS COROADOS COM SUCESSO 159

propósito e vontade invencível. Esperava encontrar riqueza nas


miseráveis e estreitas ruas do Rio de Janeiro, mas ao invés disso,
encontrou Cristo. Fez amizade com seu sócio, João Manoel Gonçalves
dos Santos, que mais tarde serviu como o primeiro pastor nacional na
Igreja Fluminense. Ambos eram jovens de dezesseis anos. Santos
ouvira o evangelho e acabava de se converter. Com todo o ardor de
um novo convertido, procurou ganhar Braga para Cristo e o persuadiu
a participar das reuniões que aconteciam aos domingos na casa do
madeirense, Francisco da Gama.
Logo, Braga se regozijava na abundante plenitude de vida em
Cristo e ansiava por dedicar todas as suas energias à propagação de
sua fé recém-descoberta. Havia, no entanto, um sério obstáculo: ele
trabalhava na fábrica de chapéus de seu irmão, e isso incluía trabalhar
aos domingos também. Uma vez obrigado a trabalhar aos domingos,
era impedido de ser batizado e de se tornar membro da igreja. Aquele
que era forçado a trabalhar aos domingos não podia ser membro da
Igreja Fluminense. Os crentes daquela época consideravam a
observância do Dia do Senhor um testemunho do evangelho, e
realmente era, pois no Brasil tudo continuava aos domingos da mesma
forma que acontecia durante a semana na indútria, comércio e
mercado. O domingo era o dia mais movimentado da semana, e todos
os empregados eram obrigados a trabalhar neste dia, para cooperar
com os negócios extras. Para um brasileiro a recusa de trabalhar no
domingo como uma questão de princípios era uma novidade, assim
como o testemunho. Em tais circunstâncias não era fácil para um
crente conseguir emprego, e, quando conseguia, era geralmente numa
posição de natureza inferior, com poucas perspectivas de crescimento.
O jovem Braga estava entre a cruz e a espada: se continuasse
trabalhando aos domingos, estaria em desacordo com a vontade reve-
lada de Deus e, caso se recusasse a trabalhar, seu irmão o demitiria e
seus sonhos de prosperidade material terminariam. Seu irmão era in-
flexível: não faria concessões por causa dos princípios do irmão mais
novo. Entretanto, Braga não hesitou e sacrificou o material pelo espi-
ritual, estabelecendo assim um princípio duradouro para seu futuro.
Seguiria os ditames da consciência, ainda que tal atitude tivesse um
alto custo. O passo inicial foi realmente caro. Braga ficou desempre-
160 JORNADA NO IMPÉRIO

gado. Acabou encontrando outro emprego, porém sem perspectivas


de bons ganhos materiais. Contudo, pouco depois seu irmão morreu e
Braga herdou seus negócios. Assumiu o controle da empresa e a re-
modelou de acordo com os princípios cristãos – sem trabalho aos
domingos, com benefícios para os empregados, extrema honestidade
em cada transação – e a firma prosperou. Em 1871, casou-se com
Christina Faulhaber, que, quando menina, participara da Escola Domi-
nical ministrada pela Sra. Kalley, em Petrópolis. Ela foi sua verdadeira
auxiliadora, colaborando com seu esposo em seu intenso desejo de
expandir o Reino de Cristo.
Estes foram os homens que ajudaram a implantar a Igreja
Fluminense com um saudável espírito de nacionalismo e independência.
A primeira igreja evangélica no Brasil tinha características nativas
desde seu início. Fundada por um missionário independente, foi nutrida
num espírito de autoconfiança, sob Deus, por estes homens fortes.
Foi escrito a respeito do Dr. Kalley: “Ele foi um grande homem, de
profunda e penetrante compreensão e de caráter impecável; um
verdadeiro puritano e, como tal, atraía os homens e os moldava num
valioso grupo de colaboradores, igualmente zelosos por Cristo e sua
causa. As pessoas podiam escarnecer deles por causa da sua fé, mas
em seus negócios todos eram forçados a confessar sua honestidade e
integridade”.
Na jovem Igreja Fluminense, havia dificuldades de natureza muito
prática. Por exemplo, um inglês, que vivia com uma brasileira e tinha
filhos com ela, foi convertido e desejava casar. No entanto, o único
casamento considerado pela lei era o realizado por padres; nenhuma
providência fora tomada para o casamento de não-católicos. O doutor
consultou a igreja e, finalmente, juntos, eles planejaram uma forma de
“casamento por contrato”. A cerimônia era realizada, e os documentos,
assinados provisoriamente, a fim de serem legalizados tão logo
vigorassem leis que acabassem com a dominação da Igreja Católica
com relação a este assunto. O enterro dos mortos também constituía
uma dificuldade, pois os cemitérios eram fechados aos que não fossem
católicos.
TRABALHOS COROADOS COM SUCESSO 161

A COMPOSIÇÃO DE HINOS
Uma das maiores contribuições dos Kalleys à Igreja Fluminense,
na realidade, à igreja como um todo no Brasil, foi o livro de hinos
chamado Salmos e Hinos, o qual ainda hoje é um dos melhores e
mais populares hinários no país. Tanto o doutor quanto sua esposa
traduziram os hinos do inglês ou do alemão, e também eles próprios
escreveram hinos. O Dr. Kalley escreveu seu primeiro hino em
Madeira, no verão de 1842, e aquele foi seguido por outros,
notavelmente um, composto na prisão, em 1843: “Aqui nós sofremos
aflições e dores”. É provável que ele tenha finalizado a composição
deste hino enquanto, no convés do S.S. William, observava as densas
nuvens de fumaça, em Santa Luzia, subindo dos restos de sua
propriedade e da outra fogueira de Bíblias incendiadas na praça central
da cidade!
Como o doutor era escocês, suas traduções foram tomadas do
Saltério Escocês, mas, em seu casamento com Sarah, uma inglesa e
congregacionalista, as traduções e composições de novos hinos se
tornaram mais freqüentes. “Dentre os dois, a Sra. Kalley possuía o
maior talento poético”, afirmou o Reverendo Edward Moreira em sua
curta biografia dos Kalleys. “Em suas composições, o Dr. Kalley
sempre preocupava-se com a doutrina. Sua esposa, por outro lado,
adornava e ilustrava a doutrina com sua capacidade poética. O casal
compôs os primeiros hinos em português a provarem o teste do tempo.
Seus precursores, missionários aos portugueses no Extremo Oriente,
compuseram hinos que são puramente de valor histórico. Os hinos
escritos pelo casal ainda são cantados com entusiasmo e unção.”
O primeiro livro de hinos, publicado em 1861, apenas três anos
após a fundação da Igreja Fluminense, continha cinqüenta composições,
sendo dezoito salmos e trinta e dois hinos comuns. Este livro foi usado
pela primeira vez em 17 de novembro sob o título de Salmos e Hinos,
com as seguintes palavras adicionais: “Para o uso daqueles que amam
nosso Senhor Jesus Cristo”. A igreja estava agora preparada para a
adoração – tinha as Escrituras e um hinário. Três anos depois outros
seis hinos foram incluídos na coleção.
162 JORNADA NO IMPÉRIO

A Sra. Kalley compunha novos hinos constantemente, alguns para


ocasiões especiais, tais como: inauguração de novos locais para as
reuniões da igreja, aniversários da igreja, reorganização da Escola
Dominical, etc. Por volta de 1865, o livro atingiu o total de oitenta e
três cânticos: vinte e cinco salmos e cinqüenta e oito hinos. Eventual-
mente, estas primeiras edições foram completadas com a publicação
de um livro de músicas, em 1868, com setenta e seis melodias diferen-
tes. Mais tarde, edições sucessivas de livros com letra e música seriam
publicadas.
A Sra. Kalley ensinou todos os hinos à congregação e, além disso,
manteve aulas de música nas noites de domingo. Em seu prefácio, na
edição de música, ela lembrou aos cantores que eles “não deveriam
gritar, nem arrastar os hinos, mas prestar atenção especial às palavras
que estivessem sendo cantadas, muito mais do que na música, e cantá-
las para o louvor do maravilhoso Salvador a quem devemos consagrar
o melhor de nossas faculdades e habilidades em vidas tão abençoadas
por Ele”.

MISSIONÁRIOS PRESBITERIANOS NO RIO


Quatro anos após a fundação da igreja, no Rio de Janeiro, pelo Dr.
Kalley, o primeiro missionário do Comitê Presbiteriano de Missões
Estrangeiras, o Reverendo Ashbel Green Simonton, no dia 12 de agosto
de 1859, chegou. Foi o precursor das missões americanas no Brasil.
Um ano depois, receberia a companhia de seu cunhado, o Reverendo
A. L. Blackford.
Imediatamente após sua chegada, o Reverendo Simonton visitou
o Dr. Kalley e se maravilhou com tudo o que o doutor havia alcançado
sozinho, sem a ajuda de qualquer sociedade missionária. Porém, sur-
giram dificuldades entre eles. O doutor cometeu um grave erro –
escreveu uma carta aberta, sem assinatura, e mandou que ela fosse
entregue ao Reverendo Simonton de maneira indireta, por nada me-
nos que quatro mensageiros. De forma indireta, ele dirigiu uma crítica
injusta aos presbiterianos por começarem o trabalho na área do Rio
de Janeiro onde a Igreja Fluminense já estava bem estabelecida, quando
TRABALHOS COROADOS COM SUCESSO 163

todo o resto do vasto Brasil ainda aguardava pelo evangelho. Decla-


rou ter “aberto uma pequena clareira”, numa imensa floresta, e estava
cultivando ali. Era correto alguém invadir aquela “clareira” e se fixar,
pensando em cultivá-la também? O Reverendo Simonton ofendeu-se
grandemente, mais pela maneira como a carta fora escrita e tornada
pública do que pelo seu conteúdo. Ele reconhecia que o doutor tinha o
direito de expressar suas opiniões, então agiu imediatamente e da for-
ma correta. Pediu que o doutor se encontrasse com ele e apresentou-lhe
uma explicação argumentada e cortês de sua posição e o motivo pelo
qual considerava a crítica infundada e ofensiva. Então, exigiu um pe-
dido de desculpas. O doutor pediu um tempo para pensar sobre o
assunto e após duas horas eles se encontraram mais uma vez. O
doutor apresentou um pedido completo de desculpas, o qual foi graci-
osamente aceito. Os dois homens se ajoelharam e oraram, apertaram
as mãos e deram o assunto por encerrado. O Reverendo Simonton
falou livremente de seus planos para o futuro e recebeu a aprovação
de seu colega mais velho.
Ainda assim, o doutor reparou os danos. Escreveu para cada um
dos mensageiros e pediu-lhes que esquecessem ter sido escrita aquela
carta. Os dois homens permaneceram amigos firmes até a morte
precoce do Reverendo Simonton. Certa vez, este esforçou-se demais
e precisou descansar. Ele foi a Petrópolis e, após ter permanecido
certo tempo em um hotel, aceitou o insistente convite dos Kalleys
para ser seu hóspede. Ele escreveu: “Toda tarde eu participava do
culto doméstico na casa do Dr. Kalley. Era um grande privilégio tomar
parte de um momento de adoração tão simples e evangélico como o
que o doutor fazia. Ele parece estar acima de todos os outros homens
de fé. O que me impressionou foi sua evidente consciência da presença
do maravilhoso e santo Deus e sua comunhão com Ele. O doutor
expõe a simples verdade e é também evidente que seus pensamentos
estendem-se larga e profundamente”.
O Reverendo Simonton deu total crédito ao Dr. Kalley pela hábil
maneira com a qual ele vinha preparando as bases para missões: o
direito dos protestantes de propagarem sua fé fora estabelecido cons-
titucionalmente; a posição dos missionários estrangeiros estava
legalmente assegurada; a comunidade protestante brasileira tinha agora
164 JORNADA NO IMPÉRIO

uma condição legal; um hinário já tinha sido preparado; e, final e pro-


vavelmente, a maior contribuição de todas: um experiente e treinado
grupo de vendedores ambulantes de livros religiosos estava traba-
lhando para um ministério em constante expansão. Anos depois, outro
missionário presbiteriano, Dr. Lane, escreveu: “O trabalho do vende-
dor ambulante de livros religiosos é o braço direito do missionário.
Tudo o que ele faz pela distribuição da Palavra não pode ser subesti-
mado. O sustento deles é uma condição indispensável para a
continuidade do trabalho”. A estes cinco pontos principais outro seria
adicionado mais tarde, a interpretação de artigos relevantes da Cons-
tituição.
Em 1863, o Reverendo Blackford se mudou do Rio de Janeiro
para São Paulo e iniciou o trabalho naquela cidade. Suas primeiras
reuniões aconteceram na casa de William Pitt, o primeiro ajudante do
Dr. Kalley e membro da Igreja Fluminense. Casualmente ele apre-
sentou uma grande novidade aos paulistas, a parafina!
O Sr. Pitt já era um experiente ganhador de almas. Possivelmente
seu mais importante convertido foi William Esher, um irlandês e
progenitor de uma famosa família presbiteriana no Brasil. O Sr. Pitt
foi finalmente ordenado um ministro presbiteriano, mas seu ministério
durou pouco. Morreu logo após sua ordenação. O Reverendo Simonton
também morreu. Seu ministério foi curto, porém muito eficaz. Ele e o
Reverendo Blackford tinham estabelecido a causa presbiteriana no
Brasil.

CORRESPONDÊNCIA E REALIZAÇÕES LITERÁRIAS

O Dr. Kalley era um escritor prolífico; sua atarefada caneta


raramente descansava. Ele escrevia todos os seus sermões e, ao fazê-
lo, revelava sua metódica mente, seu profundo entendimento das
verdades bíblicas e sua facilidade em comunicação. Ele podia transmitir
as mais profundas verdades espirituais numa linguagem simples,
facilmente compreendida por seus ouvintes, até mesmo entre os que
nem sequer sabiam ler ou escrever. Alguns de seus sermões são
TRABALHOS COROADOS COM SUCESSO 165

merecedores de publicação e são tão relevantes hoje quanto o eram


na época em que foram pregados.
Ele manteve um fluxo contínuo de correspondências com algumas
pessoas na Inglaterra, Estados Unidos, Índias Ocidentais, Portugal e
Madeira, e as cartas que escreveu não eram tagarelices minunciosas
sobre a família, mas pesavam com respostas bíblicas para os problemas
da igreja. Seu conhecimento da Bíblia e sua vasta experiência estavam
à disposição de qualquer um que o consultasse. A questão do batismo
por imersão, em oposição ao batismo por aspersão, devastou as igrejas
de Illinois; um vendedor ambulante de livros, membro da Igreja
Fluminense, estava definhando na prisão em Portugal; John Morley,
parente de sua esposa, estava em dúvida e confusão como resultado
dos ensinamentos de J. N. Darby; em Lisboa, a falta de uma firme
liderança e de um ministério de ensino causavam sérios problemas;
seus investimentos pessoais nas ferrovias americanas preocupavam
seu consultor financeiro em Londres. Todos estes assuntos e muitos
outros emergiram e foram parar sobre a mesa do doutor. Ele não
tinha uma secretária, mas, apesar disso, respondia cada carta
pessoalmente.
Ele era um grande oportunista. A imprensa diária o provia com
material para artigos que seriam publicados em jornais, principalmente
no Correio Mercantil. Os seguintes títulos indicam os mais variados
assuntos com os quais ele lidou: “A Regra de Nossa Fé”, “Uma
Importante Confissão”, “Jesuitismo no Parlamento”, “O que é o
Mundo?”, “Império Brasilense e Império Eclesiástico”, “As Sagradas
Escrituras”, “A Punição da Excomunhão”. Ele usava um pseudônimo,
“O Crítico” ou, às vezes, “O Católico-Protestante”, e escreveu um
total de trinta e cinco artigos para o Correio! Então, também, escreveu
cartas para a imprensa, geralmente para corrigir uma má interpretação,
fosse maliciosa ou de outro tipo, das crenças e práticas protestantes.
A liberdade religiosa era preciosa ao seu coração; é interessante
notar que os defensores de tal liberdade, políticos, freqüentemente
usavam os argumentos racionais do doutor quando se opunham à
intolerancia da Igreja Católica Romana no Parlamento.
Os Kalleys também traduziram as obras de Bunyan, Guerra Santa
e O Peregrino, e os publicaram primeiramente na imprensa diária de
166 JORNADA NO IMPÉRIO

forma seriada e depois, a pedido dos leitores, na forma de livro. Mais


tarde, a Sra. Kalley escreveu a biografia de John Bunyan e a publicou.
O doutor, por sua parte, compilou alguns livros devocionais: Cleon
and Maia (Cleon e Maia), The Happiness of The Home and Short
prayers (Felicidade do Lar e Orações Curtas).
Uma das publicações do doutor, no entanto, causou considerável
agitação, The Thief on The Cross (O Ladrão na Cruz). O livro tinha
sido impresso na Inglaterra, mas foi apreendido na alfândega no Rio
de Janeiro por causa da ilustração da capa. Havia uma lei que proibia
a publicação de qualquer coisa que fosse contra a religião oficial do
Estado, e os inspetores da alfândega diziam que a ilustração transgredia
a lei. Quando pressionados para que explicassem, já que tais cenas de
crucificação eram comum nas igrejas por todo o país, os inspetores
disseram que a igreja não acreditava terem sido crucificados na cruz
os ladrões, como indicado na capa do livro, mas amarrados com cordas!
Foi necessário a intervenção das mais altas autoridades para que os
livros fossem liberados, e, diplomaticamente, o doutor mudou a capa
do livro antes de oferecê-lo à venda ao público, através dos vendedores
ambulantes. Os tradicionais vendedores de livros não mantinham livros
protestantes em estoque.
Embora o Dr. Kalley se opusesse à intolerância da Igreja Católica
no Brasil, ele tinha certo grau de amizade com diversos católicos
romanos individualmente. Um destes, Dr. José Luiz Malafaia, corrigiu
as versões em português dos hinos de Kalley e todas as suas outras
publicações. Ele era um convidado freqüente à mesa dos Kalleys, os
quais inclusive participaram da sua cerimônia de casamento numa
Igreja Católica. O doutor era contra o sistema, e não contra as pessoas
propriamente.
CAPÍTULO 18
UM NOVO AJUDANTE
E UM NOVO LAR
E m 1862, o ministério do Dr. Kalley foi mais uma vez seria-
mente interrompido, desta vez por um acidente. Ele costumava cavalgar
longos percursos, a fim de fazer visitas nos arredores de Petrópolis. A
toda brida, certa ocasião, ele foi derrubado por seu cavalo e sofreu
ferimentos em uma perna e joelho. Conseqüentemente, foi obrigado a
se utilizar de muletas. A restauração demorava tanto, que o doutor
recebeu de seu médico fortes recomendações de retornar à Grã-Bre-
tanha a fim de tratar-se. Ele estava muito relutante a aceitar este
conselho, mas foi finalmente persuadido por sua esposa de que tal
viagem traria ao menos três benefícios: sua perna machucada rece-
beria o melhor tratamento possível, e podiam esperar recuperação
completa; teriam oportunidade de procurar um ajudante para os servi-
ços pastorais no Rio de Janeiro; e, finalmente, seria possível realizarem
seu grande desejo de voltar à Palestina. Então, em agosto, eles em-
barcaram. Houve grande consternação na igreja, pois os membros
temiam não ver seu pastor novamente!
Uma vez na Inglaterra, os doutores recomendaram um tratamen-
to hidropático em vários balneários, tanto na Inglaterra quanto na
168 JORNADA NO IMPÉRIO

Escócia. A perna sarou, as muletas foram descartadas, e o doutor


retornou à saúde e vitalidade normais. Os Kalleys tomaram algum
tempo viajando pela Europa, visitando a Alemanha, a França e a Suí-
ça, mas não seguiram à Palestina como tanto desejavam. Conforme
as oportunidades foram aparecendo, visitaram vários centros de trei-
namento para pastores e missionários e em Basle pensaram ter
encontrado o que tanto procuravam – um estudante alemão com to-
das as características necessárias para ajudar-lhes na Igreja
Fluminense. Entretanto, após pensar devidamente, ele recusou o con-
vite.
Durante o período de ausência do Brasil, correspondências fluíam
livremente entre o pastor e seu rebanho. Desta maneira, a igreja no
Rio pôde esclarecer seus problemas, e o pastor, mesmo de longe,
estava pronto para exortar, encorajar e nutrir os crentes. Ainda assim
era evidente que os Kalleys deveriam retornar imediatamente ao Brasil.
Durante a viagem, eles seguiram para Lisboa e lá encontraram ven-
dedores ambulantes de livros religiosos, membros da Igreja Fluminense,
que com grandes sacrifícios e muito sofrimento estavam procurando
disseminar a Palavra entre seus parentes e conterrâneos. A visita do
casal trouxe a estes homens encorajamento e renovou-lhes o vigor.
O navio aportou em Madeira e, assim como na primeira viagem
para o Brasil, os Kalleys tiveram a oportunidade de desembarcar e
passar o dia com a irmã do doutor, Jane, e seu marido, Dr. Miller.

SR. HOLDEN
Dr. Kalley finalmente encontrou o que mais desejava – um
experiente e dedicado ajudante, Richard Holden. O doutor o descobriu
onde menos esperava – no Brasil! Em uma de suas cartas, o doutor
descreve como tudo aconteceu: “Em 1862, estando bastante adoentado,
fui obrigado a voltar à Europa. Sete meses depois, tendo me recuperado
o suficiente – não precisava mais das muletas – viajei pela Grã-
Bretanha na tentativa de encontrar alguém, um verdadeiro servo do
Senhor, que pudesse me ajudar em meus trabalhos pastorais no Rio
de Janeiro. No entanto, não obtive sucesso… Em setembro de 1863,
UM NOVO AJUDANTE E UM NOVO LAR 169

retornando ao Brasil com as mãos vazias, o navio fez uma parada em


Salvador, Bahia, e o Sr. Holden veio a bordo. Tivemos uma longa
conversa, após a qual minha esposa e eu continuamos a viagem ao
Rio. O Sr. Holden veio então a Petrópolis e ficou em nossa casa por
três meses. Tivemos bastante oportunidade para conversar,
especialmente sobre a igreja no Rio. O Reverendo Holden tinha rompido
relações com a Sociedade Missionária Episcopal sob o patrocínio de
quem vinha trabalhando na Bahia. Ele fez isto porque não encontrava
liberdade suficiente para ensinar e agir como sentia que Deus queria
que ele fizesse. Ele deixou a Igreja Episcopal de uma vez, a fim de
trabalhar sem qualquer restrição. O Sr. Holden retornou à Inglaterra
com uma recomendação minha para que contatasse a Sociedade Bíblica
Britânica e Estrangeira em Londres. Ele fez conforme recomendado
e retornou ao Brasil para servir como agente da Sociedade Bíblica no
Império do Brasil e me ajudar no serviço pastoral…”
Richard Holden era escocês, nascido em Fife e de criação
episcopal. Tinha passado algum tempo no Brasil para realizar alguns
negócios e durante este período aprendeu a falar português
fluentemente. Ele sentiu o chamado para o ministério e, após um tempo
de treinamento nos Estados Unidos, retornou ao Brasil sob o patrocínio
da Sociedade Missionária Episcopal. Ele se mostrou um valioso
ajudante, um homem grandemente amado pelos brasileiros.

CASAMENTOS E ENTERROS PROTESTANTES


SÃO AUTORIZADOS

Em sua chegada ao Rio, Dr. Kalley soube que o governo brasileiro


sancionara uma lei que autorizava os ministros protestantes a
conduzirem cerimônias de casamento para não-católicos e também a
registrarem tanto os nascimentos quanto os falecimentos. Isto foi o
resultado de uma batalha que perdurou por vários anos e na qual o Dr.
Kalley esteve indiretamente envolvido. A Igreja Católica Romana não
tinha mais a exclusividade para realizar casamentos – agora ministros
protestantes também tinham este direito. Havia apenas uma condição,
a saber, o ministro deveria ser regularmente eleito pela igreja local.
170 JORNADA NO IMPÉRIO

Então, em outubro de 1863, a igreja se reuniu em assembléia e decidiu


formalmente que o nome da igreja deveria ser Igreja Evangélica
Fluminense, e o Dr. Kalley foi eleito pastor. Na verdade, ele fora
pastor desde a fundação da igreja sete anos antes, mas agora sua
posição estava legalizada. Alguns dias depois, o governo imperial emitiu
um certificado dando ao Dr. Kalley direitos que até então eram
exclusivos dos sacerdotes da Igreja Romana. Todos os casamentos
“por contrato”, celebrados até aquela data, foram devidamente
registrados e desta forma legalizados. Uma ou duas semanas depois,
Francisco Jardim, que perdera sua esposa durante a viagem do Dr.
Kalley à Europa, casou-se novamente e se tornou o primeiro
beneficiário da nova lei.
No mesmo decreto foi também providenciado que uma porção de
cada cemitério fosse reservada para os enterros protestantes e não-
católicos em geral. Até aquela data, os brasileiros que morriam
não-católicos eram enterrados em solo não consagrado, reservado
aos criminosos e suicidas. O método do Dr. Kalley de assegurar os
direitos legais dos crentes, estimulando a interpretação da Constituição
e promovendo a aprovação de projetos de leis mais liberais no
Parlamento, estava se mostrando eficaz. Esta era a sua sexta
contribuição à recém-formada igreja brasileira.

A MUDANÇA PARA O RIO


Imediatamente após o retorno ao Rio, os Kalleys insistiram em
ocupar a casa ao lado da qual os Gamas ocupavam e onde a
congregação se reunia para a adoração. Ela era inadequada para se
fixar residência permanente; e na verdade havia urgência não somente
de encontrar uma casa para eles próprios na cidade, mas também
acomodações mais espaçosas para a congregação em crescimento.
Eles visitaram várias propriedades no bairro, incluindo uma rua na
qual viviam os ricos traficantes de escravos. Estes geralmente
possuíam casas com três pavimentos, sendo que os dois andares de
cima eram utilizados para sua moradia, e o andar térreo servia como
“depósito” onde suas “mercadorias vivas” eram mantidas em exibição,
UM NOVO AJUDANTE E UM NOVO LAR 171

aguardando serem vendidos. Os Kalleys não tiveram sucesso em sua


busca pela nova casa e, finalmente, foram obrigados a retornar para
Petrópolis.
Até 1864, eles já haviam conseguido conquistar muita coisa. A
Igreja Fluminense estava firmemente enraizada no solo brasileiro;
estava registrada perante as autoridades para celebrar nascimentos,
enterros e casamentos; tinha, em 1863, eleito o Dr. Kalley como seu
pastor e o Reverendo Holden como pastor auxiliar. O evangelho esta-
va se espalhando por toda a baía, em Niterói, apesar das perseguições
e todo tipo de aborrecimento que os crentes continuavam a sofrer.
Pastoralmente, o Dr. Kalley orientava cada vez mais esta congrega-
ção batalhadora. Ele e sua esposa faziam isto sob considerável risco.
Foram apedrejados pela população em diversas ocasiões e, pelo me-
nos uma vez, escaparam por pouco de serem linchados.
Os vendedores de livros iam cada vez mais longe. Dez membros
da igreja estavam empregados como vendedores das Escrituras, não
apenas na área do Rio de Janeiro, mas também já alcançando outras
regiões no interior do país – os Estados de Minas Gerais e Bahia.
Dois outros estavam em Portugal, um em Madeira e outro testemu-
nhando na África. A imprensa continuava a dar oportunidades ao Dr.
Kalley e ao Reverendo Holden para esclarecer assuntos do evange-
lho, questões muito mal-compreendidas pela maioria da população e
bastante caluniadas pelos seus muitos inimigos gratuitos.
Mudar de Petrópolis para o Rio de Janeiro se tornou ainda mais
necessário. Por quase dez anos, os Kalleys procuraram viver no clima
ameno da cidade, no alto da Serra dos Órgãos, e desta forma evitar o
calor escaldante da capital. A viagem de trem para casa, sobre os
pântanos fluminenses e, depois, a subida de carruagem pela montanha
eram exaustivas e consumiam muito tempo; porém, eles eram
obrigados a percorrer este caminho freqüentemente.
Havia também o fato de estarem sob tensão devido às freqüentes
perseguições em Niterói e a relutância das autoridades competentes
em tomar atitudes. Foi quando o Dr. Kalley conversou pessoalmente
com o governador do Estado, o chefe de polícia e os embaixadores
tanto da Grã-Bretanha quanto dos Estados Unidos, a fim de socorrer
seu fustigado rebanho. Se o Dr. e a Sra. Kalley tivessem mesmo de
172 JORNADA NO IMPÉRIO

mudar para o Rio, precisariam morar nas adjacências da igreja.


Finalmente, encontraram a propriedade adequada no distrito de Saúde,
na Travessa das Partilhas, uma das áreas mais pobres do antigo Rio
colonial. A casa ao nível da rua tinha amplas acomodações para a
igreja, e na parte de trás, na parte mais inclinada do terreno, conhecida
como “Ladeira do Barroso, no Morro do Livramento”, havia um local
excelente para construírem uma casa suficientemente grande que
viesse de encontro às suas necessidades, com espaço para empregados,
convidados e festas ocasionais. No distrito de Saúde, moravam vários
artífices britânicos que trabalhavam nos estaleiros, o que consistia
mais uma vantagem do local. Esta era a área onde Pitt tinha uma
escola para os filhos dos trabalhadores dos estaleiros.
Em agosto de 1864, a igreja se encontrou pela última vez na Rua
do Propósito, uma localização que os servira por quatro anos, e mudou-
se para seu terceiro local de adoração, na recém-adquirida propriedade
do Dr. Kalley, local que ocupariam pelos próximos vinte e dois anos.
Em novembro daquele mesmo ano, a casa de Kalley estava pronta
para ser ocupada. Após longos anos, o ideal enfim se realizava: a
igreja e a casa pastoral estavam juntas.
CAPÍTULO 19
LIDANDO COM
OS PROBLEMAS
DESENTENDIMENTOS COM OS PRESBITERIANOS
O relacionamento entre os presbiterianos e a Igreja Fluminense
era hostil nesta altura. Os presbiterianos, com sua formação america-
na, eram muito menos rigorosos que o Dr. Kalley, que permanecia fiel
à rigorosa disciplina escocesa do Dia do Senhor. Os americanos eram
mais relaxados em sua abordagem à norma de comportamento cris-
tão, especialmente sobre assuntos como fumar, beber socialmente e
participar da maçonaria. Mais problemas surgiram a respeito do culto
da Ceia do Senhor. Dr. Kalley aderiu à tradição escocesa de “fechar
a mesa” – isto é, permitir apenas aqueles que fossem comprovada-
mente cristãos participarem do pão e do vinho. Um membro da Igreja
Presbiteriana, brasileiro, foi proibido de tomar os elementos, quando
estava visitando a Igreja Fluminense, em um domingo no qual aconte-
cia a Ceia do Senhor. Os presbiterianos registraram seu protesto, mas
a Igreja Fluminense reservou seu direito de aceitar ou excluir os co-
mungantes.
Os missionários presbiterianos também criticaram o Dr. Kalley
174 JORNADA NO IMPÉRIO

não apenas por suas políticas dentro da igreja (considerando que ele
já havia sido um presbiteriano e agora era um congregacionalista
praticante) mas também por seu método de trabalho missionário. Eles
o consideravam muito “tímido” e diziam que deveria haver mais
publicidade, um estilo de pregação do evangelho mais público e aberto,
até mesmo ao ponto da confrontação. O doutor insistia em que muita
publicidade era algo imprudente, como ele mesmo descobriu a alto
custo em Madeira. Lá as autoridades eclesiásticas tiveram sucesso
em fechar todas as suas atividades na ilha: primeiro seu trabalho médico,
depois, as escolas, e finalmente, sua pregação. Ele preferia seu próprio
método: a disseminação das Escrituras discretamente, através dos
vendedores de livros e da pregação nos lares e em locais de encontro.
Ainda assim houve perseguição, mas não através de fortes ataques
da religião oficial por parte do doutor. Seu conselho aos outros era:
“Esqueça que a pessoa com quem você está conversando é uma
católica romana que deve entender que a missa, a confissão, o
purgatório e o papa estão completamente errados – uma preocupação
intelectual deste tipo nunca levará aquela pessoa à salvação – e lide
com ela como uma pecadora, precisando da salvação que somente
Cristo pode dar através do seu sacrifício. Ela, então, será ensinada
sobre Deus e preparada para a ‘Casa de Glória’ ”.
Numa tentativa de esclarecer sua posição, o doutor procurou e
conseguiu um horário para conversar com o editor do Apóstolo, o
jornal católico romano mais agressivo nos ataques contra o doutor.
Mas, ao invés de melhorar a situação, a conversa apenas serviu para
que os artigos principais do jornal se tornassem mais mordazes do que
nunca. Através das colunas na imprensa diária, o doutor continuava a
defender seus pontos de vista, baseando-os, como era de costume,
somente na Bíblia.
O doutor não era de maneira alguma “tímido”, mas, como um
engenhoso escocês e um experiente missionário, ele praticou e
defendeu a precaução. As intimidações continuariam a vir até ele,
mas viriam sempre sem convite: não iria provocá-las deliberada-
mente.
LIDANDO COM OS PROBLEMAS 175

ESCRAVIDÃO
Ninguém poderia viver no Rio, nem mesmo os Kalleys, sem estar
completamente ciente da escravidão – o tráfico de seres humanos. A
maior parte da população da cidade era de escravos. No auge do
tráfico escravista, entre vinte e trinta mil escravos eram importados e
vendidos no mercado carioca. O outro grande mercado de escravos
era Salvador, na Bahia.
Os intrépidos marinheiros portugueses, enviados pelo Príncipe
Henrique, o Navegador, para explorar a costa Oeste da África, tinham
trazido o primeiro lote de escravos para Portugal. Zurrara, o historiador
do século quinze, descreve em vívida linguagem a chegada deles em
Algarve e as angustiantes cenas que se passaram quando foram
distribuídos entre os amigos do príncipe – esposas foram separadas
de seus maridos, filhos foram arrancados de suas mães, e as famílias,
fragmentadas; os soluços, os lamentos, a agonia – e o príncipe
despreocupado, montado em seu cavalo, confortando a si mesmo com
o pensamento de que embora tivesse sido obrigado a escravizar seus
corpos, salvara suas almas da perdição eterna, já que eles tinham sido
batizados e se tornado “cristãos”! Naquele infame dia, 8 de agosto de
1444, o tráfico de escravos começou em Portugal, e o Brasil se tornou
seu mercado mais frutífero.
Depois que a Grã-Bretanha libertou os escravos em suas colônias,
principalmente nas Índias Ocidentais, ela pressionou seu aliado Portugal
para fazer o mesmo. Em 1831, uma lei foi aprovada no parlamento
brasileiro proibindo a importação de escravos, embora o tráfico
continuasse ilegalmente. A marinha britânica patrulhava os mares e
interceptava todo navio que carregava escravos; a carga humana era
colocada sob a bandeira britânica e declarada livre. Em 1871, a lei do
Ventre Livre seria aprovada. Os filhos de escravos que nascessem a
partir desta data seriam nascidos livres. E, finalmente, em 1888, a
filha do imperador, Princesa Isabel, assinaria o decreto libertando todos
os escravos do império. Isto, no entanto, ainda estava no futuro, se
considerarmos o ponto em que estamos agora, nesta história.
No tempo do Dr. Kalley, os escravos eram uma indicação da
176 JORNADA NO IMPÉRIO

riqueza e status de uma pessoa. Quando a família saía para caminhar


na rua, os escravos a seguiam em fila. Os homens podiam vestir apenas
uma tanga e tinham de andar descalços, a menos, claro, que fossem
cocheiros ou postilhões. As mulheres escravas usavam vestidos
simples, a não ser que acontecesse de caírem nas graças de sua
senhora, neste caso eram mimadas. Nas ruas, os escravos estavam
sempre em evidência e aparentemente andando livres. A razão disto é
que em casas de modestas proporções, na cidade, não podiam trabalhar
diretamente muitos escravos. O excesso deles era solto logo de manhã,
para saírem a ganhar algum dinheiro, vendendo frutas ou bebidas ou,
então, se engajando em algum trabalho pesado. À noite, cada escravo
tinha de dar a seu mestre uma quantia fixa de dinheiro, e era permitido
que o escravo ficasse com qualquer sobra. Desta forma, os bem-
sucedidos poderiam juntar dinheiro suficiente para comprar sua
liberdade. Havia também constante trânsito de escravos realizando
suas obrigações – transporte de água de fontes públicas, de pesados
fardos, de liteiras, trabalho com o fétido esgoto, com coches – uma
infinidade de tarefas, todas feitas sempre sob a ameaça da chibata.
Os estrangeiros recém-chegados ficavam horrorizados com o cruel
tratamento dado aos escravos, mas geralmente acabavam aceitando
esta situação como apenas mais um modo de vida. A cena mais tocante
de todas era a de uma fileira de escravos recebendo punição,
acorrentados juntos, pelo pescoço, com correntes cobertas por pano
para que não tilintassem. O capataz andava ao lado deles com seu
chicote de prontidão. Tais acontecimentos eram presenciados por todos
os moradores do Rio de Janeiro, inclusive os Kalleys, quando andavam
pela cidade. Um escritor contemporâneo disse a este respeito:
“Escravos fugiam e escravos morriam; contra aqueles que fugiam
eram feitos anúncios nos jornais, e quanto àqueles que morriam, existia
uma sociedade que procurava diminuir a alta taxa de mortalidade entre
os escravos – estes horrores da escravidão”.
Logo após sua chegada ao Brasil, o doutor, com sua inclinação
para a escrita, expressou o desejo de iniciar a produção de algum tipo
de jornal para os africanos, especialmente para a população escrava,
mas este desejo nunca veio a se realizar, possivelmente porque logo
percebeu que praticamente nenhum escravo sabia ler. No entanto, há
LIDANDO COM OS PROBLEMAS 177

uma repetida menção das “pessoas negras” se juntando para ouvi-lo


falar sobre o evangelho.
Entre o crescente número de membros da Igreja Fluminense,
certamente havia uma quantidade promissora de escravos de origem
africana. Para eles não deve ter sido fácil participar das reuniões,
visto ser necessário obter o consentimento de seus donos. Nos registros
da igreja, são dados apenas os nomes dos candidatos ao batismo, sem
qualquer indicação de sua cor ou classe social. A questão, no entanto,
surgiu em 1865. Um candidato à membresia da igreja, Bernardino de
Oliveira Rameiro, um homem que tinha trabalhado com Pitt no estaleiro,
era um dono de escravos. Em uma das reuniões da igreja a questão
foi calorosamente debatida: “Por acaso pode um crente no Senhor
Jesus Cristo ser dono de escravos?” Nas reuniões seguintes, ocasiões
em que o Dr. Kalley costumava dar longas exortações sobre tópicos
relevantes, ele falou sobre o assunto: “Como um verdadeiro crente
deveria tratar seus escravos? Qual é a vontade de Jesus a este
respeito?” Em uma exortação verdadeiramente magistral, ele mostrou
que há três formas de servir: por amor, como um filho a seu pai; por
dinheiro, como servos, trabalhadores, etc.; por coerção, sem amor,
sem contratos ou regulamentação de salários, como um escravo
obrigado a fazer o que seu senhor ordena sob ameaças, pancadas e
tortura, portanto sem a menor recompensa. Ele então tomou as três
palavras gregas usadas no Novo Testamento para expressar “serviço”,
traduzidas “diácono”, “mercenário”, “escravo”, e citou a exortação
de Paulo em Colossenses 4.1: “Senhores, tratai os servos com justiça
e com eqüidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu”, e
Efésios 6.9: “…deixando as ameaças…”. Então, demonstrou que há
coisas pertencentes a cada pessoa (por exemplo, seu corpo com seus
membros e funções) que não podem ser entregues a outras, e cada
um tem o direito de usar o próprio corpo de uma maneira justa e
honesta para benefício pessoal. Se um homem exerce jurisdição sobre
outro, de forma que este nada usufrui do que tem, aquele é ladrão e
vilão. “Cada um deve dar conta de suas ações ao Grande Juiz, ao
fazer outro homem trabalhar para ele contra a sua vontade, sem
receber salário, sob ameaças de punição e com constante sofrimento,
em tudo objetivando ganhar lucros materiais. Isto é um violento roubo
178 JORNADA NO IMPÉRIO

dos dons que o Criador deu às pobres criaturas, que de maneira alguma
diferem daquele que as comprou.”
O doutor falou diretamente ao dono de escravos: “Para você, o
escravo é seu próximo, e está sob o grande mandamento: ‘Amarás o
teu próximo como a ti mesmo’. Você gostaria que outra pessoa o
tratasse como um escravo? O comércio de animais é legítimo… mas
até mesmo eles devem ser bem tratados. O escravo não é filho de seu
dono, e não serve seu senhor com amor ou prazer; ele trabalha como
um animal, sem receber qualquer recompensa por seu trabalho;
trabalha apenas porque teme a ameaça das pancadas do cruel e
desumano tratamento por parte daquele que o roubou de sua liberdade.
Você, que faz estas coisas, é inimigo de Cristo e não pode ser membro
da igreja dEle, do Jesus que nos redimiu da maldição, nos deu liberdade
e nos fez filhos de Deus (Romanos 8.15,16)”.
O resultado do debate não foi registrado, mas é claro que o pastor
julgou o dono de escravos indigno de ser membro da igreja, e com
este regulamento a igreja estava de completo acordo.

A TEMPESTADE SE APROXIMA
A esta altura o pastor auxiliar, Reverendo Richard Holden, de-
monstrava seu verdadeiro valor. Sob sua orientação, a Sociedade Bíblica
melhorou em eficiência, e na Igreja Fluminense ele aliviou o Dr. Kal-
ley de muitas tarefas onerosas. Os brasileiros o descreveriam com
uma única palavra: simpático – uma pessoa sincera, amável, bem dis-
posta, demasiadamente generosa e cheia de compaixão. Richard
Holden era tudo isso – um verdadeiro e experimentado amigo para os
Kalleys e um dedicado pastor de almas para a igreja. Os brasileiros o
amavam, mas sua afeição não diminuía de forma alguma o amor e
veneração pelo Dr. Kalley e sua esposa, “Dona Sarah”. Foi uma feliz
combinação e um ministério grandemente abençoado. Havia, no en-
tanto, uma tempestade, começando no horizonte: a fraca saúde do Dr.
Kalley e a influência dos ensinamentos de John Nelson Darby, funda-
dor do movimento Irmãos de Plymouth, sobre Richard Holden.
Então, no início de dezembro de 1866, a Sra. Kalley soube da
LIDANDO COM OS PROBLEMAS 179

súbita morte de seu pai, no mês anterior. As notícias foram


devastadoras, uma vez que ela, a filha mais velha, era muito ligada ao
pai, e ele sempre manteve vívido interesse no trabalho dela entre os
povos de língua portuguesa. De Sherwood Hall, em Nottinghamshire,
sua casa pelos dez anos anteriores, ele deu aos Kalleys todo
encorajamento em seu trabalho. Sua perda não foi apenas um severo
golpe pessoal, mas também um prejuízo para o trabalho.
CAPÍTULO 20
UMA PAUSA
BEM MERECIDA
A pesar das freqüentes visitas às cidades na Serra dos Órgãos
– Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo – com seu clima mais
estimulante, a saúde do Dr. Kalley continuou a piorar. Toda vez que
ele retornava para sua casa no Rio de Janeiro, sentia o clima tão
excessivamente quente e úmido que ficava fisicamente exausto. Ele
sofria com freqüência ataques de enxaqueca, mesmo assim nunca
deixava que sua condição física interferisse em suas atividades
missionárias. Com inabalável zelo, ele se dedicava à tarefa de fazer o
evangelho conhecido.
Passaram, então, por uma crise – um ataque do coração. Ele
estava no centro da cidade, voltando de uma visita a Niterói, quando o
primeiro ataque de intensa dor o enfraqueceu grandemente.
Cambaleando, conseguiu voltar para casa, com freqüentes paradas
para recuperar o fôlego. Como era médico facilmente diagnosticou
seu problema, um diagnóstico confirmado por seu próprio médico, Dr.
Fairburn, um inglês que estava medicando no Rio. Ele ordenou que o
doutor descansasse – nada de pregação, de escrever cartas ou de
preocupações administrativas – e recomendou vigorosamente seu
182 JORNADA NO IMPÉRIO

retorno à Grã-Bretanha para um tratamento adicional. A Sra. Kalley,


que por muito tempo pedia que ele tirasse uma licença prolongada,
insistiu em que aquele era o momento. Foi com grande relutância que
o doutor se preparou para deixar, possivelmente para sempre, sua
casa na Ladeira do Barroso, a igreja e o Brasil.
Os membros da igreja estavam desolados e demonstravam sua
emoção abertamente como somente os brasileiros e portugueses sabem
fazer. Entre momentos de emoção incontrolável, o Dr. Kalley pregou
seu último sermão, baseado em Atos 20.17-38, e depois teve uma
triste despedida da igreja. O homem que tinha levado estas pessoas a
Cristo, que as tinha nutrido e preparado, era o seu bom pastor. Em 2
de dezembro de 1868, no Rio, os Kalleys embarcaram num navio a
vapor, Panamá, e iniciaram sua longa jornada através do Atlântico.
Eles fizeram um bom uso da estada em Lisboa, visitando os crentes
fluminenses e outros que viviam e trabalhavam lá. Após um mês de
viagem, chegaram em Liverpool e foram recebidos calorosamente
pelos Morleys e outros parentes e amigos.
Quanto à situação do doutor, a opinião dos médicos especialistas
foi unânime de que ele provavelmente se recuperaria completamente,
mas foi prescrito repouso absoluto, algo que ele achou muito frustrante.
As cartas escritas mostram que os Kalleys percorreram o país,
passando por Mansfield, Woburn, Pitlochry e Rothesay. Como sua
recuperação já era quase completa e sua boa saúde tinha retornado,
Dr. Kalley começou a se engajar mais uma vez em escrever cartas
extensivamente. Escreveu longas cartas pastorais ao rebanho no Rio.
Temia que os “lobos vorazes” entrassem na igreja e insistiu que a
melhor forma de evitar tal ameaça era através do bom conhecimento
da Bíblia, juntamente com a maturidade cristã alcançada pela
experiência. Ao mesmo tempo, pediu e recebeu uma detalhada
prestação de contas do trabalho em Portugal. Ele também não esquecia
dos crentes em Illinois. Um de seus amigos o chamava de “coração
bondoso, espírito forte e corajoso, com mente e caneta ocupadas”.
Notícias mais diretas sobre a igreja no Rio lhe foram trazidas com
a chegada da Srta. Marianne Pitt, a fiel amiga da Sra. Kalley. Ele
ficara um tempo na casa, no Rio de Janeiro, mas agora, com o pedido
dos Kalleys, juntara-se a eles em Rothesay. Ela era membro muito
UMA PAUSA BEM MERECIDA 183

ativa da Igreja Fluminense e trouxe boas notícias do progresso lá.

O RETORNO PARA A PALESTINA


Com a recuperação de sua saúde e vigor, Dr. Kalley decidiu realizar
o antigo desejo de voltar à Terra Santa. Seus conselheiros médicos
insistiam em que ele não passasse o inverno na Escócia, e que clima
poderia ser melhor que o da Palestina? Eles embarcaram para Leith,
acompanhados de Marianne, sendo sua primeira parada em Hamburgo.
De lá, seguiram para o sul, pela Alemanha e Suíça, visitando durante
a viagem lugares históricos de interesse “espiritual”, tais como a cidade
de Praga, ligada a John Huss. Seguiram para a Itália e passaram por
Florença, cidade que particularmente queriam visitar, não apenas por
seus tesouros artísticos, mas também por ser o lugar onde Savanarola
foi martirizado. Lá, encontraram um velho amigo do Dr. Kalley, dos
dias de Malta: Dr. Luigi de Sanctis, um ex-padre católico romano
convertido e um intelectual bastante famoso. A história de sua
conversão é algo ímpar. Dr. Luigi de Sanctis foi encarregado pelo
Vaticano de preparar uma série de conferências sobre os erros dos
hereges, os protestantes, em defesa da Santa Madre Igreja Católica
Romana. Naquela época, o protestantismo estava fazendo sérias
incursões na Itália. O Dr. Luigi pediu permissão para estudar a literatura
protestante como forma de se preparar para esta tarefa monumental,
como ele mesmo a considerava. Porém, quanto mais estudava, mais
convencido ficava das fraquezas inerentes dos dogmas católicos e da
força do evangelho bíblico. Ele foi convertido e, como Paulo antes
dele, agora pregava fervorosamente a fé que antes tinha perseguido.
Os Kalleys e os Luigis passaram dias juntos em Florença, desfrutando
da companhia uns dos outros, e, então, na véspera da partida dos
Kalleys para continuar sua jornada, receberam notícias sobre a súbita
morte do Dr. Luigi. Chocados com a perda de um amigo tão íntimo,
decidiram adiar a viagem até pelo menos depois do funeral.
Seu itinerário os levou para Corfu e Esmirna, no anfiteatro onde
Policarpo fora martirizado. Eles seguiram de barco para Patmos, Rodes
e Chipre, onde embarcaram mais de 200 peregrinos seguindo para
184 JORNADA NO IMPÉRIO

Meca. O único lamento do Dr. Kalley era seu árabe não ser suficiente
para conversar com eles sobre a Bíblia e Cristo! Após quase dez
semanas de navegação, desembarcaram em Beirute, local que para
ambos guardava memórias de acontecimentos significativos de vinte
anos antes. Eles visitaram Damasco e as ruínas de Baalbec. Lá, o Dr.
Kalley sofreu um acidente que felizmente não teve maiores
conseqüências: foi coiceado por um cavalo.
Em Beirute, renovaram sua amizade com o Dr. W. M. Thomson,
um missionário na Síria e na Palestina, e sob sua orientação planejaram
a viagem pela Terra Santa. Naquela época, quando se queria realizar
viagens desta natureza, com conforto e relativa segurança, era
necessário fazer cuidadosa preparação. Bons cavalos de montaria,
mulas de carga, equipamentos de camping, incluindo tendas, tinham
de ser comprados, e, não menos importante, os serviços de um bom
guia tinham de ser contratados. Tudo isto acarretava consideráveis
gastos e consumo de tempo no atentar para os detalhes.
Eles viajaram ao sul por Sidom e Tiro e seguiram para a Galiléia,
acampando cada noite e descansando do calor ardente do dia. O
progresso era lento, mas agora estavam seguindo os passos do Mestre
e havia muito para ver e aprender. Em Nazaré, ficaram emocionados
ao encontrarem um trabalho missionário bem estabelecido e foram
afortunados em ouvir um sermão pregado por um famoso ministro
congregacional da Grã-Bretanha. Visitaram notáveis locais do Novo
Testamento – o Mar da Galiléia, o Monte das Bem-Aventuranças,
Cafarnaum, Corazim. Com o Novo Testamento em mãos, mergulharam
na atmosfera e história de tão sagrado território. Enquanto naquela
região, aproveitaram a oportunidade para ir a Safed, onde o doutor
passara vários meses numa visita anterior, mas infelizmente não
encontraram ninguém que recordasse de sua estadia entre eles. Os
Kalleys continuaram seguindo ao sul, passando por Samaria e Belém
e, finalmente, por Jerusalém. Sua primeira impressão da cidade foi
um choque, pois muito dela estava em ruínas, e tudo parecia sujo e
abandonado. Conforme a estada deles foi se prolongando, descobriram
que ela tinha certa aura que nunca tinham experimentado em nenhum
outro lugar; para eles aquela se tornou a Cidade Santa. Ela foi
explorada, saboreada e desfrutada. Todo o tempo, na verdade em
UMA PAUSA BEM MERECIDA 185

toda a viagem, o Dr. Kalley tirou fotos e se preparou para ilustrar as


palestras que daria com grande efeito.
Logo após, seguiram para o Egito e para as pirâmides, ao Cairo e
Alexandria; finalmente, retornaram para casa, por Marselha e França.
Enquanto estavam na França, chegaram notícias da morte de William
Pitt. Marianne lamentou a morte do irmão e os Kalleys a perda de um
de seus mais valiosos ajudantes. Naquela época, o Dr. Kalley estava
completamente recuperado, como a exaustiva viagem pela Europa e
Oriente Médio provou, e eles podiam planejar sua volta ao Brasil.

BOAS NOTÍCIAS DO BRASIL


Nesse meio tempo, o que estaria acontecendo no Brasil? A Igreja
Fluminense tinha descoberto no Reverendo Holden um verdadeiro
pastor que continuava a instruí-los e exortá-los a viver em santidade.
Correspondências fluíam livremente entre os Kalleys e o Sr. Holden,
bem como a outros membros da igreja no Rio. Estas cartas do Brasil
continham relatos detalhados de conversões e batismos, e o Reverendo
Holden recontou a história da conversão de um jovem homem em
particular, Dias Barros. Era típico do que estava acontecendo o tempo
todo no Rio. O jovem homem estava empregado como caixa. Era um
católico firme e um amargo opositor dos “Bíblias”, como eles
chamavam os protestantes. Nove anos antes, ele comprara uma Bíblia
de Gama, o vendedor de livros. Por razões que ele não podia explicar,
começou a ler a Bíblia e descobriu, para sua consternação, que o
catolicismo era completamente oposto ao que estava lendo na Bíblia.
Destruiu suas imagens e percebeu algo mais na Bíblia: “E qualquer
que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo”.
Ele informou ao seu chefe que não trabalharia mais aos domingos.
Em certa ocasião, ele viu um homem passando pela rua, com um livro
parecido com a Bíblia embaixo do braço. Ele aproximou-se do homem,
que gentilmente o levou a um culto na Igreja Fluminense. Barros perdeu
o emprego, mas encontrou seu Salvador e começou a pregar a fé à
qual outrora se opunha tão violentamente.
Além de batismos, o Reverendo Holden celebrou sete casamentos
186 JORNADA NO IMPÉRIO

em 1868, e detalhes foram relatados ao Dr. Kalley.

INFLUÊNCIA DOS IRMÃOS DE PLYMOUTH


Após o retorno do Dr. Kalley da Palestina, ainda em Crieff, ele
manteve por carta uma discussão com o Sr. Darby. O doutor não
podia concordar com os pontos de vista dele a respeito da igreja e
seus ministros, especialmente sobre o chamado e manutenção do
pastor. Ele também discordava dos desvios do Sr. Darby sobre
justificação e santificação. Depois, as dificuldades aumentaram pelo
fato de o tio de sua esposa, o Sr. Morley, estar adotando as doutrinas
de Darby e estar se tornando um Irmão de Plymouth!
A Igreja Fluminense agora contava com 150 membros, e desde o
retorno de Kalley para a Grã-Bretanha toda carta expressava o inten-
so desejo da igreja de ter o doutor e sua esposa de volta no meio dela.
“Eles querem Robert”, escreveu a Sra. Kalley em seu diário. Havia
uma nuvem ameaçadora no horizonte. Lendo nas entrelinhas de inú-
meras cartas que o Sr. Holden enviou ao doutor, parecia que ele não
pretendia permanecer muito tempo como pastor auxiliar da Igreja Flu-
minense. Como muitos bons homens de seus dias, ele foi grandemente
influenciado pelas doutrinas dos Irmãos de Plymouth e sentiu que não
poderia mais servir como pastor nos atuais termos e receber salário
mensal da igreja. Se o Sr. Holden persistisse com seu plano, o doutor
teria de encontrar outro ajudante para substituí-lo. Ele procurou um
substituto em sua terra natal, mas não teve sucesso. Sua mente vol-
tou-se para um jovem na Igreja Fluminense, o qual poucos anos atrás
sentira o chamado para o ministério, João Manoel Gonçalves dos San-
tos. Por anos, Santos tinha servido como secretário da igreja e mostrado
qualidades admiráveis como administrador. Também era um bom pre-
gador e um homem de caráter maduro e impecável. Ele ficou
impossibilitado de seguir com o seu chamado por ter sido nomeado o
tutor de sua irmã mais nova. Ele e sua irmã eram órfãos e a lei brasi-
leira requeria que ela ficasse sob a tutela de alguém legalmente
nomeado para este propósito, até que atingisse maioridade ou se ca-
sasse. Sua irmã estava agora casada, e ele, livre, portanto, da
UMA PAUSA BEM MERECIDA 187

responsabilidade de tomar conta dela. O doutor sabia que o jovem


precisaria de treinamento especial e, com isto em mente, apelou para
seu amigo, Spurgeon, cuja Faculdade Pastoral estava em funciona-
mento. Spurgeon prontamente ofereceu ajuda para treinar o jovem
brasileiro para o ministério.

A VIAGEM DE VOLTA AO BRASIL


A viagem de volta ao Brasil finalmente começou. Os Kalleys
deixaram os parentes e amigos do doutor em Glasgow e os irmãos e
família de Sarah em Sheffield. Então, antes de embarcarem, em 29 de
abril de 1871, ficaram com os Morleys em Upper Clapton. Vindo ao
Brasil, passaram um mês em Portugal. Eles estiveram lá em três outras
ocasiões, e os crentes portugueses, alguns deles membros da Igreja
Fluminense, tinham apreciado muito o ministério de ensino do doutor.
Durante os intervalos entre uma visita e outra, o doutor mantinha
contato com os crentes, por correspondência, cartas de instrução,
exortação e conforto. Em Lisboa, o Dr. Kalley se encontrou com
líderes de diferentes grupos de crentes na cidade e pronunciou sua
primeira palestra ilustrada sobre a Palestina e, especialmente,
Jerusalém. Cem pessoas aproximadamente o escutavam com atenção
extasiada e ouviam igualmente, entremeada com a palestra, a
mensagem do evangelho. Os Kalleys também visitaram Porto, no norte
do país, parando em Coimbra, famosa por sua universidade. Em Porto,
ministraram tanto para portugueses quanto para ingleses. Sempre
houve forte presença britânica na cidade do Porto, devido ao comércio
de vinho, muito do qual estava nas mãos britânicas. O Dr. Kalley deu
outra palestra sobre a Palestina e, ao mesmo tempo, pregou o
evangelho. Ele se mostrou de grande ajuda ao Reverendo Moreton,
pioneiro do trabalho missionário Britânico Metodista no país. De volta
a Lisboa, os Kalleys se ocuparam escrevendo cartas, fazendo reuniões,
desfrutando da companhia de outros crentes e tomando as medidas
necessárias para que a Sociedade Bíblica suprisse os vendedores de
livros com a literatura que eles precisassem. Até no dia do embarque,
estavam ocupados. No último domingo, 4 de junho, o doutor falou
188 JORNADA NO IMPÉRIO

numa reunião durante a tarde, e às 6 horas o navio seguiu para o


Brasil! Quinze dias depois, o navio ancorou na Baía de Guanabara.
Os Kalleys estavam de volta ao Brasil, mais uma vez.
CAPÍTULO 21
ATIVIDADE RENOVADA
NO RIO
E ra domingo, e a Igreja Fluminense aguardava ansiosamente a
chegada do pastor e sua esposa, na Travessa das Partilhas. Quando
finalmente chegaram, depois de toda a confusão típica do desembar-
que, que momentos de radiante alegria – o abraço brasileiro, lágrimas
de gratidão, exclamações de louvor a Deus! A Sra. Kalley escreveu:
“O barulho e confusão em nosso desembarque era intolerável: tanta
bagagem e tanta gente se aglomerando na alfândega. Finalmente che-
gamos à casa de reunião” e, então, ela adicionou de forma caracterís-
tica: “As pessoas nos receberam com a mais emocionante manifesta-
ção de amor que confortou nossos corações”.
Os Kalleys logo retomaram as atividades rotineiras. Pouco havia
mudado na cidade do Rio de Janeiro. Os meios de transporte tinham
recebido melhorias; os antigos ônibus agora davam lugar aos modernos
bondes, puxados nos trilhos pelas mulas – uma mula para percursos
de curta distância e duas para os subúrbios. Havia também uma nova
estrada de ferro que ia para o sul em direção a São Paulo. Algumas
das ruas foram pavimentadas e mais iluminadas durante a noite.
Uma nova fase na história da igreja no Brasil estava começando:
190 JORNADA NO IMPÉRIO

os presbiterianos americanos já estavam bem estabelecidos no Rio e


em São Paulo, incluindo no último caso não apenas a capital, mas
também o interior do Estado; batistas, metodistas e anglicanos logo
seguiriam o caminho dos presbiterianos, todos com suas diferentes
formas de batismo, administração da igreja e disciplina. O país era
vasto, mas crescia o trabalho estabelecido por estas várias
denominações. Dissensões e dificuldades eram inevitáveis, embora
as dificuldades fossem de natureza secundária, pois todos pregavam
exatamente o mesmo evangelho. Porém, estas diferenças tendem a
parecer maiores nos relacionamentos entre igrejas diferentes.

NOVOS DESENVOLVIMENTOS NA IGREJA FLUMINENSE


No fim de junho, o Sr. Holden embarcou para a Inglaterra, incerto
se voltaria ao Brasil e sobre quais deveriam ser seus planos para o
futuro. Depois da temporada exaustiva no Rio de Janeiro, o descanso
e a mudança para sua vila natal, em Fife, lhe proporcionariam tempo
suficiente para repensar sua posição. A igreja tinha aprendido a estimá-
lo por causa de seu trabalho, esperava e orava fervorosamente para
que ele voltasse.
Certas mudanças na igreja eram urgentes, como a completa
reorganização da Escola Dominical. Até então, a escola era uma caótica
mistura de jovens e velhos, sem qualquer distinção entre as
necessidades de um grupo ou de outro. A igreja resolveu que deveria
haver uma divisão claramente estabelecida, colocando os grupos de
diferentes idades em classes separadas, com professores mais
competentes e um ensino mais sistemático. Lições de escola dominical
adequadas para adultos, jovens e crianças deveriam ser escritas. As
reformas foram postas em prática imediatamente. Um superintendente
foi eleito, José Fernandes Braga; vinte e seis professores foram
escolhidos, cinco dos quais serviriam na igreja filial em Niterói; e um
rascunho da primeira série de lições foi preparado. Desta forma, em
16 de julho de 1871, houve o início do que seria a mais popular e mais
freqüentada reunião da semana nas igrejas em todo o Brasil – a Escola
Dominical. Naquele primeiro dia, na Igreja Fluminense, cerca de 200
ATIVIDADE RENOVADA NO RIO 191

pessoas foram matriculadas. Era um tremendo passo adiante. As


pessoas já tinham a Bíblia e liam-na, mas aquele tipo de estudo
sistemático da Bíblia, do qual elas sentiam falta, era agora suprido
pela Escola Dominical, ajustado a cada faixa etária. Quando aquele
humilde grupo de crentes se encontrou em seu organizado grupo de
Escola Dominical, mal pensavam que poderiam estar iniciando algo
que seria de vital importância para o crescimento da igreja no Brasil.
A Sra. Kalley estava ansiosa para organizar uma sociedade
feminina, mas, como ela própria escreveu: “Por um longo tempo hesitei
em fazê-lo, visto que as pessoas da igreja me asseguraram que seria
contra a cultura do país, uma vez que nenhuma mulher tinha permissão
para sair sozinha na rua; a mulher deveria estar sempre acompanhada
por algum homem da família”. “Agora”, a Sra. Kalley continuou, “temos
três alemãs na igreja que se recusam a se submeterem a tais restrições.
Decidi iniciar a sociedade, depois de averiguar que onze mulheres
eram favoráveis à idéia. E, assim, em nossa segunda reunião, tínhamos
um total de quatorze mulheres, e acredito que outras mais se unirão a
nós, num futuro próximo”. Mais uma vez os Kalleys tiveram uma
contribuição de valor inestimável para a igreja brasileira. A Sociedade
das Senhoras é um elemento essencial em toda igreja local. É
comumente chamada, e na maioria dos casos apropriadamente, de “o
braço direito da igreja.”

ATIVIDADE CONSTANTE
No calor e alvoroço do Rio, e com o peso do trabalho, a saúde do
Dr. Kalley continuou a dar sinais de preocupação à sua esposa e
amigos. Próximo do fim de julho, eles deixaram o Rio por um breve
período. Viajaram na recém-inaugurada estrada de ferro para
Palmeiras, um lindo local situado no alto da Serra do Mar, bem longe
do calor escaldante do Rio. Mesmo lá, o doutor não se permitiu uma
folga de seu zelo evangelístico. Ele registrou ter falado “para um grupo
de pessoas de cor, dos quais nove foram ao hotel naquela noite para
ouvir mais do evangelho”. No dia seguinte, conversou com o chefe da
estação, e à noite este homem, acompanhado de mais sete, veio para
192 JORNADA NO IMPÉRIO

aprender o que a Bíblia diz a respeito da salvação. “Dezessete pessoas


de cor também participaram da reunião.”
A Igreja Fluminense organizou uma nova rotina semanal: domingo,
Escola Dominical e cultos de adoração; segunda-feira, aula de música
e aprendizado de novos hinos; terça-feira, reunião das senhoras; quarta-
feira, culto do meio da semana; sexta-feira, treinamento especial para
os professores da Escola Dominical. Além disso, havia reuniões
evangelísticas em diferentes subúrbios e em Niterói. Era um tempo
de incessante atividade.
Quando estava em sua casa, no Rio, o doutor recebia um fluxo
constante de visitantes, membros da igreja e outros que procuravam
sua ajuda e conselho. Também havia as correspondências, e ele não
tinha secretária! Escreveu uma longa carta procurando dissipar as
dúvidas do Sr. Holden quanto à “justiça imputada”.
De Portugal, chegaram relatos enviados pelos vendedores de li-
vros e outros obreiros, contando sobre as perseguições e privações,
tudo no esforço de levar a Bíblia ao povo. Um dos obreiros, que fora
convertido no Brasil, escreveu: “Aqui em Portugal vemos o bom fruto
da semente plantada no Brasil”. Outro escreveu da prisão, em Santa
Marota: “Aqui estou; o carcereiro levou meus livros, as três cartas
que eu tinha em meu bolso e todo o meu dinheiro. Minha situação é
desesperadora – sem dinheiro, longe de meus amigos, e sozinho nesta
masmorra. O chefe de polícia e os magistrados têm me ameaçado,
dizendo que devo ser queimado vivo na praça do mercado, para que
todos vejam. Já estive em outras prisões, em Traz dos Montes, e,
apesar de tudo isso, consegui vender quatro mil cópias das Escrituras.
Eu temo, no entanto, que muitas tenham sido apreendidas e queima-
das. Não sei quando sairei novamente… devo confessar que minha
fé tem fraquejado… há tanta perseguição aqui, na pior parte do reino.
Assinado, Manoel Francisco da Silva”.
Outro, chamado Patrocínio, escreveu que esteve em Ponte de
Sôr, após ter sido liberto da custódia em Figueira do Vinho. Ele ainda
tinha consigo duas caixas de Bíblias e as estava vendendo no mercado,
em Cabaças e Tomar. Mais tarde, este mesmo vendedor comentou:
“Na congregação [Olhão no Algarve], cerca de trinta pessoas estavam
numa reunião, quando os padres incitaram os fanáticos a derrubarem
ATIVIDADE RENOVADA NO RIO 193

as portas e espancarem todos que encontrassem. Estas pobres


criaturas foram assim deixadas para morrer de fome. Ninguém podia
vender-lhes nada. Alguns, para sobreviver, retornaram à Igreja
Católica, à missa e à confissão, mas, mesmo assim, eram muito
maltratados, até dentro da própria igreja”. Estes relatos mostram quão
longe chegaram estes vendedores de livros portugueses. Eles
persistiram obstinadamente em sua missão nas cidades e vilas, apesar
de toda a perseguição e de muitas prisões.
Cartas chegaram também de Madeira e Illinois, informando o doutor
a respeito do progresso do evangelho e das dificuldades encontradas.
Cada carta recebeu uma fiel resposta escrita à mão.
Também havia um outro campo de trabalho no qual o Dr. e a Sra.
Kalley eram bastante ativos: a comunidade dos povos de fala inglesa,
britânicos e americanos. Em sua casa espaçosa e hospitaleira, eles
recebiam altos oficiais e outras pessoas de ambos os países. Estes
contatos sociais eram oportunidades para o testemunho, silencioso e
eficaz, sem qualquer embaraço para seus convidados. Então, o doutor
passou a ministrar cultos nas casas de britânicos expatriados, sempre
que era convidado a fazê-lo. Até mesmo o capelão anglicano foi
grandemente ajudado e encorajado por ele e, como resultado disso,
disse em uma carta que “se esforçaria para falar à congregação com
maior clareza sobre a nossa ruína em Adão e nossa redenção em
Cristo”.
Um dos crentes de segunda geração da Igreja Fluminense, Dr.
Henrique de Souza Jardim, afirmou: “Meu pai sempre contou que o
Dr. Kalley ganhou o coração de todos quantos se aproximaram dele.
Ele disse que o doutor falava gentil e humildemente, ainda que de
forma muito firme, quando dava uma palavra de exortação a alguém
ou quando respondia a alguma questão colocada perante ele. E, ainda
que a pessoa com quem ele estivesse falando respondesse de forma
áspera ou rude, o doutor não alterava seu tom de voz e continuava a
falar de forma amigável. O resultado era que alguns de seus interlo-
cutores eram iluminados com isso e tinham diante deles um exemplo
vivo de semelhança a Cristo. Assim, eles próprios se tornavam firmes
na fé e líderes dignos de confiança dentro da igreja. Os portugueses,
especialmente quando retornavam à sua pátria, fosse apenas para
194 JORNADA NO IMPÉRIO

uma visita ou para morar lá, tinham a firme convicção de que deveri-
am pregar o evangelho para seus compatriotas”.
A Sra. Kalley acrescentou seu testemunho: “Durante nossas
viagens, o que talvez mais tenha me tocado, em meu amado marido,
foi seu impressionante poder de lidar com almas em todas as
circunstâncias possíveis. Eu freqüentemente marcava o tempo, e, a
partir do momento que alguém viesse a ele com qualquer tipo de
pergunta, em três minutos ele já se engajava em uma conversa cristã
muito próxima, e, embora a pessoa parecesse surpresa ou intrigada,
não me lembro de uma única vez em que tenha ficado ressentida.
Sempre foi assim, por toda a sua longa vida. Eu muitas vezes sentia
que este dom especial residiu em seu poder de lidar de forma muito
próxima com as pessoas. Geralmente, ele era apenas um membro
silencioso da sociedade comum, mas numa conversa face-a-face ele
nunca pareceu ter qualquer dificuldade em falar com a mais profunda
retidão em favor de seu Senhor”.

UMA MUDANÇA DE PASTOR


Em uma carta ao Dr. Kalley, datada de dezembro de 1871, o Sr.
Holden informou que não retornaria ao seu ministério na Igreja
Fluminense. Ele deu três razões para sua decisão. Primeiramente,
não poderia aceitar em sã consciência que um pastor devesse receber
remuneração por seus serviços. Em segundo lugar, existiam diferenças
doutrinárias entre ele e o doutor. E, finalmente, ele escreveu: “Eu não
posso retornar ao Rio, na fé de que Deus está me levando para lá.
Decidi esta noite abandonar meu pastorado e o serviço na Sociedade
Bíblica”. Quando Dr. Kalley informou a igreja sobre a decisão do Sr.
Holden, houve uma consternação total. Os membros da igreja não
podiam acreditar que a decisão fosse irreversível. “Quando a carta do
Sr. Holden foi lida na igreja, expressões de dor se dissolveram numa
inundação de lágrimas.” As notícias entristeceram os irmãos
profundamente, visto que o Sr. Holden era grandemente estimado por
seu zelo, dedicação ao serviço na igreja, incansável devoção,
amabilidade e cortesia inatos.
ATIVIDADE RENOVADA NO RIO 195

A igreja decidiu enviar um manifesto ao Sr. Holden, expressando


sua profunda tristeza por sua decisão, que eles esperavam sincera-
mente pudesse ainda estar aberta a reconsiderações e agradeceram-
lhe por seu ministério tão frutífero entre eles. Pouco depois, o Sr.
Holden escreveu para o Dr. Kalley, de Guernsey, informando-o que
tinha estado em contato com o Sr. Darby e o Sr. Kelly, e estava con-
vencido de que as doutrinas e práticas dos Irmãos de Plymouth esta-
vam em completo acordo com as Escrituras e que, agora, ele pertencia
à Assembléia. Ele também mencionou que o Dr. Kalley estava errado
em sua avaliação de J. N. Darby: “Longe de ser um ‘papa’, ele é um
humilde e cortês servo de Deus”.
Para encorajamento da igreja, no entanto, a preparação para os
estudos pastorais de João dos Santos, na Faculdade de Spurgeon,
estava completa. Ele estava recebendo aulas especiais de inglês e
fechando seus negócios no Rio, onde era o sócio em uma loja de
sapatos. Dinheiro era um sério problema. Dr. Kalley escreveu a
Spurgeon: “Dezesseis anos se passaram, desde que comecei meu
trabalho no Brasil, e a igreja tem crescido lentamente. No momento,
há cento e cinqüenta membros e todos muito pobres. Eu mesmo tenho
de pagar todas as despesas para manter a igreja: água, luz, etc. A
respeito de João Manoel Gonçalves dos Santos… pagarei sua passagem
de volta a Inglaterra, bem como a maior parte de sua manutenção e
de seus estudos”. Santos viajou, finalmente, em 8 de agosto de 1872.
Ele tinha trinta anos de idade e, após seus estudos, serviu a Igreja
Fluminense por trinta e nove anos; e, como um agente da Sociedade
Bíblica, serviu a todas as igrejas do Brasil.

DISCUSSÕES SOBRE O BATISMO


A questão do batismo infantil continuava a agitar as reuniões da
igreja. Por um longo tempo, Dona Christina Fernandes Braga, esposa
de José Luiz Fernandes Braga, tinha expressado o desejo de se tornar
membro da Igreja Fluminense, mas tinha sido impedida de realizar seu
desejo, visto que a igreja exigia que ela se submetesse ao batismo dos
crentes, administrado por aspersão. Dona Christina era de procedên-
196 JORNADA NO IMPÉRIO

cia alemã e tinha participado das aulas na Escola Dominical da Sra.


Kalley, em Petrópolis, quando era jovem. Ela tinha sido batizada na
infância pelo pastor luterano daquela cidade. Devia sua conversão
aos Kalleys, mas tinha persistentemente se recusado a receber um
novo batismo, baseando-se no fato de que seu batismo tinha sido au-
têntico. Finalmente, ela se rendeu a pressão e aceitou ser rebatizada e
admitida na Ceia da Senhor.
Outro caso surgiu e por um longo tempo resistiu a uma solução.
Uma filha de Gama, Maria Júlia, tinha sido batizada na infância pelo
Dr. Kalley, de acordo com os ritos da igreja presbiteriana, da qual o
doutor ainda era membro naquela época. A discussão nas sucessivas
reuniões da igreja eram acaloradas. Um compromisso foi finalmente
alcançado, provavelmente em consideração ao doutor, devido ao en-
volvimento dele na questão. A igreja decidiu que deveria ser deixado
para a consciência do candidato, neste caso em particular, a decisão
de passar pelo batismo dos crentes ou não, “ficando entendido que a
igreja não aprova, por este ato de tolerância, o batismo de crianças”.
Ela foi, portanto, recebida na membresia da igreja. Este precedente,
no entanto, acabou se tornando um princípio: o batismo infantil prati-
cado por outras igrejas protestantes seria aceito, mas não os feitos
pela Igreja Católica Romana.

ESCOLAS E TRABALHO MÉDICO


Em muitas ocasiões, a questão de iniciar uma escola cristã foi
levantada. Não era fácil abrir uma escola na cidade, pois a permissão
imperial tinha de ser obtida para que a escola tivesse a liberdade de
escolher seus professores. Foi decidido, no entanto, fazer o pedido
para permissão de fundar uma escola independente, especialmente
para os filhos dos crentes. A escola funcionaria no terreno no fundo
da igreja, e o ensino seria gratuito; contribuições voluntárias
financiariam o empreendimento. A escola começou a funcionar em
17 de junho de 1872. Porém, não teve sucesso, devido a problemas
financeiros e a dificuldade de achar professores dedicados.
No início de 1873, mais uma vez uma grave epidemia de febre
ATIVIDADE RENOVADA NO RIO 197

amarela se abateu sobre a cidade. O doutor escreveu um artigo na


imprensa, na tentativa de ensinar o povo medidas preventivas e, como
poderia ser esperado dele, procurando confortar os que estavam
desolados. A igreja também nomeou pessoas para visitarem os doentes
que sofriam em suas próprias casas. Panfletos sobre este mal também
foram impressos e largamente distribuídos. A crise passou. A igreja,
no entanto, continuava a oferecer uma clínica aos mais pobres, os
quais viviam em grande número, nas proximidades da igreja.
CAPÍTULO 22
ALICERÇANDO A
IGREJA NO RECIFE
O Brasil sempre fascinou os exploradores. Sua vastidão, vari-
edade, riqueza e, acima de tudo, seu mistério têm seduzido e desafiado
os aventureiros a descobrirem seus segredos através dos séculos.
Durante o século dezoito, os exploradores brasileiros conhecidos como
Bandeirantes, estabelecidos em São Paulo, fizeram incursões de re-
conhecimento nos interiores longínquos, e em quilombos, em busca de
escravos, ouro, pedras preciosas e, especialmente, a lendária Monta-
nha das Esmeraldas. Eles exploravam e conseqüentemente povoavam
de modo disperso as vastas áreas do interior. No século dezenove,
naturalistas, principalmente britânicos que eram em sua maior parte
emissários do Kew Gardens, adentravam as florestas tropicais da
Amazônia e seguiam pelos bosques do planalto central, descobrindo e
catalogando as infinitas riquezas da flora e fauna brasileira.
Os amigos britânicos e brasileiros dos Kalleys devem ter insistido
com eles para que visitassem as áreas mais civilizadas do interior do
país, a fim de descobrir por eles mesmos o Brasil que “se esconde por
trás das montanhas”. Na segunda metade do século, o interesse
britânico na agricultura e mineração se direcionou ao oeste, no mais
200 JORNADA NO IMPÉRIO

profundo interior do país, formando pequenas “colônias” com o estilo


britânico de vida, mesmo em ambiente tão exótico. A Srta. North, em
suas viagens pelo Brasil, era convidada bem-vinda nestas áreas, como,
por exemplo, numa mina de ouro controlada pelos britânicos, bem no
coração do Brasil. Os Kalleys também teriam sido convidados muito
bem-vindos, mas sempre recusavam cortês e firmemente tais convites.
Eles pensavam numa coisa apenas: que tinham uma missão e pouco
tempo para cumpri-la. Havia pressa e urgência na tarefa dada por
Deus, tarefa que lhes consumia todo o tempo, energia e recursos.
Nada poderia distraí-los desta tarefa.
Um rico industrial inglês lhes ofereceu concessões tentadoras,
caso mudassem sua esfera de trabalho para a Amazônia e se
devotassem à melhoria dos índios. Eles recusaram a proposta e
continuaram a restringir suas atividades às imediações da Baía de
Guanabara – Rio de Janeiro e Niterói.

UMA NOTÁVEL EXCEÇÃO


O doutor não era um missionário itinerante como seus colegas
presbiterianos dos Estados Unidos se tornaram. Ele acreditava que o
trabalho evangelístico poderia ser feito mais efetivamente por nativos
como Gama, Jardim, Vianna – homens de uma fé simples que sabiam
como alcançar o coração do povo. Ele fez, no entanto, uma única
exceção notável, que foi aceitar um convite para visitar Recife, a
capital de Pernambuco, no Nordeste do Brasil. A perseguição lá
ameaçava encerrar o trabalho de modo geral.
O primeiro vendedor de livros a visitar o Recife foi um diácono da
Igreja Fluminense, Manoel José da Silva Vianna, em 1868. Vianna era
um português de origens humildes que aprendeu a ler aos quarenta
anos. Inicialmente, ele se interessou pelas Escrituras por intermédio
de um membro da igreja, mas foi necessário a morte trágica de uma
de suas filhas, em Portugal, para que ele chegasse à fé. Foi batizado
em 1866, e dois anos depois sentiu o chamado de Deus para dedicar
sua vida à venda de livros. A pedido do Dr. Kalley, Vianna se incumbiu
de ir ao Recife.
ALICERÇANDO A IGREJA NO RECIFE 201

Vianna era homem de características muito diferentes das de


Thomas Goulart, que chegou impetuosamente à cidade de Salvador,
na Bahia. Vianna chegou desapercebidamente ao Recife. Foi descri-
to por alguém que o conhecia como um homem de meia idade, careca,
barbado, muito amigável e tolerante, mas com uma força de vontade
que poderia ser transformada em obstinação. Nada o desviaria da
missão para a qual fora enviado. “Com uma sacola na mão esquerda
e alguns livros na direita, ele ia andando pela cidade – sempre sorrin-
do, sempre oferecendo seus livros e, quando a ocasião surgia, estava
sempre pronto a dar uma explicação do conteúdo do evangelho que
oferecia.” O que os holandeses falharam em fazer por meio do mas-
sacrante peso do poder político e militar, “dar a Bíblia ao povo”, Vianna
fez pelo método honrado por Deus – a venda de livros de porta em
porta. Interessantemente, Vianna chegou ao Recife exatamente 200
anos depois que os holandeses se renderam e entregaram a cidade
aos brasileiros vitoriosos!
Um célebre historiador, Dr. Vincente Ferrer de Barros Araújo,
natural de Recife, e fiel defensor dos “calvinistas”, como os protestantes
eram às vezes chamados, declarou que um busto de Vianna deveria
ser erguido num local ilustre da cidade, como um valoroso tributo ao
homem que primeiramente introduziu o evangelho em Pernambuco e
no Nordeste.

A CIDADE DE RECIFE
Recife, assim chamada devido ao recife que segue paralelo à costa
naquele ponto do oceano, era uma cidade de 50.000 habitantes no
meio do século dezenove. O porto, construído em oposição a uma
brecha no recife, era excelente mesmo com sua entrada estreita, mas
que dava para um ancoradouro amplo e seguro, além de ser um dos
mais movimentados do Brasil. Infelizmente, a cidade havia se
degenerado numa favela; pouco de sua glória passada ainda restava,
as ruas não tinham pavimentação, com o esgoto no meio delas, correndo
a céu aberto. Algumas ruas, próximas do centro da cidade, tinham
sobrados com fachadas de ladrilho português e sacadas no andar
202 JORNADA NO IMPÉRIO

superior, e, na maior parte das vezes, eles ficavam ao lado de


construções térreas de natureza indescritível. Havia, naturalmente, o
número usual de igrejas, a maioria de estilo barroco, característico
das maiores cidades do Brasil. Porém, existiam outros prédios públicos
de arquitetura imponente.
Charles Waterton, um naturalista inglês que visitou Recife em
1816, exaltou a beleza dos arredores: “Os dois rios serpenteando atra-
vés da cidade, e os braços do mar, faziam dela uma verdadeira Veneza,
tão numerosas eram as pontes”, e ainda: “Quando vemos o porto de
Pernambuco cheio de navios de todas as nações; quando sabemos
que as ricas mercadorias da África, Ásia e Europa são levadas para
lá, quando vemos a imensa quantidade de madeira colorante, algodão,
frutas frescas e outros bens sendo despejados na cidade, compreen-
demos por que estas pessoas dão pouca atenção aos confortos comuns
que alguém sempre espera encontrar numa cidade rica. Conforme
andamos nas ruas, observamos que a aparência das casas não é das
melhores. Algumas são muito altas e outras, muito baixas; algumas
recentemente caiadas, e outras, sujas e mofadas, como se não tives-
sem donos. A sujeira das casas e a acumulação do feno das mulas de
carga são visões desagradáveis para os visitantes que passam por
ali”. Waterton, no entanto, confessou que após viver por várias sema-
nas na cidade, os vislumbres e cheiros desagradáveis já passavam
despercebidos!
Ele também nos brinda com uma interessante vislumbre do tráfico
de escravos no Brasil. Waterton queria viajar para o norte, de Recife
a São Luiz do Maranhão, mas achou quase impossível arrumar uma
passagem adequada. A maior parte dos barcos que faziam navegação
de cabotagem eram escravistas. Ele descreveu o convés como sendo
um lugar entulhado de carga humana. Os escravos eram oferecidos
àquele que desse o lance mais alto em qualquer dos portos. Em Recife,
assim como no Rio, os Kalleys encontrariam um número anormal de
escravos andando de um lado para o outro, fazendo suas humildes
tarefas nas circunstâncias de maior degradação. Mulas e escravos
estavam no mesmo nível, empregados em intensivo trabalho nas
plantações de cana-de-açúcar, nas cercanias da cidade.
ALICERÇANDO A IGREJA NO RECIFE 203

O POVO DE RECIFE
E como era o povo em geral? Conhecidos como nortistas, viviam
não apenas na própria cidade de Recife, mas também dispersos pelo
interior, no sertão, numa vasta área cobrindo diversos Estados –
Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O Dr.
Gilberto Freire, um dos mais importantes intelectuais brasileiros, ele
mesmo um nortista, declarou que o Brasil não faz parte da América
Latina. Ele baseou sua afirmação no fato de que o brasileiro, em
contraste com os habitantes dos outros países sul-americanos, é o
produto da miscigenação de três diferentes raças: a indígena da floresta
tropical – os habitantes originais; a portuguesa – os conquistadores; e
a escrava africana – a mão-de-obra importada. No resto da América
do Sul, tal mistura de raças não aconteceu; eles eram essencialmente
de origem latina, com um toque de sangue inca nos países voltados
para o Pacífico. Freire ainda disse que os nortistas mantinham suas
origens raciais quase intactas; o processo de embranquecimento
ocorrido no século dezenove passou incólume por eles, uma vez que
os imigrantes europeus – suíços, alemães, italianos – se estabeleceram
no fértil e próspero Sul do país. Os nortistas são de um espírito
ferozmente independente, como foi mostrado quando expulsaram os
invasores holandeses no século dezessete. Citando Freire: “A vitória
fez nascer neles o espírito nacionalista e motivador tão característico
dos pernambucanos”. Nos anos seguintes, o mesmo espírito turbulento
e independente foi a causa de muitas revoltas e levantes políticos. Por
exemplo, um ano antes da declaração de independência do Brasil, em
1822, os pernambucanos já tinham concluído um tratado com as
autoridades portuguesas para que elas abdicassem de todos os seus
direitos e retirassem seus exércitos! Isto por si mesmo já constitui
uma declaração virtual de independência – Pernambuco não fazia
mais parte da colônia portuguesa – e os mais radicais se esforçavam
para declarar Pernambuco independente do Brasil também!
Outro fator contribuiu para a independência e dureza dos nortistas
– a rispidez do clima e do ambiente. Todo o sertão sempre foi assolado
por um ciclo de secas, ocorrendo mais ou menos a cada década. Por
204 JORNADA NO IMPÉRIO

dois, três ou até mesmo quatro anos, nenhuma gota de chuva caía,
ocorria uma quebra na safra e nada era colhido. Isto significava para
eles grande fome e a sobrevivência apenas dos mais fortes. Após
duas estações sem chuva, e minguadas as esperanças de uma colheita,
os sertanejos iniciavam sua longa jornada, centenas de quilômetros
em direção às cidades costeiras. Durante o percurso muitas crianças
morriam, e os poucos miseráveis que sobravam do que antes era uma
grande família, emagrecidos a pele e osso, se arrastavam pelos
caminhos.

O EVANGELHO CHEGA AO RECIFE


Foi para estes nortistas que Vianna levou o evangelho. Durante
sua primeira curta visita, em 1868, seguida por uma estada mais pro-
longada, em 1871, Vianna achou que as perspectivas para o evangelho
eram boas. Ele encontrou, como já esperava, um muro proibitivo de
ignorância e superstição, um tradicionalismo profundamente enraiza-
do e a fanática observância das festas religiosas, mas ele astutamente
observou rachaduras nas barreiras da oposição. Nem todos rejeita-
vam sua oferta das Escrituras ou recusavam ouvir suas explicações.
Alguns escutavam atentamente ao que ele dizia, compravam cópias
das Escrituras e as liam por conta própria. Alguns poucos professa-
vam conversão e começavam a se encontrar regularmente para o
estudo bíblico. Vendo estes sinais de bênção, Vianna se apressou em
voltar ao Rio e obteve do Dr. Kalley apoio para se mudar para o
Recife com sua esposa e família.
Eles alugaram uma casa num dos locais pobres da cidade, próximo
do cais. Vianna escreveu entusiasticamente ao Dr. Kalley: “Fomos
recebidos maravilhosamente pelos irmãos daqui. No domingo, 1o de
dezembro, tivemos uma reunião em uma casa – minha própria casa
ainda não estava pronta para ser usada como local de reuniões. Comprei
bancos e lâmpadas; ontem, finalmente, fizemos a primeira reunião em
nossa casa. Dezenove pessoas estavam presentes de manhã, e vinte
e sete, à noite. Dezessete se matricularam para a escola dominical”.
O culto doméstico, que acontecia todos os dias, atraía a atenção dos
ALICERÇANDO A IGREJA NO RECIFE 205

vizinhos. O tom dos hinos era tão vívido, e as palavras tão fáceis de
entender, que apenas pelo cantar dos hinos o evangelho já era pregado.
Gradualmente, a congregação cresceu em número.

PERSEGUIÇÃO
A venda de livros não era fácil; demandava perseverança. Vianna
ia de casa em casa, de rua a rua, ao mercado, na verdade ele ia para
qualquer lugar onde houvesse pessoas. À medida que o tempo passava,
Vianna estendia seu trabalho de venda de livros para locais bem no
interior do Estado. Lá, nas províncias, assim como na cidade, ele sofria.
Era constantemente perseguido. As multidões proferiam insultos contra
ele, agarravam sua bolsa e espalhavam seus livros pelo chão e, então,
os destruíam, pisando sobre eles e atirando-os no meio da sujeira. Sob
a instigação do padre local, a polícia ainda confiscou todos os livros
que lhe restaram, passaram a fazer vistas grossas à violência da
multidão e até encarceraram o intrépido vendedor. As pessoas foram
proibidas, sob pena de excomunhão, de lerem a Bíblia ou até mesmo
de possuírem uma. A palavra “Protestante” era usada com bons
resultados. Se pronunciada lenta e deliberadamente transmitia uma
expressão de ódio sem paralelos.
A perseguição seguiu o mesmo padrão que o próprio Dr. Kalley
experimentara em Madeira. Quando se tornou óbvio que as ameaças
de excomunhão não conseguiam dissuadir a todos de lerem a Bíblia, o
clérigo tentou provar que a Bíblia era falsa. Para eles, a única Bíblia
legítima era a versão católica romana, traduzida do latim e com a
aprovação das autoridades eclesiásticas. Eles declararam não haver
necessidade de os leigos lerem a Bíblia, pois o único intérprete das
Escrituras era a Santa Madre Igreja, e nela se poderia confiar para
transmitir qualquer conhecimento bíblico que as pessoas comuns
precisassem. Se qualquer outra informação fosse desejada, então, o
padre poderia ser perguntado. Em qualquer caso, eles argumentavam,
a Bíblia era lida todos os dias na missa, portanto, ao participar dela, o
povo já estaria ouvindo o evangelho. Nenhuma menção foi feita ao
fato de que a missa era toda em latim!
206 JORNADA NO IMPÉRIO

A BÍBLIA SOB ATAQUE


O que aconteceu em Salvador, no entanto, se repetiu no Recife.
Os homens cultos e de pensamento liberal levantaram-se em defesa
de Vianna. Eles procuravam provar duas coisas: que havia apenas
uma Bíblia verdadeira, quer seja protestante ou católica, caso em que
a Igreja Católica não era a única intérprete das verdades bíblicas; que
o homem comum tinha o direito de ler a Bíblia por si próprio e de “ler,
aprender e digerir” a verdade evangélica. Artigos em defesa de Vian-
na apareceram na imprensa, e panfletos sobre a veracidade da “Bíblia
de Vianna” foram largamente distribuídos. As bases de tão vivaz de-
fesa já estavam preparadas, porque Kidder em suas viagens pelo
Brasil, aproximadamente trinta anos antes, visitara brevemente o Re-
cife e, enquanto permaneceu por lá, distribuiu cópias das Escrituras.
O clérigo imediatamente iniciou um ataque contra estas “Bíblias falsi-
ficadas”, declarando que elas não somente eram falsas como também
incompletas. Os padres despertaram a ira de um dos mais renomados
protagonistas da tolerância religiosa, o General José Ignácio Ribeiro
de Abreu e Lima Filho (1796-1864). O general era pernambucano e
típico nortista, um independente. Além de ser um distinto militar, era
um professor de reputação e um ardente reformador. Seus pontos de
vista liberais, corajosamente expressos, já tinham se mostrado inacei-
táveis às autoridades brasileiras, e ele fora preso e exilado.
Durante o exílio, o general teve um importante papel nas guerras
de independência tanto da Venezuela quanto da Colômbia. Mais tarde,
ele foi reintegrado e voltou para o Recife. Ninguém era mais adequado,
tanto por temperamento quanto por ter aprendido a defender a Bíblia
de Kidder. Ele escreveu uma defesa bem fundamentada da Bíblia,
usando o grego e o hebraico onde necessário, e citando também os
pais da igreja. Ele usava o pseudônimo O Cristão Velho, e seus
argumentos eram irrefutáveis. Por ser uma figura pública, famoso por
seus feitos nas forças armadas, na literatura e na política e, por mais
incrível que pareça, um católico fervoroso – suas palavras tinham
peso. A igreja nunca o perdoou, e, quando morreu, o bispo de Olinda
ALICERÇANDO A IGREJA NO RECIFE 207

se recusou a permitir que ele fosse enterrado no solo consagrado. Os


britânicos abriram as portas do cemitério da Igreja Anglicana, e ele foi
enterrado ali com todas as honras que aqueles protestantes estrangeiros
poderiam lhe dar. Este incidente fez crescer a raiva do imperador, e
ele repreendeu o bispo publicamente. Este mesmo bispo foi depois
sentenciado a quatro anos de prisão por má conduta!
Portanto, quando a Bíblia de Vianna foi atacada, a memória de
Abreu e Lima ainda estava vívida nas mentes dos mais cultos daquela
população.

MISSIONÁRIOS PRESBITERIANOS EM RECIFE


Em 1873, Vianna tinha um número considerável de pessoas que
se reuniam como igreja para adorar todos os domingos. O primeiro
missionário presbiteriano em Recife, o Reverendo John Rockwell Smith,
americano, chegara recentemente. Ele é respeitado pela Igreja
Presbiteriana do Brasil como missionário pioneiro no Norte e Nordeste
do país e como o fundador do seminário no qual a primeira geração de
ministros nacionais receberam treinamento. Seu cavanhaque levou
seus seguidores a lhe darem o árduo título de “bode”! Smith descreveu
um culto conduzido por Vianna, no qual esteve presente pouco depois
de sua chegada: “A primeira reunião da qual participei, no domingo de
manhã, ocorreu da seguinte maneira: hino e oração, leitura dos três
primeiros capítulos da primeira epístola de Pedro, acompanhados por
comentários em cada versículo, hino e oração. O culto todo durou em
torno de duas horas. A pequena congregação, com as Bíblias abertas,
era muito perspicaz, muito atenta e aparentemente muito devota. Talvez
eles possam servir como desafio a muitas outras congregações na
minha terra. No fim da reunião, todos vieram me cumprimentar, e um
senhor de idade o fez segurando minha mão com ambas as suas.
Vianna está muito satisfeito com minha vinda, e, ao dizer-lhe que
esperava a chegada do Sr. e da Sra. Boyle, ele me assegurou que
havia muito espaço na cidade para três igrejas… Estes são os primeiros
frutos nesta região”.
208 JORNADA NO IMPÉRIO

CULTOS SUSPENSOS
O Dr. Kalley aceitara o pedido de Vianna para visitar o Recife,
mas a perseguição ameaçava fechar a igreja antes de sua chegada.
Um inspetor de polícia invadiu brutalmente um dos cultos e ordenou
que todas as reuniões deste tipo cessassem imediatamente. Em vão,
Vianna apelou ao chefe de polícia: o homem se recusou a intervir.
Vianna levou o caso ao governador do Estado, e, quando este se recu-
sou a garantir o direito constitucional de liberdade de culto, Vianna
ameaçou apelar às autoridades imperiais no Rio de Janeiro. Não era
mais possível ter cultos: a polícia tinha lacrado as portas do salão onde
eles se reuniam. O Sr. Rockwell Smith tinha, a esta altura, aprendido
português e estava pronto para começar a pregar. Ele conversou pes-
soalmente com o governador e lhe foram asseguradas quatro coisas:
a Constituição lhe garantia absoluta liberdade para propagar suas idéias
religiosas; ele poderia dirigir cultos em prédios sem semelhança com
uma igreja; quando convidado, poderia ajudar nas escolas públicas;
poderia ter cultos domésticos em sua própria casa. Enquanto na pre-
sença do governador, o Sr. Rockwell Smith aproveitou a oportunidade
para defender a causa de Vianna, de forma que poucas semanas an-
tes da chegada do Dr. Kalley a proibição foi revogada. A congregação
estava então pronta para voltar às suas atividades normais.
Todos estes incidentes despertaram o interesse público. A imprensa
publicou manchetes sobre a ação arbitrária da polícia, e o boletim dos
jesuítas vituperou Vianna e todos os seus trabalhos. Uma vez que,
dentre outras coisas, Vianna foi acusado de caluniar a Virgem, alguém
no Rio esboçou um manifesto doutrinário das crenças protestantes,
que um jornal no Recife publicou com muito prazer. Os maçons e o
bispo se envolveram numa calorosa discussão. Tal publicidade foi boa
para o evangelho e preparou o caminho para a visita do Dr. Kalley.

A VISITA DO DOUTOR
Havia apenas um modo de viajar do Rio para Recife, que era de
ALICERÇANDO A IGREJA NO RECIFE 209

navio, visto que não havia estrada ligando as duas cidades. Os navios
a vapor navegavam de porto em porto, facilitando grandemente tanto
o comércio quanto as viagens. Em 20 de setembro de 1873, os Kalleys
embarcaram no Rio e oito dias depois chegaram no Recife. Não era
fácil encontrar acomodações; não havia hotéis na cidade e todas as
casas para hóspedes eram desonrosas. Quando ouviram falar destas
dificuldades, os missionários americanos imediatamente ofereceram
hospitalidade.
A pequena congregação em Recife reunia-se, naquele tempo, na
oficina de um artesão, Alexandre Soares. A forma como os hinos
eram cantados angustiavam a Sra. Kalley – lentamente, fora do tom,
com notas erradas, mas, ainda assim, com grande prazer! Ela começou
a remediar a situação – árdua tarefa! A primeira atitude do Dr. Kalley
foi ministrar aos crentes, que eram em torno de trinta pessoas. Ele
pregou e ensinou em todas as oportunidades que surgiram. Com Vianna
e sua esposa, os Kalleys compilaram uma lista de candidatos ao batismo
– a primeira assembléia da igreja em Recife. Durante os dias seguintes,
conversaram com os candidatos um por um, e, finalmente, chegaram
à conclusão que apenas doze deles estavam prontos para o batismo.
Uma minuta, registrando a decisão e os doze nomes, foi feita. O Dr.
Kalley visitou formalmente as autoridades municipais para conversar
sobre o registro de casamentos de não-católicos; visitou também o
cônsul britânico, Capitão Doyle, e, ainda, a Srta. Davies, que mantinha
uma casa para hóspedes ingleses. Olhando apenas para sua tarefa
principal, fazer Cristo conhecido em Recife, ele passou a pensar nas
várias possibilidades nas quais a tarefa poderia ser executada. Ele
pediu à Srta. Davies para usar sua casa como o ponto de suas palestras
aos britânicos e americanos sobre a Terra Santa. Em torno de quarenta
pessoas ouviram o doutor falar sobre a Palestina e, conseqüentemente,
sobre algumas verdades do evangelho também. O doutor procurou
meios de repetir sua palestra em português para o grande público. A
dificuldade era encontrar um local suficientemente espaçoso.
Finalmente, conseguiu dar sua palestra em um teatro, e, uma vez que
a palestra fora largamente divulgada, o prédio ficou lotado.
Uma das figuras mais proeminentes na literatura e política, Dr.
Vincente Ferrer de Barros Wanderley Araújo, estava presente na pla-
210 JORNADA NO IMPÉRIO

téia e ficou extremamente impressionado com o que ouviu, assim como


com o próprio palestrante. Anos depois, o Dr. Vincente escreveu uma
erudita e bem argumentada defesa dos crentes em Pernambuco, num
tempo de severa perseguição. Na outra ponta da escala social, um
jovem português, Manoel de Souza Andrade, que chegara recente-
mente de Açores e estava empregado como atendente no teatro, ouviu
o evangelho naquela noite e pouco depois foi convertido. Estava des-
tinado a se tornar um dos presbíteros e líderes na igreja. Um fato
curioso sobre sua conversão é que, quando voltou para casa com uma
Bíblia e anunciou à sua mãe, uma viúva, ser agora um crente, a forte
senhora idosa, católica fervorosa, ficou tão enraivecida que apanhou
uma vassoura e bateu no filho até quebrar o cabo em suas costas! Ele
se submeteu calado ao espancamento; depois que ela terminou a sur-
ra e recuperou o fôlego, ele anunciou: “Mãe, você pode me bater, mas
uma coisa não pode fazer, e isto é tirar o evangelho de mim!”

A IGREJA É ORGANIZADA
Dos doze candidatos aceitos para o batismo, três casais estavam
vivendo juntos sem serem casados. Antes do batismo, precisavam
legalizar sua situação. Então, exercitando o direito que a lei brasileira
lhe dava, o Dr. Kalley, na posição de pastor, conduziu a cerimônia de
casamento e legalizou os documentos com as autoridades. Em 19 de
outubro de 1873, o Dr. Kalley organizou a congregação em igreja, a
Igreja Evangélica Pernambucana, a primeira igreja evangélica de
nativos no Nordeste do Brasil, e a segunda do país. Naquele dia, os
doze foram batizados. Imediatamente depois dos batismos e da
organização formal da nova igreja, a Ceia do Senhor foi celebrada, e
os convertidos foram iniciados na verdadeira “comunhão dos santos”.
Com toda esta divulgação e atividade, era evidente que um espa-
ço maior para a igreja seria urgentemente necessário. Uma casa muito
maior foi alugada e mobiliada com o essencial, com a finalidade de
realizar os cultos ali. Durante a semana, o Dr. Kalley conduziu outra
cerimônia de casamento: dois daqueles recentemente batizados se
casaram. Ele, mais tarde, descreveu o que aconteceu: “O salão esta-
ALICERÇANDO A IGREJA NO RECIFE 211

va cheio de pessoas que participavam calada e reverentemente, em


contraste com o tumulto do lado de fora, na rua. A polícia foi chamada
e logo estava invadindo o salão. Ignorantes do decreto de 17 de outu-
bro de 1863, que permitia o casamento de não-católicos por uma pessoa
competente – um pastor – eles declararam que ninguém tinha o direi-
to de conduzir tais cerimônias de casamento. As autoridades não se
moveram para dispersar a multidão, e, quando fui embora, acompa-
nhado por minha esposa, fomos seguidos por uma multidão de 500 a
600 pessoas que vaiavam, gritavam obscenidades, atiravam sujeira e
pedras sobre nós e, finalmente, nos obrigaram a procurar refúgio, o
qual nos foi gentilmente oferecido na Rua dos Caldeiros. A rua per-
maneceu tomada pelos gritos da multidão até bem depois de
meia-noite”. Na noite seguinte, houve mais demonstrações de ódio, e
várias janelas do salão de reunião foram quebradas.
O Dr. Kalley conversou com o chefe de polícia. Este, no domingo
seguinte, acompanhado de um grande contingente de policiais, esteve
presente no culto da manhã e “não se ouviu nem sequer o latido de um
cachorro!” Dias depois, na mesma semana, com a ausência da polícia,
houve outra confusão, e janelas foram quebradas. O resultado foi que
a polícia prometeu manter a lei e a ordem no futuro. Outras reuniões
aconteceram sob a vigilância das autoridades, e a perseguição cessou.
Durante aquele mês de duras experiências, os Kalleys receberam
graciosa ajuda dos Boyles, que teriam feito ainda muito mais, caso
fossem fluentes em português. No dia 10 de novembro, os Kalleys
embarcaram num navio inglês, o Magellan, para o Rio e para casa.
Eles deixaram Recife com um senso de “missão cumprida”. A
Igreja Evangélica Pernambucana tinha sido completamente organizada,
e os crentes, animados e encorajados; a perseguição tinha sido
suportada e se revelado infrutífera – a igreja fora fortalecida através
disto; as autoridades, o chefe de polícia e o governador do Estado
garantiram que a liberdade de culto seria mantida; um relacionamento
cordial se estabeleceu com os presbiterianos americanos. A causa do
evangelho se enraizara no Nordeste e nada poderia impedir seu
crescimento.
CAPÍTULO 23
ÚLTIMOS DIAS
NO BRASIL
D e volta ao lar, no Rio, os Kalleys voltaram à sua rotina tanto
em casa quanto no trabalho. Um ano cheio de acontecimentos, 1873,
estava chegando ao final.
Da pena do doutor ainda fluíam artigos para a imprensa, panfletos
e, acima de tudo, cartas. As notícias que vinham de Illinois eram per-
turbadoras. As igrejas madeirenses naquele local estavam profunda-
mente divididas: influências cismáticas trouxeram destruição na
comunhão dos crentes. Tais acontecimentos entristeciam profunda-
mente o Dr. Kalley, que escreveu cartas pastorais num esforço para
curar as divisões. Ele estava revivendo as experiências de Paulo com
a igreja de Corinto. Em contraste, vinham boas notícias da ilha da
Madeira. O remanescente que continuou lá, após as perseguições da
década de 1840, tinha se organizado em igreja e dava testemunho
eficaz. Os irmãos em Pernambuco, no entanto, estavam experimen-
tando dificuldades. A Sociedade Bíblica, que era em parte responsá-
vel pelo sustento de Vianna, demandava que ele desse mais tempo à
venda de livros e menos tempo à igreja, ameaçando transferi-lo. Os
bons contatos do doutor foram procurados para firmar um acordo, e
214 JORNADA NO IMPÉRIO

como resultado Vianna pôde permanecer em Recife. Na igreja do


Rio, dois dos líderes se mostraram criadores de problemas e, embora
tivessem deixado a igreja e se unido aos presbiterianos, ainda continu-
avam a criar problemas. O Sr. Holden tinha passado alguns meses na
cidade, após abraçar as doutrinas dos Irmãos de Plymouth. E tal foi
sua influência entre os membros da Igreja Fluminense, que alguns a
abandonaram para se unir à igreja que ele fundara na cidade. Mas,
fazendo justiça ao Sr. Holden, deve ser dito que isso não foi resultado
de proselitismo deliberado da parte dele, e sim da estima que certos
membros da Igreja Fluminense sentiam por ele. Com o passar do
tempo, no entanto, a maior parte dos desertores acabou se desiludindo
e retornou à Igreja Fluminense. O cuidado de todas as igrejas pesava
muito sobre os ombros do doutor.
Durante estas dificuldades, a Sra. Kalley continuava ajudando-o.
Por alguns anos, ela se responsabilizou pela supervisão do trabalho
dos vendedores de livros: recebia seus relatórios, supervisionava as
finanças, supria seus estoques de livros e dava-lhes todo o encoraja-
mento em suas difíceis tarefas. Para eles a perseguição, o espanca-
mento e até mesmo o aprisionamento eram um modo de vida. Ela
também ajudou os pregadores leigos a prepararem seus sermões, cer-
tificando-se de que eles realmente expunham o texto. Em certas oca-
siões, supria seu marido com esboços de sermões sugeridos por ela.
Anteriormente, em sua classe bíblica, em Torquay, seu treinamento
para lidar com homens lhe foi vantajoso na sociedade brasileira com
seu clima extremamente chauvinista. De uma forma muito prática,
ela procurava reduzir a carga de trabalho de seu marido.

TERESÓPOLIS
Quase no fim do ano de 1874, as pressões do trabalho, combina-
das com o calor opressivo da cidade, obrigaram os Kalleys a fazerem
uma nova parada. Foram para Teresópolis, na Serra dos Órgãos, ao
oeste de Petrópolis, onde um rico e sociável inglês, o Sr. Lowe, cons-
truíra “chalés de férias” em sua vasta propriedade. A viagem até lá
era ainda mais cansativa que aquela para Petrópolis, pois não havia
ÚLTIMOS DIAS NO BRASIL 215

estrada de ferro cruzando os pântanos. Aquela parte da viagem, da


baía até as montanhas, era feita num veículo puxado por mulas. O
resto da viagem, uma trilha que serpenteava as montanhas em dire-
ção ao topo e ao redor da base da gigantesca rocha de granito, conhe-
cida como “Dedo de Deus”, era feita a cavalo. A vista do alto da
trilha, contemplando a baía, era de tirar o fôlego, e diz-se não haver
qualquer outra, no mundo, que a supere. Tais cenas regozijariam a
natureza artística da Sra. Kalley e a compensariam pela subida exaus-
tiva. A trilha estava em obras para ser alargada, e o doutor decidiu
passar o dia com o grupo de homens que trabalhava ali. Alguns dias
depois, retornou àquele acampamento, a fim de distribuir literatura
evangélica e conversar com os homens sobre as reinvindicações de
Cristo. O impacto deve ter sido muito grande, pois era um doutor,
alguém da classe alta, que se deu ao trabalho de descer toda a monta-
nha apenas para conversar com eles! Isto era típico deste homem: ele
podia falar sobre o evangelho com homens de todas as classes e ní-
veis sociais, do imperador aos trabalhadores na beira da estrada.
Apesar de Teresópolis ficar na principal “rodovia” para o interior,
com um fluxo constante de mulas e carroças passando por ali, a cida-
de ficava numa área ainda muito selvagem. As florestas tropicais ao
redor das clareiras não eram mais povoadas pelos índios – eles foram
forçados a se retirarem para o interior – mas a superabundante flora
e fauna do Brasil era evidente em todo canto. Nestas novas vizinhan-
ças e clima revigorante, o doutor e sua esposa descansaram e se
recuperaram. Estavam, obviamente, em contato freqüente com a igreja
na cidade, com os mensageiros levando cartas de cá para lá.

CRISE NO BRASIL
Depois de algumas semanas, retornaram para casa. 1875 provava
ser um ano difícil para o Brasil. A história brasileira é marcada por
tempos de crise, e 1875 era mais um deles. O país ainda cambaleava
pela longa Guerra do Paraguai (1864-1870), uma luta que custara ao
país milhares de vidas e que quase o levou à bancarrota. Vários grupos
pressionavam e faziam sua influência ser sentida de forma cada vez
216 JORNADA NO IMPÉRIO

mais forte. Na política, o “Partido Republicano” se fazia ouvir cada


vez mais, e o imperador, caracteristicamente, era brando com aqueles
que se opunham a ele. Ao apontar um novo ministro, em certa ocasião,
alguém fez uma objeção: “Mas ele é republicano!” Fiel à sua natureza,
o imperador respondeu: “Ele é o melhor homem para esta função,
qualquer que seja sua posição política”.
O movimento antiescravagista estava sentindo que se aproxima-
va da vitória e aumentou ainda mais sua pressão, entretanto, a
característica mais significativa da crise era o distanciamento cada
vez maior entre Igreja e Estado. O Estado sempre procurou restringir
o poder da Igreja, nunca provocando uma confrontação aberta, mas
implementando medidas asseguradoras de que a Igreja não tomaria o
completo controle do país. O imperador e seus ministros mais sábios
detestavam as intrigas políticas da Igreja Católica Romana e as expu-
nham. A Igreja Católica ficou ainda mais enfurecida contra o Estado
por sua brandura com os “intrusos protestantes”. Eles olhavam des-
confiadamente para a amizade entre os Kalleys, o palácio real e a
Corte. O bispo de Olinda ficou aprisionado por quatro anos, os jesuí-
tas haviam sido expulsos do país, e medidas de repressão foram
introduzidas para conter o clero obstinado. Os intelectuais da época
declaravam que a completa separação entre Estado e Igreja não po-
dia ser adiada por mais tempo. Esta tolerância, no entanto, não eliminou
oficialmente a perseguição aos crentes em níveis locais. O Reveren-
do Blackford, no interior do Estado de São Paulo, experimentou
oposição similar àquela experimentada pelo Dr. Kalley no Rio de Ja-
neiro, Niterói e Recife. Mas a recém-fundada igreja, embora formasse
uma pequena minoria, estava viva e crescendo.

HOSPITALIDADE
Os Kalleys não tinham filhos deles mesmos e, nesta época, tinham
adotado um menino brasileiro, João Gomes da Rocha; mais tarde,
adotaram uma menina, Silvânia Azara, ou Sia, como era chamada em
casa. Havia um fluxo constante de convidados e hóspedes naquela
casa tão hospitaleira: no almoço, vendedores de livros ou pessoas
ÚLTIMOS DIAS NO BRASIL 217

comuns da igreja; no jantar, diplomatas das embaixadas britânica,


americana e outras, visitantes de outros países e amigos brasileiros. A
Sra. Kalley era uma anfitriã graciosa, particularmente ao presidir,
durante a tarde, festas de chá para suas amigas.

PASTORES BRASILEIROS TREINADOS


O programa de treinamento para ministros brasileiros agora tomava
forma. João Manoel Gonçalves dos Santos estava quase terminando
seu curso na Faculdade de Pastores, de Spurgeon, e dois jovens de
Recife também sentiram o chamado de Deus para o ministério, Aderito
Gomes da Silva e Leônides Francisco da Silva. O Dr. Kalley escreveu
para seu amigo, Dr. Grattan Guinness, que recentemente fundara o
East End Training Institute, pedindo sua ajuda. Ele foi prontamente
atendido, e os dois candidatos foram enviados para Londres. Aderito
Gomes não retornou ao Brasil e permaneceu na Inglaterra; seria
Lêonides um dos principais pastores nas igrejas de Kalley.
Ao término de seu curso na faculdade, João Gonçalves dos Santos
começou a jornada de volta ao Brasil. O Dr. Kalley sugeriu que ele
parasse no Recife para ministrar à igreja de lá. Ele fez isto e
permaneceu lá por um mês. Finalmente, chegou ao Rio de Janeiro, no
final de setembro, e recebeu boas-vindas muito calorosas da igreja.
Pouco depois de sua chegada, foi eleito co-pastor e formalmente
registrado para realizar cerimônias de casamento. Logo, se mostrou
um pastor cuidadoso e eficiente.
Com a chegada do novo pastor, os Kalleys decidiram que estava
na hora de se aposentarem e voltarem à Grã-Bretanha. A igreja
prosperava e já contava com 120 comungantes; um pastor brasileiro
fora empossado; havia um corpo maduro e disciplinado de homens
leigos; trabalhos evangelísticos estavam sendo feitos nos subúrbios do
Rio, no outro da baía, em Niterói, e, através da venda de livros, no
vasto interior do país. A estação quente estava se aproximando, de
forma que o doutor e sua esposa viajaram a Petrópolis para uma
prolongada estada. De lá, escreveram para a igreja notificando sua
intenção de voltaram para a Escócia. Durante a estada em Petrópolis,
218 JORNADA NO IMPÉRIO

os Kalleys tiveram oportunidade de falar com o imperador e sua esposa


e se despediram. Os preparativos para a viagem estavam sendo feitos.

OS VINTE E OITO ARTIGOS


Durante o período relativamente curto de vinte e um anos em que
viveu e trabalhou no Brasil, o doutor firmou as bases para um trabalho
contínuo do evangelho. Ele deu a Bíblia às pessoas; treinou os
convertidos para testemunharem o evangelho, não apenas pela
pregação, mas também com suas próprias vidas; preparou um grupo
de poderosos pregadores leigos; iniciou a preparação para um
ministério nacional; deu à igreja no Brasil um hinário e instigou uma
interpretação exata da Constituição Brasileira no tocante à liberdade
religiosa. Havia, no entanto, uma coisa que ainda precisava ser feita:
dar à igreja uma declaração doutrinária de fé. Por algum tempo, o Dr.
Kalley esteve preparando uma declaração de fé para ser incorporada
no estatuto das igrejas do Rio e do Recife. Ele apresentou uma cópia
preliminar às igrejas e, com apenas algumas emendas, a declaração
foi aprovada em julho de 1876. Ela é conhecida como Os Vinte e Oito
Artigos. Na realidade, o documento era mais que uma explicação, de
forma ordenada, das principais doutrinas de fé – o Deus triúno, o
homem, a salvação em Cristo, a igreja, a consumação de todas as
coisas. Era o selo do Dr. Kalley para tudo quanto alcançara. Assim
como o fixar o selo autentica um documento, Os Vinte e Oito Artigos
eram o selo e assinatura do doutor, comprovando que seu trabalho era
alicerçado na Bíblia, centrado em Cristo e glorificador de Deus. Este
selo autêntico seria passado para as gerações futuras nas igrejas de
Kalley.
Em junho, a Sra. Kalley conduziu sua última reunião da Sociedade
das Senhoras, antes de sua partida, e, em 2 de julho, o Dr. Kalley
conduziu o último culto e a Ceia do Senhor. Oito dias depois,
embarcaram para casa em meio a cenas de emoção, tão características
das despedidas no Brasil. Sob as ordens divinas, vieram ao Brasil, a
terra da cruz sem Cristo; agora deixavam-no, com a verdadeira cruz
firmemente incrustada no solo.
PARTE 3
MISSÃO CUMPRIDA
CAPÍTULO 24
CAMPO VERDE
A pós chegarem na Escócia, os Kalleys fixaram residência em
Edimburgo. Compraram uma propriedade no distrito de Merchiston e
construíram sua casa em Tipperlyne Road. Em homenagem à zona
rural de Petrópolis, chamaram o local de Campo Verde. O nome
também nos traz à lembrança o Salmo 23. Tanto o doutor quanto sua
esposa, com suas ricas variedades de dons e seus muitos anos de
experiência, logo se envolveram na vida evangélica da cidade.
O doutor serviu no conselho de diretores de algumas sociedades:
a Sociedade da Reforma Escocesa, a Sociedade Bíblica da Escócia e
a Missão Médica de Edimburgo. Em todas, sua contribuição foi de
grande valor, especialmente no caso da Missão Médica de Edimbur-
go. Por muitos anos, a sociedade tinha estado em contato com ele,
principalmente quando estava preso em Funchal e, durante seus perí-
odos de ausência do campos missionários, era sempre um orador
bem-vindo em suas reuniões. Seu exemplo e testemunho encoraja-
vam os homens a responderem ao chamado de Deus para o campo
estrangeiro como missionários médicos. A MME tinha o doutor em
alta estima: “Em seu caráter pessoal, em seus dons e habilidades, o
Dr. Kalley era um modelo do que um médico-missionário deve ser,
enquanto o tremendo sucesso que acompanhou o seu ‘trabalho de
222 JORNADA NO IMPÉRIO

amor e obra da fé’ é a ilustração mais surpreendente do que um mé-


dico cristão pode fazer como evangelista, sempre corajoso, mantendo
a honra da causa de seu Mestre divino e pronto para sofrer, se neces-
sário fosse”.

CONVERSAS MEMORÁVEIS
Foi em sua casa, no entanto, que os Kalleys fizeram sua mais
valiosa contribuição para o trabalho em Edimburgo. Eles recebiam
visitas a qualquer hora, e a Sra. Kalley excedia como anfitriã. Os
estudantes eram especialmente atraídos, e, nos sábados à noite, a sala
de visitas ficava cheia de jovens. As conversas fluíam livremente e
eram sempre canalizadas, sem qualquer esforço, para assuntos
espirituais. Embora a personalidade atraente da Sra. Kalley cativasse
maior atenção naquelas reuniões caseiras, o doutor sempre tinha alguma
participação especial nelas. A Sra. Kalley escreveu: “Em nossas
alegres noites de sábado, em Campo Verde, muitos amigos queridos
amavam se aproximar da cadeira de meu marido, e eu não duvido que
os anjos, e o Senhor dos anjos, se regozijavam ao ouvir as calmas e
inesquecíveis conversas. Um por um, frente a frente, e de forma muito
sincera, era o método especial de fazer o trabalho de seu Mestre,
embora certamente não fosse o único”. Ela ainda disse: “Geralmente
ficava admirada da maneira como as palavras dele eram relembradas
após vários anos, palavras que poderíamos ter considerado banais”.
Um caso em particular ilustra muito bem este fato.
Em uma carta à MME, o Dr. Kalley escreveu: “Passei um verão
no Líbano (1852) e, enquanto estive lá, devotei de quatro a cinco ho-
ras diariamente visitando os doentes, suprindo-os com os remédios
necessários; muitos vinham de longas distâncias. Raramente fui às
casas de meus pacientes, mas fiz exceção no caso de um jovem ra-
paz, empregado numa fábrica de seda. A mãe deste jovem sofria de
hidropisia, razão pela qual, além de outros remédios, a puncionei. Seu
filho estava presente nestas ocasiões. Deixei a Síria logo depois disto
e nunca mais vi minha paciente, nem sequer ouvi notícia de seu filho,
isso até algumas semanas atrás, quando recebi dele uma carta, escri-
CAMPO VERDE 223

ta em inglês precário. A carta é datada de 1° de dezembro de 1883,


exatos trinta e um anos após nossa última conversa. Nela, ele me
lembrou da operação de sua mãe e disse: ‘Você sempre me falava do
evangelho. Eu ouvia suas palavras não porque acreditasse, mas sim
para que você tratasse da minha mãe’. Ele ainda me contou de seu
casamento, sobre ser um sacerdote grego e como exerceu este minis-
tério ‘com grande prazer por oito anos’. A respeito do nono ao décimo
sétimo ano de seu sacerdócio, ele disse: ‘Seus sermões começaram a
agir em meu coração’. Então, a consciência o obrigou a desistir de
seu sacerdócio; começou a fazer reuniões para adoração espiritual
em sua casa; foi muito perseguido, mas o Senhor estava com ele.
Agora era um professor protestante já há dez anos. Quarenta pesso-
as se reúnem em sua casa para adorar e doze já participam da Ceia
do Senhor. Ele escreveu: ‘Suas palavras permaneceram enterradas
em meu coração por muitos anos, mas então cresceram e se torna-
ram, pela graça de Deus, uma frondosa árvore que floresce e que
continuará a render frutos pelo poder de Deus’. E termina dizendo:
‘Você precisa saber que, quando ouvi que você ainda estava vivo,
minha alegria foi como a de José ao ouvir que seu pai ainda vivia: mas,
oh! para onde deveria enviar as carruagens para chegar até você?’”
Em sua autobiografia, a Sra. Kalley escreveu: “Freqüentemente
tenho ponderado se outros santos de Deus têm sonhos consagrados
como os de meu marido… várias vezes acordei para vê-lo disposto,
transbordando com algum pensamento abençoado de Deus… com
freqüência, ele ficava com estes pensamentos celestiais na cabeça,
até que eu o relembrasse das obrigações diárias neste mundo terreno…
sentindo-me mundana por ter de fazê-lo. Mas não havia nada de
artificial nisto tudo; apenas senti que seu humilde e amoroso coração
habitava entre as coisas de Deus e se regozijava nelas enormemente”.
“O pedido mais freqüente de meu amado marido era que ‘ possamos
conhecer a Deus, como se O estivéssemos vendo’. Eu acho que devo
ter ouvido em suas orações particulares, em família e até mesmo em
público, fazendo este pedido ao Senhor algumas milhares de vezes e
sempre com o mesmo tom de profunda e santa reverência”.
224 JORNADA NO IMPÉRIO

O DOUTOR E A IGREJA ESTATAL


Contrário às suas próprias expectativas em seu retorno a Edim-
burgo, o Dr. Kalley permaneceu como membro da Igreja Estatal da
Escócia. Em seu livro Recollections in Memoriam, a Sra. Kalley
escreveu: “Quando meu marido foi convertido (1834/35) ficou ligado
à Igreja Estatal. Foram alguns dos ministros e presbíteros daquela
igreja que o condenaram pela intromissão no trabalho o qual não tinha
direito de exercer, quando, como um jovem médico cristão, ele juntou
alguns pobres e ignorantes para explicar-lhes as Escrituras… Ele tam-
bém recebeu ajuda dos ministros daquela igreja, a maior parte dos
quais, no entanto, deixaram a Igreja Estatal por motivo do Rompimen-
to. Naquela época (1843), embora simpatizasse bastante com o
movimento, ele não se juntou à Igreja Livre, estando tão absorto pelo
trabalho em Madeira, que não tinha tempo para pensar nisto; e, por-
tanto, realmente pertenceu à Igreja Estatal até o fim. Quando deixamos
o Brasil em 1876, encontramos a Igreja Livre em uma posição muito
diferente da que ocupava anos atrás. A discussão do caso de Robert-
son Smith estava em andamento, e, embora o resultado mostrasse
que a maioria dos líderes da Igreja Livre ainda não estavam a ponto
de defender uma visão mais racionalista, meu amado marido perce-
beu o suficiente para deter-se de uma união formal com ela. Ele contou
sua decisão ao nosso querido amigo, Dr. Horatius Bonar, cujo comen-
tário foi: ‘Você está certo’, pois este também lamentava a forte
tendência decadente da igreja que ele amava e servia tão bem”.

A QUESTÃO DO BATISMO
No Brasil, o caso tinha sido questionado e debatido. O Dr. Kalley
ou sua esposa (ele um presbiteriano e ela uma congregacionalista)
alguma vez procuraram ser rebatizados de acordo com o costume do
batismo dos crentes que eles mesmos estabeleceram na igreja do
Brasil? Em 1837, respondendo a um questionário enviado pela
Sociedade Missionária de Londres, ele escreveu a respeito do batismo:
CAMPO VERDE 225

“Considero esta ordenança terrivelmente aviltada. Tenho me esforçado


por acordar ministros, presbíteros e outras pessoas para os inexprimíveis
perigos incorridos por este e outros abusos. Estou bastante satisfeito
que crianças sejam batizadas, mas apenas as crianças que professam
solenemente a Cristo e vivem vidas de acordo com o evangelho”.
Anos depois, após suas experiências como missionário em Madeira e
no Brasil, sua visão a respeito do batismo mudou. Em uma carta ele
explicou sua posição: “Os pré-requisitos para o batismo são: (a) a
mensagem do evangelho deve ser claramente compreendida; (b) o
coração deve estar aberto para receber a mensagem”, e sua conclusão
foi que estes pré-requisitos de fé e alegria são “inexistentes em uma
criança”.
Em uma carta para o tio de sua esposa, John Morley, dos Irmãos
de Plymouth, ele esclarece melhor sua posição. O batismo com água
é apenas um símbolo do batismo do Espírito Santo, que, caso não
ocorra, torna o primeiro sem sentido, um mero ritual. Ele certamente
não pode salvar, mas é uma confissão pública de fé de uma mudança
radical trazida pela salvação. Com base na morte do Senhor Jesus, o
crente é unido a Ele e se torna um com Ele através do Espírito Santo,
e o doutor conclui dizendo que o Novo Testamento não estabelece
nenhuma forma que seja “única, especial, obrigatória ou universal”.
Ele próprio preferia o batismo por aspersão como o símbolo mais
próximo do batismo com o Espírito Santo, e este foi o tipo estabelecido
como o mais comum nas igrejas que ele fundou no Brasil.
Ele respeitava as práticas das outras denominações, fossem os
pedobatistas ou os imersionistas. Para ele, a forma de batismo não
era de grande importância.
CAPÍTULO 25
NOVIDADES DO BRASIL
E nvolvidos da forma como estavam na vida espiritual em
Edimburgo, a preocupação principal dos Kalleys continuou a ser o
trabalho que tinham estabelecido no exterior. Correspondências fluíam
entre eles e as igrejas do Rio de Janeiro e Recife e, em menor
quantidade, de Illinois, Madeira e Portugal. O Dr. Kalley passava boa
parte do seu tempo escrevendo longas cartas pastorais às igrejas no
Brasil.
Tais cartas se tornaram mais numerosas, quando o Reverendo
Santos se mostrou crescentemente indeciso quanto à controvérsia com
os Irmãos de Plymouth, nos pontos de doutrina e administração
eclesiástica. A vida da igreja foi seriamente afetada, muitos dos
membros, seguidores de Richard Holden, aderiram às novas doutrinas
e procuravam assiduamente “converter” aqueles ainda fiéis às
verdades que haviam aprendido com o Dr. Kalley. Este escreveu oito
longas epístolas alertando os crentes, no Rio e em Recife, sobre os
perigos de aceitar o “darbyismo”, com seu preconceito anti-pastoral e
sua ênfase no indivíduo, em detrimento do conceito de igreja. O Dr.
Kalley considerava o assunto tão urgente que convidou seu amigo
Spurgeon para vir em sua ajuda. O Sr. Spurgeon atendeu ao pedido
prontamente e enviou alguma literatura ao Reverendo Santos para
228 JORNADA NO IMPÉRIO

ajudá-lo a remover a tendência à doutrina dos Irmãos de Plymouth, na


Igreja Fluminense. O esforço foi bem sucedido e um bom número de
membros desviados voltaram às igrejas, desiludidos com os resultados
práticos das doutrinas de Darby. Até mesmo Vianna, no Recife, tinha
sido convidado a se juntar aos darbistas!
O Dr. Kalley explicou por que não tratou estes assuntos através
da mediação da imprensa: “Somente quando penso que um erro exposto
justifica uma defesa, uso algum tempo e forças para escrever contra
isso. Eu oro para que o Senhor abençoe o que escrevo agora e para
que mantenha longe do erro e da falsidade seu pequeno rebanho no
Rio de Janeiro”.

UM PASTOR PARA RECIFE


Uma coisa que pesava na mente do doutor era a necessidade
urgente de mais ajuda no Recife. Os dois estudantes de lá, Aderito e
Leônides, faziam progresso no East London Training Institute, mas
o tempo expiraria antes de estarem prontos a retornar a Pernambuco.
O Reverendo Santos pastoreou muito bem a igreja do Rio, mas Recife
continuava em profunda necessidade de um ministério de ensino, algo
que Vianna não estava qualificado para fazer. Um estudante que ajudara
Aderito, William Bowers, recebeu um chamado de Deus para ir a
Recife. O diretor da faculdade, Dr. Grattan Guinness, endossou
sinceramente, e uma conversa pessoal com Bowers convenceu o Dr.
Kalley de que ali estava o homem de Deus para suprir as necessidades
da batalhadora causa de Recife. A fim de ajudar com as finanças, o
doutor consultou a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, e ela
concordou em empregar Bowers como um agente. William Bowers
foi formalmente ordenado e separado para o ministério por um grupo
de pastores num “Tabernáculo Batista”, em Londres. Ele registrou
seu documento de ordenação no consulado brasileiro, e, assim, foi
oficialmente reconhecido como clérigo, com o direito de conduzir
cerimônias de casamento, funerais e qualquer outra atividade pastoral
que requeresse o endosso das autoridades civis.
Bowers viajou para Pernambuco, chegando em 14 de março de
NOVIDADES DO BRASIL 229

1878. Uma semana depois foi eleito pastor da Igreja Pernambucana.


No domingo, pregou no culto da manhã e, para um iniciante, falou
português muito bem. Ele escreveu ao Dr. Kalley entusiasticamente:
fora muito bem recebido pela igreja; estava gostando da vida na cidade;
e, apesar de uma epidemia de febre que assolava a cidade naquela
época, gozava de saúde perfeita. Em uma carta para o Dr. Kalley, a
esposa de Vianna conta a história: “No dia 28 [de março], o Sr. Bowers
estava sentado sob uma sombra no jardim, mastigando contentemente
biscoitos, enquanto conversava com meu marido. Quando sentou lá,
dei-lhe o restante dos livros da igreja que deveriam permanecer com
ele. No dia seguinte, de caminho à igreja, ele passou em nossa casa.
Estava perfeitamente bem. No dia seguinte adoeceu, mas meu marido
soube apenas no outro dia. Meu próprio marido adoecera e ainda
estava acamado, mas se vestiu imediatamente e foi ver Bowers. Vianna
o encontrou com uma febre muito alta e, no mesmo instante, chamou
um médico. Este declarou que Bowers estava sofrendo da terrível
febre amarela, e disse ainda que provavelmente não se recuperaria,
pois era muito novo no país.
“Imploramos ao doutor que fizesse todo o possível pelo Sr. Bowers,
como se ele fosse seu próprio filho. O doutor começou o tratamento
imediatamente e, no dia seguinte, chamou dois de seus colegas para
estudarem o caso com ele. Todos concordaram estar sendo dado o
tratamento correto, mesmo assim as perspectivas não eram boas.
Durante o dia, meu marido permanecia com ele e à noite era a vez do
Sr. Smith, o missionário presbiteriano. No dia 2 de abril, às 10 horas da
noite, o Sr. Smith chamou meu marido. Ele viu que o fim estava próximo,
e, às duas da manhã, quando meu marido se ajoelhou ao lado da cama
e orou, nosso bom amigo faleceu. Às quatro horas da tarde, levamos
seu corpo ao túmulo.”
Uma vez que a igreja católica ainda não descobrira uma cerimô-
nia pela qual pudesse “desconsagrar”, de acordo com a legislação do
governo, o lugar no cemitério onde os não-católicos descansariam, os
chamados hereges estavam proibidos de ser enterrados em solo “con-
sagrado”. Carinhosa e tristemente, os membros da igreja carregaram
seu corpo a um terreno fora das paredes do cemitério, onde crimino-
sos e suicidas eram enterrados. A fim de guardar o túmulo de qualquer
230 JORNADA NO IMPÉRIO

forma de profanação, a igreja comprou o pequeno terreno no cemité-


rio e erigiu um memorial – algo completamente desconhecido no
“cemitério dos enforcados”. O pesar e agonia de todo este incidente
são refletidos no detalhado relato do enterro, registrado no livro de
atas da Igreja Pernambucana. A tristeza e espanto do pequeno grupo,
apenas doze no total, não conhecia limites; encontravam-se atordoa-
dos. O que viram em William Bowers o tornara muito querido entre
eles, e suas esperanças de um grande movimento de avivamento sob
sua liderança pareciam ser bem fundamentadas. E agora… o Senhor
havia dado e, em menos de um mês, havia tirado.
A morte do Sr. Bowers trouxe uma crise de liderança na Igreja
Pernambucana, assunto que preocupou o Dr. Kalley intensamente.
Algumas pessoas estavam insatisfeitas com a liderança de Vianna, e
a situação se tornou tão tensa, que Vianna e sua família abandonaram
a igreja por um período e se juntaram aos presbiterianos. Foi uma
demonstração de como o espírito independente dos nortistas se
manifesta até dentro da igreja! O tempo é o melhor remédio, e a
situação gradualmente retornou ao normal, com Vianna voltando à
sua posição. A igreja consultou o doutor sobre como um leigo poderia
presidir a Ceia do Senhor. Esta e ainda outras dúvidas similares eram
constantemente levadas ao doutor para sua decisão.

SR. FANSTONE VAI A RECIFE


Quando as notícias da morte trágica de William Bowers chegaram
à faculdade de treinamento, outro estudante se voluntariou para ocupar
o lugar do colega – James Fanstone. Intelectual e espiritualmente, ele
estava bem preparado para a tarefa, mas fisicamente sofria de um
sério problema: era manco, resultado de uma queda dos galhos mais
altos de uma árvore, na qual, quando garoto, tinha ousado subir. Ainda
convalescente, sua perna estava longe de estar curada, ele subiu na
árvore novamente para provar que podia fazê-lo! O Dr. Guinness
recomendou grandemente James Fanstone por seu excelente caráter,
vontade invencível e profunda espiritualidade. O Dr. Guinness sabia a
sua história também; que fora disciplinado pela dura escola da
NOVIDADES DO BRASIL 231

experiência. Ficou órfão cedo, de forma a ser forçado a deixar a


escola e aprender a ganhar seu próprio dinheiro como sapateiro, algo
que tinha sido uma ótima preparação para todas as privações e
sofrimentos que haveria de passar no Brasil. O Dr. Kalley convidou o
jovem homem para vir à sua casa, em Edimburgo, e ficou muito
impressionado. Concluiu que ele preenchia todos os requisitos
necessários para o trabalho no Nordeste brasileiro. O Sr. Fanstone
passou, mais tarde, por uma complicada operação na perna e ficou
cinco meses no hospital. Como resultado, ficou “menos manco”, porém,
ainda precisava usar pinos na perna e mesmo um par de muletas em
certas ocasiões.
Nesta mesma época, Leônides tinha completado seu curso e estava
pronto para retornar ao Brasil. O doutor assinou um contrato com a
Sociedade Bíblica da Escócia, pelo qual tanto James Fanstone quanto
Leônides Francisco da Silva tornaram-se agentes da associação no
Recife. A Sociedade Bíblica lhes daria um pequeno salário e uma
porcentagem das vendas de Bíblias. O dinheiro mal era suficiente
para cobrir suas necessidades mínimas, ainda assim ambos prontamente
aceitaram e foram pela fé. Chegaram no Recife em julho de 1879, e
logo depois o Sr. Fanstone foi eleito o pastor da Igreja Pernambucana.
A experiência mostraria que com sua perna manca, o Sr. Fanstone
não teria condições de participar das constantes viagens demandadas
pela venda de livros. Recife foi construída sobre a areia, e as estradas
e ruas não tinham pavimentação. Era difícil para as pessoas com o
corpo perfeito andarem por estas ruas; para o Sr. Fanstone era quase
impossível, pois o pé e a muleta afundavam facilmente na areia. Foi
apenas sua extrema força de vontade que o manteve no serviço.
Também o calor de Recife, situada bem ao sul do Equador, era
enfraquecedor, ainda mais quando o costume da época exigia que, em
ocasiões formais, fosse usada uma sobrecasaca e chapéu! Para se
manter financeiramente, ele ensinava inglês e se tornou bem conhecido
na cidade como um professor muito procurado, conforme mostram os
registros informadores de que ensinava aos filhos das famílias ricas e
influentes nas próprias casas deles. O conhecimento de inglês adquirido
por estas pessoas colocaria esta geração em boa posição, visto que se
tornaram líderes na política, indústria e comércio.
232 JORNADA NO IMPÉRIO

Fanstone era essencialmente um independente, provendo o próprio


sustento, de forma alguma dependente de ofertas do Dr. Kalley ou de
qualquer outra sociedade missionária. Era solteiro e vivia sozinho, com
estilo de vida simples, até mesmo frugal. Conforme os Kalleys o
conheciam melhor – seu espírito independente, seu jeito modesto de
fazer o trabalho missionário, suas qualidades de liderança – a admiração
por ele crescia. Era um verdadeiro líder e conseguia juntar ao seu
redor ajudantes leais, cujos nomes ainda trazem sentimentos de afeição
e orgulho nos corações dos membros da Igreja Pernambucana –
Andrade, Fonseca, Leônides, Jardim, Campelo. Eram homens bravos,
corajosos e fiéis em seu testemunho, pais na fé para muitas almas,
verdadeiros pilares da igreja do Deus Vivo. Eram diferentes em seu
caráter e dons, mas em amor fraternal serviam juntamente o Senhor.
Jardim fora convertido no assentamento penal da ilha de Fernando de
Noronha, enquanto aguardava a sentença por assassinato. Conforme
a ocasião surgia, ele começava a testemunhar em alta voz sua fé em
Cristo, onde quer que se encontrasse, ainda que tivesse apenas alguns
minutos – no bonde puxado por mulas, numa esquina, no alvoroço e
barulho do mercado. Os fanáticos discursos dos padres, os
comentários indecentes das multidões e o desprezo e indiferença de
alguns não o deteriam. Andrade tinha características mais gentis:
cortês e polido em suas maneiras. Empregado da Companhia da Gás,
ele ia de casa em casa lendo os medidores de gás, recebendo os
valores devidos e, com uma cortesia que não podia ser mal acolhida,
deixava a mensagem do evangelho toda vez que a oportunidade
aparecia. Através do testemunho destes homens, o evangelho penetrava
em todos os estratos da vida da cidade. Os 200.000 habitantes poderiam
ter ecoado o clamor dos tessalonicenses: “Estes que têm transtornado
o mundo chegaram também aqui”.

A MORTE DE VIANNA
Os relatórios das extensivas viagens de Vianna para vender livros
continuavam a chegar ao Dr. Kalley. Embora o tempo cobrasse o
preço de sua saúde, seu zelo continuava inabalável. Ele persistia em
NOVIDADES DO BRASIL 233

seus esforços para distribuir as Escrituras e, ao fazê-lo, formar o núcleo


das futuras congregações. Ele estava no Estado de Sergipe, ao sul de
Pernambuco, numa cidade às margens do rio São Francisco,
aguardando um barco para levá-lo ao interior do Estado, quando ouviu
uma voz advertindo-o a voltar para casa imediatamente. Ele voltou e
encontrou seu genro extremamente doente com febre tifóide e sua
filha deitada, com febre alta. Ele cuidou dos dois até que estivessem
bem novamente, apenas para sofrer ele mesmo depois. Teve um ataque
cardíaco e morreu em poucas horas.
Um por um, Dr. Kalley perdeu seus experientes e fiéis ajudantes
– Hewitson, Pitt, Gama e, agora, Vianna. Com a notícia da morte de
Vianna, chegaram relatos de que um missionário americano chegara
recentemente ao Recife e pouco depois morrera de febre amarela.
Durante as décadas seguintes, o Brasil se mostrou um “túmulo aos
homens brancos”, assim como o foi a África Ocidental aos
missionários!

UM NOVO PRÉDIO NO RIO


No Rio, o número de pessoas que participavam dos cultos no salão
principal na Rua das Partilhas crescia rapidamente. Já havia em torno
de 200 membros e mais um grande número de congregantes. Era
necessário encontrar um prédio maior. O pastor, Reverendo Santos,
habilmente ajudado pelos presbíteros do mesmo calibre de José Luiz
Fernandes Braga, fizeram planos de longo prazo. Comprariam terreno
numa boa localização, numa das ruas mais movimentadas da cidade e
construiriam ali um prédio para servir como “templo”, com assentos
para centenas de pessoas e amplo espaço para a escola dominical.
Miraculosamente, um terreno estava disponível numa das ruas
principais, a Rua Larga de São Joaquim, a uns cem metros de distância
de um amplo espaço aberto que no Rio sempre foi o centro para
recreação e cerimônias, o Campo de Santana. Com alguma dificuldade,
a igreja conseguiu legalizar sua posição e seu direito de posse da
propriedade – para isso foi necessária a intervenção de um dos maiores
políticos brasileiros – e, então, o local foi formalmente comprado. A
234 JORNADA NO IMPÉRIO

igreja apelou que o Dr. Kalley ajudasse entre seus amigos e conhecidos
a levantar fundos para o projeto, e os esforços do doutor tornaram-se
iguais às ofertas sacrificiais da congregação como um todo. Para o
doutor, um independente, era estranho levantar recursos financeiros –
ele nunca havia feito isso antes!
Em 11 de junho de 1885, um dos presbíteros da igreja, Bernardino
Guilherme da Silva, escreveu: “Hoje a pedra fundamental do novo
prédio foi assentada com todas a formalidades verdadeiramente cristãs
[em oposição a todas as formalidades não-bíblicas dos católicos em
tais ocasiões]. Nem toda a igreja estava presente, apenas os membros
do comitê de construção e os presbíteros… Oração foi oferecida e
subiu aos céus como perfume agradável, com o incenso do nome de
nosso maravilhoso Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Um bom
número de pessoas que estava passando viu o que acontecia, mas
nenhuma gritou: ‘Bíblias, Bíblias’, o nome popular e depreciativo pelo
qual chamavam os crentes. O Reverendo Santos parece amadurecer
dia após dia nas coisas de Deus; merece estar em nossa mais alta
estima, uma vez que trabalha incansavelmente para o bem da igreja e
do mundo”.
A inauguração do novo prédio ocorreu em 4 de abril de 1886,
quando acabaram os distúrbios resultantes dos três dias de carnaval
na cidade. Durantes estes dias, como ainda ocorre agora, nada de
natureza solene ou cerimonial pode acontecer; toda a população se
entrega às festanças, farra e dança nas ruas. Na semana anterior, as
últimas reuniões de oração e louvor foram celebradas na Travessa
das Partilhas, com ações de graças a Deus pelas bênçãos recebidas
pela igreja durante os vinte e dois anos em que adoraram ali. As ceri-
mônias de abertura foram bem divulgadas por convites na imprensa.
O presbítero, Bernardino, novamente escreveu ao doutor: “No culto
da manhã, três ministros ocuparam o púlpito. O culto começou às dez
da manhã e foi até a uma hora da tarde. Estávamos preocupados que
a voz do Reverendo Santos não agüentasse; ele tinha tantas coisas
que queria dizer. Falou sobre a história da igreja, leu Os Vinte e Oito
Artigos de Fé, para informar a todos as doutrinas de nossa fé, e
pregou um sermão. Deus lhe deu uma ajuda especial; ele ficou no
púlpito por duas horas e meia! O coral cantou hinos apropriados, pre-
NOVIDADES DO BRASIL 235

viamente ensaiados na Travessa das Partilhas; as pessoas ficaram


maravilhadas com a qualidade e harmonia das vozes. Às quatro e
meia da tarde, a Ceia do Senhor foi celebrada. À noite, a multidão era
tão grande que todo espaço disponível foi ocupado, e as pessoas trans-
bordavam das salas da escola dominical. O pastor presidiu o culto, e o
pregador foi o Dr. Gruel, ministro da Igreja Luterana”.
Este foi o quarto endereço da Igreja Fluminense e permaneceram
lá até 3 de maio de 1914, quando o crescimento da igreja exigiu que
fizessem uma nova mudança para um prédio ainda maior.

O TRABALHO EM RECIFE PROSPERA


Enquanto isso, sob a hábil liderança do pastor Fanstone, a igreja
de Recife prosperou. A perseguição, de uma forma ou de outra, era
uma realidade sempre presente na vida da igreja. Zombeteiramente, e
ainda com um toque de humor, os brasileiros apelidaram o missionário
de “o diabinho de muletas”! Sua congregação estava repleta de pessoas
pobres e necessitadas. Para elas, o pastor era guia e pai. A morte era
um espectro sempre presente na vida delas, caçando aquelas casas
desesperadamente pobres – desnutrição, febres e, acima de tudo, a
tuberculose clamavam suas vítimas. Os pobres que tivessem febre
eram levados a uma ilha separada do continente por um estreito canal,
para serem tratados no “hospital da febre”, um prédio periclitante
cuidado por velhas senhoras, contemporâneas da Sra. Gamp. A
compaixão tocou o Sr. Fanstone e o levou a cuidar deles também.
Sempre que surgia oportunidade, ele cruzava o canal e lutava para
atravessar a areia funda, para levar algum conforto e alegria àqueles
párias da sociedade. O Dr. Grattan Guinnesss estava certo, quando
disse que James Fanstone tinha um espírito invencível; ele tinha o
amor de Cristo também.
Em janeiro de 1885, o Reverendo Fanstone escreveu uma longa
carta ao Dr. Kalley, dizendo ter passado seis anos no Recife, sem
nunca ter saído da cidade, possuíndo agora certeza absoluta de que
precisava de um ajudante. As dificuldades surgiram porque não havia
fundos disponíveis para a manutenção de Leônides. O Sr. Fanstone
236 JORNADA NO IMPÉRIO

esboçou o tipo de homem que o trabalho requeria: alguém de “habilidade


intelectual, ativo, zeloso, verdadeiro imitador do apóstolo Paulo”. Ele
sugeriu um plano de ação. Se um homem fosse enviado, ele garantiria
seu sustento pelos primeiros seis meses e, durante este período, juntaria
um número suficiente de pessoas que quisessem aprender inglês, a
fim de garantir uma renda ao voluntário. Ele mencionou os perigos
que tal jovem homem encontraria, mas enfatizou as recompensas
espirituais que receberia.
Mas isso não aconteceu; nenhum candidato adequado apareceu,
e, exausto com o trabalho, o Sr. Fanstone retornou à Grã-Bretanha
para um tratamento urgente e um casamento inesperado. Ele encontrou
e passou a cortejar a Srta. Elizabeth Baird, de Edimburgo, uma
estudante em Doric Lodge – a seção feminina do Harley College. Foi
um caso de amor à primeira vista, e, em apenas quatro meses, estavam
casados e voltando ao Brasil, em março de 1886. Enquanto esteve na
Grã-Bretanha, o Sr. Fanstone falou no Cliff College, em Derbyshire, e
um dos alunos, Fitzgerald Holmes, ouviu o chamado para o serviço no
Brasil. Este fez uma breve visita aos Kalleys, mas o silêncio deles a
respeito do rapaz mostra que não estavam apropriadamente
impressionados. O Sr. Holmes aceitou a oferta do Sr. Fanstone de
financiar seus primeiros seis meses de estada no Brasil e se juntou a
ele e sua esposa no Recife, mas apenas por um período relativamente
curto. Logo depois, aceitou o chamado para servir como capelão na
Missão dos Marinheiros, no porto de Santos, ao sul. Em Santos, fez
um excelente trabalho por muitos anos, e aquilo significou que os
Fanstones estavam sozinhos mais uma vez.
CAPÍTULO 26
MISSÃO CUMPRIDA
A saúde do Dr. Kalley era fonte de contínua ansiedade para
sua esposa e amigos. Ele sabia que sofria de um problema no coração
que poderia ser fatal a qualquer momento. Além disso, todo o seu
corpo foi atacado por uma irritante dermatite. Em tempos de maiores
dificuldades, seu trabalho de escrever cartas era quase impossível, e,
como sempre, sua esposa permanecia ao seu lado e escrevia suas
cartas, fosse aos seus amados amigos no Brasil ou em qualquer outro
lugar e também à imprensa. Ele era altamente crítico com relação ao
que chamava de “falsas analogias” propagadas entre os estudantes
pelo Dr. Henry Drummond (1851-1897), professor de teologia no Free
Church College, em Glasgow. Estas “falsas analogias” relacionavam
ciência com religião e punham em questão a autoridade das Escrituras.
Para o Dr. Kalley tal ensinamento era anátema e o impeliu a escrever
cartas de protesto à imprensa. Esta seria sua última controvérsia.

“ISTO É A MORTE”
No dia 1o de janeiro de 1888, um domingo, ele reuniu toda a família
– sua esposa, Marianne Pitt e os empregados de sua casa – para
238 JORNADA NO IMPÉRIO

celebrar a Ceia do Senhor. Ele expressou a esperança fervorosa de


que o Senhor logo viria e, assim, o pouparia de passar pelos portais da
morte. Mas não seria assim. No domingo, dia 15, ele conduziu o culto
doméstico tanto de manhã quanto à noite. De manhã, escolheu um
hino: “Não me envergonho do meu Senhor, nem de defender a sua
causa” e, à noite, um hino de Ira Sankey:

Sozinho e cansado, triste e abatido,


Senhor, desejo obedecer ao teu chamado;
Em Ti acreditando, a Cristo recebendo,
Desejo vir a Ti, hoje.
Eu venho…
Venho, Senhor, a Ti.

No dia seguinte, ele reclamou de uma dor no coração que era


diferente das outras. Esta dor foi diagnosticada como asma cardíaca.
A dor aumentou, tornando-se insuportável; nada a fazia ceder. Na
manhã seguinte, às sete da manhã, ele sofreu uma série de convulsões.
Subitamente, exclamou: “Deixe-me ir! Deixe-me ir! Isto é a morte.
Oh! minha amada esposa!”
O funeral aconteceu no Dean Cemetery, em Edimburgo, em 24
de janeiro. O culto foi conduzido pelo grande amigo do Dr. Kalley, Dr.
Hudson Taylor, missionário pioneiro na China e fundador da Missão
para o Interior da China. Foi para lá que o Dr. Kalley sentiu o chamado.
E, embora nunca tenha ido, seu interesse pela China nunca desvaneceu;
e um dos maiores missionários naquele país conduziu os últimos rituais
para ele!
A Sra. Kalley escreveu à Igreja Fluminense e à Pernambucana,
dando-lhes um relato detalhado dos últimos dias de seu marido. As
igrejas sentiram profundamente a perda de seu amado fundador e, em
sua memória, mandaram colocar uma placa, que homenageou e
registrou sua gratidão a Deus pelo ministério do Dr. Kalley, no Brasil.
Alguns anos depois, o Reverendo Dr. Handley Moule, D.D., bispo
de Durham, escreveu: “Um crente escocês, forte, de domínio-próprio,
verdadeiro filho da igreja presbiteriana, o falecido Dr. Kalley aproxi-
mou-se do fim quando já idoso. Sua esposa comunicou ao meu
MISSÃO CUMPRIDA 239

informante que, como um médico experiente, o Dr. Kalley calmamen-


te contou-lhe que morreria subitamente, mas que esperava informá-la
quanto a isso. Um dia, ele colocou a mão sobre o ombro dela e disse
as seguintes palavras: ‘Oh! minha querida esposa!’ e imediatamente
expirou. As palavras e a maneira como as pronunciou, disse a Sra.
Kalley, foram precisamente as mesmas com as quais anos atrás, du-
rante uma viagem nas montanhas, ele chamara a atenção dela para a
paisagem de uma montanha esplendorosa e arrebatadora que surgiu
diante deles”.
Após a morte de seu marido, Sarah Kalley ficou desolada: Campo
Verde se tornou uma casa de lamentos. Durante as noites de sábado,
a sala de visitas não mais ecoava as conversas e risadas dos estudantes.
A magnitude de sua perda, ainda que suavizada pelo consolo de Deus,
havia-lhe esmagado e desorganizado completamente a rotina normal
de sua vida. E dificilmente poderia ter sido de outro jeito, pois ela e
seu marido tinham sido inseparáveis por trinta e cinco anos, suas vidas
e seus trabalhos entrelaçados: uma combinação perfeita, uma perfeita
união.

TRIBUTOS AO DOUTOR
Os tributos ao doutor surgiram de todos os lados, demonstrando
que muitos amigos e colaboradores se lembravam do “bom doutor”,
“pastor fiel”. Para muitos, ele era seu pai na fé, e para outros, seu
cooperador no trabalho do Senhor.
Talvez fragmentos de um artigo da edição de maio de 1888, da
revista da Missão Médica, de Edimburgo, resuma a grande
consideração tida pelo Dr. Kalley: “Não há prova mais convincente
da preciosidade e poder de um ministério evangélico do que o simples
registro da vida de trabalho de homens, cujos ensinamentos são
resultado da pergunta: ‘O que dizem as Escrituras?’, e não do
questionamento: ‘O que tu pensas?’; homens cujo princípio
predominante da mensagem é: ‘Cristo morreu, uma única vez, pelos
pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus (1 Pe
3.18)’”.
L ÁPIDE E P LACA DE H OMENAGEM ,
NO C EMITÉRIO , EM E DIMBURGO
MISSÃO CUMPRIDA 241

“A lembrança do Dr. Kalley será longa e carinhosamente


estimada por muitos, como um dos pioneiros das missões médicas
modernas e também como um bravo e fiel líder na luta da igreja
contra os inimigos do Rei. Muitos outros gostam de se lembrar dele
como um irmão, amado do Senhor, com quem foram privilegiados de
ter maravilhosas conversas. A respeito dele seria apropriado dizer:
‘Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de
dia e de noite’ (Sl 1.2); ‘Com efeito, os teus testemunhos são o meu
prazer, são os meus conselheiros’ (Sl 119.24); ‘Assim como nos
escolheu, nele… para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e
em amor’ (Ef 1.4).”
O Pastor Fanstone afirmou: “A vida particular do Dr. Kalley
impressionou profundamente o caráter dos crentes brasileiros… há
certo encanto misterioso na vida do Dr. Kalley uma vez que cativava,
nunca deixava de influenciar”. Também podemos acrescentar o
último elogio por meio da biografia editada pelo Dr. Michael Testa,
The Apostle of Madeira: “Poucos homens são dotados de tanto
talento, de tal força de caráter e firmeza para alcançar seus objetivos,
de tal personalidade atraente e capacidade de servir voluntariamente
os outros como Dr. Robert Reid Kalley”.
E a última palavra é a do próprio Espírito de Deus: “Escreve:
Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.
Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas
obras os acompanham”.
EPÍLOGO (1888-1907)
P ara Sarah Kalley, a vida enfim voltava à sua rotina normal, após
ser duramente afetada pela morte de seu marido. Seu poder natural
de recuperação, energizado por sua profunda espiritualidade – sua
confiança em Deus e obediência à sua Palavra – falava por si próprio,
e ela conseguiu recuperar um pouco de sua exuberância e entusiasmo
pela vida.
Durante esta experiência angustiante, D. Sarah teve a ajuda de
sua fiel amiga de longa data, Marianne Pitt, de seu filho adotivo Dr.
João Rocha e de sua “filha” brasileira, Sia, somando-se ao seu amplo
círculo de atenciosos amigos e parentes. Conforme o tempo passou,
eles sugeriram que ela abrisse novamente sua casa aos estudantes,
de forma que as reuniões de sábado à noite recomeçaram. A cadeira
do doutor no canto da sala, contudo, estava agora vazia.
Um intenso desejo orientava toda sua vida, ao qual tudo o mais
era subserviente: tinha de continuar o trabalho que ela e seu marido
começaram. Ela não poderia retomar a comunicação dele por
correspondência com as igrejas em Illinois, Trinidad e Madeira, mas
seu contato com as igrejas no Brasil precisava ser mantido. Ela tinha
a vantagem de conhecer intimamente tanto o trabalho quanto os
trabalhadores, no Rio e Recife. O Reverendo Santos, José Fernandes
244 JORNADA NO IMPÉRIO

Braga e Pastor Fanstone eram seus amigos pessoais; estava decidida


a continuar como uma leal colaboradora deles.

A “AJUDA PARA O BRASIL”


Imediatamente após o funeral, a triste situação do campo no Brasil
tornou-se o assunto de conversas entre os amigos interessados. Mesmo
nos piores dias, o Brasil não foi esquecido. Naquela época, o Brasil
estava passando por um período de tremendas revoltas políticas e
mudanças sociais e religiosas. Em 1888, a Princesa Isabel, na ausência
de seu pai, Dom Pedro II, mas, com sua aprovação assinou o decreto
do fim da escravidão. Ambos sabiam que isso lhes custaria o trono. O
Brasil era essencialmente um país agrícola, e as vastas plantações de
cana-de-açúcar, café, milho e as imensas fazendas de gado dependiam
completamente do trabalho escravo, assim como ocorria com todas
as outras atividades do país. Metade da população era de escravos. O
decreto pegou a população de surpresa, com pouca ou nenhuma
preparação para tal acontecimento, e como resultado a situação ficou
caótica. Os grandes proprietários de terras eram da aristocracia
brasileira. Muitos foram arruinados e não podiam perdoar seu soberano.
A família real de Bragança estava condenada.
Em novembro de 1889, aconteceu a proclamação da república, e
o imperador contava com vinte e quatro horas para deixar o país. Ele
morreu em Paris, no fim do ano de 1891.
Com a chegada da república, houve a separação da Igreja Católica
Romana e o Estado, e, pelo menos no papel, todas as religiões foram
consideradas iguais e livres para propagarem sua fé.
Havia chegado o tempo de um ousado avanço do evangelho no
Brasil. A Igreja Fluminense tomou a iniciativa. Sob a dinâmica liderança
de seu pastor, o Reverendo Santos, e de leigos experientes, uma
sociedade missionária nacional, a Sociedade Evangelística do Rio de
Janeiro, foi fundada em 8 de novembro de 1890. O objetivo original
deles era evangelizar de forma mais eficaz tanto a cidade quanto seus
subúrbios. Mais tarde, o campo missionário foi aumentado com a
inclusão de todo o Estado do Rio de Janeiro, e, algum tempo depois,
EPÍLOGO (1888-1907) 245

eles acabaram se envolvendo com a evangelização de Portugal. Foi


quando tiveram de mudar seu nome para Sociedade Missionária
Evangelística do Brasil e Portugal.
De volta à Grã-Bretanha, em 1892, o Sr. Fanstone e a Sra. Kalley
refletiram sobre o futuro do trabalho no Brasil. Eles trocavam idéias
sobre como poderiam cooperar mais efetivamente com os irmãos
brasileiros em sua tremenda tarefa de evangelizar o Brasil. Após
conversarem com alguns amigos, fundaram uma nova missão, a Ajuda
para o Brasil. O Sr. Fanstone foi apontado como o diretor, a Sra.
Kalley como secretária, e os membros do conselho administrativo foram
escolhidos: Reverendo Gould, de Edimburgo; Dr. Grattan Guinness,
de Harley College; Sr. e Sra. Hind-Smith (ela era irmã da Sra. Kalley),
de Exeter Hall. O Dr. Hudson Taylor, da Missão para o Interior da
China, mostrou-se um inteligente e amável conselheiro para a nova
missão. A estratégia Kalley era singular na história das missões. Os
brasileiros inicialmente fundaram sua própria sociedade missionária,
e, agora, a missão “estrangeira” tinha sido criada para cooperar com
a missão nacional que já havia sido fundada! A missão nacional recebeu
alegremente a missão estrangeira, de forma que ambas trabalhavam
muito bem juntas, coordenando seus esforços e evitando a sobreposição
do trabalho. As duas missões não se fundiram; cada uma manteve
sua própria identidade e era responsável pela escolha de seus próprios
missionários e seu sustento.
A Sra. Kalley era incansável no serviço da missão. Ela pessoal-
mente, junto do Sr. Fanstone, avaliava os candidatos a missões, e que
grande safra de missionários a década de 1890 produziu: homens e
mulheres cujos nomes são honrados na história das igrejas dos Kal-
leys e que sofreram perseguição apesar do status dado às igrejas
protestantes na nova Constituição.
Todos estes acontecimentos – as idas e vindas dos missionários, o
progresso do trabalho, as dificuldades e perigos enfrentados – a Sra.
Kalley registrava num jornal editado por ela mesma, chamado Notíci-
as Ocasionais. Ela demonstrou sua habilidade como escritora, jorna-
lista e editora, ao realizar o impossível: juntava as peças dos fatos de
maneira a dar uma visão completa do que estava acontecendo no
campo missionário. As seqüências são coordenadas de tal forma que
246 JORNADA NO IMPÉRIO

é possível acompanhar a evolução de qualquer acontecimento.

A MORTE DA SRA. KALLEY


Para a Sra. Kalley, o fim veio em 1907, em sua casa, em Edimbur-
go. Por uma daquelas estranhas coincidências que acontecem, o
Reverendo Santos estava na Grã-Bretanha naquela época e partici-
pou do culto fúnebre. Citando uma carta escrita por Sia Kalley, de
Campo Verde, em 12 de agosto de 1907: “A última doença da Sra.
Kalley começou a se manifestar em novembro do último ano, e em
seus estágios iniciais foi acompanhada por uma boa dose de sofri-
mento. A esperança de recuperação não diminuiu até as últimas
semanas. Vez após vez, depois dos ataques da doença, ela recobrou
inesperadamente forças, e maravilhosa vitalidade a caracterizou até
os últimos dias. Mas seu trabalho terminara, e, a seu próprio tempo, o
Senhor, a quem ela servira, a levou para casa, no dia 8 deste mês, e
hoje ela descansa ao lado de seu amado marido, no Dean Cemitery. A
seu próprio pedido, as palavras: ‘Herdeiros da graça da vida’ serão
inscritas na lápide que marca o túmulo”.
Sua perda foi profundamente lamentada. Cartas da Grã-Bretanha
e Brasil revelam o grande amor que sentiam por ela e quão grande
tinha sido sua influência em tantas pessoas. Até mesmo a imprensa
do Rio de Janeiro publicou dois anúncios no obituário, agradecendo
por seu trabalho no Brasil – era algo único, que uma missionária
protestante fosse tão honrada! Entre outras coisas, o artigo reconhecia
seus esforços pioneiros para compor hinos, pô-los em música e, o
mais importante, ensinar as pessoas comuns a cantá-los. O artigo
concluía dizendo que ela seria lembrada e honrada através dos anos
por vir, talvez através dos séculos, em razão de seus hinos.
Segue abaixo algumas citações das inúmeras cartas recebidas
pela Srta. Sia Kalley.
“Eu me lembro tão bem daqueles momentos felizes, em Campo
Verde, durante o período de 1880-1884, quando era estudante em
Edimburgo, e olho para trás, para aquelas noites de reuniões na casa
de nossa ‘mãe em Edimburgo’, com grande alegria”.
EPÍLOGO (1888-1907) 247

“Ela talvez não tivesse idéia da boa influência que sempre exercia
sobre mim e, eu acredito, sobre todos quanto estiveram em contato
com ela.”
“Ela nunca fraquejava, e, mesmo nos piores momentos, sua medida
de brilhante humor nunca falhava em diminuir a tristeza.”
“As notícias tristes haviam chegado – tristes para muitos – para
aqueles que conheciam e amavam a Sra. Kalley; aos alunos que
sempre irão respeitá-la; àqueles que trabalharam sob sua influência
no Brasil; aos seus filhos espirituais em ambos os hemisférios… ela
era tão cheia de vida… tão amável, tão abundante em piedade e boas
obras.”
“Tão grande foi a influência pessoal exercida pelo Dr. e pela Sra.
Kalley sobre a vida dos cristãos brasileiros, que toda a história subse-
qüente das igrejas evangélicas foi moldada e dirigida por isso. Estas
igrejas não coincidem com nenhuma denominação em particular da
Grã-Bretanha, mas têm características peculiares. Elas seguem os
passos da antiga fé dos Puritanos… os hinos usados foram escritos e
traduzidos quase todos pelo Dr. e pela Sra. Kalley. A grande conside-
ração, chegando ao ponto da veneração, dos velhos membros das
igrejas que conheceram pessoalmente tanto o Dr. quanto a Sra. Kal-
ley é realmente espantosa, e esta veneração foi transmitida aos
membros mais jovens das igrejas de forma marcante, assim estes
nomes são familiares aos brasileiros, como o de Wesley, na Inglater-
ra.”
Do Conselho da Missão Ajuda para o Brasil veio uma breve
declaração sobre a provação que se abatera sobre a missão com a
perda da Sra. Kalley e quanto ao novo senso de responsabilidade com
o qual decidira continuar o trabalho: “A Sra. Kalley era a alma deste
Conselho. Foi ao redor dela que todos os outros membros se reuniram.
A intensidade de seu interesse em tudo o que se relacionava com o
bem-estar espiritual do Brasil, o entusiasmo que ela devotava à
manutenção e extensão da missão a qual ajudara a fundar, e o sucesso
com o qual trabalhou para introduzir seu próprio zelo auto-sacrificial
em seu amplo círculo de amigos eram inspiração e estímulo constante
para seus conselheiros e colaboradores do conselho… Portanto, eles
honestamente esperam ver estimulados os que conheceram a Sra.
248 JORNADA NO IMPÉRIO

Kalley a ajudar com nova liberalidade e regularidade o necessitado


trabalho que sempre esteve no coração dela. E isso, em conseqüência
da lembrança de que ela consagrava tanto de seu tempo e recursos
para a evangelização do Brasil”.

E AGORA?
Em Madeira ainda existem quatro igrejas que devem sua existência
ao ministério do Dr. Kalley. São as Igrejas Presbiterianas em Funchal,
Louro (um subúrbio de Funchal), Machico e Ribeira Brava. Elas fazem
parte da Assembléia Presbiteriana em Lisboa. No momento em que
estas páginas são escritas, as igrejas têm um ministro, um brasileiro e
não possuem qualquer ligação com a Igreja Livre da Escócia.
Em Illinois, as igrejas em Jacksonville e Springfield se fundiram na
Igreja Presbiteriana nos EUA. Foi perdida sua identidade portuguesa.
No Brasil, as igrejas de Kalley se expandiram na União das Igre-
jas Evangélicas Congregacionais do Brasil, totalizando 700 igrejas.
Embora a maioria delas esteja no eixo Rio – Pernambuco, a União
tem igrejas em quase todos os Estados do Brasil.
Na Grã-Bretanha, a Missão Ajuda para o Brasil foi incorporada,
em 1913, na recém-formada União Evangélica da América do Sul, e
alguns missionários ainda servem nas igrejas congregacionais no Brasil,
em ministérios especializados, principalmente na educação teológica.
A Igreja Fluminense no Rio de Janeiro continua a manter a Missão
Evangelizadora do Brasil e Portugal. Esta missão, na virada do século
passado, fundou uma dezena de igrejas em Portugal, a maioria da
quais agora fazem parte da Assembléia Presbiteriana em Lisboa. O
restante, em Ponte de Sor, Lisboa e Paio Pires, se uniram para formar
a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais de Portugal. A
Missão Evangelizadora ainda mantém seu interesse nestas igrejas,
assim como, mais recentemente, a British Evangelical Fellowship of
Congregational Churches.


APÊNDICE 1
DECLARAÇÃO FEITA PELO PRIMEIRO GRUPO DE
MADEIRENSES LEVADOS DE TRINDADE PARA NOVA IORQUE

AGOSTO DE 1848
Nós, os signatários, todos naturais de Madeira, nascemos e fomos
educados na Igreja Católica Romana. Sempre foi nosso costume par-
ticipar das missas, confissão dos pecados, das diversas cerimônias,
jejuns e festivais da igreja católica. Não conhecíamos outra forma de
adoração, pois nenhum de nós tinha visto ou ouvido a Palavra de Deus,
até então. Não sabíamos que um livro chamado Bíblia existia, no qual
a história de Jesus e dos apóstolos é contada, até que o Dr. Kalley
veio para Madeira. Lendo a Bíblia que ele nos deu, aprendemos, des-
de a primeira vez que colocamos nossos olhos sobre aquelas páginas,
que só podemos ser salvos pelo sangue de Jesus, e não pelas missas,
penitências e purgatório. Aprendemos que nem a Virgem ou os san-
tos são nossos mediadores, porque há somente um Mediador entre
Deus e os homens, Cristo Jesus. Quando começamos a nos regozijar
em Cristo Jesus como nosso Mediador e a ler as Escrituras com ale-
250 JORNADA NO IMPÉRIO

gria, fomos proibidos de ler a Bíblia, pela Igreja Católica e pelo Esta-
do. Os padres começaram a confiscar nossas Bíblias e queimá-las.
Muitos leitores da Bíblia foram aprisionados. Alguns permaneceram
na prisão por dois ou três anos. Fomos despejados de nossas casas e
terras, tivemos de dormir nas cavernas e vaguear pelas montanhas,
porque lemos a Palavra de Deus e porque desejamos viver de acordo
com seus preceitos, e por nenhuma outra razão. Fomos compelidos
pelos padres e pelo governador do Estado a fugirmos do país e aban-
donarmos tudo quanto possuíamos – casas, terras, posses. Perdemos
tudo o que tínhamos e estamos num país estrangeiro. Econtramo-nos
preparados para testificar a verdade destes relatos perante todo o
mundo.
(Assinado por sessenta madeirenses de todas as idades.)
APÊNDICE 2
“C om que freqüência, o verdadeiro seguidor do Senhor Jesus
contempla e ouve que bons campos, centros férteis de testemunho do
evangelho e de esforços pacientes para conduzir almas preciosas ao
rebanho de Cristo, se tornam – no curso de poucos anos de existência
feliz e próspera – invadidos, transtornados, desordenados e destruídos
pela atividade de influências sutis de doutrinas pseudo-religiosas, so-
ciais e políticas que se opõem ao sublime, purificador e iluminador
poder da Palavra de Deus?”
“A verdadeira Igreja de Jesus Cristo é essencialmente, por causa
de sua natureza regenerada, um corpo exclusivo; ela está no mundo,
mas não é do mundo. Mas a falsa igreja cristã, em todas as suas
subdivisões, está sujeita ao ataque do poder que se transforma em
‘anjo de luz’ e que, na realidade, é um ‘leão que ruge procurando
alguém para devorar’. Portanto, temos de esperar o novo céu e a
nova terra prometidos, onde jamais haverá maldição, porque o
adversário será lançado fora para sempre.”

(Pensamentos coletados quando problemas e dissensões


infestaram as igrejas, principalmente em Illinois, no ano de 1854.)
APÊNDICE 3
NOVEMBRO DE 1976
BRASILEIROS HONRAM A MEMÓRIA DO PIONEIRO

Uma cerimônia interessante ocorreu no cemitério Dean, em


Edimburgo, no mês passado, quando uma coroa de flores foi colocada
sobre o túmulo do Dr. Robert Reid Kalley (o primeiro missionário
protestante no Brasil), em nome da Ordem dos Ministros Evangélicos
do Brasil. Em discurso breve, fez-se alusão ao fato de que o Dr. Kalley
e sua esposa, Sarah Kalley, haviam sido fundadores e organizadores
da primeira Escola Dominical no Brasil, na cidade de Petrópolis, em
15 de agosto de 1855.

O discurso continuou: “Dr. Kalley foi o médico-assistente do im-


perador D. Pedro II e, cumprindo sua nobre profissão, também
propagou a semente preciosa no Rio de Janeiro (a capital do império
na época), em Petrópolis e outros lugares do país. Ele sofreu perse-
guições por parte do clero da Igreja de Roma, mas a semente caiu em
boa terra e germinou, produzindo fruto em abundância, uma safra que
ainda estamos colhendo. Um servo bom e fiel, o Dr. Kalley sabia
254 JORNADA NO IMPÉRIO

como administrar os talentos que recebera de seu Senhor, e, por isso,


suas obras o acompanhavam. O Dr. Kalley era um médico, mas, aci-
ma de tudo, um missionário”.

O Rev. R. G. Grant, Secretário Geral da UESA, que na época


estava no Reino Unido, foi convidado a representar o grupo de pasto-
res brasileiros. E houve certa conveniência nisso, visto que a UESA
tinha vínculos históricos com o Dr. Kalley e sua esposa.

O Rev. Grant, missionário residente no Brasil desde 1954, leu o


discurso tanto em inglês como em português e depositou uma coroa
de flores enviada pelos representantes brasileiros. Depois disso, leu-
se o Salmo 67, e o Sr. Stuart J. Harrison, da UESA e da sociedade
Bíblica da Escócia e ex-missionário na América do Sul por vinte anos,
dirigiu uma oração de agradecimento a Deus. Entre os presentes,
encontrava-se a Srta. C. F. Norrie, da MBE, que estivera contínua e
intimamente associada com a obra na América do Sul, desde 1912.

A cerimônia simples e comovente terminou quando o Rev. Grant,


em nome do grupo de brasileiros, agradeceu aos presentes pela
participação.