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Resenha: MONTOYA, A. O. D.

Contribuições da Psicologia e
Epistemologia Genéticas para a Educação. In. CARRARA, K. (Org.).
Introdução à Psicologia da Educação: seis abordagens. São Paulo:
Avercamp, 2004

Neste capítulo, Montoya reafirma a importância da teoria piagetiana para


as concepções do ensino e expõe a forma errônea com que está teoria foi
tratada, reduzindo-a simplesmente aos seus estágios de desenvolvimento, que
sua divulgação esteve concentrada nos estágios intelectuais ou mentais da
criança e não nos processos de construção do real (físico e cultural).
O autor enfatiza a importância de o professor conhecer os processos e
mecanismos intelectuais envolvidos na aprendizagem e a de que o
conhecimento não pode ser transmitido, aprendido dentro de uma lógica, uma
sequência pré-determinada, mas sim construído por meio das interações com o
meio. Conforme DOLLE (2000), “Todo conhecimento é o produto de interações
entre sujeito, e, seu meio ...”.
Montoya destaca as contribuições da Psicologia e Epistemologia
Genéticas para a educação levando em consideração a teoria e as pesquisas de
Piaget sobre a interação do sujeito e o meio, principalmente sobre o mundo real.
O autor fala sobre o tema dividindo-o em subcapítulos que falam sobre os
diferentes tipos de pesquisa que abordam a teoria piagetiana. No primeiro
subcapitulo tem-se as noções gerais da psicologia e a epistemologia genéticas,
na qual o autor enfatiza que a epistemologia genética é uma ciência nova
inaugurada por Piaget que tem como objetivo revelar os processos, estados e
estruturas do conhecimento.
No segundo subcapitulo tem-se as pesquisas sobre o conhecimento
lógico-matemático e suas implicações educacionais, que fala que as pesquisas
de Piaget sobre o conhecimento lógico-matemático revelaram que a sua
formação consiste numa verdadeira criação e construção por parte do indivíduo,
demonstrando a importância de se colocar a criança como sujeito central e ativo
na aprendizagem. O autor coloca ainda que:
O ensino da Matemática contemporânea se enriqueceu devido
à descoberta psicogenética de que a noção de número é produto da
síntese das relações simétricas e assimétricas, isto é, do domínio
prévio das relações de classe e de séries lógicas.

No terceiro subcapitulo, pesquisas sobre o conhecimento físico e suas


implicações educacionais, o autor expõe o conhecimento físico como a ciência
da natureza que apreende o mundo real e realiza explicações de causa sobre
eles, e diz respeito do conhecimento do mundo exterior, das propriedades
inerentes aos objetos e que essa aprendizagem se dá através da interação do
aluno com os objetos, com o meio, trata sobre as noções de conservação, força,
velocidade, tempo, espaço físico, transmissão de movimentos, etc. e a
necessidade de agir e ter experiências sobre os objetos para realizar as
abstrações e criar relações sobre ele.
No quarto subcapitulo, pesquisas sobre os conhecimentos sociais e
culturais e suas implicações educacionais, o autor inicia afirmando que os
conhecimentos sociais e culturais se desenvolvem e são adquiridos como os
conhecimentos físicos, ou seja, exigem abstrações empíricas, extraindo
características e particularidades do mundo exterior, dentro de uma sequência
de complexidade e objetividade progressiva. O autor fala também das pesquisas
de Emília Ferreiro sobre a psicogênese da escrita que refletem a construtividade
do mundo real, no qual o sujeito adquire um sistema de representação sobre a
própria fala. Montoya conclui o subcapitulo evidenciando a necessidade de
novas pesquisas psicogenéticas e sociogênicas sobre o tema para que possam
servir de referência para a reflexão e prática educacional.
No quinto subcapitulo, pesquisas sobre o desenvolvimento moral e suas
implicações educacionais, as pesquisas filosóficas e psicológicas sobre a
moralidade são antigas, e Piaget aborda o tema como um processo de
construção real por parte do indivíduo. O autor evidencia o fato de que toda a
obra psicogenética de Piaget, o esquematismo da ação prática ou sensório-
motora é condição do desenvolvimento da representação e do pensamento
humano, a consciência moral da criança é resultado das ações práticas morais
internalizadas. Para Piaget a educação moral é mais do que a criança respeitar
seus pais e professores para aceitar e obedecer às regras, pois as relações de
bem e de mal serão melhores abstraídas das relações sociais vividas, ou seja,
através do exemplo.
No sexto subcapitulo, pesquisas sobre as origens e desenvolvimento da
linguagem e suas implicações educacionais, as pesquisas de Piaget acerca do
desenvolvimento da fala são decorrência de suas pesquisas sobre o
conhecimento humano, e suas hipóteses sobre a origem do pensamento.
Segundo Montoya para Piaget:
... a criança constrói, progressivamente, por meio de seus
movimentos e percepções, sistemas de esquemas análogos às futuras
estruturas lógico-matemáticas. E segundo esses esquemas que a
criança pequena consegue atribuir significados cada vez mais
complexos e objetivos ao mundo exterior imediato.

Por isso a narrativa é uma atividade extremamente importante no


desenvolvimento da linguagem da criança, e deve ser utilizada como ferramenta
pelos professores pois ao narrar a criança organiza esquemas em processos de
conceituação.
No sétimo e último subcapitulo, outras pesquisas o autor fala sobre o
desenvolvimento da arte, na perspectiva da epistemologia genética, essa
pesquisa busca provar que a criação literária mesmo no adulto é decorrente das
atividades lúdicas e simbólicas da criança e do adolescente, entre outras
pesquisas das ideias de Piaget no campo da Educação Física, nas tarefas de
educação e reeducação de crianças deficientes, desenvolvimento moral de
crianças com graves problemas de violência, etc.
O capitulo termina com sete perguntas referentes ao tema estudado, que
nos remete a mais uma reflexão sobre as contribuições de Piaget, que embora
com um estudo preliminar e simplista em nossos estudos iniciais dentro da
graduação, tratando especificamente dos estágios de desenvolvimento, nos
evidencia que a teoria piagetiana discorre sobre como se forma a estrutura do
pensamento cognitivo, como são as etapas do aprendizado, e que a
epistemologia genética não se reduz às estruturas lógico-matemáticas, embora
elas sejam necessárias para a formação de outros conhecimentos. O professor
deve ter como objetivo que ensinar é criar situações que estimulem o aluno a
reestruturar-se, construindo o conhecimento através da interação com o meio
físico e sociocultural.

Referências
DOLLE, J. M. Para compreender Jean Piaget. Rio de Janeiro: Agir, 2000

MOREIRA, M. A. Teorias de aprendizagem. São Paulo: EPU, 1999.