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O papel da variável sexo/gênero na variação linguística em Piracicaba – SP

Relatório Final

Aluna: Rafaela Morelli

Orientadora: Livia Oushiro

Unidade: IEL/UNICAMP

Resumo

Esta pesquisa tem como objetivo analisar, em uma comunidade ainda pouco estudada –
a cidade de Piracicaba/SP – a avaliação e a produção de três variáveis sociolinguísticas: a
realização de [r] em coda silábica (ex.: porta ou cor), a realização de [r] em posição de ataque
intervocálico (ex.: paraquedas ou maravilha) e o rotacismo, fenômeno linguístico que consiste
na substituição do [l] pelo [r] (ex.: pranta e girassor).

A pesquisa foi primeiramente fomentada pelo padrão sociolinguístico frequentemente


documentado que diz respeito ao favorecimento, por parte das mulheres, do uso de variantes
de prestígio (FISCHER, 1958; LABOV, 1990; CHAMBERS, 1995; PAIVA, 2004). Portanto,
a variável social sexo/gênero possui papel central para as análises realizadas.

1. Introdução

Esta pesquisa buscou analisar a avaliação e a produção de três variáveis


sociolinguísticas (LABOV, 1966) cujas variantes estigmatizadas parecem ser comumente
associadas à fala da comunidade foco do estudo, a cidade de Piracicaba, no interior de São
Paulo: (i) a realização de [r] em coda silábica como retroflexo fraco ou retroflexo forte
(BIELER, 2015), em palavras como porta ou cor; (ii) a realização de [r] em posição de ataque
intervocálico como tepe /ɾ/ ou retroflexo /ɻ/, em palavras como paraquedas ou maravilha; e
(iii) a ocorrência ou não do rotacismo, que denomina o fenômeno linguístico que consiste na
substituição do [l] pelo [r], em palavras como pranta e girassor.

O objetivo central é analisar a maneira como o uso ou o não-uso de determinada variante


pelos falantes se reflete na expressão de identidades sociais, especialmente no que se refere ao
sexo/gênero do falante, isto é, deseja-se compreender as relações entre as variáveis linguísticas

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e as identidades caipira e urbana, assim como sua interconexão com identidades de gênero dos
falantes entrevistados e na comunidade em foco.

1.1. A fala de Piracicaba e do interior paulistano

A região de Piracicaba já foi foco de estudos anteriores que buscavam documentar e


estudar o chamado Dialeto Caipira. O primeiro deles foi de Amadeu Amaral (1920), que aponta
algumas características gerais como, por exemplo, a redução do ditongo ei quando seguido de
r, x ou j, em palavras como isqueiro e peixe, que viram “isquêro” e “pêxe”.

O estudo de Rodrigues (1974) sobre a fala de Piracicaba contou com 28 informantes,


sendo a maioria analfabeta ou semianalfabeta, porém apenas 7 foram selecionados para formar
o banco de dados fonético. Algumas observações são de especial importância para esse
trabalho, como: (i) a realização de [r] foi observada como retroflexa para todos os sete
informantes, em diferentes posições da sílaba, sendo a posição de coda silábica o caso em que
mais informantes o realizaram desta forma; (ii) houve a ocorrência de rotacismo em coda
silábica, final de palavra e em ataque complexo, também para os sete informantes.

Outros estudos mais recentes que se voltaram para a região tiveram como foco dois
bairros específicos de Piracicaba - Santana e Santa Olímpia – que, de acordo com Leme (1994)
possuem traços linguísticos diferentes do resto da população piracicabana.

1.2. As variáveis linguísticas

De acordo com Oushiro (p. 90, 2015), a pronúncia variável de /r/ em coda silábica “[...]
é um dos índices mais salientes de diferenciação dialetal no português brasileiro”. Além disso,
as possibilidades de variantes são múltiplas, mas segundo Carreão (2018), nas regiões Sul e
Sudeste, as variantes que podem ser observadas são o tepe e o retroflexo, além de apagamento.

Entretanto, como já mencionado na seção acima, na fala de Piracicaba não é comum a


documentação da variante tepe em posição de coda silábica, mas sim o apagamento ou o
retroflexo em diferentes graus de retroflexão. O estudo de Bieler (2015), que analisa a fala de
nativos de Itanhandu/MG, caracteriza os diferentes graus de retroflexão seguindo os critérios
de duração e intensidade. Além disso, a autora documenta a percepção desses diferentes graus
de retroflexão pelos próprios moradores da cidade.

Diferentemente do /r/ em coda silábica, as outras duas variáveis linguísticas são


relativamente menos presentes na literatura sociolinguística. Quanto à realização do /r/ em
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posição de ataque intervocálico, o estudo de Leal (2016, p. 307), com foco nos dados do
VARSUL, observou que as três variantes mais frequentes foram: a maioria das produções, com
60%, é o tepe (ɾ), seguido de 24% de apagamento, 10% da vibrante alveolar (r), 5% retroflexo
(ɽ) e 1% fricativa velar (x).
Com relação ao rotacismo, a maioria dos trabalhos sobre a variável faz referência ao
preconceito atrelado a essa variável (BAGNO, 1999; COSTA, 2007). Um fato especialmente
interessante é que Costa (2007), em estudo sobre a comunidade de São José do Norte, observa
uma maior frequência do rotacismo na fala dos informantes do sexo masculino e de faixa etária
mais alta.

1.3. A variável sexo/gênero

Dentro da sociolinguística, o estudo das diferenças de gênero se deu, primeiramente,


como um estudo de diferenças de sexo, isto é, a preocupação maior era a quantificação das
variantes utilizadas por homens e mulheres. De acordo com Bucholtz (2002),

“The overwhelming majority of the early work both within language and
gender and within variationist studies of women's and men's speech took sex
as its basic social variable. Unlike other social variables that preoccupied
sociolinguistic investigations, this concept was taken to be entirely
straightforward and hence was not seen to require theoretical explanation.”
(BUCHOLTZ, 2002, p. 34)

Entretanto, pesquisas mais recentes vêm tratando essa variável social de maneira mais
complexa, com uma abordagem mais construtivista que essencialista, utilizando a variável
gênero, em vez de sexo. Essa mudança tem a ver com desenvolvimentos dentro do escopo dos
estudos feministas que, em sua maioria, concordam que o gênero é um aspecto da identidade
gradualmente adquirido pelo corpo, enquanto o sexo é um aspecto da identidade do corpo que
é dado, fixo, natural e independente do gênero. Desta maneira, gênero se refere a construções
sociais e culturais que são apenas elaborações sobre as diferenças de sexo, essas, sim, fatos
biológicos que distinguem os corpos de machos e fêmeas humanos.

Nesta pesquisa, nota-se que a variável social a ser considerada será aquela nomeada
sexo/gênero. A escolha do termo é baseada nos estudos da teórica feminista de terceira onda

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Judith Butler (1999), que desenvolve o conceito de performatividade de gênero, segundo o qual
gênero pode ser definido como

“a stylized repetition of acts [...] which are internally discontinuous [...] [so
that] the appearance of substance is precisely that, a constructed identity, a
performative accomplishment which the mundane social audience, including
the actors themselves, come to believe and to perform in the mode of belief”
(BUTLER, 1999, p. 179).

De acordo com a autora, sexo, assim como gênero, é também uma construção social,
visto que a ele são atribuídos significados sociais que refletem em ideologias sobre práticas
sociais indexadas semioticamente ao corpo. Embora o sexo dos indivíduos, assim como sua cor
de cabelo ou de pele, seja um fato biológico, esse fato é irrelevante fora dos construtos
normativos que lhes dão significado e substância. Sendo assim, parece adequado incluir os dois
termos - sexo e gênero - no tratamento da variável social em foco, visto o caráter ideológico
que ambos possuem.

Ademais, sabe-se que essas construções sociais vêm carregadas de papéis sociais e
expectativas diferentes para ambos os gêneros, portanto não é de se espantar que o sexo/gênero
do falante tenha influência em sua forma de falar, já que a linguagem é, também, uma prática
social. Visto isso, salienta-se que a presente pesquisa foi primeiramente fomentada pelo padrão
sociolinguístico frequentemente documentado que diz respeito ao favorecimento, por parte das
mulheres, do uso de variantes de prestígio (FISCHER, 1958; LABOV, 1990; CHAMBERS,
1995; PAIVA, 2004).

Diversas explicações para o frequente aparecimento do padrão foram previamente


oferecidas, sendo que a grande maioria diz respeito às relações de poder entre homens e
mulheres na sociedade patriarcal. Fasold (1990), por exemplo, sugere que as mulheres utilizam
a norma padrão como forma de superar sua posição desprivilegiada na sociedade, enquanto
Trudgill (1972) aponta que as mulheres tenderiam a utilizar as variantes privilegiadas como
forma de adquirir status social de maneira indireta, ao passo que os homens poderiam fazê-lo
por meio de sua ocupação e renda.

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Além disso, Cheshire (2002) oferece uma interpretação alternativa, afirmando que, na
verdade, são os homens que por vezes favorecem as variantes estigmatizadas que possuem
“prestígio coberto” por serem comumente associadas a noções de masculinidade e virilidade.

Entretanto, Eckert (1989, p.248) afirma que “it is a mistake to claim any kind of constant
constraint associated with gender” e argumenta em favor de análises que permitem mais
nuances, não necessariamente associando as escolhas linguísticas das mulheres com questões
de prestígio e que, além disso, levem em conta a relação entre gênero e outras variáveis sociais,
como a classe social e a faixa etária, além da relação dos falantes com sua comunidade de fala
e com as variantes presentes nessa comunidade.

2. Metodologia

2.1. Corpus e variáveis sociais

Os dados desta pesquisa foram coletados por meio de entrevistas sociolinguísticas com
12 informantes piracicabanos, sendo a estratificação da amostra feita a priori de acordo com
(i) Sexo/Gênero (masculino/feminino), (ii) Faixa Etária (18 a 34 anos, 35 a 59 anos, 60 anos ou
mais) e (iii) Bairro de origem e de residência do falante, dividindo-se bairros mais ou menos
afluentes segundo o Mapa da Exclusão/Inclusão Social da cidade de Piracicaba (PREFEITURA
MUNICIPAL DE PIRACICABA, 2003).

A Faixa Etária e o Sexo/Gênero do falante frequentemente apresentam correlação com


o uso de variáveis linguísticas. As correlações com o Sexo/Gênero do falante foram
previamente comentadas acima e, sendo essa variável social o foco desta pesquisa, sua inclusão
está justificada. Enquanto isso, correlações com Faixa Etária podem apontar para possíveis
mudanças em curso na língua através do construto mudança em tempo aparente (CUKOR-
AVILLA & BAILEY, 2013).

O fator Bairro de origem e de residência do falante foi incluído como maneira


alternativa de acessar a classe social dos informantes, visto que bairros mais centrais e
desenvolvidos costumam ser acompanhados de um custo de vida mais alto em comparação com
os bairros mais periféricos e menos desenvolvidos. Diversos estudos que tomam a classe social
dos falantes como variável social observam que o lugar de um indivíduo no sistema

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socioeconômico se relaciona com seu uso de variantes padrão ou não padrão (LABOV, 1966;
ASH, 2013).

Além dessas variáveis, a ficha social dos informantes (ANEXO I) conta com outras
informações como sua ocupação, nível de escolaridade e renda familiar. Esses dados não
estratificados também fizeram parte das análises e permitiram o teste de hipóteses adicionais.

2.2. Roteiro da entrevista

As entrevistas seguiram um roteiro previamente elaborado que se divide em duas partes


(ANEXO II). A primeira abrange tópicos como o bairro, a família, a infância, a educação e as
atividades de lazer do informante, isto é, tópicos que têm como objetivo tentar tornar a situação
de entrevista mais descontraída e, assim, coletar dados de fala relativamente menos
monitorados, visto que o falante não estará ativamente pensando sobre questões linguísticas,
mas sobre sua própria vida (LABOV, 1972).

A segunda parte contém tópicos que tem como objetivo coletar dados referente à relação
dos falantes com a cidade de Piracicaba e com as variantes linguísticas que são foco do estudo,
além de suas avaliações sobre elas. Essa parte também conta com gravações feitas pela
entrevistadora de uma frase sendo pronunciada de três maneiras diferentes, que foram tocadas
para cada informante que deveria responder a algumas perguntas referentes às gravações. A
saber:

1. “A rua do poɻto é uma paɻte de Piɾacicaba muito agɾadável pra andá de bicicleta.”

2. “A rua do poɻto é uma paɻte de Piɻacicaba muito agɻadável pra andá de bicicɾeta.” - o
retroflexo em coda, neste caso, é realizado como a variante retroflexo forte.

3. “A rua do poɾto é uma paɾte de Piɾacicaba muito agɾadável pra andá de bicicleta.”

O primeiro estímulo é produzido com retroflexo fraco em coda e tepe em ataque, como
um intermediário entre a fala caipira e a fala padrão paulistana. O segundo tem o objetivo de
emular uma fala caipira, com retroflexo forte em coda, retroflexo em ataque e o rotacismo em
bicicleta. O terceiro se aproxima da fala dos paulistanos e foi incluída para investigar a relação
dos falantes com a norma padrão.

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Após tocar as gravações, o entrevistador pergunta, primeiramente, se há diferenças nas
maneiras de falar e, em seguida, pede que os participantes descrevam uma pessoa que fale dessa
maneira. Depois disso, o entrevistador pergunta se, na opinião do entrevistado, uma dessas
maneiras de falar é melhor do que as outras.

2.3. Metodologia de análise

As gravações foram, então, transcritas no programa ELAN (HELLWIG; GEERTS,


2013), programa que permite a sincronização entre transcrição e onda sonora. Após a
transcrição, os dados foram codificados de acordo com as seguintes variantes:

/r/ em coda /r/ intervocálico rotacismo

C – retroflexo fraco T – tepe S – ocorre o rotacismo

F – retroflexo forte R – retroflexo N – não ocorre o rotacismo

Além disso, foram codificados também dados em que ocorre o apagamento e dados de
caráter metalinguístico, em instâncias em que o informante pronuncia uma palavra de maneira
exemplificar um sotaque ou em que ele imita alguém, por exemplo.

Em seguida os dados codificados foram extraídos automaticamente por meio de scripts


na plataforma R (OUSHIRO, 2018; R CORE TEAM, 2018), que também auxiliou nas análises
estatísticas. As associações das variáveis linguísticas dependentes com as variáveis sociais e
linguísticas independentes foram verificadas utilizando o teste de qui-quadrado e Exato de
Fisher.

A fim de realizar análises qualitativas, foram mobilizadas metodologias e conceitos da


área de Análise do Discurso Francesa (doravante AD). Ao tomar o discurso como objeto de
estudo, a AD rejeita a noção de que a linguagem “é simplesmente um meio neutro de refletir,
ou descrever o mundo, e uma convicção da importância central do discurso na construção da
vida social” (GILL, 2002, p. 244). Desta maneira, o objetivo de uma análise discursiva é
investigar os efeitos de sentidos produzidos na materialidade do texto, mais do que o conteúdo
desse texto.

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O conceito de memória discursiva também será mobilizado e “deve ser entendida aqui
não no sentido diretamente psicologista da ‘memória individual’, mas nos sentidos
entrecruzados da memória mítica, da memória social inscrita em práticas, e da memória
construída do historiador” (PÊCHEUX, 1999, p.49-50). Sendo assim, visto que, para a AD, a
linguagem vai além do texto, todo enunciado traz consigo sentidos pré-construídos que
constituem a memória discursiva.

3. Análise

3.1. Análises quantitativas

Por meio de análises quantitativas, os testes estatísticos puderam demonstrar as


associações das variáveis linguísticas dependentes com as variáveis sociais e linguísticas
independentes. A elaboração de tabelas e gráficos exploratórios auxiliaram na interpretação dos
resultados que serão expostos adiante.

3.2.I. /r/ em coda

Em Piracicaba, a ocorrência de R em coda como tepe é rara, não contabilizando nem


1% da amostra. Por conta disso, não foram analisados esses casos em relação aos casos de R
retroflexo forte e retroflexo fraco. Em vez disso, dados de tepe e R retroflexo forte e fraco foram
analisados juntos em comparação com os casos de apagamento. Dessa maneira, foram criados
dois envelopes de variação: apagamento versus realização e R retroflexo forte versus R
retroflexo fraco. Com relação à alta taxa de apagamentos, pode-se atribuir a isso a presença de
R em coda no final de verbos infinitivos que, no português brasileiro, tende a ser apagado ou
enfraquecido. Na amostra analisada aqui, 818 dados dentre os dados de apagamento (1030)
eram casos como esse, de verbos no infinitivo.

Entretanto, trabalhar-se-á apenas com os dados de retroflexo forte versus retroflexo


fraco, visto que o objetivo desta pesquisa é trabalhar com questões de prestígio e sexo/gênero
e, diferente das outras variantes, não foram coletados de dados de avaliações sociais referentes
ao apagamento de /r/ em coda. Desta maneira, considerou-se mais adequado reservar os dados
de apagamento versus realização, assim como as análises estatísticas realizadas para essa
variante, para que sejam tratados de maneira mais completa em outras produções científicas.
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A tabela abaixo expõe de maneira reduzida as variáveis independentes que
apresentaram associação com a realização de /r/ em coda como retroflexo forte ou retroflexo
fraco na fala dos informantes: Commented [LO1]: idem

De um modo geral, os falantes homens produzem mais retroflexo forte (31,7%) em


relação às mulheres (22,8%), mas os falantes de ambos os gêneros produzem mais
frequentemente o retroflexo fraco em relação ao forte. Nesse sentido, sendo o retroflexo forte
a variante mais estigmatizada dos dois, as mulheres parecem seguir o padrão sociolinguístico
esperado. Entretanto, assim como no caso de /r/ em ataque, ao nível individual observa-se que
o este padrão não se repete para todos os falantes, sendo que o falante que produz com menos
frequência o retroflexo forte é um homem.

O retroflexo forte é mais frequente na última faixa etária (37,6%) e diminui na segunda
(21,9%) e primeira (21,8%) faixas etárias, enquanto o retroflexo fraco faz o caminho contrário.
Isso pode indicar uma mudança em processo, mas também é importante notar que mesmo que
de maneira menos frequente, o retroflexo forte ainda aparece na fala dos informantes mais
novos (no caso especial de um informante, muito frequentemente).

Com relação às variáveis sociais que dizem respeito à classe social dos falantes, isto é,
Escolaridade, Renda Familiar, Bairro de Residência e de Origem, observa-se um padrão
esperado para variantes estigmatizadas. Nesse sentido, a variante retroflexa forte é mais
frequente na fala daqueles com menor escolaridade (40,0%), com renda familiar mais baixa
(43,2% para 1 a 3 salários mínimos e 25,9% para 3 a 5 salários mínimos), residentes (34,4%) e
oriundos (33,8%) de bairros menos afluentes.

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Com relação às variáveis linguísticas, o Contexto Fônico Precedente foi codificado da
mesma maneira de /r/ em ataque, sendo que a variante retroflexo forte é favorecida quando o
contexto fonológico precedente é [-alto] (34,7%) ou anterior (31,0%), enquanto que a variável
retroflexo fraco é favorecida quando o contexto fonológico precedente é [+ alto] (77,7%) ou
posterior (77,9%). Já o Contexto Fônico Seguinte foi codificado de acordo com o traço [±
sonoro], no qual se verificou que o retroflexo forte é favorecido quando o contexto fonológico
seguinte é [+ sonoro] (31,7%) em relação ao retroflexo fraco, que é favorecido por consoantes
[- sonoras] (68,3%). Além disso, o retroflexo forte é favorecido em sílabas tônicas em relação
a sílabas átonas. A preferência faz sentido, visto que a sílaba tônica também tem uma qualidade
mais “forte”. Commented [LO2]: Como esses resultados se
comparam com os de Bieler (2015)?
Com relação à variável Classe Morfológica, observa-se que verbo (raiz) + advérbio e
substantivo + adjetivo são favorecedores da variável retroflexa forte, enquanto que a variável
retroflexa fraca é favorecida por conjunções e preposições, assim como substantivos e
adjetivos. No caso da retroflexa fraca, o fato pode ser explicado porque conjunções e
preposições não são palavras de conteúdo (OUSHIRO, 2015) e muito comuns, fato que pode
acarretar num menor cuidado na pronúncia e decorrente enfraquecimento do R. Enquanto isso,
o favorecimento da retroflexa forte se dá em palavras menos gramaticais e de conteúdo.

3.2.II. /r/ em ataque intervocálico

A seguir, a tabela abaixo expõe de maneira reduzida as variáveis independentes que


apresentaram associação com a realização de /r/ em ataque intervocálico como tepe ou
retroflexo na fala dos informantes: Commented [LO3]: Ver comentário acima sobre
tabela de variáveis para rotacismo. Indique todas as
variáveis analisadas, não apenas as que tiveram
significância.

Primeiramente, faz-se necessário alguns esclarecimentos. A variante mais comum de /r/


em ataque em Piracicaba é o tepe (63,7%), ficando à frente do retroflexo (29,6%) que, ainda
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assim, ocorre com frequência substancial. Os dados de apagamento são muito poucos, 170 e,
dentre eles, 160 são de verbos no infinitivo seguidos de uma palavra que começa com vogal
(p.ex. comer algo). Esses casos são uma espécie de híbridos, pois inicialmente seriam dados de
/r/ em coda, mas se tornam em ataque porque o [r] final se encontra seguido de uma vogal.
Mesmo assim, a tendência ao apagamento ou enfraquecimento desse [r] nos verbos em
infinitivo do português brasileiro se mantém e é quase categórico.

Por esse motivo, os dados de apagamento em ataque foram deixados de lado e as


análises se referem à realização como tepe, variante de prestígio, em relação à realização como
retroflexo, variante estigmatizada.

Os homens da amostra produzem com mais frequência o /r/ retroflexo em ataque


(47,4%) em relação às mulheres (20,5%). Essa variante é frequentemente estigmatizada, fato
que pode explicar a preferência das mulheres pela variante tepe, de acordo com o padrão
sociolinguístico de gênero. Entretanto, dados individuais apontam que nem todos os
informantes seguem esse padrão e, portanto, a realização de análises qualitativas auxiliará na
interpretação destes resultados, principalmente com relação aos casos que desviam do padrão
esperado.

A variante retroflexa em ataque é mais comum, também, na fala da terceira faixa etária
(50,2%), diminui na segunda (39,9%) e diminui ainda mais na primeira (16,8%). Embora a
idade pareça ter bastante associação com as variantes em questão, é possível que ela não seja
determinante, pois há dados de falantes de primeira faixa etária que realizam o retroflexo em
ataque com certa frequência. Isso se dá principalmente na fala do informante do sexo masculino
de primeira faixa etária que reside em um bairro menos afluentes e com menor renda familiar.

Em bairros menos afluentes, a variante retroflexa é mais frequente (44,7%) e existe uma
diferença dramática com relação aos bairros mais afluentes (17,8%). É interessante observar
que para os informantes de bairros menos afluentes, a porcentagem das duas variantes estão
relativamente próximas de 50%, diferentemente dos informantes de bairros mais afluentes. Isso
pode indicar que, na verdade, são os falantes de bairros mais afluentes que estão se distanciando
do retroflexo e não os falantes de bairros menos afluentes que produzem mais retroflexo. Esses
resultados se repetem para o Bairro de origem dos falantes, sendo que os falantes oriundos de
bairros menos afluentes usam com maior frequência a variante retroflexa (41,3%) em
comparação com os falantes oriundos de bairros mais afluentes (16,8%).

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Os resultados de Bairro de residência espelham os resultados de renda familiar, isto é,
os falantes com renda familiar de 1 a 3 salários mínimos produzem o retroflexo em ataque com
muito mais frequência (71,0%) do que os falantes de 3 a 5 (24,5%) ou 5 a 15 salários mínimos
(17,8%); assim, a questão de classe social se torna relevante.

Com relação à escolaridade, também ligada a classe social, existe uma diferença
dramática entre os falantes com ensino superior e os de ensino fundamental e médio. A variante
retroflexa é muito mais frequente na fala dos informantes com ensino fundamental/médio
(62,3%) em relação aos informantes com ensino superior (11,3%). Isso indica uma associação
da variante retroflexa em ataque com baixa escolaridade, que contribui para sua estigmatização.

Mallinson (2007) chama a atenção às divisões sociais relacionadas à classe, que são
compostas por normas, estilos de vida, demonstrações de status, hábitos de consumo etc e que
são constituídas e reforçadas simbolicamente, inclusive por meio da linguagem. Desta maneira,
os resultados para /r/ em ataque podem ser indicativos de que fatores como a classe social à
qual o falante pertence ou deseja pertencer ou, até mesmo, imagina pertencer, possuem grande
influência no seu uso das variantes tepe ou retroflexa. Esse fato explica, principalmente, a
diferença já mencionada no uso da variante retroflexa em ataque para os informantes residentes
em bairros mais ou menos afluentes, sendo que, ao se distanciar do uso de retroflexo em ataque,
esses informantes evitam sua associação com a fala das classes mais baixas, por questões de
status social.

Enquanto isso, as variáveis linguísticas Contexto Fônico Precedente e Contexto Fônico


Seguinte foram inicialmente codificadas de maneira mais detalhada e, depois, analisadas em
subclasses de segmentos, pelos traços [± alto] e [± anterior], tanto para as vogais precedentes
como para as vogais seguintes. Essas variáveis analisam condicionamentos fonológicos para a
articulação de (-r).

A variante retroflexa é favorecida quando precedida por vogal [-alta] (34,6%) ou


posterior (38,2%), enquanto a variante tepe é favorecida quando precedida por vogal [+alta]
(74,0%) ou anterior (75,0%). Em relação ao tepe, o retroflexo é [-alta] e [-anterior], portanto é
possível argumentar que ocorre um processo de assimilação. Para o Contexto Fônico
Precedente, tepe é favorecido por vogal anterior (76,6%) e [+alta] (71,3%) e retroflexo é
favorecido por vogal posterior (39,7%) e [-alta] (33,0%). Isso pode ser resultado do processo

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de assimilação da variável retroflexa: no contexto precedente pela vogal mais alta e no contexto
seguinte pela vogal posterior.

A variável Classe Morfológica foi reorganizada em três fatores: pronome + preposição,


substantivo + adjetivo e verbo (raiz) + advérbio. A variante retroflexa é favorecida por palavras
menos gramaticais, isto é, substantivo + adjetivo (29,1%) e verbo (raiz) + advérbio (34,2%),
em relação a palavras mais gramaticais (?%).

3.2.III. Rotacismo Commented [LO4]: Acima, vc apresentou as variáveis


na ordem: /r/ em coda, /r/ intervocálico, rotacismo.
Sugiro manter a ordem, pois isso facilita a
A tabela a seguir expõe de maneira reduzida as variáveis independentes que compreensão de seu texto pelo seu leitor.
apresentaram associação com a ocorrência ou não ocorrência do rotacismo na fala dos Commented [LO5]: Isso quer dizer que vc também
analisou outras variáveis, mas que não mostraram
informantes: correlação?
Tudo precisa ser reportado num trabalho, inclusive
análises que não mostram correlação significativa.
Você pode indicar as variáveis que tiveram correlação
de outro modo, p.ex., colocando-as em negrito.
Além disso, as variáveis sociais se repetem para as
três variáveis sociolinguísticas. Sugiro então que você
as apresente na seção de metodologia; lá, vc pode
comentar que as variáveis linguísticas serão
apresentadas na parte de resultados, uma vez que são
diferentes para cada variável sociolinguística.

O fator informante, que apresenta significância estatística para as três variáveis


dependentes, é uma variável aleatória e será comentada de maneira mais qualitativa nas seções
seguintes.

Dito isso, nota-se que o rotacismo ocorre com maior frequência na fala de homens do Commented [LO6]: É importante mostrar esses
resultados em gráficos ou tabelas. Inclua também os
que de mulheres, seguindo o padrão previsto, considerando que o rotacismo é estigmatizado na resultados dos testes de qui-quadrado, com a notação:
χ2 = XXX(X), p = XXXX
comunidade estudada. Visto que o rotacismo em si não é muito comum (3,1%), é interessante ou p < 0,001 etc.

que a frequência seja relativamente mais alta na fala dos informantes homens (8,3%), fato que entre parênteses, vão os graus de liberdade

pode indicar que a variante possua conotações favoráveis para os homens. O fenômeno não
ocorre na fala da primeira faixa etária (0,0%), acontece muito pouco na segunda (1,5%) e com
maior frequência na terceira (16,4%). Esse fato pode indicar que há uma mudança em processo,
em direção à não ocorrência do rotacismo, provavelmente por conta do processo de
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urbanização, já que o rotacismo é comumente associado à fala de comunidades rurais e menos
escolarizadas (BAGNO, 1999).

Os falantes oriundos de bairros menos afluentes realizam com maior frequência o


rotacismo (4,9%). Ao mesmo tempo, o rotacismo ocorre com pouca frequência para falantes
que residem em bairros mais afluentes (0,9%) e com maior frequência para aqueles que residem
em bairros menos afluentes (6,2%). É interessante notar que todos os dados de rotacismo para
falantes que residem em bairros mais afluentes - quatro no total - pertencem aos falantes de
terceira faixa etária, o que indica que a idade do falante pode ter mais peso do que sua classe
social.

Para o fator escolaridade, foi necessário unir os níveis fundamental e médio pois a
amostra não é balanceada neste sentido e há apenas dois informantes com apenas o ensino
fundamental. O rotacismo ocorre com maior frequência na fala dos informantes com
fundamental ou médio (11,2%) do que no ensino superior (0,7%), porém a ocorrência não é
nula no ensino superior.

O rotacismo ocorre com maior frequência, também, na fala dos informantes com renda
de 1 a 3 salários mínimos (35,3%), tem uma queda significativa na frequência na fala dos
informantes com renda de 3 a 5 salários mínimos (0,7%) e sobe um pouco para falantes de
renda 5 a 15 salários mínimos (0,9), sendo que a diferença entre a segunda e terceira faixa etária
não é significativa.

Com relação às variáveis linguísticas, apenas o fator posição na sílaba apresentou


associação com a frequência do rotacismo. O rotacismo é favorecido quando a líquida se
encontra em posição de ataque complexo, como em pranta, em relação a posição final, como
em folgada ou portal. De acordo com a literatura de aquisição de linguagem
(HERNANDORENA, 1990), existe uma sequência para a aquisição das formações silábicas no
português em que o ataque complexo é um dos últimos, justamente pelo nível de complexidade
de sua formação fônica.

Tabela 3. Frequência (porcentagem) de rotacismo nas falas dos informantes em função das
variáveis sociolinguísticas.

Variável Nível N (%) p-valor

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Sexo Homem ... (8,3%)

Mulher ... (

Faixa etária 1 0 (0,0%)

2 ... (1,5%)

3 ... (16,4%)

Situação do bairro Mais afluente

Menos afluente

3.3. Análises Qualitativas

A fim de iluminar questões referentes à dinâmica entre as variáveis independentes


sociais, em especial a variável sexo/gênero, e as variáveis linguísticas dependentes, se faz
necessário análises de cunho mais qualitativo e com foco nos indivíduos. Em anexo (ANEXO
III) encontram-se três tabelas referentes à frequência das variantes na fala de cada um dos
informantes, identificados por pseudônimos a fim de manter sua anonimidade.

Será argumentado que o uso de uma ou outra variante pelos informantes é influenciado
por seu senso de pertencimento aos grupos e identidades associados às variantes estigmatizadas
- rotacismo, /r/ retroflexo em ataque e /r/ retroflexo forte em coda -, assim como às variantes
de prestígio - a não ocorrência de rotacismo, /r/ tepe em ataque e /r/ retroflexo fraco em coda.
Além disso, propõe-se demonstrar a maneira como esses grupos e identidades perpassam e se
relacionam com as identidades referentes ao sexo/gênero dos falantes e questões de poder e
prestígio.

Primeiramente, assume-se, baseando nos resultados das análises quantitativas, que as


variáveis estigmatizadas são, também, associadas com as classes mais baixas, visto que a fala
dos informantes com menos escolaridade, menor renda familiar e moradores de bairros menos
afluentes costuma apresentar com maior frequência essas variáveis estigmatizadas. Ademais,
dados de entrevistas, além de outros estudos presentes na literatura de sociolinguística (LEITE,

15
2004; CARREÃO, 2018) permitem associar essas variáveis com uma outra identidade, a do
caipira.

De fato, a construção da imagem do caipira é resultado de um atravessamento de


discursos, dentre eles discursos advindos do trabalho, mais especificamente a de ofícios
historicamente performados pela população de classe mais baixa. Segundo Ferreira (2015),

“Esse discurso atua de forma positiva sobre o enunciador, induzindo o co-


enunciador a recuperar pela memória discursiva o estereótipo do homem
trabalhador, que conquista seu dinheiro honestamente, por meio do trabalho.
A memória discursiva também atua sobre a construção da imagem do
boiadeiro, que é associada à força física, rusticidade, coragem e simplicidade,
e sobre a sua indumentária.” (FERREIRA, 2015, p.130)

Será interessante, então, buscar apreender as maneiras como os informantes interagem


com essas identidades associadas às variantes estigmatizadas da comunidade. O trecho a seguir
pertence à entrevista com ElenaC, uma informante de primeira faixa etária e moradora de um
bairro menos afluente:

D1. como você se sentiria se você fosse chamada de caipira?


S1. tranquilo eu ia dar risada eu ia puxar o erre... tanto que é 'caipiracicabano'... mas é mais
como uma tradição que eles gostam até não é não/ isso não é uma ofensa né pros piracicabanos
nem pra nós então na verdade eles até gostam de ser reconhecidos por alguma forma

A informante afirma que não se importaria em ser chamada de caipira, o que poderia
indicar que ela não tem objeções quanto a ser associada a essa identidade. Entretanto, logo após
essa afirmação, ElenaC realiza uma operação de distanciamento da identidade do caipira por
meio do uso de pronomes em seu discurso, quando diz, por exemplo, que “isso não é uma
ofensa para os piracicabanos” e “na verdade eles até gostam de ser reconhecidos por alguma
forma”. Nessas instâncias, o que a informante faz é criar uma diferença entre o eu/nós e o eles,
em que o eles substitui piracicabanos.

Segundo Benveniste (1976), o eu “inclui, com os signos, aqueles que os empregam”,


enquanto que os pronomes de terceira pessoa, como eles, “escapam à condição de pessoa, isto
é, remetem não a eles mesmos mas uma situação ‘objetiva’” (BENVENISTE, p. 282, 1976).
Desta forma, enquanto o eu, e consequentemente o nós, posicionam o sujeito dentro do

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discurso, o pronome eles trata de sujeitos de fora do discurso. Assim, retomando também a
memória discursiva das dicotomias do nós versus eles, que se origina na modernidade e sustenta
uma ideologia excludente (2015), observa-se que ElenaC reafirma sua identidade de não-
caipira, mesmo que inconscientemente, a partir do estranhamento e distanciamento do outro.
Visto que a informante tem algumas das menores taxas de emprego das variantes
estigmatizadas (0,0% para rotacismo; 0,6% para retroflexo em ataque e 31,5% para retroflexo
forte em coda), parece plausível admitir que sua relação com a identidade caipira tem influência
em sua fala.

Em contrapartida a ElenaC, outra maneira de se relacionar com essa identidade é a de


reconhecimento e adesão a ela. O trecho a seguir faz parte da entrevista com CarlaG, informante
de segunda faixa etária e também moradora de um bairro menos afluente:

D1. é... o que vocês gostam de fazer como lazer aqui em Piracicaba?
S1. aqui em Piracicaba?[silêncio]
D1. nada?
S1. o nosso lazer é vim de final de semana pro sítio
[...]
S1. [em Piracicaba] até tem opções.... só que não faz o gênero da gente

Nessa instância a dicotomia é entre a área urbana e a área rural. Por meio de um processo
de substituição, poderíamos ter, no segundo enunciado: “aqui na região urbana?”, ao que
CarlaG mais tarde contrapõe com o sítio, ou região rural. Desse modo, a informante se associa
à área rural e, mais tarde, a torna parte da sua identidade afirmando que as formas de lazer que
a área urbana oferece não faz seu “gênero”, isto é, não é algo com o qual ela se identifica.

CarlaG possui uma das taxas mais altas de retroflexo em ataque (80,4%) e taxas
relativamente altas de retroflexo forte em coda (41,5%), embora quase não tenha produzido
rotacismo (3,3%) - variante que, conforme os dados quantitativos demonstram, parece estar
mais fortemente ligada à variável faixa etária. Novamente, sua associação com uma identidade
mais rural, assim como a do caipira mas não necessariamente esta, influi em sua fala.

Há ainda o caso de MariaS, uma informante de segunda faixa etária e moradora de um


bairro mais afluente. De acordo com as generalizações realizadas por meio de análises

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quantitativas, era esperado que MariaS privilegiasse as variantes de prestígio e evitasse as
variantes estigmatizadas, tanto por ser mulher quanto por ser de classe alta. Embora isso seja
verdade para as variantes /r/ em coda e rotacismo, MariaS tem uma taxa relativamente alta de
uso do retroflexo em ataque (31,5%), principalmente quando comparada às outras mulheres da
amostra. O trecho a seguir ilumina a relação da informante com a identidade do caipira:

D1. vocês acham que os piracicabanos são caipiras mesmo?


S1. eu acho que não... imagina que nós somos caipiras não eu não acho... acho até que nós
estamos evoluindo

Neste trecho, a informante afirma não identificar os piracicabanos como caipiras.


Diferentemente de ElenaC, MariaS se coloca como parte do grupo “piracicabanos”, por meio
do pronome nós, mas nega explicitamente a identidade do caipira para os piracicabanos e,
consequentemente, para ela. Essa observação ilumina um dos principais problemas para
qualquer estudo sociolinguístico que leve em conta as atitudes linguísticas, pois ressalta a
dificuldade em acessar as crenças de determinado indivíduo sobre as variantes, que nem sempre
são as mesmas das do pesquisador ou mesmo da maioria das pessoas (PRESTON, 2013).

Sendo assim, pode-se admitir que as variantes comumente associadas com a fala de
Piracicaba, principalmente o retroflexo em ataque, não necessariamente possuem uma
associação ao caipira para MariaS, fato que ajuda a explicar a presença incomum de taxas
relativamente altas dessa variável estigmatizada em sua fala.

Retomando a construção da imagem do caipira, é necessário relembrar sua associação


às classes baixas e a conceitos de virilidade, força física, simplicidade e coragem. De fato,
Ferreira (2008), afirma que estudar os discursos em torno da identidade do caipira “revela
aspectos identitários e culturais do homem brasileiro”, deixando evidente que o caipira é ligado
ao masculino no imaginário popular. Dessa maneira, admite-se aqui a hipótese de que há um
prestígio encoberto em voga, isto é, prestígio adquirido em uma comunidade pelo uso de uma
variedade de idioma não-padrão, comumente associada à classe trabalhadora.

Dentre os homens da amostra, MarcosO e MiguelM possuem as maiores taxas de uso


do retroflexo em ataque (86,7% e 88,9%, respectivamente) e do retroflexo forte em coda
(44,3% e 49,1%, respectivamente). Durante as entrevistas, ambos os participantes demonstram

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ter consciência de que sua fala é considerada “inferior” em relação a uma fala mais próxima do
padrão. Labov (1966), em seu estudo em Nova York, se depara com uma situação parecida e,
a partir disso, ele oferece uma explicação para o uso contínuo das variantes não-padrão, mesmo
com essa consciência: para criar e/ou manter a identidade de grupo dentro da comunidade de
fala.

Em uma elaboração sobre os estudos de Labov, Trudgill (1972) introduz um aspecto de


gênero para o prestígio encoberto, em que os homens eram mais favoráveis às variantes não-
padrão, da classe trabalhadora, mais preocupados em alcançar a solidariedade do grupo do que
soar como alguém de status elevado. Enquanto isso, o oposto acontece para as mulheres.

É interessante, então, notar que MarcosO e MiguelM são de classe mais baixa e possuem
ocupações que os coloca em contato com outros homens de classe baixa e que são
historicamente associadas a um trabalho mais masculino: MarcosO é soldador e MiguelM é
auxiliar administrativo de uma autoelétrica.

Em contrapartida, GuilhermeS e GabrielA são os homens com as menores taxas de uso


de retroflexo em ataque (2,9% e 1,0%, respectivamente) e de retroflexo forte em coda (5,8% e
13,8%, respectivamente), além de uma taxa de 0,0% de ocorrências de rotacismo para ambos.
Estes informantes são de classe mais alta e possuem ocupações mais ligadas à formação
acadêmica: GuilhemeS é arquiteto e GabrielA é estudante de estatística.

O caso de GilmarB, falante de terceira faixa etária e morador de um bairro mais afluente
é interessante porque, apesar de ser de classe mais alta, tem altas taxas de uso das variantes
estigmatizadas (33,3% para rotacismo, 83,5% para retroflexo em ataque e 46,7% para
retroflexo forte em coda). GilmarB é aposentado, mas diferentemente de GuilhermeS e
GabrielA, a natureza do trabalho que ele realizava, no SEMAE (Serviço Municipal de Água e
Esgoto), se aproxima mais de um trabalho braçal e masculino, assim como MiguelM e
MarcosO. Além disso, quando perguntado sobre seus hábitos de lazer, o informante, assim
como CarlaG, diz preferir passar os fins de semana em sua chácara ou sair para pescar com
seus irmãos.

4. Conclusão

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Este trabalho aponta para a complexidade da relação entre a variável sexo/gênero e a
realização de variáveis linguísticas. Embora as análises quantitativas sejam consonantes com
os padrões de gênero observados anteriormente em outras pesquisas, análises de caráter
qualitativo demonstram que esta relação não pode ser reduzida a simples questões de prestígio,
mas dependem de outros fatores, como a afinidade com identidades que possuem relação
indireta com questões de gênero, como a do caipira.

Futuros estudos podem aprofundar a investigação por meio de análises multivariadas,


por exemplo, a fim de observar as relações entre variáveis independentes diferentes. Além
disso, estudos com foco na mudança linguística podem trazer resultados relevantes,
principalmente no caso do rotacismo.

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