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Marx e Enga ·s

A IDEOLOGIA
·LEMA
.. 1

E D liTiO F.11 A: l! P.R ESENC1'



l!IN'F.lARI~ M~RililNS F.ONliES
IDEOLOGIA ALEMÃ
1. O MEIO DIVINO, por Teílhard de Chardin

2. O EXISTENCIALISMO ~ UiM HUMANISMO, por Jean-


-Paul Barlre e VergUio Ferreira

3. A ORIGEM DA ~A•MJT,lA, DA PROPRIEDADE PRIVADA


E DO ESTADO, por Friedrich Engels

4. DO AMO~ por Btendhal

5. O LUGAR DO HOMEM NO UNIVERSO, por Teilhard


de Ohar4'n

a. ASSIM FALAVA ZARATUSTRA, por F. Nietz.,che

7.
8. A SOCIEDADE PRIMITIVA I, por Le1l1M H. Morgan

.9. NAPOLEAO I, por E " ~ Tark!

10. NAPOLEÃO ~ por Euguém TarU

11. HUMANO DEHASIA:00 HUJ,lANO, por 11'. Nietuche

12. OS DOOE CZSARES, por B1'6t6nio

13. O ·PENSAMENTO EUROPEU NO ~CULO XVIII, I,


por Paul Hazard
14. O PENSAMENTO EUROPEU NO S&CULO XVIII, II,
por Patal Hazard
15. A SOCIEDADE PRilfITl'VA II, por Letoi., Morgan

16. A IDEOLOGIA ALEKA. I, por Karl Mar:,: e ll'Tí-1rick


E,age'la
KARL MARX • FRIBDRICH ENGELS

A IDEOLOGIA ALEMA
CRITICA DA FILOSOFIA ALEMÃ MAIS RECENTE NA
PESSOA DOS SEUS REPRESENTANTES FEUERBACH,
B. BAUER E STIRNER, E DO SOCIALISMO
ALEMÃO NA DOS SEUS DIFERENTES PROFETAS

VOLUME 1

Tradução de
CONCEJÇAO JARDIM
e
EDUARDO lúCIO NOGUEIRA

B>ITORIAl PRESENÇA• LIVRARIA MARTINS FONTES


PORTUGAL BRASIL
Capa de F. e.

Reservados todos os direitos para esta edição à


EDITORIAL ·PRESENÇA, -LDA. -Av. João XXI, 56-1.º
LISBOA
PREFACIO

Até agora, os homens formaram sempre ideias falsas


sobre si mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser.
Organizaram as suas relações mútuas em função das rejJre-
senJações de Deus, do homem normal, etc., que aceitavam~
Estes produtos do seu cérebro acabaram por os dominar;
apesar de criadores, inclinaram-se perante as suas próprias
criações. libertemo-los portanJo das quimeras, das ideias, dos
dogmas, dos seres imaginários cujo jugo os faz degenerar.
Revoltemo-nos contra o império dessas ideiar- Ensinemos
os homens a substituir essas ilwões por pensamentos que
co"espondam à essência do homem, afirma um; a ter perante
elas wna atitude crítica, afirma outro; a tirá-las da cabeça.,
diz um terceiro - e a realidade existente desaparecerá.
Estes sonhos inocentes e pueris formam o núcleo da
filosofia actual dos Jovens Hegelianos; e, na Alemanha, são
não só acolhidas pelo público com wn misto de respeito
e pavor como ainda apresenJadas pelos próprios heróis filo-
sóficos com a solene convicção d,e que tais ideias, de uma
virulência criminosa, constituem para o mundo wn perigo
revolucionário. O primeiro volwne desta obra propõe-se des-
mascarar estas ovelhas que se julgam a si mesmas e que são
tomadas como lobos mostrando que os seus balidos apenas
repetem numa ünguagem filosófica as represe,µações dos
burgueses alemães e que as suas farrfarronadas apenas reflec-
tem a pobreza lastimosa da realidade alemã; propõe-se ridi-
cularizar e desacreditar esse combate filosófico contra a.,

7
somhrm da retMidotle que tanJo agrada à sonolência sonha-
dora do povo alemão.
Em tempos, houve quem pensasse que os homens se
ajogavam apenas por acreditarem na ideia de gravidade. Se
tirQS3eln esta ideia da cabeça, dedarando por exemplo que não
era mais do que uma represeniação religiosa, supersticiosa,
ficariam imediatame.nJe livres de qualquer perigo de afowi-
mento. Dwante toda a sua vida, o homem que assim pensou
viu-se obrigado a lute, conJra todas as estatísticas que de-
monstram repetidamenJe as consequências perrúciosas de uma
tal ilusão_ Este homem constituía um exemplo vivo dos actuais
fiú5sofos revolucionários alemães 1 •

1 [Passagem cortada no manuscrito:] Nenhuma diferença


especlflca distingue o idealismo alemão da, ideologia de todos
os outros povos. Esta última considera igualmente que o mundo
~ dominado por idela.s, que estas e os conceitos são prtncipios
determinantes, que o mistério do mundo material, apenas
aceasivel aos filósofos, é constttuido por determinadas Ideias.
Hegel levou ao mã.xtmo o idealismo positivo. Para ele,
o mundo material não se llmltara a meta.mor!osear-se num
mundo de Ideias e a história numa história de ideias. Hegel
nAo se contenta com o registo dos factos do pensamento; pro-
cura tarobéru anaUsa-r o acto de produção.
, Quando são obrigados a saJr do seu mundo de sonhos, os
tu6sofos alemães protestam contra o mundo das ldelas que
lhe.s [ ... ] a representação do [mundo] real, tls[tco] ...
Todos os criticos alemães afirmam que as ideias, re.pre-
sentações e conceitos domlna.ra.m e determinaram até ag-ora
os homens reais e que o mundo rea.l é um produto do mundo
das ideias. Todos pensam que assim aconteceu até agora, mas
que a situação se vai modificar; e é aquJ que se di!erenclam
entre s~ pois ,têm opiniões diferentes sobre a forma como se
deve libertar o mundo dos homens, o qu.a.l, segundo eles, gemeria
sob o peso das suas próprias idela.s fixas, e sobre aquilo que
cada um cons.ldera como Ideia fixa. Mas todos acreditam no
dominlo das ideias e julge.m que o seu raciocínio provocan1.
necessariamente a queda do estado de coisas existente, quer pelo
simples poder do seu pensamento lndtvtdual quer por tentarem
conquistar a consciêncla de todos.
A crença de que o mundo rea.l é o produto do mundo
ideal, de que o mundo das idela.s [ ... ]
Alucinados pelo mundo hegeliano das ideias, que se tornou
o deles, os :tllõsotos alemães protestam contra o dominlo doe

8
peDB&meotos, Ideias e representações que até agora, no seu
parecer, ou melbor, de acordo com a Uuaãio de Hegel, deram
origem ao mundo real. o determinaram, o dominaram. Exalam
um último protesto e sucumbem [ ... ]
. No sistema de Hegel, as ideias, peDs&ll\entds e conceitos
produziram, determinaram e domiDaram a vida real dos homens,
o seu mundo m a ~ as suas relações reais. Os seus dJ.scfpulos
revoltados assenhorearam-se deste postulado [ .. . ]

9
1

FEUERBACH

Oposição entre a concepção materiaílSta e a idealista

INTRODUÇÃO

De acordo com certos ideólogos alemães. a Alemanha


teria sido nestes últimos anos o teatro de uma revolução sem
precedentes. O procesoo de decomposição do sistema hege-
liano. iniciado com Strauss 1 , teria dado origem a uma f er-
mentação universal para a qual teriam sido arrastadas todas
as cpo~ncias do passado>. Nesse caos universal. formaram-se
impérios poderosos que depois sofreram uma derrocada impo-
nente, surgiram heróis efémeros mais tarde derrubados por
rivais audazes e mais poderosos. Perante ela, a Revolução
francesa não foi mais do que uma brincadeira de crianças
e os combates dos diádocos 2 parecem-nos mesquinhos- Os
princípios foram substituídos, os heróis do pensamento derru-

1 David Friedrlch strauss (1808-1814:), fll~stfo alemão.


1 Genera.ls de Alexandre da Maced6Dla que, após a sua
morte, se entregaram a uma luta encarniçada a fim de atingi-
rem o poder.

11
baram-se uns aos outros: de 1842 a 1845,· o solo alemão foi
mais revolvido do que nos três séculos anteriores.
E tudo isto se teria passado nos domínios do pensa-
mento puro 1 •
Trata-se, com efeito, de um acontecimento interessante:
o processo de decomposição do espírito a~Iuto 2 • Depois
de de extinguir a sua última centelha de vida, os diversos
elementos deste caput mortuwn ª entraram em decom,posição,
formaram novas combinações e constituíram novas substãn..
cias. Os industriais da filosofia. que até então viviam da
exploração do espírito absoluto, ocuparam-se imediatamente
dessas novas combinações. procurando com todo o zelo fazer
render a .parte que lhes coubera. Mas também aqui havia
concorrência... No início, esta foi :praticada de uma forma
bastante séria e burguesa; mais tarde quando o mercado
alemão ficou saturado e se verificou ser impossível, apesar
de todos os esforços. escoar a mercadoria no mercado mun-
dial, o negócio foi viciado, como é habitual na Alemanha.
por uma produção inferior, pela alteração da qualidade, pela
adulteração da matéria prima. a falsificação dos rótulos, as
vendas fictícias. os cheques sem cobertura e a instauração
de um sistema de crédito sem qualquer base cçncreta. Esta
concorrência deu origem a uma luta encarniçada que nos
é agora apresentada e enaltecida como uma revolução histó-
rica que teria conseguido prodigiosos resultados e conquistas.
Mas -para ter uma ideia justa desta charlatanice filosófica
que desperta. no coração do honesto burguês alemão um agra-
dável sentimento nacional, ·para dar uma ideia concreta da

1 [Passagem cortada no manu.scrlto:] O mundo exterior


profano não se apercebeu evidentemente de nada: nenhum destes
aconte.clmentos que revoluclona.ram o mundo conseguiu exceder
os llml.tes de \llll processo de decompoalção do espfrito absdluto.
2 [Passagem cortada no manuscrito:] O critico, esse orde-
nador de casamentos e funerais, nAo poderia naturalmente estar
ausente; de facto, enquanto resfduos das grandes guerras de
libertação, ...
• Neste caso: reridMO.

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mesquinhez, da pequenez provinciana 1 de todo este movi-
mento jovem-hegeliano. e especialmente de todo o contraste
trágico-cómico entre aquilo que estes heróis realmente fazem
e o que julgam faur, é n ~ o examinar todo este espec-
táculo de um ponto de vista exterior à Alemanha 2 •

1 [:Paasagem cortada no manuacrtto:] (e da pequenez na-


cional).
2 [:P assagem corta.da no manuscrito:] Jt por e.ssa. razão
que faremos preceder a critica tndlvtdual dos· diversos repre-
sentantes deste movimento de algwrrou anotações gerais (as
quais bastarão para caracterizar o nosso ponto de vista critico
e fundamentA.-lo tanto quanto n ~ o . Se opomos estas ano-
tações a Feuerbach, é por ser ele o único a constituir um
efectivo progresso, o único cujas obras podem ser estudadas
de bontl6 foi •) ; tais ano~ões esclarecerão os pr.essupostos
tdeológicoe que lhes são comuns.
• De boa f'; em francês no texto original

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A. A IDEOLOGIA EM GERAL
E A IDEOLOGIA ALEMÃ EM PARTICULAR

A critica alemã nunca ultrapassou. mesmo nos seus


últimos esforços. o terreno da filosofia.. Longe de examinar
as suas bases filosóficas gerais. antes aceita implicitamente
como base um sistema filosófico determinado. o sistema
hegeliano. e é dele que retira todas as suas conclusões. Tanto
as respostas que nos fornece como até os problemas que
levanta contêm uma mistificação. Por dependerem de Hegel,
nenhum destes modernos críticos tentou sequer fazer uma
crítica de conjunto ao sistema hegeliano; porém. todos eles
afirmam convictamente terem ultrapassado Hegel- A polé-
mica que contra ele dirigem e que travam entre si, limita-se
ao seguinte: cada um isola um aspecto qualquer do sistema
hegeliano e fá-lo chocar com a totalidade do sistema e com
os aspectos que os outros acharam por bem isolar. Come•
çou-se por escolher categorias hegelianas puras, não falsi-
ficadas. tais como a substância e a consciência de si; mais
tarde. profanaram-se categorias com designações mais tempo-
rais como. por exemplo, o Género. o único, o Homem. etc.
Toda a crítica filosófica alemã desde Strauss até Stirner 1
limita-se a · criticar representações religiosas 2 • Partiu-se da

1 Max Stlrner ·(pseudónimo de Johann Ca.spar Schmldt)


(1806-J.865). Um dos teóricos alemães do anarquismo.
2 [Passagem cortada no manuscrito:] . . . tinha a pre-
tensão de ser a salvadora absoluta do mundo, de o libertar

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verdadeira religião e da teologia propriamente dita; o que
se entendeu posteriormente por consciência religiosa e por
ideia religiosa, recebeu diferentes designações. O d~senvolvi-
~~µto do. te.ma .consistiu em subordinar.igualmente à esfer~
das representações religiosas ou teol~cas as representações
e
mr.tafisicas_ "políticas: jllrldicas: riioràis ·outras que se ·consi.:
deravam predominantes;- proclamava-se simultaneamente que
a consciência política, jurídica e moral é uma consciência
religiosa ou teológica e que o homem político, jurídico e
moral, co homem• em última instância, é religioso. Postulou-
-se o domínio da religião, e pouco a pouco declarou-se que
todas as relações dominantes são relações religiosas. Estas
relações foram então consideradas como cultos. culto do
direito. culto do &tado, etc. Todo o problema ficou então
reduzido aos dogmas e à fé nos dogmas. O mundo foi cano-
nizado numa escala cada vez mais vasta até o venerado
São Max 1 o canonizar en bloc 2 e o liquidar de uma vez
por todas.
Os velhos hegelianos compreendiam tudo o que conse-
guiam enquadrar numa das categorias da lógica hegeliana;
os jovens-hegelianos criticaram tudo. substituindo_ as coisas
por repr~ntações religiosas ou proclamando-as teológicas.
Tanto os jovens como os velhos hegelianos estão de acordo
quando acreditam no reinado da religião, dos conceitos e do
universal no mundo existente. A única diferença entre eles
é a de que uns combatem. como se se tratasse de uma
, usurpação, o domínio que os outros celebram como legítimo•
Para os jovens-hegelianos, as representações, ideias. con-
ceitos, enfim, os produtos da consciência a que eles próprios
deram autonomia. são considerados como sendo as cadeias
reais que mantêm o homem agrilhoado ao mesmo título que
os velhos hegelianos os consideravam como relações reais.

de todo o ma.l. A religião foi considerada sistematicamente como


o lnlmtgo supremo, a causa última de tudo o que repugnava a
esse.a ifllóso!os, e tratada de acordo com tal opln1ã.o.
1 Stlrner.
2 Em bloco; em francês no original.

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Toma-se assim evidente que os jovens hegelianos devem lutar
apenas contra estas ilusões da consciência 1 • Como, na sua
imaginação. as reJações entre os homens. todos os seus actos
e os seus gestos. as suas cadeias e os seus limites. são pro-
dutos da consciência, os jovens-hegelianos. coerentes consigo
mesmos. propõem aos homens este postulado moral: substituir
a sua consciência actual pela consciência humana critica ou
egofsta e, ao fazê-lo. abolir os seus limites. Exigir uma tal
transfonnação da consciência significa interpretar diferente-
mente aquilo que existe. isto é, aceitá-lo com uma interpre-
tação diferente. Apesar das suas frases pompo~s. que «revo-
lucionam o mundo», os ideólogos da escola jovem-hegeliana
são os maiores conservadores. Os mais jovens encontraram
uma expressão exacta para qualificar a sua actividade quando
afirmam lutar unicamente contra uma «fraseologia»; esque-
cem-se porém de que apenas lhe opõem uma outra fraseologia
e de que não é lutando contra a fraseologia de um mundq, .
que se luta com o mundo que realmente existe. Os úniéos
resultados que se conseguiram. com esta critica filosófica
foram alguns esclarecimentos quanto à história religiosa -
e mesmo isto de um ponto de vista muito limitado -do
cristianismo; todas as suas outras afirmações constituem novas
formas de ornamentar a sua pretensão de terem realizado
descobertas de importância histórica quando. de facto, não
foram mais do que esclarecimentos insignificantes.
Nenhum destes filósofos se lembrou de perguntar qual
seria a relação entre a filosofia alemã e a realidade alemã.
a relação entre a sua critica e o seu próprio meio material.

1 [Passagem cortada no manuscrito:] e que apenas pro-


curam atingir uma modltlcação da consclêncla dominante.

• 11
1. A IDEOLOGIA ALEMÃ;
EM ESPECIAL., A FILOSOFIA ALEMÃ.

As premissas de que partimos não constituem bases arbi-


trárias. nem dogmas; são antes bases reais de que só é possível
abstrair no âmbito da imaginação. As nossas premissas são
os indivíduos reais. a sua acção e as suas condições materiais
de existênci~ quer~ trate daquelas que encontrou já elabo-
radas aquando do seu aparecimento quer das que ele próprio
criou• Estas bases são portanto verificáveis por vias puramente
, .
emp1ncas.
A primeira condição de toda a história humana é evi-
dentemente a existência de seres humanos vivos 2 • O primeiro
estado real que encontramos é então constituído pela comple-
xidade corporal desses indivíduos e as relações a que ela
obriga com o resto da natureza. Não poderemos fazer aqui
um estudo aprofundado da constituição física do homem ou
das condições naturais. geológicas. orográficas. hidrográficas.

1 [Passagem cortada no manuscrito:] Apenas conhece-


mos uma clêncla, a da história. Esta. pode ser examinada sob
dois aspectos; podemos dividi-Ia em hlstõrla da natureza e hls-
tõrl& dos homens. Porém, estes dols aspectos não são separá.veis;
enquanto existirem homens, a sua hlstõrla e a da natureza
condlclonar-se-Ao reciprocamente. A história da natureza, aquilo
que se designa por ciência da natureza, não nos interessa aqui;
pelo contrãrlo, é-nos necessário ana.li.ear em detalhe a história
dos homens pois, com e~i-to, quase toda a Ideologia se reduz
a uma falsa concepção de.ssa história. ou ao puro e simples
abstrair dela. A própria ideologia é somente um dos aspectos
dessa hlstõria.
2 [Passagem cortada no manuscrito:] O primeiro acto
Atat6rico desses tndlviduos, através do qual se distinguem dos
anlrnaJe, não é o f a.cto de pensarem mas .sim o de prod1'-drem
os ,eu.a meioa de U'iat~.

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climáticas e outras 1 ., que se lhe depararam já elaboradas.
Toda a historiografia deve necessariamente partir dessas bases
natur~ e da sua modificação provocada pelos homens no
decurso da história.
Pode-se referir a consciênci~ a religião e tudo o que
se quiser como distinção entre os homens e os animais;
porbn, esta distinção só começa a existir quando os homens
iniciam a produção dos seus meios de vida, passo em frente
que é consequência da sua organização corporal. Ao produ-
zirem os seus meios de existência. os homens produzem indi-
rectamente a sua própria vida material.
A forma como os homens produzem esses meios depende
em primeiro lugar da natureza, isto é. dos meios de existência
já elaborados e que lhes é necessário reproduzir; mas não
deveremos considerar esse modo de produção deste único
ponto de vista. isto é, enquanto mera reprodução da exis-
tência física dos indivíduos. Pelo contrário, já constitui um
modo determinado de actividade de tais indivíduos, uma
forma determinada de manifestar a sua vida, um modo t!e
vida determinado_,_ A forma como os indivíduos manifestam
a sua vida reflecte muito exactamente aquilo ue são. O que
sao comei e portanto com a sua pro uçao. isto é, tanto com
aquilo que produzem como com a forma como produzem.
Aquilo que os indivíduos são depende portanto das condições
materiais da sua produção•
Esta produção só aparece com o aumento da população
e pressupõe a existência de relações entre os. indivíduos.
A forma dessas relações · é por sua vez condicionada pela
produção.

1 [Pasaagem cortada no manuscrlto:] Ora este estado


de colaa.s não condlclona apen8.8 a organização q·u e emana da.
natureza, a organização pr1mitlva dos homens, principalmente
no que se refere às diferenças de raça.; condiciona igualmente
todo o seu desenvolvimento ou não desenvolvimento ulterior.

19

As relações entre as diferentes nações dependem do
estádio de desenvolvimento das forças produtivas. da divisão
de trabalho e das relações interiores em cada uma delas.
Este -princípio é universalmente reconhecido. No entanto, não
são apenas as relações entre uma nação e qualquer outra
que dependem do nível de desenvolvimento da sua produção
e das suas relações interiores e exteriores; o mesmo acontece
com toda a estrutura interna dessa nação. Reconhece-se
facilmente o grau de desenvolvimento atingido pelas forças
produtivas de uma nação a partir do desenvolvimento atingido
pela divisão do trabalho. Na medida em que não constitui
apenas uma mera extensão quantitativa das forças produtivas
já conhecidas (como. por exemplo, o aproveitamento de terras
incultas), qualquer nova força de produção tem por conse-
quência um novo aperfeiçoamento da divisão do trabalho.
A <furisão do ..trabaJb.o. .numa.. nação ._Q~rjga .em p_rimeiro
lugar à se_pªra~9 _çº~!e-º- t_~~JhQ ..iº4!-!s~rial _C? ·comCrcial -e- o
trab~~o ~rí_çqJ.ª;___e. __C9~9 __ con~u-~~-çl~. à sepii-açãO -~.J!tre
seu
a cidad~_ e. o çcm.zpo__ e _ft_l)~Sj~-~-"º~- seus 1nf~~ê's~-es~. b
desenvolvimento ulterior conduz à separação do trabalho
comercial e do trabalho industrial. Simultaneamente. e devido
à divisão de trabalho no interior dos düerentes ramos, assiste-
-se ao desenvolvimento de diversas subdivisões entre os indi-
víduos que cooperam em trabalhos detenninados. A posição
de quaisquer destas subdivisões particulares relativamente
às outras é condicionada pelo modo de exploração do tra-
balho' agrícola.. industrial e comercial (patriarcado. escravatura,
ordens e classes). O mesmo acontece quando o comércio
se desenvolve entre as diversas nações.
Qs_ vários estádios de desenv9Jyim.ento __da ..divisão_da._
t!:!balho representam outras tan~as~fqrmas _diferentes _de ..pro-. ·
.p ~de; diien_dõ~~de :-õútro modo.. ~~da _n~y_q_ estádio_ .na__
divisão de trabaM!.q__d~te~~ _igµ~~~n\~ . -~--relações ....entre.
~ indivíduos no que. toca ao material.=-a.Qs instrumentos e aos
prodüto~ _4-ó.Jrabàlho. --
A primeira forma da propriedade é a propriedade da
~rresponde ao tipo rudimentar de· produção em que

20
os homens se a.1.imentavam da C!@_~-Qa ~ da cnaçio
de gado e de wna agricultura incipiente. a qual pressupunha
uma enorme quantidade de terras incultas. A divisão do
trabalho é então muito pouco desenvolvida e limita-se a
constituir mna extensão da divisão do trabalho natural que
existia no âmbito da famíli~ A estrutura social é. ela própria,
uma extensão da estrutura familiar: no topo encontravam-se
os chefes da tribo patriarcal, seguidos dos membros da tribo
e, finalmente. dos escravos. A escravatura latente na família
s6 se desenvolve pouco a pouco com o crescimento da popu-
lação. das n~idades, e das relações exteriores; e, quanto
a estas. quer se tratasse de guerra ou de comércio.
A segunda forma de propriedade é a_J!_ro_priedade comu-
nitária e a _proprieda4e de -~tado, que encoÕtiamôs- nã-àntl:
·guidãde e que provém sobretudo da ..reuniã_o __(je _ván~- tribos _
numa única cidade, por contrato ou por conquista. e na qual
·subsiste a· escravatura. A par da propriedade comunitária
desenvolve-se a propriedade privada mobiliária e mais tarde a
imobiliária; mas desenvolve-se ainda como uma forma anor-
mal e subordinada à propriedade comunitária. Os cidadãos
só colectivamente exercçm o seu poder sobre os ~ravos que
trabalham para eles. o que os liga à forma da propriedade
comunitária. Esta forma constitui já um tipo de propriedade
privada dos cidadãos activos que, face aos escravos. são obri-
gados a conservar ainda uma forma natural de ~ciação.
To.da a estrutura social que nela se )?aseia, ~im como o ~der
do povo. ·desagregam-se ulteriormente na exacta medida em
que se desenvolve, principalmente. a propriedade priva.da imo-
biliária. A divisão de trabalho está mais evoluída; encontramos
já a oposição entre a cidade e o campo.. e mais tarde a
oposição entre os Estados que representam o interesse dos
campos. ~esm.o no interior das ciqades _yamos_ eocontrac
uma oposição entr~Q__comércio_..marítimo -C--a-mdústria• As
-r-~ - -dê classe entre cidadãos e escravos atingem o seu
maior desenvolvimento 1 •

1[Passagem cortada no manuscrito:] entre os Plebeus


romanos encontramos em primeiro lugar peque.nos proprietários

21
/ .. Com a cvoluçao da propriedade privada, surgem pela
primeira vez as relações que reencontramos na propriedade
privada moderna,, embora numa maior escala: por um lado,
a concentração da propriedade privada que começou ~uito
cedo em Roma, como o prova a lei agrária de Licinius 1 ,
e que avançou rapidamente a partir das guerras civis e
sobretudo sob o Império; por outro lado, e em correlação
com estes factos. a transformação dos pequenos camponeses
píebeus num proletariado, cuja situação intermédia entre os
cidadãos possuidores e os escravos, impediu um desenvol•
vimento independente.
A terceira forma é a propriedade feudal ou propriedade
por ordens. Enquanto que a antiguidade partia da cidade
e do seu pequeno território, a Idade Média partia do campo.
A população existente, espalhada por uma enorme superfície
que nem sequer os conquistadores vinham ocupar, con_di-
cionou esta mudança de ponto de partida. Contrariamente
ao que acontecera na Grécia e em Roma, o desenvolvimento
feudal inicia-se portanto numa extensão territorial muito
maior, preparada pelas conquistas romanas e pelo desenvol-
vimento do cultivo da terra a que aquelas inicialmente deram
origem. Os últimos séculos do Império Romano em declínio
e as conquistas dos bárbaros destruíram wna grande massa
de forças produtivas: a agricultura definha, a indústria entra
em decadência por falta de mercados, o comércio arrasta-se
morosamente ou é totalmente interrompido pela violência,
e a população, tanto a rural como a urbana, diminui. Esta
situação e o modo de organização a que deu origem desen-
volveram, sob a influência da organização militar dos Ger-
manos. a propriedade feudal Tal como a propriedade da

de terra, ao que se segue a constltulção embrlon4.ria de um


proletariado, tendência que aUA.s não se desenvolve devido à sua
posição Intermédia entre cldadAos possuidores e escravos.
1 Liclnlus: tribuno do povo que editou em 367, junta-
mente com Sextius, lels que tavoreclam os plebeus, e segundo
as quais nenhum cidadão romano tinha o direito de possuir mais
do que uma determinada extensão de terras pertencentes ao
Estado.

22
tribo e a da comuna. aquela repousa por sua vez numa comu-
nidade em que já não são os escravos. como acontecera no
sistema antigo. mas sim os servos da gleba que constituem
a classe directamente produtora. Paralelamente ao processo
de desenvolvimento do feudalismo surge a oposição às cidades.
- A estrutura hierárquica da propriedade fundiária e a suserania
militar que lhe correspondia conferiram à nobreza um poder
total sobre os servos. J;,st;a estrutura -feudal, do mesmo modo
que a antiga propriedade da comuna. constituía uma asw•
ciação contra a classe rodutora dominada; e as diferen

ª~_
éom os produ!ore.s imediatos_~Cª:!:!:1ª1::f~ncia
as_cii.ndiçôês dê pcodnça Lrcl e.
do facto,
- A esta estrutura feuda!__ d~ p_~qp_riedade.1undiária. corr~s-
.1xn1di~. nas cidades~ a propriedad~_ÇQ[pQ.tªli.v.~~ a organização
feudal do artesanato. Aqui, a propriedade .consistia princi-
palmente no trabalho de cada indivíduo; e foi a necessidade
de associação contra uma nobreza voraz. a vantagem de
dispor de locais de venda comuns numa época em que o
industrial era simultaneamente comerciante. a concorrência
crescente dos servos que se evadiam em massa para as cidades
prósperas e a estrutura feudal de todo o país que levaram
à constituição de corporações; os ~~enos capit~~~_econ.9-
mizados pouco a pouco pelos artesãos isolados e o número
invariável que estes reptesentavám numa população que a_u-
mentava sein cessar desenvolveram a condição de compa-
nheiro e de ap~ndiz_ que, oas cidades.. deu origem a uma
_)hierarquia . semelh~nt.e....à_exist~nte. _no_i'.:.ampo_._
~'-~rt'ánto. durante a época feudal, o tipo fundamental
de propriedade era o da-.propriedade f11ndiári.a-à_qual .estava
submeti~--~ _tr~ba~o dos servos. por um lado., e. por outro,
o trabalho pessoal apoiado nµm pequeno capital .e _regendo
-õ- tral:iaúio· d6s oficiais. A estrutura de cada uma destas duas
..f9~~--e-~~ cç,ndicionada ~las. l~ttad·ás-re1áç~~~~e _p_~g~ç~.9.
a agricultura rudim-entar e restrita e a indústria art~anal.
·Aquando do apogeu do feudalismo. a divisão do trabalho
foi muito pouco impulsionada; cada país coritinha em si
mesmo a oposição cidade-campo. A divisão em ordens era
muito acentuada mas não encontramos nenhuma outra divisão

23
de trabalho importante fora da separação entre prlndpes,
nobreza, clero e camponeses no campo, e mestres. compa-
nheiros e aprendizes. e posteriormente uma plebe de jorna-
leiros. nas cidades.. Na agricultura., essa divisão tornava•se
mais difícil pela existência da exploração parcelar, paralela-
mente à qual se desenvolveu a indústria doméstica dos pró-
prios camponeses; na indústria., não existia divisão do trabalho
dentro de cada ofício. e muito pouca entre os diferentes
ofícios. A divisão entre o comércio e a indústria existia já
nas cidades antigas. mas só mais tarde se desenvolveu nas
cidades novas, quando estas iniciaram contactos mútuos.
O agrupamento de terras de uma certa extensão em
reinos feudais era tanto uma necessidade para a nobreza da
terra como para as cidades. É por esta raz.ão que a organi-
zação da classe dominante, isto é, da nobreza, teve sempre
um monarca à cabeça.


Como vemos. são sempre indivíduos determinados 1 , com
uma actividade produtiva que se desenrola de um deter-
minado modo, que entram ·em relações sociais e políticas
determinadas. i;,, necessário que, em cada caso particular, a
observação empírica• mostre nos factos. e sem qualquer

-
especulação ou mistificação. o elo existente entre a estrutura
social e política e a produção- A estrutura social e o Estado
resultam constantemente do processo vital de indivíduos
determinados; mas não resultam da aparência que estes indi-
víduos possam ter perante si mesmos ou perante outros
e sim daquilo que são na realidade, isto é, tal como traba-
lham e produzem materialmente. Resultam portanto da forma

1. [Passagem cortada no manuscrito:] em relações de


produção determinadas_
2 [Passagem cortada no manuscrito:] que se atém ape-
nas aos dados real.s.

24
como actuam partindo de bases. condições e limites materiais
determinados e independentes da sua vontade 1 •
A produção de ideias. de representações e da consciência
está em primeiro lugar directa e intimamente ligada à activi..
dade material e ao comércio material dos homens; é a
linguagem da vida real As representações. o pensamento.
o comércio intelectual dos homens surge aqui como ema-
nação directa do seu comportamento material O mesmo
acontece com a produção intelectual · quando esta se apre-
senta na linguagem das leis. política, moral, religião, meta..
físi~ etc.. de um povo. São os homens que produzem
as suas representações. as suas ideias, etc. 2 • mas os homens
reais. actuantes e tais como foram condicionados por
um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas
e do modo de relações que lhe corresponde. incluindo até
as formas mais amplas que estas possam tomar. A consciência
nunca pode ser mais do que o Ser oonsciente; e _.o Ser--dos
homens é o seu processo da vida real. E se em toda a ideo-
logia os homens e as suas relações nos surgem invertidos,
tal como acontece numa câmera obscura ª• isto é apenas

1 [Passa.gem cortada no manuscrito:] As representações


aceites por estes individuas são ideias sobre as suas relações
com a natw-eza, entre si ou acerca da. sua própria natureza.
r: evidente que, em todos estes casos, tais representações cons-
tituem a expressão consciente - real ou lmaginAria - das suas
relações e da sua activldade rea.is, da sua produção, do seu
comércio, do seu (organização) comportamento polltlco e social
Só é defensá.vel a hipótese inversa quando se supõe um outro
esplrito, um esplrlto particular, para além do esplrlto doe tndl-
viduos reais, condlclonados materialmente. Se a expressão cons-
ciente das condições de vida reala destes 1.nd.lviduos é lmagtnárla,
se, nas suas representações, consideram a realidade invertida,
este fenómeno é ainda uma consequência do seu modo de actlvl-
dade material limitado e das relações soclais defletentes que
dele resultam.
2 [Passagem cortada no manuscrito:] e, para sermos
precisos, os homens ta.is como são condicionados pelo modo
de produção da sua vida material, pelo seu comércio material
e o seu desenvolvimento ulterior na estrutura social e pollUca.
a 04mara escura.

2S
o resultado do seu processo de vida histórico, do mesmo
modo que a imagem invertida dos objectos que se forma na
retina é uma coo.sequência do seu processo de vida directa-
mente físico.
Contrariamente à filosofia alemã. que desce do céu para
a terr~ aqui parte-se da terra para atingir o céu. Isto significa
que não se ·parte daquilo que os homens direm,, imaginam
e pensam nem daquilo que são nas palavras, no pensamento,
na imaginação e na representação de outrem para chegar aos
homens em carne e osso: parte-se dos homens, da sua activi-
dade real. É a partir do seu processo de vida real que se
representa o desenvolvimento dos reflexos e das repercussões
ideológicas deste procesoo vital. Mesmo as fantasmagorias
correspondem. no cérebro humano, a sublimações necessaria-
mente resultantes do processo da sua vida material que pode
ser constatado empiricamente e que repousa em bases mate--
riais. Assim, a mora.L a religião, a metafisica e qualquer
outra ideologia. tal como as formas de consciência que lhes
correspondem. perdem imediatamente toda a aparência de
autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento:
serão antes os homens que, desenvolvendo a sua produção
material e as suas relações materiais, transformam. com esta
realidade que lhes é própria. o seu pensamento e os produtos
de&e pensamento. Não é a consciência que determina a vida,
mas sim a vida que determina a consciência. Na primeira forma
de considerar este assunto, parte-se da consciência como sendo
o indivíduo vivo. e na segunda, que corresponde à vida real.
parte-:Se dos ·próprios indivíduos reais e vivos e considera-os
apenas a consciência como sua consciência.
Esta forma de considerar o assunto não é desprovida de
pressupostos. Parte de premissas reais e não as abandona um
único instante. Estas premissas são os homens. não isolados
nem fixos de uma qualquer forma imaginária, mas apreendidos
no seu processo de desenvolvimento real em condições deter-
minadas, desenvolvimento este que é visível empiricamente.
Desde que se represente este processo de actividade vital, a
história deixa de ser uma colecção de factos sem vida, como a
apresentam os empiristas, e que são ainda abstractos, ou a

26
acção imaginária de sujeitos imaginário~ como a apresentam
os idealistas.
~ onde termina a especulação. isto é. ·na vida real. que
começa a ciência real. positiv~ a expressão da actividade prá-
ti~ do processo de desenvolvimento prático dos homens. É
nesse ponto que termina o fraseado oco sobre a consciência
e o saber real passa a ocupar o seu lugar. Ao expor a realidade.
a filosofia deixa de ter um meio onde possa existir de forma
autónoma. Em vez dela poder-se-á considerar. quando muito.
uma síntese dos resultados mais gerais que é possível abstrair
do estudo do desenvolvimento histórico dos homens. Estas
abstracções. tomadas em si. destacadas da história real não
têm qualquer valor. Podem quando muito servir para classi-
ficar mais facilmente a matéria, para indicar a sucessão das
suas estratificações particulares. Mas não dão, de forma
alguma como a filosofia. uma receit~ um esquema segundo
o qual se possam acomodar as épocas históricas. Pelo contrá-
rio, a dificuldade começa precisamente quando se inicia o
estudo 1 e a classificação desta matéria. quer se trate de uma
época passada ou do tempo presente. A eliminação destas difi-
culdades depende de prerniWlS que é impossível desenvolver
aqui, pois resultam do estudo do processo de vida real e da
actuação dos indivíduos de cada época. Iremos explicar através
de exemplos históricos algumas das abstracções que usaremos
aquando do estudo da ideologia.

[2]

~ certo 2
que não nos preocuparemos em explicar aos
nossos sábios filósofos que. ao dissolverem na cConsciência de

1 [Passagem cortada no manuscrito:] a -p rocurar a. lnter-


dq>endêncla real, pré.Uca, dessas diterentes estratificações.
2 [Passagem cortada no manuscrito:] antes da expressão
'é certo': ·. .. na Banta Familia, foi convenientemente refutada
a Ideia de que estes santos fllõsotos e teólogos, ao escreverem
algumas vulgaridades sobre o espirita absoluto, teriam criado
a e.não-autonomia dos indivíduos>. Como se o dndividuo>, quer

27
si» a filosofia. a teologia, a substância, etc., Íibertando assim
«o Homem> da ditadura que nunca o subjugou, não contri-
buiriam. sequer para que a clibertação> do «homem> avançasse
um único passo, nem como é impossível concretizar uma liber-
tação real sem ser no mundo real e através de meios reais; que
não é possível abolir a escravatura sem a máquina a vapor e a
m':J;_-iermy 1. nem a servidão sem aperfeiçoar a agricultura;
que mais geralmente, não é possível libertar os homens en-
quanto eles não estiverem completamente aptos a fornece-
rem-se de comida e bebida, a satisfazerem as suas necessidades
de alojamento e vestuário em qualidade e quantidade perfei-
tas 2 • A clibertação• é um facto histórico e não um facto
intelectual, e é provocada por condições históricas, pelo [pro-
gresso] da indústria, do comércio, da agricultura ... 1 ; estas
(provocam) depois. em virtude dos seus diferentes estádios
de desenvolvimento, es.ses absurdos: a substância.. o sujeito
a consciência de si e a cótica pura, assim como os absurdos
religiosos e teológicos. que são novamente eliminados quando
já estão suficientem.ente desenvolvidos. Naturalmente. num país
como a Alemanha, onde o desenvolvimento histórico é actual-
mente miserável. os factos históricos ausentes são substituídos
por esses desenvolvimentos de ideias, essas pobrern idealiza..
das e ineficazes; os desenvolvimentos históricos tornam-se irre-
paráveis e é necessário combatê-los• Mas esta luta -não tem

dlzer, todo o ser buroauo, <deixasse de ser autónomo>, estivesse


~ente dissolvido <110 Espirito absoluto> a partir do momento
em que alguns pobres especuladores dessem a conhecer estas
ninharias ao <Individuo>, dando-lhe ordem para cse dissolver>
Imediatamente <no Espirita absoluto> sem a mats pequena hesi-
tação! i: de notar que se esses merceeiros puderam chegar a tala
mantas fllosáflcaa não o conseguiram devido à <dependência,
à não-autonomia. do iDdlviduo>, mas por causa da m.Jaéria da
situação soclaL
1 Primeira m.Aquina de fiação automãtlca.
2 Marx Uoha. escrito primeiro: em quaUdade e quanti-
dade auficientes; este adjectlvo [fol riscado e substituldo por
oollstãndig.
• [Manuscrito deteriorado:] As pa.1.avras entre parêntesis
não são legivels no origtnal.

28
uma importlocia histórica genérica. ela s6 tem uma impor-
tãncia local 1 •

[A Hlst6rla]
. . . De facto, para o materialista prático 2 • ou seja para o
comunista é mister revolucionar o mundo existente. atacar e
tiansfomiar ·praticamente o estado de coisas que encontra.
Se por vezes se observam em Feuerbach pontos de vista
semelhantes a este, é necessário anotar que nunca vão além ·
de simples intuições isoladas com muito pouca influência
sobre toda a sua concepção geral; apenas -podemos considerá•
-los como-germes susceptiveis de d~nvolvim.ento. Para Feuer-
bach. a cconcepção> 1 do mundo sensível limita-se. por um

1 [Variante no manuscrito original:] trata-se de uma


luta que nos traz novos resultados à massa dos homens; a luta
da Alemanha ...
[Passagem cortada no manuscrito original: J .São Bruno
dã--nos uma cCaracteristlca de Ludwig Feuerbach>, isto é, uma
versão revista e corrigida. de um artigo já. -p ubllcado nos
Nordd.eutach.e Blatter. Dado o carãcter sagra.do em que nós
próprios ... • Feuerbach é descrito como defensor da cSubstAn-
cia>, com o objeotlvo de dar maior relevo à cCon.sclêncla de si>
baueriana. Alié.s, ê já. um hã.bit.o: desde bA algwn tempo que
este autor se limita a dizer de tudo e de todos que são a cSubs-
tAncla>. No decurso desta transubstanciação de Feuerbach o
n0S80 santo homem 6alta dlrectamente dos escritos de Feuer-
bach para a Eas~ do Orvtianiamo, pa.ssautio sobre Bayle
e Leibniz. Não menciona o artigo de Feuerbach contra a f llosof la
cposttJ.va> l.nclufdo nos HaUische ./aArbilcher, pela simples razão
de Feuerbach ai desmascarar, face aos representantes positivos
de caubstAncla>, toda a ciêncla da consclência de s1 «&bsoluta>
numa época em que São Bruno alrula especulava• sobre a Ima-
culada Concepção e onde se exprimia multo ma.ls claramente .. .
do que . . . alguma vez o fizera ... •.
A sequência deste texto ê apenas uma varie.e. te de uma
passagem do capitulo II (S. Brnllo).
• Inicio de frase cortado.
• Faltam as tolhas paginadas por Ka.rx com os números
S. f, õ, 6 e 7.
• [Variante no man.uscrlto:] cconcepção> -teórW!a.

29
lado, à simples contemplação deste úitimo e, por outro.
ao simples ~ntimento. Refere-se ao «Homem» em vez de se
referir aos «homens hist6ricus reais». «O Homem» é a reali-
dade co Alemão>. No primeiro caso, isto é,· ~a corttemplaç4a
d.Q mundo sensiYcl. dJDg-se~.riàm,nt.(t~gm_.9_bjectos g ~
se encontram C!D _ÇQJ!~.radiçãp_ ~_QIJ1:._ ~ ~Ua consciência C O seu
~fu~i)_ti qlle perturbam a harmon1ade-tooas_ãs _pârtes ·ao
mundo sensível que pressupusera, sobretudo a do ti.amem e da
natureza. Para eliminar estes objectos é-lhe necessário refu-
giar-se nuni du o nto de vis · uma visão rofana ue
a nas se ......,,..,,_ uc-t_yj_sjy,.e,J ·a mbo. ..nu» e uma
QY.t~.J!!~_s_eleya~_J1sJ2.tqgicª1.__que .. alcança ..a ... ~~~~a4~~~~-
-e§SÇJ1..CjQ.._Q.~~Qi~.\ Não vê que o mundo sensível em seu
redor não é objecto dado directamente para toda a eternidade,
e sempre igual a si mesmo, mas antes o produto da indústria
e do estado da sociedade, isto é. um produto histórico, o resul-
tado da actividade de toda uma série de gerações 2 cada uma
das quais ultrapassava a precedente, aperfeiçoando a sua
indústria e o seu comércio e modificava o seu regime social em
função da modific.ação das necessidades. Os objectos da mais
si::mples «certeza sensíveJ» só são dados a Feuerbach através
do desenvolvimento social. da indústria e das trocas comer•
ciais. Sabe-se que a cerejeira, como todas as outras árvores
frutícolas. foi trazida para as nossas latitudes pelo comércio,
apenas há alguns séculos, e que foi somente devido à acção
de uma sociedade determinada. numa época detenninad~
que a árvore surgiu como «certeza sensivel> a Feuerbach•

1 [Nota de Engels:] O erro de Feuerba.ch não reside


no facto de subordinar o que ê visfvel a olho nu, a apar~ncia
een.sivel, à realidade sens[vel constatada graças a um exame
mals aprofundado do estado de coisas concreto; consiste, pelo
contrário, no facto de, em últlma insta.nela, não se poder asse-
nhorear da materia.lldade sem a considerar com Oll colhas>, isto
ê, através dos cóculos> do /'11,so/o.
2 [Variante no ma.nu.scrlto original:] que é em cada
~ a hlstõrlca o resultado da activldade de toda. uma série de
gerações.

30
Aliás, nesta concepção que vê as coisas tais como são
na realidade e como realmente ocorrem. qualquer problema
filosófico profundo se reduz muito simplesmente a um facto
empírico. como veremos mais claramente um pouco adiante.
Tomemos como exemplo a importante questão das relações
entre o homem e a natureza (ou mesmo. tal como Bruno diz
na página 110 1 , as «contradições na natureza e na história>,
como se aí houvesse duas «coisas» disjuntas, como se o
homem não se encontrasse sempre perante uma natureza
que é histórica e uma história que é natural). Esta questão,
da qual nasceram todas as «obras de uma grandeza inson-
dável» 2 sobre a «Substância> e a «Consciência de si», re-
duz-se à compreensão do facto de que a tão célebre «Unidade
do homem e da natureza> existiu sempre na indústria e se
apresentou em cada época sob formas diferentes consoante
o desenvolvimento maior ou menor dessa indústria; e o
mesmo acontece quanto à e.Luta» do homem contra a naJµ::-
reza., até que as forças produtivas deste último se tenliam
desenvolvido sobre uma base .adequada. A indústria e o
comércio. a produção e a troca das necessidades vitais con-
dicionam a distribuição, a estrutura das diferentes classes
sociais, sendo por sua vez condicionadas por elas no seu
modo de funcionamento. E é por isso que Feuerbach apenas
vê, por exemplo, em Manchester. fábricas e máquinas. quando
há um século atrás apenas a1 existiam teares e oficinas de
tecelão, e só descobre pastagens e pântanos nos campos roma-
nos onde. no tempo de Augusto, só poderia ter encontrado
vinhas e mansões de capitalistas romanos. Feuerbach refe-
re-se em particular à concepção da ciência da natureza.. evoca
segredos que apenas são visiveis pelo físico e o químico: mas
que seria da ciência da nature7.a sem o comércio e a indús-
tria? E não serão o comércio e a indústria, a actividade
marerial dos homens. que atribuem um fim a essa ciência
da natureza dita cpuru e lhe fornecem os seus materiais?

1.Bruno •Bauer: cCaracterlstica de 'Ludwig Feuerbach>,


Wtgand'a Vterteljah.Tasc1ui/t, 184õ, t. m.
2 Alusão a wn verso do Fauato de Goethe.

31
Essa actividade, esse trabalho, essa criação material inces..
~te dos homens. essa produção é a base de todo o mundo :1
sensível tal como hoje existe, e a tal ponto que se o interrom... '· ~j
pêssemos apenas por um ano, Feuerbach não só encontraria ~.
enormes modificações no mundo natural como até lamentaria
a perda de todo o mundo humano e da sua própria faculdade
de contem.plaçã!J.. ou mesmo da sua própria existência. É
certo que o primado da natureza exterior não deixa por isso
de subsistir, e tudo isto não pode certamente aplicar-se aos
primeiros homens nascidos por generatio aequivoca 1 , mas
esta distinção ape.rias tem sentido se ~ considerar o homem
como sendo diferente da natureza. De qualquer modo, esta
natureza que precede a história dos homens não é de forma
alguma a natureza que rodeia Feuerbach; tal natureza não
existe nos nossos diàs,. salvo talvez em alguns atóis austra•
lianos de formação recente. e portanto não existe para
Feuerbach.
Admitimos que Feuerbach tem sobre os materialistas
«puros» a grande vantagem de se aperceber de que o homem
é também um cobjecto sensível»; mas abstraiamos do facto
de apenas o considerar como «objecto sensível» e não como
cactividade sensível>., pois nesse ponto ainda se agarra à
teoria e não integra os homens no seu contexto social. nas
suas condições de vida que fiz.eram deles o que são. Não há
dúvida de que nunca atinge os homens que existem e actuam
realmente. que se atém a um.a abstracção, o «Homem», e que
apenas consegue reconhecer o hOinem «real, individuaL cm
carne e osso», no sentimento ou, dizendo de outro modo,
apenas conhece o amor e a amizade enquanto «relações
humanas» cdo homem com o homem>. e mesmo assim idea-
lizadas. Não critica as actuais condições de vida. Não con-
segue apreender o mundo sensfvel como a soma da actividade
viva e física dos indivíduos que o compõem ~ quando por
exemplo observa um grupo de homens com fome, J
cansados
e tuberculosos. _em vez de homens de bom porte é constran-

32
guio a refugiar-se na «concepção superior das coisas» e na
«CQIB~o ideal no interior do Género»; cai portanto
no idealismo))precisamente onde o mat . . ... . -
nêamente-..a~riec · · - ansforma ão
cal tanto da indústria como da estrutura social-
-~nquanto materialista., Feuerbach nunca faz intervir a
história; e quando aceita a história.. não é materialista. Nele,
história e materialismo são coisas completamente separadas,
o que de resto já é suficientemente explicado pelas conside-
rações precedentes 1 .
Relativamente aos Alemães que se julgam desprovidos
de qualquer pressuposto, devemos lembrar a existência de
um primeiro pressuposto de toda a existência humana e,
portanto. de toda a história, a saber que os homens devem
estar em condições de poder viver a fim de «fazer história>>.
Mas. ·para viver, é necessário antes de mais beber, comer,
ter um tecto onde se abrigar, vestir-se, etc. O primeiro .
facto histórico é pois a produção dos meios que p·ermitem
satisfazer essas necessidades. a produção da própria vida
material; trata-se de um facto histórico, de uma condição
fundamental de toda a histórica, que é necessário, tanto hoje
como há milhares de anos, executar dia a dia, hora a hora.
a fim de manter os homens vivos. Mesmo quando a realidade
sensível se reduz a um simples pedaço de madeir~ ao mínimo
possível, como em São Bruno, essa mesma realidade implica
a actividade que produz o pedaço de madeira. Em qualquer
concepção histórica, é primeiro necessário observar este facto
fundamental em toda a sua importância e extensão e colo-
cá-lo no lugar que lhe compete. Todos sabem que os Alemães
nunca o fizeram: nunca tiveram uma base te"estre para a
história e nunca tiveram, por isso, nenhum historiador. Tanto
os franceses como os ingleses se bem que apenas se aperce-

1 cortada no manuscrito:] S-e apesar de tudo


[ 1Pa.ssagem
examinamos aqui a história um pouco mals detidamente. é pelo
facto de os Alemães, &O ouvirem as palavras «hlstórla> e «his-
tórico>, terem o há.bito de pensar em todas as coisas posstveU3
e lmaginãvels menos na realidade. São Bruno, cesse orador ver-
sado na eloquência sagrada.>, é d.isso um brUbante exemplo.

• 33
• • I

bessc-m da conexão entre este facto e a história de um ponto


de vista bastante restrito. e sobretudo enquanto se mantive-
ram prisioneiros da ideologia politic~ não deixaram por isso
de levar a cabo as primeiras tentativas para dar à historio-
grafia uma base materialista escrevendo as primeiras histórias
da sociedade civil. do comércio e da indústria.
O segundo ponto a considerar é que uma vez satisfeita
a primeira necessidade, a acção de a satisfazer e o instru-
mento utilizado para tal conduzem a novas necessidades - e
essa produção de novas necessidades constitui o primeiro
facto histórico. ~ aí que se reconhece imediatamente de que
massa é feita a grande sabedoria histórica dos Alemães;
quando têm Ialta de material positivo, e não debatem dispa-
rates teológicos, políticos ou literários, os Alemães deixam
de falar em história para passarem a referir-se aos <<tempos
pré-históricos», não nos indicando aliás como se passa desta
absurda «pré-história» para a história propriamente dita se
bem que seja evidente. por outro lado, que as suas especula-
ções históricas se servem desta «pré-história» porque aí se
julgam a salvo da ingerência dos <<toscos acontecimentos»
e ainda porque aí podem dar rédea solta aos seus instintos
especulativos propondo e recusando milhares de hipóteses.
O terceiro aspecto que intervém directamente no desen-
volvimento histórico é o facto de os homens, que em cada
dia renovam a sua própria vida, criarem outros homens..
reproduzirem-se; é a relação entre o homem e a mulher. os
pais e os filhos, a família- Esta família. que é inicialmente
a única relação social, transforma-se numa relação subalterna
(excepto na Alemanha) quando o acréscimo das necessidades
engendra novas relações sociais e o crescimento da popula-
ção dá origem a novas necessidades; deve-se por conseguinte
abordar e desenvolver este tema da família a partir dos factos
empíricos existentes e não do «conceito de família», como
é hAbito fazer-se na Alemanha. Aliás, não se devem com-
preender estes três aspectos da actividade social como três
estados diferentes, mas muito simplesmente como três aspec-
tos ou, para empregar uma linguagem compreensível para
os Alemães, três «momentos» que coexistiram desde o início
34
da história dos primeiros homens e que ainda hoje nela se
manifestam.
A produção da vida, tanto a própria através do trabalho
como à alheia através da procriação, surge-nos agora como
uma relação dupla: por um lado como uma relação natural
e, por outro, como uma relação social - social no sentido
de acção conjugada de vários indivíduos, não im~ta em ,. ,·
que condições, de que maneira e com que objectivoh~egue-se.-
que um determinado modo de produção ou estádio de desen-
volvimento industrial se encontram permanentemente ligados
a um modo de cooperação ou a um estado social determi-
nados. e que esse modo de cooperação é ele mesmo uma .
«força produtivo; segue-se igualmente que o conjunto das !
, fo~ças p__rodutivas ac-,e:ssívejs.~ homens determina o estado li
social_ .e que se deve ~11:~~e_!lt~l_!l.e~T~. -~~~r~.~- e~~tr~!~( ___
f. _a «história dos homens» em estreitll cOTTe~ção com a hisJór!! · -
i1 -~-~ indústria e das _m2g.i Mas é taml:i m evidente que ·· é
impossível-escrever tal história na Alemanh~ pois faltam
aos Alemães, para o fazer, não somente os materiais e a capa-
cidade para a conceber mas também a «certeza sensível»:
e por outro lado não é possível levar a cabo experiências
sobre estas questões do outro lado do Reno visto que aí já
não se faz história. Logo, manifesta-se imediatamente um
sistema de laços materiais entre os homens que é condicio-
nado pelas necessidades e o modo de produção e que é tão
velho como os próprios homens - sistema de ]aços que
adquire constantemente novas formas e tem assim uma «his-
tóriu mesmo sem que exista ainda qualquer absurdo polí-
tico ou religioso que contribua também para unir os homens.
E só agora, depois de já examinados quatro momentos,
quatro aspectos das relações históricas originárias. nos aper-
c.ebemos de que o homem também possui cconsciência» 1 •

1 [Nota. de Marx:] Os homens têm uma hlstõrla pelo


facto de serem obrigados a produz(r a sua vida e de terem de
o tazer de um deterndtMJdo modo: esta necessldadé é uma con-
sequência da sua organização lflslca; o mesmo acontece com a
sua consciência..
[Variante no manuscrito:] apercebemo-noe de que, entre
outras coLsas. o homem tem cesplr.Lto> e que esse cesplrlto> se
cman.lteata> como coo.sclêncLa.

35
Mas não se trata de uma cousciência. que sejã de antemão
consciência o:pura>. Desde sempre pesa sobre o «espírito» a
maldição de estar cimbuído» de uma matéria que aqui se
manifesta sob a forma de camadas de ar em movimento,
de sons, numa pala~ sob a forma da linguagem. A lingua-
gem é tão velha com.o a consciência: é a consciência real,
prática, que existe também para outros homens e que por-
tanto existe igualmente só para mim e. tal como a consciência,
só surge com a necessidade, as exigências dos contactos com
os outros homens 1 • Onde existe uma relação ela existe para
mim. O animal cnão se encontra em relação» com coisa
alguma. não conhece de facto qualquer relação; para o ani-
mal as relações com os outros não existem enquanto relações•
A consciência é pois um produto social e continuará a sê.lo
enquanto houver homens. A consciência é, antes de tudo.
a consciência do meio sensível imediato e de uma relação
limitada com outras pessoas e outras coisas situadas fora
do indivíduo que toma consciência; é simultaneamente a
consciência da natureza que inicialmente se depara ao homem
como uma força francamente estranh~ toda-poderosa e ina-
tacável perante a qual os homens se comportam de uma
forma puramente anima) e que os atemoriza tanto como aos
animais: é. por con~uinte. uma consciência de natureza.
puramente animal (religião natural 2 ). Por outro lado. a cons-
ciência da necessidade de entabular relações com os indiví-
duos que o cercam marca para o homem a tomada de cons-
ciência de que vive efectivamente em sociedade. Este começo
é tão animal como a própria vida social nesta fase; trata-se

1 [Frase cortada no manuscrito:] a minha con.scl~ncla


ê a mlnha relação com o que me rodela.
2 [Nota de Mar-x:J Compreende-se imediatamente que
esta religião natural ou este tipo de relações com a natureza
estão condlclonàdos pela forma da sociedade e vice.versa. Neste
caso, como em qualquer outro, a Identidade entre o homem e a
natureza toma Igualmente esta forma., ou seJ,a. o comportamento
limitado dos homens perante a natureza condiciona o comJ)orta-
mento limitado dos homens entre sl e este condiciona .por sua
vez as suas relações llmltadas com a natureza, precisamente
porque a natureza mal foi mod!!icada pela história.

36
de uma simples consciência gregária e. neste aspecto, o
homem distingue-se do carneiro pelo sim pies facto de a coas•
ciência substituir nele o instinto ou de o seu instinto ser um
instinto consciente.. Esta consciência gregária ou tribal desen-
volve-se e apedeiçoa-se posteriormente devido ao aumento
da produtividade. das necessidades e da população, que cons•
titui aqui o factor básico. É d~e modo que se desenvol_v e
a divisão do trabalho que primitivamente não passava de
divisão de funções no acto sexual e, mais tarde, de uma
divisão «natural» do trabalho consoante os dotes físicos (o
vigor corporal, por exemplo), as necessidades. o acaso, etc.
A divisão do trabalho só surge efectivamente a partir do
momento em que se opera uma divisão entre o trabalho
material e intelectual. A partir deste momento, a consciência
pode supor-se algo mais do que a consciência da prática exis-
tente, que representa de facto qualquer coisa sem representar
algo de real. E igualmente a partir deste instante ela encon-
tra-se em condições de se emancipar do mundo e de passar
à formação da teoria «pura». teologia, filosofia. moral, etc.
Mas mesmo quando essa teoria. essa teologia, essa filosofi~
essa moral, etc., entram em contradição com as relações
existentes, isso deve-se apenas ao facto de as relações sociais
existentes terem entrado em contradição com a força produ--
tiva existente; aliás, o mesmo pode acontecer numa deter-
minada esfera nacional porque,. nesse caso. a contradição
produz-se não no interior d ~ esfera nacional mas entre
a consciência nacional e a prática das outras nações, quer
dizer, entre a consciência nacional de uma determinada nação
e a sua consciência universal 1 (como actualm.eo.te na Ale-
manha); pelo que para essa nação, e porque aparentemente
tal contradição apenas se apresenta como contradição no
seio da consciência nacional, a luta parece limitar-se a uma
órbita nacional pois esse .país incarna a própria podridão.
Pouco importa, de resto, aquilo que a consciência empreende
isoladamente; toda essa podridão tem um único resultado:

1 [Nota de Marx:] Religião. Os Alemães no que se refere


à Mieologia enquanto tal.

37
o~ três momentos oonstituídos pela força produtiv~ o estado
social e a consciência podem e devem necessariamente entrar
em conflito entre si pois. através da divisão do trabalho.
toma-se possível o que se verifica efectivamente, que a acti-
vidade intelectual e material 1 - o gozo e o trabalho. a
produção e o consumo, caibam a indivíduos distintos; então,
a possibilidade de que esses elementos não entrem em con-
flito reside unicamente na hipótese de acabar de novo com
a divisão do trabalho- Consequentemente. os «fantasmas»,
«laços», «ente superior», «conceito», «escrúpulos» 2 , são
apenas a expressão mental idealist~ a representação aparente
do indivíduo isolado. a representação de cadeias e limitações
muito· empíricas no interior das quais se move o modo de
produção da vida e o modo de troca que este implica'·
Esta divisão do trabalho, que implica todas estas con-
tradições e repousa por sua vez sobre a divisão natural do
trabalho na família e sobre a divisão da sociedade em famí-
lias isoladas e opostas implica simultaneamente a repartição
do trabalho e dos seus produtos, distribuição desigual tanto
em qualidade como em quantidade; dá portanto origem
à propriedade. cuja primeira forma, o seu germe, reside na
família onde a mulher e as crianças são escravas do homem.
A escravatura, decerto ainda muito rudimentar e latente na
famíli~ é a primeira propriedade. que aqui já corresponde
aliás à definição dos economistas modernos segundo a q uai
é constituída pela livre disposição da força de trabalho de
outrem. De resto, divisão do trabalho e propriedade privada

1 [Pa.c,sagem cortada no manuscrito:] actlvidade e pen-


samento, lsto é, activide.de sem pensamento e pensamento sem
actlvldade.
2 Termos do vocabulârlo dos jovens-hegelianos e de
Stirner, em particular.
a [Passagem cortada no manuscrito:] Esta expressão
Idealista das limitações económicas existentes não é apenas
teórica, como ainda existe na consciência .prática; tsto slgnlflca
que a consclêncle. que .se emancipa e que entra em contradição
com o modo de .produção existen-te não constitui a.penas religiões
e fllosofla.s, mas também Estados.

38
são ex-pressões idênticas - na -p rimeira. enuncia-se relativa-
mente à actividade o que na segunda se enuncia relativamente
ao produto desta actividade.
A divisão do trabalho implica ainda a contradição entre
o interesse do iruiivíduo singular ou da familia singu]ar e o
interesse colectivo de todos os indivíduos que se relacionam
entre si; mais ainda, es.5e interesse colectivo não existe ape-
n~ digamos. na ideia_ enquanto «interesse universal>. mas
sobretudo na realidade como dependência recíproca dos
indivíduos entre os quais é partilhado o trabalho.
É precisamente esta. contradição entre o interesse parti-
cular e o interesse colectivo que faz com que o interesse
colectivo adquir~ na qualidade de Estado, uma forma inde•
pendente, separada dos interesses reais do indivíduo e do
conjunto e tome simultaneamente a aparência de comunidade
ilusória, mas sempre sobre a base concreta dos laços exis-
tentes em cada conglomerado familiar e tribal, tais como ·
laços de sangue, língua, divisão do trabalho em larga escala
e outros interesses, além dos interesses das classes já condi-
cionadas pela divisão do trabalho, que se diferenciam em
qualquer agrupamento deste tipo e entre as quais existe uma
que domina as restantes. Daqui se depreende que todas as
lutas no seio do Estado, a luta entre a democracia. a aristo-
cracia e a monarquia. a luta pelo direito de voto. etc., etc.•
são apenas formas ilusórias que encobrem as lutas efectivas
das diferentes classes entre si (aquilo de que os teóricos ale-
mães nem sequer suspeitam, se bem que sobre isto se lhes
tenha mostrado o suficiente nos Anais franco-alemães e na
Sagrada Familia 1 ); depreende-se igualmente que toda a

1 Os Anais franco-alemães eram uma revista edltada. em


Paris por Marx e A. Ruge. Só fol publicado o primeiro número,
em Fevereiro de 1844, que continha dois -artigos de Marx: <Sobre
a questão judaica:,, cContrl-buição à critica da. fllosot.ia do d.lrel to
de Hegel> e um longo artigo de Engels: <.Esboço de uma critica
da economia polltlca>. As dlverg~ncias entre Marx e Ruge tm.pe-
dJ.ram o prosseguimento desta publicação.
Em 1845, em Francfort-sobre-Meno, aparece a obra de
Marx e Engels Jntitula.da A Sagrada Fam,Ua, ou Critica da Cri-
tica. Contra Bruno Bav.er e cofl.8ortes.

39
...
classe que aspira ao domínio, mesmo que o seu domínio
determine a abolição de todas as formas sociais antigas e
do domínio em geral, como acontece com o proletariado.
deve antes de tudo conquistar o poder político para conseguir
apresentar o seu interesse próprio como sendo o interesse
universal. actuação a que é constrangida nos primeiros
tempos.
Precisamente porque os indivíduos só procuram o seu
interesse particular- que para eles não coincide com o seu
interesse colectivo. pois a universalidade é apenas uma forma
ilusória da colectividade - esse interesse apresenta-se como
um interesse particular que lhes é «estranho» e «indepen-
dente», e que simultaneamente é um interesse «universal»
especial e particular; ou então oscilam no seio deste dua-
lismo. como acontece na democracia. Por outro lado, o com-
bate prático destes interesses particulares, que se chocam
~nstantemente e realmente com os inte.r.esses_...colectivos...e ._
ilusoriamente colecttvos.-tOrna -necessária a intervençâQ_pni_tica -.
e·Õ--refrêaiiienio atrav·és -dÕ-interesse «universal» ilusório sob
.a._,__-fõ-imã-
____T_ de -Estado. __-_
·-_.--•-•• ------··-·--·- --------- ---- ~ ----------- . - ---
Finalmente. a divisão do trabalho oferece-nos o primeiro
exemplo do seguinte facto: a partir do momento em que os
homens vivem na sociedade natural, desde que, portanto, se
verifica uma cisão entre o interesse particular e o interesse
comum, ou sej~ quando a actividade já não é dividida volun-
tariamente mas sim de forma natural, a acção do homem
transforma-se para ele num poder estranho que se lhe opõe
e o subjuga, em vez de ser ele a dominá-la- Com efeito, desde
o momento em que o trabalho começa a ser repartido, cada
indivíduo tem uma esfera de actividade exclusiva que lhe é
imposta e da qual não pode sair; é caçador, pescador,
pastor ou crítico 1 e não pode deixar de o ser se não quiser

1 Bauer • pretendia-se o campeão de uma ~scola filosó-


fica e.critica>.
• Bauer, Bruno (1809-1882): Teólogo, historiador da re-
ligião e publlclsta alemão. Hegeliano de esquerda que, em 1842,

40
perder os seus meioo de subsistência. Na sociedade comunista,
porém, onde cada indivíduo pode apedeiçoar--se no campo
que lhe aprouver. não tendo por isso uma esfera de actividade
exclusiva, é a sociedade que regula a produção geral e me
possibilita fazer hoje uma co~ amanhã outra, caçar de
manhã. pescar à tarde. pastorear à noite, fazer cática depois
da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me
tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico. Esta
fixação da actividade social, esta petrificação do nosso pró-
prio trabalho num .poder objectivo que nos domina e escapa
ao nosso controlo q:>ntrariando a nossa expectativa e des-
truindo os nossos cálculos, é um dos momentos capitais do
desenvolvimento histórico a.té aos nos.sos dias 1 • O poder
social. quer dizer. a força produtiva multiplicada que é de--
vida à cooperação dos diversos indivíduos a qual é condi-
cionada pela divisão do trabalho, não se lhes apresenta como
o seu próprio poder conjugado, pois essa colabo~~ção...não
é voluntária e sim natural, antes lhes surgindo ·c omo um
poder estranho, situado fora deles e do qual não conhecem
nem a origem nem o fim que se propõe. que não podem
dominar e que de tal forma atravessa uma série particular
de fases e estados de desenvolvimento tão independente da
vontade e da marcha da humanidade que é na verdade ela
quem dirige es.5a vontade e essa marcha da humanidade.
Esta co.Jienação»-•para que a no~ posição seja com-
preensível para os filósofos- só pode ser abolida mediante
duas condições práticas. Para que ela se transforme num
poder «insuportável». quer dizer, num poder contra o qual
se faça uma revolução. é necessário que tenha dado origem
a uma massa de homens totalmente e.privada de proprie-

perdeu a cAtedra na Universidade de Bona devido aos seus


escritos rad.lcais. Uniu-se mais ,ta~ aos conserve.dores e apoiou
a reacção prussiana.
1 [Passagem cortada no manuscrito:] e quanto à pro-
priedade, que f ol lnlclahnente uma inStltulção criada pelos pró-
prios homens, dá em breve à sociedade uma caractertstica
própria que de forma alguma -foi desejada pelos seus autores
lnlcials, perfeitamente vt.slvel pa~ quem não se tenha subme-
tido defiD.ttivamente à cCowclêocla de sl> ou ao cOnico>.

41
...
dade•,. que se encontre simult~eamente em contradição com
um mundo de riqueza e de cultura com existência real;
ambas as coisas pressupõem um grande aumento da força
produtiva. isto é. um estádio elevado de desenvolvimento.
Por outro lado, este desenvolvimento das forças produtivas
(que implica já que a existência em•p írica actual dos
homens decorre no âmbito da história mundial e não no da
vida local) é uma condição prática ,prévia absolutamente
indispensável .pois. sem ele, apenas se generalizará a penúria
e, com a pobreza, recomeçará paralelamente a luta pelo indis-
pensável · e cair-se-á fatalmente na imundície anterior. Ele
constitui igualmente uma condição prática sine qua non, pois
é unicamente através desse desenvolvimento universal das
forças produtivas que é possível estabelecer um intercâmbio
universal entre os homens e porque, deste modo, o fenómeno
da massa «privada de propriedade» pode existir simultanea-
mente em todos os países (concorrência universal),. tornando
cada um deles dependente das perturbações dos restantes e
fazendo com que finalmente os homens empiricamente uni-
versais vivam de facto a história mundial em vez de serem
indivíduos vivendo numa esfera exclusivamente local. Sem isto:
l.º) o comunismo só poderia existir como fenómeno local;
2.º) as forças das relaçõ~ humanas não poderiam desenvoJ ..
ver-se como forças universais e, ,portanto, insuportáveis, con..
tinuando a ser simples «circl:lnstâncias» motivadas por supers-
tições locais; 3.º) qualquer ampliação das trocas aboliria o
comunismo local. O comunismo só é empiricamente possível
como acção «rápida> e simultânea dos povos dominantes,
o que pressupõe o clesenvolvimento universal da força pro ..
dutiva e as trocas mundiais que lhe estejam estreitamente
ligadas.
Para nós, o comunismo não é um estado que deva ser
implantado. nem um ideal a que a realidade deva obedecer.
Chamamos comunismo ao movimento real que acaba com
o actual estado de coisas. As condições deste movimento 1
resultam das premissas actualmentc existentes.

1 [Passagem cortada no manuscrito:] devem ser pensa-


das em função da realidade material.

42
Aliás. a massa de trabalhadores constituída pelos simples
OfHJ..rários - força de trabalho maciça, separada do capital
Õude qualquer espécie de satisfação· mesmo limitada - pres-
supõe o f!1ercado mundial, sendo a existência deste assegu-
rada pela possibilidade de perda não temporária desse tra-
balho como fonte segura de subsistência., perda motivada
pela-·concorrência. O proletariado 1 só pode portanto existir
à escala da histón·a universal. assim como o comunismo, que
é o resultado da sua acção. só pode concretizar-se enquanto
existência «histórico-universal». Existência histórica universal
dos indivíduos, isto é, existênca dos indivíduos directamente
ligada à história universal.
De outro modo. como poderia a propriedade ter por
exemplo uma história. revestir diferentes formas? Como é
que a propriedade fundiária teria podido, com as condições
então existentes, passar em França do parcelam~nto para
a centralização nas mãos de alguns. e em Inglaterra da cen-
tralização nas mãos de alguns para o parcelamento, como
actualmente se verifica? Ou então. como explicar que o
comércio. que não é mais do que a troca de produtos entre
diferentes indivíduos e nações. domine o mundo inteiro
através da relação entre a oferta e a procura - relação que.
segundo um economista inglês. paira sobre a terra como a
antiga fatalidade e distribui, com mão invisível. a felicidade
e a infelicidade entre os homens. cria e destrói impérios, faz
nascer e desaparecer povos-enquanto que, uma vez abolida
a base, a propriedade privada, e instaurada a regulamentação
comunista da produção que acaba com a situação que levava
os homens a sentirem os seus produtos como coisas estranhas,
é reduzida a nada toda a força da relação entre a oferta e a
procura, readquirindo os homens o domínio da troca. da
produção e do seu modo de comportamento recíproco?

1 [Passagem cortada no manuscrito:] pressupõe portanto


que a história universal tenha uma ex!Btência emplrica prá.tica.

43
A forma das trocas.. condicionadas pelas forças de produ-
ção existentes em todas as etapes históricas que precederam a
actual e que ,por sua vei as cóndiciona, é a sociedade civil 1
que. como se depreende do que ficou dito, tem por condição
prévia e base fundamental a familia simples e a família con1-
posta. aquilo a- que chamamos clã e de que já foram dadas
~nterionnente definições mais precisas. É portanto evidente ser
esta sociedade civil o verdadeiro lar, o verdadeiro cenário de
toda a história e ser absurda a antiga concepção da história
que, omitindo as relações reais, se limitava aos grandes acon-
tecimentos históricos e às acções políticas retumbantes.
Até aqui, considerámos principalmente um asp~cto da
actividade humana: o trabalho dos homens· sobre a natureza'
O outro aspecto, o trabalho dos homens sobre os ho;nens ... ?_
Origem do Estado e relação do Estado com a soéiedade
civil-


A história não é mais do que a sucessão das diferentes
gerações, cada uma delas explorando os materiais, os capitais
e as forças produtivas que lhes foram transmitidas pelas gera- ,.
ções precedentes; .por este motivo, cada geração continua, por
um lado, o modo de àctividade que lhe foi transmitido más em
circunstâncias radicalmente transformadas e. por outro, modi-
fica as antigas circunstâncias dedicanderse a uma actividade
radic.alrnente diferente. Acontece por vezes que estes factos
são éompletamente alterados pela especulação ao fazer da
história recente o fim da história anterior; é assim, por exem..
plo, que se atribui à descoberta da América o seguinte objec-
tivo: ajudar a eclodir a Revolução francesa. · Inserem-se 1

d~te modo na história os seus objectivos .p articu!_ares, que

1 A -expressão aleml é bflrgerllch.e Ge:Jdlscha./t, que


poderá. a.Mm disso s.lgnl.flcar «sociedade burguesa,.
2 [Nota margina.1 de Marx:] Comércio [Verkehr] e
torça. produtiva~

44
são tr;msformados numa «pessoa ao lado de outras pessoas»
(a saber. «Consciência de si, Crítica. único», etc.). enquantb
que . aquilo que se designa. pelos . termos· <<Determinação~.
«Objcctivo», ~erme»_. «I?eia» 9~ Jüstória passa~a.J.. m~ ,
~~~.~~Ç~Q,_<!~'"'-~~J,Q~ª--!:i:!!~!!.%:•:.ID.Q.»... ab.stra~--~, .. ~-
Jl~.!!S.•..'!.. ~ftlY"' __que _,a...hlstót1a ....ant~~t~~Cí.CC,crDa_J:µ,s_tQ~
..r.ecçp.t~ ✓
Ora, quanto mais esferas individuais, que actuam wna
sobre a outra. aumentam no decorrer desta revolução, e mais
o isolamento primitivo das diversas nações é destruído pelo
aperfeiçoamento do modo de produção, pela circulação e a
divisão do trabalho entre as nações que daí resulta esponta-
neamente, mais a história se transforma em história mundial.
Assim. se em Inglaterra se inventar uma máquina que, na lndia
ou na China, tire o pão a milhares de trabalhadores e altere
toda a forma de existência dess~ impérios, essa descoberta
torna-se um facto da história universal. Foi assim q_~y_.o
açúcar e o café demonstraram a sua importância para a his-
tória universal no século XIX, pelo facto de a carência desses
produtos. resultado do bloqueio continental de Napoleão. ter
,prov~do a rebelião dos Alemães cont~a aquele general, trans•
formando-se assim na base concreta das gloriosas guerras de
libertação de 1813. Daqui se depreende que esta tr~formação
da hist~~:!:'~
fã.ctõ
niil:U'-
n"'.i.ve~sa! digaJDo:' nm simp!ei:
. r. ~nc1a-de. ~- do &pinto do mundo
ou de_gyalq.u er....out~~,-fantâsi:na,-~etafisjç_9~__ uroaãêçãO... I
t?U~Ute waterial..slY~..P.5?.P~ ser ~d.eJoqna-...em.~--
, plri~a Lc.ção. de...~-'>ada~rl..duo fornece a prova no
acto de comer. beber ou ~r;B=,.!t ...

1 [Passagem corte.da. no manuscrito:] São Max Stlmer


l'fl,ct.CJPle-se levando a. história. mundial à.s costas, comendo-a e
bebe.ndera. todos os d.las como antigemente se fazla com o corpo
~ o sangue de nosso senhor Jesus Cristo, e a história. universal
·produ..Jo quotldJanaroente, a ele, o OnJco, que é o seu produto
por necessitar de comer, beber e vestir-se; a.s citações contidas
no Onlco (na obra), etc., assim como a polémloa de São Max
contra Hess e outras pessoas afastadas. demonstra como também
no plano .esplritual ele é produzido pela ~f::órta mundlal. De.qui

4S
-.
A bem dizer. também é um facto perfeitamente empírico
0 de, na história passada, com a extensão da actividade ao
plano da história universal, os indivíduos terem ficado cada
vez mais submetidos a um p:>der que lhes era estranho -
opressão que tomavam por uma patifaria daquilo a que se
chama o Espírito do mundo - poder que se tomou cada
vez mais maciço e que, em última instância, se prova ser
o mercado mundial. Mas é também empírico o facto de esse
pxier, tão misterioso para os teóricos alemães, ser abolido
pela supressão do actual estado social, pela revoTução comu-
nista e pela abolição da propriedade privada que lhe é
perfeitamente solidária; a libertação de cada indivíduo em
particular realizar-se-á então na medida em que a história se
for convertenrlo totalmente em história mundial. A partir
daqui. é evidente que a verdadeira riqueza intelectual do indi-
víduo depende apenas da riqueza das suas relações reais. Só
desta forma se poderá ]ibertar cada indivíduo dos seus diversos
limites nacionais e locais, depois de entabular relações prá-
ticas com a produção do mundo inteiro (incluindo a produção
intelectual) e de se encontrar em estado de poder beneficiar da
-p rodução do mundo inteiro em todos os domínios (criação
dos homens)• A dependência un!versal, essa forma natural da
cooperação dos indivíduos à escala da história mundial, será
transformada pela revolução comunista em controle e domínio
consciente desses poderes que, engendrados pela acção recí-
proca dos homens uns sobre os outros, se lhes impuseram e os
dominaram até agor~ como se se tratasse de poderes absolu-
tamente estranhos. Esta concepção p:>de, por sua ve~ ser
interpretada de forma especulativa e idealist~ quer dizer,
fantástica. como cauto-criação do Género» (a «sociedade como
sujeito»), representando-se através dela a sucessiva série de
indivíduos relacionados entre si como um único indivíduo que
realizará o mistério de engendrar-se a si mesmo. Aqui pode-
remos ver que os indivíduos se criam uns aos outros, tanto
física como espiritualmente, mas que não se criam a si mesmos

se depreende que, na chlstórla mundial>, os indlvfduos são tão


cpossuldores> como os elementos de qualquer outra <.Associação>
stilnerlana. de estudantes e de costureiras livres.

46
nem na disparatada concepção do São Bruno 1 nem no sentido
do «único». do homem efeito a si mesmo».
A concepção da história que acabamos de expor permi-
te-nos ainda tirar as seguintes conclusões: 1. ~o desenvolvi:_
mento das forx!5-P.!..929jJ~~s_e u:11-~-~~49.. Q~Ê~- ~.urgem ___,__
-- fôrças prod~-~ ..... m~1~~ 4,e ___ çirculaçao. que só podem . se_r
'll_~_astôs' hó ~ -~)l9. q~-~~~ exis~Q~es ~ já nã9__§_2.. f_2_~
P!2.~~!J!~~~ê!1-:~JP-_!g~~~~~m:t.tiY1-.~. _(o maquinismo e o
dinheiro), assim como, facto ligado ao· precedente, nasce no
decorrer desse processo do desenvolvimento uma classe que
suporta todo o peso da sociedade sem desfrutar das suas van-
tagens, que é expulsa do seu seio e se encontra numa oposi-
ção mais radical do que todas as outras classes, uma classe
que inclui a maioria dos membros da sociedade e da qija) surge
a consciência da necessidade de uma revolução, consciência
essa que é a consciência comunista e que, bem entendido, se
pode também formar nas outras classes quando se compreen.~e
a situação desta classe particular. 2. A~ condições em que se
podem utilizar forças produtivas_ determ.1nadas são as condi~-
~s de dominação de uma determinada classe da sociedade 2 ;
o pod~r. soçial desta classe, decorrendo '10 que ela possui,
encontra regul~rmente a sua expressão prátic_a soq forma idea- .
}is!a ·n~ ti~ de Estado próprio de cada época~é-~r..jssQ. qµ~.
t<?~ª - ~~ .1.tJtª J~YQ.l~ç~o.n4.P ~-é, diJigida .contra u~a _classe que
d.Qm..~.1!9,1.l_ ..até .então.ª. 3. Em todas as revoluções anterior~
,permanecia inalterado o modo de activid~e e .procedia-se

1 [Passagem cortada no manuscrito:] em virtude do


que <O conceito (1) da 13ersonaltdade (2) implica (3) de uma
forma geral (4) que este surja com todos os seus limites> (con-
segue-o admiravelmente) e seja leva.do <a abolir (5) de novo (6)
a llmltação que introduz (7)> (não -por si mesma, nem de forma
geral, mas a.penas pelo seu conceito) «através da 8UO ess~ncia
(8) universal (9), a qual ê apenas o resultado da auto-dlferen-
ciac;ão { 10) i,a,terna da sua actlvidade>, pâgs. 87-88.
2 [Nota de Marx:] cada etapa. de desenvolvimento das
forças produtivas serve de base ao dom.1nlo de uma determinada
classe.
s [Nota margtnat de Marx:) constltuida ,por 'Pessoas que
estAo interessadas em manter o actual estado de produção.

47
apenas a uma nova distribuição dessa actividade, a uma nova
repartição do trabalho entre outras pessoas; a revolução é,
pelo contrário. dirigida contra o modo de actividade anterior
- suprime o trabalho 1 e acaba com a dominação de todas as
classes pela supressão das próprias classes - pois é efectuada
pela classe que, no âmbito da actual sociedade, já não é con-
siderada como uma classe dentro dessa sociedade e constitui a
expressão da dissolução de todas as classes. de todas as nacio-
nalidades, etc. 4. torna-se necessária uma transfonnação ma-
~ d~qJ?ens ..!-[!!lwi~.~çri.ar.._em;-111ãs'i!!_ess..f_9.?,~~~-~~?~~-~~
j!l!,f_! le~~!D ..termtL.eSses.nbJc;s;!~YQ§; 51~!l. ~.'!l-3.:.~al t~~_!l~~o~ ··' ·
ma~o ,. _ wde $Lel~tµ~da pgr...u.m..moy1!P.,_e11_~9 ,P~llco, por··.·
1fflía revoj15..ãf!_.-_. esta não será então apenas necessária pelo'··.::
taélo de constituir o único meio de liquidar a classe domi-
nmite, mas tamMm porque s6 uma revolução permitirá à
classe que derruba a outra aniquilar toda a podridão do velho
sistema e tornar-se apta a fundar a sociedade sobre bases
novas 1 •
Esta concepção da história tem portanto como base o
desenvolvimento do processo real da produção, concreta-
mente a produção material da vida imediata; concebe a forma
das relações humanas ligada a este modo de produção e por
ele engendrada, isto é, a sociedade civil nos seus diferentes
estádios. como sendo o fundamento de toda a história• Isto
equivale a representá-la na sua acção enquanto Estado, a
'

1 [Passagem cortada. no manuscrito:] ... forma moderna


c1a· actlvidade sob a qual a dominação das ...
2 (Passagem cortada no manuacrito:J J4. há algum
tempo que todos os comunistas, tanto na França como na Ingla-
terra ou na Alemanha., estão de acordo sobre a necessidade
desta revolução; no entanto, São Bruno continua ca.lmamente
o seu sonho e pensa que, se se admite o c:humanismo real>, ou
seja o comunismo, cem vez do eçlrttuaJlsmo> ,(que jã não é
justltlcãvel)', é apenas para que aquele ganhe malor respeito.
Então - continua o sonho - cserã necessãrlo que nos -surja a
sah-·ação, que o céu balXe à terra e que ~ta. seja o céu> ( o nosso
douto teólogo continua a não conseguir prescindir do céu). <E
assim brllharão a alegria e a felicidade para todo o sempre, no
melo das celestes harmonias> (pãg. 140).

48
explicar através dela o conjunto das diversas produções teó-
ricas e das formas da consciência.. religião, mora1. filoso-
fia, etc.• e a acompanhar o seu desenvolvimento a partir
destas produções; o que permite naturalmente representar
a coisa na sua totalidade (e examinar ainda a acção recíproca
dos seus diferentes aspectos). Ela não é obrigada.. como acon-
tece à concepção idealista da história, a procurar uma cate-
goria diferente para cada período, antes se mantendo cons•
tantemente no plano real da história; não tenta explicar a
prática a ·p artir da ideia, mas sim a formação das ideias a
partir da prática material; chega portanto à conclusão de
que todas as formas e produtos da consciência podem ser
resolvidos não pela crítica intelectual, pela redução à «Cons-
ciência de si> ou pela metamorfose em «aparições», em «fan-
tasmas» 1. etc., mas unicamente pela destruição prática das
relações sociais concretas de onde nasceram as bagatelas
idealistas. Não é a Critica mas sim a revolução que con~titui
a força motriz da história.. da religião. da filosofia ou de
qualquer outro tipo de teorias. Esta concepção mostra que
o objectivo ·da história não consiste em resolver-se a «Cons-
ciência de si> enquanto «Espirito do espírito». mas que deve-
remos antes verificar a existência em cada estádio de evolução
de um resultado material. uma soma de . forças produtivas,
uma relação com a naturel-3 e entre os indivíduos criados
historicamente e transmitidos a cada geração por aquela que
a prende, uma massa de forças de pr9dução, de capitais e de
circunstâncias que são por um lado modificadas pela nova
geração mas que, por outro lado, lhe ditam as suas próprias ·
condições de existência e lhe imprimem um desenvolvimento
determinado. um carácter específico; por consequência, é tão
verdade serem as circunstâncias a fazerem os homens como
a afirmação contrária. Esta soma de forças de produção,
de capitais, de formas de relações sociais, que ~da individuo
e cada geração encontram como dados jâ existentes é. a base
concreta daquilo que os filósofos consideram como «subs..
tAnciu e «essência do homem>, daquilo que aprovaram e

1. Alusão àa teorlaa de Bauer e Ide Stimer.

49
daquilo que combateram. base concreta cujos efeitos e cuja
influência sobre o desenvolvimento dos homens não são de
forma alguma afectados pelo facto de os filósofos se revolta--
rem contra ela na qualidade de «Consciência de si» e de
«únicos.. São igualmente essas condições de vida que cada
geração encontra já elaboradas que determinam se o abalo
revolucionário que se reproduz periodicamente na história
será suficientemente forte para derrubar as bases de tudo
quanto existe; os elementos materiais de uma subversão total
são. por um lado. as forças -produtivas existentes e, por outro,
a constituição de uma massa revolucionária que faça a revo-
lução não apenas contra as condições particulares da socie-
dade passada mas ainda contra a própria «produção da vida>
anterior, contra o «conjunto da actividade» que é o seu
fundamento; se estas condições não existem. é perfeitamente
indiferente. para o desenvolvimento prático, que a Ideia
desta revolução já tenha sido expressa mil vezes ... como o
prova a história do comunismo.
Até aqui, todas as concepções históricas recusaram esta
base real da história ou. pelo menos, consideraram-na como
aJgo de acessório. sem qualquer ligação com a marcha da
história. i;; por isto que a história foi sempre descrita de
acordo com uma norma que se situa fora dela. A produção
real da vida surge na origem da história mas aquilo que é
propriamente histórico surge separado da vida ordinária.
como extra e supraterrestre. As relações entre os homens e
a natureu são assim excluídas da historiografia. o que dá
origem à oposição entre natureza e história- Consequente-
mente. esta concepção só permitiu encontrar os grandes acon-
tecimentos históricos ou políticos. as lutas religiosas e princi-
palmente teóricas. e foi obrigada a partilhar com qualquer
época histórica a ilusão dessa época. Suponhamos que uma
dada época julga ser determinada por motivos puramente
«políticos» ou «religiosos>. se bem que «política» e «religião>
constituam apenas as formas adquiridas pelos seus motores
reais: o seu historiador aceitará aquela opinião. A «imagi•
nação•. a «representação• que esses homens determinados
têm da sua prática real transforma-se no único poder deter-
minante e activo que domina e determina a prática desses
homens. Se a forma rudimentar sob a qual se apresenta a

so
divisão do trabalho na tndia e no Egipto suscita a existência
nestes pafses de um regime de castas no Estado e na religião.
o historiador pensa que esse regime de castas constitui o
poder que engendrou a forma social rudimentar. Enquanto
os Franceses e os Ingleses se atêm à ilusão política.. que é
ainda a mais próxima da realidade, os Alemães movem-se
no domínio do cespfrito puro» e fazem da ilusão religiosa
a força motriz da história. A filosofia da história de Hegel
é o último resu1tado consequente, levado à sua «expressão
mais pura.». de toda esta forma de descrever a hist6ri~ típica
dos Alemães. e .na qual não interessam os interesses reais
nem sequer os interesses políticos mas sim as ideias puras.
Nestas condições, não adro ira que a história surja a São
Bruno como uma mera sequência de «Ideias» que 1utam entre
si e que finalmente se resolve na «Consciência de si». e que
para São Max Stirner, que nada sabe de história, o desen-
volvimento desta seja, e com muito mais lógic~ uma sim_p1es
história de «cavaleiros», de bandidos e de fantasmas de cuja
visão s6 consegue escapar graças ao «gosto do sacrilégio».
Esta concepção é verdadeiramente re1igiosa_. pressupõe que
o homem religioso é o homem primitivo de que parte toda
a históri~ e substitui, na sua imaginação. a produção real
dos meios de vida e da própria vida por uma producão
religiosa de coisas imaginárias. Toda esta concepção da his-
tória, assim como a sua degradação e os escrúpulos e as
dúvidas que daf resultam. é uma questão puramente nacional
que s6 interessa aos Alemães. Um exemplo disto é a impor-
tante questão. recentemente muito debatid~ de saber como .se
poderá exactamente passar «do reino de Deus para o reino
dos homens»; como se este «reino de Deus. tivesse existido
alguma vez fora da imaginação dos homens e como se estes
doutos senhores não tivessem vivido sempre (e sem dar por
isso) no «reino dos homens» que procuram, ou como ainda
se o divertimento científico -pois trata-se apenas disso -
que consiste em tentar explicar a singularidade desta cons-
trução teórica nas nuvens não fo~e muito melhor aplicado
na procura das razões de ela ter nascido do estado de coisas
real à face da terra. Em geral. esses Alemães preocupam-se
constantemente em explicar os absurdos que encontram atra-
vés de outras quimeras: pressupõem que todos estes absurdos

51
têm mn sentido particular que é necessário descobrir. quando
conviria explicar esta fraseologia teórica a partir das relações
reais existentes. A verdadeira solução prática desta frase o•
logia, a eliminação destas representações na consciência dos
homens. só será reàlizada, repitamo•lo, através de uma trans•
formação das circunstâncias e não por deduções teóricas•
Para a grande massa dos homens. para o proletariado, estas
representações teóricas não existem, e portanto não têm neces-
sidade de ser suprimidas; e se esses homens já tiveram algu•
mas representações teóricas como, por exem-plo, a religião,
há muito que estas foram destruídas pelas circunstâncias.
O carácter puramente nacional destas questões e das
suas soluções manifesta-se ainda no facto de esses teóricos
acreditarem, e o mais seriamente deste mundo, que as diva-
gações do espírito do género <<Homem-deus», «Homem». etc.,
presidiram às diferentes épocas da história - São Bruno
chega a afirmar que são apenas «o Crítico e as críticas que
faz.em a história> - e ainda por, quando se entregam a cons-
truções históricas, saltarem rapidamente por cima de todo o
p~do. passando da «civilização mongol» à história pro-
priamente «rica de conteúdo», isto é, à história dos Anais
de Halle e dos Antis alemães 1 • e acabam por nos contar
apenas como a escola hegeliana degenerou em disputa geral.
Todas as outras nações e todos os acontecimentos reais foram
esquecidos limitando-se o teatro do mundo à feira dos livros
de Leipzig e às controvérsias reciprocas da «Crítica», do
cHomem» e do «único» 2 • Quando se lembram de estudar
temas verdadeiramente históricos como o século XVIll, por
exemplo, estes filósofos só nos dão a história das represen-

1. De '1S38 & 1841, fol editada na Prússia uma revista


lntituJada AM4., de Halle da cihlcia e arte alem.48, sob a direc-
ção de Arnold Ruge e de Theodor Echtermeyer. Ameaçada de
ser proibida na -P rússia, a. revista mudou para a Saxónia lntitu-
land~se. entre 184.l e 184-3, Anais alemães da d ~ B da arte.
Ftuatroente, em I.Ma, o governo proibiu para toda a Alemanha
a salda da revista.
z Alusões feitas respectivamente a Ba.uer, Feuerbach e
SUmer.

52
tações. destacada dos factos e dos desenvolvimentos práticos
que ,delas constituem a base; mais ainda. só concebem uma
tal história com o objectivo de representar a época em ques-
tão como uma .primeira etapa imperfeita, como um prenúncio
ainda limitado da verdadeira época histórica, ou seja, da
época de luta dos filósofos alemães. entre 1840 e 1844. Pre-
tendem portanto escrever uma história do passado que faça
resplandecer com o maior brilho a glória de uma pessoa
que não é histórica e daquilo que ela imaginou; não inter~
pois. evocar quaisquer acontecimentos realmente históricos
nem sequer as intrusões da politica na história. Em com-
.pensação, interessa fornecer um escrito que não repouse num
estudo sério mas sim em montagens históricas e em ninharias
literárias. como o fez São Bruno na sua História do século
XVIII actualmente esquecida Estes enfatuados merceeiros
do pensamento que se julgam infinitamente acima dos pre-
conceitos nacionais são. na prática, muito mais naciona!§. do
que esses filisteus das cervejarias que sonham burguesmente
com a unidade alemã. Recusam todo o carácter histórico às
acções dos outros povos. vivem na Alemanha e para a Ale-
manh~ transformam a Canção do Reno em hino espiritual 1 •
e conquistam a Alsácia-Lorena a custas da filosofia francesa
em vez de roubarem o Estado francês e germanizando o pen-
samento francês em vez de germanizarem as ,províncias
francesas. Até o Sr. Veneday 2 faz figura de cosmopolita
ao lado de São Bruno e de São Max ª que .p roclamam a
hegemonia da Alemanha quando proclamam a hegemonia
da teoria.
Destas considerações deduz-se facilmente o erro em
que cai Feuerbach quando (na Revista trimestral de Wigand,
1845. tomo Il '), ao qualificar-se de «homem comunitário»,
se proclama comunista e transforma este nome num predicado

1. Canto nacionalt!Jta <le Nicolas Becker.


2 J'aikob Veneday (1.805-1871) polltlco alemão de es-
querdas.
a Marx refere-se aqui a .Max Stlrner.
41 Wigand'~ VierteljaArssch.rift, revista dos jovens-hege-
lla.nos ed.l:tada em Leipzig de J.'844 a 184,5.

53
de co» homem. julgando assim poder transformar numa sim-
ples categoria o termo de comunista q?e, no m~çlo actual,
designa aquele que adere a um determinado part.tdo revolu-
cionário. Toda a dedução de Feuerbach no que respeita às
relações recíprocas entre os homens pretende unicamente pro- ·
var que os homens têm necessidade uns dos outros e que
sempre assim aconteceu. Quer que seja estabelecida a cons-
ciência deste facto; ao contrário dos outros teóricos. apenas
pretende suscitar uma justa consciência de um facto existente,
enqua:'}tO que para o comunista real o que importa é derrubar
essa ordem existente. Por outro lado, reconhecemos que Feuer-
bach. nos seus esforços para generalizar a consciência deste
facto. vai tão longe quanto lhe é possível sem deixar de ser
um teórico e um filósofo; mas pensamos ser característico
o facto de São Bruno e São Max utilizarem a representação
do comunista segundo Feuerbach em vez do comunista real,
e de o fazerem em parte com o objectivo de poderem com-
bater o comunismo enquanto «Espírito do espírito». enquanto
categoria filosófica, enquanto adversário existente ao mesmo
nível deles - e. no caso de São Bruno. em particular, ainda
por interesses pragmáticos. Como exemplo deste reconheci-
mento e desconhecimento do estado de coisas existente, lem-
bremos a passagem da Filosofia do futuro 1 onde desenvolve
a ideia de que o Ser de um objecto ou de um homem cons-
titui igualmente a sua essência, de que as condições de exis-
tência. o modo de vida e a actividade determinada de uma
criatura animal ou humana são aqueles com que a sua
«essência> se sente satisfeita. Cada concepção é aqui com-
preendida expressamente como um acaso infeliz, como uma
anomalia que não se pode modificar. Portanto, se existem
milhões de proletários que não se sentem satisfeitos com as
suas condições de vida. se o seu «Ser> não corresponde de
forma alguma à sua «essência>, deveria.mos considerar este
facto como uma infelicidade inevitável que seria conveniente
suportar tranquilamente. No entanto, estes milhões de prole-
tários têm uma opinião muito diferente sobre este assunto

1 Obra de Feuerbach.

S4
e demonstrá-la-ão quando chegar o momento. quando puse•
rem na prática o seu «ser» em harmonia com a sua «essên..
eia», através de uma revolução. É precisamente por isso que,
nestes casos. Feuerbach nunca fa]a do mundo dos homens
e se refugia na nature7.a exterior, na natureza que o homem
ainda não controlou. Mas cada invenção nova, cada progresso
da indústria faz tombar um pouco esta argumentação e o
campo onde nascem os exemplos que permitem verificar
as afirmações daquele género, diminui cada v~ mais. A
«essência.> do peixe. para retomar um dos exemplos de Feuer-
bach, corresponde exactamente ao seu «ser», à água. e a
«essência» do peixe de rio será a água desse rio. Mas essa
água deixa de ser a sua «essência» e transforma-se num meio
de existência que não lhe convém. a partir do momento em
que passa a ser utiliz.ada pela indústria e fica poluída por
corantes e outros desperdícios. a partir do momento em que
o rio é percorrido por barcos a vapor ou em que o seu curs9.
é desviado .p ara canais onde é possível privar o · peixe -do
seu meio de existência pelo simples acto de cortar a água•
Declarar que todas as contradições deste género são meras
anomalias inevitáveis não difere de modo algum da conso-
lação que São Stimer oferece aos insatisfeitos quando lhes
declara que esta contradição lhes é intrínseca, que esta má
situação é necessariamente a que lhes corresponde, con-
cluindo que não lhes compete protestar mas sim guardar
para g mesmos a sua •indignação ou revoltarem-se contra
a sua sorte mas de uma f onna mítica. Esta «explicação»
também não difere da crítica que lhe é feita por São Bruno
ao afirmar que essa situação infeliz é uma consequência
de os interessados se terem mantido ao nível da «Substância>
em vez de progredirem até à cConsciência de si absoluta>
e de não terem sabido ver nessas más condições de vida o
Espirito do seu espírito.

(3]

Os pensa.me.atos da cla~~dominante são também,..Jm!


.todas as épocas. os pens.am~tas... damioaates._ou_seja._..a_
classe_q_ue tem o poder material. dominante numa dada sacie-
- . ~-
' ~
---·- ~-•---- ... . '. - .. ---·- . -· .. ----- .. --..... ··--~
ss
..ciaae é •i.mhéPl ..~pQtên..c.ia..~q~mal}~e esPzrituCJi A_çl~-~ qut:_
fsa:~1º
~fTo~1t~;~i~4~~thi~:i~~uai~~~tj~·:'!i1:~~~~~~li~~-
d_e_p_r9~u_-
daq_u~l~-~ qµ~~ __são_.recusados os._ mejos __
S3:o _inie]~!!!~-~~-C? __s_~~~etj_çiQs _igua~~~i~ ..à cl~s~ dom·i-
~-ªºte.~~n~~~~~g,s_ ~º~-i~?-?~es_ sã~ ~~Qª~·-ª e_xpressão
jdeal das refações materiais dominantes concebidas sob a
'º~ª de ideias e, portant~. a expressão ~as relações que
fazem de _uma classe a classe dominante; dizendo de outro
modo. são as ideias do seu domínio. -O~.:!~~Jy.!~~os que çons-
:tituem _a cla~:.·_do_mina!lt~ ..possuell?- -~õ.ti~.~~Qul:(as._._coi.sas .. uma
sansc~~--ç-~ e.m:~~§~!1-cia.di_~o_ q~_~n-~: na medida
em-qúe dominam enquantó clàsse -e, determinaril -- uma-época'.:.
.lús.tórica,eni.:..t<>da a sua extensão, é lógico que esses indivíduos
dominem em todos os sentidos. que tenham. entre outras,
uma posição dominante como seres pensantes, como produ-
tores de ideias, que regulamentem a produção e a distri-
buição dos pensamentos da sua época;- _a s ·:Suas, ideias.-são~
_porta~to. __as ideias .. dominantes,da -.sua época. Consideremos
pôr -exemplo ·um país' e um tempo em que o poder real.- a __
aristocraçj~~_t,µJ:gU.esia.:.di.sputam _.Q ~~-~~~ - ~~-º~ .~~,.:.~-
~aoutnna ºª
~rtan~'°~rti!!J:~çl?~-vemos que o pen~e_nto_ dom~ante é aí

«lei . eterno.
_41v1sao dos p<?d~res, por isso enunciada como

Reencontramos aqui a divisão de trabalho que ·antes


encontráramos como uma das forças capitais da história.
Manifesta-se igualmente no seio da classe dominante sob a
forma de divisão entre . <L.trabalho intelectual e o trabalho
maie~a1•. encontraI'DWs··duas -catégõríás diferentes'"
a i,õriiõ-·de
de indivíduos nessa mesma classe. Uns serão os .pensadqrés
dessa classe (os ideólogos activos, que reflectem e tiram a sua
substância principal da elaboração das ilusões que essa classe
tem por si própria). e os outros têm uma atitude mais passiva
e mais receptiva face a esses pensamentos e a essas il~sões
porque são, na realidade, os membros activos da classe sobr.e
as suas próprias pessoas. No seio dessa classe, essa cisão só
pode dar origem a uma ~erta oposição e a uma certa hostili-
dade entre as duas partes em presença. Mas quando surge
um conflito prático em que toda a classe é ameaçada, essa
oposição desaparece e cai a ilusão de que as ideias domi-

56
nantes não são as ideias da classe dominant.e e de que têm
um poder distinto do poder dessa .classe~ A existência de
ideias revolucionárias óuma época determinada pressupõe já
a existência de uma classe revolucionária; dissemos . anterior-
mente tudo o que era necessário referir acerca das condições
prévias de uma tal situação.
Admitámos que. na maneira· ·de .. conceber ~a--'~marcha
--·da .Jiist6ria
. .
.• .
se destacam :·as·· ideias:-~~ . classe- ··ffl)lllioante
·-=drs~:4.ne.QJl.t_çla~- -domillanto-:-~ue- ~_._@.(lSidetatn :aquelas
..:~mo .. uma entidade.· Suponhamos que só nos interessa o
facto de determina'das ideias dominarem numa certa é ~
abstraindo portanto dos indivíduos e das circunstâncias mun-
diais que possam estar na base dessas ideias. Poder-se-á então
direr. por exemplo, que no tempo em que reinava a aristo-
cracia, estava-se em pleno reinado dos conceitos de honra,
de fidelidade. etc., e que no tempo em que reinava a burgue-
sia existia o reinado dos conceitos de liberdade. de ig~-
dade, etc. 1 • t". o que pensa a :própria classe dom.inante:··Esta
concepção da históri~ comum a todos os historiadores, prin-
cipalmente com o facto de os pensamentos reinantes serem
cada vez mais abstractos. adquirindo cada vez mais uma
forma universal. Com ~feito, cada .nova~lassê ·.:nõ .poder é
ob.rigada.-<:qu~. m~·não::.seja _pa@_.~tingir ó~._;seus ~.fins, . a\
-·JçpteseD'tar;•tt,·seu.~te.r~:..CODlÕ ::.séndo -· O i.ótçressé "cóüiwit · .
··_a-tó.dos--os :m embros _~ -:-socieda<l~.!OU. exprimindo a coisa no
p1ario das ideias, obrigada a dar aos seus pensamentos a
forma da universalidade, de os representar como sendo os
únicos razoáveis, os únicos verdadeiramente válidos. Do sim-
-· pies fa~to de ~la se ~Jrootar__~m ~ a outra cl(!Sse, a clas~e
revolucionãria sUrgé..nos primeiramente não êõ·m o ·classe mas-·
. . .. .. - - -· ......-. . .. . . ~...... .... . ... _,. ___ - _ -----
.. .
. ...

1 ['Passagem cortada. no manuscrito:] Normalmente, a


classe dominante julga serem estes conceitos quem verdadetm-
mente reina, e sõ os d..lstlngue das !delas dominante.e das épocas
anteriores apresentando-os como verdades eternas. Estes ccon-
celtos domlna.ntes> terão uma forma tanto ma.J..s geral e genera--
Uu.da quanto mala a classe dominante é obrigada a apresentar
os seus interesses como interesses de todos os membros da
sociedade.

57
~ n t a n t c da ~QCieda.de intei~ como toda a massa
da sociedade em choque com a única classe dominante. Isto
é possível porque. no início, o seu interesse está ainda inti-
mamente ligado ao interesse com um de todas as outras classes
não dominantes e porque•. sob a pressão do estado de coisas
anteriores, este interesse ainda não se pôde desenvolver como
interesse particular de uma classe particular. Por este facto,
a vitória dessa c ~ é útil também a muitos indivíduos das
outras classes que não conseguem chegar ao poder; mas é-o
unicamente na medida em que coloca os indivíduos em
estado de poderem chegar à classe dominante. Quando a
burguesia francesa derrubou o domínio da aristocracia, per-
mitiu a muitos proletários subir acima do proletariado, mas
permitiu-o apenas no sentido de que fez deles burgueses.
Cada nova classe apenas estabelece portanto o seu domínio
numa base mais vasta do que a classe que dominava anterior-
mente; por outro lado, a oposição entre a nova classe domi-
nante e as que não dominam toma-se ainda mais profunda
e actual. Daqui se depreende que o combate que é necessário
efectuar contra ·a nova classe dirigente terá por- fim negar as
condições sociais anteriores de uma forma mais decisiva e
mais radical° cio que aquela qüe fora· ··empregue· -por todas
às ··classes que antes detiveram o poder. ·
... Toda a ilusão que consiste em pensar que o domínio
de uma classe determinada é apenas o domínio de certas
ideias. cessa naturalmente desde que o domínio de uma classe
deixa de ser a forma do regime social, isto é, quando deixa
de ser necessário representar um interesse particula:r como
sendo o interesse geral ou de representar o «Universal> como
dominante.
Depois de separar as ideias dominantes dos indivíduos
que exercem o poder e sobretudo das relações que decorrem
de um dado estádio do modo de produção, é fácil concluir
que são sempre as ideias que dominam na história, podendo•se
então abstrair. dessas diferentes ideias, a cldeia>, ou seja,
a ideia por excelência. etc•, fazendo dela o elemento que
domina na história e concebendo então todas as ideias e
conceitos isolados como «autodeterminações» do conceito que
se desenvolve ao longo da história Em seguida, é igualmente
58
~aturai fazer derivar todas as relações humanas do conceito
de homem, do homem representado, d~ es.sência do homem,
numa palavra, de o Homem. ~ o que faz a filosofia especula-
tiva. O próprio Hegel afirma. no fim da Filosofia da história,
que «apenas examina o desenvolvimento do Conceito» e que
expôs na sua história a a"Crdadeira teodiceia» (pág. 446).
Podemos agora regressar aos produtores «do Conceito», aos
teóricos. ideólogos e filósofos, para chegar à conclusão de
que os filósofos enquanto tais sempre dominaram na história
- ou seja, a um resultado a que o próprio Hegel já tinha
chegado, como acabamos de ver. Com efeito, a façanha que
consiste em demonstrar que o Espírito é soberano na história
(o que Stirner chama hierarquia) reduz-se aos três esforços
seguintes:

·l. º É necessário separar as ideias daqueles que, por


razões empíricas dominam enquanto indivíduos ~ateriais e
em condições empíricas. desses próprios homens, e reconhecer
em seguida que são as ilusões ou as ideias que dominam a
história.
2.º É necessário ordenar esse domínio das idei~ esta-
belecer uma relação mística entre as sucessivas ideias domi-
nantes. e isto consegue~se concebendo•as como «autodeter-
minações do conceito». (O facto de estes pensamentos estarem
realmente ligados entre si através da sua base empírica torna
a coisa possível; por outro lado, compreendidos como pensa-
mentos puros e simples, tomam.se diferenciações de si pro-
duzidas pelo próprio pensamento).
3.º Para desenvencilhar do seu aspecto místico este
cconceito que se determina a si mesmo•. ele é transformado
em pessoa - ca Consciência de si> - ou, para parecer mate-
rialista, é considerado como uma série de pessoas que repre-
sentam co Conceito» na história. a saber cos pensadores».
os «filósofos» e os ideólogos que são considerados, por sua
vez. como fabricantes da história. como ca çom.issão dos
guardas», como os dominadores- Eliminam-se simultanea•
mente todos os elementos materialistas da história e pode•se
tranquilamente dar rédea solta ao pendor especulativo.

59
&te método de fazer história que ·era empregue sobre-
tudo na Alemanha deve ser explica.do a partir do contexto:
a ilusão dos ideólogos em geral que, -por exemplo. está rela-
cionada com as ilusões dos juristas. dos políticos (e dos
homens de Estado). ~ então necessário considerar os sonhos
dogmáticos e as ideias extravagantes desses sujeitos como uma
ilusão que se explica muito simplesmente pela sua posição
prática na vida, a sua profis.são e a divisão do trabalho.
Na vida corrente. qualquer shopkeeper 1 sabe muito bem
faz.er a distinção entre aquilo que cada um pretende ser e
aquilo que é realmente; mas a nossa história ainda não
conseguiu chegar a esse conhecimento vulgar. Relativamente
a cada época, a historiografia acredita plenamente naquilo
que a época em questão diz de si mesma e nas ilusões que
tem sobre si mesma. -. /

[4]
. . . foi encontrado 2 • Do ,primeiro ponto resulta a neces-
sidade de uma divisão do trabalho aperfeiçoada e de um
comércio vasto como condições prévias. resultando o carácter
local do segundo ponto. No prim~iro caso, deve-se associar
os indivíduos; no segundo. estes encontram-se ao mesmo nível
de qualquer instrumento de produção, são eles mesmos ins-
trumentos de produção. Surge aqui portanto a diferença entre
os instrumentos de produção naturais e os instrumentos de
produção criados pela civilização. O campo cultivado (a águ~
etc.) pode ser considerado como um instrumento de produção
natural. No .primeiro caso, o do instrumento de produção
natural, os indivíduos estão subordinados à natureza; no
segundo, estão subordinados a um produto do trabalho- No

1 Lojista. Em inglês no original.


z Falta o inicio deste caderno. Considerando a. .p aginação
de Marx, deverão faltar quatro pã.ginas.

<,()
primeiro caso. a propriedade, trata-se aqui da propriedade
fundiári~ aparece portanto também como um domínio iine-
diato e natural; no segundo. esta propriedade surge como
um domínio do .trabalho e mais ainda do trabalho acumulado,
do capita1. O primeiro caso pressupõe que os indivíduos estão
unidos por algo. quer seja a famili~ a tribo, até o próprio
solo, etc. O segundo pressupõe que eles são independentes
uns dos outros e só se mantêm unidos devido às trocas. No
primeiro caso, a troca é essencialmente uma troca entre os
homens e a natureza, uma troca em que o trabalho de uns
é trocado pelo produto do outro; no segundo. trata-se predo-
minantemente de uma troca entre os próprios homens. No
primeiro caso, basta ao homem uma inteligência média, e a
actividade corporal e intelectual não estão ainda separadas;
no segundo, a divisão entre o trabalho corporal e o trabalho
inte1ectual já. está praticamente efectuada. No primeiro _çaso.-
o domínio do proprietário sobre os não-possuidôres pode
repousar em relações .pessoais. numa espé.cie de comunidade;
no segundo. deverá ter tomado uma forma material. encar-
nar-se num terceiro termo, o dinheiro. No primeiro caso,
existe a pequena indústri~ mas subordinada à utilização do
instrumento de produção natural e, portanto, sem repartição
do trabalho entre os diferentes indivíduos; no segundo, a
indústria só existe na divisão do trabalho e através dela.
Até agora partimos dos instrumentos de produção. e
mesmo nestas condições a necessidade da propriedade privada
para certos estádios industriais era já evidente. Na industrie
extractive •, a propriedade -privada coincide ainda plena•
mente com o trabalho; na pequena indústria e em toda a
agricultura a propriedade é, até agora, a consequência neces-
sária dos instrumentos existentes; na grande indústria, a con-
tradição entre o instrumento de produção e a propriedade
privada é tão somente um seu produto, e ela necessita de se
encontrar muito desenvolvida para o poder criar. A abolição

• Em trancf.s no orlg1naJ ..

61
'
da propriedade privada s6 é portanto .possível com a grande
indústria.


A maior divisão entre o trabalho material e o intelectual
é a traduzida pela separação da cidade e do campo. A opo-
sição entre a cidade e o campo surge com a passagem da
barbárie à civiliução, da organização tribal ao Estado, do
provincialismo à nação, e persiste através de toda a história
da civilização até aos nossos dias (Liga contra a lei sobre
os cereais)- A existência da cidade implica imediatamente a
necessidade da administração, da polícia. dos impostos, etc.,
numa palavra, a necessidade da organização comunitári~
partindo da política em geral. ~ aí que aparece em primeiro
lugar a divisão da popu1ação em duas grandes dasses, divisão
essa que repousa directamente na divisão do trabalho e nos
instrumentos de produção. A cidade é o resultado da con..
centraçã.o da população, dos instrumentos de produção, do
capital, dos prazeres e das necessidades. enquanto que o
campo põe em evidência o facto oposto, o isolamento e a
dispersão. A oposição entre a cidade e o campo s6 pode
existir no quadro da propriedade privada; é a mais flagrante
expressão da subordinação do indivíduo à divisão do trabalho,
da subordinação a uma actividade determinada que lhe é
imposta. Esta subordinação faz de um habitante um animal
da cidade ou um animal do campo, tão limitados um como
o outro, e faz renascer todos os dias a oposição entre os
interesses das duas partes. O trabalho é aqui ainda o mais
importante. o poder sobre os individuos, e enquanto este
poder existir haverá sempre uma propriedade privada
A abolição desta oposição entre a cidade e o campo
é uma das primeiras condições de uma existência verdadei--
ramente comunitária; essa condição depende por sua vez de
um conjunto de condições materiais prévias que não é possível
realizar por um mero acto de vontade, como se pode verificar
à primeira vista (é necessário que essas condições já estejam
desenvolvidas). Pode-se ainda considerar a separação entre
a cidade e o campo como sendo a separação entre o capital
e a propriedade fundiária. como o início de uma existência

62
e de um desenvolvimento do capital independentes da proprie•
dade fundiária, como o começo de uma proprieda.je tendo
como única base o trabalho e as trocas.
Nas cidades que não foram constituídas antes da Idade
Média e se formaram, portanto, nesta época, povoando-se
de servos em vias de libertação, o trabalho particu)ar de cada
um era a sua única propriedade, .para além do pequeno
capital que lhes pertencia e que era quase exclusivamente
constituído pelos instrumentos mais indispensáveis. A concor•
rência dos servos fugitivos que não cessavam de afluir às
cidades, a guerra incessante do campo contra as cidades, e,
portanto, a necessidade de uma força militar urbana organi-
za~ a relação entre pessoas constituída pela propriedade
em comum de um dado trabalho. a necessidade de cons-
truções comuns para a venda das mercadorias num tempo
em que os artesãos eram também comerciantes e a exclusão
de tais edifícios das pessoas não qualificadas, a opo~ição . dos
interes.ses das diferentes profiswes, a necessidade de pro-
teger um trabalho aprendido com esforço e a organização
feudal de todo o ·país foram a causa de os trabalhadores
se unirem em corporações. Não desejamos aprofundar aqui
as múltiplas modificações do sistema das corporações intro-
duzidas pelos desenvolvimentos históricos ulteriores- O êxodo
dos servos para as cidades prosseguiu sem qualquer inter-
rupção durante toda a idade média. Estes servos, perseguidos
no campo pelos seus senhores, chegavam às cidades onde
encontravam uma comunidade organiza.da contra a qual
eram impotentes e no interior da qual lhes era necessário
aceitar a situação que lhes atribuíam e que era consequência
da necessidade que havia do seu trabalho e do interesse dos
seus concorrentes organizados da cidade. Estes trabalhador~
chegando à cidade isolados. nunca conseguiram constituir
uma força. pois ou o seu trabalho era da competência de
uma dada corporação e devia ser aprendido. e então os
mestres dessa corporação submetiam-nos às suas leis e orga-
nizavam-nos de acordo com os seus interesses, _ ou o seu
trabalho não exigia qualquer aprendizagem. não era da com-
petência de qualquer corporação, era um trabalho de jor-
naleiros e. neste caso, nunca chegavam a constituir uma orga-

63
Diz.ação mantendo-se como uma plebe inorganizada. A
necessidade do trabalho à jornada nas cidades criou a plebe.
Estas cidades formavam verdadeiras «associações> pro-
vocadas pela necessidade imediata, as preocupações de pro-
tecç.ão da propriedad~ e estavam aptas a multiplicar os meios
de produção e os meios de defesa dos seus membros consi-
derados individualmente. A plebe destas cidades. com pondo-
-se de indivíduos desconhecidos uns dos outros e que chega-
vam à cidade separadamente. não tinha qualquer organização
que lhe permitisse enfrentar um poder já organizado, equipado
para a guerra e que os vigiava invejosamente; e isto explica
que ela fosse privada de qualquer podet. Os companheiros
e aprendizes estavam organiz.ados em cada profissão da forma
que melhor servia os interesses dos mestres 1 , as relações
patriarcais que existiam entre eles e os mestres conferiam
a estes últimos um poder duplo. Por um lado, tinham uma
influência directa sobre toda a vida dos oficiais; por outro
lado, pelo facto de estas relações representarem uma verda-
deira ligação entre os companheiros que trabalhavam para um
mesmo mestre. estes constituíam um bloco frente aos compa-
nheiros ligados a outros mestres. o que os separava; e em
último lugar. os companheiros já estavam ligados ao regime
existente pelo simples facto de terem interesse em chegar
a mestres. Por consequência, enquanto a plebe se lançav3.y
pelo menos de vez em quando. em motins contra toda a
ordem municipal. motins esses que. dada a sua impotênci~
eram pedeitamente inoperantes, os oficiais nunca ultrapassa-·
ram pequenas rebeliões no interior de corporações isoladas.
como existem aliás em qualquer regime corporativo. As
grandes sublevações da idade média partiram todas do
campo. e todas elas falharam devido à dispersão dos campo-
neses e da incultura que era a sua consequência.
Nas cidades. o capital era um capital natural que con-
sistia em aJojamento. instrumentos e uma clientela natural

1 [Passagem cortada no manuscrito:] estavam multo


dlvtdldos, po18 oa ot1cia1B dos ·vários mestres opunbam-se un.s
aos outroe no eelo de uma mesma profJssão

64
hereditária.. e transmitia-se oecessariarnente de pais ipara filhos
dado o estado ainda embrionário das trocas e a f a1ta de
circulação que impossibilitava a realização desse capital•
Contrariamente ao capital moderno. o dessa época não podia
ser avaliado em dinheiro e não era indiferente que ele fosse
aplicado neste ou naquele investimento; tratava-se de um
capital ligado directamente ao bem determinado trabalho do
seu .possuidor. inseparável deste trabalho. ou seja, de um
capital ligado a wn estado.
Nas cidades, a divisão do trabalho efectuava-se ainda
de uma forma perfeitamente espontânea entre as diferentes
corporações mas não se estabelecia de modo a1gum entre os
operarios tomados isoladamente no interior das próprias
corporações. C-ada trabalhador devia estar apto a executar
todo um ciclo de trabalhos; devia poder f az.er tudo o que
podia ser feito com os seus instrumentos; as trocas restritas
as poucas ligações existentes entre as diversas cidades. a rari~
dade da população e o tipo de necessidade não favoreciam
uma divisão de trabalho desenvolvi~ e é por isso que quem
desejava tomar-se mestre devia conhecer a sua profissão a
fundo. Devido a isto, encontra-se ainda nos artesãos da Idade
Média um interesse pelo seu trabalho particular e ,pela habi-
lidade desse trabalho que se podia até elevar a um certo sen-
tido artístico. E é também por isso que cada artesão da Idade
Média se dava inteiramente ao seu trabalho; sujeitava-se senti-
mentalmente a ele e ~tava-lhe muito mais subordinado do
que·o trabalhador moderno para o qual o seu trabalho é per-
feitamente indiferente.
O desenvolvimento da divisão de trabalho que se seguiu.
foi constituído pela separação entre a produção e o comércio,
a formação de uma classe -particular de comerciantes, separa-
ção ~ que já era um facto nas cidades antigas (o caso dos
Judeus, entre outros). e que depressa surgiu nas cidades de
formação recente. Isto implicava a possibilidade de uma liga-
ção c.omercial ultrapassando os arredores imediatos e a reali-
z.ação desta possibilidade dependia dos meios de comunica-
ção existentes. do estado da segurança pública no campo, o
qual era ainda condicionado pelas relações polf ticas (sabe-se
que durante toda a Idade Médi~ os comerciantes viajavam
em caravanas armadas); dependia também das necessidades do

• 6S
território aces.gvel ao comércio, nece·ssida~es cujo grau de
desenvolvimento era determinado. em cada caso, pelo nível de
civilização.
A constituição de uma classe particular que se entregava
apenas ao comércio e a extensão do comércio para além dos
arredores imediatos da cidade graças aos negociantes. fizeram
surgir imediatamente uma acção recíproca entre a produção e
o comércio. As cidades entram em relações entre si, transpor-
tam-se de uma cidade para outra instrumentos novos e a divi-
são da produção e do comércio suscita rapidamente uma nova
divisão da produção entre as diferentes cidades. ficando cada
uma a explorar predominantemente um determinado ramo da
indústria. Os limites anteriores começam pouco a pouco a
desaparecer.
O facto de as forças produtivas adquiridas numa dada
localidade, sobretudo as invenções, se perderam ou não, para
o desenvolvimento ulterior era uma consequência da extensão
das trocas. Enquanto não existem ainda relações comerciais
ultrapassando a vizinhança imediata, é forçoso realizar a
mesma invenção em cada localidade. e bastam puros acasos
tais como o aparecimento de povos bárbaros e mesmo as
guerras normais para obrigar um país que tem forças produ-
tivas e necessidades desenvolvidas a partir novamente do
nada. No início da história, era necessário criar todos os dias
cada invenção e fazê-lo em cada Ioca1idade de uma forma
independente. O exemplo dos fenícios mostra-nos até que
ponto as forças produtivas desenvolvidas mesmo com um
comércio relativamente pouco vasto, sãq susceptiveis de uma
destruição total, pois as suas invenções desapareceram na sua
maior parte pelo facto de a nação ser eliminada do comércio e
conquistada por Alexandre, o que provocou a sua decadência.
O mesmo acontece na Idade Média com a pintura do vidro,
por exemplo. A duração das forças produtivas adquiridas só
é assegurada quando o comércio adquire uma extensão mun-
dial que tem por base a grande -indústria e quando todas as
nações são arrastadas para a luta da concorrência.
A divisão do trabalho entre as diferentes cidades teve
como primeira consequência o nascimento das manufacturas.
ramos da produção que escapavam ao sistema corporativo. O
primeiro desenvolvimento das manufacturas - primeiro na

66
Itália e depois na F1andres - teve como condição histórica
prévia o comércio com as outras nações. Nos outros países -
a Inglaterra e a França. por exemplo - as manufacturas limi-
taram-se nos seus começos ao mercado interno. Além das
condições prévias já indicadas. as manufacturas necessitam
ainda para se estabelecerem de uma concentração já desenvol-
vida da população- sobretudo nos campos-e capital que
nesse momento ~ começava a acumular num pequeno número
de mãos, em parte nas corporações apesar dos regulamentos
administrativos,. e em parte nos comerciantes.
O trabalho que mais depressa se mostrou susceptível de
desenvolvimento foi aquele que implicava o emprego de uma
máquina, por muito rudimentar que esta fosse. A tecelagem,
que os camponeses efectuavam até então nos campos. à mar-
gem do ~u trabalho. para arranjarem o vestuário de que neces-
sitavam. foi o primeiro trabalho que recebeu um impulso e teve
um maior desenvolvimento graças à extensão das relaçõe_s
comerciais. A iecetagem foi a primeira e, durante muito tempo
principal actividade manufactureira. A procura de fazendas
para confeccionar o vestuário. que aumentava proporcional-
mente à população. o início da. acumulação e da mobilização
do capital primitivo graças a uma circulação acelerad~ a
necessidade de luxo que dai resultou e que favoreceu sobre-
tudo a extensão progressiva do comércio. deram à tecelagem
e tanto no que respeita à quantidade como à qualidade, um
impulso que a arrancou à fome de produção anterior. Ao lado
dos camponeses que teciam para satisfazer as suas próprias
necessidades pessoais, que aJiás continuaram a subsistir e que
ainda hoje se encontram, nasceu nas cidades uma nova classe
de tecelões cujos panos eram destinados a todo o mercado
interno e. muitas vezes, aos mercados externos.
A tecelagem, trabalho que exige pouca habilidade na
maior parte dos casos e que se subdivide depressa numa infi-
nidade de ramos. era naturalmente refractá.ria às cadeias da
corporação. Devido a isto. foi sobretudo praticada nas
a1deias e nos povoados sem organização corporativa que se
tomaram pouco a pouco cidades e até as cidades mais flores.
ccntes de cada país.
Com o aparecimento da manufactura libertada da cor-
poração, as relações de propriedade transformaram-se tam-

67
bém imediatamente. O primeiro passo· em frente para ultra-
p~r o capital primitivo ligado a um estado foi marcado pelo
aparecimento dos comerciantes que possuíam um capital móvel
portanto um capital no sentido moderno do tenno. tanto
quanto era possível nas condições de vida do tempo. O
segundo progresso foi marcado pela manufactura que mobi-
liwu por sua ve-z uma grande massa do capital primitivo e
aumentou de um modo geral a massa do capital móvel rela-
tivamente ao capital primitivo.
A manufactura tornou•se simultaneamente um recurso
para os camponeses contra as corporações que os exduíam ou
que lhes pagavam bastante mal. do mesmo modo que outrora
essas mesmas corporações lhes tinham servido de refúgio
contra os proprietários de terras.
O início da laboração manufactureira foi marcado simul-
taneamente por um período de vagabundagem causado pelo
desaparecimento das comitivas armadas dos senhores feudais
e pelo licenciamento dos exércitos que os reis tinham utilizado
contra os seus vassalos, pelos progressos da agricultura e a
transformação de terras de trabalho em pastos. Daqui se
conclui que a vagabundagem estava intimamente ligada à
decomposição do feudalismo. A partir do séc. xm encontra..
mos a1guns períodos esporádicos em que isto acontecia. mas
só nos finais do séc. XV e princípios do. século XVI podere-
mos encontrar uma vagabundagem permanente e generali-
zada. Os vagabundos eram em taJ número que o rei Henri-
que VIIl de Inglaterra. entre outros, mandou enforcar 72 000
e mesmo assim só uma miséria extrema os levou a trabalhar.
dçpois de enormes dificuldades e de uma longa resistência.
A rápida prosperidade das manufacturas, sobretudo na Ingla-
terra. absorveu-os progressivamente.
Com o advento da manufactur~ as diferentes nações
entraram em concorrênci~ numa luta comercial que se efec..
tuou através de guerras. de direitos alfandegários e de proi-
bições. enquanto que anteriormente só existiam trocas ino-
fensivas entre as nações. O comércio ~ a ter um
significado político.
A manufactura conduziu simultaneamente a uma modi-
ficação das relações entre trabalhador e empregado. Nas
corporações. as relações patriarcais entre os oficiais e o mes-

68
tre subsistiam: na manufactura. foram substituídas por rela-
ções monetárias entre o trabalhador e o capitalista que nos
campos e nas pequenas cidades ainda mantinham traços de
patriarcalismo mas que os perderam quase totalmente nas
cidades mais propriamente manufactureiras de uma certa
importância.
A manufactura e o movimento da .p rodução sofreram
um impulso prodigioso devido à expansão do comércio que
conduziu à descoberta da América e do caminho marítimo
para a lndiL Os novos produtos importados das lndias.
e principalmente o ouro e a prata que entraram em circula-
ção, transformaram. inteiramente a situação recíproca das
classes sociais e desferiram um rude golpe na .propriedade
fundiária feudal e nos trabalhadores; as expedições dos
aventureiros. a colonização, e antes de tudo o facto de os
mercados adquirirem a amplitude de mercados mundiais. o
que se torna agora possível e cada dia tomava maiores pr_o •.· ·
porções, provocaram uma nova fase do desenvolvimento
histórico: mas não teremos necessidade de insistir nisto por
agora. A colooiz.ação dos países recentemente descobertos
fornece um alimento novo à luta comercial a que as nações
se entregavam. e. consequentemente. esta luta adquiriu uma
extensão e um encamiçamento ainda maiores.
A expansão do comércio e da manufactura aceleraram.
a acumulação do capital móvel, enquanto que. nas corpo-
rações que não recebiam qualquer estímulo para aumentar
a sua produção, o capital primitivo permanecia estável ou
até diminuía. O comércio e a manufactura criaram a grande
burguesia; nas corporações, verificou-se uma concentração
da pequena burguesia que deixou de abundar nas cidades
como anteriormente, para se submeter ao domínio dos gran-
des comerciantes e dos manufacturiers 1 • Daqui resultou o
declínio das corporações a partir do momento em que entra-
ram em contacto com a manufactura.
As relações comerciais das nações entre si tomaram
dois aspectos diferentes no período a que nos referimos- De

1 Em francês no original..

69
i.tiício, a fraca quantidade de ouro e de prata em circulação
determinou a proibição de exportar esses metais; a neces-
sidade de ocupar a crescente população das cidades tornou
necessária a indústri~ normalmente importada do estran-
geiro, e essa indústria não podia dispensar os privilégios
que podiam ser concedidos não somente contra a concor-
rência interna, mas sobretudo contra a concorrência externa.
Nestas primeiras decisões esteve incluída a extensão do
privilégio corporativo local a toda a nação. Os direitos alfan-
degários têm a sua origem nos direitos que os senhores feu-
dais impunham aos mercadores que atravessavam o seu
território como resgate da pilhagem; estes direitos foram
mais tarde impostos pelas cidades e. com o aparecimento
dos Estados modernos. constituíram a forma mais fácil de
permitir ao fisco armazenar dinheiro.
Estas medidas rev~tiram-se de um novo significado
com o aparecimento do ouro e da prata americanos nos
mercados europeus, com o progressivo desenvolvimento da
indústri~ o rápido impulso do comércio e as suas conse•
quências, a prosperidade da burguesia fora das corporações
e a importância crescente do dinheiro. O Estado. para o
qual se tornava dia a dia mais difícil dispensar o dinheiro,
manteve a interdição de exportar ouro e prata, unicamente
por considerações fiscais; os burgueses, cujo objectivo prin-
cipal era agora o de açambarcar a grande massa de dinheiro
novamente lançada no mercado, encontravam-se plenamente
satisfeitos; os privilégios existentes tornaram-se uma fonte
de receitas para o governo e foram vendidos a troco de
dinheiro; na legislação das alfândegas apareceram os direitos
à exportação que. pondo um obstáculo no caminho da
indústri~ tinham um fim puramente fiscal. O segundo período
iniciou-se em meados do século XVII e durou quase até
ao fim do século XVIII. O comércio e a navegação tinham-se
desenvolvido mais rapidamente do que a manufactura que
desempenhava um papel secundário; as colónias transfor-
maram-se gradualmente em grandes consumidores; à custa
de longos combates. as diferentes nações partilharam entre
si o mercado mundial que se abria. Este período começa

70
pelas leis sobre a navegação 1 e os monopólios coloniais.
Evitou-se. tanto quanto po~vel. por meio de tarifas. proi-
bições e tratados. que as diversas nações pudes.sem fazer
concorrência umas às outras; e, em última instância, foram
as guerras, e sobretudo as guerras marítimas, que serviram
para conduzir a luta da concorrência e decidir qual o resul-
tado. A nação mais poderosa no mar, a Inglaterra. conservou
a preponderância DO âmbito do comércio e da manufactura.
Já aqui se verificava uma concentração num único país·
A manufactura tinha garantias constantes no mercado
nacional através de direitos protectores, da concessão de
monopólios DO mercado coloniat e para o exterior mediante
alfândegas diferenciaisª· Favorecia-se a transformação da
matéria bruta produzida no próprio país (lã e linho em
Inglaterra. seda em França); interditou-se a exportação da
matéria prima produzida no local (lã em Inglaterra) e
negligenciou-se ou dificultou-se a da matéria importada
(algodão em Inglaterra). A nação que possuía a supreoiãéia
no comércio marítimo e o poder colonial assegurou também
naturalmente a maior extensão quantitativa e qualitativa
da manufactura.. A manufactura não podia de forma alguma
dispensar protecção. na medida em que a menor alteração
verificada noutros países a podia levar à -p erda do seu
mercado e. consequentemente, à ruína; pois se é facil-
mente introduzida num país em condições um pouco favo-
ráveis é igualmente fácil destruí-la. Por outro lado. pela
forma como era praticada no campo, sobretudo no sé-
culo XVIII. a manufactura encontra-se tão intimamente
ligada às c.ondições de vida de uma grande ma.s.5a de indi-

1 Leis editadas por Cromwell em 1651 e renovadas mais


tarde. Estipulavam que a maioria das mercadorias tmportarlas
da Europa, da Rússia ou d& Turquia só deviam ser transportadas
por navios ingleses ou dos paises exportadores. A ca.botagem
ao longo das costas Inglesas devia ser f eJta exclu.slvamente por
barcos Ingleses. Estas leis, destinadas a favorecer a marinha
inglesa, eram sobretudo dirigidas contra a Holanda; toram abo-
lidas entre 1793 e 1854:...
2 Esta.a taxas dl!erenclais lmprlmlam d.lreltos dlterentes
a uma mesma mercadoria. consoante provinha deste ·o u daquele
pais.

71
viduos que nenhum pais pode arriscar-se a pôr a sua exis-
tência em jogo pela introdução da livre concorrência nesse
campo. Na medida em que chega a abranger a exportação,
depende por isso inteiramente da extensão ou da limitação
do comércio e exerce sobre ele um.a acção recíproca muito
fraca. Daí, a sua importância secundária ... 1 e a influência
dos comerciantes no sé.culo XVIII. Foram os comerciantes.
e muito particularmente os armadores que. mais do que
quaisq11er outros, insistiram a favor da protecção do Estado
e dos monopólios; é certo que os manufactureiros pediram
e obtiveram também esta protecção, mas cederam sempre
o passo aos comerciantes no que se refere a importância
política. As cidades comerciantes. e os portos em particular,
alcançaram um relativo grau de civilização e tornaram-se
cidades de grande burguesia enquanto nas cidades indus-
triais subsistiu mais o espírito pequeno-burguês. Cf. A iki o 2
por exemplo- O século XVIII foi o século do comércio.
Pintoª di-lo expressamente: «Le commerce fait la marotte
du siecle "»; e: .cdepuis quelque temps il n' est plus question
que de commerce, de mvigation et de marine 5».
O movimento do capital. se bem que notavelmente ace-
lerado. manifestava relativamente ao comércio uma maior
lentidão. A divisão do mercado mundial em facções isoladas,
em que cada uma era explorada por uma nação particular,
a eliminação da concorrência entre nações, a inépcia da
própria produção e o sistema financeiro que mal ultrapas-
sara o primeiro estádio do seu desenvolvimento. entrava-
vam consideravelmente a circulação. Daqui adveio um espí-
rito mercador de uma mesquinhez sórdida que maculava
todos os comerciantes e todo o modo de exploração comer-

1 [Passagem <leteriorada no manuscrito.]


2 AIKIN, .John (1747-1822): médico inglês que foi almu.1-
taneamente historiador.
a PINTO, Isaac (1715-1787): especulador e economista
hola.ndês. As citações do texto pertencem à coarta sobr~ a rlva-
Jidade do comércio> da sua obra: Tratado da cir~ão e do
crédito. Amesterdão, 177L
• Em frà.ncês no original
" Em francês no original.

72
cial. Relativamente aos manufactureiros e mais ainda aos
artesãos., eram a bem dizer grandes burgueses; -relativamente
aos comerciantes e industriais do período seguinte, perma-
necem pequeno-burgueses. Cf. Adam Smith 1 •
Este periodo é igualmente caracterizado pelo levanta-
mento da interdição de exportar o ouro e a prata. pelo
nascimento do comércio do dinheiro. dos bancos. das dívidas
de Estado. do papel-moeda, das especulações sobre os fun-
dos e as acções, da agiotagem sobre todos os artigos. do
desenvolvimento do sistema monetário em geral. O capital
perdeu por sua vez uma grande parte do carácter natural
que lhe era ainda inerente.
A ooncentração do comércio e da indústria num único
país. a Inglaterra, tal como se desenvolveu sem interrupção
no século XVIL criou progressivamente para esse país um
mercado mundial razoável e suscitou por isso uma procura
dos produtos ingleses manufacturados que as fo~ças .pro-·
dutivas industriais anteriores já não podiam satisfazer. Esta
procura que ultrapassava as forças produtivas foi a força
motriz que suscitou o terceiro período da propriedade pri-
vada desde a Idade Média, criando a grande indústria -
a utilização das forças naturais para fins industriais, o maqui-
nismo e a divisão do trabalho mais intensiva- As outras
condições desta nova fase, tais como a liberdade de concor--
rência dentro da nação. o aperfeiçoamento da mecânica
· teórica, etc., já. existiam em Inglaterra (a mecânica, aper-
feiçoada por Newton, era aliás a ciência mais popular em
França e em Inglaterra no século XVIII). (Quanto à livre
concorrência dentro da própria nação. foi necessária uma
revolução em toda ~ parte para a conseguir - em 1640 e
em 1688 em Inglaterra, em 1789 em França). A concorrência
obrigou rapidamente todos os países que pretendiam con-
servar o seu papel histórico a proteger as suas manufacturas
através de novas medidas alfandegárias (pois as antigas já
não prestavam qualquer auxilio contra a grande indústria)

1 Autor conhecido por Marx nesta época através da. sua


obra Intitulada: Peagtdae&B aobre «i tMJtvreza e 41 causa.., dG ri-
queza da.a tiai,iSea.

73
e a introduzir pouco depois a grande indústria acompanhada
de tarifas protectoras. Apesar destas medidas de protecção, a
grande indústria tornou a concorrência universal (ela repre-
senta a liberdade comercial prática, e as alfândegas protec-
toras são para ela apenas um paliativo, uma arma defensiva
no inJerior da liberdade do comércio). estabeleceu os meios
de comunicação e o mercado mundial moderno 1, colocou
o comércio sob o seu domínio, transformou todo o capita]
em capital industrial e deu assim origem à circulação (aper..
-feiçoamento do sistema monetário) e à rápida centralização
dos captiais. Através da concorrência universal, constrangeu
todos os indivídúos a uma tensão máxima da sua energia.
Aniquilou o mais possível a ideologia, a religião, a moral, etc.,
e sempre que issà não lhe era possível, transformou-as em
flagrantes mentiras. Foi ela que criou verdadeiramente a
história mundial na medida em que fez depender do mundo
inteiro cada nação civilizada e, para satisfação das suas
ne.cessidades, cada indivíduo dessa nação, destruindo o
carácter exclusivo das diversas nações que era até então
natural. Subordinou a ciência da natureza ao capital e reti-
rou à divisão do trabalho a sua última aparência de fenó•
meno natural. Destruiu. na medida do possível, todos os
elementos naturais no interior do trabalho e conseguiu dis..
solver todas as relações naturais para as transformar em
relações monetárias. Em vez de cidades nascidas natural-
ment~ criou as grandes cidades industriais modernas que
se desenvolveram como se se tratasse de cogumelos• Onde
quer que penetrasse destruía o artesanato ~ de uma forma
ge_ra.L todos os anteriores estádios da indústria. Completou
a vitória da cidade sobre o campo. A sua condição primor-
dial 2 é o sistema automático. O seu desenvolvimento criou
um conjunto de forças produtivas para as quais a proprie-
dade privada se transformou tanto num obstáculo como a
corporação o tinha sido para a manufactura, e assim como

1 [Passagem riscada no manuscrito:] e deu origem à


rá.plda. circulação e concentração dos ca.plta.ls.
2 Passagem deteriorada no manuscrito.

74
a pequena exploração rural o fora igualmente para o arte-
sanato em vias de desenvolvimento. Estas forças produtivas
que, na propriedade privada, conheciam um desenvolvimento
exclusivamente unilateral acabaram por se transformar, na
maioria dos casos. em forças destrutivas, ao ponto de grande
parte delas não encontrar a mínima possibilidade de utili-
zação sob o seu regime. Criou por todo o lado as mesmas
relações entre as classes da sociedade. destruindo por isso
o carácter particular das diferentes nacionalidades. E final-
mente. enquanto a burguesia de cada nação conserva ainda
interesses nacionais particulares, a grande burguesia surge
com uma classe cujos interesses são os mesmos em todas
as nações e para a qual a nacionalidade deixa de existir;
esta classe desembaraça-se verdadeiramente do mundo antigo
e entra simultaneamente em oposição com ele. Não são
apenas as relações com o capitalismo que ela toma insu--
portáveis para o operário., mas também o próprio trabalho.
É evidente que a grande indústria não atinge o mê.mo
grau de aperfeiçoamento em todas as aglomerações de um
mesmo país. Mas este facto não trava o movimento de
classe do proletariado, na medida em que os proletários
engendrados pela grande indústria se colocam à cabeça
desse movimento e arrastam consigo as massas, até. porque
os trabalhadores excluídos da grande indústria se encontram
colocados numa situação ainda pior do que a dos próprios
trabalhadores da grande indústria. Os países onde se desen--
volveu uma grande indústria actuam · de igual modo sobre
os países plus ou moins 1 desprovidos de indústria, devido
ao facto de estes últimos se verem arrastados pelo comércio
mundial no decorrer da luta levada a cabo pela concorrência
universal.
Estas diversas formas constituem simultaneamente for-
mas da organização do trabalho e da propriedade- Verifi-
ca-se que, para cada período, e sempre que as necessidades
o tornaram imperioso, se concretizou efectivamente uma
união das forças produtivas existentes.

1 Em francê.s no orlgina.l; maia ou menoa.



&ta contr"dição entre as forças produtivas e a forma
de troca que, como· vimos, já se produziu diversas veu:s
no decorrer da história até aos nossos dias. sem todavia
comprometer a sua base fundamental. traduziu-se · necessa-
riamente, em cada um dos casos. através de uma revolução,
tomando ao mesmo tempo diversas formas acessórias tais
como todo um sem número de conflitos. choques de dife-
rentes c l ~ contradições da consciência, luta ideológica.
luta política, etc. De um ponto de vista limitado. é possível
destacar uma destas formas acessórias e considerá-la como
base dessas revoluções. coisa tanto mais fácil .p orquanto os
indivíduos de que partiam as revoluções tinham eles próprios
ilusões sobre a sua actividade consoante o seu grau de cul-
tura e o estado de desenvolvimento histórico.


Logo. e de acordo com a nossa concepção. todos os
conflitos da história têm a sua origem na contradição entre
as forças produtivas e o modo de trocas. Não é, aliás,
necessário que esta contradição seja levada a um extremo
num determinado país para ai provocar conflitos. A con-
corrência com .p aíses cuja indústria se encontra mais desen-
volvida, concorrência provocada pela extensão do comércio
internacional. basta para dar origem a uma contradição deste
tipo•. mesmo nos paí~ onde a indústria está menos desen-
volvida (por exemplo. o aparecimento de um proletariado
latente na Alemanha provocado .pela concorrência da indús-
tria inglesa).


A concorrência isola os indivíduos uns dos outros. não
apenas os burgueses mas também. e mais ainda, os prole-
tários, se bem que contribua para os unir. ~ :por este motivo
que decorre sempre um longo período antes que estes indiví-
duos se possam unir. abstraindo do facto de que- se se pre..

76
tender que a sua união não seja puramente local - esta -exige
previamente a construção dos meios necessários. pela grande
indústria. tais como as grandes cidades industriais e as
comunicaçõe3 rápidas e baratas. razões por que só depois
de longas lutas se toma possível vencer qualquer força orga-
nizada mediante indivíduos isolados e vivendo em condições
que recriam quotidianamente ~te isolamento. Exigir o con-
trário equivaleria a exigir que a concorrência não devesse
existir em determinada época histórica ou que os indivíduos
inventassem condições sobre as quais não têm qualquer
controle enquanto indivíduos isolados.


Construção das habitações. É evidente que, para os
selvagens. é normal cada família ter a sua gruta ou a sua
choça própria, do mesmo modo que é normal para os nóma-
das que cada família possua uma tenda. Esta economia domés-
tica separada. torna-se ainda mais indispensável com o
desenvolvimento da propriedade privada- Para os povos
agricultores. a economia doméstica comunitária é tão impos..
sível como o cultivo do solo em comum. A construção das
cidades constituiu de facto um -enorme progresso. Em todos
os períodos anteriores. era no entanto impossível a supressão
da economia separada, inseparável da supressão da proprie-
dade privada, pela simples razão de haver carência de con-
dições materiais. O estabelecimento de uma economia
dom~ca comunitária tem por condições prévias o desen-
volvimento da maquinaria, da utilização das forças naturais
e de outras nmnerosas forças produtivas tais como condutas
de água. iluminação a gás, aquecimento a vapor, etc.•
suprCSWJ da oposição cidade-campo. Sem a existência destas
condições nem a economia em comum constituiria uma
força produtiva nova, pois faltar-lhe-ia uma base material
e repousaria apenas sobre uma base teórica. isto é. seria uma
simples fantasia conduzindo apenas a uma economia monacal
- o que era pomvel, como o prova o agrupamento em cida-
des e a construção de edifícios comuns para determinados fins
particulares (prisões. casernas, etc.). ~ evidente que a supres-

.77
são da economia separada é inseparável da abolição da
famflia
A frase: «aquilo que cada um é deve-o ao Estado», que
se encontra frequentemente em São Max, equivale no fundo
à afirmação de que o burguês é um exemplar da espécie
burguesa, o que pressupõe a existência da classe dos burgue-
ses antes dos indivíduos que a constituem.
Na Idade Média, os burgueses eram constrangidos a
unir-se. em cada cidade, contra a nobreza rural para defen-
derem a pele; a expansão do comércio e o estabelecimento
das comunicações levaram cada cidade a conhecer outras
cidades que tinham feito triunfar os mesmos interesses lu-
tando contra a mesma oposição 1 • A classe burguesa só
muito lentamente se formou a partir das numerosas burgue-
sias locais das diversas cidades. A oposição às relações exis-
tentes. assim como o modo de trabalho condicionado por
esta oposição, transformaram simultaneamente as condições
de vida de cada burguês em ·particular, em condições de vida
comuns a todos os burgueses e independentes da cada indi-
víduo isolado 2 • Os burgueses criaram essas condições na
medida em que se separaram da associação feudal, e foram
criados por elas na medida em que eram determinados pela
sua oposição com a feudalidade existente. Com o estabeleci..
mento das ligações entre as diversas cidades, essas condições
comuns transformaram-se em condições de classe. As mesmas
condições. a mesma oposição, os mesmos interesses, deveriam
também, grosso modo, fazer surgir os mesmos costumes em
todo o lado. Mesmo a burguesia só se desenvolve pouco a
pouco, juntamente com as condições que lhe são próprias;
divide-se por sua ve:z. em diferentes fracções, consoante a
divisão do trabalho, e acaba por absorver no seu seio todas
as classes possuidoras pré-existentes (transformando entre•
tanto numa nova classe, o proletariado, a maioria da classe

1 [Variante no manuscrito:] conduziu à 1.lll1Ao de virias


cidades, o que ee explicava pela identidade dos seus lnteresses
perante os senhores teuda.ls.
2 [Passagem cortada no manuscrito:] -tornando-se o con-
junto destas condições de vida individuais as condições de exis-
tência comuns de wna classe.

78
não possuidora que existia antes dela e uma parte das classes
até ai possuidoras 1 ), na medida em que toda a propriedade
existente é convertida em capital cOMercial ou industria].
Os indivíduos isolados formam uma classe pelo facto de terem
de encetar uma luta comum contra uma outra classe; quanto
ao resto, acabam por ser inimigos na concorrência. Além disso,
a classe toma-se por sua vez independente relativamente aos
indivíduos, de modo que estes últimos encontram as suas
condiç~ de vida previamente estabelecidas e recebem da
sua classe, completamente delineada, a sua posição na vida
juntamente com o seu desenvolvimento pessoal; estão, pois.
subordinados à sua classe. Trata-se do mesmo fenómeno antes
existente na subordinação dos indivíduos isolados à divisão
do trabalho; e este fenómeno só pode ser suprimido se for
suprimida a propriedade privada e o próprio trabalho. Indi-
cámos muitas vezes como é que esta subordinação dos indi-
víduos à sua classe acaba por constituir simultaneament(? _a
subordinação a todas as espécies de representações. etc. · --
Se considerarmos, do ponto de vista filosófico, o desen-
volvimento dos indivíduos nas 2 condições de existência
comum das ordens e das classes que se sucedem historica-
mente e nas representações gerais que por isso lhes são im-
postas. é de facto possfvel imaginar facilmente que o Género
ou o Homem se desenvolveram nesses indivíduos ou que eles
desenvolveram o Homem: visão imaginária que traz à história
sérias afrontas. ~ então possível compreender estas diferentes
ordens e c1asses como especificações da expressão geral.
como subdivisões do Género, como fases de desenvolvimento
do Homem.
Esta subordinação dos indivíduos a detenninadas classes
não pode acabar enquanto não existir uma classe que já não
tenha necessidade de fazer prevalecer um interesse de classe
particular contra a classe dominante.

1 [Nota de Marx:] absorve primeiro os sectores de tra-


balho dlrectamente ligados ao Estado, e depois todas a.s protis-
sôes mais ou menos ldeolôg1ce.s. ·
2 [Passagem cortada no manuscrito:] nas suas condições
de existência em parte dadas 'e em parte resultando de um
desenvolvimento dessas condições dadas-

79

A transformação das forças pessoais (relações) em forças
objectivas. através da divisão do trabalho, não pode ser abo-
lida extirpando do cérebro essa representação gerai mas
unicamente atrav& de uma nova submissão das forças objec-
tivas e a abolição da divisão do trabalho por parte dos indiví-
duos. Ora isto não é po~vel sem a comunidade 1 ; é somente
em c.omunidade [ com outros que cada] indivíduo tem os
meios necessários para desenvolver as suas faculdades em
todos os sentidos; a liberdade pessoal só é. portanto, possível
na comunidade. Nos sucedâneos de comunidades que até
agora existiram. no Estado. etc.• a liberdade pessoal só existia
para os indivíduos que se tinham desenvolvido nas condições
da classe dominante e somente na medida em que eram indi-
víduos d ~ classe. A comunidade aparente. anteriormente
constituída pelos indivíduos, adquire sempre perante eles
uma existência independente e, simultaneamente, porque signi-
fica a união tie uma classe face a uma outra, representa não
apenas uma comunidade ilusória ,para a classe dominada, mas
também uma nova cadeia. Na comunidade real, os indivíduos
adquirem. a wa liberdade simultaneamente com a sua asso-
ciação. graças a esta associação e dentro dela.
Os indivíduos partiram sempre de si mesmos. não certa-
mente do ·i ndivíduo «puro» no sentido dos ideólogos. mas de
si mesmos no lmbito das suas condições e das suas relações
históricas dadas. Mas verifica-se no decurso do desenvolvi-
mento histórico, e precisamente pela independência que adqui-
rem as relações sociais, fruto inevitável da divisão do trabalho.
que existe uma diferença entre a vida de cada indivíduo. na
medida em que é pessoal, e a sua vida enquanto subordinada
a um qualquer ramo do trabalho e às condições inerentes a
~ ramo (não se deve concluir, a partir daqui, que o ren-
deiro ou o capitalista, por exem pio, deixem de ser pessoas;
mas a sua .personalidade é condicionada -por relações de

1 [Passagem cortada no ma.nll.9Crit.o:] e sem o co1111>leto


e livre desenvolvimento do lndJviduo que ela implica.

80
classe muito bem determinadas e esta diferença só se mani-
festa por oposição a um.a outra classe e só se lhes apresenta
no d.ia em que caem em bancarrota). Na ordem (e mais ainda
na tribo), este facto encontra-se ainda oculto; por exemplo,
um nobre continua a ser sempre nobre. um roturier 1 será
sempre um roturier, abstraindo das suas outras relações;
trata-se de um-a qualidade inseparável da sua individualidade.
A diferença entre o indivíduo pessoal oposto ao indivíduo
na sua qualidade de membro de uma classe e a contingência
das suas condições de existência, só se manifestam com a
cl~ que é um produto da burguesia Apenas a concorrência
e a luta dos indivíduos entre si engendra e desenvolve ~
contingência enquanto tal Por conseguinte, na representação,
os indivíduos são mais livres sob o domínio da burguesia do
que anteriormente, porque as suas condições de existência
lhes são contingentes; na realidade, eles são naturalmente
menos livres porque se encontram muito mais subordinad_~~.
a um poder objectivo. Relativamente à ordem, a diferença
surge sobretudo na oposição entre a burguesia e proletariado.
Quando a ordem dos cidadãos das cidades. as corporações,
etc., surgiram perante a nobreza da terra. as suas condições
de existência, propriedade mobiliária e trabalho artesanal, que
já tinham exisbao de forma latente antes de se terem separado
da associação ·feudal apãreceram como uma coisa positiva
que se fez valer contra a propriedade fundiária feudal e que.
para começar. tomou por sua vez a forma feudal à sua
maneira. Os servos fugitivos consideravam sem dúvida o seu
estado de servidão precedente como uma coisa contingente
à sua personalidade: quanto a isto, agiam simplesmente como
o faz qualquer classe que se liberta de uma cadeia e, deste
modo. não se libertavam como c1asse mais isoladamente.
Além disso. não saíam do domínio da organização por ordens,
tendo apenas formado uma nova ordem e conservado o seu
modo de trabalho anterior na sua nova situação, elaborando
este modo de trabalho de forma a libertá-lo dos ]aços do
pas.9ldo que já não· correspondiam ao estado de desenvol-
vimento que tinham atingido.

1 Em francês no texto originai.

81
Pelo contrário, as condições de vida próprias aos pro-
letários, o trabalho e. portanto, todas as condições de exis-
tência da sociedade actual transformaram-se para eles em
qualquer coisa de contingente, que os proletários isolados não
podem controlar nem tão-pouco qualquer organização social.
A contradição entre ... 1 a personalidade do proletário em
particular e as condições de vida que lhe são impostas. quer
dizer. o trabalho, é-lhes perfeitamente perceptível tanto mais
que tem sido sacrificado desde a sua mais tenra juventude
e não poderá alcançar, dentro da sua classe, as condições que
lhe permitiriam passar para outra classe.
N. B. -Não esqueçamos que a necessidade de subsistir,
em que se encontravam os servos, e a impossibilidade de
exploração em larga escala, que conduziu à repartição dos
loteamentos 2 entre os servos, reduziram muito depressa as
obrigações destes para com o senhor feudal a uma determi-
nada média de contributos naturais e de tarefas; isto dava ao
servo a possibilidade de acumular os bens móveis, favorecia
a sua evasão da propriedade do senhor e dava-lhe a perspec-
tiva de conseguir ir para a cidade como cidadão; dai resultou
uma hierarquização entre os próprios servos. de tal modo
que aqueles que conseguem evadir-se são já semiburgueses.
~ assim evidente que os vilãos conhecedores de um ofício
tinham o máximo de possibilidades de adquirir bens móveis.
Logo, enquanto os servos fugitivos apenas pretendiam
desenvolver livremente as suas condições de existência já esta- .
belecidas e fazê.las valer, mas conseguiam quando muito o
trabalho livre, os proletários. se pretendem afirmar-se como
pessoas, devem abolir a sua própria condição de existência
anterior. que é simultaneamente a de toda a sociedade até aos
nossos dias. isto é. devem abolir o trabalho. Por este motivo.
eles encontram-se em oposição directa à forma que os indi-
víduos da sociedade escolheram até boje para expressão de
conjunto, quer dizer, em oposição ao Estado, sendo-lhes
n~rio derrubar esse Estado para realiz.a.r a sua persona-
lidade.

1 Passagem deteriorada no manuscrito.


z Parcelas.

82

Podem.os concluir de todo o desenvolvimento histórico
até aos nossos dias que 1 as relações colectivas em que entram
os indivfduos de uma cl~ e que sempre foram condiciona-
das pelos seus interesses comuns relativamente a terceiros.
constituíram sempre uma comunidade que englobava esses
indivíduos unicamente enquanto indivíduos médios. na me-
dida em que viviam nas condições de vida da mesma classe;
trata-se portanto de relações em que eles não participam
enquanto indivíduos. mas sim enquanto membros de uma
classe. Por outro lado. na comunidade dos proletários revolu-
cionários que põem sob o seu controle todas as suas condições
de existência e as dos outros membros da sociedade, produz-se
o inverso: os indivíduos participam enquanto indivíduos. E
(bem entendido. com a condição de que a associação dos
indivíduos se opere no âmbito das forças produtivas que hoj~
se supõem desenvolvidas) é esta reunião que coloca sob o
seu controle as condições do livre desenvolvimento dos indi-
víduos e do seu movimento. enquanto que até ai elas tinham
sido abandonadas ao acaso e adoptado uma existência autó-
noma perante os Jndivíduos. devido precisamente à existência
da sua separação como indivíduos e da necessidade da sua
união, implicada pela divisão do trabalho. mas transformada
num laço estranho devido à sua separação enquanto indi-
víduos. A associação até aqui conhecida não era de forma
alguma a união voluntária (que nos é. por exemplo, apre-
sentada no ConJrato social 2 ). mas uma união necessária
baseada em condições no interior das quais os indivíduos
desfrutavam da contingência (comparar, por exemplo, a for-
mação do Estado da América do Norte e as repúblicas da
América do Sul). Este direito de poder desfrutar tranquila-
mente da contingência em certas condições constitui aquilo

1 ['Passagem cortada no manuscrito:] os lndlvlduos que


se libertaram de cada época histórica apell8.9 continuaram a.
desenvolver as condições de existência jã presentes, que jA lhes
eram dadas.
2 Obra de Jean-Jacques Rousseau.

83
que até hoje se designava por liberdade pessoal. - Estas con-
dições de existência são naturalmente as forças produtivas e
os modos de troca de cada período .


O comunismo distingue-se de todos os movimentos que o
precederam pelo facto de alterar a base das relações de pro-
dução e de trocas anteriores e de, pela primeira vez. tratar
as condições naturais ,prévias como criações dos homens que
nos antecederam, despojando-as da sua aparência natural e
submetendo-as ao poder dos indivíduos unidos. A organização
que proc1ama é. por isso mesmo, ~sencialmente económica:
é a criaç.ão material das condições dessa união; transforma
as condições existentes nas condições da união. O estado de
coisas as~im criado constitui precisamente a base real que
toma impossíve1 tudo o que ex:iste independentemente dos
indivíduos - pois esse estado de coisas existente é pura e
simplesmente um produto das anteriores relações dos indi-
víduos entre si. Deste modo, os comunistas consideram prati-
camente como factores inorgânicos as condições criadas antes
deles pela produção e o comércio. Isto não significa que atri~
buam às gerações anteriores a razão de ser ou a intenção de
lhes ·fornecerem bases materiais, ou que pensem terem sido
~as condições consideradas inorgânicas por aqueles que as
criaram. A diferença entre o indivíduo pessoal e o indivíduo
contingente não constitui uma diferenciação do conce~to. mas
um facto histórico. Esta distinção tem um sentido diferente
em épocas diferente.s: por exemplo,. a ordem, enquanto con~
tingência para o indivíduo no século XVIII, assim como plus
ou moins 1 a familia. ~ uma distinção que não necessita de
ser feita por nós,. pois cada época se encarrega de a fazer a
partir dos diferentes elementos que herda da época anterior,
fazendo-o não a partir de um conceito mas sob a pressão
dos conflitos materiais da vida. O que numa época ulterior,
surge como contingente por oposição à época anterior,
ou mesmo entre os elementos herdados dessa época anterior,

1 Em francês no original. Mais ou menos.

84
é um modo de trocas que corresponde a um determinado
desenvolvimento das forças produtivas. A relação entre forças
produtivas e formas de troca é a relação entre o modo de
trocas e 1 a acção ou a actividade dos indivíduos (a forma
básica dessa acüvidade 2 é naturalmente a forma material
de que depende qualquer outra forma intelectual politica,
religiosa. etc. 'É certo que a diferente forma adquirida pela
vida material é em cada ocasião dependente das nec~idades
já desenvolvidas. necessidades essas cuja .produção e satis-
fação constituem um processo histórico impossível de detec-
tar nos carneiros ou nos cães {argumento capital de Stimer
adversus hominem 3 , de pôr os cabelos em pé] se bem que
os carneiros e os cAes, na sua forma actual sejam, malgré
eux -t, produtos de um processo histórico). Antes da contra-
dição se manifestar,. as condições em que os indivíduos se
relacionam entre si são condições inerentes à sua indivJduali-
dade; não lhes são de forma alguma exteriores e,. além disso! __.
permitem por si sós que esses indivíduos determ-inado·s ví-
vendo em condições determinadas produzam a sua vida
material e !udo o que dela decorre; são portanto condições
da sua manifestação activa de si, produzidas por essa mani-
festação de si is. Por conseguinte, as condições deteaninadas
em que os indivíduos produzem, antes de a contradição se
manifestar,. correspondem à sua limitação efectiv~ à sua
existênc~a limitada; este carácter limitado só se revela co"m
o aparecimento da contradição e existe, por isso, para a· ge-
ração ultecior. Esta condição aparece assim como um entrave
acidental,, atribui-se consequentemente à época anterior a
consciência de que constituía um entrave.
Estas diferentes condições, que surgem primeiramente
como condições da manifestação de si. e mais tarde como
seus obstáculos, formam em toda a evolução histórica· uma

1 [Palavra cortada no manuscrito:] manifestação de si,


Belbstbetiitigung.
2 Idem.
s COfltra o homem.
' Em francês no original. Bem o quererem.
CJ [Nota marginal de Marx:] Produção do próprio modo
de trocas.

8S
sequência coerente de modos de troca cujo laço de união é a
substituição da forma de trocas anterior, que se tornara um
obstáculo.. por uma nova forma que corresponde às forças
produtivas mais desenvolvidas e, por isso mesmo, ao modo
mais apedeiçoado da actividade dos indivíduos. forma que
à son tour 1 se transforma num obstáculo e é então substi-
tuída por outra Na medida em que, para cada estado, essas
condições correspondem ao desenvolvimento simultâneo das
forças produtivas, a sua história é também a história das for-
ças produtivas que se desenvolvem e são retomadas por cada
nova geração e é consequentemente, a história do d·esenvolvi-
mento das forças dos próprios indivíduos.
Este desenvolvimento. produzindo-se naturalmente, isto
é, não estando subordinado a um plano de conjunto estabe-
lecido por indivíduos associados livremente, parte de locali-
dades diferentes. de tribos. de nações, de ramos de trabalho
distintos,. etc.• cada um deles se desenvolvendo primeiro inde-
pendentemente dos outros e apenas estabelecendo relações
entre si pouco a pouco. Progride, aliás, muito lentamente; os
diferentes estádios e interesses nunca são completamente ultra-
passados, mas apenas subordinados ao interesse que triunfa,
ao lado do qual se arrastam ainda durante séculos. Daí resulta
a existência de diferentes graus de desenvolvimento entre os
indivíduos de uma mesma nação. mesmo se abstrairmos das
suas condições financeiras; e também o facto de um interesse
anterior. cujo modo de trocas particular se encontra já
suplantado por um outro correspondente a um interesse pos-
terior. continuar ainda durante muito tempo., na comunidade
aparente. cm poder de uma força tradicional que se tornou
autónoma relativamente aos indivíduos (Estado. direito); s6
uma revolução consegue. em última instância, quebrar essa
força. Também assim se explica o motivo pelo qual a cons-
ciência. ao preocupar-se com aspectos singulares que são
passiveis de uma síntese mais geral, pode por vezes ultra-
passar aparentemente as relações empíricas contemporâneas,
de tal modo que, nas lutas de um período posterior, seja

1 Em tra.a.cê.s no original. Por '"'° vez.


86
licito utiJiur-se as conclusões a que possam ter chegado teó•
ricos anteriores.
Pelo contrário., em. países como a América do Norte.,
cuja existência se inicia num período histórico já desenvolvido.
o desenvolvimento processa-se com rapidez. Tais países têm
apenas co~o condição natural prévia os indivíduos que aí se
estabelecem e que para ai foram como reacção aos modos
de produção dos velhos países, que já não correspondiam às
suas necessidades. Estes países começam pois com os indiví•
duos mais evoluídos do velho mundo., e por conseguinte com
o mais desenvolvido modo de trocas. correspondente a es.5es
indivíduos. mesmo antes de este sistema de trocas se ter con•
seguido Ímpor nos velhos países. •É o caso de todas as colónias
que não foram simples bases militares ou comerciais, tais
como Cartago, as colónias gregas e a Islândia nos séculos
XI e XII. Verifica-se um caso análogo quando, como resul-
tado de conquista, se leva para o país conquistado o modo
de trocas que se desenvolvera num outro solo; enquanto no
seu país de origem esta forma se encontrava ainda em choque
com os interesses e as condições de vida das épocas prece-
dentes, aqui, pelo contrário. pode e deve implantar-se total•
mente e sem quaisquer entraves, quanto mais não seja para
assegurar um poder durável ao conquistador (a Inglaterra e
Nápoles depois da conquista normanda., altura em que conhe•
ceram a forma mais acabada da organização feudal) .


A conquista, como facto, parece estar em contradição
com toda esta concepção da história. Até hoje, tem•se feito
da violência., da guerra, da pilhagem. do banditismo, etc.,
a força motriz da história. Como nos vemos aqui obrigados
a limitar-nos aos pontos capitais. consideraremos apenas um
exemplo verdadeiramente flagrante, que é o da destruição
de uma .velha civilização .p or um povo bárbaro e a fonnação
conjunta de uma estrutura social a partir do zero (Roma
e os Bárbaros. o feudalismo e a Gália, o Império do Oriente
e os Turcos). Para o povo bárbaro conquistador, a guerra
é aind~ tal coroo atrás dissemos. um modo normal de rela-

87
ções tanto mais zelosamente pratic.ado quanto mais imperiosa
se toma a necessidade de novos meios de produção devido
ao aumento da poptdação e ao modo de produção tradicional,
rudimentar e único possível, desse povo. Em Itália, pelo
contrário, ass~se à concentração da propriedade fundiária
realii,ada por herança, por compra e ainda por endivida.
meato; e isto porque a extrema dissolução dos costumes
e a escassez dos casamentos originavam a progressiva extinção
das velhas famílias, acabando os seus bens por cair nas mãos
de um pequeno número delas. Além disso, tal propriedade
fundiária foi transformada em pastagens, transfarmação essa
provocada, para além das causas económicas habituais válidas
ainda nos nossos dias, pela importação de cereais pilhados
ou exigidos a título de tributo e consequente falta de consu•
m.idores de trigo italiano que isso implicava. Devido a estas
circuostãncias. a população livre desapareceu total.mente e os
próprios escravos ameaçavam deixar a sua situação. tendo
de ser constantemente substituídos. A escravatura continuava
a ser a base de toda a produção. Os plebeus, colocados entre
os homens livres e os escravos. nunca conseguiram ultrapassar
a condição de LumpenproletariaJ 1 . De resto, Roma nunca
ultrapassou o estádio de cidade; encontrava-se ligada às pro•
víncias por laços quase unicamente políticos que. bem enten-
dido, poderiam ser quebrados por acontecimentos políticos.


~ muito usual a ideia de que na história tudo se resumiu
até agora a tomadas de poder. Os bárbaros apoderaram.se
do Império romano, e é assim explicada a passagem do
mundo antigo ao feudalismo. Mas. quanto a esta conquista
dos bárbaros. 6 necessário saber se a nação de que se apode~
raram tinha desenvolvido forças produtivas industriais. como
acontece nos povos modernos. ou se as suas forças produtivas

1 Sign!flcado literal: proletariado andrajoso. Elementos


marginais à classe do proletariado urbano, mi serãvets, não•
.organizados.

88
repousavam unicamente na sua união e 1 na vida em comuni-
dade. A tomada de ,poder é. além disso, condicionada pelo
objecto que se apropria. Ninguém se pode apoderar da fortuna
de um banqueiro.. que consiste em papéis, sem se submeter
às condi~ de produção e de circulação do país conquistado.
Sucede o mesmo com todo o capital industrial de um país
industrial moderno. Finalmente. quando numa região subme-
tida já não há mais nada para conquistar, é neces~rio que
se comece a produzir. Dada esta necessidade, que muito c.edo
se manifesta, a forma de comunidade adaptada pelos conquis-
tadores deve estar em concordância com o estado de desen-
volvimento das forças produtivas que encontram ou, se tal
não acontecer. deve transformar-se em função das forças
produtivas. Isto explica um facto que parece ter..se verificado
por toda a parte na época que se seguiu às grandes invasões:
os vassalos converteram-se em senhores e os conquistadores
adaptaram. rapidamente a língua, a cultura e os costumes
do país conquistado. · -·
O feudalismo não foi de f arma alguma trazido da Ale-
manha na sua forma acabada; teve a sua origem na organi-
i.ação militar dos exércitos durante a própria conquista. Esta
organização desenvolveu-se depois da conquista sob o im-
pacto das forças produtivas encontradas no país conquistado.
só então se transformando no feudalismo propriamente dito.
O fracasso das tentativas levadas a cabo para impor outras
formas nascidas de teminisc.ências da antiga Roma (Carlos
Magno. por exemplo) mostra-nos até que ponto a forma
feudal era condicionada pelas forças produtivas.
A continuar. -


Na grande indústria e na concorrência. todas as condi-
ções de existência. determinações e condicionalismos dos
individuas se baseiam nas seguintes duas formas: propriedade
privada e trabalho. Com o dinheiro, todas as formas de troca,

1 [Cortado no manuscrito:] cooperação tanto quanto


for posslvel

89
assim como a própria troca, se apresentam aos indivíduos
como contingentes. ~ a própria natureza do dinheiro que
nos leva a pensar que todas as relações anteriores eram
apenas relações de indivíduos vivendo em determinadas con-
dições, e não relações entre indivíduos enquanto indivíduos.
Essas condições reduzem-se a: trabalho acumulado ou pro-
priedade privada, por um lado. e trabalho real, por outro.
O desaparecimento de uma dessas condições faz com que a
troca seja interrompida. Os próprios economistas modernos.
como por exemplo Sismondi, Cherbuliez 1 • etc., opõem l' arso--
dation des individus à fassociation des capitaux 2 • Por outro
lado. os indivíduos são completamente subordinados à divisão
do trabalho e ficam por isso mesmo colocados nwna situação
de dependência total uns dos outros. Na medida em que se
opõe ao trabalho no seio deste. a propriedade privada nasce
e desenvolve-se a partir da necessidade de acumulação e,
embora conserve inicialmente a forma da comunidade, apro-
xima-se pouco a pouco. no seu desenvolvimento ulterior. da
forma moderna da propriedade privada. Logo, a divisão do
trabalho implica igualmente a divisão das condições de tra-
balho, instrumentos e materiais e, com essa divisão, a frag-
mentação do capital acumulado entre diversos proprietários;
por conseguinte. implica também a separação entre capital
e trabalho, assim como entre as diversas formas da proprie-
dade. Quanto mais aperfeiçoada estiver a divisão do trabalho.
maior é a acumulação e mais acentuada é essa separação.
O próprio trabalho só pode subsistir à custa dessa separação .


(Energia pessoal dos indivíduos de ruferentes nações
- Alemães e Americanos - energia devida ao cruzamento

1 Slsmondl .( 1773-184,2): economista sulço que critica o


capitalismo de wn ponto de vista pequenerburguês. Cherbullez
(1797-1869): dJsclpulo de SlBmondl que mlaturou às Ideias deste
noções extrafdas de Ricardo.
2 Em :francês no original. . . . a associação dos (nd'1Jiduos
à aas~ão cios capUa'8.

90
de raças - daí o cretinismo dos Alemães verdadeiros cretinos
- em França, Inglaterra, etc.• dos povos estrangeiros trans-
plantados para wn território evoluído e para um local intei-
ramente novo na América; na Alemanha a população primi-
tiva não teve a mínima re~o) .


Encontramo-nos. portanto, perante dois factos. Primeiro,
as forças produtivas apresentam-se como completamente inde-
pendentes e separadas dos indivíduos. como um mundo à
margem destes, o que se deve ao facto de os indivíduos,
a quem elas com efeito pertencem, existirem disseminados e
em oposição uns aos outros, se bem que essas forças só sejam
reais no comércio e na interdependência desses indivíduos.
Logo, existe por um lado um conjunto de forças produtivas
que adquiriram, de certo modo, uma forma obj~tiva e- já
não são para os indivíduos as suas próprias forças, mas as
da propriedade privada e, portanto, dos indivíduos mas
apenas na medida em que forem proprietários privados. Em
nenhwn período anterior as forças ,produtivas tinham revestido
esta forma indiferente às relações dos indivíduos enquanJo
indivíduos. pois estas relações eram ainda limitadas. Por
outro lado, observa-se uma oposição a essas forças produtivas
por parte da maioria dos indivíduos de quem elas se tinham
destacado e que, por estarem despojadas de todo o conteúdo
real da sua vida, se converteram em indivíduos abstractos;
mas é por isso mesmo e s6 então que estes ficaram em con-
dições de se relacionarem uns com os outros como indivíduos.
O trabalho, único laço que os une ainda às forças pro•
dutivas e à sua própria existência. perdeu para eleB toda a
aparência de manifestação de si e só lhes conserva a vida
definhando-a. Enquanto que em épocas 211ceriores a manifes-
tação de si e a produção da vida IJMlterial eram apenas sepa..
radas pelo simples facto de i()CObirem a pessoas diferentes
e de a produção dà vida o,acerial ser ainda considerada como
uma manifestação cJ. si. uma actividade de ordem inferior
devido ao ca,rao«:r limitado dos próprios indivíduos, hoje.
manifestaçíw de si e produção da vida material estão de tal

91
modo separadas que a vida material é considerada como fim
e a produção da vida material. quer dizer. o trabalho. como
meio (agora a única forma possível, embora negativa, da
manifestação de si).
Olegárnos pois ao ponto de os indivíduos se verem
obrigados a apropriarem-se da totalidade das forças produ-
tivas existentes. não apenas para conseguirem manifestar o
seu eu. mas sobretudo para assegurar a sua existência. Esta
apropriação é, antes de tudo, condicionada pelo objecto a
apropriar. neste caso as forças produtivas desenvolvidas ao
ponto de constituírem uma totalidade e existindo unicamente
no âmbito das trocas mundiais. Sob este ângulo, esta apro-
priação deve necessariamente apresentar um carácter universal
correspondente às forças produtivas e às trocas. A apropria-
ção destas forças consiste no desenvolvimento das faculdades
individuais que de algum modo correspondem aos instrumen-
tos materiais de produção. Por isso mesmo, a apropriação
de uma totalidade de instrumentos de produção constitui já
o desenvolvimento de uma totalidade de f acuidades nos pró-
prios indivíduos. Esta apropriação é ainda condicionada pelos
indivíduos que se apropriam. Só os proletários da época
actuaL totalmente excluídos de qualquer manifestação de si,
se encontram em condições de poderem alcançar uma mani-
festação de si total. não limita~ que consiste na apropriação
de ama totalidade de forças produtiv~ e no desenvolvimento
de uma totalidade de faculdades que isso implica. Todas as
apropriações revolucionárias anteriores foram limitadas; os
indivíduos cuja ·manifestação de si era limitada por um ins-
trumento de produção limitado e trocas limitadas, apropria-
vam-se desse instrumento de produção limitado e só conse-
guiam. desse modo, atingir uma nova limitação. Apropria-
vam-se do seu instrumento de produção mas continuavam
subordinados à dlvuão do trabalho e ao seu próprio instru-
mento de produção. Bm. todas as apropriações anteriores
havia uma subordinação de Qllla massa de indivíduos a um
úni_co instrumento de prod~ção; ~ apropriação pelos prole-
tários, é uma massa de mstrumento~ tie produção que é
necessariamente subordinada a cada indiV'1.duo, ficando a
propriedade subordinada a todos eles. As troe~ mundiais

:92
modernas só podem estar subordinadas aos indivíduos se o
estiverem a todos.
A apropriação é também condicionada pela forma par-
ticular que deve necessariamente revestir. Com efeito. _só
poderá ser levada a cabo mediante uma união que, dado
o carácter do próprio proletariado. é obrigatoriamente uni-
versal; só se efectuará através de uma revolução que, por
um lado. derrubará o poder do modo de produção e de troca
anterior assim como o poder da estrutura social precedente,
e que por outro lado desenvolverá o carácter universal do
proletariado e a energia .gue lhe é necessária para consumar
essa apropriação. Trata-re portanto de uma revolução em que
o proletariado se libertará de tudo o que ainda lhe resta da
sua posição social anterior.
~ apenas nesta fase que a manifestação de si coincide
com a vida material; essa fase corresponde à transfo11I1ação
dos indivíduos completos e à superação de tudo o que lhes
foi originariamente imposto pela natureza; corresponde-:Ihe a
transformação do trabalho em manifestação de si e a meta-
morfose das relações até então condicionadas em relações
dos indivíduos enquanto indivíduos. Com a apropriação da
totalidade das forças produtivas pelos indivíduos unidos. é
abolida a propriedade privada. Enquanto que. na história
anterior. cada condição particular surgia sempre como aci-
dental, agora é o isolamento dos próprios indivíduos. o lucro
privado de cada um que se torna acidental.
Os filósofos consideraram como ideal a que apuseram
a designação de c:Homem•. os indivíduos já não subordinados
à divisão do trabalho; e compreenderam todo o processo
que acabamos de expor como sendo o desenvolvimento do
«Homem». Substituíram os indivíduos existentes em cada
época da história passada pelo «Homem» e apresentaram-no
como a força da história. Todo o processo foi portanto com-
preendido como processo de auto-alienação do «Homem».
o que se deve essencialmente ao facto de o individuo médio
do perfodo ulterior ter sido sempre substituído pelo do
período anterior, ao mesm.o tempo que se atribuía a este
consciência ulterior. Graças a esta -inversão. que omite as
condições reais, foi powvel converter toda a história num
procesw de desenvolvimento da consciência.

93

A sociedade civil abarca o conjunto das relações ma..
teriais dos indivíduos no interior de um determinado estado
de desenvolvimento das forças produtivas. Encerra o con..
junto da vida comercial e -industrial existente numa dada ftie
e ultrapassa por isso mesmo o Estado e a nação, se bem
que deva afirmar-se no exterior como nacionalidade e orga-
ni7.ar-se no interior como Estado. O termo sociedade civil
surgiu no século XVIIL quando as relações de propriedade
se desligaram da comunidade antiga e medieval. A sociedade
civil enquanto tal só se desenvolve com a burguesia; todavia,
a organiz.ação social directamente resultante da produção
e do comércio, e que constituiu sempre a base do Estado
e do resto da superestrutura idealista., tem sido constante..
mente designada pelo mesmo nome.

Relações do Estado e do Direito com • Propriedade

A primeira forma da propriedade é. tanto no mundo


antigo como na idade média. a propriedade tribal, principal-
mente condicionada entre os Romanos pela guerra, e entre
os Germanos,. pela criação de gado. Para os povos antigos 1
(não esqueçamos que numa mesma cidade co-habitavam
diversas tribos). a propriedade tribal aparece como proprie-
dade do Estado e o direito do indivíduo a de.sfrutá..Ia como
simples possessivo. a qual. no entanto. à semelhança. da pro.
priedade tribal. se limita à propriedade da terra. A proprie-
dade privada propriamente dita começa, tanto para os antigos
como para os povos modernos, com a propriedade mobiliária.
- (Escravatura e comunidade) (dominium ex jure quiritum 2 ).
Para os pov05 que saem da Idade Média, a propriedade tribal
evolui passando por diferentes estados - .propriedade fundiá-
ria feudal, propriedade mobiliária corporativa. capital de ma-

1 (Passagem cortada no manuscrito:] (em particular,


Roma e Esparta).
z Propriedade de um cidadão romano de velha estirpe.

94
nufactura - até ao capital moderno. condicionado pela grande
indústria e a concorrência universal, que representa a proprie-
dade privada no estado puro. despojada de qualquer aparência
de comunidade e tendo excluído toda a acção do Estado
sobre o desenvolvimento da proprieda~. tt a esta proprie-
dade privada moderna que corresponde o Estado moderno,
adquirido pouco a pouco pelos proprietários privados atravé.s
dos impostos. inteiramente caido nas suas mãos pelo sistema
da dívida :pública e cuja existência depende exclusivamente
pelo jogo da alta e da baixa dos valores do Estado na Bolsa,
Jdo crédito comercial que lhe concedem os proprietários pri-
-'!{ados, .os_burg~A bu[Kuesia. por ser já uma classe e não
uma simpl~.orde é constrangida a orgãrui.ar-se_â _escálá.
!1]c1onai e_Jã não exclusivamente num plago 18cal.e a dar
uma forma universãl aos seus interesses comuns. Dado que
a propriedade privada adquiriu uma existência particular
junto da sociedade civil e fora dela; mas esse &tado dá uma
forma de organização que os burgueses constituem pela nec"es-
sidade de garantirem mutuamente a sua propriedade e os seus
interesses. tanto no exterior como no interior. A indepen-
dência do Estado s6 ex,iste hoje nos países menos desenvol-
vidos onde as ordens ainda não se desenvolveram ao ponto
de constituírem classes e onde ainda desempenham um certo
papel; países esses em que existe uma situação h.iõrida e onde,
consequentemente, nenhwna parte da população pode dominar
as outras. ~ muito particularmente o caso da Alemanha,
enquanto que o exemplo mais acabado de Estado moderno
é a América do Norte. Os escritores franceses, ingleses e
americanos modernos afirmam todos, sem excepção. que o
Estado só existe devid à OJ?riedade _privadª1.._ ideia essa
e acabou r ser aceite la consciência comum.
Sendo portanto o E.çta a forma através da__g_ual os
indivíduos de uma classe dominante fazem valer os seus·-
interCSSCS· comuns e·oi .q·u·a1 se· resume. toda á sociedade civil
de unia ·épõca:. ~<inclui-~ que tod~ _3.$ _instj:W.~ p(lj)ii~as ·
têm o :Estado como f!1ecliador e adquirem através dele uma ,
_,o~a· ._politicà.. ·nál a ilusão - de -que a lei -repoúsa sobre· a
vontade e. melhor ainda, sobre uma vontade livre, desligada
da sua base concreta. O mesmo acontece com o direito que
~ por sua vez reduzido à lei.

95
O direito privado desenvolve-se, conjuntamente com a
propriedade privadaw como resultado da dissolução da comu-
nidade natural Entre os Romanos7 o desenvolvimento da
propriedade privada e do direito privado não teve qualquer
consequência industrial ou comercial pelo facto de o seu
modo de produção não se ter modificado 1 • Nos povos
modernos. onde a comunidade feudal foi dissolvida pela
indústria e o comércio. o nascimento da propriedade privada
e do diretio privado marcou o início de uma nova fase
susceptível de um desenvolvimento ulterior. Amalfi 2 • a pri-
meira cidade da Idade Média a ter um comércio marítimo
co0$iderável. foi também a primeira a criar o direito marí-
timo. E em Itália. em primeiro lugar, tal e.orno mais tarde
noutros palses. quando o comércio e a indústria conduziram
a propriedade privada a um desenvolvimento considerável,
retomou--se imedia~nte o direito privado dos Romanos
e elevou-se este à categoria de autoridade. Mais tarde, quando
a burguesia adquiriu poder suficiente para que os príncipes
se preocupassem com os seus interesses e utilizassem essa
burguesia como instrumento para derrubar a classe feudal,
começou em todos os países - como em França, no século
XVI- o verdadeiro desenvolvimento do direito, que em
todos eles. à excepção da Inglaterra,. tomou como base o
direito romano. Mesmo em Inglaterra foram introduzidos,
para apedeiçoar o direito privado, alguns princípios do direito
romano (particularmente no que se refere à propriedade
mobiliária). (Não esqueçamos que o direito, tal como a reli-
gi,ão. não possui uma história própria.)
O direito privado exprime as rela~ de prop_riedade
_existente& como-sendo--o-resulta~~ -<(~_ um~ ___yQ~tad~_g~_ral.
o-- prõpno-;üs-ütiiiili-ii ..abutendi 3 exprime. por um lado,
------------ .. . -· - -- . -- -- . . ..

1 [Passagem cortada no manuscrito:] e esta evolução


não f ol provocada por um-a extensão da. indústria. e do comércio.
i adade tt:aUM& situada. ao Sul de Nápoles. Nos séculos
X e XI. era um porto f'lorescente e o seu dlretto maritlmo foi
adoptado por toda a Itália.
·a Dt.relto de usar e de abusar.

96
o facto de a propriedade privada se tomar completamente
independente da comunidade e. por outro, a ilusão de que
~ propriedade privada repousa sobre a simples vontade
privad~ sobre a livre disposição das coisas. Na prática, o
abutti 1 tem limitações económicas bem determinadas para
o proprietário privado se este não quiser que a sua proprie-
dade. e com ela o seu jus abutendi, passe para outras mãos;
pois, no fim de contas, a coisa, nada é, considerada unica-
mente nas suas relações com a sua vontade, e s6 se trans-
forma numa co~ numa propriedade real (numa relação.
naqullo a que os filósofos chamam uma ideia). através do
comércio e independentemente do direito. Esta ilusão juri-
dica. que reduz o direito à simules vontade. conduz fatal-
mente, na sequência do desenvolvimento das relações de pro-
priedade, à possibilidade de qualouer pessoa ostentar um
tftu1o jurídico de propriedade sem efectivamente possuir essa
propriedade. Suponhamos. por exemplo,, que um terreno dei~a
de ser rentável devido à concorrência - o seu proprietário
conservara sem dúvida aJ~ma o titulo jurídico de oroorie-
dade,, assim como o seu jus utendi et abutendi. Mas nada
poderá fazer com ele nem nada possuirá de facto se não
dispuser de caoital suficiente para cultivar o seu terreno.
~ esta mesma ilusão que explica o facto de. para os juristas,
assim como para todos os códigos jurldicos, as relações entre
os indivfduos celebradas por contratos, por exemplo, surgirem
como aJgo fortuito e de,. a seu ver, as relações deste tipo
[poderem] ou não ser aceites na medida em que o seu con-
teúdo repousa inteiramente sobre a vontade arbitrária e indi-
vidual das partes contratantes.
De cada vez que o desenvolvimento da indústria e do
comércio criou novas formas de troca, por exemplo compa-
nhias de seguros e outras. o direito viu-se regularmente
obrigado a integrá-las nos modos de aquisição da propriedade.

1. Direito de abusar.

97

Influência 1 da divisão do trabalho sobre a ciência.
Papel da repressão no Estado. no direito. na moral, etc.
~ necessário que a lei constitua uma expressão da bur-
guesia precisamente por esta dominar como classe.
Ciência da natureza e história..
Não há história da polític~ do direito, da ciênci~, etc.,
da arte. da religião. etc.


Ra.zão porq.M! os ideólogos põem tudo às avessas.
Homens de religião, juristas, políticos.
Juristas, políticos (homens de Estado em geral), mora-
listas. homens de religião .
..\ propósito desta subdivisão ideológica no interior de
uma classe: 1.º autonomia da profissão como consequência
da divisão do trabalho: cada qual considera a sua profissão
como verdadeira. Sobre a ligação do seu trabalho com a
realidade, iludem-se necessariamente dada a natureza desse
trabalho. Em jurisprudênci~ em politic~ etc., essas relações
transformam-se - na consciência - em conceitos; como não
se elevam acima dessas relações, os conceitos que sobre elas
possuem são conceitos rígidos: o juiz. por exemplo. pelo facto
de aplicar o código, considera a legislação como verdadeiro
motor activo. Cada um respeita a sua mercadoria pois ela
~tá em relação com o universal.
, Ideia do direito. Ideia do Estado. Na consciência vulgar
o assunto é posto às avessas.


A re1igião é em primeira anãlise consciência da tran.s-
cendência, [consciência que] nasce da obrigação real.
Exprimir isto de uma forma mais popular.

1 Encontram-ee aqui agrupadas notas muito sumArla.s


mcluldas nas duas cprlmeira.s pã.gtnas do manuscrito.

98

A -tradição para o direito, a religião.. etc.


Os indivíduos sempre partiram de si mesmos. partem
sempre de si mesmos. As suas relações são relações que
correspondem ao processo real da sua vida. A que se deve
o facto de as suas relações ascenderem à autonomia e se
chocarem com eles próprios? De os poderes dos indivíduos
se tomarem todos-poderosos perante esses mesmos indivíduos?
Numa palavra: deve-se à divisão do trabalho, cujo grau
depende da força produtiva desenvolvida em cada momento .


Propriedade fundiária. Propriedade comunitária. Feúdal.
Moderna.
Propriedade das ordens da sociedade. Propriedade manu-
f actureira. Capital industrial

O CONctLIO DE LEIPZIG 1
O terceiro volume da Revista trimestral de W igand de
1845 é o verdadeiro teatro da batalha contra os Hunos profe-
ticamente pintada por Kaulbach 2 • Os fantasmas dos heróis
caldos em com bate.. cuja cólera nem a própria morte con-
seguiu apaziguar., enchem os ares com tais estrépidos e bra-
midos que mais parecem os clamores das batalhas e os gritos
de guerra. o núdo ensurdecedor das espadas. dos escudos e

1 Alusão irónica ao facto de as obras dos «Padres d.a.


Igreja> Bauer e Stlrner que Marx e Engels Irão agora criticar
terem sido edltadaa por Wlgand. em Lelpzlg. A partir daqul,
A Ideologia Almn4 toma o aspecto de um comentário de textos,
o que explica as numerosas citações das obras de São Bruno
(Bauer) e de São Max (SUrner).
1 Célebre quadro de Wllhetm von Kaulbach datado de
183i-1837. Representa o desafio travado nos ares pelos fantu-
™ doa guerreiras mortos na bataJba dos Campos CataJAunlcos.
99
dos carros de combate. Mas não se trata de coisas terrenas.
Esta guerra santa não se ocupa do proteccionismo, da Cons-
tituição, da doença da batalh~ do ·sistema bancário ou dos
e,amiabos de ferro, mas ~os mais sagrados interesses do espí-
rito: a cSubstlnciu, a «Consciência de si», a «Critica», o
«único» e o cHomem. verdadeiro». Assistimos a um concilio
de Padres da Igreja. Como são os últimos exemplares da
sua espécie e como este é o último discurso (pelo menos
assim o esperamos) pronunciado em defesa do ser supremo
(aliás_ o Absoluto), cremos que não será inútil estabelecer
um proces-verbal 1 dos debates.
Vejamos em primeiro lugar São Bruno, facilmente reco-
nhecível pelo seu cajado («torna-te natureza sensível. toma-te
cajado», ver Wigand, pág. 130). A sua cabeça é rodeada pela
auréola da «crítica pura» e, desdenhando o mundo, envolve-se
na sua cConsciência de si». «Despedaçou a religião na sua
totalidade e o Estado nas suas manifestações fenoménicas»
(pág. 138) violentando-lhes a «Substância» em nome da su-
prema «consciência de si». As ruínas da Igreja e os «restos»
do Estado jaz.em a seus pés, enquanto o seu olhar «desfaz
a 'massa' em bocados» e lhe faz morder a poeira. Tal ·como
Deus. não tem pai nem mãe, é «a sua própria criatura, a sua
própria obra> (pág. 136). Numa palavra: é o «Napoleão»
do espírito, é o «Napoleão»... em espírito. A essência dos
seus exercícios espirituais consiste sempre em «interrogar-se
a si próprio e encontrar. nessa auto-interrogação, o estimulo
que o conduza à autodeterminação» (pág. 136): cansa-se
tanto a anotar o processo desta auto-interrogação que ema-
grece a olhos vistos. Mas além de se interrogar a si me.smo.
cinterrogu igualmente. de tempos a tempos. como veremos,
Das W estphiüische Dampfboot 2 • Eis que surge. pavonean-

1 Em francês no original. Auto.


2 Revista mensal editada . pelo csoclalista verdadeiro>
Otto Lnnlng. Publicada de Janeiro de 1845 a Dezem•bro de 1846,
em Bleleteld e, mais tarde, de Janeiro a Março de 1848, em
Paderbom. Em 1846, tol .publicado nesta revista ·o artigo anónimo
intitulado <A Sagrada Familia ou a Critica da Critica critica.
Contra B. Ba.uer e consertes, por F. Engels e K. Marx. Franc-
tort-.eobre--o-Meno, 1845>.

100
do-se perante ele. São Max, bom merecedor do reino de Deus.
pois afirma ter comprovado e demonstrado a sua identidade
em 6(X) páginas impr~ e que não há X ou Y., nem Pedro
ou Paulo. mas apenas São Max e mais ninguém. Tudo o que
poderemos dizer da sua auréola e dos seus outros sinais
distintos .é que constituem «o seu objecto e, por conseguinte.
a sua propriedade». que são «Únicos» e cincomparáveis» e
que não existem «palavras para os definir> (pág. 148). Ele
é simultaneamente a «frase» e o «proprietário da frase»,
Sancho Pança e Dom Quixote. Os seus exercícios de ascese
consistem cm elaborar árduos pensamentos sobre a ausência
de pensamento, longas reflexões sobre a irreflexão, e em
declarar são (santo) o que é incurável. Podemos. de resto,
dispensar-nos de lhe fazer um longo elogio, pois ele tem
o bom gosto - além de todas as qualidades que lhe são
atribuídas. e que só por si seriam mais numerosas do que
os nomes de Deus entre os Maometanos - de nos dizer:
Eu sou o -todo e, mais ainda. o todo desse nada e o --nada
desse todo. Distingue-se perfeitamente do seu lúgubre rival
por uma certa «negligência» solene e ,por um «Grito crítico»
com que interrompe de vez em quando as suas graves medi..
tações.
Perante estes dois grandes ministros da Santa Inquisição
é chamado a comparecer o herético Feuerbach para responder
a uma grave acusação de gnosticismo. O herético Feuerbach
«fulmina» São Bruno, tem em seu poder a hyle 1 , a subs-
tância. e recusa-se a restituí..Ja com o único propósito de
impedir a minha infinita autoconsciência de nela se reflectir.
A consciência vê-se obrigada a errar como um fantasma
enquanto não tiver reabsorvido todas as coisas que nela têm
a sua origem ou são seus atributos. Ora ela já engoliu tudo
à excepção dessa hyle. a substânciély que o gnóstico Feuerbach
guarda ciosamente e não quer ceder a ninguém.
São Max acusa o gnóstico de pôr em dúvida o dogm~
por ele revelado. segundo o qual «os gansos. os cães e os
cavalos» são «seres humanos perfeitos e., caso se apreciem

1 Palavra grega que sign.1.flca ma~rta.. substAncla.

101
os superla-tivos. os mais perfeitos» (pág. J87 1.: «Ao supra-
citado não falta o mínimo dos atributos que faz do homem
um homem. E o mesmo acontece com os gansos, os cães
e os cavalos.»)
Além do exame destes erros importantes. ventila-se
também o processo dos dois santos contra o sr. Hess. assim
como o de São Bruno contra os autores de A Sagrada F a-
milia. Todavia, como os inculpados vagueiam por entre as
ccoisas deste mundo». motivo por que não comparecem
perante a Santa Casa 2, serão condenados, por contumácia,
a ser para sempre banidos do reino do espírito enquanto
durar a sua vida natural.
Finalmente os dois grandes mestres urdem em conjunto,
e também um contra o outro. estranhas intrigas 3 •

1 Artigo de Max Stirner publicado em 1845 na revista


Wigan.d'a Vierteljahruchri/t, 18-15, tomo 3: cRecensenten Stlr-
ners> ( «As Criticas de Stlrner>).
2 Em espanhol no original A e,q>ressão designa o nome
da prisão da lnqulsic;Ao em Madrid.
• [Passagem cor,tada no ·m anuscrito:] c:Em segundo
plano aparece o Dottore Grazlano •, allAs, Arnold Ruge, que,
segundo dizem, seria uma c:cabeça polltlca e terrivelmente dura>
(Wjgand, pág. 192).
• Figura da Comêdla ltallan-a. Espêcle de .pedante, de
pseudo-sábio. Marx e Engels reterem-se uslm a Arnold Ruge
por diversas vezes..

102
li

SÃO BRUNO

1. «Campanha» contra Feuerbach

Antes de nos ocuparmos do combate solene que. segundó


Bauer, opõe a consciência de si ao mundo e a si mesma.
temos de revelar um segredo. Se São Bruno desencadeou este
combate e lançou estes gritos de guerra, foi somente por se
ver constrangido a pôr a sua pessoa e a sua crítica um pouco
irritada cao abrigo» da ingratidão e do esquecimento do
público. porque precisava de demonstrar que. apesar da
mudança de situação em 1845, a Crítica continuava imutável
e sempre idêntica a si mesma. Escreveu por isso o segundo
volume dessa cboa causa. a sua causa .pes.roal:, 1 • Defende o
seu próprio terreno e luta pro aris et focis ~- Mas, como ver..
dadeiro teólogo. dissimula este objectivo egoísta sob uma
pretensa ccaracteristicu de Feuerbach. Esse bravo homem
tinha sido completamente esquecido. e a melhor prova foi
a polémica entre Feuerbach e Stimer. onde não é objecto
da mínima alusão. Isto obriga-o. de facto. a aganar-se a esta

1 Referêncla irónica ao segundo volume da obra. de Bruno


Bauer: A boa cauaa da Hberclade e a minha pr6pria C)(J,U,8a. Este
e.segundo volume> quer na realldade designar o artigo de Ba uer
Intitulado «Caractert:stlca de Ludwig Feuerb&ch> publicado na
w,ganà'a Vierteljahrsachrift, 1846, tomo 3.
• :Expressão que stgni.flca: Pela reUg;ã,o e pela /amUia.

103
polémica. para poder.. eie. o contr!no desses dois pólos
opostos., proclamar-se a sua unidade superior. o Espírito Santo.
São l::Sruno inaugura a sua «campanha» com uma chum-
bada contra Feuerbach, c'est-à-dire 1 • com a segunda edição,
revista e aumentada de um ensaio que figura já nas Nord·
deutsche Bliilter 1 • Feuerbach é armado cavaleiro da c.subs•
tâncita, a fim de dar mais relevo à «consciência de si» baue•
riana. No decorrer desta transubstanciação de Feuerbach.
provada, ao que parece. por todos os seus escritos, o santo
homem salta. com bastante ligeireza. das obras de Feuerbach
sobre Leibniz e Bayle para a Essência do cristianismo, pas•
sanda por cima do artigo contra os «filósofos positivos»
publicado nos Anais de H alie 3 .. no q uai F euerbach punha a
descoberto. em oposição aos representantes positivos da «subs•
tãncia»., toda a filosofia da «consciência de si». numa época
em que São Bruno especulava ainda sobre a Imaculada Con-
cepçao.
Basta apenas referir que São Bruno continua a cavalgar
no seu corcel velho-hegeliano. Escutemos a primeira passa-
gem das suas recentíssimas revelações sobre o reino de Deus:

«Hegel tinha sintetizado a substância espinoziana e


o Eu fichtiano. A unidade de ambos, a junção
destas duas esferas opostas, etc., constituem o inte•
resse peculiar da filosofia hegeliana. mas também a
sua fraquei.a [ ... ] Esta contradição. dentro da qual
evolui o sistema hegeliano, devia ser resolvida e
suprimida. Ora, isto só se poderia conseguir rejei-
tando definitivamente a necessidade de colocar o

1. Em francês no original lato ~-


2 Ref erêncla ao artigo de Bruno Bauer: dAldwig Feuer-
bach>, publica.do nas Noràdeut.sche Blatter, 1844, caderno IV,
de que apareceram aipenas dois volumes, um em ~ e outro
em 1845, sob o título Contribtiiç6es à campanha tla. critica.
• Alusão às obras de Feuerbach: Geachichte der neuem
Philosophie (Hiatória da filosofia moderna), Pierre Bayle, Daa
Weaen de.a ChT1Bte11thuna ( A e.ss~flCia do crí.,Uanismo e ao seu
artigo <Zur Krltlk der cposltlven Phllosophie> (Contrlbulç.ão à
critica da dllo90tla positiva>) publicada anonimamente Íl.06 Hal-
11.sche Jahrbücher ( 4oats de Halle), 1838.

104
problema das relações entre a consciência de si e o
espírito absoluto. Duas possibilidades se nos depa--
ram: ou a consciência de si se consome no fogo da
substância, quer dizer, ou se assume e se mantém
a pura relação de substancialidade, ou então é neces-
sário provar que a personalidade é a causa primeira
dos seus atributos e da sua essênci3.y que no conceito
de personalidade em .ri está im plici ta a sua «auto-
lim itação• (do «conceito• ou da «personalidade»?).
assim como a destruição desta limitação devida à
sua essência geral, precisamente .p or esta essência
ser apenas o resultado da sua . . . autodiferenciação
inJerna. da sua actividade.• (Wigand, págs. [86],
87. 88).
Na Sagrada Família (pág. 220). a filosofia hegeliana era
apresentada como a unidade de Spinoza. e de Fichte, sendo ·
simultaneamente realçada pelos autores a contradição nisso
implícita. A verdadeira originalidade de São Bruno consiste,
contrariamente aos autores de A Sagrada Família, em não
ver o problema da relação da consciência de si com a subs-
tância como uma cquestão em litígio no seio da especulação
hegeliano, mas como um problema referente à história uni-
versal e, mais aio~ como um problema absoluto. Esta é a
única forma que lhe permite exprimir os conflitos da época
actual. Crê, com efeito, que a vitória da consciência de si
sobre a substância terá uma influência verdadeiramente essen-
cial, não só sobre o equih'brio europeu. mas também sobre
a evolução futura da questão do Oregon 1 ! Mesmo agora não
se sabe em que medida ela poderá oontribuir para a abolição
das leis cerealiferas em Inglaterra!
Hegel dá uma expr~o abstracta e deformada dos con-
flitos reais situando--os no céu, e este cérebro ccrítico» toma-a
pelo conflito real. Aceita a contradição especulativa e defende

1 O território do Oregon, na. eosta do Pacifico, era. então


relvlndlcado simultaneamente pelos Estados Unidos e a. Grã--
-Bretanba. O Utigio foi resolvido em 1846, tendo o Sul sldo atrl-
buldo aos Esta.dos t:Jnidoa e o Norte à Inglaterra, passando a
fronteira pelo paralelo -i9.

105
um dos seus termos contra o outro. Para ele., a frase, a for-
mulação filosófica do problema real, é o próprio problema
real. Assim., por um lado., em vez dos homens reais e da
consciência real que têm das suas relações sociais que lhes
parecem existir perante si de forma autónoma, resta-lhe
apenas a fórmula abstracta: a consciência de si (do mesmo
modo. em vez da produção real. admite a actividade hipos-
tasiada dessa consciência de si); e por outro lado. em vez
da natureza real e das relações sociais realmente existentes,
resta-lhe apenas o resumo filosófico de todas as categorias ou
denominações filosóficas dessas relações dado pela frase oca
ca substância>. pois que. tal como todos os filósofos e ideó•
logos, Bauer toma os pensamentos, as ideias, a expressão ideal
hipostasiada do mundo existente pelo fundamento desse pró-
prio mundo. É evidente que. depois disto. lhe é licito efectuar
toda a espécie de truques com estas duas abstracções vazias
de sentido e de conteúdo. sem nada saber dos homens reais
e das suas relações (para mais amp1a informação sobre a
substância. ler as notas de Feuerbach e as de São Max sobre
o «liberalismo humanista.» e o «sagrado»). Deste modo. não
abandona o terreno especulativo para resolver as contradições
da especulação. É esse precisamente o terreno que escolhe
para ponto de partida das suas evoluções; abandona tão
pouco o terreno especificamente hegeliano que a relação da
«consciência de si» com o cespírito absoluto• continua a
impedi•lo de dormir. Numa palavra. encontramo-nos perante
a filosofia anunciada na «Critica dos Sinópticos» desenvolvida
em O Cristianismo revelado 1 e, infelizmente, desenvolvida.
muito antes dele., na Fenomenologia hegeliana: A Filosofia
da Consciência de si. Esta nova filosofia baueriana foi total-
mente refutada em A Sagrada Família (págs. 220 e segs. e 304-
-307). São Bruno consegue aqui a proez.a de se caricaturar

1. Alusão a duas obras de Bruno Bauer: Krittk der evan-


gelischen Geschkhte der Bynoptiker (Critica da h'8t6na euan-
géUca doa Bíndptkos), Lel-pzig 1841, ·(designam~e por este nome
os três primeiros evangelistas- Mateus, Marcos e Lucas), e
Da.s entàeckte Christenthum (O Orlstianism<> revelado). Zurique
1843.

106
a si mesmo, reintroduzindo subrepticiamente a «personali-
dade» para poder apresentar, com Stirner, o indivíduo como
ca sua própria obra» e o próprio Stirner como a obra de
Bruno. Ora este progresso merece uma breve referência.
O leitor deve, antes de tudo, comparar esta caricatura
com o original. a exposição sobre a consciência de si contida
em O Cristianismo revelado (pág. 113), e esta exposição, por
sua vez. com o ,.-erdadeiro originaL a Fenomenologia de Hegel
(págs. 575. 583 e outras). (As duas passagens a que nos refe-
rimos encontram-se reproduzidas em A Sagrada Família,
págs. 221, 223, 224). Mas observemos um pouco a caricatura.
«Personalidade em si». cconceito», «essência geral>. autolimi-
tar-se e abolir em seguida esta limitação». «autodiferenciação
interna». Que «conclusões> fantásticas! A «personalidade em
si» ou é um absurdo «em si» ou designa o conceito abstracto
de personalidade. O «autolimitar-se» é portanto «inerente ao
conceito» do conceito de pessoa. Essa limitação inerente ao
«conceito» do seu conceito é devida à csua essência geral»;
uma vez abolida essa limitação, constata que «essa essência>
é apenas co resultado da sua autodiferenciação interna». Todo
o grandioso resultado ·desta com plicada tautologia se reduz.
pois. ao bem conhecido truque hegeliano da autodiferenciação
do homem no pensamento. que o infeliz Bruno continua a
pregar obstinadamente como sendo a única actividade da
«personalidade em si>. Há já bastante tempo que se fez ver
a São Bruno que de nada serve uma «pessoa» cuja actividade
se limita a estas cabriolas lógicas hoje tão vulgares. Mas esta
passagem contém simultaneamente a ingénua confissão de
que a essência da «pessoa> baueriana não é mais do que o
conceito de um conceito. a abstracção de uma abstracção.
A crítica feita a Fouerbach por Bruno. no que se refere
a novos elementos limita-se a apresentar hipocritamente as
censuras dirigidas por Stimer a Feuerbach e a Bauer como
sendo críticas dirigidas por Bauer a Feuerbach. tais como,
por exemplo, criticas às suas afirmações segundo as quais
ca essência do homem é a essência absoluta e o sagrado•.
«o homem é o Deus do homem», a espécie humana é co
absoluto»; ao facto de cindir o homem «num Eu essencial
e num Eu inessencial> (se bem que Bruno tenha sempre
feito do abstracto o essencial e que. através da sua antitese

107
entre a crítica e a massa, tenha dado uma representação dessa
dualidade muito mais monstruosa que a de Feuerbach); à
afirmação de que é necessário lutar contra «os atributos de
DeuS>, etc. No que se refere ao capítulo sobre o amor egoísta
e o amor desinteressado. Bruno limita-se a plagiar, quase
palavra por palavra e durante três .páginas (págs. :l 33 a 135),
as afirmações de Stimer ~bre Feuerbach. copiando desastro-
samente as fórmulas ocas de Stimer: «Todo o homem é a
sua própria criatura>, «a verdade é um fantasma», etc. Em
suma. segundo Bruno, a «criatura> transforma-se numa
cobra». Voltaremos a falar das usurpações feitas por Bruno
a Stimer.
Assim o primeiro elemento que encontramos em São
Bruno, é a sua constante dependência de Hegel. Não nos
ocuparemos detalhadamente das suas considerações copia-
das de Hegel, limitando-nos apenas a reunir algumas frases
que mostram a confiança inabalável que deposita na virtude
dos filósofos e a que ponto partilha da sua crença ilusória
de que uma modificação da consciência e uma orientação
nova na interpretação das relações existentes •p oderia dar
origem a uma agitação revolucionária do mundo inteiro tal
como até aqui existiu. Imbuído desta cren~ São Bruno faz
com que um dos seus discípulos certifique (caderno IV da
Revista trimestral de Wigand, pág. 327) que essas frases ocas
sobre a personalidade, proclamadas anteriormente no caderno
IlL são «pensamentos que revolucionam o mundo 1 ».
São Bruno diz (Wigand, pág. 95):

«A filosofia foi sempre a teologia reduzida à sua


forma mais geral e à sua expressão mais racional.»

1 Alusão ao artigo anónlmo publicado na Revista trinu,a-


tral de Wigand com o titulo: c:Ober das Recht des Frelgespro-
chenen, · etne Ausfertigung des wlder lhn ergangenen Erken-
ntnisses zu verlanger> ( «Do direito do lnd1viduo absolvido exigir
wna ampU:ação da sentenc;a pronunciada a seu respeito>), 184õ,
tomo rv.

108
Esta ~agem. dirigida contra Feuerbach. é copiada
quase palavra por palavra da Filosofia do futwo (pág. 2).
do próprio Feuerbach:

cA filosofia especulativa é a teologia verdadeira, a


teologia consequente e racional.»

Bruno continua:

«A filosofia, aliada à religião, ocupou-se sempre


da absoluta dependência do indivíduo, tendo efecti-
vamente alcançado o seu objectivo ao fazer com
que (e ao permitir que) a vida individual se perdesse
na vida geral, o acidente na substância e o homem
no espírito absoluto.>

Como se «a filosofia> de Bruno, «aliada ao» hegelia:


nismo, no seu comércio com a teologia e só com ela con-
sentido «não permitisse», ou «não fizesse com que o homem
se perdesse» na representação de um dos seus «acidentes»,
a consciência de si. apresentada como a «substância»! Toda
esta passagem nos mostra, de resto, com que alegria este
Padre da Igreja ctão cheio de eloquência sagrada> continua
a confessar a sua fé «revolucioná.riu na virtude, grávida de
prom~ misteriosas, dos teólogos e dos ftlósofos sagrados;
tudo isto, evidentemente, no inter~ da «boa causa da liber--
dadc e da sua própria causa>.
Na página 105. este santo homem tem a coragem de
fazer a Feuerbach a seguinte critica:

cFeuerbach não fez do individuo, do homem desu-


manizado do cristianismo, o homem, o «homem
verdadeiro» (1) creal> (!l) cpessoab (!!!) (epítetos
provocados por Stirner e por A Sagrada Família):
fez dele o ser humano desvirilizado, o escravo.»

E, a partir daqui, não hesita em afirmar, entre outras


incoerências, que ele, São Bruno, tem o poder de faz.er
homens com o seu cérebro.
109
Mais adiante afirma:
cEm Feuerbach, o individuo deve submeter-se ao
Género e servi-lo. O Género de Feuerbach é o
absoluto hegeliano e. tal como este, não existe em
parte alguma.»
Aqui, como sempre, São Bruno não poderia privar-se
da glória de fazer depender as relações reais dos indivíduos
da interpretação filosófica dessas relações. Não tem qualquer
ideia sobre a relação real existente entre os representantes
do «espírito absoluto» hegeliano e do <<Género» feuerbachiano
com o mundo tal como existe.
O nosso santo Padre encontra-se terrivelmente escanda-
lizado (pág. 104) com a heresia feuerbachiana que transforma
a divina trindade Razão-Amor-Vontade em qualquer coisa
cque está nos indivíduos e os domina». Como se, presente-
mente. qualquer disposição natural, tendência ou necessidade
não satisfeita devido às circunstâncias, não se afirmasse como
um poder «interior ao indivíduo e dominando-o». Por exem-
plo, quando São Bruno tem fome sem possuir meios para
satisfazer essa fome. o seu estômago torna-se um poder <<inte-
rior que o domina». O erro de Feuerbach não é ter expresso
este facto mas de o ter hipostasiado idealizando-o, em vez
de ver nele o produto de um determinado momento da evo-
lução histórica. susceptlvel de ser ultrapassado.
Página 111:
cFeuerbach é um servo e a sua natureza servil
impede-o de realizar a obra de um homem, de dis-
cernir a essência da religião» (bela «obra de homem»..
com efeito!) ... cSe não discerne a essência da reli-
gião é porque ignora a ponte que o guiará até às
fonle.s da religião.»

São Bruno crê ainda a pés juntos que a religião possui


uma ces.sência» própria. Quanto à «ponte» através da qual
se atingem cas fontes da religião>, não há dúvida de que tal
ponte de burros só poderá ser aqueduto. São Bruno erige-se
aqui. simultaneamente_ num Caronte reinadio e modernizado,

110
colocado em disponibilidade pelas existência da ponte e
situado ago~ com.o tollkeeper 1., à entrada da ponte que
conduz ao reino das sombras da religião. exigindo um meio
penny a quem a quiser atravessar.
O Santo observa.. pág. 120:

«Como poderia Feuerbach existir. se a verdade não


exis~ e fosse apenas um fantasma> (que Stirner
nos acuda!) «que até agora tivesse feito o homem
recuar de medo.>

Este «homem» que tem medo do «fantasma> da <<ver-


dade» é o venerável Bruno em pessoa. Dez páginas antes.
na .página 110. já o «fantasma> da verdade o fizera soltar
este grito de angústia que abala o mundo:

«A verdade, que nunca se apresenta como um


objecto acabado. só na plena realização do ·indivíduo
se desenvolve e se condensa numa unidade.»

Assim, a verdade, esse espectro. transforma-se num


individuo que se desenvolve e se condensa; e esta transição
acrobática realiza-se, à maneira dos vermes solitários. numa
terceira pessoa, fora de si mesma. ~ este o resultado a que
chegamos. Sobre as primeiras relações deste santo homem
com a verdade. na sua juventude. quando ainda sentia os
ardores da carne, convira reportarmo-nos à Sagrada Familia,
págs. 115 e segs.
A sua violenta polémica contra o sensualismo de Feuer-
bach é uma boa prova da actual pureza do santo homem
relativamente a todos os apetites da carne e a todos os desejos
mundanos. Os seus ataques não visam de forma alguma o
carácter bastante limitado do papel dos sentidos em Feuer•
bach. Esta infeliz tentativa de Feuerbach, pelo simples facto
de ser uma tentativa de fuga à ideologia, é para ele ... um
pecado. Mas naturalmente! Sensualismo - deleite dos olhos,

1 Em Inglês no ortgmal. Jl'i.acal de portagem.

111
volúpia da carne e hábitos mundanos são horror e abomina-
ção aos olhos do Senhor! Não sabeis que pensar na carne
provoca a morte da alma, enquanto preocupar-se com o
espírito representa a vida e a paz? Estar preocupado com a
carne é mostrar-se hostil à crítica, e tudo o que é carnal
é deste mundo. Sabei então o que diz a Escritura: muito
evidentes são as obras da carne, como o adultério, a forni-
cação. a impureza, a luxúria, -a idolatria, a feitiçaria. o rancor.
a discórdia, a inveja, a cólera, a troça, a desavença, a revolt~
o ódio. o assassínio. a bebedeira, a gula e outras. Mas em
verdade vos disse e repito: os que cometem tais pecados
nunca entrarão no reino da crítica Pior para e1es, pois seguem
a via de Caim, e pela busca do prazer cairão no erro de
Balaam e perecerão na revolta de Korah. Estes seres obsce-
nos levam uma rica vida, aproveitando-se sem vergonha das
vossas esmolas; são ovelhas que pastam sem pastor, são
nuvens sem água. sacudidas pelo vento. ãrvores nuas e esté-
reis, duas vezes mortas e desenraízadas, vagas saídas do mar
exsudando a espuma da sua própria vergonha, estrelas erran-
tes votadas à noite e às trevas para toda a eternidade. Pois
a Escritura diz-nos que nos últimos tempos virão dias horro-
rosos, hom.ens preocupados consigo mesmos, profanadores
impuros que preferem o prazer à crítica. homens -·que se
revoltam, enfim, homens de carne. São Bruno tem horror
a estes homens pois preocupa-se com o espírito e persegue
com o seu ódio o espólio profanado da carne. E assim con-
dena Feuerbach, que é pará ele o Korah da revolta. a ficar
à porta com os cães, os feiticeiros, os fornicadores e os
~sinos. «Sensualismo> -que horror! Esta palavra provoca
no nosso santo Padre da Igreja as cãibras e as convulsões
mais violentas: fá-lo mesmo cantar, e canta· (pág. 121). o
«cântico do fim e o fim do cântico». Sensualismo. Sabes tu,
infeliz. o que é o sensualismo? O sensualismo é... «um
cajado> (pág. 130). Na angústia das suas convulsões. São
Bruno arremete mesmo contra uma das suas frases, tal como
Jacob com o anjo, com a única diferença de Deus ter deslo-
cado a anca de Jacob enquanto o nosso santo epiléptico
apenas desloca os membros e os nervos da sua frase, o que
lhe permite. com a ajuda de alguns exemplos evidentes, fazer-
-nos compreender a identidade do sujeito e do objecto.

112
«Diga Feuerbach o que disser . . . destrói> (!)
«apesar de tudo o homem . . . faz da palavra homem
uma simples frave vazia; porque não faz o homem
na sua totalidade» (!) cnem o cria> (!) emas eleva
a humanidade inteira ao absoluto porque. para ele,
o órgão do absoluto já não é a humanidade mas
sim os sentidos; qualifica de absoluto, de conheci-
mentos incontestáveis. de certeza imedia~ o objecto
dos sentidos, da intuição. da percepção ,_ o sensí-
vel>. Assim fazendo. Feuerbach - tal é a opinião
de São Bruno - cpoderá talvez estremecer as cama-
das de ar mas será impotente para esmagar as
manife,stoções do ser hwnono, pois o seu ser mais
íntimo> (!) ce a sua alma, que dá a vida. ... des-
troem de avanço qualquer ressonância exterior» (!)
«reduzindo-a a palavras estridentes e desprovidas de
sentido> (pág. 121).

Acerca das causas do seu próprio absurdo. São Bruno


dá-nos alguns esclarecimentos que. apesar de misteriosos. não
deixam de ser decisivos:

cComo se o meu eu não p o ~ também esse


sexo determinado e único que o diferencia de todos
os outros e esses órgãos sexuais determinados e
únicos!•

(Além dos seus órgãos sexuais únicos. ~ nobre perso-


nagem tem ainda um csexo único» e sui generis!). Esse sexo
único é-nos explicado do seguinte modo (pág. 121):

ca vida dos sentidos., tal como um vampiro. suga


a medula e o sangue da vidiJ humana. ~ a barreira
intransponível onde o homem sofre necessariamente
o golpe de misericórdia.>
Mas nem. o mais santo homem do mtu1do ;·é absoluta-
mente puro! Todos são pecadores e carecem da glória que
deveriam ter perante a cconsciêocia de si>! São Bruno. que
na solidão do seu gabinete mede forças com a csubstãncia»•

• 113
vê a sua atenção atraída para a mulher e a beleza feminina.
devido aos escátos pecaminosos do herético Feuerbach.
Repentinameo~ o seu olhar .escurece, pois foi manchada a
pura consciência de si; a imaginação sensual e condenável
faz flutuar imagens lascivas em torno do critico angustiado.
O espírito é perspicaz mas a carne é fraca. O espírito estre-
mece, cai, esquece que é ele quem «tem o poder de analisar,
de sintetizar e de dominar o mundo»; esquece que estes pro-
dutos da sua imaginação são «o espírito do seu espír.ito»;
perde toda a cconsciência de si» e, na sua embriaguez. bal-
bucia um ditirambo em louvor da beleza da mulher, «toda
ternura, doçura e feminilade», «da languidez e do torneado
dos seus membros», «das suas formas ondulantes, vibrantes,
efervescentes. palpitantes, frementes 1 , evocação das vagas
do oceano>. Mas a inocência trai-se sempre, mesmo quando
comete um pecado. Quem poderia ignorar que as «formas
ondulantes e evocadoras das vagas do oceano» são coisa
nunca vista ou ouvida? Logo. muito docemente, querida alma,
o espírito retomará em breve o seu império sobre a carne
rebelde., para opor aos apetites libertinos uma «barreira»
intransponível onde acabarão rapidamente por sofrer o «golpe
de misericórdia>.

cFeuerbach»- tal é o resultado a que o nosso


santo homem conseguiu por fim chegar com a sua
compreensão crítica da Sagrada Família - «é adepto
do materialismo., mas de um materialismo impreg-
nado de humanismo e minado por ele; .isto significa
que o materialista, nesse caso, não se consegue
manter enquanto tal. não consegue viver à face da
terra e de acordo com o seu ser> (São Bruno
conhece um ser da terra, distinto da terra, e sabe
como proceder para «se manJer de acordo com o
ser da terra»). «Quer, em vez disso, espiritualizar-se

1Alguns dos epitetos aqui em.pr.egues não figuram em


Bauer; são acrescentados por Marx e Engels, que os aprovei-
taram de um poema bem conhecido de Schlll.er: Der Ta.-ucher.

114
e penetrar no céu; e, enquanto humanista que não·
pode pensar nem construir um universo espiritual,
recorre ao materialismo como elemento fecundante,
(pág. 123).

Se. para São Bruno, o humanismo consiste no «pensa-


mento• e ena construção de um universo espiritual>, vejamos
qual a sua definição do materialismo:

cO materialismo só reconhece o ser actual e real,


a maJéria» (como se o homem, com tudo aquilo que
o caracteri~ incluindo o pensamento, não fosse
cwn ser actual e real») «e a natureza, a matéria activa
que se realiza e se difunde na pluralidade» (pág.123).

A maJéria é primeiramente um ser actual e real; mas é-o


apenas em si. secretamente. Só quando se toma «activa, ao
difundir-se e ao realizar-se na pluridade» (este «ser actual
e real• «realiza-se»!), se transforma em natureza. Existe em
primeiro lugar o conceito de matéri~ a noção abstracta, a
representação. que em seguida se realiza na natureza real. Isto
coincide à letra com a teoria hegeliana da pré-existência das
categorias criadoras. Deste ponto de vista, é na verdade com-
preensível o facto de São Bruno aproveitar levianamente algu-
mas conclusões filosóficas dos materialistas acerca da matéria
para depois as considerar como núcleo e conteúdo da sua visão
do mundo.

2. Considerações de São Bruno


sobre a polémica Feuerbach-Stimer

Depois de expor a Feuerbach estes argumentos de peso,


São Bruno considera a disputa que opõe Feuerbach ao único.
A primeira forma de manifestação deste seu interesse por tal
disputa reveste a aparência de um sorriso metódico e três vezes
repetido.
cO critico prossegue o seu caminho irresistivel-
mente. certo de vencer e já vitorioso. Caluniam-no:
sorri. Aruqro-no de heresia: sorri. Todo o velho
mundo parte em cruzada contra ele: sorri.»
E assim fica pois estabelecido que São Bruno prossegue
o seu r.aminbo. Mas não anda como toda a gente; o seu andar
é critico e é sorrindo que executa este acto importante.

cO seu sorriso desenha na sua face mais rugas


do que as linhas existentes num mapa do globo, com
as lndias orientais e ocidentais. E se a dama o esbo-
feteia, responde-lhe com um grande sorriso e agrade-
cendo-lhe o favoo 1 •

como o Malgovio de Shakespeare.

São Bruno não move sequer um dedo para refutar os seus


dois adversários: ronhece um meio bem melhor para se desem-
baraçar deles: abandona-os - divide et impera 2 - à sua pró-
pria querela.. A Stirner opõe o homem de Feuerbach (pág. 124).
e a Feuerbach o único de Stimer (págs. 126 e segs). Sabe que
ambos se odeiam tanto como os dois gatos de Kilkenny, na
Irlanda. que se devoram mutuamente ao ponto de só restarem
as duas caudas. São precisamente estas duas caudas que cons-
tituem o objecto do julgamento de São Bruno: proclama que
elas são csubstdncia» e que, consequentemente, são amaldi-
çoadas para toda a eternidade.
Ao opor-se a Feuerbach e a Stimer, apenas repete aquilo
que Hegel diz de Spinoza e de Fichte. Aquele afirma, como se
sabe, que o Eu reduzido a um ponto é um dos aspectos da
substância, precisamente o mais duro de todos. Apesar da vio-
lência que antes empregara contra o egoísmo - que fazia
passar por odor specificus I das nias&S- Bruno admite (pág.
129) o egoísmo em Stimer. mas res&llvando que este egoísmo

1 Arte (Ku.nat), é a palavra que se encontra no texto


de Shakespeare; mas na versão alemã em.prega-se Gtin.at ·(favor).
2 .Dwtde e rrina.
a Odor caracteri8Nco.

116
deva ser cnão o de Max Stimer> mas evidentemente o dele
próprio. Bruno Bauet. O de Stimer é estigmatizado em nome
da moral. cpois o seu EU>. afirma, «tem necessidade da
hipocrisia, da mentira e da violência física para ~ar o seu
egoísmo». Quanto ao resto acredita (cf. pág. 124) nas pródigas
criticas de São Max, cuja luta lhe parece ser (pág. 126) «um
esforço real para destruir radica]roerite a substância>.. Em vez
de examinar a critica que Stimer faz da cática pura de Bauer.
afirma (pág. 124) que a critica de Stimer é tão impotente contra
ele como qualquer outra, cpois ele é o arquétipo do crítico1>.
Para terminar. São Bruno refuta-os a ambos, São Max e
Feuerbach, através de uma antítese que Stimer estabelece entre
o critico Bruno Bauer e o dogmático e que ele. Bauer. aplica
quase palavra por palavra a Feuerbach e a Stimer.
Wigand, pág. 138:
«Feuerbach opõe-se, e por consequência torna-se
oposto» (!) «ao único. Ele é e pretende ser comu~
nista, este é e deve ser egoísta. Aquele é o santo,
este, o profarw. Aquele, o justo, o Deus; este. o
maldoso, o homem. Ambos são ... dogmáticos.»
~ esta portanto a sua conclusão: criticar a ambos o seu
dogmatismo.
O único e a sua propriedade. pág. 194:
cO critico teme cair no dogmatismo ou estabe-
lecer dogmas. É evidente que se o fizesse transfor-
mar-se-ia no contrário do critico. num dogmático;
enquanto que. como cótico. ele é o bem, transfor-
mar-se-ia em mal De desinteressado» (comunista)
ctrandormar-se-ia em egoísta, etc. Sobretudo não
ter dogma - tal é o seu dogma.»

3. Sio Bruno contra os autoras


da •Sagrada Família•

Depois de ter arrumado Feuerbach e Stimer da forma


que acabamos de examinar, e de ter ccortado ao único o
caminho do progresso». São Bruno aplica-se agora ao estudo

117
das pretensas cconsequências de Feuerbach». ou seja. os
comunistas alemães e especialmente os autores da Sagrada
Família. A e x ~ : «humanismo concreto» que encontrou
no prefácio <Iasa obra, serve de base principal à sua hipótese.
Recordou-se certamente da seguinte p~gem da Bíblia:

cPor mim, irmãos, não pude falar-vos como


a seres espirituais, mas sim como a seres de carne»
(no nosso caso, seria exactamente o contrário).
ccomo a crianças em Cristo. Dei-vos leite a beber.
e não um alimento sólido; ainda não o poderíeis
suportar.» (/.ª Epístola aos Coríntios] 3, 1-2).

O primeiro sentimento que A Sagrada Família inspira


ao nosso venerável Padre da Igreja é o de uma profunda
aflição e de uma grave melancolia, as quais concordam
perfeitamente com um homem de bem. O único lado bom
do livro é o de ter

«mostrado aquilo em que Feuerbach deveria neces-


sarimnenle acabar e em que poderia converter-se
a sua filosofia se pretendesse lutar contra a crítica»

(pág. 138); mas este lado bom nunca poderia compensar os


seus aspectos aflitivos. tais como ter unido sem rigidez o
«querer> ao cpodeo e ao «dever». A filosofia de Feuerbach,
subentendida aqui de forma cómica.

cnão deve nem pode compreender a critica, não


deve nem pode conhecer e reconhecer a crítica no
seu desenvolvimento. não deve nem pode saber que
a critica. opondo-se a qualquer transcendênci~ é
um combate e uma vitória permanentes, uma des•
truição e uma criação continuas, que ela é a
úniau (!) cforça criadora e fecunda. Não deve nem
pode conhecer o trabalho que o crítico forneceu
e fome.e.e ainda para desmascarar os poderes trans-
cendentes que têm esmagado a humanidade e a têm
impedido de respirar e de viver. delas fazendo» (!)
caquilo que rea]mente são: espírito nascido do espí-

118
rito. elemento interno saído do ser interno, elemento
familiar saído da família e aí residindo, produto e
criatura da consciência de si. Não deve nem pode
saber que o critico foi o único que quebrou a reli-
gião na sua totalidade e o Estado nas suas diversas
manifestações. etc.:t (págs. 138 e 139).

Não equivalerá isto ao velho Jeová que, abandonado


pelo seu povo. por este ter preferido o belo humor dos deu-
ses pagãos, corre atrás dele. gritando-lhe:
«Escuta-me, Israel. Não feches os teus ouvidos, povo
judeu. Não serei eu o Senhor teu Deus que te conduziu do
Egipto para o país onde corre o leite e o mel? Vede que
desde a infância sem·pre haveis feito aquilo que me desa-
grada. me encoleriz.ásteis com as obras das vos.sa.s mãos e me
haveis voltado as costas em vez da face, apesar de todos os
bons guias que vos dei. Instalásteis os vossos horrores em
minha ca~ para a sujar; construísteis os lugares altos de Baal.
no vale de Ben Himmom,. se bem que nunca vos tivesse
encomendado nada de semelhante, pois nunca foi minha
intenção que cometêsseis tais horrores. Enviei-vos o meu
servidor Jeremias para divulgar a minha palavra., no décimo
terceiro ano do rei Josia.s. filho de Amon, e ele pregou-vos
zelosamente a verdade durante vinte e três anos, sem que
o quisésseis ouvir. É por isso que o Senhor diz: quem ouviu
alguma vez contar acções tão horríveis como as da virgem
Israel? Pois mais depressa sou esquecido pelo meu povo do
que a água das chuvas se infiltra na terra. ô povo. povo.
povo. escuta a palavra do Senhor!»

1:: d~e modo que Bruno afirma. num longo discurso


1

sobre o dever e o poder, ter sido mal compreendido pelos


seus adversários comunistas. A arte e a maneira como nesse
discurso expõe uma vez mais a crític~ como transforma
os poderes que até agora esmagaram «a vida da humani-
dade>, em poderes transcendentes, como descobre «o espí-
rito do espírito• a partir destes poderes. como pretende fazer
da ccriticu a única tarefa produtiva, tudo isto prova que
aquele pretenso erro de compreensão não é mais do que uma
compreensão que lhe desagradou.

119
Ao provar que a crítica baueriana se situa abaixo de
toda a critica, tomám.o-nos necessariamente dogmáticos.
Bauer chega ao ponto de nos criticar -por não acreditarmos
nas suas frases dez vezes repetidas. Toda a mitologia dos
conceitos autónomos. tendo à cabeça esse Zeus amontoador
de nuvens. a consciência de si, desfila uma vez mais «na
fraseologia das categorias correntes, algazarra de uma música
de janíz.aros. (Iit{eratur] -Z[ei]t[un]g, cf. À Sagrada Fa-
mília, .pág. 234). Tal como esperávamos. encontramos em pri-
meiro lugar o mito da criação do mundo, ou sej~ o mito
do «Jraballun laborioso do critico, «única força criadora e
fecundo., cdestruição e criação contínuas», «combate e vitó-
ria .perroaoenteo. «trabalho a realizar» e «trabalho reali-
:zado». O venerando Padre chega a criticar o facto de. na
Sagrada Familia. se ter entendido a «crítica> exactamente
como ele a entende na sua presente réplica. Depois de ter
«reintegrado e remetido a substância para o seu meio original,
a consciência de si, o homem crítico e (depois da Sagrada
Familia) ccriticado» (a consciência de si parece desempenhar
aqui o papel de um expediente ideológico) prossegue:

cEla não pode saber (a pretensa filosofia de


Feuerbach «que a crítica e os críticos, desde o
começo da sua existência» (!). «têm feito e dirigido
a história; que foram eles que «criaram os seus
próprios adversários e todos os movimentos que
agitam a época actual; que são os únicos a deter
o poder nas suas mãos, porque a força ·reside na
sua consciência e ,p orque extraem o seu poder de
si mesmos. das suas acções. da crítica, dos seus
adversários. das coisas que criaram; que só pelo
acto da critica é que o homem. e portanto os
homens. adquirem a sua liberdade; que só através
dele se cria> (!) «o homem e simultaneamente os
homens-.

Portanto. primeiro ponto: a crítica e os críticos são dois


sujeitos absolutamente distintos, exteriores um ao outro e
agindo cada um por si. O critico é wn sujeito distinto da
critica, e reciprocamente. A crítica personificada, a crítica

120
enquanto sujeito, será precisaroe:nte a «Crítica crítricu, o
objecto dos ataques da Sagrada Família! «A crítica e os
críticos, desde que existem. fizeram e dirigiram a história>.
Que não o pos.sam faz.er csem que existam», é evidente; e
que teolmn efeito históriu-à sua maneira- «desde que
existem>, também não será menos evidente. São Bruno con-
segue finalmente «poder e dever» dar.. nos uma das mais
profundas explicações acerca do pod.er revolucionário da
critica, quando nos diz: ca crítica e os críticos detêm o poder
nas suas mãos. porque (este porque não está mal) ca força
reside na sua consciência». Estes grandes fabricantes de his-
tória - acrescenta - cdetêm ainda o poder» porque «extraem
a sua força de si mesmos e da crítica> (portanto, uma vez
mais de si mesmos), o que infelizmente não prova que exista
no meio disto tudo, cem si mesmoS>, ena crítica>., alguma
coisa para cextrain>. Pelo menos deveríamos crer, a julgar
pelo testemunho da própria critic~ que é difícil «extrair»
daí algo mais do que a categoria da «substância.> que ela pará
lá «remeteu>. Para terminar.. a crítica «extrai> à «crítica>
a cforçu necessária para pronunciar um oráculo deveras
prodigioso. Com efeito, revela-nos um segredo até agora
oculto para os nosws pais e indecifrável para os nossos avós.
a saber, que «a criação do homem. e portanto dos homens.
só começa no acto da critica.>. se bem que até agora previa-
mente criados por actos de uma natureza totalmente distinta
~ por esse motivo que Bauer parece dever d crítica>, isto
é, a uma generaJio a.equivoca, o facto de cser no mundo. do
mundo e para o mundo•. Mas talvez tudo isto não ~
de uma interpretação diferente da seguinte pas.sagem da
génese: E Adão conheceu - isto é., criticou - a sua mulher
Eva, e esta ficou grávida, etc.
~ portanto a bem conhecida Critica cri~ já suficien..
temente caracterizada na Sagraâa Família, que vemos entrar
em cena lHD.a vez mais, com todas as suas char1atanices,
como se nada se tiv~ -passado. Mas não nos devemos
espantar. pois o santo homem lamenta-se (pág. 140) de que
A Sagrada Família im.pediu todo o progresso 4a critico.
No cume da indignação, São Bruno critica os autores da
Sagrada Família por, recorrendo a um processo químico.
terem feito passar, por evaporação. a critica baueriana do

121
estado de «fluído» homogéneo para o de substância «cris-
talintD.
Deste modo. as «instituições de mendicidade». «o certi-
ficado de baptismo da idade emancipada». «a zona do pathos
e dos aspectos tonitruantes» e ca afecção conceptual maome-
tana» (A Sagrada Família. págs. 2. 3, 4. citação de acordo
com a «Lit. Zeit.>). só são absurdos quando interpretados
de forma «cristalino. Será que as vinte e oito enormidades
históricas que se encontram. na passagem da crítica consa-
grada aos «Problemas da actualidade inglesa>> 1 deixam de
ser tolices se forem consideradas de uma maneira «fluída»?
A critica teima em pretender que. considerada «fluidamente».
não reconstruiu post festum a polémica de Nauwerclc 2 , mas
a profetizou a priori; ora esta polémica tivera lugar muito
tempo antes. Pretende ainda que um maréchal 3 , considerado
de maneira «cristalina». pode ser um ferreiro~ mas que sob
o aspecto «Iluido» só pode ser um marechal do exército;
que se, para a concepção «cristalina», un f ait physique •
pode ser «um facto físico». a verdadeira tradução <<fluída»
desta expressão será «um facto da física»; que la malveillance
de rr>s bowgeois juste-milieux ª significa, do ponto de vista
cfluidoi.. «a negligência dos no~os bravos cidadãos»; que,
do ponto de vista «fluido». «uma criança que não venha a
ser pai ou mãe é essencialmente filha»; que qualquer pessoa
pode ter a mi~o «de representar, por assim dizer, a última
lágrima de melancolia do passado»; que os diferentes por-
te.iros, peralvilhos. costureiras, rufias e alpendres e portas
d_e madeira de Paris constituem. do ponto de vista «fluido»,
fases do mistério cem cujo conceito está implícita a sua auto-
-limitação. assim como a destruição desta limitação devida

1 Titulo de um artigo de Faucher publicado na Allge-


mdne .Utet-atur Zeitung.
2 Polémica que opos Karl Nauwerck à Facukiade de Filo-
sofia de Berlim.
3 Pailavra francesa que significa ferrador ( maréchal f er-
ratld) e marecba.l do exército (ff'&aréchal d'armée).
4 Um facto /bico. Em francês no original.
is A má-vontade dos noss08 burgueses d.e meioa-termos.
Em francês no original.

122
à sua essência geral, pois esta essência é apenas o resultado
da sua autodiferenciação interna, da sua actividade»; que
a criti~ no sentido «fluido», «prossegue o seu caminho
irresistivehnente, vitoriosa e certa de vencer> quando. ao
examinar um assunto. começa por julgar ter revelado «o seu
significado verdadeiro e gerah, para admitir em seguida «que
não desejava nem podia ultrapassar os limites da critica» e
acabar confessando «que teria sido necessário aprofundar
um pouco mais, mas que isto era impossível porque... era
im~vel. .. » (A Sagrada Família. pág. 184); que. sob o
aspecto «fluido». «o futuro só pode ser obra da crítica»,
quaisquer que q,ossam ser as opções do destino»; que con-
siderada «fluidamente», a critica não executa qualquer labor
sobre-humano quando «se opõe aos elementos verdadeiros
nwna contradição já resolvida nesses mesmos elementos» 1 •
Quanto aos autores da Sagrada Familia, cabe direr que
tiveram a frivolidade de considerar estas frases, e cem ou!(as
do mesmo género, como exprimindo outros tantos absurdos
«cristalinos» ... É c.erto que se toma necessário ler os «Sinóp-
ticos» de uma maneira efluída», ou seja. no sentido dos seus
autor~, e não procurar inter,pretá-los de fonna «cristalina».
isto é, enquanto verdadeiros absurdos, sob pena de nunca
atingir a fé verdadeira nem admirar a harmonia doméstica
do criticismo.
É .por i~ que Marx e Engels se limitam a conhecer
a critica da literatur Zeitung», mentira deliberada que de-
monstra a cfluidez» com que o nosso santo homem leu o
livro que descreve os seus últimos trabalhos como sendo a
consumação de todo o seu «trabalho passado». Mas faltava
ao nosso Padre da Igreja a quietude de espírito necessária
para fazer uma leitura «cristalina», pois afirma que os seus
adversários pretendem disputar-Jhe a canonização e arran-
cá-lo cà sua santidade a fim de se santificarem a si mesmos».

1 As duas última.a citações foram retiradas respectiva-


mente dos «Oltlmos escritos sobre a questão judaica> e de «Qual
é actuahnente o objecto da critica?>, ambos artigos de Bruno
Bauer pubMcados na Allgemeine LUeTatur Zettung.

123
Verifiquemos ainda o seguinte facto. de passagem: de
acordo com as acb•ais afirmações de São Bruno, o objectivo
da sua I.iterahu Zeitung não era de forma alguma o de
afundar a csociedade social», «representar» «por as.sim dizer
a última Jágrima de melancolia> da ideologia alemã, estabe-
lecer a mais absoluta oposição entre o espírito e a massa ou
desenvolver a Critica critica em toda a sua plenitude e pureza,
mas tão-somente o de cexpor tudo o que existia de medíocre
e de fraseado oco no liberalismo e no radicaliS1110 do ano
de 1842 e nos seus últimos ecos>. isto é, o de combater os
cec.os póstumos» de uma coisa já desaparecida. TanJ de bruit
potu une omellette! 1 • Aliás, estas frases mostram. uma vez
mais, e na sua aparência «mais pura», a concepção da his-
tória defendida pela actual teorização alemã. O ano de 1842
pas.sa -p or ser o apogeu do liberalismo na Alemanha porque
a filosofia participava, n ~ altu~ da vida política. Para
o critico. o fim do liberaligno coincide com o desapareci-
mento dos Anais alemães e da Gazeta Renana 2 • órgãos da
opinião liberal e radical. Segundo Bauer. só deixou através
de si cecog; mas é precisamente agora. quando a burguesia
alemã sente ,realmente a necesmdade, nascida das condições
económicas, de alcançar o poder político e tenta consegui-lo.
é precisamente agora que o liberalismo alemão existe na
prática e tem. consequentemente. algumas possibilidades de
sucesso.
A profunda aflição causada a São Bruno pela Sagrada
Familia não lhe permitiu criticar ~ obra «a partir de si
mesm~ por si mesma e em si mesma>. Para conseguir domi-
nar os estragos que ela prov~ vê-se forçado a recorrer

1Tanto baruJAo para nada. Em francês no orlgina.1.


2 A Gazeta Rmwna foi publlca.da, em Colónia., de Janeiro
de 1842 a 31 de Karço de a.MS. 'Marx colaborou, a partir de
Abril de lSU, nesta revista fundada por burgueses rena.nos
opostos &0 absolutismo prti8Blano. Depo.18 de chegar a redactor-
~hefe da revista, esta defendeu cada vez ma.is claramente os
pontos de vista democratas; o governo pruasia.no decidiu proibir
a sua publicação por decreto de 19 de J-anelro de 1843.

124
a uma forma dluidu. Descobriu esta forma num relatório
confuso e cheio de cootra-sensos. publicado no número de
Maio do W estphãlische Dampfboot (págs. 206-214). Todas
as suas citações são extraídas das citações contidas n ~
Vapor da Y estefália; e uma citação só é uma cit.ação se for
extraida d~ revista.
~ interewmte verificar que o próprio estilo do nosso
santo critico é determinado pelo estilo do comentador anó-
nimo do We.stphalische Dampfboot. Para começar. transpõe
para a Revista trimestral de W igand (págs. -140-141) todas
as frases do prefácio citadas pelo critico anónimo (Dampf-
boot, pág. 206). Esta transposição constitui o corpo da crítica
baueriana., de acordo com o velho princípio já recomendado
por Hegel:

cConfiar no bom senso e, quanto ao resto •._para


pelo menos andar de acordo com o seú· tempo e
com a filosofi~ ler os comentários críticos de obras
filosóficas e também, ocasionalmente. os prefácios
e os primeiros parágrafos das próprias obras. -~
nestes que se encontram os princípios gerais de que
depende tudo o resto e é naqueles que. para além
da notícia histórica., se encontra o juízo critico que
enquanto tal vai mais almi da obra criticada. Este
caminho comum pode ser percorrido de roupão;
mas é em vestes sacerdotais que o sentimento ele-
vado do eterno. do sagrado. do infinito. segue o seu
caminho•.

caminho que. como vimos. São Bruno sabe cpercorrer>


cdespedaçaodo os seus adversários» (Fenomenologia. pág. 54).
Depois de citar algumas páginas do prefácio. o critico
da Y estefália prossegue:

«e, nestes termos que o próprio 'prefácio nos


conduz ao terreno onde a obra dará batalha, etc.•
(pág. 206).

125
O nosso santo critico,, depois de transcrever esta citação
para a Revista trimestral de Wigand, faz uma distinção mais
subtil:
«Tais sã.o o te"eno e o inimigo que Marx e
Engels escolheram para dar batalha.»

Do comentário da frase crítica «O trabalhador nada


cria», o critico da V estefália só dá a conclusão que o resume.
Quanto ao santo crítico, julga realmente que aí se encon-
tra tudo o que foi dito sobre a frase; e recopia (pág. 141)
a citação anterior vangloriando-se de ter descoberto que Marx
e Engels só opuseram à critica meras «alegações»!
Da tentativa de esclarecimento das expectorações críticas
sobre o amor. o crítico vestefaliano cita em primeiro lugar
(pág. 209). e em parte, o corpus delicti. extraindo depois da
refutação algumas frases sem nexo que desejaria fazer passar
por uma aprovação do seu sentimentalismo pegajoso.
O sanJo crítico copia literalmente ~ palavras (págs.
141, 142)., frase por frase., na mesma ordem das citações do
seu predecessor.
Debruçado sobre o cadáver do Sr. Julius Faucher, o crí-
tico vestefaliano exclama: «Tal é o destino do belo sobre
a terra!»; e o santo critico não consegue terminar o seu «labo-
rioso trabalho» sem ~ apropriar da mesma exclamação
(pág. 142). de resto perfeitamente fora de propósito.
O critico vestefaliano, na página 212. dá•nos um pre-
tenso resumo dos desenvolvimentos da Sagrada Familia diri-
gidos contra o próprio São Bruno.
O santo critico copia tranquilamente todas estas pobre•
zas sem Hies mudar uma única palavra. incluindo até as
exclamações vestefalianas. Não sonha sequer que. em toda
a Sagrada Família, ninguém o critica por «metamorfosear
o ,problema da emancipação política em emancipação
humana>, por «querer massacrar os Judeus», por ctransfor-
mar os Judeus em teólogos», por metamorfosear «Hegel em
Hinrichs» 1 , etc. Tal como um papagaio, o nosso santo

1 Hlnrlchs Hermann, Frledrich, Wilhelm (17'94 ...1861), um


velho-hegeUano, professor de fllosofla.

126
crítico repete as declarações do vestefaliano. segundo as quais
Marx tentaria fornecer. na Sagrada Família, um pequeno
tratado escolástico «à guisa de réplica à néscia auto-apoteose
de -BaueD. ÜJ°ay esta cnéscia auto-apoteose» que Bruno
apresenta como citação, não figura em lado algum na Sagrada
Família.. se bem que exista de facto no artigo do crítico
vestefaliano. O ,pequeno tratado não surge. com efeito, como
réplica à «auto-apologia» da critica (págs. 150-163) da Sa-
grada Famili~ mas sim no capítulo seguinte (pág. 165), a
propósito do seguinte problema histórico: «Qual a raz.ão de
o Sr. Bauer não poder deixar de {Q.ZJ!r política?».
Para terminar, São Bruno apresenta Marx (pág. 143)
como um c.divertid comediante». Mas o seu modelo veste-
f aliano já antes reduzira o drama histórico da Critica crítica
«à mais divertida das comédias» (pág. 213).
Como vemos, os adversários da Crítica crítica «devem
e podemJ> saber como o crítico trabalhou e corno ainda
trabalha»!

4. Oltlmo adeus ao •Sr. Hess•

«Aquilo que Engels e Marx ainda não puderam


fazer, é levado a cabo por Moses Hess)).

Grande e divina é a transição que, graças ao «poden>


ou «não"".poder» relativos por ele herdados dos evangelistas,
corre a tal ponto nas veias do nosso homem que este não con-
segue deixar de empregar a torto e a direito em todos os seus
escritos.
«Aquilo que Engels e Marx ainda não .puderam fazer.
é levado a cabo por Moses Hess». Qual será então essa coisa
cque Engels e Marx não puderam fazer>? i;: simples: nada
mais nada menos do que a critica de Stimer. E porque não
puderam «aindm, criticar Stimer? Pela simples razão de que
o livro de Stimer ainda não tinha sido publicado quando foi
escrita a Sagrada Famíüa.
Esta acrobacia ~peculativa que consiste em tudo cons•
truir a priori e em estabelecer uma pretensa relação causal
entre os mais estranhos elementos, é algo que nasce no cére-

127
bro do no~ santo para se vir alojar nos seus dedos. Entre-
gando-se-Jbe. o autor atinge o vazio total e reveste-se de
uma aparência ridícula ao enunciar oom toda a gravidade
simples tautologias. Veja-se, por exemplo (Allgf_emeine] lite-
rat{ru] Z[ei]t[un]g 1.5):
cA diferença entre os meus trabalhos e as folhas
que um Philippson. por exemplo, enche com os seus
escritos» (trata-se, portanto, das folhas em branco
cm que escreve. cpor exemplo, wn Phitippson»)
e.deve necessariamente ter o carácter que de facto
tem»!!!

O «sr Hess», de cujos escritos Marx e Engels declinam


absolutamente qualquer responsabilidade, é para o santo crí-
tico uma figura tão notável que não pode deixar de copiar
longas passagens extraídas dos últimos filósofos 1 , preten-
dendo no entanto que «esta crltic~ em certos pontos, não
compree11dam Feuerb~ ou enJão» (oh! teologia!) «que o
pote se quer revoltar contra o oleiro», cf. Epístola aos Ro1TUJ-
,ws, 9. 20-21. Depois de se entregar mais uma vez a um «árduo
trabalho• de citações. o no~ santo crítico acaba por chegar
à conclusão de que Hess copia Hegel, pois emprega os ter-
mos csintetizado» e cdesenvolvimento». ~ evidente que São
Bruno tinha de atirar sobre Feuerbach a prova, estabelecida
na Sagrada Família, da sua dependência relativamente a
Hegel.
cEis o que se devia esperar de Bauer! Combateu todas
as categorias hegelianas> (excepto a consciência de si) «por
todos os meios e com todas as suas forças>. ~peciahnente na
sua famosa polémica da literatur Zeitwzg contra o Sr. Hin-
ricbs. Já. vimos como conduziu a luta e venceu; para melhor
prova, citemos ainda a p~gem de Wigand (pág. 110) onde
afuma que a

cverdadeira» (1) «resolução» (2) «dos conJrários (3)


ena natureza e na história> (4). ca unidade verda-

1Obra de Moses Hess publicada em Darmsta.dt, em 1845,


com o titulo c.Díe letzten PA~ophet1>.

128
deira,; (5) «das relações separadas> (6), «o funda•
mento» (7) «e a profundidade» (8) «verdadeiros» (9)
cda religião. a personalidade» (10) cverdadeira, in-
finita (11), «irresistível e autocriadoru (12) «ainda
não foram encontradas».

Não encontramos em três linhas duas categorias equívo ...


cas. como em Hess, mas sim uma boa dúzia de verdadeiras.
cde infinitas, de irresistíveis» categorias hegeliana~ que o são
dada ca unidade verdadeira das relações separadas». «Eis o
que se devia esperar de Baueo! E quando o santo homem
pensa ter descoberto em Hess um piedoso cristão, não porque
Hess «tenha esperança», como diz Bruno, mas precisamente
por não a ter, por falar de «ressurreição», esse grande Padre
da Igreja permite-nos demonstrar a existência nele, nessa mes-
ma página 110. do mais evidente judaísmo. Aí se declara que

co homem real, vivo, o homem em carne e -ossó


ainda não nasceu»!!! (novo esclarecimento sobre o
futuro destino do «sexo único»). «e que o ser híbrido
que foi concebido» (Bruno Bauer?t?) «ainda não
se encontra em estado de dominar todas as fórmulas
dogmáticas»,

isto é. que o messias ainda não nasceu. que o filho do homem


deve ainda vir ao mundo. e que este mundo. «enquanto
mundo do Antigo Testamento». ainda se encontra sob a
~de da lei, d.as «fórmulas dogmáticas-._
Há. pouco. São Bruno utilizou «Engels e Marx como um
passo para abortar Hess. lJti1iz.a agora Hess para estabelecer
6oaJroente uma relação causal entre Feuerbach e as suas
próprias digressões sobre Stirner. A Sagrada Familia e Os
Oltimos Filóso/oJ.

«Eis o que se devia esperar de Feuerbach!» «A


filosofia deveria acabar piedosamente, etc.» (Wigand,
pág. 145).

Mas a verdadeira relação causal s6 nos surge quando


l'erificamos ser esta exclamação um plágio de uma passagem

• 129
dos últimos Filósofos de Hess .. dirigida contra Bauer, entre
outros (prefácio. pág. 4):

~ desta forma [ ... ] e não de qualquer outra


que se deveriam despedir do mundo {... ] os últimos
~ndentes dos ascetas cristãos.>

São Bruno conclui as suas alegações contra Feuerbach


e consortes (ou supostos como tais) com uma apóstrofe a
Feuerbacb,. criticando-o ,por apenas ser capaz de «trompe-
tear>. de «fazer soar as fanfarras», enquanto Monsieur B.
Bauer ou Madame la critique 1 «se desloca no seu carro
triunfal e recolhe novos triunfos» (pág. 125), (para já não
falar desse «personagem híbrido que foi concebido», e da
sua obra cdestruidora» ininterrupta), «afasta do seu trono»
(pág. 119), «massacra e faz lamber o pó» (pág. 111), «ful-
mina» (pág. 115). <<liquida definitivamente» (pág. 120), «es-
panca> (pág. 121), só autoriza a natureza a <cvegetan> (pág.
120). edifica prisões mais «rígidas» (!) (pág. 104) e, final-
mente. com a sua eloquência sagrada e «massacrante», de-
senvolve com toda a sua espontaneidade ousada e a sua
jocosa piedade «o mundo existente. fixo. fechado e sólido»,
lança à cara de Feuerbach (,pág. 110), «o grito e a rocha» e,
por fim. graças a uma reviravolta à direita, triunfa tam-
bém sobre São Max, completando (pág. 124) a «Crítica
crítica». a «sociedade social», o «granito e a rocha» pela
cabstraoção mais abstracta» e «a dureza mais dura».
São Bruno realiza tudo isto «por si mesmo, em si mesmo
e consigo mesmo•. pois é «ele mesmo». mais ainda, é «sem-
pre e em pessoa o maior e pode ser o maior> (é-o e pode
sê-lo!) por si mesmo e consigo mesmo. Selai 2
Não pode haver dúvidas de que São Bruno seria um
enorme perigo para o sexo fraco-dado que é «a persona-
lidade irresistível» - se não temesse «aliás em igual grau»,
ca sensualidade enquanto barreira onde o homem sofre neces-

1 Em francês no original.
2 Toma!

130
saria.mente o golpe de misericórdia». Consequentemente. é
provável que «por si mesmo, em si mesmo e consigo mesmo».
São Bruno não colha as flores virginais. antes permitindo
que elas murchem na nostalgia infinita e no desejo ardente
que alimentam relativamente à «persona1idade irresistível>
4

que cpossui esse sexo único e esses órgãos sexuais únicos


e determinados-.

131
Ili

&AO MAX

.Que me importam as verdes árvores?•

São Max explora, «emprega> e «utiliza» o concílio para


nos dar um longo comentário apologético <<do livro». De
que livro se poderia tratar senão de co Livro», o livro em si,
o livro por excelência, ou seja, o livro perfeito, o santo livro,
o livro-objecto sagrado, o livro que é o sagrado, o livro
celeste. em suma: O único e a sua propriedat:e? <<0 Livro»,
como se sabe, caiu do céu em fins de 1844 para se revestir
de uma forma servil na editora de O. Wigand, em Leipzig.
Abandonou-se assim às vicissitudes da existência terrestre.
tendo sido atacado por três «únicos»: Sze/iga, essa figura
misteriosa, o gnósticó Feuerbach e Hess. Qualquer que seja
a transcendência constante de São Max criador relativamente
a São Max criatura. como aliás relativamente a todas as suas
outras criaturas, não deixa de se apiedar por vezes do seu
fraco rebento lançando, para o defender e o proteger, um
«jubiloso grito crítico». Para elucidar todo o alcance deste
«grito• e de Sze/iga 1. essa figura misteriosa, é..nos necessário
entrar um pouco nos ponnenores da história eclesiástica e
considerar mais vagarosamente co Livro». Ou, para dizer
como São Max: «neste ponto• vamos inserir uma «reflexão•.

t Szellga: pseudõnlrno de Franz Szellga Zych1in von


ZycbJlosky ( 1816-.1900 ), Jovem-hegeliano.

133
simples «episódio• da história eclesiástica. sobre O Onico
e a sua propriedade, «pela simples razão» «de que ela pode-
ria. parece-nos. contribuir para o esclarecimento do con-
texto».

«Levantai. 6 portas, as vossas abóbadas! Abri-


-vos de par em par, portas eternas, e o rei da glória
entrará! Quem é este rei da glória? É o eterno, o
Senhor. o forte, o poderoso, o eterno e poderoso
em todas as batalhas! Portas, levantai as vossas
abóbadas! Abri-vos de par em par. portas eternas,
e o rei da glória entrará! Que é este rei da glória?
É o senhor único. É ele, o rei da glória» (S[almo] 24.
7-10).

1. O único e a sua propriedade

Como bom alemão, este homem que <<resolveu não aban-


donar os cuidados pela sua «causa», inaugura o seu longo
cgrito crítico» com uma lamentação. «Existirá alguma coisa
que ouse não pertencer à minha causa?» (pág. 5 do Livro).
E lamenta~se de tal modo que nos faz chorar o coração,
dizendo que cse tem de preocupar com tudo». que lhe põem
às costas «a causa de Deus, a causa da humanidade, da ver-
dade, da liberdade, a causa do Seu povo e do Seu príncipe».
e ainda mil outras causas boas. Pobre homem! O bourgeois 1
francês ou inglês queixa-se da falta de débouchés 2 • das crises
económicas, das crises da bolsa, da conjuntura política, etc•
O pequeno burguês alemão, que só participou activamente
no movimento da hourgeoisie 3 no plano das ideias, e que de
resto apenas ofereceu a sua pele a quem dava mais, concebe
a sua própria causa como sendo «a boa causa», «a causa
da liberdade, da verdade, da hwnanidade», etc.

1 Em francês no original. Burgu~s.


:i Em francês no original. Mercados.
a Em francês no original. Burguesia..

134
O nosso :p rofessor alemão adopta tout bonnement 1 esta
ilusão do pequeno burguês e dedica três páginas inteiras ao
exame de todas estas virtuosas causas.
Estuda «a causa de Deus». ca causa da humanidade.
(págs. 6 e 7). e descobre que csão causas puramente egoís-
tas». que «Deus» e a «humanidade~ só se preocupam com
os seus interesses, que ca verdade. a liberdade. a humanidade.
a justiça» crsó se ocupam de si mesmas e não de nós. do seu
bem e não do nosso» - de onde conclui que todos estes
personagens cestão numa situação extremamente fácil». Chega
a metamorfosear estas fórmulas idealistas. Deus. a ver•
dade. etc.• em burguesés suficientemente ricos ccuja situação
é extremamente fácil» e que gozam de um cegoísmo lucra-
tivo». Mas há um ponto que preocupa este santo egoísta:
cE Eu?». grita.

cPela minha parte, tiro daqui uma lição; de


ora em diante. em vez de continuar a servir estes
grandes egoístas. prefiro ser eu próprio egoísta!•
(pág. 7).

Vemos ,portanto os móbiles sagrados que guiaram São


Max aquando da sua conversão ao egoísmo. Não foram os
bens deste mundo. os tesouros devorados pelos mitos e pela
ferrugem, ou os capitais dos seus irmãos únicos que o impe-
diram de dormir; terá sido antes o tesouro celeste, os capitais
de Deus,. da verdade,. da liberdade, da humanidade, etc.
Se não se sentisse obrigado a servir todas estas boas
causas, nunca o nosso santo teria descoberto que também
possuía uma causa cprópriu; e ctam bém nunca &-e teria
preocupado> em cuidar desta sua causa-
Se São Max tiv~ considerado um pouco mais deta-
lhadamente estas diversas ccausas» e os seus cpro prietários»,
por exemplo Deus, a humanidade, a verdade, teria chegado
à conclusão oposta: wn egoismo baseado na forma cgoista

1 Em rfra.neêa no original Bem m.ai., nem menoa.

13S
de agir própria destes personagens, s6 pode ser tão imagin.!Íio
como esses mesmos personagens.
Em vez disso. o nosso santo resolve-se a fazer concor-
rência a cDell9 e à «verdade» e a entregar os cuidados da
Sua causa a Si mesmo:

ca Mim que. como Deus. sou o nada de tudo o


resto; Eu que sou o meu todo, Eu que sou o
único... Não serei o nada no sentido de ser vazio;
pelo contrário, Eu sou o nada criador, o nada a
partir do qual criador Eu próprio. Eu crio tudo».

O nosso santo Padre da Igreja teria igualmente podido


formular esta última frase da seguinte forma: Eu sou tudo
no vazio do absurdo; «pelo contrário». Eu sou o criador nulo.
o todo a partir do qual. criador Eu próprio, crio o nada.
Veremos mais tarde qual destas duas versões é a correcta.
E assim teIIJ1iaaroos o prólogo.
Quanto «ao Livro» propriamente dito, tal como o livro
c:de outros tempos». divide-se em Antigo e Novo Testamento:
a história única do homem (a lei e os profetas) e a história
inumana do único (evangelho do reino de Deus). O primeiro
refere-se à história no seio da lógica, ao logos preso ao
p~ado; o segundo, à lógica na história., ao logos liberto que
combate contra o presente e o subjuga vitoriosamente.

ANTIGO TESTAMENTO: O HOMEM

1. Ginese. ou a vida de um homem

Aqui. São Max diz-nos que escreve a biografia do seu


inimigo mortal, co homem». e não a de um cOnico• ou
«indivíduo real». O que o leva a divertidas contradições.
Como convém a uma génese razoável• .a . «vida de um
homem> começa ah ovo 1 , pela criança. A vida da criança.

1 Pelo prlnclplo.

136
segundo nos ~ revelado (pág- 13) cé. desde o princípio. uma
luta ·contra o mundo inteiro; defende-se contra tudo e tudo
se defende dela>. «Ambos se mantêm inimigos», mas têm
um pelo outro «consideração e respeito>, e cestão sempre
à escuta, vigiando as respectivas fraque1.an; estas afirmações
são desenvolvidas (pág. 14) no sentido de revelar que, en-
quanto crianças. «procwamos ir ao fundo das coisas ou des-
cobrir aquilo que elas dissimulam. razão ,por que• (já não
é por hostilidade) «vigiamos as fraq_uel.(lS de todos» (há aqui
um pouco de Szelig~ o mercador de mistérios). A criança
é portanto convertida_ desde o início, num metafísico que
procura ir ao e/undo das coisas>.
Esta criança que especula e toma mais a peito a «natu-
reza das coisas» do que os seus brinquedos. acaba «por
veu.u por se sobrepor ao «mundo das coisas». vence-o e
entra então nu.ma nova fase, a adolescência, onde deve sus-
tentar um novo combate, «um rude combate pela vida». -a
luta contra a raz.ão. pois ca primeira descoberta de si chama-
-se espírito» (pág. 15). O ponto de vista do adolescente é o
cdo céu»; a criança apenas caprendia>, mão se preocupava
com os problemas da lógica ou da teologia puras», tal como
(a criança) «Pilatos» ao abandonar rapidamente a pergunta
co que é a verdade?> (pág. 17). O jovem «procura apoderar-se
dos pensamentos», «compreende as ideias. o espírito• e «tenta
encontrar novas ideias»; cabandona-se aos seus pensamentos>
(pág. 16), tem «pensamentos absolutos, isto é. que são apenas
pensamentos, pensamentos lógicoS>. O adolescente que «se
comporta> deste modo, em vez de correr atrás de raparigas
ou de outros objectos profanos. é nada mais nada menos
do que o jovem cStimer>. o jovem estudante berlinense que
se ocupa de lógica hegeliana e pasma de admiração perante
o grande Michelet 1 • Deste jovem. diz-se a justo título (pág.
17): cdescobrir a ideia pura e preocupar-se com ela. eis o
prazer da juventude; e todas as figuras radiosas do mundo
do pensamento, a verdade. a liberdade, a humanidade. o
homem. etc.• iluminam e exaltam a alma juvenil>.

t Carl Ludwig Mlchelet ( 1801-1893) : professor de filosofia


na Universidade de Berlim e co-edltor das obras de Hegel

137
Este jovem rejeita também «o objecto» para «se ocupar
apenasJ> dos «seus pensamentos»; «engloba tudo o que não
é espírito sob o vocábulo depreciador de Aparências super-
ficiais e, se apesar de tudo não consegue libertar-se de tais
aparências. como por exemplo dos hábitos estudantis, etc.•
é apenas quando e porque nelas descobre o espírito. ou seja.
quando têm para ele o valor de símbolos» (quem não «des-
cobre> aqui Szeliga?). Bravo adolescente berlinense! As bebe-
deiras de cerveja nas corporações de estudantes eram para
ele um mero asírobolo». e foi somente por amor a «um sím-
bolo» que tantas vezes caiu para debaixo da mesa onde,
sem dúvida. -procurava «descobrir o espírito»! Toda a bon-
dade desse bravo adolescente que o velho Ewald 1 poderia
ter citado como exemplo quando escreveu os seus dois volu-
mes sobre o «bom adolescente». manifesta..se uma vez mais
quando dele cse diz» (pág. 15): </É necessário deixar pai
e mãe e considerar como destruídos todos os poderes natu-
rais». Para ele, e.ser racional, a familia não existe enquanto
poder natural; rejeita os seus -pais. irmãos e irmãs, etc.»,
mas apenas para que estes «renasçam todos enquanto forças
espirituais. racionais».
De um só golpe, o bom adolescente põe a sua cons-
ciência moral especulativa em harmonia com a obediência
e o respeito devidos a seus pais. e fica tudo como antes.
Do mesmo modo. «afirma-se» (pág. 15): d:. necessário obe-
decer mais a Deus do que aos homens»• E o bom adolescente
atinge os cumes mais altos da moralidade aquando (pág. 16)
da seguinte afirmação: «~ necessário obedecer mais à cons-
ciência do que a Deus». Esta exaltação moral leva-o mesmo
a negligenciar as cEuménidas vingadoras». ou mesmo «a
cólera de Poseidon.». Já nada teme, excepto a csua cons-
ciência».

1 J. L. Ewald (1747-1822): teólogo alemã.o e professor


de moral.

138
Depois de descobrir que o «espírito é o essencial>. já não
teme as mais arrojadas deduções:

«Mas, uma vez reconhecido o esp[rito como o


essencia1, isto dá contudo origem a uma distinção.
consoante o espírito for pobre ou rico, e é por
,isso:, (!) que «se 1procura enriquecer o espírito; o
espírito quer desenvolver-se para fundar o seu reino.
um reino que não pertença ao mundo que acaba
de superar.
«Aspira portanto vir a ser tudo em tudo>
(como?), «quer dizer: apesar de eu ser espíritoll não
sou porém o espírito perfeito; é-me pois necessário,
antes de mais, ,procurar o espírito perfeito» (pág. 17~

«Assim, cisto dá contudo origem a uma distinção>.


«Isto>, o quê? Que será o «isto» que origina uma distinçã.9?
Esse misterioso «isto• será ainda encontrado muitas vezes
no nosso santo homem, e verüicamos mais tarde que é preci-
samente o único do ponto de vista da substância, o início
da lógica única e, a este título.. a verdadeira identidade do
cseo e do «nada» hegelianos. Tudo o que o «isto» poderá
fazer. dizer e realizar será por nós atribuído ao nosso santo,
dado que é uma sua criação. Em primeiro lugar. o «isto»
provoca uma diferenciação entre pobre e rico. Porquê?
Porque «se reconheceu que o espírito é o essencial», Pobre
«isto• que, sem tal conhecimento, nunca teria podido notar
a diferença entre pobre e rico. ~ por esta razão que se
procur~ etc.•. cSe:.! Eis o segundo personagem impessoal
que. além do «isto•. se encontra ao serviço de Stimer e se
encarrega das tarefas mais penosas. Vemos aqui que estes
dois personagens têm o hábito de se apoiarem mutuamente.
clsto:. estabelece uma distinção entre espfrito pobre e rico,
pelo que «se» procura (quem poderia ter uma tal ideia. além
do fiel servidor de Stirner?): cé por esta ra:ziJO que se -p rocura
enriquecer o espirita». Assim que o «isto• faz um sinal.
o «se» grita com toda a sua voz. A divisão .de trabalho
efectua-se de acordo com todas as regras clássicas.
Dado que cse procura enriquecer o espírito», conclui-se
que «o esplrito quer desenvolver-se e fundar o seu reino•.

139
cOra. se• existe alguma lógica no assunto, há uma grande
cdiferença> entre o facto de se «enriquecer o espírito» e o de
co espírito querer fundar o seu reino>. Até agora, co esplrito»
ainda nada desejou.. ainda não figurou enquanto pessoa, pois
só se falara do espírito do «adolescente» e não do «espírito»
em si. do espírito enquanto sujeito. Mas o nosso santo autor
tem necessidade de um espírito diferente do do adolescente.
de um espírito que lhe seja estranho e. em última análise.
de um espírito santo que possa opor-se ao primeiro. Primeira
escamotea.ção.
cLogo. o espírito aspira vir a ser tudo em tudo»; fór-
mula bastante obscura que nos é as.sim explicada: «Apesar
de eu ser espírito. sou um espírito imperfeito e é-me primei-
ramente necessário procurar o espírito perfeito». Ora, se São
Max é um «espírito imperfeito», «isto dá origem a uma dife-
renciação» consoante tentar «ape,jeiçoan> o seu espírito ou
procurar «o espírito perfeito». De resto, algumas linhas atrás
só era necessário tratar do espírito «pobre» e do «rico> -
diferença profana e quantitativa - e agora, bruscamente, já
se torna conveniente analisar o espírito «imperfeito» e «per-
feito», diferença qualitativa e misteriosa. O desejo de aper-
feiçoamento do seu próprio espírito pode então transfarmar-se
numa procura do cEspírito perfeitoJ>, realii.ada pelo «espírito
imperfeito». O fantasma do Espírito Santo começa a rondar
por estas paragens. Segunda escamoteação.
O nosso santo autor pro~ue:

«Assim> (isto é, através da transformação do


desejo de «aperfeiçoamento» do meu espírito numa
-procura do cEspírito perfeito») «Eu, que acabava
de Me encontrar enquanto espírito, perco-Me nova-
mente ao inclinar-Me perante o espírito perfeito que
constitui um Eu que não me é próprio e Me trans-
cende; e sinto novamente toda a minha vacuidade»
(pág. 18).

Trata-se aqui de um mero desenvolvimento da escamo-


teação n.• 2 Depois de ter considerado «o espírito perfeito•
como um ser real e de, nestas condições, o ter oposto ao
•~pírito imperfeito». é evidente que co espírito imperfeito>.

140
o adolescente. s6 pode sentir dolorosamente a sua -vacuidade.
Prossigamos!
«Tudo dependo do espirito; mas terá todo o
esplrito mn espírito real? O espirito real e verdadeiro
~ o ideal do e.pírito. o «Espírito Santo>. Não é o
Meu espírito ou o Teu, mas precisament~ (!) «um
espfrito ideal, transcendente. «Deus-. cDeus é o
espírito> (pág. 18).
Aqui. o esplrito cperfeito• é bruscamente transformado
em espirito crca.l• e, logo após, em espírito creal e verda-
deiro>. Este é definido com maior rigor dizendo que constitui
«o ideal do espírito. o espirita santo>; a prova apresentada
é a de que ele não é «o Meu espfrito ou o Teu, mas
precisamenle um espirita transcendente, ideal. Deus». O espí-
rito verdadeiro é o ideal do espírito, «precisamente» porqu~
é um espirito ideal!~ o espirita santo, «precisamente» porqúe
é . .. Deus! Que «virtuosismo do pensamento»! Notemos ainda
de pas.sagrm que, até agor~ ainda não se falou do «Teu»
espírito. Terceira escamoteação.
Assim, quando procuro desenvolver ou, como diz São
Max, «aperfeiçoar> a minha cultura matemática, procuro
o matemático cperfeito>, ou seja, o matemático «real e ver-
dadeiro•. que 6 co ideal> do matemático. procuro o «santo&
matemático, que ~ um matemático distinto de Mim e de V 6s
(se bem que Vós pudésseis ser para mim o matemático per-
feito. tal como o adolescente berlinense. vê no seu professor
de filosofia a perfeição do espirito). «Pelo contrário. -procuro
cxactamente (um matemático] ideal. transcendente>. que é
matemático no c6J.. cDeus». Deus 6 matemático.
São Max chega a ~es resultados grandiosos partindo
do facto de cisto dar origem a uma distinção consoante o
cspirito for rico ou pobre.. o que significa, falando correcta-
ment~ consoante se for rico ou pobre de espírito. e também
p>rque o seu «adolescente• dCSCObriu esse facto notável.
Prossegue o autor (pág. 18):
cO que distingue o homem do adolescente é o
facto de este tomar o mundo como &. etc

141
Não nos é explicada a forma como o adolescente acaba
bruscamente por tomar o mundo «como é», nem vemos o
nosso santo dialéctico cuidar da transição do adolescente ao
homem. Apenas sabemos que o «isto» deve cumprir essa
função e «distinguir» o adolescente do homem. Mesmo o
«isto• não consegue puxar sozinho a pesada carga dos seus
pensamentos únicos. De facto, depois de o «isto» ter «distin-
guido o homem do adolescente», o homem cai novamente no
estádio de adolescente, voltando a ocupar-se «unicamente de
questões espirituais»; e só ultrapassa este estádio quando o
cse» acorre em sua ajuda com reforços suficientes. «Somente
quando se começa a amar o .próprio corpo», etc., (pág. 18),
«somente então :podemos prosseguir alegremente; o homem
descobre que tem um interesse pessoal 1 consegue «reencon-
trar-se uma segunda vez». Já não se reencontra apenas «en-
quanto espírito•. contrariamente ao adolescente, «para se
perder imediatamente ao abandonar-se ao espírito universal»,
mas reencontra-se enquanto espírito dotado de um corpo
(pág. 19). Este «espírito dotado de um corpo» acaba, tam-
bém ele. por não mais «se interessar exclusivamente pelo seu
espírito» (como o adolescente), «mas sim por uma satisfação
total, a satisfação do indivíduo inteiro (interesse na satisfação
do indivíduo inteiro!). Acaba por encontrar prazer «em si
mesmo., no seu corpo e na sua vida•. O Alemão que corres-
ponde ao «homem» de Stirner chega sempre atrasado. Nos
boulevards de Paris e em Londres, na Regent Street, pode
ver centenas de «adolescentes» a passearem-se. muscadins e
dandy 1 que ainda não descobriram que possuem um «espírito
dotado de um corpo», mas que não deixam de encontrar
prazer em si mesmos, «no seu corpo e na sua vida», cujo
primeiro interesse é «a satisfação do indivíduo inteiro».
Esta segunda «descoberta de si» leva o nosso santo
dialéctico a um tal entusiasmo que salta bruscamente do seu
papel e desata a faJar de Si mesmo em vez de se referir ao

1 Em francês e inglês no origlnal..

142
homem, revelando-nos que co homem» é Ele mesmo. o único.
e que co homem»= co único>. Nova escamoteação.

«Assim como Eu Me descubro> (deveria dizer:


«o adolescente se descobre») «por detrás das coisas.
enquanto espírito, também Eu Me descubro necessa-
riamente mais tarde> (ler: o homem Se descobre)
cpor detrás dos pensamentos, enquanto seu criador
e seu possuidor. Na época dos ~píritos, os pensa-
mentos. apesar de nascerem do Meu cérebro, ultra-
passavam-Me a Mim mesmo> (ultrapassavam. o
adolescente); «quais alucinações, os pensamentos
flutuavam à Minha volta e perturbavam-me como
poderes aterrorizantes. Os pensamentos tinham
adquirido uma fonna corporal; eram fantasmas,
eram Deus, o imperador, o Papa, a pátria, etc. Se
Eu destruo a sua forma corporal, Eu reintegro-qs
no Meu corpo, e digo: só Eu po~uo uma forma
corporal. A partir de então. apreendo o mundo
como sendo aquilo que é para Mim, como sendo
o Meu, propriedade Minha: relaciono tudo a Mim
mesmo».

Do mesmo modo, depois de ter começado por dar aos


pensamentos uma consistência corporal ou seja, depois de
os ter transformado em fantasmas, o homem, aqui identificado
com co único>, destrói esta forma corporal reintegrando..a
no seu próprio corpo que .passa as.5im a ser o corpo dos
fantasmas. O facto de só através desta negação dos fantasmas
se convencer da existência do seu ,próprio corpo. demonstra
bem a verdadeira natureza desta construção abstracta: a
essência corpórea do homem. Para acreditar nela necessita
cdizê•lu primeiro a si mesmo; mas aquilo que cdiz» não
é edito> correctamentc. Do facto de não existirem, não
apenas na sua cabeça. mas tamb6m fora do seu corpo cúnico>.
corpos autónomos, espermatozóides, extrai esta «fábula>: só
Eu tenho uma forma corporal. Nova escamoteação.
Prossigamos. O homem que, durante a adolescência.
mete na cabeça toda uma série de ideias estúpidas sobre os
poderes e relações existentes. o imperador, a pátria, o Estado,

143
etc.. por exemplo. e s6 as reconhece_u como suas _próprias
calucinações»~ esse homem, a acreditarmos em Sao Max,
destrói realmenJe esses poderes ao afastar do seu cérebro a
falsa opinião que de]es tinha. Inversamente. se deixa de olhar
0 mundo através da lente deformadora da sua imaginação,
é obrigado a preocupar•se com a estrutura prática deste
mundo. a conhecê-la e a regular a sua vida de acordo com
e1a. Se destrói a materialidade imaginária que o mundo para
si assumia, descobre•lhe a materialidade real que se encontra
fora da sua imaginação. Quando desaparece o fantasma
físico do imperador. não desaparece o imperador que existe
fisicamente mas sim o carácter fantástico desse imperador;
e s6 n ~ altura pode apreciar o poder real desse governante
em toda a sua extensão. Escamoteação n.• 3 [a].
Ao tomar•se homem, o adolescente nem sequer tem uma
atitude critica relativamente às ideias adoptadas por outros,
e que circulam sob a forma de categorias; só mantém essa
atitude relativamente às «puras criações do seu cérebro»,
isto é. à simples reprodução das opiniões gerais sobre as
coisas tais como existem. Assim. nem sequer reso1ve a cate-
goria «pátrio. mas tão-somente a opinião que de]a possui.
deixando que continue a subsistir a categoria de validade
geral e que, mesmo no domfnio do «pensamento filosófico»,
o trabalho ftque apenas começado. Mas pretende fazer-nos
crer que resolveu a própria categoria pelo simples facto de
ter acabado com as relações privadas confortáveis que man-
tinha com essa categoria - assim como ainda há pouco nos
pretendia fazer acreditar que destruíra o poder do imperador
ao renunciar à representação imaginária que dele tinha. Esca-
moteação n.• 4.

«E agora,, .prossegue São Max, «apreendo o


mundo como sendo aquilo que é para Mim, como
sendo o Meu. como Minha propriedade».

Apreende o mundo como sendo aquilo que é para ele,


ou seja. como é obrigado a apreendê-lo; e ao fazê-]o apropria-
-se do mundo, faz dele sua propriedade. Trata-se aqui de
uma forma de aquisição que não encontramos certamente
nos economistas. mas de que «o Livro» nos vai revelar o

144
método e as façanhas. Mas. afinal, aquilo de que se capro-
priD não é co mundo» mas sim as calucinações» que aquele
lhe causa. Toma o mundo pela sua representação do mundo
e. enquanto tal o mundo transforma-se em sua propriedade
representada, na propriedade da sua representação, na sua
represeo~o enquanto propriedade, na sua representação
própria ou na sua representação da .propriedade. E tudo isto
é exp~ na frase incomparável: «refiro tudo a Mim
m emio•.
De acordo com as próprias opiniões do santo, o homem,
depois de ter reconhecido que o mundo só é povoado por
faotasmas_ porque o ado~nte tinha tido visões e uma vez
esfumado para ele o mundo ilusório do adolescente, encon•
tra-se num mundo real, independente das quimeras do ado-
lescente..
Logo, seria necessário di?.er: E agor~ tomo o mundo
por aquilo que é independente de Mim; tomo-o como seu
(«O homem. apreende> - precisamente na ,página 18 -· co
mundo como é:&, e não como lhe agradaria que fosse). Tomo-o
.primeiramente como Minha não-propriedade (até agora só foi
Minha propriedade sob a sua forma fantasmática): Ponho-me
cm relação com tudo, e só enquanto tal refiro tudo a Mim.

«Enquanto :Espírito, recusava o mundo que


desprezava ,profundamente. Como possuidor, atiro
os espiritos ou ideias para o abismo da sua vacui-
dade. Deixam de ter poder sobre mim, do mesmo
modo que nenhum cpoder terrestre~ tem poder sobre
o espíritoi. (pág. 7.0).

Vemos aqui o possuidor, o homem de Stimer. recolher


imediatamente. sine beneficio deliberandi atque inventarii 1 ,
a herança do adolescente que-ele próprio o diz-só é
composta por calucinações> e «fantasmas». JuJga que. como
criança feita adolescente, acabou realmente com o mundo
das coisas e. como adolescente feito homem, acabou real-
mente com o mundo do espírito: e finalmente ~que,. e.orno
homem. tem o mundo na a1gibeira e já não necessita de se

145
preocupar com coisa alguma. Se é verdade - como diz ao
repetir as opiniões do adolescente-que nenhum poder ter-
reStte que lhe seja exterior tem poder sobre o espírito. e se
é verdade que ele. o homem. subjugou es.5e espírito todo-
"'poderoso. hão será então ele próprio todo-poderoso? Es-
quece que apenas destruiu a forma fantástica e fantasma-
góric.a de que revestiam as ideias de pátri~ etc., no crânio
do cadolescento. mas que, pelo facto de exprimirem relações
reais, ainda nem sequer lhes tocou. Bem longe de se trans-
formar em dono e senhor das ideias. somente agora ficou
em condições de as ter.
<É agora evidente - e será a conclusão» (pág. 199) -
que o no~ santo homem conseguiu atingir o seu objectivo
pré-estabelecido e ambicionado. a sua construção abstracta
das idades da vida. Dá-nos a conhecer o resultado numa
frase. sombra fantasmagórica que vamos tentar comparar
com o seu cor,po desaparecido.

Frase única (pág. 20) Proprietário da sombra eman-


cipada na coluna ao ]ado

Realista, a criança man- A criança está realmente


tinha-se prisioneira das coisas prisioneira do mundo das
deste mundo até ao momento coisas até ao momento em
em que, pouco a pouco, foi que. pouco a pouco (esca-
descobrindo a verdadeira na- moteação burguesa de todo
twez.a dessas coisas. O ado- o processo de evolução).
lescente era idealista. as ideias consegue precisamente ultra-
exaltavam-no. Depois. elevou- passar essas coisas. O ado-
-se até ao homem.. esse egoís- lescente era imaginativo, irre-
ta que dispõe das coisas e flectido por excesso de exal-
das ideias conforme lhe ape- tação. até ao momento em
tece e coloca o seu interesse que foi destruído pelo ho-
pessoal acima de tudo o resto. mem. o burguês egoísta. cujas
E o velho? Se conseguir lá. ooisas e ideias são dirigidas
chegar. haverá tempo para a seu bel-prazer porque colo-
faJar do assunto>. ca tudo abaixo do seu inte-
res.se pessoal. E o velho? -
«Muller, que tenho eu a ver
contigo?»

146
Toda a história cde uma vida humana» se traduz por-
tanto - ce será esta a nossa conclusão• - no seguinte:

1. Stimer s6 concebe os diferentes estádios da vida


como cdescobe~ do indivíduo por si mesmo. as quais
se reduzem sempre a uma certa relação de consciência.. Aqui.
a vida do indivíduo resumir-se-á portanto às diferenças do
seu grau de consciência. As modificações psicológicas e sociais
que afectam os indivíduos e provocam os diferentes graus
de consciência não têm qualquer interesse. É esta a raz.ão
por que. 1para Stirner, a criança. o adolescente e o homem
se encontram sempre em presença de um mundo já perfeita-
mente acabado, por analogia com a forma como «se des-
cobrem a si mesm.os-.. Nada fazem para encontrar seja o que
for que exista. Quanto às relações entre o mundo e a cons-
ciência. verifica-se que este nem sequer é concebido de forma
correcta. mas apenas de um modo falseado. sob a f orm~
especulativa. E é assim que os diferentes personagens têm
sempre uma relação filosófica com o mundo: «realista na
criança>, «idealista no adolescente». e o homem como uni-
dade negativa dos dois primeiros. a negatividade absoluta.
como podemos observar na frase-conclusão atrás citada. Eis
esclarecido o mistério cde uma vida de homem». cA criança».
percebemo-lo agora. era apenas um disfarce do «realismo»;
«o adolescenta. um disfarce do «idealismo», e o «homem»,
uma tentativa de resolver essa contradição filosófica. Esta
solução. esta cnegatividade absoluta». só é possível na medida
em que o homem adapta de olhos fechados as ideias da
criança e do adolescente, julgando ter assim dominado o
mundo das coisas e o do espírito.

2. Ao desprezar a cvidu fisiológica e social do indi-


viduo, e por nunca falar da a-ida> pura e simples. São Max
- consequente consigo mesmo - abstrai das épocas histó-
ricas. da nacionalidade, da classe ... etc., ou, o que vai dar
ao mesmo, alarga a corud2ncia dominante da classe que lhe
toca mais de perto no meio que o rodeia. até dela fazer a
consciência normal cda vida de um homem». Para ultrapassar
este ponto de vista de professor limitado, basta-lhe comparar
o «seu» adolescente com qua)quer jovem empregado de

147
comércio. com mn jovem operário inglês, com um jovem
Norte-Americano, isto sem falar dos jovens Kirghises!
3. Na sua imensa ~redulidade. e é este o espírito de
que está impregnado todo o seu livro, o nosso santo homem
não se contenta em atribuir ao seu adolescente uma fé cega
na sua criança e, ao homem, a mesma fá cega no seu adoles-
cente. Confunde ele próprio, sem disso se aperceber, as ilusões
que certos c:adolescente», certos «homens», podem ter ou
pretendem ter sobre si mesmos com a «vida», a realidade
desses adolescentes e homens ambíguos.
4. O protótipo, o modelo de todo este amontoado abs-
tracto das idades da vida encontra-se já na terceira parte da
Enciclopédia de Hegel, assim como noutras suas obras, «com
aJgu.m.as variantes». É evidente que São Max, tentando alcan-
çar os seus q>r6prios» fins. não poderia deixar de proceder
aqui a algumas metamorfoses. Por exemplo. enquanto Hegel
aceita as determinações do mundo empírico. pelo menos no
que basta para apresentar o cidadão alemão como escravo
do mundo que o rodeia, Stimer dá-o como dono e senhor
do mundo. o que -n ão acontece sequer na imaginação. Do
mesmo modo, São Max indica certas razões empíricas como
justificação por não se referir ao velho; segundo diz, espera
chegar a uma idade avançada para depois falar dela (logo,
aqui, ca vida de um homem• = Sua vida única de homem).
Hegel refere-se às quatro fases da vida porque, em sua
opinião., a negação surge no mundo real sob uma forma dupla:
lua e cometa (ver «A Filosofia da Natureza» de Hegel); é
essa a razão por que o número quatro substitui, neste caso,
o três. A única originalidade de Stirner consiste em fundir
lua e cometa, o que lhe permite eliminar da «vida de um
homem» o pobre velho. Veremos mais tarde qual a ra7.ão
disto, ao examinarmos em detalhe a estrutura da história
única do homem.

2. Economia do Antigo Testamento

Deixemos agora «a lei> para .passarmos «aos profetas>


e desvendarmos o mistério da economia doméstica única.

148
no céu e na terra. Desde o Antigo Testamento. onde a lei.
o ser humano, reina ainda sobre o único (Gal[ater] 3, 24),
que um plano judicioso e estabelecido para toda a eternidade,
preside à história do reino do único. Tudo está previsto,
todas as ordens foram dadas para que o único possa vir
ao mundo na sua ~poca. certa como redentor dos santos,
libertando•os da sua santidade.
Eis porque o primeiro livro, «Uma vida de homem»,
se intitula igualmente «Génese»: contém em germe toda a
economia úni~ apresenta-nos o modelo de toda a evolução
ulterior até ao momento em que se chega ao final dos tempos
e ao fim do mundo. Toda esta história única gira em tomo
das três fases já citadas. crian~ adolescente e homem. que
aparecem sistematicamente csob diferentes metamorfoses» e
sob a forma de círculos cada vez mais amplos que acabam
finalmente por abarcar toda a história do mundo das coisas.
e do mundo do espírito, resolvendo-a n~es três elemerifós~
Encontraremos apenas os vários disfarces da «criança, ado-
lescente e homem>; e não nos esqueçamos de que estes três
elementos já constituíam os disfarces de outras tantas cate-
gonas.
Falámos mais atrás da concepção alemã da filosofia da
história. São Max oferece-nos um belo exemplo d ~ con-
cepção: a ideia especulativa, a representação abstracta trans-
forma-se em motor ela história, de tal -forma que esta é
reduzida à história da filosofia. O seu desenvolvimento,
por~, não é conc.ebido de uma forma concordante com as
fontes existentes. e ainda menos como resultado da acção
das relações históricas reais; 6-o de acordo com -a concepção
exposta pelos filósof~ alemães modernos. em particular por
Hegel e Feuerbach. E. de tais ex.posições. só se retém os
elementos passíveis de serem uti1iz.ados para atingir o objectivo
proposto e que a tradição forneceu ao nosso santo. A história
é ~ reduzida a uma história das ideias tais como são
imaginadas. a mna história de espiritos e de fat1tasmas. nunca
se explorando a história real e empírica, fundamento dessa
história de fantasmas. a não ser que lhes forneça um corpo;
pedem-se-lhe emprestados os nomes necessários para vestir

149
~ fantasmas com uma aparência de realidade. Aliás. no
decurso dessa experiência. o nosso santo esquece muitas vezes
o seu papeL escrevendo histórias de fantasmas sem disfarce
algum.
Esta maneira de fabricar a história é em pregue pelo
autor da forma mais cãndid~ mais inocente, mais clássica.
As três categorias já referidas: realismo. idealismo e negati-
vidade absoluta enquanto unidade das duas primeiras (aqui
baptiz.ada de «egoísmo») - que já encontrámos sob a forma
de criança. adolescente e homem - servem de base a toda
a história. providas de diversas etiquetas históricas. Formam,
com a sua modesta reserva de categorias auxiliares. o con-
teúdo de todas as fases históricas por ele expostas e que,
na sua opinião.. constituem a história. São Max dá-nos mais
uma prova da sua imensa credulidade, levando mais longe
do que todos os seus predecessores a crença no conteúdo
especulativo da história, elaborada por certos filósofos ale-
mães. O segredo dessa continua e solene construção históric~
consiste em encontrar uma série de denominações pomposas
e bombásticas para três categorias de tal modo usadas que
já não são susceptíveis de aparecer em .público sob o seu
verdadeiro nome. O no~ santo autor poderia muito bem
P™f. sem qualquer transição. do «homem» (pág. 20) para
o cEu> (pág. 201) ou. melhor ainda, para o «único» (pág.
485). Mas teria sido muito simples. além de que a rivalidade
existente entre os adeptos alemães da especulação filosófica
obriga qualquer novo concorrente a tocar trompas para
anunciar a sua mercadoria.
cA energia do desenvolvimento verdadeiro», para em-
pregar os termos do Dottore Graziaoo, «desenvolve-se com
maior força> nas seguintes «metamorfoses>:

Fundamento:

I. Realismo.
II. Idealism.o.
III. Unidade negativa de ambos: «se.
(pág. 485).

150
Primeira denominação:

I. Criança, dependente das coisas (realismo).


II. Adolescenle, dependente das ideias (idealismo).
III. Homem (como unidade negativa).
expressão ,positiva: P~uidor
das ideias e das coisas
(Egoísmo)
expressão negativa: Liberto das
ideias e das coisas

Segunda denominação histórica:

I. Negro (realismo, criança).


Il. Mongol (idealismo, adolescente).
III. Caucasiano (unidade negativa do realismo e
do idealismo, homem).

Terceira denominação (a mais geral):

1. Egoísta realista (egoísta no sentido corrente)


- criança, Negro.
II. Egoísta idealista (que ~ sacrifica) - adoles-
cente, Mongol.
III. Egoísta
. verdadeiro (o único) -homem. Cau-
cas1ano.

Quarta denominação histórica. Repetição das fases ante-


riores dentro do Caucasiano.

1. Os Antigos. Caucasianos do tipo negro -ho-


mens infantis - pagãos - dependendo das
coisas - realistas - mundo.
Transição (a criança. que se ocupou «das
coisas deste m undo:t ); sofistas, cépticos.
etc.

151
II. Os Modernos. Cauc.asianos do tipo mongol -
homens juvenis - cristãos - dependendo
das ideias - idealistas - espírito.
1. Pura bistóp.a dos espíritos. o cristianismo
enquanto espírito. cO espirita».
2. História impura dos espíritos. O espírito
nas suas relações com os outros. cOs pos-
~s».

A) Pura história impura dos espíritos.


a) As aparições, o fantasma, o espí-
rito na fase negra, enquanto espí-
rito materializado e coisa espiri-
tual - Essência objectiva para o
cristão, o espírito enquanto crian-
ça.
b) A obsessão, a ideia fixa, o espírito
na fase mongol. na fase espiritual
do espírito, determinação na cons-
ciência, essência pensada no cris-
tão - o espírito enquanto adoles-
cente.

B) Impura história impura (histórica) dos


espíritos.
a) Catolicismo - Idade Média (Ne-
gro, criança, realismo, etc.).
b) Protestantismo - novo período no
seio da época moderna - (Mon-
gol. adolescente, idealismo. etc.).
No âmbito do protestantismo po-
dem-se ainda introduzir novas sub-
divisões. Por exemplo:
l) Filosofia inglesa - realismo,
criança. Negro.
2) Filosofia alemã - idealismo,
adolescente, Mongol.

1S2
m. A hierarquia - Unidade negativa dos dois
termos anteriores do ponto de vista mongoI-
-causiano. Com efeito, esta unidade realiza-se
quando se transforma a relação histórica numa
relação actual ou quando se apresentam os
contrários coexistindo. Temos aqui, portanto.
duas fases que coexistem:

A) Os incultos - (maus, borugeois 1 • egoístas


no sentido corrente) = Negros, crianças.
católicos. realistas, etc.
B) Os cultos (os bons. citoyens •, os abne-
gados, os curas. etc.) = Mongóis. adoles-
centes, protestantes, idealistas.

Estes dois estados coexistem. donde se


oonclui «sem dificuldade» que os cultos domi-
nam os incultos - eis a hierarquia. No desen-
volvimento deste tem.a,

os incultos transformam-se em não-hege-


lianos; os cultos transformam-se em hege-
lianos 2.

donde se segue que os hegelianos dominam


os não-hegelianos. É desta forma que Stimer
metamorfoseia a representação especulativa do
domínio da ideia especulativa na história em
represeotação do domínio dos próprios filóso-
fos especulativos. A concepção que até agora
tinha da história, enquanto domínio da ideia,
transforma-se, nesta hierarqui~ numa relação
real actualmente existente: o domínio dos ideó-

1 • Em tra.ncês no orig1Dal.
2 cO Xamane e o filóaato ~eculattvo C&l'acteriza.m o
escalão rnals baixo e o escalão ma1s elevado para o homem
,ntenor, o Mongol>, pãg. -4.63 ,(N. de Marx e Engels).
153
logos. Isto mostra-nos o ponto até onde Stimer
vai na sua especulação. Para tenninar, e como
•chegamos ao fim dos tempos». este domínio
dos filósofos e dos ideólogos conduz às seguin-
tes denominações:

a) O liberalismo politico, dependente das


coisas. independente das pessoas - realis-
mo, criança. negro. antigo. fase fantasma-
górica, catolicismo. inculto, sem dono.
b) O liberalismo social, independente das
coisas e dependente do espírito, sem objecto
- idealismo, adolescente, mongol, moder-
no, a obcessão, protestantismo. oculto, sem
propriedade.
e) O liberalismo humano. sem dono e sem
propriedade, isto é, sem Deus, pois Deus
é simultaneamente o dono supremo e o
supremo bem. a hierarquia-Unidade ne-
gativa na esfera do liberalismo e, enquanto
tal, domínio sobre o mundo das coisas e
das ideias; simultaneamente, o egoísta per-
feito na ultrapassagem do egoísmo, na rea-
lização da hierarquia.. constitui a

transição (adolescente que deu a volta


ao mundo dos pensamentos) para o

llI. cE,a - ou seja, o cristão realizado, o homem


realindo. o Caucasiano caucasiano e o egoista
verdadeiro; ~im como o cristão se trans-
forma em espírito pela ultra~agem do an•
tigo mundo, também o Eu se toma corpo-
ral pela d~truição do mundo dos espíritos,
recolhendo sine beneficio deliberandi et inven-
tarii 1 a herança do idealismo, do adolescente,

154
do Mongol do moderno. do cristão. do pos-
se550. do maníaco, do protestante, do homem
culto. do hegeliano e do liberal humanista.

N. B. 1 - «Em certos locais• podem intercalar-se episo-


dicamente, e no momento favorável. algumas categorias f euer-
bachiaoas ou outras, como o entendiroP.nto, coração. etc., a
fim de aumentar o brilho deste esquema e de produzir novos
efeitos. ·É lógico que essas novas categorias serão outros tantos
disfarces do realism.o e do idealismo que percorrem toda
a obra.
2-0rtodoxo e crente. São Max (aliás Jacques le bo-
nhomme 1 ) nada nos sabe dizer de real e profano acerca da
história profana, da história reaL exceptuando o facto de, sob
os vocábulos «natureza», cmundo das coisas» «mundo da
criança> etc., o opor sistematicamente à consciência, pois
concebe a história como um objecto das especulações .da
consciência.. como lHl1 universo que, apesar de constantemente
destruído. continua a existir numa espécie de noite mística,
res.5urgindo à primeira oportunidade; dado que as crianças
e os negros continuam a existir. é «fácil» deduz.ir que o
mesm.o acontecerá com o seu universo, o chamado wiiverso
das coisas. A propósito de semelhantes construções históricas
e não históricas, já o bom velho Hegel afirmou, referindo-se
a Schelling, esse campeão de todos os construtores espe~
culativos:

«O instrumento desse formalismo monótono


não é mais difícil de manejar do que a paleta de
lHil pintor onde apenas haja duas tintas. por exemplo
de cor negro (realista, infantil, negra, etc.) «e
amarela> (idealista_ juvenil mongólica). «que ser-
virão para cobrir a superfície a pintar conforme for
ou não necessário um episódio histórico» (o universo
das coisas,) «ou uma paisagem• («o céu», o espí-
rito, o sagrado, etc.) Fenomf.enologia] pág. 39.

1 Em francês no original.

155
A ccon.sci&cia comu.m> negou de ionna ainda mais
pertinente este tipo de especulação. na canção que se segue:

O senhor mandou locquot


Ceifar a aveia.
Mas /acquot não ceifou a aveia
Nem voltou para casa.

O senhor mandou então o cão


Para morder /acquot.
Mas o clJo não quis morder Jacquot,
Jacquot não ceifou a aveia
Nem voltou para casa.

O senhor mandou então o cajado


Para baler no cão.
Mas o cajado não quis bater no cão.
O cão não quis morder lacquot,
Jacquot não ceifou a aveia.
Nem voltou para casa.

O senhor enviou enLão o fogo


Para queimar o cajado.
Mas o fogo não quis queimar o cajado,
O cajado não quis bater no cão,
O cão não quis morder lacquot,
I acquot não ceifou a aveia.
Nem voltou para casa.

O senhor enviou então a água


Para apagar o fogo.
Mar a água recwou-se a apagar o fogo,
O fogo não quis queimar o cajado,
O cajado não quis bater no cão,
O cão não quis morder lacquot,
lacquot não ceifou a aveia
Nem voltou para casa.

156
O senhor mandou então o boi,
Pt,a que este bebesse a água.
Mas o boi não quis beber a água,
A água recusou-se a apagar o fogo,
O fogo não quis queimar o cajado,
. O cajado não quis bater no cão,
O cão não quis morder Jacquot,
/acquot não ceifou a aveia
Nem voltou para casa.

O senhor enviou então o carniceiro


Para malar o boi.
Mas o carniceiro não quis maJar o boi,
O boi não quis beber a água,
A água recusou-se a apagar o fogo,
O fogo não quis queimtu o cajado.
O cajado não quis bater no cão.
O cão não quis morder lacquot.
Jacquot não ceifou a aveia
Nem voltou para casa.

O senhor enviou então o carrasco


Para enforcar o carniceiro.
E o carrasco enforcou o carniceiro,
O carniceiro matou o boi,
O boi bebeu a água,
A água apagou o fogo,
O fogo queimou o cajado,
O cajado bateu no cão,
O cão mordeu lacquot,
Jacquot ceifou a aveia
E todos voltaram para casa.

V amos ter em seguida oportunidade de ver o «virtuo-


sismo de pensamento• e os métodos de colegial que JacqueJ
le bonhomme 1 uti1ivt para preencher este esquema.

1 Em francês no original.

157
3. Os antigos

Na verdade. deveríamos começar pelos Negros; mas


São Max. que sem dúvida ocupa um lugar no «Conselho dos
Guardiães». na sua imprescrutável sabedoria. só introduz os
Negros mais tarde e. mesmo assim. «sem pretender tratar
o assunto em profundidade nem pensar que o que afirma
esteja solidamente estabelecido». E é por termos plena con-
fiança na sábia ordem estabelecida pelo nosso santo autor
que colocamos a sua filosofia grega antes da era negra, ou
seja, antes das campanhas de Sésostris 1 e da expedição de
Napoleão ao Egipto.
«Deitemos portanto uma vista de olhos sobre as activi-
dades dos Antigos» de Stimer.

cPara os Antigos, o mundo era uma verdade»:


diz Feuerbach; mas esquece-se de acrescentar este
pormenor importante: tratava-se de uma verdade
cuja não-verdade procuraram incansavelmente e que
acabaram por descobrir> (pãg. 22).

«Para os Antigos. co seu mundo» (não o mundo) «era


uma verdado. Esta frase não refere uma verdade sobre o
mundo antigo mas tão somente o facto de que. relativamente
ao seu mundo. os Antigos não se comportavam como os
cristãos. A partir do momento em que a falta de verdade
se revelou no seu universo (ou seja, quando certos conflitos
práticos começaram a desintegrar esse wúverso - e o único
estudo interessante consistiria em mostrar na prática esse
processo materialista). os filósofos antigos procuraram. des•
cobrir o mundo da verdade ou a verdade do seu mundo e.
muito naturalmente, verificaram então que esse mundo dei-
xara de ser verdadeiro. A sua própria investigação constituía
já um sintoma da ruína interna des.5e mundo. Jacques le bo-

1 Campanhas lendãrlas que teriam levado os egípcios ao


interior da Asla e da Europa.

158
nJwmme 1 faz do sintoma ideológico a causa material dessa
rufna e, como bom Padre alemão da Igreja, apresenta a
antiguidade como se esta procurasse a sua própria negação,
o cristianismo. Esta atitude da antiguidade era ~ r i a ao
nosso autor: não serão os Antigos as «crianças» que pro-
curavam pôr à luz do dia o «mundo das coisas»? cE sem
grande dificuldade>, depois de substituir o mundo antigo pela
consciência que ulteriormente os homens tiveram desse mundo,
toma-se evidentemente po~vel a Jacques le bonhomme •
saltar a pés juntos, de uma única vez, do antigo mundo
materialista para o mundo da religião, para o cristianismo.
O que· não se faz esperar: ao mundo real da antiguidade é
agora oposta ca palavra divina»; ao filósofo que, segundo
ele, teria sido o homem antigo, opõe-se o cristão. concebido
como céptico moderno. O seu cristão «nunca se chega a con-
vencer da vacuidade da palavra divina» e. não se podendo
convencer. «acredita na verdade eterna e indestrutível dessa
palavra> (pág. 22). O seu homem antigo é antigo porque
constitui o não-cristão, o ainda-não-cristão ou cripta-cristão;
por outro lado, até mesmo o cristão primitivo é cristão,
porque constitui o não-ateu, o ainda-não-ateu, o cripto-ateu.
Segundo o autor. os Antigos são a negação do cristianismo
e os cristãos primitivos a negação do ateísmo moderno. Como
todos os outros filósofos especulativos, Jacques le bo-
nhomme • prefere abordar tudo pelo seu lado filosófico.
Vejamos ainda alguns exemplos desta credulidade pueril:

«O cristão só se pode sentir um «estranho à


face da Terra> (Hebr{eus] l l. 13)> (pág. 23).

Inversamente. aqueles que eram estranhos na sua terra


(e por razões bastante naturais, como por exemplo a concen-
tração coloMal de riquei.as em todo o Império Romano, etc.,
etc.) só se podiam sentir cristãos. Não foi o cristianismo que
fez deles vagabundos, mas sim a sua condição de vagabundos

1 • Em francês no original.

159
que deles fez cristãos. Na mesma página. o nosso santo Padre
salta da Antigona de Sófocles e do carácter sagrado do enterro
dos mortos pua o Evangelho segundo S. Mateus (8, 22)
(deixai os mortos enterrar os seus mortos). Hegel tinha pelo
menos o cuidado, na sua Fenomenologia, de passar gradual-
mente da Antígona para o mundo romano. São Max poderia
ter ~ d o directamente para a Idade Média e, com Hegel,
opôr aos cnrmdos essa mesma frase da Bíblia; ou. para ser
verdadeiramente original, poderia estabelecer um paralelo
entre o enterro de Polinices por Antígona e a transladação
das cinzas de Napoleão de Santa Helena para Paris. Mais
longe, lê-se:

e.O cristianismo apresenta-nos a verdade incon-


testável das relações familiares» (verdade classificada
(pág. 22) no âmbito das «verdades> dos Antigos).
ccomo uma não-verdade que não poderia ser posta
de lado tão cedo (Marcos. 10, 29). o mesmo acon-
tecendo com todas as coisas» (pág. 23).

Esta frase que uma vez mais põe a realidade às avessas


deverá ser corrigida do seguinte modo: o cristianismo apre-
senta a não-verdade de facto das relações familiares (ver entre
outros, acerca deste assunto, os documentos ainda existentes
sobre a legislação romana pré-cristã) como uma verdade
incontestável. co mesmo acontecendo com todas as coisas».
Estes .exemplos mostram-nos cabalmente a forma como
Jacques le bonhomme \ mão conseguindo pôr de lado tão
depressa> a história empírica. inverte os factos e faz da
história material um .p roduto da história das ideias, co mesmo
acontecendo com todas as coisas». Logo de início, somos
informados da pretensa opinião que os Antigos tinham do
seu mundo. Apresentados como dogmáticos. os Antigos são
opostos ao mundo antigo, ao seu mundo, em v~ de se
mostrar como eles o produziram; não se fa]a da relação entre
a consciência e o objecto, entre a consciência e a verdade;

1 Em francês no original.

160
nada se diz. .portanto, acerca da relação filosófica entre o~
Antigos e o seu mundo - em vez da história da antiguidade,
eis a história da filosofia antiga; e mesmo esta não é de facto
a verdadeira filosofia antiga mas sim a ideia que dela tem
São Max, deduzida de Hegel e de Feuerbach. _
A história da Grécia, a partir do século de Péricles inclu-
sivamente, é ~im reduzida à luta de abstracções tais como o
entendimento, o espírito, o coração, a existência terrestre,
etc. Tais serão os partidos políticos gregos ... Neste mundo
de fantasmas, que se tenta fazer passar pelo mundo grego.
coperam> ainda algumas personagens alegóricas, como a
Senhora pureza do coração, e figuras míticas como Pilatos
(que não pode deixar de existir em qualquer sítio onde
existam crianças), todos ocupando gravemente o seu lugar ao
lado de Timon de Flios 1 •
Depois de nos ter feito algumas revelações surpreenden-
tes a propósito dos sofistas e de Sócrates, São Max dedica
a sua atenção aos cépticos. Considera-os como filósofos que
terminaram a obra começada por Sócrates. A filosofia posi-
tiva dos gregos, que se sucede precisamente aos sofistas
e a Sócrates, e particularmente a ciência enciclopédica de
Aristóteles. deixam de existir para Jacques bonhomme 2 • «Não
conseguindo pôr de lado tão depressa> os filósofos anteriores,
o autor aplica-se ao estudo da transição que o conduz aos
cm.odernoS> e que seria constituída pelos cépticos, os estóicos
e os epicuristas.. Vejamos um pouco melhor as revelações do
nosw Santo Padre sobre o assunto.

cOs estóicos pretendem realizar o sábio, . . . o


homem que conhece a arte de viver ... A sabedoria
é para eles a contemplação do mundo, uma vida sem
evolução vital [ ... ]. sem qua1quer relação amigável
com o mundo, isto é. uma vida isolada [ ... ] e não
a vida com o mundo. Para o estóico, só ele vive;

1 Filósofo ~tlco e poeta. satírico da. antiga Grécia.


Teri vivido de 3.20 a 230 a. e.
l Em trancês DO OriginaJ..

11
161
tudo o resto lhe parece morto. Opondo-se ao estóico,
os epicuristas defendem uma vida de movimento»
(pág. 30).

Aconselhamos Jacques le bonhomme 1 • esse homem que·


se quer n~~aliz.ar e que conhece a arte de viver, a consultar
Diógenes Laércio, entre outros. Com ele poderá aprender
que o sábio. Sophos. é apenas a forma ideal do estóico. não
sendo portanto este a realização do sábio; verá que Sophos
não é de forma alguma apenas estóico. podendo também
ser encontrado nos epicuristas, nos neo-académicos e nos
cépticos. O Sophos é aliâs a primeira fonna que nos é dado
encontrar do filósofo grego; apresenta-se, sob um aspecto
mítico. nos sete sábios, sob um aspecto prático em Sócrates e.
sob a forma de idea.1,, nos estóicos. epicuristas. neo-académicos
e cépticos. Todas estas escolas têm evidentemente o seu cro q>6ç
particular. ~im como São Bruno tem o seu «sexo único»
particular. São Max ,pode até encontrar o sábio no século
XVIII. na filosofia das Luzes. e mesmo em Jean-Paul, com
os chomens-sábios» como Emanuel 2 , etc. O sábio estóico
não defende a concepção de uma «vida sem evolução vital»,
mas sim a de uma vida dotada de um movimento absoluto;
o que é aliás uma consequência da sua concepção da natu-
reza, que é a concepção heracliteana, dinâmic~ evolutiva e
viva. contrariamente à dos epicuristas, cujo -princípio é o da
mors immortalis •, como diz Lucrécio, o átomo. e na qual
o lazer divino substitui a «vida em movimento» e se torna
um ideal de vida oposto à energia divina de Aristóteles.

cA ética dos estóicos (a sua única ciência. pois


nada sabiam e nada diziam do espírito, exceptuando
a maneira como este se deve comportar perante o
mundo. nem tão-pouco da nature2.a - a física -
exc.eptuando o dever do sábio de se afirmar relativa-

1.Em francês no or1gtnal.


s Personagem do romance de Jean--Paul, escritor alemão
do século XIX.
a ·Mort~ imortal.

162
mente a ela) não é uma doutrina do espírito mas
sim uma doutrina que proclama a recusa do mundo
e a afirmação de si face a esse mundoJ> pág. 31).

Acerca «da natureza>, os estóicos «sabiam dizer o se-


guinte»: que a física é uma das ciências mais importantes para
o filósofo. ~ por esta razão que se preocupam em desenvolver
a física de Heráclito. cTambém sabiam dizer» que o <Jlpa.. a
bele:za virii é a representação suprema do indivíduo., apesar
de esta afirmação os conduzir a contradições. Para os estóicos,
a filosofia divide-se em três doutrinas: «a físic~ a ética e a
lógica>.

«Comparam a filosofia ao animal e ao ovo: a


lógica é o esqueleto e os nervos do anima1, a casca
do ovo; a ética é a carne do animal, ou o branco do
ovo; a física e a alma do animal, ou a gema do
ovo» (Dióg[enes] de Laércio, Zenão 1 • ·

Isto já nos esclarece sobre a falta de verdade da afirma-


ção de que «a ética é a única ciência dos estóicos». Além de
que, segundo Aristóteles, eles foram os principais fundadores
da lógica formal e da metodologia.
«Os estóicos» estavam tão longe de «nada poderem dizer
sobre o espírito• que chegaram ao ponto de serem os primeiros
a referirem-se a «visões>; razão por que Epicuro, que os tra-
tava ironicamente de c:velhas senhoras». figurava perante eles
como partidário das luzes. Os neo-platónicos chegaram
mesmo a servir-se de uma boa parte das suas histórias de
aparições. Estas práticas estóicas têm como origem, por um,
lado, a impossibilidade de elaborar uma concepção dinâmica
da natureza sem a ajuda de dados que só podem ser fornecidos
por uma ciência empírica da natureu e. por outro, a sua mania
de dar uma interpretação especulativa do mundo grego antigo
e da religião e de os assimilar ao espírito pensante.
Podemos ver até que ponto a cética estóica é uma dou-
trina que proclama a recusa do mundo e a afirmação de si

1 De claron&m 1>AUoaoph,orum t1Ú"'Ía, dogmaUbua et apo-


pMhegmatibu.., übrl clecem, de Diógenes Laércio.

163
face a este mundo»: o facto de ter «uma pátria forte e um
amigo fieb faz parte das virtudes estóicas. só o «belo» é re-
conhecido como cbem». e é permitido ao sábio estóico entrar
em contacto com o mundo de todas as maneiras possíveis.
É-lhe permitido. por exemplo, cometer incesto, etc., etc. O
sábio estóico é de tal forma prisioneiro «da vida solitária,
evitando o mundo•. que Zenão afirma dele:

cLogo, o sábio não se admira com nada que


pareça prodigioso - e o homem que disso seja capaz
nunca viverá na solidão. pois a sua natureza é de ser
sociável e de trabalhar praticamente» (Dióg[enes]
Laér[cio], Lib(er stromatum] VII 1).

Aliás, já seria pedir muito. dada a sabedoria de colegial


de Jacques le bonhomme 1. exigir que este sou~ expor
a ética muito complexa e contraditória dos estóicos.
A propósito dos estóicos Jacques le bonhomme 2 admite
também a existência dos Romanos (pág. 31 ); mas nada pode
diz.er deles porque não têm qualquer filosofia. Apenas nos
é dito que Horácio (!) cnão conseguiu ultrapassar a sabedoria
estóica» (pág. 32). lnteger vitae scelerisque purus 8 !
A propósito dos estóicos menciona ainda Demócrito,
mas apenas copiando num qualquer manual uma passagem
confusa e. além disso. mal traduzida. de Diógenes Laércio
(Demócrfito]. livro IX. 7, 45), na qual baseia uma longa
diatribe contra Demócrito. Esta diatribe é caracterizada por
estar em contradição directa com o documento que lhe serve
·de base. a passagem confusa e mal traduzida acima meneio•
nada. e faz da «tranquilidade de alma» (tradução à Stirner de
«u8vµ[a. em alemão «Wellmuth») a «recusa do mundoi>. Com
efeito. Stimer julga que Demócrito foi estóico, mas que o
foi de acordo com a imagem que dele têm o único e a sua
consciência trivial de colegial; segundo ele, «toda a activi-
dade de Demócrito se reduz ao esforço ·p ara se afastar do

1-1 Em francês no original.


• Oom vma mda '"tegra e Umpa de qualquer cnme.

164
mundo•. portanto. cpa.ra recusar esse mundo». Stimer pode
agora refutar os estóicos na pessoa de Demócrito. O facto de
a vida movimentada e as peregrinações de Demócrito con~
tituírem o mais flagrante desmentido desta opinião de São
Max; de a verdadeira fonte da filosofia de Demócrito ter
sido Aristóteles e não os episódios contados por Diógenes
Laércio; de ser tão errado afirmar que Demócrito recusou
o mundo quanto é verdade que aquele filósofo se entregou
pelo contrário a uma exploração experimental da natureza
e foi entre os Gregos o ,primeiro cérebro enciclopédico; de
a sua ética, aliás muito pouco conhecid~ se limitar a alguns
pensamentos que. segundo se diz. foram escritos no final
das suas numerosas viagens; de os seus trabalhos no domínio
da ciência da naturei.a só poderem ser considerados f ilosó-
ficos per abusum 1 pois, diferentemente de Epicuro. o átomo
só é para ele uma hipótese da fisi~ um último recurso para
explicar os factos. o que de resto também acontec;;e na -quí~
mica moderna a propósito das proporções de misturas (Dal-
ton. etc.). nada disto preocupa Jacques le bonhomme 2 •
Neces.sita de uma concepção «única> de Demócrito: ora
Demócrito fala da euthymia, portanto da paz da alm~ por-
tanto do fechar-se em si mesmo. portanto da recusa do
mundo. Demócrito é um estóico e só se distingue do faquir
indiano que murmura cBrahm» (deveria dizer «Om» ª da
mesma forma que o comparativo se diferencia do superlativo.
isto é. só apresentam uma diferença de grau.
Dos epicuristas, o nosso amigo sabe tanto como dos
estóicos. ou seja, só conhece aquilo que é indispensável ao
estudante. Opõe o hedonismo epicurista à ataraxia dos estóicos
e dos cépticos, sem saber que também se encontra essa atara-
xia em Epicuro. subordinada ao hedonismo. o que deita abaixo
toda essa antitese. Diz-nos que os epicuristas «se limitavam
a ensinar uma diferente atitude para com o mundo», dife-

1 Por abuso de -palavras.


2 Em francês no original..
• •No brahmani.smo, esta. palavra ritual, que se acredita
ter wna. misteriosa força mágica, é empregue no tnf clo e no
final das preces.

16S
rente da dos estóicos; seria interessante que o autor nos
mostrasse um filósofo (não estóico) da «antiguidade e do
mundo moderno> que não e.se limitasse» a faz.er isso! Para
terminar. São Max dá-nos a conhecer uma nova máxima
epicurista: «É necessário enganar o mundo pois ele é meu
inimigo>. Até agora. apenas sabíamos que os epicuristas
tinham dito ser necessário desenganar o mundo. livrá-lo do
medo aos deuses. pois ele é meu amigo.
Talvez o nosso santo homem tenha uma vaga ideia dos
fundamentos reais da filosofia de Epicuro; de facto. é neste
que se encontra pela primeira vez a ideia de uma convenção
ligando reciprocamente os homens. de um contrai social 1
(uuvtfr,x->1) 2 • e servindo de fundamento ao Estado.
Os esclarecim.e ntos de São Max a propósito dos cépticos
não saem desta rotina, como o prova a sua conclusão de que
a filosofia céptica é mais radical do que a de Epicuro. Os
cépticos resumiam a relação teórica entre os homens e o
mundo à sua aparência ilusória e eram, na prática. conser-
vadores, pois regulavam as suas acções por esta aparência
da mesma forma que outros as regulam pela realidade. Ape-
nas davam um outro nome à coisa. Quanto a Epicuro. foi
pelo contrário. na antiguidade. o único adepto radical das
Luzes; atacou abertamente a religião antiga e esteve na ori-
gem do ateísmo em Roma tanto quanto este existiu. ~ por
esta razão que Lucrécio o considera como o prilneiro herói
que, segundo diz. tirou os deuses do seu pedestal e espezi-
nhou a religião; também por essa raz.ão, todos os Padres
da Igreja. desde Plutarco até Lutero. consideram-no como
-filósofo ateu par excellence •, como um porco. o que leva
Clemente de Alexandria a afirmar que São Paulo, nos seus
ataques contra a filosofi~ apenas visava a filosofia de Epi-
curo (stromatum lib. 1. [cap. XI], pág. 295 da edição de
Colónia de 1688 •. Já podemos avaliar «a espertez.a, a hipo•

1 Em francês no original. 00fl.trato aodal.


2 Contrato.
a Em francês no original. Por excel~.
, Consultar Olementi.a Ale~andnn, opera graece et iaune
quae existant.

166
crisia> e «a prudência> que este ateu declarado manilestava
na sua atitude para com o mundo. deste filósofo que atacava
sem rodeios a religião do seu tempo enquanto que os estóicos
apenas tentavam adaptar às suas conveniências, no plano
filosófico. a velha religião. e os cépticos se serviam da «apa•
rência ilusória» c.omo pretexto para não emitir qualquer
opinião sem a acompanhar de alguma reservatio mentalis 1
Segundo Stimer,. o pensamento estóico acabou por ser
«desprezado» enquanto que o de Epicuro alcançou «a
mesma sabedoria prática dos estóicos» (pág. 32): quanto ao
dos cépticos. «deixou estar o mundo e não se preocupou com
ele». Logo, e de acordo com Stirner, estas três filosofias
conduzem à indiferença pelo mundo, ào «desprezo pelo
mundo» (pág. 485). Já Hegel o dissera muito antes nos se-
guintes termos: o estoicismo, cepticismo e epicurismo «visa•
vam portanto tomar o espírito indiferente a tudo o que a
realidade nos oferece» (Phil[osophie] d[er] Gesch[ichte},
pág. 327).
cÉ claro que os Antigos tinham ideias». afirma São Max
resumindo a sua crítica da filosofia antiga. «mas ignoravam
a ideiQl> (pág. 30). Acerca disto,. «convém recordar o que
antes dissemos sobre a criança> (ibid.). A história da filosofia
antiga deve acomodar-se aos esquemas de Stirner. Para que
os Gregos não saiam do seu papel de crianças, não convém
que Aristóteles tenha vivido e que nele se encontrem as
noções de pensamento em si e para si(~ v677cnr ~xa8 a'u~vr),
de razão que se pensa a si mesma ( Aú-r6v Si: voEi lwouç)
ou de pensamento que se pensa a si mesmo (~ v671aLç- 'T*
"º~ª' wç ). De um modo geral, nem a sua metafísica nem
o terceiro livro da sua psicologia têm direito à existência.
São Max recorda aqui caquilo que foi dito mais atrás
dos Nossos anos de infãnciu; mas também poderia ter dito:
veja-se mais à frente o que será dito dos Antigos e dos Negros
e o que não será dito de Aristóteles!
Para apreciar correctamente o verdadeiro significado
da filosofia antiga na época de desagregação da antiguidade.

1 Beatriç&o mental..

167
basta.ria a Jacques le bonhomme 1 examinar a situação real
criada aos seus adeptos sob o domínio romano. Poderia ter
encontrado uma descrição detalhada em Luciano, entre
outros. Descobriria que o povo considerava os filósofos como
palhaços públicos e que os capitalistas romanos, os cônsu-
les. etc., os contratavam como bobos de corte encarregados
de divertir os senhores e os seus convidados com divertidas
frases sobre a ataraxia. a afasi~ o hedonismo, etc., depois de
disputar -aos escravos alguns ossos e migalhas de .pão da
mesa do festim e de beberem de um vinho picante que lhes
era reservado.
Aliás, se os propósitos do nosso bravo homem consistiam
em reduzir a história da antiguidade à história da filosofia
antig~ é evidente que deveria ter considerado os neo-plató-
nicos como a consequência e o fim dos estóicos, epicuristas
e cépticos pois a sua filosofia é apenas uma fantástica com-
binação de elementos dessas filosofias e do conteúdo das
filosofias de Platão e de Aristóteles. Mas em vez disso con-
sidera que ~tas doutrinas foram absorvidas directamente
pelo cristianismo, no qual se teriam dissolvido i_
cStirner> não «ultrapassou» a filosofia grega; seria
melhor dizer que foi esta a ultrapassá-lo {Cf. Wig[and],
pág. 186). Em vez de nos dizer de que forma a «antigui-
dade» chegou a um cmundo das coisas», assim «terminando•
a sua existência. o nosso profes.5or ignorante fá-la desapare-
cer muito docemente na paz eterna graças a uma citação de
Timon; o que permite à antiguidade calcançar os seus fioS>
de um modo tanto mais natural quanto é verdade estarem

1 Em francês no original.
2 [Passagem cortada no manuscrito original:] Stirner
deveria mostrar-nos a forma como a civilização grega continuou
a exlsUr durante muito tem-po, mesmo depois da desagregação
do mundo grego; como, paralelamente, os Romanos constitulram.
o seu domlnlo mundial e qual fol concretamente o seu papel;
como se desenvolveu a clvlllzação romana e como ca.lu em deca-
dência, Poderia dizer-nos, enf lm. de que modo pereceram as
an Ugas civilizações grega e romana, destruldas no plano das
tdela..s pelo crlstJanismo e no plano das realidades materlals pelas
grandes invasões.

168
os Antigos. segundo São Max, ccolocados, pela naJureza>.
na «comunidade» antiga, coisa «bastante evidente» - ce será
esta a nossa conclusão» - se se der a esta comunidade o
nome de família etc.• enfim, daquilo a que se chama creia ..
ções naturais» (pág. 33). É a natureza que cria co mundo
das coisas> da antiguidade, e foram Timon e Pilatos (pág. 32)
que o destruíram. Em vez de nos descrever «este mundo das
coisau que serve de base material ao cristianismo, extingue-o
e engloba-o no mundo do espírito. no cristianismo ...
Os filósofos alemães têm o hábito de opor a antiguidade.
a época do realismo, ao idealismo da era cristã e moderna
enquanto que os economistas. os historiadores e os estudiosos
franceses e ingleses concebem a antiguidade como período
do idealismo opondo-o ao materialismo e ao em pi rismo da
época moderna. Também se poderia diz.er que a antiguidade
foi idealista no sentido de que os Antigos, na história. incar-
nam o «citoye1Jl> 1 , o homem político idealista.__enquanto
que os modernos tendem em última instância para o «bour-
geoin 2 • para esse realista que é o ami du commerce s. mas
também se poderia qualificá-la de realista na medida em
que_ para os Antigos, a comunidade era uma «verdade:&
enquanto que. para os modernos, é apenas uma «mentira»
idealista. Tudo isto prova o pouco interesse que apresentam
todas estas oposições e estes esquemas históricos abstractos.
A cúnicu coisa que nos é ensinada -por esta análise dos
Antigos é que Stimer apesar de csaber» poucas ccoisas» do
mundo antigo. não deixa por isso de no-las «esclarecer»
melhor (cf. Wigand. pág. 191)...
Stirner é de facto aquele «rapazinho• que corresponde
às previsões de São João no Apxalipse, 12, S: cEle apas-
centará todos os pagãos com o seu cajado de bronze». Vi-
mo-lo debruçar-se sobre os pobres pagãos com o aguilhão
de bronze da sua ignorância. E os cmodemos» não vão ser
melhor tratados.

1 Em francês DO original Cidadão.


2 Em francês no original Burgv,&,.
• Em francês DO original Amjgo ido com61-do.

169
4. Os modernos

cDe modo que se alguém está em Cristo, é uma


nova criatura: morreu o homem velho e tudo se
renovolD (2. Cor{íntios] 5, 17) (pág. 33).

Graças a este versículo da Bíbli~ o mundo antigo con-


verte-se num mundo ultrapassado ou. como diria São Max,
cjá não existe>; e assim se transpõe. de um único salto, a
barreira que separa esse mundo antigo do mundo novo.
cristão, juvenil_ mongólico. do «mundo do espírito». Mundo
este que, aliás_ veremos também «desvanecer-se» rapida-
mente.

«Assim como dissemos: «O mundo era uma ver-


dade para os Antigos», -também agora diremos:
«O espírito era uma verdade para os modernos»;
mas não nos devemos esquecer. tanto nesta frase
como na anterior, de acrescentar o seguinte: «uma
frase de que procuraram descobrir o erro. o qual
descobriram realmente» (pág. 3).

Se não desejarmos nós próprios fabricar esquemas à


Stimer., «deveremos dizem: ,para os modernos. a verdade era
um espíóto: o Espírito Santo. Aqui ainda. Jacques Ie bo--
nhomme 1 não apreende os modernos nas suas relações his-
tóricas reais com o «mundo das coisas» que, apesar de
envelhecer., continua a existir, mas sim no seu comporta-
mento religioso. A história da Idade Média e dos tempos
modernos também só terá uma existência para ele enquanto
história da religião e da filosofia; admite confiadamente as
existentes nessa época. assim como as ilusões dos filósofos
acerca dessas ilusões. Dado que São Max orientou a história
dos modernos no mesmo sentido que a dos Antigos., nada
o impede de aí «demonstrar a mesma evolução que existe
na antiguidade> e de passar da religião cristã para a filosofia

1 Em francês no orlgtna.l.

170
alemã com a mesma rapidez com que passara da filosofia
antiga para essa mesma religião cristã. Ele próprio caracte-
riz.a as suas ilusões históricas (pág. 37) ao fazer a seguinte
descoberta: «A única coisa que nos é revelada pelos Antigos
é uma sabedoria», enquanto que cos modernos nunca ultra-
passaram· a teologiCD>, e ao perguntar solenemente: «Então,
que procuravam os modernos descobrir?». Tanto os Antigos
como os modernos não têm mais nada que fazer na história
senão «procurar descobrir qualquer coisa>; os primeiros, «o
mundo das coisas». e os ~undos, «o mundo do espírito».
Os Antigos acabavam por «perder o mundo». e os modernos
por «perder o espírito:.t; os Antigos queriam tornar-se idea-
listas, os modernos realistas (pág. 485). A sua única preo-
cupação era o divino (pág. 488); «toda a história anterior>
é apenas «história do homem espiritual» (que ilusão!) (pág.
442). Enfim. encontramos aqui a criança e o adolescente,
o Negro e o Mongol, etc.• toda a sempre eterna terminologia
das «diferentes metamorfoses».
Este desenvolvimento retoma fielmente o método da.
dedução que consiste em fazer das crianças os geradores dos
pais e o hoje a causa dos tempos passados. É necessário
que os Cristãos «procurem imediatamente descobrir o erro
da sua verdade». é necessário que se transfonnem imedia•
tamente em ateus e críticos camuflados. como já nos era
sugerido a propósito dos Antigos..
Mas como isto não lhe bastava, São Max fornece-nos
ainda um exemplo suplementar e brilhante do seu «virtuo-
sismo de pensamento» (especulativo) (pág. 230):

cAgora que o liberalismo proclamou o homem,


pode-se dizer: este resultado é tão-somente a última
realização do cristianismo; e desde a origem que
o cristianismo se propõe apenas como missão a de
realizar ... o homem.»

Se se começa por pretender que o cristianismo alcançou


a sua realização máxim~ pode-cse> evidentemente enunciar
que ele a realizou. A partir do momento em que os homens
de hoje refazem o seu passado, «pode-se dizer», que as gera-
ções precedentes, cdesde a origem». isto é. ena verdade»,

171
na sua essência. no céu, enquanto Judeus camuflados, cs6
tiveram como missão• serem refeitas pelas gerações que se
lhes seguiram. Para Jacques le bonhomme 1. o cristianismo
é o sujeito que se coloca a si mesmo, o espírito absoluto
que. cdesde a origem», considera o seu fim último como
sendo o seu início. (Cf. Enciclf.opédia] de Hegel, etc.).

cDaqui» (do facto de ser •possível atribuir ao


cristianismo esta missão imaginária) «surge a ilusão»
(naturalmente. antes de Feuerbach. não se podia
saber qual a missão que o cristianismo «se propusera
a si mesmo desde a origem») «de que o cristia-
nismo atribui ao Eu um valor infinito, como parece
deduzir-se da doutrina da imortalidade e do cuidado
que toma com a salvação das almas. Não! Apenas
atribui este valor ao homem, só este é imortal, e é
somente ,por Eu ser homem que o sou também.»

Todo o csiuema de Stimer e a sua forma de colocar


os problemas nos provam já suficientemente que o cristia..
nismo não podia conferir a imortalidade senão «ao homem•
de Feuerbach. Mas eis que aprendemos ainda que tal acon-
tece, se assim é. pelo facto de o cristianismo não atribuir
também esta imortalidade... aos animais.
Tentemos raciocinar à la 2 São Max.
«Agora que» a grande propriedade fundiária moderna
saída da parcelarização da terra «proclamou» praticamente
, o direito de primogenitura, «pode-se dizer» que este resul-
tado cé apenas a realização última» da parce]arização, «na
verdade, e desde a origem~nca se propôs outra tarefa que
não fosse a de realix.an 9. d.iréito de primogenitura, o direito
de primogenitura verdadeiro. «Daqui surge a ilusão• de que
a parcelarização «atribui wn valor infinito» aos direitos iguais
de todos os membros da familia «como parece deduz.i,..se,
por exemplo•. do direito de sucessão do Code N apoléon ª •.

1. Em francês no original.
2 • a Em :francês no orlg1.na.l.
• Código d6 Napoleão.

172
cNão! Apenas atribui este val~ ao filho mais velho; «ape-
nas> este. o futuro proprietário por direito de primogenitura,
se toma grande proprietário de terras. e é csomenJe por Eu
~ filho mais velho cque Eu serei• proprietário de terras.
Segundo este processo, toma-se infinitamente fácil dar
à história .orientações cúnicas>. Basta descrever o seu último
resultado e considerá-lo como sendo «a tarefa que ela na
verdade se propusera desde a origem». As épocas anteriores
apresentam-se então sob uma forma bizarra e inédita. Isto
é coisa que impressiona e que não custa caro. Poder-se-ia
dizer, por exemplo: a «tarefa> verdadeira que o sistema da
propriedade fundiária se «propôs:, desde a origem foi substi-
tuir os homens por carneiros, consequência que só ultima-
mente foi possível constatar na Escócia. etc.; ou ainda que
o aparecimento dos Capetos «se propôs verdadeiramente
a tarefa> de conduzir Luís XVI ao cadafalso e o Senhor
Guizot a um gabinete ministerial E, sobretudo, não convirá
esquecer que estes aforismos devem ser enunciados com ·um
tom solene. sagrado. sacerdotal: faz-se uma profunda inspi-
ração e, depois, atira-se bruscamente: «Agora, finalmente.
agora pode-se dizer-vos».
As palavras de São Max acerca dos modernos, neste
c.apítulo (págs. 33-37), constituem um mero prólogo à bis--
tório dos espíritos que vai ser necessário abordar daqui a
pouco. Vemos novamente aqui que o autor não se sabe
«desembaraçar> a tempo dos factos empíricos e que retoma
as mesm.as categorias dos Antigos: inJeligênci~ coração,
espírito. etc.• se bem que os baptize sob outros nomes. Quanto
aos sofistas. considera em particular os sofistas escolásticos..
os chUIJ1anistas, o maquiaveli&no (a imprensa. o Novo
Mundo)», (ver Hegel, História da Filosofia, Ili. pág. 128)..
os quais representam a inteligência; Sócrates é transformado
em Lutero que proclama o reino do coração (Hegel, ibidem,
pág. 227); e o sentido da época que se segue à Reforma será
ca sentime1:1taJidade> (que. nos Antigos, tinha o nome de
cpurei.a de coração», ver Hegel, ibidem pág. 241 ). Tudo isto
na página 34. ~ deste modo que São Max c(\emonstra a
c:xistência no cristianismo de uma evolução seme.l hante à da
antiguidadQ. Depois de Lutero nem sequer se preocupa em
dar um nome a estas categorias; as suas botas de sete léguas

173
conduzem-no a galope para a filosofia alemã moderna. Qua-
tro acréscimos (caté ao momento em que apenas subsistem
a sentimentalidade vazia, a filantropia na sua forma genérica.
o amor ao Homem, a consciência da liberdade, a consciência
de si> (pág. 34; cf. Hegel, ibidem, págs. 228-9). quatro pala-
vras bastam para preencher todo o abismo que separa Lutero
de Hegel cconsumando-se assim o cristianismo». Uma frase
magistral que comporta alavancas como «finalmente». «e
desde então•. «enquanto que se», «do mesmo modo», <<de
dia para dia>, caté ao momento em que finalmente», basta
para definir toda aquela evolução. O leitor poderá reportar-se
a esta página 34 para nela ler esta frase.
Para acabar em beleza, São Max dá-nos ainda alguns
exemplos da sua fé. Começa por não se preocupar com o
Evangelho quando afirma que «apenas nós constituímos
reaJroente o espírito» e. sem querer contradizer-se, diz que
no fim do mundo antigo, «o espírito. ao fim de grandes
esforços desembaraçou-se» realmente «do mundo». Depois
revela-nos. uma vez mais. o segredo das suas construções
especulativas ao dizer que o espírito cristão continua a ali-
mentar cprojectos com vista a tornar o mundo melhor. a
salvá-lo do mesmo modo que se alimentam os adolescentes».
Tudo isto consta ainda da pág. 36.
cE ele transportou-se em espírito para o deserto.
E eu vi a mulher sentada numa besta de cor escar-
late, coberta de nomes blasfematórios. Na sua
fronte tinha um nome escrito. um nome misterioso.
Babilónia a grande. . . e vi essa mulher ébria com
o sangue dos santos.• (Apocalipse segundo São
João. 17, V, 3, S, 6).
Definitivamente. a previsão de São João era inexacta.
Agora que Stimer proclamou finalmente o homem. pode~se
dizer que aquele deveria ter formulado assim a sua profecia:
E ele transportou-Me para o deserto do espírito. E Eu vi
esse homem sentado num animal de cor escarlate que estava
cheio da blasfém.ia dos nomes . . . E na sua fronte estava
escrito este nome: o mistério, o único ... E vi esse homem
ébrio com o sangue do santo, etc.
Portanto, caímos agora no deserto do espfrito.

174
A) O ESPIRITO (PURA IIlSTôRIA DE ESPtRITOS)

A primeira coisa que aprendemos a propósito do «espf..


rito• é que não é o espírito mas sim o creino dos espíritos
que é imensamente grande». A única coisa que São Max nos
sabe dizer imediatamente é que existe «um reino dos espí•
ritos imensamente grande»; aliás., note-se que pouco mais
conhecia da Idade Média que, como sabemos, foi «um longo
período•. Depois de ter afirmado a existência desse «reino
dos espíritos», passa à demonstração dessa existênci~ para o
que utiliza as seguintes dez teses:

1. O espirito só é um espírito livre enquanto se não


ocupa apenas de si mesmo., enquanto «não tem
como único interesse» o seu mundo, o «mundo espí-
ritual» ... (primeiro ele próprio, depois o seu mundo);
2. «S6 pode ser um espírito livre num mundo que lhe
é próprio»; ·
3. e.O espírito só é realmente espírito através da me-
diação de um mundo espiritual»;
4. cO espírito não é ainda espirita enquanto não tiver
criado o seu mundo de espíritos»;
S. e:São as suas próprias criações que fazem o espírito;
6. «As suas criações são o seu mundo:&;
7. «O espírito é o criador de um mundo espiritual>;
8. cO espírito só é espírito ao criar o espiritual»;
9. cO espírito só é real quando se une com o espiritual
,por ele próprio criado»;
10. «Ora, as obras, ou criações do espirita, não são mais
do que ... espiritos.» (págs. 38·9).

Desde a primeira tese, pressupõe-se uma vt2 mais a exis-


tência de um «mundo espiritual» em vez de a demonstrar; as
teses 2 a 9 apenas retomam a primeira em oito versões dife•
rentes. Depois da nona tese, não estamos mais avançados do
que após a primeira; então, bruscamente, o «ora» da décima
tese introduz «os espíritos» de quem até agora nada se tinha
dito.

17S
«Dado que o ~pírito s6 existe como criador do espi-
ritual_ procuremos então as suas primeiras criações.J>
(pág. 41).

De acordo com as teses 3. 4, 5. 8 e 9. o espírito é a sua


própria criação: vejamos agora um novo modo de o formular.
O espirito, isto é. a .primeira criação do espírito.

cs6 pode sair do nada> ... «é necessário que se crie


em primeiro lugar a si mesmo» ... «a sua primeira
criação é ele próprio, o espírito:,. (ibid.) «Uma vez
realizada esta criação, segue-se uma sequência na-
tural de criações, do mesmo modo que, segundo o
mito, só foi necessário criar os primeiros homens,
pois as gerações seguintes reproduziram•se por si
mesmas.> (ibid)
«Por muito místico que isto nos possa parecer
trata-se de um facto que encontramos na nossa vida
quotidiana. Serás Tu próprio um ser pensante antes
de pensar? ~ ao criar o Teu primeiro pensamento
que Te crias a Ti mesmo como ser pensante. pois
não pensas antes de pensar um pensamento. quer
dizer>-quer dizer - «antes de ter esse pensa-
mento. Não será exactamente o Teu canto que faz
de Ti um cantor e as Tuas palavras que fazem de
Ti um homem falante? Do mesmo modo. é apenas
a substância espiritual que Tu produz.es que faz de
Ti um espírito.>

O nosso santo escamoteador começa por afirmar que o


espírito produz o espiritual, deduzindo depois que aquele se
produz a si mesmo enquanto espírito; e por outro lado dá-o
como espírito para o poder conduzir a criações espirituais
(que csegundo o mito se reproduzem por si próprias» e se
tomam espíritos). Em tudo isto. apenas encontramos a fraseo-
logia bem oonhecida da ortodoxia hegeliana. O desenvolvi-
mento verdadeiramente cúnico» daquilo que São Max pre-
tende dizer s6 começa no exemplo que o autor nos dá. Com

176
efeito. quando Jacques le bonhomme 1 não pode avançar
quando o cse• e o «isso> deixarem de ter força para empurrar
o barco. «Stimer> pede a ajuda do seu terceiro servo. o cTUJ>.
Este último não deixará de o ajudar. pode-se até confiar nele
nas situações mais desesperadas. Este «Tu» é um indivíduo
que já encontrámos em qualquer sítio. servidor dócil e fiel que.
como o pudemos constatar. já soube sair de todos os transes
difíceis. é um operário da vinha do Senhor a quem nada
assusta... numa palavra, trata-se de Szeliga 2 • Quando «Stir-
ner> se encontra nas ,passagens mais terríveis dos seus racio-
cínios. grita: Szeliga, socorro! e este. qual fiel Eckart ', acorre
imediatamente para dar um empurrão e tirar o carro da lama.
Teremos ainda muito que dizer das relações entre São Max e
Szeliga.
Estamos portanto a tratar com o espírito que se cria
a si mesmo a partir do nada, isto é. com o nada que de nada,
se transforma em espírito - eis a forma como São Max pro-
cede à criação do espírito de Szeliga. a partir de Szeliga. Aliás,
a quem poderia c:Stimer» pedir que se substituísse ao nada
senão a Szeliga? Qu~ além de Szeliga, já infinitamente
satisfeito por Jhe permitirem ter um papel activo, apesar de
muito pequeno. deixaria que lhe impusessem ~ta escamotea-
ção? Em ve:z. de provar que um determinado «Tu», o Srelig~
se toma ser .pensante. falante ou cantante quando se põe a
pensar a falar ou a cantar., São Max deveria antes provar que
o pensador cria-se a partir do nada quando começa a pensar
que o cantor se cria a partir do nada quando começa a cantar,
etc. Aliás., será antes o pensamento e o canto., enquanto su-
jeitos, que se criam a partir do nada. e nunca o próprio pen-
sador ou o cantor. Se assim não fo~. Stimer apenas faria
uma observação demasiadamente simples» e faria uma afir-
mação cmuito triviab (cf. Wigand pág. 156) ao diz.er que
Szeliga desenvolve uma das suas propriedades ao desenvol-
vê--la Certamente que não «provoca a no~ admiração» o ver

1 Em fM.D.Cês no original.
z Consultar «A Sagra.da Familia> ou <Critica da Critica.
critica>. do mesmo autor.
• Herói de lendas medievais alemãs.

u
177
São Max não cfa:reo correctamente «observações muito sim-
ples deste género» e ainda exprimi-las de forma errada com
o intuito de provar. servindo-se da lógica mais falsa deste
mundo. uma proposição mais falsa ainda.
Seria então eu, por exemplo como ser «falante», que me
criaria ca partir do nada»? O nada que aqui serve de base
é algo bastante diversificado: o indivíduo real, os órgãos da
palavr~ um estádio determinado do desenvolvimento físico,
a língua e os dialectos existentes, um meio humano que
emite sons perceptíveis. etc. No desenvolvimento de uma
qualquer qualidade, qualquer coisa se cria portanto a partir
de qualquer coisa e por qualquer coisa; ao contrário do que
acontece na lógica hegeliana,, não se passa do nada para o
nada atrav~ do nada.
Agora que São Max tem o seu fiel Szeliga à mão, o
périplo recomeça alegremente. Veremos como. utilizando-se
do seu «Tu». o autor retransforma o espírito em adolescente,
da mesma forma que antes metamorfoseara o adolescente em
espirita. Reencontraremos aqui toda a história do adolescente.
quase literalmente. apenas disfarçada com algumas pequenas
modificações- do mesmo modo que o «imenso império dos
espíritos» da página 37 se resumia afinal ao «reino do espí-
rito» que o espírito do adolescente «se propunha> (pág. 17)
fundar e desenvolver.

cDo mesmo modo Ql!C Tu Te distingues do ser pen-


sante. cantante., falante. também existe uma diferença
igualmente grande entre Ti e o espírito: Tu próprio
sentes bastante bem que és algo diferente do espírito.
Mas. assim como o entusiasmo do pensar facilmente
leva o Eu pensante a perder o uso do ouvido e da
vista. também o entusiasmo espiritual Te controla a
Ti mesmo e Te leva daí em diante a desejar com
todas as Tuas forças que Te transformes em espí-
rito e que Te confundas com ele. O espírito é o Teu
ideal. o objectivo não atingido, a transcendência: o
Teu... Deus chama-se espírito, «Deus é espírito• ...
Tu vences-Te a Ti mesmo, pois Tu não podes des-
fazer-Te daquilo que existe em Ti de não espiritual.
Fm vez de dizer: Sou mais do que espírito, Tu dizes,

178
com contrição: Sou menos do que espírito, e o espí-
rito. o espirito puro, o espírito que é apenas espírito,
.p ode ser concebido por Mim. mas Eu próprio não o
sou; e dado que Eu não o sou, um outro o é; existe
como outro. e é a esse outro que Eu chamo «Deus».

Jã antes nos ocupámos do esforço necessário para con-


seguir tirar qualquer coisa do nada. Mas eis que nos encon-
tramos bruscamente, e da forma mais «natura)>. em presença
de um indivíduo que é diferente do espírito, que é portanto
qualquer coisa,. e que se pretende transformar em espírito
puro, ou sej~ em nada. Ao mesmo tempo que este problema
se toma muito mais fácil de resolver (fazer nada a partir de
alguma coisa), retomamos imediatamente toda a história do
adolescente «que deve começar por procurar o espírito reali-
zado» e, uma vez mais, bastar-nos-á referir novamente as
velhas frases das páginas 17 e 18 para estar ao abrigo de toda
a dificuldade, sobretudo quando se tem um servidor tão obe-
diente e tão crédulo como Szeliga: não chega mesmo a dei-
xar-se convencer por «Stirner» de que, tal como «o entusias-
mo do .pensamento lhe faz fac!lmente» (!) perder, a ele, «Stir-
neo, «o uso do ouvido e da vista>. também «o entusiasmo
espiritual toma conta dele». Szeliga.. ficando este a «desejar
agora. com todas as suas forças, transformar-se em espírito»,
em vez de desejar ter espírito. Significa isto que Stirner o faz
repr~ntar o papel do adolesc.ente da página 18; Szeliga
acredita em tudo e, tremendo de medo, obedece. Obedece
quando São Max lhe diz com uma voz de estentor: o espí-
rito é o Teu ideal, o Teu Deus. Tu vais fazer isto. vais fazer
aquilo. cTu encarniças-Te», agora «Tu dizes», depois «Tu
podes conceber>, etc. Quando cStimeo lhe faz crer que «o
espfrito puro é um outro, dado que não é ele» (S:zeliga).
somente este pode acreditar e repetir como um papagaio todos
estes absurdos sem lhes mudar sequer uma palavra. Quanto
ao método utilizado por / acques le bonhomme 1 para amon-
toar estes absurdos. já o a.Dalisároos em detalhe a propósito

1 Em francês no original

179
do adolescente. Como Tu sentes bastante bem que Tu és
diferente de um matemático. Tu desejas transformar-Te em
matemático. fundires-Te nas matemáticas; o Teu ideal é ser
matemático. O Teu ... Deus chama-se matemático... e Tu
diU"S., todo rontrito: Eu sou menos do que mat.emático; só
posso concebê-lo e. como não o sou, é •portanto um outro
que o ~ o maremá.tico existe enquanto outro e é a esse outro
que Eu chamo e.Deus». Qualquer outra peswa que não Szeliga
diria: Arago 1 •
«Agora que• nós demonstrámos «finalmente> que a frase
de Stimer é apenas a repetição do «adolescente~ «pode-se
dizer> que «na verdade. e desde a origem, ele só se propôs
romo mi~o> identificar o espírito do aSJ:.etismo cristão com
o espírito propriamente dito. e a alacridade espiritual e frí-
vola do século XVIll, por exemplo. com o nada espiritual do
cristianismo.
Contrariamente ao que pretende Stirner. não é portanto
o facto de co Eu e o espírito serem duas coisas distintas
designadas por nomes diferentes, tais que o Eu não é o espí-
rito e o espírito não é o Eu» (pág. 42). que explica o facto
de o espírito residir no .para além. isto é, de ser Deus. A ver-
dadeira explicação dessa ideia reside no «entusiasmo espiri-
tual> que Stimer atribui sem quaisquer razões a Szeliga. Este
«entusiasmo» faz dele wn asce~ isto é, alguém que pretende
transformar-se em Deus (espírito puro); e. como tal coisa é
impossível. coloca Deus exteriormente a si mesmo. Mas o
objectivo não seria mostrar como o espírito se cria a si mes-
mo a partir do nada, e em seguida cria espíritos a partir de
, si próprios? Em vez disto, é agora Szeliga que produz Deus
(o único espirito de que aqui se trata). e fá-lo não por ele.
Szeliga, ser o Espfrito. mas por ser Szeliga, isto é. espírito
inacabado, espírito não espiritual. portanto não espírito.
Quanto à origem da ideia cristã do espírito concebido como
Deus., São Max não diz nem uma palavra. Se bem que, no
ponto a que chegou. a eXiplicação dessa origem já nem sequer

1 Dom.inlque--François Arago: astrónomo, tl.sko e mate-


mAtlco francês que -v iveu de 1786 a a.853.

180
constitua uma grande façanha, limita-se a aceitar a existência
prévia .desta representação.
A história da criação do espírito, ena verdade, só se
propõe, desde a origem, outra missão>. atirar o estômago
de Stirner para as estrelas:

~ precisamente por Nós É preásamente por Nós


não sermos o espírito que Nos não sermos o estômago que
habita que fomos forçados Nos habita que fomos for-
çados
a considerá-lo fora de Nós~ ele não era Nós, e foi por isso
que não pudemos pensar a sua existência senão fora de Nós.
para além de Nós, no além.» (pág. 43 ).

O problema consistia em demonstrar como o espírito


começa por se criar a si mesmo e cria em seguida, a p_a.rtir
de si mesmo, qualquer coisa que é diferente dele. Tratava-se
portanto de saber que outra coisa era essa. Esta questão per-
manece sem resposta; Stirner dá-lhe tantas voltas que depois
de «todos os tipos de metamorfoseg e contorsões que aca-
bamos de presenciar, a questão transforma-se nesta outra: cO
~írito constitui um outro diferente de Mím. Mas que outro
é esse?» (pág. 45).
Agora. a questão coloca-se portanto assim: o que é o
espirito que eu não seja? Enquanto que a ,p ergunta inicial
era: o que é que. dada a sua criação a partir do nada. o
espírito é que ele próprio não seja? E é assim que São Max
consegue passar à cmetamorfose> seguinte.

B) OS POSSESSOS (lllSTôRIA IMPURA


DOS ESPlRITOS)

Inconscientemente, São Max apenas nos deu até agora


um método prático para ver fantasmas. Não foi. ele mesmo
que concebeu o mundo antigo e o mundo moderno como
«simulacro corporal de um espírito>, fenómeno fantasmagó-
rico onde apenas viu lutas entre espíritos? Mas eis que nos

181
dá agora, conscientemente e ex professo 1 • um método para
ver fantasmas.
Método para ver os espíritos: transformar-se primeira-
mente em pobre diabo arqui-estúpido. ou seja, transformar-se
em Szeliga; depois, falar consigo mesmo exactamente como
São Max fala a Szeliga: «Contempla o mwido que Te rodeia,
e diz Tu mesmo se não sentes por todo o lado um espírito
que Te olha!» Quando se começa a imaginar tal coisa. os
espíritos acorrem «facilmente» por si mesmos: na «floo só
se vê o ccriadoo, nas montanhas um «espírito do sublime~.
na água «um espírito da inquietação nostálgica» (a menos
que seja a nostalgia do espírito), e ouvem-se «nos seres huma-
nos as vo:zes de milhões de espíritos que vos falam». Chegado
a este estado, pode-se gritar com Stirner: «Sim, o mundo
inteiro é povoado por fantasmas.» Então, «é muito fácil ir
mais longe» (pág. 93), e exclamar: «Apenas povoado? Não,
o próprio mundo é um espectro.» (deve-se direr sim, sim ou
não, não, e nada mais. Quaisquer outras considerações serão
desnecessárias. constituirão meras transições lógicas ... ). «~
um espectro, pois é apenas constittúdo pelas diversas mani ..
festações de um mesmo espírito». Depois disto. «olha> sem
medo «à Tua volta ou fixa o horizonte: rodeia-Te um mundo
de espectros ... Tu vês espíritos.» Podes ficar por aqui. se
fores um homem comum. Mas se julgas poderes-Te medir
com Szeliga,. podes também olhar para Ti mesmo. E então
«Tu não Te admirarás». chegado que foste ao cwne da Szeli-
galidade. de descobrir finalmente que «o Teu próprio espírito
é um espectro que habita o Teu corpo». que és Tu próprio
um fantasma «que espera impacientemente a sua redenção,
isto é. um espírito». Esta descoberta permitir•Te-á agora ver
«espíritos» e «fantasmas» em «todos os homens e, assim, a
visão dos espíritos terá «atingido o objectivo último que se
propunha» (págs. 46-7).
Poderá encontrar-se a base deste método em Hegel:
História da filosofia, IIL págs. 124-5 (entre outras). Mas é ai
expressa de forma muito mais correcta.

1 Neste caso: deliberadamente.

182
São Max tem uma tal confiança no seu .próprio método
que se coloca na pele de Szeliga para afirmar:

cDesde que o verbo se fe-i: carne. o mundo é espiri-


tualizado. rnágjco,. é um fantasma.> (pág. 47).

cStimeo nê espíritos».
São Max propõe-se fornecer-nos uma fenomenologia do
espírito cristão mas. de acordo com os seus hábitos. só consi-
dera um dos aspectos do problema. Para os cristãos. o mundo
não é apenas espiritualizado. mas também desespiritualizado,
como Hegel o reconhece muito justamente n~a mesma pas-
sagem; e o autor chega a relacionar mutuamente ambos os
aspectos. o que São Max também poderia fazer se estivesse
interessado em aplicar um método de análise histórica.
Face à desespiritualização do mundo .na consciência
cristã, os Antigos. que «viam deuses por todo o lado», podem
também ser considerados como promotores daquela espiri-
tualização. O nosso santo dialéctico recusa porém esta ideia.
exortando-nos com toda a sua bonomia: «Os deuses, meu
caro moderno, não são espíritos.» (pág. 47). Como bom crente
que é, Max só reconhece como espírito o Espírito SanJo.
Mesmo que nos conseguisse fornecer essa fenomenologia (que
aliás é supérflua segundo Hegel). ela não teria valor algum.
Com efeito,. uma concepção que se satisfaz com histórias de
espíritos de uma tal envergadura situa-se num plano religioso;
essa concepção atém~ à religião. considerada como uma
causa sui 1 (pois ca Consciência de si» e co Homem» são
ainda de natureza religiosa). em vez de a explicar a partir das
condições empfricas e de mostrar como certas relações indus-
triais e de trocas estão necessariamente ligadas a uma forma
de soc.iooade determinad~ portanto a uma certa forma de
Estado e. consequentemente. a uma forma determinada da
consciência religiosa. Se Stirner tivesse examinado a história
real da Idade Média. por pouco que fosse, teria podido ver
por que razões as concepções que os cristãos tinham na Idade

183
Média tom.aram justamente aquela forma. que foi depois
substituída por uma outra. Teria podido descobrir que não
existe wna história do «cristianismo» e que as diversas formas
que a sua concepção tomou nas diferentes épocas, longe de
constituírem outras tantas «autodeterminações» e «desenvol-
vimentoS> «do ~pírito religioso», tiveram por origem causas
empíricas que escapavam a qualquer influência do espírito
religioso.
Antes de entrar mais detalhadamente na visão dos espí-
ritos, e como os desenvolvimentos de Stirner mão são feitos
sobre o joelho• (pág. 45), .p odemos dizer desde jâ que as
diversas «metamorfoses» do homem de Stimer e do seu uni-
verso nada mais são do que a própria história universal mol-
dada à conveniência da filosofia hegeliana, a história universal
metamorfoseada em fantasmas que somente na aparência
constituem um «ser outro» das ideias do filósofo berlinense.
A Fenomenologia. essa bíblia hegeliana, «o Livro», começa
por fazer dos indivíduos «a consciência> e do mundo «o objec-
to»; isto reduz toda a diversidade da vida e da história a
diversas relações da «oonsciência» com «o objecto». Estas
diversas maneiras de ser são por sua vez reduzidas a três rela-
ções fundamentais: 1. Relação da consciência com o objecto
enquanto verdade ou com a verdade enquanto simples objecto
(por exemplo. consciência sensível, religião natural, filosofia
jônica. catolicismo, Estado autoritário). 2. Relação da cons-
ciênci~ considerada como o verdadeiro, com o objecto (inte-
ligência racional. religião espiritual, Sócrates, protestantismo,
Revolução francesa). 3. Relação verdadeira da consciência
'com a verdade enquanto objecto ou com o objecto enquanto
verdade (pensamento lógico. filosofia especulativ~ o espírito
para si). Hegel concebe assim a .primeira relação como Deus
pai. a segunda como o Cristo, a terceira como o Espírito
Santo, etc. Stimer jã utilizou estas figuras a propósito da
criança e do adolescente, dos Antigos e dos Modernos;
retoma-as depois para o catolicismo e o protestantismo, o
Negro e o Mongol, etc.; e agora adopta confiadamente esta
série de disfarces de uma mesma ideia considerando-os como
representando o mundo em face do qual lhe é Decessário,
a ele, «individuo dotado de corpo», valorizar-se e afirmar-se.

184
Segundo m~todo para ver espíritos: Como fazer do
mundo um fantasma da verdade e transformar..se a si mesmo
em ser canonizado ou fantam,ático? Diálogo entre São Max
e Szeliga. seu servidor (págs. 47-8).
São Max: cTu possuis espírito, pois Tu tens
pensamentos. Que são os Teus pensamentos?»
Szeliga: «Seres espirituais».
São Max: «Portanto não são coisas?»
S1.eliga: «Não; serão antes o espírito das coisas1'
o essencial em todas as coisas, o seu ser mais íntimo,
a sua . . . ideia.»
São Max: «Então. aquilo que Tu pensas não
é apenas o Teu pensamento?»
Szeliga: «Pelo contrário; é a maior realidade,
o único verdadeiro contido no mundo: é a própria
verdade. Basta que eu pense verdadeiramente -p _a ra
pensar a verdade. Posso enganar-me por--não -·saber
reconhecer a verdade; mas se a reconheço verda-
deiramente. o objecto do meu conhecimento é cer-
tamente a verdade.>
São Max: cEntão, Tu aspiras em todos os
momentos ao conhecimento da verdade?»
Szeliga: cA verdade é sagrada para mim ... Não
posso suprimir a verdade. Acredito nela. e é por
isw que a procuro. Não a podemos ultrapassar, .pois
é eterna. A verdade é sagrada. eterna; ela é o sa-
grado. o eterno.>
São Max (inebriado): «E Tu. que Te deixas
preencher por essa coisa sagrada, és santificado Tu
próprio!•

As.mn, quando Szeliga conhece verdadeiramente um


objecto, ~ objecto deixa de o ser para se transformar em
<Verdade». Primeira produção de fantasmas por atacado. Já
não se trata ·agora da percepção dos objectos. mas sim do
conhecimento da verdade; começa-se por conhecer verdadei-
ramente os objectos, o que se considera como sendo a verdade
do conhecimento e que depois se transforma em conheci-
mento da verdade. Estas manobras do santo levaram Szeliga

185
a engolir a concepção da verdade-fantasma! E eis agora que
o seu severo mestre o apoquenta., pondo-lhe este caso de
consciência: desejará ele a verdade «em todos os momentos»?
Ao que Szeliga, desconcertado. responde um pouco prema-
turamente o seguinte: a verdade é-me sagrada. Mas logo a
seguir apercebe-se do seu descuido, o que o leva a tentar
corrigi-lo. envergonhado, fazendo dos objectos verdades e não
mais a verdade; depois isola a verdade, que já não pode
suprimir, como verdade dessas verdades. diferenciando-a das
verdades isoladas. RCMtado: ela passa a ser «eterna». Mas
não contente por lhe ter acrescentado predicados tais como
«sagrada, eterna>, Szeliga transforma-a em sujeito: ela é o
sagrado, o eterno. E, agora. São Max pode evidentemente
explicar a Szeliga que depois de se ter deixado «preencher»
pelo sagrado. ele próprio «é santificado», e que «não se deve
admirarJ> de «apenas se considerar daí em diante como um
espectro». E o nosso santo começa imediatamente um sermão.
cOra o sagrado não existe para os Teus sentidos»; depois
do que. muito logicamente, acrescenta. utilizando um «e»:
«enquanto ser dotado de sensibilidade. Tu nunca sentirás
a sua presença>; tudo isto depois de os objectos sensíveis
terem sido volatilizados e substituídos pela «verdade». «a
verdade sagrada> - «o sagrado». «Pelo contrário» - é evi-
dente - «existe para a Tua faculdade de crer, ou mais
exactamente para o Teu espírito» (a Tua falta de espírito).
cpois é ele mesmo wn ser espiritual> (per appositionem 1).
cum espírito> (ainda per appositionem). «é espírito para o
espírito». ~ portanto esta a arte e a maneira de transformar
o mundo profano. os cobjectos» em «espírito para o espírito».
através de uma série aritmética de acréscimos. Por enquanto.
limitemo-nos a admirar este método dialéctico que procede
por acréscimos; mais tarde. teremos ocasião de o examinar
um pouco mais detalbarlamente e de o descrever em toda
a sua pureza clássica.
Este adro irável método admite algumas variantes - por
exemplo: depois de ter produzido «o sagrado». deixamos de

186
lhe acrescentar seja o que for e u.~mo-lo como acréscimo
a uma outra determinação. A série transforma-se num dos
termos de uma equação.
De acordo com este método, o «resíduo> de um qualquer
processo dialéctico, «o conc.erto de algo que me é estranho~.
de um outro a quem «Eu devo servir mais fielmente do que
a Mim próprio (per appositionem), «de um outro que para
Mim é necessariamente mais importante do que qualquer
outra coisa> (per appos.), cenfim, de algo onde Eu devo
procurar a Minha verdadeira salvação». torna-se aqui (último
acréscimo e retomada da primeira série) «algo de sagrado»
(pág. 48). Temos agora duas séries que são colocadas em
igualdade, o que vai permitir a elaboração de um grande
número de equações diferentes. Voltaremos a este assunto.
Graças a este método, co sagradoi>, que apenas nos fora
dado até agora sob a forma de uma determinação puramente
teórica. aplicada a relações puramente teóricas, recebe uni
significado prático totalmente novo: calgo onde Eu deveria
procurar a Minha verdadeira salvação»: o que permite fazer
do sagrado a antitese do egoísta.
Será necessário assinalar que todo este diálogo, a~im
como o sermão que se lhe segue. constitui uma mera reedição
daquela história de adolescentes já encontrada três ou quatro
v~s?
Chegados ao «egoísta>, vamos cortar o fio condutor do
pensamento de Stirner. Em primeiro lugar _porque se toma
necessário expor os seus esquemas em toda a sua pureza,
eliminando os intermezzi, e depois porque esses intermezzi
(por analogia com «le lazaroni> - em vez de lazzarone. cf.
Wig[an.d], pág. 159 - Sancho 1 diria: intermezzis) reapare-
cerão noutras passagens do Livro. Stimer, com efeito, muito
longe, segundo julga_ cde se concentrar sistematicamente em
si mesmo>. estende-se desabridamente no exterior. A~inale-
mos apenas que a pergunta da página 45 «quem é esse ser
diferente de Mim, esse ser que é o espírito?• encontra agora

1 •N ova designação e.IIJl)regue pelo autor a propósito de


Stimer.

187
uma re.5posta: esse ser é o sagrado. o que significa que é
exterior ao meu Eu; e. em virtude de alguns acréscimos não
expressos (diríamos: acréscimos «em-~» ... ). tudo quanto é
um outro de Mim mesmo é tido. sem mais considerandoo,
como espírito. O espírito, o sagrado.. o outro são represen-
tações idênticas. às quais declara guerra; e assim se repete
o que já antes acontecera a propósito do adolescente e do
homem. Não avaJW?roos portanto absolutamente nada desde
a página 20.

a) As aparições.

São Max preocupa-se agora seriamente com os «espí-


ritoS> que são dilhos do espírito» (pág 39). e com a natureza
fantasmática de todos os seres (pág. 47). Ou pelo menos assim
julga. Na realidade. apenas dá um novo nome à sua con-
cepção anterior da história segundo a qual os homens são,
a priori, os representantes de conceitos gerais. Estes conceitos
gerais começam por 6e apresentar aqui no estado «negro».
ou seja, enquanto espíritos objectivos, enquanto objectos para
os homens. chamando-se então fantasmas - ou aparições!
O fantasma principal é evidentemente o próprio «homem».
Com efeito. e de acordo com tudo o que precede, os homens
só existem uns -para os outros sob a forma de representantes
de uma generalidade, de uma essência, de um conceito, do
sagrado, do outro, do espirito. ou sej~ sob a fonna de seres
faDtasmagóricos, de fantasmas, Também já se sabe, de acordo
'com a Fenomenologia de Hegel (págs. 255 e segs.), o espírito.
quando toma para o homem «uma forma verificada>, surge
como_ um outro homem (ver mais adiante. acerca de «o
Homem»).
Os céus abrem-se-nos, deixando-nos ver desfilar os fan-
tasmas. Jacques le bonhnmme 1 esquece apenas que já fez
desfilar perante nós os tempos antigos e modernos, esses fan-
tasmas gigantescos, e que em comparação com . estes, todas
~ pobres invenções (De~ etc.) têm um ar muito pobre.

1 Em tra.neês no texto orlginal.

·188
Fantasma n.º 1: o ser supremo, Deus (pág. 53). Como
seria lógico esperar depois do que já se disse, Jacques le
bonhomme 1 , cuja fé desvia as montanhas da história uni-
versal,, acredita que «durante milénios os homens propuseram-
-se a tarefa». cse torturaram a querer realizar a .obra terrível!'
irrealiúvel, infinita, verdadeira obra de Danaides>I' que con-
siste em cprovar a existência de Deus». Não é necessário
perder tempo a falar nesta inacreditável crença.
Fantasma n.º 2: O ser. Se pusermos de parte tudo aquilo
que copiou de Hege~ as observações do nosso bravo homem
acerca do ser limitam-se a «frases pomposas e a pensamentos
miseráveis» (pág. 53). cNada é mais fácil> do que passar
do ser ao «ser universal». o qual é evidentemente o
Fantasma n.º 3: A vaidade do mundo. Não há sobre isto
nada a comentar. exceptuando o facto de daqui sair «sem
dificuldade• o
Fantasma n.º 4: Os seres bons e maus. Haveria de facto
algo a dizer sobre o assunto; mas como o autor nada diz~
passamos imediatamente ao seguinte. ao
Fantasma o.º 5: O ser e o seu reino. Não nos admiremos
por encontrar aqui o ser ,pela segunda vez: escritor honesto
e que conhece muito bem a sua cinépcia> (Wigand, pág. 166),
o nosso autor repete várias veus tudo o que diz, a fim de
evitar ser mal compreendido. A primeira definição que nos
é dada de tal ser, consiste no facto de ele possuir um «reino»;
depois é-nos dito que ele é co &er>, e finalmente é transfor-
mado rapidamente em
Fantasma n.º 6: «os seres». Conhecê-los e reconhecê-105,
eis a religião. «O seu reino> (seu, deles. dos seres) cé ... um
reino dos seres> (pág. 54). Muito a medo, o
Fanstasma :°·º 7, o homem-deus, o Cristo, faz a sua
entrada em cena sem que se perceba muito bem .porquê.
Dele. Stirner afirma que eleve r.on corpo». Se São Max não
acredita em Cristo. acredita .pelo menos no seu «corpo real».
Segundo o autor!' o Cristo deu lugar a muitas desgraças na
história; e o nosso santo sentimental conta.. nos, com lágrimas

1 Em fmncês no orig1.nal.

189
nos olhos, co martírio por que passaram os melhores cristãos
para o compreenderem». - Sim! «Nenhum outro fantasma
maltratara tanto as almas, nem qualquer Xamane. ao flagelar-
-se para entrar em transe e atingir um estado de convulsões
lancinantes. sofreu as torturas impostas aos cristãos pelo mais
incompreensível dos fantasmas». São Max verte algumas
lágrimas sentimentais sobre a tumba das vítimas do Cristo
e chega finalmente ao «ser horrível», o
Fantasm.a n.° 8, o homem. Aqui. o «horron> não mais
deixa o nosso valente autor ... «tem medo de si mesmo:&;
em cada ser humano, vê «um espectro aterrorizante», um
«espectro sinistro» e «obcecado» (págs. 55-56). Sente grande
indisposição: a dualidade entre a aparência fenoménica e o
ser impede-o de dormir. Qual Nabal. esposo de Abigail, cuja
aparência, segundo a Escritura, está separada do seu ser: era
homem de Maon e os seus seres estavam em Carmel 1
(1. Samuel 25, 2). Precisamente no momento em que, deses-
perado, «torturado até ao fundo da sua alma», ia dar um
tiro na cabeça, Max recorda os Antigos que «não se preo-
cupavam com a dualidade entre o ser e a aparência dos
escravos». O que conduz ao
Fantasma n.º 9t o espírito do povo (pág. 56), sobre o
qual São Max imagina coisas «horríveis». E agora nada o
pode impedir de transformar o
Fantasma n.º 10. o «todo», numa aparição. E para ter-
minar. pois a numeração pára aqui, mete no mesmo saco
- sob a rubrica de fantasmas - o «Espírito Santo», a ver-
dade. o direito. a lei, a justa causa (que nunca mais se
resolve a esquecer) e mais meia-dúzia de outras coisas, todas
elas sem nenhum ponto em comum.
Para além disto, nada mais há. neste capítulo que seja
digno de nota exceptuando o facto de a fé de São Max.
ter desviado uma montanha histórica. Se não, veja-se: o autor
pensa que (,pág. 56) «só fomos respeitados por amarmos um

1. Na Bl.blla. em alemão, emprega-se a palavra Wesen,


que Stirner Interpreta como slgni!icando «ser>; mas é utillzada
por Anweaen, slgnl.tlcando c:os bens>.

190
ser superior; e somente enquanto espectros fomos conside-
rados como pessoas sagradas. isto b, -pessoas protegidas
e reconhecidas>. Punhamas no seu lugar esta montanha
desviada pela fé: então, «é necessário dizer> que é graças
a pessoas protegidas, que criaram elas próprias a sua pro-
tecção, e privilegiadas. que atribuíram a si mesmas privilégios,
que se honrou seres superiores e se canonizaram fantasmas.
São Max julga,. por exemplo, que na antiguidade, quando a
secção de cada povo era mantida por uma comunidade de
condições e de interesses materiais como seja a hostilidade
recíproca das diversas tribos, etc.• na época em que, devido
ao fraco desenvolvimento das forças produtivas, todos os
homens eram constrangidos a serem escravos ou possuidores
de escravos. etc., etc., enfim, quando «o mais natural inte-
resse» (Wigand, pág. 162) iro-plicava que se pertencesse a um
povo - dizíamos. São Max julga ter sido o conceito «o povo
enquanto ser» que produziu esses interesses a partir ~~ ..si
memio; do mesmo modo, na época moderna, onde foi a
livre concorrência e o comércio mundial que deu lugar à
hipocrisia do cosmopolitismo burguês e à noção de homem.
São Max, invertendo as coisas, aponta a elaboração filosófica
ulterior do conceito de homem como tendo produzido essas
re1ações sociais enquanto «revelações• (pág. 51) de uma tal
noção. No caso da religião, o autor considera o reino dos
seres como sendo o único reino. Mas do ser, da essência da
religião. nada sabe: pois se soubesse não teria dúvidas de que
a religião, enquanto religião. não tem nem ser nem reino.
Através da religião, os homens transformam o seu universo
empírico num ·produto puro do .pensamento, numa represen ..
tação que surge como wna realidade que lhes é estranha..
Aqui ainda, não são os conceitos tais como a «consciência
de si> ou qualquer outra divagação desse género que podem
explicar este facto, mas sim o conjunto do modo de produção
e de trocas tal como existiu até agora e que é tão indepen•
dente do conceito puro como a invenção da tecelagem automá-
tica e o emprego dos caminhos de f'Crro o são da filosofia
hegeliana. Se quer à viva força falar de um cseo da religião.
ou seja, do fundamento material desse não-ser, não o deverá
procurar no cser do homem» ou nos predicados de Deus.

191
mas sim no mundo material q u.e precede cada novo estádio
da evolução religiosa (cf. anteriormente Feuerbach).
Todos os cfaotasmas:a que passámos em revista eram
representações. Estas representações, abstracção feita do seu
fundamento real (que Stimer aliás negligencia), concebidas
como representações da consciência, como .p ensamentos só
existentes no cérebro dos homens, depois de saírem da sua
situação de objectos e de serem reintegradas no sujeito. de
serem elevadas da substância à consciência de si, consti-
tuem . . . a obsessão ou ideia fixa.
Sobre a origem das histórias de fantasmas de São Max
consultar as Anele.dota 1 IL página 66, o.ode- se diz:

cA teologia é a crença nos fantasmas. Mas,


enquanto que a teologia vulgar encontra os seus
f;iotasm~ na imaginação sensível a teologia espe-
culativa encontra-os na abstracção imaterial.»

São Max, como todos os adeptos modernos da especula-


ção e da critica, julga que são as ideias independentes do
reaL as ideias locamadas - os fantasmas - que sempre domi-
naram e que ainda dominam o mundo, e que toda a história
anterior é apenas a história da teologia; e assim nada é mais
fácil do que transformar a história numa história de fantas-
mas. Vemos portanto que a história dos fantasmas de Sancho
só tem por base a crença nos fantasmas, tradicional nos filó-
sofos especulativos.

b) A obsessão.

e.Homem, Tu tens fantasmas na cabeça! . . . Tu tens uma


ideia fixa> - diz fulminantemente São Max ao seu escravo
Szelig~ cNão penses que Eu brinco»-afirma. ameaçador.
Não julgues que o solene «Max Stimer» poderia brincar
com tais ~ntos.

1 Atl8kdota zur neuesten dautacAe11 PhUosopMe u.nd


Pvbffciatik., arttgo de Feuerbach.

192
O homem de Deus necessita uma vez mais do seu fiel
SzeJiga. para passar do objecto ao sujeito e do fantasma à
obsessão.
A obsessão corresponde à instauração da hierarquia no
indivíduo.. é o dominio da ideia «nele e sobre ele». Depois
de encontrar à sua frente um mundo que não é mais do que
o mundo das suas «alucinações>. um mundo de fantasmas.
o adolescente da pâgina 20 vê, em delírio.. cos seres nascidos
na sua cabeça> ultrapassarem a sua cabeça continuando
dentro dela. Desde então - e é nisto que ele progride - o
mundo das suas alucinações é o mundo do seu cérebro
doente. São Max, o homem que tem perante si o «mundo
dos modernos» sob a forma do adolescente delirante, vê-se
obrigado a declarar que ca quase totalidade do mundo dos
homens é composta por verdadeiros doidos. por doidos que
deveriam estar num asi1o de alienados» (pág. 57).
A obsessão que São Max descobre na cabeça dos homens
é afinal a sua própria obsessão, o grão de loucura do «santo»,
que considera o mundo sub specie aeterni 1 e que confunde
as frases hipócritas e as ilusões dos homens com os motivos
reais das suas acções. E é alsim que o nosso homem inocente
e crédulo acaba por enunciar este pensamento sublime:
«Quase toda a humanidade se afeiçoa a um ser superior>
(pág. 57).
«A obsessão> é uma «ideia fixa», isto é, uma «ideia que
se apoderou do homem•, ou ainda, como dirá mais tarde de
uma forma mais popular. todos os tipos de idiotices que as
pessoas «meteram na cabeçt:IJ!t. São Max pensa que tudo o que
serviu para submeter os homens ao seu poder, por exemplo.
a necessidade de trabalhar para viver e as relações que daf
decorrem, são puras «idiotices» ou «ideias fixas». Dado que
o mundo das crianças é o único e-mundo das coisas>, como
já_vimos no mito da cvida de um homem•, resulta que tudo
o que não existe «para a criança» (e de vez em quando
também para o animal) é certamente «uma ideim> e «facil-
mente> mma ideia fixa>. Estamos ainda muito longe de nos
desembaraçarmos do adolescente e da criança. ·

1 Do ponto de "'8ta da eterntàa46.

11 193
O capítulo sobre a obsessão só serve ·para verificar a
presença dessa categoria na história do «HomeDll>. Quanto
à luta contra tais obsessões, podemos encontrá-la através de
todo o «Livro>, se bem que ocupe sobretudo a segunda parte~
Deveremos assim contentar-nos com alguns exemplos de
obseswes.
Página 59: Jacques le bonhomme 1 pensa que «os nossos
jornais estão cheios de política porque são prisioneiros da
ilusão segundo a qual o homem teria sido criado para se
tomar um cZoon politicon» 2 • Assim, segundo Jacques le bon-
homme •. s6 se faz política porque os jornais estão cheios
dela! Se olhasse para as notícias da bolsa que vêm nos jor-
nais, qualquer Padre da Igreja tiraria conclusões semelhantes
às de São Max. dizendo: Estes jornais estão cheios de notícias
da bolsa porque são prisioneiros da ilusão segundo a qual
o homem foi criado para especular sobre estes valores. Não
são portanto os jornais que têm a mania; será antes «Stirnen>
quem a tem.
A proibição do incesto e a monogamia são explicadas
pelo «sagrado•: csão o sagrado». Ora acontece que o incesto
não é proibido para os Persas, e os Turcos praticam a poli-
gamia. Logo. o incesto e a poligamia serão «o sagrado» nesses.
países! Como instituir uma diferença entre essas duas espécies
de «sagrado» senão dizendo que os Persas e os Turcos
«meteram na cabeça» algumas idiotices diferentes das dos
povos germano~ristãos? - eis a maneira dos Padres da
Igreja «fugirem a tempo» à história. Jacques le bonhomme •
~tá tão longe de suspeitar as verdadeiras causas de ordem
material da proibição do incesto e da poligamia, em certas
oondições sociais. que chega a dec1ará-1as artigos de fé. Pensa
ainda - como todos os pequeno-burgueses - que, quando
alguém é preso por um destes delitos. é a «pureza dos costu-
mes:t que leva a essa prisão e ao internamento numa «casa
de correcç.ão• (pág. 61). Ali.ás, as prisões em geral constituem

1. • Em francês no original.
2 Ammal polfttco.

194
para ele - e nisto mostra estar muito abaixo do bourgeois 1
culto, que está muito melhor informado (ver a literatura
acerca das prisões) - «estabelecimentos de recuperação mo-
ral•. As «prisõeS> de «Stimer> poderão ser das mais triviais
ilusões do burguês berlinense, mas certamente que este não
as qualifica de ccasas de recuperação moral>.
Tendo descoberto, graças a uma «reflexão histórica»,
cintercalada à guisa de episódio>, que co homem deveria
inevitavelmente acabar por manifestar a sua natureza reli-
giosa com todas as suas forças> (pág. 64),, Stimer conclui não
ser «verdadeiramente necessário admirar-nos» - cpois nós
próprios estamos im pregoados de religião até ao fundo da
DO~ alma> - de que seja o juramento «dos jurados que nos
condene à morte, ou de que seja em virtude do seu «jura-
mentoJ> que o agente de políci~ como bom cristão, nos mande
para a prisão>. Quando o polícia o prende por estar a fumar
DO Tiergarten 2 , não é um agente da ordem de sua Alteza
real da Prússia que com uma bofetada lhe faz cair o cigarro
da boca, se bem que até seja pago para isso e receba parte
das multas: será antes o «juramento» prestado por este polícia.
O poder do bowgeois • de um júri sofre a mesma transfor-
mação e. para Stimer, graças ao ar de piedade que costumam
aparentar les amis du commerce" quando fazem parte de
júris. adquire um poder que lhe é conferido pelo acto de
juramento, o poder do juramento transforma-se em «sagrado».
Em verdade vos digo: não encontrei ninguém em Israel com
wna tão grande alegria (Evangelho segundo S. Mat[eus].
8, 10).
«Para muitos homens, um dado pensamento transfor-
ma-se numa máxima tal, que não são eles a possuí-la mas
sim ela a possui-los e a dar-lhes um sóiido ponto de apoio.>
cAssim. de nada servem os nossos desejos ou as nossas

1 • Em francês no original. Burgu&.


1 Até à revoluc;Ao de 1848, era prolbldo fumar nas ruas
de Berlim e no Tiergarten_ grande parque situado nessa ca,pltal.
• Em francês no original TextuaJ.mente: oa am(goa d.o
ComM'CW.

l9S
pressas. pois tudo vem da misericórdia de Deus.• (Epístola
aos Romanos. 9. -16). Toma-se portanto necessário que nessa
mesma página se cravem diversos espinhos na carne de São
Max e que este nos forneça a1gumas máximas de sua lavra.
Primeira máxima: não ter máxima; segunda máxima: não
ter nenhum ponto de apoio sólido; terceira máxima: «deve-
mos, sem dúvida. ter espírito, mas o espirito não Nos deve
ter>; quarta máxima: escutar também a voz da carne, cpois
um homem só se conhece totalmente quando ouve a voz da
sua carne e só 6 compreensivo ou razoável quando se conhece
totalmente».

C) IMPURA HISTôRIA IMPURA DE ESP!RITOS

a) Negros e Mongóis

V amos agora recordar o inicio do esquema histórico


e da denominação cúnica>. A criança torna-se Negro e o
adolescente toma-se Mongol. «Ver a Economia do Antigo
Testamento».
«Nessa reflexão histórica sobre o nosso estado
de Mongóis, que Eu aqui acrescemo à guisa de epi-
sódio. Eu não pretendo tratar o assunto a fundo
nem sequer penso que o que Eu digo esteja solida-
mente estabelecido. Faço-o apenas porque Me pa-
rece que ela pode contribuir para elucidar o resto:,
(pág. 87).

São Max pretende celucidao para si mesmo as fórmulas


vazias sobre a criança e o adolescente atribuindo-lhes deno-
minações universais, e pretende elucidar estas denominações
universais enfarpelando-as com as suas fórmulas sobre a
criança e o adolescente. «O tipo negro encarna a antiguidade,
a dependência relativamente às coisas» (criança). «O tipo
mongol encarna o período em que o homem depende das
ideias, a época cristã» (adolescente). (Cf. «Economia do An-
tigo Testamento»). ~ na época futura que se poderão pro-
nunciar frases como esta: Eu sou possuidor do mundo dtB

196
c.oisa.r. e Eu sou posmidor do mundo das ideias» (págs. 87 /8).
Esta «época futura> já se .realirou uma vez na página 20,
a propósito do adulto, e realizar-se-á uma vez mais a partir
da página 226.
Primeira «reflexão histórica. que não pretende .tratar o
assunto a. fundo sem sequer afirmar coisas solidamente esta-
belecida9: dado que o Egipto faz parte da África onde vivem
os Negros. «as campanhas de Sesostris>. que nunca se rea-
lizaram, e a cimportância do Egipto> (mesmo sob os Ptolo-
meus, a expedição de Napoleão ao Egipto. Mohamed Ali.
a questão do Oriente. os desenhos de Duverger de Hauranne 1 •
etc.) «e de toda a Ãfrica do Norte» (portanto de C.artago,
da ~xpedição de Aníbal a Itália e, «também sem dificuldade>.
de Siracusa e de Espanha. de Tertuliano 2 , dos Mouros. de
AI Hussein Abu Ali Ben Abdallah Ebn Sina •, dos Estados
barbarescos, dos Franceses na Argéli~ Abd el-Kader 4 • Pere
Enfantin 6 e os quatro novos sapos do «Charivari>) «fazem
parte> (pág. 88) da cera negra>. Como vemos. é integrando-as
na era negra que Stimer «elucida» as campanhas de Sesostris.
etc.. enquanto que a era negra é elucidada ao ser inserida.
cà guisa de episódio> e de ilustração histórica.. noo pensa-
mentos únicos sobre cos Nossos anos de infância>.
Segunda «reflex.ão históric~: cA era Mongol vai desde
as invasões dos Hunos e dos Mongóis. até às dos Russos»
(e dos Polacos da Alta-Silésia). Repete-se aqui o mesmo: as
expedições dos Hunos e dos Mongóis. ~im como as d~
Russos. são «elucidadas> pelo facto de serem enquadradas na
cera mongol>. e esta é elucidada pelo facto de ser considerada

1 Duverger de Hauranne (179&-1881): polltlco e publi-


cista francês.
1 Qulnctua Septlmus Florens Tertuliano: filósofo e escri-
tor romano que parece ter vivido de 160 a 220.
• S6.bio, fllósofo e médico Arabe que viveu de 980 a .1037
e t mais conhecido pelo nome de Avicena.. .
, Abd el Kader (1808-1883): ch6fe 4rabe que à frente do
seu povo tentou l.mJ)edir a conquista da Argélla pelos franceses.
• Barthélemy-Prosper Enfaotin (1796-1864): socl.allsta
utópico francês, dlsdpulo de Saint-Simon.

197
como a época à qual se aplica a fórmula «Dependência rela-
tivamente às i~eias», que já antes encontrámos a propósito
do adolescente.
Terceira creflexão histórica»:
Durante a era mongol «o Meu Eu não pôde
ser muito apreciado pois o duro diamante do ~
-Eu era de um preço muito elevado e muito denso,
era demasiado irredutível para que Eu o pudesse
absorver e assimilar. Os homens apenas rastejavam
esforçadamente sobre esse ser imóvel, essa subs-
tância, como minúsculos parasitas deslocando-se
sobre um corpo cujos sucos os alimentam sem que
o possam devorar. É a esta actividade parasita que
se dedicam os Mongóis. Como se sabe, nas regiões
habitadas pelos chineses nada mudou, etc. É por
isso (pelo facto de as coisas não terem mudado na
região onde habitam os chineses), que «durante a
era mongol, todas as modificações se reduziriam a
meras reformas, melhoramentos de pormenor., e não
a transformações destrutivas, devoradoras ou exter-
minadoras. A substância, o objecto. persiste. O nosso
trabalho é uma simple.5 actividade de formigas,
meros saltos de pulga ... , exercícios de equilíbrio na
corda bamba do ser objectivo>. etc. (pág. 88. cf.
Hegel, Fil[osofia] da his[tória], págs. 113, 118, 119
(a substância não enfraquecida); págs. 140. etc .• onde
a China é concebida como «substancialidade»).

Aqui. aprendemos portanto que, na verdadeira era cau-


casiana., os homens terão como máxima a necessidade de
cdevora..o. de «aniquilar>, de «absorver», de «destruir> a
terra., a «substância», o «objecto», o «ser imóvel» e. ao
mesmo tempo, o sistema solar a que a terra pertence. Este
cStimer> que absorve o mundo já antes nos apresentou (pág.
36) ca actividade reformadora ou restauradora» dos Mongóis
como cprojectos de redenção e de aperfeiçoamento do
mundo» concebidos pelo adolescente e o cristão. Continuamos
portanto a não avançar sequer um passo. O que caracteriza
toda esta concepção e única> da história é o facto de o grau

198
superior da actividade mongol ser qualificado de «científico»
-de onde poderemos concluir desde já aquilo que São
Max nos irá dizer mais adianto: a perfeição do céu mongol
é nada mais nada menos do que o reino hegeliano dos
espíritos.
Quarta «reflexão histórica». O mundo em cuja superfície
rastejam os Mongóis transforma-se agora, graças a um c:salto
de pulga». em algo que se chama «o positivo>. Este toma-se
«o ·p receito». e o preceito. por virtude de um parágrafo da
página 89. surge como «moralidade». «Na sua primeira
forrou. esta apresenta-se portanto como uma pessoa. Mas.
num p~car de olhos. metamorfoseia-se em espaço. «Agir de
acordo com os usos e costumes do seu país significa portanto»
(isto é, na moralidade) «ser moral». «É por isso (porque este
facto é um hábito no âmbito da moralidade) «que é ••• na
China que se pratica o mais modestamenJe possível a acção
pura e moral!»
São Max não tem infeli2mente sorte alguma na escolha
dos seus· exemplos. Na página 116. atribui aos Norte-Ameri•
canos a «religião da probidade». Os dois povos mais trapa-
ceiros da terr~ os Chineses, esses vigaristas de tipo patriarcal
e os Yanques. esses vigaristas civilizados. são aos seus olhos
pessoas «modestas>. <morais» e «probos». Se tivesse olhado
melhor para a Filosofia da história de Hegel teria visto que
os Norte-Americanos. na página 81, e os Chineses, na página
130, aí são incluídos na rubrica: vigaristas.
O «se», esse amigo fiel. permite que o nosso santo homem
passe à inovação. Um ce> condu-Io em seguida ao hábito, e
fica deste modo preparado o material que lhe permitirá dar
um golpe de mestre na
Quinta reflexão histórica. «Está efectivamente fora do
dúvidas o facto de o homem escapar à inoportunidade emba-
raçosa das coisas e do mundo através do hábito> -por
exemplo, à fome ...
ce» - consequência perfeitamente natural -
«assim funda wn mundo seu» - de que cStimeo tem
necessidade neste momento -
cum mundo que lhe é familiar e onde só ele se sente
em cas~ - csó ele»: isto depois de se ter instalado «como

199
em sua casa>., servindo-se do «bãbito:1., no CIDundo• tal como
existe-
co que significa que ele se constrói um céu» - visto que
a China se chama 1mpério celeste.
cCom efeito, terá o céu wn sentido diferente do de cons-
truir a verdadeira pátria do homem?» - se bem que. pelo
contrário. seja apenas. no seu sentido real, uma representação
do homem que julga a sua própria pátria. propriamente uma
pátria que não é a sua-
cwna páJria onde já não sente qualquer determinação
estranha - ou seja. de facto, onde está submetido às suas
próprias determinações. que lhe surgem como estranhas, etc.•
etc. Já conhecemos a sequência desta ordem de ideias. «Pelo
contrário». como diria São Bruno, ou «também sem difi-
culdade». para falar como São Max, é do seguinte modo que
deveria ser formulada a frase:

Frase de Stirner, Mesma frase. com


que não pretende tra- alguns esclarecimen-
tar o assunto a fundo tos:
nem estar, tão-pouco,
solidamente estabele- Dado que a China se
cida: intitula reino celeste, e dado
que cStimen> tenta justa-
Está efectivamente fora mente falar da China e tem
de dúvidas o facto de o ho- o «hábito» de «escapar», por
mem escapar à inoportuni- ignorância, cda inoportuni-
dade embaraçosa das coi~ dade embaraçosa das coisas
· e do mundo, através do há- e do mundo. e de fundar um
bito. e assim fundar um mun- mundo seu. um mundo que
do seu, um mundo que lhe lhe é familiar e onde só ele
é familiar e onde só ele se se sente em casa, está efecti-
sente em casa; significa isto vamente fora de dúvida qu~
que ele constrói um céu para o celeste império, a China,
si mesmo. Com efeito. terá o lhe serve cpara edificar a si
céu um sentido diferente do mesmo um reino celeste:.. A
de constituir a verdadeira inoportunidade embaraçosa
pátria do homem, o local do mundo e das coisas s6
onde este já não sente nenhu- tem com efeito «o sentido de
ma detenI1ioação ou domínio constituir o verdadeiro» in-

200
estranhos, onde nenhuma in- femo do trnico. um inferno
fluência terrestre o aliena onde tudo clhe impõe as
mais de si mesmo, enfim, suas determinações e o do-
onde as ~rias da vida ter- mina como algo de estra-
restre são rejeitadas e onde nho»; mas um inferno que
já não .é necessário lutar ele tenta transformar em
contra o mundo; portanto, ccéu>, calienando-se». sub-
um mundo onde nada lhe é traindo•se à cinfluência» de
recusado?• (pág. 89). todos os factos e relações his-
tóricas cdesta terra.. o que
faz com que eles deixem de
lhe parecer estranhos, enfim,
um inferno conde são rejei-
tadas as escórias da existên-
cia terrestre» e da história. e
onde no cfim do mundo»
Stimer já não encontra «Ju-
ta», de modo que -está --tudo
dito.

Sexta «reflexão lústórica» (pág. 90) eis o que Stirner


imagina:

cNa Otina, para tudo se tem receitas já elabora•


das. Aconteça o que acontecer, um Chinês sabe
sempre o que deve faz.er. e não tem n~idade de se
determinar de acordo com as circunstâncias; nenhum
acontecimento imprevisto o poderia arrancar do céu
da sua impaMibilidadei..

Mesmo que se trate de um bombardeamento inglês. um


Chinês sabe sempre ccomo se comportar»; sobretudo face a
barcos a vapor e a granadas de shrapneJ., que de resto nunca
. • 1
VIU •

1 Armas usadas pelos ingleses no decurso da .prtmeira


guerra do 6plo ( 1&38·18'2), primeira tentativa inglesa para abrir
o mercado chlnês aos seus produtos.

201
São Max tirou estas ideias da Filosofia da história do
Hegel (pág. 118 e 127); mas foi-lhe necessário acrescentar
alguns elementos cúnicos» a fim de elaborar as conclusões que
se seguem.
São Max pr~gue:

«Logo, é o hábito que faz a humanidade avançar


um primeiro passo na escala da civilização; e como
a humanidade julga que ao avançar no seu grau de
civilização percorre uma parte do caminho que a
conduz ao céu. reino da civilização ou da segunda
natureza, acaba por se elevar realmente a um pri-
meiro nível. .. da escala de Jacob.» (pág. 90).

«Logo•. ou seja, porque Hegel inaugura a história pela


China e porque «o Chinês nunca se perturba»,. «Stimer» trans-
forma a humanidade numa pessoa que sobe ao «primeiro grau
da escala da civilização»; e isto «graças ao hábito» pois,
para Stirner. a China só é importante na medida em que
constitui «o hábito». A partir de agora, o nosso zelador do
sagrado só tem por objectivo transformar esta «escala» em
«escala celeste»; é ou não verdade que a China também se
chama Império celeste? «Como a humanidade julga» («como»
poderá Stimer csaber tudo o que» a humanidade julga?,
Wigand, pág. 189)-eis o que Stimer deveria demonstrar-
transformar primeiro ca civilização» em «céu da civilização».
e, depois «o céu da civilização» em «civilização celeste» (na
página 91 vemos que esta concepção é de Stirner, o que nos
permite interpretá-la concretamente deduzindo que só poderá
ser cu.ma concepção da humanidade» por empréstimo), «ele-
va--se realmente ao primeiro nível da escala celeste». ~ por
julgar que se eleva ao primeiro nível da escala celeste que...
por esse facto ... se eleva realmente! ~ por «julgar que se trans-
forma em espírito puro, que o «adolescente» nele se transforma
realmente! Sobre a passagem do mundo das coisas ao mundo
do espírito onde se ix>de encontrar a fórmula não desenvol-
vida desta escala celeste dos pensamentos «únicog, consul--
te-se o cadolescente• e co cristão».
Sétima reflexão histórica (pág. 90). cSe é verdade que o
mongolismo» (que segue imediatamente a escala celeste.
com a qual Stimer. graças à concepção atribuída à humani--
dade. estabeleceu a existência de um ser espiritual). «se é ver•
d.ade que o mongolismo estabeleceu a existência de seres
espirituais.» (veja-se como Stimer erigiu em facto as suas
suposições acerca do ser espiritual dos Mongóis), cos Caucasia-
nos, por sua vez, lutaram durante milénios contra esses seres
espirituais para lhes sondar as profundezas» (adolescente que
se faz homem e «aspira sem cessar> ca percorrer os pensamen-
tos». cristão que «aspira sem cessar> a cexplorar as pro-
fundezas da divindade:.). Porque os Chineses constataram a
existência de sabe De~ quantos seres espirituais («Stirner,
fora da sua escala celeste, não encontra um único). é necessá-
rio que os Caucasianos lutem durante milénios com «esses
seres espirituais» originários da China. Stimer constata ainda,
duas linhas mais abaixo, que os Caucasianos «assaltaram~
realmente «o céu mongol, o Thien>. E prossegue: «Quando
aniquilarão eles ~ céu, quando se tomarão finalmente
verdadeiros Caucasianos e se encontrarão a si mesmos?».
~ esta unidade negativa que já antes surgira sob o aspecto
de homem e que é agora encarnada pelo «Caucasiano verda•
deiro». ou sej~ pelo Caucasiano caucaslano. Este já não é
o tipo negro ou mongol; é aqui um conceito, um ser distinto
dos Caucasianos reais e que se lhes opõe enquanto «ideal
do Caucasiano», enquanto «vocação» que lhes deve permitir
cencontrar-se a si mesmos», enquanto «destino», ·«missão».
«sagrado»; enquanto «Caucasiano perfeito» «que não é senão
co Caucasiano «do céu - Deus-.. -.
cNo decurso da diligente luta da raça mongol, os homens
tinham edificado um Céu» - tal é a crença de cStirneo
(pág. 91), que esquece que os verdadeiros Mongóis se preo--
cupam muito mais com os carneiros reais do que com os seus
carneiros celestes 1 - caté que apareceram os de raça cauca-

1 Em alemão, Hiimmeln slgnl.flca «carneiros> e Himmeln


significa c:céus>, o que permite um trocadUho de que a.s palavras
portuguesa.., não dão ideia.

203
siaoa que... por terem interesse no céu... arsumiram a tarefa
de o tomar de assalto•. Tinham edificado um céu, até que...
por terem ..• assunuram - Esta e.reflexão sobre a história>
sem pretensões exprime-se numa consecutio tem porum 1 que
tão-pouco caspiru ao classicismo «ou simplesmente• à cor-
recção gramatical; as suas construções sintáticas são a ima-
gem da construção histórica. «É a isto que se limitam» as
«pretensões:. ~ cStirner», que «alcança assim o objectivo
final que se propuseru.
Oitava refleúio histórica - é a reflexão das reflexões,
o alfa e o omega de toda a história. segundo Stirner. Tal como
mostrámos desde o início, Jacques le bonhomme 2 apenas vê
em toda a evolução dos povos, tal como se desenrolou até
aos n06S0s dias, uma sucessão de céus (pág. 91); o que
também se pode exprimir dizendo que as su~ivas gerações
da raça caucasiana nada mais fizeram. até hoje, do que dis-
cutir o conceito de moralidade (pág. 92), e que «a sua acção
se limita a isso» (pág. 91). Se se tivessem desembaraçado
dessa incómoda moralidade, desse fantasma.. teriam chegado
a algum.a coisa. Mas como não o fizeram. nunca conseguiram
nada de nada e. como meros estudantes_ são forçados a
aceitar o castigo que lhes inflige São Max. Perfeitamente na
linha desta concepção de Stimer sobre a história. a filosofia
especulativa acaba por ser evocada (pág. 92). a fim de que
cesse reino celeste. o reino dos espiritos e dos faotasma.s.
nela encontre o seu justo luga~ ... e, numa passagem ulterior,
pas.sa a ser concebida ela própria como o e.reino consumado
dos espíritos».
· Porque motivo só é -possível. concebendo a história à
maneira de Hegel. chegar a este reino dos espíritos que
encontra a sua consumação e a sua ordem na filosofia espe-
culativa? cStirneo poderia encontrar muito simplesmente
a solução dc:.5te mistério no :p róprio Hegel Para chegar a
~ resultado. cé necessário basearmo-nos no conceito de

1 Sucessão de tempos {de verbos).


a Em trancê.s no orJgln.al.

204
esp{rito e mostrar então que a história é o ,próprio processo
do esp{rito» (H;sítória] da filf osofia] 111, pág. 91). Uma
vez baseada a história no «conceito de espfrito>. é evidente.
mente muito fácil «provar> que ele se encontra em todo
o la.3o e «encontrar-lhe» seguidamente «uma ordem ade-
quado descrevendo tudo isso como mn processo.
AJ?ora Que encontrou uma «ordem adequada> para
tudo. São Max pode exclamar com entusiasmo: «Pretender
conquistar a liberdade -para o espírito. eis o mongolismo
(cf. pág. 17): «trazer à luz do dia o pensamento puro. etc.,
eis o prazer do adolescente>. etc.). Pode também afirmar
hipocritamenre: «E assim salta d vista que o mon~olismo
representa... um anti.sensualismo e uma antinatureza». etc.
- quando deveria dizer. salta à vista que o Mongol não é
mais do Que o adolescente disfarçado que. enouanto negacão
do mundo das coisas. pode também ser designado pelos
termos canti-sensuaJismo• e «antinatureza>. ··
au~gámos uma v~ mais ao ponto em que o «adoles--
cente2 se pode converter em «homem». «Mas quem irá dis-
solver o espfrito na sua negação? Àquele que através do
espfrito representa a natureza como domfnio do nada, do
finito e do transitório» (Quer diur. se a imagina como tal -
assim como. na página 16 e SCj?Uintcs, o fazem o adolescente,
seguido do cristão, do Mon~ot e finalmente do Caucasiano
mongol: mas que l apenas obra do idealismo): «s6 ele pode
fazer desoer (na sua imamnação. claro) o espírito a ~
memio nada (a então o cristão. etc.? Não. exclama «Stimer>,
que procede aqui à mesma escamoteação das páginas 19-20
a propósito do homem.) «Pode ser feito por Mim e por cada
um de Vós Que actuc e trabalhe enquanto Eu infinito• (na
sua imaginação). «AQue1e Que ~ capaz de o fazer ~. numa
palavra... o egofstu (pág. 93). e portanto o homem, o Cau-
casiano caucasiano, que ~ por i~ o cristão consumado, o
verdadeiro cristão. o santo. o sagrado.
Antes de nos debruçarmos detalhadamente sobre as
outras denominações, iremos tàmbém «inserir aqui uma refle-
xão histórica> sobre a origem da «reflexão histórica de
Stimer acerca do No~ mongolismo». com a diferença de
que a n ~ ipretenderá cir ao fundo das coisas e ser com-

205
provada pelos factos». Todas as suas reflexões sobre a his-
tória. assim como a relativa aos «Antigos», não passam de
uma mistura cujos ingredientes podem ser encontrados em
Hegel
A negritúde é ca criança>, porque Hegel diz na página 89
da sua Fil[ osofia] da hist[ 6ria]:

cA África é o pais da infância da história. Para


determinar o espírito africano» (negro). «somos
obrigados a renunciar totalmente à categoria da
generalidade» (pág. 90), (quer dizer que a criança
ou o Negro têm de facto ideias, mas não têm
ainda a Ideia). «Nos negros, a consciência não
atingiu ainda a noção de uma objectividade sólida.
.por exemplo Deus ou a lei, na qual o homem teria
a intuição do seu ser>... «de onde se conclui que
falta aqui totalmente o conhecimento de um ser
absoluto. O Negro representa o homem natural em
toda a sua impulsividade» (pág. 90). «Se bem que
devam ter necessariamente consciência de que
dependem dos factores naturais» (coisas. como diz
cStirner>). «esse sentimento não os conduz, no
entanto, à consciência de um ser superior> (pág. 91).

Encontramos aqui todas as determinações da criança e do


Negro: dependência relativamente às coisas, independência
relativamente aos pensamentos e. em particular. ao «pensa-
m~nto>, ao cser>, ao «ser absoluto» (sagrado). etc.
Os Mongóis. e em particular os Chineses, também foram
tirados de Hegel, que os considera como principio da his-
tória; porque Hegel também transforma esta numa história
dos espíritos (mas de uma forma menos pueril do que a de
cStirneo). decorre logicamente que foram os Mongóis quem
introduziram o espírito na história. sendo por isso os primeiros
representantes de tudo o que é «sagrado». Na página 110,
em particular, Hegel vê ainda no «Império mongol» (o do
Dalai Lama) o reino «espiritual>, co reino do poder teocrá-
tico», um reino do espirito e da religião que se opõe ao
império temporal que é a China.

206
b) Catolicismo e Protestantismo
(Ver a «Economia do Antigo Testamento»).

Aquilo que aqui designamos por catolicismo. é bapti-


udo por _S tirner de «Idade Média». Mas como confunde
(como «em tudo>) o conteúdo sagrado, re]igioso, da Idade
Média, a religião da Idade Média com a Idade Média real.
profana e viva, é preferível dar imediatamente à coisa o seu
verdadeiro nome.

«A Idade Média foi «um longo perfodo• no qual


as pessoas se contentavam com a i1usão» (não havia
outras exigências nem outra actividade). «com a
ilusão de possuir a verdade,, sem se interrogarem
se seria necessário ser-se verdadeiro para possuir a
verdade»... «Na Idade Média, mortificavam-se»
Oogo. toda a Idade Média) «para conseguir-receber
em si o sagrado.> (pág. 108).

Segundo Hegel, a relação do homem com o divino na


Igreja católica é assim definida:

«Uma relação com o absoluto reduzido a um


objecto exterioo (o cristianismo sob a forma da
exterioridade). (Hist[ ória] da fil[ osofia] III. págs.
148 e outras). ~ sem dúvida necessário que o indi-
viduo seja purificado para receber a verdade. mas
«também isto se processa de uma forma externa:
indulgências pagas a dinheiro, jejuns. flagelações.
.procissões, peregrinaçõe9. (Ibidem, pág. 140).

Quanto a cStimer>, opera ~ta transição dizendo:

«Do mesmo modo que se toma necessário


esforçar a vista para ver os objectos afastados ... ,
assim se mortificavam>, etc.

Se cStimer> identifica a Idade Média com o catolicismo.


então aquela termina necessariamente com Lutero (pág. 108).

')JJ7
Por sua vez.. este é reduzido à seguinte definição conceptual.
já encontrada a propósito do adolescente, no diálogo com
Szeliga e noutros pontos:

cO homem que quer conc.eber a verdade deve


tornar-se tão verdadeiro como a própria verdade.
Só quem já possui a verdade na fé poderá parti..
cipar delu.

Hegel diz a propósito do luteranismo:

cA verdade do Evangelho ... só existe numa


relaç.ão autêntica do indivíduo com esse mesmo
Evangelho... A relação ' essencial do espirito só
existe para o espírito ... A relação do espírito com
esse conteúdo poderá então exprimir-se do seguinte
modo: assim como esse conteúdo é essencial,
também é essencial que o espírito santo e san-
tificante se encontre em relação com ele.» (Hist[ória]
d[a] fil[osofia] IIL pág. 234). «~ esta a fé lute-
rana... exige-se dele» (quer dizer, do homem) cuma
fé que seja a única que verdadeiramente conta.>
(Ibidem, pág. 230). «Lutero ... afirma que o divino
só é divino quando inserido nesta espiritualidade
subjectiva da fé» (Ibidem, pág. 138). «A doutrina
da Igreja> (católica) cé a verdade enquanto verdade
presente». (F[ilosofia] da rel[igião], IL pág. 331).
cStimeo prossegue:

«Com Lutero. começa•se pois a entender que


a verdade. por ser pensada, s6 existe para o homem
pensante. o que significa que o homem deve adoptar
um ponto de vista radicalmente diferente. o da fé»
(por apos[ição]). «o ponto de vista científico, ou
ainda o ponto de vista do pensamento perante o seu
objecto, a ideia.• (pág. 110).

Além da repetição mais uma vez aqui «inserida> por


cStimer». só a passagem da fé ao pensamento merece a

208
nosm atenção. Hegel marca esta pasAgem nos seguintes
termos:

•Este &pírito• (a saber. o espírito santo e san-


tificante) cé também essencialmente, em segundo
lugar, espírito pensante. O pensamento, enquanto tal,
deve também desenvolver-se nele. etc.• (pág. 234).

cStirner> pro~:

cEste pensaroP.nto (cEu sou espírito e nada


mais que espirita•) cpercorre toda a história desde
a Reforma até aos nossos dias.• (pág. l 111).

A partir do século XIV. só existe para «Stimer> a his-


tória da Reforma e. mesmo desta, apenas a concepção hege-
liana.
São Max deu mais uma vez provas da sua gigantesca
credulidade. Volta a tomar por moeda de lei todas as ilu~
da filosofia especulativa alemã, tornando-as ainda mais espe-
culativas e mais abstractas. Para ele. apenas existe a história
da religião e da filosofia - e mesmo só através da interpre-
tação de Hegel, que com o tempo se transformou em fonte
universal onde vão beber todos os burros. em manual do
saber-viver de todos os alemães que presentemente se ocupam
a especular sobre os principios e a fabricar sistemas.
Catolicismo = relação com a verdade concebida como
objecto, criança, Negro, «Antigo>.
Protestantismo= relação com a verdade no espirita. ado-
lescente. Mongol, cModemo•.
Acrescento-se que esta construção é desnecessária. pois
já nos deparámos com bido isto a propósito do «espírito».
Segundo as indicações já esboçadas na <lEconomia do
Antigo Testamento•. é agora possível dentro do âmbito do
protestantismo. fazer com que a criança e o adolescente
entrem em cena sob cformas::t novas, tal como cStirner» faz
na página 112, onde o empirismo inglês representá. a criança
por oposição ao adol~te que é incarnado pela filosofia
~peculativa alemã. Aqui se copia novamente Hegel. que
H
209
aparece agora. como em muitas outras pas.sagéns do clivro».
sob a des~gnação de «s~.

cBaniu-se> (quer dizer. Hegel baniu) «Bacon


do reino dos filósofos». «Aquilo a que se chama
filosofia inglesa não parece ter ultraplMado as des-
cobertas de espíritos preten,~mente abertos. tais
como Bacon e Hum.e» (pág. 112).

Est.a ideia é expressa por Hegel do seguinte modo:

«Com efeito, Bacon é o verdadeiro chefe de


fila e o representante daquilo a que os Ingleses cha-
mam filosofia e que, até hoje. de forma alguma
ultrapaM3.I3D1» (Hist[6ria] d[a] filof.sofia], III,
pág. 254).

Aqueles a quem «Stimer» chama «espíritos abertos»,


Hegel designa-os por «cultos homens mundanos» (/bidem,
1

pág. 255), os quais são transformados em «simplicidade


da alma infantil> por ser necessário que os filósofos ingleses
representem a criança. ~ por esta mesma razão que Bacon
é proibido de cse ter ocupado dos problemas e das questões
fundamentais da teologia», apesar do testemunho dos seus
~ritos a esse respeito (especialmente De Augmentis Scien-
tiarwn, Novum Organum e os Ensaios). Cabe «ao pensa-
mento alemão ... ser o primeiro a descobrir a vida no ... pró-
prio conhecimento> (pág. 1,12)• .pois ele é o adolescente. Ecce
iterum Crispinus 1 !
Poderá verificar-se, na página 112 do «Livro». como
«Stimer> faz de Descartes um filósofo alemão.

1 FJs de novo Crisplm. Prlmelras palavras da 4:.• sãtlra


de J'uvenaJ que em sentido figurado significam: sempre a mesma
cantiga.

210
D) A HIERARQUIA

Até aqui. 1acques le bonhomme 1 só conseguiu ver a


história como produto de pensamentos abstractos, ou antes.
como produto das suas representações desses pensamentos
abstractos; para ele. a história é dominada por ~ repre-
sentações que, em última aaáli ~. se resolvem todas no
csagrado». ~ n~te domínio do «sagrado», do pensamento, da
ideia absoluta de Hegel sobre o mundo empírico, que ele vai
agora descrever apresentando-o como uma relação histórica
actua.l, como o domínio dos santos, dos ideólogos sobre o
mundo profano: é a hierarquia. Nesta hierarquia. o que ante-
riormente era sucessão toma-se simultaneidade, de tal modo
que uma das duas formas coexistentes da evolução domina
a outra. Veremos assim o adolescente dominar a criança, o
Mongol o Negro, o Moderno dominar o Antigo~ o egoísta
que se sacrifica (citoyen 2 ) dominar o egoísta no sentido vul~
gar (bozugeois 1 ). etc.• (cf. a cEconomia do Antigo Testà-
mento»). A anterior «destruição» do «mundo das coisàs»
pelo «mundo dos espíritos», aparece aqui convertida no «do-
mínio» do «mundo das coisas• polo cmundo dos pen~roen-
tos». O objectivo é evidentemente o de, no fim da história,
apresentar o domínio exercido desde o seu início pelo mundo
dos pensamentos como domínio real e efectivo dos pensa-
dores - e. como veremos. em última instânci~ dos filó-
sofos especulativos - sobre o mundo das coisas, de forma
a que baste a São Max combater vitoriosamente os pensa-
mentos e as representaçães dos ideólogos para se erigir em
«possuidor do mundo das coisas e do mundo dos pensa-
mentos».

«A hierarquia é o domínio do pensamento. o


domínio do espirita. Até hoje, temos estado subme-
tidos à hierarquia e oprimidos por aqueles que se
apoiam em ideias e estas» - quem ainda não se
apercebeu disso? - cé o sagrado» (pág. 97).

1 Em francês no original.
2 • a CWadão ~· bur~.

211
(Stimer tentou precaver-~ contra a acusação de
em todo o seu Livro se ter limitado a .produzir
«ideias»., quer dizer.. co sagrado», não tendo de facto
produzido eDl ,parte alguma a mais .p equena ideia
~ certo que, em Wigand, se atribui uma cvirtuosi-
dade de pensamento•. quer dizer. segundo ele. uma
virtuosidade na arte de fabricar «o sagrado» - e
quanto a este último ponto não podemos deixar de
lha conceder.) «A hierarquia é o poder soberano
do espírito• (pág. 467). -cNa Idade Média. a hie-
rarquia era débil porque se via constrangida a dei-
xar subsistir livremente a seu lado a barbárie do
mundo profano sob todas as suas formas» (veremos
imediatamente «de onde Stirner ficou a saber tudo
o que a hierarquia era obrigada a fazer»), «e só a
Reforma veio a fortalecer a hierarquia» (pág. 110).
cStimer> crê, com efeito, que «o domínio dos espí-
ritos nunca foi tão vasto nem tão poderoso» como
depois da Reforma; pensa que este domínio dos
espíritos, cem vez de separar a arte, o Estado e a
ciência do principio religioso. subtraiu-os totalmente
à realidade para os elevar ao remo do espiri to.
impregnando-os de religião>.

Nesta concepção da história moderna evidencia-se uma


vez mais a velha ilusão da filosofia especulativa referente
ao poder do espirita na história. Fsta .passagem mostra-nos
, mesmo com que fidelidade. com que cega confiança o nosso
crédulo Jacques le Bonhomme 1 aplica ao mundo real a con-
cepção do mundo tomada de Hegel e convertida por ele em
tradicional, e como «opera> sobre e.sse terreno. Nesta pa~a-
gem s6 a hierarquia, a sua concepção pessoal do domínio
dos espiritos. pode ser tida como cpessoal> e «ú.nicu. é por
esse motivo que iremos «inserir» aqui uma breve creflexão
histórica> sobre a origem da «hierarquia» stimeriana.
Hegel pronuncia-se sobre a filosofia da hierarquia das
seguintes cform~:

1 Em francês no original

212
cVimos na República de Platão a ideia de que
os filósofos deve:D1 governar o mundo. Este momento
da história.» (a Idade Média católica) ccorresponde
à época em que se afirma que é o espírito que deve
dominar. Mas deu-se ao espiritual um sentido pre-
ciso, o do poder eclesiástico 1 : são os eclesiásticos
que devem dominar_ O espiritual foi assim trans-
formado numa pessoa particular, num indivíduo»
(Histf.ória] d[a] filo[sofia], IlI, pág. 132). cComo
resultado. a realidade. a vida terrestre, são abando-
,iados por Deus. . . Só alguns raros individuos são
sagrados, os demais são profanos. c(lbidem, pág.
136). Esta noção de «abandono de Deus> é ainda
esclarecida nos seguintes termos: «Todas estas for-
mas» (família. trabalho, vida pública, etc.) «são
consideradas sem valor, profanas,; (Filof.sofia] d[a]
re[ligião ],, Il, págs. 342,, 343). «Estas formas cqns-
tituem uma união irreconciliada com a vida tem-
poral. a vida temporal em si, no estado bruto» (nou-
tros sítios Hegel emprega também o termo barbárie:
cf. por exemplo Hist. da fiL, IlL pãg. 136) ce est~
enquanto tal, nunca pode ser dominante e sim domi-
nada» (Fil. da reL, IL págs. 342,, 343 ). «Embora
pretenda ser um domínio do espiritual, este domínio»
(a hierarquia da Igreja católica) cé portanto o reino
da paixão• (Hist. da fil., IIL pág. 134). «Ora o ver-
dadeiro domínio do espirito não deve ser um domínio
em que o elemento oposto seja mantido num estado
de subordinação (Ibidem, pág. 131). d: necessário
que o espiritual enquanto tal> {«Stimeo diz «o sa-
grado•) cseja o factor determinanJe, o que sucedeu
mesmo até ao coração da nossa época: assim, vemos
na Revolução francesa» (cStimer> vê-o em H ege[).
cque o pensamento abstracto deve daminar: é ele
que deve determinar as constituições e as leis, cons-
tituir a união entre os homens; e os ho_m ens devem

1 Em alemão os dols termos são parecidos das gei8tige


(o espiritual), das geiatUc"6 (o ecleslútlco).

213
por sua vez ter cqnsciência de que os valores cuja
existência admitem são pensamentos abstractos, quer
se trate da liberdade. da igualdade, etc.J> (Hist. da
fil., III, pág. 132). A ideia do verdadeiro domínio
do espírito tal como o protestantismo o introduziu,
e em oposição com a forma imperfeita que conhece
na hierarquia católic~ é precisada por Hegel nos
seguintes termos: «A vida temporal em si é espiri-
tualiu:,do (Hist. da fil., III, pág. 185); «O divino
realiza-se no âmbito da vida real» (logo. a reálidade
deixa de ser abandonada por Deus no catolicismo).
(Fil. da rei., II. pág. 343 ); a «contradição» entre
santidade e vida temporal «resolve-se na vida ética»
(Fil da rei., II, pág. 343); «as instituições da vida
ética (casamento, família. Estado, actividade profis-
sional_ etc.) são «divinas, sagradas» (Fil. da rei., II,
pág. 344). Hegel exprime este verdadeiro domínio do
espírito de duas formas diferentes·: «O Estado, o go-
vuno, o direito. a propriedade, a ordem social»
(e também a arte e a ciência, etc., como depreende-
mos de outras obras do mesmo autor), «tudo isso7
constitui o elemento religioso... exteriorizado na
forma de finitude.» (Hist. da fil., ITI, pág. 185). E
finalmente este domínio do elemento religioso. do
espiritual, etc., é definido como sendo o reino da
filosofia: cActualmente» (no século XVIII), ca cons-
ciência do espiritual é o fundamento essencial razão
porque aquele domínio transitou para a filosafitD.
(FiL da hist., pág. 440).

Assim, acreditando em Hegel, a hierarquia católica na


Idade Média ter-se-ia proposto ser «o domínio do espirito>,
o que o leva a considerá-la como uma forma imperfeita e
limitada desse reino do espírito cuja consumação se efectiva
para ele no protestantismo e no seu suposto desenvolvimento
Por mais contrário à história que possa ser este ponto de
vista, Hegel não perde no entanto o sentido da história ao
ponto de estender o termo hierarquia para além da Idade
Média. Mas São Max aprendeu, mais wna vez em Hegel, que
uma época ~ a cverdade» da que a precede. e portanto que

214
a época do domínio consumado do espírito é a verdade da-
quela em que o espírito só reinava de uma forma imperfeita;
que, consequentemente, o protestantismo é a verdade da hie-
rarqu.i~ logo.. a hierarquia verdadeira. E., como só a hierarquia
verdadeira merece o nome de hierarquia., é evidente que a
hierarquia da Idade Média deveria ser necessariamente uma
hierarquia cdébil», facto tanto roais fácil de provar quanto
nas passagens anteriormente citadas. e em muitas outras. Hegel
descreve a imperfeição do reino do espírito na Idade Média;
a Stirner basta recopiar tudo isto, consistindo o seu trabalho
«pessoal» em submtuir «domínio do espírito» por «hierar-
quia». Não precisa sequer de proceder à simples dedução que
permite transformar o domínio do espírito em hierarqui~
pois era moda entre os técnicos alemães trocar o efeito pela
causa e incluir, por exemplo, na categoria «teologia» tudo o
que de esta se afastara não se encontrando. portanto, ao nível
dos princípios desses teóricos- como seja a filosofia ~pe-
cuJativa de Hegel o panteísmo de Str~ 1, etc. Estes arti-
fícios estavam na ordem do dia, principalmente no ano de
1842. As passagens citadas mostram que: l.º) Hegel considera
a Revolução francesa como uma fase nova e mais perfeita
deste domínio do espírito; 2.°) vê nos filósofos do século XIX
os senhores do mundo; 3.•) afirma que actualmente só as
ideias abstractas têm valor entre os homem; 4.º) já considera
o casamento. à propriedade. o Estado, a actividade profissio-
nal, a ordem social. a propriedade. et.c., como «divinos e sa-
grados», oomo «elemento religioso»; 5_.) apresenta a moral
como uma secularização da santidade ou uma santificação da
vida secular. como forma suprema e última do domínio do
espírito sobre o mundo. Enfim. tudo o que encontramos em
cStirner>, palavra por palavra.
Depois disto nada mais temos a dii.er sobre a hierarquia
de Stimer. a não ser a ru.ã.o que levou Stirner a copiar Hegel
A explicação deste facto exige. por sua vez o conhecimento
de outros factos materiais: por essa raz.ão, só é explicável
por aqueles que conhecem bem a atmosfera berlinense. Resta-

1 David Frtedrlch Strauss ( 1808-1874), op. cu..


215
-nos o problema de saber como nasceu a .concepção hege-
liana do doroíoiCJ do espírito; sobre isto, ver o que ficou dito.
A razão que leva São Max a adaptar a ideia hegeliana
do domínio universal dos filósofos transformando-a em hie-
rarquia reside na ausência total de ~rito critico e na cre-
dulidade do ~ santo e na sua ignorância «sagrada• ou
incurável 1 : contenta-se com lançar uma vista de olhos sobre
a história (quer dizer. em a ver de facto aJravés dos escritos
históricos de Hegel), sem disso «saber> grande «coisa». Com
efeito, para que se decidisse a «aprender» qualquer coisa
deveria perder o receio de deixar de «suprimir resolvendo•
(pág. 96) e de ficar atolado na «agitada azáfama dos para-
sitas> - e parece-nos melhor não «continuar» até «suprimir»
a sua própria ignorância «resolvendo-a>.
Quem, como Hege]. empreenda pela primeira vez a cons-
trução de um esquema que se aplique a toda a história e ao
mundo actual na sua totalidade, tem necessariamente que
possuir amplos conh~imentos positivos assim como uma
grande _energia e sagacidade, não podendo deixar de referir-se
de vez em quando à história empírica. Mas quem se limita
a ex-piorar e a adaptar para fins .pessoais um esquema her-
dado de outro e a demonstrar esta concepção «pessoal» com
a ajuda de alguns exemplos. (como Negros e Mongóis, cató-
licos e protestantes, a Revolução francesa. etc.) - como faz
o nosso zelador do sagrado - jâ não :pr~isa de conhecer
seja o que for da história. O resultado de semelhante ex•plo-
ração só pode ser cómico, atingindo-se o cúmulo do cómico
quando se salta do passado .para a actuaJidade. como podemos
verificar ao falarmos na «obsessão».
Quanto à hierarquia da Idade Média, à hierarquia real,
limitar-nos--emos a observar que aquela não tinha qualquer
significado para o povo, para a grande massa dos homens.
Para estes existia apenas o feudalismo; e a hierarquia só
existia na medida em que era feudal ou antifeudal (no âm-
bito do feudalismo). Entre o feudalismo e a sua base existem

1 Jogo de palavras dificilmente traduzfvel: Sagrado (hd-


Ug) e lncuré.vel (la.eilos).

216
por sua vez relações totalmente empíricas. A hierarquia e as
suas lutas contra o feudalismo (lutas dos ideólogos de uma
classe contra essa própria ola~) são apenas a ex~o ideo•
lógica do feudalismo e das lutas que se desenvolvem no seu
seio. inclusivamente as lutas entre as nações de organização
feudal. A hierarquia é a forma ideal do feudalismo, e o feuda-
lismo a forma política das relações de produção e de troca em
vigor na Idade Mé.dia. Só a análise deMas relações práticas
materiais pode portanto explicar a luta do feudalismo contra a
hierarquia. Esta análise implicará automaticamente o desapa-
recimento da concepção da história até agora em vigor, que
aceitava confiadamente as ilusões da Idade Média, especial-
mente as ilusões que o papa e o imperador faziam valer nas
lutas que os opunham.
Como São Max se limita a reduzir a «fórmulas .pompo-
sas e ideias miseráveis» as abstracções hegelianas sobre a
Idade Média e a hierarquia., não cabe insistir aq9i sobre a
hierarquia real. a hierarquia histórica.
O que precede é suficiente •para mostrar que é possível
inverter a bela pirâmide que nos é apresentada em questão e
vêr no catolicismo não somente o estado preliminar mas
também a negação da hierarquia verdadeira Assim.li pois o ca-
tolicismo é a negação do espirito, a antítese do espírito. a vida
dos sentidos, de que o nosso bravo Jacques de honhomme 1
se aproveita para nos impingir a sua grande frase sobre os
Jesuítas que «Nos salvaram do deperecimento e do declínio
da vida dos sentidos» (.pág. 118). Que seria de cNós» se
~ «declínio> da vida dos sentidos tiv~ ocorrido? Não
nos é dito. Nada existe para cStirner> de toda a evolução
material desde o século XVI, que. longe de nos aalvar> do
cdeperecimento> da vida dos sentidos. desse a esta follllaS
muito mais d~volvidas. Tudo isto foi feito pelos Jesuítas.
Consultar aliás a Fil[osofia] da hist[ória] de Hegel
(pág. 425).
Stimer, trampondo ,para a época moderna o antigo
dominio do clero. consegue definir esta época. através do

1 Em trancêa no original.

217
cclericalimun. Depois. definindo por sua vez a diferença que
separa este mode~o domínio clerical do domínio dos padres
na Idade Média, apresenta-a oomo domínio dos ideólogos.
ca era dos pedagogos». Assim. clericalismo = hierarquia en-
quanto domínio do espíri~o; reino dos pedagogo_s = domínio
do espírito enquanto hierarquia.
cStimer> opera esta simples transição para o clericalismo.
que não é de facto transição alguma, utilizando três laborio-
sas variações.
Em primeiro lugar. «encontra> a «noção de clericalismo:.
em todo o homem cque vive para uma grande ideia, para
uma boa causa» (sempre a boa causa!), «wna doutrina, etc.»
Depois do seu mundo de quimeras, Stimer «tropeça» na
cantiga quimera de um mundo que ainda não aprendeu a
dispensar o clero:., isto é. que continua a «viver e trabalhar
por uma ideia», etc.
Em terceiro lugar, «é ~ o reino da ideia, ou seja o
clericalismo:.. pois «Robespierre, por exemplo> (por exem-
plo!). «Saint-Just. etc.» (et caetera!). «eram clérigos até ao
fundo da alma>. etc. Estas três «variações» em que o clerica-
lismo é «descoberto». «examinado» e «proclamado» (tudo na
página 100). exprimem apenas o que já nos foi dito por São
Max várias veies. a saber, o domínio do espírito. da idei~ do
sagrado sobre a cvida> (/bidem).
Depois de ter fundamentado a história no cdomínio da
ideia ou clericaJiSDJo:., São Max não tem evidentemente q uai-
quer dificuldade em encontrar «o clericalismo» em toda a
história passada e, apresentando «Robespierre, por exemplo,
Saint-J ust. etc..» como clérigo. em identificá-los com Ino-
cente m e com Gregório VIL de modo que toda a unicidade
desaparece perante o único ... Não serão todos eles, por
assim diz.er. meros nomes diferentes. meros disfarces de um
único personagem, co» clericalismo, quem fez toda a história
desde as origens do cristianismo? Nesta maneira de conceber
a história. «todos os gatos são pardos», pois todas as dife ..
renças históricas são «abolidas» e «dissolvidas> na «noção
de clericalismo•; São Max dá-nos um exem pio flagrante ao
citar «Robespierre. por exemplo, Saint-Just. etc.>. Começa
por citar Robespierre como «exemplo» de Saint-Just, e depois

218
Saint..Just como cet caetera> de Robespierre. Ao que acres..
centa: «A estes representantes de interes.ses sagrados opõe-se
um mundo de inumeráveis inter~s «.pessoais», cprofanoS>.
De facto. quem se lhes opunha? Os Girondinos e os Termi-
dorianos 1 • que. aos autênti~ representantes das forças revo ..
lucionârias -quer dizer, da única classe autenticamente revo-
lucionária: a massa «inumerável» - reprovavam sem cessar
(ver as Memórias de R. Levasscur 2 , «-p or exemplo», «etc.>,
cquer dizer». Nougaret: Hist[ ória] das prisõesª - Barere •
- Deu.x Amis de la Uberté 11 (et du commerce ª) - Montgail-
lard, Histoire de la France 1 - Mm.e Roland, Appel à la
posterité ª -Mémoires de J.-B. Louvet 9 - e mesmo os ignó-
beis Essais historiques 10 por Beaulieu 11 • etc., etc., assim como
todos os debates do tribunal revolucionário, «etc.»). por vio-

..
1 Deputados e homens ,polltlcos que derrubaram Robes-
pierre no 9 de Termldor do ano II 1(!27 de Julho de 1794).
2 Renê de la Sarthe Levasseur: ·Mémotres, vol. 1-4, Paris,
1829~1831.
1 -P lerre-Jean..Bapt.lste Nougaret: Hi8toire des prison.s de
Pari., et eles <Upartements, Paris, 1797, vol. 1-4.
• Bertrand Barêre de ·VIeuzac ( 17,55-,;IS¼1) : um dos prin-
clpaJs causadores da queda de ·Robespierre.
e Em francês no original.. Sob este pseudónlmo ( dols
amigos da Liberdade) :fol publicado em Paris, em 1179'2, uma
História da Revolução francesa, da autoria de F.-Marle Kerver-
seau e de G. Clavelln.
• Em francês no original Destgna.çã.o acrescentada por
Marx e que é por ele frequentemente atrlbu!da aos burgueses
da época: <amigos do comérclo>. ·
1 Em francês no original. Gulllaume-Honoré Montga.lllard:
RetMta cr0ftol6gtca da H'8t6na de FrcJt1~a desde a ,:,rimeira Con-
venção dos NotAvels atê à partida das tropas estrangeiras (1787-
-1818), 1Pe.-ris, a..820.
a Em francês no original. Jeanne-Ma.non Roland de la
Pla.tiêre: Apelo à posteridade imparcial, recolha dos ~scrltos
redigidos pela cidadã Roland durante a sua detenção nas prisões
Abbaye e de Sainte-Pélagte, Paris, 179:i.
9 Em francês no original. J'ean-Ba,pt18te Louvet de Cou-
vray: .lfem6riaa, 1823.
.10 Em francês no original: Euatoa Mst6ricoa.
11 Claude-François Beaulleu: EMa,os hiat6ricoa sobre aa
cawa.a e e/6'toa da Revoruçdo Francua, P ~ , 1801-1803.

219
)arem os cinteresses sagrados», a constituição, a liberdade, a
igualdade, os direitos do homem. as instituições republicanas_
as leis. a sairrle proprieté 1 • «por exemplo», a divisão dos pode-
res. a humanidade. a moral, por irem longe demais, cetc.».
Perante eles estavam os sacerdotes a acusarem-nos de violar
todos os artigos. principais ou secundários, do catecismo reli-
gioso e moral (ver cpor exemplo»; Histoire du clergé de
France pendant la Revolution ', por M.-R. ª, Paris, Livra-
ria católica., 1828 cetc.»). A interpretação burguesa segundo
a qual c R ~ e . Saint-Just. etc.•, durante o regne de la
T erreur 4 , teriam cortado a cabeça aos honnêtes gens 5 ( ver
cpor exemplo• os numerosos escritos do inocente Sr. Peltier 0 ,
a Conspiralion de Robespierre 1 por Montjoie 8 , cetc.») é
retomada por São Max com a seguinte variante: cOs sacer-
dotes ou p:xlagogos revolucionários cortaram a cabeça aos
homens porque serviam o homem.» Esta frase dispensa São
Max do incómodo de dizer sequer uma «única» palavra sobre
as r ~ reais que levaram a cortar cabeças, razões em piricas
alicerçadas em interesses muito profanos, não dos agioteurs 9
é certo, mas da massa «inumerável». Já no século XVII, um
«sacerdote>. Spinoz.a, tinha-se atrevi.do a arvorar em ccerisor»
antecipado de São Max, dizendo: cA ignorância não é um
argumento•. A isto se deve o ódio de São Max pelo sacerdote
Spinoza a tal ponto que adopta o sacerdote Leibniz. como
anti-sacerdote de Spinoza e inventa para todos os fenómenos
estranhos tais como o Terror, cpor exemplo», ou a guilho-

1 Em francês no original. Santa proprtedade.


2. Em trancês no original. História do cl,ero fraflC~ du-
rante a Bevo'-çdo.
• Hippolyte !Ugnler d'Estourbet: autor que se oculta sob
as ln1cla.ls H. R.
• Em francês no original. Reino do Terror.
11 Em francês no original. Pessoas honestas.
• Jean-Gabriel ·Peltier (:1.765-182'5): publicista francês,
mon.ãrqulco. ·
., Em trancês DO original. Conapir~ d.e RobeBpMn"e.
a Féllx-Crlstophe-Louls Ventre de la Touloubre Montjole:
Hiat6ria da COfljKfltMra dB M a.zimiltaftO Robespwm"e, Parw, 1796.
• Em francês no original. Agiotas.

220
tina, cetc.». numa craz.ão suficiente•. a saber. a de «esses
homens, esses sacerdotes se terem convencido disso» (pág. 98).
O felizardo São Max.que encontrou uma razão sufi-
ciente para tudo, (cEncontrei o fundo onde a minha âncora
se prenderá eternamente» 1 • Onde poderá estar esse fundo
senão na. ideia cpor exemplo». do «clericalism.o» cetc.• de
cRobespierre. por exemplo. de Saint-J ust, etc.», de George
San.d. Proudhon 2 • sem falar na casta costureira de Berlim.
etc.?). São M~ portanto, «não tem rancor à classe burguesa
pois oonwltou o seu próprio egoísm.o para saber até que
ponto podia deixar o campo livre à ideia revolucionária».
Para São Max. ca ideia revolucionária> dos habits bleus e dos
honnêtes gens de 1789 é igual à dos sans-culottes de 1793; é
um.a mesma ideia acerca da qual se delibera se deverá ou
não cter campo livro - e com tais afirm~ toma-se im-
possível «deixar campo livre> seja a que «ideia> forª.
Chegamos assim à hierarquia actual, ao domínio da iq~ia
na vida corrente. Toda a segunda parte «do Livro» se resume
à luta contra esta «hierarquia>. Só examinaremos, portanto, os
seus deta1hes nesta segunda parte. Todavia. como São Max,
tal como a .propósito da «obsessão»,. já saboreia antecipada-
mente as suas ideias. afirmando aqwlo que irá repetir mais
adiante, somos forçados a examinar desde já alguns espécimes
da sua hierarquia. O seu método de fabricar um livro não
ultrapassa o cegoismo• que se encontra em todas as partes
do Livro. O autodeleite de Stimer e o praz.er do leitor são
inversamente proporcionais.

1 Verslculo de um canto protestante.


2 Embora pareça aqui que os aut.ores colocam Proudhon,
de wn certo ponto de vista, no mesmo plano de Robespierre,
aquele fol porém severa.mente crlt.Lcado por Marx na sua carta
a Annenkov, datada de Dezembro de '1846, e alguns meses malB
tarde na sua. obra A Mia-hia da 11'Uoso/ia.
s Verlfioa-se nesta passagem a. tmportA.ncla.' das leituras
feitas paloe autores sobre a Revolução francesa. Sabe-se que,
aquando da sua primeira viagem a ·P aris, em 1843, Marx se
dedicou a este estudo de que encontramos aqui um apanhado.

221
Segundo Jacques le bonhomme 1. os burgueses, que recla-
mam que se ame o seu reino, o seu régime 2 , desejam «fundar
sobre a terra o reino do amoo Gpág. 98). Porque exigem
que se respeite o seu domjnio e as condições do seu domínio
isto é. porque pretendem canalizar o próprio respeito, o
no~ bom homem conclui que eles exigem •pura e simples.
mente o domínio do respeito e que têm perante ele a mesma
atitude que perante o espírito santo que neles vive {pág. 95).
A fé do nosso amigo Jacques le bonhomme '. que move-mon-
tanhas. leva-o a admitir como fundamento real, profano, do
mundo bourgeois' as deformações com que a ideologia
hipócrita e mentirosa da bowgeoisie ' pretende mascarar os
seus interesses muito particulares, fazendo.os passar pelo
interesse geral. Porque motivo esta ilusão ideológica toma no
nosso santo homem precisamente esta forma? Vê-lo-emos
quando tratarmos do «liberalismo •político~.
Na página 115, São Max dá-nos um novo exemplo.
desta vez sobre a família. Declara: é sem dúvida possível
uma pessoa emancipar-se facilmente do domínio da sua pró-
pria famflia; mas a «obediência contra a qual se reagiu
enraíza-se muito facilmente na consciência», de modo que
se conserva o amor pela família. a noção de família; tem-se
portanto a «noção sagrada da família»,. «o sagrado» (pág. 116).
Uma vez mais, o nosso bravo rapaz vê o reino do
sagrado onde apenas existem relações empíricas. O bow-geois 9
comporta-se perante os regulamentos do seu regime como
o I uiz perante a lei; transgride-os sempre que possível. em
cada caso particular. mas pretende . que todos os outros se
conformem. Se todos os bourgeois • resolvessem transgredir
as regras da bourgeoisie • em bloco e de mna só vez. deixa-
riam de ser bourgeois •. coisa que não pensam fazer, bem
entendido, e que não depende de forma alguma da sua von-

1 Em tranc&I no original.
2 Em francês no orlglnal. Iugime.
1 • Em francês no original.
"• • Em francês no orlglnal. Burgu&.
, Em franc~s no original. B1'rgue.rio.

222
tade O bourgeois 1 corrompido viola a instituição do casa-
mento e comete o adultério às escondidas; o comerciante
viola a instituição da propriedade através da especulação.
bancarrota, etc.• fazendo perder a outros aquilo que po~uem.
O jovem bourgeois *. quando pode. toma-se independente da
própria familia e abole praticamente, por sua própria conta,
os laços familiares. Mas o casamento, a propriedade, a famí-
lia continuam teoricamenre intactos porque constituem, na
prática, o fwidamento sobre o qual a bourgeoisie * edificou
o seu domínio. porque ~ instituições, na sua forma bour-
geoisie •. são as condições que fazem de um bourgeois • um
bourgeois *. tal como a lei transgredida sem cessar faz do
Juiz crente um Juiz crente. A moral burguesa constitui uma
das expressões gerais desta relação do bourgeois *. com as
suas condições de existência. Não se justifica. aliás, falar de
«a» familia. A história mostra que a bourgeoisie * oonstitui
o seu próprio tipo de família burguesa. onde o tédio e o
dinheiro são a única relação existente e cuja compensação
é a dissol~o burguesa da famíli~ que não impede que esta
continue a existir. Ao modo de vida corúrangedor do burguês
corresponde. na frase.ologia e na hipocrisia geral. o conceito
sagrado. No proletariado. por exemplo. onde a família se
encontra realmente di~lv.ida, ~-se justamente o contrário
do que pensa cStimer>. Aí. não existe o conceito de familia;
mas. ocasionalmente, é possível encontrar um c.erto pendor
para a vida familiar que se apoia em relações de facto reais.
No século XVIII, a ideia de família foi dissolvida pelos
ataques dos filósofos porque, nas esferas superiores da socie-
dade civilizadaw a familia real estava já em vias de dissolução.
Haviam-se dissolvido os vfnculoo internos da familia. os dife-
rentes com•ponentes da ideia de familia, como por exemplo
a obediência.. a piedade. a fidelidade conjugaL etc. Mas o
oorpo real da familia, as condições de propriedade, a atitude
de exclusão relativamente a outras famílias, a cohabi tação
forçada. as relações criadas pelo sim pies facto de existirem
crianças, pela construção das cidades modernas. ou pela

1 • Em francês no original.

223
f orrnação do capital, etc., continuaram. a subsistir - se bem
que alteradas em muitos aspectos - porque a existência da
familia é imposta como uma ne~idade pelos laços que a
prendem ao modo de produção. ·independente da vontade da
sociedade burguesa. Até que ponto ela é necessária revela-o
de forma flagrante a Revolução fran~ onde a família foi
temporariamente suprimida no -p lano legal. A família conti-
nuou a existir, mesmo no séoulo XIX, com a diferença de
que o processo de decomposição se tornou mais geral, não
devido ao conceito. mas ao desenvolvimento da indústria
e da conconêocia; e continua a existir, apesar de a sua
di!Wllução ter sido proclamada desde há muito tempo pelos
socialistas franceses e ingleses. e de os · romances franceses
terem acabado por levar este facto ao conhecimento dos
Padres da Igreja alemães.
Mais um exemplo do domínio da ideia na vida corrente:
pode acontecer que os pedagogos se resignem com a modéstia
do seu soldo se se lhes mencionar o carácter sagrado da
causa que servem, (o que só pode acontecer na Alemanha);
mas Jacques le bonhomme 1 crê realmente que é este o
motivo dos se~ magros proventos (pág. 100). Crê que «o
sagrado• tem, no mundo burguês de hoje, um valor mone-
tário real. e crê ainda que a supressão cdo sagrado» aumen•
taria de tal forma os magros recursos do &tado prussiano
(sobre esta questão, cf. Browning 1 ) que o mais humilde
mestre-escola rural poderia usufruir um vencimento de mi-
nistro.
Tal é a hierarquia do absurdo.

1 Em francês no original.
2 G. Brown1ng: TM domeatica.l and /fflaflcial Oon.düion o/
great Brita411; ,,,,-ec#Jded by a ~ aketch o/ 11.er Foreign policy,
and o/ the atatiatica afld poHtica of FraftCe, Ru.s8'a, Auatria and
Prw&ria. (A Situação polltioa e ftna.ncelra da Grã-Bretanha;
precedida de um breve panorama da sua polf tica externa e de
intormações estatisticas e polltlcas aobre a França, a Rússia,
a .Austrta e a Prússia). Londres, 1834.

224
Masco fecho de abóboda> da hierarquia., cdesta sublime
catedral», como diz o grande M-ichelet 1 • é «por vezes> obra
docso.
«Divide-se por vezes os homens em dois gru-
pos: os ooltos e os incultos.> (Divide-se .por Vt:Ze.S
os macacos em dois grupos: os que têm cauda e os
que não têm.) cOs primeiros, quando eram dignos
do seu nome, ocuparam-se das ideias. do espirito>.
«No mundo pós-cristão>, eles «foram os domina-
dor~ e exigiram ... o respeito pelos seus pensa-
mentos». Os incuhos (animal, criança, Negro) são
cdébeio em matéria de pensamentos e csão domi..
nados -p or eles. Tal é o sentido da hierarquia>.

Os cultos (adolescente, Mongol moderno) ocupam-se


pois exclusivamente do espirita., do ,pen.cwnento puro., etc.
São metafísicos de profissão e. em última análise, --hegelia-
nos. «De onde• se depreende que os incultos são os não-
-hegelianos. Hegel foi. sem dúvida alguma, o mais culto de
todos os hegelianos; e é por isw que nele se deve crevelar
o desejo ardente pelas coisas que é precisamente característico
do homem mais culto>, pois o homem culto e o inculto
chocam-se mutuamente, isto é, em cada ,individuo choca-se
o culto com o incuho. Ora. o facto de em Hegel se revelar
um enorme desejo pelas coi~ desejo que o impele para o
domínio do indivíduo inculto, diz-nos igua1mente que o
homem mais culto é simultaneamente o mais inculto. e.Ai»
(em Hegel), a realidade deve corresponder totalmente ao
peo.c:.amento e nenhum conceito deve carecer de realidade».
Dever-se-ia dizer: Af, a represent.ação comum da realidade
deveria encontrar a sua eXipressão filosófica exacta; ora
Hegel pensa o contrário: que toda a expressão filosófica cria
a realidade que lhe corresponde. Jacques le bonhomme 2

1 Carl Ludwig Michelet, autor de uma obra. tntituJarla:


GeacAkhte der 'letzten Syrt6ffl6 der PhUoaophte in Deutschland
"°" Kant bis Hegel (·Hlstõrla dQS 6lt1mos sistemas fi-loeóflcos
na .AleD"lanba, de Kant a Hegel), Berlim, 1837-1838. L2.
1 Em francês no orlginaJ..

225
aceita a filosofia hegeliana de acordo com a ilusão que dela
tenha o próprio Hegel.
A filosofia hegelian~ que coroa esta hierarquia com o
domínio dos hegelianos sobre os não-hegelianos, conquista
agora o último império universal.

cO sistema de Hegel constituiu o despotismo


e a autocracia máximos do pensamento, a soberania
absoluta e a omnipotência do espírito.> (pág. 97).

Entramos aqui no reino espiritual ela filosofia hegeliana.


que se estende de Berlim a Halle e Tübingen, o reino dos
espíritos cuja história foi escrita .por Bayrhoffer 1 e para
a qual o grande Michelet 2 compilou as suas notas esta.-
tfstic.as.
Este reino dos espiritos foi preparado 1pela Revol~o
francesa. «Ela não fez mais do que tranrformar as coisas
em representações das coiSQSJ) (pág. 115 - ver mais atrás o
que Hegel diz da Revolução, pág. 158). «Era-se cidadão»
(é certo que isto em cStimer> aparece antes, mas «o que
Stimer diz não é o que pretendeu dizer, e o que ele pretendeu
dizer é impossível de ser dito». Wig{and], pág. ·149). ce vivia-se
na reflexão, tinha-se um objecto sobre o qual se reflectia.
pelo qual se» (per appo.s{itionem]) «sentia respeito e temor>.
cStirner> afirma na página 98: co caminho do Inferno está
cheio de boas intem;.ões». ,Nós diremos antes: O caminho
do Onico está repleto das piores frases de encher ª. de acres•
centos que constituem a sua cescala celeste». usurpada aos
Chineses, e a sua «corda do objectivo» (pág. 88) sobre a
qual executa os seus csaltos de pulga». Depois disto, foi

1 Ka.rl Theodor IBa.)Thof.fer: .IXe Idee und <hacMchte der


PhUo1ophfe •(A ideia e a hmt6ria da filosofia.), lrla.rbourgr l.838.
s Ca.rl Ludwig JOchelet (1801-1893): co-editor d&'!I olbras
1

de Hegel.
• Jogo de 1Palavras: Vorsêitze = intenções, prop6sltos., e
Nac'lwlil,tze que, não tendo correspondente na nossa, llngua.. tra-
duzimos por «frases de encher:,.

226
fácil para ca filosofia moderna ou. se se preferir, a época
moderna> - desde o advento do reino dos espíritos, a época
moderna é, todos o sabem, a filosofia moderna - foi por-
tanto fácil «transformar os objectos existentes em objectos
representados., quer dizer, em conceitos» (pág. 1-14), tarefa de
que São ·Max se arvora em continuador.
Logo no inicio do seu Livro. cantes de existirem as
montanhas- que depois são derrubadas pela sua fé, vimos
o nosso cavaleiro da triste figura lançar-se desenfreadamente
para o resultado grandioso da sua «sublime catedral». Mas
a sua «pileca>, o acrescento, não galopava tanto quanto
pretendia. Agora (pág. 114), acabou por alcançar a sua meta:
1

um «Ou» .poderoso permitiu-lhe converter a época moderna


em filosofia moderna.
Por este motivo, a época antiga (quer dizer, a época
antiga e moderna, negra e mongol ou ainda, a época pré-
-stimeriana) «alcançou o objectivo final que se propusera».
~-nos agora possível revelar a razão pela qual São Max
deu a toda a primeira parte o título de «o homem» e porque
pretendeu faz.er ~ r as suas histórias de feiticeiros, fan-
tasmas e cavaleiros, ,pela história cdo Homem». As ideias
e os peru;am~ntos dos homens eram. por natureza. ideias e
pensamentos que tinham sobre si mesmos e sobre as suas
condições de existência; tratava-se da consciência de si mes•
mos e dos homens, .pois esta consciência não era apenas a do
indivíduo isolado mas a do indivíduo em relação de depen•
ciência com toda a sociedade e a de toda a sociedade em
que viviam. As condições, independentes deles, em que
reproduziam a sua própria existência, · as formas de troca
que delas dependiam necessariamente. as relações pessoais
e sociais que implicavam. deveriam, se fossem traduzidas em
pensamentos, revestir a forma de condições ideais e de rela..
ções n e c ~ quer dizer, deveriam necessariamente expri-
mir-se na consciência sob a forma de determinações saídas
do conceito de Homem, do ser humano. da natureza humana,
do Homem. Na consciência. a realidade dos h9mens e das
relações tomava a forma de uma representação do Homem,
dos seus modos de vida ou das suas determinações concep.
tuais mais rigorosas. Os ideólogos afirmaram que as ideias

227
e os pensamentos tinham dominado a história até aos nossos
dias. e que a toda a época histórica correspondem ideias
e pensamentos; pensaram que as relações reais se tinham
moldado ao Homem e às suas relações ideais. quer dizer,
às suas determinações conceptuais: tomaram como base da
história real dos homens a história da consciência dos homens
acerca de si mesmos. Posto isto, nada mais fácil do que
baptizar · a história da consciência, das ideias, do sagrado,
das representações estabelecidas com o nome de história «do
homem» e fazê-la ~ar .pela história real. O único ponto
que distingue São Max de todos os seus -predecessores, é o
facto de nada saber destas representações, mesmo depois de
isoladas arbitrariamente da vida real de que foram produtos,
e de limitar a sua contribuição, aEás inexistente, a um plágio
da ideologia hegeliana, que atesta bem a que ponto pode
.ignorar aquilo que .plagia. Tudo isto basta para explicar
como lhe é po~vel opor a esta concepção imaginária da
história humana a história do indivíduo real sob a forma do
Onico.
De i.nfcio, a história única desenrola-se na Stoa de
Arenas 1 ,, depois quase inteiramente na Alemanha e, para
terminar,, em Berlim, no Kupfergraben. onde o déspota da
cfilosofia, ou_ se se preferir, da época moderna>, tinha insta-
lado a sua residência 1 • Isto é suficiente para provar a que
ponto tudo isto constitui um assunto puramente nacional e
de interesse local. Em vez de falar da história universa!, São
Max oferece-nos alguns comentá.rios. de resto muito pobres
e desacertados. sobre a história da filosofia e da teologia
al.emiis. E se. por mero acaso,, deixamos aparentemente a
Alemanha.. é apenas para permitir que as acções e os .pensa-
_mentos de outros povos. como por exemplo a Revolução
francesa. alcancem na Aleroanba, e ma.is precisamente no
Kupfergraben, co objectivo final que se tinham proposto>.
Só são citados acontecimentos alemães, que são tratados e

1 O PórUco, onde o filósofo Zen.ão de Citium •(estóico)


ens1uav-a a sua doutrina.
t Retterêncla ao local onde Hegel habitava.

228
interpretados do ponto de vista nacional-alemão e cujo resul-
tado não ultrapassa naturalmente o âmbito nacional-alemão.
Mas ainda não é tudó; as concepções e a cultura do nosso
~to nem sequer sã.o alemãs. são cem por cento berlinenses.
O papel atribuído à filosofia hegeliana resume•se ao que ela
d~penha em Ber~ e Stimer confunde Berlim com o
mundo e a sua história.. O «adolescente> é berlinense, os
bravos burgueses que encontramos um pouco por todo o lado
no Livro são filisteus habituados à cerveja branca das cerve-
jarias berlinenses. Tais premissas só podem evidentemente
conduzir a resultados que não ultrapassa ro o âmbito nacional
e local cStimer> e toda a sua confraria filosófica. de que
é o elemento mais fraco e mais ignorante, constituem um
comentário prático aos intrépidos pequenos versos do intré-
pido Hoffmann voo Fallersleben:

cSim. somente na Alemanha, na Alemanha.


Desejaria viver eternamente 1».

O resultado obtido, em Berlim, pelo nosso intrépido


santo - o mundo inteiro submerso na filosofia hegeliana -
permite-lhe fundar agora, sem grande esforço, o seu «próprio»
império mundial A filosofia hegeliana metamorfoseou tudo
em pensamentos, em «sagrado». em fantasmas. em espírito.
em espiritos. em visões. cStimer» vai combatê-los. e vencê-los
na sua imaginação para f1mda r. sobre os seus cadáveres, o
~u império «próprio>. «Único». «corporal». o império do
«indivíduo todo inteiro>.

«Pois. não é contra adversários de carne e


sangue que devemos lutar, mas contra os principa-
dos, contra os poderosos, contra os que governam
este mundo de trevas. contra os espíritos do mal
que habitam os espaços celestes». (Epistola aos Efe-
sos, 6; 12.) 3 •

1 Versos extraido& da canção cNur 1n DeutscbJanrb.


2 A BantG B'11Ua, pãg. 3673.

229
Eis «Stimer> cde botas calçadas e disposto a levar a
c.abo» o combate contra os ,pensamentos. Quanto ao «escudo
da fé>, não necessita «empunhá-lo», pois nunca o largou.
Armado com o cehno» do infortúnio e com a «espada» da
ausência de espírito (Ibidem), parte !p ara a guerra. «E foi-lhe
permitido declarar guerra ao sagrado, mas não «vencê-lo».
(Apocalipse segundo São João, 13. 7). --

5. •Stirner• comprazendo-se no seu esquema

Encontramo-nos exactamente no mesmo ponto da página


19., com o adolescente que se tornava homem, e da página 90,
com o Caucasiano mongol que se transforma em Caucasiano
caucasiano e se «encontra a si mesmo». Chégamos pois ao
momento em que esse misterioso indivíduo, de que São Marx
nos conta as cduras lutas -p ela vida», se encontra a si mesmo
pela terceira va. Chegámos agora ao fim de toda esta história,
e o vasto material por nós elaborado permite-nos lançar uma
vista de olhos retrospectiva sobre o cadáver monstru050 do
homem decrépito.
São Max. tendo ,já esquecido a sua história, declara em
seguida «que o génio é desde há muito considerado como o
criador daquilo que a história universal :produz de novo»
(pág. 214). E vimos que nem os seus piores inimigos podem
cometer a injúria de fazer este agravo à sua pró.pria história..
na medida em que os seus actores não são .pessoas. nem muito
menos génios. mas apenas pequenos monstros e abortos ideo-
lógicos nascidos de uma leitura de Hegel.
Repetitio est maJer studiorum 1 • São Max. que apenas pro-
duziu a sua história da «filosofia ou, se se preferir, da época».
para poder le.r Hegel rapidamente, repete mais uma vez, para
acabar toda a sua história única. No entanto, fâ-Io em termos
de história natural que nos trazem esclarecimentos importantes
sobre a hi9tória wnicu da -natur~ e que se explicam pelo
facto de o cmundo•. onde quer que desempenhe um pa,pel im-

1 A repetição é a mie da l)edagogia.

230
portante. se converter para ele na NJture.za A ciência cúrucu
da. natureza começa imediatamente pela confissão da sua
impotência. Não se detém a considerar a relação real forne-
cida pela indústria e as ciências da natureza mas proclama
a relação fantástica do homem com a naturez.a. «Quão redu-
zido é o poder do homem! O Sol segue o seu curso, o mar
enrola as suas ondas. as montanhas erguem~ para o céu,
e o homem nada pode.• (pág. 122). São Max que. como
todos os santos. gosta dos milagres. sem nunca ter conseguido
todavia uitrapa$3r o milagre lógico. irrita-se por não poder
obrigar o Sol a dançar o Canca.n. lamenta-se por não poder
fazer com que o mar fique em repouso. indigna-se de não ser
capaz de impedir as montanhas de se erguerem para o céu.
Se bem que na página 124, o mundo. desde o fim da anti-
guidade. se torne cprosaicoJ>, o nosso santo acha-o ainda
extreroaroP.Dte «poético». Para ele. é sempre o «Sol> e não a
Terra que percorre a sua órbita, e o seu grande desgosto .
é não poder fazer como Josué, ordenando: «Sol. detéDi~te>.
Na página 123. Stimer descobre que no final do mundo
antigo «o espírito transbordou. como wna espuma irresistível,
porque os gases (espíritos) se desenvolviam no seu seio; e.
uma vez que o impulso mecânico proveniente do exterior
perdeu toda a eficácia. esses gases deram origem a tensões
de natureza química que passaram. a entregar-se, do interior,
aos seus espantosos jogos».
&ta frase contém os dados essenciais da .filosofia cúnicu
da natureza que, desde a página precedente. tinha concluído
que a batureu é. para o homem,. co elemento indomável>.
A física profana ignora tudo o que se refere a um tal impulso
mecinico, :pertencendo o mérito da sua descoberta exclusiva-
mente à fisica única. A q ufmica profana não conhece «gases»
que dêem origem a «tensões de natureza químico e. mais
ainda. no «interior>. Gases que se combinem formando novas
misturas. novas combinações químicas, não produzem cten•
sões», mas quando muito expansões, passando ao estado de
agregado liquido. o que se reduz a menos de um milésimo do
seu volume anterior. Quando São Max. devido à presença de
«gases». sente ctensões» no seu próprio «interior>. trata-se
quando muito de «impulsos mecânicos•. mas de forma alguma
de ctensões de natureza quim.-i cu. São tensões de origem fisio-

231
lógica produzidas ,pela transformação química de certas mis-
turas noutras; uma parte dos elementos do com posto ante-
rior toma-se gasosa, passando a ocupar um volume maior e.
se não dispõe de espaço suficiente, provoca uma pressão ou
cimpulso mdoíco». para o exterior. Que ~ «tensões
químicas> inexistentes se entreguem no «interior> - e desta
vez trata-se da cabeça de São Max - a jogos espantosos, é
o que «vemos agora> no papel que desempenham na ciência
c:únicu da natureza.. De resto. seria bom que São Max não
continuasse a ocultar aos sábios .profanos q uai o género de
absurdo que lhe passa pelo espírito quando emprega a extra-
vagante expres.5ão «tensões de natureza química» e. sobre-
tudo. «tensões de natureza química» actuando no interior
(como se um «impulso mecâoi~,0» sobre o estômago não
actuasse igualmente no «interior»!).
São Max escreveu a ciência «única» da natureza -por-
que, desta vt:z, não podia falar decentemente dos Antigos
sem dizer algumas palavras sobre o «mundo das coisasi>,
a natureza..
No final do mundo antigo, os Antigos - é o que nos
afirma nesta passagem -convertem-se todos em estóicos
caos quais nenhuma derrocada do mundo> (quantas vezes
desabará pois o mundo?) «fará perder o sangue-frio>
(pág. 123). Os Antigos convertem-se :p ortanto em Chineses
cque nenhuma situação imprevista> (ou desvario 1 de Stimer)
cpoderá> tão-pouco cprecipitar do alto da sua serenidade»
(pág. 88). Mais ainda, Jacques le bonhomme 2 crê reaJmente
que «o impulso mecAoico :vindo do exterior perdeu toda a
eficáciu sobre os últimos Antigos. Basta ler Luciano, entre
outros. para ver em que medida esta opinião corresponde
à sitaação real dos Romanos e dos Gregos no final do mundo
antigo,. à desagregação e à insegurança totais, que mal per-
mite opor um · resto de vis inertiae ª ao «impulso wtdoico».

1 Jogo de palavras: l"all (neste ca.,o: Situação) e Etn/all


(ideia súbita., cksvarlo).
2 Em francês no original.
• Força de miêrcla.

232
Os gigantescos impulsos mecânicos sofridos pelo Império
romano devido às disputas entre os diferentes Césares e ao
seu consequente desmembramento, as.sim como à enorme
concentração da 1propriedade em Roma e. em iparticular, da
propriedade fundiária, que deu origem a uma diminuição
da população da Itália e, finalmente. os golpes dados pelos
Hunos e os Germanos, tudo -isto «perdeu a eficácia» para
o no~ santo historiador; foram as ctensões de natureza
químico, os cgases- provocados pelo cristianismo e.no inte-
rior>. e não outra coisa. que provocaram a derrocada do
Império romano. E os enormes tremores de terra que [no
Ocidente] e no Oriente, entro outros, soterraram. -por cimpul-
sos mecAoicos» centenas de milhares de homens sob as ruínas
das suas cidades - o que não aconteceu sem provocar per-
turbações morais nos homens - não tiveram certamente
cqualquer eficácia», segundo Stirner. e não passaram de
sim.pi~ ctensões de natureza química». E «efectivamente» · (l)
ca história da antiguidade termina quando Eu conquisto a
Minha .propriedade no mundg». afirmação demonstrada por
meio do seguinte versículo da Bíblia: cEu» (quer dizer, o
Cristo) crecebi tudo do Meu Pai>. Aqui, portanto. Eu=o
Cristo. Nesta ocasião. Jacques le bonhomme 1 não deixa de
acreditar no cristão quando diz que poderia mover monta-
nhas. etc.• cse o quisesse». Enquanto cristão. proclama-se
senhor do mlHldo, mas apenas na sua qualidade de cristão;
proclama-se co possuidor do mundo». cElevando o meu
Eu ao estado de possuidor do mundo. permiti que o egoísmo
alcançasse a sua primeira vitória total» (pág. 124). Para ele-
var-se à qualidade de cristão consumado, faltava apenas ao
Eu stimeriano SUSreJltar o combate que o conduziria à total
ausência de espirita (o que conseguiu mesmo antes de as
montanhas existirem). «Bem-aventurados os pobres de espí-
rito. pois será deles o reino dos céug. São Max conseguiu
chegar ao máximo da pobre:za de esQÍrito e, levado pela sua
grande alegria. vangloria-se desse feito perante o Senhor.

1 F.m francês no original.

233
São Max. desprovido de espírito, crê nas fantásticas
emanações gasosas produzidas pelos cristãos durante o pro-
~ de decomposição do mundo antigo. O cristão primi-
tivo, nada ~ d o neste mundo, contentava-se com a ilusão
de vir a possuir alguma coisa no céu, com os seus títulos de
propriedade do -p ovo. atribuía a si mesmo e à sua confraria
de pés-descalços. o titulo de «povo da propriedade» (1.0 Epís-
tola de São Pedro, 2,9). Segundo cStirnen>. a representação
cristã do mundo é realrot:nte o mundo resultante da decom-
p:>sição do muudo antigo. É quando muito. portanto, um
mundo ilusório no qual o mundo das antigas representações
se d~lve para dar lugar a um outro mundo onde o cristão
pode~ na sua fé. deslocar montanhas, sentir•se poderoso e
conseguir a cineficácia do impulso mecânico». E. na medida
em que para cStimeo os homens já não são determinados
pelo mundo externo e o impulso mecânico da necessidade
já não os constrange a produzir, na medida em que o impulso
e. por conseguinte, o acto sexual. perderam os seus efeitos,
pergunta-se como é que puderam continuar a existir. a não
ser por milagre. ~ sem dúvida mais fácil aos nosws belos
espíritos e pedagogos alemães da indole... gasosa de cStir-
ner>, contentarem-se com a concepção imaginária dos cris-
tãos sobre a :propriedade, que é de facto a .p ropriedade da
imaginação cristã,. do que analisar as modificações das rela-
ções reais de produção e de propriedade do mundo antigo.
Na realidade., esse mesmo cristão primitivo que, na ima-
ginação de Jacques te bonhomme 1 • era dono do mundo
antigo, era na maior parte das vezes propriedade do mundo
dos proprietários; era um escravo que ,podia ser vendido.
Mas nada detém cStimer> que. comprazendo-se com o seu
esquema, não deixa de o exultar:

cE assim se obteve a primeira propriedade. a


primeira glória!> (pág. 124).

O Eu stimeriano continua igualmente a adquirir ,pro-


priedades e glória e a alcançar cvitórias totais». O modelo

1 Em francês no original.

234
acabado, o protótipo da sua propriedade e da sua glória,
encontra..se na relação teológica do cristão primitivo com
o mundo antigo.
Esta propriedade do cristão é justificada do seguinte
modo:

cO mundo já nada tem de divino... tornou-se


prosaico, converteu-se em Minha propriedade e dis-
ponho dele como Me agrada» (como agrada ao
espirito.) (pág. 124).

Isto significa: o mundo já nada tem de divino. encon-


tra-se liberto das ilusões da Minha própria consciência;
tomou-se prosaico e. portanto, comporta-se prosaicamente
em relação a Mim. dispõe de Mim conforme lhe apetece.
mas de forma alguma se preocupa em agradar-Me. «Stir-
ner» manifesta realmente aqui a sua crença de que- na A·nti-
guidade não existia mundo prosaico e de que o divino residia
no mundo. Chega me.5mo ao ·p onto de falsificar a represen-
.tação do cristão, que não .p ára de se lamentar da sua impo-
tência ,perante o mundo e que na sw imaginação, faz da
sua vitória sobre o mundo uma vitória ideal que reporta
ao dia do Juízo Final. Só a partir do momento em que
o cristianismo foi confiscado e explorado pelo poder real
deste mundo - com o que deixou evidentemente de ser algo
estranho ao mu.nd(;> - se tomou possfve) que se imaginasse
dono do mundo. São Max estabelece entre o cristão e o
mundo antigo a mesma relação falaciosa que entre o adoles-
cente e o cmundo da criança»; e entre o egoísta e o mundo
do cristão, a mesma relação que entre o homem e o mundo
do adolescente.
A partir de agora, nada mais resta ao cristão do que
despojar-se o mais rapidamente possivel do seu espírito e
reconhecer a vacuidade do mundo do espírito, tal como
tinha acontecido relativamente ao mundo das coisas- ipara
poder assim «dispor a seu contento• do mundo do espirita,
o que o transforma num cristão conslHDado, num egofsta.
~ portanto a atitude do cristão perante o mundo antigo que
nos fornece a norma da atitude do egoísta perante o mundo

235
moderno. A .preparação desta ausência de espírito constitui
a essência de uma vida «quase duas vezes milenária», de
uma vida cujas épocas .principais só podem, naturalmente,
1

desenrolar-se na Alemanha

cRevestindo variadas formas, o E'.spírito Santo


converte-se, com o tempo, na ideia absoluta; e esta,
refractando-se por sua vez sob múltiplas formas,
originou as ideias de altruísmo. virtude cívica.
razão, etc.> (pág. 125-.126).

O nosso triste Alemão inverte uma vt2. mais o sentido


das coisas. As ideias de altruísmo, etc. - moedas cujo cunho
se encontrava completamente obliterado, sobretudo devido
à sua intensa circulação no século XVIII - foram fundidas
e sublimadas por Hegel, que fez delas a ideia absoluta; mas.
apesar desta refundição, não conseguiram no e.mangeiro
melhor cotiução que o papel-moeda ,prus.siano.
Eis a conclusão lógica da concepção stirneriana da his-
tória, tantas vezes já encontrada: «Os conceitos devem pre-
valecer em todo o lado, devem reger a existência, devem
drunioar. Tal é o mundo re1igioso a que Hegel deu uma
expressão sistemática> (pág. 126), e que o nosso bom homem
confunde de tal modo com o mundo reat que chega ao
ponto de afirmar, na página seguinte: «Agor~ só o espírito
reina no mundo•. E uma vez o seu cavalo atolado neste
mundo ilusório. Stimer -p ode (pág. 128) começar por cons-
truir um calta.D. edificar depois, «em tomo desse altar>.
e~ abóbadas de ■1Q13. ·.igreja>, cujas «pared~ i p o ~ ,per-
nas que as fa:u:m avançar e ir cada vez mais longe. «Esta
igreja abarcari em breve o mundo inteiro». Ele, o único.
acompanhado do seu criado Szeliga. «permanecem fora.
rodam em tomo dessas paredes e são repelidos até ao limite
extremo». cl ,ançaodo gritos provocados por uma fome devo-
radora.», São Max interpela o seu criado: «Um pas.so ainda
e o mundo do sagrado triunfará>. De repente, Szeliga cafun·
da-se» no ctxbemo abismo• que ,lhe está por cima Milagre
de estilo! C.om efeito, sendo a Terra uma esfera. desde que
a igreja abarque toda a Terra o abismo em questão só pode

236
~tar por cima de Suliga. &te inverte. portanto. a lei da
gravidade e cai no fundo do céu. honrando deste modo a
ciência cúnicu da natureza. Isto é-lhe tanto mais fácil
quanto, na página 126, cStimer> d~reza totalmente «a natu-
reza da coisa e a noção de relação>. pois não co guiam
na forma de tratar a coisa nem na forma de estabelecer
a relação»; aliás, ca relação que liga> Sreliga à gravidade,
longe de «depender» da natureza da gravidade ou da rubrica
sob a qual coutros a c~ificaram>, por exemplo, os físicos.
não será cela mesm~ único devido à «unicidade» de Szeliga?
Mais ainda, «Stimer» não admite que «se separe o acto de
Sreligu do Szeliga «real e que este seja medido de acordo
com os valores humanog.
Depois de ter encontrado no céu um abrigo tão decente
para o seu fiel servidor. São Max avança para o seu próprio
Calvário. Na página 95. descobriu que me.smo a «forca> tem
ca cor do sagrado». «Os homens têm horror de lhe toçar.
há. nela qualquer coisa de inquietante. quer dizer, de··oão-
-familiar. de não.. pr6prio>. Para superar esta não-propriedade
da forca, Stimer converte-a na sua própria forca, o que só
consegue pendurando-se nela; e até este último sacrifício é
feito pelo Leão de Judá em louvor do egoísmo. Jesus Cristo,
o santo salvador, deixa-se crucificar não para resgatar a cruz.
mas os homens, para os libertar da sua impiedade. O nosso
Cristo incurável pendura-se a si mesmo na .forca .para libertar
a forca do seu carácter sagrado ou -para se libertar a si
mesm.o da não-propriedade da forca .


«Foi obtida a primeira propriedade, a primeira glória;
foi alcançada a primeira vitória total!>. O nosso santo cam ..
peão triunfou agora sobre a história, reduziu-a a ,pensamen-
tos. pensamentos puros que não são mais do que simples
pensamentos e. no fim dos tempos. nada mais tem perante
si do que um exército de pen.uroentos. ~ ~un que parte
para a guerra. Ele. São Max. carregando agora a sua cruz
às costas, como o burro. acompanhado pelo seu servidor

237
Szeliga que. depois de ter sido recebido no céu a pontapés.
se apresenta de novo ,perante o seu mestre, cabisbaixo. para
combater esse exército de pensamentos ou, mais simples-
mente, a auréola desses pensamentos. Desta vez é Sancho
Pança. cheio de sentenças, de máximas e de provérbios, que
se encarrega de .combater o sagrado, e D. Quixote desem-
penha o papel de servidor dócil e fiel. O honesto Sancho
batalha com a mesma valentia com que noutros tempos
lutara o oaballero Manchego 1 e, tal como este último, não
deixa de confundir várias vezes um rebanho de ovelhas
mongólicas com wna nuvem de fantasmas. cA gorda Mari-
tome 2 , cdcpois de passar por diversas metamorfoses, com o
decorrer do tempo e graças a múltiplas refracções», aparece
convertida numa casta costureira berlinense que morre de
anemia. ocasião que São Sancho aproveita para entoar uma
elegia - uma elegia que levou ao conhecimento dos jovens
recrutas e dos tenentes da guarda a seguinte frase de Rabe-
Jais: cA primeira arma do soldado libertador do mundo.
é a braguilha 1 ».
Sancho Pança leva a cabo as suas façanhas históricas
porque reconhece a inexistência e a vaidade do exército de
pensamentos qu.e enfrenta. Este grande feito não ultrapassa
portanto wn simples acto de conhecimento que, no final dos
tempos. acaba por deixar tudo na mesma e se limita a modi..
ficar a representação, não das coisas. mas das fórmulas filo-
sóficas referentes a essas mesmas coisas.
E ago~ depois de os Antigos terem revestido as formas
da criança. de Negro. de Caucasiano negro. de animal de
católico, da filosofia inglesa, dos incultos, dos não-hegelianos,
do mundo das coisas. do realismo; e de os Modernos terem
&Mmnido o aspecto do adolescente, do Mongol, do Cauca-
siano mongólico, do ser humano, dos protestantes. da filo ..

1 Em espanhol no origtnad. cavaleiro da. Hancha.


2 Nome de uma. criada. ele hOfl)edarta, ,peraona.gem. do
romance D. Qut.xote de la Mancha, de Cervantes.
• Os autores reproduzJ.ram aqui o ,titulo de um ciq,ltulo
de Babelaia (livro III, cap. 8) na tradução alemã de Oottlob
Reg1B. Leipzig, 1832.

238
sofia alemã. dos homens cultos, dos hegelianos. do mundo
dos pensamentos. do idealismo; depois de se ter consumado
tudo quanto fora decidido, desde toda a eternidade. pelo
Conselho dos Guardiães; agora, finalmente, consumaram-se
os tempos. A unidade negativa de ambos - que já se apre-
sentara sob a forma de homem, do Caucasiano, do Cauca-
siano-caucasiano, do cristão consumado, e sob a forma de
um servidor, <Vista confusamente. como num espelho• (1 ."
Epístola aos Coríntios, 13, 12)-pode agora, depois da pa;-
xão de Stimer e da sua morte na forca. e da ascensão de
Szeliga envolto em auréolas de luz. adoptar a denominação
ma.is sim pies e entrar nas nuvens do céu com grande energia
e magnificência. «E agora. está escrito»: o que dantes era
«se» (cf. cEco[nonria] do Ant[igo] Testamento») sera dora-
vante «Era, unidade negativa do realismo e do idealismo,
do mundo das coisas e do mundo do espírito. Esta unidade
do realismo e do idealismo chama-se, em Schelling, «indi-
ferença> ou, em tradução berlinense: Jleichjiltigkeit 1:-- ·Em
Hegel. é a unidade negativa -no seio da quat são integrados
e superados os dois momentos; mas São Ma~ que como bom
alemão adepto da filosofia ~ulativa é impedido de dor-
mir pela «unidade dos contn\rios-. não se dá por satisfeito,
pretendendo ver diante dele essa unidade encarnada nmn
«ser corporal», num «indivíduo inteiro>, empreendimento em
que Feuerbach, nas Anecdota e na Filosofia do futwo, vem
em seu auxilio. Este Eu stimeriano, produto de toda a his-
tória anterior, não é portanto um «individuo corporal>. mas
uma categoria construída com a ajuda do método hegeliano.
escorado em acrescentos. categoria cujos «saltos de pulga>
poderemos seguir no Novo Testamento. Limitar-nos-emos
aqui a notar que, em úttima análise. éste Eu vê a luz do dia
porque tem sobre o mundo dos cristãos as mesmas ilusões
que estes têm sobre o mundo das coisas. Assim como o cris-
tão se apropria do mundo das coisas graças a toda a espécie
de fantasias cque mete na cabeça> acerca d ~ mundo. tam-

1 Tradução f'oDêtlca, em cilekcto berllnen.se, de Gl.richgiU,-


tigkeU ·(lndfterença); Schelling e~rega o termo IftdJ,ffflrtmz.

239
bém o cEU> se apropria do mundo cristão, do mundo dos
pensamentos. graças a uma série de ilusões fantásticas que
sobre ele alimenta.. cStimer> acrescenta a fé às ilusões do
cristão sobre a sua relação com o mundo, dando-as por com-
provadas e imitando-as beatamente:

«Desejamos, com efeito, que o homem se tome


justo sem reco"er às obras, mas apenas pela força
da fh. (Epfsto/JJ aos Romanos, 3-28).

Hegel, para quem o mundo moderno se reduzia também


ao mundo dos pensamentos abstractos, define a tarefa do
filósofo moderno, que opõe ao antigo, do seguinte modo:
em vez de se libertar. como os Antigos, da «consciência
natural> e de cpurificar o indivíduo libertando-o da imedia-
tez sensfvel para fazer dele uma substância pensada e pen-
sante» (espírito). sente necessidade de «superar os pensa-
mentos solidificados. determinados e fixOS>. Tal é, acres-
centa_ o papel da cdialéctica» (Fenomenologia. .págs. 26-27).
«Stimer» distingue-se de Hegel ,por chegar ao mesmo resul-
tado sem utilizar a dialéctica.

6. Os homens livres

O que vêm aqui fazer os «homens livres»? A «Economia


do Antigo Testamento» esclarece-nos. Não podemos evitar
·que o Eu, que já abordámos tão de perto, se afaste agora
, para um ponto. longínquo. E não é por nossa culpa que não
se passou imediatamente ao Eu desde a página 20 cdo Livro».

A) O LIBERALISMO POLITICO

A chave da critica do liberalismo feita por São Max


e os seus ipredecesoores, é a história da burguesia alemã.
Evidenciemos ,pois algumas etapas desta história desde a
Revolução francesa.
O estado da Alemanha no final do século passado reflec-
te-se integralmente na Critica da Razão Prática de Kant

240
Enquanto que a bourgeúsie 1 francesa subia ao poder através
da mais gigantesca revolução que a história conheceu e partia
à conquista do continente europeu: enQuanto que a bour-
geoisie * inglesa. já emancipada politicamente, revolucionava
a indústria,. estabelecia o seu domínio polftico sobre a lndia
e o seu domfnio comercial sobre o resto do mundo .. os bur-
gueses alemães. na sua impotência, ficavam-se pelo estado
da cboa vontade>. Kant satisfazia-se com a s;m oles «boa
vontade>. mesmo que não se traduzisse em resultado aleum,
e remetia para o mais além a realização desta boa vontade.
a harmonia entre ela e as necessidades. os instintos dos indi-
vfduos. Esta boa vontade de Kant é o/ reflexo e~acto da
impotênci~ da prostração e da misere I dos burgueses ale-
mães. cujos interesses mesquinhos nunca conseguiram desen-
volver-se para encarnar os interesses nacionais comuns a uma
c l ~ o que fez com que fossem explorados continuamente
pelos bourgeois * de todas as outras nações. A estes interesses·
mesquinhos locais correspondiam. por um lado. a estreiteza
de vistas real dos burgueses alemães. o seu espírito provin-
ciano. o seu espírito de camoanário e. par outro lado. a sua
presunção cosmopolita. Já desde a Reforma a evolução da
Alemanha tinha adquirido. em todos os domínios. um aspecto
verdadeiramente peaueno-bu~ês; a maioria da antiga no-
breza feudal tinha sido exterminada pelas guerras dos cam-
poneses. O que dela subsistia compunha-se ou de principes
insignificantes dependendo directamente do Imoério. que
foram obtendo progressivamente uma relativa independência
e que imitavam a monarquia absoluta numa escala minúscula
e dentro dos estreitos limites das suas peouenas cidades. ou
então de proprietários de domínios relativamente pouco
importantes, dissipando alguns deles os seus magros bens nas
cortes provinciais para viver depois de empregos subalternos

1 • Em francês no orlg1.naL
• Em francês no original Termo frequentemente em-
pregue por Marx ou Engels, que refere não s6 a miséria flslca
mas lgnalrnente a e..•d;agnaçAo moral, Intelectual, polltlca.

u 241
nos pequenos exércitos ou nas administrações governamen--
tais. e continuando os outros no seu papel de fidalgos provin--
cianos levando uma existência que envergonharia o mais
modesto squire 1 inglês ou gentilhomme de province 2 francês.
A estrutura agrária não equivalia nem ao emparcelamento
nem à grande exploração e, se bem que persistisse a vass.a..
)agem e os -tr:ibutos obrigatórios, nunca impeliu os cam~
neses à emancipação. quer porque tal modo de exploração
não .p ermitia o desenvolvimento da classe. quer porque esta
não podia apoiar-se nwna bourgeoisie • revolucionária que
tomaria o seu partido.
Só poderemos aqui sublinhar dois ou três factores
característicos da burguesia. É significativo que o fabrico arte-
sanal da tel~ quer dizer. a indústria baseada no emprego da
roda de fiar e na tecelagem manual. tenha adquirido alguma
importância na Alemanha precisamente na época em que
esses instrumentos ·pouco cómodos eram substituídos por má-
quinas na Inglaterra. Mas o facto mais significativo é a situa-
ção dos burgueses alemães relativamente aos da Holanda.
A Holanda. separando-se da Liga Hanseática - única parte
desta que adquirira importância comercial - riscou a Ale-
manha. à excepção de dois portos (Hamburgo e Bremen).
do comércio mundial e pôde desde então controlar todo o
comércio da Alemanha. Os burgueses alemães eram dema-
siado impotentes para .p ôr termo à exploração a que os Holan ..
deses os submetiam. A bourgeoisie • d.a •p equena Holanda,
com os seus interesses de classe já desenvolvidos, era mais
poderosa do que a burguesia alemL com a sua inércia e os
seus interesses mesquinhos e dispersos. embora em muito
maior número. A dispersão dos interesses correspondiam à
dispersão da organização política: pequenos principados e
cidades livres. De onde poderia ter partido a iniciati,va da
centralização política num pais onde faltavam todas as con--
dições económicas de~a concentração? A impotência de cada
esfera ·particular (pois não se pode falar nem de ordens nem

1 Em Inglês DO original.
2 • Em francês no original.

242
de classes. mas quando muito de ordens desaparecidas e de
classes ainda não nascidas) não permitia que nenhuma delas
se apoderasse exclusivamente do poder. Este estado de coisas
teve como consequência necessária que na época da monar-
quia absoluta (regime que apareceu na Alemanha sob uma
forma muito atrofiada e semipatriarcal) a esfera particular à
qual. devido à divisão do trabalho, foi atribuída a adminis-
tração dos interesses ,públicos, tenha adquirido uma indepen-
dência anormal que veio a ser acrescida pela burocracia
moderna. O Estado constitui-se assim aparentemente em
poder autónomo. e conservou na Alemanh~ até aos nossos
dias, uma posição que foi apenas passageira noutros países
- um simples estado transitório. ~ esta situação do Estado
que exp1ica a honestidade e a consciência profis.sional dos
funcionários que só se encontra nos Alemães, assim como
todas as ilusões que circulam na Alemanha a propósito do
Estado e a pseudo-independência dos teóricos relativamente
aos burgueses- contradição aparente entre a forma sob a
qual os teóricos exprimem os interesses da burguesia e estes
mesmos interesses.
~ uma vez mais em Kant que encontramos a forma
característica revestida na Alemanha pelo liberalismo francês.
baseado em interesses de elas.se reais. Kant e os burgueses
Alemães, de que era o porta-voz embelezando as suas ideias,
não se apercebiam de que na base destas ideias teóricas da
burguesia havia interesses materiais e uma vontade detenni-
nada e motivada -pelas condições materiais de produção. Foi
por este motivo que Kant isolou esta expressão teórica dos
interesses que exprimia. Fez da vontade dos bourgeois 1 fran-
ceses e das suas determinações motivadas pela situação mate-
rial, simples autodeterminações da «livre vontade». da von-
tade em si e para si. da vontade human~ transformando-as
assim em determinações conceptuais puramente lógicas e em
postulados morais. Eis também o motivo porque os pequeno-
-burgueses alemães recuaram de terror perante a concreti-

1 Em francês no original
7.aÇáo deste liberalismo enérgico da bourgeoisie 1 que se
manifestou tanto no Terror como na procura de lucros sem
escrúpulos.
Os burgueses alemães continuaram, sob o dominio napo-
leónico., a ocue,ar-se das suas insignificantes trocas comerciais
e a abandonar-se às suas grandes ilusões. Sobre o espírito
mesquinho que reinava então na Alemanha., São Sancho
poderá consultar Jean Paul, entre outros, para citar apenas
as fontes literárias acessíveis. Os burgueses alemã·es, que pra-
guejavam contra Napoleão porque estes os obrigava a beber
chicória 2 e lhes perturbava a tranquilidade com o recruta-
mento e o aquartelamento das suas tropas. prodigalizavam-lhe
todo o seu ódio, dedicando toda a sua admiração à Inglaterra.
apesar de N~poleão lhes prestar os maiores serviços ao limpar
os estábulos de Augías da Alemanha e ao estabelecer vias de
comunicações dignas .de um país civilizado, enquanto que os
Ingleses só aguardavam a ocasião de os explorar à tort et à
travers •. Da mesma forma pequeno-burgue~ os príncipes
alemães pensavam lutar pelo princípio da_legitimidade e con-
tra a revolução., pois não passavam de mercenários da bow-
ge.oisie 4 inglesa. Dada estas ilusões gerais, era perfeitamente
normal que as ordens detentoras do privilégio da -ilusão -
ideólogos, padagogos., estudantes, membros do Tugendbund ª
- cantassem bem alto a apatia e as ilusões gerais e as eX!pri-
missem com a exuberância apropriada.
A Revolução de Julho 8 - pomos de lado o período
intermédio, pois apenas desejamos assinalar alguns pontos

1 Em francês no original
2 Devido ao bloqueio ~ontinenta.I que impedi& as t.mpor-
ta.ções de cafê.
s Em francês no original: a torto e a direito.
• Em francês no original.
• Sociedade secreta surgida na Proseia em 1808, cujo
objecttvo era desenvolver os sentimentos pab16tlcos e lutar pela
libertação do pais da ocupação francesa. A pedido de Napoleão,
o ret da Prús81a ordenou, em 1809, a dissolução do Tuge.ndbund
(liga da virtude).
• Revolução de Julho de 1830, em ,França, que fez suceder
Luls Filipe a carlos X.

244
importantes - introduziu na Alemanha.. a partir do exterior,.
as estruturas políticas correspondentes a uma borugeoisie 1
evoluída. Como situação económica da Alemanha estava
ainda longe de ter atingido o grau de desenvolvimento a que
correspondiam essas estruturas políticas, a burguesia só as
adoptou sob a forma de ideias abstractas. de ·princípios
válidos em si e para si, de ideias piedosas e de fórmulas
vazias: autodeterminações kantianas da vontade e dos homens
tal como deveriam ser. Isto explica o seu comportamento
muito mais moral e desinteressado re1ativamente a essas
estruturas do que aconteceu nas outras nações; dizendo por
outras palavras, a burguesia deu provas de uma estreiteza
de vistas verdadeiramente singular, e nenhum dos esforços dos
burgueses alemães teve o mais pequeno resultado.
A pressão cada vez mais intensa da concorrência
estrangeira e do comércio ·mundial ao qual a Alemanha tinha
cada vez menos possibilidades de se subtrair, fez com que. ..se
agrupassem os interesses locais até então dispersás e deu
origem a uma certa comunidade. A burguesia alemã começou,
sobretudo a partir de 1840, a pensar na salvaguarda destes
interesses comuns; tomou-se nacional e liberal e pôs-se a
exigir protecções aduaneiras e constituições. Encontra-se
actualmente no mesmo ponto em que a bourgeofaie • fran-
cesa se encontrava em 1789 2 •
Quando, como fazem os ideólogos berlinenses. se pre-
tende ajuízar sobre o liberalismo e o Estado, partindo do
Ambito das suas manifestações locais na Alemanha ou.. melhor
aind~ limitando-se a criticar as ilusões da burguesia alemã
sobre o liberalismo, em vez de a estudar nas suas relações
com os interesses reais de que emana e dos quais a sua
existência real é inseparável. chega-se evidentemente aos resul...
tados mais absurdos. Mesmo na sua forma popular, o libera-
lismo alemão, tal como se manifestava em data bastante
recente, não pas.sava de mna fantasia delirante,. de uma ideo-
logia do liberalismo real, como tivemos oportunidade de veri-

1 • Em francês no ortg1nal.
1 Henri Helne tinha-o dito de forma anAloga, em 1S34,
na sua Oeschkhte der Religiofl und der PhUosophie in Deu.tach-
Jaftd (Hlstõria. da Rellgtã.o e da Füosofia na AleD"anba).

245
ficar. Nada mais fácil. portanto. do que transformar inteira-
mente o seu conteúdo em filosofia, em simples determinações
conceptuais, em cconhecimento racional». E quando, ainda
por cima, se é tão infeliz que só se conhece o liberalismo à
moda burguesa sob a forma sublimada que lhe deram Hegel
e os pedantes que lhe regateiam a tarefa, chega-se sempre
a conclusões situadas no âmbito do sagrado. Sancho forne-
cer-nos-á um triste exemplo.
«Tanto se tem falado nos últimos tempos», no mundo
activo. «do domínio da bourgeoisie 1 • que não é de admirar
que a notícia tenha chegado a Berlim» (quanto mais não
seja pela tradução de Louis Blanc feita pelo berlinês Buhl.
etc.) e que aí tenha atraído a atenção de bravos mestres-
-escolas (Wigand, pág. 190). Não se pode no entanto dizer
que «Stirner»,. utilizando o seu método que consiste em apro-
priar-se das ideias em moda, tenha «adoptado um procedi-
mento novo particularmente vantajoso e rentável» (Wig]and[,
Ibidem). A pilhagem a que submeteu Hegel provou a sua
têmpera, que será confirmada no decorrer do nosso exame.
O nosso mestre-escola não deixou de fazer notar que,
muito recentemente, se têm confundido os liberais com a
bourgeoisie *. Dado que São Max confunde a bourgeoisie *
com os bravos cidadãos. os pequeno-burgueses alemães. nunca
interpretra os factos que lhe foram transmitidos de acordo
com o seu significado rea.L conforme os expressaram todos
os outros componentes. isto é, de modo a revelar nas fórmulas
liberais a expressão idealista dos interesses reais da bour-
geoisie *. Na sua opinião, o fim último do bourgeois • é con-
verter-se num liberal perfeito, num cidadão. Para ele, não é
o bourgeois • que é a verdade do citoyen *, mas o citoyen •
que é a verdade do bourgeois *. Servindo-se desta concepção,
tão sagrada como alemã, vai ao ponto de, na página 130,
transformar «a burguesia» (deve ler-se: o domínio da bow-
geoisie * «numa ideia, nada mais do que uma ideia», e a
apresentar co Estado» como «o homem verdadeiro» que,
através dos «Direitos do homem», atribui a cada bourgeois *

1 • Em francês no orlg1naL

246
individualmente os direitos do Homem, conferindo-lhe assim
a verdadeira consagração. Tudo isto depois de terem sido
suficientemente desmascaradas as Anais franco-alemães, as
ilusões sobre o Estado e os Direitos do homem 1 , facto de que
São Max acaba por se aperceber no seu <<Comentário apo ..
logético» cio ano da graça de 1845. Desde então, é-lhe possí..
vel, cindindo o bourgeois * em bow-geois * empírico e em libe..
ral metamorfosear o bourgeois • em liberal sagrado. do mes-
mo modo que faz do Estado «o sagrado» e da relação exis-
tente entre o bourgeois * e o Estado moderno uma relação
sagrada, um culto (pág. 131 ). Assim procedendo. finaliza a
sua critica do liberalismo político. Converteu-se em sagrado»•.
Eis agora alguns exem pios da forma como São Max
adorna esta sua propriedade com arabescos históricos. Vale-se
;p ara isso da Revolução francesa, tendo firmado com o seu

1 [Nota de Marx e Engels:] Nos An[a..ls] franco-al[emães],


dado o contexto, eS-98-9 Uusões só eram desmascaradas relativa-
mente aos Direitos do homem da Revolução francesa. AlJAs, esta
concepção da concorrência como cDlrettos do homem> JA pode
ser encontre.da um século antes nos porta-palavra da bour-
geoisie 2 (John ffe.mp [den], Petty, Bolsguillebert_ ChUd a, etc.).
Sobre a relação dos teóricos do liberalismo com a bourgeoisie •,
e!. o que é dito [mais atr!s] sobre a relação entre os ldeólogoa
de uma elas.se e essa mesma classe.
2 • Em francês no origi.nal.
1 ~- HAMPDEN: homem ,p olitlco inglês, purtta.no, do
lnlclo do século XVll; PE'ITY: fundador da economJ.a polltica.
inglesa c1'3slca (segunda metade do século XVII); BOISGUllr
I,EBERT: econombta francês do final do século XVIl e prlnci-
plos do século XVIlI, precursor dos flslocratas; CHU,D; econo-
mista .inglês (mercantilista), da ~egunda metade do século
XVII. Os três últimos. sobretudo, serão frequentemente cita.dos
na obra O CapUal.
~ [Passagem rl.scada no manuscrito:] ... para ele, a cri-
tica reaJl:rou num aipice .:o seu último designlo> e todas os
gatos ficaram pardos; também ele confessa simultaneamente
num Aplce a sua ignorA.ncla quanto à ba.Be real e ao conteúdo
real do domlnlo da b01'rge°""8 •.

247
conetor em história, São Bruno. um •pequeno contrato nos
termos do qual este lhe fornece uns quantos dados.
Graças a algumas palavras de Bailly 1 , extraídas dos
cfactos memoráveJ.S> de São Bruno, a convocação dos Estados
gerais perm1te que cos homens até aí na condição de súbditos
adquiram consciência da sua situação de proprietários»
(pág. 132}. É precisamente o contrário, mon brave 2 • Os ho-
mens que até aí se encontravam na situação de proprietários
provam, com este acto, a sua consciência de terem deixado
de ser súbditos. consciência que tinham alcançado desde há
muito, por exemplo nas obras dos fisiocratas 3 , nas polémicas
de Linguet 4 (Teoria das leis civis. 1767), Mercier, Mably 1
contra os bourgeois 8 e. de um modo geral nos escritos diri-
gidos contra os fisiocratas. O significado destas obras foi
aliás reconhecido, desde o início da Revolução, por Brissot,
Fauchet. Marat, entre outros, no Círculo social 1, e por todos
os adversários democratas de La Fayette. Se São Max tivesse
compreendido a coisa tal como efectivamente se passou, inde..
pendentemente do seu corretor em história. não se admiraria
com o facto de cas palavras de Bailly parecerem, de facto,
significar [que, a partir daí. todo o indivíduo era proprie-
tário ...>] 8 •

1 Jean-Sylvaln BAU,LY: um dos chetea da. burguesia


contltuclonal, gullhpttnado em 1793.
1 Em francês no original: meu bom amigo.
• Economlsta.s franceses do século XVIII: QUESNAY,
MERCIER DE LA RIVll:RE, TURGOT, cujos trabalhos eram
bastante e-preclados por Marx. Na sua oplnlão, lançaram. as
bases da canállse da. produção capltallsta.>.
4 Slmon-Nlcola.s-Henrt LINGUET: Teoria das leia dvi8 0ti
principío.s fundamentais àa aociedade, tomo 1 e 2 Londres, 1767.
1

e MERCIER DE LA RIVll:RE (1720-1793): fl.slocrata,


M.ABLY (1709-1785): soclôlogo francês cujos escritos lnfluen..
ciaram os revoluclonArlos d.e 1789.
a Em francês n.o original
,. Circulo fundado .por representantes dos meios democra..
tas, que foi particularmente actlvo nos .primeiros a.nos da Revo-
lução; Fauchet f ol o seu animador.
1 Segue-se um.a passagem deteriorada.

248
[Como se ~da um fo~ proprietário 1 [ ••• ] de modo
que os burgueses[ ... ]gueses do domínio dos ,proprietários [ ... ]
e que presentemente os proprietários[ ... ] Aquilo que lhes
tinha sido criticado muito antes da Revolução[ ... ] conver-
teram-se na bourgeoisie par excellence 2 [ ••• ]já em 8 de Julho
de 1789[ ... ]declaração do bispo de Autun o de Barrere
[que dissipou] a ilusão de que [cada pessoa]. de que o
indivíduo [tem] grande importância na legislação; confirmou
a impotência total dos seus componentes; foi a maioria dos
representantes que se tomou soberana].
A cdeclaração do bispo de Autun ª e de Barere» é uma
motion t que o ,primeiro apresentou a 4 (e não a 8) de Julho
e com a qual Barere nada tinha a ver. a não ser o facto de.
juntamente com muitos outros, ter apoiado a 8 de Julho.
Foi adoptada a 9. de modo que não se percebe porque razão
São Max se refere ao «8 de Julho». Esta moção não cdissi-
pou» de forma alguma «a ilusão de que cada pessoa, de que
o indivíduo tem importância», etc., mas suprimiu o mandato
imperativo dos Cahiers ª remetido aos deputados, quer dizer,
a influência e a cimportância» não de «cada pessoa do indi-
víduo», mas dos 177 bailliages 6 feudais e das 431 divisions
des ordres 1 • Adoptando esta moção. a Assembleia desemba-
raçou-se do carácter feudal dos antigos Estados gerais. De
resto, nesta ocasião, não se .tratava de saber qual era a forma
exacta da teoria da representação nacional. mas tratava-se

1 A descoberta de novas pãglna.s manuscritas da Jdeol.o-


gia, em 1962, velo possibilitar o preenchimento da lacuna exis-
tente nesta a.ltura do texto, embora nAo com.pletamente, pois as
pãgina.s recentemente encontradrus não se encadeiam com pre-
ctsão nas já conhecidas.
2 Em francês DO ortg1nal Frase que significa btlTgMeaia
por a:ce~.
• TalleyrancL
' Em francês Do original: moção.
• Em francês no original: Oa1úera de doUanc" - cader-
nos dos delegados aos Estados gerais de 1789. onde estavam
lnserid&s e..s suas petições.
• Em francês no original: boiHadoa, Isto ê, jurlsdlção e
território de bailo (antigo magistrado provincial).
, Em trancês no orlgina.1: dlvlsõea das ordena.

249
antes de questões extremamente práticas, inelutáveis. O exér-
cito de Broglie paralisav·a Paris e aproximava-se cada
v~ mais; a capital encontrava-se no auge da agitação:
duas semanas desde o leu de Paume 1 e o lít de justice 2 ; para
além disto, a corte. jW1tamente com o clero e a grande massa
da nobre~ forjavam intrigas contra a Assembleia Nacional;
finalmente, reinava a penúria na maioria das províncias,
consequência da manutenção dos direitos alfandegários feu-
dais entre províncias e do conjunto das condições da agri-
cultura de tipo feudal, e fazia-se sentir uma enorme falta de
dinheiro. Tratava-se naquela altura, como o afirma o próprio
1

Talleyrand, de uma Assemblé essentiellement active ª (e os


Cahiers. que defendiam quase todos a conservação dos privi-
légios corporativos e nobiliários, teriam reduzido a actividade
da Assembleia a nada) 4 enquanto que os Cahiers [ ... ] reac-
ção nobiliária e outra deram à corte oportunidade de declarar
[nula e sem efeito] ª resolução da Assembleia sobre os ele-
mentos que a acompanham. Pela moção de Talleyrand, a
Assembleia declarou-se independente, usurpou o poder de
que nec~itava. coisa que, no plano político, só poderia
naturalmente ,produzir-se no âmbito de uma determinada
forma política e recorrendo às teorias existentes de Rous-
seau. etc. (Cf. A. Alvorada, por Barere de Vieuzac, 1789.
n.• 15 e 17). A Assembleia Nacional foi forçada a dar este
passo em frente devido à pressão sobre ela exercida pela
massa inumerável que tinha atrás de si. Procedendo deste
modo. não se transformou pois de forma alguma numa «câ-
mara totalmente egoíst~ de nada cuidando e tendo rompido
com qualquer cordão umbilical», foi através desse acto que
sé converteu em órgão real da grande massa dos Franceses,

1 B6Tffl6flt dt5 Jtm de Paume: .Juramento prestado pelos


deputados do Terceiro Estado, em 20 de Junho de 1789, «de não
se separarem antes de ter dado uma Constituição à Fran~a.
i Tentativa feita pelo poder real para lim1tar as prorro-
gatlvas dos Estados geraJs.
a Em tra.ocês no original: Assembleia easencialmente
activa.
• Frase riscada no original.
a Palavraa deterioradas e Ueglvels.

250
sem o qual a teriam espezinhado. coisa que veio a acontecer
ulteriormente aos deputados «totalmente egoístas» que «ti--
nham. rompido com qualquer cordão umbilical». Mas São
Max. aceitando a interpretação do seu corretor em história..
apenas vê aqui a solução de uma questão teórica; seis dias
antes da tomada da Bastilha. só consegue ver na Consti-
tuante 1 um concilio de Padres da Igreja discutindo um ponto
do dogma! De resto. o problema da «importância de cada
pessoa. do indivíduo» só pode ser considerado discutindo na
Convenção por razões tão empíricas quanto às existentes
neste caso dos Cadernos. (Mas como Stirner não aborda este
problema, também não temos necessidade de falar dele mais
detalhadamente). Outra questão também resolvida pela
Assembleia constituinJe, de um ponto de vista teórico, foi a
da distinção entre a representação de uma classe soberana
e a representação das ordens soberanas, estando a so b~rania
política da classe burguesa condicionada pela situação de cada
indivíduo na medida a que a isso era obrigada pelas relações
da época. A representação é um produto verdadeiramente
específico da sociedade burguesa moderna_ e é tão susceptível
de se dissociar dela como o é o indivíduo isolado moderno.
Assim como São Max toma aqui os 177 baHliages 2 e as
431 divisions des ordres • por cindivxiuos». vê •também no
monarca absoluto e no seu car tel notre plaisir ª o domínio
cdo indivíduo:. opondo-se ao monarca constitucional, esse
cdomínio de fantasma» (pág 141), e no nobre, o membro de
uma corporação, vê ainda cindivíduos» ,por oposição a cida-
dãos (pág. 137).
cA revolução não era dirigida contra o Existenle,, mas
contra o existente, o estado de coisas concreta» (pág. 145).
Logo. não era dirigida contra a organização existente da pro-

1 Em francês no original: Constituente (Assembleia


Const.).
2 • Em francês no original.
• Em francês no original: pois esse i o tl088o desejo.

251
priedade fundiária. dos impostos, das alfândegas que parali.
savam o tráfico a todo o instante e os 1 ••• [ •• • ] Stimer...
[ ... «Stirner> crê que cpode ser indiferente aos «bravos]
burgueses» quem [ os protege]. a eles e aos seus princípios.
quer se trate de um rei absoluto, de um rei constitucional ou
de uma república. Isto é sem dúvida indiferente aos «bravos
burgueses» que bebem tranquilamente a sua caneca de cer-
veja branca numa taberna berlinense. Mas não é sem dúvida
indiferente aos bourgeois 1 da história. O «bravo burguês»
cStimer> supõe aqui uma vez mais, como aliás em todo o
capítulo, que os bowgeois • franceses, americanos e ingleses
são bravos filisteus berlinenses, bebedores de cerveja branca.
Traduzindo a ilusão política contida na frase anterior para
bom português, teremos: «pode ser indiferente» aos bour-
geois • que sejam eles os detentores do poder absoluto ou
que outras ela~ venham contrabalançar o seu poder polí-
tico e económico. São Max pensa que um rei absoluto. ou
quem quer que seja. pode defender a bourgeoisie • tão bem
como esta o faz e. mais ainda, defender «os seus princípios»
que consistem em subordinar o poder do Estado ao chacun
pour sai, chacun chez. soi 1 , e a explorá-lo com este fim. Como
é que um «rei absoluto» o poderia fazer? Que São Max se
digne citar-nos o país onde o comércio e a indústria estejam
desenvolvidos, onde exista uma concorrência cerrada, e no
qual a bourgeoisie • se faça proteger por um crei absoluto».
Depois de ter assim transfarmado os bourgeois * da
história em filisteus alemães à margem da história. «Stimer»
já não necessita conhecer qualquer outra bourgeoisie * para
além da «dos burgueses satisfeitos e dos funcionários devo-
tados» (! !), dois fantasmas que só poderiam ter aparecido
no csagrado> solo da Alemanha. o que lhe permite reunir
toda esta classe sob a designação de «servidores obedientes»

1 Fim do excerto do manuscrito descoberto em 1962 e


aqui lncluido.
2 • Em francês' no original.
a Em !francês no original: cada. qual para sl, cada um no
que é seu.

252
(pág. 138). Que -v ã dar uma vista de olhos por esses obe-
dientes servidores à BoJsa de Londres, Manchester, Nova
Iorque e Paris. Dado que São Max se pôs cm marcha, poderia
ir the whole hog 1 e dar crédito a wn certo teórico limitado.. o
d~ «Vinte e uma folhas> quando diz que «o liberalismo
é o conhecimento racional aplicado à conjuntura actual z»;
e declarar que os «liberais são os zeladores da razão». Estas
fórmulas mostram até que ponto os Alemães ~tão longe
de estarem curados das suas primeiras ilusões sobre o libe-
ralismo. «Abraão acreditou. apesar da sua confiança parecer
infundada... pelo que a sua fé foi reconhecida>. (Epistola
aos Romanos, 4, 18 e 22).

«O Estado paga bem para que os seus bons


cidadãos .po~ pagar mal. Assegura assim, com
boa .pag~ servidores certos, dos quais faz uma força
protectora, uma policia para os bons cidadãos. -E- ós
bons cidadãos entregam-lhe com prazer pesadas
contribuições, para poderem entregar remunerações
menores aos seus operários». (pág. 152).

Deve ler-se: Os bourge.ois • pagam bem ao seu Estado.


e faum com que a nação lhe suporte os encargos, para
poder pagar mal sem risco. Pagando bem, asseguram a
força protectora dos servidores do Estado, uma polícia. Pa-
gam sem descontentamento e fazem com que a nação pague
pesadas contnDui;ões sob a forma de descontos sobre os
salários, para conseguir que os operários suportem os seus
pagamentos. «stimer> faz aqui uma nova descoberta econó-
mica: o salário ~ uma contribuição. um imposto que o bour-
geois • pagaria aq proletário. enquanto que. ,p ara os outros.
para os economistas profanos. os impostos são uma contri-
buição que o proletário paga ao bourgeois •.

1 Em inglês no original: at.é ao ftm.


s Frw extralda de um artigo publicado na recolha Ei-
...alOOMg Bogera au der B c ~ , em 1'843.
1 • Em francês DO Orig1Dal..

2S3
O nosso santo Padre passa agora da sagrada burguesia
para o proletariado stimeriano «Único:D (pág. 148). Este é
c.omposto por ccavaleiros de indústria, cortesãs, ladrões. ban-
didos e assassinos. jogadores, pessoas sem bens nem emprego,
e por espíritos frívolos» (Ibidem). Formam «perigoso prole-
tariado> e redU7.etn-se por instantes a «alguns gritadores iso-
ladog e, fmalmente, a «vagabundos» cuja nata são «os vaga-
bundos do espírito» que se recusam a ficar «nos limites de
um pensamento moderado» ... «Tal. é o sent!do muito lato
daquilo a que se chama o proletariado, ou» (per appos{itio-
nem]) «o pauperismo!» (pâg. 149).
Na página 151, o proletariado é, «pelo contrário, explo-
rado pelo Estado>. O proletariado, no seu conjunto, é pois
composto de bourgeois 1 e de proletários arruinados, de uma
colecção de andrajosos, que existiram em todas as épocas
e cuja existência maciça, desde o final da Idade Média, pre-
cedeu o nascimento maciço do proletariado profano, tal
como São Max poderá verificar consultando a legislação e a
literatura em Inglaterra e em França. O nosso santo tem a
mesma ideia do •proletariado que os «bons burgueses satis•
feitos» e, sobretudo, os «funcionários fiéis». ~ consequente
consigo mesmo quando identifica assim proletariado e pau-
perismo, se bem que o pauperismo seja a situação do pro•
letariado arruinado. o último grau em que cai o proletariado
que deixou de resistir à pressão da bourgeoisie •. e que só
é um pauper I o proletário que perdeu toda a energia (ver
Sismoncli. Wade •, etc.). _cStirner» e os seus consortes, por
ex~plo. . po_derão, . em.. _certas circunstâi:ic.ias, _ passar por
pobr~ ~.os olhos. do~.,prol~tário~•.mas nun~~ por proletários.
··~--Tais .~o ~- ideias «pr.ópcia.u. que..São Max t,em da
bQurgeoisje ~ e,.dQ.. proleta,ria.d.Q. Mas. .COIJlO .~ ~WJ.s doragações
SOP.~r o .liber~~o•._Qs...bons cidadãos e os. v.agapundos não
conduzem. ·eviden~~tr~+,n~~; ..Y;~se. ob~~ado. pai;a poder
------
'I • Em francês _~ ~rl~al. . , .• .. . r ,... ·• -..
."' ..~ •.~,obre,.. ;-•·•· ., ·. ·.,.. ..... ... ... ., ....
•.. .- lohn ·w~E !~~1~1&16> : .... -eCOGl'rn,st,:, e :~ey14~
fng}êL l.r.:1~ :-~o OG: 2·~:,~~? 1;13 "::

254
passar ao comunismo. a introduzir os bourgecis 1 e os pro-
letários reais e profanos. na medida em que os conhece, por
assim dizer. Isto acontece nas páginas 151 e 152, onde o
lumpenproletariat se metamorfoseia em «trabalhadores>. o
proletariado profano. passando os bourgeois •, «por vezes>
e «com o tempo•.. por uma série de «numerosas mutações>
e de «múltiplas fragmentações». Numa das linhas. pode ler•se:
«Os possuidores detém o poder» - bourgeois • profanos.
E seis linhas mais abaixo: cO cidadão é o que é pela graça
do Estado»-bourgeois • sagrados. E ainda seis linhas mais
abaixo: «O Estado é o estatuto da burguesia» - bourgeois •
profanos. Fórmula que nos é explicada declarando que «o
Estado dá os seus bens aos possuidores sob a forma de
feudos» e que «o dinheiro e o bem» dos «capitalistas» são ...
um destes «bens do Estado> cedidos por ele em «feudos»-
bourgeois • sagrados. Para terminar. este Estado todo-pode-
roso converte-se de novo no «Estado dos possuidore~~. logo.-
dos bourgeois • profanos. fórmula à qual corresponde uma
passagem ulterior: «A bourgeoisie • tornou-se toda-poderosa
graças à Revolução> (pág. 156). São Max nunca teria chegado
sozinho a tão «terríveis contradições» que «torturaram o
coração» ou, pelo menos. nunca teria ousado afirmá-Ias em
público sem a ajuda da palavra alemã «Bürgen>. à qual dá
a seu bel-prazer o sentido de «citoyen ••• de «bourgeois •>
ou de «bom burguês» alemão.
Antes de prosseguir é ainda necessário registar duas
grandes descobertas político-económicas que o nosso bom
homem «descobre>., «na paz da sua alma» e têm de comum
com «o prazer da adolescência», da página 17, o facto de
serem também «pensamentos puros».
Na página 150. todos os males da actual situação social
se redui.em ao facto de cburgueses e trabalhadores acredi-
tarem na 'verdade' do dinheiro>. Aqui, Jacques le bonhomme •
pensa que depende dos cburgueses» e dos «trabalhadores»
dispersos por todos os &tados civilizados do universo. o

1 Em francês no orlgtnal.

2SS
aparecimento de um dia para o outro, de uma declaração
na qual se afirme a sua «descrença» na «verdade do dinheiro»,
e crê ainda que. se semelhante absurdo fosse possível, permi-
tiria modificar qualquer coisa. Crê que qualquer publicista
berlinense -pode abolir «a verdade do dinheiro» com a mesma
facilidade com que suprime, na sua c a ~ a «verdade» de
Deus ou da filosofia hegeliana. Que o dinheiro seja o pro-
duto necessário de certas relações do produção e de troca,
e que continue cverdade• enquanto essas relações continua-
rem a existir, eis uma questão que não pode naturalmente
interessar em nada a um santo como São Max, que contempla
o céu e volta para o mundo profano o seu -p rofano posterior.
A segunda descoberta é feita na página 152: «o operário
não pode valoriz.ar o seu trabalho» porque «cai nas mãos•
c:daqueles que receberam em feudo qualquer bem público».
Isto é apenas o desenvolvimento da frase da página 151, já
citada, segundo a qual o operário é explorado pelo Estado,
perante o que se é imediatamente impelido a proceder à
seguinte «simples reflexão» (que <<Stirner> não faz, o que
«não é para admirar>): como se explica que o Estado não
tenha igualmente dado aos «operáriosJ> qualquer «bem públi-
co» em «feudo>? Se São Max tivesse formulado ~ta per-
gunta. teria provavelmente dispensado o trabalho da cons-
trução do seu esquema sobre a burguesia «sagrada>, pois
ter-se-ia necessariamente apercebido da natureza da relação
existente entre os possuidores e o Estado moderno.
A oposição entre hourgeoisie 1 e proletariado - até
«Stimer> o sabe - permite chegar ao comunismo. Mas como
lá se chega, isso, só cStirner> o sabe.

cOs operários detêm o poder mais fantástico ...


Só precisa.riam de parar o trabalho e considerar
como seu o produto desse trabalho, e desfrutá-lo.
Tal é o sentido das revoltas operárias que surgem
aqui e ali.• (pág. 153).

1 Em francês no original.

256
As revoltas operárias que, já no tempo do imperador
bizantino Zenão, estiveram na origem de uma lei (Zeno, De
novis operibus constitutio 1.); as que, csurgiram> no século
XIV sob a forma de Jacquerie 2 e da rebelião de Wat Tyler ª;
a dos Londrinos. no Evil May-day '• em 1518, e a grande
rebelião camponesa ocorrida em 1549 ~ dirigida pelo correeiro
K.et 1 , que deram origem aos autos 2 e 3 de Eduardo VI,
ao auto IS e a uma série de otitras leis análogas; as que.
pouco depois em 1640 e 1659 (8 rebeti.ões num ano) ocorre..
11

ram cm Paris e que, desde o século XIV, a julgar pe]a


legislação da époc~ devem ter sido frequentes em França
e cm Inglaterra; enfim,. a guerra contínua que os operários
levam em Inglaterra desde 1770, e em França, depois da
Revolução. contra a bourgeoisie •. pela força e a astúcia -
tudo isto só existe, para São Max. caqm e ali>, na Silési~
na Polónia, em Magdebourg e em Berlim, «segundo as infor-
m ~ publicadas pelos jornais alemães>.
Jacques le bonhomme • pensa que o produto do trabalho
enquanto objecto de «consideração» e de «prazer-. continua..
ria a existir e a reproduzir..se se os produtores deixassem de
trabaliar.
Tal como mais atrás, a propósito do dinheiro, o nosso
bom burguês faz «dos trabalhadores9 dispersos por todo o

1 Zen.ão,. ~ o r de BtzAnr:lo entre -i7-l e 491: Decreto


aobn, trabalhoa.
OfJ tlOV08
1 Nome dado & revoltaa de camponese.s tranceses (os
.IGOfl'l't88), a mala oélebre da.a quais e...cdaJoo. em 1358, depois da
derrota. de Poi-tlers.
• Wat rTyler tot o chefe de uma rebe:llão camponesa ocor-
rida em 1J38L
• B'"'8tro dia d6 Malio: designa a revolta dos Londrinos,
no '.l.• de ll&io de 1'5lB. dirigi.da contra. as negod.a.ntes estran-
geiros.
• Robert Ket dirlgi11t em l.M9, a maior revolta camponesa.
do Este da Inglaterra., tendo morrido 110 combate contra o exér-
cito enviado para. os deter, cerca de 3 000 pessoas, e .teido depois
sido executado ainda. um número superior. Robert Ket fol por
sua vez enforcado nwna praça de Norwidl.
1 • !Em francês no ortglnaL

257
mundo civiliudo um.a associação coerente de indivíduos aos
quais basta tomar uma decisão para de~arem de ter. difi-
culdades. São Max ignora naturalmente que. somente desde
1830. se fizeram em Inglaterra pelo menos cinquenta tenta-
tivas com o objectivo de reunir numa única associação os
trabalhadores, exclusivamente de Inglaterra, e que o fracasso
de todas estas tentativas se deve a razões muito empíricas.
Ignora também que mesmo uma minoria de operários que
se una .para -paralisar o trabalho se vê rapidamente obrigada
a adoptar mna atitude revolucioná.ri~ facto que poderia cons-
tatar examinando a insurreição inglesa. de 1842 1 e, anterior-
mente,. a insurreição gaulesa 2 de 1839. Nesse ano. a febre
revolucionária entre os operários tomou enormes proporções.
a começar pela proclamação simultânea do «mês sagrado»
e do armamento geral do povo. Podemos ver aqui mais uma
vez que São Max tenta encontrar um homem a quem faça
engolir os seus próprios contra-sensos como «sentido» dos
factos históricos. operação que conseguirá, quando muito,
junto do seu cse». cA.tribui» aos factos históricos cum sentido
muito pessoal. o que os conduz. lógica e fatalmente, a um
absurdo» (Wigand. pág. 194). De re&o, nem um único operá-
rio se teria lembrado de consultar São Max sobre co sentido»
dos movimentos proletários ou sobre as acções a empreender
no momento actual contra a bow-geoisieª.
Depois desta grande campanha, o nosso santo Sancho
retira-se para junto da sua Maritorne, anunciando estrondo•
samente:
cO Estado repousa sobre a escravaJura do tra-
balho. Se o trabalho se torna livre, o Estado estará
perdido.» (pág. 153).

O Estado moderno, o domínio da bourgeoisie • repousam


sobre a liberdade do trabalho. Não tirou São Max-oh!

i. A insurreição inglesa de 184-2 esteve na sequência do


agravamento da crise económica na Inglaterra e na lmportAncla
adqu.lrlda. pelo mov1mento cartlsta.
2 Insurreição que, por ter esta,lad() cedo demais, acabou
por ter um fim sangrento.
s • Em francês no original

258
quantas vezes! - dos Anais franco-alemães a ideia de que,
com a liberdade da religião. do Estado. do pensamento. etc.,
e por conseguinte «por veze9. «sem dúvida>, «talveZ> com
a do trabalho. não sou Eu. mas sim um dos meus tiranos
que se torna livre? A liberdade do trabalho, é a liberdade
que os trabalhadores têm de competir entre si. São Max não
tem mais sorte em economia política do que em qualquer
outro dcirníoio. O trabalho é livre _em todos os país~ civili-
zados. Não se trata de Jibertar o trabalho, mas de o suprimir 1 .

B) O COMUNISMO

São Max designa o comunismo pela expressão «libera-


lismo social>, porque conhece perleitamente a má reputação
da .palavra liberalismo junto dos radicais de 1842 e dos livres
pensadores berlinenses mais avançados 2 • Esta transfonnação
dá-lhe simultaneamente a oportunidade e a coragem de atri-
buir a esses d.iberais sociais» toda a espécie de coisas nunca
enunciadas antes de c:Sti.rneo e que, depois de refutadas.
levam à refutação .do comunismo.
Esta vitória sobre o comunismo é conseguida graças a
uma série de esquemas. uns de tipo lógico, outros de tipo
histórico.

'Primeiro es<Luema lógico.

Porque «Nos vemos transformados em servi-


dores de egoístas.. não «devemos- Nós próprios
«tomar-nos egolstas•... mas tomar os egoistas im-
possíveis. Pretendemos transformar Todos em neces-

1 Marx e Engels empregam aqui o termo aufheben, que


signJ:tlca. abolir uUrapa,BBmado.
2 Alusão a.os Frde• (Livres), designação de um grupo de
jovens lntelectua.Ls berlinenses jovens-hegelianos. Os prlncipals
membros desse grupo eram ·B runo Be.uer e Edgar Bauer, Eduard
M:eyen, Ludwig Buhl, Max Stlrner. A partir de 1842, Marx crltic.a.
na sua correspondência as oplntões desses pensadores e recusa-se
a publlcA-la.8 nas colunas da Ga.ztJta Renana.

259
sitados: Todos Nós queremos nada possuir. para
que «Todos» po~uam. Eis o que dizem os ·sociais.
Quem é esta pessoa que designais .por «Todos.?
~ a csociedade> (pág. 1S3).

Utilizando somente algumas aspas. Sancho transforma


cTodoo numa pessoa. a sociedade enquanto pesso~ enquanto
sujeito - a sociedade sagrada, o sagrado. O nosso santo
conhece agora perfeitamente o terreno que pisa e .pode lançar
contra c:o sagrado» toda a torrente de fogo do seu zelo. o que.
naturalmente. aniquila o comunismo.
«Nada há de espantoso» no facto de São Max atribuir
novamente aos csociais» o seu próprio contra-senso em subs-
tituição do que 1/ze.s é próprio. Começa por identificar o «ter»
como proprietário privado com o cteo em geral. Em vez
de considerar a relaç.ão determinada entre a propriedade pri-
vada e a produção. em vez de considerar o «ter> na sua
qualidade de proprietário fundiário. de rentier 1.. de commer-
çant 2 , fabricante. operário- análise que mostra ser este cter>.
um ter muito particular, o direito de dispor do trabalho de
outrérn - metamorfoseia todas estas relações cm «ter> ... ~.
[Segundo esquema lógico ... ] deixou actual o liberaJimio
político, que transformou a mação> em propriedade suprema.
O comunismo já não tem ·p ortanto que «suprimir> uma qual-
quer c:propriedade pessoal». mas sim equilibrar a repartição
dos «feudos. e iatroduzir n~les a cégalitb '. Sobre a socie-
dade como aupremo .proprietário> e sobre a cnecessidade> 11

conviria que São Max se reportasse. entre outros, ao L'~gali-


taire de 1840 5 :
cA propriedade social é uma contradição. mas
a riqueza social é uma consequência do comunismo.

1 Em francês DO original. Rendeiro.


• Em trancês no or1g1nal Comerdante.
2 Faltam quatro pãglnas do manuscrito original, que con-
tinham o fim do primeiro esquema lógico e o 1nlclo do segimdo.
• Em francês no original Igualdade.
11 .Jornal publicado em !Paris e que tinba como subtitulo:
Jornal da organJM,Ção social.

260
Contrariamente aos modestos moralistas borugeois 1 ,
Fourier 2 afirma cem vezes que o mal social não
é o de alguns terem muito, mas o de Todos tetrm
pouco». E é por ~ razio que (em La Fausse
industrie', Paris. 1835, pág. 410) menciona ca po-
breza dos ricos9.

A revista comunista alemã Die Stimme des Y olks •.


publicada em Paris em 1839., portanto antes das cGaran~
de Weiding '• emprega o mesmo tipo de linguagem (n.° II.
pág. 14):

cA :propriooade privada, o tão vangloriado, o


industrioso, o doce, o inocente ducro privado• traz
nitidamente prejuízos à riqueza da existênciD.

O que São Sancho confunde aqui com o COIJ'luoiqn(), __ é


precisamente a concepção que dele têm alguns liberais-·que
se juntaram ao co01unismo e a terminologia de a1guns comu-
nistas que., por razões eminentemente práticas, se exprimem
de um modo político.
A partir do momento em que transfere a propriedade
para a csociedade-~ considera todos os membros associados
~ sociedade como ,pobres dia~ e oeces&tados se bem
que., de acordo com a sua própria representação do regime
comunista, cpossnarn• o csupremo proprietárié>». A sua pro-
posta bem intencionada de «elevar a palavra 'necemtado• ao
nf-yel de expressão honorifica. do me&oo modo que a Revo-
lução o fe:z com a palavra cidadão•. constitui um exemplo

1. Em francês no orlg1na.l.
2 Charles Fourter {177:2-1&7): socta1!sta utópico tnmcês
entre cuJas obras podemos citar a Teoria da 1Uddade IMÚVm-BOl
e o Tratado da Aa.aoclação ~ g r i c o l a .
• A Falsa indúst:r1a..
• A Voz do Povo..
• Wllhelm !WeltJtng -(,1808-,1811): .socleUsta utdifico cuja
prwdpaJ obra ae Lntttwe. Garantiell dl!rr Haf"fflOfl,WJ • • ll'reiMU
(Garantias da harmonia e da ·l iberdade).

261
nítido da maneira como confunde o comunismo com uma
coisa que já existe há bastante tempo. A Revolução chegou
mesmo. por oposição aos «honnêtes gens» 1 (que o nosso santo
traduz de forma bastante insuficiente por gute Bürger). a
«elevar ao nível de expressão honorifica> a ,palavra sans-
-culotte 2 • E São Sancho também o faz com o secreto desejo
de ver realizada a palavra do profeta Merlin a .p ropósito dos
três mil e trei.entos açoites com que deverá infringir-se o
homem que há-de vir:

Es menester que Sancho. tu escudero,


Se dé tres mil azotes y trescientos
En ambas sus valientes posaderas
AI aire descubiertas, y de modo
Que le escuezan, le amarguen y le eofaden.

(Dom Quixote, tomo II. cap. 35) 3

São Sancho constata que «a elevação da sociedade ao


nível de proprietário supremo» constitui cum segundo roubo
cometido à propriedade pessoal no interesse da humanidade»,,
enquanto que o comunismo é «o roubo da propriedade
pessoal> elevado ao estado de «sua realização:.. «Porque o
roubo lhe parece inconte.rulvelmente abominável». São San-
cho cpensa por exemplo• que. através da cafinnação• ante-
rior,, «estigmatizou o comunismo• («O Livro:., pág. 102).
Se é verdade que cStirner» conseguiu «cheirar> co .próprio
roubo» no comunismo, ccomo poderia deixar de sentir um
~profundo horror' e uma •justa indignação'»! (Wig{and], pág.

1 Em francês no origina.l.
2 Em lfrancês no origina,}.
a -c:1: mister que Sancho, teu escudelro,
Se dê três mil e trezentos açoites
Nas aw <laia.a pOBSantea nd.dega.a
Descobertas, e de tal modo
Que alnta uma dor aguda,
Amarga, e que Isso o incomode>.

262
156). Convidamos «Stirner. a indioar-nos qualquer bourgeofa 1
que tenha escrito sobre o comunismo (otr o cartismo) sem
debitar as mesmas imbecilidades com o mesmo ênfase. E é
de facto verdade que o comunismo «roubará> aquilo que o
bourgeois • considera «pessoal».

Primeiro corolário.

Pág. 349 - cO liberalismo declara que está na


essência do homem ser «proprietário e não proprie-
dade. Como se tratava do homem e não do indiví-
duo. foi deixado ao cuidado dos indivíduos resolver
o problema do cquaoto>. que constituía precisa-
mente o seu interesse particular. ~ por esta razão
que, neste problema do «quanto>, o egoísmo dos
indivíduos conserva uma total liberdade de acção
e se entregou a uma concorrência infatigável».

Por outras palavras: no início da Revolução francesa,


o liberalismo, ou seja, os proprietários privados liberais.
deram uma aparência liberal à ,propriedade privada ao decla-
rarem que ela constituía um direito do homem. Foram obri-
gados a isso, quanto mais não seja pela sua situação de
partido revolucionário; e foram mesmo constrangidos a dar
à mas.~a da ,população rural francesa não apenas o direito
à propriedade como (ainda] a faculta.r--lhes a .p ossibilidade
de adquirir propriedades reai.s, pois~ permitia-lhes garantir
e manter intacto o seu próprio «quanto». Por outro lado,
é fácil verificar que para São Max a conconência emana
do liberalisroo - açoite que infringe à história para se vingar
daqueles que foi obrigado a dar a si mesmo. A cdeclaração
mais precisa> do manifesto (que segundo ele serviu ao libera-
lismo .para cse apresentar>, -pode ser encontrada em Hegel
que, em 1820, se exprimia nos seguintes termos:

cRelativamente às coisas exteriores. o racional


consiste em» (isto é, serve-me. a mim enquanto

1 • Em lrancês no original.

263
raz.ão. enquanto homem de) «possuir a proprie-
dade . .. logo. aquilo que possuo e quanto po~uo
oada mais é do que uma contingência jurídico.
Fi~sofia) do direito, § 49.

É característico em HegeL o faz.er da fórmula do bow-


geois 1 um conceito real, a essência da propriedade, no que
cStirner> o imita fielmente. São Max apoia-se agora no
desçnvolvimento precedente para afirmar ainda que o comu-
.
D!SDJO

coolocou o problema do quanJo da propriedade e resol-


-veu-o afirmando que o homem deve ter tanto quanto
necessita. Poderei assim contentar o meu egoísmo? ...
Pelo contrário, nece~to de ter tanto quanto me for
possível apropriar> (pág. 349).

Aqui, a primeira observação a .fazer é a de que o comu-


nismo não é de forma alguma o resultado do§ 49 da Filo--
sofia do direito de Hegel e do seu «quê e quanto». Em
segundo lugar. «o Comunismo> não se preocupa em dar seja
o que -for cao Homem> na medida em que c:o Comunismo»
não pensa de forma alguma que «o Homem.-. «necessite» de
qualquer coisa. exceptuando um pequeno esclarecimento cri-
tico. Em terceiro lugar. são atribuídas ao comunismo cas
necessidadeo do bourgeois • actual, introduzindo-se portanto
uma distinção que, dado o seu carácter sórdido. só ,pode
ter alguma importância na sociedade actual e na sua imagem
ideal, a associação stimeriana de «gritadores individua1iu_doo
e dé livres costureiras. cStimer> consegue uma vez mais cpôr
a nu. e de uma forma grandiosa, o comunismo. Finalmente,
e porque deseja ~uir necessariamente tudo aquilo de que
se puder apropriar (se esta f 6rmula não deve limitar-se à
banal afirmação dos bourgeois • segundo a qual todos têm
direito a possuir bens. isto é, direito a realiz.ar lucros livre-
mente). •São Max supõe o comunim)Q já. realizado a fim de

1 • F.m francês no original.

264
poder desenvolver e instaurar as suas «capacidades»; o que,
tanto com.o essas ccapacidades». não depende apenas de si
mesmo mas também das .relações de produção e de trocas
em que vive (ver roais adiante: a «Associação»). Aliás, nem
o próprio São Max se conforma com a sua doutrina, pois ao
longo de todo o seu «Livro• usa e abusa de coisas de que não
~ria ccapaz de se apropriar>.

Segwrdo Corolário.
cMas os reformadores sociais pregam-nos um
direito social Eis o que transforma o indivíduo em
escravo da sociedade.• (pág. 246). «Na opinião dos
comunistas. todos devem goz.a.r dos direitos eternos
do homem> (pág. 238).

Quando analisarmos o «socialismo verdadeiro> (ver vol.


II). referir-nos-emos a expressões como direito, trabalho, ~te..
tais como nos aparecem nas obras dos escritores proletários
e à atitude que a critica deve adoptar perante eles. No que
toca ao direito. já sublinhámos, aliás como muitos outros. a
oposição entre o comunismo e o direito, quer se, trate do
político. do privado ou da sua formulação mais genérica
enquanto direitos do homem. Ver os Anais franco-alemães,
onde o privilégio é considerado como correspondendo à
propriedade privada ligada a um estado ~, e o direito como
correspondendo às condições da concorrênci&» da propriedade
privada livre (págs. 206 e segs.). Do mesmo modo, o próprio
direito do homem é estudado enquanto -privilégio e aproprie-
dade privada enquanto monopólio. Por outro lado, a critica
do direito é relacionada com a filosofia alemã e apresentada
como consequência da critica da religião ~ - 72); e os
axiomas do direito. que se afirma deverem conduzir ao comu.
oismo, são concebidos como axiomas da propriedade privada,
tal como o direito da propriedade comum é concebida como
condição imaginária do direito da propriedade privada (págs.
98--99).

1. No sentido que a palavra toma na e,q>resslo e.terceiro


esta.do>.

265
Aliás. só à cabeça de um professor berlinense poderia
ocorrer a ideia de ver em Babeuf o representante do comu•
nismo no plano teórico e de lhe objectar a fórmula anterior.
cStirner> tem porém. a audácia de pretender (pág. 247). que o
comunismo que admite

cque todos os homens têm por naturei.a direitos


iguais. refuta a sua ·própria afirmação ao dizer que
os homens não têm por natureza direito algum. Por-
que não quer reconhecer. por exemplo. que os pais
têm direitos sobre os filhos. abole a família. . . De um
modo geral este principio revolucionário de Babeuf
(ver Vs Comunistas na Suiça. «Relatório da Comis-
são•. pág. 3 1 ) repousa numa concepção errada»~

Um Y aokee dirige-se a Inglaterra~ um juiz impede-o de


chicotear o seu escravo e o Yankee grita. indignado: «Do you
call this a land of liberty, where a man c(Jn'~ larrup his
migggen, 2 •.

São Sancho comete aqui um duplo erro. Primeiramente.


vê uma supressão dos «direitos iguais dos homens» no facto
de se atribuir às crianças «direitos iguais por natureza> aos
pais, no facto de se atribuir os mesmos direitos do homem à
criança e aos pais. Em segundo lugar. Jacques le bonhomme ª
esquece-se de que afirmara mais atrás que o Estado não tem
o direito de intervir quando um pai dá uma tareia no filho
porque lhe reconhece o direito de família. Assim. aquilo que
nos dá. :por um lado. como mn direito particular (direito da fa-
,

1 Oa e ~ t1a ·811,(.ça, aegu.ndo os documento., BnCOtl-


tnlàoa entre os ~ de Weit'Ung. Reproduç<io Uteral do rela-
tórío ao alto govenw do Cantá.o de Zurique, obra publlca.da
anonlmamente em ZurJque no ano de 11843. O autor da obra.
era um juriata reacclonârlo, J'ohn Gaspar Bluntschli, razAo
porque Marx e Engels empregam mais &d.lante a expressão
crelat6rio de Bluntschll>.
2 Em inglês no origin.&L E chamam a Isto wn pa1s livre,
onde nem se pode chlcotear o nosso pr6prlo negro.
s Em francês no original.

266
milia), é por outro lado incluído na categoria dos «direitos dos
homens iguais .por natureza>. Finalmente. afirma--nos que só
conhece Babeuf por aquilo que leu no relatório de Bluntschli
o qual por sua vez -a firma (pãg.3) que foi buscar a sua ciên 4

eia ao bravo L. Stein. doutor em direito 1 • Vemos as.gm o pro-


fundo conhecimento de São Sancho sobre o comunismo. Assim
como São Bruno é o seu conselheiro em revolução. São Belun-
tschli é-o em comunismo. Nestas condições, não será de admi-
rar que, algumas linhas mais adiante. o nosso verbo de Deus
provinciano reduza a fraternité 2 da Revolução [francesa]
«igualdade das crianças de Deus». (Qual será a dogmática
cristã que admite a égalité 5 ?).

Terceiro corolário.

Pág. 414. Como o princípio da comunidade cul--


mina no comwtismo, Comunismo = «Apoteose do
Esta.do de amora.

Do Estado de amor, produto original de São Max, é


assim deduzido o comunimio. que logicamente não passa de
comunismo à Stirner. São Sancho só conhece. por um lado,
o egoísmo e. por outro. o direito aos serviços de amor, à
piedade. às esmolas. E não conhece mais nada fora deste
dilema.

Terceiro esquema lógico.

cPorque na sociedade se manifestam os mais


opressivos defeitos. as ~ a s oprimi~ (!) cem
particular, (!) «julgam encontrar a causa desses
defeitos na sociedade e resolvem descobrir a socie-
dade justa> (pig. I SS).

1 ;ver mais atrás a nota sobre Bluntschli, Lorenz von


Steln, professor de .filosofia e de dlreito e autor da obra: O so-
ctaltsmr, e o comu:nlamo na França. de hoje. Contr1bu1ção à his-
tória contemporA.nea, publicada em 1842.
1 Em francês no original Fraternidade.
S Em francês DO OrtgiD&I. Igualdade.

267
cStimer>, pelo contrário, cresolve» ~brir «a socie-
dade justD para ele, a que lhe convém, a sociedade sagrada,
a sociedade enquanto sagrado. As pessoas oprimidas «na
sociedade- de hoje. só cpensaro• em instaurar a sociedade
justa. que lhes conviria a eles.. tarefa que consiste em suprimir
primeiramente a sociedade actual e em edificar depois a
sociedade tendo por base as forças ·p rodutivas existentes.
Quando se mannestaro «defeitos opressivos» numa máquina
que. digamos, se recusa a funcionar, e aqueles que dela têm
necessidade, por exemplo, para ganhar dinheiro, resolvem
arranjar a máquina, então, de acordo com São Sancho. não
resolvem ajustar a máquina às suas necessidades mas sim
d~rir a máquina just~ a máquina sagrada, a máquina
enquanto sagrado, o sagrado enquanto máquin3.y a máquina
no céu. cStimeo aconselha-os a procurarem a falta «em si
'flU!ST1lOD. De facto, só eles têm culpa de necessitarem da
enxada e da cbarrua; não poderiam plantar e desenterrar
batatas com as unhas? E o santo dirige..Jhes um sermão
sobre o ~unto (pág. 156):

cComeçar por .procurar os erros fora de nós


não é roais do que a manifestação de uma atitude
já muito velha - e o mesmo acontece quando atri-
buímos ao Esta.do ou ao egoísmo dos ricos aquilo
que só releva de culpas integrahnente nossas».

O coprim ido> que procura no «Estado» ca culpa> do


pauperismo é. nada mais nada menos, como notámos atrás,
do 'que o próprio J«ques le bonhomme 1 • Em segundo lugar,
o coprimido• que se satisfaz a atribuir ca culpo ao
cegowno dos ricos» é -t ambém o próprio Jacques le bo-
nhomme •.
Quanto aos outros oprimidos, aos cFocts antJ Fictioru,
do aJfaiate e doutor em filosofia John ,W att, ;i devem ter
sido deseoganMQS pelo «Poor Man's Companion> de Hob-

1 • Em tnmoês no original.

268
son 1 . Em terceiro lugar. quem deve designar ca Nossa
culpa>? Será o pequeno ·proletário, que nasce com escrófula..
é alimentado a ópio e vai trabalhar para uma· fábrica assim
que chega aos sete anos? Será o trabalhador isolado a quem
se pede que cse revolte> com os seus punhos contra todo
o mercado mundial? Ou a .jovem que morre de fome ou se
prostitui? N"ao: é ,precisamente Aquele que procura cem si
mesmo> «todas as culpas>. isto é, «a culpa> de todo o actual
estado de coisas. ou seja e uma vez mais. Jacques le bo-
nhomme 2 • A atitude da ·fraseologia idealista segundo a qual
Eu. o elemento real. não devo modificar a realidade. pois
s6 o posso fazer juntando-me a outros. mas sim modificar-me
a mim mesmo, é «apenas a manifestação de uma velha ati ...
tudo da introspecção e da contrição cristãs sob a forma
germano-especulativa. ~ a luta interior do escritor consigo
mesmo» (A Sagrada Família. pág. 122. cf. págs. 73, 121 e
306).
Assim. de acordo com São Sancho, os oprimidos pela
sociedade procuram a sociedade justa. Logicamente. deveria
também dizer que os que «procuram a culpa do Estado>
- e•.para ele. são as mesmas pessoas - procuram o Estado
justo. Mas não o faz ,porque ouviu dizer que os comunistas
pretendem suprimir o Estado. É-lhe necessário construir
abstractamente esta supressão do Estado, o que consegue
graças à sua monomania. a aposição. de uma maneira cque
parece bastante simples>:

«Dado que os trabalhador~ se encontram num


estado miserável, o actual estado de coisas. ou seja.
o Estado (status= estado) deve ser suprimido»
(Ibidem).

1 J'ohn !Watt: T1le Facta <ffld .Fiotion.s o/ P ~ Econo-


m'8ts, Mandlester, l&2. .
.Joshua IHobeon: editor do jornal inglês NortMTn Btar,
abundantemente citado por Engels na 81h&ação da cla8ae traba-
lhadora ,aa lngla,terna.
2 Fdll trancês DO origina.l.

269
Logo:
estado miserável= actual estado de coisas
actual estado de coisas= estado
estado = status
status= Estado

Conclusão:

estado miserável= Estado

Haverá algo cm.ais sim.pies»? «Só nos devemos admirar»


que os bourgeois 1. ingleses de il688 e os bourgeois • franceses
de 1789 não tenham feito as mesmas «reflexões simples•
e não tenham apresentado as mesmas equações. apesar de
na sua época, muito mais do que hoje. o Estado= status=
= Estado. Daqui se conclui que, sempre que exista um «es-
tado miserável>. co Estado• que. como sabemos. é o mesmo
tanto na Prússia como na América do Norte, deve ser supri-
mido.
São Sancho oferece-nos agora. como é seu hábito, alguns
provérbios à Salomão:

Primeira 3e11le11ÇIJ de Salomão.

Pág. 163: «A sociedade não é um Eu capaz


de dar. etc., mas sim um instrumento de que nos
desejam~s servir; não temos deveres sociais. mas
sim e apenas interes.5es; não devemos qualquer sacri-
fício à sociedade mas, se sacrificamos qualquer
coisa. é sempre a Nós que a sacrificamos. ~ nisto
que os sociais não .p ensam .por estarem imbuídos
do principio religioso e aspirarem ardentemente a
uma... sociedade sagrado.

1 • Em francês no origiD&l

270
Daqui decorrem as seguintes «penetrantes afirmações•
sobre o comunismo:

1. São Max esqueceu c.ompletamente ter sido ele pró-


prio quem transformou «a socied~e• num «Eu• e. portanto,
que só se encontra na sua própria «sociedade>:

2. Julga que os comunistas esperam que a csociedade»


lhes cclê» qualquer coisa, quando na realidade pretendem
dar a si mesmos uma sociedade;
3. Mesmo antes de a sociedade existir, já a transforma
num instrumento de que quer tirar proveito sem que ele e
quaisquer outras pessoas tenham produzido. através de um
comportamento social recíproco. uma sociedade. isto é. tal
«instrumento>;

4. Julga que, na sociedade comunista. poderão existir


cdevereo e cinteresses» enquanto -p olos complementares de
uma contradição que pertence exclusivamente à sociedade
bourgeoise 1 (quando se trata de interesses. o bourgeois * que
pe~ introduz sempre um terceiro termo entre ele próprio
e a sua vida, procesoo que toma uma forma verdadeiramente
clássica em Bentham. cujo nariz só se resolve a cheirar
quando tem interesse nisso. (Ver co Livro• a propósito dos
direitos sobre o próprio nariz: pág. 247);
S. São Max 1pensa que os comunistas querem «fazer
sacrificiog à csociedade». quando apenas querem sacrificar
a sociedade existente - a menos que chame sacrifício à cons•
ciência que têm de a sua luta ser comum a todos os homens
que se rebelam contra o regime bow-geois *;
6. Crê que os sociais estão imbuidos do principio
religioso e

7. aspiram a uma sociedade ~ afirmação cujo


verdadeiro significado já antes vimos. pois é nítido o «ardor>

1 • Em francês no original.

271
com que São Sancho caspira» à csociedade sagrada> para
poder. graças a ela. refutar o comunismo.

Segunda ~ença de Salomão

Pág. 277: cSe o interesse pela questão social


fo~ menos apaixonado e menos cego, reconhecer-
..se-ia a impossibilidade de alcançar uma sociedade
nova enquanto aqueles que a compõem e a consti-
tuem continuarem iguais ao que eram no passado».

cStimer> julga aqui que os proletários comunistas que


revolucionam a sociedade estabelecem as relações de produ-
ção e a forma de relações numa base nova. isto é. sobre eles
próprios, enquanto homens novos. sobre o seu novo modo
de ,vida, continuam iguais ao que eram no passado». A pro-
paganda infatigável dos proletários., as discussões que orga-
oinm continuamente entre si, provam suficientemente o
pouco que desejam manter-se «iguais ao que eram> e o
quanto desejam_ de um modo geral, que os homens não con-
tinuem. ciguais ao que eram>. Só continuariam ciguais ao
que eram no passado> se. c.omo pretende São Sancho. cpro-
curassem as culpas em si mesmos»; mas sabem muito bem
que só deixarão de ser ciguais ao que eram> quando forem
modificadas as condições, e é por essa razão que se decidi-
ram a fazê-lo o mais rapidamente possivel Na actividade
revolucionária, a modificação das condições e a modificação
de si me9DO coincidem. Esta grande sentença é explicada
por mn exemplo não menos grande. também retirado eviden-
temente do mundo do csagrado>;

cSe devesse nascer do povo judeu, uma socie-


dade que diwlgasse por todo o mundo lBlla fé
nova, seria necessário que esses novos apóstolos
não continuassem Farisel19.

272
Os pnmeuos cristãos= Sociedade para a
propagação da fé
(fundada no ano 1).
= Congregatio de pro-
paganda fide
(fundada em 1640).
O ano I= ano 1640
A sociedade que deve nascer= Estes apóstolos
&ses apóstolos= Não-Judeus

O povo Judeu= Fariseus


Os cristãos= Não--Fariseus
--
.

=' Não o ,povo Judeu


Nada mais simples.
Reconfortado por estas equações, São Max profere
tranquilamente a seguinte grande parábola histórica:
cOs homens. muito longe de se abandonarem
à sua evolução. sempre quiseram formar uma socie-
dada.
Muito longe de quererem formar uma sociedade, os
homens sempre a deixaram desenvolver-se; isto. por sempre
terem querido desenvolver-se enquanto seres individuais. É
essa a razão porque só se conseguiram. desenvolver na e -atra-
vés da sociedade. Aliá4>, só um santo da envergadura do
nosso Sancho poderia ter a ideia de separar o desenvolvi-
mento cdos homens» do desenvolvimento «da sociedade»
na qual vivem. Só ele ,pode continuar as suas divagações a
partir d ~ base extravagante. Esquece.. de resto, a frase que
São Bruno antes lhe inspirara e na qual atribuí~ aos homeos
a exigência moral de se modificarem a si mesmos e de ao 11

fllblo, transformarem a sociedade - onde. portanto, iden-


tificava o desenvolvimento dos homens ao da sociedade.
18
273
Quarto esquema lógico.

Opondo-o aos cidadãos do &tado, atribui ao comunismo


as seguintes frases (pág. 156):

cA nossa essência» (!) «não reside no facto de


SClIDOS Todos filhos iguais do Estado• (!) emas
sim no de existirmos Todos uns ,para os outros.
~ neste ponto que Todos somos iguais: Existimos
Todos uns para os outros, cada um de Nós traba-
lha para outrém, cada um de Nós é um trabalha-
dor». Como vemos, «existir como trabalhador»=
== C'cada um de nós só existe para outrém», pelo
que outrém «trabalha por exemplo para me vestir.
Eu ,para satisfazer a sua necessidade de divertimento,
ele para assegurar a minha alimentação, Eu para
o ensinar. Logo, o facto de trabalhar é simultanea-
mente a nossa dignidade e a nossa igualdade. Que
vantagens nos oferece a nossa qualidade de cidadão?
TrabaJho. E como é avaliado o nosso trabalho?
Pelo mais baixo preço possível... Mas que nos
podeis opor? Também só trabalhai «Só o vosso
trabalho merece uma «récompense» 1 ; cs6 tendes
direitos sobre Nós» ma medida em que produzirdes
algo que nos seja útil». «Desejamos que. aos vossos
olhos. o nosoo valor seja igual àquilo que ·para vós
produzimos; mas Nós aplicar-vos-emos os mesmos
padrões». «As produções que têm algum valor para
Nós. portanto os trabalhos de interesse geral, deter-
minam o valor... Aquele que efectua um trabalho
útil não é inferior a ninguém, ou melhor... Todos
os Trabalhadores (que trabalhem para o intere~e
comum) são iguais. Mas. como o trabalhador vale
o seu salário., que também este seja igual» (págs.
157, 158).

1 Em francês no original. Recompensa.

274
Para «Stimer>. «o comurumlo» começa por se preocupar
com a ussência>; o seu objectivo consiste ainda e unica-
mente em <fazer um balanço das coisas> como bom «adole5-
cente>. Que importa ao nosso santo que o comunismo seja
um movimento prático que tenta alcançar objectivos práticos
utiUzaodo métodos práticos e que só se pode ocupar por
alguns instantes da «essênciu quando perde o seu tempo
com os filósofos alemães. Este «comunismo> de Stimer, que
tem uma tal sede de «essência», nunca ultrapaMa, por
esse facto. o nível de uma simples categoria filosófica.. o
altruísmo». que é um pouco aproximado do mundo material
mediante a1gumas equações forçadas:
altruísmo= só existir para outrém
=existir enquanto trabalhador
= generalidade da qualidade de trabalhador
Aliás, desafiamos São Sancho a encontrar em Owen 1
uma única passagem onde figure qualquer elemento das ante-
riores frases sobre a «essência>, a generalidade da qualidade
de trabalhador, etc. (ora Owen, que representa o comunismo
inglês, 1pode personificar co comunismo> tanto quanto o não-
-comunista Proudhon 2 , de cujas obras Stimer tirou a maior
parte das frases citadas arranjando-as depois à sua maneira).
Wao é de forma alguma necessário que voltemos atrás; basta
recordar o que se afimia no caderno n.º 3 da revista alemã
Die Stimme des V olks •, já citada:
«Aquilo a que hoje se eh.ama trabalho é ape-
nas um elemento miserável do gigantesco e todo-

1Robert Owen 1(177.1-1858): socl~a utópico inglês, wn


dos mais Importantes teóricos das correntes socla.Usta.s pré-
-mandatas.
s [Nota cortada no manuscrito original:] Proudhon, que
desde 1841 crltlcou violentamente o Jornal dos oper!rlos comu-
n.J.stas La Fratermtd .pela.a suas teses sobre o sa.lãrlo igual, a.
qualidade do -trP.baJbad'>r em geral e outros preconceitos em
matéria económica que se podem encontrar neste excelente
escritor de que os comUDl.sta.s só aproveitaram a sua critica
da propriedade.
• A Voz do Povo, jornarl aJernln publicado em Paris.

275
-poderoso processo de produção. A religião e a
moral só diamam trabalho à parte dessa produção
que é repugnante e perigosa; ambas têm porém a
audácia de o temperar sub-repticiamente com todos
os tipos de máximas, com verdadeiras bênçãos
(quando não se trata de fórmulas mágicas): «Tra-
balharás com o suor do teu rostoJ> (quando o tra-
balho é uma prova imposta por Deus); co trabalho
é a doçura de viver> (fónnula de encoraja..
mento). etc. A moral do mundo em que vivemos
tenta muito sabiamente não chamar trabalho ao
lado divertido e livre do comércio dos homens;
desdenha-o, se bem que também faça parte da -pro-
dução. Gosta de o qualificar desdenhosamente de
vaidade de vãos prazeres. de volúpia. Mas o comu-
nismo já desmascarou a moral como hipócrita inven-
tora de sermões».

Depois de transformar o comunismo em generalidade


da qualidade do trabalhador, São Max redu-lo a salário
igual. Esta descoberta repete-se nas três seguintes «refrac-
ções» (pág. 351): e.À concorrência é oposto o princípio da
sociedade dos indigentes- a partilha. Deveria Eu.- que tenho
muitos bens~. possuir tanto quanto aqueles que não os têm?».
Na página 363, fala de uma ctaxa geral para toda a activi-
dade humana prevista na sociedde comunista> e finalmente.
na página 350, atribui aos comunistas o parecer segundo o
qúal co trabalho• constitui co único bem> dos homens. São
Max reintroduz portanto nç, comunismo a propriedade pri-
vada sob a sua dupla forma: repartição e trabalho assala-
riado. Como já vimos a propósito do cbanditismo», São Max
dtmonstra aqui uma vez mais que as suas cpróprias» «pene-
trações» do com1mismQ são -precisamente as ideias mais

1 Stirner joga aqui com o sentido duplo da pa.Ia.vra aJemã


VemwSgeA ·(beD.8 materlaie, capacidades).

276 ·
banais e limitadas que dele tem. a bourgeoisie '1. O nosso
santo é de facto um bom aluno de Bluntschli. Como bom
pequeno-burguês. teme, ele cque tem muitos benD, «possuir
tanto quanto aqueles que não os têm> - apesar de só ter
a recear o ser abandonado càs suas próprias capacidades» ...
Diga.:.se de p~gem que aquele «que tem muitos bens»
pensa que a qualidade de cidadãos é indiferente aos prole-
tários, depois de ter afirmado que eles têm em princípio essa
qualidade. tal como mais atrás pensava que a forma de
governo era indiferente aos bourgeois *. Os operários dão
tanta importância à qualidade de cidadão activo que, quando
a têm. como na América. cfa.zem-na valer> e, quando não
a têm, querem-na adquirir. Vejam-se as negociações dos
operários da América do Norte e a história do cartismo inglês
e do comunismo e reformismo na França.

Primeiro corol.ário.

«Tendo consciência de que só é válido en-


quanto trabalhador. o qperário afasta o egoísmo e
submete-se à soberania de uma sociedade do tra-
balho. do mesmo modo que o burguês aceita desin-
teressadamente> (!) «um Estado baseado na concor-
rência> (pág. 162).

Se o operário tem consciência de alguma coisa, é apenas


do facto de, para o bourgeois *. só valer enquanto traba-
lhador; e é enquanto tal que se afirma relativamente ao
bourgeois *. As duas de.soobertas de São Sancho, o «desinte-
resse do burguês> e «o Estado baseado na concorrência», só
podem ser consideradas como novas provas cdas capacida-
des> daquele cque tem muitas capacidades».

1 • Em francês QlO original.

277
Segundo corolário.

cO comunsmo deve ter como objectivo o «bem


de Todos-. Dir-se-ia de facto que. neste caso. nada
há a diw. Mas qual seria esse bem? Será que só
existe mn mesmo bem para todos? Será que Todos se
sentem bem_numa mesma situação? Se assim é. esta-
remos perante o «bem verdadeiro». Ora. não é
neste preciso momento que começa o domínio da
religião?... A sociedade decretou que determinado
bem era o cbem verdadeiro». Suponhamos que este
bem é. por exemplo, um prazer honestamente adqui-
rido alravés do trabalho, e que Tu preferes os nume-
rosos prazeres da preguiça; nesse caso, a sociedade
não teria em conta o Teu prazer. Ao ,p roclamar
que deseja o bem de Todos, o comunismo destrói
o bem-estar daqueles que vivem das suas ren-
das. etc.» (págs. 411, 412).

«Se assim é, podemos escrever as seguintes equações:


O bem de Todos=Comunismo
=Se assim é
= Ummesmo bem de Todos
=O bem-estar igual de Todos
numa mesma situação
=O bem verdadeiro
= [O bem sagrado, o sagrado, o
reino do sagrado. a hierarquia]
= Domínio da religião.
Comunismo= Domfnio da religião.

cDir-se-ia de facto» que cStimen> repete aqui sobre o


comunismo aquilo que já antes dissera sobre todas as outras
coisas. A profundidade da «penetração» do nosso santo nestes
assuntos de comunismo é ainda demonstrada pelo facto de lhe
querer impor como cbem verdadeiro» co 1prazer honesta-
mente adquirido através do trabalho». Além de cStimer> e
de alguns mestres sapateiros ou mestres alfaiates, quem poderá

278
sonhar com cum prazer honestamente adquirido através do
trabalho»? E consegue ,pôr tais frases justamente na boca dos
comunistas. que negam a própria base d ~ antitese trabalho-
-prazer! O nosso santo moralista pode ficar tranquilo quanto
a ~ .p onto. Os cuidados «de adquirir_honestamente através
do trabalho> ser.lhes-ão abandonados. a ele e a todos aqueles
que representa sem o sàber: todos os seus queridos pequenos
artesãos arruinados ,pela liberdade de empresa e moralmente
«revoltados». cOs numerosos prazeres da preguiça» fazem
igualmente parte das mais banais concepções burguesas. Mas
o que coroa toda esta passagem é a finória observação que
dirige aos comunistas quando diz que. se falam do «bem
estar de todos». só desejam de facto destruir o «bem estar»
dos proprietários r~ndeíros. Julga portanto que na sociedade
comunista ainda existem rendeiros, e que o seu <<bem-estar»
ficaria ameaçado. Afirma que o «bem-estar» do rendeiro
eIUJuanlo proprietário é inerente aos indivíduos que actual-
mente o são e que é inseparável da sua individualidade; pensa
que não poderia existir para esses indivíduos um outro «bem -
-esta.o diferente do que decorre da sua situação de proprie-
tários rendeiros. Crê também que a sociedade está já orga..
rui.ada de um modo c.omunista, quando de facto é necessário
lutar contra os próprios rendeiros e os seus semelhantes 1 •
~ certo que os comunistas não terão qualquer escrúpulo em
destruir o domínio dos bourgeois * e o seu «be.m-estan>, assim

1 [Passagem cortada no manuscrito:] Para .t erminar,


aponta aos comunlstaa a seguinte iex!gência moral: espera deles
que continuem, por toda a eternMade, a deixar-se tranquila-
mente explorar pelos proprletArlos, comerciantes, lndustrlals,
etc., por nAo poderem abolir essa exploração sem destruir simul-
taneamente o <bem-estar> d.esses senhores! J acque3 l6 bo-
"11omme •, que aqui nos surge como defensor dos gr<NJ bour-
g6o'8 •, poderia debmr de fazer aos camunist.as. sermões que
estes podem ouvir tod.oe os dias da boca desses cbrav_o s bur-
gueses.>.
2 • Em francês no original.

279
que atinjam o poder 1 • Não Dies importa que esse «bem-estar>
comum aos seus inimigos e condicionado pelas suas relações
de classe, seja susceptível, enquanto e bem-estar> ~oal, de
ser considerado com um certo sentimentalismo por aqueles
que sofrem de e.meiteza de espírito.

Terceiro corolário.

Pág. 190: na sociedade comunista, e preocupa-


ção renasce sob a forma de trabalho».

O bravo burguês cStirner>, que se regozija por reencon-


trar no comunismo a sua bem-amada «preocupação:.t, comete
no entanto wn erro de cálculo. A «preocupação» é apenas o
~ntimento de opressão e de angústia que, no regime burguêsll
acompanha ~riamente o trabalho, essa actividade mise-
rável que serve para ganhar a vida com esforço. A &preocupa-
ção> encontra a sua forma mais pura no bravo burguês ale-
mão; é nele crónica e «sempre igual a si mesma>, miserável
e desprezível. enquanto que para o proletário toma uma forma
aguda, violenta, levando-o a dedicar-se a uma luta pela vida,
pela morte, tomando-o revolucionário e gerando, portanto,
não cpreocupação• mas sim paixão. Ora se o c.owuoismo quer
abolir a cpreocupação• do burguês ao mesmo tempo que a
miséria do proletário, é lógico que só o pode fazer abolindo
a causa de um e de outro: o «trabalho».
Voltemos agora aos esquemas históricos do comunismo.

1. [Passagem cortada no manuscrito original:] . . . e se não


têm escrúpulos é preclsamente porque o cbem de todas> enquanto
-<lnd.lvfduos de carne e osso> é para eles mais importante do
que o cbem-estar> das actuals classes socls.1.s. O cbem-estar>
de que goza o rendeiro na .sua. qnaJldade de proprietário não é
o -c:bem-estan do Individuo em sl mas sim o do proprtetãrio/
/rendeiro; não lê um bem~star individual mas geral, no Amblto
da cluse.

280
Primeiro esquema histórico.
,,
cEnquanto a fé bastava para a honra e digni-
dade dos homens, nada se podia objoctar a qual-
quer tipo de trabalho, por muito opressor que fosse>
.- «As classes oprimidas podiam 'Suportar o peso
da sua miséria na medida em que eram compostas
por cristãoS> (ou melhor: eram compostas por cris-
tãos na medida em que suportavam a sua miséria),
cpois o cristianismo> (atrás deles com o cacete na
mão) cnão deixava mostrar o seu protesto nem a
sua revolta> (pág. 158).
cComo sabe então cStirner> o que podiam fazer as
e ~ oprimidas? Aprendêmo-Jo lendo o caderno n.• 1 de
Allg[emane] Iiterat[ur]Z[ei]t[un]g, onde ca crítica encar-
na.da por um mestre encadernador» 1 cita a seguinte passagem
de um livro insignificante:

«O pauperismo moderno tem um carácter poli•


tico; enquanto que o mendigo de outrora suportava
o seu destino com resignação, considerando-o como
uma sentença de Deus, o indigente moderno per-
gunta se é obrigado a levar uma existência mise•
rável só pelo facto de o acaso o ter levado a nascer
entre farrapos.>
Foi devido a este poder do cristianismo que.. aquando da
emancipação dos servos, se travaram as lutas mais selvagens
e mais encarniçadas precisamente contra os feudais ecleJiás-
ticos. A emancipação realizou-se apesar de todos os protestos
e das revokas do cristianismo encarnados por esses sacerdotes

1 .<A. critica enca.rnarla. por um mestre encaderna.dor> foi


a a.}(!•mba Irónica dada por Marx e Engels a C&rl Relcha.rdt na
Ba.groda .B'amUia. Este autor publicara na AUgemein.e LUeratur
Zeátlffl.g um artigo intitulado <.Eacritoa aobre o pauperismo>,
onde crttlca.va, entre outros, um artigo de A. T. :W-dnlger: <As
f"GmfJ3 do ~ do pau~o>, extraido da sua. obra
~ 1 ' e Abl&andllfflgen (EMDia., JornalL!Jtic03). ~ precisa•
mente deste livro que aqui se tmta..

281
(cf. Eden: History of the poor, vot I 1, Gu.izot: Histoire de
civilisation en France, Monteil: Histoire des Fr~ais des
divers états. etc.). enquanto que o baixo clero. sobretudo no
início da Idade Média, levava os servos a «protestar> e a
· ·«revoltarem~ contra os feudais laicos (cf.• quanto mais não
seja. o célebre Capitular de Carlos Magno). Ver igualmente
o que ficou dito mais atrás sobre as «revoltas operárias que
se produzem aqui e ali». as «classes oprimidas» e as suas
sublevações no século XVI.
As anteriores formas das revoltas operárias estavam
relacionadas com o desenvolvimento do trabalho na época e
a estrutura da propriedade por ele implicado; a insurreição
comunista directa ou indirecta está ligada à grande indústria.
Em ve-z de analisar os detalhes desta pr6diga história. São
Max constrói uma transição «sagrada» que nos leva das
classes oprimidas passivas para as c]asses impacientes opri-
midas:

cAgor~ que todos se devem educar para se


tornarem homens» («onde» terão os operários cata-
lães. por exemplo. descoberto que «todos se devem
educar para se tornarem homens»?), «o facto de um
homem ser condenado a trabalhar com uma máquina
é idêntico à escravatura> (pág. 158).

Portanto. antes de Spartacus e das revoltas dos escravos.


era o cristianismo que impedia que co homem condenado a
trabalhar com uma máquina» fosse semelhante «a um es-
cravo:.; e. na época de Spartacus. foi sem dúvida o conceito
de homem que aboliu essa relação e engendrou a escravatura.
cOu teria> Stirner ouvido «mesmo» falar da correlação entre
as revoltas operárias modernas e o mecanismo. e desejado
referi-la aqui? Nesse caso. não foi a introdução do trabalho
me.cãnico que converteu os operários em rebeldes. mas sim

1 O titulo exacto é: The Btate o/ the poor, or an hiatory


o/ tAe ·labouri11g classes in England, Londres, 1797. A obra de
Gulzot fol publicada em 1840, e a de Montell entre 1827 e 1842.

282
a introdução da noção cde homem> que transformou em
escravatura o trabalho mecânico. «Se assim b. cdir-se-ia na
ve.rdade> que esta é uma história «única> dos movimentos
operários.

Segundo esquema histórico.

«A bowgeoisie 1 proclamou o evangelho da feli-


cidade material; é estranho que agora se admire que
essa doutrina tenha adeptos em n~ proletários»
(pág. 159).

Há pouco. os trabalhadores queriam rr.alizar o conceito


cdo homem>, o sagrado; agora. querem a cfelicidade mate-
riah>. o ,profano; anteriormente. tínhamos co esfalfamento»
provocado :pelo •trabalho; agor~ o trabalho do prazer. São
Sancho dá aqui uma palmada em ambas sus valientes posa-
deras: 2 a primeira atinge a história material,. a segunda a
história sagrada. stimeriana. De acordo com a história· mate-
rial. é a aristocracia quem primeiro substitui o ,prazer do
evangelho pelo evangelho dos prazeres deste mundo; foi para
ela que a realist.a bourgeoisie • se pôs ao trabalho, permitindo-
..Jhe com muita astúcia os prazeres que a ela estavam vedados
por leis adequadas (enquanto que o poder da aristocracia
passava, sob a forma de dinheiro. para as algibeiras dos
bourgeois •.
De acordo com Stirner. a bourgeoisie *• actuando deste
modo. limitou-se a procurar co sagrado». a entregar-se ao
culto do &tado e ca metamorfosear todos os objectos exis-
tentes em objectos ideais-. sendo necessários os Jesuitas para
csalvar o sensualismo de um desaparecimento total>. Sempre
de acordo com essa história, a bow-geoisie * alcançou o poder,
ou seja, o evangelho dos det:entores do poder. o evangelho da
felicidade material, graças à Revolução; no entanto, e ainda
de acordo com Stirner. chegámos agora ao ponto em que cno

t •Em trands DO orig1nal.


z Em espanhol no orlginaL

283
mundo s6 reinam pensamento~. A hierarquia stirneana está
portanto a cavalo entre ambas posoderon 1 •

Terceiro esquema histórico.

Pág. 1S9. «Depois de a burguesia libertar os


homens da omnipotência e da arbitrariedade deste
ou daquele indivíduo, subsistiu esse tipo de arbitra-
riedade resultante da conjuntura das coisas e a que
~ pode chamar o acaso das circunstâncias. Simul-
taneamente com a sorte. subsistiram indivíduos por
ela bafejados-.

São Sancho leva então os comunistas a «descobrir» «uma


lei e uma ordem que põem fim às oscilações» (dessas coisas);
mas, sobre isto. sabe que os comunistas devem proclamar:
«Que esta ordem seja então sagrada!» (seria melhor que
dissesse: que a desordem das minhas fantasmagorias seja a
ordem sag1ada dos comunistas!)- «Eis a sabedoria> (Apoca-
lipse segundo São João, 13, 118). «Que quem for dotado de
razão reflicta no número> de absurdos que Sti.rner, aliás tão
prolixo e tão preocupado em se citar a si mesmo, consegue
meter apenas em algumas linhas.
Na sua acção mais genérica, a -p rimeira frase significa:
depois de a burguesia ter suprimido o feudalismo, subsistiu
a burguesia. Ou então: depois de, na imaginação de Stimer,
se ter abolido o reino das pessoas~ falta fazer precisamente
o contrário. «Dir-se-ia na verdade» que é ,possível correla-
cionar as duas épocas históricas mais afastadas, numa relação
que é afinal a relação enquanto sagrado, a relação no céu.
Ali;b. esta -f rase de São Sancho não se satisfaz com o
,node simple z de estupidez que tem.os vindo a analisar. e
recorre portanto ao modo composé s e bicomposé ~ do
absurdo. Com efeito, São Max acredi-bl. nos bourgeois ª que

1 Em espanhol no original.
2 Em francês no original. Modo simples.
• Em francês no ortginal. Composto.
~ Em francês no original Bicomposto.
n Em francês no original

284
se libertam quand'l dium que ao libeDta.rem-se da omnipo-
tência e do arbitrário dos indivíduos.. mas sim da tirania
da c.orporação. da jurande, das ordens., passando por isso a
poder exercer sobre o operário a sua «omnipotência e o seu
arbitrário» na qualidade, de bowgeois 1 verdadeiros, indivi-
dualmente. Em terceiro lugar. só aboliram a aparência p/w
ou moim 2 idealista da omnipotência e carácter arbitrário
anteriores dos indivíduos. para instituir em seu -lugar a nova
oro oipotênci.a e carácter arbitrário em toda a sua brutalidade
material O bourgeois • 1á não queria ver a sua «omnipo-
tência e carácter arbitrário» limitados pela «omnipotência e
pelo carácter arbitrário» do poder político anterior concen•
trado na pessoa do monarca. na nobreza e na corporação; o
único limite que aceitava era o dos interesses gerais de toda
a e ~ bourgeoisie •. traduzidos em leis por bourgeois • .
Apenas aboliu a omnipotência e o carácter arbitrário que _se
tinham opo9to à omnipotência e ao carácter arbitrário ··dos
bowgeois • individua.is (ver «Liberalismo político»).
Em ;vez de analisar a realidade, São Sancho faz agora
subsistir a conjuntura das coisas - que, com o advento da
bowgeoisi.e •. se converteu numa ronjuntura bastante dife-
rente de todas as outras coisas - sob a forma da categoria
genérica cconjuntura., etc.». ou designando-a pelo nome ainda
menos rigoroso de «acaso das circunstâncias>; como se ca
omnipotência e o carácter arbitrário deste ou daquele indivi-
duo• não fossem também uma «conjuntura das coisa.9. São
Sancho elimina portanto a base real do comunismo. isto é,
a c.onjuntura precisa das coisas sob o -r egime bourgeois •.
A partir daqui. :pode facilmente transformar o comunismo.
que tomou tão vago. no seu comunismo sagrado. cI>ir•se-ia
na verdade• que cStimer> é um cnomem cuja rique7.a> histó-
rica cé puramente .ideab, imaginária - o <indigenle con-
sumadtn. a. co Livro» (pág. 362).

1 • Em francês no orig1nal.
s :Em. -tra.ncês no original. Mais °" m.MIOB.
285
Este grande esquema, ou melhor, as suas premissas.
são..nos repetidas com grande ênfase (pág. 189) nos seguintes
termos:
«O liberalismo político aboliu a desigualdade
entre os senhores e os servos: tomou todos os indi..
víduos anirquicos. sem senhor> (1) «o· senhor foi
afastado do individuo. do egoíst~ ,p ara se transformar
em fantasma:. lei ou Estado.»

Domínio dos fantasmas= (hierarquia)= ausência de se-


nhor., o que equivale ao domínio dos bowgeois 1 «todo-pode-
rosos». Vemos que este domínio de fantawas é na realidade
um domínio exercido por numerosos senhores reais; logo,
dever-se-ia conceber o comunismo como libertação desse
domínio de numerosos senhores. Mas i~ não o poderia fazer
São Sancho sob pena de destruir os esquemas lógicos que
nos ,propõe sobre o comunismo., assim como todo o seu sis-
tema dos «homens livres». E ~im acontece em todo o «Li-
vro». Basta uma única conclusão tirada das próprias pre-
missas do nosso santo., um único facto histórico. para deitar
abaixo séries completas de intuições perspicazes e de resul-
tados.
Quarto esquema lógico (pág. 350), onde São Sancho
deduz o comunismo directamente da abolição da escravatura.

I. Maior:
cR.raJirou-se um progresso extraordinário quan-
do se conseguiu ser «coruideradm; (!) «como pro-
prietário. Esse facto significou a abolição da escra-
vatura, e todos aqueles que até então só tinham
sido propriedade transformaram-se em senhores>.

(Este absurdo. no ~u mode simple 2 significa: a escrava-


tura foi abolida quando foi abolida.) Vejamos o significado

1 Em francês no ortgina:l.
1 Em francês no ortgtnaL Modo aimpJea.

286
desta frase absurda no mode composé 1 : São Sancho julga
que alguém se transformou em proprietário graças à sua
contemplação., à «consideração». ao facto «de ser conside•
rado». Na realidade, todo o problema consiste precisam ente
em tomar-se cpossuidoo. O ser considerado como tal é um
aspecto que surge -por si mesmo. Finalmente. vejamos o mode
bicomposé z: depois de a abolição da escravatura, no início
ainda loca1iz.ada. ter começado a manifestar as suas c.onse-
quências e de ~im se ter generalizado, deixou de se poder
cconsiderao que possuir valia a •pena (saiam demasiado caro
ao possuidor. as .pessoas que tinha sob o ~u domínio); logo.
a grande massa dos que «até então tinham sido eles mesmos
objectos de propriedade». ou seja. trabalhadores forçados, não
se transformaram em «senhores» mas sim em trabalhadores
independentes.
II. Menor lústórica que engloba cerca de oito séculos e
de «cujo peso só se pode ter uma ideia aproximada> (cf.
Wigand, pág. 194).

«Daqui em diante. a Tua propriedade e o Teu


bem já não são suficientes e já não são reconhecidos;
pelo contrário, é agora a Tua faculdade de trabalhar
e o Teu trabalho que vêem aumentar o seu valor.
Agora, tal como dantes, apreciamos a Tua faculdade
de dominar as coisas» (?) co Teu poder sobre elas.
O Teu bem é o Teu trabalho. ~ daqui em
diante senhor ou possuidor daquilo que criaste com
o Teu trabalho e não daquilo que recebeste por
herança» (Ibidem).

Eis o conteúdo desta frase: «Daqui em diante> - «já


não» - cpelo contrário» - «agora> - «como dantes> - da-
qui em diante• - cou» - «nãoJ>.
Se bem que «Stirneo tenha cagoru chegado ao ponto
em que Tu (ou seja, Szeliga) és o dono daquilo que criaste

1 Em francês no original. Modo compoato.


z Em trancês no original. Modo bkompoato.

287
com o Teu trabalho e não daquilo que recebeste por heran~
recorda-se subitamente cagoru de que, hoje em dia. é pre-
cisamente o contrário que acontece, e assim faz nascer o
comnoismo. pequeno monstro que não é mais do que um
fruto do acasalamento ~ dois abortos que eram as suas
premissas_

m Conclusão comunista.

cMas como AGORA tudo é obtido por herança


e cada tostão que Tu possuis tem o carimbo da
herança e -não o do trabalho» (cúmulo do absurdo)
c:deve-se ENTÃO refazer tudo».

Com esta frase.Szeliga tanto pode julgar que está em


plena expansão ou declínio das comunas da Idade Média
como perante o comunismo do século XIX. Quanto a São
Max. apesar das expressões caquilo que é criado pelo tra-
balho• e «obtido por herança>. nunca consegue «dominar
essas coisas•. acabando apenas por atingir a «possessão• do
absurdo.
· Os apreciadores de montagens podem consultar a página
421 e observar como São Max. depois de fabricar o comu-
nismo a partir da escravatura. executa sobre isso uma nova
montagem. Trata-se agora da escravatura sob o domínio de
um novo proprietário feudal: a sociedade - procede de arordo
como o mesmo esquema que lhe permitia mais atrás trans-
fórmar em csagrado•. por cuja «graça» reabem.os qualquer
coisa, o meio que nos servia para o adquirir. Para terminar,.
eis aJgumas c:aoátises em profundidade)) do comunismo que
decorrem das premi~ anteriores.
Em primeiro lugar.. «Stimer» fornece-nos uma nova teoria
da exploração. A exploração provém do facto de.

cnuma fábrica de alfinetes. o operário só fazer uma


peça isolada, s6 trabalhar para preparar o trabalho
de um outro que portanto o utiliza, o exploro
(pág. 158).

288
Aqui,. «Stimer> descobre portanto que os operários de
uma fábrica se exploram mutuamente pois cada um «prepara
o trabalho» de um outro, enquanto que o fabricante. que nada
faz com as suas mãos. não explora os operários. cStirnen>
fornece-nos aqui um exemplo nítido da triste situação em que
o comunismo pôs os teóricos alemães. Ei-los obrigados a
ocuparem-se de objectos profanos, tais como fábricas de a]fi ..
netes. etc. ., perante os quais se comportam como verdadeiros
bárbaros, tndios Chippeways ou neo-zelandeses primitivos.
· «Pelo contrário. lê-se agora». no c.omunismo stirneriano
(o. e.):
«Todo o trabalho deve ter por fim a satisfação
do «Homem>. É .por isso que lhe» (ao «homem»)
cé necessário transformar-se em senhor no seu pró-
prio trabalho, isto é., PODER realizá-lo enquanto
totalidade•.

«O Homem• deve transformar-se em senhor! - «O Ho-


mem• continua fabricante de cabeças de allinetes, mas tem
consciência, sentimento reconfortante, de saber que as cabeças
faz.em parte dos alfinetes e de que pode fabricar o alfinete
inteiro. A fábrica e o desagrado provocado pelo fabrico de
cabeças de alfinetes transmutam-se. graças a esta consciênci~
em «satisfação do homem». [Oh! P]roudhon!
Nova visão em profuodidade:

cOs comunistas declaram que a essência> (ite-


rum Crispinw 1) cdo homem é constituída apenas
pela actividade livre; logo. como toda a doutrina
baseada nos dias úteis, têm necessid.ade de um do-
mingo, de uma exaltação e edificação moral ao lado
do seu trahal.ho desprovido de espiritualidade>.

Punhamos de lado esta «essência do homem» aqui inter..


caJada. O nosso desgraçado Sancho é obrigado a transformar

1 <.Alnda a Dtesma canção>.

289
a actividade livre», aquilo a que os comunistas chamam
existência criadora. tal como nasce do livre desenvolvimento
de todas as capacidades do «indivíduo total>. (falamos assim
para que «Stimer> nos compreenda), em «trabalho desprovido
de espiritualidada. O nosso Berlinense age deste modo por-
que notou que ninguém trata aqui «do penoso trabalho do
pensamento». Graças a esta simples metamorfose é agora
possfvel transformar os comunistas em «doutrina baseada nos
dias úteis». E porque aí se encontram_os dias úteis, é natural
que também lá se encontrem os domingos.

Pág. 161. cO factor domingo do comunismo deriva


de o comunista ver em Ti o homem, o innão».

O comunista aparece-nos agora sob o duplo aspecto de


chomem» e de «trabalhador». É o que Sancho chama (o. e.)
uma dupla função atribuída ao homem pelo comunista, sendo
uma a do proveito material e a outra a do proveito moral».
Ei-lo a introduzir no próprio comunismo o «proveito»
e a burocracia; é certo que este «atinge• assim «os seus
objectivos últimos», deixando de ser comunismo. Stirner é
aliás obrigado a proceder deste modo porque ulteriormente.
na sua «Associação•. cada indivíduo receberá também «uma
dupla função• enquanto homem e «único». Por agora. justi-
fica este dualismo atribuindo-o ao comunismo. método que
reencontraremos a propósito dos seus feudos e da sua atri-
buição de valores.
Na página 344. «Stirnen> julga que os ccomunistas»
d~jam «resolver amigavelmente a questão da propriedade»;
e na ,página 413 afirma até que apelam à dedicação dos
homens e aos sentimentos de abnegação dos capitalistas! Os
raros bourgeois 1 comunistas que surgiram depois de Babeuf 2

1 Em francês no original.
2 Françol&-Noel Babeut (1760--1797): revolucioná.rio fran-
c& precursor da& teorias comunistas e organJzador da Conspi-
ração dos Iguais, 6ltlma tentatlva na época da Revolução Fran-
cesa tendente a retirar o poder à burguesia e a p~lo nas mãos
do povo.

290
e que não eram revolucionários, contam-se com os dedos de
uma mão; em todos os países. a grande massa dos comunistas
é revolucionária. O ponto de vista dos com unis tas acerca dos
«sentimentos de abnegação dos ricos» e da «dedicação dos
homens» poderá ser descoberta por São Max em duas ou
três .passagens de Cabet 1 , o comunista que talvez possa dar
uma maior ilusão de apelar para o dévoament, die A ufop-
ferung 2 • As passagens citadas são dirigidas contra os republi-
canos e. em particular, contra Buchez 1 , que ain<ia ilude em
Paris um pequeno número de operários, e contra o ataque
que aquele faz ao com unismo:
«O mesmo acontece com o dévoúment; é esta
a doutrina do Sr. Buchez. que só não apresenta a
sua forma católica porque teme certamente que o
seu catolicismo seja inaceitável pelos operários. «Para
cumprir dignamente o seu devoir' (diz Buchez) é
necessário dévoúmenn - Compreenda quem puder!
Distinga quem .p uder o devoir do dévoument -
- Exigimos a todos dedicação, tanto para a grande
unidade nacional como para a associação operária ...
·~ necessário que todos estejamos unidos e sejamos
dévoués " uns aos outros» - ~ necessário, é necessá-
rio! ~ muito difícil dizê.lo e já há muito tempo
que se diz! E talvez ainda se continue a dizer
durante muito tempo sem sucesso algum, a menos
que se descubra um outro remédio. Buchez queixa-se
do egoismo dos ricos; mas para que servem as suas
queixas? Buchez considera inimigos todos aqueles
que se não querem dedicar».

1 ~tlenne Cabet: jornallsta e soclalhrt.a. utópico francês.


s Dedicação. Marx emprega a tradução francesa e alem!.
desta palavra. Quanto à francesa, em-p rega naturalmente a orto-
grafia da. sua época., um pouco diferente da actual: devouement.
• Phlllppe-J09eph-Benjamtn Buchez (1796-1865): hlstorla-
dor e homem politico francêa, adepto de Salnt-Slmoo. Foi pre-
sidente do governo provis6rto em 1848.
• Em frances no orlgiDal. DtNer.
' Em francês no ortgtnal. Devotados.

291
cSe•. afirma. «levado pelo egoísmo. um homem
recusa dedicar-se aos outros [ ... ] que se deverá
fazer? Não hesitaremos em responder: A sociedade
tem sempre o direito de nos exigir aquilo a que nos
obriga o nosso dever . . . A dedicação é o único meio
de cumprir o dever. Todos se devem dedicar, em
todo o lado e sempre. Aque1e que. por egoísmo. se
recusa a cumprir o seu dever dedicando-se. deve
ser constrangido». Como vemos. Buchez grita a
todos os homens: «Dediquem-se. dediquem-se. sacri-
fiquem-se! Pensem apenas em sacrificar-se! «Mas
isto não equivalerá a desconhecer e a pisar a natu-
re7.a humana? [ ... ] Não será isto uma ideia falsa,
uma infantilidade, uma parvoíce? (Ré/utaJion des
doctrines de l' Atelier, por Cabet, págs. 19-20)-
Cabet demonstra portanto, na página 22, que o
republicano Buchez se dirige necessariamente para
uma «aristocracia da dedicação>, perguntando em
seguida ironicamente: «Mas em que se transforma
depois o dévoament 1 ? Será que este dévoament •
citado por Buchez lhe serve para chegar aos mais
altos postos da hierarquia? ... Um tal sistema seria
apenas concebível pela cabeça de alguém que pre-
tendesse ser papa ou cardeal; mas nunca pela cabeça
de operários!!!»- «O Sr. Buchez não deseja que o
trabalho se possa transformar numa distracção agra-
dável ou que o homem possa trabalhar para a sua
felicidade e criar prazeres novos. Parece-lhe que
o homem ... só apareceu à face da terra para cum-
prir uma fonction 2 , um devoir ª. «Não»~ grita aos
comunistas, «o homem, com todo o seu poder, npa
poinJ été fait pour lui-même 4 ••• este pensamento é

1 • Em francês no original.
2 Em francês no original. Função.
a Em francês no original Dever.
4 Em francês no original. Não /01 feito para ai mesmo.

292
gros~iro. O homem é um ouvrier 1 no mundo. é
necessário que realize a oeuvre 2 que a moral pres-
creve à sua actividade; é este o seu dever ... Nunca
esqueçamos que temos une haute fonction • a cum-
prir., função que surgiu com o primeiro homem e
que só terminará quando desaparecer a humanidade
[ ... ] M ai.s qui a révélé toutes ces belles choses à
M. Buchez lui-même? 4 (o que Stimer traduziria
por. Onde terá Buchez descoberto tudo o que o
homem deverá fazer?) [ ... ] «Du reste, comprenne
qui pourra 1 ••• Buchez prossegue 8 : «Será que o
homem esperou milhares de séculos para que afinal
os comunistas lhes ensinassem que só existiam para
si mesmos e que o único objectivo da sua vida
consistia em aproveitarem todos os prazeres possí-
veis? ... Mas [ ... ] não se deve [ ... ] esquecer que
somos faits pour travailler 1 • para trabalhar sem..pre
e que só nos resta exigir wna vie suffisante 8 , isto
é. um bem-estar suficiente para podermos efectuar
convenientemente a nossa função. Para além disto,
tudo é absurdo e perigoso». - E se em vez de se
dar ares de profeta, Buchez apresentasse argu-
mentos? [ ... ] Em primeiro lugar, onde se terão ido
buscar tantos milhares de séculos? Por outro lado,
ninguém esteve à nossa espera; mas talvez alguém
tenha esperado por Buchez e pelas suas teorias de
dévoúment. devoir. nationalité /rançase, associatz"on

1 Em francês no original. (),perário, trabalhador.


2 Em francês no original Obra.
a Em francês no original. Uma alta fu~.
, Em francês no original Mas quem terá revelado ao
Br. Buch.ez esta.s belaa coisaa 1
s Em francês no original. Compreenda quem pwdBr. Eate1
~essão encmdTtJ.-.ae naa páginas !,i-B5 de Cabet.
e Estas duas palavras são de Marx. O texto· que se segue
encontra-se na pãgiDa 31 do original.
1 Em francês no orlgtnaL Feito11 para trabalhar.
• Em francês no original. Vida 1111,/iciente..

293
ouvriere 1 [ ••• ] «Para terminar», afirma Buchez.
<ipedimo-vos que não fiquem feridos com o que
acabamos de dizer» [ ... ] - Nós também! E dese-
jaríamos nunca ferir ninguém! {pág. 31). «Acredi-
tem-me:., diz Buch~ «existe uma communauté 2
instituída há já muito tempo e à qual vocês per-
tecem» [-.. ] - «Acredite-nos, Buchez», conclui Ca-
bet. «tome-se comunista!ª>.

cDedicação», «dever», «dever social», «direito da socie-


dade», «função, ~tino do homem», «trabalhar, função do
homem», «obra moral», «associação operária.>>., «criação do
que é indispensável à vida». Não serão estas coisas que São
Sancho atira à cara dos comunistas, exactamente as mesmas
que levam Buchez a criticá-los por ignorarem? Não teremos
já aqui a própria «hierarquia» de Stirner? E vemos que
Cabet recusa a validade de tais críticas.
Para terminar, São Sancho, na página 160, dá ao comu-
nismo o golpe de misericórdia proferindo a seguinte frase:

«Quando suprimem» (!) «a propriedade, os


socialistas esquecem-se de que esta sobrevive na
próp(ia individualidade. De facto. não são apenas
o dinheiro e os bens que constituem a propriedade;
desta também faz parte a minha opinião, a qual é
necessariamente algo que me pertenre. Seria por-
tanto necessário abolir toda a opinião ou torná-la
impessoal>.

Será que a opinião de São Sancho, se não for também


a opinião de qualquer outra pesso~ tem algum poder sobre

1 Em francês no origina.!. Dedk~ão, dever, nacioflOlldade


francesa, a&90C~ operária. Esta frase ê de Marx.
2 Em francês no ortglnal. Ccnnumdade.
• Esta citação é traduzida ,por Marx de uma forma bas-
tante livre. Sendo uma citação de uma citação, Marx julgou
mesmo conveniente introduzir algumas expressões facilitando
a compreensão do texto, tais como <diz Buchet.>, cconclul Ca-
bet>, etc.

294
alguma cois~ inclusivamente sobre a opinião dos outros? São
Max opõe ao comunismo. movimento prático, o capital da
sua opinião; e ao fazê-lo limita-se uma vez mais a retomar
as mais ultrapassadas e banais objecções bourgeoises 1 • J u]ga
porém ter dito algo de original; para ele.. Berlinense culto,
estes lugares comuns são uma novidade. Entre outros, e já
há 30 anos, Destutt de Tracy disse a mesma coisa, e bem
melhor.. no livro que vamos citar:

«Instruiu-se solenemente o proces.so da proprie-


dade e consideraram-se razões a favor e contra ela,
como se se tratasse de decidir se deve ou não haver
propriedade neste mundo; e verificou-se que isto
equivale a desconhecer totalmente a nossa natureza
(Traité de la vol<f1t!é, Paris, -1826, pág. 18 2).

Depois disto, o Sr. Destutt de Tracy• tenta 4.emonstrar


que proprieté, individualité e personnalité' são a mesma coisa,
que no moi II também existe o mien ª, diegando a ver um
fundamento natural da propriedade privada no seguinte
facto:

ca natureza dotou-0 [ ao homem] de uma proprie-


dade inevitável e inalienável, a do seu indivíduo»
(pág. 17) - O indivíduo cvê claramente que este
Eu é proprietário exclusivo do corpo a que dá vida.
dos órgãos que move. de todas as suas faculdad~.
de todas as suas forças. de todos os feitos que pro-
duzem. de todas as suas paixões e acções; pois tudo

1 Em francês Do original.
2 Titudo exacto da obra citada: 1Hements d'wléologie, IV•
et V• Parttea. TTaitt! de la voion.té et de aea e/teta, ,pelo Sr. Des-
tutt, conde de Tracy.
• Destutt de Tracy: economista e tll6aoto francês ,partl•
dArto da monarquia constltuclonal.
• Em francês Do original. Propriedade, lfldividualídade e
peraonalidade.
• Em francês no original. Eu..
• Em francês no original. Meu.

295
isso acaba e começa com esse Eu. só existe através
dele. só é movido pelos seus actos; e nenhuma outra
pessoa moral pode empregar esses mesmos instru-
mentos nem ser _igualmente afectada pelos seus efei-
tos» (pág. 16) - «Se não existe propriedade sempre
que há um indivíduo sentindo. existe pelo menos
sempre que haja um indivíduo querendo» (pág. 19).

Depois de ter assim identificado .p ropriedade e perso-


nalidade. Destutt de Tracy tira a seguinte conclusão. jogando
com as palavras proprieté e propre 1. tal como «Stirner» fazia
há pouco com Mein e Meinung. EigenJum e Eigenheit:

«Também é portanto inútil discuter s'il ne vau-


ut
drait pas mieux que rien ne f propre à chacun
de nous 2 ••• Em todos estes casos, equivale a per-
guntar se não seria desejãvel que fossemos diferentes
daquilo que somos; ou mesmo se seria melhor que
nada fossemos» (pág. 22).

cTrata-se» de objecções contra o comunismo «extrema--


mente correntes». que já se tornaram tradicionais e que, por-
tanto. cnão nos devemos admirar» de encontrar em cStirner».
Quando o bowgeois 3 limitado diz aos comunistas: ao
suprimir a propriedade, isto é, a minha existência enquanto
capitalista, proprietário de terras, industrial, e a vossa exis-
tência como operários, suprimem a minha individualidade e
a vossa; impedindo-me de vos explorar, e de guardar os
meus lucros, os meus interesses ou as minhas rendas, impe--
dem-me de existir enquanto indivíduo. - Logo, quando o
bowgeois • declara aos comunistas: ao suprimirem a minha
existência enquanto bwgués, suprimem a minha existência

1.Em franc~ no orlgtnR.1. Propriedade e próprio.


2 Em francês no original. Discutir se não aeria melhor
que nada fosse J)TÕprio de cada um ds nós.
• • !Em francês no original

296
n
enquanto individuo; quando reduz o indivíduo ao bourgeois 1 •
devemos reconhecer -pelo menos a franqueza e a imprudência
destas declarações. De facto. só julga ser um indivíduo na
medida em que é um bourgeois •.
· Mas quando os teóricos da bourgeoisie • tentam dar a
esta afirmação uma expressão geral. querendo assimilar no
plano teórico a propriedade dos bourgeois • à individualidade
e justificar logicamente esta assimilação, começa o absurdo a
transformar-se em algo de solene e sagrado.
Como vimos, cStirner» recusou a abolição da proprie-
dade privada transformando-a em «o ter» e proclamando que
o verbo «ter» é uma .palavra indispensável, uma verdade
etern~ -pois mesmo na sociedade comunista é sempre possível
«ter> uma dor de barriga. ~ ainda desse modo que funda-
menta a perenidade da propriedade privada: transforma-a
em conceito da propriedade. explora o parentesco etimológico
existente entre «propriedade» e «próprio» e proclama_ que
este último termo constitui uma verdade eterna pôis, na
sociedade comunist~ as dores de barriga continuam a ser-lhe
c:próprias». Todo este absurdo teórico. que procura um refú-
gio na etimologia, seria impo~ível se a propriedade privada
real que os comunistas pretendem abolir não tivesse sido
transformada no conceito abstracto «a propriedade». Ao
fazê-lo. deixa de ser necessário diz.er ou conhecer seja o que
for da propriedade privada real e é sempre possível chegar
facilmente à descoberta de contradições no comunismo na
medida em que. mesmo depois da supressão da propriedade
(re.al). continuam a existir muitos tipos de coisas catalogáveis
sob a rubrica «a propriedade». Na realidade. tudo se passa
de forma bem diferente; a minha propriedade privada é cons-■
tituída por tudo aquilo que posso usar como objecto de
comércio. ao passo que a minha individualidade pode não
ser artigo de comércio. Só detenho a propriedade privada do
meu vestuário na medida em que o posso negociar. pô-lo
no prego ou vendê-lo, ou seja, enquanto for vendável. Se ele
perder essa qualidade, se ficar em farrapos, poderá continuar

1. • Em lrancês no original.

297
a ter .para mim todos oo tipos de qualidades e a ser-me pre-
cioso; pode mesmo adquirir uma nova qualidade fazendo de
mim um indivíduo esfarrapado. Mas nenhum economista se
lembrará de o classificar como minha propriedade privada
pois não me dá nenhum poder sobre qualquer quantidade de
trabalho de outr~ por muito pequena que seja. Pode acon-
tecer que o jurista. ideólogo da propriedade -privada, pro-
ponha ainda elucubrações deste género. A propriedade privada
não aliena apenas a individualidade das pessoas mas também
a das coisas; o solo não tem nada a ver com a renda de uma
propriedade fundiária, a máquina nada em comum com o
lucro. Para o proprietário de terras, o seu terreno só tem
um significado: a renda que lhe .p roporciona. Aluga as suas
propriedade e recebe uma renda; essa renda é uma quali-
dade que o solo pode perder 5em que perca qualquer das
suas qualidades inerentes como, por exemplo, a sua fertili-
dade. A grandeza e até a existência dessa qualidade dependem
rie condições económicas que nascem e desaparecem sem a
participação activa do proprietário fundiário .tomado indivi-
dualmente. O mesmo acontece com a máquina. Já Shakes-
peare sabia melhor que os nossos pequeno-burgueses entupidos
de teoria, que o dinheiro., a mais genérica forma de proprie-
dade, pouco tem a ver com as particularidades da pessoa e
que lhe é. de facto. oposto:

Um pouco dele tornará


Branco o negro. belo o feio, verdadeiro o falso,
Nobre o vil, jovem o velho, valente o cobarde...
Este escravo amarelo._
Santificará a lepra branca. ..

Casará a viúva carregada de anos e encurvada;


E ela que só faria levantar a cabeça
A um leproso do hospital
~ perfwnada e temperada
Por um novo Abril... 1

1 cTlmAo de Atenas>, Acto IV, Cena. m.


298
... Tu, Deus visível,
Que unes estreitamenJe os incompatíveis
E as forças ao beijo 1 •

Numa palavra, a renda fundiária, o lucro, etc., modos


de existência reais da propriedade privada, são relações so-
ciais correspondentes a uma determinada fase de produção
e só constituem relações «individuais» enquanto não se tor-
narem um entrave às forças produtivas existentes.
Se aceitarmos o que nos diz Destutt de Tracy, a maioria
dos homens, os proletários. já há muito perderam necessaria-
mente a sua individualidade; no entanto, hoje_ tem-se a
impressão de ser ainda neles que esta' mais se desenvolve.
É tanto mais fácil ao bourgeois 2 demonstrar, utilizando a
língua que lhe é própria, a identidade das relações mercantis
e das individuais ou mesmo das relações humanas em geral
quanto mais esta língua for um produto da bourgeoisie • e,
portanto, na linguagem e na realidade, se tenha feito das
relações do comerciante a base de todas as outras relações
humanas. Por exemplo, proprieté ª significa simultaneamente
EigenJum e Eigenschaft •; property 5 , Eigentuni e Eigentüm-
lichkeit ª• «próprio• no sentido comercial e no sentido indi-
vidual; valeur, value 1 , Wert - commerce 8 - . Verkehr, échan-
ge, exchange 9 - Awtausch, etc... termos que tanto são utili-
zados para traduzir relações comerciais como para exprimir
as qualidades e as relações dos indivíduos enquanto tais.
Nas outras línguas modernas acontece o mesmo. Se São Max
pretende seriamente explorar essa ambiguidade, poderá con-
seguir finalmente fazer toda uma série de descobertas bri-

1 «Tlmlo de Atenas>, p. 4-87, v. 379-381.


2 • Em francês no ortgtnaJ.
a Em francês no ortgtnal. Proprledad6.
• Propriedade materlal e Propriedade more.1.
s Em inglês no original Propri&Jade.
• Propriedade material e Particularidade lndlvklual.
7 Em francês e em inglês no original. Valor.
• Em francês no original. Oomm-cio.
• Marx uttHza esta palavra nwn sentido multo geral:
Comércio, Relações entre oa homens.

299
lhantes em matéria de economia sem saber uma única palavra
de economia política; veremos aliás que os seus novos factos
económicos. a que mais tarde nos referirem05, se situam
todos no ãmbito da &inonímia.
O nosso bravo e crédulo Jacques 1 toma de tal modo
à letra o jogo de .palavras bourgeois • de Eigentum e
Eigenschaft 1 • toma-o de tal forma a sério, que se preocupa
até em com.portar-se como proprietário privado relativamente
às suas próprias características morais. Deter-nos•emos sobre
este ponto um pouco mais tarde.
Finalmente, na página 421, «Stirner> explica ao comu-
nismo que não csc• (ou seja, o comunismo)
cataca verdadeiramente a propriedade mas sim a
alienação da propriedade».

Nesta nova revelação, São Max apenas retoma uma


velha astúcia que já os saint-simonistas, por exemplo, utiliza-
ram de várias formas; consultar, por exemplo, Leçons sur
l'industrie et les finances, Paris, 1832, onde se pode ler:
cNão se trata de abolir a propriedade mas sim
de modificar a sua forma ... só então ela é verdadei-
ramenJe personificada... só então adquire o seu ver-
dadeiro carácter individual.» (págs. 42, 43).

Esta fórmula.. inventada pelos Franceses e levada ao


absurdo .principalmente por Pierre Leroux 3 , foi adoptada
com grande prazer pelos socialistas alemães doentes de espe-
culação, que dela tiraram novos desenvolvimentos até que
acabou por dar aso a manobras reaccionárias e. na prática,
a sórdidas operações financeiras; como neste contexto essa
fórmula nada nos diz, só a discutiremos a propósito do socia-
lismo verdadeiro.
São Sancho compraz-se, inspirando-se num Wõniger
explorado por Reichardt, em transformar os proletários e

1. • Em francês no original.
1 Em alemão no original.
• Pierre Leroux (1797...187.1): Saint-slmonlsta francês.

300
portanto os comunistas em «indigenJen. Na pág. 32. dá a
seguinte definição do seu «indigente»: «um ser humano cuja
riquei.a é puramento ideal>. Se os «indigentes» de Stimer
fundaram alguma vez um reino dos indigentes, como o fize-
ram no século XV os mendigos de Paris, São Sancho tornar-
-se-á rei ·dos indigentes; pois não é ele o «perfeito» indigente,
um ser cuja riqueza nem sequer é ideal, que vive dos inte-
ress~ do capital da sua opinião?

C) O LIBERALISMO HUMANITÁRIO

Depois de arrancar à sua maneira o liberalismo e o


comunismo que considerou como meios imperfeitos de exis-
tência cdo homem> filosófico e portanto da moderna filosofia
alemã em geral (e tinha um certo direito a fazê-lo: na Ale-
manha, o liberalismo e o próprio comunismo toll!aram uma
forma pequeno-burguesa e místico-ideológica simultanea-
mente), São Max pode agora, sem dificuldades de maior.
apresentar as mais recentes formas da filosofia alemã, que
baptiza de clibera1ismo humanitário». como realização e crí-
tica do liberalismo e do comunismo.
Esta montagem sagrada permite as três seguintes muta-
~ bastante divertidas (cf. igualmente a e.Economia do
Antigo Testamento»):

1. O individuo não é o homem, e portanto não conta


como coisa ccujo nome possa ser nomeado» - não tem
vontade pessoal nem poder de coroando: «Sem. donos» -
liberalismo político, de que já falámos.

2. O indivíduo não tem nada de humano: logo. deixa


de interessar o Meu. o Teu ou qualquer propriedade: mada
possui» - é o comunismo, de que também já falároQS.

3. O indivíduo deve ceder lugar, na crlti~ ao Homem,


que acaba de ser descoberto: csem deus- = Identidade de
csem donos» e cnada possui» - é o liberalismo humanitário
(págs. 180-181). Na formulação dessa unidade negativa. a

301
imensa credulidade de Jacques 1 cristaHz.a-se e culmina nos
seguintes termos (pág. 189):

cO egoísmo da propriedade -perdeu o que ainda


lhe restav~ perdendo o «Meu Deus» todo o sentido,
pois (sublime ·pois!) «Deus só existe quando lhe
importa a salvação do indivíduo, assim como este
procura em Deus a sua salvação».

De acordo com isto. o bourgeois I francês «teria perdido


o seu último bem> a partir do momento em que a .palavra
adieu I fosse banida da língua. Proclama-se aqui, perfeita-
mente de harmonia com as precedentes montagens. que o
facto de possuir Deus, a propriedade sagrada no céu, a pro-
priedade imaginária e o imaginário da propriedade. constitui
a propriedade suprema e a última bóia de salvação da pro-
priedade.
A partir destas três concepções enganosas do liberalismo.
do comunismo e da filosofia alemã, é fabricada a sua nova
- e desta vez. tianto», obrigado - última transição para
o «Eu». Antes de avançarmos por este novo caminho, dei-
temos um último olhar ao seu derradeiro e «penoso combate
decisivo> contra o cliberalismo humanitário».
Que deverá sentir o nosso bravo Sancho quando. tendo
percorrido toda a história na sua nova condição de cahallero
andante• e mais precisamente de cabal/ero de la tristisima
figura 11• sempre defronta.ndo espiritos e fantasmas, «dragões
e monstros. demónios e duendes. martas e abutres. alcaravões
e ouriços» (consultar Isaías. 34. 11-14) e «derrotando-os com
um sopro». chega finalmente_ depois de percorrer ~as terras
tão diferentes. à sua querida ilha de Barataria ª• à «terra>
em si. onde «o Homem> vagueia in puris naiuralibus 1 t Recor-

1 Em francês no original.
2 Em fra.ncêa Do origin&l.
a Em francê.s no original. Adeus.
• Em eçanhol DO original. Cavaleiro andante.
" , Em espanhol no original. Cavaleiro da triste figura.
a Ilha 1.maginAr1a cujo governo é entregue a Sancho
Pança no Don Quúotte, de Cervantes.
1 Em estado natural.

302
demos uma ve:z. mais a sua grande frase. o dogma que lhe
foi imposto e no qual repousa todo o seu arrazoado histórico:

«as verdades que decorrem do conceito do Homem


sã.o adoradas como revelações... sagra.das desse
. conceito>; e «não se retira o carácter sagrado às
revelações desse conceito sagrado> mesmo quando
cse suprimem muitas verdades que esse conceito
manifesta» (pág. 51 ).

Quase não vale a pena repetir aquilo que já dissémos


ao no~ santo escritor ao analisarmos todos os seus exemplos;
constrói-se. expõe-se. representa-se, reforça-se e justifica.se
como revelação do conceito «homem» tudo aquilo que cons-
titui apenas relação empirica, criada pelos homens reais nas
suas relações reais e não pelo conceito sagrado do homem.
Recordemos ainda a hierarquia de São Max... Voltemos
agora ao liberalismo humanitário.
Na página 44, onde São Max «confronta» «o ponto de
vista teórico de Feuerbach com o nosso>, opõe--se inicialmente
a Feuerbach uma mera forma de falar. Já no fabrico de
fantasmas tinham.os observado que «Stimeo situa o seu estô-
mago no mundo das estrelas (terceiro Dióscuro 1 que pode-
remos invocar contra o enjoo) porque ele e o seu estômago
constituem denominações diferentes de coisas bastante dife-
rentes> (pág. 42); aqui. a essência também surge como algo
de existente e cdiz-se agoru (pág. 44):

«O ser supremo é, de facto, a essência do


homem mas. precisamente por ser a sua essência
e não ele mesmo, / exactamente a mesma coisa,
quer a vejamos de fora. como «Deus», quer a
encontremos nele e denominemos «essência do
homem» ou até co homem>. Eu não sou nem Deus,

1 Os outros dois são Castor e Pollux, personagens da


mitologia grega cujo nome foi atrlbuido às estrelas da. conste-
lação Gémeos tida como -p atrona dos martnhe.iros.

303
nem o homem, nem o ser supremo, nem a Minha
essência; e é por esta razão que se torna indiferente
que Eu pense esta essência em Mim ou fora de
Mim>.
Como vemos. considera-se inicialmente a «essência do
homem> como objecto existente- é «o ser supremo», não é
«Eu.> - e, em vez de nos ser dito algo sobre «a essência».
vemos São Max limitar-se a declarar ser indiferente que «Eu
a pense em Mim ou fora de Mim». que a localize aqui ou
ali. Esta indiferença relativamente à essência não constitui
uma simp1es negligência de estilo: já é uma consequência do
facto de distinguir entre o essencial e o que não o. é, de se
poder mesmo encontrar nele {pág. 71) «a n.ohre essência do
egofsmo:&. Veja-se aliás que tudo aquilo que os teóricos ale-
mães têm dito sobre a essência e a não-essência pode ser
encontrado muito melhor dito em Hegel. na sua Lógfca.
a:Stimen> partilha.. com um sentido ilimitado da orto-
doxia. as ilusões da filosofia alemã: a quintessência dessa
ilusão traduz-se perfeitamente na sua substituição da história
pelo «homem». Julga que este é o único personagem activo
e pensa ter sido «o Homem» a fazer a história. Reencontra-
remos esta concepção em Feuerbacb. cujas ilusões São Max
aceita de olhos fechados quando pretende elaborar os seus
racioclnios.
Pág. 77. «Tudo o que faz Feuerbach constitui
uma inversão do sujeito e do predicado, privile-
giando este último. Mas, como ele mesmo afirma:
cO amor não é sagrado (e nunca foi considerado
como tal pelos homens) porque é um atributo de
Deus; e é um atributo de Deus porque é divino por
si e para si»; ao diz.ê-Io, viu a necessidade de lutar
contra os predicados, contra o amor e tudo o que
tem um carácter sagrado. Como pensa d~viar os
homens de Deus se lhes deixa o divino? E se para
eles, como afirma Feuerbach, o essencial nunca foi
o próprio Deus mas os seus atributos, poderia dei-
xar-lhes esse adorno pois as.5im manteria o verda-
deiro núc1eo:t.

304
Portanto, se o «próprio» Feuerbach o diz, tanto basta
a Jacques [e bonhomme para acreditar 9~e o hom_em deu
muita importância ao amor «porque é d1vmo por s1 e para
si». Ora, se se produziu exactamente o inverso daquilo que
diz Feuerbach-e «temos a audácia de o afirman> (Wigand,
pág. 157); se, para os homens. o essencial nunca foi nem
Deus nem os seus atributos; se isto nunca paswu da ilusão
religiosa da filosofia alemã, então volta a acontecer ao nosso
Sancho o que já lhe acontecera em Cervantes. no dia em
que lhe colocaram quatro estacas sob a sela e lhe levaram
o -s eu cavaJo ruço enquanto donnia.
Apoiando-se nestas declarações de Feuerbach, Sancho
empreende a luta, já de.5erita de antemão no capitulo XIX
do livro de Cervantes, em que o ingenioso hidalgo trava com-
bate contra os predicados, esses entes mascarados que levam
a ent~rrar o cadáver do mundo e que, não se podendo mexer
dentro das suas sotainas e dos seus sudários, facilitam gran-
demente a tarefa do nosso hidalgo que os derruba com ·••úm
golpe de lança e lhes aplica wna considerável bordoada.
A última tentativa para continuar a explorar esta crítica da
religião como uma esfera própria, já maltratada até ao esgo-
tamento, para -se manter dentro das premissas da filosofia
alemã mas aparentando sair dela, a última tentativa para
extrair deste osw, rofdo até à medula, um abundante caldo
rumfordiano 1 destinado aq «Livro». consistiu no seguinte:·
combater as condições materiais não na sua forma real ou
-mesmo através da ilusão profana dos que YiRm pratica-
mente prisioneiros do mundo_actuaJ. mas no extracto celeste
da sua forma profana, enquanto atributos, emanações de
Deus. enquanto anjos. Voltava assim a povoar-se o reino
dos céus e fornecia-se grande quantidade de material ao
antigo modo de exploração deste reino celeste. A luta real
via-se novamente substitufda pela luta contra a ilusão reli-
giosa, contra Deus. São Bruno, cujo ganha-pão é a teologia_
entrega-se ao mCS1110 esforço «nas suas penosas lut:ast c.ontra

1 Referência às refeições 41ara pobres pr.econlzadas pelo


conde de Rt.TMFORD (17õ3-1814), que será citado maJs ruHa,nte.

305
a 5ubstânci~ in arü et focis, para sair teologicamente da
teologia. A sua csubstãncia> ·não é mais do que os atributos
de Deus por ele condensados numa única denominação;
excluindo a personalidade, que põe de lado, ~ atributos
de Deus não são, por sua vez, mais do que os nomes deifi-
cados das representações que os homens têm das suas con...
dições de vida empíricas, representações às quais se agarram
em seguida hipocritamente, por razões práticas. e claro que
nem sequer é possível compreender o comportamento empí-
rico, material dos homens, com a ajuda do aparelho teórico
herdado de Hegel. Quando Feuerbach mostrou que o mundo
religioso era apenas o reflexo ilusório do mundo terrestre
que. nele próprio, só aparece como simples fórmula ahstracta,
espontaneamente, punha-se, mesmo à teoria alemã, um pro-
blema a que ele não dava solução, a saber: como se explica
que os homens tenham «metido na cabeça» estas ilusões?
Foi esta questão que, mesmo para os teóricos alemães. abriu
o caminho a uma nova concepção materialista do mundo,
que não é desprovida de pressupostos mas que observa empi-
ricamente as condições .prévias materiais da realidade en-
quanto tais e que, por esse motivo, é a primeira a ser
realmente uma concepção crítica. Esta evolução era já indi..
cada nos Anais franco-alemães, na Introdução à Critica da
Filosofia do direito de Hegel e na Questão Judaica. Mas
estava ainda na dependência do' vocabulário filosófico tradi-
cionaL e os termos filosóficos tradicionais contidos nessas
obras, tais como «essência humanu, «género», et~.• deram
aos teóricos alemães a desejada oportunidade para desprcz.ar
o verdadeiro sentido da evolução e para crer que se tratava
de uma nova transformação das suas usadas vestes teóricas.
tal como o Dottore Graziano da filosofia alemã, o Dr. Arnold
Ruge, que julgava poder continuar a esbracejar desajeitada-
mente e a ostentar a sua máscara pedante e burlesca. ~
necessário «pôr de lado a filosofia> (Wig[and]. pág. 187,
d. Hess: Os últimos filósofos, pág. 8). é necessário abando-
ná-la e en<Xtar o estudo da realidade como homem ordinário,
estudo para o qual existe, mesmo no plano literário, um
material abundante que os filósofos, naturalmente. ignoram;

306
e então. ao depararmo-nos com homens como Krummadzer 1
ou cStimer». descobre-se que desde há muito ficaram «atrás»
e por baixo. A filosofia está para o estudo do mundo real
como o onanismo para o amor sexual. São Sancho que,
apesar da ausência de ideias que registámos (nós, com
paciência.. ele. com ênfase). imobiliza-se no interior do mundo
das ideias. s6 podendo naturalmente sair dele através de um
postulado moral. o postulado da «aUSência de ideias» (pág.
196 do .«Uvro»). ~ o bur,zuês que escapa aos problemas do
seu comércio por uma banqueroute cochonne. o que não
faz dele evidentemente um proletário. mas um burguês falido
e sem tostão. Não se converte em homem deste mundo, mas
num filósofo sem idei~ um filósofo que fa1iu.
O bastardo cuja existência é descoberta por «Stirnen>
e que é substituído ao mundo empírico é o conjunto dos atri•
butos de Deus citados por Feuerbach. que os considera como
poderes reais dominando os homens. hierarcas. De facto,
toda a sua «individualidade própria» se baseia unicamente
naquilo «que absorveu». «Stimeo (cf. igualmente a pág. 63)
critica Feuerbach por não conseguir chegar a lado algum pois,
segundo Stirner, faz do atributo o sujeito e vice-versa. Mas
então Stimer também não consegue, pois aceita de olhos
fechados e considera como condições reais essas fórmulas
feuerbachianas sobre tais condições. aceitando como perso-
nalidades reais que dominam o mundo os atributos que Feuer..
bach considerou como sujeitos. Aplica-lhes o predicado
«sagrado>. transforma este predica.do em sujeito. «o sagrado».
fazendo portanto exactamente aquilo que critica em Feuer-
bach, e, depois de se desembaraçar com esta operação do
conteúdo real. aquele que precisamente interessava, trocan-
do-o por esse «sagrado> que naturalmente se mantém eterno
e imutável. efectua a sua Juta, isto é, manifesta a sua «repug-
nância>. Feuerbach ainda tem consciência «de que nele só
existe• «o aniquilamento de uma ilusão», coisa que lhe vale
uma crítica de São Max (pág. 77 «do Livro>) - apesar de

1 F. W. KRUMMACHE8 (1798-1868): putor calvinista,


chete de fila. dos pietistas de Wupperta.L

6307
Feuerbach atribuir ainda uma maior importância à luta contra
essa ilusão. Em cStimen> essa consciência foge, acreditando
ele verdadeiramente num reino, em pleno mundo actual, dos
pensamentos abstractos da ideologia; na sua luta contra os
cpreclicados», os conceitos, julga de facto atacar não uma
ilusão mas sim as potências que são realmente mestras do
mundo. Daí a sua mania de pôr tudo ao contrário; daí a
enorme credulidade que o faz tomar como dinheiro contado
todas as ilusões hipócritas, todas as tartufices da bourgeoisie 1 •
Aliás, é tomando como exemplo o próprio «Stimer» e o seu
cmanequim», «o Livro», que se vê como o «manequim» não
é «o núcleo propriamente dito» «dos adornos»: no seu
«Livro>, não existe núcleo nem «propriamente» nem «im pro-
priamente dito»; e mesmo as ninharias que se .p odem encon-
trar nes.sas 491 páginas merecem muito pouco o nome de
«adornos». Se se quisesse descobrir qualquer «núcleo», tería-
mos de nos satisfazer com o pequeno burguês alemão.
Aliás. no seu «Comentário apologético», São Max escla-
rece-nos muito ingenuamente sobre a origem do ódio que
tem aos c:predicados». Cita a seguinte pas5agem da «Essência
do cristianismo> (pág. 31): «Só é wn verdadeiro ateu aquele
que não aceita os predicados do ser divino: o amor, a sabe-
doria, a j usti~ por exem pio. e não aquele que só não aceita
o sujeito desses predicados» - depois do que exclama num
tom triunfal: «Não é o caso de Stirner?» - «Eis a sabedoria».
São Max viu nesta passagem uma indicação da forma como
deve actuar para ir «mais além do que os outros». Acredita
em Feuerbach e pensa que o que este afirma constitui «a
essência» do «verdadeiro aieu-.• .aceitando a «tarefa> de se
converter no «verdadeiro ateU>. O «único> é «o verdadeiro
ater.o.
Relativamente a São Bruno ou cà Crítica», ainda
coperu com mais credulidade do que em relação a Feuer-
bach. Veremos facilmente como se deixa influenciar pela
«crítica». como se coloca sob o seu controlo policial. como
permite que o seu modo de vida. a sua cnnissão>. seja suges-

1 Em francês 11.0 original

308
tio nado por ela. De momento. bastará referinnos a seguinte
amostra da sua fé; na página 186, ele trata «Crítica» e «Massa>
como duas pessoas que se combatem mutuamente e «pro-
curam libertar-se do egoísmo»; e na página 28 «toma-as•
e por aquilo que elas se... fazem passar».
Com a luta contra o liberalismo humanitário termina
o longo combate contra o Antigo Testamento, no qual o
homem mantinha o único perfeitamente dominado; mas os
tempos consumaram-se e eis que se anuncia para a humani-
dade pecadora o evangelho da graça e da alegria.
A luta pelo chomem> é a consumação do verbo, daquilo
que está escrito. em Cervantes. no capítulo vinte e um: «Onde
se fala das nobres a venturas e da rica conquista do elmo
de Mambrino•. O nosso Sancho, imitando em tudo o seu
mestre de antanho. «jurou conquistar» para si «o elmo de
Mambrino» - o Homem. Depois de ter procurado em vão,
no decurso das suas diferentes «excursões>>. o elmo tãq .,dese-
jado nos Antigos e nos Modernos, nos liberais tf nos comu-
nistas, «vê um homem a cavalo, trazendo na cabeça algo que
brilha como se fosse ouro>. Dirige-se a Dom Quixote-Szeliga
nos seguintes termos: cSe não me engano, vejo avançar para
nós alguém que traz o elmo de Mam brino. acerca do qual
fiz o juramento que tu sabes». «Que vossa Senhoria tenha
cuidado com o que ele diz e mais ainda com o que faZ>>.
replica-lhe Dom Quixote que os anos tornaram prudente.
cDiz-me, não vês aquele cavaleiro que avança para nós mon-
tado num cavalo ruço e que traz na cabeça um elmo em
ouro?» - cSó vejo um homem montado num asno como o
vosso, trazendo na cabeça algo .de brilhante!• - «Pois é o
elmo de Mambrino>, diz Sancho.
Entretanto aproxima-se calmamente, montada na sua
pileca, a Crítica, isto é. o santo barbeiro Bruno, com a sua
bacia de barbeiro à cabeça; São Sancho aponta para ele a
sua lança São Bruno salta -p ara o chão, abandona a bacia
de barbeiro (efectivamente. não a trazia quando apareceu
no Concílio) e foge através dos campos, «porque é ele mesmo
o critico». TodQ satisfeito. São Sancho agarra no elmo de
Mambrino e. como Dom .Quixote lhe faz notar que se parece
bastante com uma bacia de barbeiro, diz: <É fora de dúvidas

309
que esta famosa peça do elmo encantado. que se transformou
numa «aparição». caiu nas mãos de um homem que não
soube apreciar o seu valor; deve ter fundido uma metade
e uabalhado a outra de modo que parecesse, como dizes.
uma bacia de barbeiro. Aliás pouco importa a sua aparência
para os olhos profanos; para mim .. que conheço o seu valor.
é-me completamente indiferente».
cA segunda magnificência, a segunda propriedade. foi
finalmente adquirida!».
Agora que adquiriu «o homem». o elmo de que necessi-
tava. São Sancho comporta-se relativamente a ele como se
se tratasse do seu «inimigo mais irredutível» e declara-lhe
sem rodeios (mais tarde veremos porquê) que ele (São San--
cho), não é «o homem», mas sim o «não-homem. o inu-
mano». Sob a aparência desse «inumano», sobe a Sierra
Morena 1 para se penitenciar a fim de ganhar os ~plendores
da Nova Alianç.a. Aí chegado, põe-se «nu como veio ao
Mundo» (pág. 184) para atingir a sua individualidade própria
e para superar aquilo que o seu predecessor fez no capítulo
vinte e cinco da obra de Cervantes: «E. tirando rapidamente
as suas calças. ficou semi-nu. em camisa. deu duas camba..
lhotas no ar de cabeça para baixo e pés para cima. desco-
brindo coisas que levaram o seu fiel escudeiro a voltar as
ventas do seu cavalo Rossinante para que não as visse».
«O inumano> supera, e de longe. o seu modelo profano.
c.ResolutamenJe,, volta as costas a si mesmo com o que, simul--
taneamente, vira as costas para o crítico» e «o deixa estar>.
c0· inumano» lança-se então numa disputa com a critica
cque deixara estar>, «despreza-se a si mesmo», «pensa-se
comparando-se a outrém», «ordena a Deus», «procura fora
de si mesmo o seu melhor Eu», faz penitência por ainda não
ter sido único, e proclama-se o único. «o elemento egoísta
e único» - o que aliás já não precisava de fazer, depois de

1 Cadeia montanhosa espanhola que separa Castela da


Andaluzia.

310
ter resolutamente voltado as costas a si mesmo. cô inu-
mano» conseguiu tirar tudo isto de si mesmo (ver Pfister:
História dos alemães 1); e agora, puro e triunfante. monta
no seu cavalo e entra no reino do único.

FIM DO ANTIGO TFSTAMENTO

1 ~. C. Pflster ( 1772-1835): hletorlador, especialista de


hlstórla religiosa. A obra citada. ê Geachich.te der Teutachen,
Hamburgo, 1829-1835.

311
INDICE

PREFA.CIO .. ... 7

I -FEUERBAOH

Qposlção enbie a concepção materia.llsta e a ideallsta.- 11

INTRODUÇÃO 11

11 _, SAO BRUNO

1. cCam.panha> contra Feuerbe.ch 103


2. Con.slderac;ões de São Bruno sobre a polémica. Feuer-
bach-S tlrner .. . . . . . . llõ
3. São Bruno contra os autores da cSagrada Familie.> !117
4. Oltlmo adeus ao cSr. Hess> ... 127

m-SAO MAX

cQue me importam as wrd~ Arvores?> 133

1. O íinko e a sua propriedade .. . 134


2. Economia do Antlgo Testamento 1'8
3. Os antigos . . . . .. 1'58
-i. Os modernos . 170
l5. cStlmer> comprazendo-se no seu esquema 230
6. Os homens livres ... 240
ESTE LIVRO
ACABOU DE SE IMPRIMIR
EM 20 DE MAIO DE 197'4
PARA A
H>ITORIAL PRESENÇA. LDA..
NA
TIPOGRAFIA NUNES, LDA.
RUA D. JOÃO IV. 590
PORTO