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O mundo atual tem passado por inúmeras e agitadas transformações.

Isso, ninguém
pode negar. Há pelo menos um século vemos modificações estruturais, tecnológicas e sociais
acontecendo a cada década, que mudam o rumo das pessoas, das famílias. E se há várias
conquistas, grandes avanços, para a vida e as condições materiais dos homens, nem sempre é
possível dizer que estes avanços não trouxeram, também, junto de si, imensas perdas para a
vida espiritual e moral da humanidade.

O sociólogo norte americano, Kingsley Davis, em seu mais importante e famoso livro –
A Sociedade Humana – escreveu que a estrutura da sociedade poderia ser teoricamente
dividida em dois organismos principais (e essencialmente diferentes), ele os chamou de
estruturas primária e secundária. O maior exemplo de uma estrutura primária seria a família
tradicional na qual todos os seus membros são valorizados pelo o que são e não meramente
por aquilo que são capazes de fazer ou produzir, e isso enquanto são capazes. Já a estrutura
secundária seria mais bem representada por uma empresa, onde cada membro valeria mais
por aquilo que é capaz de produzir em favor da empresa do que por sua própria pessoa, que
poderia e deveria ser descartada assim que não mais produzisse o esperado.

A constatação dessa realidade é verdadeira e o sociólogo bem classificou e dividiu a


sociedade humana nestas duas estruturas basilares. O segundo ponto levantado por Davis,
com o qual não podemos concordar de modo algum, é o grande drama da questão. Ele analisa
a história do Ocidente e verifica que, por séculos, o homem priorizou as instituições primárias
em detrimento das secundárias e que, desde a Revolução Industrial, era exatamente a
inversão desta valoração que estava proporcionando os avanços tecnológicos de nossa era. De
forma assombrosa, esta verificação do sociólogo parece ter conclamado todas as grandes
empresas, os governos e todos os poderosos do mundo a investirem com imenso esforço e
capital nesta direção: a secundarização da Sociedade Humana. Secundarização que deveria,
privilegiando e fortalecendo todas as instituições secundárias, desmontar gradativamente a
Família como organização base da sociedade.

Esta é a raiz moderna de todos os ataques que vemos nas últimas décadas contra a
família e contra a dignidade da vida humana. O amor consangüíneo é forte (ainda mais quando
também sobrenatural) e capaz de enormes sacrifícios pela vida ou pela dignidade de um
membro familiar. Assim, só uma mudança social e estrutural de longo prazo muito profunda
seria capaz de neutralizar este amor. Aborto, eutanásia, mitigação da autoridade dos pais são
apenas os sintomas mais visíveis deste plano. O coração deste projeto de secundarização total
da sociedade é a tomada de todo o sistema educacional (em nível mundial) para conseguir,
assim, efetivar as mudanças sociais e humanas necessárias para que cada ser humano seja
apenas um cidadão diretamente vinculado aos governos e úteis às empresas e demais
instituições secundárias.

Se tudo conspira nesta direção, o que se pode fazer para evitar tal secundarização da
sociedade que tem por fim a destruição das instituições primárias que conhecemos? Resta-
nos, simples cristãos leigos que somos, esforçarmo-nos para cumprir aquele desígnio do Autor
e Redentor da Vida: sermos Sal da Terra e Luz do Mundo. Resistir à avalanche de ataques à
vida e à família, primarizando nossas famílias, nossas relações, nossas vidas.
E foi, exatamente, no intuito de criar um ambiente propício e ajudar as famílias de
nossa região que o Instituto Antonio Royo Marín estabeleceu como meta a consecução de uma
escola católica na cidade de São José dos Campos. Um colégio que possa ser a extensão das
famílias, um auxílio e uma motivação para que as famílias redescubram a grande importância
de serem verdadeiras instituições primárias, para que não desistam de ser aquilo para o qual o
Criador as chamou: verdadeiros santuários de Vida, de doação, de abnegação em favor do
próximo, celeiros de virtudes e estrutura basilar e mãe de toda a Sociedade Humana.

Muito se fala de concorrência, mercado de trabalho, de excelência. Tudo isso tem o


seu valor e importância, o cristão verdadeiro sabe da importância de cumprir seus deveres
básicos como cidadão, como profissional, mas ele também sabe ordenar e hierarquizar suas
prioridades. A infância não é o momento de se preocupar, desordenadamente, com
vestibulares, com o mercado de trabalho futuro, com posições sociais. É o momento de se
ensinar aos pequenos o que significa realmente ser humano, católico, santo... Todo o mais se
ajeitará depois.

As crianças precisam crescer em ambientes que irradiam a doação da vida, o


desprendimento, essa verdadeira e desinteressada Caridade para com Deus e para com o
próximo. Isso só se aprende em família, mais ainda: isso só se aprende - realmente - em uma
rede de famílias, famílias destinadas a tão nobre fim. A escola é mera continuação deste
projeto, ela continua essa missão das famílias e da própria Igreja, e, sempre tuteladas por
estas, conduzem as crianças à maturidade, ao conhecimento, ao seu pleno desenvolvimento
como pessoas humanas. Este é o nosso anelo, o nosso anseio: criarmos uma escola que seja de
fato instituição primária junto às famílias católicas.