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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - UNIRIO

CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE - CCBS

ESCOLA DE ENFERMAGEM ALFREDO PINTO - EEAP

DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM DE SAÚDE PÚBLICA -DESP

DISCIPLINA ATENÇÃO À SAÚDE DO TRABALHADOR

RESENHA CRÍTICA: GIG: “A UBERIZAÇÃO DO TRABALHO”

Matheus Veras Martins

Rio de Janeiro

2019
O documentário faz uma reflexão a respeito da Uberização uma nova modalidade de
trabalho, que emergiu nas grandes metrópoles no início da década atual. Ao se traçar uma linha
do tempo fica nítido que com passar dos anos as empresas possuem a tentativa de diminuir o
número de trabalhadores, visando baixos custos e consequentemente lucro. Com o
neoliberalismo, e a lógica do livre mercado esses ideais se intensificam, evidenciando cada vez
mais a competitividade empresarial e a necessidade de lucrar.

Avançando no tempo, chegando em 2008 a crise econômica mundial fez estragos na


economia de diversos países, acarretando desemprego e recessão, neste contexto emergiu o
conceito de economia do compartilhamento. Caracterizada pela ideia de que as empresas são
Plataformas Tecnológicas, que possui pessoas que vendem os seus serviços através da
plataforma, ou seja, não são considerados como trabalhadores, mas clientes, configurando a
ideia de cliente-trabalhador.

Estas plataformas estão inseridas em diversos setores da sociedade, através delas o


grande público consumidor consegue solucionar suas necessidades de forma urgente.
Atualmente como mostra no documentário, com apenas o uso de aplicativos você consegue
contratar serviços que vão desde limpeza, alimentação, transporte e até mesmo um goleiro para
completar seu time na “pelada”.

Outro fator importante para o crescimento dessas plataformas no mundo é a necessidade


de serviços mais baratos e a dependência tecnológica. No início a ideia era uma inovação, afinal
o cliente-trabalhador conseguia em poucas horas trabalhadas, receber uma boa remuneração.
Como algo novo as discussões ainda eram poucas, mas no momento atual com a popularização
se evidencia a necessidade de debate.

Um dos rostos desse fenômeno mundial é a empresa Uber fundada em 2010, que já
possui milhões de usuários, considerada a pioneira do movimento, atraiu muitos trabalhadores-
clientes devido a oportunidade de uma autonomia profissional, além da flexibilidade e
multitude. Em contraposição a empresa não possui regulamentação do Estado, nem desenvolve
vínculo com o trabalhador, ou seja, atua apenas como intermediária.

O documentário questiona essa suposta autonomia, visto que os ofertadores de serviços


precisam se submeter às plataformas e suas diretrizes, eles são avaliados pelos consumidores
recebendo nota e premiações de acordo com sua produtividade, logo quem faz mais corridas na
Uber, ganha gratificações. Neste sentido o trabalhador-cliente não se sente integrante de uma
economia colaborativa, mas sim que é parte de um processo colaboração social, logo seu
sentimento é individualidade.

Diante disso, o processo de Uberização se configura com a precarização das condições


de trabalho, alguns autores corroboram com o discurso do documentário, tal como:

Atualmente o uso de plataformas como o UBER e Airbnb são uma expressão


bastante significativa e merecedora de reflexão acerca do uso da tecnologia, pois
podem permitir a contratação de mão de obra barata para quase todas as atividades e
podem, portanto, promover a precarização do trabalho. Os serviços oferecidos a
preços muito baixos, onde os trabalhadores são os únicos prejudicados, ou seja,
consumidor paga bem menos que no mercado tradicional, e a empresa intermediadora
da tecnologia aufere lucros e valoriza-se em números astronômicos. (KRAMER,2017,
p.122)

No Brasil, a decisão mais recente do STJ no dia 04 de setembro de 2019 noticiado pelo
Portal de Notícias G1, caracteriza a relação entre motoristas e empresa, como um contrato social
e não de trabalho, sendo assim os executores da atividade são tratados como empreendedores
individuais sem vínculo empregatício com a empresa dona da Plataforma.

Já no âmbito da saúde a uberização implica diretamente no processo saúde-doença, uma


vez que o trabalhador submetido a jornadas excessivas de trabalho, está mais propenso ao
desenvolvimento de distúrbios do sono, ansiedade, depressão, fadiga, estresse, entre outros.
Também não se deve deixar de citar a propensão desses trabalhadores a acidentes no trânsito,
quedas, assaltos e dificuldades ergonométricas. Falando mais precisamente da Enfermagem, a
sua atuação pode ser relacionada a promoção e prevenção da saúde, orientando os trabalhadores
usuários maneiras de como permanecer nesse

Portanto, a uberização é uma realidade dos grandes centros, que muitos trabalhadores
se tornam refém em razão da necessidade de emprego, mesmo com a precariedade das
condições de trabalho. Compreende-se também “que o cenário da economia do
compartilhamento é preocupante, pois empresas propositalmente classificam de forma
equivocada seus trabalhadores como autônomos com o objetivo claro de se esquivar da
legislação trabalhista [..]” (KRAMER,2017). Sendo assim essas empresas visam apenas o lucro,
deixando de lado as necessidades que interferem diretamente na saúde do trabalhador. Também
é necessário frisar que com o desenvolvimento das plataformas cada vez se corre o risco de ter
serviços precarizados e o aumento da desigualdade social, devido a instabilidade da
modalidade.
REFERÊNCIAS

1) GIG - A Uberização do Trabalho, Direção: Carlos Juliano Barros, Caue Angeli,


Maurício Monteiro Filho, Produção: Repórter Brasil, 2019

2) KRAMER, Josiane Caldas. A economia compartilhada e a uberização do trabalho:


utopias do nosso tempo?. 2017. Disponível em :
<https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/47786/R%20-%20D%20-
%20JOSIANE%20CALDAS%20KRAMER.pdf?sequence=1&isAllowed=y> . Acesso
em: 02 de set. de 2019.

3) Motoristas de Uber não têm vínculo trabalhista com a empresa, decide STJ, G1
GLOBO, Rio de Janeiro, 04 de set. de 2019. Disponível em:
https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2019/09/04/motoristas-de-
aplicativos-nao-tem-vinculo-trabalhista-com-as-empresas-decide-stj.ghtml Acesso em:
05 de set. de 2019.

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