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Morfossintaxe da Língua

Portuguesa
Autoras: Profa. Márcia Selivon
Profa. Siomara Ferrite Pereira Pacheco
Colaboradores: Profa. Cielo Festino
Profa. Joana Ormundo
Prof. Adilson Silva Oliveira
Professoras conteudistas: Márcia Selivon / Siomara Ferrite Pereira Pacheco

Márcia Selivon

Bacharel em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras, além de Licenciada
na Faculdade de Educação, na Universidade de São Paulo. Nessa mesma universidade, defendeu sua
dissertação de mestrado na área de Filologia e Língua Portuguesa. No momento, elabora sua tese de
doutorado na mesma área.

Profissionalmente, atua no ensino da língua portuguesa desde 1992. Participa também de bancas
a correção de textos dissertativos em vestibulares e concursos públicos.

Desde 2004, é professora da Universidade Paulista (UNIP), ministrando aulas no curso de Letras
(Presencial) e no curso de Letras na UNIP Interativa, auxiliando também na elaboração de material
didático, do qual este livro‑texto faz parte.

Siomara Ferrite Pereira Pacheco

É mestre em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP)
e doutoranda pela mesma instituição. Desde início de 2010, professora na Universidade Paulista
(UNIP) de disciplinas ligadas à área de Língua Portuguesa.

Além da experiência no nível superior, já lecionou no ensino básico, tanto em escolas particulares
quanto em escolas públicas. Participa de bancas de correção como ENEM, ENADE, entre outras.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

S465 Selivon, Márcia


Morfossintaxe da Língua Portuguesa. / Márcia Selivon. Siomara
Ferrite Pereira Pacheco. - São Paulo: Editora Sol.
140 p. il.
Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e
Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2-055/11, ISSN
1517-9230
1. Língua portuguesa 2. Morfossintaxe 3.Análise linguística I.Título

CDU 37.01

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
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Unip Interativa – EaD

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Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:

Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD


Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Janandréa do Espirito Santo
Sumário
Morfossintaxe da Língua Portuguesa

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................8

Unidade I
1 Noções básicas para o estudo de morfossintaxe............................................................... 12
1. 2 Classificação morfológica das palavras...................................................................................... 19
1.2.1 Substantivo................................................................................................................................................ 20
1.2.2 Adjetivo........................................................................................................................................................ 22
1.2.3 Verbo............................................................................................................................................................. 23
1.2.4 Advérbio....................................................................................................................................................... 28
2 PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS........................................................................................... 37
2.1 Neologismos fonológicos................................................................................................................... 40
2.2 Neologismos: estrangeirismos......................................................................................................... 40
2.2.1 Empréstimo lexical.................................................................................................................................. 41
2.2.2 Empréstimo semântico.......................................................................................................................... 42
2.2.3 Empréstimo estrutural........................................................................................................................... 42
2.3 Funções dos gramemas na relação morfossintática............................................................... 46

Unidade II
3 ORAÇÕES E SINTAGMAS............................................................................................................................... 62
3.1 Estudo dos termos da oração........................................................................................................... 68
3.1.1 Sujeito.......................................................................................................................................................... 70
3.1.2 Predicado e complementos verbais.................................................................................................. 76
4 Função sintática dos sintagmas autônomos e internos.............................................. 83

Unidade III
5 A SINTAXE E A ORGANIZAÇÃO TEXTUAL................................................................................................ 94
5.1 Sintaxe de colocação........................................................................................................................... 94
5.1.1 Advérbios transpostos............................................................................................................................ 96
5.2 Sintaxe de concordância.................................................................................................................... 98
5.3 Sintaxe de regência.............................................................................................................................. 99
6 O uso da vírgula.......................................................................................................................................102
Unidade IV
7 Hierarquia gramatical........................................................................................................................109
8 Períodos compostos............................................................................................................................... 110
8.1 Período composto por coordenação........................................................................................... 110
8.2 Período composto por subordinação.......................................................................................... 112
8.2.1 Orações subordinadas substantivas............................................................................................... 113
8.2.2 Orações subordinadas adjetivas....................................................................................................... 117
8.2.3 Orações subordinadas adverbiais.................................................................................................... 119
8.2.4 Orações reduzidas................................................................................................................................. 125
APRESENTAÇÃO

Caro aluno e leitor,

Esta disciplina tem por base o estudo dos processos morfossintáticos da língua, assim como a
identificação, descrição e uso das categorias gramaticais. A estrutura sintagmática do português – tipos
de sintagma e as funções sintáticas correspondentes – também é nosso objeto de estudo. Entretanto, é
preciso que tenhamos um olhar mais amplo para a língua, comparando pontos de vista mais modernos
a outros mais tradicionais.

Para tanto, temos por objetivos gerais o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da competência


linguística do aluno, melhorando seu desempenho como estudioso e usuário das estruturas e dos
processos morfossintáticos da língua portuguesa.

Os objetivos específicos desta disciplina são:

• desenvolver a habilidade de observação e de análise das estruturas e dos processos morfossintáticos


da língua;

• desenvolver a capacidade de reflexão crítica sobre conceitos tradicionais e modernos da


morfossintaxe;

• capacitar o aluno na análise, descrição e explicação do funcionamento morfossintático da


língua;

• desenvolver estratégias de ensino eficientes da morfossintaxe aplicadas ao uso efetivo da língua.

Assim, você, caro leitor e aluno, encontrará nosso conteúdo distribuído em quatro unidades, da
seguinte forma:

Unidade I: considerações iniciais sobre os níveis de análise dos fatos linguísticos: os eixos
paradigmático e sintagmático e os processos morfossintáticos da língua; critérios mórfico e semântico
para a classificação das palavras.

Unidade II: a identificação, classificação e função dos sintagmas na oração.

Unidade III: a sintaxe de colocação, de regência e de concordância e o uso da vírgula.

Unidade IV: o período composto.

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INTRODUÇÃO

Caro aluno, iniciaremos as reflexões sobre a morfossintaxe da língua portuguesa. Procure observar,
com muita atenção, os conceitos mais tradicionais e mais atuais sobre a descrição da língua, para que
você possa aperfeiçoar sua capacidade de análise crítica.

Perceba como é enriquecedor observar os elementos estruturais da nossa língua, tanto para o
aperfeiçoamento dos estudos linguísticos quanto para aplicação, em sala de aula, dos conceitos
aprendidos.

É importante saber que os estudos morfológicos capacitam os usuários da língua a estabelecer


relações entre forma e significado das palavras. A morfologia flexional descreve os mecanismos
sintáticos básicos – como a concordância de gênero, número e pessoa – e a morfologia lexical descreve
os processos de derivação e composição de palavras.

E por que morfossintaxe? Todo estudo morfológico relaciona‑se ao eixo paradigmático e o estudo
sintático relaciona‑se ao eixo paradigmático. Segundo Sautchuk (2004), esses dois eixos não podem ser
considerados separadamente e seria melhor um estudo integrado “morfossintático”. Assim, para analisar
as funções das palavras, é necessário que se tenha conhecimento das classes gramaticais e das relações
que podem ser feitas entre elas.

Ainda cabe lembrar que a linguagem humana é muito complexa e, embora haja várias especialidades
e áreas de pesquisa, os estudos ampliam‑se e complementam‑se em uma perspectiva interdisciplinar.

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Morfossintaxe da língua portuguesa

Unidade I
A revolta das palavras

Língua Portuguesa convocou todas as palavras para uma Assembleia Geral. O motivo foi
o veemente apelo que lhe fizeram alguns de seus súditos mais fiéis que vangloriavam de
conhecê‑la por dentro e por fora.

Ela ia passando faceira em seu gingado natural, engordando uns quilinhos aqui, ao ingerir
palavrinhas novas, e emagrecendo acolá, como sói acontecer às línguas, que, sendo gulosas
por natureza, alimentam‑se de gregos e troianos. Mas os súditos fiéis interromperam sua
marcha normal para reclamar a deformação que vinha sofrendo sua bela figura, causada,
principalmente, por estrangeirismos abomináveis. A “mui fremosa senhora”, que é muito
vaidosa, concordou com a ideia.

O planejamento do conclave ficou a cargo dos seus Ministros: os Advérbios de Tempo,


Modo e Lugar. Lugar determinou que a reunião realizar‑se‑ia na Mansão Verde­Amarelo, por
ser a maior de suas casas, e assim poder acomodar todo mundo. Advérbio de Modo, que
muito mente, disse que estava doente, a forma do conclave ficou meio indefinida.

Houve convocação compulsória para os formadores da estrutura gramatical como


os Artigos, as Preposições, as Conjunções, as Flexões, os Verbos Auxiliares e outros, todos
soldadinhos pequeninos, mas de tal eficiência que se constituem na guarda de sua
Majestade.

As flexões, como se sabe, por serem sufixos, só têm em um braço, o esquerdo. As


Interjeições, coitadas, formam uma classe marginalizada. Ficou determinado que elas se
encarregariam dos ohs e ahs durante a sessão.

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


As demais palavras foram convidadas, mas não estavam obrigadas a comparecer. Assim,
os Arcaísmos decidiram não ir, por serem “muito velhos”.

No momento fixado, foram chegando convocados e convidados.

Os prefixos gregos e latinos, todos manetas, chegaram vestidos a caráter. Os gregos


com túnicas brancas e leves, um ombro descoberto, usavam sandálias com tiras cruzadas
nas pernas. Os latinos, muito romanos, usavam braceletes no braço que restava, o direito,
e à cabeça traziam coroas de louros. Eles tinham o ar da superioridade que só o poder
consente.

9
Unidade I

Como são altivos esses prefixos – todos metidos a besta e muito unissex. Tele mantinha
um ar distante. O A grego tudo negava, e o latino ora aproximava‑se, ora afastava‑­se e, às
vezes, também negava. Anti e Ante chegaram juntos, este último precedendo o primeiro,
que, como o A grego, acima descrito, também é da oposição.

No momento certo, todos tomaram seus lugares. A tribuna de honra fora reservada para
a nobreza. Latinos e gregos ocuparam‑na.

As palavras de origem latina constituíam a maior parte do plenário. As eruditas


sentaram‑se logo na frente; depois, sentaram‑se as populares. Em seguida, sentaram‑se as
multinacionais: empréstimos franceses, muito perfumados por Dior; ingleses, usando sua
melhor gabardina; italianos, quase todos muito musicais; e alemães, todos muito marciais.
Os africanos de diversas regiões cheiravam à comida gostosa e coloriam o plenário com
símbolos religiosos. Eu quase esquecia de dizer que, a um canto, estavam Açúcar, Alcatifa e
outros árabes de turbante, alguns dos quais representantes da OPEP.

Lá em cima, na galeria, instalaram‑se os neologismos, as siglas, as abreviações famosas.


Nos corredores e escadas, sentadas pelo chão, estavam as gírias, bem hippies, mal comportadas
como elas só – assobiando, conversando, comendo pipoca, mascando chicletes, fumando e
botando cinza no chão.

Finalmente, foi aberta a sessão. Como Língua Portuguesa não havia tido a devida
assessoria de seu Ministro, Advérbio de Modo, não sabia bem como encaminhar os trabalhos.
Um pouco titubeante, ela começou solicitando que quem não fosse completamente
brasileiro se retirasse. Foi um alvoroço. Levantou‑se todo mundo. Só ficaram sentadas
uma meia dúzia de palavras que, embora nuas, estavam revestidas de muita brasilidade.
Eram as de origem indígena. Jacaré cutucou Jaguar e ambos riram da mancada da bela
senhora.

Percebendo sua precipitação, Língua Portuguesa pigarreou, pediu ordem no plenário


e reformulou suas palavras, convidando a retirarem‑se as palavras que não fossem
legitimamente vernáculas.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Novamente deu confusão pela profusão de elementos que se levantaram, uns


conformados, outros protestando veementemente. Alguns até alegaram pertencer à terceira
ou quarta geração de aportuguesados e ter compatriotas com muito status, ocupando altos
cargos governamentais e políticos e com poder econômico incontestável.

Língua Portuguesa pensou: “assim não dá”, e resolveu pedir que apresentassem uma
a uma as palavras estrangeiras para contar sua história. Assim, ela teria condições de
julgar.

A primeira a apresentar‑se foi Xícara, que disse ser uma nativa pura, mas não sabia
bem se do México ou da América Central (palavras não conhecem fronteiras). Disse que
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Morfossintaxe da língua portuguesa

vivia bem em seu rincão natal, quando um espanhol dela usou e abusou. O mesmo fizeram
muitos de seus compatriotas que por ela se apaixonaram. Então, ela saiu de casa para viver
com os espanhóis. Mas esses latinos volúveis logo se cansaram de sua beleza.

Como estava longe de casa, ela entrou pela porta do Brasil, onde foi muito bem recebida,
e assim foi ficando por aqui. Lembrou até que causou confusão na Academia Brasileira de
Letras, quando discutiram sua grafia x ou ch. Então ela disse:

— Andei, virei, mexi e parei aqui. Sou tão vernáculo quanto você. Sou um símbolo
nacional. Quem me rejeitar xicrinha de café não vai mais tomar.

Língua Portuguesa ficou perplexa. Não se havia dado conta de tão grande verdade.
Concedeu imediatamente vernaculania à palavra. A aclamação foi geral.

Quem sabe, talvez devêssemos tomar café em xícara com ch.

Aí... Futebol, sempre com a bola no pé, deu com o foot na ball e pediu a palavra.
Levantou‑se, muito inglês, posudo, com o respaldo do Banco de Londres e da rainha, e com
a aquiescência da Seleção, reivindicando que já tinha grafia própria. Que mais lhe faltava?

Disse que se fosse banido não mais se faria jogo no Brasil.

A gleba de tricampeões explodiu.

Nesse momento, Ludopédio interveio:

— Vieste de longe, oh inglês, usurpar o meu lugar tal qual fizeste às Malvinas. E eu, como
é que vou ficar?

Mas ninguém deu bola pra ele.

Língua Portuguesa, perdendo a postura e compostura, quase perdeu também o rebolado.


Ficou nervosa. Em menos de um momento, concedeu vernaculania à palavra.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
O triunfo desses itens lexicais estimulou outros tantos. Piano levantou‑se, liderando
seus compatriotas, alguns bem famosos como Chau e Pizza, e reivindicou para os italianos
o direito à vernaculania.

O tumulto que se seguiu foi geral. Saionara, Sputnik, Garçon e muitas outras palavras,
cada qual liderando um contingente de compatriotas, gritavam por greve.

Língua Portuguesa ficou atordoada. Viu‑se diante de uma guerra sonora tão calamitosa
que, se não fosse controlada rapidamente, desencadearia uma mudez continental. Muito
doidona, enfurecida pela pressão dos súditos fiéis e vencida pelos argumentos incontestáveis
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Unidade I

dos componentes de seu próprio corpo, nomeou a linguística por interventora. Esta,
embora sob protestos, deu fim à baderna. Pôs os pontos nos is explicando à mui formosa
senhora toda a complexidade de sua estrutura. Ela compreendeu. Sorriu, deu de ombros
e, assumindo sua própria natureza, dissolveu a assembleia. Os súditos mais fiéis ficaram a
ver navios e a Língua evoluiu, entrando por uma perna de pinto e saindo por uma perna
de pato...

PALÁCIO, Adair In: CARVALHO, 1989, p. 06‑09.

Nesta unidade, iniciaremos nosso estudo sobre morfossintaxe. Para tanto, abordaremos primeiramente
alguns conceitos básicos antes de tratarmos de outros aspectos mais específicos do conteúdo, os quais
serão tratados na sequência.

Sugerimos que consulte as fontes indicadas, a fim de aprofundar seus conhecimentos e


esclarecer algumas dúvidas que possam surgir no decorrer da leitura, visto que nossa preocupação
foi a de simplificar os conteúdos neste momento e, assim, não dificultar seu contato inicial com a
disciplina.

1 Noções básicas para o estudo de morfossintaxe

Antes de iniciarmos nossos estudos de morfossintaxe, precisamos compreender alguns conceitos


que servirão de base para eles.

Primeiramente, quando falamos em sintaxe, ou melhor, morfossintaxe, questionamos o que


seria isso. Não podemos nos esquecer, todavia, de que todo falante recorre a regras que já tem
internalizadas e é a partir delas que ele formula suas frases e expressa‑se em língua, em nosso
caso, portuguesa.

O falante reconhece frases que são consideradas “bem formadas” e rejeita o que não o seria. Como,
por exemplo, se alguém disser “nós iniciamos um estudo de língua portuguesa”, esse enunciado será
reconhecido como gramaticalmente bem construído, o que não ocorreria, por exemplo, se fosse dito
“um nós de língua iniciamos estudo portuguesa”.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Então, não podemos negar que existe uma regra internalizada na mente do falante dessa língua,
que permite reconhecer o que seja gramaticalmente aceito e o que não o seja. A partir de uma espécie
de “arquivo mental”, o falante seleciona e organiza as palavras e formula as frases, as orações, enfim, o
texto.

As línguas são muito complexas, por isso devem ser estudadas em vários níveis que analisam os
fenômenos gramaticais. Cada um desses níveis estabelece um enfoque diferente em relação aos aspectos
linguísticos.

Note como a oração a seguir pode ser analisada por diferentes pontos de vista:

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Morfossintaxe da língua portuguesa

João chamou Paulo.

Como você pode analisar essa oração em relação a sua pronúncia?

Em relação à pronúncia, será verificado que há um ditongo nasal na palavra João e a vogal final de
Paulo pode ser pronunciada como um u [u]. Todas essas observações podem ser feitas, portanto, a partir
de uma perspectiva fonológica.

Como você pode analisar essa oração em relação aos seus morfemas?

Essa mesma frase pode ser estudada em relação a sua composição, observando‑se que a palavra
“chamou” é formada por dois elementos: “cham–” + “–ou”. Existem também regras que organizam
a associação dessas partes de palavras (denominadas morfemas). O estudo dos morfemas e de suas
associações se denomina morfologia.

Como você pode analisar essa oração em relação à combinação de palavras?

Nessa perspectiva, levam‑se em conta as maneiras como se associam as palavras para formar frases.
Assim, podemos observar que existe uma regra pela qual a terminação de “chamou” depende do elemento
“João”. Note que, se substituirmos “João” por “eles”, a terminação “–ou” terá que ser substituída pela
terminação “–aram”. Dessa forma, “chamou” será substituído por “chamaram”. Além disso, se trocarmos
o último elemento da frase, “Paulo”, por “eles”, não haverá mudança em relação à forma do verbo
“chamou”. Todas essas observações relacionam‑se com a estruturação interna da frase e constituem o
estudo da sintaxe.

Como você pode analisar essa oração em relação ao seu significado?

Pode‑se observar que João designa um homem e Paulo também; que Paulo é a pessoa que foi
chamada e não João; que o chamado aconteceu no passado e não no presente. Traços de significado
como esses estão relacionados aos aspectos da semântica.

Assim, a gramática de uma língua inclui os seguintes componentes: a fonologia, a morfologia, a


sintaxe e a semântica dessa língua.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
A fonologia, a morfologia, a sintaxe e a semântica (mais o léxico) constituem o estudo da estrutura
interna de uma língua, aquilo que a distingue das outras línguas do mundo. É importante lembrar que
esses aspectos não decorrem diretamente de condições da vida social ou do conhecimento do mundo,
aspectos extralinguísticos.

Daí a necessidade de entendermos alguns conceitos que elucidam essa organização que o falante
elabora e que, muitas vezes, não sabe descrever. Essa é tarefa dos estudiosos da língua, como, por
exemplo, os estudantes de Letras. É isso mesmo, caro aluno: ao inserir‑se na área, você começa a
desenvolver habilidades para realizar tais investigações.

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Unidade I

Dessa forma, o primeiro conceito importante para entendermos essas leis que organizam a
fala (e a escrita) de uma determinada língua, no nosso caso, a língua portuguesa, é o da dupla
articulação da linguagem, proposto por um estudioso chamado Martinet, nas décadas de 1960 e
1970.

Segundo esse estudioso, ao descrever a língua, precisamos distinguir as unidades significativas das
não significativas, ou seja, reconhecer os dois planos da estrutura linguística: o do conteúdo (unidades
significativas) e o da expressão (unidades não significativas). O primeiro denomina‑se primeira articulação
e o segundo corresponde à segunda articulação.

Para melhor compreendermos essa definição, vejamos o seguinte exemplo:

Nós chegamos logo.

Ao separarmos as unidades constitutivas desse enunciado, poderíamos agrupá‑las em:

• palavras:
—nós
—chegamos
—logo

• morfemas:
—nósØ
—cheg–a–mos
—log–o

• sílabas:
—’nos
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

—še – ‘ga – mus


—‘lo – gu/)

• fonemas:
—[n‫כ‬š e g a m u s l ‫כ‬g u].

Nessa estruturação, podemos observar que os fonemas e as sílabas são vazios de significado,
enquanto os morfemas e as palavras são providos de significado.

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Morfossintaxe da língua portuguesa

De acordo com a classificação de Martinet (1976), a primeira articulação (ou plano do conteúdo)
corresponde ao léxico gramatical, em que há proposições, palavras, raízes, afixos; já a segunda articulação
(ou plano da expressão), em que as unidades são desprovidas de sentido, corresponde a fonemas, acentos,
sílabas.

Outro conceito necessário para entendermos esse mecanismo de articulação da língua é o de eixo
sintagmático e, consequentemente, o de eixo paradigmático, no qual o falante realiza as combinações
para elaborar os enunciados gramaticalmente aceitos na língua.

Imaginemos uma linha horizontal, em que se realizam as combinações (eixo sintagmático) e outra
linha vertical, em que há as possibilidades de escolha (eixo paradigmático). Então, o eixo paradigmático
corresponde ao eixo da seleção e o sintagmático, ao da combinação.

Vejamos:

Quadro 1 – Eixos sintagmático e paradigmático

O menino caiu do muro.


A garota sentou na calçada.
O irmão saiu da sala.
Os amigos chegaram do passeio.
Um desconhecido entrou na casa.

Olhando verticalmente, podemos visualizar os grupos que possibilitam a seleção entre “o” ou “a”, por
exemplo, enquanto artigo definido masculino ou artigo definido feminino. Ao selecionarmos um artigo
definido masculino, combinamos com este, no eixo sintagmático, um substantivo também masculino,
como “menino” ou “irmão”, por exemplo.

Ao fazermos as combinações, vamos juntando unidades mínimas significativas no plano do conteúdo,


para formarmos, por exemplo, uma palavra. Em “menino”, temos o radical “menin–“ e a desinência “o”
como unidades significativas mínimas.

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


Daí considerarmos os morfemas como as menores unidades significativas da língua, já que o fonema
é desprovido de significado e encontra‑se na segunda articulação, no plano da expressão, conforme
proposto anteriormente.

De acordo com Sautchuk, há uma hierarquia gramatical,

que nada mais é do que uma escala de unidades linguísticas organizadas


segundo graus de posição que seguem princípios constitutivos da língua; (...)
as unidades linguísticas se combinam entre si formando unidades em níveis
de construção cada vez mais complexos e de diferentes funcionalidades
(SAUTCHUK, 2004, p. 03).

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Unidade I

Podemos visualizar essa hierarquia gramatical considerando a gradação da menor para a maior
unidade linguística da seguinte forma:

Morfema (garot- / -o)

Vocábulo/palavra (garoto)

Sintagma (O garoto)

Frase/oração (O garoto sumiu.)

Período (O garoto sumiu.)

Texto (Enquanto a mãe trabalhava, o garoto bonito sumiu de casa.)

Figura 1 – hierarquia gramatical

A visão estruturalista da língua, proposta por alguns estudiosos, entre eles o que ficou conhecido
como marco desse paradigma de pesquisa, Ferdinand de Saussure (cujos estudos mais aprofundados
encontram‑se no Curso de Linguística Geral – 2006), propõe que toda língua tem sua forma, sua estrutura,
suas categorias, às quais chegamos pelo princípio de comutação, isto é, opondo pares dessas unidades.

Como no exemplo dado anteriormente, ao opormos “o” ou “a”, enquanto artigos, encontramos o
masculino em oposição ao feminino. Ao realizarmos essa oposição, estamos aplicando o princípio da
comutação. Esse princípio auxilia a isolar, na cadeia falada, as unidades linguísticas. Trata‑se, portanto,
de um ponto de vista metodológico proposto pelo estruturalismo para um procedimento de análise.

Segundo Azeredo, o estruturalismo:

insistiu nos aspectos distribucionais – posição na estrutura – e funcionais –


comportamento na estrutura – das unidades como meio de identificá‑las. Por
esse prisma, um substantivo em português define‑se, distribucionalmente,
como uma unidade que pode vir precedida de artigo e, funcionalmente,
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

como uma unidade que pode ser sujeito ou objeto. A evidente circularidade
dessas definições se deve a que as unidades da língua não têm existência
por si mesmas, mas em função de suas relações (AZEREDO, 2001, p. 23).

Como podemos observar, é preciso deixar de lado algumas ideias propostas pela gramática tradicional
de substantivo, por exemplo, a de que é a “palavra que dá nome aos seres em geral”. Nessa visão de
estrutura enquanto “arranjo”, combinação no eixo sintagmático a partir da seleção no eixo paradigmático,
essas definições oriundas de uma gramática filosófica perdem espaço na descrição da língua.

Partindo do pressuposto de que o morfema é a unidade mínima significativa da língua, há, ainda, a
proposta de classificação feita por Sautchuk (2004) de que esses morfemas se dividem em dois grupos.
16
Morfossintaxe da língua portuguesa

O primeiro compreende os que têm como função nomear e/ou relacionar os três elementos básicos
do mundo “biossocial/antropocultural”, que, segundo a autora:

Por meio de recortes dessa realidade biossocial ou antropocultural é que


se apreendem esses três primeiros elementos, ou seja, os(as): objetos
– representados pelos substantivos; qualidades – representadas pelos
adjetivos; ações – representadas pelos verbos (SAUTCHUK, 2004, p. 3).

Portanto, as palavras que são carregadas semanticamente em relação ao mundo biossocial/


antropocultural, de acordo com a autora, constituem os lexemas da língua portuguesa, representados
pelos substantivos, adjetivos, verbos e advérbios nominais.

Lembrete

Lexemas da língua portuguesa: principais classes gramaticais –


substantivos, adjetivos, verbos e alguns advérbios.

Quanto ao segundo grupo, trata‑se dos morfemas que têm como função apenas relacionar os
elementos do primeiro grupo. Os elementos deste grupo denominam‑se morfemas gramaticais (ou
gramemas).

Lembrete

Morfemas lexicais = lexemas.

Morfemas gramaticais = gramemas.

Advérbios nominais = a maioria deles originam‑se de um adjetivo +


sufixo mente (sutil + mente = sutilmente).

Retomando, então, essa proposta de classificação morfológica, compreendemos que há três classes
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
básicas constituídas por morfemas lexicais, as quais correspondem às classes do substantivo, do
adjetivo e do verbo. As demais classes gramaticais têm função apenas gramatical, são os gramemas, que
remetem exclusivamente à superfície linguística, constituindo o que se denomina “inventário fechado”,
em oposição a “inventário aberto”, relativo aos lexemas.

Mas você deve estar se perguntando: por que “inventário aberto”? Chama‑se “inventário aberto”
porque o número de palavras desse conjunto é ilimitado e tende a aumentar ao passar do tempo.

E por que “inventário fechado”? Chama‑se “inventário fechado” porque o número de palavras desse
conjunto não tende a aumentar.

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Unidade I

Os usuários de uma língua podem aprender, com mais facilidade, os termos pertencentes a um
sistema fechado, como os artigos e preposições. Já o sistema aberto não se assimila totalmente, pois é
impossível saber todos os substantivos, adjetivos e verbos pertencentes ao idioma.

Em um enunciado, teríamos a categorização em L (= lexema) e em G (= gramema), da seguinte


forma:

Quadro 2 – Categorização em lexema e gramema

A menina de tranças entrou na sala.


em + a
G L G L L L
G G

Leia, a seguir, algumas reflexões de Maria Helena de Moura Neves, em relação às classes de
palavras:

A categorização do léxico é uma operação básica do espírito humano. [...]


A preocupação com o estabelecimento, a definição e o reconhecimento das
classes de palavras está na história das reflexões linguísticas. O conhecimento
das classes de palavras é considerado indispensável para o conhecimento
das suas funções, que é imprescindível para a compreensão do sentido da
frase. O reconhecimento dessa ligação entre classe e função, entretanto, não
pode implicar que se defenda que a cada classe corresponde uma função.
Pelo contrário, essa falsa ligação constitui um engano, que, aliás, tem raízes
históricas. [...] Falar das classes de palavras tem sido, tradicionalmente,
repetir o que se depreendeu dessa organização experiencial e lógica que
deu origem à compartimentação, sem considerar‑se a complexidade de
ocorrência das palavras e o papel das diversas classes em determinadas
funções e em determinados esquemas (NEVES, 2002, p. 119).

Isto posto, chegamos à conclusão de que o estudo da língua deve ser feito morfossintaticamente, isto
é, que, para compreendermos e descrevermos as classes de palavras, precisamos visualizá‑las na cadeia
falada e verificar que esta se organiza tanto morfológica quanto sintaticamente, daí a necessidade de
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

um estudo morfossintático.

Lembrete

Dupla articulação: 1ª articulação = plano do conteúdo; 2ª articulação


= plano da expressão.

Estruturalismo: paradigma de estudos linguísticos, que tem por base


a estrutura de uma língua, isto é, uma forma convencional que pode ser
descrita.

18
Morfossintaxe da língua portuguesa

Eixo paradigmático: eixo da seleção dos elementos linguísticos.

Eixo sintagmático: eixo da combinação dos elementos linguísticos.

Princípio da comutação: permuta dos elementos linguísticos na


cadeia falada.

Morfemas gramaticais: gramemas (inventário fechado, memorizado).

Morfemas lexicais: lexemas (inventário aberto, produtivo da língua).

Ainda segundo Sautchuk:

Quando o falante da língua produz qualquer enunciado, está sempre


articulando duas atividades linguísticas básicas: a de escolha de uma forma
e a de relação dessa forma com outra. O ato de escolher realiza‑se dentre
todo aquele acervo que ele possui de unidades linguísticas que pertencem
ao sistema fechado da língua (os gramemas) e aqueles que pertencem ao
sistema aberto (os lexemas) (SAUTCHUK, 2004, p. 3).

Verificamos então que, do ponto de vista estruturalista, gramática (enquanto sistema de regras) e
estrutura tornaram‑se sinônimos. A essa noção houve acréscimo da noção de constituintes imediatos
do estruturalismo norte‑americano e, consequentemente, a formulação das regras de estrutura
sintagmática. Para melhor compreensão dessas regras, veremos adiante a noção de sintagma.

Por ora, vamos ver a proposta de classificação das palavras, convidando você, aluno, a fazer uma
leitura mais detalhada do manual de morfossintaxe elaborado por Sautchuk, que se encontra nas
referências bibliográficas.

1. 2 Classificação morfológica das palavras

Nos estudos linguísticos, podemos observar que há uma variação nos critérios para a classificação das
palavras. Esses critérios podem ser morfológicos, sintáticos ou semânticos. Além disso, há uma tendência à
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
organização dessas classes de acordo com a visão filosófica das gramáticas que se originaram dos estudos
dos gregos. Daí a definição, por exemplo, de substantivo como “o que dá nome aos seres no mundo”.

Segundo Macambira (2001), essa designação semântica de substantivo como “aquele que dá nome
aos seres” tem pertinência em relação aos seres concretos, como “casa”, “floresta”, “roupa”; já para seres
abstratos, como esperança, o nada, o infinito, é pouco proveitosa. Além disso, existem outras palavras
usadas como substantivo como “o sim”, “o não”, “o amanhã”, “o se”, “o talvez”, “o mas”, “o quando”.

Essa classificação encontra maior dificuldade quando se trata dos lexemas, isto é, das classes que
correspondem ao inventário aberto da língua e que apresentam maior produtividade. Os critérios
mórficos e sintáticos são considerados mais seguros pelos linguistas.
19
Unidade I

Exemplificando, entre “menin–o” e “menin–a”, temos na forma as desinências “o” e “a”, que constituem
gramemas dependentes, para destacar a flexão do gênero masculino para o feminino. Assim, essas
partículas explicam morfologicamente a flexão de gênero do substantivo.

Do mesmo modo, podemos ter processos de derivação prefixal (“rever”, “infeliz”) ou sufixal
(“felizmente”, “felicidade”), assim como flexão de número (“menino/menino–s”).

Algumas palavras, como “ônibus”, “pires”, “personagem”, por exemplo, não podem ter seu gênero
definido por um morfema gramatical preso à palavra. É preciso antepor um artigo “o/a personagem”
para definir o gênero da palavra, nesse caso. Então, o critério passa a ser sintático.

Com base nesses critérios, vejamos o que propõe Sautchuk (2004) para a classificação das palavras
em língua portuguesa, uma vez que, segundo a autora, não há classificação predeterminada das palavras,
tendo em vista a posição que podem ocupar na cadeia falada.

Tipos de morfemas gramaticais:

• Classificatórios:

Vogal temática dos nomes Vogal temática dos verbos

–a : criança, artista, festa –a: falar, amar, dançar


–e: dente, estudante, príncipe –e: comer, vender, fazer
–o: sapato, cabelo, lenço –i: sorrir, sumir, fingir

• Flexionais:

Nomes – gênero e número: garot–o, garot–o–s


Verbos – número/pessoa; tempo–modo: fala–mos, fala–va
Derivacionais:
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Prefixos: a–moral; in–feliz; des–amor


Sufixos: feliz–mente; gost–oso

1.2.1 Substantivo

É toda palavra que se deixa anteceder pelos determinantes (artigos, pronomes possessivos, pronomes
demonstrativos e numerais cardinais ou ordinais). Exemplos:

a, uma, minha, esta, primeira – casa.


o, um, nosso, aquele, terceiro – filho.

20
Morfossintaxe da língua portuguesa

Esse mecanismo auxilia principalmente na identificação de substantivos abstratos, como nos


exemplos:

a, nossa – emoção.
o, primeiro – amor.

A força substantivadora dos determinantes pode transformar outra categoria em substantivo, como,
por exemplo, em:

(1) Um não significa muito para mim.

(2) O seu penar transformou‑se em inferno.

Veja que em (1) a palavra destacada geralmente é usada como advérbio de negação e passa a ser
substantivo na oração. Já no exemplo (2) a palavra destacada normalmente é um verbo, transformado
em substantivo com a anteposição do pronome possessivo.

Portanto, no caso do substantivo, é o critério sintático que assegura sua classificação, conforme
visto nos exemplos.

Lembrete

Substantivo é a palavra que se deixa anteceder por determinantes.

O artigo também vai definir o significado dos substantivos que, tendo a mesma forma, ao mudarem
de gênero, mudam de sentido. Veja os exemplos a seguir:

o cabeça – chefe, dirigente, líder;

a cabeça – parte superior do corpo humano;

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


o capital – riqueza, patrimônio de uma empresa;

a capital – cidade onde está instalada a alta administração de um país ou de um Estado;

o cisma – dissidência de opiniões;

a cisma – devaneio, sonho, fantasia.

Em alguns nomes masculinos ou femininos de gênero único, a marca do gênero está na forma do
artigo definido que exigem. Veja os exemplos:

21
Unidade I

(o) pente

(a) ponte

(o) nauta

(a) estrela

(o) livro

(a) tribo

(o) jacaré

1.2.2 Adjetivo

É a palavra que varia em gênero e número e deixa‑se articular (ou modificar) por outra da classe do
advérbio. Além disso, aceita o sufixo “mente”. Para tornar‑se mais fácil, levemos em conta que “tão” é
um advérbio (que pode ser substituído por outro intensificador, como “bem” ou “muito”, por exemplo).
Assim, em:

(3) A (minha, aquela) amiga (tão) tranquila.

(4) Um (este, meu) aluno (tão) atento.

Em (3), o adjetivo “tranquila” tem variação para o masculino “tranquilo” e poderia derivar
“tranquilamente”. Da mesma forma, em (4), “atento” tem o feminino “atenta” e pode derivar
“atentamente”.

Assim como para o substantivo, o mecanismo é eficiente mesmo quando há adjetivação de


substantivo, como no seguinte exemplo:

Ela é mulher para essa tarefa. (= Ela é muito mulher para essa tarefa).
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Veja, então, que o adjetivo pode receber o acréscimo sintático do intensificador e varia em gênero
e número, além de estar articulado a um substantivo, compondo um par com ele. Esse fato é relevante
para diferenciá‑lo do advérbio.

Lembrete

Adjetivo é a palavra que se deixa anteceder por “tão”, variável em


gênero, número e aceita o sufixo –mente.

22
Morfossintaxe da língua portuguesa

De acordo com Macambira (2001), a gramática tradicional afirma que adjetivo é toda palavra que
exprime qualidade. Porém, a bondade é uma qualidade e, no entanto, não se pode considerá‑la como
adjetivo. A maioria das palavras terminadas em “–mente” expressam também qualidade; outros que não
terminam em “–mente” como “bem” e “mal” expressam também qualidade.

Caro aluno, veja a seguir algumas reflexões sobre o gênero feitas por Sírio Possenti:

Temos claramente concordância de predicativo no feminino em frases como


“Maria é alta”. Mas temos predicativos no masculino em casos como “Pedro
é alto”, “Está cheio de laranja na geladeira”, “Aqui é bom”, “Tomar uma
cerveja seria ótimo”. Para explicar esses três casos, teríamos que aceitar uma
regra muito estranha: os predicativos concordam no feminino com nomes
femininos e concordam no masculino em três casos: a) quando se ligam a
nomes masculinos; b) quando não se ligam a nada; c) quando se ligam a
orações (plenas ou com elementos elípticos) (POSSENTI, 2001, p. 72).

Veja agora algumas hipóteses de Possenti para explicar esses fenômenos linguísticos:

[...] não há masculino e feminino, mas marca de gênero em alguns casos e


ausência de marca de gênero em outros. Os elementos marcados quanto ao
gênero, em português, coincidem exatamente com os casos que estamos
acostumados a tratar como femininos. Os outros casos, todos, seriam
considerados sem gênero (inclusive o chamado masculino). Parece evidente
que se pode aceitar que não há gênero no sujeito quando não há sujeito
(como em “está frio”); imagino que ninguém resistiria a deixar de considerar
masculinas as orações objetivas (navegar é preciso, tomar uma cerveja seria
bom etc. Restaria convencer os leitores de que o que estamos acostumados
a chamar de masculino na verdade não passa de um caso de não‑feminino,
ou seja, de ausência de gênero (POSSENTI, 2001, p. 72).

Saiba mais

Para aprofundar seus conhecimentos, leia, na integra, o artigo “Por que Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
sempre ele”, do qual foram retirados os trechos acima. Além desse, há outros
artigos relevantes no livro do professor Possenti, sobre vários aspectos linguísticos.
Os dados completos do livro encontram‑se nas referências bibliográficas.

1.2.3 Verbo

Além de ser a classe que admite desinências de número, pessoa, tempo e número, é a única classe
que se articula com os pronomes pessoais do caso reto. É por esse motivo que o falante tende a conjugar
o verbo para reconhecê‑lo como tal.
23
Unidade I

(5) Eu – falo, amo, possuo.

Nós – falamos, amamos, possuímos.

Lembrete

Verbo é a palavra que se articula aos pronomes pessoais retos e admite


desinências de pessoa, número, tempo, modo.

Desinência número‑pessoal:

Fal‑o

Fal‑a‑mos

Desinência modo‑temporal:

Fal‑a‑va

Fal‑á‑va‑mos

Particularidades das vogais temáticas nos verbos:

• Não há vogal temática na primeira pessoa do singular do indicativo presente e em todo o presente
do subjuntivo. Exemplos:

AMO: radical AM–; desinência número‑pessoal: –O

AME: radical AM–; desinência modo‑temporal: –E

• O verbo pôr e seus compostos pertencem à segunda conjugação, como se comprova pelo
aparecimento da vogal temática –e– em algumas formas. Exemplos:
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

pus‑E‑mos

impus‑E‑r

compus‑E‑sse

• As vogais temáticas podem sofrer alterações formais (alomorfes), dependendo de terminados


fatores:

24
Morfossintaxe da língua portuguesa

a) a vogal temática –a–, no pretérito perfeito do indicativo, transforma‑se em –e– e –o–, quando
seguida de –i– ou –u–, respectivamente. Exemplos:

Am‑E‑i

Am‑O‑u

Cant‑O‑u

Cant‑E‑i

b) A vogal temática –e–, no imperfeito do indicativo e no particípio assume a forma –i– (segunda
conjugação). Exemplos:

Imperfeito:

Beb‑I‑a

Beb‑I‑as

Beb‑Í‑a‑mos

Particípio:

Beb‑I‑do

c) A vogal temática –I–, quando átona, passa a –E– no presente do indicativo. Exemplos:

Part‑E‑s

Part‑E

Part‑E‑m
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
Veja a seguir uma análise mais detalhada da formação dos verbos:

VT = Vogal temática

DMT = Desinência modo‑temporal

DNP = Desinência número‑pessoal

25
Unidade I

Modelo: verbo “chamar”

Pretérito Perfeito do Indicativo

VT DMT DNP
CHAM E não há I
CHAM A não há STE
CHAM O não há U
CHAM A não há MOS
CHAM A não há STES
CHAM A não há RAM

Futuro do Presente do Indicativo

VT DMT DNP
CHAM A RE I
CHAM A RÁ S
CHAM A RÁ vazio
CHAM A RE MOS
CHAM A RE IS
CHAM A RÃ O

Futuro do Subjuntivo

VT DMT DNP
CHAM A R vazio
CHAM A R ES
CHAM A R vazio
CHAM A R MOS
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

CHAM A R DES
CHAM A R EM

Modelo: verbo “vender”

Presente do Indicativo

VT DMT DNP
VEND E vazio O
VEND E vazio S

26
Morfossintaxe da língua portuguesa

VEND E vazio vazio


VEND E vazio MOS
VEND E vazio IS
VEND E vazio M

Pretérito Imperfeito do Indicativo

VT DMT DNP
VEND I A vazio
VEND I A S
VEND I A vazio
VEND I A MOS
VEND I E IS
VEND I A M

Pretérito Imperfeito do Subjuntivo

VT DMT DNP
VEND E SSE vazio
VEND E SSE S
VEND E SSE vazio
VEND Ê SSE MOS
VEND Ê SSE IS
VEND E SSE M

Modelo: verbo “partir”

Futuro do Pretérito Indicativo

VT DMT DNP
PART I RIA vazio Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

PART I RIA S
PART I RIA vazio
PART I RIA MOS
PART I RIE IS
PART I RIA M

PART I RIA vazio

27
Unidade I

1.2.4 Advérbio

É a classe que se articula ao verbo, ao adjetivo e ao próprio advérbio, além de não variar em gênero
e número (como varia o adjetivo). Do ponto de vista morfológico, toda palavra que aceitar o sufixo
“mente” passa a ser um advérbio. Exemplos:

(6) Todos pareciam bem.

(7) Todos estavam bem cansados.

(8) Todos chegaram bem mal.

No exemplo (6), “bem” é advérbio modificador do verbo “pareciam”, já no exemplo (7) o advérbio
“bem” modifica o adjetivo “cansados”. E veja que no exemplo (8) “bem” é um advérbio que modifica
outro advérbio, “mal”, dando‑lhe intensidade.

Exemplo de advérbio que incide sobre um adjetivo:

Essas atitudes são realmente importantes.

Exemplo de advérbio que incide sobre um verbo:

Acho que este livro vai realmente servir para minha tese.

Exemplo de advérbio que incide sobre um advérbio:

Ele, quase inaudivelmente, murmurou.

Observação

Importante: um advérbio também pode incidir sobre um enunciado:


Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Realmente, você não sabe o que diz.

Outra característica do advérbio é deixar‑se articular por “tão” (ou equivalente), como os adjetivos.
No entanto, o primeiro não varia em gênero e número, ao passo que o segundo varia. Essa particularidade
abrange advérbios que fazem parte do inventário fechado da língua, isto é, não são derivados de
adjetivos. Veja os seguintes exemplos:

(9) Sua casa fica perto. (Sua casa fica tão perto.).

(10) Eles partirão depois. (Eles partirão bem depois.).

28
Morfossintaxe da língua portuguesa

Nos exemplos (9) e (10), os advérbios “perto” e “depois” pertencem ao inventário fechado, já foram
memorizados como advérbios de lugar e de tempo pelo falante.

O mesmo acontece com adjetivos que são adverbializados. Vejamos o que ocorre nos exemplos
seguintes.

(11) Falei alto para a multidão (alto = advérbio, pois é invariável e se deixa anteceder por “tão”, além
de se articular ao verbo, modificando‑o).

(12) Paguei barato nessa camisa cara (barato = advérbio, que modifica o verbo, é invariável e se
deixa anteceder por “tão”; cara = adjetivo que modifica o substantivo, é variável e se deixa anteceder
por “tão”).

Há advérbios de natureza pronominal, que constituem um inventário fechado e, por isso, são mais
facilmente reconhecidos. É o caso de “cá”, “aqui”, “acolá”, “lá”. Há também os de natureza nominal, que,
da mesma forma, constituem um inventário fechado, como “agora”, “nunca”, “sempre”, “hoje”, “ontem”,
“amanhã”.

Existem também alguns advérbios que são quantificadores e não se deixam anteceder pelo
intensificador “tão”, como é o caso de “meio”, “mais”, “menos”, “demais”. São palavras invariáveis e
articulam‑se a um adjetivo ou a um verbo (Ex.: Ela está meio cansada. / Coma menos bolacha.).

Como o adjetivo já é um modificador de um substantivo, normalmente, quando vem acompanhado de


um advérbio, este funciona como intensificador daquele (“muito bom”, “feliz demais”, “mais/menos triste”).

As demais classes de palavras (artigos, pronomes, numerais, preposições e conjunções) constituem um


inventário fechado, portanto, é de conhecimento do falante, uma vez que se encontram memorizadas
por ele.

Lembrete

Advérbio é a palavra que se deixa anteceder por “tão”, invariável em


Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
gênero e número.

Há advérbios que se formam a partir de adjetivos como o acréscimo do sufixo “–mente”. Estes
constituem o inventário aberto. Já outros constituem o inventário fechado e trata‑se daqueles que já
foram memorizados como tal (por exemplo, aqui, lá, longe, perto etc.)

Lembrete

O advérbio pode se articular a um verbo, a um adjetivo ou a outro


advérbio.
29
Unidade I

• Veja alguns advérbios que indicam lugar: aqui, cá, lá, acolá, ali, aquém, algures (em algum lugar),
alhures (em outro lugar), atrás, fora, dentro, perto, longe, adiante, onde, avante, através.
• Alguns advérbios que indicam tempo: amanhã, hoje, depois, antes, agora, anteontem, ontem,
sempre, nunca, já, logo, cedo, tarde, ora, afinal, outrora, então, breve, entrementes, brevemente,
imediatamente.
• Alguns advérbios que indicam modo: bem, mal, assim, depressa, devagar, como, debalde, pior,
melhor, suavemente, comumente.
• Alguns advérbios que indicam intensidade: muito, pouco, assaz, mais, menos, tão, bastante,
demasiado, meio, completamente, profundamente, quanto, tanto, bem, mal quase.
• Alguns advérbios de afirmação: sim, deveras, certamente, realmente, efetivamente.
• Alguns advérbios de dúvida: acaso, porventura, possivelmente, quiçá, decerto, provavelmente.
• Alguns advérbios interrogativos: onde? Quando? Por que? Como?

Segundo Neves (2000), alguns advérbios modalizadores têm como característica básica expressar
alguma intenção do falante em relação ao valor de seu enunciado. O uso dos advérbios e das locuções
adverbiais modalizadoras constitui uma das estratégias para marcar essa atitude do enunciador em
relação ao que ele próprio diz. Esses aspectos são muito estudados pela Linguística Textual.

Observe a seguir alguns desses modalizadores:

Modalizadores epistêmicos

Esses advérbios expressam uma avaliação que passa pelo conhecimento do falante. O que se avalia
é o valor da verdade do que é dito no enunciado. Exemplos:

Muitos alunos já provaram, incontestavelmente, sua capacidade.

Eventualmente, ele poderá testar seus conhecimentos.

Ela ainda não sabia de nada certamente.


Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Sem dúvida, passamos por vários perigos naquele lugar.

Modalizadores delimitadores

Esses advérbios relacionam‑se às afirmações e às negações. O falante apresenta os limites dentro dos
quais o enunciado deve ser interpretado. Exemplos:

Eu, particularmente, sou a favor do seu projeto.

As mulheres são biologicamente iguais aos homens?


30
Morfossintaxe da língua portuguesa

Modalizadores deônticos

Esses advérbios apontam, em um enunciado, a atitude do falante em relação a algo que deva ocorrer.
Exemplos:

Os funcionários terão obrigatoriamente que participar de cursos de reciclagem.

Necessariamente, teremos que viajar na próxima semana.

Modalizadores afetivos

Por meio desses advérbios, os falantes exprimem reações emotivas, quer dizer, manifestam
posicionamento em relação ao que é afirmado ou negado. De acordo com Neves (2000), essa manifestação
pode ser apenas subjetiva, envolvendo as emoções do falante (felicidade, surpresa, curiosidade) e pode
também ser intersubjetiva, envolvendo um sentimento que se defina pelas relações entre falante e
ouvinte (sinceridade, franqueza). Exemplos:

O problema, lamentavelmente, existe há muito tempo.

Felizmente, chegamos a tempo na reunião.

Honestamente, não sei o que faria se isso acontecesse comigo.

Saiba mais

Há muitas estratégias que o professor de português pode utilizar, em


suas aulas, para mostrar aos alunos os efeitos de sentido produzidos pelos
modalizadores. Veja as dicas disponíveis no site <www.portaldoprofessor.
mec.gov.br/fichatecnicaaula.html>.

Caro aluno, como você já verificou, os verbos podem ser decompostos em partes, assim como outras

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


palavras. Apresentamos, a seguir, algumas dessas partes que compõem as palavras:

Raiz: é o elemento fundamental da palavra, que não pode ser mais decomposto e nele transparece
o sentido básico. Além disso, é comum às palavras cognatas (palavras da mesma família). Por exemplo,
REG– é a raiz das palavras cognatas: reger, régua, regular.

Afixos: são elementos de significação secundária que se agregam à raiz para formar uma nova
palavra, derivada da primeira. Podem ser prefixos ou sufixos.

a) Prefixos: são os afixos que se antepõem à raiz da palavra. Os prefixos empregados nas palavras
portuguesas são de origem latina ou grega. Veja alguns prefixos de origem latina:

31
Unidade I

AMBI– (duplicidade): ambidestro, ambivalência;


ANTE– (posição anterior): antebraço, anteontem;
BI– (duas vezes): bisavô, bípede;
CIS– (posição além): cisalpino;
DES– (negação): desfazer, desacreditar;
IN– (movimento para dentro): inalar, incorporar;
PER– (movimento através de): percorrer, perfurar;
POS– (posição posterior): pós‑graduação, posposto;
PRE– (anterioridade): prefixo, pré‑história;
RETRO– (para trás): retroativo, retrovisor;
SUB– (posição abaixo de): subchefe, sublocar;
SUPER–, SOBRE– (posição superior): superpopulação, sobrecarga.

Veja agora alguns prefixos gregos:

ANFI– (duplicidade): anfíbio, anfiteatro;


ANTI– (oposição): antibiótico, antítese;
DIÁ– (através de): diáfano, diálogo;
DIS– (mau funcionamento): disenteria, dispneia;
ENDO– (direção para dentro): endotérmico, endometriose;
EPI– (posição superior): epicentro, epiderme;
HEMI– (metade): hemisfério;
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

HIPER– (posição superior, excesso): hiperacidez, hipérbole;


HIPO– (posição inferior, insuficiência): hipoderme, hipótese;
METÁ– (posterioridade, mudança): metafísica, metáfora;
PARÁ– (proximidade, ao lado): paradigma, paráfrase;
POLI– (pluralidade): polissemia, politeísmo;
SIN– (simultaneidade, reunião): sinfonia, sincrônico.

32
Morfossintaxe da língua portuguesa

Veja agora a correspondência entre alguns prefixos gregos e latinos:

Quadro 3 – Prefixos

Grego Latino significado exemplos


des– a– negação ateu desleal
anfi– ambi– duplicidade anfíbio, ambivalente
di– bi– duas vezes dígrafo, bimestre
eu– bene– bem, bom eufonia, benévolo
para– ad– proximidade paráfrase, adjacente
peri– circum– em torno de periscópio, circumpolar

b) Sufixos: são os afixos que se pospõem à raiz da palavra. Os sufixos mais numerosos em língua
portuguesa são de origem latina ou grega. Veja alguns deles a seguir:

Sufixos: –dor, –tor, –sor, –eiro, –ista, –nte, –ário.


Sentido: agente, profissional.
Exemplos: nadador, tradutor, revisor, artista, estudante, bibliotecário.

Sufixos: –ada, –agem, –ção, –mento.


Sentido: ação ou resultado da ação.
Exemplos: cabeçada, aprendizagem, doação, pensamento.

Sufixos: –dade, –ência, –ez, –ura.


Sentido: qualidade, estado.
Exemplos: debilidade, paciência, pequenez, formosura.

Sufixos: –acho, –culo, –inho, –zinho.


Sentido: diminutivo.

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


Exemplos: riacho, corpúsculo, menininho, animalzinho.

Sufixos: –aço, –anzil, –ão, –orra.


Sentido: aumentativo.
Exemplos: ricaço, corpanzil, portão, cabeçorra.

Sufixos: –ado, –ato, –aria, –tório, –tério.


Sentido: lugar.
Exemplos: principado, sindicato, livraria, dormitório, cemitério.
33
Unidade I

Sufixos: –ismo, –tica.


Sentido: ciência, técnica, sistema doutrinário.
Exemplos: cristianismo, cibernética.

Sufixos: –al, –estre, –tico.


Sentido: relativo a, que contém a qualidade de.
Exemplos: espiritual, campestre, aromático.

Sufixos: –az, –into, –onho.


Sentido: intensidade, qualidade em abundância.
Exemplos: voraz, faminto, medonho.

Sufixos: –aco, –enho, –ense, –ita.


Sentido: origem, naturalidade.
Exemplos: austríaco, caribenho, cearense, moscovita.

Sufixos: –ável, –ível, –úvel.


Sentido: inclinação, tendência.
Exemplos: louvável, comestível, solúvel.

Veja mais alguns sufixos:

Sufixos: –icar, –itar, –inhar.


Sentido: ação diminutiva e repetida.
Exemplos: bebericar, saltitar, escrevinhar.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Sufixos: –ecer, –escer.


Sentido: ação que principia.
Exemplos: amanhecer, renascer.

Sufixos: –izar, –ntar.


Sentido: ação causadora.
Exemplos: humanizar, esquentar.

34
Morfossintaxe da língua portuguesa

Radical: é a raiz da palavra acrescida de afixos, se houver. Não havendo qualquer afixo, raiz e radical
se confundem. Assim, na palavra REGer, eliminando‑se a desinência –er, fica‑se com a raiz que, nessa
palavra, é também radical.

Para você entender melhor o que é o radical, pense em uma forma como –terr–, por exemplo. A
partir desse segmento foram formadas muitas palavras, acrescentando determinados elementos, tais
como morfemas derivacionais (prefixos e sufixos), morfemas flexionais (desinências), vogal temática.

Observe a formação das palavras a seguir:

TERRa
TERReno
TERRestre
EnTERRar
DesenTERRar

Um grupo de palavras que apresentam um radical comum é um grupo de palavras cognatas.

Veja a seguir alguns radicais gregos presentes nas palavras de língua portuguesa:

Biblion (livro): biblioteca, bibliófilo.


Cardia (coração): cardialgia, cardiograma.
Citos (célula): leucócito, citologia.
Cosmos (mundo): cosmogonia, cosmonauta.
Crátos (poder, força): democracia, plutocracia.
Crónos (tempo): diacrônico, sincrônico.
Glossa, glota (língua): poliglota, glossário.
Filos (amigo): filólogo, filantropia.
Hedra (face, base): poliedro, dodecaedro.
Hipnos (sono): hipnotismo, hipnose. Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Pan, pantos (tudo, todo): panorama, panteísmo.


Pseudo (falso): pseudônimo, pseudosofia.
Sofia (sabedoria): filosofia.
Tópos (lugar): topografia, toponímia.
Xeno (estrangeiro): xenofobia, xenomania.

35
Unidade I

Observe a seguir alguns radicais latinos:

Agri (campo): agricultor.


Api (abelha): apicultor.
Beli (guerra): beligerante.
Cord (coração): cordial.
Gni (fogo): ignição.
Multi (numeroso): multinacional.
Oni (tudo, todo): onipresente.
Pedi (pé): pedicure.
Pisci (peixe): pisciforme.
Pluri (muitos): plurilíngue.
Pleni (cheio, pleno): plenitude.
Pluvio (chuva): pluviômetro.
Prim(o) (primeiro): primogênito.
Tri (três): triciclo.
Uni (um): unívoco.

Saiba mais

Pesquise, no dicionário, alguns tipos de medo (fobias) a que os seres


humanos estão sujeitos no seu dia a dia: nosofobia, hipnofobia, dendrofobia,
neofobia, hidrofobia, acrofobia, amaxofobia, agorafobia, ginecofobia,
xenofobia, psicrofobia, necrofobia, fotofobia.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Vogais ou consoantes de ligação: elementos sem qualquer significado que se intercalam entre os
outros elementos que formam a palavra, para facilitar a pronúncia. Exemplos: cafe–I–cultura; gas–O–
metro; cha–L–eira.

Vogal temática: vogal que se acrescenta ao radical de certas palavras; essa vogal amplia o radical
e o prepara para receber as desinências. Em relação aos verbos, –a– é a vogal temática da primeira
conjugação; –e– é a vogal temática da segunda conjugação; –i– é a vogal temática da terceira conjugação.
Nos nomes são as vogais átonas finais –a, –e, –o. Exemplos:

Rosa

36
Morfossintaxe da língua portuguesa

Poeta
Triste
Livro
Tribo

Observação

• O –o final será vogal temática, quando substituído por –a, não


há oposição masculino/feminino. Exemplo: na palavra “livro”, não há
oposição masculino/feminino (livr–?).

• O –o final será desinência de gênero quando a sua substituição


por –a vai enquadrar o vocábulo na categoria de gênero feminino. Há
então oposição masculino/feminino. Exemplo: menino (masculino)/
menina (feminino).

Os nomes terminados em consoante (lar, azul) e em vogal tônica (café, caju) são atemáticos, isto é,
não possuem vogal temática.

Tema: radical acrescido de uma vogal, denominada “vogal temática”. Nos nomes nem sempre é fácil
apontar a vogal temática, quando coincide com as desinências de gênero, ou não passa de simples
semivogal; além disso, pode nem existir. Nos verbos, obtém‑se o tema com a eliminação da desinência de
infinitivo (–R). Exemplos: ama– é o tema (amaR), AM– é o radical e –A– a vogal temática (característica
da primeira conjugação).

2 PROCESSOS DE FORMAÇãO DE PALAVRAS

Em português, são dois os principais processos de formação de palavras: composição e derivação. A


composição consiste na criação da palavra nova por meio da união de duas outras ou mais. A associação
desses elementos pode ser feita por justaposição ou por aglutinação.

Na justaposição, os elementos linguísticos conservam a sua independência, tendo cada radical o Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
seu acento tônico, não havendo perda de sons em qualquer dos componentes. Exemplos: amor‑perfeito,
segunda‑feira, passatempo, pontapé. Na aglutinação, os dois elementos se fundem num todo, com
um só acento tônico, havendo, inclusive, perda de sons. Exemplos: aguardente (água+ardente); embora
(em+boa+hora); pernalta (perna+alta).

A derivação consiste na formação de palavras novas por meio de prefixos ou sufixos. Daí
a divisão em prefixação e sufixação. Exemplos de prefixação: reter, semicírculo, percorrer,
hipótese.

37
Unidade I

Veja que a derivação prefixal é um processo muito presente no português contemporâneo. Ao unir‑se
a uma base, o prefixo exerce a função de acrescentar‑lhe variados significados como grandeza, exagero,
oposição, pequenez, repetição. Por exemplo, o prefixo “mega–“ tem gerado um grande número de palavras
que indicam grandeza como “megacomício”, “megacomemoração”, “megashow”, “megaliquidação”.

Observe o que ocorre com alguns prefixos. Alves (1994) aponta que alguns prefixos, antepostos a uma base,
atribuem‑lhe um significado; algum tempo depois, passam a concorrer com tal elemento ao serem empregados,
de forma isolada, em função substantiva e com o valor semântico da palavra à qual se prefixaram. Exemplos:

Acordo anti‑inflação: uma tentativa de evitar a hiper.

Outros micros também recebem ordem de copiar o programa invasor.

Assim, hiper e micros perderam em parte o significado prefixal primitivo e adquiriram a função
semântica desempenhada pelos substantivos hiperinflação e microcomputadores, respectivamente,
constituindo uma forma reduzida.

Exemplos de sufixação: pedreiro, casamento, bebedouro, socialista.

De acordo com Alves (1994), no âmbito dos sufixos formadores de substantivos e dos adjetivos,
“–ismo” e “–ista” apresentam‑se entre os mais produtivos. O sufixo “–ismo” une‑se a bases substantivas,
adjetivas ou verbais. Exemplos:

Havia muitos seguidores do Brizolismo.

Hoje em dia, muitos são “achistas” em suas argumentações.

Na literatura também são comuns os neologismos. Leia o poema “Neologismo”, de Manuel Bandeira,
escrito em 1947:

Beijo pouco, falo menos ainda,

Mas invento palavras


Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar

Intransitivo:

Teadoro, Teodora.
BANDEIRA, 1967, p. 281.

38
Morfossintaxe da língua portuguesa

Veja alguns exemplos de neologismos em poemas de Carlos Drummond de Andrade, destacados por
Alves (1994).

“Estou comprometida para sempre / eu que moro e desmoro há tantos anos / Grande Hotel do
Mundo sem gerência”.
ANDRADE, 2002, p. 448.

“Quero que me repitas até a exaustão / que me amas que me amas que me amas / Do contrário
evapora‑se a amação”.
ANDRADE, 1983, p. 181.

“desabando nem gritar / dava tempo soterrados / novos desabamentos insistiam/ sobre peitos em pó
/ desabadesabadesabadavam / As ruínas formaram / outra cidade em ordem definitiva.”
ANDRADE, 1983, p. 469.

Saiba mais

Procure pesquisar nas obras do escritor Guimarães Rosa algumas


criações lexicais literárias. Elas dão um efeito especial ao texto porque
fogem ao uso comum da língua.

Há outro tipo de derivação chamada “regressiva”, em que não se acrescenta sufixo, mas palavra
primitiva é reduzida, originando‑se novo vocábulo. Caracteriza‑se pela formação de um substantivo
abstrato de ação a partir de verbo. Por isso, tais substantivos são chamados “deverbais”. Exemplos:

o atraso (= o ato de atrasar);

o combate (= o ato de combater);

a renúncia (= o ato de renunciar);


Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
o estudo (= o ato de estudar);

a volta (= o ato de voltar);

a pesquisa (= o ato de pesquisar).

Segundo Henriques (2007), a regressão se caracteriza pela ausência de sufixo, contrariando a relação
entre verbos e substantivos, que consiste em o nome ser o vocábulo primitivo e dele se formar o verbo
– como normalmente ocorre com os adjetivos. Exemplos:

39
Unidade I

forte > fortalecer;


belo > embelezar.

Isso também ocorre com os substantivos concretos:

a máquina > maquinar;

a escova > escovar.

Outro processo de formação de palavras é a braquissemia ou abreviação, ou seja, o processo de


reduzir um vocábulo, geralmente longo, por comodidade expressiva. Exemplos:

moto > motocicleta;

eletro > eletrocardiograma ou eletrodoméstico

Henriques (2007) aponta a truncação como um tipo de abreviação. Nela, uma parte da sequência
lexical é eliminada. Exemplos:

niver > aniversário;

su > sucesso.

Outro processo de formação de palavras é a reduplicação. Esta consiste na repetição de sílabas


semelhantes ou iguais, principalmente com o intuito de formar palavra onomatopaica (imitativa).
Exemplos: reco‑reco, tique‑taque.

2.1 Neologismos fonológicos

Segundo Alves (1994), os neologismos são criados a partir de um item lexical criado sem tomar
como base nenhuma palavra já existente. Exemplo: bebemorar, para fazer par com comemorar, associa
as ideias de beber e comer.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Veja esse exemplo muito relevante: “um exemplo muito utilizado pela mídia [...] ocorreu com a
palavra valerioduto, popularizada pela imprensa para se referir a um dos muitos e grandes escândalos
da política brasileira” (HENRIQUES, 2007, p. 140).

2.2 Neologismos: estrangeirismos

Os estrangeirismos são casos especiais de neologismos lexicais. Sandmann (1992) aponta três tipos
de empréstimos:

40
Morfossintaxe da língua portuguesa

2.2.1 Empréstimo lexical

O empréstimo lexical caracteriza‑se pela incorporação da palavra estrangeira em sua forma original.
Exemplos:

Pizza
Ghost‑writer
Pole position
Clip
Gauche
Grid

A palavra estrangeira também já pode estar adaptada plenamente à língua portuguesa:

Blecaute
Copirraite

Veja alguns estrangeirismos de origem francesa que foram aportuguesados:

Abat‑jour: abajur
Bouquet: buquê
Bibelot: bibelô
Cliché: clichê
Champagne: champanha ou champanhe
Garage: garagem
Glacé: glacê
Limousine: limusine
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
Tricot: tricô
Vitrine: vitrina

Veja alguns estrangeirismos de origem inglesa que foram aportuguesados:

Club: clube
Drink: drinque
Foot‑ball: futebol

41
Unidade I

Jeep: jipe
Jockey: jóquei
Picnic: piquenique
Sandwich: sanduíche
Shampoo: xampu
Snob: esnobe
Sport: esporte

Veja alguns estrangeirismos de origem italiana que foram aportuguesados:

Ghetto: gueto
Gnocchi: nhoque
Libretto: libreto
Lasagna: lasanha
Ravioli: ravióli

2.2.2 Empréstimo semântico

O empréstimo semântico é marcado pela tradução ou substituição de morfemas, para preservar a


ideia que é importada. Exemplos:

Hot dog > cachorro‑quente

Mezzo‑soprano > meio‑soprano

Haute‑couture > alta costura

2.2.3 Empréstimo estrutural


Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

O empréstimo estrutural consiste na importação de um modelo que não é vernáculo, como na


antecipação do determinante. Exemplo:

Videoconferência em vez de “conferência por vídeo”.

Recentemente, houve uma grande polêmica em torno do projeto de lei nº 1676/99, apresentado pelo
deputado Aldo Rebelo à Câmara dos Deputados. Rebelo propunha uma política linguística contra o uso
dos estrangeirismos. Veja trechos do projeto de lei nº 1676 de 1999:

42
Morfossintaxe da língua portuguesa

[...]

Art. 3º. É obrigatório o uso da língua portuguesa por brasileiros natos e naturalizados,
e pelos estrangeiros residentes no País há mais de 1 (um) ano, nos seguintes domínios
socioculturais:

I – no ensino e na aprendizagem;

II – no trabalho;

III – nas relações jurídicas;

IV – na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica oficial;

V – na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica em eventos públicos nacionais;

VI – nos meios de comunicação de massa;

VII – na produção e no consumo de bens, produtos e serviços;

VIII – na publicidade e no consumo de bens, produtos e serviços.

§ 1º. A disposição do caput, I–VIII deste artigo não se aplica:

I – situações que decorrem da livre manifestação do pensamento da livre expressão da


atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, nos termos dos incisos IV
e IX do art. 5º da Constituição Federal;

II – a situações que decorrem de força legal ou de interesse nacional;

III – a comunicações e informações destinadas a estrangeiros, no Brasil ou no exterior;

IV – a membros das comunidades indígenas nacionais;


Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
V – ao ensino e à aprendizagem das línguas estrangeiras;

VI – a palavras e expressões em língua estrangeira que decorram de razão social, marca ou


patente legalmente constituída.

§ 2º. A regulamentação desta lei cuidará das situações que possam demandar:

I – tradução, simultânea ou não, para a língua portuguesa;

43
Unidade I

II – uso concorrente, em igualdade de condições, da língua portuguesa com a língua ou


línguas estrangeiras.

Art. 4º. Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira, ressalvados
os casos excepcionados nesta lei e na sua regulamentação, será considerado lesivo ao
patrimônio cultural brasileiro, punível na forma da lei.

Parágrafo único. Para efeito do que dispõe o caput deste artigo, considerar‑se‑á:

I – prática abusiva, se a palavra ou expressão em língua estrangeira tiver equivalente em


língua portuguesa;

II – prática enganosa, se a palavra ou expressão em língua estrangeira puder induzir


qualquer pessoa, física ou jurídica, a erro ou ilusão de qualquer espécie;

III – prática danosa ao patrimônio cultural, se a palavra ou expressão em língua


estrangeira puder, de algum modo, descaracterizar qualquer elemento da cultura
brasileira.

Art. 5º. Toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira posta em uso no
território nacional ou em repartição brasileira no exterior a partir da data da publicação
desta lei, ressalvados os casos excepcionados nesta lei e na sua regulamentação, terá que
ser substituída por palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de 90
(noventa) dias a contar da data do registro da ocorrência.

Parágrafo único. Para efeito do que dispõe o caput deste artigo, na inexistência de
palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa, admitir‑se‑á o aportuguesamento
da palavra ou expressão em língua estrangeira ou o neologismo próprio que venha a ser
criado.

Art. 6º. A regulamentação desta lei tratará das sanções administrativas a serem aplicadas
àquele, pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que descumprir qualquer disposição
desta lei.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Art. 7º. A regulamentação desta lei tratará das sanções premiais a serem aplicadas àquele,
pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que se dispuser, espontaneamente, a alterar o
uso já estabelecido de palavra ou expressão em língua estrangeira por palavra ou expressão
equivalente em língua portuguesa.

Art. 8º. À Academia Brasileira de Letras, com a colaboração dos Poderes Legislativo,
Executivo e Judiciário, de órgãos que cumprem funções essenciais à justiça e de instituições
de ensino, pesquisa e extensão universitária, incumbe realizar estudos que visem a subsidiar
a regulamentação desta lei.

44
Morfossintaxe da língua portuguesa

Saiba mais

Para você conhecer a opinião de vários autores, procure pesquisar mais


no livro Estrangeirismos: guerras em torno da língua, organizado por Carlos
Alberto Faraco, que se encontra na bibliografia.

Observe, a seguir, alguns trechos de artigos que compõem o livro de Carlos Alberto Faraco:

Em uma sociedade como a brasileira, na qual é imensa a disparidade na


capacidade de consumo dos cidadãos e na qual a classe social consumidora
sofre de grande insegurança social e se mira em modelo externo de consumo,
norte‑americano ou europeu, não surpreende que o anglicismo se preste
para marcar a diferenciação competitiva entre quem dispõe desse capital
simbólico e a massa não consumidora. Temos aí mais do que preconceito.
A força desse desejo parece irrefreável. Dele resultam muitos empréstimos,
desnecessários na sua maioria, de gosto duvidoso quase sempre (e gosto
linguístico se discute, é claro). Ou seja: seriam imprescindíveis esses
estrangeirismos? Não. Desejados? Sim, por muitos de nós. Fazem mal? Tanto
quanto as ondas que vieram antes, como a dos galicismos – os empréstimos
franceses do início do século XX – passageiros, na maior parte; incorporados
sem cicatrizes, os mais úteis ou simpáticos. Reprimi‑los, por quê? (GARCEZ;
ZILLES apud FARACO, 2001, p. 25).

O projeto de Aldo Rebelo poderia ser visto apenas pelo seu lado grotesco;
ou como um oportunismo face a seus evidentes efeitos midiáticos.
Machado de Assis, aliás, se vivo fosse, estaria se deliciando em ironizar as
“boas intenções” do deputado, como o fez em suas belas crônicas contra a
cruzada antiestrangeirismos do médico Carlos Lopes nos fins do século XIX.
A situação, contudo, é bem mais complexa do que aparenta. É importante
observar que o referido projeto agrada incondicionalmente aos xenófobos,
aos nacionalistas canhestros, aos autoritários em geral (vide as seções de

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


cartas dos leitores dos principais jornais do país). E não agrada a esses
segmentos sociais por mero acaso. O projeto se sustenta nesses discursos
sociais (o que fica bastante óbvio quando se lê sua justificativa); e, ao mesmo
tempo, os sustenta. Há, no projeto, um indisfarçável desejo de controle social
da pior espécie, daquele que, ignorando a heterogeneidade e a dinâmica da
vida cultural, quer impor o homogêneo e o único (FARACO, 2001, p. 44‑45).

É triste verificar que, no Brasil, todas as iniciativas de política linguística


sempre foram marcadas pela desconsideração das reais necessidades do
povo, quando não pelo autoritarismo nu e cru: entre nós, política linguística
sempre foi equivalente de repressão linguística. [...] A proibição da língua
45
Unidade I

geral cortou os vínculos do povo brasileiro com seus ancestrais indígenas,


ou seja, com seu próprio solo, sua própria ecologia; esmagou na semente
o que talvez fosse a constituição de uma identidade nacional verdadeira
– que poderia ter se constituído em torno daquela língua –, obrigando‑nos
até hoje a buscar uma identificação com algo que está fora de nós, com
uma Europa distante e estranha, em vez de procurar nossas raízes em nosso
próprio espaço físico e cultural (BAGNO apud FARACO, 2001, p. 54).

Outra coisa importante é lembrar que os estrangeirismos não alteram a


estrutura da língua, a sua gramática. Por isso, não são capazes de destruí‑la,
como juram os conservadores. É o mesmo que temer que alguns desenhos
coloridos pintados na fachada de um prédio possam fazê‑lo desmoronar.
Os estrangeirismos contribuem apenas no nível mais superficial da
língua, que é o léxico. (...) Embora os substantivos sejam todos de origem
inglesa (e a raiz do verbo flertar também), a sintaxe e a morfologia são
perfeitamente portuguesas, como se verifica pela desinência do verbo, pelas
preposições e pelos artigos. A ordem das palavras no enunciado – primeiro
sujeito, depois o verbo, depois o objeto e por fim os adjuntos adverbiais –
correspondem integralmente à ordem normal da sintaxe portuguesa. Além
disso, nossa pronúncia dessas palavras estrangeiras se faz de acordo com
as características fonético‑fonológicas do português brasileiro, ou seja, elas
são tratadas foneticamente como se não fossem estrangeiras (BAGNO apud
FARACO, 2001, p. 74‑75).

2.3 Funções dos gramemas na relação morfossintática

Essas classes correspondem aos gramemas independentes e têm suas finalidades, as quais sugerem
a seguinte classificação (de acordo com Sautchuk):

Determinantes: artigos, pronomes possessivos, demonstrativos, indefinidos em posição adjetiva,


pronomes relativos. Exemplos: “o livro”; “minha blusa”; “aquele dia”; “nenhuma dúvida”; “garota cujo
pai”.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

• Artigos definidos: o(s), a(s); indefinidos: um(ns), uma(s).


• Pronomes possessivos: meu/minha, teu/tua, seu/sua, nossa/nossa, vosso/vossa.
• Pronomes demonstrativos: este(a), estes(as); esse(a), esses(as); aquele(a), aquele(s), aquela(s).
• Pronomes indefinidos: certo(s), certa(s); algum(ns), alguma(s); qualquer, quaisquer; nenhum(ns),
nenhuma(s).
• Pronomes relativos: que; quem; o(s) qual(is), a(s) qual (is); cujo(s), cuja(s), onde. Substitutos:
pronomes em posição substantiva, como é o caso dos pronomes retos. Exemplo: “Ele é o
escolhido”.

46
Morfossintaxe da língua portuguesa

• Pronomes pessoais do caso reto: eu, tu, ele, nós, vós, eles.

Pronomes pessoais do caso oblíquo: o(s), a(s), lhe(s), me, mim, comigo, te, ti, contigo, se, si, consigo,
conosco, convosco.

Quantificadores: numerais cardinais, alguns advérbios, como “muito”, “pouco”, “demais”; alguns
pronomes indefinidos (em posição adjetiva), como “muito(s)/muita(s)”, “todo(s)/toda(s)”. Exemplos: “os
dois parceiros”, “livro muito extenso”, “muito pouco provável”.

• Numerais cardinais: um, dois, três, quatro, cinco, seis etc.


• Numerais ordinais: primeiro, segundo, terceiro, quarto etc.
• Numerais fracionários: meio, um terço, um quarto etc.
• Numerais multiplicativos: dobro, triplo, quádruplo etc.

Quadro 4 – Numerais Ordinais

Primeiro Quadragésimo
Segundo Quinquagésimo
Terceiro Sexagésimo
Quarto Septuagésimo
Quinto Octogésimo
Sexto Nonagésimo
Sétimo Centésimo
Oitavo Centésimo primeiro
Nono Ducentésimo
Décimo Trecentésimo
Décimo primeiro ou undécimo Quadringentésimo
Décimo segundo ou duodécimo Quingentésimo
Décimo terceiro Sexcentésimo ou seiscentésimo
Décimo quarto Septingentésimo
Décimo quinto Octingentésimo

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


Décimo sexto Nongentésimo
Décimo sétimo Milésimo
Décimo oitavo Milésimo primeiro
Décimo nono Milionésimo
Vigésimo Bilionésimo
Vigésimo primeiro Trilionésimo
Trigésimo

47
Unidade I

Quadro 5 – Numerais fracionários

Meio Cinquenta avos


Terço Sessenta avos
Quarto Setenta avos
Quinto Oitenta avos
Sexto Noventa avos
Sétimo Centésimo
Oitavo Cento e um avos
Nono Ducentésimo
Décimo Trecentésimo
Onze avos Quadringentésimo
Doze avos Quingentésimo
Treze avos Sexcentésimo ou seiscentésimo
Catorze avos Setingentésimo
Quinze avos Octingentésimo
Dezesseis avos Nongentésimo
Dezessete avos Milésimo
Dezoito avos Mil e um avos
Dezenove avos Milionésimo
Vinte avos Bilionésimo
Trinta avos Trilionésimo
Quarenta avos

Quadro 6 – Numerais multiplicativos

Duplo ou dobro Óctuplo


Triplo ou tríplice Nônuplo
Quádruplo Décuplo
Quíntuplo Undécuplo
Sêxtuplo Duodécuplo
Sétuplo Cêntuplo
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Relatores: preposições e conjunções que apenas fazem a relação entre palavras e orações. Exemplos:
“Gritou até perder a voz”; “Você e eu”.

• Preposições: a, ante, após, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, trás.
• Conjunções

Coordenativas: e, nem, mas, porém, contudo, pois, logo, portanto etc.

Subordinativas: que, quando, porque, à medida que, se, embora etc.

Veja a seguir algumas preposições inseridas em enunciados:

48
Morfossintaxe da língua portuguesa

Preposição que indica mudança de estado:


Em pouco tempo isso passaria a indicar algo importante.

Preposição que indica união, combinação:


Coordenamos nossos projetos com os demais projetos.

Preposição que indica tempo:


Tenho até hoje a lembrança daquele fato.

Preposição que indica local:


Andamos até uma jabuticabeira enorme.

Preposição que indica “movimento em direção” a:


Ele caminhava para a porta.

Preposição que indica orientação, direcionamento:


Direcionei minha energia para a vida profissional.

Observação

Importante: note que a mesma preposição, em contextos diferentes,


tem significados diferentes.

Veja a seguir algumas conjunções inseridas em enunciados:

Conjunções que indicam contraposição:


Estudou muito, mas não foi bem na prova.
Chegaram cedo, porém a reunião já havia acabado.
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11
Conjunção que indica disjunção:
Vamos comprar um carro vermelho ou prata.
Conjunção que indica simultaneidade:
Enquanto ele fazia o discurso, muitos dormiram.

Conjunção que indica causa:


Não fui ao parque, uma vez que choveu.

49
Unidade I

Auxiliares: verbos que compõem outro verbo, na forma finita ou não finita, como “ser”, “estar”, “ter”,
“haver”. Exemplos: “haviam falado”, “estavam sendo convidados”, “tínhamos ido”.

Como você deve empregar o auxiliar ter e o auxiliar haver?

Ter e haver empregam‑se:

• com o particípio regular do verbo principal (na voz passiva). Exemplo: Tenho estudado muito.

• com o infinitivo do verbo principal antecedido da preposição “de”. Exemplo: Tenho de estudar
hoje. / Hei de vencer.

Como você deve empregar o auxiliar ser?

Ser emprega‑se:

• com o particípio irregular do verbo principal (na voz passiva). Exemplo: Sua proposta foi aceita
pelo grupo.

Quadro 7 – Conjugação dos auxiliares ter, haver, ser, estar

Modo indicativo
Presente
tenho hei sou estou
tens hás és estás
tem há é está
temos havemos somos estamos
tendes haveis sois estais
têm hão são estão

Pretérito imperfeito
tinha havia era estava
tinhas havias eras estava
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

tinha havia era estavas


tínhamos havíamos éramos estávamos
tínheis havíeis éreis estáveis
tinham haviam eram estavam

Pretérito perfeito
tive houve fui estive
tiveste houveste foste estiveste
teve houve foi esteve
tivemos houvemos fomos estivemos
tivestes houvestes fostes estivestes
tiveram houveram foram estiveram

50
Morfossintaxe da língua portuguesa

Pretérito mais‑que‑perfeito
tivera houvera fora estivera
tiveras houveras foras estiveras
tivera houvera fora estivera
tivéramos houvéramos fôramos estivéramos
tivéreis houvéreis fôreis estivéreis
tiveram houveram foram estiveram

Futuro do presente
terei haverei serei estarei
terás haverás serás estarás
terá haverá será estará
teremos haveremos seremos estaremos
tereis havereis sereis estareis
terão haverão serão estarão

Futuro do pretérito
teria haveria seria estaria
terias haverias serias estarias
teria haveria seria estaria
teríamos haveríamos seríamos estaríamos
teríeis haveríeis seríeis estaríeis
teriam haveriam seriam estariam

Modo subjuntivo
Presente
tenha haja seja esteja
tenhas hajas sejas estejas
tenha haja seja esteja
tenhamos hajamos sejamos estejamos
tenhais hajais sejais estejais
tenham hajam sejam estejam

Pretérito imperfeito

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


tivesse houvesse fosse estivesse
tivesses houvesses fosses estivesses
tivesse houvesse fosse estivesse
tivéssemos houvéssemos fôssemos estivéssemos
tivésseis houvésseis fôsseis estivésseis
tivessem houvessem fossem estivessem

Futuro
tiver houver for estiver
tiveres houveres fores estiveres
tiver houver for estiver

51
Unidade I

Futuro
tivermos houvermos formos estivermos
tiverdes houverdes fordes estiverdes
tiverem houverem forem estiverem

Modo imperativo
Afirmativo
tem (tu) (em desuso) sê (tu) está (tu)
tenha (você) haja (você) seja (você) esteja (você)
tenhamos (nós) hajamos (nós) sejamos (nós) estejamos (nós)
tende (vós) havei (vós) sede (vós) estai (vós)
tenham (vocês) hajam (vocês) sejam (vocês) estejam (vocês)

Negativo
não tenhas (tu) não hajas (tu) não sejas (tu) não estejas (tu)
não tenha (você) não haja (você) não seja (você) não esteja (você)
não tenhamos (nós) não hajamos (nós) não sejamos (nós) não estejamos (nós)
não tenhais (vós) não hajais (vós) não sejais (vós) não estejais (vós)
não tenham (vocês) não hajam (vocês) não sejam (vocês) não estejam (vocês)

Formas nominais
Infinitivo impessoal
ter haver ser estar

Infinitivo pessoal
ter haver ser estar
teres haveres seres estares
ter haver ser estar
termos havermos sermos estarmos
terdes haverdes serdes estardes
terem haverem serem estarem

Gerúndio
tendo havendo sendo estando

Particípio
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tido havido sido estado

Fonte: CUNHA; CINTRA, 2007, p. 382.

É preciso esclarecer que na relação sintagmática as palavras podem assumir função substantiva
(central) ou função adjetiva (marginal). Essa posição determina a classificação dessas palavras.
Exemplos:

(13) Ele tem braços fortes.

(14) Os fortes sobrevivem.


52
Morfossintaxe da língua portuguesa

(15) Soprou forte a velinha.

No exemplo (13), “fortes” tem função adjetiva em relação a “braços” e é classificado como adjetivo
(classe a que pertence geralmente), ao passo que em (14) passa a assumir a posição substantiva na
oração e torna‑se um substantivo, sendo o núcleo do sintagma nominal. Já em (15), “forte” assume
a função de advérbio que modifica o verbo “soprou” e, portanto, torna‑se uma palavra invariável em
gênero e número.

• Quanto às interjeições, relacionadas como uma classe de palavras em algumas gramáticas


tradicionais, elas têm sido vistas pelos estudiosos modernos como “palavras‑frase”, visto que já
encerram um significado, como se fossem uma oração. As interjeições podem ser de vários tipos:

• certos sons vocálicos que se representam de modo convencional. Exemplos: ah!, oh!;

• podem ser verdadeiros vocábulos no domínio da língua. Exemplos: arre!, olá!;

• podem ser locuções interjetivas. Exemplos: ora bolas!, valha‑me, Deus!.

Esse grupo de palavras não contrai relação sintática com nenhum outro termo na oração. Elas
expressam emoções, muitas vezes, o que determina sua classificação. Veja os exemplos:

Oh! Que lindo! (Admiração)

Ah! Que pena! (Dó)

Oba! Consegui desatar o nó. (Satisfação)

Sautchuk ressalta que, em qualquer caso,

é a palavra ou expressão que segue à risca seu sentido etimológico de palavra


interjecta, isto é, lançada entre os outros elementos oracionais. Como tal,
não contrai relação sintática com nenhum outro termo, apesar de poder,
sozinha, constituir uma frase/oração (SAUTCHUK, 2004, p. 15).

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


Relação entre aspectos fonológicos, morfossintáticos e estilísticos

OS SINOS

Sino de Belém,
Sino da Paixão…

Sino de Belém,
Sino da Paixão…
53
Unidade I

Sino do Bonfim!…
Sino do Bonfim!…
*
Sino de Belém, pelos que inda vêm!
Sino de Belém bate bem‑bem‑bem.

Sino da Paixão, pelos que lá vão!


Sino da Paixão bate bão‑bão‑bão.
Sino do Bonfim, por quem chora assim?…
*
Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem‑bem‑bem.

Sino da Paixão – pela minha mãe!


Sino da Paixão – pela minha irmã!

Sino do Bonfim, que vai ser de mim?…


*
Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém bate bem‑bem‑bem.

Sino da Paixão… Por meu pai?… – Não! Não!…


Sino da Paixão bate bão‑bão‑bão.

Sino do Bonfim, baterás por mim?…


*
Sino de Belém,
Sino da Paixão…
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Sino da Paixão, pelo meu irmão…

Sino da Paixão,
Sino do Bonfim…
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!
*
Sino de Belém, que graça ele tem!

BANDEIRA, 1993, p. 45.

54
Morfossintaxe da língua portuguesa

Veja que Bem, vem e tem passam a valer como imagem de um tanger de sino alegre e metálico;
paixão, mãe, irmã, irmão passam a evocar um dobre a finados; Bonfim e mim passam a símbolos de
um som agudo de desespero.

Morfologicamente, o escritor também pode valer‑se da exploração da expressividade que deriva de


um vocábulo devido á difusão de sensações agradáveis ou desagradáveis.

Sufixos

Os sufixos também apresentam expressividade. Vejam‑se os casos dos sufixos: agem (politicagem);
–ice (politiquice); –alha (politicalha).

Substantivos

Da tonalidade afetiva de que estão impregnadas as palavras só pode tirar proveito quem dominar
áreas semânticas e sinonímicas. Veja‑se, por exemplo, a diferença entre cara, rosto; lábio, beiço; cão,
cachorro; moço, rapaz; moça, rapariga.

Intensificador

Os intensificadores ou superlativos são recursos estilísticos de que se pode valer o escritor em face
das mais diversas situações. Relembre‑se aqui José Dias, personagem de Dom Casmurro, de Machado de
Assis, que utilizava superlativos para valorizar suas ideias.

Sintaxe

Note que a posposição do adjetivo ao substantivo faz com que seja conservado seu valor objetivo:

Cachorro grande.
Galo cego.

Assume valor afetivo se vier anteposto ao substantivo:

Grande cachorro. Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

Velho pai.

Resumo

Caro aluno! Na unidade I, você conheceu os níveis de análise dos


fatos linguísticos: os eixos paradigmático e sintagmático e os processos
morfossintáticos da língua, além dos critérios mórfico e semântico para a
classificação das palavras.
55
Unidade I

Nessa estruturação, pôde observar que os fonemas e as sílabas são vazios


de significado, enquanto os morfemas e as palavras são providos de significado.
O estudo da língua deve ser feito morfossintaticamente. Precisa‑se verificar
que esta se organiza tanto morfológica quanto sintaticamente.

A primeira articulação corresponde ao léxico gramatical, em que há


proposições, palavras, raízes, afixos. A segunda articulação corresponde às
unidades são desprovidas de sentido, corresponde a fonemas, acentos, sílabas.

Eixo paradigmático: é eixo de seleção, da escolha de uma forma


linguística.

Eixo sintagmático: é o eixo de combinação, da relação de uma forma


linguística com outra forma linguística.

• Lexemas: palavras que são carregadas semanticamente em relação ao


mundo biossocial/antropocultural representados pelos substantivos,
adjetivos, verbos e advérbios nominais. Constituem um “inventário
aberto”.

— Substantivo: é toda palavra que se deixa anteceder pelos


determinantes (artigos, pronomes possessivos, pronomes
demonstrativos e numerais cardinais ou ordinais).

— Adjetivo: é a palavra que varia em gênero e número e deixa‑se


articular (ou modificar) por outra da classe do advérbio. Além
disso, aceita o sufixo “mente”.

— Verbo: é a palavra que se articula aos pronomes pessoais retos e


admite desinências de pessoa, número, tempo, modo.

— Advérbio: é a palavra que se deixa anteceder por “tão”, invariável


em gênero e número. O advérbio pode se articular a um verbo, a
Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11

um adjetivo ou a outro advérbio.

— Neologismos lexicais: são palavras novas, isto é, não dicionarizadas


ou recém‑dicionarizadas, que podem ser objetivamente
caracterizadas tomando‑se como referência, no caso do português
do Brasil, o léxico oficial consignado no Vocabulário Ortográfico
da Língua Portuguesa.

• Gramemas: morfemas que têm como função apenas relacionar


os elementos do grupo de lexemas. Constituem um “inventário
fechado”.
56
Morfossintaxe da língua portuguesa

— Gramemas dependentes: não têm autonomia vocabular. Esse tipo


de morfema gramatical aparece na língua sob a forma de afixos
(prefixos e sufixos), vogal temática, desinências nominais (de gênero
e número), desinências verbais (de modo, tempo, número e pessoa).

– Raiz: é o elemento fundamental da palavra, que não pode ser mais


decomposto e nele transparece o sentido básico.

– Afixos: agregam‑se à raiz para formar uma nova palavra, derivada


da primeira. Podem ser prefixos ou sufixos.

– Vogais ou consoantes de ligação: são elementos sem significado


que se intercalam entre os outros elementos formadores da
palavra, para facilitar a pronúncia.

– Vogal temática: acrescenta‑se ao radical de certas palavras; essa


vogal amplia o radical e o prepara para receber as desinências. Em
relação aos verbos, –a– é a vogal temática da primeira conjugação;
–e– é a vogal temática da segunda conjugação; –i– é a vogal
temática da terceira conjugação.

– Tema: radical acrescido de uma vogal, denominada “vogal


temática”.

— Gramemas independentes: têm autonomia vocabular e


constituem uma palavra. Esse é o caso dos artigos, pronomes,
numerais, preposições, conjunções.

– Determinantes: artigos, pronomes possessivos, demonstrativos,


indefinidos em posição adjetiva, pronomes relativos.

Artigos definidos: o(s), a(s); indefinidos: um(ns), uma(s).

Revisão: Janandréa – Diagramação: Everton – 19/12/11


Pronomes possessivos: meu/minha, teu/tua, seu/sua, nossa/nossa,
vosso/vossa.

Pronomes demonstrativos: este(a), estes(as); esse(a), esses(as); aquele(a),


aquele(s), aquela(s).

Pronomes indefinidos: certo(s), certa(s); algum(ns), alguma(s); qualquer,


quaisquer; nenhum(ns), nenhuma(s).

Pronomes relativos: que; quem; o(s) qual(is), a(s) qual (is); cujo(s), cuja(s),
onde.
57
Unidade I

– Substitutos: pronomes em posição substantiva, como é o caso


dos pronomes retos.

Pronomes pessoais do caso reto: eu, tu, ele, nós, vós, eles.

Pronomes pessoais do caso oblíquo: o(s), a(s), lhe(s), me, mim,


comigo, te, ti, contigo, se, si, consigo, conosco, convosco.

– Quantificadores: numerais cardinais, alguns advérbios, como


“muito”, “pouco”, “demais”; alguns pronomes indefinidos (em
posição adjetiva), como “muito(s)/muita(s)”, “todo(s)/toda(s)”.

– Relatores: preposições e conjunções.

Preposições: a, ante, após, com, contra, de, desde, em, entre, para,
perante, por, sem, sob, trás.

Conjunções:

Coordenativas: e, nem, mas, porém, contudo, pois, logo, portanto.

Subordinativas: que, quando, porque, à medida que, se, embora etc.

– Auxiliares: verbos que compõem outro verbo, na forma finita


ou não finita, como “ser”, “estar”, “ter”, “haver”. “Ter” e “haver”
empregam‑se com o particípio regular do verbo principal (na voz
passiva). “Ser” emprega‑se com o particípio irregular do verbo
principal (na voz passiva).

– Interjeições: relacionadas como uma classe de palavras em


algumas gramáticas tradicionais, elas têm sido vistas pelos
estudiosos modernos como “palavras–frase”, visto que já encerram
um significado, como se fossem uma oração.
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Exercícios

Questão 1. Observe a frase e as afirmativas que seguem.

O professor pediu a tarefa e os alunos cumpriram‑na com eficiência.

I. Ped–e cumpr–são lexemas.

II. –iu e –iram (pedIU/ cumprIRAM) são gramemas dependentes.


58
Morfossintaxe da língua portuguesa

III. Em –iram temos 5 gramemas dependendes: vogal temática, modo verbal, tempo verbal, pessoa e número.

Assinale a alternativa correta:

A) As afirmativas I e II são verdadeiras.

B) As afirmativas I e III são verdadeiras.

C) As afirmativas II e III são verdadeiras.

D) As afirmativas I, II, III são verdadeiras.

E) Apenas a afirmativa I é verdadeira.

RESPOSTA

Alternativa correta: D.

Justificativa:

I. Afirmativa correta: ped– e cumpr– são os radicais dos verbos “pedir” e “cumprir”. Os verbos
pertencem ao inventário aberto da língua. São, portanto, morfemas lexicais (lexemas).

II. Afirmativa correta: –iu e –iram são gramemas dependentes porque necessitam do radical para
terem significação. São, portanto, morfemas gramaticais (gramemas).

III. Afirmativa correta: o gramema –iram traz as seguintes informações gramaticais: vogal temática
(–i–, terceira conjugação); modo indicativo; tempo pretérito; terceira pessoa; plural.

Questão 2. A revista Istoé (edição 1482) apresentou uma polêmica reportagem sobre os malefícios
que o álcool e o tabaco causam para a saúde. Recebeu críticas em relação à forma de abordar o assunto
(texto 1). Um leitor sugeriu que a chamada de capa deveria ser (texto 2):

Texto 1

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ISTOÉ, 25/02/1998, ed. 1482.

59
Unidade I

Texto 2

A organização mundial da saúde adverte: álcool e tabaco são mais prejudiciais do que a maconha.

Considerando as estruturas sintáticas do texto 1 e do texto 2, é correto afirmar que:

I. Ao contrário do texto 2, o texto 1 atenua os malefícios da maconha.

II. A reclamação do leitor se centra no fato de que a revista condena o uso da maconha.

III. O texto 2 enfatiza os efeitos prejudiciais do todas as drogas mencionadas, em graus diferentes.

IV. A mudança de ordem das palavras no texto 2 não interfere nas relações de sentido, uma vez que
a palavra “menos” foi substituída por “mais”.

Assinale a alternativa correta:

A) As afirmativas I e II são verdadeiras.

B) As afirmativas I e III são verdadeiras.

C) As afirmativas II e III são verdadeiras.

D) As afirmativas III e IV são verdadeiras.

E) As afirmativas I e IV são verdadeiras.

Resolução desta questão na Plataforma.


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