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RALPH A.

BOHLMANN

PRINCIPIOS DE INTERPRETAÇÃO
BÍBLICA NAS
CONFISSÕES LUTERANAS

Traduzido por Mário L. Rehfeldt

CASA PUBLICADORA CONCORDIA S . A.


Evangeliza imprimindo
Porto Alegre
19 7 0
Título Original:

PRINCIPLES O F BIBLICAL INTERPRETATION IN THE I N D I C E


LUTHERAN CONFESSIONS

PAG.
Traduzido da primeira edição publicada em 1968 pel
Concordia Publishing House de St. Louis, Missouri. Lista de abreviações VI

Traduzido e publicado com a permissão dos editores INTRODUÇÃO


Copyright c.1968 por Concordia Publishing House.
19 7 0 As Confissões Luteranas como Exposições da Bíblia VII

I PARTE A Posição das Confissões face à Escritura Sagrada

CAPITULO 1 A Forma da Escritura Sagrada 1


Considerações Preliminares 1
Seminário Concórdia
A Escritura Sagrada como a Palavra de Deus Escrita 8
Biblioteca
CAPÍTULO 2 As Funções da Escritura Sagrada 15
Fonte e Norma para Doutrina e Vida 16
Instrumento Soteriológico 22

nata j f r . p 3 . Q l J CAPITULO 3 Clareza e Compreensibilidade da Escritura 28


A Clareza Fundamental da Escritura 31
Entendendo a Escritura mediante o Espírito Santo 34

CAPÍTULO 4 A Mensagem Central da Escritura Sagrada 38


A Mensagem de Lei e Evangelho da Escritura . . . 38
A Centralidade da Justificação na Sagrada Escritura 41

II PARTE Princípios Confessionais de Interpretação Biblica

CAPITULO 5 Princípios de Exegese Gramatical 47


Extraia o Sentido do Texto 47
Procure o Sentido Real do Texto 52

CAPITULO 6 Que a Escritura se Interprete a si Mesma 59


Fundo Histórico 59
Aplicado a Passagens Individuais 61
Aplicado a Artigos de Fé 64
CAPITULO 7 A Função Hermenêutica de Lei-Evangelho e Justif. 68
Não São Princípios Hermenêuticos Gerais 68
Direitos para a língua portuguesa cedidos à Tornando mais Claras Passagens que Tratam de
C A S A PUBLICADORA C O N C Ó R D I A S. A. Fé e Obras 73
RUA S Ã O PEDRO, 633 — PORTO ALEGRE — RS Pressuposições Gerais para a Exegese Bíblica .. 76

SEMINARIO CONCORDIA
CAPÍTULO 8 O Testemunho dos Pais e a Interpretação Bíblica 80

CAPITULO 9 Interpretação Bíblica Confessional Hoje 86

Bibliografia 90 INTRODUÇÃO

LISTA DE ABREVIAÇÕES As Confissões Luteranas como Exposições da Bíblia

AE — Artigos de Esmalcalde A subscrição às Confissões Luteranas do século XVI é carac-


A p — Apologia da Confissão de Augsburgo terística geral de todos os principais grupos do luteranismo mundial
hoje. A bem da verdade, diga-se que não há concordância total e n -
C A — Confissão de Augsburgo
tre os luteranos quanto ao significado qualitativo e quantitativo desta
CMa — Catecismo Maior subscrição. Alguns luteranos, como os da Igreja Luterana-Sínodo
C M e — Catecismo Menor de Missouri, subscrevem todas as confissões contidas no Livro de
DS — Declaração Sólida da Fórmula de Concórdia Concórdia de 1580.' Outros luteranos limitam sua subscrição a a l -
2
gumas das primeiras confissões do século X V I . Igualmente, surgiram
Ep — Epítome da Fórmula de Concórdia
opiniões divergentes quanto à natureza compromissória da subscri-
FC — Fórmula de Concórdia ção confessional para a igreja contemporânea. Alguns luteranos en-
Tr — Tratado sobre o Poder e Primado do Papa tendem que sua subscrição os vincula ao conteúdo doutrinário das
confissões porque este conteúdo é tomado da Sagrada Escritura,
Algarismos romanos maiúsculos que seguem as abreviações acima, mas outros subscrevem as confissões na medida em que correspon-
indicam o número do artigo, exceto nos Artigos de Esmalcalde, nos dem à Sagrada Escritura. Ainda outros aceitam as confissões atri-
quais se referem às partes. Nos Artigos de Esmalcalde o número buindo-lhes apenas valor histórico, isto é, aceitam as confissões como
dos artigos é indicado por algarismos romanos minúsculos. Algaris- respostas válidas a problemas existentes quando foram escritas, mas
mos arábicos que seguem os numerais romanos identificam o pará- sugerem que a igreja de hoje também pode sentir a necessidade de
grafo ou parágrafos dos quais a citação foi tomada. responder de maneira diversa a problemas contemporâneos. Tão
importantes e cruciais como são estas concepções diversas de subscri-
ção confessional, elas não invalidam o fato que, para o luteranismo
hoje, as Confissões Luteranas continuam a fornecer a resposta dou-
trinária definitiva à questão: Çue é luterano?

Subscrevendo as Confissões Luteranas, os luteranos, entretan-


to, não estabeleceram padrão doutrinário independente com função
similar à da tradição do catolicismo romano tridentino. Mesmo po-
dendo a palavra «e», na fórmula freqüentemente empregada: «Es-
critura e C o n f i s s õ e s - , dar a impressão errônea que os luteranos têm
dois padrões doutrinários, as declarações oficiais dos grupos lute-
ranos demonstram claramente que suas confissões são aceitas e pos-

1 -Articles of Incorporation- e .Constitution of The Lutheran Church — Missouri Synod-,


Artigo I I . em Handbook of The Lutheran Church — Missouri Synod (St. Louis: Con-
córdia Publishing House, 1966), pp. 11, 15.
2 Por exemplo: alguns luteranos de tradição dinamarquesa e norueguesa. Para uma
análise pormenorizada da atitude confessional das várias igrejas do luteranismo mun-
dial, cf. Hans Weissgerber: -The Valid Confessional Symbols-, em The Church and
the Confessions: The Role of the Confesslons in the Life and Doctrine of the Lutheran
Churches, ed. Vilmos Vajta e Hans Weissgerber (Philadelphia: Fortress Press, 1963),
pp. 1-22.
suem autoridade apenas porque são exposições e sumários da Sa- tido na Escritura Sagrada, ao qual os credos e confissões dão tes-
grada Escritura, que permanece como a única fonte e norma para temunho, é o verdadeiro t e s o u r o da igreja, a essência de sua procla-
6
a fé e vida. Assim a constituição da Igreja Luterana-Sínodo de Mis- mação e a base de sua unidade e p e r m a n ê n c i a » .
souri afirma que esta igreja aceita «todos os Livros Simbólicos da O papel das Confissões Luteranas como exposições da Sagrada
Igreja Evangélica Luterana como síntese e exposição verdadeira e Escritura também é claramente definido na constituição da Federação
não adulterada da Palavra de D e u s » . 3
Os pastores desta igreja, Luterana Mundial:
quando de sua ordenação, aceitam os três credos ecumênicos «como A Federação Luterana Mundial reconhece as Sagradas Escri-
testemunhos fiéis da verdade da Sagrada Escritura»; declaram acre- turas do Antigo e Novo Testamento como a única fonte e norma
ditar que a Confissão de Augsburgo Inalterada é «exposição verdadeira infalível de toda a doutrina e praxe da igreja, e considera os
da Palavra de Deus» e que as demais confissões contidas no Livro de três Credos Ecumênicos e as Confissões da Igreja Luterana,
Concórdia «igualmente concordam com esta fé e s c r i t u r í s t i c a » . 4 especialmente a Confissão de A u g s b u r g o Inalterada e o Cate-
cismo Menor de Lutero, como exposições puras da Palavra
De maneira semelhante, outros ramos do luteranismo aceitam de D e u s . 7

as confissões como exposição da Sagrada Escritura. A Igreja Lute- Seguindo a citação acima quase verbalmente, a constituição do Con-
rana Americana, cuja existência como organização teve seu início a selho Luterano nos Estados Unidos da América assinala que os
1? de janeiro de 1961, como resultado da união da Igreja Luterana grupos luteranos participantes «vêem nas» Confissões Luteranas «ex-
Americana, Igreja Evangélica Luterana e Igreja Evangélica Luterana posições puras da Palavra de D e u s » . "
Unida, aceita e confessa os antigos credos ecumênicos, a Confissão Poder-se-ia apresentar ainda outras ilustrações do mundo do
de Augsburgo Inalterada e o Catecismo Menor de Lutero «como de- luteranismo para mostrar que Igrejas Luteranas hoje aceitam suas
clarações breves e verdadeiras das doutrinas da Palavra de Deus» confissões históricas como exposições da Escritura Sagrada. Enten-
e reconhece as Confissões Luteranas posteriores «como normativas dendo desta maneira a função expositiva das confissões no tocante
para sua teologia». «Aceita sem reservas» os livros simbólicos lu- à Escritura Sagrada, luteranos de hoje continuam a exprimir o que
teranos «não na medida em que, mas porque apresentam e explicam as confissões afirmam a respeito de si mesmas. A formulação con-
fessional clássica desta autoconceituação das confissões é a seguinte:
a doutrina pura da Palavra de Deus e são o sumário da fé da Igreja
5
O u t r o s símbolos e outros escritos não são juizes c o m o o são
Evangélica L u t e r a n a » .
as Sagradas Escrituras, mas meros testemunhos e exposições
da fé, assinalando como em épocas diversas a Escritura Sa-
A Igreja Luterana na América, formada em 1962 pela união da
grada foi entendida na igreja de Deus por contemporâneos com
Igreja Luterana Unida na América, Igreja Evangélica Luterana Ame- referência a artigos controversos, e como ensinamentos contrá-
ricana, Igreja Evangélica Luterana Finlandesa (Sínodo de Suomi) e rios foram rejeitados e receberam condenação. (FC Ep Regra
Igreja Luterana Augustana, não considera as Confissões Luteranas e Norma, 8 ) 9

como normas independentes da Escritura Sagrada, mas testemunhos


do evangelho transmitido na Escritura. Este grupo luterano aceita os 6 -Art. I I , Confession of Faith-, Constitution and By-Laws, Lutheran Church In America,
Includlng Amendments to By-Laws Adopted at the 1964 Convention of the Church (Phila-
três credos ecumênicos «como declarações verdadeiras da fé da igre- delphia: Board of Publication, Lutheran Church In America, s.d.), p. 3. Apesar de
nâo ficar explicito neste artigo o conceito de Confissões como exposições bíblicas,
ja», a Confissão de Augsburgo Inalterada e o Catecismo Menor de evidencia-se que as Confissões sfio consideradas testemunhos do evangelho transmi-
tido na Escritura, e nâo normas independentes da Escritura Sagrada.
Lutero «como testemunhos verdadeiros do evangelho», e as outras 7 -Constitution of the Lutheran World Federation, Art. I I , Doctrlnal Basis-, em Lutheran
Confissões Luteranas contidas no Livro de Concórdia «como outras World Federation, Proceedings of the Fourth Assembly of the Lutheran World Fede-
ration, Helsinki, July 30 to August 11, 1963 (Berlim e Hamburgo: Lutherisches Ver-
interpretações válidas da confissão da igreja». Numa declaração su- lagshaus, 1965), pp. 296 e 402.
cinta a Igreja Luterana na América afirma «que o evangelho transmi- 8 -Constitution of the Lutheran Council in the United States of America. Preamble.-
em Convention Workbook (Reports and Overtures), 46th Regular Convention, The
Lutheran Church — Missouri Synod, Detroit, Michigan, June 16-26, 1965 (St. Louis:
Concórdia Publishing House, 1965). p. 44.
3 -Constltution-, Ari. I I . 9 -Die andere Symbole aber und angezogene Schriften sind nicht Richter wie die Heilige
4 De -The Order for the Ordination of a Minister., em The Lutheran Llturgy (St. Louis: Schrift, sondern allein Zeugnis und Erklaerung des Glaubens, wie jederzeit die Heilige
Concórdia Pubiishing House, s.d.), pp. 106-107. Schrift In streitigen Artikuln in der Kirchen Gottes von den damals Lebenden verstan-
5 .Constitution of the American Lutheran Church, Art. IV. Confession of Faith-, em den und ausgeleget, und derselben widerwaertige Lehr vorworfen und vordambt worden.-
Documents of Lutheran Unlty In America, ed. Richard C. Wolf (Philadelphla: Fortress O texto alemão é de Die Bekenntnisschriften der evangelisch-lutherischen Kirche (5°
Press, 1966). p. 533. ed. revisada: Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht. 1963). p 769, 28-35
Anteriormente fora dito que esses escritos "deveriam ser recebidos ao leitor que «longe de terem refutado nossas afirmações com base
tão-sòmente como testemunhos da maneira como a doutrina dos pro- na Escritura, eles (os adversários católicos romanos) condenaram
fetas e apóstolos foi preservada em épocas pós-apostólicas» (FC Ep vários artigos em oposição à clara Escritura e ao Espírito» (Ap Pre-
Regra e Norma, 2). As confissões são «fórmula e padrão breves, fácio, 9), e a conclui com o mesmo pensamento (Ap XXVIII, 27). Os
unánimamente aprovados, em que o resumo da doutrina comumente autores da Fórmula de Concórdia, portanto, unanimemente declara-
confessada pelas igrejas da religião cristã pura, é extraído da Pala- ram sua adesão à Apologia, não apenas porque expusera e defendera
vra de Deus (aus Gottes W o r t zusammengezogen) • (FC DS Regra claramente a Confissão de Augsburgo, mas também «porque é com-
e Norma, 1) provada por claros e irrefutáveis testemunhos da Escritura Sagrada».
(FC DS Regra e Norma, 6)
Também se afirma com clareza que cada um dos documentos Nos Artigos de Esmalcalde Lutero constantemente busca apoio
confessionais tem suas raízes na Sagrada Escritura. D e c l a r a s e que na Bíblia contra todas as outras autoridades, tais como, papas e pais
os credos antigos são a verdadeira doutrina cristã tal como foi sadia eclesiásticos. Sto. Agostinho não escreve que há um purgatório «nem
e corretamente entendida na antiguidade e «extraída da Palavra de cita qualquer passagem da Escritura que o obrigaria a adotar tal opi-
Deus em artigos breves ou capítulos, contra as aberrações dos he- nião». Não, «não é correto transformar as palavras ou obras dos
réticos (FC D S Regra e Norma, 4). Lutero denomina o Catecismo santos pais em artigos de f é . . . Isto significa que a Palavra de Deus
«compêndio breve e sumário de toda a Escritura Sagrada- ( C M a estabelecerá artigos de fé e mais ninguém, nem mesmo um anjo»
Prefácio Longo, 18) e mesmo sustenta que nas primeiras três partes (AE II, ii, 15). Em vista disso, a Fórmula de Concórdia pode afirmar
principais do Catecismo «tudo o que a Escritura contém está resu- não apenas que a doutrina da Confissão de Augsburgo é repetida
mido em termos breves, claros e simples» ( C M a Prefácio Breve, 18). nos Artigos de Esmalcalde, mas também que «vários artigos são
De modo semelhante, a Fórmula de Concórdia diz dos Catecismos explicados mais pormenorizadamente com base na Palavra de Deus».
de Lutero: «São 'a Bíblia dos leigos' e contêm tudo o que a Escri- (FC DS Regra e Norma, 7),
tura Sagrada discute mais pormenorizadamente e que o cristão deve
Os autores da Fórmula de Concórdia não consideraram ser
conhecer para sua salvação» (FC Ep Regra e Norma, 5). Os Cate-
sua tarefa básica a de escrever «uma confissão nova ou diferente
cismos, bem como as demais confissões, «formulam a doutrina cris-
de nossa fé» mas a de se compromissarem novamente «a estes pú-
tã fundamentados na Palavra de Deus». (FC D S Regra e Norma, 8).
blicos e bem-conhecidos símbolos ou confissões comuns que foram
0_ Prefácio da Confissão de Augsburgo reivindica ser confissão aceitos sempre, e em todos os lugares, em todas as igrejas da C o n -
elaborada «com base na divina e sagrada Escritura» ( C A Prefácio, 8) fissão de Augsburgo, antes da irrupção das várias controvérsiass/
e a conclusão da primeira parte declara que os artigos precedentes (FC DS Regra e Norma, 2). Estão convencidos que
concordam com «a pura Palavra de Deus e verdade cristã» e que o leitor cristão que realmente tem seu prazer na verdade da
estão «claramente fundamentados sobre a Sagrada Escritura». Os Palavra de Deus encontrará nos escritos previamente mencio-
autores da Fórmula de Concórdia, em vista disso, afirmaram que a nados o que êle deve aceitar c o m o correto e verdadeiro, em
verdade da Palavra de Deus, trazida a lume pelo ministério de Mar- cada um dos artigos controversos de nossa fé cristã, segundo
tinho Lutero, e «extraída da Palavra de Deus, é resumida nos artigos os escritos proféticos e apostólicos da Palavra de Deus, e o
e capítulos da Confissão de Augsburgo contra as aberrações do pa- que deve rejeitar, evitar, e do que deve fugir como falso e
pado e de outras seitas». Declaram sua adesão à Confissão de errôneo. (FC D S Regra e Norma, 16)
Augsburgo «como nosso símbolo nesta época, não porque esta con- A finalidade da Fórmula de Concórdia, com base na Sagrada Es-
fissão foi preparada por nossos teólogos mas porque foi tomada da critura e nas confissões anteriores, é a de
Palavra de Deus e está sólida e profundamente fundamentada nela».
expor e explicar nossa fé e confissão inequívoca, clara e dis-
(FC DS Regra e Norma, 5)
tintamente em teses e antíteses, opondo à doutrina falsa a dou-
O caráter de exposição bíblica das confissões em parte alguma trina verdadeira, a fim de que o fundamento da verdade divina
evidencia-se tanto como na Apologia da Confissão rle Augsburgo possa manifestar-se em cada artigo e para que cada doutrina
da autoria de Melanchthon, onde se encontram copiosas citações e incorreta, dúbia, suspeita e condenada possa ser revelada, não
exegeses de textos bíblicos em quase todos os artigos. Melanchthon importando onde ou em que livros puder ser encontrada ou
começa a Apologia reivindicando que este documento demonstrará quem a tiver enunciado ou apoiado. (FC DS Regra e Norma, 19)
Deste modo, a Fórmula de Concórdia não se considera a si mesma
D - e notar que os verbos das palavras finais da citação atribuem
e v e S
apenas c o m o exposição biblica, mas também exposição das confis-
às confissões as mesmas funções anteriormente conferidas à Escri-
sões anteriores fundamentadas na Bíblia, especialmente a Confissão 1 3
tura. C o m o pode uma confissão julgar e regular outros escritos
de Augsburgo. Por isso, o Prefácio do Livro de Concórdia declara
quando estas funções pertencem à Escritura como a «única norma
que a Fórmula de Concórdia foi subscrita por concordar em primeiro
verdadeira» (FC D S Regra e Norma, 3; grifo adicionado)? A respos-
lugar com a Palavra de Deus e também com a Confissão de Augsbur-
ta reside na afirmação citada acima «porque é extraída da Palavra
go. A Fórmula foi preparada «com base na Palavra de Deus»; suas
de Deus». As confissões, como sumários, exposições ou reformula-
doutrinas foram debatidas «em longos escritos baseados na Palavra
ções da Escritura Sagrada, possuem função normativa apenas devido
de Deus; esboços anteriores foram «fortificados com a Palavra de
a esta relação. As confissões não são norma independente; mas
Deus contra toda espécie de interpretações errôneas perigosas». Os
participam da função normativa da Escritura. A Fórmula explica:
autores da Fórmula estão convictos de sua confissão e fé cristã «com
Ninguém nos pode censurar se extraímos destes escritos
base na divina Escritura profética e apostólica»; sua interpretação
o que expusemos e decidimos quanto aos artigos controversos,
está «plenamente fundamentada na Palavra de Deus» e concordam
pois, assim como fundamentamos nossa posição na Palavra
uns com os outros «baseados nas Escrituras proféticas e apostóli-
1 0
de Deus, como a verdade eterna, igualmente introduzimos e
cas».
citamos estes escritos como testemunho da verdade. (FC DS
Visto as confissões se considerarem a si mesmas bem como Regra e Norma, 13)
os três credos ecumênicos c o m o exposições da Escritura Sagrada, Entender as confissões c o m o exposição biblica é de grande impor-
não se julgam ser segunda norma ao lado da Escritura. São antes tância para uma igreja confessional e confessante. Edmund Schlink
explicações, sumários e reformulações das verdades da Escritura que o afirma magistralmente:
permanece sendo o único padrão doutrinário. Helmut Echternach ex-
pressa muito bem essa relação: Somente então ter-se-ão tomado a sério as confissões em seu
Was ist Bekenntnis? Das Bekenntnis steht der Schrift gegenue- sentido próprio quando forem encaradas como exposição da
ber als die A n t w o r t der Kirche auf die Rede Gottes. In ihm Escritura, para ser exato, como a exposição que a iareia faz
sagt die Kirche anbetend und gelonbend ihrem Herrn das wie- da Escritura. As confissões não são opiniões teológicas lança-
der, was Er zuvor in der Bibel gesagt hat. Es ist damit Dialog das a esmo; são formulações doutrinárias que devem ser en-
und Liturgie. " (Que è confissão? A confissão situa-se face à tendidas mesmo em seus mínimos pormenores em termos dessa
Escritura como a resposta da igreja à palavra divina. Nela, a exposição da Escritura pela qual a igreja é responsável, que
14

igreja, em oração e louvor, repete a seu Senhor o gue êle an- lhe foi confiada com a missão de p r o c l a m á - l a .
teriormente lhe dissera na Bíblia. É, pois, diálogo e liturgia.) Como Schlink assinala: «Toda análise estrutural das Confissões deve
No entanto, é precisamente esta relação para com a Escritura que principiar com o fato constantemente enfatizado nelas, que são ex-
1 5

confere às confissões o papel normativo na vida da igreja. A Fór- posições extraídas da Sagrada Escritura.» Por isso, uma tomada
mula afirma: de posição legítima face ás Confissões Luteranas só é possível quan-
do se reexamina sua exegese da Escritura, não apenas das passagens
Nossa intenção foi apenas a de ter uma forma única, univer- da Escritura citadas nas Confissões, mas de todas as afirmações
salmente aceita, certa e comum de doutrina que todas as nossas relevantes da Escritura. Apenas com fundamento em investigação exe-
igrejas evangélicas subscrevam e da qual, e segundo a qual, gética dessa espécie e a subseqüente comparação de seus resulta-
pojL.sei extraída da Palavra de Deus, todos os outros escritos dos com as confissões, podem as confissões ser honestamente re-
devem ser aprovados e aceitos, julgados e regulados (FC DS jeitadas ou aceitas, como afirma Schlink: «Visto como as Confissões
1 2
Regra e Norma, 1 0 ) v5~J»v3^i insistem em ser reconhecidas como exposição da Escritura, toma-se
a sério apenas aquela atitude que as afirma ou rejeita com base na
10 -Preface-, The Book of Concord, ed. Theodore G. Tappert (Philadelphia: Fortress 1 6
Press, 1959), pp. 8, 6, 7. 12 e 13. Escritura.»
11 Helmut Echternach. -Schriftprinzip und Bekenntnis-, Evangelisch-lutherische Kirchen-
zeitung, V (15 de fevereiro. 1951). 38.
12 -wird allein dahin gemeint, dass man habe eine einhellige, gewisse, allgemeine Form 13 Cf. FC Ep, Regra e Norma. 1 e 7; FC DS Regra e Norma, 3.
der Lehre, darzu sich unsere evangelische Kirchen saembtlich und ingemein bekennen, 14 Edmund Schlink, Theology of the Lutheran Confessions, trad. P. F. Koehneke e H.
aus und nach welcher, weil sie aus Gottes Wort genommen, alle andere Schriften, J. A. Bouman (Philadelphia: Muhlenberg Press. 1961), p. xvl.
wiefern sie zu probieren und anzunehmen, geurteilt und reguliert sollen werden».
Bekenntnisschriften, p. 838, 6-14. 15 Ibid.. p. 12.
16 Ibid., p. xix.
A investigação exegético-confessional acima mencionada não nuidade, na metodologia da interpretação bíblica eclesiástica na era
constitui o propósito deste livro. Alguns estudos preliminares desse da Reforma. Nossa investigação dos escritos não-confessionais dos
tipo já existem, apesar de persistir a necessidade de um estudo am- autores das Confissões Luteranas também se limita a alguns livros
1 7
plo e exaustivo dessa natureza. Além disso, presume-se que os e afirmações ilustrativas. O autor reconhece a necessidade de se
que subscreveram as Confissões Luteranas por motivo de sua or- fazer investigações exaustivas nesta área, apesar de ser preciso cau-
denação e instalação já fizeram essa pesquisa e que continuam a tela ao se tirar conclusões, partindo de escritos particulares, com
estudar a analogia entre Bíblia e confissões durante todo o seu mi- referência a posições confessionais, -visto como é possível que au-
nistério. tores de documentos públicos da igreja sejam coibidos de expressar
No entanto, básica e preliminar à investigação mencionada aci- em tais documentos opiniões que manifestam livremente em seus
1 9
ma é a compreensão dos princípios de interpretação bíblica empre- escritos privados -
gados nas Confissões Luteranas. Expor estes princípios e os pressu-
Nossa pesquisa nas confissões foi feita nas línguas originais
postos sobre os quais repousam é o objetivo principal deste livro.
destes documentos. Nossas citações de textos confessionais neste
Em nossa investigação dirigiremos nossa atenção de modo especial
estudo, entretanto, se limitam aos textos oficiais de cada documento.
às afirmações confessionais que se referem explicitamente à interpre-
Para facilitar a leitura, citamos as confissões das traduções contidas
tação bíblica e a exemplos de interpretação bíblica dentro das c o n - 20
l s
no Livro de Concórdia, caso não se indique o c o n t r á r i o . Palavras
fissões, que ilustram os princípios hermenêuticos.
e passagens cruciais também são citadas na língua original oficial,
Os princípios de interpretação de qualquer obra literária são e aparecem entre colchetes ou em notas de rodapé. As referências
determinados em grande parte pela natureza, conteúdo e propósito às citações confessionais neste livro, devido a seu grande número,
da obra. Esta regra é especialmente verdadeira no caso dos princí- serão normalmente indicadas entre parênteses após a citação. Nes-
pios de interpretação bíblica empregados nas Confissões Luteranas. tas referências faz-se uso das abreviações indicadas à página V I .
Em vista disso, em nossa primeira parte apresentaremos o que as
confissões ensinam sobre forma, funções, clareza básica e conteúdo Finalmente, deve-se assinalar que pouco esforço fizemos em
central da Escritura Sagrada. De certo modo, estes tópicos indicam incorporar citações de grande número de fontes secundárias sobre
quais são os pressupostos para a interpretação bíblica empregados as Confissões Luteranas. As fontes secundárias citadas mencionam-
pelas Confissões Luteranas. se aqui devido, ou ao seu valor intrínseco, ou a sua popularidade
atual. Essa limitação no emprego de fontes secundárias brota da
Em nossa segunda parte apresentaremos vários princípios de convicção do autor que as Confissões Luteranas falam c o m maior
exegese gramático-histórica usados nas confissões, e investigaremos eloqüência e clareza quando falam por si mesmas.
o papel desempenhado pelo contraste lei-evangelho, pela doutrina da
justificação mediante a graça e pelas tradições eclesiásticas na in- 19 Arthur Carl Piepkorn, -Suggested Principies for a Hermenêutica of the Lutheran Symbols-,
Concórdia Theologlcal Monthly, XXIX (Janeiro. 1958), 6.
terpretação confessional da Escritura Sagrada. Nossa conclusão re-
20 Acima, nv 10.
sumirá os principais resultados de nossa pesquisa e sugerirá impli-
cações para a tarefa da interpretação bíblica na igreja confessante
de hoje.
Tornou-se necessário estabelecer certos limites no escopo de
nosso estudo. Não estamos investigando pormenorizadamente os prin-
cípios hermenêuticos da época anterior à Reforma, o que seria ex-
tremamente útil para se entender a continuidade, ou falta de conti-

17 Cf. Wilhelm C. Lines, -Biblical Interpretation In the Formula of Concord-, em The


Symposium on Seventeenth Century Lutheranlsm, I (St. Louis: The Symposium on
Seventeenth Century Lutheranism, 1962), 118-135: Juergen Roloff, -The Interpretation
of Scripture in Article IV of Melanchthon's Apology of the Augsburg Confession-,
Lutheran World, V I I I (1961), 47-63; e Schlink, pp. 297-317.
18 Schlink afirma: «Além disso, no uso prático da Escritura feito pelas Confissões estão
implícitos, não apenas uma doutrina da Escritura, mas também principios de Inter-
pretação e mesmo importantes regras hermenêuticas para a exegese do Antigo Tes-
tamento- (p. 1, n? 1).
I PARTE

Posição das Confissões face à Escritura Sagrada

CAPITULO 1

A Forma da Escritura Sagrada

Considerações Preliminares

A atitude do intérprete face à natureza da Escritura Sagrada


influenciará decisivamente seus princípios de interpretação bíblica.
Se a Escritura é considerada como livro escrito em uma espécie de
linguagem esotérica, o intérprete provavelmente seguirá técnicas de
interpretação um tanto bizarras. Se vê na Escritura apenas a pala-
vra de homens, escrita em épocas diferentes e em línguas diversas,
adotará apenas as técnicas de interpretação geralmente empregadas
na análise de qualquer obra literária. Se, no entanto, êle vê na
Escritura a própria Palavra de Deus, sua técnica de interpretação
refletirá este elemento fundamental. É, pois, importante, esforçarmo-
nos para entender o ponto de vista confessional acerca da forma
da Escritura Sagrada.

Desperta a atenção do estudante das confissões a ausência


de um artigo sobre este assunto no Livro de Concórdia, especial-
mente quando êle se dá conta que havia precedentes para a inclusão
de tal artigo. Der Ansbacher evangelische Ratschlag de 30 de setem-
bro, 1524, não apenas contém afirmações sobre a interpretação cor-
reta da Escritura mas também principia com um breve artigo sobre
a autoridade divina da Sagrada Escritura. Estes confessores lutera-
nos afirmam que pretendem basear todos os artigos de sua confissão
uf das klar hell lauter wort g o t t e s . . . und uns von demselbigem
ewigen wort gottes, das allein selig macht, und wie Christus
bezeugt, ewiglich pleibt und kain buchstab oder titel davon
vergen wurde, durch menschliche Satzung oder gutbedunken
1
mit nichten suren oder weisen l a s s e n .

1 Wilhelm F. Schmidt e K. Schornbaum, Die Fraenkischen Bekenntnisse. Eine Vorstufe


der Augsburgischen Konfession, publ. pelo Landeskirchenrat der evang.-luth. Kirche
in Bayern (Munich: Chr. Kaiser Verlag. 1930), p. 184.
Apresenta-se a base para a autoridade bíblica alguns parágrafos mais na doutrina da inspiração para os demais artigos da dogmática,
adiante, a saber, que - d i e apostei und euangelien nit von inen selbs, então esta reticência não pode ser acidental, mas deve ser
sonder aus dem heiligen geist gered und geschrieben haben-, - Esta tomada seriamente como decisão teológica. Em todo o caso,
afirmação é comprovada com a citação de Mt 10.20; Mc 1 3 . 1 1 ; At a posição normativa da Escritura não é deduzida de formula-
1.8, 2 . 4 ; 1 Pe 1.12 e 2 Pe 1.20. O artigo prossegue: ções doutrinárias sobre a inspiração divina da Escritura."

Dieweil nun alle heilige apostei allein aus dem heiligen gaist, Que «decisão teológica» tem Schlink em mente? Anteriormente êle
wie gemeld, gered und geschriben haben und Christus zeugen explicara:
bis an das ende der erden sind worden, so können ir Schriften A ausência de tal artigo na Confissão de Augsburgo não pode
nit menschen gedieht, verloren oder verkert, sondern v o n not ser interpretada como evasão do problema controverso da re-
!
wegen unzweifenlich bei uns sein. lação entre Escritura e tradição. A o invés disso, reflete a ur-
Mesmo continuando desconhecidos o autor ou autores desta decla- gência genuinamente luterana de entrar, logo de início, em
ração, Schmidt afirma que «Die Ansbacher Theologie ist also ma- contato com a viva vox evangelii, abordagem esta que vai além
teriell ein Ausschnitt aus der Gedankenwelt Luthers.» ' do biblicismo de A n s b a c h . "
Posteriormente, em 1524, Der erste Nuernberger evangelische Schlink conclui que para as confissões «o evangelho é a norma na
10
Ratschlag incluía longo artigo, quase no início, que levava o título Escritura e a Escritura é a norma por causa do e v a n g e l h o » . Para
1
«Was Gottes wort im rechten grund und Ursprung s e i » . Em 1528 Schlink, a «decisão teológica» das confissões nesta questão é que
Die Nuernberger 23 Frageartikel, destinado em primeiro lugar às v i - a autoridade da Escritura se fundamenta no evangelho, não sobre
sitações eclesiásticas, tinha como seu primeiro artigo «Von der lere uma doutrina de inspiração; ressaltar esta poderia significar obscu-
6
und heiliger s c h r i f t » . De igual modo, os Artigos de Copenhagen recer aquele.
de 1530 principiam com a declaração que a Escritura canónica é a
A explicação de Werner Elert merece cuidadosa consideração.
única regra e lei segundo a qual devem viver e deixar-se guiar todos
7 Depois de expor como a doutrina da justificação é a chave para o
os que desejam receber graça e salvação de D e u s .
princípio escriturístico de Lutero, Elert prossegue:
A ausência de artigo confessional próprio sobre a Escritura
Isto explica a posição inicial do luteranismo primitivo com res-
Sagrada torna-se ainda mais surpreendente quando se recorda, não
peito ao princípio escriturístico. O fato que a Confissão de
apenas o grande número de interpretações da Escritura em voga na
Augsburgo nada diz sobre este princípio demonstra que reco-
época de Lutero e em épocas anteriores, mas também a importância
nhece a posição de Lutero face à Escritura. Tivesse ela prin-
que o artigo sobre a Escritura Sagrada possui para todos os o u -
cipiado com afirmações especiais sobre a Escritura — digamos,
tros artigos da fé cristã. Alguns autores tentaram explicar esta au-
que a Escritura é a Palavra de Deus, que é inspirada, que é
sência. Schlink, por exemplo, afirma:
necessária para o conhecimento de Deus e da salvação — isso
Poder-se-ia pensar que este silêncio das Confissões se expli- seria esforço perdido face à oposição romana. Roma não p u -
caria pelo fato que a doutrina da inspiração era naquela época nha em dúvida qualquer uma destas afirmações. A declaração
herança teológica comum dos reformadores, dos adversários «Apenas Cristo deve ser anunciado» (Nihil nisi Christus prae-
romanos e outros, mesmo de Sebastião Franck, por e x e m p l o . dicandus) foi o que deu ao princípio escriturístico como definido
Quando, contudo, se considera quantas possibilidades di- pelo luteranismo seu real caráter reformador. Por outro, não
versas, em termos de doutrinas de inspiração, já se encontra- era possível formular isto como se estivesse em oposição ao
vam na época da Reforma, tendo sido preparadas pela Idade conceito de Escritura, pois este conceito, expresso nas afirma-
Média, que conseqüências de grande alcance têm as decisões ções acima mencionadas era propriedade comum da teologia
medieval. Falando objetivamente, não estava em oposição. Nem
2 Ibid., p. 186.
3 Ibid.
ainda os autores das confissões estavam convencidos disto.
4 Ibid.. pp. 66.
5 Ibid.. pp. 413-427. 8 Edmund Schlink, Theology of the Lutheran Confessions, trad. P. F. Koehneke e H.
6 Ibid.. pp. 463-464. J. A. Bouman (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1961). pp. 5-6.
7 Werner Eiert, The Structure ol Lutheranlsm, trad. Walter A. Hansen (St. Louls: 9 Ibid., p. 2, n.
Concórdia Publishing House, 1962), p. 183. 10 Ibid.. p. 6 .
Conseqüentemente, era necessário pressupor que o princípio es- Mas que esta ênfase cristológica explica a ausência de um artigo
criturístico tradicional era base comum evidente por si mesma, doutrinário sobre a Escritura pode ser posto em dúvida. Não há
e, mediante um estudo cristológico pormenorizado, estabelecer simplesmente qualquer evidência nas confissões, ou em outra par-
o que era específico da Reforma. Isto foi feito em toda a posição te, para apoiar a idéia que a omissão de um artigo ou mais sobre
soteriológica da Confissão de Augsburgo, na Apologia e, além a Escritura Sagrada, em favor de uma abordagem cristológica à
disso, nos Artigos de Esmalcalde de L u t e r o . 11 Escritura, foi «decisão teológica» consciente, como Schlink sustenta
Em poucas palavras, Elert, tal como Schlink, ressalta o caráter sote- e Elert e Mayer subentendem. Sabemos, no entanto, que a crença
na inspiração, inerrancia e autoridade divinas da Sagrada Escritura
riológico da doutrina confessional da Escritura. Enfatiza com maior
era propriedade comum de católicos romanos, luteranos, reformados
clareza que Schlink, no entanto, que a crença na autoria divina da
e outros grupos envolvidos nas controvérsias tratadas nas Confissões
Escritura era comum tanto a luteranos como a católicos romanos.
Luteranas. V i s t o as confissões da igreja lidarem normalmente em
F. E. Mayer enumera três razões para a ausência de um artigo primeiro lugar com artigos controversos, não havia necessidade pre-
especifico nas Confissões Luteranas sobre a Escritura Sagrada. Em mente para um artigo sobre a Escritura Sagrada. Arthur Carl Piepkorn
primeiro lugar assinala que afirma simplesmente:
A Igreja Ocidental da Idade Média nunca duvidou da inspiração Se havia um ponto sobre o qual concordavam inteiramente todos
e autoridade divinas dos escritos canónicos do Antigo e Novo estes (Calvino, decretos tridentinos, escolasticismo anterior à
Testamento. Em seu conflito com Roma os luteranos podiam Reforma) além das afirmações simples dos Credos Ecumênicos,
presumir que eles e seus adversários aceitavam a Bíblia como era a autoridade, inspiração e inerrancia da Sagrada Escritura.
1 2
a Palavra de D e u s . Não é de se surpreender, portanto, que não temos um artigo
15
Em segundo lugar, Mayer assinala o fato que a Simbólica -lida com explícito sobre a Sagrada Escritura nos Símbolos L u t e r a n o s .
situações da vida real e não procura apresentar a fé cristã em todos De maneira semelhante, Holsten Fagerberg declara: «Ais die BK
os pontos nem ainda de maneira sistemática e e x a u s t i v a - . Em ter- 13
Bekenntnischriften) verfasst wurden, war die Autoritaet des Bibelwor-
ceiro lugar, Mayer afirma: tes in keiner W e i s e ein Problem, s o n d e m wurde auf beiden Seiten
16

As Confissões Luteranas não têm artigo especial sobre o ca- der konfessionellen Grenzlinie a n e r k a n n t . »
ráter divino da Escritura, porque seu interesse concentrava-se O fato que todos os grupos participantes das controvérsias do
numa abordagem cristocêntrica da Escritura. Não se interessam século XVI tratadas nas Confissões Luteranas reconheceram a auto-
numa abordagem atomista à Escritura, de textos de prova ou ridade divina da Escritura Sagrada repousa sobre outra posição dou-
de c o n c o r d â n c i a . . . Sem o conhecimento do evangelho a Bí- trinária geralmente aceita: que o autor primário da Escritura Sagrada
blia permanece um livro sem sentido e i n ú t i l . . . As Confissões c o próprio Deus. A autoria divina e a autoridade divina eram con-
Luteranas pressupõem que o cristão aceita a Escritura como ceitos inseparáveis para os confessores luteranos. Quem quiser com-
a Palavra de Deus, falando Deus por intermédio desta Palavra preender sua atitude nesta questão deve estar suficientemente fa-
aqui e agora, como falou em épocas passadas, por meio de miliarizado com seus escritos não confessionais a ponto de perceber
14
seus santos e s c r i t o r e s . esta posição básica. Nossa investigação se restringe especialmente
Em outras palavras, Mayer, como Elert e Schlink, ressalta a aborda- aos textos das próprias confissões, mas estudos feitos por outros
gem cristológíca à Escritura nas confissões, apesar de também afir- salientam que os confessores luteranos fundamentaram a autoridade
mar que a crença na inspiração divina da Sagrada Escritura é um divina da Escritura Sagrada em sua autoria divina. Uma importante
fator na doutrina confessional da Escritura. investigação da atitude de Lutero face à Escritura, por exemplo, con-
clui com as palavras:
Que as confissões abordam a Escritura cristològicamente de
modo algum pode ser negado, como demonstraremos no Capítulo 5. E, na verdade, enquanto a autoridade divina da Bíblia é sus-
tentada, e, enquanto se concede que é o produto de uma coo-
11 Elert. pp. 190-191. 15 Arthur Carl Piepkorn, -The Position of the Church and Her Symbols». em -Essays
12 F. E. Mayer, The Religious Bodies of America, 4° ed.. rev. Arthur Carl Piepkorn on the Inspiratlon of Scripture-. Concordia Theologlcal Monthly, XXV (Outubro, 1954)
(St. Louis: Concordia Publishing House, 1961). p. 144. 740.
13 Ibid., p. 143. 16 Holsten Fagerberg, Dia Theologie der lutherlschen Bekenntnlsschrlften von 1529 bis
1537, trad. Gerhard Klose (Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1965). p. 14.
14 Ibid., pp. 145-146.
peração impar do Espírito Santo com os autores humanos e, A tentativa de determinar quais livros são canónicos pelo exame
portanto, como um todo, e, em todos os seus pormenores, a de seu uso nas confissões é igualmente inconclusiva. Por um lado,
Palavra de Deus sem contradição e erro, a questão quanto nota-se que as confissões não citam nem mencionam Josué, Juízes,
ao modo da inspiração é de natureza completamente secundá- Rute, 2 Reis, Esdras, Neemias, Ester, Cantares de Salomão, Lamen-
ria, e se está em harmonia com os melhores teólogos luteranos
17
tações, Joel, Amós, Obadias, Miquéias, Naum, Sofonias, A g e u , 3
desde Lutero até o ano de 1 5 7 0 . 21
João e J u d a s . Mas citam, ou fazem alusões a passagens de livros
Antes de analisarmos as afirmações confessionais sobre a forma da sobre os quais Lutero manifestara dúvidas: Tiago é empregado 15
Escritura Sagrada, entretanto, teremos de examinar brevemente outra vezes, Hebreus 37 vezes e Apocalipse 8 v e z e s . 2 2
Mais surpreenden-
questão preliminar: a extensão ou limite do cânone bíblico para as te ainda é o fato que as confissões se referem a dois dos escritos
Confissões Luteranas. Poder-se-ia esperar que essa questão fosse apócrifos do Antigo Testamento sem lançar dúvidas sobre sua cano-
tratada nas confissões por vários motivos. Por um lado, é fato co- cidade. Estas referências ocorrem na Apologia de Melanchthon. Suas
nhecido que Lutero expressara dúvidas quanto à canonicidade de referências a Tobias 4 . 5 , 11 e 19 encontram-se na resposta à inter-
vários livros da Bíblia. Em 1522, por exemplo, êle não considerava pretação dada a estas passagens pela Confutação católica romana
canónicos os livros de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse. Ante- (Ap IV, 277-279). O fato que não discute a canocidade de Tobias
riormente, êle considerara canónicos os livros apócrifos do Antigo
18
é sem dúvida causado por seu desejo de permanecer dentro do as-
Testamento. Poder-se-ia muito bem esperar uma definição confes-
sunto em pauta: a doutrina da justificação pela graça. A referência
sional sobre a posição canónica destes livros. Além disso, outras
de Melanchthon a 2 Macabeus 15.14 é casual: «Contudo não há,
confissões denominacionais do século XVI, como os Cânones e De-
nas Escrituras testemunho algum sobre mortos orantes, exceto aque-
cretos do Concílio de Trento e algumas confissões reformadas, de-
1 9 le sonho tirado de 2 Macabeus» (Ap XXI, 9). Novamente, Melanchthon
finiram-se no tocante a esta questão. Contrariando tais expectati-
vas, entretanto, não se encontra resposta para este problema nas não inclui a questão da canonicidade em sua argumentação.
Confissões Luteranas.
Portanto, não é possível formular argumentos sobre a extensão
A s confissões não lidam com o conceito da canocidade, nem definitiva do cânone com base nas Confissões Luteranas. O motivo
descrevem a Escritura como «canónica». A o invés disso, designa-
principal para a ausência de afirmações em torno desta questão re-
ções tais como «os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e
side na natureza dos documentos contidos no Livro de Concórdia e
Novo Testamento» (FC Ep Regra e Norma, 1) ou «Sagrada Escritura
de Deus» (FC DS V, 3) são empregadas. C o m o Schlink correta- nas finalidades a que se destinaram. As Confissões Luteranas an-
mente afirma: «Uma crítica do canône da Escritura ou mesmo crítica teriores tinham como alvo principal o de esclarecer a doutrina l u -
intracanônica à luz do evangelho, apesar de não expressamente terana da justificação com base na Escritura, ou, no caso dos cate-
excluída, não é feita em parte alguma.» 2 0
cismos, de tratar com brevidade os principais pontos da doutrina cris-
u e
tã. Q a Fórmula de Concórdia, escrita depois do Concílio de
17 M. Reu, Luther and the Scrlptures (Columbus, Ohio: The Wartburg Press, 1944), reim-
presso em The Springfielder, XXIV (Agosto, 1960), 70. Posição semelhante é tomada Trento, não contém uma lista de livros canónicos não é surpreenden-
por Wilhelm Walther, Das Erbe der Reformatlon in Kampf der Gegenwart, I (Leipzig: te, quando se mantém em mente que seu objetivo era o de resolver
A. Deichert'sche Verlagsbuchhandlung, 1903), 56-94. Karl Holl procura reduzir ao
mínimo a ênfase na autoridade divina em -Luthers Bedeutung fuer den Fortschritt der dificuldades intra-luteranas, entre as quais não se encontrava a da
Auslegungskunst', Gesammelte Aufsaetze zur Klrchengeschlchte, I. Luther (6? ed.;
Teubingen: J. C. B. Mohr, 1927), 544 a 582. Para um exame recente da pesquisa extensão do canône bíblico. A ausência de uma lista canónica não
sobre Lutero com respeito a este ponto, cf. John Warwick Montgomery, -Lutheran
Hermeneutics and Hermeneutics Today», em Aspects of Bibllcal Hermeneutics: Con- indica, entretanto, que para as Confissões Luteranas isto não cons-
fessional Principies and Practlcal Applications, Occasional Papers N9 1 de Concórdia
Theological Monthly (St. Louis: Concórdia Publlshing House. 1966). pp. 91-102. tituía problema teológico de primeira magnitude, havendo consenso
18 Ibld., p. 11. geral quanto a quais livros deviam ser incluídos entre as Escrituras
19 Cf. Canons and Decrees of the Councll of Trent, trad. H. J. Schroeder (St. Louis: proféticas e apostólicas do Antigo e Novo Testamento.
B. Herder Book Co., 1950), pp. 17-18, para a lista dos livros canónicos da Igreja
Católica Romana. Entre as numerosas confissões reformadas, as seguintes contêm
listas das Escrituras canónicas: Zuerlcher Bekenntnis (1545), Confessio galllcana (1559).
Confessio belgica (1561), The Thirty-nlne Articles (1562) e the Westminster Confession 21 Cf. •Verzeichnis der zitlerten Schriftstellen., em Dle Bekenntnlsschrlften der evan-
1647). Cf. Die Bekenntnlsschrlften der reformlerten Kirche, ed. E. F. Karl Mueller gelisch-lutherlschen Kirche, 5° ed. rev. (Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1963),
Leipzig: A. Delcherfsche Verlagsbuchhandlung, 1903). pp. 155, 222, 233. 507 e 543, pp, 1137-1144.
respectivamente. 22 Segundo a lista de citações bíblicas em The Book of Concord, ed. T. G. Tappert
20 Schlink, p. 9. (Philadelphia: Fortress Press, 1959), pp. 639-648.
A Escritura Sagrada Como a Palavra de Deus Escrita pela freqüência com que a palavra «divina» é usada para modificar
28
tanto «Escritura» como « P a l a v r a » , e pelo grande número de vezes
Apesar de não haver artigo específico sobre a natureza da Sa- que o conteúdo das confissões, tomado da Escritura, é caracterizado
20
grada Escritura nas Confissões Luteranas, há numerosas afirmações como «verdade d i v i n a » . A Bíblia é denominada «a Santa Escritura
e conceitos que indicam com clareza que os confessores considera- de Deus (in heiliger goettlicher Schrift)» (FC DS V, 3). A referência
vam a Escritura a Palavra de Deus inspirada. Analisaremos, em p r i - descritiva de Melanchthon à Escritura no Prefácio da Apologia é ainda
meiro lugar, várias passagens das confissões, a seguir, os conceitos mais precisa ao atribuir a autoria da Bíblia ao Espírito Santo. Aí
«Palavra de Deus», «mandatum Dei», e «ius divinum». Finalmente, sustenta que seus adversários católicos romanos «têm arguido, con-
teceremos comentários sobre o «fator humano» da Escritura Sagra- tra a manifesta Escritura do Espírito Santo, alguns artigos (contra
da como conceituado pelas Confissões Luteranas. manifestam scripturam spiritus sancti damnaverint)». (Ap Prefácio, 9)

Para o conceito confessional, católico, de Escritura Sagrada, é Apesar de referências à Escritura como «divina» ou «do Espí-
da máxima importância a declaração do Credo Niceno: «E no Espí- rito Santo» não afirmarem necessariamente, de modo explícito, a
rito S a n t o . . . que falou pelos profetas.» 2 3
Tendo em mente que as autoria divina, há afirmações confessionais que o fazem. Na A p o -
Confissões Luteranas aceitam os três Credos Ecumênicos como pos- logia, admirado que seus adversários «não se deixam mover em
suindo a «mais alta a u t o r i d a d e » , 24
esta afirmação é especialmente presença de tantas passagens da Escritura, que de maneira clara a-
significativa. A frase, que faz parte do Terceiro Artigo associado ao tribuem a justificação à fé, negando-a, sem dúvida, às obras», Me-
Credo Niceno desde a época do Concílio de Constantinopla, 381, lanchthon pergunta retòricamente: «Pensam acaso que tudo isso é
d . C , encontra-se em outros credos e escritos da igreja cristã daquela repetido sem propósito? Julgam, porventura, que o Espírito Santo
época, por exemplo, o antigo credo de J e r u s a l é m . 25
Kelly comenta deixou cair essas palavras distraidamente? (Num arbitrantur excidisse
que estas palavras «têm longa história nos credos e remontam à spiritu sancto non animadvertenti has vocês)» (Ap IV, 107). Estas
mensagem primitiva do c r i s t i a n i s m o » . 2B
Em linguagem semelhante a palavras afirmam com clareza o seguinte a respeito da natureza da
de 2 Pe 1.21, a frase expressa o ensinamento escriturístico sobre a Escritura: Deus, o Espírito Santo, é seu autor, êle falou palavras
inspiração dos «homens que falaram de Deus movidos pelo Espírito e êle as disse intencional e conscientemente.
Santo». Exprime tanto a autoria divina como a autoria humana da
Expressão semelhante encontramos no último artigo da Con-
Escritura. Assim, as Confissões Luteranas tomam a mesma posição
fissão de Augsburgo. Melanchthon escreve:
da igreja antiga e moderna que confessa esse conceito católico (uni-
versal) da autoria bíblica. Se os bispos têm autoridade para sobrecarregar a igreja com
uma infinidade de tradições e para ilaquear as consciências, por
A natureza divina da Escritura Sagrada evidencia-se também que proíbe a divina Escritura (die goettlich Schrift) tantas vezes
em vários lugares no Livro de Concórdia. Notamos, em primeiro lu- fazer e ouvir tradições? Por que as chama doutrinas de de-
gar, como se expressa este fato mediante o uso freqüente de adjeti- mônios? Teriam sido vãs estas advertências do Espírito Santo?
vos ou expressões qualificadoras com o termo «Escritura». O Prefácio (Soll dann der heilig Geist solches alies vergeblich, verwarnet
da Confissão de Augsburgo declara que a Augustana apresenta o haben) ( C A XXVIII, 49)
que os luteranos estavam pregando e ensinando «aus Grund gottlicher
2 7
heiligen S c h r i f t » ; e o epílogo finaliza com a disposição de fornecer O paralelismo entre a primeira e a terceira pergunta neste trecho é
maiores informações «com base na divina Sagrada Escritura». O lei- evidente. Dizer que a Escritura Sagrada proíbe alguma coisa é di-
tor do Prefácio do Livro de Concórdia tem sua atenção despertada zer que Deus, o Espírito Santo, falou. A q u i , novamente, atribui-se
a autoria de passagens bíblicas ao Espírito Santo. Este fator é o
23 Ibid., p. 19. O texto latino reza: «Et in spiritum sanctum... qui locutus est per que lhes confere sua autoridade na igreja.
prophetas-, Bekenntnisschriften, p. 27.
24 «Amplectimur etiam tria lila catholica et generalia summae auctoritatis symbola...« Outra referência explícita à autoria divina da Escritura encon-
(FC DS Regra e Norma. 4).
25 J. N. D. Klly, Early Christian Creeds, 2? ed. (Londres: Longmans. Green, and Co., tramos na Fórmula de Concórdia. Depois de expor a necessidade de
Ltd., 1960). pp. 183-184.
26 Ibid.. p. 341. 28 Cf., por exemplo: The Book of Concord, p. 3, linhas 13 e 25: p. 5, linhas 6 e 19;
p. 11, linha 19; e p. 12, linhas 5, 24 e 42.
27 A tradução no The Book of Concord omite a palavra «göttlicher-, Cf. CA Prefácio,
29 Cf. ibid. p. 4, linha 27; p. 6. linhas 26 e 35; e p. 13, linha 23.
8. p. 25.
Deus» recebe ênfases diferentes nas Confissões Luteranas. Por
testemunho cristão inequívoco no mundo com base nas passagens
vezes, «Palavra», refere-se a Jesus Cristo ( C A III; FC D S VII, 39;
de Atos, Gálatas, Romanos e Colossenses, a Fórmula prossegue:
FC DS VIII, 15-16). Freqüentemente dá-se destaque à «Palavra»
Ao mesmo tempo isto também diz respeito ao artigo da liber- como o instrumento do Espirito Santo (por exemplo: A p XII, 40;
dade cristã, artigo que o Espírito Santo, por intermédio da boca A p XXIV, 70; Ap XXVIII, 10; AE III, viii, 3; FC Ep II, 4), e em algumas
do santo apóstolo, tão seriamente ordenou à igreja que o pre- destas passagens evidencia-se que se tem em mente a palavra da
servasse (welchen zu erhalten der Heilige Geist durch den pregação. Em outras ocasiões «Palavra de Deus» parece referir-se
Mund des heiligen Apostels seiner Kirchen, wie jetzt gehört, so em primeiro lugar ao evangelho. (Por exemplo: C A V, 4; CA XXVIII,
ernstlich befohlen hat), c o m o há pouco ouvimos (FC D S X, 15). 8-9; A p IV, 67, 73; Ap VII, 3; Ap IX, 2; Ap XXIV, 69; FC D S II, 2).
Aqui. novamente, esta confissão menciona bem explicitamente o Es-
pírito Santo como o autor da Biblia, ao atribuir intencionalidade ao Mas, na maioria das vezes, a expressão «Palavra de Deus»
Espirito Santo, e ao citar o apóstolo como o instrumento humano ou identifica-se com «Sagrada Escritura». No Prefácio do Livro de C o n -
• b o c a - do Espírito Santo. Novamente é a autoria divina do artigo córdia, o termo «Palavra de Deus» aparece nada menos do que 18
sobre a liberdade cristã que forma a base da sua a u t o r i d a d e . 10
vezes como designação para a Sagrada Escritura. A «Palavra divina»
e «Escritura Sagrada» são usadas como expressões paralelas na
No artigo da Fórmula sobre a Ceia do Senhor, importante pas-
Conclusão da primeira parte da Confissão de Augsburgo. A c o m -
sagem cita Jesus Cristo como o autor divino da Escritura Sagrada. paração dos textos latino e alemão da Apologia também demonstra
Lemos: amplamente o paralelismo dos dois conceitos (por exemplo: A p II,
Não há, naturalmente, intérprete mais fiel ou fidedigno das pa- 4 ; Ap XII, 16, 131; A p XIII, 2; A p XXI, 10; A p XXIII, 4). Pode-se ler
palavras de Jesus Cristo que o próprio Senhor Cristo, que me- a «Palavra de Deus» (FC D S II, 57); tudo na «Palavra de Deus» foi
lhor entende suas palavras, seu coração e seu objetivo, e é escrito por nossa causa (FC DS XI, 12); a doutrina de Lutero foi
quem melhor autorizado está, do ponto de vista da sabedoria «extraída da Palavra de Deus e exposta em conformidade com ela»
e inteligência, para explicá-las. Ao instituir seu testamento, sua (FC D S Regra e Norma, 5). A distinção lei-evangelho t e m c o m o
aliança e união perenes, não emprega linguagem rebuscada mas objetivo dividir de modo apropriado a «Palavra de Deus». (FC D S V, 1)
as palavras mais apropriadas, simples, inequívocas e claras,
assim como êle o faz em todos os artigos de fé e ao instituir Realmente, para algumas pessoas o termo «Palavra de Deus»
outros sinais da aliança ou sacramento, tais como circuncisão, como designação para a Escritura Sagrada não significa necessa-
os diversos tipos de sacrifícios no Antigo Testamento e o santo riamente que Deus é o autor da Escritura. Para as Confissões L u -
Batismo. (FC DS VII, 50) teranas, entretanto, Deus é seu autor. O estudo dos contextos con-
Recordando a íntima relação estabelecida entre Jesus Cristo e o Es- fessionais em que «Palavra de Deus» designa a Escritura Sagrada
pírito Santo no Artigo III da Confissão de Augsburgo, não nos de- sugere enfaticamente que o termo indica tanto a autoria como a au-
veríamos surpreender encontrando Cristo c i t a d o c o m o o autor de toridade divina. Fazem-se referências à «Palavra de Deus» para
trechos da Escritura Sagrada; pois o Espírito Santo fala do Pai e fundamentar uma doutrina, condenar praxe errônea, apresentar as
do Filho. O que nos interessa, na citação feita acima, é o fato que prescrições divinas para a vida do homem, enfim, para falar com
entre as palavras claras pronunciadas por nosso Senhor na Escri- autoridade. Sejam as referências feitas à Escritura inteira, a uma
tura estão explicitamente incluídos todos os artigos de fé bem como passagem determinada da Escritura, ou a uma doutrina fundamenta-
muitas instituições veto-testamentárias. da na Escritura, o conceito «Palavra de Deus» refere-se a «ein bes-
timmtes W o r t aus Gottes Mund, dass in der Bibel enthalten und
A o se procurar entender o conceito confessional da natureza bewahrt ist» (uma palavra certa que procede da boca de Deus, con-
31
da Escritura Sagrada, faz-se necessário prestar atenção também ao tida e preservada na B í b l i a ) . Se alguém quer saber o que Deus
conceito «Palavra de Deus» nas Confissões Luteranas. «Palavra de falou ou o que êle deseja, deve então dirigir-se à Escritura, uma vez
que «sobre a vontade de Deus nada se pode afirmar sem a Palavra
30 É extraordinária a semelhança da linguagem desta citação com a fórmula empregada
no Novo Testamento para introduzir citações do Antigo Testamento. Por exemplo, de Deus» (Ap XV, 17). A conclusão de Fagerberg concorda plena-
cf. At 3.18: - o que dantes (Deus) anunciara por boca de todos os profetas-; At mente com os fatos:
3.21: -que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade-; At
4.24-25: - D e u s . . . que disseste por intermédio do Espirito Santo, por boca de nosso
pai Davi. teu servo-; e Lc 1.70: -como prometera, desde a antiguidade, por boca
dos seus santos profetas-. 31 Fagerberg, p. 16.
W o immer Gottes W o r t angefuehrt w i r d , steht es in der einen Igualmente, este conceito indica que, para as Confissões, a Escritura
oder andern Weise mit der Bibel in Verbindung. Ohne diese Sagrada é o mesmo que Deus falando. De modo similar a expressão
Bezogenheit wuerde es zu willkuerlichen Entscheidungen ueber ius divinum (direito divino) se relaciona intimamente nas Confissões
das kommen, was auf Gott selbst zurueckgeht und was aus Luteranas com a Escritura Sagrada. Para q e algo possa ter «direito
U

Menschenmund s t a m m t . . . Die BK (Bekenntnisschriften) be- divino» deve ter sido ordenado ou instituído por Deus; em outras
trachten Gottes W o r t als eine in der Bibel geoffenbarte Wahrheit. palavras, deve fundamentar-se no que Deus diz na Escritura Sagra-
Da nur sie eine sichere Kenntnis von Gottes Willen vermitteln da. A absolvição, por exemplo, é «de direito divino» (iuris divini) mas
kann, wird die Schrift, ein einzelnes Bibelwort oder andere bi- a enumeração de todos os pecados não é, pois não é extraída de
32
belnahen Worte Gottes W o r t g e n a n n t . (Toda vez que se men- mandamento divino («ais sei solch Zaehlen de iure divino, das ist
ciona a Palavra de Deus, há nisto, de uma ou de outra forma, von Gott geboten» (inventam que essa enumeração é de direito di-
uma referência à Bíblia. Sem esta relação tomar-se-iam decisões vino) (Ap XII, 1 1 ; cf. também 104 e 116). Pouco antes, ao desen-
arbitrárias quanto ao que encontra sua origem em Deus e volver este argumento, o texto alemão da Apologia esclarece o que
o que procede de boca h u m a n a . . . As confissões consideram significa dizer que algo não é ordenado por Deus, quando assevera
a Palavra de Deus como verdade revelada na Bíblia. Visto que os adversários deveriam ter provado «aus der heiligen Schrift,
poder apenas ela transmitir a vontade de Deus, denomina-se aus Gottes W o r t . . . dasz solch Erzaehlen der Sünde von Gott ge-
Palavra de Deus a Bíblia, uma única palavra da Bíblia ou pa- boten waere» (com a Escritura Sagrada, com a Palavra de D e u s . . .
lavras semelhantes às da Bíblia.) que tal enumeração de pecados foi ordenada por Deus) (Ap XI, 7).
A sagrada absolvição, que nada é além da «promessa do perdão dos
Outro conceito confessional que com clareza indica o caráter divino
pecados» (Ap XII, 61), encontra-se em toda a Escritura e, por conse-
da Sagrada Escritura é «ordem de Deus» (mandatum Dei). Nas con-
guinte, existe iure divino.
fissões este termo relaciona-se intimamente com a Escritura. Este
conceito encontramos nos símbolos luteranos pela vez primeira na O matrimônio, igualmente, existe iure divino (Ap XXIII, 3, 6) e
Confissão de Augsburgo, onde se diz que «se deve fazer toda sorte a lei do celibato contradiz a lei divina e natural. Por quê? Devido
de boas obras ordenadas por Deus» (CA VI, 1). A segunda parte às palavras claras da Escritura que estabeleceram a divina instituição
da Confissão de Augsburgo emprega com freqüência o conceito do matrimônio, como é demonstrado no restante do artigo. Nova-
mandatum Dei, associando-o sempre direta ou indiretamente com a- mente, a distinção hierárquica dentro do ministério não se pode en-
firmações bíblicas concretas. A Santa Comunhão deve ser distribuída contrar na Escritura Sagrada e, portanto, não existe iure divino (Tr.
sob ambas as espécies, pão e vinho, e as confissões se apoiam em 10). Lutero sustenta que «o papa não é o cabeça de toda a cris-
Mt 26.27 como mandatum Domini (CA XXII, 1). O celibato clerical tandade por direito divino ou segundo a Palavra de Deus (iure divino
é rejeitado com base em passagens bíblicas específicas (1 C o 7 . 2 , oder aus Gottes Wort)» (AE II; iv, 1 ) . 3 4
Quando o Tratado se pro-
9; Mt 1 9 . 1 1 ; Gn 1.27). Seguem, então, estas palavras: «lei humana põe a «demonstrar com o evangelho que o bispo de Roma não é
alguma pode ab-rogar ou modificar o mandamento de Deus, também por direito divino superior a todos os demais bispos e pastores»
nenhum voto pode alterar o mandamento do Senhor (mandatum Dei (Tr. 7), fica evidente pelo contexto que a palavra «evangelho» se
et ordinationem Dei) ( C A XXIII, 8). As provas contra o caráter o b r i - refere a Lc 22.24-27 e talvez a outras citações neotestamentárias que
gatório dos votos monásticos são tomadas de passagens bíblicas seguem. Em suma, por fundamentar o ius divinum nas palavras da
determinadas (1 Co 7.2 e Gn 2.18) com a afirmação: «os votos Sagrada Escritura, as confissões mais uma vez evidenciam sua pro-
não podem anular a ordenação e o «mandamento de Deus (ordina- funda convicção que as palavras da Escritura Sagrada são as palavras
tionem et mandatum Dei)» ( C A XXVII, 18). Poder-se-iam multiplicar do próprio Deus.
tais exemplos. A questão é que recorrer ao mandamento de Deus
significa buscar apoio na Escritura Sagrada; o conceito mandatum A ênfase na autoria divina da Escritura Sagrada, que caracteriza
Dei «knuepft immer in irgendeiner Weise, direkt, oder indirekt an eine as Confissões Luteranas, de maneira alguma despreza o fato que a
bestimmte Schriftaussage an» (sempre se relaciona de alguma forma, Bíblia foi escrita por homens que viveram em épocas diferentes e
33
direta ou indiretamente, a uma passagem escriturístlca d e t e r m i n a d a ) . empregaram línguas diversas. As confissões citam com freqüência

34 Lutero equacionava Escritura com ius divinum: «Sacra scriptura, quae est proprie
32 Ibid.. pp. 18-19. Jus divinum». Citado em Die Bekenntnisschrlften der evangellsch-lutherlschen Klrche,
p. 427.nv 3 .
33 Ibid., p. 21.
a Escritura referindo-se ao autor humano de uma passagem ou livro.
O emprego sistemático dos princípios de exegese literária, como
demonstraremos nos Capítulos 6 e 7, indica como era óbvio para
os confessores que estavam tratando com documentos de carne e
sangue em sua interpretação bíblica. Realmente, é a forma humana
histórica da Escritura que tem necessidade do emprego de tais prin- CAPITULO 2
cípios. Mas, é importante lembrar que para as confissões os autores
humanos da Sagrada Escritura foram os instrumentos do autor pri- As Funções da Escritura Sagrada
3 5
mário da Escritura, o próprio Deus. São a «boca» do Espírito S a n t o .
As Escrituras Sagradas, para as Confissões Luteranas, nunca
As confissões, de fato, não tratam da inspiração divina da Sa- são documentos que pertencem apenas ao passado, mas também
grada Escritura, contemplativa, abstrata ou filosoficamente, mas refle- ao presente e ao futuro. Não são documentos em que Deus falou
tem sua doutrina implícita da inspiração «de modo existencial e fun- apenas a seu povo há milhares de anos, mas livros em que Deus
3C
cional, sem o uso de termos técnicos cunhados f i l o s o f i c a m e n t e » . se dirige aos homens hoje; são Deus loquens da mesma forma como
Mas a Escritura é revelação divina («aus der Schrift Offenbarung», Deus locutus. Na Escritura Sagrada Deus fala diretamente ao leitor.
AE III, i, 3). «Até esse ponto Deus nos revelou o mistério da pres- É impressionante a freqüência com que as confissões aplicam passa-
ciência em sua Palavra» (FC DS XI, 43), do mesmo modo como re- gens diretamente a situações contemporâneas muitas vezes sem
velou em toda a Escritura o que nos importa conhecer e crer. Para análise do objetivo ou contexto original da passagem.
os Símbolos Luteranos, forma da Escritura Sagrada significa simples-
Roga-se ao Imperador Carlos V : «não assintas aos conselhos
mente que ela é a Palavra de Deus transmitida através de seus san-
violentos de nossos adversários, mas procures outras vias honestas
tos escritores.
de estabelecer concórdia» porque Deus «adorna os reis com seu
nome e os chama deuses, dizendo: Eu disse: Sois deuses SI 82.6»
35 Cf. FC DS X, 15: -welchen zu erhalten der Heilige Geist durch den Mund des heiligen
Apostels seiner Kirchen, wie jetzt gehoert, so ernstlich befohlen hat-. (Ap XXI, 44). Faz-se uso de Mt 2 3 . 2 : «Na cadeira de Moisés se
36 Piepkorn, -Position-, Concordia Theological Monthly, pp. 740-741. assentaram os escribas e fariseus» para fundamentar a doutrina que
«nem por isso os sacramentos deixam de ser igualmente eficazes,
embora os sacerdotes que os administrem não sejam piedosos» (CA
VIII). Aplica-se diretamente a pregação de João Batista (AE III, iii,
30-32). Tanto At 5.29 como Gl 1.8 são aplicados aos pontífices
«que defendem formas ímpias de culto, idolatria e doutrinas que se
opõem ao evangelho (Tr, 38). «Acautelai-vos dos falsos profetas»
( M t 7.15) e «Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos»
(2 Co 6.14) são citados para fundamentar a afirmação que todos
os cristãos devem «abandonar e maldizer o papa e seus adeptos
como o reino do Anticristo» (Tr, 41). As palavras «por vós» da
instituição da Ceia do Senhor «não são anunciadas a madeira ou
pedra mas a ti e a mim» ( C M a V, 65). O lamento de Cristo sobre
Jerusalém (Mt 23.37) mostra que não acontece qualquer injustiça
quando o Espírito Santo não ilumina o homem que despreza seus
instrumentos (FC DS II, 58). Em suma, as confissões abordam a
Escritura com a convicção que «tudo na Escritura, como testifica S.
Paulo, foi escrito para nossa instrução a fim de que pela constância
e pelo encorajamento da Escritura possamos ter esperança.» (FC
1
Ep XI, 16, grifo adicionado; cf. DS XI, 1 2 )

1 Esta referência a Rm 15.4 inclui o Novo Testamento dentro do conceito de "Escri-


tura*, o que o texto confessional faz ver com clareza.
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maneça sendo o únid M l norma segundo 1


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pedra de toque, t o d a * ° -' zem ser e n t e n d i ç j a g ^
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como boas ou más, : -'-'-' '-• • (EP. 7 ) . A Ö e c l z
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como 2

lida aceita o veredito ,a Palavra de C > e A \ | das u j u g a

1 ^ação Só- TheeJ'^Vj-


3 M Heilige Sehrt« der ,
^ ¿ 5 * * » reza JSn Probierstein »oller, u n' «e * (4, e per- M e l ^ í .,,:»<
j . t oder boes, recht vert-»,"'
Ode,™ e
doe
0«n: ed. \ichter, Reçel
i^iuessen i«e
> r e c h t sein..
'•IV. (Goeon-
Esta Palavra de Deus, que fala diretamente ao leitor, continua manece a única regra e norma de toda doutrina, e que nenhum es-
a realizar funções indispensáveis à igreja. Serve como única fonte crito humano ouse equiparar-se a ela, mas tudo lhe deve ser subme-
e norma que possui autoridade para estabelecer doutrina e conduta; tido». (DS, 9)
é instrumento ímpar para a missão do Espírito Santo de trazer o ho-
mem ao conhecimento de sua salvação em Jesus Cristo. Tomadas em conjunto, estas afirmações ressaltam que a Escri-
tura é tanto fonte como norma. Que a Escritura é a fonte da dou-
trina percebe-se com muita clareza na descrição da Bíblia como a
Fonte e Norma para Doutrina e Vida «fonte de Israel (Brunnen Israels; fontes Israelis)». Esta expressão
deve ser entendida à luz do significado de «fonte» em contextos li-
Nas confissões, as passagens clássicas que afirmam a autori- terários. Peter Fraenkel explica: «O século XVI, tal qual seus mo-
dade definitiva da Escritura Sagrada em questões de fé e vida na delos antigos e nós próprios, empregou fons como termo técnico
igreja ocorrem na Fórmula de Concórdia. A Epítome declara: para origens literárias ou pressupostos intelectuais ou espirituais.» '
Cremos, ensinamos e confessamos que os escritos proféticos e Na Fórmula, «fonte» refere-se à origem literária da doutrina evangé-
apostólicos do Antigo e Novo Testamento são a única regra lica, a Sagrada Escritura, que é, em vista disso, descrita como a
e norma segundo a qual se deve pronunciar julgamento e v e - única fonte válida ou base para doutrinas no verdadeiro Israel, a
redito sobre todas as doutrinas e todos os mestres (die einige igreja de Jesus C r i s t o .
Regel und Richtschnur, nach welcher zugleich alle Lehren und A Escritura Sagrada como «norma» é ainda mais explícita nes-
Lehrer gerichtet und geurteilet werden sollen) como está escrito tas passagens da Fórmula. Substantivamente, a Escritura é descrita
em SI 119.105: «Lâmpada para os meus pés é a tua palavra como «regra (Regei», «norma (Richtschnur)», «juiz (Richter)» e «pedra
e luz para os meus caminhos.» E S. Paulo diz em Gl 1.8: de toque (Probierstein)». Verbalmente, a função normativa da Escri-
«Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos tura é expressa como a de «julgar (richten)» e «avaliar (urteilen)»
pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja doutrinas e mestres. Em suma, o conceito de Escritura que aparece
anátema.» (FC Ep Regra e Norma, 1) na Fórmula é que o Livro divino ocupa posição ímpar na igreja. Não
é apenas a origem da fé e vida da igreja, mas também a corte s u -
O parágrafo correspondente na Declaração Sólida reza:
prema de apelação para determinar se doutrinas são «boas ou más,
Compromissamo-nos aos escritos proféticos e apostólicos do certas ou erradas». (Ep Regra e Norma, 7)
Antigo e Novo Testamento como a clara e pura fonte de Israel
(als zu dem reinen, lautern Brunnen Israels), que é a única De maneira alguma pode-se ignorar a palavra «única» nestas
norma verdadeira segundo a qual se deve pronunciar julgamento afirmações. Ocorre nada menos do que quatro vezes nas descrições
e veredito sobre todos os mestres e doutrinas (welche alleine da função normativa da Escritura. A Escritura não é apenas uma
die einige wahrhaftige Richtschnur ist, nach der alle Lehrer und fonte e norma para a doutrina da igreja, mas é a única. A autoridade
Lehre zu richten und zu urteln sein). (FC D S Regra e Norma, 3) da Escritura não é apenas historicamente superior, não é apenas de
primeira importância, mas é única e absoluta. O «única» é extraor-
Os contextos de ambas as passagens reforçam a autoridade decisiva dinariamente significativo tendo em vista o fato que não muitos anos
da Escritura Sagrada. Outros escritos «não devem ser colocados antes o Concílio de Trento declarara explicitamente que a Escritura,
no mesmo nível da Escritura Sagrada» mas «devem ser subordina- na Igreja Católica, compartilha a função normativa com a tradição.
dos à Escritura» (Ep, 2). A distinção entre a Escritura Sagrada e Fagerberg comenta:
outros escritos deve ser mantida para que a «Escritura Sagrada per-
maneça sendo o único juiz, regra e norma segundo a qual, como Die Evangelischen praezisirern in dieser Lage ihre von den Re-
pedra de toque, todas as doutrinas devem ser entendidas e julgadas formatoren uebernommene Auffassung von der Schrift ais
2
como boas ou más, certas ou erradas» (Ep, 7 ) . A Declaração Só- hoechster Autoritaet, wobei moeglicherweise auch die Absicht
lida aceita o veredito de Lutero que «a Palavra de Deus é, e per- mitbestimmend war, allsu weitgehende traditionalistiche Tenden-

3 Peter Fraenkel, Testlmonla Patrum: The Function of the Patristic Argument in the
2 O original alemão reza: -und bleibt allein die Heilige Schrift der einig Richter, Regel Theology of Philip Melanchthon (Genebra: Libralre E. Droz, 1961), p. 190. n° 83.
und Richtschnur, nach welcher als dem einigen Problerstein sollen und muessen alle Fraenkel prova e s t a . afirmação com referências ao -Prefácio è Bíblia Grega- de
Lehren erkannt und geurteilt werden, ob sie gut oder boes. recht oder unrecht sein.» Melanchthon, á epistola dedicatória de Cranmer a De Voce et Re Fidel de Flacius.
Em Die Bekenntnisschriften der evangelisch-lutherischen Kirche, 5° ed. rev. (Goettin- versos dedicatórlos numa Bíblia alemá para Martinho Lutero Jr., e duas afirmações
gen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1963), p. 769. dos escritos de Lutero.
zen in den eigenen Reihen z u r u e c k z u w e i s e n . ' (Os evangélicos, fácio, 8; Epílogo XXI. 2; XXI, 4, em alemão) e a Apologia (I, 2; II,
neste caso, especificam o conceito de Escritura como a mais 32 e 42; IV, 166; XII, 16) recorrem à Escritura Sagrada como um
alta autoridade, que receberam dos reformadores, com o qual todo, bem como a passagens individuais como sendo a autoridade
provavelmente também visam repelir tendências tradicionalistas definitiva. O bem conhecido aforismo de Lutero: «Isto significa que
exageradas dentro de suas próprias fileiras) a Palavra de Deus estabelecerá artigos de fé e ninguém mais, nem
ainda um anjo» (AE II, ii, 15) é o ponto de vista expresso em todo
O principio romano da tradição e idéias semelhantes entre alguns o Livro de Concórdia. É, pois, compreensível que «mesmo aos pró-
luteranos podem ter propiciado a ocasião histórica para o «única», prios bispos legitimamente eleitos se não deve obedecer quando er-
mas é igualmente verdade que o «única» na realidade nada de novo ram, ensinam ou ordenam qualquer coisa contrária às sagradas e
expressa na doutrina luterana. Tendo em vista a natureza da Escri- divinas Escrituras» (CA XXVIII, 28). Pois, o que de mais sério se
tura Sagrada de ser apenas ela Palavra de Deus, teologicamente re- podia afirmar contra qualquer ponto de vista doutrinário era que
sulta disso a conclusão que «unicamente a Escritura pode ter auto- tinha sido formulado sem a autoridade da Escritura. (Cf. Ap XII, 119)
ridade divina para fins doutrinários na igreja.
Em vista disso, deve-se rejeitar praxes ou ensinamentos não
Fagerberg afirma corretamente que a passagem da Fórmula «von baseados na Escritura Sagrada ou, na melhor das hipóteses, não
den Reformantoren uebernommene Auffassung v o n der Schrift» (o con- são seguros; em nenhum caso podem alterar ou pôr de lado a Pa-
ceito de Escritura recebido dos reformadores) apresenta «sachlich lavra de Deus. «Ora, não sendo lícito alterar a palavra e o manda-
5
nichts Neues» (nada de realmente n o v o ) . Em nossos capítulos anterio- mento de Deus por voto ou por qualquer lei humana, por estas e
res chamamos a atenção à idéia que as confissões fazem de si próprias outras razões, casaram-se muitos sacerdotes e outros ministros da
como exposições da Escritura. Assinalamos várias instâncias em que igreja» ( C A XXIII, 8); a condenação desses matrimônios clericais é
se apoiam na Escritura como a Palavra de Deus, ordenação de Deus deplorável pois está «o matrimônio dos padres e dos pastores fun-
e base de direito divino. Mas, nada, talvez, fala com maior eloqüên- dado na palavra e no mandamento de Deus» (a tradução inglesa
cia a favor do conceito confessional da Escritura como a fonte e reza, seguindo o original latino: «na Escritura Sagrada Deus orde-
norma de doutrina que os constantes recursos à Escritura encon- nou seja honrado o matrimônio) ( C A XXIII, 19). Como se poderá
trados em todo o Livro de Concórdia. A grande maioria das mil saber se tradições humanas «agradam a Deus já que não têm o
setecentas e tantas citações e referências bíblicas que aparecem nas testemunho da Palavra de Deus?» (Ap XV, 14) De modo semelhante:
6
c o n f i s s õ e s , é apresentada sem qualquer argumentação em favor da
autoridade da passagem. Este fato foi entendido! Fagerberg comenta: Como, porém, sobre invocação de santos não se pode aduzir,
das Escrituras, nem preceito, nem promessa, nem exemplo,
W a e r e die Bibel nicht der selbsverstaendliche Ausgangspunkt segue-se que a consciência nada de certo pode ter com res-
gewesen, dann haetten sich die Reformatoren nicht so zu be- peito a essa invocação. E como a prece deve ser de fé, qual
muehen brauchen, ihren Standpunkt von der Schrift her, von a maneira de sabermos que Deus aprova essa invocação? De
der aus sie alle bedeutsameren Artikel zu stuetzen suchten, zu onde sabemos, sem o testemunho da Escritura, que os santos
7
belegen. (Se a Bíblia não fosse o ponto de partida evidente percebem as preces de cada um? (Ap XXI, 10)
por si mesmo, então não precisariam ter-se esforçado tanto
Novamente, Melanchthon afirma que os católicos romanos «não têm
os reformadores em provar sua posição com a Escritura, a par-
nenhum testemunho e nenhuma ordem das Escrituras» para aplicar
tir da qual buscavam sustentar todos os artigos mais impor-
a Missa às almas dos defuntos. Fazer algo dessa natureza» sem
tantes.)
ordem de Deus, sem exemplo da Escritura» é «abusar do nome de
O fato que apenas a Escritura Sagrada possui autoridade para de- Deus, contra o segundo mandamento». (Ap XXIV, 89)
cidir questões de doutrina é o motivo porque todas as Confissões Ensinamentos e praxes que não têm a seu favor a autoridade
Luteranas sempre recorrem a ela. A Confissão de Augsburgo (Pre- da Escritura são, na melhor das hipóteses, duvidosos. Mas, aquilo
que Deus apresenta na Escritura é certo e seguro. O Quarto Man-
4 Holsten Fagerberg, Die Theologie der lutherischen Bekenntnisschriften von 1529 bis
1537, trad. Gerhard Klose (Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1965). p. 15. damento ilustra bem esta questão:
5 Ibid.
6 Conforme o Índice de referências bíblicas no The Book of Concord, ed. T. G. Tappert O que Deus ordena deve ser muito mais nobre do que qual-
(Philadelphia: Fortress Press, 1959). pp. 639-648.
quer coisa que nós próprios podemos imaginar. E, visto não
7 Fagerberg. p. 15.
haver mestre maior ou melhor do que Deus, também náo po- Palavra de Deus não é falsa nem mente (Gottes Wort nicht falsch
de haver ensinamento melhor que o seu. Agora, êle claramente ist oder luege)» (FC Ep VII, 13; cf. FC D S VII, 96). A Escritura Sa-
ensina o que devemos fazer se quisermos realizar obras ver- grada fornece à igreja antiga a base verdadeira e segura (aus wahrem,
dadeiramente boas e, ordenando-as mostra que delas se agra- bestaendigen Grunde)» para a rejeição de erros (FC D S Regra e
da. (CMa I, 113) Norma, 17). Por que podem as confissões estar tão seguras de sua
posição? Porque se fundamentam «na Palavra de Deus como ver-
Lutero continua, dizendo que a observância dos deveres do Quarto
dade eterna» (FC DS Regra e Norma, 13). Se a doutrina de alguém
Mandamento é preciosa e agradável a Deus, -não devido a tua dig-
contradiz a Escritura, «ensinar-se-ia que Deus, que é a Verdade eter-
nidade mas porque se encontra dentro dessa jóia e tesouro santo,
na, se contradiz a si mesmo» (FC DS XI, 35). Em suma, devemos
a Palavra e o mandamento de Deus» ( C M a I, 117). Importa lembrar
«ater-nos à Palavra revelada que não pode e não irá nos enganar
que esta «Palavra e mandamento de Deus» encontram-se na Escritu-
(an das geoffenbarte Wort uns halten, das kann und wird uns nicht
ra. «Em vista disso possuis texto seguro e testemunho divino que
fehlen)». (FC Ep XI, 14)
Deus ordenou isto; a respeito das outras coisas não ordenou uma
palavra sequer.» (CMa I, 120) Em vista disso, a Escritura veraz, pura e infalível serve como
Em razão disso, a declaração da Fórmula de Concórdia que a única fonte e norma para a doutrina e vida na igreja. Todas as o u -
Escritura Sagrada é a única regra e norma na igreja não é mero tras fontes de autoridade, tais como, igreja, bispos e razão humana,
princípio. É posta em prática nas confissões de princípio a fim, tan- devem lhe estar sujeitas e de nenhum modo podem contradizê-la.
to nas teses como nas antíteses, em questões de doutrina bem como Possuem autoridade divina não apenas as afirmações diretamente
em questões de vida. O que confere à Escritura esta autoridade? contidas na Escritura, mas também deduções ou consequências tira-
As confissões responderiam afirmando que a Escritura Sagrada é a das dela. Os Símbolos Luteranos embora proibindo que tiremos nos-
própria Palavra de Deus. Mas, nesta conexão também ressaltariam sas próprias deduções com base em nossas fantasias (FC D S XI,
os atributos que a Escritura possui como Palavra de Deus: é pura, 55), sustentam a legitimidade de se tirar deduções ou conseqüências
veraz e fidedigna. A Fórmula descreve a Escritura como a «pura com fundamento na Escritura, o que se evidencia em sua maneira
e clara fonte de Israel (reinen, lautern Brunnen Israels)» (FC D S de proceder. A fé é necessária para se receber os benefícios dos
Regra e Norma, 3). Lutero admoesta o leitor a manter-se fiel ao sacramentos porque estes são sinais das promessas, e uma promes-
Quarto Mandamento «a fim de que não sejamos novamente desvia- sa é inútil se não fôr aceita pela fé, c o m o Paulo ensina em Rm
dos da Palavra de Deus pura em direção às enganosas vaidades 4 . 1 6 (Ap XII, 61). Importante argumento em favor do batismo infantil
do diabo» ( C M a I, 121). O Prefácio do Livro de Concórdia fala da é que a promessa da salvação também atinge as crianças pequenas;
«pura doutrina da Palavra de Deus», «Palavra de Deus pura, não Cristo efetua a regeneração através dos meios da graça adminis-
adulterada», «a verdade inalterável da Palavra divina (unwandelbaren trados pela igreja; portanto é necessário batizar as crianças a fim
Wahrheit goettliches Worts)», a «pura, infalível e inalterável Palavra de que a promessa da salvação as possa atingir (Ap IX, 2, cf. tam-
de Deus (reinen, unfehlbaren und unwandelbaren W o r t G o t t e s ) » . O R bém AE III, v, 4). Várias passagens não eucarísticas do Novo Testa-
exame do contexto destas afirmações mostra que são normalmente mento também são usadas para provar que a Ceia do Senhor se
usadas quando estão em debate erros doutrinários. Conseqüente- destina igualmente aos fracos na fé (FC D S VII, 70-71); essa con-
mente, palavras como «pura», «verdade», «infalível» e «inalterável», clusão é possível porque as confissões conceituam a Ceia do Senhor
quando aplicadas à Escritura, ressaltam que é inteiramente fidedigna como sendo uma forma do evangelho. (AE III, iv)
e livre de qualquer inverdade.
A regra «Nada possui caráter de sacramento quando fôr usado
Visto sabermos que «Deus não mente» e que «a Palavra de de modo diferente do instituído por Cristo», que é empregada no
Deus não pode errar (Gottes W o r t kann nicht feilen)» ( C M a IV, 5 7 ) , 0 debate de várias questões vitais na doutrina da Ceia do Senhor, é
Lutero aconselha: «Crê na Escritura. Ela não te mentirá (so glàube «extraída das palavras da instituição» (FC D S VII, 85). A Fórmula
doch der Schrift, die wird Dir nicht l i e g e n ) . ( C M a V, 76). Cita-se aceita a regra cristológica, deduzida da Escritura, que tudo o que
novamente Lutero com aprovação na Fórmula de Concórdia: «A a Escritura diz ter Cristo recebido no tempo, recebeu segundo sua
natureza humana e não conforme sua natureza divina (FC D S VIII,
8 -Prefácio-. The Book of Concord, pp 4. 5. 8 e 12. 57). A doutrina da permuta de atributos em Cristo (que é tão cru-
9 Note-se a tradução latina: -porro autem verbum Dei nec potest errare nec fallare-, cial no debate contra os sacramentários) é derivada da união pes-
Bekenntnlsschriften, p 703
soai e da comunhão das naturezas (FC DS VIII, 31). A Fórmula
argumenta dedutivamente: Visto não haver variação em Deus (Tg Os confessores estão cientes que algumas pessoas erram por in-
genuidade contra a -expressa Palavra de Deus», mas pastores e
1.17), nada foi acrescentado ou subtraído à essência e atributos da
teólogos têm por responsabilidade lembrar tais pessoas - d o perigo
natureza divina de Cristo pela encarnação (FC DS VIII, 49). Por 10
que correm suas almas e adverti-las contra o m e s m o » .
último, vejamos uma dedução da Escritura que também se relaciona
com a interpretação da Escritura. Visto como tudo na Palavra de O conceito de Lutero da natureza dinâmica da Palavra eviden-
Deus está escrito para que possamos ter esperança, -está fora de cia-se nas confissões. Em sua explicação do Terceiro Artigo, exorta:
qualquer dúvida» que a compreensão da presciência de Deus não Portanto, deves manter a Palavra de Deus continuamente em
provocará nem irá alimentar impenitência ou desespero». (FC D S XI, teu coração, em teus lábios e em teus ouvidos. Pois onde o
12) coração fica ocioso e a Palavra não é ouvida, o diabo penetra
Em vista disso, a Escritura age como a única autoridade para e causa dano antes de o percebermos. Por outro lado, quando
a igreja, não apenas quando se usam palavras e frases em afirmações com seriedade ponderamos a Palavra, ouvimo-la e a colocamos
doutrinárias mas quando se crê, emprega e vive sua mensagem, que em prática, tal é seu poder que nunca nos abandona sem pro-
é a própria verdade divina. Entender com clareza esta função da duzir fruto. Traz sempre nova compreensão, novo prazer e
Escritura Sagrada é indispensável para se compreender a interpre- novo espírito de culto a Deus e purifica constantemente o co-
tação bíblica das Confissões Luteranas. ração e suas meditações. Pois estas palavras não são ociosas
nem mortas, mas eficazes e vivas. ( C M a I, 100-101)
De modo semelhante, em seu Prefácio do Catecismo Maior, Lutero
Instrumento Soteriológico
afirma:
A esta altura de nossa investigação seria fácil concluir que a Contra o diabo, o mundo, a carne e todos os maus pensamentos
Escritura Sagrada, a Palavra divinamente inspirada e única fonte e nada é tão eficaz como ocupar-se com a Palavra de Deus, fa-
norma para a fé e vida na igreja, tem como função primeira a de dar lar sobre ela, meditar n e l a . . . A Palavra de Deus não é como
informação certa sobre grande número de questões desconexas. Em- um conto fútil, tal c o m o o que fala sobre Dietrich de Berna,
bora seja correta a informação por ela prestada, deve-se ressaltar mas, c o m o S. Paulo diz em Rm 1.16, é - o poder de Deus»,
que para as Confissões Luteranas a Escritura funciona primordialmen- realmente, o poder de Deus que queima o diabo e nos dá in-
te como Instrumento ímpar para a tarefa do Espírito Santo de trazer comensurável força, consolo e ajuda. ( C M a Prefácio, 10-11)
o homem à salvação. É mais do que um depósito de informação Lutero pode simplesmente dizer: «Sempre, seja quando fôr, que se
divina; dinamicamente confronta o homem com as realidades de vida ensina, prega, ouve, lê a Palavra de Deus ou se medita sobre ela,
e morte, a saber, pecado e salvação. Em palavras simples: «A Pa- aí a pessoa, o dia e o trabalho são santificados por ela, não devido
lavra de D e u s . . . nos conduz a Cristo». (FC Ep X I , 7) à obra externa mas por causa da Palavra que a todos nós santifica».
Já em suas primeiras páginas o Livro de Concórdia torna evi- (CMa I, 92)
dente a convicção que a Bíblia diz respeito à salvação do h o m e m . Os comentários de Lutero obviamente se referem à Palavra
No Prefácio, os confessores insistem que sua intenção de permane- de Deus num sentido mais amplo do que as palavras da Bíblia. A
cer fiéis à verdade exposta na Confissão de Augsburgo tinha como Palavra de Deus não é apenas algo que se pode ler ou ponderar;
finalidade e de estimular outras pessoas bem-intencionadas a deve ser objeto de pregação e ensino. É evidente que «a Palavra
investigar a verdade da Palavra divina, a única que dá a sal- de Deus, que é a única a trazer salvação», como o Prefácio do Livro
vação, a aderir a ela, e, para a salvação de suas almas e seu de Concórdia a descreve, faz referência a qualquer forma da men-
eterno bem-estar, ficar fiéis a ela e permanecer nela de modo sagem salvífica da Escritura. A Escritura realiza sua função soterio-
cristão sem mais debates e dissensões. lógica quando é utilizada, seja na proclamação pública, seja no es-
Novamente, mostram o quanto tomam a sério sua obrigação tudo e na meditação particular. Não é, pois, de surpreender, se as
para o bem-estar temporal e eterno de nós mesmos e dos s ú - confissões expressam esta concepção dinâmica da Palavra de v á -
ditos que nos pertencem e de continuar a fazer tudo o que é rias maneiras e sem fazer qualquer tentativa maior de distinguir
útil e p r o v e i t o s o . . . para a propagação dessa sua Palavra, a claramente entre a Escritura, ela mesma, e sua proclamação.
única que conduz à salvação.
10 -Preface., The Book of Concorri, pp. 5-6. 13, 11 e 12.
A Palavra de Deus é palavra criadora, isto é o que evidenciam pão e o cálice e distribuímos o pão e cálice abençoados, o
os comentários de Melanchthon sobre Gn 1.28, que ensina terem próprio Cristo ainda age mediante as palavras que pronuncia-
os homens s i d o criados para serem fecundos. Esta Palavra mantém mos e em virtude da primeira instituição, que êle deseja que
seu poder criador: «A natureza humana é formada pelo referido ver- se repita. (FC DS VII, 75)
bo divino de maneira a ser fecunda não só no início da criação, mas Depois de citar Crisóstomo e Lutero sobre a eficácia da Palavra, a
tanto tempo, quanto existir essa natureza dos corpos.- De igual Fórmula ressalta que as palavras da instituição sob hipótese alguma
modo, a Palavra de Deus em Gn 1.11: -Produza a terra relva, ervas podem ser omitidas na celebração da Santa Ceia. (79)
que dêem semente», continua a tornar frutífera a terra. «Em virtude
dessa ordenação a terra começou a produzir ervas não só no prin- A mesma ênfase encontramos em Melanchthon com respeito ã
cípio, mas os campos revestem-se todos os anos enquanto existir Palavra de Deus na absolvição, -que é a verdadeira voz do evan-
essa natureza.» (Ap XXIII, 8) gelho». Ouvir o evangelho fortalece e consola a consciência:
E, porque Deus verdadeiramente vivifica pela Palavra, as cha-
A mesma idéia de que a Palavra de Deus é criadora emprega-
ves na verdade remitem pecados diante de Deus, de acordo
se nas confissões no tocante à Palavra falada, no Batismo, Ceia do
com a passagem: Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim. Lc
Senhor, absolvição e pregação. Com respeito ao Batismo, Lutero
10.16. Razão por que se deve crer à voz do absolvedor exa-
sustenta que não é simplesmente água natural, mas água divina, ce-
tamente como a voz que soasse do céu. (Ap XII, 39-40)
lestial, santa e bendita
De maneira similar afirma a Confissão de A u g s b u r g o :
tudo pela virtude da Palavra, que é Palavra santa, celestial que
ninguém pode louvar suficientemente, pois contém e transmite Os fiéis ao mesmo tempo são diligentemente instruídos sobre
toda a plenitude de Deus. Da Palavra deriva sua natureza sa- o grande conforto oferecido pela absolvição e a respeito de
cramental, como S. Agostinho ensinou: «Accedat verbum ad sua sublimidade, porque não é a voz do homem presente, mas
elementum et fit sacramentum». (CMa IV, 17-18) a palavra de Deus que perdoa os pecados, visto que a absol-
vição é pronunciada em lugar de Deus e por ordem de Deus.
A Palavra que Lutero t e m e m mente é M t 28.19 e Mc 16.16, que ( C A XXV, 2-3)
são -as palavras sobre as quais se fundamenta o Batismo e com as
Também aí a Palavra da absolvição, que perdoa pecados, é relacio-
quais se relaciona tudo o que se deve dizer sobre o assunto» ( C M a
IV, 3). Não é surpreendente, pois, que Lutero entra em choque com nada diretamente à Palavra de Deus na Escritura Sagrada.
Tomás de Aquino e os dominicanos bem como com Duns Scotus e A Palavra da Escritura proclamada publicamente na pregação
os franciscanos que não atribuem o poder do Batismo à Palavra. (AE e no ensino da igreja é também a Palavra dinâmica de Deus. Os
III, v, 2-3) méritos de Cristo são oferecidos mediante a pregação da Palavra
de Deus (AE II, ii, 24). A Fórmula expressa o ponto de vista geral
Essa ênfase no poder da Palavra não se encontra apenas nos
das confissões do seguinte modo:
escritos de Lutero mas também nos dos outros confessores. A Fór-
mula argumenta de modo semelhante no que respeita à presença Todos os que desejam ser salvos devem ouvir esta pregação,
de Cristo na Ceia do Senhor, a saber, que se deve atribuí-la tão-sò- pois pregar e ouvir a Palavra de Deus são instrumentos do
mente ao poder de Deus e à Palavra, instituição e ordem de Jesus Espírito Santo em, com, e mediante os quais êle deseja agir
Cristo eficazmente, para converter homens a Deus, e operar neles
tanto o querer como o efetuar. (FC D S II, 52)
Pois as palavras verdadeiras e onipotentes que Jesus Cristo
pronunciou na primeira instituição não foram eficazes apenas O Espírito Santo opera através da pregação da lei para convencer
na primeira Ceia mas ainda retêm sua validez e poder em to- o mundo do pecado e por intermédio da pregação do evangelho pa-
dos os lugares onde se administra a Ceia segundo a institui- ra efetuar a salvação do homem consumada por Jesus Cristo. (FC
ção de Cristo e onde se usam suas palavras, e o corpo e san- DS V, 11-13). Mediante a pregação da Palavra, Deus age tanto na
gue de Cristo estão de fato presentes sendo distribuídos e lei c o m o no evangelho; tanto pregador como ouvinte devem estar
tomados pela virtude e poder das mesmas palavras que Cris- certos
to falou por ocasião da primeira Ceia. Pois, sempre que obser- que, quando se prega a Palavra de Deus, pura e não adulte-
vamos sua instituição e pronunciamos suas palavras sobre o rada segundo o mandamento e vontade de Deus, e quando as
Soweit man aber feststellen kann, sehen die BK (Bekenntnisschrif-
pessoas diligente e sinceramente ouvem-na e meditam sobre ten) das gesprochene W o r t inhaltlich nicht als etwas anderes
ela, Deus sem dúvida está presente com sua graça e dá aquilo an als das W o r t der Schrift. Eine formele Identitaet braucht
que o homem por seu próprio poder é incapaz de tomar ou dar. nicht in dem Sinne vorzuliegen, dass die BK etwa eine woer-
(FC D S II, 55) tliche Wiederholung der geschriebenen Worte forderten; inhal-
Aqui, novamente, a Palavra de Deus pregada com eficácia toma seu tlich darf die Verkuendigung aber nicht von der Schrift abwei-
conteúdo da Palavra de Deus pura escrita, se ela é Palavra real- chen. Deshalb zielen die BK mit dem Ausdruck «das Wort»
1 2

mente divina e dinâmica. ebensooft auf das geschriebene wie auf das verkuendigte W o r t .
As Confissões, tanto quanto é possível determinar, não vêem
A ênfase no poder da Palavra como acima apresentada é re- na Palavra oral conteúdo diferente da Palavra da Escritura.
petida freqüentemente nas confissões em sentenças de caráter ge- Identidade formal não é preciso existir neste sentido, a saber,
ral. Deus nos deu «o evangelho e os sacramentos, meios pelos quais que as Confissões exijam repetição literal das Palavras escritas,
dá o Espírito Santo» (CA V, 2), ou simplesmente «pela Palavra de no conteúdo, entretanto, não pode a proclamação diferir da Es-
Deus» ( C A XVIII, 3). A justificação se realiza «pela Palavra» (Ap critura. Por esta razão empregam as Confissões o termo «a
IV, 67), também afirma-se «ser a fé concebida da Palavra» (73). Além Palavra- tanto para a Palavra escrita como para a oral)
disso, é unicamente através da «Palavra externa» que Deus dá seu Realmente, o conteúdo mais importante da Escritura é Jesus Cristo,
Espírito, como Lutero explica tão claramente (AE III, viii, 3-13). Tan- e a mensagem central é lei e evangelho como veremos no capítulo
to Lutero, como a Confissão de Augsburgo ( C A V, 4) e a Fórmula 5. É o evangelho de Jesus Cristo em todas as suas formas que é o
de Concórdia (Ep II, 13; DS XI, 76) condenam a idéia que Deus opera meio da graça (cf. AE III, iv). Mas, é axiomático para as confissões
a fé salvífica sem a Palavra. Pois, como explica Melanchthon: «a que este evangelho, não menos do que a lei que o precede, funda-
palavra entregue por homens é eficaz, e . . . não se deve procurar menta-se na Escritura Sagrada.
outra palavra do céu» (Ap XXVIII, 18); «A vida eterna é realizada
nos corações por coisas eternas, isto é, pela Palavra de Deus e pelo O que as confissões procuram ressaltar é que a Palavra da
Espírito Santo.» (10) Escritura Sagrada, com sua promessa de graça e perdão em Jesus
Cristo, deve ser usada nova e novamente. Faz-se isto mediante a
Os parágrafos precedentes indicam a forte ênfase dada pelas
pregação de lei e evangelho e a administração dos sacramentos.
confissões à Palavra pregada e sacramental. Esta ênfase coloca-se,
Também acontece quando se ouve, se lê a Palavra e se medita so-
às vezes, falsamente, em oposição à Palavra escrita da Bíblia, ou, bre seu conteúdo ( C M a I, 9 1 ; FC DS II, 16, 57; XI, 39). Fagerberg
ao menos, não se entende de modo correto sua relação com a Es- resume corretamente esta relação:
critura. Schlink afirma que «o evangelho é a norma na Escritura» e
Das gesprochene W o r t wird in keiner Weise als kritische Instanz
que é «apenas no ato de se ouvir e aprender, pregar e instituir» que gegenueber dem Bibelwort betrachtet, sondern es ist das wirk-
1 1
encontramos na Escritura a Palavra de D e u s . Embora Schlink se same W o r t Gottes in der Gegenwart, eben deshalb, weil es
esforce para não lançar a Palavra falada contra a Palavra escrita, sich auf die heilige Schrift gruendet. Das Schriftwort, wie es
suas declarações tendem a fazer do evangelho, como discurso ou in der Predigt und Sakramentsverwaltung verlebendigt wird,
13
proclamação, a verdadeira autoridade, em contraste com a Palavra vermittelt die Aktivitaet G o t t e s . (A Palavra oral de maneira
Escrita. alguma é considerada instância superior à Palavra da Bíblia com
autoridade para criticá-la, pelo contrário, é a Palavra de Deus
Infelizmente, as confissões não tratam explicitamente da relação
eficaz no presente, exatamente porque se fundamenta sobre a
entre a Palavra escrita e falada. Contudo, o modo como ressaltam
Escritura Sagrada. A Palavra da Escritura adquirindo vida na
tanto a autoridade da Palavra escrita como a eficácia da palavra pregação e administração dos sacramentos, medeia a atividade
pregada e sacramental indica que não estamos aqui tratando de an- de Deus)
títeses. Com base nos testemunhos confessionais, necessário se faz
Nesta relação, a Escritura Sagrada desempenhou sua função soterio-
concordar com o veredito de Fagerberg:
lógica fundamental.
11 Edmund Schlink. Theology of the Lutheran Confesslons, trad. P. F. Koehneko e H. 12 Fagerberg. p. 30.
J. A. Bouman (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1961), pp. 6 e 8. Cf. também p. 220,
-A norma da igreja é o evangelho bíblico proclamado.* 13 Ibid., pp. 32-33.
1
deve-se isto a -nossa ignorância lingüística e gramatical», pois a
obscuridade reside na mente do leitor, não no texto da Escritura.
Lutero argumenta:
Em suma: se a Escritura é obscura ou ambígua, porque teve de
nos ser entregue por meio de uma ação divina? Realmente,
CAPITULO 3
temos suficiente obscuridade e incerteza dentro de nós mes-
2
mos sem que elas sejam aumentadas pelo céu!
Clareza e Compreensibllidade da Escritura Como, pois, podia Erasmo extrair da Escritura um resumo do cris-
3
tianismo se ela lhe era obscura?
Durante séculos, antes da Reforma, a Bíblia fora considerada
Mas Lutero também ressalta a importância da -clareza interna»
livro obscuro e misterioso. Julgava-se apenas o oficio magisterial da
da Escritura. Explica: Se falares de perspicuidade interna, a
igreja competente para se pronunciar sobre o significado definitivo
verdade é que ninguém que não possui o Espírito de Deus não
de seus mistérios. Não foi por acidente que o forte destaque dado
vê um til sequer do que está na Escritura. Todos os homens
pela Reforma Luterana ao princípio sola scriptura e o uso soterioló-
têm seus corações obscurecidos, de modo que, mesmo quando
gico da Escritura Sagrada se fizessem acompanhar por ênfase igual-
discutem e citam tudo o que está na Escritura, não compreen-
mente vigorosa na clareza básica e compreensibilidade geral das
dem ou conhecem realmente qualquer assunto d e l a . . . O Es-
afirmações da Escritura Sagrada. Pois, nenhum livro obscuro pode-
pírito é necessário para a compreensão de toda a Escritura
ria realizar as funções atribuídas pelos luteranos à Escritura. Isto 4
e cada uma de suas p a r t e s .
não quer dizer que o homem pecaminoso pode compreender os mis-
Antes disso, Lutero ressaltara que os conteúdos da Escritura são
térios espirituais revelados na Escritura por meio de seus próprios
suficientemente simples para o cristão. Escreve:
poderes de investigação. Pelo contrário, de mãos dadas com a ên-
fase na clareza fundamental das afirmações da Escritura vai a asser- Que verdade solene pode, pois, a Escritura ainda ocultar, a-
ção que nenhum homem pode entender espiritualmente a verdade gora que os selos foram rompidos, a pedra rolada da entrada
divina sem o auxílio do Espírito Santo. da tumba e o maior de todos os mistérios trazidos à luz —
que Cristo, o Filho de Deus, tornou-se homem, que Deus é
A compreensão da clareza fundamental das afirmações da Es-
três em um que Cristo sofreu por nós e reinará para sempre?
critura bem c o m o a necessidade que t e m o homem da ajuda do Espí-
Se tirares Cristo da Escritura — que encontrarás nela ainda?
rito Santo para entender sua verdade divina chegou a Lutero através
Vês, então, que o conteúdo todo da Escritura foi agora trazido
da descoberta da natureza cristológica e revelatória da Escritura e
à luz, embora algumas passagens contendo palavras desconhe-
o testemunho da Escritura acerca de si mesma. Por isso ressaltou 5
cidas permaneçam o b s c u r a s .
tanto a -clareza externa» do texto bíblico como a -clareza interna»
Além disso, Lutero lembra a seus leitores que Cristo abriu nosso
do conteúdo da Escritura Sagrada obtida por meio do Espirito Santo.
entendimento. Quando as pessoas se recusam a ver o que Deus
Em seu De Servo Arbítrio, Lutero explica e ressalta a importân- revela na Escritura, isto não se deve atribuir à falta de clareza da
cia de ambos os conceitos. Em primeiro lugar, Lutero afirma que o Escritura, mas às trevas espirituais existentes em seus próprios co-
t e x t o da Escritura é fundamentalmente claro. Pastores e, especial- rações. *
mente, teólogos estão capacitados a fazer uso das palavras simples É erro descrever o conceito de Lutero de clareza somente em
da Escritura em seu ministério e sua apologética. Tal como na so- termos de perspicuidade externa da Escritura ou exclusivamente em
ciedade secular a lei vigente deve ser simples a fim de realizar sua
missão, assim também em questões espirituais a Escritura, dada por 1 Martinho Lutero. The Bondage of the Will, trad. J. I. Packer e O. R. Johnston
(Westwood, N. J.: Fleming H. Revell Company, 1957), p. 71. Para exame pormenori-
Deus para guiar seu povo, não pode ser obscura. Lutero enumera zado deste conceito no de Servo Arbítrio, cf. Rudolf Hermann, Von der Klarhelt
der heiligen Schrift: Untersuchung und Eroerterungen ueber Luthers Lehre von der
duas páginas de passagens bíblicas para mostrar que a clareza ex- Schrlfl In De servo arbítrio (Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1958).
terna da Escritura é ensinada pela própria Escritura. Na verdade, há 2 Ib.d p. 128.
algumas palavras e passagens difíceis na Escritura, mas essas po- 3 Ibid.
dem ser interpretadas por meio de passagens mais claras e através 4 Ibid.. pp. 73-74; cf. também p. 124.
5 Ibid.. p. 71.
de estudos filológicos e gramaticais. Se ainda permanecem obscuras,
£ Ibid.. p. 77.
termos de seu conteúdo cristocêntrico tornado compreensível pelo
Espírito Santo. Devem-se considerar ambos como partes integrais doctis et indoctis. (Está, pois, certo que a doutrina da Escri-
do conceito de Lutero de claritas scripturae. Gerhard Krause afirma tura e seu uso salutar não consistem em palavras inintelegíveis,
corretamente: «Es ist nun sehr bezeichnend fuer Luthers Gesamtauf- mas em seu sentido verdadeiro e sua reta compreensão, como
fassung von der Bibelexegese, dass er sich nicht begnügt mit der diz a parábola em Mt 13: . . . E muitas passagens da Escritura
dogmatischen Behaptung einer 'claritas scripturae' in Christus.» É, 7 compõem-se de palavras simples e claras que não necessitam
pois, muito significativo para a concepção geral da exegese bíblica de penosa interpretação, mas explicam-se a si mesmas, sobre
de Lutero, que não se contenta com a afirmação dogmática de um as quais diz Agostinho que a elas têm acesso tanto os eru-
«claritas scripturae» em Cristo). Krause sustenta que Lutero falou ditos como os indoutos)
de ambos «von der grundsaetzlichen Klarheit der Schrift in sprachli- Chemnitz salienta que há realmente muitas passagens difíceis na
cher Hinsicht und in der Glaubens-Summa ihrer B o t s c h a f t » . (tanto s Escritura que não revelam imediatamente seu sentido real. Mas vis-
da clareza fundamental da Escritura no sentido lingüístico como no to como Deus não deseja ver sua igreja cair em graves erros devido
sumário da fé de sua mensagem). a essas dificuldades: «Deus voluit in Ecclesia donum exstare inter-
pretationis.» (Deus quis que tivesse lugar de destaque na igreja o
Conforme Peter Fraenkel, os pontos de vista de Melanchthon dom da interpretação). E esse dom deve ser usado «ad inveniendum
sobre a clareza da Escritura eram muito semelhantes aos de Lutero. et intelligendum verum et sanctum Scripturae s e n s u m » . (Para que 10

Escreve êle: o verdadeiro sentido da Escritura seja alcançado e entendido)


Melanchthon, assim como tinha grande respeito pela Escritura
Desse modo, três autores confessionais, Lutero, Melanchthon e
como texto, e relacionava este fato intimamente com seu signi-
Chemnitz, concordam em seus escritos extraconfessionais que as
ficado e poder salvíficos, do mesmo modo pensava que tanto
afirmações da Escritura Sagrada são fundamentalmente claras e que
o texto em si como todo o conteúdo da fé cristã são «claros»,
necessitamos do Espírito Santo para compreendermos o sentido es-
no sentido que Deus nos revelou claramente estes mistérios e
piritual de seu conteúdo. Vejamos agora como as Confissões Lute-
assim no-los transmitiu nada deixando entregue à nossa inicia-
ranas tratam destes dois conceitos.
tiva para d e s c o b r i r . . . Isto não é alterado pelo fato que algu-
mas passagens são obscuras e que tenhamos de recorrer a
A Clareza Fundamental da Escritura
comentários bíblicos, dicionários ou exegetas bem-dotados para
chegar a conhecer o que significam. Pois, de mãos dadas com
Não é, pois, de surpreender, que a crença na clareza das afir-
a clareza do documento vai, como vimos, a clareza de seu
mações da Escritura, encontrada nos escritos de Lutero, Melanchthon,
assunto, a lei e o evangelho de Deus, a salvação oferecida
9 Chemnitz e outros reformadores do século XVI permeie as Confissões
em Cristo.
Luteranas. Entretanto, tal como o ponto de vista confessional sobre
De igual modo, Martin Chemnitz, um dos principais autores da Fór- c forma da Escritura Sagrada, também o conceito confessional da
mula de Concórdia, ressalta tanto a clareza da Escritura como o «dom clareza da Escritura não é apresentado de modo sistemático. Ape-
de interpretação» do Espírito Santo para explicar seu conteúdo: Es- sar disso, porém, está muito em evidência. Visto reconhecerem os
creve: reformadores haver algumas passagens na Escritura não tão claras
Certum igitur est, doctrinam Scripturae et salutarem ejus usum como as outras, é útil falar de clareza fundamental ao invés de cla-
consistere non In verbis non intellectis, sed in vero ejus sensu, reza absoluta das afirmações da Escritura.
et sano intellectu, sicut parábola Matth. 13. inquit: . . . E t multi Talvez a prova confessional mais óbvia e convincente sobre a
sane in Scriptura loci sunt planis et perspicuis verbis expositi, clareza fundamental da Escritura é a maneira como a Escritura é
qui interpretatione procul petita non indigent, sed se ipsos citada como base de doutrina confessional. Sempre de novo, pas-
explicant: ad quos ut Augustini verbis utar, accessus patet et sagens são simplesmente mencionadas sem qualquer explicação. As
copiosas referências bíblicas nas confissões são, em sua grande maio-
7 Gerhard Krause. Studien zu Luthers Auslegung der Kleinen Propheten (Tuebingen: I. ria, simplesmente citações diretas do texto sagrado sem qualquer
C. B. Mohr, 1962). p. 268.
8 Ibid.. p. 281.
interpretação ou extenso comentário. A dedução lógica é que estas
S Peter Fraenkel, Testlmonla Patrum: The Function of the Patristlc Argument in the
Theology of Philip Melanchthon (Genebra: Libralre E. Droz. 1961). pp. 209-210. 10 Martin Chemnitz, -De Interpretatlone Scripturae.. Examen Concilii Trldentlnl, Ed.
Preuss (Berlln: Gust. Schlawitz, 1861), pp 65-66.
passagens da Escritura são tão claras que todo aquele que as pode não são tão claras como outras. As confissões, no entanto, susten-
ler também entenderá o que dizem. Por vezes, vários parágrafos tam que sua doutrina em nenhum ponto se fundamenta em tais pas-
sucessivos apresentam o argumento confessional meramente citando sagens.
passagem após passagem quase sem comentário. " Melanchthon, Em artigo após artigo, as confissões declaram que sua argu-
às vezes cansa-se de citar tanta prova bíblica como, por exemplo, mentação firma-se sobre passagens claras, da Escritura. A Comunhão
ao discutir as tradições humanas -uma vez que estão óbvios por deve ser distribuída sob ambas as espécies porque Cristo ordena
toda a parte nas Escrituras- (Ap VII, 37). De modo semelhante, ao «com palavras claras» que todos bebam do cálice ( C A XXII, 2).
analisar o fato que o amor segue a fé, conclui: -Citaríamos mais Alguns pastores luteranos ingressaram no estado matrimonial, «pelo
testemunhos se não fossem óbvios nas Escrituras a todo leitor pie-
fato de a Escritura informar também claramente que o matrimônio foi
doso. E não desejamos ser nimimante prolixos, a fim de que se
instituído por Deus, para evitar a impureza.» ( C A XXIII, 3) Além
possa mais facilmente perceber a questão- (Ap XII, 83). Usar a Es-
disso, «temos passagens claras da divina Escritura» que proíbem o
critura desta maneira singela em documentos que ao menos, em par-
estabelecimento de tradições humanas com o fito de se obter a gra-
te, se destinavam a leitores não clericais é argumento forte para a
ça de Deus ou como necessárias para a salvação (CA XXVIII, 43).
crença na clareza fundamental e compreensibilidade geral do texto
da Escritura. As passagens recém-citadas por Melanchthon «à concupiscência cla-
ramente lhe chamam pecado» (Ap II, 40). A distinção entre justiça
Há, também, declarações explícitas sobre a clareza da Escri- civil e espiritual «não foi inventada por nós. Ensina-a clarissimamente
tura. A Fórmula de Concórdia descreve a Escritura profética e apos- a Escritura» (Ap XVIII, 10). Em seu artigo sobre a justificação, Me-
tólica do Antigo e Novo Testamento como - a pura e clara fonte de lanchthon cita com freqüência Rm 5 . 2 : «Por intermédio de quem
Israel (zu dem reinen, lautern Brunnen Israels; ut limpidissimos pu- (Cristo) obtivemos igualmente acesso pela fé, a esta graça na qual
rissimosque Israelis fontes)- (FC DS Regra e Norma, 3). A descri- estamos firmes.» «Inculcamos essa sentença tão amiúde», explica
ção da Escritura como lauter ou limpidissimus atesta que a Bíblia, Melanchthon, «em benefício da perspicuidade» (Ressaltamos essa
que serve à igreja c o m o sua única regra e norma para julgar todos sentença tão freqüentemente por ser tão clara) (Ap IV, 314). Deve-
os mestres e doutrinas, não é apenas -pura» ou sem erro, mas tam- se atribuir a conversão tão-sòmente a Deus, é o que a Fórmula de-
bém - c l a r a - ; pois uma fonte dúbia de doutrina dificilmente poderia monstra «de claras passagens da Escritura Sagrada». (FC D S II, 87)
servir de norma decisiva de doutrina.
Dificilmente qualquer outra controvérsia doutrinária da Reforma
Melanchthon no Prefácio da Apologia contende que os autores tinha relação tão íntima com a exegese de textos bíblicos como a
da Confutação Católica Romana «têm argüido, contra a manifesta da Ceia do Senhor. Embora os confessores luteranos tivessem en-
Escritura do Espírito Santo, alguns artigos (contra manifestam scriptu- trado em contato com diversas interpretações das palavras da Insti-
1 2
ram spiritus sancti)» (Ap Prefácio, 9 ) . Na questão de aplicar a Ceia tuição, afirmam que também estas palavras são «simples» (FC Ep
do Senhor aos mortos ex opere operato, os romanistas podiam rei- VII, 42), ou «simples, indubitáveis e claras» (FC DS VII, 50); ensinam
vindicar o apoio de Gregório e dos teólogos medievais posteriores, a união sacramental «claramente» (FC Ep VII, 15); «temos um texto
mas «opomos-lhes textos claríssimos e certíssimos (nos opponímus claro nas palavras de Cristo» ( C M a V, 45). E, em vista disso, as
claríssimas et certíssimas scripturas)- (Ap XXIV, 94). A Fórmula sus- confissões declaram que estas palavras devem ser entendidas ape-
nas «em seu sentido usual, estrito e geralmente aceito». (FC DS
tenta que toda a Apologia é «apoiada por testemunhos claros e irre-
VII, 48)
futáveis da Escritura Sagrada- (FC DS Regra e Norma, 6). Além
disso, ao usar exemplos da Escritura é importante interpretá-los «de É em conexão com a análise da Ceia do Senhor que a Fórmula
acordo com passagens certas e claras da Escritura» (Ap XXVII, 60). de Concórdia nos oferece a afirmação mais explícita do alcance da
Implícita em tais declarações, especialmente no uso do superlativo clareza bíblica. Lemos:
«claríssimo», está a admissão que algumas passagens na Escritura Na instituição de seu testamento, sua aliança e sua união pe-
11 C l . , por exemplo: FC DS I I . 10-14; FC DS X I . 27-32: e AE, I I . 1 .
renes, não emprega linguagem florida mas as palavras mais
12 A tradução alemã é mais explicita: «wieder die oeffentliche helle Schrift und klare apropriadas, simples, indubitáveis e claras tal como faz em t o -
Wort des heil. Geistes-. Em Die Bekennmlsschriften der evangellsch-lutherischen Kirche dos os artigos de fé e na instituição de outros sinais da alian-
(59 ed. rev.; Goettlngen: Vandenhoeck & Ruprecht. 1963). p. 143.
não só nega a virtude da obediência no que diz respeito às
ça e penhores da graça ou sacramentos, tais como circuncisão,
forças inferiores do homem senão ainda notícia de Deus, con-
os vários tipos de sacrificios no Antigo Testamento e o santo
fiança em Deus, temor e amor de Deus, ou, certamente a força
Batismo. (FC D S VII, 50)
para efetuar estas coisas (Ap II, 23).
Notamos que todos os artigos de fé, os sacramentos e sacrifícios Este homem natural não é apenas «ignorante de Deus» mas lhe falta
veto-testamentários são incluídos na esfera da clareza bíblica. Além o poder espiritual para possuir verdadeiro «conhecimento de Deus».
disso, a clareza da Escritura relaciona-se nitidamente com a lingua- (Ap II, 23)
gem bíblica. Não está, pois, de acordo com a concepção confessio-
nal da claritas scripturae limitá-la principalmente àquelas passagens Não quer isto dizer que o homem natural não possa alcançar
«que apresentam a doutrina da justificação pela graça mediante a até certo ponto «a justiça racional» (Ap IV, 22). Êle «é livre na es-
fé em toda sua força e g l ó r i a . » 13
Como também as citações ante- colha de obras e coisas que a razão por si mesma compreende» e
riores desta parte indicam, as confissões reivindicam a autoridade da pode, de algum modo «realizar a justiça civil ou das obras» (Ap
«clara» Escritura para muitos outros artigos e praxes. XVIII, 4 ) . Mas, embora tenha o homem a habilidade de realizar obras
exteriores da lei, não possui «aquelas coisas espirituais, a saber:
lemer a Deus verdadeiramente, crer verdadeiramente a êle, estar ver-
Entendendo a Escritura mediante o Espírito Santo
dadeiramente seguro e bem saber que Deus nos considera, ouve,
perdoa». (Ap XVIII, 7)
Visto ser a Escritura fundamentalmente clara, o leitor da Bíblia
poderá entender o que as palavras em si dizem, exceto algumas O homem natural simplesmente não é capaz, nem mesmo de
passagens onde a linguagem ou gramática é obscura para o leitor. entender coisas espirituais. A Fórmula declara:
Mas entender o que as palavras dizem não significa sempre o mes-
mo que compreender espiritualmente a verdade revelada por Deus A Escritura nega ao intelecto, coração e vontade do homem na-
na Escritura. Pois, as confissões acentuam que compreender a Es- tural toda e qualquer capacidade, aptidão, perícia e habilidade
critura desta maneira mais profunda significa crer sua mensagem para pensar de modo bom ou reto em questões espirituais, pa-
cristológica, e isto é possível tão-sòmente pela iluminação do Espí- ra entendê-las, iniciá-las, desejá-las, empreendê-las, realizá-las
rito Santo. ou cooperar nelas por si próprio. (FC D S II, 12)
Novamente:
Considerações antropológicas são básicas para esta ênfase
confessional. Pois, as confissões afirmam que «todos os homens É nossa doutrina, fé e confissão que em questões espirituais
naturalmente são concebidos e são nascidos em pecado, isto é, es- a razão e o entendimento do homem são cegos e êle nada
tão repletos de concupiscência e má inclinação desde o ventre ma- entende por seu próprio poder como está escrito em 1 Co 2.
terno e por natureza não podem ter verdadeiro temor e verdadeira 14: «o homem natural não aceita as cousas do Espírito de
fé em Deus» ( C A II, 1). Essa condição natural do homem «é cor- Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las» quan-
rupção tão profunda da natureza que a mente humana não consegue d o é examinado no tocante a coisas espirituais. (FC Ep II, 2)
entendê-la». Deve-se crer nisto «por causa da revelação na Escri- Portanto, falta ao homem natural tanto a capacidade de compreender
tura» (AE III, i, 3 ) . O homem não vive sem temor e fé em Deus, a terrível gravidade de sua condição pecaminosa como a faculdade
mas este pecado de origem é responsável por todas as suas más de entender sua justificação em Jesus Cristo. Não entende nem lei
ações posteriores «que são proibidas nos Dez Mandamentos, a sa- nem evangelho, a mensagem central da Escritura Sagrada.
ber, descrença, crenças falsas, idolatria, viver sem temor a Deus,
presunção, desespero, cegueira — em suma, ignorância e desprezo É, pois, necessário que «Cristo tome a lei em suas próprias
de Deus (AE III, i, 2). Notamos que Lutero emprega ignorância e mãos e a explique e s p i r i t u a l m e n t e . . . Isto dirige o pecador à lei e
desprezo de Deus» como descrição sucinta dos resultados do pecado aí êle aprende a conhecer seu pecado, percepção esta que jamais
original do homem. Melanchthon também descreve o homem natural Moisés poderia ter extorquido dele». Dessa maneira remove-se o
como tendo «ignorância de Deus» (Ap II, 8, 14). Aprova a antiga véu da lei. O Espírito de Cristo, «mediante o ofício da lei, deve tam-
definição que bém convencer o mundo do pecado» (FC DS V, 10-11). Esta ope-
ração do Espírito por meio da lei é seguida de sua operação me-
13 Norman Habel. The Form and Meanlng ol the Fali Narrativa: A Detallad Analysls of diante o evangelho do perdão dos pecados em Cristo; assim é
Gênesis 3 (St. Louls: Concordia Seminary Print Shop. 1965), p. 1 .
acesa no homem «uma fagulha de fé que aceita o perdão dos pe- Êle abre o intelecto e o coração para entenderem a Escritura
cados por causa de Cristo e se consola com a promessa do evan- e darem atenção à Palavra, como lemos em Lc 24.45: «Então
gelho têm aplicação imediata na exegese bíblica. Pois, sem o Espírito lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras.»
duzido no c o r a ç ã o - . (FC DS II, 54) De igual modo: «Lídia . . . n o s escutava; o Senhor lhe abriu
o coração para atender às cousas que Paulo dizia.» (At 16.14)
A percepção da incapacidade do homem natural e a conseqüen-
(FC DS II, 26)
te necessidade de ser iluminado pelo Espírito quanto a lei e evan-
gelho tem aplicação imediata na exegese bíblica. Pois, sem o Espírito Segue esta afirmação uma das mais longas séries de provas bíblicas
Santo, o homem natural não pode realmente entender a mensagem nas confissões e ainda uma citação de S. Agostinho, após o que
da Escritura, mesmo podendo ler suas palavras. A Fórmula explica a Fórmula continua: «Esta doutrina fundamenta-se sobre a Palavra
que a razão humana ou o intelecto natural de Deus». (28)
é a tal ponto ignorante, c e g o e perverso que mesmo quando Em seus comentários sobre o batismo infantil, Lutero argumenta
as pessoas mais bem-dotadas e eruditas da terra lêem ou o u - que o batismo de crianças é agradável a Deus porque Deus aben-
vem o evangelho do Filho de Deus e a promessa da salvação çoou significativamente os que assim foram batizados. Um dos prin-
eterna, não podem por sua própria força percebê-lo, apreendê- cipais dons recebidos pelo batizado é o dom da interpretação bíblica.
lo, compreendê-lo ou crer nisto e aceitá-lo como verdade. Pelo Escreve êle: «Semelhantemente pela graça de Deus recebemos o
contrário, quanto mais zelosa e diligentemente procuram com- poder de interpretar a Escritura e conhecer Cristo, o que é impossí-
vel sem o Espírito Santo.» ( C M a IV, 49)
preender estas coisas espirituais com sua razão, tanto menos
as entendem ou crêem, e, até o Espírito Santo as iluminar e O intérprete da Escritura que se deixa guiar pelas Confissões
instruir, consideram-no tudo simples tolice e fábulas. (FC DS Luteranas, sabe que o próprio Deus deve iluminar sua mente para
II. 9) crer no que Deus diz na Escritura Sagrada. Portanto, lê a clara
Escritura de Deus como um que tem o Espírito e aguarda o Espírito.
Seguem a afirmação acima citada nada menos que 10 passagens bí-
Necessita o Espírito, não porque a Escritura seja obscura, mas por-
blicas como base escriturística para esta concepção do homem na-
que seu próprio entendimento foi obscurecido pelo pecado. Em vis-
tural. A Fórmula igualmente ensina que as preces dos santos (por
ta disso, reconhece que nem mesmo a melhor erudição bíblica pode
exemplo: Davi e Paulo) pedindo instrução e luz divinas também in-
perscrutar as profundezas da Palavra salvifica de Deus sem o dom
dicam «que o que pedem de Deus não podem obter por meio de
da interpretação outorgado pelo Espírito.
seus próprios poderes naturais-. Tais orações sobre nossa ignorân-
cia, entretanto, não foram escritas, «para que nos possamos tornar
remissos ou preguiçosos no ler, no ouvir e no ponderar a Palavra
de D e u s - , mas, em vez disso, devemos agradecer a Deus «por nos
ter libertado das trevas da ignorância e das cadeias do pecado e
da morte por meio de seu Filho-. (FC D S II, 15)

Realmente, - a pessoa que ainda não foi convertida para Deus


e regenerada pode ouvir e ler essa Palavra exteriormente» porque
o homem «ainda possui algo de livre arbítrio nessas coisas exter-
nas» (FC DS II, 53). Ainda assim:
Embora possa dirigir os membros de seu corpo, possa ouvir
o evangelho e meditar sobre êle até certo grau, e mesmo pos-
sa falar sobre êle, como o fazem os fariseus e hipócritas, na
realidade, o considera loucura e não pode crê-lo. (FC DS II, 24)
Tão-sòmente a operação e o poder do Espírito Santo «iluminam e
convertem os corações de modo a levar os homens a crer nesta
Palavra e lhe dar seu assentimento» (FC DS II, 55). Pois
Nesta passagem, observamos as seguintes idéias: primeiro, as duas
divisões da Escritura não são idênticas à distinção entre Antigo e
Novo Testamento mas são antes encontradas através de toda a Es-
critura; segundo, a lei encontra-se resumida no Decálogo, cujas pres-
CAPITULO 4 crições aparecem em toda a Bíblia; e, terceiro, o evangelho, ou
promessa, é cristológico em toda a Escritura, estando associado com
A Mensagem Central da Escritura Sagrada perdão dos pecados, justificação e vida eterna. Estas idéias são
básicas à compreensão da diferença lei-evangelho em todas as con-
Iluminado pelo Espírito Santo o homem compreende e crê a fissões.
mensagem divina da Escritura Sagrada. Não significa isto que êle C o m o explica Melanchthon, a diferença principal entre lutera-
tem agora certa capacidade sobrenatural para resolver difíceis enig- nos e católicos romanos reside em sua atitude face a lei e evangelho.
mas bíblicos ou que entenda em sua plenitude a mente de D e u s . - D e n t r e estas (duas doutrinas), os adversários tomam a lei, . . . e
Significa, no entanto, que, por meio do Espírito Santo, êle chega por intermédio da lei buscam remissão dos pecados e justificação»
a conhecer e crer a mensagem central de Deus ao homem encon- (Ap IV,7). Os luteranos, contudo, crêem que «não podemos justifi-
trada na Escritura: que todos os homens, condenados pela lei de car-nos a nós mesmos», mas são justificados apenas pelo evange-
Deus devido a seus pecados, são justificados pela graça de Deus lho que «é, propriamente, a promessa da remissão dos pecados e
por causa de Cristo mediante a fé. O cristão aprende a crer que da justificação por Cristo» (Ap IV, 43). Por este motivo, a Apologia
na Escritura Sagrada Deus pronuncia uma palavra de condenação argumenta, os católicos romanos entenderam mal a Escritura, pois
(lei) e uma palavra perdoadora (evangelho), aquela, por causa desta. «citam passos referentes à lei e às obras e omitem passos relativos
Lê a Bíblia como alguém justificado pela graça por causa de Cristo às promessas» (Ap IV, 183). A maneira correta de interpretar a
mediante a f é ; reconhece que Jesus Cristo é o centro de toda a Escritura é nada omitir, mas interpretar corretamente tanto lei como
Escritura. evangelho. E, em vista disso, a Apologia constantemente retorna às
«duas obras principais de Deus nos homens».
A Mensagem de Lei e Evangelho da Escritura
Perterrorar e justificar, ou restaurar os perterrefatos, são as
As Confissões Luteranas reconhecem que na Escritura Sagrada duas obras principais de Deus nos homens. Nessas duas obras
Deus pronuncia palavra de lei e palavra de evangelho, palavra de se divide a Escritura toda. Uma parte é a lei, que mostra, ar-
condenação e palavra de perdão, palavra de morte e palavra de vi- gui e condena os pecados. A outra é o evangelho, isto é, a
da. Têm muito a dizer sobre a necessidade de manter estas mensa- promessa da graça dada em Cristo. (Ap XII, 53)
gens distintas uma da outra. Este tema é tratado nas confissões tão
Necessário se faz «orthotomein (distinguir entre) essas coisas, como
exaustivamente que pouco mais podemos fazer além de resumi-lo
nestes parágrafos. diz Paulo (2 Tm 2.15). É preciso ver o que a Escritura atribui à lei
e o que atribui às promessas». (Ap IV, 188)
A argumentação de Melanchthon em toda a Apologia se rela-
ciona intimamente com a distinção entre lei e promessa. Em primeiro É evidente que destas duas doutrinas da Escritura, maior ên-
lugar, notemos sua declaração definidora e descritiva destes termos. fase dá-se ao evangelho, que é a obra própria de Deus. Isaías
Escreve êle: chama obra estranha de Deus a que êle faz quando terroriza,
Toda a Escritura deve ser distribuída por essas duas questões porque a obra própria de Deus é vivificar e consolar. Entre-
principais: a lei e as promessas. Pois ora propõe a lei, ora a tanto, diz êle, Deus terroriza a fim de que haja lugar para
promessa a respeito a Cristo, a saber, quando, ou promete que consolo e vivificação, porque corações seguros, e que não
Cristo virá, e por causa dele promete remissão de pecados, sentem a ira de Deus, enfastiam-se da consolação. Desta ma-
justificação e vida eterna, ou quando Cristo, depois de apare- neira só a Escritura unir terrores e consolo. (Ap XII, 51-52)
cido, promete, no evangelho, remissão dos pecados, justifica-
Além disso: «é certíssimo que a doutrina da lei não pretende ani-
ção e vida eterna. Nesse debate chamamos lei aos preceitos
quilar o evangelho, não quer destruir a Cristo como propiciador».
do Decálogo, onde quer que se leiam nas Escrituras. (Ap IV, 5-6)
(Ap IV, 269)
Os escritos confessionais de Lutero são bem tão claros quan- Já vimos como a função soteriológica da Escritura se relaciona
to ao conteúdo lei-evangelho da Escritura Sagrada. Fundamentado com lei e evangelho e como o poder iluminador do Espírito Santo
nesta distinção Lutero contrasta os Dez Mandamentos e o Credo no opera tanto pela lei como pelo evangelho. Não repetiremos aqui
Catecismo Maior. Lutero sustenta que o «Credo é ensinamento bem estas ênfases. Desejamos, no entanto, notar a esta altura, que a
diferente dos Dez Mandamentos. Estes nos ensinam o que devemos distinção lei-evangelho não é algo independente da Escritura Sagra-
fazer; o C r e d o nos diz o que Deus faz por nós e nos d á - ( C M a II, 1
d a mas antes a mensagem central da Escritura para a salvação da
67). Nos Artigos de Esmalcalde Lutero descreve mais explicitamente humanidade. Além disso, deve-se observar que para as confissões
as funções tanto da lei como do evangelho. A «função ou poder o evangelho é claramente a «Palavra superior». A observação de
principal da lei é tornar manifesto o pecado original» (III, ii, 4); é Schlink é comprovada pelos textos confessionais:
o -relâmpago por cujo intermédio Deus com um golpe destrói tanto
pecadores manifestos como falsos santos» (III, iii, 2). Mas, Lutero Todas as afirmações anteriores sobre lei e evangelho ou sobre
apressa-se em acrescentar: evangelho e lei seriam simplesmente ininteligíveis se sua dis-
tinção fosse considerada como uma dialética em que lei e evan-
A este oficio da lei o Novo Testamento imediatamente adiciona gelho são unidos com a mesma ênfase c o m o Palavra de Deus
a consoladora promessa da graça no e v a n g e l h o . . . Além disso, e novamente separadas como duas palavras diferentes de Deus
o evangelho oferece consolo e perdão não apenas de uma ma- numa antítese igualmente acentuada. As Confissões não mos-
neira mas de várias, pois com Deus há copiosa redenção (como tram interesse numa dialética antitética como t a l . . . As C o n -
o Salmo 130.7 o expressa) do terrível cativeiro do pecado, e fissões não distinguem lei e evangelho por causa da dialética,
isto chega até nós através da Palavra, dos sacramentos e o mas para louvar o evangelho e exaltá-lo muito acima da lei.
mais, c o m o veremos.» (Ill, iii, 4, 8) O evangelho, contudo, como o livramento da multidão da lei,
Estes conceitos de Lutero e Melanchthon são preservados na Fór- só pode ser exaltado porque é palavra bem diferente da lei. -
mula de Concórdia, elaborada posteriormente. Na Fórmula dedica-se
um artigo inteiro ao tema, e sua introdução é significativa. A Centralidade da Justificação na Sagrada Escritura
A distinção entre lei e evangelho é luz especialmente brilhante,
cujo objetivo é o de possibilitar que a Palavra de Deus seja Visto as confissões exaltarem o evangelho acima da lei, não
dividida de modo adequado e os escritos dos santos apóstolos é de se surpreender que considerem o conteúdo do evangelho o
possam ser explicados e entendidos corretamente. Devemos, verdadeiro centro da Escritura. Qual é o conteúdo do evangelho?
portanto, observar esta distinção com particular diligência a Lutero o descreve simplesmente como a oferta de «consolo e per-
fim de não confundirmos as duas doutrinas transformando o d ã o . . . do terrível cativeiro do pecado» (AE III, ii, 8), e Melanchthon
evangelho em lei. Isto obscureceria o mérito de Cristo e rou- similarmente define o evangelho como a promessa da «remissão dos
baria às consciências perturbadas o consolo que de outro mo- pecados, justificação e vida eterna (por causa de Cristo)» (Ap IV,
do teriam no santo evangelho quando é pregado puramente 5). Em suma, o conteúdo do evangelho e o centro de toda a Escri-
e sem acréscimo estranho, pois, nele podem os cristãos apoiar- tura é a doutrina da justificação «pela graça, por Cristo, mediante
se em suas maiores tentações contra os terrores da lei. (FC a fé» ( C A IV). Nosso objetivo a esta altura não é apresentar uma
D S V, 1) explicação sistemática desta doutrina confessional, mas antes de-
monstrar como os Símbolos Luteranos tratam de sua relação com
Além disso, esta distinção não é peculiaridade sectária lute-
a Escritura S a g r a d a .
rana pois «uma vez que desde o princípio do mundo duas proclama-
ções foram continuamente colocadas lado a lado na igreja de Deus Em primeiro lugar, notamos a ênfase na doutrina da justificação
com sua distinção adequada». Os patriarcas e seus descendentes nas confissões. Na Confissão de Augsburgo, o artigo sobre justifica-
não apenas conheciam o pecado e corrupção originais do homem mas
confortavam-se e faziam reviver sua coragem com a proclamação so- 1 Holsten Fagerberg demonstra satisfatoriamente que a palavra evangelho, como é
empregada nas confissões, freqüentemente designa o Novo Testamento como tal ou
bre a semente da mulher, a semente de Abraão, o Filho de Davi, o o conteúdo do Novo Testamento; assim o termo evangélico nâo apenas se relaciona
Servo do Senhor (FC D S V, 23). Por este motivo «estas duas dou- intimamente com a Escritura, mas, ocasionalmente, denota uma parte da Escritura. Em
Die Theologle der Lutherischen Bekenntnisschriften von 1529 bis 1537, trad. Gerhard
trinas devem ser ensinadas constante e diligentemente na igreja de Klose (Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1965), pp. 91-96.
Deus até o fim do mundo mas com a devida distinção». (FC DS V, 24) 2 Edmund Schlink, Theology of the Lutheran Confessions, trad. P. F. Koehneke e H.
J. A. Bouman (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1961). pp. 136-137.
gumas linhas depois repete: «E trata-se, contudo, da coisa mais im-
ção (IV) é o artigo central; os artigos anteriores conduzem a êle, portante, da parte cardinal do evangelho (de praecipuo evangelii loco):
e os que seguem ou expressam as conseqüências da justificação a remissão d o s pecados.» ( A p XII, 10)
para a fé e a vida da igreja, ou explicam o artigo mais pormenoriza- Lutero expressa-se sobre o artigo da justificação com seu v i -
damente. Dos 28 artigos da Confissão de A u g s b u r g o . mais da me-
3
gor característico:
tade relacionam-se explicitamente com a doutrina da j u s t i f i c a ç ã o .
Neste artigo nada pode ser abandonado ou comprometido, ain-
Das quase 190 páginas da Apologia o artigo que trata especifica-
da que o céu e a terra e as coisas temporais sejam destruí-
mente da justificação ocupa mais de 60 páginas; em quase todos os
d a s . . . Neste artigo repousa tudo o que ensinamos e faze-
outros artigos, a doutrina da justificação é igualmente a preocupação
mos contra o papa, o diabo e o mundo. Portanto devemos
óbvia. Nos Artigos de Esmalcalde Lutero trata da justificação expli-
estar bem certos e não ter qualquer dúvida em torno dele. Ca-
citamente em dois artigos (AE II, i; III, xiii), porém, o mesmo tema é
so contrário tudo está perdido, e o papa, o diabo e todos os
sua preocupação constante em quase todos os outros tópicos ana-
nossos adversários obterão a vitória. (AE II, i, 5)
lisados por êle. Realmente, os Artigos de Esmalcalde estão mais
Lutero prossegue demonstrando que várias praxes católicas romanas
claramente estruturados em torno da doutrina da justificação que
se opõem à doutrina da justificação pela graça. A Missa Romana
qualquer outro documento confessional. Também a Fórmula de C o n -
«entra em conflito direto e violento com este artigo fundamental (wider
córdia trata extensamente desta doutrina, devotando-lhe todo o seu
diesen Haeuptartikel)» (AE II, ii, 1). O purgatório é «contrário ao
terceiro artigo. Em suma, as Confissões Luteranas, de principio a
artigo fundamental (wider den Haeuptartikel) que tão-sòmente Cris-
fim são exposição desta doutrina e a confissão dela diante dos ho-
to, e não as obras dos homens podem ajudar as almas» (AE II, i i ,
mens e diante de Deus. C o m o Herbert Bouman declara:
12). Fraternidades e indulgências são «contrárias ao primeiro artigo»
O estudioso sério dos símbolos é assoberbado pelo assunto. (AE II, ii, 21, 24) como também o são a invocação de santos, capítulos
Em quase cada página encontra o cantus firmus da justificação e mosteiros (AE II, i i , 2 4 ; iii, 1, 2). Realmente, «todas as coisas que
como tema sempre repetido que, apesar de desenvolvido em o papa empreendeu e f ê z . . . entram em conflito com o primeiro e
centenas de variações fascinantes, permanece sempre clara- fundamental artigo que trata da redenção em Jesus Cristo». (AE
4
mente reconhecível como sendo o mesmo t e m a .
II, iv, 3)
A doutrina da justificação não é apenas o principal assunto das C o n - Lutero sublinha esta ênfase na justificação pela graça, no Ca-
fissões Luteranas como também é o principal ensinamento da Escri- tecismo Maior, ao salientar: «Rumo ao perdão dirige-se tudo o que
tura. A Confissão de Augsburgo argumenta que «é necessário ob- se deve pregar no tocante aos sacramentos e, e m suma, t o d o o e-
servar o principal artigo do evangelho (der furnehme Artikel d e 9 vangelho e todos os deveres cristãos» (CMa, 54). A Fórmula de
Evangeliums; praecipuum evangelii locum), que é o de conseguirmos Concórdia compartilha o ponto de vista das confissões anteriores
a graça de Deus pela fé em Cristo e não pela observância de cultos que a doutrina da justificação é «o artigo principal de toda a dou-
instituídos por homens- (CA XXVIII, 52). Ou novamente: «é necessá- trina cristã», «sem o qual nenhuma consciência aflita pode obter
rio considerar a parte essencial da doutrina cristã (das Hauptstück qualquer consolo perene ou entender corretamente as riquezas da
christlicher Lehre), que não se revoga por este d e c r e t o - , o dos após- graça de Cristo» (FC D S III, 6 ) . Cita Lutero com aprovação: «Onde
tolos no sentido de se absterem os cristãos do sangue ( C A XXVIII, este artigo singular permanece puro, a cristandade permanecerá pu-
66). Para a Apologia a doutrina da justificação é «a questão precípua ra, em bela harmonia e sem qualquer cisma. Mas onde não per-
da doutrina cristã (praecipuus locus doctrinae christianae)- (Ap IV, 2). manece puro, é impossível repelir qualquer erro ou espírito herético»
Melanchthon roga ao Imperador «que ouças e entendas com paciên- (FC DS III, 6). A Fórmula conclui seu debate sobre este «elevado
cia e diligentemente nessa questão máxima, que encerra o ponto e importante artigo da justificação perante Deus, do qual depende
cardeal do evangelho (praecipuum evangelii locum), o verdadeiro a salvação de nossas almas», dirigindo o leitor ao comentário de
conhecimento de Cristo, o verdadeiro culto a Deus» (Ap XII, 3). A l - Lutero sobre Gálatas para uma explicação pormenorizada. (FC DS

III, 67)
3 Cf. Artigos ll-IX, X I , X I I . XV, X V I I , X V I I I . XX,
XXI e XXIV. 5 A Apologia em alemão diz dos católicos romanos: -dieselbige selige Lehre. das
4 Herbert ). A. Bouman -Some Thoughts on the Theological Presuppositions for a Hebe. heillge Evangellum nennen sie lutherisch- (Ap XV. 44). Em Dle Bekennt-
Lutheran Approach to the Scriptures-, em Aspects of Biblical Hermeneutlcs: Confes- nlsschrlften der evangellsch-lutherischen Kirche (5° ed. rev.; Goettingen: Vandenhoeck
sional Principles and Practical Applications, Occasional Papers. N9 1 de Concordia & Ruprecht, 1963), p. 305.
Theological Monthly (St. Louis: Concordia Publishing House, 1966), p. 10.

,cw«U»0 C0JÇ9W»
É necessário compreender-se que as Confissões Luteranas con- bem este fato (Ap IV, 5). Acrescenta em outra parte que a promessa
cebem a doutrina da justificação pela graça como sendo ensinamento da graça em Cristo
claro' de toda a Escritura Sagrada e não ênfase s e c t á r i a . 5
Eviden- é repetida continuamente em toda a Escritura. Primeiro foi en-
cia-se isto, à primeira vista, ao tomarmos as confissões a sério como tregue a Adão, depois aos patriarcas; em seguida, foi ilustrada
exposições da Bíblia; pois onde quer que falem doutrinariamente, pelos profetas. Por último, foi pregada e apresentada por Cristo
:azem-no com base na Escritura Sagrada. Mas a evidência é mais entre os judeus e espargida pelos apóstolos em todo o mundo.
explícita ainda. Melanchthon, por exemplo, argumenta que a doutrina ( A p XII, 53)
da «remissão de pecados somente pela fé, por causa de Cristo, e Houve sempre apenas uma maneira de se tornar justo perante Deus:
que exclusivamente por meio da fé somos justificados- foi apre- No Antigo Testamento era necessário fossem os santos justi-
sentada na Apoiogia «com fartura de testemunhos da Bíblia e argu- ficados pela fé derivada da promessa da remissão dos pecados
mentos dela tomados» (Ap IV, 117). Considera deveras espantoso a ser dada por causa de Cristo, da mesma forma como também
«não se deixarem os adversários mover em presença de tantas pas- no Novo Testamento são justificados os santos. Desde o prin-
sagens da Escritura, que de maneira clara atribuem a justificação à cipio do mundo foi necessário cressem todos os santos que
fé, negando-a, sem dúvida, às obras». E pergunta: «Pensam acaso Cristo haveria de ser a hóstia e satisfação prometida, de acor-
que tudo isso é repetido sem propósito? Julgam porventura que o do com o que ensina Isaías: Quando der êle a sua alma como
Espírito Santo deixou cair essas palavras distraidamente?» (Ap IV, oferta pelo pecado, etc. Is 53.10.» (Ap XXIV, 55)
107-108). Passagens bíblicas são usadas profusamente em todo o O uso feito por Melanchthon de At 10.43: «Dele todos os profetas
discurso de Melanchthon sobre a doutrina da justificação. Um dos dão testemunho», também contribui para esclarecer este ponto, pois
exemplos em que isso ocorre é a lista de passagens tomadas de é o próprio testemunho da Escritura ao conteúdo cristológico do A n -
Paulo, João, Atos, Habacuque e Isaías para demonstrar que a afir- t i g o Testamento. (Cf. A p IV, 83, 273; Ap XII 65-71; A p XX, 2)
mação «a fé justifica» encontra-se disseminada por toda a Escritura. Mas Melanchthon também emprega a passagem para demons-
Melanchthon conclui essa lista com a declaração: «Mas a Escritura trar que a centralidade da doutrina da justificação reflete o consenso
está plena de testemunhos» (Ap IV, 89-102) desse tipo. Igualmente da igreja. Afirma:
o «artigo fundamental de Lutero» sobre a justificação nos artigos
Acontece, todavia, que Pedro, aqui, em nossa questão, também
de Esmalcalde consiste quase que inteiramente de passagens bíblicas
cita o consenso da i g r e j a . . . Pois sem dúvida que se deve ter
(AE II, 1). Fagerberg corretamente afirma:
na conta de consenso da igreja universal o consenso dos pro-
Die Verheissung gruendet sich also auf das, was Gott in der fetas. Nem ao papa nem à igreja concedemos o poder de
hl.Schrift versprochen hat. Da die Verheissung durch die ganze decretar contra esse consenso dos profetas. ( A p XII, 66)
hl. Schrift hindurch wiederholt wird, braucht man nicht unbedingt De novo, Melanchthon explica: «Pedro menciona claramente o con-
nach bestimmten Verheissungsworten zu suchen; sie ist vielmehr faenso dos profetas, e os escritos dos apóstolos testemunham que
ueberall da vorhanden, wo Gott verspricht, bedrueckte und be- eles crêem o mesmo. Nem faltam testemunhos patrísticos» (Ap XII,
6
truebte Gewissen a u f z u r i c h t e n . (A promessa fundamenta-se so- 73). Desse modo afirmam as confissões que seu artigo central é o
bre aquilo que Deus prometeu na Escritura Sagrada. Visto ser precípuo artigo na Escritura e que foi crido e confessado pela igreja
repetida a promessa por toda a Escritura, não é imprescindível de todas as épocas.
procurarem-se palavras de promessas determinadas; a promes- Pode-se falar de centralidade da doutrina da justificação pela
sa está presente em toda parte onde Deus promete soerguer graça na Escritura, ou se pode falar simplesmente de sua cristocen-
consciências aflitas e atribuladas. tricidade, pois a pessoa e obra de Jesus Cristo são o sine qua non
Nem ainda é a doutrina da justificação pela graça por causa de da justificação. Como a Fórmula o define:
Cristo, mediante a fé, ensino exclusivamente neotestamentário. Tam- Portanto, cremos, ensinamos e confessamos que a obediência
bém o Antigo Testamento não conhece outro meio de alguém tornar- integral da pessoa inteira de Cristo, mediante a qual ofereceu
se justo perante Deus do que mediante a fé no Cristo vindouro. A a seu Pai celeste mesmo a mais ignominiosa morte de cruz, é
definição de Melanchthon do evangelho no Antigo Testamento como nos atribuída c o m o justiça. (FC D S III, 56; cf. também 9, 23 e 30)
a promessa da justificação por causa do Messias vindouro ilustra Quem lê as confissões cedo dá-se conta da frequência e cons-
tância com que se considera que tudo na Escritura trata direta ou
6 Fagerberg, p. 98.
indiretamente de Cristo. E, devido a esta convicção, que tudo na
Escritura apresenta a mesma doutrina da justificação por causa de
Cristo, não é de surpreender que freqüentemente se fazem interpre-
tações cristológicas de textos do Antigo Testamento bem como de
passagens neotestamentárias. Dn 4.27 é assim interpretado: - ( D a -
niel) sabia que a remissão dos pecados em Cristo foi prometida não II PARTE
somente aos israelitas, mas a todas as gentes. Em caso contrário
não poderia ter prometido ao rei a remissão dos pecados- (Ap IV,
Princípios Confessionais de Interpretação Bíblica
262). Que a morte de Cristo é expiação não apenas pela culpa mas
também pela morte eterna prova-se de Os 13.14 (Ap XII, 140). Pas-
sagens de Isaías 53 são referidas diretamente a Cristo (Ap XX, 5; CAPÍTULO 5
XXIV, 23; AE II, i, 2, 5). A cremação do cordeiro, a libação e a obla-
ção de flor de farinha mencionadas em Nm 28.4-8 representam -Cristo Princípios de Exegese Gramatical
e todo o culto do Novo Testamento- (Ap XXIV, 36). Os sacrifícios
As Confissões Luteranas encaram a Escritura Sagrada como
propiciatórios levíticos são símbolos do futuro sacrifício de Cristo
uma unidade. Em parte alguma é Testamento lançado contra Testa-
(Ap XXIV, 24, 53). Passagens do Antigo Testamento comprovam a
mento, livro contra livro, o u autor contra autor. C o m o se viu nos
doutrina da justificação em t o d o o quarto artigo da Apologia. Três
capítulos anteriores, a unidade da Escritura é unidade de mensagem,
textos do Antigo Testamento (SI 8 . 6 , 93.1 e Z c 9.10) são citados
pois em toda a Escritura a lei divina e o evangelho são expostos.
para mostrar que os profetas predisseram que Cristo, o Deus-homem,
É unidade de conteúdo, pois a Escritura toda ensina a doutrina da
está presente em toda parte para governar (FC D S VIII, 27). Em s u -
justificação pela graça por causa de Cristo mediante a fé. A l é m dis-
ma, as confissões ensinam que a Escritura inteira testifica de Cristo.
so, a função da Escritura toda é a de tornar o homem sábio para
Com esta concepção da centralidade da doutrina da justificação a salvação. E, subjacente à unidade de mensagem, conteúdo e fun-
pela graça na Escritura Sagrada podemos entender a força da afir- ção, encontra-se a unidade da autoria divina. Sem a compreensão
mativa da tradução alemã da Apologia, que reza: correta desta multiforme unidade da Escritura, é impossível entender
(O artigo da justificação) é de especial utilidade para a com- os princípios específicos da interpretação bíblica confessional apre-
preensão clara e correta de toda a Escritura Sagrada, e so- sentados nos capítulos seguintes.
mente êle indica o caminho certo ao tesouro inefável e reto
Mas, como pode o leitor descobrir o significado da Palavra de
conhecimento de Cristo, e tão-sòmente êle abre a porta à Bí- Deus? Como pode ouvir o que Deus lhe diz em sua lei e evangelho?
7
blia inteira (Ap IV, 2 ) A resposta está implícita na concepção da Escritura c o m o Palavra
Estas palavras contêm importante ensinamento da Reforma quanto à de Deus, ou a concepção da Palavra de Deus como Sagrada Escri-
compreensão da Sagrada Escritura. Entender a Escritura Sagrada é tura. Pois, tanto «Palavra» como «Escritura» dão a entender que a
conhecer o Cristo da Escritura e crer nele; conhecer a Cristo e crer Bíblia deve ser lida e interpretada como documento literário. E,
nele é t e r a porta da Bíblia aberta de dentro pelo Espírito Santo e realmente, esta é a resposta confessional básica às perguntas acima
aí reconhecer sua mensagem central da justificação pela graça por feitas. Ouvimos o que Deus nos diz em sua Palavra por meio da
causa de Cristo mediante a fé. exegese gramatical ou literária da Escritura. É importahte ver como
As ênfases confessionais apresentadas nestes capítulos trazem os confessores extraem o significado d o texto bíblico e procuram o
importantes conseqüências para a interpretação da Escritura Sagra- sentido real do texto. Pois, assim fazendo, estão ouvindo Deus falar.
d a . Essas serão desenvolvidas no Capítulo 8. Mas já a este ponto
fica evidente que as confissões responderiam a pergunta retórica Extraía o Sentido do Texto
de Lutero: «Tire-se Cristo da Escritura — e o que ainda se encon-
8
trará n e l a ? » com um «Nadal» enfático. A principal ênfase da exegese da Reforma Luterana talvez seja
sua exigência que as «letras» e a gramática da Escritura devem ser
7 Concórdia Trlglotta, ed. F. Bente (St. Louis: Concórdia Publlshing House, 1921), p, 121. entendidas e tomadas a sério antes de se poder entender a Escri-
8 Martinho Lutero, The Bondage of the WIN, trad. 1. I. Packer e O. R. Johnston (Weatwood.
N. J.: Fleming H. Revell Company. 1957). p. 71. tura teologicamente. Torm sumariza esta ênfase «'Littera' ist und
bleibt die Grundlage. Der W e g zum religioesen Verstaendnis eines o significado do verbo divino. :l
Pois «sonham receber o Espirito
biblischen Textes geht durch seinen Buschtaben, — nicht uber ihn Santo não pela Palavra, mas em vista de certas preparações suas»,
1
hinweg.» (As letras são e permanecem o fundamento. O caminho (Ap XIII, 13). Lutero responde a essa reivindicação dos entusiastas
para se chegar a compreender teológicamente um texto bíblico pas- nos Artigos de Esmalcalde. Ressalta nesse escrito confessional que
sa através de suas letras, — não passando-se por cima déle). Evi- Deus a ninguém dá seu Espirito ou graça «a não ser através da Pa-
dencia-se de várias maneiras a seriedade com que as confissões lavra externa que precede ou com ela». Mantendo nós esta verdade,
abordam a letra da Escritura, em primeiro lugar, na sua preocupação afirma Lutero, ficaremos a salvo dos que «se gabam de possuir o
com a exegese de seus adversários católicos romanos e «entusiastas». Espírito sem a Palavra e antes dela e que, por isso, julgam, interpre-
A Apologia critica a exegese da Confutação católica romana tam e deturpam a Escritura ou Palavra oral a seu bel-prazer». É evi-
dente que Lutero aí condena os que depreciam a necessidade do
por t r ê s motivos. Em primeiro lugar, os romanistas selecionam os
uso dos meios externos da graça. Mas também é óbvio que entu-
trechos da Escritura que usam. «Citam passos referentes à lei e às
siasmo abrange igualmente a tentativa de reivindicar autoridade di-
obras e omitem passos relativos às promessas». (IV, 183); cf. tam-
vina para idéias não ensinadas na Escritura, pois a Escritura exerce
bém IV, 107; 221, 284, 286; XII, 34) a função de única fonte e norma para o conteúdo dos meios da graça
Em segundo lugar, corrompem e deturpam a Escritura para aco- tal como o faz no caso de todos os outros ensinamentos d i v i n o s .
modá-la a suas próprias opiniões não escriturísticas. «A muitíssimas A menção que Lutero faz do papado c o m o principal exemplo de
passagens corrompem os adversários, porque levam a elas suas pró- «entusiasmo» torna manifesto esse fato.
prias opiniões. Não sacam do texto o sentido» (IV, 224; cf. também Também o papado, nada é além de entusiasmo, pois o papa
IV, 244, 253, 255, 260, 286; XII, 123; XXIV, 115). Essa «eisegesis» s e vangloria que «todas as leis se encontram no recôndito do
geralmente consiste em se impor uma opinião humana falsa sobre o seu coração», e reivindica que tudo o que decide e ordena
texto da Escritura, mas além disso, os romanistas também introdu- em sua igreja é espírito e lei, mesmo quando fôr contrário à
zem em sua interpretação da Escritura invenções posteriores, tais Escritura ou à Palavra oral.
como satisfações canónicas ou monasticismo. (XII, 131; XXVII, 29) Adão e Eva eram «entusiastas» porque abandonaram a Palavra ex-
Em terceiro lugar, sua exegese é descuidada, negligente, ilógica terna de Deus para seguir suas próprias fantasias. Realmente, o
e muitas vezes desonesta. Acrescentam palavras ao texto (IV, 264) entusiasmo é «a fonte, força e poder de todas as heresias inclusive
4

ou omitem uma palavra e até mesmo o pensamento central (IV, 357). o papado e o maometismo». (AE III, viii, 3 - 1 3 )
Citam passagens de forma truncada (IV, 286) ou fora de contexto A exegese, tal como é realizada nas confissões, evidencia quão
(XXIV, 15). Empregam mal a gramática (aplicando partícula universal seriamente tomaram o princípio de extrair o sentido do texto da Es-
a uma parte, IV, 283), negligenciam a gramática (XII, 163), ou mesmo critura. Freqüentes são frases como: «exporemos simplesmente o
desprezam a gramática (XII, 106). Usam a lógica de maneira sofista sentido paulino» (Ap IV, 231); «o texto não diz isso» (Ap IV, 264);
ou errônea na intepretação de um texto (IV, 222, 335, 360-361). «Trans- «conforme a própria história testemunha no contexto» (Ap IV, 267);
formam em causa aquilo que não o é»(XX,13). Melanchthon lamenta: • nós sabemos que é o verdadeiro e puro sentido de Paulo aquilo
«Quem ensinou a estes asnos semelhante dialética? Mas isto aí não que dissemos» (Ap XII, 84); «Em que lugar das Escrituras se lêem
é dialética nem sofística; é sicofântica» (XII, 123). «Exegese» desse estas coisas?» (Ap XII, 138); «as mesmas palavras do profeta mos-
tipo tinha obscurecido «gravíssimas sentenças das Escrituras e dos tram o sentido» (Ap XXIV, 32). Busca-se apoio constantemente na-
Pais» (II, 32). Em suma, os romanistas «interpretam de maneira acer- quilo que Deus realmente diz por intermédio de seus santos ama-
bíssima, não só contra a Escritura, mas também contra o uso lin- nuenses .
2
güístico». (IV, 3 5 7 )
As confissões demonstram cuidado extremo com vários aspec-
Os entusiastas, da mesma forma como os exegetas católicos tos da exegese gramatical. Conhecem a importância do estudo e em-
romanos, também deixaram de derivar do próprio texto da Escritura
3 "Entusiasmo-, ou Schwaermerel, era denominação geral para a tentativa de passar
de largo a Palavra de Deus na relação do homem com Deus. Vários anabatistas,
1 Fr Torm, Hermeneullk det Neuen Testaments (Goettlngen Vandenhoeck & Ruprecht. -espiritualistas- como Carlstadt ou Muenzer. e a ala esquerda radical da Reforma
1930). p. 25. sâo geralmente indicados com éste termo.
2 Cf. também Ap IV, 286. onde Melanchthon resume as criticas acima mencionadas 4 Condena-se o -entusiasmo- também em outros pontos das confissões. Cf. CA V; Ap
sobre a exegese católica romana. IV, 66: CMa IV. 15. 28; FC Ep II. 13 e FC DS I I . 80.
1 Co 11.28 e 10.16 é base bíblica suficiente para rejeitar a tran-
prego de palavras. Note-se o cuidado com que se explanam as
5
substanciação (AE III, vi, 5). Atribui-se grande importância às par-
palavras -ser justificado» e -justificação» (Ap IV, 7 2 ) . Dá-se atenção
tículas exclusivas («apenas», -livremente», «não de obras», «é dom»)
especial à rnaneira como -a Escritura usa o termo fé» ( A p IV, 304;
em passagens que tratam da justificação. ( A p IV, 73; FC DS III, 52).
cf. Ap IV, 112). De modo semelhante, tem-se cuidado em derivar o
Melanchthon não se sente obrigado a fazê-lo, mas apresenta uma
sentido do termo «evangelho» do uso bíblico, e se nota que «a pa-
distinção entre as palavras «fé» e «esperança» ( A p IV, 312). Utiliza-
lavra 'evangelho' não é usada apenas num único sentido na Escri-
se o texto grego para compreensão mais profunda de palavras cha-
tura S a g r a d a . (FC Ep V, 6; cf. DS V, 3-6). O sentido bíblico da
ves. «No grego lê-se esta petição: 'Livra-nos ou, mantém-nos afas-
palavra -necessidade» é estudado (FC DS IV, 14, 17) e o uso bíblico
tados do Mau ou do Perverso'» (CMa III, 113). A Fórmula explica
da palavra «arrependimento» é analisado. (FC DS V, 7-8)
que a expressão grega «não aceita» em 1 Co 2.14 realmente significa
Recorre-se, às vezes, a material extra-bíblico para se entender «não entende, não se apossa, ou não apreende». (FC D S II, 12)
melhor o uso bíblico de uma palavra. Comentando sobre o significado
A gramática é da máxima importância, como a exegese geral
de «oferta pelo pecado» de Is 53.10 e Rm 8 . 3 , Melanchthon escreve:
das confissões demonstra claramente de princípio a fim. O Tratado,
Pode entender-se mais fácilmente o sentido da palavra a partir
por exemplo, pode argumentar que a forma plural da palavra «vós»
dos costumes gentílicos, os quais, já se vê, foram recebidos
em Mt 16.15, 18.18 e Jo 20.23 mostra «que as chaves foram dadas
de expressões dos Pais mal entendidas. Os latinos chamavam igualmente a todos os apóstolos e que todos os apóstolos foram
de píaculum a vítima que por ocasião de grandes calamidades, enviados como iguais». (Tr. 23)
quando Deus parecia especialmente irado, era oferecida para
aplacar a ira de Deus, e sacrificavam de vez em quando vítimas O contexto literário e o fundo histórico também recebem con-
humanas, talvez porque hajam ouvido que uma vítima humana sideração especial. Interpreta-se Lc 7.47 com base em seu contexto,
haveria de aplacar a Deus com respeito a t o d o o gênero h u - especialmente versículo 50 (Ap IV, 152). 1 Pe 4 . 8 é explicado com
mano. Os gregos ora o chamavam kathármata, ora peripséemata. base em seu contexto restrito e seu contexto mais amplo, 2 . 4 , 5 e
6 ( A p IV, 238). Interpreta-se Tg 2.24 com base em seu contexto,
( A p XXIV, 23)
especialmente 1.18 (Ap IV, 244-247). Tobias 4.11 é interpretado pelos
Posteriormente, no mesmo artigo, Melanchthon discorre sobre o uso
versículos 5 e 19 (Ap IV, 277-280). 1 Tm 5 . 8 , 9 e 14 nos auxiliam a
do termo «liturgia» pelos gregos. Cita Demóstenes, o rescrito de Per-
entender os versículos 11 e 12. (Ap XXVII, 64-67). Que a palavra
tinaz e Ulpiano, comentarista de Demóstenes, e conclui:
«evangelho» em Mc 1.1 se deve interpretar tomando em conta seu
Mas não há necessidade alguma de mais testemunhos, uma vez contexto mais amplo baseia-se em Mc 1.4 (FC DS V, 4). Não so-
que os exemplos são óbvios em toda parte aos que lêem os mente as palavras da instituição mas também as circunstâncias da
escritores gregos, onde se usa leitourgia para designar fardos Última Ceia nos ajudam a entender as palavras da instituição de
públicos civis ou ministérios. E por causa do ditongo os gra- nosso Senhor (FD D S VII, 44, 48). O «propósito e contexto de todo
máticos não derivam o termo de litée, que significa preces, mas o discurso de S. Paulo» em 1 Co 10.18-33 nos ajudam a explicar suas
de bem público, a que chamam leita, de sorte que leitourgéoo palavras no versículo 16 (FC DS VII, 57). Exemplos dessa natureza
significa eu cuido, administro o bem público. ( A p XXIV, 81-83) poderiam ser multiplicados. A exegese confessional põe em prática
Leitores do Catecismo Maior também recordarão que Lutero explica o que Melanchthon prega:
o fundo grego e latino do termo «Kirche» (igreja). (CMa II, 48)°
Devem requerer-se, por isso, textos completos, porque, segundo
Atenção especial dá-se a uma palavra numa mensagem. A pa- o preceito vulgar, antes de perquirida a lei toda, é incivil julgar
lavra «tudo» em Lc 11.41 deve ser entendida claramente (Ap IV, ou responder depois de proposta alguma partícula dela. E pas-
281-283). Melanchthon explica com cuidado especial a força da pa- sagens integralmente enunciadas, o mais das vezes trazem con-
lavra -julgar» em 1 Co 11.31 ( A p XII, 163). O termo «pão» em sigo a interpretação. (Ap IV, 280)
5 Cf. FC Ep III. 7 -segundo o costume da Escritura-, e FC D S . 17: -E éste é o
emprego e sentido comum da palavra da Escritura Sagrada do Antigo e Novo Testa- Mediante cuidadoso estudo do texto, atenção às regras de gramática
mento.- e linguagem lógica, estudo do sentido e uso das palavras, exame do
6 Considera-se correta, em geral, a derivação de Lutero de Kirche do grego, embora
sua tentativa de associá-la com a palavra latina -curia- seja provavelmente incor- contexto restrito e amplo de uma passagem, a exegese confessional
reta. Cf. Die Bekenntnlsschrlften der evangellsch-lutherischen Kirche (5° ed. rev.; procura evitar os disparates exegéticos dos adversários. O funda-
Goettingen: Vandenhoeck !. Ruprecht. 1963). p. 656. ne 7.
mento teológico da exegese cuidadosa é a convicção que Deus está Em seus De elementis rhetorices, Melanchthon também condena
falando por meio das palavras da Escritura. O que êle diz só se o sentido quádruplo, insistindo que a Escritura tem apenas um sen-
pode aprender derivando o sentido do texto do próprio texto. tido simples e claro. Escreve:
Haec duxi hoc in loco, de quatour sensibus dicenda esse, ut
Procure o Sentido Real do Texto admonerem unam aliquam, ac simplicem, et certam sententiam
in singulis locis quaerendam esse, quae cum perpetuo contextu
O princípio da Reforma Luterana, que cada passagem da Es- orationis, et cum circumstantiis negocii consentit. Nec ubique
critura Sagrada possui tão-sòmente um sentido, que o exegeta deve licet allegorias quaerere, nec temere aliud ex grammatica sen-
descobrir e explicar, constitui um marco na história da interpretação sentia ratiocinandum est, sed videndum, quid in unoquoque loco
7
bíblica. Em tempos medievais a Escritura era explanada por meio deceat, nec pugnantia figenda sunt cum articulis f i d e i . (Con- 1 2

da «quadriga», ou regra quádrupla, segundo a qual as passagens da duzi o debate a este assunto, que se denomina dos quatro
Bíblia podiam ter sentido literal, moral, alegórico e anagógico. O significados, para admoestar que, em cada passagem, é neces-
sentido moral ou tropológico aplicava-se ao crente individual, o ale- sário procurar apenas um sentido simples e exato, que deve
górico à igreja e o anagógico ao futuro. Essa espécie de exegese sempre concordar com o contexto do trecho, bem como com
fêz da Escritura - u m nariz de cera», um livro repleto de trevas e os assuntos precedentes e seguintes. Também não é lícito pro-
mistérios que apenas a igreja podia interpretar. Farrar afirma: curar alegorias em qualquer parte, nem é preciso temer que
(Melanchthon) viu tão claramente como Lutero que a pretensão se deva deduzir outro sentido além do gramatical, mas importa
da multiplex intelligentia destruiu todo o sentido da Escritura e cuidar que a interpretação de qualquer passagem não entre em
a privou de qualquer sentido seguro, enquanto abria as portas conflito com algum artigo de fé.)
para as deturpações mais extravagantes e se tornava método Melanchthon explica que se deve encontrar o sentido simples e cor-
u

sutil para transferir à falibilidade humana o que competia exclu- reto aplicando as regras de grammatica, rhetorica e dialéctica. Diz
sivamente ao domínio da revelação. * ainda que adicionar ao sentido simples da Escritura outros, não nos
deixa com qualquer segurança quanto ao sentido da Escritura, enfra-
Deve-se observar, no entanto, que em toda a Idade Média e até quecendo, por conseguinte, sua autoridade. 1 4

no período da Reforma somente o sentido literal era válido em de-


bates e o exegeta não precisava procurar todos os quatro sentidos Novamente, este princípio de hermenêutica confessional pode
9
em cada v e r s í c u l o . melhor ser observado na sua aplicação prática constante na exegese
Em oposição a esse ponto de vista, Lutero declarou: -Apenas quando se apresenta o sentido simples e literal que o autor mesmo
o sentido literal da Escritura constitui toda a essência da fé e teolo- pretendeu fosse o sentido da passagem. Alguns exemplos ilustrarão
gia cristã»; e novamente: -desejando nós lidar corretamente com a este fato. Notamos o desprezo de Melanchthon por alegorias: «Ma-
Escritura, nosso esforço único será o de conseguir o sentido unívoco, nobra bem sucedida dos adversários se toleramos que nos vençam
simples, seminal e exato». " ' O u então: - O Espírito Santo é o es- com alegorias. Mas é evidente que alegorias não produzem provas
critor e orador mais claro no céu e na terra, portanto, suas palavras firmes» (Ap XXIV, 35). Melanchthon ridiculariza um exemplo de exe-
não podem t e r mais de um sentido, o mais simples de todos, sen- gese romana desse tipo. Comentando o uso feito pelos romanistas
tido que denominamos literal, ordinário, natural.» " de Pv 27.23 «Procura conhecer o estado das tuas ovelhas», para
justificar a investigação dos pecados do penitente por parte do sa-
7 Para a história anterior desta regra e seu significado no pensamento de Lutero, cf. cerdote, Melanchthon observa:
F. W. Farrar. History of Interpretation (Bampton Lectures of 1885; Grand Rapids:
Baker Book House, 1961). Cf. também Gerhard Krause. Studlen zu Luthers Auslegung Nossos adversários, porém, transformam, com metamorfoses mi-
der Klelnen Propheten (Tuebingen, I. C. B. Mohr. 1962), pp. 174-175. no 6.
ríficas, os textos da Escritura em passagens de sentido qualquer.
8 Ibid., pp. 327-328.
9 A. Skevington Wood, Luther's Principles of Biblical Interpretation (Londres: The Aqui, conhecer, para eles, significa ouvir confissões; aspecto
Tyndale Press. 1960). pp. 24-25. que não designa as relações externas, mas os arcanos da cons-
10 Farrar. p. 327.
11 Martinho Lutero. Dr. M. Luther's Answer to the Superchristian, Supersplritual, and 12 Filipe Melanchthon. -De elementis rhetorices-, Corpus Reformatorum, ed. Carolus
Superlearned Book of Goat Emser of Leipzig, with a Glance at His Comrade Murner, Gottlieb Bretschnelder. XIII (Halle: C. A. Schwetschke and Son. 1846), col. 472.
1521, trad. A. Steimle, Works of Martin Luther (Philadelphia: A. J. Holman Company,
1930). I l l , 350. Para a distinção de Lutero entre sententla generalls et special!- 13 Ibid.. col. 468.
e sua concepção do Scopus do texto. cf. Krause, pp. 213-223 e 241-260.
14 Ibid.. col. 469.
ciência. Ovelhas figura os homens. Bela, sem dúvida, a inter-
pretação, e digna desses desprezadores dos empenhos da elo- O artigo passa a seguir à interpretação das palavras de Cristo, sa-
qüência. (Ap XII, 106) lientando que Cristo não fala como simples homem ou anjo, mas
c o m o aquele que é «êle próprio a eterna verdade e sabedoria e o
Melanchthon revida salientando que Salomão não fala sobre a
onipotente Deus» (DS VII, 43). Salientando o grande cuidado e de-
confissão mas apenas fornece alguns conselhos domésticos ao chefe
liberação com que nosso Senhor escolheu suas palavras «quando
de família. Náo elimina, porém, a possibilidade de se aplicar esta estava para iniciar sua amarga paixão e morte por causa de nossos
passagem a um pastor contemporâneo «por analogia». Em outra par- pecados», a Fórmula conclui:
te, analisando a exegese da Confutação de 1 Sm 2.36 para justificar
a distribuição apenas do pão aos leigos, Melanchthon comenta: «Evi- Somos, pois, obrigados a interpretar e expor estas palavras do
dentemente estão brincando os adversários quando transferem ao sa- eterno, veraz e onipotente Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso
cramento a história dos pósteros de Eli.» (Ap XXII, 10) Senhor, Criador e Redentor, não c o m o expressões alegóricas,
figurativas ou metafóricas, como se apresentam a nossa razão,
Em parte alguma é t ã o evidente o recurso confessional ao sen-
mas devemos aceitá-las em fé simples e obediência devida,
tido natural do texto como em sua exegese das palavras da instituição
conforme seu sentido literal e claro, assim como soam (wie sie
da Ceia do Senhor. No Catecismo Maior Lutero ressalta: «Aqui
lauten, in ihrem eigentlichen, klaren Verstand). Igualmente não
tomaremos nossa posição para ver quem se atreverá a instruir a Cris-
permitimos que qualquer obstáculo ou contradição humana, ur-
to e a alterar o que êle d i s s e . . . Pois, tal como o recebemos dos
dida pela razão, nos afaste destas palavras, pouco importa quão
lábios de Cristo, assim é; êle não pode mentir o u enganar» ( V , 13-
fascinante possa parecer a nosso intelecto. ( D S VII, 45)
14). Novamente: «Tomai nota e lembrai-o bem. Pois, sobre estas
Cita o exemplo de Abraão como alguém que não pediu «interpreta-
palavras fundamenta-se t o d o o nosso argumento, proteção e defesa
ção tolerável e livre» da ordem de Deus de sacrificar seu filho Isaque
contra t o d o s os erros e fraudes que j á surgiram ou ainda surgirão.»
mas «entendeu as palavras e a ordem de Deus de maneira clara e
(V, 19)
simples, tal como soam as palavras» (DS VII, 46). Retorna então
A Fórmula de Concórdia trata exaustivamente da interpretação às palavras da instituição:
destas palavras. Tendo em vista sua importância hermenêutica cita-
remos a Fórmula um tanto pormenorizadamente. Tendo apresentado Todas as circunstâncias da instituição desta Ceia testificam que
a posição dos sacramentários, a Fórmula cita longamente as confis- estas palavras de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que
sões luteranas anteriores e os escritos de Lutero para apresentar a em si mesmas são simples, claras, manifestas, seguras e indu-
verdadeira posição luterana no tocante à Presença Real. Traçando bitáveis, podem e devem ser entendidas apenas em seu sen-
comentários sobre a Concórdia de Witenberga de 1536, a Fórmula tido usual, estrito e comumente aceito (DS VII, 4 8 ) . 1 1

observa: Os parágrafos seguintes mostram c o m o o contexto da Última Ceia


indica que não pode haver metáfora ou metonímia nas palavras de
Com isso quiseram indicar que, embora também usem estas
Cristo. Precisamos reter o sentido simples das palavras.
diversas fórmulas: «no pão, sob o pão, com o pão», ainda
assim aceitam as palavras de Cristo em seu sentido estrito e Na instituição de seu testamento, de sua aliança e união pe-
tal como soam (eigentlich und wie sie lauten), e não julgam ha- renes, não emprega linguagem florida, mas as palavras mais
ver na proposição (isto é, nas palavras do testamento de Cris- apropriadas, simples, indubitáveis e claras, tal c o m o o faz em
t o ) : «Isto é o meu corpo», predicação figurativa mas sim pre- todos os artigos de fé e na instituição de outros sinais de ali-
ança e sinais da graça ou sacramentos, tais como: circuncisão,
dicação incomum (isto é, que não se deve entender como
os vários tipos de sacrifícios do Antigo Testamento e o santo
fórmula figurativa, alegórica ou jogo de palavras). ( D S VII, 38)
Batismo. E, a fim de que não se pudesse introduzir qualquer
A Fórmula assevera que a posição luterana acima apresentada
interpretação errônea, à guisa de explicação esclarecedora a-
repousa sobre a rocha ímpar, firme, irremovível e indubitável crescentou as palavras «dado por vós, derramado por v ó s » .
da verdade das palavras da instituição registradas na santa Fêz seus discípulos conservar essa concepção simples e es-
Palavra de Deus e assim entendida, ensinada e transmitida pe-
los santos evangelistas e apóstolos, e por seus discípulos e 15 -Nun zeugen alle Umbstaende der Einsetzung dieses Abendmahls, dass diese Wort
ouvintes. ( D S VII, 42) unsers Herrn und Heilands Jesu Christi, so an sich selbst einfaeltlg, deutlich klar
fest und unzweifelhaftig sein, anders nicht dann in Ihrer gewoehnlichen, eigentlichen
und gemeinen Deutung koennen und sollen verstanden werden.. Bekenntnisschriften, p. 987.
trita e ordenou-lhes que ensinassem todas as nações a obser-
prática a outra convicção, a saber, que cada passagem tem apenas
var tudo o que êle lhes (isto é, aos apóstolos) ordenara. ( D S
um único sentido. Mas haverá exceções para este último princípio?
VII 50-51)
Alguns acreditam encontrar exceções na interpretação de Lutero de
Depois de se ocupar, por vários parágrafos, com explicações ulterio- três mandamentos e na interpretação de Melanchthon dos sacrifícios
res da doutrina da Ceia do Senhor, o artigo retorna ao problema da levíticos. Com respeito ao Terceiro Mandamento, escreve Lutero:
interpretação.
Portanto, segundo seu sentido literal, externo (nach dem gro-
Não iremos, não podemos e não devemos permitir que qual- ben Verstand) este mandamento não se refere a nós cristãos.
quer astuta opinião humana, tenha ela a aparência ou o presti- É questão externa tão-sòmente, semelhante a outras ordenan-
gio que tiver, nos afaste da interpretação simples, explícita e ças do Antigo Testamento relacionadas com costumes, pessoas,
clara (von dem einfaeltigen, deutlichen und klaren Verstand) da tempos e lugares especiais, dos quais fomos libertados por
palavra e testamento de Cristo, conduzindo-nos a um sentido Cristo. ( C M a I, 82)
diferente do natural das palavras, mas, como foi dito acima, A seguir, Lutero passa a oferecer «às pessoas simples uma interpre-
devemos entendê-las e crer nelas segundo seu sentido sim- tação cristã do que Deus exige neste mandamento» ( C M a I, 83).
ples. (DS VII, 92) À primeira vista poderá parecer que Lutero interpretou o Terceiro
Não é, pois, de surpreender que a Fórmula condene explicitamente Mandamento como tendo duplo sentido, o «literal» e o «cristão». Mas,
os que sustentam deverem as palavras da instituição «mediante tro- o contexto de Lutero esclarece ser seu sentido «cristão» o significa-
pos ou interpretação figurativa receber sentido diferente, novo e es- do verdadeiro e próprio do mandamento, como também o foi para os
tranho». (DS VII, 113) judeus do Antigo Testamento. Seu sentido real, então como agora,
é «que devemos santificar o dia santo ou dia de descanso» (CMa
O sentido exato de uma passagem, no entanto é o sentido que I, 81). Realmente, «no tocante a seu cumprimento exterior» o manda-
o autor lhe atribuiu, e os autores bíblicos nem sempre falam em ter- mento foi dado apenas aos judeus» ( C M a I, 80). Mas, para Lutero
mos literais. Também este fato evidencia-se nas confissões. A Es- esse «cumprimento exterior» não é o sentido real e próprio do texto.
critura pode empregar figuras de linguagem, por exemplo, sinédoque Explicação quase idêntica se pode dar aos comentários de Lutero
(Ap V I , 152) ou talvez, hipérbole (Ap IV, 277). No mesmo artigo, ci- sobre os dois últimos mandamentos: «Estes dois mandamentos, to-
tado acima, a Fórmula assevera que João 6.48-58 refere-se ao comer mados literalmente, foram dados exclusivamente aos judeus, apesar
«espiritual» da carne de Cristo (DS VII, 61). No artigo seguinte, a disso, em parte também se aplicam a nós.» ( C M a I, 2 9 3 ) 1 7

Fórmula adota a explicação de Lutero que a mão direita de Deus


«não é um lugar específico no céu, como os sacramentários susten- Problema semelhante encontramos nos comentários de Melan-
tam sem prova da Escritura Sagrada. A mão direita de Deus é pre- chthon sobre os sacrifícios levíticos no Artigo XXIV da A p o l o g i a .
cisamente a onipotência de Deus que preenche céu e t e r r a . . . » (DS Todos os sacrifícios levíticos podem ser classificados em duas cate-
VIII, 28). A afirmação de nosso Senhor em M t 16.18: «Sobre esta gorias: propiciatórios e eucarísticos (21). Entretanto, há realmente
pedra edificarei a minha igreja», não se refere a uma rocha literal, apenas um sacrifício propiciatório no mundo, a morte de Cristo (22).
mas ao «ministério» da confissão feita por Pedro ao declarar ser Je- Que foram então os sacrifícios «propiciatórios» levíticos? «Os sacri-
1 6
sus o Cristo, o Filho de Deus». (Tr, 25) fícios propiciatórios levíticos eram chamados assim apenas para sig-
nificar a expiação futura (ad significandum futurum piaculum)» (24).
De princípio a fim as confissões evidenciam sua diligência na Isto é, «eram apenas imagem do sacrifício de Cristo, que haveria
busca do sentido real do texto. Sua recusa em indicar vários sen- de ser o único sacrifício propiciatório» (53). Contudo, « e r a m . . . em
tidos para qualquer passagem mostra quão fielmente puseram em razão de alguma similitude (propterea similitudine), satisfações que re-
16 Lutero dá o seguinte conselho para determinar a existência de figuras de linguagem
dimiam a justiça da lei, a fim de que não fossem excluídos do Estado
1 8
na Escritura Sagrada: -Ao invés disso, seja esta a nossa convicção: que nâo se os que pecassem» (24). Para a Apologia há apenas um sentido real
permita a existência de nenhuma 'implicação' ou 'figura' em qualquer passagem da
Escritura a não ser que seja exigida por algum aspecto evidente das palavras e o para os sacrifícios «propiciatórios» levíticos: são símbolos do futuro
absurdo de seu sentido simples, por contradizer algum artigo de fé. Sempre devemos
eter-nos ao sentido simples, natural das palavras, como encontrado por meio das sacrifício de Cristo. O Novo Testamento (neste caso, o livro de He-
regras da gramática e os hábitos de conversação criados por Deus entre os homens...
Todas as 'figuras' devem ser evitadas, como o mais fulminante veneno, quando a
própria Escritura não as exige absolutamente.- Em The Bondage of the Wlll, trad. 17 -Diese zwei Gepot sind fast den Jueden sonderlich gegeben, wiewohl sie uns dennoch
1. I. Packer e O. R. Johnston (Westwood. N J.: Fleming H. Réveil Company, 1957), auch zum Teil betreffen-, Bekenntnisschriften, p. 633.
18 Cf. Ap XXIV, 56. onde se afirma que «por analogia- (similitudine) pode-se dizer
que sacrifícios do Antigo Testamento obtiveram -reconciliação civil».
breus) não acrescentou outro sentido ao original. Realmente, é tão-
sòmente em razão de sua - s i m i l i t u d e ' c o m o que significavam que
são denominados - p r o p i c i a t ó r i o s - em termos de sua função civil na
comunidade israelita.

Assim, a convicção confessional de ser a Escritura Sagrada a CAPÍTULO 6


clara palavra escrita de Deus fica demonstrada por seu emprego
constante de cuidadosa e sóbria exegese gramatical. Na interpretação Que a Escritura se Interprete a si Mesma
literária da Escritura os autores confessionais usam todos os instru-
mentos a seu dispor para extrair do próprio texto o sentido exato da Os princípios de exegese gramatical especificados no capítulo
passagem. Para as confissões, exegese erudita de alto gabarito não anterior, embora fundamentados na natureza literária da Escritura Sa-
era algo opcional mas necessidade teológica. Pois a mensagem de grada como Palavra de Deus, são em geral aplicáveis à interpretação
Deus ao homem não se encontra atrás, acima ou separada da Pa- de qualquer obra literária. Em certo sentido é também correto que
lavra, mas na Palavra da Escritura. Qualquer outra abordagem à qualquer documento deve poder interpretar-se a si mesmo. Mas no
mensagem da Escritura é - e n t u s i a s m o - . alcance e intensidade de sua aplicação, o princípio de auto-interpre-
tação da Escritura só pode ser entendido teologicamente. Pois a
Bíblia é, na realidade, uma coleção de 66 documentos diversos, es-
critos em épocas e culturas diferentes, por homens distintos. Que
a Bíblia pode interpretar-se a si mesma é princípio legítimo de exe-
gese, de acordo com as Confissões Luteranas, apenas por causa da
unidade da Escritura, que é a unidade de autoria, conteúdo e finali-
dade, e, devido a sua clareza fundamental. Após rápido exame do
fundo histórico deste princípio de interpretação, veremos como é
usado nas confissões, primeiro em passagens individuais da Escri-
tura e a seguir em artigos de fé derivados da Escritura.

Fundo Histórico

A formulação clássica: scriptura sacra sui ipsius interpres, evi-


dencia-se nos escritos de Lutero já em 1519 e continua a desempe-
1
nhar papel destacado em sua exposição b í b l i c a . Karl Holl chama
nossa atenção ao significado dessa ênfase de Lutero:
Luther weist mit ihm zunaechst den Anspruch ab, den die kirchli-
che Auktoritaet bezueglich des Rechts der Schrifterklaerung fuer
sich erhob. Aber wichtiger noch war das darin liegende Posi-
tive, die Hervorhebung des Eigenrechts der U r k u n d e . Nach
dieser Seite hin war Luthers Satz ein Ereignis fuer die ganze
2
Geisteswissenschaft. (Com este princípio Lutero repudia o di-
reito reivindicado pela autoridade eclesiástica, de só ela poder
interpretar a Escritura. Mais importante, porém, era seu aspecto
positivo: a ênfase na autoridade autônoma da fonte primária.
Sob este prisma a sentença de Lutero constituí um marco na
história das ciências do espírito.)

1 Karl Holl, -Luthers Bedeutung fuer den Fortschritt der Auslegungskunst., Gesammelte
Aufsaetze zur Kirchengeschichte, I, Luther (Tuebingen: J, C. B. Mohr, 1927), 559.
2 Ibid.. pp. 559-560.
A Reforma Luterana deu a éste princípio expressão e significado clás- Ratschlag ter sido denominada «biblicista», * permanece o fato que,
sicos. Ainda assim, não se pode dizer que foi nova descoberta de ao ressaltar o principio de auto-interpretação da Escritura, este docu-
3
Lutero, visto muitos de seus predecessores também o e m p r e g a r e m . mento simplesmente exprimia uma idéia ensinada e posta em prática
Não é de surpreender que alguns observadores consideram ter sido por Lutero e os outros reformadores.
a ênfase de Lutero, na perspicuidade e natureza auto-interpretativa
da Escritura, motivada principalmente por seu desejo de livrar a Es- Aplicado a Passagens Individuais
4
critura da necessidade da interpretação e c l e s i á s t i c a . Não se pode
negar que este princípio, de fato, auxiliou-o a realizá-lo. Além disso,
Ao ser posto em prática na exegese o princípio sçriptura sacra
ajudou a colocar o Livro da Vida nas mãos de todos os que podiam
sui ipsius interpres significa que passagens que tratam do mesmo
ler e estimulou os exegetas a examinar as Escrituras. Mas, que este
assunto podem ser usadas para explicar umas às outras ou corro-
principio foi mais uma necessidade histórica do que dedução teoló-
gica para os Reformadores, é algo que não se pode aceitar. Pois borar na sua interpretação recíproca. Além disso ainda, e este tem
decorre não só da natureza revelatória da Palavra mas de sua uni- s,ido seu uso principal em círculos luteranos, o principio significa que
dade e autoria, conteúdo e finalidade divinas. as passagens menos claras ou simples devem ser consideradas à
luz das mais claras. Expressões figurativas ou metafóricas, por exem-
Antes da compilação das Confissões Luteranas no Livro de plo, podem ser esclarecidas por passagens que tratam do mesmo
Concórdia, o princípio que a Escritura deve interpretar-se a si mes- assunto em linguagem clara e simples. Fagerberg resume a função
ma já fora sustentado confessionalmente no Der Ansbacher evan- deste princípio na exegese confessional do seguinte modo:
gelische Ratschlag de 1524. O Ratschlag não só ressalta a distinção Die hl. Schrift ist ihrem Inhalt nach grundsaetzlich klar, so dass
entre a palavra dos homens e a Palavra de Deus, mas também sa- das, was sie sagen will, in begreifbare Saetze gefasst werden
lienta que se deve explicar «schrift mit schritt und einen text der kann. Wenn Zweifel ueber den Gehalt einer Schriftstelle her-
5
bibel d u r c h oder mit dem a n d e r n - . (Escritura com Escritura, e um schen, dann haben die deutlichen Stellen die undeutlichen zu
texto da Bíblia com outro). Afirmação anterior ressaltava que nenhu- erklaeren. 10
(Quanto a seu conteúdo a Escritura é fundamental-
ma passagem na Escritura «dem andern widerwertig sei und die mente clara, por isso o que ela quer dizer pode ser concebido
gottlich schrift an allen orten besteen k a n n - . • (contradiz outra, e em orações compreensíveis. Quando persistir dúvida sobre o
que toda a Escritura divina pode permanecer em todos os pontos). conteúdo de uma passagem da Escritura, devem as passagens
Dedica-se um artigo inteiro à clareza da Escritura. Salienta-se ai que claras esclarecer as obscuras.)
a Escritura é «in ir selbs und von irer art verstentlich- (compreen-
sível em si mesma e a seu modo) porque o Espirito Santo «deutlich O princípio da auto-interpretação da Escritura é sistematicamente se-
und verstentlich hab geredt und noch rede in seiner aigen s c h r i f t » . ' guido nas confissões. Está em evidência em muitos lugares quando
(falou clara e compreensivelmente e ainda fala em sua própria Es- se citam longas listas de passagens como estando de acordo umas
critura). O Artigo 4 1 , intitulado «Beschluss von auslegung der schrift-, com as outras, expressando, portanto, a mesma verdade. Alguns
salienta duas coisas: que a Escritura só é «durch den geist gottes exemplos ilustrarão este fato. Passagens de Paulo e João são usa-
auszulegen» (interpretada mediante o Espirito de Deus) e que «die das lado a lado (Ap IV, 29-33), como também citações de Paulo,
8
goetlich schrift d u r c h einen text mit dem andern also ausgelegt w u e r t » . João, Atos, Habacuque e Isaías (Ap IV, 88-89). 1 Coríntios, Efésios,
(a Escritura divina interpreta um texto por intermédio de outro). Em- Mateus, Atos, João e Colossenses são citados no mesmo parágrafo
bora a metodologia de interpretação da Escritura apresentada no (FC DS II, 10). Em um parágrafo da Fórmula são citados 15 livros
diferentes da Bíblia (FC D S II, 26). Passagens de Romanos, Gê-
3 Cf. F. Kropatscheck, Das Schriftprinzip der lutherischen Kirche, I. Die Vorgeschichte: nesis e Hebreus são citadas conjuntamente para explicar como Abraão
Das Erbe des Mittelalters (Leipzig: s.e., 1905). 448-460). para a aplicação deste prin-
cipio como feita pelos predecessores de Lutero. foi justificado perante Deus tão-sòmente pela fé (FC DS III, 33).
4 Sugere-o Fr. Torrn, em Hermeneutik des Neuen Testaments (Goettingen: Vandenhoeck & A propriedade de passagens da Escritura de se explicarem reciproca-
Ruprecht, 1930), p. 229. mente evidencia-se também pelo uso, sem comentário ou explicação,
5 W. H. Schmidt e K. Schornbaum, eds., Die Fraenkischen Bekenntnisse. Eine Vorstufe
der Augsburgischen Konfession, publ. pelo Landeskirchenrat der evang.-luth. Kirche
in Bayern (Munich: Chr Kaiser Verlag. 1930). p. 223 9 Ibid., pp. 16-20. para os comentários de Schmidt. Holsten Fagerberg caracteriza
6 Ibid.. p. 217. a atitude de Ansbach face á Escritura como -eine ausgesprochen buchstabengetreue
7 Ibid.. p. 222. Einstellung zur Bibel», em Die Theologie der Lutherischen Bekenntnlsschlrten von
1529 bis 1537, trod. Gerhard Klose (Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1965), p. 42.
8 Ibid . p. 232 10 Fagerberg, pp. 41-42.
de passagens veto-testamentárias com referências a cristãos do Novo
cura ou difícil de interpretar. Os seguintes trechos são de importân-
Testamento. Por exemplo, usam-se passagens do A n t i g o Testamento
cia vital para se compreender a interpretação da lei na A p o l o g i a :
para descrever a natureza voluntária das obras realizadas pelo - p o v o
do Novo Testamento» (FC DS IV, 17). Uma passagem de Dt 12 é Na pregação da lei importa entender sempre duas coisas: que
empregada como fundamento para a afirmação que os crentes não não se pode cumprir a lei a menos que se haja renascido pela
devem «elaborar um serviço a Deus escolhido por eles mesmos sem fé em Cristo, conforme êle diz: Sem mim nada podeis fazer;
sua Palavra e mandamento». (FC DS VI, 20) Jo 15.5 e, conquanto certamente se possam praticar algumas
obras externas, é preciso manter esta sentença universal, que
Cita-se,» com freqüência, uma passagem, simplesmente para cor-
interpreta toda a l e i : Sem fé é impossível agradar'a Deus. H b
roborar a interpretação dada a outra passagem. Assim, o significado
11.6 (Ap IV, 256)
de «memória» em 1 Co 11.24 é ilustrado com a citação de SI 111.4,
5 (Ap XXIV, 72). Que Mt 26.27 indica que todos os comungantes Todas as vezes que se faz menção de lei e obras, importa sa-
devem receber o vinho sacramental é reforçado pela evidência de ber que não se deve excluir o Cristo mediador. Pois êle é o
1 Co 11.20-34 (CA XXII, 2-3). A Fórmula cita 1 Co 10.16-21 para fim da lei (Rm 10.4), e êle mesmo diz: Sem mim nada podeis
mostrar que as palavras da instituição ensinam a presença real do fazer. Jo 15.15. Segundo esse cânone, dissemos acima, podem
corpo e sangue de Cristo na Ceia do Senhor. (FC D S VII, 54-60). ser julgadas todas as passagens concernentes a obras. (Ap IV,
372)
Além disso, o princípio hermenêutico que a Escritura deve in-
A esta altura, necessário se faz notar que a «regra» da Apologia sem
terpretar-se a si mesma é exposto de maneira bem explícita nas con-
fissões. Em seu artigo sobre os votos monásticos, Melanchthon trata a qual nem a lei, nem as obras podem ser entendidas, novamente
da interpretação católica romana dos votos dos nazireus e recabitas. compõe-se de claras passagens da Escritura Sagrada. O significado
Declara: ulterior desta «regra» será analisado no capitulo seguinte.
Outros exemplos do uso confessional deste princípio devem ser
Além disso, exemplos devem ser interpretados de acordo com
assinalados. Que Paulo em Rm 3.28 refere-se à lei toda, e não ape-
a norma, isto é, de acordo com passagens certas e claras da
nas a cerimônias levíticas prova-se não só com Rm 7.7 e 4 . 1 - 6 mas
Escritura, não contrariamente à norma, isto é, em desacordo com
também com Ef 2.8 (Ap IV, 87). O alcance de Mt 2 3 . 3 («Observai
a Escritura, (iuxta regulam, hoc est, iuxta scripturas certas et
tudo quanto eles vos disserem») é limitado por At 5.29 («Antes im-
claras, non contra regulam seu contra scripturas) É muito certo,
porta obedecer a Deus do que aos homens») (Ap XXVIII, 21). A
porém, que nossas observâncias não merecem remissão de pe-
forma plural «vós» em Jo 20.23 (bem c o m o nas duas passagens de
cados ou justificação. Por isso, quando se louva os recabitas,
Mateus) indica que Cristo em Mt 16.15 estava se dirigindo não ape-
é necessário que estes hajam observado seu costume não por-
nas a Pedro, mas a Pedro como representante de toda a companhia
que cressem que através dele haveriam de merecer remissão
dos apóstolos (Tr, 23). Lc 24.46-47, passagem que não contém a
de pecados. (Ap XXVII, 6 0 - 6 1 ) "
palavra «evangelho» é usada para explicar a palavra «evangelho» em
Deve-se notar que o uso feito por Melanchthon da doutrina da jus-
Mc 16.15 (FC D S V , 4 ) . O motivo porque alguns dos que recebem
tificação para esclarecer a natureza dos votos dos recabitas é uma
a Palavra com alegria caem novamente (Lc 8.13) não é que «Deus
aplicação da regra que passagens mais certas e claras da Escritura
não quer conceder a graça da perseverança àqueles em que 'come-
interpretam as que são obscuras; não está aqui usando a justificação
çou a boa o b r a ' . Isto contradiria S. Paulo em Fp 1.6» (FC D S XI,
pela graça como princípio hermenêutico independente. Pensamento
42). O Segundo Mandamento, que prescreve o uso adequado do
quase idêntico expressa Melanchthon quando diz com referência a
nome de Deus, explica «a questão que atormentou tantos mestres:
Lc 11.41 («Dai esmola do que tiverdes, e tudo vos será limpo»):
porque no evangelho se proíbe jurar ( M t 5 . 3 3 a 37), e, no entanto,
«Inspecionada a passagem toda, apresenta ela um sentido acorde
Cristo, S. Paulo ( M t 26.63-64, Gl 1.20, 2 Co 1.23) e outros santos
com o restante da Escritura.» (Ap IV, 284)
prestaram juramentos» (CMa I, 65). Pr 10.12 nos auxilia a entender
1 Pe 4 . 8 : «O amor cobre multidão de pecados.» (Ap IV, 238-240)
O principio que a Escritura deve interpretar-se a si mesma é
especialmente útil para se encontrar o sentido de uma passagem obs- D e particular interesse é o modo como as confissões empregam
passagens do Novo Testamento para interpretar as do Antigo Tes-
11 Parece provável que regula aqui seja uma referência á regula fidel ou analogia fidei,
embora não se possa prová-lo. O -seu» em vez de -vel- também indica que -regulam» tamento. C o m Ef 5 . 9 e C l 3 . 1 0 interpreta-se «imagem de Deus» e m
e -scripturas- são uma coisa e não duas. Gn 1.27 (Ap II, 18, 20). A fé de Abraão e o sacrifício de Abel são

C0SC0RDU.
interpretados com base em Rm 4.9-22 e Hb 11.4 (Ap IV, 202). «Pu- é a substância do homem, a Fórmula argumenta que se deve fazer
rificai-vos, os que levais os utensílios do Senhor» (Is 52.11) é in- uma distinção entre nossa natureza como foi criada por Deus e o
terpretado com auxilio de Tt 1.15: «Todas as cousas são puras para pecado original que habita na natureza e a corrompe. Por quê? «Por-
os puros» (Ap XXIII, 64). Os sacrifícios levíticos são interpretados que os principais artigos de nossa fé cristã nos constrangem e impe-
como símbolos da morte de Cristo com base na Epistola aos He- lem a manter tal distinção» (FC DS I, 34). O artigo prossegue de-
breus (Ap XXIV, 20, 22, 53). Que a libação mencionada em Nm monstrando como os artigos da criação, redenção, santificação e
28.4-8 se refere à santificação dos crentes em t o d o o mundo pelo ressurreição se opõem à doutrina flaciana. O artigo da criação en-
sangue de Cristo prova-se com 1 Pe 1.2 (Ap XXIV, 36). Num caso sina «que mesmo depois da Queda Deus é o criador do homem que
extremamente interessante de interpretação bíblica, a Fórmula cita lhe dá corpo e alma». Identificar o homem corrupto com o próprio
Gn 17.4-8, 19-21, contra a rejeição anabatista do batismo infantil (DS pecado seria fazer de Deus «o criador do pecado» (38). O artigo
XII, 13 e Ep XII, 8 ) . As palavras de Paulo em Rm 8.7 e Gl 5.17 da redenção ensina «que o Filho de Deus tomou sobre si nossa
explicam Gn 8 . 2 1 : «É mau o desígnio íntimo do homem desde a natureza, embora sem pecado». A posição flaciana nos obrigaria a
sua mocidade» (FC DS II, 17) sustentar «que Cristo, ou não assumiu nossa natureza uma vez que
não assumiu o pecado, ou que Cristo assumiu o pecado uma vez
E, assim, as confissões continuamente citam passagens de to-
que assumiu nossa natureza» (43-44). O artigo da santificação ensina
das as partes da Escritura para corroborar, explicar ou interpretar
que «Deus purifica o homem do pecado»; a posição flaciana não po-
passagens em outras partes. Entretanto, não se faz isto levianamen-
de ser correta, porque Deus «recebe o homem em sua g r a ç a . . .
te. No Debate de Leipzig de 1519 Lutero observou que não é «a
mas permanece o inimigo do pecado por toda a eternidade». (45).
maneira correta de se interpretar a Escritura, reunir afirmações de
A doutrina da ressurreição ensina que nosso corpo e alma ressusci-
diversas partes da Bíblia sem tomar em consideração a ordem ló-
12 tarão para estarem com Deus, entretanto sem pecado; a posição de
gica ou o c o n t e x t o » . As confissões estão cientes deste conselho,
Flácio nos forçaria a manter ou, que na ressurreição teremos outra
pois, quando usam outras passagens para explicar um conceito ou
alma e corpo ou que «o pecado seria ressuscitado para estar e per-
afirmação, procuram conscientemente respeitar a ordem lógica, con-
manecer com os eleitos na vida eterna» (46-47). Deve-se manter em
teúdo e contexto.
mente que Flácio, também, baseava seu ponto de vista em passagens
bíblicas. Em vista disso, a argumentação da Fórmula a partir de ar-
Aplicado a Artigos de Fé tigos de fé se refere à interpretação bíblica de Flácio de passagens
que falam sobre o pecado.
As confissões não só empregam passagens individuais da Es-
critura para explicar outras, mas também fazem uso de artigos de Que «os artigos de fé» nos parágrafos precedentes nada mais
fé completos ao avaliar uma passagem ou sua interpretação. Isto é são que o ensinamento da Escritura Sagrada sobre os quatro tópicos
particularmente verdadeiro no caso da doutrina da justificação pela mencionados, evidencia-se de afirmações paralelas: «Segundo a Sa-
graça, mas também acontece com os outros artigos. Na realidade, grada Escritura devemos e podemos considerar, discutir e crer que
contudo, isto não é outro princípio de interpretação, mas apenas uma
estes dois (a natureza humana e o pecado original que nela habita)
aplicação da regra que a Escritura é seu próprio intérprete. Pois
são distintos um do outro» (FC DS I, 33), e «Os principais artigos
as confissões entendem que seus artigos de fé são tomados da
13
de nossa fé cristã nos constrangem e impelem a fazer tal distinção»
Escritura.
(FC DS I, 34). Além disso, em cada um dos quatro artigos, a Fór-
Vemos este princípio em ação no primeiro artigo da Fórmula mula, ou demonstra explicitamente, ou reivindica base bíblica. Em sua
de Concórdia. Contra a afirmação de Flácio que o pecado original análise do artigo da criação, a Fórmula cita nada menos que 10
passagens da Escritura como seu fundamento (34-42). No artigo da
12 Citado por M. Reu, Luther and the Scriptures (Coiumbus: The Wartburg Press 1944)
reimpresso em The Springflelder, XXIV (agosto de 1960), 10. redenção «temos o poderoso testemunho da Escritura»; ambas as
13 As vezes, esse uso hermenêutico de artigos de fé é descrito como -analogia da f é - . alternativas propostas pela posição flaciana «são contrárias à Escri-
Este termo pretende ressaltar não apenas que e Escritura inteira deve ser conside-
rada na interpretação de qualquer de suas partes, mas também, que os artigos de fé tura» (43-44). No artigo da santificação «temos o testemunho da
individuais são parte integrante do praecipuus locus, a doutrina da Justificação pela Escritura» (45) e na doutrina da ressurreição «a Escritura dá teste-
graça. Além disso, o conteúdo da analogia da fé é determinado não por credos ou
outras fórmulas sumárias fixas da fé, mas pelas passagens certas e claras da Es- munho» sobre a interpretação correta (46). Evidencia-se assim, que
critura Sagrada.
lugar, já vimos que as confissões não somente derivam a doutrina
o uso de -artigos de fé» por parte da Fórmula na avaliação da tese da justificação da Escritura mas consideram-na o próprio centro da
de Flácio é na realidade ampla e importante aplicação do principio Escritura. 15
Mesmo onde o argumento é derivado da doutrina da
que a Escritura interpreta a Escritura. justificação, o contexto imediatamente sugere que é a doutrina escri-
É o mesmo princípio que entra em jogo quando as confissões turística da justificação que se tem em mente. Visto ser a doutrina
interpretam passagens ou argumentam com base na doutrina da jus- da justificação o «artigo fundamental» das Escrituras do Antigo e
tificação pela graça, como freqüentemente o fazem, especialmente Novo Testamento, não é de surpreender que seja tão freqüente seu
na Apologia. Por exemplo, ao discutir a frase: «o amor, que é o uso como aspecto importante do princípio que a Escritura se inter-
vínculo da perfeição» em C l 3.14, Melanchthon diz que Paulo está preta a si mesma.
obviamente referindo-se ao amor ao próximo, pois atribuir justifica-
O princípio que a Escritura deve interpretar a Escritura, empre-
ção às obras -está muito longe do sentido de Paulo, que nunca
guem-se passagens individuais ou artigos inteiros, é um princípio
tolera a exclusão de Cristo como propiciador» (Ap IV, 231). Mais
teológico de exegese literária. Sua validez e fidedignidade repousam
tarde, no mesmo artigo, admoesta-nos a não perder de vista o im-
em última análise sobre a unidade de autoria, conteúdo e finalidade
portante ensinamento do evangelho a fim de entender a pregação
da Bíblia. O fato que as Escrituras têm como autor Deus, o Espírito
de arrependimento (Ap IV, 260). Melanchthon prefere chamar To-
Santo, sugere que este princípio é, na realidade, apenas uma exten-
bias 4 . 1 1 : -Esmolas libertam de todo pecado e da morte», uma hi-
são do princípio hermenêutico geral de exegese literária que qual-
pérbole para -não detrair os louvores de Cristo» (Ap IV, 277). A
quer passagem deve ser considerada e exposta em termos de seu
Apologia rejeita a idéia que devem haver sacrifícios no Novo Testa-
contexto. Assim, o contexto de qualquer passagem da Bíblia é a
mento a par da morte de Cristo, válidos para os pecados de outros
Escritura interia, visto a Escritura toda possuir como autor o mesmo
porque
Espírito Santo. Que o «contexto» da Escritura pode dar uma expli-
Essa fantasia simplesmente destrói o mérito da paixão de Cris- cação verdadeira de qualquer passagem repousa sobre o fato de
to e a justiça da fé, e corrompe a doutrina do Antigo e do sua autoria divina, em virtude da qual se pode dizer que a Escritura
Novo Testamento, e nos produz, em substituição a Cristo, ou- concorda consigo mesma. Pois, como vimos, as confissões consi-
tros mediadores e propiciadores, os pontífices e sacrifícios, que deram a «Palavra de Deus como a verdade eterna» (FC DS Regra
diariamente yendem seu trabalho nos templos. (Ap XXIV, 57) e Norma, 13); crêem que «a Palavra de Deus não pode errar» ( C M a
De modo similar notamos a rejeição da idéia que a Missa produz IV, 57); não crêem que Deus, «que é a eterna Verdade, se contradiz
benefícios ex opere operato por contradizer a justiça da fé (Ap XXIV, a si mesmo» (FC D S XI, 35). Além disso, o conteúdo cristológico
60). Condenam-se os pelagianos e outros que negam ser o pecado e o objetivo soteriológico da Escritura toda sugerem que o material
original pecado porque admitem «assim a santidade da natureza hu- bíblico encontrado em várias partes da Escritura e em diversas for-
mana por virtudes próprias, menoscabando destarte a paixão e o mas literárias pode ser usado conjuntamente, pois, em última análise,
mérito de Cristo» (CA II, 3). Já vimos como Lutero rejeita várias fala do mesmo Cristo e busca levar o homem à mesma salvação
14
praxes católicas romanas por se oporem a este artigo f u n d a m e n t a l . pela graça.

O significado hermenêutico do artigo da justificação será ana- 15 Acima, pp. 41-46. especialmente pp. 44-45.
lisado mais pormenorizadamente no capítulo seguinte, mas já que-
remos ressaltar aqui que o emprego do principal artigo de fé, como
demonstrado nos parágrafos precedentes, é uma aplicação do prin-
cípio scriptura sacra sui ipsius interpres. Evidencia-o em primeiro
lugar Melanchthon, ao dizer que «as passagens certas e claras da
Escritura» (Ap XXVII, 60) constituem o conteúdo deste princípio. No
contexto desta definição, Melanchthon então descreve como «muito
certo» o ensinamento «que nossas observâncias não merecem remis-
são de pecados ou justificação» (Ap XXVII, 61). A doutrina da jus-
tificação é aqui o exemplo da regra, não a regra em si. Em segundo

14 Acima, p. 43.
A doutrina do perdão dos pecados mediante a fé em Cristo não
é apenas o praecipuus locus doctrinae christianae («principal
doutrina da cristandade»), mas também determina a interpreta-
ção da Escritura toda.
Além disso: «Onde estiver presente esta preocupação soteriológica,
CAPÍTULO 7 a exegese, trate ela de um artigo de fé apenas ou da Escritura co-
mo um todo, conduzirá basicamente à mesma aplicação.» V i s t o si-
A Função Hermenêutica de Lei-Evangelho e Justificação lenciar quase completamente sobre qualquer outra diretriz herme-
nêutica, o documento deixa a impressão que, para as Confissões
A exegese gramatical empregada de maneira consciente e pro- Luteranas, a doutrina da justificação é o princípio hermenêutico por
posital pelas confissões e o emprego feito por elas do princípio da excelência. '-
auto-interpretação da Escritura se fundamentam, em grande parte, teo-
Pode-se, no entanto, manter essa posição com base nas pró-
logicamente, na autoria divina da Escritura Sagrada . Observamos,
prias confissões? Os que pretendem responder na afirmativa, com
pois, que as confissões ressaltam que lei e evangelho são as men-
freqüência, citam as seguintes passagens confessionais:
sagens básicas da Escritura Sagrada, que a justificação pela graça,
por causa de Cristo, mediante a fé é o centro de toda a Escritura, A distinção entre lei e evangelho é luz especialmente brilhante
e que a função principal da Escritura Sagrada é tornar os homens que tem como objetivo o de permitir que a Palavra de Deus
possa ser dividida corretamente e os escritos dos santos pro-
sábios para a salvação. Este capitulo é uma tentativa de determinar
fetas e apóstolos possam ser explicados e entendidos corre-
0 papel desempenhado na hermenêutica confessional pela concepção tamente (eingentlich erklaert und verstanden). (FC D S V, 1)
do conteúdo soteriológico e da finalidade da Escritura Sagrada. (O artigo da justificação) contribui notavelmente para a c o m -
preensão clara e correta de toda a Escritura Sagrada, e tão-
Não São Princípios Hermenêuticos Gerais sòmente êle indica o caminho ao inestimável tesouro do reto
conhecimento de Cristo, e apenas êle abre a porta à Bíblia
:i
Insistindo que: -toda a Escritura deve ser distribuída por es- i n t e i r a . . . (Ap IV, 2, em a l e m ã o )
sas duas questões principais: a lei e as promessas» (Ap IV, 5) e A citação da Fórmula obviamente descreve uma perspectiva ou pres-
repetindo incessantemente seu refrão que a justificação pela graça suposição luterana básica para se explicar e entender a Escritura.
é o artigo fundamental de toda a Escritura, não é de surpreender que Mas o que significa distinguir lei e evangelho? O contexto imediato
alguns consideram ter encontrado aí o mais importante principio responde: que não «confundamos as duas doutrinas e transforme-
hermenêutico para uma concepção luterana da Escritura S a g r a d a . mos o evangelho em lei». Confundir as doutrinas de lei e evangelho
Edmund Schlink, que manifesta a opinião de grande número de teó- significa que «o que pertence a uma doutrina é atribuído à outra»;
logos luteranos, ressalta não apenas o significado hermenêutico da desse modo «as duas doutrinas seriam emaranhadas e transformadas
distinção lei-evangelho, mas também que o evangelho é a norma bá- numa só doutrina» (FC DS V, 27). Realmente, a Fórmula quer di-
zer: o que é lei na Escritura deve ser explicado e entendido como
sica na Escritura e que a Escritura é normativa tão-sòmente por causa
1 lei, e o que é evangelho na Escritura deve ser explicado e entendido
do evangelho. Um documento distribuído em 1965 entre os pasto-
como evangelho. Se a Escritura toda é entendida e explicada como
res da Igreja Luterana-Sínodo de Missouri e da Igreja Luterana Ame-
lei não haverá instrumento para o Espírito poder criar a fé em Cristo
ricana (American Lutheran Church) para estudo e discussão ressalta
e como resultado não haverá consolo contra os terrores da lei. Se
a importância da doutrina da justificação para a exegese bíblica. O
a Escritura toda é explicada e entendida como evangelho, não haverá
documento usa expressões muito fortes para salientar o significado instrumento para o Espírito convencer o homem de seu pecado e
hermenêutico desta doutrina. Sustenta que -toda a teologia que re-
cebe suas dimensões e contornos deste princípio diretor é pura e
verdadeira». Afirma: 2 -The Lutheran Confessions and Sola Scriptura-. em Essays Adopted by the Comissio-
ners of the American Lutheran Church and The Lutheran Church — Missouri Synod,
Nov. 22-23, 1964; abril 19-20, 1965 (St. Louis: Concordia Publinhing House, 1965), pp.
1 Edmund Schlink, Theology of the Lutheran Conlesslons, trad. P. F. Koehneke e H. I. 1, 17. 18.
A. Bouman (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1961), pp. 6-11. 3 F. Bente, ed.. Concordia Trlglotta (St. Louis: Concordia Publinhing House, 1921). p. 121.
mostrar-lhe sua necessidade de Salvador, enfraquecendo, desse mo- das pelas confissões sem recurso explicito a princípios soteriológi-
do, a força do evangelho. Mas a citação da Fórmula não responde cos. Por outro lado, poder-se-ia considerar que a ênfase na doutrina
diretamente estas questões: Como poderei determinar se uma pas- da justificação como princípio hermenêutico geral e dominante, signi-
sagem da Escritura é lei ou evangelho ou ambos? Quando determi- fica que as confissões introduzem esta doutrina em textos da Escritura
nei se é lei ou evangelho, como poderei extrair a mensagem espe- onde realmente não aparece. Isto, como vimos, não é o caso, pois
4
cífica da lei ou a mensagem específica do evangelho da passagem? as confissões não somente derivam a doutrina da justificação da
A Fórmula, julgando a partir de sua própria metodologia, iria respon- Escritura, mas insistem na necessidade geral de extrair o sentido
der: mediante a iluminação do Espírito Santo e a utilização de cuida- dos próprios textos (Ap IV, 224). Além disso, é preciso recordar
dosa exegese gramatical. Esta passagem não sugere que a distinção que o problema principal para boa parte das confissões é a inter-
entre lei e evangelho é princípio hermenêutico geral a ser aplicado pretação do próprio evangelho. Que é o evangelho segundo a Escri-
a cada texto da Escritura para descobrir seu significado. tura? Sugerir que o evangelho serviu de princípio hermenêutico para
responder esta questão é incorrer em petitio principii. Como Fager-
A passagem da tradução alemã da Apologia igualmente ex-
berg observa: «Irgendeine grundsaetzliche Begrenzung auf Gesetz
pressa um princípio luterano de grande importância para a compreen- 5
und Verheissung is also nicht f e s t z u s t e l l e n . » (Não se pode compro-
são da Escritura. Pois, possuir uma «compreensão» clara e correta
var qualquer limitação fundamental a lei e promessa)
«de toda a Sagrada Escritura» é conhecer sua mensagem central de
salvação em Jesus Cristo e crer nela. Ter a porta aberta «à Bíblia Mas a resposta mais acurada a esta questão só pode ser obtida
inteira» significa ler a Bíblia com a iluminação do Espírito e, como observando-se como é realizada a exegese nas confissões. Vejamos
cristão crente, saber que nela e através dela Deus nos fala sobre a exegese de uma passagem em que a doutrina da justificação cla-
nosso Salvador e por seu Espírito nos torna filhos seus! Em suma, ramente é o tema dominante: a interpretação de Tg 2.24: «verifi-
a Apologia em alemão expressa aqui a convicção das confissões que cais que uma pessoa é justificada por obras, e não por fé somente»
as Escrituras são cristocêntricas e que seu objetivo central é t o m a r (Ap IV, 244-253). A Apologia chega à conclusão que esta passagem
os homens sábios para a salvação. A pessoa que crê na doutrina não invalida a doutrina paulina da justificação por graça, não pela
da justificação pela graça entendê-lo-á; verá que tudo na Bíblia re- imposição de ensinamento paulino sobre a passagem de Tiago, mas
laciona-se direta ou indiretamente com este centro. Como alguém que derivando-o da própria passagem mediante cuidadosa exegese gra-
sabe ter sido justificado pela graça de Deus nada esperará e irá matical. A Apologia está interessada em conhecer o sentido da «sen-
encontrar na Escritura divina em contradição a esta doutrina; seus tença de Tiago» (244). Examina o texto cuidadosamente, notando
olhos serão abertos pelo Espírito para as maravilhas da graça de que Tiago «não omite a fé, não lhe substitui o amor» (245). Toma
Deus em toda a Escritura. Além disso, compreender deste modo a a sério o contexto assinalado que em Tg 1.18 se diz que «renasce-
justificação auxiliará a descobrir o que a Escritura diz sobre a rela- mos por meio do evangelho» (247). Em vista disso «o mesmo as-
ção entre fé e obras. sunto (o contexto, (tradução inglesa) indica tratar-se aqui de obras
que seguem a fé (246). Em suma, «Nada disso afirma Tiago. Mas
Se a distinção lei-evangelho e a doutrina da justificação pela os adversários, impudentemente, deduzem tudo isso de suas palavras»
graça fossem princípios hermenêuticos de aplicação geral, ou mesmo (253). Em parte alguma da longa cadeia de argumentos aplica-se um
os princípios hermenêuticos dominantes, seria difícil entender porque princípio hermenêutico lei-evangelho, nem há qualquer indício que
as confissões buscam na Escritura resposta para problemas não so- as confissões consideram esta uma passagem «obscura» que exige
teriológicos, ou respondem-nos a partir da Escritura sem a ajuda ex- interpretação por meio de uma mais clara. Tiago ensina — não são
plícita de tais princípios hermenêuticos soteriológicos. Pois, as ques- os confessores que o fazem ensinar — justificação pela graça.
tões, se tanto o pão como o vinho devem ser distribuídos aos leigos
na Ceia do Senhor, e as referentes ao celibato clerical, vida monástica, De modo semelhante, 1 Pe 4 . 8 : «O amor cobre multidão de
obediência a governo civil e a descida ao inferno são todas trata- pecados», é interpretado com base no contexto (1 Pe 2 . 4 , 5, 6), que
claramente ensina a necessidade de se ser edificado em C r i s t o ; o
4 A distinção entre lei e evangelho é tanto quantitativa como funcional. Em algumas
passagens Deus claramente comunica a lei (-Não furtarás-); em outras claramente contexto veto-testamentário (Pr 2.10); e passagem paralela (Cl 3 .
comunica o evangelho (-Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e tua casa-). 13). A doutrina da justificação entra na exegese, mas não artificial-
Outras ainda, podem conter tanto lei como evangelho, dependendo da ênfase: por
exemplo: -Cristo morreu pelos nossos pecados- é lei porque ressalta a enormidade
de nossos pecados, e evangelho porque mostra o alcance do amor (redentor) de 5 Holsten Fagerberg, Dle Theologle der lutherischen Bekenntnisschrlften von 1529 bis
Deus em Jesus Cristo. Cf. FC Ep V, 9-10. Cf. também Schlink, p. 135.
1537, trad. Gerhard Klose (Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1965), p. 39.
mente (Ap IV, 238-241). A o interpretar Cl 3.14: «o amor, que é o pio hermenêutico geral e muito menos é colocada como instância
vinculo da perfeição», Melanchthon diz: -exporemos simplesmente o superior acima da Escritura Sagrada). Com respeito à doutrina da
sentido paulino» (Ap IV, 231-237), que trata da comunhão na igreja justificação êle argumenta:
e não da perfeição pessoal. Novamente, a doutrina da justificação Ein genereller Schluessel zur hl. Schrift ist sie jedoch nicht. Die
está presente na argumentação de Melanchthon, mas não de maneira Rechtfertigung und das Evangelium (die Verheissung) sind nicht
a determinar o sentido do t e x t o . Norm in der hl. Schrift, wie diese wiederum nicht Norm um der
Verheissung willen ist. Statt das einzige Prinzip fuer die Deu-
Voltando nossa atenção à exegese confessional de passagens tung der hl. Schrift zu sein, ist sie die wichtigste Regel, die das
em que a doutrina da justificação não constituía o assunto, não en- Verstaendniss der hl. Schrift das Verhaeltnis von Glauben und
contramos qualquer indício que a distinção lei-evangelho ou a dou- s
guten Werken betrefend k l a r l e g t . (No entanto, ela não é chave
trina da justificação agia como principio hermenêutico em tais casos. geral para a interpretação da Escritura Sagrada. A justificação
Por exemplo, na longa análise da Fórmula de uma das mais contro- e o evangelho (a promessa) não são a norma na Escritura
,;
vertidas passagens do século X V I : -Isto é o meu c o r p o » , recorre-se Sagrada, como esta também não é a norma em virtude da
constantemente ao próprio texto para dele se extrair seu significado, promessa. Ao invés de ser o único princípio para a interpre-
usando-se o contexto e o ambiente da Última Ceia, tomando-se em tação da Escritura Sagrada, é ela a regra mais importante que
conta as passagens paralelas. Nem a doutrina da justificação, nem faz compreender claramente a Escritura Sagrada, no que tange
o contraste lei-evangelho são utilizados para esclarecer a passagem. ã relação entre fé e obras)
De modo semelhante, Gerhard Gloege, embora ressalte o significado
Outra questão muito controversa era a da supremacia papal. hermenêutico da doutrina da justificação para os Reformadores, conclui:
Os católicos romanos procuravam defender sua posição c o m base Das bedeutet nun nicht, dass die Rechtfertigungslehre in dem
em passagens como Mt 16.18: -Tu és Pedro, e sobre esta pedra Sinne ein hermeneutisches «Prinzip» waere, dass mit ihrer Hilfe
edificarei a minha igreja-, e Mt 16.19: -Dar-te-ei as chaves do reino jeweder Text des AT oder NT von der Rechtfertigung zu reden
do céu». Melanchthon argumenta que estas palavras não foram di- haette, bzw. auf die Rechtfertigung entfaltet oder angewendet
tas somente a Pedro, mas a Pedro como representante de toda a werden muesste. Im G e g e n t e i l ! " (Isto não significa que a dou-
companhia dos apóstolos. Seus motivos são apresentados: (1) O trina da justificação seja «princípio» hermenêutico, significando
contexto explica que Jesus estava antes falando com todos os seus que com sua ajuda todos os textos do AT ou NT tenham de
discípulos porque em M t 16.15 Jesus emprega a forma plural -vós» tratar da justificação, ou seja, que devam ser relacionados ou
e Mt 18.19 mostra que as chaves foram entregues à igreja e não a aplicados à justificação. Bem pelo contrário!)
uma só pessoa; (2) Passagens paralelas, como Jo 20.23 e Mt 18.18 Realmente, tivessem as confissões empregado a doutrina da justifi-
falam no plural e não no singular; (3) O artigo de fé que o ministério cação desta maneira, sua exegese estaria tão exposta à acusação
só é válido por causa da Palavra entregue por Cristo; e (4) - A de subjetivismo como estava a de seus adversários católicos e e n -
maioria dos santos Pais» concorda com a interpretação de Melan- tusiastas .
chthon. Em parte alguma, na interpretação, há qualquer indício que
o contraste lei-evangelho ou o princípio da justificação está sendo
empregado para explicar a passagem. (Tr, 22-29) Tornando mais Claras Passagens que Tratam de Fé e Obras

Em suma, as próprias confissões não apoiam a tese que o


Afirmar que a doutrina da justificação e o contraste lei-evan-
contraste lei-evangelho ou a doutrina da justificação serve como prin-
gelho não são princípios hermenêuticos de aplicação geral não im-
cípio hermenêutico supremo de aplicação geral na exegese da Escri- plica em dizer que não possuem função hermenêutica na exegese
tura. Com respeito à -die Regei von Gesetz und Evangelium», Fa- confessional. No capitulo anterior, chamamos a atenção ao uso do
gerberg afirma: «Niemals wird diese Regei ais ein uebergreifendes artigo da justificação pela graça como um aspecto do princípio que
hermeneutisches Prinzip verwandt oder gar ais hoehre Instanz ueber a Escritura se interpreta a si mesma. 1 0
Notamos aí que a doutrina
7
die hl. Schrift gesetzt.» (Esta regra jamais é aplicada como princí-
8 Ibid., p. 36.
9 Gerhard Gloege, -Die Rechtfertigunsgslehre ais hermeneutische Kategorie», Theolo-
6 Citado por extenso no Capitulo 6, acima, pp. 54-56. gische Literaturzeitung, LXXXIX (1964), 193.
7 Fagerberg, p. 38. 10 Acima, pp. 66-67.
Em primeiro lugar, não se pode cumprir a lei «a menos que
da justificação é extraída da Escritura e que lei e evangelho são a se haja renascido pela fé em Cristo»; «é preciso manter esta sen-
mensagem da Escritura. Deve-se notar ainda que as confissões, to- tença universal, que interpreta toda a lei (Hb 11.6): Sem fé é im-
da vez que recorrem, o u á distinção lei-evangelho o u à doutrina da possível agradar a Deus» (Ap IV, 256). Cristo é - o fim da lei (Rm
justificação na exegese de uma passagem, isto sempre ocorre com 10.4), e êle mesmo diz: Sem mim nada podeis fazer (Jo 1 5 . 5 ) . Se-
passagens ou costumes nos quais a doutrina da justificação está em gundo esse cânone, dissemos acima, podem ser julgadas todas as
j o g o o u onde a distinção adequada entre lei e evangelho pode ser passagens concernentes a obras.» (Ap IV, 372)
empanada. Neste sentido, podemos falar do contraste lei-evangelho
e da doutrina da justificação como princípios hermenêuticos. Em Em segundo lugar, boas obras são frutos da f é . -Devemos
tais passagens o contraste lei-evangelho e a doutrina da justificação voltar à regra de que sem Cristo a doutrina da lei não tem proveito.
agem como aplicações do princípio hermenêutico que a Escritura de- De sorte que agrada a Deus a caridade que se segue à reconcilia-
ve interpretar-se a si mesma. Em suma, as Confissões Luteranas ção ou justificação, não a que precede» (Ap IV, 277-278). O amor
usam a distinção entre lei e evangelho e a doutrina da justificação é a maior das virtudes, mas não produz a justificação. Apenas a
c o m o princípios hermenêuticos para esclarecer material bíblico que fé em Cristo justifica, e somente o homem justificado pode amar
trata da relação entre fé e obras. Visto estar a Escritura toda dividida verdadeiramente a Deus e ao próximo. (Ap IV, 224-230)
em lei e evangelho, e toda a Escritura dar testemunho da mesma Em terceiro lugar, o cristão deve realizar boas obras porque
doutrina da justificação, não é de surpreender que o emprego des- Deus as ordenou (CA VI). Estar comprometido aos mandata D e i 1 0

tas doutrinas como principios hermenêuticos seja tão freqüente nas é princípio liberante, pois nos isenta da obrigação de seguir costu-
confissões. mes inventados por homens (AE II, ii, 2; A p XXIV, 89). Mas de-
Fagerberg explica que lei e evangelho -will dem Bibelleser vem-se fazer boas obras, não para obter a justificação, mas -porque
vielmehr dazu verhelfen, sich an den Aussagen der hl. Schrift ueber Deus as ordenou» (Ap IV, 189; cf. A p XXVII, 54). «O arrependi-
die guten Werke zu recht zu finden und ihnen einen guten und ein- mento deve produzir bons frutos. E quais são os frutos bons no-lo
ensinam os m a n d a m e n t o s . . . Esses frutos têm preceito divino» (Ap
deutigen Sinn zu g e b e n - , (pretendem ajudar o leitor da Bíblia a se
XII, 174). Intimamente relacionado com isto está o reconhecimento
situar corretamente face às afirmações da Escritura Sagrada sobre
do fato que a vocação cristã é a vida ordenada por Deus.
as boas obras e lhes conferir um sentido bom e único). Salienta
que lei e evangelho têm, portanto, muito a dizer sobre a compreen- O evangelho não ensina uma vida exterior e temporal, mas in-
são adequada da vida cristã. " D e modo semelhante, a doutrina da terior e eterna, e requer justiça de coração, não desfazendo
justificação age como - d i e wichtigste Regel, die das Verstaendnis der o regime secular e o matrimônio, mas ordenando que se cum-
hl. Schrift das Verhaeltnis von Glauben und guten W e r k e n betreffend pra tudo isto como prova de caridade cristã, praticando obras
klarlegt-, (a regra mais importante, que faz compreender claramente verdadeiramente boas. ( C A XVI, 5)
a Escritura no que tange à relação entre fé e boas obras). Os prin- A interpretação de Lutero dos mandamentos reforça esse ponto.
cipais objetivos de Melanchthon na Apologia, segundo Fagerberg, Todos os mandamentos procedem do Primeiro Mandamento, que e n -
eram demonstrar que a doutrina luterana da justificação é escrituris- sina temer e amar a Deus e confiar nele (CMa I, 324, 326-328). O
tica e explicar como afirmações aparentemente contraditórias da Es- Quarto Mandamento especificamente confere à vocação cristã sua
critura Sagrada com respeito a boas obras cristãs devem ser enten- aprovação divina, mas todos os mandamentos são interpretados co-
didas. Ao realizar esta última função, a doutrina da justificação mo sendo o que Deus espera e exige dos homens em sua vida neste
• gibt den Aussagen der hl. Schrift in bezug auf das Heil ihrem guten mundo.
1 2
Sinn-. (dá às afirmações da Escritura Sagrada, no tocante à sal- Em quarto lugar, algumas ordenanças bíblicas foram temporá-
vação, seu bom sentido). Em outras palavras, as confissões empre- rias e, conseqüentemente, não mais se aplicam aos c r i s t ã o s . Isto
gam a doutrina bíblica da justificação e o contraste bíblico lei-evan- se refere, em primeiro lugar, a certas praxes apostólicas. A autori-
gelho para definir importantes princípios bíblicos no que respeita à dade apostólica limitava-se à Palavra de Deus; -testemunho dado
relação entre fé e obras e a vida cristã em geral. Vejamos algumas aos apóstolos, para que lhes creiamos com respeito à palavra de
de suas aplicações mais importantes. outro, não com respeito à própria»; portanto suas próprias tradições
11 Fagerberg. p. 38. 13 Acima, p. 12
12 Ibid.. p. 36
não têm caráter obrigatório (Ap XXVIII, 18). As ordenanças de At ção do material bíblico que se relaciona com fé e obras. Além disso,
15 não pretendiam ser permanentes e não impõem novo jugo em essas doutrinas, para o intérprete confessional, servem de pressu-
torno do pescoço dos discípulos. Pois os apóstolos «não dissentiam postos para seus labores exegéticos em toda a Escritura.
de seus próprios escritos», e constantemente buscavam enfatizar a
liberdade cristã e libertar a igreja da idéia que «ritos humanos são As Confissões Luteranas têm muito a dizer sobre as pressu-
cultos necessários». (Ap XXVIII, 16) posições de seus adversários e mantêm que seus falsos pressupos-
tos são em grande parte responsáveis por sua exegese defeituosa.
Relaciona-se intimamente com isso o princípio que apenas a Os escolásticos depreciam a doutrina do pecado original (Ap II, 8)
Lei Moral e não as leis politicas e cerimoniais do Antigo Testamento e ressaltam a capacidade do homem de guardar especialmente a Se-
são válidas para o cristão de hoje. A razão para tal encontra-se gunda Tábua da lei (Ap IV, 34). «Tomam a l e i , . . . e por intermédio
na própria Escritura. O exemplo principal é a abolição da lei do Sá- da lei buscam remissão de pecados e justificação» (Ap IV, 7). Real-
bado: «A Escritura ab-rogou o sábado e ensina que todas as ceri- mente «não haviam chegado a conhecer de que maneira sucede a
mônias de Moisés podem ser omtidas depois da revelação do evan- remissão dos pecados» (Ap IV, 20). Çuando se afirma que o homem
gelho» (CA XXVIII, 59). Ao insistir que as leis levíticas sobre impu- pode contribuir para sua salvação, diminui-se grandemente a impor-
reza não mais estão em vigor porque o evangelho delas nos libertou, tância de Jesus Cristo. «Para que será necessária a graça de Cris-
a Apologia se refere à maneira como os apóstolos se opuseram a to, se podemos tornar-nos justos por nossa própria justiça?» (Ap
legaüsmo semelhante em At 15 (Ap XXIII, 41-42). O culto neotesta- II, 10). Essa compreensão defeituosa de soteriologia e antropologia
mentário é espiritual, consistindo de justiça da fé no coração e os produziu seus efeitos sobre a exegese escolástica da Escritura. Os
frutos da fé, e «ab-roga os cultos levíticos» (Ap XXIV, 27). Após adversários católicos romanos interpretam passagens da Escritura
Sagrada «à maneira filosófica ou judaica» (Ap IV, 376) para moldar
longa lista de passagens bíblicas, Melanchthon prossegue: «Como,
a Bíblia aos próprios preconceitos do exegeta. Não se deixam mo-
portanto, no Antigo Testamento se percebe a sombra, assim no Novo
ver por tantas passagens claras sobre a justificação pela graça (Ap
deve ser procurada a coisa significada, não um outro tipo, como
IV, 107); «a muitíssimas passagens corrompem os adversários, porque
suficiente para o sacrifício» (37). Com insistência os confessores
levam a elas suas próprias opiniões. Não sacam do texto o sentido»
argumentavam que seus adversários católicos romanos deixavam de
(Ap IV, 224); «torcem, maldosamente, as Escrituras a opiniões h u -
fazer essa distinção .vital (Ap XV, 4; 10, 30; X V I , 3; XXIV, 52). Tal manas: que compramos remissão de pecados por nossas obras» (Ap
costume, diz Melanchthon «corrompe a doutrina do Antigo e do Novo IV, 260); «citam passos referentes à lei e às obras e omitem passos
Testamento». (Ap XXIV, 57) relativos às promessas» (Ap IV, 183). Essa exegese escolástica tal
c o m o praticada, é exemplo claro de c o m o falsos pressupostos so-
Deve-se observar que, enumerando estes princípios para ser teriológicos podem afetar adversamente a exegese biblica.
entendida a relação entre fé e boas obras, as confissões não fa-
zem apenas deduções a partir da doutrina bíblica da justificação Ao reagir contra esse tipo de exegese, no entanto, as Confis-
pela graça, mas reivindicam base escrituristica explícita para cada sões Luteranas não sugerem outra gama de pressuposições escolhida
um deles. O princípio apóia-se em duas passagens bíblicas, mas arbitrariamente, mas, ao invés disso, permitem que o próprio teste-
estas apenas exprimem sucintamente o que as confissões encontram munho da Bíblia, quanto a seu conteúdo, providencie a perspectiva
dito em toda a Bíblia. Em outras palavras, mesmo em passagens hermenêutica adequada. Como já temos visto, as confissões consi-
que tratam de fé e obras em que se empregam a doutrina da jus- deram como sendo a mensagem central da Escritura a da justificação
tificação e o contraste lei-evangelho como princípios hermenêuticos, do pecador condenado, pela graça por causa de Cristo mediante a
as confissões procuram deixar claro que estão permitindo que a Es- fé. 1 4
E é esta mensagem cristocêntrica da Escritura, percebida e
critura se interprete a si mesma. aceita pela iluminação do Espírito Santo, que, para o intérprete lu-
terano, serve como pressuposto geral para a interpretação da Escri-
Pressuposições Gerais para a Exegese Biblica tura t o d a .

Embora as doutrinas da justificação e lei e evangelho não sir- Esta concepção cristocêntrica da Escritura auxilia o intérprete
vam como princípios hermenêuticos abrangentes de aplicabilidade bíblico lembrando-lhe que a Escritura toda relaciona-se, em última
geral, agem realmente como princípios hermenêuticos na interpreta- 11 Ecima, pp. 41-46.
análise, com Cristo e a justificação do pecador por seu intermédio. rivados da própria Escritura, e resumem toda a Bíblia. Como tais,
Isto é tão verdadeiro para o Antigo Testamento como o é para o agem como freios contra interpretações da Escritura que enfraque-
Novo, pois as confissões tomam a sério At 10.43: «Dele todos os cem a doutrina da justificação pela graça por causa de Cristo me-
1 5
profetas dão testemunho- (Ap IV, 83; A p XII, 66, 73; A p XX, 2). diante a fé, ou confundem a lei que condena, com o evangelho sal-
Neste sentido, a doutrina da justificação desempenha tanto o papel vífico. Como doutrinas claramente ensinadas na Escritura, também
positivo de enformar toda interpretação bíblica, como o negativo de funcionam como princípios hermenêuticos na interpretação de mate-
advertir a toda interpretação que não glorifica a Cristo e sua graça, rial bíblico que trata de fé e obras cristãs. Mas não são princípios
dizendo-lhe que se afastou daquilo que a própria Escritura diz so- hermenêuticos gerais com a finalidade de extrair o sentido do texto
bre seu conteúdo e finalidade. da Escritura; são antes a mensagem central da Escritura Sagrada. O
1 0
Pois a Escritura é «a única palavra que traz a s a l v a ç ã o - . A que Deus diz em sua lei e seu evangelho só pode ser ouvido atra-
Fórmula declara: Toda Escritura, inspirada por Deus, deve ser vés de uma exegese gramatical iluminada pelo Espírito, que emprega
útil, não para a segurança carnal e impenitência mas «para o princípios de interpretação que se harmonizam com a natureza, o
ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação conteúdo e a finalidade do Livro da Vida de D e u s .
na justiça» (2 Tm 3.16). Além disso, tudo na Palavra de Deus
foi escrito por nossa causa, não com o objetivo de nos lan-
çar no desespero mas a fim de que, «pela paciência, e pela
consolação das Escrituras, tenhamos esperança». (Rm 15.4)
(FC DS XI, 12)
Em vista disso, a Fórmula afirma que «qualquer interpretação da Es-
critura que enfraquece ou mesmo elimina este consolo e esperança
é contrária à vontade e intenção do Espírito Santo» (FC D S XI, 92).
A convicção que toda exegese bíblica tem como finalidade, em última
análise, trazer esperança, consolo e alívio do evangelho às cons-
ciências atribuladas é característica de toda exegese confessional.
Uma das principais queixas das confissões sobre a exegese roma-
17
nista é que lhe falta esta c a p a c i d a d e .

O intérprete da Bíblia, que aborda a Escritura com os pressu-


postos soteriológicos das Confissões Luteranas, procurará ouvir Deus
comunicar sua lei e seu evangelho. Esperará aumentar e aprofundar
seu conhecimento da graça salvadora de Deus em Cristo. Esperará
encontrar o mesmo Cristo que conhece e no qual crê como cristão
batizado e crente que vive pelo poder da Palavra. Tudo isto espe-
rará encontrar. Nesta função antecipatória, as doutrinas da justifica-
ção e lei-evangelho ajudam a evitar que a exegese bíblica se torne
fragmentária e deturpada, mantendo-a fiel ao conteúdo cristológíco
e objetivo soteriológico da própria Bíblia.

Desse modo, a doutrina da justificação pela graça e o con-


traste entre lei e evangelho são pressupostos vitais para a interpre-
tação correta da Escritura. Estes pressupostos, além disso, são de-
is Já se chamou a atenção á interpretação cristológica do Antigo Testamento. Cf.
acima, pp. 44-46.
16 -Prefácio-, The Book of Concord, ed. T. G. Tappert (Philadelphia: Fortress Press.
1959), p. 3.
17 Cf., por exemplo: CA XX. 15. 19; CA XXV, 13; Ap IV, 20, 187 , 257 . 285; Ap X I I ,
88, 95; Ap XX, 8. 10; AE I I I , iii, 4, 23; Tr, 44; e C M a III, 89.
O Artigo III da Confissão de Augsburgo emprega muito da linguagem
do Segundo Artigo do Credo Apostólico. Heresias condenadas pela
igreja antiga são repudiadas pelas Confissões Luteranas: as de aria-
nos, samosatenses, maniqueus ( C A I); pelagianos (CA II; FC II); do-
natistas (CA VIII); e novacianos (CA XII).
CAPÍTULO 8
A l é m disso, a continuidade doutrinária c o m a igreja antiga é
O Testemunho dos País e a Interpretação Bíblica demonstrada pela freqüente citação dos antigos Pais da igreja. A
2
lista de citações patrísticas das confissões ocupa onze p á g i n a s l
As Confissões Luteranas fundamentam-se solidamente na Escri- Tais citações aparecem mais destacadamente quando as confissões
tura Sagrada. Não apenas se consideram a si mesmas como expo- tratam de tópicos controversos. Referindo-se à doutrina da j u s t i f i c a - ,
L
sições e sumários bíblicos, mas de começo a fim, implicita e ex- ção, Melanchthon pode reivindicar: «Para esta nossa sentença h a -
plicitamente, reconhecem a suprema autoridade da Palavra de Deus vemos testemunhos não só das Escrituras, mas também dos Pais»-
escrita. Mesmo os princípios de interpretação bíblica que empregam (Ap IV, 29). A doutrina luterana do pecado original não é contrária
derivam-se da natureza, conteúdo e finalidade da Escritura Sagrada. nem à Escritura, nem «à igreja católica», mas «repurgamos e restituí-
Em sua aplicação sistemática da cristocentricidade da Escritura Sa- mos à luz gravíssimas sentenças da Escritura e dos Pais» (Ap II,
grada, deixam ver claramente que solus Christus e sola scriptura 32). «Toda a Escritura, toda a igreja» clama que a lei não pode ser
estão indissoluvelmente entrelaçados. Mas o princípio sola scriptura cumprida pelo homem (Ap IV, 166). O fato que «confessa a igreja
das Confissões Luteranas não significa que desprezam o testemunho toda que se alcança a vida eterna por misericórdia» tem muitíssimos
dos Pais ou as tradições da igreja. Realmente, as confissões mani- e claríssimos «testemunhos na Escritura e nos Pais eclesiásticos»
festam o contrário: uma apreciação grata, mas cuidadosa e crítica (Ap IV, 322-324). Melanchthon admoesta: «E não se deve reputar-nos
da continuidade doutrinária da igreja. Nossa intenção, aqui, não é por ensinadores de algo de novo nessa matéria, uma vez que os
examinar exaustivamente o conceito confessional de tradição, mas v e - Pais transmitiram tão claramente na igreja de que também nas boas
rificar a maneira como as confissões empregam o testemunho dos obras necessitamos da misericórdia» (Ap IV, 325). No que tange
Pais em sua interpretação bíblica. a se conferir honra indevida a nossas boas obras, Melanchthon afir-
ma que «aqui poderíamos citar uma infinidade de testemunhos da
O desejo manifesto das Confissões Luteranas de preservar a Escritura e dos Pais» (Ap XX, 5). A idéia que a Missa beneficia
continuidade teológica da igreja de todos os tempos evidencia-se ex opere operato «não é encontrada em parte alguma entre os Pais»
de várias maneiras. Manifesta-se não apenas na preservação de mui- (Ap XXIV, 67; cf. 97). A convicção que uma praxe eclesiástica con-
1
tos costumes e cerimônias da igreja mas também em sua aceitação trária ao mandamento de Deus não deve ser seguida não é só de-
sistemática dos dogmas da igreja antiga tais como Cristologia e Trin- rivada da Escritura, mas também é antigo ensinamento canónico. (CA
dade. Não era intenção da Reforma ser radicalmente nova ou dife- XXII, 9)
rente, mas a de ser a continuação crítica e reformada da verdadeira
igreja de C r i s t o . Embora citações patrísticas não sejam tão freqüentes nos es-
critos confessionais d e Lutero como nos de Melanchthon, não estão
Evidencia-se isto não apenas na adoção dos antigos credos
totalmente ausentes. Recorre duas vezes a S. Jerônimo na questão
ecumênicos pelo Livro de Concórdia (FC D S Regra e Norma, 4), mas
do governo da igreja (AE II, iv, 9; III, x, 3). Refere-se a Bernardo,
também em outras partes. Ò primeiro artigo da Confissão de Augs-
Gerson e Huss ( C M a IV, 50). A l é m disso, a rejeição, por parte de
burgo aceita e confessa a doutrina da Trindade «de acordo com o
Lutero, do entusiasmo e anabatismo anticatólicos, bem c o m o sua
Concilio de Nicéia» (CA I, 1). Lutero inicia seus Artigos de Esmal-
aceitação dos credos antigos e o emprego de materiais catequéticos
calde com declarações sumárias sobre as doutrinas de Deus e Cris-
tradicionais nos catecismos indicam seu desejo de reformar e per-
tologia empregando a linguagem dos Credos Apostólico e Atanasiano.
petuar a igreja e não o de edificar uma nova. Dez parágrafos do
1 Por exemplo, o costume de se guardar o Domingo como dia de culto (CA X X V I I I , Tratado são devotados à análise das provas da igreja antiga sobre
57-60): a celebração da Ceia do Senhor cada Domingo (Ap XV, 40; Ap XXIV, 1); aa a questão do primado do papa (12-21). A Fórmula de Concórdia,
cerimônias públicas da Missa e as formas litúrgicas tradicionais, tais como a ordem
das perícopes. orações e vestes talares (Ap XXIV, 1; CA XXVI, 40); a observância
de certos dias santificados e festas (CA XV, 1); e o sinal da cruz (CMe V I I , 1; C M a I, 2 Cf -Verzeichnis der Zitate aus kirchlichen und Profanschriftstellern.. Die Bekenntnisschrlf-
74). ten der evangelisch-lutherischen Kirche (5° ed. rev ; Goettingen: Vandenhoeck & Ru-
precht. 1963). pp. 1145-1155.
Escritura e os Pais é apresentada com clareza nas confissões. Pois
posteriormente, também pode argumentar que a doutrina da presença
os Pais «eram homens, e podiam errar e ser enganados»; além dis-
real do corpo de Cristo na Ceia do Senhor é o -que os mais emi-
so «é grande a dessemelhança entre os Pais (magna dissimilitudo)»
nentes Pais da Igreja ensinaram unanimemente-, (FC Ep VII, 15)
Em vez de basearmos nossa doutrina nos Pais, argumenta Melanchthon,
Não é, pois, de surpreender, que as Confissões Luteranas man- seguimos «textos claríssimos e certíssimos» da Escritura (Ap XXIV,
tenham sua continuidade doutrinária com a Igreja Antiga. Melanchthon 94-95). Pois, há muitas pessoas fracas na igreja que constroem es-
afirma: - N o s s o s pregadores ensinaram diligentemente sobre essas truturas perecíveis de palha sobre o verdadeiro fundamento de Cristo
coisas, e nada de novo transmitiram, mas propuseram as sentenças e da fé. «E os escritos dos santos Pais testificam que de quando
da Santa Escritura e dos santos Pais- (Ap II, 50). A Confissão de em quando também eles edificaram palha sobre o fundamento, palha
Augsburgo mantém que «em assunto de doutrina ou de cerimônia que, todavia, não lhes destruiu a fé.» (Ap VII, 20-21)
nada aceitamos contra as Escrituras e contra a igreja cristã univer-
s a l - (CA Conclusão, 5). É importante tomar a sério esta reivindi- Os comentários de Lutero, nos Artigos de Esmalcalde, são
cação, visto indicar que as Confissões Luteranas não se consideram particularmente elucidativos para se entender a aceitação crítica dos
a si mesmas como sendo apenas mais uma interpretação da Escri- Pais por parte das confissões. Lutero não está preparado para acei-
tura, mas como exposição católica (isto é, universal e correta) da tar a opinião católica romana que S. Agostinho ensinava a existên-
Bíblia. Essas reivindicações não são feitas apenas para as confis- cia de um purgatório, porque Agostinho apenas menciona que sua
sões como tais mas também para a interpretação de passagens iso- mãe pedira que fosse lembrada junto ao altar. Mas até isso, afirma
ladas. Por exemplo, Melanchthon afirma que sua interpretação de Lutero, -nada é além de opinião humana, proposta por certas pes-
«sobre esta pedra-, de Mt 16.18, tem o apoio «da maioria dos san- soas, e não pode estabelecer artigo de fé. Esta prerrogativa só ca-
tos Pais». (Tr, 27-29) be a Deus» Apenas quando os católicos romanos tiverem abolido
seu comércio com Missas, em benefício de almas no purgatório, Lu-
Mas é preciso explicar a reivindicação das confissões de e s - tero estará disposto a debater com eles sobre -se as afirmações
tarem em conformidade com os Pais, pois elas não manifestam uma de Sto. Agostinho devem ser aceitas como tais sem o apoio da
aceitação passiva da tradição eclesiástica. Realmente, o estudo do Escritura». Pois - n ã o é correto transformar as palavras ou obras
termo -tradição» nas confissões revela que, para elas, era conceito dos santos Pais em artigos de f é . . . Isto significa que a Palavra
predominantemente negativo. Traditiones e Menschensatzungen são de Deus estabelecerá artigos de fé e ninguém mais. nem mesmo um
virtualmente sinônimos de «obras humanas». Para Lutero, por exem- an;o». (AE II, ii, 13-15)
plo, «tradições humanas» identificam aquelas praxes e doutrinas in-
troduzidas pela igreja, sem a Palavra de Deus, com a finalidade de Outros exemplos dessa abordagem crítica à tradição são evi-
merecer a salvação, e, compreende-se porque as condena (AE III, dentes. O conceito de confissão sofreu mudanças desde os antigos
xv, 1). Essa espécie de tradições inclui praxes condenadas tais co- escritores da igreja (Ap XII, 112). A autoridade dos bispos cresceu
mo a enumeração de todos os pecados na confissão e a necessidade no decurso dos anos (Tr, 70-71), e a enumeração de sete sacramen-
de obras de penitência após a absolvição ( A p X I , 6-8; A p XII, 11, tos de maneira alguma é universalmente ensinada pelos Pais (Ap
143-145). Tradições desse tipo relacionam-se estreitamente, em prin- XIII, 2). A comunhão sob uma espécie bem como a doutrina da
cípio, com a Lei Cerimonial Mosaica (Ap XV, 10) e é preciso opor-se transubstanciação são de origem relativamente recente (AE III, v i ,
a elas porque contradizem a vontade e a ordem de Deus na Escri- 2-5; C A XXII, 4-10). O matrimônio de sacerdotes tem o apoio da
tura Sagrada (Ap XXVIII, 20). Tanto Lutero, como Melanchthon, con- igreja antiga e de alguns Pais. ( C A XXIII, 10-12, 18)
trasta a Palavra de Deus c o m tradições humanas, citando muitas v e - Essa atitude que vai do louvor ã crítica da tradição eclesiástica
zes Mt 15.9: «Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são concorda com o conceito geral de história da igreja formulado por
1
preceitos de h o m e n s . » Melanchthon. Para êle, a história da igreja segue um padrão de ci-
clos alternados de degenerescência e reforma. A verdade divina per-
Essa atitude negativa, face a tradições humanas, indica que da
deu-se quase por completo em vários períodos da história, apenas
parte dos luteranos a apreciação do testemunho dos Pais não está
para ser restaurada por uma reforma. Durante os períodos de cor-
isenta de crítica severa, afirmando-se sempre que o juiz supremo de
rupção, a verdadeira igreja viveu como igreja minoritária. Mas atra-
todas as tradições é a Escritura Sagrada. Essa distinção entre a
vés de todos os períodos de sua história, a igreja manteve uma con-
3 Cf. CA XXVI. 22; CA XXVII, 36; Ap XII, 143; Ap XV. 5; Ap XXVII, 23, 69; AE II tinuidade de doutrina, tal como a Reforma Luterana a estava pre-
li, 2: e AE I I I , xv. 1 .
servando no século XVI. Assim, a tarefa da igreja não era a de criar Tradition war fuer die BK letzten Endes nichts anderes als kirchliche
7
novas doutrinas, mas a de trazer novamente à luz a verdade doutri- Bibelauslegung.» (Toda tradição legítima era, para as confissões, na-
nária que sempre fora confessada pela igreja, mesmo que muitas ve- da além de interpretação bíblica eclesiástica)
4
zes tenha sido uma igreja m i n o r i t á r i a . Esse conceito de história Tendo em mente esse conceito do papel dos testimonia patrum
da igreja manifesta-se quando a Confissão de Augsburgo afirma que das Confissões Luteranas estaremos melhor preparados para avaliar
• sempre houve e sempre haverá uma santa igreja c r i s t ã - (CA VII, 1). sua função na exegese bíblica confessional. Toda interpretação bí-
Fica evidente na asserção que a promessa do evangelho «primeiro blica bem como toda praxe eclesiástica devem ser julgadas pela
foi entregue a Adão, depois aos patriarcas; em seguida, foi ilustrada norma da Sagrada Escritura. Isto significa que certas exposições an-
pelos profetas. Por último, foi pregada e apresentada por Cristo teriores serão julgadas imperfeitas ou erradas e, por conseguinte, se-
entre os judeus e espargida pelos apóstolos em todo o mundo» (Ap rão rejeitadas. Significa que muito na história da interpretação bíblica
XII, 53). Várias ênfases mencionadas acima aparecem com clareza será considerado verdadeiro e, portanto, merecerá ser preservado.
no Artigo XII da Apologia (68 a 71). • Esse conceito do desenvol- Pois o que «existiu na igreja desde o princípio do mundo entre os
vimento da história da igreja explica tanto a avaliação negativa como santos» (Ap XII, 73) permanece o mesmo: o evangelho de Jesus
a positiva do testemunho dos Pais nas confissões. Como explica Cristo ensinado na Escritura de Deus e proclamado em todas as
Fagerber: épocas.
Die Wahrheit war vielmehr ein fuer alie Mal gegeben und festge- Essa identidade entre a proclamação da igreja fundamentada na
legt. Die Vaeter, an die man anknuepft, haben keine neuen Bíblia e a fé de todas as épocas serve à interpretação bíblica de
Lehrsaetze entworfen, sondern die urspruengliche Lehre wie- modo positivo como guia para exegese eclesiástica adequada. Brun-
derhergestellt und sie v o n ungebuehrlichen Zusaetzen befreit. staedt explica:
Die BK versuchen auf die Vaeter zurueckzugehen, die die reine Die Schrift und ihre Wahrheit selbst erweist sich in dem con-
0
Lehre unverfaelscht bewahrt h a b e n . sensus der Schriftauslegung; die Schriftauslegung der Vaeter
(A verdade, pelo contrário, foi entregue e determinada urna wird nicht neben der Schrift gestellt, sondern neben die un-
vez por todas. Os Pais, que servem de modelo, não propuse- sere und mit dieser unter die Schrift. Je mehr Uebereinstimmung,
ram novas doutrinas, ao invés disso, restauraram a verdade pri- desto weniger Gefahr willkuerlicher, eigenmaechtiger Schrift-
mitiva e a libertaram de acréscimos inconvenientes. As confis- auslegung. Der consensus ist ein Wahrzeichen der rechten
8
sões procuram retornar àqueles Pais, que preservaram a dou- S c h r i f t a u s l e g u n g . (A Escritura, e mesmo sua verdade, se ma-
trina pura sem deturpações). nifestam no consenso da interpretação da Escritura; a exegese
escriturística dos Pais não é colocada a par da Escritura, mas
Mas, para se poder julgar os escritos dos Pais desta maneira ne-
ao lado da nossa e juntamente com esta, sob a Escritura. Q u a n -
cessita-se de uma norma superior, e esta as confissões encontram
to maior fôr a unanimidade entre elas, menor será o perigo
na Escritura Sagrada, que é «a única regra e norma segundo a qual
da exegese tornar-se arbitrária. O consenso é sinal caracterís-
se deve avaliar e julgar todas as doutrinas e mestres. (FC Ep Regra
tico da exegese bíblica correta)
e Norma, 1). Outros escritos de mestres antigos e modernos, se-
Nas confissões vemos isso com maior clareza quando elas aceitam
jam quais forem seus nomes, não devem ser colocados a par da
e empregam os antigos credos católicos, os quais, por serem bíblicos
Escritura, mas devem ser recebidos tão-sòmente como «testemunhos
e ecumênicos, também servem de guia ao intérprete que aborda a
sobre o modo como a doutrina dos profetas e apóstolos foi preser-
Escritura. As confissões seguramente não sugerem que o testemu-
vada em tempos pós-apostólicos» (FC Ep Regra e Norma, 2). Qual-
nho dos Pais é fonte ou norma de doutrina, quanto menos princípio
quer doutrina, exposição bíblica ou praxe em conformidade com a
hermenêutico para interpretação bíblica. Mas sugerem que o teste-
Escritura foi aceita c o m o tradição genuína, mas t u d o que contra-
munho bíblico dos Pais, que vai desde a época de Adão até à época
dissesse a Escritura sagrada foi rejeitado. Em suma: «Alie legitime
presente, pode servir de guia hermenêutico à interpretação bíblica,
estimulando o intérprete à tarefa de ouvir reconhecida mas critica-
4 Peter Fraenkel, Testimonia Patrum: The Function of the Patristic Argument in the
Theology oi Philip Melanchthon (Genebra: Llbraire E. Droz. 1961), passim. mente os santos de outras eras.
5 Holsten Fagerberg, Die Theologie der lutherlschen Bekenntnisschrlften von 1529 bia
1537, trad. Gerhard Klose (Goettingen: Vandonhoeck & Ruprecht, 1965), p. 56, traz
excelente análise desta passagem. 7 Ibid.. p. 6 1 .
8 Friedrich Brunstaedt, Die Theologie der lutherischen Bekenntnisschriften (Guetersloch:
6 Ibid., p. 58. C. Bertelsmann Verlag, 1951), p. 26.
Esta «função hermenêutica» das confissões pode ter sua utili-
dade em todos os setores da vida e fé da igreja de nossos dias,
inclusive na importante área da interpretação bíblica. Realmente, a
liderança proporcionada pelas confissões nesta ou em qualquer o u -
CAPITULO 9 tra área será ineficaz, a não ser que elas sejam aceitas como ex-
posições bíblicas corretas. Mesmo sendo verdadeira a asserção de
Interpretação Biblica Confessional Hoje Vajta que «os pormenores individuais da exegese nos escritos con-
2
fessionais não pretendem ser n o r m a t i v o s » , não se deve esquecer
O testemunho dos Pais que concorda com a Escritura Sagra- que «todo aquele que subscreve os Livros Simbólicos incondicional-
da, em especial a parte incorporada nos credos ecumênicos, serviu mente declara que as interpretações contidas nos Símbolos encon-
de guia hermenêutico aos autores das Confissões Luteranas do sé- tram-se 'em conformidade com a analogia da f é ' » . 3
Em outras pa-
culo XVI. De modo similar, para os luteranos de hoje, as próprias
lavras, o impulso dado pelas confissões à interpretação bíblica con-
Confissões Luteranas servem como genuino testemunho bíblico dos
tínua, de maneira alguma, põe em dúvida a validez das confissões
Pais. Pois luteranos de nossos dias aceitam as confissões como elas
como exposições bíblicas fidedignas. De fato, subscrever as Confis-
mesmas querem ser entendidas, a saber, como exposições bíblicas
sões Luteranas significa que o intérprete luterano atual da Escri-
corretas. Juntamente com os que subscreveram a Fórmula de Con-
tura não só aceita as conclusões da exegese bíblica que constituem
córdia afirmam que o corpus confessional tem função normativa na
igreja «porque é extraído da Palavra de Deus» (FC DS Regra e o conteúdo doutrinário das confissões, mas também os princípios
Norma, 10). E, precisamente, esta função das confissões nos con- hermenêuticos empregados pelas confissões para alcançá-las. Pois,
duz à Escritura Sagrada como sendo «a única regra e norma segun- como vimos, os princípios confessionais de interpretação bíblica fun-
do a qual se deve julgar todas as doutrinas e mestres». (FC Ep damentam-se teologicamente na doutrina confessional da Palavra.
Regra e Norma, 1) Se o testemunho confessional dos Pais deve guiar a igreja contem-
porânea também na área da interpretação bíblica, é importante que
Vilmos Vajta fala desta «função hermenêutica» das confissões notemos as conclusões e os resultados mais importantes deste estudo.
em conexão com a tarefa teológica e eclesiástica permanente de
testar todas as pressuposições da interpretação da Escritura. Em- Os conceitos confessionais de natureza, conteúdo e função da
bora seja necessário distinguir entre Escritura e confissões, elas «es- Escritura Sagrada são o fundamento teológico da interpretação bíblica
tão ao mesmo tempo unidas pela função hermenêutica das confis- confessional. Para as confissões, a Escritura Sagrada é a Palavra de
sões». Os escritos confessionais «fornecem a chave para se com-
autoria divina, e infalível, pela qual Deus pronuncia a palavra con-
preender a Escritura Sagrada, embora estejam, ao mesmo tempo,
denatória da lei e a palavra redentora do evangelho a fim de tornar
subordinados à Escritura e sua interpretação deva ser repetidas ve-
os homens sábios para a salvação mediante a fé em Jesus Cristo.
zes examinada à luz da Escritura». Vajta ressalta, particularmente,
a maneira como as confissões «vão ao âmago do evangelho de C o m o Palavra do próprio Deus, a Escritura possuí a própria autori-
modo a iluminar a Escritura». Ressalta que o movimento constante dade e poder de Deus, não só como norma doutrinária e ética da
da Bíblia à confissão deve ser acompanhado pelo movimento inverso, igreja, mas também como conteúdo da mensagem de Deus, que ar-
da confissão à Bíblia. Pois, a reivindicação confessional de ser «in- ranca os homens da morte do pecado e os conduz à vida de Cristo.
terpretação não adulterada só pode ser mantida se ela se comprova Na Escritura Sagrada Deus expressou-se com clareza em todos os
1
numa contínua interpretação da Escritura». artigos de fé, e, no entanto, a cegueira do coração do homem na-
tural impede que êle entenda todo o significado da Palavra escrita
A «função hermenêutica» das confissões, segundo Vajta, em
de Deus sem a iluminação do Espírito Santo. Mas com o Espírito
outras palavras, são o Ímpeto e a direção dados pelas confissões ao
Santo o intérprete cristão da Escritura Sagrada reconhece e crê o
estudo contínuo da Escritura Sagrada por parte da Igreja.
conteúdo central de toda a Escritura, Jesus Cristo. Portanto, inter-
1 Vilmos Vajta, -The Contessions of the Church as an Ecumenical Concern-, The Church
and the Confesslons: The Role of the Confessions In the Llfe and Doctrlne of the 2 Ibid.. p. 169.
Lutheran Churches, ed. Vilmos Vajta e Hans Weissgerber (Phlladelphia: Fortress 3 C. F. Walther, .Why Should Our Pastors, Teachers. and Professors Eubscribe Uncon-
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Wm. C. Guebert, Concórdia Theologlcal Mo»thly, X V I I I (Abril, 1947), 242.
preta a Escritura c o m o uma unidade literária e teológica, pois sabe e autoridade apenas da Escritura Sagrada cujo autor é o próprio
que a Escritura toda tem apenas um Autor, um conteúdo e uma f i - Deus e por êle é utilizada para trazer o homem à fé em Jesus Cristo.
nalidade soteriológica primordial. Ambos os princípios, para serem entendidos e aceitos, dependem
do Espírito Santo, que não é apenas o Espírito de Cristo e Autor
Mas a Escritura Sagrada, como seu nome sugere, é um d o c u - principal da Escritura Sagrada mas também o Senhor e Doador da
mento literário e como tal só pode ser interpretada mediante cuida- vida. As confissões professam o Cristo da Escritura, mesmo funda-
4
doso estudo do t e x t o . As confissões demonstram sua séria intenção mentando toda a teologia no testemunho escriturístico sobre Cristo.
de derivar o sentido do texto por meio de sóbria e sistemática aná-
lise de palavras, gramática e contexto. Permitem que a Escritura Por último, deve-se notar que os princípios confessionais de
se interprete a si mesma estudando passagens paralelas ou artigos interpretação bíblica, não são um conjunto de regras e diretrizes
de fé inteiros extraídos dela, procedimento fundamentado em sua formulado tão cuidadosa e pormenorizadamente que produzirá re-
convicção que a Bíblia é uma unidade literária e teológica. Procu- sultados garantidos e unânimes em todas as minúcias exegéticas, ca-
ram encontrar o sentido real do texto, seja a linguagem do texto so sejam aplicadas sistematicamente. Por outro lado, são suficien-
literal ou figurada, e estão convictas que cada texto da Escritura temente positivos para julgar a validez teológica de toda espécie
tem apenas um sentido. Ler a Bíblia como documento literário não de abordagem à Escritura. O exegeta que se deixa guiar pelo tes-
é opcional para as confissões, pois estão seguras que a autoria di- temunho dos Pais confessores quanto aos princípios de interpreta-
vina da Escritura deu-se por intermédio de autores que trabalharam ção bíblica, desempenha sua tarefa confiante que o Espírito Santo
e escreveram em épocas diferentes, como homens de seu tempo. abrirá seus olhos para ver «as cousas do Espírito de Deus». (1 Co
As confissões repudiam qualquer idéia que sugira encontrar-se o 2.15)
sentido que Deus pretende dar a alguma passagem da Escritura em
E, depois que Deus, por meio do Espírito Santo, no Batismo,
qualquer outro lugar e não nas próprias palavras bíblicas.
acendeu e produziu o início do verdadeiro conhecimento dele
O conceito confessional do conteúdo cristológico e da função e a fé, devemos rogar-lhe incessantemente que, pelo mesmo
soteriológica da Escritura toda proporcionam direção e objetivo à Espírito e graça, mediante leitura e prática diária de sua Pa-
aplicação exegética de seus princípios hermenêuticos. Em sua exe- lavra, preserve em nós a fé e seus dons celestiais, e nos for-
gese gramatical, as confissões explicam as Escrituras do Antigo e taleça até nosso fim. A não ser que o próprio Deus seja nosso
do Novo Testamento a partir do âmago de toda a Escritura, a saber, mestre, não poderemos estudar ou aprender qualquer coisa
Jesus Cristo. Em toda a Bíblia ouvem Deus pronunciar a lei e o agradável a êle, e que traga benefícios a nós e a outros. (FC
evangelho para a justificação por graça de todos os homens me- D S II, 16)
diante a fé em Jesus Cristo. Sua convicção que a Escritura é a
Palavra de Deus para a salvação dos homens auxilia a evitar que
abordem a Bíblia de modo puramente racionalista ou informativo.
Ouvem a mensagem da graça de Deus em toda a Escritura, não
mediante manipulação textual, mas por meio de exegese cuidadosa
e honesta, pois estão convencidas que a mensagem de perdão e
vida em Jesus Cristo é precisamente o que Deus diz aos homens
de todas as épocas, no texto da Escritura Sagrada.

Desse modo, as confissões vêem e mantêm uma conexão in-


dissolúvel entre os princípios sola scriptura e solus Christus O
princípio sola scriptura, em última análise, só faz sentido quando o
conteúdo cristológico da Escritura é exposto tendo em vista seu
objetivo soteriológico. O principio solus Christus deriva sua validez

4 Nils Alstrup Dahl comenta: .Para a pessoa que se deixa guiar pela conflssSo da
igreja à exegese bíblica, a tarefa elementar da interpretação continua sendo a mais
importante e mais autêntica: a leitura exata do que está escrito.- Em -The Lutheran
Exegete and the Confessions of His Ohurch-, Lutheran World, VI (Junho de 1959). 10
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