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Agricultura sustentável e conservação dos solos

Sistemas e práticas agrícolas respeitadores do solo 5

Agricultura de conservação
O que é a agricultura de conservação e qual a sua utilidade
A agricultura de conservação engloba uma série de práticas agrícolas complementares:
• perturbação mínima do solo (devido a uma mobilização reduzida ou nula), de forma a preservar a
sua estrutura, fauna e matéria orgânica;
• cobertura permanente do solo (culturas de cobertura, resíduos e outros materiais de cobertura), de
forma a protegê‑lo e contribuir para a eliminação das infestantes;
• diversificação das rotações e combinações de culturas, que favorece os microrganismos do solo e
elimina as pragas, as infestantes e as doenças das plantas.

A agricultura de conservação tem por objectivo estimular a produção agrícola através da optimização dos
recursos das explorações e contribuir para reduzir a degradação das terras através da gestão integrada
dos solos, da água e dos recursos biológicos, combinada com factores externos. A mobilização mecânica
dos solos é substituída pela acção biológica, de forma a que os microrganismos, as raízes e os elementos
da fauna do solo desempenhem a função de mobilização e garantam o equilíbrio de nutrientes no solo. A
fertilidade do solo (em termos de nutrientes e água) é gerida através do controlo da cobertura do solo, da
rotação de culturas e do controlo das infestantes.

Grade de discos utilizada para operações de mobilização reduzidas (Alemanha) (Fonte: Stephan Hubertus Gay)
Ficha informativa n.º 5: Agricultura de conservação

Implementação os rendimentos e os benefícios podem baixar a


curto prazo. O sistema não é adequado a solos
Em geral, a agricultura de conservação é compactados, que necessitam de mobilização
implementada através das fases que se prévia.
descrevem de seguida, cada uma das quais tem a
duração de dois ou mais anos.
• Primeira fase: Suspende‑se a mobilização Benefícios
por inversão, aplicando‑se, em vez disso, O recurso à agricultura de conservação produz
técnicas com mobilização reduzida ou vários benefícios, alguns dos quais (aumento dos
sem mobilização. Pelo menos um terço rendimentos, da biodiversidade, etc.) se tornam
da superfície do solo tem de permanecer evidentes quando o sistema atinge a estabilidade.
coberta com resíduos de culturas, • Assiste‑se a um aumento das reservas de
espalhados na sequência da colheita da carbono orgânico, da actividade biológica,
cultura principal. São utilizadas grades da biodiversidade acima e abaixo do nível
de disco, de dentes rígidos ou rotativas do solo e da estrutura deste. O aumento da
(sementeira directa no caso das técnicas actividade biológica traduz‑se na formação
sem mobilização). Pode ocorrer uma quebra de macro-bioporos bem interligados,
do rendimento. maioritariamente verticais, que aumentam
• Segunda fase: Observa‑se uma melhoria a infiltração de água e a resistência à
natural das condições e da fertilidade do compactação intensa. A degradação do solo
solo, promovida pela matéria orgânica – em especial a erosão e os escorrimentos
proveniente da degradação natural dos – é fortemente reduzida, levando com
resíduos. As pragas e infestantes tendem frequência ao aumento do rendimento. A
a aumentar e têm de ser controladas, redução das perdas de solo e de nutrientes,
quimicamente ou por outros meios. juntamente com a degradação mais rápida
• Terceira fase: Pode iniciar‑se a e a melhor absorção dos pesticidas, em
diversificação dos padrões de cultura virtude do teor mais elevado de matéria
(rotação). O sistema global estabiliza‑se orgânica e da maior actividade biológica,
progressivamente. determinam também uma melhor qualidade
• Quarta fase: O sistema de exploração da água. As emissões de dióxido de
atinge um equilíbrio, podendo os carbono (CO2) são reduzidas devido a uma
rendimentos aumentar em comparação menor utilização de máquinas agrícolas
com a agricultura convencional. Esta e uma maior acumulação de carbono
prática reduz a necessidade de utilizar orgânico. As práticas de agricultura de
produtos químicos para o controlo das conservação permitem fixar anualmente
pragas e infestantes, bem como fertilizantes nos solos europeus 50 a 100 milhões de
suplementares. toneladas de carbono, o que equivale
às emissões de 70 a 130 milhões de
Os agricultores necessitam de formação em cada automóveis.
fase. A experiência pode ser adquirida in situ, mas • O trabalho e a energia necessários à
preparação dos terrenos e à sementeira são
fortemente reduzidos.
• A necessidade de utilizar adubos e de
efectuar intervenções para a recuperação
do solo são reduzidas.

Inconvenientes
• Decorre, em geral, um período de transição
de cinco a sete anos até os sistemas de
agricultura de conservação atingirem o
equilíbrio. Os rendimentos podem baixar
Sementeira directa (sem mobilização) (Fonte:
Jana Epperlein, Gesellschaft für konservierende
Bodenbearbeitung e.V., Alemanha)
Agricultura sustentável e conservação dos solos
Sistemas e práticas agrícolas respeitadores do solo Ficha informativa n.º 5

Milho cultivado sem mobilização: restos da anterior cultura ainda são visíveis cobrindo o solo (Alemanha)
(Fonte: Jana Epperlein, Gesellschaft für konservierende Bodenbearbeitung e.V., Alemanha)


nos primeiros anos.
• Abstraindo os factores sazonais, a
Casos de sucesso
aplicação inadequada de produtos químicos Na Europa, são utilizadas práticas agrícolas
pode aumentar o risco de lixiviação devido sem mobilização de solos em cerca de 10 % da
à maior rapidez do escoamento da água superfície agrícola útil da Finlândia e da Grécia, e
através dos bioporos. cerca de 5 % na República Checa, na Eslováquia,
• Se a rotação das culturas, a cobertura do em Espanha e no Reino Unido. A mobilização
solo e/ou as variedades de culturas não limitada é utilizada em cerca de metade da SAU
forem optimizadas, poderá ser necessária da Finlândia e do Reino Unido, e em 25 % da SAU
uma maior quantidade de produtos de Portugal, da Alemanha e da França. Em 2006,
químicos para o controlo das pragas e dos na região francesa de Midi-Pyrénées, cerca de
infestantes. 75 % das culturas de Inverno e 25 % das culturas
• As emissões óxido nitroso (N2O) aumentam de Primavera foram efectuadas com mobilização
no período de transição. limitada. No mesmo ano, as culturas de cobertura
• Os agricultores têm de efectuar um totalizaram 20 % da superfície das culturas de
investimento inicial em máquinas Primavera, ou seja, três vezes mais que em 2001.
especializadas e têm de ter acesso, a
custos razoáveis, a sementes de culturas de
cobertura adequadas às condições locais.
Leituras complementares
• Os agricultores necessitam de uma http://soco.jrc.ec.europa.eu
formação intensa e de acesso a serviços de www.fao.org/ag/ca/
consultoria especializados. A abordagem www.fao.org/ag/catd/
adoptada implica uma alteração de fundo www.ecaf.org/First.html
relativamente à agricultura convencional. http://kassa.cirad.fr/
www.sowap.org/
Ficha informativa n.º 5: Agricultura de conservação

A presente ficha informativa baseia‑se nas conclusões do projecto «Agricultura sustentável e conservação
dos solos» (SoCo). Faz parte de um conjunto de dez fichas articulado em torno dos três principais tópicos
do projecto. As fichas abrangem os seguintes tópicos:

–  Introdução:
– Ficha informativa n.º 1: Elos entre os processos de degradação do solo, as práticas agrícolas
respeitadoras do solo e as medidas políticas com incidência nos solos;

–  Processos de degradação do solo:


– Ficha informativa n.º 2: Erosão hídrica e compactação;
– Ficha informativa n.º 3: Perda de matéria orgânica;
– Ficha informativa n.º 4: Salinização e sodificação;

–  Sistemas e práticas agrícolas respeitadores do solo:


– Ficha informativa n.º 5: Agricultura de conservação;
– Ficha informativa n.º 6: Técnicas de mobilização respeitadoras do solo;
– Ficha informativa n.º 7: Elementos das infra‑estruturas agrícolas respeitadores do solo;

–  Medidas políticas com incidência nos solos:


– Ficha informativa n.º 8: Manutenção das terras em boas condições agrícolas e ambientais
(GAEC);
– Ficha informativa n.º 9: Medidas agro-ambientais;
– Ficha informativa n.º 10: Serviços de consultoria.

As fichas informativas e os relatórios de projectos SoCo podem ser obtidos no seguinte endereço:
http://soco.jrc.ec.europa.eu.

© Comunidades Europeias 2009. Reprodução autorizada mediante indicação da fonte.

Maio 2009