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módulo
gramática professor
Abaurre • Pontara • Avelar

ESTUDO DO
PRONOME (I)

Fábio Ventura
meuminha sua
eutuelesnósvós vossas
nossa tueu
eleselasseu vossas
nosso minhas
sua
suas tueu
minhas
elesnós
vossos
teus
eutuelesnósvós elesnós seuseu
meusnossa vossos
eleselasseu teus seu
nossas
nossa
vós suas
nossos nosso
minhas
vosso
nossos
vossas nossaeles
meus
eutuelesnósvós elesnós
minhastua minhas
vossatu meu

meuseuseu minhaeuvós vossas


“A realidade / Sempre é mais ou menos / Do que nós queremos. / Só nós somos sempre / Iguais a nós-próprios” (Fernando Pessoa).
Os pronomes (eu, tu, ele, ela, nós, me, mim, meu, teu, seu etc.) ajudam a organizar o modo como nos relacionamos com o mundo e
com as outras pessoas.

1
CAPÍTULOs

Pronomes: definição e classificação


2 Pronomes pessoais e pronomes
possessivos

1 • 2 • 3 • 4 • 5 • 6 • 7 • 8 • 9 • 10 • 11 • 12 • 13 • 14 • 15 • 16 • 17 • 18 • 19 • 20 • 21 • 22 • 23 • 24
n h a
Mi turma d e 1932

Eles Nós ainda nos vemos

Eu
não tinham juízo

A classe dos pronomes


Os pronomes são categorias nominais que se caracterizam por receber uma interpretação
referencial a partir de informações presentes no enunciado ou no contexto da enunciação.
Dentre outras funções, servem para indicar as pessoas do discurso e situar seres, ideias e
fatos em relação a essas pessoas. Dizemos, por isso, que os pronomes desempenham um
papel tanto gramatical quanto discursivo na estruturação dos enunciados.
A tradição dos estudos gramaticais reconhece seis tipos de pronomes: os pessoais
(que incluem os de tratamento), os possessivos, os demonstrativos, os indefinidos,
os interrogativos e os relativos. Neste módulo, você vai estudar dois tipos de
pronomes: os pessoais e os possessivos.
Construir era
on o s s o

Bettmann/Corbis/Latinstock
trabalho
Elesmeus
são
grandes amigos Ele ganhou
duas
vezes na
loteria

Operários em horário de
almoço durante a constru-
ção do maior edifício do
Objetivos Rockefeller Center, em Nova
Ao final deste módulo, você deverá ser capaz de: York, nos EUA, em 1932. Foto
de Charles C. Ebbets.
■ identificar as pessoas do discurso e relacioná-las
ao funcionamento dos pronomes;
■ caracterizar os pronomes pessoais e possessivos;

■ identificar as formas retas e oblíquas dos


pronomes pessoais;
■ reconhecer as variações observadas no emprego
Professor: Consulte o Plano de Aulas. As orientações
dos pronomes pessoais. pedagógicas e sugestões didáticas vão facilitar o seu
trabalho com os alunos.

Capítulo


1 Pronome: definição
e classificação

1 Introdução
A imagem a seguir é parte de uma peça publicitária. Observe.

Visa. Em Superinteressante. São Paulo: Abril, 12/2006

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Figura 1. Superinteressante, n. 233, p. 14-15, dez. 2006.

1 Descreva a imagem que aparece no anúncio.


A imagem mostra um casal no alto de uma montanha coberta de neve, apontando

para uma praia deserta, que aparece ao fundo.

a) O que seria, de acordo com o anúncio, uma “viagem perfeita”?


Uma viagem perfeita seria aquela em que as pessoas pudessem conhecer, de

uma só vez, lugares com características bastante distintas (exemplificados, no

anúncio, por uma praia paradisíaca e uma montanha coberta de neve).

4
b) A peça publicitária emprega um determinado recurso para sugerir que, ao
contrário do que possa parecer, a “viagem perfeita” não é algo impossível.
Qual é esse recurso?
Para fazer valer a ideia de que a “viagem perfeita” não é impossível, o autor do

texto emprega a expressão “só falta isso” junto à imagem de uma mão cujo

formato indica o quanto faltaria para a realização da viagem.

Veja agora a segunda parte da mesma peça publicitária.

Visa. Em Superinteressante. São Paulo: Abril, 12/2006


Praia ou montanha?
Mar ou neve? Sempre
há muitas perguntas
quando se está
planejando uma
viagem. Mas uma
resposta você já tem:
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

o cartão que vai levar


é Visa. Com ele você
é bem recebido em
mais de 24 milhões
de estabelecimentos
em todo o planeta e
viaja com segurança
e comodidade, pois
conta com seguros
especiais e serviços
de assistência. E ainda
pode participar do Visa
Experience, o programa
de privilégios com
experiências exclusivas
para os clientes Visa
Infinite e Visa Platinum.
Com Visa você é tão
Figura 2. Superinteressante, n. 233, p. 16-17, dez. 2006. bem-vindo quanto um
dia de sol. Ou de frio,
se preferir.

2 Descreva a imagem que aparece na segunda parte do anúncio.


A imagem mostra um casal na praia, em trajes de banho, apontando para uma

cadeia de montanhas cobertas de neve, que aparece ao fundo.

a) Que elementos essa imagem compartilha com a que aparece na primeira parte?
Ambas as imagens mostram uma praia deserta, montanhas com neve e um

casal que aponta para uma paisagem ao fundo.

b) No lado direito inferior de ambas as partes da peça publicitária, aparece a ima-


gem de uma mão que assume um formato específico. Qual é o papel desse
formato na construção da mensagem?
Na primeira parte, o formato da mão indica que a “viagem perfeita” depende

de muito pouco para ser realizada. Na segunda, esse mesmo formato serve

para segurar o cartão Visa, que passa a ser apresentado como o elemento

necessário à concretização da “viagem perfeita”.

5
3 O conteúdo do texto apresentado na segunda parte estabelece uma identifica-
ção entre o que se vê nas imagens e o suposto leitor do anúncio.
a) Reescreva o trecho em que essa identificação é estabelecida.
“Com Visa você é tão bem-vindo quanto um dia de sol. Ou de frio, se preferir.”

b) Explique o papel dessa identificação na construção da mensagem.


Ao tentar estabelecer um paralelo entre o leitor e o conteúdo das imagens,

a peça publicitária quer veicular a ideia de que, se uma pessoa tiver o cartão

Visa, ela será bem-vinda em qualquer lugar do mundo, seja qual for o seu plano

de viagem.

4 Uma das funções do vocábulo isso é fazer referência a um ser, fato, conceito ou
ideia presente em um determinado contexto.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


a) Na primeira parte do anúncio, a que ideia a palavra isso faz referência?
No contexto em questão, o vocábulo isso faz referência ao quanto faltaria para

que uma viagem perfeita pudesse ser concretizada: “(...) só falta isso”.

b) Que outro elemento presente no anúncio “auxilia” o vocábulo nessa função?


A configuração assumida pela mão, que aparece na parte inferior direita do

anúncio, é o elemento que pode ser considerado um “auxiliar” do vocábulo

no estabelecimento do seu referente, uma vez que também indica o quanto

faltaria para a realização da “viagem perfeita”.

c) Considerando-se o que aparece na segunda parte da peça publicitária, a que


elemento o vocábulo isso pode ser associado?
O vocábulo isso, que aparece na primeira parte, passa, na segunda parte do

anúncio, a fazer referência ao cartão Visa, que, de acordo com o texto, é o

elemento que falta para a concretização da “viagem perfeita”.

d) As palavras ele e você, que aparecem na segunda parte da peça publicitária, tam-
bém se referem a elementos presentes no contexto. Quais são esses elementos?
A palavra você refere-se à pessoa a quem se dirige a mensagem publicitária

(no caso, o leitor do texto), e ele, ao cartão Visa.

e) A que classe de palavras pertencem os vocábulos isso, ele e você?


Isso, ele e você pertencem à classe dos pronomes.

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Existem, na língua, palavras que funcionam como nomes (substantivos ou ad-
jetivos), mas não possuem um referente ou um significado no universo extralin-
guístico. O vocábulo isso, por exemplo, não dispõe, em si mesmo, de um referente.
A sua função é substituir um termo (seres, fatos, ideias etc.) que diz respeito a algo
presente no contexto da enunciação.
No texto, a palavra isso serve para fazer referência, primeiramente, ao que falta-
ria para a realização da “viagem perfeita”: Para você fazer a viagem perfeita, só falta
isso. Nesse caso, isso refere-se, na imagem apresentada, à curta distância entre uma
montanha coberta de neve e uma praia deserta paradisíaca. O inusitado desse tex-
to publicitário está exatamente no fato de dois lugares com características físicas
bastante distintas serem apresentados como próximos um do outro.
A segunda parte do anúncio apresenta o que possibilitaria realizar a viagem
perfeita: um cartão de crédito da marca Visa. A palavra isso, a partir desse ponto,
pode ser interpretada como referência ao próprio cartão.
Há, no anúncio, outros termos (ele e você) que, da mesma forma que a palavra
isso, não possuem um referente próprio no universo extralinguístico, mas aludem
a elementos presentes no contexto: Com ele, você é bem recebido. No contexto do
anúncio, o vocábulo ele refere-se ao próprio cartão de crédito, enquanto a palavra
você indica o destinatário da mensagem, o leitor da propaganda. O esquema apre-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

sentado a seguir ilustra essa dinâmica.

cartão de
destinatário
crédito da mensagem
ele (leitor da
propaganda)

isso
aquilo que
falta para a
realização da você
viagem
perfeita

A análise dessa peça publicitária nos mostra que os usuários da língua recorrem
a palavras que, embora funcionem como nomes, não dispõem de um significado
ou de uma interpretação referencial particular. No contexto em que são utilizadas,
essas palavras, que denominamos pronomes, passam a fazer referência a seres,
fatos e ideias presentes no contexto da enunciação.

Isto é essencial!

Pronomes são palavras variáveis (em gênero, número e pessoa) que não têm um refe-
rente próprio. O referente de um pronome deve ser identificado a partir de outros ele-
mentos (seres, ideias, situações) presentes no contexto.

Os pronomes costumam ser classificados em seis tipos: pessoais, possessivos,


demonstrativos, indefinidos, interrogativos e relativos. Entre os pessoais, in-
cluem-se os chamados pronomes de tratamento. No decorrer deste e do próximo
módulo, você vai estudar as propriedades de cada tipo de pronome.

7
2 Pronomes substantivos e pronomes adjetivos
Os pronomes ocorrem em posições normalmente ocupadas por substantivos e
adjetivos. Observe a ocorrência das formas pronominais seu e meu na tira a seguir.

2008 King Features Syndicate/IPress


Figura 3. WALKER, Mort. Recruta Zero. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5 jun. 1999.

No primeiro quadro, o pronome seu aparece ao lado de um substantivo, po-


sição normalmente ocupada por adjetivos: “Gosto de como realiza seu trabalho
(...)”. Dizemos que, nesse contexto, seu ocorre como pronome adjetivo, uma vez

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que sua função é modificar um substantivo.
Já o pronome meu, que aparece no segundo quadro, não ocorre ao lado de um
substantivo, mas ocupa o lugar de uma palavra (trabalho) que pertence a essa clas-
se: “E você, gosta de como realizo o meu?”. Dizemos, nesse caso, que meu funciona
como pronome substantivo.

3 Caráter dêitico dos pronomes


Os pronomes apresentam a propriedade da dêixis, característica comum às cate-
gorias que “apontam” para elementos presentes no contexto. Especificamente no caso
dos pronomes, a dêixis é determinada em função dos participantes da interlocução:
aquele que fala (primeira pessoa do discurso), aquele com quem se fala (segunda
pessoa do discurso) e aquele de quem se fala (terceira pessoa do discurso).
A tira a seguir exemplifica a propriedade da dêixis. A mãe puxa a orelha do filho e,
ao falar, aponta para o local para onde se dirigem os três Reis Magos, que levam pre-
sentes ao Menino Jesus. Em sua fala, fica evidente o caráter dêitico dos pronomes. LAERTE

Figura 4. LAERTE. Deus segundo Laerte. São Paulo: Olho d’Água, 2000. p. 18.

Isto é essencial!

Dêitico (do grego deiktikós) significa “o que mostra ou demonstra”.

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Exercícios dos conceitos
O texto transcrito, de Luis Fernando Verissimo, serve de base para as questões
de 1 a 3.

A primeira pessoa
(...) de que valem os prazeres do Paraíso sem alguém para compartilhá-
-los, e o espetáculo do Universo sem alguém com quem comentá-lo? O que
eu queria? Queria outra pessoa. Era isso. Queria a segunda pessoa. Um ir-
mão, alguém para chamar de “tu”. Alguém com quem chamar o Senhor de
“ele”. Ou “Ele”. E que quando Ele chamasse de vós, respondêssemos em
uníssono “nós?”. E quando se referisse a nós para os anjos, dissesse “eles”.
VERISSIMO, Luis Fernando. Orgias.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 108-109. (Fragmento.)

1 No texto transcrito, o narrador em primeira pessoa é uma personagem da histó-


Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ria bíblica. Com base nas referências contextuais, é possível identificá-la.


a) Quem é essa personagem?
É Adão, o primeiro ser humano criado por Deus, segundo a história bíblica.

b) Que elementos contextuais permitem identificá-la?


Vários elementos permitem essa identificação. Eis os mais relevantes: o fato de

a personagem encontrar-se no Paraíso sem ter com quem compartilhá-lo;

o próprio título do texto, que pode ser entendido como uma referência, no

contexto, à criação de Adão (a primeira das pessoas, segundo o texto bíblico);

a alusão a Deus a partir do pronome “Senhor”, a quem o narrador pede a

criação de alguém que lhe faça companhia.

2 O título do texto, A primeira pessoa, pode ser interpretado de diferentes manei-


ras. Quais são elas?
O título pode ser interpretado, em primeiro lugar, como uma referência a Adão, a

primeira pessoa criada por Deus, segundo a narrativa bíblica. Além disso, Verissimo

explora uma noção gramatical associada às pessoas do discurso. No caso, a

referência à primeira pessoa: eu (aquele que fala).

3 Verissimo se vale de noções gramaticais para construir o sentido de seu texto.


a) Que noções são essas?
O autor se vale das noções associadas às pessoas do discurso pelos pronomes

pessoais (eu, tu, ele, nós, vós, eles) e pelo pronome de tratamento senhor.

9
b) Que relação é estabelecida, no texto, entre essas noções gramaticais e o sen-
tido do que é dito?
Os pronomes pessoais citados (e as referências por eles estabelecidas) são

utilizados para indicar a situação em que se encontra o narrador do texto.

Como quem narra é a personagem bíblica Adão, os pronomes são usados por

ele para revelar sua solidão no momento da criação, quando era o único ser

humano, assim como seu desejo de que Deus criasse outra pessoa.

Observe atentamente a peça publi-

Futura. Em Época. São Paulo: Globo, 06/2008


citária apresentada ao lado para res-
ponder às questões 4 e 5.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Se você é descendente de
japoneses, escreva a história
da vinda da sua família para
o Brasil em até 15 linhas e
encaminhe para o Futura,
junto de 3 fotos. O vencedor
vai ver sua história na tela do
Futura e ainda ganhar uma
câmera digital da Sony. A
promoção vai até 2 de junho.
Participe. Informações no site
www.futura.org.br.

Época São Paulo, ed. 2, p. 176, jun. 2008.

4 No enunciado dessa peça publicitária foram usados dois pronomes.


a) Identifique-os.
Os pronomes você e sua (duas ocorrências).

b) Quais são as noções gramaticais associadas a esses pronomes?


O pronome você indica a segunda pessoa do discurso (aquele com quem se

fala); o pronome sua indica uma relação de posse associada a essa pessoa.

5 Essa peça publicitária foi criada na época da comemoração dos cem anos da
imigração japonesa no Brasil.
a) Considerando essa informação e o contexto da propaganda, identifique os
referentes dos pronomes identificados.
Os referentes desses pronomes são os descendentes de japoneses que

desejem participar do concurso divulgado no anúncio, contando a história da

vinda de suas famílias para o Brasil.

10
b) Transcreva, do texto apresentado logo abaixo da imagem, a passagem em
que essa referência é explicitada.
“Se você é descendente de japoneses (...)”

Professor: Consulte o Banco de Questões e incentive


os alunos a usar o Simulador de Testes. Retomada dos conceitos
1 (Unicamp-SP) Considere o seguinte poema de Hilda Hilst:

Passará Estanca ventura e voz


Tem passado Silêncio e desventura
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Passa com a sua fina faca. Imóvel


Tem nome de ninguém. Garrote
Não faz ruído, não fala. Algoz
Mas passa com sua fina faca.
No corpo da tua água passará
Fecha feridas; é unguento. Tem passado
Mas pode abrir a tua mágoa Passa com a sua fina faca.
Com a sua fina faca.
HILST, Hilda. Da morte. Em: Odes mínimas. São Paulo: Globo, 2003. p. 72.

a) Tendo em vista que esse poema faz parte de uma série intitulada “Tempo-
-morte”, indique de que maneira a primeira estrofe exprime certo sentido ab-
soluto associado ao título.
Na primeira estrofe, a presença do verbo passar estabelece a relação de sentido

entre o poema (“Da morte”) e o título da série (“Tempo-Morte”), pois sua

utilização em diferentes tempos (passará, tem passado, passa) sugere a

passagem do tempo e a proximidade da morte, temas que compõem a série.

b) Nesse poema, há pronomes de segunda e terceira pessoas. Transcreva uma es-


trofe em que constem ambas as pessoas pronominais e diga a que se referem.
“Fecha feridas; é unguento / Mas pode abrir a tua mágoa / Com a sua fina faca”

ou “No corpo da tua água passará / Tem passado / Passa com a sua fina faca”.

Nessas estrofes, há referência à segunda pessoa (tua), utilizada para dirigir-se

ao leitor (a pessoa com quem se fala / o leitor do poema) e à terceira pessoa

(sua), empregada para referir-se à morte (aquilo sobre o qual se fala).

11
2 (Fuvest-SP)

O que dói nem é a frase (Quem paga seu salário sou eu), mas a postura
arrogante. Você fala e o aluno nem presta atenção, como se você fosse
uma empregada.
ADAPTADO de entrevista com uma professora da rede pública.
Folha de S.Paulo, São Paulo, 3 jun. 2001.

a) A quem se refere o pronome você, tal como foi usado pela professora? Esse
uso é próprio de que modalidade linguística?
O pronome você está sendo usado de maneira impessoal, para fazer referência

a qualquer pessoa (às pessoas em geral). Esse uso é típico da linguagem oral.

b) No trecho “como se você fosse uma empregada”, fica pressuposto algum tipo
de discriminação social? Justifique sua resposta.
Sim. O fato de o aluno não prestar atenção é interpretado como algo bastante

negativo em relação a uma professora e, ao mesmo tempo, aceitável no que se

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refere a uma empregada doméstica. Portanto, fica subentendido, nesse trecho

da entrevista, que a fala da primeira “vale” mais do que a da segunda.

A questão de número 3 refere-se ao texto seguinte, de Arnaldo Antunes.

fora de si
eu fico louco
eu fico fora de si
eu fica assim
eu fica fora de mim
eu fico um pouco
depois eu saio daqui
eu vai embora
eu fico fora de si
eu fico oco
eu fica bem assim
eu fico sem ninguém em mim

Com o uso de verbos 3 (Unifesp) Para construir a ideia de fora de si, o poeta vale-se:
e pronomes em 1 a e
3a pessoas, o compo- a) do uso exagerado do pronome eu, associando-o ao interlocutor em 2a pessoa
sitor sugere que “ficar do singular.
fora si” é “transmutar- b) de variações linguísticas, sugerindo que ficar fora de si é transmutar-se tam-
-se em outras pessoas
gramaticais”, como bém em outras pessoas gramaticais.
afirma a alternativa. c) da utilização de pronome indefinido – ninguém –, como forma de sugerir a
ideia de imprecisão.
d) de pronomes reflexivos que apontam para o próprio sujeito, numa atitude de
olhar internamente.
e) de estruturas paralelísticas que garantem a ideia de oco, embora o poeta se
mostre centrado em si mesmo, independentemente dos outros.

12
4 (Fuvest-SP)

Atribuir ao doente a culpa dos males que o afligem é procedimento


tradicional na história da humanidade. A obesidade não foge à regra.
Na Idade Média, a sociedade considerava a hanseníase um castigo
de Deus para punir os ímpios. No século 19, quando proliferaram os
aglomerados urbanos e a tuberculose adquiriu características epidêmi-
cas, dizia-se que a enfermidade acometia pessoas enfraquecidas pela vida
devassa que levavam. Com a epidemia de Aids, a mesma história: apenas
os promíscuos adquiririam o HIV.
Coube à ciência demonstrar que são bactérias os agentes causadores
de tuberculose e da hanseníase, que a Aids é transmitida por um vírus e
que esses micro-organismos são alheios às virtudes e fraquezas humanas:
infectam crianças, mulheres ou homens, não para puni-los ou vê-los so-
frer, mas porque pretendem crescer e multiplicar-se como todos os seres
vivos. Tanto se lhes dá se o organismo que lhes oferece condições de
sobrevivência pertence à vestal ou ao pecador contumaz. (...)
VARELLA, Drauzio. Folha de S.Paulo, São Paulo, 12 nov. 2005.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a) Crie uma frase com a palavra “obesidade” que possa ser acrescentada ao final
do 2o parágrafo sem quebra de coerência.
Sugestão: Nos dias de hoje, a responsabilidade pelo sobrepeso característico

da obesidade mórbida é atribuída aos que adotam um estilo de vida sedentário

e hábitos alimentares inadequados.

b) Fazendo as adaptações necessárias e respeitando a equivalência de sentido


que a expressão “Tanto se lhes dá (...)” tem no texto, proponha uma frase, subs-
tituindo o pronome lhes pelo seu referente.
Sugestão: Tanto faz, para os micro-organismos, se o corpo que lhes oferece

condições de sobrevivência pertence à vestal ou ao pecador contumaz.

5 (UFPE, adaptada)

Não é somente pela gíria que a gente é apanhado. (Aliás, já não se usa
mais a primeira pessoa, tanto do singular como do plural: tudo é “a gen-
te”.) A própria linguagem corrente vai-se renovando, e a cada dia uma
parte do léxico cai em desuso. É preciso ficar atento, para não continuar
usando palavras que já morreram, vocabulário de velho que só velho
entende.
SABINO, Fernando. Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 abr. 1984.

O autor do texto constata que “já não se usa mais a primeira pessoa, tanto do
singular como do plural: tudo é ‘a gente‘”. Sobre os usos dos pronomes pessoais,
no português brasileiro, analise as afirmações a seguir.
1) A forma “a gente”, que tem prevalecido em relação a “nós”, é uma das marcas
do uso informal da língua.
2) Uma construção como “nós estudamos” apresenta duas marcas de “pessoa”,
uma das quais se encontra inserida na forma verbal.

13
3) Podemos afirmar que a forma “vós”, para designar a segunda pessoa do plural,
foi, na língua corrente, substituída pela forma “vocês”.
4) Nos usos do Brasil, convivem duas formas de segunda pessoa do singular: “tu”
e “você”.
Está(ão) correta(s):
a) 3 e 4 apenas. c) 2 apenas. e) 1 e 3 apenas.
b) 1, 2, 3 e 4. d) 1 e 2 apenas.

O termo o poderia 6 (Unimontes-MG) Em qual das alternativas abaixo a palavra sublinhada é um


ser substituído por pronome?
aquilo ou algo, o que
o caracteriza como a) “Nem todos os crentes adotam uma posição radical com relação à veracida-
um pronome indefi-
nido e não como ar- de...”
tigo definido, como b) “O que não sabemos hoje pode, em princípio, vir a ser explicado no futuro.”
é o caso nas demais
alternativas. c) “Sem dúvida, esse tem sido o seu caminho...”
d) “... a ciência abraça a ignorância, o não saber, como parte necessária da nossa
existência.”

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Leia o texto transcrito para responder à questão 7.

O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sór-
dido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão
verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimen-
Glossário tos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no
Lucubrador. mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais
Aque­le que com- bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um
põe com esforço,
à custa de muita bom poeta, mas um mero lucubrador de versos.
meditação. MORAES, Vinicius de. Para viver um grande amor. p. 101-102.

7 (UFSCar-SP) Voltando ao texto em prosa de Vinicius de Moraes e pondo foco no


trecho “Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela”:
a) a que se refere no texto o pronome seu?
O pronome seu refere-se ao vocábulo poeta.

b) a que se refere no texto o pronome lo?


O pronome lo refere-se ao trecho “ser expressão verbal rítmica ao mundo

informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a

tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação”.

14

Capítulo


2 Pronomes pessoais
e pronomes
possessivos

1 Introdução
Observe a história em quadrinhos para responder às questões de 1 a 4.

Edgar Vasques
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 1.

VASQUES, Edgar.
Rango. Porto Alegre:
L&PM, 2005. p. 34.

1 Em qual dos sentidos apresentados a seguir o verbo conjugar é empregado no


primeiro quadrinho? Por quê?

1. unir(-se), ligar(-se), juntar(-se) harmonicamente a ou com (algo ou


alguém); misturar(-se); combinar(-se).
2. flexionar[-se] (um verbo) em algum de seus tempos, modos, pessoas
e números, acrescentando-se ao radical do verbo os sufixos flexionais
verbais adequados.
HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da
língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 803. (Fragmento adaptado.)

O verbo conjugar é empregado no sentido 1, mais adequado, porque o menino

deseja saber o significado de “conjugação de esforços”, ou seja, a combinação

harmônica das forças (físicas e intelectuais) de diferentes pessoas para realizar uma

tarefa ou conquistar um objetivo.

15
2 Explique por que, na resposta de Rango, há uma referência ao outro significado.
Para responder à pergunta, Rango simula a conjugação de um verbo, embora não

utilize nenhum explicitamente.

3 Qual foi o modo encontrado por Rango para explicar ao filho o que significa
“conjugação de esforços”?
Rango usa uma série de termos (eu, tu, ele, nós, vós) para identificar pessoas que

vão se unindo, e outro termo para identificar as que estão separadas desse

grupo: eles.

a) Os termos utilizados por Rango podem ser organizados segundo a relação


que as pessoas por eles identificadas mantêm com quem fala. Explicite essa
organização.
Eu: identifica quem fala. Tu: identifica o interlocutor com quem esse eu fala.

Ele: identifica alguém sobre quem o eu fala com o tu. Nós: identifica um grupo

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


no qual se inclui a pessoa que fala (o eu) e a pessoa com quem fala (o tu). Vós:

identifica o grupo de pessoas a quem se dirige o eu. Eles: identifica todos os

outros que não participam da interlocução criada nesses quadrinhos.

Professor: É importante b) Essa função de identificar os seres é semelhante à exercida pelos substanti-
observar que os subs-
tantivos organizam os
vos. Explique por que, apesar disso, é possível perceber que os termos empre-
seres de acordo com as gados por Rango não são substantivos.
características da classe
a que pertencem, e não Embora façam referência a seres, esses termos não os nomeiam. Apenas os
de acordo com a rela-
ção que estabelecem identificam em relação a quem fala (Rango).
com quem fala.

4 Rango e seu filho moram em um lixão.


a) Explique como Vasques utiliza uma pergunta aparentemente inocente para
ilustrar uma separação que reflete a dura realidade de milhões de brasileiros.
Os quadrinhos mostram uma série de pessoas menos favorecidas que se unem

em torno de Rango, criando a referida “conjugação de esforços”. A elas se

opõem todas as outras, que vivem nos prédios (vistos no último quadro).

Os moradores da cidade desfrutam, supostamente, de uma condição

socioeconômica privilegiada e não experimentam as dificuldades por que

passam os que tentam sobreviver em um lixão.

b) Qual é a importância da escolha dos termos nós e eles para ilustrar essa visão crítica?
Os termos nós e vós (Rango e seus interlocutores) estão em clara oposição a

eles. Pela escolha dessas palavras, Vasques deixa clara a luta pela sobrevivência

em uma sociedade injusta, que opõe trabalhadores e miseráveis, de um lado,

e pessoas de condição social mais favorável, de outro.

16
5 A partir da explicação dada por Rango, que sentido devemos atribuir à expres-
são “conjugação de esforços”?
No contexto da história em quadrinhos, a “conjugação de esforços” representa

a batalha dos moradores do lixão (o nós, na tira) para sobreviver. Essa situação não

é compartilhada pelos mais favorecidos (eles), que não precisam unir esforços para

enfrentar a vida. Na verdade, para que se modifique a situação social configurada

na tira, a “conjugação de esforços” deve incluir também, e principalmente, as

pessoas identificadas como eles. São elas que, por sua situação privilegiada,

poderiam mudar a sociedade.

As palavras eu, tu, ele, nós, vós e eles pertencem ao grupo dos pronomes pes­
soais, que fazem referência explícita e direta às chamadas pessoas do discurso.
A classificação das pessoas do discurso é estabelecida de acordo com a posição
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que o referente identificado pelo pronome


ocupa na interlocução. Em uma interlo-
Singular Plural
cução, a primeira pessoa é quem “fala”,
o enunciador do discurso. A segunda 1a pessoa eu nós/a gente
pessoa identifica sempre o interlocutor,
a pessoa a quem o enunciador se dirige. A 2a pessoa tu/você vós/vocês
terceira pessoa refere-se ao assunto (pode
corresponder a um ser humano ou não) 3a pessoa ele, ela eles, elas
dessa conversa, aquilo sobre o qual falam
os interlocutores.
Neste capítulo, você vai conhecer as propriedades dos pronomes pessoais (in-
cluindo os pronomes de tratamento) e dos pronomes possessivos. Os demais tipos
de pronome serão estudados em outro módulo.

2 Formas dos pronomes pessoais


Uma característica dos pronomes pessoais é a variação na forma que assumem,
dependendo da posição sintática em que ocorrem e da acentuação (átona ou tôni-
ca) que apresentam quando em tal posição. Observe.
Caco Galhardo/Agência Folha

Figura 2. GALHARDO, Caco. Os pescoçudos. Folha de S.Paulo, São Paulo, 20 maio 2005.

17
Na tira, a personagem que está sendo abandonada refere-se a si mesma por
meio de três formas pronominais: eu, me e comigo. Esses itens correspondem a
pronomes pessoais que apontam para a primeira pessoa do discurso, e o fato
de serem diferentes quanto à forma está relacionado com a posição sintática
que ocupam. O pronome eu ocorre como sujeito do verbo aguentar, enquanto o
pronome me corresponde ao complemento (objeto direto) desse mesmo verbo.
A forma pronominal comigo, por sua vez, ocorre como um adjunto adverbial
ligado ao verbo continuar.
Quando desempenham a função de sujeito ou predicativo do sujeito, os
pronomes pessoais assumem suas formas chamadas retas, ou do caso reto.
Quando funcionam como objeto direto, objeto indireto, complemento nomi-
nal, adjunto adverbial ou agente da passiva, assumem suas formas chamadas
oblíquas, ou do caso oblíquo.
Na tira de Caco Galhardo, o pronome eu é uma forma do caso reto, en-
quanto me e comigo correspondem a formas do caso oblíquo.
O quadro a seguir apresenta as diferentes formas assumidas pelos pronomes
pessoais.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Pessoas do Pronomes Pronomes pessoais oblíquos
discurso pessoais retos Átonos Tônicos

me mim, comigo
1a pessoa eu
te ti, contigo
Singular 2a pessoa tu
o, a, lhe ele, ela
3a pessoa ele, ela
se si, consigo

nos nós, conosco


1a pessoa nós
vos vós, convosco
Plural 2a pessoa vós
os, as, lhes eles, elas
3a pessoa eles, elas
se si, consigo

Vale ressaltar que as formas pronominais você e a gente, largamente empregadas


no português do Brasil, podem aparecer tanto nas posições típicas do caso reto
quanto nas do caso oblíquo. Os exemplos a seguir mostram a ocorrência desses
itens nas posições de sujeito e de objeto direto do verbo ver.
Você viu a Maria. A gente viu a Maria.
A Maria viu você. A Maria viu a gente.

2.1 Interpretações reflexivas e recíprocas dos


pronomes oblíquos
Os pronomes se, si, consigo são formas especiais de terceira pessoa para expres-
sar ação reflexiva, indicando que o objeto direto ou indireto do verbo, ou seu ad-
junto adverbial de companhia, tem por referente o mesmo ser referido pelo sujeito
da oração. Observe os exemplos:
O trabalhador feriu-se com o canivete.
Os vaidosos estão sempre a falar de si.
Os pais trouxeram consigo os filhos.

18
As formas reflexivas do plural também podem ser utilizadas para indicar ação
recíproca, situação em que o resultado de uma ação afeta simultaneamente dois
ou mais indivíduos. Veja:
Eu e meu irmão nos abraçamos emocionadamente.
Pedro e José se machucaram.
No último exemplo, o pronome tanto pode indicar ação reflexiva (Pedro e José Professor: Na seção 3.4,
são apresentados mais
machucaram-se, cada qual com um instrumento cortante diferente) como ação detalhes sobre o em-
recíproca (em uma briga, Pedro machucou José e José machucou Pedro). prego dos pronomes
reflexivos.

3 Variação no emprego dos pronomes pessoais


3.1 Tu / você, nós / a gente, vós / vocês
Em muitas variedades do português falado no Brasil, a forma você é mais fre-
quente do que a forma tu para indicar a segunda pessoa do discurso. A forma a
gente também é largamente empregada em lugar de nós para indicar a primeira
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pessoa do plural.
Para anunciar um programa de

Revista Pesquisa FAPESP. São Paulo: FAPESP, 4/2005.


rádio sobre pesquisa científica, a
propaganda ao lado emprega os
pronomes você e a gente na mesma
posição sintática em que poderiam
ocorrer os pronomes tu e nós.

– É verdade que os cachorros enxergam


em preto e branco?
– Na realidade, eles têm os cones e os
bastonetes – células da retina sensíveis à
luz – semelhantes ao que se encontra no
olho humano. E o que se tem como quase
certo é que eles enxergam colorido, mas
não da mesma forma que nós, e não
todas as cores. Enxergam o vermelho,
o verde, o azul etc., mas a imagem e a
própria cor dos objetos talvez sejam um
pouco diferentes do que vemos. As cores
são esmaecidas, em tom pastel.
Resposta do professor Paulo Moraes
Barros, responsável pelo serviço de
Oftalmologia da Faculdade de Veterinária
da Universidade de São Paulo (USP).

Figura 3. Pesquisa Fapesp, n. 110, p. 2, abr. 2005.

Note que o emprego de você e a gente leva o verbo a ocorrer na forma da terceira
pessoa do singular. Se, em vez dessas formas, fossem empregados os pronomes tu e
nós, a gramática normativa exigiria a realização das formas verbais da segunda pes-
soa do singular (no caso de tu) e da primeira pessoa do plural (no caso de nós):
Tu perguntas, nós respondemos.
Observe ainda que, no texto que acompanha o anúncio, o pronome nós (em
azul) é empregado em uma posição na qual o pronome a gente poderia ocorrer.
Em vez de mas não da mesma forma que nós, poderíamos ter mas não da mesma for-
ma que a gente.

19
O pronome vós é de uso extremamente restrito. As cerimônias religiosas estão
entre os raros contextos em que essa forma ainda é empregada. Tanto no portu-
guês do Brasil quanto no europeu, o pronome consagrado para a expressão da
segunda pessoa do plural é a forma vocês. Os enunciados a seguir deixam claro
que o efeito provocado pelo emprego de vós é bastante diferente daquele causado
pelo emprego de vocês.
Vós sabeis o quanto estou sofrendo.
Vocês sabem o quanto estou sofrendo.

3.2 Ele, ela / o, a


Na tira da Turma da Mônica, apresentada a seguir, aparece uma estrutura consi-
derada incorreta pela gramática normativa, mas muito comum no português falado
no Brasil. Observe.

Maurício de sousa Produções

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Figura 4. SOUSA, Mauricio de. Turma da Mônica. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 17 maio 2007.

Na tira, Mônica emprega o pronome ele como objeto direto do verbo levar: Vou
levar ele! A gramática normativa recomenda, em casos como esse, o emprego da
forma oblíqua do pronome pessoal: Vou levá-lo.
O uso dos pronomes oblíquos o(s) e a(s) está, porém, cada vez mais restrito
à escrita formal. Na fala, a forma do caso reto na posição do objeto direto é a
mais frequente. Não é comum encontrarmos, no registro coloquial, um enun-
ciado como o que aparece na tira a seguir, no qual o Recruta Zero emprega o
pronome oblíquo como objeto direto do verbo quebrar: É preciso conhecer as
regras, para poder quebrá-las!
2008 King Features Syndicate/IPress

Figura 5. WALKER, Mort. Recruta Zero. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 18 dez. 2001.

20
3.3 Para eu / para mim
A gramática normativa considera inadequado o emprego de eu e tu depois de
preposições, a menos que essas formas pronominais desempenhem a função de
sujeitos de verbos no infinitivo.

Adequado à gramática normativa Não adequado à gramática normativa


Por favor, pegue aquele casaco Por favor, pegue aquele casaco
para mim. para eu.
Este segredo deve ser entre mim e ele. Este segredo deve ser entre eu e ele.

Há muitos exercícios para eu fazer. Há muitos exercícios para mim fazer.

Embora, na linguagem coloquial, seja comum encontrar formas oblíquas como


sujeitos de verbos no infinitivo (como no enunciado Ele pediu p[a]ra mim fazer
isso), os falantes nunca realizam essas formas como sujeitos de verbos em forma
finita (flexionada para tempo, número e pessoa).
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O texto que acompanha a ilustração a seguir, por exemplo, explora o estranha-


mento provocado pelo emprego da forma oblíqua mim em uma posição onde de-
veria ser usada uma forma do caso reto: Mim qué comê alface. O objetivo do texto é
apresentar a ideia de que a linguagem não teria evoluído para algo tão sofisticado
se os nossos ancestrais não tivessem aumentado o consumo de carne.

Editora Abril
Sem a carne, nossos ancestrais não
teriam evoluído para seres humanos.

Há pouco mais de 2 milhões de anos,


os hominídeos que viviam na Terra
aumentaram o consumo de carne,
uma fonte rica de energia. Foi essa
potência extra que tornou possível
a sobrevivência de hominídeos
com cérebro maior, que consome
mais calorias. Foi assim que nosso
cérebro chegou ao tamanho atual.
Esse órgão consome 20% da energia
que consumimos. Sem a carne, ainda
seríamos meio macacos.

Figura 6. Superinteressante, n. 193, out. 2003.

3.4 Pronomes reflexivos


Na linguagem coloquial, é bastante comum encontrarmos o pronome refle-
xivo se, de terceira pessoa, usado em lugar de outras formas que não são de ter-
ceira pessoa. Essa substituição também é considerada inadequada pela gramática
normativa. Veja:

21
Adequado à gramática normativa Não adequado à gramática normativa
Eu preciso me arrumar para ir à festa. Eu preciso se arrumar para ir à festa.
Nós temos de nos preparar para a prova. Nós temos de se preparar para a prova.

Em Portugal, o pronome consigo não é usado apenas como reflexivo, ao contrário


do que ocorre no Brasil, onde essa forma, além de não ser frequente, é sempre reflexiva
(ver exemplos no item 2). Nos casos em que os falantes do português europeu empre-
gam esse pronome, costumamos usar formas como contigo, com você ou com ele / ela.

Usos comuns Usos comuns


no português do Brasil no português europeu
Eu gostaria muito de falar com você. Eu gostaria muito de falar consigo.
Eu gostaria muito de falar contigo. Eu gostaria muito de falar contigo.
O rapaz trouxe vários livros com ele. O rapaz trouxe vários livros consigo.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


4 Pronomes pessoais de tratamento
Os pronomes de tratamento são palavras e locuções utilizadas para designar o
interlocutor. Funcionam, por isso, como pronomes pessoais.
Para que você conheça os principais pronomes de tratamento e suas abreviatu-
ras correspondentes, veja o quadro abaixo.

Abreviatura Tratamento Usado para


V. A. Vossa Alteza príncipes, arquiduques, duques
V. Em.ª Vossa Eminência cardeais
V. Ex.ª Vossa Excelência altas autoridades do governo e oficiais das forças armadas
V. Mag.ª Vossa Magnificência reitores das universidades
V. M. Vossa Majestade reis, imperadores
ma
V. Ex.ª Ver. Vossa Excelência bispos e arcebispos
Reverendíssima
V. P. Vossa Paternidade abades, superiores dos conventos
V. Ver.ª Vossa Reverência ou sacerdotes em geral
V. Ver.ma Vossa Reverendíssima
V. S. Vossa Santidade papa
V. S.ª Vossa Senhoria funcionários públicos graduados, oficiais até coronel;
na linguagem escrita, pessoas de cerimônia

Emprego dos pronomes de tratamento


Com relação ao uso dessas formas de tratamento, é importante lembrar que:
■ são sempre usadas com a forma verbal de terceira pessoa, embora estejamos nos di-
rigindo diretamente à(s) pessoa(s) que requer(em) esse tratamento respeitoso: Vossa
Excelência consideraria a hipótese de votar a favor da emenda proposta pelo nosso partido?
■ são usadas com os possessivos sua/suas, em vez de vossa/vossas, quando, em conver-
sa com o nosso interlocutor, fazemos referência a essa(s) pessoa(s), ou seja, quando

22
elas ocupam o lugar de terceira pessoa do discurso: Imagine que Sua Excelência de-
monstrou enorme dificuldade em entender a argumentação do líder da oposição.
■ quando são usadas em combinação com outros pronomes, esses também devem
estar na terceira pessoa gramatical: Vossa Excelência poderia explicar melhor esse
seu projeto de lei?
O pronome você(s), bastante empregado na linguagem cotidiana, e as formas
o senhor e a senhora são geralmente incluídos entre os pronomes de tratamento.
Observe a tira seguir.

Caco Galhardo/Agência Folha


Figura 7. GALHARDO, Caco. Chico Bacon. Folha de S.Paulo, São Paulo, 22 mar. 2007.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O idoso que aparece na tira pede para ser chamado de você, e não de senhor. A
intenção desse pedido é clara: a personagem quer criar um ambiente de informali-
dade e, assim, tornar-se íntima da figura feminina para conseguir seduzi-la. Exem-
plos desse tipo mostram que o emprego de você(s), o(s) senhor(es) e a(s) senhora(s)
está relacionado ao nível de formalidade estabelecido na interlocução.

Os pronomes você e vocês resultam da forma arcaica de tratamento respeitoso Vossa(s)


Mercê(s), que sofreu sucessivas reduções fonológicas.

5 Pronomes possessivos
Observe a peça publicitária a seguir para responder às questões 1 e 2.
Terra. Em Superinteressante. São Paulo: Abril, 6/2005

Figura 8.

Superinteressante, n.
214, p. 4-5, jun. 2005.

23
1 A peça publicitária explora uma oposição entre duas formas de expressão cultural.
a) Identifique essas formas e explique como a oposição entre uma e outra é
apresentada.
As duas formas de expressão cultural exploradas na propaganda são a “arte

clássica” e a “arte de rua”. A oposição é estabelecida por meio de duas

estratégias: (a) o conteúdo das perguntas apresentadas na propaganda, que

mencionam os dois tipos de expressão (“A sua é curtir arte clássica? A sua é

fazer arte de rua?”) e (b) o destaque ao quadro de Leonardo da Vinci (Mona Lisa),

exemplo de “arte clássica”, colocado ao lado da imagem de um grafiteiro em

ação, representativa da “arte de rua”.

b) O texto do anúncio baseia-se em um pressuposto relativo às preferências ar-


tísticas de dois públicos diversos. Explicite esse pressuposto.
O pressuposto é o de que o público apreciador de artes clássicas não é o

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


mesmo que admira a arte de rua.

c) Como a afirmação de que a “A sua é o Terra” contribui para valorizar o produto


anunciado?
Essa afirmação é apresentada logo em seguida às duas perguntas que

introduzem o texto do anúncio: “A sua é curtir arte clássica? A sua é fazer arte

de rua?”. Independentemente da resposta a cada pergunta, a afirmação

transmite a ideia de que o provedor de internet anunciado seria capaz de

agradar a públicos bastante distintos.

2 A palavra sua pertence à classe dos pronomes, que, como vimos anteriormente,
se caracterizam por não apresentar um referente próprio.
a) No texto do anúncio, a que participante da interlocução o pronome sua faz
referência?
Refere-se ao leitor do anúncio, a quem a mensagem é dirigida.

Professor: Incentive os b) A expressão “Qual é a sua?” costuma ser empregada em que situações? O que
alunos a procurar em justifica o seu uso nessa peça publicitária?
dicionários, no verbete
sua, o significado da ex- A expressão costuma ser usada em situações nas quais se procura saber a
pressão “Qual é a sua?”.
intenção, o gosto ou a preferência de alguém a respeito de algo. Corresponde,

nesse sentido, a perguntas do tipo “Qual é a sua intenção?”, “Qual é o seu

gosto?”, “Qual é a sua preferência?”, “Quais são os seus objetivos?” etc.

No contexto da propaganda, o emprego dessa expressão contribui para

reforçar a ideia de que o produto anunciado pode satisfazer pessoas com

preferências e interesses diferenciados.

24
c) O pronome sua é empregado, normalmente, para expressar a ideia de posse.
Essa noção está presente no contexto da peça publicitária? Explique.
Embora não ocorra nenhum substantivo após o pronome sua, indicando o que

seria interpretado como “pertencente a alguém”, a noção de posse está no uso

que se faz desse pronome na peça publicitária. No caso, o possuidor de algo é

o próprio leitor da mensagem, que é indagado acerca de suas preferências;

o elemento pertencente ao leitor corresponde ao conjunto de seus gostos,

interesses, preferências etc.

Formas como meu/minha, seu/sua e nosso/nossa integram a lista dos pronomes


possessivos. A principal função desses pronomes é indicar relações de pertenci-
mento, mostrando, por exemplo, que alguma coisa (seres, objetos, ideias) é pos­
suída por alguém (Este livro é meu) ou é parte de algo (Mandei encadernar o livro,
porque suas folhas estavam se soltando).
Nesta seção, você vai conhecer um pouco mais sobre os pronomes possessivos
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do português.

5.1 Formas dos pronomes possessivos


As formas assumidas pelos pronomes possessivos dependem tanto do referente
interpretado como possuidor (se de primeira, segunda ou terceira pessoa) quanto da
quantidade de coisas interpretadas como pertencentes a esse possuidor. Observe.

Casacor. Em Veja São Paulo: Abril, 5/2008

Figura 9. Veja São Paulo, ano 41, n. 20, p. 62-63, 21 maio 2008.

25
No anúncio, ocorrem dois pronomes possessivos: sua e nossa. A afirmação de
que “Sua casa vai adorar conhecer a nossa” traduz, no plano figurativo, a ideia de
que os produtos de arquitetura e decoração apresentados na Casacor irão satisfazer
o gosto de quem comparecer ao evento.
Observe que a forma de ambos os pronomes indica a existência de apenas um
objeto interpretado como possuído (sua casa, nossa casa). Se casa ocorresse no
plural (ou seja, se houvesse mais de um elemento interpretado como possuído), os
pronomes possessivos também deveriam ocorrer no plural: Suas casas vão adorar
conhecer as nossas.
Observe ainda que o número de possuidores referido por cada pronome é di-
ferente: sua, no contexto da propaganda, faz referência a um único possuidor (o
leitor da propaganda), enquanto nossa se refere a vários (no caso, os organizadores
do evento Casacor).
Tendo em vista as informações sobre o referente interpretado como possuidor,
bem como a quantidade de elementos a ele relacionados, considera-se que os pro-
nomes possessivos assumem as seguintes formas:

Um possuidor Vários possuidores

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Um objeto Vários objetos Um objeto Vários objetos
masc. meu meus nosso nossos
1a pessoa
fem. minha minhas nossa nossas
masc. teu teus vosso vossos
2a pessoa
fem. tua tuas vossa vossas
masc. seu seus seu seus
3a pessoa
fem. sua suas sua suas

É importante destacar que, no português do


Em Época, São Paulo: Globo, 2/2006

Brasil, principalmente na linguagem coloquial, o


possuidor de terceira pessoa não costuma ser refe-
rido pelos pronomes seu(s) / sua(s). Em lugar des-
ses itens, é comum encontrarmos as formas dele(s) /
dela(s), como no anúncio ao lado.
O título da reportagem sobre Lost, seriado de
grande sucesso na televisão norte-americana, pro-
voca os leitores da revista: “Já viu a cara deles?”.
A forma deles funciona como pronome possessivo
que faz referência aos atores do seriado. Se em-
pregássemos sua em lugar de deles, a construção
soaria estranha a falantes do português do Brasil:
“Já viu a sua cara?”.

São os personagens
do seriado Lost.
Se você também não
quiser ficar perdido,
corra já para a telinha.

Figura 10. Época, n. 405, p. 84, 20 fev. 2006.

26
Outra informação relevante sobre o emprego de seu(s) / sua(s) é a possibilidade
de essas formas alternarem com teu(s) / tua(s) para fazer referência à segunda pes-
soa do discurso. Observe.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 11. LAERTE. Gato e Gata + um mico-leão: tiras de Laerte.


São Paulo: Ensaio / Círculo Editorial, 1995. p. 66.

Na tira, teu(s) poderia ser substituído por seu(s), sem que o referente do prono-
me (um possuidor que corresponde à segunda pessoa do discurso) fosse alterado.
Assim, em vez de teus olhos, um beijo teu e teu calor, poderiam ocorrer seus olhos,
um beijo seu e seu calor. Em ambos os casos, é a um referente de segunda pessoa (a
gatinha) que devem ser associados olhos, beijo e calor.

5.2 Emprego dos pronomes possessivos


Os pronomes possessivos ocorrem, na maioria das vezes, antes do subs-
tantivo que determinam. Existem casos, porém, em que a posposição (colo-
cação do pronome depois do substantivo) produz efeitos de sentido interes-
santes. Compare:
Meu filho não anda de moto.
Filho meu não anda de moto!
No primeiro exemplo, conclui-se simplesmente que o falante tem um filho e
que ele não anda de motocicleta. No segundo, porém, o efeito da posposição do
possessivo é o de deixar bem claro que o falante não admite em hipótese alguma
que um filho seu (mesmo que ainda não tenha nascido) ande de moto.
Os pronomes oblíquos me, lhe e te podem ser usados com valor de possessivo
em construções como as seguintes:
Ele beijou-me as mãos muito respeitosamente.
(Ele beijou as minhas mãos...)
Comprei-te o carro porque estavas muito precisado de dinheiro.
(Comprei o teu carro…)
Amarrei-lhe as tranças com uma fita vermelha.
(Amarrei as tranças dela…)

27
Há situações em que o pronome possessivo não indica necessariamente uma
relação de posse. É o caso da forma suas na tira a seguir.

2008 United Media/IPress


Figura 12. SCHULZ, Charles. Minduim. Jornal da Tarde, São Paulo, 12 jan. 2003.

Mostrando-se indignado com o fato de terem construído uma garagem no lu-


gar onde antes existia uma fazenda, Snoopy qualifica os responsáveis como “suas
pessoas estúpidas”. Nesse contexto, a palavra suas não indica posse, mas reforça a
adjetivação negativa dirigida a um determinado grupo de pessoas.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Exercícios dos conceitos
O texto a seguir serve de base para as questões de 1 a 3.

Em busca da civilidade (im)possível


Três semanas sem vê-lo depois que o mundo desabou sobre nós. Voltei a
viver e a gostar da minha vida. Acordo bem. ELE não é a primeira coisa em
que penso quando acordo.
Aquele top fofo que comprei na Fashion House não me lembra ele. Me
lembra apenas que eu gosto da roupa. Coloco sem culpa, para ser elogiada
por outros homens, não por ele, que elogiou – um dos últimos elogios en-
quanto o mundo desabava sobre nós.
(...) Recuperei-me. Recito “as coisas não precisam de você”. É isso mes-
mo. Não precisam.
Ele deixa um recado na secretária. Eu não ouço. Olha só, não ouvi por-
que não estava esperando.
Mas ligo para ele. Temos conversa extremamente civilizada e carinhosa,
agora, depois que o mundo desabou sobre nós.
E agora, enquanto escrevo, ele acaba de entrar no MSN. É verdade. Pon-
tada de dor no coração. Perdi o ritmo.
Isso porque decidimos ser civilizados. Combinamos que seremos amigos.
Ele quer que eu vá no aniversário dele (que só é em junho, olha só). Nos
prometemos coisas boas.
E a civilidade depois que o mundo desabou dói. Como assim, aniversá-
rio? E se ele estiver namorando alguém? E se eu estiver?
Será que eu quero olhar pra ele e ver a cara do amor que deu errado? Ou será
que eu quero ver outras caras que me mostrem que o amor pode dar certo?
Talvez a civilidade não exista para os sentimentais. E, sinceramente, não
quero voltar a chorar, agora que eu parei e até voltei a usar meus cremes
(...).

28
Por isso, brava que sou, sei que ele está online, mas não falo “oi”.
No momento, melhor outros “ois”. (...) Sentimental eu sou. Civilizada?
Não, obrigada. Eu tenho medo.
LEMOS, Nina. Coluna 02 neurônio. Disponível em: <cf.uol.com.br>.
Acesso em: 15 fev. 2006. (Fragmento adaptado.)

1 A autora do texto trata de questões relacionadas à separação de um casal. Que


aspecto desse assunto é discutido por ela?
A autora fala da dificuldade/impossibilidade de sermos civilizados e mantermos

uma relação amigável imediatamente depois de nos separarmos de alguém que

amamos muito.

2 Para discutir esse assunto, a autora se vale de pronomes que se referem a ela, a
seu ex-parceiro e a ambos. Identifique esses pronomes, aponte as relações por
eles estabelecidas e diga como se classificam.
Para referir-se a si mesma, a autora utiliza os pronomes eu (“... eu gosto de roupa”)
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e me (“Recuperei-me...”); para referir-se ao ex-parceiro, utiliza os pronomes ele (“Ele

deixa um recado...”) e o (“Três semanas sem vê-lo...”); para referir-se a ambos, utiliza

os pronomes nós (“... depois que o mundo desabou sobre nós”) e nos (“Nos

prometemos coisas boas”). As formas eu, me, ele, o, nós e nos são pronomes pessoais.

3 O pronome pessoal de terceira pessoa é utilizado reiteradamente no texto.


Considerando o assunto tratado, explique o motivo de a autora repeti-lo
tantas vezes.
A autora utiliza o pronome para referir-se ao homem de quem se separou. Esse

uso reiterado tem a intenção de indicar o ex-parceiro, mesmo sem nomeá-lo

explicitamente. Pelo uso repetido do pronome, a autora revela o quanto essa

pessoa ainda vai permanecer em seus pensamentos.

A tira apresentada serve de base para as questões 4 e 5. 1986 Watterson/Dist. by Atlantic


Syndication/Universal Press Syndicate

WATTERSON, Bill. Tem alguma coisa babando embaixo da cama.


Trad. André Conti. Pref. Pat Oliphant. São Paulo: Conrad, 2008. p. 37.

29
4 No contexto da tira, o humor é obtido pelo uso de dois pronomes possessivos.
a) Identifique-os.
Os pronomes possessivos seu e meu, utilizados, respectivamente, pelo pai e

pela mãe de Calvin para referir-se ao garoto.

b) Que relação é estabelecida, na tira, pelos dois pronomes?


Os dois pronomes estabelecem uma relação de posse, indicando de quem

Calvin seria filho. No primeiro caso, o pai do menino refere-se a ele como filho

apenas da esposa (“seu filho”). A essa fala, segue-se o questionamento da mãe

(“Meu filho?!?”), sugerindo que ele não é filho só dela.

5 De que maneira o uso desses pronomes contribui para a graça da tira, conside-
rando o contexto apresentado? Justifique.
Na cena apresentada, o pai de Calvin percebe que há água descendo pela escada.

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Ao concluir que se trata de uma travessura do menino, diz à esposa que vai ver o

que o filho dela está fazendo. Com o uso do pronome possessivo seu (de terceira

pessoa) para referir-se a Calvin, o pai se exime da responsabilidade pelas

confusões do garoto. O humor está na resposta zangada da esposa: “Meu filho?!?”.

Usando o pronome possessivo de primeira pessoa, ela questiona o marido e deixa

claro que o filho é dos dois.

Retomada dos conceitos Professor: Consulte o Banco de Questões e incentive


os alunos a usar o Simulador de Testes.

Instrução: A questão de número 1 se baseia na letra do samba-canção “Vingança”,


de Lupicínio Rodrigues (1914-1974) e na letra de “Olhos nos olhos”, de Chico
Buarque de Hollanda (1944-).

Vingança
Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo, chorando
Na mesa de um bar.
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz,
Não lhe deixou falar.
Eu gostei tanto,

30
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
P’ra ninguém notar.

O remorso talvez seja a causa


Do seu desespero
Ela deve estar bem consciente
Do que praticou,
Me fazer passar tanta vergonha
Com um companheiro
E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou;
Mas, enquanto houver voz no meu peito
Eu não quero mais nada

De p’ra todos os santos vingança,


Vingança clamar,
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Ela há de rolar qual as pedras


Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
P’ra poder descansar.
Lupicínio Rodrigues, Vingança, 1951.

Olhos nos olhos


Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever


Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando


Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim


‘Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz.
Chico Buarque, Olhos nos olhos, 1989.

31
1 (Vunesp) Em ambas as letras o eu lírico se refere à ex-companheira (letra de
Lupicínio) e ao ex-companheiro (letra de Chico), sendo diferente, porém, a for-
ma gramatical de fazerem essa referência. Examine atentamente o emprego dos
pronomes pessoais e de tratamento nas duas letras e, a seguir:
a) determine a forma de tratamento pela qual a personagem feminina faz refe-
rência ao ex-companheiro na letra de Chico Buarque.
Na letra de Chico Buarque, a personagem feminina faz referência ao

ex-companheiro com o pronome você. Embora do ponto de vista gramatical

essa forma de tratamento se comporte como terceira pessoa, na interlocução

ela indica a segunda pessoa, aquela com quem se fala.

b) considerando que em versões mais recentes da letra de “Vingança” alguns edi-


tores, provavelmente influenciados pelo emprego de “lhe” na primeira estrofe,
substituem na segunda estrofe “ela” por “você”, justifique a razão dessa troca.
A intenção provável dos editores é regularizar a interlocução entre o eu lírico

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(homem abandonado) e a mulher que o traiu, que ocorre de modo direto na

primeira estrofe (evidenciada pelo uso do lhe) e indireto na segunda, por meio

do pronome ela. O uso de você, na segunda estrofe, faz com que a fala do eu

lírico seja entendida como diretamente dirigida à sua interlocutora.

2 (Enem)

I II III

Joaquín Salvador Lavado (Quino).


Ediciones de la Flor

QUINO. Mafalda inédita. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Susanita, em suas fa­ Observando as falas das personagens, analise o emprego do pronome se e o
las, usa o pronome
com valor reflexivo.
sentido que adquire no contexto. No contexto da narrativa, é correto afirmar
que o pronome se:
a) em I, indica reflexividade e equivale a “a si mesmas”.
b) em II, indica reciprocidade e equivale a “a si mesma”.
c) em III, indica reciprocidade e equivale a “umas às outras”.
d) em I e III, indica reciprocidade e equivale a “umas às outras”.
e) em II e III, indica reflexividade e equivale a “a si mesma” e “a si mesmas”, respec-
tivamente.

32
3 (UFSCar-SP)

AUTO-ESTIMA “Fiz a cirurgia com 16 anos. Não fiz pelas outras pes-
soas, fiz para me olhar no espelho e me sentir bem (...) Eu sinto como
se o meu corpo tivesse absorvido o silicone, como se o peito fosse meu
mesmo. E é: meu pai pagou e ele é meu.” C. S., 17, sobre cirurgia plásti-
ca que fez nos seios, ontem na Folha.
Folha de S.Paulo, 3 ago. 2004.

Refletindo sobre o emprego dos pronomes possessivos em português, responda:


a) Como, no texto, pode ser definido o sentido de posse presente na expressão
como se o peito fosse meu mesmo?
O uso do pronome permite a interpretação de que o peito de silicone sempre

fez parte do corpo da jovem. A posse designa, aqui, uma relação natural de

pertencimento, referindo-se a uma parte integrante do corpo de um indivíduo.


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b) E como pode ser definido o sentido de posse na expressão E é: meu pai pagou
e ele é meu?
A noção de posse se estabelece, nesse caso, a partir de um fator externo: a

compra, pelo pai, do peito de silicone. Não é algo que sempre pertenceu à

garota, mas foi adquirido. Essa, portanto, não é uma posse natural; ela passou

a fazer parte do mundo da pessoa em um dado momento.

4 (Enem) O uso do pronome átono no início das frases é destacado por um poeta
e por um gramático nos textos abaixo.

Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
ANDRADE, Oswald de. Seleção de textos.
São Paulo: Nova Cultural, 1998.

Iniciar a frase com pronome átono só é lícito na conversação familiar,


despreocupada, ou na língua escrita quando se deseja reproduzir a fala
dos personagens (…).
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa.
São Paulo: Nacional, 1980.

33
Tanto Cegalla quan-
Comparando a explicação dada pelos autores sobre essa regra, pode-se afirmar
to Oswald relativi- que ambos:
zam a regra de uso
do pro­n ome átono a) condenam essa regra gramatical.
em início de frase a b) acreditam que apenas os esclarecidos sabem essa regra.
partir de considera-
ções sobre contex- c) criticam a presença de regras na gramática.
tos de formalidade d) afirmam que não há regras para uso de pronomes.
ou infomalidade em
que ele é utilizado. e) relativizam essa regra gramatical.

5 (Cefet-PR)

(...) O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira


da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o
chapéu, e passa. (...)
Canudos tinha muito apropriadamente, em roda, uma cercadura de mon-
tanhas. Era um parêntese; era um hiato; era um vácuo. Não existia. Transposto
aquele cordão de serras, ninguém mais pecava. (...) Descidas as vertentes, em
que se entalava aquela furna enorme, podia representar-se lá dentro, obscura-
mente, um drama sanguinolento da idade das cavernas. O cenário era suges-

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tivo. Os atores, de um e de outro lado, negros, caboclos, brancos e amarelos,
traziam, intacta, nas faces, a caracterização indelével e multiforme das raças – e
Glossário
Homizio. Homi-
só podiam unificar-se sobre a base comum dos instintos inferiores e maus.
cídio. Euclides da Cunha, Os sertões. Texto editado.

“O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a


cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime.”
A função do pronome lhe no contexto é:
O pronome lhe foi a) substituir a palavra sertão, com sentido de ao sertão, a ele, evitando a repeti-
utilizado, no enun- ção daquela palavra.
ciado, com valor pos-
sessivo. b) constituir a relação de posse entre as palavras trilhas e sertão, equivalendo a
as trilhas do sertão.
c) estabelecer a referência do pronome quem, indicando que este está vincula-
do, pelo sentido, à palavra sertão.
d) introduzir a noção de pessoa, que faz parte da regência do verbo romper:
quem rompe, rompe alguma coisa para alguém.
e) informar o agente da ação verbal expressa em romper, considerando-se que o
verbo está na voz ativa.

Leia o texto a seguir para responder à questão 6.

A corrida do ouro
Duzentos anos de buscas foram necessários para que os portugueses chegas-
sem ao ouro de sua América. Aos espanhóis não se apresentou o problema da
procura e pesquisa dos metais preciosos. Assim que desembarcaram no México,
na Colômbia ou no Peru, seus olhos mercantis foram ofuscados pelo ouro e
prata que os homens da terra ostentavam nas suas armas, adornos e utensílios.
Junto às suas civilizações, o gentio havia desenvolvido a exploração e o trabalho
dos metais, para eles mais preciosos pelas suas serventias que pelo poder e valor
que agregavam ao homem da Europa cristã, de alma lapidada pela cultura oci-

34
dental. O primeiro trabalho que tiveram os castelhanos foi o de imediatamente
afirmarem a inferioridade daquele homem que se recusava a total subserviência
à majestade de Deus e d’el Rei, através de concepções bastante convenientes a
seus propósitos. O brilho do metal, como o canto da sereia, tornou-os surdos
a qualquer apelo contrário que não fosse o da ambição pelo ouro e pela pra-
ta, tornando-os insensíveis a qualquer consideração humana no “trabalho” de
submetimento do indígena, até o seu extermínio ou à redução, dos que sobre-
viveram, à condição de servos ou escravos nas fainas da mineração. Os sucessos
castelhanos atiçaram os colonos portugueses a iniciarem suas buscas, seja pelo
encanto daquelas descobertas, seja pelas fantasias que se criaram a partir delas:
de tesouros fabulosos perdidos nas entranhas generosas das Américas; de relatos
imprecisos de indígenas vindos do interior; de noções equivocadas da geografia
do continente como a da proximidade do Peru; ou mesmo de alguns possíveis
indícios concretos, surgiram lendas como as de Sabarabuçu e as de Paraupava,
que avivavam os colonos na procura de pedras e metais preciosos.
MENDES Jr., A.; RONCARI, L.; MARANHÃO, R. Brasil história: texto e consulta.
São Paulo: Brasiliense, 1979.
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6 (Uerj) Na construção do texto, empregam-se pronomes pessoais e possessivos


que ora estabelecem relações indispensáveis à compreensão do sentido, ora se
tornam redundantes nesta função textual.
a) Observe atentamente o trecho compreendido entre “Junto às suas civilizações
(...) cultura ocidental” e indique os termos antecedentes de eles e do sujeito
oculto de agregavam.
Gabarito oficial. Eles: gentio; agregavam: os metais.

b) Transcreva dois trechos em que o possessivo possa ser suprimido sem qual-
quer prejuízo para a compreensão do texto.
Gabarito oficial. Dois dentre os trechos: I. que os homens da terra ostentavam nas

suas armas, adornos e utensílios. II. mais preciosos pelas suas serventias. III. Os

sucessos castelhanos atiçaram os colonos portugueses a iniciarem suas buscas.

7 (Acafe-SC) Observe o grupo de frases a seguir:

( 1 ) Minhas lembranças de infância continuam vivas.


Não sei se meus amigos têm lembranças minhas.
( 2 ) “Os vícios dos outros estão atrás de nossos olhos.”
“Os nossos vícios estão atrás de nós.”
Todos os termos des-
Sobre os termos destacados em negrito nas frases acima, é correto afirmar, exceto: tacados são prono-
mes possessivos, mas
a) São todos pronomes possessivos e têm o mesmo significado. nem todos apresen-
b) No grupo 1, na primeira ocorrência, minhas significa “lembranças que eu sinto”. tam o mesmo signifi-
cado nos enunciados
c) No grupo 1, na segunda ocorrência, minhas significa “lembranças que sentem apresentados, o que
de mim”. se pode perceber
pelas demais alter-
d) Nas duas frases do grupo 2, a palavra nossos tem o mesmo valor semântico. nativas que apontam
e) A alteração da posição do pronome gerou mudança de sentido nas frases do cada um dos sentidos
por eles assumidos.
grupo 1.

35
Leia o texto de Moacyr Scliar para responder à questão 8.

A casa das ilusões perdidas


Quando ela anunciou que estava grávida, a primeira reação dele foi de
desagrado, logo seguida de franca irritação. Que coisa, disse, você não po-
dia tomar cuidado, engravidar logo agora que estou desempregado, numa
pior, você não tem cabeça mesmo, não sei o que vi em você, já deveria ter
trocado de mulher havia muito tempo. Ela, naturalmente, chorou, chorou
muito. Disse que ele tinha razão, que aquilo fora uma irresponsabilidade,
mas mesmo assim queria ter o filho. Sempre sonhara com isso, com a ma-
ternidade – e agora que o sonho estava prestes a se realizar, não deixaria
que ele se desfizesse.
– Por favor, suplicou. – Eu faço tudo que você quiser, eu dou um jeito de
arranjar trabalho, eu sustento o nenê, mas, por favor, me deixe ser mãe.
Ele disse que ia pensar. Ao fim de três dias daria a resposta. E sumiu.
Voltou, não ao cabo de três dias, mas de três meses. Àquela altura ela já
estava com uma barriga avantajada que tornava impossível o aborto; ao vê-lo,
esqueceu a desconsideração, esqueceu tudo – estava certa de que ele vinha com

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a mensagem que tanto esperava, você pode ter o nenê, eu ajudo você a criá-lo.
Estava errada. Ele vinha, sim, dizer-lhe que podia dar à luz a criança; mas
não para ficar com ela. Já tinha feito o negócio: trocariam o recém-nascido
por uma casa. A casa que não tinham e que agora seria o lar deles, o lar onde
– agora ele prometia – ficariam para sempre.
Ela ficou desesperada. De novo caiu em prantos, de novo implorou. Ele
se mostrou irredutível. E ela, como sempre, cedeu.
Entregue a criança, foram visitar a casa. Era uma modesta construção
num bairro popular. Mas era o lar prometido e ela ficou extasiada. Ali mes-
mo, contudo, fez uma declaração:
– Nós vamos encher esta casa de crianças. Quatro ou cinco, no mínimo.
Ele não disse nada, mas ficou pensando. Quatro ou cinco casas, aquilo
era um bom começo.
SCLIAR, Moacyr. Folha de S.Paulo, 14 jun. 1999.

Como no texto há 8 (Unifesp) No texto, há muitas retomadas pronominais, basicamente expressas


apenas duas perso- pelos pronomes ele e ela. Isso não gera ambiguidade principalmente porque:
nagens, um homem e
uma mulher, os pro- a) se alternam os pronomes com sinônimos.
nomes ele e ela po-
dem recuperar seus b) as referências dos pronomes são muito restritas.
referentes sem que
haja ambiguidade.
c) as formas verbais estão todas no mesmo tempo.
d) todos os pronomes poderiam ser omitidos.
e) as frases curtas limitam a interpretação.

Correção da frase: “A 9 (Unifor-CE) Está incorreta a substituição do segmento grifado por um pronome
iniciativa rendeu-os”. correspondente em:
a) compreende os favelados = compreende-os.
b) tornando o Brasil = tornando-o.
c) frustraram a expectativa = frustraram-na.
d) A iniciativa rendeu prêmios internacionais = A iniciativa rendeu-lhes.
e) apenas reformar o equipamento urbano = apenas reformá-lo.

36
Para saber mais
Usos dos pronomes pessoais
Uma das importantes funções que certos pronomes desempenham em textos de
natureza expositiva e argumentativa é garantir que o discurso assuma um tom mais
impessoal e, assim, tenha maior poder de convencimento. Em gêneros textuais
como os editoriais, os artigos de opinião e as dissertações, por exemplo, os leitores
esperam encontrar as opiniões e as análises apresentadas de modo mais genérico,
abrangente, como se a “voz” do texto fosse a da racionalidade.
Para que esse efeito seja alcançado, é essencial que o texto mantenha uma inter-
locução mais abrangente, sem especificar um “eu” e um “tu” que dialogam direta-
mente. Veja um exemplo dessa interlocução mais genérica no editorial publicado
em um jornal de circulação nacional.

ck
Novas bactérias
o
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st

Se houve uma revolução que


tin
/La

realmente causou impacto so-


i Lounatmaa/SPL

bre o conjunto da humanidade


foi a revolução médica. É o caso Observe que as ocorrências do pronome se,
associadas aos verbos acreditar e submeter, aju-
de lembrar que os micro-orga-
Kak

dam a tornar mais abrangente o que está sendo


nismos patógenos são conhe-
.

afirmado. No caso, o autor do texto generaliza


Dr

as informações de que, em mea­dos do século


cidos da medicina há menos de XIX, a crença corrente era a de que miasmas
150 anos. Antes disso, acreditava- provocavam doenças e destaca o risco de quem
se submetia a cirurgias.
-se que doenças eram provocadas por
miasmas ou mesmo por encantamentos. Já a antissepsia data
de 1867. Antes disso, submeter-se a uma cirurgia era mais
ou menos como caminhar para o cadafalso, pois médicos
não lavavam as mãos nem seus bisturis para operar.
No segundo parágrafo, o pronome se é mais
(...) uma vez utilizado. Sua função, nessa passa-
Doenças infecciosas ainda são a primeira causa de morte gem, é fazer referência ao sujeito (bactérias) do
próprio verbo (apresentar) a que se encontra
no mundo. Nas últimas décadas, assistimos ao surgimento de associado. Nesse mesmo parágrafo, a primeira
várias delas, como Aids, Sars, Ebola. (...) A ressurgência de ocorrência do pronome elas retoma o termo
doenças infecciosas, e a segunda faz referência
doenças bacterianas é um fenômeno preocupante em todo o ao tópico do texto (bactérias).
mundo. Está relacionada ao problema da resistência a antibió-
ticos. Bactérias, como todos os seres vivos, apresentam-se com Novamente o pronome pessoal ela cumpre
variabilidade genética. Quando submetidas a uma pressão sele- a função de retomar o tópico anteriormente
referido (má utilização das drogas antimicro-
tiva, como um ataque por antibióticos, nem todas são afetadas. bianas).
Aquelas com maior resistência natural à droga sobrevivem. Nesse caso, o que se observa é a manutenção
da estrutura discursiva: uma primeira pessoa (a
Elas e sua descendência tendem a ser imunes ao fármaco. “voz” do texto) dirige-se a um “tu” (necessaria-
mente genérico, porque abrange todos os pos-
A má utilização das drogas antimicrobianas contribui síveis leitores do editorial) sobre um assunto
enormemente para a resistência, mas ela ocorreria de qual- específico (a terceira pessoa do discurso que,
no texto, define-se como as “novas bactérias”).
quer forma. As principais linhagens de bactérias resisten- Criada de modo genérico e impessoal para aco-
tes circulam justamente nos hospitais (...). A medicina vem modar a estrutura textual própria do gênero
editorial, essa estrutura discursiva precisa ser
lidando com esse problema, desenvolvendo novas drogas mantida até o fim pelo autor do texto. Para ga-
rantir que isso ocorra, ele não pode particulari-
contra as quais as bactérias não têm defesas. A dificuldade zar, em momento algum, o “eu” e o “tu” desse
é que, nos últimos anos, vem caindo o número de novos “diálogo”. Por esse motivo, não vemos, no texto,
o uso das formas de primeira pessoa do singular
produtos que chegam ao mercado. dos pronomes pessoais (retos e oblíquos).

37
Como mostrou reportagem do jornal Washington Post, o problema é es-
sencialmente econômico. Desenvolver e lançar um medicamento custa em
média US$ 900 milhões, num processo que pode levar até uma década.
Embora antibióticos sejam amplamente receitados, eles são utilizados por
períodos curtos. Assim, os laboratórios têm reduzido as atividades de suas
divisões de antibióticos para apostar em drogas de uso crônico.
É urgente reverter essa equação ou as bactérias poderão vencer a guerra
contra os medicamentos.
FOLHA de S.Paulo, São Paulo, 18 abr. 2004. Editorial.
Disponível em: <www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 19 abr. 2004.

pronomes pessoais pronomes possessivos


pronomes demonstrativos pronomes indefinidos

O texto transcrito é um editorial de jornal. Uma das características estruturais


definidoras desse gênero textual é o fato de analisar uma questão específica, or-
ganizada para convencer um público de perfil muito variável. Editoriais são es-
critos para todos os possíveis leitores de um jornal e não podem, portanto, criar

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


uma situação de interlocução que pressuponha leitores muito específicos. Outra
questão estrutural importante diz respeito ao objetivo de textos desse gênero:
convencer quem os lê, por meio do encadeamento de informações e argumentos,
da correção da análise apresentada.
Para alcançar tal objetivo e para manter as características estruturais do gênero
editorial, o autor do texto (um indivíduo específico) precisa criar uma estrutura
discursiva mais genérica, mais abrangente. Dela, não poderão fazer parte um “eu” e
um “tu/você” particulares. Embora essas posições discursivas sejam marcadas (há,
no texto, “alguém” que fala de modo mais genérico com um “tu” também genérico,
porque abrange todos os possíveis leitores do editorial), o que merece destaque e
atenção é a terceira pessoa do discurso (o “ele”): o “assunto” (as novas bactérias).
Além dos pronomes pessoais, destacamos também, no texto, os demonstra­
tivos (aquelas, esse, essa), os possessivos (seus, sua, suas) e os indefinidos
(várias, todos, todas). Mais uma vez, o que se observa são formas associadas à
terceira pessoa do discurso, confirmando o foco no assunto. Esses pronomes com-
põem a rede interna de referências do texto, ligando novas informações a outras
que haviam anteriormente sido apresentadas e garantindo, assim, que o leitor con-
siga entender a que cada uma das coisas ditas se refere.

Da teoria à prática
Agora que você viu como o uso cuidadoso dos pronomes pessoais ajuda a tor-
nar o discurso mais genérico e abrangente, sua tarefa será fazer as alterações neces-
sárias no texto transcrito abaixo para alcançar uma maior generalização.

Mundo pequeno
Não convém se preocupar demais com seus micróbios. Louis Pasteur, o
grande químico e bacteriologista francês, ficou tão preocupado com eles que
passou a examinar com uma lente de aumento todos os pratos que lhe eram
servidos, hábito que não deve ter agradado muito aos anfitriões quando ele
era convidado para jantar.

38
Na verdade, não adianta ten-
tar se esquivar das suas bacté-
rias, pois elas estão sempre pre-
sentes, em números que você
nem consegue imaginar. Se
você goza de boa saúde e tem
bons hábitos de higiene, terá
um rebanho de cerca de 1 tri-
lhão de bactérias pastando em
suas planícies carnudas – cerca
de 100 mil em cada centímetro
quadrado de pele. Elas estão ali
para consumir os aproximada-
mente 10 bilhões de flocos de pele que você perde todo dia, além dos óleos
saborosos e minerais fortificantes que gotejam de cada poro e fissura. Você
é para elas o supremo centro de alimentação, com a conveniência do calor e
Professor: O objetivo
da mobilidade constantes. (...) da atividade é auxi-
E essas são apenas as bactérias que habitam a sua pele. Existem mais tri- liar os alunos a perce-
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ber a importância do
lhões escondidas em suas tripas e nos orifícios nasais, presas a seus cabelos uso dos pronomes
e cílios, nadando na superfície de seus olhos, perfurando o esmalte de seus na particularização
dentes. Seu sistema digestivo sozinho abriga mais de 100 trilhões de micró- ou generalização do
discurso. Essa é uma
bios, de pelo menos quatrocentos tipos. Alguns lidam com açúcares, outros habilidade relevan-
com amidos, alguns atacam outras bactérias. (...) te, porque a capaci-
dade de manter um
Como nós, seres humanos, somos grandes e inteligentes o bastante para tom mais impessoal
produzir e utilizar antibióticos e desinfetantes, convencemo-nos facilmen- e abrangente será
te de que banimos as bactérias para a periferia da existência. Não acredite necessária na cons-
trução de textos
nisso. As bactérias podem não construir cidades nem ter vidas sociais inte- expositivos e argu-
ressantes, mas elas estarão presentes quando o Sol explodir. Este é o planeta mentativos de modo
geral. No momento
delas, e só vivemos nele porque elas permitem. de avaliar o resultado
Não se esqueça de que as bactérias progrediram por bilhões de anos sem da tarefa proposta, é
nós. Não conseguiríamos sobreviver um dia sem elas. Elas processam os essencial verificar se
eles foram capazes
nossos resíduos e os tornam novamente utilizáveis: sem sua mastigação di- de eliminar do tex-
ligente, nada apodreceria. As bactérias purificam nossa água e mantêm pro- to de Bill Bryson a
maior pessoalidade
dutivos nossos solos. Sintetizam vitaminas em nossos intestinos, convertem provocada pelo uso
os alimentos ingeridos em açúcares e polissacarídeos úteis e declaram guerra constante do prono-
me  você.  No  Plano
aos micróbios estranhos que descem por nossa garganta. d e   A u l a s   h á   u m a
BRYSON, Bill. Breve história de quase tudo. Trad. Ivo Korytowski. adaptação possível
São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 308-309. (Fragmento.) do texto para atender
ao que foi proposto.
É bom lembrar que
há outros modos de
Lembre-se de que o importante para promover a generalização do discurso é reescrevê-lo e obter
garantir que a interlocução aconteça sem torná-la particular, ou seja, sem deixar o mesmo efeito. Essa
muito marcados o “eu” e o “tu/você” presentes no diálogo estabelecido pelo texto. adaptação, portanto,
deve ser encarada
Antes de decidir quais pronomes deverão ser utilizados (e onde eles devem apa- como um exemplo
recer), sugerimos que você identifique as passagens em que o autor do texto assu- e não como a única
resposta “correta”.
me um tom muito pessoal. Em seguida, se for o caso, veja qual a melhor maneira No texto adaptado,
de reescrever essas passagens para manter as informações essenciais, garantindo os pronomes estão
que elas não se refiram somente a uma pessoa específica. destacados para que
a intervenção realiza-
da possa ser identifi-
cada mais facilmente.

39
Navegando no módulo

PRONOMES ADJETIVOS pronomes substantivos


PRONOMES
São aqueles que, tal como São aqueles que ocorrem
os adjetivos, modificam em posições normalmente
um substantivo: ocupadas por um substantivo:
meu livro, minha casa. ele estuda,
as crianças viram alguém.

DEMONSTRATIVOS POSSESSIVOS INTERROGATIVOS

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PESSOAIS INDEFINIDOS RELATIVOS

Marcela Pontara • Juanito Avelar


GRAMÁTICA
PRONOMES PESSOAIS E PESSOAS DO DISCURSO

1a pessoa 2a pessoa 3a pessoa Maria Luiza M. Abaurre •


Aquele que fala. Aquela com Aquela (ou aquilo)
quem se fala. de quem (ou do que)
se fala.

Singular: Singular: Singular:


eu tu/você ele, ela

Plural: Plural: Plural:


nós/a gente vós/vocês eles, elas

40