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HELMUT REICHELT · EIKE HENNIG

GERT SCHÂFER · JOACHIM HIRSCH

A TEORIA DO ESTADO
Materiais para a reconstrução da teoria
marxista do Estado

tempo brasileiro

Rio de Janeiro —RJ — 1990


ESTUDOS ALEMÃES

Série coordenada por


EDUARDO PORTELLA
EMMANUEL CARNEIRO LEÃO,
MUNIZ SODRÉ, GUSTAVO BAYER

Ficha catalográfica elaborada pela Equipe de Pesquisa da ORDECC

R 347 Reichelt , Helmut e outros,


A Teoria do Estado, Materiais para a reconstrução da Teoria
marxista do Estado/Helmut Reichelt ,Eike Hennig, Gert Schäfer,
Joachim Hirsch; trad. de Flävio Beno Siebeneichler. - Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.

...p. (Biblioteca Tempo Universitário; n9 87. Série Estudos


Alemães).

Traduzido do original alemão: “ Staatstheorie Materialien zur


Rekonstruktion der marxistischen Staatstheorie” .

1. Politica-teoria 2. Economia-teoria. 3. Sociologia-teoria.


I.Hennig, Eike II.Schäfer, Gert III. Hirsch, Joachim IV. Título V. Série.

CDD 320
CDU 32

ISB N — 85-282-001 3. 2
BIBLIOTECA TEMPO UNIVERSITÁRIO - 87

Coleção dirigida por EDUARDO PORTELLA


Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Traduzido do original alemão Staatstheorie Materialien zur


Rekonstruktion der marxistischen Staatstheorie:

Copyright © Verlag Ullstein GmbH, FRANKFURT/M. - BERLIN 1974.


Todos os direitos reservados.

Tradução: Flávio Beno Siebeneichler


Capa de: Antonio Dias e Elizabeth Lafayette
Programação Editorial: Kátia de Carvalho
Programação Textual: Daniel Camarinha da Silva.

Direitos reservados às
EDIÇÕES TEMPO BRASILEIRO LTDA.
Rua Gago Coutinho, 61 - Tel.: 205-5949
Caixa Postal 16.099 - CEP 22.221
Rio de Janeiro —RJ —Brasil
Sumário

Apresentação do tradutor....................................................................... 7
I . Sobre a teoria do Estado nos primeiros escritos de Marx e Engels
HELMUT REICHELT............................................................. 9
II. Notas introdutórias à leitura dos “Escritos Políticos” de Marx
e Engels (Problemas inerentes a uma representação materialista
da história
EIKE HENNIG ....................................................................... 59
III. Alguns problemas decorrentes da relação entre dominação
“econômica” e “política”
GERT SCHÀFER..................................................................... 95
IV. O problema da dedução da forma e da função do estado burguês
JOACHIM HIRSCH ................................................................ 143
Apresentação do Tradutor
O texto que se desenrola a seguir constitui uma introdução ampla à
teoria do Estado, de Marx e de Engels, preparada por Heike Hennig ,Joachim
Hirsch, Helmut Reichelt e Gert Schãfer.
Ela antecede o volume de 685 páginas, intitulado “Karl Marx/
Friedrich Engels. A teoria do Estado. Materiais para a reconstrução da
teoria marxista do Estado” (Karl Marx/Friedrich Engels. Staatstheorie.
Materialien zurRekonstruktion der marxistischen Staatstheorie), publicado
em 1974 pela Editora Ullstein, Frankfurt/aM - Berlim — Viena. O livro
contém no final um excelente índice abrangendo os principais termos
utilizados por Marx e Engels, elaborado por Cristina Pennavaja e Gerd
Koenen.
Os organizadores de “A teoria do Estado ” são de opinião que ela
contém fragmentos e esboços cujo aprofundamento pode contribuir para
a configuração de uma teoria materialista do Estado.
Guiados por esta expectativa, eles reúnem uma variedade de textos
espalhados de Marx e de Engels e lhes antepõem comentários.
Chegam à conclusão de que é preciso evitar um procedimento
muito comum, que consiste em tomar diretamente os textos de Marx ou
de Engels para extrair deles uma teoria pronta.
A introdução dirige-se a um público estudioso. Dado esse fato, o
tradutor procurou não somente encontrar os termos mais simples e mais
adequados, mas também respeitar a estrutura peculiar ao discurso e ao
fraseado de cada um dos introdutores. Esse respeito estende-se ao esquema
de citações que cada um deles adotou.
Os resumos que antecedem as quatro partes da introdução foram
redigidos pelo tradutor com o intuito de facilitar a sua leitura.
A presente tradução deve muito às críticas e sugestões de Michel
Misse, do Departamento de Ciências Sociais da UFRJ.

7
Helmut Reichelt

I
SOBRE A TEORIA DO ESTADO
NOS PRIMEIROS ESCRITOS DE MARX E ENGELS.

RESUMO:

Helmut Reichelt analisa as idéias relativas a uma teoria do Estado


contidas nos escritos do jovem Marx/Engels, indo até a “Ideologia alemã”.
A pesquisa desenvolve-se tendo como pano de fundo a evolução do conceito
de materialismo em Marx, o qual culmina na crítica da economia política.
Um dos resultados mais importantes do trabalho é a certeza de que
não se pode abordar os primeiros escritos de Marx e de Engels sem uma
dose de crítica, uma vez que nesta fase eles parecem ser tributários do
idealismo.

9
A maior parte das referências à teoria do Estado aparece nos primeiros
escritos de Marx. Não obstante, ainda não se conseguiu esclarecer satisfa­
toriamente se estas referências contêm ou não momentos de uma posição
burguesa. O próprio Marx as tinha geralmente na conta de “abstrações”.
Nas páginas seguintes tentaremos elucidar melhor este ponto.
Atendo-se às apreciações gerais, que se orientam principalmente
pelas indicações dadas por Engels, é possível constatar que os escritos
“Para a questão judaica” e “Para a crítica da filosofia do direito hegeliana.
Introdução” marcam, mais do que outros, a transição havida em Marx,
que abandona paulatinamente as idéias da democracia radical para se
tomar um socialista conseqüente.1 A polêmica contra a “Sagrada Família"
dos jovens hegelianos, nascida meio ano mais tarde, tem de ser encarada
como uma primeira formulação provisória da concepção materialista,
embora o próprio Marx confesse posteriormente que é possível detectar
nela certas deficiências, das quais ele até acha graça. Por ocasião de uma
visita a Kugelmann em Hannover, Marx escreve a Engels: “ele possui uma
coleção muito mais completa de nossos trabalhos, do que nós dois juntos.
Aqui eu também reencontrei a ‘Sagrada Família’, que ele me deu de
presente e da qual te enviará um exemplar. Fiquei agradavelmente surpreso
ao poder constatar que não precisamos nos envergonhar do trabalho,
embora estejamos no momento sob os efeitos bastante cômicos do culto a
Feuerbach”.2
Muitos anos mais tarde Engels recapitulou esta apreciação feita à
“Sagrada Família” ao redigir o texto “Ludwig Feuerbach e o fim da filoso­
fia alemã clássica”: “Entretanto, o passo que Feuerbach não ousou teve
que ser dado; o culto ao homem abstrato, que forma o núcleo da religião
de Feuerbach, teve que ser substituído pela ciência do homem real e de
seu desenvolvimento histórico. Esse desdobramento do ponto de vista
feuerbachiano foi encetado por Marx em 1845 na 'Sagrada Família’,
no que conseguiu superar Feuerbach”.3 Até o momento não se pesquisou

11
suiicientemente o papel que o culto ao homem abstrato desempenha na
teoria do Estado e toda a tentativa que se propõe reconstruir a teoria do
Estado de Marx deve dedicar urna parte considerável de seus esforços em
seguir esta pista, podendo eventualmente descobrir resquícios de pensa­
mento burguês incrustados nos textos escritos por esta época. Tal avaliação
poderia atingir inclusive a “Ideologia alemã”, que Marx interpreta poste­
riormente como se fora um fragmento de auto-entendimento, ou como um
ajuste de contas com a sua consciência filosófica inicial. Precisamente
na “Ideologia alemã” são re-examinados os teoremas que tinham sido
desenvolvidos nos escritos anteriores e que depois desaparecem inteiramen­
te. Isso diz respeito principalmente ao aspecto da reduplicação na teoria do
Estado, muito enfatizado ultimamente, o qual faz supor que Marx manteve
um derradeiro elemento de pensamento burguês. Em conseqüência disso,
náo podemos confiar em autoridades, nem satisfazer-nos com a simples
indicação de que nos escritos citados é possível descobrir uma transição
que transforma o democrata radical num socialista, nem tampouco aceitar
as anotações posteriores como expressões autênticas de uma posição
materialista. Temos que pesquisar, ao invés disso, e em detalhes, o modo
como se deu a passagem para o materialismo e tentar descobrir se ele se
realiza de modo uniforme e paralelo com relação a todos os aspectos da
teoria.
Na primeira abordagem sistemática de questões relativas à teoria do
Estado, que Marx desenvolveu no verão de 1843 em Kreuznach — após a
controvérsia com o jornal Allgemeine Augsburger Zeitung — transparece a
marca profunda deixada pelo pensamento de Feuerbach na primeira fase
da crítica de Marx.4 O que chama a atenção aqui são os paralelos diretos
que podem ser constatados entre os motivos da crítica da religião e a
crítica da teoria hegeliana do Estado. Mesmo que posteriormente ele
levante objeções consideráveis contra Feuerbach, aqui ele ainda toma
como ponto de partida - como dirá expressamente um pouco mais tarde,
em “Para a critica da filosofia do direito hegeliana. Introdução”5 — a
idéia de que as batalhas decisivas nesse campo já foram desencadeadas e
que ele necessita apenas apoiar-se em posições já formuladas anteriormente;
a crítica consiste nos seguintes pontos: em desmascarar como “subjetivo”
um elemento que é tomado como “objetivo”; em mostrar que o homem
reconhece a natureza divina que o domina na forma de auto-consciência

12
indireta, invertida, como sendo sua própria natureza, que se lhe opõe numa
figura estranha; em revelar que o homem toma equivocadamente a sua
própria impotência intramundana, produzida por ele mesmo, e a projeta
no além, estabelecendo-a como um elemento fora dele - como uma força
divina. Esse argumento típico da crítica da religião é alargado sistematica­
mente e inserido numa teoria sobre o1processo de desenvolvimento histó­
rico da humanidade, que pode ser tida como a primeira tentativa de moldar
materialisticamente a filosofia do absoluto de Hegel: pois, em Hegel,
o espírito absoluto se revela como sendo a verdadeira força motora, que
se reconhece como sujeito numa dialética da consciência, que faz um jogo
hercúleo consigo mesmo e que em meio a outras formas sempre se encon­
tra a si próprio, não tendo outro objeto a não ser a si mesmo (o sujeito
nada mais é do que um jogo de figuras multiformes, um jogo do ser-que-
-não-está-inteiramente-presente-a-si-próprio). Ao passo que o jovem Marx
vê o gênero “homem” retomando finalmente a si mesmo.
A idéia de uma crítica conclusiva, tida como possível apenas a
posteriori,. domina a totalidade da obra de Marx (na crítica da economia
política a relação entre trabalho assalariado e capital se transforma no
eixo do pensamento, como última forma de alienação); aqui, porém, esta
idéia ainda é articulada de um modo que o próprio Marx iria atribuir à
semelhança da natureza, na qual a humanidade histórica tenta conscienti­
zar-se do último umbral de sua emancipação (pelo menos em sua primeira
fase). Neste contexto o princípio humanista da democracia assume uma
posição-chave, uma vez que se transforma numa idéia acerca da verdadeira
unidade entre o geral e o particular, que estaria prestes a realizar-se, ou
seja, a idéia de um gênero humano consciente de si e dono de si mesmo;
tal idéia foi abandonada posteriormente. Neste ponto, o conceito de
democracia desempenha uma função sistemática e crítica, do mesmo
modo que a organização racional do trabalho, a qual, mesmo sem ser
configurada de modo positivo, irá ser introduzida mais tarde e de modo
constitutivo na crítica do mundo pervertido do capital; o conceito de
democracia é crítico na medida em que constitui uma negação determina­
da, uma “contra-imagem”, que subjaz à tentativa de assenhorear-se critica­
mente da representação hegeliana do Estado moderno. Por conseguinte,
a democracia ainda é encarada de modo inteiramente positivo e não
entendida como última forma de alienação em seu prolongamento político,

13
no qual as lutas de classes deveriam ser decididas definitivamente. A partir
daí se explica a dura crítica à idéia de Hegel sobre a objetividade rígida
e reificada da sociedade moderna, expressa num dos primeiros parágrafos
do direito público.53 Hegel sublinha neste texto que os “negócios especiais
e as ações do Estado. .. lhe são próprios” e “ligados aos indivíduos que os
manipulam e exercitam, não de acordo com sua imediata personalidade,
mas conforme suas qualidades objetivas gerais, unidos assim de modo
exterior e fortuito com a personalidade singular enquanto tal. Os negócios
e poderes do Estado”, conclui o parágrafo 277 de Hegel, “não podem,
por isso ser propriedade privada". Esta última frase é tida por Marx como
pura tautologia, pois, se os negócios do Estado são propriedade do Estado,
não podem ser propriedade privada — isso resulta da própria separação
entre Estado e sociedade. Max afirma, além disso, que a antecipação por
parte de Hegel de uma temática materialista e a relação por ele estabelecida
entre indivíduos e formas sociais de vida, que em princípio é tida como
indiferente exterior, não passam de pura bobagem, se forem confrontadas
com a idéia da verdadeira natureza do homem: os negócios e atividades
do Estado estão orientados a indivíduos (o Estado somente pode agir
através dos indivíduos), mas não aos indivíduos enquanto elementos
físicos e sim, enquanto formam um elemento do Estado. Os negócios
e atividades do Estado estão vinculados à qualidade estatal do indivíduo.
Marx conclui daí ser ridícula a afirmação de Hegel de que eles estão apenas
“unidos de modo exterior e fortuito à personalidade singular enquanto
tal". Porque no seu entender existe entre eles e os indivíduos um liame
essencial, um vinculum substantiale. Eles constituem as ações naturais
de uma qualidade essencial. E Marx insiste que o absurdo se instala em
Hegel porque este entende os negócios e atividades do Estado de modo
abstrato, em si mesmos, opondo-os às individualidades; esquece, porém
que a individualidade particular constitui uma função humana e que os
negócios e atividades do Estado constituem diferentes funções humanas;
ele esquece que a essência da “personalidade particular” não é a sua
barba, seu sangue, sua natureza abstrata, mas sua qualidade social, e que
os negócios do Estado etc. não são nada mais do que modos de ser e de
agir da qualidade social do homem. É compreensível, pois, que os indiví­
duos, enquanto portadores dos negócios e poderes do Estado, sejam
considerados conforme sua qualidade social e não conforme suas qualida-

14
des privadas.6 Esta essência do homem ainda não se realizou até hoje, ou
seja, noutras palavras: o homem viveu até agora em condições que se
opõem à sua determinação verdadeira, à sua natureza social.
Aqui se revela um modelo básico da crítica, que encontramos
reiteradas vezes na obra posterior de Marx. Na Ideologia alemã ele critica
de modo paradigmático a identificação entre propriedade privada e perso­
nalidade, entre bourgeois e indivíduos7, praticada pelos jovens hegelianos;
ao passo que nos escritos econômicos ele abordará a identificação das
formas de produção social com os seus aspectos de natureza, que ele
considera a forma mais abstrata do método burguês, que tem como conse­
qüência a eliminação prévia de toda a dimensão histórica; nestes primeiros
momentos da controvérsia com Hegel a crítica alimenta-se do trabalho de
decifração de uma identificação inadmissível: a da essência com a existência
falsa, equivocada. “Hegel não deve ser censurado por ter descrito a essência
do Estado moderno, como ele é, mas por ter imaginado que aquilo que é
constitui a essência do Estado”.8 Esta essência é a democracia antecipada
por Marx, o resultado de um desenvolvimento da história mundial, no
interior do qual é possível descobrir a precariedade das formas que o
Estado assumiu no passado. A democracia constitui “o enigma solucionado
de todas as constituições”, a “verdade da monarquia, a monarquia não é a
verdade da democracia. . . A democracia pode ser entendida a partir de
si mesma. . . a monarquia não. . . ”.9 Marx formula aqui, com o auxílio
de categorias políticas, um estado de coisas que Engels iria delinear poste­
riormente de modo muito mais genérico ao afirmar que somente os homens
foram capazes de fazer a sua história, embora a tenham feito apenas de
modo consciente e não autoconsciente. Para o jovem Marx a democracia
é o estágio autoconsciente, no qual os homens se reconhecem como
criadores de sua própria história, ao olharem para o seu passado; no inte­
rior dela os homens consideram a sua constituição política como sendo um
produto seu, obtido de modo consciente. A partir deste estado é possível,
a seguir, interpretar as demais formas de Estado como o “ser-em-si * da
democracia, como formas que ainda não são reconhecidas como produto
da atividade humana. Existe uma passagem na primeira edição do Capital,
onde se equipara expressamente o dinheiro, a forma geral do valor, a um
elemento geral não produzido pelo entendimento, que òbtém por si mes­
mo uma existência particular — “. . . É como se ao lado e afora os leões,

15
os tigres, os coelhos e todos os outros animais reais. . . existisse também
o animal, a encarnação individual de todo o reino animal. . . ” 10 - portan­
to, como se existisse a unidade, o próprio gênero em forma particular,
tomando possível o aparecimento das outras formas particulares enquanto
particulares (as coisas aparecem como coisas, como momentos particulares
da unidade social pelo fato de terem um preço); de modo análogo, a
democracia também é entendida como um gênero de constituição dotado
de uma existência particular, que faz as outras formas parecerem limitadas:
“Neste ponto a constituição é sempre deduzida de seu verdadeiro funda­
mento: o homem real, o povo real, e colocada como sua obra própria,
não somente em si, conforme a essência, mas de acordo com a existência
e a realidade. . . a ligação dela com as demais formas de constituição é
semelhante à do gênero com as espécies; aqui a diferença está em que o
próprio gênero se configura como existência, aparecendo por isso em
relação às existências correspondentes —que não correspondem à essência —
como se fosse uma espécie particular”.11
Como se configura o processo de desenvolvimento da humanidade,
tomado visível através desse “enigma soludonado de todas as constitui­
ções”? A democracia é caracterizada através de duas determinações essen­
ciais: de um lado, somente ela constitui a verdadeira e real unidade do
geral e do particular; de outro lado, o povo sabe que nela a constituição
é um produto seu, autoconsciente, estabelecido por ele. Fiquemos na
primeira determinação: caso a democracia tenha que ser entendida como
unidade real desses dois momentos, do geral e do particular, teremos que
interpretar as constituições precedentes como formas falsas dessa unidade.
O ponto de partida desse desenvolvimento passa a ser então a unidade
falsa na forma da imediatez, que irrompe abrindo caminho por entre os
extremos, procurando atingir sua verdadeira figura. Sob esta construção é
subsumida a representação hegeliana, que Marx aceita como descrição
quase satisfatória de uma faticidade empírica, isto é, da relação especifica­
mente moderna entre sociedade civil e Estado político (mesmo que seja
apenas como descrição e não como cópia da “lógica da coisa” em si
mesma), uma estrutura que se configura a partir de uma forma, que era
caracterizada através da unidade entre política e esfera privada. Estas
ainda não aparecem de forma separada, estando imediatamente entrela­
çadas: “Na Idade Média havia os servos, a propriedade feudal, a corporação

16
dos artesãos, a corporação dos intelectuais, etc., ou seja, na Idade Média
a propriedade, o comércio, a sociedade e o homem eram políticos; o
conteúdo material do Estado era estabelecido através de sua forma; cada
esfera privada possuía um caráter político ou constituía uma esfera política,
ou seja, a política constituía também o caráter da esfera privada”. 12
Ainda inteiramente jovem hegeliano em sua alegria de formular (a qual,
todavia, é claramente provocada pela figura crítica da reduplicação falsa,
tida quase como um reflexo, que fomenta uma organização de formula­
ções lingüísticas, cuja seriedade nem sempre é convincente, fazendo surgir
freqüentemente a suspeita de que estamos diante de um momento de jogo
de linguagem que procura tomar-se independente e que excede de longe a
intenção crítica, opondo-se inclusive a ela), Marx conclui o seu trabalho
de caracterização geral das condições da Idade Média com uma fórmula
extremamente lacônica: “Na Idade Média a constituição política é a cons­
tituição da propriedade privada, porque a constituição da propriedade
privada é uma constituição política”.13 De modo análogo ao do “enigma
solucionado de todas as constituições” , que é o estado plenamente reali­
zado da liberdade, da unidade purificada do geral e do particular, a Idade
Média é interpretada como liberdade em forma da imediatez, como forma
ingênua, pouco inteligente, da própria essência: “A Idade Média foi a
democracia da servidão”.14 Esta unidade abre-se em dois momentos
separados. No momento em que o comércio se toma independente da
propriedade, o geral também se divide, assumindo a forma de Estado,
que passa a ostentar uma forma independente enquanto Estado, enquanto
Estado político. A gênese de um dos momentos não pode ser separada
da gênese do outro”. A abstração do Estado enquanto tal é própria aos
tempos modernos, porque a abstração da vida privada surgiu somente nos
tempos modernos. A abstração do Estado político constitui um produto
moderno”.15 As formas que surgem no interior deste processo de separa­
ção, a república e a monarquia, são caracterizadas sem maiores detalhes
como figuras diferentes do Estado abstrato, cujas diferenças não devem
merecer grande atenção. “A disputa entre a monarquia e a república
ainda continua sendo uma disputa no interior das fronteiras do Estado
abstrato”.16 Em ambos os casos trata-se, em última instância, de uma
unidade equivocada desses momentos, porque se trata apenas de modifi­
cações de uma forma exterior - mesmo que falsa — e de um conteúdo

17
que não lhe é essencial: “A propriedade, etc., em síntese, o conteúdo
inteiro do direito e do Estado é, com poucas modificações, o mesmo na
América do Norte e na Prússia. Pois, lá a república é uma forma de Estado,
como aqui o é a monarquia. O conteúdo do Estado não se identifica
com essas constituições. Por isso, Hegel tem razão quando diz: “o Estado
político é a constituição, o que equivale a afirmar que o Estado material
não é político. Aqui existe apenas uma identidade exterior, uma determi­
nação recíproca”.17
Detenhamo-nos agora no segundo aspecto. A passagem para a
derradeira forma, a democracia, dá-se conforme o modelo da emancipação
descrita por Feuerbach. Um elemento objetivo transforma-se em algo
subjetivo, a autoconsciência indireta numa direta — o Deus detentor do
poder (como domínio incontrolável sobre si mesmo sob a forma de uma
generalização abstrata, que a si mesma era intransparente) é destituído de
seu poder! A passagem para a democracia vem acompanhada de uma
emancipação frente a qualquer tipo de supremacia de um falso elemento
geral, o qual - originariamente simples momento particular - se inflou,
assumindo os contornos de um poder falso, de um elemento primeiro. Na
democracia, a constituição como tal, instituída pelo povo, está sempre
presente: “Na monarquia, por exemplo, esse elemento particular, a consti­
tuição política, tem o sentido do geral que determina e comanda todo o
particular”.18 Deste modo, em todas as formas não democráticas predomi­
nava o “Estado, a constituição, a lei”, mas esta prevalece somente durante
o tempo em que os homens suportam o seu predomínio. Portanto, o
desenvolvimento histórico consiste no fato de os homens detectarem
sempre novas formas de objetivação e de recusarem-nas como tais, até o
ponto em que se chega à rejeição da derradeira forma possível de aliena­
ção: “O mais difícil foi a formação do Estado político, da constituição,
a partir dos diferentes momentos da vida do povo”. A constituição desen-
volveu-se como a razão geral em confronto com as demais esferas, como
um elemento situado além destas. A tarefa histórica consistia, por isso, em
sua reivindicação, mas as esferas particulares não têm neste instante a
consciência de que a sua existência privada coincide com a essência da
constituição ou do Estado político - que funciona como um além - e que
a sua essência na forma de além nada mais é do que o elemento afirmativo
de sua própria alienação. A constituição política foi até o presente a esfera

18
religiosa, a religião da vida do povo, o céu de sua generalidade contraposto
à existência terrena de sua realidade.. . 19
Fizemos um relato mais detalhado da construção dessa história que
ainda aparece prenhe de elementos idealistas, porque sem este pano de
fundo seria impossível entender bem as críticas que visam detalhes, nem as
longas controvérsias. Aqui não é o lugar para se retomar esses detalhes;
interessamo-nos, antes de mais nada, pela gênese dos conceitos que encon­
tramos na interpretação da história, caracterizada pelo próprio Marx como
materialista, sem nos preocupar em discutir se estes conceitos podem con­
tinuar sendo mantidos em sua forma, no momento em que se configura
uma nítida posição materialista. Isso vale principalmente para o conceito
de reduplicação e de comunidade (Gemeinschaftlichkeit) ilusória. A
Ideologia alemã faz menção explícita de ambos.
Para Marx, o “enigma do misticismo” se apresenta precisamente
quando Hegel caracteriza a consciência do Estado em sua forma empírica
real, enquanto consciência pública, como sendo apenas o pot-pourri de
“pensamentos e de idéias dos muitos”. Neste ponto, Hegel leva a interpre­
tação de um mundo, já falso, aliás, ao ápice. Marx se pergunta se o Estado
pode deixar de ser a instância que trata dos “interesses gerais” do povo,
portanto os interesses de cada um em particular — e ao colocar esta per­
gunta ele fornece algumas determinações mais precisas daquilo que ele
entende por “essência de todas as constituições”, por “contra-imagem”
democrática, que ele passa a confrontar com a concepção hegeliana.
Já ouvimos dizer que a existência do homem na forma de Estado constitui
um momento determinado e essencial da qualidade social do homem, a tal
ponto que o impedimento desta sua “ação natural” equivaleria à exclusão
do homem da sociedade humana: “Num Estado racional é muito mais
imperioso um exame para alguém tomar-se sapateiro, do que para tomar-se
funcionário executivo do Estado; pois, a confecção de sapatos é uma
habilidade sem a qual é possível alguém ser um bom cidadão, um homem
social; entretanto, o necessário ‘saber de Estado’ é uma condição sem a
qual teríamos que viver num Estado fora do Estado, por nossa própria
conta, sem oxigênio”.20 E dado que isso constitui uma de suas funções
essenciais, é auto-evidente que ele, na qualidade de membro do Estado,
somente pode participar dos assuntos de interesse geral através de consul­
tas e resoluções, pois, somente esta atividade constitui a “efetivação do

19
Estado enquanto assunto real”. Noutras palavras: a forma que serve para
revestir de realidade os assuntos gerais não pode ser dissociada do conteú­
do. O próprio povo, isto é, a vontade da espécie, constitui o assunto geral;
entretanto ele somente será a vontade real da espécie, quando existir
numa forma autoconsciente e geral. Entretanto, qual foi a maneira encon­
trada por Hegel para representar este estado de coisas? Marx critica em
Hegel a separação introduzida entre substância e sujeito, entre o “ser-em-si”
(Ansichsein) e “ser-para-si” (Fürsichsein) dos assuntos gerais taxando-a
de misticismo abstrato. Para Hegel, o assunto geral já existe como negócio
do governo, na forma do ser-em-si, à qual a forma do ser-para-si tem acesso
de modo exterior. “O elemento corporativo”, é dito no § 301 da Filosofia
do direito, “é determinado de tal maneira, que o assunto geral passa a ter
vida não somente em si, mas também para si, isto é, que o momento
formal da liberdade subjetiva, a consciência pública, se concretiza como
generalidade empírica das opiniões e pensamentos dos muitos”. Se compa­
rarmos as idéias de Hegel com a noção de Estado verdadeiro, de Marx,
descobriremos que Hegel representa o processo de modo invertido (o que
o aproxima muito mais do verdadeiro estado de coisas):não são os sujeitos,
os membros singulares do povo, que se objetivam em seus interesses e
assuntos gerais, que se determinam a si mesmos: o que acontece é que
os assuntos gerais, em si mesmos já consolidados, “vêm ao sujeito”, neces­
sitam dele quase que por razões lógicas, a fim de poderem existir não
apenas nesta forma, mas também em outras.
Essa representação hegeliana equivocada da essência, ou seja, esta
representação correta da existência irreal da essência é criticada excessiva­
mente por Marx, provavelmente como fruto de um exercício superabun­
dante do “jogo de linguagem dos jovens hegelianos” : “Hegel idealiza a
burocracia e concretiza a consciência pública. Hegel pode tratar a consci­
ência real muito à part, precisamente porque ele tinha tratado a cons­
ciência à part como se fora a pública. Ele não sente necessidade de se
ocupar da existência real do espírito do Estado, uma vez que ele imagina
que esta já está realizada de modo conveniente nas assim chamadas exis­
tências”.21 Pode-se vislumbrar no âmago da crítica o pensamento que leva
a concluir pelo conteúdo, uma vez constatada a exterioridade da forma
com relação ao conteúdo. Sendo a forma apenas formal e existindo o
conteúdo também noutras formas, isso significa, ao contrário, que a forma,

20
que deve valer para a forma real do conteúdo, não possui esse conteúdo
real como seu conteúdo. Fixemo-nos no primeiro aspecto, que parece
reproduzir a formulação originária do conceito de comunidade (Gemeins-
chaftlichkeit) ilusória, que posteriormente aparece na Ideologia alemã. Os
interesses e assuntos gerais surgiram sem a intervenção do povo, existem
como negócio do governo. Portanto, quando aparece o elemento corpora­
tivo, a forma que é-para-si, ela não passa de mera forma aparente: “O
elemento corporativo constitui a existência ilusória dos negócios do Estado
enquanto um assunto do povo. A ilusão de que o assunto geral constitui
um assunto geral, um assunto público, ou a ilusão de que a coisa do povo
constitui um assunto geral. . . O elemento corporativo nada mais é do que
ilusão política da sociedade civil".22
Portanto as consultas e decisões dos sujeitos, a representação das
opiniões e pensamentos da maioria na reunião corporativa constitui, em
sua forma pura, uma ilusão real, uma vez que ela pretende negociar as
coisas do povo como sendo um assunto geral, como se a coisa do povo em
geral pudesse ser tratada dessa formá. E Marx chega assim ao segundo
ponto desta crítica. Se esta forma for em si mesma apenas o modo de
existir formal de um conteúdo que lhe é exterior, então este conteúdo
pronto, existindo até agora apenas na forma de um em-si, não pode
constituir o assunto geral. A exterioridade que a forma revela em relação
ao conteúdo tem de estar ela mesma numa relação essencial com o con­
teúdo: nesta forma determinada ela tem de continuar sendo expressão
do conteúdo. “O Estado modemo, no qual o ‘assunto geral’ e a preocupa­
ção com ele constituem um monopólio e no qual os monopólios consti­
tuem os verdadeiros assuntos gerais, fez a curiosa descoberta de que deve­
ria apropriar-se do ‘assunto geral’ como uma simples forma. (A verdade é
que somente a forma é um assunto geral). Com isso, ele encontrou a
forma que correspondia ao seu conteúdo, o qual é somente na aparência o
assunto geral verdadeiro”.23 Se não tivéssemos em conta a controvérsia
que levou Marx a ocupar-se novamente de Hegel ou se olvidássemos os
seus relatos sobre debates havidos na câmara renana sobre a lei de furtos
de lenha, teríamos elementos para supor aqui um momento de jogo de
linguagem vazio. Entretanto, algumas páginas mais adiante se afirma, numa
breve referência, que o estado proletário, o estado do trabalho imediato,
não constitui tanto o “estado da sociedade civil e sim o terreno sobre o

21
qual os seus círculos se movimentam e descansam”.24 A singular dualidade
entre forma e conteúdo, que transparece nestas formulações, pode ser
interpretada como a reprodução de uma estrutura na qual o Estado polí­
tico, como forma destacada da sociedade civil, não somente deve ser
deduzido da estrutura determinada desta sociedade, mas é Estado de
classes precisamente nesta forma específica.
Antes de aprofundarmos este tema, que em Marx aparece sob o
enfoque da reduplicação, convém retomar novamente a construção da
história, uma vez que não é possível discutir este aspecto se o dissociarmos
do idealismo que o acompanha. Aqui se mostra de modo mais evidente o
alcance do procedimento que o próprio Marx apostrofa como sendo
“culto ao homem abstrato” e se toma ao mesmo tempo compreensível
por que precisamente este momento da teoria do Estado não aparece mais
nos escritos posteriores. Isso pode ser comprovado pela própria linguagem.
O fato de Marx insistir na “Sagrada Família” sobre o homem constitui
um indício seguro de que ele não conseguiu desvencilhar-se completamente
do pensamento de Feuerbach. O homem abstrato é a essência, que perma­
nece sempre igual a si mesma; e a força propulsionadora do processo histó­
rico não é vista, como vai acontecer mais tarde, na contradição entre forças
produtivas e relações de produção, mas na contradição entre essa essência
e os respectivos modos de existir do homem, sempre inadequados, os
quais, porém, e em sua própria determinabilidade, são produtos do homem
(mesmo que este não os apreenda sob este ângulo). Todos os tipos de
organização e de instituição que encontramos são objetivações do homem.
Conforme já observamos, Marx retoma, de um lado, a idéia hegeliana de
que o homem moderno se auto-desequilibrou; entretanto contrapondo-se
às afirmações de Hegel, ele insiste que não se trata de um desequilíbrio
ou ruptura interior apenas pensados, mas reais. No momento em que se
atribui ao pensamento abstrato a pecha de superficialidade, pode restar
o consolo de que tal denúncia é refutável: o pensamento somente pode ser
tão bom ou tão ruim quanto a própria realidade: “Entretanto, não é culpa
desse pensamento que a ‘determinação, membro do Estado’ seja uma
determinação ‘abstrata e sim do desdobramento do pensamento de Hegel
e das condições modernas reais que pressupõem a separação entre a vida
real e a vida do Estado e que fazem da qualidade do Estado uma ‘determi­
nação abstrata’ do indivíduo que é membro do Estado”.25 Por isso, a

22
separação entre Estado e sociedade nada mais é do que expressão da
divisão do homem: “No indivíduo transparece aquilo que a lei geral é.
A sociedade civil e o Estado estão separados. Portanto, também o cidadão
do Estado e o cidadão como membro da sociedade civil estão separados.
Portanto, ele tem de suportar em si mesmo uma desunião essencial. Na
qualidade de cidadão real, ele se encontra numa dupla organização, na
burocrática — que é uma determinação formal exterior do Estado geral,
do poder do Estado, que não chega a tocá-lo nem a sua realidade individual
autônoma — e na social, que é a organização da sociedade civil”.26 O
homem, a natureza humana, existe sob a forma da alienação; de um lado
sob a alienação burocrática do governo e de outro lado sob a alienação
social da sociedade.
Um segundo aspecto merece ser considerado. Como já foi salientado,
o processo histórico é empurrado para frente através da contradição entre
essência e existência inadequada. A contradição como inquietação impul­
sionadora desaparece por si mesma quando ambas, essência e existência
chegam como que a se identificar na democracia. Pudemos constatar que
a partir do momento em que se toma a democracia como a verdadeira
unidade do geral e do particular é possível interpretar as constituições do
Estado anteriores como configurações limitadas e precárias desse gênero
de constituição: a Idade Média, de um lado, por ser a unidade imediata de
ambos os momentos, pode ser interpretada como “democracia da servi­
dão” ; a constituição moderna, de outro lado, pode ser vista como uma
situação extrema que tem de ser atravessada pelo processo histórico,
a fim de atingir a unidade ‘para-si’ num nível superior. É preciso focalizar
um pouco melhor esta construção. Se a democracia vale como o modo
adequado de existência do ser humano no qual se toma consciente e
diretamente como objeto o elemento geral do homem, aquilo que ele
compartilha com cada homem em particular, seu ser comum, sua unidade
que o liga com todos os outros, então a Idade Média tem de ser vista
como o contrário absoluto de tudo isso. Nela o homem se encontra inteira­
mente separado de sua essência (na medida em que esta se toma objetiva
para ele), precisamente por existir unidade imediata com o particular:
“Nos pontos onde ela não é uma tradição da Idade Média, a constituição
corporativa é uma tentativa (desenvolvida) em parte na própria esfera
política, para relançar o homem no âmbito restrito de sua esfera privada,

23
para transformar sua particularidade numa consciência substancial e para
transformá-lo novamente num ser social através da existência política da
diferença de estamentos”.27 O indivíduo singular está totalmente envol­
vido pelas corporações, estamentos e outros tipos de estabilização de tipo
supra-individual, ele é um indivíduo “parado”, que coincide com uma
determinação, que Marx, apoiando-se na distinção hegeliana entre existên­
cia humana e animal, determina como existência animal da humanidade:
“O estamento não se apóia somente na lei predominante da separação
da sociedade; ele separa o homem de sua essência geral, ele o transforma
num animal, que coincide imediatamente com a sua determinabilidade.
A Idade Média é a história animal da humanidade, sua zoologia”.28 De
outro lado, a “era moderna, a civilização”, constitui um grande progresso.
Pois, a divisão (diremptio) do homem o aproxima de sua essência geral,
ou seja, noutras palavras: ele se aproxima de sua essência — mesmo que
isto ainda aconteça numa forma falsa e equivocada, abstrata.
A existência abstrata do indivíduo é necessária preliminarmente
como a única figura possível, na qual o homem consegue libertar-se de sua
realidade falsa: “Em seu significado político o membro da sociedade
burguesa liberta-se de seu estamento, de sua posição privada real; o que
importa é que ele adquire importância enquanto homem, ou que sua
determinação enquanto membro do Estado, enquanto natureza social
apareça como sua determinação humana".29 Nos esboços acima delineados,
o existir político concreto da sociedade civil, isto é, o elemento corporati­
vo, foi interpretado exclusivamente por um ângulo negativo;na considera­
ção ora em foco é ressaltado o elemento positivo imanente, o elemento
emancipatório, que não se manifesta por si mesmo. Marx argumenta da
seguinte maneira: a unidade imediata de ambos os elementos é rompida
em benefício de uma separação (diremptio), a qual, porém, não consegue
atingir uma concreção imediata numa forma inteiramente concluída. 0
governo, a burocracia, que já tivemos ocasião de conhecer como sendo o
“ser-em-si” dos assuntos e interesses gerais, constitui uma escala interme­
diária para o “ser-para-si” desses interesses: “A sociedade civil efetua aqui
no interior de si mesma a relação entre o Estado e a sociedade civil, que já
existe alhures na forma de burocracia”?0 Entretanto, o “ser-para-si” do
interesse geral, portanto, a reunião corporativa, só pode adquirir existên­
cia, se o cidadão conseguir separar-se de sua realidade empírica, transfor­

24
mando-se num idealista do Estado: “No elemento corporativo o geral se
transforma realmente para-si, naquilo qye é em-si, isto é, um elemento
oposto ao particular. O cidadão tem de deixar a sua corporação, a socieda­
de civil e o estado privado, a fim de obter relevância e efetividade política;
porque precisamente este estado está situado entre o indivíduo e o Estado
político”.31 Podemos, pois, considerar um idealista do Estado aquele
indivíduo que se separa «da organização civil, porque ele lança fora toda a
sua particularidade; ele deixa atrás de si tudo aquilo que caracteriza sua
realidade empírica — o que sobra é a sua individualidade: “Portanto, para
se comportar como um verdadeiro cidadão do Estado e obter importância
e efetividade política, ele tem de sair de sua realidade civil, abstrair dela
(grifo de H. Reichelt), retirar-se de toda esta organização para o interior
de sua individualidade; pois, a única existência que ele encontra para a
sua condição de cidadão do Estado é a sua pura e simples individuali­
dade”? 2
Embora a totalidade da existência pregressa tenha atingido o círculo
completo de sua existência particular, embora tenha existido em diferentes
formas, esta nova forma de coletividade só pode abranger o homem em
sua individualidade (Este aspecto da individualidade “liberada” será reto­
mado na Ideologia alemã — Uma das características da sociedade futura
é propiciar aos indivíduos enquanto tais o estabelecimento de relações
recíprocas). Todavia, ainda não existe, ela ainda não é real. Dado que o
homem possui sua realidade objetiva no interior da organização, sua essên­
cia realmente humana, em sentido enfático, só pode aparecer em forma
limitada, sob a forma de uma existência política abstrata: nos tempos moder­
nos a idéia de Estado só pôde aparecer por si mesma, no seu estado real,
na abstração do Estado, que é apenas político, ou na abstração da socie­
dade civil-, por isso, constitui mérito dos franceses o ter retido esta realidade
abstrata, produzindo assim o próprio princípio político. Portanto, a
abstração que se costuma criticar neles é uma verdadeira conseqüência e
o produto de uma meníãlidade pública reencontrada no interior de uma
oposição, mesmo que seja uma oposição necessária”.33 Formulações do
tipo “mentalidade pública reencontrada” são expressão de uma concepção
do sujeito e do objeto delineada em termos de uma filosofia da história
de cunho idealista, que vê a humanidade emancipando-se de suas próprias
condições calcificadas na objetividade: todavia, este “culto ao homem
abstrato” desaparece em Marx tão logo ele descobre o significado do pro­
cesso de trabalho para a autoconstituição do gênero humano. Aqui trans­
parece uma das idéias mais importantes, decisiva para a crítica da ideolo­
gia, que ocupará o lugar central no materialismo posterior: o Marx maduro
dirá que no momento em que a forma de existência burguesa for estabele­
cida equivocadamente como forma natural, não haverá mais possibilidade
de o teórico vir a ter um acesso às formas da superestrutura; ele não será
capaz de compreender à gênese de todas as formas de determinação
burguesas, caso não reconheça, enquanto tal, a inversão e a falsificação
central que está na base.
Temos que situar a crítica de Marx ao § 308 perante este pano de
fundo. Hegel repele a exigência de que “todos os indivíduos singularmente
considerados devem tomar parte nas consultas e nas decisões sobre os
assuntos gerais do Estado. . .”, por ser uma idéia que tenta introduzir
o “elemento democrático no organismo do Estado sem possuir qualquer
forma racional, a única que seria capaz de tomá-lo democrático”. Marx
contra-argumenta afirmando que sob as atuais condições esse elemento
democrático só pode ser assumido no organismo do Estado de modo
incompleto, uma vez que este já existe sem aquele momento democrático.
Mesmo assim, o alvo tem que continuar sendo o da concretização adequa­
da desse elemento democrático, o qual atribui a si mesmo a sua forma
racional no organismo estatal tomado como um todo”.34 Deverão “todos
os indivíduos” participar do poder legislativo ou deverão ser representa­
dos por intermédio de deputados? As colocações anteriores não deixam
outra saída a Marx que não seja a de interpretar esta pergunta no sentido
de uma problemática que, discutida nesta forma alternativa, não deixa de
ser uma discussão que se desenrola no interior do Estado político abstrato:
“constitui uma questão política abstrata”.35 Pois, de acordo com os
pressupostos apresentados, o homem não consegue obter uma existência
política no Estado civil a não ser nesta forma abstrata: a própria concepção
democrática ainda é limitada e precária, civil, na medida em que o mundo
civil, como única realidade objetiva do homem, é reduzido a esta exigência.
Isso ainda não está bem esclarecido neste momento; entretanto, o que se
visa através da rejeição de Hegel é o prolongamento político da pessoa de
direito, abstrata, do membro da esfera de circulação, purificado de toda a
particularidade, o qual está na base das idéias democrático-radicais. Isso

26
constitui uma exigência que se contradiz a si mesma, na medida em que se
busca, de um lado, um outro mundo do homem, um outro Estado, e se
absolutiza, de outro, o cidadão determinando que esta democracia consti­
tui apenas o dever em si mesmo, uma vez que a fórmula da superação
incorpora duplamente o elemento a ser transformado: como algo trans-
formável e, ao mesmo tempo, não-transformável. Por conseguinte, a
questão referente ao modo de a sociedade civil participar do poder legisla­
tivo, se através de delegados, ou se através de “todos os indivíduos”, cons­
titui apenas uma variação da seguinte pergunta: deve isso ser feito por
todos os indivíduos ou pelo indivíduo em particular? - uma diferença
irrelevante, apenas de número. Pois, a essência do sujeito, do indivíduo
particular abstrato, da particularidade, não se modifica pelo fato de todos
os indivíduos desenvolverem uma atividade no Estado civil.
Pelo contrário, no Estado que ainda se encontra em processo de
estabelecimento, no qual o elemento democrático ainda não assumiu
realmente uma forma racional, as coisas poderiam ser bem diferentes,
no entender de Marx: “Nem todos devem participar individualmente
das consultas e decisões sobre os assuntos gerais do Estado, pois, os indiví­
duos particulares participam das consultas e decisões sobre os assuntos
gerais enquanto ‘todos’, isto é, inseridos na sociedade e enquanto membros
da sociedade. Não todos os particulares, mas os particulares enquanto
formam uma totalidade”.36 Há um momento no qual se toma mais
preciso esse confronto abstrato entre sujeito e natureza, entre o sujeito
que aparece destituído de toda a singularidade, reduzido à nua e crua
forma de individualidade: esse momento surge quando se representa o
processo de passagem da sociedade civil para a nova forma social demo­
crática — e sob este aspecto passa a ter considerável importância a diferen­
ça no número dos que “participam do Estado”. Pois, o Estado político
constitui em sua totalidade o poder legislativo o qual, no estado (e enquan­
to expressão) da separação entre Estado político e sociedade civil, não
pode ser mais do que poder representativo. Para participar do Estado
político a sociedade civil necessita de deputados. E como conseqüência
disso, a exigência segundo a qual “todos individualmente” participam do
poder legislativo, não é realizável no interior desses pressupostos. Ela
expressa a vontade de todos os membros da sociedade civil, que querem
transformar-se de fato em cidadãos, portanto, que pretendem emancipar-se

27
na sociedade civil e fazer da existência política sua verdadeira existência.
Isso, porém tem como conseqüência a transformação da situação global
— onde todos são legisladores não pode mais haver separação entre Estado
e sociedade civil; o Estado, cuja existência política depende da sociedade
civil, perde sua qualidade específica — o elemento político, a sociedade
civil, a forma civil. “Nesta situação evapora-se totalmente o significado
do poder legislativo enquanto poder representativo. Aqui o poder legislati­
vo é representação, mas no sentido em que toda a função é representativa
como, por exemplo, a do sapateiro, que é meu representante na medida em
que satisfaz a uma necessidade social, do mesmo modo que qualquer
atividade social determinada, enquanto atividade do gênero, representa
apenas o gênero, isto é, uma determinação de meu próprio ser, do mesmo
modo que todo o ser humano é representante do outro. Aqui ele é repre­
sentante, não através de um outro, que ele representa, mas através daquilo
que ele é e faz”.37 Enquanto “ser-para-si” dos assuntos gerais e já existindo
“em-si” no governo e na burocracia, a atividade parlamentar ou corpora­
tiva é simultaneamente uma maneira de se ocupar dos assuntos gerais
reais, a qual não é totalmente transparente por si mesma; em compensa­
ção, ela constitui o “ser-em-si” dos assuntos gerais reais, o qual assume na
democracia a forma de “ser-para-si”. O imperativo democrático da partici­
pação ampla de todos os membros da sociedade civil nesta forma alienada
de se ocupar dos assuntos comuns constitui, por isso e ao mesmo tempo,
o “questionamento do princípio representativo no interior do princípio
representativo, no interior da concepção básica do Estado político”.38
O imperativo democrático constitui a exigência, em si mesma confusa,
de superar a separação entre Estado e sociedade, a articulação de uma nova
unidade entre o geral e o particular, que ainda não se tomou inteiramente
clara. É neste sentido que Marx interpreta a luta em prol do direito geral
de voto: “A eleição constitui a verdadeira relação entre a sociedade civil
real e a sociedade civil do poder legislativo, que constitui o elemento
representativo. Ou seja, a eleição constitui o nexo imediato, direto, não
meramente abstrato, mas concreto, entre a sociedade civil e o Estado
político. Por isso, é evidente que a eleição constitui o interesse político
principal da verdadeira sociedade civil. Na eleição irrestrita, tanto ativa
quanto passiva, a sociedade civil conseguiu elevar-se realmente para o
nível da abstração de si mesma, para a existência política, que constitui

28
a sua existência geral, essencial e verdadeira. Entretanto, a consumação
desta abstração equivale, ao mesmo tempo, à eliminação desta abstração.
À medida que a sociedade civil estabeleceu realmente a sua existência
política como sua existência verdadeira, ela determinou simultaneamente
como não essencial a sua existência civil concreta naquilo que ela difere
de sua existência política; e junto com este elemento separado cai também
o seu outro, o seu contrário. A reforma do sistema eleitoral constitui, pois,
no interior do Estado político abstrato, a exigência de sua dissolução,
mas também e em igual medida, a da dissolução da sociedade civil”.39
Uma consideração mais atenta desta crítica inicial a Hegel pode
revelar que a teoria do Estado, de Marx, (caso queiramos supor que ela
já existe neste momento) deixa transparecer uma variedade de aspectos,
que podem ser interpretados como momentos entrelaçados de uma cons­
trução fechada em si mesma, cujo fechamento, porém, é obtido ao preço
do idealismo. Entretanto, não intencionamos acompanhar todos os deta­
lhes do desenvolvimento posterior desta questão, contentando-nos em
chamar a atenção para algumas passagens que aparecem nos escritos
posteriores. Marx reproduz inteiramente esta compreensão idealista da
história na famosa carta a Amold Ruge, onde ele identifica a natureza
humana abstrata, que subjaz à história, a uma forma de razão que sempre
teria existido, “mesmo que nem sempre em forma racional”. Ã luz desta
premissa, a crítica pode estender-se a toda a figura da realidade falsa,
uma vez que ela tem de comprovar-se na crítica como um modo de existir
do estado verdadeiramente humano, do qual o homem não tem plena
consciência. E uma vez que a história se “comprova” como seqüência
de dissimulações da consciência, a própria forma da práxis é influenciada
a limine: “Nosso lema de campanha tem de ser, pois: reforma da consci­
ência, não por intermédio de dogmas, mas através de uma análise da cons­
ciência mística que perante si mesma é intransparente, pouco importando
a forma que ela assume, religiosa ou política. E descobriremos então que
o mundo de há muito sonha com uma coisa, da qual ele somente precisa
ter a consciência, a fim de possuí-la realmente”.40
Na dissertação “Para a questão judaica ” Marx também não consegue
fugir ao fascínio da crítica hegeliana. O feudalismo é interpretado como
sociedade civil antiga, que se caracteriza através de uma unidade imediata
da vida política e civil, portanto, do mesmo modo como fora interpretado

29
na “Crítica do direito público hegeliano ”.40a A revolução política dissol­
veu o caráter político desta sociedade feudal, criando o Estado político.
“Ela destruiu a sociedade civil decompondo-a em seus elementos mais
simples. . . Desencadeou o espírito político, que estava como que dividido,
seccionado e esparramado pelos diferentes becos da sociedade feudal;
ela o reuniu, libertando-o da promiscuidade com a vida civil e o constituiu
como a esfera do ser comum, dos assuntos gerais do povo, numa indepen­
dência ideal com relação a qualquer elemento particular da vida civil. . .”41
Neste ponto Marx simplesmente repete teoremas já conhecidos, sem
explicitar, porém, que esta velha sociedade civil, na figura específica da
unidade imediata dos dois elementos, somente pode ser descoberta, se
se levar em conta a forma mais desenvolvida. Neste ponto a descrição do
processo de separação procura destacar quase exclusivamente o aspecto
emancipatório: a constituição do Estado político enquanto emancipação
do homem sob a forma do elemento político — que ainda é precária
e limitada. “A sociedade feudal estava decomposta em sua base, no
homem. Porém, no homem, enquanto constituía realmente o seu funda­
mento, no homem egoísta”.42 Uma vez que somente agora o cidadão foi
libertado, a emancipação humana não tem outra alternativa a não ser
realizar-se nesta forma política específica —e neste ponto Marx interpreta
o “idealismo do Estado” no sentido de um elemento democrático comum,
do qual o homem não tem plena consciência. “O homem real é reconheci­
do primeiramente na figura do indivíduo egoísta, ao passo que o verda­
deiro homem só é reconhecido na figura do citoyen abstrato”.43 A emanci­
pação real do homem somente poderá acontecer quando este conseguir
libertar-se por si mesmo da sua realidade civil, reconduzindo simultanea­
mente a forma política da existência comum à sua verdadeira figura.
“Somente quando o homem real retomar em si mesmo o cidadão do
Estado abstrato, isto é , quando em seu trabalho individual, em suas condi­
ções individuais tiver se tomado um ser do gênero, somente quando o
homem tiver reconhecido e organizado suas forces propres como forças
sociais, não se isolando mais, portanto, da força social que assume a figura
de força política, somente então estará realizada a emancipação huma­
na”.44 Como já foi notado, neste ponto Marx não vai além das idéias
desenvolvidas na crítica de Hegel, a não ser quando afirma que a verdadeira
emancipação deve incluir o processo de trabalho. Os passos dados a seguir

30

I
são marcados por uma singular oscilação entre princípios de procedência
distinta. De um lado se acentua cada vez mais a importância do processo
do trabalho humano para a auto-constituição da humanidade, o que
implica no abandono implícito do “culto ao homem abstrato”, de Feuer­
bach; de outro lado, a teoria do Estado ainda é exposta nos termos idealis­
tas deste “culto”, porém, com uma modificação essencial: quando se fala
da essência do Estado, não se considera mais a democracia como a verda­
deira unidade do geral e do particular, porque o Estado democrático
moderno, representativo, passa a ser visto como o único cuja forma permi­
te reconhecer em sua qualidade específica as outras figuras —este tinha
sido o papel da democracia. Podemos ler na Sagrgda família: “Longe de
ter criticado a essência da emancipação política e de ter saudado sua rela­
ção determinada com a natureza humana, ela (a crítica jovem hegeliana,
Helmut Reichelt) teria apenas atingido o fato da emancipação política, o
Estado moderno desenvolvido, portanto, apenas o ponto onde a existência
do Estado moderno corresponde à sua essência, ou seja, o ponto a partir
do qual é possível ver e caracterizar não somente as mazelas relativas, mas
também as absolutas, que constituem a sua própria essência”.45
Esta paralelização abrupta de princípios diferentes, que não se deixa
mais integrar naturalmente num constructo unitário, perdura na Ideologia
alemã. O processo de !uta entre o homem e a natureza está agora tão bem
fixado conceitualmente em seus momentos específicos, que este aspecto
pode ser tomado como base para a conceituação materialista da história.
Já na Crítica do direito público hegeliano o modo de existir civil é apos­
trofado como princípio do individualismo, ser superado, aos olhos do qual
toda a atividade, todo o trabalho, todo o conteúdo aparece como simples
meio a ser utilizado para se impor —portanto, um modo de existir no qual
o trabalho humano é exterior ao modo de existir social. Todavia pretender
concluir a partir daí que é possível deixar de lado o processo de trabalho,
no momento em que se elabora teoricamente o desenvolvimento da huma­
nidade, seria o mesmo que reduplicar esta exterioridade, o que equivaleria
à impossibilidade de se ter um acesso a uma descrição histórica verdadeira.
A exclusão teórica do processo de trabalho leva necessariamente ao idealis­
mo: “toda a compreensão histórica passada desconsiderou inteiramente
esta base real da história ou limitou-se a tratá-la como matéria secundária,
sem nenhum nexo com o devir histórico. Por isso, a história tem de ser

31
escrita sempre conforme uma medida situada fora dela; a verdadeira
produção da vida aparece como algo originário na história, ao passo que o
elemento histórico é tido como algo separado da vida, extra-mundano e
supra-mundano. E neste ponto a relação do homem com a natureza é
excluída da história, produzindo-se assim a oposição entre natureza e
história. Esta (maneira de ver a história, nota do trad.) não consegue
descobrir na história nada além de ações principais e ações do Estado,
nada além de guerras religiosas e lutas teóricas em geral, sendo constran­
gida a compartilhar com cada época histórica a ilusão dessa época. . .” 46
Este círculo teórico, no qual o elemento social continua a ser tido como
obscurecimento da consciência, somente poderá ser superado caso esta
exterioridade do processo de trabalho, que é essencial ao modo de ser
civil, vier a ser decifrada também como uma exterioridade essencial a esta
forma de existência e for conscientemente assumida pelo teórico e intro­
duzida na concepção do processo histórico. Marx dá esse passo na Ideolo­
gia alemã, o que permite a distinção abstrata entre dois momentos: de
um lado a história humana, vista como uma constelação de sujeito e objeto
que se encontra em constante mudança, inserido da natureza; nesta conste­
lação os dois pólos assumem respectivamente uma nova figura, mediados
reciprocamente no processo de trabalho. Trabalhando a natureza, os
homens se transformam a si mesmos junto com a natureza que os cerca.
Esta é a formulação mais abstrata para o conceito complexo das forças
produtivas humanas e naturais, tido como o princípio que na verdade
impulsiona o desenvolvimento histórico. O segundo momento é dado pelo
modo social de existência do homem, uma forma especial que corresponde
à constelação sujeito-objeto, que Marx tenta abranger através das catego­
rias resultantes das controvérsias anteriores. Não devemos, pois, ficar
surpresos ao constatar que no início ele estende por demais o conceito
de sociedade civil, definindo-o de um modo quase pré-civil, o qual inclui
tudo o que é civilizado: “A forma de comércio condicionada até aqui
através das forças de produção existentes em todos os níveis históricos
e que ao mesmo tempo, as condiciona, é a sociedade civil. . . Aqui se
mostra que esta sociedade civil é o verdadeiro palco e o foco da história
e como era irracional a compreensão que se tinha da história, na qual se
menosprezava as condições reais. . .”.47 Ao mesmo tempo Marx tem
consciência da problemática latente na base de seu conceito amplo de

32
sociedade civil, ao sublinhar que ele tem na mira um princípio estrutural,
ao qual ele atribui este nome por não encontrar um outro melhor: “A
sociedade civil enquanto tal só consegue desenvolver-se quando surge a
burguesia; a organização social que se desenvolve diretamente a partir da
produção e do comércio, que constitui em todos os tempos a base do
Estado e de outras superestruturas idealísticas semelhantes, passou a ser
caracterizada daí para frente com esse mesmo nome”.48 Portanto, a
formação dos conceitos não segue uma linha constante e nem é possível
estabelecer sempre de modo claro e distinto, se Marx está utilizando o
conceito como se fora um princípio organizacional metódico, ou se o está
empregando do modo como aparece na Crítica do direito público hegelia-
no ou no tratado Para a questão judaica, onde a sociedade medieval
aparece caracterizada como velha sociedade civil. Entretanto, qualquer
que seja a resposta a estas dúvidas, o certo é que Marx trabalha neste
ponto com pensamentos já insinuados na crítica a Hegel, servindo-se
expressamente desse conceito e inserindo-o numa interpretação materialis­
ta da história: “Esta compreensão da história procura desenvolver, de um
lado, o processo de produção real, tomando precisamente como ponto de
partida a produção material da vida imediata e interpretar, de outro lado,
a forma de intercâmbio que com ela se relaciona e que por ela é produzida,
portanto, a sociedade burguesa em seus diferentes níveis, como sendo o
fundamento de toda a história, descrevendo-a em sua ação enquanto
Estado e explicando que os diferentes produtos teóricos e formas de
consciência, a religião, a filosofia, a moral, etc. etc., derivam dela; final­
mente, procurando acompanhar o processo pelo qual estas surgem da­
quelas. . .”.49 Não pretendemos vasculhar neste ponto os detalhes das
idéias de Marx, apenas chamar a atenção para um princípio metódico
central, que é abordado pela primeira vez na Ideologia alemã, ou seja, a
distinção entre abstração e representação (Darsíellung). Não é por acaso
que Marx introduz esta distinção na Ideologia alemã. No momento em que
o processo de disputa do homem com a natureza passa a ser fixado em
seus momentos singulares e tomado como base da interpretação materialis­
ta do processo histórico, esta diferenciação impõe-se por si mesma. Uma
vez que se pretende descrever o processo de desenvolvimento do homem
abrangendo a sua verdadeira dinâmica, é preciso supor a possibilidade de
se pesquisar empiricamente os diferentes momentos, isto é, em sua respec-

33
tiva determinação, os quais podem então ser interpretados como uma
pluralidade de forças produtivas — caso contrário permaneceríamos numa
“abstração” desse processo histórico. Marx curva-se a esta suposição na
Ideologia alemã: “Lá onde cessa a especulação, isto é, na vida real, tem
início, portanto, a ciência real, positiva, a representação da atividade
prática, do processo prático de desenvolvimento do homem. . . Através
da descrição da realidade, a filosofia autônoma perde o seu médium de
existência. Ela pode ser substituída por um resumo dos resultados gerais,
que podem ser abstraídos da meditação sobre o desenvolvimento histórico
do homem. Estas abstrações não têm nenhum valor em si mesmas, isoladas
da história real. Podem servir apenas para facilitar a ordem do material
histórico, para sugerir a seqüência de suas camadas particulares. Em
nenhum momento, porém, são capazes de proporcionar, como a filosofia,
uma receita ou um esquema para ordenar as épocas históricas. Pelo contrá­
rio, a dificuldade começa no momento em que nos dedicamos à contem­
plação e à ordenação do material, à descrição real, seja de uma época
passada, seja da atualidade. . . Retiramos aqui algumas dessas abstrações,
que contrapomos à ideologia, as quais iremos elucidar lançando mão de
exemplos históricos”.50 Portanto, podemos encontrar na Ideologia alemã
resumos da compreensão materialista da história, nada mais do que instru­
ções para o verdadeiro estudo da história, para uma descrição dela. Não
deveríamos nos esquecer disso, a fim de não cairmos no erro de super-
valorizar a grande variedade de notas e de observações, que em grande
parte nada mais são do que repetições dos raciocínios contidos nos primei­
ros escritos, que agora passam a ser tidos como abstrações: não devemos
tomá-las como a verdade completa. Muitas vezes estas notas e observações
são lançadas com intenção polêmica e o materialismo nelas contido não vai
além daquilo que é “preciso” para refutar a compreensão idealista da
história, própria aos jovens hegelianos. Não obstante tentaremos analisar a
Ideologia alemã sob o ângulo da teoria do Estado, ou melhor, procurare­
mos saber se há indicações sobre a forma de realizar a representação, que
a Ideologia alemã ainda não consegue ultimar, e quais são os elementos da
teoria do Estado — tal como é conhecido até hoje — que são repetidos,
transformados, quais os que desaparecem e quais os elementos novos.
Atenhamo-nos de início às questões relativas ao método. Na crítica
do direito público Marx repete várias vezes que Hegel aceita ingenuamente

34
os dados empíricos subsumindo-os a uma estrutura categorial já pronta, do
que resulta possivelmente uma falsificação. Marx aceita o trabalho descriti­
vo de Hegel; passa a criticá-lo, porém, no momento em que este pretende
chegar a uma dedução e a um procedimento metódico rigoroso. Hegel
“não desenvolve seu pensamento a partir do objeto, mas o objeto de acor­
do com um pensamento que já se concluiu na esfera abstrata da lógica” ;51
“o momento filosófico não é a lógica da coisa, mas a coisa da lógica.
A lógica não serve para comprovar o Estado: este é que serve como prova
da lógica” .52 Das passagens citadas podemos deduzir que Marx supõe
haver uma lei imanente na coisa, à qual o método tem de se ajustar.
Entretanto, que coisa é essa e qual é o modo como ela se desenvolve?
Conforme já vimos, a filosofia hegeliana do direito não constitui problema
para Marx, se tomada sob o aspecto da descrição empírica da história. Ele
assume a sua descrição da separação entre Estado e sociedade como sendo
uma reprodução correta da realidade empírica e parece não querer perder
tempo elocubrando pensamentos sobre o método de reprodução desta
forma de dissociação. Porém, isso é apenas a aparência. Se observarmos
mais atentamente as coisas descobriremos, que Marx concebe sua própria
construção da história como expressão teórica da “lógica da coisa”, bus­
cando o princípio impulsionador da história na contradição que existe
entre essência e existência da constituição do Estado. A partir daí, desen­
volvimento ou dedução não pode significar nada mais do que descrição da
transformação da consciência. A atividade do indivíduo enquanto cidadão
do Estado, interpretada por Marx como sendo a única forma possível de
emancipação, por estar a realidade objetiva situada inteiramente na socie­
dade civil, constitui a antecipação do verdadeiro ser coletivo, praticada
numa forma política abstrata, da qual o homemnão tem plena consciência.
O homem público, o cidadão, é o homem que se emancipa da realidade
objetiva má do mundo civil: enquanto antecipação inconsciente da verda­
deira unidade do geral e do particular, ele se encontra em oposição e em
contradição com a sociedade civil. Portanto, quando encontramos na
Crítica do direito público hegeliano formulações que apontam para a
contradição entre existência privada e pública e que deduzem a configura­
ção do Estado político a partir desta contradição, temos que interpretá-las
todas, sem exceção, tendo em conta este pano de fundo.
A pergunta a ser colocada neste ponto é a seguinte: como ficam os

35
problemas metódicos entrevistos na Ideologia alemã e como abordar a
reprodução teórica da constituição de um Estado político distinto da
sociedade civil, no momento em que cai por terra a premissa idealista,
forçada pela explicitação do conceito de trabalho e pela formulação
concomitante da contradição entre forças produtivas e formas de comércio,
tidas nesta época como motores do desenvolvimento histórico? Mesmo
que se tente espremer essas formas em conceitos extraídos exclusivamente
da sociedade civil moderna, temos que admitir, em princípio, que várias
observações de Marx sobre o Estado não ultrapassam essencialmente
aquilo que já aprendemos de sua crítica ao direito público hegeliano.
Podemos ler, por exemplo, no capítulo sobre Feuerbach: “Através da
emancipação da propriedade privada em relação ao bem comum, o Estado
transformou-se numa existência particular ao lado e fora da sociedade
civil”.53 Ao mesmo tempo faz-se uma referência à gênese contemporânea
de ambos: através da propriedade privada pura, que “se despojou de toda
a aparência de bem comum”, o bem comum da propriedade privada,
isto é, os interesses comuns dos proprietários particulares, assumem uma
figura que se distingue da sociedade civil, a qual “no entanto, nada mais
é do que forma de organização que os burgueses (burgeois) introduzem
para garantir no âmbito interno e externo a sua propriedade e os seus
interesses”.54 A explicação do caráter de classe, inerente ao Estado, do
qual já se falou anteriormente e que parecia não se coadunar plenamente
com a concepção de natureza humana, extraída da filosofia de Feuerbach,
assume agora o primeiro plano: o Estado civil passa a ser nesta forma
específica de separação da sociedade, um estado de classes. Ele é Estado
político, mas somente graças à exclusão de uma parte da sociedade, que
não participa da atividade de cidadania. Podemos deduzir de uma referên­
cia feita nesta época num cademo de notas, que Marx está convencido de
que, com a generalização do direito de voto, desaparece o Estado e, ao
mesmo tempo, a sociedade civil.55 Afirma-se, além disso, que: “A esta
propriedade privada moderna corresponde (sublinhado por H. Reichelt)
o Estado moderno. . ,”.56 Esta é outra formulação que já conhecemos:
“O Estado moderno, no qual o ‘assunto comum’ e o tratamento do mesmo
constituem um monopólio e no qual, por outro lado, os monopólios cons­
tituem os assuntos comuns reais, teve a curiosa idéia de apropriar-se do
‘assunto comum’ como se fora uma simples forma. (A verdade é que

36
somente a forma constitui assunto de interesse geral); Com isso ele encon­
trou a forma correspondente (destaque de H. Reichelí) para o seu conteú­
do, que apenas na aparência constitui o interesse comum real”.57 Há indi­
cações explícitas de que esta forma autônoma de Estado, separada da
sociedade civil, não constitui uma autonomia do Estado, no sentido de
k m instituição sita sobre a sociedade, não dominada por ela. Isto somente
seria possível, talvez, caso fosse dada uma conjuntura na qual a nova
sociedade capitalista ainda não tivesse assumido totalmente o controle,
convivendo com resquícios da velha sociedade corporativa: “A autonomia
do Estado ainda aparece hoje em dia, mas somente nos países em que os
estamentos ainda não se desenvolveram plenamente assumindo a forma de
classes ou nos países mais desenvolvidos, onde os estamentos ultrapassados
continuam tendo influência, havendo uma mistura, de sorte que nenhuma
das partes da população consegue impor o seu domínio sobre a outra.
Este é o caso da Alemanha. A América do Norte é o exemplo mais convin­
cente de um Estado moderno. Os jovens escritores franceses, ingleses e
americanos proclamam unanimemente que o Estado somente existe em
benefício da propriedade privada, de tal sorte que esta idéia passou tam­
bém para a consciência comum” ,58
É preciso distinguir esta real autonomia do Estado face à autonomia
aparente, face ao engano sobre o verdadeiro caráter do Estado. A crítica
que Marx desencadeia contra essa “representação” tem início na Crítica
do direito público hegelia.no e permanece estruturalmente a mesma nas
obras posteriores dedicadas à crítica da economia. Na crítica ao direito
público se diz: “Qual é, pois, o poder do Estado político sobre a proprie­
dade privada? A própria força da propriedade privada, sua essência trazida
à existência. O que resta ao Estado político, em oposição a esta essência?
A ilusão de que ele determina, onde é determinado” .59 Â cansa desta
consciência equivocada, desta ilusão, reside, segundo Marx, numa inversão
inconsciente feita pelo teórico: este vê no proprietário o homem natural,
puro e simples. Ao afirmar isso Marx utiliza também outros termos: “A
propriedade privada não é mais um objeto determinado da arbitrariedade:
a arbitrariedade passa a ser o predicado determinado da propriedade
privada”.6 0 Uma vez que (aos olhos do pensador burguês) o proprietário
coincide imediatamente com o homem natural,· ele necessariamente se
engana sobre o caráter do Estado: este se lhe afigura como um elemento

37
autônomo, que se coloca por si mesmo, que “extrai de si mesmo” os
objetivos de sua atividade, ou que se orienta pelas determinações do
homem natural. A pretensa atemporalidade e generalidade de certas
normas pode ser desmascarada de modo abstrato como ideologia em senti­
do estrito, no momento em que se demonstra a sua gênese: esta prova
consiste em mostrar que o teórico se engana, passando a ver no cidadão
o homem puro e simples e que ele, devido a isso, não é capaz de atingir
todas as determinações desse homem especificamente histórico. No tratado
Para a questão judaica esse teorema da crítica da ideologia é objeto de
atenção. Após ter explicado longamente que nenhum dos “assim chamados
direitos humanos” ultrapassa o homem egoísta da sociedade civil, ou vai
além do indivíduo retraído sobre sua arbitrariedade privada, sobre seu
interesse privado, Marx acha “curioso que um povo, que apenas começa
a se libertar. . . a criar uma existência política comum, que tal povo
proclame solenemente a justificativa do homem. . . egoísta”.6 1 Como já
foi notado, para o Marx da Questão judaica a constituição do bem comum
político coincide diretamente com o ato da emancipação humana sob uma
forma precária e limitada, isto é, sob a forma política, de tal sorte que essa
proclamação somente pode ser vista como retrocesso na história da huma­
nidade. E os “emancipadores políticos” vão ainda mais longe neste mundo
equivocado quando degradam esse bem comum político à condição de
meio para a conservação dos direitos humanos, transformando assim o
homem emancipado num servo do bourgeois: “Portanto, mesmo nos
momentos de seu entusiasmo ainda juvenil e levada às alturas pela pressão
das circunstâncias, a vida política é tida como um simples meio, cujo alvo
é a vida da sociedade civil”.62 Não obstante, isto tudo ainda é teoria
uma vez que a práxis revolucionária está em contradição com isso. A
segurança, que é um direito humano, é ferida no instante em que a viola­
ção da correspondência postal passa a ser a ordem do dia; a liberdade de
imprensa, uma conseqüência do direito do homem, é aniquilada. De modo
geral: o direito do homem deixa de ser um direito no momento em que
entra em conflito com a vida política. A vida política transforma-se num
fim e o elemento civil aparece como meio. Todavia, essa práxis constitui
uma exceção, e no momento em que a consideramos é preciso explicar
por que “na consciência dos emancipadores políticos há uma inversão das
relações, isto é, o fim aparece como meio e o meio como fim. Esse engano

38
ótico de sua consciência continuaria sendo sempre um enigma, mesmo que
passasse a ser um enigma psicológico, teórico”.6 3 Sabemos qual é a respos­
ta a esta questão: “O homem real é reconhecido inicialmente na figura do
cidadão abstrato”.64 Uma vez que nosso interesse se volta apenas para
uma argumentação crítico-ideológica na medida em que esta constitui um
aspecto particular da teoria do Estado, não pretendemos estender a pesqui­
sa para saber até que ponto a formulação tecida por Marx a respeito do
estado geral de coisas padece do idealismo de sua própria construção da
história.
Na Ideologia alemã Marx aborda essa consciência equivocada em sua
origem, mas o faz através de poucas e obscuras frases. Estas somente
podem ser entendidas, em última instância, se colocadas perante o pano
de fundo da concepção acima sugerida e que foi desenvolvida na Ideologia
alemã, raras vezes de modo explícito. Ao mesmo tempo, estas indicações
contidas na Ideologia alemã devem ser tomadas como uma crítica implícita
à sua própria concepção, defendida pouco tempo antes, a qual parte da
idéia de que o povo foi dominado pela constituição, pela lei, portanto, por
elementos comuns abstratos. Como vimos, essa idéia que sempre acompa­
nhou a interpretação idealista da história passa a ser rejeitada por ser tida
como formulação de um pseudo-objeto: “Na linguagem todas as condições
podem ser expressas mas somente na forma de conceitos. Que esses concei­
tos e elementos gerais tenham o valor de forças misteriosas, isso nada mais
é do que uma conseqüência necessária da autonomização das condições
reais da qual elas são a expressão. Além da validade adquirida no interior
da consciência comum, esses elementos gerais obtêm ainda ema validade
particular, sendo buriladas pelos políticos e juristas os quais, através da
divisão do trabalho, desenvolvem o culto desses conceitos, vendo neles e
não nas relações de produção, a verdadeira base de todas as condições
reais de propriedade”.6 5
Na Crítica da economia política essa aparência falsa é abordada
expressamente no quadro de um tratamento sistemático do problema do
fetiche. Marx não rejeita abstratamente as idéias que se encontram no
direito romano ou nas teorias monetárias, que são explicitamente jurídicas:
eles as “supera” e “conserva” em sua teoria. Na Crítica da economia
política, de 1859, ele faz uma exposição sobre o dinheiro na qual aborda
a sua função primordial, bem como a forma não conceituai, objetiva e

39
puramente social do nome “dinheiro”, desenvolvendo neste contexto a
intervenção da atividade estatal: “Uma vez que a determinação da unidade
de medida, de suas alíquotas e de seu nome é puramente convencional,
devendo possuir também no interior da circulação o caráter de generali­
dade e de necessidade, ela tinha que transformar-se forçosamente numa
determinação legal. Por isso, a operação puramente formal passou para
a mão dos governos”.66 Se a atividade do governo não for considerada
no contexto desta elevação de um elemento naturalmente convencional
para o nível de um elemento geral, isto é, no interior desse desenvolvimen­
to necessário, que vai do dinheiro ao nome do dinheiro, pode surgir a
ilusão que leva a pensar que o dinheiro é produzido pelo Estado, tal como
é sugerido por A. H. Miiller, citado por Marx: “De acordo com nossa
opinião, todo o soberano independente tem o direito de designar a moeda,
atribuindo-lhe um título, um estado, uma categoria, um valor nominal
social”.67 Ao desenvolver a segunda função do dinheiro, Marx critica
algo análogo. A descrição das leis imanentes à circulação da mercadoria
não pode ser dissociada da descrição do processo civil de circulação num
nível mais concreto: “Quando a mudança de forma das mercadorias
aparece como simples mudança do emprego do dinheiro e quando a
continuidade do movimento de circulação está inteiramente do lado do
dinheiro. . . temos a impressão de que todo o movimento se origina do di­
nheiro. . . Parece que o dinheiro faz as mercadorias circularem, uma vez
que ele realiza os seus preços. . . O movimento da forma das mercado­
rias que circulam parece ser, por isso, o seu próprio movimento, que faz
a mediação entre as mercadorias que de si são imóveis. O movimento do
processo de circulação aparece, pois, no movimento do dinheiro — na
circulação monetária. . . Do mesmo modo que os donos de mercadorias
apresentavam os produtos de seus trabalhos privados como sendo produtos
do trabalho social, pelo fato de transformarem uma coisa, por exemplo, o
ouro, na existência imediata do tempo de trabalho geral, portanto, em
dinheiro, do mesmo modo eles se deparam agora com o seu próprio
movimento universal, através do qual eles negociam o metabolismo de seus
trabalhos na forma de circulação do ouro”.68 Esta inversão pouco transpa­
rente, que passa a ser traduzida em formulações de uma teoria da quanti­
dade, é elevada à potência quando da substituição do ouro como moeda
pelo papel moeda como câmbio indexado. A existência funcional do

40
dinheiro pode tomar-se independente frente à sua figura metal e transfor­
marle num sinal abstrato de valor no processo de circulação, uma vez que
o dinheiro funciona aí apenas como realizador dos preços. (Na Critica da
economia política Marx qualifica esse processo como idealização). Nesta
segunda determinação o dinheiro nada mais é do que o constante desapare­
cimento de si mesmo, um mero sinal de si mesmo; por isso pode parecer
que o valor de troca existe apenas no pensamento, não possuindo nenhuma
realidade própria fora das mercadorias. “Parece, pois, que o valor assinala­
do representa imediatamente o valor das mercadorias, uma vez que ele não
representa o ouro, mas se apresenta como um sinal do valor de troca, que
é expresso através do preço e que existe na mercadoria. No entanto, esta
aparência é falsa”.69 Marx continua o seu arrazoado afirmando que o valor
assinalado é imediatamente sinal do ouro e que através desse desvio ele se
transforma no sinal do valor da mercadoria. Tendo em vista a quantidade
de dinheiro em circulação, isto significa que a quantidade das notas de
papel é determinada pela quantidade da moeda-ouro, que as notas repre­
sentam na circulação. Esta ficção objetiva, que depende das leis da circula­
ção de mercadorias, pode provocar o surgimento de idéias falsas sobre o
alcance e o poder da atividade estatal: “A intromissão do Estado, que
emite o papel moeda como câmbio indexado. . . parece eliminar a lei da
economia. O Estado que se limitava a determinar o custo da moeda atri-
buindo-lhe um determinado peso em ouro e um determinado nome de
batismo e que na cunhagem da moeda apenas imprimia no ouro o seu
cunho, parece agora capaz de transformar papel em ouro, através da
simples magia do seu carimbo. Uma vez que as notas de papel seguem um
câmbio indexado, não há ninguém que possa impedi-lo de colocar em
circulação grandes quantidades dessas notas, atribuindo-lhes os mais
diferentes nomes. . . Entretanto, esse poder do Estado é pura ficção. Ele
pode catapultar para a circulação qualquer quantidade de notas e de
moedas, mas com esse ato mecânico cessa o seu controle. Levado pela
circulação, o símbolo de valor ou papel moeda cai sob o controle das leis
imanentes a esse processo”.70 Marx parafraseia neste contexto uma
passagem extraída dos Voyages and Traveis de Mandeville: “Este impera­
dor (de Cattay ou China) pode gastar quando quiser, sem limites. Pois, ele
não ê independente e faz o dinheiro utilizando papel ou couro impres­
so. . . ”.71 Contentamo-nos, por ora, com as indicações feitas. No entanto,

41
se pretendêssemos uma abordagem sistemática, teríamos que desenvolver
esta ficção falsa com relação ao poder do Estado, abordando todas as
categorias econômicas.
É chegado o momento de focalizar um outro aspecto da teoria do
Estado, o qual desaparece inteiramente nos escritos redigidos após a
Ideologia alemã; e ao tratá-lo temos que discutir antes, se ele não constitui
um resto idealista que se infiltra na primeira e mais conseqüente formula­
ção da interpretação materialista da história. Marx refere-se várias vezes
à “comunidade ilusória”, ao “Estado, aos sucedâneos da comunidade”,72 à
“comunidade fictícia, que se tomou independente com relação aos indiví­
duos (o Estado, o direito)” ;73 do contexto geral podemos deduzir inequi­
vocamente que o que está em jogo é o conceito de reduplicação esboçado
na primeira crítica a Hegel (e que foi apresentada na Questão judaica).
Mas não se discute se é possível ou não manter esse teorema, a partir do
momento em que se assume um novo pressuposto, o de que o motor do
movimento histórico reside na contradição entre forças produtivas e
relações de produção. Neste ponto convém ressaltar que a Ideologia alemã
não constitui um texto unitário. Sublinhamos também que Marx procura
interpretar o processo histórico servindo-se de categorias emprestadas à
sociedade civil; no entanto, a contradição entre forças produtivas e formas
de comércio que ele introduz neste contexto, é deixada completamente
no plano da pura afirmação. 0 próprio Marx dá-se conta disso, ao confes­
sar que: “Até hoje tomávamos os instrumentos de produção como ponto
de partida e mesmo assim se impunha a propriedade privada como necessá­
ria para determinados níveis industriais. Na indústria extrativa a proprie­
dade ainda coincide inteiramente com o trabalho; na pequena indústria e
em toda a agricultura tradicional a propriedade é conseqüência necessária
dos instrumentos de produção existentes; na grande indústria a contradi­
ção entre instrumento de produção e propriedade privada passa a ser um
produto seu e para produzi-lo ela deve ter atingido um elevado nível de
desenvolvimento. E quando ela existe toma-se também possível a supera­
ção da propriedade privada”.74 Esta passagem é importante, pois, revela
que Marx argumenta a partir de um determinado resultado histórico,
que ele une à idéia, já nossa conhecida, do desenvolvimento histórico inter­
pretado como uma determinada seqüência de níveis de emancipação, a
qual pode tomar-se compreensível a partir do ponto final da história.

42
Na crítica ao direito público hegeliano a emancipação política abstrata
fora interpretada como um processo no qual os indivíduos, seguindo a
única via possível, libertam-se de sua realidade objetiva limitada, de sua
singularidade na sociedade burguesa, podendo vir a reunir-se numa comu­
nidade democrática, mesmo que esta ainda não tenha atingido uma figura
completa, podendo “aproximar-se”, desta forma, de seu verdadeiro bem
comum, no qual eles passam a ser respeitados também como indivíduos;
neste momento, porém, esta linha de pensamento é estendida à figura do
processo de reprodução, passando a grande indústria a ser interpretada
como modo de produção no qual os indivíduos se emanciparam da ante­
rior limitação dos instrumentos de produção (uma limitação que produziu
necessariamente a propriedade privada), podendo chegar agora, pela pri­
meira vez, a um intercâmbio mútuo, livre de qualquer particularidade
acanhada: “Em nenhum período anterior as forças produtivas tinham
assumido esta figura indiferente com relação ao intercâmbio entre os
indivíduos enquanto tais, porque o seu próprio intercâmbio ainda era
precário, limitado. De outro lado, essas forças produtivas estão opostas
à maioria dos indivíduos, dos quais elas foram tiradas, ficando, pois, despo­
jados de todo conteúdo vital real, transformando-se em indivíduos abstra­
tos (sublinhado por mim, H. Reichelt), em condições de entrar agora num
intercâmbio recíproco uns com os outros, enquanto indivíduos”.75 Nos
escritos iniciais a construção inteira apoiava-se num determinado nível
de emancipação; ao passo que a Ideologia alemã toma a separação entre
produtores e meios de produção, peculiar ao processo de produção capita­
lista, como ponto de partida decisivo para a interpretação dos passos
anteriores da história: a forma determinada dos instrumentos de produ­
ção caminha junto com uma determinada forma de intercâmbio entre os
indivíduos, em cujo seio os indivíduos podem continuar o seu desenvolvi­
mento concorrendo com a natureza, até o ponto em que esse intercâmbio
se transforma para eles numa algema, da qual eles têm de se libertar através
de erupções sociais, a fim de abrir espaço para uma nova forma, que lhes
acena com a promessa de um novo estado de liberdade. Esta nova forma
tem de aparecer a seus olhos como um estado de liberdade, na medida em
que ele é adequado ao desenvolvimento de sua personalidade —o desenvol­
vimento ulterior das forças produtivas fará com que mesmo esta nova
forma seja sentida mais e mais com uma algema, a ser rompida, no final.

43
O processo chega ao fim no momento em que se estabelece um modo de
produção no qual os instrumentos de produção assumem uma tal amplitu­
de, que não podem mais ser aplicados isoladamente fora do contexto
social; e como conseqüência disso, a propriedade privada, expressão e
forma necessária do pequeno instrumento de produção, não aplicável
socialmente, deve desaparecer. Não foi fácil para Marx combinar esta
construção histórica com os fatos históricos reais e não pretendemos
reconstruir aqui as tentativas por ele feitas para concretizar tal projeto.
Para nós é essencial compreender o modo como Marx configura a passagem
de uma forma de intercâmbio — que num dado momento passa a ser
algema — para uma nova forma, mais adequada ao estado de desenvolvi­
mento dos indivíduos; porque aqui se encontra a chave para a compreen­
são do conceito “comunidade ilusória”, que aparece na Ideologia aleinS:
o estado adequado às forças produtivas, experimentado pelos indivíduos
como liberdade, é o Estado, vivenciado, por seu turno, pela classe oprimi­
da, a portadora das forças produtivas emergentes, como algema: Na comu­
nhão com outros, cada indivíduo encontra os meios para desenvolver suas
capacidades em todas as direções; portanto, é na comunidade que a Uber­
dade pessoal é possível. Nos substitutivos tradicionais da comunidade, no
Estado, etc., a liberdade pessoal existia apenas para os indivíduos que
tinham se desenvolvido nas condições da classe dominante e apenas en­
quanto eram indivíduos desta classe. A comunidade fictícia, na qual os
indivíduos se reuniam, assumia frente a eles uma figura autônoma; e para
as classes dominadas, ela se transformava numa comunidade inteiramente
ilusória, numa algema, uma vez que ela constituía a união de uma classe
contra a outra”.76
Esta compreensão um tanto mística e obscura do nexo entre as
forças produtivas, as relações de produção e a série de degraus de emanci­
pação, levanta um outro problema: será que esse conceito cambiante de
Estado, tido como uma forma de organização distinta da sociedade civil,
repousa numa base metódica rigorosa, em condições de ser discutida
seriamente? Se Marx não tivesse mencionado explicitamente nos “Esbo­
ços”76 a a analogia que existe entre a dedução da forma do dinheiro e a
forma do Estado e não tivesse através disso recordado implicitamente que
a forma específica de dedução na teoria do dinheiro pode ser relevante
também para a teoria do Estado, ninguém seria levado a ler sob este

44
enfoque as parcas referências que aparecem na Ideologia alemã. Afirma-se
aí, por exemplo, que . a partir desta contradição entre interesse parti­
cular e comum, o interesse comum assume uma figura autônoma, na forma
de Estado, afastado dos reais interesses particulares e gerais e, ao mesmo
tempo, na forma de comunidade ilusória. . ,”77 Se refletirmos sobre esta
observação no contexto em que Marx discute a constituição do poder
público e não na perspectiva exclusiva da emancipação, descobriremos
que é possível estabelecer uma ligação com o método de descrição existen­
te na Crítica da economia política. Marx vê a constituição do poder
público da seguinte maneira: “O fato de a classe dominante erigir o seu
domínio comum em poder público, em Estado. . .”78, ou “quando o
cidadão e todos os membros da sociedade civil são constrangidos a se
estabelecer como pessoa moral, como um ‘nós’, como Estado, a fim de
assegurar seus mteresses comuns... .
Na Crítica da economia política o raciocínio é basicamente o seguin­
te: as mercadorias têm de aparecer como mercadorias. É-lhes atribuído um
preço, que lhes permite aparecer como expressões unívocas de uma uni­
dade social (antes de qualquer diferença quantitativa). Qual é o procedi­
mento adotado por Marx para deduzir esta primeira função do dinheiro?
No início ele argumenta que a mercadoria constitui uma unidade imediata,
composta de valor e de valor de uso, dois momentos que se contradizem e
que, pelo fato de não poderem existir na forma de uma unidade imediata,
levam à reduplicação da mercadoria que passa a ser mercadoria e dinheiro.
“A mercadoria”, argumenta Marx no final do primeiro capítulo da primei­
ra edição do Capital, “constitui a unidade imediata de valor de uso e de
valor de troca, portanto de dois elementos opostos. Por conseguinte, ela
é uma contradição imediata. Esta contradição tem de desenvolver-se, se
considerarmos aquela (unidade), não mais do ponto de vista analítico,
como foi feito até aqui, mas como um todo referido realmente a outras
mercadorias. . Na Ideologia alemã Marx faz uma analogia entre essa
contradição e o cidadão, que é tido como um prolongamento desta contra­
dição: ele é considerado, no íntimo de sua pessoa, como um elemento
duplo, como um homem, cujo peito é demasiadamente estreito para conter
dois corações. “0 cidadão comporta-se perante as instituições do seu regi­
me do mesmo modo que o judeu perante a lei: ele a burla todas as vezes
que julgar conveniente, em qualquer caso particular, mas exige que todos

45
os outros a cumpram. Ora, se todos os cidadãos resolvessem de modo
maciço e repentino burlar as instituições dos cidadãos, eles deixariam de
ser cidadãos — um comportamento do qual eles naturalmente não se dão
conta e que não depende absolutamente de seu querer, nem de seus
movimentos. . ,”.81 Uma vez que cada cidadão é feito da mesma forma
que “todos os outros”, cada cidadão é o cidadão, que está em constante
contradição consigo mesmo, até o ponto em que o seu ego mais geral
passa a atribuir a si mesmo uma figura especial. Marx vê isso na Ideologia
alemã da seguinte maneira: “Assim como o peso de seus corpos não
depende de sua vontade idealista, nem de seu arbítrio, assim também
não depende deles a possibilidade de impor sua própria vontade na forma
de lei e ao mesmo tempo de estatuí-la de modo independente com relação
ao arbítrio pessoal de cada um deles. Seu poder pessoal repousa sobre
condições de vida comuns a muitos e cuja continuidade eles, enquanto
dominadores, têm de impor como válidas para os outros e para todos.
A lei é a expressão dessa vontade condicionada pelos seus interesses
comuns. Precisamente a imposição da própria vontade dos indivíduos
independentes entre si, que revela um relacionamento recíproco egoísta,
torna necessária a auto-negação na lei e no direito. Auto-negação em
caso excepcional, auto-afirmação de seus interesses na maioria dos
casos.. ,”.82
Infelizmente, a Ideologia alemã contenta-se com estas poucas refe­
rências sistemáticas. No entanto, ela constitui, no entender do próprio
Marx, o coroamento da primeira fase de sua obra: os teoremas decisivos
da nova interpretação da história já estão formulados e parece que o traba­
lho que se desenvolve a seguir consiste apenas no aprimoramento e na
“aplicação” desses teoremas. Temos que observar, todavia, que para se
chegar a uma reconstrução séria da teoria de Marx relativa ao Estado é
preciso abordar antes um postulado central da dialética, isto é, a existência
de um nexo essencial entre método e conteúdo. Tal procedimento abre
duas possibilidades: reconstruir o processo de junção dos variados fragmen­
tos que falam explicitamente do Estado (esse caminho levar-nos-ia even­
tualmente à resignação, no momento em que constatássemos a extrema
pobreza desses enunciados), ou procurar encontrar referências metodoló­
gicas aptas a configurar o caminho a ser seguido nesta tentativa. No entan­
to, impõe-se a pergunta: qual o significado do nexo essencial, que se supõe

46
existir entre conteúdo e método? Seria esse nexo comprado ao preço do
idealismo? Não há dúvida nenhuma de que isso acontece na fase mais
antiga da obra de Marx, principalmente na Crítica do direito público
hegeliano. Marx critica aí o modo de proceder de Hegel, considerando-o
uma simulação de uma “dedução e de um desenvolvimento” que, ao invés
de se aprofundar na própria “lógica da coisa”, passa a se apresentar como
um método pronto e acabado, aplicado a conteúdos que lhe são exteriores;
no entanto, Marx não se preocupa em dar-nos maiores detalhes. Mesmo
assim, podemos inferir do contexto que “dedução e desenvolvimento”
equivalem, no entender de Marx, à reprodução teórica da lógica do proces­
so histórico de emancipação da humanidade, o desenvolvimento orientado
para a democracia. No momento em que ele descobre a importância do
processo de trabalho para o desenrolar da história, dá-se uma ruptura nesta
posição idealista, que cede lugar à especulação materialista. No contexto
de uma concepção global da história toma-se um conceito por demais
amplo de sociedade civil para caracterizar o respectivo quadro institucio­
nal, condicionado pelo nível de desenvolvimento das forças produtivas.
Na Ideologia alemã afirma-se que “a sociedade civil é a forma de intercâm­
bio condicionada pelas forças de produção, existentes em todos os níveis
históricos até aqui havidos e que ao mesmo tempo as condiciona. . .”.83
A história passada é reconstruída a partir dos seus resultados, interpretada
como história das forças produtivas que se desenvolvem abandonando a
sua visão estreita ou - em sentido positivo —aumentando o seu grau de
sociabilidade, andando de mãos dadas com uma forma de intercâmbio
que também é própria. Esta generalização de alguns teoremas obtidos
através da disputa com o pensamento burguês anterior revela que o concei­
to de método sofreu uma mudança de enfoque: os teoremas são “combina­
dos” numa concepção do processo de trabalho, tido pela teoria materialis­
ta como a única força impulsionadora do progresso e são elevados deste
modo à categoria de teoria universal da história. Na época em que discutiu
a filosofía hegeliana do direito, o crítico Marx pôde considerar a descrição
empírica da história como um problema secundário (sabemos que ele
aceitava a descrição hegeliana da realidade empírica como reprodução
adequada); esta só se tomou relevante do ponto de vista metódico quando
se tratou de descobrir o tipo de razão implícito neste processo e de
demonstrar coerentemente que esta razão constitui o princípio impulsio-
nador, a “lógica da coisa”, apesar de sua ligação contraditória com a
existência inveraz. Na Ideologia alemã as coisas são vistas de modo diferente.
Apesar da dificuldade extrema que enfrentamos no momento em
que tentamos isolar neste escrito as idéias decorrentes de um desdobramen­
to da própria auto-compreensão de Marx, e separá-las daquelas que confi­
guram simplesmente uma tentativa de superar a especulação abstrata dos
jovens hegelianos, sabemos que este período é marcado por uma preocupa­
ção com procedimentos empíricos detalhados que chega ao ponto do
exagero. Os conceitos “desenvolvimento e dedução”, típicos da fase ante­
rior, cede aqui o lugar à apresentação do processo global de desenvolvimen­
to da humanidade, cujo desenrolar passa a ser determinado principalmente
pelos instrumentos de produção, que estão em constante transformação
— um procedimento que não seria possível em sua totalidade, caso não
viesse acompanhado de um estudo meticuloso da realidade empírica. O
fato de o materialista Marx apostrofar o conjunto da historiografia mate­
rialista — distinta da descrição — como síntese de algumas “abstrações”
não é casual, pois, uma vez descoberto o verdadeiro motor da história, ele
passa a abjurar qualquer “razão imanente na história” e a produzir somen­
te “ciência positiva, real”,84 o que não lhe permite descobrir nada além de
produtos da atividade mental abstrativa, isto é, abstrações inteligentes que,
abstraídas da história real, não possuem “valor algum”, a não ser o de
“facilitar a ordenação do material histórico e de sugerir a seqüência das
diferentes camadas”.85
Marx não se deu ao trabalho posterior de retificar esta sua idéia,
formulada inclusive num texto não publicado. No entanto, ela se encontra
implicitamente em vários enunciados pragmáticos, que compôs após a
elaboração da minuta do Capital, sem fornecer nenhuma indicação
explícita de que ele estava construindo, através da elaboração sistemática
da crítica da economia política, uma lógica do desenvolvimento do
capital que não se coaduna mais com suas idéias mais antigas —ao me­
nos no que tange à totalidade dos movimentos do processo histórico.
Podemos adivinhar esta compreensão modificada se levarmos em conta
o significado modificado do conceito “descrição”, o qual, como seria de
supor, assume o status metodológico antes atribuído às “abstrações”. O
“capital em geral”, cuja descrição parece constituir o único alvo dos
escritos posteriores referentes à crítica da economia, apresenta-se em

48
primeiro lugar, conforme está expresso no primeiro esboço, como sendo
“apenas uma abstração”,86 capaz de dar realce às diferenças específicas
que se põem entre o capital e as outras formas de riqueza; entretanto,
um exame mais atento revela que atrás desta abstração não se esconde
apenas o produto de um pensamento inteligente, aliás, pouco valorizado
na dialética: é possível detectar também a reconstrução teórica da “racio­
nalidade negativa” do capitalismo, a elaboração conceituai adequada de
uma real “inversão-sujeito-objeto”, que se constitui a si mesma e em sua
totalidade como um sistema de abstrações mediadas pelo agir humano, no
qual um elemento produzido — o valor ou o dinheiro —inverte-se, assu­
mindo a função de um elemento primeiro e passando a estruturar o meta­
bolismo entre homem e natureza, bem como as relações entre os próprios
homens. Temos que levar em conta este contexto, se quisermos discutir
adequadamente os teoremas do reflexo no quadro do materialismo marxia-
no sem cair no realismo ingênuo; é muito sugestivo o fato de Marx ter
caracterizado o conceito de “capital” como um “contraponto” abstrato87
do capital real: o método dialético é a descrição da abstração despótica
de uma objetividade produzida pelo homem, a reconstrução teórica de
um mundo invertido, falso, que abrange não apenas as suas origens, mas,
também as suas leis centrais.
Na crítica da economia política Marx faz uma distinção rigorosa,
inexistente nos trabalhos anteriores, entre dois princípios estruturais da
sociedade: o burguês e o pré-burguês. Apesar da grande variedade das
formas sociais pré-burguesas, ele consegue realçá-las negativamente - Engels
caracteriza isso como economia política negativa — chamando a atenção
para o fato de que somente na sociedade burguesa a riqueza assume uma
forma social diferente de sua forma natural concreta. Noutras palavras:
somente na sociedade burguesa a socialização toma-se literalmente
objetiva para os homens. No famoso capítulo dedicado ao caráter de
fetiche assumido pela mercadoria é dito que “o próprio movimento
social possui para eles a forma de um movimento de coisas, sob cujo
controle eles se encontram, ao invés de controlá-las”.88 Por isso, a ciência
não pode limitar-se a descobrir as leis do processo de reprodução social:
convém que ela explique também por que as relações humanas assumem a
forma de um valor ou de uma objetividade abstrata, ou seja, nas palavras
de Marx, porque elas se configuram como uma realidade fantasmagórica.

49
Mesmo que Marx não tenha deixado uma definição da dialética materialis­
ta, não estaríamos certamente falsificando sua auto-compreensão posterior
se ousássemos estabelecer como fato, que o próprio Capital é a definição
da dialética, ou seja, formulando as coisas de modo provocativo: assim
como não é possível formular uma definição mais sintética do que a que
se encontra nestes três volumes, tão pouco é possível definir a dialética
materialista separando-a de sua realização objetiva; ela constitui o método
de descrição da lógica inerente às condições sociais que se solidificaram em
figuras sempre novas de objetividade abstrata, a qual termina perpassando
e estruturando inteiramente o metabolismo existente entre o homem e a
natureza. Tal conceito de materialismo não coincide mais com a primeira
concepção existente na obra de Marx, fato que sugere a existência de
modificações e de clarificações. E é muito curioso poder constatar que
projetos de pesquisa sobre formas pré-burguesas, inspiradas nos enunciados
programáticos que a Ideologia alemã fornece sobre o nexo entre forças
produtivas e relações de produção, conseguem apresentar provas muito
bem fundamentadas para contextos deste tipo;89 no entanto, quando se
passa à análise da sociedade burguesa, parece que esse princípio fracassa.
A reconstrução da descrição categorial revela também que Marx procede
de modo diferente: a dinâmica determinante é colocada na logicidade
do desenvolvimento dos valores, a passagem do capital — que surge na
esfera da circulação — para a esfera da produção; e ao fazer isso, Marx
considera a representação lógica como expressão categorial de um processo
que se desenrola na história: “Esse movimento se mostra em diferentes
figuras, ao nível da história, como trabalho que leva a produzir valor, e
ao nível do sistema da produção burguesa, isto é, daquela que estatui o
valor de troca”.90 Esse movimento do capital tem uma linha de propaga­
ção semelhante à do espírito do mundo, um conceito hegeliano (que o
jovem Marx já tinha interpretado como sendo o hieróglifo do mercado
mundial), e se apropria de formas tradicionais da sociedade, que ele
reconstrói de acordo com a sua própria “lógica” : “No sistema civil plena­
mente desenvolvido qualquer relação econômica pressupõe todas as
outras, na forma econômica civil, ou seja, todo elemento estabelecido é,
ao mesmo tempo, um pressuposto; ora isso acontece também com todo o
sistema orgânico. Este mesmo sistema orgânico possui, enquanto totali­
dade, os seus pressupostos, e seu desenvolvimento rumo à totalidade

50
consiste precisamente em subordinar todos os elementos á sociedade ou
em produzir a partir dela todos os órgãos que ainda lhe faltam. Desta
maneira, ele se transforma historicamente numa totalidade. O movimento
que leva a esta totalidade constitui um momento de seu processo, de seu
desenvolvimento”.91 Isso não deve ser entendido no sentido de um proces­
so que transcorre em linha reta e que leva necessariamente ao capitalismo
industrial; caso contrário, afirma Marx, “a velha Roma, Bizâncio, etc.,
teriam encerrado a sua história dando início ao trabalho livre e ao capital
ou, ao contrário, teriam iniciado uma nova história. Lá também a dissolu­
ção das velhas condições de propriedade estava ligada ao desenvolvimento
do dinheiro, do comércio, etc. Entretanto, essa dissolução não levou, de
fato, à indústria, mas à dominação do campo sobre a cidade”.92 Marx
prefere ver o desenvolvimento histórico como um processo que se estabe-.
lece repetidamente e que só em determinadas circunstâncias pode levar
ao capitalismo industrial: “A isso damos o nome de efeito civilizatório do
comércio exterior. Tudo depende da proporção em que o movimento
estatuidor do valor de troca atinge a totalidade da produção: da intensi­
dade do efeito oriundo do exterior, do grau de desenvolvimento já atingido
pelos elementos da produção interna, da distribuição do trabalho, etc.
Podemos tomar como exemplo a Inglaterra do século XVI e início do
século XVII: aqui a importância das mercadorias holandesas faz com que a
lã abundante, que a Inglaterra pode dar em troca, se transforme num
elemento decisivo. Entretanto, o desejo de obter maior produção de lã
levou à transformação de terras agricultáveis em pastagens para ovelhas,
o pequeno sistema de arrendamento foi rompido, etc., ocasionando a
devastação de propriedades, etc. . . Em certos pontos a própria agricultura
vinha sendo determinada exclusivamente pela circulação, transformada
numa produção apoiada no valor de troca. 0 resultado disso pode ser visto
não apenas na transformação do modo de produção, mas na dissolução de
todas as antigas relações de população e de produção, na dissolução
das relações econômicas que lhes correspondiam. Estamos, pois, perante
uma produção que era anteposta à circulação, a qual criava valores de
troca, mas somente na forma de excesso ou de saldo; no entanto, ela
dependia de uma produção que se dava somente em relação à circulação,
uma produção apoiada em valores de troca tidos como seu único con­
teúdo”.93 Opondo-se claramente à sua antiga concepção, Marx não consi-

51
dera mais as forças produtivas que se desenvolvem quase que naturalmente,
como sendo o momento impulsionador: esta função passa a ser atribuída
ao capital, tido como um movimento próprio, capaz de fazer história, o
qual se infiltra nas formas sociais pré-burguesas, dissolvendo-as e transfor­
mando-as. O nível de desenvolvimento das forças produtivas constitui
apenas um dos pressupostos do processo: elas tomam possível saber se
houve realmente desenvolvimento ou se apenas o “velho modo de produ­
ção caducou” — o modo de produção pode permanecer o mesmo, “contu­
do, ele se toma mais duro para o trabalhador”.94 “Entretanto, é o nível de
desenvolvimento histórico e as circunstâncias que o acompanham que vão
dizer se esse processo superou ou não o antigo modo de produção —como
foi o caso da Europa moderna — e se ele conseguiu ou não colocar em seu
lugar o modo capitalista de produção”.95 Contudo, uma vez estabelecido,
o próprio capita! passa a revolucionar constantemente as forças produtivas,
uma vez que ele não pode existir sem essa transformação. No esboço do
Capital Marx alerta para o fato de que a subsunção real do trabalho sob o
capital leva finalmente a uma forma material de capital, cujo modo de
existir concreto, na forma de maquinaria, corresponde ao conceito de
capital. A maquinaria, produzida peio próprio capital, tem de ser desenvol­
vida, por conseguinte, no interior da própria descrição do “capital em
geral”. Opondo-se ao método seguido por Ricardo ao abordar a maquina­
ria, Marx afirma: “É facil desenvolver a gênese da maquinaria a partir da
concorrência e a partir da lei de redução dos custos de produção, disso­
ciada da concorrência. . . Por isso, se trata aqui de desenvolver a maquina­
ria a partir da relação que existe entre o capital e o trabalho vivo, sem
levar em conta outro tipo de capital”.
A linha de argumentação da crítica da economia política, aqui
reproduzida de modo abreviado, toma claro que o materialismo histórico
de Marx não pode ser caracterizado suficientemente se nos contentarmos
apenas com o teorema do nexo entre forças produtivas e relações sociais.
Ao invés disso, é preciso tomar como ponto de partida a seguinte idéia:
a elaboração precisa do materialismo inclui a compreensão da diferença
que o separa do idealismo, mesmo que isto venha a custar pesados esforços.
A linguagem utilizada por Marx em sua obra tardia, inspirada na filosofia
de Hegel e tida por autores tão diferentes como Schumpeter e Rosa de
Luxemburgo como acréscimo subjetivo, sem relevância para a “verdadeira

52
substância” da crítica da economia política, é expressão de uma exatidão
crescente a nível de compreensão dos princípios estruturais da
sociedade burguesa. Na elaboração da crítica da economia política
Marx apóia-se conscientemente em Hegel porque o idealismo absoluto de
sua filosofia consegue fazer jus ao mundo invertido do capital, melhor do
que uma sociologia que se apóia por demais em seu pretenso sentido de
realidade. No Capital, volta-se a praticar a unidade entre método e conteú­
do, postulada na obra anterior à luz do idealismo; porém, ao dar este
passo, Marx é levado pelos resultados de uma longa controvérsia com uma
forma de objetividade social que se equipara, em sua inversão real, a um
verdadeiro idealismo, cuja descrição e elaboração teórica só serão adequa­
das se se realizarem dessa maneira. Dos esboços de construção do Capital,
que ainda restam, podemos deduzir que os três volumes constituíam
apenas o início de «ma apresentação, na qual Marx pretendia reconstruir
a objetividade do mundo burguês em sua sistemática interna, a qual ele
via estruturada numa determinada forma. A apresentação global de Marx,
não apenas O capital, tem como função desenvolver as categorias numa
certa seqüência, “determinada pelo nexo que elas mantém entre si no inte­
rior da sociedade burguesa moderna” ,97 na qual evidentemente toda forma
possui o seu lugar e seu valor posicionai particular, o qual pode ser detecta­
do pela descrição dialética que é uma reconstrução teórica da lógica
própria a essa real “inversão-sujeito-objeto”. Uma crítica que pretendesse
concluir a partir dessas premissas que toda a realidade empírica burguesa
deve ser deduzida do conceito “capital” situar-se-ia no mesmo nível do
discurso de Traugott Krug, o qual dizia que o idealismo deveria criar
a priori a sua pena de escrever! Ora, Hegel jamais pretendeu afirmar que
todos os fatos contingentes, como os utensílios que servem para escrever
são deriváveis do espírito, e nem Marx deseja explicar todo e qualquer
detalhe a partir de um único princípio central! A descrição da objetividade
social não constitui realmente uma historiografia e sim um desdobramento
conceituai de uma totalidade de formas burguesas objetivas, no interior das
quais o Estado burguês possui o seu lugar determinado, como pode ser
deduzido do primeiro plano de trabalho, que Marx passa para o papel na
época em que escreve pela primeira vez a crítica da economia política.
A pesquisa empírica de certas configurações nacionais concretas do Estado
burguês e do capital só faz sentido após esse trabalho geral, no qual nem

53
“microscópio. . . nem reagentes químicos” podem ter utilidade, uma vez
que ambos têm de ser substituídos pela força da abstração.. .”.98 É possí­
vel interpretar neste sentido uma observação de Marx, feita na crítica do
Programa de Gotha, onde ele polemiza contra a idéia de Estado desenvolvi­
da na social democracia da Alemanha tentando atá-la a pesos empíricos,
a fim de trazê-la novamente para o terreno da realidade burguesa; mesmo
assim, ele não se esquece de fazer referência ao momento objetivo estru­
tural: “A sociedade capitalista é a ‘sociedade atual’, que existe em todas
as nações culturalmente avançadas, livres, em maior ou menor grau, do
apêndice medieval, modificadas, em maior ou menor grau, pelo desenvolvi­
mento histórico particular de cada país, desenvolvidas, em maior ou menor
grau. O ‘Estado atual’, pelo contrário, modifica-se de acordo com a frontei­
ra de cada país. No Reino Alemão da Prússia ele não é o mesmo que na
Suíça, na Inglaterra ele não é o mesmo que nos Estados Unidos. O ‘Estado
atual’ não passa de uma ficção. Entretanto, todos os Estados das distintas
nações culturais, apesar de sua colorida variedade de formas, possuem em
comum o seguinte: eles se encontram no terreno da sociedade burguesa
moderna, que é uma sociedade mais ou menos desenvolvida de modo
capitalista. Devido a isso eles possuem também em comum certos traços
essenciais. Nesse sentido é que podemos falar da ‘natureza do Estado
atual’ contrapondo-a à do futuro, no qual a sua raiz atual, que é a socie­
dade burguesa, terá morrido”.99 Numa caracterização programática
podemos constatar que a interpretação materialista da história constitui a
expressão metódica do processo, da vida e do desenvolvimento da humani­
dade histórica, que se desdobra de modo semelhante ao da natureza; a
validade desta interpretação pode ser mantida somente enquanto durar a
incontrolabilidade do processo de socialização, que é semelhante ao da
natureza. No momento, porém, em que se pretende abranger sob este
aspecto, e de modo mais concreto, a história já transcorrida e que ainda
perdura, a teoria enfrenta dificuldades. Nos escritos da maturidade Marx
revela uma compreensão mais precisa da história. Mesmo assim, ela não
passa de um fragmento, quando comparada ao desenvolvimento ulterior
da representação no sentido apresentado acima. Além disso, Marx ensina
aos leitores como escrever a verdadeira história a partir da utilização desta
representação (que não foi levada a termo).

54
NOTAS E CITAÇÕES

1 Ver, pot exemplo, W. I. Lênin, na bibliografia aposta ao artigo “KarlM arx”, redigi­
do para o Léxico de Granat, 1915, in: Obras, vol. 21. V. também: Georg Lukács.
Sobre o desenvolvimento filosófico do jovem Marx (1840-1844), in: (Deutsche
Zeitschrift für Philosophie) , Revista alemã para filosofia. Ano 2, cad. 2, Berlim, 1955.
Reeditado sob o título: O jovem Marx (Der junge Marx), Neske Pfullingen, 1965, cf.
p . 41.
2 Marx a Engels no dia 24/04/1867, in: MEW, vol. 31, p. 290.
3 MEW, vol. 21, p. 290.
3ä. Nota do trad.: a abreviação “MEW” corresponde aos textos ‘ Afarx-üngels Werke”
(Obras de Marx-Engels), publicadas pela Editora Dietz, de Berlim.
4 Comparar o prefácio do texto Para a crítica da economia política (Zur Kritik der
r Politischen Ökonomie), 1859, in:MEW, vol. 13, p. 8.
^ MEW, vol. 1, p. 378.
6
MEW,vol. 1, p. 222.
7 MEW, vol. 3 ,p . 210.
8 MEW, vol. 1, p. 266.
9 MEW, vol. 1, p. 230.
10
Primeira edição de O Capital, cit. de acordo com a edição de Marx-Engels prepa-
rada pela Edit. Fischer Bücherei, vol. 2, p. 234.
11
MEW, vol. , p. 231.
12
MEW, vol. ,p . 233.
13
MEW, vol. ,p . 233.
14
MEW, vol. ,p . 233.
15
MEW, vol. , p. 233.
16
MEW, vol. , p. 232s.
17
MEW, vol. , p. 232s.
18
MEW, vol. , p. 232.
19
MEW, vol. , p. 233.
20
MEW, vol. , p . 253.
21
MEW, vol. , p. 263.
22
MEW, vol. , p. 265.
23
MEW, vol. , p. 268.
24
MEW, vol. , p . 284.
25
MEW, vol. ,p . 321.
26
MEW, vol. , p. 281.
27
MEW, voL , p. 285.
28
MEW, vol. , p. 285.
29
MEW, vol. , p. 285.
30
MEW, vol. ,p . 281.
31
MEW, vol. , p. 282.
32
MEW, vol. , p . 281.
33
MEW, vol. ,p . 319.
34
MEW, vol. , p . 321.
35
MEW, vol. , p. 322.
36
MEW, vol. , p. 322.

55
MEW, vol. l , p . 325.
38 MEW, vol. 1, p. 324.
39 MEW, voL l , p . 326.
40 MEW, vol. 1, p. 346.
40a Nota do trad.: Helmut Reichelt trabalha neste ponto com dois textos de Marx:
um , escrito em 1843, intitulado “Crítica do direito público hegeliano” (Kritik
des Hegelschen Staatsrechts), e outro, publicado e redigido em 1843: “Paraa critica
da filosofia do direito hegeliana. Introdução” (Zur Kritik der Hegelschen Rechts­
philosophie. Einleitung).
41 MEW, vol. 1, p. 368.
42 MEW, vol. l , p . 369.
43 MEW, vol. l , p . 370.
44 MEW, vol. 1, p. 370.
45 MEW, vol. 2 ,p . 121.
46 MEW, vol. 3, p. 39.
47 MEW, vol. 3 ,p . 36.
48 MEW, vol. 3 ,p . 36.
49 MEW, vol. 3 ,p . 37.
50 MEW, vol. 3 ,p . 27.
51 MEW, vol. 1, p. 213.
52 MEW, vol. 1, p. 216.
53 MEW, vol. 3, p. 62.
54 MEW, vol. 3, p. 62.
55 MEW, vol. 3, p. 537.
56 MEW, vol. 3, p. 62.
57 MEW, vol. 1, p. 268.
58 MEW, vol. 3, p. 62 ;cf. também p. 178 e 345.
59 MEW, vol. l , p . 304s.
60 MEW, vol. l , p . 305.
61 MEW, vol. l , p . 366.
62 MEW, vol. l , p . 367.
63 MEW, vol. 1, p. 367.
64 MEW, vol. 1, p. 370.
65 MEW, vol. 3 ,p . 347.
66 MEW, vol. 13, p. 56.
67 MEW, vol. 13, p. 56.
68 MEW, vol. 13, p. 81.
69 MEW, vol. 13, p. 95.
70 MEW, vol. 1 3 ,p . 98.
71 MEW, vol. 13, p. 97.
72 MEW, vol. 3 ,p . 74.
73 MEW, vol. 3, p. 73.
74 MEW, vol. 3, p. 66.
75 MEW, vol. 3, p. 67.
16 aMEW, vol. 3,7 p. 74.
nt
Nota do trad.: trata-se do texto de K. Marx. Esboços da crítica da economia
política, 1857-1858 (Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie, 1857-1858),
Berlim (RDA), 1953.
77 MEW, vol. 3, p. 33.

56
78 MEW, vol. 3, p. 339.
79 MEW, vol. 3, p. 340.
80 MEW, ibid., p. 246.
81 MEW, vol. 3 , p. 163.
82 MEW, vol. 3, p. 311.
83 MEW, vol. 3, p. 36.
84 MEW, vol. 3, p. 27.
85 MEW, vol. 3, p. 27.
Esboços da crítica da economia política (Grundrisse der Kritik der politischen
on Ökonomie), p. 353.
Esboços da crítica da economia política, p. 237.
88 MEW, vol. 23, p. 89.
89 r f
Cf. os primeiros trabalhos de K. A. Wittfogel: Geopolítica, materialismo geográ­
fico e Marxismo, in: Sob a bandeira do marxismo (Unter dem Banner des Marxis­
mus), ano 3, 1929; cf. também: As causas naturais da história da economia, in:
Arquivo para ciência social e ciência política (Archiv für Sozialwissenschaft und
Sozialpolitik), vol. 67,1 9 3 2 . (Ambos podem ser obtidos como Reprint).
90
Esboços da crítica da economia política, p. 167.
91 Ibid., p. 189.
92 Ibid., p. 405.
93
Esboços da crítica da economia política, p. 160.
94 MEW, vol. 25, p. 610.
95 MEW, vol. 25, p. 608.
96
Esboços da crítica da economia política, p. 662.
97 Ibid., p. 28.
98 MEW, vol. 23, p. 12.
99 MEW, vol. 19, p. 28.

57
Eike Hennig

II
NOTAS INTRODUTÓRIAS À LEITURA
DOS “ESCRITOS POLÍTICOS” DE MARX E ENGELS ( *)

(PROBLEMAS INERENTES A UMA REPRESENTAÇÃO


MATERIALISTA DA HISTÓRIA)

RESUMO:

Eike Hennig distingue duas maneiras de se enfocar a realidade:


lógico-categorial e empírico-histórica. E ao analisar a riqueza de ideias e
de distinções contidas nos textos políticos de Marx e de Engels chega à
conclusão de que não se pode entender plenamente a história concreta
seguindo apenas um ou outro desses esquemas porque o conceito marxista
de totalidade não cabe neles.

* As referências aos “escritos políticos” de Marx e de Engels, que permearão a nossa


exposição, pretendem ressaltar apenas um ponto central, detectável principalmente
nos trabalhos que se voltam para os acontecimentos do cotidiano.

59
Uma representação materialista da história, referida a problemas
comuns da atualidade, implica a superação do nível de reprodução dos
fenômenos sociais reais — um positivismo que tanto pode assumir uma
atitude meramente afirmativa e ingênua perante os interesses dominantes,
como também uma posição crítica, mas que em nenhum dos casos conse­
guirá mudá-los. Tomando como ponto de partida a “especulação materia­
lista” (H. Reichelt), formulada por Marx e Engels em 1845/46 na “Ideolo­
gia alemã”, podemos afirmar que a interpretação materialista da história
constitui primariamente uma declaração de intenções, ou seja, não passa
de uma intenção e de um programa de trabalho de cunho abstraio e geral,
a ser comprovado metodicamente na representação conceituai de situações
concretas.
Uma representação materialista da história pretende ser mais do que
simples subordinação de ações políticas e econômicas, de opiniões e de
modos de comportamento, sob um conceito de interesses sociais. A
subordinação consegue resgatar apenas um determinado conceito de
pesquisa e de história (a que se passa no nível real das “res gestae”) e que
caracteriza o nível da apropriação detalhada e diferenciada de um objeto
auto-suficiente — seja ele da política ou do comportamento econômico
assumido por parcelas “do” capital e “do” movimento de operários
frente “ao” Estado. 0 nível da representação e da logicidade dos fenôme­
nos históricos está entrelaçado com tal tipo de pesquisa, formando uma
“unidade dialética”. 1 A representação é tida como produto de um proces­
so de trabalho motivado criticamente e que aproveita o saber analítico que
se conseguiu obter através da pesquisa sobre a “superfície” da sociedade;
ela não ordena este saber de acordo com a estrutura do objeto, mas de
modo dialético, isto é, ela constrói dialeticamente “a atualidade da socie­
dade como história apoiando-se num saber obtido analiticamente” (Alfred
Schmidt). A representação visa, pois, à “unificação da pluralidade material
e a reprodução da totalidade concreta que ‘aparece’ de modo unilateral nos

61
resultados das ciências particulares, sem ser realmente tematizada”; por
conseguinte, a representação equivale, em primeiro lugar, ao esforço do
conceito. Através dela, a historiografia materialista pretende assegurar e
realçar uma unidade entre a lógica e a história, que ela julga estar ativa
no processo de emancipação humana, a ponto de se poder pensar no
término da pré-história humana, à qual sucederia uma sociedade humana
de indivíduos associados, não mais alienados ou explorados. Ora, o traba­
lho dos periódicos políticos consiste precisamente em tematizar e interpre­
tar os obstáculos que se levantam contra esse processo de desenvolvimento,
a fim de apresentá-los à classe trabalhadora na forma de informações sobre
o seu inimigo político ou na forma do reconhecimento de seus próprios
fracassos pessoais ou os do seu modelo, que pode ser, por exemplo, o
modelo das “comunas” (com isso não se pretende insinuar que os diários
políticos conseguem igualar o elevado nível de pretensão da representação
materialista da história).
Uma representação materialista da história pretende explicitar a
natureza da produção de processos sociais, passando pela análise de fenô­
menos concretos sitos na esfera de circulação da política e da economia.
Ela pretende ir mais longe do que o “positivismo crítico” e o “historicismo
de esquerda”. Por isso, o processo analítico que visa a representação da
história não pode encerrar-se no momento em que se consegue determinar
os interesses e os portadores de interesses, qualificando-os como sujeitos e
objetos da política e da economia. É verdade que neste nível de pesquisa
se busca levar realmente a sério as exigências de uma análise detalhada,
dimensionada e diferenciada, a mais ampla possível; mesmo assim, é
preciso questionar o resultado obtido, isto é, as idéias sobre manifestações,
conteúdos latentes e intenções de interesses sociais, tendo em mente a
mediação essencial e formal que se dá através de leis do desenvolvimento
sócio-econômico e da produção da sociedade; caso contrário, não consegui­
ríamos captar a sua essência. Portanto, o conceito de interesse não pode
continuar sendo o ponto derradeiro e essencial no processo de subordina­
ção e de esclarecimento da representação materialista da história. É preciso
questionar, ao invés disso, quais são as constelações sociais objetivas
capazes de produzir necessariamente os conteúdos da articulação manifesta
e latente dos interesses no proçesso econômico, político e cultural. Deste
modo, a representação materialista da história, que se configura como

62
unidade radical e conseqüente entre pesquisa e descrição, envida esforços
para penetrar no “contexto interno das categorias econômicas, isto é,
na estrutura oculta do sistema econômico burguês”.2 O nível analítico no
qual desabrocha a preocupação com os interesses e conflitos concretos
resultantes do impacto entre forças produtivas e relações de produção
é superado positivamente através da representação da “socialidade dos
interesses privados”3 que existem na política e na economia, porque neste
nível é vista a elaboração conceituai mais profunda dos dados sociais.
A descrição da mercadoria e da imagem de uma situação histórica
constitui “uma coisa por demais complicada. . ., repleta de sutilezas de
ordem metafísica e de caprichos teológicos” ; uma vez que a representação
de dados históricos tem que levar em conta a forma determinada que os
acontecimentos concretos assumem na política, na economia e na cultura,
a qual é essencial, contribuindo por exemplo, para que o antagonismo
social venha a articular-se como conflito de interesses. Deste modo, o foco
do trabalho científico não gira em tomo da soma de acontecimentos
políticos reduzidos a um conceito de interesse último e suficiente em si
mesmo: ele se concentra, ao invés disso, nas causas e, principalmente, na
configuração do conteúdo de interesses: as causas para o conteúdo e princi­
palmente, para a configuração do conteúdo de interesse: “Na verdade é
muito mais fácil descobrir o núcleo terreno que existe nas obnubilações
religiosas do que extrair das condições vitais reais a sua forma celestial.
Ora, o segundo método é o único científico, o único método materialista”.4
A vontade de passar do nível dos fenômenos, da circulação da super­
estrutura, para o da essência, da produção, da base, ou seja, a pretensão de
capturar a variedade empírica através de um conceito teórico significa,
de um lado, que a “autonomia” dos acontecimentos políticos, sociais e
culturais é relativizada; de outro lado, porém, não implica que a variedade
política, econômica ou social, possa esquivar-se da análise e que ela não
signifique um problema para a representação.
O tipo de representação materialista da história que não pretende
renunciar à sua pretensão característica e nem degenerar, transformando-se
em simples ordenação dogmática ou idealista de fatos históricos, não pode
conter basicamente nenhuma “subsunção de uma massa de casos sob um
princípio geral”.5 Esse modo de proceder — atualmente muito em voga e
promovido como sendo uma expressão análoga e paralela à da práxis

63
“dogmática” e da falta de teoria, à luz do (falsamente compreendido)
conceito de “dedução”6 —capitula frente ao problema do relacionamento
entre lógica e história, ou seja, não está em condições de extrair da análise
das realizações particulares o que é essencial para um capitalismo em parti­
cular ou para uma sociedade capitalista perceptível através dos sentidos.
As categorias da descrição do capital em geral, isto é, do capitalismo
“enquanto corresponde ao seu conceito”,7 são entendidos em tal dedução
histórica como expressão constante da essência do capitalismo em par­
ticular e utilizados de modo projetivo — isso revela que tal dedução não
encontrou a solução das tensões que existem entre pesquisa e representa­
ção.
O modo como os conceitos “dificuldades de aproveitamento do
capitalismo” e “vulnerabilidade da sociedade capitalista em relação às
crises” são utilizados exclui a possibilidade de se levar em consideração
um caso empírico qualquer: este tem de ser eliminado, uma vez que a
empiria existe apenas como material para a subsunção sob tais categorias.
O erro capital da teoria “dogmática” e da práxis “espontaneísta” (accio-
nismo) consiste, de um lado, em não fazer a distinção entre o plano cien­
tífico da pesquisa e da representação e em concluir, de outro lado, apoian­
do-se na idéia do primado da representação categorial essencial da logicida-
de, que não há necessidade de análises empíricas. Com este intuito passa-se
a identificar, por exemplo, e sem nenhuma ressalva, o nível “construtivo-
-teórico” do conceito de história com o “narrativo-historiográfico”.8 Tal
procedimento impede porém que se represente a história do modo como
ela existe logicamente por trás da superfície de todos os fenômenos.
A absolutização do trabalho categorial e descritivo não consegue
esgotar a pretensão da representação materialista da história. Uma tal
explicitação categorial da história, que tendencialmente é destituída de
conteúdo empírico, fracassa sempre no momento em que se propõe
representar processos sociais e políticos porque estes não são absorvidos
completamente pelas categorias económico-políticas da representação das
condições materiais da vida — ainda retomaremos a este ponto apoiando-
-nos em afirmações de Marx e Engels. Portanto, a almejada reconciliação
“entre realidade empírica e teoria, entre elementos fáticos e mentais,
proposta pela representação materialista da história, implica unicamente
a relação consciente e controlada entre dois níveis de abstração que reali-

64
zam sua mútua mediação e concretização.9 Ao passo que o emprego de
categorias econômicas no sentido da história representada por esta via
impõe a conclusão de que os fatos empíricos surgem apenas como grande­
zas passíveis de uma certa ordenação, porém destituídos de qualquer
conteúdo teórico ou crítico.
A fragilidade de tal procedimento pode ser visualizada de modo mui­
to nítido, caso nos contentemos apenas com um exemplo, pela interpreta­
ção dada à crise da economia mundial (ano 1929 e seguintes) — a abran­
gência do capitalismo particular e da classe particular (para si mesma)
formam apenas a folha de contraste para realçar as categorias econômicas
abstratas deste procedimento. De sorte que não basta ver nesta crise uma
conseqüência dos problemas de aproveitamento do capital “interpretan­
do-a”, por exemplo, como efeito da lei da queda tendencial das taxas de
lucro. Tal procedimento, meramente categorial, não consegue abranger
totalmente as formas e os fenômenos específicos, decisivos, da crise,
os quais constituem precisamente as condições globais reais para a luta
política efetiva entre capital e trabalho. (A praxis do movimento revolu­
cionário dos trabalhadores deveria levar sistematicamente em conta esses
elementos específicos: tal atitude poderia revelar até que ponto uma
representação histórica genuinamente materialista pode ser, ou deveria ser,
um elemento constitutivo do socialismo científico).
Uma apreciação meramente categorial da crise da economia mundial
fracassa principalmente quando se trata de explicar, por exemplo, as
razões que levaram os funcionários nos EEUU a se articularem politica­
mente de uma maneira diametralmente oposta à dos funcionários no Reino
Alemão, face a uma crise cujas características e cuja profundidade são
aproximadamente idênticas: enquanto que uma grande parte destes últi­
mos vai engrossar as fileiras dos eleitores cooptados pelo fascismo, toman­
do-se membros da NSDAP (Nacional-socialismo do partido dos trabalha­
dores alemães), dos círculos dos primeiros vai surgir grande parte dos
eleitores do presidente Roosevelt, o presidente do “New Deal”.10 E se
a representação materialista da história quisesse ampliar este exemplo
teria que perguntar se o comportamento político não antifascista da
“classe dominante na Alemanha” não deve ser entendida como conse­
qüência da covardia política, descrita em várias passagens de Engels, e
do fato de a burguesia alemã não ter conseguido concretizar o liberalismo
político.

65
A confusão feita entre o procedimento metódico da representação
materialista da história e a dedução materialista idealisticamente mal
compreendida da lógica histórica, ou seja, na perspectiva do objeto de tal
violentação, entre a interpretação materialista e o método dos zânganos,
isto é, o da subsunção, pode ser melhor esclarecida no que tange ao Estado
vburguês, se levarmos em conta as afirmações de Lênin e as explicações
populares do programa dos bolchevistas.
Do mesmo modo que Lênin, Bucharin e Preobrashenskij, os autores
desta popularização do programa do KPR (B), (Partido Comunista Russo,
Bolchevique, nota do trad.) da “cartilha elementar”, do “ABC do comunis­
mo”, deixam transparecer em suas observações sobre o Estado capitalista,
escritas no final de 1919, que a consideração do nível de representação
categorial, abstrata, pode ser influenciada consideravelmente pelas necessi­
dades da práxis política e da agitação política no contexto de uma decisão
a favor da revolução. Com o intuito de favorecer a clareza política e a
concisão “prática”, manipulável, dá-se preferência à orientação categorial,
que tem como alvo o aproveitamento do capital e a exploração do proleta­
riado; e procura-se não turvar em nenhum momento esta orientação
através da referência a certos “para-raios da revolução” (K. Marx), existen­
tes empiricamente — como seria o caso, por exemplo, dos elementos do
direito do trabalho, que estão tendencialmente voltados ao Estado do
bem-estar. A dialética social limita-se a um jogo de formas que se modifi­
cam constantemente, as quais, porém, não devem nos enganar em nossa
“práxis”, uma vez que partimos do princípio de um conteúdo que é sem­
pre o mesmo (mais ou menos conforme a formulação prototípica de
Lênin: “pode mudar a forma da luta; e esta muda constantemente por
razões diferentes, relativamente subordinadas ao tempo e dependentes
dele; todavia, não pode mudar a essência da luta, o seu conteúdo classista
enquanto houver classes”).11- Bucharin e Preobrashenskij definem o
Estado burguês, a “organização mais complicada”, como “organização de
empresários”: “Em todos os países capitalistas o Estado nada mais é do que
uma união de empresários” - “Portanto, o Estado capitalista constitui uma
união de empresários que garante a exploração. (Caso pretendêssemos
orientar-nos pelos escritos políticos de Marx e Engels, teríamos que per­
guntar “naturalmente” de que modo isso se dá - Eike Hennig). São única
e exclusivamente os interesses do capital que orientam a atividade dessa

66
agremiação de assaltantes”.12 No tocante à última afirmação seria proce­
dente perguntar, apoiando-nos em Marx e Engels: que tipo de alianças e
compromissos são feitos por esses interesses? Quais as concessões parciais
etc., têm de ser feitas por eles? Lênin adota um procedimento semelhante,
mesmo sabendo que “a questão do Estado” constitui “uma das questões
mais confusas e difíceis”.13 De acordo com sua crítica justificada ao
“oportunismo” da democracia social alemã (1918/19), esta questão reduz-
-se a uma definição categorial na qual o Estado é transformado num
“instrumento para a exploração da classe oprimida” 14 e a “república
democrática” é tida como o melhor “invólucro político que se possa
imaginar para o capitalismo” 15 “Na verdade, quando mais democrática
ela for (a república democrática, Eike Hennig), tanto mais brutal e cínica
será a dominação do capitalismo”. 16
A questão do Estado é entendida por Lênin de modo abstrato como
uma “questão fundamental”, como a “questão mais quente, como ponto
central de todas as questões políticas e de todas as disputas políticas da
atualidade” ;17 todavia, o instrumentário cognitivo da interpretação
materialista da história ainda não está devidamente desenvolvido no que
diz respeito ao nível de pesquisa pretendido por ela. O plano da pesquisa,
da análise detalhada e diferenciada de processos políticos e sociais de
classes perde em termos de importância. A realidade empírica transforma-
-se numa simples peça decorativa, numa mera forma, da qual se lança mão
ecleticamente (e deste modo são postos abaixo principalmente os concei­
tos de forma e a questão envolvendo a determinabilidade formal de con­
teúdos que são essenciais para Marx).18 Portanto, a realidade empírica
obtém a sua feição característica a partir das necessidades agitatórias e
absolutizadas de um movimento político que se encontra em fase de
revolução; é por isso que Lênin, ao referir-se à práxis — e neste ponto ele
segue Marx e Engels — acentua a utilidade política da república burguesa,
do parlamentarismo e do direito geral de voto.19 Entretanto, mesmo que
continue afirmando pragmaticamente a validade dos momentos dos Esta­
dos burgueses há pouco arrolados, ele se opõe a Marx e Engels, não se
preocupando mais em ativar a teoria do Estado em geral e nem a análise
materialista de Estados e de lutas de classe em particular. Deste modo, as
referências pragmáticas feitas às vantagens políticas que a república bur­
guesa traz para o movimento operário não se coadunam muito bem com a

67
condenação abstrata e categorial dessa forma de Estado burguês. Também
a crítica de Lênin ao “radicalismo de esquerda”, à “enfermidade pueril
existente no comunismo”, fica presa ao contexto accionista de uma renún­
cia à teoria, de uma recusa a desenvolver os dois níveis da representação
materialista da história.
Poderíamos apontar para as conseqüências políticas resultantes
desta atitude de abstinência em face da realidade empírica e da teoria e,
ainda mais, apoiando-nos na paráfrase de um dito de Max Horkheimer,
sugerida por Poulantzas,20 dizer que todo aquele que não quer falar do
capitalismo também deveria calar-se em relação ao fascismo; e neste senti­
do teríamos o direito de perguntar se o descaso político com que Lênin
tratou a questão do Estado não constitui uma das causas que levaram o
KPD (Partido comunista da Alemanha, nota do trad.) a caracterizar como
fascistas os gabinetes presidenciais de Brünning (1930-32). Em todo o
caso, parece ser correta a exigência que se coloca, enquanto a teoria não
tiver sido resgatada como elemento de uma crítica prática: “Nós queremos
um radicalismo um tanto refinado. Não somente esse grosseiro ou. . . ou.
É mais cômodo, muito mais simples; mas não deixa de ser uma simplifica­
ção que em nada contribui para a doutrinação e a educação das massas”.21
A questão que se coloca é a de saber, se e' possível apreender algo neste
sentido, considerando o exemplo dos escritos políticos de Marx e de
Engels. O lema de tais processos de aprendizagem deve ser o da “aplicação
do ponto de vista da interpretação materialista da história à própria com­
preensão materialista da história”.22
As notas e abreviaturas que viemos fornecendo até o momento
tiveram como objetivo colocar de modo crítico e abstrato o método da
representação materialista da história acima do método inspirado em
categorias e argumentos econômicos, uma vez que o modo de proceder
deste último é insatisfatório, tanto do ponto de vista empírico e teórico
como, principalmente, do ponto de vista “praxeológico”. Entretanto, é
necessária, além disso, uma delimitação crítica com relação a um procedi­
mento “positivista”, o qual também já foi objeto de considerações. Insisti­
mos em afirmar que a interpretação economicista e accionista de dados
históricos e do Estado não corresponde metodicamente às exigências da
representação materialista da história. Nunca é demais salientar que a
dialética configura um contexto capaz de abranger simultaneamente

68
conteúdo e método; tentaremos retomar em seguida as considerações
sobre o método e o conteúdo dos escritos políticos de Marx e de Engels.
Se abordássemos a dialética no sentido sugerido por Helmut Reichelt
na introdução a este volume,23 como sendo uma relação entre método e
conteúdo, poderíamos “operacionalizar” não somente a programática de
uma “especulação materialista à qual se chega na “Ideologia alemã”,
como também o conceito de uma reconstrução do modo de proceder
marxiano, dos modos de se colocar os problemas e as questões (portanto,
não somente de conteúdos). (Neste ponto a recepção do princípio da
reconstrução materialista da história que aparece nos escritos políticos de
Marx e de Engels interpretada como socialismo científico, abre tendencial-
mente a perspectiva de uma análise das atuais condições das classes, do
Estado e do capitalismo). Se centrarmos nossa reflexão no nexo entre
método e conteúdo, descobriremos que a exigência de dedução e de
representação contém a “reconstrução teórica da lógica do processo de
emancipação histórica” (H. Reichelt), ou seja, formulando as coisas de
modo mais técnico, veremos que a exigência de dedução e de representa­
ção implica a tarefa de interpretar o Estado burguês a partir das condições
de produção da formação capitalista da sociedade: “Em cada caso parti­
cular e específico a observação empírica deve demonstrar, de modo
empírico e sem qualquer mistificação ou especulação, o nexo existente
entre a organização política, social e a produção. A organização social e o
Estado são produzidos constantemente pelo processo vital inaugurado por
determinados indivíduos; entretanto, esses elementos não surgem dos
indivíduos do modo como aparecem em sua própria imaginação ou na
imaginação alheia, mas do modo como eles são realmente, isto é, do modo
como se movimentam e como produzem materialmente, portanto, do
modo como eles agem sob determinados pressupostos e condições materi­
ais e independentes de sua vontade”.24
A representação materialista ia história enfrenta o problema consti­
tutivo de toda a pesquisa social orientada de modo não positivista: elaborar
a realidade empírica através de conceitos e fazer comparações entre fatos
singulares distintos, a fim de descobrir os elementos essenciais de uma
situação empírica e referi-la a análises comparativas e longitudinais. Neste
sentido, ela ultrapassa o nível de qualquer uma das disciplinas que têm na
mira a sociedade. De um lado, ela tenta compreender a totalidade social,

69
do modo como ela se manifesta no evento singular; entretanto, ela trabalha
principalmente com categorias da lógica essencial do capital em geral. As
categorías empregadas prometem reproduzir metodicamente a ligação com
o elemento essencial dos processos sociais e dos fatos singulares,25 no pon­
to em que eles não coincidem com o capitalismo realmente existente.
O fato de Marx definir o conceito de capital geral como “imagem abstrata
contraposta” à realidade dos capitais singulares, ilustra melhor ainda o
nexo estabelecido entre categorias teóricas e realidade empírica.253
As categorias utilizadas para a interpretação do capital em geral são obtidas
precisamente através da abstração da variedade empírica; podemos ler, por
exemplo, que se “abstrai do comércio de exportação. . . A fim de poder
abranger o objeto de pesquisa em sua pureza, livre de todas as circunstân­
cias secundárias, perturbadoras, é necessário que nós. . . vejamos a totali­
dade do mundo do comércio como se fosse uma nação e que pressuponha­
mos que a produção capitalista se estabilizou em todos os lugares e que se
apropriou de todos os ramos da indústria”.26 Portanto, a representação
categorial constitui, antes de tudo, um processo de abstração, capaz de
desempenhar um papel na análise dos processos e das leis do desenvolvi­
mento social, um papel semelhante ao que é encenado realmente pelo
experimento nas ciências da natureza, com a diferença de que este último
toma possível uma aproximação muito maior no que respeita às condições
ideais de pureza dos materiais, de pressão maior ou menor, de mais alta ou
mais baixa temperatura, etc. A referência abstrata à estrutura lógica do
capital constitui o esforço do conceito, que procura prescindir de todos os
“agregamentos” da própria coisa, do modo como ela é captada sensivel­
mente pelo homem, a fim de construir historicamente essa mesma coisa,
em sua gênese, atualidade e futuro. (Na terminologia de uma práxis de
pesquisa, teríamos que interpretar este esforço como sendo a tentativa
de reduzir o número das variáveis; e neste nível far-se-ia mister a crítica
que iria exigir argumentos em favor da legitimação desse processo que
exclui, por exemplo, o comércio exterior real e outros).
Isso revela que o problema metódico da compreensão materialista
da história repousa inicialmente no nível da formação dos conceitos e,
a seguir, na retroligação empírica dessas categorias, isto é, na tradução
do instrumentário conceituai, abstrato, em representações da realidade
empírica. O problema metódico da “pesquisa lógica dos nexos internos”

70
de um processo histórico27 determina preliminarmente, a partir da própria
formação das categorias, os enunciados de conteúdo, ou seja, determina
o modo como a realidade empírica é “sub-valorizada” com relação à abs­
tração categorial. As -realizações passam a ser representadas pelo seu
conceito (previamente envolvido em categorias). Com isso destaca-se
inicialmente o nível da representação categorial, tida como essencial;
vem a seguir o nível do capital em particular e dos conflitos de classe:
“. . . na teoria se pressupõe que as leis de produção capitalista se desenvol­
vem de modo puro. Quando na realidade existe apenas uma aproximação;
no entanto, esta aproximação é tanto maior, quanto mais adiantado estiver
o estado da produção capitalista e quanto menor for o seu grau de impure­
za e de envolvimento com restos de situações econômicas primitivas.28
(Mesmo sabendo que é impossível explicitar aqui todos os elementos
necessários,29 podemos afirmar que existe pelo menos uma razão que se
opõe à rejeição antecipada desse método e à interpretação que vê nele um
simples exercício idealista: esta razão se apóia no método da formação das
categorias, ou seja, mais precisamente, na sua pretensão em ordem a uma
validade geral-concreta. Bertold Brecht procede, pois, corretamente quan­
do afirma, em sentido bem amplo, que a crítica da economia política
é o “grande método”.
Pelo ângulo de sua pretensão metódica, a representação materialista
da história implica uma transgressão dos procedimentos sociológicos,
politológicos e econômicos que recorrem a normas sociais, a interesses,
motivos, instituições, organizações e ao poder. Hans-Georg Backhaus
sublinha que “uma teoria sociológica que tenta deduzir as relações sociais
a partir de um entrelaçamento consciente de vários indivíduos e que tem a
‘reflexividade’ e a Intencionalidade’ na conta de marcos constitutivos do
agir social, tem de fracassar porque as categorias econômicas não são
redutíveis a conteúdos da consciência ou do inconsciente” ;30 e na repre­
sentação materialista da história, voltada à explicação da totalidade,
trata-se precisamente da existência deste elemento não clarificável perante
as disciplinas particulares. Por conseguinte, é necessário exercitar a crítica
com relação às interpretações que vêem em Marx um sociólogo ou um
historiador.31
A intenção da representação materialista da história é ser mais do
que “uma simples consciência às avessas” para os historiadores burgueses,

71
capaz de levá-los a fazer “uma radioscopia melhor das forças sociais e
econômicas”, de acordo com o lema: a concorrência anima o negócio!
(Esta é a idéia de Harold Popp, um historiador). Tal compreensão não
faria jus à pretensão de uma análise radical e categorial-lógica, pois, a
escamotearia a limine ou a rebaixaria, pelo menos, ao nível de uma falha
mínima da observação empírica de Marx e Engels, desculpável, portanto,
mas que não deixa de ser excepcional, quando vista de outro ângulo!
Contra esta interpretação se levanta a auto-compreensão de Marx, segundo
a qual, por exemplo, a sua pesquisa sobre a filosofia do direito hegeliana
desemboca no seguinte resultado: “as condições do direito e as formas
do Estado não podem ser entendidas a partir de si mesmas, nem a partir
do assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano, porque
lançam raízes nas condições da vida material, cuja totalidade Hegel, após
o sucesso dos ingleses e franceses do século XVIII, sintetiza sob o nome
‘sociedade burguesa’; entretanto, a anatomia da sociedade burguesa deve
ser buscada na economia política”.32
A interpretação materialista da história recorre sempre à categoria
“estrutura econômica da sociedade”, que visa ã sua realidade fatual. Para
a análise da simples realidade dos fatos empíricos, da história enquanto
“res gestae”, ela garante apenas a pretensão, e não a realização metódica
dessa pretensão. Afirma-se, além disso, que a objetividade do elemento
social passa para o primeiro plano, deixando para trás o ator histórico,
porque a compreensão materialista da história não parte de “o homem,
mas do período da sociedade economicamente dado” ;33 entretanto, não
se explicam as conseqüências que daí derivam para cada caso concreto.
Caso contrário, todos os textos políticos, escritos quase sempre por pres­
são de circunstâncias atuais, teriam que ser entendidos como fragmentos
doutrinais. As referências feitas até o momento permitem as seguintes
constatações:
— O princípio da representação materialista da história caracteriza
programáticamente a intenção de situar a interpretação da história real
acima dos níveis nos quais se subordina a política e a economia a interes­
ses, e acima da explicação da política a partir da tensão existente entre
focos produtivos e relações de produção.34
— A realidade empírica da sociedade burguesa e do Estado burguês
não pode ser inferida do conceito de capital em geral (quando isto aconte­

72
ce significa que estamos diante do “dogmatismo” e do “accionismo” das
organizações políticas, ou seja, da “corrupção do grande método”, B.
Brecht). A representação da história existente — que constitui o alvo da
interpretação materialista da história, tanto do ponto de vista do método,
como do conteúdo — não coincide com a descrição conceituai da totali­
dade das formas e determinações capitalistas; entretanto tais conceitos e
categorias do capital em geral, e a pretensão metódica que os acompanha —
de serem ao mesmo tempo abstratos e concretos em geral — possuem o
instrumentário para a representação da história real dos Estados e socieda-
dades capitalistas.
— O lado metódico da implementação desse nexo entre representa­
ção categorial e pesquisa empírica tem de ser melhor analisado a partir do
modelo fornecido pelos escritos políticos de Marx e de Engels.35
A compreensão de acontecimentos políticos necessita de categorias
capazes de representar de modo geral e concreto “a síntese de muitas
determinações. . . , portanto, a unidade do múltiplo” (K. Marx). No
entanto, os acontecimentos políticos e sociais concretos nunca são absorvi­
dos completamente por estas categorias. No terceiro volume do “Capital”
Marx elaborou uma passagem bem longa onde tenta explicitar o método
através do qual se processa a relação entre teoria e realidade empírica:
“A forma econômica e específica através da qual o trabalho adicional é
sugado dos produtores imediatos, determina o contexto de dominação e
de servidão que surge imediatamente da própria produção e que por sua
vez retroage determinantemente sobre ela. Todavia, a inteira configuração
da forma política específica e do bem comum econômico, que nasce das
próprias relações de produção estão apoiados neste processo. O segredo
mais oculto e o fundamento mais profundo da construção da sociedade
inteira e, portanto, da forma política das condições de soberania e de
dependência, de toda a forma específica de Estado, reside na relação
imediata que os proprietários das condições de produção mantêm com os
produtos imediatos —uma relação cuja forma respectiva sempre correspon­
de naturalmente a um determinado nível de desenvolvimento das formas
e modos de trabalho e, portanto, à sua força social produtiva.36 Isso não
impede que a mesma base econômica - a mesma no que diz respeito às
condições principais - possa revelar infinitas variações e gradações na sua
aparência, devido à grande variedade de circunstâncias empíricas, condi­

73
ções materiais, condições de raça, influências sociais que agem a partir de
fora, etc.; por isso, ela somente pode ser compreendida através da análise
dessas circunstâncias empíricas”.31 Ao proporcionar simultaneamente uma
explicação e um recuo da pretensão programática da “especulação materia­
lista”, Marx elenca certas dimensões que podemos tomar como ilustração
da riqueza dos seus escritos políticos.
Através destas afirmações Marx esboça os temas contidos em seus
escritos políticos, os quais devem ser vistos em sua totalidade como análise
de particularidades das “condições principais” do capitalismo; esses
escritos têm de ser precisamente isso, pois, em caso contrário, não conse­
guiriam manter a sua pretensão política, ficando reduzidos, por exemplo,
ao papel de simples elementos de auto-agitaçâo da classe trabalhadora.
O que motiva os escritos políticos é a necessidade de conseguir uma cole­
ção de conhecimentos analíticos sobre as diferenças que existem entre
as duas principais classes, a dos capitalistas e a do proletariado, sobre as
formas concretas nas quais aparecem as classes intermediárias, sobre a
atividade, as formas e a constituição da maquinaria do Estado, da econo­
mia, etc. Esse saber, que é motivado desde o início pelas lutas da classe
trabalhadora, passa então a ser aplicado a esta classe. Em última instância,
as análises políticas fornecem o material para a discussão do movimento
revolucionário dos trabalhadores, seja no nível da discussão da teoria e da
práxis, seja no da discussão estratégico-prática.
Enquanto análise de fenômenos empíricos e principalmente devido
à riqueza dos resultados de pesquisa, esses escritos pretendem trazer uma
contribuição para o resgate do seguinte imperativo categórico (ou talvez
do princípio esperança?): “a classe dos trabalhadores, ou é revolucionária,
ou não será nada”.38 Esses escritos trazem uma contribuição especial para
que se possa discutir os conceitos da práxis revolucionária tendo conheci­
mento das realidades. Esse é precisamente o ponto no qual a tendência
atual de reconstruir “a” teoria de Marx deveria se inspirar para chegar a
conseqüências práticas no que diz respeito à análise e à política da Repú­
blica Federal da Alemanha —mesmo que estas conseqüências sejam inicial­
mente indiretas.39 Por isso, teríamos que incluir os escritos políticos no
contexto da retomada de Marx e de Engels, a qual se dá precisamente na
forma de uma reconstrução; esta poderia, ou melhor, deveria desdobrar-se
numa forma ad hoc, caso pretendesse evitar a queda num “accionismo

74
dogmático”, ou a perda de sua relevância analítico-política (são os dois
lados de uma mesma moeda!); entretanto, é preciso estar consciente de
que a discussão sobre a relação entre lógica e história ainda não foi decidida
no que diz respeito ao método e muito menos no tocante ao conteúdo.40
Marx e Engels são “excelentes historiadores (e conhecedores da
história burguesa mais representativa do seu século”) (À. Schmidt). A
preocupação com a história social e económica, com a história e a história
política da época, foi sempre um ponto forte de sua atividade — mais ou
menos desde a época em que Marx é levado a ocupar-se dos “Debates sobre
a lei do furto da lenha” (1842) ou desde a redação das “Cartas de Wupper-
tal”, escritas por Engels, (1839); e a cada passo da argumentação, princi­
palmente no “Capital”, interrompe-se a lógica da exposição através de
digressões empíricas e de analogias, a fim de ilustrá-la com interpolações,
cuja consistência metodológica jamais é analisada. E caso um leitor obceca­
do pela imagem anticomunista do socialismo científico ousasse acercar-se
dos textos de Marx e de Engels, ficaria surpreso ao constatar que precisa­
mente estes autores são completamente alheios ao dogmatismo e à espe­
culação teórica abstrata.41 Segundo Marx, na sociedade asiática a “estru­
tura dos elementos econômicos básicos da sociedade. . . é abalada pelos
furacões das regiões de nuvens políticas” ;42 entretanto, no nível de
caracterização das relações da produção capitalista, Marx e Engels supõem
a existência de uma dialética entre Estado e sociedade, entre economia e
política. Esta idéia, aliada às necessidades políticas descritas, vai impor-lhes,
a seguir, fases de pesquisa diferenciadas e detalhadas, a fim de “dotar” o
movimento operário de informações políticas necessárias e prestáveis, isto
é, de saber útil para a luta de classes.
A fim de aprofundar o princípio metódico que resulta da citada frase
de Marx no 39 volume de “O capital”, é preciso dar atenção especial às
últimas cartas de Engels a Conrad Schmidt e a J. Bloch. Em ambas as
cartas Engels critica a exigência dos que propõem uma dedução total (de
tudo a partir de causas econômicas, nota do trad.)43 e coloca o acento na
influência recíproca que existe entre economia e política, a qual seria
encoberta pela aplicação unilateral de categorias económico-políticas. A
produção passa a ser enfocada apenas como “aquilo que é decisivo em
última instância”: “A sociedade produz determinadas funções comuns,
das quais ela não pode fugir. As pessoas que citei a este respeito perfazem
um novo ramo da divisão do trabalho no interior da sociedade. Através
dele elas também assumem interesses especiais com relação a seus manda­
tários, elas se tomam autônomas com relação a eles, o que faz com que
surja o Estado. (Sic!). . . o novo poder autônomo deve acompanhar, em
linhas gerais, o movimento da produção, porém, ele reage, por seu tumo,
ao andamento da produção, graças à autonomia... que lhe é inerente.. ,”.44
(No 189 Brumário [MEW. 8, p .172 ] Marx consegue encontrar uma expli­
cação mais concreta para esta autonomia, ou melhor, para esta particulari­
zação do Estado com relação à produção, ao falar do “egoísmo vulgar” ,
“que faz o cidadão comum estar continuamente inclinado a sacrificar o
interesse global de sua classe a este ou àquele motivo privado”).
Em ambas as cartas Engels refere-se ao “ 189 Brumário” de Marx
como a “um exemplo excelente” para a explicação da teoria do materialis­
mo histórico. A Conrad Schmidt ele escreve que no “189 Brumário de
Luis Bonaparte” “trata-se quase exclusivamente do papel especial desem­
penhado pelas lutas políticas, naturalmente (sic!) no interior de sua
dependência geral em relação às condições econômicas” .
De fato, o “ 189 Brumário”, de Marx, que aparece muitas vezes
citado neste volume, permite focalizar a força e as fraquezas dos escritos
políticos de Marx e de Engels. Â análise diferenciada e detalhada das clas­
ses aparece como um dos seus pontos fortes, a qual é capaz de fazer uma
distinção entre as mais variadas frações do capital, tanto do ponto de
vista político, como do econômico; a principal fragilidade aparece no
momento em que se busca a profundidade da análise, a qual não consegue
resgatar realmente a pretensão da interpretação materialista da história,
limitando-se a uma simples subordinação de interesses. Atrás do brilhantis­
mo da linguagem esconde-se muitas vezes uma falta de concisão, camuflada
por analogias, bem como a incapacidade de superar a subordinação da polí­
tica aos interesses sociais ou a subordinação dela à tensão que existe entre
forças produtivas e relações de produção. Podemos tomar como exemplo
o conceito central da autonomização do poder executivo: este se encontra
pouco desenvolvido; da mesma forma, as vicissitudes políticas da burgue­
sia, e as tarefas do liberalismo político são ligadas de modo muito geral
com o desenvolvimento das relações de produção e das forças produtivas.
Em termos de análise política, quase que não se vai além de uma referência
geral a uma economia social mediadora. Parece que a força e a fraqueza

76
estão intimamente unidas, a tal ponto que o próprio Marx, não conseguin­
do resgatar as pretensões do materialismo histórico, enfrenta apenas as
exigências de uma análise de acontecimentos da política do dia-a-dia.
Não se escreve a história real: esta passa, porém, a ser interpretada pelo
ângulo dos interesses que a produziram, tidos como causas últimas num
sentido demasiadamente forte. Entretanto, este nível da análise das classes
não consegue resgatar ainda as pretensões de uma compreensão materialis­
ta da história, voltadas para a representação. Em qualquer um dos casos,
porém, a descoberta da estrutura lógica do capital em geral não leva Marx
a descuidar o enfoque politicamente decisivo das condições de constituição
de uma sociedade capitalista em particular, que ele analisa em sua especifi­
cidade e riqueza de detalhes, com relação a tradições históricas (políticas,
sociais, econômicas, culturais), com relação a condições de classe, à,ordem
jurídica, às pessoas que agem,45 à constituição da economia, ao desenvolvi­
mento da conjuntura, etc.
Um ponto essencial dos escritos políticos, reside na exigência, mintas
vezes reiterada, de fazer pesquisa política concreta, a fim de auxiliar a
evitar erros e comportamentos falhos da classe dos trabalhadores.46 Pode­
mos visualizar este ponto tomando como exemplo uma carta de Engels a
Bebei, na qual ele critica em Vollmar a “frase da ‘única massa reacionária’ ”.
Engels critica o seguinte: “todos os partidos oficiais (no Reino alemão,
Eike Hennig) reunidos num montão aqui; nós, os socialistas reunidos em
coluna lá; grande batalha decisória,vitória com um só golpe e em toda a linha.
Na realidade as coisas não são tão fáceis assim. Concretamente, a revolu­
ção. . . inicia-se no momento em que a maioria do povo e também dos
partidos oficiais, se unem contra o governo, que através disso é isolado e
derrubado, e somente após os partidos oficiais, que ainda restam, terem-se
destruído entre si, uns aos outros e um após o outro, somente então se
estabelece a grande divisão de Vfollmar] e com ela a chancé de nossa
dominação. Quiséssemos iniciar a revolução, junto com Vfollmar], a partir
de seu último ato, passaríamos miseravelmente mal” .47 Ora, precisamente
esta crítica visualiza, mais uma vez, o tipo de análises políticas a ser levado
em conta no momento de se pensar a práxis revolucionária de modo
conseqüente. Também se tom a claro que Engels redige os escritos políticos
para chamar a atenção da classe operária, ou melhor, para forçá-la a voltar -
-se para a realidade do capitalismo particular. Por conseguinte, no caso

77
concreto do enfoque analítico das classes de uma sociedade, não é suficien­
te a indicação de que existem duas classes principais, uma vez que o anda­
mento das disputas entre as classes deriva principalmente das formas que
estas assumem concretamente, devendo, por isso, ser pesquisadas.473
Teríamos que desenvolver melhor estas associações de idéias. Elas
são formuladas aqui com o mero intuito de provocar o leitor a empreender
por conta própria uma reflexão correspondente, servindo-se dos textos
citados na documentação. De mais a mais, as hipóteses aventadas para a
descrição dos pontos fracos e fortes, especialmente do “18? Brumário”
unem todos os níveis do presente volume,47b uma vez que se questiona
tanto o programa de uma representação materialista da história —do modo
como este programa pode ser extraído dos primeiros escritos até 1845/46 —
como também a sua formulação posterior, ou melhor, o modo como são
citados nos escritos econômicos, não fugindo a esta crítica os próprios
trabalhos políticos. Ao lado dessa provocação, que esperamos seja motiva­
dora, e tendo em vista os esforços que atualmente começam a ser despen­
didos na reconstrução do conceito marxiano de compreensão materialista
da história, da representação metódica e real da verdadeira história, parece
legítimo apresentar ao leitor, em toda a sua questionabilidade, um proble­
ma que ainda não foi resolvido. As contribuições atuais para a teoria de
Marx, quando não inspiradas por um “materialismo bobo” (Lênin), não
pretendem mais intimidar ninguém com frase: “nós temos para tudo uma
resposta”. A pergunta de Brecht, que toma esta idéia como ponto de
partida, é a seguinte: Será que poderíamos, em benefício da propaganda,
organizar uma lista dos problemas que nos parecem totalmente insolúveis?”
Respondemos de modo afirmativo. Podemos, pois, finalizar, contentando-
-nos com a simples indicação de que a tentativa de formular alguns campos
de problemas e questões não é suficiente para fechá-los.
Delineamos até aqui apontamentos relativos à problemática que se
encontra na base das análises políticas de Marx e de Engels no momento
em que estes se põem a formular programáticamente o nível de pretensão
do materialismo histórico, que é visto como a representação dialética de
processos históricos reais, portanto, essenciais; a partir de agora, pretende­
mos entrar de modo mais imanente e ilustrativo na própria argumentação
dos escritos políticos. Esta tentativa de uma representação quase tipológica
de alguns pontos centrais e essenciais da argumentação dos escritos políti­

78
cos nos conduz, de modo muito precário e extremamente truncado, à
crítica da perspectiva desses trabalhos, que se configura numa análise de
classes. E esta representação crítica remete-nos novamente aos problemas
metódicos esboçados no início destas notas, destinadas a auxiliar no
trabalho de leitura.

“Os mecanismos de governo têm de ser os mais simples possíveis.


E a arte do malandro consiste sempre em tomá-los complicados
e misteriosos”. (Marx. “A constituição da república francesa,
aprovada no dia 4 de novembro de 1848”, 1851, MEW, vol. 7, p.
498).

Os escritos políticos podem ser tomados como testemunhos singula­


res dus consideráveis esforços despendidos por Marx e Engels para desen­
volver teorias que levam em conta os dados concretos; revelam, outrossim,
o quanto eles estão preocupados em desvendar as “correntes profundas da
sociedade moderna” (Marx) e em mostrar que elas constituem um elemen­
to geral que se revela nas particularidades individuais da “superfície da
sociedade” (Marx).48 A máxima de se orientar pelo concreto marca
também a intenção de constituir uma teoria positiva (que leva, por exem­
plo, ao esboço de um plano visando “determinar matematicamente as leis
principais das crises*) 49 A teoria entendida como estratégia política e a
estrita observância do elemento concreto, empiricamente representável,
convergem na constatação de que as idéias relativas à teoria do Estado
desempenham um “papel central no pensamento de Marx”.50
Tais ponderações relativas à teoria do Estado incluem discussões
sobre o comportamento político da classe dos operários, do ponto de vista
da teoria da revolução; e a seguinte avaliação de Henri Lefèvre: “tudo
somado, o pensamento de Marx está orientado, desde as suas bases, contra
o Estado”,51 só faz sentido se tomarmos consciência de que esta afirmação
também afeta a determinação funcional “do” Estado enquanto instrumen­
to dos agentes proletários do socialismo revolucionário:52 “A análise polí­
tica não se volta em primeira linha à situação política no interior do
Estado (não tem na mira uma questão tática), mas a situação do Estado no
interior da sociedade”.53 Deste modo, o Estado e a política passam a ser
analisados como momentos centrais da dominação burguesa, isto é, como

79
fatores condicionadores e como resultados da revolução socialista. Preten­
demos abordar agora, de modo mais pormenorizado e no nível da imanên­
cia, o procedimento essencial e metódico destas análises políticas.54
Os dois momentos mais centrais das análises políticas, tanto do pon­
to de vista do conteúdo, como do método, são os seguintes: em primeiro
lugar, o fato de não se poder inferir os fenômenos históricos concretos,
isto é, as realizações e os “acasos”55 a partir da lógica do capital em geral;
em segundo lugar, a exigência de analisar as formas político-estatais e as
tradições sob o enfoque de seus efeitos sobre a política do movimento
operário. Encaixam-se muito bem nesta exigência os amplos conhecimen­
tos históricos de Marx e de Engels,56 que procuram convencer profunda e
concretamente a classe operária da urgência da pesquisa concreta e da
interpretação categorial-conceitual no que diz respeito à discussão de
estratégias e táticas políticas.
Marx chega a formular isso na figura de um imperativo, que constitui
ao mesmo tempo uma missão política e uma ambição científica: “Meu
povo, para chegar ao poder é preciso ter cuidado não só com os princípios,
mas também com os detalhes. . .!” 57 Do mesmo modo ele se manifesta
numa crítica a Bakunin (e neste ponto a crítica é apresentada simplesmen­
te com intenção programática, sem visar a sua correção ou justificação do
ponto de vista do conteúdo, portanto, sem examiná-la): “A classe dos
trabalhadores não deve ocupar-se de política. Ela deve procurar organizar-se
em sindicatos (Trade Unions). Um belo dia eles conseguirão impor-se no
lugar de todos os Estados existentes, graças à Internacional. . . Uma vez
que a nossa meta final é a transformação dos Estados existentes em asso­
ciações, temos que permitir que os governos — esses grandes sindicatos
(Trade Unions) da classe dominante —façam o que quiserem; pois, a nossa
atenção para com eles equivaleria a um reconhecimento tácito. Na verdade,
os velhos socialistas também diziam: vocês não devem perder tempo com
a questão dos salários, uma vez que o nosso objetivo é a eliminação do
salário! Discutir com um capitalista o nível dos salários seria o mesmo que
reconhecer o sistema de salários! O asno não entendeu que todo o movi­
mento de classes, enquanto movimento de classes, sempre foi e é um
movimento político.58
Inspirados nesta idéia e seguindo esta intenção, os escritos políticos
tratam especialmente dos seguintes complexos temáticos:

80
— Análise do Estado e análise das classes (as quais são apresentadas
sem levar em conta, de modo geral, análises conjunturais independentes);
este ponto pode ser subdividido em dois subaspectos:
— “Educação” e informação da classe operária59 na forma de
críticas: 1) às formas primitivas da política do Estado social;60 caracteri­
zadas ironicamente como “doçuras do regime da burguésia”;61 2) à tenta­
tiva burguesa de “colocar uma parte dos proletários contraia outra” ;62
3) à divisão da classe dos trabalhadores de acordo com diferenças étnicas;63
4) à posição sindical; 5) à posição anarquista; 6) ao papel da pequena bur­
guesia hoque diz respeito ao proletariado.6 4
— Análise da burguesia, isto é, das frações do capital, das suas varia­
das intenções políticas, bem como das institucionalizações do direito do
Estado, e análise dos efeitos da industrialização (efetivação do capital) e
do liberalismo·político.
— Análise da política internacional, com o intuito de (obter o seu
controle) e de conhecer as condições e perspectivas da política mundial
e externa qüe possam vir a ser úteis para uma revolução socialista.6 5
Nem sempre nos é fornecida uma síntese ou sistematização desses
aspectos. Mesmo assim, todos culminam ná intenção de compreender
do modo mais abrangente possível as estratégias das classes sociais e as
formas da política. E neste processo a discussão de estratégias políticas é
ligada à análise das formas políticas. É por isso que os escritos políticos
são essencialmente contra a atitude daqueles que, ao discutirem a tática
e ä estratégia da classe operária, menosprezam as formas políticas concre­
tas do Estado particular. —Um artigo, aparecido no “Para frente” (Vorwärts)
de 01/07/1877 (“Abaixo a república!”) e no qual se afirma que para os
trabalhadores franceses é indiferente lutar sob as condições de uma repú­
blica burguesa ou sob as condições de uma monarquia,66 pode servir para
caracterizar bem o alvo da crítica das análises políticas. Marx sublinha,
neste sentido, que: “Nós somos seguramente Os últimos a querer a domina­
ção da burguesia. . . Mesmo assim Conclamamos os pequenos burgueses
e os trabalhadores: deveis preferir sofrer na sociedade burguesa moderna,
cuja indústria obtém os meios materiais para a construção de uma socieda­
de nova, capaz de libertar-nos a todos, a retroceder para uma forma de
sociedade pâssadà, a quàl, sob o pretexto dé salvar nossas classes, lançá
a nação inteira numa barbárie medieval!”.6 7

81
É por isso que Marx e Engels, ao referirem-se à burguesia e ao
Estado burguês, tomam na mira especialmente as forças e tradições capazes
de bloquear ou de impulsionar os processos de industrialização e de estru­
turação de urna república burguesa. E eles condicionam a possibilidade
objetiva de o proletariado vir a realizar os objetivos do socialismo revolu­
cionário — tido como um “fator subjetivo” não analisado suficientemen­
te — à influencia benéfica da industrialização e ao estabelecimento da
república burguesa como forma de Estado. A república burguesa, bem no
sentido desta análise, é caracterizada como “estufa da revolução”68 e a
revolução do proletariado em geral é ligada (de acordo com a formulação
contida no “Manifesto Comunista”) ao “papel altamente revolucionário”
da burguesia — uma vez que “os ciclos das formas políticas são apenas a
expressão política das transformações reais ocorridas na sociedade”.69
“O desenvolvimento do proletariado industrial em geral é condicionado
através do desenvolvimento da burguesia industrial. A dominação desta
última toma possível a ele adquirir existência nacional dilatada, capaz de
dar à sua revolução contornos nacionais; sob esta dominação ele gera os
modernos meios de produção, que se transformam em meios de sua
libertação revolucionária. A dominação da burguesia industrial arranca as
raízes materiais da sociedade feudal e aplaina o terreno sobre o qual é
possível construir uma revolução proletária”.70 — É por isso que com
relação à Alemanha, se coloca (principalmente por parte de Engels) o
acento na necessidade política de se estabelecer antes de mais nada as
condições burguesas na economia e na política;71 ao mesmo tempo,
porém, encontramos aí a idéia de que na Alemanha o liberalismo eco­
nômico não coincide com o liberalismo político, ou seja, que a instaura­
ção do capitalismo não caminha paralelamente com a restauração polí­
tica.72 (A última afirmação tem de ser considerada sistematicamente
no quadro de uma análise do fascismo alemão).723
Um ponto central dos escritos políticos consiste na elaboração do
conteúdo dialético da “melhor forma de Estado”,73 ou seja, da república
burguesa. A indústria buiguesa tem de arrebentar as algemas do absolu­
tismo e do feudalismo,74 para dar lugar ao proletariado, que Marx e
Engels consideram natural e intrinsicamente revolucionário: a república
burguesa constitui, por seu tumo, “a forma clássica da dominação da
burguesia e, simultaneamente, o início da dissolução desta dominação” ;75

82
as condições de produção burguesas são dialéticas porque, ao produzirem
o proletariado, geram não somente a fonte de sua riqueza, mas também
o seu coveiro: a república burguesa, por sua vez, revela-se contraditória
em sua base: “As classes, cuja escravidão social deve ser perpetuada por ela
(a república burguesa, Eike Henning), o proletariado, os colonos e os
pequenos burgueses recebem dela, através do direito geral de voto, a posse
do poder político. E ela priva a classe, a burguesia, cujo antigo poder
social ela sanciona, das garantias políticas deste poder. Ela constrange
sua dominação política a assumir as vestes das condições democráticas,
as quais contribuem, a todo instante, para a vitória das classes inimigas,
colocando em cheque os próprios fundamentos da sociedade burguesa.
De uns ela exige que não passem da emancipação política para a social;
de outros, que não retrocedam, passando de uma restauração social para
uma política”.75
O alvo das análises políticas é fornecer para a classe trabalhadora
informações sobre as tendências de progresso ou de restauração da burgue­
sia, que se encontra politicamente fracionada e em concorrência econômi­
ca, ou seja,a sua finalidade consiste em proporcionar os elementos neces­
sários para que o próprio movimento dos trabalhadores se transforme no
sujeito do socialismo revolucionário e na expressão de seu conceito cate-
gorial, passando de um movimento republicano para outro de cunho
social.77
A potência revolucionária da república burguesa revela-se principal­
mente na França. O bonapartismo impulsionou o desenvolvimento polí­
tico a tal ponto, que a sociedade burguesa vê apenas duas saídas: a socie­
dade burguesa “em estado de putrefação” , que admite “apenas o império”;
e “estado de renovação” , que considera “somente a república do traba­
lho ”,78 De acordo com Marx e Engels, a classe trabalhadora reage à forma
burguesa mais desenvolvida do Estado —isto é, ao poder executivo auto­
nomizado do bonapartismo —tida como restauração política, criando em
1871 a comuna de Paris,79 a qual constitui um “novo ponto de partida
extremamente importante para a história mundial”.80 O enunciado geral
— válido para burgueses e proletários — e que pode ser formulado da
seguinte maneira: “após uma revolução, todo estado provisório do Estado
exige uma ditadura, a qual tem de ser necessariamente enérgica”,81 bem
como a determinação instrumental geral do Estado no contexto da revolu-

83
ção socialista,82 são concretizados de modo exemplar, no entender de
Marx e de Engels, através da comuna. (É a corporação trabalhadora da
comuna de Paris, que supera positivamente a complexidade artificial e
não essencial do Estado burguês, que existia como meio de dominação
capitalista; ela a desmascara caracterizando-a como uma “arte do malan­
dro”).^ ,©j0Y sb ;£■'£%;. ob Esyirtts .sbfo ííísíIsosí .laemigaió aoasopaq
É tão grande a importância atribuída ao caráter modelar da comuna
de Paris, que Marx e Engels, ainda sob os efeitos da impressão por ela
causada, são levados em 1872 a complementar, a esclarecer e até a rever as
afirmações contidas no “Manifesto comunista”: “Face ao desenvolvimento
imenso da grande indústria nos últimos vinte e cinco anos e da concomi­
tante organização dos partidos da classe operária , e face às experiências
práticas, em primeiro lugar, da revolução de fevereiro, e ainda mais, da
comuna de Paris, onde pela primeira vez o proletariado conseguiu manter
o poder político durante dois meses (fato que ainda não foi comprovado
empiricamente, Eike Hennig), temos que admitir que hoje este programa
(o “manifesto comunista”, Eike Hennig) está ultrapassado em vários
pontos. Concretamente, a comuna trouxe a prova de que a ‘classe dos
trabalhadores não pode simplesmente tomar em seu poder a máquina do
Estado já pronta e acioná-la em benefício de seus próprios interesses”.83
Tais argumentações são urdidas no contexto de análises diferenciadas
das classes. No que tange à Inglaterra,por exemplo, encontramos uma dis­
tinção entre “as classes estáveis ou reacionárias,de um lado,portanto (da)
aristocracia, (dos) capitalistas que vivem de rendas, (dos) que especulam
na bolsa, (dos) latifundiários nas colônias, (dos) armadores de navios e
(de) uma parte dos comerciantes e dos banqueiros” , e “a burguesia indus­
trial ” de outro lado.84 Numa análise política referente á França podemos
constatar a seguinte distinção feita entre frações políticas do capital: “O
dia primeiro de novembro de 1849 dá início ao terceiro período da vida
das instituições constitucionais. . . , o conflito entre o poder legislativo e o
executivo. Opondo^e aos desejos de restauração dos orleanistas reunidos
e dos legitimistas, Napoleão defende o título de seu poder concreto, no
caso, a república; e contra os desejos de restauração de Bonaparte >o parti­
do da ordem defende o título de seu domínio comum: a república; os
legitimistas opõem-se aos orleanistas e estes àqueles, todos preocupados em
defender o status quo, a república. Todas estas frações do partido da

84
ordem, cada uma das quais tem em sua mente o seu próprio rei e a sua
própria restauração, validam alternadamente —contrapondo-se aos desejos
de usurpação e de sublevação de suas rivais — a dominação comum da
burguesia, a forma na qual as pretensões particulares são neutralizadas e
reservadas: a república”.85 As duas citações podem ilustrar bem o nivel de
diferenciação atingido nas análises políticas; ambas revelam, entretanto,
que os fenômenos descritos não são explicitados quanto á sua génese nem
quanto à sua atitude. Não se encontra um quadro de referência nem um
pano de fundo econômico ou social para as opções políticas, etc., das
frações capitalistas. Por isso, a análise de classes fica por demais presa ao
níyel dã indicação de interesses políticos e de agrupamentos tomados em
si mesmos, cuja relação com o “capitalista coletivo ideal”, com o Estado
e com a classe burguesa,não é esclarecida suficientemente.
Uma “unidade da multiplicidade” é postulada apenas no plano
categorial, porque a “época da burguesia” se caracteriza —conforme está
dito no “manifesto comunista” — pelo fato de “ter simplificado as con­
tradições de classe” , de tal sorte que passamos a ter “cada vez mais” ,
apenas “dois grandes acampamentos inimigos” , a burguesia e o proletaria­
do ® Esta constelação categorial encontrável nos escritos políticos, “dois
grandes exércitos com bandeiras e objetivos. . . diferentes” permanece
solta, contrastando de modo singular com o nível de diferenciação atingido
pelas análises das classes e chama a atenção para a problemática metodoló­
gica e analítica inerente a estas análises políticas das classes. Tal problemá­
tica transparece, por exemplo,na descrição meramente política,na qual se
aventa a hipótese de uma restauração política da burguesia, a qual não
pode, porém, anular a chance de uma transformação revolucionária da
sociedade capitalista. Apesar das reflexões diferenciadas em tomo das
possíveis formas de Estado, impõe-se, no final de tudo, a categoria do
capitalismo idêntico em si mesmo e por si mesmo, a fim de poder interpre­
tar a restauração política como sendo apenas uma interrupção temporária,
superável em termos positivamente socialistas. No tocante â classe dos
trabalhadores, esse vazio se correlaciona com o menosprezo pelos “fatores
subjetivos” que iniciam é determinam o processo de constituição da cons­
ciência de classe, Para Marx, estas omissões tomam a revolução “iminen­
te. . . no continente ,a qual assumirá imediatamente um caráter socialista” 87
(para não falar dos cálculos de Engels relativos á- vitória das eleições da

85
democracia social na Alemanha); pois: “toma-se desnecessário falar longa­
mente das conseqüências políticas que uma crise nos dias de hoje traria
necessariamente. . .” .88 Se alguém contemplasse as coisas a posteriori
poderia descobrir que o problema fundamental é deixado de lado; pois,
uma visão retrospectiva sobre a história do movimento operário pode
revelar que “a questão mais essencial não consiste em saber se o operário
possui consciência de classe, nem em saber como esta consciência se
apresenta. . ., mas em saber qual é o elemento que entrava o desenvolvi­
mento da consciência de classe " (W. Reich).
Qualquer processo de recepção e de reconstrução crítica dos escritos
políticos de Marx e de Engels deveria concentrar-se nestes pontos fracos.
No momento em que se aceita a riqueza dessas análises e se tenta resgatar
o seu nível de pretensão para a pesquisa de interesses políticos e movi­
mentos de classes, é preciso aproveitar primeiramente a análise da cons­
tituição da consciência de classe dos trabalhadores, bem como os esforços
despendidos pela teoria dos grupos de monopólio para recriar uma unidade
entre poder político e econômico. Tal procedimento, porém, contribui
para realçar os problemas metódicos descritos mais acima. Ainda se desco­
nhece o nexo que existe entre as variedades empíricas e “sua” essência,
ou melhor, o nexo “da” essência com “sua” realidade empírica; e esse
problema se coloca com toda a nitidez quando alguém não despreza a
necessidade da pesquisa empírica e nem a urgência das análises políticas
de movimento de classe, passando a considera4as como uma missão do
materialismo histórico (mesmo que esta não seja a missão).

NOTAS E CITAÇÕES

1 “Unidade diale'tica” significa que os níveis da pesquisa e da representação podem


existir um ao lado do outro, ou um após o outro; porque a práxis da representação
materialista da história depende da unidade destes dois elementos na forma de uma
representação crítica e analítica. —Cf. a esse respeito Alfred Schmidt. O conceito de
ciência de Marx na atiial discussão (Der Wissenschaftsbegriff von Marx in der gegen­
wärtigen Diskussion), texto manuscrito parao radio:W D R,39 Programa, 11/04/1972
a 13/02/73, especialmente pg. 9-10; ali encontram-se também as duas citações
seguintes; cf. tb . id. História e estrutura. Questões de uma historiografia marxista.
(Geschichte und Struktur. Fragen einer marxistischen Historik), Munique, 1971,
p. 52ss. — Com relação ao conceito “dialética” cf. neste contexto Gert Schäfer.

86
Sobre o problema da dialética em Karl Marx e W .l, Lenin (Zum Problem der Dialektik
bei Karl Marx und W .I, Lenin) in: Studium Generale 21 (1 9 6 8 ),p . 934 -962.
2 Karl Marx in: Teorias sobre a mais valia (Theorien über den Mehrwert), II, MEW 26,
2 ,p . 1 5 6 .Mais provas cf, documentação de Schmidt, História e estrutura (Geschichte
und Struktur), op . cit. (nota 1), p . 49ss; cf, tb . Helmuth R eichelt,Sobre a estrutura
lógica do conceito de capital em Karl Marx (Zur logischen Struktur des Kapitalbegriffs
bei Karl M arx),Frankfurt/Viena, 1 9 7 0 ,p . 126ss.
3 Hartmut Neuendorff, O conceito de interesse (Der Begriff des Interesses), Frankfurt,
1973, p. 108ss., 152ss,; com relação ao conceito de interesse cf. tb.D ieter Senghaas,
Prefácio a id, (otg,) Pesquisa critica da paz (Kritische Friedensforschung), Frankfurt,
1971, p . 12ss.; Lais Gerström, O que é um conflito de interesse? (What is a Conflict
of Interest?), in: Journal o f Peace research, 7, (1970), p . 197 -217; para o confronto
com uma posição da RDA cf. Ruth Walter, A configuração da unanimidade de
interesses no sistema econômico do socialismo da RDA (Die Gestaltung der Interes­
senübereinstimmung im ökonomischen System des Sozialismus der DDR), Berlim
(RDA) 1970.
4 Karl Marx, O capital (Das Kapital), I , 4 ? . ed. 1890, edit, por Friedrich Engels,
MEW 2 3 ,p. 393 - nota 89.
5 Marx, Carta a Engels 09/12/1861: MEW 3 0 ,p . 207.
6 Cf. minhas “Notas à “Ciência histórica enquanto arm a’, de W, Fischer”, in: Das
Argument, 7 8 ,1 5 (1 9 7 3 ),p. 187 -188.
7 Com relação à problemática metodológica, inerente a esta determinação categorial
do capitalismo, por demais descuidada pelo próprio Marx, c f. Eike Hennig, Teoria
dos grupos de monopólio na RDA discutida à luz de ‘Grandes bancos, monopólios
industriais, E stado’, de Kurt Gossweiler, (Monopolgruppentheorie in der DDR
diskutiert an ‘Grossbanken, Industriemonopole, Staat’ von Kurt Gossweiler), in:
Leviathan, 1 (1973), p. 135-151, aqui principalmente p, 135-139; Id .,n o caderno
1 (1974) do periódico que é editado na série “edition suhrkamp” : “Sociedade.
Contribuições para a teoria de Marx ’’(Gesellschaft. Beiträge zur Marxschen Theorie);
cf. tb, Martin Nicolaus, Concorrência e mais valia (Konkurrenz und Mehrwert),
Berlim 1970, especialmente p, 43ss.
8 Com relação aos dois conceitos de história cf, Schm idt,História e estrutura (Geschi­
chte und S truktur), ibid., (nota 1).
9 Com relação á analise do Estado, cf. Hennig, Teoria dos grupos de monopólio na
RDA. (nota 7).
10Cf. neste particular Jürgen Kocka, Estudos sobre a história social dos funcionários
americanos de 1890 até 1940 (Studien zur Sozialgeschichte amerikanischer
Angestellter 1890 bis 1940), tese para a cátedra de ñlosofia, Münster, 1 9 7 2 ,especial­
mente p. 228ss.; Kocka realça a dimensão comparativa num resumo facilmente
acessível: Os funcionários americanos na crise económica e no New Deal 1930-1940
(Amerikanische Angestellte in Wirtschaftskrise und New Deal 1930-1940), in:
VfZG, 20 (1972), p. 333-375. Com relação ao Reino Alemão cf. Eike Hennig. Teses
sobre a história social e econômica da Alemanha de 1933 até 1938 (Thesen zur
deutschen Sozial — und Wirtschaftsgeschichte 1933 bis 1938), Frankfurt, 1973. -
Com relação ao significado da lei da queda tendencial dos lucros no contexto da
elaboração conceituai de dados políticos, cf. as teses estimulantes de Karl-Heinz
Heise: Sobre o desenvolvimento das contradições da lei da queda tendencial dos
lucros nas condições do monopólio estatal (Zur Entfaltung der Widersprüche des
Gesetzes vom tendenziellen Fall der Profitrate unter staatsmonopolistischen Bedin­
gungen), in: Wirtschaftswissenschaft, 1973/6, p. 864-877 (p. 865s.: “A lei da queda

87
tendejicial do lucro tem de ser considerada como algo embutido no complexo geral
das contradições políticas e econômicas entrelaçadas entre si, em que pese a função
prioritária que ela desempenha na dinâmica e no movimento do capital; isso vale
principalmente quando se trata de fases de desenvolvimento complexas, como, por
exemplo, a do capitalismo que se apóia no monopólio do Estado, cuja gênese e cujo
desenvolvimento não podem ser deduzidos preponderantemente da agudização dos
conflitos internos do processo de aproveitamento do capital. Isso não é possível,
uma vez que os mesmos processos decorrentes do conflito de aproveitamento são
determinados de modo global e mediato, mas não determinam suas formas concretas
e imediatas de desenvolvimento’” —Sublinhado no original),
11 W, I, Lenin, O imperialismo como estádio supremo do capitalismo. Esboço para
a compreensão geral (Der Imperialismus als höchstes Stadium des Kapitalismus,
Gemeinverständlicher Abriss), 1? ed. 1917, Berlim (RDA, 1962, p . 79s, (todas as
partes sublinhadas aparecem assim no original),
2 N , Bucharin, E . Preobraschensky. O ABC do comunismo (Das ABC des Kommu­
nismus), Hamburgo 1921, p. 24 -31. Esses autores defendem ainda a tese da domi­
nação direta do capitalista por intermédio do Estado (cf. p . 25).
13 Lênin afirma isso em 1919 numa aula na Universidade de Swerdlow: “ Sobre o
Estado” , cit. aqui segundo Lênin. Três fontes e três partes constitutivas do marxis­
mo. Karl Marx. Sobre o Estado (Drei Quellen und drei Bestandteile des Marxismus.
Karl Marx. Über den Staat), Berlim (RDA), 1969, p. 55.
14 Lênin. Estado e revolução. A doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas
do proletariado na revolução (Saat und Revolution. Die Lehre des Marxismus
vom Staat und die Aufgaben des Proletariats in der Revolution), 1? ed. 1918, Berlim
(RDA), 1967, p. 14ss.
Ibid., p. 16;cf. tb. lA.Sobre o Estado (Über den ,Staat) nota n9 13, aqui p. 65-79.
16 Lênin, Sobre o Estädo, nota 13, p. 76; com relação à formulação abstrata no
contexto da “dialética” entre conteúdo-forma, cf. tb. p. 68. Brigitte Heinrich
tenta manter esta posição, apesar de certas limitações que ela mesma introduz:
Intervenção e integração. Sobre o nexo entre Estado e economia no capitalismo
tardio (Intervention und Integration. Zum Verhältnis von Staat und Ökonomie im
Spätkapitalismus), Kursbuch, 31, maio de 1973, p. 139-153, aqui p. 143ss.
1 Lênin, Sobre o Estado, nota 13, p. 73s.
Cf. contra essa posição apenas Marx, Esboços da crítica da economia política
(Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie) (minuta) 1857-1858, Berlim
(RDA), 1953,p. 168 s .:“Quando se diz que o capital ‘é o trabalho realizado (propria­
mente o trabalho objetivado), que serve como meio para um novo trabalho (produ­
ção)’, está-se considerando a simples matéria do capital, prescindindo da determina­
ção formal, sem a qual o capital não existe. . . ” - -‘No momento em que se despreza
a forma determinada do capital, acentuando apenas o conteúdo que o transforma
num momento necessário de todo o trabalho, toma-se naturalmente muito fácil
demonstrar que o capital constitui uma condição necessária de toda a produção
humana. Entretanto, esta prova é conduzida através da abstração das determinações
específicas que o transformam (o capital) no momento de um elevado degrau histórico
da produção humana. . . ”. Cf. tb. Reichelt, op. cit., nota n ? 2; Id., ibid., Introdução
a G. W. F. Hegel, princípios da filosofia do direito (Einl. zu G. W. F. Hegel, Grundli­
nien der Philosophie des Rechts), Frankfurt/Bérlim/Viena, 1972; cf. tb. Hans-Georg
Backhaus, Sobre a dialética da forma do valor, in: Alfred Schmidt (org.), Contribui­
ções para a epistemologia marxista (Beiträge zur marxistischen Erkenntnistheorie),
Frankfurt, 1969, p. 128-152.
Lênin, Sobre o Estado, nota 13, especialmente p. 76s.; Id., Estado e revolução,

88
in: op. eit., nota 14, especialmente p. 16s., 18ss, 35ss, 48ss, 78ss e 84ss.;cf. Id.,
O ‘radicalismo de esquerda’, a doença infantil no comunismo (Der ‘linke Radikalis­
mus’, die Kinderkrankheit im Kommunismus), 1? ed. 1920, Berlim (RDA), 1964,
especialmente p. 45ss, 84ss,
2 Nicos Poulantzas, Fascisme et Dictature, Paris 1970, p. 8: “ On ne peut. . . parier
du fascisme sans parier de la classe ouvrière, et l’on ne peut non plus parier de
celle-ci, pour le période de l’entre-deux-guerres, sans traiter de la politique du Komin­
tern”. Com relação aos desdobramentos desta constatação e da questão levantada
no texto, cf. Gert Schäfer. A Internacional comunista e o problema do fascismo.
Uma contribuição para a crítica do marxismo-leninismo institucional (Die Kommu­
nistische Internationale und das Problem des Faschismus. Ein Beitrag zur Kritik c(es
institutioneilen Marxismus-Leninismus). Dissertação filosófica, Hannover, 1973.
Palavras de Rosa Luxemburg em 30/12/1918 ao tentar convencer o PCA a votar
nas eleições para a assembléia nacional —cit. in: A fundação do congresso do PCA
(Der Gründungsparteitag der KPD), edit. e prefaciado por Herman Weber, Frankfurt/
Viena, 1969, p. 102.
Karl Korsch. Marxismo e filosofia (Marxismus und Philosophie), 2? ed. 1930,
edit. e prefaciado por Erich Gerlach, Frankfurt/Viena, 1966, p. 34s. (o grifo é do
original). ,, ........ . yVwi
23 Cf. neste volume, p. XLIXss., LIIs.
Karl Marx, Friedrich Engels .Ideologia alemã (Deutsche Ideologie), 1845/46,
MEW 3, p. 25, (grifado no original); cf. com relação a esta citação R. Stephen
Warner. A metodologia nas pesquisas comparativas de Karl Marx sobre os modos de
produção (Die Methodologie in Karl Marx’ vergleichenden Untersuchungen über die
Produktionsweisen), in·. K Z f SS. 20 (1968), p. 223-249, aqui p. 241ss.
25 No supra citado texto “Sociedade” (Gesellschaft) aparece uma reflexão crítica;
cf. acima nota n? 7.
2^a Cf. neste vol., p. LIIss.
26 Marx, Capital I, nota n9 4, p. 607 - nota 21a.
27 Engels. Complementação e suplemento ao Livro III do “ Capital”, in: Marx,
O capital, III, 1? ed. 1894, MEW 25, p. 905.
28 Marx, Capital III, loc. cit. (nota 27), p. 184; neste ponto seria necessário pôr em
movimento um entendimento crítico: cf. o trabalho de Nicolaus, op. cit. (nota
7); cf. tb. nota 25.
29 ·*“' ' ·■■
' / ' fr ' H'.;,":','· -.sTl , -V .A^'· ^ ■
Existem tambem indicações em Hennig, “Teoria dos grupos de monopólio na
RDA. . .” , in: loc. cit, (nota 7), p. 135ss; com relação a Marx, cf. principalmente
“Esboços", loc. cit. (nota 18), p. 21-29; cf. tb. o material difundido por Hans Jörg
Sandkühler, Praxis e consciência histórica (Praxis und Geschichtsbewusstsein),
Frankfurt,
30 1973,» rp.
..·? ... . . . . .213-244.
. ·. . ......... ... ·....·,· ... V i , · . As.

Backhaus, op. cit. (nota 18), p. 152; cf. no mesmo vol., A. Schmidt, O ataque
estruturalista à história (Der strukturalistische Angriff auf die Geschichte) aqui
especialmente p. 206s.
31 Assim, por exemplo, Warner, op. cit. (nota 24), p. 224, ver, porém, p. 243; çf. a
posição crítica de Timothy W. Mason, Sobre a relevância política de teorias
históricas (Zur politischen Relevanz historischer Theorien), in : Política e história
contemporânea. (Politik und Zeitgeschichte), suplemento do semanário “O Parla­
m ento” (Das Parlament), B 20/72, do dia 13/05/1972, p. 33-42, especialmente
p. 40s.; Lucio Coletti, Marxismo como sociologia (Marxismus als Soziologie), Berlim,
1973. - Com relação a esse complexo cf. tb. Leonhard Krieger, Marx and Engels as
Historians, in: Journal o f the History o fld ea s, 14 (1953), p. 381-403; Id. The Uses

89
of Marx for History, in: Political Science Quarterly, 75 (1960), p. 355-378; Bert
F. Hoselitz, Karl Marx on Secular and Social Development: A Study in the Sociology
of Nineteenth Century Social Science, in -.Comparative Studies in Society and History,
6 (1964), p. 142-163; Andrezej Malewski, O conteúdo empírico da teoria do materia­
lismo histórico (Der empirische Gehalt der Theorie des Historischen Materialismus,
in: KZfSS, 11 (1959), p. 281-305, cf. entretanto Eric J. Hobsbawm, L’apport de Karl
Marx à lTiistoriographie, in: Diogène, 19 (1968), n ? 64, p. 44-69. Como manifesta­
ções da República Democrática da Alemanha (RDA) cf. especialmente Peter Bollhagen,
Sociologia e história (Soziologie und Geschichte), Berlim (RDA), 1967;Erich Hahn,
Materialismo histórico e sociologia marxista (Historischer Materialismus und marxis­
tische Soziologie), Berlim (RDA), 1968; Walter Friedrich (org.) Métodos de pesquisa
social no marxismo-leninismo (Methoden der marxistisch-leninistischen Sozialfors­
chung), Berlim (RDA), 1971.
32 Marx, Sobre a crítica da economia política (Zur Kritik der politischen Ökonomie),
1? ed. Berlim (RDA), 1968, p. 14.
33 Marx, Notas marginais ao “manual de economia política", de Adolph Wagner
(Randglossen zu Adolph Wagners “ Lehrbuch der politischen Ökonomie”), MEW
19, p. 371.
Cf. H. Reichelt na introdução a esse volume, p. LVI.
35 A maior fraqueza dessas observações reside no fato de não podermos desenvolver
e muito menos discutir, por absoluta falta de tempo, a referida divisão de tarefas;
daí o teor demasiadamente abstrato dessas afirmações. A colocação desses temas
pretende reproduzir apenas os questionamentos mais relevantes; mesmo assim, a
escolha dos textos empreende o esforço de captar a temática do modo mais amplo
possível (cf. as observações sobre os critérios de escolha para os escritos políticos
de Marx e Engels, neste volume, p. 511 ss.). A maior restrição decorre principalmente
do fato de as constatações empíricas dos escritos políticos não terem sido submetidas
a um controle crítico. (Há referências a isso, por exemplo, em Malewski, op. cit.,
nota 31). Seria importante comparar os trabalhos de Marx e de Engels com afirma­
ções da historiografia mais recente, a fim de descobrir eventuais contradições e discu­
tir se estas contradições não são fruto de orientações metódicas diferentes no interior
do materialismo histórico e do historicismo. No caso da França, seria interessante
comparar os trabalhos dos historiadores que se dizem marxistas com os de Marx.
36 É significativo o fato de o Projeto berlinense de análise de classes interromper
neste ponto a citação (Sobre a tática do partido proletário. A análise marxiana das
classes na França 1848-1871 (Zur Taktik der proletarischen Partei. Marxsche Klassen­
analyse Frankreichs 1848-71), Berlim, 1972, p. 127). Com isso, esse grupo abando­
na o seu quadro de referência, que outrora era muito próximo ao do PCA (por isso
ele é criticado no IMSF de Frankfurt: Heinz Jung, Sobre os fundamentos teóricos de
uma análise da estrutura social e das classes da RFA, in '.Estrutura social e de classes
na RFA 1950-1970 (Klassenund Sozialstruktur der BRD 1950-1970), Parte I,
Frankfurt, 1972, p. 5, 167 - nota 11); cf. a posição contrária de Heise, op. cit.
(nota 10); cf. tb. o trabalho extremamente diferenciado de Sibylle v. Flatow, Freerk
Huisken, Sobre o problema da dedução do Estado burguês (Zum Problem der Ablei­
tung des bürgerlichen Staates), in -.ProKla, 7, maio de 1973, p. 83-153.
37 Marx, O capital, III, ibid., (nota 27), p. 799s. — os grifos são de Eike Hennig;
cf. tb., por exemplo, a carta de Marx a Danielson, escrita em 10/04/1879 (MEW
34, p. 375): “Afirma-se que certos banqueiros estrangeiros, junto aos quais um certo
governo tentou levantar empréstimos, teriam exigido como garantia uma constitui­
ção. Eu não creio nisso, uma vez que o seu moderno método de fazer negócios

90
conseguiu até aqui dar-se bem com todos os tipos de governo” .
38 Marx, Carta a J.B. v. Schweitzer, 13/02/1865: MEW 31, p. 446.
39 Cf. Elmar Altvater, Sobre alguns problemas do intervencionismo estatal (Zu
einigen Problemen des Staatsinterventionismus), in: ProKla, 3, maio de 1972,
aqui p. 3.
Também a obra de Schmidt, História e estrutura, loc. cit. (nota 1) tem uma idéia
abstrata do problema no mau sentido. Seria preciso concretizar sistematicamente
tais colocações de problemas, inserindo-as em análises empíricas; este parece ser o
único caminho no qual a discussão das teses de Marx pode contribuir —com intenção
prática — para a superação da atual dicotomia entre concretismo e reflexões sobre a
estrutura lógica do capital em geral. Encontramos um início disso na revista ProKla.
41 Cf. a introdução de Iring Fetscher para a Coleção: Karl Marx, Friedrich Engels,
história alemã no século XIX. (Karl Marx, Friedrich Engels, Deutsche Geschichte
im 19. Jahrhundert), Frankfurt e Hamburgo, 1969. Cf. tb. nota 31.
42 Marx, O capital, loc. cit. (nota 4), p. 379.
43 Cf. carta de Engels a C. Schmidt, 27/10/1890, que reflete um estilo singularmente
plástico: “. . . mesmo que a necessidade econômica tenha sido sempre e se torne
cada vez mais a mola principal dos progressos do conhecimento da natureza, seria
pedante tentar encontrar causas econômicas para qualquer burrice referente a estados
primitivos” . Na carta a J. Bloch, de 21 de setembro de 1890, Engels sublinha que
“ a aplicação da teoria a períodos históricos tomados arbitrariamente” não constitui
“a solução de uma simples equação do primeiro grau”. As duas passagens são citadas
de acordo com Hermann Duncker (org.), Marx, Engels, sobre o materialismo histórico
(Marx, Engels, Uber historischen Materialismus), Parte II, Berlim, 3? ed., 1930,
143,147.
Engels, Carta a Schmidt, loc. cit. (nota 43), p. 140s.; cf. tb. a carta a Bloch,
ibid., p. 147s.
45
Como exemplos eminentes de consideração dos sujeitos agentes cf. por exemplo
Engels, A Europa no ano de 1858 (Europa im Jahre 1858), MEW 12, p. 654-658;
cf., porém, de modo especial a carta de Engels a Marx (25/07/1866), MEW 31, p.
240s. (a Bismarck); Marx, Sobre os acontecimentos na America do Norte (Zu den
Ereignissen in Nordamerika), 1862, MEW 15, aqui p. 552s. (a Lincoln). Cf. nota 55.
46 Cf. Engels, carta a J. Ph. Becker (11/01/1878): MEW 34, p. 315s., e a p. 554 -
nota 111.
47
4r»aEngels, carta
f a Bebel (28/10/1882): MEW 35, p. 381s.
Cf., porem, M arx,0 capital, III loc. cit. (nota 27), p. 892.
Nota do trad.: Eike Hennig refere-se aqui e em outras notas semelhantes ao
texto “Karl Marx Friedrich Engels. Teoria do Estado. Materiais para a reconstru­
ção da teoria marxista Estado. ” (Staatstheorie. Materialien zur Rekonstruktion der
marxistischen Staatstheorie), publicado pela Edit. Ullstein, obra para a qual Eike
Hennig escreveu uma das quatro introduções reunidas no presente texto.
48
Cf. principalmente os trabalhos de A. Schmidt acima citados (nota 1), v. tb.,
Id., Sobre a história e a historiografia na dialética materialista (Über Geschichte
und Geschichtsschreibung in der materialistischen Dialektik), in : Conseqüências de
uma teoria. Ensaios sobre “o capital”, de Karl Marx (Folgen einer Theorie. Essays
über “Das Kapital” von Karl Marx), Frankfurt, 1967, p. 103ss.;Id., Sobre o conceito
de ciência na crítica da economia política, in: Id. e Walter Euchner (org.) A crítica
da economia política hoje. 100 anos de “Capital” (Kritik der Politischen Ökonomie
heute. 100 Jahre “Kapital”), Frankfurt, 1872 (edição resumida), p. 30ss., cf. ibid.,
p. 43ss, a colocação de Oskar Negt. —As afirmações de Marx citadas no texto encon-

91
tram-se em: MEW 17, p. 577. ra ei ¡mé sí-ii:b hsp¿, ;>í K¡«»»mm?
49 Maix, carta a Engels (31/05/1873) (MEW 33, p. 82): . . O caso é o seguinte:
você conhece as tabelas onde estão representados os preços, os descontos, etc.,
etc., em seu movimento durante o ano etc., num ziguezague ascendente e descenden­
te. Eu tentei inúmeras vezes — para analisar as crises — calcular esses ups e downs
como sendo curvas irregulares e acreditei poder determinar assim matematicamente
as leis principais das crises (e ainda acredito que isso seria possível se estivéssemos
de posse de um material suficientemente seguro). . .” — Cf. tb. as observações sobre
os critérios de seleção para os escritos políticos de Marx e Engels, neste vol., p. 515s.,
nota 1 Oí**'-·-*·'»'*í-■«iTOOkwíkxí »nus tóiKOMSíib !«íjí* eh o&jws»;
50 Assim Henri Lefebvre, Sociologia segundo Marx (Soziologie nach Marx), Frank­
furt, 1972, p. 103. Em Lefebvre encontramos tb. uma síntese sobre as análises
do Estado, de Marx (p. 103-153); cf. tb. Arkadij Gurland, Marxismo e ditadura
(Marxismus und Diktatur), Leipzig, 1930 - Nova ed. contendo uma seleção histórica:
Frankfurt, 1973.
51 Lefebvre, op. cit. (nota 50), p. 105.
52 O socialismo revolucionário implica a “ declaração de permanência da revolução,
a ditadura da classe do proletariado como um porito de passagem necessário para
a eliminação geral das diferenças de classe, para a eliminação de todas as relações
de produção nas quais elas se apóiam, para a eliminação de todas as ligações sociais
que correspondem a essas relações de produção, para a transformação de todas as
idéias que nascem dessas relações sociais” (Marx, A s lutas de classes na França de
1848a 1850 (Die Klassenkampfe in Frankreich 1848 bis 1850), MEW 7, p. 89s.).
53 Lefebvre, op. cit. (nota 50), p. 128.
54 O método tem de ser trazido para o primeiro plano, pois: “. . . o modo de enten­
der, de Marx, não é uma doutrina, mas um método. Ele não proporciona dogmas
prontos, e sim, pontos de apoio para uma pesquisa posterior e o método para esta
pesquisa”. —Engels, carta W. Sombart, MEW 39, p. 428.
5 Cf. carta de Marx a Kugelmann (17/04/1871), onde ele trata da comuna de Paris:
“Seria extremamente cômodo fazer a história mundial, se a luta se desencadeasse
apenas quando as chances fossem infalivelmente propícias. Entretanto, ela seria
algo místico, se as ‘casualidades’ dela estivessem ausentes. Tais casualidades entram
naturalmente no processo geral de desenvolvimento, sendo novamente compensadas
através de outras casualidades. Entretanto, a aceleração e o retardamento dependem
muito de tais ‘casualidades’ - entre as quais figura também o ‘acaso’ do caráter das
pessoas, que por primeiro se encontram à frente do movimento” (MEW 33, p. 209).
Cf. tb. nota 45, como também MEW 17, p. 576ss (a Thiers); Lefebvre, op. cit. (nota
50), p. 137ss.
56 Engels (carta a Marx, 24/10/1869) comunica que pretende “ estudar ainda. . . a
era de Cromwell” (MEW 32, p. 379).
57 MEW 7, p. 504.
58 Marx, carta a P. e L. Lafargue (19/04/1870), MEW 32, p. 675.
59 Cf. a carta de Engels a A. Bebei (24/11/1879), que é muito clara: “ As questões
nas quais os deputados socialdemocratas podem sair da pura negação são bem
delimitadas. São todas questões nas quais a relação dos trabalhadores com o capitalis­
ta entra diretamente em jogo: legislação nas fábricas, dia normal de trabalho, paga­
mento do salário em mercadorias, responsabilidade legal, etc. A seguir, os melhora­
mentos no puro sentido burguês, que constituem um progresso positivo: unidade
monetária e unidade de pesos, liberalidade, ampliação dos espaços da liberdade
pessoal, etc. ” (MEW 34, p. 423). Cf. também as considerações introdutórias dos

92
“ Estatutos gerais e decretos administrativos da Associação internacional dos trabalha­
dores” in: MEW 17, p. 440s. C! Li
60 - 7 ·*"-·?
E citado, por exemplo, O “socialismo. . . bonapartista” (MEW 12, p. 27); cf,
também MEW 9, p. 230. Com relação à temática, cf. também Eike Hennig, verbe­
te “Estado do bem-estar social” , in: Axèl Gõrlitz (org.) I.éxico para a ciência pòlítica
(Handlexikon zur Politikwissenschaft), Munique, 1970, p. 474ss.
61 MEW 7, p. 412. 5 ’ ' ' " r 1! rí
62
63 MEW 7, p. 26. VV·.1- ¿7 1J :'/■ *>;
Cf. indicações in: MEW 32, p. 669, segundo as quais, “o segredo da impotência da
classe trabalhadora inglesa” reside no “antagonismo entre ingleses e irlandeses” .
Cf. as descrições da “Socialdemocracia” no “ 189 Brumário” ; cf. também Marx/
Engels (carta a Bebei e outros, 17 e 18/09/1879) no toçante ao papel da pequena
burguesia em relação ao proletariado: “No lugar da oposição política decidida — a
mediação geral; no lugar da luta contra o governo e a burguesia - a tentativa de
convencê-los e ganhá-los para a causa. . (MEW 34, p. 405, v. p. 401 -408).
65 Cf. especialmente Marx, carta a Engels (08/10/1858), MEW 29, p. 360; Id,,
A revolução na China e na Europa, 1853, MEW 9, p. 95-102.
66 MEW 34, p. 554 - nota 111; contra isso, ibid., p. 281 s., 315s.
67 Marx,MEW 6 , p. 195. « .s*Wtov;ji .s:M < .¿ ¡ 5 w s s í" Isu* ob
68 MEW 7, p. 94. . o b ^ n oh o -
Marx, Segundo esboço para “A guerra civil na França ”, MEW 17, p. 599.
70 M arx,/ls lutas de classes na França, de 1848 a 1850, MEW 7, p. 20.
7á Cf. Engels, Carta a W. Bracke (30/04/1878) (MEW 34, p. 328): “Porém, na Ale­
manha nós apenas conseguimos nos arrastar para fora da Idade Media. . . Nós
precisamos desenvolver o mais possível o regime econômico burguês, que concentra
os capitais e agudiza as contradições.. cqwví m ivaiA-i -A z&M\\ aK , x ib M
Cf. a interpretação que Marx esboça acerca da burguesia alemã no ano de 1856:
“A burguesia. . . tem. . . a certeza de ver-se politicamente aniquilada, no mésmò
momento em que ela atinge o seu triunfo social através de uma acumulação ilimitada
do capital” (MEW 11, p. 639); ver também, no tocante à França, MEW 17, p. 338.
Com relação à Alemanha cf. também a coleção contendo trabalhos de Marx e Engels,
citada na nota 41. — Comparar com a grande valorização de que goza o direito par­
lamentar burguês, que procura controlar o Estado através da aceitação ou negação
de impostos; aqui o Estado passa a ser a “ comissão administrativa” dos “interesses
gerais” da sociedade burguesa. Esta valorização ainda é muito idealista, inerente à
auto-compreensão burguesa: ‘‘no taxation, w ithout representation” (MEW 6, p. 255;
v. também MEW 7, p. 13).
72a .7-------
Neste sentido é digno de nota que “o ” capitalismo na Alemanha careça de insti­
tutos políticos de ligação onde ele se impõe como forma industrial de produção
(Província prussiana do Reno) e que a produção capitalista não tenha conseguido
ser mais do que uma “ilha” em meio ao feudalismo, nos lugares onde o liberalismo
político atingiu um nível de institucionalização muito mais forte (Baviera). - Mate­
rial referente a esse ponto em: Wolfgang Zom, Transformação social na Europa
central, 1780-1840, in: Peter Christian Ludz (org.), Sociologia e história social
(Soziologie und Sozialgeschichte), Opladen, 1972 — Caderno especial 16, KZfSS,
¡). 343-356.
Cf. Marx, 1848, MEW 5, p. 136: “ . . . As colisões que surgem das próprias condi­
ções da sociedade burguesa têm de ser combatidas, não podemos fantasiar sobre elas.
A melhor forma de Estado é aquela na qual as oposições sociais não são turvadas nem
silenciadas de modo violento, ou seja, artificial, ou seja, ilusório. A melhor forma

93
de Estado é aquela na qual elas entram numa luta livre, chegando, portanto, à solu­
ção” —V. também MEW 5, p. 449.
74 V. ME W6 ,7pL.. 193,252ss.
75 7 ^ ^
MEW 34, p. 282; com relação à caracterização da republica burguesa, v. tambem
MEW 7, p. 29s.
76 M arx,/ls lutas de classes na França 1848 até 1850, MEW 7, p. 43.
77 Cf. MEW 17, p. 633.
78 MEW 17, p. 599.
79
No tocante a estas relações entre bonapartismo e comuna, cf. especialmente a
carta de Marx a Kugelmann (12/04/1871), MEW 33, p. 205;v. também MEW 17,
p. 335ss.
0 Marx, Carta a L. Kugelmann (17/04/1871), MEW 33, p. 209; cf. também MEW
17, p. 636s.
81 MEW 5, p. 402; para a comuna cf. porém MEW 17, p. 633s., MEW 33, p. 205,
onde Marx sublinha que a derrota da comuna é o produto de seus “ escrúpulos
de consciência” e de sua “benevolência” .
82 Cf. especialmente a carta de Engels a A. Bebei (18/28 de março de 1875), MEW
34, p. 129: Para o proletariado o Estado é “ apenas um andaime transitório. . .,
do qual a gente se serve durante a luta, na revolução, a fim de derrubar violenta­
mente os adversários”, isto é, o proletariado “ serve-se” do Estado, “ não no interesse
da liberdade, mas para manter os inimigos submetidos; e tão logo se possa falar em
liberdade, o Estado cessa de existir enquanto tal” .
83 MEW 18, p. 95s., a citação dentro da citação provém do endereço: A guerra civil
na França, MEW 17, p. 336.
84
or MEW 8,7*p. 215s. f
Marx, As lutas de classes na França, MEW 7, p. 76 - Comparar analise semelhante
do partido da “ República vermelha”, da “ Socialdemocracia” : p. 87-90.
86 Cf. também MEW 11, p. 127. - Cf. nota 47a.
87 Marx, carta a Engels (08/10/1855), MEW 29, p. 360.
88 MEW 9, p. 102.

94
Gert Schäfer

III
ALGUNS PROBLEMAS DECORRENTES DA RELAÇÃO
ENTRE DOMINAÇÃO “ECONOMICA” E “POLÍTICA” .

RESUMO:

Gert Scháfer julga poder constatar que Marx não consegue levar a
termo o seu plano, que era o de representar sistematicamente a relação
entre estruturas econômicas e formas do Estado.
As manifestações de Marx a respeito do Estado são esporádicas e
aparecem em contextos isolados uns dos outros.

95
13Í.Bí Ío8: J i s O

o A Q A ã a n AG s a m m m D m S Ã M S j m m sm u d ja
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•3 z&iÎbèioqæ osa obsäz3 ofj otisqesi s xisM ab »aíkjí;.ígsêneffí kA
.80TÍU0 aolï ami aobeloà Koteaîaoci ras mæmcgK
1. INTRODUÇÃO.

Já tivemos ocasião de constatar que Marx considera o desenvolvi­


mento da teoria materialista do Estado não menos complexo do que o
das categorias essenciais da própria economia política. O plano delineado
nos “Esboços” é capaz de revelar-nos qual deva ser o objeto de uma
crítica do Estado burguês tomado em seus elementos econômicos funda­
mentais: . . De outro lado, as três classes consideradas como a produção
cristalizada em suas três formas básicas e nos pressupostos da circulação.
A seguir o Estado. (Estado e sociedade civil. —Os impostos, e a existência
das classes improdutivas. — A dívida do Estado. —A população. —O Esta­
do voltado para o exterior: colônias. Comércio exterior. Câmbio. O dinhei­
ro como moeda internacional — Finalmente o mercado mundial. A socie­
dade burguesa suplanta o Estado. As crises. Dissolução da forma de
sociedade e do modo de produção que se apoiava no valor de troca.
Estabelecimento real do trabalho individual enquanto social e vice versa)
(Esboços p. 175; cf., ibid., p. 139; cf. também o comentário de Roman
Rosdolsky: Sobre a história do surgimento do “Capital”, de Marx, vol. I,
Frankfurt, 1968, p. 44s.). Entretanto, Marx não encontrou tempo sufici­
ente para explicitar melhor a relação existente entre “conceito geral do
capital” e história real, entre representação teórica e historiografia, o que
fez com que o conceito do materialismo histórico e da representação dia­
lética ficassem emaranhados num plano bastante nebuloso ; além disso, ele
não conseguiu realizar o plano de uma crítica do Estado burguês ou “da
relação entre as variadas formas de Estado e as distintas estruturas econô­
micas da sociedade” (MEW 30, p. 639).
Somos pois, obrigados a constatar que ainda estamos bem longe de
ter desempenhado satisfatoriamente esta tarefa, que é importante, tanto
do ponto de vista teórico, como do prático. De sorte que nós temos, de
um lado, não somente a crítica da economia política, mas também indica-

97
ções, hipóteses, fragmentos e afirmações de uma teoria materialista do
Estado, que não passam muitas vezes de um simples catálogo de questio­
namentos, de conjecturas provisórias ou de princípios. De outro lado,
porém, a riqueza diferenciada das análises políticas “contemporâneas” de
Marx e de Engels pode ensinar-nos qual deve ser o grau de concretude a ser
atingido por uma pesquisa, no momento em que esta pretende estar à
altura dos processos e das lutas históricas reais.
No célebre prefácio que abre o seu trabalho “Para a crítica da
economia política”, no qual ele descreve o andamento de seus estudos e
os resultados mais gerais, Marx conclui que “o modo de produção da vida
material” condiciona “o processo vital geral, social, político e intelectual”,
configurando “a totalidade das relações de produção”, a “base real”,
“sobre a qual se eleva uma superestrutura política e jurídica e à qual cor­
respondem determinadas formas de consciência social”. Numa tradição
marxista não mutilada sempre se entendeu que as formas sociais de cons­
ciência, as “superestruturas idealistas” e as instituições políticas do Estado
constituem algo que não pode ser negligenciado teórica ou praticamente
pelo simples fato de constituírem uma superestrutura. Tais posições ingê­
nuas, — que caminham geralmente de mãos dadas com uma crítica econo-
micista da economia política e do dogmatismo político —não encontram
respaldo nem nos escritos populares de Engels, que geralmente é vituperado
como sendo o responsável pelos princípios do “marxismo vulgar”. Isso se
toma claro no momento em que Lênin (em seu escrito “Estado e revolu­
ção”), conseguiu repelir as desfigurações do marxismo apoiando-se inclu­
sive nos textos difundidos por Engels, além de exigir a “reconstituição
da verdadeira doutrina de Marx a respeito do Estado”, por ser a tarefa
mais premente para a luta de libertação das massas proletárias das garras
da ideologia burguesa; não foi por acaso que Engels chegou a caracterizar
o Estado como sendo a “primeira força ideológica sobre o homem”, à
qual corresponde a aparência da sociedade burguesa (MEW, 21, p. 302),
Temos que tentar saber, todavia, se os desdobramentos de uma teoria
materialista do Estado, do modo como ela aparece em Engels (ou em
Lênin), conseguem ou não apreender adequadamente o Estado burguês a
partir de sua base econômica específica e inferir dela a ideologia do Estado
— ou se temos que ver aí apenas tentativas de explicação de uma tradição
marxista “ortodoxa” incapaz de fazer a mediação no nível sistemático,

98
apesar de ter produzido algumas análises essenciais, circunstanciadas e
penetrantes.
Na dissertação escrita no início de 1886, “Ludwig, Feuerbach e
o fim da filosofia alemã clássica” Engels sublinhou que “na história moder­
na pelo menos. . . o Estado, a ordem política, o elemento subordinado,
a sociedade civil, o reino das relações econômicas” constitui o “elemento
decisivo” do processo histórico (MEW 21, p. 300). Afirma, além disso,
que a necessária forma política das lutas de emancipação econômica é
capaz de criar a tradicional aparência de uma superioridade do Estado,
uma vez que todas as necessidades da sociedade civil “passam através da
vontade do Estado, a fim de obter validade geral na forma de leis”. E pensa
que esse “lado formal da coisa” constitui um elemento evidente por si
mesmo; “resta perguntar apenas: qual é o conteúdo que está na base dessa
vontade geral — tanto do indivíduo como do Estado?” (ibid.). Mais tarde,
Engels assegurou enfaticamente que “nós todos” colocamos e tínhamos
que colocar “o acento principal na dedução das idéias políticas, jurídicas
e semelhantes, bem como nas ações mediadas através destas idéias, a partir
das realizações econômicas básicas.” “E ao fazer isso, descuidamos o lado
formal em benefício do conteúdo: o modo como essas idéias e representa­
ções, etc., surgem”. Engels considerou esta falta de mediação entrè conteú­
do e forma ( “sempre dei por esta falha post festum ”) como um dos “lados
da coisa, a qual . . . todos nós descuidamos, muito mais do que ela mere­
cia” (Engels a Franz Mehring, 14/07/1893).
Costuma-se admitir que o “Capital” conseguiu eruir os elementos
fundamentais da ideologia ( “a ideologia é um processo realizado conscien­
temente pelos assim chamados pensadores, mas no âmbito de uma consci­
ência equivocada falsa”, ibid.), isto é, das formas burguesas de consciência
e das manifestações econômicas a elas correspondentes. No entanto é sabi­
do que um dos pontos que sobressaem na clássica teoria marxista do
Estado é o da não realização sistemática da mediação entre forma e con­
teúdo, tomando conseqüentemente impossível a realização daquele pro­
grama, essencial para uma crítica materialista, a saber “desenvolver as suas
formas endeusadas a partir das respectivas condições reais da vida. Este
último é o único método materialista e, por isso mesmo, científico” (O
Capital, vol. 1, MEW. 23, p. 393, nota n9 89). A definição, repetida prin­
cipalmente por Engels, segundo a qual o Estado, enquanto instituição

99
política particular da sociedade de classes, constitui um “poder brotado no
interior da sociedade, mas que se coloca acima dela, que se alheia dela mais
e mais” (MEW 21, p. 165), não encontrou um solo propício para se desen­
volver, compartilhando assim a mesma sorte de duas idéias importantes
de Marx (esboçadas numa figura problemática, como tivemos ocasião de
ver): a de que existe uma reduplicação necessária da sociedade, que faz
com que ela seja, ao mesmo tempo, sociedade e Estado, e a de que os
membros da sociedade civil formam uma “pessoa moral, enquanto Estado”
(cf. acima p. XLVIII).

2. ORIGEM DA FAMÍLIA, DA PROPRIEDADE PRIVADA E DO


ESTADO.

A insuficiência teórica deixou transparecer “erros” políticos graves,


que deram origem a outros erros. Em seu escrito intitulado “Ludwig
Feuerbach e o fim da filosofia alemã clássica” Engels resumira os resulta­
dos de um outro texto, escrito em 1884-. “Origem da família, da proprie­
dade privada e do Estado”, trabalho que Lênin considerava “uma das
obras mais importantes do socialismo moderno” (Obras, vol. 29, Berlim,
1961, p. 463). No entender de Lúcio Colleti, a teoria marxista do Estado
que aparece na Segunda Internacional, é a de Engels, contida na “Origem”,
e as idéias desenvolvidas naquela Internacional determinam “também toda
a argumentação marxista relativa ao Estado” (Bemstein e o Marxismo
da Segunda Internacional, Frankfurt, 1971, p. 74). Colleti caracteriza a
problemática básica dos desdobramentos de Engels da seguinte maneira:
ele tem de demonstrar, de um lado, que a “conhecida constatação de
Marx, de que na sociedade civil os interesses de classe ou interesses ‘parti­
culares’ adquirem uma forma ilusória de interesses ‘gerais’ ou ‘universais’”,
constitui uma “característica essencial própria a todos os tipos de domina­
ção de classe” ; de outro lado, porém, ele se sente incapaz de “ligar este
processo da ‘abstração’ à estrutura social e econômica do capitalismo em
particular, o que tomaria possível interpretá-lo como sendo um produto
orgânico deste determinado tipo de sociedade”. Deste modo, “esse pro­
cesso de ‘abstração’ objetiva e de ‘sublimação’ é tido aqui como disfarce
consciente ou fraude cometida pelas classes dominantes.. . A incapacidade

100
de ligar realmente o Estado moderno às suas bases econômicas especiais
vai gerar uma concepção voluntarista, que vê no Estado, ou pelo menos
na forma que este assumiu, um produto intencionalmente querido pelas
classes dominantes, uma invenção ad hoc. Em segunda linha resulta daí
uma visão das coisas que vai desembocar no subjetivismo mais desenfreado
bem como no neutralismo com relação às classes - na medida em que
considera a forma do Estado como indiferente em relação às condições
sociais que o conduzem —(e assim ela segue um processo que já se repetiu
há pouco tempo), i (ibid.).
Certamente o interesse principal de Engels, revelado no texto “Ori­
gem”, era o de demonstrar duas coisas, apoiando-se em elementos de
história antiga, apresentados primeiramente por Morgan: que existe um
nexo entre divisão do trabalho, formação de classes e poder de repressão
política, e fazer ver que a “produção e a reprodução da vida imediata”
nas duas formas principais de trabalho e família constituem “na história
o elemento que em última instância é determinante”.1 Nesta obra pode­
mos detectar também uma grande variedade de referências (por exemplo,
com relação ao nexo que existe entre a produção de mercadorias e a
formação do Estado, ou com relação aos problemas que surgem no mo­
mento em que o poder público se toma independente. Entretanto, não
foi possível demonstrar que a “condensação da sociedade civil na forma
do Estado” (Esboços p.28s) e o processo de constituição da “vontade
geral” dos proprietários de mercadorias (cf. por exemplo MEW 13, p.95,
p. 117) são uma conseqüência das formas contraditórias e das condições
da produção de mercadorias. Ao invés disso, passou-se a supor, agora
como depois, que existem, do ponto de vista da construção metódica e
do processo de argumentação interno, relações diretas de dominação,
formas imediatas de dominação de classes mesmo que estas, se excetuar­
mos os processos de crise e de revolução, não sejam realmente constitutivas
para a formação capitalista da sociedade. Noutras palavras: a idéia de que
o Estado é “o produto e a manifestação da irreconciliabilidade das oposi-
ções de classes” e de que o Estado encarna a dominação de classes, não foi
extraída da crítica da economia política e sim, desenvolvida através de
uma “sociologia da dominação” que de marxista só traz a aparência.
Ela desfigura necessariamente aquilo que constitui uma característica da
dominação do capital e da sua superestrutura, o Estado político. Pois, a

101
função repressiva do Estado em si mesmo, como um “poder público
particular” sobre a sociedade de classes, que agora passa para o centro da
linha de demonstração, não consegue explicar o seu caráter específico,
que é o de ser Estado civil, e nem as “leis” estruturais que produzem o
Estado político como superestrutura, como forma destacada de sua
unificação, na base da “contradizibilidade” imanente ao modo de produ­
ção capitalista; não consegue, portanto, explicar o processo histórico,
no interior do qual “esse sistema orgânico” se estatui a si mesmo como
totalidade, a fim de “subordinar a si mesmo todos os elementos da socie­
dade, ou para extrair dela os órgãos que ainda lhe faltam” (Esboços,
p. 189).

3. FORMAS QUE PRECEDEM A PRODUÇÃO CAPITALISTA.

Das teorias e conceitos básicos elaborados nas mais diferentes disci­


plinas sociais e históricas é possível inferir que a instituição política à qual
atribuímos o nome “Estado” só foi possível graças ao desenvolvimento
da “sociedade moderna”.2 Pouco importa o tipo e as formas de desenvol­
vimento e de ultrapassagem que tenha havido: o “Estado moderno”
(e o conceito político a ele correspondente) representa uma estrutura
social diferente da que existe nas comunidades políticas” pré-modemas”
(às quais não pode ser atribuído sem mais nem menos o rótulo de “socie­
dades”).3 Os elementos mediados e opostos: “Estado” e “sociedade”,
“economia” e “política” , “esfera pública” e “esfera privada”, etc., consti­
tuem um produto histórico específico, do mesmo modo que o “indivíduo”,
o direito ou a estrutura da família. Os processos de dissolução das comuni­
cações pré-burguesas, “tradicionais” representam simultaneamente a histó­
ria do surgimento da sociedade burguesa; a história do surgimento do
capital e do trabalho assalariado e, ao mesmo tempo, a história do “Estado
político”.
A análise do capítulo dos “Esboços” nos faz concluir que o interesse
principal de Marx consiste em tomar consciência do processo histórico
“que precede a formação da acumulação originária, ou seja, da formação
das condições do capital” e, ao mesmo tempo, explicar a diferença espe­
cífica que existe nas relações do capital, o que implica em esclarecer a

102
relação de classes que existe entre burguesia e proletariado, que é funda­
mentada economicamente. Ele destaca, de um lado, a “dialética necessária
que caracteriza a relação de classes no capitalismo, (cf. por exemplo,
Esboços, p. 413ss); de outro lado, ele tenta delinear “os pontos”, “onde a
consideração histórica tem que entrar em cena, ou onde a economia bur­
guesa, na condição de simples figura histórica do processo de produção,
aponta para modos de produção históricos anteriores (Esboços, p. 364).
Marx sabia (muito bem) que, no que se refere ao passado que fica atrás
do sistema capitalista, ele tinha que se limitar a “alusões” (p. 365) (na
medida em que não se tratava das categorias essenciais da representação
dialética da produção e da circulação de mercadorias, que se encontrava
num processo de desenvolvimento). Portanto, temos que contentar-nos
absolutamente com alusões — mesmo que estas sejam centrais —inclusive
nas passagens que tratam das formas pré-burguesas de relação entre o
modo de produção e de dominação. Se comparássemos a argumentação
aqui articulada com a que é desenvolvida por Engels em outras passagens
da “Origem”, convencer-nos-íamos rapidamente de que uma análise
precisa da dominação política (e não somente dela) depende em grande
medida da capacidade de se levar sistematicamente em conta a diferença
específica que existe entre as formas capitalistas de sociedade e as formas
pré-burguesas.
Marx quase não se refere diretamente à sua gênese; mesmo assim,
ele esboça aqui os pressupostos históricos e econômicos, que tomam pos­
sível em geral o “poder autonomizado da sociedade, que é o Estado”
(Esboços, p. 882); este último pressupõe a dissolução das antigas formas
de comunidade e o desabrochar da sociedade dos possuidores de merca­
dorias, que se desenvolve em direção ao capitalismo, isto é, pressupõe a
separação, a ser explicada, entre as “condições anorgânicas do modo de
existir ativo” dos produtores imediatos —“uma separação que só é estabe­
lecida completamente na relação entre trabalho assalariado e capital”
(Esboços, p. 389) —e em seguida, o desenvolvimento dos próprios “indi­
víduos humanos em particular” (ibid., p. 395).
Os Estados que se encontram em fase de transição de uma sociedade
pré-burguesa para uma sociedade produtora de mercadorias, isto é, os
Estados da antiga tirania ou do absolutismo moderno,4 parece que têm
uma característica em comum: o “poder político” surge no ápice destas

103
“sociedades de transição”, na forma de uma escancarada relação de domi­
nação e de servidão, como poder formal ilimitado do “soberano” sobre
os “sujeitos” (na língua inglesa conservou-se, por exemplo, a sinonímia
entre “subject” e vassalo). Ã medida que as velhas condições “pessoais”
e “políticas” foram desaparecendo, perdendo a sua força, ou passando
para o aparelho dientelista do “soberano”, cada vez mais burocratizado,
estes Estados passavam a representar uma “posição inteiramente superior”
do Estado, (Esboços, p. 430), bem diferente daquilo que havia nas comu­
nidades pré-capitalistas — isto constituía talvez uma das “condições histó­
ricas do processo de dissolução”, sendo, ao mesmo tempo, “um elemento
gerador de condições para a existência do capital” (Esboços, p. 406 s.)
O “modo de ser natural do indivíduo, enquanto membro de uma comu­
nidade, mais ou menos desenvolvido e modificado historicamente (Esbo­
ços, p. 385), já tinha dado lugar a uma estrutura social na qual a “proprie­
dade privada livre” se comprovava cada vez mais como condição de exis­
tência da “sociedade” e na qual a “propriedade do indivíduo” não apare­
cia mais mediada através da comunidade, uma vez que o modo de existir
da comunidade se revelava mediado, isto é, como relação dos sujeitos
autônomos entre si (Esboços, p. 383). O fato de o Estado político tornar-
-se autônomo em relação à sociedade civil moderna que se encontrava em
fase de gestação, permite que o Estado continue a se impor como o ele­
mento primeiro, privando-o, porém, da característica de “comunidade”,
de “tribo” de “polis”, de “civitas”, de “res publica”, de “body polític”,
etc., no velho sentido político: ele se apresenta apenas como sede do poder
supremo, da soberania política, na base da nova sociedade de proprietários
de mercadorias, os quais concorrem entre si:
“Em todos esses processos de dissolução poderemos descobrir, à
luz de um exame mais acurado, que certas relações de produção são
dissolvidas, havendo a predominância do valor de uso e da produção para
o consumo imediato ; o valor de troca e a produção do mesmo pressupõem
a predominância de outra forma” (Esboços, p. 402). É preciso que exista
a sociedade de mercadorias, que sirva como base para a constituição do
“Estado político”; e sobre esta base - tida como uma instituição política
elevada, que se contrapõe à sociedade e que a abrange ao mesmo tempo —
devem manifestar-se as contradições entre os interesses particulares das
diferentes categorias de proprietários de mercadorias e os seus interesses

104
gerais. O que distingue a sociedade “moderna”, isto é, a sociedade capita­
lista e suas relações de classe frente às variegadas figuras dos “velhos
Estados”, são dois fatos: primeiro, os sujeitos se defrontam formalmente
como pessoas, isto é, como proprietários de mercadorias e como pessoas
que possuem direitos; segundo, nela a dominação se reproduz “numa
forma mediata” (Esboços, p. 400). Pouco importa a precariedade da rela­
ção entre dominação mediata e dominação imediata, entre “Estado de
direito” e “poder público autonomizado”, especialmente nas épocas de
crise da sociedade civil: forma social mediata faz com que o Estado capita­
lista se diferencie, de acordo com sua essência, de todas as relações imedia­
tas de dominação e de servidão das comunidades pré-burguesas. Estas
incorporam, por sua vez, níveis distintos de apropriação de instrumentos
de produção nos quais ainda não se deu, porém, a separação plena entre
as condições objetivas do trabalho e as dos produtos imediatos. Se a rela­
ção de dominação se apresenta aqui “como relação essencial da apropria­
ção” (Esboços, p. 400), então os variados “sistemas políticos” constituem
outras tantas formas de conservar as relações econômicas de “classe”,
que ainda não estão desenvolvidas.

4. A ACUMULAÇÃO ORIGINÁRIA: O APARELHO DO ESTADO.

Para que a transição para o modo capitalista de produção passasse a


ser socialmente determinante, impunha-se o preenchimento de certos
pressupostos gerais tais como: a existência de constelações históricas
específicas e um nível suficiente de produção e de circulação de merca­
dorias, que tomassem possível o desenvolvimento da produção de mer­
cadorias até chegar ao capitalismo. A “revolução nas forças produtivas”
e as correspondentes relações de produção pressupunham a separação
entre o trabalho livre e as condições objetivas de sua realização —os meios
de trabalho e o material de trabalho — precisamente aquele processo
histórico que forma “a história da formação do capital e do trabalho
assalariado”: “Para que o dinheiro se transforme em capital é preciso que
haja, em primeiro lugar, trabalhadores livres, em segundo lugar, que haja
materiais e víveres etc., que d ’une manière ou d ’une autre (de um modo,
ou de outro) tinham sido propriedade das massas e que agora se encontram

105
sem destinação, livres e vendáveis. Entretanto, a outra condição do traba­
lho — uma certa habilidade, o instrumento como meio do trabalho, etc. —
não foi produzida pelo capital durante este período preliminar, porque
fo i encontrada por ele já pronta. . . O processo histórico não é o resultado
do capital, mas sim, um pressuposto para que este possa surgir. . . Através
dele, o capitalista passa a assumir a função (histórica) de pessoa interme­
diária entre a propriedade de raiz, isto é, entre a propriedade em geral e
o trabalho. . . Entretanto, a simples existência do dinheiro e mesmo a
obtenção de uma certa supremacy não é suficiente, por seu turno, para
que aconteça a transformação em capital. Caso contrário, a velha Roma,
Bizâncio etc., teriam tido, no final de sua história, o trabalho livre e o
capital, ou melhor, teriam dado início a uma nova história... A formação
originária do capital. .. acontece simplesmente após um processo histórico
de dissolução dos velhos modos de produção, no momento em que o valor
que existe na forma de dinheiro toma-se capaz de comprar as condições
objetivas do trabalho e de trocar por dinheiro o próprio trabalho vivo dos
assalariados livres” (Esboços, p. 375, 3 8 8 ,404ss.).
Tomando o caso inglês como um exemplo clássico, Marx esboça, no
final do primeiro volume do seu “Capital, o processo histórico de transi­
ção. Contrapondo-se às idéias idílicas e ideologicamente condicionadas
dos economistas burgueses, ele acentua a história real da “conquista,
da escravização, do latrocínio e do assassinato, numa palavra, a história
da violência” (MEW 23, p. 742). Na assim chamada acumulação originária
os futuros “assalariados”, fora da lei, perdem sua liberdade, sendo “tortu­
rados, estigmatizados, açoitados pela disciplina de leis terroristas e grotes­
cas, necessárias para o sistema de trabalho assalariado” (p. 765), e por toda
a parte se impõe “o poder estatal, o poder concentrado e organizado da
sociedade”, “a fim de estimular o processo de transição de um modo de
produção feudal para um modo capitalista, e a fim de encurtar esse proces­
so de transformação. A violência é a parteira de toda a sociedade velha
que está grávida, trazendo em si mesma uma nova. Ela própria constitui
uma potência econômica” (p. 779)). Por conseguinte, se os governos e
os seus métodos de violência aparecem, de um lado, como “condições
do processo histórico de dissolução e como produtores das condições para
a existência do capital” (Esboços, p. 406 s), de outro lado, o desenvolvi­
mento do modo capitalista de produção tomou possível a formação de

106
uma classe de trabalhadores “que, devido à educação, à tradição e ao
costume, reconhece as exigências deste modo de produção como se fossem
leis autônomas da natureza;. . . a coação muda das condições econômicas
termina por selar a dominação do capitalista sobre o trabalhador. A vio­
lência imediata continua a ser empregada fora do contexto econômico,
mas somente em casos excepcionais” (p. 765).
A monarquia absoluta, “ela própria um produto do desenvolvimento
da riqueza burguesa que atinge um nível incompatível com as antigas
condições feudais”, necessitava “do poder uniforme que ela pudesse
exercitar em todos os pontos da periferia, como se fosse uma alavanca
material desse poder do equivalente geral, da riqueza em sua forma sempre
disponível, naquilo que ela independe das relações individuais, particulares,
locais e naturais. Ela necessita da riqueza na forma do dinheiro”. E uma
vez que ela foi “ativa na transformação do dinheiro num meio geral de
pagamento” (Esboços, p. 873s), o poder político centralizado, por ela
construído, serviu para a promoção do modo capitalista de produção —
tendo-se em conta, porém, o fato de que isto se deu em diferentes medi­
das, de acordo com o respectivo nível de desenvolvimento econômico,
conforme a distribuição política dos poderes e o papel do soberano. Junto
com ela formou-se o “poder concentrado e organizado”, o modemo
%
aparelho estatal, militar e burocrático. A crescente autonomia desse apa­
relho em relação aos privilégios imediatamente econômicos e políticos
— tida como neutra em termos de classes — correspondeu às necessidades
de uma sociedade de proprietários de mercadorias em igualdade de condi­
ções, a qual não está mais ligada a hierarquias de classe.5 Esse processo de
autonomização poderia culminar numa forma de república democrática
inteiramente liberta dos privilégios de classe garantidos politicamente.
Em vários escritos sobre a história da França Marx esboçou o desen­
volvimento do aparelho estatal em relação com a sociedade civil: “O poder
centralizado do Estado, com seus órgãos onipresentes —, . . . criados segun­
do o plano de uma divisão de trabalho sistemático e hierárquico —descen­
de dos tempos da monarquia absoluta, onde servia de arma para a socie­
dade civil emergente, em suas lutas contra o feudalismo. . . A gigantesca
vassoura da Revolução francesa do século XVIII varreu todo o entulho
desses, tempos passados, purificando assim o terreno social dos derradeiros
obstáculos que ainda se opunham à construção do modemo edifício do

107
Estado” (MEW, 17, p. 336). No momento em que “todo o interesse
comum. . . foi imediatamente desengatado da sociedade, a ela contraposto
como interesse superior, geral, arrancado da atividade autônoma dos
membros da sociedade e transformado em objeto da atividade do governo”
(MEW 8 , p. 197), o poder público conseguiu atribuir-se “uma aparência
de imparcialidade. Ele manteve inalterada a subordinação das massas
como se isso fora um fato social, uma ordem imutável das coisas. . . No
momento em que a própria sociedade entrou numa nova fase, a fase da
luta de classes, impôs-se simultaneamente uma transformação do caráter
de seu poder público e organizado, do poder do Estado. . . passando a
desenvolver cada vez mais o seu caráter de instrumento da dominação
de classes, como a máquina política, que perpetua com o auxílio da
violência, . . . a dominação econômica do capital sobre o trabalho” (MEW
17, p. 593). As experiências das lutas de classes na França, especialmente
da comuna de Paris, fariam com que o aparelho burocrático e militar do
Estado moderno aparecesse, logo em seguida, como “uma horrível máqui­
na da dominação de classes”, que é preciso “destruir” (ibid., p. 541).
O poder público devia ser “posto novamente nas mãos” da sociedade,
do mesmo modo que a usurpação de interesses gerais através do Estado.
Em suas teorias posteriores sobre o Estado, Marx seguramente não
aborda, com a devida sistematicidade e abrangência, o crescimento das
competências e da organização burocrática, como resultado da divisão de
trabalho, das lutas de classes e das necessidades econômicas; tampouco
analisa a fundo a relação social que existe entre “racionalidade instrumen­
tal” e modo capitalista de produção, enquanto totalidade social. Seria
preciso uma análise acurada desta última relação para que se pudesse
chegar a uma análise teórica da relação íntima que existe entre a “racio­
nalidade” burocrática e a estrutura e o desenvolvimento da sociedade
capitalista, que fosse capaz de superar o nível onde se fazem apenas
constatações de coincidências históricas e de instrumentalizações políticas.
Nos momentos de crise mais aguda das lutas de classes aparece sem­
pre a violência política escancarada, a serviço de interesses econômicos,
característica da assim chamada acumulação original interna e externa.
A tradição marxista cita o “bonapartismo”, o “imperialismo” e o “fascis­
mo^, formas tardias de desenvolvimento da sociedade burguesa, nas quais
a pressão surda das relações econômicas de produção veio acompanhada

108
de um poder extra-econômico, imediatamente político, do antagonismo
de classes. Nestes períodos foi reintroduzido na sociedade burguesa o
“estado de exceção” comó meio de dominação preferido e “a mão de
ferro de uma soldadesca alugada” conseguiu “reprimir por um certo
tempo ambas as classes numa opressão comum” (MEW 17, p. 361). Como
poUcos, Engels conseguiu apreender nitidamente uma tendência de desen­
volvimento, na qual “o poder público foi alçado a um ponto. . . a partir
do qual ele ameaça engolir a sociedade e o próprio Estado” (MEW 21,
p. 166) Em “Estado e revolução”, Lênin retomou em parte a observação
de Engels, formulada em relação ao militarismo e à “concorrência de
conquista” do capitalismo organizado de modo estatal e nacional. Ele era
de opinião que no imperialismo, estádio derradeiro e mais elevado do capi­
talismo e que substitui o capitalismo da “livre concorrência”, a “relação
de dominação” e o poder que a acompanha tomam-se as características
dominantes.6
Em seu trabalho, intitulado “Imperialismo e movimento mundial
do mercado do capital” (Erlangen, 1972) a autora Christel Neusüss cha­
mou a atenção para a problemática subjacente ao conceito leniniano de
monopólio (e de concorrência) e para o fato de que o capital, em sua con­
corrência de conquista imperialista “recaiu de certo modo no estado” que
o caracterizara “antes que o seu desenvolvimento tivesse ido tão longe,
a ponto de funcionar sobre as suas próprias bases originais, isto é, sobre
o desenvolvimento da força produtiva do trabalho e da produção capitalis­
ta da mais valia relativa”. Mesmo que na primeira fase de acumulação do
capital o modo de produção capitalista tenha se estabelecido como uma
“relação do emprego direto da força e da dominação” e mesmo que “os
carateres do poder do Estado tenham-se configurado de modo corres­
pondente”, o capital aparentemente “recaiu, no término do seu desenvol­
vimento, no mesmo estado que caracterizara o seu início” (ibid., p. 33ss.).
Franz Neumann opinou de modo semelhante em relação ao fascismo,
afirmando que este correspondeu a um período de acumulação originária.7
Christel Neusüss argumenta acertadamente contra “constituição da relação
do capital como relação de furto e do Estado como Estado ladrão”,
própria à curiosa interpretação leninista do imperialismo — marcada
principalmente pelas experiências da I Guerra mundial: toma-se por
demais questionável continuar falando “de capital e capitalismo”, a partir

109
do momento em que esta interpretação se liga a um conceito de “leis
econômicas”, que os monopólios impingem à sociedade. E uma vez que
estas “leis do monopólio” não constituem mais leis no “sentido que é
constitutivo para a crítica da economia política, de Marx”, e sim “atos
1 de uma mera relação da dominação”, temos então “novamente a violência
escancarada e imediata” (ibid., p. 64).
Neste ponto é impossível, infelizmente, aprofundar o conceito do
capitalismo monopolista e a questão do monopólio enquanto categoria
econômica. Tampouco poderemos ventilar os problemas que se põem
no momento em que refletimos sobre o nexo entre dominação “política”
e “econômica” no capitalismo tardio.8 Se assumirmos uma posição real­
mente marxista, veremos que todas estas questões se referem aos funda­
mentos de validade da lei do valor e ao conceito de totalidade social,
deles resultante. Entretanto, as formas sociais constitutivas do modo de
ser burguês, ou seja, aquelas formas ideológicas de consciência e de exis­
tência que resultam da formação da sociedade capitalista, parecem opor-se
de modo crasso às práticas de uma luta de classe aberta e aos processos
de desenvolvimento há pouco citados.

5. TROCA, SALÁRIO - LIBERDADE E IGUALDADE.

A circulação de mercadorias e de dinheiro toma possíveis as condi­


ções históricas da existência do capital, mas não as cria. Marx observa que
uma circulação de mercadorias, embora incipiente, está em condições de
fornecer todas aquelas formas econômicas que precedem o capital já
pronto. Este, todavia, “somente pode surgir numa situação onde o proprie­
tário de bens de produção e de víveres pode encontrar no mercado,
portanto, já preparado, o operário livre e disposto a vender a sua força de
trabalho, e esta condição histórica particular envolve uma história mun­
dial”. “Portanto a característica mais marcante da época capitalista é a
seguinte: a força de trabalho adquire para o próprio trabalhador a forma
de uma mercadoria que lhe pertence, ou seja, o seu trabalho assume a
forma de trabalho assalariado. De outro lado e a partir deste momento,
a forma de mercadoria assumida pelos produtos do trabalho está em
condições de se generalizar” (MEW 23, p. 184). Se é verdade que a assim

110
chamada acumulação original caracterizava, na perspectiva das “alavancas
políticas”, a pré-história mais recente da formação autônoma do contexto
do capital (portanto de um capital que não foi aceito graças a uma expan­
são que atingiu uma etapa histórica mais avançada), também é verdade
que o desenvolvimento preliminar da circulação de mercadorias e o contex­
to do capital, uma vez erigido, criaram aquelas formas ideológicas, através
das quais nossa sociedade se expressa, a partir das quais ela obtém a sua
consciência (falsa) e as quais ela costuma chamar de “civilização”, contra-
pondo-as a outras épocas e processos históricos; a sociedade consegue isso
na medida em que ela não assume uma postura saudosista, fechando-se
na oposição “romântica com relação a si mesma (cf. Esboços, p. 80).
Não há nenhuma forma de existência e de consciência ideológica da
Sociedade capitalista que tenha uma importância maior do que a do
salário (pelo trabalho). A forma usual da relação essencial de classes e
da dominação, que é mediada “de modo econômico” e que funda ao
mesmo tempo, a totalidade social, constitui a base das idéias de liberdade,
de direito e de igualdade, geradas continuamente na sociedade que produz
mercadorias (portanto, não somente de modo fictício na assim chamada
sociedade dos simples produtores de mercadorias): “Entende-se, portanto,
a importância decisiva da transformação do valor e do preço da força de
trabalho na forma de salário ou no valor e no preço do próprio trabalho.
Todas as idéias de direito do trabalhador e do capitalista, todas as mistifi­
cações do modo capitalista de produção, todas as suas ilusões e liberdades
e todas as mentiras apologéticas da economia vulgar repousam sobre esta
manifestação, que toma invisível a verdadeira relação, revelando exata­
mente o seu contrário” (MEW 23, p. 562).
A ideologia democrática e liberal do capitalismo, enquanto super­
estrutura e manifestação ideal da dominação de classes, determinada ideo­
logicamente, encontra a sua base ideal nas (puras) formas de troca entre os
donos de mercadorias; estas são constitutivas para a consciência dos agen­
tes do capitalismo, a qual é necessariamente falsa. Deduzidas originaria­
mente da circulação aparente que parece haver na troca de equivalentes
entre proprietários individuais livres e iguais, estas “ilusões” encontravam-
-se desde o início numa relação contraditória com as relações de domina­
ção, invisíveis a princípio na esfera da produção. Apresentando-se como
ilusões e ideologias derivadas de processos econômicos disfarçados, fre-

111
qüenteníente preenchidos com conteúdo utópico, elas possuem, no entan­
to, uma relevância social “capaz de inaugurar um sentido”, “reproduzin­
do-se de modo espontâneo e imediato como formas de pensamento usuais”
(op. cit., p. 564). Na forma econômica de salário, valor ou preço do traba­
lho, todo trabalho passa a ser remunerado, e “todo o vestígio de divisão
do trabalho em remunerado e não-remunerado” desaparece. “A troca
entre capital e trabalho apresenta-se inicialmente à percepção como se
fora a mesma coisa que a compra e a venda de uma mercadoria qualquer.
O comprador dá uma determinada quantia em dinheiro e o vendedor,
um determinado artigo, que é distinto do dinheiro. A consciência legal
reconhece aqui, quando muito, uma diferença material, que se expressa
nas fórmulas jurídicas equivalentes: do ut des, do ut facias, facio ut des e
facio ut facias” (dou para que dês, dou para que faças, faço para que dês
e faço para que faças). (Op. cit., p. 562 s).
No “Capital” e em outros escritos de Marx, relativos ao assunto,
podemos encontrar uma representação mais desenvolvida das manifestações
econômicas circulantes e mistificadoras que servem de ponto de partida
para a ideologia burguesa. Não podemos comentá4as aqui de modo ade­
quado e também temos que deixar de lado a “relação essencial que apare­
ce” .9 Os textos recolhidos apresentam algumas secções nas quais é possível
vislumbrar antigos processos ideológicos de constituição da sociedade
civil, do “Estado de direito” e da aparência democrática do modo capita­
lista de dominação de classes. Para entender a ideologia burguesa, é neces­
sário tomar como ponto de partida as formas nas quais se manifesta a
simples circulação e a troca de equivalentes. A “troca de valores de troca
constitui a base real e produtiva de toda a igualdade e liberdade todavia,
ela é “exatamente o contrário da antiga liberdade e igualdade”. Entendidas
como “idéias puras”, elas constituem “simples expressões idealistas” da
troca de valores de troca; “desenvolvidas em relações jurídicas, políticas
e sociais, elas constituem apenas esta base numa outra potência” (Esboços,
p. 156). Entretanto, o conteúdo do processo de troca, o “valor de uso”
e sua produção permanecem fora das formas puras da simples circulação.
Os donos de mercadorias que se reconhecem reciprocamente como
proprietários que têm a mesma importância, que rejeitam a apropriação
através do furto e da violência direta, passam a ser “pessoas de direito”.
Neste processo é introduzido “o momento jurídico da pessoa e a liberdade,

112
na medida em que ela está aí contida” (Esboços, p, 155). Se é verdade que
esta situação diferencia essencialmente a sociedade burguesa de situações
de dominação e de escravização imediata onde, através de lutas abertas
entre as classes, os seus opositores simplesmente são colocados “fora da
lei”, isto é, criminalizados, combatidos por todos os meios de violência
disponíveis e mortos, é também verdade que a circulação, “considerada
em si mesma. . .” constitui “« mediação entre extremos pressupostos. . .
Por isso, ela própria tem de ser mediada,enquanto processo total, enquan­
to totalidade da mediação. Portanto, o seu ser imediato é pura aparência”
(Esboços, p. 920).
Nas versões idílicas da assim chamada acumulação original podemos
detectar uma inversão da “superfície da sociedade civil.. . que passou a ser
entendida como a sua própria pré-história” ;10 e as manifestações econô­
micas — aliadas a seus correlatos legais, políticos, filosóficos, científicos,
etc. —retiradas da simples circulação de mercadorias e mais tarde da super­
fície desenvolvida do processo capitalista global,11 encobrem o processo
de produção e de reprodução do capital, e com ele “da própria relação en­
tre capital e trabalho, entre capitalista e operário” (Esboços, p. 362). Ao
contrário do escravo, o trabalhador assalariado é um “centro autônomo da
circulação, alguém capaz de fazer troca, de estatuir valor de troca, e que se
mantém através da troca” (Esboços, p. 322). Do mesmo modo que o capi­
talista, ele é um “sujeito de direitos”, que se situa frente a ele como um
“igual”, que pode dispor “livremente” de sua pessoa. Mesmo assim, a troca
que se efetua entre capital e trabalho não constitui uma troca de elementos
equivalentes e sim, a apropriação do trabalho alheio “sem troca, sem equi­
valente, apenas com a aparência de troca” (Esboços p. 409, p. 449). Esta
“dialética necessária”, ou “forma econômica específica,na qual o trabalho
adicional não pago é extorquido dos produtores imediatos, determina a si­
tuação de dominação e de escravidão, do modo como ela surge imediata­
mente da produção e do modo como ela retroage determinantemente so­
bre a produção. É sobre isso que se fundamenta, de um lado, a configura­
ção inteira da coletividade que surge a partir das próprias relações de pro­
dução e, de outro lado, a sua figura política específica” (O Capital, 3? vol„
MEW,2 5 ,p. 799).
E assim, a dinâmica da troca de mercadorias (que não deve ser con­
fundida com formas primitivas de troca existentes em comunidades natu­

113
rais) que culmina no contexto do capital, o produto do trabalho e a forma
propriamente dita que esta assume no capitalismo, lançam as bases da so­
ciedade burguesa moderna - sob as mais variadas condições de mediação.
A necessidade inerente ao duplo caráter da mercadoria, de expressar a sua
propriedade de trabalho abstrato na figura natural de uma mercadoria par­
ticular, dá origem ao dinheiro como relação social, como relação de produ­
ção que assumiu uma figura reificada e, finalmente, ao capital. O mesmo
ocorre com o geral particularizado da sociedade na forma de Estado. Não
resta nenhuma dúvida porém, de que não é possível determinar suficiente­
mente esse processo geral de constituição, seus resultados institucionais e
modos de existência, como também não é possível caraterizar a contento
a configuração estrutural da “forma política das relações de soberania e de
dependência” através do fato histórico “de que a mesma base econômica —
a mesma no tocante às condições principais —pode revelar na aparência in­
finitas variações e gradações, desencadeadas através de distintas e inumerá­
veis circunstâncias empíricas, condições naturais, condições de raça, in­
fluências históricas externas, etc., as quais só podem ser compreendidas
através de uma análise destas circunstâncias empiricamente constatáveis
(Op. cit., p. 800).12
Essas “variações indetermináveis e gradações na forma exterior” re­
velam simultaneamente um conceito de realidade empírica e de forma ex­
terior que não coincide com as formas correntes na superfície da sociedade
capitalista. Nele se aborda uma determinação de totalidade social concreta,
que vai além do conceito de capital em geral e além da concorrência entre
os capitais,13 reproduzindo um velho motivo do pensamento dialético: que
a “forma exterior. . . é mais rica do que a lei ” ,14 ou seja, noutras palavras,
que a realidade não é absorvida inteiramente por seu conceito, Na catego­
ria da “não simultaneidade” histórica isso foi entendido quase sempre co­
mo simples retardamento histórico ou aceleração de unidades particulares
da sociedade civil.
De fato, porém, a história real e a existência concreta da sociedade
burguesa, com suas classes e seu Estado, contêm sempre momentos que
não podem ser “deduzidos” diretamente do conceito do capital, podendo
ser mediados apenas através da “anatomia da sociedade civil”, portanto,
momentos que ainda não podem ser compreendidos a partir da totalidade
de formas econômicas, Podemos, pois constatar aqui uma “dialética entre
conteúdo e forma” do processo vital social, que ultrapassa o nível do rela­

114
cionamento entre “base” e “superestrutura”; de outro lado porém, coloca-
se aqui novamente o problema discutido por Eike Hennig: “seria possível
deduzir a realidade empírica da sociedade civil e do Estado civil.. . a partir
do conceito de capital em geral?” (Cf . acima p, LXXIV).

6 . A LUTA PELO DIA NORMAL DE TRABALHO

Afirmamos que a forma do salário fundamenta as concepções legais


da sociedade capitalista, as mistificações do modo de produção capitalista,
as ilusões de liberdade e a apologética de seus ideólogos. A propriedade pri­
vada capitalista repousa na exploração do trabalho alheio, que é tido for­
malmente como livre (cf. MEW 23, p. 790). “O escravo romano estava liga­
do a seus proprietários através de correntes; o trabalhador assalariado atra­
vés de fios invisíveis. A aparência de sua independência mantém-se através
da troca constante dos patrões individuais e através da fictio juris do con­
trato”, a figura legal do “contrato de trabalho” (por ex.,na forma coletiva
da “autonomia tarifária”) (MEW, 23, p. 599). Esta “relação de troca entre
capitalista e trabalhador” constitui, porém, “uma aparência inerente ao
processo de circulação, simples forma, inteiramente destituída de conteú­
do, que apenas o mistifica. A constante compra e venda da força de traba­
lho é a forma. O conteúdo, porém, reside no fato de o capitalista transfor­
mar e revender uma parte do trabalho alheio já objetivado —do qual ele se
apropria sem cessar e sem contrapartida equivalente —convertendo-o num
quantum maior de trabalho alheio vivo” (MEW 23, p. 603). A crítica da
economia política tenta explicar porque esse conteúdo assume necessaria­
mente aquela forma. E ao fazê-lo, ela descobre relações de classe, isto é, o
antagonismo entre trabalho assalariado e capital, que se configura em for­
mas reificadas e falsificadoras,
O trabalho adicional dos produtores imediatos e dos trabalhadores,
do qual o capitalista se apropria, segue a lei da troca de mercadorias. Como,
porém, o valor da força de trabalho constitui uma grandeza histórica, “mo­
ral” , não se pode deduzir “da natureza da troca de mercadorias nenhum li­
mite para o dia de trabalho, portanto, nenhum limite para o trabalho adi­
cional” (isso sem levar em conta que os limites são inteiramente “elásti­
cos” , “físicos” , “morais”). O “direito” do capitalista enquanto compra­

115
dor, que lhe permite adquirir a mercadoria e a “força de trabalho” o mais
barato possível e o “direito” de seu vendedor, o trabalhador, de vendê-la o
mais caro possível, encontram-se, por isso, em constante oposição. “Por
conseguinte, existe aqui uma antinomia, um direito que se opõe a outro di­
reito, ambos selados através da mesma lei da troca de mercadorias. E entre
direitos iguais, o que decide é a força, É por isso que na história da produ­
ção capitalista a regulamentação da jornada de trabalho aparece como luta
pelos limites desta jornada —uma luta entre o capitalista em geral, isto é,
a classe dos capitalistas, e o operário em geral, isto é a classe dos operários”
(MEW 2 3 ,p. 249),
No oitavo capítulo do “Capital”, intitulado “O dia de trabalho”,
Marx acompanha esta luta de classes que é dada através do modo capitalis­
ta de produção. “O estabelecimento de um dia normal de trabalho é o re­
sultado de uma luta secular entre o capitalista e o operário” (op, cit.
p. 286). A limitação do tempo de trabalho, estabelecida através de leis, te­
ve que ser arrancada do capital á força, mesmo que o interesse global deste
último “pareça referir-se a um dia de trabalho normal” (op, cit.,p. 281). 0
capitalista individual não consegue fugirás leis imanentes da produção capita­
lista, que lhe são impingidos através da concorrência; por isso, ele está inte­
ressado numa exploração possivelmente longa da força de trabalho, sem le­
var em consideração os efeitos destruidores que se põem a longo prazo. So­
mente uma fixação geral de um tempo médio de trabalho social, depen­
dente de vários fatores internos e externos, pode afastá-lo do perigo de cair
numa guerra de concorrência desenfreada que visa explorar de forma bara­
ta a força de trabalho “nacional”. Tal tempo médio de trabalho só pode
ser estatuído através de uma lei estatal (de acordo com certas condições e
dentro de certos limites) e imposta através do poder do Estado.
Ao mesmo tempo, o movimento de operários, que surge das próprias
relações de produção, tinha que tentar ‘ienquanto classe, forçar a obtenção
de uma lei estatal, um obstáculo social extremamente poderoso, que a im­
pedisse de se vender a si mesma e os seus descendentes á morte e â escravi­
dão, através de um contrato livre com o capital” (op, cit,, p. 320). No
entanto, como a decisão sobre os direitos dos capitalistas, que são os com­
pradores da mercadoria “força de trabalho” ,e dos operários —os vendedo­
res da mesma mercadoria —corre através de relações do poder político, de
lutas de classe, e de violência, o poder estatal assume um duplo caráter:

116
“De um lado, as funções políticas e sociais do Estado em geral impõem-se
através das lutas reais e ameaçadoras dos trabalhadores reunidos numa
classe. . . De outro lado,através dessas lutas de classe os próprios trabalha­
dores constituem a si mesmos enquanto classe, no sentido de um sujeito
agente; e assim surge a tendência de superação do capital e do seu Estado;
e a essa tendência corresponde, por seu turno, à tarefa militar repressiva do
Estado” .15
No capítulo intitulado “Maquinaria e grande indústria” Marx tenta
elucidar, através do exemplo fornecido pela legislação das fábricas na Ingla­
terra, a gênese de uma “primeira ação retroativa consciente e planejada da
sociedade sobre a figura natural de seu processo de produção” (op. cit.
p. 504), a qual resulta do desenvolvimento do modo capitalista de produ­
ção e das constelações concretas de lutas de classe. Ao mesmo tempo em
que ele argumenta, de um lado, que sua análise do capital pressupõe uma
“figura meramente natural do modo social de produção, independente de
toda combinação mais racional com os meios de produção existentes e
com as forças de trabalho, a qual possa ser produzida diretamente e de
modo planejado” (op. cit.; p. 636), deixa transparecer também, de outro
lado, insinuações sobre o modo como o Estado, enquanto instituição par­
ticularizada e sintetizadora, pode retroagir sobre a própria sociedade civil
ou seja, como os sindicatos podem tentar, através da organização coletiva
da mercadoria “força de trabalho ”, “suspender ou abrandar as conseqüên­
cias nefastas que esta lei natural da produção capitalista produz em sua
classe” (op. cit., p. 669). Os efeitos dessa organização fazem parte das “cir­
cunstâncias multiformes”, que “modificam a lei geral absoluta da acumula­
ção capitalista. . . em sua realização” (ibid., p. 674). Através da concreta
luta de classes que se estabelece entre proletários e capitalistas, bem como
através dos resultados produzidos no agir do Estado burguês, as leis gerais
do capital têm um efeito concretizador e modificador, que retroage sobre
elas mesmas, Onde a raiz do modo capitalista de produção ou “auto-
aproveitamento do capital” fosse atacada, “o modo de produção capitalis­
ta passaria a excluir qualquer melhoramento racional que ultrapassasse um
determinado ponto” (op. cit., p. 506),um ponto móvel, determinado con­
cretamente através das leis de crise do capital.
O Estado burguês surge agora como “Estado social ”, como Estado
do plano e como “Estado de direito”. Todas estas funções não impedem
absolutamente que o Estado capte as carências e necessidades da classe dos

117
trabalhadores; entretanto, elas condicionam de certa forma esta percepção.
O que faz do Estado um Estado de classes não é a impossibilidade absoluta
de uma representação de interesses da classe dos trabalhadores ou de uma
retroatívidade planejada da sociedade sobre a figura natural de seu proces­
so de produção. O contexto de crise do modo capitalista de produção, suas
formas sociais, as normas organizatórias do aparelho estatal, as possibilida­
des políticas do movimento operário sobre esta base, todos estes elementos
impõem determinados limites quantitativos e qualitativos à satisfação das
necessidades e interesses da classe operária. Mas não excluem o seu caráter
representativo, mediado através da ação estatal, uma vez que lhe conferem
uma forma e uma qualidade especificamente social. Sem dúvida nenhuma,
“os limites históricos concretos. , . só são perceptíveis na práxis políti­
ca” .16 Isso não significa, porém, que uma teoria materialista do Estado te­
nha que limitar-se necessariamente â “representação objetivadora das fun­
ções do Estado e do seu feixe de interesses”, o que equivaleria à “impos­
sibilidade de sua realização concreta” , como parece supor Claus Offe.
Mesmo admitindo que de fato “somente a práxis da luta de classes” pode
resgatar praticamente “a sua pretensão cognitiva” ,17 não podemos esque­
cer que uma teoria materialista do Estado não pode ser obtida somente
através da análise de funções do Estado e de feixes de interesses. Pois,estes
tem a sua raiz e encontram sua fundamentação materialista no modo de
produção e nas formas sociais específicas produzidas por ele, às quais o
próprio Estado pertence. O Estado, enquanto forma particularizada da so­
ciedade burguesa é necessariamente Estado de classes. Para se poder ultra­
passar os limites da sociedade burguesa, e a forma invertida de percepção
dos interesses e necessidades proletárias é preciso superar o Estado enquan­
to Estado.

7. DOMINAÇÃO E TRABALHO DE INSPEÇÃO GERAL.

Marx determinou o processo da produção capitalista como unidade


discrepante entre processo de trabalho e processo de aproveitamento
(do capital). De acordo com os seus movimentos simples e abstratos,
o processo de trabalho constitui “uma atividade racional voltada à produ­
ção de valores de uso, apropriação de elementos naturais para satisfazer

118
necessidades humanas, condição geral para o metabolismo entre homem
e natureza, condição natural eterna da vida humana”. Entretanto, no
modo capitalista de produção os valores de consumo —enquanto merca­
dorias — “são produzidos apenas porque e na medida em que constituem
um substrato material, enquanto portadores do valor de troca”, enquanto
devem possuir “não apenas valor, mas também mais valia” (MEW 23,
p. 192-213). Ã produção capitalista de mercadorias corresponde a “dupla
natureza” do “trabalho da direção e da inspeção superior” que parece ser
necessária sempre que “o processo imediato de produção assume a figura
de um processo combinado socialmente, não mais aparecendo como o
trabalho isolado dos produtores autônomos"(MEW 2 5 ,p. 397),portanto,
sempre que a cooperação tem de acontecer entre os produtores e no
interior das fábricas de produção. A existência de um “processo combina­
do socialmente” não equivale aqui à atividade socialmente consciente
e á direção através de “produtores associados”, Ê notório que o modo
capitalista de produção não se caracteriza desta maneira e sim, ao contrá­
rio, ignorando esta comunidade consciente, uma vez que seu modo parti­
cular de socialização é instaurado através de formas e leis do valor, que
têm de permanecer necessariamente intransparentes aos olhos de seus
agentes. Portanto, quando nos referimos a um processo socialmente
combinado ou a um modo social de produção, pretendemos afirmar
apenas e num sentido bem amplo, que existem indivíduos que cooperam
produtivamente e em grande escala,
Marx cita duas raízes do trabalho particular de comando: de um
lado, “em todos os trabalhos onde muitos indivíduos cooperam, . . o
conjunto e a unidade do processo “passam a ser representados necessaria­
mente “numa vontade comandante” . De outro lado, esse trabalho funcio­
na como instrumento de dominação em “todos os modos de produção
que se apóiam na oposição entre o trabalhador tido como o produtor
imediato e o proprietário dos meios de produção” (MEW 25, p. 397).
O trabalho de inspeção geral e de comando é tido, desta maneira, como
sendo de “dupla natureza”: de um lado ele manifesta necessidades e
funções “técnicas”, isto é, produzidas pela atividade estratégica dos
processos cooperativos de trabalho; de outro lado, ele representa simul­
taneamente uma relação de dominação que resulta da estrutura social
de classes. No modo capitalista de produção o trabalho (de inspeção geral
e de comando) é “imprescindível” , porque “aqui o processo de produ-

119
ção é, ao mesmo tempo, o processo de consumação da força de trabalho
através do capitalista'” (ibid.).
Marx explicita estes pontos de vista de forma muito superficial no
momento em que trata das tendências de desenvolvimento do modo
capitalista de produção; este modo de produção fez com que “o trabalho
de inspeção superior, inteiramente separado da posse do capital, peram­
bulasse pelas ruas”, enquanto criou uma “classe numerosa de dirigentes
industriais e comerciais” isto é, a classe dos assim chamados executivos
(ibid., p. 400, 402). Marx pensa que, se tomarmos esses elementos em
conjunto e se ignorarmos as formas econômicas em sentido estrito (juro
e lucro do empresário), teremos nas mãos um sinal evidente da crescente
obsolescência do capitalismo em geral. Sabemos que a dominação, tanto
no campo político, como no econômico, “cóloca nos ombros dos donos
do poder as funções do dominador (ibid,,p. 398); mesmo assim,o “traba­
lho do capitalista ” já tinha assumido contornos independentes, na medida
em que ele não se fez capitalista através do simples processo de produção,
mas “através da forma do trabalho social ”, através da “combinação e da
cooperação de muitos em tomo de um resultado comum”, capaz de ser
detectado pelo próprio capitalista. O trabalho, que em si mesmo era
“social” , mas ainda espremido numa cápsula capitalista, necessitava apenas
ser liberto dos resíduos do “caráter capitalista contrário” (ibid,, p, 400).
As fábricas em forma de cooperativas, nas quais os dirigentes são escolhi­
dos e controlados pelos próprios operários, bem como os grandes empreen­
dimentos de ações, são exemplos e confirmações de que o “capitalista
atuante” (trabalhador) teve que enfrentar o (simples) proprietário de
capital, o capitalista dono do dinheiro, e que o “simples dirigente, aquele
que não possui nenhu: i título de capital. . . desempenha todas as funções
reais próprias ao capitalista atuante enquanto tal ”; deste modo “permanece
apenas o funcionário e desaparece do processo de produção o capitalista,
transformado em pessoa supérflua” (ibid.,p. 401).
Marx teve suficiente bom senso para não absolutizar essa tendência
imanente ao modo capitalista de produção, uma vez que as sociedades de
ações produziram simultaneamente uma nova variedade de influentes
“capitalistas de dinheiro”. Da mesma forma, ele viu nitidamente que a
legitimação da classe dominante como “necessária”, “produtiva”, “criado­
ra”, etc., está unida intimamente com a dupla natureza daquele trabalho
de fiscalização geral e de comando: também “no sistema capitalista ela está

120
imediata e indissoluvelmente misturada com as funções produtivas, que
todo o trabalho social combinado impõe a indivíduos particulares como
trabalho especial” (ibid., p. 400). Dado que o trabalho de inspeção geral
cristalizou-se em formas histórico-sociais e específicas de divisão de traba­
lho, vindo a ser “função exclusiva” dos dirigentes e funcionários de hierar­
quias empresariais e supra-empresariais (cf. MEW 23, p, 351), era natural
que se tomasse mais difícil distinguir entre funções e atividades “tecnica­
mente” exigidas e aquelas criadas apenas através de mecanismos capitalis­
tas de dominação, tanto mais que, logo a seguir,a força produtiva e social
do trabalho vai aparecer como força produtiva imanente.
Todavia, é possível descobrir ainda um outro problema, extrema­
mente importante. A dupla natureza das funções de comando aponta para
o caráter necessariamente duplo do trabalho social em geral, trabalho esse
que parece resultar apenas da necessidade “objetiva” , brotada das condi­
ções de processos combinados de trabalho, de se ter uma “vontade que
comanda” , e de se ter também, de outro lado,uma hierarquia social de
obediência e comando, um contexto social de subordinação e de coordena­
ção. O abandono do caráter contraditório do modo capitalista de produção
e a rejeição da roupagem capitalista que reveste a idéia de um “operário
geral” que produz em escala cada vez maior dentro dos critérios sociais,
mesmo que não o faça de modo consciente, ainda não garante per se as
relações sociais nas quais as formas escravizadoras da divisão de trabalho,
as hierarquias sociais, as relações de dominação e de escravização possam
vir a ser suavizadas ou até eliminadas. A famosa frase de Engels, na qual
ele afirma que o “governo sobre pessoas” deve dar lugar á “administração
de coisas e ao comando sobre processos de produção”, encobriu esses
problemas que são centrais em todo modo socialista de produção.19
A sociedade burguesa desenvolveu uma forma de organização na
qual o caráter duplo do trabalho social é representado numa hierarquia
social, técnica, aparentemente racional: a burocracia. Seu objetivo instru­
mental pressupõe ao mesmo tempo uma relação de dominação social
exterior, que ela exprime e consolida. A conhecida regra, segundo a qual
esse aparelho de administração e de dominação, tecnicamente útil, não
pode estatuir por si mesmo nenhum fim ou objetivo, que não seja o da
própria auto-conservação, chama a atenção para os limites dessa forma
de organização “objetiva”. A “burocracia industrial”, do mesmo modo
que o aparelho estatal, construído de acordo com as mesmas regras básicas
121
/
í
de organização, se adequam para a perpetuação das relações sociais de
dominação e de escravização. As regras de organização burocrática não
serão eficientes se as condições sociais em geral não estiverem em conso­
nância com elas. A burocracia tem que procurar formar um mundo segun­
do a sua imagem. E ela justifica as hierarquias e formas sociais de que
necessita apelando para a necessidade objetiva de se ter uma atividade
praticamente útil, bem no estilo “dos Estados despóticos, onde o trabalho
da inspeção geral e a intromissão universal do governo implica duas coisas:
a realização dos negócios comuns, que resultam da natureza própria das
coletividades e as funções específicas que surgem por oposição ás massas
do povo” (MEW 25,p.397).
Não podemos aprofundar aqui essas questões que são extremamente
importantes. Entretanto, se é verdade que o “reino da liberdade’’começa
“realmente no ponto em que o trabalho, determinado pela penúria e pela
utilidade exterior, cessa, portanto, num ponto além da esfera da produção
material propriamente dita” , é necessário que o “controle comunitário”
através dos “produtores associados” supere realmente esse caráter duplo
do trabalho social, não somente através da redução da jornada de trabalho,
que é uma das condições fundamentais, mas também e principalmente
através de uma regulamentação “racional”, que garanta aos produtores
associados o “menor esforço” e ao mesmo tempo, as “condições mais
dignas e adequadas à sua natureza humana” (MEW 25, p. 828).

8 . CONDIÇÕES GERAIS VERSUS CONDIÇÕES PARTICULARES


DAPRODUÇÃO.

Na discussão marxista sobre o papel atual do Estado no processo


capitalista de reprodução ganhou atualidade um problema que Marx
abordou apenas de passagem no capítulo dos “Esboços” que passaremos
a comentar neste momento. Por ocasião da pesquisa econômica sobre os
custos da circulação e do transporte que surgem no processo global da
produção capitalista, ele julgou ter descoberto o problema referente ao
“‘nexo específico do capital com as condições gerais comuns da produção
social, as quais são distintas daquelas do capital particular e de seu proces­
so particular de produção” (ibid., p. 432).O capital existe apenas enquan­

122
to unidade econômica particular, que se contrapõe a outros capitais
particulares (não importando o tamanho dos capitais que uma “sociedade
de capital” venha a controlar). “É preciso que o trabalho seja explorado”,
“para que cada capital” possa “produzir as condições do processo imediato
de produção, que se situam fora dele próprio” (ibid., p . 424).
Marx fornece um critério, destinado a indicar o nível “de capital
atingido por uma comunidade real”: é o da separação dos assim chamados
trabalhos públicos que se destacam do Estado e passam para o controle
do próprio capital (ibid., p. 429). Nas formações sócio-econômicas pré-
-capitalistas, onde a produção era determinante para as “necessidades
imediatas” , ou “como nos tempos antigos e na Idade Média,onde a escra­
vidão e a servidão formavam a base ampla da produção social”, o “predo­
mínio das condições de produção sobre os produtores. . . estava oculto
através das relações de dominação e de servidão, as quais aparecem imedia­
tamente como molas do processo de produção ”. Lá a “própria comuni­
dade e suas condições. , podiam valer “como base da produção— e sua
reprodução como seu fim último” (MEW 25, p. 839). Para que se produ­
zisse o capital na forma de ‘Verdadeira coletividade” (Esboços p. 396),
era preciso esperar a chegada do “mundo das mercadorias”, acompanhado
de sua singular forma de autonomização das condições de trabalho, que se
opõe ao próprio trabalho. Somente neste momento é possível uma separa­
ção nítida entre condições particulares de produção e exigências gerais
da produção social, que se configura como uma oposição desencadeada
através do modo de produção.
Marx aborda essa relação específica que se apresenta do ponto de
vista econômico como uma relação entre trabalho necessário socialmente
e trabalho produtivo (para o capital) tomando como exemplo as rotas do
comércio. É clara a sua tese geral: onde o Estado, apoiando-se em razões
históricas, ainda assume uma “posição superior” com relação ao capital
(isto é , onde as velhas barreiras políticas ainda não foram definitivamente
eliminadas, ou onde o poder político ainda se afirma “soberanamente”
com relação à sociedade produtora de mercadorias, como é o caso do
absolutismo), o Estado pode coagir a sociedade a desembolsar uma parte
de sua receita em benefício daqueles trabalhos “públicos ” que “aparecem
como condições gerais da produção e não como condições especiais de
algum capitalista em particular”. Onde a vantagem imediata, isto é, a
expectativa de lucro proveniente do comando capitalista for muito peque-

123
na ou indeterminada, o capital pode descarregar as despesas necessárias
sobre o Estado, a fim de que estas venham a ser pagas pelo fundo fiscal.
Entretanto, a “derradeira etapa de desenvolvimento do capital ” é atingida
quando “as condições gerais do processo social de produção se nutrem
do capital enquanto capital e não mais dos rendimentos sociais, dos impos­
tos estatais — onde os rendimentos, e não o capital, aparecem como
labour funds (fundos do trabalho),e o trabalhador se encontra economica­
mente numa outra relação, apesar de ser um operário assalariado livre
como qualquer outro. Isso revela, de um lado, o grau no qual o capital
submeteu a si mesmo todas as condições da produção social e, como
conseqüência, até que ponto a riqueza socialmente reprodutiva foi capita­
lizada e até que ponto todas as necessidades são satisfeitas na forma de
troca, inclusive as necessidades do indivíduo que são estatuídas social­
mente” (ibid., p. 431).
Sibylle von Flatow e Freerke Huisken descobriram uma curiosa
contradição: na atual discussão marxista recorreu-se a este capítulo dos
Esboços para defender a idéia de que as condições gerais de produção são
um “elemento constitutivo e bastante difundido do Estado burgués.
Pensa-se que a tese de Marx, há pouco citada, desemboca numa teoria
da autodissolução do “Estado burgués” no que se refere ao seu papel
criador das condições gerais da produção social. Na opinião destes autores,
porém, “não se pode pensar numa capitalização completa das condições
gerais de produção, caracterizadas aqui como meios de transporte e de
comunicação. Toma-se necessária a administração através do Estado,
enquanto se tratar de ‘necessidades colocadas socialmente’; ao passo que
a produção dos componentes materiais pode transformar-se cada vez mais
num negócio rentável’ ”, Ao mesmo tempo, o capital “teria jogado sobre
os ombros do Estado não somente a satisfação das necessidades sociais,
mas também a realização de seu lucro”. Afirmam, além disso, que Marx,
ao falar do “desenvolvimento máximo do capital”, quis referir-se apenas
àquele estágio, no qual “a realidade conseguiu recuperar o conceito de
capital na produção, na circulação e no Estado” .20
Elmar Altvater, por seu tumo, procurou encontrar, através de
suas teses sobre o intervencionismo do Estado, “as razões que levaram
à particularização do Estado, principalmente no que tange à produção
das condições gerais de produção” .21 Em seu trabalho, o Estado burguês
aparece como uma instância nascida do modo capitalista de produção,

124
destinada, ao mesmo tempo, a proteger este último e a compensar os seus
limites. E argumenta: uma vez que o capital é incapaz de produzir “nas
ações dos muitos capitais singulares a socialização de sua existência que
nele próprio está ancorada”, impõe-se “uma instituição especial, apoiada
nele, não sujeita aos limites do capital, cuja ação não seja determinada
pela produção da mais valia, que neste sentido constitui uma instituição
particular ‘ao lado e fora da sociedade burguesa’ (MEW 3 ,p .62), apoiada
firmemente na base do capital, e em condições de satisfazer as necessidades
imanentes que não merecem a atenção do capital”. Tirando a conclusão
implícita nestas premissas, Altvater afirma que a sociedade burguesa
cria no Estado, “uma forma específica, capaz de expressar a média dos
interesses do capital”. Segundo ele, o Estado não pode ser entendido
“como um simples instrumento político ou como uma instituição separada
do capital, porque ele é simplesmente a forma particular de implantação
da existência social do capital, ao lado e fora de qualquer concorrência,
como um momento essencial no processo social de reprodução do capi­
tal” .22 Acrescenta, além disso, que as fronteiras da intervenção do Estado
são determinadas pelo fato de o “Estado ser um elemento não capitalista
em meio a uma sociedade capitalista”: nesta condição ele assegura “a
situação do capital agindo de modo não capitalista1”, a tal ponto que não
se pode “falar do ‘capital’ ao se abordar as condições gerais de produção
geradas pelo Estado” .23
As dificuldades tomam-se ainda mais patentes quando se descobre
no interior do capitalismo tardio que realmente a “função crescente do
Estado, a formação daquilo que se costuma chamar de ‘economia mista,
constitui uma forma de dissolução dessa sociedade’ ” .24 Não nos sentimos
em condições de tematizar aqui e com maiores detalhes as questões que
foram colocadas e, muito menos, de encontrar respostas adequadas. Na
próxima secção tentaremos ventilar alguns pontos de vista correlacionados
com estes problemas. Neste ponto é possível enumerar pelo menos três
tópicos principais, intimamente correlacionados, que merecem uma
resposta: (a) Qual é a função do Estado —enquanto síntese particular da
sociedade burguesa —na criação e na garantia de condições sociais e gerais
de produção nas diferentes etapas históricas de desenvolvimento do modo
capitalista de produção e sob as diferentes formas políticas do Estado
burguês? (b) Em que momento as condições gerais de produção (caracteri-

125
zadas hoje em dia mais ou menos como pressupostos infra-estruturais do
“crescimento”) se transformam numa esfera de implantação rendosa do
capital? Até que ponto sua garantia depende de funções econômicas
de um Estado não mais capitalista? (c) Como determinar no capitalismc
tardio a relação entre Estado e capital, se for verdade que certas funções
econômicas do Estado, cada vez mais importantes, constituem realmente
formas de dissolução do modo capitalista de produção?

9. SUPERAÇÃO DO MODO CAPITALISTA DE PRODUÇÃO NO


INTERIOR DO PRÓPRIO MODO CAPITALISTA DE PRODUÇÃO.

Certa feita Marx tentou uma síntese, afirmando que existem trés
“realidades principais” capazes de caracterizar a produção capitalista:
(1) “A concentração dos meios de produção em poucas mãos, momento
em que eles cessam de se manifestar como propriedade dos trabalhadores
imediatos, transformando-se em potências sociais”. A forma capitalista
desta produção em escala social, o predomínio da lei do valor, coloca-se
como propriedade privada de capitalistas concorrentes e traz consigo a
oposição entre trabalho assalariado e capital. (2) “A Organização do
próprio trabalho, em sua forma social: através da cooperação, da divisão
do trabalho e da conexão do trabalho com a ciência da natureza. Em
ambas as direções, o modo capitalista de produção elimina a propriedade
privada e o trabalho privado, mesmo que esse processo assuma formas
contrárias”, isto é, na base do antagonismo de classes fundamentado
“economicamente” , e no contexto de um modo de produção', caracteri­
zado pela “reificação das determinações sociais da produção” e da corres­
pondente “subjetivização das bases materiais da produção”, que leva á
“produção da mais valia como alvo direto e motivo determinante da
produção”. (3) “Criação do mercado mundial” e o desenvolvimento
de uma “força produtiva monstruosa”, que se liga contraditoriamente
ás “condições de aproveitamento desse capital entumesceníe. Daí as crises”
(MEW 25, p. 276 s., p. 887).
As “íeis internas do capita!, as quais aparecem nos estágios prelimi­
nares de seu desenvolvimento apenas como tendências, assumem a figura
de leis econômicas absolutas do capitalina medida em que a ‘livre concor­
rência ” se desenvolve, derrubando as “barreiras e os limites característicos

126
dos níveis de produção anteriores”. A livre concorrência nada mais é do
que “a relação do capital consigo mesmo, como se fosse um outro capital,
isto é, o modo de ser do capital enquanto capital” ; “a produção apoiada
no capital adquire suas formas adequadas na medida e até o ponto em que
a livre concorrência se desenvolver, urna vez que ela constitui o livre
desenvolvimento do modo de produção fundamentado no capital” (Esbo­
ços, p. 542s).
Nesta ordem liberal os indivíduos parecem ser livres: no entanto,
o que realmente está estabelecido livremente é o capital. A “liberdade
individual”, unida indissoluvelmente ao surgimento histórico da livre
concorrência, constitui simplesmente o “desenvolvimento livre que se
apóia num fundamento destituido de longo alcance — que é a base do
predominio do capital. Por isso, este tipo de liberdade individual é, ao
mesmo tempo, a superação mais completa de toda a liberdade individual
e a submissão completa da individualidade sob as condições sociais, que
assumem a forma de forças objetivas, ou melhor,de coisas super-poderosas
— coisas completamente independentes com relação aos indivíduos que se
relacionam entre si” (ibid., p . 545).
A livre concorrência tinha tomado realmente possível ao capital pri­
vado “instalar-se nas condições do capital em geral” (ibid., p. 550);entre­
tanto , na medida em que o próprio capital passou a “configurar-se como
barreira ao desenvolvimento” , ele procurou “refúgio em formas que, ao
mesmo tempo em que parecem consumar o predomínio do capital através
do disciplinamento da livre concorrência, anunciam a sua dissolução e a
dissolução do modo de produção que sobre elas repousa” (ibid. p. 544s).
Marx e Engels reconheceram e tematizaram esta tendência numa época em
que o dogma liberal referente á bênção da competição da livre concorrên­
cia ainda dominava irrestritamente os espíritos mais progressistas da “civi­
lização”. Isso explica por que mais tarde muitos ingênuos passassem a atri­
buir-lhes uma ‘longa série de prognoses verificadas” .25 No capítulo sobre a
“lei geral da acumulação capitalista” Marx já descrevera o “processo de
concentração da economia que perdura até hoje e que continua a ser cul­
tivado . Ainda hoje, por exemplo, os governos procuram entender e sustar o
seguinte processo “dialético” , levados pela preocupação com a concorrên­
cia e com a economia de mercado: a livre concorrência do capital leva ne-
cessaria e constantemente a resultados que a negam, no momento em que
ela é confirmada.

127
Todo o capital particular representa sempre “uma concentração
maior ou menor de produção junto com o correspondente comando sobre
um exército maior ou menor de trabalhadoresToda acumulação de capi­
tal “amplia, junto com a massa multiplicada da riqueza que funciona como
capital, a sua concentração nas mãos de capitalistas individuais, e daqui
resulta a base da produção apoiada numa grande escala de degraus e de mé­
todos especificamente capitalistas de produção”. (NEW 23, p. 653). Esse
necessário processo de concentração do capital passa a ser completado na
“concorrência”, através da “concentração de capitais já formados”, a qual
não é mais “simples concentração de meios de produção e de comando so­
bre o trabalho”, idêntica â acumulação , uma vez que passa a ser também
“superação de sua autonomia individual, expropriação do capitalista pelo
capitalista, transformação de muitos capitais menores em poucos capitais
maiores. . . E a centralização propriamente dita, que se distingue da acu­
mulação e da concentração” (ibid., p. 654). Com o desenvolvimento do
sistema de crédito, que “no início se introduziu de modo furtivo, como se
fora um auxílio muito modesto á acumulação ”, mas que passa a “atrair pa­
ra as mãos de capitalistas individuais e associados os meios financeiros es­
palhados em quantidades maiores ou menores na superfície da sociedade ”,
transformando-se “rapidamente numa nova e terrível arma na guerra de
concorrência’’temos finalmente um novo “mecanismo social, monstruoso,
para a centralização dos capitais’’(ibid., p. 655).
A concentração, acelerada e completada através da centralização do
capital (seja pelo “caminho violento da anexação” ou “através do procedi­
mento mais civilizado da formação de sociedades de ações”) e que nada
mais é do que “um outro nome para a reprodução no nível de uma escala
alargada de degraus” , gera “processos de produção socialmente combina­
dos e dispostos cientificamente” , com formato capitalista (ibid.,p.655s).
Entretanto, uma vez que na grande indústria capitalista a “ciência como
potência autônoma de produção ” foi separada do trabalho e posta “a servi­
ço do capital ”, a “forma capitalista de produção e as relações econômicas
de trabalho que lhe correspondem encontram-se diametralmente opostas”
ao projeto socialista que visa a “superação da antiga divisão do trabalho e
das particularidades ossificadas que a acompanham” (ibid., p. 382, p.
511 ss,).
Em sua pesquisa sobre o papel do crédito no processo capitalista glo­
bal, Marx retoma a questão das sociedades de ações. Elas permitem uma

128
expansão da produção, a qual não seria possível a nível de capitais pa*t}cu_
lares ou de capitalistas individuais. Ao mesmo tempo, certos “empreçn(jj.
mentos de governo” podem tomar-se agora Rociais”. O capital “que em
si mesmo repousa sobre um modo social de produção, pressupondo uma
concentração social de meios de produção e de forças de produção,^dqui-
re aqui diretamente a forma de capital da sociedade”. Marx chama isso de
“superação do capital enquanto propriedade privada no âmbito do$ pr(j_
prios limites do modo capitalista de produção”. Conforme vimos m a js
acima (secção 7), ele passa a considerar neste momento a “transformação
do capitalista realmente ativo num simples dirigente, administrador <j0 ca_
pitai alheio” , ou seja, ele vê a separação entre “função” produtiva ^ pro.
priedade nominal do capital, como sendo um “ponto de passagem” Neces­
sário “para que o capital volte a se transformar em propriedade dos produ­
tores, não mais como propriedade privada de produtores isolados mas
como a propriedade deles mesmos na medida em que se associaram, como
propriedade imediata da sociedade. Além disso, o capital é ponto de pas_
sagem para a transformação de todas as funções do processo de reprot)Uçg0
ligadas â propriedade do capital, em simples funções dos produtore^ r o ­
ciados, em funções sociais” (MEW 2 5 ,p. 452 s.).
O processo de concentração e de centralização do capital num deter­
minado ramo de negócios “atinge seu limite máximo no momento e ^ qUe
todos os capitais nele investidos se diluem num único capital singujar”
Numa “determinada sociedade esse limite seria atingido somente n 0 mo.
mento em que o capital social global estivesse reunido na mão cje um
único capitalista ou de uma única sociedade de capital” (MEW 53 p
65 5s.). Não esqueçamos, porém, que o capital cria o mercado mundi^j nâo
se restringindo, pois, a uma sociedade nacional ou a algo semelhante e
que ele somente existe na forma de capital particular, como algo <|ue se
opõe a outros capitais particulares. “Uma vez que o valor forma a b ^ e do
capital, tornando possível a existência deste através da troca com urn vaior
oposto, ele se repete necessariamente a si mesmo. Portanto, a idéia ca_
pitai universal, isolado, sem capitais estranhos opostos,com os quais p0ssa
entrar numa relação de troca ( . . . ) , é um absurdo” (Esboços, p, 324).
Marx (cujas pesquisas condensadas no 3? vol.do “Capital” são sa(,j.
damente fragmentárias), destaca de passagem aquilo que considera “itnp0r_
tante do ponto de vista econômico” : que as emprésas surgidas desta H»ane|_
ra continuam sendo viáveis, isto é,rentáveis, “mesmo que rendam so>j,ente

129
juros”; por isso, elas não têm necessidade de entrar “necessariamente na
compensação do lucro geral” (MEW 2 5 ,p .453).Marx considerou essa “su­
peração do modo capitalista de produção no âmago da própria produção
capitalista”, da qual já falamos mais acima, como uma contradição que a si
mesma se supera, a qual “se configura prima facie como simples ponto de
transição para uma nova forma de produção. A seguir, essa contradição,
enquanto tal, se revela também no modo de se manifestar. Em determina­
das esferas ela cria o monopólio e desafia a intromissão do Estado ’’(ibid.,
p. 454). Num nível mais evoluido do modo capitalista de produção parece
que isso leva a novas formas de “retroação da sociedade sobre a figura na­
tural de seu processo de produção” (MEW 2 3 ,p. 504; cf. acima a secção 6).
A determinação desse “ponto de transição para uma nova forma de produ­
ção” foi o alvo do interesse das teorias marxistas, desenvolvidas para en­
frentar o capitalismo organizado monopolística e imperialisticamente. Há
quase um século foi preciso levantar implicitamente a questão essencial do
ponto de vista econômico: de que modo as leis internas do capital,deduzi­
das do princípio da livre concorrência, se comportam perante as figuras
econômicas criadas através da monopolização e da intromissão do Estado?
Esta pergunta atinge não somente o conceito de capital, tal como foi
desenvolvido por Marx, mas também as formações políticas e econômicas
do capitalismo tardio. E não é demais afirmar que, apesar das inúmeras e
interessantes reflexões e análises desenvolvidas no passado, somente hoje
em dia conseguimos tomar consciência do alcance e das dimensões do pro­
blema citado. Margaret Wirth formulou isso há pouco e de modo adequado,
na crítica às doutrinas do capitalismo de Estado, monopolista: “trata-se de
mostrar que só podemos explicar realmente estas transformações, se esti­
vermos conscientes das implicações da lei do valor”. Enquanto isso não
ocorrer, ou enquanto isso for considerado superado, “não poderemos
apoiar nossas análises na lei do valor, portanto, em Marx. Nem é necessário
que o façamos; entretanto, é preciso ter clareza sobre as conseqüências que
disso derivam” .26
Temos que renunciar neste ponto ao desejo de aprofundar as consi­
derações sobre problemas teóricos e práticos resultantes desta posição,pro­
blemas que não são inerentes apenas a uma teoria materialista do Estado.
Limitamo-nos a acrescentar apenas que uma certa interpretação da “supe­
ração do modo capitalista de produção no interior do próprio modo capi­
talista de produção” , surgida sob os auspícios de Engels, falsificou a ques­

130
tão levantada. Engels, dissera por exemplo, em sua crítica ao programa
democrático social de 1981 (o programa de Erfurt) que o mais recente
desenvolvimento econômico conseguiu marginalizar, ao menos em alguns
ramos essenciais da produção, a “produção privada” e a “ausência de pla­
no” , característicos do capitalismo: “Eu conheço uma produção capitalista
como forma da sociedade, como fase económica; uma produção privada
capitalista como uma manifestação que surge no interior desta fase. O que
significa realmente uma produção capitalista privada"7. Produção através do
indivíduo empresário, a qual se toma cada vez mais uma exceção. Uma
produção capitalista que se dá através de Sociedades de ações já não é mais
uma produção privada, mas produção para a conta associada de muitos. E
se passarmos das sociedades de ações para os trusts, que dominam e mono­
polizam ramos inteiros da indústria, descobriremos que aqui cessa não so­
mente a produção privada, como também a ausência de plano" {MEW 22,
p. 231s.).
O pensamento de Engels expresso aqui em poucas palavras, também
vai servir de apoio para as suas famosas argumentações no “Anti-Dühring” e
no “Desenvolvimento do socialismo, da utopia para o socialismo”. Servin­
do-se da categoria “Capital financeiro” ,de Hilferding, Lénin,em seu escri­
to sobre o imperialismo, referiu-se diretamente a essa frase de Engels no
momento de descrever toda a extensão do estágio imperialista do capitalis­
mo, principalmente o capitalismo que ele chamaria mais tarde de capita­
lismo estatal monopolista: o estágio imperialista é o “período de transição
do capitalismo, que assume uma forma econômica e social mais elevada”
(Lênin, Obras escolhidas, Vol. 1., Berin (RDA), 1961,p. 838 e paralelos).
No entanto, é característica desse tipo de argumentação uma idéia de “au­
sência de plano” e de “produção privada” , que tem muito pouco a ver com
o conceito de capital delineado por Marx. Na “contradição fundamental”
do capitalismo, também formulada inicialmente por Engels, ou seja, na
contradição entre “produção social” e “apropriação privada”, esta falsa
compreensão tomou-se, por assim dizer,herança comum do marxismo.
Entretanto, no que tange â produção capitalista, temos apenas em
modo adequado para falar de produção social, a saber, que esta é produzi­
da em escala social e que ela, de outro lado, aparece sempre numa determi­
nada forma específica de socialização, que não é precisamente uma sociali­
zação imediata, mas uma espécie de socialização que se estrutura como que
às costas dos produtores, mediada através da lei do valor. Marx expressa

131
esse estado de coisas de modo muito preciso ao afirmar, de um lado, que o
modo capitalista de produção ja' é em si mesmo produção social, e que so­
mente os produtores associados têm condições de produzir um bem social
imediato, não a propriedade privada capitalista. Portanto, enquanto predo­
minar a lei do valor, não poderemos falar de produção social em sentido
estrito, mesmo que sejam dadas as tendências de desenvolvimento há pou­
co esboçadas. Utilizando a linguagem de Marx, é possível dizer que o ele­
mento social da lei do valor tem de ser reconhecido preliminarmente por
si mesmo, ou seja, tem de ser conservado no modo socialista de produção.
A mercadoria produzida de modo capitalista contém necessariamen­
te em si mesma a contradição característica que resulta de “seu caráter so­
cial e privado. A mercadoria é produzida como um elemento privado,mes­
mo que haja muitos produtores participando de sua produção”; e ela só
pode “assumir ares de caráter social quando o seu valor produzido ‘tiver
sido trocado’ por dinheiro, por um equivalente geral”. “Falar de produ­
ção social no caso da produção capitalista de mercadorias seria o mesmo
que fazer abstração da reduplicação da mercadoria em mercadoria e dinhei­
ro. . . Não se pode, pois, falar de produção social em contextos onde os
produtos têm de ser trocados como se fossem mercadorias, a fim de de­
monstrar o seu valor social de uso” .27
Engels (também Hilferding e Lênin) confunde a sociabilidade especí­
fica da produção capitalista de mercadorias e o seu modo característico de
planejamento com a produção imediatamente social. A “produção ” capita­
lista “privada" não desaparece pelo simples fato de ser um capital da socie­
dade, uma “produção para a conta associada de muitos” capitalistas. Não
se elimina a “inexistência de planificação” no capitalismo a partir do mo­
mento em que os trusts e outras formas semelhantes de organização do ca­
pital passam a conceber planos em grande escala. De fato, Engels tinha em­
pregado um conceito de produção privada, que se referia àquilo que hoje
chamamos de capitalismo do empresário, e a “falta de planejamento” era
entendida por ele num sentido limitado; no seu entender, o fim da “falta
de planejamento” dar-se-ia através do controle de mercados tal como é
exercitado nos trusts, o qual permite um planejamento das vendas, das
quantidades e do preço, o que coloca em cheque a idéia de que a livre
concorrência constitui a forma única e absoluta de movimentar o capital.
Entretanto, Engels passou ao largo do problema decisivo, que é o da rela­
ção da lei do valor com as novas formas assumidas pela monopolização e

132
pela intervenção estatal; e mais tarde Lênin identificou falsamente a
“anarquia” do modo capitalista de produção com a efetividade desenfrea­
da da “anarquia do mercado”, com o assim chamado capitalismo da con­
corrência.28 Convém perguntar, pois: será verdade que o conceito de “capi­
talismo apoiado no monopolismo estatal, , . contradiz as condições do ca­
pital”?29 Quais as conseqüências daí derivantes para a teoria marxista da
sociedade?
Em seus famosos teoremas sobre dois tipos de capitalistas coletivos,
o real e o ideal, Engels não chegou a tematizar esse problema importante
e decisivo (cf. por exemplo MEW 2 0 ,p. 258 -260), (o mesmo acontecendo
com a ortodoxia marxista posterior).30 Elmar Altvater observou há pouco
tempo que o Estado jamais pode tomar-se “material e realmente um
capitalista coletivo” em sentido estrito; enquanto predominar o modo capi­
talista de produção, ele também fica sujeito,na condição de grande produ­
tor capitalista, “às contradições resultantes do choque entre os capitais
singulares, do mesmo modo que outros grandes capitais individuais”.
Além disso, a “sua própria configuração como capitalista real” parece ser
problemática face ao capital.31 No momento em que Engels constatou
que “a transformação em sociedades de ações ou em propriedade do
Estado. . . ” não é capaz de superar a “característica das forças produ­
tivas”, ele imaginava que as condições do capital, pressionadas “até o
extremo” , fossem o ponto de transbordo ou,pelo menos,o “meio formal”
no caminho para o socialismo. De outro lado, porém, não se tem urna
determinação econômica precisa do que venha a ser o citado transbordo
“da livre concorrência para o monopólio ”, nem se conseguiu explicitar do
ponto de vista económico o lema geralmente aceito de que “finalmente o
representante oficial da sociedade capitalista,isto é ,o Estado, tem de arcar
com o comando da produção”. A observação bem geral de que a natureza
social das forças produtivas modernas constrange “cada vez mais e na
medida em que isso é possível dentro das condições do capital, a classe
dos capitalistas a tratá-las como forças sociais produtivas”, serviu mais
tarde, do mesmo modo que as questionáveis categorias do monopólio, para
que se deixasse de lado o conceito marxiano de capital, de lei do valor
e, finalmente, de formação capitalista da sociedade em geral.

133
CONCLUSÃO

Ainda resta abordar sinteticamente um ponto de vista no qual Engels


tocou em sua polêmica contra Eugen Diihring, ou seja, a relação entre
“economia” e “Violência” . Foi sublinhado em diferentes contextos que na
produção capitalista de mercadorias as condições econômicas específicas
representam, numa figura sofisticada, relações sociais de dominação, e
não apenas relações naturais, objetivas ou simplesmente tecnológicas,
E este caráter da “economia” oculta-se atrás da própria mercadoria, que
é o produto elementar de nosso modo de produção. Se Marx pôde afirmar
certa feita que toda a economia se decompõe,em tíltima instância,em eco­
nomia do tempo, também podemos fazer uma constatação contrária: toda
a economia tradicional sempre foi economia política. Entretanto, no
capitalismo, cuja característica principal é a forma extrema de fetichismo
econômico, o movimento social possui “a forma de um movimento de
coisas” . A “economia política” em sentido rigoroso (que teve de esperar
o surgimento da sociedade burguesa para se constituir) expressa através
de suas categorias “as relações de produção desse modo social de produ­
ção historicamente determinado, as relações da produção de mercadorias”
(MEW 23, p. 89 s). A Crítica da economia política comprova essencial­
mente a inversão, isto é, o conteúdo político classista dessas formas
econômicas.
Portanto, ao falarmos de economia, entendemos sempre uma rela­
ção social, especialmente a economia do capitalismo. Quando tomamos a
política como alvo de nosso discurso, queremos referirmos também a
algo diferente, ou seja, a relações de poder, não econômicos. O conceito
moderno de política foi obtido essencialmente a partir do “Estado polí­
tico”, de sua forma de poder social. Esse conceito é naturalmente ideoló­
gico, uma expressão desta formação da sociedade, historicamente determi­
nada. Marx e Engels, ao contrário, pensam que a dominação de classes e o
poder político constituem, em última instância, estados de coisas idênti­
cos , mesmo que não entendam isso no sentido de uma identidade indeter­
minada e subdesenvolvida. O “Estado” , enquanto estrutura política e
instrumento da dominação de classes, e num sentido tão vago como
“sociedade” (ou a existência de classes economicamente constituídas),
não é um elemento exclusivo do capitalismo. Entretanto, é sobre a base
da produção capitalista de mercadorias que as classes, a sociedade, o

134
Estado, o direito, a política e a economia política se manifestam inteira­
mente enquanto tais. Esta base tom ou possível uma separação nítida entre
“Estado político” e “sociedade”. Somente aqui a dominação “econômica”
das condições de produção sobre os produtores conseguiu dissolver as rela­
ções de dominação e de servidão, imediatamente “políticas” , da sociedade
pré-burguesa. O crescimento da produção de mercadorias fez com que
suas velhas formas de divisão do trabalho, de comércio e de poder político
fossem “abolidas ou estatuídas como um pressuposto destinado a desapa­
recer em face dos desdobramentos sucessivos do fardo humano "(Esboços,
p. 396).
à envergadura clássica do modo capitalista de produção, livre das
escórias de intervenções e barreiras “políticas” , parece corresponder uma
imagem de Estado, que nada mais é do que “Estado de direito”. Entre­
tanto, já a nível das teorias burguesas clássicas sobre o Estado despontava
o “estado natural”, isto é, uma função de poder que não podia ser regula­
mentada através do “direito de Estado”; e esse “estado natural” aparecia
em todas as determinações da soberania política, seja no contexto interno
das prerrogativas do ‘Vértice do Estado” , seja como coação de uma auto-
afirmação violenta em relação ao mundo exterior dos Estados, seja como
“direito das nações civilizadas” de subjugar os “bárbaros” , isto é, de explo­
rar regiões não capitalistas e de instaurar o mercado mundial, Deste modo,
.o poder político imediato foi sempre a “ultima ratio ” da sociedade racio­
nal burguesa. Portanto, já bem antes das lutas entre as classes, nascidas das
crises econômicas, terem explodido as formas ideológicas da sociabilidade
burguesa e passado a representar politicamente e de modo visível o anta­
gonismo das classes, nasceu no interior do capital o “poder não econô­
mico” do Estado, que ele mesmo auxiliou a criar historicamente.32
Entretanto, o capital transformou o trabalho escravo em trabalho
assalariado, e a antiga apropriação imediata do produto excedente em
apropriação de mais valia distorcida através de processos e manifestações
econômicas. Esta base social tomou possível o surgimento da tese epigonal
de Dühring, refutada por Engels: a de que a intromissão do Estado e do
poder destrói as leis econômicas da natureza, isentas de violência, e, com
isso, a felicidade da humanidade. Engels sabia muito bem que o poder
extra-econômico constitui uma grandeza decisiva: “Na política há somente
duas forças decisivas: o poder organizado do Estado, o exército, e o poder
elementar, não organizado, das massas populares” (MEW 2 1 ,p. 431). Além

135
/
disso, e face à concorrência conquistadora do imperialismo, ele entendeu
muito bem que o exército se transformou num “fim principal do Estado”,
num “fim em si mesmo” e que o militarismo “domina e engole” a Europa
(MEW 2 0 ,p. 158).
Por isso, Hannah Arendt erra ao afirmar que após o Anti-Dühring
de Engels a relação entre poder econômico e poder político se inverteu.33
Opondo-se ao discurso abstrato de Dühring sobre o poder, que é tido como
o mal original da história, Engels insiste em explicar o nascimento e o
desenvolvimento das relações de classe e de dominação, a fim de analisar
o papel do poder desde a sua base.

E Engels parece vislumbrar neste trabalho dois caminhos que levaram


à formação do poder e das classes, que podem ser caracterizadas provisoria­
mente como sendo: o caminho “político” e o “econômico”. A ambos é
comum o fato de terem-se originado de funçóes sociais específicas, as quais
se tomam, a seguir, “independentes” ,podendo “ampliar-se até o ponto de
se transformarem em dominação sobre a sociedade” (MEW 20, p. 166),
O caminho político acontece através de uma autonomização de órgãos que
representavam outrora os “interesses comuns” de uma comunidade (cf.
ibid., p. 138, p. 166). O caminho econômico nada mais é do que o desdo­
bramento da produção de mercadorias até chegar ao capitalismo. No en­
tanto, Engels acentua que o poder político, após “ter-se tomado indepen­
dente em relação á sociedade”, pode agir, ou “no sentido e na direção do
desenvolvimento econômico que corre conforme a lei” , ou “contra ele”,
podendo, inclusive, desempenhar umpapel revolucionário.(ibid., p. 170s.).
De outro lado, ele afiança que o próprio poder político, tomado indepen­
dente, tem uma origem “econômica” e que o “desenvolvimento econô­
mico ” é predominante, em última instância (ibid., p. 170).
Em seus trabalhos sobre a história alemã, Engels tinha abordado de
modo muito sutil as questões que acabamos de esboçar. A base histórica
posterior, porém, fez com que o problema do poder político e de sua
relação com a dominação econômica das classes ocupasse avassaladora-
mente o centro de atenção. Lênin escreveu durante a I Guerra Mundial34
que a transformação dos países imperialistas no “grande lamaçal sujo e
sangrento, das instituições européias militares e burocráticas”, que “tudo
submetem, que tudo sufocam”, revelou possibilidades de desenvolvimento
na área política dos aparelhos de violência, que vieram confirmar realmen-

136
te os temores de Engels, de que “a sociedade burguesa como um todo
caminha rumo ao ocaso ou rumo â revolução” (MEW 20, p. 153). Estas
tendencias no interior do desenvolvimento histórico despertaram proble­
mas, cuja discussão levou a uma teoria marxista do Estado,e que vão bem
além do contexto “normal” de fundamentação e de funcionamento da
dominação de classes no capitalismo e no Estado burguês. Mais uma vez
somos constrangidos a renunciar neste comentário ao desejo de aprofun­
dá-las e discuti-las.
Isso vale também para o derradeiro ponto abordado por Engels:
o modo comunista de produção e a extinção do Estado. Aqui queremos
lembrar apenas uma frase extraída do programa de Gotha, na qual Marx
formulou adequadamente a questão: “Quais são as funções sociais que
restam e que são análogas às atuais funções do Estado? Esta pergunta
só pode ser respondida pela ciência e mesmo que tentássemos mil vezes
compor a palavra ‘povo’ com a palavra ‘Estado’ não conseguiríamos
evoluir nem um passo (nem um salto de pulga!) na compreensão do
problema” (MEW 19, p. 28). E não conseguiríamos avançar, mesmo que
no lugai da palavra “povo” introduzíssemos a palavra “classe dos traba­
lhadores”.

NOTAS E CITAÇÕES

1V. Gordon Childe, Evolução social (Soziale Evolution), Frankfurt, 1968, p. 23)
constatou, quase vinte anos atrás, que a partir dos dados e achados mais recentes
seria “absurdo pretender resumir hoje em dia a interpretação de Morgan (e de Engels)
sobre os diferentes degraus do sistema econômico, político ou de parentesco. Esta
interpretação não é mais sustentável em seus detalhes. Mesmo assim, ela constitui
até o momento a melhor tentativa feita neste sentido” . Mas pouco importa o modo
como as coisas se apresentam: para a teoria marxista é decisiva a diferença que existe
entre a formação burguesa moderna e todas as outras formações pré-burguesas.
Porque na sociedade burguesa a riqueza assume uma forma social, diferente da forma
natural concreta e é nela que “os homens podem apalpar literalmente a sua própria
socialização” (cf. acima H. Reichelt, p. LIII). A apresentação cerrada de Talcott
Parsons (Societies. Evolutionary and Comparative Perspectives, Englewood Cliffs,
1966) constitui um verdadeiro desafio para uma crítica marxista da “evolução”.
2 Cf. Reinhard Bendix (ed.): State and Society. A Reader in Comparative Political
Sociology, Boston, 1968.
Alfred Schmidt (Sobre a relação entre história e natureza no materialismo dialético,
in: Existencialismo e marxismo (Existentialismus und Marxismus), Frankfurt, es,
1972, p. 121) formula as coisas como segue: “Marx pretende chegar ao seguinte

137
ponto: qualquer disputa do homem com a natureza que ultrapassa a forma germinal
acontece no quadro de urna determinada forma de sociedade, porém, nem todas estas
formas são ‘sociedade’ no sentido da sociedade burguesa, da sociedade par excellence.
Por isso, ou Marx evita aplicar esse conceito a condições pré-burguesas (. . .), ou ele
serve-se dele de modo improprio” . Cf. nota 1; é compreensível que a “associação”
comunista se distinga, em princípio, da “sociedade” burguesa.
Não queremos naturalmente misturar as diferenças básicas, pois, sabemos que a
tirania e o absolutismo representam produtos da dissolução da forma de comuni­
dade pré-burguesa, vindo a constituir, num determinado estágio do desenvolvimento
social, uma nova forma de soberania política. Os tiranos das cidades representavam
formas preliminares do poder político autonomizado, que se distinguiam essencial­
mente da dominação dos senhores aristocratas. As funções sociais que eles podiam
invocar e nas quais podiam apoiar-se eram mais ou menos as seguintes: o estímulo
do comércio e do intercâmbio, a garantia estatal das moedas, a substituição da domi­
nação sexual através do exercício do poder territorial, a introdução de constituições
políticas particulares, reorganização do exército numa base “estatal” , etc.
Cf. Isaac Deutscher: Roots of Bureaucracy, in: The Socialist Register, Londres,
1969, p. 9-28.
6 W. I. Lênin: O imperalismo com o últim o estádio do capitalismo. Esboço acessível
à compreensão de todos. (Der Imperialismus als höchstes Stadium des Kapitalismus.
Gemeinverständlicher Abriss), Berlim (RDA), 1966 ( = Livraria do Marxismo-Leni­
nismo), p. 30. Cf. Id., Estado e revolução (Staat und Revolution), Berlim (RDA),
1967, p. 13s.
7 Franz Neumann: Behemoth. The Structure and Practice o f National Socialism
1933-1944, Nova York, 1963 (reimpressão), p. 470 (tradução alemã por Euro­
päische Verlagsanstalt, Frankfurt, 1973).
Neste ponto talvez seja conveniente notar que a oposição mediada entre dominação
política e econômica pode surgir somente no contexto da separação entre as esferas
da “economia” e da “política” , portanto, no momento em que o capitalismo e o
Estado moderno se desenvolvem. A estrutura classista inerente ao capitalismo, que é
determinada economicamente, contém naturalmente uma relação política específica.
A oposição e a separação entre “economia” e “ política” são um resultado das formas
pelas quais a sociedade burguesa se constitui e no interior das quais ela se movimenta.
Parafraseando uma expressão muito conhecida, é possível dizer que a teoria materia­
lista (e a práxis) deve levar em conta e, ao mesmo tempo, desprezar esses dados
estruturais, isto é, deve “superá-los” enquanto determinabilidade estrutural social­
mente necessária. — Considerações extremamente interessantes sobre todo o comple­
xo acima abordado podem ser encontradas em Margaret Wirth: Sobre a crítica da
teoria do capitalismo estatal monopolista, in: Problemas da luta de classes (Probleme
des Klassenkampfs), 8/9, 1973, p. 17ss. V. também mais em frente p. 36ss.
9 Cf. Helmut Reichelt: Sobre a estrutura lógica do conceito de capital em Karl Marx
(Zur logischen Struktur des Kapitalbegriffs bei Karl Marx), Frankfurt, 1970; cf.
Id., acima p. LIlss.
10 Reichelt, ibid., p. 241.
Cf. Sibylle von Flatow/Freerk Huisken: Sobre o problema da dedução do Estado
burguês, in: Problemas da luta de classes, n? 7, maio de 1973, p. 83ss, especial­
mente p. 101 ss.
12
Comparar a pesquisa de Barrington Moore, J r .:Social Origins o f Dictatorship and
Democracy. Lord and Peasant in the Making o f the Modern World, Boston, 1966.
13 Cf. Reichelt, op. cit., p. 73ss e passim; cf. também a nota de Flatow/Huisken,
op. cit., p. 84 (nota 5) e também p. 83: “ Os. . . esforços em prol de uma teoria

138
histórico-materialista do Estado buiguês tomam-se mais difíceis principalmente. .
porque a questão que diz respeito à relação entre o conceito geral do capital e a realida­
de empírica recebe respostas diferentes ou porque esta questão não chega sequer a
ser colocada”. Cf. também ibid., nota 81, p. 108.
14 /
W. I. Lênin: Sobre a dialética hegeliana (Cadernos filosóficos) (Philosophische
Hefte), Leipzig 1970, 2? seção, p. 103.
15 Wolfgang Müller/Christel Neusüss: A ilusão do Estado social e a contradição entre
trabalho assalariado e capital, in: Problemas da luta de classes, caderno especial 1,
junho de 1973, p. 55s. Com relação ao capítulo todo, cf. ibid., p. 46ss. Uma referên­
cia especial deve ser feita ao capítulo “ Maquinaria e grande indústria” (O capital,
Primeiro Volume, cap. 13, MEW 23, especialmente p. 431-470, p. 504-526). Ali se
mostra que o dia normal de trabalho, limitado através de leis e que constitui “uma
reação da sociedade ameaçada em sua raiz vital”, transformou a intensificação do
trabalho e a produção de mais valia relativa no “elemento mais im portante e decisi­
vo” (ibid., p. 431s). A maquinaria proporcionou ao intercâmbio capitalista uma
“realidade tecnicamente palpável” (ibid., p. 446). “ A figura autonomizada e alienada
que o modo de produção do capitalismo em geral confere às condições de trabalho
e ao produto do trabalho em oposição ao trabalhador, atinge, pois, com as máquinas,
0 ápice da oposição” (ibid., p. 455).
16 Claus Offe: Problemas estruturais do Estado capitalista (Strukturprobleme des
kapitalistischen Staates), Frankfurt, 1972, p. 90.
17 Cf. Offe, loc. cit., p. 90s.
Os problemas da passagem para a sociedade socialista não podem ser abordados
aqui. Entretanto, na medida em que o “horizonte jurídico burguês” não for
transgredido, o próprio “ Estado socialista” , que impõe este direito, continua manten­
do caráter burguês. Somente na medida em que ele já é um “Estado moribundo”,
representa realmente interesses proletários.
1 Cf. Hal Draper: The Death o f the State in Marx and Engels, in: The Socialist
Register 1970, p. 281-307.
20 Ibid., (cf. nota 11), p. 141s., p. 151, p. 153, p. 148, nota 176.
21 Elmar Altvater: Sobre alguns problemas do intervencionismo do Estado, in:
Problemas da luta de classes, cad. 3, maio de 1972, p. 1-53, citação p. 18.
22 Ibid., p. 7.
23 Ibid., p. 23.
24 Ibid., p. 25.
25
W. Leontieff: The Significance of Marxian Economics for Present-Day Economic
Theory, m: American Economic Review, 1938, p. 83.
26 Op. cit. (cf. nota 8), p. 29, nota 27.
27 V. introdução de A. M. P. a F. Oelssner: A s crises da economia (Die Wirtschafts­
krisen), ed. pirata, 1971, p. 13s.
28 Cf. Christel Neusüss: Imperialismo e movimento mundial do capital. Crítica da
teoria do imperialismo, de Lênin, e fundam entos de uma teoria da relação entre os
monopólios capitalistas (Imperialismus und Weltbewegung des Kapitals. Kritik der
Leninschen Imperialismustheorie und Grundzüge einer Theorie des Verhältnisses
zwischen den kapitalistischen Metropolen). Erlangen, 1972, especialmente p. 89ss.
É evidente que Lênin considerou também o monopólio ou a “ concorrência mono­
polista” como uma forma de expressão da anarquia capitalista. Ambas as vezes,
porém, “sua representação perde de vista a produção e a circulação do valor e da
mais-valia como determinação decisiva do modo capitalista de produção” (ibid.,
p. 89). Eu pesquisei mais detidamente as conseqüências teóricas e políticas inerentes

139
a este procedimento, detendo-me no conceito “ imperialismo” e “ fascismo” , na disser­
tação filosófica intitulada: “A Internacional comunista e o problema do fascism o”
(Die kommunistische Internationale und das Problem des Faschismus), Hannover,
1972.
29 t *
Cf., por exemplo, Peter Hess: Teoria dó monopolio e critica do capitalismo,
in: Ciência da economia (Wirtschaftswissenschaft), 1971, p. 971 ;c f. neste parti­
cular o trabalho amplo de Margaxet Wirth, op. cit. (nota 8), especialmente p. 20-30.
Ela considera a “livre concorrência” como a “forma pura pela qual se impõe a lei
do valor” , uma “abstração de todos os obstáculos que possam estar no caminho da
produção da taxa média de lucro”. “ A ‘livre concorrência’ é, pois, uma abstração,
a forma pura do movimento dos capitais”. De acordo com ela modificam-se histori­
camente apenas “as formas nas quais todo capital tenta alcançar o lucro médio ou
fugir da redução da sua renda ao lucro médio” . O monopólio apresenta-se então
como “uma forma dessa tentativa”, como “uma form a palpável da concorrência”,
a qual não pode ser explicada fora da concorrência (op. cit., p. 23ss.). Marx tinha
pensado na possibilidade de a “superação do modo capitalista de produção” tomar
possível a algumas empresas render juros sem terem de entrar necessariamente na
compensação da taxa geral do lucro (cf. MEW 2 5 ,4 5 3 e acima). Além disso, podemos
formular também o problema da monopolização e da intromissão do Estado, da
seguinte maneira: o que acontece quando entra de novo em cena, e numa proporção
economicamente relevante, a “produção sob encomenda”? “ O trabalho sob encomen­
da, isto é, o abastecimento que corresponde a uma demanda antecipada, como estado
geral ou predominante. . . não decorre necessariamente da natureza do capital, não
é uma condição deste” (Esboços, p. 433); entretanto, isso parece constituir o estado
determinante em certos domínios do capitalismo tardio. Por isso, costuma-se dizer
com freqüência que existe no capitalismo monopolista uma tendência a “soterrar
a produção de mercadorias” . Cf., por exemplo, Novos aspectos da teoria do mono­
pólio (Neue Aspekte der Monopoltheorie), in :Marxismus Digest, 3/71, p. 38s.
Cf. também os documentos da Internacional comunista, nos quais se falou numa
produção estatizada. “A estatização da vida econômica. . . tomou-se uma reali­
dade. . . A única questão consiste agora no seguinte: quem será no futuro o portador
da produção estatizada? O Estado imperialista ou o Estado do proletariado vencedor?
Manifesto, normas, decisões do primeiro congresso mundial (Manifest, Richtlinien,
Beschlüsse des 1. Weltkongresses), Hamburgo, 1920, p. 8).
Op. cit. (nota 21), p. 8. No meu entender, a fórmula do “capitalista coletivo
ideal” não se sai melhor! Engels chega a dizer que o Estado moderno é “a organi­
zação”, “que a sociedade burguesa cria para si mesma, a fim de manter as condições
gerais exteriores do modo capitalista de produção imune aos ataques, não só dos
trabalhadores, mas também dos próprios capitalistas. O Estado moderno, em sua
forma, é uma máquina essencialmente capitalista, um Estado dos capitalistas, é o
capitalista coletivo ideal. Ele opõe a esse “capitalista coletivo ideal o capitalista
coletivo real quantitativamente determinado (“quanto mais forças produtivas ele
integra em sua propriedade. . .”). Entretanto, o significado da palavra “ ideal” era
entendido, no próprio linguajar de então, como algo “além do real, imaginado,
apenas pensado, intelectual, que se encontra ou se fundamenta na capacidade de
representação”, ou ainda, como algo “ modelar, exemplar”. E uma vez que Marx
e Engels gostavam de trabalhar com o par de conceitos opostos: real e ideal, é plausí­
vel imaginar que Engels tinha a intenção de referir-se à singular “superestrutura
idealista” do Estado como a superestrutura da “ coletividade real” , ou seja, do capi­
tal. E as “condições gerais exteriores do modo capitalista de produção seriam então

140
as instituições políticas e jurídicas que simultaneamente exprimem e idealizam
estas coletividades, que as encobrem ideologicamente. A formulação imprecisa de
Engels: o Estado é “essencialmente uma máquina capitalista” , pode ser entendida
de duas maneiras: ou se refere a algo que o Estado é a mais, mesmo que de forma
não essencial, ou Engels pensou na “essência” que é simultaneamente manifesta
e oculta do Estado, a dominação de classes do capitalismo. A afirmação de que o
Estado é o capitalista coletivo “imaginado” ou “apenas pensado” — mais ou menos
em contraste com o operário coletivo — não passa de uma escolha infeliz de termos.
Elmar Altvater interpreta a fó>mula, segundo o espírito da coisa, afirmando que
a oposição entre “capitalista coletivo real” e “ ideal” exprime a impossibilidade de
um capital universal, do capitalismo estatal. E diz mais, que um “ capitalista coletivo,
ideal ou fictício”, seria aquele que, levado a representar a “ média dos interesses
do capital” (que ainda carece de definição) somente pudesse fazê-lo de modo contra­
ditório. E argumenta que, do mesmo modo “que o conceito (!) da existência média
do capital não” supera “as ações e interesses dos variados capitais particulares”,
assim também o Estado não substitui a concorrência, “porém, surge ao lado dela”.
Com relação à lei do valor, isso não significa, segundo ele, “a sua substituição, ou
superação, mas a sua modificação correspondente” (ibid., p. 8). Caso quiséssemos
nos divertir um pouco “à moda escolástica” , poderíamos dizer que chegamos ao
seguinte curioso resultado: uma ficção (isto é, uma “imaginação” ou “suposição”)
modifica a lei do valor, isto é, o capitalista coletivo ideal. . . Se consultarmos o
Duden (léxico oficial da língua alemã, nota do tradutor), encontraremos aí um
segundo significado para a palavra “ficção” : uma conjectura ou hipótese falsa, contra­
ditória em si mesma, que serve de auxílio metódico à ciência.
32 , ,
Cf. tambem Heide Gerstenberger: Sobre a teoria da constituição histórica do
Estado burguês, in-.Problemas da luta de classes (Probleme des Klassenkampfs),
8/9, 1973, p. 207ss, especialmente p. 209ss.
3 Hannah Arendt: Poder e violência (Macht und Gewalt), Munique, 1970, p. 13ss.
34 Estado e revolução (Staat und Revolution), Obras escolhidas, vol. 2 , Berlim, 1961,
p. 349.

141
Joachim Hirsch

IV
O PROBLEMA DA DEDUÇÃO DA FORMA
E DA FUNÇÃO DO ESTADO BURGUÊS.

RESUMO:

Hirsch inicia a sua introdução descrevendo um procedimento muito


generalizado, o qual deve ser evitado, segundo ele, quando se tenta deter­
minar a fornia e a função do Estado em Marx: constatar simplesmente
o caráter do Estado tomando como base algumas citações de Marx, as
quais passam a ser submetidas, a seguir, a um método de generalização
empírica, mais ou menos concludente, visando chegar a uma sistematiza­
ção das funções do Estado.
Hirsch tem como certo que a sociedade não é simplesmente uma
sociedade de classes e sim uma sociedade, cujas relações de classe são pro­
duzidas e reproduzidas através da ação latente da lei do valor.
A forma básica do Estado burguês, que consiste na reduplicação da
sociedade burguesa em sociedade e Estado e a particularização formal do
Estado na forma de um aparelho administrativo distinto da sociedade
não pode ser deduzido da abstração de elementos estruturais isolados.

143
O desenvolvimento de uma teoria do Estado deve tomar como
ponto de partida uma pesquisa categorial das leis que determinam a
formação global da sociedade.
E possível caracterizar com maior nitidez a “particularização” do
Estado se levarmos em conta que a sociedade reproduz-se necessariamente
em seus elementos estruturais atrave's dos efeitos de leis objetivas que se
impõem aos indivíduos mesmo sem o seu conhecimento.Porque a conser­
vação da estrutura social do capitalismo não depende mais diretamente da
força de opressão da religião e da ideologia ou de relações diretas de
violência ou de dependência.
A conclusão que se impõe é a seguinte: na análise não podemos
separar a forma e a função do Estado.

144
Até o momento grande parte das avaliações do Estado burguês,
feitas por aqueles que se reportam a Marx, contentam-se em constatar o
seu caráter classista, apoiando-se apenas em algumas citações tidas como
exemplares; e a partir daí tentam sistematizar as funções do Estado e
analisar a sua importância para a valorização do capital e para a luta de
classes, seguindo o método de uma generalização empírica mais ou menos
concludente.1 Mesmo sem discutir com maiores detalhes o valor dessas
contribuições, está fora de qualquer dúvida que tal ligação feita entre a
determinação abstrata da natureza e a realidade empírica trivial não serve
para o desenvolvimento de uma teoria materialista do Estado. Numa forma
modificada, essa objeção vale também para todas as tentativas teóricas
que retomam de modo abstrato elementos estruturais específicos da socie­
dade burguesa como, por exemplo, o antagonismo de classes ou o sistema
da produção de mercadorias, uma vez que esse procedimento as leva a
conceber determinações insuficientes e reduzidas do ponto de vista espe­
cífico —mesmo que possam exibir algumas citações de Marx e de Engels.2
A sociedade burguesa não é simplesmente uma sociedade de classes, mas
uma sociedade, cujas relações entre as classes são produzidas e reproduzi­
das pela ação silenciosa da lei do valor: sabemos que a produção de mer­
cadorias só se tomou a forma social historicamente determinante quando
se impôs o capital. A determinação fundamental da forma do Estado
burguês, isto é, a reduplicação da sociedade civil em sociedade e Estado,
bem como a particularização formal do Estado que passa a ser um aparelho
administrativo isolado da sociedade, não pode ser deduzida da abstração
de elementos estruturais isolados, pois depende de uma análise do processo
de reprodução social e das leis que o determinam em sua totalidade. O
desenvolvimento de uma teoria do Estado tem de tomar como ponto de
partida uma pesquisa categoijgl^das leis que determinam a produção e a
reprodução do conjunto global da sociedade.
Pressuposto isso, é possível sugerir alguns passos lógicos a serem
seguidos quando da dedução da forma geral do Estado. A sociedade

145
burguesa constitui-se inicialmente através da produção privada e da troca
que repousa na divisão do trabalho e na propriedade privada. Sua forma
específica de socialização é determinada pelos trabalhos privados, realiza­
dos independentemente uns dos outros e pelo todo social, que se produz
necessariamente ás costas dos produtores e sem o seu controle consciente,
sendo “expresso no valor de troca, no qual a própria atividade do indiví­
duo ou seu produto tomam-se para ele uma atividade ou um produto. . .
O caráter social da atividade, do mesmo modo que a forma social do pro­
duto e a participação do indivíduo na produção, aparecem aqui como
algo objetivo, estranho com relação ao indivíduo; não como uma atitude
recíproca entre eles, mas como a sua subordinação sob condições que
subsistem independentemente deles e que resultam do embate dos indi­
víduos indiferentes entre si. . . Sua coesão recíproca. . . parece a seus
próprios olhos algo estranho, independente, uma coisa” .3 Uma vez que
os indivíduos “não estão subsumidos sob uma coletividade natural e nem
subsumem conscientemente a coletividade como algo social,é preciso que
a coletividade exista como algo objetivo, casual, exterior, como algo
independente, que se contrapõe a eles, sujeitos independentes. Esta é
precisamente a condição para que eles, enquanto pessoas privadas inde­
pendentes, possam estar ao mesmo tempo num complexo social” .4 Disso
resulta que o conjunto dos trabalhos dos indivíduos configura-se necessa­
riamente a seus olhos como algo estranho, como uma coisa (dinheiro);
resulta também que o todo social tem de assumir uma figura particular.
O valor de troca, incorporado no dinheiro, gera a unidade social da produ­
ção, independentemente da vontade dos indivíduos; ao mesmo tempo,
faz-se necessária uma instância distinta em relação aos indivíduos,contra­
posta a eles como algo estranho — os interesses do Estado — a fim de
garantir as condições sociais da produção e da reprodução, que ultrapassam
os seus interesses privados limitados. A “solidificação da atividade social,
a consolidação de nosso próprio produto num poder objetivo sobre nós,
que se emancipa de nosso controle, atravessa nossas expectativas, pulveriza
nossos cálculos, constitui um dos momentos principais do desenvolvimento
histórico até aqui havido, e a partir desta contradição entre o interesse
particular e o comum,o interesse comum assume uma forma independente,
como Estado, separado dos interesses reais dos indivíduos e dos interesses
de todos” ,5

146
É certo que não podemos ficar marcando passo neste ponto. No
conceito da sociedade produtora de mercadorias está contido lógica e
historicamente o conceito do capital. E como o desenvolvimento dialético
do conceito de capital tem de tomar como ponto de partida a reduplicação
necessária da mercadoria em mercadoria e dinheiro, a gênese das relações
capitalistas de produção (acumulação e trabalho assalariado livre) é condi­
ção histórica para o desenvolvimento pleno e a generalização da produção
de mercadoria. No conceito desenvolvido da sociedade produtora de
mercadorias está contido, pois, o antagonismo entre trabalho assalariado
e capital, entre exploração e produção de mais vaha. A troca entre equiva­
lentes é capaz de fazer a mediação entre a produção e a apropriação de mais
vaha, mas somente na superfície. Portanto, se ao Estado, enquanto forma
equivocada da particularização da coletividade social, é atribuida como
função determinante a garantia das condições sociais gerais da produção
e da reprodução, então é necessário analisar esse processo de reprodução
como processo de valorização do capital, isto é, como um processo de
produção contínua de mais valia e, assim, como processo de acumulação.
O processo capitalista de produção distingue-se de todas as formas
anteriores de produção e de reprodução porque nele “o processo de
trabalho aparece apenas, como um meio para o processo de valorização”
e “a reprodução apenas como um meio capaz de reproduzir o valor adian­
tado na forma de capital, isto é, como um valor que a si mesmo se valo­
riza” .6 Isso, no entanto, pressupõe “que o trabalhador disponha livremen­
te sobre suas próprias capacidades e que o dono da mercadoria ou do
dinheiro disponha livremente sobre os valores que lhe pertencem” .7 O
capitalista que compra normalmente a força de trabalho pelo seu valor
e a aplica no processo de produção, obtém assim o valor de seus meios
de produção e se apropria, além disso, da mais valia, cuja produção consti­
tui o valor específico de uso que o trabalho vivo representa para o capital.
O ponto decisivo, no entanto, está em que essa relação tem de reproduzir-se
necessária e permanentemente na base do modo capitalista de produção
que já se impôs historicamente. Entretanto, aquilo que no início foi apenas
ponto de partida, passa a ser reproduzido sempre e de modo novo, graças
à simples continuidade do processo, eternizado como resultado próprio
da produção capitalista. De um lado, o processo de produção transforma
constantemente a riqueza material em capital, em meios de valorização

147
e de satisfação para o capitalista; de outro lado, o trabalhador sempre cai
fora do processo, do mesmo modo como tinha entrado — fonte pessoal
da riqueza, porém, despido de todos os meios capazes de proporcionar-lhe
essa riqueza. Uma vez que antes de sua entrada no processo ele já é aliena­
do de seu próprio trabalho, que é apropriado pelo capitalista e incorporado
no capital, esse trabalho se objetiviza constantemente no decorrer do proces­
so, assumindo a forma de produtos estranhos. Dado que o processo de
produção é, ao mesmo tempo, processo de consumpção da força de traba­
lho por parte do capitalista, o produto do trabalhador não somente se
transforma constantemente em mercadoria, mas também em capital, valor
que suga a força criadora de valores; em víveres, que compram as pessoas;
em meios de produção, que usam o produtor. Por isso, o próprio trabalha­
dor produz constantemente a riqueza objetiva como capital, uma força
que lhe é estranha, que o domina e explora; e o capitalista produz igual­
mente a força de trabalho como fonte subjetiva de riqueza, separada de
seus próprios meios de realização e de objetivação, fonte abstrata, que
repousa na corporalidade nua do trabalhador, numa palavra: produz o
trabalhador como trabalhador assalariado. Esta reprodução constante
ou etemização do trabalhador constitui o elemento sine qua non da
produção capitalista” .8 A continuidade desse processo e a constante
transformação da mais valia em capital “faz com que a lei da apropriação
ou lei da propriedade privada, que se apóia na produção e na circulação
de mercadorias, se transforme em seu contrário direto, através de sua
dialética interior inevitável. A troca de equivalentes, que parecia ser a
operação originária, inverteu-se de tal forma, que as trocas são feitas
apenas na aparência, na medida em que, em primeiro lugar, a parte de
capital trocada por força de trabalho, constitui nada mais do que uma
parte do produto do trabalho alheio apropriado sem equivalente, sendo
substituído, em segundo lugar, por seu produtor, o trabalhador, ou melhor,
tendo que ser substituído através de um novo surplus. A relação de troca
entre capitalista e trabalhador transforma-se, pois, numa manifestação
inerente ao processo de circulação, simples forma, estranha ao conteúdo,
e que serve apenas para mistificá-lo. A constante venda e revenda da força
de trabalho 4 a forma. O conteúdo aparece no momento em que o capita­
lista reconverte «ma parte do trabalho-alheio já objetivado numa parcela
maior de trabalho alheio — do qual ele se apropria incessantemente e sem
dar um equivalente em troca” .9 Apoiando-se na “aparência necessária” da
148
troca de equivalentes, a forma capitalista de sociedade reproduz-se cons­
tantemente a si mesma através dos efeitos da lei do valor. A coesão social
é estabelecida através das leis da produção e da troca de mercadorias;
ao mesmo tempo, o processo de produção, enquanto processo de valoriza­
ção do capital e regulado pela lei do valor, reproduz seus próprios pressu­
postos sociais, por trás das costas dos produtores, sem o que seria necessá­
ria uma intervenção vinda de fora. “As condições objetivas do processo
de produção aparecem como resultado desse mesmo processo, e mais:
as próprias relações de produção, isto é, o seu caráter especificamente
social, as relações sociais e a posição social que os agentes da produção
assumem uns com relação aos outros são produzidas, ou seja, constituem
um resultado continuamente renovado do processo” .10
Se partirmos da idéia de que a sociedade civil, em suas características
estruturais, se reproduz necessariamente a si mesma através da eficiência
de leis objetivas, que se impõem por trás das costas dos indivíduos, então
é possível apreender de modo mais nítido a “particularização” do Estado.
A conservação da estrutura social no capitalismo não repousa mais direta­
mente na força de expressão da religião e da ideologia, nem em relações
imediatas de dependência ou de violência aberta, que transpassam a
totalidade do complexo social. A mediação do processo social de repro­
dução e de exploração por intermédio da circulação de mercadorias, a
iivre disposição do trabalhador assalariado sobre a sua força de trabalho,
bem como a livre disposição do capitalista sobre a mais valia da qual ele
se apropria e a qual acumulou, toma urgentemente necessário eliminar
formas do emprego imediato de violência, de dominação (“feudalismo”),
de dependência pessoal no interior do processo econômico de produção
e de reprodução e localizar o “monopólio do emprego da força física”
numa instância social que esteja acima do processo econômico imediato
de reprodução: a instauração formal da liberdade e da igualdade civil.
A configuração do Estado civil burguês na forma que o determina significa
a repressão das variadas “relações de dependência e de restrição feudal”
que atravessam a sociedade “e a centralização do poder que tem de ser
reproduzida sob condições capitalistas, utilizando uma aparelhagem que
permanece acima da sociedade que se reproduz a si mesma na base de suas
leis imanentes e separada formalmente dos produtores que mantêm um
intercâmbio recíproco entre si” .11

149
Disso resulta que não se pode separar analiticamente a determinação
da forma e da função do Estado burguês: sua forma resulta dos elementos
determinantes, funcionais e específicos do próprio processo de reprodução
do capitalismo. Por conseguinte, a garantia das condições gerais do proces­
so capitalista de reprodução significa duas coisas: Criação das condições
materiais da produção, não produzíveis na base do movimento dos capitais
singulares e de seu interesse estreito de valorização (“infra-estrutura”,
em sentido amplo) e intervenção no processo de reprodução do capital
onde este for “estorvado”, seja através dos abusos dos capitalistas singula­
res ou dos trabalhadores12 (garantia da ordem do direito civil), seja em
vista da contradição imanente ao próprio movimento de reprodução
(regulamentação econômica, subvenções, etc .).13 Ambas as coisas pres­
supõem um aparelho independente com relação ao processo de reprodução
e aos seus agentes, dotado de meios específicos de organização, principal­
mente a possibilidade de empregar a força física.
Do conjunto de idéias apresentadas seria possível deduzir e funda­
mentar particularmente os diferentes elementos históricos que compõem
a forma do Estado burguês: os obstáculos formais que impedem os porta­
dores imediatos do poder estatal de “dispor” sobre os meios de produção;
a alimentação do aparelho estatal a partir dos descontos na renda (“Estado
de impostos”); a fragmentação das esferas do direito “privado” e “públi­
co” ; o surgimento do funcionário profissional, do político profissional
e, deste modo, da não-identidade formal da posição administrativa e
da pertença a classes; finalmente, o desenvolvimento do sistema represen­
tativo parlamentar como esfera mediadora entre o aparelho estatal —apa­
relho da força —e a sociedade civil.14
Contudo, essa forma de particularização do Estado burguês é neces­
sária e, ao mesmo tempo, contraditória. Ela implica que a determinação
estatal da função de uma garantia das condições gerais de reprodução do
capital tem de colidir permanentemente com os interesses de capitais
particulares e de grupos de capital e com o interesse emancipatório da
classe dos trabalhadores em geral. O mecanismo estatal de funções desen­
volve-se, pois, no contexto de posições de interesses contraditórias e de
conflitos sociais. Isso significa que as medidas e ações concretas do apare­
lho estatal somente podem realizar-se sob a pressão de interesses que se
impõem faticamente e de movimentos políticos. A “particularização” do

150
Estado tem de fazer-se e comprovar-se, a cada passo, no interior desse
processo de disputa de interesses. Disso resulta, entre outras coisas, a
inconsistência, a imperfeição e a insuficiência das ações do Estado, mas
também a relativa contingência do processo político, que não pode ser
deduzido das determinações gerais da situação do capital. Esta contradi­
ção tende a se agudizar necessariamente com a concentração e a centrali­
zação do capital, que avança a passos largos rumo à acumulação, e com a
possibilidade mais ampla daí resultante para a atividade estatal: esta pode
ser determinada faticamente através de capitais particulares poderosos,
o que implica estorvos permanentes das atividades estatais relacionadas
com o processo de reprodução do capital em geral. No entanto, é impor­
tante salientar que a “particularização” do Estado acontece sempre em
face de um contexto social de reprodução apoiado na exploração e na
opressão das classes, um contexto sujeito a crises, o que abre a possibili­
dade permanente da utilização aberta da violência no interior do processo
de produção e de reprodução, bem como a eliminação da liberdade formal
e da igualdade civil (Estado autoritário, fascismo), produzindo também,
no entanto, formas específicas de introdução estrutural do aparelho
estatal no processo de reprodução ( “capitalismo estatal”) e, deste modo,
modificações específicas de sua forma.
As modificações históricas da determinação geral da forma e do
conteúdo do Estado, fundamentadas no contexto das crises do desenvol­
vimento capitalista, não podem ser explicadas por uma análise geral e
categorial da sociedade burguesa nos moldes em que foi feita até hoje.
Para isso, necessita-se de uma pesquisa categorialmente orientada do
processo de desenvolvimento do capitalismo interpretado como processo
de acumulação e de crise. O modo determinado através do qual a lei do
valor se impõe deve formar a base de uma determinação historicamente
concretizada da forma e da função do Estado, e nesse processo, as barreiras
que o próprio capital cria para si no decorrer do seu processo de valoriza­
ção e os modos históricos peculiares que ele adota para impor-se, passam a
ser o ponto de partida central da pesquisa. Uma vez que se tenha apreendi­
do analiticamente, na base de categorias gerais, o modo social concreto no
qual a lei do valor se impõe, será possível determinar as configurações
especiais e formas do Estado burguês enquanto tais, as quais são influen­
ciadas pelos diferentes níveis de acumulação e pelas condições de valoriza-

151
ção de capitais “nacionais” que resultam de especiais condições sociais,
naturais e históricas;15 será possível explicitar também os limites históricos
de um mecanismo capitalista de reprodução influenciado pelo intervencio­
nismo estatal. A pesquisa dos processos de crise e de acumulação no capita­
lismo constitui, portanto, a base central de uma análise historicamente
concretizada do Estado.
Somos constrangidos a renunciar a uma exposição detalhada da
teoria de Marx sobre a acumulação.16 O momento central para a análise
do Estado, que transforma necessariamente o processo de acumulação do
capital num processo de crise, é a pressão imposta ao capital pelo antago­
nismo das classes, no sentido de uma revolução contínua da técnica de
produção e de um desenvolvimento das forças produtivas; e es$a pressão
se manifesta necessariamente, por seu turno, em transformações tenden-
ciais de sua composição de valores. O mecanismo de sua auto-valorização
coage o capital a se desligar continuamente de sua base, a força viva de
trabalho, e a colocar como sua forma mais adequada a maquinaria, o capi­
tal fixo, o que significa também: a relativa e contínua transformação do
trabalho vivo em elemento excedente e a reprodução permanente de um
exército industrial de reserva.17 A crescente força produtiva do trabalho
significa, pois, que o indivíduo trabalhador coloca em movimento massas
cada vez maiores de meios de produção, de matérias primas, etc: a compo­
sição técnica do capital, a relação da massa dos meios de produção com a
quantidade da força de trabalho por eles empregada se amplia, e assim tem
de crescer tendencialmente também a composição orgânica do capital,
a relação de valor entre capital constante e capital variável. Supondo que
existam taxas constantes de mais vaha, segue daí uma tendência à queda
da taxa de lucro embutida nas leis do processo de acumulação. Para Marx,
a “lei da queda tendencial da taxa de lucro” é “em todos os sentidos. .
a “lei mais importante da economia política moderna, e a mais essencial
para se compreender as relações difíceis” .18 Ela caracteriza a necessidade
absoluta da crise geral do capitalismo, cuja possibilidade está embutida
na circulação do dinheiro. A crise surge no momento em que a queda da
taxa de lucro do processo de acumulação atinge um ponto no qual a
massa relativa da mais vaha produzida é insuficiente para continuar man­
tendo o ímpeto atingido pela acumulação, ou seja, no momento em que a
mais vaha gerada não pode mais ser capitalizada de modo rentável.19 Com

152
isso, uma massa de mais valia demasiadamente pequena em relação ao nível
atingido pela acumulação leva à superprodução de uma massa monstruosa
de mercadorias, revelando deste modo a desproporção que existe entre o
desenvolvimento das forças produtivas e a base estreita do modo capitalista
de produção.20 No colapso do processo de acumulação, que resulta daí,
toma-se finalmente manifesto que “o próprio capital. . . é a verdadeira
barreira da produção capitalista” .21
A fim de poder avaliar o significado deste contexto para a análise do
Estado, temos de adquirir clareza sobre o caráter lógico da “lei da queda
tendencial da taxa de lucro”. Uma vez que ela surge a partir do antago­
nismo de classes, fundamental na sociedade capitalista, não pode valer
indiscutivelmente como uma lei nomológica, capaz de descrever o anda­
mento do processo capitalista nos moldes de tabelas de dados econômicos
quantitativo/empíricos, e que possa servir de auxílio para prognósticos
imediatos. O próprio Marx chamou a atenção para o fato de que “as
mesmas causas que provocam a queda da taxa geral dos lucros são capazes
de produzir efeitos contrários, que freiam essa queda, desacelerando-a e
paralisando-a parcialmente” .22 Estas tendências opostas derivam principal­
mente da produtividade crescente do trabalho que influencia, por seu tur­
no, a mais vaha e a composição dos valores do capital; derivam também
do fato de a taxa de lucro, que aparece empiricamente, depender sempre
das relações de exploração dadas a nível mundial. Portanto, existe uma
soma de tendências opostas, cujos efeitos vão determinar se e quando a
queda tendencial da taxa de lucro no processo de acumulação se tomará
realidade empírica. Por isso, a “lei da queda tendencial da taxa de lucro”
apresenta-se como a formulação teórica (no âmbito da teoria do valor)
das forças e tendências contraditórias que estão ativas no processo de
acumulação do capital e que se impõem através de circunstâncias históricas
diferentes caso a caso.
Para determinar melhor o modo de influência da lei da queda ten­
dencial da taxa de lucro seria necessário tomar como ponto de partida o
dado segundo o qual os limites da expansão do capital são estabelecidos
em cada conjuntura epocal através de um complexo de relações sociais
gerais. Integram esse complexo o volume do capital já acumulado, o nível
tecnológico atingido, a extensão da esfera regional da produção e do
mercado, a disponibilidade da força de trabalho e as relações de forças

153
das classes, das formas de dominação política, etc., que determinam o
grau possível, relativo ou absoluto, da exploração.23 Uma vez que estas
condições sociais gerais de produção e de valorização não se acomodam
por si mesmas à acumulação do capital, é necessária a crise, quando então
o processo de acumulação atinge o seu limite, para que a virulência das
“contra-tendências” seja enfraquecida e se transforme em realidade empí­
rica a queda tendencial da taxa de lucro. A relativa rigidez e independência
das relações gerais de produção e de exploração com relação ao processo
de reprodução do capital explica, entre outras coisas, a periodicidade
das crises.24 Entretanto, a própria crise — a irrupção de acirradas lutas de
classes e as estratégias do capital destinadas a garantir a valorização —cons­
titui o veículo através do qual o conjunto complexo das condições sociais
de produção é reorganizado: através de uma opressão crescente da classe
dos trabalhadores, da progressiva monopolização e da aceleração do desen­
volvimento tecnológico, da exploração imperialista agudizada, etc. Por
conseguinte, as tendências contra a queda das taxas de lucro não depen­
dem de efeitos ou leis quase-naturais, mas são mobilizadas ao modo de
uma crise, através das lutas de classes que se desencadeiam e através das
ações de capitais particulares e de grupos de capital. A lei da queda tenden­
cial da taxa de lucro caracteriza, pois, o ponto de referência objetivo,
formulado em categorias de valor de estratégias do capital e de disputas
entre classes no processo de produção e de reprodução do capital, que
podem aparecer na “superfície da sociedade e na consciência dos agentes,
mas somente de forma equivocada e fracionada. As barreiras que o capital
ergue permanentemente para si mesmo no seu processo de valorização
só podem ser eliminadas transitoriamente através da reorganização de
relações sociais complexas, mediada através da crise e das lutas econômicas
e políticas. A concreção histórica da determinação formal e funcional
do Estado burguês tem de ser determinada essencialmente a partir deste
contexto de crise e a partir dos movimentos políticos dele resultantes.
O significado concreto da “garantia das condições gerais da reprodução
capitalista” é determinado através do percurso, pleno de crises, do proces­
so de reprodução e impõe-se politicamente através das ações políticas
de grupos sociais e de classes que resultam das transformações das relações
de valorização e de exploração.25
Em síntese, podemos dizer que as determinações gerais da forma e

154
do conteúdo do Estado burguês, deduzívcis a partir das estruturas funda­
mentais e leis do processo capitalista de reprodução, têm de ser concreti­
zadas historicamente com o auxílio de uma análise que esmiúça o desenro­
lar da crise e que descreve o modo como as barreiras imanentes ao processo
de valorização são rompidas. Portanto, se o desenrolar do desenvolvimento
capitalista e com ele a configuração concreta e a função do aparelho estatal
não seguem uma lei mecânica ou quase-natural de desenvolvimento, sendo,
ao invés, influenciados por condições sociais específicas e por relações de
classes, então, o processo social global de desenvolvimento e de revolução,
bem como o Estado em suas funções, são determinados fundamentalmente
pela lógica da lei do valor. E a partir daí devem ser determinados também
os limites necessários a toda a atividade administrativa do Estado voltada
à garantia do processo de reprodução que acontecem em meio a crises.26
A quebra da lei do valor equivaleria à eliminação do Estado burguês.
Das idéias esboçadas até o momento resulta que o ponto lógico de
ligação entre a pesquisa do processo de reprodução no nível do “capital
em geral” e os movimentos que aparecem na “superfície” da sociedade,
ponto que é fundamental para a análise do Estado, tem de ser procurado
na lei da queda tendencial das taxas de lucro. A análise dos processos na
“superfície da sociedade”, das formas nas quais as configurações do capital
“surgem por si mesmas na ação dos diferentes capitais uns sobre os outros,
na concorrência e na consciência comum dos agentes da produção”,27
forma o pressuposto necessário para uma pesquisa dos processos políticos
concretos no interior da sociedade burguesa, das estruturas de interesses,
das posições de influências e dos conflitos, através dos quais as funções
gerais do Estado se realizam e se impõem de fato, rompendo-se e modifi­
cando-se de muitas maneiras.28 Se alguém pretendesse ir além da tese
geral, certamente correta, de que as crises e contradições do processo de
reprodução capitalista se reproduzem necessariamente no interior do
aparelho do Estado e que as falhas aparentemente técnicas e as deficiências
funcionais da moderna administração “estatal intervencionista” têm ali a
sua causa principal, então seria necessária uma dedução concludente do
modo como estas contradições fundamentais entram no Estado — media­
das através de estratégias concretas do capital e através de disputas de
classes — e se transformam nele, manifestando-se, a seguir, de um modo
especificamente diferente. Somente após termos formulado de modo

155
global, teoricamente concludente e empiricamente concreto esse nexo
geral que existe entre as leis gerais do processo econômico de reprodu­
ção, as estratégias políticas e as medidas administrativas, será possível
chamar a atenção da política para uma dedução da determinação formal
e funcional do Estado.

NOTAS E CITAÇÕES
1 Se excetuarmos a breve e insatisfatória tentativa de uma dedução teórica do Estado,
podemos dizer que esse também é essencialmente o caso de Elmar Altvater no seu
trabalho intitulado “ Sobre alguns problemas do intervencionismo estatal”, in -.Proble­
mas da luta de classes (Probleme des Klassenkampfs), n9 3/1972, p. Iss. As diferentes
variantes da teoria do “capitalismo estatal monopolista” operam explicitamente com
tal princípio metódico, ainda que seja com outra intenção.
2 Em sua tentativa de uma dedução do Estado, v. Flatow e Huisken terminam recor­
rendo, em última instância, ao sistema de produção de mercadorias, mesmo que sua
intenção seja outra. Por tentarem amarrar a “particularização do Estado” e, ao mes­
mo tempo, o substrato material da ideologia da neutralidade no interesse geral que
todos os indivíduos têm na garantia de suas fontes de renda, eles são forçados a
declarar conseqüentemente esses últimos, in toto, proprietários privados. E uma vez
que eles não deduzem o Estado a partir do conceito de capital, como ambicionam,
mas a partir do sétimo capítulo do terceiro volume do “Capital” , em sua exposição
o Estado não surge das contradições do desenvolvimento do capital, mas da ideologia
reificada da sociedade burguesa. Cf. Sibylle v. Flatow, Freerk Huisken, Sobre o
problema da dedução do Estado burguês, in: Problemas da luta de classes (Probleme
des Klassenkampfs) n? 7/1973, p. 83ss.
Müller e Neusüss seguem o mesmo procedimento abstrativo quando recorrem à
situação das classes no capitalismo, a qual revela certas características anti-históricas
e estruturalistas, uma vez que as atividades históricas do Estado sempre são determi­
nadas por eles como resultado da realização de lutas de classes, sem que consigam
apreender em nenhum momento e sistematicamente o fundamento que subjaz ao
movimento do capital. Cf. W. Müller e Ch. Neusüss, A ilusão do Estado social e a
contradição entre trabalho assalariado e capital, in -.Política socialista (Sozialistische
Politik), cad. 6/7, 1970, p. 4ss. Neste sentido existem exemplos muito mais crassos,
como em Joscha Schmierer, Teses sobre a questão do fascismo, in-. Novo forum
vermelho (Neues Rotes Forum), nP 3 ,1 9 7 2 , p. 7ss.
No próprio Engels, a renúncia a uma análise a partir das leis do desenvolvimento
capitalista e do desenrolar histórico do processo de acumulação tem como conse­
qüência parcial uma determinação estreita do Estado, reduzida quase que a uma
“teoria de classes” , do que resulta então um Estado na forma de um poder que está
acima da sociedade, regulador do conflito de classes. Cf. Engels,/! origem da família,
da propriedade privada e do Estado (Der Ursprung der Familie, des Privateigentums
und des Staates), MEW, vol. 21, Berlim, 1969, p . 167.
3 Karl Marx, Esboços da crítica da economia política (Minuta) Grundrisse der Kritik
der politischen Ökonomie (Rohentwurf), Frankfurt a. M. - Viena o. J., p. 74s.
4 Op. cit., p. 909.
5 Karl Marx, Friedrich E ngels,/! ideologia alemã i(Die deutsche Ideologia),MEW,
vol. 3, Berlim, p. 33.

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6 O Capital I, p. 591.
7 O Capital I, p. 609.
8 O Capital I, p. 595ss.
9 O Capital I, p. 609.
Karl Marx. Resultados do processo imediato de produção (Resultate des unmit-
telbaren Produktionsprozesses), Frankfurt a.M., 2?. ed., 1970, p. 89.
No “Capital” Marx analisa as leis determinantes do processo de produção e de
reprodução do capital, em sua figura pura e sem levar sistematicamente em conta
as condições históricas concretas e o modo como elas se impõem, “ prescindindo
provisoriamente de todos os fenômenos que encobrem o jogo interno de seu meca­
nismo” (O Capital, I, p. 590). Por isso, o “ Capital” não pode conter um princípio
sistemático para uma teoria do Estado: o Estado entra somente à margem e essencial­
m ente no contexto de explicações históricas difusas — não é uma dedução. Como
conseqüência disso, parece problemática a pretensão de Müller e de Neusüss, que
tentam encontrar na passagem que trata da luta pelas dez horas diárias de trabalho,
na Inglaterra, um princípio sistemático para o desenvolvimento de uma teoria do
Estado. Pressupomos aqui que também no capitalismo se faz mister uma “retroação
consciente e planejada da sociedade sobre a figura natural de seu processo de produ­
ção (O Capital I, p. 504), sem que seja determinada a forma na qual isto acontece.
12 Friedrich Engels,A revolução da ciência, do senhorEugen Dühring (Anti-Diihring),
(Hem Eugen Dührings Umwàlzung der Wissenschaft [Anti-Dühring]), MEW, vol.
20, Berlim, 1971 ,p . 260.
13 Com relação à sistematização das funções do Estado, cf. Altvater, op. cit. e
Joachim Hirsch, Elementos de uma teoria materialista do Estado, in: Braunmühl,
Gogoy, Funken, Hirsch, Problemas de uma teoria materialista do Estado (Probleme
einer materialistischen Staatstheorie), Frankfurt a.M., 1973.
14 Esses elementos formais foram elaborados com toda a clareza por Max Weber,
Cf. Economia e sociedade (Wirtschaft und Gesellschaft), Colônia-Berlim (Studien-
ausgabe), 1964, especialmente p. 1034ss. Cf. também Hans-Joachim Blank, Admi­
nistração e ciência administrativa, in: G. Kress e S. Senghaas (org.). Ciência política
(Politikwissenschaft), Frankfurt a.M. 1969, p. 368ss (Este texto traz farto material
bibliográfico). Nas mais recentes teorias do sistema a “particularização” do Estado
passa a ser vista como “diferenciação do sistema político” a partir de estratégias
funcionais. Cf. por exemplo Niklas Luhmann, Sociologia do sistema político, in:
Revista de Colônia para sociologia e psicologia social (Kolner Zeitschrift für Sozio-
logie und Sozialpsychologje), Jg. 20/1968, p. 705ss.
A ‘sociedade atual’ é a sociedade capitalista, que existe em todos os países
civilizados, mais ou menos livre de apêndices medievais, mais ou menos modi­
ficada através do desenvolvimento histórico específico de cada país, mais ou menos
desenvolvida. O ,‘Estado atua” , ao contrário, muda de acordo com as fronteiras.
No Reino Prussiano Alemão ele não é o mesmo que na Suíça, na Inglaterra ele não é
o mesmo que nos EEUU. Mesmo assim, os diferentes Estados das múltiplas nações,
apesar da colorida variedade de suas formas, têm todos em comum o fato de estarem
no solo de nossa sociedade burguesa moderna, cuja característica é o fato de estar
mais ou menos desenvolvida capitaiisticamente. Por conseguinte, eles têm também
em comum certos caracteres essenciais” . Karl Marx, Crítica do programa de Gotha
(Kritik des Gothaer Prograinms), MEW, vol. 19, Berlim, 1969, p. 28.
6 Cf. especialmente os volumes I e III do “Capital” , bem como Henryk Grossmann,
A lei de acumulação e de colapso do sistema capitalista (Das Akkumulations -
und Zusammenbruchsgesetz des kapitalistischen Systems), Reimpressão, Frankfurt

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a Al., 1970; Paul Mattick. Marx e Keynes (Marx und Keynes), Frankfurt a.M./Viena,
1971; Id. Teoria do valor e acumulação do capital, in: Capitalismo e crise (Kapita­
lismus und Krise), ed. por C. Rosshausen, Frankfurt a.M./Viena, 1970. Cf. também
Hirsch, op. cit., que desenvolve a temática de modo mais detalhado.
17 Esboços, loc. cit., p. 5 85ss.
18 Ibid., p. 634.
19 Cf. Capital UI, p. 221 ss e Mattick. Teoria do valor, loc. cit.
20 Cf. O Capital III, p. 260.
21 O Capital III, p. 260.
22 O Capital III, p. 249.
23 Cf. Esboços, loc. cit., p. 319 e também Grossmann, op. cit., p. 294ss;cf. também
Mattick, Marx e Keynes,op. cit., p. 82s.
24 Eni Ernest Mandel, O capitalismo tardio (Der Spätkapitalismus), Frankfurt a.M.,
1972, p. lOlss., encontramos uma tentativa de fundamentar empiricamente tal
princípio teórico.
5 Cf. Hirsch, loc. cit.
26
Cf. Mattick, Marx e Keynes, loc. cit., bem como Mario Cogoy, Teoria do valor e
Estado, in: v. Braunmühl et all., Problemas de uma teoria materialista do Estado,
loc. cit.
27 O Capital III, p. 33.
Neste nível podemos perceber também o valor da teoria de Flatow e Huisken
(cf. nota 2). A fundamentação de um “interesse geral” dos produtores sociais
sobre a necessidade que sentem de assegurar suas fontes de renda e, ao mesmo tempo,
a dedução da “aparência real” de uma neutralidade do Estado, não servem como
ponto de partida para uma dedução materialista do Estado - enquanto a “ particula­
rização do Estado” for determinada somente a partir da hipóstase e da ontologização
da consciência equivocada, falsa, e não a partir das condições materiais da produção
e da reprodução. O Estado, porém, é imprescindível para uma análise do processo
político e, inclusive, para a avaliação materialista do modelo ideológico de legitima­
ção da sociedade burguesa. Entretanto, se pretendêssemos obter algo mais do que
uma simples teoria pluralista, fundada no materialismo, seria imprescindível explicar
o modo como os movimentos na “superfície da sociedade” e as formas da consci­
ência são determinados através das leis e condições históricas concretas do processo
de acumulação e de crise.

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