Você está na página 1de 16

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

INSTITUTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS


FACULDADE DE DIREITO
CURSO DE BACHARELADO EM DIREITO
DIREITO MINERÁRIO E DE RECURSOS HÍDRICOS
PROFESSOR FERNANDO FACURY SCAFF

Excesso de transcrições, sendo muitas delas através de “apuds”.


Atribuo conceito Bom.

DIREITO MINERÁRIO: Concessão mineral, direito de prioridade, jazidas, minas


e jurisprudência do STJ
BELÉM
20197

INTRODUÇÃO

O inciso IX do art. 20 da Constituição Federal de 1988 elenca entre os bens


da União os recursos minerais, inclusive os do subsolo. Desse modo, a sua
exploração por particulares depende de autorização expressa desse ente federado,
que se dá por intermédio do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
Caso sejam preenchidos os requisitos legais pelo interessado na exploração
mineral, será outorgada a autorização para a realização de pesquisa ou lavra na
área especificada no pleito, sem prejuízo do licenciamento ambiental.
Nesse contexto, a autorização torna-se necessária mesmo em caso de
propriedade privada, haja vista que o titular de determinada área não teu o direito de
explorar o subsolo, em função da previsão constitucional exposta acima, conforme
ensina FEIGELSON (2014):
[...] Assim, pode-se dizer que a propriedade do solo não implica em
autorização para explorar o subsolo. Nessa linha, é vedado ao
proprietário do solo impedir o aproveitamento da jazida, que não lhe
pertence, ressalvado entretanto, seu domínio sobre a propriedade da
superfície.
O Decreto Lei nº 227, de 28/02/1977 - Código de Mineração (CM), em seu art.
2º, estabelece como regimes de aproveitamento mineral, dentre outros, a concessão
e a autorização, sendo o primeiro consequência do segundo, conforme
entendimento de RIBEIRO (2006):
O art. 2º do Código de Mineração, ao relacionar esses regimes,
separa o "regime" de autorização de pesquisa do "regime" de
concessão de lavra. Entretanto, embora submissos à regras próprias,
este último sucede ao primeiro, como sua consequência, compondo
ambos um regime único, misto, reconhecido na legislação minerária,
que o cita repetidamente. Não poderia ser diferente. Afinal, o mesmo
direito de prioridade que garantir a outorga do título de autorização
de pesquisa garantirá, à seqüência, a outorga do título de concessão
de lavra.

Todavia, conforme será explicitado a seguir, deve ser observado o direito de


prioridade de quem comprovar ter sido o primeiro a apresentar requerimento de
autorização de pesquisa mineral em determinada área.
REGIMES DE AUTORIZAÇÃO E DE CONCESSÃO MINERAL

O regime de autorização de pesquisa está regulamentado no art. 14 do


Código de Mineração, compreendendo a execução dos trabalhos necessários à
definição da jazida, à sua avaliação e à determinação da exequibilidade preliminar
de seu aproveitamento econômico. Trata-se de instrumento que obriga o particular a
seguir rigorosamente o plano de pesquisa aprovado, devendo ser observada a
viabilidade econômica e geológica da jazida.
A pesquisa mineral tem como objetivo a produção do relatório final de
pesquisa (RFP) e o plano de aproveitamento econômico (PAE). Para tanto os
trabalhos de pesquisa são levados a efeito por intermédio das seguintes atividades
de campo e de laboratório (Código de Mineração, art. 14, § 2º): levantamentos
geológicos; estudos dos afloramentos e suas correlações; levantamentos geofísicos
e geoquímicos; escavações; sondagens no corpo mineral; amostragens
sistemáticas; análises físicas e químicas das amostras; ensaios de beneficiamento
dos minérios ou das substâncias minerais úteis, para obtenção de concentrados de
acordo com as especificações do mercado ou aproveitamento industrial.
A autorização de pesquisa mineral é outorgada pelo Diretor-Geral do DNPM
mediante ato administrativo vinculado (alvará), o qual, depois de publicado no Diário
Oficial da União (DOU), permite o início dos trabalhos de pesquisa pelo prazo fixado,
com prévia comunicação ao DNPM.
Ressalta-se que o referido ato administrativo por ser vinculado não está
sujeito aos critérios de conveniência e oportunidade da administração, motivo pelo
qual não pode ser negado caso estejam preenchidos pelo pretendente à autorização
todos os requisitos da lei (SOUZA, 2003)
Conforme mencionado nas linhas acima, concessão de lavra é uma
consequência direta da autorização de pesquisa, conforme leciona também

Vale repetir que, uma vez aprovado o relatório dos trabalhos


de pesquisa e, portanto, demonstrada a presença de jazida na área
autorizada, o titular da autorização de pesquisa adquirirá o direito de
requerer o título de concessão de lavra dessa jazida, que poderá ser
exercido, ou negociado, dentro do prazo de um ano, sucessivamente
prorrogado.
O Código de Mineração estabelece que a lavra consiste em um conjunto de
operações coordenadas objetivando o aproveitamento industrial da jazida, desde a
extração das substâncias minerais úteis que contiver, até o beneficiamento das
mesmas, bem como define que o regime de sua concessão depende de portaria do
Ministro de Estado de Minas e Energia.
A outorga da portaria de lavra, que deverá ser publicada no DOU, depende de
constatação da efetiva pesquisa da jazida, bem como da apresentação do relatório
final de pesquisa aprovado que demonstre a viabilidade de extração e
beneficiamento.
A outorga de lavra também consiste em um ato vinculado. Logo, estando
preenchidos todos os requisitos legais para a sua concessão, o minerador tem
direito à obtenção de tal autorização, impondo-se a expedição da respectiva portaria.
Ressalta-se que o art. 31 do Código de Mineração estabelece que o titular da
autorização de pesquisa tem o prazo de até 1 (um) ano, após a aprovação do
relatório, para requerer a concessão de lavra. Tal prazo pode ser prorrogado pelo
DNPM por igual período, desde que plenamente justificado e solicitado antes da
expiração do prazo inicial ou da prorrogação em curso.
O direito à concessão de lavra caducará caso não seja observado o prazo
explicitado acima, cabendo ao Diretor-Geral DNPM, mediante edital publicado no
DOU, declarar a disponibilidade da jazida pesquisada, para fins de requerimento da
concessão de lavra, a teor do que prescreve o art. 32 do CM:
Art. 32. Findo o prazo do artigo anterior, sem que o titular, ou seu
sucessor, haja requerido concessão de lavra, caducará seu direito,
cabendo ao Diretor-Geral do Departamento Nacional da Produção
Mineral - D. N. P. M. - mediante Edital publicado no Diário Oficial da
União, declarar a disponibilidade da jazida pesquisada, para fins de
requerimento da concessão de lavra.
Por sua vez, o art. 38 do CM estabelece que o requerimento de autorização a
de lavra ao ser dirigido ao Ministro das Minas e Energia, pelo titular da autorização
de pesquisa, ou seu sucessor, deverá ser instruído com os seguintes elementos:

I - certidão de registro, no Departamento Nacional de Registro do


Comércio, da entidade constituída;
II - designação das substâncias minerais a lavrar, com indicação do
Alvará de Pesquisa outorgado, e de aprovação do respectivo
Relatório;
III - denominação e descrição da localização do campo pretendido
para a lavra, relacionando-o, com precisão e clareza, aos vales dos
rios ou córregos, constantes de mapas ou plantas de notória
autenticidade e precisão, e estradas de ferro e rodovias, ou , ainda, a
marcos naturais ou acidentes topográficos de inconfundível
determinação; suas confrontações com autorização de pesquisa e
concessões de lavra vizinhas, se as houver, e indicação do Distrito,
Município, Comarca e Estado, e, ainda, nome e residência dos
proprietários do solo ou posseiros;
IV - definição gráfica da área pretendida, delimitada por figura
geométrica formada, obrigatoriamente, por segmentos de retas com
orientação Norte-Sul e Leste-Oeste verdadeiros, com 2 (dois) de
seus vértices, ou excepcionalmente 1 (um), amarrados a ponto fixo e
inconfundível do terreno, sendo os vetores de amarração definidos
por seus comprimentos e rumos verdadeiros, e configuradas, ainda,
as propriedades territoriais por ela interessadas, com os nomes dos
respectivos superficiários, além de planta de situação;
V - servidões de que deverá gozar a mina;
VI - plano de aproveitamento econômico da jazida, com descrição
das instalações de beneficiamento;
VII - prova de disponibilidade de fundos ou da existência de
compromissos de financiamento, necessários para execução do
plano de aproveitamento econômico e operação da mina.
Concedida a concessão de lavra, o respectivo concessionário passa a ter que
cumprir uma séria de exigências legais, dentre as quais, o recolhimento da
Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), prevista
no art. 6º da Lei nº 7.990/89, bem como o direito do proprietário do solo à
participação nos resultados da lavra, conforme previsto no Código de Mineração (art.
11, alínea b, §§ 1º a 3º).

Além disso, sob pena de sanções previstas no CM, também devem ser
observadas obrigatoriamente pelo concessionário da lavra as seguintes exigências
previstas no arts. 47 do mesmo diploma legal:
(i) iniciar os trabalhos previstos no plano de lavra em até 6 (seis) meses, após a
publicação do Decreto de Concessão no DOU, salvo motivo de força maior, a
juízo do DNPM;
(ii) Lavrar a jazida de acordo com o plano de lavra aprovado pelo DNPM;
(iii) extrair somente as substâncias minerais indicadas na concessão de lavra;
(iv) comunicar imediatamente ao DNPM o descobrimento substância mineral de
interesse econômico não incluída na concessão de lavra;
(v) executar os trabalhos de mineração conforme normas regulamentares;
(vi) confiar, obrigatoriamente, a direção dos trabalhos de lavra a técnico
legalmente habilitado ao exercício da profissão;
(vii) não dificultar/impossibilitar aproveitamento ulterior da jazida (lavra ambiciosa);
(viii) responder pelos danos e prejuízos a terceiros, que resultarem, direta ou
indiretamente, da lavra;
(ix) promover a segurança e a salubridade das habitações existentes no local;
(x) evitar o extravio das águas e drenar as que possam ocasionar danos e
prejuízos aos vizinhos;
(xi) evitar poluição do ar ou da água, que possa resultar dos trabalhos de
mineração;
(xii) proteger e conservar as Fontes, bem como utilizar as águas segundo os
preceitos técnicos quando se tratar de lavra de jazida da Classe VIII;
(xiii) tomar as providências indicadas pela Fiscalização dos órgãos Federais;
(xiv) não suspender os trabalhos de lavra, sem prévia comunicação ao DNPM;
(xv) manter a mina em bom estado, no caso de suspensão temporária dos
trabalhos de lavra, de modo a permitir a retomada das operações;
(xvi) apresentar ao DNPM - até o dia 15 de março de cada ano, relatório das
atividades realizadas no ano anterior;
(xvii) executar, antes da extinção do título, o plano de fechamento de mina; e
(xviii) observar o disposto na Política Nacional de Segurança de Barragens,
estabelecida pela Lei nº 12.334, de 20 de setembro de 2010.
Cumpre ressaltar também que não poderão ser iniciados os trabalhos de lavra
antes de paga a indenização e fixada a renda pela ocupação do terreno. Além disso,
uma vez iniciados, os trabalhos de lavra não poderão ser interrompidos por mais de
6 (seis) meses consecutivos, salvo motivo comprovado de força maior.
O código de Mineração também prevê que, caso a lavra seja praticada em
desacordo com o plano aprovado pelo DNPM, poderá o concessionário sofrer
sanções que podem ir gradativamente da advertência à caducidade.

DIREITO DE PRIORIDADE

Antes de se falar em direito de prioridade, torna-se necessário tratarmos do


princípio da prioridade, haja vista que o primeiro decorre deste último, que é um dos
princípios norteadores do Direito Minerário, sendo correlato ao princípio da
anterioridade e consonante com o primado internacional do “first come, first served”

Segundo FEIGELSON (2014), o princípio da prioridade preceitua que a


outorga do direito de pesquisa e, posteriormente de lavra, deve respeitar a ordem de
requisições feitas pelos particulares junto ao poder concedente.
O princípio da prioridade está positivado no art. 11 do Código de Mineração,
conforme excerto abaixo:
Art. 11. Serão respeitados na aplicação dos regimes de Autorização,
Licenciamento e Concessão:
a) o direito de prioridade à obtenção da autorização de pesquisa ou
de registro de licença, atribuído ao interessado cujo requerimento
tenha por objeto área considerada livre, para a finalidade pretendida,
à data da protocolização do pedido no Departamento Nacional da
Produção Mineral (D.N.P.M), atendidos os demais requisitos
cabíveis, estabelecidos neste Código;
No art. 18 do Código de Mineração, que trata do requerimento de
autorização de pesquisa, de registro de licença ou de permissão de lavra garimpeira,
estão positivadas algumas normas referentes ao direito de prioridade, conforme se
destaca abaixo:
Art. 18. A área objeto de requerimento de autorização de pesquisa,
de registro de licença ou de permissão de lavra garimpeira será
considerada livre, desde que não se enquadre nas seguintes
hipóteses:
I - se a área estiver vinculada a autorização de pesquisa, registro de
licença, concessão da lavra, manifesto de mina ou permissão de
reconhecimento geológico;
II - se a área for objeto de requerimento anterior de autorização de
pesquisa, exceto se o referido requerimento estiver sujeito a
indeferimento de ofício, sem oneração de área;
III - se a área for objeto de requerimento anterior de concessão de
lavra, registro de licença ou permissão de lavra garimpeira;
IV - se a área for objeto de requerimento anterior de registro de
extração, exceto se houver anuência do interessado;
V - se a área estiver vinculada a requerimento de prorrogação do
prazo da autorização de pesquisa, licenciamento ou permissão de
lavra garimpeira, pendente de decisão;
VI - se a área estiver vinculada a autorização de pesquisa, sem
relatório final de pesquisa tempestivamente apresentado, com
relatório final de pesquisa pendente de decisão, com sobrestamento
da decisão sobre o relatório final de pesquisa apresentado ou com
relatório final rejeitado;
VII - se a área estiver vinculada a autorização de pesquisa, com
relatório final de pesquisa aprovado, ou na vigência do direito de
requerer a concessão da lavra, atribuído nos termos do art. 31; ou
VIII - se a área estiver aguardando declaração de disponibilidade ou
tiver sido declarada em disponibilidade.
É a observância ao princípio da prioridade e o respeito à ordem de
requisições que gera o direito de prioridade ao particular, que passa a fazer jus à
preferência no momento em que demonstra ter sido o primeiro a requerer a pesquisa
em determinada área, o que assegura o direito de não ver seu requerimento de
direitos minerários em prol de eventual requerimento posterior.

JAZIDA E MINA

JAZIDA
Jazida é toda massa individualizada de substância mineral ou fóssil que
tenha expressão econômica, esteja no subsolo ou aflorada. Não é parte integrante
ou pertença de solo. É bem imóvel por natureza, autônomo, principal e sem qualquer
relação de acessoriedade com a superfície. É unidade jurídica e econômica distinta
do solo. Ainda que se possa confundir fisicamente a superfície e o minério aflorado,
estará sujeita ao regime do Código de Mineração. É a reserva mineral técnica,
econômica e ambientalmente viável, incorporada a um Direito Minerário.
Núcleo de toda a atividade mineral, a jazida apresenta como
características essenciais:
a) Tem natureza imobiliária;
b) Produz atividade extrativa;
c) Tem autonomia em relação ao solo;
d) Possui rigidez locacional;
e) É exaurível;
f) Não é renovável.
O conceito de jazida possui como requisito o conhecimento prévio
(individualização) do minério existente num dado território, dotado de viabilidade
econômica. Logo, as substâncias minerais que eventualmente existam na terra, mas
que ainda não foram descobertas, não são caracterizadas como jazidas.
O PL nº 5.807/2013, no art. 2º, XII, define jazida como sendo o “depósito já
identificado e possível de ser posto em produção”. Trata-se de definição semelhante
à anterior, pois exige a prévia identificação e a viabilidade econômica. Esta última,
por sua vez, constitui outro elemento imprescindível ao conceito de jazida. É
necessário que o depósito contenha minério – substância cujo aproveitamento é
economicamente viável –, e não apenas mineral. Como retratado acima, minérios
são os minerais dotados de valor econômico.
Interessante mencionar que a antiga redação do Código de Mineração
classificava as jazidas em nove classes de substâncias minerais. Tal regra foi
revogada pela Lei nº 9.314/1996, mas ainda é bastante usada na doutrina e na
praxe, razão pela qual deve ser transcrita:
Art. 5º Classificam-se as jazidas para efeito deste Código, em 9
(nove) classes:
Classe I – jazidas de substâncias, minerais metalíferas;
Classe II – jazidas de substâncias minerais de emprego imediato na
construção civil;
Classe III – jazidas de fertilizantes;
Classe IV – jazidas de combustíveis fósseis sólidos;
Classe V – jazidas de rochas betuminosas e pirobetuminosas;
Classe VI – jazidas de gemas e pedras ornamentais;
Classe VII – jazidas de minerais industriais, não incluídas nas
classes precedentes;
Classe VIII – jazidas de águas minerais;
Classe IX – jazidas de águas subterrâneas.
Para Elias Bedran (1957a, p. 47, apud Pedro Ataíde), “a Jazida é o depósito
mineral industriável, porém latente, cuja exploração transforma-o em Mina”. A jazida
significa a massa (ou depósito) de substância mineral com potencialidade para
extração.
MINA
O PL nº 5.807/2013 conceitua mina como a “área produtora de minério a partir
de um depósito, a profundidades variáveis, que abrange instalações e equipamentos
destinados à produção” (art. 2º, XIV).
Mina designa a jazida em lavra, ainda que suspensa, de acordo com a lei.
Como já destacado, a atividade minerária nos regimes de autorização e concessão é
formada, respectivamente, pelas fases de pesquisa e de lavra. Esta constitui
exatamente a atividade extrativa, conceituada pelo art. 36, do Código de Mineração,
como “o conjunto de operações coordenadas objetivando o aproveitamento industrial
da jazida, desde a extração das substâncias minerais úteis que contiver, até o
beneficiamento das mesmas”.
A etapa de lavra é formada pelos atos extrativos e pelo processo de
beneficiamento, também chamado de tratamento do minério, que cuida do conjunto
de operações perpetradas nos recursos minerais para torná-los adequados ao uso
particular. É a etapa em que mais se agrega valor econômico ao minério, que se
transforma em bem útil (HERRMANN, 2011, p. 72).
Como preleciona Hildebrando Herrmann (2011, p. 71-72), o beneficiamento
consiste em separar os elementos úteis (minério) das substâncias destituídas de
utilidade, por meio, basicamente, dos seguintes processos: (i) fragmentação, que é a
redução do tamanho dos elementos extraídos para as dimensões desejadas; (ii)
classificação, na qual os bens são separados de acordo com o tamanho desejado;
(iii) concentração, em que se aumenta o percentual dos minerais valiosos a partir
das propriedades físicas e físico-químicas; (iv) homogeneização, que procura
identificar as partículas desejadas; (v) desaguamento, em que se obtém minério
seco a partir da decantação, da secagem ou da filtragem; e (vi) aglomeração, que “é
o processamento por britagem, nodulação, pelotização, sinterização e outros que
tenham por finalidade a reunião de partículas minerais para seu melhoramento
industrial”.

Classificação das Minas

O Código classifica as minas em duas categorias, segundo a forma


representativa do direito de lavra: mina manifestada e mina concedida.
Mina Manifestada é aquela em lavra, ainda que transitoriamente suspensa em
16.07.34, e que tenha sido manifestada na conformidade do art. 10 do Decreto
24.642, de 10.07.34, e da Lei 94, de 10.09.35.
O aproveitamento das Minas Manifestadas e registradas independe de
consentimento do Governo Federal.
As Minas Manifestadas estão sujeitas, apenas, às condições que o Código
estabelece para a lavra, tributação e fiscalização das minas com aproveitamento
consentido pela União.
A definição legal do Manifesto de Mina mostra tratar-se de um regime
especial instituído com o propósito de preservar os direitos do superficiário
preexistentes à Constituição Federal e ao Código de Minas de 1934.
Mina consentida é aquela cuja exploração depende de outorga do Direito
Minerário pela União.
Mina Manifestada e mina consentida têm natureza jurídica diversa. A primeira
constitui um direito real de domínio do proprietário sobre a própria mina; a segunda,
um direito real do minerador sobre o Título Minerário, que traz em si,
intrinsecamente, e de si indissociável, um direito-dever do minerador de explorar a
jazida.

JAZIDA E MINA - DIFERENÇAS


A diferenciação legal entre jazida e mina leva em consideração o critério da
utilização industrial (VIVACQUA, 1942, p. 558, apud Pedro Ataíde). Alfredo de
Almeida Paiva (1967, p. 3, apud Pedro Ataíde) conceitua “a jazida como um
fenômeno puramente geológico, pressupõe a existência de reserva mineral em seu
estado natural, enquanto a mina deve ser entendida como expressão de natureza
jurídica e que traduz o aproveitamento da jazida, em termos de atividade econômica
e produtiva”. Discorda-se em parte de tal posição pois a jazida não é apenas um
fenômeno geológico, uma vez que abarca também a prévia identificação e a
verificação de viabilidade econômica. O PL nº 5.807/2013 conceitua mina como a
“área produtora de minério a partir de um depósito, a profundidades variáveis, que
abrange instalações e equipamentos destinados à produção” (art. 2º, XIV).
Portanto, ambas têm aproveitamento econômico, embora a jazida, durante o
período de pesquisa, apresente o risco da não viabilidade, enquanto que a mina já
se predispõe como economicamente viável.
JURISPRUDÊNCIA DO STJ.

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Revista Eletrônica de Jurisprudência

RECURSO ESPECIAL Nº 1.471.571 – RO (2014/01142687)

RELATÓRIO

O Senhor Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE:

Cuida-se de recurso especial interposto por Valdecir da Silva,


fundamentado na alínea a do artigo 105, III, da Constituição Federal.

Compulsando os autos, verifica-se que a Madeireira Seu Vital Ltda., propôs


ação de reparação de danos materiais, contra o recorrente, em razão da
exploração indevida de jazidas de minerais, em área anteriormente
concedida à recorrida para pesquisas.

Em sentença, proferida pelo Juízo da 2ª Vara Cível da Comarca de


Ariquemes, julgou-se improcedente o pedido (e-STJ, fl. 310/313), ao
fundamento de que o pesquisador não teria direito à reparação por lavra
irregular de minerais. Dano este, em última análise, suportado pela União,
enquanto proprietária do subsolo.

O Tribunal de Justiça de Rondônia, à unanimidade, deu provimento à


apelação da recorrida, nos termos da seguinte ementa (e-STJ, fl. 164):

Apelação cível. Ação de reparação de danos. Nulidade da citação por edital.


Ausência de má-fé. Multa inaplicável. Usurpação. Extração ilegal de
minérios. Proteção ao jazimento. Reparação por danos materiais devida. Os
embargos de declaração interpostos pelo recorrente foram rejeitados.

Em Recurso Especial, o recorrente alega violação dos arts. 3º, 4º, 111, 267 e
301 do CPC. Em síntese, sustenta que o minério de estanho, no subsolo, é
bem público da União, de modo que não há direito de particular, sem
concessão para lavra mineral, à indenização por sua mineração, mesmo que
irregular ou ilegal.
Em juízo prévio de admissibilidade, o TJ/RO inadmitiu o recurso especial,
dando azo à interposição do AREsp nº 516.600, reautuado para melhor
exame da matéria.

È o relatório.
RECURSO ESPECIAL nº 1.471.571 – RO (2014/0114268-7)

VOTO

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE (RELATOR):

Cinge-se a lide, a verificar se o particular, amparado por alvará de


pesquisa, tem proteção quanto à exploração dos minérios encontrados no
subsolo da respectiva área, e, por consequência lógica, direito à reparação
pelos danos materiais decorrentes da exploração realizada de forma ilícita
ou irregular por terceiros.

Primeiramente, convém ressaltar que os fatos – se viável ou não a jazida –


bem como se houve ou não sua exploração irregular – são postos de lado
pelo recorrente desde a contestação. Dessa forma, a questão objeto do
presente recurso está estritamente vinculada ao direito à reparação por
danos materiais.

Segundo a tese do recorrente, tratando-se as reservas minerais de bens


públicos da União, nos termos do art. 20, IX, da Constituição Federal, ainda
que existente o alegado prejuízo, a reparação seria devida exclusivamente à
União. Essa tese acabou prevalecendo em primeiro grau de jurisdição,
porém foi posteriormente afastada, ante à reforma da sentença pelo
acórdão recorrido.

Com efeito, não há dúvidas de que a CF/88 atribui a propriedade das


reservas minerais à União, seguindo uma tendência global ante o manifesto
reconhecimento da existência de interesse nacional, bem como da
necessidade de gerir recursos finitos de indiscutível relevância estratégica.
Contudo, o Constituinte Nacional, reconhecendo igualmente a importância
dos minérios na atividade privada, optou por resguardar a possibilidade de
exploração de jazidas por particulares, desde que brasileiros.
Nessa busca de conciliação entre os interesses público e privado, garantiu-se
ao particular concessionário, nos termos do art. 176 da CF/88, a
propriedade do produto da lavra. Assim, ainda que o Estado seja o
proprietário exclusivo das reservas minerais existentes no solo e subsolo, ao
concessionário particular é garantida a propriedade do produto de sua
exploração, fazendo emergir da nossa ordem constitucional o princípio do
livre acesso aos recursos minerais (FREIRE, William. Código de Mineração
Anotado. 5 ed. Mandamentos editora: Belo Horizonte, 2010. p. 107).

Nesse cenário, cumpre identificar a partir de que momento incidirá essa


proteção constitucional à propriedade particular dos minérios.

A fim de ordenar o acesso franqueado livremente aos particulares, nos


termos disciplinados pela Constituição Federal, o Código de Mineração
trouxe à lume o importante instituto da prioridade. Assim, cumpridas as
determinações legais, o minerador faz jus a obtenção de um título
minerário, obedecida a prioridade prevista no art. 11, a, do Decreto-Lei nº
227/67. Para fins de fixação do direito de prioridade, estabelece o referido
dispositivo que se tomará em consideração a data do requerimento relativo
à pesquisa ou à exploração de área considerada livre.

Desse modo, a Autorização de Pesquisa é o primeiro titulo minerário


previsto na legislação e, apesar da denominação, não há para a União
qualquer discricionariedade em sua concessão, devendo ser atribuído ao
requerente que, cumprindo os requisitos legais, objetivar a exploração
futura de área livre.

Concedido o alvará de pesquisa e verificada a viabilidade da exploração em


conclusão dos trabalhos de pesquisa, o autorizatário terá o prazo
decadencial ânuo para requerer a concessão da lavra ou negociar seu
direito com terceiros. É o que dispõem os artigos 31 e 32 do Decreto-Lei nº
227/67, ambos com redação dada pela Lei nº 6.403/76.

“Art. 31. O titular, uma vez aprovado o relatório, terá 01(um) ano para
requerer a concessão de lavra, e, dentro deste prazo, poderá negociar seu
direito a essa concessão, na forma deste Código.”

“Art. 32. Findo o prazo do artigo anterior, sem que o titular, ou seu sucessor,
haja requerido concessão de lavra, caducará seu direito, cabendo ao Diretor-
Geral do Departamento Nacional Da Produção Mineral – DNPM, mediante
edital publicado no Diário Oficial da União, declarar a disponibilidade da
jazida pesquisada, para fins de requerimento da concessão de lavra.”

Daí se extrai que, uma vez autorizada a pesquisa para fins de mineração,
nasce para o autorizatário o direito subjetivo e exclusivo à futura
exploração da mina, como decorrência do direito de prioridade, durante o
prazo decadencial de 1 ano, contado da aprovação do relatório final da
pesquisa.

Resgatando a disciplina constitucional do tema, o domínio da União em


relação aos minérios existentes no solo e subsolo, não obsta o direito
subjetivo à propriedade do produto da exploração. Ao contrário, assegura-
se este direito, em especial, mediante a observância ao direito de prioridade.

Desse modo, fixado legalmente o direito subjetivo à futura concessão da


lavra como decorrência da autorização de pesquisa, a exploração indevida,
exercida clandestina e ilicitamente por terceiro, que não detinha nenhum
título minerário, resulta em prejuízo injusto ao legítimo autorizatário. Dano
este que, portanto, deve ser-lhe integralmente ressarcido na esteira do
artigo 927 do Código Civil.

À vista do exposto, nego provimento ao Recurso Especial.

É como voto.

Documento: 44212614 RELATÓRIO E VOTO.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>.
Acesso em: 07 out. 2017.

BRASIL. RESP nº 1.471.571 – RO (2014/0114268-7).< Disponível em


http://www.stj.jus.br/>. Acesso em 12. out. 2017.

BRASIL. Decreto-Lei n° 227, de 28 de fevereiro de 1967. Dá nova redação ao


Decreto-lei nº 1.985, de 29 de janeiro de 1940. (Código de Minas). Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del0227compilado.htm>. Acesso
em: 12 out. 2017.

BRASIL. Lei n° 7.990, de 28 de dezembro de 1989. Institui, para os Estados, Distrito


Federal e Municípios, compensação financeira pelo resultado da exploração de
petróleo ou gás natural, de recursos hídricos para fins de geração de energia
elétrica, de recursos minerais em seus respectivos territórios, plataformas
continental, mar territorial ou zona econômica exclusiva, e dá outras providências.
(Art. 21, XIX da CF). Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7990.htm>. Acesso em: 12 out. 2017.

BRASIL. Decreto-Lei nº 24.642, de 10 de julho de 1934. Disponível em


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1930-1949/d24642.htm>.

BRASIL. Lei nº 94, de 10 de setembro de 1935. (Revogada). Disponível em <


www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1930/lei-94-10-setembro-1935-5>.

BRASIL. Projeto de Lei nº 5.807 de 19 de junho de 2013. Dispõe sobre a atividade


de mineração, cria o Conselho Nacional de Política Mineral e a Agência Nacional de
Mineração – ANM, e dá outras providências. Disponível em
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetraminataçao?idProposiçao=5....
>. Acesso em 14 out. 2017.

ATAÍDE, Pedro. Direito minerário. 1 ed. – São Paulo: Juspodium, 2017.

HERMANN, Hildebrando. SILVA, Marcus Vinicius Lopes da. POVEDA, Eliane


Pereira Rodrigues. Código de Mineração de A a Z. 2 ed. – São Paulo: Milenium,
2011.

FEIGELSON, Bruno. Curso de direito minerário. 2. ed. – São Paulo: Saraiva, 2014.

RIBEIRO, Carlos Luiz. Tratado de direito minerário. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.

SOUZA, Marcelo Gomes. Direito minerário aplicado. Belo Horizonte: Mandamentos,


2003.