Você está na página 1de 11

AVALIAÇÃO PSICOMÉTRICA DO MASLACH BURNOUT INVENTORY EM

PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM
Autoria: Carla Fernanda de Lima, José Arimatés de Oliveira, Élido Santiago da Silva,
Antonio de Pádua Emérito

Resumo
O presente artigo avalia a capacidade do Maslach Burnout Inventory (MBI) de medir a
síndrome de burnout em uma amostra de 230 profissionais de enfermagem. O inventário foi
aplicado no terceiro trimestre de 2008 em hospitais da rede privada de Natal/RN. A análise
dos dados estatísticos foi realizada através do software estatístico SPSS, por meio do teste
não-paramétrico, da análise fatorial de componentes principais com rotação varimax e do
Alpha de Cronbach para avaliar as características psicométricas do MBI. A análise fatorial
obteve, inicialmente, três fatores, com KMO igual a 0,783, teste de esfericidade menor do que
0,05 e com uma variância de 51,9%. O Alpha de Cronbach de cada fator indicou que a falta
de realização pessoal e a exaustão emocional tiveram consistência interna considerada
satisfatória de 0,73 e 0,65, respectivamente. No entanto, a consistência interna do terceiro
fator, que corresponderia à despersonalização, foi de 0,20, o que apontou para a necessidade
de exclusão do mesmo, devido ao baixo impacto sobre as variáveis, deixando, portanto apenas
dois fatores. Isso pode ter acontecido devido à possibilidade da dimensão ainda não ter se
estabelecido, por ser o último estágio no desenvolvimento do burnout; ou mesmo omissão por
parte dos respondentes em assumir tal postura no trabalho. A presente pesquisa não invalida,
nem retira a fidedignidade e a capacidade do inventário de medir a síndrome de burnout em
profissionais de enfermagem. No entanto, sua relevância está no questionamento em relação a
existência das variáveis referentes ao fator da despersonalização, uma vez que foram
excluídas, por apresentarem uma consistência interna baixa.

Introdução
Burnout é uma resposta ao estresse laboral crônico e se trata de uma experiência
subjetiva de caráter negativo que é composta por cognições, emoções e atitudes negativas no
ambiente de trabalho (Gil-Monte, 2005).
Apesar de serem crescentes os estudos acerca da síndrome, o combate a ela pode ser
considerado um fator preocupante, pois pessoas com burnout estão sendo diagnosticadas
como tendo estresse, depressão ou outra doença. Isso é algo que merece atenção especial,
visto que muitas são as conseqüências, para o indivíduo e para a organização, tanto da
síndrome, quanto do diagnóstico equivocado, pois além de haver um afastamento do trabalho,
se o tratamento é feito de maneira inadequada, os prejuízos causados podem se ampliar.
O trabalho desenvolvido por profissionais de enfermagem não fica fora dessa
realidade. Possui características que podem predispor estes indivíduos a um nível de
sofrimento que vai além do estresse, como: sobrecarga de trabalho, desgaste físico e
emocional, contato direto com pessoas que necessitam de ajuda, contato com a morte e com o
sofrimento de outras pessoas. Todos esses fatores em conjunto podem trazer implicações
contraproducentes para o trabalho desses profissionais.
Portanto, há necessidade de uma atitude proativa por parte da organização, no que diz
respeito à saúde do trabalhador, visto que os benefícios são maiores quando se busca evitar
que certa disfunção atrapalhe o funcionamento da organização. Isto posto, os gastos para a
organização tendem a se tornar menores com o desenvolvimento de estratégias que evitem os
danos causados pela síndrome, pois evita o afastamento do indivíduo do ambiente de trabalho
e o tratamento do mesmo. No entanto, a reatividade diante de determinada situação já
instalada, como o adoecimento do indivíduo, se torna imprescindível, pois se não houve a
prevenção, é necessário o tratamento do mesmo.

1
Um instrumento que pode ser usado com o intuito de diagnosticar e/ou avaliar a
predisposição dos indivíduos à síndrome de burnout é o Maslach Burnout Inventory (MBI)
que durante décadas passou por um processo de validação em vários países, inclusive no
Brasil, a fim de reunir variáveis que pudessem obter dados confiáveis para a investigação da
síndrome.
Em vista disso, a presente pesquisa se torna relevante por proporcionar uma avaliação
da confiabilidade e consistência do MBI na população dos profissionais de enfermagem,
propiciando, assim, reflexões sobre o mesmo nessa categoria ocupacional e favorecendo
aplicações futuras do mesmo.

Síndrome de Burnout
Burnout é um termo (e um problema) bastante antigo. “No jargão popular inglês, se
refere àquilo que deixou de funcionar por absoluta falta de energia. Enfim, uma metáfora para
significar aquilo, ou aquele, que chegou ao seu limite e, por falta de energia, não tem mais
condições de desempenho físico ou mental” (Benevides-Pereira, 2002, p.21).
Escolheu-se o termo burnout, que em português, numa tradução mais direta, se refere
a algo como “perder o fogo”, “perder a energia” ou “queimar para fora”, para apresentar uma
síndrome através da qual o trabalhador não vê mais sentido na sua relação com o trabalho, de
forma que já não importam mais fazer qualquer esforço, pois tudo já lhe parece ser inútil
(Codo, Vasques, 1999).
Os desgastes físico e emocional, que caracterizam o burnout, têm suas origens nos seis
pontos de desequilíbrio entre os indivíduos e seus trabalhos: excesso de trabalho, falta de
controle, remuneração insuficiente, colapso da união, ausência de equidade e valores
conflitantes (Maslach, Leiter, 1999).
Os profissionais mais suscetíveis ao desenvolvimento da síndrome são os de natureza
assistencial (Benevides-Pereira, 2002; Volpato e cols, 2003; Formighieri, 2003) que
trabalham diretamente em contato com outras pessoas, muitas vezes cuidando delas, como no
caso dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros) ou tendo, simplesmente, que lidar com
elas, como no caso dos profissionais de educação (professores).
Os sintomas de Burnout são enquadrados em quatro subdivisões: os sintomas físicos,
psíquicos, comportamentais e defensivos, no entanto, nem sempre uma pessoa com síndrome
de Burnout vai apresentar todos os sintomas, isso vai variar de acordo com os fatores
individuais, ambientais e a etapa em que se encontra no processo da síndrome. Cabe ressaltar
ainda que pessoas que estão apenas com estresse podem apresentar os sintomas físicos,
comportamentais e psíquicos, porém os sintomas defensivos são exclusivos do Burnout
(Benevides-Pereira, 2002).
Pesquisadores (Maslach, Schaufeli, Leiter, 2001) pontuam que embora algumas
questões sejam divergentes nas definições do Burnout, há no mínimo cinco elementos
comuns: a) existe a predominância de sintomas relacionados a exaustão mental e emocional,
fadiga e depressão; b) a ênfase nos sintomas comportamentais e mentais e não nos sintomas
físicos; c) os sintomas do burnout são relacionados ao trabalho; d) os sintomas manifestam-se
em pessoas "normais" que não sofriam de distúrbios psicopatológicos antes do surgimento da
síndrome; e) a diminuição da efetividade e desempenho no trabalho ocorre por causa de
atitudes e comportamentos negativos.
Essa síndrome seria resultante do conflito entre o indivíduo e seu trabalho que
culminaria em um processo de desgaste caracterizado pelo aumento de sentimentos de
Exaustão Emocional, atitudes de cinismo frente aos clientes e uma tendência à avaliação
negativa devido à insatisfação do indivíduo com seu trabalho. Além disso, a síndrome seria
mais comum em profissões de natureza assistencial devido ao contato direto com pessoas
(Maslach, Jackson, 1981).

2
Em suma, há três dimensões que caracterizam a síndrome de burnout que são: a
Exaustão Emocional, que se refere ao sentimento de sobrecarga e desgaste emocional; a
Despersonalização que diz respeito aos sentimentos negativos em relação ao próximo e às
atitudes de ironia e cinismo com o outro e a Falta de Realização Pessoal que está relacionada
com os sentimentos de inadequação pessoal e profissional ao trabalho (Maslach, Jackson,
1981).
Para a construção do MBI, Maslach e Jackson (1981) se basearam nessas três
dimensões, de forma a elaborar perguntas que pudessem avaliar cada uma dessas dimensões
nos indivíduos pesquisados. Com efeito, a literatura e as pesquisas feitas com a utilização do
MBI apontam para tridimensionalidade do mesmo, pois com a análise fatorial, as variáveis da
síndrome de burnout se reduzem a três fatores, que são as dimensões (Exaustão Emocional,
Despersonalização e Falta de Realização Pessoal).

Maslach Burnout Inventory (MBI)


O MBI foi o primeiro instrumento a ser criado visando avaliar a incidência da
síndrome de burnout. Ele foi elaborado por Christina Maslach e Susan Jackson em 1978, e
hoje tem sido um instrumento amplamente utilizado nas diversas profissões para avaliar como
os profissionais vivenciam seus trabalhos. Vale ressaltar que ele é auto-administrável, e que
foi primeiramente aplicado em enfermeiros, já que esses profissionais estavam incluídos no
rol de profissões de natureza assistencial, que Maslach e Jackson consideravam os mais
predispostos à síndrome. Além disso, esse inventário no decorrer dos anos passou por um
longo processo de validação em vários países, inclusive no Brasil.
É importante ressaltar que o conceito de burnout se concretizou a partir da elaboração
do MBI, pois a definição da síndrome que é mais aceita nos dias de hoje é resultado da análise
fatorial deste instrumento, que conceitualiza a síndrome como sendo caracterizada pela
Exaustão Emocional, Despersonalização e Falta de Realização Pessoal (Gil-Monte, Peiró,
1997).
A versão atual do MBI é composta por 22 perguntas fechadas (ver Quadro 1)
relacionadas à freqüência com que as pessoas vivenciam determinadas situações em seu
ambiente de trabalho. Apresenta escala do tipo Likert, com escala ordinal variando de 1 a 7
(1-nunca, 2-algumas vezes por ano, 3-uma vez por mês, 4-algumas vezes por mês, 5-uma vez
por semana, 6-algumas vezes por semanas e 7-todos os dias).

Quadro 1- Variáveis do MBI


SB1. Sinto-me emocionalmente esgotado (a) com o meu trabalho.
SB2. Sinto-me esgotado (a) no final de um dia de trabalho.
SB3. Sinto-me cansado (a) quando me levanto pela manhã e preciso encarar outro dia de
trabalho.
SB4. Posso entender com facilidade o que sentem as pessoas.
SB5. Creio que trato algumas pessoas como se fossem objetos.
SB6. Trabalhar com pessoas o dia todo me exige um grande esforço.
SB7. Lido eficazmente com o problema das pessoas.
SB8. Meu trabalho deixa-me exausto (a).
SB9. Sinto que através do meu trabalho influencio positivamente na vida dos outros.
SB10. Tenho me tornado mais insensível com as pessoas.
SB11. Preocupa-me o fato de que este trabalho esteja me endurecendo emocionalmente.
SB12. Sinto-me com muita vitalidade.
SB13. Sinto-me frustrado (a) com meu trabalho.
SB14. Creio que estou trabalhando em demasia.
SB15. Não me preocupo realmente com o que ocorre às pessoas a que atendo.

3
SB16. Trabalhar diretamente com as pessoas causa-me estresse.
SB17. Posso criar facilmente uma atmosfera relaxada para as pessoas.
SB18. Sinto-me estimulado (a) depois de trabalhar em contato com as pessoas.
SB19. Tenho conseguido muitas realizações em minha profissão.
SB20. Sinto-me no limite de minhas possibilidades.
SB21. Sinto que sei tratar de forma adequada os problemas emocionais no meu trabalho.
SB22. Sinto que as pessoas culpam-me de algum modo pelos seus problemas.
Fonte: Maslach Burnout Inventory

É preciso acentuar que cada item do MBI corresponde a uma das três dimensões da
síndrome (Codo, Vasques, 1999), sendo que para a Exaustão Emocional existem 9 itens (1, 2,
3, 6, 8, 13, 14, 16 e 20), para a Despersonalização 5 itens (5, 10, 11, 15 e 22) e para a Baixa
Realização Pessoal 8 itens (4, 7, 9, 12, 17, 18, 19 21).
Ressalta-se que Tamayo (1997) adaptou o MBI, utilizando uma escala do tipo Likert
reduzida que variava de 1 a 5 (1-nunca, 2-raramente, 3-algumas vezes, 4- frequentemente, 5-
sempre), em vez de 1 a 7, como a original. O referido pesquisador fez essa alteração com a
“finalidade de trabalhar com critérios mais amplos” (Tamayo, 1997, p. 61). Depois de
adaptado, Tamayo aplicou o inventário e validou o mesmo no Brasil.
Essa validação do MBI é importante, por ser o instrumento mais utilizado para a
avaliação do burnout e que tem facilitado a investigação sistemática da teoria sobre a
síndrome. No entanto, a adequação do instrumento às realidades de cada país/região é
indispensável, pois estudos que buscam analisar as características psicométricas desse
questionário mostram que as mesmas tem sido contrastadas em diferentes investigações
(Jiménez, Rodriguez, Alvarez, Caballero, 1997).
Vislumbrando-se o exposto, destaca-se a relevância da aplicação do supracitado
questionário, na amostra investigada por este trabalho, para a avaliação psicométrica do
mesmo e para o aprimoramento da metodologia de investigação sobre a síndrome de burnout.

Metodologia
A pesquisa é de natureza descritiva, por permitir ao pesquisador obter uma melhor
compreensão da relação dos fatores e elementos que influenciam o fenômeno estudado
(Oliveira, 1997). O método de análise de dados utilizado foi o quantitativo, devido à
necessidade de mensuração da correlação entre as variáveis para o estabelecimento de fatores.
A população foi composta por profissionais de enfermagem da rede de hospitais
privados de Natal/RN. A partir de uma amostragem não-probabilística por acessibilidade,
obteve-se uma amostra de 230 profissionais, incluindo enfermeiros, técnicos e auxiliares de
enfermagem.
O instrumento utilizado para a investigação foi o Inventário em Burnout de Maslach
(MBI), um questionário auto-informe, elaborado por Christina Maslach e Susan Jackson em
1978 e adaptado por Tamayo em 1997.
O pré-teste feito nessa pesquisa teve o intuito de identificar se havia necessidade de
alterações em relação à redação das perguntas e se havia necessidade de apresentar instruções
mais claras para os entrevistados, a fim de que os resultados obtidos a partir da aplicação do
questionário fossem válidos. Observou-se, portanto, que não havia necessidade de alteração
das perguntas, que já havia clareza nas instruções e que os pesquisados levavam
aproximadamente 15 minutos para responder o questionário.
A análise dos dados estatísticos foi realizada através do software estatístico Statistic
Package for the Social Sciences - SPSS. Inicialmente foi feita uma análise exploratória dos
dados a fim de verificar a existência de missing values (dados perdidos) e de outliers
(observações atípicas). No que se refere aos missing values foram detectados 46. Dessa

4
forma, observou-se que a retirada desse total poderia comprometer a análise da população em
questão. Assim sendo, a alternativa encontrada foi a estimação dos dados través do SPSS.
Utilizou-se, portanto, um método de atribuição, que “é um processo de estimação de valores
perdidos com base em valores válidos de outras variáveis e/ou observações na amostra”
(Rodrigues, 2007, p. 38). Dentre os métodos de atribuição existentes, optou-se pela
substituição através de média, a fim de que não houvesse distorções na análise da população
em questão.
Em relação à análise da existência de outliers, detectou-se que não havia observações
atípicas, indicando que não houve falha na entrada dos dados e nem havia uma observação
diferente das outras e/ou extraordinária.
É sabido que a amostra foi composta por profissionais de enfermagem de uma forma
geral, incluindo-se, portanto, dois grupos, o primeiro de enfermeiros e o segundo de técnicos e
auxiliares de enfermagem. Assim sendo, antes das análises posteriores fez-se necessário a
identificação de quais as variáveis do instrumento divergiam quando se analisava os dois
grupos. Isso foi feito a fim de retirar das análises subseqüentes, aquelas variáveis que
divergiam nos dois grupos, deixando somente aquelas que permitissem conclusões dos
profissionais como um todo.
Para isso utilizou-se o teste não-paramétrico, comparando-se as duas amostras e
observando-se a significância de cada variável. As variáveis SB1, SB3, SB8 e SB13 foram
excluídas, pois apresentaram uma significância menor que 0,05, o que demonstra que as
mesmas divergiam nos dois grupos.
Posteriormente foi utilizada a técnica multivariada conhecida como Análise Fatorial, a
fim de reduzir as variáveis a fatores, sem perder a capacidade explicativa do fenômeno. O uso
da análise fatorial deve-se à necessidade de “analisar a estrutura das inter-relações
(correlações) entre um grande número de variáveis [...] definindo um conjunto de dimensões
latentes comuns, chamadas de fatores” (Hair, Anderson, Tatham, Black, 2005, p. 91).
Utilizou-se também o Alpha de Cronbach para avaliar a consistência interna do MBI e a
confiabilidade desse instrumento no que diz respeito à avaliação da síndrome. O alfa de
Cronbach varia entre 0,71 e 0,90 nas três dimensões (Maslach, Jackson, 1981), apresentando,
portanto, uma consistência interna satisfatória. Entretanto, a presente pesquisa refutou esse
dado.
Cabe frisar que a presente pesquisa está condicionada ao cumprimento dos princípios
éticos e ao atendimento das condições impostas pelos hospitais, vez que a publicação dos
resultados dessa pesquisa ocorre sem a identificação dos hospitais pesquisados e dos
profissionais envolvidos na mesma.

Resultados
Retiradas as variáveis que divergiam nos cargos pesquisados, fez-se a análise fatorial a
fim de reduzir as variáveis das mesmas a fatores que explicavam o relacionamento entre elas.
Para isso, utilizou-se o método de extração Análise de Componentes Principais (ACP), o tipo
de análise feito foi o R-mode factor analysis, o número de fatores foi selecionado através do
critério do autovalor (eigenvalue) e o tipo de rotação utilizada para aumentar o poder de
explicação da análise fatorial foi o varimax.
De acordo com alguns autores (Hair e cols, 2005; Bezerra, 2007) para detectar os
fatores que formavam a síndrome de burnout nos profissionais pesquisados foi necessária a
realização de quatro análises fatoriais (AF) com o intuito de retirar variáveis que não se
mostravam representativas da síndrome e por fim identificar as variáveis de cada dimensão.
Na primeira AF foi retirada a variável SB15, pois na matriz antiimagem a mesma
apresentou o valor de 0,460, sendo, portanto, inferior a 0,50, o que permite a sua retirada, já
que essa variável apresentou um baixo poder de explicação nos fatores.

5
Na segunda análise foram retiradas as variáveis SB4, SB5, SB6 e SB20, pois as
mesmas apresentaram comunalidades muito baixas, todas com um valor menor do que 0,40,
como mostra a Tabela 1. Na terceira análise foi retirada apenas a variável SB10, que teve sua
comunalidade reduzida para 0,312.

Tabela 1 - Comunalidades das Variáveis nas Análises Fatoriais


VARIÁVEIS AF 2 AF 3 AF 4
SB2 0,578 0,644 0,631
SB4 0,287 - -
SB5 0,399 - -
SB6 0,388 - -
SB7 0,455 0,434 0,437
SB9 0,456 0,444 0,467
SB10 0,607 0,312 -
SB11 0,614 0,532 0,476
SB12 0,547 0,498 0,519
SB14 0,540 0,509 0,514
SB16 0,481 0,504 0,511
SB17 0,513 0,528 0,529
SB18 0,466 0,496 0,512
SB19 0,441 0,471 0,476
SB20 0,383 - -
SB21 0,527 0,443 0,486
SB22 0,619 0,612 0,679
FONTE: Dados da pesquisa, Natal: 2009.

Dessa forma, a quarta análise fatorial resultou em apenas doze variáveis consideradas
razoáveis no que se refere à explicação do modelo. O teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO)
encontrado foi de 0,783, apresentando, portanto, um grau de explicação dos dados, a partir
dos fatores, considerado alto. Além disso, o teste de esfericidade de Bartlett nessa última
análise fatorial indicou que existe relação suficiente entre os indicadores para a aplicação da
AF, pois a significância não ultrapassou 0,05.
Com efeito, a análise fatorial obteve doze variáveis divididas em três fatores (Tabela
2), apresentando variância de 51,9%. A literatura mostra que com essa porcentagem obtém-se
um grau de relacionamento e explicação das variáveis considerado satisfatório. Duas
pesquisadoras (Carlotto, Câmara, 2004) em um estudo feito com professores, encontraram
uma variância de 46,89% e consideram que este resultado é:

bastante semelhante ao encontrado no estudo original americano de


Maslach e Jackson (1986), o qual identificou 46,04% da variância
explicada. Koeske e Koeske (1989) encontraram 51% em seu estudo
com trabalhadores sociais americanos, e Gil-Monte e Peiró (1999)
identificaram 43,7% com uma amostra multifuncional de
trabalhadores espanhóis (Carlotto, Câmara,2004, p. 503).

Tabela 2- Matriz Estrutural dos Fatores da Síndrome de Burnout


CARGAS FATORIAIS
VARIÁVEIS FATOR 1 FATOR 2 FATOR 3
SB2 - 0,757 -
SB7 0,604 - -

6
SB9 0,613 - -
SB11 - 0,559 -
SB12 0,675 - -
SB14 - 0,716 -
SB16 - 0,641 -
SB17 0,725 - -
SB18 0,624 - -
SB19 0,592 - -
SB21 - - 0,527
SB22 - - 0,796
Porcentagem de variância explicada 26,67% 15,36% 9,94%
FONTE: Dados da pesquisa, Natal: 2009.

Ressalta-se ainda que o primeiro fator apresentou variância de aproximadamente


26,67%, o segundo de 15,36% e o terceiro de 9,94%, o que mostra que o primeiro teve um
grau de explicação maior que os demais. Isso pode ser decorrente da quantidade de variáveis
do mesmo.
Além das análises fatoriais apontadas, optou-se por agrupar todas as variáveis
excluídas nesse processo (SB4, SB5, SB6, SB10, SB15, SB20) e gerar uma nova análise
fatorial a fim de identificar se formaria mais algum(s) fator(es). A primeira análise fatorial
feita com essas variáveis apontou para a necessidade de retirada das variáveis SB5 e SB6, por
apresentar baixas comunalidades, 0,363 e 0,366, respectivamente.
A partir daí, retirando-se as variáveis apontadas, gerou-se uma nova análise fatorial.
No entanto, apresentou um KMO com valor igual a 0,525, considerado como ruim (Hair e
cols, 2005), pois além de indicar um baixo poder de explicação das variáveis em relação ao
fator, esse valor indica a proximidade da linha de rejeição dos dados para aplicação da análise
fatorial. Dessa forma, a análise permaneceu com os três fatores apontados na tabela 2,
anteriormente citada.
A partir desses fatores, partiu-se para a análise do alpha de Cronbach de cada fator a
fim de avaliar a consistência interna dos mesmos. O alpha do primeiro fator foi 0,73; do
segundo fator foi 0,65 e do terceiro fator foi 0,20. Observa-se, portanto que os fatores 1 e 2
obtiveram valores aceitáveis no que se refere à consistência interna de uma pesquisa
exploratória, pois esses fatores conseguem medir, respectivamente, 73% e 65% do impacto
real das variáveis. No entanto, o fator 3 mede apenas 20% do impacto de suas variáveis, o que
é considerado um valor muito inferior ao que a maioria das pesquisas considera como o
mínimo ideal, 60%. Assim, a análise do MBI na amostra estudada apresentou apenas duas
dimensões, que coincidiram, em partes, com as dimensões que Maslach se baseou para
construir o MBI (ver quadro 2).

Quadro 2- Variáveis nas Dimensões do MBI e nos Fatores desta Pesquisa


FATORES
DIMENSÕES DE
VARIÁVEIS DESTA VARIÁVEIS
MASLACH
PESQUISA
Falta de SB4, SB7, SB9,
Falta de SB7, SB9, SB12,
Realização SB12, SB17, SB18,
Realização Pessoal SB17, SB18, SB19
Pessoal SB19, SB21
SB1, SB2, SB3,
Exaustão Exaustão SB2, SB11, SB14,
SB6, SB8, SB13,
Emocional Emocional SB16
SB14, SB16, SB20
Despersonalização SB5, SB10, SB11, _ SB21, SB22

7
SB15, SB22.
FONTE: Dados da pesquisa, Natal: 2009.

O primeiro fator coincidiu com a dimensão Baixa Realização Pessoal, o que permite
que este estudo utilize esta mesma denominação. E o segundo fator coincidiu em partes, pois
apresentou apenas uma variável que divergiu da dimensão da Exaustão Emocional que é a
variável SB11 (no MBI se enquadra na dimensão da Despersonalização), porém isso não
impede que esse fator continue tendo a denominação.
É pertinente acentuar que a maior parte das variáveis da dimensão Despersonalização
foram excluídas. As variáveis SB5, SB10 e SB15 foram excluídas a partir da análise fatorial e
a SB22 a partir do baixo Alpha de Cronbach no fator que essa variável se inseriu.
De acordo com vários pesquisadores, a debilidade psicométrica que o MBI pode
apresentar está, principalmente, relacionada à dimensão Despersonalização (Jiménez e cols,
1997; Borges, Argolo, Pereira, Machado, Silva, 2002). A fragilidade no que concerne à
consistência desse fator está provavelmente associada ao processo evolutivo da síndrome que
aponta que a Despersonalização é o componente que por último se estabelece (Borges e cols,
2002), e por isso em muitas pesquisas a pessoa ainda não chegou nesse estágio, ela tende a
negar que isso esteja acontecendo. Essa debilidade pode estar relacionada ao perfil
sóciodemográfico e profissional da amostra, pois para esses autores dependendo das
características da mesma há uma auto-exigência maior o exercício do trabalho, impedindo que
atitudes de Despersonalização se apresentem (Lima, Lima, Silva, Oliveira, 2008).
No entanto, em algumas culturas o indivíduo pode se sentir acuado e não externar sua
real percepção sobre os aspectos que caracterizam a dimensão Despersonalização (Carlotto,
Câmara, 2007). Assim, haveria a preocupação de manter a imagem positiva perante o posto de
trabalho e de preservar o trabalho enquanto integrador de diversos âmbitos das relações
interpessoais do indivíduo. As profissões de ajuda sofrem pressões para desenvolver suas
funções com maior sincronia nos fundamentos vocacionais do referido ofício, não se admite o
afastamento do trabalhador do seu público-alvo (Carlotto, Câmara, 2007). Estes fatores
culturais podem ter influenciado significativamente as respostas colhidas nesse trabalho.
Assim, as questões que constituem a Despersonalização podem causar certo impacto,
pois levantam reflexões sobre o que se espera de um bom profissional, sendo difícil para a
pessoa assumir tais atitudes (Benevides-Pereira, 2002).
Essas questões culturais são bastante determinantes na síndrome de burnout,
principalmente no que se refere à Despersonalização (Silva, Carlotto, 2003).

Estudo transcultural realizado por Pedrabissi, Rolland e Santinello


(1993) identificou a existência de diferenças nos níveis de Burnout
entre professoras italianas e francesas. No grupo francês existia
somente diferença significativa entre homens e mulheres na dimensão
de Despersonalização. No italiano, a diferença ficou evidente nas
dimensões de Exaustão Emocional e Despersonalização, confirmando
a hipótese de que o contexto cultural influencia os resultados de
Burnout (Silva, Carlotto, 2003, p.147).

Há que se considerar, de forma geral, que é socialmente aceito que o indivíduo sinta-
se exausto em função do trabalho, pois isso pode ser resultante de muita dedicação e esforço,
sendo, até mesmo, reforçado pelo corpo diretivo. No entanto, tratar o outro como objeto, com
frieza, sendo indiferente a ele não corresponde às expectativa da sociedade (Carlotto
Palazzo,2006).
Dessa forma, a exclusão da maior parte das variáveis da Despersonalização na amostra
estudada, pode ter vários motivos. Dentre eles, o fato dessa dimensão ainda não ter se

8
manifestado no comportamento do indivíduo, já que é a ultima a se revelar (Borges e cols,
2002); ou mesmo por omissão por parte dos pesquisados em assumir tal postura em seu
trabalho e até mesmo por ter poucos itens (Jiménez e cols, 1997).
Cabe ressaltar que apesar de ser uma dimensão que o profissional de natureza
assistencial pode apresentar certa resistência em assumir tais atitudes ou que, porventura ainda
não tenha se instalado no indivíduo, por ser considerada a ultima etapa, a Despersonalização
não deve ser excluída do MBI, já que representa uma importância teórica peculiar à síndrome
de burnout. No entanto deve haver uma reformulação nas variáveis referentes a essa dimensão
a fim de que o instrumento possa identificar tais atitudes nos respondentes.

Considerações Finais
Na pesquisa em questão, o MBI apresentou certas debilidades psicométricas, no que se
refere à Despersonalização, pois, com exceção da variável SB11, que se enquadrou no fator
da Exaustão Emocional, todas as demais foram excluídas a partir da análise fatorial. Isso
revela que essas variáveis não apresentaram uma significância para analisar a síndrome de
burnout nessa amostra.
Isso é discutido em vários estudos, principalmente a nível nacional, pois apesar do
Brasil ser um país com uma cultura caracterizada pelo paternalismo, visto que ao mesmo
tempo que o brasileiro pode apresentar comportamentos ásperos e até mesmo com certa
dureza diante dos erros do outro, ele é também é um povo inspirado em ideais de
solidariedade, cooperação e respeito para com o próximo, principalmente em casos que
envolvam fragilidades ou necessidade de cuidados. Esse traço cultural permeia o
comportamento de boa parte das pessoas, e causa uma espécie de conflito moral no momento
assumir ou não o tratamento frio diante de seus pares.
Diante disso, há que se considerar que pode não ser fácil para os profissionais de
enfermagem revelar que tratam seus pacientes com indiferença, já que a expectativa do
hospital, da família e da sociedade é que esses profissionais apresentem empatia em relação
ao paciente, tratando-lhe como se fosse um ente familiar, um igual.
É preciso ressaltar que mesmo diante desse quadro, a presente pesquisa não invalida,
nem retira a fidedignidade e a capacidade desse inventário de medir a síndrome de burnout em
profissionais de enfermagem. Ela apenas questiona a formulação das variáveis referentes ao
fator da Despersonalização, já que nesse estudo foram excluídas e essa exclusão pode ter sido
decorrente da dificuldade dos indivíduos de assumir tal postura.
Isso aponta também para uma necessidade de um método de análise mais amplo, que
privilegie uma abordagem de caráter qualitativo, a fim de que a análise não se restrinja aos
dados frios de um formulário, e avance a investigação sobre aspectos, como o conteúdo e o
discurso da fala dos sujeitos a serem entrevistados, que possuem carga subjetiva considerável
para a elucidação desse fenômeno, na busca para desvelar que aspectos encobrem ou
distorcem os resultados obtidos a partir do MBI.
Há que se ter também uma cautela em relação à generalização dos dados obtidos junto
aos profissionais de enfermagem, pois a inclusão de enfermeiros, técnicos e auxiliares de
enfermagem em uma mesma análise pode ter influenciado os dados obtidos, além disso, as
questões culturais podem ter influenciado no resultado da pesquisa em questão.

Referências
BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. Burnout: o processo do adoecer pelo trabalho. Em:
BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. (org.). Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar
do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002. p.21-91.

9
BEZERRA, F. A. Análise Fatorial. Em: CORRAR, L. J., PAULO, E., FILHO, J. M. D.
(coordenadores). Análise Multivariada: para os cursos de administração, ciências contábeis e
economia. São Paulo: Atlas, 2007. p.73-130.

BORGES, L. O., ARGOLO, J. C. T., PEREIRA, A. L. S., MACHADO, E. A. P., SILVA, W.


S. A síndrome de burnout e os valores organizacionais: um estudo comparativo em hospitais
universitários. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2002. p. 189-200.

CARLOTTO, M. S., CÂMARA, S. G. Análise fatorial do Malasch Burnout Inventory (MBI)


em uma amostra de professores de instituições particulares. Psicologia em Estudo, 9 (3):
2004. p.499-505.

CARLOTTO, M. S., PALAZZO, L. S. Síndrome de burnout e fatores associados: um estudo


epidemiológico com professores. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 22(5), 2006. p.1017-
1026.

CARLOTTO, M. S., CÂMARA, S. G. Preditores da Síndrome de Burnout em Professores.


Psicologia Escolar e Educacional, Campinas, 2007. 11 (1).

CODÓ, W., VASQUES-MENEZES, I. O que é burnout? Em: CODO, W. (Org.), Educação:


Carinho e trabalho. Rio de Janeiro: Vozes, 1999. p.237-255.

FORMIGHIERI, V. J. Burnout em Fisioterapeutas: Influência sobre a atividade de trabalho


e bem-estar físico e psicológico. Dissertação (mestrado em engenharia de produção);
Universidade Federal de Santa Catarina Florianópolis, 2003.

GIL-MONTE, P. R., PEIRÓ, J. M. Desgaste Psíquico en el trabajo: el síndrome de


quemarse. Madrid: Editorial Sínteses, 1997.

GIL-MONTE, P. El Síndrome de Quemarse por el Trabajo (Burnout). Una enfermedad


laboral en la sociedad del binestar. Madrid: Ediciones Pirámide, 2005.

HAIR, J. J. F., ANDERSON, R.E, TATHAM, R. L., BLACK, W. C. Análise Multivariada de


Dados. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.

JIMÉNEZ, B. M., RODRIGUEZ, R. B., ALVAREZ, A. M., CABALLERO, T. M. La


evaluación del burnout. Problemas y alternativas. El CBB como evaluación de los elementos
del proceso. Revista de Psicología del Trabajo, 13(2): 1997, p.185-207.

LIMA, N. K. N., LIMA, C. F., SILVA, E. S., OLIVEIRA, J. A. Burnout: analisando a


síndrome no ramo das indústrias alimentícias do Rio Grande do Norte. Em: XXXII Encontro
da ANPAD, Rio de Janeiro, 2008.

MASLACH, C., JACKSON, S. E. The measurement of experienced burnout. Journal of


Ocuppational Behavior,1981. 2: p.99-113.

MASLACH, C.; LEITER, M. P. Trabalho: Fonte de prazer ou desgaste? Guia para vencer o
estresse na empresa. Campinas: Papirus, 1999.

10
MASLACH, C., SCHAUFELI, W. B., LEITER, M. P. Job Burnout. Annu. Rev.Psychol, 52:
2001. p.397-422.

OLIVEIRA, S. L. Tratado de metodologia científica: projetos de pesquisa, TGI, TCC,


monografias, dissertações e teses. São Paulo: Pioneira, 1997.

RODRIGUES A., PAULO E. Introdução à Análise Multivariada. Em: CORRAR, L. J.,


PAULO, E., FILHO, J. M. D. (coordenadores). Análise Multivariada: para os cursos de
administração, ciências contábeis e economia. São Paulo: Atlas, 2007.

SILVA, G. N., CARLOTTO, M. S. Síndrome de Burnout: um estudo com professores da rede


pública. Psicologia Escolar e Educacional, 2003. 7 (2): p.145-153.

TAMAYO, M. R. Relação entre a síndrome do burnout e os valores organizacionais no


pessoal de enfermagem de dois hospitais públicos. Dissertação de Mestrado não publicada;
Programa de Pós- Graduação em Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília, 1997.

VOLPATO, C. D., GOMES, F. B., CASTRO, M. A., BORGES, S. K., JUSTO, T.,
BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. Burnout em Profissionais de Maringá. Revista Eletrônica
InterAção Psy, 2003. 1(1): p.102-111.

11

Você também pode gostar