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TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS

A RESSIGNIFICAÇÃO DAS TRANÇAS AFRICANAS “NESSE CANTO DO


MUNDO”: UMA REPORTAGEM DIGITAL

Por Gabriela Isaias de Sousa

RIO DE JANEIRO

2018
Parte integrante do trabalho prático submetido à Banca
de Graduação da Escola de Comunicação (ECO) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) como
requisito para obtenção do diploma de Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo. As entrevistas
realizadas para a composição da reportagem Nesse
canto do mundo são fruto de 25 encontros que
ocorreram entre as datas de 6 de julho e 15 de
novembro de 2017.
SUMÁRIO

1. ANDREIA CARDOSO ................................................................................................................ 4

2. FABIO ALVES ........................................................................................................................... 15

3. GABRIELA AZEVEDO ............................................................................................................ 26

4. JACIARA CARVALHO............................................................................................................ 33

5. JAMILE BENTO ....................................................................................................................... 42

6. JANUÁRIO GARCIA................................................................................................................ 52

7. JESSICA SILVA ........................................................................................................................ 64

8. JULIANA MARINHO ............................................................................................................... 73

9. JULLYET SOUZA..................................................................................................................... 87

10. KARLA RAYMUNDO ............................................................................................................ 98

11. KATIA MEDEIROS .............................................................................................................. 105

12. LETÍCIA CASTRO ............................................................................................................... 111

13. MARCOS SILVA ................................................................................................................... 123

14. MARGARIDA SOUZA ......................................................................................................... 127

15. NATHALYA NASCIMENTO............................................................................................... 145

16. PRISCILLA SILVA ............................................................................................................... 147

18. RAIANY ESTRELA .............................................................................................................. 158

19. ROBERTA SOUZA ............................................................................................................... 162

20. ROSÂNGELA APARECIDA................................................................................................ 170

21. SALÃO AFROSHOW ........................................................................................................... 199

22. SALÃO FAST BRAIDS ......................................................................................................... 216

23. ENTREVISTA NO SALÃO NAGÔ ..................................................................................... 219

24. SKARLETI ULLY ................................................................................................................. 227

25. THAIENE MORAES ............................................................................................................. 238

26. TIARA MELLO ..................................................................................................................... 246

27. TRANCIDEIAS ...................................................................................................................... 251


A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

1. ANDREIA CARDOSO

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 29 de julho de 2017, no bairro de


Higienópolis, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Quais são as suas primeiras lembranças quando a gente fala em tranças?

As minhas lembranças de trança são da infância, da minha avó, da minha família. Lá em


casa nós somos uma família de mulheres. Minha mãe tem seis filhos, dos quais cinco são
mulheres. Então lá em casa minha mãe sempre trançou o cabelo da gente porque tinha
muitas mulheres e era o penteado mais fácil de ir pra escola. A gente sempre andou de
cabelo trançado: as primas, as tias, todo mundo. Então quando eu penso em trança, a minha
referência da infância é essa: a praticidade e a história mesmo, uma lembrança afetiva da
minha mãe sentada, trançando o nosso cabelo pra gente ir pra escola.

Como você começou a trançar?

Eu comecei a trançar porque eu sempre gostei de trança. Eu ia pro salão e ficava o dia
inteiro lá pra trançar o meu cabelo. Lá eu sempre via a cabeleireira, a Cida, que é com
quem eu aprendi a trançar. Então eu via ela trançando e ficava lá o dia inteiro vendo aquilo
todo dia quando eu ia. Aí um dia eu resolvi trançar e falei com a minha irmã se ela deixava
eu trançar o cabelo dela. Ela falou que deixava e aí eu trancei, ficou ótimo e aí a partir
disso eu comecei a trançar e tô trançando até hoje.

E você tinha quantos anos quando começou a trançar?

Ah, eu tenho 44. Quando eu comecei a trançar eu devia ter, mais ou menos, uns 30. É,
menos de 30. Mas eu já trançava em casa. Já trançava o cabelo das meninas, já trançava a
minha irmã mais nova, Érica. Já trançava o da outra, a Elizabeth, que também é minha
irmã. Já trançava pra elas irem pra escola. Agora trança, assim mesmo, igual a essa
[aponta para a trança que está fazendo no cabelo da cliente] como fonte de renda tem
mais ou menos uns 15 anos.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Quais são os principais motivos que levam as suas clientes a trançar os cabelos?

As pessoas trançam por diversos motivos. Depende. Tem clientes que trançam pela
transição [capilar]. Tem clientes que trançam pela questão da autoestima. Às vezes tá com
o cabelo muito curto, se sentindo muito feia e a trança dá um boom na autoestima da
pessoa. E tem gente que trança também porque gosta de trança mesmo e sempre vão
trançar. E tem cliente que às vezes trança uma vez, duas vezes no ano, somente, que é pra
poder dar uma folga da química. Mas na maioria das vezes as clientes trançam e elas
voltam. Eu costumo dizer que quem trança sempre volta. É muito difícil uma pessoa que
trança comigo não voltar porque as pessoas que trançam comigo acabam se tornando
minhas amigas. Porque quando você trança você fica aqui seis, sete horas. Então a gente
conversa, a gente bate papo, a gente fala sobre a questão das tranças, fala sobre questão de
autoestima, tudo isso, e a gente acaba se tornando amiga, acaba dividindo as mesmas
coisas, dividindo as mesmas histórias. Então isso é bem legal, essa parte de você poder
proporcionar autoestima pras pessoas. Às vezes chega uma pessoa aqui tão tristinha, tipo
“ah, meu cabelo tá horroroso, já não sei mais o que eu faço, não tem mais jeito, não sei o
que” e eu falo “tem jeito sim”. Primeiro que cabelo cresce, então vamos mexer nesse
cabelo pra esse cabelo crescer. Porque a trança é isso: trança faz o cabelo crescer.

Ah, é. Tem uma polêmica sobre isso, né? Se a trança faz o cabelo cair ou se faz
crescer.

Na verdade trança faz o cabelo crescer. Eu sempre falo pras pessoas: na hora de tirar você
tem que ter cuidado. Não adianta você ir lá, cortar, tirar e não desembaraçar o cabelo. Se
você não desembaraçar seu cabelo vai quebrar, com certeza. Nosso cabelo é crespo, é um
cabelo fino, um cabelo que não tem muita resistência. Às vezes as pessoas falam “ah, o
cabelo é duro”. O cabelo não é duro. O cabelo é crespo e fino. Então quando você mete o
pente pra desembaraçar de qualquer jeito ele vai quebrar e aí vai soltar uns fios. E ainda
tem a questão de que [naturalmente] caem muitos fios por dia do nosso cabelo e como ele
tá trançado, esses fios que caíram estão presos dentro da trança. Quando você tirar, aí eles
vão sair do cabelo, isso é natural. Mas, assim, eu não tenho uma cliente nesse longo tempo
que eu tranço que tenha falado pra mim “ah, meu cabelo quebrou”, “a trança acabou com o

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Transcrição das entrevistas

meu cabelo”, não. Não tenho uma cliente que possa me dizer isso. E se alguém vier falar
comigo e me disser isso, eu consigo provar o contrário, que isso não é verdade.

A maior parte das suas clientes é feita de mulheres, certo?

Sim.

Então você acha que a trança é um penteado feminino?

Não. Eu também tenho clientes homens que gostam de trançar o cabelo. O homem trança
mais o cabelo por estilo, porque tá querendo um estilo mais diferenciado… Então é isso
que faz eles trançarem os cabelos. As mulheres não, as mulheres trançam o cabelo por
questão de autoestima. Mas, assim, os homens gostam de [trança] nagô, mesmo. Eu acho
que até mesmo em questão de eles acharem que a trança é feminina. Ficou incutido de que
trança é feminina e de que só mulher pode trançar o cabelo. Então os homens preferem
trançar um modelo diferente pra não ficar “parecendo uma mulher”. Mas eu tenho clientes
homens que trançam trança solta e clientes mulheres que trançam a nagô. Vai depender do
gosto dele, do que ele quer naquela hora, naquele dia.

Na sua opinião o que diferencia as tranças de outros penteados? Porque ela gera
tantos debates?

O racismo. O que diferencia é o racismo. Infelizmente tudo que tá associado ao negro


causa problema. E não é só em relação às tranças: quando tem uma mulher negra de cabelo
crespo pra cima ela também sofre preconceito. As pessoas falam “ah, a trança fede”, “o
rasta fede”. A polêmica maior é o racismo. A gente ainda tem que aprender a conviver com
a diferença. A gente não aprendeu ainda a conviver com a diferença. A gente acha que o
bonito é o que tá padronizado pela mídia. E o padrão é você ter cabelo liso. A mídia mostra
pra gente que você tem que ter cabelo liso e tudo que é diferente daquele padrão é feio. E
nas tranças o problema todo é esse. Mas graças a Deus hoje a gente tá aí com o boom do
cabelo crespo. Você vê o empoderamento das adolescentes negras…. E a gente costuma
ver muita gente trançada. Eu costumo dizer que eu não sei se isso é modismo ou não, mas
isso é muito importante e desperta a autoestima de muitas meninas que achavam os seus

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Transcrição das entrevistas

cabelos feios. Eu tenho muitas clientes adolescentes e elas estão muito empoderadas com
os cabelos trançados. Isso é importante. Se daqui a 10 anos isso vai ser só um modismo e a
gente vai voltar pra ditadura da chapinha, não importa. Mas nesse momento a gente tem
visibilidade, que é o que a gente precisa: visibilidade e representatividade. E a menina
negra tem que entender que ela pode tudo. Ela pode trançar, ela pode alisar, ela pode cortar
curtinho, ela pode botar pro alto, ela pode fazer o que ela quiser com o cabelo dela porque
o cabelo é dela. Não tem esse negócio de que só é bonito de um jeito.

Você comentou que já trança há mais de 15 anos. Você notou um aumento na procura
pelas tranças nos últimos anos?

Sim.

O que você acha dessa tendência de valorização da estética afro?

Tá na moda. Mas a gente precisa de estar na moda. A gente é negro e a gente compõe a
maioria da população desse país. E nós nunca estivemos na moda. Hoje nós estamos e isso
é um fato. Se isso é bom ou ruim, depende de como você vê isso. Eu acho que é importante
e que a gente precisa de representatividade. Mas com relação à questão ancestral, de que a
trança é dos nossos antepassados e dos nossos avós, isso também é verdade. Tanto que a
minha avó trançava o cabelo das minhas tias, minhas tias trançavam o cabelo das suas
filhas, minha bisavó trançava o cabelo da minha avó… Só que a gente precisa trançar e
conversar sobre isso. Não adianta nada a pessoa chegar no seu salão, no seu espaço, sentar,
você trançar o cabelo dela, ela levantar e sair. Não, não é isso. A gente tem que fazer um
trabalho. Eu costumo dizer que ser trançadeira é militância. A gente tem que fazer uma
militância. A gente tá aqui pra poder fazer a diferença. Eu costumo dizer pra todo mundo
que vem na minha casa trançar que vai sair daqui com uma sementinha, não adianta. A
pessoa não vai chegar aqui na minha casa, trançar o cabelo e sair, não. A gente vai
conversar sobre racismo, sobre a questão da autoestima da mulher negra, a gente vai
conversar sobre os nossos avós, sobre o nosso povo que veio como escravo da África,
como esse povo se perpetuou aqui, o que ele precisou passar pra poder continuar nessas
terras… A gente vai conversar sobre tudo isso trançando o cabelo, claro. Essa é a

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Transcrição das entrevistas

diferença. É muito importante a gente fazer esse trabalho porque aí não tem esvaziamento
de significado. Não existe esvaziamento, existe complemento de discurso.

Quanto a essa questão do significado das tranças, existe uma discussão bem forte
sobre pessoas brancas que trançam o cabelo. O que você pensa disso?

Se eu acho que uma mulher branca não pode trançar o cabelo porque às vezes “ah, branca
tá trançando o cabelo, tá se apropriando”? Não, eu acho que ela pode trançar o cabelo sim
desde que você tenha condições de trançar o cabelo dela e falar pra ela o que é que
significa aquela trança que ela tá fazendo na cabeça. Não adianta você botar ela no seu
espaço, trançar ela, “ai, tá linda” e ela vai lá se comportar como uma branca se fantasiando
de negra. Não, não é isso. Você senta ela no seu espaço, trança o cabelo dela e conversa
com ela sobre o que são as tranças, o que as tranças representam. Eu acho que esse é o X
da questão. Eu já trancei mulher branca e nunca vou dizer que não vou trançar, mas ela
nunca vai sair daqui vazia. Ela vai sair daqui com uma sementinha porque eu acho que isso
é que é importante.

E o que você pensa sobre a profissão de trancista? A trancista é uma cabeleireira?

Eu acho que trancista não é cabeleireira. Trancista é trancista e cabeleireira é cabeleireira.


Eu acho que também, como tem muita gente trançando, muita coisa acontecendo com esse
boom das tranças, as pessoas se confundem com esse negócio “ah, trancista é cabeleireira”.
Ela pode ser cabeleireira e ser trancista. Mas eu não sou cabeleireira. Eu sou trancista. Eu
não faço escova, eu não corto, eu não faço isso; eu só tranço cabelo. E aí tem gente que
pergunta pra mim “você faz implante?”, não, não faço, eu só faço trança. “Ah, você faz
massagem, corta, pinta?”, não, não faço. Eu sou trancista. Eu optei por ser trancista
primeiro porque eu gosto de trançar. Eu acho que trançar é muito importante, é muito legal.
É muito bom você transformar uma pessoa de dentro pra fora. Porque a trança faz isso: ela
te transforma de dentro pra fora. E é diferente do cabeleireiro. Não desmerecendo a
profissão do cabeleireiro, longe de mim. Eu acho que todas as profissões são válidas e o
cabeleireiro tem um papel muito importante na autoestima da mulher. Mas a trancista,
diferente da cabeleireira, ela tem um papel muito importante na autoestima da mulher
negra. Então eu acho que nós, que trançamos cabelos, temos que nos intitular trancistas,

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Transcrição das entrevistas

não cabeleireiras. Ela pode ser cabeleireira, mas tem que ser trancista primeiro. Tem que se
autointitular e se identificar como trancista. Existe uma diferença muito grande entre
cabeleireiro e trancista.

Fala um pouquinho sobre a autoestima da mulher negra, que você comentou nessa
última pergunta.

Então, vou te contar uma história. Eu trancei o cabelo de uma moça uma vez, já tem muitos
anos isso. Eu até perdi o contato com ela. Ela tinha passado por uma situação muito triste
de violência, teve um filho assassinado e tava muito triste. Aí um dia a minha irmã me
perguntou “Déia, tem uma moça lá no meu trabalho que tá muito triste, o cabelo dela tá
muito pequeno, ela tá se sentindo feia, ela fala que ela é feia. Você não quer trançar o
cabelo dela?”. Aí eu falei “ah, vamos trançar, pede pra ela vir, eu vou trançar o cabelo
dela”. Inclusive eu trancei o cabelo dela de graça. Eu nem cobrei porque eu acho que tem
isso: a gente tem que fazer a caridade. E a caridade nem sempre vai ser dando uma cesta
básica, uma roupa, essas coisas. Aí ela veio e eu trancei o cabelo dela. Quando eu terminei
de trançar, eu mostrei ela no espelho e ela falou pra mim “nossa, eu to linda, eu nunca
podia imaginar que eu era tão bonita assim”. Aí ela foi, me deu um abraço, me agradeceu,
falou “muito obrigada pelo que você fez”. E aí depois ela foi embora e eu fiquei pensando
sobre isso. Aí depois de uma semana eu liguei pra ela pra saber como ela tava já que ela
tinha passado por aquela situação, aí ela falou pra mim “nossa, você fez uma
transformação na minha vida. Coisas que eu não pensava que eu fosse ser capaz de
suportar e de ter eu tô fazendo agora. Eu chego nos lugares e as pessoas falam ‘nossa,
como você tá bonita, parece outra pessoa’”. E foi isso. Às vezes a gente pensa que “ah,
não, é bobeira isso”. Pra gente é bobeira, mas pro outro faz uma diferença muito grande. E
aquela mulher, ela me marcou. Foi no início, logo que eu comecei a trançar e ela me
marcou. E tem outras histórias também. Se eu for parar pra contar, tem várias histórias. Eu
costumo dizer que quando eu tranço e as pessoas viram minhas amigas. Quando você
começa a mexer na cabeça da pessoa, a pessoa te fala da vida dela, te conta as coisas, conta
as suas aflições, conta as suas tristezas, conta as suas alegrias. E aí a gente vê como que
isso, só o fato de você estar fazendo um penteado faz tanta diferença na vida da pessoa.

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Transcrição das entrevistas

Você acabou de dizer sobre como mexer na cabeça das pessoas te conecta com elas.
Isso me lembrou de uma parte da minha pesquisa em que eu li sobre várias religiões
que consideram a cabeça como o ponto central do corpo.

Eu acho que essa questão de cabeça é espiritual, não tem outra palavra pra poder definir
isso: é espiritual. É uma troca de energia, com certeza. E é uma energia que você sabe que
você tá levando e que você também tá pegando da pessoa que você está fazendo cabelo. E
eu acho que é cumplicidade e confiança também que fazem você colocar a mão na cabeça
de uma pessoa e a pessoa se abrir pra você, contar da sua vida, falar as suas histórias, falar
dos seus medos, falar das suas conquistas. O engraçado, com relação às tranças, é que as
pessoas falam muito mais dos medos. É a vivência da mulher negra, da sociedade negra.
De nós, mulheres negras, entendeu? A gente é um elo, uma corrente e cada uma é um elo
dessa corrente. E quando você chega na outra, começa a conversar com a outra, coloca a
mão na cabeça dela, você vê que a pessoa tem tanto pra te falar e tanto pra acrescentar na
sua vida que, às vezes, o pouco que você faz de falar, de conversar, já faz uma diferença
pra aquela pessoa. Eu acho que isso é a questão da nossa ancestralidade. Tanto que em
algumas comunidades africanas as famílias se reuniam pra poder fazer os cabelos. Trançar
era um ritual, umas trançavam os cabelos das outras. Às vezes a gente vê no Facebook uma
imagem que as pessoas compartilham de uma menina sentada trançando o cabelo da outra.
Trançar é isso. É claro que hoje a gente tá como um emprego, muitas pessoas fazem disso
um ofício e forma de garantir suas rendas, sustentar as suas famílias. Isso é muito legal.
Mas antes disso a gente tem que saber que isso também é um ritual e esse ritual tem que
ser respeitado. Isso é um ritual da nossa ancestralidade. Eu costumo dizer que quem trança
cabelo comigo uma vez sempre volta, não me abandona porque a gente acaba
desenvolvendo uma amizade e uma cumplicidade, mesmo. E é muito legal. Isso que eu
gosto. Trançar é o meu ofício extra. Eu tenho o meu emprego, sou funcionária pública,
esse aqui é o meu extra. Mas eu gosto do meu extra, eu gosto desse trabalho que eu faço.
Eu fico trançando aqui sempre sete, oito horas, mas eu não fico cansada, eu fico gratificada
quando eu termino de trançar e a pessoa fica feliz com o resultado.

E você encara a trança como um produto a ser consumido ou como uma arte?

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Transcrição das entrevistas

Eu acho que a profissão de trancista é uma arte. E essa arte está sendo transformada em
produto, em mercadoria. E isso é um problema sério porque as pessoas perguntam “ah,
você trança” e eu [respondo] “tranço”. Aí elas “ah, quanto que é” e eu respondo “é tanto”.
Aí elas “ah, não, é muito caro, tem gente que trança mais barato”. Entendeu? Então, assim,
essa arte é cara. As pessoas vão pro salão de beleza e pagam 300, 400 reais numa escova
progressiva. Mulheres negras fazem isso: pagam caríssimo no dito salão de beleza que elas
acham que pode cobrar esse preço. Mas aí na hora que vêm trançar com você elas querem
que você cobre um preço que não existe. Elas dão preço pro seu trabalho. Elas falam “ah,
não, eu posso pagar isso, você pode fazer?”. Eu já falei: eu faço cabelo de graça. Depende
da pessoa. Depende do que ela precisa, depende do que ela apresenta pra mim. Se você vê
que é uma pessoa que tá com a autoestima arrasada, uma criança que sofre preconceito na
escola ou um cabelo de química que a pessoa acha feio e muito arrasado, eu tranço o
cabelo de graça, com certeza. Já fiz isso não foi uma nem duas vezes, foram várias vezes.
Mas quando eu coloco o meu ofício è prova, o cliente vai ter que pagar o meu preço, não
adianta vir pra mim dizendo “você faz por tanto?”, “ah, não, é muito caro”. Eu canso de
responder ali no Facebook na minha página: “ah, não quer? Não tem problema”. Eu quero
que as pessoas que venham trançar valorizem o meu trabalho. Eu entendo que tem gente
que vive disso, eu entendo que tem gente que acha que pode cobrar aquele preço. Se você
acha que tá caro, procura outra pessoa que faça. Tem gente que faz, com certeza. Mas eu
acho que o meu trabalho é uma arte e a minha arte eu valorizo. Então se quiser trançar
comigo vai ter que pagar o meu preço.

Por que você acha que tantas mulheres escolhem as tranças como modo de passar
pela transição capilar?

Elas escolhem as tranças eu acho que é porque elas, na verdade, mesmo que [de forma]
inconsciente, estão retornando pra aquilo que elas são: uma mulher negra. Eu vejo isso
com as minhas clientes adolescentes: elas tão voltando a ser mulheres negras. Então elas
escolhem as tranças porque é um penteado de negro, basicamente. Elas tão fazendo um
caminho de volta. E isso é bem interessante. Eu faço essa leitura, tá? Pode ter gente que
faça outra leitura. Eu escuto o cliente falar “nossa, quanto tempo que eu não sinto o meu
cabelo desse jeito”, quando elas colocam a mão no cabelo, “eu nem lembrava que o meu
cabelo era desse jeito”. Então as tranças proporcionam isso. E também porque as mulheres

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Transcrição das entrevistas

ficam lindas de trança! Nesse período todo que eu tranço eu nunca vi uma mulher que
fique feia de trança. E beleza é fundamental, né? Ser bela é fundamental, não tem jeito. E
ver beleza nisso também é fundamental porque, anteriormente, elas não viam beleza nas
tranças e hoje elas veem. E também a internet tá aí mostrando isso, a gente tá com um
boom da questão negra na internet. Antes era a trança rastafári, hoje não é mais trança
rastafári, é box braid que as pessoas falam. E esse empoderamento da mulher negra
brasileira vem do empoderamento da mulher negra americana. E aí você vê a Beyoncé
trançar o cabelo, você vê a Rihanna trançar o cabelo. Aí aqui no Brasil as meninas negras
também começam a trançar o cabelo. A gente vê a Karol Conká aí, que cada dia tá com um
modelo diferente, uma trança linda. E as meninas, as adolescentes, querem parecer com
essas pessoas porque são elas que elas têm como referência. Antigamente as pessoas não
trançavam cabelo com trança clara, loira… Hoje não: hoje elas querem loiro, prata, querem
tudo isso. Isso aí é a moda chegando, é a beleza da mulher negra sendo compartilhada. Isso
é bem legal. E não é referência das negras africanas, não, são das negras americanas.

Algumas pessoas com quem eu conversei disseram que o cabelo black power causa
mais impacto e é socialmente menos aceito do que as tranças. Você concorda com
isso?

É, o black ele é resistência, causa mais impacto, com certeza. Chega uma mulher com o
cabelo pra cima e todo mundo fica “oh”. Tem gente que fala “ah, tá lindo”, tem gente que
fica meio chocada. Eu, sinceramente, como mulher negra e que já tô nessa vida de
militância pra fazer a nossa imagem ser aceita há muitos anos, eu acho que a gente tem que
chocar mesmo: botar o black pra cima e sair! Não tem esse negócio de que tá feio. Ah, tá
feio? É o seu preconceito que tá dizendo. É o seu racismo que tá dizendo. Mas é claro que
pra quem tá começando ainda um caminho na questão negra, a trança é mais tranquilo pra
ela se aceitar e pra ela ser aceita, com certeza. Mas eu também acho que a trança é um
caminho para o black. Porque elas querem um black grande, entende? Elas não querem o
black pequeno. Então pra elas terem o black grande elas vão ter que trançar muito pro
cabelo crescer. Eu costumo aconselhar as minhas clientes adolescentes que querem black a
ir intercalando entre a trança e o black até mesmo pra você ver se você tá cansado da sua
cara, porque adolescente é isso, né? Cada dia eles tão de um jeito. Essa questão de que o
black causa mais impacto é que, infelizmente, tudo que é do negro causa impacto. Se eu

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Transcrição das entrevistas

sair, colocar uma roupa colorida e toda laranja eles vão falar pra mim que isso não é legal,
que é feio, que a roupa não combina comigo. Quanto tempo a gente escutou que vermelho
não combinava com pessoas negras? “Ah, não, vermelho não combina”, “não passa batom
vermelho porque não combina com você”, “não pinta sua unha de vermelho porque fica
feio”. A vida inteira a gente escutou isso e achou que era verdade. É igual a cabelo pra
cima: “ah, não, vai pentear esse cabelo”, “isso tá feio, isso não tá arrumado”. Por isso que
as nossas mães alisavam o nosso cabelo com cinco, quatro anos de idade. A gente já saía
da maternidade com uma pasta. Porque o ditado é esse: já vai pra maternidade com uma
caixa de alisamento pra poder passar na criança.

O que você mais gosta e o que você menos gosta na sua profissão, ainda que as
tranças não seja a sua fonte de renda principal?

O que eu mais gosto é poder trabalhar com a autoestima da mulher negra. Isso é
fundamental. É muito legal você trançar uma pessoa e depois que ela sair da sua casa, ou
você sair da casa dela, ela estar com uma autoestima muito mudada. E o que eu não gosto é
que tem gente chata, mesmo. Tem gente que acha que você tem obrigação de fazer
algumas coisas que você não quer fazer. Tem coisas que não dá nem pra poder mensurar.
Esse tipo de cliente vai trançar uma vez comigo e eu não vou trançar mais porque eu não
tenho tempo pra isso. Então eu não sei o que é que eu não gosto [na profissão] porque eu
não me permito a isso. Eu só me permito ao que eu gosto, que é trançar e valorizar a
autoestima. E que a minha amiga (porque as clientes viram minhas amigas) vai sair daqui
feliz e maravilhosa. E quando você tem uma relação de amizade com a sua cliente ela não
vai fazer coisas que você não vai gostar, entendeu?

Agora eu quero te perguntar se você acha que Madureira é o bairro do Rio de


Janeiro que mais concentra trancistas e cultura negra aqui no Rio.

Eu acho que Madureira é o reduto cultural da população negra. Desde que eu me entendo
por gente, Madureira já tinha os grupos afro que trabalhavam com a questão da autoestima
da população negra e era lá que acontecia tudo. Acho que é por causa das escolas de
samba, o pessoal lá do Buraco do Galo [tradicional roda de samba em Oswaldo Cruz,
bairro vizinho a Madureira], por exemplo, sempre militou na questão negra. Então a gente

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Transcrição das entrevistas

pode ver que todos os eventos de importância pra população negra acontecem em
Madureira. O dia do samba, que é dois de dezembro, a Portela, a Império Serrano, que
sempre foi muito preocupado com a ascensão do negro na sociedade (tanto que lá tem a
casa do jongo da tia Maria…). E isso fez de Madureira o berço cultural, mesmo, da
população negra. E é claro que o comércio também influencia. Na verdade eu acho que o
comércio acabou se apropriando disso. Eles viram que eles tinham um público, viram que
existia a possibilidade de um mercado promissor e aproveitaram isso. E também o povo lá
dos salões afro também aproveitou. Porque todo mundo tem acesso a Madureira. E quando
você quer falar de questão negra você vai falar de Madureira, com certeza. Não tem outro
bairro, outro lugar no Rio de Janeiro, que possa falar de cultura negra melhor do que em
Madureira.

Qual é o significado das tranças para você?

Falar de trança é falar da minha ancestralidade. É falar essência da mulher negra. Da minha
avó, falar da minha mãe, falar da minha família, da minha essência. Quando eu vou trançar
uma pessoa eu tenho certeza que os meus ancestrais estão presentes ali, naquele momento,
me dando força e sabedoria em como eu vou conduzir uma conversa com a pessoa… Então
pra mim trança é ancestralidade, é a minha avó Palmira que teve 11 filhos, veio lá de
Minas com sua família pro Rio de Janeiro criar os filhos no pós-escravidão e proporcionou
que eles tivessem escolaridade. Pra mim isso é a trança.

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Transcrição das entrevistas

2. FABIO ALVES

A entrevista com o empresário foi realizada durante os dias 11 e 25 de agosto de


2017, no bairro de Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Como começou a sua relação com o cabelo trançado

Aos 12 anos eu comecei a jogar basquete. E o basquete tem muito essa cultura do cabelo,
da estética. Tinha um jogador que eu gostava, o Allen Iverson que, a cada jogo, tava com
uma trança diferente. Ele era bom, eu jogava basquete e queria fazer também. Então eu
passei a procurar lugares pra fazer trança e não achava.

E você tinha quantos anos?

Eu tinha 13, 14 anos quando comecei a deixar o cabelo crescer pra poder usar trança. Aí
com 16 anos eu achava um lugar ou outro, mas eram em lugares muito isolados. Não eram
salões, não tinham uma estrutura. Era sempre uma conhecida de uma conhecida que fazia
no quintal. E eu ia em todos esses lugares. Aí passei a usar trança por estética, mesmo, por
gostar, e comecei a pesquisar modelos diferentes, desenhos diferentes da trança nagô (que
é aquela trança na raiz) pra poder fazer em mim. Nessa busca por salões e modelos de
trança eu comecei a me inteirar mais sobre o assunto. Aí criei um grupo no Orkut e
comecei a escrever, as pessoas começaram a pedir modelos de trança pra mim (porque eu
tinha muitas fotos de tranças) e eu mandava. Foi então que alguns salões que já faziam
trança começaram a pedir para ser divulgados na comunidade do Orkut. Eu comecei a
fazer essa divulgação e criei o blog. Aí eu comecei a fazer faculdade de Jornalismo.

Ah, você fez Jornalismo?

Eu não terminei Jornalismo, mas sou formado em Publicidade. Era pra eu ter feito essas
duas carreiras. Bem, aí eu comecei a tentar empregar no grupo o que eu aprendia na
faculdade. Comecei a cobrir eventos com uma amiga (que criou, praticamente, a linha de
comunicação do Trança Nagô na internet comigo), tudo quanto é evento afro a gente ia e
levava uma câmera junto. Por três anos a gente cobriu muitos, muitos eventos, basicamente

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

uns três por mês direto, sem dinheiro de remuneração, sem nada. E tinha uma parte da
produção de conteúdo que tinha a “Trança Nagô da Semana”, em que eu convidava alguém
pra fazer trança no meu cabelo e em troca a gente escrevia uma matéria sobre a pessoa.
Nessa eu conheci o meu antigo sócio, o Emanoel [Reis], ele falou que queria abrir um
salão e me convidou pra vir junto. Hoje ele não faz mais parte, mas eu tive a decisão de
continuar ou não. E eu fiquei em dúvida porque eu não sei trançar e nunca foi a minha
pretensão abrir um salão; era só um blog, um provedor de conteúdo pra internet. Mas eu
sempre tive contato com muita gente desse mundo de tranças e seria mais fácil achar gente
pra trabalhar aqui. Aí a gente decidiu. Eu conversei com a Liana [trancista do salão], que tá
desde o início e decidimos “vamos botar a cara, vamos fazer”. E a gente tá aí há 5 anos.

Fala um pouquinho mais sobre como funciona essas estratégias de divulgação na


internet não só do salão, como também da história das tranças, em geral.

Trabalhar com comunicação, ainda mais com uma comunicação de nicho é bem
complicado porque sempre há extremos. Então a gente se desdobra pra poder fazer um
conteúdo. No blog a gente ficou parado um ano e meio, dois anos. Normalmente temos
uma equipe que escreve e eu concentrava muita coisa da produção de texto com a Grazi
[Grazieli Gama, amiga de Fábio que começou o blog com ele], a gente produzia matérias,
revisava algumas coisas. No início a nossa equipe era dividida em assuntos, mas algumas
pessoas ficavam encarregadas da parte geral. Uma dessas pessoas, a Élida Aquino, criou a
sua própria linha e hoje é muito bonito o trabalho que ela faz: ela é uma das criadoras do
Meninas Black Power [coletivo composto por mulheres negras que incentiva a valorização
do cabelo crespo]. Eu convidei ela pra escrever alguma coisa pro blog, ela fez um texto que
bombou e eu pedi pra ela escrever mais. Os textos dela são uns dos mais visitados da
página até hoje e eles foram escritos há três, quatro anos atrás. Bem, na internet a gente vai
fazer nove anos de blog - alguns anos com pouca produção, outros com mais. Mas a gente
sempre vai caçando conteúdo: a gente fala de música, decoração, teatro, eventos, cabelo,
passarela, moda, tudo o que nos cerca. Alguns temas que viram post, que a gente discute
ou coloca no Instagram, saem das conversas aqui do salão entre as meninas [trancistas] e as
clientes. Não é uma coisa pensada, editorial e tal (apesar da gente também fazer um pouco
disso). Mas a produção no Facebook eu nunca parei porque a gente vai fazendo métrica e
se empolgando. Você tem várias aulas de mídia na faculdade, e quando você vê aquilo

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

acontecendo na vida real é emocionante! Uma coisa é você ver gráfico numa aula de mídia,
outra coisa é você publicar o bagulho na hora certa, no momento certo e ver ele crescendo
em 30 segundos. Eu falava “caraca, dá certo!”. E a gente sempre tenta ponderar. A gente
começou com uma linha de comunicação mais agressiva, mas hoje a gente vê que não
precisa ser tão enfático. A própria história da gente estar produzindo há nove anos faz a
pessoa entender. A gente não precisa ficar batendo muito na tecla, entendeu?

Então você acha que uma militância mais leve é mais eficiente?

Cara, eu acho que tem espaço pras duas partes [a militância agressiva e a militância leve].
Eu só não aguento mais levar porrada na internet. A gente fez um post que deu uma briga
muito grande. Nele a gente tava tentando falar sobre a estética da mulher negra e como ela
não é tratada como um objeto de sexualidade, não é viável pra um casamento, etc. E eu vi
um post da UOL que falava que em sei lá quantos anos de Playboy só tinham saído cinco
mulheres negras na capa. A gente só replicou isso. Isso gerou um boom tão grande de
atritos. Tinha gente querendo processar porque a gente replicou uma matéria da UOL.
Porque assim: eu escrevi um texto e pensei “vou ter problema com esse texto, as pessoas
vão interpretar mal?”. Então pedi pra outra pessoa escrever sobre o assunto, só que eu não
fiquei satisfeito. Aí eu falei assim “não vamos escrever nada, vamos só replicar a matéria
da UOL pra tentar ver se as pessoas conseguem entender”. E eu consigo ver o viés delas
[pessoas que criticaram o post], de que o corpo da mulher negra já é muito exposto e tal,
mas ela continua à margem de muita coisa por ser mulher e por ser negra. Então eu acabei
tirando o post, mas depois conversando com alguns amigos eu botei no ar de novo. Agora
eu não sei se ele tá no ar ou se não tá. [Risos] Porque isso foi em 2011 ou 2012, se não me
engano. E é complicado porque eu vejo que alguns tipos de atrito não vão engrandecer em
nada. Porque o que realmente vai mudar nessa pessoa que tá conversando comigo? Qual
vai ser a finalidade disso? Então algumas brigas a gente entende e quando a gente vê a
oportunidade de escrever um texto sucinto a gente vai lá e publica, mas quando eu não vejo
um desdobramento saudável daquilo, quando eu vejo mais atrito do que crescimento, aí eu
prefiro não fazer.

Voltando mais à parte do blog: existem vários posts que falam sobre a história das
tranças. Fala um pouquinho sobre isso.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Aquilo seria a minha monografia! [Risos] Eu passei dois meses pesquisando esse assunto
porque me agradava muito. Mas eu tava em um meio acadêmico que não iria entender
aquilo e eu gostava tanto desse tema que não levei adiante. Então na faculdade eu preferi
tentar outro caminho, mas sempre trabalhando aqui [no Trança Nagô]. Só que eu sempre
fiquei curioso no porquê. Por que da trança? Por que fazer assim? Como fazer assim? Foi
então que comecei a pesquisar. “Ah, é uma questão religiosa”. Mas por que é uma questão
religiosa? Da onde veio isso? Porque por mais que haja uma questão religiosa, sempre há
um motivo pra cada coisa, principalmente nas religiões de matrizes africanas. E eu queria
entender esse motivo.

E o que você encontrou de informação?

Eu achei alguns textos que não usei porque não tinham fonte. Mas um desses textos diz
que a trança nagô, que é a minha paixão, é matemática pura: divisão, quantidade… Elas
[trancistas] são artistas nisso, eu nem me atrevo! Mas, enfim, eu achei um texto que não
tem origem e nem fonte, mas diz que, como na África o sol era muito quente, as pessoas
tinham que fazer todos os artifícios pra manter a umidade do corpo. E quando você tá de
trança e se molha, a cabeça demora a secar. Então seria esse, segundo o texto, o motivo
real: manter a umidade da cabeça por causa do calor extremo. Eu continuei pesquisando
depois disso e encontrei um texto que falava sobre a origem da civilização Nok, uma
civilização bem evoluída que ficava onde hoje é a Nigéria. O texto dizia que um dos
registros que podem datar a origem da trança nagô é uma estátua Nok representada com
uma trança. Essa estátua é de vários anos antes de Cristo e essa civilização foi
completamente dizimada sem um o motivo aparente. Só que essa não era a única
civilização que usava tranças; esse é que é o registro mais antigo de uma civilização que
provavelmente trançava o cabelo. Outros povos africanos também usavam e foram se
expandindo ao longo da África colocando motivos religiosos e sociais pra alguns modelos
[de tranças]. Então elas [tranças] foram chegando em outros lugares, se transformando e
ficaram um pouco esquecidas. Quando veio a escravidão as tranças passaram a significar
um pouco mais de resistência. Os negros escravizados foram tirados das suas terras e viam
na trança, na religião, uma forma de afirmar “eu continuo sendo o que eu sou, a minha

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

cultura se mantém viva”. Assim foi também quando começaram a criar os quilombos e
essa cultura ganhou mais força.

E o que você pensa que significam as tranças nos dias de hoje?

Hoje a gente entende que cada tipo de trança, cada formato, cada desenho determina um
estado de espírito da pessoa que é trançada ou de quem faz a trança. E nessa parte das
religiões de matriz africana a gente entende que não é qualquer pessoa que coloca a mão na
cabeça da outra porque a cabeça é um canal. Aqui no salão a gente tem muito essa
preocupação porque é uma troca de energia que rola durante o trançar. A trancista fica ali
duas horas, três horas trocando energia com a cliente e fazendo uma coisa que a pessoa vai
carregar com ela. Mas ainda sobre a origem: o nome nagô também sempre foi muito
interessante pra mim. Ele vem do iorubá e eu queria destrinchar: por que e como se tornou
trança nagô? Então eu li alguns textos que falam que todo negro que vinha pro Brasil, para
a Pequena África (que era ali no porto do Rio de Janeiro) e que falava em iorubá eram
classificados como nagôs.

Ah, eu achava que era o nome de uma tribo africana.

É, também. Mas, segundo os textos que eu li, aqui no Rio de Janeiro era basicamente por
causa disso: de quem falava o iorubá. Tinha aquele processo do batismo do balde, quando
renomeavam cada um deles como Zé, Antônio… Porque antes disso eles eram chamados
de nagôs. E eles também eram separados pra não dar briga, porque às vezes eles eram de
tribos rivais, e quando chegavam aqui eram colocados todos juntos e chamados de nagôs,
independente de onde vinham.

Isso que você tá falando me lembrou o trecho de um livro do Muniz Sodré em que ele
conta que, quando os negros chegavam aqui era costume raspar a cabeça deles.

É, pra tirar essa identidade, pra descaracterizar. Tiravam tudo com que o negro se
identificava na sua terra porque aqui eles eram só mão de obra. Tinha muito disso. Por
exemplo, às vezes o cara sabe que todo mundo ali era de uma mesma tribo e então
separava de propósito pra não haver união entre eles.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Isso acabou me lembrando também a cena de um filme, que se não me engano se


chama “Amistad” e que sempre roda no Facebook, de um navio negreiro… [Fabio
interrompe]

O de uma mulher! Que eles começam a cantar e nesse canto eles dão dicas do que vai
acontecer.

Sim! É o que dá colocar todo mundo do mesmo idioma junto.

É, eles eram escravocratas mas não eram burros. Então eles até juntavam todo mundo, mas
logo separavam porque pensavam “eu tô unindo muita potência aqui, tenho que separar, se
não essa potência vai virar contra mim”. Então era o que acontecia: os caras colocavam
todos os negros juntos pra poder separar qual era de cada um [senhor escravocrata]. O
objetivo era dividir mesmo pra que eles [os escravos] não tivessem força.

E depois da escravidão os símbolos negros ficaram ainda mais marginalizados.

Sim, depois desse momento a cultura da trança, a cultura do dorso, do turbante, foi muito
mistificada, quase apagada. Aí hoje em dia existem pensamentos como “uma branca não
pode usar turbante”, “quem usa turbante é do candomblé”: ainda tá muito confuso na
mente das pessoas o uso desses acessórios afro; elas não têm discernimento do que é e do
que pode ser. Mas, bem, depois disso vieram os movimentos pela liberdade civil nos
Estados Unidos, o movimento hip hop, o basquete… Hoje eu tenho uma forma de
raciocinar por causa do rap, por causa do movimento hip hop. Ele me formou
politicamente na minha adolescência antes mesmo da faculdade. Na faculdade veio muito
mais base, muito mais porrada pra você entender aonde você tá, em que meio você tá. Mas,
antes disso, o rap me ajudou a entender porque quando eu tava na rua jogando bola o
policial parava pra cheirar a minha mão pra ver se eu tava fumando maconha ou não.
Aquilo ali não era aleatório; tinham 10 jogando e só eu fui parado. Por que ele só cheirou a
minha mão? Então te faz entender isso. E é o momento que você tá perdido. Então não
deixou eu ir pra um outro caminho. E a partir do rap e do basquete que eu encontrei as
tranças. E o movimento hip hop me deu esse poder, essa força. Mas aí vem o movimento

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Transcrição das entrevistas

de união africana, o pan-africanismo, movimento black power. “É sua cultura, você tem
que aceitar a sua cultura. Ela foi tirada de você e você pode voltar a usar sem problemas”.
E hoje a gente tá num mundo empoderado, dos “tombamentos”, e eu não tenho uma
opinião formada. Mas quando teve o movimento hip hop nos anos 90, mas [a trança] ainda
tava um pouco esquecida. Só que a partir dos anos 2000 ela começou a ganhar mais corpo,
mais resistência, e então veio um movimento muito grande de tranças.

Sobre o Tombamento, guarda a sua opinião não formada porque já volto nesse
assunto! Agora eu quero saber: Madureira foi a primeira sede do Trança Nagô?

É, a gente já tá no terceiro endereço. Quando a gente abriu era em parceria com uma loja
de roupas chamada De Negro, que tinha um espaço não usado num cantinho. Foi uma
coisa bem amadora: uma cadeira de cabeleireiro emprestada e quebrada, um espelho
rachado, a gente não tinha lugar pra lavar cabelo… Mas aí a gente pensou “não, a gente
não pode oferecer esse serviço meia boca pro cliente”, “a gente não pode fazer isso com
uma pessoa que pode ser nossa irmã, nossa mãe”. Então a gente começou a investir.
Saímos pra um espaço maior onde a gente pudesse oferecer um trabalho melhor. O nosso
primeiro endereço era na rua Clara Nunes, a mesma que a escola de samba Portela. Aí a
gente alugou uma sala comercial no edifício Antônio Nogueira. Passamos dois anos lá e o
salão foi crescendo. A princípio era uma equipe de três trancistas, depois foi pra cinco.
Hoje a gente tá com uma equipe de oito e no final do ano elas viram 12 porque a gente
chama trancistas extras pra trabalhar. E o espaço aqui é maior; não tá completo do jeito que
eu gostaria que estivesse porque é bem difícil. O dinheiro pro empreendedor negro é
complicado, os bancos não olham da mesma forma. Então a gente vai pagando as contas e
fazendo um pouquinho, pagando as contas e fazendo um pouquinho. Então desse
pouquinho demora muito pra gente estruturar tudo. Porque, como eu falei, a gente
começou com uma cadeira emprestada quebrada. Então a gente começou com zero, sem
investimento nenhum. Então hoje em dia tem o capital de giro, mas eu prefiro andar
devagarinho e andar do que andar rápido, tropeçar e cair. Essa é a minha filosofia. Eu não
vou fazer tudo ao mesmo tempo porque o risco é muito alto e eu prefiro não correr esse
risco; tenho nove mulheres que dependem desse trabalho, são nove sustentos de família.
Então eu criei essa preocupação com a estabilidade porque, se a gente quebra, tudo bem

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

que elas têm o talento e vão conseguir se manter, mas vai ser muito mais difícil. Por isso a
gente vai fazendo as coisas devagarinho.

Mas o salão sempre foi em Madureira?

Sempre foi em Madureira e eu não penso em sair daqui.

E por que você acha que Madureira tem essa cultura negra tão forte?

Eu acho que se a cultura negra não morar aqui [em Madureira], ela tem uma casa por aqui.
Se você passar uma semana andando em Madureira você vai ver coisas fantásticas que
acontecem só aqui. E, ao longo dos anos, as pessoas tão começando a dar valor a isso
porque antes acontecia e, naturalmente, ninguém falava nada. A gente tá sentado num bar,
senta um cara do seu lado que conversa, bebe uma cervejinha com você, sussurra uma
música, levanta e vai embora até que um outro cara chega em você e te pergunta: “você
sabe quem sentou com você? é o criador do samba tal, do ano tal” e tipo, você não sabe
quem são esses caras sendo que eles moram em Madureira, frequentam Madureira. E
também tem o baile charme com cantores anônimos fenomenais, músicas que você só
escuta na rádio e não sabe quem é que canta. Nina Black, Yas Werneck… Algumas
pessoas que ainda não despontaram porque essa é uma cultura consumida aqui, só as
pessoas que frequentam que conhecem e sabem disso. Eu não sairia de Madureira por
causa desses motivos, da cultura, e também porque é um ponto de logística: de Madureira
você consegue ir pra qualquer lugar do Rio de Janeiro com um ou dois ônibus, no máximo.
Aqui tem ônibus pra Alcântara, tem ônibus pra Central, tem duas linhas de trem, tem BRT,
você tá a 10 minutos de uma linha de metrô… Aqui é cortado por muitas redes de
transporte, o acesso é muito fácil. Então Madureira, pra mim, logisticamente, é
fundamental pra atender o maior número de pessoas, apesar do aluguel aqui ser muito caro.

Quando eu perguntei para as meninas [trancistas] se a trança era um penteado


feminino elas falaram que não, que era unissex. Então por que você acha que não só
existem mais mulheres que são trancistas como também mais mulheres que usam
tranças?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Eu acho que é mais uma questão estética, em si. Porque pra fazer trança existe um preceito
fundamental: precisa ter cabelo. Então é difícil você achar homens com [comprimento de]
cabelo que dê pra trançar. Normalmente a estética do homem é um cabelo mais baixo e
raspado, principalmente pro homem negro. E tem a situação no trabalho. A mulher negra
sofre um preconceito com o cabelo black, mas ela pode prender; ela é vista com um tipo de
olhar. O homem negro com cabelo black é visto com outro tipo de olhar, um olhar muito
mais pesado, eu acho. Pelo menos eu sinto isso, eu não posso falar por uma mulher. Mas
quando eu solto o meu cabelo... Por exemplo: eu tô de trança há dois meses e vou tirar. Na
verdade eu ia tirar semana passada só que eu tava com uns problemas e a Liana [uma das
trancistas do salão], minha amiga, falou “vamo tirar” e eu disse “eu não tô preparado”.
Porque quando eu tiro eu não consigo dar dois passos na rua sem um olhar de julgamento.
E eu não me sinto preparado pra receber esse olhar agora, entendeu? Então pra você ir
numa entrevista de emprego, pra você ir no mercado, pra você ir numa loja Americana é
bem complicado ser um negão com o cabelo cheio. Pra mulher eu não sei se é tão
complicado quanto porque ela pode prender, pode fazer uma infinidade de coisas que o
homem negro se fizer será julgado muito mais pesadamente. Mas trancistas homens
existem, tem alguns que trançam bem. O próprio Emanoel, que era meu sócio. Mas eu não
sei porque não tem mais homens trançando. Acho que é uma falta de visão do mercado. E
mulher trançada é uma questão de estética. Por mais que esse novo homem esteja
despontando e se preocupando com barba, cabelo, corpo e com produtos só pra ele, a faixa
masculina é uma faixa de mercado bem pequena. Então a mulher é muito mais vaidosa e
muito mais zelosa com a sua aparência do que o homem; elas têm muito mais preocupação
de estar bem e se sentir bonita do que o homem. Elas precisam não só parecer bem, mas
realmente estar bem. Por causa disso a maioria das mulheres usa trança. E a gente faz uma
métrica de clientes aqui no salão que mostra que as mulheres de 18 a 35 anos são as que
voltam com mais frequência. Não que a gente não atenda mulheres de 40, 50 anos (a gente
atende uma cliente de 90 anos que vem de longe, de Iguaba, só pra fazer o cabelo), mas as
clientes mais assíduas são as de 18 a 35 anos; elas gastam um dinheiro razoável pra se
manter bem.

Lembra quando eu pedi pra você guardar a sua não opinião acerca do Tombamento?
Agora a minha última pergunta é sobre ele. Você acha que a forma com que as
questões negras estão sendo colocadas por essa geração é eficiente?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Eu acho que o difícil é conduzir o movimento do Tombamento. Ele é orgânico. Ele tá aí.
Você pode contribuir de alguma forma, dando mais peso à ele, mas você não tem como
conduzir como ele vai acontecer, entendeu? Eu dei uma palestra há alguns meses falando
que eu não tenho uma opinião formada porque eu ainda não consigo ver os frutos que a
gente vai colher disso. É um movimento puramente estético? Se é, qual o problema? Não é
comunicação? Não tiveram desfiles na indústria da moda que mudaram pensamentos? Por
que não pode ser isso também? Quais os frutos a gente vai colher disso? Vão ter frutos? A
gente só vai saber isso daqui a uns dois anos. Eu só acho que demorou. Demorou muito
isso a acontecer. Foi uma bolha que cresceu demais e tem incomodado muita gente. E me
incomoda não como “ah não quero ver”, me incomoda pra eu tentar entender como
comunicação, mesmo. Entender por que colocar uma trança maior que você suporta; por
que o sacrifício de expor seu corpo. Eu quero entender porque eu não consigo ver qual é o
fruto disso e nem se tem que ter fruto. A Geração Tombamento é importante nesse
momento, mas eu gostaria que ela fosse mais politizada, com uma definição mais clara do
que ela se propõe, do que é: se é puramente estética, se é uma coisa mais profunda... Mas
ela tá colocando em alta muitas questões que são tabus: questões de sexualidade, de gênero
e questionamentos estéticos, mesmo. Como por exemplo: por que você não pode ser
contratado por uma multinacional se usar um dread fluorescente, for formado, pós-
graduado e super qualificado; se o que você precisa pra estar lá o seu estudo e a sua postura
te garantem? É complicado, mas, ao mesmo tempo, às vezes eu tô em Madureira e não
vejo uma pessoa dessa geração “tombando” na rua. Aí eu penso “beleza, foi só pra festa?”.

Você tá falando dela se montar pra uma ocasião ou pra postar nas redes sociais.

Sim. Que tipo de movimento é esse que só se importa em chocar? Então eu ainda não
tenho um entendimento muito claro. Quando eu tô numa festa “tombamento” eu penso:
essa pessoa andou de ônibus pra vir nessa festa assim?

É aquele raciocínio que diz que é mais fácil você ser Tombamento na internet do que
no dia a dia.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

É! Essa pessoa [que está na festa Tombamento montada] enfrentou a caixa lotérica pra
pagar uma conta de luz dessa forma? É necessário ir dessa forma? Não sei. Tem uns
aspectos que ainda estão muito soltos. Mas eu acho que é importante ter esse movimento.
Ele é importante pra gente refletir sobre um monte de coisa, até mesmo na desconstrução.
Eu tenho visto pessoas com outro olhar justamente por causa do Tombamento. Antes eu
tinha o nariz torcido e depois eu pensei “não, não posso ter esse preconceito”.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

3. GABRIELA AZEVEDO

A entrevista com a trancista foi realizada durante os dias 7 e 20 de julho de 2017,


no bairro da Lapa, Zona Central da cidade do Rio de Janeiro.

O que a trança significa pra você?

Oportunidade de trabalho, renda familiar. Trança pra mim é vida, eu amo tranças e elas
estão em um patamar muito alto pra mim.

Como começou a sua relação com as tranças?

Eu tranço desde 13 anos de idade. Trabalho com tranças, comercializando, desde os 15


anos, mas só que a minha memória primordial com relação às tranças é da minha mãe
trançando o meu cabelo. Eu era pequenininha e tinha um black enorme, deitava no colo da
minha mãe e quando eu acordava já estava com aquelas tranças maravilhosas. Então
tranças pra mim significam afetividade.

E doía quando você trançava?

Não doía quando eu trançava e é justamente por isso que eu desenvolvi esse meu projeto, o
Trança Terapia: pra resgatar memórias que não são memórias de dor, de um domingo a
tarde com a família toda sentada em um sofá esperando um pente fino pra doer o cabelo. A
minha memória não é essa. E eu tento resgatar isso, que é mais afetividade do que dor, do
que o “pra ficar bonita tem que sofrer”, a minha relação com as tranças é totalmente
diferente. Não é de dor, é de afeto.

Fale um pouquinho sobre o projeto Trança Terapia.

Eu sempre trabalhei com projeto social. O Trança Terapia existe há três anos e eu
desenvolvi ele aqui no Rio de Janeiro. Eu sempre tive essa ideia com relação às tranças de
que não deveriam ser apenas comerciais. Existe o toque, o tocar. Quando eu toco no corpo
de um ser humano, quando você me deixa te tocar, você tá me dando uma abertura para eu

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Transcrição das entrevistas

estar te conhecendo naquele momento. É uma troca de energia e de ideias. Então, ao invés
de eu olhar simplesmente pro financeiro, penso que pra mim vale muito mais a experiência
de vida que eu vou ter com aquele cliente, com aquele amigo, com aquele irmão. E aí por
causa disso eu comecei a tentar conversar com outros trancistas pra ver se eu não era louca,
né? Se só eu que entendia as coisas dessa forma. “Será que eu sou a única pessoa que fica
nesse mundinho da Lua achando que tudo é amor?”. E aí eu comecei a conversar com os
trancistas mais novos porque os mais antigos tinham uma resistência muito grande com
relação a esse assunto, já que eles vinham trabalhando com isso há mais tempo. Então a
gente montou um grupo no WhatsApp chamado “Trança Terapia”. Através desse grupo a
gente passava informações, conversava sobre como tinha sido o nosso dia, a nossa relação
com os clientes. E a partir desse momento a gente começou a desenvolver um outro
assunto: não o do dinheiro, mas a vivência das tranças no nosso dia a dia. E com isso a
gente viu que existia uma necessidade muito grande de se profissionalizar, não só com
técnicas, mas também com o apoio de empresas que tratavam da formação como
empresário e trancista. Vimos a necessidade de estudar e de sabermos sobre a nossa
ancestralidade e procuramos pessoas que pudessem dar palestras pra gente sobre como as
tranças foram desenvolvidas em algumas tribos africanas. Mas no Trança Terapia a gente
fala sobre tudo: fala sobre o corpo, sobre alimentação, sobre a gente ficar ou não 12 horas
em pé trançando um cabelo... Bem, depois a gente começou a entender que era necessário
que partir pra estética; não ficar apenas sendo vistos como artesãos, mas também como
empresários na área da beleza. E a partir desse ponto a gente começou a ir em feiras de
beleza, onde quase não tinham marcas que representavam o nosso público. A gente
começou a “incomodar” pra que as pessoas entendessem que a maior população do Brasil é
negra e que é necessário ter um mercado pra gente também. Na Bahia tem o Sindicato dos
Trancistas, no Rio de Janeiro não tem. São coisas como essa que nos dão dignidade como
profissionais. E assim a gente vai desenvolvendo vários projetos do Trança Terapia: faz
ação social, faz desfile, faz ensaio fotográfico, faz workshop ensinando a fazer algumas
técnicas de cabelo... Temos nosso salão itinerário em que a gente atende eventos e também
o nosso espaço, que é o espaço Trança Terapia, no Instituto Black Bom, na rua do Senado,
no Centro, que dá oportunidade para trancistas (como eu, que moro em Campo Grande)
atenderem aqui no Centro, local com uma acessibilidade melhor.

E a Batalha das Tranças, como começou?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

A Batalha das Tranças foi uma brincadeira que a gente fez pra valorizar os trancistas. Por
mais que se chame “Batalha”, na verdade foi só um nome que a gente usou como
competição, o que também é uma forma de compreender que você tá reunindo alguns
profissionais e tá conhecendo outros. Na nossa Batalha das Tranças a gente teve
profissionais de São Paulo, de Minas, do Rio Grande do Sul, do Pará. E foi muito
importante pra gente conhecer esses profissionais. E através desse evento que a gente fez,
conseguimos fazer uma rede de trancistas. Independente do primeiro ou segundo lugar,
todo mundo saiu ganhando porque aonde a gente vai a gente leva essa bancada de
trancistas que participaram. Esse ano vai rolar de novo a Batalha das Tranças e foi
importante também pra que as empresas pudessem ver o quão forte é o nosso público de
trancistas. Porque através desse evento que a gente fez várias empresas se interessaram
pelo nosso projeto e viram que a população de trancistas realmente é enorme e que valeria
à pena investir. E foi um pontapé pro Trança Terapia poder crescer. Foi maravilhoso.

Você disse que as suas primeiras lembranças das tranças são de quando você era
pequenininha e sua mãe te trançava. Mas quando você começou a trançar e quem te
ensinou?

A minha mãe trançava o meu cabelo. Na verdade na primeira vez a minha mãe me levou
em um salão pra fazer trança. Ali ela viu a técnica sendo desenvolvida e depois ela passou
a fazer no meu cabelo. Mas eu sou uma virginiana insuportável que quer tudo exatamente
como pensa. Então a minha mãe falou pra mim que se eu quisesse do jeito que eu queria,
que fizesse eu mesma. [Risos] E a partir desse dia, com 13 anos, eu comecei a fazer as
minhas próprias tranças. Com 15 eu fiz nas minhas amigas e com 18, já que eu praticava
muito, eu comecei a trabalhar num dos maiores salões afro de Brasília, que é o Afro
Nzinga, que tem mais de 25 anos. Lá tinham ações, debates e reuniões do movimento
negro, então foi isso que me trouxe essa consciência sobre o corpo negro, sobre a mulher
negra. Depois disso eu montei o meu espaço em Brasília, aí vim pro Rio de Janeiro,
trabalhei em alguns salões por aqui, como o Rainha de Sabbath, o Salão do Barulho… Tem
vários porque eu trabalhava em mais de um ao mesmo tempo: saía de um, ia pra outro, saía
do outro, ia pra um. E graças a Deus hoje eu sou muito amiga de todos eles e a gente tá só
fortalecendo a rede.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Várias mulheres escolhem as tranças como método para passar pela transição
capilar. Você acredita que elas utilizem as tranças como estratégia para esconder o
próprio cabelo?

Então, a gente agora vem com um programa de “não à ditadura capilar”, “não à ditadura
das tranças” porque o padrão estético do nosso cabelo é crescer pro alto. Quando você
começa a usar trança pra passar pela transição é muito bacana porque você começa a se
aceitar de uma outra forma que não é a lisa; então já passa para uma forma mais ancestral.
Agora, realmente, as tranças têm um certo caimento, são para baixo. Elas estão seguindo o
mesmo formato padrão do cabelo liso que cai ao redor do rosto. Então isso é muito mais
fácil pra você aceitar do que o seu cabelo black. Quando você faz o big chop [corte que
retira toda a parte do cabelo com química], depois de um ano, mais ou menos, uns oito
meses no mínimo, quando o seu cabelo já tá bem natural e já dá pra você usar solto, você
realmente sente um estranhamento em estar tirando a trança e usar ele pra cima. Então é
uma terapia que você precisa fazer tanto pra sair da química quanto pra sair das tranças,
pra sair de qualquer outra coisa; você vive sempre em transição. A transição não é só você
sair do cabelo liso para o cabelo crespo; é você sair de qualquer estado que você esteja
agora pra qualquer outro, que nesse caso é da trança para o black. Então você ainda
continua em transição capilar.

Você falou bastante sobre ancestralidade. Pode falar mais um pouquinho sobre isso?

Quando eu falo sobre ancestralidade eu não falo “made in Afrika”. Eu falo sobre tudo, na
verdade, porque o nosso público de trancistas (e eu falo público porque, como eu trabalho
para os trancistas, é meu público também) é um público muito novo. Então ele vem
pegando uma base norte-americana, um estilo norte-americano muito forte, que também
não podemos deixar de elogiar. Só que a gente não pode acabar esquecendo da nossa
ancestralidade “de ontem”, que foi a Day, uma das primeiras trancistas aqui do Rio de
Janeiro; o Afonjá, um dos primeiros salões do Rio de Janeiro; o Iporinchê o salão de
tranças mais antigo do Rio de Janeiro, que ainda existe. Então quando eu falo sobre
ancestralidade, eu falo sobre essa realidade do Rio de Janeiro. É uma ancestralidade
“afrocarioca”, né? E histórias ancestrais a gente vê como contos existentes, que existiram,

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

mas não têm registros. Por exemplo, como quando os negros chegaram no Brasil e foram
divididos em navios. Cada navio tinha várias tribos, então eles [escravos] usavam as
tranças como códigos. Ou quando eles fugiam para os quilombos e desenhavam os mapas
desses locais na cabeça dos outros companheiros [através de tranças nagô] e quem
conseguisse voltar para resgatar outras pessoas tinha o mapa do quilombo desenhado na
cabeça. Nós também temos histórias sobre a espessura das tranças, que falavam sobre
hierarquias, status de relacionamentos; se você é solteira, está com uma trança mais fina, se
você é casada está com uma trança mais grossa… Então, assim, são códigos ancestrais e
tribais, já que cada tribo tinha a sua comunicação. E hoje nós ainda temos os nossos
códigos, né? Se você ver, por exemplo, uma pessoa com uma trança muito colorida, você
já fala “ah, aquela mina ali é do viaduto Madureira!”. Se você ver uma trança com uma
ponta muito fina, fala “aquela dali deve ter feito lá em Campo Grande”. Então, assim, eu
consigo identificar o modo com que cada salão que trabalha. Se passa uma trança na rua eu
sei se foi do Trança Nagô [salão de tranças em Madureira], eu sei se foi do Fast Braids
[salão de tranças em Madureira] ou se foi a minha equipe, Gabriela Azevedo. E eu sei
porque cada um tem seu código de trabalho e trabalha com um padrão de tranças. Então a
gente acaba dando continuidade a esses códigos.

Que incrível! Principalmente isso que você falou, dos escravos fazerem mapas em
formas de tranças.

Isso! Faziam mapa com o desenho da rota de fuga dos quilombos. Eles iam e aqueles que
conseguissem chegar lá faziam a trança, desenhando o mapa de fuga, e um voltava para
poder resgatar os outros. É fantástico.

Sobre a questão de mulheres brancas usando tranças e a apropriação cultural: se


chegar uma branca aqui no salão te pedindo para ser trançada você faz?

Com certeza eu faço. Agora a moda é me perguntar isso: “ah, o que você acha de pessoas
brancas que usam trança?”. Eu acho o seguinte: que apropriação cultural seja lá do que for
é quando você toma posse de algo que não é seu, se apropria de algo que não é seu. Com
relação às tranças, o meu trabalho é o seguinte: eu faço as tranças das pessoas e eu informo
a elas sobre a história da trança. Eu deixo bem claro quem é o dono - pode falar? - da porra

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

toda! [Risos] Por que? Porque eu acho que é uma forma da gente disseminar a nossa
cultura. Em primeiro lugar tem que existir o respeito. Se não houver o respeito sempre vai
haver discriminação, sempre vão ter essas perguntas sobre apropriação cultural e tudo
mais. O que eu tento fazer é com que as pessoas respeitem a nossa cultura e entendam o
ponto primordial desse assunto. Eu já comi sushi, eu usaria um kimono e coisas de outras
culturas sem desrespeitá-las. Tem muitas pessoas que levam a trança, o turbante e outras
coisas pra um outro nível, que é um nível mais espiritual. Elas têm outros conceitos com
relação a esse tipo de cabelo ou acessório. Eu, Gabriela Azevedo, particularmente, acho
que é uma forma que a gente tem de se aproximar e falar sobre a nossa cultura, e não
afastar as pessoas dessa prática.

Quais tranças você mais gosta de fazer? Tem algum tipo preferido?

Eu amo trança nagô.

Trança nagô é o que o chamam de trança boxeadora?

Não. A trança nagô é aquela trança rasteirinha mesmo, trançada no couro cabeludo. A
boxeadora é uma trança nagô, mas só que é um estilo de trança nagô. Na trança nagô tem o
mimo, que é só uma trancinha de um ladinho; a tiarinha, que é a trança até a metade da
cabeça; o moicano, que são as tranças nagô nas laterais da cabeça. Aí dali você vai
desenvolvendo os nomes que vão identificar qual é o tipo de penteado.

Entre tantas técnicas afro para lidar com o cabelo (crochet braids, entrelace,
permanente, dreads, etc.), pra você o que diferencia a trança das outras técnicas?

Eu sou muito suspeita pra falar de trança! [Risos] A trança é a trança, entendeu? Você está
usando uma trança. Você não está se caracterizando de uma outra pessoa, de uma outra
estética. Porque o implante, o crochet braid, o entrelace, o nó italiano escondem o seu
cabelo e fazem com que você tenha uma outra estética. A trança não. Na trança você vai
pensar “nossa, ali, fulano está com trança”. E as pessoas sabem que aquilo ali não é o seu
cabelo. Pode até ser o seu cabelo que está trançado também, mas as pessoas entendem
como uma trança, não como um modo de esconder o seu cabelo pra poder fazer um

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

disfarce e usar um implante que vai te deixar com um cabelo com cachos maiores, menores
ou com mais volume.

Agora, na minha última questão, eu gostaria de falar sobre Madureira, que é um polo
de salões étnicos, lojas voltadas para o cabelo afro e tem uma grande concentração de
trancistas. O que você acha que fez Madureira se tornar esse local com tanta
resistência negra?

Então, Madureira era um centro de vários encontros de quilombos, né? Então é por isso
que ali se concentra a maior parte da população negra do Rio de Janeiro. É um lugar de
samba, de charme, um lugar que nunca vai deixar de concentrar pessoas negras porque
grandes comunidades estão ali em volta. E o comércio de Madureira também é muito
propício a isso porque tem muitas lojas que vendem material afro. Existem mais de 25
salões afro só em Madureira. E eu sou de Brasília. Lá as coisas eram divididas em polos,
né? Asa Norte, Asa Sul, polo de modas, setor comercial… Então eu acredito que por lá
[Madureira] ser um local onde já tem salões, acabam se montando ainda mais salões,
entendeu? Assim “ah, eu vou botar onde bomba: Madureira”. Eu, particularmente, tentei
sair à regra e montei o meu em Campo Grande porque eu moro em Campo Grande e
procurei tanto uma maior acessibilidade pra mim quanto estar fortalecendo o meu local.
Mas as pessoas, ao invés de fortalecerem o seu local, onde também têm negros, resolvem
montar salão em Madureira porque lá tem uma grande público.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

4. JACIARA CARVALHO

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 24 de julho de 2017, no bairro de


Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Qual a primeira coisa que vem à sua mente quando falamos em tranças?

Infância eu acho que é a primeira lembrança. Aquela época em que a minha mãe lutava pra
lidar com o nosso cabelo crespo. Porque com os irmãos [homens] é mais fácil: era só
cortar. Agora com as meninas tinha aquela preocupação de relaxar ou não relaxar, de fazer
ou não tranças. Então a minha mãe sempre fazia muita trança no nosso cabelo.

Você é trancista, mas, além de atender clientes, também trança seu próprio cabelo.
Qual a relação que você vê entre as tranças e o empoderamento das mulheres?

Bom, voltando lá na minha infância: quando a minha mãe colocava trança na gente era
mais pra gente lidar com o nosso cabelo. Naquela época ninguém ensinava a lidar com
cabelo crespo, então a forma que a minha mãe tinha pra cuidar do nosso cabelo era
colocando trança ou fazendo relaxamento. Hoje em dia tá meio diferente porque com a
sensação do cabelo crespo, com a representatividade aumentando muito na mídia, a gente
vê que as meninas tão querendo ter cabelo cacheado, tão querendo aceitar o cabelo crespo
e se aceitarem. Então as tranças são uma forma de passar pela transição capilar, em que
você fica com duas texturas de cabelo. Pra lidar com a diferença entre essas duas texturas
[parte natural crespa e parte alisada], as meninas (e meninos também) optam pelas tranças
não somente não só pra passar pela transição capilar como pra depois também. Porque
quando a pessoa coloca trança (geralmente são mulheres e homens negros), mesmo que
sem querer, ela entra em contato com a sua negritude já que as tranças são um símbolo de
resistência. Então é como se ela [a pessoa] fosse se fortalecendo aos poucos porque quando
você tá de cabelo alisado, você, enquanto pessoa negra, vai pra rua e as pessoas te aceitam
daquele jeito. Quando você põe trança antes de assumir o seu black é como se você tivesse
dizendo que ali mora uma pessoa negra, que você tem a negritude dentro de você. E isso
antes de você assumir o seu black, antes do seu cabelo estar grandão, afro, black enorme,
que é o sonho de muitas meninas e meninos. E muita gente prefere não usar tranças, gosta

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

do cabelo curtinho do pós big chop (eu acho super lindo, também). Eu acho que as tranças
entram muito em contato com a nossa negritude. Quando você olha pra uma pessoa de
trança, você não tem como negar a negritude dela, é como se não desse pra esconder (coisa
que alisar o cabelo faz). Então eu acho que as tranças auxiliam muito nesse contato com a
África que a gente esqueceu há muito tempo. E é muito importante pra nós mesmos e até
pra sociedade que nós tenhamos esse contato porque como as pessoas recebem isso é muito
estranho. Cada pessoa tem uma reação, mas o mais comum é não aceitar. Então [quando
entramos em contato com nossa negritude] é como se a gente fosse se fortalecendo pra
essas reações, sabe? A gente começa a se gostar, a se cuidar e a se proteger mais porque
antes a gente alisava e tava ótimo. Então a partir do momento que a gente se olha no
espelho e pensa “nossa, eu posso ser uma pessoa diferente, eu posso ser eu mesmo” e as
pessoas criticam isso em você, é muito difícil. Você tem que ter uma força e eu acho que as
tranças estão nisso, elas dão esse suporte pra você começar a se aceitar.

Você acha que o cabelo black causa mais impacto do que as tranças?

Eu não sei, talvez sim. Acho que sim porque não é qualquer pessoa que tem o cabelo black.
As tranças são um adereço na cultura afro, mas elas são um adereço que você coloca e
você tira. O black não tem essa opção, então somente pessoas negras ou de ascendência
negra vão ter o cabelo crespo, cheio e volumoso. Então há uma resposta diferente, por
exemplo, no mercado de trabalho. Eu já passei por isso várias vezes: você tem que alisar o
cabelo, tem que usar ele o mais liso e puxado possível pra poder ser aceita. Agora as
tranças são uma coisa que você pode tirar e colocar depois. Então pras meninas que tão em
transição é muito difícil porque quando elas começam a ver essa raiz crespa crescendo e as
pessoas criticando, as tranças vêm como um suporte porque você vai começando a
entender, se aceitar. Quando você tira as tranças e vê que seu cabelo crespo tá crescendo
você tem que aprender a lidar com aquilo. Você tem a negritude ali e precisa entender isso.
E eu acho que essa é uma forma muito boa de se autoconhecer, sabe? Mas, infelizmente, o
cabelo crespo ainda é muito estigmatizado pela nossa sociedade. Então eu acho que existe
essa comparação das tranças com o cabelo black porque os dois são da cultura afro, os dois
são odiados pela sociedade. Mas o cabelo black muito mais.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Ainda sobre essa questão da negritude, o que você pensa das pessoas brancas que
usam tranças no cabelo?

Sobre apropriação cultural. [Sorri] Olha, eu acho que a apropriação cultural não deve abrir
precedentes pra achismos, né? Não é o fato de eu trançar uma menina branca ou de eu
achar que é certo ou errado porque isso não é uma questão individual, é uma questão
coletiva. A apropriação cultural não parte de uma pessoa pra outra, ela parte de um
coletivo pra outro. Então isso é muito maior do que eu e você, do que o individual. Tanto
da cultura negra já foi (e continua sendo) roubado pra ser comercializado, que eu não acho
que isso seja feito apenas por uma pessoa. É a indústria, é o comércio, é o capitalismo.
Então quando se capitaliza um adereço, um acessório de alguma cultura pra se monetizar
em cima daquilo, isso é apropriação cultural. Agora uma pessoa branca que tá usando
tranças? Ela não vai exercer um peso tão significativo assim na apropriação cultural, na
sociedade. É óbvio que a leitura social de uma pessoa branca usando trança é totalmente
diferente da que é feita quando uma pessoa negra usa tranças, não dá pra dizer que é igual.
Mas eu não posso apontar o dedo pra branca e dizer que ela tá errada, que ela tá sendo “a
rainha da apropriação cultural” porque se ela não tiver monetizando aquilo… Eu mesma
tenho que treinar os meus olhos pra isso. Quando eu vejo uma pessoa branca de tranças e
quando eu vejo uma pessoa negra de tranças é inconsciente a diferença que a gente faz na
nossa própria cabeça, sabe? Isso é um treinamento diário porque a gente é tão massacrado
com informações do que é certo e do que é errado, do que é aceitável e do que não é
aceitável que a gente acaba acreditando. E apropriação cultural nada mais é do que o
capitalismo pegar algum item de alguma cultura, esvaziar o significado daquilo e
monetizar de alguma forma. Então quando alguma coisa vira moda, como o turbante e a
trança, tem duas formas de você interpretar. Você pode interpretar como “nossa,
apropriação cultural, eles tão roubando a nossa cultura” e você pode entender como uma
forma de você lucrar com isso também. Porque, por exemplo, quantas trancistas a gente
conhece que não estão ganhando dinheiro nem estão trabalhando? Nós sabemos que as
pessoas negras têm menos dinheiro que as pessoas brancas (isso é estatística, não sou eu
quem tá falando) e o nível de pobreza do Brasil é tão enorme que as trancistas geralmente
trançam pessoas negras tendo que abaixar o preço porque elas [clientes negras] não têm
muito dinheiro.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

É bem complicado. Esse interesse de pessoas brancas sobre as tranças sempre existiu?

Quando um produto entra no mercado da moda todo mundo quer ter e, automaticamente,
pessoas brancas também vão querer fazer. Então elas vão pegar aquele item e trazer pra
cultura delas. Esses dias eu vi na internet uma moça branca que tinha colocado tranças e
trocou o nome, ela colocou hairbraiding. E é isso que é apropriação cultural: você pegar
algo daquela cultura e monetizar em cima dele não dando o nome que ele realmente tem,
sabe? Você muda o nome pra poder ser aceitável pra sua cultura. Agora eu vou criticar?
Vou crucificar uma mulher que trabalha com tranças, que quase não tem clientes, quando
ela receber um grupo de amigas brancas querendo colocar tranças? Eu vou apontar o dedo
pra ela? Ela tem filhos pra criar, ela tem contas pra pagar e ela não vai pagar a conta dela
com ativismo negro. A gente sabe disso. Eu não vou pagar a minha conta com ativismo
negro. Tem um limite do que a gente fala e do que a gente pode fazer. É lindo esse
discurso crítico sobre apropriação cultural, mas na teoria, porque na prática eu não vou
pagar as minhas contas com ele. Então se vier uma pessoa branca pra eu trançar, querendo
ou não, achando que é apropriação cultural ou não, eu vou trançar aquela pessoa se eu tiver
uma conta pra pagar. E eu não vou criticar essa mulher. Cada um sabe onde o seu calo
aperta. Então eu não vou apontar o dedo pra ninguém porque eu sei que não é uma questão
individual que vai definir o que é ou não apropriação cultural.

Existem outros símbolos culturais apropriados, mas as tranças não são tidas como um
penteado qualquer. Por que você acha que elas geram esse debate?

Porque as tranças, inegavelmente, são um símbolo de resistência afro. Como eu disse, a


leitura é feita de maneira diferente quando uma pessoa negra usa e quando uma pessoa
branca usa. Então a pessoa que usa tranças já diz por si só a que ela veio porque está
usando algo muito característico de povos africanos. Às vezes dizem “ah, foram os vikings
que inventaram”, “ai, porque o povo de não sei da onde inventou as tranças bem antes de
vocês”. Dá pra perceber que essas pessoas querem esvaziar as tranças de significado pra
poderem, vamos dizer, “usar em paz”. Então eu acho que, no topo da apropriação cultural,
estão as tranças porque quando você fala de apropriação cultural na internet as tranças
sempre estão no meio. Mas eu também acho que você começa a tirar a importância do
discurso promovido pelo debate quando você banaliza ele, quando você pega e diz “ai,

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

porque pessoas brancas não podem usar tranças”, “ai, porque trança é da cultura negra
então eu vou usar”. Cara, a gente acaba saindo de um estado de falta de liberdade pra
querer privar a liberdade do outro. Então pra mim isso não é liberdade. Você quer ter a sua
liberdade, mas você quer privar o outro de ter a liberdade dele. Pra mim isso não é certo.
Então: “eu acho que as tranças são um símbolo de resistência negra?” São. “Por que?”
Porque a história diz isso. Os negros usam trança desde, sei lá! “As pessoas brancas
usarem [trança] tá errado?” Não, não tá errado. “O que tá errado, então?” Tá errado a
monetização em cima disso e o esvaziamento de significado. Isso é errado, isso é
apropriação cultural. Como, por exemplo, uma grife, como a gente vê tantas aí viralizando
na internet, que pega um símbolo negro, produz em larga escala e vende aquilo como se
fosse qualquer coisa. Sendo que, quando você vê uma pessoa negra usando não é bonito,
mas quando tá na passarela é “fashion”. Então pra mim isso é que é errado. As pessoas
entendem o que acontece, sabem que é um símbolo de resistência negra, mas quando elas
são questionadas, têm o discurso pronto e falam “ah, não, somos todos iguais, eu posso
usar também, etc”.

E aí você entra numa questão interessante, sobre a mercadoria. A trança é arte.


Como você falou, é um símbolo de resistência. Mas, em larga ou pequena escala, tem
sido comercializada. Nessa questão o trancista se aproxima de um cabeleireiro, que
vende produtos e procedimentos para cabelos?

Nossa, acho que nunca parei pra pensar sobre isso. É complexo. Uma diferença que eu
posso dizer que existe entre o cabeleireiro comum (que escova, prancha e cacheia) e o
trancista é o fato de você recuperar a ancestralidade das pessoas através das tranças. Você
recupera a autoestima do cliente. Não que o cabeleireiro não faça isso, obviamente ele faz
de alguma forma. Mas ele [cabeleireiro] nem sempre te põe em contato com as suas raízes,
sabe? Porque as tranças têm esse poder: você tá lá trançando o cabelo da pessoa e o contato
que ela passa a ter consigo mesma no período que ela tá com essas tranças faz com que ela
se entenda como pessoa negra. E eu acho que esse contato é muito maior do que quando
um cabeleireiro tá lá cacheando ou alisando o seu cabelo. A trança tem esse poder de
resgatar a sua negritude. Muitas pessoas que eu já trancei não sabiam que eram negras por
conta dessa leitura que as pessoas fazem: se tiver pele clara, se tiver o cacho mais aberto,
não é “tão” negra. Muitas coisas implicam em você se sentir ou não negro, se entender ou

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

não como negro. E eu acho que a trança tem muito poder nisso. Mas eu acho que as
profissões são bem similares, a diferença seria mais essa, do contato que você tem com a
sua negritude enquanto você tá com as tranças, enquanto você tá ali trançando, durante
aquelas horas que você passa ali, conversando com a sua trancista e desenvolvendo um
diálogo bem legal. Porque eu, por exemplo, quando tô trançando alguma cliente,
desenvolvo um diálogo pra saber qual a relação dela com a própria autoestima. Então
muitas vezes nos salões de cabeleireiro, que geralmente são enormes e em grande
quantidade por aí, a gente não tem muito essa proximidade do cabeleireiro com o cliente. E
o trancista com o cliente é bem diferente, é uma troca, na verdade. Porque quando eu
tranço a pessoa eu tô passando as minhas ideias pra ela, eu tô passando as minhas
vivências pra ela e ela tá me passando de volta. É como se a gente tivesse conversando na
mesma língua. Eu acho que é essa mais ou menos a diferença que eu vejo entre as duas
profissões.

Você tem um canal bem sucedido no Youtube há três anos. Mas você trança há
quanto tempo?

Nossa! Olha… A primeira vez que eu coloquei trança foi em mim mesma e eu tinha 13
anos. Então eu posso dizer que eu tranço há muitos anos. Eu tenho 27.

Você trança há 14 anos! Você aprendeu sozinha?

A minha mãe trançava o meu cabelo e o das minhas irmãs. Aí teve uma época que ela não
podia mais porque ela tinha que ir trabalhar, então eu falei assim “ah, vou tentar fazer
sozinha”. Isso foi quando eu tinha 13 anos. Dali eu nunca mais parei.

E você assistia tutoriais na internet?

Não, nessa época nem tinha internet, vamos dizer assim. A internet veio o que? Em 1990,
2000? Nessa época a gente nem tinha contato com isso. Eu sou de família pobre, morava
na periferia, não tinha internet, não tinha isso. Então era mais “olha aqui, mãe, tá certo
desse jeito?”. Como ela tinha um salão também (era cabeleireira e trancista), eu aprendia
muito olhando ela fazer, né? Eu acho que isso foi essencial pra mim enquanto trancista. Eu

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

via ela conversando com as meninas, trocando a ideia, perguntando “o que te afeta?”, “por
que você tá colocando trança?” e elas acabavam desabafando. A trancista é como se fosse
uma espécie de psicóloga, também! Cê tá ali trançando, a pessoa fala da autoestima dela,
fala do período de transição. E é uma troca tão grande que eu acho que não tem como
comparar muito a trancista e a cabeleireira. São diferentes.

Bem, voltando ao canal no Youtube, o seu vídeo mais assistido é o de um tutorial de


tranças, certo?

[Balança a cabeça fazendo sinal afirmativo] É um dos primeiros vídeos do canal.

Por que você fez esse vídeo? Você criou o canal porque as pessoas te pediam, você
queria ensinar… Qual foi o objetivo?

Nessa época eu tinha uns 20 e poucos anos e já fazia tranças em mim desde sempre. E as
pessoas tinham certa curiosidade, porque não era essa coisa que é hoje, de tirar foto e
colocar na internet, porque nem tinham tantas redes sociais. Então algumas pessoas me
viam na rua e tinham muitas dúvidas, meus amigos queriam aprender a fazer também. Aí
tanta gente me pediu que eu pensei “poxa, não dá pra eu ensinar pra uma pessoa aqui,
depois a outra ali, depois ensinar pra outra…”. Um amigo meu tinha uma câmera e eu
resolvi colocar tranças, gravar e colocar na internet. Foi o primeiro vídeo do canal,
totalmente despretensioso. Depois do primeiro vídeo o pessoal começou a ver que eu
também fazia outros cabelos além de tranças e me pediram outros tutoriais de penteados
afro. Então eu acabei enveredando por esse caminho e aqui estou até hoje.

Você se considera parte da Geração Tombamento?

[Risos]

Não ri, não! Eu quero saber o que você pensa dessa “geração do tombar” (aliás, eu
adoro esse nome!).

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Eu acho esse nome muito engraçado. [Risos] E sim, pelo que as pessoas lêem de mim na
internet elas acham que eu faço parte da Geração Tombamento. Me chamam de “diva
Tombamento”, essas coisas e eu fico “gente, eu sou uma pessoa normal”. [Risos] Mas,
enfim, eu acho que esse título de “geração tombamento” veio principalmente como uma
forma de inferiorizar a luta dos negros. Porque não foram os negros que botaram esse
nome em si mesmos. Esse título foi recebido por esse grupo que é lido como empoderado,
que é lido como amante da sua própria negritude, que não tem medo de se expressar como
negro na sociedade brasileira (o que a gente sabe que é bem difícil). Então pra tentar tirar o
peso dessa luta, se criou essa expressão “geração tombamento”. E eu acho que isso é bem
desleal porque foi criado com o intuito de desvalorizar a luta negra que ocorre desde
sempre. Eu acho a Karol Conká completamente tombamento: ela valoriza a cultura negra,
valoriza a autoestima da mulher negra, e discursa sobre toda essa questão do
empoderamento. Com ela você ver que você pode! Você pode ser uma dona de uma
empresa, você pode ser uma cantora de sucesso, você pode várias coisas. E eu acho que
essa “geração tombamento” veio pra despertar isso nas pessoas.

Então porque você considera esse um termo depreciativo para a luta negra?

Porque quando as pessoas negras tiveram espaço na mídia? Quando Taís Araújo e Lázaro
Ramos, por exemplo, tiveram um programa de domingo fazendo super sucesso como
Geração Tombamento? Isso não é negativo, foi negativo quando se criou esse termo. Mas a
forma com que as pessoas recebem isso é totalmente diferente porque, embora sejamos
todas pessoa negras, cada um recebe de uma forma. Eu, quando vejo uma pessoa negra na
televisão, com um black maravilhoso, falando com propriedade, falando com aquela força,
eu me sinto super valorizada, eu me sinto super representada e penso “eu também posso
falar desse jeito”. Então pra mim Geração Tombamento é isso: o negro além de estar em
foco, estar em todos os lugares. Estar na televisão, estar no tribunal como juiz ou
promotor... Então eu acho que é super válido ter essa Geração Tombamento, não diminui
em nada a nossa luta. Mas muita gente usa isso (tipo “ai, agora você é Geração
Tombamento”) querendo te ofender. E eu fico “e?”. Se receber esse título de Geração
Tombamento significa que eu vou estar ajudando pessoas negras, meninos e meninas, a se
aceitarem como eles são, a aceitarem a negritude deles, então lógico: adoro esse título de
Geração Tombamento.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Agora a última coisa que eu quero te perguntar: nós escolhemos Madureira como
ponto de encontro para essa entrevista porque era meio caminho andado pra você e
pra mim. Mas coincidentemente, aqui é onde tem a maior quantidade de salões afro,
de mercado de cabelos sintéticos e também de trancistas no Rio de Janeiro. Na sua
opinião, por que Madureira e não outro lugar na cidade tem tanta concentração de
cultura afro?

Olha, se eu te disser que não sei! [Risos] Eu não sei porque. É como se Madureira fosse o
“centro comercial” da negritude, vamos dizer assim. Porque aqui tem muito comércio
negro de todos os tipos, de roupa a cabelo. Então a variedade é enorme. Como todos os
centros comerciais do estado, sempre há um lugar foco e no Rio eu acho que é aqui, em
Madureira. Eu não sei se pela questão de que já existia baile charme em Madureira, se é
porque aqui é a terra dos sambistas... Eu acho que o samba trouxe o baile charme, que
trouxe cabelo, que trouxe vestimenta e tudo mais do negro. Eu nunca estudei a história de
Madureira, mas eu acho que uma coisa traz a outra. Aqui é como se fosse um centrinho
porque é zona Norte, mas é mais perto da Zona Sul e do Centro. Então as pessoas acabam
se debandando pra cá por causa da variedade. Por que eu não sei dizer. Mas acho que por
osmose, né? Uma coisa acabou absorvendo a outra e se formou Madureira.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

5. JAMILE BENTO

A entrevista com a trancista foi realizada nos dias 18 de julho 3 14 de agosto de


2017, no bairro de Rio das Pedras, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Como você começou a trançar? Com quem aprendeu?

Eu comecei a trançar cabelos desde que eu tinha uns 10 anos de idade. Eu fazia tranças no
meu próprio cabelo, fazia no de mainha e fazia no cabelo das minhas vizinhas. Aí depois,
quando eu fiquei adolescente, eu precisava trabalhar pra ajudar na renda lá de casa. Só que
eu não sabia fazer nada. Então comecei a ir pro centro de Feira de Santana pra fazer tranças
no mercado de artes e ia na UEFS, a universidade lá de Feira.

E você aprendeu sozinha?

Na verdade é dom porque desde que eu me entendo por gente eu já fazia tranças sem
ninguém me ensinar. Simplesmente fazia. Eu sentava, me olhava no espelho, fechava os
olhos e ia fazendo as tranças no meu cabelo. Era assim.

E alguém também costumava trançar cabelo na sua família?

Não, lá em casa ninguém faz, não. Na verdade lá em casa o pessoal nem gosta muito de
trança, pra ser sincera. Sou só eu mesma que gosto. Porque lá o pessoal ainda precisa fazer
aquele processo de aceitação do seu próprio cabelo. As pessoas têm o cabelo crespo mas
não gostam, aí eles não usam muito. Agora que eles tão usando permanente afro pra fazer o
cabelo cacheado, mas antes todo mundo lá em casa alisava o cabelo com Salon Line,
guanidina…

E você já alisou o cabelo também ou sempre usou ao natural?

Eu sempre usei tranças e eu só alisei uma vez por pressão. Uma tia minha ficava mandando
eu alisar o meu cabelo, dizendo que o meu cabelo tava feio. Aí por não aguentar a pressão
eu fui e alisei. Mas me arrependi. Depois eu cortei todinho e o meu cabelo voltou a ser

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

crespo. É que eu sempre gosto do meu cabelo crespo, com tranças ou então com os
implantes que eu boto.

Então na sua família ninguém trançava, você começou sozinha.

Foi. Eu que comecei a fazer isso lá em casa. Eu tinha uns 10 anos, foi em 2002.

Você disse que começou a trançar e mais tarde passou a frequentar os campus das
faculdades em busca de clientes. Nessa época você tinha contato com outras
trancistas?

Não, eu sempre fui assim: eu não conhecia ninguém, mas eu sabia fazer. Então eu falava
“eu vou pra rua fazer tranças”. Inclusive um dia eu fui de ousada lá pro Pelourinho, em
Salvador. [Risos] Sentei lá junto com o pessoal e fiquei fazendo trança!

Você veio da Bahia, um estado com uma cultura afro extremamente forte,
principalmente quando falamos de tranças africanas. Você notou alguma diferença
no modo de trabalho das trancistas da Bahia quando comparadas às do Rio?

Sim. Eu acho, porque assim, lá na Bahia a gente trança o cabelo com um quê artístico.
Tanto que em Salvador a gente senta no meio da rua e começa a fazer trança. Aí os turistas
que tão lá se interessam e todo mundo que vai no Pelourinho leva a trança na cabeça pro
seu próprio país. E aqui no Rio o pessoal trança o cabelo de forma mais comercial, você vê
muita gente fazendo trança em salão, como um serviço mais lucrativo que artístico; lá [na
Bahia] é mais cultural.

Então você acha que as tranças feitas em salão não são arte?

Não. É arte. Só que, tipo assim, eu acho que é mais trabalho artístico quando você tá ali na
rua fazendo, entendeu? Porque é como se fosse uma arte visual. Porque você fica exposto,
então fica um monte de gente ao redor te olhando, observando como se faz aquilo.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Agora eu queria saber sobre as suas dores. Quando eu cheguei aqui você comentou
comigo que tem sentido muitas dores nas mãos.

Eu trabalho com tranças em pé, então eu sinto muita dor na lombar. Como eu fico em pé
durante um bom tempo, às vezes eu preciso estar fazendo aquele mesmo movimento
repetidas vezes e acabo sentindo muita dor na coluna. Mas de vez em quando, quando eu
faço rastafári eu sinto muita dor na mão pelo fato de fazer o mesmo movimento repetitivo
por muito tempo. Aí os polegares e os indicadores começam a doer. Só isso. Mas o resto é
tranquilo.

E fica quanto tempo doendo?

Ó, quando eu começo o rastafári eu começo oito horas da manhã e vou terminar umas oito
horas da noite. Então eu passo 12 horas fazendo a mesma coisa. Aí quando eu termino eu
fico com as pontas do meus dedos todas doloridas. Não é aquela dor insuportável mas eu
sinto muito incômodo nos dedos porque esse material machuca, é como se ele cortasse a
mão quando eu tô fazendo.

Mas qual deles machuca sua mão: ou kanekalon ou jumbo?

Os dois. [Risos]

E me fala qual são os materiais, além do kanekalon e do jumbo, que podem ser
usados nas tranças.

Assim ó: o material que a gente usa para trança é básico. Geralmente a gente faz com linha
de crochê, com lã ou com sisal.

O que é sisal?

Fita de sisal é uma planta que tem sisal! Pior que eu não sei te explicar. [Risos] É tipo uma
palha, então a gente consegue fazer tranças com aquilo. Além do kanekalon e do jumbo, dá

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

pra usar o próprio cabelo também, dependendo do tamanho. Ah, a gente também usa fita
de cetim.

Fita de cetim?

É! Dá pra fazer muita trança com fita de cetim.

E quais são os instrumentos necessários para começar a trançar? Tem que ter um
pente...

Ó, se bem que eu já fiz sem pente! [Risos] É porque o pente é básico só pra dividir as
mechas, mas se não tiver um pente você pode improvisar com agulha de crochê ou então
com os dentes de um prendedor [de cabelo] qualquer dá pra fazer a divisão. Porque a
trança mesmo é só manual, você pega a mão e vai trançando.

Bem, você me disse mais cedo que não gosta de trabalhar em salão. Por que você
prefere trabalhar na rua, na praia… Na fazenda ou numa casinha de sapê?

[Risos] É porque desde que comecei a trabalhar com tranças na Bahia eu já tô acostumada
a sempre trabalhar na rua. Então eu ia pro mercado de arte e ficava na rua, onde passava
um monte de gente. Eu ficava “oi, menina”, “vem cá, nega, fazer uma trancinha,
vambora”. Eu gosto desse contato visual, de estar na rua convidando as pessoas pra vir
fazer uma trança. Porque às vezes eu olho pra pessoa e, tipo assim, ela tá com o cabelo
detonado. Então eu olho o cabelo e penso “se eu trançar aquele cabelo aquela mulher vai
ficar maravilhosa!”. Então eu gosto de estar na rua chamando o cliente pra vir [trançar]. Se
eu fico no salão fazendo trança ninguém vai saber que eu tô aqui. Aí eu gosto de estar na
rua abordando a pessoa pra ela vir fazer trança comigo. Funciona assim!

E você também falou que gosta de se vestir de maneira específica pra abordar as
pessoas na rua.

Ah! Eu adoro! Eu adoro! Porque assim, como eu trabalho na rua eu penso “eu não posso ir
pra rua trabalhar vulgar”, eu tenho que estar bem vestida. Então eu sempre bolo uns

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

figurinos bem afro que é pra eu estar bonita, representando a minha cor, e estar atraente,
porque às vezes a pessoa vai passar e olhar. Naquela olhada que a pessoa dá eu já falo “ô,
mãe, vem cá, nega, fazer uma trança”. Então eu tenho que me produzir, não posso ir de
shortinho e nem de blusinha. Eu fico sempre mais assim, elegante, um pouco mais formal
pra poder tá bonitinha na rua. Porque se você tiver bem vestida a pessoa vai olhar. Então
naquela olhada que a pessoa me dá eu abordo e vendo meu peixe, né. Ô, quer dizer, eu
vendo a minha trança. [Risos]

Então você acha que quando você tá vestida com figurinos afro você passa mais
credibilidade?

Sim, com certeza. Porque a pessoa para e fala “nossa”. Muitas vezes quando o pessoal me
olha na rua vestida daquele jeito um monte de gente vem falar comigo e pergunta “ué, cê
fala português?”. Aí eu falo “han?”, aí a pessoa “não, eu achei que você era africana”. Aí
eu brinco “não, eu sou baiana, mas eu gosto de estar bem afro”. Porque eu acho que é uma
roupa que eu fico assim, mais bonita, e atrai o olhar. Então quando a pessoa olha eu com
vestidão, aquela coisa assim “pan”, eu pego e já chamo pra fazer a trança. É marketing
pessoal. [Risos]

E você encara essas roupas que você usa pra trabalhar como um uniforme ou como
uma fantasia?

Eu acho que é como um uniforme. Como um registro da minha marca, mesmo. Porque
assim, eu mesma (se eu soubesse, devia até ter vestido!) tenho uma fantasia de baiana que
eu sempre coloco quando eu trabalho na feira ou vou fazer alguns eventos. Eu sempre
monto a minha roupa porque eu gosto de estar à caráter, representando mesmo a minha
cultura afrodescendente e a cultura baiana. Então eu sempre boto a minha roupa de baiana,
o meu turbante e fico caracterizada para o povo saber que eu trabalho com tranças.

E você atrai mais clientes quando você tá vestida de baiana?

Com certeza! Porque [a roupa] atrai olhares já que não é comum aqui no Rio ter uma
baiana assim no meio da rua. [Risos] Por exemplo, se você for no Pelourinho você vê mais

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

pessoas vestidas de baiana, mas é vendendo acarajé, vendendo cocada. Fazendo tranças lá
as mulheres ficam normal. Só que, por exemplo, como eu tô em outro estado, eu penso que
se eu estiver [vestida] de baiana já vou atrair o povo, as pessoas vão olhar. Então eu visto
minha roupa de baiana pra estar representando a minha Bahia, já que eu tô no Rio de
Janeiro, né?

E qual é o seu principal público? Pessoas brancas, negras, homens, mulheres,


turistas…

Ó, assim, na verdade o meu público mesmo tem mais homens porque tem muito menino no
Rio com cabelo black, então eles sempre fazem tranças. Eu já trancei muito cabelo, então
eu não lembro se a maioria [dos clientes] foram negros ou foram brancos, isso eu não
lembro. Porque eu já trancei cabelo de mais de mil pessoas, aí fica difícil. [Risos] Mas eu
lembro que, tipo assim, eu já trancei cabelo de criancinha pequena, lembro que já fiz de
uma bebêzinha de seis meses (mas ficou uma trancinha só) e lembro de uma senhora que
tinha uns 90 anos, com um cabelo todo branco e grisalho. Mas eu faço em pessoas negras e
pessoas brancas porque tem gente que gosta de fazer, normal.

Eu tô te perguntando isso porque uma das trancistas que eu entrevistei disse que ela
sente que a arte dela às vezes é mais valorizada por brancos do que por negros.

Sim. Pior que acontece isso também. Quando a pessoa tem aquele cabelo afro bonito, eu
olho pra ela e abordo pra fazer uma trança. Aí a pessoa chega e fala “ah, eu gosto do meu
cabelo assim, eu não vou por trança”. Aí eu penso “pô, a pessoa tá desvalorizando algo que
é cultural”. Aí quando eu tô, tipo, em Ipanema ou Ilha Grande fazendo tranças vêm os
gringos com aquele cabelo liso, alguns até loiros. Aí eles param, fazem a trança, ficam
satisfeitos, gostam. Já quando eu abordo as pessoas que têm cabelo crespo a maioria
infelizmente não gosta, não sei por que.

Das pessoas negras que você aborda e que não gostam de fazer trança a maioria têm o
cabelo natural, black, afro ou alisado?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

A maioria tem cabelo alisado. Porque, assim, nessa questão do cabelo, tem muita gente que
tem seu cabelo black, crespo, e não gosta de fazer.

E por que você acha que isso acontece?

Eu percebi que a maioria das pessoas que têm cabelo crespo, não gostam muito dele. Tanto
que, às vezes, a pessoa tem aquele black maravilhoso, lindo e crespo e vem aqui colocar
trança. Aí quando chega o período de tirar a trança eu oriento: “fica com o cabelo natural e
trata, deixa o cabelo respirar”, mas a pessoa chega e me fala “ah, e não consigo ficar com o
meu cabelo duro”. Aí eu falo “mas é o teu cabelo, cê tem que gostar do cabelo que é seu”.
A pessoa tem o cabelo crespo, mas não gosta. Eu acho que é porque já sofreram muito
preconceito né? Porque antigamente o pessoal ficava falando, arreliando quem tem cabelo
crespo.

Arre o que? [eu não tinha entendido a palavra dita por Jamile]

Arreliando. [Risos] É como se fosse bullying. Tipo, eu tenho o meu cabelo duro e alguém
vai falar “seu cabelo é feio, parece um bombril”. Porque antigamente tinha muito isso, né?
Quando a gente usava o nosso black um monte de gente falava isso, as pessoas não
gostavam muito. Hoje em dia não, o black tá na moda, tá em alta. Mas mesmo assim tem
muita gente que tem cabelo black, bonito e não gosta, então vai e alisa o cabelo. Mas [essa
opção por alisar] vai da identidade, da cultura da pessoa.

E você falou anteriormente sobre as pessoas de cabelo crespo que não conseguem
ficar sem tranças.

Sim, elas não conseguem ficar com seu próprio cabelo, não gostam.

Então você acha que a trança pode ser uma forma de esconder o próprio cabelo?

Com certeza. O rastafári é uma das formas de esconder o cabelo porque ele também ajuda
na transição. Às vezes a menina alisou o cabelo, vai cortar, fazer o big chop e não quer
ficar com o próprio cabelo curtinho. Aí a pessoa pega e bota uma trança rastafári pra ficar

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

mais bonita durante a transição. É por questão de estética, né? Só que aí o problema é que
essas pessoas com cabelo crespo viciam em usar trança e implante direto, sem intervalo, e
não aceitam ficar com o seu cabelo solto e natural. Ou então falam assim “ah, eu vou ficar
com meu cabelo solto, mas vou lá no Beleza Natural relaxar ele”. Complicado, né?

E você acha que as pessoas que fazem algum tipo de química no cabelo, como o
alisamento, acabam não se aceitando como negras?

Não, eu acho que não tem a ver, não. [Pausa] Essa aí é uma pergunta difícil, né? Por um
lado é uma questão de rejeição, por outro é uma questão de mudança. A pessoa tem o
cabelo crespo, mas enjoou, vai lá e bota um cabelo liso. Mas a maioria dos meus clientes,
das pessoas que eu atendi, são pessoas que têm o cabelo crespo, mas não gostam e por isso
que fazem química. Às vezes a pessoa tem um cabelo crespo maravilhoso, mas fala “pô, eu
não gosto do meu cabelo, queria ter o cabelo liso”, aí a pessoa vai e alisa o cabelo. Eu acho
que também é porque a sociedade impõe muito esses padrões, estereótipos de cabelo liso,
cabelo escovado. Cabelo cacheado agora é que tá na moda, mas há um tempo atrás não
tava essa moda toda, não.

Você disse que não vê problema em trançar cabelo de brancos, certo?

Não, eu gosto. Eu gosto de trançar cabelo de todo mundo. Até porque quando eu tranço
tem uma diferença de resultado no cabelo crespo, no cacheado ou no cabelo liso porque
cada fio tem uma textura. Então quanto maior a variedade de cabelo eu fizer melhor pra
minha prática, já que eu fico com vários modelos de tranças.

É que esse é um assunto polêmico. Algumas pessoas negras não gostam que brancos
utilizem tranças.

Ah, eu não tenho essa frescura, não. [Risos] Qualquer pessoa pode fazer trança. Sem
preconceito. Pelo menos eu tranço de todo mundo: já trancei cabelo de índio, de negro, de
branco, de loiro…

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E porque você acha que a trança gera tanta polêmica enquanto outros penteados
não?

Rapaz… [pensativa] Eu acho que é por causa dessa questão mesmo, se é algo que é de
branco ou de negro. Porque uma vez eu lembro que eu tava num salão fazendo um
permanente afro no meu cabelo. Aí chegou uma menina que era branca, só que ela tava
com o cabelo todo detonado de química. Aí a minha cabeleireira falou assim pra mãe dela:
“a única coisa que dá pra fazer nesse cabelo é cortar e pra ela não ficar joãozinho, pode
botar umas tranças”. Aí a mãe da menina olhou pra minha cara, pra cara da cabeleireira e
falou assim “minha filha, colocar trança? Não, minha filha não vai colocar trança, ela é
branca”. E ela falou isso como se fosse algo ruim, de negro, que o branco não pudesse
colocar. Aí eu olhei pra senhora e falei assim “olha, minha senhora, eu trabalho com
tranças. Porque é que sua filha não vai fazer trança? Por que ela é branca? Minha filha, sua
filha nem branca é”. Aí eu falei “vamo olhar a história: no Brasil quase não tem branco,
aqui é uma mistura de negro, índio e mulato, então a senhora não tem que vir com essa
coisa de ‘ah, minha filha não vai trançar o cabelo só porque ela é mais clara do eu’”. Então
ficou essa questão do preconceito de não querer trança por causa do tom de pele. Só que eu
acho que isso não tem nada a ver, qualquer pessoa pode usar tranças. E é até bom porque é
a valorização da nossa cultura.

Então pessoas não negras que usam tranças estão enaltecendo a cultura afro.

Eu acredito que sim. Esteticamente eu acho que fica melhor num negro. Mas não tem nada
a ver se a pessoa não usar tranças porque é branca. Até porque também tem umas tranças
que ficam melhor em cabelo liso, como a escama de peixe e aqueles penteados tipo
“trancinha da Frozen” [trança embutida] e coisa e tal. Fica melhor em cabelo liso porque
ela é mais detalhada e o fio quando ele é liso fica com um detalhe diferente. Tanto que se
você for fazer uma escama de peixe num cabelo cacheado ou num cabelo crespo já dá
diferença. Porém, em qualquer um dos cabelos pode fazer a mesma coisa.

Mas as tranças escama de peixe e embutida são tranças de origem africana?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Aí eu já não sei te dizer. A nagô é, a rastafári também. O twist, o twist senegalês e o dread
são técnicas africanas.

Mas então você acha que alguns modelos ficam melhor em negros ou brancos?

Não pela cor da pessoa, mas pelo fio do cabelo. Uma escama de peixe vai ficar melhor no
fio que é liso e longo. Agora uma trança nagô, por exemplo, eu até posso fazer em cabelo
liso, mas se eu fizer em cabelo crespo o caimento dela fica bem melhor.

Você chegou mora em Rio das Pedras e trabalha por aqui na maior parte do ano. Por
que escolheu trabalhar por aqui ao invés de Madureira, um local com tanto público
que faz tranças?

Quando eu vim pro Rio eu vim mais pra fazer trança lá na feira de São Cristóvão, no
Centro de Tradições Nordestinas. Eu cheguei a ir em Madureira porque eu sabia que lá é
onde vende o material mais barato para fazer tranças. Só que quando eu fui pra Madureira
eu falei “gente, aqui tem muito salão de trança, eu não vou vir trabalhar nesse bairro não!”.
[Risos] Nesse lado a concorrência dói demais. Aí eu peguei, meti o pé e vim pra Rio das
Pedras. Porque aqui não tem ninguém, né? Aí eu dou uma de rainha. [Risos]

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

6. JANUÁRIO GARCIA

A entrevista com o fotógrafo foi realizada no dia 15 de novembro de 2017, no


bairro de São Cristóvão, Zona Central da cidade do Rio de Janeiro.

Na opinião do senhor qual o peso do visual, do estético na reivindicação de direitos? A


estética pode ser política?

É um “visualmente estético”. [Risos] Ou “esteticamente político”.

Como é isso?

A gente tem que entender o seguinte: tudo começa na questão da colonização do Brasil.
Assim a gente percebe que o tratamento que foi dispensado aos africanos que chegaram
aqui é bastante desumano. O africano quando chegava aqui não era tratado como ser
humano, era tratado como uma peça; e uma peça tinha 4 metros e 78 centímetros. Ou seja:
pra uma peça de escravo eram necessários tantos escravos que juntos dessem 4 metros e 78
centímetros. [Reflete] A tendência disso era desumanizar esses africanos, quebrar com a
sua dignidade, com a sua autoestima, e fazer com que ele não tivesse referências da sua
história, da sua origem. [Refletindo sobre isso] A gente entende que existe uma história do
negro sem o Brasil. O que não existe é uma história do Brasil sem o negro. Porque os
africanos foram povos que trouxeram um conhecimento muito grande quando chegaram
aqui: foram eles que desenvolveram a pecuária no Brasil, a mineração, a metalurgia…
Quando algumas etnias africanas chegaram aqui e foram trabalhar na agricultura eles
foram trabalhar com arados de madeira (quando na África eles trabalhavam com arados de
aço e ferro porque já tinham desenvolvido a metalurgia), por exemplo. Então foi necessário
fazer com que a sociedade não tivesse conhecimento dessa história maravilhosa que foi a
contribuição dos africanos para a construção desse país. A realidade que a gente percebe é
que, com o passar do tempo, isso foi cada vez mais ocultado ao ponto da gente falar que
nós somos descendentes de escravos. Na realidade nós não somos descendentes de
escravos, nós somos descendentes de africanos que chegaram aqui na condição de
escravos. Ser escravo é uma categoria, não é um povo. O povo é africano. A partir dessa
longa história que vem lá de trás a gente chega rapidamente aos anos 1930, com a Frente

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Negra Brasileira; aos anos 1940, com o Teatro Experimental Negro e Abdias do
Nascimento; e nos anos 1970 chega a geração do Movimento Negro resgatando essa
questão. Isso foi muito importante pra nós porque naquela ocasião havia uma ditadura aqui
no Brasil e essa ditadura apoiava os colonizadores na África, enquanto nós, negros do
Movimento Negro, apoiávamos as lutas de libertação da África. Mas aqui eu quero fazer
um parênteses pra explicar o seguinte: quando se fala em Movimento Negro as pessoas
ficam meio sem entender achando que no Movimento Negro o negro quer separar do
branco, que o negro quer atacar o branco… Não é nada disso. O racismo no Brasil é
histórico, político, cultural e ideológico. O racismo faz parte da estrutura do pensamento
brasileiro. O racismo é uma questão nacional e, sendo uma questão nacional, deve ser
debatido por todos os setores da sociedade. O Movimento Negro é a comunidade negra
politicamente organizada que criou essa ferramenta para combater o racismo. Cabe aos
outros setores da sociedade, aos políticos, aos advogados, aos gays, a todos os setores da
vida social brasileira criarem as suas ferramentas para combater o racismo para que a gente
possa construir uma sociedade de igualdade e oportunidade. Fecha esse parênteses e
continuo: nós estávamos apoiando a luta de libertação da África e, ao mesmo tempo havia
a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Naquela época aqui no Brasil tinha uma
máxima que dizia o seguinte: “no Brasil não tem racismo porque o negro sabe aonde é o
lugar dele”. Então naquela época, “xingar” uma pessoa de negro era um palavrão, um
branco que, quando discutia com um outro branco e queria humilhá-lo dizia “ah, você
parece negro”. E essa palavra “negro” é considerada uma palavra suja na sociedade
brasileira. E foi exatamente essa palavra que a gente resgatou e transformou em uma
palavra de ordem: “sim, eu sou negro, e daí?”. Essa palavra, “negro” fez uma revolução na
comunidade negra brasileira: ela começou a desenvolver autoestima, começou a trabalhar a
questão da dignidade e, ao mesmo tempo, a construção da cidadania. Então a cultura veio
junto com isso. O cultural é político, mas o político não é cultural; o cultural transforma o
político, mas o político não transforma o cultural. A cultura africana é muito antiga, a
África deu contribuições importantes para a nossa civilização, sabe? Ela estabilizou o
mundo pra humanidade. Quando Maria, José e Cristo tiveram que sair da cidade porque o
rei tava mandando matar todas as criancinhas eles foram pra onde? Pra África. Jesus
cresceu moralmente e espiritualmente na África. Quando Maomé se viu perseguido pelos
feudais o que aconteceu? Ele levou o povo dele pra Etiópia e da Etiópia foi pra Meca. O
Rei Salomão, a Rainha de Sabá, Menelik I, Menelik II: o Judaísmo nasceu na África.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Moisés era um homem negro. Os faraós eram negros. A História não fala isso pra gente.
Por isso eu digo que existe uma história do negro sem o Brasil; o que não existe é uma
história do Brasil sem o negro. A África perpetuou o Cristianismo para a Humanidade,
estabilizou o Islamismo e deu o Judaísmo para a Humanidade. Existe uma história muito
grande que não é contada, que não é narrada. E nós, então, fomos procurar essa história pra
resgatar o que é nosso e desenvolver a nossa autoestima.

E como começou o seu contato com o Movimento Negro aqui no Rio?

Eu sou fotógrafo e, quando fui fazer fotografia, decidi que queria ser um fotógrafo
proeminente, queria ter um trabalho na fotografia. Mas pra fazer isso eu precisava me
preparar. Então a primeira coisa que eu fiz foi estudar Inglês porque eu sabia que os
melhores livros, a melhor literatura da fotografia estava em Inglês. Até os filmes
[fotográficos], naquela época eram todos importados e pra você entendê-los tinha que ler a
bula do filme, que também estava em Inglês. Paralelo ao Inglês eu fui estudar História da
Arte porque também era importante e eu já trabalhava com estética. Tinha um laboratório
de um grande fotógrafo (talvez um dos maiores fotógrafos que já apareceram no Brasil)
chamado George Racz [importante fotógrafo húngaro realizador do movimento
Photogaleria no Brasil] que ficava em Botafogo; lá era onde eu revelava os meus filmes.
Um dia esse fotógrafo me chamou, disse que gostava muito do meu trabalho e que toda vez
que eu levava meus filmes pra revelar ele olhava as fotos e achava muito boas. Ele
perguntou se eu queria ser assistente dele. Ser assistente do George Racz naquela época era
como um jovem que tá começando a ser fotógrafo hoje ser chamado pra ser assistente do
Sebastião Salgado, sabe? Eu fiquei estatelado, mas fui trabalhar como assistente dele.
Nessas alturas ele me pediu para substituí-lo num curso de fotografia no Museu de Arte
Moderna porque ele tinha umas outras coisas pra fazer, então eu ia dar aula e ele iria me
orientar. Aí eu conheci um militante do Movimento Negro que era aluno da turma de
fotografia do Museu, o José Ricardo de Almeida. Ele [José Ricardo] viu em cima da minha
mesa uma revista chamada Ebony, que era uma revista americana. Naquela época eu
acompanhava as lutas de libertação dos negros dos Estados Unidos através das revistas
americanas. Ele [José Ricardo] me falou que havia um grupo de negros se reunindo no
afroasiático da Cândido Mendes em Ipanema, todo sábado, pra discutir essa questão do
racismo no Brasil. Naquela época, também, eu trabalhava como colaborador do jornal O

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Globo, como fotógrafo. E ntão eu pensei: “sábado eu vou trabalhar e quando eu sair da
redação vou lá na Cândido Mendes pra ver”. Aí no sábado eu fui e quando eu cheguei lá vi
um grupo de umas 40 pessoas discutindo a questão racial no Brasil. Eu percebi e falei
“vocês tão começando a construir uma história aqui e eu acho que a melhor contribuição
que eu posso dar pra essa história é começar a fotografá-la a partir de agora”. Isso era 1975
e eu tô fotografando o Movimento Negro até hoje, em 2017. [Risos]

O senhor fez uma exposição no ano passado sobre os 40 anos do Movimento Negro,
certo?

[Reflete] Ano passado eu fiz uma exposição… [Pausa] Não me lembro! [Riso geral] Eu tô
com uma exposição no México, agora, no Museu Nacional das Culturas do México. Mas
no ano passado eu fiz exposição, sim, lá em Santa Teresa.

Foi sobre “africanidades no Rio”.

Ah, sim! [Risos] “Diásporas africanas no Rio de Janeiro”! Eu fiz! [Risos] Foi lá no Centro
Cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa. É isso mesmo.

Bem, ainda sobre a parte estética, eu queria saber, na sua opinião, o que define uma
pessoa como negra. Uma negra de pele clara e cabelos lisos poderia ser lida nos
Estados Unidos como latina, por exemplo. Então o que define como a pessoa será lida
socialmente: são os traços? A cor da pele? O cabelo crespo?

Vamos por partes. Eu não gosto muito de comparar Brasil e Estados Unidos, mas em certas
horas tem que se comparar pra poder haver um entendimento. Nos Estados Unidos o
processo de abolição da escravidão foi através de uma guerra, a Guerra da Secessão. Aqui
houve uma luta dos abolicionistas e, posteriormente, a assinatura de uma lei. Mas o que
aconteceu nos Estados Unidos: lá eles tiveram a segregação racial. Isso significou o
seguinte: negros de um lado, brancos de outro; banheiro pra preto, banheiro pra branco;
separados, mas iguais. Se tem um banheiro pra branco, tem que fazer um banheiro pra
preto; tem uma escola pra branco, tem que ter uma escola pra preto; tem uma universidade
pra branco, tem que ter uma universidade pra preto; tem um banco pra branco, tem que ter

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

um banco pra preto. Então lá foi assim. Por isso que a comunidade negra afro-americana
sozinha é a oitava economia do mundo. Se todos os negros dos Estados Unidos se juntarem
e resolverem fundar um país eles seriam o 12º em população e o oitavo país no mundo em
economia. É uma comunidade muito rica. O Brasil é a sétima, a oitava economia
[mundial]. Então o negro americano sozinho já é a mesma coisa [que o Brasil]. Aqui no
Brasil se adotou o sistema da discriminação racial. E o sistema de discriminação racial
começou a criar nuances para que a sociedade brasileira permanecesse tendo o branco
como maioria da população. Então apareceu o mulato, o moreno, o pardo, o preto, o negro.
E o que que acontece: quanto mais claro você for na sociedade brasileira mais
oportunidades você tem; quando mais preto você for, menos oportunidades você tem. Por
isso o “eu não quero ser preto, eu quero ser moreno, eu quero ser mulato, eu quero ser
pardo porque isso me dá uma condição melhor de vida”. Quando você começa a nivelar
por esse extrato de cor significa que, se você somar os não-brancos eles serão maioria.
Então o branco é minoria na sociedade brasileira. [Sorri] Quando perguntam “qual a
quantidade de brancos na sociedade brasileira?” e respondem “ah, a sociedade brasileira
tem 46% de brancos”. E os não-brancos? “54%”. [Risos] É quando a gente diz “ninguém
nasce negro, torna-se negro”. E aí a sociedade tem uma outra visão. Porque a gente tem
que entender uma coisa importante que é a construção do pensamento africano e a
construção do pensamento ocidental. São coisas que não batem porque a construção do
pensamento ocidental se baseia no “penso, logo existo” de Descartes, em que ele associa
essa equação de pensamento. Se você tentar colocar essa mesma equação no raciocínio
africano você vai ver que é bem diferente. E aí entra essa coisa que você tá falando, da
corporalidade. Porque a cultura africana tem como princípio a oralidade e a corporalidade.
Então quando na Europa o branco disse “penso, logo existo”, o africano disse “danço,
sinto, penso, logo existo” porque o corpo dele é importante. Quando a gente chega num
terreiro de umbanda (não sei se você já foi num terreiro de umbanda) os tambores tocam, o
santo desce, o orixá, o caboclo desce. E quando ele desce ele desce dançando. Através do
corpo dele ele sente o ambiente e quando ele sente que tá tudo bem ele chega pra você e
diz “boa noite, minha filha”; aí ele passa a energia, ele fala com você. [Sorri]

Tem um parte da minha pesquisa em que eu me aprofundo na história das tranças


africanas e chego na temática da cabeça como o ponto energético principal do corpo
humano, segundo várias religiões africanas. É o “ori”. [Januário interrompe, sorrindo]

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Transcrição das entrevistas

Sim, lógico!

Nas minhas entrevistas eu acabei conversando com muitas trancistas aqui do Rio
sobre a troca de energia que elas sentem enquanto trançam a cabeça de alguém.
Existem livros que tocam nesse assunto e contam que, quando os negros escravizados
chegavam ao Brasil, um dos primeiros procedimentos feitos era a raspagem de todo o
cabelo. Parece que, mais que uma medida higiênica, isso era feito para retirar as
identidades e as “coroas” (como eram considerados os penteados em várias
sociedades da África), já que cada uma das tribos africanas tinha a sua estética
característica e muitas eram rivais.

É isso que eu queria falar com você: na África, de um modo geral, nós temos vários países
e em cada país existem várias etnias. Em cada etnia existe um simbólico. Não pentear o
cabelo pode significar que a mulher é maluca pra uma determinada etnia, mas em outra
[etnia] pode ser moda [não pentear o cabelo]. Na Angola, por exemplo, se fala 36 línguas.
Então o cabelo, o “ori”, a cabeça da gente tem uma certa importância porque tem um
determinado significado nessa coisa da autoestima. Quando você mexe no seu cabelo você
pode perceber que você mexe no seu corpo inteiro; tudo muda. Você muda a sua roupa, seu
sapato, sua maquiagem… Isso é uma coisa muito importante. Também é muito interessante
porque as mulheres negras brasileiras, de um modo geral, absorveram essa herança que a
mulher africana deixou.

Às vezes até instintivamente, né?

É, eu acho que é uma questão de DNA, mesmo. E eu acho isso bonito. Eu acho que hoje a
mulher negra no Brasil tá tomando uma dimensão muito grande que vai mudar essa
estética brasileira.

E o que você pensa disso? Porque nos últimos tempos até empresas que antes
vendiam alisantes hoje comercializam produtos para “cachos volumosos”, “crespos
cheios”, entre outras coisas.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Na realidade a gente também tem que ver o outro lado, essa questão do mercado, né? Você
vê o seguinte: o Brasil tem hoje uma população de 200 milhões de habitantes. E o não-
branco brasileiro hoje corresponde a 54% da população. Ou seja: nós somos mais de 100
milhões. E o que significa isso, ser mais de 100 milhões no Brasil? Só os negros brasileiros
são um número maior que a população inteira do Mercosul (tirando o Brasil da contagem,
claro). Então se nós somos 100 milhões, digamos que 50 milhões não consumam, mas os
outros 50 milhões ainda são consumidores. Isso é um número maior que muita população
no mundo. Então o mercado começa a descobrir isso: que há uma possibilidade de
consumo entre essa população do Brasil. Você vê: até pouco tempo atrás era raro você ver
um anúncio de carro com um negro, um anúncio de Coca-Cola, de cabelo, de creme dental
com um negro. Não existia. Agora existe, agora as pessoas tão descobrindo que existe um
mercado consumidor de afro-descendentes nesse país que é importante e tem que ser
conquistado. Por isso é que está essa avalanche de anúncios com a presença negra na
televisão hoje.

Ao longo desses anos você fotografou muitos momentos do Movimento Negro


Brasileiro. Como você percebeu a autoimagem, a percepção que o negro tem acerca
de si? Como é a autoestima das pessoas que você fotografou?

Bom, o meu trabalho sempre se baseou num critério com relação à comunidade negra: o
desenvolvimento da autoestima, o resgate da dignidade e a construção de uma cidadania
preta. Porque na realidade nós temos uma cidadania relativa; a cidadania negra não é plena.
Então a gente luta pra ter uma cidadania plena, que significa igualdade e oportunidades.
Então no princípio eu sempre procurei trabalhar buscando extrair das pessoas essa coisa da
autoestima. “Por que?” Porque se você for perceber bem há espaços na mídia brasileira que
são reservados para os negros: as páginas de futebol, onde têm atletas negros; a página de
shows, música e entretenimento; e a quarta página, que é a página policial, com crimes.
Então esses são os espaços em que a mídia sempre procura colocar o negro. Acontece que
eu sempre procurei fazer as fotos e mostrar essas fotos (porque não adianta fotografar e
guardar) pras pessoas se verem, para as pessoas sentirem. A fotografia trabalha com essa
questão, ela resgata a autoestima das pessoas. E hoje existe o seguinte: ninguém tem
vergonha de dizer que é negro. Antigamente todo mundo tinha vergonha de dizer que era
negro “ah, eu sou moreno, eu sou mulato”. Houve uma pesquisa da PNAD [Pesquisa

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Nacional por Amostra de Domicílios] entre 1980 e 1990 sobre essa questão de cor. Na
pesquisa era pedido que a pessoa identificasse a própria cor. O resultado deu 183 nuances
de cores: “eu sou marrom”, “eu sou marrom bombom”, “eu sou marrom escuro”, “eu sou
chocolate”, “eu sou chocolate claro”, “eu sou moreno”, “eu sou moreno claro”, “eu sou
moreno mais ou menos”, “eu sou meio russo”, “eu sou sarará”, “eu sou sarará claro”, “eu
sou sarará escuro”... [Risos] Mas ninguém dizia que era negro! [Risos] Ninguém dizia.
Mas hoje não, hoje o censo diz “a população negra brasileira é de 54%” porque hoje todo
mundo começou a se identificar. E isso foi fruto de muita luta. Em 1990 nós fizemos uma
campanha chamada Não Deixe Sua Cor Passar em Branco em que a gente dizia pras
pessoas falarem a cor delas. Então isso tudo colaborou, com o trabalho fotográfico, pro
desenvolvimento da nossa sociedade.

Bem, o meu trabalho é focado em Madureira porque lá é o bairro com a maior


concentração de salões afro e de trancistas aqui na cidade do Rio de Janeiro.
Conversando com essas trancistas e com outras pessoas eu fui percebendo que
Madureira acabou se tornando um centro cultural negro.

Madureira e Oswaldo Cruz! [Sorri]

É, os dois! [Risos] Na sua opinião por que isso ocorreu?

Na realidade você vai ver o seguinte: com a reforma, Pereira Passos mandou pra longe toda
essa população que tava aqui [a entrevista foi realizada em São Cristóvão]. Muita gente
partiu pro subúrbio e Madureira foi um desses lugares. Madureira tem duas escolas de
samba importantes, que é o Império Serrano e a Portela; é o reduto do Natal [da Portela],
de grandes bambas do samba. Então ali se construiu uma nação africana, “afrocarioca”
(além da Pequena África, da Tia Ciata) e Madureira se tornou essa referência. [Pausa] Eu
fiz muita capa de disco. Tive a oportunidade de fazer capas de disco dos maiores músicos,
por assim dizer. Posso dizer pra você que fiz duas capas de Caetano, duas de Raul Seixas,
quatro de Jobim, duas de Fagner, duas de Belchior, Fafá de Belém. Leci Brandão fiz umas
quatro ou cinco, Tim Maia… Todos os grandes artistas brasileiros. E, naquela época, nas
gravadoras, se dizia o seguinte: o lugar que mais vende disco no Brasil é em Madureira. A
referência era “como é que tá a vendagem do disco em Madureira?”. Sabia-se que se

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

vendesse em Madureira venderia no Brasil inteiro. Então Madureira tem essa referência.
Tem aquele Mercadão, que é uma das coisas mais fenomenais que existem, parece os
mercados africanos. E aquela coisa da Feira das Yabás, que hoje tem lá. E, em função
dessa grande população negra, eu acho que é claro que essa coisa das tranças teria que
progredir ali mesmo.

Eu cheguei a estudar um pouco dos estilos dos cabelos afro das mulheres ao longo do
século XX e percebi que, mesmo após o movimento Black Is Beautiful, na década de
1960/1970 e a efervescência dos cabelos black power, houve um retorno, nos anos 1990
e 2000, à aparência alisada típica do processo de branqueamento. Na opinião do
senhor porque houve esse regresso?

Na realidade essa coisa do cabelo tá intimamente ligada com o processo de consciência da


pessoa. [Pausa] Isso é muito importante. Porque o negócio é o seguinte: muita gente tem
consciência do racismo, mas poucos têm a consciência racial. O que é que eu tô querendo
dizer com isso: o que eu tô querendo dizer é que muita gente tem consciência de
democracia, mas pouca gente tem consciência democrática. [Risos]

Traduza. [Riso geral]

Muita gente tem consciência de racismo, que é a consciência geral. E pouca gente tem
consciência racial, que é a consciência individual.

“Os outros fazem e eu não faço”, é mais ou menos isso?

[Faz sinal afirmativo com a cabeça] Cê tá entendendo? Porque eu tenho consciência do


racismo. Agora a minha consciência racial tá aonde? Aí é que a coisa pega. Porque eu
tenho consciência de democracia, acho a democracia legal, um sistema bacana, mas onde é
que tá a minha consciência democrática na hora que a minha empregada chega e diz “ô
patroa, eu vou ter que sair mais cedo hoje porque vai ter uma reunião das mulheres negras
e eu tava precisando participar porque eu tô educando a minha filha”. A patroa vai dizer “o
quê?”. [Risos] É isso. A consciência democrática, a consciência racial é muito importante,
mas tem a consciência individual; o indivíduo tem que exercer isso. E quando ele exerce

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

essa consciência isso reflete nessas coisas que você tá falando aí, de mexer com a imagem
dele, de mexer com a estética dele porque automaticamente ele vai desenvolvendo a
própria autoestima. Então ele quer ter um cabelo mais legal, quer ter uma apresentação
mais legal, uma presença mais legal, sabe? Ele vai dizer “goste de mim ou não, eu estou
aqui”, “eu sou eu e acabou”, “eu sou negão, qual o problema?”. Eu sempre falei isso. Eu
trabalhei num dos piores setores da sociedade brasileira pra um negro trabalhar, que é a
Publicidade. Eu não era aquele cara de Publicidade que ficava fazendo cafezinho
escondido dentro da agência. Eu era fotógrafo, eu trabalhava de frente. Eu trabalhava com
as grandes modelos brasileiras, com os grandes produtos brasileiros, os grandes clientes do
Brasil: Caixa Econômica, Banco do Brasil, Brahma, Petrobrás. Eu era fotógrafo de linha de
frente. Havia um grupo de uns 15 fotógrafos aqui no Rio de Janeiro que atendiam a todas
as agências da cidade e eu era um desses caras. A mesma coisa aconteceu quando eu fui
fazer capa de disco: o número de fotógrafos no mercado de disco era desse tamanhozinho
[gesticula, juntando os dedos polegar e indicador] e demorou para furar a barreira, mas
quando eu furei eu furei. Então as pessoas sabiam que eu sabia que eu sei que eu sou
negro. [Risos]

Sabia que eu sabia que você sabia? [Riso geral]

As pessoas sabiam que eu sei que eu sou negro. Eu não tinha vergonha, eu não tinha medo
de dizer “olha, isso aqui é racismo”, “essa pose, essa foto aqui é muito racista”.

E te ouviam? Porque hoje em dia quando há uma reclamação as pessoas tendem a


repensar, mas naquela época… [Januário interrompe]

Não, eu não tinha medo de perder o emprego. Olha, eu nunca tive carteira assinada em
nenhuma empresa, sempre fui um fotógrafo freelancer. Por que? Porque o que eu tinha pra
falar eu falava. Sendo empregado eu não poderia falar. Eu não quis que a Veja assinasse a
minha carteira, não quis que o Jornal do Brasil assinasse a minha carteira, não quis que o
Globo assinasse, O Dia, A Notícia. Eu queria trabalhar como colaborador. Por que eu
queria trabalhar como colaborador? Porque eu tinha autonomia, se eu quisesse poderia
falar e se o cara não gostasse e falasse “então você não trabalha mais aqui”, eu pensaria
“dane-se, tem outros lugares pra trabalhar”. Se eu fosse empregado não poderia fazer isso.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E eu sempre quis ter essa autonomia. Então as pessoas sabiam como eu sou, como é que eu
falo, que se eu não gostar eu vou falar. Ainda mais agora, que eu tô com 74 anos.

74?

74! [Risos]

Nossa, eu nunca diria essa idade. O senhor parece muito mais jovem!

[Sorri] Agora eu tô com 74 anos, sabe? Não tenho tolerância, não. Tudo o que eu tinha que
fazer eu já fiz. Se eu não gostei eu vou dizer. Então hoje em dia eu acho que é muito mais
fácil você dizer as coisas pras pessoas. E essa é a realidade que a gente precisa dizer.
Existe uma questão fundamental sobre a gente [povo negro] que é a de não ter medo, sabe?
Porque as pessoas colocaram o medo na gente. Quando você andar na rua, presta atenção
numa coisa muito importante: quando você ver negros andando na rua repare que grande
parte tá olhando pro chão, não pro horizonte. Quando ele tá olhando pro chão ele tá
fazendo isso [gesticula, juntando as duas mãos em direção ao chão], quando ele olha pro
horizonte ele tá fazendo isso [gesticula, afastando as duas mãos em direção ao teto]. A
carga que colocaram nos nossos ancestrais [gesticula, repousando as mãos nos ombros] é
muito forte, muito forte. Então a gente tem essa coisa ainda, do sistema escravocrata. Nós
estamos em 2017. Eu nasci em 1943. Se o meu pai me teve aos 23 anos é porque ele
nasceu em 1920, perfeito?

Sim.

Se o meu avô teve o meu pai com 20 anos ele nasceu em 1900. Se o meu bisavô teve o
meu avô com 20 anos ele nasceu em 1880, numa época em que ainda existia a escravidão.
Então imagina o seguinte: na segunda-feira nasce o meu bisavô, no período da escravidão,
e na sexta-feira nasço eu, que não sou mais escravo. Agora você imagine o seguinte: hoje
quem manda nessa sociedade, quem tem poder econômico nessa sociedade, quem tem
poder de decisão nessa sociedade são as pessoas que estão na faixa de 60, 70 anos.
Perfeito?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Sim.

E essas pessoas [que têm poder hoje] são diretamente descendentes das pessoas que
escravizaram o meu bisavô e fizeram os pais dele de escravos. São as pessoas que fizeram
fortunas explorando o trabalho dos pais do meu bisavô. Assim como eu descendo do meu
bisavô que foi escravo, essas pessoas de famílias ricas hoje têm fortunas que vieram do
trabalho escravo. E essas pessoas pensam e foram educadas dessa forma. Então eu vejo que
a sociedade produz isso, mesmo. Então não dá pra você ficar calado sabendo que os caras
fizeram fortuna explorando trabalho escravo há poucos anos, cerca de quatro, cinco
gerações atrás.

Bem, fazendo um breve retrospecto: nós falamos sobre a relação entre estética e
política, sobre o movimento negro, o cabelo crespo, espiritualidade e questão corporal
nas religiões africanas, autoestima, Madureira e consciência racial. Tem mais algum
tópico que não tocamos e que o senhor ache interessante abordar?

Eu acho que falamos tudo. Na realidade eu acho que o que todos nós, negros brasileiros,
precisamos é exatamente isso: entender e participar do processo de construção da nossa
autoestima. A nossa luta passa pela educação. Se não passar pela educação a gente não vai
conseguir avançar. A nossa luta passa pela solidariedade de brancos progressistas que
podem atuar junto conosco. Se esse branco progressista não for nosso aliado a gente não
vai conseguir fazer uma transformação social nesse país. Cada negro no Brasil tem um
branco impregnado dentro dele. É preciso que esse branco saia pra gente poder criar uma
aliança e fazer a transformação social brasileira, senão não dá.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

7. JESSICA SILVA

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 14 de julho de 2017, no bairro do


Catete, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.

Há quanto tempo você está trançando?

Há três meses.

Mas você falou que começou a trançar pequenininha.

É que quando eu era criança eu usava trança, maria-chiquinha, essas coisas. Minha mãe
que fazia em mim, mas eu fui aprendendo a fazer. Eu usei relaxamento no meu cabelo
durante muito tempo, da infância até adolescência e aí quando eu quis passar pela transição
optei por usar trança. Eu não quis cortar o meu cabelo curtinho, fazer o BC [BC é a
abreviação de big chop, termo utilizado pelas pessoas que passam pela transição capilar
para se referirem ao corte em que toda a parte com química do cabelo é retirada]. Então eu
comecei a usar tranças grandonas com cabelo sintético porque até então eu trançava só
com o meu cabelo mesmo. Eu comecei a fazer essas tranças no salão e depois fui
aprendendo a fazer sozinha vendo alguns vídeos na internet. Fiquei uns dois anos fazendo
trança pra poder passar pela transição. Depois, quando já tava com o meu cabelo natural
grandinho parei de usar trança e fiquei com ele black. Só que quando comecei a trançar o
meu próprio cabelo nunca tinha pensado em trabalhar com isso e trançar outras pessoas. Aí
a situação financeira foi apertando e eu vi nas tranças uma forma de complementar a minha
renda. Eu pensei: trancistas têm várias por aí, eu não vou simplesmente começar a trançar
só por trançar. Então pensei em fazer alguma coisa diferente, que eu nunca tinha visto. Aí
criei um projeto chamado Afropop, que fornece tranças (por enquanto só a trança solta,
porque eu ainda não sei fazer a nagô) a preços populares, com o intuito de atender
principalmente as mulheres da periferia que querem aceitar o seu cabelo da forma natural,
crespo, e vêem nas tranças um pontapé inicial pra aceitação do seu cabelo, mas que ao
mesmo tempo não têm condições de arcar com os custos desse serviço, que geralmente é
muito caro. Então eu uni a minha vontade de trançar com a representatividade e com a
autoestima das mulheres, também. Já tem dois meses que eu tô nessa empreitada e tô

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

trabalhando forte na divulgação. Quero atingir o número máximo de pessoas possível. Vou
colar cartazes por aí, nas comunidades, nas favelas, e espero que [o projeto] cresça e atinja
bastante gente. Mas a minha divulgação por enquanto tá sendo mais pela internet.

E por enquanto qual público mais tem te procurado para trançar?

Eu atendo mais adolescente porque, como eu tô começando agora, acabo demorando


bastante, então você tem que ter o dia todo livre. E adolescente não trabalha, só estuda. Só
que a maioria das adolescentes que eu atendo tão passando pelo processo de transição. E eu
tenho achado bem legal, ver o resultado e a expressão das meninas quando olham o cabelo
trançado. É bem bacana.

Você falou sobre as tranças no processo de transição. Muitas meninas acabam, depois
da transição, optando pelo cabelo black e solto, enquanto outras se mantém nas
tranças. Fale um pouquinho do papel das tranças nesse processo de passagem da
química pro natural.

Então, eu passei por isso também. No meu processo de transição eu não quis cortar meu
cabelo curtinho porque eu fiquei com medo de achar feio e de não me aceitar com o cabelo
curto. Mas se fosse hoje em dia, que eu já tenho uma visão diferente, eu cortaria tudo bem
curtinho mesmo pra acompanhar todo o processo de ver o cabelo crescendo e se
fortalecendo. Rola muito isso, mesmo, da pessoa usar a trança e passar a se aceitar só de
trança, não conseguir aceitar a estrutura natural do cabelo. Porque na verdade a transição
também é mental. Não é só você fazer trança e “pronto, me aceitei”, não é assim. Eu acho
que quando as pessoas passam a se aceitar somente de trança, não passaram ainda pela
transição mental, só pela [transição] estética. E essa transição mental é muito importante
porque é quase uma reeducação: a gente aprende a cuidar do nosso cabelo porque, como a
maioria das meninas negras alisam desde criança, não sabem como é a estrutura natural do
cabelo.

Então você acha que algumas meninas usam as tranças para esconder o cabelo
natural?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Eu acredito que sim.

[nesse momento, Danieli, cliente de Jessica que estava sendo trançada participa da
conversa]:

Danieli: Eu acho que, às vezes, as meninas não querem mais alisar, não querem mais usar a
química. Mas é isso o que a Jéssica falou: esse é um processo de autoconhecimento. É uma
busca difícil de auto-conhecimento. É doloroso mesmo. Eu lembro que tinha uma menina
lá de Porto Alegre que usava trança direto. E aí ela estava comigo e com uma outra garota,
a Cati, e a gente cortou o cabelo dela. E ela ficou muito emocionada, começou a chorar.
Era difícil pra ela se olhar no espelho e se ver daquele jeito. E isso porque ela já não usava
mais química; tava usando trança, mas o cabelo ainda tava curto, tinha resquícios da
química. E a gente tava conversando com ela pra dizer que pro cabelo crescer, você tem
que tirar a ponta com química porque o corte acelera o crescimento do cabelo já que
naquela ponta com química o teu cabelo tá morto, não tem vida. E foi muito difícil pra ela
se olhar no espelho e conseguir se enxergar daquele jeito, se reconhecer. Então eu acho que
é um processo de dentro pra fora, um autoconhecimento. Porque o cabelo também tem
vida, né? Então a gente precisa potencializar essa vida. E é um processo doloroso, difícil e
às vezes não temos apoio nem na nossa família, que é o lugar que a gente deveria ser
acolhida. Todo esse processo racial faz da gente uma vítima por querer buscar um padrão
de beleza que não é o nosso e que a gente não vai conseguir atingir.

Que diferença vocês notam entre as tranças e outros penteados, como coque, rabo de
cavalo, cabelo solto...

Danieli: Eu acho que a trança tem diferença em comparação com um cabelo black, aquele
cabelo afro solto e armado. A trança é muito mais aceitável, segue aquele caimento ao
redor do rosto.

Jessica: Isso, aquela coisa do cabelo longo, de “bater cabelo”.

Danieli: É, eu acho que essa coisa do black, do armado, causa muito impacto socialmente
falando.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Várias trancistas que eu entrevistei também levantaram esse tema do cabelo black
versus cabelo trançado. Então vocês acham que as tranças têm um papel importante
nessa “transição mental”?

Jessica: É porque o principal não é você assumir o seu cabelo afro, mas aprender a aceitar a
estrutura, a forma do próprio cabelo. “Porque, pô, ele não tem o cacho tão definido”: mas o
seu cabelo é assim, ele não precisa ter o cacho definido. Eu não preciso ter um black, um
afro gigante e definido pra ser bonita. Eu tenho que aprender a aceitar o meu cabelo do
jeito que ele é, a estrutura dele. Acho que assim como teve a ditadura do cabelo liso, agora
tem essa ditadura do cabelo afro definido, com cachos. E eu acho que a gente tem que se
libertar de qualquer ditadura e aceitar o nosso cabelo da forma que ele é, na estrutura
natural dele, seja ele cacheado, black ou tipo 4 C [textura de cabelo crespo indefinido e
bastante volumoso].

E o que vocês acham dessa “geração tombamento” que está “lacrando” por aí?

Jessica: Cara, eu acho importante porque as pessoas tão passando a se enxergar mais
esteticamente, se vestindo do seu próprio jeito. Mas, por outro lado, o que me preocupa
também é que muitos que se intitulam parte da “geração tombamento” tão focados só na
estética quando a questão cultural, a questão histórica do povo africano e das suas origens,
não têm espaço. Fica um movimento estético e só. E é isso que eu acho preocupante nessa
geração.

Danieli: Eu ouço falar, mas, de fato, nunca tive oportunidade de diálogo com ninguém
nessa geração. O que me parece, olhando de longe, é que é isso: a questão principal talvez
seja a estética, essa coisa do simbólico - o que não deixa de ser importante porque a
identidade é atravessada pela estética. Então eu acho que precisa haver um reconhecimento
da própria história, de onde você veio e da sua raiz que talvez pra essa geração não esteja
no livro. Pra mim é extremamente importante ler e ter referências da literatura, mas talvez
pra essa geração haja uma outra forma de se identificar com isso. Talvez não seja
propriamente o livro ou a escrita, talvez perpasse por outra forma de diálogo e de
entendimento. Mas eu penso que não pode ser um vazio: a estética pela estética. A estética

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

tem que remeter a algo e esse algo diz alguma coisa sobre você, quem você é, qual é a
mensagem que você está passando pro mundo e pras pessoas. Porque tem isso: a trança
remete a uma mensagem, o black remete a uma mensagem, o dread remete a uma
mensagem, o turbante remete a outra mensagem. São narrativas diferentes, com textos e
gerações totalmente diferentes e eu acredito que, de uma certa forma, isso remete à questão
ancestral, da raiz. Mas eu não sei como é que essa dinâmica acontece porque, de fato, eu
não tenho oportunidade, como eu disse anteriormente, de poder conversar, debater, discutir
e trocar ideia com pessoas dessa “geração tombamento”.

Jessica: Mas eu também vejo esse movimento como uma forma de resistência. Porque, se
você for reparar nas pessoas da “geração tombamento”, é todo mundo celebridade, artista,
influenciador na internet. E aí eu fico pensando que “na vida real” essas pessoas não são
socialmente aceitas. Tipo, numa entrevista de emprego: se eu chegar com uma trança
gigantesca e colorida eu não vou ser bem vista, socialmente falando. Então eu acho que
você se portar assim como eles fazem é uma forma de resistência.

Resistência ao que?

Jessica: Resistência de mostrar que o meu estilo é esse, que eu sou assim e que eu me
aceito assim. Mas eu vejo essa resistência só dentro do movimento porque fora ainda não
se é aceito. Eu, por exemplo, não me considero geração tombamento, mas já me disseram
que eu faço parte dessa geração por conta do meu cabelo [black power descolorido]. E
quando eu fazia estágio o meu cabelo não tava dessa cor, tava da cor natural porque era
uma empresa e falaram pra mim que ele chamava muita atenção. É muito estranho.
[Pausa] Você resiste dentro do movimento, você é bem aceito dentro do movimento,
dentro da “geração tombamento”, mas do lado de fora ainda é muito complicado ser você
mesmo e resistir, ainda tem muita coisa pra lutar. Por isso que eu acho que não tem como
ficar só na estética.

Ainda dentro desse tema da “geração tombamento”: existem muitos homens e


mulheres que acabam aderindo à moda afro, que está “em alta”. O que vocês pensam
disso? É um mundo globalizado em que todos vestem o que quiser ou entramos na
polêmica apropriação cultural?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Danieli: Olha, eu penso que é apropriação cultural, sim. Porque é isso que você trouxe no
começo e que agora eu acabei reforçando: a trança remete a um significado, usar o turbante
de um jeito tem uma importância; ele é um símbolo, é um signo pra população africana,
uma herança, uma informação. Certos símbolos remetem a nossa identidade, uma
identidade africana, uma identidade negra. Então há uma razão social, cultural, política e
identitária ali pra se estar usando um cabelo natural, um cabelo black. Há uma razão para
eu estar fazendo trança hoje. Se você pensar em 10 anos atrás, por exemplo, pra gente,
como mulheres negras, sair com um turbante na rua era uma coisa que escandalizava. Só
que quando você usa esse turbante, muitas pessoas negras iguais a você se identificam.
Mas hoje é moda usar turbante. Agora por que e qual é a razão que diz que uma mulher
[branca] usando turbante é bonito, é moda, enquanto pra uma mulher negra… Por que os
símbolos, os significados são tão diferentes? Qual a razão pra uma mulher branca que usa
turbante ser extremamente aceita e uma mulher negra não? Por que o significado é tão
diferente? Historicamente a capoeira era extremamente mal vista, era proibido se reunir pra
jogar porque era “coisa de preto” e “coisa de preto tem que ser proibida”. O que é que
mudou de lá pra cá? Por que para as mulheres brancas isso se torna algo aceitável, belo e
libertário sendo que, pra gente, historicamente, isso foi totalmente negado? E mais: quando
as mulheres brancas utilizam esses símbolos, elas estão os utilizando por uma razão
puramente estética; não remetem a essa questão da identidade, a essa questão simbólica,
política e social que pra uma mulher africana, pra uma mulher negra remete.

Tem algo a declarar, Jessica?

[Riso geral] Não, ela já me contemplou!

E você trança mulheres brancas?

Jessica: Tranço. E eu tranço porque não vejo problema da pessoa usar. Eu sei que tem essa
questão da apropriação cultural, mas eu, sinceramente, não vejo problema em quem vê a
trança só como uma questão estética. Por exemplo: eu já atendi meninas brancas que
estavam passando pelo processo de transição porque tem o cabelo cacheado. Então por
mais que tenha uma história, que tenha um significado, eu me sentiria mal em estar

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

negando fazer o cabelo de uma pessoa porque ela é branca, sabe? Eu trabalho com a
autoestima da mulher. Então eu tranço e não vejo problema nisso porque eu sei que é
importante pra elas também. Todas que eu atendi estavam passando por esse processo de
transição já que usavam química e queriam voltar pro cabelo cacheado ou ondulado. Elas
viam na trança uma forma de passar por essa transição.

Daniele, antes de começar a gravar nós estávamos conversando sobre as pessoas que
alisam o cabelo e seus possíveis entendimentos acerca de si mesmos. Pode falar um
pouquinho mais sobre isso?

Danieli: É que o peso do cabelo é extremamente forte porque remete à identidade, a um


autoconhecimento. O cabelo natural remete a quem você é, remete à sua raiz. É um
processo de dentro pra fora, mas que quando vai pra fora o outro te reconhece. Eu,
particularmente, acho que quando a preta usa o cabelo natural ela fica muito mais linda. Há
uma transformação que não é só no cabelo, não é só daqui [gesticula, pondo a mão na
cabeça] pra cima, não é só na cabeça; é uma transformação no rosto, no jeito… A pessoa
fica diferente. Quando eu vejo uma menina negra que tinha o cabelo alisado e usando o
cabelo natural, um black, nossa, que diferença! Parece que dá uma luz no rosto. É uma
transformação mesmo e não é só no cabelo. Existem alguns códigos que perpassam pelo
seu comportamento, como você se identifica, como você se vê, como você se comporta,
como você se relaciona com as pessoas culturalmente, socialmente e politicamente. E
quando você assume uma identidade racial você passa a transmitir mensagens o tempo
todo. Mas não é que exista a pessoa mais negro e a menos negra, eu não acredito nisso.
Mas acredito que existe um posicionamento. Porque quando você não passa pelo processo
de tocar e se olhar no espelho com o seu cabelo natural, significa que há um resquício de
algo que provavelmente ainda não esteja tão bem resolvido. Já quando você usa o seu
cabelo natural, você, querendo ou não, se comunica com as pessoas e elas passam a se
identificar com você. Porque a gente é um espelho: eu me vejo no outro, eu me vejo em
você. Você é uma mulher negra e eu me vejo em você assim como provavelmente você
também se vê em mim. É um reflexo.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Quando você diz que negros que não aceitam o próprio cabelo natural podem ter
resquícios de coisas não bem resolvidas, quer dizer eles ainda não se aceitam
enquanto negros?

Danieli: Sim.

E você acha que o mesmo pode acontecer com pessoas que migraram para o cabelo
natural devido a essa tendência da transição capilar nos dias de hoje? Pessoas que
cederam à pressão de sair da química, mas que ainda não se reconhecem como
negros?

Danieli: Acho que sim. Porque é um processo, né? Essa transformação, essa transição é um
processo de rompimento, de ruptura. Vou citar mulheres como exemplo porque pra nós
[mulheres] a questão do cabelo é mais emblemática do que para alguns homens. Eu
acredito que, por exemplo, uma mulher negra que se reconheça, saiba quem é, conheça
suas raízes e de onde veio, ainda sofre racismo quando usa o cabelo com química. Ela não
deixa de sofrer racismo quando usa o cabelo alisado porque ela é uma mulher negra e isso
é o que chega aos outros: ela ser uma mulher negra. Pode ser que em alguns determinados
espaços, por conta dela usar o cabelo alisado, ela não tenha minimamente uma maior
aceitação. De outro lado, por exemplo, uma menina negra que usa o cabelo natural só
porque agora está na moda usar o cabelo afro: há uma onda, há um modismo. Então eu
acredito sim que algumas meninas estejam usando o cabelo natural porque agora é moda.
Mas a questão é: e depois? E depois que a moda passar? Usar o cabelo natural não quer
dizer que você esteja 100% (nem sei se existe 100%) resolvido com essa questão. Porque
você vai passar por vários episódios de racismo por estar usando seu cabelo natural mesmo
que de fato ele não signifique uma consciência racial política. Às vezes pode ser mais uma
moda, mais uma questão de momento, do que de fato um reconhecimento de que aquilo,
aquele uso do cabelo natural, faz parte de um autoconhecimento e de uma identidade
coletiva.

E o que vocês acham dessa mudança de rumo dos últimos tempos? Desse aumento da
valorização da beleza do negro?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Danieli: O ser belo é ser branco e é ter o cabelo liso. E isso é intrínseco, né? Às vezes não é
verbalmente, não é diretamente. Tá nas entrelinhas, tá em tudo: tá na propaganda de
xampu, que diz que para ficar bela você deve usar o X. E qual é o belo ali? O belo é uma
mulher branca de cabelo liso escorrido. Hoje não, né? Hoje as propagandas mudaram. Mas
acho que essa mudança ocorreu mais porque o sistema capitalista acaba se apropriando de
tudo: ele tem que criar os nichos de mercado, então quando veem que o cabelo crespo tá
bombando, o que eles fazem? Uma linha completa pra cabelo crespo e ainda colocam as
pretinhas pra fazer as propagandas divulgando aquela marca. Pensam muito mais no lucro
e nas vendas do que no empoderamento em si.

Entendi! Bem, a minha última pergunta vai pra Jessica. Pronta, Jessica?

Sim! [Risos]

Qual a sua primeira lembrança, o que você pensa quando falamos em tranças?

Trança? [Sorri] A primeira palavra que me vem à cabeça é resistência porque a minha
relação com a trança vem desde criança. Eu usava antes mesmo de passar qualquer produto
químico. A minha mãe sempre trançou o meu cabelo. Depois eu passei pela fase em que eu
comecei a usar química e deixei de fazer trança. Quando já estava adolescente, indo pra
fase adulta, eu quis me libertar da química e voltar ao meu cabelo natural e aí eu voltei a
usar tranças. Então pra mim elas têm um significado muito forte de resistência e de
aceitação do meu cabelo natural. Porque depois que eu passei pela transição com as tranças
eu comecei a aceitar o meu cabelo crespo, o meu cabelo afro. E as tranças têm um peso
muito grande nessa minha trajetória de transição e de aceitação. Por isso eu acho que
resistência é a palavra principal.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

8. JULIANA MARINHO

A entrevista com a trancista foi realizada nos dias 8 de julho e 10 de agosto de


2017, no bairro de Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Primeiro eu gostaria de te perguntar quais são as suas primeiras lembranças quando


falamos de tranças.

Ah… Eu lembro de felicidade! Eu adorava ser trançada porque eu odiava pentear cabelo,
de manhã era uma treva [para pentear]. [Risos] Uma coisa que me vem muito [na cabeça]
quando eu lembro de trança é que era um momento meu com a minha mãe: eu sentava no
chão, entre as pernas dela e ela trançava o meu cabelo. Era um momento meu e dela, em
que ela reservava todo aquele tempo pra cuidar de mim. Não que ela não cuidasse, mas
quando ela trançava era um momento mãe e filha, não de provedora, aquela pessoa que
tinha que colocar comida dentro de casa.

Nas nossas conversas, antes de nos conhecermos pessoalmente, você contou que
começou a trançar com 14 anos.

Isso.

E que quem te ensinou foi a sua mãe.

Exato.

E quem ensinou a sua mãe foi a sua avó?

É porque a minha avó penteava o cabelo das filhas dela, aí elas iam aprendendo e uma
ficava penteando o cabelo da outra.

E era uma experiência dolorosa? Algumas crianças que têm raiva de trança porque
dói.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Que nada! A criança preta que nunca botou um pano na cabeça pra jogar e fingir que tinha
cabelo não é uma criança. [Risos] Eu passei por isso. Eu não tinha cabelo grande e meu
sonho era ter cabelo grande, então botava pano na cabeça. Então quando a minha mãe me
botou trança… Era doído? Era doído. Mas eu tava jogando cabelo. [faz movimento com a
cabeça, de um lado para o outro]

E você já fez alguma química no seu cabelo?

Sim, já. Tudo que você puder imaginar. [Risos]

E quando você começou o processo de transição?

Eu nunca liguei muito pro meu cabelo. Então eu não vou conseguir te falar ao certo quando
eu decidi parar [de fazer química]. Eu simplesmente parei até porque eu botava trança e
passava química (uma lógica que eu não consigo entender, mas fazia isso). Aí eu resolvi
parar. Mas exatamente quando resolvi parar eu não vou saber te falar.

E aí quando você decidiu que você queria trançar o cabelo dos outros?

Quando eu comecei a querer sair e não tinha dinheiro! [Risos] Porque a minha família é
aquela típica família de periferia: a mãe que é a mãe, pai e provedor, e os filhos. E aí ou a
minha mãe me dava mesada ou a minha mãe botava comida na mesa. E eu e a minha irmã
nunca fomos criadas pra ficar pedindo as coisas pra minha mãe, ela sempre ensinou a gente
a correr atrás daquilo que a gente queria. Foi aí que eu comecei: eu aprendi a fazer
[tranças] em mim primeiro, depois fui chamando um primo meu, um amigo meu e foi
quando eu conheci uma menina chamada Juliana Dark. Eu comecei a fazer o cabelo dela,
ela tinha algumas amigas e foi me indicando. Foi assim que eu comecei, mas, até então eu
não vivia de trança porque tinha medo, achava que não ia conseguir. Tanto que,
basicamente, eu só trabalho com tranças há dois anos, mas faço tranças há 12.

E você chegou a comentar que procura muitos tutoriais no Youtube pra poder
aprender.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Sempre.

Por exemplo: você falou que aprendeu a fazer trança box braid.

A box braid foi a minha mãe que me ensinou a fazer. A gente conhecia como trança
rastafari. Aí vieram as outras, como a twist, que eu aprendi a fazer em 2013 pro meu
casamento.

E como você vê esse movimento de valorização da estética afro?

Cara, eu vejo como uma coisa muito boa, de verdade. Mas ainda há muito a se correr atrás
não só em relação ao movimento das tranças, de usar o próprio cabelo, mas em tudo. Até
mesmo não só na sociedade, como um todo, mas dentro da sociedade negra, entre a gente.
Negro não valoriza negro. Negro não valoriza o meu trabalho, o trabalho de uma artesã
negra. Se eu falar pra você que a minha trança é, por exemplo, mil reais, não são todos,
lógico, mas a maioria não vai pensar em como é trabalhoso trançar; vai pensar apenas no
valor. Agora se eu for falar pra uma outra pessoa que não tá na minha pele, não é negra e
não sabe da minha luta, talvez ela compreenda mais do que um negro. E é isso que a gente
tem que mudar: falta negro valorizar negro. Mas nós estamos caminhando, aos poucos a
gente chega lá.

Então você acha que o trabalho de trancista não é valorizado.

Ainda não é. Você viu aqui: eu comecei uma trança 10 horas da manhã e terminei quase
agora [nesse momento o relógio marcava quase 18h]. São sete horas de trança, não são 20
minutos. São sete horas eu em pé, são sete horas às vezes sem ir ao banheiro, sem almoçar.
Então quando a gente fala o valor, a pessoa geralmente pensa “ah, [a trancista] tá
surtando”. Só que quem pensa isso é igual a mim: negro. O triste é ver que outras pessoas
valorizam mais o meu trabalho do que o meu igual. Lógico que não são todos, mas a
maioria dos negros que eu tenho contato normalmente não valorizam o meu trabalho, o que
eu faço, acham que é brincadeira, “coisa de fundo de quintal”. Não é. É um trabalho e é um
trabalho complicado. O povo negro tá unido em muitas coisas, só que quando é pra

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Transcrição das entrevistas

levantar, quando é pra ajudar, a gente ainda tá muito desunido. E eu acho que a gente tem
que começar a valorizar o nosso igual, levantar o nosso semelhante.

E por que você acha que isso acontece?

É uma coisa que já tá embutida, já é imposta. Parece que o que o branco faz é melhor do
que o que o negro faz. Mas eu não tô falando que a culpa disso acontecer é da gente, não. É
uma coisa que a sociedade nos impôs. Eu tô falando do meu trabalho, mas acho que é uma
questão geral. Você vê um negro que é super qualificado e um branco que não é tão
qualificado quanto o negro, mas, se ele é branco, ele vai ser considerado melhor mesmo se
o negro tiver cinco faculdades a mais que o branco. É como se tudo que uma pessoa branca
faz fosse melhor do que o que a gente faz. E a gente já tá tentando mudar isso com vários
movimentos que batem nessa tecla do dinheiro negro circular dentro do povo negro,
porque isso não acontece. A gente às vezes valoriza muito o de fora e não o de dentro.

E, pra você, além da estética, o que as tranças simbolizam?

Cara, essa é uma questão muito complicada pra mim porque na maioria das vezes quando
uma pessoa senta na minha cadeira ela não quer dizer nada com a trança, ela só quer passar
pela transição. E eu não acho isso errado. Só que, pra mim, a trança simboliza a minha
identidade. Eu amo trança, eu amo trançar, eu amo botar e tirar cabelo, eu amo mudar.
Agora pra outras pessoas na maioria das vezes não é, na maior parte das vezes elas
colocam porque tão passando pela transição, não gostam de pentear o cabelo ou então tão
de saco cheio de ficar arrumando o cabelo todo dia de manhã e querem dar um tempo.

Você acha que a postura das mulheres muda quando elas trançam o cabelo?

É a autoestima. [Sorri] Eu acredito que, pra mulher, a trança é um sinal de poder. Ela traz
uma questão do passado, de resistência, é claro, mas ao meu ver ela mexe muito mais com
a autoestima. Por que o que acontece: quando uma mulher não sente seu cabelo bonito, ela
não se sente bonita, independente se esse cabelo é natural ou não. Então vamos supor ela
[aponta para a cliente que está fazendo cabelo]: se ela chegasse aqui com um black
enorme, lindo e maravilhoso, não adiantaria se eu falasse “nossa, o seu cabelo é lindo e

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

maravilhoso”, se ela não estivesse se sentindo bem com ela mesma. É a autoestima. Eu
costumo falar que quem mexe com trança, quem mexe com cabelo e com maquiagem tá
mexendo com toda a estrutura de uma pessoa. Aqui no salão a gente não tá só fazendo um
cabelo, a gente tá mexendo com a imagem que a mulher vai ver no espelho e com o jeito
que ela vai enxergar ela mesma; a gente tá fazendo uma mulher se sentir mais bonita. É
muito engraçado, por exemplo, quando essas meninas que fazem trança começam a ver o
cabelo quase pronto. A a primeira coisa que elas falam é “preciso fazer a sobrancelha”.
[Risos] E elas falam isso porque começam a querer ficar mais bonitas. Tipo assim: “o meu
cabelo tá lindo, então eu vou ter que acompanhar [a beleza do cabelo]”. Elas começam a
querer se cuidar mais. É diferente de quando a gente acha o nosso cabelo horroroso e não
quer fazer nada porque tá se sentindo feia. A gente pode estar com a melhor maquiagem,
com a melhor roupa, mas se o cabelo não estiver legal, a gente não vai se sentir bem. É
como se fosse Sansão com o poder do cabelo. Então a gente trabalha muito com a
autoestima. E outra: tem muito preconceito quando a pessoa, principalmente a mulher, tá
passando pela transição [capilar]. Mais ainda quando essa transição é pra um cabelo
crespo, e não pra um cabelo cacheado. Porque se ouve piada: “cabelo de bombril, cabelo
duro, isso e aquilo…”. E, assim, por mais que a gente tente ser mega forte e confiante,
palavras machucam.

Nas entrevistas que eu tenho feito algumas trancistas disseram perceber que certas
meninas que trançam cabelos durante a transição acabam ficando com vergonha de
mostrar o cabelo natural quando têm que tirar as tranças durante a manutenção.
Desse modo, você acha que as tranças podem ser usadas como uma forma de
esconder o próprio cabelo?

Não, eu não acho que elas sejam uma forma de esconder. É porque o cabelo na transição é
feio de verdade, não é bonito. E também não é uma forma de esconder porque toda menina
que põe trança sempre escuta a mesma coisa: “por que você botou trança?”. E ela não tem
vergonha de falar “estou passando pela transição”. Então não é que ela queira esconder; ela
só não vê o cabelo bonito naquele momento e não tá sabendo cuidar muito bem, não se
sente atraente. Quando o cabelo dela chegar em um black mega natural ela vai se sentir
bonita. E aí a trança, ao mesmo tempo que auxilia na transição porque acaba facilitando o
teu cuidado, te deixa bonita, faz você se sentir bem, entendeu? Eu não acredito que seja

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

uma forma de querer esconder o cabelo porque se fosse assim eu poderia perguntar “por
que você tá usando [tranças]” e a pessoa inventar n desculpas, tipo “ah, porque eu quero”.
Mas não, a mulher tem o maior orgulho em falar “eu estou passando pela transição”. Então
eu acho que não é uma forma de querer esconder, não.

E você acha que a trança é um penteado feminino?

Não.

Mas se a trança (principalmente as de origem africana) não é um penteado feminino,


por que você acha que a quantidade de pessoas que fazem tranças é composta por
tantas mulheres e poucos homens?

Boa pergunta. Não sei. [Risos] Se bem que eu acho que sei porque. A trança tá muito
ligada à mulher por causa do passado. Porque a mulher, menina ou criança negra só tinha
duas opções. Não, na verdade só tinha uma: alisar o cabelo. Ponto. E pra não alisar a gente
começou a usar trança. E outra: o nosso cabelo é crespo, o nosso cabelo não cresce pra
baixo, ele cresce pro alto. E toda menina quer andar assim, ó [Juliana balança a cabeça de
um lado para o outro], jogando o cabelo. Então as meninas começaram a usar bastante
trança por causa do desejo do cabelo comprido. Como eu falei: o nosso lado feminino é o
cabelo. Então imagina pra uma menina que sempre teve o cabelo pro alto, sentir o cabelo
nas costas. Ela já anda assim, virando a cabeça toda. [Risos] Eu mesma: a alegria da minha
vida quando criança era a minha mãe falar “vamos fazer trança” porque eu sabia que eu ia
andar assim, ó [balança a cabeça de um lado para o outro], não ia ter que botar pano na
cabeça pra brincar de ter cabelo. [Risos] É como se ela pensasse “agora sim eu sou
menina”. Por isso que hoje são mais mulheres que usam e não tantos homens. O homem
negro raspa. Sempre foi assim. Não se deixava cabelo de menino negro crescer: “Ah, tu é
homem? Vai raspar o cabelo”. E a menina não podia raspar a cabeça porque é menina e a
feminilidade tá ligada ao cabelo, né? Então pra não raspar o cabelo da menina ou alisava
ou botava trança. Por isso se criou essa cultura de que trança é pra menina. E ainda bem
que a gente usa trança, né? Porque eu dependo disso pra viver! [Risos]

Na sua opinião por que a mulher tem uma relação tão forte com o cabelo?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Ah, é como se fosse a nossa sedução, o nosso lado feminino. E a gente relaciona isso ao
cabelo independentemente se é trança ou black. O nosso cabelo é a nossa autoestima. Se o
nosso cabelo não tá legal, pode ter certeza que na maioria das vezes a mulher não vai estar
legal também porque o nosso cabelo pra gente é como se fosse tudo. Às vezes a gente não
tá com uma roupa maneira, mas o cabelo tem que estar impecável; não é raro acontecer do
seu cabelo estar tão bonito que a pessoa não repara nem a roupa que você está. Porque
quando o seu cabelo tá bem feito aquilo reflete em você: quando ele tá bonito você já
estufa o peito, levanta o nariz, tu já é outra pessoa. Agora quando o seu cabelo não tá legal
você murcha totalmente. Então quando você faz aquela trança, aquela escova, aquela
hidratação, seja o que for, é muito bizarro porque você vê a transformação; a menina se
sente bonita, a autoestima dela é elevada por causa do cabelo. E, por incrível que pareça,
no homem acontece a mesma coisa também: ele fala “vou raspar aqui do lado, vou fazer a
barba, limpar a sobrancelha e tal”.

E agora me conta qual é, na sua opinião, a importância do cabelo na autoestima da


mulher negra?

Eu acho que pra mulher que tem conteúdo, que se aceita, é uma forma de afrontar [a
sociedade]. Porque antes não era correto a gente usar o nosso cabelo, não era correto a
gente usar trança. Um escritório nunca iria me contratar pra ser recepcionista porque o meu
visual não era bonito de se ver. Então hoje a mulher lutar e conseguir usar o cabelo que ela
quiser é muito importante. E pra mulher isso conta muito porque agora ela não precisa
mais ficar no sofrimento de chapinha, alisamento, pente quente ou henê, pra ser
apresentável. A mulher negra descobriu que o cabelo crespo, o cabelo pro alto e o cabelo
trançado são lindos. Mas não porque disseram pra ela que é bonito, mas sim porque ela
está se vendo mais bonita.

Então você acha que depois da “ditadura do liso”, nós agora temos liberdade para
usar o cabelo do jeito que a gente quiser.

Exato. Tem meninas que não gostam de definição, gostam de volume. Tem mulheres que
gostam de cabelo liso... E essa é a diferença: antes a gente não tinha escolha, hoje a gente

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

tem. Se eu quiser eu raspo a minha cabeça, pinto o meu cabelo de loiro, aliso, boto um
aplique platinado até a [altura da] bunda. Mas se eu não quiser não vou fazer nada disso.
Antes a gente não tinha essa escolha, o nosso cabelo tinha que ser escorrido, liso, e você
tinha que parecer o menos negro possível pra sociedade te aceitar. Hoje não, a gente tá
começando a aceitar mais a gente, sabe? A gente tá aceitando como é o nosso cabelo, o
nosso nariz, a nossa cor, a nossa ancestralidade. Hoje você pode ser uma negra com cabelo
liso, uma negra com cabelo pro alto, uma negra de entrelace, uma negra de cabelo
trançado. Hoje a gente tem opção e direito de usar o que a gente quiser. A gente ainda não
conseguiu uma liberdade total; a gente ainda ouve piada, ainda ouve “cabelo duro”, mas a
gente tá enfrentando (coisa que a gente não fazia). A sociedade impunha e a gente aceitava
e vivia frustrado porque às vezes queria deixar o cabelo natural, mas não podia. Então hoje
a estética pras mulheres e pros homens negros é muito importante. O seu cabelo é o que
você é, é quem você é, é a sua personalidade, é você. “Ah, mas eu não gosto do meu cabelo
cacheado”, ok, seu cabelo liso é quem você é. Mas ele está liso porque você escolheu, não
porque foi imposto.

Tem muita gente que acha que está “na moda” ser negro. O que você acha disso?

Cara… [Pensativa] É positivo, mas às vezes eu acho também que é negativo. É positivo
porque valoriza o nosso trabalho, a nossa cultura e quem a gente é. Só que é negativo
porque tá muito deturpado, as coisas tão muito embaçadas. As pessoas não tão fazendo por
orgulho, mas sim por estética, entendeu?

É o tal do “tombamento”.

É. Geração Tombamento. Nada contra, seja a Geração Tombamento. Mas por que é que
você é Geração Tombamento? As pessoas tão confundindo muito esse “tombamento” com
a militância. Não é assim. Eu costumo dizer que não adianta você ser geração tombamento
se você não correr atrás daquilo que você quer porque pra gente as coisas vão ser sempre
mais difíceis. Então se você fala que é “Geração Tombamento”, me diz: o que é que você
tá fazendo pra tombar de verdade? Nada? Tu é geração de que? Geração tombamento então
sou eu, que trabalho desde os 14 anos e corro atrás daquilo que eu quero. Falar que você é
Geração Tombamento pra “tombar” a sociedade pra mim não adianta nada. É isso que tá

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

deturpado, entendeu? É muito bom ver as pessoas valorizando o estilo negro, a moda negra
e os acessórios negros independente de quem usa e de quem faça. O ruim é que as pessoas
não estão sabendo separar. É muito discurso e pouco conteúdo.

Você chegou a falar que aprendeu a fazer twists pro seu casamento. Como foi isso?

Como eu falei, eu tava procurando uma coisa diferente pro meu casamento. Aí eu vi uma
foto de um twist na internet, goste e aprendi a fazer. Eu criei um xodó, um amorzinho pelo
twist. Eu adoro.

Uma dos motivos que me levaram a escolher o tema das tranças como objeto de
estudo da minha monografia foi quando eu descobri que em algumas sociedades
antigas africanas elas tinham determinados significados, de acordo com o modelo que
era feito. Mas, quando as trazemos para os dias de hoje o que você acha que elas
significam?

Hoje em dia elas significam autoestima e, em alguns casos, militância, identidade. Mas em
suma: autoestima. Ninguém entra aqui “ah, vou botar trança porque sou militante”. É
muito difícil. Tem gente que sim, porque se identifica, gosta de trança e se sente melhor.
Mas na maioria as pessoas colocam por questão de autoestima e eu não acho errado, acho
super certo. Você tem que fazer aquilo com que você se sinta bem, isso é um ponto muito
importante.

Quando cheguei aqui e estávamos conversando antes de começar a gravar você


comentou que cada trancista tem o seu próprio estilo. Como você consegue identificar
quem fez cada penteado?

Normalmente é na divisão [do cabelo na cabeça]. Não são todos, porque existem muitos
trancistas, mas tem algumas tranças de conhecidos que eu consigo identificar.

E tem rivalidade entre os trancistas?

Muita!

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Não é uma classe unida?

Não… Não é. Alguns são. Por exemplo, tem a Gabi [Gabriela Azevedo], do Trança
Terapia. Ela é uma das mulheres das tranças que eu mais admiro porque ela leva o termo
“ubuntu” a sério: a gente pela gente. E eu aprendo muito com ela. Ela é o tipo de pessoa
“consegui essa oportunidade aqui, vou ver outros profissionais para se juntarem a mim
independentemente se trabalham comigo ou não”. Ela tem disso. E eu aprendi muito com
ela, na verdade eu aprendo muito com ela. Às vezes a gente quebra a cara, mas eu aprendi
com ela exatamente isso: tentar levantar o outro, ajudar o outro e cada um depois seguir o
seu caminho, mas sempre tentando deixar uma porta aberta. Mas não são todos que pensam
assim. A verdade é que se tiver um trancista que puder te dar uma rasteira e falar mal de
você mesmo sabendo que você é um profissional muito bom, ele vai falar mal de você.

Você chegou a falar agora há pouco, para a sua cliente, que tem trancistas que não
fariam tranças nela por ela ser branca.

Sim.

Como é isso e o que você acha dessa postura?

É meio complicado. Mas conheço trancistas que não fariam e falam que não fazem cabelo
de gente branca.

E o que você acha disso?

Sinceramente? Palhaçada. Lógico, cada um faz aquilo que tem que fazer. Mas como eu
falei com você antes: por mais que eu ame, no final do mês a Light, a CEDAE, o meu
“senhorio” não vai perguntar assim “ah, esse dinheiro é branco ou negro?”. Ele vai querer
o dinheiro. E, por mais que eu ame a minha profissão, é uma profissão. Eu tenho que
honrar meus compromissos. E cada um tem o direito de usar aquilo que quiser, cabe a mim
fazer ou não e eu não vejo problema nenhum em fazer. Falam muito que é apropriação
cultural, só que é aquilo: você explicou o que a trança significa pra você? Você falou pra

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

pessoa o que você sente quando você está de trança e por que aquilo é tão importante pra
você? A pessoa tá botando porque às vezes acha bonito. E ela não tá errada. Mas se aquilo
tem um significado pra você, você tem que apresentar esse significado pra pessoa pra ela
entender o motivo que você faz isso e não simplesmente falar “não vou fazer o seu cabelo
porque você é branca”. Eu, sinceramente, não vejo por que nisso. Nada contra quem vê,
mas eu não vejo.

Você acredita que a trança seja um penteado comum, como um rabo de cavalo ou um
coque?

Um rabo de cavalo e uma maria-chiquinha as pessoas já esperam. A trança não. A trança é


o que ninguém vai esperar. Ela não é só um penteado porque, às vezes, dependendo da
pessoa que usa, ela [a trança] acaba afirmando quem você é. E é aquilo que eu falei: pra
muitas pessoas é só estética, pra muitas pessoas é só um penteado, mas pra muitas não.
essas pessoas, como eu, a trança é aquilo que eu sou, é como eu me identifico, é aquilo que
eu quero ser: resistência, força. Por isso eu não acho que ela seja só um penteado. É como
se fosse um estilo de vida, vamos colocar assim. Quando você põe trança, você tá dizendo
quem você é, como você se sente e como você quer ser visto.

Antes da gente começar a gravar você também disse que acha uma ofensa quando te
chamam de morena.

Sim! Eu não consigo entender, mas também não adianta discutir porque a culpa não é das
pessoas, a culpa é da sociedade, como um todo; do sistema. Eu tava numa van e o cara “ah,
morena”, aí eu olhei assim [olha de lado], eu ia responder, mas pensei “cara, não vai
adiantar eu responder” porque as pessoas acham que se me chamarem de preta, de negra,
vão me ofender. Mas não é a palavra, é o tom com que se fala. Eu posso ofender um
branco, por exemplo. Há uma diferença em falar “oi, branquinha” e “oi, branca”. Tem uma
entonação diferente. Tem um tom que você vê que é carinho e tem um tom que você vê
que é ofensa. É a mesma coisa a palavra negra, a palavra preta. Não tem porque. As
pessoas têm esse medo quando vão se referir a uma pessoa negra. “Ah, você lembra
daquela menina, aquela era mais escura, mais moreninha…” As pessoas não falam, têm
medo do que vão pensar quando se referem a alguém como negra. Mas eu não sou morena,

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

eu sou negra, então pode me chamar de negra e de preta. O que me ofende é me chamar de
morena!

Agora, mudando um pouco o enfoque, quero te perguntar da parte negativa da sua


profissão. Você sofre com dores nas mãos?

Eu não tenho tendinite. O que eu tenho é muita dor no ombro, no trapézio, nas minhas
pernas e na coluna, a lombar.

E você fica em pé quantas horas, mais ou menos?

Depende do dia, mas se o dia for tenso e eu trabalhar 13 horas, são 13 horas em pé.

Eu queria que você falasse dos tipos de material usados pra fazer a trança.

Há vários elementos que você pode usar pra fazer uma trança. O que eu mais gosto é o
jumbo por ser mais leve e a textura ser melhor. Mas nós temos o kanekalon, a linha, a lã.
Normalmente pra fazer twist ou qualquer outro tipo de trança a minha preferência sempre
vai ser o jumbo. O kanekalon vende em grande quantidade por um preço em conta, mas eu
acho muito mais pesado que o jumbo e dependendo do modelo da trança pesa demais. A lã
eu não gosto por ser um tecido, então pode dar mau cheiro. Na verdade até mesmo o jumbo
e o kanekalon podem dar mau cheiro se a pessoa não souber cuidar, mas na lã a
probabilidade é maior além de manchar a roupa já que solta tinta. Agora o lado bom do
kanekalon é que ele tem uma variedade de cores muito maior que o jumbo. Por mais que
onde eu compre o material [na loja Feirão dos Cabelos] tenha uma grande variedade de cor
de jumbo, a do kanekalon ainda consegue ser maior e por um valor mais acessível.

Você mora em Realengo. Sempre trabalhou com tranças aqui em Madureira?

Com tranças em Madureira faz dois anos.

E por que você escolheu trabalhar em aqui?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Porque é Madureira. [Sorri] Madureira é o maior público de tranças, é onde se concentra


mais pessoas negras, é o foco.

E por que você acha que em Madureira tem essa grande concentração de negros?

É porque aqui a gente se vê como igual. Vamos lá: se eu chegar aqui em Madureira com
[trança] twist ninguém vai me ver como um bicho de sete cabeças. Agora se eu for pra
Ipanema de twist vai ter gente que vai amar, mas vai ter gente que vai me olhar torto. Aqui
em Madureira se alguém me olhar torto eu tô em casa! Eu vou olhar ao meu redor e vão ter
50 iguais a mim. Aqui é onde eu me identifico, é onde eu olho do outro lado da rua e vejo
uma pessoa igual a mim independente de estar de trança ou não, coisa que não acontece na
Zona Sul. Então, como você mesma falou: ser negro tá na moda? Sim, tá muito na moda,
mas dependendo do lugar. Se for numa festa estilosa, por exemplo. Agora pra entrar no
escritório ainda não tá na moda. Só tá na moda quando é pra entretenimento. Pra ser um
advogado, uma advogada de twist? Não. Pra ser uma madame andando com seu cachorro
na orla de Copacabana, com o sua trança nagô e negra? Também não. Mas numa festa no
Vidigal? Sim, aí é moda ser negro. Mas no dia a dia, pra estudar e trabalhar? Ainda não.
Mas vai ser.

E por que você acha que Madureira se tornou esse pólo de tranças?

É porque, basicamente, quem usa trança é negro. E negro começa a frequentar onde?
Madureira. De Madureira pra baixo é onde você mais vai achar concentração de negro. Por
isso que Madureira é o polo. Agora, por exemplo, se a concentração de negros fosse em
Copacabana, provavelmente o polo de tranças seria em Copacabana. É uma questão de
ambiente mesmo. Essa concentração de negro aqui acabou sendo uma imposição, a gente
meio que aceitou e se sentiu mais à vontade em Madureira.

Mas por que você acha que nas comunidades e nos morros, onde também tem muitos
negros… [Juliana interrompe]

Mas nos morros e nas comunidades, também tem muito negro, mas você não vai ter tanta
variedade de eventos voltados pra um público específico como o negro. Aqui [em

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Madureira] não. Aqui a gente tem o Parque de Madureira, a CUFA [Central Única das
Favelas], tem toda uma conjuntura. Então o que acontece: o pessoal do morro vem pra
Madureira.

Ah, tô me lembrando de uma coisa interessante: você disse que Madureira mudou
após a novela Avenida Brasil. Fala mais um pouquinho sobre isso.

Depois de Avenida Brasil muita gente passou a ver Madureira com outros olhos. Aqui
ainda é um reduto negro, mas começaram a vir muitas pessoas brancas da Zona Sul pro
viaduto. E isso não é ruim, mas que houve uma mudança muito grande, houve. E, ao meu
ver, tudo começou depois da novela Avenida Brasil. Então eu aprendi como a mídia
consegue mudar aquilo que ela quer. A única questão chata é que, se for ao contrário, se
um suburbano começar a frequentar a Zona Sul, ele não será recebido com tanto respeito
como o povo da Zona Sul é recebido aqui, entendeu? Ainda mais sendo negro, aí é que não
é bem visto mesmo. E aqui a gente não vê muito essa questão de onde a pessoa veio, tanto
que o viaduto de Madureira recebe todo mundo que frequenta.

Então antes não tinham brancos que vinham pra cá?

Vinham, tinham muitos, até. Mas não a quantidade que começou a vir, entendeu? Antes
não era uma grande quantidade de brancos que vinham pro viaduto de Madureira. Depois
que começou Avenida Brasil começou a mostrar o passinho e o viaduto começaram a
associar baile charme a Madureira já que muitas cenas da novela eram gravadas aqui.
Antes o baile charme não era tão divulgado. E isso não é ruim. Como eu falei, Madureira é
um polo de vendas, um centro econômico grande. Muita gente vem comprar as coisas aqui
porque elas são baratas. Então é bom pro comerciante que venham mais pessoas. A única
questão que eu tô falando é que se fosse ao contrário não seria recíproco. Se eu começar a
frequentar a Zona Sul vão me olhar como se eu não pertencesse àquele lugar. Já aqui
acontece o contrário: quando a pessoa vem, pra gente é só mais uma pessoa que tá aqui em
Madureira.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

9. JULLYET SOUZA

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 22 de julho de 2017, no bairro do


Caju, Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro.

Primeiro eu quero saber como começou a sua relação com as tranças.

A relação da mulher preta com a trança começa na infância, quando a mãe chama pra
trançar o cabelo. A minha não foi diferente. Só que, de um tempo pra cá ,eu comecei a
trabalhar com trança através de uma colega que morava lá em Madureira. Era uma
república com três meninas e todas elas trançavam. Então teve um período em que eu
fiquei desempregada e comecei a ajudar elas. E eu me identifiquei muito com tanto com a
questão da resistência na cultura da trança quanto para ter uma rentabilidade. Começou aí.

Você falou que toda relação da menina preta com a trança começa na infância. Fala
um pouquinho mais sobre isso: o que tem de diferente da relação da criança negra
com o cabelo quando comparada a da criança branca ou de outra etnia?

É que durante a infância você tem aquele período que não quer ficar com o cabelo solto,
você não aceita o seu cabelo. Hoje são outros tempos, você aceita mais porque tem esse
processo midiático, youtubers falam sobre essa questão estética relacionada ao cabelo. Mas
no meu tempo não, você tinha duas opções: ou ia alisar ou a sua mãe trançava o seu cabelo.
E eu tinha o cabelo muito cheio, muito volumoso. Então a minha mãe fazia quatro tranças
que eu odiava. E eu vejo que toda menina hoje em dia quando começa a aceitar o cabelo é
através da trança. Hoje a trança é a primeira opção pra quem entra em transição. Até
porque tem essa questão da trança fazer o cabelo crescer, manter seu cabelo protegido.

E, assim como você, algumas pessoas têm lembranças ruins sobre as tranças. Por que
você não gostava? É por que doía?

É porque não era aceito, né? Você sabia que se você não tivesse o cabelo alisado você não
era aceita. E não era bonito, as pessoas associavam a trança era como um sinal de que você
não tinha dinheiro pra alisar: “ah, se ela usa trança ela não pode alisar o cabelo”, “ela não

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

tem dinheiro pra alisar o cabelo, por isso ela tá trançando”. Então a trança não era essa
coisa de empoderamento, não tinha uma questão estética aceitável. Antes a menina de
trança era feia. Tanto é que tem uns livros hoje em dia que tentam reverter essa ideia
valorizando essa questão da infância na infância.

Você falou que começou a trançar em Madureira, quando você dividiu uma casa com
outras meninas que eram trancistas e que você começou ajudando a elas. Por isso eu
vou logo entrar nesse tópico. Madureira é um bairro de muitos salões afro, com um
grande mercado de cabelo sintético e muitas trancistas. Por que Madureira é tão forte
nessa questão da estética afro, principalmente das tranças?

A trança, na verdade a questão estética é mais forte em Madureira por lá ser um bairro
muito preto: tem muito baile (a raiz do baile charme é lá), tem o samba… Com relação à
estética e à trança, não tem outro lugar. Quando você fala de trancista, você fala de
Madureira.

Algumas meninas chegaram a comentar comigo também que quando elas estão na
zona sul elas se sentem de uma determinada maneira. Mas que quando elas estão em
Madureira elas estão em casa.

[Jullyet sorri] Exatamente.

E qual a sua relação com o bairro? O que você acha de lá?

Madureira é exatamente isso: se sentir à vontade, ser quem você é. Lá tem uma aceitação
muito grande porque não importa a cor do seu cabelo, como você tá vestida, não tem isso.
Eu morei por lá durante um tempo e sei que lá eu podia sair do jeito que eu quisesse. Tinha
uma valorização, o “nossa, que mina estilosa”. Na Zona Sul as pessoas olham como “ela é
diferente, ela é ‘exótica’”. Madureira não tem isso. Então a gente se identifica muito com o
bairro. Eu acho que é uma coisa de energia, né? Porque a família preta é isso: te recebe
bem, é calorosa, abraça, agrega. E na Zona Sul você não sente isso, você não tem essa
receptividade.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Agora eu quero saber quando que você começou como trancista, se você tem uma
segunda profissão ou se essa é a principal.

Na verdade quando começou foi como um hobby: eu chegava do trabalho, via que as
meninas tavam um pouco enroladas e queria ajudar. Aí elas montaram um salão e eu
comecei levando comida pra elas porque eu achava que elas trabalhavam demais (e
trancista é isso: trabalha muito). Então eu comecei ajudando, fui tomando gosto, comecei a
pesquisar… E eu gosto de contar uma história. Pra mim trançar é isso: é você passar
ancestralidade, conhecimento. Não é só você fazer uma trança porque ali há troca de
energia. No candomblé tem isso, né? O orí, a cabeça. Então quando você toca a cabeça de
uma pessoa você tá recebendo e passando energia.

Você é do candomblé?

Não, não sou. Mas sei disso, por pesquisar, por gostar, por me identificar.

Certo. Mas, voltando naquilo que você disse, que levava comida...

Então, eu comecei nessa coisa de ajudar, era um hobby. E teve um momento em que eu fui
demitida no meu emprego. A gente sabe que a situação no Brasil tá complicada e tal e eu
fiquei sem alternativa. Nisso a minha depressão se agravou e eu fiquei meio sem saber o
que fazer, com o que trabalhar. Foi quando eu entrei num grupo, falei “não, calma aí, já sei
mais ou menos como fazer, então vou começar”. Só que eu não tive apoio de ninguém.
Ninguém. Porque quando você começa as pessoas até acham legal, mas elas não te apoiam.
Por que? Porque gera uma disputa. Infelizmente a gente trabalha com estética e estética
gera essa coisa da disputa. Eu sei que as pessoas vão falar que não, mas existe sim. Porque
envolveu dinheiro, envolveu…

Beleza.

Beleza. Rola disputa. Então assim que eu comecei eu não me senti apoiada por ninguém.
Só que aí eu me senti desafiada. E eu sou uma pessoa que gosta de desafio. Eu falei “não,
se eu tô sendo desafiada é agora que eu vou fazer”. Então eu comecei a estudar, estudar

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

muito. Estudar a cultura da trança, de onde vinha, como fazer, todas as técnicas e fui
pedindo pras pessoas “ah, vamo treinar? Você traz só o material e eu faço”, “eu tô
começando [a trançar], vamo fazer?”. E aí as pessoas foram gostando do trabalho, eu fui
me identificando cada vez mais e recebendo essa troca de energia, que é o que me sustenta.
Porque a minha relação com a trança, hoje em dia, apesar de ser a minha principal fonte de
renda, é muito a questão de me manter de pé em relação à minha depressão. Porque é uma
terapia, entende? Eu tô ali trocando informação, trocando energia, recebendo muita coisa.
Tem as pessoas que, quando eu acabo de trançar, falam “obrigada, eu tava me sentindo
muito mal e agora eu tô me sentindo tão bem”. Então isso gera um sentimento de “ai, que
bom, meu trabalho tá sendo aceito”. Claro que às vezes a gente erra, a gente é humano. E
tem muita gente que endeusa achando que a gente tem que ser perfeita. Só que não, a gente
erra até porque pra fazer um próximo trabalho bom a gente tem que ter errado alguma vez
em algum momento. A gente tenta acertar, tenta fazer o melhor e aí entra a questão de você
gostar, de você amar muito o que você tá fazendo. E eu amo o que eu faço. E eu não faço
com amor, eu faço por amor. Porque tem essa diferença: de fazer com amor e fazer por
amor. Fazer com amor é você trocar uma ideia, fazer bem feito. Fazer por amor é você
sentar numa praça, pegar uma moradora de rua e falar “hoje eu vou fazer porque eu quero
trançar você”; é você envolver zero dinheiro, fazer por afetividade. E as pessoas
confundem isso. E eu recebi essa crítica, né. No começo eu recebi algumas indiretas do
tipo “ai, virou moda e agora você quer fazer, você quer virar trancista”. Aí a primeira coisa
que eu fiz foi: “ah, já que é isso, então tamo aí, eu vou fazer por amor”. Então pra pegar a
técnica eu fui fazendo assim: “vem que eu quero fazer com você”, “vem que eu quero fazer
com uma moradora de rua”. Essas foram as pessoas com que eu mais treinei, só que os
outros não sabem porque eu nunca publiquei, nunca falei sobre isso.

Que bacana.

Só que ninguém sabe disso, entendeu? Eu tô falando isso agora pra você. Algumas amigas
sabem porque eu disse conversando, mas não fui uma coisa que eu quis fazer pra “nossa,
vou me promover, entendeu?”. Isso não existe, não é uma coisa pra colocar o meu ego
acima de mim”. É uma coisa de você receber e você retribuir. Porque você tá envolvendo o
sentimental e o financeiro. E é isso que eu quero que as pessoas entendam: que a trança vai

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

além da questão estética; é resistência, é você passar cultura, é você falar da sua
ancestralidade. É isso que é a cultura da trança.

E por que a trança gera tanta polêmica? Por que não é mais um penteado como um
rabo de cavalo ou um coque?

Então, essa coisa da apropriação cultural é bem relacionada à trança. É uma coisa bem
contraditória porque a gente equilibra o sentimental e o financeiro. Eu não vou deixar de
trançar uma mina branca, mas vou passar pra ela qual é a origem da trança e porque ela tá
usando. E se eu sentir que ela tá fazendo por uma questão puramente estética eu vou tentar
mudar essa ideia. Mas claro que pode ser que eu não consiga. Pra mim é muito complicado
falar sobre essa questão da apropriação porque tem a mina que vai usar a trança e vai falar
“ah, eu uso mesmo, você vai ter que me aceitar” e vai ter aquela que vai falar assim “poxa,
dá licença, eu respeito você e eu quero usar porque eu gosto, eu posso?”. Porque tem
branca que usa trança, mas pede permissão.

E o que você acha disso, de pedir permissão? Você acha necessário?

Não que seja necessário, mas ela tá mostrando que respeita. Sabe por que? Porque quando
uma preta alisa o cabelo a branca fala “lá vai, ó, tá querendo ser branca”. Então porque que
quando uma branca põe trança ela não tá querendo ser preta? E a trança não é aceita dentro
da periferia. Se você for preta, tiver trançada e for procurar um emprego você vai ser aceita
da mesma forma que uma branca trançada numa entrevista de emprego? Não, você não vai.
Mas não vai mesmo. Porque ainda tem essa questão do privilégio de ser branco, entendeu?
E quanto a isso não importa o penteado que você esteja usando. Então eu acho que
apropriação cultural é a partir do momento que você usa sem respeitar a questão da
ancestralidade, da cultura que envolve isso. Porque se você perguntar pra uma preta “ah,
quando que você começou a trançar?”, ela vai falar “eu comecei a trançar na infância e
passei por isso, isso e isso, quando trançava meu cabelo”. Agora se você perguntar pra uma
pessoa branca a mesma coisa, provavelmente ela vai dizer “ai, virou moda, fulano de tal tá
usando na televisão por isso e eu quis usar também”. Isso é apropriação cultural: você tá
usando porque a moda, a tendência tá colocando isso pra você. Mas e aí, você respeita a
sua mana preta? Porque nesses bailes de empoderamento tem disso: a mina branca chega e

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

joga a trança na cara da mina preta pra mostrar que também pode usar. Isso é uma afronta e
a gente não admite, a gente não tolera. Porque assim como a mina preta é mal vista por ter
cabelo alisado, a gente também não aceita que uma mina branca afronte a gente com a algo
que é nosso.

Sobre essa questão do empoderamento e da Geração Tombamento que tá aí. Você


mesma falou sobre essa valorização da estética afro nos últimos anos. E você também
falou das pessoas que “querem se vestir de negro”.

É o transvestir, né?

Isso. O que você pensa disso?

Eu tento equilibrar essa questão do Tombamento porque, assim como ele veio pra
promover, pra colocar o negro em foco, mas também veio pra simplificar. O grande
problema é que a Geração Tombamento é midiática e totalmente capitalista. Aliás, o
Tombamento não chega na favela: quantas minas você vai ver na comunidade com o
cabelo trançado, colorido, com uma roupa descolada? Isso é difícil, o acesso a essas coisas
é difícil e a informação pra essas coisas é difícil. A televisão até tá mostrando, mas e aí? A
internet também tá mostrando, mas até a negra da favela chegar nesse nível de
conscientização de que ela pode fazer isso é um processo doloroso e caro. Então a favela
não tem acesso a esse empoderamento, não, a favela não é empoderada. O empoderamento
tá nos bailes; o empoderamento tá na roupa que você veste. E hoje rola uma disputa do “ser
empoderado”. Porque se você chegar num determinado lugar e não tiver com um tênis tal,
com uma roupa tal e o seu cabelo não tiver diferente ou bem arrumado você não é aceita.
Então essa Geração do Tombamento tem que ser revista, sim. Porque não adianta você ser
toda transvestida de empoderamento e não conhecer a sua cultura ou respeitar o seu irmão.
Porque empoderamento é você se empoderar e empoderar outras pessoas. Eu, como
trancista, tenho a obrigação de passar informação, entendeu? E eu não me considero da
Geração Tombamento porque eu não me sinto obrigada a usar tal cabelo porque está na
moda, eu não me sinto obrigada a ser diferente. O meu diferente é isso aqui [aponta para
si mesma]. E essa Geração Tombamento tem obrigação [de ser diferente].

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Entendi. É aquela história de ser “diferentão” apenas na internet.

E ao vivo você é normal. Pra mim é isso: o Tombamento não chegou na favela que é onde
tá a maioria dos pretos, onde tá a galera que deveria conhecer a cultura das tranças, do
empoderamento. Porque é a favela que fortalece todas as outras coisas; se não chega aqui
não tem que chegar em outro lugar, entendeu? Se a Zona Sul tá empoderada pouco me
importa porque é aqui que a gente precisa empoderar, são as nossas crianças que a gente
precisa fortalecer.

Bem, o Tombamento aposta muito na parte visual que você comentou. Você acha que
essa estética pode ser uma forma de protesto, de resistência?

É uma questão de tornar-se referência, de você se conhecer e passar esse conhecimento


pros outros. A partir do momento que você se trança, trança o próximo, você torna-se
referência. E a partir do momento que você torna-se referência você tem a responsabilidade
de passar informação e cultura adiante. O meu conhecimento não veio a partir da trança.
Eu sou ligada ao quinto elemento do hip hop, que é o conhecimento. E dentro do hip hop
tem muito essa questão da estética. Então eu juntei as duas coisas: o conhecimento que eu
tinha e que veio do hip hop com a questão estética das tranças.

Você falou um pouco do hip hop. Fala um pouquinho mais sobre ele.

Eu fazia parte do coletivo de hip hop na minha cidade natal [Cabo Frio]. E o hip hop
sempre teve essa coisa da estética, né? Na época as mulheres nem tanto, mas os homens
sempre foram adeptos da trança nagô. E isso ainda é muito forte dentro do hip hop: nele a
estética é pura resistência.

Agora eu queria voltar um pouquinho, naquela parte em que você falou que a trança
te ajudou a sair de uma depressão. De que modo isso ocorreu? Como a trança mexeu
com o seu emocional?

São vários tópicos dentro disso, né? No meu caso foi o não sentir-se sozinha (já que
durante o meu período de trabalho eu tinha alguém pra conversar), foi a questão de ouvir

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

outras histórias e saber que elas podem ser mais dolorosas que a minha... Tem a questão do
retorno, do sentir-se importante pra alguma situação e pra uma pessoa, do sorriso e do
abraço. Você terminar o seu trabalho, receber um abraço e a cliente falar “poxa, eu não
tava legal, mas você tocou em mim, trançou meu cabelo fez eu me sentir bem”. Então você
começa a pensar “poxa, se eu posso fazer uma outra pessoa se sentir bem por que eu tô me
sentindo mal assim?”. Foi um equilíbrio. Eu consegui me espiritualizar e me equilibrar
dentro do meu trabalho. Então de todas as coisas que me sustentam (não digo isso
financeiramente, não, mas que me mantém equilibrada) eu acho que se eu não tivesse esse
trabalho eu estaria muito perdida. Muito perdida mesmo.

Há quanto tempo você trança?

Cara, se eu te disser que eu não tenho um ano… Eu tenho nove, 11 meses, por aí.

E na adolescência você não trançava?

Não trançava, eu era trançada. O meu primeiro contato com uma trancista foi num curso de
beleza negra em Cabo Frio. Foi com a Cris, uma trancista da Companhia das Tranças de
São Paulo. Ela foi a primeira referência de trança que eu tive. Lembro que quando vi uma
box braid, que na época era conhecida como rastafári, eu falei “nossa, que trança bonita” e
fiquei apaixonada. Então quando eu cheguei aqui no Rio e pisei em Madureira e vi todo
mundo trançado eu falei “esse é o meu mundo, é aqui que eu quero estar”.

E quanto ao black? Qual a diferença dele para uma trança?

O black é associado com o movimento dos Panteras Negras, um movimento de resistência


que afronta o branco. Então por que as pessoas se chocam quando você chega com um
black? Porque elas lembram do movimento, elas associam ao Panteras Negras. Então elas
pensam “lá vem a encrenqueira, vai arrumar confusão”. A trança não. Ela passa aquela
coisa de “ela tá na moda” já que é usada por famosas e está muito na mídia hoje em dia.

E você já usou tranças?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Sim, claro!

E você já notou algum preconceito não só pela sua cor, mas também pelo seu cabelo?

Ah, muitas vezes. A última vez que eu tava de trança eu entrei numa loja… E eles têm
mania, né? Quando tá de trança a gente joga muito o cabelo, é normal isso. Então eu sem
querer joguei a trança e bati numa coisa que quase caiu. Então a menina falou “tinha que
ser essas pretas, elas põem esse cabelo de corda e ficam se achando”. Aí você fica? [Faz
cara de dúvida] E isso vem também da infância. Porque antigamente tinha o cabelo
miojinho (uma trança bem fininha que faz cachinhos), que eu odiava. Aquilo era a maior
humilhação porque as meninas chamavam de “cabelo de corda”. E eu já passei muito por
isso. Até porque eu sou de uma cidade pequena do interior, Cabo Frio, e lá essas tranças
não eram famosas, a gente não tinha acesso. Era aquela trança comum só com seu cabelo
dividido em duas chuquinhas, duas tranças horrorosas. [Risos]

E hoje em dia quando você usa tranças? Você ouve muitos absurdos?

A primeira coisa que a gente escuta quando tá de trança é: “como você lava?”. E, gente,
você pergunta isso pra uma pessoa que tá de progressiva com o cabelo escovado há mais
de 15 dias? Você não pergunta. Então porque que você vai perguntar isso pra uma preta
que tá trançada? Você não aprendeu a questão do respeito? Não importa se pessoa tá ali,
com o dread pingando, eu não vou perguntar pra ela se ela lavou da mesma forma que eu
não vou perguntar pra pessoa escovada se ela lavou o cabelo. Que isso! É uma questão de
respeito. Não cabe a mim fazer esse tipo de questionamento, entende? Eu não aceito.

Bem, e quanto ao período de transição capilar? O que você pensa das meninas que
usam tranças durante essa mudança?

A primeira coisa que quem entra em transição faz antes de assumir o black é colocar
trança, seja ela nagô, box braid ou entrelace (porque pra poder fazer entrelace você tem
que estar trançada). A maioria das meninas em transição quer continuar a ter cabelo pra
jogar porque toda mulher gosta de bater cabelo. Quando a menina faz o BC [big chop é

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Transcrição das entrevistas

corte que retira toda a parte do cabelo com química], ela põe a trança pra continuar tendo
cabelo comprido e também pra se sentir à vontade, se sentir aceita.

Algumas meninas são tão viciadas em tranças que acabam saindo de uma ditadura
capilar da química para entrarem em outra, já que não conseguem ficar um momento
sem tranças. O que você pensa disso?

A trança pra algumas meninas pode ser praticidade, pra outras pode ser a questão do
Tombamento. Outras podem pensar na questão de menos gastos (quando você faz a trança
você fica sem usar creme e tal) ou de aceitação de um cabelo que tá muito curto. Cada uma
usa a trança pra alguma coisa. A maioria das minhas clientes estão vindo de uma transição.
Mas eu tenho as minas que usam por estética, porque acham bonito.

No início da nossa entrevista você comentou que as tranças pra você envolvem o
sentimental e o financeiro e que essa é uma relação complicada. Pra você até onde a
trança é arte e até onde ela é um produto?

Pra mim existe a força de trabalho e a mão de obra. O capitalismo diz que a sua mão é de
obra; ou seja: não importa mais nada, só a sua mão e o que você pode fazer com ela. Já a
força de trabalho, pra mim, é aquilo de você botar energia no que você faz. Agora quanto à
mercadoria e a arte: pra mim a trança nunca foi só mercadológico porque, a partir do
momento que você faz uma coisa manual você tá investindo outra coisa ali que não é só
rentabilidade. E as pessoas não valorizam o que é manual. Só que esse tipo de atividade
leva mais tempo, exige mais trabalho. E se exige mais trabalho tem que ser mais bem pago.
Arte é você trançar um cabelo, ficar de quatro a 12 horas em pé fazendo a mesma coisa
com toda a paciência do mundo e entregar o cabelo bem feito. Isso é arte. Outra coisa é
você ficar 4 a 12 horas do mesmo jeito e entregar um cabelo mal feito, com tranças
soltando e arrebentando. Isso é mercadológico porque você tá fazendo por quantidade.
Quando você marca duas, três clientes no mesmo dia sabendo que não vai dar conta é
mercadológico porque você tá focando apenas em ganhar. Mas e aí? Quando você senta
com a sua cliente você abre a boca pra dar um bom dia, recebe ela bem, conversa, troca
uma ideia com ela? Isso é arte porque você tá gerando uma energia em volta daquela
pessoa. Mas a partir do momento que você não troca nada com ela, você não tá passando

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

nada, você não tá recebendo e a experiência se torna totalmente mercadológica. Você não
passa pra segurança pra cliente, não passa pra ela a cultura da trança, não explica o seu
trabalho. Isso é totalmente mercadológico. E entre a gente isso é muito ruim, entende?

Entre vocês trancistas?

Sim. Porque cria disputa. A partir do momento em que você trabalha, divulga suas tranças,
é conhecida no meio e seu nome começa a circular, entra a questão do ego. E isso cria uma
disputa porque você acha que a pessoa que tá chegando agora vai tomar o seu espaço.
Então você cria antipatia por alguém que poderia somar com você, que poderia agregar a
você. Por que a gente não tem um associação de trancista? Principalmente porque a
maioria de nós somos mulheres e nós já somos criadas com essa rivalidade. Então junta
beleza, estética, mulheres e dinheiro. Então racha. Quando é que a gente vai se unir,
agregar, somar? Porque deveria ser isso. Eu nem acredito tanto em uma associação, não,
mas podíamos ser amigas, mulheres formando uma família e passando a cultura da trança,
entendeu? E eu sei que tem pessoas aí que tentando fazer isso. Mas quando entra a questão
do ego, do meu nome acima do seu nome, acaba essa questão da amizade e da
receptividade com a outra, de acolhimento. Não tem isso. “Ah, mas eu te ajudo”. Ajuda até
que ponto? Até que ponto você vai se doar pra aquela pessoa pra poder ajudar, pra poder
levantar e fortalecer? Porque a cada nova trancista que surge é uma menina a menos se
prostituindo, é uma menina a menos dependendo de homem, é uma menina a menos na
depressão. Será que as pessoas estão vendo isso? Não, não estão. E isso magoa e faz ter
vontade de desistir. Mas acontece comigo e acontece com outras pessoas, também. Todo
mundo gosta de ter o trabalho reconhecido. Mas às vezes é punk, às vezes. É punk outra
trancista não te acolher, te olhar de cara feia quando você chega no espaço. Mas até quando
a gente vai continuar fortalecendo essa cultura da rivalidade? Porque a trança também tem
a questão do feminismo, da união. São mulheres, por mulheres, para mulheres.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

10. KARLA RAYMUNDO

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 12 de julho de 2017, no bairro do


Vidigal, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.

Como começou a sua relação com as tranças?

Bah, minha relação com as tranças… Desde sempre. Acho que desde que eu tive cabelo
pra trançar existiu trança na minha vida. Eu lembro que eu era guria e a minha mãe
trançava a gente. Ou era um afro puff [tipo de coque no alto da cabeça com bastante
volume, ou fazia duas trançonas ou várias trancinhas no cabelo. Na verdade eu tava sempre
de trança.

E quando você começou a trançar?

Eu comecei a trançar de tanto ver as mais velhas fazerem. Eu achava muito tri [diminutivo
de trilegal, uma gíria gaúcha] fazer aquilo, era rapidinho e eu ficava louca pra aprender.
Então ficava olhando bastante porque não queria ficar perguntando como fazer porque isso
atrapalhava, sabe? Quando dava eu perguntava como é que fazia e na maioria das vezes
elas tavam dispostas a mostrar. Mas eu aprendi mesmo no olho de tanto tempo que eu
passava olhando como era o processo. A minha mãe costumava fazer uma ou duas
[tranças] na gente ou se não ela pedia pra uma moça nos trançar (e eu sempre ficava de
olho porque eu sempre gostei). Mas além de trançar eu gostava de estar trançada também.
Era muito prático e a minha mãe não precisava pentear a cabeça da gente todo dia. Mas
aprender mesmo foi com uns 10 anos de idade. Eu comecei a trançar as minhas bonecas e
as minhas irmãs e depois eu fui trançando outras pessoas. Ganhei o meu primeiro dinheiro
com as tranças acho que com 12 ou 13 anos de idade, mas antes mesmo disso eu já
trançava, sabe? Porque tem um parada que eu pego rápido o que eu gosto muito.

Então a sua conexão com é de família, mesmo.

Sim, é muito ancestral porque é um resgate. E eu acho que graças a isso hoje eu tenho mais
percepção da minha vida, do que é ser preta, de toda essa conjuntura e das minhas

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

inquietações. Hoje, por exemplo, eu não tranço gente branca. Tem um tempo que eu não
tranço gente branca. Outro dia eu tava até pensando que a última pessoa branca que eu
trancei tenho quase certeza que foi uma conhecida minha e já tem muito tempo, foi quando
ela estava internada no hospital. Eu tenho quase certeza que essa foi a última branca que eu
trancei.

E por que você não trança pessoas brancas?

Eu tinha uma inquietação tão grande de trançar gente branca porque a gente trançava e o
cabelo não ficava bom. O tempo que é pra ficar, vamos dizer, é de um mês. Só que em uma
semana já não dá mais pra ficar com a trança; ela não ficava bem presa por mais que eu
tivesse muito trabalho e precisasse do dobro de tempo. O desenho também não ficava bem
definido. Mas não é só isso. Antes essa minha inquietação me tirava do sério. Daí eu fui
conhecendo mais sobre mim, sobre todas as subjetividades que têm o nosso corpo preto, a
nossa ancestralidade… Fui entendendo mais. E também tem a questão de que sempre que
eu usava trança, recebia inúmeros apelidos por conta do meu cabelo trançado (até porque
eu adorava usar trancinha com miçanga e me chamavam de cabeça de agê).

Cabeça de quê?

Cabeça de agê. Sabe aquele instrumento de música com miçanga? Me chamavam disso. Eu
lembro que eu fazia umas tranças mais grossas [gesticula, mostrando dois grandes coques
na cabeça] também e me chamavam de cocozão, de Medusa, ih… Você perde as contas de
quantos apelidos colocavam.

E você se incomodava?

Cara, aí que tá: eu me incomodava, mas minha mãe sempre ensinou a gente a virar as
costas e deixar a pessoa falar como forma de resposta. Mas tinha coisas que eu ficava
muito brava. Já briguei muito por conta disso e briguei de cair no soco. As pessoas riam
muito e eu não entendia porque. E hoje, que a gente tá se resgatando, resgatando o que é
nosso, vem o povo branco e se apropria. Tem uma situação que foi no Lollapalooza
[festival de música anual] há um, dois anos atrás, em que apareceu uma mina branca de

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

trança. Ela gastou quase 500 reais pra trançar. Ela era linda e pra ela a trança era linda,
exótica. Mas, cara, e a mulher preta? Lá tinha um monte de mulher preta trançada. Por que
elas não foram categorizadas como mulheres lindas? Cê entende? A trança é pro nosso
trato, pro nosso embelezamento, pro nosso cuidado; é ancestral.

Fala um pouquinho mais sobre a história das tranças.

É muito difícil de encontrar, mas eu li alguns registros. Talvez tu tenhas tido dificuldade de
encontrar registros sobre a história das tranças, porque a nossa história em geral, foi muito
apagada. O que eu vi é que a origem provavelmente é na Nigéria e tal, essas coisas. Eu até
fico tentando escrever sobre isso, mas é muito difícil tirar de mim e botar pra fora esse
sentimento que eu sinto em trançar. Para além de ser, hoje, o meu instrumento de trabalho,
o meu ganha pão, o sustento dos meus sobrinhos, da minha casa e da minha vida, como um
todo, trançar é uma terapia. Eu posso estar estressada ao extremo, mas quando eu tranço
me concentro em mandar energia boa pras pessoas que tão sendo trançadas, me concentro
em trocar uma ideia, em fazer uma troca, sabe? Não é só ir ali, sentar e trançar no
automático, eu gosto de conversar. Muitas vezes eu tranço quem eu quero. Na verdade na
maioria das vezes. Se eu te trancei uma vez e eu não quiser te trançar de novo, eu não vou
te trançar. Porque se eu não me sentir bem eu não vou fazer. As pessoas me perguntam
porque eu não trabalho num salão, mas, cara, trabalhar num salão demanda muita coisa.
Trabalhando num salão a gente tem que ficar sujeito, por exemplo, a trançar gente branca.
E essa minha perspectiva de não trançar gente branca acaba trazendo alguns conflitos,
sabe? Não só entre eu e os brancos, mas entre eu e pretos. As pessoas me perguntam por
que eu não tranço brancos e então eu dou exemplos, começo a puxar na memória das
pessoas pretas o que elas entendem desse processo de trançar, como elas vêem a si mesmas
e de como elas enxergam as outras pessoas, como a sociedade nos vê diante disso. Hoje é
moda? Pra mim nunca foi moda. Pra mim sempre foi o meu cotidiano. É resistência. É a
ancestralidade que as minhas mães velhas me passaram. Assim como tem homens que
trançam. Meu irmão mais velho sabe trançar.

Ele aprendeu com a sua mãe também?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Não sei como foi o processo dele. Mas teve essa mesma coisa de contato, né? De ver as
pessoas trançando. Eu não sei bem isso do meu irmão. Mas ele não trança pra fora. Ele faz
as coisas dele, lá. Faz tempo que eu não falo com ele. Eu tenho mais contato com a minha
sobrinha, que tá ali [aponta para uma adolescente empinando pipa em cima do telhado].

A da pipa?

É, a Vitória, “a da pipa”. Ela é viciada em pipa, tá? [Risos] Ela me ajuda na hora de trançar
e eu fico explicando pra ela esses processos todos. E é doido porque eu falo pra ela e ela
leva pra escola o que eu falo pras colegas. Esses dias a gente trançou uma amiga dela. E eu
fico muito feliz de poder fazer o que eu faço, de poder trançar. É uma arte, é a minha arte.
E eu poder levar essa arte pra outros pretos, me deixa feliz, sabe? Eu só fico muito triste
quando eu não consigo contemplar aquilo que as pessoas querem porque eu me cobro
bastante. Me cobro muito, muito mesmo. Sempre quando eu posso eu ajudo outro a fazer,
se eu não posso eu indico pra alguém.

E o que as tranças significam pra você?

O que é o trançar pra mim? Não é simplesmente alguém sentar na minha cadeira e ficar lá
que nem um robozinho. A gente toma até uma cerveja, se a pessoa quer tomar cerveja.
Toma um chá, se ela quiser tomar chá. Tem uma água… Quer ficar sem calçado? Fica. Eu,
por exemplo, gosto de ficar de pé descalço. As tranças pra mim são como uma aceitação do
ser. Eu sempre usei trança, mas tem tantos pretinhos e pretinhas que pensam “não vou usar
porque isso é feio, que não sei o que”, porque a gente foi ensinado a: mulher preta ser
mulher branca e homem preto ser homem branco. Olha a dificuldade que é um homem
preto ter os seus cabelos crescidos, soltos. Mulher preta, então, tem que estar alisando.

E você trança mais homens ou mulheres?

Lá em Porto Alegre eu trançava muito mais meninos que meninas porque as gurias usavam
muito mais cabelo alisado. Tinha uns meninos que toda semana eu estava trançando.

E aqui no Rio você também trança mais homens?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Aqui eu tranço muito mais mulheres do que homens, muito mais. Mas essa disseminação
de trançar foi de uma pessoa ir me indicando pra outra.

Em uma das perguntas anteriores você falou que agora tá meio que “na moda” ser
negro e trançar o cabelo. Quero saber o que você acha disso.

Pensando na perspectiva de fortalecimento do nosso povo, de entender nossa história, de


reorganizar a nossa vida e de nos reapropriarmos do que é nosso é muito importante. Mas,
como eu disse: no branco tá bonito e na gente tá feio. Sabe como é? Ao ponto de passar na
rua e ouvir várias piadinhas. Então eu fico bem feliz de ver as meninas se permitindo. O
que eu tenho muito medo é delas se tornarem escravas de novo desse sistema porque tem
meninas que eu percebo que não conseguem ficar sem as tranças, não conseguem nem se
ver no espelho sem trança. Então elas ainda passam por esse processo de aceitação de si.

E qual o papel das tranças na transição capilar?

As tranças ajudam muito em uma transição capilar. É que nós temos esse poder, né? No
nosso cabelo a gente pode fazer de tudo. Ele é dito como o ruim, assim como o nosso povo
é dito como o ruim, como “feio”. No entanto, olha a nossa melanina, cara! Olha o que é a
melanina no nosso corpo! Dá todo esse poder pra gente, sabe? E ajuda a gente a se
encontrar; eu vejo as tranças como uma forma de encontro. Quando eu tranço alguém,
quando eu vou na casa da pessoa ou quando as pessoas vêm aqui na minha casa, a
perspectiva é sempre de mostrar que a trança é nossa, entendeu? Quando um preto me fala
“ah, mas por que tu não trança branco?”. Cara, aí é que tá. Vamos puxando na nossa
história o que foram as tranças, quando que elas começaram. Tem gente que tá com 30
anos de idade e fez tranças pela primeira vez na vida só agora porque usa química na
cabeça desde os três anos de idade. Isso é de uma violência tamanha com o próprio corpo,
sabe? Aqui em casa vem muita gente, eu já trancei muitas pessoas. Muitas. E cada uma
tem uma história. Mas todas levam ao racismo. Todas as histórias são racistas. E tem gente
que não compreende isso, às vezes. Demora um pouco pra entender o que é o racismo.

É a desinformação.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Sim. Enquanto eu trançava uma amiga da minha sobrinha chegou outra amiga dela. Elas
têm 15 anos. E naquele momento acho até que eu demandei muita informação pra elas,
mas o impacto foi de a gente estar conversando e elas falarem que nunca tinha ouvido falar
histórias sobre o cabelo delas, sobre a pele, a coloração da pele, de como a pretinha mais
clara é diferente da pretinha mais preta nesse sistema racista... Eu expliquei pra elas que a
gente tem que começar a se amar, a se respeitar e a tentar se entender. Também falei dos
discursos racistas que a gente reproduz, sabe? De como a gente pode perceber quando
reproduzimos racismo.

Você falou do cabelo crespo. Existem negras mais claras que, às vezes, usam cabelo
liso, e socialmente são lidas até como latinas ou índias. Pensando nisso, qual o peso do
cabelo na formação da mulher negra? Por que ele é tão importante e pode definir até
a leitura social que uma mulher negra pode ter?

É essa perspectiva que eu tava colocando: o homem preto raspa, a mulher preta alisa.
Quando você é mais clara, você disfarça sua negritude, você disfarça seu nariz. É o dito
“pardo”, né? Você disfarça a sua cor. Mas não são todos que disfarçam. Eu não disfarço.

E você já fez química no cabelo alguma vez?

Olha, com 23 anos eu fiz a maior bobeira da minha vida! Chorei muito depois querendo o
meu cabelo de volta. Mas ainda bem que eu não tinha feito nada definitivo e depois de um
tempinho eu já tava com o meu cabelo de volta. Mas a minha transição capilar foi o soltar,
o soltar a borrachinha. Mesmo quando eu alisei o cabelo, eu vivia com a borrachinha. De
vez em quando que eu soltava o meu cabelo, deixava ele blackzinho, mas ficava muito alto,
ou ficava meio a meio.

Você tinha falado de uma coisa que eu achei bastante interessante: de que as meninas
saem da química, mas acabam não consigo ver o próprio cabelo sem as tranças. Como
você entende isso? É uma forma de esconder o cabelo natural?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

É a sociedade. Porque eu sei a diferença de quando a minha sobrinha sai e de quando eu


saio. Ou quando a gente tá junto. É o olhar. Você já deve ter percebido o olhar quando
você sai com o cabelo black. É muito difícil. Eu tenho clientes que, com três anos de
idade… Olha a violência: três anos de idade e passando química na cabeça. Eu canso de
pegar meninas aqui que nunca se viram, não sabem qual é a textura natural do seu cabelo;
que não lembram. É o auto-ódio. Ensinaram elas a se odiarem. Tu não conseguir se ver
com o seu próprio cabelo é o que o racismo faz com a gente. E ele faz todo dia isso: ele nos
molda pra nos odiar. E o meu trabalho, a minha ideia como mulher preta com o povo preto,
é mostrar que a gente é lindo e que a gente pode ficar de cabelo black, pode ficar de trança,
pode raspar e ficar do jeito que a gente quiser porque a gente quer, porque a gente entende
esse movimento, esse processo todo. Mas agora essa imposição de que a gente tem que ser
alisada, que a gente…

Tem que ter o cacho perfeito.

Tem que ter o cacho perfeito… Isso não existe, para! Cada cabelo é um DNA, cada um é
uma identidade. A gente fala de 4C, 3B, mas a gente sabe que quando a gente pega no fio
tem cabelos que tem três, quatro texturas numa cabeça só, entende? A gente sabe como o
cabelo acaba sendo uma baita ferramenta pra gente mostrar todo esse processo de
apropriação do nosso corpo, de usurpação do nosso ser.

E pra você o que diferencia uma trança de um rabo de cavalo ou um coque?

Eu gosto de fazer trança africana, eu gosto de fazer trança raiz, trança solta. É isso que eu
gosto. Twist eu até faço, apesar de não gostar muito. Então a trança é diferente. Você deve
ter visto nos seus estudos: o processo, é outro. E, assim, eu não faço trança e nem rabo de
cavalo eu faço mais em branco! [Risos] Ai, não faço não. [Risos]

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

11. KATIA MEDEIROS

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 19 de julho de 2017, no bairro de


Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Quais são as suas primeiras lembranças das tranças?

Eu comecei como cabeleireira. E, ao ver no mercado o crescimento das tranças eu me


interessei em me formar como trancista. Eu já tinha uma noção de implantista e fiz um
curso de trancista pra me qualificar melhor, sair do ramo de cabeleireiro (onde eu só
trabalhava com escova, química e corte pra me qualificar como trancista e implantista).

E quando, exatamente, você decidiu mudar de cabeleireira para trancista?

Há cerca de três anos eu fiz o meu primeiro curso na estrada da Água Branca numa igreja
católica que tem lá em Bangu. Eu fiz lá e aprendi o básico. Daí eu fui fazer um outro curso
em Caxias, onde aprendi muita coisa. Então eu tomei a decisão de fechar o meu salão em
Vila da Penha pra vir trabalhar em Madureira somente como trancista. E eu não me
arrependo. Acho que foi a melhor escolha que eu fiz porque às vezes chegam mulheres
aqui totalmente desmotivadas, tristes, quase carecas porque o cabelo caiu por química ou
por doenças. Então quando a gente pega uma pessoa assim, desmotivada, faz o cabelo e vê
a felicidade das pessoas no final… Acho que não tem recompensa melhor do que essa.

Você falou que saiu de Vila da Penha pra abrir um salão em Madureira. Porque você
escolheu esse bairro, que tem tantas trancistas?

Eu vim com a cara e a coragem. Não tinha expectativa de nada, não sabia o que ia
acontecer. Eu simplesmente me lancei. E, assim, a gente aprende todos os dias. A gente
não pode falar que a gente é sabe tudo. E dentro do que a gente faz, quando a gente procura
fazer o nosso melhor, a gente sempre vê uma resposta. Se você olhar aqui em volta o que
mais tem são angolanas e haitianas, que são pessoas que trabalham muito bem com trança.
E eu posso falar que eu tenho visto um excelente resultado através do meu trabalho.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Você falou que começou a trançar depois de ter se tornado cabeleireira. Mas eu quero
saber se, na sua família, durante a sua infância, você teve algum contato com as
tranças.

Quando eu era criança eu tinha o cabelo muito cheio e a minha mãe e a minha irmã mais
velha tinham o hábito de fazer aquelas duas tranças. Acho que várias pessoas, quando
crianças, já usou aquelas duas tranças com rabo de cavalo. Eu odiava aquilo! [Risos] Ou
então faziam coquinhos no meu cabelo e me mandavam pra escola (o que eu também
odiava). Agora, há cerca de três anos que eu comecei a ver como são bonitas as tranças, os
desenhos. Hoje em dia tá em alta, tá na moda. Não são só pessoas negras que usam,
também tem pessoas de cabelo liso que fazem. Então é algo que tá na moda e a gente,
como profissional, tem que estar sempre buscando o melhor pros seus clientes e até mesmo
pra pra poder divulgar o seu trabalho.

E por que você não gostava? Doía pra fazer?

É mais a parte de bullying. Hoje em dia é bullying, né? Na minha época de infância
chamava de encarnação, curtição de outros amigos na escola. Hoje em dia se diz muito ser
bullying. Mas era algo que realmente me incomodava, eu não gostava. Eu tinha o cabelo
muito crespo, grande e muito cheio. Hoje em dia eu amo trança!

Como você mesma disse, de uns anos pra cá tem tido uma valorização em torno da
cultura negra em geral, principalmente das tranças e do cabelo black. Como você
enxerga essa tendência?

Valorizou muito porque há um tempo atrás a trança, o cabelo black, as pessoas viam com
preconceito. Achavam que quem tinha era quem não se cuidava ou porque não tinha
dinheiro. E hoje em dia as pessoas veem as tranças e o black de uma forma totalmente
diferente, é um novo estilo que veio pra ficar, não é algo que eu vejo como passageiro.

Você comentou que pessoas de cabelos lisos, cacheados e de todos os tipos de fios
trançam os cabelos. Você vê algum problema em trançar pessoas brancas?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Não, eu não vejo até porque é o meu trabalho. Acho que a gente tem que ser profissional.
Eu não vejo nada demais se o cliente vem até o salão e quer modificar o seu estilo ou fazer
algo diferente. Tem cliente que chega aqui e diz “eu sempre tive o sonho de usar trança,
mas tinha medo ou por sentir dor, ou por achar que não vai ficar legal, por achar que
alguém vai achar que ficou feio”. Eu acho que a trança hoje em dia é algo que veio pra
ficar, não é como essas novidades, tendência de moda que fica um tempo e some. Eu
acredito que a trança, o black, o estilo afro em si veio pra permanecer.

Existem vários tipos de divisões de raiz na hora de fazer tranças, certo? Quem define
isso é o trancista?

É o formato, o desenho que você quer dar naquela cabeça. Algumas pessoas são mais
simples, então é aquele quadradinho certinho que nós fazemos um pouco menor na frente e
um pouco maior atrás. Mas quadrado ou o redondinho, o desenho não importa. O que
importa é o estilo que vai dar à trança na finalização.

E quais são as maiores dúvidas das suas clientes quando elas vêm aqui para colocar
uma trança?

Elas perguntam como vão tratar da trança pra que ela tenha uma durabilidade melhor.
Porque é como eu costumo sempre falar: você tá com o cabelo trançado, então não há
necessidade de você estar passando creme porque pode criar fungo na raiz do cabelo já que
nem todo mundo sabe higienizar o couro cabeludo da forma correta. Então o que
normalmente eu indico aos meus clientes é lavar com xampu e enxaguar bem. E o cabelo
vai estar ali dentro da trança guardadinho, não tem como quebrar. É claro que existem
algumas pessoas que já chegam até a gente com vários problemas capilares por causa da
química, da progressiva. E, dependendo das condições do cabelo, em alguns casos a gente
indica não fazer uma trança muito grossa pra que aquele cabelo não venha a soltar com o
peso da trança. Então, assim, são vários fatores que você tem que avaliar antes de trançar o
cabelo. Porque não é só você ganhar dinheiro como trancista. Você tem que saber aquilo
que você tá fazendo e a responsabilidade do seu trabalho.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Muitas meninas acabam escolhendo as tranças como um método para passar pela
transição capilar. Por que você acha que elas optam por esse penteado e não por
outro modo de remover a química do cabelo?

Porque a trança ajuda no crescimento do cabelo. Naquele período que a pessoa tá com
trança ela não vai usar química, não vai usar coloração porque não tem necessidade. Então
é uma forma do cabelo dela nascer mais forte. Elas vão dando um tempo pra depois
começar a cortar aquela parte que tá com a química. Porque é muito chato a mulher ter um
cabelão e do nada cortar, é complicado. E quando elas tomam essa decisão [de cortar a
parte do cabelo com química] elas normalmente chegam aqui muito tristes, com a
autoestima lá embaixo por causa do cabelo curto. E, assim, a gente tem que tentar auxiliar
da melhor maneira possível, né?

Entendi. É verdade que cabeleireiros e trancistas também acabam exercendo papel de


psicólogos?

[Risos] É verdade. Eu gosto porque, o nosso trabalho em si, como cabeleireiro, trancista, a
gente acaba sendo um pouco de psicólogo, irmão, amigo. Tem clientes que não são só
clientes, eles se tornam seu amigo. É aquela pessoa que vai chegar e, se o salão de repente
estiver muito cheio, ele não vai conseguir desabafar, não vai conseguir passar pra você o
que ele está passando na casa dele, no trabalho ou com a família. Mas quando o cliente que
já é amigo chega, ele acaba desabafando, acaba contando um pouco da vida pessoal e
profissional, de algum problema de enfermidade… Ele acaba desabafando com o
cabeleireiro, com o profissional que tá ali na hora atendendo.

E qual a parte do seu trabalho que você menos gosta e qual você mais gosta?

A que eu menos gosto é de ficar parada! [Risos] A que eu mais gosto é trabalhar porque eu
amo meu trabalho! Às vezes eu fico mais de 12 horas em pé. Então, assim, graças a Deus
tem dado bons resultados.

E você não sente dores por ficar tanto tempo de pé, fazendo movimento com as mãos?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Olha, não tenho tendinite, nada disso. O que no final do dia ocorre é você sentir muitas
dores nas pernas, principalmente quem tem tendência a ter varizes, que é o meu caso.
Tenho vários vasinhos, então isso cansa mais as pernas. Mas, ao mesmo tempo, quando a
cliente abre aquele sorrisão quando vê o resultado, só isso daí já é o suficiente! [Risos]

E quais são as tranças que o pessoal mais pede pra você?

A rastafári, a twist e a nagô.

Você contou que já foi cabelereira. Você acha que trancista e cabeleireira são
profissões diferentes?

São trabalhos bem diferentes, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Em alguns casos
aquelas pessoas que estão fazendo a transição pedem até pra gente cortar o cabelo. Então,
no caso, quando a pessoa já tem noção ou é um profissional formado, o cliente não corre o
risco de sair com o cabelo um aqui, outro lá [diferença de tamanho]. Porque tem muitas
pessoas que trabalham aqui que não são formadas como, por exemplo, os angolanos, que
não são formados porque já crescem trançando cabelo. Então eles [angolanos] viram nesse
trabalho aqui, no Rio, uma forma de se ganhar dinheiro e manter a família. Eles viram uma
oportunidade de ganhar dinheiro trançando, coisa que no país deles é algo que não é
valorizado. E aqui no Rio as tranças são algo muito valorizado.

Algumas trancistas que eu entrevistei comentaram que encaram as tranças mais


como uma arte, um trabalho manual, do que como um produto. E que o contrário
acontece com as trancistas angolanas.

Sim, mas não são todas. Porque na realidade isso a gente vê mais no dia a dia, né? Tipo
assim: o cliente chegou, elas [angolanas] vão fazer, mas querem terminar aquilo ali logo
pra você ir embora e entrar outro cliente. Só que quando você gosta daquilo que você faz,
você vê a trança não só pelo lado financeiro, mas como uma obra de arte, então você
procura fazer o seu melhor. Hoje em dia a gente tem visto muito por aí pessoas que pegam,
fazem uma trança, “ai, já sei fazer”, aí começam a divulgar que são trancistas. E na

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

realidade começam a fazer um bando de besteira e quando você vai ver os clientes vêm até
você reclamar: “ah, eu fiz com tal fulano”. Mas não é uma responsabilidade sua.

Em Salvador, na Bahia, as trancistas possuem um sindicato. Aqui no Rio ainda não.


Você acha que existe muita rivalidade nesse meio? Ou trancistas são uma classe
unida?

Tem muita rivalidade. Mas eu acho que [a profissão] deveria ser algo que alguém olhasse
com mais carinho. Formar um sindicato, como existe o sindicato dos cabeleireiros que
você vai, faz um curso, se forma; você está preparado pra exercer aquela função. Então eu
acho que deveria ter uma fiscalização melhor. Até pra dar um respaldo ao cliente porque,
quando ele sai aborrecido com um serviço as pessoas não dão a menor importância. Então
tem que haver essa responsabilidade. Assim como acontece com o cabeleireiro, de um
modo geral, que se prepara, se forma e não está ali por estar, não vai pegar o cabelo de um
cliente e fazer de qualquer maneira. Assim também deveria ser no meio das trancistas.

E por último eu quero saber: qual a primeira coisa que você lembra quando falamos
em tranças?

A beleza da mulher!

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

12. LETÍCIA CASTRO

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 22 de julho de 2017, no bairro de


Anchieta, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Quando a gente fala em tranças qual é a primeira lembrança que vem a sua mente?

Eu já usava trança com uns quatro, cinco anos. Eram umas tranças bem mal feitas, mas ok
porque criança não liga pra isso, então eu tenho boas lembranças com as tranças. Nessa
fase de quatro anos eu não tava nem aí pra cabelo, eu tava a fim era de comer os meus
biscoitos! [Risos] Mas depois fui crescendo mais um pouquinho e com uns 12, 13 anos
comecei a usar aquele miojinho [aplique sintético de tranças bem finas e onduladas que
fisicamente remetem ao formato do macarrão instantâneo] que já vem pronto [trançado].
Eu me sentia incrível porque era um cabelo longo (e eu não tinha cabelo longo de jeito
nenhum), umas trancinhas longas que iam até a bunda. Eu me sentia “a maravilhosa”.

Então você jogava o cabelo?

É! Jogava o cabelo e ficava me sentindo a melhor do bairro, tadinha! [Risos] Eu tinha o


cabelo muito curtinho (ele não crescia porque eu usava muita química), então ele não
desenvolvia. A única coisa que fazia o meu cabelo ficar longo eram as tranças. Hoje em dia
eu não to nem aí, tô até trabalhando o psicológico pra ficar careca! Porque na verdade eu
não quero só ficar careca, eu quero ficar careca e loira!

E como é essa questão do cabelo pra você? Você muda bastante os apliques de cabelo,
a cor, o comprimento, já fez química, agora quer ficar careca... Fala um pouquinho
da sua relação com seu cabelo.

Acho que comecei a mudar de cabelo e não ligar pro que os outros tão pensando a partir de
uns 20 anos. E eu tô com 24. Com 20 eu tava entrando na transição, se não me engano, e a
minha família ficava “ah, passa um negocinho no cabelo só pra dar uma abaixada e tal” e
eu dizia “não tô a fim, não”. Então eu deixei de ligar pro “ah, fulano falou que não está
bom”, “fulano falou que essa cor não combina com você” e pensei “que se dane”. Nem a

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

minha mãe se meteu mais. Então agora eu não tenho mais problema, adoro trocar de
cabelo. Quando fico com a mesma cara, sem um cabelo diferente, eu me sinto bem mais ou
menos. Eu uso black, uso lace [lace wig é um tipo de peruca feita com uma tela interna em
que os fios são costurados, simulando o couro cabeludo], uso roxo, verde, rosa choque…
Até liso também, se for peruca. Eu só não consigo mais relaxar o meu cabelo. Mas usar
uma peruca com cabelo liso? Uso e bem linda. O importante é estar mudando de cabelo.

E você sente diferença no tratamento das pessoas com você a depender do cabelo que
você está?

Eu não sei se me tratam pior; sei que quando chego eu causo um certo impacto. [Risos]
Porque eu sempre boto cabelos de cores diferentes e se fosse só isso, “tudo bem”. Mas eu
boto um cabelo muito cheio porque gosto de cabelo bem montado. E se não for pra sair
montada eu não quero nem sair de casa! Tenho que estar com um black cheio, com um
cabelo montado porque se não eu me sinto tão mirradinha. Então eu prefiro achar que eles
[as pessoas ao redor] tão pensando “ah, nossa, ela tá diferente e tal, tá chamativo”. O
restante nem fico me preocupando porque se eu for ficar me preocupando se eles vão
gostar ou não vai ficar bem complicado. Eu nem dou confiança, essa é a verdade. Teve um
tempo que eu ficava “ai, não vou usar porque imagina o que fulano vai pensar na rua se eu
usar um cabelo assim”. Mas o tempo vai passando e a gente vai tirando essas neuras da
mente.

Antes de começarmos a gravar você contou que usou química nos cabelos até os 20
anos, quando entrou na transição capilar. O que te levou a querer assumir os fios
naturais?

Simplesmente eu queria mudar. Mas também teve uma coisa a mais porque enquanto eu
estava usando química o meu cabelo caiu e eu fiquei com buracos na cabeça. Então eu
falei: “não dá mais pra passar química, não quero mais alisar meu cabelo, vou deixar ele
crescer natural”. E foi o que eu fiz. Não tinha nem essa questão de empoderamento que
tem agora, esse negócio forte. Até porque eu morava no interior, então causava muita
estranheza até pro pessoal da minha família o fato de eu estar andando com um cabelo bem
crespo, bem armado; eles não lidavam muito bem com isso. Hoje em dia, com tanta gente

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Transcrição das entrevistas

não ligando, eu acho que eles se acostumaram. Inclusive minha mãe entrou na transição e
tá com cabelo natural, assim como a minha irmã, minhas tias e meus primos: todo mundo
com cabelo natural. Porque veio um movimento muito forte, né? Então eles tiveram aquela
força pra poder sair da química – coisa que antigamente era muito difícil, ainda mais pra
quem morava no interior, como eu [Letícia morava em uma região rural de Belford Roxo].

Voltando agora à questão das tranças, quero saber sobre as meninas que escolhem as
tranças como modo de passar pela transição capilar.

Sim. E elas acabam viciadas nas tranças, não conseguem assumir o próprio cabelo. Tem
clientes minhas que não saem de casa com o cabelo natural, elas têm que estar de trança;
elas saíram de um vício [a química] pra entrar em outro. O que elas sentem é uma falsa
liberdade.

Então você acha que elas acabam usando as tranças pra esconder o próprio cabelo?

É. Elas não aceitaram, não tiveram apoio suficiente [pra assumir o próprio cabelo]. Porque
uma coisa é você estar na internet e ver as pessoas assumindo o próprio cabelo. Outra coisa
é dentro da sua casa; você não tem um incentivo, teu namorado não te incentiva, teus
amigos não te incentivam. É de realmente querer surtar, é muito difícil.

O black choca mais do que as tranças?

O black choca mais do que as tranças, mas não é só essa questão. O pessoal entrou na
transição pra ganhar o cabelo natural. Só que as meninas ficam frustradas pelo fato do
black não ser cacheado. Porque tem um padrão pra você ter um black, também: ele tem que
formar cacho. Se não for cacheado “não tá bom”, entende? E a maioria dos blacks não têm
uma textura específica porque não são cabelos do tipo 3 [classificação de textura de
cabelos com cachos definidos e volumosos]. A realidade é que a maioria das meninas
negras têm um cabelo tipo 4 [classificação de textura de cabelos crespos rígidos que não
formam cachos]. Então eu acho que pra você aceitar um cabelo tipo 4, que não é o que o
que as pessoas ficam mostrando na internet, é muito mais difícil. Porque enquanto o cabelo
natural tá cacheado ele tá definido. Então quando as meninas passam pela transição e vêem

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

que o cabelo não tá definido elas ficam meio frustradas e acabam não querendo mais usar
eles ao natural. Tipo “ah, Letícia, tá sem química mas meu cabelo não define, por isso eu
não quero tirar minhas tranças”, “se o meu cabelo definisse igual o de fulana talvez eu
usaria solto, mas assim não tá dando”. Aí eu falo “gata, a transição tá aí pra você usar o seu
cabelo, você não pode focar no cabelo de outra pessoa porque você acaba desejando um
tipo de cabelo que nem é o seu”. Então eu acho que a ideia inicial da transição capilar é a
pessoa se aceitar do jeito que ela é naturalmente. Mas não é o que acontece. As pessoas
estão muito ligadas em “ah, vou entrar na transição, mas tem que ser um cabelo definido,
se não for um cabelo definido não está bonito, não está apresentável pras pessoas”. Então
tem essa questão de que as tranças chocam menos e também tem essa questão do cabelo
não ser cacheado; as pessoas entram na transição, mas elas buscam um tipo de cabelo
cacheado que não é a realidade delas. O meu cabelo não é cacheado; o cabelo de muitas
das minhas clientes não é cacheado e nunca vai ser cacheado naturalmente. Então elas têm
dificuldade em lidar com essa questão do crespo.

Anteriormente você falou sobre postar uma foto no Facebook e ganhar elogios e
acabou citando a Geração Tombamento. O que você pensa dela?

Eu acho um movimento bom. Acho que todos os movimentos têm suas falhas, seus
problemas, mas no geral eu acho bacana porque permite que muita gente esteja [nos]
vendo com outros olhos. Tipo “cara, eu tô vendo a fulana maravilhosa com cabelo crespo,
então dá pra ser bonito com o meu cabelo também”. Mas eu acho que essa geração da
internet, essas meninas que se montam, deram espaço pra algumas garotas, mas
complicaram a vida de outras porque também tem a questão financeira. Nem todo mundo
vai poder dar um dinheiro firme pra fazer tranças, que não são baratas. Então essa questão
de não ser barato limita muitas meninas de poderem usar também e eu acho que essas
meninas se sentem excluídas; não se sentem respeitadas dentro desse grupo por conta dessa
questão de não terem como pagar, não terem como bancar aquele “tombamento”, aquela
roupa, aquele tênis, aquele cabelo, aquela maquiagem. Não é a realidade delas e eu acho
que isso deixa muitas pessoas bem excluídas. Então eu acho isso [a Geração tombamento]
muito bom, mas quando a gente olha por outro lado tem pessoas que acabam ficando sem
expectativa nenhuma, principalmente no caso das tranças. Porque quando a gente entra
nessa questão de trançar cabelo também entra na questão de ter dinheiro pra pagar. E nem

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

todo mundo tem essa condição de escolher profissional X e dar tal valor: pessoa tem
prioridades na vida dela, tem outras contas pra pagar, muitas vezes tem filho e família pra
ajudar. Então o Tombamento não é realidade pra todo mundo.

Ainda sobre essa questão da estética do Tombamento: você “lacra” nas redes sociais.

[Risos] Mais ou menos, né… [Faz cara de confusa]

Eu quero saber se você sente uma diferença no dia a dia, no modo com que as pessoas
lidam com você.

Eu sinto que as pessoas me olham com belos olhares no dia a dia, na rua. Mas acho que é
diferente quando você, por exemplo, vai procurar um emprego. Nisso o olhar muda
totalmente. Na rua, no dia a dia, no shopping, a maioria olha com bons olhos, me acha
bonita, acha que eu tenho estilo, “presença”. Mas quando você vai procurar um emprego o
buraco é mais embaixo. A pessoa já olha pro seu cabelo e fala “nossa, e esse seu cabelo?”,
“ah, é porque a empresa pede que você esteja com o cabelo arrumado, com o cabelo meio
preso e tal, determinadas cores não pode usar”. E às vezes são trabalhos em que você nem
vai lidar com o público (você vai ficar trancada dentro de uma sala) e a pessoa mesmo
assim se incomoda com o seu cabelo. Agora no dia a dia eu sinto que os olhares são bons.
É porque também teve um tempo da minha vida, eu acho que dos 22 pra cá [Letícia tem 24
anos], que eu decidi que não vou dar mais confiança, entendeu? Com 22 eu tava ainda
aceitando opiniões de pessoas, de namorado... Mas eu acho que quando eu terminei o meu
último relacionamento eu falei “cara, eu não preciso disso”. Porque quando eu tinha 21
anos ele [o ex-namorado de Letícia] chegou pra mim e foi bem claro, ele falou: “olha,
Letícia, se você cortar o seu cabelo de novo a gente vai terminar porque eu gosto do seu
cabelo assim”. Como eu já estava em uma fase que eu não queria dar confiança pra
ninguém, eu fui lá e cortei. Mas eu realmente não esperava que ele fosse terminar. E ele
terminou! [Risos]

Mas ele tava namorando com você ou com o seu cabelo?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Pois é! Ficou o questionamento aqui na minha família: “mas como assim ele tá namorando
com você ou com seu cabelo, né?”. Complicado.

Que loucura.

[Risos] Com certeza não foi só por conta do cabelo, mas essa foi a pior justificativa que ele
poderia usar. Ele falou “ó, se você cortar o seu cabelo não vai dar” e eu falei “então eu
acho que a gente vai terminar”. Aí a gente acabou.

E você vê alguma diferença entre trancista e cabeleireiro?

Olha, primeiramente eu acho que são áreas diferentes. As duas mexem com cabelo, mas
são profissões diferentes: a trancista mexe com uma coisa específica, que é trança. E eu
acho que por essa questão, pela maioria [das trancistas] ser negra e atender pessoas negras,
o significado muda totalmente. Quando você tá ali, trançando, você também tá escutando o
que a sua cliente tá passando, ela não tá ali simplesmente por “ah, hoje eu resolvi botar
trança”. Na maioria das vezes há todo um histórico pelo qual ela quer fazer trança:
geralmente ela quer voltar ao cabelo natural, às suas raízes; então isso carrega um peso a
mais do que um cabeleireiro comum em que a pessoa vai ali, faz uma escova e acabou. Eu
acho que a trancista carrega esse peso porque fazer trança é uma mudança de vida: não é só
um cabelo que a pessoa tá mudando, é uma mudança na personalidade, no posicionamento
dela. Eu acho que essa é a grande diferença entre o trancista e o cabeleireiro.

Você disse que o trancista ouve muitas histórias das pessoas. É quase um terapeuta,
né?

[Letícia sorri] Sim.

E como é isso?

Eu gosto. Minha filha, minhas clientes são todas íntimas! Eu sento aqui e a gente fica oito,
nove, 10 horas juntas, então é muito difícil a gente não ficar íntima uma da outra. Eu acho
também que essa é a diferença pra um cabeleireiro normal: porque uma escova você vai

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

fazer em 40 minutos, uma hora. Uma trança você vai ficar sete, oito, nove, 10 horas. Então
dá tempo pra você conversar de tudo. A gente entra em vários assuntos: família, namorado,
sonhos, faculdade… A gente conversa muito. E eu acho até bom você criar uma intimidade
com o cliente porque depois que ele sai da sua casa geralmente não é mais um “cliente”.
Ele te paga porque ele valoriza o teu trabalho, mas vocês já ficam mais próximos. Eu já
tenho cliente minha que vem aqui em casa sem nada pra fazer, só vem e diz “vamo
almoçar lá em casa”, “vamo fazer isso, vamo sair”. A gente cria um laço. É muita conversa
que a gente trocou pra depois esquecer e deixar de lado... E às vezes bate! Tem aquelas
clientes que o negócio junta, sabe? Ai você fala “caramba, não dá pra deixar essa menina ir
embora, deixa ela aqui”. Aí a gente se junta.

Há algumas religiões, principalmente o candomblé, que colocam a cabeça como o


centro do corpo, o local de onde vem toda a nossa energia. Você falou que existem
clientes leves, que você logo simpatiza. Mas imagino que devam ter as mais
“pesadas”, certo? Como é isso?

Geralmente eu foco muito na questão de estar fazendo [a trança]. Então eu foco na cliente,
não só na cabeça, mas nela no todo. Eu presto atenção no que ela tá falando e eu acho que
assim o trabalho flui bem melhor. Realmente, tem umas que chegam e você ora pra ela ir
embora porque tem alguma coisa ali que não tá de acordo. E a minha mãe e a minha irmã
também são muito intuitivas com esse lance, elas sentem a mesma coisa. Minha é mãe é
bem religiosa, então ela já começa a jogar azeite na casa inteira! Só não joga na cliente por
que né? Não vou fazer isso! Mas se a cliente der confiança ela joga até na cliente. [Risos]

Sua mãe é de qual religião?

Minha mãe é evangélica.

E joga azeite?

É azeite, é sal ungido, é açúcar ungido, geleia ungida… Eu falei “mãe, antigamente era só
o azeite, agora cês tão ungindo tudo” e ela diz que “é pra se precaver”. [Risos]

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Transcrição das entrevistas

Proteção nunca é demais!

É. [Risos] Então… Tem umas pessoas que são bem carregadas, assim. E da próxima vez
eu já falo que não tem vaga. [Risos] Porque não tem condição. É uma coisa que mesmo
depois que ela [cliente com energia ruim] vai, deixa contigo. E eu também trabalho com
estética, faço faculdade de estética e cosmetologia, então a gente fala muito sobre essa
questão de energia. E, olha, tem cliente que não vale a pena porque é uma energia tão
pesada que não dá. Aí quando a gente faz os tratamentos acaba ficando com todo aquele
cansaço que o cliente chegou, parece que passa pra gente. E depois pra tirar, só Deus.

Só Deus e o azeite.

E o azeite! [Risos]

Agora sobre a questão da valorização das trancistas: eu entrei em alguns grupos no


Facebook…

Oh, meu Deus! [Risos]

São bem polêmicos, né? Tem pessoas que fazem tranças a um preço muito baixo,
outras a um valor muito alto. O que você acha disso?

Acho que tem público pra todo mundo, não é uma coisa que a gente vá ficar discutindo.
Porém eu acho que é um trabalho tão cansativo… Leva várias horas. É um trabalho que
você age como um terapeuta do cliente. Então você cobrar um valor extremamente baixo
por isso vai fazer chegar um momento em que a pessoa não vai mais aguentar fazer; vai
perder a vontade de fazer as tranças, vai perder o amor pelo serviço porque você não vai
estar sendo bem remunerado por isso. Porque conta você ver a autoestima da sua cliente
renovada? Conta. Mas a realidade é que todo mundo tem conta pra pagar. Você vai deixar
uma pessoa linda e maravilhosa, mas você mesma não vai conseguir se manter. Mas por
outro lado eu também vejo que tem pessoas que realmente não tem condição de pagar. Só
que eu acho que nesses casos eu ainda iria preferia dar [a trança] pra pessoa: “cê tá
precisando, cê não tá se sentindo bem, é uma coisa que vai te deixar feliz? Vem pra cá.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Esse dinheiro que você ia gastar me pagando você compra o material, a gente marca um
dia e você vem fazer”. Eu acho muito melhor do que a pessoa jogar o valor muito pra
baixo. Porque tendo gente que faça isso [cobrar um valor abaixo do mercado] as pessoas
vão pensar que realmente é esse preço normal. E na verdade não é. E o trabalho manual já
tem essa questão toda de desvalorização. Falam: “você trabalha de que?”. Você: “ah, sou
trancista” e a pessoa já fica meio assim.

Essa é a sua renda principal?

Eu só trabalho com isso há quatro anos. E as pessoas tendem a achar que “não é um
trabalho de verdade” porque não tem carteira assinada. Só que aí eu digo “cara, eu tenho
meu CNPJ, eu pago tudo direitinho, faço um trabalho que não tem nada de diferente do
seu”. E com isso, de algumas trancistas colocarem um valor tão baixo acaba… Na verdade
tudo que é de preta a pessoa tende a botar pra menos. Se você estiver vendendo uma roupa,
por exemplo, as pessoas já dizem: “ah, mas você não faz o valor x?”, “não tem como você
fazer por tanto?”. Poxa, quando você vai na loja de fulana você não paga o que ela pede?
Por que comigo você supõe que não é um valor justo pra você pagar? É muito complicada
essa situação, quando as pessoas querem colocar valor no seu trabalho. Cada um coloca o
valor que quer. Mas eu acho que 50 reais, por exemplo, é um preço que vai chegar
determinado tempo e você não vai aguentar. Você não vai fazer mais por amor, você vai
fazer de qualquer jeito. E você tá lidando com uma pessoa. A pessoa vai sair da sua casa e
aí o cabelo vai ficar uma caca e como é que vai ser? 50 reais você não vai ter nem como
refazer o cabelo dessa cliente se ele ficar ruim. Então as pessoas têm que pensar nisso. Sem
contar as dores que o trancista ganha ficando oito horas em pé na mesma posição.

Dói a mão?

Dói a mão, dói a coluna, tem as varizes que surgem pra dar e pra vender… Então tem que
ter um bom plano de saúde. O pessoal acha que é só chegar lá e fazer a trança, mas não é.
Muitas trancistas não têm essa preocupação [com o físico], mas quando o tempo for
passando elas vão ver que vão precisar [de plano de saúde], não vão ter mais pique pra
trabalhar... Porque vai chegar um momento em que a própria profissão [de trancista] vai te
mostrar que não dá mais e você vai ter que parar. E quando chegar esse momento de parar

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

você não vai ter pra onde correr: você trabalhou a vida inteira com aquilo, você não juntou
um pé de meia, você não tinha um bom plano de saúde pra fazer a sua própria manutenção,
você não tinha nada; você deu muito pras pessoas e não teve nada pra você. Você só fica
com o mínimo [de dinheiro e saúde] e com o mínimo não dá, né? Você só sobrevive, não
vive.

Agora vamos falar sobre apropriação cultural.

Sobre apropriação cultural e se eu faço o cabelo de pessoas brancas, né? Não tenho
problema nenhum em fazer cabelo de pessoas brancas, essa é a realidade. Porém meu
público não é esse. Mas se um dia aparecer alguma cliente branca eu vou fazer porque
como profissional esse é o meu trabalho. Eu não vou chegar na cliente e falar “não vou
fazer o seu cabelo porque você é branca”. Não sei, acho que cabe até um processo aí se a
pessoa quiser. Mas eu não tenho problemas quanto a essa questão. Na verdade eu nem
gosto de discutir apropriação cultural, ainda mais quando entra nesse tema de trança.
Primeiro por estar onde a gente está, no Brasil, e segundo por que existem questões
maiores que essa pra gente estar debatendo, entendeu? Mas é claro que quando a menina é
branca e usa tranças é descolada e bem aceita, enquanto a menina negra que tá usando tem
que lidar com pessoas perguntando se o cabelo tá sujo. Sempre botam o peso negativo na
menina negra que tá usando trança e o positivo na menina branca que está trançada. Só que
a verdade é que isso não vai mudar nada; só o negro usar trança não vai mudar a ideia que
a sociedade tem sobre aquela trança. Acho que o que mudaria essa questão da apropriação
cultural é se a gente trabalhasse o respeito àquele símbolo. É muito chato ter que discutir
tanto esse tipo de coisa [apropriação cultural] vendo que a gente tem outros assuntos muito
mais importantes que estão sendo deixados de lado. O pessoal na internet tá preocupado
com fulano usando trança e tal, mas enquanto isso tem mulher preta precisando de ajuda,
criança preta precisando de ajuda, tem um monte de negro morrendo por aí e ninguém se
preocupa. A energia que a pessoa coloca pra discutir a questão de um branco usar trança
poderia ser muito bem utilizada em outras coisas mais urgentes. E as pessoas que tão sendo
presas, tão sendo mortas, que tão passando necessidade? Ninguém tá nem aí. Eu já fui
muito de “ah, meu Deus, branco não vai usar essa merda não”, de “sai, seu palmito”.
[Risos] Mas chega um tempo na vida que isso te consome tanto que você vê que não vale à
pena, que todo o tempo que você ficou ali argumentando não adiantou pra nada, só te

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

estressou. E aí você percebe: “cara, porque eu estou gastando tanta energia pra isso e não
estou me preocupando com coisas graves que tão acontecendo?”. Um bando de negro
sendo morto a troco de nada e a gente não tá nem aí porque não procura, não olha. Então
eu acho que essa energia seria muito bem gasta com essas causas, entendeu? Porque eu
ficar ali falando “branco, você não vai usar essas tranças, não”, ou “ah, você não pode ser
candomblecista”, etc... E essa questão da gente tá no Brasil é bem puxada porque todo
mundo tá muito misturado. Eu sei que o pessoal fica puto quando a gente fala que no Brasil
somos todos misturados, mas é a realidade.

Agora a minha última pergunta é sobre Madureira porque…

É o foco!

Isso. Madureira é onde a gente tem a maior parte dos salões afro, é onde a gente tem
o maior mercado de cabelos sintéticos…

Sim, Madureira é o foco! Inclusive falam que lá é onde se encontram os mais tops dos
tops!

[Risos] As trancistas “tops”?

Não, eu tô falando daqueles homens, daquelas meninas, daquele pessoal maravilhoso…

Os “tombamento”!

Tá tudo lá!

Eu quero te perguntar por que Madureira tem essa cultura de tranças, essa cultura
afro tão forte?

Cara, eu acho que é muito samba. Madureira tem duas escolas de samba [Portela e
Império Serrano], ali em Oswaldo Cruz [bairro vizinho a Madureira] tem a tia Doca [casa
de shows de pagode]... Então eu acho normal essa concentração ser toda em Madureira. Os

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

caras do samba são de Madureira, as rodas de samba eram feitas em Madureira, todos os
eventos de samba de raiz são lá por Madureira. Então fica muito difícil você fugir de
Madureira diante disso. Além de ser subúrbio, né? Você não vai encontrar isso lá na Zona
Sul. O foco realmente é Madureira: o samba tá lá, o viaduto do charme tá lá, as lojas estão
lá... Tá tudo lá!

Você já foi ao baile charme?

Já fui mais, hoje em dia eu tô dando valor à minha Netflix.

E como você aprendeu a trançar?

Então, eu acho que se deu por essa questão que o meu cabelo deu uma quebrada [por causa
das químicas] e tal, aí eu comecei. Paguei uma menina na primeira vez. Na segunda vez eu
não tinha dinheiro, trabalhava de babá e o que eu recebia era 200 reais na época. Não era
muito e não dava pra ficar fazendo cabelo todo mês. Então a necessidade me fez aprender a
trançar. E as minhas tias também são cabeleireiras. Elas sabem trançar, mas elas não
gostam muito porque preferem mega hair. Então eu fui a única que dei mesmo pra fazer
trança. Deve ter uns oito anos, não sei. A primeira vez que eu comecei a fazer trança eu
tinha uns 16 pra 17 anos.

Você aprendeu sozinha, então?

Sim. E nem tinha internet! Eu demorei três dias fazendo a minha primeira trança. E não era
nenhuma trança grande, era uma trança até aqui [faz gesto, colocando as mãos nos
ombros] e as divisões [da raiz do cabelo] nem eram pequenininhas. Mas eu não desisti, né,
porque dinheiro a gente não tinha e a necessidade faz a sua vontade de querer aprender
algo.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

13. MARCOS SILVA

A entrevista com o empresário foi realizada no dia 26 de julho de 2017, no bairro


de Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

O Feirão dos Brinquedos existe há quanto tempo?

A empresa na realidade já existe há 30 anos e nós trabalhamos há 25 anos com a parte de


cabelos sintéticos. Na realidade há cinco anos atrás ainda não existia, a nível nacional,
essas fibras que existem hoje, esses cabelos mais incrementados e parecidos com a textura
do cabelo 100% humano. Então o forte mesmo era o famoso “cabelo de boneca”, o
kanekalon, que ainda existe, na realidade.

Tem o jumbo também, certo?

É, o jumbo já veio bem depois disso, mas não sei te precisar há quanto tempo ele está no
mercado nacional. Eu mesmo já trabalho com o jumbo há oito ou 10 anos. Há 25, 10 anos
atrás o forte mesmo era esse segmento do sintético com a fibra do kanekalon. Nós
tínhamos uma clientela que usava o kanekalon porque não existia outra opção. Lembrando
que estamos falando de 20 anos atrás! Então muita gente dizia que não queria um visual
artificial com o “cabelo de boneca”. Foi quando vieram as novas texturas cada vez mais
próximas do cabelo humano, criando ainda mais adeptos dessas técnicas de alongamento e
implante.

Nos últimos anos, com o crescimento dos debates sobre “empoderamento” e


negritude, o cabelo afro tornou-se centro de discussões. Você sentiu alguma mudança
na procura por cabelos sintéticos na sua loja?

Muito, muito grande, uns 400% para cima. De seis anos pra cá, em conjunto com essas
novas fibras que chegaram, houve um aumento muito forte na procura por cabelos
sintéticos. A fibra nacional, o kanekalon, continua tendo aquela mesma clientela, só que
com os lançamentos dos novos cabelos muito parecidos com a fibra natural, a procura
aumentou absurdamente. Ganhamos clientes que utilizavam, inclusive, cabelo 100%

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

humano e agora são adeptos das fibras sintéticas. Até porque um cabelo 100% humano não
consegue chegar na textura que uma fibra orgânica tem, como um mesclado e uma
tonalidade específica, além de ser bem mais em conta. O cabelo artificial requer cuidado,
mas tem manutenção muito mais fácil [que o humano]. Então esse mercado cresceu muito.

Qual a quantidade de cabelos que vocês vendem por mês?

Na faixa de 600 pacotes por mês.

E qual é o cabelo mais procurado?

O jumbo está no auge. O jumbão, na realidade. O jumbão mesclado que nós trazemos da
nossa fábrica há cerca de dois anos. Eu digo “jumbão” porque é um pacote de jumbo
maior, que substitui os pacotinhos de cabelo e proporciona uma boa economizada já que
vem em maior quantidade. Eu procurei, junto ao fabricante, a melhor textura para fazer
esse jumbo, o melhor material.

De onde vem?

Vem da China.

Além do jumbo, quais outros cabelos são populares entre seus clientes?

O cabelo orgânico e a fibra nacional [kanekalon]. Ainda que seja o “pioneiro”, se posso
assim dizer, o kanekalon continua saindo muito para a fabricação de tranças.

E qual a principal diferença entre o kanekalon e o jumbo?

O kanekalon é conhecido como “cabelo de boneca” por causa do brilho. Como o jumbo
tem menos brilho, acaba ficando mais natural. O kanekalon também é o mais barato e vem
em maior quantidade. Por exemplo: 1kg dele custa 39,90, enquanto 350g de jumbo custa
quase o mesmo valor.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Aqui vocês não trabalham com cabelo humano, certo?

Sim, não trabalhamos com cabelo humano porque é mais difícil de conservar e posso te
afirmar que esse mercado de cabelo humano diminuiu bastante. Muitos lojistas que
trabalhavam com esse tipo de cabelo hoje foram para a fibra sintética porque com as novas
tecnologias ela tem ficado cada vez mais parecida com o cabelo de verdade.

Aqui é uma loja de brinquedos, o “Feirão dos Brinquedos”. Sempre teve cabelo à
venda aqui ou foi um produto implantado depois da inauguração da loja?

Os cabelos foram implantados depois. A loja primeiro veio com artigos sazonais: coisas de
criança, artigos de Natal, Carnaval e festa junina… Cinco anos depois da inauguração nós
começamos a trabalhar com esse segmento de cabelo nacional, jumbo, entre outros. Nós
ampliamos pra loja ao lado com brinquedos e começamos a implantar o setor de cabelo.

Mas vocês começaram a trabalhar com cabelos por que?

Porque as pessoas procuravam. Na realidade aqui é/era um feirão de brinquedos. E o


kanekalon era conhecido como “cabelo de boneca”.

Então as pessoas vinham procurar por apliques de cabelos aqui porque vocês
vendiam bonecas?

Exatamente!

Agora eu quero falar sobre Madureira. Aqui é onde tem a maior quantidade de
trancistas da cidade, a maior quantidade de salões afro e de mercados de cabelos. Por
que você acha que Madureira tem todo esse enfoque em tranças?

Olha, eu não sei te explicar. [Risos] Na realidade quando você fala em mercado de cabelos
100% humanos você acaba falando também de Caxias. Mas quando se fala em cabelo
sintético, que é também o mais acessível financeiramente, você fala de Madureira. Agora,
com você me perguntando, eu acredito até mesmo que isso ocorra pela quantidade de

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

trancistas que foi se formando aqui em Madureira. Eu não sei realmente te precisar sobre
isso. Agora, pensando direitinho, eu posso te falar que, há 30, 25 anos atrás, você não tinha
um pólo comercial em Campo Grande, em Nova Iguaçu. Eu tenho clientela desses lugares
e posso te afirmar que antes não existia calçadão de Bangu e um forte comércio local em
cada um desses lugares. Os principais lugares com concentração de lojas eram: Madureira,
Caxias, Centro da cidade e até mesmo o Méier (que hoje é mais fraco, mas já teve algum
comércio). Em Madureira nós tínhamos o “cabelo de boneca” aqui no Feirão, no Mercadão
(pouca coisa, mas tinha) e outra loja na Estrada do Portela há um período atrás. Então antes
você procurava cabelo sintético em outro lugar e não encontrava. Hoje existem várias lojas
nesses lugares, mas naquela época não, você não tinha opção. Quando você falava em
cabelo humano falava em Caxias e quando você falava de cabelo sintético falava de
Madureira. Por isso eu tinha clientela de todos os lugares do Rio de Janeiro. Hoje você não
precisa sair de Bangu, Campo Grande, Caxias ou Nova Iguaçu pra vir pra Madureira. Mas
mesmo assim nós ainda temos a clientela antiga que prefere vir aqui pela variedade ao
invés de ir em lojas do seu próprio bairro. Não sei se tem a ver, mas acho que isso acabou
influenciando até mesmo na localização dos locais de trabalho das trancistas. Hoje existem
muitas trancistas aqui no entorno da loja que estão bem próximas por essa facilidade de vir
aqui buscar o cabelo para fazer o penteado do cliente.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

14. MARGARIDA SOUZA

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 11 de agosto de 2017, no bairro da


Lapa, Zona Central da cidade do Rio de Janeiro.

Quando a gente fala em tranças qual a primeira coisa que na qual a senhora pensa?

Quando se fala em trança a primeira coisa que eu penso é no que a cliente gosta, como ela
gosta de ser trançada, que modelo eu vou fazer para o rosto dela e para a vida profissional
que ela leva. E aí eu vou perguntar se ela tem algum modelo, se ela trouxe alguma foto e
quer alguma coisa específica ou se vou apresentar as minhas revistas, os meus álbuns de
fotos com modelos que já fiz pra ela. Mas a seriedade da trança é saber a profissão da
pessoa pra ela poder usar trança. Porque às vezes você recebe uma cliente que é da justiça,
por exemplo. Uma cliente da justiça não pode andar trançada porque o juiz não aceita. De
repente você recebe uma cliente que trabalha em hospital: não pode. A trança tem que ser
muito simples…. Qualidade de vida com a estética do cabelo.

Como e por que você começou a trançar cabelos?

Eu comecei a trançar na década de 1970. Eu via umas fotografias em uns painéis na


Central, de pessoas com o cabelo esticado. O cabelo era muito feio. Aqueles cabelos
esticados a ferro quente. A pessoa ficava tão fora de si com aquele cabelo sem ser natural
que você se escangalhava de rir! Mas ria, debochava, debochava… [Risos] Meu Deus do
céu! E a pessoa ainda fazia aquela pose assim, no telefone... [Põe o dedo indicador na
bochecha e curva a cabeça para o lado] E tinha aquele pega rapaz [mecha de cabelo
colocada propositalmente sobre a testa ou nas laterais do rosto] feito com cabelo alisado. É
que o cabelo alisado tem uma hora que sai da posição. Fica uma quantidade toda acamada,
arrumada, deitada, e outra espigada. Com qualquer ventinho o cabelo sai da posição, aí
fica ridículo. Então a gente trançava com lã. A lã que foi a primeira especificidade para os
cabelos. Só que eu sou alérgica a lã; até usei algumas tranças de lã (tipo rastafári), mas eu
ficava com tanta coriza… E nem sabia que era a lã que me causava aquilo, então eu ficava
muito doente. Só que depois, com a evolução, a lã foi saindo e foi entrando o cabelo
humano, o cabelo das índias (o pessoal ía pro Amazonas comprar), que as mulheres

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

cortavam e aplicavam. E depois a história do aplique de cabelo foi evoluindo de uma


maneira estonteante. Muito bom! Agora tem uma quantidade imensa de cabelo: cabelo
100% humano, cabelo sintético, crespo, jumbo, twist, rastafári… Todos os tipos de cabelo
porque o comércio avançou muito. Aqui no Rio a gente ia mais em São Paulo pra comprar
cabelo porque ainda não tinha as tranças aqui ainda não tinham essa força. E eu aprendi a
trançar com Veluma Manequim. Eu ficava olhando a Day trançar, olhando, olhando, mas
eu não alcançava o movimento.

Veluma Manequim, aquela modelo?

Sim, eu comecei a trançar através do ensinamento dela porque eu visitava a Veluma lá na


Gávea, na época. Eu ia pra fazer o cabelo dela (fazer hidratação, fazer uma massagem) e
fazer trança, tipo assim, uma por uma. Mas eu não fazia a trança africanas, afro de raiz,
não. Eram aquelas que trançava uma, aí depois dividia, trançava outra, emendava… A
gente fazia essa trança antiga antes de chegar o aprendizado da trança de raiz que veio lá da
Bahia. Foi aí que a Veluma me mostrou o movimento da trança de raiz: pega uma parte,
pega outra parte, vira, faz um X e pega uma terceira [gesticula], vai puxando, pega uma
parte, pega outra parte, faz um X, pega uma terceira [fala mais rápido]. Aí a Veluma me
ensinou o movimento perfeito. Então eu sou grata à ela pela minha profissão de trancista.
Depois nós fomos melhorando, avançando e eu passei a ter outras clientes que eu atendia a
domicílio, né? Porque naquela época não tinha salão pra preto, a gente frequentava
qualquer um. Não tinha um salão da nossa identidade, onde a gente se sentia em casa,
como uma família; um salão em que a gente se sentisse mais forte, mais feliz, ocupando o
nosso espaço com a nossa beleza, nossa estética e nosso cabelo.

E você também trabalhou com a Day [importante trancista da cidade do Rio de


Janeiro na década de 80/90]?

Com a Day eu era cliente, era amiga e visitante. Eu conheci Day e frequentei seu salão
porque ela era a primeira trancista a ter um salão lá em Copacabana; eu era modelo dela.
Ela fazia tranças no meu cabelo e eu aprendi uma coisa muito perfeita com ela: a suavidade
ao pegar nos cabelos. Porque, na minha mente, o cabelo é uma planta que a gente tem que
regar com carinho, com amor: molhar, conversar, dar vida, dar equilíbrio. E Day me

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

ensinou a estética de como fazer a trança deitar sobre o couro cabeludo de maneira leve pra
não puxar. Não é puxando, é deitando o cabelo com suavidade sobre o couro cabeludo;
você pega o feixe de cabelo e deita sobre a cabeça. Sempre com muita leveza, com muita
suavidade pra não fazer a cliente sentir dor de cabeça, se sentir sofrida ou com mal estar.

Você disse que aprendeu a técnica das tranças com a Veluma e a Day. Mas quando a
senhora era criança, a pequena Margaridinha chegou a ter algum contato com esse
penteado?

Não. Quando eu era pequena eu não tinha contato com trança. Eu nem sabia que eu tinha
cabelo! Não me lembro de ter cabelo quando eu era pequena então eu não sofri aquele
processo de alguém puxar os meus cabelos pra trançar. Eu fui vítima da pasta. A pasta que
a minha mãe colocava no meu couro cabeludo é que me feria a cabeça. Eu não gostava, me
sentia muito infeliz porque ela ia queimando. Passava da hora pra tirar (as pessoas também
não tinham conhecimento, né) e já ia me ferindo [toca a raiz do cabelo]. Isso me dava
muito sofrimento, muito mal estar. Eu também não gostava quando a minha mãe me
penteava porque ela colocava o meu cabelo todo pra trás, todo alisado e esticadinho. Aí eu
me sentia com a aparência de um homem. Eu não gostava, eu reclamava “ah, mamãe, eu tô
parecendo um homem” [cruza os braços e faz um bico].

E a sua mãe tinha cabelo alisado?

Não, a minha mãe tinha o cabelo… [Pensa durante alguns instantes] A minha mãe tinha o
cabelo alisado, sim. Me lembro agora que eu já conversei com a minha mãe sobre voltar a
ter o cabelo natural, falei pra ela parar de esticar o cabelo. Mas aí depois ela partiu, nem
deu pra eu conscientizar ela... Eu fui vivendo a minha prática, o meu movimento. Fui
conhecendo o movimento negro, aprendendo a ser negra; entendendo a discriminação, o
racismo; o porquê de ser bonita, de ser feia, de ser rejeitada, de ser infeliz, de ser usada. E
eu queria passar isso pra minha mãe, mas minha mãe não… [Pausa] Minha mãe era muito
só, muito infeliz, muito sábia, muito lady, muito dama da dança… Então ela não tinha
visão sobre esses problemas.

E você é daqui do Rio mesmo?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Graças a Deus! Nasci no Rio de Janeiro, no Hospital Miguel Couto. Nasci e trabalhei na
Maternidade Miguel Couto na época do Dr. Gazola. Foi um paraíso a minha vida como
profissional trabalhando no Miguel Couto. [Sorri]

E você aprendeu a trançar com quantos anos?

Década de 70 eu estava… Deixa eu ver: nasci na década de 50, né. 50, 60: dez anos…
70… [Pensativa, começa a fazer os cálculos]

Vinte.

Vinte? Só? 50, 60, 70: 30!

Ah, você nasceu em 1950?

É.

50, 60, 70: vinte anos é a idade que você tinha no início da década de 1970.

É. Eu tava com 20 anos, é? É. Tava na flor da vida.

E como foi esse momento aqui no Rio de Janeiro? Você presenciou a chegada dos
movimentos negros aqui na cidade?

Aconteceu uma revolução no Rio de Janeiro dentro do movimento negro sobre a gente se
conscientizar a saber ter o nosso próprio cabelo. Fugir do pente quente, fugir da pasta, fugir
do marcel [tipo de ferro quente modelador de cabelos] porque a gente sofria demais. A
gente se arrumava toda linda, mas ficavam aqueles dentes [do pente] queimados na testa de
tanto fogo [que se usava para alisar o cabelo]. A gente esquentava o pente no fogareiro de
álcool. Eu até me lembro que uma vez eu tava arrumando o meu cabelo e terminando de
mexer no fogo. Aí eu não sabia, peguei o litro de álcool, fui, botei e saiu um fogaréu! Eu

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

levei aquele susto [coloca as mãos sobre o colo] e falei assim “meu Deus, eu não sabia que
isso ia acontecer!”. Quase me queima toda!

Que perigo!

É, era perigoso a gente mexer com o cabelo através do fogo, né?

Muito! Você falou que teve contato com o movimento negro mais ou menos na década
de 1970. E como foi esse contato o movimento?

Surgiu o IPCN [Instituto de Pesquisa das Culturas Negras] na Mem de Sá [avenida do


bairro da Lapa, no Rio de Janeiro]. Era uma instituição onde o pessoal da época como o
Orlando [Fernandes], Paulo Boca, Sebastião Sérgio e outras pessoas que eu não me lembro
agora fizeram um movimento e compraram uma casa pra fazer o IPCN. Foi muito bom. E
eu fui uma das primeiras a assinar como sócia, né? Como é que se fala no clube, quando
você é… [Pensativa]

Associada?

Associada. Eu fui uma das primeiras associadas. Tinha até um caderno lá com o meu
nome. Foi muito bom. E ali eu aprendi tudo: fiquei militando no IPCN, trabalhei no IPCN,
fiquei fazendo tranças lá. Consegui arrumar um espaço em que fazia já tranças implantadas
com cabelo de boneca. Foi bom também.

Depois de toda essa reviravolta que você presenciou nos anos 1970, com o movimento
black power e os cabelos naturais, muitos negros retornaram ao alisamento na década
de 2000 (dessa vez ao invés do pente quente se usava escova progressiva e chapinha).
Como você enxergou isso?

Olha, a volta pro alisamento foi porque as pessoas não conseguiram ter uma quantia forte
pra pagar os implantes. Porque o implante foi ficando num preço muito alto: tipo 200, 300,
400, 500, 600 reais. Então as pessoas não têm dinheiro pra estar fazendo um trabalho no
cabelo com o preço alto. E o alisamento é mais barato: você vai na farmácia, compra o

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Transcrição das entrevistas

produto e aplica em casa. Um tubo de alisamento é 20, 30 reais. Fica mais barato e você se
sente bem com o cabelo alisado. E também nessa época nós não tínhamos nem pentes pra
usar no nosso cabelo crespo; era um pente muito fino que não entrava no cabelo. Então,
logicamente, se você tem um pente fino, você acaba alisando o cabelo. Agora se tivesse o
pente pro cabelo black como o pente garfo que nós temos hoje, aí as pessoas conseguiriam
ter o cabelo natural.

Eu conversei com algumas trancistas que acham que o cabelo trançado é mais aceito
socialmente que o cabelo black power. Você concorda ou discorda desse pensamento?

O problema é que quando a gente encontra a verdade da nossa originalidade e quer ter o
nosso cabelo natural sem química pra ter uma saúde mais perfeita a gente se sente bem
com o nosso cabelo black. Quando a gente assumiu o black power foi poderoso porque é
maravilhoso você ser você mesma. Só que quando você está com o seu cabelo black dentro
da sua casa, você se arruma toda diante do espelho de você para você e não tem ideia do
que é que vai acontecer ao sair na rua. Eu passei muito por essa situação devido à
militância. Eu fui aprendendo a sair da química, a não usar mais peruca, a não usar mais
cabelo esticado, a não usar mais pasta e a querer usar o meu cabelo black. Só que quando
eu saía na rua as pessoas gritavam “ah, lá vai ela!”, “olha lá ela!”, “que que isso!”. E aí a
gente tem que pisar firme, respirar e nem olhar pra trás porque a pessoa que tá falando
dessa maneira que tem problemas de opressão com o cabelo, não é você. Você não deve
ficar infeliz ou dando ouvido pra esse tipo de coisa. Às vezes eu tinha às vezes que ouvir
gente perversa, gente oprimida, pessoas da minha cor mesmo gritando ao me ver. Aí eu
sabia que era o meu cabelo que estava implicando com a falta de conscientização da
pessoa. Eu levava aquele susto, era um sofrimento. Mas eu tava naquele processo de
ensinar a conscientizar a massa, a comunidade, né. Então eu tinha que enfrentar.

E você acabava sendo um espelho pras outras mulheres.

É, homens, mulheres, jovens, né? Porque quando você tem um ensinamento ruim, pra sair
dele vendo o que é certo fica difícil porque você já tá com o mal entranhado. Você só
transmite o mal que você tem, não transmite o bem. Só que eu sempre curti o meu cabelo.
Eu descobri que o cabelo é uma planta e passei a dar amor aos meus cabelos: a regar, a

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Transcrição das entrevistas

molhar, a me sentir bem com ele, a dar carinho pra ele [toca levemente os cabelos presos
num pompom]. Eu não tenho aquele cabelo forte que cresce, que enche, não. Meu cabelo é
lento e ele fica só até um certo tamanho, não passa disso. Se eu quiser ter mais cabelo eu
tenho que tomar vitamina A, eu tenho que ir ao tricologista fazer um tratamento. Mas se eu
for num tricologista ele vai falar pra eu não usar trança.

Por que?

Porque a trança quebra muito o cabelo, né? Arrebenta quando pega muito pouquinho. É
bom fazer a trança grossa, em que você pega o cabelo com feixe forte e grosso. Porque
teve uma época que a Alcione fazia trança com a Luisa. E a Luisa fazia as tranças muito
fininhas.

Quem é Luisa?

Luisa é uma trancista que só fazia a Alcione. O cabelo da Alcione a-ba-lava [fala
pausadamente] no fino! Abalava! E também uma vez eu fui assistir a um show de dança
do pessoal do Congo e eu fiquei assim maravilhada no final do show, quando eu fui ver os
trançados. A trança da bailarina era da espessura de uma agulha.

Nossa!

De uma agulha, minha filha. Você olhava assim, pertinho [faz uma agulha com os dedos]
uma agulha, uma trancinha, tudo fininha. Cê sabe o que é uma agulha? Era o cabelo da
bailarina do Congo.

Imagina o trabalho pra fazer!

Aí a gente cresce no entendimento do trabalho das tranças, né? Perfeito.

Você falou muito da questão estética das tranças. Você acha que a estética, a beleza,
pode ser um ato político? Ou são dois ramos que não estão relacionados?

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Transcrição das entrevistas

A beleza é tudo. Porque satisfaz os nossos olhos. Principalmente a beleza interior. Pra se
manter bela você tem que ter a beleza de dentro para fora. Não adianta você ficar toda
arrumada, toda trançada, toda enfeitada, toda decorada, mas o seu interior estar infeliz,
com a auto-estima baixa. Porque com a auto-estima baixa até o próprio cabelo fica sem
vida pra você conseguir fazer alguma arte com ele. Você tem que estar completa. Então a
beleza é saúde. Na parte política eu vejo que a sociedade brasileira não forma cidadãos
felizes. A nossa sociedade forma pessoas perturbadas, alcoólicas, sem força, desnutridas,
entendeu? Sem profissão. Ainda mais pro nosso tom de pele, né? Porque o branco ascende
fácil; mesmo sem cultura, sem dinheiro ou profissão ele consegue se posicionar.

O que você pensa sobre as pessoas brancas que gostam de fazer tranças africanas?

Eu acredito o seguinte: a arte é generalizada. Nós temos cabeças e cabelos para todo tipo
de artista que trança fazer tranças. Então não tem como dizer não. Com melanina ou sem
melanina, se você sabe fazer a arte nos cabelos você vai trançar. Por exemplo: tem tranças
húngaras, têm tranças portuguesas, têm tranças africanas, têm tranças belgas… Tem
tranças europeias, tem escama de peixe, trança embutida, trança externa, ponto masculino,
ponto feminino… Então o cabelo é geral, o planeta tem cabelo. E quem é artista tem que
saber fazer qualquer tipo de cabelo. Agora o cabelo liso pra fazer a trança africana é mais
difícil porque ele foge; você tem que trançar misturando com mechas de cabelo jumbo ou
uma linha ou uma lã. Eu não faço cabelo liso sem usar a linha de algodão hani, que é uma
linha mais grossa que segura o cabelo. Porque a cliente chega pra fazer trança no cabelo
liso e fica difícil fazer um cabelo que dure 30 dias. No cabelo liso você vai pagar um
dinheiro forte e só vai ter a trança por uma semana. Porque quem gosta de trançar cabelo e
tem cabelo liso fica: “ai, eu queria tanto fazer trança”, “ai, como eu gosto de trançar” [faz
uma voz fina], “ai, eu queria tanto ser preta”, “ai eu queria tanto ter cabelo duro”, “ai eu
queria tanto ter cabelo carapinha”, “ah, mas eu queria tanto poder fazer trança também”. Aí
você não pode perder uma cliente dessa, que tem o cabelo liso e quer fazer trança. Você
tem que improvisar colocando um fio de algodão (que pressiona bem e segura bem o
cabelo) pra ela ter o penteado por um tempo longo e te pagar com dinheiro vivo.

Compreendo. Bem, então você é trancista desde a década de 1970.

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Transcrição das entrevistas

Perfeito. Foi quando a trança tomou força no Rio de Janeiro com a chegada da Day e do
João Paulo, que fizeram os primeiros salões em Copacabana.

Eles trabalharam juntos?

Trabalharam juntos. Depois a Day separou e ele continuou fazendo o salão pra pretalhada.

Entendi. Bem, percebe-se que há muito mais mulheres trancistas e trançadas do que
homens aqui no Rio de Janeiro. Na sua opinião porque as maiores adeptas das
tranças são mulheres?

A trança é feminina por causa do tamanho dos cabelos: é um cabelo grande, crescido. E o
homem não vai usar o cabelo crescido implantado. Então as mulheres é que têm a força, o
poder do cabelo longo. O homem geralmente tem cabelo curto, então eles não têm como
trançar o cabelo. A mulher já costuma deixar o cabelo crescer, aí a gente tem como trançar.

Você parece ser bem vaidosa. A beleza é bem importante pra você, certo?

[Sorri] É de dentro para fora.

E você falou que é apaixonada pelo seu cabelo.

Amo meus cabelos!

Sim! O cabelo costuma ser bem especial para todo mundo. Mas eu queria saber, na
sua opinião, qual a importância do cabelo para a mulher negra. Por que a nossa
relação com nosso próprio cabelo é de “amor e ódio”?

Isso são tabus. Isso são forças negativas contra a beleza da mulher preta que vem de longe.
Porque nós somos beleza interior pra poder ter a beleza do cabelo. O cabelo é poder. O
cabelo é equilíbrio. O cabelo é grandeza. O cabelo é complemento. O cabelo é o véu. É o
véu da pessoa, o véu da mulher. Então se a gente tem cabelo é pra sentir força, poder. E
tem que saber cuidar do cabelo, tem que tomar boas vitaminas, tem que se nutrir, tem que

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

se hidratar. Porque às vezes a pessoa chega com o cabelo todo fraco, infeliz, ruim, e quer
um penteado galantesco, um penteado de rainha, que não está nem condizendo com o
estado do cabelo dela. Cê tá entendendo? As pessoas às vezes têm o cabelo pequeno, mal
tratado e querem fazer um penteado gigantesco com toda a pompa, com todo o glamour. Aí
você olha pro cabelo da pessoa, sente a textura na mão, nos dedos, e aí você tem que
explicar pra ela: “seu cabelo não tá em condições de fazer esse penteado que você quer”,
“eu posso fazer uma coisa mais simples como uma trança de raiz porque seu cabelo precisa
de hidratação e nutrição”. Porque esse tipo de pessoa quando se aborrece ataca o couro
cabeludo, ela ataca a cabeça. Puxa, arrebenta. Quando ela tá irada, com mal estar, ela nem
quer se olhar no espelho; ela agride a própria força dos cabelos. E isso também é bíblico.
Eu já estudei na Palavra de Deus e as pessoas raspavam o cabelo quando elas estavam mal
humoradas, quando elas estavam frustradas, infelizes e doentes. Então a força do cabelo
era totalmente tirada. E é isso que a gente tem que saber falar com as pessoas: pra evitar a
química, saber se nutrir, saber fazer a higiene do cabelo, saber hidratar o cabelo e dar força,
dar vida pro cabelo crescer. Porque quem trabalha com arte não pode ser careca porque
tem personagens que a pessoa vai fazer que ela precisa ter um pouco de cabelo. O artista
não pode nem cortar o cabelo. Ele tem que ter o cabelo grande mesmo, bem tratado, pra
poder incorporar porque cada personagem é um penteado. Se você vai fazer uma anciã, a
anciã tem o cabelo baixo, pra trás, todo arrumado e branco. Se você vai fazer uma jovem, a
jovem já tem um rabo de cavalo, um coque pra cima. Tem que ter o cabelo! Então a gente
tem que saber cuidar dele, dar amor pra ele pra ele se sentir muito bem. Com o meu cabelo,
por exemplo, faço qualquer movimento e já me entendo. [Tira a faixa rosa que prendia
seus cabelos e começa a apalpar a parte de cima dos fios, agora soltos] E eu aprendi a
saber usar o cabelo de várias formas. Entendeu? E por aí eu vou vivendo e me sentindo
feliz comigo mesma. [Sorri]

Entendi.

E eu passo isso pra cliente, pra ela aprender a se mostrar. Tô acostumada a fazer trabalhos
em colégios (como o Colégio Pedro II), tô acostumada a ensinar as crianças a trançarem
dentro da escola. E eu ensino elas a se curtirem e aceitarem: a boca, o nariz, os olhos, o
cabelo, a espécie humana.

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Transcrição das entrevistas

Você falou sobre a questão bíblica do cabelo, da força. Em todas as religiões, seja a
cristã, a budista, as de matrizes africanas… Em todas as religiões a cabeça do ser
humano é muito importante.

É.

E o ato de tocar a cabeça, como você mesma falou é um ato de carinho.

Perfeito!

Eu quero saber sobre essa troca de energia entre você, que está trançando, e o cliente,
que está sendo trançado.

Tem cliente que tá muito pesado, muito carregado. O que é isso: é a força do invisível que
tá contra a vida da pessoa. Tem pessoas, por exemplo: essa semana eu tava lá na praia de
Copacabana, fui fazer a trança da Rita Bonita [cliente de Margarida] e apareceu um jovem
que veio do Maranhão e tá com leucemia. Ele me explicou isso tudo e falou “eu quero
mudar!”, “eu quero fazer as tranças!”, “eu quero ficar mais feliz!”. Então eu falei: “não tem
problema. Vai lá, compra o cabelo na Sete de Setembro [rua do centro da cidade com
quantidade significativa de lojas de cabelos humanos e sintéticos] e a gente marca. Liga
pra mim que eu vou te fazer o que você quiser!”. Na hora que eu for colocar a mão nessa
pessoa eu já sei que ela está leucêmico. Eu tenho que sair de casa preparada, confiante no
Deus Superior que nós temos, o Eterno, pra quando eu colocar a mão na cabeça dele ele
receber cura, sair dessa falha que está dentro do corpo dele, no sangue dele. Então sabendo
disso eu vou consciente. Tem que fazer uma anamnese na pessoa: “por que que o seu
cabelo tá assim?”, “você gosta de trança?”, “é a primeira vez que você tá trançando?”,
“você sempre se trança?”. Porque esse cliente que faz só por vaidade, por desespero de
querer mudar não adianta. E tem também o problema do cabelo bom e do cabelo ruim: o
cabelo positivo e o cabelo negativo. Por exemplo: antigamente as pessoas usavam cabelo
humano de alguém que já morreu. Morreu de que? [Faz cara de dúvida] Colocar cabelo
humano de alguém que já morreu em qualquer pessoa é difícil. É igual a um transplante.
Não tem transplante de rim, transplante do coração? As pessoas às vezes não ficam
esperando chegar o rim perfeito pra colocar naquele necessitado? É a mesma coisa o

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

cabelo. Eu já vi pessoas com cabelo humano sofrendo, com um cabelo implantado


totalmente maligno. Porque aquele cabelo do branco não tinha nada a ver com a preta. Mas
a pessoa não sabe, a pessoa não vai no profundo. Só alguns profissionais do cabelo que
entendem isso.

Então o cabelo bom e o cabelo ruim que você tá falando é quanto a energia que o
cabelo carrega?

A energia do cabelo. Porque eu já tive uma pessoa amiga, amiga minha mesmo, que gosta
de trança, que tava com um cabelo humano de gente perversa, de gente ruim. Então a
energia do cabelo, a energia da maldade fica no cabelo. E aí ela se veste com aquele cabelo
e fica sofrida, com a vida atrapalhada; fica andando pra trás: dá quatro passos pra frente e
três pra trás porque o mal fica ali perseguindo. O mal estava no cabelo e ela não sabia. Eu,
por exemplo, quando eu vou fazer um cabelo em mim eu pesquiso bem. Eu prefiro cabelo
chinês. Porque o chinês é mais forte, é mais santo, é mais ungido, é mais sábio pra fazer o
cabelo.

Mas você tá falando de cabelo humano? E o cabelo sintético, que é o que se usa pra
fazer tranças?

O cabelo sintético também é a mesma coisa. Tem fábricas que preparam um cabelo
maligno porque os funcionários são perversos. Porque às vezes o proprietário da fábrica de
cabelos não tem nada a ver com cabelo, mas começa a fazer porque tá dando dinheiro. “Se
é pra preto vai de qualquer jeito”: tem muito disso. Até nos laboratórios. Por exemplo: eu
comprei uma vitamina C ontem que eu não posso tomar porque ela tá toda maligna. Eu
tomei o comprimido e aí Deus avaliou no meu organismo que eu fico agitada, que eu fico
com mal estar por causa da vitamina C. Então eu vou dispensar ela, vou ter que jogar fora.
O cabelo é a mesma coisa: você quando for colocar o cabelo você tem que pesquisar da
onde ele veio. Se vem de uma fábrica que o proprietário é racista, você vai usar o cabelo e
vai ficar sofrida: vai ficar com dor de cabeça, com mal estar; vai ficar indigesta, vai ficar
infeliz, com a auto-estima caída. Isso acontece porque o cabelo não foi produzido para o
seu bem estar e a sua felicidade; veio para a troca de money, de finanças. E a gente não é
troca de dinheiro, né, ser humano é amor. Ser humano é a imagem e semelhança do Eterno,

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

não é pra ficar fazendo troca de dinheiro. O dinheiro vem de acordo com o trabalho digno,
feliz. Não com o mal estar, a perversidade, o satanismo, o inferno… Não, não, não. Não se
faz negócios com o inferno.

E você encara o seu trabalho como trancista mais como arte do que como produto?

Arte terapêutica. A arte como um produto bom. Eu uso as minhas mãos para curar. Quando
eu coloco as minhas mãos na cabeça de alguém eu tenho pensamento fixo na força Divina
e sinto gratidão. As minhas mãos são para curar e para embelezar, para satisfazer a pessoa,
entende? Porque eu também já dei a minha cabeça pra alguém fazer. Só que me trançaram
de um jeito que eu tive que tirar a trança no outro dia porque me deu muita dor de cabeça.
A pessoa me trançou com muita fúria, com muito mal estar, com muita pressa, com muita
irritação. Quando a gente quer ser trançada a gente senta na cadeira e se dá. É a mesma
coisa quando você tá doente: você caiu e quem vier te tratar você aceita, você não pode
dizer não. Agora eu sei dizer [não], mas já passei por períodos que eu não sabia. Essas
tranças que são feitas com mal estar te transmitem mal estar; fica o fluido do mal operando
sobre você. Então eu trancei num dia, tive que tirar no outro e me aliviei. E também eu já
trancei duas pessoas que desmancharam a trança no dia seguinte. Não foi pela minha
energia ruim, foi um outro processo que eu não consegui explicar. Fui trançar com muita
sabedoria e muito poder, mas são pessoas que o invisível fez com que elas tirassem a
trança porque Deus ia operar maravilhas.

Você tem uma compreensão bem única sobre a energia e o amor que em torno das
tranças. Isso foi a Veluma [mulher que ensinou Margarida a trançar] que te ensinou
ou algo que você adquiriu sozinha?

Foi o estudo. É uma experiência da vida. Mas também é óbvio, né? É porque eu descobri o
amor cedo, jovem. Eu descobri o amor e a paz cedo, através de laboratórios no palco, no
teatro.

Você é atriz?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Sou, sou atriz. Estudei na Unirio. Estudei na 21 de abril, ali na Martins Pena [região do
centro da cidade]. E aí com a experiência da vida eu queria fazer o melhor pra nós, pretos,
pretas, negros, negras. É necessário a gente servir bem a nós mesmos porque conforme a
gente vai militando, vai sentindo essa carência de atenção. A gente precisa saber tratar
muito bem a qualquer ser humano, mas principalmente aos nossos negros e pretos e
preteadas, que são pessoas que a sociedade desnivela e rejeita. Então quando nós estamos
no nosso meio, no nosso ambiente, nós temos que viver o melhor, servir o melhor. Se você
é do bem, você transmite o bem. É assim que eu faço. A vida me ensina melhor no bem do
que no mal.

Eu estou com alguma dificuldade de encontrar material sobre a Day. Você pode me
dizer como ela era?

O que eu aprendi com Day foi a elegância. Foi saber ser amiga, saber viver feliz com seu
próprio espaço, servindo muito bem, tratando muito bem o próximo independente de cor
de pele ou de espécie de cabelo. E saber se aprimorar: ela foi pra Chicago, lá fez vários
cursos de cosme… Cosmés… Cosmésss…

Cosméticos?

Cosméticos! Aí ela fez curso lá em Chicago, aprendeu a fazer um relaxante pros cabelos,
aprendeu a usar frizzy, o canudinho.

O miojinho que você fala?

Não, não é o miojinho não, é o enroladinho mesmo. Passava o creme (que ela patenteou,
aprendeu lá e passou a fazer), esticava com pasta e depois fazia os coquinhos enroladinhos
com elástico. Isso chamava-se permanente: permanente black, permanente afro. E ela se
especializou muito bem nisso; ganhava um dinheiro independente, saiu das tranças e
passou a fazer o permanente. É aí que a gente lembra daquela pergunta que você fez: o
porquê de voltar pro esticamento. Porque surgiu um novo esticamento, que foi o
permanente. Antes se esticava com pente quente, com a pasta. Depois com a evolução da
química passamos a usar o permanente. As pessoas gostavam.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Mas o permanente deixa cacheado, certo?

Deixava um ondulado, é muito bom. Eu nunca me senti bem com permanente porque eu
militava na minha conscientização de saber ser negra, saber ser preta, aí o permanente não
tinha muito a ver comigo. Me sentia muito fraca, sentia que eu tava com o cabelo fraco,
fino, mais pro cabelo do branco, entende? E aí o lado black, o lado carapinhoso que me
satisfazia, me sentia mais realizada, mais real, mais eu.

Você tem filhos?

Não. [Sorri] Não tenho filhos.

Mas você faz trabalhos em escolas.

Sim, trabalhei no Pedro II [rede de colégios públicos do Rio de Janeiro], minha mãe era
merendeira, trabalhava com criança.

E por que você gosta de trabalhar com os jovens? O que você procura passar pra
eles?

Olha, eu procuro alegrar a criança, fazer uma amizade sincera com ela e falar da beleza que
ela tem. Falo da beleza dos cabelos, falo da beleza dos lábios, falo da beleza dos olhos e
sempre oriento a ela pra aprender a pedir a Deus pra ser uma pessoa idônea, crescer com
boa profissão, crescer feliz e em um ambiente de vida com paz e amor.

Madureira é o principal foco do mercado de tranças aqui no Rio. Lá tem a maior loja
de cabelos sintéticos da cidade, duas escolas de samba, baile charme e muita
efervescência da cultura negra. O que você pensa sobre o bairro?

Francamente: eu nasci na Zona Sul, sou rainha das praias da Zona Sul, criada, estudada,
toda a minha vida foi na Zona Sul. Estudei no Colégio Estadual André Maurois, no
Leblon; estudei como auxiliar de enfermagem na Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, na

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Transcrição das entrevistas

Urca; estudei Artes Cênicas na Unirio, na Urca; trabalhei no Hospital Miguel Couto, no
Leblon; trabalhei no Hospital de Ipanema, em Ipanema. Quer dizer, a minha vida foi toda
na Zona Sul e eu me sinto bem na Zona Sul. Frequento qualquer comunidade: Cantagalo,
Pavão, Pavãozinho, Rocinha… É porque a gente, que é popular, tem que estar sempre onde
está o povo. Eu não posso deixar de ser popular, eu nasci com esse dom. É uma coisa da
minha vida: quando eu chego todo mundo fica feliz e eu fico realizada. Então essa chegada
ao subúrbio pra mim não foi tão boa porque essa área da cidade é uma área muito sofrida,
muito abandonada. As pessoas não têm o aprendizado de saber arrumar primeiro dentro do
lar pra depois poder arrumar a rua; as pessoas não têm essa prática, do aprendizado de
cuidar do seu banheiro pra poder cuidar de uma praça. E vem de dentro a formação, a boa
educação, a excelência de saber estar num lugar bem acabado. Por exemplo: eu vou a
Madureira e Madureira tá uma bagunça. Nas ruas todas as pessoas querem vender, as
calçadas ficam cheias de papelão, todo mundo joga qualquer coisa no chão, as faixas estão
arrebentadas. Tá difícil de você transitar.

Mas porque que num lugar tão judiado, como você está dizendo, efervesceu uma
cultura negra tão rica?

Ué, por obra das comunidades, da Serrinha [comunidade localizada em Madureira] e


outros morros da área, do samba. A força do samba tem a presença do negro em massa, em
vida e em comércio. Eu tenho parente em Madureira, as minhas primas que moram lá, mas
eu nem consigo alcançar a casa delas porque eu não fui criada com a família, eu fui criada
livre, solta, do colégio interno pra vida independente, entende? Agora Madureira é um
bairro forte porque tem comércio, dá dinheiro, tem equilíbrio de finanças. E onde tem o
comércio livre tem a presença do preto. Tem a presença do negro porque é mais fácil de
comercializar, não tem exigência de prefeitura, não tem exigência de alvará, não tem
exigência de IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados], essas coisas assim, entendeu?
Então é vida de camelô mesmo. E é assim que o negro sobrevive. Eu sou filha de camelô.
Meu pai era camelô. Pai vendia peixe. E ele sempre teve o dinheiro dele, livre, sem
exigência de processos de prefeitura. Agora deve haver uma organização e isso aprende-se
no lar, não na rua.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Você disse que sempre morou na Zona Sul e que sempre usou figurinos que remetem
à estética afro, usou tranças por muito tempo. Você sempre se sentiu à vontade nesses
bairros de maioria branca e rica?

Eu me sinto à vontade porque eu pesquisei a força da África na minha vida. Eu fui à


África. Eu botei esses pés descalços no solo da África. Caminhei. Caminhei. Fiquei com os
pés espetados por causa dos espinhos do chão, mas eu falei para mim mesma “eu vou fazer
essas passadas com os meus pés em terra africana pra pegar força, pra entender a minha
razão de ser”. Então eu me visto, eu me decoro do jeito que eu me sinto bem. Isso vem de
dentro porque eu achei a minha identidade que veio da força da África. Porque a África
tem cores, a África tem originalidade, a África tem comidas fortes, a África tem união. Na
África você se sente leve, feliz porque são todos da mesma cor. Não tem racismo na África
porque lá somos todos iguais, não tem essa formação de sociedade opressora daqui. O tipo
de problema que tem na África é do africano com você, que é brasileira.

Que local da África a senhora foi?

Eu visitei a Namíbia e a África do Sul.

Mas a África do Sul tem racismo até hoje, após o apartheid.

Sim… Mas eu cheguei na época do Mandela como presidente lá. Eu o conheci aqui no
Brasil quando ele esteve no Copacabana Palace. Então a presença dele aqui pra nós, pretos,
foi muito boa, foi muito forte, muito feliz. A gente se identificou muito com o existir do
Mandela. Ele e a esposa, né? A Winnie [Winnie Madikizela-Mandela foi a segunda esposa
de Nelson Mandela, ambos vieram ao Brasil em 1991].

Nos últimos anos, como falamos, houve uma procura maior por tranças, dreads e
cabelos naturais, como o black power, principalmente por parte dos negros.

O problema é a valorização do outro, a valorização do negro, a valorização do ser humano.


Nós precisamos nos valorizar como pessoa. Essa coisa da miscigenação enfraqueceu muito
as nossas vidas. Eu tenho assistido pessoas que vêm de outros países pra cá, pro Rio de

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Janeiro, como os imigrantes, que são unidos pra sobreviver. Nós, pretos, ficamos à mercê
dos brancos, sem força, tentando receber alguma coisa deles. Só que eles não têm coisas
pra nos dar, eles só sabem nos explorar. A falta de sabedoria que nos impede de sermos
mais unidos, mais capazes entre nós mesmos. Por exemplo, esse espaço aqui [a entrevista
com Margarida foi realizada no Instituto Black Bom], que cuida do próprio preto é uma
força, a gente tem que somar. Nós temos que nos valorizar, nós temos que nos sentir
felizes porque é uma caminhada que vem do movimento lá de trás. Quando eu entrei no
movimento negro pra me conscientizar, pra evoluir, pra saber como era, foi no espaço do
IPCN [Instituto de Pesquisas das Culturas Negras]. E eu fiquei lá um bom tempo. A gente
tem que saber aceitar a nós mesmos, como brasileiros. Porque a gente fica com dó do
africano, fica com dó do alemão, fica com dó do americano, fica com dó do inglês e a
gente entre si vai se enfraquecendo. E eles vêm, exploram, se dão bem, conseguem onde
morar, conseguem ganhar dinheiro, conseguem nos explorar, conseguem trabalhar,
conseguem ir e vir à vontade e nós aqui nos desentendemos. A gente não se entende.
Precisamos mudar esse pensamento, saber valorizar, saber dar amor.

Agora vamos à nossa última pergunta: o que as tranças significam pra você?

As tranças pra mim significam soma, complemento. Quando faço as minhas tranças eu me
sinto mais viva, me sinto mais livre porque eu sei que estou vivendo o que é original no
meu ser, na minha estética, na minha aparência. Eu cresço, fico bela, mais bonita. Porque
quando eu chego nos lugares eu sou diferente: sou aquela pessoa exótica. Aí me chamam
de fashion. Só não gosto que me chamem de perua porque a pessoa que me chamar de
perua não tá vendo beleza em mim, ela tá me menosprezando. Aí eu bloqueio. Me chamou
de coisa que eu me sinto bem: eu cresço. Me chamou de algo que eu me sinto mal: eu
bloqueio. Porque eu sou popular, mas não sou obrigada a me relacionar com todos porque
nem todas as pessoas gostam do artista. Algumas olham e debocham porque o artista é
interessante: ele abala, ele move, ele mexe, ele faz refletir.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

15. NATHALYA NASCIMENTO

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 28 julho de 2017, no bairro de


Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Como e por que você começou a trançar?

Sempre vi minha mãe fazendo tranças, isso sempre foi comum pra mim.

A mãe te trançava quando você era pequena?

Sim, minha mãe me trançava quando pequena. Como ela teve salão a vida toda eu em
hipótese alguma poderia ficar com o cabelo bagunçado. [Risos] Minha vó e minhas tias
sempre cuidaram do meu cabelo também.

Quando você montou o salão?

Faz um ano que montei o meu espaço em Madureira, para melhor atender minhas clientes.
Não esperava trabalhar com tranças como renda principal, foi algo que aconteceu. Me
formei em 2015 em Gestão de RH, não consegui uma colocação no mercado de trabalho e
passei a atender a domicílio e na minha casa. Já trabalhei anteriormente com a minha mãe
nos salões que ela teve, mas sempre como renda complementar.

E o que a trança significa pra você?

Além de manter o meu sustento, as tranças me proporcionam o privilégio de ajudar as


mulheres negras a se enxergarem lindas, com a sua ancestralidade, sua autoestima
renovada e a se impor na sociedade racista que todos os dias tenta nos dizer ao contrário do
que nós realmente somos. Trança é resistência.

Na sua opinião por que as tranças geram tanto debate sobre apropriação cultural
enquanto outros penteados (como coques, rabos de cavalo) não?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Porque durante anos as tranças em nós, negros, foram hostilizadas, marginalizadas


(lembrando que as tranças também são comuns a outras etnias). Porém, estamos falando de
tranças tipo africanas que eram usadas como identificação de hierarquia, estado civil, entre
outras coisas nas antigas sociedades tribais. Quando um negro usa tranças é visto como
relaxado, ou como alguém que tem vergonha do seu próprio cabelo. Quando este tipo de
trança é usado pelo branco é visto como algo estiloso. No entanto a nossa história tem que
ser respeitada.

Você trança pessoas brancas?

Eu tranço pessoas brancas explico a importância das tranças para a sociedade negra. Mas
evito [trançar pessoas brancas] sempre pois a durabilidade é menor devido a estrutura do
fio capilar delas e elas não conseguem entender isso.

Por que você acha que algumas garotas optam pelas tranças para passar pela
transição capilar?

A opção das tranças para passar pela transição é porque com o cabelo trançado elas não
caem na tentação de desistir da transição. A trança também mantém a autoestima elevada
durante esse momento, que não é fácil para vaidade feminina. E a [escolha de passar pela]
transição não surge do nada, é algo que tem que vir de dentro, a cabeça tem que estar
preparada e trabalhada para isso.

E de que forma você usa as redes sociais para divulgar seu trabalho?

A internet é meu principal meio de divulgação. Posto meus trabalhos em vários grupos de
cabelo, nas minhas páginas... Ela facilita o meu contato com o cliente, além de ser uma
fonte de atualização, um meio de ver tendências, novas técnicas e novos materiais.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

16. PRISCILLA SILVA

Priscilla Silva estava presente no dia 6 de julho de 2017, durante entrevista no salão
Fast Braids, no bairro de Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Cliente
antiga do local, ela se propôs a contar um pouco de sua relação com as tranças.

Como começou a sua relação com as tranças?

A trança entrou na minha vida por causa da transição de cabelo. Eu tinha acabado de entrar
no Banco Itaú, com o cabelo alisado, mas tava percebendo que a estrutura do meu cabelo
não era pra aquilo, já que ele caía. Aí eu comecei a colocar trança pra fazer o meu cabelo
natural vir sem eu precisar dar aquele corte de uma vez. E isso foi há muito tempo, nove
anos atrás, numa época em que não se falava de transição capilar. Já naquela época eu
conversava muito com o meu namorado (que hoje é o meu marido) sobre isso, do meu
cabelo voltar a ser natural porque eu desconhecia ele; então eu não podia temer uma coisa
que eu já nem lembrava mais como era. Aí é que eu comecei a usar trança. Só que eu
botava a trança no mesmo dia em que eu tirava e fiquei assim por mais de um ano, então eu
não via o meu cabelo sem trança, já que eu colocava e tirava sem nenhum intervalo entre
as manutenções. Depois de um ano e pouco, quando eu tirei as tranças, lavei o cabelo e me
olhei no espelho, tive uma crise de choro. Eu chorei de perder as forças quando estava
sozinha, em casa. Era cabelo [sintético] para tudo quanto era lado, o meu cabelo com
química caindo e eu chorando. Quando o Paulo [marido de Priscilla] chegou, ele perguntou
o que estava acontecendo, achando que eu tinha me machucado, quando na verdade era um
processo de renascimento do meu cabelo natural, porque ali estava surgindo uma outra
pessoa. Foi uma emoção muito forte pra mim. Quando eu fui tomar banho tirei todo aquele
cabelo quebrado, me olhei de novo no espelho e foi mágico, foi incrível. Aí eu fui no
cabeleleiro pra ele acertar o corte e comecei a cuidar do meu cabelo natural.

Nossa, isso é muito marcante na personalidade de alguém.

Sim, com certeza. É por isso que a gente tem que ter cuidado sobre onde você coloca a
trança na sua vida: se é pra esconder o seu cabelo crespo, se é pra chegar até o seu cabelo
crespo... Porque a partir disso eu fui criando o meu autoconhecimento, que veio junto à

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

minha afrocentricidade, ao empoderamento preto. Primeiro era só a questão do cabelo, mas


depois eu fui percebendo como estar de tranças ou estar sem tranças era um movimento
político dentro do local que eu trabalhava, uma ambiente empresarial, branco [Priscilla
trabalhava no Banco Itaú]. E é legal as pessoas fazerem uma leitura sobre você a partir da
sua imagem. Já aconteceu de eu ir em uma festa de final de ano do banco com o meu
cabelo natural (black), uma menina preta que eu nunca vi na vida me agarrar pelo braço e
falar “pelo amor de Deus! Você tá com o seu cabelo natural, é o sonho da minha vida.
Como você conseguiu usar? Alguém deixou?”. E ela, que estava com implante no cabelo,
disse isso como se alguém do meu trabalho tivesse que permitir.

Nossa.

Olha só como a gente é afetado pelo racismo! Aí eu falei “não, eu realmente entrei com o
cabelo alisado no banco, mas a minha inquietude foi tão grande que eu botei trança, fui
deixando o meu cabelo natural e não perguntei pra ninguém. Eu não tenho que perguntar
pra ninguém, é o meu cabelo!”. E a partir desse acontecimento eu fui percebendo (e eu já
passei por diversos setores de diversas regiões) como é importante as meninas pretas
verem alguém igual a elas com o cabelo natural numa reunião ou numa festa que seja. Eu
percebo essa movimentação ao meu redor. Já tive uma gerente que, na primeira reunião
que tive com ela, ela estava com o cabelo alisado e, depois, com o passar do tempo, ela
deixou o cabelo natural. E ela nunca me falou isso, mas eu tenho certeza de que de alguma
maneira eu influenciei ela porque ninguém precisa dizer como que tem que ser ou não o
seu cabelo; você é daquela forma. Só que o racismo impõe isso pra gente, né? Que a gente
tem que se embranquecer pra ser aceito, mas na verdade não é e nem tem que ser assim.
Basta um pouco de fortalecimento pra você ir lá e ter coragem de fazer o que você quer e
ser do jeito que você quiser.

E você ainda faz tranças no cabelo?

Hoje em dia a trança pra mim é um penteado que eu uso quando quer mudar. Eu boto a
trança, eu tiro a trança, mas ela não é mais um escudo pra eu me esconder. Eu me acho
bonita de trança ou de qualquer maneira. [Risos] No momento eu tô tentando deixar o
corte do meu cabelo cabelo igualar pra botar a trança solta [modelo de trança], já que eu

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

raspei aqui do lado [as laterais do cabelo] e tô só no topo, né? [Risos] Mas a trança tem um
significado: é um penteado lindo, além de ser um resgate das nossas ancestralidades
mesmo que a gente não tenha conhecimento de qual nação que a gente descende. Aliás,
tudo que a gente faça como uma forma de retorno pra África é bom, é importante e causa
um movimento ao nosso redor, já que as pessoas, antes mesmo de falarem contigo já fazem
uma leitura de como você é e no que você acredita.

Eu quero te perguntar quantos anos você tinha quando você começou a fazer as
tranças nesse processo de transição capilar.

Eu tinha 21 anos.

E na sua infância você teve alguma relação com as tranças?

Não, muito pelo contrário. A minha mãe é preta, mas completamente afetada pelo racismo:
queria meu cabelo alisado de qualquer maneira. E a trança sempre foi uma forma de se
afirmar como preta, né? Então a última coisa que ela queria na minha cabeça era uma
trança. Não é à toa que quem fazia trança em mim era a minha avó preta por parte de pai,
que sempre foi muito raiz mesmo sem perceber (a influência religiosa tirou um pouco do
significado do que ela fazia): como, por exemplo, com o trato com as plantas, de fazer
remédio natural…. Se eu falasse pra ela “vó, isso é um orixá”, ela iria dizer “sangue de
Jesus tem poder!”. [Risos] E é a mesma coisa das tranças: a minha avó trançava o meu
cabelo, fazia várias tranças, mas a minha mãe achava aquilo horrível. Até hoje ela é muito
afetada pelo racismo e acha que se você se embranquecer você sofre menos. E eu entendo
a geração dela pensar assim. Eu cresci com a minha mãe alisando o meu cabelo e falando
que eu tinha que manter ele lisinho. Eu cresci com a minha mãe falando que eu tinha que
apertar o meu nariz pra ele ficar mais fino; que eu tinha que embranquecer a minha família
e casar com uma pessoa branca e que eu precisava até melhorar o meu sobrenome, porque
“Santos da Silva é sobrenome de preto”. Então nunca que a minha mãe trançaria o meu
cabelo, pelo contrário.

E hoje você leva seu pensamento sobre as questões raciais pra ela? Como é a relação
de vocês quanto a isso?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Cara, a gente não tem esse diálogo porque ela não é aberta a isso. Ela tem sérios problemas
de saúde, sofre de transtorno de bipolaridade, teve depressão e tudo mais. Mas, por
exemplo: quando eu comecei a transição e quando mais tarde tirei a trança… [Priscilla faz
uma pausa e reflete] Porque ainda tem isso: o black choca muito mais do que a trança.
Quando você está de trança as pessoas acham lindo, mas quando tu aparece com um black?
Nossa! As pessoas ficam incomodadas e é um incômodo bem forte mesmo. Quando eu
apareci com um black a minha mãe falou: “ah, tá bom, Priscilla, agora que você já fez já
chega, né? Vamo agora fazer um alisamentozinho e uma escova pra ficar bonitinho”.
Porque é aquele “aspecto de desleixo”, né? “Você tá desarrumada, você tem que se
arrumar, você tem que se cuidar.” No preto o cabelo natural é “falta de cuidado”, de “trato”
com ele mesmo. Mas isso é o sistema racista que colocou na cabeça das pessoas.

Você falou que a maior parte do tempo você passa com o cabelo natural, mas de vez
em quando ainda faz tranças. Geralmente você trança por alguma ocasião em
especial?

Não, é mais quando eu me sinto enjoada com a minha imagem, mesmo. Eu tenho essa
inquietação de mudar, então a gente tem que pensar que, quando eu falo cabelo natural,
falo de cabelo natural de verdade. Porque tintura é química. Quem só não passa
relaxamento, não alisa, mas pinta tá fazendo um processo químico da mesma maneira já
que ele muda a estrutura do cabelo. Mas eu faço tranças só pra mudar mesmo, porque eu
enjoo às vezes.

E quais tipos de trança você mais gosta de fazer?

Eu gosto muito da trança solta porque eu sou a rainha do coque! [Risos]

Tem a trança solta, tem a boxeadora (aquela que o pessoal fala que foram as
Kardashians que popularizaram)... [Priscilla interrompe]

Olha como é que é o racismo: a trança nagô existe desde que o mundo é mundo! Para e
pensa: por que que é bonito falar que é “a trança das Kardashians, a trança boxeadora”?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Não, é trança nagô, é trança preta africana, é muito nosso e sempre foi. Mas só é aceito, só
aparece na revista depois que uma branca aparece com a trança. Isso não fortalece a nossa
cultura. Por isso que rolam tantos debates em torno da apropriação cultural. Por que
começou a se chamar “trança boxeadora”? Porque existe um embranquecimento pra ser
aceito, isso é fato. A gente já tá aí massacrado desde tanto tempo e por que que a gente vai
deixar passar batido agora? São essas pequenas coisas que a gente tem que se atentar. A
gente tem que ter força pra informar os nossos. É cansativo demais, mas é necessário.

[nesse momento, Nathalya, dona do salão Fast Braids, onde a entrevista foi realizada,
participa da conversa, enquanto trança o cabelo de uma cliente]:

Nathalya: Mas acho que eu consigo entender o motivo pra isso [a troca de nomes pela qual
passou a trança nagô]. Essas tranças eram tranças que realmente estavam malhadas, elas
saíram de moda. É ruim a gente tratar como moda, mas é uma coisa que realmente se
renova a todo instante. E aí, com esse crescimento do UFC, das lutadoras de MMA, a
trança nagô começou a fazer um boom de novo. Até porque hoje em dia quem usa muito
esse tipo de trança são elas [praticantes de artes marciais] já que o cabelo atrapalha na hora
de lutar.

Priscilla: Mas ninguém nunca deixou de usar, as tranças continuaram existindo. Até porque
se se a gente for pensar nesse negócio de moda, quem determina a moda?

Nathalya: Os white. Mas tô falando sobre o boom em torno dessa trança. Porque a negrada
também só tá usando “box braid” [modelo de tranças soltas] agora. Ninguém mais fala que
usa “trança solta”, “rastafári”, “trancinha” ou “trança nagô”.

[nesse instante Keyth Kelly, funcionária do salão Fast Braids, onde a entrevista foi
realizada, entra na conversa, que chega ao fim]:

Keyth: Até porque a trança foi marginalizada, né? E o brasileiro tem aquele péssimo hábito
de achar que tudo que é do exterior é melhor do que o que tá aqui. Fica mais fácil e bonito
você dizer que usa uma “box braid” que uma trança solta.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

17. QUÊNIA LOPES

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 15 de agosto de 2017, no bairro de


Del Castilho, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Você já teve um grupo feminino de rap que fez sucesso. Todas vocês tinham visuais
únicos. Você acha que a estética pode ser uma forma de resistência?

Eu acho que pode ser uma forma de protesto, também. Porque até pode parecer que é só
estética, tu não deixa, mesmo que não seja diretamente, de estar levantando uma bandeira.
O meu sobrinho tem sete anos, tem um cabelo black e estuda num colégio em que a
maioria é branco. Eu acho que ele, mesmo sem saber, levanta uma bandeira de “menino de
cabelo black”. Ele mesmo já passou por uma situação de preconceito: os colegas
chamaram ele de macaco, foi uma confusão na escola. E ele sabe, ele já consegue perceber
as coisas que acontecem. Então acho que a gente acaba levantando uma bandeira; mesmo
que tu não sejas militante, tu tá levantando uma bandeira quando tu te afirma.

Ultimamente a gente tem percebido um aumento da valorização da estética afro, o


que o pessoal chama de “Geração Tombamento”.

[Risos] Sim.

Eu quero saber se você percebeu realmente esse aumento da valorização negra aqui
no Rio quando você compara ao ano de 2003, quando você chegou aqui na cidade, ou
até mesmo à época que você aprendeu a trançar.

Eu acho que hoje em dia a gente tem muito mais referências. Acho que agora o pessoal
está se vendo porque antes faltava essa questão de nos vermos na televisão, por exemplo.
Agora acho que a gente tá tendo mais espaço e como estamos tendo mais espaço, as
pessoas estão se reconhecendo. A representatividade hoje está bem melhor.

Quando as meninas te procuram pra trançar geralmente elas te procuram por quais
motivos? O que leva elas a quererem trançar?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Hoje em dia muitas têm me procurado porque estão nesse processo de transição, elas
querem mudar. E quando tu tá nesse processo de tirar a química do cabelo crespo, ele fica
meio sem forma. Então a maioria tá muito nessa questão de querer mudar, de vir pro
crespo, mas não sabe como fazer sem ter que cortar. Então tem gente que trança. Tem
gente que trança também porque se acha bonita, gosta de andar com trança... Mas a grande
maioria trança porque tá no momento de transição.

E por que você acha que essas meninas escolhem as tranças e não outro método, como
megahair de nó italiano ou cola de queratina e até mesmo um big chop [corte que
retira toda a parte com química do cabelo]?

Eu acho que elas não escolhem o megahair por estragar muito [o cabelo]. Mas as tranças
eu acho que têm uma questão de identidade. Das meninas que me procuram existem muitas
que valorizam a identidade negra e que gostam muito dessa questão do visual que a trança
dá e do visual que ela remete. Até pela questão de África, de remeter à África.
Principalmente porque as pessoas que eu atendo são muito ligadas à cultura africana. Então
eu acho que elas usam [as tranças] para além da questão da transição. Usam mesmo por
identidade, porque se acham bonitas com trança.

E qual é o modelo que mais te pedem?

O que eu mais faço é o rastafári e eu tenho muito cliente homem que usa trança nagô.

Você tem mais clientes homens ou mulheres?

Agora tá meio a meio, mas durante um bom tempo eu trancei mais homens que mulheres.

Nossa. Uma das perguntas que eu ia te fazer era justamente essa: se você achava que
a trança era um penteado mais feminino, masculino ou unissex.

Eu acho que é unissex. Teve um boom na época do hip hop e do rap, eu acho que por isso
tinham muitos meninos trançando. Então eu sempre tive uma clientela masculina bem

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

forte. Hoje em dia eu acho que tá meio a meio: meio homem, meio mulher. Criança é que
eu faço pouco.

Por que você acha que você tem poucas crianças?

Não sei. Eu nunca tive muita criança, não. Não sei se eles não estão acostumados, se
aperta, de repente... Mas eu nunca tive muita criança para trançar.

Antes de começarmos a entrevista você falou que usava tranças desde pequenininha.
E você gostava? Porque algumas pessoas lembram das tranças como algo doloroso.

Eu sempre gostei das tranças porque eu sempre fui acostumada. Minha mãe sempre me
trançou. Teve uma fase da adolescência, sim, que eu fiquei meio assim com a questão do
cabelo: eu não queria mais usar trança, mas também não sabia como usava ele solto. É
aquela fase que tu tá andando com adolescentes, as menina todas de cabelo liso… Essa foi
uma fase confusa, mas bem curta porque foi justamente quando eu conheci as meninas do
hiphop. E aí foi a época que a gente começou a se assumir. Era um momento em que eu
fiquei meio confusa, mas logo conheci elas, a gente começou a usar cabelo crespo e trança
e aí já fiquei mais tranquila.

E na sua opinião por que as tranças dão tanta polêmica?

Eu acho que essa questão da trança ainda tá muito ligada à questão da cultura africana, da
africanidade e eu acho que ainda e aí entra a questão da identidade. Eu percebi que quando
é uma pessoa negra… [Pensativa] Eu tive muitos clientes que tiveram problemas na hora
de trabalhar porque os chefes não aceitavam as tranças. Eu acho que no momento em que a
pessoa decide trançar ela tá se afirmando e logo em seguida tem que lidar com a questão
do racismo, de falaram pra ela “tu tá querendo se mostrar”, essas coisas. Porque eles te
toleram, né? É aquela coisa de que “não existe racismo”, mas eles estão te tolerando. Às
vezes há uma certa implicância quando o negro de trança aparece na mídia.

Entre as tranças e o cabelo black, qual dos dois você acha que causa mais impacto?
Ou os dois sofrem preconceitos de forma igual?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Eu acho que os dois são meio parecidos. Hoje em dia, sinceramente, acho que bem menos,
dependendo de cada local. As pessoas às vezes ficam meio incomodadas quando chega
alguém com o cabelo pra cima e mesmo quando o cabelo não tá pra cima, tá trançado, há
uma certa implicância. Eu acho que eles [cabelo black e trança] são bem parecidos porque
os dois em determinados lugares ainda incomodam.

Por que você acha que o cabelo, em geral, tem um peso tão grande na composição
estética da mulher, em especial da mulher negra?

Eu acho que essa questão do cabelo vem muito ligada à própria questão das rainhas
africanas que usavam turbante. Também tem aquela questão do empoderamento, de cada
penteado determinar de que área tu é, se tu é casada, se é solteira... Então eu acho que o
cabelo reflete muito o que nós somos. E sobre essa questão do negro, eu acho que quando a
mulher negra se assume com o cabelo crespo ela tá mostrando para o mundo que ela está
ali e certa do que ela é. E eu acho que as tranças também vêm nessa mesma linhagem do
cabelo crespo porque elas simbolizam o momento que tu te identifica com você mesmo. E
eu acho que quando tu pode botar pra fora, usar seu cabelo trançado ou crespo, tu te
reconhece e mostra pro mundo a tua identidade. Acho que por isso o cabelo é tão
importante pra mulher negra. Quando tu tá com cabelo liso é aquela coisa: tu tá meio que
se inserindo da maneira que a sociedade quer que tu seja vista por eles. Quando tu tá com
cabelo crespo ou com as tranças tu tá te afirmando e mostrando pra sociedade como tu é e
como tu quer ser vista. Acho que é mais ou menos isso.

Agora só um parênteses: você comentou comigo que fez curso com a Day [importante
trancista do Rio de Janeiro, já falecida].

Aham.

Mas você já sabia trançar quando fez esse curso?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Já. É porque quando eu vim pra cá eu já trançava. Aí na época que eu conheci a Day ela
me falou que estava com uma escola de tranças no salão dela ou em outro lugar. E aí ela
me falou pra fazer o curso pra trabalhar com ela.

Onde é que era esse curso?

Eu acho que era perto da Tiradentes [importante rua no centro da cidade], se eu não me
engano… Acho, não tenho certeza. Mas aí acabou que eu tava num momento de vir ou não
vir pro Rio e aí eu só fui numa aula, depois eu voltei pra Porto Alegre. E aí depois eu vim
de novo, mas acabou que eu não continuei.

E como ela era?

Olha, eu não tive grandes contatos com ela, mas eu sei que ela era uma referência aqui, né,
foi uma das primeiras trançadeiras. Ela era bem falante, mas tinha toda uma postura. Eu
percebi que ela era uma referência aqui porque quando se falava em tranças todo mundo
sempre indicava ela. Mas eu não tive muito contato com ela. A gente se encontrava às
vezes no salão, mas era coisa rápida.

Certo. Agora a penúltima pergunta: quero falar sobre Madureira já que você falou
que chegou a ir em um baile charme.

Aham! [Riso geral]

Madureira é um importante centro da cultura negra aqui no Rio. Por que você acha
que lá há tanta concentração da estética afro?

Eu acho que é Madureira porque a questão afro tá sempre ligada, querendo ou não, à zona
norte, ao subúrbio, porque é aonde mora a maioria, né? Tem negros que moram na zona
sul, mas não há comparação: o subúrbio é onde tem uma concentração maior de negros. E
eu acho que como Madureira tem samba, tem charme, tudo acaba se desenvolvendo por
ali. Eu penso que é por isso que a questão afro ali é bem forte. No subúrbio tu logo vê a
população negra, sempre é um lugar que tu vai ver um samba. E aí acaba entrando nessa

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

questão da identidade, que lá é bem forte. Lá tu vê muita gente de cabelo black, com
tranças coloridas…

E que as tranças significam na sua vida?

As tranças sempre me acompanharam. Realmente é uma questão de identidade, da minha


formação mesmo. Porque eu vim pra cá [Rio de Janeiro] e durante um período eu me
mantive apenas com as tranças. Participei de um curso e fiz intercâmbio no Canadá por
causa das tranças, acabei entrando na Rede Globo por causa das tranças, fui pra Angola
(não por causa das tranças, mas lá também trabalhei com essa questão), fiz muitas coisas
relacionadas às tranças. Então acho que, querendo ou não, as tranças sempre estiveram ao
meu redor; foram o meu ponto de partida e são o que tem conduzido a minha vida em todas
as áreas. Praticamente tudo que eu tenho feito acaba se direcionando às tranças. Todo lugar
que eu vou sempre tem alguma atividade que envolve trança e identidade. Então é como se
[a trança] fosse um carro chefe que permeasse a minha vida.

Então você teve contato com as tranças na Angola?

Tive. Eu fui pra Angola e falei “vou ter que fazer um curso de tranças aqui”. E aí depois
que acabou [o curso] eu conheci uma apresentadora famosa lá e falei sobre o meu trabalho
com tranças aqui no Brasil, na Globo. Depois acabamos participando de um evento em que
eu tive a oportunidade de trabalhar com as tranças.

Você viu diferença no jeito que as angolanas tratam as tranças quando comparado às
brasileiras?

Eu vi que lá é muito normal, todo mundo usa. E é muito mais tranquilo: até o chefe de
trabalho mais chique usa tranças. Lá é uma coisa boa, é bem parecido com Salvador: faz
parte da vida deles, da criança ao adulto. Todo mundo trança lá.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

18. RAIANY ESTRELA

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 13, 17, 26 e 28 de julho de 2017,
no bairro de Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Como você começou a trançar?

Profissionalmente a Nathy [Nathalya Nascimento, proprietária do salão Fast Braids] foi


minha professora. Mas eu trançava o meu cabelo em casa, sozinha. Foi a minha mãe que
começou a me trançar. Depois ela não tinha mais tempo e eu fiquei desempregada. Tinha
acabado de ser promovida no trabalho, mas teve um corte de custos na empresa e eu fui
demitida. Aí eu vi a divulgação do curso que as meninas [do salão Fast Braids] tavam
dando e fui fazer pra poder me profissionalizar e trançar os outros. Foi aí que eu comecei:
primeiro trançava em casa, depois fiz o curso e pouco tempo depois a Nathy me chamou
pra vir trabalhar aqui com ela.

Quando a sua mãe te trançava você tinha quantos anos?

Ela trançava meu cabelo desde que eu tinha uns quatro, cinco anos de idade. Mas eu
trançava meu cabelo também. Usava aquele miojinho [tipo de aplique de tranças finas que
visualmente remetem ao macarrão instantâneo] da época, colocava um loirinho. [Risos]
Mas eu também usei muito alisante, como toda criança negra.

Há quanto tempo que você começou a trabalhar com tranças?

Há um ano.

Porque você acha que existe tanta polêmica em torno das tranças?

Porque é um penteado negro, é um penteado afro. Ainda mais agora, com essa história de
empoderamento. Por ser um penteado de negro vai rolar essa coisa toda, desde sempre
rola. Desde que eu era pequena e colocava miojinho a galera me sacaneava me chamando
de “cabelo de kanekalon”, “cabelo de implante”... E como hoje em dia essa história tá mais

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

em alta eu acho que começa a gerar essa polêmica. Mas essa polêmica não é de agora. Só
de ser negro, estar se empoderando e falando o que pensa incomoda. E muito.

E você acha que a trança é um penteado feminino?

Não. Não acho.

Então por que a maior parte das pessoas que fazem são mulheres?

A galera tem muito preconceito. A maioria das pessoas que têm preconceito com isso não
sabe da história da trança, realmente, entende? Tem toda uma ancestralidade e tal. E… Ah,
não sei explicar porque não é um penteado feminino. [Risos] Nathy, por que a trança não é
um penteado feminino? [Nesse momento Raiany dirige-se à Nathalya, dona do salão]

Nathalya: Eu acho que foi criado um padrão de que o homem tem que andar sempre com o
cabelo baixinho, raspado, principalmente o homem negro. Ter pediculose também era uma
questão que acabava impactando…

O que é pediculose?

Nathalya: Piolho. [Risos]

Raiany: Nossa, falou igual enfermeira agora: pediculose!

Nathalya: Então isso também acaba impactando. E no mercado de trabalho ainda era um
tabu. Porque as pessoas acham que isso é cabelo de mendigo, né? De gente suja, de gente
que não lava a cabeça… É muito marginalizado. Hoje em dia deu uma melhorada, mas não
são em todos os lugares, não são em todos os bairros.

Raiany: Você falou a palavra-chave: é muito marginalizado.

Nathalya: Por exemplo: se antes você visse um homem negro de dread ou com aquele
cabelo de molinha [cabelo com cacho pequeno e fechado] no final de um ônibus, você já

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

criaria na sua cabeça um estereótipo de um marginal, de meliante, de um cara que


provavelmente poderia assaltar o ônibus em que você estava. Isso acontece até hoje, se
você prestar atenção. Se você tiver que passar do lado de um branquinho na rua ou passar
do lado de um cara com dread você vai querer passar do lado desse cara branco porque
você sempre vai achar que ele [homem negro] tem as características de um possível
assaltante. Então por isso que eu acho que para o homem o cabelo acaba impactando nisso,
até por questão de masculinidade também. [Faz uma pausa] Mas, ó: preto com cabelo bem
trançado fica um arraso!

Sim! Também acho que fica lindo. Mas porque a maioria do público é feminino?

Nathalya: Pra mulher o cabelo ele tá muito associado a autoestima. Pro homem não. O
homem não faz tanto… Oi? [Nesse momento Nathalya é interrompida por uma cliente, que
estava sendo trançada por outras meninas do salão - áudio inaudível] Não, os homens
estão muito vaidosos, mas eles conseguem… [Nathalya é interrompida novamente pela
cliente, que participa ativamente da conversa] As pessoas acham que a gente trança o
cabelo pra esconder o nosso cabelo. Mas não é verdade. Hoje a gente faz a trança por
estilo, porque tem toda uma uma questão ancestral por trás disso.

Entendi. Raiany e o que a trança significa pra você hoje?

Raiany: Hoje em dia a trança pra mim é um hobby, é a minha fonte de renda, a minha
terapia. É o momento onde eu me divirto, onde eu converso, onde eu conheço histórias,
onde eu conto histórias, onde eu aprendo muita coisa. Eu ganhei amigas na trança, eu
aprendi uma profissão com as tranças e aprendi que a trança, não só a trança, como o
cabelo, faz parte da autoestima da mulher negra. A pessoa chega aqui com o cabelinho
dela, todo quebrado, às vezes tá passando transição… E a trança ajuda muito nisso porque
quando a pessoa sai daqui trançada é totalmente diferente: ela sai com um sorriso no rosto,
sabe? Então a trança hoje em dia pra mim é tudo isso: é renda, é hobby, é terapia, é
felicidade.

E Madureira como o centro das tranças: o que você pensa?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Raiany: Madureira, como diz Arlindo Cruz, é o meu lugar! [Risos] Ah, Madureira é tudo,
gente! Madureira é história desde muito tempo atrás. Madureira é terra do samba, a terra da
casa de jongo da Serrinha, terra do viaduto de Madureira, da CUFA [Central Única das
Favelas] de Madureira… E acaba sendo o centro da galera negra, tanto jovem quanto mais
velha. Eu não sei te explicar, mas aqui é nosso lugar, mesmo. É Madureira.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

19. ROBERTA SOUZA

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 15 de julho de 2017, no bairro do


Leblon, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.

A primeira pergunta que eu quero fazer pra você é sobre as lembranças que vêm à
sua cabeça quando a gente fala de trança.

Eu gosto de lembrar da autoestima das meninas, né? Tem muita cliente que chega aqui
com a autoestima baixa e quando sai daqui é outra pessoa, outra mulher. Eu gosto de
lembrar disso porque, de uma forma diferente eu mudo a vida delas.

E como começou a sua relação com as tranças, como você começou a trançar?

Na verdade foi meio sem querer. A minha irmã estava de trança e eu fui fazer a
[manutenção da] trança dela. E aí eu aprendi e comecei fazendo nos meus irmãos. Quando
eu vi eu tava fazendo pra fora.

Nessa época você tinha quantos anos, mais ou menos?

Agora eu não vou saber te dizer, não... [Pensativa] Faz tempo. Menos de 18 com certeza.
[Risos] Eu não trabalhava com isso a princípio, só fazia mesmo nos meus irmãos e em
alguns amigos do meu irmão.

E quando você decidiu comercializar a sua arte?

Quando eu vi que não tinha saco pra trabalhar pros outros. [Risos]

E o que você acha da valorização crescente do negro? Porque parece que hoje em dia
a estética afro tem estado em alta, né?

Eu acho muito importante. Antes as meninas todas tinham que estar de cabelinho liso, todo
mundo achava feio [usar] trança e tal. Hoje em dia as meninas negras optam mais pelo

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

cabelo natural e eu acho que essa cultura de valorização é muito importante porque assim
as meninas não ficam tão reféns da química.

E o que você pensa de pessoas brancas que trançam os cabelos?

Eu não vejo problema nesse negócio. Eu sei que tem gente que fala dessa coisa de branco
usar trança e tal, mas eu não vejo nenhum problema sobre isso, sobre elas estarem
adquirindo também a cultura afro. Acho isso legal. Pra mim cabelo é cabelo.

Quando as meninas usam rabo de cavalo ou coque, por exemplo, não gera tanto
debate como as meninas que usam tranças. Você vê alguma diferença desses
penteados para as tranças?

Eu não acho que é um penteado qualquer como um coque ou um rabo de cavalo porque há
muita história envolvida tanto nas tranças quanto nos dreads. Eu sei que muita gente deve
achar que é só mais um penteado, mas quem realmente conhece um pouco da história das
tranças e dos dreads sabe que não é só isso.

Quanto tempo você demora, em média, pra fazer as tranças das suas clientes?

Depende muito da trança. Essa [aponta para a trança nagô que está fazendo durante a
entrevista], por exemplo, demora uma hora, uma hora e vinte [minutos]. Normalmente as
meninas pedem mais a trança rasta [modelo de trança solta conhecido como rastafari], que
ajuda quem quer ficar bastante tempo sem química, como as meninas que estão passando
pela transição [capilar]. Mas ultimamente, como estamos em tempo de festa junina, a
maioria das meninas estão fazendo mais a boxeadora, que são aquelas duas tranças nagô
laterais. Eu tô sempre fazendo muitas tranças aqui.

Você falou que muitas meninas que estão saindo da química para a textura natural
dos cabelos optam pelas tranças. Por que você acha que elas escolhem as tranças
nesse momento de mudança de cabelo?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Porque na hora que elas vão abrir mão da química elas têm que cortar todo o cabelo que
tem produto e aí acabam ficando com o cabelo curtinho. Nem todas conseguem ficar com o
cabelo curtinho e tal e preferem fazer a trança. Porque a trança rasta demora uns dois
meses pra poder tirar, então dá um tempo [no cabelo] e ajuda a crescer bastante, também.

A trança ajuda o cabelo a crescer?

[Roberta faz sinal positivo com a cabeça]

Tem gente que fala que quando tira a trança o cabelo cai.

Não, solta um pouco de cabelo, mas é comum. Não quebra o fio, nem nada disso, não.
Soltar um pouco de cabelo é normal. Como quando a gente tá penteando e solta um pouco
de cabelo: é normal.

Então você falou que trança desde os 18 anos, certo?

É, por aí. Talvez um pouco mais.

E quantos anos você tem, se me desculpa perguntar?

27.

Então são uns nove anos trançando. Você percebeu uma mudança nos últimos
tempos? Teve mais gente procurando o seu trabalho?

Sim, agora tem muito mais pessoas procurando. Hoje em dia não só os negros, como
também os brancos. Antes não tinham muitas pessoas brancas que faziam tranças, dreads,
nem nada disso. Hoje em dia tem muito mais.

E a diferença de um cabelo black pra um cabelo liso, na hora de trançar?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

No cabelo liso a trança dura menos. Ele é mais “chatinho” de pegar, na hora de separar ele
fica escapando da piranha [prendedor de cabelo] e atrapalha um pouco, mas no final o
resultado é o mesmo. Só que dura menos.

Dura quanto tempo, mais ou menos?

Cara, se ela [aponta para a cliente de cabelo crespo que está trançando cabelo] conseguir
ficar um mês com esse modelo [de trança] aqui, uma pessoa de cabelo liso vai ficar uma
semana, uma semana e meia. Não fica tanto tempo quanto ela.

E trançar dói?

Essa parte aí é com os clientes! [Risos] Eu tô aqui fazendo e não sinto nada, não. [Riso
geral]

Bom, então você aprendeu a trançar sozinha, com 18 anos?

Sim, desfazendo o cabelo da minha irmã. Ela tava com o cabelo trançado e pediu pra que
eu desfizesse. Quando eu desfiz consegui entender a técnica por trás da trança e consegui
fazer a nagô. Os outros tipos de trança eu aprendi quando eu trabalhei no salão da Patrícia,
que é uma trancista aqui da Cruzada [Cruzada de São Sebastião é um conjunto habitacional
localizado no bairro do Leblon] que me ensinou muita coisa. Conforme o tempo foi
passando eu fui adquirindo outras técnicas.

E as meninas que você trança fazem os penteados pra alguma ocasião especial?

Também. Pra festa, pra sair, pra tudo. Pro dia a dia também, porque nem todo mundo gosta
de estar penteando o cabelo sempre e a trança ajuda muito sobre isso: você já acorda com o
cabelo pronto. Tem uma galera que vem fazer mais pro fim de semana, mesmo, que é pra ir
pra uma festinha, e tem as meninas da transição [capilar], como eu disse.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Nas minhas entrevistas, algumas trancistas chegaram a comentar que, por mais que
as tranças chamem atenção, o cabelo crespo, o cabelo black, causa mais impacto do
que as tranças. Vocês percebem isso?

Sim, eu também acho. O black chama mais atenção, com certeza.

[Nesse momento Bruna, cliente que estava sendo trançada por Roberta, dona de um
cabelo black power entra na conversa]

Bruna: Concordo.

E por que vocês acham que isso acontece?

Bruna: Porque é fora do padrão.

Então a trança tá dentro do padrão?

Roberta: Não, mas eu acho que a trança deixa o cabelo mais baixinho.

Bruna: Comportado.

Roberta: É, mais comportado, vamos dizer assim.

Bruna: Talvez as pessoas achem as tranças algo mais estiloso, mais pro “diferente” do que
o crespo. Sei lá.

E já perguntaram se podiam pegar no seu cabelo, se você lavava…

[Após um riso geral todas concordam]

Roberta: Isso é normal, a maioria das pessoas vê o meu cabelo com a mão.

Bruna: Sempre! [Risos]

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E vocês se incomodam com isso? Eu, por exemplo, não gosto.

Bruna: Eu não ligo.

Roberta: Eu não vou falar que não ligo porque aí depende muito.

Bruna: Depende da pessoa.

Roberta: Depende se você conhece a pessoa. Às vezes você não conhece e ela já vem
botando a mão no teu cabelo.

E quando colocam a mão e falam com cara de surpresa “oh, nossa, é tão macio!”.

[Riso geral]

Roberta: É, e tem a pergunta que sempre me fazem: “e o seu cabelo lava?”.

Bruna: Isso que eu ia falar agora! [Risos]

Roberta: Não tem mistério, não tem essa história de que não lava, não. Lava sim! [Risos]

Vamos falar um pouquinho mais sobre a parte da autoestima que você falou. Como é
pra você fazer essa “transformação” nas meninas?

Roberta: É a melhor parte do trabalho, né? As meninas às vezes chegam com problema no
relacionamento, falando que o namorado não tá gostando do cabelo, ou a própria pessoa
não tá satisfeita também… Elas chegam aqui cabisbaixas, querendo mudar. Mas quando
saem daqui e se olham no espelho parece que tão vendo outra pessoa. Essa realmente é a
melhor parte do trabalho: levantar a autoestima dessas meninas.

Agora eu queria saber como vocês entendem o papel do cabelo na formação de uma
identidade, principalmente a identidade negra.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Bruna: Eu acho que o peso do cabelo é tão grande que agora as meninas têm mudado a
visão delas. Antes elas achavam que o padrão imposto pela mídia, pela sociedade, era o
padrão correto para todas. E agora não, agora tá todo mundo se assumindo como se acha
feliz. Mas elas têm que lembrar também que não é porque assumiu o [cabelo] natural que
vai ser o natural perfeito porque lá vem outra questão: o crespo e o cacheado são diferentes
e às vezes as pessoas querem o seu cabelo natural, mas quando veem que não é aquilo que
esperavam já ficam perdidas.

Roberta, você acha que algumas meninas, durante esse processo de transição, acabam
usando as tranças para esconder o próprio cabelo?

Também. Não vou falar que não porque seria mentira. Normalmente as meninas que vêm
aqui chegam com o cabelo bem cortadinho porque elas tiram toda a química de uma vez e
ficam com o cabelinho bem joãozinho, bem pequenininho. E aí [elas] vêm e optam por
fazer a trança pra esconder um pouco o blackzinho porque não estão acostumadas com o
cabelo assim, curtinho.

[Nesse momento, a cliente interfere na entrevista para brincar]

Bruna: Eu não tô escondendo o cabelo não, tá, Gabi? [Riso geral]

Tá bem. Mas então elas saem da química, mas não deixam de rejeitar o próprio
cabelo?

Roberta: Sim. Vira uma outra dependência.

E vocês acham que rola um certo julgamento entre as meninas negras com cabelo
natural com as negras que alisam o cabelo?

Roberta: Também. Acho que tem sim. Todo mundo fala muito “ah, por que você não abre
mão da química e não sei o que” achando que toda mulher negra tem que optar por ter o
cabelo natural. Mas isso é coisa da cabeça das pessoas.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E vocês acham que uma mulher negra que faz química tem problemas com a própria
cor ou não tem a ver?

Roberta: Se ela não tiver se sentindo bem do jeito que ela tá, né? Aí ela resolve mudar um
pouco.

Bruna: Ai, acho que cada caso é um caso. Devem ter meninas que usam a química tanto
pra deixar mais definido como pra alisar porque, sei lá, não gosta do cabelo natural. Mas os
tempos são de mudar se a gente quiser. A gente não é obrigada a usar cabelo natural assim
como a gente não é obrigada a entrar no padrão do liso. Ai, é muito complexo. Mas eu sei
que tem meninas que não aceitam o próprio cabelo e por isso usam aplique ou alisam.

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Transcrição das entrevistas

20. ROSÂNGELA APARECIDA

A entrevista com os trancistas (além de Rosângela, Carlos Henrique Fox e Leandro


Brum participaram da conversa) foi realizada no dia 26 de julho de 2017, no bairro de
Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

[Enquanto trança os cabelos de uma cliente, minutos antes do começo da entrevista,


Rosângela conversa, explicando o modelo de trança que está fazendo: uma nagô]

Rosângela: A nagô tem que mostrar simetria, tem que ser uma coisa limpa. Se você fez a
simetria assim [demonstra o trançado no cabelo da cliente] tem que seguir porque se não
além de doer vai ficar uma coisa visivelmente feia, a estética fica totalmente fora do
padrão. Aqui eu fiz algumas grossas com cabelo sintético e outras finas com o cabelo dela
[cliente] porque faz parte do que eu quero fazer. Mas tem outras pessoas que saem fazendo
o troço de qualquer maneira e já se intitulam trancistas. Não pode, gente, ser trancista é
muito mais do que isso, engloba muita coisa: simetria, limpeza, paciência, qualidade.

[Sentada, pronta para começar a ser entrevistada, Rosângela chama seus colegas
trancistas que na tarde da entrevista faziam parceria com ela. São eles Carlos Henrique
Fox e Leandro Brum]

Você falou que ser trancista engloba várias coisas. Como por exemplo…

Rosângela: Treino, tempo, amor, paciência… Tem que ter paciência.

[Nesse momento Carlos Henrique, Fox, como prefere ser chamado, entra na conversa]

Fox: E tem gente que pensa em fazer só porque “ah, vou ganhar dinheiro”. Não adianta.
Você tem que saber, aprender e amar o que você tá fazendo. Porque, por exemplo, tem
muito trancista aí que “ah, tá dando dinheiro, então vamo fazer”. Mas aí, como a Rose
[apelido de Rosângela] mesmo falou, essas pessoas fazem uma parada totalmente fora do
padrão que a gente tá acostumado a fazer.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Rosângela: Fazem um troço todo bugado, faz um “barangadã de três perna” e já pensam
que são trancistas”. Não é assim.

[Leandro Brum, colega de profissão de Rosângela e Fox, entra na conversa]

Leandro: É um conjunto porque é a dedicação, o estudo. Tudo você tem que estudar com
dedicação porque surgem modelos novos de trança. Você tem que ter amor, carinho,
dedicação e não focar somente no dinheiro porque o dinheiro…

Rosângela: É só um complemento.

Leandro: É, porque se você fizer um trabalho de má qualidade você vai fazer ele uma vez
só e não vai ter um dinheiro frequente daquela cliente.

Rosângela: E fora que tem que ter educação. Isso é uma coisa que eu tô vendo que muitos
trancistas ultimamente não andam tendo: educação. Educação que eu digo é: a pessoa
entrou em contato com você pra fazer um orçamento e o trancista simplesmente largar pra
lá. Ou então faz como que eu, que quando tô trançando não posso dar atenção pro cliente,
mas chego lá [no aplicativo de mensagens] e falo “ó, florzinha, daqui a pouco eu falo com
você porque agora eu estou trançando”. Quando eu termino [de trançar] a primeira coisa
que eu faço é entrar em contato, entendeu? É comprometimento, também. Compromisso
não só com você como com o cliente. Então, cara, acho que trancista realmente engloba
muita coisa.

Leandro: Não é somente trançar o cabelo. Trançar cabelo todo mundo trança. Criança tá
trançando cabelo de boneca, aí. O negócio é a qualidade, o cuidado com o couro cabeludo,
com o cabelo crespo. Porque não basta você pegar, trançar o cabelo e acabou. Tem todo
um processo, um cuidado, uma hidratação. Porque tem um monte de gente aí que vai fazer
a trança, tira uma já coloca outra, não faz a hidratação, não cuida do cabelo. Isso aí é um
cuidado básico que a gente tem que ter.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Fox: Tais trancistas ainda falam pra fazer isso, mesmo. Pra que? Por causa do dinheiro. Faz
a trança [da cliente], acaba de tirar, coloca de novo e ainda diz “não vai fazer mal porque o
teu cabelo vai crescer”.

Rosângela: Tem muitas aí que não tão nem ligando pra isso. A cliente vai tirar e vai fazer
outra trança no mesmo dia [e a trancista diz]: “pode fazer, sem problema nenhum”. Gente,
não é assim. Tem que ter um cuidado com o cabelo. O cabelo crespo é um pouco difícil
sim de se cuidar, mas se houver dedicação tá tudo certo. Porque nós podemos bem mais do
que um cabelo liso, cabelo liso não segura quase nada. O nosso segura, a gente pode fazer
um monte de coisas que ele vai ficar e muito bonito.

Como vocês começaram a trançar?

Leandro: Eu, no caso, foi pela paixão pelo público afro, pelas coisas afro. E foi meio que
pra quebrar um pouquinho do preconceito de que branco não pode ter trança e de que
branco não pode ser trancista. Eu quis estudar, me especializar nisso pra mostrar que o
racismo, o preconceito… A gente tem que acabar se unindo, não dividindo cores. Os
negros sofreram, porém tem muito branco, assim como eu, que luta pra acabar com o
preconceito da mesma forma. E eu quis mostrar a minha forma de trançar, a minha forma
de querer lutar com o preconceito através das tranças. E eu me especializei, me dediquei e
venho fazendo esse trabalho pra mostrar isso: que a gente precisa mudar essa história. E
agora eu vivo da trança, crio a minha família, os meus filhos através da trança. Eu busco
sempre me especializar, dar o melhor de mim pra mostrar às pessoas que a trança é uma
arte, é uma resistência, é como se fosse um protesto dos negros.

Rosângela: Eu acho que, dentro desse padrão da arte todos podem usar, mas, vamos dizer:
“cada um no seu quadrado”. No cabelo crespo o trabalho é mais duradouro; no cabelo liso,
não. Mas é justamente o que o meu colega tá falando: todos podem usar. Esse preconceito
é besta, gente. É besta. Tudo bem: “ah, é branco e tá usando como modinha”. Tá, beleza. É
chato. É muito chato uma pessoa pegar o nosso trabalho (que, no caso não é só trabalho, é
uma forma de resistência) e falar “ai, isso é modinha”, “tá na moda agora usar trança, né?”.
Não, não tá na moda.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

A trança seria uma forma de resistência a quê?

Leandro: Eu busco ler e procurar saber o que eu tô falando pra que eu venha explicar e
quando acontecer essas coisas eu saber o que eu tô falando. Eu li que a trança era como um
sinal de resistência, usada como sinais pelos escravos; eles se comunicavam através das
tranças com os desenhos que elas formavam. E a resistência que eu digo, que ela
[Rosângela] diz, é sobre isso: é como se fosse um protesto.

Fox: Um protesto silencioso.

Leandro: É. É arte, mas ao mesmo tempo protesto porque o mundo que a gente vive hoje é
muito padrão: é cabelo liso, quem tem cabelo crespo tem que alisar o cabelo. Você não
pode usar seu cabelo natural porque é feio, porque é fora do padrão. Então eu acredito que
a resistência é isso: você se aceitar, você mostrar o que você é, o que é a sua natureza, a
sua realidade. Pra mim resistência é isso.

Agora faltam vocês dois, Fox e Rosângela: como vocês começaram a trançar?

Fox: Eu, na verdade, comecei a trançar por causa das minhas tias. As minhas tias por parte
de pai vieram da África. Então elas sempre fizeram [trança] no meu cabelo. E, por gostar
disso, de tanto que elas faziam, eu queria aprender. Só que elas nunca tinham tempo pra
me ensinar. Então eu busquei aprender por vias próprias, mas na verdade não foi nem pra
ser trancista, foi pra aprender a fazer em mim mesmo, entendeu? [Risos] Comecei a
pesquisar, peguei livros, li na internet, via como é que se fazia e acabei aprendendo. Aí
comecei a usar as minhas irmãs como cobaias. [Risos] Fazia todo tipo de trança no cabelo
delas. Com o tempo eu fui me aperfeiçoando, conheci a Rose e ela me passou um pouco
das técnicas que ela já sabia fazer. Então eu fui me aperfeiçoando cada vez mais e acabei
entrando nessa área, mas não por causa do dinheiro e sim porque eu me apaixonei por essa
profissão. Não é à toa que eu trabalho em outros lugares, mas continuo seguindo essa
mesma profissão de trancista porque eu não consigo parar. Não adianta, podem falar o que
for: “ah, você tá trabalhando e podia estar fazendo outras coisas como um curso” ou até
mesmo “larga a trança pra ter um horário de lazer”. Só que a questão aqui não é o horário
de lazer porque esse eu já tenho: fazendo isso aqui [trança] eu já me divirto, entendeu? Eu

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Transcrição das entrevistas

aprendi a amar isso. E foi assim que eu comecei a fazer a trança. Até hoje faço e vou até o
fim fazendo, sem me preocupar com o que falam ou deixam de pensar.

Rosângela: Bem, comigo foi assim: eu tinha… [Reflete] Eu não me lembro bem a idade
certa que eu tinha, mas eu fui me aperfeiçoando mais só no miojo [tipo de aplique sintético
fino que visualmente lembra o aspecto do macarrão instantâneo]. Porque quem começa
nessa vida de trança começa com o miojo, né? Então eu via um monte de gente com trança
e aí eu falei “ah, vou botar também”. Mas isso com certeza eu tinha menos de 10 anos. E
sempre achei trança muito bonito. Então eu comecei a colocar miojo sozinha. Nem sei
como eu aprendi, mas sai botando. E nessa época não existia rede social como hoje, só
existia Orkut e mesmo assim eu não tinha tanto acesso. Então o que aconteceu: eu fui
numa amiga minha pra ela fazer esse tipo de trabalho em mim. Conforme ela ia fazendo
em mim eu ia olhando pelo espelho. E eu sou extremamente autodidata. Aí quando eu
cheguei em casa peguei minha boneca, uma boneca muito antiga que com certeza ninguém
vai lembrar, a Bem Me Quer [modelo de boneca que tinha cabelos de lã], e fiz. Detalhe: ela
não tinha cabelo na cabeça toda, era só uma carreira aqui [mostra a parte de cima da
cabeça], tipo um moicano. Então eu comecei a treinar só naquele moicano. E nisso eu fui
treinando, treinando... Depois fui treinando em mim porque quando eu era menorzinha eu
tinha vergonha de falar com as pessoas [para treinar trança no cabelo delas]. E daí eu
comecei a pensar “poxa, é uma coisa que eu amo fazer” e comecei a pegar muito amor pela
trança. Muito mesmo. E olha que quando eu era menor a minha mãe fazia trança em mim,
mas eu odiava!

Odiava por que? Doía?

Rosângela: Doía demais. E olha que a minha mãe nem fazia isso aqui, não [mostra a
trança que está fazendo na cliente], minha mãe só fazia coquinhos de trança. Mas eu
achava que aquilo ali doía horrores, eu pensava “gente, nunca mais quero fazer isso”. Mas
muito pelo contrário: eu comecei a pegar cada vez mais amor e mais técnica. Hoje em dia
eu estudo bastante pelo Instagram de algumas americanas, canadenses… Tenho bastante
amizade com o pessoal de fora. Eles fazem tranças ricas em detalhes e como eu sou
extremamente detalhista me identifiquei com o tipo de trança deles. Bem, mas então eu
comecei a fazer na cabeça dos outros por preços mais acessíveis e com esse dinheiro

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

comecei a me especializar. Conforme eu me especializava, comprava mais material,


deixava estocado. Então chegou uma época da minha vida que eu falei “vou me dedicar
100% a isso”. Aí larguei o meu trabalho e passei a trabalhar somente com tranças.

É a sua principal fonte de renda?

Rosângela: Principal. Única, praticamente.

Fox: Eu acho que de todos nós, agora, né?

As pessoas vêm aqui para trançar por qual motivo? Elas vêm aqui para trançar pra
uma ocasião especial, pra ficar mais prático lidar com o cabelo, por causa da
transição...

Rosângela: Dividido.

Fox: Eu acho que é meio a meio. A maioria das pessoas quando vêm aqui trançar ou têm
um evento pra ir ou é pro dia a dia, pra ser uma facilidade melhor pra trabalhar. Porque
realmente fazer uma arrumação de manhã no cabelo pra ir trabalhar é bem mais
complicado do que você levantar [de tranças], fazer um coque, prender e ir.

Leandro: Como tem aquelas pessoas que vêm procurar uma outra coisa na loja, se
identifica com o cabelo e acaba fazendo. [Rosângela, Fox e Leandro atendem uma vez por
semana em Madureira, na loja Feirão dos Brinquedos, que vende artigos sazonais,
decoração de festas e é a maior loja da cidade do Rio de Janeiro especializada em
apliques sintéticos utilizados na confecção de tranças africanas]

Rosângela: Muitas vêm aqui: “ah, vim aqui comprar negócio pro aniversário do meu filho,
mas eu gostei tanto… Ah, vou fazer”. Aí ela já senta aqui e faz. Já sai daqui de outro jeito!
Elas também pensam: “ah, eu vou chegar em casa, meu marido vai ficar como?”, “eu não
avisei pra ele”…

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Leandro: E tem também aquelas pessoas que vêm de longe. Eu tenho uma cliente que veio
de Paracambi [pequeno município no estado do Rio de Janeiro a 78 km da capital] fazer
cabelo aqui.

Rosângela: Tem gente que vem da Ilha do Governador [ilha que compreende 14 bairros da
Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro].

Mais pra frente eu quero voltar nessa questão da internet. Mas agora eu quero saber
sobre os debates em torno da trança e da apropriação cultural. Na opinião de vocês,
qual a diferença da trança pra outro penteado?

Leandro: Então, é pelo que eu te falei: a trança era usada como um símbolo de resistência;
era um protesto em silêncio pros senhores da casa grande não verem. Então eles utilizavam
os desenhos do nagô pra se expressarem de uma forma que os brancos da casa grande não
entendiam. É por isso que hoje as pessoas pensam que “branco não pode usar trança”,
“branco não pode fazer um penteado com nagô”. As pessoas trazem coisas do passado pra
agora, pro nosso presente. Sendo que de lá pra cá as coisas mudaram. Branco quer acabar
com preconceito da mesma forma que o negro quer. O branco não sofre o preconceito que
o negro sofre. Eu, que sou branco, sei disso. Mas eu trabalho com negro, eu tenho filhas
negras, esposa negra e eu luto pra acabar com o preconceito. Mas a trança é isso aí: é um
símbolo de resistência. Então o penteado em si foi voltado para o público negro, por isso
que as pessoas falam que branco não pode usar trança.

Rosângela: Eu vejo dessa mesma forma, mas eu também vejo como uma… Como uma…
[Pequena pausa] Não vem muito ao caso, mas é o meu trabalho, é o meu ganha pão. Então
eu acho que não é uma coisa certa vir uma pessoa branca me perguntar se pode fazer. Claro
que pode. Tem cabelo? Pode. Só que é aquele negócio: não vai durar. Não vai durar da
mesma forma que num negro vai durar. “Ah, mas ele é branco, ela é branca, então não
pode”. Por que que não pode? Claro que pode. Tudo bem, ela vai usar como moda. Mas
tem muito preto que também usa a trança como moda e não porque “é símbolo de
resistência”. Eu vejo muitos negros falando “ai, eu não combino com trança, mas vou usar
porque é moda”. Vejo muito! E eu passo mal, chego a me tremer. Treme tudo!

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Fox: Aí o que acontece: hoje em dia a trança é vista, como você mesma falou [aponta pra
Rosângela], como moda e não como uma arte de protesto. Muitos fazem a trança porque
gostam, porque amam, porque já tão familiarizados com aquele estilo, com aquele tipo de
cabelo, com aquela forma de pensar e de agir. Mas muitos usam realmente como uma
moda “ah, meu amigo colocou, vou colocar também porque vai ficar legal”. Sendo que não
é assim que funciona. Como a Rose falou: nós trabalhamos porque a gente gosta, a gente
ama, a gente quer demonstrar essa arte para todos.

E o que vocês acham disso? Pois nos últimos anos a procura por tranças aumentou,
assim como a procura pela moda negra. De um lado fica a resistência e do outro essa
“moda”?

Rosângela: Fica meio dividido de certa forma porque, pelo menos nós, trancistas, estamos
de um lado que a gente... Vamos dizer, não tem como… [Reflete e tenta encontrar as
palavras]

Fox: É conturbado, a gente não pode seguir um lado, a gente tem sempre que ficar no
meio.

Rosângela: A gente acaba sendo “obrigado” a ficar em cima do muro nesse tipo de assunto.
Acho que cada um aqui tem um intuito no seu trabalho. Eu sustento meu filho, ele [aponta
para Fox] sustenta o filho dele, a casa dele, ele [aponta para Leandro] sustenta a família
dele... Mas trazer isso pra debate é bom porque muitas pessoas até mesmo da negritude não
sabem de muita coisa.

Fox: Por exemplo, tem muita gente que conhece muito menos do que deveria conhecer,
como os próprios negros. O Leandro conhece muito mais do que muitos negros que eu
conheço. Eles falam em empoderamento, falam em igualdade de raça, mas não conhecem,
não estudam, não sabem o que que é isso.

Rosângela: Não sabem a teoria da parada. Tem que saber a teoria. Eu, praticamente, não
ando com tempo pra saber a fundo a teoria. Mas é saber, é conversar. Poxa, o Leandro

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

sabe, então conversa com ele; busca um pouco mais do pouco conhecimento que ele tem
(porque ninguém sabe tudo), vai absorvendo. Mas tem muitas pessoas que não tão nem aí.

Fox: É que na verdade entra a parte do preconceito: por você [olha para Leandro] ser
branco, você não deve conhecer.

Leandro: Um branco não pode saber sobre negros. Tem muita gente que tá numa rodinha
em que as pessoas falam que branco não pode usar trança e passa a falar isso que todo
mundo fala sem procurar saber o porquê. Por que um branco não pode usar trança e um
negro pode alisar, pintar o cabelo de loiro? Por que? É isso que a gente tem que buscar
saber. Estilo é uma coisa que todo mundo tem o seu.

Rosângela: Tem muitas trancistas que nos debates em grupos de trancistas falam na cara
mesmo, em letras garrafais: “eu não faço cabelo de gente branca”.

Leandro: Por que não? Então essa pessoa não vive.

Fox: E elas não chegam a falar “ah, é porque o cabelo escorrega”. Não, elas dizem “eu não
faço cabelo de branco” e acabou.

Leandro: “Branco não pode usar trança”, “isso é super errado”. A gente faz o que a gente
quer porque a gente sustenta a nossa família através disso. Nós temos livre arbítrio.
Entendeu? A gente tem o cabelo e vai fazer, não tem porque não fazer.

Rosângela: Porém a gente sempre lembra pra pessoa. Pelo menos eu sou assim: eu faço
[cabelo de branco], mas eu lembro a ela “ó, não vai durar”. Então a pessoa faz se ela
quiser.

Leandro: É questão de opinião: a pessoa tá ali fazendo sabendo que não vai durar. Eu fiz
trança no meu cabelo [o cabelo de Leandro é liso] e ficou uma semana. Eu tenho
consciência disso. Eu botei até mesmo pra acabar com esse preconceito [de que branco não
pode usar trança], eu faço tudo pra acabar com o preconceito. Eu vivo no meio da
negritude. Eu sou, tipo, o único branco no meio da negritude. [Risos] Mas é o lugar que eu

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

me sinto à vontade, onde eu me sinto bem. Eu faço de tudo pra mostrar a eles que o branco
luta contra o preconceito da mesma forma [que o negro], que um penteado [negro usado
por brancos] jamais vai mudar a história da resistência e da luta dos negros. E que isso [a
história nos negros] não impede um branco de lutar contra o racismo junto com o negro,
não impede um branco de usar trança assim como não impede um negro de usar um cabelo
liso ou loiro.

Rosângela: Por incrível que pareça hoje em dia o que eu mais vejo, infelizmente, é a
maioria dos negros com atos racistas contra o próprio negro. O branco hoje em dia se
deixar tá junto com a gente lutando pra acabar com o preconceito. A maioria [dos brancos]
tá vindo, se juntando, ajudando a gente e os negros tão indo pra lá, pro “lado negro da
força”. Não dá.

Fox: Mas já fizeram uma pesquisa mostrando que a maioria dos racistas são negros.

Rosângela: Infelizmente. Assim quebra, né? Assim não dá.

Bem, pra vocês trancistas fazem uma arte ou vendem um produto?

Leandro: No meu ponto de vista é uma arte, é um artesanato e é uma cultura.

Fox: E um estilo de vida.

Rosângela: Pra mim é um estilo de vida.

Leandro: Porque você pega um material qualquer e transforma numa trança. No entrelace,
por exemplo, você faz a nagô e costura [o cabelo sintético] na cabeça. Então pra mim é
uma arte. E a arte, como os meus amigos falaram, é um estilo de vida.

Fox: Eu penso da seguinte forma: a gente é quase um… Quase não, né, nós somos artesães.

Rosângela: Artesães? É artesãos ou artesães?

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Transcrição das entrevistas

Vocês fazem artesanato. [Riso geral]

Fox: Porque, como o meu amigo falou, a gente pega, por exemplo, um jumbo liso, e
consegue transformar num lindo desenho na cabeça de uma cliente. É uma coisa que a
gente vai criando. É uma transformação, como o Leandro falou.

Rosângela: Às vezes o cliente chega com [a foto de] uma trança e fala ““ah, tem como
fazer exatamente o que tá aqui?”. Eu já falo “não tem como, mas eu posso pegar esse
modelo como base e criar outra coisa”.

Fox: Até porque cada trancista trabalha de uma forma. Eu tenho uma técnica diferente de
trançar, o Leandro tem outra, a Rose tem outra. Então eu nunca vou conseguir fazer igual
ao Leandro, igual a Rose, a Rose também não vai conseguir fazer igual a gente [Fox e
Leandro] e o Leandro nunca vai conseguir fazer como nós dois [Fox e Rosângela]. É uma
troca de conhecimento. Eu já aprendi muita coisa com a Rose. Muitos estilos de trança eu
também já aprendi com o Leandro fazendo, gostei e de tanto ficar vendo fui aprendendo.
Então é uma profissão que eu prefiro ver como arte e não como símbolo de trabalho,
apesar de ser um trabalho. Mas na minha cabeça eu consigo ver mais como arte do que
como uma forma de ganho material.

Rosângela: Pra mim de certa forma é um estilo de vida porque, cara, eu me sustento. Eu
parei de trabalhar com qualquer outra coisa. Eu trabalhei a minha vida inteira com
telemarketing. Aí acabou que em um certo período da minha vida eu ia do telemarketing
pra trança, da trança pro telemarketing. Chegou um dia em que eu falei “peraí, eu amo
trançar e eu sei que isso vai dar um suporte na minha vida em casa, então esse é um estilo
de vida”. E eu também uso, né? Eu amo usar trança! Eu acho que a trança transforma a
pessoa, entendeu? Muitos chegam aqui, me veem com esse black, depois um dia eu
apareço com trança. Tem pessoas que não me reconhecem de trança e outras pessoas que
não me reconhecem de black. A trança muda, transforma o visual da pessoa. A maioria fala
“eu prefiro você de trança, cê fica mais bonita”.

Quanto ao black: ele impacta mais do que a trança?

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Transcrição das entrevistas

Fox: Sim.

De uma forma positiva ou negativa?

Fox: Eu acho que de um lado mais de espanto.

Rosângela: Eu posso falar por um acontecimento que eu vivi com aquele Marley, o Marley
Twist [tipo de cabelo sintético bastante cheio e frisado]. Bem antes de começar essa moda
(moda entre aspas) eu coloquei o crochet braids desse Marley Twist, só que eu não deixei
do jeito que ela fica no pacote, eu desfiei. Ou seja, ele virou…

Fox: Uma árvore. [Riso geral]

Rosângela: Isso, eu virei uma árvore. [Risos] E eu fiz isso pra saber como é que a
sociedade ia realmente reagir, como é que ia ser a aceitação. Gente… [coloca a mão sobre
a boca, com espanto] Foi um negócio muito negativo. Extremamente negativo. Tiveram
pessoas que de dentro do trem (eu estava do lado de fora) batiam no vidro e faziam
[Rosângela faz gestos ao redor do cabelo e depois faz sinal negativo, virando os polegares
pra baixo com as duas mãos].

Fox: Tipo, pra que isso? [Sorri, incrédulo]

Rosângela: Pra que isso? Teve gente que tomou um susto comigo. Não foi sacanagem, não,
realmente tomaram um susto comigo porque eu estava com aquele negócio enorme. Tinha
gente que passava na rua, de carro e gritava “vai, ninho de piolho”, “vai pentear esse
cabelo”, “corta esse cabelo”. Foi um negócio extremamente negativo. E eu fiquei “Jesus”
[Rosângela faz cara de assustada e triste]. Por mais que eu me mantivesse firme, chegou
uma hora em que eu falei “não dá, não dá” e tirei. Daí depois de um tempo eu coloquei
trança e foi normal porque com trança todo mundo já está acostumado. A trança é um
penteado que abaixa o cabelo. O black impacta porque põe o cabelo pro alto. E com o
cabelo pro alto o povo fica assim [faz cara de desconfiada].

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Leandro: Nas tranças o que dá um impacto maior são as cores. Às vezes tu vê uma pessoa
negra com uma trança rosa. Eu, particularmente, acho maravilhoso!

Rosângela: É muito lindo.

Leandro: Mas as pessoas, pelo fato do preconceito, chegam a falar que fica horrível.

Fox: [Elas dizem:] “A trança tá até bonita, mas essa cor não tem nada a ver”.

Leandro: Em relação às tranças o que causa impacto são as cores, no black é o tamanho.
Se bem que as cores do black também influenciam bastante porque às vezes você vê
blackzinhos meio verdes, roxos, brancos…

Branco que você fala é o loiro?

Leandro: É o platinado. Parece um algodão.

Fox: É o famoso algodão.

Leandro: Pra gente é perfeito, é o black dos sonhos.

Rosângela: Mas uma coisa que eu também reparei nesse negócio de black branco: teve um
dia que eu fui cumprimentar uma menina que passou perto de mim com um black branco,
creio eu que era [feito com] crochet [crochet braid é uma técnica protetora de aplicação de
cabelos sintéticos por meio de uma agulha de crochê]. Estava maravilhoso. Eu fui
cumprimentar a menina, parabenizar, e ela me recebeu tão mal, não me deixou nem falar.

Mas o que ela falou?

Rosângela: Ela simplesmente, ela [Rosângela simula um olhar de nojo] e saiu andando.
Me recebeu mal sendo que eu nem tinha falado nada ainda.

Será que ela achou que você falaria alguma coisa negativa?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Rosângela: Com certeza ela achou isso e já foi se defendendo.

Leandro: As pessoas se defendem antes de você falar.

Rosângela: Hoje em dia tá assim, é porque o povo nos massacrou tanto que hoje em dia a
gente tá muito na defensiva.

Fox: É igual à pauta de homem usar um black muito grande. Porque hoje em dia os
homens estão deixando o black maior até do que o das mulheres. Quanto maior o black for,
mais status o cara tem naquele grupo de amigos, entendeu?

Leandro: E os homens também sofrem também um certo preconceito quando têm black
grande. Agora quando o cara tá de trança ele sofre dois preconceitos: o primeiro por ele ser
homem de tranças e o segundo por as pessoas acharem que ele é gay.

Então trança é vista como um penteado feminino?

Fox: Não.

Leandro: Não, não. Não necessariamente.

Então por que isso ocorre com os homens que usam tranças?

Leandro: Porque aí já vem outro preconceito por trás desse, que no caso é a homofobia: o
homem não pode usar trança porque é gay.

Fox: É o padrão. O homem tem que estar com o cabelo assim [põe a mão na própria
cabeça raspada], cortado.

Leandro: Cabelo militar, raspado. Não pode black, não pode trança.

Fox: E tem um exemplo: nós como trancistas somos tirados como o que?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Leandro: Gays.

Fox: Como gays. Só porque a gente trabalha com cabelo.

Leandro: Ele [aponta para Fox] é noivo e eu sou casado. Então gera uma… [Pensativo] A
gente chega pra fazer o cabelo: “ih, é gay”. Não, não “é gay”.

Fox: Mas isso não é uma coisa que a pessoa chega e fala “ah, eu acho que ele é gay”. Não!
Só porque a gente faz o cabelo a gente automaticamente é gay.

Leandro: Então, assim, é o que eu falo sempre: o preconceito (homofobia, gordofobia,


racismo) só vai acabar quando as pessoas se unirem, lutarem por uma causa só e acabarem
com isso de vez. Porque o sangue é um só, quando morrer vai todo mundo pro mesmo
lugar.

Mas eu ainda não consegui assimilar. Vocês disseram que muitos homens que usam
tranças são tidos como gays. Mas se a trança não é um penteado feminino por que
isso acontece?

Fox: Pela forma de pensar da cultura.

Leandro: Aí entra o machismo.

Fox: Sim, o machismo: o homem não pode ter cabelo grande. O homem tem que estar com
cabelo baixo, cortadinho, entendeu? Corte militar, como o Leandro falou. A partir do
momento que o homem tem cabelo grande (como eu tenho muitos amigos que têm cabelo
no ombro, muitos amigos que têm um black maior do que o da Rose) ele é tido como gay.
Hoje em dia se você reparar na cultura afro do empoderamento a maioria dos gays usam
cabelo afro, pro alto. Ou muitas vezes usam o método de crochet: quando não tem o cabelo
muito grande fazem a nagô e costuram o aplique pro cabelo ficar black.

Homem também costuma usar crochet?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Fox: Sim! Eu usei muitos anos.

Leandro: Eu até tô deixando o cabelo crescer porque eu vou passar a usar entrelace [técnica
que costura o cabelo sintético na trança nagô bastante parecida com o crochet braid]... E,
assim, muito do machismo surge pelo fato do homem ter que ter o padrão que a população
coloca. Como eu falei antes: a mulher tem que ter o cabelo liso; o homem tem que ter o
cabelo à máquina, cortado. Se o cara botou uma franjinha já sofre homofobia porque falam
que ele é gay.

Fox: Eu sofri. Eu sempre usei black, desde os meus oito anos de idade. E meu black era
enorme! Aos 19 anos eu cortei porque eu quis e não por pressão, mas eu sofri muito. Eu já
escutei “ah, lá vem o gay”, “corta esse black porque isso é de mulher”, “homem tem que
usar cabelo cortado”. Cansei de ouvir isso não só na rua, mas dentro da minha própria
família.

O que vocês acham das meninas que usam tranças durante a transição capilar? Vocês
fazem muito cabelo assim?

Fox: Bastante, uns 80% [da clientela].

Leandro: Sim porque são pessoas que estão fugindo de progressiva, de tratamento de
Beleza Natural [famosa franquia de salão afro no país]. São pessoas que vêm fugindo desse
padrão do liso e vêm se aceitando. Os negros vêm cada vez mais se aceitando, cada vez
mais assumindo a sua resistência, assumindo o seu cabelo, dizendo “eu sou negro, eu sou
black, o meu cabelo é esse”. Então a gente atende muitas pessoas que estão com química e
não querem ter que cortar baixinho e raspar o cabelo.

Fox: Porque às vezes elas têm vergonha, acham que vai ficar feio.

Leandro: E até pela pressão, pelo medo de sofrer mais preconceito do que já sofrem.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Fox: Aí entra aquela parte do preconceito: o homem não pode ter o cabelo grande e a
mulher não pode ter o cabelo curto.

Leandro: Então essas mulheres usam a trança, entrelace ou o crochet que são formas do
cabelo crescer mais rápido até que elas sintam vontade de usar o próprio cabelo ao natural.

Agora vamos falar sobre como é feita a divisão dos cabelos na hora de fazer trança.

Fox: No caso essa parte aí é mais estética. O triângulo forma um desenho diferente a cada
jeito que você prender seu cabelo. Já o quadrado segue uma linha, né? Fica todo reto, mas
com divisórias mais limpas e simétricas.

Leandro: As tranças são como se fossem um mosaico: você forma do jeito que você achar
melhor. O triângulo foi uma forma que as pessoas começaram a utilizar pra modificar um
pouquinho, pra não ficar igual a raiz quadradinha. Criaram o triângulo e o círculo, por isso
tem muita gente agora que só faz redondinho… As divisões são mais uma questão estética,
pra mudar o visual mesmo. O público é afro, são mais pessoas que utilizam, vamos dizer,
as “doideiras”, o que é maneiro pra caramba! [Risos] Então as pessoas vão inovando cada
vez mais.

Fox: Fora que hoje em dia tem muitos estilos de trança, né? A base sempre vai ser ou a
nagô ou a box braid. Mas existem inúmeras, diversas tranças, como trança senegalesa, a
twist…

O que é a trança senegalesa?

Fox: Trança senegalesa é uma trança normal, feita com cabelo de fibra, como se fosse uma
trança box braid, sendo que você cacheia ela.

Leandro: É uma trança normal com as pontas enroladas.

Fox: Sendo que a gente faz essa técnica usando água fervendo ou secador de cabelo.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Leandro: É um modo de selar e modelar [a ponta ondulada] pra ponta não voltar a ficar
esticada.

Agora eu quero saber o lado positivo e o lado negativo do trabalho de vocês.

Fox: O lado positivo é trabalhar com o que eu amo, que eu gosto e sempre admirei. Já o
lado negativo é o das dores. [Risos] A gente força muito o nosso corpo fazendo isso. Os
nossos joelhos, as nossas mãos.

Rosângela: A gente cobra do corpo inteiro: mente, porque a gente tem sempre que estar
concentrado; olhos, porque nem sempre a gente tem uma boa iluminação e acaba forçando
a vista; ombro, porque eu, pelo menos, sou totalmente descoordenada e encolho os ombros
enquanto tranço; mãos, porque tem que trabalhar com firmeza; pernas, porque a gente fica
em pé…

Fox: Em pé o dia todo! Às vezes oito, 12 horas, dependendo de como for a trança.

Leandro: Sim, o lado positivo é trabalhar com o que você ama e o lado negativo é o
cansaço físico e mental.

Fox: Tem o preconceito, também.

Leandro: Sim, o preconceito.

Rosângela: Ele [Leandro] ainda é um pouquinho a mais porque junta os preconceitos [de
ser homem trancista e branco]. [Risos]

Leandro: E tem um outro lado chato porque tem aqueles clientezinhos que só Jesus na
causa! [Riso geral] A pior parte é essa.

Fox: Sendo essa última parte a gente consegue levar numa esportiva maior. Já as dores não
tem como fugir muito porque isso nós vamos levar pro resto da vida.

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Transcrição das entrevistas

Leandro: E às vezes você fica nove, 10, 12 horas. Quando você vai parar pra descansar são
apenas quatro horinhas.

Fox: E às vezes você não faz só um cabelo no dia. Como hoje: nós fizemos dois!

Rosângela: Tudo bem que acaba ficando rápido porque nós trabalhamos juntos, mas
mesmo assim é doloroso.

Leandro: Na trança solta às vezes a gente não consegue fazer mais de duas. Mas o
entrelace a gente faz dois, três, quatro num dia. São trabalhos rápidos, mas que forçam
muito a mente porque a gente tem que saber que que a gente tá fazendo ali. Não pode ficar
artificial.

Rosângela: E tem que haver um diálogo, um vínculo entre você e a cliente. Você tem que
prestar atenção no que você tá fazendo, mas você tem que tirar as dúvidas dela; e isso é
trabalhar com a mente. Eu sou muito chata e exigente com o meu trabalho, gosto de fazer
as coisas com maestria porque quero que o cliente volte sempre pra mim, faça sempre
comigo, entendeu? Não sou igual a muitas pessoas por aí que fazem só visando o dinheiro.
E eu tenho certeza que os meus colegas também são dessa forma porque eles trabalham
comigo e também porque eu já conhecia o trabalho deles antes. No caso do lado negativo,
ao meu ver... [Rosângela olha para as próprias mãos esticadas à sua frente e sorri] Isso
aqui é uma coisa incrível que infelizmente não dura pra sempre. Então você tem que dar
valor.

Leandro: Nem tem como trocar.

Fox: Não tem manutenção. [Risos]

Rosângela: Não tem transplante, não tem manutenção de mão. Isso aqui é o nosso sustento.
Então você tem que dar valor, certo? Então isso adcaba englobando parte do nosso lucro,
certo? Por isso a gente tem que cobrar um valor justo pelo nosso trabalho.

Fox: Mas nem sempre o que a gente cobra é valorizado.

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Transcrição das entrevistas

Tem gente que cobra muito barato, né? Eu vejo alguns debates sobre isso nos grupos
de trancistas em redes sociais.

Leandro: Tem gente que aprende vendo vídeo: ontem viu o primeiro vídeo, hoje conseguiu
fazer uma trança e pronto: “sou trancista”, “faço na cintura por 100 reais e ainda dou o
material”. E a gente que estuda, que se dedica, que vive disso?

Rosângela: A gente anda pra lá e pra cá pesquisando preço de material, indo de loja em
loja, fechando parcerias…

Fox: E a gente não faz essa pesquisa pra atrapalhar os outros trancistas, a gente faz pra
manter um preço justo pra todos.

Rosângela: Isso. Porque, afinal de contas, a gente tem que ter o nosso lucro, certo? A gente
tem que valorizar isso aqui [mostra a palma das mãos]. E isso aqui [bate com as duas
mãos nos joelhos], porque a gente fica muito tempo em pé. Tem que ter perna. Variz é uma
coisa muito séria, gente. Se um dia dá xabu nisso aqui [aponta para a perna, novamente]
eu vou ter que ficar de cama. E como é que eu vou trabalhar de cama?

Leandro: Fora que trancista não tem alimentação, né?

Rosângela: É, ainda tem isso.

Exatamente. Eu saí, fui almoçar, voltei e vocês ainda estavam aqui trançando.

Leandro: A gente tá ali [faz gesto com os dedos, como se estivesse trançando] e tem hora
que a perna tá tremendo sozinha e você não tem como parar, não pode parar porque a
cliente tem que ir embora.

Fox: Na maioria das vezes a gente não pensa na gente e sim na cliente porque da mesma
forma que a gente tem família, a cliente também tem. Você viu aqui, a menina: “ele não

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

sabe que eu tô aqui”, “ele acha que eu vim fazer uma coisa e acabei fazendo outra”. Então
a gente tem que fazer de uma forma rápida que a cliente possa sair e ir pra casa.

Leandro: A gente sabe que a gente vai chegar tarde em casa. A gente sabe que a gente sai
de manhã, mas não tem hora pra voltar.

Rosângela: Infelizmente esse nosso ofício tem mais lado negativo do que positivo.
Infelizmente.

Leandro: Mas nós temos um lado positivo que, no meu ver, é o melhor de todos: a gente
trabalha com a autoestima. A gente pega uma pessoa com a autoestima lá no poço. Às
vezes é uma cliente careca, que caiu o cabelo, ou que nunca teve cabelo comprido e o
sonho é ter cabelo grande.

Rosângela: Eu já tive cliente que se olhou no espelho no final do meu trabalho e começou
a chorar.

Leandro: Chora, abraça a gente com aquela felicidade. A gente vê que a pessoa tá feliz e
isso é muito gratificante pra gente.

Rosângela: Ih, eu choro junto! [Risos]

Leandro: Porque, assim, na nossa equipe a gente não foca somente no dinheiro. O dinheiro
é consequência do nosso trabalho: a gente tá trabalhando, a gente vai receber. A gente foca
no cuidado, na qualidade. Então quando a gente vê a felicidade do cliente por ter um
cabelo comprido, um black desejado… Essa é a melhor parte.

Rosângela: Ou então a pessoa no dia seguinte ou dois dias depois me manda um texto
enorme no Facebook “eu agradeço porque você me deixou linda, eu estou me sentindo
maravilhosa, meu marido adorou, meus filhos estão me achando linda, muito obrigada”.
Gente, eu começo a chorar! [Risos] É isso que me motiva a ir pra frente e passar por cima
desse lado negativo que, infelizmente, é o maior.

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Transcrição das entrevistas

E a rivalidade entre trancistas? Rola disputa por cliente?

Rosângela: Agora você chegou na parte que eu mais vejo nos grupos que eu participo. Por
exemplo: eu fiz um trabalho, botei minha marca d’água (a minha assinatura) e alguma
fulana pega a foto e divulga como se fosse dela. Isso acontece muito.

Leandro: E também tem o preço: 100, 150 reais por uma trança na cintura. Quem não
quer? 100 reais na cintura? Uma trança que demora oito horas fazendo? Hoje em dia
também as pessoas tão focando muito em valor, não focam em qualidade, no cuidado com
o cabelo.

Rosângela: Aí depois vai lá no grupo [de trancistas na internet] chorar as pitombas.

Fox: Você trança hoje e daqui a dois dias tá cheia de bolinhas, com alopécia.

Rosângela: Porque a trancista não explicou que a bolinha que dá é uma coisa normal
porque [a trança] tá puxando a raiz. Então é simplesmente não tacar a unha porque aí vai
piorar o negócio.

E. na opinião de vocês, porque Madureira tem tantas trancistas?

Leandro: No meu ponto de vista (e acredito que todos aqui vão falar a mesma coisa) o
enfoque em Madureira é por causa do baile charme! [Risos]

Fox: É a maior concentração de cultura negra.

Rosângela: Aqui é uma concentração incrível de negros.

Leandro: Então: negro chama trança, chama black. Porque a gente não só trança, a gente
cuida do cabelo negro. E uma coisa chama a outra. Então a gente vai estar onde está o
foco, que no caso é o baile charme. O maior público negro é daqui de Madureira

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Rosângela: Mas o baile charme é bem antigo. Então já existe essa concentração negra há
gerações.

E tem as escolas de samba também, né?

Todos: Tem!

Leandro: Tem Portela, Império Serrano…

Rosângela: Apesar de que o público das escolas de samba antes não eram muito voltados
pra trança, era só pra implante, aquele cabelão de passista.

Fox: Por isso que aqui em Madureira o foco maior antes era de implantista, e não de
trancista. A maioria das angolanas daqui é implantista.

Rosângela: E essa é diferença que eu percebi ao longo dos meus 13 anos de trabalho: a
trancista consegue fazer implante, só que a implantista não consegue fazer trança. Então há
essa diferença. Agora que as tranças tão explodindo e entraram na moda, as implantistas
estão migrando pra trança.

Mas o trancista não deixa de ser um implantista?

Todos: Não.

Leandro: É igual a você falou: do cabeleireiro e do trancista; são coisas diferentes.


Implantista é nó italiano, microblanding, microlink, colinha, essas coisas assim.

Mas entrelace e crochet braids não são implantes?

Leandro e Fox: Não. [Pensativos]

Rosângela: Entrelace é um implante porque a gente tá colocando cabelo. Implante é uma


coisa que a gente coloca, não corta. Então o entrelace, o crochet braid…

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Fox: Até o box braid.

Rosângela: Até o box braid, miojo, qualquer coisa que ponha na cabeça é um método de
implante.

Fox: Foi o que ela falou: o trancista é implantista, mas o implantista não consegue ser
trancista.

Rosângela: Pelo fato do crochet e do entrelace terem como base a nagô.

Leandro: Se não tiver a nagô você não faz.

Fox: É que um implantista aprendeu a usar o que? A cola, o nó, o microlink, o lastex, que
são formas de prender o cabelo. Você prende o cabelo, você não trança.

Leandro: É daí que vem a maior parte da queda de cabelo. Sendo que no entrelace o seu
cabelo tem como crescer porque tá trançado, não preso.

Fox: Ele tá encasulado ali, mas tá guardado de uma forma que vai crescer.

Leandro: É uma proteção. Com o nó não, ele fica amarrado, exposto. O cabelo não tem
como crescer.

Fox: E a cola acaba com o cabelo; o único jeito de você tirar é cortando. Fora que aquele
cola é em alta temperatura, então por ser muito quente danifica a raiz.

Rosângela: O lastex, esse produto aqui [mostra o carretel de linha nas mãos] é um
elástico. Isso aqui na verdade não foi feito pra cabelo, foi feito pra costura, mas acabou
sendo usado pra prender tranças e apliques de nó italiano. Dura até dois meses, mas tem
gente que deixa seis meses, fica um ano com o mesmo implante. Isso é perigoso porque o
lastex pode fazer o cabelo da pessoa dredar.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Peraí, deixa eu digerir essa informação. A pessoa fica seis meses com o mesmo
implante sem manutenção nenhuma?

[Riso geral]

Rosângela: Já peguei cliente que passou 12 meses com o mesmo implante. [Risos] Até
hoje eu fico pensando “como ela não pegou piolho?”.

Leandro: Sem contar que o lastex solta uma goma.

Rosângela: É. Essa goma faz o cabelo dredar. Ou seja: se une o cabelo natural com o
implante. Pra tirar é impossível.

Fox: Não tem como tirar, só cortando no meio. Porque com essa quantidade de tempo essa
cola corrói a raiz e o cabelo natural vem junto na hora de tirar o implante.

Leandro: É aí que as pessoas migram pro entrelace: porque elas não conseguem ficar sem
cabelo. É onde nós, trancistas, entramos e é a hora que eu falo que é uma arte. Porque a
gente trança onde não tem cabelo. A gente dá o nosso jeito com a nossa experiência, com o
nosso estudo e a nossa dedicação.

Fox: Porque implante você só consegue botar na pessoa que tem cabelo. E quem não tem
cabelo? Por exemplo, eu tenho uma cliente que não tem cabelo em cima, só na lateral. E eu
faço o cabelo dela.

Você puxa a trança de um lado pro outro?

Fox: Isso. [Sorri] E onde é careca fica coberto pela trança. Então você existe uma técnica
por detrás disso. Na verdade a cada mês aparece alguma coisa diferente. Por exemplo: até
mês passado eu não conhecia a trança senegalesa, fui conhecer mês passado. Tem as
boxlocs, as fauxlocs...

Leandro: Tem a twist, que a ponta pode ser cacheada.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Rosângela: E também tem a técnica de, ao invés de trançar diretamente o cabelo sintético
no natural, pegar a trança pronta e colocar pelo método crochet: você faz a trança nagô no
cabelo e aplica a trança pronta costurando ou até mesmo amarrando, se o cabelo for muito
curto. E com certeza mais pra frente vão aparecer outras técnicas ainda melhores.

Fox: É o que a gente fala: é o estudo. Tem muitas trancistas que ficam presas só naquele
método, naquele estilo. Por exemplo: eu não sabia fazer nagô, mas queria aprender. Por
força de vontade eu fui estudar até que aprendi. Depois percebi que não sabia fazer a trança
boxeadora. A Rose me explicou e eu fiz nela.

Rosângela: Eu dei a minha cabeça pra ele fazer.

Você disse que “deu a cabeça pra ele fazer”. Isso é bem simbólico e me lembrou de
uma temática bastante importante que é a questão religiosa. No candomblé, por
exemplo, a cabeça é o centro do corpo.

Leandro: É a coroa. [Sorri]

Rosângela: Só de começar a falar já me arrepio!

Leandro: Eu também. [Risos]

Então, eu não sou uma pessoa sensitiva. E na verdade esse nem é o enfoque do meu
trabalho. Mas existem pessoas que, quando chegamos perto, acabamos ficando
sonolentos...

Leandro: Elas têm uma carga negativa e te sugam.

Exatamente. Quando vocês mexem com a cabeça de alguém vocês estão tocando no
centro energético daquela pessoa. Como é isso?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Fox: Então, no meu caso, eu sou da religião [Leandro é candomblecista] e tenho um


problema muito sério com isso. Existem pessoas que a gente recebe carga positiva ou
negativa e na maioria das vezes é negativa. [Risos]

Sério?

Fox: Sim, na maioria das vezes é negativa. No meu caso, quando eu tô trançando e sinto
uma carga negativa eu fico sonolento, com vontade de parar na mesma hora. Mas por ser
profissional eu tenho que terminar. Depois que essa cliente negativa vai embora eu me
sinto totalmente mal. Quando eu me deito pra dormir simplesmente desmaio.

Rosângela: Eu já passei mal. No caso, sou cristã, mas sou extremamente sensitiva. Eu tô
mexendo com a cabeça da pessoa, ali é o centro dela onde eu pego tanto as energias
negativas quanto as positivas. E eu sou daquele tipo: se eu me sentir mal só de olhar pra
pessoa eu nem toco na cabeça dela porque eu sei que vai piorar o negócio. Sempre foi
assim.

Mas como é que é? Vocês não podem recusar se estiverem trançando, não?

Fox: Mas aí é a questão que ela falou: só de olhar ela já vê se vai se sentir mal ou não. Eu
já não recuso ninguém independente de me sentir mal ou não. Eu até tenho esse problema
porque falam que eu sou uma esponja: eu absorvo tudo que tá ali da pessoa.

Rosângela: Eu sou assim também. Eu absorvo muito, sou uma tremenda esponja.

Fox: Já teve cliente que eu tava fazendo trança e comecei a chorar. Porque você tá sentindo
uma coisa ali…

Rosângela: Mexendo na cabeça do cliente já me deu vontade de [simula uma ânsia de


vômito] e eu fui direto pro banheiro.

Leandro: E você falou sobre a questão do candomblé, mas não é apenas ele. Eu sou da
umbanda e é a mesma coisa em qualquer tipo de religião: a cabeça é a coroa. E não só o

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

cliente passa pra gente como a gente também passa pro cliente. Se a gente tiver com má
vontade, com uma pequena inveja, com o olho grande em cima do cliente enquanto faz a
cabeça dele, a gente vai passar pra eles.

Rosângela: Exatamente: não é só o cliente que passa pra gente, somos nós que passamos
pro cliente. A maior responsabilidade que nós temos é a de levar luz para o cliente.

Leandro: E é onde não entra só a religião, como também o amor ao que você faz. Se a
gente deseja o bem pra pessoa a gente recebe o bem.

Fox: E se deseja o mal, o mal volta pra gente.

E agora a uma última pergunta que eu gostaria que vocês respondessem de forma
individual: qual o significado da trança pra você?

Rosângela: A trança pra mim é vida, é amor à minha raça. Não tem outro significado. Eu
trabalho com trança por amor. Claro que eu ganho por isso, porém tem muito amor
envolvido. Muito amor.

Fox: O significado da trança pra mim é basicamente a minha vida. Porque desde os oito
anos de idade eu me apaixonei na primeira vez que eu usei. Então trança pra mim
representa amor, família, afeto e oportunidade também. Eu basicamente levo a trança como
parte de mim, como uma coisa única que eu sempre vou ter pelo resto da vida. Acho que é
basicamente isso: tudo relacionado à minha vida eu construí com a trança e até o fim vai
ser isso que eu vou usar e vai ser isso que eu vou fazer.

Leandro: A trança pra mim é um estilo de vida, é uma coisa que eu carrego comigo. É
paixão, é família, é de onde eu tiro meu sustento. É o que eu faço por amor e faço não só
pensando no dinheiro, mas como uma forma de expressar meu sentimento pelo negro
apesar de eu ter a pele mais clara, de ser branco. É a minha forma de lutar contra o
preconceito junto com os negros. Eu tenho a trança marcada na pele, é uma paixão de
infância porque desde pequeno meu sonho sempre foi trabalhar com pessoas com pele
negra. Eu até montei uma marca de roupas com estampas africanas. É uma paixão, um

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

amor que eu não sei explicar. Pelo fato de eu ser branco, até tem um certo preconceito, mas
essa é uma coisa que eu me identifico, que eu amo e me dedico cada dia a melhorar e
buscar mais coisas pra trazer ao público que eu amo porque eles são como uma família pra
mim. Trabalhar com tranças é uma coisa que me transformou, que me fez ver a vida de um
outro jeito. Eu larguei profissão e me dediquei somente a isso. Vivo disso até hoje e vou
continuar enquanto eu tiver forças. Trança é o que eu gosto, o que eu amo fazer.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

21. SALÃO AFROSHOW

A entrevista com as trancistas com Genyce Rosa Pessanha, Bárbara Pessanha e


Cristiane Pinheiro foi realizada no dia 17 de julho de 2017, no bairro de Campo Grande,
Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Professora, vamos começar a entrevista! Como era a época em que você dava cursos
de tranças?

Rosa: Eu tinha uma sala de aula com uns 100 alunos. Eram uns três ambientes, então
tinham duas partes embaixo e uma mais no alto, onde ficavam os alunos. Então eu nem
tinha tanta noção de quantos alunos eu tinha. Passei a ter noção da quantidade a partir de
uma festa surpresa que a minha filha fez pra mim. Ela pediu aos alunos uma colaboração
[em dinheiro] pra poder ajudar e aí é que eu fui ver a quantidade de alunos que eu tinha:
deu pra pagar o carro de som, deu pra comprar o bolo, deu pra comprar salgadinho, deu pra
comprar as coisas pra enfeitar o salão… Foi muito bacana!

Que legal a sua relação com seus alunos!

Rosa: É! [Sorri] E uma coisa que eu costumo muito falar pros meus alunos é que a
capacidade não tá em mim, a capacidade de levar o seu objetivo pra frente está em você.
Porque eu vou apenas ensinar o caminho, mas percorrer o caminho vai depender de você e
de qual profissional você vai se tornar. Eu vou te ensinar as técnicas, mas, como em toda
profissão, tem os profissionais bons e os ruins. Eu vou apenas te ensinar como faz. Dali em
diante você que tem que colocar o seu talento em jogo.

E quantas eram as turmas?

Rosa: Eram duas turmas diferentes em cada dia da semana. Eu dava aula no Centro Social
da vereadora Lucinha, em Campo Grande [bairro da zona Oeste da cidade do Rio de
Janeiro], quartas e sextas de 9 às 19 horas.

E o curso durava quanto tempo?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Rosa: Três meses. Por ano eram três turmas e ao todo foram seis anos que eu dei aula lá.
Eu dava aula em Campo Grande, mas ia uma vez por semana em Anchieta [bairro da Zona
Norte da cidade do Rio de Janeiro], onde eu dava aula nas segundas-feiras também de 9 às
19h. A turma lá [em Anchieta] também era cheia. E era mista: não eram só mulheres;
também tinham homens. Às vezes eu tinha até que assinar um termo porque garotas de 15
anos queriam fazer o curso e lá crianças e menores não podiam cursar, né? Nessa profissão
você consegue trabalhar com apenas um pente, uma piranha e dois clips. E muita das vezes
uma menina de 15 anos já tá com um filho no braço. Então ela pode aprender a trabalhar
dentro de casa, na casa da colega, no pátio da escola. É uma profissão que não te requer
muito conhecimento [teórico] e sim habilidade nas mãos e força de vontade (porque você
vai ficar muito tempo em pé).

São muitas dores?

Rosa: Às vezes dói, às vezes não, depende de quanto tempo você fica trançando. Eu já
tranço há muito tempo e ainda não sinto dor nenhuma, mas têm profissionais que já tão
com dor na mão, já tiveram problema na perna… Isso faz parte da profissão. Toda
profissão tem os seus prós e os seus contras, né? Infelizmente. Mas é uma profissão
gratificante: você ver uma pessoa chegar com a sua autoestima lá embaixo e sair uma
mulher linda e poderosa, arrasando! [Sorri] Elas chegam aqui tristes, mas saem daqui po-
de-ro-sas! [Fala pausadamente]

E quando você começou a trançar?

Rosa: Eu comecei a trançar dentro do Centro Social, coisa de um ano antes de começar a
dar aula.

E por que você começou a frequentar o Centro Social?

Rosa: Eu já era cabeleireira e fui pra lá fazer uma reciclagem [curso de atualização
profissional]. Larguei o emprego de carteira assinada e fui fazer esse curso porque lá no
Centro Social era de graça e na época eu não tinha dinheiro pra bancar o curso; cursos de

200
A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

cabeleireiro são caros. Lá eu encontrei o professor Adilson, que estava começando a dar
aula de tranças e implantando esse curso dentro do Centro Social. Na época ninguém
queria fazer o curso de tranças, só de cabeleireiro. E eu me interessei pelas tranças e
comecei a ir pra aula dele e largava a aula do cabeleireiro. Porque a aula de cabeleireiro era
embaixo e a gente ficava em cima. É que lá é tudo aberto, entendeu? Tem um patamar,
uma coisa assim [gesticula] mais alta. Aí tem outro espaço em que ele [Adilson] ficava em
cima e a gente ficava no [curso de] cabeleireiro embaixo. Teve um dia que a professora de
cabeleireiro falou que quem quisesse fazer trança podia ir na aula do Adilson. Então eu
passei a ir sempre nas aulas dele e me apaixonei pelas tranças. Porque quando você faz
trança você tá tratando do cabelo o tempo todo. Não danifica porque você não vai escovar,
não vai esticar o cabelo. As pessoas estão abandonando a escova e a química e vindo pra
trança porque a trança trata do cabelo. Que nem a menina aqui, ó [aponta para a cliente
que está trançando cabelo no salão]: ela tava com cabelo cheio de química, cortou e veio
botar trança pra que? Pra tratar do cabelo, pro cabelo voltar às suas origens, às suas raízes.
E com a trança a pessoa vai ficar com autoestima alta porque agora é moda, né? Apesar
dos africanos já trançarem o cabelo há muito tempo... Mas a trança é uma coisa que não sai
de moda nunca! Ela pode até sumir um pouquinho, mas daqui a pouco volta. E volta com
toda força!

Sobre a parte da autoestima, você falou que as meninas às vezes chegam aqui tristes,
pra baixo e quando elas saem daqui se sentem poderosíssimas. Quando elas chegam
aqui geralmente elas estão tristes por que?

Rosa: O que eu percebo é que nós, mulheres, quando estamos com autoestima baixa
queremos mudar, fazer alguma coisa diferente. Então a primeira coisa que vem na cabeça
é: “vou mudar o rosto”. Como é que eu vou mudar o rosto? Fazendo um penteado, se
maquiando. É aí que a gente pensa no cabelo porque ele é uma moldura do rosto. Elas
chegam aqui, dizendo: “eu quero mudar, quero fazer uma coisa diferente”. A gente até
indica um implante de cabelo cacheado, mas geralmente elas optam pelas tranças porque a
trança é versátil. Você pode colocar cor pra mudar, pode chegar aqui loira e sair morena,
entendeu? Porque a trança não te dá trabalho: você já acorda pronta pra sair: você não tem
que ficar molhando e penteando o cabelo o tempo todo. E a pessoa também sente que a
trança valoriza. Às vezes tá com problema na família, com problema no casamento ou

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

alguma doença e quando elas vêm pra cá saem daqui revigoradas só pelo fato de terem
feito seus cabelos, de terem se aceitado. Porque pra colocar trança você tem que se aceitar
e entender que preto é bonito. Nós somos bonitos, nós somos lindos! Somos mulheres
bonitas. Bonitas no rosto, bonitas de corpo... Temos que nos aceitar do jeito que nós
somos, aceitar a nossa raça. A gente não tem que ser branco porque o outro é branco. A
gente não tem que usar o cabelo cacheado porque a dona fulana usa o cabelo cacheado.
“Ah, eu tenho vergonha de usar trança”. Por que que você tem vergonha de usar trança? A
nossa origem é lá na África, desde lá que eles vêm trançando os cabelos.

E qual a diferença da trança pro entrelace ou pro crochet [técnicas de implante afro]?

Rosa: A trança guarda o fio, tipo um casulo. Então ele tá protegido lá dentro e não há nada
que vá agredir o cabelo. Já o entrelace, não: você tem que botar produto no cabelo. Muita
gente bota um [aplique de] cabelo liso, então tem que estar escovando o cabelo, o que
acaba agredindo o fio o tempo todo. Já a trança, não: você vem com o cabelo pequeno,
completamente danificado, faz a trança e o cabelo vai crescendo gradativamente e sadio.
Essa é a diferença. Quando você para de usar a trança o teu cabelo está virgem, tratado,
pronto pra fazer o que você acha que deve ser feito nele. Mas geralmente, as pessoas vêm
correndo pra trança por que? Porque passaram uma química agressiva e o cabelo caiu. E a
trança recupera o cabelo, e não danifica.

Antes de você entrar no Centro Social para fazer o curso de cabeleireira e conhecer
as tranças, você tinha tido algum tipo de contato com os penteados trançados?

Rosa: Não, eu nunca nem me imaginei trançando cabelo. É que foi amor à primeira vista,
mesmo: cheguei lá, comecei a ver o trabalho dele [Adilson, o professor do curso] na
cabeça de uma menina, fui ajudar e vi que aquilo era mágico. A trança é mágica. A pessoa
entra [para ser trançada] de um jeito e quando acaba o trabalho ela tá completamente
modificada, completamente diferente. Fica bonita de verdade, entendeu? A trança acaba
mostrando o que você é de verdade e eu gostei disso. Aí eu passei a ficar ali com ele
[professor Adilson] o tempo todo. Tudo que eu sei em termo de entrelaces e de tranças eu
devo ao meu professor Adilson. Ele realmente é o cara.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E qual foi o ano em que você conheceu o Adilson?

Rosa: Acho que 2002. Comecei a dar aulas em 2003 e só parei em 2010.

E hoje em dia você ainda dá algum curso de tranças?

Rosa: Não, eu não dou cursos, mas acabo dando aulas de tudo o que eu aprendi no decorrer
dessa minha estrada dentro da profissão, mesmo. Tudo que eu aprendi eu passo pros meus
alunos e graças a Deus as pessoas que eu consegui ensinar passam a lição pra frente muito
bem. Porque dentro da trança você não tem muito o que buscar: vem de você, você vai se
descobrindo. Por exemplo: você vê um desenho e já imagina como ele seria se fosse uma
trança, sabe? Tenho fotos de uma trança que eu fiz olhando um buquê. Na hora pensei “ah,
aquilo ali dá pra fazer uma trança”. Deixa eu ver se tá aqui nos meus guardados. [Rosa
folheia um álbum de fotos com alguns penteados que já fez e aponta para uma das
imagens em que uma menina com tranças rasteiras em formato de flores coloridas olha
para o lado] Você vai vendo o que dá pra você fazer dentro da sua realidade. E aí você vai
buscando o seu talento. E hoje em dia com a internet dá pra aprender muita coisa, né?
Aqui, ó. [Rosa aponta para uma das fotos em que um rapaz careca tem seu ralo cabelo
trançado] A pessoa diz que não faz trança em careca. Ó: o cara é careca tá trançado.
[Risos] Enfim, você vai criando dentro do que você consegue ver e do que você consegue
reproduzir na cabeça das pessoas: nota musical, flor com bordinha (que é diferente de uma
flor redondinha), letra, nome, coração... Você vai criando aquilo que você vê. A trança te
traz mil opções, sabe? E aí você vai desenvolvendo tudo aquilo que você aplicou. Você vê
um risco e pensa “ih, aquilo ali dá pra fazer uma trança”. Porque a trança é uma linha e da
linha você vai pra onde você quiser: sobe, desce, vai pra cima, vai pra baixo, faz redondo,
faz quadrado e assim por diante.

E como são definidas as divisões na raiz? Tem divisão circular, quadrada,


triangular…

Rosa: Quem define é o trancista na hora que vai dividir. Porque o que que acontece: muitas
das vezes a cliente chega aqui com uma ideia de trança em mente, só que, às vezes, na
cabeça dela não cabe aquela trança, entende? Porque o que define como vai ser a trança é a

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

textura do cabelo. O seu cabelo tem uma textura, o meu cabelo tem uma textura, o cabelo
dela [cliente que está sendo trançada] tem outra textura... Então a trança fica de acordo
com a textura do cabelo natural da pessoa, não é nem o material [cabelo sintético] que você
usa pra trançar. E a divisão [nas raízes do cabelo] vai depender do que você quer desenhar
na cabeça da cliente e da quantidade de cabelo que a pessoa tem na cabeça. Porque tem
cabelo que a raiz é muito cheia e tem cabelo que a raiz é muito vazia. Aí é o talento do
trancista que vai influenciar na escolha das divisões.

Então entre os próprios cabelos crespos há aqueles mais fáceis de trançar?

Rosa: O cacheado sem ser muito cacheado é o mais fácil de trançar. O mais difícil é aquele
parafuso que parece uma mola, bem cacheadinho mesmo, tipo uma molinha de isqueiro.
Aquele cabelo é o cabelo mais difícil [de trançar] porque ele é super sensível.

É interessante porque é praticamente senso comum acreditar que o cabelo crespo é o


mais resistente, né? O que suporta tudo.

Rosa: Não, os cabelos mais sensíveis são os mais cacheadinhos, os mais crespos, porque
eles são secos. O cabelo seco é o que precisa de mais cuidado porque, por ele ser seco, é o
que parte mais. Agora o cabelo oleoso é o melhor de trabalhar porque você passa o pente
com mais facilidade. Mas no cabelo crespo, em geral, você passa uma pomadinha, trabalha
bem nele e ele solta. Mas aquele crespo que é tipo molinha tem que ter muito cuidado
porque quando você enfia o pente pode arrebentar; então tem que ter carinho. A palavra
certa é essa: carinho. Porque quando você trança com carinho, fazendo aquilo que você
gosta é mais fácil. E você tem que fazer uma coisa que você goste porque se você fizer só
pelo dinheiro já não vai fazer com tanta perfeição. Porque o que que acontece: quando
você escolhe ser trancista você tem que entender que você vai encontrar cabelo cheiroso e
cabelo não cheiroso; você vai encontrar cabelo que não embaraça e cabelo que embaraça;
cabelo limpinho e cabelo sujo, com piolho e tudo. Então você tem que gostar do que você
faz porque quando você se propõe a fazer um trabalho você tem que se entregar àquilo ali.
O que eu costumo falar pros meus alunos é que eles façam a trança como se fosse pra eles,
pra mãe deles, pro filho deles. Percebeu que eu não falei pro pai? Por que pra mãe? Porque
não existe ninguém que você ame mais nessa vida do que a você mesmo, ao seu filho e à

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

sua mãe. Então essas três pessoas são as pessoas mais importantes pra você. Então se você
fizer com amor pra essas pessoas você vai fazer com perfeição e vai satisfazer não só ao
teu ego como também ao ego do teu cliente. Todo mundo gosta de ser amado, de ser
tocado com amor. Não dá pra pegar um cabelo de qualquer maneira: tem que ir com calma,
com carinho, com dedicação porque quando o cliente tá sentado na sua cadeira ele é o seu
patrão. E você tem que tratar bem o patrão, né? [Risos]

A profissão de trancista é uma profissão composta em sua maioria por mulheres. Por
que a senhora acha que isso ocorre?

Rosa: Eu acho que tem poucos homens trancistas porque o homem geralmente quer um
resultado rápido já que ele é o responsável pela casa. Nós, mulheres, temos um pouco mais
de paciência. Porque ser trancista não é fácil. Não é sempre que você tem dois, três clientes
no dia; então o salão é aquele sobe e desce. Quando o homem consegue conciliar um
trabalho regular com o trabalho de trancista, ele lida com a trança nas horas vagas. A
mulher não: se a mulher se dedica à trança, ela fica só na trança, entendeu? Porque ela
pode trabalhar dentro de casa olhando a criança, fazendo comida, cuidando da casa e
trançando ao mesmo tempo. Acho que por isso tem mais mulheres trançando.

Trança sempre existiu, mas nos últimos anos a estética afro, em geral, cresceu muito.
Tanto que tem muita gente que fala que “ser negro hoje está na moda”. O que vocês
acham disso?

[Nesse momento Barbara, filha da professora Rosa e funcionária do salão, que até então
estava calada durante a entrevista, mostra-se mais confiante e começa a responder a
pergunta]

Barbara: Isso é bom, ainda mais pra gente que trabalha com isso. E a mídia tem nos
ajudado muito em relação a esse trabalho porque antes não existia muito repórter trançado,
atores trançados. Hoje eles [a mídia] têm nos valorizado. É bom porque, como a minha
mãe falou, a gente fica com uma autoestima muito melhor. Eu fico até de mau-humor sem
trança, é impressionante. [Risos] E eu não tinha nem notado isso, quem notou foi a minha
mãe. Eu fico com um mau-humor horrível! Eu gosto do meu black, ele é muito bonito, mas

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

a trança me deixa assim, uma nova pessoa! Então eu gosto muito de estar trançada. E a
valorização do nosso trabalho na sociedade, visto pelas outras pessoas, tem sido muito
maior do que a gente imaginava. Porque a gente nunca imaginou que chegaria nesse ponto
das pessoas valorizarem e não só negro, como branco também, as crianças... Se bem que
muita gente não trança criança, né? Mas ver uma criança trançada é muito lindo! A minha
filha trançou desde os nove meses, a minha mãe trançava ela.

Nove meses?

Barbara: Com nove meses a minha mãe já trançava ela! E todo mundo achava super
diferente porque era um bebezinho trançado. Mas essa valorização pra gente é
maravilhosa!

[Nesse momento Cristiane, funcionária do salão, entra na conversa]

Cristiane: A questão é que realmente tem pessoas que não gostam muito de trançar. Hoje
eu trabalho fora [Cristiane tem um segundo emprego], mas o meu vício é essa arte aqui.
Muitas pessoas não valorizam, mas a gente tem que persistir, e muito. Meu namorado
mesmo me fala: “vai, vai porque você tem dom e você gosta”. Até porque eu aprendi com
as melhores! Hoje eu falo mesmo: se eu ficar desempregada não fico sem dinheiro! [Risos]
Porque sempre tem alguma trança pra fazer, nem que sejam três dedinhos aqui, ó
[gesticula, mostrando três dedos da mão tocando a cabeça], sempre uma menina que quer
fazer [trança]. E é uma coisa que eu gosto muito, que eu amo e eu falo de coração: se hoje
eu sou uma profissional que me aperfeiçoo e que tiro minhas dúvidas é por causa dela
[olha em direção à professora Rosa]. Qualquer dúvida que eu tenha, qualquer coisa, “me
dá um socorro”, ela [Rosa] sempre está disponível, sempre, em qualquer momento. Sou
muito feliz no que eu faço, essa arte das mãos, e dou muito valor a todas as minhas
trancinhas. Obrigada pela oportunidade de falar! [Risos]

Eu que agradeço a vocês! Agora voltando a um ponto que a Bárbara levantou, sobre
pessoas brancas valorizarem o trabalho de vocês. O que vocês acham de trançar
brancos?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Rosa: Quando uma pessoa quer trançar o cabelo eu não sei ver se ela é branca ou negra. Na
minha opinião ela quer trançar, quer ficar bonita. Se ela viu uma escurinha com o cabelo
trançado e gostou, se identificou com aquilo, vai buscar pra ela também porque achou
bonito na outra e quer a mesma coisa. Por que a gente, ser humano, logo que vê quer tocar.
Então quando você experimenta uma coisa que estava no outro e ficou bem em você, você
quer também independentemente de ser branco, negro, vermelho ou amarelo.

Mas essa grande procura de pessoas brancas para trançar cabelos sempre aconteceu
ou cresceu nos últimos anos?

Rosa: No curso que eu costumava dar sempre iam meninas claras, rapazes de cabelo liso…
A gente até brincava “ai, meu Deus, esses branquinhos vieram todos ficar neguinhos”!
[Risos] Eles falavam “tia, eu quero que nem do meu amigo”, “tá bonito a beça, agora é
moda, quero usar também”. Quer dizer: [pessoas brancas usam] independentemente de ser
uma coisa cultural. Porque a gente [pessoas negras] abala, entendeu? [Risos] Nós
abalamos, a gente abala onde a gente chega! Pode ter a mais linda, a mais loira que for:
chegou uma negona, acabou! Os olhares vão todos pra negona, gente! Não tem jeito! [Riso
geral]

[Nesse momento me direciono à Gabriela Azevedo, trancista e ex-aluna da professora


Rosa, que estava no salão com um penteado feito com tranças enroladas em pequenos
coques ao redor da cabeça]

Gabriela, explica um pouquinho sobre esse penteado que você tá usando.

Gabriela: Esse é um penteado bantu. Existiam duas tribos, tribo nagô e tribo bantu. Esse
penteado é um penteado característico da tribo bantu. Eles trabalham mais com coques,
com argila, miçangas, bambu… E esse penteado é um penteado que eu amo, foi com ele
que eu me casei e é o que eu mais uso. Hoje em dia a gente tá fazendo uma adaptação do
pega rapaz [mecha de cabelo solta à frente do rosto] com uma trancinha nagô na frente.
Mas esse penteado não é uma trança, aqui [no Brasil] a gente chama de coquinho, tem
lugares que chamam de pitchuquinha, outros de penteado de pipoca... Eu chamo de coque
mesmo, “coquinho”.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Cristiane, explica um pouquinho sobre isso que você está fazendo agora. [Nesse
momento Cristiane cortava as pontas das tranças da cliente com uma tesoura]

Cristiane: Esse é um processo de limpeza para as pessoas que tem cabelo com a ponta
muito fina ou que estão se livrando de algum processo químico. É um acabamento, a
limpeza, é você tirar as pontas. Porque se não o cliente vai reclamar depois que demoraram
tanto [pra fazer a trança] e não fizeram o acabamento que ele queria. Ah!, tem outra coisa:
pergunte pro cliente o que ele quer antes de qualquer coisa. “Como você quer” é a frase
que a gente sempre diz. Às vezes a pessoa quer o cabelo de um jeito, mas só a textura da
parte de trás do cabelo dele é uma, a da frente é outra... Por exemplo, tem cabelos que
começam aqui atrás [Cristiane aponta para o meio de sua cabeça, acima da testa], então
não tem como fazer certos desenhos e formas de trança. É a questão do visagismo, que
muitas pessoas não têm. O peso [do cabelo sintético] influencia também, a quantidade de
tranças, o rosto da cliente, a espessura da trança... Tudo isso conta. Depende muito do tipo
de material, também. Esse material aqui, por exemplo, [sinaliza o cabelo sintético que está
trançando na cabeça da cliente] é um pouco mais leve, na hora de lavar o deslizamento na
água é melhor.

Que material é esse?

Cristiane: Esse aqui é linha de crochê.

Tem o kanekalon, jumbo, linha de crochê… O que mais?

Cristiane: Lã...

Mas a lã na hora de molhar não tem problema?

Cristiane: Ela é mais pesada, muito mais pesada. Então tem que ser lavada de preferência
de manhã, pra dar aquela secagem bem profunda e evitar fungo. Ah, e dependendo da
trança dá até pra fazer com sisal.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

O que é sisal?

Cristiane: Sisal é um material que se usa muito no Nordeste pra fazer cesta. Mas na
verdade você faz qualquer coisa com trança, né? Capim dourado, palha, lã... E a higiene
também conta muito. A gente também tem que ter paciência pra explicar pro cliente como
é que deve ser feita a lavagem, de preferência diluindo bastante xampu (porque usar o
xampu direto nas tranças danifica o cabelo). A duração de uma trança, dependendo do
cuidado, é de dois meses e meio a três meses. Não é bom passar disso porque se não na
hora de tirar danifica [o cabelo]. E tem que saber tirar também, porque se não na hora de
destrançar você perde muito cabelo. Porque lá dentro ele tá preso. Como a Rosa diz, ele tá
protegido “no casulo”.

E por que você acha que tantas meninas acabam escolhendo as tranças como meio de
passar pela transição capilar?

Cristiane: Porque tem pessoas que não querem fazer o big chop [corte de cabelo que retira
toda a parte quimicamente tratada do cabelo], cortar tudo. Então preferem passar por esse
processo psicológico de botar a trança e depois decidir o que vai ser feito.

Então a transição capilar não é só física? Você falou de um “processo psicológico”.

Cristiane: Sim, o trancista é um psicólogo do cliente que vai explicar pra ele “olha, essa
trança vai ficar melhor”, “esse material vai ficar melhor por causa disso, disso e disso”,
principalmente pra uma pessoa que nunca colocou trança. O trancista que vai fazer uma
trança antes pra ver como é que fica a espessura pro cliente saber qual o gosto dele, se vai
se sentir bem com aquele peso [do cabelo sintético]... Uma boa trancista, tem que ter esse
feeling. Porque se não você vai colocando [a trança] de qualquer maneira e quando
terminar a cliente vai falar “ah, não gostei”. Imagina fazer quase 200 tranças em uma
cabeça pra pessoa falar que não gostou, que não era isso o que ela queria?

Rosa: Também tem que saber passar pro cliente a necessidade dele. Porque às vezes ele
chega aqui com uma ideia e você tem que dizer qual a real necessidade do cabelo dele.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E na opinião de vocês qual a diferença das tranças pra outros penteados?

Barbara: O rabo de cavalo é universal, o coque é universal. A trança chama muito mais
atenção do qualquer outro penteado. E com as tranças você pode brincar mais, colocar
cores, penteados… Na trança na verdade não é a gente que faz o penteado, ela que se
adapta ao penteado sem você realmente querer.

E, Barbara, há quanto tempo você começou a usar tranças?

Barbara: Eu tô com 31 anos e uso desde os 15, mais ou menos…. [Reflete] Eu fiz as aulas
[do curso de tranças] junto com a minha mãe. A gente estudou junto, mas quem virou
profissional foi ela, né? Até porque eu sempre fui muito engraçada, então ninguém me
levava muito a sério. [Risos] As aulas que ela tinha eram segunda e quarta, então tudo o
que ela aprendia na quarta, fazia no meu cabelo na quinta. Então, automaticamente, toda
segunda-feira eu tava com um penteado diferente! Mas, assim, a minha filha usa tranças!
Desde os nove meses que ela [Rosa] trança a minha filha. Ela já ia pra creche de trancinha.
Eu acabei saindo do curso com ela [professora Rosa] porque eu engravidei e fui ser caixa
de supermercado; eu só dormia pra chegar e chegava pra dormir. Só que depois eu retornei
pra trabalhar junto com ela e estamos até hoje juntinhas, fazendo trança.

Qual é a coisa que você mais gosta e o que você menos curte na profissão de
trancista?

Barbara: Eu acho que todas nós vamos falar a mesma coisa: [gostamos] como a cliente se
sente, né? Porque ela chega aqui realmente triste, com o cabelo na transição, e sai
transformada, uma pessoa totalmente diferente. A gente lida com vidas… Porque elas
depositam tudo na cabeleireira. Elas vêm com uma confiança de que vai dar certo, de que
vai ficar bonito e isso mexe mais ainda com a autoestima.

Vocês são quase psicólogas, né?

Barbara: É! Um “bom dia, qual o seu nome?” já leva à vida toda delas. Elas gostam de
conversar. Tem muitos clientes nossos que nem vêm fazer cabelo, eles só vêm, sentam,

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

conversam, desabafam e vão embora. Assim como tem clientes que já não fazem mais
trança com a gente, mas mesmo assim continuam perto de nós, chamando a gente pra ir em
festa, porque criaram um vínculo de amizade muito grande. Além de cabeleireira, tem
clientes que são mais do que clientes, né? Viram filhos pra minha mãe, irmãos meus.

E tem alguma parte que você não curta?

Barbara: Olha, eu não curto muito fazer implante, não. Essa parte, em questão de trança, eu
não gosto.

E qual das tranças você mais gosta de fazer? A nagô, a rastafári...

Barbara: Tem a meia cabeça, que deixa a parte detrás do cabelo solta; tem o mimo, que é
só um pedacinho do lado, aqui [pega uma mecha de cabelo da lateral da cabeça para
demonstrar]... Eu também acho muito bonito um penteado que tem as duas laterais
trançadas com nagô e no meio o cabelo fica solto, tipo um moicano. Acho que chama
muita atenção e que fica muito bonito.

E quando a gente fala de tranças qual a primeira lembrança que vem à sua mente? O
que você lembra de imediato?

Barbara: Eu lembro da minha mãe! [Risos] Até pela trajetória dela de muitos anos. Eu
acho bonito o reconhecimento que os alunos têm sobre ela. E é muito gratificante não só
por ela ser minha mãe. Às vezes tem aluno que ela nem lembra mais. Pra você ter noção a
gente tava no hospital visitando o meu irmão quando ele quebrou o pé quando uma
faxineira viu a minha mãe e gritou “professora!”. Ela falou “sempre você e sua filha
juntas”. [Sorri] É muita gente! Mas não tem como não lembrar de mamãe porque mamãe é
uma “querida”, como a gente chama ela! [Risos] Então falou em trança, é mamãe, não tem
como pensar em outra pessoa.

Agora, voltando no assunto da sua filha, que você comentou que trança desde os nove
meses. Hoje ela tem 10 anos. Você procura passar esse costume das tranças pra ela?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Barbara: Sim, ela sabe trançar. Só não gosta muito não! [Riso geral]

É porque dói?

Barbara: Não, porque ela é preguiçosa mesmo!

Mas ela não gosta de trançar ou de ser trançada?

Barbara: Ela não gosta de trançar, ser trançada ela gosta! [Risos] Desde pequenininha eu
sempre fiz os cabelinhos dela. Trançar ela sabe, agora gostar igual a minha mãe e eu….
[Risos] Porque a gente, se tiver que varar a noite trançando aqui a gente vai ficar. Ela [filha
de Barbara] já não vai.

Vocês já viraram de um dia pro outro trançando?

Barbara: Já, já viramos!

Nossa, mas dura quanto tempo essa trança?

Barbara: É porque os clientes vão chegando. E quando chega mais alguém, se o cliente
estiver disponível para esperar, a gente faz. Mas geralmente isso acontece sempre no Natal,
no Ano Novo, no Carnaval…

Então as pessoas também fazem tranças pra ocasiões especiais?

Barbara: É, tem umas que são viciadas igual a mim e não conseguem viver sem trança, mas
também tem gente que gosta de usar pra casamentos, aniversários…

Bem, vocês atendem aqui em Campo Grande. Só que Madureira é o bairro do Rio
que mais concentra trancistas. Porque vocês acham que isso acontece?

Barbara: Na minha visão é por causa do viaduto de Madureira; as pessoas vão até o viaduto
trançadas porque todo o material pra trançar você encontra em Madureira: kanekalon,

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

linha, lã, tererês [linhas coloridas para adornar cabelo], aquelas bolinhas que colocam na
ponta, essas argolinhas de metal... Então o point das tranças acaba sendo Madureira. Lá
também tem o hip hop e na maioria dos clipes de hip hop as pessoas usam trança ou
implante. Então a minha visão é essa. Porém eu gostaria muito que outro lugar, como
Campo Grande, aqui onde eu moro, também tivesse esse foco em tranças. Por que
realmente não tem outro lugar: falar de trança é falar de Madureira. Caxias também tem,
Nilópolis também tem, mas Madureira tem mais. Às vezes você nem mora em Madureira,
mas te indicam pessoas te lá porque não sabem que também há salões capacitados em
outros bairros.

Cristiane: Eu acho também que tem a questão das escolas de samba e a ancestralidade de
Madureira, né? Por que foi em Madureira que o samba começou. Também tem a tendência
do baile charme... E não só o viaduto, mas também o Disco Voador em Marechal
[Deodoro, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro] e a popularidade do famoso Mercadão
[de Madureira]. Mas Madureira, além do charme e do samba, também tem a questão da
localização e da acessibilidade a todos os transportes. Por isso essa demanda ocorre lá. Até
as angolanas vão pra Madureira.

Inclusive há uma diferença na concepção das angolanas sobre a trança, né?

Barbara: Pra elas quanto mais clientes, melhor. Só que trança não é força, né? Tem gente
que pensa que pra trança ser boa tem que estar rente à raiz. Não é isso. A forma que você
vai trançar é que vai determinar a durabilidade da trança. Tanto que aqui nós trançamos
criança; e nem todo mundo trança criança. Aqui nós trançamos de zero a 100 anos: tendo
cabelo a gente vai trançar. Mas realmente a maioria das pessoas que já fizeram com elas
chegam falando sobre a dor que sentiram.

Cristiane: Fazer trança lembra a nossa ancestralidade africana. Só que elas [as africanas] já
têm isso no sangue. A gente, aqui no Brasil, pegou um pouquinho desse costume e foi se
aprimorando.

Sobre essa ancestralidade o que você diz, professora?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Rosa: Quando eu penso em trança eu penso em autoestima porque as pessoas que querem
trançar estão se valorizando, assumindo a sua raiz.

E sobre Madureira?

Rosa: Madureira é o point das tranças exatamente por causa disso que as meninas
disseram. Por causa do hip hop, do baile charme… O pessoal ia trançado e aquilo ali foi
crescendo, foi crescendo... Madureira verdadeiramente é o point porque tudo que precisa
pra trançar você encontra em Madureira. Agora, aqui em Campo Grande, já estão tendo
mais lugares [para comprar], então não precisa tanto ir a Madureira. Mas quando se pensa
em trança com certeza se pensa em Madureira ou Caxias.

Barbara: É. Mas Caxias é pra cabelo [humano].

Rosa: Sim. Também é bom colocar que a trança valoriza, mostra pras pessoas que você
tem uma identidade. E trança vicia! Mas é um vício bom, não é um vício ruim. Vicia
porque você já levanta linda, pronta pra ir pro trabalho, pra faculdade, já levanta pronta pra
ir numa festa, entendeu? Não precisa pensar em cabeleireiro, escova, pintar o cabelo…
Nada disso.

E vocês acham que existe muita rivalidade entre as trancistas?

Barbara: Não chega a ser uma rivalidade, mas os preços variam muito entre os trancistas.
Não há um preço único, um padrão. Não que necessariamente deva ter, mas o cliente fica
um pouco confuso porque ele não sabe qual preço é o justo; ele fica naquilo de “será que o
mais barato é bom?”, “será que o mais caro vale isso mesmo?”. Mas não chega a ser uma
rivalidade; rivalidade é quando você tem uma rival e você tá brigando. A gente não briga, a
gente mostra o trabalho e o cliente vai onde ele se sente melhor, mais à vontade, mais bem
tratado. Mas isso não significa que tenha que ser um preço universal, mas um que chegasse
próximo a todos os trancistas de Campo Grande, ou todos os trancistas de Madureira, essas
coisas. A gente sabe que tem muitas pessoas que trançam dentro de casa e que fazem mais
barato porque um salão tem mais gastos com funcionários, manutenção... Só que às vezes
[a pessoa que trabalha em casa] cobra muito mais barato e o cliente fica confuso, não sabe

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

pra onde vai e nem se tem aonde ele reclamar. Mas aí a gente entra na questão do
sindicato.

Cristiane: É complicado. Mas na Bahia, por exemplo, as trancistas já tem sindicato. E lá


tem sindicato porque o estado inteiro trança.

Rosa: E a cada dia aumenta o número de trancistas, né? Até porque você não tem que ter
muita coisa pra você começar a trançar.

Cristiane: Como ela [Rosa] falou: basta uma pregadeira, uma tesoura, lastex e dois clips.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

22. SALÃO FAST BRAIDS

A entrevista com as trancistas Iany Kathleen, Keith Kelly, Nathalya Nascimento e


Sandra Nascimento foi realizada nos dias 6, 13, 17, 26 e 28 de julho de 2017, no bairro de
Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

[As falas abaixo não são respostas à perguntas específicas, mas fragmentos de conversas
entre trancistas e clientes no salão Fast Braids. Todas as pessoas presentes no local
tinham ciência de que estavam sendo filmadas/gravadas e de que suas falas constariam
no presente trabalho]

Nathalya: Aqui no salão a gente resgata muitas almas perdidas. A galera chega aqui
falando “ai, meu cabelo é feio, meu cabelo é duro”. Gente, o cabelo não é “duro”, o cabelo
é crespo.

Keyth: A partir do momento que você entra dentro do salão o seu cabelo não é mais duro.

Nathálya: Eu tenho clientes que começaram a fazer trança só pra não ter o trabalho de
passar pelo big chop. Elas diziam que não iam tirar a química do cabelo, que não queriam
saber dessa história de transição, e hoje elas estão com um black maravilhoso.

Keyth: E é muito legal porque muitas vinham pro salão, tiravam a trança e logo colocavam
outra em cima. Hoje elas já ficam uma semana [sem trança] pra dar uma respirada no
cabelo. Agora elas começaram a realmente amar o cabelo natural delas e esse é um
processo que a gente desenvolve aqui [aponta para a cabeça], na cabeça delas: a gente
pergunta, a gente dá dicas… Se não elas vão sair de uma doutrina pra entrar na outra: você
sai do liso pra ficar só de trança e no final das contas você continua sem aceitar o seu
cabelo. Mas a gente compreende que esse é um processo sofrido e doloroso. Eu senti essa
emoção quando cortei a parte com química do meu cabelo. Fazia um mês que eu estava
com o meu cabelo [com química] e eu já ficava desesperada porque no mês seguinte eu
teria que fazer [o procedimento químico] de novo e eu certamente não teria o dinheiro pra
poder fazer. E te bate um desespero porque você não vai ficar bem, não vai ficar feliz.
Você vai andar na rua e as pessoas vão rir de você.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

[...]

Nathalya: Você não se alimenta bem e vai ter um cabelo bom? Não. Você não vai ter um
cabelo bom, não vai ter um corpo bom, não vai ter uma pele boa. Você tem que se
alimentar pro seu cabelo também ser nutrido. Não adianta colocar um monte de maizena na
hidratação, catchup no xampu e achar que isso vai funcionar. Não é assim, não, você tem
que começar de dentro pra fora. E quando você tira as tranças, você tem que dar uma
hidratada no fio.

[...]

Keity: É todo um aprendizado que a gente tem com vocês. Cada uma que vem aqui é uma
história, um amadurecimento e a nossa maior satisfação, na verdade, é quando vocês param
de usar trança. Porque o nosso trabalho não é só ganhar o dinheiro fazendo a trança de
vocês, não, tá? Nosso trabalho é de autoestima e ela vem quando vocês aceitam o
cabelinho de vocês. Então a nossa satisfação é ver vocês libertas e totalmente aceitas. E se
quiser usar química ou depois, aí é com vocês.

Nathalya: A questão de não usar química, que fique bem claro, não é por não se aceitar. A
questão não é essa. Quando a gente fala sobre química a gente fala de saúde capilar,
entende? Porque no início é tudo muito lindo, maravilhoso, você fica com o seu cacho
definido, o seu crespo soltinho. Mas depois vem o susto por que o cabelo faz o que? Parte.
Ele começa a arrebentar porque não aguenta a química. E o nosso cabelo crespo é um
cabelo muito fino. Então no início ele vai ficar maravilhoso e depois vai começar a cair.

Keyth: É, muita gente acha que o cabelo crespo é duro. Mas só é duro porque o pessoal
racista colocou na nossa cabeça que o nosso cabelo é duro. O nosso cabelo é muito fino.
Ele vai aguentar química num mês, mas no outro mês ele vai alisar e ficar todo entrilhado.
Mas se mesmo assim você se sentir bem com isso, só saiba que você é bonita de qualquer
jeito: alisando o cabelo, com entrelace, com trança…

Nathy: Inclusive careca, tá gente?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Keyth: Exatamente.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

23. ENTREVISTA NO SALÃO NAGÔ

As entrevistas com Alessa Oliveira, Érika Ferher, Liana Mascarenhas, Monique


Miranda e Simone Ferreira foram realizadas nos dias 11 e 25 de agosto de 2017, no bairro
de Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Quando ocorreu o primeiro contato de vocês com as tranças? Foi a mãe de vocês que
usava, vocês viram alguém na rua usando…

Monique: A minha tia sabe trançar, só que ela ficou sem fazer na namorada do filho dela.
Na época eu tinha uns 15 anos e achei que era a oportunidade de aprender algo novo
porque eu nunca tinha visto ninguém fazer. Aí eu fui na internet e vi alguns vídeos dessas
[youtubers] americanas, né? Então eu comprei linha e fiz na minha irmã. Eu fiz só uma
trança e deu certo, então eu fiz em mim e também saiu certinho. Aí eu falei “ai meu Deus,
e agora?”. [Risos]

Então na sua família as pessoas não usavam tranças antes?

Monique: Não. Elas achavam feio. E se eu andasse na rua [de tranças] os outros zoavam.
Então a primeira pessoa do meu bairro a usar fui eu, sabe? Aí foi um negócio novo. Hoje
em dia todo mundo usa lá na minha rua.

E antes de colocar trança você tinha o cabelo natural ou alisado?

Monique: Eu usava química.

Então as tranças te ajudaram na transição?

Monique: Ajudaram.

Aliás, eu gostaria de saber, na opinião de vocês, porque tantas meninas escolhem as


tranças para passar por essa fase?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Liana: Na verdade as pessoas tomam uma decisão internamente de que não querem mais
química no cabelo. Mas no fundo elas não estão preparadas pra se assumirem de verdade,
do jeito que são. Mulher tem uma relação muito forte com cabelo por ser a “moldura do
rosto”, então 90% delas não conseguem se enxergar carecas, por exemplo. Também existe
uma pressão master da sociedade com a gente sobre corpo, cabelo, maquiagem... A gente a
ser perfeita o tempo todo. Então por mais que a mulher busque no seu interior aquela força
pra sair da química, pra se aceitar e se assumir como negra, há uma batalha muito grande
porque a gente sofre represália desde que nasce. A gente escuta a nossa mãe falar “pelo
amor de Deus, vai relaxar esse cabelo duro”. E nossa mãe é preta, as nossas avós são
pretas. A gente cresce ouvindo “vai dar um jeito nesse cabelo, você já é preta, pelo amor
de Deus, passa alguma coisa”.

Você passou por isso?

Liana: Passei. Quando eu resolvi deixar o meu cabelo natural a minha mãe olhava pra mim
e falava “dá raiva de olhar pra sua cara com esse cabelo duro”. E a minha mãe é preta igual
a mim. Mas hoje ela tem cabelo natural black igual ao meu. Antes de eu nascer ela usava
cabelo black, mas depois de um tempo ela sofreu essa pressão com tanta força que cedeu,
alisou o cabelo e passou alisante em mim, achando que eu tinha que viver daquilo. E eu
acho que é o que todas as mulheres da nossa geração, da nossa sociedade, sofrem: elas
querem uma libertação, elas querem se aceitar, mas elas não encontram força porque
sofrem desde que nascem. É difícil você, como mulher negra, falar “dane-se, a partir de
hoje eu vou ser o que eu sou” porque ninguém te aceita. E ninguém quer viver num mundo
em que ninguém te aceita. Então eu acho que elas procuram a trança como um recurso para
passar pela transição e pensam “vou assumir a minha negritude, mas também não posso
passar por esse processo sendo mal vista pelas pessoas, então eu vou dar um jeito de
continuar bela dentro dos critérios da minha raça, dentro dos padrões negros”. E o que que
vai ser legal pra um padrão negro? Uma trança, que é o que agride menos o fio. “Aí o meu
cabelo vai crescer forte, crescer saudável, o meu couro cabeludo vai respirar e eu vou ter
um black bafônico, enorme, lindo, maravilhoso e cacheado (porque a gente saiu da
ditadura do liso pra ditadura do cacheado, né?). Porque elas até aceitam ter black, mas tem
que ser um black cacheado, perfeito.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Então você acha que as tranças são como um estágio até o cabelo black power?

Liana: Sim, um estágio. Não pra todas, mas pra maioria sim.

Alessa: O que acontece muito aqui no salão é que as clientes acham a trança é melhor para
passar pela transição porque ela ajuda muito no crescimento do cabelo. E, como
geralmente elas ainda tão passando por algum processo químico, elas não querem cortar
tudo de uma vez (algumas até cortam, mas quando chegam aqui não dá pra fazer trançar
porque o cabelo fica muito curto). Aí elas ficam com a raiz cheia e não querem ficar com
aquela ponta rala e fina porque realmente é feio. Então elas vêm e colocam a trança pra se
sentirem seguras até se assumirem o cabelo natural e também pra estimularem o
crescimento do fio. Até porque a maioria das meninas não querem cortar o cabelo, não
querem perder o tamanho, o comprimento. Então elas ficam fazendo trança até sair
totalmente a química.

A Liana disse que muitas escolhem a trança pra continuarem belas dentro dos
“padrões negros” de beleza. Então vocês acham que uma trança choca menos do que
um black?

Alessa: Sinceramente eu não sinto essa diferença, não. Mas acho que é porque eu já passei
por todo esse processo, então quando eu ando na rua tanto de trança quanto de black eu
realmente não sinto e nem reparo se tem alguém me olhando.

Simone: No meu caso, por eu ser de pele clara, acho que qualquer um dos dois choca: tanto
a trança quanto o black. Porque quando eu tô de trança as pessoas não sabem que eu tenho
cabelo crespo porque não conseguem ver o meu cabelo natural, só as tranças; então choca
um pouco, tipo “ih, aquela branca tá de trança”. Só que quando eu tô com o meu black bem
crespo elas acham que o cabelo nem é meu, tipo “ela, de pele clara, vai ter um cabelo dessa
textura?”.

E vocês acham que as tranças são uma forma de esconder o cabelo natural?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Alessa: Falando por mim: eu não consigo ficar muito tempo sem tranças porque eu gosto,
não é porque eu tenho vergonha do meu cabelo. Na verdade eu aprendi a cuidar do meu
cabelo depois de trançar. Então eu passo a maior parte do meu tempo de trança porque eu
gosto, porque pra mim é prático e eu também acho que eu fico melhor com tranças do que
com o meu cabelo.

E quando você começou a trançar?

Alessa: Foi com a minha avó, ela trançava o meu cabelo desde que eu era pequena e foi ela
que me ensinou. Só que profissionalmente, mesmo, eu comecei a trançar as minhas amigas
quando eu tinha uns 16, 17 anos.

E o que te levou a querer trançar profissionalmente?

Alessa: A estética. Porque a trança é meio que de época, né? A gente sabe que esse tipo de
penteado não é moda, mas tem sim a época da alta, da “modinha”. Na minha época,
quando eu comecei a trançar, as tranças estavam em alta e isso faz mais de 10 anos! Eu
gostava, achava bonito. Vinha muito pro baile charme e todo mundo era trançado! A trança
existe há muito tempo, mas sempre tem essa época da moda, igual ao black. Quando eu
ando no shopping vejo funcionário a beça de cabelo black (e isso é uma coisa que antes as
lojas não aceitavam).

E como você, Simone, como aprendeu a trançar?

Simone: A minha mãe fazia umas trancinhas no meu cabelo quando eu era mais nova. Meu
pai é negro e minha mãe é de pele clara, então eu sempre falo que a minha mãe não sabia
pentear o meu cabelo. Ela fazia umas tranças embutidas que ficavam muito engraçadas,
com uma divisão em quadradinhos, e eu me sentia muito mal com os penteados que ela
fazia. Aí quando fui virando adolescente eu comecei a me interessar mais pelas tranças que
eu via as meninas negras usarem: eram tranças nagô, meia cabeça [modelo de trança na
raiz dos fios que ocupa metade da cabeça]… Então eu fiz um curso de artesanato e na
minha turma tinha uma menina com cabelo crespo que usava muita trancinha meia cabeça.
Eu olhei aquilo e falei “eu quero uma trança dessa, quem faz o teu cabelo?” e ela disse

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

“sou eu mesma que faço”. Então eu perguntei como ela fazia, fui pegando as informações e
eu decidi tentar fazer em casa, sozinha. Só que eu tomei uma coça! [Risos]

Como assim? A sua mãe te bateu?

Simone: Não! [Risos] Eu tomei uma coça porque levei 40 minutos pra fazer uma trancinha
fina. Aí depois que eu aprendi a fazer a trancinha nagô. Então eu fiquei usando trança meia
cabeça durante um ano. Eu ia cortando o meu cabelo e fazendo a trança na metade da
cabeça e assim fui tirando a química. Só que quando eu parei de usar trança a parte da
frente do meu cabelo (que era trançada) vinha no meu queixo e a parte de trás (que ficava
solta) era curtinha porque eu só fazia trança na frente! [Risos] Ou seja: a trança estimulava
muito mais o crescimento na parte da frente do que na parte de trás. Por isso eu passei a
achar que a trança estimula sim o crescimento do cabelo. E a partir daí comecei a me
apaixonar ainda mais pelas tranças: aprendi a fazer a trança rastafári [modelo de trança
solta], os dreads, a nagô... Eu tinha uns 17 anos. Mas, assim, trabalhar em salão e tal tem
uns quatro anos que eu trabalho aqui no Trança Nagô, além dos clientes particulares que eu
tenho desde quando eu comecei, antes do Trança Nagô. Mas eu sou viciada em trança,
cara… Viciada! Assim: se o ano tem 12 meses eu passo 10 meses de trança!

Alessa: Oxe, então eu passo 12! [Risos]

Simone: E, assim, você fez uma pergunta pra ela, mas eu também vou responder! [Risos]
Você perguntou da aceitação, né? Pra mim elas não aceitam o próprio cabelo, não adianta.
Tanto que tem cliente que passa dois anos em transição fazendo trança porque é uma opção
estética: a pessoa não quer ficar com o cabelo curto e também não aceita o cabelo crespo.
Então diz que gostou das tranças porque acha lindo, acha prático. Só que aí quando ela tira
a trança, quando começa a ver o cabelo dela, ela não consegue se adaptar ao volume, à
textura, ao aspecto seco que o nosso cabelo tem… Então elas voltam pra química de novo.

Alessa: Aí fica nesses altos e baixos, de tirar a trança, alisar o cabelo, não conseguir manter
e voltar pra trança.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Simone: Agora sobre o ambiente empresarial, sobre o black chocar: tudo choca. Black não
pode, porque não tem “uma aparência boa” e as tranças também não “porque parecem
sujas”. É por isso que a maioria faz progressiva pra ser aceita ou então vive de cabelo
preso.

A Simone falou que, por ter a pele mais clara, quando não usa o cabelo natural, acaba
muitas vezes sendo lida como branca a ponto de chocar as pessoas quando usa o
cabelo natural e crespo. Pra vocês o que define então se uma pessoa é negra ou não?
O cabelo, o tom de pele, os traços… O que é mais forte nessa definição?

Simone: Eu acho que a gente é muito miscigenado, não tem como saber o que cada um é
ou não só de olhar a pessoa. Essa é uma questão muito complicada porque tem muita
mistura. Mas, assim, pelo fato de eu ter mais de 50% da minha família negra eu me
considero uma pessoa negra por mais que eu seja de pele clara.

E você também falou que algumas pessoas te olham estranho quando você usa
tranças justamente por você ter a pele clara. O que vocês pensam sobre trançar
brancos?

Simone: A gente não tem problema, nós temos vários clientes de pele clara e de cabelo liso
que vêm aqui e fazem tranças. O problema não é esse. Só que se eu alisar o cabelo e fizer
uma entrevista competindo com a Monique [trancista negra de pele escura do salão, que
também participa da entrevista], na mesma empresa, a minha aceitação por ter a pele clara
e o cabelo alisado vai ser diferente da dela, que é uma negra que usa trança e tem o cabelo
crespo. Porque, infelizmente, isso tá atrelado à cor da pele. Se eu alisar o meu cabelo quem
vai dizer que eu sou negra? Eu usei cabelo liso durante, praticamente, toda a minha vida e
só parei com 17 anos.

Compreendo. E a trança, pra vocês, é um penteado comum como um coque?

Monique: Ai, pra mim trança é tudo! [Risos]

E todo mundo pode usar?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Alessa: Aqui a gente tem uma opinião muito bem formada sobre isso: a gente sabe que o
Brasil é um país miscigenado, então a gente não vê problema em uma branca usar trança
porque a gente não sabe da ancestralidade dela e de quem está por trás da história dela. No
caso da Simone [trancista de pele clara do salão], ela passa como branca, mas o pai dela é
negro. Então eu tenho certeza que a Simone já passou pela rua, olharam pra ela,
cochicharam (porque é velado, não diretamente) e falaram “ih aí, ó: apropriação cultural”.

Agora, quanto à parte técnica, o que vocês acham dos novos nomes que as tranças
tradicionais têm recebido? Por exemplo: a nagô virou boxeadora, a trança solta virou
box braid…

Érika: Também tem a trança de duas pernas que as pessoas não chamam mais de baião de
dois ou enroladinho, agora querem falar twist. [Risos] Hoje em dia, fica até mais
complicado de você entender o que a pessoa tá falando porque elas vêem muito tutorial
americano na internet e acham que é novidade, quando na verdade são coisas que já
existem há séculos, só que hoje em dia estão com um nome diferente.

E pra que serve o fogo que vocês usam na ponta das tranças?

Érika: Pra selar o material nas pontas.

Então o fogo tem a mesma função da tesoura na hora do acabamento?

Érika: É uma junção, na verdade: a gente corta com a tesoura e sela com o fogo.

Liana: Mas não se faz isso com todos os modelos e nem com qualquer material. Depende
do modelo de trança, do formato que foi feito na cabeça da cliente... Normalmente essa
ponta aqui [mostra a ponta da trança solta que está fazendo em uma cliente no salão] a
gente não trabalha nem selando e nem queimando; a gente amarra com lastex. A selagem
com fogo ocorre mais quando é uma nagô boxeadora porque pra gente ir afinando o
penteado a gente vai tirando parte do material de dentro da trança pra dar o efeito fino na
finalização, então quando a gente tira um pedaço do cabelo sintético a gente corta e queima

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

essas partes pra selar, pra trança não abrir. Mas embaixo a gente ou finaliza assim [mostra
o cabelo da cliente que está sendo trançada no momento], com a ponta solta, ou amarra
com lastex. Esse tipo de ponta a gente não queima, não.

Então o que define se a ponta vai ser fina ou grossinha é… [Liana interrompe]

Liana: O material. O material e o tipo da trança que o cliente escolher.

Dentro dos materiais a gente tem kanekalon, jumbo…

Érika: Linha, lã… Pra ser feita a trança existem esses quatro materiais, que são: kanekalon,
jumbo, linha e lã.

E o que determina essa escolha?

Érika: Então, aí tem a questão do cliente escolher e da profissional avaliar o cabelo dele
pra dizer qual tipo de material pode ser usado. Porque às vezes a pessoa quer fazer com
determinado material, mas o cabelo tem uma outra necessidade. Então a gente conversa
com o cliente até pra oferecer uma alternativa pra ele. Mas o que vai fazer com que ele faça
com aquele cabelo ou não é a junção cliente mais o profissional de trança.

Agora eu queria perguntar sobre a divisão que é feita na hora de trançar,


principalmente nas tranças soltas. Algumas divisões são quadradas, outras
triangulares e algumas são até redondinhas. O que define isso?

Érika: A nagô, geralmente, ou é reta ou é desenhada. Agora, a trança solta também pode
ser desenhada no formato de triângulo, círculo… O que define é o modelo da trança.
Porque a gente desenha com pente e com a nossa criatividade, né?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

24. SKARLETI ULLY

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 25 de julho de 2017, no bairro da


Taquara, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A primeira coisa que eu quero saber é como foi que você começou a trançar.

Eu tenho uma tia (que não é tia de sangue, mas é casada com o meu tio) que sabe trançar.
Quando eu ainda não morava no Rio e tinha vindo passar férias aqui vi ela trançando uma
nagô [modelo de trança rasteira] no cabelo da mãe dela. Foi aí que eu me interessei. Fui
olhando o movimento que ela fazia com as mãos, ela viu que eu realmente estava
prestando atenção e me ensinou uma única vez. Eu consegui pegar o jeito. Aí eu comecei a
fazer na minha irmã, coitada! [Risos] Ela sofreu porque por muito tempo ela serviu como
minha cobaia pra eu praticar os modelos de trança. [Risos]

Mas você já tinha tido algum contato com tranças antes disso?

Eu não tinha feito a trança solta ainda não. Fui fazendo a nagô. E aí eu comecei a perceber
que o que definia a forma que a trança ia sair era como eu partia o cabelo. Aí eu comecei,
fui treinando, via alguns vídeos no Youtube… Mas naquela época acho que não era tão
comum ter esses tutoriais de trança como tem hoje. Aí eu fui me interessando por isso, de
cuidar do cabelo, e fui me especializando em outras áreas, como escovar. Fui tomando
gosto pela coisa e comecei. Em 2012 eu fiz um curso de figurinista. Foi quando eu me
descobri mulher negra. E aí comecei a entender mais sobre a cultura, sobre a vivência
negra e percebi que a trança é uma coisa bastante presente nesse tema.

Mas como você descobriu que era uma mulher negra no curso de figurinista?

Antes eu lidava mais com escova, progressiva, corte de cabelo. No curso eu tive mais
contato com o mundo negro porque a base dos estudos era você entender a sua própria
cultura. Então eu tinha professores negros e professores brancos, só que na parte dos
negros a gente via mais sobre o significado das estampas, dos turbantes, essas coisas. Lá

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

nós começamos a entender que tinham tranças que diferenciavam as tribos na África, por
exemplo. Foi quando eu comecei a me interessar.

Isso foi em que ano, mais ou menos?

No final de 2013. Era uma turma bem grande e a maioria das pessoas eram negras. Foi aí
que eu comecei a ter mais contato com meninos que trançavam o cabelo, comecei a me
interessar e a pesquisar sobre as tranças. E essa minha tia que me ensinou a fazer trança
daquela vez foi bem presente nessa parte porque quando eu vi uma amiga minha com o
cabelo [trançado] eu falei “tia, me veio uma ideia: eu quero fazer aquela trança que você
me ensinou, só que mais grossa”. Eu queria algo mais diferente, o que foi um desafio pra
ela e pra mim porque nós duas nunca tínhamos feito dessa forma. Como eu nunca consegui
passar química no meu cabelo, foi um método que eu encontrei pra não ter que passar a
nenhum produto. E a trança também é uma forma bem fácil de manter o cabelo arrumado
porque geralmente as mães não sabem cuidar de cabelo crespo, né? Eu ficava três, quatro
meses com a trança, então não tinha o trabalho de pentear todo dia, da mãe sofrer por não
saber o que fazer com o cabelo da filha. Porque ainda tem isso: mesmo hoje em dia a mãe
que tem o filho do cabelo crespo não sabe a forma certa de lidar com ele [cabelo]. Tanto
que a primeira vez que eu coloquei trança eu devia ter uns cinco anos.

Cinco? E quem trançou você?

Essa minha tia. Eu morava no interior de Minas, em Paula Cândido [pequena cidade
próxima a Ubá e Viçosa] e ela comprava o material aqui [no Rio de Janeiro] e colocava em
mim. Então quando ela ia pra lá [Minas Gerais] era a melhor coisa! Porque eu cheguei a
pegar a época do pente quente.

Pente quente é chapinha, certo?

Isso, só que de uma forma mais rigorosa porque ele era esquentado no fogão, na brasa. E
era uma brasa quente mesmo porque primeiro você empastava o cabelo de óleo…

Então ele fritava o cabelo?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

[Risos] Sim, tinha todo esse barulho [de fritura]. Era terrível! E, tipo, eu amava porque a
minha avó só fazia isso em data festiva, quando tinha alguma comemoração. Em outras
datas eu ficava só com o cabelo trançado. Mas não era uma trança igual à nagô [modelo de
trnça feita na raiz dos fios], à box braid [modelo de tranças soltas]. A minha avó fazia três
tranças grossas meio embutidas e divididas por quadradinho [gesticula tocando na lateral
direita do seu cabelo]. Eu não gostava daquilo, achava horrível e não queria fazer esse tipo
de trança. Então quando essa minha tia ia lá pra Minas era a melhor coisa pra mim porque
eu ia ter tranças novas, compridas e ia sair igual a uma maluca, jogando o cabelo pra todo
lado! [Risos]

E por que você acha que hoje em dia as garotas decidem colocar trança no cabelo?

A minha opinião, como trancista, é que hoje em dia a menina tá passando pela transição
[capilar] e muitas vezes ela é tão apegada ao fio que não tem a coragem de ir logo no salão
pra raspar ou cortar até onde o cabelo natural dela está. Então ela encontra a trança como
saída. Só que nem todas ficam felizes porque, como agora há um mercado bem amplo de
tranças, nem todo mundo sabe todas as técnicas pra você o cabelo do jeito com química
que ainda não foi cortado. Então a pessoa acaba se frustrando diante disso, fica com a
autoestima baixa e decide não fazer mais a transição, que é um período bem complicado.
Porque a mulher tá acostumada a se ver de uma determinada forma, com o cabelo de uma
só textura e aí quando ela percebe que o cabelo tá ficando de outro jeito, não tem a
coragem de desapegar daquele cabelo com química. Já vi casos de pessoas com depressão,
de meninas que não saem de casa nesse período de transição capilar.

Mesmo quando elas optam pelas tranças?

É que muitas pessoas não têm condição financeira para estar trocando a trança sempre.
Porque, vamos supor: a transição [capilar] dura mais ou menos um ano e tem trancistas que
cobram um preço absurdo. Eu sou super a favor de cobrar um preço justo porque esse é um
trabalho artesanal que leva várias horas e exige muita atenção, só que tem pessoas que às
vezes querem colocar a trança, mas não têm renda pra fazer a manutenção de dois em dois

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

ou de três em três meses porque o material não é barato e ainda encontram uma mão de
obra cara. Então elas acabam não colocando [as tranças] e aí sofrem.

Mas também existem outras formas de lidar com a transição além das tranças, não?

Sim, várias. Às vezes essas meninas vão pro Youtube assistir alguns tutoriais já que tem
muita coisa hoje ensinando a fazer texturização no cabelo. Mas pra mim a trança é o
melhor recurso porque é uma maneira de não ter trabalho; é uma coisa que você vai estar
sempre pronta, arrumada. Com a trança você pode ousar, pode ter o cabelo de todas as
cores que você quiser e se você se arrepender é só tirar ou trocar. E a trança também não
prejudica o fio porque ele vai estar protegido de um monte de coisas: sujeira, poluição,
substâncias ruins que existem no xampu, no condicionador. Eu acho que a trança é a
melhor escolha pra quem tá em transição.

[nesse momento, Stefany Marques, a irmã de Skarleti cujo cabelo serviu como modelo de
tranças na época em que a trancista estava aprendendo a trançar, participa da conversa e
decide contar um pouco de sua relação com as tranças]:

Stefany: A Skarleti começou a me trançar quando ela tinha uns 13 anos. Ela judiava dos
meus cabelos, apertava muito, muito mesmo. Mas eu amava, né? [Risos] Porque com a
trança eu não precisava pentear o cabelo. Mas ela fazia maquiagem em mim também. Teve
uma vez que ela cismou que tinha que fazer uma maquiagem escura e passou um monte de
coisa preta no meu rosto. Fez “a” maquiagem, pegou o meu cabelo e foi desfiando com
pente pra fazer aquele topete, como que fala?

Skarleti: Frisado.

Stefany: Isso. Meu cabelo caiu quase todo, ela embolou ele inteiro!

Skarleti: É que eu queria fazer um black nela. [Risos]

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Stefany: Ela queria fazer um black, sendo que eu usava química! Ela embolou o meu
cabelo todo, pra pentear foi terrível, eu chorei horrores. E na hora de limpar meu rosto a
maquiagem não queria sair por nada. [Risos]

Mas você maquiou essa menina com o que?

Skarleti: [Risos] É porque eu passei muito rímel.

Mas ficou bonita?

Skarleti e Stefany [respondem juntas]: Ficou!

Stefany: Ficou bonito, mas na hora de tirar deu ruim. [Risos] Meu olho ficou inchado, eu
chorei, minha mãe brigou com ela…

E vocês são quantas irmãs?

Skarleti e Stefany [respondem juntas]: Somos quatro.

Skarleti: Mas tem uma das quatro que não é muito fã de trança.

Stefany: Ela quer alisar o cabelo.

Skarleti: E o pior é que eu acho que ela é a que tem o cabelo mais liso. Mas não tô dizendo
que [por causa disso] é o mais bonito, só que é o mais fácil de lidar.

Stefany: Eu acho trança bonito, mas não gostava muito em mim, não. Nunca tinha usado,
essa é a primeira vez que eu coloquei [no dia da entrevista Stefany estava com longas
tranças finas e soltas na cabeça].

E por que você não gostava?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Skarleti: Ela [Stefany] começou a usar a química muito, muito, muito cedo. Então eu acho
que ela nem lembra a forma que o cabelo dela era.

Stefany: A minha mãe alisou o meu cabelo pela primeira vez com aquele produto do
Netinho. Acho que eu tinha cinco anos. Daí fui usando química e nunca mais parei até uns
quatro meses atrás.

Skarleti: Ela usava mega [megahair] até a bunda.

Stefany: Aí eu fui cortando, cortando, diminuindo [o comprimento do cabelo].

Você usava entrelace?

Stefani: Não, era mega [megahair] mesmo, com cabelo humano. Eu colocava bastante e
ficava aquele jubão grande. Aí eu fui diminuindo, diminuindo, mas mesmo assim continuei
usando mega. Aí eu comecei a usar curtinho e agora que tô aqui com essas tranças.

E você tá gostando?

Stefany: Eu tô amando! Você não tem ideia do que é acordar e já estar pronta! Tô
prontíssima! [Pausa] Mas foi difícil. Nos primeiros dias eu quase me enforquei com o
cabelo dormindo. [Risos] Eu sou um pouquinho fresca, também, então só fui amarrar
depois de um tempinho, quando tava frouxo, porque antes tava doendo e nem podia
colocar a mão. Só que todo mundo falou que ficou feio.

Como assim? Disseram que o seu cabelo tava feio?

Skarleti: É que as pessoas não tão acostumadas, elas são meio americanizadas, então pra
elas todo mundo tem que ter um padrão de cabelo. Antes chamavam a Stefany de “nega
lisa” pelo fato dela usar cabelo liso. Então quando as pessoas viram que ela tava de trança
foi um baque. Se ela não resiste… [faz movimento negativo com a cabeça]

Isso aconteceu esse ano?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Skarleti: Esse ano, esses dias, esses meses.

Nos últimos tempos a gente tem visto um aumento da valorização da estética afro.
Então eu fico surpresa de que isso tenha acontecido com a Stefany tão recentemente.

Stefany: Foi horrível. Eu queria tirar, pensava “não vou mais ficar com esse cabelo”. Ainda
não é tão aceito, não. Aconteceu de uma pessoa olhar pra mim e comentar “não gostei,
você tá com cara de favelada, antes [com cabelo liso] você tava com cara de universitária,
agora você não tá mais”.

Espera aí. Antes… [Stefany interrompe]

Stefany: Ela quis dizer que antes, com cabelo liso, eu estava com cara de universitária.
Agora, com a trança, eu tô com cara de favelada. Como se quem tivesse trança ou cabelo
afro natural não pudesse entrar numa universidade e só os “lisinhos” pudessem.

E o que você respondeu?

Stefany: Nada. Foi a primeira pessoa que me viu, além dela [Skarleti] e da minha prima
que tava aqui. Então, assim, eu fiquei [faz cara de paralisada]. Aí depois do maior tempão
que eu pensei “ela quis dizer que só pessoa de cabelo liso entra na universidade?”.

Muito pelo contrário! Pelo menos na minha universidade o que mais tem é menina
negra trançada e de black.

Stefany: Ah, mas eu demorei. Eu demorei muito. Quando falaram que tava ruim eu fiquei
“ai, meu Deus, agora vai todo mundo me achar feia”. Porque todo mundo falou “ah, eu não
gostei”, “eu sou mais seu cabelo liso”. Até porque todo mundo achava que o cabelo
comprido do megahair era meu. Aí quando eu tirei falaram “por que você cortou o cabelo,
que não sei o que”...

Aí você responde: “por que o cabelo é meu e eu faço o que eu quiser”.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Stefany: Sim. [Risos]

Você tá linda! Depois quero até tirar uma foto sua.

Stefany: Tá bem. [Stefany sorri]

Skarleti, quando você comentou sobre o seu curso de figurino chegou a dizer que
aprendeu um pouco sobre as tranças com seus professores. Fale um pouquinho sobre
isso.

Skarleti: Eu não sei te dizer ao certo qual trança é de qual tribo, mas comecei a entender
que cada uma significava uma coisa (se a mulher era solteira, se era casada, se tinha um
poder aquisitivo naquela tribo, se era uma pessoa de grande importância...) e eu comecei a
achar isso muito interessante. Não estudei isso a fundo por motivos banais, mas é um tema
a ser estudado porque eu acho que isso explica quando as pessoas falam sobre apropriação
cultural. Por que às vezes não é nem tanto o fato da pessoa que usa não saber os
significados da trança na cultura porque isso acontece até no mundo negro; a questão é a
pessoa usar por usar sem dar importância pra bagagem de história que aquilo traz. Eu acho
que é importante a pessoa estudar tanto a trança quanto o turbante para além do simples
fato de carregar qualquer um dos dois na cabeça. Pesquisar é bom.

E você vê problema em trançar meninas brancas?

Skarleti: Isso é um assunto meio polêmico porque, se eu sou a favor da igualdade racial, se
eu luto por igualdade racial eu não tenho que dividir raça por causa de uma cultura, eu
tenho que fazer coisas que unam, não separem essas duas raças. É bonito quando você vê
uma pessoa que não é da sua cultura e que entende o significado daquilo. Então eu acho
que desde que a pessoa use com respeito ela não vai estar me ofendendo. Essa é uma forma
de ensinar às crianças um novo amanhã: se você ensina alguém que não sabe sobre a sua
cultura hoje, amanhã ela pode ser a pessoa que vai passar isso pra uma criança. Então não
vai ser legal se hoje eu falar que não é certo essa pessoa usar algo da minha cultura por não
entender o significado porque eu posso acabar sendo egoísta. E tudo que a gente faz hoje

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

vai refletir no nosso amanhã. Então resta pensar se eu quero uma geração egoísta ou uma
geração que vai conhecer todas as culturas. [Pausa] Mas isso nem é sobre trança, é sobre
tudo. Já conheci trancista que se recusa a trançar cabelo de pessoas brancas. E eu vou até
ser julgada por isso, mas nunca vi uma pessoa se recusar a fazer progressiva no cabelo de
alguém que é negro.

Mas você acha que mulheres brancas que fazem tranças e mulheres negras que
alisam o cabelo têm as mesmas motivações?

Skarleti: [Pensativa] O cabelo crespo e o cacheado têm uma leveza que permite fazer
várias coisas. Eu acho assim: se eu já entendi a minha cultura, se eu já entendi as minhas
raízes, se eu sei a origem da minha raça e tudo que envolve o meu cabelo, mas decidi ser
uma negra de cabelo alisado, tudo bem. Só que hoje tem muito julgamento sobre isso.

Stefany: Tem mesmo! Quando ainda estava de megahair liso eu fui num evento de garotas
crespas com a Skarleti e [as meninas que estavam lá] ficaram me olhando com uma cara
feia, como se eu fosse a E.T. do evento. Eu estava com cabelo liso e todo mundo com
aqueles blacks enormes. Fiquei mal, super constrangida e nunca mais quis voltar lá.

Agora a pergunta é: por que as tranças geram tantos debates como esse, da
apropriação cultural que nós estávamos falando? O que diferenciam as tranças de um
coque, um rabo de cavalo…

Skarleti: A cultura. Como eu tava falando antes: existe toda uma história por trás da trança.
Então às vezes a pessoa usa aquilo de forma banal porque tá na moda e acaba machucando
um pouco a cultura da gente, né? Mas [isso acontece] até mesmo com as trancistas: tem
muitas que não sabem a história real por trás das tranças. Eu inclusive tava pensando em
dar cursos sobre isso a partir do mês que vem e conversei com uma menina que tava
botando essa ideia mais ou menos em prática. Eu falei “cara, o meu sonho é começar um
curso de tranças com a aula teórica”. Só que as meninas que vão fazer o curso comigo vão
me apedrejar porque vão querer mais a prática de trançar. E eu acho isso um pouco errado
porque tem muita gente que entrou nesse caminho das tranças por conta do dinheiro. Mas o
dinheiro não é tudo na vida. Por exemplo: eu fiz uma promoção de tranças com preços

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Transcrição das entrevistas

absurdos e fui muito julgada por isso. Mas com essa promoção eu adquiri uma outra
família: eu conheci pessoas maravilhosas, outras nem tanto…Brincadeira! [Risos] Pude
compartilhar fatos da minha vida, elas [clientes] compartilharam fatos da vida delas
comigo e eu acho que é isso: trançar é compartilhar histórias, envolve toda uma psicologia,
é uma coisa de família, às vezes até de geração. Tem muita trancista que aprendeu com a
mãe ou com a avó... [Pausa] E aí chega uma pessoa que não entende, que não sabe o
significado, não sabe a história e a resistência que tem por trás da trança e usa aquilo como
se fosse um acessório. É isso que ofende.

Bem, agora quanto ao trabalho: como a gente tava falando, muitas pessoas entendem
o ato de trançar como uma arte. Mas não deixa de ser um produto, certo?

Skarleti: Eu acho não, eu tenho certeza que é uma arte porque você vê a diferença de cada
trancista na forma de trançar. Eu aprendi a trançar de uma forma, então a pessoa que se
deparar com o meu trabalho por aí vai falar “foi a Skarleti que trançou”, assim como
acontece com outras trancistas. Por isso eu acho que trançar é até mais que arte. E todo
artista precisa viver da sua arte; é uma forma de amor e de ganhar a vida. Tem pessoas que
levam sim pro lado comercial e trançam pelo simples fato de trançar, de dar dinheiro. Mas
tem outras que não, que tem levam a trança como história, um legado, e atribuem à ela um
significado grande.

A última pergunta que eu vou te fazer diz respeito a Madureira pois, no município do
Rio, lá é um centro de trancistas e cabelo afro. Qual a sua opinião sobre isso?

Skarleti: Cara, eu acho que você não vai conseguir ouvir ao certo de nenhuma trancista o
motivo disso porque não tem uma explicação exata por ser Madureira. Na minha opinião, é
um bairro onde muitas pessoas passam todos os dias. E também tem o fato de que quando
você quer comprar alguma coisa barata, você vai à Madureira. Então eu acho que eles
[pessoas do bairro] uniram o útil ao agradável. Tudo o que você quer você vai achar lá, por
que não acharia cabelo também? Até existem mercados de trança em outros lugares, mas
[Madureira] é o lugar mais fácil de se encontrar e é o mais rápido também porque tem van,
trem, ônibus, BRT… [Reflete] Eu mesma compro cabelo numa loja que fica ao lado da

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Transcrição das entrevistas

estação de trem. Então mesmo que a pessoa não conheça o bairro, ela já vê aquela loja
assim que desce do trem, é muito prático.

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Transcrição das entrevistas

25. THAIENE MORAES

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 28 de julho de 2017, no bairro de


Bento Ribeiro, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Quando a gente fala de tranças, do que você costuma se lembrar primeiro?

Eu lembro da minha mãe porque foi com ela que eu aprendi a fazer cabelo, implante.

Com quantos anos você aprendeu?

Eu não me recordo muito bem com quantos anos, mas desde muito nova (com uns oito, 10
anos) eu já fazia o implante da minha mãe, que era de nó italiano [tipo de megahair em que
as mechas de aplique são amarradas por nós à raiz do cabelo natural da pessoa]. A partir
daí eu fui expandindo as técnicas, os tipos de material. Fui aprendendo no dia a dia que
existia o nó italiano, o entrelace, o mega hair, o microlink.

E quando era menor você costumava ser trançada?

Sim. Antigamente se usava muito aquele miojinho [aplique sintético de tranças bem finas e
onduladas que fisicamente remetem ao formato do macarrão instantâneo], né? E a minha
mãe fazia em mim desde que eu era muito nova, com uns seis anos de idade eu acho.
Lembro que elas às vezes passava noites trançando: eu dormia no colo dela enquanto ela
fazia o meu cabelo. Eu gostava muito.

Então você aprendeu a trançar vendo a sua mãe trançando? Chegou a assistir algum
vídeo tutorial, praticava em alguém para treinar…

Se eu te falar você não vai acreditar: eu simplesmente vi como a trança era feita uma vez,
peguei uma pessoa pra trançar e fiz. Obviamente que nas primeiras vezes as tranças não
ficam tão bonitinhas, com a divisão perfeitinha, mas a prática eu peguei no dia a dia. Eu
nunca tinha visto no vídeo no Youtube até porque quando eu comecei não era essa febre,
não tinham vídeos tutoriais, não passava na televisão, nem nada do tipo.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Você disse que começou a trançar com oito, 10 anos de idade, por hobby. Mas quando
você começou a cobrar e levar a trança como um trabalho?

Tem uns três anos, mais ou menos. Porque eu fiz ensino médio técnico, então eu me
considero uma pessoa um pouco independente; nunca gostei muito de ficar dependendo da
minha mãe pra comprar as minhas coisas. Então eu decidi trabalhar com alguma coisa pra
poder ganhar meu próprio dinheiro. Como [mexer com cabelo] era algo que eu já sabia
fazer, decidi ir para as tranças. Eu tinha começado na fotografia, mas vi um talento muito
grande na minha irmã. Então deixei a fotografia só pra ela e me voltei para essa área das
tranças pra conseguir a minha renda.

Algumas moças que eu entrevistei não se consideram cabeleireiras, mas sim


trancistas. O que você pensa disso? Você acha que são duas profissões semelhantes ou
muito diferentes?

A principal diferença entre o trancista e o cabeleireiro é que o cabeleireiro cuida da


estrutura do cabelo; ele hidrata, corta, lava, pinta, faz escova, alisa, cacheia. As trancistas
são trancistas ou, como no meu caso e de algumas outras, são trancistas e implantistas. Ou
seja: a gente não faz esses tratamentos que o cabeleireiro faz; nós fazemos, literalmente,
implantes (ou seja: enxertos de cabelo) pra modificar o visual da pessoa. Essa é a principal
diferença. É claro que, dependendo da formação da pessoa, a trancista pode até se
considerar uma cabeleireira, sim. Mas são todos os casos porque há diferenças entre as
profissões.

E você enxerga a trança como uma arte ou um produto?

Eu não enxergo a trança como apenas uma arte porque a partir do momento que você cobra
pra fazer isso, passa a ser sim uma mercadoria. A arte não é cobrada, mas a mercadoria é.
Então a trança pode até ter começado como uma arte já que tem raízes africanas, mas no
Brasil se tornou sim uma fonte de comércio.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E como você vê esse aumento na procura por tranças, turbantes e outros símbolos da
estética negra?

Há um tempo atrás não existia essa questão de empoderamento, o negro não era visto na
sociedade como algo tão importante assim e todos nós sabemos disso. E aí a trança
começou. [Reflete] Na verdade isso não começou nem com trança, mas com o implante.
Depois, quando a trança chegou no mercado ela virou febre, virou moda. A transição
capilar, por exemplo, já é um outro patamar desse movimento: as pessoas aproveitaram a
moda da trança pra conseguir passar pela transição sem ter que, digamos, ficar careca ou
cortar o cabelo curtinho. Era a forma de ter um tipo de cabelo comprido que permitisse
prender, fazer penteados, jogar de um lado pro outro.

Algumas pessoas acreditam que a Geração Tombamento colocou o negro “na moda”.
O que você pensa sobre esse “já que é pra tombar, tombou”?

[Risos] Eu acho bom. Nas ruas as pessoas reclamam um pouco da questão da apropriação
cultural quando uma pessoa branca ou um estrangeiro usam coisas que são da cultura
negra. Só que, do meu ponto de vista, isso é como uma valorização porque muitas das
coisas que eram dos negros já foram super desvalorizadas, tanto que não eram nem
comercializadas. Hoje, quando a gente vê [essas coisas] em vários lugares eu não julgo
como algo ruim porque isso acaba trazendo pra sociedade algo que a gente sabe que é
negro e que também acaba incluindo o negro ali, naquela mídia social.

E por que você acha que quando uma pessoa branca usa coque ou rabo de cavalo, não
há tanta polêmica como quando ela coloca tranças?

Eu acho que a trança, em si, gera esse debate mais do que qualquer outro penteado porque
ela é realmente voltada pra área afro. Por mais que os vikings e outros povos usassem
tranças, a cultura onde elas mais aparecem com alto grau de importância é a africana. Mas
eu não vejo problema algum se uma pessoa branca quiser fazer um coque, uma trança ou
cachear o cabelo porque a cultura não é restrita. Quem nunca na vida usou um brinco de
pena da cultura indígena, não é mesmo?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Então você trança brancos sem problemas.

Exatamente. Não vejo problema algum porque, como eu falei há algumas perguntas antes,
a trança é um objeto de comércio; ela não é apenas cultural. A partir do momento que a
gente cobra pra fazer qualquer pessoa pode usar. Quando um perfume tá na prateleira,
qualquer pessoa pode comprar. Não é porque aquela fragrância foi elaborada por pessoas
brancas, por exemplo, que um negro não vai poder comprar aquele perfume. Então a partir
do momento que tá no comércio, na linha de compra e venda pra ser utilizado, qualquer um
pode usar.

Você chegou a comentar que algumas moças utilizam tranças durante a transição
capilar. Quero saber se você acha que as tranças nessas mulheres são usadas como
uma forma de esconder ou de valorizar o cabelo.

Ambas as coisas. Geralmente as meninas que utilizam trança na transição usam pra
esconder a raiz do cabelo, que é muito cacheada e a ponta, lisa. A trança, por estar ajustada
no couro cabeludo, também acaba estimulando o crescimento. Não é que ela vá fazer
crescer, mas ajuda bastante.

Você acha que o black causa maior impacto que as tranças?

Sim, por incrível que pareça, sim. As pessoas estão acostumadas com cabelos mais baixos
e a trança, por mais que seja da cultura afro, é um cabelo baixo, dá uma aparência mais
slim. Então quando a gente se depara com uma pessoa usando um black, a gente repara
primeiro o cabelo pra depois olhar o rosto. É isso que acontece na questão das tranças
versus o black.

E quais são os tipos de trança? Tem a trança nagô, a trança rasta… [Thaiene
interrompe]

As pessoas chamam de trança rasta sendo que rasta é uma religião, é uma cultura rastafari
que não tem muito a ver com a cultura negra; é mais aquela cultura do reggae, dos dreads.
Bem, existe a box braid (que é a trança solta), existe a trança nagô (que chamam de rasteira

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

ou trança raiz), tem a boxeadora (que é um tipo de trança nagô)... Aliás, ela tem esse nome
“boxeadora” justamente porque atletas do boxe feminino usam essa trança durante as lutas
pra evitar que o cabelo não atrapalhe.

Tem o twist, também, certo?

Sim, mas o twist não é uma trança, ele é diferente, é enrolado. São duas mechinhas que são
enroscadas uma na outra.

E quantos às técnicas de implantes como o entrelace e o crochet braid: precisa fazer


trança nagô, por baixo do cabelo implantado, certo? O que define se a trança nagô
será circular, em tiras ou triangular?

Na verdade não existe diferença entre fazer uma trança reta, redonda ou triangular; o
resultado final vai ser o mesmo porque o cabelo que vai ser costurado, amarrado ali, vai ter
o mesmo caimento. A diferença de uma pra outra é questão de adaptação da trancista ou
implantista. Existem pessoas que se adaptam mais em fazer a trança em formato de
caracol, outras que se adaptam mais em fazer a trança reta. Também existem alguns tipos
de acabamento no entrelace e no crochet em que é necessário fazer a trança reta na parte da
frente do cabelo da pessoa. Mas, no geral, não tem muita diferença, não.

A maior parte do seu público é feminina ou você também trança homens?

Meus clientes são 97% mulheres. Dificilmente homens colocam trança. Alguns homens
quando vêm trançar fazem a nagô, que é uma trança mais voltada pro lado masculino do
que pro feminino. Foram poucos os meus clientes homens que quiseram colocar entrelace
ou fazer trança solta.

Então você acha que a trança é um penteado feminino?

Não necessariamente porque a trança é muito semelhante aos dreads na aparência, então
tanto homens quanto mulheres podem fazer. É questão da pessoa se sentir à vontade com
aquele cabelo.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E do seu público 97% feminino, qual o maior motivo que leva as mulheres a fazerem
tranças?

O motivo principal mesmo é que elas fazem pra mudar. Porque a mulher tem aquela
questão de não gostar de ficar com a “mesma cara” sempre, né? Então elas vêm, colocam
tranças coloridas, roxas, rosas, prateadas… É uma questão de mudança, como se fosse uma
auto-aceitação. Mas existem aquelas que vêm colocar também por causa da transição
capilar: ou porque há pouco tempo cortaram o cabelo e não querem ficar com ele curto, ou
porque querem esconder a faixa de transição do cabelo cacheado pro cabelo alisado e não
têm coragem de cortar…

Já que você tocou no assunto, eu quero perguntar: qual é a relação das tranças e da
autoestima da mulher?

Ah, elas se sentem poderosas! Isso, inclusive, é o que mais me motiva a continuar
trançando: ver a felicidade da pessoa quando sai daqui com o cabelo diferente. As meninas
já saem daqui fazendo penteados, coques. Tem algumas que pedem licença, vão no
banheiro e se maquiam, botam salto, já saem arrasando. [Risos] E isso é muito gratificante
pra mim. Se fosse apenas por gostar de trançar talvez eu não estivesse nesse ramo até hoje
porque a trança, em si, dá muito trabalho. O que me motiva a continuar trançando é ver a
felicidade das pessoas, essa mudança de humor, o início da autoaceitação que as pessoas
entram quando trançam o cabelo.

Então esse é o ponto mais positivo do seu trabalho?

Exatamente.

E agora me fala o mais negativo, o que você realmente não curte.

O cansaço. [Risos] É muito cansativo! Às vezes eu acabo de fazer as tranças e tô com os


meus braços doendo, com as minhas pernas cansadas. Até porque não é só com tranças que

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

eu trabalho [Thaiene também trabalha em um hospital], eu trabalho todos os dias em pé. Se


eu colocasse só o cansaço como ponto de motivação eu não estaria trançando.

Eu não vou me aprofundar muito nesse ponto, mas em várias religiões a cabeça é
tratada como o centro do corpo humano. E você mexe com a cabeça das pessoas tanto
física quanto psicologicamente com esse discurso de aceitação do cabelo natural.
Algumas trancistas que eu entrevistei falaram que há uma troca de energia durante o
trançar: às vezes que elas saem da casa de uma cliente esgotada, outras vezes
revigoradas. Eu quero saber se isso é um mito, se é verdade; se você acha que rola
essa troca de energia entre você e a pessoa que está sendo trançada ou se isso é um
discurso bonito, mas que não tem muito a ver com a realidade.

Então, isso rola sim. Só que não é propriamente uma “energia”. Existem muitas questões
espirituais que envolvem a cabeça de uma pessoa. Tanto que, se não me engano, no
candomblé, quando a pessoa “faz santo” ela raspa a cabeça como se fosse uma purificação.
Já nas igrejas evangélicas as orações, se você parar pra prestar atenção, são feitas com a
imposição de mãos na cabeça e no coração. E isso realmente tem a ver, né? Não que seja
uma “energia”, mas é sim uma questão espiritual. Então realmente mexer na cabeça pode
passar um peso ou uma leveza de uma pessoa pra outra.

Mudando a temática, como você acha que a internet pode te ajudar ou te atrapalhar
na divulgação do seu trabalho?

A minha principal forma de divulgação é a internet e as pessoas que vêm trançar, que
sempre passam meu contato pra uma amiga ou conhecida. Isso ajuda muito pra pessoas
que não estão dentro do meu ciclo de amizades possam ter acesso ao meu trabalho. Só que
às vezes eu uso a minha logomarca no centro da minha foto porque já aconteceu de outras
trancistas roubarem fotos do meu trabalho pra fazerem divulgação como se o trabalho
fosse delas.

E quanto à grande diferença de valores que cada uma cobra?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Acontece isso, de competição de valores, principalmente nesses grupos [do Facebook] de


venda e divulgação de trabalho em que eles [os administradores do grupo] pedem pra
colocar valores. Aí vêm pessoas interessadas e tudo mais, mas então chega uma outra
trancista e fala “ah, eu faço a mesma coisa e mais barato”. Isso é muito ruim. Mas, em
compensação, eu tento fazer o melhor trabalho pra que o valor não seja um comparativo
tão grande quanto a qualidade do trabalho.

E você acha que as trancistas são uma classe unida? Por exemplo: a criação de um
sindicato seria viável?

Depende da questão, né. Com relação à quantidade de clientes as trancistas têm muita
rivalidade; ser humano sempre tenta ficar um em cima do outro. Mas na questão do
significado das tranças, de que elas significam resistência e empoderamento negro na
sociedade, aí sim as trancistas são bem unidas.

Agora eu quero te perguntar sobre Madureira ser o centro da moda negra e das
tranças aqui no Rio.

Então, Madureira é, vamos dizer, “o centro das implantistas e trancistas” porque lá sempre
foi um bairro de comércio popular, assim como Bangu, o mercadão de Caxias… Quando
essa questão de fazer tranças e implantes entrou em pauta o melhor lugar onde a gente
poderia conseguir um mercado vasto (tanto pra quem quer trançar quanto pra quem é
trancista e quer ter uma quantidade de clientes grande), é Madureira. Lá vive cheio!

E por último eu vou fazer a pergunta mais poética dessa entrevista: o que as tranças
significam pra você?

Ah, eu diria que as tranças significam representatividade. Porque qualquer pessoa que
esteja trançada, seja ela branca, negra, ruiva, indígena... Enfim, quando a gente vê trança a
gente logo associa à cultura africana. E pra mim isso não deixa de ser representatividade.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

26. TIARA MELLO

A entrevista com a trancista foi realizada no dia 28 de julho de 2017, no bairro de


Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Como você começou a trançar?

Eu comecei porque antes eu pagava pra fazer o meu cabelo. Aí um dia desses eles
[trancistas/implantistas de Tiara] viajaram e não tinha quem fizesse o meu cabelo porque
alguns profissionais não tinham horário disponível e eu não conhecia outras pessoas que
sabiam fazer. E eu já tinha feito um curso de trança, na verdade, mas ainda assim tinha
uma certa preguiça de fazer o meu próprio cabelo. Esse dia acabou sendo um empurrão pra
eu começar a trançar porque eu precisava viajar com um penteado bonito. A partir daí eu
comecei a trançar outras pessoas também.

Então foi por necessidade própria.

Sim. E eu também comecei a perceber que o ato de trançar é um ato de carinho com as
outras pessoas; é um momento não só de transformação externa, como também interna.
Aos poucos algumas amigas minhas que queriam trançar se ofereciam pra serem minhas
modelos pra eu poder treinar penteados diferentes. E eu fui vendo que, quando elas
chegavam, às vezes elas não estavam muito bem, com problemas de baixa estima. Só que
no trançar a gente ia conversando e aos poucos elas iam ficando melhores. Era como se
fosse uma terapia tanto pra mim quanto pra elas, sabe? É um encontro de energias
positivas. Então foi rolando, eu fui gostando e fui aprendendo outras técnicas.

E você tinha quantos anos quando aprendeu a trançar?

Quando eu comecei a trançar eu tava com uns 26, por aí. Agora eu tô com 30.

Então você trança há, mais ou menos, uns 5 anos. O que você acha desse aumento na
procura por tranças e estética afro dos últimos anos?

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Eu acredito que tudo na vida tem um aspecto positivo e um aspecto negativo. Essa Geração
Tombamento traz um aspecto positivo no sentido de afirmação, de recuperação da
autoestima, de você enxergar o que é bonito, mas que antes era negado pra gente. Isso
acaba ajudando a perceber que a gente não precisa ficar limitada a um determinado padrão
de cabelo como era antigamente, com os processos abusivos de química pra sermos
aceitas. Antes pra você conseguir passar em uma entrevista de emprego você tinha que
estar com o seu cabelo bem esticado ou com um permanente que, muitas vezes, não fazia
jus ao cacho que o nosso cabelo tem (ou que ao cacho que nós não temos). Então pra mim
essa valorização da nossa estética é muito importante: você poder se aceitar como você é
ao invés de acatar o que é imposto. Agora o negativo é que eu acho que algumas pessoas
mudam um pouco o foco; elas fizeram da estética a fonte principal de empoderamento e
não é isso. Às vezes você pega negros com um discurso muito bonito, mas que não se
aceitam; negros que, quando passam por uma situação de racismo não sabem como reagir,
como responder; que não sabem como se colocar quando são assediados porque só
aprenderam a valorizar a estética e não a si mesmos enquanto negros, sabe? É como se
essas pessoas ainda não se vissem como negras, como se elas fossem só a reprodução de
um padrão estético preto. Isso que eu acho que é o lado negativo. E também tem a
hiperssexualição e a objetificação, que muitas vezes acontecem a partir do momento que a
pessoa abraça o movimento achando que ele se baseia apenas na estética, quando na
verdade é muito mais que isso. Porque empoderar, pra mim, é mais que você ter um cabelo
que te represente como negro, é você entender que o seu corpo é político, que você é
político o tempo todo; você já nasce militando e vai militar pra sempre. A gente tá sempre
lutando contra o racismo, a gente tá sempre lutando pra ser respeitado como um ser
humano, como negro, e eu acho que é isso que a gente deve ter em mente.

Uau. [Riso geral] Bem, e voltando ao seu início como trancista, quando você percebeu
que poderia ganhar dinheiro com isso?

Eu tenho muitas sobrinhas, então eu aprendi [a trançar] pra fazer em mim e pra fazer nelas.
Os meus amigos que viram uma possibilidade de eu ganhar dinheiro fazendo cabelo dos
outros. Eles falavam “poxa, preta, você trança bem, por que você não ganha dinheiro com
isso?”, mas por fazer faculdade e trabalhar em outro seguimento fazer trança não era a
minha fonte de renda principal, era um extra: quando aparecia alguém, quando tinha

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

oportunidade de fazer eu ia lá e fazia. Agora, há uns três anos, eu comecei a fazer cabelos
com mais frequência e esse ano comecei a trabalhar só com tranças depois de ter sido
mandada embora do escritório que eu trabalhava.

Entendo. Pra você o que diferencia a trança dos outros penteados?

Quando você me pergunta a diferença da trança pra um penteado como um rabo de cavalo,
um coque e tal, eu não sei expressar pra você; talvez eu não consiga falar exatamente o que
é porque tem coisas que a gente sente e não consegue colocar de maneira tão fiel em
palavras. [Reflete] Eu me lembro de ter lido um ditado africano uma vez que dizia que se
uma mulher preta estiver triste ela deve trançar seus cabelos. Porque quando você trança é
como se você trouxesse pra fora uma força de dentro que, às vezes, você nem sabe que
tem. Quando a gente trança uma mulher ou um homem, quando a gente trança um irmão
nosso, é como se a gente tivesse transmitindo pra ele o que a gente tem de melhor e
ajudando ele a enxergar o que tem de melhor dentro de si. Porque quando você se sente
bonito e bem com você mesmo você se sente preparado pra enfrentar qualquer dificuldade
na tua vida. E durante o processo de trançar você tem tempo de refletir e talvez trocar uma
experiência; é uma coisa que a gente coloca tanta energia, tanta criatividade pra fazer, que
acaba sendo um processo gostoso, acolhedor. Eu acho que não tem como uma pessoa
sentar, fazer uma trança e ir embora pra casa do mesmo jeito que ela chegou. E isso é
diferente de quando você faz um penteado simples, como juntar o cabelo todo, fazer um
rabo de cavalo ou um coque e mandar a pessoa ir embora. Não é isso, sabe? Na trança você
fica ali sentada algumas horas e essas horas nunca são em vão porque você tem a
oportunidade de trocar histórias, energias, carinho. Se eu, por exemplo, não estiver em um
bom dia, eu prefiro nem mexer com cabelo das pessoas porque eu não quero passar pra
elas um sentimento que também não está sendo bom pra mim. E, assim, a gente se
apaixona pelos trabalhos que a gente faz porque trançar é muito mais do que ganhar
dinheiro, sabe? É transformar a vida de pessoas. Pode parecer besteira pra quem nunca fez
ou pra quem não se encaixa nesse perfil de usar tranças, pode parecer besteira pra quem
não é preto, mas pra nós não é besteira: a gente idealiza, a gente consegue se ver
representado. Acho que toda mulher preta quando olha pra uma trança consegue ver um
pouco da sua história ali.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E agora me diz o que você acha de Madureira. [Tiara sorri]

Eu acho que Madureira é um lugar onde a gente vê muito da cultura preta até porque nós
estamos em ascensão, mas a maioria de nós ainda não conseguiu conquistar os espaços
onde a branquitude se reúne. Então a gente já parte do princípio de que é aqui, na Zona
Norte e na Baixada, que tem a maior concentração de pessoas pretas. Madureira é de fácil
acesso, tem materiais mais em conta, é onde as pessoas gastam menos pra poder chegar (se
locomover da casa delas até o salão)... Acho que é por isso que aqui em Madureira as
pessoas negras se sentem à vontade: porque aqui vende o que elas têm condições de
consumir, então elas acabam preferindo frequentar mais esse espaço.

E o que você pensa sobre esconder o próprio cabelo através das tranças?

Uma coisa que eu tenho frisado é que às vezes as pessoas, principalmente as pessoas
brancas, têm a noção ou o entendimento errado de que a gente trança o cabelo porque a
gente não se aceita ou não aceita o nosso cabelo do jeito que ele é, com a estrutura que ele
tem. Só que não, a gente não trança porque a gente não aceita o próprio cabelo. Muitas
mulheres (como eu por exemplo) trançam o cabelo porque nós achamos a trança um
penteado tão lindo, tão incrível, que a gente ama andar com ele. Não é que a gente não
aceite o nosso cabelo, muito pelo contrário: a gente ama tanto o nosso cabelo que a gente
tem uma série de cuidados com ele durante o processo de colocar a trança e depois
também, quando a gente tira. Existe uma série de cuidados que a gente tem que ter. Então
se a gente não amasse o nosso próprio cabelo nós não iríamos nem ligar: a gente ia tirar um
cabelo, botar outro e isso não faria a menor diferença.

Por último eu gostaria de saber o que as tranças significam pra você.

Ah… [Sorri] A trança fortalece a gente de um jeito que parece que quando a gente tá de
trança a gente tá preparado pra enfrentar qualquer problema. Mas isso não é só com trança:
quando a gente faz entrelace, quando a gente faz crochet braid, quando a gente faz uma
[trança] boxeadora, quando a gente faz qualquer coisa no nosso cabelo que seja da nossa
cultura a gente se sente mais preparado pra encarar os problemas, a gente se sente mais a
gente. Eu acho que os penteados de raiz nos conectam com aquilo que nós somos. Porque

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

nós somos africanos em diáspora, nós somos produtos da África também. Nós somos as
tataranetas das negras que eles não conseguiram escravizar e isso é muito importante.
Então não é só um penteado, é muito mais: cada penteado conta uma história. E eu acho
que, quando a gente trança a gente só tá reproduzindo o que as nossas ancestrais fizeram, a
gente só tá se resistindo. Na verdade a gente tá re-existindo.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

27. TRANCIDEIAS

A entrevista com as trancistas Naiara Pinheiro e Natalie Akil foi realizada no dia 31
de julho de 2017, no bairro de Pilares, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Quando a gente fala sobre trança quais são as primeiras lembranças que vocês têm?

Naiara: Domingo, quando a minha mãe penteava o meu cabelo e eu chorava.

Chorava? Então é uma lembrança ruim?

Naiara: Não, não é ruim. É porque a minha mãe não sabia pentear o meu cabelo. Hoje em
dia a gente sabe que se penteia o cabelo crespo quando ele tá molhado. Na época a minha
mãe penteava o meu cabelo quando ele tava seco seco, doía muito. Então era um dia feliz
porque eu lavava o cabelo e também porque era o único dia da semana que eu ficava com o
cabelo solto: deixava ele maravilhoso, pro alto, secando no sol e quando chegava a noite
ela vinha trançar. Só que aí doía porque tava seco. Por isso era um dia feliz, mas também
“triste”.

Você tem irmãs?

Naiara: Eu tenho uma irmã que mora comigo, mas ao todo somos cinco.

Nossa, cinco meninas! Sua mãe também trançava o cabelo das suas irmãs?

Naiara: Sim.

E como a sua mãe aprendeu a trançar? Você sabe de onde surgiu o interesse?

Naiara: É porque trançar o cabelo faz parte do nosso dia a dia. E também era mais pra
gente não pegar piolho, porque o nosso cabelo era muito volumoso, muito crespo. Então
ela [mãe de Naiara] dizia “a gente vai deixar do jeitinho que o pessoal ‘gosta’ pra não ter
reclamação na escola, pra não ter um olhar torto”. Eu até tive uma aula de psicologia sobre

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

cabelo [Naiara cursa faculdade de Psicologia na Universidade Santa Úrsula] e, até então,
eu não ligava a questão de pentear o meu cabelo como um ato de proteção. Até porque no
teatro ninguém queria mexer no meu cabelo: a minha mãe fazia os meus penteados em
casa e quando eu chegava falavam “ah, tá linda, não precisa nem pentear”. No dia que as
meninas costumavam ficar com o cabelo solto na escola [faz gesto com as mãos em
direção aos ombros para demonstrar o comprimento do cabelo das colegas da escola] eu
não ficava porque não deixavam e quando as meninas iam pentear o cabelo da professora
também não deixavam e falavam: “você não sabe pentear o cabelo da professora”.

[nesse momento, Michelle Mendes, cliente de Naiara e Natalie que estava sendo trançada,
participa da conversa]:

Michelle: Eu acho que esse lance das tranças é uma coisa que a gente trouxe sempre
conosco, não somente por causa da estética, de “abaixar o cabelo”. É uma coisa que a
gente herdou. Mas eu nunca parei pra pensar nessa pergunta, tipo: “da onde?”, “desde
quando?”.

Naiara: É porque é uma coisa natural, isso acontece desde sempre: quando você nasce já é
trançada.

Natalie: Eu não tenho lembranças da minha mãe me trançando, mas desde pequena sempre
quis colocar trança. Só que a minha mãe sempre me distanciou disso, ela achava que era
algo que ia me deixar parecendo favelada, então sempre recriminou. Como na minha casa
só eu tenho cabelo crespo, era uma coisa meio “a gente tem que fazer tudo pro cabelo seu
parecer mais aceitável, então vamos alisar, vamos cortar”. A primeira vez que eu trancei
meu cabelo foi uma descoberta: eu me olhei no espelho e me reconheci esteticamente
como mulher negra.

A sua mãe é negra?

Natalie: É.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

E de que forma vocês associam a trança a uma consciência racial? As mães de vocês
incentivava a química, o cabelo natural, algo assim?

Naiara: Eu sempre usei trança, a minha mãe sempre usou trança. Meu cabelo era natural,
só que uma vizinha branca, que eu chamo de “vó”, achou que estaria ajudando a minha
mãe alisando o meu cabelo. Foi ali que eu entrei no processo de química. Quando voltei da
transição a minha mãe até perguntou “você vai deixar seu cabelo assim [natural]?” porque
ela sabe o que a gente enfrenta, então pra ela era melhor deixar liso, deixar relaxado, do
que eu voltar a ser o que era antes, voltar às minhas raízes. Mas ela não teve nenhum
posicionamento de “ah, não quero que alise”, “ah, não quero que você seja o que você é”.
Ela é mais do tipo: “O que a sociedade tá aceitando? É que você alise? Então você vai
alisar porque é menos sofrimento pra você”. Era dessa forma que ela pensava quando me
trançava pra que eu não recebesse olhares e críticas na escola.

Michelle: Comigo foi diferente. A minha mãe me trançava quando eu era criança
justamente pelo fato que a Naiara falou: era pro meu cabelo ficar mais aceitável, pra me
enquadrar na sociedade. Mas fui eu que decidi passar química no meu cabelo, então minha
mãe me passou pasta. Por que criança quer que o cabelo voe, né? E eu queria que o meu
cabelo voasse. Aí alisei. A minha mãe ficou um pouco relutante de eu alisar, mas não
porque ela achava que eu não deveria, mas por causa da minha idade (eu não me recordo
muito bem, mas eu acho que eu tinha 11 anos). Então eu alisei, gostei do resultado e a
partir daí passei pelo relaxamento, pelo permanente afro… Mas a minha mãe não usava o
cabelo natural, ela usava o cabelo de pasta. E eu comecei a alisar porque eu ia com ela no
local onde ela fazia o cabelo. Mas ela nunca teve essa iniciativa de passar química no meu
cabelo, a iniciativa foi minha. E, depois, há uns 13 anos eu tinha passado pela transição
capilar e o meu cabelo já estava completamente natural. Nessa fase a repercussão da minha
mãe sempre foi negativa: “tá horrível”, “tá horrorosa com esse cabelo duro pro alto”, “pra
que isso?”, “garota, vai abaixar esse cabelo, tá pensando que você tá bonita assim?”.
Depois de ficar um tempo com ele natural eu voltei a passar química, a fazer relaxamento,
porque eu não sabia cuidar dele direito, achei que me dava muito trabalho. Mas aí
novamente eu decidi voltar [ao cabelo natural]. Mas, tipo, a minha mãe não gosta desse
tipo de trança [aponta para o próprio cabelo, que está sendo trançado no momento], não
gosta de dread, não gosta de cabelo black… Ela acha que não tá legal, que não combina,

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

que assim você não fica “bonitinha pra sociedade”. Mas hoje eu sinceramente acho que ela
já cansou: ela não fala nada, começou a achar legal as tranças que eu faço, respeita. Mas se
você perguntar pra ela, ela vai dizer que acha legal cabelo baixo, que é o que ela faz no
cabelo dela, com o relaxamento.

Natalie: Eu tenho absoluta certeza de que a minha mãe não tem consciência da negritude
dela e nem da minha. Mas não foi ela que decidiu alisar meu cabelo, foi o meu pai. Meu
pai é claro, ele não é branco; é filho de branco com sarará. Ele decidiu que a minha mãe
deveria alisar o meu cabelo e ela acatou. Então durante 25 anos eu usei cabelo alisado,
nunca gostei e quando eu decidi assumir o meu cabelo sem saber que resultado eu teria não
pude contar com a minha mãe. Até hoje ela não gosta e manda eu relaxar o meu cabelo.
Meu pai diz que o meu cabelo é duro, que é feio. Eles [pais de Natalie] não aceitam até
hoje. Então foi uma descoberta muito solitária porque eu não tive apoio nem suporte da
minha família até porque a família da minha mãe, que é negra, talvez nunca tenha parado
pra discutir essas questões, sabe? Então a minha mãe não tem muita noção disso. Ano
passado ela tentou deixar o cabelo dela sem química (ela é cacheada, não crespa) e o meu
pai convenceu que ela tava feia até ela voltar a passar química.

E como foi o processo de aprendizado da trança? Vocês aprenderam sozinhas,


alguém ensinou… Como foi isso?

Naiara: Cara, eu não lembro quando eu aprendi a trançar. Parece que é uma coisa que tá
dentro da gente, né? Eu trançava minha boneca, eu trançava as minhas irmãs, eu trançava
todo mundo. Não me lembro do dia em que eu parei e disse “vou aprender a trançar”, é
uma coisa natural. Vai fazer dois anos que a gente [Naiara e Natalie] começou a trançar
profissionalmente. Nós entramos em cursos pra aprendermos a trançar desse modo [aponta
para a cabeça da cliente]. Eu trançava cabelo há uns três anos, passei pela transição
[capilar] de trança, só que não queria mais pagar [uma trancista] por isso. Então eu quis
aprender, entrei no curso e trançar acabou se tornando muito mais que [fazer] uma trança;
virou minha profissão e a forma com que eu me posiciono no mundo agora. Através das
tranças eu empodero mulheres, eu me empodero, eu ganho meu sustento…

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Natalie: Eu fazia aquela trança básica que todo mundo faz. Mas trançar, assim, desse jeito
aqui [aponta para a cabeça da cliente] eu não sabia. Eu também passei pela transição de
tranças, fazia o cabelo com uma [trancista] angolana. Eu já estava com ele natural há um
ano quando resolvi voltar a usar trança, só que eu não encontrava mais essa trancista.
Depois de alguns meses surgiu esse curso [que Naiara também fez] e eu fui mais ou menos
com a intenção de trançar outras pessoas, mas não tinha noção de que poderia virar uma
profissão pra mim. Não era minha pretensão virar uma trancista profissional.

Então qual era a motivação para vocês aprenderem a trançar? Era por hobby…

Naiara: Na verdade eu decidi aprender a trançar pra parar de pagar a moça que me
trançava, apenas isso. No curso a gente foi descobrindo a técnica e vendo que dava pra
trançar outras pessoas, mas quando terminou [o curso] a gente não trabalhava com isso, foi
apenas... [Pausa] um curso. Depois a gente viu que dava pra ganhar dinheiro porque o
nosso trabalho era bom e então começamos a trançar juntas. Todo mundo fala “como assim
vocês trançam juntas?”, “vocês já brigaram?”. [Risos] Só que pra gente a união fez a
diferença, não precisa competir. O mercado tá aí pra todo mundo e sempre tem gente
querendo trançar. Não precisa essa “briga”. É um trabalho desvalorizado, ainda, mas bem
vasto.

Sobre essa parte de mercado e profissão, eu quero saber como vocês encaram a
profissão de trancista: é uma arte ou um ofício?

Naiara: É uma arte que tá sendo comercializada. Muitas pessoas que trançam e até mesmo
muitas trancistas não sabem a história, a origem da trança, de onde vem ou pra onde vai;
elas seguem aquele lema “meu corpo, minhas regras, eu vou trançar e pronto”. Só que
quando a gente vai trançar alguém a gente pergunta porque a pessoa tá trançando o cabelo
e procura sempre contar um pouco da história pra que ela não se esqueça do verdadeiro
significado de trançar. É um penteado? É um penteado. Mas carrega muita história, carrega
muita essência e a gente não pode deixar isso de lado. Porque se não nós vamos estar
apenas trançando e não propagando a nossa história.

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

Agora quanto à profissão de cabeleireiro: vocês acham que se diferencia muito da de


trancista?

Naiara: As pessoas não nos veem como profissionais que cuidam do cabelo porque elas
valorizam mais uma escova do que uma trança, por exemplo. Então quando você vai passar
o seu valor [valor do trabalho] elas acham caro, mas às vezes vão pagar a mesma quantia
pro cabeleireiro e acham normal porque é uma profissão reconhecida no mercado. Ter um
salão te dá todo um diferencial, por exemplo. Tem muito cliente que a gente perde quando
a gente diz que atende em casa.

E a polêmica da apropriação cultural, o que vocês pensam sobre?

Michelle: Eu acho que essa polêmica da trança é porque ela passou a ser uma forma de
valorização e de autoestima do povo negro, então nos últimos tempos se intensificou muito
mais o uso dela. Antes até havia trança, mas não havia essa identidade. Nós retomamos ela
[trança] como um penteado nosso e daí é que eu acho que vem a polêmica tão perpetuada
nas redes sociais. Até porque antes trançar era “feio”, trançar “dava piolho”, se você
trançasse o cabelo “fedia”... Por que agora é bonito? Por que agora é legal? Você ouviu a
vida toda que aquilo não era legal e agora que a gente [povo negro] redescobriu, que a
gente tá se identificando e se reconhecendo, passa a ser maravilhoso? Eu acho que é por
isso que se problematiza tanto essa questão, apesar de eu ter um ponto de vista diferente.
Eu entendo que, sim, as tranças são nossas, mas quando o outro [pessoa não-negra] usa eu
não entendo como apropriação cultural. Pra mim quando você usa uma coisa que é minha,
no meu ponto de vista você está vangloriando, está levantando esse símbolo; você só está
provando pra você mesma que tudo que você disse antes era mentira: nunca foi feio, nunca
foi sujo, nunca deu piolho, você só não conseguia aceitar e agora você aceita tanto que
passa a usar.

Naiara: É porque, por exemplo, o dread: “ah, porque o dread é isso, é aquilo, fede”. Agora
quando passa uma branquinha na televisão [usando dread]: “nossa, que maravilhosa”. Qual
é a diferença dela colocar o dread e eu colocar [Naiara é negra de pele escura], já que são
os mesmos? Mudou só a etnia, a cor da pessoa. Parece que as pessoas dão mais valor

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A ressignificação das tranças africanas “nesse canto do mundo”: uma reportagem digital
Transcrição das entrevistas

quando tem uma modelo, uma cantora usando porque quando você passa na rua a pessoa te
xinga, faz piadinha sem graça.

Michelle: É… [Reflete] Quer queira, quer não, você se acostuma. Mas que eu vou receber
olhares [por usar tranças no cabelo] eu vou, eu sei que vai ter gente que não vai querer ser
atendida por mim [Michelle trabalha em uma clínica de estética] amanhã, quando eu
chegar com a minha trança diferente.

As pessoas preferem não ser atendidas por você por causa do seu cabelo?

Michelle: Nunca ficou tão claro. [Sorri] É aquele lance de “quem vê o racismo sou eu, não
as pessoas que estão reproduzindo”. Se a recepcionista fala “você vai ser atendida pela
Michelle” a pessoa dá aquela olhada [Michelle olha de cima a baixo], tipo “ah, você que é
a Michelle?”. [Risos] A pessoa não fala nada (até porque hoje isso gera um problema
muito maior se ela falar), mas você sente o olhar da pessoa, dá pra perceber quando ela te
olha de uma forma diferente.

E, meninas, vocês percebem que as clientes de vocês trançam por quais motivos, na
maioria das vezes?

Naiara: Olha, é muito duro dizer isso, mas a maioria começou a trançar agora porque tá na
moda. Quando eu trançava, há tempos atrás, eu era a “maluca”, a “doida” e só ouvia: “que
trança é essa?”, “que cabelo é esse?”. Eu uso trança há mais de cinco anos e na época não
tinha esse movimento todo. Mas também tem gente que usa pra passar por uma transição.
Mas na maioria das vezes realmente é porque “tá na moda”, porque “é estiloso pra tirar
foto” e não algo de retorno às raízes. Mas se tem gente que põe como forma de voltar às
raízes? Tem. Mas é mais porque tá na moda do que outra coisa.

Naiara, no começo da entrevista você disse que a sua mãe queria te proteger do
racismo pra que você fosse mais aceita e que por isso ela costumava trançar o seu
cabelo. Vocês acham, portanto, que as tranças são uma forma de esconder a textura
natural do crespo?

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Transcrição das entrevistas

Natalie: A gente falou que algumas pessoas usam trança pra passar pela transição capilar.
Só que assim como trança virou modismo, assumir o black também virou modismo. Então
tem muita gente que tá assumindo o black, mas não se prepara psicologicamente pra
enfrentar a sociedade. Eu acho muito triste você ter que se preparar pra enfrentar olhares
tortos na rua, mas essa é a realidade do nosso Brasil que se diz não-racista. Por exemplo, se
a pessoa usa trança e faz um corte pra assumir o black: muitas vezes ela não consegue lidar
com a carga que isso traz. Então a pessoa volta pras tranças e usa elas como artifício pra
esconder aquele cabelo que ela não consegue aceitar porque o outro não aceita. A gente vê,
sim, muitos casos de pessoas que ficam um ano, dois anos usando trança direto, sem
intervalos com a desculpa “ah, é que eu não sei cuidar do meu cabelo”, “é porque o meu
cabelo não faz cacho”, “é porque eu não sei pentear” quando na verdade o que ela tá
dizendo é: “a sociedade não aceita o cabelo que eu tenho, mas eu não quero voltar à
química, então vou continuar usando trança”.

Naiara: É, até porque quando elas tão no processo de transição elas costumam olhar as
blogueiras com os cachos mais maravilhosos e lindos pra se inspirar, mas não reconhecem
que têm o cabelo crespo, com uma textura diferente. E quando elas finalmente conhecem o
próprio cabelo, não se aceitam. Então ao invés de voltar a fazer química elas vêm pra
trança, pro entrelace, pro crochet…

Então vocês acham que as tranças são um penteado socialmente mais aceito do que o
cabelo black power?

Natalie: As tranças são mais aceitas dependendo de quem usa. Em um negro as tranças
causam tanto impacto quanto um black. Só que se você tá de black você “não penteia o
cabelo”, se você usa trança você “não lava o cabelo”. Então, assim, pra sociedade dá no
mesmo, o que vai diferenciar é a cor da pele: um branco de trança “é lindo”, “é
maravilhoso”; um branco de black “é lindo”, “é maravilhoso”. Um negro de black “é
relaxado”; um negro de trança “é descuidado”.

Vocês falaram bastante que as tranças atualmente são uma moda. Então me digam o
que vocês pensam da Geração Tombamento.

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Michelle: Melhor a Nati falar, porque se eu falar… Olha… [Riso geral]

Pode desabafar! [Risos]

Michelle: Pra mim a Geração Tombamento veio com o “meu corpo, minhas regras”, com o
“eu faço o que eu quiser”. Como tudo ela tem pontos positivos e negativos. Ela veio pra
dizer “eu vou usar o meu cabelo assim”, “eu vou vestir o que eu quero”, “eu vou fazer o
que eu quero porque eu tenho meu direito”. Só que eu acho que ela passa um pouco da
linha porque acaba invadindo o direito do outro. A minha geração foi aquela do “ter que
ter” cabelo baixo. A geração de agora é tipo “se você não acha que tá bonito o problema é
teu, eu acho”, “se eu quero rosa vai ser rosa e se eu quiser azul vai ser azul”. Só que
conscientização é uma coisa de dentro pra fora. Eu não acho que o cabelo fala pela mente.
É esse “dentro pra fora” que vai dizer se você tá pronta pra tombar. Eu acho que [a
Geração Tombamento] é muito mais estética, é muito mais like, é muito mais você ter
destaque; é você procurar um lugar na sociedade que antes você não tinha e que agora quer
ter e se colocar dentro desse espaço. E eu sou do [lema] “nem tanto nem tão pouco”, então
acho que a pessoa tem o direito de usar o cabelo que ela quer, sim: se ela quer rosa é rosa,
se quer azul é azul, se quer roxo é roxo; mas tem algumas coisas que ultrapassam os limites
(eu não falo em relação ao cabelo, mas à outras coisas). Mas é isso: eu acho que são
pessoas procurando atenção, procurando usar as coisas da forma que elas acham que têm
que usar e isso acaba incomodando outras pessoas porque toda coisa diferente incomoda, a
gente sabe que é assim. Então tem o ponto positivo e o ponto negativo: o ponto positivo é
que você se coloca na sociedade da forma que você quer se colocar e o ponto negativo é
que isso é uma coisa que tem que ocorrer de dentro pra fora, e não de fora pra dentro, na
minha opinião. Porque quando as pessoas fazem uma coisa pro outro poder receber e você
não tá preparado pro que o outro vai dizer… [Reflete] Quando eu “tô pronta pra tombar”
eu tô aqui pra derrubar o que você pensa e o que você pensa não me atinge. Só que não é
dessa forma que algumas pessoas [da Geração Tombamento] recebem uma opinião
contrária. Então eu não sei se essa geração é tão “tombamento” assim.

Você acha que a estética pode ajudar um indivíduo a se encontrar? Estética pode ser
resistência?

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Transcrição das entrevistas

Michelle: A estética pode ser resistência, mas só ela não sustenta o resistir.

Naiara: É, tem que ser de dentro pra fora, se não de quê adianta eu ter um cabelo pra
tombar mas não gostar dele? Agora tá tendo esse boom, todas as marcas tão vindo com
produtos pra transição capilar, etc, mas daqui a pouco essa moda vai acabar e vai ficar
realmente um vazio em quem não assimilou essa resistência.

Michelle: Eu falo isso porque, assim, isso pode ser usado como resistência? Sim. Só que a
minha resistência não pode ser só o meu cabelo. Por isso que eu digo que é de dentro pra
fora. Se você tá apostando na sua estética porque agora você se reconheceu como negra na
sociedade é porque você começou a compreender a forma com que você era vista e agora
não é mais. Mas você tem que buscar mais do que isso porque você vai se deparar com
outras situações, com outras “resistências” dos outros. E se você não tiver pronta pra isso é
você que vai ser tombada, e não “tombamento”. E isso é o que acontece com muitas
pessoas que depois vão chorar na rede social. Não que eu discorde que exista uma rede pra
gente poder te ajudar, mas tem coisas que você vê que a pessoa precisa procurar, estudar,
se conscientizar; precisa muito mais que um cabelo crespo, muito mais do que uma trança;
ela tem que ter argumentos, tem que ter fundamentos pra bancar a posição dela.

Natalie: Não adianta achar que somente a estética vai mudar alguma coisa porque não vai.
Se a consciência racial não estiver interiorizada, se a gente não tiver isso muito claro
dentro da gente, nada do que a gente fizer vai conseguir resistir ao preconceito, aos olhares
do dia a dia, aos comentários e risadinhas. Tem que ser algo que a gente vai trabalhar
primeiro dentro da gente, na nossa mentalidade, até pra não começar a pensar “poxa, será
que eu tô fazendo besteira?”, “será que eu não deveria voltar pra química?”, “será que
trança realmente não é uma coisa marginal, uma coisa feia?”. Porque isso acontece: muita
gente tem feito o caminho inverso da transição porque não tava pronta pro que a sociedade
ia dizer. A sociedade é cruel, se você não tá no padrão ela não vai te aceitar e vai deixar
isso bem claro pra você.

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