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O USO DE RECURSOS

NARRATIVOS E DE IMAGENS
NAS REDAÇÕES DE
VESTIBULAR

ADRIANO CHAN

CANDIDATO A MESTRADO NO PROGRAMA DE LINGUÍSTICA

DA FACULDADE DE CIÊNCIAS E LETRAS DE ARARAQUARA UNESP

com ênfase em linguística cognitiva

sob orientação do Professor Antônio Suarez Abreu

São Paulo, 05 de Setembro de 2019

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RESUMO

Pretende-se, no presente projeto, desenvolver uma pesquisa sobre os recursos linguísticos que
possam potencializar o desempenho de vestibulandos em suas redações. Para tanto, propomos
uma abordagem cognitiva que descreva os processos argumentativos, entendendo que os tipos
textuais dialogam entre si. O uso de narrativas para argumentar é um recurso pouco explorado
pelos professores que atendem os alunos que enfrentarão o vestibular. Além do mais, é
importante ressaltar que a organização cognitiva da narrativa pode ser transposta para a
argumentação, elevando-lhe a clareza. Processos como a temporização dos fatos e a ordem lógica
são fundamentais para otimizar resultados nas provas de maior concorrência.

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INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVAS

O grande problema que se coloca no ensino de redação para vestibulandos é a articulação do


pensamento e a mobilização entre conhecimentos e opiniões, numa prova que parece ser dotada
de uma aura de mistérios e de subjetividades na matéria de sua correção.

Valer-se de novos instrumentais teóricos oferecidos pelas ciências da cognição parece ser um
caminho interessante para propor novos modelos de ensino, sempre lembrando que a abordagem
didática deve dialogar com os processos avaliativos dessas provas sem se confundir com eles.

Nesse sentido, a questão que deve ser o cerne de nosso embate com a tradição é a da falaciosa
divisão dos tipos de textos. Se observarmos a forma como argumentamos, perceberemos que os
limites são tênues. Numa discussão sobre as trivialidades da vida, ganha quem contar as
melhores histórias. Mas, todo fato pode ser narrado sob diferentes abordagens. Por isso, é
importante repensar, com LAKOFF (2008), que a narração deve ser concebida como um
esquema mental que serve a diversos propósitos. Narrar é, em última instância, mostrar uma
sequência de acontecimentos que nos permitem projetar nossos juízos de valores. Ou seja, narrar
é dissertar. E dissertar é argumentar.

Assim, prova-se que a natureza predominante da argumentação humana é dedutiva. Observamos


a realidade que nos cerca para dela tirar nossas opiniões. Não usamos teses pré-concebidas para
formular nossas percepções da realidade como ensinam os modelos tradicionais em que a tese do
texto deve vir pré-anunciada e já acompanhada dos argumentos que a provarão.

Nesse sentido, será preciso distinguir a narratividade dos fatos da narratividade do próprio
processo redacional, como propõe TOBIN (2018). A surpresa e o suspense fazem parte do
espanto de descobrirmos o mundo com o mesmo susto que uma criança tem ao se ver rodeada de
novidades. É preciso levar em conta a narrativa de como nosso pensamento se processa. Nesse
sentido, ao resolvermos uma questão de matemática, também temos diante de nós um conflito,

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um plot, uma situação inicial e uma situação final. A mente opera de forma linear como numa
narrativa cronológica e não linear como numa narrativa psicológica. Essas escolhas definem a
metodologia de nossas argumentações. Ensinar o vestibulando a pensar dessa maneira seria
propor-lhe desmitificar o véu das fórmulas e oferecer-lhe o prazer de desnudar-se em estilos de
escrita autóctones sem fórmulas pré-concebidas. Mas até a transição entre as metodologias deve
ser considerada. Afinal, são contos, crônicas, romances que se desenvolvem em situações reais
de resolução de problemas.

Por isso, pensaremos na proposta de estudar as dissertações sob o ponto de vista de suas
narrações - sejam como processos factuais ou como desenvolvimento cognitivo.

OBJETIVOS

- Estudar as dissertações do ponto de vista da cognição valendo-se das narrativas como


estratégias de argumentos;
- Descrever a analogia entre os processos narrativos e argumentativos em textos de
vestibulandos;
- Desenvolver uma metodologia de ensino, libertando mestres e aprendizes de fórmulas pré-
concebidas;
- Inscrever no domínio da argumentação a metáfora e a metonímia como recursos que visem
à clareza.

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS

O presente trabalho será embasado principalmente nas teorias de LAKOFF (2009), TURNER
(2014) e TOBIN (2018).
A primeira definição de metáfora foi feita, na Grécia Antiga, por ARISTÓTELES (2003), que a
definiu como “a transferência do nome de uma coisa para outra, ou do gênero para a espécie, ou
da espécie para o gênero, ou de uma espécie para outra, ou por analogia”. A definição clássica,
com bases aristotélicas, é a de que uma ou mais palavras são usadas fora de seu significado
convencional para expressar um outro significado. Outro ponto clássico é que as metáforas
restrigem-se apenas à linguagem poética, e não são encontradas na linguagem convencional.

LAKOFF (1980, 1992) e SPERBER & WILSON (2008) vão de encontro às idéias clássicas,
afirmando que as metáforas não são somente utilizadas na linguagem poética, mas fazem parte
da comunicação cotidiana. Há, entretanto, um grande contraste entre as teorias. Enquanto
LAKOFF afirma que a metáfora é parte do sistema cognitivo humano, estando, dessa forma, no
pensamento, e não somente na linguagem, para SPERBER & WILSON, a metáfora faz parte da
linguagem, e não pode ser tratada distintamente da linguagem literal, por exemplo. LAKOFF &
JOHNSON (1980) propõem que as metáforas não são encontradas nas regras gramaticais ou nos
léxicos, mas no sistema conceptual que subjaz à língua. Entender a metáfora significa perceber
que há dois domínios cognitivos que estão sendo mapeados, ou seja, há uma projeção de dois
domínios conceptuais: o domínio origem, de natureza concreta e experiencial, e o domínio alvo,
de caráter abstrato. O mapeamento entre os conceitos constitutivos da metáfora seria a relação
existente entre o domínio origem que permite melhor compreender o domínio alvo.

TURNER (2014), por sua vez, demonstrará como a mente literária tem caminhos eficazes para
atender a princípios argumentativos e pragmáticos. O linguista cognitivo desenvolve o
surgimento das ideias como resultado de um processo denominado Blending.

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Ou nossas ideias nascem conosco, ou alguém nos conta uma ideia, e podemos carregá-la
conosco, criando outras ideias a partir dessa, uma sobre a outra. Isso ocorre porque nós somos a
origem de novas ideias. Todos nascemos com essa centelha de criatividade e de entendimento de
novas ideias. Essa centelha de criatividade humana vem de nossa habilidade de
construir blendings (um tipo de ação inconsciente que combina pensamentos).

Nossa forma de pensar seria totalmente diferente sem o blending, seria algum tipo de soma linear
de pensamentos. Nosso cérebro está a todo momento tentando fazer blending inconscientemente.
Quaisquer dois elementos mentais ativados simultaneamente são candidatos a se transformar em
blending.

Por fim, TOBIN(2018) propõe o “curse of knowledge” (maldição do conhecimento), um dos


muitos vieses cognitivos, que ela define como: “the more information we have about something
and the more experience we have with it, the harder it is to step outside that experience to
appreciate the full implications of not having that privileged information”.

No fundo, é o problema que surge sempre que temos que explicar a alguém alguma coisa, para a
qual é necessário um determinado contexto, detendo nós o contexto e a outra pessoa não.
Acontece todos os dias em sala de aula, mas acontece sobre as coisas mais simples, quando, por
exemplo, queremos explicar algo que acontece num filme a alguém, mas a pessoa não percebe
sem lhe explicarmos todo o enquadramento do filme primeiro. O que este viés nos diz é que,
normalmente, não nos apercebemos dessa diferença de posse de informação, ou, se nos damos
conta, não percebemos a diferença que ela comporta para a compreensão do que se está a dizer.

Como sempre afirma o professor ABREU, em seu grupo de estudos GEPELIC, o que importa
não são os fatos, mas a percepção dos fatos.

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Esses conceitos serão transpostos para a descrição de processos utilizados na elaboração de
dissertações para vestibulares mais criativas, que atenderão melhor às exigências dos critérios de
avaliação no que se diz a respeito à informatividade e à coerência.

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METODOLOGIA

Após apresentar os prolegômenos a partir de conceitos selecionados do corpo de teóricos,


pretende-se fazer uma seleção de textos produzidos por alunos do Laboratório de Redação
Adriano Chan que apresentem diferentes níveis de notas.

Será feita uma análise dos casos isolados, tendo em vista os problemas de linguagem e de
argumentação valendo-se do arcabouço da teoria cognitiva. Levantar-se-ão os diversos aspectos
de ordem gramatical que truncam os discursos desses alunos. Com os autores do corpus, será
realizada uma entrevista a fim de identificar a narrativa de suas ideias. Como tais pensamentos se
organizaram? Como o aluno construiu sua opinião? Como ele acionou este ou aquele
conhecimento de seu repertório para construir sua linha de raciocínio? Por que as escolhas
linguísticas e argumentativas foram essas?

Coletados tais dados, será proposto um exercício de reescrita dos textos pensando-se os
problemas detectados a partir do referencial teórico. Nessa reflexão, as ideias de DAMASIO
(2017) serão de grande valia. Em seu livro A Estranha Ordem das Coisas, o cientista português
propõe que cultura e linguagem façam parte da homeostase, que, desde BERNARD (1865), deve
ser entendida como a tendência ao equilíbrio de todo ser vivo. Ou seja, os aspectos
antropológicos e sociológicos passam a ser balanceados. Esse senso de ergonomia linguistica nos
guiará tanto do ponto de vista dos recursos gramaticais empregados para otimizar a construção
das imagens quanto da ótica sobre a natureza dos argumentos.

O processo evolutivo desses textos, que deverão ser produzidos em séries de até cinco rescritas,
evidenciará a hipótese de como os argumentos têm uma narrativa para seu engendramento e para
sua sustentação. Cada um desses níveis está sempre relacionado a algum aspecto natural da
gramática pragmática que será analisada sob a proposta gramatical de ABREU (2017).

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Assim, o cruzamento entre o processo gramatical e a construção narrativa do argumento
oferecerá ferramentas para explicar os erros cometidos pelos autores dos textos e oferecer-lhes
uma profilaxia adequada.

O material produzido para tais exercícios também constituirão produto dessa pesquisa, uma vez
que eles seriam a proposição inicial que inaugura o problema cujo desfecho se concretizará na
redação do aluno.

Sempre tendo em mente que a narrativa é o modo mais cômodo - porque é o mais humano - de
comunicar-se; propomo-nos a construir um texto orgânico em que se perceba nitidamente o
paralelo entre episódios narrados e a argumentação que a partir deles se sustenta.

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CRONOGRAMA

PRIMEIRO SEMESTRE:
- Coleta de textos para o córpus;
- Fichamento do bibliografia;

SEGUNDO SEMESTRE:
- Descrição dos procedimentos usados nas redações dos córpus;
- Entrevista com os autores dos textos;
- Oficina com os autores dos textos;
- Coleta dos textos rescritos após intervenção.

TERCEIRO SEMESTRE
- Análise de dados obtidos;
- Descrição quântica e qualitativa de erros;
- Elaboração da dissertação.

QUARTO SEMESTRE:
- Qualificação e defesa da dissertação.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BÁSICAS

ARISTÓTELES. Arte Poética. São Paulo: Martin-Claret. 2003.

ABREU, Antônio Suárez. A arte de argumentar. Gerenciando razão e emoção, v. 2, 2000.


——————————-. Curso de redação. São Paulo, Ática, 1999.
_____________________. Gramática Integral da Língua Portuguesa. São Paulo, Atelier, 2018.

BERNARD, C. Introduction à l’étude de la mèdecine expèrimentale. Paris: Bailliere, 1865.

DAMASIO, A. The Strange Order of Things: Life, Feeling, and the Making of Cultures. NEW
YORK: Random House, 2017.

LAKOFF, G. The Contemporary Theory of Metaphor. In: ORTONY, A. Metaphor and Thought.
Cambridge: Cambridge University Press. 1992.
___________. The Political Mind. London: Penguin Books, 2008.
LAKOFF, G. & JOHNSON, M. Metaphors We Live By. Chicago: Chicago University Press.
1980.

SPERBER, D & WILSON, D. Relevance: Communication and cognition (2nd ed.) Oxford:
Blackwell. 1995.
__________________________.A Deflationary account of metaphor. In: GIBBS, R. The
Cambridge Handbook of Metaphor and Thought. Cambridge: Cambridge University Press. 2008.

TOBIN, V. Elements of Surprise. Cambridge: Harvard University Press, 2018.

TURNER, M. The Origin of Ideas: Blending, Creativity, and the Human Spark. Oxford: Oxford
University Press, 2014.

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