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MICROECONOMIA 1

Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia


Notas de Aula 16 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

TEORIA DA FIRMA
Na primeira parte do curso, analisamos o comportamento dos consumidores. Desse comporta-
mento, obtivemos a demanda por um bem, quase sempre decrescente no seu preço. Vamos analisar
o comportamento das firmas nessa parte do curso. Desse comportamento, vamos obter a oferta
de um bem, que será crescente no seu preço. O comportamento desses dois agentes pode levar a
uma situação de equilı́brio no mercado do bem estudado, onde a quantidade demandada iguala a
quantidade produzida, por meio de ajustes no preço do bem.

1 Conjunto de Possibilidade de Produção


Uma firma é uma entidade que transforma insumos em produtos, por meio de uma tecnologia
de produção. A figura abaixo ilustra esse processo.

INSUMOS - FIRMA - PRODUTOS

A tecnologia de uma firma descreve então a sua capacidade de produzir bens usando insumos
de produção (também chamados de fatores de produção). Por exemplo, uma padaria consegue
produzir 1000 pães por dia se usar um espaço de 30m2 , dois padeiros, três ajudantes, farinha,
ovos, etc. A tecnologia descreve a limitação técnica da firma, definida por leis da natureza e pela
tecnologia existente.
Note que medimos insumos e produtos como fluxos no tempo. No exemplo acima, o perı́odo
de tempo considerado foi de um dia. Podemos considerar perı́odos mais longos, como um mês ou
um ano. O importante é que todos os insumos e produtos sejam calculados para o mesmo perı́odo
de tempo.
Normalmente, agregamos insumos de produção em alguns poucos fatores, como trabalho, capital
e terra. Capital, por exemplo, se refere a um insumo agregado, que inclui tanto capital financeiro

1
(depósitos em um banco que a firma tem, etc) como capital fı́sico (máquinas, tratores, ferramentas,
etc).
O modo mais simples de representar a tecnologia de uma firma é por meio do conjunto de
possibilidade produção (CPP), definido como o conjunto de todas as combinações de insumos e
produtos disponı́veis para a firma. Vamos denotar o CPP de uma firma por Y ⊂ Rm , onde m é
a quantidade total de bens e serviços considerados na análise. Um vetor y ∈ Y é chamado plano
de produção. A convenção usada é de que se o bem i é um insumo lı́quido da firma (isto é, a
firma utiliza mais desse bem na produção do que é capaz de produzir ou caso não seja capaz de
produzi-lo), a coordenada i de y é negativa (yi < 0). Se o bem i é um produto lı́quido da firma (isto
é, a firma produz mais desse bem do que o consome no processo produtivo), então a coordenada
i de y é positiva (yi > 0).
Logo, o conjunto de possibilidade de produção de uma firma é composto por listas de bens
que descrevem o que pode ser produzido (coordenadas positivas) e o que deve ser usado nessa
produção (coordenadas negativas). A figura abaixo ilustra um exemplo desse conjunto para o
caso de apenas um insumo (ou fator de produção), denotado por x1 e um produto (ou bem final ),
denotado por x2 .

x2
6

Conjunto de Possibilidade de Produção


Usando a convenção que adotamos,
 o insumo é um número negativo

*

  e o produto, um número positivo.




- x1

Existem diversas hipóteses que podem ser feitas a respeito do conjunto de possibilidade de
produção. Cada hipótese é uma restrição diferente sobre a tecnologia da firma. Certas hipóteses
podem ser válidas para determinadas tecnologias, mas não serem válidas para outras. Abaixo
listamos e interpretamos o significado de algumas das hipóteses que podem ser feitas a respeito
do conjunto de possibilidade de produção Y ⊂ Rm .

2
1. Y 6= ∅: existe algum plano de produção que a firma pode utilizar. Logo, alguma coisa é
possı́vel de ser feita.

2. 0 ∈ Y : possibilidade de inação, a firma pode decidir não usar nenhum insumo e não produzir
nada. De outro modo, sem nada não produzimos nada.

3. Y é conjunto fechado: hipótese de caráter técnico, impõe uma condição de regularidade sobre
o CPP.

4. Y ∩ Rm
+ = {0}: impossibilidade de produção sem o uso de insumos. Portanto, para produzir

alguma coisa, é necessário usar algum ou alguns insumos.

5. Se y ∈ Y , então para todo ŷ ≤ y, ŷ ∈ Y (ou Y − Rm


+ ⊂ Y ): se uma dada quantidade de

insumos é suficiente para produzir uma determinada quantidade de bens finais, então uma
quantidade maior desses insumos é capaz de produzir essa mesma quantidade de bens finais.
Essa hipótese é válida caso a firma possa descartar insumos sem custo algum. Por isso, ela
tem o nome de hipótese de descarte livre (no inglês, “free-disposal ”).

6. Se y ∈ Y , y 6= 0, então −y 6∈ Y : (irreversibilidade) impossı́vel reverter a produção. Uma vez


produzido o bem final, é impossı́vel “desmontá-lo” e obter todos os insumos que foram usados
na sua fabricação. Isso é razoável, se lembrarmos que um insumo essencial na produção de
qualquer bem é trabalho.

7. Se y ∈ Y , então ty ∈ Y , para todo t ∈ [0, 1]: qualquer plano de produção pode ser
reduzido de forma proporcional. Nesse caso, dizemos que a tecnologia apresenta retornos
não crescentes de escala.

8. Se y ∈ Y , então ty ∈ Y , para todo t ≥ 1: qualquer plano de produção pode ser aumen-


tado de forma proporcional. Nesse caso, dizemos que a tecnologia apresenta retornos não
decrescentes de escala.

9. Y + Y ⊂ Y : (aditividade) Se y é um plano de produção, então ky, para k = 1, 2, 3, . . . , é


também um plano de produção. Logo, é possı́vel replicar planos de produção.

10. Se y ∈ Y , então ty ∈ Y , para todo t ≥ 0: essa hipótese é mais forte do que a anterior: agora
existe a possibildade de replicar a produção, sem problemas de divisibilidade. Logo, se y é
um plano de produção, então 0, 5y também é um plano de produção. Nesse caso, dizemos
que a tecnologia apresenta retornos constantes de escala.

3
11. Y é um conjunto convexo (se y e y0 pertencem a Y , então αy + (1 − α)y0 pertence a Y ,
para todo α ∈ [0, 1]): qualquer combinação linear de dois planos produção é um plano de
produção. Essa hipótes exclui a possibilidade de a tecnologia apresentar retornos crescentes
de escala.

12. Y é um cone convexo (se y e y0 pertencem a Y , então αy + βy0 pertence a Y , para todo
α ≥ 0, β ≥ 0): essa hipótese garante que a tecnologia apresenta retornos constantes de
escala e é um conjunto convexo.

Outras hipóteses também podem ser feitas, de modo que descrevam propriedades que o con-
junto de possibilidade de produção satisfaz, caracterizando, desse modo, a tecnologia da firma.
Como a partir de agora vamos lidar com funções de produção, discutiremos algumas dessas re-
strições sobre a tecnologia no contexto de funções de produção.

2 Função de Produção
Se a firma produz apenas um bem, a fronteira do conjunto de possibilidade de produção
descreve o nı́vel de produção tecnologiamente eficiente, em que não ocorrem desperdı́cios. Logo, ela
diz o máximo que pode ser produzido, dada a quantidade de insumos considerada. Essa fronteira
pode ser decrita por uma função, chamada função de produção. Portanto, a função de produção
relaciona a quantidade máxima do bem final que a firma pode obter, dados os insumos utilizados.
Vamos analisar apenas firmas que produzem um único produto. Firmas que produzem mais de
um produto exigem uma análise mais elaborada, que deverá ser vista no curso de organização
industrial.
Suponha que a firma utiliza n insumos, x1 , x2 , . . . , xn . A função de produção é representada
por:
y = f (x1 , x2 , . . . , xn )

No caso de dois bens, é comum denominar um dos insumos trabalho, denotado por l, e o outro,
capital, denotado por k. Quando lidamos com funções de produção, abandonamos a convenção de
representar insumos por números negativos, já que não há perigo de confusão do que representa
insumo e do que representa bem final.
Uma isoquanta descreve essas combinações de insumos que produzem a mesma quantidade do
bem final. Isoquanta é um conceito da teoria da firma similar ao conceito de curva de indiferença,
visto na teoria do consumidor. Existe, porém, uma diferença fundamental entre os dois conceitos:

4
enquanto o nı́vel de utilidade associado à curva de indiferença não tem significado econômico, o
valor associado à isoquanta tem significado preciso: é a quantidade do bem final produzido. Uma
isoquanta pode ser definida, em termos da função de produção, como:

Q(y) = {x ≥ 0; f (x) = y},

onde x = (x1 , x2 , . . . , xn ) representa um vetor de insumos.

Em algumas situações, vamos supor que a função de produção satisfaz as seguintes pro-
priedades:

1. f (0) = 0: nada produz nada;

2. Contı́nua: uma mudança pequena nos insumos não altera muito a quantidade produzida;

3. Estritamente crescente (fi (x1 , x2 ) > 0, para todo insumo i, onde fi = ∂f /∂xi ): se aumen-
tarmos o uso de um insumo, aumentamos a produção;

4. Estritamente quasecôncava: se as quantidades de insumos (x1 , x2 ) e (y1 , y2 ) produzem a


quantidade y de produto, então a média ponderada dessas quantidades produzirá uma quan-
tidade maior do que y unidades do produto.

O primeiro item diz que nada não produz nada (equivale à propriedade 0 ∈ Y para CPP).
O segundo item diz que mudanças pequenas nos insumos mudam pouco o nı́vel de produção.
Além disso, vamos supor também que a função de produção possui derivadas primeiras e segundas
contı́nuas em todos os pontos. O terceiro item diz que usar mais de um insumo produz mais do
bem final. Observe que se vale a propriedade de descarte livre, na qual a firma pode descartar
qualquer insumo sem nenhum custo, então devemos ter que fi (x1 , x2 ) ≥ 0, para todo insumo.
A intuição do último item é similar a ituição da propriedade de quaseconcavidade estrita para
funções de utilidade. Uma função de produção é estritamente quasecôncava se a seguinte condição
é válida:

∀x, x0 ∈ Rn+ , x 6= x0 , temos que f (tx + (1 − t)x0 ) > min{f (x), f (x0 )}, ∀t ∈ (0, 1)

Se a função de produção é estritamente quasecôncava, então os dois insumos são conjunta-


mente importantes na produção. Graficamente, essa condição diz que as isoquantas terão formato
convexo com relação à origem, como ilustra a figura abaixo. Logo, combinações de tecnologias
diferentes, que produzem a mesma quantidade, produzem uma quantidade maior do bem final. Na
figura abaixo, observe que as cestas de insumos A e B produzem a mesma quantidade e qualquer
combinação dessas cestas de insumos produzem uma quantidade maior do bem final.

5
Capital
6 Suponha que as combinações de insumos (k1 , l1 ) e
(k2 , l2 ) produzem a mesma quantidade de bem final.
Se a função de produção é estritamente
quasecôncava, então a isoquanta será convexa.
k1 sA
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q B
k2 Qs
Isoquanta Q(y)

-
T rabalho
l1 l2

2.1 Produto Marginal


A função de produção relaciona insumos com a quantidade produzida do bem final. Se derivar-
mos essa função com relação a algum dos insumos, determinamos o produto marginal desse insumo:

∂f (x)
P Mi (x) = = fi (x), i = 1, . . . , n
∂xi

O produto marginal do trabalho, por exemplo, mede o quanto a produção aumentará se aumen-
tarmos (um pouco) a quantidade de trabalho usada, mantendo a quantidade dos outros insumos
fixa.
Se a propriedade de descarte livre dos insumos é válida, então a firma pode dispor de insumos
sem incorrer em custo algum. Logo, a produtividade marginal de um insumo será sempre não-
negativa (P Mi (x) ≥ 0, para todo insumo i). Nesse caso, se aumentarmos o uso do insumo, o nı́vel
de produção não diminuirá.
A lei do produto marginal decrescente diz que o produto marginal de qualquer insumo
decresce à medida que usamos mais desse insumo, mantendo o uso dos outros insumos inalterado.
Ou seja, se a firma mantém a quantidade de capital fixa e vai acrescentando trabalhadores na sua
linha de produção, cada novo trabalhador adicionado trará um acréscimo na produção igual ou
menor ao trabalhador que foi empregado antes dele. Essa propriedade é razoável e está ligada à
idéia de exaustão dos fatores. Mesmo que para certos intervalos de produção ou uso de insumos
ocorra que o aumento de um insumo, mantendo os outros fixos, aumente a produccão de maneira
mais que proporcional, é de se esperar que se a firma continuar a aumentar a quantidade deste

6
insumo, sem aumentar as quantidades dos outros insumos, chega uma hora que esse acréscimo do
insumo passa a trazer acréscimos cada vez menores na produção.
Se a lei do produto marginal decrescente é válida para qualquer nı́vel de uso dos insumos,
temos que:
∂P M gi (x) ∂ 2 f (x)
fii (x) = = ≤ 0,
∂xi ∂x2i
para todo insumo i, i = 1, 2, . . . , n.

2.2 Taxa Técnica de Substituição


A taxa técnica de substituição (TTS) entre dois insumos mede o quanto a firma deve abrir
mão de um desses insumos e acrescentar do outro insumo para continuar produzindo a mesma
quantidade do bem final. A TTS entre os insumos i e j pode ser obtida do seguinte modo. Suponha
que alteramos os insumos i e j em dxi e dxj de modo a manter o nı́vel de produção inalterado
(dy = 0). Supondo apenas dois insumos, a fórmula da diferencial total diz que:

∂f (x1 , x2 ) ∂f (x1 , x2 )
dy = dx1 + dx2
∂x1 ∂x2

Como a alteração nos insumos 1 e 2 é de modo que o nı́vel de produção não se altera (dy = 0),
obtemos:
dx2 f1 (x1 , x2 ) ∂f
T T S12 = =− , onde fi = , i = 1, 2
dx1 f2 (x1 , x2 ) ∂xi
A TTS é o análogo para a teoria da firma da taxa marginal de substituição da teoria do
consumidor. Ela mede a inclinação da isoquanta no ponto calculado. Se a TTS for decrescente em
valor absoluto, então as isoquantas são convexas com relação à origem: à medida que percorremos
a isoquanta, a TTS decresce em valor absoluto.

3 Exemplos
Vamos ver alguns exemplos de funções de produção e das isoquantas que geram. As funções
de produção listadas abaixo têm a mesma forma das funções de utilidade que vimos na teoria do
consumidor.

1) Proporções fixas (tecnologia de Leontieff ). Uma tecnologia de proporções fixas exige


que para se produzir uma certa quantidade do bem final, os fatores de produção sejam usados
em proporções fixas. Portanto, não existe nenhum grau de substituição entre os fatores - a firma

7
não pode diminuir o uso de um insumo e aumentar o uso de outro, mantendo o nı́vel de produção
constante. A função de produção dessa tecnologia no caso de dois insumos é:

y = f (min{ax1 , bx2 }),

onde f : R → R é uma função estritamente crescente e a e b são números positivos.


As isoquantas dessa função de produção têm a mesma forma das curvas de indiferença de bens
complementares perfeitos. Para o caso de dois insumos, a figura é:

x2
6
Isoquantas y = f (min{x1 , x2 })

y2 > y1 unidades


y1 unidades

-
x1

2) Substitutos perfeitos. Nesse tipo de tecnologia, os fatores de produção podem ser perfeita-
mente substituı́dos um pelo outro, para qualquer nı́vel de produção. Portanto, existe grau máximo
de substituição entre os fatores - a firma pode diminuir o uso de um insumo e aumentar o uso de
outro, mantendo o nı́vel de produção constante. A função de produção dessa tecnologia no caso
de dois insumos é:
y = f (ax1 + bx2 ),

onde f : R → R é uma função estritamente crescente e a e b são números positivos.


As isoquantas dessa função de produção têm a mesma forma das curvas de indiferença de bens
substitutos perfeitos. Para o caso de dois insumos, isoquantas são ilustradas na figura abaixo.

8
x2
6
Isoquantas y = f (x1 + x2 )
@ Quanto mais afastada da origem,
@ maior o nı́vel de produção
@
 @ que a isoquanta representa.
@
@ @
@ @
@ @
@ @
@ @
 @ @
@
@ @ @
@  @ @
@ @ @
@ @@ @
@ -
x1

3) Cobb-Douglas. Nesse tipo de tecnologia, os fatores de produção podem ser substituı́dos


um pelo outro, mas não de forma perfeita. Portanto, existe algum grau de substituição entre os
fatores - a firma pode diminuir o uso de um insumo e aumentar o uso de outro, mantendo o nı́vel
de produção constante. A função de produção de Cobb-Douglas para o caso de dois insumos pode
ser representada por:
y = f (Axα1 xβ2 ),

onde f : R → R é uma função estritamente crescente e A, α e β são números positivos.


As isoquantas dessa função de produção são convexas, como a figura abaixo ilustra.

x2
6
Isoquantas
Tecnologia Cobb-Douglas

y2 > y1

y1

-
x1

9
4 Elasticidade de Substituição
A TTS mede a inclinação de uma isoquanta. A elasticidade de substituição é uma medida da
curvatura de uma isoquanta. Para o caso de dois insumos, a elasticidade de substituição entre os
insumos 1 e 2 é definida como:
   
   
x2 f1 x2
d ln x1
d ln f2
d xx21
x1
σ12 = =   =   
d ln (|T T S1,2 |) d ln ff12 x2
d ff12
x1

Exemplo: Cobb-Douglas. A elasticidade de substituição entre os dois insumos de uma função


de produção Cobb-Douglas é igual a um. Vamos derivar esse resultado. Primeiro observe que os
produtos marginais da função Cobb-Douglas f (x1 , x2 ) = xα1 xα2 são:

f1 (x1 , x2 ) = αxα−1
1 x1−α
2

f2 (x1 , x2 ) = (1 − α)xα1 x−α


2

Portanto,
     
f1 (x1 , x2 ) α x2 f1 (x1 , x2 ) α x2
|T T S12 (x1 , x2 )| = = ⇒ ln = ln + ln
f2 (x1 , x2 ) (1 − α) x1 f2 (x1 , x2 ) (1 − α) x1
E então obtemos:
   
x2
d ln x1
d ln xx12
σ12 (x1 , x2 ) = =   =1
d ln (|T T S12 (x1 , x2 )|) d ln ff21 (x
(x1 ,x2 )
1 ,x2 )

Podemos encontrar esse mesmo valor sem linearizarmos a relação entre T T S12 e x2 /x1 :
     
f1 x2     d x2
f2
d x1 f1 x1 x1

αxα−1 x21−α
 
x1 1 − α
1
σ12 =     =   = −α =1
x2
d f1 f2 x 2 d f1 (1 − α)xα1 x2 x2 α
x1 f2 f2

Vamos agora estudar a função de produção CES (elasticidade de substituição constante), que
possui como casos especiais todas as três funções já vistas anteriormente. Essa função de produção
para o caso de dois bens é dada por:
1
f (x1 , x2 ) = (xρ1 + xρ2 ) ρ , ρ < 1, ρ 6= 0

Vamos confirmar o fato de que essa função possui uma elasticidade de substituição constante.
Os dois produtos marginais são:
1 ρ 1 1
f1 (x1 , x2 ) = (x1 + xρ2 ) ρ −1 ρxρ−1
1 = (xρ1 + xρ2 ) ρ −1 xρ−1
1
ρ
1 ρ 1 1
f2 (x1 , x2 ) = (x1 + xρ2 ) ρ −1 ρxρ−1
2 = (xρ1 + xρ2 ) ρ −1 xρ−1
2
ρ

10
Portanto,
 1−ρ    
f1 (x1 , x2 ) x2 x2 1 f1 (x1 , x2 )
|T T S12 (x1 , x2 )| = = ⇒ ln = ln
f2 (x1 , x2 ) x1 x1 1−ρ f2 (x1 , x2 )

O que resulta em:  


x2
d ln x1 1
σ12 = =
d ln (|T T S12 |) 1−ρ

As seguintes funções são casos especiais da função CES:


1
lim (xρ1 + xρ2 ) ρ = xα1 x21−α , lim σ12 = 1
ρ→0 ρ→0
1
lim (xρ1 + xρ2 ) ρ = x1 + x2 , lim σ12 = +∞
ρ→1 ρ→1
1
lim (xρ1 + xρ2 ) ρ = min{x1 , x2 }, lim σ12 = 0
ρ→−∞ ρ→−∞

Portanto, a função de produção CES engloba diversos graus de substituição entre os insumos.
As figuras abaixo ilustram diferentes tipos de isoquantas geradas por essa função.

x2 x2 x2
Isoquantas y = min{x1 , x2 } β
Isoquantas y = xα
6 6 6
1 x2 Isoquantas y = x1 + x2

@
 @
 @
y2 = 10 unidades
@ @
@ @
 y1 = 5 unidades @
@ @ @
@ @@
- - @ @ @ -
x1 x1 x1

Caso σ → 0 Caso σ → 1 Caso σ → ∞


(ρ → −∞) (ρ → 0) (ρ = 1)

Observe que a função de produção CES definida acima é homogênea de grau um (ou homogênea
linear ), ou seja, vale que:
f (tx1 , tx2 ) = tf (x1 , x2 ),

para todo t ≥ 0. Essa propriedade significa que se aumentarmos a escala de produção (ou seja, o
uso dos insumos (x1 , x2 ), em uma determinada proporção t, então a produção aumenta na mesma

11
proporção t. Nesse caso, dizemos que a tecnologia apresenta retornos constantes de escala.
Para confirmar essa propriedade, basta notar que:
1 1 1
f (tx1 , tx2 ) = ((tx1 )ρ + (tx2 )ρ ) ρ = (tρ xρ1 + tρ xρ2 ) ρ = t (xρ1 + xρ2 ) ρ = tf (x1 , x2 )

A homogeneidade linear impõe uma estrutura adicional na função de produção e, portanto, na


tecnologia da firma. Essa hipótese tem uma importância grande na teoria e em trabalhos empı́ricos.
A função CES, apesar de gerar várias funções diferentes, impõe uma estrutura considerável sobre
a tecnologia: a elasticidade de substituição é a mesma para qualquer nı́vel de produção e qualquer
combinação de uso de insumos.

Além disso, pode ser provado que se a função de produção for quasecôncava, a elasticidade de
substituição será maior ou igual a zero. A quaseconcavidade da função de produção está ligada,
portanto, a possibilidade de substituição do uso de insumos no processo produtivo.

Leitura Recomendada

• Varian, caps. XX - “abc”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. XX - “abc”, seções YY.

• Hall e Lieberman, cap. XX - “abc”, seções YY - “abc” - e ZZ - “def”.

• Nicholson e Snyder, cap. 9 - “Production Functions”.

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MICROECONOMIA 1
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Notas de Aula 17 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 O Problema da Firma
O lucro de uma empresa é a diferença entre a receita gerada pela venda da sua produção menos
os custos dos fatores usados nessa produção. Para a firma que produz um único bem, a sua receita
é dada pela quantidade vendida do produto, p × y. Como a função de produção descreve a relação
entre insumos e quantidade produzida, temos que a receita da firma é igual a p × f (x1 , x2 ), no caso
em que a firma utiliza apenas dois insumos. A fim de simplificar a notação da análise a seguir,
vamos continuar considerando apenas dois insumos. As conclusões obtidas abaixo são facilmente
generalizadas para o caso de n insumos.
Se a firma é vende cada unidade do seu produto pelo preço p, sua receita R é:

R = py = pf (x1 , x2 )

A despesa da firma é o custo dos fatores que usa na produção de y = f (x1 , x2 ). Se a firma
compra os fatores de produção em um mercado competitivo, aos preços w1 e w2 , então a despesa
D da firma é:
D = w 1 x1 + w 2 x 2

Vamos supor que o objetivo da firma seja maximizar lucros. Como firmas têm donos, a hipótese
de maximização de lucros é equivalente à hipótese de maximização da renda do dono ou donos
(acionistas) da empresa. Se o dono maximiza a sua renda, ele estará maximizando a sua utilidade,
já que ao aumentar a sua renda, ele pode alcançar uma curva de indiferença mais alta. Podemos
também analisar outros objetivos que não o de maximização de lucros. Mais importante do que a
hipótese de maximização de lucros é que a firma seja coerente com o objetivo proposto, ou seja,
que suas ações estejam de acordo com o objetivo a que se propõe alcançar.
Vamos supor que a firma é competitiva, isto é, está inserida em um mercado competitivo. A
firma então é tomadora de preços: toma o preço do produto e os preços dos insumos como fixos,
fora da sua capacidade de manipulação. Essa hipótese é razoável para várias indústrias, como a de
padarias, por exemplo. Uma padaria dificilmente vai poder cobrar mais pelo seu pão (controlando
pela qualidade) do que o preço de mercado. Nem vai poder comprar insumos com um desconto
maior do que outras padarias obtêm. Nesse caso, dizemos que a firma não tem poder de mercado.

1
Se a firma é competitiva e toma como fixos os preços do bem que vende e dos insumos que uti-
liza, então ela deve escolher quantidades de insumos que maximizam o seu lucro, igual à diferença
entre receita e despesa:
max pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2
x1 ,x2

Observe que a quantidade ótima de produção é escolhida implicitamente, ao se escolher as


quantidades de insumos que maximizam o lucro.
Vamos supor que a maximização acima tem solução interior (isto é, x∗1 , x∗2 são maiores do que
zero) e que as condições de segunda ordem são satisfeitas. As CPO do problema são:

pf1 (x∗1 , x∗2 ) = w1


pf2 (x∗1 , x∗2 ) = w2

∂f (x∗1 ,x∗2 )
onde fi (x∗1 , x∗2 ) = ∂xi
, para i = 1, 2.
O termo ao lado esquerdo das CPO é o preço do bem final multiplicado pelo produto marginal
do insumo i, ou seja, é a taxa em que a receita aumenta dado um aumento no uso do insumo
i. Esse é o valor do produto marginal de um insumo. A CPO então diz que o valor do produto
marginal de um insumo tem que ser igual ao seu preço (custo marginal desse insumo).
A CPO tem uma interpretação intuitiva clara. Se a firma aumentar o uso do insumo i em ∆xi
(e mantiver todos os outros insumos inalterados), a sua produção aumentará em ∆y = fi (x)∆xi =
P M gi ∆xi . A receita adicional obtida é igual à p∆y = pfi (x)∆xi = pP M gi ∆xi . Já a despesa
adicional gerada pelo aumento do uso do fator i é igual à wi ∆xi .
Suponha que o nı́vel de insumos escolhido pela firma seja tal que pP M gi > wi . Nesse caso,
se a firma aumentar a quantidade do insumo i, o acréscimo de receita obtido será maior do que
a despesa adicional, o que aumenta o lucro. Portanto, a firma deve aumentar o uso do insumo i
se quiser maximizar lucros. Como o produto marginal de um insumo é decrescente no seu uso, ao
aumentarmos a quantidade do insumo i, a desigualdade pP M gi > wi se torna uma igualdade.
Se o nı́vel de insumos escolhido é tal que pP M gi < wi , então a firma diminui o uso do insumo i,
pois o decréscimo de receita obtido será menor do que a economia gerada pelo uso menor do fator,
o que aumenta o lucro. Portanto, a firma deve diminuir o uso do insumo i se quiser maximizar
lucros. Como o produto marginal de um insumo é decrescente no seu uso, ao diminuirmos a
quantidade do insumo i, a desigualdade pP M gi < wi se torna uma igualdade.
Portanto, a firma maximiza o seu lucro ao escolher os insumos de modo que o valor do produto
marginal de cada insumo seja igual ao seu preço.

2
2 Demandas por Insumos e Oferta da Firma
Se resolvermos as CPO do problema de maximiza¸ão de lucros da firma, encontramos as quan-
tidades de insumos x1 , x2 ótimas como funções dos preços:

x∗1 = x1 (p, w1 , w2 )
x∗2 = x2 (p, w1 , w2 )

Essas demandas por insumos são as demandas ótimas da firma: x1 (p, w1 , w2 ) e x2 (p, w1 , w2 )
maximizam o lucro da firma quando o preço do bem que a firma vende é p e os preços dos insumos
que a firma utiliza são w1 e w2 .
Se substituirmos essas demandas na função de produção da firma, encontramos a função de
oferta ou oferta ótima da firma, denotada por y ∗ = y(p, w1 , w2 ):

y ∗ = y(p, w1 , w2 ) = f (x∗1 , x∗2 ) = f (x1 (p, w1 , w2 ), x2 (p, w1 , w2 ))

Vamos encontrar as demandas ótimas e a função de oferta da firma para o caso de uma função
de produção Cobb-Douglas.

Exemplo: Função de produção Cobb-Douglas. O problema de maximização de lucros de


uma firma com tecnologia Cobb-Douglas f (x1 , x2 ) = xα1 xβ2 que usa dois insumos é dado por:

max pxα1 xβ2 − w1 x1 − w2 x2


x1 ,x2

As CPO são:

αpxα−1
1 xβ2 = w1
βpxα1 xβ−1
2 = w2

Vamos multiplicar a primeira CPO por x1 e a segunda por x2 , lembrando que y = f (x1 , x2 ) =
xα1 xβ2 :
αpy ∗
αpxα1 xβ2 = w 1 x1 ⇒ x∗1
=
w1

βpy
βpxα1 xβ2 = w2 x2 ⇒ x∗2 =
w2
Obtemos então as escolhas ótimas de insumos como funções dos preços e do nı́vel de produção
ótimo. Para encontrarmos a oferta ótima, substituı́mos as escolhas ótimas de insumos na função
de produção:
α  β α β
αpy ∗ βpy ∗
   1−α−β   1−α−β
αp βp
y∗ = (x∗1 )α (x∗2 )β = ⇒ y∗ =
w1 w2 w1 w2

3
Substituindo de volta nas escolhas ótimas dos insumos, encontramos as demandas ótimas dos
insumos:
 1−β
 1−α−β  β
 1−α−β
α β 1
x∗1 (p, w1 , w2 ) = p 1−α−β
w1 w2
 α
 1−α−β  1−α
 1−α−β
α β 1
x∗2 (p, w1 , w2 ) = p 1−α−β
w1 w2

Observe que a solução acima para as demandas e oferta ótimas não está bem definida para o
caso em que α + β = 1. Nesse caso, a função de produção apresenta retornos constantes de escala.
Vamos discutir abaixo a condição de segunda ordem do problema de maximização de lucro da
firma. Veremos que essa condição requer, para o caso da função de produção Cobb-Douglas, que
α + β < 1, α > 0, β > 0. A condição α + β < 1 significa que a solução acima só é válida para
funções de produção Cobb-Douglas que apresentam retornos decrescentes de escala.
Essa conclusão é válida em geral: as demandas e oferta ótimas somente podem ser encontradas
por meio da resolução do problema de maximização do lucro da firma no caso em que a função
de produção apresente retornos decrescentes de escala. Abaixo discutiremos a intuição desse
resultado.

3 Condições de Segunda Ordem


O Hessiano do problema da firma é:
 
pf11 pf12 . . . pf1n
 
 pf
 21 pf22 . . . pf2n

H= .

 .. .. .. .. 
 . . . 

pfn1 pfn2 . . . pfnn
As CSO para um máximo são satisfeitas se a matriz Hessiana for negativa semi-definida. Essa
condição é satisfeita se o determinante dos menores principais do Hessiano alternam de sinal, ou
seja, se:  
  pf11 pf12 pf13
pf11 pf12  
pf11 < 0, det   > 0, det  pf21 pf22 pf23  < 0, . . .
pf21 pf22
 
pf31 pf32 pf33
Para o caso de dois bens, as CSO se resumem a (podemos eliminar p, pois ele não afeta o sinal
da desigualdade):
2
f11 < 0, f22 < 0, f11 f22 − f12 >0

4
Portanto, para o caso de dois bens (e mais geralmente também) não é suficiente que os produtos
2
marginais de cada bem sejam negativos (fii < 0). A condição f11 f22 − f12 > 0 também deve ser
satisfeita.

Exemplo: Função Cobb-Douglas. As CPO do problema da firma com tecnologia Cobb-


Douglas são:
αpx1α−1 xβ2 − w1 = 0 e βpxα1 xβ−1
2 − w2 = 0

As derivadas de segunda ordem da função objetivo são:

(11) α(α − 1)pxα−2


1 xβ2
(22) β(β − 1)pxα1 xβ−2
2

(12) αβpxα−1
1 xβ−1
2

As CSO são:

α(α − 1)pxα−2
1 xβ2 < 0, β(β − 1)pxα1 xβ−2
2 < 0, e
 2
β α β−2 α−1 β−1
α(α − 1)pxα−2
1 x 2 β(β − 1)px x
1 2 − αβpx 1 x 2 >0

As duas primeiras condições são satisfeitas se α > 0, β > 0, α < 1, β < 1. A terceira condição
pode ser simplificada para:

(α − 1)(β − 1) − (αβ) > 0 ⇒ α+β <1

Ou seja, as CSO para o problema da firma com tecnologia Cobb-Douglas são α > 0, β > 0,
α + β < 1.

O que ocorre se α + β = 1? Nesse caso, a tecnologia apresenta retornos constantes de escala:

f (tx1 , tx2 ) = (tx1 )α (tx2 )β = tα+β xα1 xβ2 = tf (x1 , x2 )

Portanto, se a firma tiver um lucro positivo usando uma determinada escala de produção, dada
por x∗1 , x∗2 , quando os preços são p, w1 , w2 , então ela poderá multiplicar infinitamente o seu lucro
ao replicar a sua escala de produção infinitamente, já que a despesa aumenta também de modo
linear com a escala de produção, como a equação abaixo mostra:

max pf (tx∗1 , tx∗2 ) − w1 (tx∗1 ) − w2 (tx∗2 ) = max t [pf (x∗1 , x∗2 ) − w1 x∗1 − w2 x∗2 ]
x1 ,x2 x1 ,x2
 
∗ ∗ ∗ ∗
= t max pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2 = tπ > 0
x1 ,x2

5
O mesmo problema ocorre, de modo mais acentuado, se a tecnologia apresenta retornos cres-
centes de escala. Nesse caso, ao aumentar a escala de produção, a firma aumenta o seu lucro de
modo mais do que proporcional à escala de produção.
Como podemos então encontrar a oferta e as demandas ótimas da firma nos casos em que a
tecnologia apresenta RCE ou RCrE? Nesses casos, será impossı́vel determinar as escolhas ótimas
da firma analisando o seu problema de maximização de lucro isoladamente. Alguma restrição
externa deve ser levada em conta, tais como quantidades de insumos limitadas ou restrições de
mercado competitivo ou de demanda de mercado decrescente no preço do bem.
Por exemplo, no caso de um mercado competitivo, o único lucro econômico possı́vel de longo
prazo para uma firma com retornos constantes de escala é zero. Isso ocorre por que se a firma tiver
lucro positivo no longo prazo, novas firmas serão atraı́das para esse mercado e a competição fará
com que o lucro tenda a zero (caso o lucro fosse negativo, firmas sairiam do mercado, fazendo com
que o prejuı́zo desaparecesse). Nesse caso, a firma, por apresentar retornos constantes de escala,
será indiferente entre qual quantidade produzir, já que todo nı́vel de produção leva ao mesmo lucro
econômico, igual a zero.
No caso de retornos crescentes de escala, se configura uma situação de monopólio natural, onde
a existência de uma única firma provendo todo o mercado é mais econômico, devido as retornos
crescentes na escala da produção. Nesse caso, a demanda de mercado limitará a produção da firma.
Em um monopólio natural, pode-se mostrar que a firma produzirá menos do que o socialmente
ótimo e obterá lucros econômicos positivos. Isso gera uma ineficiência econômica.

4 Propriedades da Função Lucro


Vimos que a função de oferta da firma, caso exista, é definida como:

y ∗ = y(p, w1 , w2 ) = f (x∗1 , x∗2 ),

onde x∗1 = x1 (p, w1 , w2 ) e x∗2 = x2 (p, w1 , w2 ) são as demandas ótimas por insumos da firma. Essas
funções ótimas existem caso a tecnologia da firma apresente retornos decrescentes de escala. Nesse
caso, a função lucro é definida como:

π(p, w1 , w2 ) = max [pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2 ]


x1 ,x2

= py(p, w1 , w2 ) − w1 x1 (p, w1 , w2 ) − w2 x2 (p, w1 , w2 )

6
A função lucro da firma diz o lucro máximo que a firma obtém quando o preço do bem que
vende é p e os preços dos insumos que utiliza na produção são w1 e w2 . Vamos analisar as
propriedades que a função lucro satisfaz, caso exista.

Propriedades da função lucro. Se a função de produção satisfaz as propriedades 1)-4) da nota


de aula 16, então a função lucro, caso exista, é contı́nua e satisfaz as seguintes propriedades:

(1) Crescente em p.

(2) Não crescente em wi , para todo i.

(3) Homogênea de grau um nos preços (p, w1 , w2 ).

(4) Convexa nos preços (p, w1 , w2 ).

(5) (Lema de Hotelling) Diferenciável em (p, w1 , w2 ), onde vale que:


∂π(p, w1 , w2 ) ∂π(p, w1 , w2 )
= y(p, w1 , w2 ) ; = −xi (p, w1 , w2 ), i = 1, 2.
∂p ∂wi

Vamos primeiro verificar a validade dessas propriedades, para depois discutir a intuição de
cada uma delas.

Prova: (1) Suponha que a solução do problema da firma aos preços (p, w1 , w2 ) é (x∗1 , x∗2 ). Repre-
sente a solução do problema da firma por (x̂1 , x̂2 ) quando o preço do produto aumenta para p̂ > p.
Note que:

π(p̂, w1 , w2 ) ≥ p̂f (x∗1 , x∗2 ) − w1 x∗1 − w2 x∗2 ≥ pf (x∗1 , x∗2 ) − w1 x∗1 − w2 x∗2 = π(p, w1 , w2 )

A primeira desigualdade é válida porque (x̂1 , x̂2 ) é a solução do problema da firma aos preços
(p̂, w1 , w2 ). A segunda desigualdade é válida porque p̂ > p. Caso a firma de fato produza o bem
(ou seja, a produção y ∗ = f (x∗1 , x∗2 ) é positiva), então a segunda desigualdade é estrita.

(2) Similar a prova (1): Suponha que a solução do problema da firma aos preços (p, w1 , w2 ) é
(x∗1 , x∗2 ). Represente a solução do problema da firma por (x̂1 , x̂2 ) quando o preço do insumo 1
aumenta para ŵ1 > w1 . Note que:

π(p, ŵ1 , w2 ) ≤ pf (x̂1 , x̂2 ) − w1 x̂1 − w2 x̂2 ≤ pf (x∗1 , x∗2 ) − w1 x∗1 − w2 x∗2 = π(p, w1 , w2 )

A primeira desigualdade é válida porque ŵ1 > w1 ⇒ − ŵ1 x̂1 ≤ −w1 x̂1 . A segunda desigual-
dade é válida porque (x∗1 , x∗2 ) é a solução do problema da firma aos preços (p, w1 , w2 ). Caso a firma
de fato utilize o insumo sob consideração (x̂1 > 0), então a primeira desigualde é estrita.

7
(3) Suponha que aumentamos todos os preços pelo mesmo fator t > 0. Então
 
π(tp, tw1 , tw2 ) = max tpf (x1 , x2 ) − tw1 x1 − tw2 x2 = t max pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2
x1 ,x2 x1 ,x2

= tπ(p, w1 w2 )

(4) Suponha que as demandas ótimas do problema da firma aos preços (p, w1 , w2 ) são (x∗1 , x∗2 ) e,
aos preços (p̂, ŵ1 , ŵ2 ), (x̂1 , x̂2 ). Denote (pt , w1t , w2t ) = t(p, w1 , w2 ) + (1 − t)(p̂, ŵ1 , ŵ2 ), t ∈ [0, 1], e
seja (xt1 , xt2 ) a solução do problema da firma a esses preços. Então:

π(p, w1 , w2 ) = pf (x∗1 , x∗2 ) − w1 x∗1 − w2 x∗2 ≥ pf (xt1 , xt2 ) − w1 xt1 − w2 xt2


π(p̂, ŵ1 , ŵ2 ) = p̂f (x̂1 , x̂2 ) − ŵ1 x̂1 − ŵ2 x̂2 ≥ p̂f (xt1 , xt2 ) − ŵ1 xt1 − ŵ2 xt2

Portanto, para 0 ≤ t ≤ 1, obtemos

tπ(p, w1 , w2 ) + (1 − t)π(p̂, ŵ1 , ŵ2 ) ≥ (tp + (1 − t)p̂)f (xt1 , xt2 ) − (tw1 + (1 − t)ŵ1 )xt1
− (tw2 + (1 − t)ŵ2 )xt2 = π(pt , w1t , w2t )

(5) Esse resultado é consequência do teorema do envelope. Vamos derivar a função lucro com
respeito a w1 (o resultado para w2 é obtido de modo similar):
   
∂π ∂x1 ∂x2 ∂x1 ∂x2 ∂x1 ∂x2
= pf1 + pf2 − w1 + x1 + w 2 = (pf1 − w1 ) + (pf2 − w2 ) − x1
∂w1 ∂w1 ∂w1 ∂w1 ∂w1 ∂w1 ∂w1
As CPO são pf1 − w1 = 0 e pf2 − w2 = 0. Então,
∂π ∂x1 ∂x2
= (pf1 − w1 ) + (pf2 − w2 ) − x1 = −x1
∂w1 | {z } ∂w1 | {z } ∂w1
=0 (CPO de x1 ) =0 (CPO de x2 )

Para o preço do produto, observe que:


   
∂π ∂x1 ∂x2 ∂x1 ∂x2
= f + pf1 + pf2 − w1 + w2
∂p ∂p ∂p ∂p ∂p
∂x1 ∂x2
= f + (pf1 − w1 ) + (pf2 − w2 ) =f
| {z } ∂p | {z } ∂p
=0 (CPO de x1 ) =0 (CPO de x2 )

Ou seja,
∂π(p, w1 , w2 )
= y(p, w1 , w2 ).
∂p

Vamos discutir a intuição dessas propriedades. A primeira diz que se o preço do bem que a
firma vende aumentar, tudo o mais constante, o lucro da firma aumenta. A segunda propriedade

8
diz que se o preço de algum insumo que a firma utiliza aumentar, todo o resto inalterado, o
lucro cai (o aumento de preços de insumos que a firma não utiliza não altera o lucro). A terceira
propriedade diz que se todos os preços aumentarem na mesma proporção, o lucro aumenta na
mesma proporção (a conhecida propriedade de que “preços absolutos não importam”: se todos os
preços são multiplicados por dez, a produção continua a mesma e o lucro é multiplicado por dez.
Mas em termos reais, o lucro é o mesmo de antes).
A quarta propriedade diz que variação nos preços é bom para firma. Essa propriedade tem
consequências importantes para o comportamento da firma sob incerteza. Ao contrário do con-
sumidor, que não gosta de incerteza, pois deixa o seu fluxo de consumo incerto e sujeito a variações,
a firma gosta de incerteza, pois o seu lucro esperado será maior.
A quinta propriedade diz que se o preço de um insumo aumentar em R$ 1, o lucro diminui em
um valor igual à quantidade de insumo i que está sendo usada (xi ). Se o preço do produto subir
em R$ 1, o lucro aumenta em um valor igual ao nı́vel de produção, y ∗ .

5 Propriedades das Demandas e Oferta Ótimas


Se a função de produção satisfaz as propriedades 1)-4) da nota de aula 16, então a função de
oferta e as funções de demanda por insumos, caso existam, são contı́nuas e satisfazem as seguintes
propriedades:

(1) São homogêneas de grau zero:

y(tp, tw1 , tw2 ) = y(p, w1 , w2 ), ∀t > 0


x1 (tp, tw1 , tw2 ) = x1 (p, w1 , w2 ), ∀t > 0
x2 (tp, tw1 , tw2 ) = x2 (p, w1 , w2 ), ∀t > 0

(2) Um aumento no preço de um insumo diminui a demanda por esse insumo, um aumento no
preço do produto aumenta a sua oferta:

∂y(p, w1 , w2 ) ∂xi (p, w1 , w2 )


≥ 0; ≤ 0, i = 1, 2
∂p ∂wi

(3) Os efeitos-preço cruzados são iguais para os insumos:

∂x1 (p, w1 , w2 ) ∂x2 (p, w1 , w2 )


=
∂w2 ∂w1

9
Novamente, vamos primeiro verificar a validade dessas propriedades para depois discutir a
intuição de cada uma delas.

Prova: (1) Se aumentarmos todos os preços pelo mesmo fator t, então a solução do problema da
firma não se altera:
 
π(tp, tw1 , tw2 ) = max tpf (x1 , x2 ) − tw1 x1 − tw2 x2 = t max pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2
x1 ,x2 x1 ,x2

= tπ(p, w1 w2 ).

Portanto, a escolha ótima de insumos da firma aos preços (tp, tw1 , tw2 ) é a mesma escolha ótima
quando os são (p, w1 , w2 ). Consequentemente, a oferta ótima da firma também será a mesma em
ambos os casos.

(2) Esse resultado é consequência do teorema da função implı́cita. As CPOs do problema de


maximização de lucro da firma são:

CP O1 : pf1 (x∗1 , x∗2 ) = w1


CP O2 : pf2 (x∗1 , x∗2 ) = w2

Diferenciando as CPO com respeito aos preços w1 e w2 , obtemos:

∂x∗1 ∂x∗2
(w1 ), CP O1 : pf11 (x∗1 , x∗2 ) + pf12 (x∗1 , x∗2 ) =1
∂w1 ∂w1
∂x∗ ∂x∗
(w1 ), CP O2 : pf21 (x∗1 , x∗2 ) 1 + pf22 (x∗1 , x∗2 ) 2 =0
∂w1 ∂w1
∂x∗ ∂x∗
(w2 ), CP O1 : pf11 (x∗1 , x∗2 ) 1 + pf12 (x∗1 , x∗2 ) 2 =0
∂w2 ∂w2
∂x∗ ∂x∗
(w2 ), CP O2 : pf21 (x∗1 , x∗2 ) 1 + pf22 (x∗1 , x∗2 ) 2 =1
∂w2 ∂w2

Escrevendo essas equações em forma matricial, obtemos:


    
∂x∗1 ∂x∗1
pf11 pf12 1 0
   ∂w∗1 ∂w∗2  =  
∂x2 ∂x2
pf12 pf22 ∂w1 ∂w2
0 1

Se as CSO são satisfeitas, então a matriz Hessiana é negativa semi-definida e, portanto, invertı́vel.
As demandas pelos fatores são:
   −1  
∂x∗1 ∂x∗1
∂w1 ∂w2
pf11 pf12 1 0
 =   
∂x∗2 ∂x∗2
∂w1 ∂w2
pf12 pf22 0 1

10
Usando o fato de que:
 −1  
pf11 pf12 1 pf22 −pf12
  =  ,
pf12 pf22 det(H) −pf21 pf11

onde det(H) = p2 (f11 f22 − f12


2
) > 0, já que a solução é um máximo, obtemos:
      
∂x∗1 ∂x∗1
1 pf 22 −pf 12 1 0 1 pf 22 −pf 12
 ∂w∗1 ∂w∗2  =   =  
∂x2 ∂x2 det(H) det(H)
∂w1 ∂w2
−pf 21 pf 11 0 1 −pf 21 pf 11

Logo:

∂x∗1 pf22 ∂x∗1 pf12


= <0 e =− Q0
∂w1 det(H) ∂w2 det(H)
∂x∗2 pf12 ∂x∗2 pf11
=− Q0 e = <0
∂w1 det(H) ∂w2 det(H)

(3) Esse resultado, que já pôde ser observado nas equações acima para ∂x∗1/∂w2 e ∂x∗2/∂w1 , é con-
sequência do lema de Hotteling (−∂π/∂pi = xi ):

∂xi ∂ 2π ∂ 2π ∂xj
=− =− =
∂wj ∂pj ∂pi ∂pi ∂pj ∂wi

Vamos discutir a intuição dessas propriedades. A propriedade 1 diz que uma mudança em
todos os preços na mesma proporção não afeta a escolha ótima da firma.
A segunda propriedade mostra que não podem existir “insumos de Giffen”: as demandas por
insumos de uma firma reagem negativamente (ou não se alteram) a uma mudança do preço do
insumo, sem exceções (veja, por exemplo, as demandas ∂x∗1/∂w1 e ∂x∗2/∂w2 acima). Portanto, se o
preço de um insumo aumenta, tudo o mais constante, então a firma usará menos desse insumo
(ou usará a mesma quantidade), e nunca usará mais do insumo caos o seu preço aumente. Na
teoria da firma, não existe efeito análogo ao efeito renda da teoria do consumidor, que permite a
existência de bens de Giffen.
A terceira propriedade é um tanto surpreendente. Se a firma maximiza lucros, então o efeito
de um aumento no salário sobre o uso de capital na firma é igual ao efeito de um aumento no
preço de capital sobre o uso de trabalho na firma. Essa propriedade não é intuitiva, mas é uma
consequência do problema de maximização da firma. Se a firma maximiza lucros, então ela será
verdadeira.

11
6 Análise de Curto Prazo
Suponha que existam apenas dois fatores, onde a firma não pode ajustar um dos fatores,
digamos x2 = x̄2 . Imagine que o segundo fator é capital, e a firma não tem como ajustar esse
fator em um prazo pequeno. O problema da firma para esse prazo onde não pode ajustar o fator
2 é dado por:
max pf (x1 , x̄2 ) − w1 x1 − w2 x̄2
x1

Como só o primeiro fator pode ser modificado, existe apenas uma CPO, dada por:

pf1 (x1 , x̄2 ) = w1

Mesmo com fatores fixos, a relação de que o valor do produto marginal de um insumo é igual
ao seu preço continua válida para os insumos variáveis. Se a escolha ótima de insumo variável da
firma é x∗1 e a escolha ótima de produção é y ∗ , podemos calcular as retas de isolucro, combinações
entre nı́veis ótimos de insumo variável e de produção que resultam no mesmo lucro. Essas retas
são representadas no espaço (produção, insumo variável), definidas pela relação:

π0 = {(x∗1 , y ∗ ), tal que py ∗ − w1 x∗1 − w2 x̄2 = π0 }

Podemos escrever uma reta de isolucro como:


π 0 w1 ∗ w2
y∗ = + x + x̄2
p p 1 p
Como o segundo fator está fixo e supondo que o produto marginal do primeiro fator é decres-
cente (lei do rendimento marginal decrescente), a função y = f (x1 , x̄2 ) é côncava em x1 .

y
6





  Função de Produção
 
 
 

E 
s
 6 

 
 

  No ponto E a CPO é satisfeita:
6 A reta de isolucro mais alta é alcançada




-
x1

A resolução gráfica do problema de maximização da firma, ilustrada na figura acima, é obtida


ao encontrarmos a reta de isolucro que tangencia a função de produção. Note que o ponto E da

12
figura acima é o ponto de tangência das duas curvas: nesse ponto as duas curvas têm a mesma
w1
inclinação. Como a inclinação da curva de isolucro é sempre igual à p
, no ponto E temos que:
w1
= P M g1 = f1 (x∗1 , x̄2 ) ⇒ pf1 (x∗1 , x̄2 ) = w1 ,
p
que, naturalmente, é a CPO do problema. Vamos agora fazer um exercı́cio simples de estática
comparativa, analisando o que ocorre quando três variáveis se alteram.

1) O preço do insumo variável aumenta. Nesse caso, a reta de isolucro se torna mais inclinada
e a produção e o uso do insumo variável caem. A figura abaixo ilustra essa situação.

y
6

@
I


 Função de Produção



s

s E



Ê Reta de isolucro se torna mais inclinada
Produção e uso do insumo variável caem
Equilı́brio muda de E para Ê

-
x1

2) O preço do bem final aumenta. Nesse caso, a reta de isolucro se torna menos inclinada e
a produção e o uso do insumo variável aumentam. A figura abaixo ilustra essa situação.

y
6


 @ !
 !R! ! Função de Produção
 !
!!
!s!

!
s Ê
!

!!
!! E
! 

 Reta de isolucro se torna menos inclinada
Produção e uso insumo variável aumentam
Equilı́brio muda de E para Ê

-
x1

3) O preço do insumo fixo aumenta. Como o insumo é fixo, não pode ocorrer nenhum
ajustamento na sua quantidade usada. A reta de isolucro não muda de inclinação e não há
alteração nem no nı́vel de produção nem no uso do insumo variável. Porém, o lucro diminui, como
consequência do aumento do preço do insumo fixo.

13
7 Princı́pio de LeChatelier
O princı́pio de LeChatelier diz que um ajuste na produção da firma devido a uma alteração no
preço do produto é sempre maior no longo prazo do que no curto prazo:

dyLP dy ∗
≥ CP
dp dp

Vamos derivar esse resultado. Primeiro note que o lucro de longo prazo da firma é sempre igual
ou maior do que o lucro de curto prazo. Esse resultado é intuitivamente claro: no curto prazo a
firma pode ajustar apenas os insumos variáveis, enquanto no longo prazo ela pode ajustar todos
os insumos. Portanto, definindo a função h(p) como a diferença entre as funções lucro de longo
prazo e de curto prazo, temos que:

h(p) = πLP (p) − πCP (p) ≥ 0

Sob certas condições, pode ser provado que essas duas funções são iguais apenas em um único
nı́vel de preço do bem que a firma vende, denotado por p = p∗ . Portanto, h(p) tem um mı́nimo
em p∗ e a segunda derivada de h(p) é não-negativa em p∗ . Ou seja,

∂ 2 h(p) ∂ 2 πLP (p) ∂ 2 πCP (p)


= − ≥ 0.
∂p2 ∂p2 ∂p2

Usando o lema de Hotteling, o resultado desejado é obtido:



dyLP dy ∗ ∗
dyLP dy ∗
− CP ≥ 0 ⇒ ≥ CP
dp dp dp dp

8 Lucratividade Revelada
A ideia da lucratividade revelada é semelhante à ideia da preferência revelada: observando
as escolhas da firma, podemos testar se essas escolhas são consistentes com o comportamento
maximizador de lucros.
Esse teste é válido se a tecnologia da firma não se alterou para os perı́odos em que os dados
foram observados. Se a firma comprou novas máquinas ou contratou mão-de-obra mais experiente,
o teste abaixo não é mais válido.
Suponha que observamos duas escolhas de produção da firma, feitas em dois perı́odos onde
os preços mudaram. No perı́odo t, o nı́vel de preços era (pt , w1t , w2t ) e a escolha de produção foi
(y t , xt1 , xt2 ). No perı́odo s, o nı́vel de preços era (ps , w1s , w2s ) e a escolha de produção foi (y s , xs1 , xs2 ).

14
Então as seguintes relações devem ser válidas se a firma maximiza lucros:

pt y t − w1t xt1 − w2t xt2 ≥ pt y s − w1t xs1 − w2t xs2


ps y s − w1s xs1 − w2s xs2 ≥ ps y t − w1s xt1 − w2s xt2

Dizemos que a firma satisfaz o Axioma da Maximização de Lucros (AML) se as duas desigual-
dades acima forem válidas para cada par de observações coletado.
Vamos manipular algebricamente as duas desigualdades que compõem o AML. Multiplique a
segunda desigualdade por -1, invertendo o sinal da desigualdade, e some essa nova desigualdade à
primeira desigualdade, para obter:

pt y t − w1t xt1 − w2t xt2 − ps y t + w1s xt1 + w2s xt2 ≥ pt y s − w1t xs1 − w2t xs2 − ps y s + w1s xs1 + w2s xs2

Reagrupando os termos, obtemos:

(pt − ps )y t − (w1t − w1s )xt1 − (w2t − w2s )xt2 − (pt − ps )y s − (w1t − w1s )xs1 − (w2t − w2s )xs2 ≥ 0

Reagrupando os termos uma vez mais, e usando a notação ∆p = pt − ps (similarmente para as


outras variáveis), obtemos:
∆p∆y − ∆w1 ∆x1 − ∆w2 ∆x2 ≥ 0.

Essa última equação é consequência do comportamento maximizador da firma e caso não


seja satisfeita, indica que a firma pode não estar maximizando lucros. A variação no preço final
multiplicada pela variação na produção subtraı́da de todas as variações nos preços de cada insumo
multiplicadas pelas variações nas quantidades dos insumos não podem ser negativas.
Vamos analisar dois casos especiais dessa equação, e veremos que as conclusões obtidas são
similares às obtidas anteriormente.

Caso 1) Suponha que apenas o preço do produto se alterou. Nesse caso, ∆wi = 0 para todo
insumo i. Então:
∆p∆y ≥ 0,

ou seja, a variação na produção é na mesma direção que a variação no preço do produto: se o


preço do produto aumenta, a oferta aumenta (ou, permanece a mesma, mas um aumento no preço
do bem final nunca leva a uma queda na quantidade ofertada).

Caso 2) Suponha que apenas o preço do insumo i se alterou. Nesse caso, ∆wj = 0 para todo
insumo j 6= i e ∆p = 0. Então:
−∆wi ∆xi ≥ 0,

15
ou seja, a variação na demanda do insumo é na direção contrária à variação no seu preço: se o
preço do insumo aumenta, a firma passa a usar menos desse insumo (ou não se altera, mas um
aumento no preço do insumo nunca leva a um aumento no uso desse insumo).

Na teoria da firma, não existe um “Axioma Forte da Maximização do Lucro”. O AML já esgota
todas as implicações do comportamento maximizador da firma. Se coletarmos várias observações
sobre as escolhas de uma firma, que satisfazem o AML, então podemos sempre estimar uma função
de produção que pode gerar essas escolhas.

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 19 - “Maximização do Lucro”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 8 - “Maximização de Lucros e Oferta Competitiva”, seções 8.1,


8.2, 8.3 e 8.4.

• Hall e Lieberman, cap. 7 - “Como as Firmas tomam Decisões: Maximização de Lucros”.

• Nicholson e Snyder, cap. 11 - “Profit Maximization”.

16
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 18 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Minimização de Custos
Vamos analisar o problema da firma de maximização de lucros de modo indireto, em duas
etapa. Na primeira etapa, a firma decide o uso de insumos que minimiza o custo de produção de
uma determinada quantidade do bem final. Na segnda etapa, a firma escolhe o nı́Vel de produção
que maximiza o seu lucro. Logo, o problema de maximização de lucro da firma é analisado na
seguinte sequência:

1. A firma minimiza o seu custo de produção, para um dado nı́vel de produção fixo.

2. A firma escolhe o nı́vel de produção ótimo que maximiza lucros.

Essa análise traz novos insights sobre o problema da firma. Além disso, a primeira etapa é
válida para qualquer tipo de firma, desde que tomadora de preços no mercado de insumos (lembre-
se que a análise de maximização de lucros anterior só é válida para firmas competitivas não somente
no mercado de insumos, mas também no mercado do produto que vende).
Nessa nota de aula e na próxima vamos analisar a primeira etapa acima. A minimização de
custos é válida não somente para firmas competitivas mas também para firmas que possuem algum
controle sobre o preço do seu produto, como é o caso de monopólios e oligopólios. Vamos continuar
supondo apenas dois bens, a fim de simplificar a notação.
Queremos resolver o seguinte problema:

min w1 x1 + w2 x2 s.a. y = f (x1 , x2 )


x1 ,x2

Vamos supor que a solução é interior (x∗1 > 0, x∗2 > 0) e que o método de Lagrange se aplica.
O Lagrangeano do problema de minimização de custos é:

L = w1 x1 + w2 x2 + λ (y − f (x1 , x2 )) ,

onde λ é o multiplicador de Lagrange do problema.

1
As CPO são:

w1 = λf1 (x∗1 , x∗2 )


w2 = λf2 (x∗1 , x∗2 )
y = f (x∗1 , x∗2 )

Se dividirmos a CPO do insumo 1 pela CPO do insumo 2, obtemos:

w1 f1 (x∗1 , x∗2 ) P M g1 (x∗1 , x∗2 )


= =
w2 f2 (x∗1 , x∗2 ) P M g2 (x∗1 , x∗2 )

Essa condição também é válida para o caso de maximização do lucro. Note que se ela não é
válida, a firma pode diminuir o seu custo mantendo o mesmo nı́vel de produção y. Por exemplo,
se vale que:
w1 2 1 P M g1 (x∗1 , x∗2 )
= > = ,
w2 1 1 P M g2 (x∗1 , x∗2 )
então o insumo 1 está caro em relação ao insumo 2, levando-se em conta a relação entre as
produtividades marginais desses dois insumos. Se a firma diminuir em uma unidade o uso do
insumo 1 e aumentar em uma unidade o uso do insumo 2, o nı́vel de produção não se altera
(P M g1 (x∗1 , x∗2 ) = P M g2 (x∗1 , x∗2 ) = 1), porém a firma economiza R$ 1, já que w1 = 2 e w2 = 1.
Portanto, se a firma escolhe quantidades de insumos tais que a relação de preços entre dois insumos
é diferente da sua taxa técnica de substituição, a firma não estará minimizando custos.
As demandas derivadas do problema de minimização de custos da firma, se existirem, são
demandas condicionais (no nı́vel de produção y):

x∗1 = x1 (w1 , w2 , y) e x∗2 = x2 (w1 , w2 , y).

Essas demandas são funções diferentes das demandas derivadas para o problema de maxi-
mização do lucro. A demanda condicional xi (w1 , w2 , y) diz a quantidade do insumo i que minimiza
o custo de se produzir y, quando os preços dos insumos são w1 e w2 . A demanda ótima xi (p, w1 , w2 )
diz a quantidade do insumo i que maximiza o lucro da firma quando o preço do produto é p e os
preços dos insumos são w1 e w2 .
A função custo, denotada por c(w1 , w2 , y), é definida como:

c(w1 , w2 , y) = min [w1 x1 + w2 x2 s.a. y = f (x1 , x2 )] = w1 x1 (w1 , w2 , y) + w2 x2 (w1 , w2 , y)


x1 ,x2

Portanto, a função custo c(w1 , w2 , y) diz o menor custo de se produzir a quantidade y de


produto, quando os preços dos insumos são w1 e w2 .

2
Graficamente, o problema de minimização de custo é encontrar o menor custo possı́vel para
a isoquanta associada à quantidade de produção desejada (matematicamente, esse problema é
semelhante ao problema de minimização do dispêndio do consumidor). Uma reta de isocusto é a
combinação de insumos que tem o mesmo custo, ou seja, é o conjunto Ic = {(x1 , x2 ) : w1 x1 +w2 x2 =
c}. A figura abaixo ilustra o problema de minimização de custo para o caso de uma isoquanta
convexa com relação à origem.

x2
6
E: Solução do Problema
Q de Minimização de Custos da Firma
Q
Q
Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q E
Q s Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q
Q
QQ
-
x1

2 Propriedades
As demandas condicionais satisfazem as seguintes propriedades:

(1) xi (w1 , w2 , y), i = 1, 2, é homogênea de grau 0 em w1 , w2 ;

(2) Não existem “insumos condicionais de Giffen”:


∂xi (w1 , w2 , y)
≤ 0, para todo insumo i
∂wi

(3) Os efeitos preço-cruzados são iguais:


∂x1 (w1 , w2 , y) ∂x2 (w1 , w2 , y)
=
∂w2 ∂w1

A função custo satisfaz as seguintes propriedades:

(1) c(w1 , w2 , 0) = 0;

(2) Crescente em y, não decrescente em w1 e w2 ;

3
(3) Homogênea de grau 1 nos preços dos insumos w1 e w2 ;

(4) Côncava nos preços dos insumos w1 e w2 ;

(5) (Lema de Shephard) Se a função custo é diferenciável, a seguinte relação é válida:

∂c(w1 , w2 , y)
= xi (w1 , w2 , y), para todo insumo i
∂wi

A prova dessas propriedades é similar à prova das propriedades da função dispêndio e das
demandas hicksianas do problema dual do consumidor, já que, do ponto de vista matemático, os
dois problemas são idênticos.
A intuição das propriedades também é semelhante à intuição detalhada na parte de teoria do
consumidor, com as adaptações necessárias. Observe que para os dois tipos de demandas por
insumos, incondicional e condicional, não é possı́vel ocorrer que o preço de um insumo aumente e
que a firma passe a usar uma quantidade maior desse insumo.

3 Condições de Segunda Ordem


As condições de segunda ordem, para o caso de dois insumos, são derivadas do Hessiano orlado
(ou Hessiano com borda) do problema de minimização de custos. A matriz do Hessiano orlado é:

   
∂2L ∂2L ∂2L
∂λ2 ∂λ∂x1 ∂λ∂x2 0 −f1 −f2
∂2L ∂2L ∂2L
   
H0 = 
 ∂x1 ∂λ ∂x21 ∂x1 ∂x2
 =  −f1 −λf11 −λf12 
  
∂2L ∂2L ∂2L
∂x2 ∂λ ∂x2 ∂x1 ∂x22
−f2 −λf21 −λf22

O determinante do Hessiano orlado é igual à:

det H = λ f11 f22 + f22 f12 − 2f1 f2 f12




Para que as CSO sejam satisfeitas, esse determinante deve ser negativo. Como o multiplicador
de Lagrange λ é sempre positivo, temos então que as CSO do problema de minimização de custos
da firma resumem-se a:
f11 f22 + f22 f12 − 2f1 f2 f12 < 0.

4
Observação: No caso geral de n bens, os determinantes dos menores principais do Hessiano orlado
devem ser sempre negativos, para garantirmos que a solução achada pelas CPO sejam de fato um
mı́nimo. Por exemplo, no caso de quatro bens devemos ter que:
 
0 −f1 −f2
 
det 
 −f1 −λf11 −λf12
 < 0

−f2 −λf21 −λf22
 
0 −f1 −f2 −f3
 
 −f −λf
11 −λf12 −λf13

1
det   < 0
 
 −f2 −λf21 −λf22 −λf23 
 
−f3 −λf31 −λf32 −λf33
 
0 −f1 −f2 −f3 −f4
 
 −f −λf
11 −λf12 −λf13 −λf14

 1 
 
det 
 −f2 −λf21 −λf22 −λf23 −λf24
 < 0

 
 −f3 −λf31 −λf32 −λf33 −λf34 
 
−f4 −λf41 −λf42 −λf43 −λf44

O caso de n bens segue o mesmo padrão.

4 Exemplos
Vamos encontrar as demandas condicionais e a função custo para três funções de produção,
supondo que existam apenas dois insumos.

1) Tecnologia Linear. Suponha que a tecnologia é representada pela seguinte função de


produção:
y = f (x1 , x2 ) = g(ax1 + bx2 ),

onde g é uma função crescente e a > 0, b > 0. Vamos considerar, em particular, a função:

y = f (x1 , x2 ) = ax1 + bx2 ,

Os dois insumos são substitutos perfeitos. A firma usa apenas o insumo relativamente mais
barato. Logo, as demandas condicionais são:

 
 y/a, se w /a < w /b  0, se w1 /a < w2 /b
1 2
x1 (w1 , w2 , y) = e x2 (w1 , w2 , y) =
 0, se w1 /a > w2 /b  y/b, se w1 /a > w2 /b

5
No caso em que w1 /a = w2 /b, a firma comprará qualquer quantidade x∗1 e x∗2 dos insumos, tal
que satisfaça a restrição, ax∗1 + bx∗2 = y. A função custo pode ser escrita de maeira simplificada
como:
nw w2 o
1
c(w1 , w2 , y) = min , y,
a b
já que a firma usa apenas o insumo mais barato, numa quantidade igual à y, para poder produzir
y unidades do bem final.

2) Leontieff. Suponha que a tecnologia é representada pela seguinte função de produção:

y = f (x1 , x2 ) = g(min{ax1 , bx2 }),

onde g é uma função crescente e a > 0, b > 0. Vamos considerar, em particular, a função:

y = f (x1 , x2 ) = min{ax1 , bx2 }

Não há possibilidade de substituição entre os dois insumos: eles devem ser usados na mesma
proporção sempre, ax1 = bx2 . Além disso, as demandas condicionais devem satisfazer a restrição
do problema, de produzir y unidades do bem final. Logo, essas demandas são:

y y
x1 (w1 , w2 , y) = e x2 (w1 , w2 , y) = ,
a b

A função custo é:


w w2 
1
c(w1 , w2 , y) = + y
a b

3) Cobb-Douglas. Considere o seguinte formato da função de produção Cobb-Douglas:

y = f (x1 , x2 ) = xα1 xβ2

Nesse caso, resolvemos o problema de minimização de custos montando o Lagrangeano:


 
L = w1 x1 + w2 x2 + λ y − xα1 xβ2

As CPO são

w1 = λαxα−1
1 xβ2
w2 = λβxα1 xβ−1
2

y = xα1 xβ2

6
Multiplicando a primeira CPO por x1 e a segunda CPO por x2 , e lembrando que y = xα1 xβ2 ,
obtemos que:
y y
x1 = α λ e x2 = β λ
w1 w2
Substituindo esses valores para os insumos na terceira CPO, obtemos uma expressão para o
multiplicador de Lagrange:
α  β β
α
   α+β
y y  w  α+β
1 w 2 1−α−β
λα λβ = y∗ ⇒ λ = (y) α+β
w1 w2 α β
Substituindo esse valor do multiplicador de Lagrange nas expressões para x1 e x2 , obtemos:
β
  α+β
α β β 1
x1 (w1 , w2 , y) = (w1 )− α+β (w2 ) α+β (y) α+β
β
α
 − α+β
α α α 1
x2 (w1 , w2 , y) = (w1 ) α+β (w2 )− α+β (y) α+β
β
A função custo é:

c(w1 , w2 , y) = w1 x1 (w1 , w2 , y) + w2 x2 (w1 , w2 , y)


  α+β β α
 − α+β
α β
− α+β β 1 α α α 1
= w1 (w1 ) (w2 ) α+β (y) α+β + w2 (w1 ) α+β (w2 )− α+β (y) α+β
β β
"  β α
#
  −
α α+β α α+β α β 1
= + (w1 ) α+β (w2 ) α+β (y) α+β
β β

Se a função apresentar retornos constantes de escala, ou seja, se α + β = 1, logo, β = 1 − α,


então as demandas condicionais simplificam para:
 1−α  −α
α −(1−α) 1−α α
x1 (w1 , w2 , y) = w1 w2 y e x2 (w1 , w2 , y) = w1α w2−α y
1−α 1−α
e a função custo simplifica para:

c(w1 , w2 , y) = α−α (1 − α)−(1−α) w1α w21−α y

Observe que a função custo gerada pela tecnologia representada por uma função de produção
Cobb-Douglas tem o formato Cobb-Douglas nos preços dos insumos.
Para todos os casos acima encontramos as demandas condicionais e as funções custo, mesmo
para tecnologias com retornos constantes ou crescentes de escala. Logo, o problema de inexistência
de solução que ocorre na maximização de lucro não acontece aqui. O problema de minimização
de custos fixa a quantidade a ser produzida em y, tornando irrelevante a questão de definir a
escala ótima de produção. O problema de inexistência de solução para os casos de RCE e RCrE

7
reaparece apenas na segunda etapa da análise do problema de maximização de lucros em duas
etapas, ou seja, na decisão do nı́vel de produção ótimo, que maximiza o lucro da firma.
Vamos analisar as CSO para o problema de minimização de custos da função de produção
Cobb-Douglas, para verificar que as demandas condicionais e a função custo encontradas acima
são válidas. As CSO são satisfeitas se a seguinte desigualdade for satisfeita:

f11 f22 + f22 f12 − 2f1 f2 f12 < 0

Calculando essas derivadas, temos que:

α(α − 1)β 2 x3α−2


1 x3β−2
2 + β(β − 1)α2 x3α−2
1 x23β−2 − 2α2 β 2 x3α−2
1 x23β−2 < 0

Podemos dividir essa última desigualdade por αβx3α−2


1 x23β−2 , supondo que α e β sejam maiores
do que zero (as quantidades usadas de insumo são sempre maiores ou iguais a zero). Obtemos:

(α − 1)β + (β − 1)α − 2αβ < 0 ⇒ α+β >0

Ou seja, para o problema de minimização do custo da firma, basta que os coeficientes da função
de produção sejam positivos (α > 0 e β > 0). Ressaltamos uma vez mais que se a tecnologia
apresentar retornos constantes ou crescentes de escala (α + β ≥ 1), não aparece o problema que
ocorre quando a firma maximiza lucros. Naquele caso, se o lucro for positivo para algum nı́vel
positivo de produção, a firma pode replicar a produção, obtendo um lucro infinito. Agora, o nı́vel
de produção está fixo em y e queremos apenas encontrar o custo mais barato de se produzir y
unidades do bem final.

5 Minimização de Custos Revelada


Suponha que coletamos duas observações de produção sobre uma firma qualquer que utiliza
apenas dois insumos (o caso geral é similar). Essas informações contêm as demandas por fatores
usadas pela firma, o preço desse fatores no perı́odo em que os fatores foram comprados, e o nı́vel
de produção, igual para as duas observações.

1) (xt1 , xt2 ), (w1t , w2t ), y t


2) (xs1 , xs2 ), (w1s , w2s ), y s

onde y t = y s . Como nas duas observações o nı́vel de produção é igual, as duas desigualdades
abaixo devem ser satisfeitas para a firma que minimiza custos:

w1t xt1 + w2t xt2 ≤ w1t xs1 + w2t xs2 e w1s xs1 + w2s xs2 ≤ w1s xt1 + w2s xt2

8
As duas desigualdades acima compõem o axioma fraco de minimização de custos (AFrMC).
Se multiplicarmos a segunda desigualdade por −1, somarmos com a primeira e rearranjarmos os
termos, obtemos:
(w1t − w1s )(xt1 − xs1 ) + (w2t − w2s )(xt2 − xs2 ) ≤ 0

Vamos usar a notação ∆wi = wit − wis , ∆xi = xti − xsi , para todo insumo i. Então a última
desigualdade se torna:
∆w1 ∆x1 + ∆w2 ∆x2 ≤ 0.

A implicação óbvia dessa última desigualdade é que a demanda condicional por um insumo
reage inversamente a uma mudança no seu preço. Por exemplo, se apenas o preço do insumo 1 se
altera, então ∆w2 = 0, e a última desigualdade acima se torna:

∆w1 ∆x1 ≤ 0,

ou seja, se o preço do insumo 1 aumenta, a sua quantidade demandada condicional não pode
aumentar (ou diminui ou continua a mesma, no caso mais extremo).

6 Rendimentos de Escala e Função Custo


Existe uma ligação intuitiva entre rendimentos constantes de escala (RCE) e a função custo.
Lembrem-se que uma tecnologia que apresenta RCE pode ser representada por uma função de
produção homogênea linear:

f (tx1 , tx2 ) = tf (x1 , x2 ), para todo t > 0.

Vamos denotar por c(w1 , w2 , 1) o menor custo de se produzir 1 unidade do bem final (y = 1).
O seguinte resultado é válido:

Teorema: Se a firma possui uma tecnologia que apresenta RCE, então a função custo dessa firma
pode ser escrita como:
c(w1 , w2 , y) = yc(w1 , w2 , 1).

Prova: Sejam x∗1 , x∗2 as demandas condicionais para se produzir uma unidade do bem final,
quando os preços dos insumos são w1 , w2 . Queremos mostrar que:

c(w1 , w2 , y) = w1 yx∗1 + w2 yx∗2 = y(w1 x∗1 + w2 x∗2 ) = yc(w1 , w2 , 1)

Precisamos mostrar dois pontos:

9
1) A quantidade de insumos (yx∗1 , yx∗2 ) pode produzir y unidades do bem final. Isso é con-
sequência da propriedade de RCE de f :

f (yx∗1 , yx∗2 ) = yf (x∗1 x∗2 ) = y,

já que as quantidades x∗1 , x∗2 produzem uma unidade do bem final.

2) A quantidade de insumos (yx∗1 , yx∗2 ) é a forma mais barata de se produzir y unidades do bem
final. Suponha que isso não seja verdade, ou seja, que exista um vetor de quantidades de
insumos (x̃1 , x̃2 ) que produz y a um custo mais barato do que (yx∗1 , yx∗2 ). Então:

w1 x̃1 + w2 x̃2 < w1 yx∗1 + w2 yx∗2

Se dividirmos essa última desigualdade por y, obtemos:

x̃1 x̃2
w1 + w2 < w1 x∗1 + w2 x∗2
y y

Novamente, como a tecnologia apresenta RCE, o vetor de insumos (x̃1/y, x̃2/y) produz uma
unidade do bem final:  
x̃1 x̃2 1 1
f , = f (x̃1 , x̃2 ) = y = 1.
y y y y
Porém (x∗1 , x∗2 ) é a forma mais barata de se produzir uma unidade do bem final, aos preços
de insumos w1 , w2 . Essa contradição foi gerada pela suposição de que (yx∗1 , yx∗2 ) não era a
forma mais barata de se produzir y unidades do bem final.

Então, (yx∗1 , yx∗2 ) é a forma mais barata de se produzir y unidades do bem final. Logo, obtemos:

c(w1 , w2 , y) = w1 yx∗1 + w2 yx∗2 = y(w1 x∗1 + w2 x∗2 ) = yc(w1 , w2 , 1),

o que completa a prova do teorema.

O resultado do teorema é intuitivo. Se a firma apresenta RCE, então o custo de se produzir


cem unidades do seu produto é apenas cem multiplicado pelo custo de produzir uma unidade desse
produto.
O que ocorre se a tecnologia da firma apresenta rendimentos crescentes de escala (RCrE)?
Nesse caso, o custo aumenta numa proporção menor do que o aumento da produção: se a firma,
por exemplo, aumenta a produção em dez vezes, o custo aumenta em menos de dez vezes. O
inverso ocorre se a tecnologia apresenta rendimentos decrescentes de escala (RDE): se a firma
aumenta a produção em dez vezes, o custo aumentará em mais de dez vezes.

10
Vamos analisar qual será o formato da função custo associada a funções de produção ho-
motéticas. Dizemos que f é homotética se pode ser escrita como f = g ◦ h, onde g é uma função
estritamente crescente e h é uma função homogênea de grau um. Logo, toda função homogênea de
grau k > 0 é uma função de produção homotética, já que pode ser escrita como uma combinação
g ◦ h, onde g(t) = tk e h é homogênea de grau um.
O teorema abaixo descreve o formato da função custo gerada por funções de produção ho-
motéticas e, como caso particular desse tipo de função, também o formato da função custo gerada
por funções de produção homogêneas de grau k.

Teorema: Função Custo Associadas a Funções de Produção Homotéticas. Se a função


de produção é homotética, então as funções custo e as demandas condicionais podem ser escritas
como:

c(w, y) = φ(y)c(w, 1),


x(w, y) = φ(y)x(w, 1),

onde φ(y) é função estritamente crescente e w representa o vetor de preços dos insumos.
Se a função de produção é homogênea de grau α > 0, então:

c(w, y) = y 1/α c(w, 1),


x(w, y) = y 1/α x(w, 1).

O resultado do teorema é intuitivo. Se a função de produção é homotética, a função custo é


separável em duas partes, uma que depende apenas dos preços dos insumos e outra que depende
apenas do nı́vel de produção. Mais ainda, se a função de produção é homogênea de grau k, a
função custo será homogênea de grau 1/k no nı́vel de produção. O resultado do teorema para as
demandas condicionais é consequência do lema de Shephard.
Por exemplo, se a função de produção é homogênea de grau 0, 5, então ela apresenta retornos
decrescentes de escala. Se a escala de produção dobrar, o nı́vel de produção aumenta apenas em
20,5 ≈ 1, 41 vezes. Nesse caso, o custo ao dobrar o nı́vel de produção é multiplicado em quatro
vezes.

Exemplo: Considere a seguinte função de produção Cobb-Douglas:

f (x1 , x2 ) = x0,25
1 x2
0,25

11
Usando a fórmula obtida acima para a função custo associada à Cobb-Douglas, obtemos:
"  β  − α+βα
#
α α+β α α β 1
c(w1 , w2 , y) = + (w1 ) α+β (w2 ) α+β (y) α+β = 2w10,5 w20,5 y 2
β β

Logo, o custo de produção de uma unidade de y é c(w1 , w2 , 1) = 2w10,5 w20,5 . A função custo pode
então ser reescrita como:
c(w1 , w2 , y) = c(w1 , w2 , 1)y 2 ,

exatamente o formato descrito pelo teorema.

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 20 - “Minimização de Custos”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 7 - “Custos de Produção”, seções 7.1, 7.2 e 7.3.

• Hall e Lieberman, cap. 6 - “Produção e Custo”, seções 4 - “Pensando sobre Custos”, 5 -


“Custos no Curto Prazo” e 6 - “Produção e Custo no Longo Prazo”.

• Nicholson e Snyder, cap. 10 - “Cost Functions”.

12
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 19 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Função Custo no Curto Prazo


Suponha que existam apenas dois fatores, x1 e x2 , onde o segundo fator não possa ser alterado
no curto prazo, o valor de x2 está fixo em x̄2 . A função custo de curto prazo (ou função custo
restringida) é definida por:

ccp (w1 , w2 , y; x̄2 ) = min w1 x1 + w2 x̄2 s.a. y = f (x1 , x̄2 )


x1

No caso de apenas um insumo variável, a escolha ótima da firma é óbvia: é a quantidade


mı́nima do insumo variável capaz de produzir y unidades do bem final. Para o caso de vários
insumos essa escolha não é tão simples, já que a firma pode escolher entre os insumos variáveis
existentes. O valor ótimo dos custos dos insumos variáveis (igual à w1 x1 (w1 , w2 , y; x̄2 )) é o custo
variável da firma. O custo do insumo fixo (igual à w2 x̄2 ) é o custo fixo da firma.
As CPOs do problema da firma no curto prazo são:

w1 = λf1 (x1 , x̄2 )


y = f (x1 , x̄2 )

Ou seja, as CPOs para os insumos variáveis continuam iguais às CPOs do problema sem
insumos fixos. Se a firma utiliza três insumos, onde apenas um está fixo, então para os dois
insumos variáveis continua valendo a condição de que a taxa técnica de substituição entre eles
deve ser igual à sua relação de preços. As demandas condicionais podem ser representadas da
seguinte forma:
xcp
1 = x1 (w1 , w2 , y; x̄2 ) e xcp
2 = x̄2

O superescrito cp indica que a demanda é de curto prazo. A demanda pelo primeiro insumo
depende do nı́vel que a firma possui do segundo insumo, x̄2 . Por exemplo, se o primeiro insumo é
trabalho e o segundo é uma máquina necessária na produção do bem final, a demanda por trabalho
dependerá da quantidade de máquinas que a firma tem disponı́vel hoje.
O custo de curto prazo é dado por:

ccp (w1 , w2 , y; x̄2 ) = w1 x1 (w1 , w2 , y; x̄2 ) + w2 x̄2

1
Suponha que os preços dos insumos estão fixos. Vamos representar então as funções de demanda
de longo e de curto prazo e a função custo de longo e de curto prazo apenas como funções do nı́vel
de produção:
xlp
1 = x1 (y), xlp
2 = x2 (y), c = clp (y)

A seguinte relação entre demandas de longo prazo e demandas de curto prazo é válida:

xlp cp lp
i (y) = xi (y; x2 (y)), i = 1, 2

A seguinte relação entre a função custo de longo prazo e a função custo de curto prazo é válida:

clp (y) ≤ ccp (y; x̄2 ),

com a igualdade valendo se x̄2 = xlp


2 (y).

Essas duas últimas igualdades são interpretadas do seguinte modo. A primeira igualdade diz
que a quantidade ótima de longo prazo do primeiro insumo necessária para se produzir y é igual
à quantidade ótima de curto prazo, quando a quantidade do segundo insumo é fixo ao nı́vel ótimo
de longo prazo. A segunda igualdade diz que o custo mı́nimo de longo prazo é sempre menor ou
igual ao custo mı́nimo de curto prazo. A igualdade vale quando a quantidade do segundo insumo
é fixo ao nı́vel ótimo de longo prazo (que é escolhido quando a firma minimiza os custos no longo
prazo).

2 Funções Custos
Os custos totais de uma empresa podem ser divididos em várias categorias. Primeiro, custos
como gastos salariais, arrendamentos, pagamentos a fornecedores de insumos e materiais, gastos
de operação e manutenção. Também existe um custo associado ao desgaste dos bens de capital
durante o processo produtivo, chamado de depreciação ou amortização. Finalmente, os donos da
empresa devem receber uma remuneração por seus investimentos. A função custo que analisamos
contempla todos esses tipos de custos. Vamos descrever algumas classificações possı́veis para os
custos de uma firma.
O custo fixo de uma firma é a parte do custo que não varia com a quantidade produzida.
Exemplos são gastos com aluguel, contador, segurança, etc. O custo variável é a parte do custo
que varia com a quantidade produzida. Exemplos são gastos com mão-de-obra, insumos variáveis,
etc. Como vimos, a classificação de um custo como fixo ou variável depende do horizonte temporal
da análise (no longo prazo todos os custos são variáveis). O custo total é a soma do custo fixo e
do custo variável.

2
Outros dois tipos de custos importantes são custo afundado (ou custo irrecuperável ) e custo
quase-fixo. Custo afundado é um custo fixo que uma vez feito, é perdido. Ou seja, uma vez
realizado, a firma não tem como recuperá-lo. Por exemplo, se uma loja resolve reformar o seu
espaço fı́sico de um modo que não pode ser aproveitado por nenhum outro comércio, isso é um custo
irrecuperável. Custo quase-fixo ocorre apenas se a firma decide produzir uma quantidade positiva
do bem. Se ela produz zero, não gasta nada desse custo. Se ela produz qualquer quantidade, ela
gasta um valor fixo. Por isso o nome quase-fixo.
Considere uma situação de curto prazo, ou seja, onde alguns fatores de produção estão fixos.
Vamos denotar as demandas e os preços dos fatores fixos pelo superescrito f e vamos denotar as
demandas e os preços dos fatores variáveis pelo superescrito v. Vamos usar a notação w = (wv , wf )
e x = (xv , xf ), onde wv , wf , xv , xf são vetores e vamos usar a notação wx, wv xv , wf xf para
representar a multiplicação de vetores termo a termo. A função custo de curto prazo pode ser
escrita como a soma dos custos variáveis e dos custos fixos da firma:

c(w, y; xf ) = wv xv (w, y; xf ) + |w{z


f f
x}
| {z } | {z }
Custo Total Custo Variável Custo Fixo

Portanto, CT (y) = CV (y) + CF , onde:

• Custo Variável (CV ): CV (y) = wv xv (w, y; xf ): é o custo que depende da quantidade


produzida.

• Custo Fixo (CF ): CF = wf xf : é o custo que não depende da quantidade produzida.

Podemos também definir os seguintes custos:

1. Custo Médio (CM e): é o custo total dividido pela quantidade produzida: CM e = y1 c(w, y; xf ):
custo médio por unidade produzida. O custo médio pode ser decomposto em dois outros
custos médios:

• Custo Variável Médio (CV M e): É o custo variável médio de produção, y1 wv xv (w, y; xf ) =
1
c (y).
y v

• Custo Fixo Médio (CF M e): é o custo fixo médio de produção, y1 wf xf = y1 CF .

2. Custo Marginal (CM g): é o acréscimo no custo ao se produzir mais uma unidade adicional
∂CT (y)
do bem final: CM g(y) = c0 (y) = ∂y
= CV 0 (y).

Todos esses custos são custos de curto prazo, pois pressupõem a existência de insumos fixos.
Vamos discutir a geometria das curvas de custo de curto prazo.

3
3 Geometria das Funções Custos de Curto Prazo

3.1 Custos Médios


O custo médio total divide-se em custo médio fixo e variável. O custo médio fixo é sempre
decrescente na quantidade produzida, pois quanto mais a firma produz, mais os custos fixos são
diluı́dos entre as várias unidades produzidas do bem final. O custo médio variável pode ser
decrescente inicialmente, mas, como alguns fatores estão fixos, ele se tornará crescente quando a
produção aumentar (se a produção aumentar muito, vai chegar um momento onde os fatores fixos
vão ser o principal empecilho à produção).
Para quantidades pequenas de produção, boa parte dos custos totais são custos fixos. Para
nı́veis altos de produção, esses custos fixos são diluı́dos e irão compor uma parte menor dos custos
totais. Em termos de custos médios, esses são decrescentes para nı́veis baixos de produção, em
razão da predominância dos custos fixos médios sobre custos variáveis médios quando o nı́vel de
produção é baixo, e são crescentes para nı́veis altos de produção, já que a relação entre custos fixos
médios e custos variáveis médios se inverte para nı́veis de produção altos. Portanto, o formato
mais comum para a curva de custo médio é um U, como ilustra a figura abaixo.

Custos
6
Predominam efeitos Predominam efeitos
dos Custos Fixos dos Custos Variáveis
CM e

-
y

Resumindo, a curva de custos médios é a soma da curva de custo variável médio mais a soma
da curva de custo fixo médio. A curva de custo fixo médio é sempre decrescente, e se aproxima de
zero quando a produção aumenta. Ou seja, para nı́veis mais altos de produção, a curva de custos
variáveis médios se aproxima da curva de custo médio total. A figura abaixo ilustra esse ponto.

4
Custos
6

CM e

CV M e

CF M e
-
y

Qual a relação entre custos médios e rendimentos de escala? Vimos anteriormente que se a
tecnologia apresenta RCE, a função custo pode ser escrita como uma função linear da quantidade
produzida: c(w1 , w2 , y) = yc(w1 , w2 , 1). Nesse caso, o custo médio da firma é o mesmo para
qualquer nı́vel de produção. Se a tecnologia da firma apresenta RCrE, o custo médio é decrescente,
já que nesse caso o custo total cresce em proporção menor do que o aumento da produção. Se
a tecnologia da firma apresenta RDE, o custo médio é crescente, já que nesse caso o custo total
cresce em proporção maior do que o aumento da produção. Então, na figura acima, na região onde
a curva de custo médio decresce, a tecnologia apresenta rendimentos crescentes de escala. Com o
aumento do nı́vel de produção, é de se esperar que algum fator se torne escasso, virando um fator
fixo. Nessa região, o custo médio se torna crescente, refletindo rendimentos decrescentes de escala
a partir desse nı́vel de produção. Essa relação é resumida na tabela abaixo.

Tipo de Rendimentos de Escala Forma da Curva de CM e


Decrescentes Crescente
Constantes Horizontal
Crescentes Decrescente

O custo médio é fundamental na determinação da viabilidade econômica e financeira de uma


empresa. Se o preço ou tarifa ou receita média (a receita da firma dividida pelas unidades produzi-
das e vendidas, igual ao preço do produto em um ambiente competitivo) é maior que o custo médio,
a empresa obtém uma receita maior que a necessária para cobrir seus custos totais. Se a receita
média é igual ao custo médio, a empresa consegue cobrir exatamente todos seus compromissos. Se
a tarifa de receita média é menor que os custos médios, a empresa tem perdas financeiras.

5
3.2 Custos Marginais
A curva de custo marginal possui uma relação importante com a curva de custo médio, descrita
pela proposição abaixo.

Proposição: A curva de custo marginal está abaixo da curva de custo médio quando esta é
decrescente e acima da curva de custo médio quando esta é crescente. As duas curvas se cruzam
no ponto mı́nimo da curva de custo médio.

Prova: Vamos derivar a curva de custo médio:


 
d c(y)
y yc0 (y) − c(y)
=
dy y2

Se o custo médio é decrescente, a derivada acima é negativa, ou seja,

yc0 (y) − c(y) c(y)


2
< 0 ⇒ c0 (y) < ,
y y

e, portanto, a curva de custo marginal está abaixo da curva de custo médio. Se o custo médio é
crescente, a derivada acima é positiva, ou seja,

yc0 (y) − c(y) c(y)


2
> 0 ⇒ c0 (y) >
y y

e, portanto, a curva de custo marginal está acima da curva de custo médio. Se o custo médio está
no seu ponto de mı́nimo, então a derivada acima é nula, ou seja,

yc0 (y) − c(y) c(y)


2
= 0 ⇒ c0 (y) =
y y

o custo marginal iguala-se ao custo médio. 

Custos
6

CM g CM e

-
y
6
Essa propriedade é intuitiva. Imagine a seguinte situação. Foram corrigidas dez provas de
microeconomia, e a média dessas provas é 7. Se a nota da próxima prova é 8 (nota marginal acima
da nota média), então a nota média sobe com a inclusão dessa nova prova. Porém, se a nota da
próxima prova corrigida é seis, a nota média diminui com a inclusão dessa nova prova. Esse mesmo
raciocı́onio é válido para a relação entre custo médio e custo marginal. A figura acima ilustra as
curvas de custo médio e custo marginal em um mesmo gráfico.
A curva de custo marginal é a derivada do custo total. Mais precisamente, ela é a derivada
do custo variável, já que o custo fixo não varia com a quantidade produzida. Pelo teorema
fundamental do cálculo, obtemos: Z ŷ
CV (ŷ) = c0 (y)dy
0
Ou seja, a área abaixo da curva de custo marginal mede o custo variável da firma. Mais
precisamente, ao calcularmos a área abaixo da curva de custo marginal de 0 até o nı́vel de produção
ŷ, como a fórmula indica, obtemos o custo variável de se produzir ŷ. Se considerarmos as funções
de custo de longo prazo, a área abaixo da curva de custo marginal mede o custo total de produção
da firma, já que no longo prazo não existe custo fixo.

3.3 Custo Médio de Longo Prazo


No longo prazo, todos os fatores são variáveis. Vimos anteriormente a seguinte relação entre o
custo de longo prazo e o custo de curto prazo:

clp (y) = ccp (y; xlp


2 (y))

Suponha que o insumo 2 esteja fixo no curto prazo em x2 = x̄2 . Suponha também que essa
quantidade de insumo 2 seria a quantidade que a firma escolheria no longo prazo se desejasse
produzir ȳ unidades do bem final. Para esse valor, as duas curvas de custo são iguais:

clp (ȳ) = ccp (ȳ; xlp


2 (ȳ))

Para qualquer outro nı́vel de produção, o custo de longo prazo vai ser menor do que o custo de
curto prazo, já que a firma pode ajustar o insumo 2 no longo prazo (e no curto prazo, não). Essa
relação se mantém válida para as curvas de custo médio de curto prazo e de longo prazo, já que
o custo médio é apenas o custo total dividido pelo nı́vel de produção. Podemos ilustrar a relação
entre custo médio de curto prazo e custo médio de longo prazo da seguinte forma:

7
Custos
6

CM eCP CM eLP

-
ȳ y

Portanto, a curva de custo médio é a envoltória inferior de todas as curvas de custo médio
de curto prazo, onde cada curva de custo médio de curto prazo é obtida ao variarmos o valor
do insumo fixo. A relação c(y) = ccp (y, x2 (y)) deixa esse ponto claro: cada nı́vel do insumo fixo
corresponde a algum nı́vel ótimo que seria escolhido no longo prazo, para a quantidade certa de
produção. A figura abaixo ilustra esse ponto.

Custos
6
Curvas de CM eCP para
três nı́veis do insumo fixo

CM eLP

-
y

Se o insumo fixo pode apenas assumir uma quantidade limitada de valores, então a curva de
custo médio passa a ter um formato menos suave, mas continua sendo a envoltória das curvas de
custo médio de curto prazo. A figura abaixo ilustra a curva de custo médio de longo prazo para
uma situação onde o insumo fixo pode tomar apenas três valores no longo prazo (por exemplo,
imagine que esse insumo é o tamanho do galpão que a firma pode alugar, e no longo prazo existem
apenas três tamanhos possı́veis).

8
Custos
6

CM eLP quando o insumo fixo pode ter apenas três nı́veis

A curva de CM eLP é a parte hachurada mais grossa

-
y

3.4 Custo Marginal de Longo Prazo


O custo marginal de longo prazo, para o caso onde o insumo era fixo e agora pode assumir
qualquer valor, é apenas a curva de custo marginal obtida da função custo de longo prazo. Ela
será menos inclinada do que qualquer curva de custo marginal de curto prazo, refletindo o fato
de que no longo prazo é mais barato produzir o bem final, já que a firma pode ajustar todos os
fatores de produção.
No exemplo descrito acima, onde a firma pode escolher para o insumo fixo apenas três valores
no longo prazo, a curva de custo marginal de longo prazo é dada pelas três seções descontı́nuas
das curvas de custo marginal de curto prazo que correspondem às seções da curva de custo médio
de curto prazo que por sua vez geram a curva de custo médio de longo prazo. A figura abaixo
ilustra esse caso.

Custos
6
CM eLP e CM gLP para três nı́veis do insumo fixo

XXX @
XX R
@
z A curva de CM g são
- as três partes LP
hachuradas mais grossas

-
y

9
Para o caso onde o insumo fixo pode assumir uma infinidade de valores, a curva de custo
marginal terá um formato convencional. A figura abaixo ilustra um exemplo de curvas de custo
médio e custo marginal tanto para o longo prazo como para o curto prazo (estamos desconsiderando
complicações técnicas que podem surgir quando existem mais de dois insumos fixos no curto prazo).

Custos
6

CM gCP CM eCP CM gLP


CM eLP

-
ȳ y

Note que para o nı́vel de produção ȳ, onde a escolha de longo prazo do insumo fixo é a mesma
que o valor em que o insumo está fixo, a curva de custo médio de longo prazo é igual à curva de
custo médio de curto prazo e a curva de custo marginal de longo prazo é igual à curva de custo
marginal de curto prazo

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 21 - “Curvas de Custo”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 7 - “Custos de Produção”, seções 7.4, 7.5 e Apêndice.

• Hall e Lieberman, cap. 6 - “Produção e Custo”, seção 7 - “Utilizando a Teoria: As Curvas


de Custo e a Reforma Econômica na Rússia” e 6 - “Produção e Custo no Longo Prazo”.

10
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 20 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Oferta da Firma
A análise que fizemos a respeito do custo da firma vale para qualquer firma que deseja maxi-
mizar lucros, seja uma firma pequena ou uma grande firma monopolista (desde que a firma tome
os preços dos insumos como dados). Vamos agora analisar a segunda etapa do problema de
maximização de lucros escrito em duas etapas, ou seja, a escolha do nı́vel ótimo de produção.
Porém, como vimos, precisamos dizer algo sobre o ambiente de mercado em que a firma está
inserida. Toda firma tentará cobrar o preço mais alto possı́vel pelo seu produto. Existem dois
fatores que impedem a firma de cobrar um preço muito alto pelo seu produto. O primeiro é a
demanda de mercado. Se o preço for alto demais, ninguém ou quase ninguém comprará o bem.
O segundo fator é a existência de outras firmas produzindo o mesmo bem. Se a firma cobrar
um preço muito alto, os consumidores provavelmente comprarão o bem de firmas que o vendem a
um preço mais barato.
Portanto, para modelarmos o comportamento da firma, precisamos supor algo sobre o ambiente
econômico em que está inserida. O ambiente em que estudaremos o comportamento da firma será
competição perfeita (ou concorrência pura).

1.1 Competição Perfeita


Dizemos que o mercado de um bem é perfeitamente competitivo se todas as firmas que pro-
duzem esse bem são tomadoras de preço: cada firma, individualmente, acha que não pode afetar
o preço do bem que produz, e o toma como dado quando faz suas escolhas de produção e de uso
de fatores.
A hipótese de competição perfeita é razoável para mercados onde o número de firmas é grande,
e cada firma produz uma parcela pequena da produção total do bem. Um mercado como o de pães
é um mercado competitivo (ou com caracterı́sticas muito próximas de um mercado competitivo):
cada padaria sabe que não pode cobrar um preço muito alto pelo seu pão, pois nesse caso perderia
sua clientela. Outra caracterı́stica comum a mercados competitivos é entrada e saı́da livres (ou sem
muitas dificuldades) do mercado. Montar uma padaria é um empreendimento que tem um custo,

1
mas não tão alto que impeça o surgimento de novas padarias, como podemos ver em qualquer
cidade, onde novas padarias abrem e velhas padarias fecham.
O mercado em competição perfeita é uma versão idealizada do mercado concorrencial. Mod-
elos de mercado em concorrência perfeita normalmente supõem que o número de compradores e
vendedores é grande o suficiente para dissipar qualquer influência de uma firma no mercado como
um todo. O mercado em concorrência perfeita é o principal paradigma econômico, pois apresenta
diversas caracterı́sticas de eficiência de bem-estar social. Entre elas, a mais importante é que na
ausência de falhas de mercado, a alocação do mercado competitivo maximiza o bem-estar social
(isso será visto no curso de microeconomia 2).
Porém, para que que um mercado seja perfeitamente competitivo basta que as firmas partic-
ipantes desse mercado sejam tomadoras de preços. Mesmo que existam poucas firmas, se cada
uma acha que o preço do bem que produz independe das ações que toma, então o mercado desse
bem será perfeitamente competitivo.
Se a firma é tomadora de preços, a demanda da firma pelo seu bem é o preço de mercado,
que a firma toma como dado para o seu produto. A demanda da firma é diferente da demanda
de mercado, a soma de todas as demandas individuais do bem. Por exemplo, a demanda diária
do mercado de pães franceses em Brası́lia deve ser algo em torno da casa de centenas de milhares
ou mais. Porém a demanda de uma padaria é apenas algumas centenas ou poucos milhares. Se
uma padaria produzir mais pães, o efeito será desprezı́vel frente à demanda total, e o preço não
mudará. Ou seja, para uma firma competitiva, qualquer que seja a quantidade que ela produzir
do seu bem, esse bem continuará sendo vendido ao mesmo preço. Então, se o preço de mercado é
pM , a demanda com que a firma se defronta é:

 0, se p > pM


D(p) = qualquer valor, se p = pM


∞, se p > pM

Portanto, a demanda da firma, depende não somente da demanda dos consumidores, mas
também das ações das outras firmas, enquanto a demanda de mercado depende apenas das decisões
dos consumidores.
Vamos analisar a decisão de produção de uma firma competitiva (não iremos nos preocupar
com a escolha ótima de insumos, que já foi analisada anteriormente quando discutimos o problema
de minimização de custos). Vamos escrever a função custo apenas como função da quantidade
produzida, c = c(y), já que estamos interessados em analisar a oferta da firma. Imagine que a
firma resolveu o seu problema de minimização de custos, ou seja, conhecemos c(y), o custo mı́nimo

2
de se produzir a quantidade y do bem. Então o problema da firma se reduz a decidir o nı́vel de
produção ótimo:
max Receita(y) − Custos(y)
y

A CPO desse problema é

Receita Marginal (RM g(y ∗ )) = Custo Marginal (CM g(y ∗ ))

Essa condição é válida para qualquer firma, esteja ela inserida em um ambiente competitivo
ou não. Se a condição não for válida, a firma pode aumentar os lucros. Por exemplo, suponha
que RM g > Cmg. Se a firma aumentar a produção em uma unidade, essa unidade custará CM g
para ser produzida e trará uma receita igual a RM g. Como RM g > CM g, a firma aumentará
o seu lucro. A firma produzirá mais até que a receita marginal se iguale ao custo marginal. Se
CM g > RM g, então raciocı́nio inverso é válido: a firma aumentará o seu lucro se produzir menos
uma unidade do bem. A firma diminuirá a produção até que o custo marginal se iguale à receita
marginal.
A receita marginal da firma é o valor que a firma ganha ao vender mais uma unidade do bem que
produz. Logo, a receita marginal depende, em geral, da quantidade produzida. Para definirmos
mais precisamente a receita marginal da firma, temos que impor alguma condição sobre a estrutura
da indústria em que essa firma está inserida. Como já discutimos, vamos supor que a firma é
competitiva ou está inserida em um mercado competitivo. A firma então é tomadora de preços:
toma os preços dos produtos e dos insumos como fixos, além da sua capacidade de manipulação.
Essa hipótese é razoável para várias indústrias, como a de padarias, por exemplo. Uma padaria
dificilmente vai poder cobrar mais pelo seu pão (controlando pela qualidade) do que o preço de
mercado. Nem vai poder comprar insumos com um desconto maior do que outras padarias obtêm.
Nesse caso, dizemos que a firma não tem poder de mercado. No curso de microeconomia 2 situações
onde essa hipótese não é razoável (por exemplo, monopólios e oligopólios) serão estudadas.
Para a firma competitiva, a receita marginal é igual ao preço, pois sua receita é dada pela
venda da sua produção, p × y, já que a firma competitiva é tomadora de preços. Então, para cada
unidade adicional do bem vendida, a firma competitiva recebe o preço de mercado do bem. O
problema de maximização de lucros da firma competitiva, uma vez determinada a sua função de
custo, é:
max py − c(y)
y

3
As CPO e CSO são:

(CP O) : p = CM g = c0 (y)
(CSO) : − c00 (y) < 0 ⇒ c00 (y) > 0

A firma produz até o ponto onde o seu custo marginal se iguala ao preço. Ou seja, a curva de
oferta de uma empresa competitiva é igual a sua curva de custo marginal (porém, as duas curvas
são objetos conceitualmente diferentes). A condição de segunda ordem diz que o nı́vel de produção
ótimo tem que estar situado na parte crescente da curva de custo marginal.
Mais precisamente, a curva de oferta da firma é igual à parte crescente da sua curva de
custo marginal que está acima da curva de custo variável médio. Vamos analisar essa afirmação
cuidadosamente. A figura abaixo ilustra a curva de oferta de uma firma competitiva.

Custos
6

CM g CM e
CV M e

@
@
R
@
A parte hachurada da curva de CM g
é a curva de oferta da firma competitiva
-
y

Primeiro, a CSO diz que a curva de oferta de uma firma competitiva é igual à parte crescente
da curva de custo marginal. Se a firma possui uma curva de custo marginal em forma de U, a
igualdade acima, p = CM g, pode ocorrer para dois nı́veis de produção: um onde o custo marginal
está decrescendo e outro onde o custo marginal está crescendo (na figura abaixo, os nı́veis de
produção y1 e y2 igualam o custo marginal ao preço p).

4
Custos
6

CM g

Para o preço p, existem dois


nı́veis de produção para
os quais p = CM g: y1 e y2 .
p s s
Apenas y2 é ótimo

-
y1 y2 y

A firma nunca escolhe um nı́vel de produção na parte decrescente da sua curva de custo
marginal, pois isso não é ótimo. Nessa parte da curva de custo marginal, a firma pode aumentar o
seu lucro aumentando a produção, já que a receita marginal é constante, igual ao preço, e o custo
marginal decresce se a firma aumentar a produção. Ou seja, o lucro aumenta se a firma aumentar
a produção. Se você não está totalmente convencido, veja o gráfico acima e refaça o argumento de
que a firma não está maximizando o seu lucro no ponto y1 , onde p = CM g, na parte decrescente
do custo marginal.
Segundo, a curva de oferta é igual à curva de custo marginal apenas na região onde o custo
marginal está acima do custo variável médio. Se o custo marginal for menor do que o custo variável
médio, será melhor para a firma encerrar suas atividades: o que ela produz não cobre nada dos
custos fixos nem parte dos custos variáveis de produção. Portanto, se a firma encerrar a produção,
terá um prejuı́zo menor, pois terá que pagar apenas os custos fixos, e nada dos custos variáveis.
Se o preço de mercado é tal que a firma produz uma quantidade onde a curva de custo marginal
está entre a curva de custo variável médio e a curva de custo médio total, como a figura abaixo
ilustra, então a firma está tendo prejuı́zo: a receita do que ela produz é capaz de cobrir todos os
custos variáveis, mas não todos os custos fixos.

5
Custos
6

CM g CM e
CV M e

@
@
R
@
Nessa parte hachurada da curva de CM g,
a firma tem prejuı́zos mas continua operando
-
y

Se a firma produz uma quantidade onde a curva de custo marginal é igual à curva de custo
médio total, então a firma está tendo lucro zero: a receita do que ela produz é capaz de cobrir
todos os custos variáveis e todos os custos fixos. Finalmente, se a firma produz uma quantidade
onde a curva de custo marginal é maior do que a curva de custo médio total, então a firma está
tendo lucro positivo: a receita do que ela produz é mais do que capaz de cobrir todos os custos
variáveis e todos os custos fixos.
Podemos resumir as conclusões da análise acima na seguinte tabela:

Caso Decisão da Firma Lucro (ou Prejuı́zo)


p < CV M e Encerra atividades Prejuı́zo = CF
p = CV M e Indiferente Prejuı́zo = CF
CV M e < p < CM e Produz Prejuı́zo < CF
p = CM e Produz Lucro zero
p > CM e Produz Lucro Positivo

O resultado principal é que a curva de oferta da firma competitiva é inclinada positivamente:


se o preço do seu produto aumentar, a firma produzirá mais desse bem.
A função de oferta inversa da firma é dada por p(y) = CM g(y). Essa função mede o preço
para o qual a firma oferecerá y unidades do produto. Nos gráficos acima, representamos a curva
de oferta inversa, já que o eixo vertical representa o preço do bem.

6
A curva de oferta inversa diz que o preço é igual ao custo marginal da firma. Como todas
as firmas participantes de um mesmo mercado se defrontam com o mesmo preço, então todas
as firmas que maximizam lucros produzem uma quantidade tal que o custo marginal da última
unidade produzida é igual em toda firma. Isso não quer dizer nem que o nı́vel de produção nem
que o custo médio de produção das firmas serão iguais (dependerá da tecnologia, que pode ser
diferente em cada firma).

1.2 Lucros e Excedente do Produtor


O Excedente do Produtor (EP ) é a área acima da curva de oferta, e abaixo do preço do bem. A
curva de oferta diz a quantidade ofertada para cada nı́vel de preços. No caso da firma competitiva,
a curva de oferta é dada pela curva de custo marginal. Então o EP , a área entre essa curva e o
preço de mercado, mede o quanto a firma está ganhando ao receber o mesmo preço por unidades
que custaram mais barato do que o custo marginal da última unidade vendida.

Custos
6

CM g CM e

pM CV M e

EP

-
y
Lembrem-se que área abaixo da curva de CM g mede o custo variável da firma:
Z y
CV (y) = CM g(x)dx
0

Então podemos escrever o EP como a diferença entre a receita da firma (py) e o custo variável
da firma:
EP (y) = py − CV (y)

O lucro da firma é a diferença entre receitas e custos, onde custos podem ser divididos em
custos fixos e custos variáveis:
Lucro = py − CV − CF

7
Juntando essa duas equações, obtemos a seguinte relação entre EP e lucro da firma:

EP (y) = Lucro(y) + CF

O Excedente do Produtor (EP ) é muito usado para medir a perda ou o ganho de lucro quando
a firma varia o seu nı́vel de produção. Podemos medir o impacto no lucro da firma causado por
uma alteração no nı́vel de produção, utilizando apenas a curva de CM g e o CF de produção (ou
seja, sem ter nenhum conhecimento sobre o CM e de produção).

Custos
6

pM

∆EP
p̂M

Se o preço aumentou de p̂M para pM ,


então ∆EP é o ganho de EP dessa mudança
-
y

Se ocorre uma mudança de produção como a descrita pelo gráfico acima, e supondo que o CF
não se alterou, então o lucro da firma aumentou no mesmo valor do que o aumento no EP .
Isso é facilmente visto usando a relação que derivamos entre EP e lucro:
∂EP ∂Lucro ∂CF ∂EP ∂Lucro
= + ⇒ =
∂y ∂y ∂y ∂y ∂y

1.3 Longo Prazo


No longo prazo, todos os custos são variáveis. Se a firma operou com prejuı́zo, pois conseguia
pagar parte dos custos fixos, no longo prazo ela fecha as portas e sai do mercado. Ou seja, se uma
firma que produz papelão está conseguindo pagar todos os seus custos variáveis, mas não consegue
pagar totalmente o aluguel do galpão onde opera, assim que vencer o contrato de aluguel, a firma
não renovará o aluguel e sairá do mercado.
Portanto, os lucros de longo prazo de uma firma são no mı́nimo iguais a zero. Se os lucros
forem negativos, a firma sai do mercado. Então o preço do bem no longo prazo é no mı́nimo igual
ao custo médio, p ≥ CM e.

8
Uma medida para a resposta da oferta de mercado quando ocorre uma variação no preço do
bem é a elasticidade preço da oferta. Como a oferta depende do prazo de análise, a elasticidade
preço da oferta também depende do prazo de análise. O princı́pio de LeChatelier diz que a resposta
da oferta de uma firma no longo prazo será maior ou igual do que no curto prazo. Logo, a resposta
da oferta da indústria no longo prazo será maior ou igual do que no curto prazo. Por sua vez, a
elasticidade preço da oferta de longo prazo será maior do que no curto prazo.
Portanto, a oferta de longo prazo da firma é mais elástica com relação ao preço do produto do
que a oferta de curto prazo: se ocorre uma mudança de preço, a reação da firma a essa mudança é
maior no longo prazo do que no curto prazo, já que no longo prazo a firma pode ajustar os fatores
fixos. Os gráficos abaixo ilustram curvas de ofertas de longo prazo e de curto prazo para uma
firma. Note como no longo prazo, a produção da firma se altera mais do que no curto prazo para
uma mudança de preços de mesmo tamanho.

Custos,
preços 6

CM gCP CM eCP CM gLP


CM eLP

-
ȳ y

Preço
6 Curva de Oferta
de Curto Prazo

Curva de Oferta
de Longo Prazo

-
ȳ y

9
Leitura Recomendada

• Varian, caps. 22 - “Oferta da Firma”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 8 - “Maximização de Lucros e Oferta Competitiva”, seções 8.5,


8.6, 8.7 e 8.8.

• Hall e Lieberman, cap. 8 - “Concorrência Perfeita”, seções 1 - “O que é Concorrência


Perfeita?” e 2 - “A Firma Perfeitamente Competitiva”.

• Nicholson e Snyder, cap. 11 - “Profit Maximization”.

10
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 21 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Demanda de Mercado
Suponha que existam I potenciais compradores de um bem qualquer. A demanda de mercado
de um bem é a soma de todas as demandas individuais por esse bem:
I
X
d
q (p) = q i (p, p, mi ),
i=1

onde mi é a renda do comprador i, q i (p, p, mi ) e p são a demanda desse comprador e o preço do


bem em questão, e p são os preços de todos os outros bens.
A demanda de mercado depende portanto do preço do bem, de todos os outros preços da
economia, e da renda de cada um dos compradores desse bem (além de outros fatores implı́citos).
Em geral, não podemos afirmar que a demanda depende apenas da renda total dos participantes
do mercado. A distribuição de renda entre os indivı́duos também afeta a demanda de mercado.
A lei da demanda diz que a função de demanda individual é negativamente inclinada com
relação ao preço do bem. Como a demanda de mercado é dada pela soma de todas as demandas
individuais, e cada uma delas satisfaz a lei da demanda, a demanda de mercado também satisfaz a
lei da demanda. Além disso, a demanda de mercado é homogênea de grau 0 nos preços e em todas
as rendas individuais, pois cada demanda individual satisfaz a propriedade de homogeneidade nos
preços e na renda.
A indústria competitiva (diferentemente da firma competitiva) se defronta com uma curva de
demanda negativamente inclinada (na maioria dos casos). Note que uma firma em particular se
defronta com uma demanda horizontal, pois o seu tamanho é pequeno em relação ao tamanho do
mercado todo. Porém, a indústria se defronta com a demanda de mercado, que é negativamente
inclinada.
Se certas condições são satisfeitas, podemos representar a demanda de mercado de um bem
como se fosse a demanda de um consumidor representativo do mercado, ou seja, o comportamento
da demanda do mercado de um bem é descrito por uma função q d (p, M ), onde M = Ii=1 mi
P

é a soma da renda de todos os consumidores participantes do mercado. Neste caso, a demanda


agregada comporta-se como se fosse a demanda de um indivı́duo representativo do mercado, com

1
renda M . A hipótese de existência de um consumidor representativo é bastante limitadora e
elimina a questão da influência da distribuição de renda sobre a demanda de mercado de um bem.
Finalmente, note que podemos definir os conceitos de elasticidade preço e elasticidade renda
(se supusermos a hipótese de um consumidor representativo) para a demanda de mercado, de
modo similar ao que fizemos antes para a demanda de um indivı́duo.

2 Oferta de Mercado
A função de oferta de uma indústria competitiva é a soma de todas as ofertas de cada firma.
A análise da oferta de um bem deve levar em conta o horizonte temporal. Se o prazo da análise é
muito curto, é comum supor uma oferta fixa, inelástica, pois as firmas não têm tempo hábil para
mudar a produção. Em um prazo um pouco mais longo, mas ainda considerado de curto prazo,
as firmas conseguem ajustar alguns insumos de produção e com isso ajustar o nı́vel de produção.
No longo prazo, todos os insumos de produção são variáveis e, nesse caso, a oferta é mais elástica.
Podemos então destacar duas curvas de oferta principais: a curva de oferta de curto prazo,
que mostra como a oferta da indústria responde a diferentes preços no curto prazo; e a curva de
oferta de longo prazo, que mostra como a oferta da indústria responde a diferentes preços no longo
prazo.
Para cada caso, podemos encontrar também a função de oferta inversa da indústria, que diz
qual preço mı́nimo a indústria como um todo aceita para ofertar uma certa quantidade.
A função de oferta de curto prazo de um mercado competitivo é a soma de todas as ofertas de
curto prazo cada firma. Se existem J firmas na indústria, e se cada firma j oferta qj (p, w) quando
o preço é p, então a oferta da indústria é:
J
X
q S (p) = qj (p, w)
j=1

No curto prazo, o número de vendedores no mercado, J, está fixo. Esses vendedores podem
variar a sua oferta apenas usando os fatores que não estão fixos.
Vimos que a função de oferta de uma firma competitiva é dada pela curva de custo marginal.
Quando podemos encontrar a curva de oferta da firma j, qj (p), usando as condições de primeira
e segunda ordem da firma competitiva, temos que

(CP O) : p = CM gj (q) = c0j (q)


(CSO) : c00j (q) > 0

2
Derivando a CP O com relação a p, obtemos:

1 = c00j (q)q 0 (p)

Usando a CSO, note que a oferta da firma j, qj (p), é positivamente inclinada. Portanto, a
função de oferta total do bem (a função de oferta da indústria) é também positivamente inclinada:
um aumento do preço do bem aumenta a sua quantidade ofertada no mercado.
A função de oferta de longo prazo de um mercado competitivo é a soma de todas as ofertas de
longo prazo cada firma. Além disso, no longo prazo, ocorre livre entrada e saı́da de firmas de uma
indústria competitiva. Uma firma individual então só continuará operando se não tiver prejuı́zo.
Portanto, a curva de oferta de longo prazo de uma firma competitiva é igual à curva de custo
marginal de longo prazo dessa firma que fica acima da sua curva de custo médio total.
Mais ainda, para a indústria como um todo, se existem muitas firmas, a situação de equilı́brio
no longo prazo é de lucro zero ou próximo de zero. Se a indústria estiver auferindo lucros positivos
significantes, novas firmas entrarão nesse mercado, aumentando a competição e diminuindo o lucro
das firmas existentes.
A curva de oferta de longo prazo da indústria é plana ou quase plana, com o preço igual ao
custo médio mı́nimo de produção. Então, no longo prazo de uma indústria competitiva ocorre
uma situação de eficiência econômica, com preço igual ao custo marginal e igual ao custo médio
mı́nimo, onde cada firma realiza um lucro econômico igual a zero.
Nesse caso, temos duas variáveis para determinar no equilı́brio de longo prazo de uma indústria
competitiva: o preço de equilı́brio e o número de firmas da indústria. Essas variáveis são deter-
minadas pelas seguintes condições:
J ∗
X

d
q (p ) = qj (p∗ ),
i=1

j
π (p ) = 0, j = 1, . . . , J ∗ .

A primeira equação é condição de equilı́brio de mercado (demanda igual à oferta), e a segunda


equação é a condição de lucro zero da firma competitiva.

3
3 Equilı́brio Parcial em um Mercado Competitivo
Dizemos que um mercado é competitivo quando os compradores e os ofertantes do bem tomam,
de modo individual, o preço do bem como dado. Cada participante do mercado é uma parcela
pequena do mercado e tem um efeito muito pequeno sobre o mercado como um todo. Porém,
o equilı́brio de mercado é determinado por todos os seus participantes. Esta hipótese é razoável
quando existe um grande número de firmas e consumidores no mercado, onde estas firmas pro-
duzem o mesmo bem (bem homogêneo), sem diferenças de qualidade.
Além do fato de que os participantes do mercado tomam os preços como dados, vamos supor
que:

• Cada firma busca maximizar o lucro e cada indivı́duo busca maximizar a sua utilidade;

• Informação é perfeita: firmas e consumidores conhecem os preços e a qualidade dos produtos;

• Custos de transação são nulos: firmas e consumidores não incorrem em custos para transa-
cionar no mercado.

O segundo item acima, informação perfeita, é pouco razoável em diversos mercados, como,
por exemplo, o mercado de carros usados, onde vendedores possuem conhecimento maior sobre o
carro sendo vendido do que os compradores. Akerlof (1970, The Market for “Lemons”: Quality
Uncertainty and the Market Mechanism, the Quaterly Journal of Economics) analisou o problema
de informação nesse mercado e obteve conclusões que se aplicam a qualquer mercado onde ocorre
problemas de assimetrias de informação entre vendedores e compradores.
O terceiro item acima, custos de transação nulos, é também pouco razoável em diversos mer-
cados, como, por exemplo, o mercado de imóveis, onde compradores incorrem em um custo de
procura pelo imóvel desejado. Este tipo de mercado é melhor analisado usando modelos de procura,
onde compradores incorrem em um custo de procura pelo bem desejado.
Porém, analisaremos aqui apenas mercados competitivos que satisfazem as condições enumer-
adas acima.
Dizemos que o mercado de um certo produto está em equilı́brio quando a demanda desse
produto se iguala à sua oferta. O equilı́brio de mercado competitivo é obtido via ajuste de preços:
o preço de equilı́brio é o preço que faz com que a demanda seja igual à oferta. Como a demanda
diminui se o preço sobe e a oferta aumenta se o preço sobe, só existe um preço de equilı́brio. A
figura abaixo ilustra esse ponto.

4
Preço
6

Curva de Oferta
Q 

Q 
Q 
Q 
Q 
Q 
s
Q 
p∗
Q
QQ
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
Curva de Demanda

-
q∗ Quantidade

Exemplo: Suponha que a demanda pelo bem é dada por D(p) = 10 − p e a oferta do bem é dada
por S(p) = 6 + p. O preço de equilı́brio é o preço que faz a demanda e a oferta se igualarem:

S(p∗ ) = D(p∗ ) ⇒ 10 − p∗ = 6 + p∗ ⇒ p∗ = 2

Ao preço p∗ = 2, a oferta é igual a S(2) = 8 e a demanda é igual a D(2) = 8. Ou seja, oito


unidades do bem são produzidas e oito unidades do bem são consumidas ao preço de R$ 2.

Se a demanda é maior do que a oferta, dizemos que há um excesso de demanda. Se a oferta
é maior do que a demanda, dizemos que há um excesso de oferta. Em qualquer desses casos, o
preço se ajustará para equilibrar o mercado.
Se existe excesso de oferta em um mercado, ao preço atual, as firmas estão dispostas a ofertar
mais do que os consumidores desejam comprar. Sobrará uma quantidade de bens (o excesso de
oferta) que não será vendida. As firmas reduzirão os preços até que consigam se desfazer desse
excesso de oferta. No gráfico abaixo, ao preço p̂, as firmas desejam ofertar qO unidades do bem.
Porém a esse preço p̂, os consumidores desejam consumir qD < qO . O excesso de oferta faz com
que o preço caia, diminuindo a oferta e aumentando a demanda, até que as duas se igualem.

5
Preço
6

Curva de Oferta
Q 

Q 
Q sExcesso de Oferta
s
Q 
p̂ Q 
Q 
Q
Q
QQ
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
Curva de Demanda

-
qD qO Quantidade

Se existe excesso de demanda em um mercado, ao preço atual, os consumidores estão dispostos


a comprar mais do que as firmas estão dispostas a ofertar. Faltará uma quantidade de bens (o
excesso de demanda) no mercado. As firmas subirão os preços até que o excesso de demanda
desapareça. No gráfico abaixo, ao preço p̃, as firmas desejam ofertar qO unidades do bem. Porém
a esse preço p̃, os consumidores desejam consumir qD > qO . O excesso de demanda faz com que o
preço aumente, diminuindo a demanda e aumentando a oferta, até que as duas se igualem.

Preço
6

Curva de Oferta
Q 

Q 
Q 
Q 
Q 
Q 
Q
Q
QQ
 Q
 Q

s Qs
 Q
p̃ 

Excesso de Demanda QQ
 Q
Curva de Demanda

-
qO qD Quantidade

Vamos analisar agora dois casos extremos, o primeiro onde a oferta é perfeitamente elástica e
o segundo onde a oferta é perfeitamente inelástica.

6
1) Oferta Perfeitamente Elástica. Nesse caso, a curva de oferta inversa é horizontal, como a
figura abaixo ilustra.

p
6

Q
Q
Q
Q
Q
Q r
p∗ Q Curva de Oferta
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Curva de Demanda

-
q∗ q

A oferta perfeitamente elástica determina inteiramente o preço de equilı́brio. A demanda, por


sua vez, determina inteiramente a quantidade consumida de equilı́brio.

2) Oferta Perfeitamente Inelástica. A oferta é perfeitamente inelástica quando a indústria


dispõe apenas de uma quantidade fixa do produto para vender. Nesse caso, a oferta é vertical,
como a figura abaixo ilustra.

p
6
Curva de Oferta
Q
Q
Q
Q
Q
Q r
p∗ Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Curva de Demanda

-
q∗ q

A oferta perfeitamente inelástica determina inteiramente a quantidade de equilı́brio. A de-


manda, por sua vez, determina inteiramente o preço de equilı́brio. Esse tipo de situação pode
ocorrer em um prazo de análise muito curto, para certos tipos de bens, como bens perecı́veis, por
exemplo.

7
Normalmente, a oferta terá uma inclinação positiva, e nesse caso a demanda e oferta conjun-
tamente determinam ambos: o preço e a quantidade de equilı́brio. Apesar de hoje esse ponto ser
amplamente aceito, ele levou muitos anos para ser desenvolvido. Aristóteles escreveu que o preço
de um bem deveria ser o seu valor justo. Essa visão perdurou por muitos anos, sendo adotada
por São Tomás de Aquino. Adam Smith elaborou a teoria do valor do trabalho, na qual o valor
de um bem é dado pelo trabalho contido nele. David Ricardo e Karl Marx refinaram essa teoria.
Marx considerava que o valor de um bem é dado pelo trabalho socialmente necessário para a sua
fabricação. Na segunda metade do século XIX, Stanley Jevons e Carl Menger argumentaram que
apenas a utilidade que um bem provê é o determinante do valor desse bem.
Alfred Marshall, em seu livro Princı́pios de Economia, argumentou que tanto o custo de um
bem como a sua utilidade definem o seu valor, dado pelo seu preço. A sua famosa frase deixa esse
ponto claro, ao comparar a demanda e a oferta com as lâminas de uma tesoura:

“We might as reasonably dispute whether it is the upper or the under blade of a pair
of scissors that cuts a piece of paper, as whether value is governed by utility or cost of
production. (p.164, Principles of Economy)”

4 Estática Comparativa
Exercı́cios de estática comparativa em modelos de equilı́brio parcial medem o efeito de um
choque, uma alteração de uma ou mais variáveis, no equilı́brio de mercado. Os três casos que
analisaremos abaixo são particularmente importantes.

1) Choques na Demanda

Um choque na demanda é qualquer evento que altera a demanda de um bem. Um choque de


demanda desloca a curva de demanda para a esquerda ou para direita, dependendo se esse choque
contrai ou expande a demanda, respectivamente. Por exemplo, se metade dos consumidores de um
bem morrem subitamente, a curva de demanda desse bem se deslocará para esquerda, indicando
que houve uma diminuição na quantidade demandada para todo nı́vel de preço possı́vel. Nesse
caso, tanto o preço quanto a quantidade de equilı́brios diminuirão. A figura abaixo ilustra essa
situação.

8
p
6
Q
Q Oferta
Q 

Q 
Q 
Q 
p∗ s
Q Q
Q Q
Q
Q  Q
Q  Q
?
s
Q  Q
p∗∗
Q Q
Q Q
 Q Q
 Q Q

 Q
Q
Q
Demanda Original
 Q
Q
Q
Q
Q
Q
Demanda Final
-
q ∗∗  q∗ q

2) Choques na Oferta

Um choque na oferta é qualquer evento que altera a oferta de um bem. Um choque de oferta
desloca a curva de oferta para a esquerda ou para direita, dependendo se esse choque contrai ou
expande a oferta, respectivamente. Por exemplo, se metade das firmas que produzem um bem são
destruı́das em um terremoto, a curva de oferta desse bem se deslocará para esquerda, indicando
que houve uma diminuição na quantidade ofertada para todo nı́vel de preço possı́vel. Nesse caso,
a quantidade de equilı́brio diminuirá e o preço de equilı́brio aumentará. A figura abaixo ilustra
essa situação.

p
6
Oferta Final


Q  I
@@
 Oferta Original
Q 
Q  @ 
Q 
p∗∗

s
Q  
Q 
Q 
6  Q 
 Q
Q s
p∗  
 Q

  QQ
@
I
@  Q
 Q
@  Q
Q


 Curva de Demanda

-
q ∗∗  q∗ q

9
3) Tributos e Impostos

Vamos considerar dois tipos de impostos:

1. Imposto sobre a quantidade: taxa cobrada por cada unidade do bem vendida. Exemplo: A
Lei 10.336, de 19 de dezembro de 2001, instituiu a Contribuição de Intervenção no Domı́nio
Econômico (Cide) - Combustı́veis, que tributa em R$ 501,10 o metro cúbico de gasolina, ou
seja, cerca de cinquenta centavos por litro de gasolina.

2. Imposto sobre o valor (imposto ad valorem): taxa cobrada sobre o valor do bem, expressa em
termos percentuais. Exemplo: Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) é um imposto
federal, cuja alı́quota depende do bem. No caso de cigarros a alı́quota do IPI em 1999 era
de 41,25% do preço de venda a varejo do maço de cigarro.

Suponha que sobre um determinado bem é cobrado um imposto sobre a quantidade de tamanho
t, pago pelo vendedor do bem. Nesse caso, temos que pD = pS + t, onde pD é o preço pago pelos
consumidores e pS é o preço recebido pelos vendedores. Se o imposto é do tipo ad valorem, com
taxa τ , temos que pD = (1 + τ )pS .

4) Repasse de um Imposto

O quanto do imposto recai sobre os consumidores e o quanto recai sobre os vendedores depende
das caracterı́sticas do mercado, ou seja, da demanda e da oferta.
Para os dois casos extremos discutidos acima, oferta perfeitamente elástica e oferta perfeita-
mente inelástica, temos que o imposto recai apenas sobre um dos lados do mercado. Se a oferta
é perfeitamente elástica, o imposto é inteiramente repassado aos consumidores. Se a oferta é per-
feitamente inelástica, o imposto é todo pago pelos vendedores do bem. As figuras abaixo ilustram
esses dois casos.

p p
6 6
qS
Q Q
Q Q
Q Q
Qr Qr
Q Q
p∗ +t Q q̂ S p∗ Q
p∗
Q Q
Q qS Q
Q
Q
Q p∗ − t r
Q
QQ
qD qD

- -
q∗ q q∗ q

10
5) Perda de Peso Morto e Eficiência

Um imposto não gera apenas uma transferência de riqueza do mercado para o governo. Ele
diminui a quantidade de mercado e com isso gera uma perda de peso morto (“deadweight loss”),
uma renda econômica dissipada. Na figura abaixo, o imposto modifica os preços de equilı́brio. A
área A é excedente do consumidor transferido para o governo e a área C é excedente do produtor
transferido para o governo. Logo, a área A + C é a receita que o governo arrecada com o imposto.
A área B é excedente do consumidor dissipado pela diminuição da quantidade de equilı́brio
dado o imposto. A área D é excedente do produtor dissipado pela diminuição da quantidade de
equilı́brio devido ao imposto.
A soma B + D é a perda social gerada pelo imposto. Essa perda, chamada também de perda
de peso morto ou ônus do imposto, é uma ineficiência gerada pelo imposto.

p
6

Curva de Oferta
Q 

Q 
Q
pD Qs 
Q 
Q 
A 
B Q 
Q 
Qs Q
C D Q
pS s
Q
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
Q
Curva de Demanda

-
q∗ q

A medição do bem-estar econômico de uma sociedade é algo complicado. Duas dificuldades


surgem na análise do bem-estar de uma sociedade: primeiro, qual deve ser o objetivo de bem-estar
da sociedade; segundo, como podemos medir este bem-estar.
O estudo da primeira dificuldade tem sido fruto para longos debates entre filósofos e religiosos,
desde os primórdios da civilização. Muitos têm sido os princı́pios de justiça, ética e equidade
social propostos. Um dos princı́pios de justiça social mais difundido é que “uma certa situação
só é boa, se for boa qualquer que seja o ‘sapato’ que se esteja usando”. Isto é, se uma situação
envolve diversas posições sociais, ela será boa se, para cada indivı́duo, ela for boa, qualquer que
seja a posição que ele ocupe. Muito se tem discutido sobre os princı́pios de justiça, ética etc,

11
muitas lutas já se travaram e se travam em nome destes princı́pios. Os congressos nas sociedades
democráticas atuais são os órgãos destas sociedades que visam, primordialmente, a definir os
critérios de repartição do produto nacional.
Embora existam muitos critérios de distribuição de recursos sociais, um princı́pio em especial
é aceito por todos. Por exemplo, se, na situação social A, um indivı́duo fica melhor e nenhum
fica pior comparado à situação B então a situação A é melhor para a sociedade. Ou, se na
situação social A, todos os membros da sociedade estão melhores comparados à situação B, então,
a situação A é melhor para a sociedade que a situação B.
Embora este critério não diga muito sobre justiça social, é um dos poucos aceitos por qualquer
princı́pio de justiça social. O primeiro a desenvolver com precisão este conceito foi o economista
Vilfredo Pareto (1848-1923). O princı́pio, chamado de princı́pio de Pareto, diz que: Uma alocação
social A é Pareto-dominada pela alocação B se a alocação B é factı́vel para a sociedade e nenhum
agente fica pior, e pelo menos um fica melhor, na alocação B que na alocação A. Uma alocação
factı́vel C é Pareto ótima se ela não é Pareto-dominada por nenhuma outra alocação factı́vel. Uma
outra maneira de interpretar uma alocação Pareto ótima é se não pudermos melhorar um agente
sem ter que, necessariamente, piorar algum outro. Ou seja, alocações de recursos que tenham
esta propriedade que ninguém possa melhorar sem necessariamente piorar alguém são chamadas
de alocações Pareto ótimas. Eficiência de Pareto é o que economistas querem dizer quando
chamam algo de eficiente.
Em geral há um conjunto grande de pontos Pareto ótimos em uma economia. Dizer que a
economia deve estar em um ponto Pareto ótimo é um juı́zo de valor, mas o mais fraco juı́zo de
valor que se pode fazer a respeito da situação da economia. O critério de Pareto apenas diz que não
deve haver perdas ou desperdı́cios na economia, ele não diz nada sobre a distribuição de riqueza
de uma sociedade e situações extremamente desiguais podem satisfazer o critério de Pareto.

Leitura Recomendada

• Varian, caps. 15 - “Demanda de Mercado”, 23 - “A oferta da Indústria”, e 16 - “Equilı́brio”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 9 - “Análise de Mercados Competitivos”.

• Hall e Lieberman, cap. 8 - “Concorrência Perfeita”, seções 3, 4, 5 e 6.

• Nicholson e Snyder, cap. 12 - “The Partial Equilibrium Competitive Model”.

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Você também pode gostar