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p

l I§JJ

Universidad e de São P aulo

R e it o r a: Su e l y V il e l a

V i c e- R e it o r : Fr a n co M a ri a L a j o l o

Fac ul da d e d e Fi l osofia, Letras e Ciên c ias H umanas

Dir e t o r : Ga bri e l Co hn

Vice-Dir e t o r : S a ndr a M a r ga rid a Nitrini

D epa r tamento de H is t ória

Chefe: M o d e st o F l o renz a n o

Více-C h e f e: M a ri a Lí g i a Coe lh o Pr a d o

Programa de pós-graduaçã o em Hi s t ó ri a So c i a l

Co o rd e n a d o r : H o r ác i o G uti e r rez

Vic e - C oo rd e n a d o r : M a rin a d e M e ll o e So u z a

Ca m i l o d e M ell o V a sc o nc ell os

Imagens da Revolução Mexicana

O Museu N a cional de História do Méxic o (1940~ 1982)

l/ÕZ(à2.

Museu de Arqueologia e Etnologia

l J~)\l 0,~la!:\J1l db ~.u o Paulo ~IA~IAT~t A

~Iameda

154 Camil o de M e llo Vasconc e llo s

Finalmente,

mais um elemento

que nos remete à vi são oficial

d

p e lo p a rtido oficial que mais tempo se m a nteve n o p o der em t o d a a América Latina:

a R e volução Mexicana presente

n o Mu se u : é a qu e le d ef e ndido

Chama-s e revolução mexicana o conjunto de a c o nt ec im ent os

v erifi ca do s

entre os a n os de 1910-1917.

A revoluç ão m e xi ca n a é o pr ocesso d e tra n sf o rm a-

ção de um a ordem s ocial injusta fundad a sobr e a d esi g u a ld a d e

e a o pr essão, p a r a

est a b e l e c e r

c

o m ju s tiç a

um a nova ordem baseada n os prin c ípi os

d e liberd ad e

e pr og re sso

so c i a l, na qual a grand e

m a i o ri a

d o p o v o

p ossa a ting ir

os bens

m

a t e ria i s e culturais necessários

a um a vid a di g n a.

 

O ó rgão incumbido de assegurar a perm a nên c ia

d a revoluçã o

n o g overno é

o

PRI . O PRI é o povo organizado

em

instrumento

de a ção p o lítica. O o bjetivo

l

im e di a to d o PRI é manter-se

no poder

como um mei o p a r a c o ntinua r aplic a nd o

a d o utrin a

e o prog rama da revoluç ã o .

A fin a lid a d e

ju s ti ç a so c i a l p e lo caminho democrá tíco / "

últim a d o PRI é r ea liza r a

Capítulo IV:

Os Murais da Revolução

o Muralismo Mexicano: algumas considerações

Não h á

como desvincul a r o movimento muralista da história

d a arte d o México , assim c o m o nã o é possív e l fazê-lo em relação

à própria Rev o luçã o M e xi ca n a

de 1910. Arte

engajada,

bíblia

política dos pobres, panfleto e m escala colossaF, inovador ou pouco

o riginal, cons ervador o u moderno, quaisquer que tenham sido as

críticas feit as a essa f o rm a de a rte, deve-se levar em consideração

que arre g iment o u ao se u r e d o r t a nto ferrenhos defensores

contumazes op osit o r es '. Localiz adas n os prin c ip a i s e difíci os públicos da Cidade do Mé-

x ico, as o br as mur ai s r es i s t e m aos crítico s e continuam presentes e expostas aos o lh ar es muito o u p o uco a tentos, desafiando a compre-

en são sobr e as m en sage n s qu e pretendem tr a nsmitir em toda a su a

monumentalidade. Críticos e historiadores

aspectos da arte mura lista não só ao momento da Revolução Mexi-

cana, mas em apontar suas raízes remontando até mesmo ao período

pr é-hisp ânico como forma utilizada p a ra expressar valores, crenças e

experiências de vida através da arte, como também à forma artística

preferida no período colonial

intenção evangelizador a. Segundo [ulieta Ortiz Gaitán ', o século XIX,

quanto

da a rte estão de acordo em vincular

na decoração de conventos e igrejas, com

a independência e os governos liberais que se instauraram, orientaram

a arte mexicana para sua secularização, abrangendo espaços civis (edi-

fícios públic o s, casas e f az enda s ) e separ a ndo-a dos temas religiosos,

além de incorporar uma ri c a c o rrente de a rte popular arraigada em tradições e costumes, fonte para a pintura mural do século XX.

1 5 6

Ca m ilo d e M el l o V a scon ce ll os

das tradições popul a re s n a a rte d o sécul o XIX ,

a l a i ci z a ç ão d o s t e m a s, a busca de um per f il cultur a l pr ó p rio e a r e-

A incorpo ração

va

l o riza ç ão da a rte pr é -hi s p â nic a prep a rar a m o t e r re n o o u d eix a r am

a

"m esa p os t a ", co nf o rme

Or o zco , p a r a qu e o m ov i ment o m ura lis t a

ec

l o di sse co m t o d o o seu

impact o n o sé culo XX .

A pintu ra mura l mexicana teve iní c i o o fi c i a l n os a n os 1 92 0 com o

"f ilha da R evo luç ão d e 1910" 4 , e f o i a prin c ip a l co r rent e es t éti ca d a

 

a rte m o d ern a n o M é x ico , com

g r a nde r e p e rcu ssão

por t odo o con-

I

t

i n e nt e a m e rica n o e me s mo na

Eur o p a. Não qu e a R evolu ção p or si

só t e nh a ge ra d o a a rt e mural, que j á es t a v a e m es t ado e mbrio n á rio ,

 
 

m

as, co m ce rte z a, f o i e la que permit i u s u a e m e r gência e esp l end or

 

e m t o d a a s u a m ag nitude .

 
 

P

a ra A ra c y Amaral", o m o vim e nt o mu ra l ist a m ex i cano é a prim e i ra

 

a rti c ul a ç ão c o ntin e nt a l dos artista s c o nt e mp o r â n eos d a A m éri ca, t en-

do s urg id o a p a rtir d e s ua pr ó pri a r ea lid a d e , o u , co m o disse Germ án

 

Rubi a n o Cab a ll ero, " p e l a primeir a v e z n a hi s t ó r i a d esses p aíses h o u ve

um a esco l a q u e d esp e rt o u m a i s entus i as m o qu e a aca d emia eu ro p é i a o u

q

u a lqu e r o utra m a nif est a ç ã o artí s tic a d o ve lh o co n t in e n te'", É n esse

m

o vim e nt o qu e Amaral reconhece a primeir a f o rm a d e expre ssão

p

l ásti ca qu e re fle te a consciência d a re a lid a de m est i ça d o co ntine nt e,

 

ca

rac terís ti ca e x c lu s iv a mente a meri ca n a, e a exa l tação d o i ndí ge n a

 

v

i s t o co m o o prim e iro e ori g in a l h a bit a nt e

d essas t er r as.

 

N

o co nt ex t o d a hi s t ó ri a d a a rte c o nt e mp o r â n ea, o mur ali sm o m exi -

 

c a n o in seriu-s e nos debates acerca do pap e l da arte, situ and o - s e entre

a s crítica s do academicismo do século XIX e o vangu ardismo europeu

do início do século XX . No entanto, o muralismo r esp o ndeu às especí-

ficida de s do momento político mexicano, de acordo com as condições

e

o

bjetiv o s pró prios , a o retomar as preocupações d o re a lis m o d e C o ub ert

e

i

Daurníer? v o lt a d o p a ra a temática s ocia l e p a r a a pintur a d e tr ab a lh ad o re s

 

e

c a mp o ne s es em cena s cotidianas, sem s e a f as t a r d os deb at es d a art e

'

 

m

o d e rna. Ao criar soluçõ e s originais para o uso do e s paç o pi ct ó rico (obras

m

o num e nt a is) , o mur a li s mo rompeu com a arte de cavalete e incorporou

n o v os m a teriai s, ferramentas e técnicas ao pr o ce sso de tr ab a lho .

Imagens da Revo lu ção Mex i cana

157

Mes m o sendo inf lu enciada por mov i men t os e té cnic as e u ro p é i as

( es p ec i alm en te cu bismo, fa u vismo e expressionis m o ) , a a rt e na Amé -

rica L atin a em gera l , e o m u ra l ismo mex i cano e m p ar t i cul a r ti veram

uma recria ção p r ópria a pa r tir da realidade que se v i via, num p r ocesso

dinâm ico d e ret roali mentação e origina l idades. P o r co n seg uint e, n ão é

um m ovi m ent o unid ireciona l , em q u e o mode l o ve m i mp o r tado d e

f o r a par a dent ro, e aqui se aceita tal como co n ce bid o n a E uro p a;

h á

t o d o u m processo de r ecriação e co n s t rução d es d e os va l o r es q u e são

v i ven ci ad os nesse país e, po r tanto, n essa especifi ci d a d e c ultu ral .

E sth er C im et ana li sa:

o fa t o d e h aver tido também fontes e u ropé i as não ca n ce l a o v a l o r , a espe-

cificidade do movimento

) Não são as fo n tes q u e exp l icam um fenô m eno ar t ístico, m as o como e o

po r q u ê, e m que d i reções se transformam as ma t ér i as-p rim as obt i das dessas fo n tes. O movime n to m u ra l ista m exicano b e beu e m di ve r sas f o n tes da hi stó r ia da ar t e: nos afrescos do Renascimento ita l iano, nas vang u ar d as e u ropéias e n a arte pr é - hi sp â nica, co l onia l e pop ul ar do México; mas todas e l as j u n t as não o ex pli ca m . O im po rt a nt e é co m o e e m q u e dir eção as s int e tiz o u e tr a n s f o rm o u em o utr a co i sa, e em q u e cons i ste es t a d if e r e n ça, e m qu e e como co n s trui u e

de te rmin o u essa es p ec i f i c id a d e."

muralista. Não é a Europa que exp li ca o mov i mento .

(

que a c a b o u p o r cr ia r im a -

gens a respeito d a

mesmo tempo em qu e fundamentou a c o n s truç ã o de um a m e m ó r ia

plástica referente à Revolução Mexi c ana.

A Revolução Mexicana, em oposição ao v e lho regime e à s "a ri s t o -

cracias " no poder, engendrou um a nov a ordem política que se r e fletiu

também n a q ues t ão cultur a l . A cultura tinha de se recon s tituir,

Daí a sin g ul arid ad e d esse m o vim e nt o ,

hi s t ó ri a me x i ca n a e m se u s di ve r s o s m o m e nt os, ao

se renovar, assumir um a n o va o ri e nt a ç ã o, mais condi z ente c o m os

princípios e os objetivo s revolucion á rio s , lev a nd o conseqüentem e nt e

a um processo de nacionali z aç ã o d a cultura na qual a pintura mur a l

mexicana enc o ntr o u seu pro e minente lugar .

15

8

Ca mil o d e M e ll o V a s co ncell os

 
 

P

a ra a l g uns autores,

a pintura

mu ra l , a dvind a

d o

pr ocesso

re

v o lu c i o n ári o de 1910, é uma arte int e n c i o n a l e plen a

d e sig ni-

fica d o ide o l ó gi c o, visando a enaltecer e pr o p ag and ea r

 

a o br a da

R

evo luç ão

e a tingir a maior quantid a de

p ossível d e es p e ctad o res.

Daí s u a e xibi ç ão e m espaços públic o s (p a l á cios , b i bli o t ec as, es co l as ,

mu seu s ), a pres entando aos olhos popular es im a g e n s d e su a h ist ó ria ,

ab

ra n ge nd o t e ma s que abordam o perí o d o p r é -hi s p âni co, o d o míni o

co

l o ni a l, a Inde pend ê n c ia, a Ref o rm a e a Revo lu ção , p e rmitind o

00

um a l e i t ura públic a desses tem a s a p a rtir de um a v i são s ubj ac ent e

a esse m o viment o

a rtísti c o e aos int e re sses

es p ec íf icos d o Es t ad o

11 revo luci o n á rio.

ri

jl

P o r i sso , nã o há como desvincul ar esse m o vim ent o

art ísti co d o

'

,

~

m ece n a t o d o Es t a d o , que contr a t ava os a r t i s t as e p agava-lh es sa l á r ios,

ga rant in do s u a e xi s t ê ncia material unica m e nt e a través d a ati v id ad e

artí s t ica; o t erec i a -lhes

o s mur os p a r a o r eg i s tr o d e s u a a rte e d e s u as

1 idé i as; to rnava -os re c o nhe c id os p o r m e i o d o pr es tí g i o público n acio n al

•I

à hi s-

tó ria nacio n a l ; e, fin a lmen t e, deixava-os " li v r es" p ara p int ar a i m agem

d e um p o v o e m luta p e la liberdade, c o ntr a a o pr essão e a tir ani a .

e mu nd i a l; s u ge ria -lh es o s tema s que d ev i a m es t a r r el ac i o n a d os

Essa re l açã o entre arte e Estado , n o sé culo XX, l a n ça um a f o rm a

in ova d o ra d a prá t i c a artís t ica, não

apen a s n o qu e se r e f er e aos tem as

e

s i g n os d a a rte, m as s obret u do e m seu s qu a tr o m o m e nt os: pr o dução ,

di

s t rib ui ção, c ircula ção e consum o. Ro mp e nd o os ca n a i s p ri vad os

Il

do m e rcado d a a rte, a mplia s eu s e s paç os e s u as r e l ações n a m edid a

e m q u e ao se l o c a liz a r em e s paços públi cos t o rn a - se arte públ i c a,

"co n s um o " a mpl o que u l trapassa os limites d e um g rup o se let o.

de

A m a i o r p a rte dos autores pesquisados c o n s ider a que a o ri gem d o

, mov i me n to mura li s t a o correu no ano de 1922 10 , p o dend o se r d i vidido

:

a seg und a, qu e vai d es d e

o u ge r ações: a pr ime ira, q ue

l. abra n ge o p e río d o e ntr e 1922 a té 1942 ,11 e

} '

,

.

~

em duas gran d es et a p as cron o l óg icas

o início da d é c a d a d e 50 a té o s n ossos di as,

A prim e i ra ge ra ç ã o está lig ad a aos n o m es d e Di ego Rivera, D avid

A l faro Sique i ros e J osé Clement e Or ozco qu e, r e unid os n o Si ndi ca t o

Imagens da Revolução Mex i cana

159

de Operários, Técnicos , Pintores e Esc u ltores, lança r a m n o ano de

1923 uma "Decl aração Social, Políti c a e Estética", n o d iz e r de Raquel

Tib o l , "d e cl aro sent i do popu l ista e subversivo", no q u a l pro p unham

socia li zar a arte, produzir apenas obras mo nu me n tais pa r a o do m ínio

púb li co, cr iar u ma bel eza que suge ri sse a l u ta, rep ud iar as m a n ifestações

in d iv i d u ais e b u rg u esas da pint u ra de cava l ete" . O corpo teórico da

ar te m ural nasceu no sindicato, o que marcaria s u a v in culação como

arte nacio n al e com u ma situação ideo l ógica def inida".

Esses ideais propostos pe l os m u ra li stas e expressos em suas obras

iam ao encontro dos pro j etos educac i o n ais de J osé Vasco n celos,

secre t ário d e Educação Púb li ca du r ante o governo d e Ál varo Obre-

gó n (1 92 0 -192 4 ), cuja proposta era a de vinc ul ar a a rt e mur a l a um

eficaz traba lh o sem el h a nte ao d o s missionários espa nh ó i s d o sécu l o

XV I : edu ca r pel a imagem, proc ur ando at in gir, po r m ei o d elas, u ma

po pul ação d e 85% de a n a l fabetos,

O d esafi o era b astante

difíci l de ser rea li za d o , dev id o , e ntr e o ut ras

cau sas, à heterogênea conformação da po pul ação m e x ica n a, o q u e

levou V ascon ce l os a um a d e f esa da idéia da m es ti çag em n a t enta t iva

de tirar o el em ent o indí ge n a d e s u as r aízes

e int e gr á -l o à so c ie d ade

n

acio n al . D aí a id éi a d e f e d e r a li za r o e n s in o

e a con se q üe nt e criação

d

a S ecret ari a d e Educ ação Públi ca p o r decr e t o pre s id e n c i a l

d e 5 de

setembr o d e 1921 .

Em 1922, V ascon ce l os co ntr a t ou os m e lh o r es pint o re s d a época

p ara que dec o r assem os mur os d os e difíc i os d a c a p e la de Sa n P e dr o e

San Pab l o, d a E sco l a N ac i o n a l Pre p a r a t ó ri a , e a s paredes d a Sec reta ri a

d e E du cação P úb l ica , constituindo a s primeiras o br a s mu ra i s d esse

movimento . C o m a s u a r e núnci a e m julh o d e 1924 ,1 4 bo a p a rt e dos

contr at os d os mur ali st as f o i s u s p e n sa, t e n do a p e n a s Ri v er a c o ntinu a d o

seu tr ab alh o .

O mur ali sm o m exicano da déca d a d e 19 2 0 ca r a cterizo u -se p e l o

esf o rço em cri ar um a im age m d o p ovo mex i ca n o

conv ul sões d a R ev o lu ção .

sub stituíd as pel as r ea lid ades der i vadas d e expe r iênc i as e pr eoc up a-

que s ur gia das

se nd o

A s o ri ge n s m e t a f ís ic as a c a b a r a m

160 C a mil o d e M e ll o V asco nc e ll os

ções polít icas , que co n s tituír a m as im ag en s domina nt es n os murais

I m agens da Revo l ução Mexicana

161

As visões do m u n do m oderno c ria d as por Rive r a, O r oz c o e S i q u eir os

d

e River a , Siqu e ir os e Or o zc o.

entre 193 0 e 194 0 sit u am-se no co nt ex t o de r ea lid a d es c o ntras t a nt es .

Rivera, Or oz c o e Siqueir os ac a b a ra m d o minand o ' a c e n a a rtística

N o di ze r d e Roch fo r t:

n

o p a í s. O s l oca i s d e g r a nde prestí g i o que e ra m c o n ce didos a e sses

1) '

'

,~

,

~

pin t o res mar ca r a m o iní ci o da institu cio n a li za ção d o m ov im e nto mura-

list a mexic a n o . N esse p e ríodo, os p o lít icos p o pul is tas qu e d o min a vam

o E s t a do m ex i ca n o co meç a r am a pe rce b e r n o s mu rai s púb licos de

Rivera um meio p ara d a r um a fo rm a c ultur a l con c reta à s u a pr ó pri a

pa rti c ipaç ão n o dese n vo l v im e nt o d o M éx i co p ós -r evolu c i o n á ri o.

Os mur a i s pr o m ov id os p e lo Es t a d o ref l e t ia m uma int e rp ret a ç ão d a

h i s t ó ria m e xi ca n a n a q u a l er a p oss í ve l e n a lt e cer as s u as r ea liza ç õ es.

I sto a p a r ece, especia lm e nte, n os m urais rea li za d os p o r Rive ra junt o às es c a d a r ias d o P a l ácio N ac i o n a l, in t itul a d os História d o México (1 92 9-1935) 1 5.

A pe sa r d e s u a s itu ação pre p o nd erant e, o m ov im e n to mur a li s ta

viu - se in se rid o em u ma r e laç ão p o lí t i ca co ntra dit ó ri a co m o E s t a d o

que o p a tr oc in ava: es t ava s uj eit o ao Es t a d o, e esta su j e ição se d a v a na fo rm a n ecessár ia de um a n egociação co nfliti va co m o Esta d o

pa tr o cinad o r , ta n to n as quest ões d a p intura a ser r ea liz a d a co mo n a

q u e se r e feri a à s u a p r o duç ão e apreci ação.

C imet Sh o ij et p r osseg ue :

;

em conta a r e l ação entre o m ura li sta e seu patroci-

nado r que foi qu a se se m p r e c onfl i tiva.

de f e n der seus i nteresses e d i sso d e ri va a n ecessid ad e d e u m a negoc i ação

e n t r e a m bos , Dado que cada mura l se r eal i zo u e m co n dições con jun t ur a i s

d i ve r sas, d e n tro de uma co r relação var i áv e l d e fo r ças e a pa r t i r de d i s tin tas

Há que se l evar

nessa re l ação ca d a par t e t ra t a d e

,

:~~I

L·'' I

posições ta m bém por parte dos m u ra l ista s - pode r e m os considerá- I a como

o resultado d o co nfr o nto dess a s for ças e não co m o a e xpre ss ão quimi-

, camente pur a da ideo l ogia do Estado ou de o u t r os patrocinadores, nem

} ' "

t a mpouco d o s interesses q u e os mur a listas representavam . "

Para Siq ueir os constit u íam as bases de u ma l e i tu r a p r o fund amente pa r -

c i a l do m und o m oderno, No caso d e O r ozco, os contras t es co m freqüê n cia

formara m a prem issa de uma i n terrogação va l orativa do conf l ito e n tre o

idea l e a rea lid a d e, Na o b ra de R i v e ra , as dua lid a d es d o m un d o m oder n o

se trata r a m num a combinação de posições co n trad i tó ri as, se j a numa v i são

acrít i ca e m it i ficada da modernida de no r te-amer i cana o u a tr avés da retó r ica de seu soc i a li s m o revo l uc í o n árío."

Na d éca d a d e 1940 s ur g ira m os prim e iros s in a is de de sgast e d o

m ov im e nt o mur a li s t a, qu e aca b a ram p o r a c e ntu a r-s e n a d é c a d a se-

g uint e . E sse de sgast e p ôde n o t a r -se n a a d oção d a l i nh a o f i ci a li s t a, n o esgota ment o da s pr o p os t as pl ás ticas e n o fa t o d e q u e a lgun s p os tula d os

d o mu ra li s m o n ão t in h a m corres p o nd ência co m a n o v a o r ga n iza ç ão econômi ca e cultur a l d o pa í s, resultant e da G u e rra Fria . N a ec o nomia do país ocorreu um f o rta l ec ime nto d a p a rti c ip a ç ão

a ti va d os s etores indu s triais e das c lass e s m é dias ; promove u -se o de s en vo lvimento de um f o rte a parato in s titu c i o n a l burocrá tico; in - trodu z iram-se novos m o d e l os educ a tivo s e cultur a i s e com e ç o u -se a se ntir s u a i nfluênci a a través do s meio s d e co munica ção de m assa. Nesse ambiente, o p a troc ínio da a rte t a mb é m mudou . O E s t a d o já n ão era o único pr o m o t o r cultural ou o m a i s importante, e to m o u força a mercantilização a rtística com a p a rticipaç ã o de ga l e rias q u e pr o m o v e ram tendências como a a bstraçã o ou o ge o metris m o. Nesse contexto "de se nvolvimenti s t a ", que ince ntiv a v a c a d a vez

mais a i ndu s tr iali za ç ão d o p a í s , s urgiu a pr o du ção de murai s qu e in -

tr o du z ir a m n o v as pr o p os t a s , t a i s como a inco rpora ção do r e l evo o u o

u so d e p e dras e mo sa i cos d e cores. Pas s ou -se a c o n s iderar t a mb ém o

pl a neja m e nt o arquit e t ô ni co , e a inte g r a ç ão d os mura i s a tin gi u se u a u ge na i n dú s tr ia d a c o n s tru ção, dur a nt e o qu a l se rea liza r a m o br as p ú bl icas

162 Ca m i l o d e M e ll o Va s concello s

qu e c o nt a ra m t a mbém com a parti c ipação d e Or oz c o, Ri ver a e o utros

mura list a s . F o i o c a so da Cidade Universitá ri a , d o Cen t r o Mé di co, d a

Sec re t a ria d e C o municações, da fábri ca Aut o m ex e ou tr os.

A hi s t ó ria d a pintura mural mexicana n ão t e rmin o u

e m 1974 co m a

m o rte d e Siqueir os. Existi a

já desde o final d a d é c a d a d e 5 0 um a n ova

ge

ração - a segund a - de pintore s mur a li s t as , co m o

Carl os C h ávez

M

o ra d o, [ua n O'Gorman, Enri c o Eppe n s, J o r ge Gon zá l ez Ca m ar e n a

e muit os m a i s. Essa g er a ção se caract e riz o u p e l a pintur a de mu ra i s q u e

bu scava m di s t a nciar-se da temátic a d a a rt e e n ga j a d a t ão e mprega d a

p e l a prim e ira

pint a r t a mb é m muros pertencentes à ini c i a tiv a priv a d a.

O pro c esso d e um mural não termina um a v ez r ea li za d o . A s image n s

g e ra ç ã o, além de desenv o l ve r es til os m a i s p essoai s e

,

qu e a prim e ira e a s egunda geração de pint o r es mur a li s t as d ei xo u , aind a

pro du ze m s eu s e feitos de grande import â ncia n os di as atu a i s.

 
 

Essas im age n s nã o estão apena s pre se nt es n os es p aços públi cos

 

d

o p a í s , m as encontr a m-se

repr o du z id as e m l a r ga es c al a t a mb ém

n

os l i vros did á tic os distribuídos g r a tuit a m e nt e

n as escol as d e t o d a a

R

e públi ca, n as pro pa g andas do P a rtid o Re v o lu c i o n á rio ln stitu ci o n a l

 

(PRl) e n o s museus visitados diariamente. Ass im, t a is image ns v ê m

s end o consumidas

por uma legião de a pr e cia d o r es ca d a v ez m a i o r ,

 

m

a i o r a inda que na época em que for a m r ea li zadas .

 

M

a i s d o que nunca e s sas imagens estão pr ese nt es

e n ec ess it am

ser p esqui sad as p e lo historiador, tra z end o à t o n a n ão só as co ndiçõ es

 

d

e s u a pro duçã o , mas as suas contradições

c o m o pr o dut o r as

de um

p

o dero so imaginário de efeitos pedagógic os.

 

D

e ssa maneira, é de fundamental

import â ncia atentar-se par a

aq u e l as im a gens que vivem nas instituições que ge ram a memória d a

co l e ti v id a d e. Es t o u me referindo aos muse us e, es p ec i a lment e,

aos

~11

m

ura i s rel ac i o n a d os à temática d a Re v o lu ção e xi s t en tes n o Muse u

"

I

'

N

ac i o n a l d e Hi s t ó ria , que serão anali sa d os a seg uir .

I mage n s d a R evo luç ão Me x ic a n a

1 63

Visões da Revolução:

os mur a i s d o Museu N a cional de Históri a

n o

Muse u , é n ecessá ri o d e i xa r c l a r o qu e as co n s ider o muito m a i s qu e

o br as

ex p eriment ad as

desco n sid era nd o q u e a o br a m ur a li s t a teve e n o rm e imp o rt â nci a d o

d e vist a das so l uções o ri g in ais q u a nt o ao pr o blem a d o es p a ç o

pictóric o ( o seu as p e ct o m o nument a l), à incorporação de novo s m a -

p o nt o

n ão es t o u

pi ct ór i cas el ab o r a d as co m a fin a lid a d e d e s erem a pre cia d as o u

Ant es d e me d eter n a a n á li se d as o br as murais e xist e nte s

ap e n as n o aspecto es t é t i c o. Ob v i a ment e

t eri ai s empr ega d os, às in ovações es t é ti cas e, port a nto, à l ingu age m

artísti ca com o um to d o .

T o d avia , aqui p r ete nd o

t r ata r estas o br as a p a rtir de sua s m e n-

ve i c ul a d os n os di s tintos m o mentos da hi s t ó ri a

sa gens e cont eúd os

p o lítica m exi ca n a.

A ss im, essas o br as mur a i s d eve m ser e nt e ndid as como docum e nt os

vi su ai s qu e r em et em a um d ete rm i n a d o co nt e xto polític o em q u e

f o r am r ea liz ad as , e es t ão c a rr egadas

analisada cuid ad o sament e.

de um a s imb o logi a que de ve se r

É fund ament al t a mb é m re ssa lt a r que essas imagens de v em se r

vist as co m o represe nt ações , o u m e lh o r, a o serem compr e endid as

por outr as pessoas a l é m d a qu e l as

entre el as um mínim o d e co n ve n ção soc i o cultur a l . De ssa m a n e ir a,

elas devem b oa p arc e l a d e s u a s i g nifica ç ão a s eu aspecto de s ímb o l o

e de seu poder de co munic a ç ã o .

P ar a t anto , an alis a r e i os qu a tr o mur a is e xist e ntes no Mus e u que

estão r el acio n ados ao t e m a d a R e v o luç ão Mexicana. São e le s: " O

qu e as pr o du z iram , é porque e xi ste

F

eud ali sm o P o r fí ri st a " e "Sufrág i o Efe tiv o , N ã o Re e leição", a mb os

d

e [u an O'Go rm an e s itu a d os n a S a l a Xl ; "A Co nstituição d e 1917 ",

de Jo r ge Go n zá l ez Ca m a r e n a , n a S a l a XIIj

e, finalmente, "D o Perfi-

ri

smo à R evolução" , d e D a vid Alf a r o Siqu e ir o s , que s e e nc o ntr a n a

S

al a XIII.

164 Camilo de Mello Vasconcellos

o Feudalismo Porfirista, Sufrágio Efetivo, Não-Reeleição. Murais de [uan O' Gorman

Após a saída

da Sala X, dedicada à Ditadura Porfirista, encon-

tramos os murais de [uan O' Gorman,

localizados na Sala XI, a qual

recebeu o nome dos murais O Feudalismo Porfirista, Sufrágio Efetivo, N ão- Reeleição.

Lo go, na entrada da sala, visualizamos o mural localizado na parede

frontal: Sufrágio Efetivo, Não-Reeleição. O segundo mural, intitulado

O Feudalismo Porfirista, encontra-se na parede oposta ao primeiro,

sendo dividido pela mesma porta de entrada/saída existente.

Embora cronologicamente o período porfirista preceda o período

maderista, o olhar do visitante é direcionado em sentido contrário:

entramos na

apreciando o mural dedicado a Porfirio. A intenção do autor, ou dos

sala apreciando o mural dedicado a Madero e saímos

. museógrafos que conceberam esse espaço expositivo, é clara: ao entrar,

vemos em Madero o triunfo da Revolução e, ao sair, vemos em Porfirio

o que a Revolução destruiu.

Ressalto esse aspecto, pois para proceder à análise dessas obras

logo em seguida, priorizo o fato cronológico, de Porfírio a Madero, e logo em seguida o cenário museográfico.

Compondo o acervo desta sala encontramos dois objetos junto

com os murais: uma cadeira de nome CurupB, que formou parte do

mobiliário da Câmara dos Deputados, e uma Mesa de Sacristia'? (no

centro da sala). A Câmara dos Deputados, da qual a cadeira fazia

parte, foi inaugurada por Porfirio Díaz em 1Q de abril de 1911 para

a solene abertura do segundo período de seções da 25 ' Legislatura,

tendo presidido nesta data seu último informe de governo . Também

neste local, em 25 de maio de 1911, o general Díaz apresentou sua renúncia à presidência.

~

A intenção na exposição destes objetos é a de mostrar documentos

materiais que pudessem apresentar alguma "força" e ap elo, como se

fossem provas da luta empreendida

por Madero para a derrubada de

Imagens da Revolução Mexicana

165

Porfirio Díaz. Ou seja, são os únicos documentos materiais presentes

que são simultâneos aos fatos representados nos murais e que, de alguma

maneira, demonstram relação com a temática da obra muralista. Mes-

mo assim, esta mesa e esta cadeira prestam aos dois murais uma força

secundária,

apenas avalizando a importância do ato maior: a grandeza

de Madero

na luta contra o porfiriato, e a trágica traição da qual foi

vítima pelas forças reacionárias comandadas por Victoriano Huerta e

com o apoio dos E stados Unidos.

A força da linguagem muralista e a sua monumentalidade acabam

tornando a presença deste mobiliário uma mera ilustração, sendo até

mesmo imperceptív el ou deslocado de contexto.

o Feudalismo Porfirista

O mural O Feudalismo Porfirista (ver caderno

de imagens), de auto-

ria de [uan O'Gorman (1904-1982), foi iniciado em 1970 a pedido do

então diretor do Museu Nacional de História, Antonio Arriaga Ochoa,

e inaugurado em 1973. Mede 6.50 x 4 . 50 metros e a técnica empregada

é o afresco, que consiste em uma mistura de pó de mármore, cal velha

apagada e um pouco de cimento branco. Os pigmentos utilizados são

importados; por exemplo, os vermelhos, acres e amarelo-escuros são

franceses,

e os verdes, amar e lo-claros e azuis são alemães.

Nesse mural, o período porfirista - denominado de Feudalismo

Porfirista - está representado por alguns aspectos políticos, sociais e

econômicos. Do lado esquerdo do observador, na parte inferior do mural, en-

contra-se representado o general Porfirio Díaz sentado em uma cadeira

luxuosa, rodeado por diversos personagens. Podem ser identificados sua

esposa, Carmen Romero Rubio de Díaz, o embaixador norte-americano

Henry Lane Wilson, os generais Bernardo Reyes e Manuel Mondragón,

fiéis ao ditador, além de León de Ia Barra - que viria a assumir a pre-

sidência logo após a renúncia de Porfírio, e Ramón Corral, candidato

à vice-presidência na chapa do ditador em 1910.

1 66

Ca mil o de Mell o V asco ncell os

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Pla nt a b a ix a d a S a la XI - O Feud a li s m o P o rfiri s t a e Suf rági o Ef e tivo,

N ão -Re e l e i ção.

(Ela b o ração: Cam i lo d e M e ll o Vasc oncell os )

I magens d a R evo l ução M exicana

1 6 7

d e J osé Ive s

Lima nt o u r,

o nú cleo m ai s p r ó xim o

Científicos.

E ste g ru po d eriv o u se u no m e d e u ma c on vicção socia l e f il osó fic a

d e A u g u s t o Co mt e e H e r bert Spen -

cer, b aseava- se em um a t eor i a "c i e n tífica" de o r de m e pr ogresso co m

Co m i s t o Os Científicos d era m orig em

q u e, sobr etud o, sob a in f lu ê n c i a

grupo O s

É imp orta nt e

d es t aca r t a mb é m os p e r so n age ns

Manu el R o m ero Rubío e Ju s t o S i er r a , que c o n s tituem

do d it a d or, re unid o no c h a mad o

fo r tes m ati zes socio d arw i n i s t as.

tam b ém à id eol og i a d o d ese nv o lvi me nt o c a r acte rí s tic a dos ú lt i mo s

anos do P o r fi ri at o. P or um a part e, es t a d o ut r in a p r e t e ndi a l egi tima r

a cr es cent e pen etr ação eco n ô mi ca n o M é xic o d o ca pital est r a n g eir o

"su peri o r" . Por o utr a, d ev i a ju s tifi ca r o do mínio d e uma o li ga rqui a d e

o ri ent ação t ecnocr at a, pr i nci p a lm e n te so br e os e l e m e nt os i nd íge n as

da p o pul ação, con sid e r a d os r ac i a l e eco n o mic a m e nt e inf e ri o r es . Seu s

prin cip ai s r eprese nt a nt es f o r a m M a nu e l R o m ero Rubi o ( sogro d o

dit ad o r D íaz e se cret á ri o d e go v erno ) , o s ecr e t á ri o d a F aze nd a José

Y ves Limant o ur , e Ju s t o S i e r ra, qu e r espo ndi a p e l a Sec ret a ri a

trução e B el as- Artes d o go v e rn o porfiri s t a . Al é m d es t as co nh ec ida s

p er sonalid ad es , o grup o d o s Científicos tamb é m e r a c o mp os t o por

d e In s -

des tacado s co n g ressis t as , a dv og ad os f a moso s e j o rn a li s t as v in c ul a do s

a publicaçõ es f avorávei s ao g overn o .

Seguind o n a análise d o mural, o "p o der f e ud a l " es tá ce nt ra l iza d o

e co ncentr ad o na figura d e P o rfiri o Dí az , repre s ent a d o em s u a ca deir a

o fi ci al traj and o uniforme militar c o bert o de m e d a lh a s e c o m o o lhar

dur o e aust er o. Enfim , um a repre s ent açã o de um h o mem a ut or it á ri o,

todo-podero so, que deveri a ser respeit a do e, a cim a de tud o, t e mid o

p o r seus adver sá rios .

Observ a- se proxim a mente ao s prin c ipais c o l a b ora d o r es d e P o r f irio

Díaz um ca m po n ês a j oe lh a d o junt o d e s ua m u lh e r e de se u f ilh o e m

atitude d e humilhação , pa r a os qu a i s J osé Yv es Lim a ntour most r a um

pap el . P ar ece se r a ju s tifi ca tiv a qu e ex i s ti a em v ir t ude d o excesso d e

trab alho d a p o pul ação m a i s p obr e, o u a t é me s m o a l g um a ob r igação

devid a p el o ca m po n ês . N esse m o m en t o, o g e s t o do ca mp o n ês se ap r o-

168 Camilo de Mello Vasconcellos

xima muito da cerimônia de homenagem e fidelidade que os servos

realizavam junto aos seus senhores no âmbito do sistema feudal vigente na Europa Ocidental .

Esta tentativa de identificar o regime porfirista com o feudalismo

ainda está presente em outros detalhes desta obra muralista, como,

por exemplo, na representação de uma fazenda em cor rosa localizada

na parte superior do retábulo, ao fundo, que contrasta por sua mag-

nificência com as choças de palha onde viviam os camponeses e que

se encontram um pouco mais abaixo da fazenda.

Os camponeses suportavam a mais completa

exploração, exercida

por meio de dois instrumentos do porfirismo e presentes na pintura:

os rura/es - que era a polícia política dessa época, basicamente exis-

tindo para reprimir qualquer tentativa da população camponesa de se

rebelar contra as inúmeras injustiças vigentes - e também pela tienda

de raya - instituição que desde o século XVII mantinha o camponês

limitado aos interesses da fazenda, obrigando-o a comprar todas as

coisas de que necessitasse no armazém do latifundiário e, com isto, dificultando-lhe a autonomia.

O quartel dos "rurales" se destaca na pintura pela cor laranja com

em sua direção acorre uma

que foi retratado, e igualmente porque

população camponesa armada de facas e bandeiras, que nos faz pen-

sar nos primeiros focos de rebelião que se iniciaram ainda na época

porfirista (Tomochic e Satevo, no Estado de Chihuahua, por exemplo, ainda no século XIX).

l ::

A tienda de raya está presente do lado direito do mural, e a explora-

ção sobre a qual a população camponesa era submetida está reforçada

pela presença de homens armados ali postados para conter qualquer ato de insubordinação ou revolta.

algumas paisagens, além de outras cons-

truções erigidas durante o regime porfirista, Há também, do lado

esquerdo, a representação de um arco construído em pedra onde se

pode ver gravada a inscrição: Honra e Glória ao General Porfirio Díaz,

nas cores verde e vermelho, que representam a bandeira mexicana,

Ao fundo encontram-se

Imagens da Revolução Mexicana

169

à semelhança do Arco do Triunfo francês, simbolizando o culto à sua

personalidade de que foi objeto o general em sua época.

O estilo "feudal" de governo do general Porfirio Díaz evidencia-se até

mesmo pelo estilo afrancesado das construções

dos castelos representados no plano superior esquerdo do mural .

inferior direito da pintura, a repressão e os horrores do

governo porfirista atingem o seu ápice com a cena de um camponês

sendo açoitado por um indivíduo de feição assustadora e disforme .

Um homem bem-vestido lhe apresenta um documento justificando

tal atitude para a manutenção daquela injusta distribuição de ter-

ras. O título dado pelo pintor é Aristocracia Pu/quera, pois o álcool,

largamente consumido pelos camponeses, se constituía inclusive em

uma das m elhores armas de exploração

os oprimidos, porquanto a sua produção

controladas pelos latifundiários.

existentes, especialmente

Do lado

e dominação usadas contra

e distribuição sempre foram

Finalmente, vêem-se um soldado que observa e respalda aqu e la

cena de tortura degradante e uma mulher que assiste aos horrores de

ter de presenciar o seu próprio marido passar por aquela situação.

Há também um senhor de idade que está em atitude de pedir silên-

cio ao torturado, numa clara demonstração do horror e do medo que

a política porfirista impunha aos adversários do regime.

Outrossim, pode-se ver um homem que carrega uma menina no

colo, em atitude de derrota e de desespero em face daquela situação

de poucas perspectivas de mudanças. O interessante é notar que no

mural defronte também há uma cena similar, só que naquele a me-

nina significa a esperança de uma nova geração que nasceria com a

Revolução Maderista.

Para tirar o país daquele sistema "feudal", sinônimo na verdade

de atraso, era necessário, portanto, uma revolução que alterasse por

completo toda aque la estrutura injusta imposta aos camponeses me-

xicanos.

A idéia-síntese do mural vai na direção de que os abusos do período

porfirista, principalmente voltados contra a população campone sa ,

170 Ca mil o de M e ll o Vas c o ncell os

foram as razões qu e ju s tif ic ar a m

es p ecia lm e nt e a p a rtir da liderança de M a d e r o , r e pr ese nt ad o n o mu ral

defro nt e.

o es t o pim da Re v o lu ção d e 1 9 1 0 ,

Sufrágio Efetivo, Não-Reeleição

Na d ocume nt ação c o n s ultad a, es t e mur a l fo i o r igina l mente pe n-

sado pa ra int eg ra r a S a l a d a Rev o luç ão - E t a p a M a d erista" .

i n for m es ofi c i a i s d e 1967 21 , s ão feit as r e f e r ê n c i as a es t e m u ra l co m o

Em t r ês

se nd o A Revolução Maderista e a Usurpação d e Victoriano Huerta. N o

informe a nu a l d e 1969 , há um a refer ê ncia a es t e mur a l com o se nd o

o Retábulo da Revolução.

Inde p e nd e nt e m e nte de ssa s refer ê n c i as, es t a ob r a mura l f o i in au g u-

rada e m 1 968 co m o títul o Sufrágio Efetivo, Não-Reeleição ( ve r ca d ern o

d

e im age n s ), t e nd o ass im, o me s mo n o m e d o l e m a d a ca mp a nh a

e m-

p

r ee ndid a po r M a d e ro c o ntr a Porfiri o Díaz, e m 1910 . Alé m di sso, es t e

títul o dá o no m e à Sala X I do Museu, num a es p éc i e d e s imb i ose , q u and o

o bra mura l e hi s t ó ria se "confundem numa p e rfeita h a rm o ni a", co m o

se fat o hi s t ó ri c o e re presentação pi c t ó ric a f oss em a m es m a c o ísa?

Es t e mura l, cuj a dimensão é de 4,50 x 6,50 m e t é cnica d e a fresco ,

f o

Ant o n io A rri aga O cho a, ao a rtista [u a n O' Go rm a n , qu e r ece b eu p e l a

p intur a o m o nt a nte de $140.000,00 (cent o e qu a r e nt a mil p esos) , con-

for m e co nt rat o ass in a do em 9 de junho de 1967 23 •

i rea li za d o a pedid o do então diretor d o Mu s eu Nac i o n al d e Hi s t ó ria,

Pe l os termo s do contrato,

(. ) a pi n t u ra r ep r ese nt a r á o presidente d a R ep úbli ca M ex i ca n a, Se nh o r

Franc i sco L M ade r o, seg u n d o o c ro qui qu e prev i a m en t e será autor i zado p e l a Direção do Mu se u Na ci o n a l d e Hi s t ó ri a, ó r gão de p e n dente do I NA H e da Sec r eta r ia de E du cação Públíca"." A l é m di sso, o mur a l se ri a exec ut a d o sob a s u pervisão d a D ir eção d o Mu seu Nac i o n a l d e Hi s t ó r ia, ( .) qu e te ri a

t o das as fac ul dades necessári as p a r a ce r t ifi ca r -se da qua li dade dos ma t e ri a i s

I mage n s d a R evo lu çã o Me xi c a n a

1 71

e

m p r egados , d a r eg ul ar i dade n a exec u ção dos t r a b a lh os e , em g er a l , d o exa t o

c

um p ri me nt o

deste Co n trato. F i na lm e n te,

o p int o r se c o mpr o mete

a e ntr ega r

prim e ir a m e nt e à Direção d o M use u para s u a a pr o v a ç ão , o cr o qui d o a fr esco

e m p ape l e n o tempo h ábi l . Ao se u t é r mino, o mur a l se r á rec e bid o po r p e ssoas

d es i g n adas pe l a Sec r e t ar i a de Ed u cação Pública."

R essa l tam- se aqui os seg uint es as p ec t os d o c o ntr a to: o a ut o r dev e

primeir am ent e ap rese nt ar um c r o qu i e m p a p e l , a s er apr o v a d o, a ut o-

riz ad o e sup er visio n ad o pe l a D ir eção d o Mu se u N ac ional de Hi s t ó ri a ,

deixand o cl ar o q u e o a ut or p int a r á a s u a v e r são do f a to de ac o rd o c o m

as int en ções d o contr a t a nt e . A cri ação a rtística submete-se, d e ss a

m an eir a, à id eol ogia d a in s tituiç ão n a qu a l se e fetuará a obr a .

À pr i m eir a v i st a, o q u e se d es t aca n es t a o br a é uma grande c o n-

centr ação d e p essoas, b a nd e ir as e f l â mul as que a companham a figura

de Mad er o m o nt ad o num ca v a l o br a n co , e mpunhando uma b a ndeir a

mexican a= em su a m ão dir e it a . M a d e r o, n o ce ntr o do mural, ve s tid o

co m tr aj es fin os, es t á p o rt a nd o a f a i xa pr es iden c i a l no seu peito , c o m a

intenção d e r eaf irmar s u a a ut o rid a d e a p ós a t e nt a tiv a frustrad a de go lpe

do qual havia sido vítima p e l as f o r ças fi é i s a o porfiriato. O presidente

está sendo esc o lt ad o p o r c a d e t e s a rm a dos d o Colégio Militar, cuj a s ed e,

nessa épo ca, aind a se loc a liz a v a ao l a d o d a residência presidenci a l n o

Castillo de C h apult ep e c , qu e a p a rece ao fundo d a pintura mura l " .

Chama a at en ção

um d e t a lhe imp o rt a nte :

o s br a ço s d e M a der o

estão abertos em f o rm a d e cru z. Sobre i sso , O ' G o rman re ve l o u :

) A o se nh o r M a d e r o o pint e i n o mur a l co m os braço s abert os e m cr u z,

p o rqu e e r a um g r a nd e h o m e m, b o m, b o nd oso , humanista. P o r esses at rib utos

lhe f o i difí c il go v e rn a r, p e n sava qu e os ho m e n s e r a m co m o e le e a c a b o u p or

se r u m mártir , "

(

É evid ent e a in ten ção d o a ut or de c o mp a r ar a fi g ur a d e M a d e r o com

a de um C ri st o cív i co'", p o rqu e M a d e r o sof r e a tr a iç ão de um de se u s

prin cip ai s h omen s de co n f i ança, é p reso e , fin a lmente , assassi n ado.

172 Camilo de MeIlo VasconceIlos

Além disso, Madero é o catalisador de todas as forças políticas e

sociais, pois unifica ao seu redor todas as tendências revolucionárias:

o anarco-sindícalísmo dos irmãos Flores Magón aparece representado

nas bandeiras rubro-negras, as forças villistas são representadas pelo

homem de bigodes com o chapéu característico: e os zapatistas são

identificados pela indumentária de alguns soldados, localizados à

direita e à esquerda do observador.

As mulheres também marcam sua presença e estão representadas

pela "coronela" de chapéu conhecida como "El Santanón", situada à

direita do observador e próxima de um cadete do exército, e há uma

outra representante da classe média pertencente ao Clube Político

"Hijas de Cuauhtémoc", à esquerda do observador" .

Ao lado dessas mulheres de classe média está José Guadalupe

Posada, representando os artistas e mostrando um panfleto de apoio a

Madero; ao seu lado, encontra-se Belisário Domínguez, que sustenta

um texto contra a usurpação huertista e pelo qual foi assassinado ao

pronunciá-lo na Câmara dos Deputados.

Além disso, na extrema esquerda do observador encontram-se os

representantes da classe trabalhadora que também emprestam o seu

apoio a Madero:

o operário com seu uniforme, o camponês esfarrapado

e, finalmente, o entregador de jornais, que ao mesmo tempo em que

anuncia a traição de Huerta, ironiza a ação deste com o embaixador

norte-americano. Pode-se ver também uma menina que simboliza a

nova geração, muito esperançosa com os possíveis avanços sociais da

Revolução empreendida pelo presidente.

Madero, de fato, representa a síntese de todas as classes, categorias

sociais e forças políticas e, desta maneira, o seu papel de liderança

deve ser seguido estabelecendo um modelo de valores a ser cultuado

não só pelos seus simpatizantes mas também, em última instância,

p e los visitantes do Museu.

Um outro traço marcante

desta obra é o seu grau acentuada-

mente maniqueísta. Do lado direito de quem observa, em um com-

partimento especial talvez para diferenciar esses personagens dos

Imagens da Revolução Mexicana

173

demais, localizam-se os símbolos do bem e da bondade relacionados

a Madero, seu irmão Gustavo Madero, o vice-presidente José Maria

Pino Suárez e sua esposa Sara Pérez de Madero. Estes personagens

estão representados logo acima por três pombas, uma inclusive com

o lema "paz" em seu bico e trazendo um ramo

de oliveira em uma

das patas. Contrapondo-se a isso temos do lado oposto do mural, na

mesma direção, os símbolos do mal relacionados a Victoriano Huerta

e ao embaixador norte-americano Henry Lane Wilson, representados

por chacais.

Segundo Chevalier & Gheerbrant,

ao longo de toda a simbologia judaico-cristã, a pomba - que com o Novo Testamento acabará por representar o Espírito Santo - é, fundamentalmente, um símb o lo de pureza, de simplicidade e, também, quando traz o ramo de oliveira para No é , na arca, de paz, harmonia, esperança, felicidade recuperada . Além disso, a pomba representa muitas vezes aquilo que o homem tem em si mesmo de imorredouro, quer dizer, o princípio vital, a alma. É por isso mesmo representada, em certos vasos funerários gregos, bebendo em uma taça que simboliza a fonte da memória. A imagem é repetida na iconografia cristã, como no relato do martírio de São Policarpo, por exemplo, em que uma pomba saía

do santo depois da sua morte."

No imaginário do muralista O'Gorman, a figura de Madero carrega

estes valores: é um espírito de grande bondade, pureza, harmonia

(pois flutua e concilia as adversidades) e felicidade recuperada, uma

vez que retoma, mesmo que momentaneamente, o poder logo após a

frustrada tentativa de golpe de Bernardo Reyes.

Pode-se dizer, inclusive, que O'Gorman é portador de um imagi-

nário religioso em relação a Madero, pois este acaba sendo compa-

rado a um Cristo que deveria ser assim rememorado no panteão da

Revolução Mexicana. Completa-se o maniqueísmo com a intromissão do embaixador

norte-americano

Wilson, que oferece a faixa presidencial ao traidor

174 Ca mil o d e M e Il o Va s conceIlos

Vict o ria n o Hu e rta , demonstrando a intr o mi ssão d os Es t ad os Unid os

n os ass unt os m e xicanos. Esses personagen s f o r a m r e l ac io n ad os , na

o bra mura l, à s imbologia de dois ch a cais e à c o r a m a r el a , qu e r e pr e-

sent a m os v a l o re s do m a l .

C h eva li e r & Gheerbrant lembr a m :

) po r q u e ui va a t é m o rr e r , r o nd a p e l os ce mi té ri os e se a lim en t a de cadáveres, o chacal é um a ni ma l d e m a u a u g úri o , ass i m co m o o l obo. J á a cor ama r e l a pode

s i g ni f i ca r t a m bé m a tr a i ção. N os sécul os XVI e XV II , a por t a dos t r aido r es e r a pi n tada d e a m a r e l o a fim de a trair p a r a e l a a a t e n ção dos tr a n se un res . "

(

um di a hi stór i co , ]u a n

O'Gorma n rea li zo u a l go mais ger a l , m os tr a nd o tamb ém os g rup os

p o líticos qu e a p o i a v a m o presidente M a der o, assim co m o a qu el es qu e

co l a b orara m p a ra a s u a derrota.

Aind a qu e o t e m a do mural represe nt e

R essa lt a -se o did a ti s mo das im ag en s cujo o bj e ti vo m ai o r é p ermitir

ao pú bli co e nt e nder a mensagem hi s tóri ca q u e o a rti s t a ex pr esso u, d e

acord o co m a s u a vis ão e com os seus valo r es, a r es p e ito d o f at o hi st ó -

ri co re present a d o , e t a mbém seguindo as ori e nt a ç ões d as a ut o rida des

o fic i a i s: o p o dero so Instituto N acional de Antr o p o l og i a

(INAH) e a S ec ret a ria de Educação Públic a (SEP) .

e Histó ria

H á, rea lm e nt e, um a intençã o delib e r a d a d o a ut o r e m es t a b el ece r

uma "ide nti fi cação " e ntre o fato hi s tóri co, Dia da Lealdade Nacio-

nal (co m o é p o pul a rmente conhecídoj. v com a s u a r epr ese nt aç ão

p ic t ó rica.

Po r fim, o títul o do mural aparece em letr a s bem g r and es n a p a rte

s up eri or e ce ntra l d o mur a l, e encontr a -se suspe n so p o r du as g r a ndes

mãos q u e parecem d esc o rtin a r e , ao m es m o t e m po, suste n tar to d a aque l a trama h istó rica.

s petá culo so l e n e - o t ea tr o d a hi st ór i a

- e n tra em cena a fi g ur a ce ntr a l ali repr es enta d a: F r a n c i sco I . M ad ero

e to d o o séquit o de co l abo r a d o r es e tr a id o r es, co mp o nd o essa tra m a de tons épicos.

Com a inaug u ração d ess e

e

Im age n s d a R evo luç ão M e xic a n a

175

F ica evid en te, po rt a n to, a pr o p os t a - c h a v e d a sa l a : primeira m e nt e,

evid en ci ar o t r i un fo da R evo lu ção co m M a der o, tornand o cri s t a lin o

também,

f eud ali sm o e o atr aso p orfiri s t a.

ao m es m o te m po, o q u e f o i q u e a R e v o luçã o

de s truiu : o

A Constituição de 1917.

Mur a l d e J o r g e Gonzále z Cam a ren a . A M ão d e C a rr a n za é conduzida por Deu s?

o mur al A Constituição de 1 9 17 ( ver c a d e rn o de imag e ns), d e ] o r ge

G

o n zá l ez Ca m a ren a ( 19 0 8- 1 98 0) , foi in a u g ur a do

em 1967 e int egra

at

é os di as atu ais, co n forme d emons tr a d o n o ca pítulo anterio r , a Sala

XII do Museu Nacional de História: Sala da RevolUção Mexicana (1910-

1

9 1 7 ) 3 4 . O aut or t e rmin o u esse mur a l e m 1967 e a dot o u por téc ni ca

 

a

p i ntur a em ac ríli co sob r e t e l a. O mur a l med e 4 m x 4,5 m .

Go

n zá l ez

Ca m a r e n a teve a l g um a influ ê n c i a do ab s tra c i o n is m o

e

er

a u m artist a b as t a n te c r í ti co qu a nt o ao a bu s o e xcessivo d o r ea li s m o

social da primeir a ge r a ç ão d e mur a li s t a s.

Ali ás, co n sider a v a

qu e a o br a mur a li s ta poderia s er o m eio p lás -

par a iss o h av i a s id o

tico ideal p ar a co muni ca r- se c o m

criad a. Era, co m e f e it o, m a i s um

como um m ei o p a r a a tin g ir a p o pul ação p e la vi a

de suas o br as .

o p o vo, pois

a rtis t a qu e c o n s ider ava

o mur a l

do c a r á ter did á tic o

O mur al es t á l oca li za d o n a p a rede à es querda da p o rta d e e ntr a d a.

Monumental co m o tod a o br a mur a li s t a , o autor faz u s o d o r e cur so

da geometriza ção, e ec o nomiz a t a nto n a qu a ntidade de pers o n agens

qu anto n o s f at o s r e pre se nt a d os.

que está r essa lt a d a,

r e pr ese n -

t ad a n a p art e centr a l a fi g ur a d o pr es id e nt e com uma c a n e t a n a m ão

o cupand o q u ase a t o t a lid a d e d a o br a mur a l . Encontra- se

Fund am ent alm en te

é a fig ur a d e Ca rr a n za

assin and o di ver sos p apé i s d e co r br a n ca e m cim a de uma m esa. L ogo

ab aix o se enco n t r a m diversos p a p é i s e m c o r n eg r a , qu e p a r ecem ter

176 Ca mil o d e M e ll o V asco ncell os

s ido de s pr e z a d os p e lo presidente e que representa m os a bu sos d as lei s

e pr o ibiç õ es d o porfiriato.

Além d a po s iç ã o central e do tamanh o d a fig ur a d e C a rr a n z a r e pre se nt a d a n a o br a , há que se cham a r a a t e nç ão p a r a a de s pr o p o r- c i o n a lid a d e da s s u as m ã os, braços , tronco e p e it o.

E s te "e xa g ero" na representaç ã o de sses m e mbros d e Carr a n za

p a rec e a pr ox im á -lo de um homem imbuíd o d e uma g r a nd e f o rça fís i ca , pr ó pri a de um "herói", especia lment e p o rque este "h e r ó i" e ra

co nhe c ido c o mo O Primeiro Chefe ou o Chefe d o Exército Constitu- cionalista.

C o mpreende-se então a mensagem d a pintura mur a l : so me nte

um h o m e m de muita coragem e determinação p o deri a ter leva d o à

fr e nte um a Rev o lução e edificado a sua m a i o r o bra : a pro mul ga ç ão

d a C o n s tituição de 1917, que ac a bou pondo um fim ao processo re- v o lu c ionário . Foi pre c is o mesmo muita c o ra gem e dete rmin ação p a r a

d a r c a b o d os a buso s do porfirismo e também p a ra m a nte r a n a ç ão so b

o me s m o c om a ndo .

C a rr a nz a , g eometrizado, assume igu a lmente um as pecto p é -

treo, de aparênc ia e resistência de pedra , duro, imóvel . Em um

primeiro momento pode parecer um a figura de pedr a brut a qu e

vai sendo talhada, acabada e tomando form a , d e ix a ndo c l a ra a

s ua mens a gem .

Che va lier & Gheerbrant sentenciam:

A p e dr a brut a é a m a t é ri a passiva ambiv a lente: se a p e n as se exe rc e s o br e e l a a

a ti v id a d e hum a n a , el a se envilece; se, a o contrário , é a a tivid a de c el es t e e es piritu a l

qu e se e x e rce so br e el a , com vistas a fazer d e l a um a p e dr a t a lha d a , se e n o br e ce .

A p assage m d a p e dr a brut a à pedra t a lhad a p o r Deu s , e n ão p e l o h o mem , é a

passage m d a a l ma o b sc ur a a a lma ilumin a d a p e l o co nh ec im e nt o divin o. Ali ás,

o M est r e Ec kh a rt n ão e nsin a que pedr a é s in ô nim o d e co nh eci m en t o? ( g rif o d o

autor ) (

s i m b o l iza a sabedoria ( g rif o do aut o r} " .

) Na t ra di ção bíblica , em funç ão d e se u ca r á t e r imut áve l , a p e dr a

Im age n s da R evo luç ão Me x ic a n a

177

Nes t e mur a l , Carr a n za é t a mb é m p oss uid o r de conhecimento , pois

a s sina o u m es m o esc r eve a rtigos co n s titu c i o n a is d a C a rta Magna de 1917,

ao mesmo t e mp o em qu e é p o rta d o r d e um a sa b e doria divina represen- t ada p e l a m ão l o c a liz a d a a trás d e l e, co m o d e d o indica dor levant a do. O dedo de De us o ilumin o u a assi n a r aq u e l a Co n s tituiç ã o, o que vem ao encontro, in c lu s ive, d o qu e di z a l e tra d o Hino N ac ional Mexic a no :

"CíãaíOh P átria! Tu s s i e n es d e o li va

D e I a p az e l a r c á n ge l d i v in o

Qu e e n cíe l o tu e t e rn o d es tin o

Por el dedo d e Di as se escribió

M as, s i osa r e un ex tr a fi o e n e mi go

Pr o f a n a r co n s u pl a nt a tu s u e l o

Pi e n sa ! O h P á tri a q u e rid a! Q u e e l cíelo

Un so ld a d o e n ca d a hij o t e di ó . " 36

Pod e - se qu es ti o n a r a t é qu e p o nt o um E s t a d o que s e queria lai co poderi a a firmar De u s n o di s cur so o fic i a l que legitimava a R e voluç ã o como patrimônio da n a ç ã o. M a s, por outro lado, a missão pedagógica do mural, dirigida a um povo basta nt e c a tólico como o mexicano, t e ria

de deixar um a brecha aberta p a r a a crença.

O dedo apontado par a o a lto p a rec e e s tar lembrando aos mexic a n os

que aqu e le ato, p o r m e i o d o qu a l C a rra n za s a ncionava a Con s titui-

ção como reitor a d os de s tin os d a n a ç ã o, er a algo que estav a a lém d a simples vontade dos h o mens, j á que teria sido previamente tra ç a d o ou determinado por um p o der superior, cuja presença entr e e les e r a representada pela figur a pétre a do presidente C a rranza, com s eu lon go

bra ço como in s trumento . Carr a n za t a mb é m p oss ui sa b e d o ria , p o is e s t á numa a titud e d e

es cuta r e de es cr e v e r o qu e es cuta : s u a m ão s e g urando a c a n e t a es t á pront a para tr a n s mitir n os p a p é i s br a nc os o s d es ígnios d a n a ç ão, a m- para da p e l os co n s tituint es" qu e se c o nfund e m com o símbolo m aio r

n ac i o n a l : a ág ui a qu e aco lh e a t o d os.

178 Cami l o de Mel l o Vasconcel l os

No entend i me nt o de C h eva li e r & Gh eerb r an t ,

A ág u ia, a l ém de es t a r r e pre s ent a d a n a bandei r a mex i cana, é cons i derada "a rainha das aves, e n ca rn ação, s ub s t i tu to o u mensageiro da m a i s a l ta divindade uraniana e do fogo c e l este - o so l , qu e só e l a o u sa fixa r sem q u eimar os o l hos. Símb o l o de tama nh a i mportânc i a, qu e n ão ex i ste nenh u ma narra ti va, o u image m ,

hist ó r i ca o u mít i ca, tanto e m nossa c i v ili z ação quanto em t o das as o u t r as, em que a águ i a não acompanhe, o u mesmo não represente os maiores deuses e os

m a iores h eróis. (

tod a s a s figuras da pater ni da d e."

) A ág u ia é t a mb ém o símbo l o co l etivo e primit i vo do pai e de

Do l ado esqu e rdo de q u e m o b serva, é possíve l n otar a figu ra de

revolu cionári os zapa ti s t as co m suas ar m as ao o m bro em posição de

luta. A figura d e Carr a n za é r e pr ese n tad a t a m bé m co m o o g r an de

líder conc ili ado r de for ças o p ost as, f aze nd o desapa r ecer toda a ten-

são e o confl ito que ta nt o mexic a no .

c arac t e ri zo u o pr ocesso r evol uc i o n ári o

A pátria aco lh e a t odos n a fi g ur a d a Águi a, até mesmo as f orças

za p at i s t as q u e fora m inimig a s das for ça s c a rr a n c i s t as e se mpr e lut ar a m

em fl a n cos o p os t os, p ois po ssuíam pr o j e t os e v i sões di s tint as a r es p eit o

d a soci e d a d e m ex i ca n a e de s eu proce sso r evo lu c i o n á ri o .

Ao rea li zar t a l o b ra, Carran z a livr a a p á tri a

m ex ica n a d e t o d os os

ma l es, rep resent a d os pe l os p a péi s de co r n eg r a.

A conc il iação d essa vez n ã o é obr a a p e n as d os h o m e n s. Ela ve m

p e l o a l to e ve n ce u ma i s uma ve z ; a fin a l, o p o d e r di v in o é se mpr e mais fort e.

O m u ral

d e G o n zá lez Camarena,

m a ior prova di sso.

com t o d a essa s imbo l og i a , é a

Siqu e i ros:

Im agens d a R evo lu ção M exica n a

1 79

um a a lm a e m c o n s tante ebuliç ão

N a tr aj et ória de David A l faro Siqueiros (1 89 6-1974), as es f eras

p

o lític a e artísti ca sempre es t ive r am juntas. Ao lo n go d e qu as e c in co

d

écad as de t raba lh o, suas dife r e n tes propos t as m a nti ve r a m u m a

co n st ant e: r espon d er às s u as in q u ietu d es co m res p e it o a um a f und a -

m ent ação t eórica e experimen t a l de se u tra b a lh o a rtís tic o e d e m o ld a r

n el e as su as cons i der ações sociais e pol í ticas.

D es d e se u man ifesto "T res ll amami e n tos de o ri e nt ac i ó n a c t u a l a i os

pint o res y escul tores d e I a n u eva

no úni co n ú m er o d a rev i sta Vida Americana, e m 1921, em B a rc e l o n a ) ,

Siqu eir os j á con siderava a necessi d ade d e p r o d uzi r e assu mir um a a rt e

qu e r ec up er asse as tra di ções c ul tura i s da A m é ric a , e que t a mb é m se

nutr isse d as pr opost as inova d o r as d as va n g u a rd as a rtís ti c a s eur opéias,

es p ec i alm ent e d o cu b i smo e d o f u turismo.

ge n eració n d e A méric a ' P? (publicado

E ssa v i são po lítica d o p r ocesso art í s ti co e m S iqueir os f o i mu ito

influen ci ad a aind a n a déca d a de 1910 pe l o pi nt o r G e r a rd o Mu r illo ' ?

(1 8 7 5- 1 96 4), m ai s conh ec i do po r Dr. At l , n o m e ná hu a tl q ue a d o t o u .

Aliás, co nsidera- se Dr. Atl co m o o pr ec ur so r ide o l ó gico e d e f e n so r d o

de

imp o rt ân ci a r eco nh ec id a int e rn ac i o n a lm e nt e.

d ec i s i va n ão só so bre S iqueir os, u m a vez

qu e, al ém d e pr o f essor n a Aca d e mi a de Sa n Carl os, foi s eu di reto r

dur ant e o pr o cesso r evo lu c i o n á ri o .

de

mur ali sm o m exi ca n o , a nt es m es m o d e se t o rn a r um movime n to

Dr . Atl t eve influê n c i a

A id eol og i a

qu e a nim o u

a im ag in ação

a rtística

e polí t i ca

Siqueiros sempre bu sc o u a unid a d e e ntr e o so ci a lismo" e a mo d e rn i-

dade tecnol óg i ca . E ssa s ínt ese s itu o u- se no n ú c leo de su a es t é ti ca e

propo r ci o n o u a chave p a r a e n te nd e r sua o br a prin c i p alm e nt e du rante

os anos d o pós- g u erra . N esse con tex t o,

d os "tr ês g r and es'Y

sobr evi veu ao em bat e das n ovas gerações q u e se m a ni fes t avam contra

uma p intu ra de conteúdos

o mestre Dav i d A l faro S i q u e ir os f o i o último

da c h a m ada Esco l a M ex i ca n a d e P in t u ra, q u e

so c iais e po l íticos. Ta l s itu ação teve como

180 Camilo de Mello Vasconcellos

resultado a incompreensão e, sobretudo, o encerramento de um pe-

ríodo glorioso que com Siqueiros chegou ao seu fim, já que Orozco e

Rivera estavam mortos (1949 e 1957, respectivamente).

O pintor realizou propostas inovadoras dentro do movimento

muralista mexicano, como empregar novos materiais (piroxilina, sí lica,

cimento, acrílicos, celotex), e recorreu também a ferramentas próprias

da época, empregando-as criativamente na arte; por exemplo, o uso

do aerógrafo, do projetor elétrico e da câmera fotográfica.

Ao recorrer a novos materiais e ferramentas, dando-lhes diferentes

usos e incorporando-os

correspondência com a etapa industrial moderna, significou ainda o

estabelecimento de novas formas de produção e de percepção artís-

ticas, al c ançando uma linguagem diferente que imaginou uma nova

plasticidade no que diz respeito às texturas, à velocidade no traço,

nos ângulos ou enquadramentos.

A experimentação foi sempre uma constante em sua concepção dos

espaços, na pintura ao ar livre, em seu manejo na questão da perspectiva,

no emprego de superfícies côncavas, na integração espacial e plástica,

na poliangularidade e na pintura de matriz fotográfica, dentre outros.

à realização da sua obra, além de supor uma

Para Siqueiros, o artista também deveria se preocupar com o público

das obras de arte, devendo este, inclusive, participar dinâmica e criti-

camente da produção das mesmas. O pintor considerava, ainda, que

desde o momento da concepção da obra de arte o espectador deveria

ser levado em conta como alguém em movimento, que se integrasse ao

espaço pictórico e se envolvesse com a obra.

pelo pintor foi a difusão das obras artísticas

através da fotografia, para a qual propõe a realização de uma pintura

fotográfica, quer dizer, uma pintura que favorecesse uma reprodução

fotográfica apropriada, para dar ao mural não somente o caráter de

uma arte pública, mas também de uma arte multirreprodutível.

A utilização da fotografia foi um dos aspectos fundamentais na

obra de Siqueiros, como se poderá ver especificamente na análise do

mural do Museu Nacional de História.

Outro aspecto previsto

Imagens da Revolução Mexicana

181

Do Porfirismo à Revolução Mural de David Alfara Siqueiros

Este mural localiza-se na Sala XIII do Museu Nacional de Histó-

ria, cujo nome é o mesmo do mural de David Alfaro

Siqueiros: Do

Porfirismo à Revolução.

O

contrato para a realização da obra foi assinado

em agosto de

1957 e seu custo ficou estipulado em $2.000 pesos por metro

(o mural mede 410 m-). Essa obra foi encomendada pelo diretor do

INAH, Eusébio Dávalos Hurtado, e pelo diretor do Museu, Antonio

Arriaga Ochoa.

quadrado

A

técnica utilizada

p e lo pintor foi acrílico e piroxilina

sobre

madeira forrada de tela. Mede 76,88 metros de comprimento

por

4 , 46 de altura. O trabalho foi iniciado em 1957 e inaugurado apenas

em 19 de novembro de 1966, pois Siqueiros ficou preso na famosa

prisão de Lecumberrif durante vários períodos, por defender pu-

blicamente suas idéias políticas, o que

seu trabalho. Para realizá-lo, Siqueiros contou com um assessor especializado em

história, Nicolás T. Bernal e uma equipe de pintores assistentes que

incluía Philip Stein, Epitácio Mendoza, Mario Orozco Rivera, Sixto

Sant í llán, Roberto Díaz de Acosta, E. Batista, Guillermo Ceniceros

e Electa Arenal (sobrinha de Siqueiros). Este mural - ao contrário dos outros três anteriormente analisados

que se concentram em um único fato da Revolução - abarca o período

de 1906-1913. Paradoxalmente, a temática deste mural, uma síntese da

Revolução Mexicana, nunca havia sido abordada pelo pintor.

O mural está dividido em seis grandes seções, distribuídas por três

acarretou a interrupção de

das quatro paredes da sala." Na primeira seçãot'{ver caderno de imagens: "Do Porfirismo à

di-

reito da sala, encontra-se Porfirio Díaz rodeado de várias pessoas em

atitude de desprezo pela constituição de 1857, pois o vemos pisando

Revolução" - Don Porfírio e seus cortesãos), entrando pelo lado

182 Camilo de M e ll o V as c o ncellos

PORF l RIO E A CONSTITUIÇ2 \ O DE 1857

PORF l R10 (PETRIFICADO >

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Plant a b a ix a d a S a l a XI - O Feuda l ismo P o rfiri s t a e Sufrágio Efetivo,

Não-R ee l e iç ão .

(El a b o ração: Cam i l o d e M e llo Va s conc e ll os )

I mage n s d a R evo lu ção Mexi ca n a

183

a mesm a. A o se u r ed o r encontr a - se o p o d e r militar represent a d o p o r

Vict o ri an o Hu ert a e José Ives Lim a nt o ur , um d os princip a is líd e r es

dos Científicos. À fr ente do gener a l D íaz, mulh e r es d a alta s o c ie d a d e

e b ail arin as p ar ecem entreter os "a r is t o cr a t as"

demo n str and o a d ecadên c ia d o r eg im e.

co mo s e e s ti vesse m

A im age m é a de um d i tad o r d eca d e nt e ,

r o de a do de c o rt esãos

g l o r ífícad o r es e comparsas polític os in escru p u l osos.

N o ent end er d e R o chfort,

s u a inte n ção não e r a c ri a r um mur a l a r es p e it o d a hi s t ó ri a pass ad a, c o m o h av i a

feit o Ri ve r a co m t a nt a freqüênci a n o período p ós - g u erra. Tratava de cri a r um a

p intur a mur a l d a hi s t ó ri a no pr ese nt e . A ob r a qu e r ea li zo u S iqueiro s é t a nt o u m a

i n t e r p r e t ação da po l í ti ca co ntem po r â n ea co m o um a r ep r es ent a ç ão d e aco nt eci-

m e nt os p assa d os e ca d a vez m a i s di s t a n tes".

Siqueir os com eço u a tr a b a lh a r n esse

mur a l durante os últim os

m eses d a ges t ão presidencial de Ad o lf o Rui z Co rtine s (1952-195 8 ) . N o

entant o , g r and e p arte do desenv o lvime nt o d a o br a ocorreu dur a nt e

o período de Ado l fo L ó p ez M a t eos (1958-1964), quando este tent ava

revit ali zar o s ideais da R evo l uçã o c o m p o l í t ic as de cu n ho p o puli s t a

que evo cav am al g u mas d as m edid a s da administr a çã o c a rdeni s t a d e

duas décadas atr ás.

Dur ant e sua gestão ec l o d iram muitas g r e ve s e a gitaçõe s p o líti cas

provocando preo cupações no governo norte -a mericano, que l evara m

a um a desac el eração dos i nvestimento s n o Méxi c o. L óp ez M a t eos

reagiu a esses fatos a b a nd o n ando s u as p o líti cas s oc i ais e ini c i a nd o

uma p o l ítica repressiva e a ut oritária voltad a co ntra a oposiçã o p o líti ca

(especial mente os movi m entos sindi ca l e e stud a ntil).

A es qu erd a (d a qu a l Siqueiros f az i a p a rt e ) interpret o u essas mu-

d

anças com o evid ênci a de que a vid a p o líti ca e e c o nômica d o M éx i co

h

avi a caíd o sob a influência de for ças e xtern as.

M es mo quand o o mur a l

descreve o co nfr o nto das forç as d a Rev o lu ção

as d o dit ad o r P o rfirio D ía z, d e m a n e ir a implí c it a se e ncontr a pr ese nt e

Mexic a na de 1910 com

1

8 4

Ca m i l o d e Me l lo Vasco nc e llo s

um a a lu são t e m á tic a e vi s ual ao perí o d o d e lut as p e l a ind e p end ê n ci a

do M éxico ce rca d e c inco décadas d e p o i s.

Pint ado ao red or d e um a a rm a ç ão d e v á r ios t ab l a d os, o e n or m e

mural a p rese n ta o t e m a c o mo um a co n struç ão d e o p os t os tem áti cos.

Image n s d a R evo l ução M exicana

185

P ar a Siqu ei ros,

a d i sp ut a

e a greve s u bseq ü e nte

re s umi am o

espírito in fi nita m ente co mpl exo da R evo lu ção M e xican a. A grev e

dos tr ab alh ad o r es m exica n os co n t r a se u s pa tr ões es tran ge ir os, qu e

com o r espost a tr ouxe r a m f o r ças d e se u p r ó pri o exé r c it o

n ac i o n al

No l ado esqu e rdo d a sal a o b s erv a m -se f i g u ras associa d as co m as fo r ças

p

ar a acab ar co m

o m ov im e nt o,

r es umi a o a l ca n ce d a d o min a ç ão

e

da R evo lu ção, seu s m á rtire s , campo ne ses a rm a d os e l íder es i d eol óg i cos

d

a o p ressão eco n ô mi ca e p o lí t ic a d o M éx i co.

e po l í t icos. D o l a d o dir e it o d a sal a, de s cr eve - se a sociedad e de Po r f iri o

Mas a dim en são n ac i o n alis t a da a p rese n tação d e S iqu e ir os d esse

Díaz na forma de um dit a d o r ro d ea d o d e co r tesãos g l orificadores

e

t

em a n ão

se pr end e a im age n s de a n tepassa d os o u a o r ige n s rac i a i s

co

m pa rsas po l í t icos.

 

e cultur ai s. Ela se exp r essa n a d esc ri ção d os d o i s p ro t ago n i st as

 

N

a segund a s eç ão (ver cader n o

d e im age n s : "Do Porfi rismo

à

princip ai s d essa p assage m d e lut a p e l a p osse d a b a ndeir a n a ci o n a l

R evo lu ção" - Greve d e Cananea e Os Precursores) es t á repr ese nt ada a

g reve d e Ca n a n ea" . R e pre s ent a o t e m a ce ntr a l d e Siqu ei ros, e l eva d o

a um po nt o cu lmin a nt e num c o n front o v i s u a l so br e a gra nd e pa r ed e

qu e co n ec t a os l a d os esquerdo

d os grev i st as, qu e

vão se perd en d o e ntre os d os rurales s ur g ind o e m a p o i o às f o r ças r ea-

cionár i as da re pressão. E s t ão pr ese ntes a l g un s p e r so n age n s con h ec id os

que co m andam essa re pr e s são , t a i s co m o o governa d or d e Son o r a ,

R a fae l Izcábal, e o v i ce -pre s ident e da República , Ra m ó n C o rra l .

Ex i s t e m t a mb é m du as f i guras que so bre ssaem , di s put a nd o a p osse d a

b a nd e ira n ac i o n a l m ex ic a na (ver c a der no d e im age n s: " D o P o rfi ri sm o

à R evo lu ção" - Greve d e Cananea e a Disputa pela bandeira mexicana),

s i mbo li za n do a lut a e ntre as du as f acções ri vais: Willi am C . G r ee n , d a

Green Consolidated Cooper Company of América, e F e rn a nd o P al o m a r es ,

m e m bro d o P a rtid o Liberal Mexica no - de o ri g em a n a rqui st a - f u nd ad o

pe l os irmãos Fl o res M a gón. Três revolu c ion á ri os c a rr ega m um o p er á rio

morto ví tim a d a re press ã o. Para realiz a r essa ce n a , Siqu eir os e f etu o u t es -

tes fotográficos " com e l e m esmo , s eu irm ão ] es ú s e o utr os a jud ant es.

e direito d a sa l a.

Esse fat o é rep resent a d o pel os ch a p é u s (sombreros)

Siqueiros ut i l izo u essas du as fi g u ras p a r a d esc r ever a greve in d us-

trial de Cananea e a in co nf o rmid a d e dos traba lh adores mexica n os

co n tra seus pat rões o pr esso re s . E ssa f a m osa di s put a, qu e ocor r eu e m

1906, foi um dos p rinc ip a i s a c o nt ec im e nt os p o l í ti cos que desem bo- caram na Revo l ução de 1910.

do Méxi co. Siqueiros cri o u um a im age m q u e p o d e s e r interpret a d a

mente co m um a r ef e r ê n c i a hi s t ó ri ca , m as c o m o uma met á f o r a d a

n atur eza inco n clu sa d a R evo lu ção M ex i c an a e d a d o minaçã o c o ntínu a

pelo s int eresses eco n ô mic os d os es tr a n ge ir os, p a rticularm e nt e p e l os

E stad os Unid os. Por que o utr a r azão Siqu e ir os repr e s e nt a ri a a b a ndeir a n ac i o n a l

mexican a como se aind a e s tives se d e p osse d e Will i am Green ? O f a t o

de que esse tema ocup a sse um lu g ar pred o min a nte em sua men t e é

evidenciado por muitos de seus discurso s e escritos político s de ssa

época de criação do mural . A sua visão a respeito do tema do imperiali s m o norte-americ a n o,

tão comum no pens amento m a r x i s t a d ess a é p o c a, fa z i a p a rte d as

constantes acusa çõe s do artista

demonstração de sua insatisfaç ã o com o s rumos que a polític a m exi -

cana em plena década de sessenta trazia à tona. Dessa maneira, Siqueiro s e s t a va desc o ntente com a direç ão qu e a

Revolução estav a tom a ndo nes s e perí o do, e no mur a l do C a stillo d e

Chapultepec f az ia o s eu lib e l o m a i s c o ntundente e s imbólic o.

à

Revolução" - Os Precursores Ideológicos) encontram o s repre se nt a d os

aqueles person ag en s qu e Siqu e ir os c o n si der o u como s end o os precur-

sores Ideo l óg i cos" d a R evo lu ção. Se u s r os t os vão s e pe r d e nd o e nt re a

n ão s o -

ao govern o mexicano, numa c l a r a

N

a terceir a

seç ão ( v er ca dern o

de ima g ens: "D o Porfí r is m o

1 86

Ca mil o d e M e ll o V asco nc e ll os

mult i d ão d e sombreros, indicando que o p o v o m e x ican o, os ca mp o n eses

e

os

ope rári os se fundem na luta por su a lib e rd a d e.

A seção seguint e (4ª. Ver cader no d e im age n s: "Do Po rfiris m o à

R

evo

l ução" - O

Povo e m Armas) é r e l a ti va às lid e r a n ças p o líticas d a

R evo luç ão: Siqu e iros ch a ma a atenç ão p a r a a dif e r e n ça d os t rês gr up os

mais i mp o rta nte s n a lut a: z apati s t as , v illli stas e car r ancis t as,

um d e l es co m c h a p é u s di s tinto s e di s tin g uí ve i s.

ca d a

É poss í ve l d es t acar

a p resen ça d e: Fr a n c i s c o L Mader o , Aquil es Se rd a n, Fr an c i sco Coss,

Ve nu st i a n o Carr a n za, Otílio Mont a fí o, Emil ian o Zap a t a, Euf e mio

Z ap a t a , Á l va ro Obreg ó n, Plutarco Elias Call es , Ra f ae l Bu eln a , Fr an -

cisco Vill a, Lu c i o Blanc o e Salvador Alv a r a d o . T a mb é m es t á pr ese nt e

o p a p e l d as mulh e res n o processo revolu c i o n á ri o co m as repr ese nt ações de M a rga rit a e R osaura Orte g a .

A quint a seção (ve r c a derno de im ag en s: " Do Po rfiris m o à R e-

vo lu ção" - Os mártires da Revolução) r e ún e os m o rt os d a R evo lu ção

e o cava l o. Aqui est ão represent a dos os m á rtires d a R evo lu ção qu e

f or m a m um c a minh o que , segundo Siqueir os , co ndu z a p átri a p a r a

o futuro. Es t a c e n a fo i b a seada num a t o m a d a f o t og r áf i ca'? r ea liza d a

e m N oc h ís tl á n, Za catecas, em 1913, onde ap a r e ce nitid a ment e co m o

úni ca fig ura re c o nhecív e l Leopoldo Arenal- s og r o de Siqu eir o s, mort o

n as b a t a lh as d a Revolução. Siqueiros não teve dúvid as e m utiliza r e ss a

im age m t ão fa mili a r na composição fin a l d e s eu mur a l .

A fig ura de um c a v a leiro simboli z a todo s os r evo lu ci o n á rios qu e

pa rti c ip a ra m d a lut a, ou seja, os heróis anônimo s.

O cava l o (ve r c a derno de imagens: "Do Porfiri s mo à Revo luçã o"

- O cavalo), observado por diferentes ângulos, em moviment o e com

força e vid e nt e , s e detém bruscamente, representa nd o t a nt o a idéi a

como t a mbém um a p o ss ív el

m u dança nos i d ea i s re v o lucion á rio s dur a nt e o sexê ni o d e Ló p ez M ateos (1958- 1 96 4).

qu a nd o se sa b e qu e o p in tor d eu

d e q u e a revo lu ção fo i interrompida,

Isso fi ca a in da m a i s ev idente

co ntinu i d ade a essa ob r a mur a l após s u a lib e rt ação d a pri são, ao f in a l

d e vários a n os.

Im age n s da R evo lu ção Me x ic a n a

187

A se xt a e última seção m os tr a o dit a d o r D ía z petr i ficado ' ", simb o -

liz and o o fim d o regim e q u e t a nt os lut a r a m p a r a ver extinto .

É preci so r essa lt ar q u e esse m ura l d e S i q u e ir os a pre s ent a um a v i são

b ast ant e p eculi ar qu and o co mp a r a d o aos tr ês a nt e ri o re s. Em primei r o

lu gar, essa o b ra d em o n s tr a m a i o r cr i a ti vi d ade e m t e rm os e s t é tic os e

também a qu e apr esent a e l e m e nt os m a i s orig in a i s, di s t a nci a nd o-se da s

a nteri o r es , qu e po r su a vez es t ão r e l ac i o n a d as a u m a v is ão m a i s o fi c i a l

d o pr ocesso r evolu ci o n á ri o m ex i ca n o . A l é m di sso, p o d e - se a firm ar

qu e essa é a o br a q u e m a i s p e rm ite id e ntifi ca r o perfil ide o ló g ic o d e

s eu aut o r-milit ant e.

Siqueir os

é o r epr ese nt an t e d a prime ir a ge r a ç ã o de mur a list as

e d eix a tr an sp ar ecer e m s u a o b ra o co mpr o mi ss o

c au sa r evolu ci o n ári a, e n qua nt o O 'Go rm a n e G o n zá lez C a mar e n a,

repre se nt ant es d a seg und a ge r ação, es t ão di s t a nci a dos d o fat o , s em

um env o lviment o t ão p essoa l q u a nt o o d o pr i m e ir o pintor.

D essa f o rm a, S iqu e ir os re pr ese nt a a R evo lu ção a partir d e um a

persp ecti va

d or es o p er ári os con tra a bur g u es i a, a pa rtir de um a perspe c ti va de

um milit ant e co muni s t a . D a í a r e pr ese nt a ç ão

e Bakunin co m o id eó l ogos d o m ov im e nto .

ideológico c o m a

p essoa l , int e rpr e t a nd o-a co m o se nd o a lut a do s tr a b a lh a -

de Marx, Pro udh o n

Embora a R ev o lu ção es t e j a l o n ge de r e pr es entar es s e compr o mi sso

ideoló g ico, o aut o r t ev e c e rt a lib e rd a d e e m r e tr a t á -I a d ess a f o rm a. S i q u e i-

ro s era um n o m e co n solid a d o e f a m oso, p o rt a nt o, r e pr ese nt a r a R evo l ução

c o m essas " tintas" n ão o f e r e c e ri a m a i s n e nhum p e ri go, p o i s a R evo lu ção

ocorrera h á m ai s d e cinqü e nt a a n os e j á h av i a a l ca nç a do o p o d er.

Acontece qu e O'G o rrria n e G o nz á le z C a mar e n a repr o du zem uma

visão ofi ci al d a R ev o lu ção , se m m at i zes p essoa i s, s em p a i xã o milit a nt e.

Reproduzem

a vi são hi s t o ri og r áf i ca o f icia l da R evo lu ção.

Ou t ra ca r ac t erísti ca d essas quatro obras é q u e o mur a l d e S iqu e i-

r os r epr esent a u ma "sí n tese" da R evo lu ção, d os a nt e c e dent es até a

luta de f at o, enqu ant o O'Gorm an e Go n zá l ez Ca m a r e n a c o n ce nt ra m-

s e em ap en as um úni co f a t o: o P o r f iria t o e o S ufr ág i o c o m M a d e r o,

d e um l ad o , e a Co n st it u ição de 1 9 1 7 com Ca rr a n za, de o utr o.

1

8 8

Ca mil o d e M e Il o Va s c o nceIlos

É nece s sário deixar registrado ainda que todo o discurso expositiv o a pr es entado n a Sala de Siqueiros corresponde únic a e ex c lusiv a mente

ao mural de Siqueiros. Mesmo existindo divers a s fr a ses de líderes re- vo luci o n á rios mexicanos no fundo d a sala", com a intenç ã o de "dar

v o z" ao s protagoni s tas representados n a obra mur a l, e ssas a c a b a ram f i c ando em segundo plano tal a força, gra ndi o sid a de e a p e lo que esta o br a c a us a n os s eus e s pectadores .

Já as sa l a s de O'Gorman e Gonz ález C a m a rena c o mpõ em- s e d os mu-

r a i s e de o bjeto s (em maior ou menor quantidade). Se o mur a l de Siqueiros

"fa l a p o r si mesmo", dispensando qualquer apoio exp o sitiv o , o s o bjeto s e xpostos nessas outras salas servem para comprova r e dar ver a cidade ao s

fa t o s m a is importantes, retratados nas obras .

A an á lise re a lizada dos murais permite afirmar que a Re v b lução n o

M é xi co já está con c luída e foi obra de alguma s figuras que sobress a í-

r a m, e specialmente Madero e Carranza, situação a te s tada s obretudo p o r O'Gorma n e González Camarena. Não só a Revoluç ão es tá c o n- c luíd a , mas a própria História do México encontra- s e r esolvida . A

Re

vo luçã o é o p o nto final da luta iniciada desde a conquista espanho la;

as

diferença s, os conflitos e as injustiças são por e la resolvidos.

Por outro lado, o inimigo comum para todos foi o porfiriato, e a í reside a maior grandeza do movimento revolucionário de 1910. Me s mo que Siqueiros tenha apontado em su a obra mural que o imperi a lismo norte-americano também fosse um inimi g o do povo

m e xic a n o , e a imagem da disputa da bandeira mexic a na durante a

g r e ve de Can a ne a seja o maior exemplo disso, o autor também insiste que o inimigo mais grave e que deveria ser destruído primeiro era o

g

ener a l Porfirío Díaz.

Enfim, para os artistas muralistas o mundo v e lho fora destruído

e

r evo lucionário de 1910.

E s t e é o mundo que a Revolução deixou como herança até a atu a lida de .

o mundo novo havia sido criado e implant a do p e lo m o vimento

Considerações finais

Gua rdi ão d as r e líqui as d o p as s a d o nacional mexicano, o Mu se u

Naci o n a l de Hi s t ó ri a t e m de s empenh a d o o p a p e l de evocar e c e l e brar os a contec imentos e n a lte c e d o r es e f o rma d o r e s de uma memória oficial

e legitimador a d o poder vigente nos diferentes contextos histórico s

vividos no p a í s. Ao anali s ar as div e r sas r e pr ese nt a ções d a Revolução Mexican a no decorrer d o perí o d o p es qui sa d o , p o r intermé dio dos discursos exp os i- tivos, torn a r a m-se evidente s as disputas voltad a s para a definiç ã o de uma mem ó ri a rev o lu c ionári a , id e ntifica d a o ra com uma versão m a i s progressista da Hi s t ó ria , o r a c o m um a versã o mais conservadora, mas sempre o ficial .

É possível afirmar também que as tent a tivas ocorridas de se re s -

gatar as facções populares da Rev o lução referem-se a contexto s d e

crise e de questionamentos

sistema político mexic a no, como foi visto na exposição de 1975 , organi z ada após a g r a ve cris e deflag rada em 1968 . Da mesma f o rma, as propostas expositivas que se aproximaram de uma ver s ão m a i s conservadora - as vitoriosas até os dias atuais - estiveram s empre relacionadas com os momentos em que o sistema político mexic a n o vivia maior euforia, com "picos" de crescimento econômico e maior

poder aquisitivo, espe c ialmente das camadas médias. No términ o d a a n á lise d os di s cur sos expositivos, especialmente

sofridos p e lo hegemônico e centralizado

o de 1982 , fic o u c l a r a a vitó ria d o pr o jeto oficial que estab e leci a

uma relação entre a Revoluçã o Me x icana e a facção burguesa re- presentad a pelas forç as mad e ris tas e c a rrancistas . Zapata e Villa, mesmo t e nd o o se u lu ga r d e de s t a que no p a nteão cívico do Mu s eu ,