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A Filosofia Sartriana não incentiva o egoísmo, pois Sartre diz que na

construção da subjetividade o outro (estranho, indiferente, aquilo que não é eu


ou a grande diferença) tem uma importância.

O homem é uma realidade inacabada, é uma abertura essencial ao mundo, por


isto ela vai construindo-se na medida em que trava com o mundo confrontos.
Quanto mais alargada for à subjetividade mais embates terá tornando-a mais
rica. A subjetividade se enriquece também na medida em que acolhe o outro
como o radicalmente diferente de mim, porque o homem é o “estar com”.
Precisamos do outro, pois enquanto existentes estamos face ao outro e quem
humaniza o homem é o outro por maior que seja a sua capacidade de
autorreflexão (satelitização), pois é o outro que me vê em outra perspectiva, é
ele que apara no homem as suas arestas, é ele que consegue ver facilmente
os defeitos, limites, lacunas, falhas. A abertura que o homem deve ter para com
o mundo é a mesma que deve ter com o outro, ou seja, aconchegar o outro
nele.

Se o homem é radical e incontestavelmente livre, isto significa que ele será o


único a construir a própria subjetividade, e o outro da mesma maneira, deve-se
então olhar para o outro como irremediável livre e respeitar sua liberdade.
Qualquer tentativa de controle estragara a relação, pois o homem deve ver o
outro como irremediável livre. Ou seja, o homem tem que tomar a liberdade do
outro como fim e não como meio, o que significa que nesta moral Sartriana o
homem não pode usar, manipular, controlar o outro, pois a liberdade dele é um
fim e não um meio.

O homem autêntico jamais toma a liberdade do outro como meio, não se


posiciona perante o outro com a intenção de manipulá-lo, porque este homem
também toma a própria liberdade como fim, ou seja, não pode tomar a
liberdade do outro como meio, isto é agir de boa fé, com coerência. Já pelo
contrário, o homem inautêntico age tomando a liberdade do outro como meio e
a própria como fim, o que justifica a frase: “Faça o que eu digo, mas não faça o
que eu faço”. O homem inautêntico quer que o outro atenda as suas
expectativas, ou seja, ele vai se esforçar para alienar a liberdade do outro em
mim, porém em vão.

Na Filosofia Sartriana há uma influência de Kant, pois Kant pensa as ações


morais divididas por dois imperativos:

 Imperativo Hipotético: O homem age a partir da ordem dos sentidos


(emoções, sensações, paixões, impulsos, tendências). O agir hipotético
envolve o “querer”, é um impulso que não traz em si possibilidade de
reflexão.
 Imperativo Categórico: É fundamentado na razão, é o “dever”.
Sartre diz que o homem ao escolher, escolhe toda a humanidade, estão
impresso todos os homens, ou seja, a perspectiva ao escolher está na
universalidade, sobretudo do ponto de vista moral.

Ex.: O homem escolhe se casar ao empreender esta escolha o homem está


colocando todos os homens. Nesta escolha o homem está dando um caráter
de universalidade.

Ex.: O homem ao trair imprime também o caráter de universalidade. Em todas


as escolhas o homem imprime o caráter de universalidade.

“Aja de tal modo que sua ação possa ser considerada universal”.

Ex.: O homem só pode mentir, roubar, matar se ele considerar que todos os
homens podem mentir. Se esta ação for moral todos podem fazer, isto é agir na
perspectiva universal, do contrário será uma ação imoral.

 Agir moralmente para Kant é imprimir a ação o caráter de universalidade


e quando impresso este caráter é moral, pois considera a universalidade
e quando não impresso este caráter é imoral.

 “Se deves pode” (“dever” = racionalização = universalização). O homem


só pode agir assim ou assado moralmente se ele estiver agindo
enquanto dever, ou seja, se humanidade não puder agir de tal maneira
este homem também não pode.

Ex.: Se o homem não quer ser roubado, traído, ele não irá roubar
ninguém, isto é a moral. Se este homem trai e não quer ser traído isto é
imoral, ou seja, ele esta agindo fora do dever, está agindo pelos seus
impulsos, tendências, emoções sem moral.

Sartre: ao escolher moralmente o homem deve fazer a pergunta na perspectiva


da universalidade: “E se todos fizessem assim?”, ou seja, ao escolher, ele
imprime um caráter positivo, ele quer o bem para ele e com isto tem de querer
para todos, pois não pode ser uma escolha que somente o beneficiará (agir de
má fé, agir com incoerência), tem de ser para todos, por isto ao escolher,
escolhe todos os homens.

O homem age de má fé quando sua ação moral estiver baseada nos impulsos,
nas tendências, emoções (imperativo categórico).

 O homem que age desta forma age de má fé, e ainda coloca desculpas
em seu temperamento e outras instâncias, é ele o inautêntico que gosta
de usar desculpas, de esconder-se, é aquele que sai pelas portas dos
fundos, diferentemente do homem autêntico que assume a
responsabilidade de suas escolhas e suas consequências, pois não há
desculpas para ele.
A miséria humana não tem que ser desculpada, tem que ser enfrentada, não é
culpa da vida, da sociedade, das heranças genéticas, a vida do homem será
mais ou menos miserável a depender das escolhas dele mesmo, pois é ele que
a torna o que quer que deseje.

O homem só existe em relação, ele não é uma coisa, não tem essência pré-
definida, pois ela vai sendo construída através das relações que partem a partir
das escolhas do indivíduo, e isto é o homem que constrói em si mesmo,
somente ele, não há desculpas em nenhuma instância. As instâncias podem te
limitar e / ou influenciar, mas não determinar, o que determina a plenitude ou a
miséria na existência são as escolhas que este homem realiza. Existir é
fracassar e superar.

Todo homem que inventa um determinismo é o homem de má fé, são eles os


covardes, sínicos, medíocres, incompetentes e fracos, tentam arrumar
justificativa para sua existência. A existência humana é contingencial
(possibilidade de algo existir ou não), da mesma maneira que o homem existe,
poderia também não existir, não faria diferença nenhuma, não há desculpas ele
existe e ponto, da feita que este homem existe ele escolhe esta ou aquela
saída para a sua existência. O mais próprio dos homens que agem de má fé é
a tentativa de fuga da angústia, por exemplo, hoje na contemporaneidade os
homens buscam saídas conectando-se em redes, onde há o excesso de
informação e competição, isto é uma estratégia da direita, das elites.

Nada angustia mais do que a escolha, pois ela é ambígua, há nela 50%
possível bom e 50% possível mal, não há na hora de escolher certeza se isto
ou aquilo será realmente bom ou mal, por isto há angústia. A angustia vem por
sermos os únicos a responder por nossas escolhas, ou seja, a escolha interfere
diretamente em sua existência.

Agir de má fé é escamotear a responsabilidade, agir de boa fé é assumir a


responsabilidade, pois é só o homem que existe em sua própria existência e
não outro. Pode ele ser influenciado, desde que assuma que se deixou
influenciar, deve ele responder pela forma em que agiu, ou seja, não culpar
outras instâncias pelas consequências de sua escolha, porque não é o meio
que o define e sim suas escolhas. Isto é agir de boa fé, agir de boa fé é ser um
homem livre, pois não há nada que determine sua existência, ele é livre pra
escolher como quer que ela se dê. Por isto a Moral Sartriana é otimista, porque
o otimismo está na liberdade, na possibilidade, na real condição do homem se
construir deliberadamente e livremente da forma em que preferir.

A moral Sartriana possui um otimismo duro, pois todas as possibilidades de


escolha estão na mão do homem e a responsabilidade em escolher é total e só
do homem, não há desculpas, pois é ele quem decide. Ou seja, a liberdade e a
responsabilidade estão no mesmo nível para as existências.
Está moral também é ativista, pois fora da ação não há moral, esta moral se
posiciona contra o conformismo, acomodações, adaptações e quietismos. Só
há esperança na ação, diz Sartre, pois o homem só vive através do ato, fora
dele não há existência. Não há ação na acomodação, no conformismo, na
preguiça. Na perspectiva desta moral o conformismo, as acomodações,
adaptações e os quietismos são imoralidades, porque o homem não é nada
além do seu próprio projeto, e o projeto é algo que está para ser realizado, ou
seja, está para a ação.

Esta moral está vinculada a arte, o homem existe comprometido em


transformar sua existência em uma obra de arte. A arte e a moral se
entrelaçam nesta Filosofia Sartriana através da liberdade o que quer dizer
“criação”, o homem se cria, transforma-se, constrói-se na medida em que
existe como uma coisa feia (ninguém admira) ou bela (inspira o outro), tudo
depende dele mesmo. O homem só pode se construir através da liberdade e o
ele vai se construir como algo admirável e belo quanto mais experimentar a
nadificação, quanto mais o nada se nadear dentro dele mesmo, ou seja, quanto
mais enriquecer sua subjetividade, e quanto mais o homem fracassar mais sua
subjetividade irá se desenvolver, porque quanto mais ele fracassar, mais
haverá possibilidades de superação. O Narcisista não quer fracassar, pois cria
uma imagem da sua existência ser perfeita, porém o homem é o fracasso, é a
falha, a falta, há um buraco dentro dele a ser preenchido através das relações
dele ao mundo.

O homem constrói sua existência como uma obra de arte a partir da liberdade e
da nadificação, porque ele é livre para inventar-se como existente e a sua
subjetividade como existente será mais rica quanto mais fracassar e superar,
do contrário será um creme, qualquer coisa podre. Quando o homem fracassa
e supera está ele reafirmando seu compromisso com a liberdade e com o
mundo. A liberdade se mostra no desvelamento da existência através dos seus
próprios fracassos. Existir sem fracasso é uma fantasia neurotizante.

Pensar a mediocridade significa pensar a existência inautêntica, pois os


medíocres são os inautênticos, que são aqueles que agem de má fé, alienam a
liberdade, escamoteiam a miséria humana através das desculpas. Pensar a
mediocridade significa pensar também a existência dos indivíduos fracos.

Na perspectiva Nietzschiana os fracos são aqueles que reagem e não agem,


resistem a partir da moral dos escravos, são os sujeitos que se adaptam e se
enquadram na manada, portanto são aqueles que têm pouca capacidade de
refletir.

Ser medíocre é estar na média, nem mais para um lado e nem mais pro outro,
é estar no meio, encima do muro, na metade, ou seja, é ausência de
integridade, pois o medíocre nunca esta por inteiro em suas ações, não está
pleno, esta pela metade, um pé aqui e outro ali.
Na Europa Ocidental no período da década de 90, há um movimento político de
extrema direita que se ancora na mediocridade, para este movimento o
Ocidente está em uma fase de declínio, os seus valores e cultura também, ou
seja, nestas sociedades em face da perspectiva de extrema direita não há mais
lugar de aventuras e utopias políticas.

Esse movimento é um movimento que se enrijece, nessas sociedades onde o


discurso de extrema direita caminha para o declínio há uma luta pelas
identidades, daí o maior problema político social nesses países Europeus são
os estrangeiros, imigrantes que povoam estes países para tentarem sobreviver
de guerras, de miséria e incomodam por serem os estrangeiros. Por exemplo,
Trump tenta rechaçar (tirar a força) a imigração em principal os países da
América Latina.

Estamos na sociedade do espetáculo onde não importa a verdade, por


exemplo, a propaganda do Trump. Os EUA é um país é onde eximem
imigrantes, sendo que os EUA construíram-se por imigrantes, então é só uma
bandeira política sem comprometimento com a verdade e quem adere a esse
discurso as pessoas medíocres que são aqueles que não possuem consciência
de si, não possuem capacidade de pensar crítico reflexivamente.

Para Schopenhauer, o homem medíocre é aquele que é visto como um mero


instrumento e bem da natureza, é o homem coisificado, ou seja, inautêntico. É
o homem da uniformização, padronização, do nivelamento. Na
contemporaneidade há a necessidade de padronização, sobretudo neste
período do espetáculo, onde as pessoas adoecem por construírem esta
necessidade de entrarem em um padrão.

Para Enzensberger, o medíocre nesse tempo é um zumbi, um fantoche,


porque esse sujeito se expõe a manipulação, são os homens uteis a
manipulação. Estamos na sociedade do espetáculo há a demanda de
visibilidade, exposição, quanto mais o homem se expõe, se publicizar melhor
está se inserido no padrão, o que o torna inautêntico.

O medíocre é o que busca inserimento no padrão e se frustra quando não se


insere, por isto gera nele transtornos. Na sociedade do espetáculo há a
midiatização e a virtualidade, há uma grande exposição exacerbada, onde a
fama instantânea é construída no indivíduo é totalmente fugaz o que gera
transtornos.

Ex.: Kim Kardashian

Seguir a ela e qualquer influencer é inserir-se no rebanho, porque estas


celebridades influenciam no supérfluo e superficial, ou seja, são medíocres e
seu público também é, pois aderem a isto sem questionar, o que quer dizer que
esta mediocridade é qualificada, porque a celebridade medíocre impõe um
padrão da mediocridade. Nesta sociedade o padrão da mediocridade é o
consumo. As celebridades que influenciam ganham dinheiro por conta do
consumo, pois são financiadas pelas empresas para fazer propagandas, ou
seja, perde ela sua autenticidade, pois se enquadra ao modelo estabelecido da
empresa para vender (calçados, roupas, bolsas), portanto é um influenciador
que influência sob a influência de outro, sendo assim, medíocre. Nesta lógica
do consumo tudo deve ser consumo, inclusive o próprio corpo, por isto o
homem deve ter que apresentar o corpo todo padronizado (brincos, piercings,
forte), ou seja, o corpo é mercadoria.

A arte tem a função de suspender o cotidiano, porém a mediocridade está tão


impregnada na sociedade que até a arte é produzida em série, ela é vista como
um instrumento de consumo, ou seja, até ela é medíocre.

Ex.: Romero Britto, onde copia obras famosas e transfere a “seu olhar”, ou
seja, não há nada novo.

Não é fácil escapar da mediocridade, porque há uma pressão social que


atende os interesses dos sistemas para que as pessoas adiram um modelo ou
padrão. Para Enzensberger o esforço que as pessoas fazem através da
repetição de padrões para serem reconhecidas e não fracassar é o que gera os
transtornos emocionais (ansiedade) e físicos.

Nesta sociedade da cópia não há espaço para a genialidade, pois está todo
mundo no compasso da mediocridade, estamos também sobre a égide de uma
moral insana (é aquela que pressiona para os indivíduos não terem consciência
de si). A moral insana gera a ausência de autoconsciência social, cada vez
mais as pessoas estão buscando os seus próprios interesses e negando o
outro, a diferença.

Para Zaratustra, o medíocre é se confortar com pequena felicidade, é ser


menor, é se comparar a vaca e a porca satisfeita.