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Mas o que é mesmo linguística?

CONCEITUAR A DISCIPLINA E APRESENTAR O HISTÓRICO DE COMO ELA SE CONSTITUIU. PARA ISSO,

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A LINGUAGEM EMPREENDIDAS NO OCIDENTE ANTES DA CONSTITUIÇÃO


DA CIÊNCIA LINGUÍSTICA MODERNA SÃO EXPOSTAS.

Para início de conversa...


Vamos imaginar diálogos como estes: Clique para assistir à  ANIMAÇÃO
(https://ead.uninove.br/ead/disciplinas/web/_g/ling68/a01v01_ling68.htm)
Será que você já participou de alguma dessas cenas? E o que se pode inferir desses diálogos?

Pois é! Essa foi a forma que Mendonça (2001, p. 233), em um interessante ensaio sobre a Linguística e o
Ensino, encontrou para representar o desconhecimento de que goza a Linguística em nossa sociedade.

Muitas pessoas ainda não sabem que há uma ciência acadêmica cujo objeto de investigação é a linguagem e
que essa faculdade humana pode ser estudada cientificamente.

 
Nos pequenos diálogos, é possível perceber também que "gramática" é um conceito muito mais conhecido.

Isso acontece da mesma forma entre os estudantes dos cursos de Letras e Tradutor-Intérprete que, muitas
vezes, ingressam no ensino superior com aquela concepção, ainda muito difundida na escola, de que

aprender a "língua" é a mesma coisa que aprender a "gramática da língua".


Nesse ponto, já podemos nos perguntar: afinal de contas, o que é língua? O que é Gramática? Língua é

sinônimo de Gramática? E o que é mesmo Linguística? A resposta a essas perguntas, por incrível que pareça,
já tem uma história. Mas, antes de conhecer essa história, vejamos o que o Ministério da Educação vem,
desde 1996, fornecendo como parâmetros para o ensino de Língua Portuguesa nas escolas. Acesse no link
abaixo:

 
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf
(http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf)
 

É com base nesses parâmetros, e por considerar que, para implementá-los em sala de aula, no caso dos
estudantes do curso de Letras, ou para atuar na área de Tradução e Interpretação, o futuro profissional da
área de linguagem deve conhecer bem a Linguística, que foi elaborado o módulo que você vai cursar.

Passemos, então, às respostas àquelas perguntas e à história que elas já têm.

O que é Linguística?
Antes de conceituar o que se entende por "ciência linguística moderna", vamos apresentar uma visão geral
dos estudos acerca da linguagem que precederam o surgimento dessa ciência, situando-a em uma
perspectiva histórica no quadro das demais ciências.

História das ideias linguísticas


O interesse do ser humano pela linguagem é muito antigo. Na Grécia, os filósofos empreenderam discussões
sobre a organização da linguagem em relação à ordem do mundo. As questões linguísticas predominantes
nesse período foram duas:
 

1. A controvérsia entre os partidários da PHÝSIS (natureza, lei) e os da NâMOS


ou THÉSIS (convenção, norma). Nesse debate sobre a origem da linguagem,
tema do Crátilo, um dos diálogos de Platão, discute-se se as palavras imitam
as coisas que elas representam ou se os nomes são dados por pura
convenção.

 
2. A discussão entre anomalistas e analogistas, que procuravam responder se é
o princípio da irregularidade ou o da regularidade que rege a linguagem.
 
Essas duas questões são importantes do ponto de vista histórico, pois propiciaram um exame detalhado da
língua grega. Assim foram descobertos paradigmas formais (terminações e componentes morfológicos) e
relações de regularidade entre forma e significado. Foi por meio das analogias que as diferentes classes de

palavras (substantivos, verbos, adjetivos etc.) foram apreendidas. Elas constituem o fundamento da
denominação semântica das categorias gramaticais
 
Assim, a criação e a sistematização de uma terminologia formal para a descrição do uso clássico da língua,
além de uma teoria e descrição gramaticais, foram a grande contribuição da investigação realizada pelos
gregos.
 

Antes de continuar a leitura, clique no botão a seguir e veja o infográfico com as principais reflexões dos
gregos sobre a linguagem.

Roma
Como em outras áreas, também nas ciências linguísticas a influência do trabalho intelectual grego foi
fundamental, a ponto de se poder dizer que a reflexão sobre a língua empreendida em Roma foi, em grande
medida, a aplicação ao latim do pensamento, das controvérsias e das categorias do grego. As estruturas
básicas relativamente similares das duas línguas e a unidade cultural alcançada no mundo greco-romano
facilitaram essa transferência metalinguística, como se pode observar nos manuais de língua latina.

 
Para conhecer algumas reflexões dos romanos acerca da linguagem, clique no botão a seguir e veja o
infográfico.
Também os antigos hindus desenvolveram estudos rigorosos sobre o sânscrito, sua língua sagrada,
certamente movidos por razões religiosas. Esses estudos se tornaram conhecidos no Ocidente somente no
séc. XIX.
 
Na Idade Média, a reflexão sobre a linguagem foi efetuada pelos gramáticos chamados Modistae, que
produziram obras intituladas De Modis Significandi, comprometidos com a valorização do uso do latim

clássico e a Filosofia Escolástica, que via a língua como instrumento para analisar a estrutura da realidade.

Os principais precursores
Na história da constituição da ciência linguística moderna há dois momentos que não se pode deixar de
mencionar: o século XVII, que é o século das gramáticas gerais, e o século XIX, com suas gramáticas
comparadas.
 
No séc. XVII, os estudos da linguagem foram marcados pelo racionalismo, isto é, os estudiosos encaravam a

linguagem como representação do pensamento e defendiam a ideia de que todas as línguas são regidas por
princípios lógicos e racionais, preconizando aos falantes normas de precisão e clareza para alcançar o
modelo ideal. A gramática produzida tinha como alvo a língua ideal, universal, lógica, capaz de assegurar a
unidade da comunicação humana, e deveria funcionar como uma máquina que separasse automaticamente
o que seria válido ou não. A gramática mais importante desse momento ficou conhecida como a Gramática
de Port-Royal  ou Gramática Geral e Racional, dos franceses Arnaud e Lancelot, de 1690, que estabeleceu
princípios que não se prendiam à descrição de uma língua particular, mas pensavam a linguagem em sua

generalidade.
 
O segundo momento importante é o séc. XIX, da Linguística Histórica, com as gramáticas comparadas. A
descoberta de um manual de gramática da língua sânscrita por um estudioso inglês reorienta os estudos
acerca da linguagem. O interesse em construir uma gramática universal, racional e perfeita foi substituído

pela tentativa de se descobrir a língua-mãe que deu origem às línguas clássicas e modernas, após a
descoberta das semelhanças entre a maior parte das línguas europeias e o sânscrito. A comparação entre as

gramáticas das línguas indo-europeias leva os estudiosos à constatação de que as línguas mudam,
transformam-se com o tempo, não de acordo com a vontade humana, mas dentro de regularidades

específicas. O nome mais importante da época é o do alemão F. Bopp, com sua obra de 1816 a respeito do
sistema de conjugação da língua sânscrita, comparada ao grego, ao latim, ao persa e ao germânico.

Os indo-europeístas dizem que as semelhanças encontradas indicam que há parentesco entre essas línguas,
que pertenceriam à mesma família, resultando de transformações naturais de uma mesma língua de origem

(o indo-europeu), à qual eles propõem que se chegue pelo método histórico-comparado. Por esse método,
comparam-se as línguas, e se estabelecem correspondências, sobretudo gramaticais e sonoras para se

chegar à língua-mãe. Essa língua de origem, o indo-europeu, não é uma língua da qual se tenha
documentos; é uma reconstrução teórica, uma língua hipotética.
A grande contribuição das gramáticas comparadas foi evidenciar que as mudanças são regulares, têm uma
direção (não são caóticas, como se pensava). Podemos observar essa direção, essa regularidade da mudança,

se tomarmos, por exemplo, o tipo de uso atual que se dá no caso de "sordado" por "soldado". Nessa posição,
vemos que há possibilidade de mudança, de "l" para "r", mas nunca temos um "l" se transformando em "p".

No séc. XIX, para mostrar a regularidade, certos linguistas históricos alemães, chamados de neogramáticos,

elaboraram as leis fonéticas, pelas quais eles procuravam explicar as mudanças das línguas.
 

Construíram uma escrita própria para anotar as formas em evolução, utilizando formas existentes nas
línguas indo-europeias para identifi car e organizar essa família de línguas. Por essa escrita, podemos ver,

por exemplo, que o espanhol "lluvia" e o português "chuva" são parentes, tendo evoluído da mesma palavra
em latim "pluviam". Como encontramos, ainda, em espanhol "lleno" e em português "cheio", que derivam de

"plenum", podemos reconhecer uma regularidade na evolução: pl>ll (em espanhol), em


que o sinal > significa "transforma-se em".

Os principais precursores
Após esse breve histórico de períodos em que se desenvolveram refl exões sobre a linguagem, observemos
como se compreende hoje o estudo científico da linguagem:

É importante salientar que existe uma distinção bem nítida entre a Linguística, ciência autônoma dotada de
A Linguística definiu-se, com bastante sucesso, entre as CiênciasHumanas, como o estudo

científico que visa descrever ou explicara linguagem verbal humana. (...) Dada a nossa
tradição escolar,há uma tendência em se identificar o estudo da linguagemcom o estudo

da gramática. A linguística, no entanto, distingueseda gramática tradicional, normativa.

Ela não tem, como estagramática, o objetivo de prescrever normas ou ditar regras
decorreção para o uso da linguagem. Para a linguística, tudo o quefaz parte da língua

interessa e é matéria de reflexão. Mas não équalquer espécie de linguagem que é objeto
de estudo da Linguística:

(ORLANDI: 1992, P. 9-10)

princípios teóricos e de metodologias investigativas, e a Gramática Tradicional, termo que engloba um

conjunto de atitudes e métodos encontrados no período anterior ao advento da ciência linguística moderna.
 

Vejamos agora como se define essa nova ciência nos principais manuais de introdução à Linguística em

língua portuguesa. Essas referências podem servir de leitura complementar, para que você conheça ainda
melhor esse novo campo do saber a que está sendo apresentado.

Em todos os conceitos, está explícita uma concepção descritiva e explicativa do fenômeno da linguagem, ou
seja, o objetivo do linguista não é prescrever regras a partir de um uso da língua considerado a priori certo,

mas construir uma teoria geral da estrutura da língua e um arcabouço teórico para descrever as línguas
particulares. Essas definições referem-se a um campo de estudos sobre a linguagem que se desenvolveu a

partir de uma teoria elaborada por um cientista da Universidade de Genebra, Ferdinand de Saussure, cuja

contribuição estudaremos no próximo tema.


SLIDESHOW (https://ead.uninove.br/ead/disciplinas/web/_g/ling68/a01s01_ling68.htm)

INDICAçãO DE SITES E LIVROS


Projeto “A Brasília que não lê”. <http://www.stellabortoni.com.br/
(http://www.stellabortoni.com.br/)>.

VII Jornada Nacional de Filologia. <http://www.filologia.org.br/ (http://www.filologia.org.br/)>.


Portal MEC.  <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf

(http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf )>
MARTELOTTA, M. E. (org.) Manual de Linguística. São Paulo: Contexto, 2008.

WEEDWOOD, B. História concisa da Linguística. São Paulo: Parábola, 2002.

ATIVIDADE

"Os estudos acerca da linguagem iniciaram-se nas civilizações clássicas,

como a grega e a latina." - Considerando esta afirmação, escolha uma

das opções:
A. A afirmação está Correta

B. A afirmação está Incorreta

ATIVIDADE

"A linguística é uma ciência que estuda a linguagem verbal, aquela que

é própria dos seres humanos."  - Considerando esta afirmação, escolha

uma das opções:

A. A afirmação é FALSA.

B. A afirmação é VERDADEIRA

ATIVIDADE

"A linguística preocupa-se, entre outras coisas, com o estudo dos

sistemas sígnicos das línguas naturais." - Considerando esta afirmação,


escolha uma das opções:

A. A afirmação é VERDADEIRA

B. A afirmação é FALSA

REFERÊNCIA
CAGLIARI, L. C. Alfabetização e Linguística. 10. ed. São Paulo: Scipione, 1997.
CÂMARA JUNIOR, Joaquim Mattoso. Dicionário de Linguística e Gramática. Petrópolis: Vozes, 1988.

LOPES, Edward. Fundamentos da Linguística Contemporânea. São Paulo: Cultrix, s.d.


LYONS, John. Novos Horizontes em Linguística. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1976.
MENDONÇA, Marina Célia. "Língua e Ensino: políticas de fechamento". In: MUSSALIN, F.; BENTES, A.
C. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. v. 2. São Paulo: Cortez, 2001. p. 233-264.

ORLANDI, Eni P. O que é Linguística. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.
ROBINS, R. H.  Pequena História da Linguística. BARROS, Luiz Martins Monteiro de (trad.). Rio de Janeiro:
Ao Livro Técnico, 1983.