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Resenha:

“Sobre o conceito de função em Ciências Sociais”

Alfred Reginald Radcliffe-Brown


Patrick de Oliveira Silva
Mestrado – Turma 2019

Escrever sobre qualquer aspecto da obra de Radcliffe-Brown é situar um tanto


quanto nas suas opções enquanto antropólogo e pesquisador. Ele insere-se na tradição
de Emile Durkheim como fica bem evidente no texto que vamos resenhar. Ele
desenvolve um campo teórico denominado estrutural-funcionalista que se opôs
sobretudo ao funcionalismo de Bronislaw Malinowski. Radcliffe-Brown passou a sua
vida negando qualquer adesão ao funcionalismo. Seu conceito de função como veremos
distancia ele o suficiente de Malinowski.

Radcliffe-Brown entende que o conceito de função se baseia em uma analogia


entre a vida social e a vida orgânica. O antropólogo vai basear seu conceito de função
aplicado às sociedades usando do conceito de função na natureza orgânica e aplica-lo na
vida social. Suas formulações não são nada fáceis, a complexidade com que o
pesquisador elabora seu conceito faz com ele seja muito pouco lida. Isso tem a ver com
a aplicabilidade, já que o antropólogo forneceu excelentes contribuições para pensar às
sociedades, suas organizações, ou seja, suas estruturas e funções.

Ao aplicar o conceito de função ele vai buscar no sociólogo Emile Durkheim


que utilizou em 1895. Durlheim forneceu segundo o pesquisador a primeira formulação
do conceito aplicado ao estudo estritamente cientifico da sociedade. Sobre disse ele vai
dizer: “A definição de Durkheim é que a "função" de uma instituição social é a
correspondência entre ela e as necessidades do organismo social. Essa definição requer
algum esclarecimento”. (p.1)1

1
Referente a pagina do trabalho consultado, que foi extraído: PIERSON, Donald. 1970. Estudos de
organização social – Tomo II: leituras de sociologia e antropologia social. São Paulo: Martins. p. 220-
230.
A vida orgânica é de onde Radcliffe-Brown extraia suas ideias para conceituar
/pensar função. Sua tentativa é elaborar uma teoria cientifica, baseada na ciência que dê
conta de comprovar com ela diz, é por isso que a Biologia já tão avançada enquanto
ciência vai contribuir com o antropólogo no seu entendimento orgânico da função. Ele
mesmo vai afirmar: “a acepção em que se toma aqui a palavra ‘função’, concebe-se a
vida de um organismo como o funcionamento de sua estrutura. É através da
continuidade do funcionamento e por ela que se preserva a continuidade da estrutura”.
(p.2)

Radcliffe-Brown parte da vida orgânica para a vida social do qual ele entende
que também é orgânica. Sua preocupação a priori é pensar o conceito de função a partir
da vida orgânica para ser aplicada a vida social. Seu pensamento pode assustar a
antropologia atual, sobretudo a antropologia brasileira, uma vez que muitos
preconceitos, sobretudo no que se refere aos grupos étnicos que ele insiste chamar de
tribo. A função orgânica de Radcliffe-Brown aplicada ao social que ele amplia para
estrutura orgânica, lembrando que função e estrutura para ele não são as mesmas coisas,
obviamente não, mas são os dois conceitos que ele usa para pensar sociedade. O pano
de fundo tanto da função como da estrutura é a vida orgânica. Vejamos como o autor
elabora isso: “Passando da vida orgânica para a vida social, se examinarmos uma
comunidade tal como uma tribo africana ou australiana, podemos reconhecer a
existência de uma estrutura social. Os seres humanos individuais, as unidades essenciais
nesse caso, ligam-se por uma série definida de relações sociais num todo integrado. A
continuidade da estrutura social, como a da estrutura orgânica, não é destruída pelas
mudanças nas unidades. Os indivíduos podem deixar a sociedade, seja por morte, ou de
outro modo; outros podem entrar nela. A continuidade da estrutura mantém-se pelo
processo da vida social, que consiste nas atividades e interações dos seres humanos
individuais e dos grupos organizados, em que eles se unem. A vida social da
comunidade define-se aqui como o funcionamento da estrutura social. A função de uma
atividade recorrente, como a punição de um crime ou uma cerimônia funérea, é o papel
que ela representa na vida social como um todo e, portanto, a contribuição que faz à
manutenção da continuidade estrutural”. (p3)

A definição de função tal como o pesquisador elabora no parágrafo anterior


envolve a noção de uma estrutura que se entende como uma série de relações entre
entidades unitárias que mantém a continuidade da estrutura através de um processo vital
constituído pelas atividades das unidades constituintes. Estrutura para ele é sistema que
se relaciona com partes que funcionam / trabalham para manterem a própria estrutura.
Radcliffe-Brown verifica problemas nessa concepção que ele mesmo indaga, vejamos:
“Se, com esses conceitos em mente, empreendermos uma investigação sistemática da
natureza da sociedade humana e da vida social, veremos que se nos apresentam três
séries de problemas. Primeiro, os problemas de morfologia social − quais as espécies de
estruturas sociais que existem, quais são suas semelhanças e diferenças, como devem
ser elas classificadas? Segundo, os problemas de fisiologia social − como funcionam as
estruturas sociais? Terceiro, os problemas de desenvolvimento − como vêm a existir
novos tipos de estrutura social”? (p.3)

Em termo práticos Radcliffe-Brown entende que a função é nada mais nada


menos que a contribuição que uma atividade parcial faz à atividade total que ela mesma
participa. Trata-se de responder a função de A em B, ou seja, A é a atividade parcial e B
a atividade total, a contribuição de A em B, é a função. Em termos sociais seria: a
função do arco-flecha na caça indígena dos urubu-kaapor, o arco e a flecha enquanto
instrumento é de uso social, sua contribuição a vida social, ele possibilita a caça que traz
o alimento para a aldeia (vida social total/sociedade), neste sentido que o a função do
arco e da fecha possibilita a própria manutenção da vida, ou seja, o arco e flecha tem um
funcionamento no sistema social total, tal como vai dizer o antropólogo. Descrever a
função social do arco e da flecha entre os urubu-kaapor é procurar o uso social de tal
instrumento (arco e flecha) dentro do sistema social da sociedade kaapor como um todo.
Isso consiste em pensar a existência do arco e da flecha para tal grupo de forma
orgânica, vai desde a confecção, o aprendizado (a técnica), sua atividade na caça
(contribuição) – o orgânico é justamente a totalidade da função tal como Radcliffe-
Brown quer fazer seu leitor entender.

Radcliffe-Brown vai buscar entre os gregos do século V a.C possibilidades de


entender as sociedades atuais, de lá ele vai resgatar o conceito de eunomia (ordem,
sáude social) e dysnomia (desordem, doença social). Ele vai dizer que: “No século XIX,
Durkheim, na sua aplicação da ideia de função, procurou lançar as bases de uma
patologia social científica, baseada numa morfologia e numa fisiologia. Nas suas obras,
particularmente naquelas sobre o suicídio e sobre a divisão do trabalho, ele tentou
firmar critérios objetivos pelos quais julgar se dada sociedade em determinada época é
normal ou patológica, eunômica ou dysnômica. Por exemplo, ele procurou mostrar que
o aumento da taxa de suicídio em muitos países durante parto do século XIX é um
sintoma de condição social dysnômica ou, para empregar a sua terminologia, anômica.
Não há, provavelmente, nenhum sociólogo que sustente ter Durkheim realmente
conseguido estabelecer base objetiva para uma ciência da patologia social”. (p.4)

Radcliffe-Brown versa muito bem nas questões que costumeiramente podem


envolver que é certo ou errado, melhor ou pior, ele rompe com essa dualidade, que é na
sua teoria um recurso para pensar a sociedade despojado de valores pessoais. Ele
trabalha com a ideia para além do juízo de valor, sua teoria consiste em dá conta do que
é diferente disso e daquilo, ou seja, para ele o que as pessoas julgam muitas das vezes
como melhor do que outro, é simplesmente diferente.

Por fim, os estudos orgânicos de Radcliffe-Brown ou como ele talvez gosta de


ser chamado estrutural-funcionalista está interessado no todo e nas parte. A própria
ideia de estrutura e de função vai reunir essa dimensão do todo e da unidade. Suas
teorias ainda podem contribuir em muitos aspectos para as pesquisas atuais. Acredito
que uma atualização do seu pensamento contribuiria muito com as indagações que as
sociedades colocam aos antropólogos no mundo de hoje. Ele mesmo afirmou: “se o
funcionalismo significa alguma coisa, é a tentativa para ver a vida social de um povo
como um todo, como uma unidade funcional”. (p.7)