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CONTABILIDADE

PÚBLICA

TATIANE ANTONOVZ

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2017
Conselho editorial  roberto paes e paola gil de almeida

Autor do original  tatiane antonovz

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  luciana varga, paula r. de a. machado e aline karina


rabello

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  eduardo trindade

Revisão linguística  bernardo monteiro

Revisão de conteúdo  rafael laredo mendonça

Imagem de capa  jetacom autofocus | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

A634c Antonovz, Tatiane


Contabilidade pública. / Tatiane Antonovz.
Rio de Janeiro: SESES, 2017.
96 p: il.

isbn: 978-85-5548-455-5

1.Legislação aplicada. 2. Orçamento. 3. CASP. 4.SIAFI.


5.Controle. I. SESES. II. Estácio.

CDD 657

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 7

1. Aspectos introdutórios e práticos


da contabilidade pública 9
Introdução 10

Evolução da contabilidade pública no brasil 10

Legislação aplicada, objeto, finalidade e campo de aplicação 12

Regime contábil aplicado ao setor público 15

Princípios de contabilidade no setor público 17

Patrimônio público e variações patrimoniais 21

Mensuração de ativos e passivos 24

Plano de contas aplicado ao setor público (pcasp) 25

2. Estado, administração pública e formas


de financiamento estatal 33
Introdução 34

Elementos constitutivos do estado 35

Princípios da administração pública 36

Estrutura e funcionamento do governo e da administração pública 40


Administração direta 43
Administração indireta 44

Receita pública 47
Receita extraorçamentária 48
Classificação da receita 49
Etapas e estágios da receita 50

Dívida ativa 51
3. Despesa pública e demonstrações contábeis 57
Introdução 58

Conceitos de despesa 58

Classificações de despesa 59

Estágios de execução da despesa 63

Restos a pagar 67

Despesas de exercícios anteriores 68

Demonstrações contábeis no setor público 69


Balanço orçamentário 71
Balanço financeiro 74
Balanço patrimonial 78
Demonstração das variações patrimoniais 80
Demonstração dos fluxos de caixa 81
Demonstração das mutações do patrimônio líquido 83

4. Sistema integrado de administração


financeira do governo federal (SIAFI) e
gestão patrimonial 87
Introdução 88

SIAFI 88
Conceito, objetivos e características 93
Formas de acesso 94

Gestão patrimonial 99
Princípios do inventário 101
Normas contábeis do controle patrimonial 102
Distinção na classificação dos bens públicos 103
5. O controle na administração pública
e a lei de responsabilidade fiscal 111
Introdução 112

Disposições constitucionais sobre controle 113

Formas de controle 114


Controle Externo 116
Controle interno 118

Prestação de contas 120

Tomada de contas 122

Lei de responsabilidade fiscal 124


Histórico 125
Limites de gasto 127
Endividamento público 128
Transparência, controle e fiscalização 130
Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

A disciplina de Contabilidade Pública, ou, como é atualmente conhecida, a


Contabilidade Aplicada ao Setor Público (CASP), permitirá ao aluno compreen-
der como funciona o reconhecimento de atos e fatos no sistema público brasileiro,
bem como são feitos o planejamento e a execução orçamentária, além dos sistemas
e fases que o compreendem.
Inicialmente, serão vistos aspectos introdutórios e práticos da CASP, apresen-
tando a sua evolução no Brasil, assim como a legislação aplicada, seu objeto, fina-
lidade e campo de aplicação, o que permitirá ao discente compreender o ambiente
desse ramo da contabilidade em nosso país. Ainda dentro do capítulo, serão ex-
plorados os regimes contábeis utilizados no setor público e os princípios contábeis
e sua aplicação. Na sequência, será possível compreender o patrimônio público e
suas características, sua mensuração e o plano de contas utilizado para o registro
tanto de atos quanto dos fatos que alterarão o patrimônio público.
No capítulo dois, serão estudados os elementos constitutivos do Estado e como
eles estão relacionados aos Princípios de Administração Pública. Adicionalmente,
serão estudados e diferenciados a Administração Direta e Indireta e os órgãos que
fazem parte de cada uma delas. A receita pública será esmiuçada na continuidade
do capítulo dois, que irá abordar a sua classificação e os estágios, além, também,
de como funciona a dívida ativa.
O capitulo três é dedicado, em sua parte inicial, ao entendimento das despesas
públicas, outro importante elemento do orçamento. Será explanado o seu concei-
to, classificação e estágios, assim como o conceito de restos a pagar e de despesas
de exercícios anteriores que são relevantes dentro da execução orçamentária. No
final do capítulo, são estudadas as demonstrações contábeis do setor público e
como elas refletem as mutações patrimoniais tanto da Administração Direta quan-
to Indireta.
O quarto capítulo está relacionado com o Sistema Integrado de Administração
Financeira do Governo Federal (SIAFI), seu conceito, objetivos e seu papel na
gestão dos recursos públicos. As normas contábeis do controle patrimonial, bem
como a distinção na classificação dos bens públicos, serão apresentadas na sequên-
cia e possibilitarão o entendimento de como são reconhecidos, contabilizados e
controlados os bens públicos.

7
O capítulo cinco é dedicado ao controle na Administração Pública e à Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF), a disposição constitucional sobre o controle no
ambiente público, além das diferentes formas de controle externo e interno. Por
fim, serão abordados os conceitos de tomada e prestação de contas, a LRF e seu
histórico, além dos dispositivos essenciais para a boa gestão e responsabilização
pelo uso dos recursos públicos.
A elaboração deste material teve como principal objetivo apresentar o am-
biente público e seus principais aspectos e instrumentos – e como eles são utiliza-
dos na mensuração e controle de recursos públicos. O presente trabalho permite
uma visão geral dos conceitos envolvidos na elaboração e execução do orçamento
público, demonstrando a importância dele para a continuidade e para a melhor
gestão dos bens e serviços públicos que são destinados à população brasileira.

Bons estudos!

8
1
Aspectos
introdutórios
e práticos da
contabilidade
pública
Aspectos introdutórios e práticos da
contabilidade pública

Introdução

Neste capítulo, você irá conhecer os conceitos iniciais ligados ao reconheci-


mento das mutações ocorridas no setor público. Inicialmente será feita uma breve
explanação sobre a evolução da contabilidade pública ou Contabilidade Aplicada
ao Setor Público (CASP) no Brasil.
Na sequência, serão abordados a legislação, o objeto, a finalidade e o campo de
aplicação da contabilidade pública. O regime contábil adotado no setor público
bem como os Princípios de Contabilidade que são utilizados para as orientações
dos registros também serão abordados, apresentando a importância que eles têm
para o setor.
Também será estudado o patrimônio público, enquanto suas variações serão
apresentadas e permitirão o conhecimento dos elementos que formam o sistema
público. Serão conhecidos os conceitos ligados à mensuração dos Ativos e Passivos
e como ambos devem ser reconhecidos no setor público. O Plano de Contas
Aplicado ao Setor Público (PCASP) demonstrará como ocorrem os lançamentos
que modificam o patrimônio das entidades públicas.

OBJETIVOS
•  Compreender a evolução da CASP no Brasil e seus principais aspectos;
•  Entender o regime contábil utilizado bem como os Princípios Contábeis utilizados no se-
tor público;
•  Estudar o patrimônio público, a sua mensuração e como os elementos devem ser reconhe-
cidos no plano de contas.

Evolução da contabilidade pública no brasil

A lei 4.320/64, que também é conhecida como Lei das Finanças Públicas, fez
50 anos em 2014 e passou por diversas mudanças que estão relacionadas a uma

capítulo 1 • 10
evolução necessária, acompanhando normas internacionais e a própria mudança
ocorrida na contabilidade brasileira.
Castro (s/d) destaca que essa lei teve como base o tratamento de questões
financeiras de forma sistêmica, contando com o registro de atos e fatos desde o
momento da avaliação até o processo de fiscalização. Assim, a lei permitiu que
houvesse a descentralização das operações no setor público. Também houve a cria-
ção de vários instrumentos jurídicos que serviram para a delegação de sua compe-
tência, assim como nas operações de convênio e contratos.
As alterações na Lei 4.320/64 também provocaram mudanças significativas
nas demonstrações contábeis, auxiliando na padronização no sistema público, o
que permitiu um padrão único para todos os entes da federação, além das entida-
des também serem obrigadas a adotar essas normas.

ATENÇÃO
Outro ponto muito importante foi a valorização da contabilidade e também da figura
do orçamento público. A partir das mudanças implementadas, as demonstrações contábeis
passaram realmente a ser utilizadas como fonte de informação fidedigna para o controle e
outros fins.

De acordo com o MCASP (2015), a estrutura das demonstrações contábeis já


elencadas na Lei 4.320/64 foi atualizada com a Portaria STN 438/2012. Isso acon-
teceu para que elas estivessem de acordo com os novos padrões da Contabilidade
Aplicada ao Setor Público (CASP). Alguns outros fatos também se destacam nesse
processo de evolução da normatização do setor público:

•  Em 1986, foi criada a Secretaria do Tesouro Nacional cujo maior objetivo


foi o fortalecimento das finanças públicas no Brasil, que estaria pautada na cen-
tralização de atividades financeiras federais em um só órgão. Esse e outros fatos
permitiram a modernização e a racionalização do setor público no país;
•  O ano de 1987 foi marcado pela criação do Sistema Integrado de
Administração Financeira (SIAFI), responsável pela interligação de diferentes uni-
dades gestoras, o que tornou possível o acesso de múltiplos usuários nos mais
diferentes órgãos públicos no Brasil;

capítulo 1 • 11
•  Já o ano de 1997 teve como novidade a publicação das IPSAS (International
Public Sector Accounting Standards), que são normas internacionais relativas ao
setor público emitidas pela Federação Internacional de Contadores (IFAC ou
International Federation os Accontants);
•  A Lei Complementar 101/2000 também foi responsável por impactos na
legislação relacionada ao setor público. Esses impactos estão relacionados com a
responsabilidade na gestão fiscal, além de outras ações relativas ao bom uso de
recursos públicos;
•  No ano de 2014, foi lançado o Sistema de Informações Contábeis e Fiscais
do Setor Público Brasileiro (Siconfi). Esse instrumento foi de grande impacto na
produção e análise de informações contábeis e fiscais, permitindo uma melhoria
na confiabilidade e qualidade de todo conteúdo gerado;
•  Por fim, o ano de 2015 é marcado pela adoção do novo padrão contábil
que, entre outras vantagens, trouxe uma maior facilidade na geração de informa-
ções para a tomada de decisão dos gestores públicos, permitiu a comparação entre
as demonstrações das diferentes esferas públicas no Brasil, melhoria no processo
de prestação de contas e implementação de um sistema de custos.
Você pode compreender as mudanças que o setor público passou para que,
atualmente, seja possível elaborar o Balanço do Setor Público Nacional, ligado à
consolidação de todos os entes da Federação, ao aumento da racionalização dos
recursos públicos e à maior utilização dos dados contábeis no processo de tomada
de decisão.

Legislação aplicada, objeto, finalidade e campo de aplicação

A CASP é um dos ramos da contabilidade, e seu principal objetivo é o de


gerar informações tanto do ponto de vista orçamentário quanto do financeiro e
patrimonial dos entes públicos brasileiros.
Para que seja possível a geração dessas informações, é preciso mensurar, quan-
tificar e avaliar o patrimônio público, e isso é feito através de uma técnica conhe-
cida como escrituração contábil. De acordo com o MCASP (2014), esses aspectos
podem ser mais bem entendidos:
Aspecto Orçamentário Compreende o registro e a evidenciação do orçamen-
to público, tanto quanto à sua aprovação quanto à sua execução. Os registros
de natureza orçamentária são base para a elaboração do Relatório Resumido da

capítulo 1 • 12
Execução Orçamentária (RREO) e dos Balanços Orçamentário e Financeiro, que
representam os principais instrumentos para refletir esse aspecto.
Aspecto Patrimonial Compreende o registro e a evidenciação da composição
patrimonial do ente público. Nesse aspecto, devem ser atendidos os princípios e
as normas contábeis voltadas para o reconhecimento, mensuração e evidenciação
dos ativos e passivos e de suas variações patrimoniais. O Balanço Patrimonial (BP)
e a Demonstração das Variações Patrimoniais (DVP) representam os principais
instrumentos para refletir esse aspecto. O processo de convergência às normas in-
ternacionais de contabilidade aplicada ao setor público (CASP) visa a contribuir,
primordialmente, para o desenvolvimento deste aspecto.
Aspecto Fiscal Compreende a apuração e evidenciação, por meio da conta-
bilidade, dos indicadores estabelecidos pela LRF, dentre os quais se destacam os
da despesa com pessoal, das operações de crédito e da dívida consolidada, além
da apuração da disponibilidade de caixa, do resultado primário e do resultado
nominal, a fim de verificar-se o equilíbrio das contas públicas. O Relatório de
Gestão Fiscal (RGF) e o Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO)
representam os principais instrumentos para evidenciar esse aspecto. Diversos atos
e fatos registrados pela contabilidade poderão alcançar apenas um, dois ou todos
os aspectos citados. Dessa maneira, cabe aos responsáveis pelos serviços de con-
tabilidade em cada ente da Federação compreender os eventos e seus efeitos na
evidenciação contábil, a partir do entendimento das normas e conceitos inerentes
a cada aspecto, apresentados neste Manual.
Para que a escrituração contábil possa apresentar as mutações que ocor-
rem no patrimônio das entidades públicas é preciso que sejam observadas algu-
mas características:

•  Confiabilidade – Para que a contabilidade seja um verdadeiro instrumento


de gestão, é preciso que ela seja confiável; assim, os registros e a informação que
são gerados devem passar segurança aos seus usuários para que eles possam tomar
suas decisões com tranquilidade;
•  Comparabilidade – Para permitir análises no futuro ou com outras entidades
do mesmo setor, é preciso que os registros sejam feitos observando a comparabili-
dade, o que também permite o melhor entendimento das demonstrações geradas;
•  Compreensibilidade – Para que as informações contábeis sejam entendidas,
é necessário que os usuários tenham certo conhecimento do tema; entretanto,

capítulo 1 • 13
mesmo que existam informações complexas, elas não deverão ser excluídas das
demonstrações contábeis do setor público;
•  Fidedignidade – Os registros devem representar, de forma fiel, os fenôme-
nos contábeis que lhes deram origem;
•  Verificabilidade – Para que a informação seja realmente útil, é necessário
que os lançamentos sejam verificáveis e comprovem os fatos registrados;
•  Imparcialidade – No registro das transações contábeis, nunca devem ser
privilegiados interesses específicos ou particulares em detrimento do patrimônio
público.

E qual seria o objeto da CASP? Assim como na contabilidade geral, o objeto


da CASP é o patrimônio, porém aqui aparece uma ligação íntima com o direito
público interno representado pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios,
de acordo com normas relativas a eles a às entidades a eles ligados. Para que a
CASP possa suprir as necessidades dos diferentes usuários interessados na infor-
mação contábil, foi necessária a criação de distintos grupos:

•  Natureza de informação orçamentária: é responsável pelo registro, processa-


mento e evidenciação tanto de atos quanto dos fatos relacionados ao planejamen-
to e à execução orçamentária;
•  Natureza de informação patrimonial: ocorre o registro, o processo e a evi-
denciação tanto dos fatos financeiros quanto não financeiros que estejam relacio-
nados a alguma variação no sistema público. Auxilia a subsidiar informações para
a administração pública relativas aos elementos patrimoniais;
•  Natureza de informação compensação: responsável pelo registro de atos
administrativos de gestão que poderão, no futuro, promover mudanças no patri-
mônio público. Exemplos dessas transações são acordos, garantias, entre outros,
que ainda não produziram efeito, mas que já devem ser reconhecidos. Alguns
exemplos desses fatos são os contratos de arrendamento mercantil em que o débito
registra a aplicação e também o efeito do acontecimento, e o crédito é responsável
pelo reconhecimento da origem e causa de tal acontecimento; outro exemplo para
compreender a situação são as hipotecas em que é dada uma garantia imóvel pelo
devedor ao seu credor que deverá ser registrada em contas de compensação.

capítulo 1 • 14
Você notou que, no patrimônio público, são registrados tanto os atos quanto
os fatos administrativos? E percebeu que isso não ocorre no patrimônio privado?
Mas qual é a explicação para isso? De acordo com o MCASP (2012),
No Brasil, a contabilidade aplicada ao setor público efetua de modo eficiente
o registro dos atos e fatos relativos ao controle da execução orçamentária e finan-
ceira. No entanto, muito ainda se pode avançar no que se refere à evidenciação
do patrimônio público. Esta necessidade de melhor evidenciação dos fenômenos
patrimoniais e a busca por um tratamento contábil padronizado dos atos e fatos
administrativos no âmbito do setor público tornou imprescindível a elaboração de
um Plano de Contas Aplicado ao Setor Público (PCASP) com abrangência nacio-
nal. O PCASP estabelece conceitos básicos, regras para registro dos atos e fatos e
estrutura contábil padronizada, de modo a atender a todos os entes da Federação
e aos demais usuários da informação contábil, permitindo a geração de base de
dados consistente para compilação de estatísticas e finanças públicas.
É possível concluir que justamente as informações de natureza de compen-
sação possuem contas que figuram no PSCAP para que os atos administrativos,
não passíveis de registro na Contabilidade Geral, sejam reconhecidos e propiciem
um maior controle de atividades, já que reconhecem, antecipadamente, possíveis
futuras alterações no patrimônio dos entes públicos.

Regime contábil aplicado ao setor público

Um princípio que gera ainda bastante discussão dentro do setor público é o


Princípio da Competência ou também Regime da Competência, como também é
conhecido. De acordo com a Lei 4.320/64,

Art. 35. Pertencem ao exercício financeiro:


I - as receitas nele arrecadadas;
II - as despesas nele legalmente empenhadas.
E o que isso quer dizer? Pode-se concluir que, do ponto de vista orçamentário,
o regime de caixa ainda é o utilizado para a realização das receitas e o de compe-
tência, para as despesas.

Art. 9º. O Princípio da Competência determina que os efeitos das transações


e outros eventos sejam reconhecidos nos períodos a que se referem, independente-
mente do recebimento ou pagamento.

capítulo 1 • 15
Parágrafo único. O Princípio da Competência pressupõe a simultaneidade da
confrontação de receitas e de despesas correlatas. (Redação dada pela Resolução
CFC nº. 1.367/11)
[...]
O Princípio da Competência aplica-se integralmente ao Setor Público.
(Redação dada pela Resolução CFC nº. 1.367/11)
Assim, conforme destacam Cruvinel e Lima (2011, p.76), citando a Nota
Técnica no. 376/2009/CCONT/STN, a definição constante na Lei 4.320/64
mostra o regime de caixa para receitas e de competência para as despesas do ponto
de vista orçamentário:
Para fins de acompanhamento da execução orçamentária, a área pública adota
o regime misto para os registros da receita e despesa orçamentária. A receita segue
o regime de caixa, sendo reconhecida no momento da sua arrecadação, e a despesa,
o regime da anualidade orçamentária, sendo reconhecida pelo empenho, confor-
me descrito no art. 35, I e II, da Lei nº. 4.320/64.
Esse regime também é conhecido como Regime Misto. A correta observância
desse princípio se faz primordial para que as receitas e os ativos não estejam supe-
restimados e para que as despesas e os passivos não sejam subestimados. Isso confe-
re às demonstrações contábeis do setor público uma maior confiabilidade, e tam-
bém objetividade na mensuração e apresentação dos componentes patrimoniais.
Nesse ponto, é preciso compreender que a receita orçamentária, em relação
ao momento do seu reconhecimento, possui diferentes estágios, e o estágio da
arrecadação ainda não representa a disponibilização dos recursos financeiros ao
órgão público competente, uma vez que, na referida etapa, o dinheiro ainda está
em poder da instituição bancária que recebeu o tributo. Assim, somente na fase do
recolhimento essas instituições, também conhecidas como agentes arrecadadores,
irão transferir os recursos para o Tesouro, ocorrendo, somente aí, o efetivo ingresso
dos recursos financeiros no órgão público responsável.
Conclui-se que, durante o exercício financeiro corrente, o procedimento con-
tábil adotado é o registro da receita no momento em que os recursos tornam-se
disponíveis para os cofres do Tesouro Público de acordo com o cumprimento da
etapa do recolhimento.
Entretanto, no encerramento do exercício financeiro, para que seja possível
atender exatamente o que diz o artigo 35 da Lei 4.320, deverão ser apropriados os
valores que foram arrecadados, mas que ainda não foram recolhidos, concluindo-
-se que, do ponto de vista contábil, o que vale para o registro da receita é quanto
foi arrecadado, estando esse valor recolhido ou não.

capítulo 1 • 16
Por fim, a Lei 101/2000, que é mais conhecida como Lei de Responsabilidade
Fiscal, também destaca a observância tanto da questão contábil quanto da orça-
mentária para o correto entendimento de tal princípio.
Art. 50. Além de obedecer às demais normas de contabilidade pública, a escri-
turação das contas públicas observará as seguintes:
I - a disponibilidade de caixa constará de registro próprio, de modo que os
recursos vinculados a órgão, fundo ou despesa obrigatória fiquem identificados e
escriturados de forma individualizada;
II - a despesa e a assunção de compromisso serão registradas segundo o regime
de competência, apurando-se, em caráter complementar, o resultado dos fluxos
financeiros pelo regime de caixa.
Conforme observa Rosa (2013) em complementação aos registros de execução
orçamentária, ao evidenciar os fatos que fazem parte da execução financeira e pa-
trimonial, os fatos modificativos devem ser registrados, devidamente, nas respec-
tivas contas de resultado, com o registro tanto de Receitas quanto de Despesas de
acordo com o Princípio de Competência e também da Oportunidade.

Princípios de contabilidade no setor público

Pode-se dizer que a CASP é o ramo da Ciência Contábil que utiliza, no seu
processo de geração de informações, os Princípios Contábeis. Mas você já se ques-
tionou sobre como esses Princípios de Contabilidade se aplicam à CASP?
No Brasil, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC), além de ser o ór-
gão responsável pelas normas e pela fiscalização do exercício profissional contá-
bil, também edita normatização e resoluções que têm como objetivo disciplinar a
CASP. A Resolução 750/93 apresenta os Princípios Contábeis que são:

Art. 3º São Princípios de Contabilidade: (Redação dada pela Resolução CFC


nº. 1282/10)
I) o da ENTIDADE;
II) o da CONTINUIDADE;
III) o da OPORTUNIDADE;
IV) o do REGISTRO PELO VALOR ORIGINAL;
V) o da ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA; (Revogado pela Resolução CFC
nº. 1282/10)
VI) o da COMPETÊNCIA; e
VII) o da PRUDÊNCIA.

capítulo 1 • 17
Especificamente em relação ao setor público, no ano de 2007, foi editada
a Resolução 1.111/2007 alterada pela Resolução 1.367/2011, responsável pela
aprovação do apêndice II da Resolução 750/93.
O ponto de partida para qualquer área do conhecimento humano deve ser
sempre os princípios que a sustentam. Esses princípios espelham a ideologia de
determinado sistema, seus postulados básicos e seus fins. Vale dizer, os princípios
são eleitos como fundamentos e qualificações essenciais da ordem que institui.
Os princípios possuem o condão de declarar e consolidar os altos valores
da vida humana e, por isso, são considerados pedras angulares e vigas-mestras
do sistema.
Adicionalmente, as novas demandas sociais estão a exigir um novo padrão de
informações geradas pela Contabilidade Pública, e que seus demonstrativos – item
essencial das prestações de contas dos gestores públicos – devem ser elaborados de
modo a facilitar, por parte dos seus usuários e por toda a sociedade, a adequada in-
terpretação dos fenômenos patrimoniais do setor público, o acompanhamento do
processo orçamentário, a análise dos resultados econômicos e o fluxo financeiro.

COMENTÁRIO
Porém, no ambiente público, para a correta aplicação dos Princípios Contábeis, é preciso
ter em mente a principal diferença entre o setor público e o privado, que é, justamente, a
finalidade de uma organização.

Além de as instituições públicas serem destituídas de fins lucrativos, existe,


também, outra questão bastante importante: as necessidades dos usuários desse
tipo de informação, que são distintas daquelas ligadas à contabilidade financeira
ou à geral. Dessa forma, é preciso certa adaptação para a efetiva aplicação dos
Princípios Contábeis no Setor Público.
O Princípio da Entidade está ligado à separação do patrimônio da pessoa física
e jurídica, mas o que acontece no setor público, em que não há essa relação? Nesse
setor, a autonomia patrimonial está relacionada à evidenciação de informações
relativas ao patrimônio público, ou seja, como os responsáveis por entidades pú-
blicas ou que recebem recursos públicos fazem a gestão dos seus recursos.

capítulo 1 • 18
Assim, pode-se dizer que a autonomia patrimonial é reconhecida pela respon-
sabilização sobre o uso de recursos públicos e a devida prestação de contas pelos
agentes públicos. A Resolução 1.111/2007 apresenta o seguinte texto:

Perspectivas do setor público

O Princípio da Entidade se afirma, para o ente público, pela autonomia e


responsabilização do patrimônio a ele pertencente.
A autonomia patrimonial tem origem na destinação social do patrimônio
e a responsabilização pela obrigatoriedade da prestação de contas pelos agen-
tes públicos.
O Princípio da Continuidade, a exemplo do que ocorre no setor privado, está
ligado, nas entidades públicas, à vida útil por prazo indeterminado e a todos os
entes da Administração Pública Direta, ou seja, União, Estados, Distrito Federal
e Municípios. Já no caso da Administração Pública Indireta até poderá haver um
processo de descontinuidade, pois aqui o patrimônio deve ser avaliado pelo valor
de realização, e não pelo custo.

Perspectivas do setor público

No âmbito da entidade pública, a continuidade está vinculada ao estrito cum-


primento da destinação social do seu patrimônio, ou seja, a continuidade da enti-
dade se dá enquanto perdurar sua finalidade (RESOLUÇÃO 1.111/2007).
O princípio da Oportunidade, por sua vez, pode ser inicialmente compreen-
dido de acordo com a Lei 4.320/64, que diz:
Art. 85. Os serviços de contabilidade serão organizados de forma a permitirem
o acompanhamento da execução orçamentária, o conhecimento da composição
patrimonial, a determinação dos custos dos serviços industriais, o levantamen-
to dos balanços gerais, a análise e a interpretação dos resultados econômicos e
financeiros.
Pode-se compreender que esse princípio demonstra que é dever da adminis-
tração pública fornecer à sociedade a informação de forma tempestiva, ou seja, a
mais atualizada possível, e também de forma integral, possibilitando o entendi-
mento do patrimônio público.
Aliado diretamente ao Princípio da Continuidade, o Princípio do Registro
pelo Valor Original está disposto conforme o artigo 106 da Lei 4.320/64.

capítulo 1 • 19
Esse princípio permite compreender que, na CASP, deverá ser observado o
critério de registro pelo valor de entrada na data em que ocorrerem as transações.
A observância de tal princípio deve ser rigorosa, permitindo, segundo afirma Rosa
(2013), a unificação do método de avaliação, o que permite a comparabilidade dos
dados contábeis e a elaboração das demonstrações contábeis.

LEITURA
Os fatos contábeis ou ainda fatos administrativos são aqueles que causam algum tipo
de alteração no patrimônio das entidades, sejam eles públicos ou privados. Eles podem ser
quantitativos ou qualitativos. Podem ser classificados em três grupos: fatos permutativos,
modificativos e mistos.
Os fatos permutativos, conforme o próprio nome indica, são aqueles em que ocorre ape-
nas uma permuta entre os elementos patrimoniais. Essas trocas podem ocorrer dentro de
um determinado grupo contábil ou entre diferentes grupos, como, por exemplo, a compra de
um imóvel à vista. No caso dos fatos modificativos, há, necessariamente, a utilização de uma
conta de resultado ,que são as receitas e despesas. O reconhecimento da despesa de salário
configura-se como um fato modificativo.
Já os fatos mistos envolverão duas ou mais contas patrimoniais e também uma conta de
resultado; o pagamento de multas ou a obtenção de descontos são exemplos de fatos mistos.

O Princípio da Prudência, dentro do contexto público, deverá ser observado


para que os ativos e as receitas tenham seus valores registrados corretamente, o
que irá impedir que seus valores sejam superestimados. No caso das despesas e
dos passivos, a correta aplicação da Prudência garante que esses valores não se-
jam subestimados.
Cabe ressaltar que o Princípio da Atualização Monetária, que antes fazia parte
da Resolução 750/93, foi revogado pelo artigo 4º da Resolução 1.282/10, e essa
revogação também foi aceita pela CASP de acordo com a Resolução 1.367/2011.

capítulo 1 • 20
Patrimônio público e variações patrimoniais

Em sentido amplo, o patrimônio pode ser compreendido como o conjunto


de bens, direitos e obrigações que fazem parte de uma determinada entidade. De
acordo com Kohama (2013), o patrimônio público não é limitado somente às
entidades públicas mas também àquelas que compõem a Administração Pública.
Mas o que seria a Administração Pública, como ela está composta? A seguir, é
possível compreender melhor esse conceito:

Figura 1 – Administração Pública | Fonte: Adaptado de Castro (2011)

O Estado é responsável por suprir as principais necessidades da sociedade e


pode ser entendido conforme a Constituição Federal de 1988:
Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do
Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos
autônomos, nos termos desta Constituição.

§ 1º - Brasília é a Capital Federal.


§ 2º - Os Territórios Federais integram a União, e sua criação, transformação em
Estado ou reintegração ao Estado de origem serão reguladas em lei complementar.
§ 3º - Os Estados podem incorporar-se entre si, subdividir-se ou desmembrar-
-se para se anexarem a outros, ou formarem novos Estados ou Territórios Federais,
mediante aprovação da população diretamente interessada, através de plebiscito, e
do Congresso Nacional, por lei complementar.

capítulo 1 • 21
Já a sociedade também possui sua definição na CF/1988, que, em seu artigo
1º, apresenta o seguinte conceito: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por
meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
Dessa forma, a sociedade pode ser entendida como uma união de diferentes pes-
soas que buscam o bem comum. E qual é o papel do governo nesse contexto?
O governo é uma autoridade com poderes de direção na vida do Estado, que
é o responsável por prover as necessidades coletivas da sociedade. Aqui nasce tam-
bém o conceito de administração, que ocorre para que sejam cumpridos os objeti-
vos do governo. Assim, a Administração Pública pode ser definida como os meios
institucionais, materiais, financeiros e humanos que serão utilizados para executar
decisões políticas. De acordo com Castro (2011), a Administração pública pode
ser entendida de duas formas distintas:

•  Ponto de vista organizacional – deverá ser escrita com letras maiúsculas


(Administração Pública) e representa os diferentes órgãos que são responsáveis
pelas funções administrativas;
•  Ponto de vista funcional – escrita com letras minúsculas (administração
pública), está ligada à execução da atividade pública de forma efetiva. São as ativi-
dades concretas que o Estado realiza.

A primeira definição de Administração Pública é dividida em dois grupos:


a Administração Pública Direta e a Indireta. A Administração Pública Direta é
aquela formada pelos três poderes, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, além
dos órgãos por eles controlados; a seguir, um quadro que pode ajudar na com-
preensão desse grupo:

Presidente da República
Governadores
EXECUTIVO Prefeitos
Ministros dos Estados
Secretário

Câmara dos Deputados


Senado Federal
Assembleias Legislativas
LEGISLATIVO Câmaras Municipais
Câmaras Distritais
Tribunais e Conselhos de Contas

capítulo 1 • 22
Supremo Tribunal Federal
Superior Tribunal de Justiça
Tribunais Regionais Federais
JUDICIÁRIO Tribunal Superior do Trabalho
Superior Tribunal Militar
Tribunais de Justiça e Tribunais de Alça-
das Estaduais

Ministério Público
FUNÇÕES ESSENCIAIS À JUSTIÇA Advocacia Pública
Defensoria Pública

Quadro 1 – Administração Direta – Todos os Poderes

Fonte: Adaptado de Artigos 44 a 145 da Constituição Federal de 1988

Aqui é possível perceber todos os órgãos de acordo com a influência de cada


tipo de poder, assim como algumas funções essenciais à justiça e que também são
consideradas como integrantes da Administração Pública Direta.
A Administração Indireta, por sua vez, é aquela que possui entes que, de al-
guma forma, estão vinculados a um Ministério. Nesse contexto, entram as autar-
quias, empresas e sociedades de economia mista, fundações e empresas públicas.
Mas como estão configuradas cada uma destas entidades?
Castro (2011) define as empresas públicas como aquelas que possuem capital
integralmente público e que são dedicadas a atividades econômicas, embora com
personalidade jurídica de direito privado. Entre as empresas públicas mais conhe-
cidas, estão: Casa da Moeda, Caixa Econômica Federal e a Empresa Brasileira de
Correios e Telégrafos.
As autarquias, por sua vez, são entidades que possuem personalidade jurídi-
ca, patrimônio e também receita próprios, e que desempenham função na admi-
nistração pública, mas com a gestão financeira e administrativa descentralizada.
Podem ser citados o Banco Central do Brasil, a Agência Nacional de Aviação Civil,
entre outras entidades.
As sociedades de economia mista são pessoas públicas do direito privado que
possuem tanto participação do poder público quanto do privado em sua admi-
nistração. Essas entidades são representadas pelo Banco do Brasil e pela Petrobras,
entre outras; elas, de acordo com Castro (2011), têm como principal função o
desenvolvimento de atividades econômicas ou ainda serviços de interesse coletivo.

capítulo 1 • 23
Também existem as fundações públicas que não possuem atividades típicas do
Estado, mas desempenham outras que são de interesse comum da sociedade, exe-
cutando suas funções na área da saúde, educação, cultura e também pesquisa. Um
exemplo bastante conhecido é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mensuração de ativos e passivos

Para que haja a evidenciação dos elementos tanto do Ativo quanto do


Passivo, os elementos patrimoniais deverão ser avaliados de acordo com normas
e critérios estabelecidos no Brasil. De acordo com o artigo 106 da Lei 4.320/64,
observa-se que

Art. 106. A avaliação dos elementos patrimoniais obedecerá às normas seguintes:


I - os débitos e créditos, bem como os títulos de renda, pelo seu valor nominal,
feita a conversão, quando em moeda estrangeira, à taxa de câmbio vigente na data
do balanço;
II - os bens móveis e imóveis, pelo valor de aquisição ou pelo custo de produ-
ção ou de construção;
III - os bens de almoxarifado, pelo preço médio ponderado das compras.
§ 1° Os valores em espécie, assim como os débitos e créditos, quando em
moeda estrangeira, deverão figurar ao lado das correspondentes importâncias em
moeda nacional.
§ 2º As variações resultantes da conversão dos débitos, créditos e valores em
espécie serão levadas à conta patrimonial.
§ 3º Poderão ser feitas reavaliações dos bens móveis e imóveis.
Dentro do setor público, no ano de 2008, foi emitida pelo CFC a Resolução
1.137, que foi responsável pela aprovação da NBC. T 16.10, que trata, especifica-
mente, da avaliação e mensuração de ativos e passivos.
De acordo com a referida norma, a avaliação patrimonial é responsável pela
atribuição de valor monetário a itens do ativo e do passivo decorrentes de jul-
gamento de consenso entre as partes e que possam traduzir, de forma razoável a
evidenciação de atos e fatos administrativos. A mensuração será a constatação dos
valores monetários de ativos e passivos que sejam decorrentes de procedimentos
técnicos suportados por análises qualitativas e quantitativas (RES. 1.137/2008).
Rosa (2013) relata que, apesar de a norma estabelecer os critérios para avalia-
ção e mensuração dos elementos patrimoniais, não há indicação de quando esses

capítulo 1 • 24
elementos devem ser contabilmente reconhecidos. A autora ainda afirma que, para
avaliar se um item se encaixa na categoria de ativo, passivo ou patrimônio líquido,
deve-se atentar não somente ao requisito legal, mas para a sua essência.
Para que um item seja reconhecido como integrante do patrimônio, ele de-
pende, fundamentalmente, da probabilidade de proporcionar algum benefício
econômico futuro que flua para ou da entidade, e cujo valor possa ser mensurado
com confiabilidade (ROSA, 2013). Assim, para que o item seja reconhecido, o
processo inicial envolverá a seleção de uma base de mensuração que pode ser es-
colhida entre as seguintes:

•  Custo histórico (que é o mais comum e pode ser adotado com outras bases);
•  Custo corrente ou valor de reposição;
•  Valor realizável (valor de realização ou liquidação) e;
•  Valor presente.

Assim, é possível compreender que existem diferentes bases para mensurar os


elementos patrimoniais dentro da CASP.

CONCEITO
No Balanço Patrimonial, os elementos do Ativo e do Passivo terão sua avaliação de
acordo com o disposto na NBCT 16.10.
http://www1.cfc.org.br/sisweb/sre/detalhes_sre.aspx?Codigo=2008/001137

Plano de contas aplicado ao setor público (pcasp)

E as transações contábeis que ocorrem no setor público, como são registra-


das? Agora vamos entender o que é o Plano de Contas Aplicado ao Setor Público
(PCASP) e quais são as principais características dele.
Um plano de contas, em um sentido amplo, é uma estrutura que serve para o
registro, que é feito através da escrituração, de atos e fatos que ocorrem no patri-
mônio de uma determinada entidade. Essa estrutura é formada por contas ante-
riormente definidas que irão permitir o registro e a obtenção das demonstrações –
e, na sequência, de relatórios que serão elaborados de acordo com as características

capítulo 1 • 25
de cada entidade e conforme as necessidades dos usuários da informação contábil.
Mas e no setor público?
O PCASP, como é chamado o plano de contas desse setor, está relacionado
com o estabelecimento de normas e também procedimentos para o registro das
operações que ocorrem nesse setor cujo objetivo maior é a consolidação das
contas nacionais.
A observância do PCASP abrange todas as entidades públicas, excluindo as es-
tatais independentes que têm a sua utilização facultativa. De acordo com Kohama
(2013), o PCASP deverá ser adotado por todos os entes da Federação, além de seus
fundos, órgãos e autarquias, assim como as fundações e as estatais dependentes.
A estrutura do plano de contas pode ser mais bem compreendida de acordo
com o esquema a seguir. Ela é bastante similar ao observado no setor privado:

1º. Nível é chamado de classe, ex: 1 – Ativo;


2º. Nível é o grupo, ex: 1.1 – Ativo Circulante; e
3º. Nível é o subgrupo, ex 1.1.1 – Disponível.

E como são organizadas as contas patrimoniais?

1 ATIVO 2 PASSIVO E PATRIMÔNIO LÍQUIDO


1 Passivo Circulante
1.1 Ativo Circulante
2.2 Passivo Não Circulante
1.2 Ativo Não Circulante
2.5 Patrimônio Líquido

Com isso, é possível entender que as contas de grupo 1 e 2 são aquelas ligadas
ao Ativo e Passivo. Já as contas de resultado estão assim apresentadas:

capítulo 1 • 26
3 VARIAÇÃO PATRIMONIAL DIMINU- 4 VARIAÇÃO PATRIMONIAL AUMEN-
TIVA – VPD TATIVA – VPA
3.1 Pessoal e encargos 4.1 Impostos, taxas e contribuições
3.2 Benefícios Previdenciários de melhoria
3.3 Uso de bens, serviços e consumo de 4.2 Contribuições
capital fixo 4.3 Exploração e venda de bens, serviços
3.4 Variações patrimoniais diminutivas fi- e direitos
nanceiras 4.4 Variações patrimoniais aumentati-
3.5 Transferências concedidas vas financeiras
3.6 Desvalorização e perda de Ativos 4.5 Transferências recebidas
3.7 Tributárias 4.6 Valorização e ganhos com Ativos
3.9 Outras Variações Patrimoniais 4.9 Outras variações patrimoniais
Diminutivas Aumentativas

Os grupos 3 e 4 são responsáveis pelo registro das contas de resultado e, jun-


tamente com os grupos 1 e 2, servem para o registro da chamada Contabilidade
Patrimonial. As próximas contas relacionadas apresentam o controle orçamentário:

Contas de controle orçamentário

5 CONTROLES DA APROVAÇÃO DO 6 CONTROLES DA EXECUÇÃO DO


PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO
5.1 Planejamento Aprovado 6.1 Execução do Planejamento
5.2 Orçamento Aprovado 6.2 Execução do Orçamento
5.3 Inscrição de Restos a pagar 6.3 Execução de Restos a pagar

Essas contas são responsáveis pelo registro da Contabilidade Orçamentária,


assim como o planejamento e a execução orçamentária. Por fim, são apresentadas
as contas de atos potenciais:

capítulo 1 • 27
Contas de controle dos atos potenciais

7 CONTROLES DEVEDORES 8 CONTROLES CREDORES


8.1 Execução dos Atos Potenciais
7.1 Atos Potenciais
8.2 Execução da Administração Finan-
7.2 Administração Financeira
ceira
7.3 Dívida Ativa
8.3 Execução da Dívida Ativa
7.4 Riscos Fiscais
8.4 Execução dos Riscos Fiscais
7.8 Custos
8.8 Controle de Custos
7.9 Outros Controles
8.9 Outros Controles

Os grupos 7 e 8, relacionados com as contas de controle, servem para o re-


gistro de informações relacionadas ao próprio controle, que são atos e fatos que
podem potencialmente modificar a configuração patrimonial da entidade pública.
Esse grupo também é responsável pelo registro dos custos no setor público.

ATIVIDADES
1 – Para que a escrituração contábil possa apresentar as mutações que ocorrem no
patrimônio das entidades públicas, é preciso que sejam observadas algumas características.
Dos itens a seguir, qual não se caracteriza como tal?
a) Prudência
b) Comparabilidade
c) Compreensibilidade
d) Verificabilidade
e) Imparcialidade
Resposta: Letra A – A prudência ou ainda conservadorismo representa um Princípio
Contábil, e não uma característica da informação contábil.

2 – A Administração Pública pode ser dividida entre Direta e Indireta. Qual alternativa
apresenta somente entidades da Administração Indireta?
a) Governadores, empresas e sociedades de economia mista, fundações e em-
presas públicas.
b) Ministério Público, Defensoria Pública, empresas e sociedades de economia mista,
fundações e empresas públicas.

capítulo 1 • 28
c) Autarquias, empresas e sociedades de economia mista, fundações e empresas públicas.
d) Autarquias, empresas e sociedades de economia mista, fundações e Câmara
dos Deputados.
e) Assembleia Legislativa, Autarquias, empresas e sociedades de economia mista,
fundações, empresas públicas e Tribunal Superior do Trabalho.
Resposta: Letra C – A Administração Indireta, por sua vez, é aquela que possui entes que,
de alguma forma, estão vinculados a um Ministério. Nesse contexto, entram as autarquias,
empresas e sociedades de economia mista, fundações e empresas públicas

ESTUDO DE CASO
Você já compreendeu o que a Contabilidade é uma ciência que é responsável pelo estu-
do, controle e interpretação dos dados relativos ao patrimônio de pessoas físicas e jurídicas.
Além disso, você já pode compreender que a Contabilidade também se aplica, de maneira
integral, ao setor Público, e este possui suas próprias normas, regras e resoluções. Esta re-
gulamentação está relacionada ao reconhecimento das mutações e também da composição
patrimonial específica do setor público. Com base nisso, como você poderia definir o objetivo
da CASP e os motivos de sua existência?
A CASP tem como objetivos fornecer informações que permitam a instrumentalização
do controle social; além disso, ela permite a demonstração dos resultados alcançados pe-
las entidades que fazem parte do setor público. Também visa à apresentação de diferentes
aspectos, entre eles o orçamentário, econômico, financeiro e físico das entidades públicas.

LEITURA
Caso você queira compreender melhor como funcionam e são aplicadas as Normas Bra-
sileiras de Contabilidade Aplicadas ao Setor Público (NBCASP), é só acessar o link a seguir
para uma visão geral de como eles funcionam: https://goo.gl/yGJx32.

capítulo 1 • 29
REFLEXÃO
Inicialmente, você entendeu a evolução que a CASP teve, principalmente nos últimos
anos, com a adoção de padrões internacionais para a geração de informação contábil mais
transparente e confiável. O capítulo também apresentou os conceitos iniciais ligados à CASP
que permitiram entender qual o seu objeto, objetivo e campo de aplicação.
Outro ponto muito importante foi o entendimento de como os Princípios de Con-
tabilidade são aplicados ao meio público e, principalmente, à adoção do Princípio ou
Regime da Competência.
Entender a mensuração e como é feito o registro dos fatos que modificam o patrimônio
é outro destaque do capítulo, já que ambos apresentam os diferentes métodos e contas que
são utilizados para elaborar e apresentar as demonstrações contábeis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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capítulo 1 • 30
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capítulo 1 • 31
capítulo 1 • 32
2
Estado,
administração
pública e formas
de financiamento
estatal
Estado, administração pública e formas de
financiamento estatal

Introdução

Todo cidadão brasileiro, ao nascer, faz parte do Estado brasileiro, adquirindo


status e cidadania nacionais. Com isso, ele garante direitos mas também assume
deveres como tal: por exemplo, o fato de honrar a pátria enquanto viver.
Enquanto cidadão brasileiro, seus direitos são garantidos, pois a Administração
Pública garante, cumprindo preceitos da Constituição Federal, o fiel cumprimen-
to por parte dela. Para tal, são utilizados recursos dos impostos e de outras contri-
buições por parte da população, composta pela sociedade.
Essas contribuições têm diversas características distintas, sendo encaradas in-
ternamente na Administração Pública como receitas governamentais. Elas pos-
suem diversas subdivisões, como orçamentárias e extraorçamentárias, e serão
integralmente aplicadas na busca da realização de propósitos sociais e públicos,
fazendo com que toda a sociedade tenha ganhos de qualidade de vida.
A utilização desses recursos deve seguir alguns ritos formais e outras prerro-
gativas legais, que são também chamados de princípios. Eles devem ser seguidos
à risca pelos gestores públicos, pois a falta integral do cumprimento não somente
prejudica a nação como um todo mas também pode trazer implicações legais para
eles, chegando a fazê-los perderem o direito à liberdade como indivíduo.

OBJETIVOS
•  Verificar os elementos constitutivos do Estado;
•  Compreender os princípios da Administração Pública, além da sua estrutura e funcionamento;
•  Identificar as diferenças entre Administração Direta e Administração Indireta no serviço público;
•  Analisar os conceitos de receita pública, além de trabalhar com os conceitos de receita ex-
traorçamentária;
•  Identificar os estágios da receita pública;
•  Compreender os conceitos de Dívida Ativa.

capítulo 2 • 34
Elementos constitutivos do estado

Conceitualmente, o Estado é uma porção territorial dotada de um povo, esta-


belecendo o poder sobre terras, mares e ar, sempre buscando alcançar a soberania
dele. Em termos práticos, um Estado é composto por seu povo, pelo seu terri-
tório e pela sua soberania. Vamos analisar cada um desses componentes a partir
de agora.
O povo é representado pelo conjunto de indivíduos vinculados juridicamente
ao Estado de maneira permanente, sendo o conjunto de cidadãos de um Estado
qualquer. Eles, pois, representam a peça mais importante de qualquer Estado.

CONCEITO
O povo pode ser dividido em duas categorias distintas, que são os natos e os naturali-
zados. Segundo a legislação do Brasil, o jus soli é aquele nascido no Brasil, enquanto o jus
sanguini é o cidadão com pais a serviço do país ou, em último caso, cujos pais estão fora do
país por vontade própria, podendo o filho escolher a nacionalidade de acordo com as regras
do país em que nascer.

Na prática, um cidadão brasileiro pode ser considerado nato mesmo nascen-


do em terras estrangeiras, conforme estabelece nossa legislação específica para
essa matéria.
Um estrangeiro que more no Brasil por 15 anos pode ser naturalizado brasilei-
ro. No caso dos cidadãos portugueses, essa naturalização se dá por reciprocidade,
seguindo critérios específicos baseados em acordos firmados entre as duas nações,
enquanto os originários de outros países falantes de língua portuguesa devem mo-
rar no Brasil por, pelo menos, um ano.
Em se tratando de soberania, um Estado apenas existe se for comprovada a
capacidade de autodeterminação e independência em relação a outros Estados
previamente existentes, independência essa prolongada aos cidadãos natos ou na-
turalizados, habitantes ou não, do território nacional.
Para que se aplique a territorialidade, é necessário que se realize dentro desse
Estado a legislação pertinente. Chama-se de extraterritorialidade a aplicação dessa
mesma legislação, mas em outro Estado.

capítulo 2 • 35
Outro elemento ligado à constituição básica do Estado é o poder social, pre-
sente em todas as sociedades de direito, que diz respeito à consciência da vida
social e da disciplina, a qual é necessária para a manutenção da ordem local.
Consequentemente, atrelado a esse poder está o poder político, que é insti-
tuído para institucionalizar o poder social, associado diretamente à constituição
de qualquer Estado. E como o Estado é organizado? Quais os princípios que nor-
teiam a sua atuação? É o que reveremos na sequência.

Princípios da administração pública

Para que alguns Estados sejam, de fato, considerados constituídos, não basta
que tenham povo, soberania e território. É necessário que haja ação e interação
com esse povo dentro do território em prol de se manter a soberania.
Para isso, busca-se sempre o desenvolvimento econômico e social na forma de
programas de governo, que são a imagem da ação estatal em prol da sociedade,
de maneira ordenada e sempre com o objetivo de maximizar o bem-estarcomum.
Nesse caminho, são utilizados os Princípios da Administração Pública. No
Brasil, eles estão evidenciados no artigo 2º da Lei 4.320/64, a qual os cita como
unidade, universalidade e anualidade. No entanto, há outros além desses três que
veremos a partir de agora.
O primeiro, Princípio da Universalidade, está ligado à inclusão de todas as
receitas e despesas dentro do orçamento público. Ele tem relação com a programa-
ção financeira do Estado e estabelece que a peça orçamentária deve conter todos os
aspectos dos elementos programáveis que fazem parte dele.
O Princípio da Anualidade estabelece que há a necessidade de haver autoriza-
ção do Poder Legislativo para que um gasto ocorra em cada exercício financeiro,
tudo sempre respeitando a Lei de Diretrizes Orçamentárias vigente.
O período que se utiliza para definir o exercício financeiro é o ano civil, pois
o mesmo também é utilizado pela maioria das empresas privadas não somente no
Brasil, mas em todo o mundo.
Outro fator que estimula a utilização do ano civil para o planejamento orça-
mentário é que o orçamento brasileiro possui base anual. A regra do orçamento
deixa claro que, quanto mais distante for o período planejado, maior será a possi-
bilidade de erros e readequações.

capítulo 2 • 36
Para evitar retrabalhos devido à complexidade do orçamento de um Estado, o
período de um ano é considerado ideal para que os objetivos sociais e econômicos
sejam alcançados em sua plenitude.
Outro princípio é o da Exclusividade, que possui certa lógica em relação ao
conceito, pois estabelece que apenas assuntos que sejam pertinentes à temática
orçamentária devem ser tratados pelo Estado.
Se uma despesa tem a necessidade de ser fixada por um orçamento, significa
que ela passou pelo crivo do Princípio da Exclusividade, e qualquer assunto não
ligado a essa grande área ou áreas correlatas à elaboração do orçamento deve ser
evitado, mantendo-se assim a exclusividade.
O Princípio do Equilíbrio busca manter uma proporcionalidade, além obvia-
mente do equilíbrio, entre as receitas e as despesas de um Estado, buscando fazer
com que o mesmo não fique endividado em demasia, situação que ocorre quando
as despesas públicas se sobressaem se comparadas com as receitas públicas.
O Princípio do Orçamento Bruto possui ligação direta com o Princípio da
Universalidade. Nesse sentido, os valores ligados à despesa e à receita dentro da
lei orçamentária respectiva devem ser incluídos pelos seus valores integrais, sem
constar qualquer dedução ou redução que seja.

EXEMPLO
Para exemplificar, vamos verificar a situação de um imposto em específico: o Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI). Ele é de competência federal, ou seja, a União é res-
ponsável pela arrecadação, mas há transferências que são feitas para Estados e Municípios.
Quando os valores forem lançados na lei orçamentária, não se busca o valor líquido, ou seja,
após as transferências aos Estados e Municípios, e, sim, o valor integral a ser arrecadado,
garantindo o cumprimento do Princípio do Orçamento Bruto.

Por fim, há o princípio da não afetação das receitas, o qual estabelece que
não haverá comprometimento das receitas para atender a gastos específicos. Na
prática, isso é difícil de ocorrer no Brasil, pois há muitos vínculos já estabelecidos
durante o procedimento de confecção do orçamento.
Com esse procedimento, o gestor público tem mais liberdade para distribuir
os valores, pois não há formalmente qualquer impedimento para que tal distribui-
ção ocorra, satisfazendo os interesses da sociedade de maneira mais efetiva.

capítulo 2 • 37
No caso desse princípio em específico, há algumas exceções, como é o caso
das taxas e das contribuições de melhoria, que poderão ser vinculadas a uma ativi-
dade específica. Para exemplificar as duas situações, vamos verificar na sequência.
Um exemplo de não vinculação é o caso do Imposto Predial e Territorial Urbano
(IPTU). O recolhimento dos valores relativos a esse imposto não obriga o gestor
público nem vincula o recurso a nenhuma área mais ou menos carente da socie-
dade. Eles podem ser utilizados de maneira livre na saúde ou na educação, por
exemplo, atendendo às demandas da sociedade em geral.
Já no caso das vinculações, os valores recolhidos em folha de pagamento de
servidores públicos para custear a aposentadoria são um exemplo clássico de um
recolhimento que tem fim específico, sem a liberdade para o ente público de utili-
zá-lo como bem entender senão para aquele fim a que se destina.
Considerando os preceitos constitucionais, há ainda os princípios previstos no
artigo 37 da Constituição Federal, que fazem com que a Administração Direta,
a Indireta, qualquer um dos Poderes, a União, os Estados, o Distrito Federal e
os Municípios atendam a eles. Eles são legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência. Vamos ver com mais detalhes cada um desses princípios.
O Princípio da Legalidade é facilmente explicado, pois, de maneira distinta
da vida privada, situação em que tudo é permitido desde que não haja nada que
expressamente o proíba, na esfera pública essa afirmação não e verdadeira. Dessa
maneira, na vida pública tudo é proibido, exceto aquilo que é devidamente regu-
lamentado e autorizado para ocorrer.

COMENTÁRIO
Um administrador público deve obedecer a esse princípio em todas as ações de sua rotina,
sempre buscando o bem comum e não cometendo qualquer tipo de ato inválido, o que pode
acarretar na responsabilização disciplinar, cível ou até mesmo criminal como consequência.

O segundo, o Princípio da Impessoalidade, tem forte ligação com a própria


ação em benefício público, não possuindo qualquer viés pessoal que possa bene-
ficiar uma pessoa ou um grupo específico de pessoas. Da mesma forma, as ações
tomadas pelos gestores públicos não são tomadas em nome pessoal, e, sim, em
nome da gestão de forma mais ampla.

capítulo 2 • 38
EXEMPLO
Por exemplo, se um hospital ou um viaduto, que são obras importantes, são inaugurados
em determinada gestão, o responsável pela obra não poderá a associar à própria pessoa, a
partido político ou a qualquer outra pessoa que faça parte do governo. Essa obra deve ser
sempre divulgada como uma obra pública, realizada por todos e para todos – e, de fato, é a
maior verdade.

O terceiro princípio, o Princípio da Moralidade, especifica que não pode ha-


ver qualquer atitude que não seja condizente com a moral, não sendo permitida
qualquer ofensa à moral, aos bons costumes e às regras da boa administração pú-
blica. Por haver uma disciplina própria internamente instalada no serviço público
de forma geral, esse princípio se enquadra nesse tipo de associação direta.
O penúltimo princípio a ser analisado, o Princípio da Publicidade, tem rela-
ção com a necessidade de divulgação oficial e ordenada de todos os atos adminis-
trativos praticados pelo Poder Público, excetuados apenas aqueles protegidos por
sigilo previstos na Constituição Federal.
A aplicação desse princípio assegura a qualquer cidadão a possibilidade de
exercer o controle social das atitudes tomadas pelos gestores públicos, além de
permitir que sejam tomadas quaisquer atitudes decorrentes desse controle. No
Brasil, qualquer contrato pode ser acessado por qualquer cidadão interessado, des-
de que não esteja protegido por qualquer preceito constitucional por se tratar de
assunto sigiloso.
O último princípio, o Princípio da Eficiência, está relacionado com uma te-
mática mais econômica, ou seja, a forma de uso de recursos públicos que traz os
melhores resultados com os menores gastos possíveis, sempre buscando manter
o nível mínimo desejado de qualidade em relação aos serviços públicos que se-
rão prestados.
Com base nesse último princípio, fica clara a ideia de racionalidade nos gastos
públicos. Por sua vez, os gestores também podem ser penalizados pela falta do
cumprimento desse princípio. Por exemplo, atesta-se a ausência dele quando um
gestor público adquire matérias perecíveis, como alimentos para merenda escolar,
com previsão de consumo superior à data de validade. Isso quer dizer que, em rit-
mo normal, não há possibilidade de consumo de todo o alimento comprado antes
do prazo de validade expirar.

capítulo 2 • 39
Mesmo que não tenha sido comprovada a má-fé por parte do gestor, ele é
responsabilizado por não ter mantido o Princípio da Eficiência no máximo de
suas possibilidades, penalizando a população e utilizando de maneira inadvertida
verbas públicas com ou sem fins de beneficiar a si próprio.

Estrutura e funcionamento do governo e da administração pública

O Brasil é formalmente constituído por Três Poderes: o Executivo, o


Legislativo e o Judiciário. O Presidente da República, além de ser o Chefe do
Estado e do Governo, também é Chefe do Poder Executivo, já que o Brasil adota
o regime presidencialista.
A atuação do Poder Executivo é ligada à implementação de programas de go-
verno e de prestação direta de serviços públicos aos cidadãos. Há ainda a figura dos
órgãos da Administração Direta e da Administração Indireta. Na Administração
Direta, há os ministérios, por exemplo; e, na Indireta, há as empresas públicas e
autarquias, entre outros componentes governamentais.
O Presidente da República também acumula a função de comandante das
Forças Armadas, tendo o dever de sustentar a integridade e a independência do
Brasil. Já o vice-presidente possui a atribuição de substituir o presidente nos casos
de impedimento ou em que o cargo se torne vago, além de sempre auxiliá-lo quan-
do ele for convocado para qualquer missão especial (BRASIL, 2016).
A função dos ministros é auxiliar o Presidente na direção superior da
Administração Pública, sempre cumprindo as missões a que seus cargos estiverem
atreladas, mesmo para aqueles que apenas possuem o status de ministro.
Passando para o âmbito estadual, o comandante é o governador, o qual possui
secretários e alguns auxiliares diretos. Eles representam a Unidade Federativa junto
ao Estado brasileiro e também às demais Unidades Federativas, além de realizarem
a coordenação jurídica, política e administrativa e manterem a autonomia local.
Na esfera hierarquicamente mais baixa do Estado brasileiro está a Administração
Municipal. Seu chefe é o prefeito, que deve ser maior de 21 anos e ser eleito para
um mandato de quatro anos. As atribuições políticas e administrativas de um
prefeito são as que mais possuem importância para os cidadãos, pois os afeta di-
retamente por meio de atividades, as quais podem ser obras ou serviços públicos
de caráter municipal.
O prefeito ainda deve apresentar, sancionar, promulgar ou vetar proposi-
ções e projetos de lei. Todos os anos, o Executivo Municipal elabora a proposta

capítulo 2 • 40
orçamentária para os municípios, e essas propostas são submetidas às mais de
cinco mil Câmaras de Vereadores brasileiras para apreciação.
Os municípios dispõem de autonomia concedida pela Constituição Federal e
pelas Constituições Estaduais; além disso, todas possuem uma Lei Orgânica, que
é aprovada por, pelo menos, dois terços dos membros das Câmaras Municipais de
cada cidade do país.
Passando para o Poder Legislativo, que constitui o Estado, sua função é ela-
borar as leis vigentes em nosso país. O Legislativo atuará com a devida autonomia
que lhe for conferida pelo Estado.
De acordo com o artigo 44 da Constituição Federal, o Poder Legislativo é
composto pela Câmara dos Deputados, que são os representantes do povo bra-
sileiro, o Senado Federal, que são os representantes dos Estados e do Distrito
Federal, além do Tribunal de Contas da União, sendo esse último o órgão que
auxilia o Congresso Nacional nas atividades tanto de controle quanto de fiscali-
zação externa.
Pensando nas responsabilidades que cada um dos componentes possui, a
Câmara dos Deputados elabora as leis e realiza a fiscalização contábil, financeira, or-
çamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da Administração
Pública, sejam elas da Administração Direta ou Indireta.
O sistema político adotado pelo Brasil é chamado de bicameral, ou seja, há
duas câmaras distintas que trabalham na elaboração das normas jurídicas, que
são a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Deixando mais claro, sempre
que uma proposição de lei é iniciada pelo Congresso Nacional, é necessária uma
apreciação do Senado Federal e vice-versa. As únicas exceções se dão nos casos em
que essas duas casas apenas legislarem sobre assuntos específicos e/ou internos de
cada uma.
A Constituição Federal também estabelece, em seu artigo 51, que são com-
petências privativas da Câmara dos Deputados a autorização para instauração de
processo contra o Presidente ou contra o Vice-Presidente, tal como ocorreu com a
então Presidente Dilma Rousseff. Também no caso dos Ministros de Estados, essa
prerrogativa é exclusiva da Câmara dos Deputados.
A Câmara dos Deputados também faz a tomada de contas do Presidente da
República e dos Ministros de Estado – e, se não for apresentada no prazo corre-
to, a tomada de contas do Presidente da República. O próprio regimento inter-
no é deliberação da Câmara dos Deputados, além da escolha dos membros do
Conselho da República.

capítulo 2 • 41
A Câmara trabalha também com a criação e extinção de cargos e funções de
seus serviços, e, de maneira muito importante, é a Casa em que a maioria das
proposições legais possuem início de trâmite. É tida como a casa de representação
mais imediata e importante para todo o povo, além de ser um local em que as
decisões mais importantes da nossa Nação já foram tomadas.

LINK
Clicando no link a seguir, você poderá compreender melhor como funciona a Câmara dos
Deputados bem como as características das atividades dela.
http://www2.camara.leg.br/

O Poder Judiciário constitui um dos Três Poderes do Estado, e a ele é atribuí-


da a função judiciária, que é a administração da justiça dentro de uma sociedade.
Para tal, presume-se que todos sejam obrigados a cumprir as normas e leis judiciais
e constitucionais, sem qualquer distinção em relação à atividade profissional que
exerçam ou qualquer outra característica pessoal. De maneira geral, a lei é uma só
e para todos, significando dizer que não há ninguém imune às leis de um Estado.
O Poder Judiciário, também chamado de Poder Judicial, é composto por
ministros, desembargadores, promotores de justiça e juízes. Todos eles possuem
obrigações de julgar ações ou situações que não são enquadradas pela normalidade
legal criada pelo Poder Legislativo e aprovada pelo Poder Executivo. Essa regra se
aplica aos dispositivos explícitos na Constituição Federal.
Como função principal, o Poder Judiciário busca defender os direitos de todo
cidadão brasileiro a partir da promoção da justiça e resolvendo conflitos em po-
tencial que possam surgir na sociedade, realizando investigações, apurações, julga-
mentos e, quando for o caso, aplicando as punições respectivas.
Esse poder de fazer com que as leis sejam cumpridas não é prerrogativa exclu-
siva do Poder Judiciário, pois a Constituição Federal garante alguns meios alter-
nativos para assegurar os direitos dos cidadãos, tais como o Ministério Público, a
Defensoria Pública e os advogados particulares, desde que possuam registro regu-
lar ativo junto à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
O Estado brasileiro composto por Três Poderes distintos formando
a democracia nacional é proveniente da visão do político e filósofo fran-
cês Montesquieu. Esse filósofo apresentou, em seu estudo sobre o Estado

capítulo 2 • 42
Moderno, a teoria da separação dos Três Poderes, em que cada um atua dentro
de sua esfera de maneira independente.
Olhando para além de terras brasileiras e analisando outros regimes democrá-
ticos contemporâneos instalados mundo afora, o Poder Judiciário é subdividido
em diversos outros órgãos, que têm suas atuações de maneira mais direcionada e
específica. Esses órgãos são o Supremo Tribunal Federal, o Superior Tribunal de
Justiça, os Tribunais Regionais Federais, os Tribunais do Trabalho, os Tribunais
Eleitorais e os Tribunais Militares.
Esses órgãos citados anteriormente possuem funções bem específicas e tratam
de assuntos distintos, sendo classificados conforme segue:

- Civis: solucionam conflitos existentes entre pessoas físicas, que podem ser
qualquer cidadão, e pessoas jurídicas, sendo caracterizadas por qualquer institui-
ção ou empresa;
- Penais: ligados aos mais diversos tipos de crimes, desde que tipificados pelas
Leis e Códigos específicos que versarem sobre o tema. Esses crimes podem ser
homicídios, roubos, sequestros, entre outros;
- Eleitorais: relacionado diretamente a campanhas e a eleições, sejam elas ma-
joritárias ou minoritárias;
- Trabalhistas: preocupam-se com assuntos e lides que possam ocorrer entre
empregados e patrões no âmbito exclusivo do trabalho;
- Federais: lida com casos relacionados à administração e à organização políti-
ca e econômica do país;
- Militares: trata de casos que envolvem as Forças Armadas, sendo elas repre-
sentadas pelo Comando do Exército, pelo Comando da Marinha e pelo Comando
da Aeronáutica.

Administração direta

A Administração Pública Direta também é chamada de Administração Pública


Centralizada e existe em todas as esferas governamentais: União, Estados, Distrito
Federal e Municípios em seus Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Em se tra-
tando de estrutura pública, é a própria Administração Pública em funcionamento.
Nela, a atividade administrativa governamental é exercida pelo próprio gover-
no diretamente através de seus órgãos. Tais órgãos são unidades administrativas e
não se distinguem da Administração Direta, sendo apenas partes dela.

capítulo 2 • 43
Todos esses órgãos são despersonalizados, pois não têm personalidade jurídica
própria, não tendo a capacidade de contraírem direitos e obrigações de maneira
autônoma. A figura do agente público se faz necessária para constituir a vontade
de cada repartição pública. Nesse caso, como há a desconcentração administrativa,
há automaticamente a hierarquia entre o órgão que desconcentrou o controle e o
que recebeu o controle.

EXEMPLO
Exemplos são muito comuns e fazem parte do dia a dia de qualquer cidadão brasileiro.
Podem ser citados, por exemplo, as Delegacias Regionais da Polícia Federal, a Secretaria da
Receita Federal, as Varas Judiciais, entre outros órgãos.

Eles estão vinculados a cada uma das esferas governamentais, que são os mi-
nistérios e os órgãos federais, estaduais ou municipais, sempre delegados de poder
que receberam do órgão descentralizador. Considerando a Administração Pública
Direta, o Estado é o titular e o executor do serviço público ao mesmo tempo.

Administração indireta

Se dependesse apenas da Administração Direta, o Estado não teria condições


estruturais para gerenciar a totalidade do território brasileiro. Isso se dá porque,
além de o território ser extremamente extenso, há um gigantesco volume de ope-
rações e necessidades específicas entre o governo e os particulares, representados
pelos cidadãos. Com essa realidade, o governo acabou por outorgar poderes a
outras entidades, e elas são as que formam a Administração Indireta.
Também chamada de descentralizada, a Administração Indireta atua na presta-
ção dos serviços públicos a todas as pessoas, embora eles sejam realizados por meio
de outras pessoas jurídicas, alheias até mesmo à estrutura política. Essas entidades
recebem a delegação de autoridade para serem representantes da Administração
Pública e agem em nome do próprio governo.
Essa delegação, formalmente chamada de outorga, acontece quando o
Estado cria uma nova pessoa jurídica e transfere para ela, com a utilização da
força legal, a responsabilidade pela prestação de um serviço ou de qualquer ati-
vidade de utilidade pública.

capítulo 2 • 44
Nesse caso, não há vínculo hierárquico entre a Administração Direta e as en-
tidades que são criadas, não cabendo qualquer subordinação ao Estado por conse-
quência. O que ocorre, na prática, é apenas um poder chamado de controle, mas
que possui adicionais atribuições fiscalizatórias.
Conceitualmente, esse controle é o poder que o Governo Central tem de in-
fluenciar a entidade descentralizada. O que ocorre é que os poderes da entidade
criada são presumidos, e os do controlador, neste caso o Governo Central, apenas
existem quando estão expressamente previstos em lei.
Essas entidades da Administração Pública Indireta são as autarquias, as em-
presas públicas, as sociedades de economia mista e as fundações públicas, sempre
respondendo a algum componente da Administração Direta. Vamos verificar com
mais detalhes cada um desses tipos de entidades da Administração Indireta.
Iniciando pelas autarquias, elas são criadas por lei ordinária específica em que
deve estar estabelecido que exerçam uma função típica e exclusiva do Estado. Em
relação à constituição formal, não dependem de registro e possuem o fim específi-
co sempre voltado para a sociedade, ou seja, para a coletividade.
Exemplos de autarquias são as Universidades Federais na área da educação, o
IBAMA na área ambiental e o INSS na área da saúde, mas nada impede de existi-
rem autarquias, além de federais, estaduais ou municipais.
As autarquias são entidades de Direito Público, possuindo capacidade apenas
administrativa. Dessa maneira, uma autarquia não possui qualquer autonomia
política, não tendo gerência na confecção de leis, por exemplo. Também possui
patrimônio próprio, desvinculado daquele patrimônio da entidade que a criou.
Já as empresas públicas, o segundo exemplo de órgão da Administração Direta
a ser estudado, possuem personalidade jurídica de Direito Privado, além de exer-
cerem funções atípicas, tendo o Código Civil como o principal norteador das suas
tarefas e atribuições delegadas.
Exploram uma ou várias atividades econômicas específicas e devem ser criadas
por lei específica. Também demandam registro dos estatutos sociais no cartório
público respectivo por se tratar de pessoa jurídica de Direito Privado.
Há dois tipos distintos de empresas públicas: as prestadoras de serviços pú-
blicos exercem atividades essenciais, mas com cunho comercial, como é o caso da
INFRAERO e dos Correios, enquanto as exploradoras de atividades econômicas
fornecem serviços considerados não essenciais, como é o caso da Caixa Econômica
Federal nos serviços bancários.

capítulo 2 • 45
O Capital Social é totalmente integrado com a utilização de recursos públicos,
mas não exclusivos. Por exemplo, pode-se criar uma empresa pública com recur-
sos federais, estaduais e municipais. Podem ser sociedades anônimas ou qualquer
outro tipo societário previsto na legislação nacional.
Os funcionários estão subordinados à CLT, e as compras, em geral, devem
seguir as regras estabelecidas na Lei das Licitações. Por possuírem patrimônio pró-
prio, não têm ligação com o governo.
O terceiro tipo a ser analisado, as sociedades de economia mista, exercem
função atípica e possuem personalidade jurídica de Direito Privado. O Capital
Social delas é composto por recursos tanto públicos quanto privados, sendo que
o Estado deve possuir a maioria das ações, mantendo o controle de maneira cons-
tante sobre as operações. Por possuírem o capital constituído na forma de ações,
devem obrigatoriamente ser sociedades anônimas, o que permite o ingresso de
recursos privados.
Prestam serviços públicos e são autorizadas para tal por leis específicas, mas
também podem ser exploradoras de atividade econômica. O Banco do Brasil é o
exemplo mais difundido de sociedade de economia mista, e é necessário o registro
do estatuto social no cartório respectivo.
Possuem patrimônio próprio e distinto do governo que os criou, que pertence
à própria entidade, e todo o pessoal contratado deve respeitar o regime celetista.
As fundações públicas possuem patrimônio personalizado, que é destacado
por um fundador, e têm uma finalidade específica. Embora não tenham objetivo
de lucro, ele não será impedido de acontecer conforme as atividades forem ocor-
rendo. Caso ocorra receita sobrante na forma de lucros, ela deve ser reinvestida na
atividade principal e nunca repartida ou distribuída entre os seus gestores.
As fundações podem ser tanto de Direito Público quanto de Direito Privado,
sendo que, no primeiro caso, as contratações de pessoal podem ser nos regimes
celetista ou estatutário. Para aquelas de Direito Privado, apenas podem ser contra-
tados funcionários regidos pela CLT.
Elas exercem funções atípicas em relação ao serviço público, e o Estado pode
criar fundações de Direito Público ou autorizar a criação de fundações de Direito
Privado. Em ambos os casos, é necessário que seja publicada uma lei complemen-
tar para especificar sua área de atuação, entre outros detalhes constitutivos.
Por fim, as Agências Reguladoras são criadas para fiscalizar certas atividades de
caráter público, além de disciplinar e controlar as operações de empresas, que po-
dem ser públicas ou privadas. Por exemplo, a Agência Nacional de Águas fiscaliza

capítulo 2 • 46
as atividades das companhias de água e esgoto, que normalmente são estaduais.
Dependendo da situação, elas possuem autonomia para definir sanções e penali-
dades caso a atividade não esteja sendo desempenhada conforme o estabelecido
nas normas vigentes.
Alguns exemplos de agências reguladoras são a Agência Nacional de
Telecomunicações (ANATEL), a Agência Nacional de Petróleo (ANP), a Agência
Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e a Agência Nacional de Águas (ANA).

Receita pública

As receitas públicas são variações ativas, resultantes dos aumentos dos ativos
de uma estrutura pública ou da redução dos passivos. De qualquer forma, essas
alterações devem gerar acréscimo na situação patrimonial. No caso da conta-
bilidade pública, é um ingresso ligado às entradas de recursos financeiros nos
cofres públicos.
Mas nem todos os ingressos de recursos podem ser conceituados como receitas
públicas, pois há alguns valores que não aumentam em nada o patrimônio do ór-
gão público. Normalmente, esses valores estão relacionados a devoluções posterio-
res por parte do próprio organismo público, como é o caso dos depósitos judiciais.
A receita pública é o recolhimento feito aos cofres públicos, mas também pode
ser representada pelas variações ativas. Pode-se citar as criações dos fatos geradores,
como é o caso do registro de valores a receber relacionados ao IPTU ou ao IPVA,
por exemplo.
A receita orçamentária vai gerar aumento patrimonial, constituindo um novo ele-
mento para o patrimônio público. São fontes de recursos a serem posteriormente
utilizados pelos Estados para, por meio de ações e programas governamentais,
atender às demandas da sociedade em geral. Para isso, cada membro do governo
deve instituir o devido artifício legal que permita a cobrança tributária de acordo
com a competência delegada pela Constituição Federal para cada um.

CONCEITO
Em termos de regulamentação, a receita pública possui o arcabouço legal pautado de
acordo com a Resolução do Conselho Federal de Contabilidade nº 750 de 1993 e 774 de
1994. Essas publicações conceituam a receita como sendo uma derivação contábil do con-
ceito comercial, adaptado para a Administração Pública de acordo com as peculiaridades dela.

capítulo 2 • 47
Essas receitas são caracterizadas por ingressos de caráter não devolutivo au-
feridos pelo Poder Público em qualquer esfera governamental para que possa ser
feita a cobertura das despesas públicas. Este é o fim maior: garantir a prestação dos
serviços para a sociedade; serviços e direitos, alguns deles presentes de maneira
muito clara na Constituição Federal em seus diversos artigos.

Receita extraorçamentária

Já as receitas extraorçamentárias são o resultado de qualquer ingresso que


ocorra para o caixa do tesouro, mas não são renda do Estado, estando formal-
mente fora do orçamento público devidamente constituído. Por terem caráter
transitório, o Estado apenas faz a intermediação desses valores, sendo a devolução
independente de qualquer autorização orçamentária, que é, na prática, a autoriza-
ção legislativa necessária para tal.
Para que ela seja contabilizada, é aumentada a disponibilidade do órgão cor-
respondente com a contrapartida de uma obrigação exigível reclamada posterior-
mente. Valores retidos na fonte, tais como o próprio imposto de renda que sai no
contracheque dos trabalhadores, são um exemplo bem cotidiano de uma recei-
ta extraorçamentária.
As receitas extraorçamentárias são adquiridas para que uma despesa extraor-
çamentária possa ser coberta. Na contabilidade, isso seria caracterizado como um
futuro passivo exigível não esperado pelas operações normais. Essas entradas de
recursos já possuem o destino certo, sendo inviável o seu aproveitamento para a
realização do custeio de outras despesas, até mesmo aquelas previamente estabe-
lecidas na peça orçamentária formal. Essas receitas são caracterizadas como meros
movimentos de caixa.
A arrecadação das receitas extraorçamentárias necessita de autorização legisla-
tiva específica, e a realização respectiva da receita não estará vinculada à execução
de nenhuma peça orçamentária.
Também podem ser citados como exemplos de receitas extraorçamentárias as
operações de crédito e as operações de crédito por antecipação de receita orçamen-
tária. As duas são distintas, e veremos detalhes delas a partir de agora.
A primeira, a operação de crédito, é um compromisso financeiro assumido
por um ente público em razão de mútuo interesse, abertura de crédito, emissão e
aceite de título, aquisição financiada de bens, entre outras operações, devendo o
ente identificar de onde sairão os recursos que vão custear essa nova despesa.

capítulo 2 • 48
A finalidade é suportar o desequilíbrio orçamentário ou financiar investimen-
tos existentes. Nesse caso, acaba sendo considerada como se fosse uma receita orça-
mentária, possuindo necessidade de autorização do Poder Legislativo para ocorrer.
O segundo tipo, que é a operação de crédito por antecipação de receita, ocorre
para atender a alguma insuficiência de caixa durante algum exercício financeiro,
devendo ser liquidada com os juros e outros encargos que venham a incidir até a
data limite de 10 de dezembro de cada ano-calendário.

ATENÇÃO
A operação de crédito por antecipação de receita não pode ocorrer enquanto não existir
a liquidação anterior de crédito que possua a mesma natureza, além de outros requisitos que
estão previstos na Lei de Responsabilidade Fiscal.

O ente público pode dar como garantia a receita de impostos que seja de sua
competência tributária. Por exemplo, o Governo Federal pode dar como garantia
para liquidação de operações de crédito por antecipação de receita a arrecada-
ção futura de IPI, que é um imposto de competência federal. Nesse sentido, será
considerada como uma receita extraorçamentária e, portanto, não dependerá de
autorização expressa do Poder Legislativo.
Com relação à receita extraorçamentária, nada a impede de se converter em
receita orçamentária. Um exemplo que pode ser dado é o caso da garantia em se
tratando de contrato administrativo, que, por causa de uma eventual inadimplên-
cia de um ente particular, será perdida em favor da Administração Pública. Dessa
maneira, o valor depositado passará a integrar o patrimônio público daquele ente
respectivo, passando também a fazer parte do orçamento.

Classificação da receita

De acordo com o art. 11 da Lei 4.320/64, a receita pode ser classificada em


duas categorias econômicas distintas: receitas correntes e receitas de capital. Essa
classificação é necessária para que se possa identificar a origem de cada recurso pú-
blico de acordo com o fato gerador correspondente. Dessa maneira, pode ser mais
facilmente identificado que recursos serão utilizados para cobrir despesas correntes
e quais tenderão a fazer a cobertura de despesas de capital.

capítulo 2 • 49
Ainda de acordo com esse dispositivo legal, as receitas correntes podem ser
classificadas em receitas tributárias, patrimoniais e industriais, sendo que as tribu-
tárias são divididas em impostos, taxas e contribuições de melhoria. Já as receitas
patrimoniais são divididas em imobiliárias, de valores mobiliários, participações e
dividendos e outras receitas patrimoniais.
No caso das receitas correntes, há ainda uma última divisão, chamada de
transferências correntes, caracterizada por receitas diversas, como multas, cobran-
ça de dívida ativa, além de outras receitas diversas.
As receitas de capital não possuem divisão adicional, sendo classificadas em
operações de crédito, alienação de bens móveis e imóveis, amortização de emprés-
timos concedidos, transferências de capital e outras reservas de capital.

Etapas e estágios da receita

Quando se pensa em receita, a sua primeira etapa é conhecida como previsão,


ocorrendo de duas maneiras distintas. A primeira é chamada de metodologia,
que é a fase da organização e do estabelecimento da metodologia de elaboração
da estimativa da receita. Na sequência, existe o lançamento que pode ser definido
como a etapa da legalização da receita propriamente dita e, consequentemente,
da inclusão definitiva no orçamento público como verba prevista. A seguir, uma
figura para que você possa compreender melhor os estágios da receita

Figura 1 – Estágios da Receita Pública

Fonte: adaptado de Brasil (2005)

A segunda etapa é conhecida como arrecadação, que nada mais é do que a


entrega dos valores pelos contribuintes diretamente aos bancos autorizados, os
quais fazem o encaminhamento dos montantes diretamente ao tesouro. O proce-
dimento chamado de arrecadação ocorre uma única vez, enquanto, na sequência,
ocorre outro procedimento, denominado de recolhimento.
O recolhimento é a transferência dos valores arrecadados à conta especí-
fica indicada pelo órgão público, o qual administra e controla a arrecadação
e a programação financeira, tudo de acordo com o que está estabelecido pelo
Princípio da Unidade.

capítulo 2 • 50
Dívida ativa

Se formos partir do conceito de Dívida Ativa, vamos ter de falar sobre os crédi-
tos pertencentes à Fazenda Pública e de natureza tributária, formados pelos valores
originais dos tributos acrescidos de juros e multas, embora também possam ser cré-
ditos de natureza não tributária, como alugueis, entre outros valores. Esses valores
devem ser inscritos como Dívida Ativa apenas depois de ser esgotado o período
acordado inicialmente para o devido recolhimento por parte da parte passiva.
O ato de inscrever um débito na Dívida Ativa está ligado a um direito do ór-
gão público já vencido, mas não pago, e que possua todas as informações necessá-
rias para que seja buscado o devedor dos valores. Normalmente, o setor de Dívida
Ativa providencia a inscrição do devedor, e nada impede que esses créditos sejam
negociados administrativamente com a unidade administrativa pública antes de
serem enviados para a execução fiscal.

CONCEITO
A certidão de Dívida Ativa é um documento comprobatório da dívida inscrita por um
órgão governamental, que pode ser federal, estadual ou municipal, promovendo uma ação
formal para receber em juízo os valores que deveriam ter sido pagos em tempo passado
pelos contribuintes.

Os valores da Dívida Ativa não precisam ser necessariamente pagos à vista,


podendo ser parcelados. Para tal, o contribuinte deve procurar a repartição pública
com a qual ele possui os débitos, podendo, no caso de impedimento, ser represen-
tado por procuração específica. Nesse momento, é emitido um termo de confissão
de dívida, e o parcelamento pode ser realizado em até 60 meses de acordo com as
regras estabelecidas por cada unidade da Administração Pública.
Não somente os valores que estão na Dívida Ativa, mas todos os tributos e re-
cebimentos previstos de ingressarem nos cofres públicos podem sofrer algum tipo
de imprevisto e não serem recolhidos devidamente. Nesse caso, a Administração
Pública deve fazer a avaliação correta dos valores a serem recebidos no futuro, se-
parando uma parcela para liquidação duvidosa, assim como é feito na contabilida-
de financeira. Essa conta é denominada, dentro da Administração Pública, como

capítulo 2 • 51
Provisão para Perdas de Dívida Ativa e serve para corrigir os valores registrados
como Dívida Ativa.
Esse cálculo deve ser realizado com base no histórico de pagamentos realizados
fora do prazo ou não realizados, preferencialmente de maneira percentual, fazendo
com que a Administração Pública não conte com recursos que não ingressarão nos
cofres públicos, comprometendo a confecção e a execução orçamentária e, conse-
quentemente, a prestação de serviços públicos para a população em geral.
Mesmo sem ter a certeza do recebimento, a Administração Pública tem a pre-
sunção da certeza de liquidez dos valores inscritos em Dívida Ativa, pois possui
prova pré-constituída contra a figura do devedor. Quando inscrito em Dívida
Ativa, um crédito passa a ser passível de cobrança pelo ente público com ou sem o
devido processo judicial para execução dos valores.

ATIVIDADES
1) Por que, quando se paga um imposto como o IPTU, por exemplo, os recursos arre-
cadados pelo governo com tal tributo não podem ser investidos apenas para a causa da
habitação, já que ele se refere à propriedade de um bem imóvel urbano?
De acordo com o Princípio da não afetação das receitas, nenhum valor arrecadado com
qualquer tributo poderá ser comprometido para a realização de gastos específicos. Os va-
lores arrecadados com o IPTU, por exemplo, podem ser legalmente aplicados em saúde,
educação ou segurança.

2) A Dívida Ativa é o procedimento em que o Estado reconhece um direito líquido perante


um sujeito passivo, que é o contribuinte. Considerando as possibilidades de não recebimento
por parte do órgão da Administração Pública, o que deve ser feito para que os efeitos preju-
diciais da inadimplência possam ser diminuídos?
O órgão responsável pela arrecadação deve realizar uma previsão contábil de não re-
cebimento, denominada Provisão para Créditos de Dívida Ativa de Liquidação Duvidosa, e,
baseado em históricos percentuais de não recebimento, prever qual o montante de recursos
que estão inscritos na Dívida Ativa que já se espera que não sejam recebidos.

3) Qual princípio da Administração Pública que exige a autorização do Poder Legisla-


tivo para que um determinado gasto ocorra em cada exercício financeiro?
a) Nulidade
b) Universalidade

capítulo 2 • 52
c) Anualidade
d) Exclusividade
e) Equilíbrio

Resposta – Letra C - O Princípio da Anualidade estabelece que há a necessidade de ha-


ver autorização do Poder Legislativo para que um gasto ocorra em cada exercício financeiro,
tudo sempre respeitando a Lei de Diretrizes Orçamentárias vigentes. O período que se utiliza
para definir o exercício financeiro é o ano civil, pois o mesmo também é utilizado pela maioria
das empresas privadas não somente no Brasil, mas em todo o mundo.

ESTUDO DE CASO
Quando um determinado município precisa, por exemplo, da construção de uma escola e
não tem os recursos necessários, é comum que ele requisite esses recursos para o Estado.
Porém, é claro que esses repasses precisam obedecer a uma série de trâmites legais, regras,
e também a alguns princípios orçamentários. Com base no que você estudou, quais são
alguns dos princípios vigentes que estão relacionados com esse tipo de atividade pública?
Os princípios da Unidade, Universalidade e Anualidade são alguns daqueles que estão
envolvidos com o repasse de um Estado para um Município, por exemplo, e tais repasses
devem ser observados para que seja possível a total compreensão e elaboração do Plano
Pluruanual (PPA), o qual irá demonstrar qual a necessidade de gastos e, posteriormente,
como eles ocorreram.

REFLEXÃO
Você já parou para pensar que, mesmo sem querermos, nós já nascemos brasileiros?
Mesmo que não nasçamos no Brasil, em algumas situações, a soberania do nosso país é
tal que o fato de termos nascido, às vezes, em terras estrangeiras, não nos faz perder nossa
cidadania brasileira?
O nome disso é soberania nacional, que garante aos seus cidadãos o direito de serem
brasileiros, mesmo em algumas situações tidas como estranhas com relação ao local de
nascimento. Isso ocorre para que os locais do Brasil, mesmo que tenham vindo ao mundo em
terras estrangeiras, garantam a totalidade de alguns direitos exclusivos de brasileiros.

capítulo 2 • 53
Obviamente, esse conjunto de direitos vem em harmonia com um conjunto de obriga-
ções, as quais estão normalmente ligadas ao pagamento de tributos. Nesse sentido, os valo-
res recolhidos aos cofres públicos de maneira direta ou indireta figurarão como suporte para
que o governo possa arcar com os serviços que prestar à sociedade.
Pensando nesse sentido, mesmo os cidadãos estrangeiros, quando localizados em terras
brasileiras, efetuam esses recolhimentos de tributos, seja de forma direta ou indireta. Ou
você acha que, apenas pelo fato de você não recolher o imposto de renda na fonte ou estar
desempregado, você não paga impostos?
Cada vez que vamos ao supermercado, à padaria, a uma loja qualquer, nós
pagamos os tributos que já estão inseridos nos preços de cada mercadoria. Até
mesmo para nos deslocarmos dentro ou fora das cidades em que vivemos o paga-
mento do imposto é algo que fazemos e nem percebemos.
O mesmo acontece com um cidadão estrangeiro quando vai a um restaurante
para almoçar. Mesmo pagando o imposto de renda no país em que ele resida,
enquanto estiver no Brasil e consumindo produtos e serviços comercializados em
terras nacionais, ele recolherá tributos aos cofres públicos que ajudarão na tarefa do
governo em todas as esferas: prestar um serviço de qualidade a qualquer cidadão.
Esses serviços, em sua grande maioria, estão abertos de maneira integral e
irrestrita também para esses cidadãos estrangeiros enquanto eles estiverem de ma-
neira legalizada em terras nacionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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http://www.brasil.gov.br/governo/2013/06/entenda-o-funcionamento-da-estrutura-do-esta-
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CASTRO, F. R. X. de M. (org). Lei de Responsabilidade Fiscal: abordagens pontuais:
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áreas do ciclo de gestão: contabilidade orçamento e auditoria e organização dos controles
internos, como suporte à governança corporativa. São Paulo: Atlas, 2011.
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SILVA, V. L. da. A nova contabilidade aplicada ao setor público: uma abordagem
prática. São Paulo: Atlas, 2013.

capítulo 2 • 55
capítulo 2 • 56
3
Despesa pública
e demonstrações
contábeis
Despesa pública e demonstrações contábeis

Introdução

Neste capítulo, você vai compreender as despesas públicas e como elas com-
põem o orçamento público. Serão apresentados os diferentes tipos e como eles
estão relacionados com as receitas. Também serão vistos os estágios da despesa
que são necessários para o registro, reconhecimento e pagamento dessas despesas
dentro do setor público.
O conceito de Restos a Pagar e de Despesas de Exercícios Anteriores também
será abordado, e será possível compreender como esses elementos também fazem
parte do orçamento público.
Na sequência, serão estudadas as Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor
Público (DCASP), suas estruturas, principais elementos e a apresentação dessas de-
monstrações para que seja possível a compreensão de sua elaboração e realização.

OBJETIVOS
•  Compreender o conceito de despesa na Contabilidade Aplicada ao Setor Público (CASP);
•  Estudar os diferentes estágios da despesa pública;
•  Entender como funcionam os Restos a Pagar e Despesas de Exercícios Anteriores;
•  Compreender o que são e as principais características das Demonstrações Contábeis Apli-
cadas ao Setor Público.

Conceitos de despesa

Dentro do orçamento público brasileiro, assim como em qualquer outro or-


çamento, há um fluxo ordenado de entradas e saídas. No contexto público, essas
saídas podem ser definidas como um conjunto de dispêndios realizados para a
manutenção das atividades dos entes públicos e estão ligadas, principalmente, ao
fornecimento de bens e serviços para a população.
Silva (2013) completa a ideia ao relatar que os dispêndios públicos são gastos
necessários para a manutenção dos serviços existentes e também para a criação
ou expansão de outros ligados à atividade governamental, o que irá permitir que

capítulo 3 • 58
sejam satisfeitas as necessidades coletivas. A Lei 4.320/64 diz que a classificação da
despesa deve observar a discriminação por elementos em cada unidade adminis-
trativa ou órgão do governo.
Pode-se, também, afirmar que a despesa é um dos integrantes do orçamento,
uma vez que é na Lei Orçamentária que estão classificadas as autorizações para
os gastos com as atribuições governamentais, ou seja, se não estiver devidamente
registrado no orçamento, o valor não poderá ser gasto.
Ainda com relação à Lei Orçamentária, o detalhamento das despesas deve ser
feito, no mínimo, como base nos elementos, e esses deverão demonstrar os gastos
com servidores, materiais, serviços, bens adquiridos, entre outros, necessários para
a manutenção das atividades públicas.

Classificações de despesa

Em um primeiro momento, as despesas são divididas em duas categorias: as


despesas orçamentárias e as extraorçamentárias. Mas qual a diferença entre esses
dois grupos?
No caso das despesas orçamentárias, existe a fixação no orçamento público,
o que exige autorização legislativa para a sua realização. Assim, essas despesas não
podem ser realizadas sem o crédito orçamentário correspondente.

CURIOSIDADE
Uma despesa orçamentária não pode ser realizada sem o crédito orçamentário cor-
respondente, ela faz parte do orçamento e assim deverá ser discriminada e fixada na
peça orçamentária.

Para fins contábeis, a despesa orçamentária pode ser classificada quanto ao


impacto na situação líquida patrimonial em:
a. Despesa Orçamentária Efetiva - aquela que, no momento de sua realização,
reduz a situação líquida patrimonial da entidade. Constitui fato contábil modifi-
cativo diminutivo;
b. Despesa Orçamentária Não Efetiva – aquela que, no momento da sua realização,
não reduz a situação líquida patrimonial da entidade e constitui fato contábil permutativo.
A receita efetiva e não efetiva está associada a alteração ou não que ela trará
para a situação patrimonial líquida. No caso das despesas efetivas, existe um fato

capítulo 3 • 59
modificativo misto que altera o Patrimônio Líquido sem alterar a configuração
patrimonial. Em geral, exemplos de despesas efetivas são pagamento de pessoal,
encargos, juros, entre outros, e também podem ser representados por despesas de
capital, como aquisição de bens móveis e imóveis.
Já as despesas não efetivas não provocam alteração no patrimônio, já que são
constituídas por fatos permutativos. Despesas não efetivas, em geral, são investi-
mentos, inversões financeiras, amortização de dívidas, entre outros, em que ocorre
uma permuta entre contas patrimoniais.
Já a despesa classificada como extraorçamentária é aquela que, segundo
Kohama (2013), está fora da Lei Orçamentária e, assim, não precisa de autori-
zação legislativa. Isso ocorre porque esse tipo de despesa constitui uma operação
compensatória em que haverá a saída do recurso que está registrado como passivo
financeiro. Essas despesas são representadas por restituições ou entrega dos valores
recebidos, como, por exemplo, as cauções, os depósitos e as consignações.
Kohama (2013) apresenta um exemplo que ilustra o lançamento de uma des-
pesa extraorçamentária:

a) Pelo pagamento de retenções de consignações


– Registro contábil do pagamento das retenções de consignações no Subsistema de
Informações Patrimoniais – Lançamento SP no 12
D – 215.82 INSTITUTO DE PREVIDÊNCIA 3.000,00
D – 215.85 ASSOCIAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS 2.000,00
C – 111.1 CAIXA E EQUIVALENTE DE CAIXA EM MOEDA NACIONAL 5.000,00
Pelo pagamento das retenções de consignações
b) Pelo registro do controle das disponibilidades de recursos
– Registro contábil do controle das Disponibilidades de Recursos no Subsistema de
Compensação – Lançamento SC no 12
D – 821.13 DISPONIBILIDADE POR DESTINAÇÃO DE RECURSOS COMPROME-
TIDA POR LIQUIDAÇÃO E ENTRADAS COMPENSATÓRIAS 5.000,00
C – 821.14 DISPONIBILIDADE POR DESTINAÇÃO DE RECURSOS UTILIZADA PELO
REGISTRO DA DISPONIBILIDADE DE RECURSOS UTILIZADA 5.000,00

Figura 1 – Lançamento de despesa extraorçamentária

Fonte: Adaptado de Kohama (2013, p. 100)

capítulo 3 • 60
Aqui é possível compreender como o recurso é registrado somente em contas
de compensação e que o valor, na segunda operação, já é devidamente repassado.
A despesa pública também pode ser classificada sob outra ótica. A classificação
econômica da despesa está delimitada de acordo com o artigo 12 da Lei 4.320/64,
e seu maior objetivo é apresentar os efeitos dos gastos sobre a economia. De acor-
do com essa classificação, as despesas dividem-se em correntes e de capital.
Conforme o próprio nome indica, as despesas correntes são aquelas utiliza-
das para a manutenção de gastos operacionais utilizados para o funcionamento
dos órgãos públicos. Aqui não entram os gastos com aquisição de bens duráveis.
Exemplos de despesas correntes são pagamento de funcionários, material de con-
sumo entre outros.
As despesas correntes são apresentadas pelos seguintes grupos de natureza de despesa:

•  Despesas de custeio – São aquelas utilizadas para a manutenção e ofun-


cionamento dos órgãos públicos; também são utilizadas para o pagamento dos
servidores, entre outros gastos de rotina;
•  Transferências correntes – Não estão relacionadas a uma contraprestação di-
reta de bens e serviços; nesse grupo, estão as subvenções sociais, pagamentos para
inativos, pensionistas, contribuições da previdência social, entre outros.

CONCEITO
Os valores que são destinados ao pagamento de terceiros sem a correspondência, como,
por exemplo, as subvenções sociais e a contribuição para a previdência social, não estão
relacionados a uma troca de benefícios. Porém, esses valores, ao serem pagos, exigem que
seja feito o bom uso dos recursos públicos.

EXEMPLO
Para que seja possível entender melhor as transferências correntes, imagine um Estado
brasileiro fazendo um repasse para um Município que precisa do recurso para adquirir material
de consumo: quando isso ocorre, será registrada uma Despesa corrente, e sua classificação
será de Transferência Corrente. Já no município a entrada do recurso será registrada como Re-

capítulo 3 • 61
ceita Corrente de Transferência. A classificação como corrente deve ser utilizada porque o ob-
jeto da despesa foi o material de consumo, e esse faz parte do grupo de Despesas Correntes.

Já as despesas de capital são aquelas que contribuem de forma direta para a


formação ou aquisição de bens de capital. Esses valores também são utilizados para
a aquisição de novos bens ou a aquisição daqueles que já estão em uso. As despesas
de capital estão classificadas nos seguintes grupos de despesas:

•  Investimentos – gastos para o planejamento e execução de obras, também


podem ser utilizadas para a aquisição de imóveis que aumentem o capital público;
•  Inversões financeiras – São aqueles valores ligados à aquisição de bens; aqui
também entram as despesas para aquisição de títulos de capital de empresas quan-
do a operação não for relacionada ao aumento de capital;
•  Transferências de capital – Saídas relacionadas à cobertura de investimentos
e inversões financeiras.

EXEMPLO
Imagine que uma determinada cidade do país precise de uma escola pública; assim,
quando ocorrer o envio do dinheiro do Estado, ele será classificado como despesa de capital.
Já o município que receberá a verba terá de registrar esse valor como receita de capital.

A receita efetiva e não efetiva está associada à alteração ou não que ela trará
para a situação patrimonial líquida. No caso das despesas efetivas, existe um fato
modificativo misto que altera o Patrimônio Líquido sem alterar a configuração
patrimonial. Em geral, exemplos de despesas efetivas são pagamento de pessoal,
encargos, juros, entre outros, e também podem ser representados por despesas de
capital, como aquisição de bens móveis e imóveis.
Já as despesas não efetivas não provocam alteração no patrimônio, já que são
constituídas por fatos permutativos. São despesas não efetivas, em geral, investi-
mentos, inversões financeiras, amortização de dívidas, entre outros, em que ocorre
uma permuta entre contas patrimoniais.

capítulo 3 • 62
Estágios de execução da despesa

Conforme afirma Kohama (2013), a despesa orçamentária está disposta em


três diferentes estágios: o empenho, a liquidação e o pagamento. Entretanto, se-
gundo o próprio autor, existe a necessidade do registro da despesa quanto ao as-
pecto relativo ao crédito fixado na Lei Orçamentária, o que pode ser considerado
mais um estágio.
Esse primeiro estágio, que deve ser considerado antes das etapas propriamente
ditas da despesa pública, é chamado de Fixação. Essa etapa ocorre por ocasião da
edição da discriminação das tabelas explicativas que podem ser baixadas através da
Lei do Orçamento. Essa etapa é precedida por diversos procedimentos, como, por
exemplo, elaboração de propostas, mensagem ao Poder Executivo, projeto de Lei,
discussão do Poder Legislativo e aprovação e promulgação em Lei Orçamentária
(KOHAMA, 2013).
O autor ainda afirma que a Lei do Orçamento é um documento que tem
como principal característica a fixação da despesa e representa um instrumento no
qual são fixadas as discriminações e especificações de créditos orçamentários que
serão essenciais na elaboração do ciclo orçamentário. A fixação deve obedecer a al-
guns critérios do ponto de vista orçamentário conforme especifica a Lei 4.320/64:

Art. 47. Imediatamente após a promulgação da Lei de Orçamento e com base


nos limites nela fixados, o Poder Executivo aprovará um quadro de cotas trimes-
trais da despesa que cada unidade orçamentária fica autorizada a utilizar.

Art. 48. A fixação das cotas a que se refere o artigo anterior atenderá aos se-
guintes objetivos:
a) assegurar às unidades orçamentárias, em tempo útil, a soma de recursos
necessários e suficientes a melhor execução do seu programa anual de trabalho;
b) manter, durante o exercício, na medida do possível, o equilíbrio entre a
receita arrecadada e a despesa realizada, de modo a reduzir ao mínimo eventuais
insuficiências de tesouraria.

Art. 49. A programação da despesa orçamentária, para feito do disposto no artigo


anterior, levará em conta os créditos adicionais e as operações extraorçamentárias.

capítulo 3 • 63
Art. 50. As cotas trimestrais poderão ser alteradas durante o exercício, obser-
vados o limite da dotação e o comportamento da execução orçamentária.
Além desses aspectos constantes na Lei 4.320/64, também existem outros
pontos apresentados na Lei de Responsabilidade Fiscal:

Art. 8o Até trinta dias após a publicação dos orçamentos, nos termos em
que dispuser a lei de diretrizes orçamentárias e observado o disposto na alínea c
do inciso I do art. 4o, o Poder Executivo estabelecerá a programação financeira
e o cronograma de execução mensal de desembolso. (Vide Decreto nº 4.959, de
2004) (Vide Decreto nº 5.356, de 2005)
Parágrafo único. Os recursos legalmente vinculados a finalidade específica se-
rão utilizados exclusivamente para atender ao objeto de sua vinculação, ainda que
em exercício diverso daquele em que ocorrer o ingresso.

Art. 9o Se verificado, ao final de um bimestre, que a realização da receita po-


derá não comportar o cumprimento das metas de resultado primário ou nominal
estabelecidas no Anexo de Metas Fiscais, os Poderes e o Ministério Público promo-
verão, por ato próprio e nos montantes necessários, nos trinta dias subseqüentes,
limitação de empenho e movimentação financeira, segundo os critérios fixados
pela lei de diretrizes orçamentárias.

§ 1o No caso de restabelecimento da receita prevista, ainda que parcial, a


recomposição das dotações cujos empenhos foram limitados dar-se-á de forma
proporcional às reduções efetivadas.
§ 2o Não serão objeto de limitação as despesas que constituam obrigações
constitucionais e legais do ente, inclusive aquelas destinadas ao pagamento do
serviço da dívida, e as ressalvadas pela lei de diretrizes orçamentárias.
§ 3o No caso de os Poderes Legislativo e Judiciário e o Ministério Público
não promoverem a limitação no prazo estabelecido no caput, é o Poder Executivo
autorizado a limitar os valores financeiros segundo os critérios fixados pela lei de
diretrizes orçamentárias. (Vide ADIN 2.238-5)
§ 4o Até o final dos meses de maio, setembro e fevereiro, o Poder Executivo
demonstrará e avaliará o cumprimento das metas fiscais de cada quadrimestre, em
audiência pública na comissão referida no § 1o do art. 166 da Constituição ou
equivalente nas Casas Legislativas estaduais e municipais.
§ 5o No prazo de noventa dias após o encerramento de cada semestre, o
Banco Central do Brasil apresentará, em reunião conjunta das comissões temáticas

capítulo 3 • 64
pertinentes do Congresso Nacional, avaliação do cumprimento dos objetivos e
metas das políticas monetária, creditícia e cambial, evidenciando o impacto e o
custo fiscal de suas operações e os resultados demonstrados nos balanços.
Art. 10. A execução orçamentária e financeira identificará os beneficiários de
pagamento de sentenças judiciais, por meio de sistema de contabilidade e admi-
nistração financeira, para fins de observância da ordem cronológica determinada
no art. 100 da Constituição.
Portanto, foi possível compreender como esses dois instrumentos são comple-
mentares e quais os prazos e condições que devem ser observados na etapa da fixa-
ção. Já a etapa seguinte é conhecida como Empenho, que pode ser compreendido
como o ato emanado da autoridade independente e que irá criar para o Estado
obrigação de pagamento pendente ou não de implementação (KOHAMA, 2013).
Assim, uma vez autorizado o empenho pela autoridade competente, fica cria-
da a obrigação de pagamento para o Estado, podendo ele ficar dependente de al-
gumas condições ou não conforme explicitam os artigos 58 e 59 da Lei 4.320/64:

Art. 58. O empenho de despesa é o ato emanado de autoridade competente


que cria para o Estado obrigação de pagamento pendente “ou não de implemento
de condição.”

Art. 59. O empenho da despesa não poderá exceder o limite dos crédi-
tos concedidos.

O empenho pode ser dividido em duas partes: a primeira é conhecida como


despacho e está relacionada à despesa que será realizada. Essa fase também é co-
nhecida como fase jurídica já que há a criação de uma obrigação.
A segunda fase, chamada de fase contábil, está prevista no artigo 61 da Lei
4.320/64: “Art. 61. Para cada empenho será extraído um documento denominado
’nota de empenho’ que indicará o nome do credor, a representação e a importância
da despesa bem como a dedução desta do saldo da dotação própria”. O empenho
poderá ser dividido em três diferentes tipos:

•  Ordinário: utilizado para despesas que possuem valor fixo, que já estão pre-
viamente determinadas e cujos pagamentos devem ser feitos uma única vez;
•  Global: Utilizado para o pagamento de despesas contratuais ou outras
que possuem valor determinado, como, por exemplo, os contratos de aluguel de

capítulo 3 • 65
entidades públicas. É um tipo de empenho bastante comum, já que é fechado um
contrato para o ano todo, e assim acaba evitando um empenho a cada aquisição
ou entrega de materiais ou contratação de serviços;
•  Estimativo: Utilizado para despesas cujo montante não possa ser determina-
do, como é o caso das contas de consumo de água, energia, telefonia, entre outros.
A próxima etapa é conhecida como liquidação e é caracterizada pela veri-
ficação dos direitos adquiridos do credor. Para que eles sejam comprovados, é
necessário que existam títulos e documentos comprobatórios do respectivo crédito
relacionado com a compra de mercadorias ou aquisição de serviços. Essa fase está
devidamente apresentada na Lei 4.320/64:

Art. 62. O pagamento da despesa só será efetuado quando ordenado após sua
regular liquidação.

Art. 63. A liquidação da despesa consiste na verificação do direito adquirido


pelo credor tendo por base os títulos e documentos comprobatórios do respecti-
vo crédito.
§ 1° Essa verificação tem por fim apurar:
I - a origem e o objeto do que se deve pagar;
II - a importância exata a pagar; (Vide Medida Provisória nº 581, de 2012)
III - a quem se deve pagar a importância, para extinguir a obrigação.
§ 2º A liquidação da despesa por fornecimentos feitos ou serviços prestados
terá por base:
I - o contrato, ajuste ou acôrdo respectivo;
II - a nota de empenho;
III - os comprovantes da entrega de material ou da prestação efetiva do serviço.
Já a etapa final dos estágios da despesa é conhecida como pagamento. Essa
etapa está descrita conforme o artigo 64 da Lei 4.320/64. A ordem de paga-
mento é o despacho exarado por autoridade competente, determinando que a
despesa seja paga.
Você compreendeu todas as etapas da despesa e como elas devem ser obedeci-
das dentro do setor público. Agora você irá compreender outro importante tópico:
o de restos a pagar – e como eles devem ser reconhecidos dentro da CASP.

capítulo 3 • 66
Restos a pagar

O registro e a necessidade de reconhecimento dos Restos a Pagar estão apre-


sentados no artigo 36 da Lei 4.320/64 :
Art. 36. Consideram-se Restos a Pagar as despesas empenhadas mas não pagas
até o dia 31 de dezembro, distinguindo-se as processadas das não processadas.
Parágrafo único. Os empenhos que sorvem a conta de créditos com vigência
plurienal, que não tenham sido liquidados, só serão computados como Restos a
Pagar no último ano de vigência do crédito.
Com base na referida lei, é possível compreender que, uma vez que a despesa
for empenhada, e caso ela não seja paga até 31 de Dezembro, para efeitos do en-
cerramento do exercício financeiro, deverá ser reconhecida como Restos a Pagar.
O reconhecimento dessa condição também está de acordo com o previsto na Lei
4.320/64 em seu artigo 35. “Pertencem ao exercício financeiro: II – as despesas
dele legalmente empenhadas”. E esses valores devem onerar as dotações orçamen-
tárias daquele exercício.
Os Restos a Pagar são considerados como Despesas ExtraOrçamentárias, ou
seja, não integram o orçamento. Porém, esses valores devem integrar a programa-
ção financeira do exercício em curso. Esse caráter financeiro ocorre porque, do
ponto de vista orçamentário, a despesa deve ser liquidada e executada, e, por con-
sequência, deverá compor o valor da despesa realizada para efeitos de encerramen-
to do exercício. Dentro da classificação de Restos a Pagar, são reconhecidos dois
tipos distintos de registro: os Restos a Pagar Processados e os Não Processados.
No primeiro caso, o dos Restos a Pagar Processados, as despesas empenhadas
cujo empenho já foi recebido e a liquidação também foi devidamente reconheci-
da caracterizam-se como um compromisso público de efetuar o pagamento aos
fornecedores de bens e serviços. Nos Restos a Pagar Processados, houve tanto o
empenho quanto a liquidação.

EXEMPLO
Imagine uma despesa cujo empenho ocorreu em 10/10/2015 e cuja obrigação de exe-
cutar os serviços contratados é a de fazer uma determinada obra até 31/12/2015. No dia
12/12/2015, a obra é finalizada; assim, no dia 31/12/2015, é feita a conferência por parte
do órgão público em relação à conclusão dos serviços contratados. Nesse caso, a administra-

capítulo 3 • 67
ção pública deverá reconhecer o valor que deve à empresa contratada como Restos a Pagar
Processados, já que está faltando somente o pagamento por parte do Estado.

Já os Restos a Pagar Não Processados são relacionados a despesas que foram


legalmente empenhadas e que ainda não foram liquidadas até o último dia do ano
civil, ou seja, até 31 de Dezembro do mesmo exercício. Nesse caso, verifica-se que
não foram recebidos os bens ou serviços contratados mediante a emissão do em-
penho. Assim, esse tipo de Resto a Pagar é caracterizado pela existência somente
do empenho.

EXEMPLO
Para essa situação, é preciso imaginar a contratação de um serviço para um órgão pú-
blico cujo empenho ocorreu no dia 12/10/2015 e que tem como obrigação de entrega da
obra a data de 31/01/2016. No dia 31/12/2015, é feita a verificação, e os serviços con-
tratados ainda não foram concluídos. Assim, não pode ocorrer a etapa de liquidação nem a
de pagamento, e os valores devidos pelos serviços serão reconhecidos como Restos a Pagar
Não Processados.

Despesas de exercícios anteriores

As Despesas de Exercícios Anteriores (DEAs) são valores correspondentes a


autorizações que foram dadas na Lei Orçamentária e que são destinadas a atender
a compromissos gerados em exercícios anteriores conforme o próprio nome indi-
ca. As DEAs estão previstas segundo a lei 4.320/64:
Art. 37. As despesas de exercícios encerrados, para as quais o orçamento res-
pectivo consignava crédito próprio, com saldo suficiente para atendê-las, que não
se tenham processado na época própria, bem como os Restos a Pagar com prescri-
ção interrompida e os compromissos reconhecidos após o encerramento do exercí-
cio correspondente poderão ser pagos à conta de dotação específica consignada no
orçamento, discriminada por elementos, obedecida, sempre que possível, a ordem
cronológica. (Regulamento)

capítulo 3 • 68
As DEAs foram criadas com o objetivo maior de diminuir o estímulo dos
administradores públicos a solicitar as autorizações para a abertura de crédi-
tos adicionais.

Art. 40. São créditos adicionais as autorizações de despesa não computadas ou


insuficientemente dotadas na Lei de Orçamento.

Art. 41. Os créditos adicionais classificam-se em:


I - suplementares, os destinados a reforço de dotação orçamentária;
II - especiais, os destinados a despesas para as quais não haja dotação orçamen-
tária específica;
III - extraordinários, os destinados a despesas urgentes e imprevistas, em caso
de guerra, comoção intestina ou calamidade pública.

Art. 42. Os créditos suplementares e especiais serão autorizados por lei e aber-
tos por decreto executivo.

Aqui cabe lembrar que nem toda despesa empenhada em um determinado


ano foi nele gerada ou ainda constituída, o que torna possível que um empenho
esteja relacionado com compras de bens ou aquisição de serviços que ocorreram
em anos anteriores ao do empenho. Essa situação pode ocorrer, por exemplo,
quando do esquecimento do registro do empenho de uma determinada despesa.

Demonstrações contábeis no setor público

Assim como a Contabilidade Geral ou Financeira, a CASP também possui


Demonstrações Contábeis que devem ser obrigatoriamente elaboradas e apresen-
tadas. Mas você sabe quais são e como elas estão definidas dentro desse setor?
Conforme a Resolução CFC 1.133/2008, as Demonstrações Contábeis
Aplicadas ao Setor Público (DCASP) podem ser definidas como uma técnica con-
tábil que irá apresentar as informações sobre os resultados alcançados, em um
determinado período, de acordo com aspectos orçamentários, econômicos, finan-
ceiros e físicos do patrimônio daquelas entidades que formam o setor público.
Já a Resolução CFC 1.268/2009, que foi responsável por alterar a Resolução
CFC 1.133/2008 e por aprovar a Norma Brasileira de Contabilidade Aplicada ao

capítulo 3 • 69
Setor Público (NBC T 16.6), regulamentou as seguintes demonstrações contábeis
como obrigatórias para esse setor:

•  Balanço Patrimonial;
•  Balanço Orçamentário;
•  Balanço Financeiro;
•  Demonstração das Variações Patrimoniais;
•  Demonstração do Fluxo de Caixa;
•  Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL).

Um dado importante é que, de acordo com a Portaria/STN 438, de 2012,


houve algumas alterações na Lei 4.320/64, e uma delas foi a exclusão da obri-
gatoriedade de apresentação do Anexo 20, que representa a Demonstração do
Resultado Econômico. Nessa mesma portaria, foi estabelecido que o Anexo 19
está relacionado à Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMLP)
e exige que ela seja apresentada pelas estatais dependentes, além daqueles que as
incorporem na consolidação de contas.
Antes de elaborar as demonstrações propriamente ditas, é preciso obedecer a
uma série de procedimentos que começam com a escrituração contábil e cujo pro-
duto será o Balancete de Verificação, que, de acordo com Kohama (2013), pode
ser definido como um balanço parcial de uma escrituração contábil. É uma peça
em que se expõe, na forma de equação, tanto as contas devedoras quanto credoras,
de forma organizada, e que refletem informações administrativas ou verificações
contábeis.
Não se esqueça de que a sistemática utilizada no setor público é diferente da-
quela usada no setor privado, o que influencia, principalmente, a forma como são
registradas as informações. Essa diferença aparece no uso dos subsistemas contábeis:

•  Subsistema orçamentário - onde são registrados o planejamento e a exe-


cução orçamentária. Esse subsistema é representado por contas que registram a
aprovação, a execução do planejamento e do orçamento;
•  Subsistema patrimonial – possui relação com as variações do sistema públi-
co, permitindo que sejam geradas informações para alterações no sistema patrimo-
nial, resultado econômico e nominal;

capítulo 3 • 70
•  Subsistema de compensação – relacionado aos atos que possam produzir
alguma modificação no patrimônio público. Além disso, serve para o registro de
funções específicas de controle;
•  Subsistema de custos – fornece dados de apoio à gestão e utiliza informações
extraídas de diferentes sistemas. Esse subsistema visa, por meio do seu banco de da-
dos de informações, a subsidiar decisões do governo para uma alocação mais eficien-
te dos recursos públicos e também para a melhoria na qualidade dos gastos públicos.

LINK
Para compreender melhor o Subsistema de Custos, acesse o link a seguir e conheça
o Sistema de Informações de Custos do Governo Federal (SIC) e como ele, atualmente, é
utilizado na CASP.
http://www3.tesouro.fazenda.gov.br/Sistema_Informacao_custos/apresentacao.asp

Agora que você já compreendeu que a informação contábil no setor público


deve passar por diferentes subsistemas, é preciso compreender o que esses registros
gerarão, ou seja, quais demonstrações contábeis haverá e como elas se apresentam.

Balanço orçamentário

Segundo a Lei 4.320/64, o Balanço Orçamentário apresentará as seguintes


informações: “Art. 102. O Balanço Orçamentário demonstrará as receitas e despe-
sas previstas em confronto com as realizadas”. Essa demonstração também deverá
apresentar as receitas e despesas orçamentárias por categoria econômica, o con-
fronto do orçamento inicial, suas alterações e a execução.
O Balanço Patrimonial também deverá demonstrar o resultado orçamentário,
assim como a discriminação das receitas de acordo com a espécie, e as despesas
devem ser apresentadas por grupo e natureza. Assim, segue a primeira parte da
demonstração relacionada com as receitas.

capítulo 3 • 71
1ª. parte – Receita Orçamentária

ENTE DA FEDERAÇÃO
BALANÇO ORÇAMENTÁRIO
ORÇAMENTOS FISCAL E DA SEGURIDADE SOCIAL
PREVISÃO RECEITAS
RECEITA PREVISÃO SALDO
ATUALIZADA REALIZADAS
ORÇAMENTÁRIA INICIAL C=B–A
(A) (B)
RECEITA CORRENTE
(I)
RECEITA DE CAPITAL
(II)
RECURSOS ARRECA-
DADOS EM EXERCÍ-
CIOS ANTERIORES
(III)

REFINANCIAMENTO

SUBTOTAL COM
REFINANCIAMENTO
(VI) = (IV+V)

DÉFICIT (VII)

TOTAL (VIII) = (VI +


VII)
SALDO DE EXERC.
ANTERIORES (UTI-
LIZADO P/CRÉD.
ADICIONAIS)
SUPERÁVIT FINAN-
CEIRO REABERTU-
RA DE CRÉDITOS
ADICIONAIS

TOTAIS

Balanço Orçamentário resumido – Parte 1

Fonte: Adaptado de MCASP (2015)

capítulo 3 • 72
Agora vamos à segunda parte da demonstração relacionada com as despesas
do setor público:

2ª. parte – Despesa Orçamentária

Balanço Orçamentário resumido – Parte 2

Fonte: Adaptado de MCASP (2015)

capítulo 3 • 73
Além dessas informações, conforme afirma o MCASP (2015), deverão tam-
bém ser apresentados os quadros de Execução de Restos a Pagar Processados e
Não Processados.

LINK
No Manual de Contabilidade Aplicado ao Setor Público, você poderá conhecer melhor
as Demonstrações Contábeis, seus detalhes e anexos, além de compreender a importância
delas para o processo de geração da informação contábil no setor público.
https://goo.gl/xjYTge

Balanço financeiro

O Balanço Financeiro será o responsável por evidenciar as receitas e as despe-


sas orçamentárias, além dos ingressos e dispêndios extraorçamentários conjugados
com os saldos de caixa do exercício anterior e os que serão transferidos para o
exercício seguinte.
Segundo aponta o MCASP (2015), o Balanço Financeiro possibilitará a apre-
sentação do resultado financeiro do período, sendo que esse cálculo, conforme
aponta o próprio Manual, pode ser feito de duas formas:

MODO 1
SALDO EM ESPÉCIE PARA O EXERCÍCIO SEGUINTE
(-) SALDO EM ESPÉCIE DO EXERCÍCIO ANTERIOR
= RESULTADO FINANCEIRO DO EXERCÍCIO

MODO 2
RECEITAS ORÇAMENTÁRIAS

(+) TRANSFERÊNCIAS FINANCEIRAS RECEBIDAS

(+) RECEBIMENTOS EXTRAORÇAMENTÁRIOS

capítulo 3 • 74
(-) DESPESA ORÇAMENTÁRIA
(-) TRANSFERÊNCIAS FINANCEIRAS CONCEDIDAS
(-) PAGAMENTOS EXTRAORÇAMENTÁRIOS
= RESULTADO FINANCEIRO DO EXERCÍCIO

O resultado financeiro do exercício apresentado no Balanço Financeiro não


deve ser confundido com o superávit ou déficit financeiro do Exercício que é apu-
rado no Balanço Patrimonial (MCASP, 2015). Segundo o Manual,
Em geral, um resultado financeiro positivo é um indicador de equilíbrio fi-
nanceiro. No entanto, uma variação positiva na disponibilidade do período não é
sinônimo, necessariamente, de bom desempenho da gestão financeira, pois pode
decorrer, por exemplo, da elevação do endividamento público. Da mesma forma,
a variação negativa não significa, necessariamente, um mau desempenho, pois
pode decorrer de uma redução no endividamento. Portanto, a análise deve ser feita
conjuntamente com o Balanço Patrimonial, considerando os fatores menciona-
dos e as demais variáveis orçamentárias e extraorçamentárias. A discriminação por
fonte/destinação de recurso permite evidenciar a origem e a aplicação dos recursos
financeiros referentes à receita e despesa orçamentárias (MCASP, 2015, p. 320).

capítulo 3 • 75
A seguir, a estrutura do Balanço Financeiro:

ENTE DA FEDERAÇÃO
BALANÇO FINANCEIRO
EXERCÍCIO 20XX

INGRESSOS
EXERCÍCIO EXERCÍCIO
NOTA ATUAL ANTERIOR

RECEITA ORÇAMENTÁRIA (I)


ORDINÁRIA
VINCULADA
RECURSOS VINCULADOS À EDUCAÇÃO
RECURSOS VINCULADOS À SAÚDE
RECURSOS VINCULADOS À PREVIDÊNCIA
SOCIAL – RPPS
RECURSOS VINCULADOS À PREVIDÊNCIA
SOCIAL – RGPS
RECURSOS VINCULADOS À SEGURIDADE
SOCIAL
(...)
OUTRAS DESTINAÇÕES DE RECURSOS

TRANSFERÊNCIAS FINANCEIRAS RECE-


BIDAS (II) TRANSFERÊNCIAS RECEBIDAS
PARA A EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA
TRANSFERÊNCIAS RECEBIDAS INDEPEN-
DENTES DE EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA
TRANSFERÊNCIAS RECEBIDAS PARA
APORTES DE RECURSOS PARA O RPPS
TRANSFERÊNCIAS RECEBIDAS PARA
APORTES DE RECURSOS PARA O RGPS

RECURSOS ARRECADADOS EM EXERCÍ-


CIOS ANTERIORES (III)

capítulo 3 • 76
RECEBIMENTOS EXTRAORÇAMENTÁRIOS
(III)
INSCRIÇÃO DE RESTOS A PAGAR NÃO
PROCESSADOS INSCRIÇÃO DE RES-
TOS A PAGAR PROCESSADOS DEPÓ-
SITOS RESTITUÍVEIS E VALORES VIN-
CULADOS OUTROS RECEBIMENTOS
EXTRAORÇAMENTÁRIOS

SALDO DO EXERCÍCIO ANTERIOR (IV)


CAIXA E EQUIVALENTES DE CAIXA
DEPÓSITOS RESTITUÍVEIS E VALORES
VINCULADOS

TOTAL (V) = (I + II + III + IV)

Balanço Financeiro - Receitas

Fonte: Adaptado de MCASP (2015)

A seguir, apresenta-se a parte de dispêndios do Balanço Financeiro:

ENTE DA FEDERAÇÃO
BALANÇO FINANCEIRO
EXERCÍCIO 20XX

DISPÊNDIOS
EXERCÍCIO EXERCÍCIO
NOTA ATUAL ANTERIOR
DESPESA ORÇAMENTÁRIA (VI)
ORDINÁRIA
VINCULADA
RECURSOS DESTINADOS À EDUCAÇÃO
RECURSOS DESTINADOS À SAÚDE
RECURSOS DESTINADOS À PREVIDÊNCIA
SOCIAL – RPPS
RECURSOS DESTINADOS À PREVIDÊNCIA
SOCIAL –

capítulo 3 • 77
RGPS
RECURSOS DESTINADOS À SEGURIDADE
SOCIAL
(…)
OUTRAS DESTINAÇÕES DE RECURSOS

TRANSFERÊNCIAS FINANCEIRAS CONCE-


DIDAS (VII) TRANSFERÊNCIAS CONCEDI-
DAS PARA A EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA
TRANSFERÊNCIAS CONCEDIDAS INDE-
PENDENTES DE EXECUÇÃO ORÇAMEN-
TÁRIA
TRANSFERÊNCIAS CONCEDIDAS PARA
APORTES DE RECURSOS PARA O RPPS
TRANSFERÊNCIAS CONCEDIDAS PARA
APORTES DE RECURSOS PARA O RGPS

PAGAMENTOS EXTRAORÇAMENTÁRIOS
(VIII) PAGAMENTOS DE RESTOS A PAGAR
NÃO PROCESSADOS
PAGAMENTOS DE RESTOS A PAGAR PRO-
CESSADOS DEPÓSITOS RESTITUÍVEIS E
VALORES VINCULADOS OUTROS PAGA-
MENTOS EXTRAORÇAMENTÁRIOS

SALDO PARA O EXERCÍCIO SEGUINTE (IX)


CAIXA E EQUIVALENTES DE CAIXA
DEPÓSITOS RESTITUÍVEIS E VALORES
VINCULADOS

TOTAL (X) = (VI + VII + VIII + IX)

Balanço Financeiro - Receitas

Agora vamos compreender como está configurado o Balanço Patrimonial.

Balanço patrimonial

Assim como na Contabilidade Financeira, o Balanço Patrimonial dentro da


CASP tem como função evidenciar tanto de forma quantitativa quanto qualitativa

capítulo 3 • 78
a situação patrimonial de uma determinada entidade. A sua estrutura pode ser
visualizada a seguir:

capítulo 3 • 79
ENTE DA FEDERAÇÃO
QUADRO DOS ATIVOS E PASSIVOS FINANCEIROS E PERMANENTES
(LEI Nº 4.320/1964)

EXERCÍCIO EXERCÍCIO
ATUAL ANTERIOR
ATIVO (I)
ATIVO FINANCEIRO
ATIVO PERMANENTE
TOTAL DO ATIVO

PASSIVO (II)
PASSIVO FINANCEIRO
PASSIVO PERMANENTE
TOTAL DO PASSIVO

SALDO PATRIMONIAL (III) = (I – II)

LINK
Existe ainda o quadro de Compensações e também o Quadro do Superávit/Déficit Fi-
nanceiro, que pode ser conhecido conforme o MCASP.
https://goo.gl/xjYTge

Demonstração das variações patrimoniais

A Demonstração das Variações Patrimoniais (DVP) apresenta variações tanto


quantitativas quanto o Resultado Patrimonial e as Variações Quantitativas ligadas
à execução orçamentária. A DVP está representada no Anexo 15 da Lei 4.320/64.

capítulo 3 • 80
Demonstração dos fluxos de caixa

A Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) permite a análise da capacidade


da empresa de geração de fluxo de caixa e equivalentes, assim como a utilização
de recursos próprios e de terceiros (MCASP, 2015). Segundo o Manual, essa de-
monstração é composta por:

a. Quadro Principal;
b. Quadro de Receitas Derivadas e Originárias;
c. Quadro de Transferências Recebidas e Concedidas;
d. Quadro de Desembolsos de Pessoal e Demais Despesas por Função;
e. Quadro de Juros e Encargos da Dívida.
No setor público, além das disponibilidades, o Fluxo de caixa auxilia na ques-
tão da transparência, já que ela permite o gerenciamento e o controle financeiros
de diferentes órgãos do governo.

capítulo 3 • 81
capítulo 3 • 82
Demonstração das mutações do patrimônio líquido

De acordo com Rosa (2013), a Demonstração das Mutações do Patrimônio


Líquido (DMPL) busca evidenciar as mutações reconhecidas no Patrimônio
Líquido das entidades públicas e também reconhecer efeitos decorrentes de mu-
danças de critérios contábeis, bem como de retificação de erros de exercícios ante-
riores, entre outras informações.

LINK
A DVP pode ser mais bem compreendida na Sétima Parte do MCASP, já que ela possui
diversos detalhes representados por linhas e colunas.
https://goo.gl/xjYTge

ATIVIDADES
1. Quando um determinado serviço ou produto é adquirido pelo setor público, qual é a
etapa caracterizada pela saída efetiva de dinheiro do erário público?

a) Fixação
b) Empenho
c) Liquidação
d) Pagamento
e) Recebimento

Letra D – Pagamento - Já a etapa final dos estágios da despesa é conhecida como


pagamento. Essa etapa está descrita conforme o artigo 64 da Lei 4.320/64. “Art. 64. A
ordem de pagamento é o despacho exarado por autoridade competente, determinando que
a despesa seja paga.”

capítulo 3 • 83
2. Que subsistema é responsável por apresentar a previsão da receita bem como a fixa-
ção da despesa e alterações decorrentes da abertura de créditos adicionais?

a) Financeiro
b) Patrimonial
c) Orçamentário
d) De Compensação
e) De custos

Letra C - Subsistema orçamentário: onde são registrados o planejamento e a execução


orçamentária. Esse subsistema é representado por contas que registram a aprovação e a
execução do planejamento e do orçamento. Assim, a previsão da receita e a fixação da des-
pesa também farão parte dele.

3. O balanço patrimonial, que é uma das demonstrações obrigatórias dentro da CASP, irá
apresentar que tipo de situação?

a) De forma quantitativa somente, a situação patrimonial


b) De forma quantitativa e qualitativa, a situação patrimonial
c) De forma qualitativa somente, a situação econômica
d) De forma quantitativa e qualitativa, a situação líquida
e) De forma orçamentária, a situação financeira

Letra B – O Balanço Patrimonial irá demonstrar de forma quantitativa e qualitativa a


situação patrimonial.

ESTUDO DE CASO
Vamos supor que você seja o auditor que irá verificar as Demonstrações Contábeis de uma
determinada prefeitura do interior do seu Estado. Porém, como você ainda está no início da car-
reira e ainda não tem muita experiência, surgem algumas dúvidas. Assim, a primeira demons-
tração a ser verificada, justamente pela semelhança com o setor privado e com o que você já
viu na faculdade, é o Balanço Patrimonial. No balanço, você compreende que são apresentados
os fluxos de disponibilidades da prefeitura em questão. Mas que outras demonstrações você irá
encontrar dentro do setor público e que tipo de informação elas apresentarão?

capítulo 3 • 84
O Balanço Orçamentário apresentará as informações de natureza orçamentária devi-
damente registradas no Subsistema de Compensação. Além disso, será elaborado e apre-
sentado o Balanço Financeiro, que será responsável pela apresentação das Receitas e Des-
pesas Orçamentárias bem como toda a parte de dispêndios envolvidos com o orçamento.
Além disso, será apresentada a Demonstração das Variações Patrimoniais, que representa
informações tanto de origem quantitativa quanto qualitativa, o resultado patrimonial e outras
variações decorrentes da execução orçamentária. Por fim, outras duas demonstrações com-
pletam esse sistema de informações: a Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido e
a Demonstração do Fluxo de Caixa, ambas responsáveis por apresentar as modificações no
Patrimônio Líquido das entidades públicas e seu fluxo de entradas e saídas respectivamente.

REFLEXÃO
Neste capítulo, você pôde conhecer como funciona a parte relacionada às despesas dentro
do orçamento público, ou seja, seus diferentes tipos, funções e também estágios. Será que
dentro do seu próprio orçamento isso também é possível? Criar diferentes categorias, ter prazo
para o recebimento do bem ou serviço e também para o desembolso efetivo dos valores.
Também foi possível compreender por que existe a figura tanto de Restos a Pagar
quanto a de Despesas de Exercícios Anteriores, além da importância desses conceitos para
a CASP e o entendimento de como funcionam as operações contábeis.
Por fim, você conheceu um pouco mais sobre as demonstrações contábeis aplicadas
ao setor público e a importância delas para o fornecimento de informações para os diferen-
tes interessados que a CASP possui.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
______. Lei nº 4.320, de 17 de Março de 1964. Disponível em: http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/leis/l4320.htm. Acesso em: 22/08/2016.
______.. Lei Complementar nº 101, de 4 de Maio de 2000. Disponível em: http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp101.htm. Acesso em 22/08/2016.
______. Manual de Contabilidade Aplicado ao Setor Público (PCASP). Disponível em:
https://goo.gl/xjYTge. Acesso em: 23/08/2016.

capítulo 3 • 85
_____. Resolução 1.133/2008. Disponível em: http://www2.cfc.org.br/sisweb/sre/deta-
lhes_sre.aspx?Codigo=2008/001133. Acesso em: 22/8/2016.
_____. Resolução 1.268/2009. Disponível em: http://www3.tesouro.gov.br/contabilida-
de_governamental/download/RES_1268.pdf. Acesso em: 29/09/2016.
KOHAMA, H. Contabilidade pública: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2013.

capítulo 3 • 86
4
Sistema integrado
de administração
financeira do
governo federal
(SIAFI) e gestão
patrimonial
Sistema integrado de administração
financeira do governo federal (SIAFI)
e gestão patrimonial

Introdução

Neste capítulo, você irá compreender o que é o Sistema Integrado de


Administração Financeira do Governo Federal (SIAFI) e como ele é utilizado den-
tro do setor público no Brasil.
Também será possível compreender as suas formas de acesso e os tipos de
documentos utilizados para o registro dos eventos que irão representar tanto atos
quanto fatos administrativos.
Posteriormente, será compreendida a gestão patrimonial dos bens públicos
e como ela está pautada em princípios e normas relativas à gestão pública. Outro
tópico abordado é relativo à distinção dos bens públicos e como eles são devida-
mente caracterizados na Administração Pública.

OBJETIVOS
•  Conhecer e compreender o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo
Federal (SIAFI);
•  Entender as principais características, objetivos e formas de acesso do SIAFI;
•  Estudar o controle patrimonial e a gestão de bens públicos;
•  Compreender os princípios e normas de controle patrimonial utilizados no setor público

SIAFI

Neste tópico, você vai compreender o que é o SIAFI e quais foram os fatores que
motivaram a sua implementação no país, além dos seus objetivos e características.
No Brasil, o processo de redemocratização do Estado ocorreu por volta dos
anos 1980. Esse fato fez com que a transparência administrativa dos governos as-
sumisse um papel de destaque em relação à nova estrutura do Estado apresentada
(VALENTE, DUMONT, 2003).

capítulo 4 • 88
De acordo com as autoras, mesmo com diferentes medidas, as transações do
setor público ainda carecem dessa transparência exigida – e, de forma específica, o
orçamento público ainda tem restrições em relação ao seu conteúdo. Ainda dentro
desse contexto, o Orçamento Geral da União (OGU) ainda é uma peça orçamen-
tária distante do público em geral, sendo limitado pelos conhecimentos técnicos
necessários para sua interpretação e também pelo uso de um sistema específico,
o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (SIAFI).
Para compreender esse sistema, é preciso, antes de mais nada, compreender
como o orçamento público funcionava e funciona no Brasil, e como as mudan-
ças tecnológicas e de entendimento do orçamento possibilitaram sua criação e
o uso dele.
Dentro da questão de elaboração e execução orçamentária no Brasil, a par-
ticipação do Poder Legislativo ainda gera muita polêmica. Somente a partir da
Constituição de 1988 é que o Congresso recebeu uma maior importância nesse
processo. Entretanto, conforme apontam Valente e Dumont (2003), ainda existe
muito espaço para melhoria desse processo. Mas como foi iniciado esse processo
até o modelo que temos nos dias atuais?
Em 1824, com a promulgação da Constituição Imperial, já era prevista uma
autorização de gastos a ser votada pelo Parlamento. Já em 1934, durante o governo
Getúlio Vargas, a elaboração do orçamento era prerrogativa do Executivo, mas
com necessidade de submissão à votação pelo Legislativo, que poderia apresentar
emendas (VALENTE, DUMONT, 2003). Em 1937, o Parlamento perde suas
prerrogativas, e o orçamento volta para o Executivo, responsável por sua elabora-
ção e aprovação por decreto.
O ano de 1946 é marcado pela volta à discussão e aprovação pelo Legislativo,
porém, como o número de emendas era ilimitado, o processo ficava bastante pre-
judicado e era quase impossível de ser concluído. Valente e Dumont relatam que,
no ano de 1959, foram feitas 8.572 emendas, enquanto no ano de 1963 foram
executadas 100.000 emendas ao orçamento. É nesse contexto bastante contur-
bado que nasce a Lei 4.320/64, que apresentava, entre outras prerrogativas, uma
limitação ao número de emendas, o que é utilizado até os dias atuais. Assim, se-
gundo essa legislação, observa-se que:
Art. 33. Não se admitirão emendas ao projeto de Lei de Orçamento que visem a:

a) alterar a dotação solicitada para despesa de custeio, salvo quando provada,


nesse ponto, a inexatidão da proposta;

capítulo 4 • 89
b) conceder dotação para o início de obra cujo projeto não esteja aprovado
pelos órgãos competentes;
c) conceder dotação para instalação ou funcionamento de serviço que não
esteja anteriormente criado;
d) conceder dotação superior aos quantitativos previamente fixados em reso-
lução do Poder Legislativo para concessão de auxílios e subvenções.

Na sequência, mais especificamente no ano de 1964, com o Golpe Militar


ocorrido no Brasil, foi estabelecida uma ditadura e, novamente, uma centralização
das decisões políticas no Estado. Nesse período, o Legislativo limitava-se a restrin-
gir a homologação ou rejeitar de forma integral o projeto da Lei Orçamentária, o
que significava que não havia negociação ou discussão sobre esse orçamento.
A restrição da participação do Congresso na Lei Orçamentária anual foi for-
malizada por meio da Emenda 01/1969 feita na Constituição de 1967. De acordo
com Valente e Dumont, essa emenda era utilizada muito mais como uma forma
de política do que como controle restritivo ao número de emendas.
A emenda restringia a participação do Congresso através dos chamados “aden-
dos” ou “anexos” das dotações globais ou genéricas, ainda assim apenas através de
acordo político prévio. Era objeto desses acordos uma parte das dotações orça-
mentárias destinada às chamadas subvenções sociais para entidades privadas sem
fins lucrativos, registradas no Conselho Nacional do Serviço Social do Ministério
da Ação Social. Através dos acordos, o Executivo incluía indicação dos parla-
mentares. Com todas as decisões concentradas nas mãos do Executivo, e com
as funções esvaziadas, o Congresso perde suas prerrogativas de controle sobre o
Executivo e passa a assumir caráter apenas legitimador institucional, mantendo,
apenas formalmente, a divisão entre os Três Poderes, como uma tentativa de busca
do equilíbrio institucional pela ditadura (VALENTE, DUMONT, 2003, p. 52).
O ano de 1969 foi ainda mais duro em relação à participação do Legislativo,
já que a edição da Emenda 01/69, que foi elaborada no período mais duro da dita-
dura, cassou os direitos políticos e imobilizou as ações do Legislativo (VALENTE,
DUMONT, 2003).
Já em 1988, com a promulgação da nova Constituição Federal, houve uma
proposta de ampliação do papel do Congresso no orçamento. Nesse período, o
Legislativo volta a ter o direito de apresentar emendas, porém precisa obedecer
aos parâmetros da Lei 4.320/64. Nesse mesmo ano, é criada a Comissão Mista
do Orçamento que tem como objetivo principal tratar a matéria orçamentária.

capítulo 4 • 90
Outra novidade foi o estabelecimento de mecanismos mais elaborados de controle
e fiscalização.
Valente e Dumont (2003) observam que, ainda que o Congresso tenha am-
pliado as suas prerrogativas, o Executivo ainda segue em um papel monopolizador,
principalmente quando o assunto é a elaboração do orçamento de forma propria-
mente dita. Mas por que isso ocorre?
Vários são os motivos dessa dificuldade de incluir o Legislativo de forma inte-
gral na elaboração do orçamento, mas uma das críticas existentes é a dificuldade
técnica dos membros do Congresso em relação à matéria orçamentária, o que
torna a elaboração mais morosa e difícil.
Porém, esse acompanhamento se mostra muito relevante, e um dos fatos que
ilustra essa situação ocorreu em outubro de 1993 com a criação da Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar denúncias de irregulari-
dades tanto na elaboração quanto na execução orçamentária.
A partir das denúncias apresentadas pelo ex-funcionário do Senado – primeiro
feitas na imprensa e depois confirmadas em depoimento à CPMI – indicou-se a
existência de dois esquemas de corrupção: um ligado às empreiteiras e outro à
distribuição das verbas de subvenção social. Como o processo de elaboração do or-
çamento era bastante restrito e o assunto tratado como uma especialidade comple-
xa de compreensão restrita a poucos especialistas, um grupo de parlamentares se
beneficiou dessa situação para incluir emendas de interesse pessoal. Vale lembrar
que, quando José Carlos Alves dos Santos ingressou no Senado como funcionário
concursado, ele era o único economista contratado pela Casa para acompanha-
mento do Orçamento (VALENTE, DUMONT, 2003, p.54).
Tanto os resultados quanto a repercussão desse caso mostraram uma necessi-
dade crescente da criação de mecanismos que pudessem evitar a corrupção dentro
da Comissão Mista de Orçamento. Assim, nessa época fica evidente que a publi-
cidade, relacionada com a transparência do processo orçamentário, era inevitável.
Dessa forma, era urgente a descentralização da informação e também o refor-
ço de mecanismos que pudessem favorecer a disseminação de informações sobre
o processo orçamentário (VALENTE, DUMONT, 2003). Mas para que foi ne-
cessário entender esse contexto histórico e político? Na sequência, você vai com-
preender melhor como o SIAFI surgiu e supriu essa necessidade cada vez maior de
transparência e de geração de informações no setor público.
Até o ano de 1986 não existia dentro do contexto público um mecanismo
que fosse responsável por unificar e centralizar o orçamento público. Assim, com

capítulo 4 • 91
a implementação do SIAFI, em 1987, foi possível contornar diversos problemas
existentes na administração pública. Entre eles:

•  Métodos rudimentares e também inadequados para realização dos traba-


lhos, o que podia gerar, em muitos casos, a necessidade de registro manual de
dados orçamentários;
•  Devido aos lançamentos manuais, também existia a falta de informações
gerenciais em todos os níveis da Administração Pública, o que levava a contabi-
lidade a ser encarada como um mero instrumento de registro, e não como uma
poderosa ferramenta;
•  A contabilidade tinha uma grande defasagem de lançamentos, chegando
até a 45 dias entre o encerramento de um determinado mês e o levantamento
das informações, o que fazia com que elas não pudessem ser utilizadas para fins
gerenciais;
•  Com uma grande diversidade de fontes de informação e também de in-
terpretação, existia uma grande inconsistência de dados, o que comprometia
o resultado;
•  Desconhecimento técnico por boa parte das equipes de funcionalismo pú-
blico que não utilizavam modernas técnicas de gestão e não davam a importância
necessária aos dados contábeis;
•  Falta de mecanismos adequados de controle e que permitissem que fossem
enviados desvios, além da má utilização do dinheiro público;
•  Com a criação de contas únicas para cada despesa do orçamento público,
além das dificuldades no controle existia a possibilidade da má utilização dos re-
cursos públicos em função da dificuldade de se controlar tais disponibilidades.
• 
Nesse contexto, o SIAFI pode ser entendido como um sistema informatizado
utilizado na contabilização e controle da execução orçamentária da União.
Com a utilização de terminais, os variados usuários do SIAFI, os diferen-
tes usuários das Unidades Gestoras (UG) que fazem parte do sistema, poderão
realizar o registro e também a consulta sobre a execução orçamentária e finan-
ceira da União. Nesta aula, você irá compreender melhor como funciona esse
sistema, quais são as suas principais características e objetivos, formas de acesso
e funcionalidades.

capítulo 4 • 92
Conceito, objetivos e características

Como você já viu, o SIAFI é um sistema informatizado do governo criado


pelo Governo federal com o intuito maior de auxiliar na modernização das fi-
nanças públicas. Além disso, visou à integração contábil de diferentes órgãos e
esferas do governo e também está intimamente relacionado com a programação
financeira da União.
Uma das premissas básicas para o funcionamento do SIAFI é o reconhecimen-
to, por meio da contabilização, de todos os atos e fatos praticados por gestores
públicos que, de alguma forma, alterem o patrimônio público.

EXEMPLO
Caso uma determinada Unidade Gestora precise fazer a contratação de algum serviço,
ela terá de fazer, primeiramente, uma verificação no sistema para comprovar que existem
créditos orçamentários com dotação suficiente para a execução do orçamento. Para que
ocorra essa execução, será necessária a autorização do ordenador de despesa. Na sequên-
cia, será necessário dar entrada na nota de empenho que está no SIAFI. Dessa forma, tanto
o ato administrativo originado pela contratação da pessoa jurídica, que será responsável pela
prestação de serviços, quanto o fato contábil relacionado à prestação de serviço de forma
efetiva estarão registrados no SIAFI.

É importante que você saiba que o SIAFI não é responsável pela elaboração
do orçamento: somente ocorre a execução dele e também a emissão de relatórios
para fins gerenciais.
No ano de 2009, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG)
iniciou no Brasil a implantação de um novo sistema. O Sistema Integrado de
Planejamento e Orçamento (SIOP) foi implementado com a intenção de raciona-
lizar o processo de elaboração do projeto do PPA e também do Orçamento Anual.
Nesse contexto, os objetivos do SIAFI podem ser vistos a seguir:

•  Possibilitar mecanismos adequados para que seja realizado o contro-


le da execução orçamentária, financeira e patrimonial de diferentes órgãos da
Administração Pública, promovendo a transparência;
•  Elaboração de diferentes formas de agilizar a programação financeira, oti-
mizando os recursos depositados na conta única do Tesouro Nacional;

capítulo 4 • 93
•  Utilização das informações da Contabilidade Pública como fonte segura e em
tempo real das informações que gerencia de diferentes instituições do setor público;
•  Padronização de métodos e rotinas de trabalho relacionados à gestão de
recursos públicos;
•  Registro contábil de balancetes das diferentes unidades administrativas da
Administração Pública;
•  Integrar e contabilizar as informações nas diferentes esferas do governo;
•  Permitir o acompanhamento e avaliação do uso dos recursos públicos.

De acordo com Valente e Dumont (2003, p.58),


A implantação do SIAFI permitiu aperfeiçoar as condições de controle inter-
no do Executivo. A apropriação desse mecanismo pelo Legislativo transformou-o
num instrumento de referência para controle externo. Um dos principais ganhos
foi a possibilidade de acompanhamento da execução em tempo real, de modo que
os parlamentares reduziram a dependência de publicação periódica dos balancetes
e prestações de contas, ou mesmo solicitação oficial de informações para obter
dados necessários ao acompanhamento da aplicação de determinadas rubricas.
Assim, pode-se dizer que o SIAFI tem uma função estratégica para possibilitar
o aumento frequente na transparência tão necessária dentro do setor público.

Formas de acesso

As formas de acesso estão relacionadas às transações que o servidor poderá


consultar ou executar no sistema. E elas são divididas em nove diferentes níveis de
acesso, de acordo com o SIAFI (2016):

Nível 1 – Acesso dos dados da unidade em que o servidor está cadastrado;


Nível 2 – Acesso aos dados da unidade em que o servidor está cadastrado e da
UG “off-line” pelas quais são realizadas as entradas de dados;
Nível 3 – Acesso aos dados de qualquer UG que pertença ao mesmo Ministério,
Órgão ou Entidade daquela em que o servidor está registrado;
Nível 4 – Acesso aos dados de qualquer UG das quais a UG do operador seja
setorial de contabilidade, auditoria ou orçamento;
Nível 5 – Acessa os dados de qualquer UG que pertença ao mesmo Ministério
e também os dados de qualquer UG que pertença às entidades vinculadas a
esse Ministério;

capítulo 4 • 94
Nível 6 – Acessa dados de qualquer UG que pertença à mesma UF da UG
do usuário;
Nível 7 – Acesso aos dados das UG que fazem parte da tabela de vinculação
da UG do usuário;
Nível 8 – Acesso aos dados de um determinado Estado da Federação;
Nível 9 – Acessa os dados de qualquer UG, Ministério, órgão ou Entidade.
Esse é o nível mais completo.

LINK
No link a seguir, além de um maior detalhamento dos diferentes níveis de acesso do SIA-
FI, você também poderá conhecer os formulários necessários para o cadastro dos servidores
no sistema. Também podem ser acessados outros detalhes e informações sobre o SIAFI:
http://www.tesouro.fazenda.gov.br/pt_PT/cadastro-e-habilitacao.

As formas de acesso também estão relacionadas com os tipos de documentos


que podem ser inseridos ou consultados e se o servidor poderá fazer o acesso de
maneira online ou off-line. Conforme afirma Carvalho (2010):
On-line: Empenhos e apropriações de despesas, pagamentos e reembolsos.
Nessa modalidade, tanto os documentos orçamentários quanto os financeiros
são emitidos, seja na entrada ou na saída, pelo próprio sistema. Entre eles, estão:
DARF, Nota de Empenho, Nota de Sistema, Ordem Bancária, GPS. Os valores
relacionados com essas transações serão devidamente reconhecidos em uma conta
única do Tesouro Nacional;
Off-line: Nessa modalidade, a inserção dos dados ocorre, de acordo com a
própria STN, com a utilização das unidades conhecidas como Polo de Digitação.
Esses polos são unidades gestoras que introduzem os dados contábeis, orçamen-
tários e financeiros das UG que não compõe o saldo da conta única do Tesouro.
Esses valores serão individualizados em conta corrente bancária.
Para que esses registros possam ser reconhecidos, é necessária a criação de um
Evento. Mas o que seria isso? O Evento é a forma que possibilita que os servidores
insiram dados e possam executar a contabilidade pública de forma padronizada em
todo o território nacional. Eles permitem a padronização, o que evita disparidades,
erros ou enganos na hora de efetuar os registros, facilitando, assim, o reconhecimento
das transações e a consolidação das contas nacionais. A seguir, é possível compreender
como funciona a codificação do evento conforme apresenta o SIAFI (2015a).

capítulo 4 • 95
Tabela 1 – Códigos de eventos. Fonte: SIAFI (2015a)

De acordo com Carvalho (2010), a tabela de eventos surgiu com o principal


objetivo de substituir a forma usual de apresentação do plano de contas. O SIAFI
somente fará a validação de documentos de entrada de dados, relacionados aos re-
gistros contábeis, se eles apresentarem, com os eventos que completem, o método
das partidas dobradas.
A seguir, é possível compreender quais são as classes dos eventos detalhadas no
SIAFI e que situações eles representam:

Tabela 2 – Classe dos eventos. Fonte: SIAFI (2015a)

De acordo com a tabela 2, pode-se compreender alguns dos eventos que estão
disponíveis no SIAFI para registro das transações envolvendo o setor público.

capítulo 4 • 96
LINK
Na página 2, Tópico 3 – Fundamentos Lógicos, você pode compreender como é feito
o preenchimento do SIAFI pelos servidores de diferentes UGs quando fazem o registro de
algum evento ocorrido.
http://www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/360403/TABELA+DE+EVEN-
TOS+abril+2015.pdf/9f0a1401-8538-4311-8bdd-4c91db73bedd

Dentro do sistema público brasileiro, com a utilização de uma tabela de even-


tos, tanto os atos quanto os fatos administrativos serão padronizados. Essa tabela
deverá ser utilizada como um guia pelo servidor na hora de contabilizar um even-
to. Vamos agora compreender quais são os documentos utilizados para o registro
dos eventos e o que cada um representa.

DOCUMENTOS CARACTERÍSTICAS
Documento utilizado para registrar a apropriação/li-
quidação de ingressos e dispêndios no setor público;
Nota de Lançamento por
além disso, pode ser utilizado para o registro de atos
Evento – NL
e fatos administrativos, inclusive aqueles relacionados
com entidades supervisionadas.

Documento utilizado para registrar despesas orça-


mentárias realizadas no setor público. Esse documen-
to está relacionado ao comprometimento da despesa,
Nota de empenho – NE
reforço ou ainda anulação. Nesse documento, deverão
ser indicados o nome do credor e a especificação do
gasto, além de sua dedução da dotação própria.

Esse documento é utilizado para a movimentação in-


terna e externa de créditos e também de suas anu-
Nota de Movimentação de
lações, ou seja, é utilizado para a descentralização de
Crédito – NC
crédito e também para a transferência nas unidades
gestoras;

capítulo 4 • 97
A Nota de Dotação é utilizada para o registro de in-
formações orçamentárias elaboradas pela Secretaria
de Orçamento Federal que são os créditos previstos
Nota de Dotação (utilizada
no Orçamento Geral da União (OGU). Podem, também,
pela Secretaria Orçamentá-
ser inseridos créditos que não haviam sido previstos e
ria Federal – SOF) – ND
também ser permitido o registro do desdobramento do
Plano Interno e do detalhamento da fonte de recursos
utilizados;

Documento que permite o registro do recolhimento


GPS Eletrônica (GUIA DE das contribuições que são feitas para a Seguridade
PREVIDÊNCIA SOCIAL) Social por meio de transferências intra-SIAFI entre a
UG recolhedora e a Conta Única do Tesouro Nacional;

Destinado ao recolhimento de numerário à conta ban-


Guia de Recebimento - GR
cária da UG;

Destinado à arrecadação, feita por processo eletrôni-


Documento de Arrecada-
co, sem a utilização de rede bancária, de tributos fede-
ção de Receitas Federais
rais que tenham como contribuintes órgãos e entida-
– DARF
des que integrem a Conta Única do Tesouro Nacional;

Documento relacionado ao registro da programação fi-


Nota de Programação Fi- nanceira do SIAFI pelas unidades gestoras executoras,
nanceira - PF pelas gestoras setoriais de programação financeira e
pelo órgão central de programação financeira;

Utilizada para o pagamento de compromissos e libera-


ção de recursos para fins de adiantamentos, suprimen-
to de fundos, cotas, repasses, sub-repasses e outros
Ordem Bancária – OB
documentos relacionados em contas que sejam manti-
das no Banco do Brasil. Ligada a despesas previamen-
te liquidadas.

Fonte: Adaptado de Carvalho (2010)

Ainda de acordo com Carvalho (2010), a Conta Única do Tesouro Nacional


estabelece que a movimentação de recursos deve ser efetuada por Ordem
Bancária Documento Eletrônico, GRPS Eletrônica, Nota de Sistema ou Nota de
Lançamento de acordo com a finalidade que cada um representa.
Dentro do último tipo de documento citado, a Ordem Bancária (OB), podem
ser listadas diferentes modalidades de acordo com o Manual do SIAFI (2015b):
Ordem Bancária de Crédito – OBC – Esse documento é utilizado para o
pagamento, feito por meio de crédito em conta corrente, da conta corrente do

capítulo 4 • 98
favorecido na rede bancária brasileira e também pode ser usado para saques e para
crédito na conta única da UG;
Ordem Bancária para Banco – OBB – Utilizada para o pagamento a diversos
credores do órgão público. O processo é feito por meio de uma lista eletrônica.
Para o pagamento de documentos ou pagamento da folha de pessoal, o agente
financeiro deverá dar a quitação;
Ordem Bancária de Sistema – OBS – Documento utilizado para o cancela-
mento da OB. Esse lançamento deverá ser feito pelo agente financeiro;
Ordem Bancária Judicial – utilizada para o pagamento na mesma data de sua
emissão. Esses documentos são decorrentes de determinações judiciais específicas.

LINK
Existem, também, outros documentos que podem ser mais bem estudados de acordo
com o link a seguir: http://www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/38979/Manu-
al_Simplificado_Ordem_Bancaria.pdf/2badcc05-5f63-4dfd-af64-3185d77bb8a7

Assim, foi possível compreender como são reconhecidas as transações, que


documentos são utilizados e o que eles representam dentro da sistema de informa-
ções da contabilidade pública.

Gestão patrimonial

De acordo com o ENAP (2015), um recurso patrimonial é todo aquele item


físico (tangível) que é empregado em uma determinada organização e que detém
natureza permanente. Os bens patrimoniais podem ser divididos em três tipos:
imóveis, como prédios e terrenos; instalações representadas, por exemplo, por
uma central de ar condicionado em um determinado órgão público; e materiais
permanentes, como máquinas, móveis e computadores.
Para Martins (2012), a gestão patrimonial precisa estar atenta a dois tipos de
materiais: os permanentes e os de consumo. A classificação como material de con-
sumo está relacionada com aqueles bens que perdem a sua identidade física com o
uso e que possuem sua utilização limitada a dois anos.
Já o segundo tipo, material permanente, está relacionado àqueles bens que,
em função do seu uso, não perdem a identidade e podem ser utilizados por um

capítulo 4 • 99
período maior que dois anos. De acordo com o ENAP (2015), cabe aos materiais
permanentes a seguinte classificação:
a) Regular – com perfeitas condições de uso, funcionamento e aproveita-
mento pela unidade detentora do bem;
b) Ocioso – Quando, embora em perfeitas condições de uso, não está sendo
aproveitado para uso;
c) Recuperável – Quando o custo de sua recuperação não ultrapassar cin-
quenta por cento de seu valor de mercado;
d) Antieconômico – Quando sua manutenção for onerosa, rendimento pre-
cário e, assim, não justificar sua utilização;
e) Irrecuperável – Quando sua recuperação for economicamente inviável ou
não puder mais ser utilizado para o fim que se destina.
A função de um departamento de controle ou gestão patrimonial é fornecer
materiais para os serviços que estão em execução. Objetiva-se suprir essas neces-
sidades com quantidades estritamente necessárias, observando-se, também, os
princípios da eficiência e da eficácia. Para Martins (2012), essa gestão possui os
seguintes objetivos:
Aquisição do melhor preço para que seja respeitado o princípio da economicidade;
Fornecer os materiais necessários, mediante a requisição, para que os serviços
sejam executados de forma contínua;
Racionalizar o uso dos ativos e, com isso, evitar o desperdício;
Manter o controle integral dos bens, buscar a organização do estoque e a sua
fiscalização contínua, assim como as entradas e saídas e os consumos de cada ente
da Administração Pública.
Mas de que forma a gestão patrimonial pode atuar para alcançar todos esses
objetivos? A seguir, você compreenderá melhor conforme explicita Martins (2012):
Centralização das compras com a atribuição para um único setor a fim de
fazer as aquisições de ativos, salvo aquelas relacionadas com pequenos gastos des-
tinados à despesas de pronto pagamento;
Controle de qualidade – fiscalização das entregas e observação das garantias;
Controle físico – Manutenção do estoque regular para que sejam evitados
desperdícios e atrasos;
Controle financeiro – manutenção e atualização de fornecedores e do
registro de preços;
Fiscalização – Verificação contínua do armazenamento e distribuição.

capítulo 4 • 100
Por fim, a autora (2012, p. 6) ainda destaca que tanto na questão do controle
patrimonial quanto da administração de materiais isso ocorre “de forma jurídica
e contábil, logo, ainda que não haja um controle efetivo, o Patrimônio já exis-
te de fato e de direito, cabendo à Administração a adoção de um Sistema de
Administração de Materiais ou de Controle Patrimonial”.

Princípios do inventário

Inicialmente, vamos entender em quais princípios o inventário público deve


estar pautado. Conforme a Constituição Federal de 1988,
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios
de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao
seguinte (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998).
Assim, observa-se que a própria Constituição Federal já determina, de uma
forma mais ampla, que a gestão dos bens públicos deverá respeitar os princípios
em suas diferentes esferas.
De forma mais específica, também deverão ser respeitados os seguintes princí-
pios de acordo com a Controladoria Geral do Município do Rio de Janeiro (2013):
Princípio da instantaneidade – está relacionada ao momento em que deve ser
realizado o levantamento do inventário;
Princípio da oportunidade – está ligado ao tempo de execução do trabalho,
sendo que ele deverá ser o mínimo possível. Pode-se dizer que a exatidão dos dados
está ligada à proximidade da realização do levantamento do inventário;
Princípio da especificação – forma pela qual os elementos deverão ser classi-
ficados, sua categorização individual e em grupo de elementos da mesma espécie;
Princípio da homogeneidade – Ligado à escolha de um denominador comum
que deverá expressar uma ideia valorativa dos elementos em moeda corrente;
Princípio da integridade – Uma vez fixados os limites do inventário, todos os
elementos patrimoniais do órgão público deverão ser levantados ao mesmo tempo;
Princípio da uniformidade – Estabelece normas, estruturação e critérios gerais
que serão utilizados para a elaboração de todos os itens do inventário, ano após
ano, para que os elementos possam ser comparados.
Ainda de acordo com a Controladoria Geral do Município do Rio de Janeiro
(2013), esses princípios devem ser observados para que o inventário possa

capítulo 4 • 101
discriminar de forma organizada e analítica os bens da administração pública,
sejam eles permanentes ou de consumo.
Pautado nos princípios do inventário, esse levantamento servirá para controle
e verificação dos saldos de estoques em almoxarifados e depósitos, demonstran-
do a existência física dos bens de uso no órgão ou entidade. Também deve ser
informado o estado de conservação, possibilitando a manutenção da atualização
e conciliação dos registros do sistema administrativo, contábil e financeiro. O
inventário também poderá ser utilizado para verificação de irregularidades e para
demais medidas cabíveis.

Normas contábeis do controle patrimonial

A harmonização contábil feita inicialmente na legislação pertinente à conta-


bilidade voltada para o setor privado também afetou a legislação, as normas e as
demonstrações do setor público.
Assim, no ano de 2008 – e, posteriormente, em 2011 –, foram aprovadas as
Normas Brasileiras de Contabilidade Aplicada ao Setor Público. Elas foram dis-
postas da seguinte forma:

NUMERAÇÃO CFC NORMA


RESOLUÇÃO
Conceituação, Objeto e Campo de
NBC T 16.1 1.128/08
Aplicação

NBC T 16.2 1.129/08 Patrimônio e Sistemas Contábeis

Planejamento e seus Instrumentos


NBC T 16.3 1.130/08
sob o Enfoque Contábil

NBC T 16.4 1.131/08 Transações no Setor Público

NBC T 16.5 1.132/08 Registro Contábil

NBC T 16.6 1.133/08 Demonstrações Contábeis

Consolidação das Demonstrações


NBC T 16.7 1.134/08
Contábeis

capítulo 4 • 102
NBC T 16.8 1.135/08 Controle Interno

Depreciação, Amortização e
NBC T 16.9 1.136/08
Exaustão

Avaliação e Mensuração de Ativos


NBC T 16.10 1.137/08 e Passivos em Entidades do Setor
Público

Sistema de Informação de Custos


NBC T 16.11 1.366/08
do Setor Público

Quadro 1 - NBCs T 16.1 a 16.11. Fonte: Conselho Federal de Contabilidade (CFC, 2012)

Especificamente, a NTC T 16.2 estabelece o conceito de Patrimônio Público


e também a sua classificação sob o enfoque contábil, além do conceito e a es-
trutura do sistema de informação contábil. Segundo a própria norma, pode-se
compreender que
Patrimônio Público é o conjunto de direitos e bens, tangíveis ou intangíveis,
onerados ou não, adquiridos, formados, produzidos, recebidos, mantidos ou uti-
lizados pelas entidades do setor público, que seja portador ou represente um fluxo
de benefícios, presente ou futuro, inerente à prestação de serviços públicos ou à
exploração econômica por entidades do setor público e suas obrigações.
Além da definição do que é o patrimônio público, do ponto de vista contábil,
essa norma relaciona a distinção dos elementos que o compõem, sua mensuração
e outras particularidades inerentes ao setor público.

Distinção na classificação dos bens públicos

Os bens públicos podem ser tanto materiais quanto imateriais e possuem valor
econômico, podendo ser avaliados em moeda corrente. Além disso, eles deve-
rão favorecer as necessidades públicas das pessoas de Direito Público, a União,
Distrito Federal, Estados e Municípios. De acordo com o Código Civil (1999), a
classificação dos bens públicos está delimitada da seguinte forma:
Art. 98. São públicos os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas
jurídicas de direito público interno; todos os outros são particulares, seja qual for
a pessoa a que pertencerem.

capítulo 4 • 103
Art. 99. São bens públicos:
I - os de uso comum do povo, tais como rios, mares, estradas, ruas e praças;
II - os de uso especial, tais como edifícios ou terrenos destinados a serviço
ou estabelecimento da administração federal, estadual, territorial ou municipal,
inclusive os de suas autarquias;
III - os dominicais, que constituem o patrimônio das pessoas jurídicas de direi-
to público, como objeto de direito pessoal, ou real, de cada uma dessas entidades.
Parágrafo único. Não dispondo a lei em contrário, consideram-se dominicais
os bens pertencentes às pessoas jurídicas de direito público a que se tenha dado
estrutura de direito privado.

Art. 100. Os bens públicos de uso comum do povo e os de uso especial são ina-
lienáveis, enquanto conservarem a sua qualificação, na forma que a lei determinar.

Art. 101. Os bens públicos dominicais podem ser alienados, observadas as


exigências da lei.

Art. 102. Os bens públicos não estão sujeitos a usucapião.

Art. 103. O uso comum dos bens públicos pode ser gratuito ou retribuído,
conforme for estabelecido legalmente pela entidade a cuja administração perten-
cerem (BRASIL, 1999).

Ainda de acordo com o Código Civil (1999), os bens poderão ser materiais,
ou seja, eles podem ser transportados sem perda de forma e valor; assim, serão
classificados como materiais permanentes ou equipamentos caso tenham mais de
dois anos de vida útil os bens imóveis representados por terrenos e edificações,
além dos bens de natureza industrial que são ligados com o funcionamento de
instalações industriais.
De acordo com a Lei 4.320/64, a gestão desses bens deve observar al-
guns aspectos:

Art. 94. Haverá registros analíticos de todos os bens de caráter permanente,


com indicação dos elementos necessários para a perfeita caracterização de cada um
deles e dos agentes responsáveis pela sua guarda e administração.

capítulo 4 • 104
Art. 95. A contabilidade manterá registros sintéticos dos bens móveis e imóveis.

Art. 96. O levantamento geral dos bens móveis e imóveis terá por base o in-
ventário analítico de cada unidade administrativa e os elementos da escrituração
sintética na contabilidade.

E como funciona o reconhecimento desses bens dentro do setor público? Esse


processo é iniciado pela conferência física que é feita pelo Almoxarifado; após o re-
gistro da entrada do bem, ele será encaminhado ao Setor de Patrimônio utilizando
nota de empenho, documentos fiscais e outros que sejam necessários, informando
o destino dos bens. No caso dos bens permanentes, o Almoxarifado encaminhará a
Guia da Saída do Patrimônio juntamente com os outros documentos do processo
de empenho.
A Controladoria Geral do Município do Rio de Janeiro (2013) afirma que o
tombamento é a próxima etapa e consiste na formalização da inclusão física de
um bem patrimonial no acervo do órgão, com a atribuição de um número único
de registro patrimonial ou por uma sequência de registros patrimoniais, no caso
de lote. Essa atribuição é chamada de “número de tombamento”. Pelo número de
tombamento, será aplicada uma conta patrimonial do Plano de Contas do órgão,
que recebe cada bem de acordo com a finalidade com a qual ele foi adquirido. O
bem deverá ser registrado em consonância com o documento de incorporação.
Ainda dentro desse processo, será afixada no bem a plaqueta de identificação,
feita por colagem ou rebitamento, contendo o número de registro patrimonial.
Segundo a Controladoria Geral do Município do Rio de Janeiro (2013, p. 19),
nesse processo deverão ser observados:
Local de fácil visualização para efeito de identificação por meio de leitor ópti-
co, preferencialmente na parte frontal do bem; evitar áreas que possam curvar ou
dobrar a plaqueta ou que possam acarretar sua deterioração; evitar fixar a plaqueta
em partes que não ofereçam boa aderência, por apenas uma das extremidades ou
sobre alguma indicação importante do bem.
Já o registro ou ainda escrituração dos bens será feito através de sua identifica-
ção e valor no acervo do órgão. Será realizado um registro no sistema utilizado pela
Administração Pública após os registros no setor de Almoxarifado e Patrimônio.
Tanto a movimentação, a distribuição e a transferência deverão observar procedi-
mentos rígidos dispostos em legislação pertinente.

capítulo 4 • 105
ATIVIDADE
1. Pode-se afirmar que o SIAFI é um dos principais instrumentos utilizados
para o registro, acompanhamento e também para o controle da execução orçamen-
tária, além dos aspectos financeiros e patrimoniais. Entre os seus principais objeti-
vos, estão:

I – Possibilitar meios que possam agilizar a programação financeira e, com isso, otimizar
a utilização dos recursos do Tesouro Nacional com a utilização da Conta Única;
II – Permitir que a Contabilidade Pública seja utilizada como uma fonte segura, real e
tempestiva de informações gerenciais destinadas aos diferentes níveis da Administração Pú-
blica;
III - Permitir que seja feito somente o acompanhamento das contas de despesas relacio-
nadas com os gastos de pessoal e encargos dos mesmos, além do controle do número de
servidores ativos;
IV – Autorizar a contratação de empresas para o fornecimento de bens e serviços que
sejam necessários à Administração Pública com a dispensa do processo licitatório;
V – Permitir que sejam controlados e conhecidos o valor tanto da dívida interna quanto
da divida externa, assim como o valor das transferências negociadas.

Marque a alternativa que apresenta as assertivas corretas.


a) I, II e IV.
b) III e V.
c) II e V.
d) I, III e IV.
e) I, II e V

EXERCÍCIO RESOLVIDO
Letra E - I, II e V.
O SIAFI é o principal instrumento utilizado para registro, acompanhamento e controle da
execução orçamentária, financeira e patrimonial do Governo Federal. Desde sua criação, o
SIAFI tem alcançado satisfatoriamente seus principais objetivos:

a) prover mecanismos adequados ao controle diário da execução orçamentária, financei-


ra e patrimonial aos órgãos da Administração Pública;

capítulo 4 • 106
b) fornecer meios para agilizar a programação financeira, otimizando a utilização dos re-
cursos do Tesouro Nacional através da unificação dos recursos de caixa do Governo Federal;
c) permitir que a contabilidade pública seja fonte segura e tempestiva de informações
gerenciais destinadas a todos os níveis da Administração Pública Federal;
d) padronizar métodos e rotinas de trabalho relativas à gestão dos recursos públicos, sem
implicar rigidez ou restrição a essa atividade, uma vez que ele permanece sob total controle
do ordenador de despesa de cada unidade gestora;
e) permitir o registro contábil dos balancetes dos Estados e Municípios e de suas super-
visionadas;
f) permitir o controle da dívida interna e externa, bem como o das transferências nego-
ciadas;
g) integrar e compatibilizar as informações no âmbito do Governo Federal;
h) permitir o acompanhamento e a avaliação do uso dos recursos públicos;
i) proporcionar a transparência dos gastos do Governo Federal.

2. No SIAFI, são reconhecidos tanto atos quanto fatos administrativos que


irão gerar mudanças no sistema público. Qual elemento é responsável pelo reco-
nhecimento deles?
a) Evento
b) Lançamento
c) Ingresso
d) Conta
e) Elemento

EXERCÍCIO RESOLVIDO
Letra A – Evento.
O Evento é a forma que possibilita que os servidores insiram dados e possam executar
a contabilidade pública de forma padronizada em todo o território nacional. Esses eventos
permitem a padronização, o que evita disparidades, erros ou enganos na hora de efetuar
os registros, facilitando, assim, o reconhecimento das transações e a consolidação das
contas nacionais.

capítulo 4 • 107
3. Dentro do contexto dos bens públicos, alguns princípios precisam ser se-
guidos. Dos princípios apresentados a seguir, qual está corretamente descrito?
a) Princípio da integridade – está relacionado ao momento em que deve ser realizado
o levantamento do inventário;
b) Princípio da homogeneidade – forma pela qual os elementos deverão ser classifi-
cados, sua categorização individual e em grupo de elementos da mesma espécie;
c) Princípio da especificação – ligado à escolha de um denominador comum que de-
verá expressar uma ideia valorativa dos elementos em moeda corrente;
d) Princípio da instantaneidade – uma vez fixados os limites do inventário, todos os
elementos patrimoniais do órgão público deverão ser levantados ao mesmo tempo.

EXERCÍCIO RESOLVIDO
Letra B – Princípio da oportunidade – está ligado ao tempo de execução do trabalho,
sendo que ele deverá ser o mínimo possível. Pode-se dizer que a exatidão dos dados está
ligada à proximidade da realização do levantamento do inventário.

ESTUDO DE CASO
Suponha que você seja um analista que começou a trabalhar com o SIAFI; entretanto,
você ainda tem pouca experiência e sabe que o sistema é bastante complexo. Depois da sua
primeira semana de trabalho, você é chamado para fazer um curso sobre o SIAFI para que
você possa compreendê-lo melhor e consiga utilizá-lo da melhor forma possível. Assim, no
decorrer do curso, você recebe instruções quanto às contas e aos procedimentos que são
utilizados no SIAFI e agora já sabe que o evento é responsável por apresentar os registros
de atos e fatos administrativos. Com isso, você passa a compreender como funcionam os
registros dentro do SIAFI e como os atos e fatos são integrados dentro do contexto da Con-
tabilidade Pública. Mas, nesse momento, nascem alguns questionamentos em relação ao
SIAFI e a seus objetivos e características.
Será que o SIAFI pode ser considerado como um integrador entre diferentes sistemas
do setor público e promoveu uma mudança em relação ao registro das informações contábeis?
Sim. O SIAFI pode ser entendido como um sistema cuja principal diretriz foi promover a
modernização dos registros no sistema público brasileiro e visou a permitir a integração entre
a programação financeira, a execução orçamentária e a contabilidade dos diferentes órgãos
da Administração Pública.

capítulo 4 • 108
Pode-se afirmar que o SIAFI buscou trazer uma maior segurança de dados e possibi-
lidade de conhecimento, em tempo real, das transações relacionadas com o setor público?
Sim. Outro objetivo principal que a implementação do SIAFI trouxe foi a segurança dos
dados, relacionada com os diferentes tipos de senhas, perfis, níveis de acessos ao sistema,
identificação das operações do usuário, além da integridade, fidedignidade e a tempestivi-
dade nas informações, que podem ser inseridas e consultadas, na maioria das vezes, em
tempo real.

REFLEXÃO
Neste capítulo, você pôde compreender como funciona o Sistema Integrado de Admi-
nistração Financeira do Governo Federal (SIAFI) e como ele desempenha um importante
papel dentro da contabilidade pública, já que é o sistema utilizado na execução e também no
acompanhamento do orçamento.
Você também compreendeu como ocorre a gestão patrimonial, quais os princípios e normas
envolvidos e como eles devem ser observados para garantir o bom uso dos recursos público.
No último tópico, foi possível compreender como estão classificados os bens públicos
e como essa classificação é essencial para uma boa gestão dos mesmos. Também foram
vistos a classificação, o registro e a movimentação dos bens públicos.

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capítulo 4 • 110
5
O controle na
administração
pública e a lei de
responsabilidade
fiscal
O controle na administração pública e a lei de
responsabilidade fiscal

Introdução

Para que um governo possa exercer suas atividades com eficácia, é necessário
que haja recursos públicos disponíveis, e esses recursos são adquiridos por meio
dos tributos que todos os brasileiros pagam todos os dias.
No entanto, o pagamento dos tributos e a eleição ou nomeação dos agentes
públicos não são um salvo-conduto para que esses recursos, fundamentais para o
desenvolvimento do Brasil, sejam utilizados sem qualquer forma de controle.
Sendo assim, a Administração Pública precisa cumprir uma série de normas
e legislações específicas para estar em dia com todas as obrigações concernen-
tes à utilização de recursos públicos. Em casos específicos, além da obrigação da
devolução dos valores mal utilizados, há também a responsabilização nas esferas
administrativa e penal.
Além dos instrumentos já existentes de controle interno e de controle externo,
a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é o marco legal em termos de profissio-
nalização e melhoria da eficácia na utilização de recursos públicos, prevendo uma
série de mecanismos para fazer com que os recursos públicos sejam utilizados com
apenas um foco: o bem-estar da população em geral.
Vamos ver agora esse assunto com um pouco mais de detalhe, partin-
do dos conceitos de controle interno e externo até finalizarmos com a Lei de
Responsabilidade Fiscal e suas diversas vertentes.

OBJETIVOS
•  Apresentar as disposições constitucionais sobre o controle na Administração Pública;
•  Caracterizar o controle externo no Poder Público;
•  Evidenciar o conceito de controle interno e suas ramificações dentro da Administração Pública;
•  Mostrar os detalhes acerca da prestação de contas;
•  Apresentar o conceito e os detalhes da tomada de contas;
•  Ilustrar os preceitos legais da Lei de Responsabilidade Fiscal, com seu histórico, os limites de
gasto, o endividamento público e os conceitos ligados à transparência, controle dentro da LRF.

capítulo 5 • 112
Disposições constitucionais sobre controle

Por todas as legislações vigentes no Brasil, não é raro que encontremos nor-
mas relacionadas aos controles. sobre o controle interno, podem ser citadas a Lei
4.320, de 1964, e a Constituição Federal entre as mais importantes bases legais
de controle.
A primeira, em seu artigo 1º, já deixa claro que estatui normas gerais de direi-
to financeiro para a elaboração e o controle dos orçamentos e balanços da União,
dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, tendo como base a letra b do
inciso XV do artigo 5º da Constituição Federal, que é a delegada oficial das nor-
mas relativas a controle interno.
O artigo 75 dessa mesma lei de 1964 também especifica detalhes sobre con-
trole, mas relacionados à parte orçamentária. Ele versa sobre a legalidade dos atos
que resultem em arrecadação de receita ou realização de despesa e sobre a criação
ou extinção de direitos ou de obrigações.
Esse mesmo artigo também versa sobre a fidelidade funcional dos agentes pú-
blicos enquanto forem responsáveis pelos bens e quaisquer valores públicos; além
disso, cita o cumprimento do programa de trabalho expresso em quantidade mo-
netária e em quantidade de serviços a serem prestados e obras a serem concluídas.
Dos artigos 76 a 80, essa lei trata de alguns aspectos mais específicos do con-
trole interno, citando o Tribunal de Contas e especificando os tipos de controle
que o Poder Executivo exercerá. Também trata da prestação de contas anual de
todos os responsáveis por bens ou valores públicos.
Com relação ao órgão que elaborará a proposta orçamentária, essa lei também
especifica quem exercerá o controle respectivo de tal peça orçamentária. Por fim,
sobre os serviços de contabilidade ou órgãos equivalentes, deixa especificado como
será a verificação dos limites atribuídos a cada unidade orçamentária.
Além desses dispositivos legais, ainda há a Lei de Responsabilidade Fiscal,
que é a Lei Complementar 101, de 2000, elaborada para promover e manter o
equilíbrio das contas públicas de maneira ampla. Se analisarmos de maneira mais
aprofundada, esse dispositivo legal tem o objetivo claro de aprimorar e aperfeiçoar
os controles previamente existentes na Administração Pública.

capítulo 5 • 113
Formas de controle

Dentro da Administração Pública, o controle está ligado à vigilância das ope-


rações efetuadas e à segurança de que as operações estejam sendo efetuadas de
acordo com as normas e regulamentos vigentes.
Mas para isso há uma série distinta de controles que podem ser efetuados e
que vamos verificar a partir de agora. Os controles podem ser classificados quanto
à extensão, quanto ao momento em que ocorre, quanto à natureza e quanto ao
órgão que exerce a atividade de fiscalização.
Iniciando pela extensão, esse controle pode ser interno, externo ou externo
popular, sendo os dois primeiros os mais difundidos e conhecidos em todo o
país, além de serem os mais regulamentados. Como ambos serão vistos com mais
detalhes em tópicos seguintes, analisaremos agora apenas os detalhes do contro-
le externo popular. Conforme o próprio nome diz, pode ser realizado por qual-
quer cidadão.
Esse controle normalmente é realizado com a ajuda da internet. A Lei
12.527/2011, mais conhecida como Lei de Acesso à Informação (BRASIL, 2011),
apresenta-se como um regulador do que já havia sido estabelecido previamente
pela Carta Magna no seu artigo 5º.
Com base nela, a Administração Pública deve se fazer transparente, e não
apenas com publicidade. Conceitualmente, a publicidade é menor do que a trans-
parência, pois, ao se divulgar informações sem qualquer preocupação com sua
compreensibilidade, tem-se a publicidade, mas não a transparência.
Por exemplo, não é possível que um cidadão sem o devido conhecimento
técnico compreenda demonstrações contábeis sem qualquer explicação adicional.
Sendo apenas publicadas, há a publicidade, mas não a transparência. Já no caso
de haver informações adicionais, como notas explicativas a tais demonstrações,
qualquer cidadão, mesmo sem conhecimento específico, poderá compreendê-las.
Isso é transparência.
Seguindo esse caminho, a transparência possibilitada pela Lei de Acesso à
Informação torna-se peça fundamental no controle social, que é aquele exercido
por qualquer cidadão a qualquer tempo, independentemente da autorização ou da
chancela do órgão público.

capítulo 5 • 114
EXEMPLO
Segundo as premissas do controle, anualmente as contas de um município devem ficar
pelo período de 60 (sessenta) dias à disposição de qualquer contribuinte para o exame e
a apreciação. Ele, por sua vez, tem o direito de questionar a legitimidade de qualquer gas-
to apresentado que ele julgar que, de acordo com os preceitos legais vigentes, esteja fora
do estabelecido.

Quanto ao momento em que se efetua, há três maneiras diferentes de se clas-


sificar o controle. A primeira é o controle prévio ou preventivo; a segunda, o con-
trole concomitante, e a terceira, o controle posterior ou corretivo.
O primeiro, o controle prévio, é exercido sempre antes de ser consumada a
conduta administrativa. Como exemplos dessa ocorrência, podem ser citados os
atos que necessitarem de aprovação prévia por parte da Câmara dos Deputados,
do Senado Federal ou do Presidente da República.
O controle concomitante é exercido de maneira conjunta com a execução do
ato verificado. Isso ocorre, por exemplo, com a realização da fiscalização de um
contrato administrativo qualquer que esteja em andamento.
Já o controle posterior, conforme o próprio nome diz, tem o objetivo de re-
visar os atos ora praticados com o fim maior de corrigi-los, desfazê-los ou me-
ramente confirmá-los como legítimos. Aqui entram todos os atos, tais como
aprovações, homologações, anulações, revogações ou validações dentro da
Administração Pública.
Quanto à natureza, os controles podem ser de legalidade ou de mérito, sendo
os de legalidade realizados para verificar a conformidade de uma conduta adminis-
trativa com as normais legais que a regulam. Vale ressaltar que esse controle pode
ser tanto externo quanto interno e que pode ser exercido de ofício ou por meio
de provocação.
Eles apenas serão confirmados pelo Poder Legislativo nos casos previstos na
Constituição e pelo Poder Judiciário por meio de ação específica. Nesse tipo de
controle, um ato atestado como ilegal ou ilegítimo apenas pode ser anulado, e
não revogado.
O controle de mérito é aquele realizado pela verificação tanto da conveniência
quanto da oportunidade por parte da Administração Pública. A competência res-
pectiva para o exercício desse tipo de controle é da própria Administração Pública,

capítulo 5 • 115
sendo apenas em casos excepcionais, devidamente expressos na Constituição
Federal, conferida ao Poder Legislativo, mas nunca ao Poder Judiciário.
Finalmente, quanto ao órgão que a exerce, o controle pode ser administra-
tivo, legislativo ou judicial. O administrativo é exercido pelo Poder Executivo e
por órgãos administrativos dos Poderes Legislativo e Judiciário sob os aspectos de
legalidade e de mérito.
Há vários tipos distintos; entre eles, a fiscalização hierárquica, a supervisão
ministerial, os recursos administrativos, a representação, a reclamação, o pedido
de reconsideração, entre outros.
O controle administrativo não pode extrapolar o que está evidenciado pela
Constituição Federal, pois poderá passar por cima do Princípio da Separação dos
Poderes. Ele alcança os órgãos do Poder Executivo e as entidades da Administração
Indireta e do Poder Judiciário, mas apenas quando executar função administrativa.

COMENTÁRIO
São, ainda, classificados como controle público, controle financeiro e campo de controle.
Nesse sentido, é o Tribunal de Contas da União (TCU) o órgão integrante do Congresso
Nacional cuja função é a de auxiliar no controle financeiro. Passando para o âmbito local,
seja estadual ou municipal, passa essa responsabilidade para os devidos tribunais de contas
estaduais ou municipais.

O último tipo de controle é o controle judicial, que é o poder de fiscalização


que o Poder Judiciário exerce de maneira específica sobre a atividade do Estado.
Ele abarca os atos administrativos do Poder Executivo, mas realiza adicionalmente
o exame dos atos dos Poderes Legislativo e Judiciário sempre que ambos realizarem
atividades administrativas.

Controle Externo

Para que possamos entender melhor sobre o controle externo no Brasil, é


importante que nos remetamos para o período colonial, do século XVI ao século
XIX, época em que a totalidade do controle das contas públicas brasileiras era
precariamente exercido por Portugal.

capítulo 5 • 116
As Juntas das Fazendas das Capitanias e a Junta do Rio de Janeiro foram cria-
das apenas no século XVIII, mas ainda com jurisdição em Portugal. O retrato das
contas públicas brasileiras se manteve dessa forma até o ano de 1808, quando a
família real portuguesa veio para o Brasil, período em que as tropas portuguesas
não faziam frente ao avanço impiedoso de Napoleão Bonaparte. Nesse mesmo
ano, foi criado o Erário Régio e o Conselho de Fazenda, responsáveis pela guarda
dos tesouros reais e pelo controle dos gastos públicos, respectivamente.
No ano de 1822, com a proclamação da independência do Brasil, o Erário
Régio se transformou em Tesouro Nacional, ocorrido por força do artigo 170 da
Constituição de 1824. Foi a partir desse momento que começou a ser vislumbrada
a criação de uma forma de controle dos gastos públicos no Brasil para que o orça-
mento pudesse ser validado (SANTANA, 2016).
Obviamente, houve muita resistência, pois isso era uma transparente afronta
aos poderes da monarquia. Mas esses opositores não diminuíram a força da ideia
da criação de um Tribunal de Contas na época do Brasil imperial. No ano de
1826, foi apresentado o primeiro projeto de lei que buscava tal criação.
Várias tentativas de criação de um Tribunal de Contas foram feitas, mas
somente em 1890 foi criado o Tribunal de Contas da União, época em que o
Ministro da Fazenda era Rui Barbosa, já no período republicano.
A primeira Constituição Republicana foi promulgada um ano depois, em
1891, e nos mesmos moldes da Constituição dos Estados Unidos da América,
tendo centralização dos poderes e grande autonomia dos Estados.

CONEXÃO
Atualmente, o Tribunal de Contas da União é vinculado ao Poder Legislativo, mas, quando
iniciou suas atividades, em 1893, era ligado ao Poder Executivo, adotando o sistema vigente
na Bélgica, o qual estabelecia que o TCU seria responsável pela fiscalização de todas as
receitas e despesas, sem deixar de analisar também os atos que originassem as despesas.

Apenas na Constituição de 1934 é que o TCU passou a ter as atribuições mais


diretamente especificadas. Os membros deveriam ser nomeados pelo Presidente
da República e necessitavam de aprovação prévia do Senado.

capítulo 5 • 117
A Constituição de 1937, ditatorial, pouco alterou as atribuições, servindo
apenas para centralizar os poderes nas mãos do Chefe do Executivo com o advento
do Estado Novo estabelecido no Brasil.
A partir da Constituição de 1946, o TCU passou a ser o responsável pela aná-
lise de contas das autarquias, dos contratos administrativos, de aposentadorias, re-
formas e pensões ou qualquer outro dispositivo que obrigasse o Tesouro Nacional
a realizar pagamentos.
A Carta Constituinte de 1967 reduziu os poderes do TCU, embora o man-
tivesse sob o Poder Legislativo, o que fora definido em 1946. Essa Carta tam-
bém aboliu o controle prévio, estabelecendo apenas o controle a posteriori.
Logicamente, os poderes foram reduzidos por causa do período ditatorial que o
Brasil atravessava.
A Carta Magna de 1988, atualmente em vigor, incluiu o TCU no Poder
Legislativo, também o fazendo para os Tribunais de Contas dos Estados e dos
Municípios. O TCU possui uma responsabilidade de órgão de administração pa-
rajudicial, pois é autônomo e realiza o controle externo jurídico e fático, ou seja,
baseado no que ocorreu, e se suportando nos dispositivos legais vigentes.

Controle interno

Dentro da Administração Pública, o controle interno sempre busca a fun-


ção de prevenir problemas, atuando de forma administrativa, orçamentária, ju-
rídica, patrimonial, de recursos humanos, contábil, entre outras áreas na buscas
dos objetivos.
Em termos de controle interno, a história nos remete ao ano de 1922, quando
a preocupação com o controle interno começou a ser algo latente. Naquela época, o
controle interno examinava e validava as informações geradas, sempre com base na
formalidade e na legalidade. A principal preocupação era atender aos ditames esta-
belecidos pelos órgãos de fiscalização externa, não se tratando de uma avaliação da
maneira como os gestores públicos efetuavam a prestação dos serviços à sociedade.

capítulo 5 • 118
ATENÇÃO
O principal marco legal do controle interno é a Lei 4.320, de 1964, que implantou tanto
o controle interno quanto o externo, definindo cada atividade e suas competências. Essa lei,
mais especificamente falando, estabeleceu que o Controle Interno seria um encargo do Po-
der Executivo, enquanto o Controle Externo seria encargo do Poder Legislativo.

O Poder Executivo exerce os três tipos de controle em relação à execução or-


çamentária: a legalidade dos atos que estejam ligados à geração de receitas ou des-
pesas, à criação ou à extinção de direitos ou de obrigações; à fidelidade funcional
dos gestores públicos responsáveis por ativos ou quaisquer valores públicos; e o fiel
cumprimento do programa de trabalho em valores monetários e em resultados de
obras e serviços prestados à população.
Essa Lei também definiu a universalidade do controle, que é a abrangência
dos atos da administração em termos de receitas ou de despesas. Também passou
a contemplar todos os agentes públicos individualmente sempre que eles tivessem
qualquer nível de responsabilidade perante ativos públicos.
Conceitualmente, não existe consenso acerca da melhor definição para con-
trole interno. Da mesma forma, não se deve confundir controle interno com siste-
ma de controle interno, que são duas coisas completamente distintas. Um sistema
de controle interno é um conjunto de órgãos técnicos específicos e articulados, li-
gados a um órgão central de controle. Eles desempenham as funções estabelecidas
por cada Poder de acordo com o que for estabelecido pela Constituição Federal.
Já o controle interno é um conjunto de rotinas, procedimentos e normas ado-
tados pelos órgãos administrativos, que podem ser manuais de procedimentos,
esquemas de rotinas, definições formais de responsabilidades e de segregação de
funções que têm o objetivo bem claro de evitar o erro, a fraude e a ineficiência no
serviço público.
Após esses pontos conceituais serem apresentados, podemos definir que o
sistema de controle interno é um conjunto integrado e organizado de controles
internos, e esse sistema deve ser periodicamente revisto para que suas premissas
mantenham validade e eficácia no longo prazo.

capítulo 5 • 119
EXEMPLO
Se traçarmos um paralelo e verificarmos os usos do controle interno para uma empresa
do setor privado, é fácil identificar que ele é utilizado principalmente para garantir a integri-
dade dos ativos, atestar a confiabilidade e exatidão dos registros que ingressam no sistema
de contabilidade, além de promover e buscar garantir a eficácia organizacional em todos os
setores, sejam produtivos ou não.

Dentro de uma entidade qualquer, o controle interno busca o lucro como


consequência das boas atividades realizadas diuturnamente, servindo de suporte
direto à contabilidade. O sistema de controle interno ajuda na tarefa de evitar pro-
blemas diversos que podem estar ligados a desperdícios de ordem operacional ou
administrativa, auxiliando no cumprimento de metas de curto e de longo prazo.
Voltando para a Administração Pública, ele fornece ao gestor o devido respal-
do e confiança na tarefa de gerenciamento do patrimônio público de maneira mais
ampla. Nos órgãos públicos, o controle interno atua em três diferentes momentos:
antes das ocorrências, durante elas e depois de ocorridos os atos e fatos adminis-
trativos, sempre com a independência e com o rigor necessários para que possam
ser cumpridas as metas de gestão.
Em entidades ligadas ao Estado, o controle interno é mais importante, pois
dispõe de mecanismos para a correção de desvios durante o processo de gestão,
já que não há metas ligadas ao lucro ou ao resultado financeiro direto, mas sim à
qualidade e ao bom uso dos recursos públicos em prol da sociedade.

Prestação de contas

A atual obrigação de prestar contas no Brasil vem da Constituição de 1988,


especificando que a prestação de contas deve ser realizada de forma límpida dentro
do artigo 70, deixando esse encargo tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, pú-
blicas ou privadas, desde que utilizem, gerenciem ou arrecadem recursos públicos.
Essa obrigação não é nova, sendo que sua primeira ocorrência em Cartas Magnas
ocorreu em 1891 e assim continuou até os dias atuais.

capítulo 5 • 120
CONCEITO
O conceito da prestação de contas está ligado às limitações que o ser humano possui na
execução de tarefas, e no sistema de gestão pública isso não é diferente. Com a delegação
de tarefas, não há garantia de que as ocorrências de uso de recursos financeiros públicos
será totalmente dentro dos parâmetros de legalidade e moralidade. E isso não quer dizer que
os agentes agirão ou agiram de má-fé. Pode ocorrer um equívoco por imperícia ou simples-
mente por descuido no momento do registro, e isso é completamente normal.

Para ajustar os resultados obtidos com os esperados, a prestação de contas


se faz necessária, garantindo a melhoria contínua dos procedimentos a partir da
identificação de falhas sistêmicas.
A ideia de exatidão em relação ao cumprimento de todas as regras vigentes está
ligada ao objetivo maior da prestação de contas, pois os cálculos devem ser exatos
e todas as contas devem possuir seus valores coincidentes, isso contando com uma
estrutura aritmética simples.
É como termos em casa a gestão dos recursos domésticos. Uma família possui
fontes de recursos (que podem ser salários, rendas adicionais, como aluguéis, ou
rendimentos de investimentos) e um orçamento, estabelecendo como e onde de-
vem ser utilizados os recursos arrecadados inicialmente. Não há necessariamente
uma prestação de contas no caso de uma família, mas é necessário que as contas
fechem – e, também nesse caso, os valores ingressantes devem ser superiores aos
que saem. Paralelamente, podemos comparar os salários com os impostos que
pagamos e as despesas de casa com os gastos para que a família mantenha sua
qualidade de vida, tudo isso baseado em uma previsão de gastos, que é denomi-
nada orçamento.
A prestação de contas, embora esteja prevista constitucionalmente, é um ato
voluntário, o que quer dizer que o responsável vai de maneira voluntária apre-
sentar os resultados do seu período de gestão de recursos públicos. Já os órgãos
fiscalizadores devem analisar de maneira mandatória tudo o que foi apresentado,
comparando o que foi feito com o que deveria ser feito.
Na situação de se identificar que houve desvios, mesmo sendo descaracteri-
zados de má-fé, os responsáveis por eles devem ser apontados, pois a estrutura
hierárquica já existe e é previamente estabelecida para a imputação das responsa-
bilidades aos agentes públicos nessas situações.

capítulo 5 • 121
Também é necessário que se tenha conhecimento suficiente para se analisar
as contas que são prestadas, pois isso é um processo formal de comunicação entre
o agente e o fiscalizador. Caso esse último não tenha o conhecimento para avaliar
tudo o que foi feito, poderá ser imputada culpa de maneira equivocada – ou, mais
grave ainda, poderá se deixar de punir um agente que deveria ser punido.
Como vimos, tanto na Administração Pública como na vida privada a presta-
ção de contas é algo muito comum e rotineiro. Nesse sentido, a burocracia é algo
necessário, desde que na dose certa, para uma boa prestação de contas por parte de
qualquer um. Documentos devem ser encaminhados de acordo com a legalidade.
Um exemplo simples é que simples recibos não podem ser aceitos como documen-
tos hábeis para uma prestação de contas efetiva, e, sim, notas fiscais ou cupons
fiscais que comprovem determinadas operações realizadas.
Uma devida prestação de contas tem o objetivo de evidenciar para o delegante
dos poderes que todos os objetivos inicialmente almejados foram alcançados e
que tudo foi feito de acordo com o previsto, tanto do ponto de vista legal quan-
to do ponto de vista administrativo. É importante que um determinado órgão
mantenha essa legalidade, pois alguns atos tomados por ele podem ter reflexos em
diversos outros órgãos, já que, como há uma cadeia de comando mesmo no setor
público, um erro em determinado setor pode gerar consequências desastrosas em
todo o sistema, prejudicando não somente a gestão em si, mas toda a população
que depende dos recursos que foram erroneamente aplicados.
Atualmente, devido ao tamanho e à importância do Estado brasileiro, não é
possível que seja feita uma prestação de contas única e exclusivamente em papel,
utilizando-se apenas de documentos físicos. A tecnologia da informação possui
um papel importantíssimo nessa busca por agilidade e transparência, pois permite
que todos os cidadãos possam verificar como são aplicados os recursos públicos,
exercendo de maneira firme o chamado controle social.

Tomada de contas

A tomada de contas é necessária quando um órgão administrativo ou mesmo


uma pessoa física declarar que perdeu ou extraviou qualquer recurso pertencen-
te ao Poder Público. Pode ocorrer como alternativa à prestação de contas, isso
quando a pessoa física ou jurídica não for obrigada a tal – ou quando exigir essa
prestação e esse agente não a realizar. Dentro da Administração Pública, normal-
mente é o setor de Auditoria Interna que executa a tomada de contas, que pode

capítulo 5 • 122
ser oficialmente por ausência de prestação regular de contas, por impugnação de
prestação de contas realizada, por extravio de bens ou quaisquer valores, por fale-
cimento do gestor ou por qualquer outra irregularidade identificada no processo
normal de auditoria.
Como consequência da tomada de contas regular ou ordinária, há a tomada
de contas especial, que é um instrumento de que dispõe a estrutura pública para
reaver recursos que causaram prejuízos ao erário público. Esse processo tem um
rito específico e próprio e é um último recurso a ser utilizado, ou seja, apenas é
instaurado quando todas as medidas ordinárias já foram esgotadas.
A instauração de um processo de tomada de contas especial deve obedecer aos
ditames legais estabelecidos no artigo 8º da Lei 8.443, de 1992, tendo como fatos
geradores as seguintes ocorrências:

- Omissão no dever da prestação de contas ordinária;


- Falta de comprovação da aplicação dos recursos recebidos da União;
- Ocorrência de desvio ou de desfalque no que tange aos recursos financeiros,
bens ou valores públicos;
- prática de qualquer ato considerado ilegal, ilegítimo ou antieconômico que
tenha como consequência dano ao erário público.

Uma tomada de contas especial deve ser iniciada pela própria autoridade pú-
blica responsável pela gestão dos recursos, tendo como objetivo fazer com que as
pessoas físicas ou jurídicas que deram causa à anormalidade possam ressarci-los
devidamente, desde que todas as esferas administrativas já tenham sido esgotadas
e todas as tentativas já tenham sido realizadas.
Órgãos responsáveis pelo controle interno ou, ainda, por determinação do
próprio Tribunal de Contas da União também podem instaurar a tomada de con-
tas especial, desde que tenha sido identificada a inércia por parte do gestor que
deveria ter tomado a iniciativa no processo.
Uma tomada de contas especial também pode ser decorrente de processos pro-
venientes de achados de controle externo, que podem estar ligados a denúncias,
representações, inspeções, auditorias e processos de registro de atos de pessoal,
desde que devidamente embasados pelo artigo 47 da Lei 8.443.
Qualquer tomada de contas especial deve ser preenchida com os elementos
fáticos suficientes à comprovação da ocorrência do dano causado ao erário e tam-
bém à identificação dos agentes responsáveis pela materialização, que podem ser

capítulo 5 • 123
pessoas físicas ou jurídicas. Vamos ver agora os itens que devem fundamentar os
processos de uma tomada de contas especial:
- descrição detalhada da situação originária do dano, tudo baseado em docu-
mentos comprobatórios, narrativas ou outros elementos que possam servir para
comprovar e dar suporte à ocorrência identificada;
- verificação da suficiência e da adequação das informações nos pareceres
quanto à identificação e à quantificação do dano causado ao erário;
- identificação da relação entre a situação originária do dano e a conduta ile-
gal, ilegítima ou antieconômica da pessoa que terá a obrigação de devolver os
recursos públicos por ter causado ou ter ajudado na ocorrência do dano.
Em termos práticos, uma tomada de contas especial apenas pode ser instaura-
da e encaminhada para o Tribunal de Contas da União se o dano, com seus valores
atualizados, for superior a R$ 75 mil; no caso de valores inferiores a esse mínimo
estabelecido, a entidade pública, ainda assim, deve esgotar todas as medidas admi-
nistrativas com vistas ao ressarcimento dos valores aos cofres públicos.

Lei de responsabilidade fiscal

Desde o dia 5 de maio de 2000, está em vigor a Lei de Responsabilidade Fiscal


(LRF). Desde sua criação, ela se apresentou como o marco legal regulador das
contas públicas no Brasil, tendo destaque especial em alguns pontos. Vamos ver
quais são esses pontos:
- foram estabelecidos limites para os gastos de pessoal para as três esferas do
governo e para cada um dos Poderes existentes. Eles tiveram dois períodos inteiros,
ou seja, dois anos para se adequarem a esses limites, e isso representou um grande
avanço em comparação às legislações anteriores, que somente estabeleciam um
limite global, sem definir quaisquer limites individualizados por esfera governa-
mental ou para qualquer um dos Três Poderes;
- no final do mandato de cada governante, o excesso de despesas fica coibido
pela proibição do aumento de despesas com pessoal no segundo semestre e pela
vedação da contratação de antecipação de receita orçamentária, e, também, de
proibição de contratação de obrigações, nos últimos oito meses do mandato, que
não tenham recursos gerados no próprio mandato para a liquidação;
- todas as despesas com duração superior a dois anos, para serem efetivadas,
devem ter evidenciadas e asseguradas a fonte de financiamento;

capítulo 5 • 124
- passam a ser obrigações dos prefeitos a aquisição de compromissos com me-
tas fiscais e, no intervalo de cada quatro meses, a apresentação ao Legislativo de
cada cidade e, também, à sociedade, demonstrativos que evidenciem o cumpri-
mento ou não de tais metas fiscais assumidas pela legislatura;
- os refinanciamentos de dívidas dos Estados e de Municípios ficam proibidos
com a publicação dessa lei, de maneira que cada ente estadual ou municipal siga
como responsável pela própria gestão financeira;
- qualquer descumprimento dos limites estabelecidos pela LRF levará à sus-
pensão automática de transferências voluntárias, contratação de operações de cré-
dito e concessão de garantias para a obtenção de empréstimos.

IMPORTANTE
Outro fator que entrou em vigor juntamente com a LRF foi o fato de os gestores pas-
sarem a ser responsabilizados, inclusive criminalmente, por qualquer descumprimento dela,
fator que mudou completamente o cenário e as ações dos gestores tanto municipais como
estaduais em todo o Brasil. Para a União, a alteração foi um pouco menor, pois ela não re-
cebe transferências voluntárias, mas prosseguiu punindo os gestores que não cumprirem
integralmente as metas fiscais.

Histórico

É natural que todos os gestores sempre busquem uma situação superavitária


em relação às contas públicas, seja de um Município, de um Estado ou da Nação.
Em épocas de crises financeiras e políticas, a busca fica focada em se evitar os défi-
cits. O Fundo Monetário Internacional informou que a dívida pública dos países
industrializados aumentou de 40% do PIB na década de 1980 para 70% durante
a década de 1990. Em se tratando de América Latina, a média é de 50% do PIB
apenas sendo representado pela dívida pública.
Nas décadas de 1980 e 1990, os Estados Unidos tentaram de maneira mais
constante manter níveis aceitáveis de resultados nas contas públicas por meio da
publicação de diversos marcos legais. O Japão, outro país industrializado, não
estabeleceu qualquer limite para a dívida pública, mas passou a utilizar o que se
chamava de Regra de Ouro, que consistia na proibição de se contrair qualquer
dívida para financiar déficits que se apresentassem em relação ao orçamento.

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Mudando o foco para a Europa, no início da década de 1990, os países signa-
tários da Comunidade Europeia firmaram o Tratado de Maastricht, o qual formou
oficialmente a União Europeia. Para serem participantes dessa união, tinham de
passar pelo crivo da sustentação da posição financeira dos próprios governos, além
de manter níveis considerados aceitáveis de déficit.
Na Oceania, a Nova Zelândia, também durante a década de 1990, utilizou o
ato de responsabilidade fiscal, o equivalente à Lei Fiscal daquele país, se apresen-
tando como um caminho de médio prazo para a redução da dívida pública em
comparação com os valores do PIB.
Também durante a década de 1990, mais especificamente em 1997, no Brasil,
após a passagem de diversas crises econômicas e de falta de credibilidade dos admi-
nistradores públicos, apresentou-se o primeiro projeto para a chamada Reforma do
Estado e para o controle das contas públicas a partir do Programa de Reestruturação
e Ajuste Fiscal dos Estados, que, no fim de alguns anos, ao fim do ano 2000, teve
como principal fruto a publicação da Lei Complementar 101, chamada de Lei de
Responsabilidade Fiscal, divisor de águas em relação ao tema no Brasil.
Essa lei, por ter sido apresentada após diversas experiências mundo afora, foi
uma junção de vários outros pontos antes apresentados, inspirando-se no Tratado
de Maastricht, da Europa, e no Ato de Responsabilidade Fiscal, da Nova Zelândia.
Acabou, também, adequando-se às exigências do Fundo Monetário
Internacional, atendendo também ao disposto constitucional que versava sobre a
regulamentação necessária nas finanças públicas.
A Lei de Responsabilidade Fiscal se baseou no planejamento, no controle, na
transparência e na responsabilização dos gestores, buscando o exercício efetivo do
controle das finanças públicas para a geração de superávit, apresentando um novo
padrão de operação para os gestores públicos.
Esse novo padrão tinha como carro-chefe a utilização do Plano Plurianual, da
Lei de Diretrizes Orçamentárias e da Lei Orçamentária Anual por todas as esferas
governamentais, denotando a necessidade de um planejamento com prazo mais
dilatado em busca da excelência nas finanças públicas.
A consequência foi que a transparência com relação aos gastos públicos
também se pautava na utilização de relatórios, como o Relatório Resumido da
Execução Orçamentária e o Relatório de Gestão Fiscal, todos acompanhados por
audiências públicas e com controle sendo exercido pelos Tribunais de Contas (mu-
nicipais, estaduais e da União), além, é claro, da sociedade, exercendo o chamado
controle social.

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Por fim, a responsabilização, tão buscada em períodos pretéritos, foi finalmen-
te alcançada com a publicação da Lei 10.028, de 2000, chamada de Lei de Crimes
Fiscais, a qual estabelecia punições diretas para os gestores que não respeitassem
tais normas em sua integralidade.

Limites de gasto

A partir de agora, veremos os limites legais estabelecidos para os entes públicos


e iniciaremos com a análise dos limites para terceirização. O artigo 72 da Lei de
Responsabilidade Fiscal estabelece os limites em relação à Receita Corrente Líquida
para fazer com que as despesas com pessoal, que são as mais controladas pela LRF,
não sejam maquiadas por contratações de pessoal de maneira terceirizada.
Por isso mesmo, o parágrafo 1º do artigo 18 faz com que os valores relativos
à contratação de pessoal terceirizado sejam incluídos no total dos valores gastos,
deixando muito clara a preocupação do legislador com relação a esse ponto tão
crucial no controle das finanças públicas.
Não pode ser esquecido que, além das restrições estabelecidas pela Lei de
Responsabilidade Fiscal, também a Constituição Federal limita os gastos para as
Câmaras Municipais de todos os estados, especificados nos artigos 29 e 29A da
nossa Carta Magna. Para esses casos, deve ser obedecido o menor dos limites esta-
belecidos nesses dois artigos e na Lei de Responsabilidade Fiscal.
Para que seja calculado o valor total gasto com as despesas de pessoal, que
notadamente é o fator mais comprometedor e impactante das despesas de um
governo, devem ser levados alguns fatores em consideração. Vamos ver como esse
cálculo deve ser feito na sequência.
Primeiramente, deve ser considerado o total das despesas efetuadas nos últi-
mos doze meses, sendo considerado o mês mais recente como referência e incluído
no cálculo. Exemplificando, para se tomar o mês de julho de 2016 como referên-
cia, deve ser analisado o intervalo que vai desde agosto de 2015 a julho de 2016.
Na sequência, devem ser levadas em conta as despesas empenhadas, mes-
mo aquelas que ainda não foram efetivamente pagas, sendo utilizado o Regime
de Competência, fundamentado pelo artigo 50, II, da Lei de Responsabilidade
Fiscal, e pelo artigo 35 da Lei 4.320, de 1964.
Por último, exceto para os municípios com menos de 50 mil habitantes que
optarem por apuração semestral, deve ser realizada apuração quadrimestral nos
meses de abril, agosto e dezembro. No entanto, é recomendada que essa apuração

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possua uma base mensal para que as medidas possam ser tomadas pelo órgão res-
ponsável com relação ao acompanhamento e à evolução dos gastos.
Quando qualquer órgão extrapolar os limites legalmente estabelecidos pela
Lei de Responsabilidade Fiscal, há a previsão de punibilidade nas esferas institu-
cional, pessoal e penal, não sendo excluída qualquer possibilidade de punição em
virtude de sentença transitada em julgado. Por exemplo, caso um ordenador de
despesas seja punido com a destituição do cargo dentro de um órgão respectivo,
isso não o isentará da punibilidade penal, se for o caso, além da obrigação da de-
volução de valores ao erário, se assim a justiça julgar que deva se proceder.

ATENÇÃO
Deve ser ressaltado que a punição não vem de uma hora para a outra para o ente nem
para o ordenador das despesas. Há um sistema progressivo de alertas para que a pessoa ou
o órgão consiga identificar que estão se aproximando do limite de gastos, permitindo ajustes
e melhor controle por parte dos mesmos.

Caso esses limites sejam extrapolados, os entes terão um prazo de oito meses,
que são dois quadrimestres, para reajuste de contas e retorno aos patamares acei-
tos pela legislação, sendo esse prazo apenas estendido na ocorrência de calamida-
de pública.

Endividamento público

Com relação ao endividamento público, a Lei de Responsabilidade Fiscal é


muito clara em seu artigo 29, deixando evidentes todos os conceitos que devem
ser levados em consideração e analisados em caso de problemas por parte dos entes
públicos na gestão dos recursos. Vamos a eles:

- Dívida Pública Consolidada ou Fundada: é o montante total e apurado sem


qualquer duplicidade das obrigações de um ente público que tenham sido as-
sumidas como consequência de lei, de contratos, de convênios ou por meio de
realização de operações de crédito que possuam período para amortização superior
a doze meses. Para os casos de dívidas com prazo de amortização inferior a doze

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meses, apenas integrarão a dívida pública aquelas despesas cujas receitas já tenham
sido previamente tratadas como componentes do orçamento oficial;
- Dívida Pública Mobiliária: é representada basicamente por títulos emiti-
dos pelo Governo Federal, sendo incluídos nesse cálculo os do Banco Central do
Brasil, dos Estados e dos Municípios;
- Operação de Crédito: quando se assume um compromisso financeiro em
razão de um empréstimo, de abertura de crédito, de emissão e aceite de título,
de aquisição de bens de maneira financiada, arrendamento mercantil e qualquer
operação semelhante, inclusive derivativos financeiros.
Também pode ser considerado como operação de crédito o ato em que o cre-
dor, em consenso com o ente público, responsabiliza-se pelo débito do devedor,
assim como o reconhecimento ou a confissão de dívidas por parte do ente público;
- Concessão de Garantia: é o compromisso de se manter adimplido com obri-
gações financeiras ou contratuais que tenham sido adquiridas por um ente público
ou qualquer entidade que esteja vinculado a ele;
- Refinanciamento da Dívida Mobiliária: corresponde à emissão de títulos
para pagamento das dívidas, sempre acrescidos da devida atualização monetária.
Esse valor total não pode ultrapassar, ao fim de cada exercício financeiro, o que se
tinha ao fim do exercício financeiro imediatamente anterior acrescido das opera-
ções de crédito autorizadas no orçamento.

Todos esses componentes de dívidas devem ser verificados quadrimestralmente,


inclusive aquelas operações realizadas por antecipação de receita orçamentária (ARO).
A antecipação de receita orçamentária, estabelecida de acordo com o artigo
38, tem o objetivo de cobrir eventuais insuficiências de caixa durante um exercício
financeiro qualquer. Essa antecipação deverá cumprir todas as normas para con-
tratação de operações de crédito estabelecidas no artigo 32.
O artigo 40 estabelece as garantias e contragarantias no âmbito da LRF, pre-
vendo que os entes públicos poderão conceder garantias para operações de crédito
internas e externas, desde que atendidos todos os dispositivos previstos no artigo
32; no caso do Governo Federal, eles também devem atender às condições estabe-
lecidas pelo Senado Federal.
Essa garantia deve estar condicionada ao oferecimento de uma contragarantia
que tenha valor igual ou maior do que foi concedido no momento da obtenção da
antecipação de receita orçamentária pelo tomador.

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No tocante aos restos a pagar, o artigo 42 da LRF é bem claro quando prevê
a vedação ao titular do órgão público de adquirir obrigação de despesa, nos dois
últimos quadrimestres do mandato, que não possa ser cumprida integralmente
dentro do mesmo período ou que tenha parcelas que apenas serão pagas no exercí-
cio financeiro subsequente sem que haja a devida disponibilidade financeira livre
de qualquer outro compromisso já assumido pelo mesmo ente.
Para esta determinação de disponibilidade financeira com relação a recursos
em caixa, devem ser considerados e não computadas como disponibilidades todas
as despesas e encargos já comprometidos e que acarretarão em desembolso finan-
ceiro até o final do exercício financeiro corrente.

Transparência, controle e fiscalização

Pensando em Lei de Responsabilidade Fiscal, um grande avanço em termos


de legislação e legitimidade em relação aos gastos públicos está no ponto em que
os principais relatórios fiscais devem ser amplamente divulgados. Isso assegura,
de maneira adicional, a participação efetiva da sociedade no momento de discutir
planos futuros, leis orçamentárias e orçamentos formais, o que caracteriza na for-
ma mais completa o que se chama de gestão fiscal.
A LRF também estabelece que deve ser dada ampla divulgação, e isso se enten-
de por utilização de periódicos, diário oficial, murais públicos, além de portais na
internet, atitudes muito comuns nas gestões públicas para se fazerem visíveis todas
as estratégias e formas de aplicação de recursos públicos.

IMPORTANTE
Todos os planos, leis orçamentárias, orçamentos propriamente ditos, prestações e toma-
das de contas e os respectivos pareceres, o Relatório Resumido da Execução Orçamentária,
o Relatório de Gestão Fiscal e qualquer versão prévia desses documentos também devem
ser ampla e abertamente divulgados à população, garantindo o acesso e a possibilidade de
exercício do controle social por parte dos cidadãos.

Para aumentar os níveis de transparência, também são obrigatórias as audiên-


cias públicas pelo Poder Público sempre que estiver em tempos de elaboração do
plano plurianual, da lei de diretrizes orçamentárias e da lei orçamentária anual,

capítulo 5 • 130
obrigação essa estabelecida pelo parágrafo único do artigo 48 da LRF, recebendo
ainda ampla divulgação e devendo ter sua realização devidamente comprovada por
meio de editais de convocação e de atas oficiais de realização.
Ainda no decorrer dos exercícios financeiros, as contas apresentadas pelos che-
fes do Poder Executivo ficarão sob responsabilidade do Poder Legislativo e do
órgão técnico responsável pela elaboração. Lá, ficará disponível para consulta e
apreciação integral por parte da sociedade em geral e acessível a qualquer cidadão.
O prazo que esses documentos devem ficar à disposição da sociedade é de
60 (sessenta) dias para os municípios, cumprindo o disposto no parágrafo 3º do
artigo 31 da Constituição Federal.

ATIVIDADES
1) A prestação de contas não é algo voluntário por parte dos gestores públicos. Ela se
apresenta como um instrumento bem antigo de busca de excelência nos gastos públicos.
Normalmente, ela é feita de maneira parametrizada e buscando ser específica, mas mostran-
do a integralidade dos recursos utilizados. Como os Tribunais de Contas fazem para garantir
que as informações apresentadas correspondem ao que deveria ser apresentado, indepen-
dentemente de estarem corretas ou não?

EXERCÍCIO RESOLVIDO
1) É necessário que o pessoal responsável pelas análises da prestação de contas tenha
conhecimento suficiente para tal, conhecimento esse que deve ser dinâmico, ou seja, deve se
adaptar às mudanças tanto nas legislações quanto na forma de se prestar contas por partes
dos entes públicos. Também devem manter total independência e métodos contínuos para
garantir que não haverá nem mais, nem menos fiscalização do que o necessário.

2) A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) exerce o controle efetivo de todos os gastos


efetuados por uma gestão, seja em nível municipal, estadual ou federal. Entre esses gastos,
um específico merece atenção especial por parte deste dispositivo legal. Qual é a natureza
desse gasto e por que ele possui tanta atenção dentro da LRF?

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EXERCÍCIO RESOLVIDO
2) São os gastos com pessoal que merecem atenção especial por parte da LRF porque são
os gastos mais efetuados em quantidade, podendo representar comprometimento excessivo
de recursos no longo prazo, inviabilizando investimentos para a sociedade. A LRF dá tanta aten-
ção para que possa sobrar mais recursos a serem utilizados em investimento para os cidadãos.

REFLEXÃO
Todo Estado precisa fazer com que as atividades sejam controladas, o que atesta a boa
saúde financeira e os bons serviços a serem prestados para a população em geral. Aqui no
Brasil, o marco legal de controle dos gastos públicos é a Lei de Responsabilidade Fiscal,
ato formal relativamente recente se compararmos com países desenvolvidos, que, já desde
os anos 1960 e 1970, vêm se preocupando com os níveis de controle e transparência dos
gastos públicos.
Essa preocupação deveria ser não apenas dos governantes, que são os aplicadores
dos recursos recolhidos como impostos, taxas e contribuições por toda a população, mas
também de toda a sociedade, devendo ela ser mais engajada em relação às suas reais res-
ponsabilidades como fiscais da aplicação dos recursos públicos e da prestação dos serviços
públicos para todos.
Você já parou para verificar o seu papel nesse cenário? Quantas vezes você já foi a
uma consulta pública que versaria sobre o futuro dos gastos em sua cidade ou região? Fique
certo de que elas ocorrem, pois está determinado em lei e na Constituição Federal, mas nós
somente conseguiremos ter uma cidade, um Estado e um país mais justos se agirmos mais,
conscientes dos nossos direitos e éticos nos níveis de cobrança que fizermos junto a nossos
governantes em relação aos recursos que são gastos.
Escândalos de corrupção ocorrem não por falta de fiscalização, mas pela quase certeza
da ausência de punição por parte dos gestores públicos e pela inércia da sociedade com
relação às formas de cobrança em relação ao uso correto e com parcimônia de tudo que é
arrecadado pelo governo.
Aja mais, pense mais em sociedade e não apenas como um cidadão isolado, pois você,
ao sair na rua, ao ir a um supermercado ou ao tomar um ônibus ou qualquer outro transporte
público, vê a aplicação dos recursos públicos nas calçadas, nos semáforos, na qualidade das
ruas que você pisa, entre outros exemplos mais. Seja mais cidadão, aja mais e cobre mais.

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