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LINGUAGEM E ACCÃO J

-da filosofia analítica à linguística pragmática-

.
organizacão
de
e lntroducãc
,

José Pinto de Lima

UNIVERSIDADE DO PORTO
Faculdade de Letras
BIBLIOTECA
N.Q_~
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F"UtlDO GERAL

FLUP - BIBLIOTE~~

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-MATERIAIS CRfrICOS.
LISBOA
1983
v .,.

9
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J. Pinto de Lima

UMA LINGUtSTICA PRAGMÂTICA OU UMA PRAGMÂTICA El1LINGUíSTICA?

1.

De todas as definições que do homem podem ser dada~ uma


\( delas - porque conduz mais especificamente à sua discipli-
I na - atrairá especialmente o linguista: o homem é o ser. fa-
lante. ~ o facto de o homem falar' que os linguistas acham in
teressante. Mas que há aí de interessante? Descobri-lo de-
pende da interpretação que dermos à frase

(1) O homem é capaz de falar

Se com ela apenas queremos dizer

(2) O homem á capaz de emitir sons

estamos longe da resposta, já que o som só por si diz .res-


peito ao físico e não ao linguista. Mas pela frase (1) pod~
mos também entender

(3) O homem é capaz de emitir palavras com signifi-


cado

Aqui já estarnos mais perto da verdade. De facto, para o li~


guista, é extremamente curioso que as palavras do homem não
sejam uma mera cadeia sonora mas sim que delas se diga te-
kem um 6ign,ióic~do. Contudo, (3) é ainda pouco precis~ pois
é parafraseável tanto por

(4) O homem é capaz de emitir palavras e as palavras


têm um significado

orno por
10 11

ce a outro homem. Sendo assim, já podemos passar a usar a


(5) O homem é capaz de emitir palavra~ com as quais palavra "comunicação": (6) tem o sentido de
quer dizer algo a alguém
(7) O homem é capaz de comu~icação
Em que sentido devemos interpretar (3)? A resposta é: nos
dois simultâneamente. Vejamos por.que razão qualquer das ou- Esta é a paráfrase de (1) que satisfaz o linguista. Note-
tras duas hipóteses de interpretação (ou só (4) ou só (5» mos que seria abusiva estoutra
é inadequada. Consideremos primeiramente (4). Sob esta in-
(8) O homem comunica
terpretação, é lícito incluir o caso de um homem cujas pal~
vras têm por convenção um significado reconhecido, público,
Porque ela implica a existência de ~~ interlocutor que co~
mas que nada quer dizer com elas ao pronunciá-las. Sentimos
p~eende o que o homem quer dizer_ Assim, se quisermos ten-
perante esta situação uma certa estranheza: pois se um ho-
tar uma definição de comunica~~o temos também que incluir
mem nada quer dizer a ninguém, que justificação há seq~ ~
nela o conceito de comp~een4~o
ra ter aberto a boca? A ideia de 6a!a~ no seu sentido ple~
que é o que interessa à linguística, é indissociável da de (9) Comunica~io é o que acontece quando nós comp~~
que~e~ dize~ algo a alguém; indissociável, portant~ da i~a ende.mo4 o que os outros quelte.m cü.ZCIt com as suas
da presença de um interlocutor. E agora, (5) isoladamente. pa(aVltil.4.
Neste caso, o-homem quer dizer algo a alguém, mas· ~30 está
excluída a possibilidade de se servir de "palavras sem si- A alguns Lí.nqu.í st.as ou estudantes, habi tuados a uma ter
gnificado" (formas fónicas por ele inventadas, a que só ele minologia pesada e esotérica, a definição pode parecer um
deu significados: uma espécie de "código pessoal"): desta m~ tanto ou quanto trivial: é que ela não faz uso de neologi~
neira, porém, nunca se poderá fazer entender. Mais: o caso mos. Mas isso representa até uma vantagem: quem define as-
tem apenas validade teórica. Nunca poderia dar-se.~ que qu~ sim comunicação apela para o que todo o indivíduo (incluiu
~e~ dize~ envolve intenções e intenções são coisas que não do ele pr-óprio) sabe já ser qlLeJleJl á.izeJle comp~eendeJt, con~
podemos querer ter a nosso bel-prazer. Um homem que usa pa- trói a sua teoria a partir do uso que se faz das expressões
lavras de um tal "código" e sabe que ele é pessoal (sabe,POE "querer dizer" e "compreender" na linguagem corrente eco!!
tanto, que o interlocutor não o domina) não pode sequer te~ segue logo à partida um certo grau de plausibilidade para
a inten~~o de dizer algo (i.e. de querer dizer algo) a ou- a sua teoria. (Curiosamente, esta maneira de ver a invest!
tro com essas "palavras". (i) gação - respeito pela linguagem vulgar, partindo da obser-
Resta-nos portanto admitir como paráfrase adequada de (3) vação e descrição do uso desta para tentar chegar ao cerne
08 problemas filosóficos; crença em que muitas questões f!
(6) O homem é capaz de emitir palavras com 4igni6i-
],osóficas resultam apenas de um uso indevido ou desviante
cado (convencional, reconhecido, público) e,com
!'lousa linguagem - era a defendida por alguns daqueles que P2
elas, ele que~ dize~ algo.
mOR considerar os percursores da actual pragmática lin-
~luLutlca: o Wittgenstein das Phi!040phi4che Unte~auchungen
Como que~e~ dize~ pressupõe a existência de um interlocutor,
(I rl\J~.o ti 'l!tçõeó U!o6õ6úil.4) e J .L.Austin, principal mentor
a situação perante a qual nos encontramos é a de um homem fª
d/t IIIH'o,l (I f í.Lo aô f í.ca de Oxford designada por OIt(1{ 11a.lty e,'lf}

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12 -....•.--_ .._--- ..--•.~•....,.. 13

'guage phitoóophy (6.i.loóo 6ia da linguagem cOlLlLell.te), da; quais para além do desejável - os tipos de entidades a que se po-
ainda falaremos adiante na secção 3). Contudo, embora esta de chamar "referentes das palavras": podem ser uma classe de
definição seja susceptível de uma ou outra precisão, não se coisas ("cio"), uma propriedade ("justiça"), um facto ("ina~
deve pensar que é menos séria ou menos boa: tanto assim é guração"), um estado ("saber"), uma relação ("vê"), etc. Não
que nela já estão contidos todos os conceitos-chave de que é evidente onde deva acabar a lista: teríamos ainda que abrir
necessitamos para falar de p!tagmãt.i.ca, nomeadamente complLe- portas a coisas tão pouco plausíveis corno "referentes mIti-
ende-'l., quelLelL d.i.zelL e .6.i.gll.i.6i.calL (implícito, se por "pala- cos" e "imaginários", se quiséssemos explicar o significado
vras" tomarmos "formas com significado"). Nas próximas sec- de "Adamastor" e "gambozinos", por exemplo. Desta forma, o <X!!
ções debruçar-nos-emos sobre estes conceitos, partindo das ceito de objecto dilui-se, à medida que vão sendo criados de
seguintes afirmações, que deles fazem uso: "As palavras l>.i.- forma ad hoe novos tipos de entidades, com o único object!
gn.i.6.i.cam" e "Com palavras, alguém quelL di.z e»: algo a alguém". vo de impedir a falsificação da teoria. Ela torna-se de fac-
to infalsificável, mas - (mas)por isso mesmo - destituída de
2. adequação empirica. Contudo, a doutrina é atacável par a±ros
lados: para um mesmo referente podem existir várias expres-
"As palavras .6ign.i.6.i.cam" sões com diferentes significados ("Vasco da Gama" e "o descÇ?
bridor do caminho marítimo para a India"), bem como a pala-
Poderíamos ter também escrito: "as palavras significam vras com um único significado podem caber vários referentes
algo". E isso levar-nos-ia à busca desse aLgo " que seria o (é o caso de "eu 11 e das expre:;sões deícticas em geral). Tanto
óigni6.i.eado das palavras. Os filósofos da linguagem e lin- Russell como Frege, dois üos mais conhecidos representantes
guistas que têm posto a questão do significado nestes ter- da teoria adentro da moderna filosofia da linguagem, se de=
mos encontram basicamente as duas seguintes respost.a's:
(I) o ram conta das suas falhas. Frege, por exemplo, distinguiu a-
significado é a coisa pela qual a palavra está; ou (2) o s~ quilo a que a palavra se refere ,(BedeutulIg ) do seu senti-
gnificado é a ideia que corresponde à palavra. Com (1) de- do (Si 1111), (3) e - se atendermos a algumas passagens em Rus-
fende-se a chamada teoria referencial do significado, com (2) sell - pode modificar-se o referencialismo no sentido de
a teoria ideacional. procurar o significado nio no objecto mas na relação entre a
pa lavra e o obj ecto. Contudo, também esta versão é c:riticável.
2.1. A teolL.i.a lLe6elLene.i.at do significado baseia-se no Por um lado, porque não é claro corno se poderiam descre~as
princípio - aparentemente razoável - de que falar é sempre diferentes relações; por outro, IDrque, embora nesta versão
falar de alguma coisa: de que as palavras têm significado ~ nSo se diga que o significado ê o obj e:::to,ele continua a ser
lo simples facto de serem símbolos que estão por algo que nocossário: doutro modo não haveria a desejada relação. Logo,
não elas próprias. (2) Quando falamos, referimo-nos a coisas {nrnos que procurar referentes para todas as palavras. Qual
com as nossas palavras. A classe de palavras a que esta te2 rente de "e"? Ou de qualquer outra conjunção? Não é a-
ria melhor se adapta é a dos nomes próprios: de um lado, um explicação de alguns, segundo a qual o referente
certo cão, do outro, "Bobby", o seu nome. Mas como nem to-
111. "o" ó uma coi s a chamada "função conecti va", se, para ex-
das as expressões linguísticas pertencem a esta classe, os pLluhrmoo o que é uma função conectiva tivermos que apelar
referencialistas vêem-se obrigados a multiplicar - muito
/11\1'11 11 uo!', ao "e", como pa rece í.nev í tável.
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o problema da teoria referencialista é dar uma importãn Ao relacionar palavras e ideias, esta teoria parece ev!
cia exclusiva ao conceito de referência. Isto, infelizmente, tar alguns escolhos da teoria referencial, nomeadamemE qua~
não implica que as análises que se fizeram deste conceitot~ do a palavra cujo significado se pretende explicar pertence
nham sido sempre correctas, já que alguns partidários dateQ ao discurso do imaginário ("sereia", "pégaso"). Contudo, Pi!
ria pensam na referência com base na afirmação ra ser levada a sério, devia satisfazer algumas condições.
Uma delas é que uma ideia esteja presente na mente do falau
(10) As palavras referem-se às coisas
te por cada palavra (ou, pelo menos, expressão) pronunciad~
mas não se vislumbra que ideia esteja por trás de "logo que!'
esquecendo-se de que nós também dizemos
quando dizemos

(11) Nós referimo-nos às coisas por meio de pala- (12) Vi o meu irmão logo que abri a porta
vras
Isto resulta talvez do facto de os ideacionalistas, ao for-
e que (10) é apenas uma forma abreviada de exprimir (11). mularem a sua teoria, terem pensado prioritariamente em pa-
Se tivessem isto presente, veriam: 19) que ~e6e~i~ é uma a~ lavras como "porta" ou "gato", para as quais se podem conc~
ção; 29) que ela é uma entre muitas acções que a linguagem ber imagens mentais antes de serem pronunciadas ou depcisde
nos permite praticar (por ex: predicar, perguntar, perlir,prQ ouvidas. Contudo, a diversas ocorrências da palavra "gato",
meter, exortar, etc.) e que não se vê como todas elas se PQ pronunciada sempre com o mesmo significado, podem correspoº
deriam reduzir à referência. Não se deve contudo pensar que der imagens mentais diversas, de diferentes gatos. E também
a teoria não tem sido frutífera. A partir das formulações pode dar-se o caso de não estar presente no espírito do fa-
que lhe deram Frege, Russell e o Wittgenstein do T~ac.:ta.t.Ul> lante elou do ouvinte qualquer imagem. Estas objecções le-
Logic.o-Philol>ophic.ul>, entre outros, ela está na origem das vam os ideacionalistas a passar da imagem men:tal ao c.onc.ei-
primeiras lógicas modernas (lógica de proposições, lógicade :to: o significado deve procurar-se não na imagem de um dado
predicados) e inspirou algumas correntes da filosofia da C! gato, mas - a um nível intersubjectivo - no c.onc.eito de gê
ência do nosso século (empirismo lógico); em linguíst:ica,
ela to. Mas para podermos chegar a alguma conclusão sobre a exi!!
está actual sempre que os linguistas falam em "semântica de tência de conceitos, não há outro método que não seja o da
condições de verdade". comparação das imagens mentais subjectivas, já que elas são
udo o que cada um de nós possui; esta comparação pressupõ~
2.2. Tal como a teoria referencial, a teo~ia ideac.ional róm, o uso de palavras nos seus significados correntes.TQ
do significado tem raízes antigas nos estudos filosóficos e ate processo é circular: tentámos explicar o que erams!
gramaticais. Uma formulação clássica aparece em Locke, para n1f1cados através da noção de c.onc.ei:to, mas para explicar
quem as palavras são as marcas das nossas ideias (4)• Na liU uo Õ c.onc.ei:to precisámos de significados.
guística, ela manifesta-se cedo e tem tido vasta aceitação, A teoria ideacional pode encarar-se como resultado da
principalmente no que toca â linguística europeia (lembre- para ver a linguagem como meio de expressão dasno!!
mos a definição que Saussure dá de significado (l>igni6ié)), ias ou do pensamento. Isto é, por vários motivos, di~
mas também entre alguns americanos, como Sapir (5) . Em primeiro lugar, assenta numa separação abusiva

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entre ideia e palavra (seremos capazes, por exemplo, de ev~ gnificado é exposta exemplarmente por Bloomfield no seu li-
car mentalmente a ideia correspondente a "logo que" - se é vro Langu.age(7). Para explicar o significado de uma expres-
que tal coisa existe - i?dependentemente do uso da expres- são como "tenho fome", o behaviorista procurará um certo ng
são ou da evocação mental desta?). Em segundo lugar, embora mero de acontecimentos anteriores ao enunciar da expressão:
nós usemos muitas vezes a linguagem para exprimir o que pe~ neste caso, o estado em que se encontra o organismo do fa-
samos ou o que estamos a pensar, não é lícito caracterizar lante e que constitui o estImulo para o enunciar da expres-
como "expressão do pensamento" todas as diversas activida- sao.
des linguísticas: é absurdo dizer de quem grita "Socorro! " Esta teoria encontra, porém, muitas dificuldades. De fa~
que está a eX?rimir o seu pensamento, bem como de quem se del:! to, para uma dada expressão, o número de diferentes situa-
pede com "Adeus!". A teoria ide~cional sofre de um mal co- ções em que ela pode surgir é tão grande que se torna difí-
mum à referencial: o reducionismo. Tal como esta reduzia tQ cil supôr que se poderá encontrar um conjunto de caracterí e
das as funções da linguagem à referência, a ideacional vê na ticas relevantes tais que elas constituam as condições ne-
expressão do pensamento a única função linguística. cessárias e suficientes para a ocorrência da expressão. Além
As duas teorias mencionadas têm, além disso, em comum a disso, mesmo que tal fosse possível, haveria que mostrar que
tendência para a hipostasiação do significado, que resulta o critério usado pelo observador para discernir entre cara~
apenas da maneira como se põem o problema, i.e. de pergunte terísticas relevantes e não-relevantes da situação não faz
rem: "Qut) eo.i..6a é o significado? "E como as nossas pergun- apelo ao que o observador sabe ser o significado da palavra
tas fixam os limites das nossas respostas, ;stas teorias co~ em análise. Mas os problemas que a teoria behaviorista tem
cebem inevitavelmente o significado como uma e.n:t.i.dade, de t! de resolver não ficam por aqui: é que, sejam quais forem as
po objectivo ou conceptual, conforme o caso. Vêem uma das te características da situação que indiquemos corno relevantes,
refas da linguística no estabelecimento das correctas cor- é sabido que a expressão (a) pode ocorrer na ausência do e§
respondências entre palavras e significados, já que conce- tímulo em questão, ou então (b) não dar origem à resposta e§
dem a estes o mesmo estatuto ontológico daquelas (6). Outra 4- perada. Foi a pensar no primeiro destes casos que Bloornfield
característica que lhes é.E!ópria é pr~~~o_signi~ica- criou o conceito de "d.i..6plac.e.d .6pe.e.c.h" (8). Infelizmente,não
do das palavras sem atenderem à si~ação ~ql.!e estas s~~ •.
~ nos diz como pode um observador "imparcial" e não-interpre-
nunciadas, desprezando ª- re1.a~ªo_.J}~
p'al:ªv~r~
com a actiyiª~- tante (tal como o exige o behaviorismo) distinguir entre as
de humana. Existem duas outras teorias do significado a que instâncias vulgares de ocorrência e as de "fup.[ac.e.d .6pe.e.c.h".
não se pode colocar este tipo de objecções: a behaviorista Para poder explicar o segundo ce so , Charles Morris deu uma
e a pragmática. forma mais fraca à teoria. Segundo ele, a expressão não tem
que evocar sempre a resposta que lhe corresponde mas apenas
2.3. Segundo a :te.o~.i.a be.hav.i.o~.i..6:ta, a explicação para o uma d.üpo.6.i.ç.ã.o para responder dessa maneira. Isto implica
significado das palavras deve procurar-se em certas caract~ dar uma lista das condições na presença das quais a respos-
rísticas da situação de enunciação, nomeadamente naquelas a é inibida mas a disposição permanece. Contudo, depois de
que a teoria vê como causas da enunciação (os e..6:tZmu.to.6) e ronta a lista, é sempre possível encontrar um ou outro ca-
nas que são interpretadas corno consequências da recepção do o em que simultânearoente não há resposta e nenhuma das con
que foi enunciado (as ~e..spo.6.ta.6), Esta maneira de ver o si- lições inibidoras se verifica. 3e, para salvar a teoria, qUl
19
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sermos manter que a disposiç~c estã presente, seremos otri-


e object~vo:. susceptíveis de serem alcançados através da e-

gados a acrescentar novas condiç6es ad ho~ i lista, sem que nunciação de x ; a palavra é, assim, considerada como um

haja qualquer razio para crer que este processo tenha fim. meio ou i~~~!:;_'p~ realiza2ão inten<i?es•.9..tt-F. Pe
d<;,-;;
O conceito de d,.,:,pob-içáocarece, portanto, ele fundamentação rante, por exemplo, a enunciação de

empírica.
(13) Estou com fome

2.4. Também a necessidade da referência à actividade h~


o behaviorista dirá que (13) tem significado na medida em
mana para definir o significado é reconhecida pela :CeolLia.
que é a resposta a um dado estado físico do falante. O pra-
plLa.gmã~ica, mas ela diverge da teoria behaviorista na forma
gmaticista dirá que (13) tem significado porque, ao enunci-
como concebe essa actividade. Enquanto que a teoria beha-
ar (13), o falante poderia estar a praticar - conforme as;!;
viorista interpreta actividade como compo~ta.mento e vê nes-
tuação - algumas (ou alguma) das seguintes acções: (a) afiE
te a explicaçio para o significado, a teoria pragmãtic~ t~- .ç':~-
mar que está com fome, (b) pedir alimento ao ouvinte, (c) r~
ma actividade no sentido de acçáo e concebe o sign-!:!~a.9.<?
das
cusar um convite para passear,etc .. Não devemos, porém,pe!!
palavras como função da .acção ou acS'ões que com elas se_E2-
sar que a lista de acções possíveis é de tal modo vasta ou
dem praticar: ê neste sentido que se deve interpretar o mQ
indefinida que não permite explicar o significado dasexpre~
te de WittÇJensteln segundo o qual o significado de uma pale
sões linguísticas. ~lo contrário, o número de acções por ex
~ o seu uso na 1·
vra e (9).."
lng'..!a d.lstanC.laque separa uma e~
í - •

plicação em termos de comportamento de uma explicação em ter -


pressão é limitado: não é concebível que com (13\ o falante
-
pretenda praticar acções linguísticas como perguntar a ida-
mos de acção é, poderia dizer-se, a que separa a expt~ca.Cão
de do ouvinte ou avisar o ouvinte de que o seu cão mord~Eê
caiÂ:.at da expV.caCáo teteotôg,i.c.a. (10). Tanto o behaviorista
te número reduzir-se-à ainda mais se nos lembrarmos de que
como o pragmaticista estão de acordo em que, para chegar a
muitas das acções definidoras de uma expressão linguística
alguma conclusão ãcerca do significado da expressão x , é n~
são analisáveis como dependentes de outras para a sua real~
cessãrio partir da situação em que o falante (F) enuncia x
zação: relativamente a (13) podemos, por ex., dizer que é
perante um ouvinte (O). O behaviorista, porém, pensa encon-
por via de afirmar que está com fome que o falante pede aI!
trar a explicação para o significado de x na resposta às s~
mento ao ouvinte (na terminologia de Searle, afirmar seria
guintes perguntas: (a) Qual a causa da enunciação de :>: por
o acto literal e pedir o acto indirecto(ll); o mesmo se po-
F?, (b) O que é que a enunciação de .~ vai causar em O? (i.
de dizer da relação entre afirmar que estã com fome e recu-
e., qual o efeito em O da enunciação de :>:?); para o beha-
sar um convite para passear. Dissémos que as nossas acções
viorista, portanto, o significado de x tem a ver com (e e~
linguísticas (como todas as acções, aliás) envolvem inten-
clusivamente com) as causas que levam à produção de x (es-
ções e objectivos. Isto é facilmente ilustrado com o exem-
tímulos) e com os efeitos de que a produção de x é causa <IE§
plo que estamos a considerar: se, por meio da enunciação de
----'P postas). Para o pragmatic~ por outro lado, achar uma 52 I (13), o falante tem a intenção de que o ouvinte acredite que
lução para o significado de x é responder à pergunta: O que \
ele (falante) acredita que está com fome, então a enuncia-
fez F ao enunciar x í' Neste modo de pôr a questão estã im-j
ção de (13) pode valer como afirmação (12); se a intenção do
plícita a ideia de que r é um agente (não um organismo, co-(
falante ao enunciar (13) é obter alimento do ouvinte, então
mo querem os behavioristas), i.e. um ser capaz de inteRç~e~
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esse enunciado pode ser usado para pedir. estudo da comunicação linguística não pára, ao contrário do
Tal como a teoria behaviorista, também as teorias ref~ que algumas explanações deste conceito podem levar a crer,
rencial e ideacional nos podem servir ~ara, por contraste, na constatação de que um receptor ouve palavras e lhes atri
caracterizar a teoria pragmática. Pensemos, por ex., no v~ bui significado (obviamente o mesmo que lhes tinha sido a-
lho problema de saber o que é uma frase. Enquanto a teori,a tribuído pelo emissor). Vejamos o que acontece quando uma
referencial tende a definir frase como a representação de frase corno
um estado de coisas e a ideacional como a expressão de um
(14) Eu chego lá às sete e levo o relatório
pensamento, a teoria pragmática encara a frase como a míni ~
/'l ~ ". •• '" ~

ma forma linguística com a crual um falante ~e executar


"me vem parar às mãos" fi. e., quando eu a encontro, por hipª
uma ac.xão ling;lst~~;J'_!,~~a~~"u'). • ~(;i;tg~nstei~U diri";
tese, escrita num pedaço de papel num lugar anónimo, não se
que a frase é a forma linguística que nos possibilita exe-
bendo portanto quem a enunciou nem a quem era destinada Ne~
cutar uma jogada num jogo de linguagem (14) ).
te caso, não posso dizer que não conheço o significado de t<;?
Isto poderia fazer crer que a teoria pragmática propõe
das as palavras que a constituem: conheço o significado de
uma solução para o significado das frases, mas que não re-
todas, elas são até palavras bastante correntes duma língua
solve o problema do significado de uma palavra. Mas talcb~g
ção não tem razão de ser se considerarmos que é por frases
que eu domino; no entanto, o facto de eu conhecer o signifi
cado das palavras de (14) não me permite dizer que houve c~
que comunicamos e não por palavras isoladas: a palavra é um
municação. Uma das razões porque não se deu co~unicação tem
conceito derivado e complexo, resultante de uma análise da
a ver com o facto de ~~ _conter algumas palavras pertence!}
frase. ~ isto que se revela na forma corno as crianças ~e~
tes à classe dos chamados deícticos ("eu", "lá':), que se C§!
dem a linguagem, partindo do sintético (uso de frases de uma
racterizam por não terem apenas significado mas também refe
só palavra) para o analítico (emprego de construções sin~
rência: eu preciso saber algo sobre a situação em que (14)
tácticas cada vez mais diferenciadas).
palavra só pode, portanto,
--_ ------
O significado de uma
ser estudado no contexto das fra
.•.. foi enunciado para saber a quem se refere "eu" e "lá". Mas,
---. .- ".--.,.,... "" •••••..••.
~,_ ••."""',q!> ••"'-~~,....-. ---
mesmo assim, a posse das referências é insuficiente para i~
ses em que ela ocorre. Sendo assim, não é para admirar que
~~~ terpretar a enunciação de (14) corno uma instância de comun!
os ternas centrais da teoria pragmática (que exporemos mllS
cação. ~ que eu posso ainda desconhecer quais as intenções
pormenorizadamente na secção seguinte) girem á volta da que§
sue o falante persegue com~), o que equivale a dizer que
tão dos usos possíveis a dar às frases (15)
eu posso não saber qual o acto que o falante está a tentar
praticar com (14): dependendo das~irçUAstânciq~, _~~e ~od~
~~der a enunciação d~ (14) com2......YillªJnfq.;:.l,l!,ê-.çã~º_,
:::m~
•.r~~-
3.
posta, .?JUapro,!lleE,a,_qm.êY.i~Q...9.J.!,...~tffi_
l!1ll~.~.aS..Sf",.
E eu só pO~\ ç-

"Com palavras, alguém queIL dizeIL algo a aLquêm" 50 dizer que houve comunicação se: (a) sei o que o falante
dú,6e (Le., conheço o 6iglli6ieado e as Jt(>.ÓeILêlleÚl.6 das suaSI
3.1. Na secção anterior tratámos do que se quer dizer palavras) e (b) eomplLeendi o que ele qui" dizeIL (i.e., rec2
com a frase "As palavras 6iglli6ic.a.m". E não há dúvida de nhec1 as suas intenções; ou: interpretei como realização da
que - independentemente da teoria do significado que esc~ ção A o que ele queria que eu tomasse como fazer A).
lhermos - significam, Le. tém um significado. Contudo, o
22 23

Esta forma de definir a comunicação humana ultrapassa sulta do desejo de tornar os outros tipos de frases analis~
largamente os limites de certos modelos muito divulgados em veis adentro dos seus modelos de lógica formal, o que impl!
linguística, que assentam funda~entalmente no conceito de cava poder atribuir a essas frases os valores de verdade ou
código e no dualismo significado/forma (16)• Podemos dizer falsidade. Mas mesmo admitir como ponto de partida três ca-
(simplificadamente) que, de acordo com tais modelos, o prQ tegorias primitivas (afirmação, pergunta e ordem, por ex. )
cesso da comunicação se inicia quando o falante codifica, ainda não é correcto. Por duas razões:
i.e., faz corresponder a certas ideias certas formas lin- Em primeiro lugar - como Wittgenstein dá a entender
guísticas e termina - depois de uma fase intermédia de n~ - a nossa tendência para adoptar este esquema tripartido r~
tureza fisiológica e física - quando o ouvinte descodifi- sulta de confundirmos 60llma com LLôO e pensar que o uso a dar
ca, i.e. faz corresponder às formas linguísticas percepciQ a uma frase depende da forma escolhida. Que isto não ê as-
nadas certos significados. Esta concepção da comunicação - sim comprovam-no muitas afirmações sob a forma in~errogati-
- essencialmente como um processo de codificação e descod! va ("Não sabes que não tenho tempo para isso?", dito a al-
ficação - explica apenas, na nossa terminologia, como é guém de quem sabemos que sabe que não temos tempo para isso),
que o ouvinte vem a ôabek o que o falante diz, mas não co- ordens sob a forma interrogati va ("Não pode calar-se? "),per
rno ele comp.'leende o que o falante qLLi~ d i.z en , Não pode, por guntas sob a forma imperativa ("Diga-me onde o viu"), etc ..
exemplo, explicar como o ouvinte pode tornar a enunciação de ~.E de facto um velho erro em gramática e filosofia da lingue
(14) como um aviso do f a.Larrt.e
, Todos os usos não-directos gem pensar que coisas como a afirmação, a pergunta, a ordem
da linguagem - a insinuação, a tautologia aparente C'Um hQ "estão dentro" ou "residem" na forma gramatical: nós somos
mem é um homem"), a contradição aparente (".E meu irmão e tentados a pensar que (tomando o caso da língua escrita) o
não é meu irmão"), a ironia, a metáfora - lhe escapam Lqua ], ponto de interrogação "indica" uma pergunta, o ponto de ex-
mente ou encontram uma explicação mais complicada do que e clamação uma ordem ou exclamação, o ponto final uma afirma-
dequada. Estes modelos tendem, além disso, a considerar a ção (19). As designações gramaticais "forma afirmativa", "for
linguagem como um ~eio de transmitir informação ou, se qU! ma interrogativa" e "forma imperativa" induzem-nos igualme!}
sermos ser mais gerais, como um veículo da afirmação, vis- te em erro (20) • Co í.s
. as corno a entoaçao
- -
ou a expressao f acia
. 1
ta de certo modo como a função central da linguagem(17). também não são critérios seguros para distinguir afirmação,
pergunta e ordem. O único critério acertado passa por deterl~
3.2. Contra estes pressupostos está o Wittgenstein das minar q~~ a actividade social que ~~m_ cc~u~_n2...J!1o~t2
Philoóophi~che Un~ellôLLchLLngen, cujas posições o tornam pr~ ~m que~a~~~_e~~~~: em termos Wittgenste~anos,qual
cursor do ponto de vista pragmático nos estudos linguísti- o jogo de lingu.a.gem que está a ser praticado. A enunciação de
coso Ele critica a ideia segundo a qual as perguntas, por
exemplo, poderiam ser reduzidas a afirmações sobre o moo eê (15) Um bisturi
tado de ignorância acerca de algo (18) (o objec..Uvo da per-
gunta não é dar uma informação, mas obtê-la). A tendência conta ora como ordem, ora como afirmação, ora como pergunta,
para a redução de todas as funções da linguagem à afirma- dependendo do jogo de linguagem em que se insere: respecti-
ção surge entre os lógicos e os filósofos da linguagem (nQ vamente, uma operação cirúrgica, a elaboração de um invent~
meadamente Frege e Russell, que Wittgenstein critica) e r~ rio ou um exame de medicina (~este último caso, dadas cer-
24
25

tas circunstâncias, o examinacor poderia estar a perguntar


do Austin, filósofos e linguistas não se teriam apercebido
pelas funções do instrumento) (21)•
deste tipo de enunciados por uma razão que já apontámos an-
A segunda razão tem a ver com a própria noção de jogo de
teriormente: a crença na forma gramatical. De facto, estes
tinguagem: este conceito é introduzido por Wittgenstein pa-
enunciados apresentam-se muitas vezes na chamada "forma a-
ra sublinhar a multiplicidade e a diversidade das activida-
firmativa", na primeira pessoa do singular do presente do in
des em que entra a linguagem, concluindo pela irredutibili-
dicativo ("Eu baptizo •••", "Eu prometo ••. n, "Eu declaro alEr
dade dos vários usos da mesma. De acordo com este ponto de
ta a sessão", etc.) (23). -
vista, afirmação, pergunta e ordem são apenas três jogos de
~Embora não analisáveis em termos de verdade e falsida~
linguagem entre muitos: Wittgenstein chega a apresentar (de
estes enunciados são-no numa outra dimensão: a da sati,§,
forma propositadamente desordenada) uma lista de alguns, 0n
~o ou não-sillsfª-çã9_<la~cPA<li_ç~õ~JLlJ.e_c_e§.m..ias
e sufiç;im!.-
de aparecem coisas tão dIspares como: ordenar, produzir um
tes para o seu uso adequad~H-l~i#. Surge assim uma "teo-
objecto de acordo com uma descrição, levantar uma hipótese
ria das infelicidades", uma teoria do que pode "correr mal"
e testá-la, inventar uma história, ler, fazer teatro, reso!
com uma enunciação performativa: não é um baptismo feliz de
ver adivinhas, traduzir, pedir, agradecer, maldizer, saudar,
um barco aquele em que eu parto a garrafa contra o casco an
rezar(22) .
tes de dizer as palavras apropriadas. Outros exemplos: (1)
uma das condições para eu praticar o acto de nomear alguém
3.3. Outro filósofo que chamou a atenção para a ilegíti
para wn cargo é encontrar-me numa posição hierárquicasupe-
ma dominância da afirmação nos estudos da linguagem foi JL.
rior à do indivíduo a ser nomeado; caso contrário, a nomea-
Austin, uma das figuras mais importantes da chamada o~din~
ção (o acto que depende de enunciar "Eu nomeio-o .•• etc •..:'
~y tanguage phito~ophy, conforme referimos na secção 1.
é infeliz ou~efectiva; (2) entre as condições para eu pro-
Austin, em How.to do .th.i.ng~
wi.th wo~d~ r- começa por situ-
meter x a alguém estão: que eu creia ter a capacidade para
ar as afirmações no quadro dos chamados enunciados con~.ta.t~
fazer x, que eu ache que o meu interlocutor prefere que eu
vos - que se cara<;:terizampor serem analisáveis em termos
faça x a que não faça e que eu tenha a intenção de fazer x;
de verdade e falsidade - e chama seguidamente a atenção p~
se alguma (ou algumas) destas condições não estiver satisfei
ra um outro tipo de enunciados, os pe~60~ma.tivo~. Estes ca;
ta à data da minha enunciação de "Prometo-te x", a minha prg
racterizar-se-iam por serem casos em que dize~ é 6azM;o seu
messa é um acto infeliz(24).
uso teria um cariz contratual, i.e. o seu propósito não se-
Gradualmente, porém, Austin chega à conclusão de que tal]
ria descrever um estado de coisas, mas antes criar um novo.
bém as afirmações são susceptíveis de uma análise em termos
Com um enunciado como
de condições de felicidade. Assim como no caso de prometer

(16) Eu nomeio-o Chefe da secção B. se espera de mim que aja futuramente de acordo com o prom~
tido, também no caso de afirmar se espera de mim que futur~

o falante não está a de.!.c~eve~uma nomeaç.,io,ma s sim - da- mente aja de acordo com O que afirmei: se afirmo que pas-

das certas condições - a nomealt alguém. Não faz sentido a- sei as férias do ano passado no Algarve, seria uma infrac-

plicar os valores de verdade e falsidade a estes enunciados ção a esta afirmação dizer futuramente que nunca estive no

porque se trata aqui de acções e não de constatações. Segun Algarve ou que não tenho férias há quatro anos. Um certo e§
tado de sinceridade é também condição necessária para a pr§
26 27

tica feliz de qualquer destes dois actos: a intenção de cU!!! nao usar a linguagem (concebida como um conjunto de conven-
prir o prometido no caso da promessa, a crença na verdade ções) mas não é indispensável usar a linguagem quando se trê
do afirmado no caso da afirmação. Se existem condições pa- ta de irritar alguém (posso irritá-lo através da formulação
ra uma afirmação feliz em tudo paralelas às condições para de um pedido que ambos sabemos ele não poder atender; mastam
uma promessa ou um baptismo felizes, então é porque a afiE bém posso irritar alguém se me vestir exactamente corno ele
mação é apenas uma acção entre muitas outras. Austin aban- repetidas vezes). Tanto o acta ilocucionário corno o perlocy
dona assim a distinção performativojconstativo, acentua o cionário têm a ver com o que o falante que1!. dize1!. com um
carácter performativo de toda a linguagem e sugere a fundê enunciado (no sentido acima definido em 3.1.) (26).
ção de uma teoria geral e completa do que se faz ao dizer
qualquer coisa, i.e. uma teoria pragmática da linguagem (25). 3.4. O projecto austiniano de constituir uma teoria ge-
Mas o que é que, de acordo com Austin, nós fazemos ao ral da acção linguística foi retomado por J.R. Searle na sua
dizermos algo? Urna coisa que fazemos é precisamente d~ze~ obra Speech Aeth. Aqui, partindo da hipótese segundo a qual
algo, i.e. enunciamos palavras com um dado significado e falar uma língua é empenhar-se numa forma de comportamento g2
certas referéncias. Isto é o que Austin designa par octo l~ vernada por regras, Searle apresenta um modelo modificado dcs
--
cueionã~io e que corresponde sensi;elmente ao dize~~o
.-' __ o __ -
tipos de actos relacionados com a produção de um enunciado,
mo o definimos anteriormente em 3.1. Outra coisa que faz~ distingue proposição de acto, caracteriza a noção de regra
mos relaciona-se com aquilo a que chamámos acima o "cariz (diferençando entre regras reguladoras e constitutivasl, ocy
contratualn do enunciado: ao dizermos algo, nós estamos pa+se da conexão entre que1!.e~dize1!.e higni6ica1!. (" What a
- s í.mu Ltiâne amen t.e
c.e conforme as circunstàncias - ~~!: Speaker meanh and what the words he utters meann(27» e ana
<:,aracç~ E2.m,g,EClI"...J:.~·, ~~, E,~er, ..eapt;}p:r,.
per- lisa o acto ilocucionário em termos das condições e regras
declarar, ordenar, etc .. E o
untar •.• acto i.e.oeue~onã.~io • para a sua prática (o que representa um aprofundamemo e uma
•....... , -'---
Ainda out.ro tipo de coisas que fazemos
- - - e que Austin su!? sistematização da teoria das infelicidades de Austin).

-
sume como acto pe~locueionã~io ...• - tem a ver com a produ~o Todas estas questões são tratadas, sob uma forma abre-
de certos efeitos no ouvinte: ao dizer algo, podemos, com viada, num artigo do próprio Searle, incluído neste vo-
o que dizemos, ofender, encorajar,
tar, amedrontar,
exemplo o enunciado
convencer, dissuadir,
acalmar, alarmar, irri-
etc •. Tornando
(16), temos que, ao dize~ aquelas pale
corno I lume (28), o que em princípio nos dispensaria
rarmos aqui. Contudo, uma delas
rer dizer e significado
de as conside-
- a da relação entre
- merece menção especia~ não só por
que-

vras com o seu hign~6~cado e atribuindo-lhes certas ~e6e- que surge em Searle na sequência do trabalho do autor que
~ênciah (acto locueionâ~io), o falante nomeia o ouvinte Pe primeiramente analisou o conceito de que~e1!.dize~ (H.P.Gri-
ra um dado cargo (acto iloeucionãl!.io) e - caso, por ex., o ce), corno porque entronca no futuro trabalho do pn5prio Sear
ouvinte saiba que há colegas com melhores qualificações Pê le.
ra o cargo - consegue também in;t~igã.-lo (acta pe1!.loeucio- Comecemos, portanto, com Grice. No seu artigo "Meaning"
nã.1!.io). A diferença entre acto ilocucionário e acta perlo- (incluído neste volume), Grice empreende uma análise do qu~
· (29) .-
cucionário pode também ser vista no facto de o primeiro n~ l!.e1!.
d ~zel!. em termos de ~n;tençoeh. Segundo ele, um falan
cessitar de meios convencionais para a sua realização e o te F que1!. dizel!.qualquer coisa com .o enunciado x, se e só
segundo não: não posso, por ex., prometer nada a alguém se se F tem as seguintes intenções: (1) que a enunciação E de
28 29

x produza um dado efeito no ouvinte O, (2) que O reconheça 3.1.


a intenção (1) de F, (3) que este reconhecimento seja, pe-
lo menos em parte, a razão pela qual o efeito intendidopor 3.5. O exemplo apresentado com base no enunciado (17) r~
F se produza em O. Exemplifiquemos: A diz a B presenta um tipo simples de instância comunicativa: aquele em
que o falante não quer dizer nem mais nem menos do que aqui-
(17) Saia da sala, por favor
lo que as palavras que diz significam. O nosso uso da lingu~
gem, contudo, nem sempre é tão linear. Perante o seguinte di~
Segundo Grice, se A enuncia (17) e com isso que~ dize~qua!
logo entre A e B
quer coisa, então é porque A tem as seguintes intenções:
(1) produzir um dado efeito, nomeadamente que B saia.da sª (18) A: Aparece cá amanhã
la; (2) que B reconheça a intenção (1) de A; (3) que este
reconhecimento seja, pelo menos em parte, o motivo que le- (19) B: VOU ver a minha mãe ao hospital

va B a sair da sala. Parece evidente a necessidade da con-


dição (I). A condição (2) é necessária porque, caso B saí~ sentimos que, com (19),B não só quer dizer aquilo que lite-

se da sala sem sequer ter ouvido o que A tinha di to, não di ralmente disse, mas algo mais: ele tem a intenção de que a
ríamos que tinha atendido ao que A tinha. que~ido dize~ Por enunciação de (19) seja tomada (a) como uma afirmação segun-

seu turno, mesmo que B reconheça, por via da enunciação de do a qual vai ver a sua mãe ao hospital e, simultâneamente,
A, que este quer que ele saia, ele não atendeu ao que A qui'.6 (b) como uma recusa de atender a uma sugestão de A. Oacto de

dize-'!.
se o motivo que o levou a sair foi unicament~, por afirmar é 6ecund~~io em relação ao de recusar (p~imã~io). 12
ex., estar atrasado para o comboio. to significa que o objectivo último que B persegue com (19)

A crítica de Searle a esta análise faz notar que que~e~ é que A compreenda que se trata de uma recusa da sua parte,
dize~ algo não é só uma questão de intenções mas também de o que passa pela préVia compreensão da enunciação de (19) cQ
convenções: a análise de Grice não faz referência às con- mo afirmação. A passa da compreensão da afirmação à compree~
venções ou regras que relacionam as palavras enunciadas por são da recusa através de um processo de reconstrução que po-
A com o que ele quer dizer, i.e. não faz referência à im- de ser ilustrado simplificadamente como segue: "(1) B prete~
portância do l>ignióic.a.do das palavras de A para o que A quer de que (19) seja tomado como uma contribuição relevante para

dizer com (17). A julgar por Grice, ficar-se-ia com a ideia o nosso diálogo; (2) ,una reacção relevante a uma sugestão é
de que A poderia querer dizer fosse o que fosse com (17), a aceitação, a recusa, a objecção, outra sugestão - mas não
se as circunstâncias lho permitissem. Donde se concluiria uma afirmação; (3) logo, aparentemente, a intervenção de B
que as palavras de (17) seriam apenas mais uma circunstân- não é relevante; (4) logo, provavelmente, com (19) B quer d!
cia. Mas isto não é assim. Conforme já vimos no início de~ zer algo mais do que aquilo que disse; (5) para B, agir de ~
te artigo (secção 1): em nenhuma circunstância é imaginá- cordo com o que afirma (conforme creio que vai fazer) e agir
vel que o efeito pretendido por A com (17) seja, por ex., de acordo com uma possível aceitação da minha sugestão são ~
que B lhe diga que horas são. Desta forma, as análises de compatíveis; (6) logo, a sua a.6i~mação implica a não-aceita-
Grice e Searle completam-se para constituirem uma visão da ção, i.e., a recusa da minha sugestão". Para interpretar a 2
comunicação que corresponde sensivelmente à dada por nós em firmação como recusa, A tem de possuir: um certo conhecimen-
to do que é a linguagem e a comunicação (alíneas (1), (2) e
30 31
,-------------------

(4», um certo conhecimento do mundo e do outro (alíneas(1)


reuniao, AI B; C e O (a noiva de C) estão a conversar; B
e (5» e um certo poder de inferência (alIneas (3), (4), (5)
sabe que V 0 a noiva de C, mas A não, Pouco depois, j;> a-
e (6». f ast a-iae e toma í.ueer o sequ í.nt.ediálogo:
Outros exemplos de actoA t~nguZAt~coA ~nd~kectoA, como
Searle os designa, são detectáveis no uso sistemático de (22) A: Que muf her desinteressante.,.
certas expressões como "podia" em (Por um momento, faz-se silêncio)

(20) Podia fechar a porta? (23) B: Ouve, A, porque não vais dar uma volta. !:!
panhar ar fresco?

onde ternos um pedido indirecto atravês de uma. pergu:?-ta


(30).
Aqui temos um caso em que B implicita que o comentário a~
terior de A foi inconveniente e de mau gosto. Não o faz
3.6. Se observarmos o nosso comportamento linguístico,
por meios convencionais (nenhuma palavra de (23) tem corno
cheqamos ã conclusão de que o mais vulgar é estarmos yera!}
funçã.o indicar urna implicitação) mas através de uma inteE
te casos de ,(,nd~kecçã.o, i.e., perante casos que necessitam
--------::-'---
de uma. recons~ão. T::: "~~:a .r;. fosso que separa, o que .~o
"-~ venção em que torna clara a sua recusa de continuar com o
tema da conversa: o que B diz'é flagrantemente irrelevan-
falante disse-f!Q_mae ele c!'':l~.s
diz,~ Isto não implica que
te e;n relação ao que A disse. 'rrata-se de uma -<.mpt~c.{.ta-
no caso dos actos directos dizer e querer dizer ~am a me§
ção conve.!t.:.ac.~ona.e.. Outro exemplo: E e F conversam sobre
ma coisa: uma afirmação literal, por ex., não é um enunci~
do afirmativo; digamos antes que um dado enunciado afirma- ~m amigo comum, G, de quem sabem ser caloteiro:

tivo é ~nteJtpke.tâve..e. como afirmação literal; atente-se na


(24) E: Se G não pagar o que me deve, não posso ir
distinção feita em 3.2. entre "afirmação" e "forma gramati
para férias.
cal afirmativa".
-----1JI'-Enq'uanto
nos casos directo~ há uma cO'L!teApondênc~a per-
j ii44 D "'" (25) F: Então vais ter umas férias maravilhosas es
feita entre o que- dizemos e o que queremos dize~nos casos
te ano ...
~ndi~cçã? 2:á algo, para aljim do que d.~;: S!~~~
mos dizer: é o que ~mpt~c~tamoA. Perante o enunciado de a~
Neste caso, F implicita que G não vai satisfazer a dívida
~- -
por ex., B nao d'-<.AAe. que recusava a sugestao
- de A , mas com
e que E não irá para férias. F consegue esta implicitação
a sua afirmação ~mpt~c~tou a recusa. Algumas implicitações
por via de fazer uma afirmação em cuja verd ade não acre-
têm um carácter convencional. Com uma afirmação do tipo
dita (e parte do princípiO que E é capaz de descobrir que

(21) Ele ê sueco maA negro ele não acredita na verdade da sua afirmaçio). Parece, pOE
, que estas ~mpt~cLtaçõe",
t.ant.o c.onveA"'aC~Ol1.a~A dependem lQ
nós implicitamos que os suecos geralmente não são negros, qicamente de um conjunto de princípios ou mã)(~maA ce nvev-
mas fazêmo-lo convencionalmente porque a palavra "mas" tem "'ae,.tMlaú, pelas quais nos orientamos ao conversar. Quando
precisamente como função indicar a presença de uma implic! um interlocutor X infringe. uma das máximas mas o outro, Y',
tação. Há contudo implicitações que só são detectáveis no m apesar disso razões para crer que X está numa atitude
contexto da conversa em que surgem. Imaginemos que, numa ~e cooperação, entio Y ~ levado a considerar que X s6 in-
32 33

(l1iX[)
fringiu a máxima ao nível daquilo que d~~~e, mas que está a menos informações do que as requeridas~", (b) "Não digas o
respeitá-la ao nível do que qu~~ d~ze~: i.e., Y
pensar que X está a ~mp.e.~c.Lta.~algo COItVelt~a.c..<.ona.e.mel'lft
e prQ
é levado a t que crês ser falso!", (c) "Não digas aquilo para que não
tens provas adequadas!", (d) "Sê relevante~n, (e) "sê cla-
cura assim uma interpretação para a inusitada intervenção m ro!", As máximas permitem explicar aqueles usos não-direc-
X. Concretizando com o primeiro exemplo: B infringe, ao ní- tos da linguagem a que nos referimos acima na página :~
vel do que diz, a mãx'<:ma.conve.~~aciona..e. "sê relevante!", s~ sim, a tautologia e a contradição aparentes têm a ver com
gundo a qual toda a contribuição para uma conversa deve ob~ urna infracção da máxima (a), a ironia e a metáfora, com in
decer ao terna em discussão (Le. deve "vir a propósito"). CQ fracções da máxima (b). A teoria de Grice é, portanto, mais
mo A tem razões para crer que B está a cooperar na conversa, abrangente do que a teoria dos actos linguísti.cos in.direc-
ele parte do princípio que a máxima está a ser obs~ada por tos de Searle: enquanto esta última só contempla os casos
B ao nível do que este que~ dize~ com (23) e tenta recons- de indirecção em que o falante quer dizer ma'<:~do que aqui 14
truir o que B imp!.<.cLtou com (23), nomeadamente que o apar- lo que diz, a teoria de Grice leva além disso em conta os
te de A tinha sido de mau gosto. No segundo exemplo, F in- casos em que aquilo ~ue o falante quer dizer é d'<'6e~nted~
M ' . h< fringe, ao nível do que é dito, a máxima conversacional '~ão quilo que diz (ironia e metáfora, por ex.).
'IA"'!.!!,,,, -
1Jc1AU1>19(
~ d ~gas o que cres sera f .
í - .'J-.:>J.L.
--'" , segun d o a qua I , numa conversa, As máximas griceanas também podem ser encaradas como
- -- -- nós esperamos que os outros digam aquilo em que acreditam e um contributo para uma resposta satisfatória a uma pergun-
sabemos que os outros esperam o mesmo de nós. Corno é óbvio ta fundamental acerca do significado: "Que conclusões pode
para ambos que F não acredita no que está a dizer, E vai COE o ouvinte tirar do enunciado x?" Se nos limitarmos a admi-
siderar a violação desta máxima como indicando uma intenção tir como conclusões lícitas a partir de x as proposições
comunicativa suplementar de F e reconstruirá o conteúdo de~ que dele se inferem por implicação estrita, chegamos tal-
ta intenção, ou seja, que F implicitou que G não pagará o vez a uma explicitação do ~'<:gn~6~ca.do da. 6~a~e de que o e-
que deve e que E não irá para férias. Prova-se assim que se nunciado x é um exemplar ("token"), mas não a uma explici-
pode explicar num enquadramento pragmático a figura da '<:~o- tação do significado do enunciado, ou melhor, do que o fa-
nia., da qual este exemplo é um caso: a ironia é g~o~~o mo- lante qu~~ d~ze~, na.Que.iecontexto, com x; do lado do ou-
do definível como o uso da linguagem em que se Que~ d~ze~ vinte, por seu turno, não conseguiremos explicar como ele
.:< -
por ~mp!'<:c.~ta~ão c.onve~~a.c'<:ona! o c.ont~ã~~o daquilo que se comp~eendeu o falante, Se, pelo contrário, admitirmos como
d~~~e (i.e., em que há uma proposição .<.mp.e.~c'<:tada que é a conclusões lícitas a tirar de x todas as proposições a que
c.ont~ã~.<:a.
da proposição exp~e~~a(31». Outras figuras de e~ é necessário que o ouvinte chegue para que se possa dizer
tilo (metáfora, metonímia, hipérbole, etc.) são passíveis de que comp~eendeu o que o falante qu~~ d~ze~, i,e. as propo-
um tratamento semelhante. sições que explicitam o ~ent~do comun~cat'<:vo do enunciado
A ideia de '<:mp!.<.c.~ta~ão
c.onve~~ac..<.ona.e.
corno aquilo que x, então teremos de admitir, corno premissas que nos levam
o falante não diz mas dá a entender através da deliberada ex a tais conclusões, coisas corno: o que falante e ouvinte sª
ploração de uma ~x~ma c.onve~~ac'<:ona! foi introduzida por ~ :,.,;(C) bem sobre a própria comunicação (isto inclui o seu conhec!

apresentada
--_. ----
P. Grice -;;-;eu ~rti-; "Logic -~c~nve~on"
r_=_------"
uma lista de máximas conversacionais
rn"), onde é
que corre~
I,
tfJlJll11tl
!
mento das máximas conversacionais),
tro e o que sabem do mundo. Desenham-se
o que sabem um do
assim a necessida-
ou-

pondem sensivelmente às seguintes: (ai "Não dês nem mais nem ~ de de urna p~agmãt~c.a e o seu âmbito.

._----------------------_. J.
34 3S

e a pltagmâ~ica (estudo das relações dos signos com os seus


4.
intérpretes). (33). Carnap dá três definições em tudo para-
------
Deve ser óbvio - atendendo a tudo o que foi dito e à Le Las às de Morris (com a excepção de que se destinam a ser
!Íoltmacomo foi dito - que a resposta à pergunta que serve aplicadas apenas às línguas naturais e aos cálculos lógi-
de título a este artigo só pode ser duplamente afirmativa. cos, ao contrário das de Morris, que tinham como âmbito de
De facto, a aceitação de uma teoria pragmática do signifi- aplicação todo e qualquer sistema de signos), considerando
cado revoluciona de tal forma o nosso próprio modo de pôr os três aspectos presentes em qualquer situação de uso da
questões sobre o fenômeno da linguagem que se justifica fa ~ linguagem - a saber: (1) a acção, estado e circunstância
lar de uma t~nguZ~~~ca pltagmã~~ca, ou seja, de uma linguí~ de quem enuncia ou ouve uma palavra, (2) a palavra como~~
tica que adopta um ponto de vista pragmático a respeito de mento de uma língua e (3) aquilo a que o indivíduo tem a ir!
qualquer problema linguístico (seja ele de tipo fonológkc, tenção de se referir por meio da palavra - temos que a pltg
morfológico, sintáctico ou semântico e tanto sobre o eixo gmã~~ca será a investigação que leva em conta o primeiroaê
sincrónico como sobre o diacrónico). Por sua ve~ também~~ pecto, isolado ou em combinação com os outros, a ~ernântica
sentido falar de uma pltagmã~~ca em t~ng31~~ca, i.e. de um tratará apenas da relação entre as expressões da língua e
campo de investigação designado por "pragmática", a juntar aquilo que elas designam (abstraindo portanto do falantcl e
às já estabelecidas fonologia, morfologia, sintaxe e semâ~ a ~Úl~al(e tõgica restringir-se-à ao estudo das proprieda-
tica. No que respeita â necessidade de uma t~ngu16~~ca plt~ des formais das expressões e das suas relações entre si
gmã~~ca, ela ficou suficientemente demonstrada por tudo o (abstraindo não só do falante, como das coisas designadas)
que foi dito até aqui. ~ a propósito da pltagmã~~ca como ~ (34). Esta divisão triádica parecia pressagiar que, futur~

c~ptina linguística que cabe ainda dizer mais qualquer co! mente, a pragmática teria de firmar-se frente à semântica

sa. e frente à sintaxe, o que veio a suceder: de facto, a preQ


A pragmática tem vindo a afirmar-se como área indepen- cupação de muitos linguistas tem sido evitar ora uma "sin-
dente de trabalho em linguística a partir de começos da d§ tactização" da pragmática ora a sua "semanticização".
cada de 70. Ao princípio, esta afirmação foi árdua porque
o terreno parecia estar tomado pelas disciplinas já exis- 4 .1. A primeira tendência não nos deve merecer mais que
tentes: de facto, se a linguagem era forma e significado e uma breve referência, já que resultou de propostas esporá-
se da forma se ocupavam já a fonologia, a morfologia e a dicas e que hoje são geralmente tidas por refutadas. A mais
síntaxe e do significado tratava a semântica, que mais fi- conhecida, formulada por John Ross, e comumente designada
cava ainda por explicar? Para argumentar contra esta obje~ por "análise performativa" vai no sentido de considerar que
ção, muitos linguistas têm feito apelo às concepções de qualquer frase afirmativa r tem um carácter implicitamente
Charles Morris e Carnap, onde o lugar de uma pragmática já performativo e deve ser derivada de estruturas profundas
estava previsto. Charles Morris, ao tentar fundar uma se- contendo um verbo performativo explicitamente represen~

miôtica como ciência geral do signo, subdivide a discipli- i.e. qualquer frase afirmativa r teria uma estrutura pro-

na em três áreas: a ~emân~ica (estudo das relações dos si- funda da forma "Eu digo-te que r". Esta análise resulta de
gnos com os objectos a que os signos são aplicáveis), a ~~~ uma ideia inadequada e hiperbolizante de estrutura profun-

táctica (estudo das relações formais dos signos entre si) da e da crença que tudo o ~~e toca à comunicação pode ser
36
37

"objectivizado" em termos sintácticos. Se, porém, admitir-


mos - como parece ser inevitável - a presença de um fa- p~e~~upãe ~emânt~camente
lante, de um ouvinte e de certos conhecimentos de que am-
(27) O António tinha um irmão.
bos partilham em qualquer instância de comunicação não n~
cessitamos de postular um "eu", um "tu" e um verbo perfor-
porque é necessário que (27) seja verdadeira para que (26)
mativo a nível da estrutura profunda para explicar como um
possa ser verdadeira ou falsa. ~ óbvio que há uma relação ~
falante pode ~ntende~ um enunciado como afirmação e um ou-
tre o ~~gn~6~cado das proposições pressupostas e da propos!
vinte pode toma~'o mesmo enunciado como afirmação (35)
ção de que se parte. Na concepção p~agmãt~ca, por seu tur-
no, a pressuposição não é uma relação entre proposições,mas
4.2. A tendência para a "semantização" da pragmática é
uma at~tude p~opo~~c~onai do falante: neste caso, diz-se que
a dominante e contra ela rebelam-se todos os autores que fe
o 6aiante pressupõe proposições. Ao enunciar (26), por exe~
zem distinções comparáveis à nossa entre ô~gn~6~cado, por
p Lo , o falante pode crer (a) que o António era orfão, (b) t~
um lado, e que~e~ d~ze~ e complLeende~, por outro. Indepen-
nha um único irmão e (c) que este o sustentava. As proposi-
dentemente de qual a teoria do significado escolhida, a ~~
ções expressas por (a), (b) e (c) são p~e~~upoô~çãe~ p~agm~
mânt~ca encarregar-se-ia do estudo daquele e a pragmática
t~ca~ se se verificar a condição suplementar de o falante a§
do estudo destes ou, se quisermos, do significado-em-co~
sumir que o ouvinte também crê nelas. Estas pressuposições
to. Stalnaker, por exemplo, define a !>~n.ta)(e
como o estudo
pragmáticas são importantes para definir o que o falante que~
-;;::0;~e~,a ~emânt~ca como o estudo das p~opo~~çãe~ e a
d~ze~ com (26) (por ex., que o António vai ficar numa má s!
p~agmât~ca como o estudo dos acto!>i~ngu;~t~co~ e dos con-
tuação económica) e para explicar como é possível ao ouvin-
texto!> em que são realizados. Dentro da pragmática há, se-
te comp~eende~ o falante, mas não têm que ver com o ~~gn~6~
gundo ele, que distinguir entre dois géneros de problemas:
cado de (;26) (37) Assim se explica que uma parte fundamental do
os que dizem respeito à definição de tipos de actos Lmguí§
"contexto" de que se fala em pragmática seja constituída p§
ticos e os que têm a ver com a determinação das caracterí§
las crenças de cada um dos participantes na comunicação,~
ticas do contexto de enunciação que permitem decidir qual
cipalmente pelas crenças· comuns e, mais especificamente ai~
a proposição que, num dado momento, está a ser expressa por
da, pelas que cada um mantém acerca do outro. ~ dentro des-
uma frase. A análise dos actos ilocucionários é um proble-
ta ordem de ideias que R~di Ke~~~r define a ~emânt~ca de uma
ma do primeiro tipo; o estudo das expressões deícticas, ~~
expressão como a teoria dos conhecimentos que são necessár!
problema do segundo tipo (36). ~
os para saber o que se pode d~ze~ com essa expressão e a P~l!
O conceito de pressuposição também pode ilustrar a di§
gmã~ca de um enunciado como a teoria dos conhecimentos que
tância que vai da semàntica à pragmática. De acordo com a
são necessários para comp~eende~ o que um falante qu~~ d~-
concepção ~emiint~ca.de pressuposição, esta é uma relação e;:!
ze~ com aquilo que disse (38)
tre duas proposições p e q: p pressupõe q se a verdade de
q é condição necessária para que se possa falar da verdade
ou da falsidade de p. A proposição expressa por:

(26) O irmão do António morreu.


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39

NOTAS res, seguindo Wittgenstein, designam por "teoria do


o" ("use", "Gebrauch") aquilo a que nós chamamos ''ts2
U.6
(Identificam-se apenas pelo nome do autor e data da edição ria pragmática".
as obras a seguir mencionadas. A indicação completa encon- (16) Ver saus arre, F. de (1969), Introdução, Capo 111, § 2;
tra-se na Bibliografia Geral, no fim do volume). Jakcibson, R. (1963), pp. 213-214; também:-Baumgãrtner,
K. u a , (1973).
v

(1) Ver a este respeito Keller, R., Comp~eendemo.6 nóó o (17) Para uma crítica a este tipo de modelos, com base no
que um 6alante que~ d-i.ze~ou o que uma exp~eó.6ão ó~- modelo apresentado na terceira obra mencionada na no-
gn~6~ca?, p.137deste volume, ou Wittgenstein (1971), ta anterior, ver Maas, ujD. Wunderlich (1974), pp. 54
§ 510. a 59.
(2) ~ esta a opinião de Russell, citado em Alston (1964), (18) Ver Wittgenstein (1971), § 24.
p.12.
(19) Ver Wittgenstein (1971), § 22.
(3) Ver Frege, Ube~ S~nn und Bedeutung, in: Frege (1962),
pp 40-65. (20) Com isto não se quer dizer que não pO.6.6a haven uma rª
zão para tais designações.
(4) Ver Locke, J. (1959), secção 1, Capo 2, Livro 111.
(21) Ver Wittgenstein (1971), § 21.
(5) Ver Saussure, F. de (1969), Primeira Parte, Capo r, §1
e Sapir (1921), Capo I. (22) Ver Wittgenstein (1971), § 23.
(6) Esta tradi2ão é muito forte em linguística. Pensemos (23) Sobre a distinção pen6o~mativolcon.6tativo, ver Austin
na concepçao saussureana do signo linguístico como~~a (1962), Lect.· 1.
entidade com duas faces interdependentes e na ideia, (24) Sobre a teonia daó in~eiicidadeó, ver Austin (1962),
advogada por muitos partidários da gramática generat! Lects 11, 111, IV.
va, segundo a qual esta seria um sistema de regras que
relacionaria forma e significado. (25) Sobre estas questões, ver Austin, Pe~6o~mativo-Conót~
tivo, neste volume.
(7) Ver Bloomfield, L. (1976), Cap.2 e Cap 9.
(26) Sobre os actos locucionário, ilocucionário e perlocu-
(8) Ver Bloomfield, L. (1976), p. 14l. cionário, ver Austin (1962), especialmente Lects VIII,
(9) Ver Wittgenstein, L. (1971), § 43. IX, X.

(10) Sobre estes dois tipos de explicação científica, ver (27) "O que um falante que~ d-i.zeJI.e o que as palavras que
von Wright (197l). enuncia .6-i.gn-i.6-i.cam"
(sublinhados nossos); in: Searle,
(1969), p. 44.
(11) Ver sobre estas noções a secção 3.5. deste artigo.
(28) Para um tratamento mais extenso, ver Searle (1969),
(12) A razão desta formulação complicada decorre_de ser m~ Caps. 2 e 3.
nos correcto dizer: "o falante tem a intençao que o
ouvinte acredite que ele (falante) está com fome". Es (29) Note-se que o conceito de que~e~ d-i.ze~,tal como o e§
ta pode ser uma das intenções do falante ao enunciar tamos a definir neste texto, diverge do de Grice por
(13), mas não é necessária para que o enunciar de (13) mais restrito. Grice distingue preliminarmente entre
valha como afirmação. Supondo que é do conhecimemo de um que~e~ d-i.ze~natu.~al (que pode equacionar-se "gro§
A e B que A acredita em Deus e B não, então, quando A so modo" com -i.ndZc-i.o
ou ó-i.ntoma) e um que~e.~ dcz e« nãg
enuncia "Deus castigou-me", A não tem certamente a in natu~ai (que designa por "meaning n"). Dentro deste
tenção de que B acredite que Deus o castigou (visto A faz a suplementar diferenciação en~re (a) o sentido de
saber que B não crê em Deus), mas tem a intenção que que~e~ dize~ na expressão "alguém quer dizer qualquer
B acredite que ele A acredita que Deus o castigou. coisa com x", onde x é um enunciado; e (b) o sentido
de que~e~ d-i.ze~na expressão "x. que.~ d.i.z en: qualquer
(13) Ver Alston (1964), p. 33; ou Heringer (1978 b), p. 2~ coisa", que podíamos parafrasear por "x óign-i.6-i.ca quaJ:
(14) Ver Wittgenstein (1971), § 22. quer coisa". O nosso conceito de que~e~ dize~ corres-
ponde sensivelmente ao de Grice em (a). Bem como o oo§
(15) Para uma exposição crítica das quatro teorias do si- so oonoeito de óigni6-i.ca~ (.6-i.gni6-i.cado)
cor~de ao
gnificado referidas, ver Alston (1964), Caps. 1 e 2 e conceito griceano de ql(e~el1. d-i.ze~ilustrado em (b).
Heringer (1974 a), Capo 1. De notar que estes auto-
(30) Sobre a teoria dos actos linguísticos i~directos, ver
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t' _
Searle (1979), Capo 2. Um texto em que se põe em cau-
sa a justeza desta teoria é Fritz, G./M. Muckenhaupt
(1981), Capo 12.
(31) Em oposição ao que diz Gr:lce, autor desta teoria, (que
mencionaremos a seguir) ·parece-nos que a relação entre
proposições que melhor serve para explicar os casos tí
picos de ironia é cont~á~~a de e não cont~ad~tõ~~a de~ John L Austin
Quando ironicamente afirmo "Ela é muito bonita", o que
estou a implicitar não é a proposição contraditória
"Ela não é muito bonita" (o que deixaria em aberto a
possibilidade de eu a achar apesar de tudo bonita, pe);: PERFORMATIVO-CONSTATIVO
dendo-se assim o chiste irónico) mas sim a proposição
contriria "Ela é muito feia".
(32) Ver Grice (1975) e alguns comentirios suplementares a
este primeiro texto em Grice (1978)
(33) Ver Morris (1938), pp. 6 e 7.
(34) Ver Carnap (1939), p. 4.
(35) Ver Ross (1970) para a exposição da "anilise performa-
tiva"; críticas à posição de Ross encontram-se em Gre-
wendorf (1975) e Searle (1979), Capo 7.
(36) Ver Stalnaker (1972), pp 383-386; para outra definição
de semântica e pragmitica, ver Lyons (1978), pp. 19-21
(37) Ver Stalnaker (1972), pp. 387-389. As raízes do concei
to de pressuposição devem procurar-se no artigo de
Strawson, "On Referring", incluído em Strawson (1971).
(38) Ver Keller (1975 a), pp. 22-23.

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