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A Colméia e a Abelha

do Langstroth

Manual Clássico de Apicultura

L. L. Langstroth

Tradução C. A. Osowski
The art of order to a peopled kingdom. - Sheakspeare
Creatures, that by a rule in Nature, teach
So work the Honey Bees,

Assim trabalham as abelhas,


Criaturas, que por uma lei natural, ensinam
A arte da disciplina para o povo do reino. – Sheaskpeare
A Colméia e a Abelha
do Langstroth

O Manual Clássico de Apicultura

L. L. Langstroth
Introdução

Sinto-me feliz por saber do meu amigo Sr. Langstroth, que


está prestes a ser lançada uma nova edição do seu trabalho so-
bre A Colméia e as Abelhas; considero-o, de longe, de entre todos
que tenho conhecido, o mais valioso tratado sobre este assunto.
Tomei conhecimento das principais características de seu siste-
ma de apicultura alguns anos antes de sua publicação; já naque-
la data me certifiquei que ele era incomparavelmente superior a
todos os outros sobre os quais eu tinha lido ou dos quais tinha
ouvido falar. Esta convicção foi grandemente reforçada pelo tes-
temunho de outras pessoas, bem como pelos resultados conse-
guidos com minhas observações.
Durante minha vida tive experiência relevante no manejo das
abelhas e, me atrevo a dizer, a colméia criada pelo Sr. Langstroth
é, em todos os aspectos, muito superior a qualquer outra que eu
já tenha visto, seja aqui seja no exterior. Realmente não acredito
que alguém, tendo real interesse em criar abelhas, possa, por um
momento sequer, hesitar em usá-la; ou melhor, possa, quando
tomar conhecimento da sua natureza e méritos, ser induzido a
usar qualquer outra.
Ao longo deste trabalho é desvendado o verdadeiro segredo
para fazer que esta comunidade de insetos, a mais industriosa,
interessante e útil, trabalhe e viva em moradias tanto confortá-
veis para elas mesmas quanto maravilhosamente convenientes
para sua sociedade, sua divisão e seu rápido crescimento; e tudo
isto sem diminuir a produtividade do seu trabalho ou lançar mão
da cruel necessidade de as destruir.
O Sr. Langstroth nos ensina em seu livro como criar abelhas
sem muito trabalho e sem o risco de sofrer com a arma que o
Criador lhes forneceu para sua própria defesa. Até mesmo uma
delicada senhora não precisa temer de levar em frente a tarefa de
se dedicar a este fascinante ramo da Economia Rural. Nada é
mais fácil para qualquer família que reside numa situação favo-
rável do que ter algumas colônias, e com custo mínimo. Espero,
sinceramente, que muitos tirem proveito das facilidades coloca-

L. L. Langstroth 3
das à sua frente para ter sucesso com este fácil ramo de ativida-
de, não apenas tendo em vista grandes lucros, em comparação
aos custos, que dele se pode conseguir, mas também pelo grande
prazer que se pode encontrar na observação dos hábitos destas
pequenas e maravilhosas criaturas. Quão notavelmente a sua
organização geral ilustra a sabedoria e a habilidade do Grande
Criador de todas as coisas.
Não posso acreditar que muitos Ministros do Evangelho, re-
sidindo na zona rural, não aceitem a generosa oferta do Sr.
Langstroth de livre uso de sua invenção. Com muito pouco tra-
balho e custo eles podem obter da apicultura consideráveis lu-
cros, bem como muito prazer. Nenhuma outra atividade indus-
trial ou material pode ser mais inocente, ou menos inconsistente
com suas obrigações.
Poucas são as regiões de nosso país que não são admiravel-
mente apropriadas para a criação de abelhas. A saúde da nação
será beneficiada em milhões de dólares se cada família, favora-
velmente situada para a apicultura, mantiver algumas colméias.
Não se consegue citar nenhum outro ramo de atividade no qual
ocorram perdas tão reduzidas do material utilizado, ou que seus
lucros se originem do vasto e inesgotável domínio da Natureza.
Tenho certeza que o trabalho do Sr. Langstroth contribuirá
grandemente para instalar um departamento da Economia Rural
que, neste país, tem recebido até agora tão pouca atenção da ci-
ência. Cabe-lhe muito bem o título de Benfeitor; infinitamente
com mais razão do que a muitos outros que, no mundo inteiro e
em todos os tempos, têm recebido este honroso título. Não se
passarão muitos anos para que sua valiosa invenção seja exten-
samente utilizada, tanto no Mundo Antigo como no Novo. É pre-
ciso apenas que seus grandes méritos sejam conhecidos e o tem-
po, certamente, fará o resto.
ROBERT BAIRD

4 A Colméia e a Abelha
Prefácio

Animado pelo interesse com que a edição anterior deste tra-


balho foi recebida submeto ao público uma Edição Revisada, i-
lustrada com novas figuras e contendo minhas últimas descober-
tas e melhorias. A informação aqui apresentada se adapta não
somente para os usuários da colméia de quadros móveis mas a
todos que têm interesse numa apicultura rentável com qualquer
colméia, ou com qualquer sistema de manejo.
Impedido, mui severamente, por causa da saúde debilitada,
de cumprir com as obrigações de minha profissão e compelido a
procurar uma atividade que me levasse, tanto quanto possível,
para a natureza, alimentei a esperança de que meu trabalho
numa área da Economia Rural pudesse ser proveitoso para a
comunidade. A apicultura é vista na Europa como uma atividade
intelectual e todo aquele que estuda os maravilhosos hábitos
deste útil inseto, sempre encontrará material para novas e e-
xaustivas observações. O Criador afixou o selo de sua Infinitude
em todo o seu trabalho, assim é impossível, até mesmo nos mí-
nimos objetos, "procurando, não encontrar o Onipotente perfei-
tamente". Em nenhum deles, porém, ele se mostrou mais clara-
mente do que na organização das abelhas:
"What well-appoited commonwealths! when each
Adds to the stock of happiness for all;
Wisdom´s own forums! whose professors teach
Eloquent lessons in their vaulted hall!
Galleries of art! And schools of industry!
Stores of rich fragrance! Orchestras of song!
What marvellous seats of hidden alchemy!
How oft, when wandering far and erring long,
Man might learn truth and viertue from the BEE!
BOWRING.
Chamamos a atenção, em particular, dos Ministros do Evan-
gelho para este ramo da História Natural. Uma familiaridade ín-
tima com as maravilhas das abelhas traz, de várias formas, be-
nefício para eles e pode, ao mesmo tempo, levá-los, em seus
sermões, a imitar mais de perto o exemplo Dele que ilustrava

L. L. Langstroth 5
seus ensinamentos com "os pássaros do ar e os lírios do campo",
bem como com o caminho normal da vida e as atarefadas ativi-
dades do homem.
Sou feliz em reconhecer minhas dívidas com o Sr. Samuel
Wagner, de York, Pensilvânia, pela ajuda material na preparação
deste Tratado. Meus leitores sentir-se-ão devedores pelas infor-
mações extremamente valiosas obtidas graças à sua extensiva e
precisa familiaridade com a apicultura alemã,
L. L. LANGSTROTH
OXFORD, BUTLER COUNTY, OHIO, MARÇO, 1859.

6 A Colméia e a Abelha
INDICE

Índice

Página
Lista das Lâminas e Explicação das Ilustrações so-
bre a História natural das Abelhas ....................... 13
Capítulo

I. FATOS LIGADOS À INVENÇÃO DA


COLMÉIA DE QUADROS MÓVEIS.................11
II. AS ABELHAS SÃO TRATÁVEIS .......................21
III. A RAINHA OU MÃE DAS ABELHAS; OS
ZANGÕES; AS OPERÁRIAS; FATOS DA
SUA HISTÓRIA NATURAL .............................25
IV. FAVO .............................................................59
V. PRÓPOLIS ......................................................67
VI. PÓLEN OU "PÃO DA ABELHA" ........................71
VII. VENTILAÇÃO DA COLMÉIA ............................77
VIII. REQUISITOS DE UMA COLMÉIA IDEAL..........83
IX. ENXAMEAÇÃO NATURAL E
ALOJAMENTO DE ENXAMES .......................95
X. ENXAMEAÇÃO ARTIFICIAL .......................... 123
XI. PERDA DA RAINHA ...................................... 181
XII. A TRAÇA DA CERA E OUTROS INIMIGOS
DAS ABELHAS - DOENÇAS DAS
ABELHAS ................................................... 195
XIII. PILHAGEM E COMO PREVENIR ................... 225
XIV. INSTRUÇÕES PARA ALIMENTAR AS
ABELHAS ................................................... 231
XV. O APIÁRIO - COMPRA DE ABELHAS -
TRANSFERÊNCIA DE ABELHAS DAS
COLMÉIAS COMUNS PARA AS
COLMÉIAS DE QUADROS MÓVEIS............. 243
XVI. MEL ............................................................. 249

L. L. Langstroth 7
XVII. FORRAGEM APÍCOLA SUPER-
POVOAMENTO ........................................... 255
XVIII. AGRESSIVIDADE DAS ABELHAS
REMÉDIO PARA SUA FERROADA ............... 269
XIX. ABELHA ITALIANA ....................................... 279
XX. TAMANHO, FORMA E MATERIAL DAS
COLMÉIAS NÚCLEO DE OBSERVAÇÃO...... 289
XXI. HIBERNANDO AS ABELHAS ......................... 295
XXII. CALENDÁRIO DO APICULTOR AXIOMAS
DO APICULTOR .......................................... 317

8 A Colméia e a Abelha
Colméia de Quadros Móveis, com todos os Vidros.

L. L. Langstroth 9
A COLMÉIA E A ABELHA

CAPÍTULO I

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MÉIA DE QUADROS MÓVEISO S M Ó VE IS

A apicultura neste país está em situação deprimente, encon-


trando-se totalmente abandonada pela grande maioria dos mais
favoravelmente situados para dela se ocuparem. Não obstante as
inúmeras colméias que foram criadas, a devastação pela traça da
cera1 aumentou e o sucesso tem se tornado mais e mais incerto.
Enquanto muitos abandonaram a atividade por desgosto, mui-
tos, mesmo os mais experientes, começam a suspeitar que todas
as assim chamadas "Colméias Melhoradas" não passam de uma
ilusão ou embuste e que devem retornar para a caixa simples ou
para o tronco cavado e "afugentar" suas abelhas com enxofre
como antigamente.
Na atual situação da opinião pública, é necessária muita
confiança para introduzir outra patente de colméia ou um novo
sistema de manejo; mas acreditando que chegou uma nova era
para a apicultura, peço atenção dos Apicultores para a leitura
atenta deste Manual, confiante que ficarão convencidos que exis-
te uma forma melhor do que qualquer outra com a qual eles já
tenham se familiarizado. Eles encontrarão aqui uma explicação
clara para muitos assuntos até hoje misteriosos sobre a fisiologia
da abelha, junto com muitas informações valiosas nunca antes
comunicadas ao público.
Já decorrem mais de vinte anos desde que voltei minha a-
tenção para a criação de abelhas. Tendo a situação de minha sa-
úde me compelido, nos últimos anos, a passar mais tempo ao ar
livre, devotei grande parte do meu tempo à investigação minucio-

1 O autor utiliza o termo "bee-moth" que foi traduzido como traça da cera. N. T.
L. L. Langstroth 11
sa dos seus hábitos, bem como a uma série de meticulosos expe-
rimentos sobre a construção e manejo das colméias.
Nos primórdios dos meus estudos apícolas construí uma
colméia conforme a proposta do célebre Huber e, conhecendo al-
gumas de suas mais valiosas descobertas, fiquei convencido de
que os preconceitos que existiam contra ele eram totalmente in-
fundados. Confiante que suas descobertas lançavam a base de
um sistema apícola mais promissor, comecei a experimentar
colméias com diferentes formas de construção.
Ainda que o resultado destas investigações ficasse muito
longe de minhas expectativas, algumas destas colméias abrigam
ainda hoje enxames vigorosos com quarenta anos de idade, os
quais, sem alimentação, superaram as vicissitudes de alguns dos
piores períodos nunca vividos pelas abelhas.
Ao mesmo tempo em que estou confiante que minha colméia
possui peculiaridades valiosas, não me sinto capaz de livrar a a-
picultura das muitas casualidades desconcertantes às quais ela
está sujeita; fiquei convencido que nenhuma colméia poderá fa-
zê-lo a menos que ela consiga controle completo sobre os favos, de
forma que qualquer um deles, bem como todos eles, possam ser
removidos quando se quiser. O uso da colméia do Huber me dei-
xou satisfeito, uma vez que, com algumas precauções, os favos
podem ser inspecionados sem tumultuar as abelhas, e assim é
possível manter estes insetos surpreendentemente dóceis. Sem o
conhecimento destes fatos, eu poderia ter procurado uma col-
méia que permitisse a remoção dos favos de forma quase perigo-
sa sob o ponto de vista prático. Inicialmente usei sarrafos mó-
veis, ou barras, encaixados nos chanfros superiores das laterais
anterior e posterior da colméia. As abelhas iniciavam seus favos
nestas barras e depois os fixavam nas laterais da colméia. Cor-
tando estas ligações, os favos, por estarem presos às barras, po-
diam ser removidos. Não havia nada de novo no uso destas bar-
ras - sua invenção ocorreu, provavelmente, há mais de cem anos
- e a principal peculiaridade desta colméia é a facilidade com que
eles podem ser removidos sem tumultuar as abelhas, mas de
forma melhorada para obter uma produção excedente de mel.
Com colméias assim construídas, fiz experiências em escala
maior do que até então e obtive, em pouco tempo, resultados
magníficos. Pude abandonar totalmente a enxameação natural e
ainda multiplicar as colônias com maior rapidez e certeza do que
pelos métodos comuns. Todas as colônias fracas podiam ser re-
12 A Colméia e a Abelha
forçadas e as que tinham perdido sua rainha podiam receber re-
cursos para criar outra. Se eu suspeitasse que qualquer coisa es-
tivesse errada na colméia podia averiguar prontamente a verda-
deira condição e aplicar o corretivo apropriado. Em poucas pala-
vras, fiquei satisfeito, a apicultura podia se tornar altamente ren-
tável e ainda um negócio tão seguro quanto as demais atividades
da economia rural.
Um item, no entanto, permanecia a desejar. O corte dos favos
em suas ligações com a colméia trazia muita perda de tempo
tanto para mim quanto para as abelhas. Isto me levou a criar um
método em que os favos eram presos a QUADROS MÓVEIS, de
forma que quando suspensos nas colméias não tocassem nem no
topo, nem no fundo, nem nas laterais. Com este dispositivo os
favos podiam ser removidos a bel prazer sem nenhum corte e
transferidos prontamente para outra colméia. Depois de utilizar
intensamente colméias com esta construção, conclui que eles, os
quadros móveis, atendiam o objetivo proposto na invenção.
No Verão de 1851 me convenci que as abelhas podiam ser
postas a trabalhar em colméia de vidro, expostas à luz do dia.
Esta descoberta me trouxe a satisfação de conhecer o Rev. Dr.
Berg, então pastor da Reformed Dutch Church, Filadélfia. Atra-
vés dele soube, pela primeira vez, que um clérigo Prussiano de
nome Dzierzon1, estava despertando a atenção das cabeças coro-
adas pelas suas descobertas sobre o manejo das abelhas. Antes
de ele me por a par das particularidades destas descobertas, ex-
pliquei ao Dr. Berg meu próprio sistema e lhe apresentei minha
colméia. Ele expressou um grande assombro pela maravilhosa
semelhança entre nossos métodos de manejo sem que nenhum
de nós tivesse tido qualquer conhecimento do trabalho do outro.
Nossas colméias, concluiu ele, diferiam em alguns aspectos
realmente fundamentais. Na colméia de Dzierzon os favos por
não estarem presos a quadros móveis mas a barras não podiam
ser removidos sem serem cortados. Na minha colméia, todo favo
podia ser retirado sem retirar os demais; além disso, na colméia
de Dzierzon muitas vezes era necessário cortar e remover muitos
quadros para ter acesso a um em particular; assim, caso fosse
intenção remover o décimo era necessário retirar nove. A colméia
Alemã não conseguia um excedente em mel na forma mais co-
merciável em nossos mercados, ou não permitia um transporte

1 Pronuncia-se Tseertsone.
L. L. Langstroth 13
seguro do favo. Não obstante esta desvantagem ela obteve um
grande triunfo na Alemanha e trouxe um novo impulso para a
criação de abelhas.
A carta que segue de Samuel Wagner, Esq., Caixa do Banco
de York, York, Pensilvânia, mostra os resultados obtidos na Ale-
manha com o novo sistema de manejo e sua avaliação de que a
minha colméia é superior às outras em uso.
"York, Pa., Dez. 24, 1852.
"Prezado Senhor: - A teoria do Dzierzon, bem como o sistema
de manejo apícola nela baseado, foi apresentada pela primeira
vez, teoricamente, no ‘Eichstadt Bienen-zeitung’, ou Revista sobre
Abelha, em 1845, e chamou imediatamente minha atenção. Sub-
seqüentemente quando em 1848, a pedido do governo da Prús-
sia, o Rev. Sr. Dzierzon publicou sua ‘Teoria e Prática da Apicul-
tura’, importei uma cópia, que recebi em 1849, e que traduzi an-
tes de Janeiro de 1850. Antes de concluir a tradução recebi a vi-
sita de meu amigo o Rev. Dr. Berg, da Filadélfia, e, no transcor-
rer da conversa sobre apicultura, mencionei a ele a teoria e o sis-
tema de Dzierzon como um que eu considerava novo e muito su-
perior, ainda que eu não tivesse tido a oportunidade de testá-lo
praticamente. No mês de Fevereiro seguinte, quando estive na Fi-
ladélfia, deixei com ele a tradução do manuscrito - e tenho dúvi-
da se, até aquela data, outra pessoa, neste país, tenha tido qual-
quer conhecimento da teoria de Dzierzon; nunca a mencionei a
ninguém, exceto ao Dr. Berg, a não ser em termos gerais.
"Em Setembro de 1851, o Dr. Berg visitou novamente York e
me informou sobre suas investigações, descobertas e invenções.
Pela avaliação que o Dr. Berg me transmitiu, tenho certeza que o
Senhor delineou substancialmente o mesmo sistema que o con-
cebido com tanto sucesso pelo Sr. Dzierzon; mas não tenho con-
dições de julgar, apenas pela descrição, o quanto a sua colméia
lembra a dele. Contudo, inferi alguns pontos de diferença. A co-
incidência dos sistemas e os princípios sobre os quais eles, evi-
dentemente, se basearam, surpreendeu-me de modo extrema-
mente singular e interessante, pois tinha certeza que o Senhor
não sabia mais do Sr. Dzierzon e seu trabalho, antes do Dr. Berg
mencioná-lo e o seu livro ao senhor, do que o Sr. Dzierzon sabia
do seu. Estas constatações me deixaram ansioso por examinar
sua colméia, e me levaram a visitar seu apiário no Oeste da Fila-
délfia em agosto passado. Estando o responsável ausente, tomei
a liberdade de explorar o local minuciosamente, abrindo e inspe-
14 A Colméia e a Abelha
cionando um bom número de colméias e tomando conhecimento
da disposição interna das partes. O resultado foi, retornei con-
vencido que ainda que seu sistema fosse baseado nos mesmos
princípios que os usados por Dzierzon, sua colméia era quase to-
talmente diferente da dela tanto na construção como na disposi-
ção; ainda que os mesmos objetivos tenham sido substancial-
mente alcançados por cada um, a sua colméia é mais simples,
mais conveniente e muito melhor adaptada para disseminação
geral e uso, visto que a forma de usá-la é mais facilmente apren-
dida. Não tenho dúvida do seu resultado e sucesso triunfantes.
Acredito, sinceramente, que, quando ela chegar ao conhecimento
do Sr. Dzierzon, ele mesmo há de preferi-la à sua própria. Ela
combina, de fato, todas as boas qualidades que uma colméia de-
ve possuir, está isenta de complicações, extravagâncias, capri-
chos vaidosos e, decididamente, formas censuráveis que caracte-
rizam a maioria das invenções que prometem ser superiores em
tudo a uma colméia que nada mais é do que uma caixa simples
ou câmara simples.
"O Senhor pode, com certeza, reivindicar iguais créditos que
o Dzierzon pela originalidade na observação e descoberta sobre a
história natural da abelha, pelo sucesso em descobrir os princí-
pios e divisar o mais valioso sistema de manejo a partir da ob-
servação dos fatos. Como sua invenção contém clareza, solidez e
adapta os meios aos fins, é razão para o grande Alemão bater
palmas a você.
"Envio em anexo algumas colocações interessantes a respeito
de Dzierzon, e a avaliação de como o seu sistema está evoluindo
na Alemanha.
Sinceramente
SAMUEL WAGNER
REV. L. L. LANGSTROTH."
A seguir as colocações às quais o Sr. Wagner se refere:
"Pode ser interessante um breve relato do crescimento e dis-
seminação do sistema do Sr. Dzierzon como testemunho do valor
e dos resultados que com ele se pode conseguir. Em 1835, ele
começou na apicultura na forma comum com doze colônias e de-
pois de vários percalços, que lhe mostraram os defeitos das col-
méias comuns e da forma ultrapassada de manejo, seu inventá-
rio reduziu tanto que, em 1838, teve de, virtualmente, começar

L. L. Langstroth 15
de novo. Neste período ele divisou melhorias em sua colméia, a-
inda de forma simples, o que lhe permitiu controle sobre todos os
favos, e ele começou a experimentar o que a observação e o estu-
do lhe permitiram divisar. Dali em diante seu progresso foi rápi-
do e seu sucesso completo e triunfante. Embora ele tenha tido
alguns revezes, cerca de setenta colônias lhe foram roubadas,
sessenta destruídas pelo fogo e vinte e quatro pela enchente, a-
inda assim, em 1846, seu inventário tinha crescido para trezen-
tas e sessenta colônias, e delas ele colheu naquele ano seis mil
libras de mel (2700kg), alem de algumas centenas de libras de
cera. Ao mesmo tempo, a maior parte dos apicultores em suas
proximidades, que continuaram com os métodos comuns, ti-
nham menos colméias do que tinham quando começaram.
No ano de 1848, uma epidemia fatal, conhecida pelo nome
de ‘cria pútrida’, se espalhou entre suas abelhas e destruiu qua-
se todas sua colônias antes que pudesse ser controlada; apenas
cerca de dez escaparam da doença que atacou tanto as antigas
como seus enxames artificiais. Ele estima que sua perda, naque-
le ano, foi superior a quinhentas colônias. No entanto, ele foi tão
bem sucedido na multiplicação pela enxameação artificial que,
com as poucas que estavam saudáveis no Outono de 1851, con-
seguiu um inventário de cerca de quatrocentas colônias. Ele
multiplicava suas colônias em mais de três vezes a cada ano.
A condição altamente próspera de suas colônias é atestada
pelo Relatório do Secretário do Annual Apiarian Convention que
ocorreu em suas proximidades na Primavera passada. Esta Con-
venção, a quarta que era realizada, contava com cento e doze en-
tusiastas apicultores de várias regiões da Alemanha e países vi-
zinhos e, entre eles, havia alguns que, durante a reunião, eram
fortes oponentes do sistema.
"Eles visitaram e examinaram pessoalmente os Apiários do
Sr. Dzierzon. O relatório fala em termos realmente superlativos
do seu sucesso e da superioridade clara do seu sistema de mane-
jo. Ele mostrou e explicou claramente aos visitantes sua prática
e princípios; eles constataram com admiração a docilidade singu-
lar das abelhas e o controle total a que elas se submetiam. Ao fi-
nal dos ricos detalhes apresentados nos anais, diz o Secretário:
"´Agora que vi o método de Dzierzon demonstrado pratica-
mente, devo admitir que ele pode ser implantado com menos di-
ficuldades do que eu tinha suposto. Com sua colméia e sistema
de manejo, parece que as abelhas são mais dóceis do que em ou-
16 A Colméia e a Abelha
tros casos. Considero o seu sistema o mais simples e o melhor
meio de transformar a apicultura numa atividade rentável e de
ser levada a todo lugar; especialmente por se adaptar às regiões
onde as abelhas não enxameiam fácil e regularmente. Teve su-
cesso claro em repor as pesadas perdas sofridas pela ação da e-
pidemia devastadora; em poucas palavras, o poder de recupera-
ção possível com o uso do sistema, demonstra conclusivamente
que ele fornece o melhor, talvez o único, meio de tornar a apicul-
tura uma atividade rentável da economia rural.
"´Dzierzon, modestamente, declina da idéia de ter atingido a
perfeição com sua colméia. Ele insiste, antes, sobre a verdade e
validade de sua teoria e sistema de manejo.´
"Do Leipzig Illustrated Almanac - Relatório sobre a Agricultura
de 1846:
"´A apicultura não será mais vista como sem valor na eco-
nomia rural.´
"Do mesmo, do período 1851 a 1853:
"´Desde que o sistema de Dzierzon se tornou conhecido, o-
correu uma revolução completa na apicultura. Iniciou uma nova
era para a apicultura e os apicultores estão voltando sua atenção
para ela com zelo renovado. Os méritos de suas descobertas são
apreciados pelo Governo que recomendam o seu sistema como
merecedor da atenção dos professores das escolas comuns.´
"O Sr. Dzierzon reside num distrito pobre, arenoso da Baixa
Silésia que, de acordo com a experiência dos Apicultores, é des-
favorável para a apicultura. Mesmo assim, a despeito disto e dos
vários outros infortúnios, ele conseguiu arrecadar novecentos
dólares como produto de suas abelhas durante uma estação!
"Através do seu método de manejo, suas abelhas rendem,
mesmo nos anos mais pobres, 10 a 15 porcento do capital inves-
tido; e as colônias, conseguidas graças à perícia e trabalho do a-
picultor, lhe custam apenas um quarto do valor pelo qual elas
são normalmente avaliadas. Em estações normais, o lucro atinge
de 30 a 50 porcento, e em estações muito favoráveis de 80 a 100
porcento."
Ao trazer a público estes fatos, me orgulho em reivindicar ter
chegado, por minhas descobertas independentes, a um sistema
de apicultura que provocou tanto interesse na Alemanha; desejo
também fazer valer o testemunho, sobre os méritos da minha
L. L. Langstroth 17
colméia, expresso pelo Sr. Wagner, largamente conhecido como
um competente estudioso Alemão. Ele adquiriu todas as revistas
sobre apicultura publicadas mensalmente na Alemanha por mais
de dezenove anos e ele está, sem dúvida, mais familiar do que
qualquer outra pessoa, em seu país, com a situação da cultura
apícola no estrangeiro.
Quero mostrar, também, que o valor que atribuo ao meu sis-
tema de manejo é justificado, sobejamente, pelo sucesso daque-
les que, com o mesmo sistema, mesmo com colméias inferiores,
conseguiram resultados quase inacreditáveis para o apicultor
comum. Os inventores estão prontos a superestimar o valor do
seu trabalho e o público tem sido iludido, tantas vezes, por pa-
tentes de colméias que têm falhado totalmente em atingir os ob-
jetivos preconizados, que eles raramente podem ser censurados
por rejeitar toda novidade como não merecedora de crédito.
Uma Revista Apícola Americana, apropriadamente conduzi-
da, pode ser valiosa para disseminar a informação, despertar o
entusiasmo e proteger o público de imposições miseráveis que há
tanto tempo está sendo submetido. Na Alemanha são publicadas
mensalmente três revistas desta natureza; sua circulação tem
disseminado amplamente os princípios que devem constituir o
fundamento de qualquer sistema apícola bem orientado e rentá-
vel.
Embora muitos dos principais fatos sobre a fisiologia da abe-
lha tenham sido descobertos há muito tempo, infelizmente tem
acontecido que alguns dos mais relevantes têm sido amplamente
desacreditados. Eles, por si só, são tão maravilhosos e, muitas
vezes, são incríveis para os que não conseguiram testemunhá-
los, a ponto de não ser estranho que eles sejam rejeitados como
conceitos fantasiosos ou invenções descabidas.
Por mais de meio século têm-se usado colméias envoltas por
vidro em ambas as laterais com apenas um favo. Estas colméias
são escurecidas por janelas e, quando abertas, a rainha fica tão
exposta à observação quanto as demais abelhas. Descobri que,
com precauções apropriadas, as colônias podem ser colocadas a
trabalhar em núcleo de observação exposto continuamente à luz
do dia; assim as observações podem ser feitas a toda hora, sem
interromper, por uma súbita admissão de luz, as operações nor-
mais das abelhas. Em tais colméias muitas pessoas, estudiosas
de vários estados da União, têm visto a rainha depositar seus o-
vos nos alvéolos, rodeada por um afetuoso círculo de suas devo-
18 A Colméia e a Abelha
tadas filhas. Eles têm testemunhado, também, com assombro e
prazer, todas as etapas misteriosas do processo de desenvolvi-
mento da rainha a partir de ovos que pelo desenvolvimento nor-
mal produziriam apenas abelhas comuns. Muitas vezes por perí-
odo superior a três meses não passou um dia sequer, em meu
apiário, no qual algumas colônias não estivessem engajadas no
desenvolvimento de novas rainhas para tomar o lugar da que
lhes foi tirada e eu tive o prazer de mostrar estes fatos a apicul-
tores que, antes, nunca estiveram dispostos a neles acreditar.
Como todas as minhas colméias são construídas de forma
que qualquer favo pode ser retirado e examinado a bel prazer,
aqueles que as usarem podem conseguir toda a informação de
que precisam sem que nada deva ser apenas acreditado. Que me
seja permitido expressar a esperança que o tempo está, agora, na
mão quando o número de observadores práticos será multiplica-
do e os princípios da apicultura tão profundamente entendidos,
de forma que os ignorantes e os maquinadores não terão condi-
ções de impor seus conceitos e hipocrisias ao público, menospre-
zando as descobertas dos que têm devotado anos de observação
para o avanço do conhecimento apícola!

L. L. Langstroth 19
CAPÍTULO II

A
ASS A
ABBE
ELLH
HAASS SSÃ
ÃOO TTR
RAATTÁ
ÁVVE
EIISS

Se as abelhas não dispusessem de uma arma tão formidável


tanto para ataque como para defesa, uma multidão que a teme
poderia ser facilmente induzida a se engajar na sua criação. Co-
mo meu sistema de manejo permite as maiores liberdades possí-
veis com estes insetos defensívos, creio ser primordial mostrar
pelo básico como todas as operações necessárias podem ser rea-
lizadas sem incorrer em grande risco de provocar sua defensivi-
dade.
Muitas pessoas não conseguiram esconder sua surpresa ao
me verem abrir colméia após colméia, retirar os favos cobertos de
abelhas, sacudi-las na frente da colméia, formar novos enxames,
mostrar a rainha, transferir as abelhas com toda sua reserva pa-
ra outra colméia e, em poucas palavras, manuseá-las como se
elas fossem moscas indefesas. Algumas vezes me perguntam se
as abelhas das colméias que abri não tinham sido submetidas a
prolongado treinamento; por vezes elas continham enxames que
tinham sido trazidos para o meu apiário apenas no dia anterior.
Pretendo, neste capítulo, antecipar alguns princípios da his-
tória natural da abelha para convencer meus leitores que qual-
quer um, favoravelmente situado, pode desfrutar do prazer e do
benefício da atividade que foi apropriadamente intitulada "a poe-
sia da economia rural", sem se tornar familiar com uma arma
pequena e afiada que pode prontamente converter toda a poesia
numa prosa muito triste.
Deve ser dito para toda a cabeça pensante que o Criador
concebeu a abelha, tão certamente quanto o cavalo e a vaca, pa-
ra o conforto do homem. No início do mundo e, sem dúvida, até
quase os tempos atuais, o mel foi praticamente o único açúcar
natural; e a promessa "uma terra onde corre leite e mel" tinha
outrora um significado que nos é difícil entender claramente. A
abelha foi criada não apenas para meramente armazenar o deli-
cioso néctar para seu próprio uso, mas com algumas tendências,
L. L. Langstroth 21
sem as quais o homem não conseguiria submetê-la a seu contro-
le mais facilmente do que consegue transformar um leão ou um
tigre numa proveitosa besta de carga.
Uma das peculiaridades que constitui o fundamento do meu
sistema de manejo e, sem dúvida, a possibilidade de tornar com-
pletamente tratável um inseto tão defensivo, nunca foi, até onde
sei, claramente colocado como um principio fundamental e de
controle. Ele pode ser expresso da seguinte forma:
A abelha quando cheia de mel nunca ataca espontaneamente,
mas age exclusivamente para se defender.
Esta lei da tribo melífera é tão universal, que se pode esperar
antes, que uma pedra seja arremessada para o alto sem o auxílio
de qualquer força propulsora, do que uma abelha cheia de mel se
dispor a ferroar, a menos que seja esmagada ou machucada por
um ataque direto. Quem tentou, pela primeira vez, alojar um en-
xame de abelhas, deve ter tido uma grata surpresa pela tranqüi-
lidade com que conseguiu concluir a proeza; é extensamente co-
nhecido que as abelhas, quando tencionam enxamear, enchem
sua vesícula melífera o máximo possível. Elas se tornam, assim,
tão dóceis que podem ser facilmente apanhadas pelo homem, a-
lém de terem material para iniciar, imediatamente, as operações
em sua nova habitação e não correrem o risco de passar fome
caso ocorram vários dias chuvosos logo após a emigração.
As abelhas saem de suas colméias na forma mais pacífica
imaginável e, a não ser em caso de abuso, permitem serem tra-
tadas com grande familiaridade. Sua captura pode sempre ser
feita sem risco, se não existir, o que não é normal, alguma im-
prudente ou infeliz que vai em frente sem estar cheia de alimen-
to, mas, ao contrário, cheia do mais amargo furor contra quem
ousar se intrometer com ela. Tal radicalismo sem utilidade deve
sempre ser temido, pois elas precisam destilar sua raiva contra
algo, e ainda assim morrem durante a ação.
Se a colônia inteira, ao sair, estivesse possuída de um espíri-
to feroz ninguém poderia capturá-la a menos que vestido com
proteção à prova de abelha e não, sem antes, até que todas as
janelas de sua casa fossem fechadas, seus animais domésticos
levados para local seguro, e colocadas sentinelas em locais ade-
quados para alertar a todos que se aproximassem para se man-
terem a distância segura. Em poucas palavras, sem a tendência
de serem de boa índole depois que uma refeição farta lhes tenha

22 A Colméia e a Abelha
sido fornecida, elas nunca poderiam ser manejadas e o nosso
mel continuaria a ser procurado em fendas de rochas ou buracos
de árvores.
Uma segunda peculiaridade da natureza das abelhas, da
qual podemos nos valer com grande sucesso, pode assim ser e-
nunciada:
As abelhas não conseguem, em circunstância alguma, resistir
à tentação de se encherem, a si mesmas, com líquido doce.
É quase tão difícil para elas resistirem, como para um ava-
rento inveterado desprezar uma chuva de ouro de duas águias1
caindo a seus pés e pedindo para serem apanhadas. Se, então,
ao tentarmos realizar qualquer operação que possa provocá-las,
pudermos chamar sua atenção para uma oferta fácil de doce,
podemos ficar seguros que, pela influência do doce, elas nos
permitirão o que quisermos, desde que não lhes causemos mal.
Deve-se tomar especial cuidado para não manuseá-las com
brutalidade, pois elas sempre que apertadas ou maltratadas ex-
porão o seu ferrão para mostrar sua indignidade. Se, assim que
a colméia é aberta, as abelhas visíveis forem suavemente borrifa-
das com água açucarada, elas se ajudarão umas às outras com
grande ânsia, e em poucos instantes estarão sob controle total. A
verdade é que as abelhas assim manejadas ficam satisfeitas em
ver os visitantes, pois deles elas esperam receber, a cada inter-
venção, uma tentadora oferta de paz. A grande objeção ao uso de
água açucarada é a cobiça das abelhas das outras colméias, as
quais, quando existir alguma escassez de mel no campo, muitas
vezes, rondam o apiário assim que lhes for apresentado o borri-
fador e tentam forçar caminho para qualquer colméia que for a-
berta, a fim de roubar, se possível, uma porção do tesouro.
Uma terceira peculiaridade da natureza das abelhas garante
um controle quase total sobre elas e pode ser expresso como se-
gue:
As abelhas amedrontadas começam a se encher imediata-
mente com mel dos favos.
Se o apicultor conseguir apenas amedrontar o pequeno inse-
to, ele ficará tão pacífico a ponto de ser incapaz de ferroar. O uso

1 Segundo Michaelis - Double eagles: antiga moeda de ouro com valor de 10 dóla-

res. N. T.
L. L. Langstroth 23
de um pouco de fumaça de madeira em decomposição1, a maior e
mais defensiva colônia fica completamente submissa. Assim que
a fumaça for soprada sobre as abelhas, elas batem em retirada,
ficam submissas ou se mostram atemorizadas e, como imagi-
nando que seu mel lhes será retirado, enchem ao máximo a sua
vesícula melífera. Elas agem ou como se tivessem sido advertidas
que somente está a salvo o que elas conseguirem carregar em
sua vesícula ou como se estivessem sendo enxotadas de suas re-
servas, e assim elas ficam determinadas a começar com um su-
primento completo de provisão, seja lá o que acontecer. O mesmo
resultado pode ser conseguido fechando-as em sua colméia e
tamborilando sobre a colméia por pouco tempo. Os diferentes
processos, pelos quais é possível induzir as abelhas a se enche-
rem de mel, estão mais bem explicados no capítulo sobre enxa-
meação artificial.
Pelos métodos acima descritos, pode administrar um grande
apiário, realizar toda a operação necessária, por prazer ou por
necessidade, sem correr o risco de ser ferroado mais freqüente-
mente do que seríamos ao tentar manejar uma única colméia pe-
la forma ordinária.
Faça todos os movimentos junto de suas colméias de forma
suave e lenta. Acostume suas abelhas à sua presença: nunca
esmague ou maltrate as abelhas, não respire sobre elas durante
qualquer operação; familiarize-se inteiramente com os princípios
de manejo detalhados neste compêndio e você perceberá que tem
menos motivos para temer o ferrão da abelha do que os chifres
de sua vaca favorita ou as patas traseiras do seu leal cavalo.
Equipado com a máscara para abelhas (Lâmina XI., Figs. 25,
27) e luvas de india-rubber até mesmo o mais tímido, valendo-se
destes princípios, pode abrir minhas colméias e ocupar-se com
as abelhas com liberdade que surpreende à maioria dos mais ve-
lhos apicultores que empregam a forma comum: no manejo de
grandes apiários não se faz necessária nenhuma operação que
irrite uma colônia inteira e faça as abelhas atacarem com fúria
quase irresistível a pessoa do apicultor.

1Tal madeira é muitas vezes chamada de madeira podre; ela queima sem chama
até se consumir, e sua fumaça pode ser direcionada facilmente sobre as abelhas
pelo sopro do apicultor.
24 A Colméia e a Abelha
CAPÍTULO III

AARRA
AIIN
NHHA
AO OUUM MÃ ÃEED DA
ASS A ABBE
ELLH
HAASS;;
OOSS ZZA
ANNGGÕ ÕEESS;;
AASS O
OPPEERRÁÁRRIIA
ASS;;
FFA
ATTO
OSS DDA
A SSUUA
AH HIISSTTÓ
ÓR RIIA
AN NA
ATTU
URRAALL

As abelhas só podem prosperar quando reunidas em grande


número na forma de uma colônia. Solitariamente, uma simples
abelha necessita de tanta ajuda quanto uma criança recém nas-
cida, chegando a ficar paralisada pelo frio de uma noite amena
de Verão.
Ao examinar uma colônia que se prepara para enxamear três
espécies de abelhas serão encontradas na colméia.
1°: uma abelha com forma peculiar, chamada de Rainha.
2°: algumas centenas a, muitas vezes, milhares de grandes
abelhas chamadas de Zangões
3°: muitas milhares do menor tipo, chamadas Operárias, ou
abelhas comuns, iguais às vistas nas flores. Serão vistos muitos
alvéolos contendo mel e pão da abelha, um grande número de
ovos, bem como operárias e zangões não maduros. Alguns alvéo-
los de tamanho não comum são destinados para o desenvolvi-
mento de princesas. Na Lâmina XII, a rainha, zangão, e operária
estão representados ampliados e também no tamanho natural.
A rainha é a única fêmea perfeita da colméia e todos os ovos
são postos por ela. Os zangões são os machos e as operárias, são
fêmeas cujos ovários, ou "depósitos de ovos", são tão pouco de-
senvolvidos que elas são incapazes de procriar; estas conservam
o instinto de fêmeas somente no que ser refere a cuidar da cria.
Estes fatos foram demonstrados tantas vezes que eles são
tão bem conhecidos como a maioria das leis de procriação dos
nossos animais domésticos. O conhecimento deles, no seu pro-
pósito real, é essencial a todo aquele que quiser conseguir gran-
des lucros com métodos melhorados de criação de abelhas. Estes

L. L. Langstroth 25
que não se inteirarem das informações necessárias e, assim
mesmo, criarem abelhas, podem manejá-las na forma antiga que
exige menos conhecimento e habilidade.
Estou bem consciente de como é difícil persuadir os apicul-
tores, aos quais foi tantas vezes imposta uma nova idéia, a ponto
de eles não acreditarem nas colocações feitas pelos interessados
em patentear uma colméia; ou persuadir os apicultores que rotu-
lam todo o conhecimento, não coincidente com o seu, como mera
"cultura literária" não dando atenção para o homem prático.
Se algum destes ler este livro, quero lembrar-lhe que todas
as minhas afirmações podem ser confirmadas. Como durante
muito tempo o interior da colméia foi, para o observador comum,
um profundo mistério, os ignorantes ou astutos podiam afirmar
o que quisessem sobre o que se passava em seu recesso escuro;
mas agora, quando todo o favo pode, em poucos instantes, ser
exposto á luz do dia, o homem que divulgar seus próprios concei-
tos ou fatos será, prontamente, identificado como louco e como
impostor.
A rainha, por ser a mãe de toda a colônia, po-
de, muito apropriadamente ser chamada a abelha
mãe. Ela, sem ser questionada, reina por um di-
reito divino, pois toda boa mãe deve ser a rainha
em sua própria família. Sua forma é muito dife-
rente da forma das outras abelhas. Ela não é tão
corpulenta como o zangão, mas seu corpo é mais
longo; e como ela é consideravelmente mais alon-
gada, com a forma de um pão de açúcar, do que a
operária, ela tem a aparência semelhante a de uma vespa. Suas
asas são menores do que as asas do zangão ou da operária; a
parte inferior do seu corpo é de cor dourada e a parte superior
normalmente mais escura do que a das outras abelhas. Seus
movimentos são, geralmente, lentos e matronais, embora ela
possa, quando quiser, mover-se com surpreendente rapidez. Ne-
nhuma colônia pode sobreviver, por muito tempo, sem a presen-
ça deste influente inseto; mas seguramente deve morrer, assim
como o corpo sem espírito entra inevitavelmente em decomposi-
ção.
As abelhas tratam a rainha com o maior respeito e afeição.
Um círculo de operárias afetuosas a rodeia constantemente1, tes-

1 Ver o grupo de abelhas na Página-Título.


26 A Colméia e a Abelha
temunhando de várias formas sua relação de submissão; algu-
mas a tocam com suas antenas, outras lhe oferecem alimento de
tempos em tempos e todas elas polidamente lhe cedem o cami-
nho, oferecendo-lhe livre passagem quando ela se move sobre os
favos. Toda colônia privada de sua rainha fica em estado de
grande agitação assim que sua perda for percebida; todas as ati-
vidades da colméia são abandonadas, as abelhas correm freneti-
camente sobre os favos, e freqüentemente correm para fora da
colméia numa busca ansiosa por sua querida mãe. Se não con-
seguirem encontrá-la, elas retornam para sua desolada casa e
com um triste som revelam seu profundo sentimento por uma
calamidade tão deplorável. O som em tais ocasiões, mais especi-
almente assim que percebem sua perda, é de um caráter peculi-
armente deplorável; ele se parece com uma sucessão de lamúrias
em tom menor, e um apicultor experiente não pode confundi-lo
com o zumbido normal de satisfação, assim como a mãe ansiosa
não confunde o comovente gemido de uma criança doente com o
jovial murmurejar quando cheia de saúde e alegria.
Sei que, para a grande maioria, isto parece mais um roman-
ce do que uma sóbria realidade; mas, acreditando que é um cri-
me para todo observador obstinado expor erradamente ou ocul-
tar verdades fundamentais, eu decidi, ao escrever este livro, tra-
zer fatos maravilhosos assim como eles são; confiante que no
tempo devido eles serão universalmente reconhecidos; esperando
que as muitas surpresas na economia da abelha não só desper-
tem maior interesse na sua criação, mas conduzam os que as
observam a respeitar a sabedoria Dele que lhes forneceu tão ad-
miráveis instintos.
A fertilidade da rainha tem sido subestimada pela maioria
dos escritores. Durante o ápice do período de postura, ela, mui-
tas vezes, em condições favoráveis, porá entre dois e três mil o-
vos por dia! No meu núcleo de observação tenho observado ela
depositar ovos na taxa de seis por minuto. A prolificidade da fê-
mea da formiga branca é, no entanto, muito maior podendo che-
gar à taxa de sessenta ovos por minuto; mas seus ovos são sim-
plesmente expelidos do seu corpo e carregados pelas operárias
para berçários apropriados, enquanto a rainha, ela mesma, de-
posita seus ovos nos alvéolos apropriados.
Foi dito que a rainha normalmente começa a por ovos muito
cedo na estação e sempre muito antes de existir qualquer macho
na colméia. Como são, então, seus ovos fertilizados? Francis Hu-

L. L. Langstroth 27
ber, Genebra, ao longo do curso de infatigáveis investigações,
lançou muita luz sobre este assunto. Antes de discorrer sobre
suas descobertas, devo render meu humilde tributo de gratidão e
admiração a este homem maravilhoso. É torturante a todo natu-
ralista e, devo acrescentar, a todo homem honesto que tome co-
nhecimento dos fatos, ouvir um apicultor como o Huber ser in-
sultado pelos aprendizes e impostores; enquanto outros, devem
ao seu trabalho quase tudo que tenha algum valor em sua ativi-
dade
"Damn with faint praise, assent with civil leer.
And, without sneering, teach the rest to sneer."
Huber perdeu a visão no início da vida adulta. Seus oposito-
res imaginavam que ao mencionar este fato pudessem levar ao
descrédito todas as suas observações. Para reforçar suas conjec-
turas mais fortes, eles afirmam que o criado, Francis Burnens,
cujo auxílio lhe permitiu conduzir seus experimentos, era apenas
um agricultor ignorante. Este, assim chamado "agricultor igno-
rante", era uma pessoa de grande inteligência, possuidora de
uma energia e entusiasmo incansável, indispensáveis a um bom
observador. Ele era daquelas raras pessoas autodidatas e chegou
a ser o magistrado chefe na vila onde residia. Huber pagou um
admirável tributo à sua inteligência, fidelidade, paciência indo-
mável, energia e habilidade.1
Seria difícil encontrar em qualquer língua um exemplo me-
lhor de raciocínio indutivo do que o trabalho de Huber com as
abelhas, e este raciocínio indutivo pode ser visto como um mode-
lo, caminho único, capaz de investigar a natureza a fim de che-
gar a resultados confiáveis.
Huber foi assistido em suas pesquisas não só pelo Burnens,
mas também por sua própria esposa, com quem noivou antes de
perder a visão e que persistiu, nobremente, casando-se com ele
apesar de seu infortúnio e da enorme dissuasão de seus amigos.
Eles viveram mais tempo do que a média no gozo de grande ale-
gria no lar, de tal forma que o amável naturalista, graças à assí-
dua atenção de sua esposa, quase não sentiu falta de sua visão.
Muitos acreditam que Milton tenha sido o melhor poeta como

1Um fato simples mostra o caráter do homem. Fez-se necessário, num certo ex-
perimento, examinar todas as abelhas de duas colméias. "Burnens despendeu
onze dias realizando este trabalho, e durante todo este tempo ele não se permitiu
qualquer descanso a não ser o exigido pelos seus olhos".
28 A Colméia e a Abelha
conseqüência de sua cegueira; e é muito provável que Huber te-
nha sido um ótimo apicultor pela mesma razão. Seu espírito ati-
vo e reflexivo exigia constante ocupação; ele encontrou no estudo
dos hábitos das abelhas oportunidade para usar suas energias.
Todas as observações e experimentos do seu leal assistente, dia-
riamente relatados, recebiam dele muitos questionamentos e su-
gestões, que talvez não teriam sido feitos se ele pudesse usar
seus olhos.
Poucos, como ele, têm controle igual tanto sobre o tempo
como sobre o dinheiro para conseguirem prosseguir por tanto
tempo e profundidade, por vários anos, com custosos experimen-
tos. Tendo estudado repetidamente suas observações mais rele-
vantes, tenho um grande prazer em intitulá-lo, para os meus
compatriotas, como o Príncipe dos Apicultores.
Retornemos às suas descobertas sobre a fecundação da rai-
nha. Ao longo de experimentos cuidadosamente executados, ele
apurou que, assim como muitos outros insetos, ela é fecundada
no ar livre e durante o vôo; este assunto o ocupou durante anos,
se não durante toda sua vida. Ele não conseguiu, no entanto,
lançar uma hipótese de como eram fertilizados os ovos que ainda
não estavam desenvolvidos em seus ovários. Anos mais tarde, o
emitente Dr. John Hunter, e outros, supuseram que devia existir
um órgão que mantinha o esperma do macho e que se comuni-
cava com o oviduto. Dzierzon, que deve ser visto como um dos
mais competentes contribuintes da ciência apícola atual, susten-
ta esta opinião e afirma que ele encontrou um órgão desta natu-
reza cheio com um fluido semelhante ao sêmen do zangão. Pare-
ce que ele não confirmou suas descobertas por nenhum exame
ao microscópio.
No Inverno de 1851-2 enviei várias rainhas, para exame ci-
entífico, ao Dr. Joseph Leidy, Filadélfia, possuidos da maior re-
putação, tanto nacional quanto internacional, como um natura-
lista e anatomista especialisata em microscópia. Ele encontrou,
ao fazer a dissecação, um pequeno saco globular com cerca de
1/38 polegadas (0,7mm) de diâmetro, que se comunica com o o-
viduto, e cheio com um fluido esbranquiçado; este fluido, exami-
nado ao microscópio, abundava em espermatozóides o que ca-
racteriza o fluido seminal. Uma comparação desta substância,
mais tarde durante a estação, com o sêmen de zangão, mostrou
ser exatamente a mesma.
Estas investigações confirmaram, demonstração irrefutável,
L. L. Langstroth 29
o modo pelo qual os ovos da rainha são vivificados. Ao descer pe-
lo oviduto para serem depositados no alvéolo eles passam pela
abertura deste saco seminal, ou "espermateca", e recebem uma
porção do seu conteúdo fertilizante. Mesmo pequena como ela é,
contem o suficiente para fertilizar centenas de milhares de ovos.
Precisamente da mesma forma os ovos da mãe das vespas e dos
hornets são fecundados. Apenas que as fêmeas destes insetos
sobrevivem ao Inverno e, muitas vezes, um único inseto começa
a construção do ninho no qual, inicialmente, apenas alguns ovos
são colocados. Como poderiam estes ovos eclodir se as fêmeas
não fossem fecundadas na estação anterior? A dissecação mos-
trou que elas têm uma espermateca semelhante à da rainha das
abelhas. Parece nunca ter ocorrido aos opositores de Huber que,
a existência de uma vespa mãe permanentemente fecundada é
quase tão difícil de explicar quanto a existência de uma rainha
de abelha semelhantemente fecundada.

O memorável Swammerdam, em suas observações sobre os


insetos, feitas no final do século dezessete, produziu um desenho
ampliado dos ovários da rainha, do qual apresento aos leitores
uma cópia reduzida (Lâmina XVIII). O pequeno saco globular (D)
que se comunica com o oviduto (E), que ele pensava secretar um
fluido para grudar os ovos na base dos alvéolos, é o reservatório
seminal ou espermateca. Qualquer um que dissecar com cuidado
uma rainha pode ver este saco, até mesmo a olho nu.

30 A Colméia e a Abelha
Pode-se ver que os ovários (G e H) são dois, cada um consis-
tindo de um surpreendente número de dutos1 cheios com ovos,
que gradualmente aumentam de tamanho2.
Huber, para averiguar como a rainha era fecundada, confi-
nou algumas jovens em suas colméias reduzindo o alvado, de
forma que elas tivessem mais de três semanas de idade quando
saíssem à procura de zangões. Para sua surpresa, as princesas
cuja fecundação tinha sido tão retardada puseram ovos que pro-
duziam apenas zangões.
Ele repetiu o experimento diversas vezes e obteve sempre o
mesmo resultado. Apicultores, já da época de Aristóteles, tinham
observado que, por vezes, toda a cria de uma colméia era de zan-
gões. Antes de tentar explicar este surpreendente fato, devo
chamar a atenção do leitor para outro dos mistérios da colméia.
Já foi dito ter sido provado por dissecação que, normalmen-
te, as operárias são fêmeas estéreis. Ocasionalmente em algumas
delas eles se desenvolvem suficientemente a ponto de elas serem
capazes de botar ovos. Mas estes ovos, da mesma forma que os
das rainhas cuja fecundação foi retardada, sempre produzem
zangões. Algumas vezes, quando a colônia que perdeu sua rai-
nha não consegue criar outra, as operárias que botam ovos de
zangão são guindadas à condição de rainha e tratadas com a
mesma consideração pelas abelhas. Huber verificou que as ope-
rárias poedeiras3 eram criadas, normalmente, nas vizinhanças
das realeiras, e pensou que elas recebiam algumas partículas do
alimento peculiar ou geléia com a qual as rainhas eram alimen-
tadas. Ele pretendia estudar o efeito da fecundação retardada
sobre a rainha4; e não fez experimento algum sobre a fecundação
das operárias poedeiras.

1Neste desenho os dutos estão representados em maior número do que no dese-


nho de Swammerdam.
2 Depois que a primeira edição deste trabalho foi lançada, eu verifiquei que Posel
(página 54) descreve o oviduto da rainha, a espermateca e seu conteúdo, bem
como o uso da última na fertilização do ovo que por ela passa. Seu trabalho foi
publicado em Munique, em 1784. Parece, também, a partir do seu trabalho (pá-
gina 36), que antes das investigações de Huber, Jansha, o apicultor real de Maria
Teresa, tinha descoberto o fato que as princesas deixam suas colméias à procura
de zangões.
3 O autor utiliza "fertile worker" que foi traduzido como "operária poedeira". N.T.
4Embora o texto original, “He did not pretend to account ...”, permite entender
que Huber não pretendia, sabe-se, consultando sua obra, que ele estudou o as-
sunto. Por esta razão optamos, na tradução, pela afirmação. N.T.
L. L. Langstroth 31
Após a publicação do trabalho de Huber, há mais de sessen-
ta anos atrás, nenhuma outra luz foi lançada sobre os mistérios
das rainhas e operárias com postura de zangão, a não ser muito
recentemente. Dzierzon parece ter sido o primeiro a buscar a
verdade sobre este assunto; e suas descobertas devem, certa-
mente, ser classificadas entre os mais surpreendentes fatos den-
tro da natureza animada. Parece, à primeira vista, tão inacredi-
tável que eu não deveria ter a coragem de mencioná-lo, se não
fosse sustentado por uma evidência indubitável, e se eu não esti-
vesse determinado a mencionar todos os fatos relevantes e per-
feitamente confirmados, totalmente em oposição aos preconcei-
tos do ignorante e presunçoso.
Dzierzon afirma que todo ovo fertilizado produz fêmea, seja
operárias ou rainha; e todo não fertilizado, macho ou zangão! Ele
afirma que em várias de suas colméias ele encontrou rainhas
com postura de zangão, cujas asas eram tão imperfeitas que elas
não podiam voar, as quais, ao serem examinadas, se comprovou
não terem sido fecundadas. Por esta razão, ele concluiu que os
ovos postos tanto pela rainha quanto pela operária poedeira têm,
por causa da fertilização prévia do ovo do qual ele emerge, vitali-
dade suficiente para gerar um zangão, que é um inseto não tão
altamente organizado como a rainha ou a operária. Já é de há
muito sabido que a rainha deposita ovos de zangões em alvéolos
grandes de zangão, ovos de operárias em alvéolos pequenos de
operárias e que ela não comete erro. Dzierzon inferiu, por esta
razão, que existe uma forma pela qual ela tem condições de deci-
dir o sexo do ovo antes de botá-lo e que ela tem controle sobre a
boca do saco seminal podendo, ao expulsar o ovo, controlar se
ele, pela sua vontade, receberá ou não uma porção do seu con-
teúdo fertilizante. Desta forma ele pensou que ela determinava o
sexo pelo tamanho do alvéolo no qual ela botaria o ovo.
Meu amigo, Mr. Samuel Wagner, York, Pensilvânia, desen-
volveu uma teoria muito engenhosa, considerando todos os fatos,
e sem pressupor que a rainha tenha qualquer conhecimento es-
pecial ou vontade sobre o assunto. Ele supôs que quando ela de-
posita seus ovos nos alvéolos de operária, seu corpo é levemente
comprimido por causa do tamanho do alvéolo e isto faz que o ovo
ao passar pela espermateca receba uma porção do seu conteúdo
vivificante. Ao contrário, quando ela deposita nos alvéolos de
zangão, como a compressão não ocorre, a boca da espermateca é
mantida fechada e os ovos são, necessariamente, não fértiliza-
dos.

32 A Colméia e a Abelha
No Outono de 1852 meu assistente encontrou uma jovem ra-
inha cuja descendência consistia exclusivamente de zangões. A
colônia foi formada pela remoção de alguns quadros contendo
abelhas, cria e ovos de outra colméia e criou sua própria rainha.
Foram encontrados alguns ovos num dos favos e insetos jovens
estavam emergindo dos alvéolos, os quais eram todos zangões.
Eles eram criados em alvéolos de operária pois só existia alvéolo
de operária na colméia e não existindo espaço para seu desen-
volvimento completo, os zangões eram de menor tamanho, embo-
ra as operárias tivessem remendado os alvéolos para dar mais
espaço a seus ocupantes.
Fiquei surpreso não só em encontrar zangões criados em al-
véolos de operárias, mas, igualmente também, porque a jovem
rainha, que inicialmente punha somente ovos de operárias1, esti-
vesse colocando ovos de zangões, e de imediato conjeturei que
este era o caso de uma rainha não fecundada que punha ovos de
zangão, pois não havia decorrido tempo suficiente para dizer que
sua fecundação tivesse sido retardada de forma não natural. To-
das as precauções necessárias foram tomadas para esclarecer
este assunto. A rainha foi removida de sua colméia, e embora
suas asas aparentassem perfeitas, ela não conseguia voar. Pare-
cia provável, porisso, que ela nunca teve condições de deixar sua
colméia para a fecundação.
Para esclarecer a questão sem deixar sombra de dúvida,
submeti esta rainha ao Professor Leidy para um exame ao mi-
croscópio. O que segue é um extrato do seu relato. "Os ovários
estavam cheios de ovos, o saco do veneno cheio de fluido; e a es-
permateca distendida perfeitamente sem cor, transparente, lí-
quido viscoso, sem um traço sequer de espermatozóides."
Este exame confirmava a teoria de Dzierzon de que a rainha
não precisava ser fecundada para por ovos de machos.
Parecia existir muita dúvida sobre a exatidão das declara-
ções de Dzierzon sobre o assunto, principalmente por ter ele
formulado a infeliz conjectura de que o local do saco do veneno
da operária é ocupado, na rainha, pela espermateca. I isto é
completamente contrário aos fatos (Lâmina XVIII, A, D) pois esta

1 Embora tenha estudado repetidas vezes este parágrafo, fiquei com dúvidas

quanto ao seu conteúdo. Está dito que inicialmente a rainha punha ovos fertili-
zados e depois ovos não fertilizados. No entanto, o autor afirma, mais adiante,
que a rainha não foi fecundada. N.T.
L. L. Langstroth 33
foi uma inferência natural uma vez que este severo e, sobretudo,
honesto observador não realizou dissecação, com auxílio do mi-
croscópio, dos insetos que examinou. Eu me considero particu-
larmente afortunado, por ter conseguido ajuda de um naturalista
tão renomado como o Dr. Leidy para as dissecações ao microscó-
pio.
Ao examinar esta mesma colônia, alguns dias mais tarde,
encontrei evidência satisfatória que estes ovos de zangão eram
postos pela rainha que tinha sido removida. Nenhum ovo fresco
tinha sido posto nos alvéolos e as abelhas ao perderem a rainha
tinham começado a construir realeiras, para criar, se possível,
outra rainha; isto elas não conseguiriam fazer pois se uma ope-
rária poedeira estivesse presente ela botaria apenas ovos de zan-
gão.
Outro fato interessante prova que todos os ovos postos pela
rainha eram ovos de zangão. Duas das realeiras sofreram des-
continuidade em pouco tempo; enquanto uma terceira foi oper-
culada da forma comum, a fim de que as mudanças prosseguis-
sem até uma rainha perfeita. Se as abelhas tinham somente uma
rainha que punha ovos de zangão, de onde veio o ovo feminino a
partir do qual elas estavam criando uma rainha?
Primeiro imaginei que elas tivessem roubado de outra col-
méia; mas ao abrir a realeira vi que ela continha apenas um
zangão morto! Huber descreveu um erro semelhante cometido
por algumas de suas abelhas. No fundo desta realeira existia
uma quantidade não usual da peculiar geléia fornecida para de-
senvolver rainhas. Pode-se até imaginar que as abelhas supera-
limentaram o infeliz zangão até a morte; agindo assim elas espe-
ravam que com alimentação tão liberal ocorresse uma mudança
na sua organização sexual.
No Verão de 1854, encontrei outra rainha com postura de
zangão em meu apiário, com as asas tão enrugadas que ela não
podia voar. Eu a introduzi, sucessivamente, em várias colônias
sem rainha e em todas ela depositou apenas ovos de zangão
Em 14 de julho de 1855, uma rainha do meu núcleo de ob-
servação começou a botar ovos quando estava com nove dias de
idade, alguns ovos nas bordas dos favos em vez de nos alvéolos.
Ela persistiu com este comportamento por alguns dias, até que a
transferi para uma colônia que estave sem rainha por algumas
semanas, esperando que ela pudesse, se não tinha sido fecunda-

34 A Colméia e a Abelha
da, fazer um vôo para encontrar os zangões. O núcleo de obser-
vação no qual ela depositou os ovos estava exposto à luz do dia;
a entrada era pequena e difícil de ser encontrada; pude consta-
tar, em diversas ocasiões, que quando os zangões deixavam as
colméias em maior número, a rainha parecia incapaz de encon-
trar a saída. Nestas ocasiões ela manifestava um excitamento
pouco usual e toda a colônia ficava agitada como se estivesse en-
xameando. Depois de ela estar na segunda colméia por um curto
tempo, constatei que ela tinha posto um certo número de ovos de
zangão. Eles foram depositados próximo da base e na lateral do
favo, em alvéolos um pouco maiores do que os de operária, os
quais as abelhas tinham começado a alongar, para adaptá-los ao
crescimento de seus ocupantes. Não existia outra cria na colméi-
a. Em 9 de agosto, encontrei favos praticamente cheios com cria
de operária, em estado consideravelmente menos avançado do
que os dos zangões. Existe alguma razão para duvidar que estes
ovos de zangões foram depositados pela rainha antes, e os ovos
de operárias depois, de sua fecundação?
Na Itália existe uma variedade de abelhas que difere do tipo
comum no tamanho e na cor. Se uma rainha desta variedade for
fecundada por um zangão comum, sua descendência de zangão
será Italiana, e sua cria operária miscigenada; mostrando assim
que o zangão que ela produz não depende do macho pelo qual ela
foi fecundada.
A partir de recentes descobertas na área da fisiologia parece
que para a fertilização do óvulo de um animal é necessário que o
espermatozóide não apenas entre em contato com ele, mas real-
mente entre dentro dele através de uma pequena abertura. Apli-
cando esta descoberta às abelhas, o Prof. Siebold, da Alemanha,
dissecou ovos de operária e encontrou em cada um de um a três
espermatozóides; mas não encontrou nenhum ao dissecar ovos
de zangão.
O Dr. Donhoff, Alemanha, no Verão de 1855, desenvolveu
larvas de operárias a partir de ovos de zangão1 que ele fertilizou

1 Tentei fazer isto em 1852, mas para meu grande desapontamento, as abelhas
removeram ou devoraram todos os ovos assim tratados; por ter eu, como supus
depois, para sua repugnância, desenvolvido operárias em alvéolos de zangão. A-
creditava que as abelhas sem rainha nem cria de espécie alguma pudessem de-
senvolver rainhas, operárias e zangões a partir de ovos depositados em alvéolos
de zangão e que tivessem sido tocados com um pincel macio previamente mergu-
lhado no sêmen de zangão diluído.
L. L. Langstroth 35
instrumentalmente.
Aristóteles registrou, há mais de 2000 anos, que os ovos que
produzem zangões são semelhantes aos ovos de operárias. Com
a ajuda de um potente microscópio ainda não conseguimos de-
tectar nenhuma diferença no tamanho ou na aparência entre os
ovos da rainha.
Estes fatos, analisados em conjunto parece constituírem
uma demonstração perfeita que rainhas não fecundadas têm,
não somente, condições de botar ovos e, também, que seus ovos
tem vitalidade para produzir zangões.
Parece-me provável que, caso a fecundação seja retardada
por cerca de três semanas, os órgãos da rainha ficam em tal
condição que a fecundação não pode mais ocorrer; assim como
as partes de uma flor, depois de um certo tempo, murcham e se
fecham e a planta fica incapaz de frutificar. Talvez, depois de um
certo tempo, a rainha perde todo o desejo de sair à procura de
zangão. Uma operária poedeira que põe ovos de zangão parece
que fisicamente não pode ser fecundada.
Existe algo de análogo a estas maravilhas nos "afídios", ou
piolho verde, que infestam as plantas. Temos evidência indubitá-
vel que uma fêmea fecundada gera outras fêmeas e estas, por
sua vez, a outras, todas as quais sem fecundação têm condições
de levar adiante a cria; até que, depois de um certo número de
gerações, são produzidos machos e fêmeas perfeitos e a série re-
começa novamente!
Embora possa parecer improvável que um ovo não fertilizado
gere um ser vivo, ou que o sexo dependa da fertilização, não te-
mos a liberdade de rejeitar fatos cujas razões não compreende-
mos. Aquele que se permitir tal insensatez, para ser consistente,
deve estar mergulhado no sombrio abismo do ateísmo. O senso
comum, bem como a filosofia e a religião nos ensinam a receber
com reverência todos os fatos indubitáveis, seja do mundo natu-
ral ou espiritual; embora eles possam nos parecer misteriosos,
eles são maravilhosamente consistentes na visão Daquele cujo
"entendimento é infinito".
Todos os fatos relativos à criação de abelhas devem ser tão
familiares ao apicultor como são os fatos relativos à criação de
seus animais domésticos1. Algumas noções incipientes e não

1 "Se fosse possível", disse um talentoso apicultor alemão, em 1846, "entender o


36 A Colméia e a Abelha
bem sistematizadas, mas que ainda satisfazem o apicultor à mo-
da antiga, não conseguirão satisfazer as necessidades daqueles
que desejam conduzir uma apicultura de modo extensivo e ren-
tável.
A extraordinária fertilidade da rainha já foi esclarecida. O
processo de postura foi bem descrito pelo Rev. W. Dunbar, api-
cultor escocês.
"Quando a rainha se prepara para por, ela coloca sua cabeça
dentro do alvéolo e se mantem nesta posição por um ou dois se-
gundos a fim de se certificar das boas condições para o que ela
está prestes a fazer. Então ela retira sua cabeça, curva seu corpo
para baixo1 e insere a parte inferior dele no alvéolo: em poucos
segundos ela gira meia volta em torno de si e se retira, deixando
um ovo atrás de si. Quando ela coloca um considerável número
de ovos, ela o faz igualmente em ambas as faces do favo, ficando
os de um lado do favo em oposição exata com os do outro lado
desde que a posição relativa dos alvéolos permitam. O efeito des-
ta disposição é conseguir a maior concentração possível e eco-
nomizar o calor necessário para as várias mudanças da cria!"
Aqui, assim como em cada etapa na economia das abelhas
observa-se uma adaptação perfeita de meios e fins, uma inteli-
gência que poucas vezes parece ser inferior à do homem.
"Os ovos das abelhas2 são alongados, tem formato oval (Lâ-
mina XIII., Fig. 39), levemente curvados, são de cor branca azu-
lada: são lambuzados, na hora da deposição, com uma substân-
cia pegajosa a fim de aderir ao fundo do alvéolo, e não mudam de
posição ou situação por três a quatro dias; depois eles eclodem,
sendo possível ver no fundo do alvéolo uma pequena larva bran-
ca. Durante o seu crescimento (Lâmina XIII, Fig. 40 e 41), como
que para tocar o ângulo oposto do alvéolo, a larva se curva sobre
si mesma, para usar a linguagem de Swammerdam, como um
cachorro quando se põe a dormir, flutua num líquido branco
transparente, depositado nos alvéolos pelas abelhas nutrizes,
com o qual se alimenta; ela aumenta gradualmente de dimensão,
até as duas extremidades se tocarem formando um anel. Neste

processo reprodutivo das abelhas com tanta clareza quanto o dos nossos animais
domésticos, a apicultura seria exercida, inquestionavelmente, com rentabilidade
e estaria bem posicionada entre os vários ramos da economia rural."
1 Ela tem certeza, assim, de depositar o ovo no alvéolo selecionado.
2 "Bevan on the Honey-Bee"
L. L. Langstroth 37
estado é chamada de larva ou verme. As abelhas fornecem a
quantidade exata de comida necessária, de forma que nada sobre
no alvéolo quando a abelha se transforma em ninfa. É opinião de
muitos naturalistas eminentes que o pólen1 não é o único ali-
mento da larva, mas que seu alimento é uma mistura de pólen,
mel e água, parcialmente digerido no estômago das abelhas nu-
trizes.
"Recebendo a assistência descrita acima, durante quatro,
cinco ou seis dias, dependendo da estação, a larva cresce, até
ocupar todo o espaço disponível e aproximadamente o compri-
mento do alvéolo. As abelhas nutrizes agora operculam a abertu-
ra do alvéolo com uma cobertura marrom clara, externamente
mais ou menos convexa (o opérculo dos alvéolos dos zangões é
mais convexo do que o das operárias) e assim é diferenciado dos
alvéolos com mel, que são planos ou um pouco côncavos."
O opérculo dos alvéolos da cria não é feito de cera pura, mas
de uma mistura de cera e pão de abelha; se apresenta ao micros-
cópio cheio de finos orifícios para que o inseto enclausurado te-
nha ar. Por causa da sua textura e forma é facilmente rompido
pela abelha madura, ao passo que se fosse feita exclusivamente
de cera, o inseto poderia ou morrer por falta de ar, ou não teria
condições de abrir caminho para o mundo. Tanto o material co-
mo a forma dos opérculos que cobrem os alvéolos com mel são
diferentes: eles são de cera pura e impermeáveis ao ar, para pre-
venir que o mel azede ou cristalize nos alvéolos; são levemente
côncavos, para resistir melhor à pressão do seu conteúdo.
Retornando ao Bevan. "A larva não é perfeitamente enclau-
surada a não ser depois de iniciar a revestir o alvéolo tecendo,
sobre ela mesma, da mesma forma que o bicho da seda (Lâmina
XIII, Fig.42), um filme sedoso e esbranquiçado, ou casulo, pelo
qual ela é envolvida, como se estivesse num saco. Quando esta
mudança termina a abelha recebe o nome de ninfa ou pupa. Ago-
ra ela atingiu seu crescimento total e a grande quantidade de a-
limento que ela ingeriu serve como reserva para se desenvolver
em inseto perfeito.
"A ninfa de operária tece seu casulo em trinta e seis horas.
Depois passa cerca de três dias neste estado se preparando para
a nova existência, ela passa gradualmente por uma grande mu-

1 Segundo Michaelis – farina, termo utilizado pelo autor, significa farinha mas

que também significa pólen. N. T.


38 A Colméia e a Abelha
dança (Lâmina XIII., Fig. 43) a ponto de não restar nenhum ves-
tígio de sua forma anterior.
"Passados vinte e um dias de sua existência, contados a par-
tir da postura do ovo, surge um inseto alado perfeito. O casulo é
deixado para traz em forma de cobertura bem presa e exata den-
tro do alvéolo no qual foi tecido; desta forma os alvéolos de cria-
ção se tornam menores e suas divisórias mais fortes, pelas mui-
tas vezes que troca seu ocupante; pode diminuir tanto de tama-
nho a ponto de não possibilitar o desenvolvimento perfeito das
abelhas até o porte normal.
"Estes são os estágios da abelha operária; - os da abelha rai-
nha são como seguem: ela passa três dias na forma de ovo e cin-
co como larva; as operárias, então, operculam a realeira e ela
começa, imediatamente, a tecer seu casulo, que a ocupa por vin-
te e quatro horas. No décimo, décimo primeiro e parte do duodé-
cimo dia, como se estivesse exausta por causa do trabalho, ela
permanece em completo repouso. Depois ela passa quatro dias e
parte do quinto dia como ninfa. No décimo sexto dia a princesa
atinge o estado perfeito.
"O zangão passa três dias como ovo, seis e meio como larva e
muda para inseto perfeito no vigésimo quarto ou vigésimo quinto
dia depois da postura do ovo.
"O desenvolvimento de cada uma das castas ocorre, outros-
sim, mais lentamente quando as colônias estão fracas ou o tem-
po está frio. O Dr. Hunter observou que os ovos, larvas e ninfas,
todos, requerem temperatura acima de 70oF (21oC) para sua evo-
lução. Tanto zangões quanto operárias, ao emergirem do alvéolo,
são, inicialmente, cinza, tenros e, comparativamente, desampa-
rados, assim que deve decorrer algum tempo antes de eles se
lançarem em vôo.
"As operárias e zangões tecem o casulo completo, ou seja, se
envolvem com ele completamente, enquanto a larva real constrói
apenas um casulo imperfeito, aberto na parte de trás, e envol-
vendo somente a cabeça, o tórax e o primeiro anel abdominal;
Huber concluiu, sem qualquer hesitação, que a razão final deste
fato é que elas devem ficar expostas ao ferrão mortal da primeira
princesa que emerge, cujo instinto leva a princesa a procurar,
imediatamente, e destruir aquelas que poderão ser em breve su-
as rivais.
"Se a larva real tecesse um casulo completo, o ferrão das
L. L. Langstroth 39
princesas que procuram suas rivais para destruí-las poderia fi-
car tão preso em suas malhas que a princesa não conseguiria
desembaraçá-lo. Diz Huber, ´o instinto de animosidade da jovem
princesa para com as outras é tal que eu vi uma delas, logo após
emergir da realeira, correr para as realeiras de suas irmãs e ras-
gá-las em pedaços até mesmo as larvas imperfeitas. Até agora, os
filósofos têm chamado nossa atenção para a natureza e seus
cuidados na preservação e multiplicação das espécies. Mas, fren-
te a estes fatos, devemos agora admirar as precauções da natu-
reza em expor certos indivíduos a um perigo mortal.´"
O casulo da larva real é muito mais forte e mais grosso do
que o do zangão e da operária, - sua textura lembra muito o ca-
sulo tecido pelo bicho da seda. A jovem princesa só deixa, nor-
malmente, sua realeira depois de estar completamente madura;
como o grande tamanho da realeira permite exercícios livres para
suas asas, ela tem, normalmente, condições de voar assim que o
deixa. Enquanto em sua realeira, ela produz o som de bater asas
e de piar familiares aos apicultores observadores.
Quando os ovos da rainha estão completamente desenvolvi-
dos, como os de uma galinha doméstica, eles devem ser expeli-
dos; mas alguns apicultores acreditam que ela pode controlar
seu desenvolvimento de modo que alguns ou muitos sejam pro-
duzidos, de acordo com as necessidades da colônia. Que isto é
verdade, até certo ponto, parece altamente provável; pois se a ra-
inha de uma colônia fraca for retirada, seu abdômen se apresen-
tará, muitas vezes, grandemente distendido; e, ainda, se for colo-
cada numa colônia forte, ela se torna de imediato muito prolífica.
O Mr. Wagner disse, "entendo que ela tem o poder de controlar
ou reprimir o desenvolvimento de seus ovos, assim ela pode di-
minuir gradualmente o número dos que estão amadurecendo e,
finalmente, cessar a postura e permanecer inativa tanto tempo
quanto as circunstâncias o exigirem. A rainha velha parece que
se prepara para acompanhar o primeiro enxame reprimindo1 o
desenvolvimento dos ovos e, se a saída do primeiro enxame ocor-
rer no período mais ameno do ano, parece não ser por influência
atmosférica."
Com certeza, quando o tempo está desfavorável ou a colônia
muito fraca para manter a temperatura necessária menos ovos

1Huber atribui seu tamanho reduzido, antes da enxameação, a uma causa erra-
da.
40 A Colméia e a Abelha
amadurecem, assim como circunstâncias desfavoráveis diminu-
em o número de ovos postos pela galinha; em colônias fracas a
rainha cessa a postura quando cai a temperatura ambiente.
Ao norte de Massachusetts observei que a rainha cessa a
postura por certo período em outubro; e inicia novamente, em
colméias fortes, no final de dezembro. Em 14 de janeiro, 1857 (o
mês anterior tinha sido muito frio, o termômetro caindo por ve-
zes para 17ºF abaixo de zero [-27°C]), examinei três colméias, e
encontrei que os favos centrais de duas delas continham ovos e
cria não operculada; havia alguns alvéolos com cria operculada
na terceira. Colméias fortes mesmo por ocasião do clima mais
frio, contem, normalmente, alguma cria durante dez meses do
ano.
É interessante ver o que é feito com o grande número de ovos
postos pela rainha. Se as operárias são poucas para cuidar de
todos os ovos, ou existe deficiência de pão de abelha para ali-
mentar a cria, ou se, por alguma razão, ela julga não ser o me-
lhor depositá-los nos alvéolos, ela se posta sobre o favo e sim-
plesmente os expele através do oviduto e as operárias os devo-
ram assim que eles são postos. Tenho testemunhado repetidas
vezes, no núcleo de observação, a esperteza da rainha em eco-
nomizar seu trabalho e não depositar seus ovos nos alvéolos
quando eles não são desejados. Qual a diferença entre ela e uma
estúpida galinha, que persiste obstinadamente em sentar sobre
ovos podres, peças de gesso e, por vezes, sobre coisa nenhuma!
As operárias devoram também todos os ovos que caem ou
que a rainha deposita em local impróprio; assim, até mesmo um
frágil ovo, em vez de ser desperdiçado, é aproveitado.
Quem observar cuidadosamente os hábitos das abelhas fica-
rá, muitas vezes, inclinado a falar de suas pequenas favoritas
como tendo inteligência, se não com certeza, algo quase como ra-
zão: algumas vezes me perguntei, se as operárias, que gostam
muito de uma guloseima com a forma de um ovo recentemente
posto, não ficam em conflito entre o apetite e o dever; elas devem
praticar um desprendimento para se refrear de se alimentar com
os ovos tão tentadores depositados nos alvéolos.
É muito conhecido dos criadores de frangos, que a fertilidade
da galinha diminui com a idade, a ponto de ela se tornar comple-
tamente estéril. Pela mesma lei, a fecundidade da rainha nor-
malmente diminui depois de ela entrar no terceiro ano. Uma rai-

L. L. Langstroth 41
nha velha, algumas vezes, cessa a postura de ovos de operárias;
o conteúdo de sua espermateca fica exaurido, os ovos não são
mais fertilizados e ela produz apenas zangões.
A rainha normalmente morre por velhice
no seu quarto ano, mas é sabido que ela pode
viver muito mais tempo. Existe uma grande
vantagem, conseqüentemente, para a colméia
que a contem, quando for ultrapassado o perí-
odo de sua maior fertilidade, que ela seja
substituida.
Antes de prosseguir mais a fundo na his-
tória natural da rainha, quero descrever mais particularmente
outro habitante da colméia.
Os zangões são, inquestionavelmente, as abelhas macho; a
dissecação prova que eles têm os órgãos apropriados para a pro-
criação. Eles são maiores e mais corpulentos tanto do que a rai-
nha quanto do que as operárias; no entanto seus corpos não são
tão longos quanto o da rainha. Eles não possuem ferrão para se
defender; nem probóscide apropriada para coletar néctar das flo-
res; nem cestas em suas pernas traseiras para carregar pão da
abelha; nem bolsas em seus abdomens por onde secretar cera.
Eles estão, assim, fisicamente desqualificados para o trabalho
ordinário da colméia. Sua obrigação é fecundar as jovens prince-
sas e eles são normalmente eliminados pelas abelhas logo depois
que isto ocorre.
O Dr. Evans, médico inglês e autor de um belo poema sobre
abelhas, descreve-os apropriadamente:
"Their short proboscis sips
No luscious nectar from the wild thyme´s lips,
Nor bear their grooveless thighs the food ful meal:
No other´s toils in pamper´d leisure thrive
The lazy fathers of the industrious hive."
Os zangões começam a aparecer em abril ou maio; mais cedo
ou mais tarde, dependendo do progresso da estação e da força da
colméia. Em colônias muito fracas para enxamear, como regra
geral, nenhum é criado; pois em tais colméias, como não é criada
nenhuma princesa, os zangões serão apenas consumidores inú-
teis.
O número de zangões na colméia é muitas vezes muito gran-
de, totalizando não só centenas, mas, algumas vezes, milhares.
42 A Colméia e a Abelha
Como apenas um acasalará com a rainha durante sua vida, po-
deria parecer que apenas alguns deveriam ser criados. Como o
acasalamento ocorre sempre no ar as princesas devem, necessa-
riamente, deixar a colméia; é primordial, para a sua segurança,
que elas encontrem seguramente um zangão sem serem compe-
lidas a fazer freqüentes excursões; por serem maiores do que as
operárias, e menos ativas no vôo, as princesas ficam mais expos-
tas a serem apanhadas pelos pássaros ou destruídas por repen-
tinas rajadas de vento.
Em grandes apiários, alguns zangões em cada colméia, ou o
número normalmente encontrado em uma seria suficiente. Mas
nestas condições as abelhas não se encontram em situação na-
tural, como uma colônia vivendo na floresta, a qual, muitas ve-
zes, não tem vizinhos por milhas de distância. Uma boa colméia,
mesmo em nosso clima, libera, muitas vezes, três ou mais enxa-
mes e no clima tropical, do qual as abelhas são, provavelmente,
nativas, elas liberam muito mais1. Todo novo enxame, com exce-
ção do primeiro, é liderado por uma jovem princesa; e, como ela
não acasalará antes que tenha assumido a liderança da família
separada, é primordial que cada uma seja seguida por um bom
número de zangões: isto exige a produção de um grande número
na colméia mãe.
Uma vez que esta necessidade não mais existe quando as
abelhas são domesticadas, a criação de tantos zangões pode ser
evitada. Foram criadas armadilhas2 para apanhá-los, mas é mui-
to melhor livrar as abelhas do trabalho e do custo de criar tal
hóspede consumidor inútil. Isto pode ser feito prontamente,
quando se tem o controle sobre os favos; removendo os favos de
zangão e colocando, em seu lugar, outros com alvéolos de operá-
rias a superprodução de zangões é facilmente evitada. Para os
que se opõem a isto, alegando ser uma interferência com a natu-
reza, gostaria de lembrar que a abelha não se encontra em seu
estado natural; a mesma contestação pode, com igual razão, ser
levantada contra a matança dos machos excedentes dos nossos
animais domésticos.
Se o fluxo de mel for abundante, quando um novo enxame
esta construindo favos, as abelhas construirão, freqüentemente,

1 Em Sidney, Austrália, uma única colônia, foi dito, ter-se dividido em 300 em

três anos.
2 Tais armadilhas já eram usadas na época de Aristóteles.
L. L. Langstroth 43
uma quantidade não habitual de favos de zangão para armaze-
nar o mel. Em estado natural, onde as abelhas têm espaço em
abundância, como num buraco de árvore, ou uma fenda de ro-
cha, este excesso de favo de zangão será usado na próxima esta-
ção para o mesmo propósito e novos favos de zangão serão cons-
truídos para atender o instinto de crescimento da colônia. Em
colméias com capacidade limitada isto não pode ser feito, e as-
sim muitas colméias se tornam congestionadas de zangões a
ponto de se tornarem sem valor para seu proprietário.
Em julho ou agosto, ou logo depois que o período da enxa-
meação terminar as abelhas expulsam, normalmente, os zangões
da colméia; embora quando a colheita de mel é muito abundante
elas, muitas vezes, permitam que eles permaneçam por mais
tempo. Algumas vezes elas os ferroam ou mordem as raízes de
suas asas, assim, quando arrastados para fora da colméia, eles
não conseguem retornar. Se não forem expulsos por nenhuma
destas formas sumárias, eles são importunados e passam fome
e, em breve, perecem. Em tais ocasiões eles se retiram do favo, e
tomam conta de si mesmo nas laterais ou no fundo da colméia. A
aversão das abelhas atinge até os não incubados, que são impie-
dosamente retirados dos alvéolos e descartados com os demais.
Que instinto maravilhoso é este que, não existindo mais ocasião
para os seus serviços, impele as abelhas a destruir estes mem-
bros da colônia que pouco tempo atrás foram criados com tanta
dedicação!
Nenhuma das razões acima apontadas parece explicar com-
pletamente a necessidade de tantos zangões. Tenho repetida-
mente me perguntado, porque o acasalamento não ocorre na
colméia em vez de ao ar livre. Algumas dezenas de zangões seri-
am suficientes para as necessidades de qualquer colônia, mesmo
se ela enxameasse, como ocorre em climas amenos, meia dúzia
de vezes, ou mais, na mesma estação; as jovens princesas não
correriam nenhum risco pois não deixariam a colméia para o a-
casalamento.
Por muito tempo eu não percebi a sabedoria do sistema exis-
tente; contudo nunca duvidei que devia existir uma razão satis-
fatória para isto que parecia uma imperfeição. Supor de outra
maneira, teria sido pouco filosófico, quando se sabe que com o
aumento do conhecimento muitos mistérios da natureza, até en-
tão inexplicáveis, são totalmente esclarecidos.
A esperança alimentada por muitos estudiosos da natureza
44 A Colméia e a Abelha
de rejeitar algumas das doutrinas da religião revelada, não é mo-
vida pela verdadeira filosofia. Nem nossa ignorância sobre todos
os fatos necessários para a sua elucidação completa, nem nossa
falta de habilidade em harmonizar estes fatos em suas relações
mútuas e dependências, justificará rejeitarmos qualquer verdade
que Deus quis revelar seja no livro da natureza, seja em Seu
mundo sagrado. O homem que substituir os ensinamentos divi-
nos pelas suas próprias especulações, embarcou sem leme ou
mapa, piloto ou bússola num oceano incerto de teorias e conjec-
turas; a menos que ele volte sua proa do curso fatal, as tempes-
tades e os redemoinhos se transformarão em escuridão na sua
"viagem da vida"; nenhum "Sol da Retidão" lhe iluminará a ex-
tensão das águas sombrias; nenhum vento favorável soprará o
seu barco estilhaçado para a paz do paraíso.
O leitor zeloso não precisará de apologia alguma para este
discurso moralizador, nem responsabilizar um clérigo, se alguma
ez, esquecendo de falar como um mero naturalista ele se empe-
nhar para encontrar
"Tongues in trees, books in running brooks,
Sermons in ´bees,´ and ´God´ in every thing."
Voltemos para a explicação da razão da existência de tantos
zangões. Se o fazendeiro persistir no que é chamado de cruza-
mento consangüineo, ou seja, sem troca de san-
gue, a conseqüência será a degeneração da sua
criação. Nem mesmo o homem está livre da in-
fluência desta lei que se aplica, até onde sabe-
mos, a toda vida animal. Temos nós alguma ra-
zão para supor que as abelhas sejam exceção?
ou que a degeneração não ocorra, a menos que
se tome alguma providência para neutralizar a tendência ao cru-
zamento consangüineo? Se a fecundação ocorresse na colméia, a
princesa poderia ser fecuncada por zangões filhos dos mesmos
pais; o mesmo poderia ocorrer em gerações sucessivas até toda a
espécie, eventualmente, desaparecer. Pelo sistema existente, as
princesas, quando deixam a colméia, muitas vezes encontram o
ar fervilhando de zangões, muitos dos quais pertencem a outras
colônias e, assim, pelo cruzamento estão sendo tomados cuida-
dos constantes para prevenir a degeneração.
A experiência provou que a fecundação pode ser efetiva não
só quando não existem zangões na colméia da princesa, mas
mesmo quando não existe nenhum nas imediatamente vizinhas.

L. L. Langstroth 45
A fecundação ocorre no ar, alto do solo (talvez a exposição ao ris-
co dos pássaros seja menor), e isto favorece o cruzamento entre
as populações.
Estou fortemente persuadido que a decadência de muitas
populações prósperas, mesmo quando manejadas com grande
cuidado, pode ser atribuída ao fato que elas se debilitaram pelo
cruzamento consangüíneo e ficaram, assim, sem condições de
resistir a influências prejudiciais, que são comparativamente ino-
fensivas quando as abelhas estão em plena forma física. Quando
um criador tem apenas algumas colônias, ou está longe de ou-
tros apiários, ele pode se precaver deste infortúnio trocando oca-
sionalmente sua linhagem.
As operárias, ou abelhas comuns, formam a massa da popu-
lação da colméia. Um bom enxame costuma conter, pelo menos,
20.000; em grandes colméias, colônias fortes que não foram di-
minuídas por causa da enxameação, totalizam, freqüentemente,
duas a três vezes este valor durante o pico do período de criação.
Fomos informados pelo Sr. Dobrogost Chylinski, que nas colméi-
as da Polônia, que muitas vezes contem vários bushels1, os en-
xames saem com tanta força que "eles se parecem com uma pe-
quena nuvem no ar".
Já foi dito, que as operárias são todas fêmeas cujos ovários
são se desenvolveram a ponto de lhes possibilitar a postura de
ovos. Por serem vistas, durante muito tempo, nem como machos
nem como fêmeas, elas eram chamadas de Neutras; mas exames
cuidadosos ao microscópio detectaram ovários rudimentares fi-
cando assim determinado o seu sexo. A precisão destes exames é
confirmada pelo fato, perfeitamente conhecido, relacionado com
as operárias poedeiras.
Riem, um apicultor alemão, foi o primeiro a descobrir que as
operárias, algumas vezes, põem ovos. Huber, subseqüentemente,
verificou que tais operárias eram criadas em colméias que ti-
nham perdido sua rainha e próximo das realeiras nas quais as
princesas eram criadas. Ele conjeturou que pequenas porções do
alimento, peculiar das jovens princesas, caia acidentalmente em
seus alvéolos e, por as terem ingerido, seus órgãos de reprodu-
ção ficavam mais desenvolvidos do que os das outras operárias.
No Verão de 1854 examinei um favo de cria que foi inserido

1 Segundo Michaelis - Bushel: equivalente a 36,67 litros. N.T.


46 A Colméia e a Abelha
numa colônia sem rainha. Ele tinha onze realeiras operculadas e
inúmeros alvéolos estavam operculados com uma cobertura esfé-
rica, como se contivessem zangões. Ao abri-los constatei que al-
guns continham ninfas de zangões e outros, ninfas de operárias.
As últimas pareciam ter uma forma mais pronunciada de pão de
açúcar do que as das operárias comuns e os seus casulos eram
de uma textura mais áspera do que o normal. Eu já tinha sido
alertado para a existência do mesmo tipo de alvéolos em colméi-
as de criação artificial de rainhas, mas pensava que todas elas
contivessem zangões. É um fato perfeitamente conhecido que as
abelhas, muitas vezes, começam mais realeiras do que elas re-
solvem terminar. Parece-me provável, por esta razão, que, ao cri-
ar rainhas artificialmente, elas dão, freqüentemente, um pouco
de geléia real para larvas, que, por alguma razão, elas não de-
senvolvem em rainhas completas; e que tais larvas se desenvol-
vem em operárias poedeiras. Huber afirma que estas operárias
poedeiras, que põem apenas ovos de zangões, preferem alvéolos
grandes nos quais depositá-los, recorrendo aos menores apenas
quando não conseguem encontrar os de maior diâmetro. Numa
colméia do meu apiário tendo muito favo de operária e somente
uma pequena peça com alvéolos de zangão, uma operária fértil
encheu os últimos completamente com ovos a ponto de alguns
alvéolos conterem, cada um, três ou quatro ovos. Tais operárias
são, em algumas ocasiões, toleradas em colméias contendo uma
rainha fértil e saudável.
A operária é muito menor do que a rainha e do que o zangão.
Ela possui uma língua, ou probóscide, tão extraordinariamente
curiosa e complicada que um volume em separado dificilmente
seria suficiente para descrever sua estrutura e uso (Lâmina XVI,
Fig. 51). Com este órgão ela retira o néctar das flores e o transfe-
re para sua vesícula melífera. Este órgão (Lâmina XVII, Fig. 5,4,
A) a vesícula melífera, não é maior do que uma ervilha muito pe-
quena e tão perfeitamente transparente a ponto de aparentar,
quando cheio, a mesma cor do seu conteúdo; é, propriamente,
seu primeiro estômago e está rodeado de músculos que permi-
tem à abelha comprimi-lo e esvaziar o seu conteúdo através da
probóscide para dentro dos alvéolos.
As pernas traseiras da operária são providas de uma depres-
são em forma de colher, ou cesta, para receber o pólen que ela
recolhe das flores.
Toda operária está armada com um formidável ferrão e,

L. L. Langstroth 47
quando provocada, usa-o imediata e efetivamente como sua ar-
ma natural. Submetida a um exame ao microscópio (Lâmina
XVII, Fig. 53), constata-se um mecanismo realmente intrincado.
"É movido por músculos1 que, embora invisíveis a olho nú, são
fortes suficientes para forçarem o ferrão até a profundidade de
um doze avos de polegada (dois milímetros), através da pele
grossa da mão do homem. Em sua raiz situam-se duas glândulas
que secretam o veneno; estas glândulas se unem num duto e eje-
tam o líquido venenoso através do sulco formado pela junção de
duas lanças. Existem quatro rebarbas em cada uma das lanças;
quando o inseto se prepara para ferroar uma das lanças, que
tem a ponta um pouco maior do que a outra, perfura primeiro a
pele e fica presa pela primeira rebarba, a outra também entra, e
elas penetram alternativamente cada vez mais fundo até se agar-
rarem firmemente à pele com suas fisgas, e depois segue a bai-
nha, transportando o veneno para dentro do ferimento. ´A ação
do ferrão´, diz Paley, ´fornece um exemplo da união entre a quí-
mica e o mecanismo; química, por causa do veneno que pode
produzir efeitos tão poderosos; mecanismo, uma vez que o ferrão
é um instrumento composto. O mecanismo seria comparativa-
mente inútil não fosse o processo químico pelo qual, no corpo do
inseto, o mel é convertido em veneno; e, por outro lado, o veneno
seria sem efeito sem um instrumento capaz de ferir e uma serin-
ga capaz de injetá-lo.´
"Examinando uma navalha afiada ao microscópio, ela apare-
ce grossa como as costas de uma bela faca rude, rugosa, irregu-
lar e cheia de entalhes e sulcos, mas, longe de parecer qualquer
coisa afiada, um instrumento tão rombudo como este parece que
não serviria sequer para rachar lenha. Uma agulha extremamen-
te pequena, examinada ao microscópio, lembrará uma grosseira
barra de ferro saída da forja de um ferreiro. O ferrão da abelha,
visto sob o mesmo instrumento, mostra-se por inteiro de um po-
limento surpreendentemente bonito, sem a mínima falha, defeito
ou imperfeição e terminando numa ponta fina demais para ser
percebida."
Uma vez que a extremidade do ferrão possui fisgas, como
uma flecha, raramente a abelha consegue retirá-lo, se o substra-
to no qual ele foi cravado for firme. Ao perder seu ferrão ela rom-
pe parte de seus intestinos, e como conseqüência morre em bre-
ve.

1 Bevan.
48 A Colméia e a Abelha
Elas pagam preço tão elevado no exercício de seu patriótico
instinto em defesa da casa e do tesouro sagrado, elas
"Deem life itself to vengeance well resign´d,
Die on the wound, and leave their sting behind."
Vespões1, vespas e outros insetos que ferroam são capazes
de arrancar seu ferrão do ferimento. Nunca vi explicação para a
exceção do caso das abelhas; mas como o Criador pensou nelas
para uso2 do homem, Ele não lhes concedeu esta peculiaridade
para que elas ficassem mais completamente sujeitas ao controle
humano? Sem um ferrão, elas não poderiam defender suas do-
çuras tentadoras de um ataque dos gananciosos predadores: no
entanto, se elas tivessem condições de ferroar inúmeras vezes,
sua domesticação completa seria quase impossível
A defesa da colônia contra os inimigos, a construção dos al-
véolos, supri-los com mel e pão de abelha, a criação dos jovens e,
em poucas palavras, todo o trabalho da colméia, com exceção da
postura de ovos, é executado pelas laboriosas pequenas abelhas.
Deve existir gentlemen em ócio na comunidade das abelhas,
mas com certeza não existem ladies, seja em maior ou menor
grau. A própria rainha tem sua parte de obrigações, o ofício real
não é sinecura3, uma vez que a mãe que o desempenha deve se
responsabilizar, diariamente, pela postura de milhares de ovos.
A rainha viverá quatro, e algumas vezes, embora muito ra-
ramente, cinco ou mais anos. Como a vida dos zangões é inter-
rompida pela violência, é difícil afirmar com precisão seu limite.
Bevan estima que a a vida do zangão não ultrapassa quatro me-
ses. Ele supõe que as operárias vivam seis ou sete meses; mas
sua idade depende realmente muito de sua maior ou menor ex-
posição a influências prejudiciais e trabalhos severos. As criadas
na Primavera e início do Verão, que se incumbem dos trabalhos
mais pesados da colméia, parece não viverem mais de dois a três

1 Segundo Michaelis – Hornet: Vespão. N. T.


2 Após a publicação da primeira edição deste tratado, tive oportunidade, durante
visita à fronteira do México, de estudar os hábitos da abelha-vespão daquela re-
gião. Seus ninhos lembram, em sua forma e material, os do nosso vespão co-
mum; alguns deles contem muitas libras de delicioso mel. Este inseto, que na-
quelas regiões é tão serviçal ao homem quanto a abelha, não tem condições de
retirar o seu ferrão da ferida. Ele também tem uma rainha e vive na forma de co-
lônia durante todo o ano.
3Segundo Michaelis – Sinecura: cargo ou emprego rendoso e de pouco trabalho.
N. T.
L. L. Langstroth 49
meses1; enquanto as criadas no final do Verão e início do Outo-
no, tendo condições de passar uma grande parte de seu tempo
em repouso, atingem idade muito mais avançada. É muito evi-
dente que "a abelha" (para usar as palavras de um velho escri-
tor), "é o pássaro do Verão"; e que, com exceção da rainha, ne-
nhuma vive a ponto de ter um ano de idade.
Asas chanfradas e esfarrapadas, em vez de pêlos cinzas e fa-
ces encarquilhadas, são os sinais de idade avançada da abelha,
como também indicam que o período do trabalho em breve terá
passado. Parece que elas morrem, de preferência, subitamente; e
despendem, muitas vezes, seus últimos dias e, algumas vezes,
mesmo suas últimas horas em trabalhos úteis.
Poste-se em frente a uma colméia e veja a infatigável energia
destas laboriosas veteranas, trabalhando lentamente com suas
pesadas cargas, lado a lado de suas mais jovens companheiras e
depois julgue se, enquanto qualificado para um trabalho útil, vo-
cê nunca irá se render a um reconfortante descanso. Deixe o a-
nimador zumbido das velhas operárias inspirá-lo com melhores
resoluções, e ensiná-lo como é mais nobre morrer trabalhando,
no ativo desempenho das obrigações da vida.
A idade que os membros individuais da comunidade podem
atingir, não pode ser confundida com a da colônia. Sabe-se de
abelhas que ocupam o mesmo domicílio há muitos anos. Tenho
visto colônias prósperas com mais de vinte anos de idade; o Aba-
de Della Rocca fala de algumas com mais de quarenta anos de
idade; e Stoche diz ter visto uma colônia, que ele garante ter en-
xameado anualmente, por quarenta e seis anos! "Casos como es-
tes conduzem à errada opinião de que as abelhas são uma raça
de vida longa. Mas isto, como observou o Dr. Evans, é exatamen-
te tão compreensível quanto para um estranho contemplando
uma cidade populosa e alheio a seus habitantes pudesse, ao fa-
zer uma segunda visita, muitos anos mais tarde, e encontrando-
a igualmente populosa imaginar que fosse habitada pelos mes-
mos indivíduos, quando mais nenhum deles estaria vivo.
´Like leaves on trees, the race of bees is found,
Now green in youth, now withering on the ground;
Another race the Spring or Fall supplies,

1 Se uma rainha italiana for colocada, durante a estação de trabalho, num enxa-

me de abelhas comuns, em cerca de três meses somente algumas das últimas se-
rão encontradas na colônia.
50 A Colméia e a Abelha
They droop successive, and successive rise.´"
O casulo tecido pela larva nunca é removido pelas abelhas;
ele adere tão firmemente às laterais dos alvéolos que o trabalho
para removê-lo custaria mais do que o benéfico de sua remoção.
Como os alvéolos de criação podem se tornar, eventualmente,
pequenos para o desenvolvimento apropriado das jovens os favos
realmente velhos devem ser removidos da colméia. É um grande
erro, no entanto, imaginar que os favos de cria devem ser troca-
dos todos os anos. Se for desejável, isto pode ser feito facilmente
nas minhas colméias; mas removendo-os mais freqüentemente
do que uma vez a cada cinco ou seis anos, ocorrerá um consumo
desnecessário de mel para repô-los e prejudicará as abelhas no
Inverno, uma vez que os favos novos são muito mais frios do que
os velhos.
Os inventores de colméias tem sido, seguidamente, "homens
de uma única idéia": e esta uma, em vez de ser um fato bem
fundamentado e relevante da fisiologia da abelha tem sido, fre-
qüentemente, (como a necessidade de troca anual dos favos da
cria), uma mera conjectura de um ideador visionário. Esta con-
jectura é suficientemente inofensivo, a ponto de não ser necessá-
rio nenhum esforço para impor tais sujeiras a um público igno-
rante, seja na forma de uma colméia patenteada, ou ainda pior,
na forma de uma colméia não patenteada cujo pretenso direito de
uso seja fraudulentamente vendido a um comprador trapaceiro.1
Os apicultores, inconscientes da brevidade da vida da abelha
têm, muitas vezes, construído grandes "palácios para as abelhas"
e grandes aposentos, imaginando insanamente que as abelhas
possam enchê-los, sendo incapazes de encontrar qualquer razão
para a colônia não crescer até atingir milhões ou bilhões de habi-

1 Colméias que nunca foram patenteadas têm sido vendidas, extensivamente,

como artigos patenteados por homens que, durante anos, foram capazes de pros-
seguir obtendo dinheiro sob falso pretexto. Outras são oferecidas com o pretexto
de que a patente continua pendente, quando nenhuma patente tenha sido solici-
tada ou há muito tempo foi rejeitada. Muitas vezes a parte patenteada de uma
colméia, por ser um conceito sem valor, é cuidadosamente escondida enquanto
muita ingenuidade é mostrada ao exibir as características da colméia que todos
tem o direito de usar; e que o vendedor, algumas vezes por implicação e algumas
vezes por afirmação direta, conduz o comprador a acreditar que sejam partes es-
senciais da patente.
Ninguém deveria comprar uma "colméia patenteada" até se certificar de duas coi-
sas: primeiro, que realmente existe uma patente sobre a invenção; e, segundo,
que a parte patenteada é, na sua opinião, mais valiosa para ele do que o dinheiro
que lhe está sendo pedido pelo direito de uso.
L. L. Langstroth 51
tantes. Mas como as abelhas nunca conseguem igualar em nú-
mero, muito menos ultrapassar, o que a rainha é capaz de pro-
duzir numa estação, estas vivendas espaçosas têm sempre uma
abundância de espaço disponível. Parece estranho que os ho-
mens possam se enganar a tal ponto quando, muitas vezes, em
seus próprios apiários eles têm colméias, que, posto não terem
enxameado por um ou dois anos, não são mais populosas na
Primavera do que aquelas que tem perdido, regularmente, vigo-
rosas colônias.
É certo que o Criador colocou um limite no crescimento do
número de abelhas numa única colônia; eu me aventuro em a-
pontar uma razão para isto. Suponha que ele tivesse dado para a
abelha a mesma longevidade de um cavalo ou de uma vaca, ou
tivesse feito cada rainha capaz de depositar diariamente algo
como centenas de milhares de ovos; ou tivesse dado algumas de-
zenas de rainhas para cada colméia; então a colônia poderia
prosseguir no crescimento até se tornar um malefício e não um
benefício para o homem. Nos climas amenos, dos quais as abe-
lhas são nativas, elas se estabeleceriam numa caverna ou fenda
ampla na rocha e poderiam, em breve, se tornar tão poderosas a
ponto de ser um desafio tentar se apoderar dos lucros do seu
trabalho.
Já foi dito que ninguém, a não ser as vespas mãe e os ves-
pões, sobrevivem ao Inverno. Caso estes insetos tivessem, à se-
melhança das abelhas, condições de começar a estação com a
força acumulada de uma grande colônia eles poderiam, muito
antes do seu término, se revelar um intolerável incômodo. Se, ao
contrário, a rainha fosse compelida, solitária e sozinha, a lançar
as fundações de uma nova população, a safra de mel teria desa-
parecido muito antes de ela conseguir ser a mãe de uma família
numerosa.
O processo de criação de rainha poderá, agora, ser descrito
mais particularmente. No início da estação, se a colméia se torna
muito populosa, as abelhas se preparam, normalmente, para a
enxameação. Um certo número de realeiras é iniciado, são cons-
truídas, normalmente, nas bordas dos favos (Lâmina XIV., a, b,
c, d) que não estejam presos às laterais da colméia. Estas realei-
ras lembram um amendoim (Lâmina XIII., Figs. 49, 50) e tem
cerca de uma polegada (25mm) de comprimento e um terço de
polegada (8mm) de diâmetro: por serem grossas é necessária
mais cera para sua construção. Raramente elas são vistas em es-

52 A Colméia e a Abelha
tado perfeito depois do período de enxameação uma vez que as
abelhas, depois que a princesa emergiu, destroem-nas até a for-
ma de uma pequena xícara sem asa (Lâmina XIV., c). Estas rea-
leiras, enquanto em construção, recebem uma quantidade de a-
tenção fora do comum por parte das operárias. Raramente passa
um segundo sem que uma abelha não esteja espreitando seu in-
terior; assim que uma fica satisfeita outra põe nela a sua cabeça
para verificar o progresso, ou aumentar o suprimento de geléia
real. Seu valor para a comunidade pode ser inferido facilmente
da atenção que elas recebem.
Enquanto os demais alvéolos estão abertos para a lateral as
realeiras pendem com sua boca para baixo. Alguns apicultores
pensam que esta posição peculiar afeta, de alguma forma, o de-
senvolvimento da larva real; enquanto outros, tendo se certifica-
do que elas não são prejudicadas se colocadas em outra posição,
consideram este desvio um dos mistérios inexplicáveis da col-
méia de abelhas. Assim parece-me, até ser convencido por obser-
vações mais cuidadosas, que elas pendem para baixo simples-
mente para economizar espaço. A distância entre conjuntos pa-
ralelos de favos na colméia é, normalmente, muito pequena para
que a realeira se estende para a lateral sem interferir com os al-
véolos opostos. Para economizar espaço as abelhas colocam-nas
em bordas não ocupadas do favo, onde existe disponibilidade de
espaço para realeiras realmente grandes.
O número de realeiras numa colméia varia muito; algumas
vezes existem apenas duas ou três, normalmente não mais de
cinco; ocasionalmente, mais de uma dúzia. Como não há inten-
ção de que todas as princesas sejam da mesma idade as realei-
ras não são iniciadas ao mesmo tempo. Não está perfeitamente
explicado como os ovos são depositados nas realeiras. Por vezes
pensei que as abelhas transferissem os ovos dos alvéolos comuns
para as realeiras; esta pode ser sua forma geral de proceder. Ar-
risco-me a conjetura, que, em situação de congestionamento da
colméia, a rainha deposita seus ovos em alvéolos das beiradas do
favo, alguns dos quais são posteriormente transformados pelas
operárias em realeiras. O instinto de aversão à sua própria casta
é tal na rainha que parece improvável que ela possa ser encarre-
gada sequer dos primeiros passos para garantir uma prole de
sucessoras.
As princesas são muito mais intensamente supridas com a-
limento do que as demais larvas; assim, aparentemente, elas flu-

L. L. Langstroth 53
tuam num espesso colchão de geléia, uma porção da qual pode
ser normalmente encontrada no fundo das realeiras, logo que e-
las emergem. Diferentemente do alimento das demais larvas, a
geléia real tem um sabor levemente ácido; quando fresco, lembra
amido; quando velho, uma geléia de marmelo. As abelhas, se
confinadas em sua colméia e supridas com água, podem secretá-
la a partir do mel e pão de abelha armazenados em seus favos.
Submeti geléia real ao Dr. Charles M. Wetherell, Filadélfia;
um interessante extrato de sua análise pode ser encontrado no
relatório dos anais do Philadelphia Academy of Natural Sciences
de julho, 1852. Ele fala da substância como sendo um "truly
bread-containing, composto albuminoso". Uma comparação dos
elementos nela contidos com os contidos no alimento da larva de
zangão e de operária, pode lançar alguma luz sobre o assunto
ainda envolto pela obscuridade.
Os efeitos produzidos sobre a larva real, em virtude do pecu-
liar tratamento são tão magníficos que eles são normalmente ta-
chados como caprichos inúteis, por aqueles que não os testemu-
nharam com seus olhos, nem usufruíram a oportunidade desfru-
tada por outros com observação acurada. Os efeitos não só são
contrários a todas as analogias comuns, mas tão maravilhosa-
mente estranhos e improváveis, que muitos, quando pergunta-
dos se acreditam neles, pensam que se lhes está oferecendo um
insulto ao bom senso. Quero enumerar brevemente os mais rele-
vantes destes efeitos.
1°. O modo peculiar com que a larva escolhida para ser rai-
nha é tratada, faz ela chegar à maturidade em cerca de dois ter-
ços do tempo que ela levaria se fosse criada como operária. E,
ainda, como ela terá um desenvolvimento mais completo, de a-
cordo com analogia ordinária, ela deveria ter um crescimento
mais lento.
2°. Seus órgãos de reprodução são perfeitamente desenvolvi-
dos, só assim ela pode cumprir integralmente com seu ofício de
mãe.
3°. Seu tamanho, forma e cor são muito modificados; sua
mandíbula inferior é menor, sua cabeça mais redonda e seu ab-
dômen não dispõe das bolsas para secretar a cera; suas pernas
não possuem escovas nem cestas, seu ferrão é mais curo e um
terço maior (Lâmina XVIII) do que o da operária.
4°. Seus instintos são totalmente modificados. Criada como
54 A Colméia e a Abelha
operária, ela exporia seu ferrão à mínima provocação; mas como
rainha, ela pode ser puxada, membro após membro, e não tentar
ferroar. Como operária, tratará uma rainha com a mais alta con-
sideração; mas agora, se levada a contatar outra rainha, tentará
destruí-la como sua rival. Como operária, freqüentemente deixa-
rá a colméia, seja para trabalho ou para se exercitar; como rai-
nha, nunca a deixa depois da fecundação, a não ser para acom-
panhar um enxame.
5°. O tempo de vida é notadamente mais longo. Como operá-
ria não viverá mais do que seis ou sete meses; como rainha po-
derá viver sete ou oito vezes mais. Todas estas maravilhas per-
manecem numa base impossível de ser demonstrada e, em vez
de serem testemunhadas somente por poucos bem aventurados,
podem agora, pelo uso da colméia de quadros móveis, ser visão
familiar a qualquer apicultor que prefere familiarizar-se com os
fatos em vez de criticar e ironizar o trabalho dos outros.1
O processo de criação de rainhas, para atender alguma e-
mergência especial, é muito mais maravilhoso do que o descrito.
Se as abelhas têm ovos de operárias ou larvas com não mais do
que três dias de idade elas constroem um grande alvéolo a partir
de outros três retirando a partição de dois alvéolos contíguos a
um terceiro. Destroem os ovos ou as larvas em dois destes alvéo-
los, colocam à disposição da ocupante do terceiro o alimento u-

1 Um breve extrato das célebres memórias de Swammerdam, escritas pelo Dr.


Boerhaave, podem enrubescer a arrogância destes observadores superficiais que
são doutos demais em seus próprios conceitos para valorizar o conhecimento dos
outros.
"Este tratado sobre abelhas se mostrou uma façanha tão cansativa que Swam-
merdam, posteriormente, não se recuperou, apesar da aparência de sua saúde
perfeita e vigor. Ele permanecia envolvido durante o dia, quase continuamente, a
observar e, durante a noite, quase constantemente a registrar através de dese-
nhos e explicações apropriadas.
"Seu trabalho diário começava às seis da manhã, quando o sol lhe fornecia luz
suficiente para enxergar objetos tão diminutos; a partir daquele horário ele con-
tinuava sem interrupção até as doze, todo o tempo exposto no ar livre ao calor
ardente do sol, sem chapéu, por receio de interceptar sua visão, e sua cabeça
quase se dissolvendo em suor sob o ardor irresistível daquela poderosa luminá-
ria. E se ele desistia ao meio dia era somente porque a força dos seus olhos esta-
va muito enfraquecida pelo extraordinário afluxo de luz e pelo uso do microscó-
pio, não podendo continuar por mais tempo com objetos tão pequenos.
"Muitas vezes ele desejou, para melhor executar suas observações vastas e sem
limites por um período de luz e calor perpétuo para aperfeiçoar suas investiga-
ções, como uma noite polar, a fim de tirar todas suas vantagens com desenhos e
descrições apropriadas."
L. L. Langstroth 55
sual das princesas; e alargam o alvéolo dando-lhe espaço amplo
para desenvolvimento. Como segurança contra falhas, elas co-
meçam, normalmente, um certo número de realeiras, embora,
muitas vezes, o trabalho é, na maioria delas, interrompido, em
seguida.
Dentro de onze a catorze dias elas estarão de posse de uma
nova rainha parecendo, em todos os seus aspectos, a uma criada
de forma natural; enquanto os ovos dos alvéolos adjacentes, que
se desenvolveram em operárias, levarão cerca de mais uma se-
mana para atingir a maturidade.
A bela representação do favo, na Lâmina XVIII1 foi retirada,
com alterações e adições minhas, do Cotton "My Bee-Book", a
quem estou também em débito pelo grupo de abelhas da página
título. A realeira (b), é uma realeira perfeita, da qual a jovem ain-
da não emergiu. A realeira (a) apresenta o boné ou tampa como
seguidamente aparece logo depois que a princesa emergiu. A rea-
leira (d), aberta na lateral, é uma da qual a jovem princesa foi vi-
olentamente retirada; a outra (c) é uma que as abelhas reduzi-
ram à forma de uma xícara sem asa. Ela se parece também a
uma com apenas alguns dias de idade. Na face do favo está um
alvéolo (n), apenas no começo da criação de uma rainha, esta é a
posição normal das realeiras construídas para atender alguma
emergência. Para apresentar os pontos ilustrados num espaço
compacto, as realeiras foram desenhadas menores do que seu
tamanho natural.
Devo trazer, em conexão ao assunto, uma descrição de um
interessante experimento.
Uma colônia populosa foi transferida, pela manhã, para um
novo local, e uma colméia vazia foi colocada em seu lugar. Milha-
res de operárias que percorriam os campos ou que deixaram a
colméia depois de transferida, retornaram para o local familiar.
Foi realmente emocionante testemunhar seu pesar e desespero;
elas voavam em círculos agitados em volta do local onde esteve
sua feliz moradia, entrando na colméia vazia continuamente e
expressando de várias formas suas lamentações por tão cruel
perda. Por volta do anoitecer pararam de se lançar em vôo e co-
meçaram a perambular em agitados pelotões, para dentro e para
fora da colméia e sobre sua superfície, como à procura de algum
tesouro perdido. Foi-lhes dado então um pequeno pedaço de favo

1 O favo está na fig. 47 da Lâmina XIV. N.T.


56 A Colméia e a Abelha
com cria contendo ovos de operárias e larvas. O efeito produzido
por esta introdução ocorreu mais rapidamente do que é possível
descrever. As primeiras a tocá-lo suscitavam uma nota peculiar
e, num momento, o favo foi coberto por uma densa massa de a-
belhas; assim que elas reconheceram, neste pequeno pedaço de
favo, uma forma de libertação o desespero deu lugar à esperan-
ça, seus movimentos agitados e sons pesarosos cessaram e um
animado zumbido indicava sua satisfação. Se alguém pudesse
entrar num prédio com milhares de pessoas arrancando seus
cabelos, batendo em seus peitos e em choros comoventes, bem
como fazendo gestos furiosos, dando escape a seu desespero e
pudesse com uma simples palavra fazer que todas estas demons-
trações de agonia dessem lugar a sorrisos e congratulações, a
mudança não seria mais instantânea do que a produzida quando
as abelhas receberam o favo com cria!
Os orientais chamam a abelha "Deborah; aquela que se ex-
pressa". Seria porque este pequeno inseto pode falar com pala-
vras mais eloqüentes do que os inventos do homem, para os que
rejeitam toda doutrina da revelação religiosa, com a convicção de
que elas são tão improváveis, quanto trabalhar sob uma, a priori,
dificuldade fatal. Não seriam todos os degraus do desenvolvimen-
to de uma rainha, desde o ovo da operária, um trabalho com a
mesma dificuldade? e não seriam eles, por esta razão vistos
sempre, por muito apicultores, como não merecedores de crédi-
to? Se o argumento favorito dos infiéis não resiste ao teste,
quando aplicado às maravilhas da colméia, ele pode ser intitula-
do como peso sério, quando, por contestar as verdades religio-
sas, eles duvidam, de modo arrogante, o infinito Jehovah pelo
que Ele tinha prazer de fazer ou ensinar? Com não mais exten-
são do que a reclamada por tais contestadores, era fácil provar
que um homem não tem obrigação alguma de acreditar em qual-
quer das maravilhas da colméia, apesar de testemunhar suas
verdades com seus próprios olhos.

L. L. Langstroth 57
CAPÍTULO IV

FFA
AVVO
O

A cera é uma secreção natural das abelhas, e porisso pode


ser chamada de óleo ou graxa. A cera é secretada na forma de
pequenas lâminas, nas pequenas bolsas existentes em seu ab-
dômen quando as abelhas estão empanzinadas com mel, ou
qualquer líquido doce e permanecem quietas e agrupadas. (Lâ-
mina XIII, Fig. 37 e 38). Assim que um enxame é alojado o fundo
da colméia fica, normalmente, recoberto com estas lâminas. Pa-
rece que as abelhas as perdem por causa de sacudidas violentas
enquanto estão sobre os favos.
"Thus, filtered through yon flutterer´s folded mail,
Clings the cooled wax, and hardens to a scale.
Swift, at the well-known call, the ready train
(For not a buz boon Nature breathes in vain)
Spring to each falling flake, and bear along
Their glossy burdens to the builder throng.
These with sharp sickle, or with sharper tooth,
Pare each excrescence, and each angle smoothe,
Till now, in finish´d pride, two radiant rows
Of snow, white cells one mutual base disclose.
Six shining panels gird each polish´d round;
The door´s fine rim, with waxen fillet bound;
While walls so thin, with sister walls combined,
Weak in themselves, a sure dependence find."
EVANS
A maioria dos apicultores, antes de Huber, supunha que a
cera era feita do pão de abelha, seja no estado cru ou digerido.
Confinando um enxame novo de abelhas numa colméia, em re-
cinto escuro e frio, ao final de cinco dias ele encontrou vários
bonitos favos brancos em seus ninhos; privando as abelhas des-
tes favos e suprindo-as com mel e água, novos favos eram nova-
mente construídos. Os favos foram removidos sucessivamente
por sete vezes e sempre foram reconstruídos, estando as abelhas,
durante todo este período, impedidas de percorrer os campos pa-
ra se suprirem de pão de abelha. Através de experimentos sub-
L. L. Langstroth 59
seqüentes ele provou que a resposta ao xarope de açúcar era a
mesma que se obtinha ao mel. Fornecendo ao enxame preso fru-
ta e pão de abelha em abundância ele constatou que as abelhas
subsistiam na fruta e se negavam a tocar o pólen; nesta condição
nenhum favo foi construído nem se formaram lâminas de cera
em suas bolsas.
Apesar da extrema prudência e incansável paciência de Hu-
ber em conduzir estes experimentos, ele não descobriu toda a
verdade sobre este assunto. Embora ele tenha demonstrado que
as abelhas podem construir favo a partir de mel e açúcar, sem a
ajuda de pão de abelha, e que elas não conseguem fazê-lo a par-
tir do pão de abelha, sem mel ou açúcar, ele não comprovou que
quando privadas permanentemente do pão de abelha elas podem
continuar a trabalhar na cera, ou se elas puderem, que o pólen
não ajuda em nada na sua elaboração.
Algum pão de abelha é sempre encontrado no estômago das
operárias produtoras de cera, e elas nunca constroem favo tão
rapidamente como quando elas tem acesso livre a esta iguaria. O
pólen deve, conclui-se, fornecer algum material da cera ou, de
alguma forma, ajudar as abelhas a produzi-la. São necessárias
investigações adicionais para chegar a resultados perfeitamente
corretos. Afirmações presunçosas são feitas facilmente, exigem
apenas um pouco de alento e algumas gotas de tinta; aqueles
que gostam muito delas têm, muitas vezes, um profundo despre-
zo pela observação e pelo experimento. Para provar qualquer
verdade controversa com a fundamentação sólida de fatos de-
monstrados exige-se, normalmente, um trabalho severo e pro-
longado.
Mel e açúcar contem, em peso, cerca de oito kilogramas de
oxigênio para um de carbono e hidrogênio. Convertido em cera,
estas proporções são notavelmente mudadas, a cera contem a-
penas um kilograma de oxigênio para mais de dezesseis de hi-
drogênio e carbono. Como o oxigênio é o grande sustentador do
calor dos animais, a grande quantidade consumida, ao secretar a
cera, ajuda a gerar a extraordinária quantidade de calor que
sempre acompanha a construção de favo e que permite as abe-
lhas moldar a cera macia em formas1 tão extraordinárias, delica-
das e belas. Este interessante exemplo de adaptação, que aponta

1De acordo com o Dr. Donhoff, a espessura das laterais do alvéolo de um favo
novo é de apenas um centésimo a um oitenta avos de polegada (0,25 a 0,30mm).
60 A Colméia e a Abelha
claramente para a Divina Sabedoria, parece não ter chamado a
atenção dos escritores antigos.
Experimentos cuidadosos provam que são necessários de
treze a vinte kilogramas de mel para fazer um único kilograma de
cera. Sendo a cera um óleo animal, secretada sobretudo a partir
do mel, esta afirmaçã parecerá não ser desmerecedora de crédito
por aqueles que estão cônscios de quantos kilogramas de milho
ou feno devem ser fornecidos para o gado a fim de que ele obte-
nha um único kilograma de gordura.
Muitos apicultores não estão conscientes do valor do favo va-
zio. Suponha que o mel valha apenas quinze centavos por libra e
o favo, quando recuperado em cera, seja valorizado a trinta cen-
tavos, o apicultor que derrete uma libra de favo perde muito na
operação, mesmo sem estimar o tempo que suas abelhas con-
sumiram para construí-lo. Deveria, assim, ser estabelecido como
primeiro princípio em apicultura nunca derreter bons favos. Uma
grande população de abelhas, no auge do fluxo de néctar, os en-
cherá com grande rapidez.
Infelizmente, nas colméias ordinárias pouco uso pode ser
dado ao favo vazio, a menos que seja novo e possa ser colocado
nas caixas de mel excedente1, mas com o uso das barras, ou dos
quadros móveis, toda peça boa de favo de operária pode ser dada
às abelhas.
Quando novo, ele pode ser facilmente fixando nos quadros,
ou nos recipientes de armazenamento de mel, mergulhando sua
borda em cera derretida e segurando firmemente no local até que
endureça, se ele for velho, ou os pedaços forem grandes e cheios
de pão de abelha, uma mistura de cera derretida e resina garan-
tirá uma adesão mais firme. Quando o favo é colocado em vidros,
ou pequenos recipientes, ele pode ser simplesmente encaixado a
fim de ficar no local até que as abelhas o fixem. Como as abelhas
gostam de "um bom início de vida", elas preferem os recipientes
que contem algum favo vazio. Todo favo de zangão em boas con-
dições deveria ser posto nestes recipientes em vez de deixar na
câmara de cria da colméia.
Ninguém, que eu saiba, conseguiu, algum dia, imitar perfei-
tamente o tão delicado mecanismo da abelha e construir favos
artificiais para o uso normal na colméia. Se favos de armazena-

1 O autor deve estar se referindo à melgueira. N. T.


L. L. Langstroth 61
mento puderem ser feitos de guta-percha1, eles deverão ser esva-
ziados do seu conteúdo e devolvidos à colméia.
No Verão de 1854 constatei que as abelhas podem, em certas
circunstâncias, fazer uso de finas raspas de cera para construir
favo novo. Caso esta descoberta possa se tornar útil para propó-
sitos práticos, facilitará tanto a multiplicação menos custosa e
mais rápida das colônias quanto permitirá às abelhas acumular
quantidades não usuais de mel. Um kilograma de cera de abelha
pode ser preparado para armazenar cerca de vinte kilogramas de
mel, e o apicultor poderá ganhar a diferença do valor entre um
kilograma de cera e o mel que as abelhas consomem para produ-
zir este kilograma. Nos períodos em que as abelhas não conse-
guem mel nas flores, famílias fortes podem ser usadas, com pro-
veito, para a construção de favo reserva, a fim de fortalecer famí-
lias fracas, ou para qualquer outro propósito.
A construção de favo é normalmente realizada com grande
atividade à noite enquanto o mel é recolhido durante o dia2. As-
sim não se perde tempo. Quando o clima torna o trabalho exter-
no proibitivo, os favos são construídos mais rapidamente, pois o
trabalho é executado vigorosamente tanto de dia como à noite.
Se, ao retornar da faina diária, as abelhas encontram espaço pa-
ra armazenamento recolhem quantidades não usuais. Assim, pe-
lo seu critério econômico, elas dificilmente perdem tempo, mes-
mo quando confinadas por vários dias em suas colméias.
"How doth little busy bee improve each shining hour!"
O poeta pode, com igual verdade, descrevê-la aproveitando
os dias sombrios e as noites escuras para suas atividades provei-
tosas.
Fatos interessantes, que parece não foram percebidos até
agora, são que a coleta de mel e a construção de favo prosse-
guem simultaneamente; assim quando um para o outro também
cessa. Logo que a colheita de mel começa a falhar, e o consumo
supera a produção, as abelhas param de construir favo novo, a-
inda que grandes porções de sua colméia não estejam cheias de
favos. Quando o mel não mais abunda nos campos é sensato evi-

1 Segundo Michaelis - Guta-percha: substância plástica tenaz, esponjosa, não e-

lástica, cinzenta ou marrom, obtida da seiva leitosa, seca, de várias árvores sapo-
táceas da Malásia. N. T.
2 Em noites realmente claras pela luz da lua verifiquei abelhas apanhando mel de
flores da árvore da tulipa (Liriodendron tulipfera).
62 A Colméia e a Abelha
tar que ele seja consumido na construção de favo, um tesouro
que pode vir a ser necessário durante o Inverno. Que regra mais
segura poderia ter sido ditada a elas?
Como a cera é péssima condutora de calor, ela pode ser mais
facilmente trabalhada quando aquecida pelo calor das abelhas,
do que se ela perdesse o calor rapidamente. Graças a esta pro-
priedade, os favos ajudam a manter as abelhas aquecidas e exis-
te menos risco de sua quebra com o frio, ou de o mel cristalizar
no favo. Se a cera fosse um bom condutor de calor os favos pode-
riam, muitas vezes, ficarem gelados, a umidade poderia conden-
sar e congelar sobre eles, e eles não poderiam atender a todas as
suas finalidades.
O tamanho dos alvéolos nos quais são criadas as operárias
nunca varia; o mesmo pode ser dito, essencialmente, dos alvéo-
los de zangão, que são maiores; aqueles em que o mel é armaze-
nado variam muito na profundidade, no diâmetro, são de todos
os tamanhos, desde alvéolos de operária até de zangão. Como
cinco alvéolos de operária, ou quatro de zangão, quando justa-
postos medem cerca de uma polegada (25,4mm) de comprimen-
to, uma polegada quadrada de favo conterá, em cada lado do fa-
vo, vinte e cinco alvéolos de operária, ou dezesseis de zangão.
Como as abelhas, ao construírem seus alvéolos, não conse-
guem passar imediatamente de um tamanho para o outro, elas
mostram uma admirável sagacidade construindo a transição com
um conjunto de alvéolos irregulares intermediários. A Lâmina XV
(Fig. 48) mostra uma representação exata e bonita do favo, dese-
nhado, para este trabalho sobre a natureza, por M. M. Tidd e
gravado por D. T. Smith, ambos de Boston, Mass. Os alvéolos
têm o tamanho natural. Os maiores são alvéolos de zangão e os
menores, alvéolos de operárias. Os irregulares, alguns alvéolos
com cinco lados, mostram como as abelhas passam de um ta-
manho para o outro.
Constata-se que os alvéolos de abelha satisfazem perfeita-
mente as condições mais sutis de um intricado problema mate-
mático. Deseja-se encontrar qual a forma que uma dada quanti-
dade de material deve ter para conseguir a maior capacidade e
resistência ocupando, ao mesmo tempo, o menor espaço e con-
sumindo o menor trabalho na sua construção. Resolvido este
problema pelo processo matemático mais refinado, a resposta é o
hexágono ou o alvéolo com seis lados da abelha, com três figuras
de quatro lados na base!
L. L. Langstroth 63
A forma destas figuras não pode ser alterada por pouco que
seja, a não ser para o pior. Além das qualidades desejáveis já
enumeradas, eles servem como berçário para a criação dos jo-
vens e como pequenos recipientes herméticos para preservar o
mel da fermentação e cristalização. Toda dona de casa prudente,
que armazena cuidadosamente suas conservas em recipientes
sem ar, pode apreciar o valor de tal sistema.
"Existem apenas três figuras possíveis para os alvéolos", diz
o Dr. Reid, "que permitem fazê-los iguais e similares, sem deixar
espaço vazio entre eles. Estas são o triângulo eqüilátero, o qua-
drado e o hexágono regular. É bem conhecido dos matemáticos
que não existe uma quarta forma possível segundo a qual um
plano possa ser cortado em pequenos pedaços que sejam iguais,
similares e regulares sem deixar nenhum interstício."
Um triângulo eqüilátero seria uma habitação realmente des-
confortável para um inseto com corpo redondo; um alvéolo qua-
drado seria um pouco melhor. Um círculo parece ser a melhor
forma para o desenvolvimento da larva; mas tal figura sacrifica-
ria desnecessariamente espaço, materiais e resistência; enquanto
o mel, que adere tão admiravelmente aos muitos ângulos do al-
véolo de seis lados, estaria mais propenso a escorrer. O corpo do
inseto não maduro, à medida que as transformações ocorrem,
está intensamente carregado de umidade, que passa através da
cobertura reticulada do alvéolo; não poderia o hexágono, portan-
to, enquanto se aproximando tanto da figura do círculo, incomo-
dar menos a jovem abelha e fornecer, nos seus seis cantos, um
vazio necessário para uma ventilação mais completa?
Pode-se acreditar que este pequeno inseto seja capaz de reu-
nir tantos requisitos na construção de seus alvéolos, seja por a-
caso, seja por estar profundamente versado na mais intricada
matemática? Não somos nós compelidos a reconhecer que a ma-
temática, pela qual eles constroem uma forma tão complicada e
ainda a única que permite unir tantos requisitos desejáveis, deva
ser atribuída ao Criador e não à sua frágil criatura? Para uma
mente inteligente e sincera, a menor peça de favo de mel é a per-
feita demonstração que existe uma "GRANDE PRIMEIRA
CAUSA".
"On books deep poring, ye pale sons of toil,
Who waste in studious trance the midnight oil.
Say, can ye emulate, with all your rules,
Drawn or from Grecian or from Gothic schools,

64 A Colméia e a Abelha
This artless frame? Instinct her simple guide,
A heaven-taught insect baffles all your pride.
Not all yon marshall´d orbs, that ride so high,
Proclaim more loud a present Deity,
Than the nice simmetry of these small cells,
Where on cach angle genuine science dwells."
EVANS

L. L. Langstroth 65
CAPÍTULO V

PPR
RÓÓPPO
OLLIISS

Esta substância é obtida pelas abelhas a partir de brotos re-


sinosos e cascas de árvores: as diferentes variedades de álamo
fornecem um rico suprimento. Assim que recolhida ela é, nor-
malmente, de cor brilhante dourada e tão pegajosa que as abe-
lhas nunca a depositam nos alvéolos, mas a aplicam imediata-
mente no local para o qual foi coletada. Se uma abelha for apa-
nhada, carregada da resina, se observa que a resina adere muito
firmemente às suas pernas.
"Huber plantou, na Primavera, alguns galhos do álamo sil-
vestre, antes de as folhas terem se desenvolvido, e os colocou em
potes perto do seu apiário; as abelhas pousaram neles, separa-
ram as dobras dos grandes germens com seus fórceps, extraíram
o verniz em filetes e carregaram, primeiro uma perna traseira e
depois a outra; para transportá-lo como o pólen, transferiram
com o primeiro par de pernas para o segundo, com os quais a
própolis é alojada nas corbículas." Eu as tenho visto remover a
própolis aquecida de velhos fundos colocados ao sol.
A própolis é coletada freqüentemente do amieiro, castanha
da índia, vidoeiro e salgueiro; e, como se pode conceber, do pi-
nheiro e outras árvores do tipo do abeto. As abelhas entram,
muitas vezes, em lojas de verniz, atraídas evidentemente pelo
cheiro; nas proximidades de Matamoras, México, onde a própolis
parece ser escassa, eu as vi apanhando pintura verde de venezi-
anas e piche do cordame de uma embarcação. Bevan menciona o
fato de elas carregarem uma composição de cera e terebentina de
árvores às quais a mistura fora aplicada. O Dr. Evans diz ter vis-
to elas coletarem o verniz balsâmico que cobria os brotos florais
da malva rosa e observou elas ficarem, pelo menos, dez minutos
no mesmo broto, modelando o bâlsamo com suas pernas diantei-
ras e transferindo-o para as pernas traseiras, como descrito por
Huber.
"With merry hum the Willow´s copse they scale,

L. L. Langstroth 67
The Fir´s dark pyramid, or Poplar pale;
Scoop from the Alder´s leaf its oozy flood,
Or strip the Chestnut´s resin-coated bud;
Skim the lighr tear that tips Narcissus´ ray,
Or round the Hollyhock´s hoar fragrance play;
Then waft their nut-brown loads exulting home,
That form a fret-work for the future comb;
Caulk every chink where rushing winds may roar,
And seal their circling ramparts to the floor."
EVANS.
A mistura de cera e própolis, por ser mais aderente do que a
cera sozinha, serve admiravelmente para reforçar a ligação dos
favos na tampa e nas laterais da colméia. Se os favos não recebe-
rem mel e cria, logo depois de serem construídos, eles são reco-
bertos com uma delicada película de própolis que favorece em
muito sua resistência; mas como este verniz natural ofusca a al-
vura do favo não se deve permitir que as abelhas tenham acesso
aos favos das melgueiras, exceto quando ativamente engajadas
em nelas armazenar mel.
As abelhas fazem um uso realmente liberal da própolis fe-
chando toda fresta em volta de seu recinto; como o aquecimento
natural durante o Verão da colméia mantem a própolis macia, a
traça da cera a escolhe como local para depositar seus ovos. As
colméias devem ser feitas de madeira totalmente livre de fendas.
Os cantos, que as abelhas normalmente preenchem com própo-
lis, devem receber uma mistura derretida, três partes de resina e
uma de cera de abelha; esta se mantem dura durante o clima
mais quente, se tornando um desafio para a traça.
Como as abelhas encontram dificuldade para coletar própolis
e, igualmente, para trabalhar um material tão pegajoso, elas de-
vem ser poupadas de toda a tarefa de a amassar. Para o homem,
tempo é dinheiro e para as abelhas, é mel; todo ajuste da colméia
deve ser para economizá-lo ao máximo.
A própolis é algumas vezes usada de modo realmente curioso
pelas abelhas. "Um caracol1 se rastejou para dentro de uma das
colméias do M. Reaumur pela manhã, depois de andar por algum
tempo, aderiu, pelo seu próprio muco, a um dos paineis de vidro.
As abelhas, descobrindo o caracol, rodearam-no e depositaram
própolis em volta dele, na borda do casco, e assim o prenderam
com firmeza ao vidro de forma que ficou imóvel.

1 Bevan
68 A Colméia e a Abelha
`Forever closed the impenetrable door;
It naught avails that in its torpid veins
Year after year, life´s loitering spark remains."
EVANS
"Maraldi, outro eminente apicultor, afirmou que uma lesma
entrou em uma de suas colméias, as abelhas, assim que a viram,
ferroaram-na até a morte; depois, não conseguindo retirá-la, co-
briram-na totalmente com uma camada impenetrável de própo-
lis.
`For soon in fearless ire, their wonder lost,
Spring fiercely from the comb the indignant host,
Lay the pierced monster breathless on the ground,
And clap in joy their victor pinions round:
While all in vain concurrent numbers strive
To heave the slime - girt giant from the hive -
Sure not alone by force instinctive swayed,
But blest with reason´s soul-directing aid,
Alike in man or bee, they haste to pour,
Thick, hard´ning as it falls, the flaky shower;
Embalmed in shroud of glue the mummy lies,
No worms invade, no foul miasmas rise.`
EVANS
Com estes exemplos, quem pode deixar de admirar a ingenu-
idade e bom senso das abelhas? No primeiro caso, uma criatura
incômoda conseguiu entrar na colméia de onde, pela dificuldade
de manuseá-la, elas não conseguiam remover e que, pela impe-
netrabilidade de seu casco elas não conseguiam destruir; seu ú-
nico recurso foi impedi-la de se locomover e evitar sua putrefa-
ção; elas conseguiram, hábil e espertamente, ambos os objetivos
e, como é normal com estas criaturas sagazes, com o menor cus-
to possível em trabalho e material. Elas aplicam o cimento ape-
nas onde necessário - em volta na borda do casco. No último ca-
so, para evitar a decomposição do indesejado, pela exclusão total
do ar, elas foram obrigadas a ser mais perdulárias no uso do ma-
terial de embalsamento e recobriram o ´gigante mucoso´ a fim de
se resguardar do cheiro de decomposição. Que meio mais efetivo
poderia a sabedoria humana vislumbrar em circunstâncias se-
melhantes?
Muitos acreditam que as abelhas sabem quando qualquer
membro da família morre; e alguns são suficientemente supersti-
ciosos para vestir as colméias de luto a fim de acalmar a tristeza
de seus ocupantes; imaginado que, a menos que isto seja feito,

L. L. Langstroth 69
as abelhas nunca mais prosperarão! Freqüentemente se afirma
que elas, algumas vezes, sentem muito sua perda, a ponto de
pousar sobre o ataúde onde quer que ele esteja exposto. Um pas-
tor me disse que ele atendeu a um funeral onde, assim que o a-
taúde deixou a casa, as abelhas se reuniram sobre ele como para
provocar alarme. Alguns anos após esta ocorrência, estando o-
cupado em envernizar uma mesa, as abelhas pousaram sobre ela
em grande número, como para convencê-lo, que a afeição pelo
verniz, mais do que a tristeza ou respeito pela morte, era o moti-
vo de sua conduta durante o funeral. Quantas superstições acei-
tas, mesmo por pessoas inteligentes, podem ser explicadas tão
facilmente, se fosse possível verificar completamente todos os fa-
tos conectados com elas!

70 A Colméia e a Abelha
CAPÍTULO VI

PPÓ
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OUU ""PPÃ
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ABBE
ELLH
HAA""

O pólen é colhido das flores pelas abelhas e é indispensável


para a nutrição da cria - experimentos repetidos provaram que a
cria não pode ser desenvolvida sem ele. Ele é muito rico em
substâncias nitrogenadas não existentes no mel, sem as quais
não seria possível fornecer alimentação suficiente para o desen-
volvimento da abelha em crescimento. O Dr. Hunter, ao dissecar
algumas abelhas não maduras, observou que seus estômagos
continham pólen e nenhuma partícula de mel.
Devemos a Huber a descoberta que o pólen é o principal ali-
mento das abelhas jovens. Como grandes reservas eram encon-
tradas, freqüentemente, em colméias cujos habitantes passavam
fome, ficou evidente que sem mel não era possível a subsistência
das abelhas maduras; isto levou os primeiros observadores a
concluir que o pólen servia para a construção do favo. Huber,
depois de demonstrar que a cera podia ser secretada a partir de
uma substância completamente diferente, confirmou, imediata-
mente, que o pólen era usado para a alimentação do embrião da
abelha. Confinou algumas abelhas numa colméia sem pólen e as
supriu com mel, ovos e larvas. Em pouco tempo todas as jovens
pereceram. Repondo a cria, agora com ampla disponibilidade de
pólen, o desenvolvimento das larvas seguiu seu curso natural.
Tive uma oportunidade excelente para testar o valor do pólen
na Primavera de 1852. Em 5 de fevereiro abri uma colméia con-
tendo um enxame artificial do ano anterior e encontrei muitos
alvéolos com cria. Ao examinar os favos no dia 23 verifiquei que
não existiam ovos nem cria, nem pão de abelha; supri a colônia
com pólen de outra colméia; no dia seguinte um grande número
de ovos podia ser visto nos alvéolos. Quando este suprimento
terminou a postura cessou novamente e só foi retomada quando
houve novo suprimento. O clima estava tão ruim, durante o perí-
odo destes experimentos, que as abelhas não tinham condições
L. L. Langstroth 71
de deixar a colméia.
Dzierzon é de opinião que as abelhas podem fornecer alimen-
to para sua cria, mesmo sem disponibilidade de pólen; ele admi-
te, no entanto, que elas só conseguem fazer isto por pouco tempo
e com grande custo de sua energia vital assim como a resistência
de um animal que amamenta sua cria fica rapidamente reduzida,
pois na falta de alimento a matéria do corpo da mãe deve ser
convertida em leite. O experimento acima descrito não corrobora
esta teoria, mas confirma o ponto de vista de Huber que o pólen
é indispensável para o desenvolvimento da cria.
Gundelach, um abade alemão apicultor, diz que se uma co-
lônia com rainha fértil for confinada numa colméia vazia e supri-
da com mel, os favos serão rapidamente construídos e os alvéo-
los receberão ovos, os quais, no tempo apropriado, eclodirão,
mas todas as larvas morrerão em vinte e quatro horas.
Alguns apicultores acreditam que as abelhas, com abundân-
cia tanto de pólen como de mel, secretarão cera mais rapidamen-
te do que quando supridas apenas com mel; e que sua secreção,
sem pólen, afeta severamente sua resistência.
Em setembro, 1856, coloquei uma colônia de abelhas muito
grande numa colméia nova para apurar alguns pontos que esta-
va, então, verificando. O tempo estava magnífico, elas coletavam
pólen e construíam favo muito rapidamente; mesmo assim, du-
rante dez dias a rainha não depositou nenhum ovo nos alvéolos.
Durante todo o tempo as abelhas armazenaram muito pouco pó-
len nos favos. Num dos dias que, por estar tempestuoso, as abe-
lhas não puderam sair, elas foram supridas com farinha de cen-
teio (ver pág. 84), da qual nada, ainda que apanhado com muita
avidez, pode ser encontrado nos alvéolos. Durante todo este tem-
po, como não havia cria para ser alimentada, o pólen devia estar
sendo usado pelas abelhas, ou para alimentação ou para ajudá-
las na secreção de cera; ou, como acredito, para ambos estes
propósitos.
As abelhas preferem recolher pão de abelha fresco, mesmo
quando existir grande acúmulo de velhos estoques nos alvéolos.
Com colméias onde é possível o controle sobre os favos, o exces-
so existente em colônias velhas pode servir para suprir a defici-
ência das novas; as últimas, na Primavera, estão, muitas vezes,
privadas deste insumo indispensável.
Se tanto o pólen quanto o mel puderem ser obtidos da mes-
72 A Colméia e a Abelha
ma floração o inseto industrioso apanha, normalmente, uma
carga de cada um. Para provar isto disse que se algumas coleto-
ras de pólen quando mel é abundante; seu saco de mel estará
normalmente cheio.
O modo de coletar pólen é muito interessante. O corpo da
abelha aparece a olho nu coberto de finos pelos, aos quais,
quando ela pousa na flor, o pó adere. Com suas pernas ela o es-
cova de seu corpo e o empacota nas cavidades, ou cestas, uma
em cada perna traseira; estas cestas estão rodeadas por pelos
fortes que seguram a carga em seu lugar. Se, por qualquer razão,
o pólen não puder ser facilmente transformado em bolas a abe-
lha, muitas vezes, se esfrega nele e retorna, toda coberta de pó,
para sua colméia.
Quando uma abelha traz para casa uma carga de pólen ela,
muitas vezes, sacode seu corpo de forma singular para atrair a
atenção de outras abelhas, as quais apanham de sua coxa tra-
seira o que precisam para uso imediato; em seguida ela armaze-
na o restante para futuras necessidades, inserindo seu corpo no
alvéolo e escovando o pólen de suas pernas; ele é em seguida
cuidadosamente pressionado, muitas vezes é recoberto com mel
e selado, por cima, com cera. O pólen raramente é depositado em
qualquer alvéolo a não ser nos alvéolos de operária.
Aristóteles observou que a abelha, ao apanhar pólen, se limi-
ta ao tipo de floração em que ela começou, mesmo que não seja
tão abundante como em outras; assim, observa-se que uma pelo-
ta desta substância apanhada de sua perna traseira, será por in-
teira de cor uniforme; a carga de um inseto será amarela, a do
outro vermelha e de um terceiro marrom; a cor variando com a
cor do pólen da planta da qual o suprimento foi obtido. Elas pre-
ferem conseguir uma carga de uma única espécie de planta, por-
que o pólen de diferentes tipos quando misturados não compac-
tam tão bem. As abelhas, ao carregar o pólen, substância fertili-
zante das plantas em seus corposde flor em flor, contribuem es-
sencialmente para a sua fertilização.
Embora a importância do pólen seja conhecida de longa da-
ta, apenas ultimamente é que estão sendo feitos esforços para
fornecer substituto. Dzierzon observou suas abelhas, no início da
Primavera, trazendo farinha de centeio, de um moinho das re-
dondezas, para suas colméias, em vez de buscarem pólen nas
fontes naturais. O sinal não foi perdido; agora é prática comum
na Europa, onde a apicultura é praticada extensivamente, suprir
L. L. Langstroth 73
as abelhas no início da estação com este insumo. Formas rasas,
contendo uma camada com cinco centímetros de espessura de
farinha de centeio, finamente pulverizada, seca não peneirada,
são colocadas próximas do apiário. Milhares de abelhas, quando
o clima é favorável, visitam-na com avidez e se esfregam na fari-
nha retornando pesadamente carregadas para suas colméias.
Com clima agradável e ameno elas executam esta atividade com
grande assiduidade; preferindo a farinha ao pólen velho armaze-
nado em seus favos. Assim elas criam mais cedo e seu número
cresce rapidamente. A alimentação continua até que a floração
forneça o artigo preferido quando elas param de carregar a fari-
nha. O consumo médio por colônia é de um kilograma.
O Sr. F. Sontag, um apicultor alemão, diz que, na Primavera
de 1853, ele alimentou uma de suas colônias com farinha de
centeio, colocada dentro da colméia num favo velho; continuou a
suprir até que elas pudessem procurar pólen fresco fora de casa.
Esta colônia produziu quatro enxames fortes naquela Primavera
e uma colméia próxima, que não recebeu suprimento de farinha,
produziu somente um enxame fraco.
Outro apicultor alemão diz que utiliza farinha de trigo com
bons resultados; as abelhas abandonaram o mel que lhes foi for-
necido, e trabalharam ativamente carregando a farinha, colocada
a cerca de vinte passos na frente das colméias.
A construção de minhas colméias permite colocar facilmente
a farinha em local onde a abelha pode apanhá-la, sem perder
tempo em sair de casa, ou sofrer por sua falta, quando o clima
as confina em casa.
A descoberta deste substituto remove um obstáculo realmen-
te sério na criação de abelhas. Em muitas regiões, existe por um
curto período de tempo um suprimento tão abundante de mel
que, qualquer que seja o número de colméias fortes, elas pode-
rão, numa boa estação, colher o suficiente para elas mesmas e
um grande excesso para seu dono. Em muitas destas regiões, no
entanto, o suprimento de pólen é, muitas vezes, quase insufici-
ente e, na Primavera, os enxames do ano anterior estão tão des-
providos que, a menos que a estação se adiante, a produção de
cria é seriamente reprimida e a colônia não poderá tirar proveito,
ela própria, devidamente da superabundância do fluxo de mel.
Enquanto as abelhas são vistas pelos mais bem informados
horticultores como amigas, muitos fruticultores neste país tem

74 A Colméia e a Abelha
delas um grande preconceito; quem cria abelhas é considerado,
em algumas comunidades, um mau vizinho, uma pessoa que
permita seus animais domésticos roubar em jardins dos outros.
Mesmo o mais caloroso amigo das "ocupadas abelhas" pode la-
mentar a sua propensão em se banquetear nos belos pêssegos e
pêras, e nas melhores uvas e ameixas.
Conversando com um senhor, apresentei três razões, porque
as abelhas não conseguem provocar nenhum mal extensivo so-
bre as uvas. Primeiro, uma vez que o Criador concebeu a ambas,
abelha e fruta, para o conforto do homem, seria difícil conceber
que Ele tivesse feito um ser inimigo natural do outro. Segundo,
se o suprimento de mel das flores falhar completamente, se a es-
tação (1854) for extraordinariamente seca e se as muitas colô-
nias da vizinhança tiverem condições de se ajudarem umas às
outras nas frutas sem defeito, elas devorariam totalmente as fru-
tas do vinho. Terceiro, como as mandíbulas da abelha são adap-
tadas principalmente para a manipulação da cera elas são muito
fracas para conseguirem perfurar a pele mesmo das mais delica-
das uvas.
Como resposta a estes argumentos, convidei-o a ir até suas
videiras e ver os predadores em ação real; o resultado justificou
minhas antecipações. Embora fossem vistas muitas abelhas se
banqueteando nas uvas, nenhuma estava fazendo qualquer es-
trago nas frutas sadias. As uvas machucadas da videira, ou que
jaziam no solo, bem como os pedúnculos molhados, dos quais as
uvas tinham sido recentemente arrancadas, estavam cobertas de
abelhas; outras abelhas foram vistas pousarem em cachos e, ao
concluir, depois de cuidadosa inspeção, estarem sem defeito, os
abandonavam com evidente desapontamento.
Vespas e vespões, que não secretam cera, possuidores de
mandíbulas fortes e serrilhadas para cortar fibras lenhosas com
as quais eles constroem seus favos, podem penetrar facilmente a
pele resistente dos frutos. Enquanto as abelhas, por conseguinte,
são comparativamente inocentes, uma multidão destes outros
predadores é vista se ajudando mutuamente nas melhores fru-
tas. Ocasionalmente, uma abelha pode conjeturar em pousar
num cacho onde um destes predadores está em atividade para
seu próprio benefício, quando então este predador pode se voltar
e "pedir briga", mais à semelhança de um cão rosnador, moles-
tado por outro da sua espécie, disputando o seu osso.
Depois que o dano foi iniciado por outros insetos, ou onde

L. L. Langstroth 75
seja identificada uma ruptura, ou seja vista uma mácula de dete-
rioração, a abelha se apressa em aproveitar, sob o princípio de
"recolher os fragmentos pois nada pode ser perdido". Desta for-
ma, sem dúvida, elas fazem algum dano; masantes que a guerra
seja declarada contra elas, que todo fruticultor pergunte se, co-
mo um todo, elas não são muito mais úteis do que prejudiciais.
Como as abelhas carregam em seus corpos o pólen, substância
fertilizadora, elas ajudam mais intensamente na fecundação das
plantas ao espreitar as flores em busca de mel ou do pão da abe-
lha. Em estações maravilhosas, muitas vezes, os frutos abun-
dam, mesmo que não seja criada nenhuma abelha na redondeza;
mas muitas Primaveras são tão desfavoráveis que, muitas vezes,
durante o período crítico do florescimento o sol brilha por apenas
algumas horas e, assim, só podem esperar alguma remuneração
razoável na colheita aqueles cujas árvores estavam murmurando
com o agradável zumbido das abelhas.
Um grande fruticultor disse-me que suas cerejas eram real-
mente uma colheita incerta, freqüentemente, quando elas esta-
vam em flor, prevalecia uma tempestade fria do nordeste. Ele ti-
nha sido informado que se o sol brilhasse apenas por um par de
horas as abelhas lhe assegurariam uma colheita.
Se os fruticultores, que vêem as abelhas como inimigos, pu-
dessem exterminar a raça, eles agiriam com tão pouca sabedoria
como aquele que tenta banir de suas propriedades inóspitas todo
pássaro insetívoro que busca para si uma pequena parte da a-
bundância que ele ajudou a produzir. Envidar esforços sensatos,
no início da Primavera, para apanhar em armadilha a mãe vespa
e os vespões, que sobrevivem sozinhos o Inverno, será um golpe
efetivo sobre um dos piores predadores dos pomares e jardins.
Na Europa, os envolvidos extensivamente no cultivo de fruta pa-
gam, muitas vezes, uma pequena quatia em dinheiro, na Prima-
vera, por toda vespa e vespão destruído em suas vizinhanças.
A Fig. 62 (Lâmina XIII) mostra a cabeça ampliada do Vespão
do Mel Mexicano (pág. 58). A Fig. 63 mostra a cabeça ampliada
da abelha. A Fig. 64 mostra as mandíbulas do Vespão. A Fig. 65
mostra as mandíbulas ampliadas da abelha. Um olhar sobre es-
tas figuras é suficiente para convencer qualquer fruticultor inte-
ligente da verdade da observação de Aristóteles - feita a mais de
dois mil anos atrás - que "as abelhas não ferem nenhuma espé-
cie de fruta, mas as vespas e os vespões são realmente predado-
res”.

76 A Colméia e a Abelha
CAPÍTULO VII

V
VEEN
NTTIILLA
AÇÇÃ
ÃOOD
DAAC
COOLLM
MÉÉIIA
A

Se uma colméia populosa for examinada num dia quente,


pode-se ver um bom número de abelhas pousadas no alvado com
suas cabeças voltadas para a entrada da colméia, seus abdo-
mens levemente elevados, e suas asas em movimento tão rápido
que elas são quase imperceptíveis, como os raios de uma roda
em alta rotação sobre seu eixo. Uma leve corrente de ar pode ser
sentida vindo da colméia; e se uma pequena pena for suspensa,
por uma linha, na entrada ela será soprada para fora de um lado
e sugada do outro. Porque estão estas abelhas tão profundamen-
te absortas na sua tarefa de ventilação, a ponto de não prestar a
mínima atenção para as inúmeras outras indo e vindo na col-
méia? e qual o significado desta dupla corrente de ar? Devemos a
Huber a explicação satisfatória deste curioso fenômeno. As abe-
lhas, que batem suas asas tão rapidamente, estão ventilando a
colméia; esta dupla corrente é provocada pelo ar puro que entra
para ocupar o espaço do ar usado que é forçado para fora. Huber
constatou, através de uma série de experimentos magníficos, que
o ar de uma colméia congestionada é quase tão puro quanto a
atmosfera que a rodeia. Como a entrada da colméia é muitas ve-
zes realmente pequena o ar do interior não pode ser renovado
sem a ajuda de um meio artificial. Se uma lamparina for coloca-
da num recipiente fechado com apenas um pequeno orifício a
chama gastará rapidamente o oxigênio e a laparina apagará. Se
um segundo orifício for feito ter-se-á o mesmo efeito. Mas se uma
corrente de ar for, através de algum dispositivo, forçada para fora
por uma abertura uma igual corrente forçará sua entrada pela
outra e a lamparina queimará até acabar o combustível.
Com base neste princípio, manter uma dupla corrente artifí-
cialmente, é que as abelhas ventilam sua congestionada habita-
ção. Uma linha de ventiladoras se posta dentro e outra fora da
colméia, todas com a cabeça voltada para a entrada e enquanto,
pela ventilação de suas "muito brilhantes" asas, uma refrescante
corrente de ar é soprada para fora da colméia uma corrente igual
L. L. Langstroth 77
é insuflada. Como esta tarefa imprescindível demanda atividade
física incomum, as exaustas operárias são, de tempos em tem-
pos, revezadas por um novo destacamento. Se for possível inspe-
cionar o interior da colméia, serão encontradas, com clima real-
mente quente, muitas ventiladoras espalhadas pelo seu interior,
todas elas atarefadamente envolvidas em sua árdua tarefa. Se a
entrada for reduzida outras se juntarão, imediatamente, tanto
dentro como fora da colméia; e se for totalmente fechada, o calor
e a contaminação aumentarão rapidamente, a colônia como um
todo se ocupará para renovar o ar através da vibração rápida de
suas asas e, em pouco tempo, caso não sejam aliviadas, morre-
rão sufocadas.
Experimentos cuidadosos mostraram que o ar puro é neces-
sário não só para a respiração das abelhas maduras mas, tam-
bém, para a eclosão dos ovos e desenvolvimento das larvas; uma
fina malha de espaços com ar envolve os ovos, e os alvéolos das
larvas são fechados com uma cobertura permeável ao ar.
Se, no Inverno, as abelhas forem mantidas num local escuro,
que não seja muito quente nem muito frio, elas permanecem
quase dormentes e necessitam de muito pouco ar; mas, mesmo
nestas circunstâncias, elas não conseguem viver totalmente pri-
vadas do ar; se elas ficarem excitadas pelas mudanças atmosfé-
ricas, ou perturbadas por outra razão, pode ser ouvido, vindo do
interior de sua colméia, um zumbido surdo e elas passam a ne-
cessitar praticamente tanto ar quanto com clima quente.
Se as abelhas forem intensamente perturbadas será pouco
seguro, especialmente em clima quente, confiná-las a menos que
elas disponham de uma entrada de ar realmente livre; e, mesmo
assim, a menos que o ar possa ser admitido tantopor cima como
por baixo da massa de abelhas, as aberturas de ventilação po-
dem ficar ocluidas pelas abelhas mortas e a colônia perecer. As
abelhas confinadas ficam excessivamente aquecidas e seus favos
podem derreter; se a umidade for acrescentada à influência já
prejudicial do ar ruim elas podem adoecer; um grande número,
se não toda a colônia, pode perecer por disenteria. Não é nestas
circunstâncias, precisamente, que a cólera e a disenteria tem se
mostrado fatal para os seres humanos? a sujeira, a umidade e as
residências não ventiladas dos pobres, são, para seus infelizes
habitantes, casas perfeitas de leprosos.
Muitas vezes examinei as abelhas de enxames novos que e-
ram trazidos para o meu apiário tão hermeticamente confinados
78 A Colméia e a Abelha
que elas poderiam ter morrido por sufocadas. Os seus corpos se
encontravam sempre dilatados por uma substância amarela e fé-
tida, como se tivessem morrido de disenteria. Algumas ainda se
encontravam vivas e, ainda que a colônia tivesse sido mantida
fechada por apenas algumas horas, os corpos, tanto das vivas
quanto das mortas, estavam cheios com o mesmo repulsivo flui-
do, em vez do mel que elas tinham quando enxamearam.
Sob o ponto de vista médico estes fatos são muito interes-
santes; mostram como elas agem sob certas circunstâncias e
quão rapidamente doenças parecidas com cólera e disenteria po-
dem se implantar.
Se, em clima muito quente, uma colméia de paredes finas for
exposta diretamente aos raios solares as abelhas ficam muito
perturbadas pelo calor intenso e recorrem a ventilação mais in-
tensa, não apenas para manter o ar da colméia puro mas tam-
bém para baixar sua temperatura.
Em tal clima, as abelhas, muitas vezes, deixam quase sem-
pre como um todo, o interior da colméia e se amontoam do lado
de fora, não apenas para escapar do calor interno, mas para pro-
teger seus favos do risco de se derreterem. Nestas ocasiões, elas
são extremamente cautelosas em não se amontoar sobre favos
novos que contem mel operculado, os quais, por não estarem
guarnecidos com casulos e, por causa da quantidade extra de ce-
ra usada para cobri-los, derretem mais rapidamente do que os
alvéolos de cria.
Os apicultores sabem que as abelhas, muitas vezes, deixam
seus alvéolos com mel, assim que eles são operculados; quase
descobertos, mas não foi observado se isto é absolutamente ne-
cessário com clima realmente quente. Em clima frio, elas podem,
freqüentemente, serem encontradas amontoadas entre os favos
de mel operculados porque, neste caso, não existe o risco de eles
derreterem.
Poucas coisas têm condições de impressionar mais uma
mente admiravelmente perspicaz do que a forma realmente cien-
tífica pela qual as abelhas ventilam suas moradias. Neste assun-
to relevante, a abelha está formidavelmente adiante da grande
massa dos chamados seres racionais. Para ser sincero, não exis-
te nenhuma habilidade em decidir, a partir de uma elaborada
análise dos constituintes químicos da atmosfera, que proporção
de oxigênio é essencial para garantir a vida, e quão rapidamente

L. L. Langstroth 79
o processo de respiração o converte num veneno mortal: não se
pode, como Liebig, demonstrar que Deus, ao criar o mundo vege-
tal e animal, um frente o outro, tenha providenciado que a at-
mosfera pudesse, através dos tempos, se manter tão pura quanto
foi ao sair de Suas mãos criadoras. Mas é vergonhoso para nós!
que, com toda nossa exultada inteligência vivamos pensando,
muitos de nós, que o ar puro seja de pouco ou nenhum valor; ao
mesmo tempo as abelhas ventilam, com uma precisão filosófica,
a ponto de enrubescer a nossa criminosa negligência.
Pode a ventilação, no nosso caso, ser executada sem esforço?
poderia ela ser feita por diletantismo, pelas engenhosas abelhas?
Estas fileiras de abelhas, batendo suas asas tão incansavelmen-
te, não estão engajadas numa diversão inútil; não poderiam elas,
como um simples serviçal poderia imaginar, serem melhor em-
pregadas na colheita de mel, ou na supervisão de algum outro
departamento da economia da colméia. Às custas de tempo e
trabalho elas estão suprindo o restante da colônia com ar puro
necessário para sua saúde e prosperidade.
Ar impuro, poder-se-ia pensar, é suficientemente nocivo;
mas toda sua nocividade é aumentada em muito em ambiente
hermeticamente fechado, ou como o fogão1 lung-tight, que pode
economizar combustível desperdiçando saúde e pondo em perigo
a vida. Não somente nossas casas, mas todos nossos locais de
aglomeração de público, são ou desprovidos de meios de ventila-
ção ou, em maior extensão, tão deficientemente supridos destes
meios que eles apenas
"Keep the Word of promise to our ear,
To break it to our hope."
Não se pode duvidar que o último estágio de decadência con-
corda, inevitavelmente, com uma negligência tão grosseira das
leis da saúde; e estes que imaginam que a resistência física do
povo possa ser solapada, e sua saúde intelectual, moral e religio-
sa não sofrer declínio, conhecem pouco da conexão íntima que o
Criador estabeleceu entre o corpo e o espírito.
Os homens podem, até certo ponto, resistir à influência do ar
pernicioso; uma vez que suas ocupações normalmente os compe-

1 O belo fogão aberto, ou de Franklin, para carvão e lenha, fabricado por Messrs.

Treadwell, Perry & Norton, Albany, Nova York, merece a maior recomendação
como economizador de vida, saúde e combustível.
80 A Colméia e a Abelha
lem a viver mais fora de casa: mas alas, alas1! e a pobre mulher!
Neste mundo onde elas são tratadas com tão merecida deferência
e respeito, muitas vezes, nada é feito para que elas sejam supri-
das com aquele primeiro elemento da saúde, disposição e beleza,
pureza do paraíso o ar fresco.
A face pálida ou vermelhidão febril, a forma angular e dorso
tortuoso, a aparência enfraquecida de uma tão grande porção de
nossas mulheres que, para usar a linguagem do pranteado Dow-
ning, "pelos sinais da saúde física, podem ser comparadas aos
mais desfavorecidos de todas as classes que passam fome na Eu-
ropa"; todas estas indicações de debilidade, para nada dizer so-
bre suas faces extenuadas com rugas prematuras, proclamam
nossa violação das leis físicas de Deus e a temível punição com
que Ele está punindo nossas transgressões.
Aquele que conseguir convencer as massas da relevância da
ventilação e cuja mente inventiva conseguir divisar um simples,
barato e eficaz meio de fornecer um suprimento abundante de ar
puro para nossas casas particulares, prédios públicos e meios de
transporte será um benfeitor maior do que Jenner ou Watt, do
que Fulton ou Morse.
Na ventilação de minha colméia eu me esforcei, até onde
possível, para atender as necessidades das abelhas, nas mais va-
riadas circunstâncias às quais elas estão expostas no nosso cli-
ma instável, cujos extremos severos de temperatura lembram ao
apicultor, forçosamente, a máxima de Virgílio,
"Utraque vis pariter apibus metuenda."
"Extremes of heat or cold, alike are hurful to the bees."
A fim de ser útil para maioria dos apicultores, a ventilação
artificial deve ser simples e não, como na colméia de Nutt e em
outros dispositivos elaborados, tão complicada a ponto de exigir
supervisão direta como um hot-bed ou um estufa.
Fornecendo ventilação independente da entrada, é possível
melhorar o método que as abelhas, em estado natural, são, mui-
tas vezes, compelidas a adotar, quando a abertura do buraco da
árvore é muito pequena, a ponto de elas terem de empregar na
ventilação, com tempo quente, uma força maior do que, de outra
forma, seria necessária. Com o uso dos meus blocos móveis (Lâ-

1 Segundo Michaelis - Interjeição que exprime: exclamação de pesar, tristeza,

preocupação como: ai de mim! meu Deus! alas the day! que dia infeliz! N. T.
L. L. Langstroth 81
mina V, Fig. 17), a entrada pode ser mantida tão pequena que
apenas uma abelha possa entrar de cada vez, ou pode ser total-
mente fechada, sem que as abelhas sintam falta de ar. As aber-
turas de ventilação fornecem um suprimento de ar suficiente e
elas podem controlar facilmente para não prejudicar a cria pela
entrada de uma forte corrente de ar frio. No capítulo sobre hi-
bernação das abelhas são fornecidas instruções para ventilar as
colméias no clima frio a fim de remover toda umidade prejudici-
al.
A construção das minhas colméias permite a ventilação pela
parte superior; ela deve ser usada sempre quando as abelhas
permanecerem fechadas por qualquer período de tempo, ao se-
rem transportadas, para que a colônia não seja sufocada por fi-
carem as aberturas de ventilação que estão abaixo obstruídas
pelas abelhas mortas. Como a entrada da colméia pode, a qual-
quer momento, ser ampliada o quanto desejado, sem perturbar
as abelhas, será admitido todo ar que as abelhas possam neces-
sitar; a ventilação pela parte traseira permite um fluxo livre atra-
vés da colméia. A entrada pode ter o comprimento de catorze po-
legadas (36cm) ou mais, mas, como regra geral, em grandes co-
lônias, não é necessário, no Verão, exceder quatro polegadas
(10cm); enquanto, durante o resto do ano, uma ou duas polega-
das (2,5 ou 5cm) serão suficientes. Em clima muito quente, es-
pecialmente se a colméia fica ao sol, as abelhas podem não ter
muito ar; as ventilações na parte superior da colméia principal
devem ser mantidas abertas.

82 A Colméia e a Abelha
CAPÍTULO VIII

R
REEQ
QUUIISSIITTO
OSS D
DEEU
UMMA
ACCO
OLLM
MÉÉIIA
A IID
DEEA
ALL

Neste capítulo vou enumerar requisitos essenciais para uma


colméia ideal. Em vez de depreciar outras colméias prefiro cha-
mar a atenção dos apicultores para a validade destes requisitos,
alguns dos quais, acredito, não existem em nenhuma colméia a
não ser na minha. Se, depois de uma cuidadosa triagem, for re-
comendado que sejam avaliados pelos criadores, eles servirão
para testar os méritos comparativos das várias colméias de uso
comum.
1. Uma colméia ideal deve possibilitar ao apicultor um controle total sobre
todos os favos, permitindo que eles sejam facilmente retirados sem ne-
cessidade de cortar ou perturbar as abelhas.
2. Deve permitir a realização de todas as operações necessárias sem ferir
ou matar uma única abelha.
A maioria das colméias é construída de tal forma que elas
não podem ser usadas sem machucar ou matar algumas abe-
lhas; a destruição de apenas algumas aumenta significativamen-
te a dificuldade de manejá-las.
3. Deve fornecer proteção adequada dos extremos de calor e frio, das
mudanças súbitas de temperatura e do efeito maléfico da umidade.
O interior da colméia deve ser seco no Inverno e, no Verão,
livre de confinamento bem como do calor sufocante.
4. Ela deve permitir a realização de toda operação desejada, sem provo-
car a agressividade das abelhas.
5. Não pode exigir nenhum movimento desnecessário de uma única abe-
lha.
Como o fluxo de mel é, em muitos locais, de curta duração
todos os sistemas da colméia devem facilitar, ao máximo, o tra-
balho das ocupadas operárias. As colméias que obrigam as abe-
lhas a transitar, com suas pesadas cargas, através de favos den-
samente congestionados são muito censuráveis. As abelhas po-
dem acessar facilmente, as melgueiras que estão no topo das
L. L. Langstroth 83
minhas colméias, a partir de qualquer favo da colméia, e para
qualquer melgueira, sem precisar abrir caminho através de a-
montoados espessos e sem circular pelos favos.
6. Deve oferecer facilidades apropriadas para a inspeção, a qualquer
tempo, da condição das abelhas.
7. Deve se ajustar prontamente às necessidades tanto de enxames gran-
des como de pequenos.
Minha colméia pode ser ajustada, em poucos momentos, pe-
lo uso de partições móveis, às necessidades de qualquer colônia,
mesmo pequena; e com igual facilidade ser ampliada, de tempos
em tempos, ou de uma só vez, recuperando suas dimensões to-
tais.
8. Ela deve permitir a remoção dos favos sem qualquer vibração.
As abelhas detestam os movimentos feitos para separar ou
destacar os favos. Os quadros móveis, embora firmemente uni-
dos, podem ser separados com poucos movimentos, sem machu-
car ou irritar as abelhas.
9. Deve permitir que todo pedaço bom de favo seja dado às abelhas, em
vez de ser derretido para recuperar a cera.
10. Deve induzir as abelhas a construir favos regulares.
Não se pode esperar que uma colméia, contendo muito favo
próprio somente para o armazenamento de mel, ou desenvolvi-
mento de zangão, prospere.
11. Deve permitir que se forneça favo vazio, e deve induzir as abelhas a
prontamente ocuparem as melgueiras adicionais.
12. Deve permitir que se previna a superprodução de zangões pela possibi-
lidade da remoção dos favos de zangão.
13. Deve dar condições ao apicultor de capturar em armadilha e destruir os
zangões criados em demasia, antes de eles consumirem grandes quan-
tidades de mel da colméia.
Isto é conseguido na minha colméia ajustando os blocos
(Lâmina III, Fig. 11 e 12) para regular a entrada.
14. Deve permitir ao apicultor remover todos os favos velhos.
A parte superior do favo, por ser usada, geralmente, para o
armazenamento de mel, ficará por muitos anos.
15. Deve fornecer toda a segurança necessária contra a infestação pela
traça da cera.

84 A Colméia e a Abelha
16. Deve fornecer ao apicultor algum lugar acessível, onde as larvas da
traça da cera, quando completamente desenvolvidas, possam ser venti-
ladas em seus casulos.
17. Deve possibilitar ao apicultor remover os favos para destruir as traças,
se elas levaram vantagem sobre as abelhas.
18. Deve permitir que o fundo seja permanentemente fixado à colméia por
conveniência para o transporte e para prevenir depredação pelas traças
e larvas.
Mais cedo ou mais tarde existirão fendas entre o fundo móvel
e as laterais da colméia através das quais as traças poderão en-
trar e depositar seus ovos e nas quais as larvas, quando total-
mente desenvolvidas, tecerão suas teias. Na minha colméia não
existe local por onde a traça possa entrar, exceto pela entrada
das abelhas a qual pode ser restringida ou alargada para se a-
justar à força da colônia; que, por sua forma peculiar, pode ser
facilmente defendida pelas abelhas. Se, no entanto, alguém pre-
ferir fundo móvel ele pode ser usado na minha colméia.
19. O fundo deve ser inclinado para a entrada a fim de facilitar a retirada
das abelhas mortas e outros materiais sem uso; ajudar a colônia a se
proteger contra pilhadoras; remover a umidade e prevenir que a água
da chuva escorra para dentro da colméia.
20. O fundo deve permitir, em clima frio, retirada fácil das abelhas mortas.
Se as abelhas mortas permanecerem elas ficam mal cheiro-
sas e prejudicam a saúde da colônia. Ao arrastá-las para fora,
quando o clima melhora, as abelhas, muitas vezes, caem com e-
las sobre a neve e ficam sub resfriadas a ponto de não mais alça-
rem vôo; a abelha, ao voar para fora com uma abelha morta, fre-
qüentemente segura sua carga até ambas cairem no solo.
21. Nenhuma parte do interior da colméia deve ficar abaixo do nível da saí-
da.
Se este princípio for violado, as abelhas terão de, com grande
esforço, arrastar as mortas bem como demais detritos da colméia
morro acima.
22. Deve apresentar facilidades para a alimentação das abelhas, tanto em
clima ameno como no frio.
Neste aspecto a colméia de quadros móveis tem uma vanta-
gem incomum. Com clima ameno sessenta colônias podem, em
menos de uma hora, receber um quarto1 de comida, sem ne-

1 Segundo Miclaelis - Um quarto: medida para líquidos = l/4 de um galão. N. T.


L. L. Langstroth 85
nhum alimentador, e sem risco de pilhagem.
23. Deve permitir o alojamento fácil do enxame, sem maltratar qualquer a-
belha ou colocar em risco a vida da rainha.
24. Deve permitir o transporte seguro das abelhas a qualquer distância.
O fundo fixo, o favo firmemente preso aos quadros separá-
veis e a facilidade com que o ar pode ser dado às abelhas confi-
nadas recomendam o uso da minha colméia para o transporte.
25. Deve permitir o fornecimento de ar para as abelhas quando a entrada,
por qualquer razão, tiver de ser totalmente fechada.
26. Deve fornecer facilidades para alargar, reduzir e fechar a entrada, para
proteger as abelhas contra as pilhadoras e a traça da cera; e, quando a
entrada for alterada, as abelhas não devem, como na maioria das col-
méias, perder tempo valioso procurando-a.
27. Deve garantir a ventilação necessária sem aumentar em demasia a en-
trada para não expor as abelhas às traças e às pilhadoras.
28. Deve fornecer facilidades para as abelhas alcançarem, prontamente, o
ar a fim de poderem, em dias agradáveis no Inverno ou início da Prima-
vera, voar e se desfazerem das fezes.
Se não existir uma saída livre para o ar, as abelhas, por per-
derem uma oportunidade favorável de se desfazerem das fezes,
podem sofrer de doenças provocadas pelo prolongado confina-
mento.
29. Deve dar condições ao apicultor de remover o excesso de pão de abe-
lha das colônias. (Ver página 82).
30. Deve dar condições ao apicultor de transferir favos, cria e estoques de
uma colméia comum para uma colméia melhorada, de modo que as
abelhas consigam fixá-lo em sua posição natural. Uma colônia transfe-
rida para a minha colméia fará os reparos em seus favos em poucos di-
as e voltará a trabalhar como antes de sua remoção.
31. Deve permitir um seguro e fácil desalojamento das abelhas da colméia.
Este requisito é especialmente valioso quando for necessário
acabar com colônias fracas e uní-las a outras.
32. Deve permitir às abelhas, como também ao calor e ao odor do ninho,
que passem, da forma mais livre possível, para as melgueiras
A este respeito, todas as colméias que conheci são mais ou
menos deficientes: as abelhas são forçadas a trabalhar em mel-
gueiras de difícil acesso, nas quais, em noites frias, é impossível
manter o calor necessário para a construção de favo. As abelhas
não conseguem, em tais colméias, trabalhar com vantagem em
86 A Colméia e a Abelha
recipientes de vidro, ou outros recipientes pequenos. Um dos
mais relevantes sistemas da minha colméia é aquele pelo qual o
calor passa para as melgueiras tão naturalmente quanto o ar
quente sobe para o topo de uma peça aquecida.
33. Ela deve permitir a retirada do excesso de mel da forma mais conveni-
ente, bonita e econômica, sem risco de importunar as abelhas.
Em minhas colméias, o mel em excesso é armazenado, numa
câmara superior, dentro de quadros, em copos, caixas de vidro,
caixas de madeira pequenas ou grandes, jarros de cerâmica, po-
tes floridos, em poucas palavras, em qualquer tipo de recipiente
que atenda a imaginação ou conveniência do apicultor. Ou tudo
isto pode também ser dispensado e o mel colhido do interior do
ninho, removendo os quadros completos e colocando em seu lu-
gar outros vazios.
34. Deve permitir remoção fácil do mel de alta qualidade, para em seu lugar
as abelhas receberem um produto de qualidade inferior.
Em regiões onde o trigo mouro é cultivado, todo lugar vago,
criado pela remoção do mel da colméia, será cheio imediatamen-
te.
35. Quando a quantidade e não a qualidade for o objetivo pode se conse-
guir rendimento máximo e o excesso obtido em colônias fortes pode ser
fornecido, no Outono, para as que não dispõem de suprimento suficien-
te.
Na minha colméia por empilhamento de caixas de mesmas
dimensões e transfência de favos para estas caixas, as abelhas,
quando construírem novos favos, descer e encher os quadros in-
feriores, usando, assim que a cria emergir, a caixa superior para
o armazenamento de mel. Os favos desta caixa, contendo uma
grande quantidade de pão de abelha e sendo de tamanho adap-
tado para a criação de operárias, estarão perfeitamente adequa-
dos para serem fornecidos a colônias fracas.
36. Deve permitir direcionar a força de uma colônia para criar abelhas; esta
cria estará disponível para formar novas colônias e fortalecer famílias
fracas.
37. Deve ser construída de tal forma que, quando bem protegida das in-
tempéries, o sol possa, nas manhãs da Primavera, pelo aquecimento
da colméia, encorajar a criação.
38. A colméia deve ser igualmente bem adaptada para ser usada para en-
xameação como para não enxameação.
Em minhas colméias as abelhas podem enxamear como nas
L. L. Langstroth 87
colméias comuns e serem manejadas pelo sistema comum.
Mesmo com este manejo, o controle dos favos trará vantagens
pouco comuns.
Colméias que não enxameiem, mas são manejadas da forma
comum, podem, a despeito de todas as precauções, enxamear i-
nesperadamente. Em minhas colméias a partida da rainha pode
ser evitada - o enxame não partirá sem ela.
39. Deve permitir ao apicultor prevenir que um novo enxame abandone a
colméia.
Esta ocorrência vexatória pode sempre ser evitada, ajustando
a entrada de forma que, por alguns dias, a rainha não possa sa-
ir.
40. Deve possibilitar ao apicultor, caso ele queira, permitir que suas abe-
lhas enxameiem e, se quiser assegurar excesso de mel, consiga preve-
nir que elas enxameiem mais de uma vez durante a estação.
41. Deve permitir ao apicultor que confia na enxameação natural, e espera
multiplicar suas colônias tão rápido quanto possível, fazer famílias vigo-
rosas de todos os enxames secundários.
Tais enxames contem rainha jovem e, se eles puderem ser
fortalecidos com critério, se transformarão, normalmente, nas
melhores famílias. Minhas colméias permitem suprir todos estes
enxames de uma só vez com favos contendo pão de abelha, mel e
cria madura.
42. Deve permitir ao apicultor multiplicar suas colônias com certeza e rapi-
dez o que é impossível se ele depender da enxameação natural.
43. Deve permitir ao apicultor suprir as colônias destituídas de rainha com
meios que lhes permitam obter uma nova rainha.
Todo apicultor, por esta única razão, deveria considerar uma
vantagem possuir, pelo menos, uma destas colméias.
44. Deve permitir capturar a rainha, por qualquer motivo; especialmente pa-
ra remover uma velha cuja fertilidade esteja diminuindo por causa da
idade.
45. A colméia ideal deve estar adaptada às necessidades dos que desejam
manejar suas colônias pelos melhores métodos, bem como às vontades
dos que por timidez, ignorância ou outra razão preferem o método co-
mum
46. Deve permitir a um único apicultor tomar conta das colônias de diferen-
tes indivíduos.
Muitas pessoas gostariam de manter abelhas se um apiário,
88 A Colméia e a Abelha
como um jardim, pudesse ser administrado por um indivíduo
competente. Nenhuma pessoa pode concordar em fazer isto com
colméias comuns. Se for permitido que as abelhas enxameiem
ele seria chamado para diferentes lugares concomitantemente e
se ocorresse algum acidente, como a perda da rainha, na colônia
do seu cliente, ele não teria como corrigir.
Na minha proposta de colméia, a atividade deste perspicaz
inseto pode ser testemunhada pelos que o desejarem, e também
gratificar seus paladares com o delicioso produto colhido em sua
própria propriedade sem incorrer nem em problema nem em a-
borrecimento.
47. Todas as juntas da colméia devem ser à prova de água e não deve e-
xistir entrada ou abertura que possa inchar encolher ou se desfazer.
O valor deste requisito será óbvio para todo aquele que tenha
convivido normalmente com a experiência irritante de tais insta-
lações.
48. Deve permitir ao apicultor dispensar totalmente coberturas ou apiários
custosos; a própria colméia deve resistir ao calor, ao frio, à chuva e à
neve.
49. Deve ter condições de não ser derrubada por ventos fortes.
Minhas colméias podem ser colocadas tão baixo, nos locais
com ventos fortes, que seria necessário quase um furacão para
lhes causar dano.
50. A colméia ideal deve ter sua pista de pouso construída de forma a pro-
teger as abelhas do vento e da umidade, facilitando ao máximo sua en-
trada com cargas pesadas.
Se esta precaução for negligenciada a colônia não poderá ser
encorajada a usar, com a melhor vantagem, os dias não promis-
sores que ocorrem, freqüentemente, na estação de trabalho.
51. A colméia ideal deve proteger do saque destrutivo pelo rato durante o
Inverno.
Quando o clima frio se aproxima, todas as minhas colméias
podem ter sua entrada reduzida com blocos móveis de modo que
o rato não possa entrar.
52. Deve permitir que as abelhas circulem sobre os favos livremente tanto
no Verão como no Inverno.
Esta intercomunicação livre que facilita o trabalho da colônia
durante o Verão é, no frio Inverno, freqüentemente indispensável

L. L. Langstroth 89
para a vida da colônia.
53. Deve permitir que o mel, depois que a coleta terminou, seja armazena-
do onde as abelhas mais precisam dele.
Se a última parte da estação for desfavorável, os favos cen-
trais, nos quais a colônia normalmente hiberna, devem conter
muito pouco mel, enquanto os outros devem estar bem supridos;
em colméias onde isto não possa ser remediado ocorre, freqüen-
temente, a perda das abelhas.
54. Deve permitir que, no Outono, se deixe um suprimento generoso de
mel na colméia sem detrimento seja para as abelhas seja para seu do-
no.
As abelhas poderão passar fome se for retirado muito mel e
se o Inverno se mostrar muito desfavorável. Nas colméias co-
muns, caso permanecer mel em demasia, ele não poderá ser re-
movido na Primavera e será assim uma perda pior para o apicul-
tor, pois ocupará o espaço necessário para o desenvolvimento da
cria.
55. Deve permitir ao apicultor remover para local seguro os favos, que não
puderem ser protegidos pelas abelhas.
Quando uma colônia fica muito reduzida em número seus
favos desprotegidos podem ser destruídos por permitir que a tra-
ça neles se abrigue; ou que seus ricos estoques de mel tentem as
pilhadoras de os roubar. Nas colméias comuns freqüentemente
nada pode ser efetivamente feito para prevenir estas casualida-
des.
56. Deve permitir aumentar ou reduzir o espaço de melgueiras sem alterar
ou destruir as partes existentes da colméia.
Se isto não for possível a força produtiva da colônia, em al-
gumas estações, será grandemente diminuída.
57. Deve ser compacta para economizar, se possível, cada polegada de
material em sua construção.
58. A colméia, por ter uma aparência asseada, deverá permitir, caso dese-
jável, ser feita muito ornamental.
59. Deve permitir ao apicultor fechar suas colméias de forma barata e con-
veniente.
Uma vez que o fundo da minha colméia não é móvel, o con-
teúdo da colméia, quando fechada, só pode ser alcançado pela
destruição da mesma.

90 A Colméia e a Abelha
60. Deve permitir que o conteúdo da colméia - abelhas, favos e tudo - seja
retirado quando ela precisar de algum reparo.
Uma vez que é possível retirar a qualquer hora e reparar os
quadros móveis eles podem durar por gerações.
61. A colméia ideal, que possuir todos estes requisitos deve, se possível,
combiná-los de forma barata e simples, adaptada aos desejos de todos
que tenham competência para criar abelhas.
Alguns podem imaginar, ao ler esta longa lista de desejáveis,
que nenhuma colméia pode atender a todos sem ser extrema-
mente complicada e custosa. Pelo contrário, o baixo custo e a
simplicidade com que a colméia de quadros móveis realiza isto é
sua mais surpreendente façanha e o que me custou mais empe-
nho do que todos os outros pontos. As abelhas podem trabalhar
nesta colméia até mesmo com mais facilidade do que numa caixa
simples, uma vez que os quadros, embora rudes por causa da
serra, lhes fornecem um suporte admirável para a construção
dos favos; as abelhas podem acessar as melgueiras reservas
mais facilmente do que poderiam acessar a parte superior da
caixa colméia comum com igual altura.
Existem alguns aspectos desejáveis os quais minha colméia,
mesmo que fosse perfeita, não tem pretensão de atender!
Ela não promete resultados esplêndidos àqueles que são
muito ignorantes ou tão negligentes a ponto de não ser possível
lhes confiar o manejo das abelhas. Na apicultura, como em toda
outra atividade, o homem deve primeiro entender do seu negócio
e depois proceder segundo a velha e boa máxima: "a mão do dili-
gente produz riqueza".
Não existe talismã que possa converter uma situação ruim
para mel numa boa; ou que, seja a estação produtiva seja im-
produtiva, o apicultor consiga uma colheita abundante. Da
mesma forma o fazendeiro deve buscar uma espécie de trigo que
renda grandes colheitas em qualquer solo e em toda estação.
Ela não possibilitará ao criador, enquanto multiplicando ra-
pidamente seu plantel, garantir a maior colheita de mel de suas
abelhas. Assim como poderia pretender o criador de frangos num
mesmo ano e de um mesmo plantel criar o maior número de ga-
linhas e vender o maior número de ovos.
Pior do que tudo, ela não consegue trazer as muitas vanta-
gens enumeradas e ainda ser construída em pouco tempo, ou

L. L. Langstroth 91
quase tão barata quanto uma colméia que, no final, custe uma
verdadeira barganha!
Durante a concepção da minha invenção, ao mesmo tempo
em que concedi, sem dúvida, valor inadequado a alguns pontos,
me empenhei constantemente em evitar a construção de uma
colméia segundo teorias não confirmadas ou meras conjecturas.
Estudando cuidadosamente a natureza das abelhas, por muitos
anos, e comparando minhas observações com as de outros escri-
tores e criadores que dedicaram suas vidas para ampliar o cabe-
dal do conhecimento apícola, empenhei-me em resolver as mui-
tas dificuldades com as quais a apicultura é acossada, adaptan-
do minha invenção aos hábitos reais e necessidades do inseto.
Testei também os méritos desta colméia com prolongados e con-
tínuos experimentos feitos em grande escala, para não acrescen-
tar, iludindo tanto a mim quanto aos outros, mais uma aos dis-
positivos sem uso que já enganaram e deixaram desgostoso um
público tão crédulo. Gostaria, no entanto, de insistir veemente-
mente que não imagino ter concebido uma colméia perfeita. A
perfeição pertence apenas aos trabalhos feitos por Ele, cujo olho
onisciente está presente em todas as causas e efeitos, com todas
as suas relações, quando ele falou, e que do nada fez o Universo.
Para o homem colocar o rótulo de perfeição sobre qualquer tra-
balho seu é mostrar tanto sua insensatez quanto sua presunção.
A criação de abelhas encontra-se, confessadamente, em de-
cadência neste país onde milhares podem ser induzidos a com-
prar colméias que estão em berrante agressão aos mais claros di-
tos do bom senso, bem como aos princípios simples do conheci-
mento apícola. As perdas dos iludidos compradores foram tais
que não é surpresa se eles se afastem de tudo que seja oferecido
na forma de uma colméia patenteada como o pior conceito, se
não uma ultrajante fraude.
A influência das assim chamadas "Colméias Melhoradas" foi
tão nociva que, como regra geral, somente aqueles que usaram
colméias da forma mais simples obtiveram algum lucro de suas
abelhas. Eles não gastaram nem tempo, nem dinheiro, nem abe-
lhas com dispositivos que não asseguram ser uma colméia supe-
rior, em comparação, a uma simples caixa colméia.
Uma colméia de construção tão simples quanto possível, é
uma imitação muito próxima da residência das abelhas em esta-
do natural; nada mais do que um mero buraco abrigo onde, pro-
tegidas do clima, elas podem acumular suas reservas. Uma col-

92 A Colméia e a Abelha
méia melhorada, é uma que conta, adicionalmente, com um
compartimento separado onde as abelhas podem armazenar o
excesso de mel para o homem. A maioria das colméias de uso
comum são apenas modificações desta última colméia e, como
regra geral, são ruins, exatamente na proporção daquilo de onde
partiram. Elas tentam o apicultor comum a um início nocivo
num caminho batido, mas elas não fornecem a ele nenhum re-
médio para a perda da rainha, ou para as casualidades a que as
abelhas estão expostas. Tais colméias, por esta razão, não criam
nenhuma base sólida para um sistema melhorado de manejo e,
conseqüentemente, a criação de abelhas, neste país, decaiu nos
últimos cinqüenta anos e os apicultores estão tão dependentes
como sempre dos caprichos de um inseto que, mais do que qual-
quer outro dos seus animais domésticos, pode ser submetido, in-
teiramente, ao seu controle.
Gostaria de lembrar, respeitosamente, que nenhuma colméia
que não permita controle total sobre todos os favos pode trazer
avanço substancial de melhoria sobre uma simples caixa colméi-
a, como a necessidade dos apicultores está a pedir. Destas col-
méias, as melhores são aquelas que melhor unem baixo custo e
simplicidade, com proteção no Inverno e pronto acesso às mel-
gueiras reservas.
Tendo assim enumerado os testes a que todas as colméias
devem se sujeitar, submeto-as à consideração imparcial dos que,
tendo a maior experiência no manejo das abelhas, estão familia-
rizados com os males do sistema atual. Se, pelo resultado de um
teste completo, eles concluírem que a colméia de quadros móveis
está aprovada, eles podem se dispor a endossar a manifestação
entusiástica de um experiente apicultor que, ao examinar sua
praticidade, declarou que "ela introduz não só uma melhoria mas
uma revolução completa na apicultura".

L. L. Langstroth 93
CAPÍTULO IX

E
ENNX
XAAM
MEEA
AÇÇÃ
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EA ALLO
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ENNTTO
O
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DEEEENNX
XAAM
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A enxameação das abelhas é uma das mais belas visões em


toda a extensão da economia rural. Embora muitos dos que u-
sam colméias de quadros móveis prefiram a multiplicação artifi-
cial das colônias, apenas alguns estão totalmente dispostos a a-
brir mão do prazer excitante da enxameação natural.
"Up mounts the chief, and to the cheated eye
Ten thousand shuttles dart along the sky;
As swift through aether rise the rushing swarms,
Gay dancing to the beam their sun-bright forms;
And each thin form, still ling´ring on the sight,
Trails, as it shoots, a line of silver light.
High pois´d on buoyant wing, the thoughtful queen,
In gaze attentive, views the varied scene,
And soon her far-fetch´d ken discerns velow
The light laburnum lift her polish´d brow,
Wave her green leafy ringlets o´er the glade,
And seen to beckon to her friendly shade.
Swift as the falcons´s sweep, the monarch bends
Her flight abrupt; the following host descends.
Round the fine twig, like cluster´d grapes, they close
In thickening wreaths, and court a short repose."
Evans
A multiplicação das colônias pela enxameação tanto preserva
as abelhas do risco de sua extinção como também torna o seu
trabalho altamente útil ao homem. As leis de reprodução dos in-
setos que não vivem em colônias regulares asseguram um gran-
de crescimento de seu número. O mesmo é verdade para os que
vivem em colônia apenas durante o clima quente como os ves-
pões, vespas e mamangavas. Os machos morrem no Outono e as
fêmeas fecundadas se recolhem durante o Inverno, permanecem
dormentes até que o clima quente as recoloque em atividade e
que cada uma possa se tornar mãe de uma família.

L. L. Langstroth 95
A abelha, no entanto, é tão organizada que pode viver em
comunidade durante todo o ano; enquanto a brisa perfumada da
Primavera degela rapidamente o corpo gelado da vespa adorme-
cida, a temperatura da abelha não cai abaixo de 50oF (10oC); é
tão difícil animar uma abelha congelada como ressuscitar os ca-
dáveres endurecidos no cemitério do Convento Great St. Ber-
nard. As abelhas, em tempo frio, se reunem em grande número
para manter a temperatura necessária à sua preservação; a for-
mação de novas colônias, à semelhança dos hornets e vespas,
está fora de questão. Mesmo que a nova rainha, à semelhança da
mãe vespa, tenha condições, sem nenhuma ajuda, de fundar no-
vas colônias ela não conseguiria o calor necessário para o desen-
volvimento da cria. Se isto fosse possível, e elas tivessem, assim
como as operárias, uma probóscide para apanhar o mel, cestas
em suas pernas traseiras para carregar o pão de abelha e bolsas
em seus abdomens para secretar cera, elas ainda seriam incapa-
zes de acumular tesouros para uso do homem, ou manter esto-
ques para sua própria sobrevivência.
Quão admiráveis são todas estas dificuldades criadas pela
conjuntura existente! Estando seus domicílios supridos dos ma-
teriais necessários as abelhas acrescentam milhares com todo o
vigor da juventude à sua população já numerosa, enquanto os
insetos dependentes do calor do sol ainda estão dormentes. Elas
podem, assim, produir colônias inteiras mais cedo, fortes o sufi-
ciente para tirar vantagem do fluxo de néctar, e suprir a nova co-
lônia em preparação para o Inverno. A partir destas considera-
ções é evidente que a enxameação, longe de ser forçada ou ser
um evento não natural, como alguns podem imaginar, é tal que
não é dispensada no estado natural.
Investiguemos, agora, em que circunstância a enxameação
normalmente ocorre.
A época em que novos enxames são esperados, sem dúvida,
depende do clima, do adiantamento da estação e da força da co-
lônia. Nos estados do Norte e do Centro eles saem, freqüente-
mente, antes do final de maio; junho pode ser considerado como
o grande mês da enxameação. Em Brownsville, Texas, baixo Rio
Grande, as abelhas enxameiam, muitas vezes, no início de mar-
ço.
Na Primavera, assim que a colméia estiver cheia1 de favo e

1 Nos estados do Norte e do Centro, as abelhas raramente enxameiam a menos


96 A Colméia e a Abelha
não conseguir mais acomodar sua fervilhante população, as abe-
lhas se preparam para emigrar construindo um certo número de
realeiras. Estas células são iniciadas quando os zangões apare-
cem no ar; os machos já são, normalmente, muito numerosos
quando as princesas atingem a maturidade.
O primeiro enxame é liderado, invariavelmente, pela rainha
velha, a menos que ela tenha morrido por acidente ou doença,
quando, então, o enxame será acompanhado por uma das prin-
cesas criadas para repor a perda. A velha mãe, a menos que reti-
da por causa do clima desfavorável, deixa, normalmente, a colô-
nia um pouco antes de uma ou mais das realeiras serem opercu-
ladas.1 Não existem sinais a partir dos quais o apicultor possa
prever a saída do primeiro enxame. Por anos, despendi muito
tempo na vã esperança de descobrir alguns indicativos infalíveis
da primeira enxameação; até que os fatos me convenceram que
não existem tais indicativos. Se o clima for desfavorável ou as
flores estiverem com fluxo de néctar insuficiente, as abelhas, fre-
qüentemente, mudam suas intenções e se negam totalmente a
enxamear, mesmo que sua preparação esteja completa, como o
viajante que tenha fechado a mala, elas já estejam com sua vesí-
cula melífera cheia para a pretendida viagem.
Se na época da enxameação, num dia claro, calmo e quente,
quando as outras colônias estiverem atarefadas no trabalho, a-
penas algumas abelhas deixarem uma colônia forte podemos
procurar um enxame com grande esperança de o encontrar, a
menos que o clima se torne repentinamente desfavorável. Como
a rainha que acompanhará o primeiro enxame está pesada por
causa dos ovos ela voa com muita dificuldade a ponto de se re-
cusar a sair, exceto se os dias forem propícios e calmos. Se o
clima estiver sufocante o enxame sai, algumas vezes, tão cedo
quanto sete da manhã; mas o horário normal é a partir das dez
da manhã até duas da tarde; a maioria dos enxames aparece
quando o sol está a menos de uma hora do apogeu. Ocasional-
mente um enxame se aventura tão tarde quanto cinco da tarde;
uma rainha velha raramente pode ser acusada destas imprudên-
cias.
Repetidamente testemunhei, em meu núcleo de observação,

que a colméia esteja cheia de favo; no Sul, no entanto, o instinto enxameatório


parece ter muito mais força. Em Matamoras e Brownsville vi muitas colônias saí-
rem de colméias com poucos favos.
1 Ver página 125. N. T.
L. L. Langstroth 97
todo o processo da enxameação. No dia definido para sua partida
a rainha fica muito impaciente e, em vez de depositar seus ovos
nos alvéolos, circula pelos favos e comunica sua agitação para
toda a colônia. As abelhas que emigrarão enchem-se de mel,
normalmente um pouco antes da partida, mas numa ocasião eu
as vi atacar os suprimentos mais de duas horas antes de partir.
Momentos antes de o enxame partir, algumas abelhas podem ser
vistas no ar, com suas cabeças voltadas sempre para a colméia;
ocasionalmente elas voam para lá e para cá, como se estivessem
impacientes pelo grande evento que está prestes a acontecer. Ato
contínuo se instala uma violenta agitação na colméia; as abelhas
parecem ficar frenéticas, rodopiam em círculos continuamente
ampliados, como os feitos por uma pedra jogada numa água
calma, até que, finalmente, a colméia como um todo está fervi-
lhando e as abelhas, correndo impetuosamente para a entrada,
emanam numa corrente contínua. Não é vista uma abelha ficar
para trás, cada uma toma a dianteira, como se voassem "for dear
life," ou impelidas por uma força invisível em sua impetuosa saí-
da.
Muitas vezes a rainha só sai depois que muitas abelhas saí-
ram; ela é, freqüentemente, tão pesada, por causa do número de
ovos em seus ovários, que cai ao chão, incapaz de se manter no
ar com sua colônia. As abelhas perdem-na e uma cena muito in-
teressante pode ser testemunhada. As abelhas fazem uma busca
minuciosa por sua mãe perdida; o enxame se espalha em todas
as direções, as folhas das árvores e dos arbustos próximos ficam,
muitas vezes, quase completamente cobertos por exploradoras
ansiosas, como gotas depois de uma chuva copiosa. Se ela não
for encontrada, elas normalmente retornam para a velha colméi-
a, em cerca de cinco a quinze minutos, embora ocasionalmente
elas tentem entrar numa colméia estranha ou se unir a outro
enxame.
O soar de sinos, e bater em tachos e frigideiras não é, prova-
velmente, nenhum pouco mais eficaz do que o horrível barulho
de algumas tribos indígenas que, imaginando que o sol, num e-
clipse, foi engolido por um enorme dragão, recorrem a tais meios
para compelir a serpente a vomitar sua luminária favorita.
Aqueles que nunca praticaram o taborilar nunca viram um
enxame sair e pousar. Ainda, como um do "sons do país", e como
uma relíquia dos tempos antigos, até mesmo o apicultor mais
prático pode desculpar, prontamente, o entusiasmo daquele di-

98 A Colméia e a Abelha
vertido escritor do London Quarterly Review que escreveu o se-
guinte:
"Numa excelente e morna manhã de maio ou junho a atmos-
fera inteira parecia viva com milhares de abelhas circulando e
zunindo, indo e vindo, rodando em círculos rápidos, como um
grupo enlouquecido. A boa dona de casa sai com a frigideira e a
chave - o ortodoxo instrumento de soar - e não cessa sua rude
música até que as abelhas tenham pousado. Este é um dos cos-
tumes, tão velho quanto o nascimento de Júpiter, divertido e ex-
citante da vida do homem do campo; existe um impresso colorido
antigo, de uma campainha de abelha, que se encontra, ocasio-
nalmente, nas paredes das casas do interior, que nos causa fas-
cinação e nos faz lembrar do clima claro e ensolarado no dia
mais lúgubre de novembro. Se, como diz Aristóteles, ele as afeta
por prazer ou medo ou se, ao contrário, elas nada ouvem1 é ain-
da tão incerto quanto aquele filósofo o deixou; mas não podemos
desejar sucesso a nenhum mestre apícola que despreze a tradi-
ção se ele perder todo enxame para o qual ele deixar de realizar o
concerto na hora certa."
Se, antes de sua partida, um enxame tiver selecionado uma
nova morada, nenhum ruído o fará pousar, mas, assim que a co-
lônia em migração tiver deixado a colméia, elas voam numa "li-
nha-abelha" para o local escolhido. Verifiquei, que esta partida
sem cerimônia parece quase comum quando as abelhas estão
abandonadas, mas raramente acontece quando elas são bem
cuidadas.
Quando o apicultor percebe que um enxame em vez de se
amontoar sobe mais e mais no ar e parece partir, não pode ser
perdido nenhum instante; em vez de ruídos sem sentido, ele deve
lançar mão de meios muito mais efetivos para sustar seu impul-
so errante. Jogar água ou areia sobre elas, muitas vezes, as de-
sorganizará tento que serão compelidas a pousar. De todos, o
método mais original para fazê-las pousar é lançar sobre elas os
raios do sol com o uso de um espelho! Nunca tive ocasião de ex-
perimentá-lo, mas um escritor anônimo diz que nunca soube de
ter falhado. Se elas forem forçadas a ficar é quase certo que elas
sairão, imediatamente depois de serem alojadas, rumo à sua mo-
radia escolhida, a menos que a rainha seja presa. Se existir al-

1 O pipio da rainha como um guincho, um som metálico, pode possivelmente ser

superado pelo repicar distraindo as abelhas que tentam acompanhá-la e as faz


pousar.
L. L. Langstroth 99
guma razão pela qual se espera a deserção e não se consiga
prender a rainha as abelhas podem ser levadas para o porão e
mantidas em escuridão total, até o por do sol do terceiro dia,
sendo supridas, durante este tempo, com água e mel para cons-
truirem seus favos. As mesmas precauções devem ser usadas
quando enxames fugitivos são re-alojados.
É muito fácil prevenir que uma nova colônia abandone a
colméia de quadros móveis, regulando a entrada para que a ope-
rária carregada passe, mas a rainha não; o enxame raramente
abandonará a colméia se for fornecido, para a nova colônia, um
pedaço de favo contendo cria não operculada.
Logo depois de alojar um enxame pode ser verificado se ele
pretende ou não abandonar a colméia. Se, ao aplicar o ouvido à
lateral da colméia, for possível ouvir um som como de roer ou
fricção as abelhas estão se preparando para construir favo, ra-
ramente levantam acampamento.
Se a colônia decidir ir elas enxergam a colméia na qual foram
colocadas apenas como um local de parada temporária e rara-
mente se empenham em construir favo. Se a colméia permitir
inspeção, é possível reconhecer, só em olhar, quando as abelhas
estão aborrecidas com sua nova residência e pretendem abando-
ná-la. Elas não só se recusam a trabalhar com a energia caracte-
rística de um novo enxame, mas sua atitude real, se penduran-
do, como elas fazem, com ar teimoso ou arrogante, odiando, a
ponto de apenas tocar sua casa detestada, dizem para um olhar
experimentado que elas são ocupantes teimosas e pretendem ca-
ir fora assim que puderem. Numerosos experimentos para incitar
as abelhas a trabalhar em núcleo de observação, expostas a toda
a luz do dia, desde o instante em que foram alojadas, em vez de
mantê-las, como faço agora, na escuridão por vários dias, me
deixaram familiar com todo este procedimento de nada fazer an-
tes de partir.
As abelhas, algumas vezes, abandonam suas colméias muito
cedo na Primavera ou final do Verão ou Outono. Embora exibam
uma aparência de enxameação natural, elas partem, não porque
a colméia esteja congestionada a ponto de elas desejarem formar
novas colônias, mas porque a colméia é ou muito pequena ou tão
destituída de suprimentos, que elas chegaram ao desespero. Pa-
rece que elas têm um pressentimento de que irão perecer se fica-
rem e, em vez de esperar a aproximação certa da fome, elas par-
tem para ver se não conseguem melhorar a sua condição. Co-
100 A Colméia e a Abelha
nheci uma colônia que passava fome deixar sua colméia num dia
primaveril de dezembro.
Parece estranho que o instinto de um inseto tão previdente
não o leve a selecionar um domicílio adequado antes de se aven-
turar a abandonar sua velha morada; uma vez que, antes de es-
tarem novamente alojadas elas ficarão expostas à força dos ven-
tos e chuvas copiosas que açoitam e destroem muitos dos seus
membros.
Resolvi este problema-abelha, assim como muitos outros,
considerando como o atual sistema pode trazer vantagem para o
homem.
As abelhas seriam de muito pouca serventia para o homem
se, em vez de permanecer até que ele tenha tempo para as alojar,
seus instintos as incitassem a levantar acampamento, sem de-
mora, fugindo da domesticação. Nesta, como em muitas outras
coisas, vemos que aquilo que, à primeira vista, parece uma im-
perfeição óbvia, se prova, após exame cuidadoso, ser um artifício
especial para responder a objetivos relevantes.
Retornando ao nosso novo enxame. A rainha, algumas vezes,
pousa primeiro e, outras vezes, se junta ao amontoado depois
que ele começa a se formar. As abelhas não pousam, normal-
mente, a menos que ela esteja entre elas; e quando pousam e se
dispersam em seguida é porque, freqüentemente, depois da pri-
meira subida com elas a rainha caiu, por estar exausta, em al-
gum lugar onde não é encontrada pelas abelhas.
Percebendo que uma colméia estava prestes a enxamear eu,
em duas ocasiões, reduzi a entrada a fim de prender a rainha
quando ela aparecesse. Em ambos os casos, pelo menos um ter-
ço das abelhas vieram antes que ela se juntasse a elas. Assim
que o enxame cessou de procurar pela rainha e retornou para
sua colméia, coloquei a rainha, com as asas cortadas, num galho
de uma pequena árvore sempre-viva, ali a rainha se deslocou pa-
ra o ponto mais alto do galho, aparentemente com o propósito
claro de se tornar tão visível quanto possível. As poucas abelhas
que primeiro a identificaram, em vez de pousar, se lançaram ra-
pidamente para suas companheiras; em poucos segundos, toda a
colônia foi informada de sua presença e, voando numa densa
nuvem, começou a se reunir, calmamente, em torno dela. As
abelhas quando em vôo se intercomunicam com rapidez tão sur-
preendente que os sinais telegráficos raramente são mais instan-

L. L. Langstroth 101
tâneos.
Não existe dúvida que as abelhas enviam batedoras para
procurar uma residência apropriada. Os enxames se lançam di-
retamente para sua nova casa, num vôo de cruzeiro, seja desde
sua colméia seja do local onde elas se amontoaram depois de
partir. Este vôo preciso para uma casa não conhecida seria cla-
ramente impossível se alguns de seus membros, graças a explo-
rações prévias, não fossem competentes em guiar os restantes. A
visão das abelhas para objetos distantes é tão maravilhosamente
acurada que, depois de atingir uma altura suficientemente ele-
vada, elas podem ver, à distância de algumas milhas, qualquer
objeto proeminente nas cercanias de sua casa pretendida.
É possível questionar se as abelhas enviam batedoras antes
ou depois de enxamearem. Quando uma colônia voa para sua
nova casa sem pousar, as batedoras devem ser enviadas antes
da enxameação. Se isto fosse normal poderíamos esperar que to-
da colônia fizesse a mesma partida veloz; se elas se amontoas-
sem por conveniência da rainha, ou por fatiga das abelhas, por
causa do excitamento da enxameação, veríamos apenas uma
permanência transitória. Em vez disto elas, muitas vezes, per-
manecem até o dia seguinte e não são pouco freqüentes perma-
nências mais prolongada. A parada das abelhas em seu vôo, pa-
ra novamente se amontoarem, não é inconsistente com estas vi-
sões; pois se o clima estiver quente quando elas se amontoam
pela primeira vez, e o sol brilha diretamente sobre elas, elas mui-
tas vezes partem antes de ter encontrado uma habitação ade-
quada. A rainha de um enxame em migração, pesada por causa
dos ovos e desacostumada a voar é, algumas vezes, compelida a
pousar, antes de alcançar a casa pretendida. As rainhas, em tais
circunstâncias, ocasionalmente relutam em levantar vôo nova-
mente e as pobres abelhas tentam, algumas vezes, lançar as
fundações de sua colônia em cercas, montes de feno, ou outros
lugares não adequados.
O Mr. Wagner diz que conheceu um enxame de abelhas que
se alojou em baixo do galho mais baixo de um carvalho isolado
numa plantação de milho. Só foi descoberto durante a colheita
de milho, em setembro. Os que o encontraram pensaram se tra-
tar de um enxame recente e, ao derrubá-lo para dentro de uma
colméia, quebraram três favos, cada um com oito polegadas qua-
dradas (50cm2). O Mr. Henry M. Zollickoffer, Filadélfia, me in-
formou saber de um enxame que pousou num salgueiro naquela

102 A Colméia e a Abelha


cidade, num lote pertencente ao Hospital Pensilvânia; lá perma-
neceu por algum tempo e os meninos jogaram pedras a fim de se
apoderarem dos favos de mel.
A necessidade de batedoras ou exploradoras parece ser in-
questionável a menos que possamos admitir que as abelhas te-
nham a capacidade de voar segundo uma "linha aérea" até o bu-
raco de uma árvore que elas nunca viram e que deve ser a única
entre milhares que lhes serve de casa apropriada.
Estas visões são confirmadas pelas repetidas ocasiões em
que algumas abelhas foram vistas espreitando de modo inquisi-
dor o buraco de uma árvore, ou a cornija de uma construção, e
foram, depois de muito tempo, seguidas pela colônia inteira.
Tendo descrito o método normalmente seguido pelo novo en-
xame, quando deixado por conta de seu instinto natural retor-
nemos à colônia materna da qual ele saiu.
Pelo grande número de abelhas que a abandonou podemos
inferir, naturalmente, que ela deve estar quase despovoada. Co-
mo as abelhas enxameiam na melhor parte do dia alguns su-
põem que a população será refeita pelo retorno de um grande
número dos campos; isto, no entanto, muitas vezes, não é o caso
uma vez que é raro que muitas estejam ausentes da colméia na
hora da enxameação. Para aqueles que limitam a fertilidade da
rainha a quatrocentos ovos por dia a recomposição rápida da
colméia, depois da enxameação, deve ser inexplicável; mas para
os que tem visto ela botar de um a três mil ovos por dia não é
nenhum mistério. Permanecem abelhas suficientes para executar
as tarefas da colméia; como a velha rainha só parte quando exis-
te uma população fervilhante, quando milhares de jovens estão
emergindo diariamente, dezenas de milhares amadurecendo ra-
pidamente, a colméia, em pouco tempo, estará tão populosa co-
mo estava antes da enxameação.
Os que supõem que a nova colméia consiste inteiramente de
abelhas jovens, forçadas a emigrar pelas mais velhas, se exami-
narem detidamente o novo enxame encontrarão algumas com
asas esfarrapadas por causa da idade e outras tão jovens a ponto
de mal e mal terem condições de voar.
Depois que cessou o tumulto da enxameação nenhuma abe-
lha que não partiu tenta se juntar à nova colônia e nenhuma que
o fez tenta retornar. Não temos um meio seguro de saber o que
determina algumas a sair e outras a ficar. Quão notável deve ser
L. L. Langstroth 103
o sentimento que ocorre a um inseto para fazer com que, em al-
guns minutos, perca de forma tão completa sua forte afeição pa-
ra com a colméia velha que, ao se instalar num novo local, que
dista a apenas alguns pés da original, não preste mais a mínima
atenção para sua colméia original! Quando sua colônia recém a-
lojada é transferida - depois que algumas saiam para o campo -
do lugar onde a colméia com as abelhas alojadas foi instalada, ao
retornarem, muitas vezes elas voam durante horas em círculos
ininterruptos em volta do local onde a colméia transferida esteve;
algumas vezes continuam a vã procura por suas companheiras
até caírem de exaustão, perecem muito próximas da colméia ori-
ginal.
Já foi dito que, se o clima é favorável, a velha rainha sai,
normalmente, próximo do momento em que a princesa opercula-
da se transforma em ninfa.1 Em cerca de uma semana uma delas
eclode; e a questão a ser decidida é se mais alguma colônia ou
nenhuma será formada naquela estação. Se a colméia estiver
bem suprida de abelhas e a estação é sob todos os aspectos
promissora a decisão é, geralmente, afirmativa; no entanto, em
tais circunstâncias, algumas colônias fortes se recusam a enxa-
mear mais de uma vez; enxameações repetidas das fracas ani-
quila, seguidamente, tanto a colméia original como os enxames
secundários.
Se as abelhas decidirem enxamear apenas uma vez, a pri-
meira princesa a emergir, lhe sendo permitido seguir seu próprio
caminho, corre imediatamente para as realeiras de suas irmãs e
as ferroa até a morte. As abelhas a ajudam nesta tarefa assassi-
na; elas cortam o berço das inocentes mortas (Lâmina XIV., Fig.
47, d) e removem as princesas. Seus corpos mortos podem ser
encontrados, muitas vezes, no chão em frente da colméia.
Depois que a princesa emergiu de sua realeira de forma na-
tural, as abelhas cortam fora a realeira (Lâmina XIV, Fig. 47, c),
permanecendo apenas uma pequena xícara sem asa; mas se ela
teve um destino violento, elas removem, normalmente, toda a re-
aleira. Contando as xícaras sem asa podemos apurar quantas ra-
inhas emergiram na colméia.
Se as abelhas da colônia original decidirem lançar um enxa-
me secundário a primeira princesa a emergir é impedida de ma-
tar as outras. É mantida uma guarda contínua em torno das rea-

1 Ver página 117. N. T.


104 A Colméia e a Abelha
leiras e, assim que ela se aproxima das mesmas com intenções
assassinas, ela é maltratada ou levada a entender por demons-
trações menos corteses que, nem mesmo uma rainha, pode,
sempre, tudo aquilo que deseja.
Da mesma forma que os seres humanos, quando impedidos
de abrirem seu próprio caminho, ela se sente altamente ofendida
quando assim repelida e o expressa através de uma sucessão de
notas, um som agudo e zangado semelhante à pronúncia rápida
das palavras "peep, peep". Se for mantida na mão fechada, ela
fará um som semelhante. Uma ou mais princesas que ainda não
emergiram responderão a este som zangado de uma forma áspe-
ra, como um galo cantando proposta de desafio a seus rivais. Es-
tes sons, totalmente diferentes do usual calmo zumbido das abe-
lhas, ou o ruído vibrante das princesas não emergidas, são tam-
bém indicações infalíveis que brevemente sairá um segundo en-
xame. Por vezes eles são altos a ponto de serem ouvidos a algu-
ma distância da colméia. Cerca de uma semana depois da pri-
meira enxameação o apicultor pode colocar seu ouvido contra a
colméia, pela manhã ou à tarde quando as abelhas estão calmas,
e se a rainha estiver "piando" ele reconhecerá imediatamente
seus sons peculiares. Dezesseis dias depois da partida do primei-
ro enxame todas as princesas estão maduras, até a última,
mesmo que ele tenha partido assim que as realeiras tenham sido
começadas. Se estes sons não forem ouvidos durante este perío-
do é uma indicação infalível que a primeira princesa não tem ri-
vais; a enxameação na colméia acabou para aquela estação.
O segundo enxame parte normalmente no segundo ou tercei-
ro dia depois de ser ouvido o piar; embora algumas vezes elas re-
tardem a partida até o quinto dia, como conseqüência de uma si-
tuação climática desfavorável. Ocasionalmente o clima é tão ru-
im que as abelhas permitem a princesa mais velha matar as de-
mais e se recusam a enxamear outra vez. Esta é uma ocorrência
rara pois as rainhas jovens não são tão temerosas do clima
quanto as velhas e algumas vezes se aventuram não apenas
quando está nublado, mas até quando está chovendo. Se isto vi-
er a acontecer e não for mantida uma atenção constante estes
enxames são, freqüentemente, perdidos. Como o piar começa,
normalmente, cerca de uma semana depois da primeira enxame-
ação, o segundo enxame parte, normalmente, nove dias depois
do primeiro; sabe-se, contudo, que ele pode partir tão cedo quan-
to no terceiro e tão tarde quanto no décimo sétimo, mas estes
casos são realmente raros.

L. L. Langstroth 105
Acontece, freqüentemente, na agitação da enxameação que a
guarda normal sobre as realeiras é relaxada e várias emergem
simultaneamente e acompanham e enxame; neste caso as abe-
lhas pousam em dois ou mais amontoados separados. Nos meus
núcleos de observação vi, repetidamente, jovens princesas expo-
rem suas línguas através de um buraco em suas realeiras supli-
cando comida às abelhas. Se for permitido que elas saiam será
possível ver que elas são pálidas e fracas, como outras abelhas
jovens, e, por algum tempo não têm condições de voar; mas
quando confinadas durante o tempo normal elas surgem colori-
das e prontas para todas as emergências. Eu as tenho visto sair
neste estado quando o excitamento provocado pela remoção dos
favos da colméia elimina a guarda das realeiras.
Observei o seguinte caso memorável em Matamoras, México.
Um enxame secundário abandonou a colméia em que foi alojado
no segundo dia depois de ser alojado, instalando-se numa árvo-
re. Ao examinar a colméia abandonada foram encontradas cinco
jovens rainhas mortas no fundo. O enxame retornou para a col-
méia e, na próxima manhã, mais duas rainhas mortas foram en-
contradas. Como a colônia, depois disso, prosperou, pelo menos
oito rainhas devem ter deixado a colméia materna num único en-
xame!
Jovens rainhas, cujos ovários não estão sobrecarregados de
ovos, são muito mais ágeis em vôo do que as velhas e, freqüen-
temente, voam mais rápido da colônia materna antes de pousar.
Depois da partida do enxame secundário a princesa mais velha
que permaneceu deixa sua realeira; se for liberado um outro en-
xame o piar pode ser ouvido; assim também antes da saída de
cada enxame depois do primeiro. Algumas vezes pode ser ouvido
por um curto período depois da partida do primeiro enxame se-
cundário, mesmo quando as abelhas não têm mais a intenção de
enxamear novamente. O segundo enxame secundário deixa a
colméia, normalmente, no segundo ou terceiro dia depois do
primeiro enxame secundário e os outros em intervalos de cerca
de um dia. Já vi sairem cinco enxames de uma colméia em me-
nos de duas semanas. Sabe-se que nos locais de clima quente
são liberados, de uma única colméia, mais do que o dobro deste
número de enxames durante uma estação.
Na enxameação secundária, algumas vezes, a princesa re-
torna para a colméia depois de ter aparecido no alvado. Se ela fi-
zer isto uma vez ela está em condições de fazê-lo repetidas vezes

106 A Colméia e a Abelha


e o enxame, a cada vez, retornará para a colméia materna.
No apiário de um amigo em Matamoras quando o primeiro
enxame partiu não havia árvore para ele pousar. O vento estava
forte, as abelhas não conseguiram se afastar das proximidades
da colméia e começaram a pousar numa colméia próxima à sua
própria. Ainda que a rainha tenha ficado com uma parte de sua
colônia uma grande parte do enxame entrou na colméia vizinha.
Quando esta colméia enxameou, embora uma árvore tivesse sido
instalada para que o enxame nela se amontoasse, as abelhas que
retornaram na primeira ocasião, fizeram o mesmo novamente,
arrastando com elas o resto de suas companheiras. O único meio
pelo qual podemos obter um único enxame, será colocando uma
cobertura sobre todas as colméias do apiário assim que uma en-
xamear e assim as abelhas, não conseguindo atravessá-la, fica-
rão compelidas a pousar! Seria difícil encontrar uma ilustração
melhor para a tolice em negligenciar o velho provérbio, "Um pon-
to de tricô a tempo salva nove".
Os enxames secundários ou casts - este nome é dado a todo
enxame depois do primeiro - reduzem seriamente a força da col-
méia materna; pois quando eles saem praticamente toda a cria
deixada pela rainha velha emergiu e não será posto mais ne-
nhum ovo até que termine a enxameação. É uma opção inteli-
gente o segundo enxame sair só depois que todos os ovos deixa-
dos pela primeira rainha tenham eclodido e a cria tenha sido o-
perculada, assim não haverá cria para ser alimentada. Partir en-
tes deixaria poucas atendentes para as necessidades da cria. Se
depois da enxameação o clima se tornar repentinamente frio e a
colméia for fina, ou o apicultor mantiver a ventilação que era ne-
cessária somente para a colônia congestionada, a família velha
não terá condições de manter o calor e grande parte da cria, se-
guidamente morre.
Os benefícios de enxameações tão freqüentes para o apiário
serão discutidos no próximo capítulo. Se o apicultor não desejar
enxames secundários ele pode prevenir sua partida com a minha
colméia. Cerca de cinco dias depois da primeira enxameação a
colméia materna deve ser aberta e todas a realeiras removidas
com exceção de uma. Se feito antes desta data as abelhas podem
iniciar outras no lugar das removidas. Somente aqueles que ten-
taram ambas as formas saberão que esta forma é melhor do que
tentar devolver os enxames secundários para a colméia materna.
O apicultor que desejar multiplicar suas colméias pela enxamea-

L. L. Langstroth 107
ção natural tão rapidamente quanto possível, encontrará orien-
tações completas, em seqüência, para desenvolver todos os en-
xames secundários, mesmo que pequenos, até se tornarem famí-
lias vigorosas.
Deve ser lembrado que tanto a colônia materna da qual os
enxames partiram, como todas as demais colônias, com exceção
da primeira, têm princesa jovem. Estas princesas não deixam a
colônia para serem fecundadas a não ser depois de se estabele-
cerem como líderes de famílias independentes. Elas geralmente
saem com este propósito, no início da tarde do primeiro dia a-
gradável depois de ficarem conscientes de a que horas os zan-
gões estão voando em maior número. Ao deixar sua colméia elas
voam com suas cabeças voltadas para ela, muitas vezes entran-
do e saindo diversas vezes, antes de finalmente se elevarem no
ar. Estas precauções por parte da princesa são altamente neces-
sárias uma vez que ela não pode, ao retornar, perder sua vida,
por um erro, tentando entrar numa colméia estranha. Mais rai-
nhas são perdidas desta forma do que de qualquer outra.
Quando uma jovem princesa parte para ser fecundada, as
abelhas ficam, muitas vezes tão alarmadas, por estarem sem a
princesa, que voam da colméia como se tencionassem enxamear.
Sua agitação é acalmada imediatamente quando ela retorna a
salvo.
Os zangões perecem no ato de fecundação da rainha. Cor-
tando o zangão em dois pedaços, cada pedaço mantem sua vita-
lidade por um longo tempo, acidentalmente comprovei, no Verão
de 1852, que caso o seu abdômen seja suavemente pressionado
e, algumas vezes, se vários são mantidos juntos na mão aqueci-
da, o órgão do zangão é ejetado, com um estampido semelhante
ao de pipoca estalando; o inseto, com um calafrio, se enrola e
morre tão rapidamente como se tivesse sido golpeado de relâm-
pago com um soco. Esta providência singular tem a intenção in-
questionável de oferecer segurança adicional à rainha enquanto
fora da colméia para acasalar com os zangões. Huber foi o pri-
meiro a descobrir que ela retorna com os órgãos masculinos ar-
rancados do zangão presos a seu corpo. Se não fosse assim, sua
espermateca não ficaria cheia, a menos que a rainha permane-
cesse mais tempo no ar com o zangão, incorrendo realmente
num grande risco de ser devorada pelos passarinhos. Uma vez,
alguns dias depois da fecundação de uma princesa, encontrei os

108 A Colméia e a Abelha


órgãos do macho1, secos, presos tão firmemente a seu corpo, que

1 Na página 50 da tradução para o inglês do trabalho do Prof. Siebold sobre "Par-

tenogênese" (ou seja, reprodução sem acasalamento com macho) "de Traças e A-
belhas" pode ser encontrado o seguinte extrato da carta, datada de 21 de Julho,
1853, que o célebre apicultor alemão Barão Von Berlepsch escreveu para o Prof.
Siebold.
"Hoje consegui espetar um alfinete numa rainha que tinha voado para acasalar,
no momento em que ela re-entrava na colméia. Os sinais de fecundação estavam
ali. *** Faria você a gentileza de identificar por dissecação: 1. se existem e quais
as partes do zangão se encontram na vulva real; e 2. qual a condição do receptá-
culo seminal. Se existirem partes do zangão que na vulva, admitir-se-á, pelo me-
nos, que os zangões são os machos e que o acasalamento ocorre fora da colméi-
a.*** Além disso, se você encontrar o receptáculo seminal cheio de sêmen, a hipó-
tese de Dzierzon - de acordo com a qual o ovário não é fertilizado, mas o receptá-
culo seminal é cheio com sêmen masculino do zangão, pelo acasalamento - será
evidenciada."
O Prof. Siebold diz, que "ele tinha condições de confirmar, que aquelas partes
dentro da vagina da rainha nada mais eram do que os restos dos órgãos copula-
tivos da abelha macho (zangão). O estado dos órgãos internos procriadores da ra-
inha coincidiam com o estado dos seus órgãos externos, e o receptáculo seminal,
que se encontra vazio em todas as virgens dos insetos fêmeas estava, nesta rai-
nha, estava cheio a ponto de transbordar com filamentos seminais (espermato-
zóides)."
Sobre este assunto, separei o seguinte extrato interessante da minha revista: "25
de Agosto, 1852. - Encontrei o órgão masculino projetado na jovem rainha; não
consegui removê-lo sem fazer tanta força que temia poder matá-la. O Dr. Joseph
Leidy examinou esta rainha com o microscópio concluindo que - para usar suas
palavras - ´era o pênis do macho e seus apêndices, que correspondiam, em todas
as suas peculiaridades anatômicas, com os mesmos órgãos examinados, ao
mesmo tempo, oriundos de outros zangões. Os testículos e vasa deferentia destes
zangões se encontravam cheios do fluído espermático. A espermateca da rainha
estava distendida com o mesmo semi-fluido, substância espermática.´ Este exa-
me demonstrou que os zangões são machos, e que eles fecundam a rainha por
cópula verdadeira."
O Prof Siebold disse ainda: "Como no ato da cópula das abelhas, o pênis do zan-
gão fica completamente projetado para fora e como não existe nenhum aparelho
muscular em particular para projetar o pênis, as circunstâncias em que os zan-
gões copulam no vôo têm um significado valioso. *** Durante o movimento das
asas, os diversos sacos aéreos do sistema de traquéias do zangão estão cheios
com ar, estes agem por pressão, no interior do corpo da abelha, sobre o pênis
próximo que é projetado."
O seguinte experimento interessante (Partenogênese, pág. 54) "foi conduzido por
Berlepsch a fim de confirmar a produção de zangões pela princesa. Ele manteve
reclusas as princesas desde o final de setembro, 1854, até a época em que não
mais havia machos; ele ficou satisfeito por conseguir manter uma delas durante
o Inverno, que produziu uma descendência de zangões em 2 de março, do ano
seguinte, fornecendo mil e quinhentos alvéolos com zangão. Foi provado pela dis-
secação realizada por Leuckart a pedido de Berlepsch que esta rainha produtora
de zangões permanecia virgem. Ele encontrou o estado e conteúdo da bolsa se-
minal desta rainha eram exatamente da mesma forma que são encontrados nas
L. L. Langstroth 109
não consegui remover a não ser desfazendo-o em pedaços.
Os fatos que seguem mostrarão que a fecundação da rainha
pelo zangão em pleno ar pode ser comprovada ocularmente; Le-
wis Shrimplin, Wellsboro, Brook Couty, Virginia, comprou uma
colméia de quadros móveis, na Primavera de 1857, na qual ele
colocou um enxame secundário. Constatando, alguns dias de-
pois, que as abelhas tinham construído favos retos, ele convidou
alguns de seus vizinhos para testemunharem a facilidade com
que ele podia retirar e trocar os favos. Estando na frente da col-
méia viu a rainha sair e ocorreu-lhe a idéia de capturá-la e a-
marrar uma fina linha de seda a uma de suas pernas traseiras.
Nisto ele obteve sucesso; quando ela começou a subir1, os zan-
gões se reuniram à sua volta em grande número. Depois de per-
manecer no ar por pouco tempo ela retornou para a entrada de
sua colméia exibindo aos espectadores os órgãos do zangão ain-
da projetados de seu corpo.
A rainha começa a botar ovos, normalmente, cerca de dois
dias depois da fecundação e, durante a primeira estação, deposi-
ta praticamente apenas ovos de operárias; não há necessidade de
zangões2 nas colônias que não largarão enxame até outra esta-

princesas. O receptáculo seminal destas fêmeas não contem massa de sêmen


com seus característicos espermatozóides, mas apenas um fluido límpido, desti-
tuído de células e grânulos, que é produzido pelas duas glândulas apendiculares
da cápsula seminal e, como eu supus, serve para manter o sêmen transferido pa-
ra a cápsula seminal em estado fresco e o espermatozóide ativo e, conseqüente-
mente, capaz de fertilizar."
Consultando as páginas 38 e 39 o leitor poderá ver que, cerca de três anos antes
deste exame de Leuckart, o Prov. Leidy dissecou para mim uma rainha com pos-
tura de zangão.
O Prof. Siebold, em 1843, examinou a espermateca de uma rainha, e encontrou-
a, depois da cópula, cheia com fluido seminal de zangão. Naquela época, os api-
cultores não prestavam atenção aos aos pareceres do Prof. Siebold, mas conside-
ravam eles, como ele disse, "elucubração teórica." Parece, portanto, que a disseca-
ção do Prof. Leidy (pág. 34 e 35) não foi, como supunha até aqui, a primeira dis-
secação de uma espermateca cheia de espermatozóides.
1 Dzierzon supôs que o som das asas da rainha, quando ele está no ar, excitasse

os zangões. Eles nunca foram vistos dar atenção a ela no interior da colméia; as-
sim ela nunca é molestada, ainda que milhares sejam membros da mesma colô-
nia com ela própria.
2 Huber supôs que os ovos de zangões não se desenvolviam em seus ovários até o

segundo ano; mas como o sexo depende da fertilização dos ovos, ele estava evi-
dentemente equivocado. Em climas amenos, onde os enxames secundários en-
xameiam novamente, os zangões são criados em grande número em colméias
com rainhas jovens. A abelha é nativa, evidentemente, de clima quente, contudo
ela pode viver onde haja um Verão longo suficiente para ela se preparar para o
110 A Colméia e a Abelha
ção. Ela é tratada com muita atenção pelas abelhas antes de co-
meçar a depositar ovos nos alvéolo; se privadas dela as abelhas
mostram, pelo seu desespero, que elas reconhecem o valor do
seu sucesso.
O enxame primário enxameia, algumas vezes, novamente,
cerca de um mês depois de ser alojado; mas no clima do norte
esta é uma ocorrência rara. No sul do Texas, conheci até mesmo
enxames secundários fazerem o mesmo e, muitas vezes, colônias
enxamearem em setembro e outubro, enquanto em climas tropi-
cais os enxames saem em qualquer época quando a forragem é
abundante. Nos nossos estados do norte e do centro a enxamea-
ção termina, normalmente, três ou quatro semanas depois de
começar. Apicultores inexperientes, inconscientes disto, inspe-
cionam, muitas vezes, seus apiários muito depois que o período
da enxameação passou.
Quero agora fornecer instruções para alojar os enxames,
uma contribuição minha até mesmo para apicultores experien-
tes, tão precisas para que até mesmo aqueles que nunca viram
alojar um enxame concluam que o processo é formidável. A expe-
riência neste assunto, como em outros, dará habilidade e confi-
ança necessárias; e o choro "as abelhas estão enxameando" será,
freqüentemente, transformado em até mesmo mais prazer do que
um convite para um suntuoso banquete.
As colméias para os enxames novos devem ser pintadas mui-
to antes de serem usadas para ficarem bem secas. O cheiro da
tinta fresca é sabido muito bem ser prejudicial à vida do homem
e, da mesma forma, é detestado pelas abelhas a ponto de elas,
muitas vezes, abandonarem a nova colméia em vez de adotá-la.
Se as colméias não puderem ser pintadas muito antes de serem
usadas, a tinta não poderá conter chumbo branco, e a mistura
deverá ser tal que seque tão rapidamente quanto possível.
A seguinte receita, originária do Bienenzeitung, para uma
pintura barata e durável para colméias rudes é dito ser preferível
à tinta a óleo; "Duas partes, medidas, de areia fina, bem penei-
rada; uma do melhor cimento inglês1; um de coalho, do qual o

Inverno. O seu desenvolvimento completo, no entanto, só pode ser testemunhado


em regiões tropicais e estou persuadido que muitas coisas considerados leis fixas
em climas mais frios, nada mais são do que adaptações excepcionais a circuns-
tâncias desfavoráveis.
1 Romano, ou cimento Hidráulico comum é, provavelmente, o meio, ou poderia
ser a resposta.
L. L. Langstroth 111
soro de leite foi bem espremido; um de leite desnatado. Deve-se
misturar tudo muito bem. A pintura será aplicada às colméias,
agitando sempre, com uma broxa comum. Uma segunda camada
será aplicada depois de passada meia hora. Quando ficar perfei-
tamente seco, o que acontecerá em dois ou três dias, será passa-
da uma fina camada de óleo de linhaça fervido, ao qual poderá
ser adicionada qualquer cor desejada. As madeiras a serem pin-
tadas não devem ser aplainadas, mas devem permanecer rudes
como deixadas pela serra. Não se deve preparar tinta de uma vez
mais do que aquela que será usada no curso de meia hora pois
ela endurece rapidamente. A colméia pode ser usada assim que a
tinta secar."
As colméias que ficam ao sol, nunca devem ser usadas para
enxames novos. As abelhas quando enxameiam por estarem ex-
citadas e aquecidas acima do normal se negam, muitas vezes, a
entrar em tais colméias e, na melhor das hipóteses, demorarão
em tomar posse delas. A temperatura da colméia materna, no
momento da enxameação sobe muito, repentinamente, e muitas
abelhas ficam muitas vezes tão ensopadas pela transpiração que
elas não tem condições de levantar vôo e se reunir à colônia que
emigra. Induzir as abelhas de um enxame a entrar numa colméia
aquecida pelo sol ardente é, desta forma, tão irracional quanto
forçar uma ofegante multidão de homens ficarem na atmosfera
sufocante de um quarto de sótão. Se o processo de alojamento
em colméia não puder ser realizado na sombra, a colméia deve
ser coberta com uma folha, ou com galhos copados.
O apicultor pode usar todos os bons favos de operária na
colméia de quadros móveis amarrando-os aos quadros. Esta é
uma forma de fornecer um guia para a construção dos favos nos
quadros uma vez que as abelhas, mesmo numa colméia vazia,
construirão os favos com maior regularidade por seguirem o gui-
a, desde que na colméia não fique muito espaço vazio. Tenho vis-
to, em algumas ocasiões, elas construírem favos atravessados, de
quadro a quadro, assim que só se consegue removê-los cortado-
os em pedaços. Isto pode ser prevenido facilmente fixando peda-
ços de favo guia aos quadro (ver pág. 72). A colméia deve ser po-
sicionada de forma a ficar inclinada de trás para frente para es-
coar a água da chuva, mas não deve haver a mínima inclinação
lateral, ou será impossível que os favos fiquem aprumados, e fará
as abelhas construírem favos tortos. Favos de zangões nunca de-
vem ser postos nos quadros, se isso for feito as abelhas seguirão
o padrão e construirão favo apropriado somente para a criação

112 A Colméia e a Abelha


de uma horda de inúteis consumidores. Tais favos, se claros, po-
dem ser usados com grande vantagem nas melgueiras; se velhos,
podem ser derretidos para aproveitamento da cera.
Todo bom pedaço de favo de operária, se grande o suficiente
que possa ser amarrado ao quadro, deve ser usado, tanto pelo
seu valor intrínseco quanto porque as abelhas ficam tão gratas
quando encontram um tão inesperado tesouro na colméia que di-
ficilmente o abandonam. Um enxame novo toma posse, muitas
vezes, de uma colméia abandonada bem provida de favo; en-
quanto dúzias delas estão vazias no apiário, elas raramente en-
tram nelas por sua própria decisão. Uma vez pensei que um ins-
tinto que as impelisse a assim proceder deveria ser muito melhor
para nós do que o atual sistema; mas reflexões posteriores me
mostraram que, ao contrário, deve ter sido fruto das interminá-
veis contendas entre apicultores vizinhos; e neste, como em mui-
tos outros assuntos, os instintos das abelhas devem ter sido pro-
jetados com especial referência ao bem estar do homem.
Quando os quadros1 são usados pela primeira vez para um
enxame novo, os entalhes onde eles descansam devem ser unta-
dos com pasta de farinha; isto os manterá firmes até serem fixa-
dos com própolis pelas abelhas. Se as colméias são agradáveis e
secas, esfregá-las com vários tipos de ervas ou líquido, será sem-
pre útil, e muitas vezes convidativo.
Se não existirem pequenas árvores ou arbustos perto do api-
ário, dos quais os enxames, quando amontoados, possam ser fa-
cilmente apanhados, galhos de sempre viva ou outras árvores
podem ser fixados ao solo, a alguns passos em frente das col-
méias, os quais desempenharão um bom papel temporariamente.
Se existirem árvores altas perto das colméias, o mestre apícola, a
menos que seja tomada alguma precaução especial, perderá mui-
to tempo tentando alojar seus enxames.
Sabendo que um novo enxame quase sempre pousa onde as
abelhas vêem uma massa de abelhas amontoadas, penso que e-
las podem ser levadas a certos pontos marcados por um velho
chapéu preto, ou mesmo uma haste de mullen, que, quando pin-
tada de preto, dificilmente será diferenciada, à distância, de um
amontoado de abelhas.
Uma meia preta de lã, ou outro tecido, presa a um galho

1 Para um ajuste apropriado, ver as Explicações das Lâminas.


L. L. Langstroth 113
sombreado, à vista das colméias, e de onde as abelhas possam
ser mais convenientemente alojadas, provavelmente poderá ser-
vir para o mesmo fim. Os enxames não são atraídos apenas por
cores ou objetos semelhantes às abelhas, mas são induzidas a
pousarem, mais rapidamente, sobre eles se eles fornecerem algo
ao qual elas possam se agarrar com facilidade, e melhor puder
suportar seu amontoado semelhante a um cacho de uva. Com
precauções apropriadas, antes da saída do primeiro enxame, o
apicultor pode educar suas favoritas a ponto de elas pousarem
freqüentemente no local por ele previamente selecionado.
O Rev. Thomas P. Hunt, de Wyoming, Pensilvânia, elaborou
um plano interessante pelo qual, diz ele, consegue evitar, sem-
pre, que um enxame deixe sua propriedade. Antes de suas col-
méias enxamearem, ele reúne um número de abelhas mortas e,
enfiando-as com uma agulha e linha, como larvas enfileiradas,
ele faz com elas uma bola com o tamanho aproximado de um o-
vo, deixando alguns fios soltos. Carregando esta "bee-bob" - a-
marrada a uma vara - em volta do seu apiário, quando as abe-
lhas estão enxameando, ou colocando-a numa posição central,
invariavelmente ele captura todo enxame!
Lembrarei com mais insistência ao apicultor inexperiente,
que quase todas as abelhas do enxame estão com espírito muito
pacífico, pois se encheram com mel antes de deixar a colméia
materna. Se o apicultor for tímido, ou sofre muito com o ferrão
da abelha, deve, por todos os meios, se precaver usando a indu-
mentária de proteção.
Um enxame novo deve ser alojado assim que ele se amontoar
em torno de sua rainha; contudo não há necessidade da precipi-
tação mostrada por alguns que, por provocar transpiração inten-
sa, aumentam as chances de serem ferroados. Estes que mos-
tram tão pouco auto controle não devem ficar surpresos se forem
ferroados pelas abelhas de outras colméias que não estão cheias
de mel mas em estado de alerta, e muito naturalmente confun-
dem o objeto ao qual demonstram sua excitação. Os enxames
que pousaram é quase certo que, a menos que o clima esteja
muito quente ou as abelhas estejam expostas ao calor ardente do
sol, não levantarão vôo antes de, pelo menos, uma ou duas ho-
ras. Todas as providências convenientes, no entanto, devem ser
tomadas para alojar o enxame, para que ele não envie batedoras
que podem seduzir as demais para uma nova colméia, ou provo-
que abelhas a saírem de outras colônias e a elas se juntarem.

114 A Colméia e a Abelha


Se minhas colméias forem usadas, a entrada pode ser aberta
totalmente, para que as abelhas possam entrar assim que possí-
vel; e uma folha pode ser fixada firmemente à tábua de pouso,
para evitar que elas sejam separadas ou sujas pela poeira; pois,
se separadas, levarão um longo tempo para entrar; e uma abelha
coberta de poeira ou sujeira corre o risco de morrer. As colméias
comuns deverão ser colocadas sobre uma folha de forma a facili-
tar a entrada mais rápida das abelhas.
Quando o galho no qual as abelhas se amontoaram pode ser
facilmente alcançado, ele pode ser sacudido, com uma mão, de
modo que as abelhas caiam suavemente numa cesta segurada
abaixo com a outra mão. A cesta deve ser aberta suficientemente
para admitir o ar livremente, mas não a ponto de permitir que as
abelhas passem pelas aberturas da trama. Em seguida elas de-
vem ser sacudidas suavemente ou derramadas sobre uma folha
em frente de sua casa nova. Se parecer que elas relutam de to-
das as maneiras a entrar, recolha suavemente algumas delas
com uma grande colher e as derrame na entrada da colméia. Ca-
so elas entrarem batendo as asas, elas estarão emitindo um avi-
so peculiar, que comunica às suas companheiras a boa nova que
elas encontraram uma casa; em pouco tempo todo o enxame en-
trará, sem dano a qualquer abelha.
Quando as abelhas forem despejadas de uma vez sobre uma
folha, elas ficam, praticamente, sem vontade de levantar vôo no-
vamente; estando carregadas com mel, seu desejo, assim como
tropas fortemente armadas, será de marchar lenta e calmamente
ao local do acampamento. As abelhas sentem mais dificuldade
em seu deslocamento, ao encontrarem um degrau, ou acidente
de superfície, e se a folha não estiver estendida sem rugas elas,
muitas vezes, ficam confusas e perdem um grande tempo até en-
contrar a entrada da colméia. Se elas demorarem muito para en-
trar na nova colméia, elas podem ser separadas com suavidade
com uma colher ou um galho frondoso, onde elas se aglomeram
em cachos sobre as folhas; elas podem ser apanhadas com a co-
lher com cuidado, e derramadas na entrada da colméia. Se elas
se amontoarem no pórtico de minha colméia, elas podem ser tra-
tadas da mesma maneira; ou então a rainha, pensando que este
lugar aberto é sua ambicionada casa pode ali montar acampa-
mento com as abelhas.
Na primeira sacudida elas caem dentro da cesta, algumas
podem levantar vôo e outras permanecerão na árvore; mas se a

L. L. Langstroth 115
rainha foi apanhada, elas formarão imediatamente uma linha de
comunicação com as da árvore. Se a rainha não foi apanhada as
abelhas se negarão a entrar na colméia ou sairão em seguida e
levantarão vôo para se juntar a ela novamente. Isto acontece, na
maioria das vezes, com enxames secundários cujas rainhas jo-
vens em vez de se portar com a gravidade de uma velha matrona
tem condições de ficar dançando no ar. Quando as abelhas se
amontoam novamente na árvore o processo de alojamento na
colméia deve ser repetido.
Se o apicultor possui uma tesoura de podar e o galho no
qual as abelhas se amontoaram é pequeno ele pode ser cortado
sem perturbá-las e elas poderão ser carregadas no galho até a fo-
lha em frente da colméia.
Se as abelhas pousarem no alto, o que torna difícil apanhá-
las, a cesta pode ser presa a um sarrafo, elevada diretamente em
baixo das abelhas e com um solavanco a maior parte do enxame
poderá ser capturado. Se a cesta não puder ser elevada facilmen-
te até elas, ela poderá ser levada até o amontoado e o apicultor,
depois de sacudir as abelhas dentro dela, pode descer a cesta a-
través de uma corda, sem agitação, até o assistente que aguarda.
Quando uma colônia pousa no tronco de uma árvore, ou so-
bre qualquer outra coisa da qual elas não podem ser facilmente
apanhadas dentro de uma cesta, amarrar um galho frondoso so-
bre elas, sem perturbá-las e, com um pouco de fumaça, compelir
as abelhas a subir no galho. Se o lugar for inacessível, pode-se
fazê-las entrar numa cesta escura, invertida e posicionada bem
acima da massa de abelhas. Uma vez alojei um enxame do vizi-
nho que tinha pousado numa moita, na copa de uma árvore ina-
cessível, jogando água sobre elas, para compeli-las a, gradual-
mente, subir na árvore e entrar numa cesta elevada. Se um local
apropriado para pouso não for fornecido, as dificuldades em alo-
jar um enxame são, muitas vezes, maiores do que seu valor.
Se dois enxames se amontoarem próximos, será vantajoso
mantê-los juntos, caso se possa lhes dar espaço abundante para
armazenamento de mel em excesso, como nas minhas colméias.
Grandes quantidades de mel são normalmente conseguidas com
estes enxames, se eles saírem cedo e a estação for favorável. Se
for intenção separá-los, tomar duas colméias, colocar uma por-
ção das abelhas em cada uma e borrifar água suficiente em am-
bos antes e depois de sacudi-las do cesto para impedi-las de le-
vantar vôo a fim de novamente se unirem. Se possível fornecer
116 A Colméia e a Abelha
uma rainha para cada colônia. Se ambas as rainhas entrarem na
mesma colméia uma será morta imediatamente pela outra. As
abelhas na colméia sem rainha começarão a sair assim que se
certificarem de sua situação. Prevenir isto, encerrando-as; forne-
cer a elas uma rainha, se você dispuser de uma; ou fornecer uma
realeira operculada, quase madura, retirada de outra colméia.
Por razões que serão fornecidas no próximo capítulo, não convem
compelir as abelhas a criar uma rainha a partir de cria de operá-
ria. Se o apicultor que usa colméias comuns não conseguir for-
necer uma rainha madura para cada colméia, a colônia sem rai-
nha voltará para a antiga família.
Se ao alojar um enxame, o apicultor desejar apanhar a rai-
nha, as abelhas podem ser despejadas da cesta a cinqüenta cen-
tímetros ou mais da colméia, e um olho esperto normalmente a
verá passar sobre a folha. Se as abelhas relutam em avançar, al-
gumas devem ser direcionadas para a entrada, tomando cuidado
para escová-las na direção da colméia, quando elas avançarão
numa massa tão densa a ponto de não se conseguir ver a rainha
entrar. Um olho experimentado detecta prontamente sua cor e
forma peculiar. Ela pode ser apanhada sem perigo, uma vez que
ela nunca ferroa, a não ser quando envolvida em luta com outra
rainha.
É interessante testemunhar a rapidez com que a rainha se
desloca para a colméia assim que identifica a boa nova de que
sua colônia encontrou uma moradia. Célere ela segue na direção
da massa em movimento e suas longas pernas permitem que ela
ande, facilmente, mais rápido na corrida pela posse, em relação
a todas que tentam seguí-la. Outras abelhas se demoram em vol-
ta da entrada, ou voam no ar, ou se juntam em aglomerações
demoradas sobre a folha; mas a mãe fértil, com um ar de consci-
ente importância, marcha na frente e, sem olhar nem para a di-
reita nem para a esquerda, desliza colméia adentro, com a mes-
ma presteza e pressa que caracteriza uma abelha ao retornar
com carga completa de um campo rico em néctar.
As pessoas não acostumadas com as abelhas, podem pensar
que ao dizer "juntá-las" e "derramá-las" com tanta frieza eu este-
ja dando instruções de como medir vários bushels de trigo; a ex-
periência os convencerá imediatamente, que a tranqüilidade com
que elas podem ser manejadas não é de todo exagerada.
O velho estilo de alojar enxames subindo em árvores e cor-
tando valiosos galhos deve ser totalmente abandonado; nem deve
L. L. Langstroth 117
a colméia ser colocada sobre as abelhas a fim de não esmagar
nenhuma delas, ou por em risco a vida da rainha. Um apicultor
experto, com sua cesta-enxame, pode muito bem alojar seis ou
mais enxames, no mesmo tempo exigido, pelo método antigo, pa-
ra alojar um enxame; nos grandes apiários manejados com pro-
grama de enxameação, onde um bom número de enxames sai
num mesmo dia, e existe o risco constante de sua mistura, este é
um assunto que merece atenção.
O Dr. Scudamore, um médico inglês, que escreveu um trata-
do sobre a Formação de Enxames Artificiais, diz ter presenciado
uma vez "cerca de dez enxames saindo ao mesmo tempo, pousar
e se misturar, formando, literalmente, um encontro monstruoso.
Citam-se casos de um número até maior de enxames se amonto-
ar. Um venerável pastor do oeste de Massachusetts disse-me que
no apiário de um dos seus paroquianos, uma vez, cinco enxames
se amontoaram. Como ele não tinha nenhuma colméia em os
pudesse alojar, eles foram postos dentro de uma grande caixa,
rudemente pregada e montada. Quando inspecionada no Outo-
no, ficou evidente que os cinco enxames viveram juntos como co-
lônias independentes. Quatro começaram o seu trabalho, cada
um junto de um canto da caixa e o quinto no centro; havia um
intervalo nítido separando o trabalho das diferentes colônias. No
"My Bee Book" de Cotton, existe uma figura ilustrando uma se-
paração similar de duas colônias numa colméia. Alojando, numa
grande caixa, enxames que tenham pousado lado a lado, e os
mantendo sem perturbação até a manhã seguinte eles serão en-
contrados, provavelmente, em amontoados separados, e podem
ser colocados, facilmente, em colméias diferentes.
Durante a enxameação as abelhas produzem um som singu-
lar de silvo ou sussurro, que faz, muitas vezes, outras colméias
do apiário enxamear. Esta é uma ocorrência freqüente com famí-
lias desanimadas ou insatisfeitas e ocasionalmente, ao ouvir este
som, testemunhei enxameações cujas colméias maternas tinham
apenas rainhas não maduras. Este som peculiar de enxameação
pode ser produzido apenas pelo grande número de abelhas vo-
ando ociosamente, em tais ocasiões, de um lado para outro no
ar; mas parece-me que difere em suas características, uma vez
que ele age, com certeza, diferentemente sobre as abelhas em re-
lação ao som produzido pelo vôo normal das operárias atarefa-
das, mesmo em grande número. Minhas observações sobre este
assunto têm mostrado estarem errados os apicultores que negam
às abelhas o sentido da audição. Este sentido, pelo contrário, pa-

118 A Colméia e a Abelha


rece ser muito acurado.
Se o apicultor teme que outro enxame saia para se unir com
o que ele está alojando, deve confinar a rainha com meus blocos
móveis; ou envolver, imediatamente, a colméia do enxame com
uma folha. Se a nova colônia for sacudida sobre a folha de en-
xame, ele deve cobri-lo da vista dos outros enxames, com outra
folha.
A colméia com o novo enxame deve ser instalada no suporte
permanente assim que as abelhas tenham entrado; ou então as
batedoras, ao retornarem, encontrarão as abelhas e as seduzirão
a voarem para a floresta. Existe um perigo maior do que este, se
as abelhas permanecerem muito tempo na árvore antes de serem
alojadas. Tenho constatado, quase invariavelmente, que enxames
que abandonam uma colméia adequada pela floresta, foram alo-
jados em local próximo do qual eles se amontoaram, tendo o api-
cultor intenção de removê-los ao entardecer ou no início da ma-
nhã. As abelhas que enxameiam no início do dia começam a vas-
culhar os campos, geralmente poucas horas depois de alojadas,
ou mesmo dentro de alguns minutos, se tiverem favos vazios; as-
sim, levando a colméia para seu suporte permanente logo que as
abelhas tenham entrado poucas abelhas serão perdidas. Se for
desejado, por qualquer razão, remover a colméia antes que todas
as abelhas tenham entrado, a folha, sobre a qual as abelhas se
encontram, pode ser dobrada e carregada junto com toda a colô-
nia para o novo suporte, onde as abelhas poderão entrar a seu
tempo.
Por vezes os enxames aparecem quando não há colméias a-
dequadas disponíveis para recebê-los. Em tal emergência, alojá-
las em qualquer caixa velha, barril ou recipiente, e colocá-las,
com adequada proteção do sol, onde a sua nova colméia ficará;
quando a colméia estiver pronta, elas poderão, por um movimen-
to rápido e repentino, serem derrubadas da caixa para a folha de
enxame.
Tenho me esforçado, até mesmo com o risco de ser minucio-
so demais, para fornecer instruções a fim de qualificar um nova-
to a alojar um enxame de abelhas, em qualquer circunstância;
sabendo que, embora necessárias, as informações adequadas
podem ser encontradas freqüentemente nos melhores tratados
apícolas. Instruções vagas e incompletas falham no momento e-
xato em que o inexperiente tenta colocá-las em prática.

L. L. Langstroth 119
Enxames naturais podem, inquestionavelmente, se tornar al-
tamente rentáveis; e como eles são os meios mais óbvios para
multiplicar as colônias e exigem conhecimento e habilidade mí-
nima, eles foram, indubitavelmente, o método favorito de muitos
apicultores, por muitos anos, pelo menos. Devo, por esta razão,
mostrar como ele pode ser conduzido com rentabilidade maior do
que nunca, com o uso de minhas colméias; onde a maioria das
dificuldades mais embaraçosas é, efetivamente, superada.
1. A objeção mais séria a ter esperança em enxames naturais, é o irritante
fato que a maioria das colméias de enxameação são construídas de tal
forma que, embora as abelhas se neguem totalmente a enxamear, elas
não conseguem fornecer acomodações apropriadas, aos seus ocupan-
tes amontoados; para armazenar mel. Em tais circunstâncias, hordas
de inúteis consumidores abundam, muitas vezes por meses, do lado de
fora das colméias, para grande prejuízo de seus desapontados proprie-
tários. Nas colméias de quadros móveis, uma abundância de espaço
para armazenamento pode sempre ser fornecido para as abelhas; as-
sim que, se indispostas a enxamear, elas tem melgueiras facilmente
acessíveis, que são duplamente atrativas pelos favos vazios nos quais
podem armazenar qualquer quantidade de mel que elas consigam reco-
lher.
2. Outra objeção à enxameação natural surge do fato desanimador que as
abelhas são propensas a enxamear tão seguidamente a ponto de des-
truir o valor tanto da colméia materna como dos enxames secundários.
Apicultores experientes evitam esta dificuldade, fazendo uma boa colô-
nia com dois enxames secundários e devolvendo para a colméia ma-
terna todos os enxames depois do segundo e isto mesmo que a esta-
ção esteja bem adiantada. Tais operações consomem, muitas vezes,
mais tempo do que valem. Removendo todas as realeiras, menos uma,
depois que o primeiro enxame saiu, a enxameação secundária pode
ser evitada nas minhas colméias; removendo todas menos duas, pode-
se permitir que saia o segundo enxame e ainda prevenir a enxameação
ulterior. Enxames secundários podem, em muitas circunstâncias, se re-
petir mais e mais, antes de as abelhas permitirem que uma princesa
destrua as demais. Desta forma, uma grande parte do período de cole-
ta é perdida; pois parece que as abelhas não têm vontade de trabalhar
com sua costumeira energia, enquanto as pretensões de várias rainhas
1
rivais não estiverem definidas .

1 Antes de criar a colméia de quadros móveis, evitei, até onde possível, os infor-
túnios da enxameação secundária, com o seguinte plano: o enxame secundário,
assim que alojado, era colocado em cima da colméia materna, ou em posição pa-
recida, para que as entradas das colméias, velha e nova, ficassem próximas e vol-
tadas para o mesmo lado. Caso saísse um terceiro enxame, ele era, ao entarde-
cer, reunido com o primeiro enxame secundário, colocando a colméia ou caixa
contendo este enxame, sobre uma folha e sacudindo o terceiro enxame em frente
à sua entrada. Em três ou quatro dias - tempo suficiente para que as jovens
120 A Colméia e a Abelha
3. Outra objeção realmente séria à enxameação natural, como a praticada
com colméias comuns é que não é possível criar famílias vigorosas
com enxames tardios ou pequenos. O tempo e o dinheiro despendidos
na alimentação de pequenas colônias são normalmente perdidos; uma
vez que grande número delas não sobrevive ao Inverno, e muitas das
que conseguem, ficam tão debilitadas que são de pouco valor. Caso e-
las se salvem da pilhagem de outras colméias, ou da destruição pela
traça, elas raramente se fortalecem durante a estação a ponto de en-
xamear, e muitas vezes, a menos que a alimentação seja repetida na
próxima estação, elas finalmente perecem. Sem dúvida, muitos dos
meus leitores, a partir de sua própria experiência, podem endossar ca-
da palavra destas anotações; concluírão que a tentativa de multiplicar
as colônias, cuidando e alimentando pequenos enxames em colméias
comuns resulta, normalmente, em nada mais do que perda e aborreci-
mento. Quanto mais colméias deste tipo o homem tiver, mais pobre se-
rá; por sua fraqueza, elas são, constantemente, uma tentação para su-
as colméias fortes seguirem um mau caminho; ate que por fim, elas
preferem, até onde puderem, viver de roubo, em vez de como uma in-
dústria honesta; e mesmo que as colônias fracas escapem de serem
saqueadas, elas muitas vezes se tornam berçários de criação e supri-
mento de traças, para infestar o seu apiário.
Existem instruções adequadas, no capítulo sobre Alimenta-
ção das Abelhas, de como fazer crescer os menores enxames se-
cundários até se tornarem famílias vigorosas e como reforçar as
colônias que estavam fracas na Primavera.
4. Como, tanto as colméias maternas como os enxames secundários,
perdem, muito freqüentemente, suas jovens rainhas depois da enxa-
meação, a colméia na qual este infortúnio possa ser remediado, será
de grande utilidade para aqueles que praticam a enxameação natural.
Um apicultor experiente me disse, certa vez, que ele poderia utilizar,
com este propósito, pelo menos, uma colméia de quadros móveis em
seu apiário,mesmo que ela não tivesse nenhuma vantagem em outros
quesitos.
5. Nas colméias comuns, pouco pode ser feito para evitar a traça da cera,
quando ela conseguiu se instalar; contudo, na minha, ela pode ser fa-
cilmente eliminada. (Ver anotações sobre Traça da Cera).
6. Nas colméias comuns é difícil remover uma rainha velha quando sua
fertilidade está comprometida; enquanto que na minha isto pode ser fei-
to facilmente; e um apicultor pode ter sempre rainhas com todo o vigor
de sua força reprodutiva.

princesas fossem fecundadas - as abelhas dos enxames secundários eram reuni-


das, da mesma maneira, à colméia materna. Uma rainha poderá matar imedia-
tamente a outra e na manhã seguinte os enxames reunidos por estarem num es-
trado familiar, poderão trabalhar bem como se nunca tivessem sido separados. O
favo que eles tiverem construído na nova colméia será usado nas melgueiras.
L. L. Langstroth 121
Apicultores experientes, Verão, a partir destas anotações,
que com as colméias de quadros móveis a enxameação natural
pode ser conduzida com maior certeza do que nunca antes e
muitas das perplexidades desencorajadorascom as quais eles
conviveram até agora, serão efetivamente eliminadas.

122 A Colméia e a Abelha


CAPÍTULO X

E
ENNX
XAAM
MEEA
AÇÇÃ
ÃOOA
ARRTTIIFFIIC
CIIA
ALL

Os incontáveis esforços feitos por mais de cinqüenta anos


para não precisar da enxameação natural mostra a ansiedade
dos apicultores em encontrar um modo mais efetivo para aumen-
tar o número de suas colônias.
Embora, com controle dos favos, as abelhas possam ser mul-
tiplicadas pela enxameação natural, com rapidez e certeza até
agora inalcançáveis, ainda existem dificuldades inerentes a este
modo de ampliar, e impossíveis de serem superadas com uma
colméia qualquer. Antes de descrever os vários métodos propos-
tos para aumentar o número de colônias por meios artificiais, es-
tas dificuldades serão enumeradas brevemente, para que qual-
quer apicultor possa decidir qual a sua melhor forma para mul-
tiplicar as colônias.
1. Os inúmeros enxames perdidos a cada ano são um argumento forte pa-
ra não lançar mão da enxameação natural.
Um notável apicultor estimou que, considerando todos que
criam abelhas, um quarto dos melhores enxames são perdidos a
cada estação. Enquanto alguns apicultores raramente perdem
enxames, a maioria sofre sérias perdas pela partida de suas abe-
lhas para as florestas; até mesmo para o mais cuidadoso é quase
impossível evitar tais ocorrências, se a enxameação não for con-
trolada.
2. A enxameação natural é desaconselhada, tendo em vista o tempo e
trabalho que ela exige.
O apiário deve ser cuidado atentamente durante todo o perí-
odo da enxameação; se esta tarefa é confiada a crianças desaten-
ciosas, ou adultos negligentes, muitos enxames serão perdidos.
Caso se tenha muitas colônias, uma pessoa competente deverá
ficar a postos, no auge do período, para atender as abelhas. Nem
mesmo o Sábado pode ser observado como um dia de descanso;
o apicultor é, muitas vezes, obrigado a usá-lo para o árduo tra-

L. L. Langstroth 123
balho entre suas abelhas. É tão comum alojar suas abelhas nes-
te dia como é cuidar de seus outros animais, a obrigação deste
trabalho dissuade muitos de tentar a apicultura.
Muitos comerciantes, mecânicos e outros profissionais que
querem criar abelhas, não se dispõem a manejá-las durante o
período da enxameação e, assim, muitas vezes, deixam de se en-
volver numa ocupação intensamente fascinante para um espírito
curioso1. Todo aquele que despende parte de seu tempo livre es-
tudando os maravilhosos instintos das abelhas, nunca se quei-
xará dizendo que não encontra nada para encher seu tempo fora
de sua profissão ou para satisfação de seus desejos. As abelhas
podem ser criadas com grande proveito, mesmo em grandes ci-
dades, e estes que estão privados da atividade rural podem ainda
ouvir o calmo zumbido e colher anualmente seu delicioso néctar.
Se o apicultor tiver de ficar em casa durante todo o período
da enxameação será impossível, para ele, atender suas abelhas.
O fazendeiro, eventualmente, poderá ser interrompido em sua ta-
refa de preparar o feno pelo clamor de que suas abelhas estão
enxameando; enquanto ele as estiver alojando, talvez venha a
chuva e o prejuízo com seu feno será naior do que o ganho com
as abelhas. Assim, criar algumas abelhas, em vez de se tornar
uma fonte de lucro, pode se provar um luxo caro; num grande
apiário as dificuldades se tornam muitas vezes seriamente maio-
res. Se, depois de uma sucessão de dias desfavoráveis para a en-
xameação, o clima se tornar agradável aparecem, muitas vezes,
vários enxames de uma só vez e se amontoam próximos; não
poucas vezes no meio do ruído e da confusão outros enxames le-
vantam vôo e são perdidos. Vi um mestre apícola, em tais cir-
cunstâncias, tão perplexo e exausto que cheguei a pensar que ele
nunca tinha visto abelha.
3. A multiplicação das abelhas pela enxameação natural em nosso país
frustra, quase totalmente, a instalação de grandes apiários.
O período da enxameação é, para a maioria dos apicultores,
o período mais atarefado do ano e, se eles mantem um grande
número de colméias de enxameação, eles devem dedicar prati-
camente todo o tempo, por várias semanas, à sua supervisão; e-
les podem ser obrigados a contratar mão de obra adicional e isto

1 "A Vida da Abelha", diz o Prof. Siebold, "não serve apenas para fornecer cera,

mel e hidromel ao homem, mas é uma ligação extremamente valiosa na grande e


altamente variada composição da cadeia da existência animal."
124 A Colméia e a Abelha
em épocas de mão de obra cara.
Manter algumas colônias em colméias de enxameação, cus-
ta, por vezes, mais do que elas valem, já a supervisão de um
grande número só será rentável para as pessoas que podem de-
dicar praticamente todos os meses do Verão para suas abelhas.
O número destas pessoas, neste país, é ser muito pequeno; e po-
risso existem alguns que fazem da apicultura nada mais do que
uma atividade secundária.
4. Uma séria objeção ao uso da enxameação natural, é o fato desencora-
jador que as abelhas, muitas vezes, se negam totalmente a enxamear;
assim o apicultor não pode multiplicar suas colônias com certeza e ra-
pidez, mesmo que ele esteja em situação favorável para conduzir a a-
picultura num porte extensivo.
Muitos dos mais dedicados apicultores têm menos colônias
do que tinham alguns anos atrás, contudo eles pensam em au-
mentá-las até onde suas forças permitam. Alguns apicultores in-
teligentes acreditam que existe, nos estados do norte e do centro,
a metade das colméias que existia vinte anos atrás; muitos deles
teriam abandonado a apicultura se eles não vissem nela uma
fonte de distração, mais do que de retorno financeiro; enquanto
outros não hesitam em afirmar que muito mais dinheiro foi per-
dido, nos últimos anos, com colméias patenteadas, do que aque-
les que as usaram, conseguiram obter de suas abelhas.
É muito fácil provar1, quase tão simples quanto um passeio

1 Os cálculos que seguem, resultados possíveis em apicultura, retirados do "Syd-


serff´s Treaties on Bees", publicado na Inglaterra, 1792, é uma gema perfeita des-
te tipo:
"Suponha um enxame de abelhas inicial pelo custo de 10s. 6d., do qual nem as
abelhas nem os enxames serão retirados, mas que enxameie uma vez por ano" -
as abelhas serão desobedientes, sem dúvida, se ousarem fazer algo diferente! -
"qual será o resultado em catorze anos, e qual o lucro, se cada enxame for vendi-
do por 10s 6d.?
Anos Colméias Lucro
£ s. d.
1 1 0 0 0
2 2 1 1 0
3 4 2 2 0
4 8 4 4 0
** ** * * *
14 8192 4300 16 0
"N.B. - Deduzir 10s. 6d., o custo da primeira colméia, e o restante será o lucro lí-
quido; supondo que o segundo enxame pagará as colméias, trabalhos, etc.". A
simplicidade com que este escritor, que parece ter tido tanta fé em suas abelhas
L. L. Langstroth 125
imaginário pelas minas de ouro da Austrália e da Califórnia. É só
comprar uma colméia patenteada e, se ela cumprir as promessas
do inventor otimista, a fortuna terá se concretizado em alguns
anos; mas o desapontamento que advem de as abelhas não que-
rerem enxamear é tal que se a colméia pudesse remediar todas
as outras dificuldades, ela ainda falharia em atender objetivos
razoáveis do experiente apicultor. Se todo enxame de abelhas
pudesse render vinte dólares por ano, o apicultor não consegui-
ria multiplicar suas famílias pela enxameação natural, para a-
tender a demanda; pois estaria totalmente dependente do capri-
cho de suas abelhas, ou das leis naturais que controlam a en-
xameação.
Todo apicultor prático deve estar consciente da incerteza da
enxameação natural. Em circunstância alguma ele pode confiar
cegamente nela. Enquanto algumas famílias enxameiam regu-
larmente e repetidamente, outras, igualmente fortes em número
e bem providas de reservas, se negam a enxamear, mesmo em
estações propícias sob todos os aspectos. Ao serem examinadas,
verifica-se que tais colônias não derem nenhum passo para a
criação de rainha. Em alguns casos, as asas da velha mãe estão
defeituosas, enquanto em outras, parece que ela prefere a rique-
za da velha colméia aos riscos inerentes à formação de uma nova
colônia. Freqüentemente acontece que, quando foram tomados
todos os preparativos para a enxameação, o clima se apresenta
tão impróprio que a jovem princesa atinge a maturidade antes da
rainha sair e as demais serem destruídas. Em tais circunstân-
cias, a enxameação, para aquela estação, é quase certo que não
ocorrerá. As jovens princesas são também, algumas vezes, des-
truídas, por causa de uma repentina e, talvez, apenas temporária
suspensão da coleta de mel; as abelhas raramente formam colô-
nias, mesmo que seus preparativos tenham sido todos concluí-
dos, a menos que a floração esteja rendendo um suprimento a-
bundante de mel. Por estas e outras razões, que minhas limita-
ções não permitem enumerar, até agora foi impossível, no clima
instável dos nossos estados do norte, para todos os mais experi-
entes e enérgicos apicultores multiplicar, pela enxameação natu-

quanto na doutrina que "os números não enganam", encerra seus cálculos ao fi-
nal de catorze anos, é realmente hilariante. Nenhum apicultor, num caminho de
tanta prosperidade, poderia pensar em parar após vinte e um anos, tempo em
que seus enxames terão aumentado para mais de um milhão, quando, provavel-
mente, ele estaria disposto a encerrar o seu negócio, vendendo-o por 2,75 milhões
de dólares! Respeitosamente convidada a atenção de todos os vendedores de col-
méias enganosas para este antigo exemplo da arte de ludibriar.
126 A Colméia e a Abelha
ral, suas colônias com rapidez satisfatória.
As numerosas dificuldades inerentes à enxameação natural
têm, por anos, dirigido a atenção dos criadores para a concepção
de um método um pouco mais confiável de aumentar suas col-
méias1.
O antigo método de aumento artificial parece ter tido pouco
sucesso; mas por volta do final do século passado, surgiu um
novo interesse pelo assunto, graças à descoberta de Schirach,
um pastor alemão, do fato, antes conhecido apenas por alguns,
que as abelhas podiam criar uma rainha a partir da cria de ope-
rária. Por falta, no entanto, de familiaridade com alguns princí-
pios fundamentais da economia das abelhas, seus esforços rece-
beram pouco encorajamento.
Huber, depois de suas maravilhosas descobertas sobre fisio-
logia da abelha, sentiu necessidade de um método de multiplica-
ção de colônias, mais confiável do que a multiplicação pela en-
xameação natural. Sua colméia consistia de doze quadros, cada
um com trinta e dois milímetros de largura, ligados entre si por
dobradiças, assim que cada um podia ser aberto ou fechado
quando desejado, como as folhas de um livro. Ele recomenda a
formação de enxames artificiais pela divisão de uma destas col-
méias e juntando seis quadros vazios a cada metade. Depois de
eu ter usado suas colméias por anos, conclui que elas podem ser
úteis somente para um hábil e destemido apicultor. As abelhas
ligam os quadros com própolis, de forma que eles não podem ser
facilmente abertos sem afetar os favos e despertar a ira das abe-
lhas; ou fechados, sem risco constante de esmagá-las. Huber
nunca falou ter multiplicado extensivamente suas colônias com
sua colméia e, embora elas tenham sido utilizadas por mais de
sessenta anos, elas nunca foram empregadas com sucesso para
tal propósito. Se ele tivesse elaborado um plano para dar a seus

1 O Dr. Scudamore cita Columella, que por volta de meados do primeiro século da

era cristã escreveu doze livros sobre criação de gado - "De re rustica" - como ten-
do fornecido instruções para a produção de enxames artificiais. Ainda que ele en-
sinasse como fornecer uma rainha a uma colônia sem rainha e como transferir
favo com cria, com abelhas maduras, de uma colméia forte para uma fraca, pare-
ce que ele não formou colônias inteiramente novas por processo artificial algum.
Seu tratado sobre apicultura mostra não só que ele conhecia bem os escritores
anteriores sobre o assunto, mas também que ele era um apicultor prático de su-
cesso. Seus preceitos, com poucas exceções, são realmente admiráveis e provam
que, em sua época, a apicultura popular devia ser muito mais avançada do que é
agora.
L. L. Langstroth 127
quadros o desempenho desejado, suspendendo-os em encaixes,
em vez de prendê-los como as folhas de um livro, ele teria deixa-
do pouco espaço para melhorias subseqüentes.
"Colméias divisíveis", de vários tipos, têm sido usadas neste
país. Inicialmente pareciam ser dotadas de todos os elementos
para o sucesso; foi somente depois de prolongados experimentos
que tive condições de averiguar que, mesmo modificadas, tais
colméias são, praticamente todas, imprestáveis para a enxamea-
ção artificial.
Uma das leis da colméia diz que as abelhas que têm uma ra-
inha não madura, raramente constroem alvéolos para operárias,
constroem apenas os destinados para a estocagem de mel que
são muito grandes para a criação de operárias. Antes de ler aten-
tamente o manuscrito do Mr. Wagner, traduzido por Dzierzon,
pensava que eu era o único observador que tinha sido alertado
para o significado deste fato notável na enxameação artificial.
Pode parecer, inicialmente, inexplicável que as abelhas possam
construir apenas favos não adequados para a criação quando
sua jovem rainha necessitará, muito em breve, de alvéolos de o-
perárias para seus ovos; mas deve ser lembrado que, nestas oca-
siões, elas estão em condição "anormal" ou não natural. Na natu-
reza elas raramente enxameiam até que suas colméias estejam
cheias de favo; ou, se o fizerem, o número de abelhas ficará tão
reduzido que raramente elas terão condições de retomar a cons-
trução de favo até que a jovem princesa tenha emergido.
A determinação das abelhas que não têm rainha madura de
construir favos apenas para o armazenamento de mel e não a-
propriados para a criação de operárias, mostra muito claramente
a insensatez de tentar multiplicar as colônias com colméias divi-
síveis. Mesmo que o apicultor tenha sucesso na divisão da colô-
nia, isto é, que a parte sem rainha trabalhe para repor sua per-
da, se esta metade tiver abelhas suficientes para construir favos
novos para qualquer propósito, construirão favos apenas para o
armazenamento de mel; usarão para a criação a metade da col-
méia oriunda da divisão e que contem favos velhos. No ano se-
guinte, esta colméia é dividida, uma das metades contem quase
toda a cria, enquanto a outra, tendo a maioria de seus favos pre-
parados apenas para o armazenamento de mel, ou criação de
zangões, será um fracasso total.
Mesmo com o uso da colméia de Huber, a proposta de multi-
plicar as colônias pela divisão da colméia inteira em duas partes
128 A Colméia e a Abelha
e acrescentar outra metade vazia a cada metade, exigirá um grau
de habilidade e prática, muito acima do que se pode esperar do
apicultor normal. As mesmas observações são válidas para todas
as colméias de quadros ou barras que não possibilitam suficiente
permuta entre as partes às quais os quadros estão ligados; como
as abelhas constroem normalmente seus favos levemente ondu-
lados, e alguns mais grossos do que outros, serão encontradas
dificuldades práticas, quase insuperáveis, para se fazer as ne-
cessárias trocas de favo em tais colméias.
Concluí-se que o método de multiplicar colônias por colméias
divisíveis comuns é muito mais trabalhoso e incerto do que pela
enxameação natural. Todo apicultor prático que tentou usá-lo fi-
cou feliz ao abandoná-lo e retornar ao modo antigo.
Alguns apicultores tentaram multiplicar suas colônias deslo-
cando uma família forte, enquanto milhares de seus habitantes
estão no campo para um novo cavalete e colocando uma colméia
vazia em seu lugar, com um pedaço de favo de cria apropriada
para a criação de rainha. Este método é até pior do que o acima
descrito. Naquele, metade da colméia divisível ficou cheia de favo
com cria, enquanto neste a colméia vazia ficou com quase nada e
tudo que for construído antes de a rainha emergir será de tama-
nho impróprio para a criação de operárias. A parte sem rainha
da colméia divisível pode também conter uma rainha jovem qua-
se madura, de modo que a construção de favos grandes cessará
imediatamente; assim que a princesa emergir as abelhas come-
çarão a construir favos de operárias1. Quando uma nova colônia
é formada pela divisão de colméia velha, a parte sem rainha tem
milhares de alvéolos com cria e ovos, e abelhas jovens estarão
emergindo por pelo menos três semanas: ao final deste tempo, a
jovem rainha estará pondo ovos normalmente, assim que haverá
um intervalo de não mais do que três semanas, durante o qual a
colônia não estará recebendo acréscimo. Mas quando um novo
enxame é formado, pelo último método descrito, nenhum ovo se-

1 Ao criar enxames artificiais deslocando uma colméia completa, minhas abelhas


têm construído favos com quase quatro polegadas de grossura; e tem, posterior-
mente, acrescentado na parte inferior alvéolos de operárias para a postura da jo-
vem rainha. As abelhas sem rainha fazem uma construção grosseira tão unifor-
me, ou favo de zangão, que muitas vezes um relance apenas sobre os favos de
uma nova colônia, mostrará se ela está sem rainha, ou que, tendo estado, acabou
de criar uma nova rainha. Não é necessário que a rainha tenha começado a botar
ovos para induzir sua colônia a construir alvéolos de operárias; conheci um en-
xame forte com uma princesa quase encher sua colméia com belos favos de ope-
rárias antes de ser depositado o primeiro ovo nos alvéolos.
L. L. Langstroth 129
rá posto por quase três semanas, e nenhuma abelhas emergirá
por quase seis semanas. Durante todo este tempo, a colônia de-
crescerá rapidamente1; e quando a descendência da nova rainha
começar a amadurecer, a nova colméia terá tão poucas abelhas,
a ponto de, seguidamente, não ter valor algum, mesmo que seus
favos sejam da melhor construção.
Depois de testar intensamente esta última proposta de en-
xameação artificial, conclui que ela não tem o mínimo valor; e
como este é o método que os apicultores tem tentado normal-
mente não é estranho que, até agora, eles tenham condenado ve-
ementemente a enxameação artificial.
Outro método de enxameação artificial tem sido zelosamente
defendido, que parece exigir o mínimo de trabalho e habilidade e
pode ser praticado em qualquer lugar, desde que se consiga exe-
cutá-lo. Algumas colméias são conectadas através de buracos a
fim de permitir que as abelhas de qualquer uma possam circular
pelas demais. As abelhas, nesta configuração, se colonizarão a si
mesmas, e é certo que no tempo apropriado, um enxame sim-
ples, por sua própria decisão, formará famílias independentes,
cada uma possuindo sua própria rainha, e todas vivendo em
harmonia perfeita.
Este método, maravilhoso na teoria, repetidamente tentado
com várias e engenhosas modificações, se mostrou em todas as
ocasiões um fracasso total. Se for permitido que as abelhas pas-
sem de uma colméia para a outra, elas limitarão suas operações
de criação quase exclusivamente a um simples compartimento,
se ele for de tamanho normal, e usarão os outros quase exclusi-
vamente para estocar mel. Este é, quase invariavelmente, o caso
se for acrescentado espaço adicional por caixas colaterais ou a-
penas de um lado; a rainha dificilmente entrará nestes compar-
timentos com o propósito de botar ovos; se, no entanto, a nova
colméia é colocada diretamente em baixo daquela em que o en-
xame está alojado, e as passagens forem satisfatórias, é quase
certo que ela descerá e porá seus ovos nos favos novos assim que
eles forem iniciados pelas abelhas. Ficando a colméia superior
quase totalmente abandonada por ela, e assim que a cria emer-

1 Todo apicultor observador deve ter constatado quão rapidamente diminui o


número de abelhas de um grande enxame, durante as três primeiras semanas
depois de ele ter sido alojado na colméia. A mortandade de abelhas, durante o pi-
co da estação de trabalho, é tão grande que, muitas vezes, em tempo menor do
que as três semanas ele fica com apenas a metade de seu número original.
130 A Colméia e a Abelha
gir, as abelhas enchem os alvéolos com mel, seu instinto as im-
pele a manter seus estoques de mel, se possível, acima dos al-
véolos da cria. Enquanto as abelhas tiverem espaço em abun-
dância no ninho inferior, elas muito raramente enxameiam, mas
se for nas laterais de sua colméia, ou acima dela, elas muitas ve-
zes enxameiam antes de tomarem posse dele. Em nenhum des-
tes casos, no entanto, elas formam colônias independentes, se
deixadas por elas mesmas.
O apicultor habilidoso pode, sem dúvida, compelir suas abe-
lhas a criar uma colônia artificial, separando-a da colméia prin-
cipal, com uma lâmina, um compartimento que contenha cria;
mas, a menos que suas colméias permitam inspeções totais, sem
o que ele nunca saberá sua condição exata, ele mais provavel-
mente fracassará do que será bem sucedido. Esta teoria plausí-
vel se reduz, assim, a uma prática empírica e precária, exige
mais habilidade, cuidado, trabalho e tempo, do que o necessário
para manejar as colméias de enxameação normais.
O fracasso tanto dos apicultores experientes como dos inex-
perientes, nas diversas tentativas de aumentar o número de co-
lônias através da enxameação, levou a maioria a defender o uso
geral das colméias não enxameadoras. Em tais colméias, colhei-
tas de mel realmente grandes são muitas vezes conseguidas com
colônias de abelhas fortes; mas é evidente que se a formação de
novas colônias for desencorajada genericamente, o inseto será
exterminado rapidamente.
Embora a colméia de quadros móveis possa ser mais efetiva
para prevenir a enxameação do que qualquer outra com a qual
tenho me familiarizado, existem ainda algumas objeções à pro-
posta de não enxameação que não podem ser removidas. Sem
mencionar e não aumentar o número de famílias, as abelhas
trabalham normalmente com menos vigor depois de serem man-
tidas em colméias não enxameadoras por várias estações. Isto
será óbvio a qualquer um que comparar a super-abundante e-
nergia de um novo enxame, com o trabalho mais lento até mes-
mo de uma família mais forte que não enxameou.
Uma rainha velha, cuja fertilidade se tornou debilitada, pode
ser facilmente apanhada e removida de uma colméia de quadros
móveis; mas quando são usadas colméias em que isto não pode
ser feito, o apiário terá rainhas que já passaram seu apogeu e al-
gumas que podem morrer quando não existirem ovos dos quais
podem ser criadas outras.
L. L. Langstroth 131
Em nenhum assunto o autor deste trabalho experimentou
mais intensamente do que na enxameação artificial; e os apicul-
tores aos quais este capítulo possa, de início, parecer desneces-
sariamente difuso, constatarão que ele contem muitos princípios
fundamentais, os quais, em qualquer outra situação, deveriam
exigiriam muito mais detalhes.
Antes de detalhar os vários métodos da enxameação artificial
que podem ser praticados na colméia de quadros móveis, quero
descrever um que pode ser usado com quase todas as colméias,
por estes que tem suficiente segurança para manejar abelhas.
Durante a estação da enxameação natural, aquilo que cha-
mo enxame forçado, pode ser obtido de uma família populosa1,
pelo seguinte processo. Escolha a parte mais agradável do dia,
quando a maioria das abelhas estiver fora, e se alguma estiver
amontoada no alvado ou fora do ninho, sopre algumas baforadas
de fumaça entre elas - a melhor é a de madeira podre - para for-
çá-las a subir para entre os favos. As abelhas entrarão mais ra-
pidamente se a colméia estiver inclinada para trás, ou elevada
por pequenas cunhas, em cerca de um quarto de polegada (6mm)
acima do fundo. Tenha à mão uma caixa - que posso chamar de
caixa para forçar – cujas dimensões sejam quase iguais às da
colméia do qual você pretende retirar um enxame. Levante a
colméia de seu fundo, gire-a sobre si e, cuidadosamente, deslo-
que-a de cerca de um rod2, pois as abelhas quando perturbadas
ficam tranqüilas, se forem deslocadas a pequena distância do
suporte original. Se a colméia for colocada, suavemente, com o
fundo para cima sobre o solo, dificilmente uma abelha voará, e o
perigo de ser ferroado será muito pequeno. O tímido e inexperi-
ente pode se proteger com a indumentária de apicultor e pode
borrifar as abelhas com água açucarada ou soprar mais fumaça
entre elas assim que a colméia for virada. Depois de colocar a
colméia sobre o solo, a caixa de forçar deve ser colocada sobre a
colméia e toda abertura entre as duas, pela qual as abelhas pos-
sam sair3, deve ser vedada com papel, ou outro material conve-

1 "Forçar enxames é mais fácil em clima ameno e com famílias populosas; se os

favos não estiverem construídos até embaixo, pois assim as abelhas têm condi-
ções de se amontoarem no espaço vazio em vez de subir até a caixa superior." -
Bevan
2 Segundo Michaelis – rod: 5. Pode ser entendido como 5 metros. N. T.
3 Pessoalmente uso uma caixa, cujos cantos internos são inclinados, para facili-
tar a escalada das abelhas, e o fundo preso com dobradiça, para que ela possa
ser aberta para ver a rainha quando ela subir com as abelhas. As poucas abelhas
132 A Colméia e a Abelha
niente. A caixa para forçar, se for lisa internamente, deve conter
sarrafos presos a um terço de distância do topo para ajudar as
abelhas a se amontoarem.
Assim que o apicultor tenha confinado as abelhas, ele pode
colocar uma colméia vazia - que poderia chamar de colméia isca -
sobre o suporte original, na qual as abelhas que retornam do
campo entrarão, em vez de se dispersar pelas outras colméias,
onde encontrarão, talvez, recepção muito desagradável. Como re-
gra geral, no entanto, uma abelha carregada de mel ou pão de
abelha, depois que a quantidade dos seus recursos for apurada,
tem quase certeza de ser bem-vinda em qualquer colméia para a
qual ela levar seu tesouro; enquanto a desafortunada e assolada
pela pobreza que pretenda suplicar hospitalidade é, normalmen-
te, imediatamente aniquilada. Um homem rico que se propõe a
transformar a estalagem numa vila interiorana é quem encontra
uma recepção agradável, enquanto o outro é mais um objeto de
antipatia como um pobre homem, cuja oferta acaba se tornando
um encargo público.
Retornando ás nossas abelhas aprisionadas: a sua colméia
deve ser batida suavemente com as palmas das mãos, ou dois
pequenos sarrafos, nas laterais em que os quadros estão pendu-
rados, para não haver risco de perdê-los1. Estas "batidas", que
na verdade não tem caráter "espiritual", produzem, entretanto,
um efeito decisivo sobre as abelhas. O primeiro impulso delas, se
não for usada fumaça, é de irromper para fora, e descarregar sua
ira sobre quem fustiga tão rudemente sua casa de mel; mas as-
sim que elas inalam fumaça e sentem o terrível abalo edem sua
casa até então estável, se apodera delas o súbito temor de que
elas terão de abandonar os seus tesouros. Determinadas a se
preparar para este despejo sem cerimônia carregando o que pu-
derem, cada abelha começa a buscar o suprimento e, em cerca
de cinco minutos, todas ficam cheias até sua capacidade máxi-
ma. Um prodigioso zumbido é ouvido agora, quando elas come-
çam a subir para o ninho superior; em cerca de quinze minutos
depois que começaram as batidas - se eles continuarem a pe-
quenos intervalos - a massa de abelhas, com sua rainha, ficará

que voam, mesmo que não estejam cheias de mel estão muito confusas pela mu-
dança de posição para realizar qualquer ataque.
1 Nas colméias velhas o risco de perder os quadros é pequeno, mas é necessária

uma grande precaução quando os quadros da colméia são novos. Se ao inverter a


colméia, as laterais dos quadros forem inclinadas e não suas extremidades, o ca-
lor e o peso das abelhas pode levar a perder os favos e destruir a colméia.
L. L. Langstroth 133
amontoada e pendurada na caixa para forçar, como qualquer
enxame natural e as abelhas podem, em tempo apropriado, se-
rem facilmente sacudidas, sobre uma folha, em frente da colméia
onde se deseja alojá-las.
Se o enxame forçado puder agora ser colocado no suporte o-
riginal, e a colméia materna transferida para um novo local no
apiário, ou a última puder retornar para a posição original, e a
anterior ser colocada em outro lugar, a produção de enxame arti-
ficial seria enormemente simples. Nenhum método, no entanto, é
infalível; toda vez que o apicultor alterar a localização da colméia,
as abelhas não ficarão no novo local, como elas fazem quando
enxameiam por sua própria decisão.
Sempre que a localização de sua colméia for mudada, toda
abelha, quando sai, voa com a cabeça voltada pra trás, como se
estivesse marcando os objetos em volta que ela poderá encontrar
ao retornar. Se, no entanto, as abelhas não emigraram por sua
própria vontade, muitas delas não percebendo que sua localiza-
ção foi alterada, retornam para o ponto familiar; como se,
"A 'bee removed' against its will,
Is of the same opinion still."
Se o apicultor, esquecendo este fato, colocar o enxame força-
do no local antigo e a colméia materna no novo lugar a última
pode perder tantas abelhas, que nela deveriam ser retidas, que a
maioria da cria não operculada pode perecer por falta de abelhas
para cuidar. Se, ao contrário, ele remover o enxame forçado para
a nova posição, ele pode ficar tão despovoado que pode ser de
pouco valor.
Estas dificuldades podem ser evitadas transportando a col-
méia para local que diste de cerca de meia milha da sua posição
original, em cujo caso, se a forragem é abundante, praticamente
todas as abelhas permanecerão em sua nova posição. Alguns re-
comendam que elas sejam transportadas a pelo menos três mi-
lhas; mas constatei que isto não é necessário, a menos que haja
uma deficiência de forragem nas proximidades da nova posição.
Se as colônias forem transportadas, recomenda-se seguir à risca
as instruções fornecidas em outro lugar1 para o transporte de
abelhas; da mesma forma que as instruções para reter um nú-

1 O extenso índice alfabético existente no final, torna fácil encontrar qualquer as-

sunto discutido neste livro.


134 A Colméia e a Abelha
mero suficiente de abelhas na colméia materna. A que não for
transportada pode ser posta no suporte original.
Como o transporte de colônia é trabalhoso e, muitas vezes,
caro, descreverei os métodos que, após anos de experimentações,
passei a utilizar. Verifiquei que se uma colméia é removida, a
maioria das abelhas que, ao retornar do campo, pousar nas col-
méias vizinhas, caso recebida amistosamente, não mais retorna
para a posição original. Mesmo que a perda temporária de sua
antiga morada ocorra por uma distração cria-se nelas uma im-
pressão permanente e elas marcam o novo local cuidadosamente
como um novo enxame. Constatei que, com base no mesmo
princípio, praticamente todas as abelhas que retornam do cam-
po, enquanto o enxame está sendo forçado da colméia materna,
entrarão nesta colméia se ela for colocada sobre o suporte origi-
nal, e a ela se juntarão onde quer que ela seja instalada.
Desta forma, assim que o apicultor tenha forçado o enxame,
a colônia forçada deve ser transportada e instalada em local à
sombra onde as abelhas não fiquem sufocadas. A colméia ma-
terna pode, agora, ser colocada, sem esmagar nenhuma abelha,
no suporte original, para que toda abelha que retornar do forra-
geamento entre nela. As abelhas que, antes disto, estavam indo e
vindo da caixa isca, num estado de grande agitação, entrarão em
sua velha casa, e depois se juntarão a ela onde quer que ela seja
instalada! Ela pode agora ser transportada para um novo supor-
te, e sua entrada1 fechada até o entardecer. Se esta precaução
não for adotada, as abelhas das outras colméias, se certificando
de sua fraqueza e de estar sem rainha, tentarão roubá-la.
Se a colméia da qual o enxame foi forçado tinha intenções de
enxamear, ela conterá princesas em amadurecimento, uma das
quais brevemente tomará o lugar da velha rainha, como na en-
xameação natural. Se não existir realeira em andamento, as abe-
lhas iniciarão sua construção.
Colônias artificiais não deveriam ser formadas antes do apa-
recimento dos zangões, pois a jovem princesa pode não ser fe-
cundada e a colônia materna poderá perecer.

1 Ao fechar a entrada, o apicultor cuidará para manter ventilação suficiente, mas

não a ponto de congelar a cria. Se o clima se tornar repentinamente muito frio, e


a colméia for de paredes finas, recomenda-se cobri-la com algo que ajude a pre-
servar o calor interno. Os mesmos cuidados são, muitas vezes, necessários para
as colméias que enxamearam naturalmente.
L. L. Langstroth 135
Retornemos agora para o enxame forçado. As abelhas devem
ser sacudidas da caixa para forçar, e alojadas como um novo en-
xame, quando, se instaladas no local original, elas trabalharão
tão vigorosamente como um enxame natural. Se elas forem for-
çadas para uma colméia que convem ao apicultor, esta deve ser
instalada no local, original sem perturbar as abelhas.
Se, ao forçar o enxame ou ao transferi-lo da caixa para for-
çar, a rainha não for vista, é possível ter certeza, dentro de cinco
a quinze minutos depois de as abelhas terem entrada na nova
colméia, se ela está ou não entre as abelhas.
Se as abelhas não encontrarem a rainha assim que se amon-
toaram na colméia algumas saem e circulam, como procurando
ansiosamente por algo que foi perdido. O alarme é comunicado
de imediato a toda a colônia; as exploradoras são imediatamente
reforçadas, as ventiladoras suspendem suas operações e, em se-
guida, o ar fica repleto de abelhas. Se elas não conseguirem en-
contrar a rainha, elas retornam para seu local original, e se ali
não existir colméia, em breve entram em alguma colméia vizinha.
Se sua rainha lhes for restituída, logo depois de perdida, as que
estiverem circulando fora da colméia darão meia volta e retorna-
rão; a boa nova é de imediato comunicada às que ainda estão em
vôo que em seguida pousam e entram na colméia; cessam todas
as corridas agitadas em volta da colméia, e a ventilação, com seu
zumbido alegre, é novamente retomada1. Se as abelhas perma-
necerem quietas na nova colméia por cerca de quinze minutos é
quase certo que a rainha está entre elas.
Se o apicultor, ao produzir enxame artificial, não enxergar a
rainha deve esperar até que as abelhas lhe mostrem, por sua

1 Para testemunhar esta conduta interessante, é necessário apenas capturar a

rainha, e segurá-la até que a colônia perceba tê-la perdido. Para maior seguran-
ça, normalmente eu a encerro, quando retirada das abelhas, num pequeno canu-
do de papel, com as pontas dobradas, do qual ela pode ser facilmente liberada.
É um erro supor que um enxame não entrará numa colméia a menos que a rai-
nha esteja com ele. Se algumas iniciarem, as outras em seguida as seguirão, tudo
parecendo garantir que a rainha está entre elas. Mesmo depois que elas começam
a se dispersar à procura dela, elas podem, muitas vezes, serem induzidas a re-
tornar, um lote fresco de abelhas que for despejado na frente da colméia que a-
banará as asas ao entrar na colméia fazendo as demais acreditarem que a rainha
virá em seguida.
As abelhas que perdem sua rainha, nestas circunstâncias, aceitarão qualquer
chapéu velho que lhes for oferecido; e podem, muitas vezes, serem acalmadas
com favo de operária.
136 A Colméia e a Abelha
conduta, se ela as acompanha ou não. Se elas começarem a dei-
xar a colméia a entrada deve ser fechada, para confiná-las até
que a colméia materna possa ser tamborilada novamente e a rai-
nha, se possível, apanhada. Se não for possível induzir a rainha
a deixar a colméia materna, e não se dispuser de outra para
substituí-la, deve-se devolver as abelhas e a tarefa será retomada
em outra hora. É provável, no entanto, que a rainha que não sa-
iu da primeira vez persistirá em sua recusa.
Tenho recomendado que os enxames sejam forçados quando
muitas operárias estejam no campo, de forma que elas sejam in-
duzidas a aderir à colméia materna. Muitos apicultores, no en-
tanto, preferem fazer seus enxames no início da manhã, ou no
final da tarde, quando poucas abelhas estão coletando. Neste ca-
so, um número apropriado de abelhas aderentes deve ser forne-
cido para a colméia materna, sacudindo as abelhas da caixa de
forçar sobre uma folha, para que elas entrem na colméia em que
elas deverão residir permanentemente, muitas levantarão vôo e
retornarão para a colméia isca. Depois que estas abelhas mos-
trarem estar conscientes de terem perdido sua rainha, por voa-
rem em grande confusão para dentro, fora e sobre a colméia, a
colméia materna deve lhes ser apresentada e assim que elas tive-
rem entrado, transferida para uma nova posição no apiário, e o
enxame forçado colocado na posição original. Se for deixado um
quarto das abelhas na colméia materna, o suprimento será
grande; maior, na verdade, do que o deixado normalmente na
enxameação natural.
Se no apiário existirem muitas colméias velhas muito próxi-
mas é muito desejável, ao executar todas estas operações, que a
colméia isca, bem como a utilizada para forçar o enxame, seja da
mesma forma e até mesmo da mesma cor que a da colméia ma-
terna. Se elas forem muito dissimilares as abelhas que retornam
tentarão entrar nas colméias vizinhas, por causa de sua seme-
lhança com a velha moradia, as colméias próximas devem ser
cobertas com folhas para escondê-las das abelhas até que a ope-
ração esteja concluída.
Algumas vezes consigo um suprimento de abelhas aderentes
para a colméia materna, colocando-a no antigo lugar e instalan-
do o enxame forçado num novo lugar. A maior parte das abelhas
retornará para sua antiga moradia; algumas, no entanto, per-
manecerão com sua rainha e começarão a trabalhar na nova
colméia. Em dois ou três dias, troco de posição as duas colméias,

L. L. Langstroth 137
quando abelhas suficientes, que ficaram acostumadas com o no-
vo lugar, retornarão para ele e se engajarão nas atividades da
colméia materna. Esta proposta tem a vantagem de reter muitas
abelhas na colméia materna até que as realeiras tenham sido i-
niciadas; ela se ajusta, também, para os apicultores que estejam
pressionados pelo tempo e são obrigados a forçar suas colméias
no início da manhã ou final da tarde, quando poucas abelhas es-
tão espalhadas pelos campos.
Se a colméia materna ficar a alguma distância das outras, e
for semelhante em forma, tamanho e cor com a colméia para a
qual se tenciona forçar a enxameação, a divisão apropriada das
abelhas pode ser realizada como segue: colocar a colméia mater-
na cerca de seis polegadas (15cm) para a direita do local original
e o enxame forçado em mesma distância para a esquerda; de
forma que cada uma fique eqüidistante da posição original da
entrada. Se alguma das colônias contiver poucas abelhas, ela
pode ser mantida um pouco mais próxima da entrada original;
ou ela pode ser reforçada, depois que as abelhas saírem para o
trabalho, fechando a entrada da colméia mais forte até escure-
cer.
Se as colméias velhas ficam muito próximas, alguns prefe-
rem outro modo para a enxameação artificial. Depois que as abe-
lhas foram forçadas da colméia materna, o enxame forçado é co-
locado no local antigo, enquanto a colméia materna na qual foi
deixado um número apropriado de abelhas, é colocado em local
frio e fechada - tomando cuidado de manter ventilação - até o fi-
nal da tarde do terceiro dia. Agora ele pode ser instalado no local
definitivo e aberto uma ou duas horas antes do por do sol, quan-
do as abelhas levantarão vôo como se tencionassem enxamear.
Algumas se juntarão ao enxame forçado no local original, mas a
maioria, depois de circular um pouco no ar, re-entrará na sua
colméia. Enquanto a entrada esteve fechada, milhares de abe-
lhas novas emergiram e estas, todas, não conhecendo outra mo-
radia, se engajarão nas tarefas da colméia. As abelhas aprisiona-
das devem ser supridas com água para lhes ser possível preparar
comida das larvas. Na colméia comum esta pode ser injetada
com canudo através de furo feito com broca.
Para os locais onde é praticada a enxameação artificial em
grande escala, elaborei um plano que eu prefiro a qualquer um
dos anteriormente descritos. Inicia com o apicultor obtendo um

138 A Colméia e a Abelha


enxame forçado1 de algum apicultor, que diste uma ou duas mi-
lhas do seu apiário, ou de alguma de suas próprias colméias, le-
vadas para a mesma distância antes de as abelhas começarem a
trabalhar na Primavera. Trazer o enxame para casa, seguindo as
instruções fornecidas para o transporte de abelhas, e deixar as
abelhas confinadas em local frio, com ventilação adequada da
colméia. No final da tarde, ou início da manhã seguinte, forçar
quatro a cinco enxames2, colocando-os no local da colméia ma-
terna, e as colméias maternas onde se tenciona que elas fiquem
permanentemente. O enxame trazido de longe pode agora ser sa-
cudido sobre uma folha, na distância de um pé ou mais da col-
méia e as abelhas serão borrifadas com água, para prevenir que
elas levantem vôo. Com um recipiente retirar um punhado, sem
ferir as abelhas, tantas quantas for possível, e levá-las para a
boca de uma das colméias velhas, da qual o enxame foi retirado.
Continuar a proceder assim, até que as abelhas tenham sido i-
gualmente distribuídas, e se restar alguma sobre a folha, levá-las
para a boca da colméia que recebeu menos3. Estas abelhas não
possuindo, previamente, nenhuma moradia no apiário se reú-
nem às diferentes colméias em que as demais foram colocadas e,
assim, sem outro problema, sua colméia materna e os enxames
forçados prosperarão igualmente.
Uma grande vantagem deste método sobre os demais é que
ele assegura, de modo simples e efetivo, o número de abelhas
necessárias para a colméia materna. As pessoas inexperientes,
em vez de ficarem confusas por não saberem quantas abelhas e-
las devem deixar nos enxames forçados, devem retirar deles, se
puderem, todas as abelhas. Se o apicultor não conseguir um en-
xame de longe, ele pode usar para este propósito, o primeiro en-
xame natural que chega no apiário; retardando a produção de
colônias artificiais até que os enxames naturais comecem a sair,
cada um destes enxames pode ser usado para formar pelo menos

1 O processo poderá ser igualmente utilizado se a enxameação artificial for retar-

dada até iniciar a enxameação natural.


2 Um habilidoso forçará todos em tempo igual ao normalmente despendido por
um novato para forçar apenas um. Assim que a caixa de forçar estiver colocada
sobre a colméia, ele retirará outra do seu suporte, e assim as demais, e ao tam-
borilar ele passará de uma para outra, não perdendo tempo na operação total.
Dez enxames artificiais, ou até mais, podem ser obtidos, desta forma, em menos
de uma hora, antes do sol nascer ou depois do sol se por.
3 A rainha pode ser procurada, apanhada e introduzida numa das colméias que
será identificada. Se ela entrar numa colméia vazia poderá ser facilmente captu-
rada.
L. L. Langstroth 139
quatro enxames artificiais. Pelo método recomendado pelo Dr.
Donhoff, da Alemanha, o apicultor pode garantir que uma colô-
nia, quando dividida pelo método acima mencionado, aceite a
nova localização: "Ao entardecer, quando o próximo dia promete
ser claro e ameno, force um enxame e o instale no local da col-
méia materna. No próximo dia, quando estiver ameno, espalhe
um pouco de mel entre as abelhas dentro da caixa, e em poucas
horas elas enxamearão."1
As instruções fornecidas para a formação de colônias artifi-
ciais, diferem, em alguns aspectos relevantes, das fornecidas pe-
los outros escritores e são tão simples que qualquer um habitu-
ado a manusear abelhas pode facilmente seguí-las. Elas permi-
tem ao apicultor usar a colméia que desejar e não depender mais
da enxameação natural para a multiplicação de seus enxames.
É óbvio, no entanto, que, para ter sucesso com a enxamea-
ção artificial, se exige o conhecimento das leis que controlam a
criação de abelhas. Aqueles, conseqüentemente, que desconhe-
cem a organização da colméia de abelhas não conseguirãoaban-
donar o antigo método de manejo; eles não estão preparados pa-
ra as emergências com que podem se deparar a todo o momento.
Um apicultor pode usar colméias comuns2 durante toda sua vida

1 Pode-se fazer que um enxame forçado aceite a nova localização da seguinte for-
ma: prender sua rainha quando ele estiver sendo sacudido da colméia; quando as
abelhas mostrarem que perceberam sua perda, confin-a-las em sua colméia, até
que sua agitação tenha atingido o máximo. Depois abra a colméia e, assim que as
abelhas começarem a levantar vôo, apresentar a elas a rainha (ver pág. 159).
Quando as abelhas se amontoarem em volta dela elas podem ser tratadas como
um enxame natural. Fazer isto com todo enxame forçado despenderá muito tem-
po; mas será mais eficiente quando o enxame forçado deve ser dividido, como a-
cima, em quatro ou cinco partes.
O Sr. P. J. Mahan, Filadélfia, me informou que ele teve sucesso por várias vezes
em fazer uma colônia velha aceitar um novo local no apiário, batendo na colméia,
depois de as abelhas serem fechadas, mesmo com o risco de ferir de leve alguns
dos favos. Quando ela é aberta, as abelhas voarão em grande número, mas prati-
camente todas retornarão para a colméia instalada no novo local.
2 "A oportunidade para observar os comportamentos da rainha em colméias co-

muns é tão rara que muitos apicultores passaram suas vidas sem ter este prazer;
o próprio Reaumur, mesmo com a ajuda de uma colméia envidraçada, reconhece
que se passaram muitos anos antes de ele ter tido tal prazer." Bevan
Swammerdam, que escreveu um maravilhoso tratado sobre as abelhas, antes da
criação da colméia envidraçada, se viu obrigado a despedaçar as colméias para
fazer suas observações! Nos darmos conta dos valiosos resultados que estes
grandes gênios conseguiram, com meios tão imperfeitos, comparados com as fa-
cilidades que o mais novato agora dispõe, é uma verdadeira lição de humildade.
140 A Colméia e a Abelha
e, a menos que ele consiga informações de outras fontes, conti-
nuará ignorando alguns dos mais relevantes princípios da fisio-
logia da abelha: enquanto todo apicultor esperto pode, com qua-
dros móveis, numa única estação, verificar por ele mesmo as
descobertas que foram feitas por muitos observadores, durante
mais de duas centenas de anos.
Com a ajuda da colméia de quadros móveis, a enxameação
artificial pode ser levada a cabo fácil e prontamente. Uma col-
méia vazia, com seus quadros adequadamente arranjados, deve
estar à mão para receber o novo enxame; antes de retirar a col-
méia materna de seu suporte, deve-se soprar um pouco de fu-
maça na sua entrada, a qual deve então ser fechada com os blo-
cos móveis. Remover, agora, uma ou duas das lâminas que co-
brem os furos do spare honey-board (Lâmina VIII, Fig. 21), e so-
prar fumaça para dentro da colméia, até que as abelhas produ-
zam um surdo zumbido, quando a spare honey borad pode ser
solta com uma faca, e removida com segurança, tomando cuida-
do de apoiá-la pelos cantos para não esmagar as abelhas que
normalmente cobrem sua face. Não há necessidade de temer as
abelhas, elas estão completamente desnorteadas pela súbita ex-
posição à luz e deslocamento da colméia. Qualquer uma das "su-
pers"1 grandes usadas em minhas colméias, ou qualquer outra
caixa de dimensões apropriadas, pode agora ser colocada sobre
as abelhas, para dentro da qual elas serão forçadas, na forma
descrita na página 155. Um pouco mais de fumaça soprada na
entrada da colméia, elimina a necessidade de mais batidas, e a-

Os sentimentos descritos a seguir, extraídos de Swammerdam, devem ser grava-


dos no coração de todo aquele que desejar investigar o trabalho de Deus: "Gosta-
ria que ninguém pensasse que eu disse isto por gostar de encontrar falhas" - ele
estava criticando alguns desenhos e descrições incorretos - "meu único objetivo é
obter a verdade e retratar corretamente a natureza. Espero que outros possam
fazer as mesmas críticas, quando pertinentes, aos meus trabalhos; não duvido
que eu tenha cometido muitos erros, no entanto eu quero, de coração, dizer, que
não pretendo, neste tratado, enganar. *** O desejo de escrever é tão predominan-
te, que os homens publicam livros cheios apenas de fantasias da sua mente e as-
sim deturpam a Deus e seu trabalho. Que Deus me proíba de fazer isto. A verda-
de, e o escrúpulo religioso da mente, deveriam sempre prevalecer ao descrever as
coisas naturais; elas são a Bíblia dos milagres divinos. Se alguém escreve para
enganar a si mesmo e aos outros, é bom que saiba que com o tempo tudo será
revelado."
1 Este termo é usado pelos apicultores para identificar toda caixa colocada sobre

a colméia principal inferior. Uma colméia vazia, semelhante à da Lâmina I, Fig. 1,


ou uma colméia semelhante à da Lâmina II, Fig. 2 - se invertida - atenderá como
caixa de forçar.
L. L. Langstroth 141
celera a subida das abelhas1. Depois de elas terem subido, da
colméia materna seguir as instruções que já foram minuciosa-
mente descritas.
Quando o apicultor aprender como manusear com segurança
os quadros móveis - em breve serão fornecidas instruções com-
pletas de como agir - ele pode dispensar a caixa de forçar, e fazer
seus enxames levantando os quadros da colméia materna e deles
sacudindo as abelhas, através de um movimento brusco, sobre a
folha, diretamente na frente da nova colméia. Assim que o qua-
dro estiver livre das abelhas, ele pode ser devolvido para a col-
méia materna. Se um ou dois quadros contendo cria, ovos e re-
servas forem dados para o novo enxame, ele ficará mais bem
provido e, talvez, não necessite de alimentação, se o clima for
desfavorável. Ao remover os quadros, o apicultor pode procurar
pela rainha e dar o quadro no qual ela se encontra para o enxa-
me forçado, sem sacudir as abelhas. Se ele não enxergar a rai-
nha sobre o favo, algumas vezes ele conseguirá encontrá-la, de-
pois de um pouco de prática, quando ela for sacudida, junto com
as abelhas, sobre a folha e estiver caminhando em direção da
nova colméia. A rainha, muitas vezes, permanece sobre o favo
que é sacudido para que as abelhas caiam. Assim que o número
necessário de abelhas for transferido para a nova colméia, os
cuidados já informados devem ser usados para obter abelhas a-
derentes para a colméia materna.
Se for garantida uma população apropriada de abelhas para
a colméia materna pelo método descrito na página 162, a col-
méia do enxame forçado pode ser colocada no local antigo, e as
abelhas da colméia materna sacudidas dos quadros sobre uma
folha, colocada de tal forma que elas possam facilmente correr
para a sua nova colméia.
Se os enxames forçados forem feitos um pouco antes da épo-
ca em que ocorre a enxameação natural, algumas das colméias
maternas conterão algumas princesas em amadurecimento que
podem ser removidas, alguns dias antes de eclodirem, e introdu-
zidas nos que ainda não iniciaram a construção de realeira.
Fazendo alguns enxames forçados, cerca de uma semana ou
dez dias antes da data em que a maioria será feita, poderá existir
uma abundância de rainhas operculadas, quase maduras, a

1 Poderá ser economizado tempo se preparando (pág. 162) para forçar vários en-

xames de uma só vez.


142 A Colméia e a Abelha
ponto de toda colméia materna ter uma. Se uma rainha opercu-
lada for fornecida, com seu quadro a cada família que necessite
de uma, será muito melhor; mas se não existirem quadros sufici-
entes com rainhas operculadas, enquanto alguns contem duas
ou mais, o apicultor pode proceder como segue:
Com um canivete afiado, remover cuidadosamente um peda-
ço de favo, uma polegada quadrada (quadrado com 2,5cm de la-
do) ou mais, que contenha a realeira; num dos favos da colméia,
na qual a realeira será introduzida, cortar uma abertura com
largura suficiente para receber e fixar o pedaço de favo com a re-
aleira que será mantida em sua posição original. Se ele não ficar
firme aplicar, com uma pena, um pouco de cera derretida, onde
as bordas se encontram, e as abelhas em seguida o prendem
como lhes for conveniente.
Se não for tomado muito cuidado na transferência da realei-
ra, sua ocupante pode ser destruída, uma vez que seu corpo, an-
tes de atingir a maturidade, é tão extraordinariamente sensível
que a compressão mínima da realeira - especialmente junto da
base, onde não existe casulo - geralmente é fatal. Por esta razão,
deve-se evitar removê-la, antes de ela estar a três ou quatro dias
da emergência. Uma realeira, quase madura, pode ser reconhe-
cida por ter a cera da tampa removida, pelas abelhas, razão pela
qual ela fica com coloração marrom.
Forçar a enxameação não deve ser efetuado quando o tempo
estiver frio a ponto de congelar a cria; e nunca a não ser que a
luminosidade permita, não só ao apicultor ver tudo distintamen-
te, mas também para as abelhas, que levantarem vôo, poderem
se orientar para a entrada da sua colméia. As abelhas normal-
mente são mais irascíveis quando suas colméias são perturbadas
depois de escurecer e, como elas não conseguem ver para onde
voar, elas pousam sobre o apicultor, que pode ter mais certeza
de ser ferroado. É raro executar algum trabalho noturno com a-
belhas sem que o operador se arrependa da sua tolice. Se o clima
não estiver muito frio, a melhor hora para a maioria das opera-
ções, quando o risco de se aborrecer com as abelhas pilhadoras é
menor, é no início da manhã, antes de as abelhas entrarem em
atividade.
Para alguns dos meus leitores, pode parecer um pouco incrí-
vel que as abelhas possam ser tratadas nas formas descritas sem
ficarem altamente enfurecidas; até agora, no entanto, não é este
o caso, pois em minhas operações muitas vezes não uso fumaça,
L. L. Langstroth 143
nem água com açúcar, nem macacão, embora eu, de modo al-
gum, recomende a omissão destas precauções. Enquanto o tími-
do, se não protegido, está quase certo de ser ferroado, existem a-
titudes e movimentos do operador corajoso e experto que parece,
muitas vezes, golpeiam as abelhas com um terror repentino, a
ponto de elas se tornarem totalmente submissas à sua vontade.
Enxames artificiais podem ser produzidos com segurança to-
tal, mesmo ao meio dia, pois as milhares de abelhas que retor-
nam com suas cargas nunca atacam e as de casa podem ser fa-
cilmente pacificadas.
A proposta de remover a cobertura da colméia de quadros
móveis e borrifar água com açúcar sobre as abelhas, antes de e-
las tentarem levantar vôo, tem grandes vantagens. Se a colméia
abrir na lateral, como a de Dzierzon, pode ser impossível fazer
que a água doce escora por entre todos os favos e pode ser ne-
cessário utilizar fumaça1 em quase todas as operações. O uso da
fumaça faz, freqüentemente, a rainha, por segurança, abandonar
os favos. Isto provoca, muitas vezes, atrazo na formação de en-
xames artificiais pela remoção de quadros como também em ope-
rações onde for desejável apanhar a rainha ou examiná-la sobre
o favo.
Huber falou assim a respeito do efeito apaziguante produzido
sobre as abelhas com uso de sua colméia de folhas: "Ao abrir a
colméia, não há porque temer os ferrões, por causa de uma das
propriedades mais singulares e valiosas apresentadas por minha
construção, que é a de tornar as abelhas tratáveis. Eu atribuo
sua tranqüilidade à forma como elas são repentinamente afeta-
das pela entrada da luz; parece que elas se declaram antes me-
drosas do que furiosas. Muitas se retiram e entram nos alvéolos,
parece se esconderem." Huber cometeu, aqui, um erro que pro-
vavelmente não teria cometido se tivesse usado seus próprios o-
lhos. As abelhas ficam, na verdade, confusas pela súbita entrada
da luz, e entram nos alvéolos, a menos que provocadas por um
súbito abalo, ou pela respiração do operador, não, porém, "para
se esconderem"; imaginando que sua doçura, exposta assim sem
cerimônia, lhes será retirada elas se fartam a si mesmas, che-

1 Em algumas ocasiões, depois de usar fumaça duas a três vezes durante o dia,
para abrir uma colméia na qual eu estava realizando experimentos, conclui que,
no final, as astutas criaturas, em vez de se enxerem de mel, se apressavam em
me atacar! Uma colônia nunca rejeita água doce e pode ser seguidamente presen-
teada com ela.
144 A Colméia e a Abelha
gando a quase rebentar, para salvar o que puderem. Elas sempre
se apoderarão do conteúdo dos alvéolos abertos assim que os
quadros forem removidos da colméia.
Não é a mera admissão súbita da luz, mas sua entrada desde
um lado inesperado, que acalma a defensividade das abelhas.
Parece que elas ficam, por alguns momentos, quase tão confusas
quanto um homem pode ficar se, sem aviso prévio, o forro e te-
lhado de sua casa forem subitamente arrancados de cima da sua
cabeça. Antes de elas se recuperarem de seu assombro, todas se
empenham em sugar1 o doce e sua surpresa é substituída por
prazer; ou elas são saudadas com uma baforada de fumaça que,
despertando-as para a necessidade de segurança dos seus tesou-
ros, as induz a apanhar o que puderem. Na estação de trabalho,
as abelhas próximas do topo estão empanturradas com mel; e as
que chegam da parte inferior se deparam, em sua ameaçadora
subida, ou com uma avalanche de néctar que, como "uma suave
resposta", "acaba com sua fúria", mais efetivamente ou com uma
fumaça inofensiva, que desperta seu temor mas não deixa cheiro
desagradável para traz. Nenhum amante verdadeiro das abelhas
deveria usar a repugnante fumaça de tabaco.
O máximo de cuidado deve ser tomado para conter, com á-
gua doce ou fumaça, a primeira manifestação de fúria; como as
abelhas comunicam suas sensações para as demais com uma
rapidez quase mágica, a colônia como um todo saberá de imedia-
to o prazer ou outras leves percepções sentidas por algumas, o
que provocará, instantaneamente, a agitação coletiva graças ao
zumbido agudo de fúria de uma única abelha. Depois de excita-
das, será muito difícil acalmá-las e o infeliz operador, caso inex-
periente, abandonará o intento muitas vezes em disparada.
Não se pode impressionar mais profundamente a um novato
do que lhe mostrando que nada irrita mais as abelhas do que a
respiração sobre elas e a agitação dos favos. Todo movimento de-
ve ser pré-meditado e não tentar nada que possa perturbá-las.
As abelhas se ressentem, seguidamente, de tudo que se interpu-
ser em sua rota de vôo, mesmo um simples apontar de dedo, se

1 Se, quando a colméia é aberta pela primeira vez, for usado mel com água, em

vez de água com açúcar ou fumaça, para borrifar as abelhas, o seu odor será re-
almente capaz de atrair pilhadoras de outras colméias. Quando o fluxo de mel é
abundante - e esta é a melhor época para forçar os enxames - as abelhas rara-
mente são inclinadas a pilhar, se forem usadas as precauções apropriadas. Por
vezes é difícil induzi-las a descobrir os favos de mel, mesmo quando expostos.
L. L. Langstroth 145
lançando sobre ele e deixando para traz o seu ferrão. Um novato,
ou uma pessoa com medo de ser ferroada, deverá, sem dúvida,
proteger sua face e mãos.
Já foram fornecidas orientações (pág. 165), para remover a
spare honey board da colméia. Assim que ela for removida, o a-
picultor deve borrifar as abelhas com uma solução doce. Este
borrifo deve sair do frasco num jato fino para não ensopar as a-
belhas e sim cair sobre o topo dos quadros, bem como nos espa-
ços vazios entre os favos. As abelhas aceitam o tratamento ofere-
cido e começam a sugá-lo tão tranqüilamente como muitas gali-
nhas comendo milho. Enquanto elas estão assim ocupadas, os
quadros que as abelhas grudaram nos apoios, devem ser soltos
suavemente com o formão; isto pode ser feito sem abalos mais
sérios, e sem machucar ou irritar uma única abelha; os chanfros
devem ser amplos o suficiente para permitir que os quadros se-
jam empurrados de traz para frente e vice-versa. Se os chanfros
tiverem largura suficiente apenas para receber as saliências dos
quadros é necessário, ao soltar os quadros, deslocá-los lateral-
mente, ou um contra o outro, lembrando que existe o risco de
esmagar abelhas, ferir a cria, desfiguara quadros ou até matar a
rainha.
Todos os quadros podem ser soltos para remoção em menos
de um minuto1: neste tempo as abelhas borrifadas ter-se-ão en-
chido ou, se nem todas tiverem, a informação de que foi forneci-
do doce espalhará uma boa nova através do reino melífero. O a-
picultor pode agora empurrar suavemente o terceiro quadro, de
qualquer lado da colméia, um pouco contra o quarto quadro; em
seguida o segundo quadro para tão próximo quanto possível do
terceiro a fim de abrir espaço para levantar o último, sem esma-
gar o favo ou machucar uma única abelha. Para removê-lo o api-
cultor deve apanhá-lo pelas duas saliências que descansam nos
apoios e levantar cuidadosamente, para não machucar nenhuma
abelha por deixar o quadro tocar a lateral da colméia ou o qua-
dro que estiver mais próximo. Se for intenção remover um qua-
dro em particular, deve-se abrir espaço movendo, da mesma
forma, os quadros de ambos os lados. Como as abelhas constro-
em seus favos levemente ondulados, poderá ser difícil remover

1 Sem fumaça nem água doce, serão despendidos dez minutos para abrir e fechar
um único favo da colméia do Huber e ainda assim, provavelmente, algumas abe-
lhas serão esmagadas. A grande precaução, recomendada por Huber ao abrir sua
colméia, mostra que ele próprio não sabia como evitar a irritação das abelhas.
146 A Colméia e a Abelha
um quadro com segurança, sem abrir espaço desta maneira, pa-
ra esta finalidade; se as barras de topo dos quadros não tiverem
jogo suficiente sobre os chanfros e entre eles, os quadros não
podem ser levantados da colméia sem esmagar favos e matar a-
belhas. Ao manusear os quadros, ter cuidado para não inclinar
pois os favos poderão quebrar por causa do seu peso e cair dos
quadros.
Se forem examinados mais quadros, depois de erguido o
mais externo, descansá-lo cuidadosamente pela extremidade,
perto da colméia1, e o segundo poderá ser facilmente movido pa-
ra o espaço vazio e levantado. Depois de examinar, colocar este
no lugar do primeiro removido, da mesma forma examinar o ter-
ceiro, e colocar no lugar do segundo e assim prosseguir até que
todos tenham sido examinados. Se for intenção remover as abe-
lhas, é possível sacudí-las sobre uma folha, como descrito ante-
riormente. Se o primeiro favo que foi removido se ajustar, ele po-
de ser colocado no lugar do último que foi retirado; se não se a-
justar, e não for possível ajustá-lo por um leve desbaste, os qua-
dros serão deslizados sobre os chanfros de volta para sua posi-
ção original, quando então o primeiro favo pode retornar à sua
posição original.
O operador inexperiente vendo que as abelhas construíram
pequenos pedaços de favo entre as laterais dos quadros e as late-
rais da colméia, ou grudaram levemente algumas partes dos fa-
vos, pode imaginar que os quadros não podem ser removidos de
modo algum. Estas pequenas uniões, no entanto, não oferecem
nenhuma dificuldade prática para a remoção dos favos2. O obje-
tivo a ser perseguido, é manter um único favo em cada quadro; e
isto é conseguido pelo uso de guias triangulares de favo.
Se as abelhas estiverem dispostas a voar de seus favos, as-
sim que eles forem retirados, em vez de ficarem pousadas neles

1 Se os quadros, assim que removidos, forem colocados numa colméia vazia, eles

ficarão protegidos do frio e das pilhadoras.


2 Se não for providenciado espaço adicional para armazenar o excesso de mel que
uma família forte, na sua ansiedade por acumular o máximo possível, acumula,
serão construídos favos em todos os locais acessíveis. Os favos construídos entre
o topo dos quadros e a tampa podem ser facilmente raspados e sua cera aprovei-
tada. Se não for usada spare honey board, elas podem ligar a tampa aos quadros
tão firmemente a ponto de se tornar muito difícil removê-la; toda vez que a tampa
for removida as abelhas podem grudá-la mais firmemente, assim que, ao final,
poderá ser quase impossível, ao retirá-la, não levantar os quadros esmagando as
abelhas que se encontram entre eles.
L. L. Langstroth 147
com notável tenacidade, será muito mais difícil manejá-los; mas
se os seus favos, quando removidos, forem todos arranjados nu-
ma seqüência contínua, as abelhas, em vez de os deixar, os de-
fenderão com bravura contra a pilhagem de outras abelhas.
Ao devolver os quadros, deve-se tomar o cuidado para não
esmagar abelhas entre eles e nos chanfros nos quais eles se a-
poiam; os quadros devem ser colocados com tal suavidade que
uma abelha, ao sentir a mais leve pressão, tenha a chance de se
afastar antes de ser machucada. Ao fechar a colméia a tampa
deve ser deslizada cuidadosamente, para que toda abelha que se
encontra no caminho seja empurrada e não esmagada. O novato
se sentirá mais confortável depois de treinar - usando uma col-
méia vazia - as instruções para abrir e fechar as colméias e le-
vantar os quadros, até adquirir confiança de ter entendido perfei-
tamente. Se algumas abelhas estiverem onde elas possam ficar
presas ao colocar a tampa, esta deve ser afastada um pouco, até
que todas tenham voado para a entrada da colméia (Lâmina VII,
Fig. 20).
Uma colônia artificial pode ser feita em cinco minutos desde
a abertura da colméia, se a rainha for vista com a rapidez com
que ela freqüentemente é, por um experiente. Quinze minutos é,
em média, tempo suficiente para completar todo o trabalho. Em
menos de uma semana, se o clima for ameno, um apicultor com
uma centena de famílias, despendendo com elas algumas horas
por dia, pode, sem assistente, concluir, facilmente, a atividade de
enxameação de toda a estação.
Mas se a formação dos enxames artificiais for retardada, co-
mo sempre pode acontecer (pág. ), até perto da época1 da en-
xameação artificial, como pode o apicultor, a menos que esteja
constantemente atento, não correr o risco de perder alguns dos
seus melhores enxames? Se ele preferir dispensar inteiramente a
enxameação natural, ele pode cortar as asas de suas rainhas fér-
teis: (ver o capítulo sobre perda da rainha). Como uma rainha ve-
lha só deixa a colméia com um novo enxame, o corte de suas a-
sas2, não interfere em nada em sua utilidade ou sua ligação com
as abelhas. Se, a despeito de sua incapacidade de voar, ela esti-

1 Será fácil - com a colméia de quadros móveis - determinar, por inspeção ocasio-

nal, quando o período da enxameação natural está se aproximando.


2 As abelhas se comunicam entre si pela suas antenas e Huber provou que as ra-
inhas privadas das antenas põem seus ovos sem cuidado e não tem condições de
presidir a colônia.
148 A Colméia e a Abelha
ver inclinada a emigrar, imaginando que ela o "consiga", ela "não
encontra como", mas, sem ajuda, cai ao solo em vez de elegan-
temente ganhar as alturas. Se as abelhas a encontrarem, elas se
amontoam em sua volta e a rainha ser capturada, facilmente, pe-
lo apicultor; se ela não for encontrada, as abelhas retornam para
a colméia materna, para aguardar a maturidade de uma jovem
princesa. Assim que for ouvido o piar da primeira princesa a e-
mergir (pág. 121), o apicultor pode forçar um enxame, a menos
que - tendo sido advertido de suas intenções - preferir deixar que
elas enxameiem da forma natural. As princesas quase prontas
para emergir, normalmente encontradas em tais famílias, podem
ser usadas com vantagem no período de enxameação.
Como a rainha não consegue passar por uma abertura de 5-
32ds de uma polegada 1, pela qual passa apenas uma operária
carregada, se a entrada da colméia for reduzida até esta dimen-
são, ela não terá condições de sair com o enxame (ver Lâmina III,
Fig.s 11 e 12)
Este método de prevenção da enxameação2 exige uma grande

1 Huber não forneceu a abertura necessária para confinar uma rainha; mas ele
fala em ajustar um tubo de vidro, pelo qual passa uma operária mas não para a
rainha. A menor rainha que já vi não consegue passar pelos meus blocos. Embo-
ra as operárias fiquem, inicialmente, levemente incomodadas com eles em pouco
tempo elas se acostumam a eles e eles não as confundem por deixar a entrada
em um novo lugar. Ar em abundância pode ser fornecido para as abelhas, quan-
do os blocos são ajustados para confinar a rainha, pois a ventilação não depende
desta entrada reduzida.
2 A saúde debilitada, durante os dois últimos verões, me impossibilitou de testar
este método de enxameação em sua totalidade para que eu pudesse confiada-
mente endossá-lo, exceto para propósitos temporários; assim tenho alguma dúvi-
da que ele possa ser usado para prevenir a enxameação. Se for, ele será de gran-
de valia para aqueles que temem abrir uma colméia com a finalidade de remover
as realeiras ou cortar as asas da rainha. Assim que se ouvir o piar, a entrada se-
rá restringida por cerca de uma semana, as abelhas permitirão que as jovens
princesas se envolvam em combate mortal. Neste caso, os blocos devem ser usa-
dos para prevenir a saída do segundo bem como do primeiro enxame. Se o sim-
ples inverter de dois blocos pode prevenir toda enxameação, sem nenhuma con-
seqüência desagradável para a colônia, isto irá ao encontro de muitos desejos de
uma grande massa de apicultores.
A diferença entre conjeturas teóricas e resultados práticos é, freqüentemente, tão
grande, que nada na linha da abelha, como em qualquer outra linha, poderia ser
considerado como estabelecido até que, ao ser submetido a rigorosas demonstra-
ções, conseguisse passar triunfantemente de uma simples região do cérebro para
a realidade dos fatos. Uma teoria que se mostre plausível, como quase tudo, e
muito bem demonstrada, quando colocada em teste, pode ficar comprometida por
algumas dificuldades imprevistas a ponto de convencer imediatamente, até mes-
mo o mais otimista, de que ela não tem valor prático. Nove entre dez podem fun-
L. L. Langstroth 149
precisão de medidas, um desvio mínimo nas dimensões necessá-
rias pode excluir a operária carregada ou permitir a passagem da
rainha. Este método deve ser usado tão somente para confinar a
rainha velha, pois princesas confinadas à colméia não serão fe-
cundadas. Estes blocos, se presos firmemente, impedirão a en-
trada de ratos nas colméias durante o Inverno. Quando usados
para prevenir a enxameação, poderá ser necessário ajustá-los
um pouco depois do nascer do sol e antes do por do sol, a fim de
permitir que as abelhas removam todos os zangões que tenha
morrido.
Alguns apicultores, ao ler estes vários processos de produção
de enxames artificiais, devem, provavelmente, pensar que seria
muito melhor dobrar as colônias transferindo metade dos favos e
abelhas de uma colméia completa para uma colméia vazia; mas
por razões já citadas (pág. 156), este método, aparentemente
mais simples, pode ser prejudicial para as abelhas.
Tendo detalhado os métodos que podem ser usados, com
maior vantagem, para duplicar o número de colméias numa es-
tação, pela enxameação artificial, parece apropriado discutir a
questão se será melhor fazê-lo numa taxa de crescimento maior
ou menor do que a apontada.1
O apicultor que desejar obter mais mel em excesso numa es-
tação, não pode, normalmente, no máximo, mais do que dobrar o
número de suas colméias; nem mesmo tanto, a menos que todas
sejam fortes, e a estação seja favorável. Se, em qualquer estação
que não seja favorável, ele tentar um crescimento mais rápido,
ele deve esperar não só nenhum excesso de mel, mas até com-
prar comida para suas abelhas a fim de salvá-las da fome. As e-
xigências de tempo, cuidados, habilidade e alimento no nosso
clima incerto, para o crescimento rápido das colônias são tão

cionar como por encanto e, ainda assim, a décima pode estar tão ligada às outras
nove que sua falha torna o sucesso das nove sem valor.
1 Assim que as pessoas perceberem que podem multiplicar suas colônias à von-

tade, elas têm tendência a se exceder no assunto e correm o risco de perder suas
abelhas. Apesar das repetidas recomendações de "apressar-se lentamente", al-
guns multiplicaram tão rapidamente a ponto de arruinar suas colméias e trazer
grande descrédito para minha colméia e sistema de manejo. Outros farão, prova-
velmente, a mesma coisa; razão pela qual pode parecer que nada alem de uma
lamentável experiência de insensatez, na apicultura como em outras ocupações,
pode convencer os homens do perigo de "apressar-se para ficar rico". Se a despei-
to de tudo que possa ser dito, persistir a inexperiência na multiplicação rápida
das colméias, espera-se que estas pessoas tenham, pelo menos, a franqueza sufi-
ciente para atribuir suas perdas a suas próprias tolices.
150 A Colméia e a Abelha
grandes que nenhum apicultor, entre uma centena1, pode pode
tornar a apicultura rentável; muitos que o tentam, devem estar
quase seguros que, ao final da estação, se encontrarão, eles
mesmos, de posse de colméias que foram manejadas para a mor-
te.
Para esclarecer este assunto suponhamos uma colônia que
enxameie. Aproximadamente quarenta libras (18kg) de mel serão
normalmente usadas pelo novo enxame para construir os favos
de sua colméia. Se a estação for favorável e o enxame do cedo for
forte, as abelhas devem recolher néctar suficiente para construir
e encher seus favos e um pouco mais. Se a colméia materna não
enxamear novamente, ela recomporá seus membros imediata-
mente e, não sendo necessário construir favo novo, terá condi-
ções de armazenar uma reserva adicional respeitável nas caixas
superiores. Se, no entanto, a estação for desfavorável, nem o en-
xame primário nem a colméia materna podem, normalmente, re-
colher mais do que o necessário para seu próprio uso; se a co-
lheita de mel for realmente deficiente ambas exigirão alimenta-
ção. O benefício do apicultor, em estações tão desastrosas, será o
aumento de suas colméias.
Se a colméia materna estiver fraca na Primavera a primeira
colheita de mel estará perdida e as abelhas não terão condições
de recolher muito. Durante todo este tempo de acumulação es-
cassa os pomares podem apresentar
"One boundless blush, one white empurpled shower
of mingled blossoms;"
e dezenas de milhares de abelhas das colméias fortes podem
estar engajadas todo o dia em sugar a doce fragrância, assim to-
da a brisa que "suas odoríferas asas sopram" de suas moradas
espalha
"Native perfumes, and whispers whence they stole
Those balmy spoils."2
No momento em que uma colméia fraca é preparada - a des-
peito de qualquer contra-indicação - para enxamear, o fluxo de
néctar estará quase findo e a nova colônia, por não conseguir re-

1 Muitas das pessoas que lêem isto imaginarão, provavelmente, serem elas a úni-

ca entre centenas.
2O perfume da colméia, durante o auge do fluxo de néctar indica, normalmente,
de que fonte as abelhas recolheram seus suprimentos.
L. L. Langstroth 151
colher o suficiente para seu próprio uso, passará fome, a menos
que alimentada. Apicultura, com colônias fracas na Primavera,
exceto em estações e locais excepcionais, nada mais é do que "to-
lice e tormento para o espírito".
Mostrei como se pode conseguir um bom lucro, numa esta-
ção favorável, com colméia forte que tenha enxameado cedo e
apenas uma vez. Se a colméia materna liberar um enxame se-
cundário, a menos que libere cedo e a estação de mel seja boa,
este enxame se provará, freqüentemente, sem valor se for mane-
jado da forma normal. Ele normalmente perece no Inverno, se
não morrer antes, e a colméia materna não só não recolherá mel
em excesso - a menos que a alimentação tenha sido garantida
antes da saída do primeiro enxame - mas, freqüentemente, pere-
cerá também. Assim o novato que ficou tão satisfeito com o cres-
cimento rápido de suas colônias, começa a nova estação com não
mais do que tinha no ano anterior e com a perda do tempo des-
pendido com suas abelhas.
Com a colméia de quadros móveis, a morte das abelhas pode
ser evitada, e todas as colônias fracas tornadas fortes e vigoro-
sas; mas sempre abandonando a idéia de obter uma única libra
de mel em excesso. Favos contendo cria madura devem ser reti-
rados da colméia materna e do enxame primário para reforçar os
enxames fracos, e em vez de trabalharem para abarrotar seus fa-
vos com mel, eles estarão constantemente atarefados em repor
os favos que foram retirados e, finalmente, quando o fluxo de
néctar terminar eles deverão ser alimentados para não perece-
rem de forme.
Qualquer um, inteligente suficiente para criar abelhas, pode,
a partir destas observações, entender perfeitamente porque as
colônias não podem, em estações normais, serem multiplicadas
rapidamente e ainda se conseguir grandes quantidades de mel
em excesso. Até mesmo dobrar as colméias pode ser, freqüente-
mente, um aumento muito rápido quando se deseja rendimento
máximo de mel em excesso.
Gostaria de dissuadir, incisivamente, a todos, até mesmo o
apicultor mais experiente, de nunca tentar mais do que triplicar
suas colméias em um ano. É necessário outro livro, para forne-
cer as instruções para a multiplicação rápida, suficientemente
completo e explícito para o inexperiente; mesmo assim, a maioria
que tentasse seguí-lo, poderia ter certeza, antes de tudo, de fra-
casso total. A partir de dez enxames de abelhas fortes, em col-
152 A Colméia e a Abelha
méias de quadros móveis, numa estação propícia, é possível dis-
por, num local favorável, na chegada do Inverno, de uma centena
de boas colônias; mas deve estar preparado para comprar cente-
nas de libras de mel, despender praticamente todo o meu tempo
no manejo das abelhas e buscar suporte na experiência de vários
anos e o discernimento adquirido por numerosas e lamentáveis
falhas.1 É preferível uma multiplicação certa em vez de rápida
dos enxames. Uma simples colônia, dobrada anualmente, au-
mentará, em dez anos, para 1024 colônias, e em vinte anos para
mais de um milhão! Nesta velocidade, nosso país inteiro pode,
em alguns anos, ficar saturado de abelhas; um aumento de um
terço, anualmente, será suficientemente rápido. Esta velocidade
de crescimento pode ser conseguida, mesmo se, no Outono, nos-
sas colméias forem reduzidas (ver União de Famílias), ao número
da Primavera; assim que, a longo prazo, tanto as colônias serão
mantidas em condições de prosperidade como será assegurada
produção máxima de mel.
Nunca hesitei em sacrificar algumas colônias, para averiguar
um simples fato; de tal sorte que seria necessário um grande vo-
lume para detalhar todos meus experimentos apenas sobre o te-
ma da enxameação. O apicultor prático, no entanto, nunca deve-
rá perder de vista a clara distinção entre um apiário manejado
principalmente com propósito de observação e descobertas e um
conduzido exclusivamente com o objetivo do lucro2. Qualquer a-
picultor pode experimentar facilmente com minhas colméias;
mas ele deverá fazê-lo, em primeiro lugar, apenas em pequena
escala e caso o seu objetivo seja pecuniário, deverá seguir mi-
nhas instruções, até ter certeza de ter descoberto outras que se-
jam melhores. Estes cuidados devem ser tomados para evitar sé-
rias perdas no uso de colméias que, por facilitarem todo tipo de
experimento, podem conduzir o inexperiente para direção duvi-
dosa e sem retorno financeiro. Os iniciantes, especialmente, de-
vem seguir minhas instruções tão à risca quanto possível; embo-
ra seja duvidoso que elas possam ser modificadas ou melhora-
das, isto só poderá ser feito pelos experientes no manejo com as

1Numa estação, fui chamado para casa depois que minhas colônias foram inten-
samente multiplicadas, o fluxo de mel caiu muito repentinamente por causa de
uma seca e eu verifiquei, na minha volta, que a maioria de minhas colméias esta-
va perdida. As abelhas, não tendo sido alimentadas, foram para as padarias e
morreram às centenas de milhares.
2 O Prof. Siebold diz, que Berlepsch lhe falou, que algumas de suas colméias "fo-
ram muito prejudicadas pelos vários experimentos científicos".
L. L. Langstroth 153
abelhas.
Não estou insinuando que cheguei tão perto da perfeição que
nada de relevante sobrou para ser descoberto. Pelo contrário, fi-
carei satisfeito se aqueles que tendo tempo e recursos experi-
mentarem em grande escala com as colméias de quadros móveis;
espero que todo apicultor experto que as usar, experimente, pelo
menos, em pequena escala. Desta forma, podemos esperar que
pontos da história natural das abelhas ainda envoltos em dúvi-
das sejam, em breve, satisfatoriamente explicados.
O apicultor prático deve lembrar que quanto menos ele per-
turbar as colméias que ele mantém para a produção de mel melhor
será. Suas colméias não precisam ser abertas, e as abelhas nun-
ca deveriam sofrer muita interferência, para elas não serem leva-
das a sentir que mantem sobre seus estoques uma posse duvi-
dosa; pois uma impressão deste tipo pode prejudicar, muitas ve-
zes, o zelo pela acumulação.1 O objetivo de manter um controle
sobre cada favo da colméia não deve levar o apicultor a tirar e co-
locar constantemente os favos e sujeitar as abelhas a constantes
aborrecimentos. A menos que ele esteja levando a cabo alguns
experimentos, tais interferências serão quase tão tolas quanto a
conduta de uma criança que diariamente escava as sementes
que plantou para ver o quanto elas cresceram.
Tendo descrito como são retirados enxames forçados, tanto
de colméias comuns como de colméias de quadros móveis, para
que o apicultor possa aumentar o número de suas colméias nu-
ma estação, mostrarei agora como ele pode conseguir a maior
produção de mel, formando uma colônia nova a partir de duas
colônias velhas.
Quando for a época de formar enxames artificiais, tamborile
uma colméia forte - que chamaremos de A - para forçar a saída
de todas as abelhas, e coloque o enxame forçado no suporte ori-
ginal. Qualquer abelha que esteja no campo, quando isto for fei-
to, se juntará a esta nova colônia. Remova para um novo suporte
no apiário uma segunda colméia forte - que chamaremos de B - e
coloque a A em seu lugar. Milhares de abelhas que pertenciam à

1 Estas observações se aplicam particularmente às colméias engajadas no arma-


zenamento de mel em receptáculos que não sejam a colméia principal. As experi-
ências de Dzierzon, bem como as minhas, mostram que abrir as colméias inter-
rompe, normalmente, seu trabalho apenas por alguns minutos.
154 A Colméia e a Abelha
B, ao retornar do campo1, entrarão na A, que assim terá abelhas
suficientes para desenvolver a cria, criar uma nova rainha, e a-
cumular, se o período for favorável, um grande estoque de mel.
Se a B fosse primeiro forçada e depois deslocada, ela teria
sido (pág. 156) seriamente enfraquecida; mas como ela perde
menos abelhas do que se tivesse enxameado e, além disso, man-
tem sua rainha, muito em breve ela estará com quase a mesma
força que tinha antes de ser deslocada2.
Este método de formação de colônias pode ser praticado, em
qualquer dia agradável, desde o nascer do sol até o final da tar-
de; se não existir abelha no campo para se juntar à colméia tam-
borilada, ela pode ser fechada, até ser levada para um suporte de
qualquer colméia forte que já começou a voar com vigor. De to-
dos os métodos que eu delineei para executar a enxameação arti-
ficial3, para qualquer tipo de colméia, este parece ser o mais
simples, mais seguro e melhor. Ele, não só, consegue um au-
mento razoável de colônias, mas mantem todas elas com alto vi-
gor; e nas estações normais rende, em bons locais, maior excesso
de mel do que se tivesse sido evitado todo o aumento do número
de colônias. Se todo apicultor pudesse adotar este plano nosso
país poderia ser, em breve, como a antiga Palestina, "uma terra

1 É quase divertido observar as ações destas abelhas ao retornarem para o seu


local original. Se a colméia estranha for semelhante à sua em tamanho e aparên-
cia externa, elas entram como se tudo estivesse certo, mas retornam imediata-
mente numa agitação violenta, imaginando que por um erro inexplicável elas en-
traram no lugar errado. Levantam vôo para corrigir seu erro e constatam, para
sua crescente surpresa, que elas voaram para o local certo; novamente elas en-
tram e novamente elas caem fora, num confuso atropelamento, até que elas, en-
contrando uma rainha, ou os meios de criar uma, se conscientizam de que se a
colméia estranha não é sua casa, parece ser, está onde deveria estar e é, em todo
o caso, a única casa que elas podem possuir. Não há dúvida que muitas vezes e-
las pensam que uma dura troca lhes foi imposta, mas normalmente elas são inte-
ligentes o suficiente para fazer o melhor. Todas elas estarão muito desconcerta-
das para disputar com outras abelhas que permaneceram na colméia quando o
enxame foi forçado, as quais, por sua parte, lhes ofereceram uma calorosa recep-
ção.
2 Será que é possível manter o enxame forçado no novo local através de uma sa-
cudida vigorosa das abelhas para uma caixa vazia - ver nota na pág. 163 - e de-
pois instalar ela num novo suporte, e permitir que as abelhas voem? Por segu-
rança, a rainha deve ser confinada numa gaiola de rainha.
3 O apicultor tratando um enxame natural como foi instruído que o enxame for-

çado deve ser tratado, pode conseguir aumentar uma colônia a partir de duas; de
todos os métodos para forçar a enxameação natural, nas regiões onde o aumento
rápido não é lucrativo, este é o melhor, desde que as colônias não estejam muito
perto e as colméias usadas no processo sejam semelhantes em forma e cor.
L. L. Langstroth 155
onde corre leite e mel".
Em todos os modos de aumento artificial do número de col-
méias, até aqui fornecidos, a genitora ou colméia materna - como
eu a chamo neste contexto - depois que o enxame forçado foi re-
tirado, receberá uma realeira, ou criará uma nova rainha a partir
da cria de operária. Pelo uso das colméias de quadros móveis a
colméia materna pode receber de imediato uma rainha jovem e fér-
til. Antes de mostrar como isto é feito, serão descritas as vanta-
gens extraordinárias desta providência.
Acontece, algumas vezes, que a colméia materna, quando
privada de sua rainha, morre por não ter tomado nenhuma pro-
vidência para repor sua perda, ou por não ter tido sucesso na
tentativa. Se ela criar diversas princesas, ela ficará reduzida pe-
los enxames secundários; além disso, a jovem princesa correrá
os riscos normais ao procurar os zangões. Quando tudo der cer-
to, passar-se-ão duas a três semanas antes da postura do pri-
meiro ovo na colméia materna; e, quando a cria deixada pela rai-
nha velha tiver amadurecido, o número de abelhas cairá rapida-
mente, antes que qualquer cria da nova rainha emerja, razão
porque ela não tem muita chance de, durante a estação, ocupar
toda a colméia.
Novamente; o sistema de manejo que não fornecer nenhuma
rainha à colméia materna, expõe esta colméia à pilhagem se a
forragem for escassa, pois a presença de uma mãe fértil incentiva
a colôniia a uma resistência mais enérgica.
Se a colméia materna não receber uma rainha fértil ela não
consegue, durante muito tempo, liberar outro enxame, sem que
venha a ficar seriamente enfraquecida. A enxameação secundá-
ria - como é bem conhecido - muitas vezes, prejudica muito a
colméia materna, ainda que suas rainhas amadureçam rapida-
mente; já a colméia materna deve começar sua rainha quase do
ovo. Fornecendo uma rainha fértil e mantendo abelhas aderentes
suficientes para desenvolver a cria, um enxame moderado pode
ser levado adiante com segurança em dez ou doze dias, assim a
colméia materna ficará em condições muito melhores do que se
ela tivesse sido dividida em dois enxames naturais. Em estações
e localidades favoráveis, este processo pode ser repetido quatro a
cinco vezes, em intervalos de dez dias e, se nenhum favo for re-
movido, a colméia materna ficará ainda bem suprida de cria e
abelhas maduras. Realmente, a remoção criteriosa de abelhas, a

156 A Colméia e a Abelha


intervalos apropriados1, deixa a colméia, muitas vezes, no final
do Verão, melhor suprida de cria em amadurecimento do que
colméias que não enxamearam; as últimas são - na expressão
linguística de um antigo escritor - "waxed over fat"2. Tive colônias
que, depois de divididas em quatro enxames da forma acima
descrita, encherem suas colméias com mel de trigo mouro, alem
de produzirem melgueiras adicionais.
Este método de crescimento artificial, que se parece com en-
xameação natural, por não perturbar os favos da colméia mater-
na, é não apenas superior à enxameação natural, por deixar uma
rainha fértil, mas elimina quase totalmente o risco da enxamea-
ção secundária; a rainha velha, quando entregue para o enxame
forçado, raramente tenta liderar uma nova colônia (pág. 128); e a
nova, que foi dada para a colméia materna, fica igualmente con-
tente - a não ser em climas muito quentes - em ficar onde foi co-
locada. Mesmo que seja permitido à rainha velha ficar na colméia
materna, ela raramente partirá, se for colocado espaço suficiente
para o armazenamento de mel em excesso; e não há diferença -
para a prevenção da enxameação - onde a nova é colocada.3

1Se uma colônia forte de abelhas, numa colméia de tamanho moderado, for exa-
minada durante a época do fluxo de mel praticamente todos os alvéolos serão en-
contrados cheios de cria, mel e pão de abelha. A intensa postura da rainha já
passou - não como alguns imaginam porque sua fertilidade tenha diminuído,
mas simplesmente porque faltou espaço para mais cria. A rainha desta colônia,
ou de uma colméia contendo poucas abelhas aparenta, muitas vezes, ser tão es-
belta quanto uma princesa, mas se ela dispuser de abelhas suficientes e lhe for
dado favo vazio em seguida suas proporções se alargarão muito. (Pág. 47)
2 Columella informou que colméias fortes, deixadas por sua conta em estações

muito produtivas, encherão seus favos de cria com mel, em vez de criar novas
abelhas. Ele lembra aos inexperientes que, em vez de ficarem satisfeitos com este
aparente ganho, fechem suas colméias todo terceiro dia e assim provoquem as
abelhas a cuidar da cria! Esta medida dá à rainha a chance de depositar ovos nos
alvéolos dos quais as abelhas emergiram, antes de eles serem enchidos com mel;
e não existe nenhum plano melhor delineado para as colméias comuns.
Na colméia de quadros móveis, alguns dos quadros próximos das extremidades
podem ser retirados e outros tantos quadros vazios podem ser colocados entre
cada dois quadros centrais; assim a colméia será suprida com favos nos quais a
rainha depositará ovos. Pode parecer que, enquanto o instinto das abelhas lhes
ensina a criar todos os ovos depositados nos alvéolos, suas características ava-
rentas muitas vezes - como na natureza humana - querem conseguir o melhor e
assim não dão chance para a rainha depositar, incorrendo no risco de perecerem
por quererem ficar mais ricas.
3 Freqüentemente sou informado que os enxames secundários são menos incli-

nados do que os enxames primários a construir favo de zangão - suas rainhas ra-
ramente põem muitos ovos de zangão na primeira estação. Se pudermos fazer
que as novas colônias encham suas colméias quase completamente com favos de
L. L. Langstroth 157
O apicultor pode dobrar o número de suas colméias numa
estação, até mesmo mais facilmente desta forma do que pelo mé-
todo descrito na página 162; e em estações e locais favoráveis,
esta velocidade de crescimento renderá ainda uma grande pro-
dução de mel.
Para os apicultores que desejarem um crescimento ainda
mais rápido do número de suas colônias, fornecerei um método,
que - depois de anos de experimentação - conclui ser o melhor;
chamando sua atenção para os cuidados já citados, a fim de que,
ao final da estação, eles não concluam que seus ganhos imaginá-
rios foram somente grande investimento em experiência adquiri-
da a alto preço. Se eles forem cautelosos e habilidosos em esta-
ções e locais bons, eles podem, com segurança, aumentar três
vezes o número de suas colônias e podem, possivelmente, com a-
limentação abundante, aumentá-las cinco ou seis vezes, ou
mesmo mais.
A proposta de enxameação artificial, descrita na página 180,
quando combinada com o fornecimento de uma rainha jovem e
fértil para a colméia materna, em vez de parar com o crescimento
de uma para duas colméias, pode ser expandido para qualquer
taxa de crescimento que se queira; ao mesmo tempo apresenta
uma admirável peculiaridade, cada passo concluído é totalmente
independente de todo que deve ser dado a seguir; e o processo
pode ser parado a qualquer momento quando a forragem desa-
parece, ou o apicultor decidir - por qualquer causa - não levá-lo
adiante.
Se ele for usado para dobrar o número de colméias, executar
o seguinte procedimento: introduzir uma rainha jovem e fértil em
A (pág. 180) assim que ela for forçada e dez dias mais tarde for-
çar um enxame da B, que chamarei de D. Colocar a D no suporte
da B, e depois de remover a A para um novo suporte, colocar a B
onde esteve a A, introduzindo uma rainha nova e fértil na B. Ca-
so se deva formar outra colônia E, proceda da mesma maneira,
forçando a A e tranpondo com a B; e assim continua pela trans-
posição da A e B - forçando novas colônias alternativamente de
cada uma - para fazer sucessivamente, em intervalos de cerca de
dez dias, F, G, H, etc.; A e B sendo supridas com rainhas férteis
toda vez que forem forçadas.

operárias, meramente fornecendo-lhes rainhas jovens, a apicultura terá dado ou-


tro passo decisivo para o crescimento.
158 A Colméia e a Abelha
Para tornar este processo mais inteligível, A e B representam
as primeiras posições, no apiário, das colméias originais:
Colméias originais, A, B.
Posição depois da primeira forçada, C, A, B.
segunda C, B, D, A
terceira C, A, D, E, B
quarta C, B, D, E, F, A
quinta C, A, D, E, F, G, B
sexta C, B, D, E, F, G, H, A
Olhando esta tabela1, parece que as novas colônias, C, D, E,
etc. permanecem sempre sem serem perturbadas nos suportes
onde foram inicialmente instaladas.
Dzierzon mencionou o grande número de abelhas que po-
dem, a intervalos, ser removido da colméia, se nela permanecer
apenas uma rainha fértil e abelhas aderentes suficientes; e diz
que já viu se perderem, num único dia, de uma colméia forte, por
causa do vento2 ou tempestade súbita, um número de abelhas
que seriam suficientes para fazer um respeitável enxame.
Este apicultor competente que reuniu a sagacidade de Huber
com uma imensa experiência prática de manejo com abelhas,
formou durante anos seus enxames artificiais principalmente
removendo seus enxames forçados para um apiário distante. A-
inda se este plano tem alguns méritos evidentes e deve ocupar
duas pessoas - suficientemente afastadas - que concordam ma-
nejar suas abelhas por interesse comum, é questionado por mui-
tos apicultores por causa das despesas com o transporte das a-
belhas. Desde o início meus planos para o crescimento artificial
foram executados num apiário simples e transpareceu, a partir
das recentes discussões no Annual Apiarian Convention (p. 20),
que os apicultores alemães estão adotando, celeremente, o mes-
mo método.
Ao fazer buracos na tampa interna das minhas colméias3 -

1 A tabela não tem a intenção de recomendar que as colônias sejam colocadas em

linha, próximas umas das outras. A e B podem estar em qualquer lugar no apiá-
rio, e C, D, E, etc. tão afastadas quanto for desejado. (Ver Cap. sobre Perda da
Rainha.)
2Se a forragem é realmente abundante, as abelhas ficam ansiosas por apanhá-la,
razão porque em dias ventosos, alguns apicultores, prendem as abelhas nas suas
colméias.
3 Estes buracos são semelhantes aos feitos nos spare honey board (Lâmina VIII,
Fig. 21), e são fechados da mesma forma, quando não usados. Eles permitem que
L. L. Langstroth 159
sem colocar os vidros - a enxameação artificial pode ser pratica-
da de uma forma muito semelhante e ainda mais próxima da en-
xameação natural do que qualquer outra até agora descrita. Cer-
ca de uma semana ou dez dias antes de a enxameação artificial
ser feita, colocar uma colméia vazia C, encima da colônia forte A
- fazendo que a entrada da C fique em lado oposto à entrada da
A - e não fechar os buracos no fundo da C, assim as abelhas po-
derão passar da A para a C. Um número de abelhas jovens,
quando saírem para o trabalho usarão a entrada superior, assim
que quando a colônia for forçada da A, e a colméia materna for
posta no lugar da C, ela terá o número de abelhas aderentes ne-
cessárias: o enxame forçado estará na C, colocada no suporte no
lugar da A, conterá, como deve, a maioria das abelhas maduras.
Em poucos dias, a colméia superior pode ser descida para perto
da outra e, gradualmente, removida para uma distância conveni-
ente e sua entrada deixada para qualquer direção. O mesmo pro-
cesso pode ser repetido, a intervalos, com a colméia materna, até
que sejam formadas tantas colônias quantas for desejado1. Se o
apicultor não desejar um crescimento tão rápido, ele pode retirar
da colméia materna, ao forçá-la, dois ou três favos que estejam
mais cheios de cria operculada, assim o enxame artificial terá re-
crutas antes que sua cria nova amadureça.
Se a nova colônia for forçada pela remoção dos quadros (pág.
165), as abelhas podem ser sacudidas sobre uma folha direta-
mente em frente da A, e deixar elas entrarem novamente; os fa-
vos serão todos transferidos para a C, a menos que o apicultor
deseje que alguns retornem para a colméia materna.
Com uma rainha fértil, uma nova colméia pode ser formada
simplesmente revertendo a posição de A e C, quando as abelhas
estiverem em pleno vôo e, passados alguns dias, se a C estiver
mais fraca do que a A a posição das colônias pode ser revertida
novamente: ou A e C podem ser giradas, pivotadas, sem colocar
uma sobre a outra; ou o favo contendo a rainha pode ser deixado
na A, e os outros transferidos para a C, quando as abelhas esti-
verem em pleno vôo. Outros métodos ainda serão sugeridos para

as abelhas circulem pelas colméias empilhadas, uma encima da outra; e a col-


méia superior pode ser usada como um local para armazenamento de mel exce-
dente em pequenas caixas (Lâmina X, Fig. 23), em grandes ou pequenos quadros.
1 Eu, referindo-me à minha Revista, delineei este método no Verão de 1854, ao
usar quadros em colméias que, à semelhança de Dzierzon, abriam nas duas ex-
tremidades. De imediato constatei que tais colméias - mesmo com meus quadros
- não traziam as facilidades apropriadas para o manejo das abelhas.
160 A Colméia e a Abelha
um habilidoso.
Para estes que aprenderam a abrir as colméias e remover os
favos, e usam apenas um apiário, esta forma de fazer enxames
artificiais - que chamo de modo de empilhar - provavelmente se
mostrará ser a melhor. Ele não confunde as abelhas, por lhe a-
presentar uma nova entrada, ou uma colméia com cheiro estra-
nho, e retem na colméia materna abelhas adultas suficientes pa-
ra recolher água e atender a todo o trabalho externo. Na Conven-
ção Apícola de 1857, que teve uma grande audiência, e onde a
questão da enxameação artificial com um apiário foi intensamen-
te discutida, Dzierzon recomendou um método semelhante a este
utilizando suas colméias.
Quero agora mostrar como, com as colméias de quadros mó-
veis, uma rainha jovem e fértil pode sempre ser mantida à mão,
para ser introduzida na colméia materna forçada: cerca de três
semanas antes de a A (pág. 180) ser forçada, tirar dela, tão ao fi-
nal da tarde quanto a luz natural o permitir, um favo contendo
ovos de operárias e abelhas que apenas iniciaram a roer seus
opérculos e colocar ele, com as abelhas maduras que estejam
sobre ele, numa colméia vazia. Se não houver abelhas aderentes
suficientes para prevenir o resfriamento da cria durante a noite,
mais abelhas de outro favo podem ser sacudidas para dentro da
colméia. Se a preparação for feita tão tarde que as abelhas não
consigam deixar a colméia, elas sairão pela manhã, mas então
um número suficiente terá emergido para ocupar o lugar das que
retornarem para a colméia materna. Um favo, do qual cerca de
um quarto da cria tenha emergido, quase sempre terá ovos nos
alvéolos vazios e, se tudo for favorável, as abelhas, em poucas
horas, começarão normalmente a criar uma rainha1.
Se o favo usado para desta forma forçar uma colônia - que
chamarei de núcleo - for removido numa hora do dia quando as
abelhas podem retornar para a colméia materna, elas devem ser
confinadas no núcleo, até que seja tarde para elas saírem; e se o
número de abelhas, que emergiu dos alvéolos, não for grande, a
entrada da colméia deve ser fechada, até cerca de uma hora an-
tes do por do sol do próximo dia (ver pág. 161). A colméia con-
tendo esta pequena colônia, deve ter ventilação apropriada e ser
mantida à sombra - se for de paredes finas - proteger do calor in-

1 Já vi cerca de uma xícara de abelhas, confinadas em local escuro, começar,

dentro de uma hora, a alargar alvéolos para criar uma rainha.


L. L. Langstroth 161
tenso do sol; ela deve sempre ser bem suprida de mel e água1.
Precauções adequadas devem ser tomadas para evitar a perda de
sua princesa quando ela sair para o acasalamento (Ver Cap. so-
bre Perda da Rainha.)
O melhor procedimento para formar um núcleo com colméia
de quadros móveis será colocando a colméia vazia sobre a col-
méia completa da forma já descrita (pág. 186): quando abelhas
suficientes começam a usar a entrada superior um favo de cria
com abelhas aderentes, pode ser transferido para ele e a ligação
entre as duas colméias fechada. Se as abelhas estiverem relutan-
tes a entrar na colméia superior, elas podem ser encorajadas a
fazê-lo colocando mel num alimentador dentro desta colméia -
mantendo a entrada fechada para prevenir as pilhadoras - e de-
pois disso pode-se fazer elas passarem pela colméia superior. Em
alguns dias este núcleo pode ser baixado e gradualmente remo-
vido, outra colméia pode ser posta sobre a colméia materna.
Se tudo for favorável, este núcleo, quando a A é forçada, terá
uma rainha fértil, que pode ser introduzida na A, quando as abe-
lhas que retornam do campo mostrarem ter percerbido (pág. 158)
estarem sem rainha. O favo pertencente ao núcleo, com todas as
abelhas que estão sobre ele, pode então ser dado para a colônia
artificial C. Ou, se o apicultor preferir, ele pode dar para a A sua
própria rainha, e dar a jovem - com as precauções a seguir des-
critas - para a C.
Se for intenção dobrar o número de colméias, um segundo
núcleo deve ser formado, tomando, cerca de dez dias mais tarde
um favo com cria da B e dando uma segunda rainha para uma
segunda colônia artificial, D2.
Se for intenção multiplicar as colméias mais rapidamente a-
inda, então apenas a rainha deve ser retirada do primeiro nú-
cleo, assim que ela começar a botar e a colônia iniciará a criar
outra. Se ela for removida antes de começar a botar ovos, o favo
do núcleo - depois de sacudir dele todas as abelhas - deve retor-
nar para a A ou B e substituído por outro que esteja bem supri-

1 Sempre que a posição da colônia for alterada, a ponto de interromper por al-

guns dias o vôo das abelhas é recomendável supri-las com água em sua colméia,
uma vez que sua falta é seguidamente fatal para a cria.
2Os que apostarem inteiramente na enxameação artificial podem, muitas vezes,
garantir rainhas férteis prendendo as rainhas jovens extras dos enxames secun-
dários (pág. 122) e alojando elas, com algumas abelhas, em qualquer caixa pe-
quena contendo um pedaço de favo de operária.
162 A Colméia e a Abelha
do com ovos: se, a qualquer tempo, o número de abelhas no nú-
cleo for muito pequeno, ele pode ser reforçado trocando o seu fa-
vo por um que esteja repleto de cria nascente assim como quan-
do ele foi formado (pág. 188). O mesmo processo deve ser adota-
do com o segundo núcleo, e depois - a intervalos regulares - se-
rão conseguidas rainhas suficientes dos dois, para multiplicar as
colônias até onde desejado.
Para tornar este assunto um plano perfeito, suponhamos
que C seja forçada em 1º de Junho, e D, E, F, etc., em intervalos
de dez dias1. Então, como antes, C, A e B (pág. 185), represen-
tam as posições das colônias em 1º de Junho, e as outras colu-
nas, seus lugares em 10, 20, etc. Agora, I e II representam os
núcleos - uso este nome quando falo em mais de um núcleo - e
I1, II1 representam os núcleos quando está com sua primeira rai-
nha; I2, II2, quando está com sua segunda rainha; I3, II3, quando
cada um tem sua terceira rainha, e assim por diante, entenden-
do-se sempre que I, II, sem os expoentes, indicam que os núcleos
estão, no momento, criando suas rainhas. O primeiro núcleo se-
rá formado em 10 de maio, e o segundo em 20 de maio.
10 de maio, I, 20 de junho, I2, II,
20 de maio I, II, 30 de junho, I, II2,
1º de junho, I1, II, 10 de julho, I3, II,
10 de junho, I, II1, 20 de julho, I, II3, etc., etc.
Pode ser desejável remover a rainha do núcleo antes que ela
comece a botar ovos, para que sua colônia receba uma realeira
operculada de outro núcleo, neste caso não se perderá tempo e
será evitado muito aborrecimento.
O que segue, da pena do Rev. Mr. Kleine, um dos mais talen-
tosos apicultores alemães, é interessante ser aqui colocado: -
"Dzierzon sugeriu recentemente que, como Huber, introduzindo
um pouco de geléia real em alvéolos contendo cria de operária se
obtinha rainha e, assim, seria possível induzir as abelhas a cons-
truir realeiras onde o apicultor preferisse tê-las, inserindo uma
pequena porção de geléia real em alvéolos contendo larvas de o-
perárias! Deixando por conta das próprias abelhas, elas segui-
damente amontoam tanto as realeiras" - ver Lâmina XV - "que é
difícil remover uma, sem fatalmente estragar outras; assim,

1 Ninguém deve imaginar que operações tão dependentes da estação, clima e

tempo, possam ser conduzidas com a precisão matemática com que elas estão
sendo colocadas nesta ilustração.
L. L. Langstroth 163
quando uma destas realeiras for cortada, normalmente segue a
destruição e remoção da larva da outra. Para evitar este tipo de
perda, normalmente procedo como segue: ao selecionar um favo
com cria não operculada, para criar rainha, sacudo ou escovo as
abelhas, e recorto, se necessário, as realeiras vazias de sua bor-
da. Em seguida apanho uma realeira não operculada - a qual
normalmente contem excesso de geléia real - e removo dela uma
parte da geléia real, com a ponta de uma faca ou pena e colocan-
do-a no fundo de qualquer alvéolo de operária fico esperançoso
que a larva ali existente seja criada como rainha; como estas rea-
leiras estarão separadas e na borda do favo elas serão facil e se-
guramente removidas. Este é outro notável avanço na prática a-
pícola, pelo qual ficamos em dívida à sagacidade de Dzierzon." -
Bienenzeitung, 1858, pág. 199. Traduzido por Mr. Wagner.
Se as realeiras em excesso forem cortadas (pág. 166), do nú-
cleo I, antes que a primeira rainha amadureça, outros núcleos
podem ser formados por um processo similar; realmente, com
quadros móveis, pode ser criado qualquer número de rainhas e
se ali mantidas elas podem ser facilimentusadas1 sempre que
desejado.
Tanto o núcleo original I como o II, e os feitos a partir de su-
as realeiras operculadas, podem ser formados trazendo de outro
apiário numa caixa pequena a quantidade de abelhas aderentes
que for desejado (pág. 162); e outras tantas podem retornar para
o mesmo a fim de serem usadas com o mesmo propósito. O habi-
lidoso poderá, também, apanhar abelhas aderentes, movendo um
pouco2 a colméia materna (pág. 161) e de várias outras formas,

1Dzierzon estima que uma rainha fértil deve custar, no período de enxameação, a
metade do preço de um enxame novo.
2 Se as abelhas aderentes forem assim obtidas, e não existir um amontoado de

abelhas no favo da cria, elas podem ficar tão insatisfeitas com a sensação de a-
bandono a ponto de se recusarem a permanecer. Se elas aceitarem se submeter a
este sistema de colonização forçada elas estarão, no entanto, muito agitadas ini-
cialmente mas em seguida, se reúnem ao amontoado de abelhas sobre o favo; ca-
so contrário, elas mui rapidamente abandonam a colméia, levando consigo tudo
que depositaram no favo.
Sendo aceito que as abelhas podem criar uma rainha de qualquer ovo de operária
ou larva jovem pode-se aceitar também que as operárias com qualquer idade são
capazes ou estão dispostas a fazê-lo?
Huber fala de dois tipos de operárias: "Um deles é, em geral, destinado para a
produção de cera e seu tamanho é consideravelmente alargado quando cheio de
mel; o outro entrega imediatamente o que coletou para suas companheiras; seus
abdomens não sofrem mudanças sensíveis, estas retem somente o mel necessário
164 A Colméia e a Abelha
que ele mesmo descobrirá.
Pode-se fazer uma rainha suprir com cria várias colméias,
enquanto estas forem mantidas engajadas continuamente na
criação de rainhas reservas. Retire de duas colônias, 1 e 2, a in-
tervalos de uma semana, cada uma das rainhas, usando estas

para sua própria subsistência. A função particular das abelhas deste tipo é de
tomar conta das jovens, razão pela qual elas não têm a função de aprovisionar a
colméia. Em oposição com as operárias produtoras de cera podemos chamá-las
de abelhas pequenas ou nutrizes.
"Embora a diferença externa não seja considerável, esta distinção não é imaginá-
ria. Observações anatômicas mostram que o estômago não é o mesmo: experi-
mentos mostraram que uma das espécies não consegue atender plenamente to-
das as funções compartilhadas pelas abelhas da colméia. Pintamos as abelhas de
cada classe com diferentes cores para estudar sua conduta: estas não se permu-
tavam. Noutro experimento, depois de fornecer à colméia, privada da rainha, cria
e pólen, vimos as pequenas abelhas em seguida se ocuparem com a nutrição das
larvas, enquanto as da classe de trabalhar com a cera negligenciavam-nas. As
abelhas pequenas também produzem cera, mas em quantidade muito inferior à
que é produzida pelas verdadeiras operárias da cera.
As declarações de Huber não foram comprovadas, talvez porque as abelhas que
se negam a se amontoarem no favo de cria, para criar uma nova rainha, é porque
lhes faltam algumas das condições necessárias para o sucesso. Pode ser que não
exista nem operárias de cera suficientes para aumentar os alvéolos nem nutrizes
para tomar conta das larvas.
Se Huber dispusesse das mesmas facilidades de observação que o Dr. Dönhoff
(pág. 194) ele teria, provavelmente, chegado às mesmas conclusões.
Se alguém imaginar que os cuidadosos experimentos necessários para criar fatos
com base sólida de demonstração, seja fácil, deixe-os tentar provar ou negar a
verdade de qualquer uma destas conjecturas; eles provavelmente concluírão que
a tarefa é mais difícil do que cobrir uma resma inteira de papel com afirmativas
cuidadosas.
Será interessante apresentar um extrato do prefácio de Huber sobre o assunto.
Depois de falar sobre sua cegueira, e elogiar o extraordinário gosto pela História
Natural de seu assistente Burnens, "que nasceu com os talentos de um observa-
dor", diz ele: "Cada um dos fatos que publiquei, temos observado vezes e mais ve-
zes novamente, durante o período de oito anos que empregamos para fazer as ob-
servações sobre as abelhas. É possível fazer uma idéia justa da paciência e habi-
lidade com que Burnens tem conduzido os experimentos que vou descrever; ele
tem observado muitas vezes algumas operárias de nossas colméias, as quais te-
mos motivos para pensar serem férteis, pelo espaço de vinte e quatro horas, sem
distração **** ele dizia que o cansaço e as dores eram nada, comparadas com a
grande vontade que ele sentia de conhecer os resultados. Assim, então, se existir
algum mérito em nossas descobertas, devo compartilhar a honraria com ele; te-
nho imensa satisfação de render-lhe este ato de justiça pública".
E ainda, o homem que foi tão generoso a ponto de reconhecer os méritos de seu
servente, foi, na visão de muitos, muito ordinário de tentou impor ao mundo,
como fatos bem comprovados, verdades pouco mais prováveis do que as ficções
de "Sinbad the Sailor".
L. L. Langstroth 165
rainha para enxames artificiais. Assim que as realeiras na 1 esti-
verem com idade suficiente para serem usadas, remova-as, e dê
para a 1 uma rainha de outra colméia, 3. Quando as realeiras da
2 forem removidas, esta rainha pode ser retirada da 1 - onde ela
deve ter posto em abundância - e dada para a 2. Nesta hora as
realeiras da 3 estarão operculadas, podendo ser removidas, e a
rainha introduzida na sua própria colméia. Ela terá completado
um circuito, e suprido ovos para a 1 e a 2; depois de ter enchido
sua própria colméia, ela pode ser enviada novamente para sua
missão perambulante. Por este método, posso obter, a partir de
algumas colméias, um grande número de rainhas.
Alguns dias depois que o núcleo é formado, ele deve ser e-
xaminado e se realeiras não tiverem sido iniciadas, ou nelas não
existirem larvas, as abelhas devem ser sacudidas do favo, e este
trocado por outro.
As abelhas, algumas vezes, começam realeiras que, em al-
guns dias, encontram-se desocupadas. Na segunda tentativa elas
normalmente começam um número maior e raramente são mal
sucedidas. Esta prática torna-as mais perfeitas? ou antes falta-
vam algumas condições necessárias?
A seguinte comunicação valiosa, da pena do Dr. Dönhoff,
pode jogar alguma luz sobre este assunto: - "Dziezon afirma, co-
mo um fato, que as operárias se dedicam mais exclusivamente
aos afazeres domésticos da colônia no primeiro período da vida;
assumindo a execução das tarefas mais ativas de fora da colméia
somente durante os últimos períodos de sua existência. As abe-
lhas italianas me supriram de meios adequados para testar a
precisão desta opinião.
"Em 18 de abril de 1855 introduzi uma rainha italiana numa
colônia de abelhas comuns; no próximo 10 de maio emergiu a
primeira operária de seu alvéolo. No dia seguinte, elas emergiram
em grande número, uma vez que a colônia foi mantida em boas
condições por uma alimentação regular e abundante. Eu fiz as
seguintes observações:
"1. Em 10 de maio nasceram as primeiras operárias italia-
nas; em 17 de maio elas apareceram pela primeira vez fora da
colméia. No dia seguinte, e depois diariamente até o dia 29, elas
apareciam por volta do meio dia, se entretendo na frente da col-
méia sob os raios do sol. Elas, no entanto, claramente não saiam
com o propósito de colher mel ou pólen, pois durante este perío-

166 A Colméia e a Abelha


do de tempo nenhuma foi vista com bolotas; nenhuma foi vista
pousando em qualquer flor do meu jardim; não encontrei mel
nos estômagos das que apanhei e sacrifiquei para examinar. Até
29 de maio a coleta era feita exclusivamente pelas abelhas velhas
originais da colméia, nesta data as abelhas italianas começaram
a trabalhar também nesta ocupação - estavam então com 19 di-
as de idade.
"2. Nos alimentadores espalhados pelo meu jardim e que es-
tavam constantemente apinhados de abelhas não vi abelha itali-
ana até o dia 27 de maio, dezessete dias depois de a primeira ter
emergido do alvéolo.
"A partir de 10 de maio em diante, diariamente apresentava
para as abelhas italianas, da colméia, um graveto que tinha sido
mergulhado em mel. Nenhuma das mais jovens tentava sugar al-
go dele; as mais velhas parecia que, ocasionalmente, sugavam
um pouco, mas o abandonavam imediatamente e se afastavam.
As abelhas comuns sempre sugavam-no avidamente, nunca o
abandonando antes de terem sua vesícula melífera repleta. Até
25 de maio não vi nenhuma abelha italiana sugando avidamente
o mel, como o faziam as abelhas comuns desde o início.
"Estas repetidas observações me forçaram a concluir que,
durante as duas primeiras semanas de vida das operárias, não
existe o impulso para coletar mel e pólen, ou pelo menos não es-
tá desenvolvido; e que o desenvolvimento deste impulso ocorre
lenta e gradualmente; inicialmente as abelhas jovens nem sequer
tocam o mel que lhes é apresentado; alguns dias mais tarde elas
apenas provam, e somente depois de mais um período de tempo
elas o apanham avidamente. Passaram-se duas semanas antes
que elas realmente sugassem mel e se passaram aproximada-
mente três semanas antes que o impulso de coleta estivesse sufi-
cientemente desenvolvido a ponto de impelir as abelhas a voarem
para o campo à procura de mel e pólen nas flores.
"Fiz, em seguida, as seguintes observações sobre a ocupação
doméstica das abelhas italianas:
"1. No dia 20 de maio, retirei todos os favos que havia na
colméia e os devolvi depois de tê-los examinado. Ao inspecioná-
los meia hora mais tarde, fiquei surpreso de ver que as bordas
dos favos que tinham sido cortados para a remoção, estavam co-
bertos por abelhas italianas exclusivamente. Examinando mais
cuidadosamente, constatei que elas estavam ativamente engaja-

L. L. Langstroth 167
das em grudar os favos às laterais da colméia. Quando as afastei
com uma escova elas retornaram imediatamente com pressa im-
petuosa para retomar sua atividade.
"2. Feitas as observações acima, inseri na colméia uma barra
da qual o favo havia sido cortado, para me certificar que a re-
construção do favo era executada pelas abelhas italianas. Reti-
rei-a novamente algumas horas mais tarde, e constatei que ele
estava coberto quase exclusivamente por operárias italianas, a-
inda que a colônia, naquele instante, contivesse uma grande
quantidade de abelhas comuns. Vi que elas estavam engajadas
laboriosamente na construção do favo; elas prosseguiam no tra-
balho incessantemente, enquanto eu segurava a barra em mi-
nhas mãos1. Repeti este experimento vários dias sucessivamente
e fiquei satisfeito ao ver que as abelhas engajadas nesta tarefa
eram sempre, quase exclusivamente, da raça italiana. Muitas de-
las tinham escamas de cera visivelmente projetadas entre os a-
néis abdominais. Estas observações mostraram que nas primei-
ras fases de sua existência o impulso para a construção de favo é
muito mais intenso do que na idade avançada.
"3. Sempre que examinava a colônia durante as três primei-
ras semanas depois que as abelhas italianas tinham emergido,
encontrava os favos de cria cobertos principalmente por abelhas
desta raça: por esta razão é provável que a cria2 seja atendida
principalmente e assistida pelas abelhas mais jovens. As evidên-
cias, no entanto, não são tão conclusivas como no caso da cons-
trução de favo, visto que elas podem se congregar sobre os favos
de cria por serem estes mais aquecidos do que os outros.
"Posso acrescentar outras observações interessantes. As fe-
zes nos intestinos das jovens abelhas italianas eram viscosas e
amarelas; e das abelhas comuns ou velhas eram fluidas e límpi-
das, semelhante à da rainha. Isto é uma confirmação da opinião
que, para a produção de cera e geléia real as abelhas necessitam
de pólen; mas não precisam deste elemento para sua sobrevivên-

1 Tive uma rainha que continuava a por ovos no favo depois dele ter sido removi-

do da colméia.
2 Tive, certa vez, uma colônia que, depois de ficar sem rainha por algum tempo,

não apenas se negou a construir realeiras, mas até mesmo devorou os ovos que
lhe eram fornecidos. Fatos semelhantes foram relatados por outros observadores.
Quando uma colônia que se recusa a criar rainha receber um favo contendo abe-
lhas em amadurecimento, estas inocentes órfãs trabalharão de imediato para re-
por sua perda. As observações do Dr. Dönhoff confirmam estes fatos.
168 A Colméia e a Abelha
cia." - B. Z. 19855, pág. 163. S. Wagner.
Se for intenção multiplicar as colônias rapidamente, nunca
deixar os núcleos muito reduzidos em número de abelhas ou
sem cria ou mel. Com estes cuidados, sempre que a rainha for
dele retirada elas começam a repor sua perda mais normalmen-
te.
Existe uma peculiaridade na característica das abelhas que é
merecedora de profundo respeito. É a sua incansável energia e
perseverança pois, em circunstâncias aparentemente desespera-
doras, elas trabalham até a exaustão para recuperar suas perdas
e superar o estado decadente. Enquanto elas tiverem uma rai-
nha, ou perspectiva de criar uma, elas se empenham vigorosa-
mente para sustar a ruína e nunca desistem até sua condição se
tornar absolutamente desesperadora. Conheci uma colônia de
abelhas que não conseguia sequer cobrir um pedaço de favo de
quatro polegadas quadradas tentar criar uma rainha. Durante
duas semanas inteiras, elas foram fiéis ao seu empreendimento
desesperador; finalmente, quando estavam reduzidas a menos da
metade do seu número original, a sua nova rainha emergiu, mas
com asas tão imperfeitas que ela não conseguia voar. Apesar de
mutilada como se encontrava, elas a tratavam com respeito qua-
se igual como se ela fosse fértil. No decurso de mais uma semana
permanecia na colméia uma escassa dúzia de operárias e alguns
dias mais tarde a rainha se foi, e somente algumas desconsola-
das e abandonadas permaneciam no favo.
Vergonha de um covarde de nossa raça, que, quando surpre-
endido por uma calamidade, em vez de enfrentar nobremente as
tormentosas águas da aflição se resigna de modo vil a si mesmo
a um destino ignóbil e perece, quando deveria viver e triunfar! e
duplamente vergonhosos os que, vivendo na terra do cristianis-
mo "ficam abatidos em dias de adversidade" quando deveriam
acreditar na palavra de Deus, deveriam enxergar com os olhos da
fé sua "bow of promise" dispersando as nuvens da tempestade e
ouvir sua voz amorosa convidando-os a acreditar Nele como o
"Grande Libertador".
Na edição anterior deste trabalho, juntamente com outros
métodos de enxameação artificial, foram fornecidas instruções
muito completas para o aumento das colônias pelo fornecimento
aos núcleos de um segundo favo com cria em amadurecimento,
assim que sua rainha começa a botar ovos, e então, a intervalos
apropriados, um terceiro e um quarto, até que eles estejam fortes
L. L. Langstroth 169
o suficiente para tomar conta deles mesmos. Este modo de au-
mentar é trabalhoso e exige habilidade e decisão que poucos
possuem: é também peculiarmente propenso a provocar a pilha-
gem entre as abelhas, pois exige que as colméias sejam abertas
com freqüência, para remover os favos necessários nas diferentes
etapas. Caso um grande número de núcleos deva ser reforçado
simultaneamente o apicultor não conseguirá completar o proces-
so artificial com uma operação simples e deverá se manter sem-
pre à disposição, ou correr o risco de terminar a estação com co-
lônias esfomeadas. Por estas e outras razões, prefiro os métodos
de delineei, dispensando tantas aberturas e manuseios dos fa-
vos. Se, no entanto, qualquer uma das novas colônias estiver
fraca a ponto depassar necessidades, ela pode ser ajudada com
favos das colméias fortes.
Qualquer que seja o método utilizado pelo apicultor, ele nunca
deverá reduzir a força da colméia materna a ponto de comprome-
ter a prolificidade de suas rainhas. Este princípio deveria ser pa-
ra ele como "a lei dos Medas e Persas, que nada altera": uma rai-
nha, com abundância de favos de operárias e abelhas, pode,
numa única estação, tornar-se a genitora de um número de fa-
mílias prósperas, se sua colônia, no início do período de enxa-
meação, for dividida em três ou quatro partes, mas nenhuma de-
las conseguirá normalmente estoques suficientes para sobreviver
ao Inverno.
Se o apicultor estiver nas proximidades de casas de açúcar,
confeitarias, ou outros lugares muito freqüentados pelas abelhas,
ele verá suas colméias, tanto as velhas como as novas, tão des-
povoadas por causa do seu empenho para conseguir ganhos de-
sonestamente, a ponto de ficar em perigo de morte. Em tais situ-
ações, todas as tentativas de crescimento rápido são totalmente
intrutíferas.
Todos os tipos de operações artificiais são mais bem sucedi-
dos quando a forragem para a abelha for abundante; quando ela
for escassa elas se tornam um fracasso, mesmo se as colônias
forem bem supridas de alimento.
Quando as abelhas não estão ocupadas na coleta de néctar,
elas estão no ócio e podem ficar fracas, as quais serão quase cer-
tamente pilhadas se abertas sem cuidado. Quando a forragem é
escassa, as colméias deveriam ser abertas antes do sol nascer,
ou depois do por do sol, ou quando poucas abelhas estivessem
voando pelos campos; se for necessário abri-las em outros mo-
170 A Colméia e a Abelha
mentos elas devem ser protegidas da importunação pelas outras
colônias. O apicultor que não previne a pilhagem, enfraquece se-
riamente o valor de suas colméias e impõe a si mesmo muito
trabalho inútil e aborrecimento. Cuide para não perverter as abe-
lhas tentando-as a pilharem umas às outras!
Num apiário onde as colméias são semelhantes em tamanho,
forma e cor e estão próximas umas das outras, as operações não
naturais serão, seguidamente, excessivamente perigosas, pois as
abelhas serão continuamente levadas a entrar em colméias erra-
das. Se as colméias devem ser mantidas próximas, ainda mais se
as colméias são de mesma cor e formato, será melhor levar para
um segundo apiário, seja o enxame forçado, seja a colméia ma-
terna da qual ele será formado.
O apicultor já foi alertado sobre os cuidados necessários ao
fornecer uma rainha estranha para as abelhas. Huber descreve
assim o modo como uma nova rainha é normalmente recebida na
colméia:
"Se outra rainha é fornecida a uma colméia antes que te-
nham decorrido doze horas desde a remoção da que liderava a
colméia, as abelhas a rodeiam, agarram e a mantem presa por
tempo muito longo, num amontoado impenetrável, e ela nor-
malmente morre ou por fome ou por falta de ar. Caso tenham se
passado dezoito horas antes da introdução de uma rainha estra-
nha, ela é tratada, inicialmente, da mesma forma, mas as abe-
lhas deixam-na em seguida, como também o amontoado que a
rodeia não é tão compacto; elas se dispersam gradualmente e a
rainha é finalmente libertada; ela se desloca languidamente e,
algumas vezes, morre dentro de alguns minutos. Algumas, no
entanto, se salvam saudáveis depois do que lideram a colméia.
Caso se passarem vinte e quatro horas antes da introdução da
rainha estranha ela será bem recebida desde o momento da in-
trodução.
"Reaumur afirma que se a rainha original é removida e outra
introduzida esta nova será recebida perfeitamente desde o início.
*** Ele induziu quatro a cinco centenas de abelhas a deixarem
sua colméia e entrarem numa caixa de vidro contendo um peda-
ço de favo. Inicialmente, elas ficaram em grande agitação, mas
no instante que ele lhes apresentou uma nova rainha o tumulto
cessou e a estranha foi tratada com todo o respeito.
"Não questiono a veracidade deste experimento, mas as abe-

L. L. Langstroth 171
lhas de Reaumur estavam muito longe de sua condição natural a
fim de permitir que ele tirasse alguma conclusão sobre os seus
instintos e disposições. Ele próprio observou que a operosidade e
a atividade das abelhas são afetadas quando em número muito
reduzido. Tal experimento deveria ser conduzido em colméias
populosas para se conseguir verdades conclusivas; a rainha es-
tranha deveria ser introduzida imediatamente no lugar da origi-
nal removida."
Parece que, pelo uso da palavra imediatamente, Huber estava
cauteloso com o fato se a rainha estranha é introduzida na colô-
nia antes de cessar a agitação (pág. 158), e antes que sejam ini-
ciadas as realeiras ela será, normalmente, bem recebida. Se as
abelhas da colônia são levadas a se encherem de mel, pelo tam-
borilar, fumegar ou lhes fornecendo líquido doce e, muitas vezes,
se forem transportadas para um novo local, elas aceitam pron-
tamente qualquer rainha que se lhe ofereça, no lugar da sua
própria.
As abelhas possuindo uma rainha fecundada relutam, fre-
qüentemente, em aceitar uma não fecundada em seu lugar; sem
dúvida, é preciso muito mais experiência para fornecer uma rai-
nha estranha a uma colônia e ainda ter certeza de lhe garantir
uma boa recepção. Em muitas ocasiões as operárias ferroaram a
rainha estranha até a morte, enquanto eu a segurava entre meus
dedos, a fim de removê-la caso ela não fosse bem-vinda. Para evi-
tar acidentes será bom confinar a rainha - quando introduzida
em colônia estranha - dentro do que os alemães chamam "gaiola
de rainha", que pode ser fabricada fazendo um buraco num bloco
e cobrindo-o com tela metálica, ou qualquer cobertura perfurada.
As abelhas se familiarizam com a rainha aprisionada, colocando
suas antenas através das aberturas e no dia seguinte ela pode
lhes ser entregue com segurança. Rainhas inclinadas a voar para
a floresta podem ser confinadas da mesma forma. Uma caixinha
de papelão perfurado responde igualmente bem, ou mesmo uma
caixa de fósforos.
Se a gaiola for colocada com suas pequenas aberturas sobre
um dos furos da entre-tampa, ou colocada dentro da colméia, as
abelhas sentir-se-ão como se a rainha estivesse em liberdade.
Uma gaiola deste tipo será muito conveniente para qualquer con-
finamento temporário da rainha.
A rainha deve ser apanhada suavemente com os dedos de
entre as abelhas e se nenhuma abelha for esmagada não existe
172 A Colméia e a Abelha
perigo de ser ferroado. Embora a rainha não ferroe, mesmo
quando manuseada rudemente, poderá algumas vezes, quando
confinada em espaço muito pequeno, morder a mão do operador
podendo provocar um pequeno incômodo - suas mandíbulas,
que são projetadas para roer a base da realeira, são mais largas
e mais fortes do que a da abelha comum. Se for permitido que
ela voe ela pode ser perdida, tentará entrar numa colméia estra-
nha qualquer.
Como uma rainha fértil pode botar algumas centenas de o-
vos por dia, não é estranho que ela fique exausta rapidamente,
quando retirada de entre suas abelhas. "Ex nihilo nihil fit" - de
nada, nada vem - suas árduas atividades de maternidade a com-
pelem a ser uma grande consumidora de alimento. Ao retornar
para as abelhas depois de um afastamento das abelhas de ape-
nas quinze minutos, ela solicitará mel; se mantida longe por uma
hora ou mais, ela deve ser alimentada pelo apicultor, ou ter al-
gumas abelhas, cheias com mel, que a acompanhem para suprir
suas necessidades. Uma que enviei pelo correio, numa gaiola de
rainha, acompanhada de operárias bem alimentadas chegou com
segurança no apiário do meu amigo no dia seguinte.
São necessárias grandes precauções não só ao introduzir
uma rainha estranha numa colméia mas toda vez que se mistu-
rar abelhas pertencentes a diferentes colônias. As abelhas que
têm uma rainha fértil brigam, quase sempre, com as que têm
uma não fecundada; esta é uma razão porque freqüentemente
ocorre uma disputa furiosa, na qual milhares perecem, quando
se tenta misturar enxames novos.
Parece que os membros de diferentes colônias reconhecem
suas companheiras de colméia pelo odor e, se existirem centenas
de colméias no apiário, qualquer uma detectará rapidamente
uma abelha estranha; assim como toda mãe num grande reba-
nho de ovelhas é capaz, pelo mesmo sentido, na escuridão da
noite, distinguir sua própria cria de todas as outras. Parece, por
esta razão, que as colônias podem ser misturadas com seguran-
ça borrifando-as com água açucarada, perfumada com hortelã-
pimenta ou outro odor forte, o que fará todas elas terem o mes-
mo odor.
Há algumas estações atrás, descobri que as abelhas freqüen-
temente reconhecem as estranhas pelas suas ações, mesmo
quando elas têm o mesmo odor; uma abelha alarmado se volta
com postura amedrontada o que, sem sombra de dúvida, revela
L. L. Langstroth 173
que ela está consciente de ser uma intrusa. Se, por esta razão,
as abelhas de uma colônia forem deixadas em seu próprio local, e
as outras forem repentinamente introduzidas, as últimas, mes-
mo quando ambas as colônias tiverem o mesmo odor, ficam tão
amedrontadas que elas são identificadas como estranhas e são
imediatamente mortas. Se, no entanto, ambas as colônias forem
transportadas para uma nova posição e sacudidas juntas sobre
uma folha, elas se misturarão pacificamente, desde que tenham
o mesmo perfume.1
Se, quando duas colônias são misturadas, as abelhas da
colméia na posição original não estiverem cheias de mel, elas
freqüentemente atacam as outras, que estão carregadas, e rapi-
damente as ferroam até a morte, a despeito de todas suas tenta-
tivas de conseguir imunidade oferecendo seu mel. O Mr. Wm. W.
Cary, de Coleraine, Massachusetts, que de longa data é um ob-
servador cuidadoso dos hábitos das abelhas, une colônias com
grande sucesso, alarmando as que estam no suporte original;
assim que elas mostram, pelo seu comportamento, estarem
submissas, ele introduz as demais. O alarme que as faz se en-
cherem com mel (pág. 27), deixa-as em dúvida sobre o seu bem
estar, por tempo suficiente para dar às outras uma boa chance.
Já foi afirmado não ser possível, por tratamento algum, por
mais rude que seja, induzir a rainha a ferroar. A razão desta es-
tranha relutância é óbvia, quando considerarmos que a preser-
vação de sua vida é indispensável para a sobrevivência da colô-
nia e que, embora a perda do seu ferrão possa ser fatal para ela

1 Substancialmente cheguei à mesma conclusão do que foi recomendado em


1778 por Thomas Wildman (pág. 230 da terceira edição de seu valioso trabalho
sobre abelhas), que diz que as abelhas "se agruparão quando estiverem com me-
do e em perigo, sem brigar, como estariam dispostas a fazer se abelhas estranhas
entrassem em sua colméia para se apoderar do seu mel".
De todos os antigos escritores, parece que Wildman chegou mais perto dos méto-
dos modernos para subjugar e manejar as abelhas. Vinte e cinco anos antes das
investigações de Huber sobre a origem da cera, este cuidadoso observador co-
mentou sobre as escamas de cera no abdômen das operárias; ele estava tão con-
vencido que a cera era secretada a partir do mel, que ele recomendava alimentar
os enxames novos, quando o tempo estivesse chuvoso, para que eles pudessem
construir favo imediatamente para os ovos da rainha.
O Mr. Wagner me indica o "Glossarium Melliturgium de Orerbeck" - Bremen,
1765, pág. 89 - no qual a origem da cera é propalada, mais de vinte anos antes
da data daquele trabalho - isto é 1745 - pelo Pastor de Hannover, chamado Her-
man C. Hornbostel. Ele trouxe suas descobertas para o mundo no assim chama-
do "Hamburgh Library" vol. 2, pág. 45; elas estão tão minuciosamente descritas a
ponto de não deixar dúvidas de sua precisão.
174 A Colméia e a Abelha
mesma, ele não teria mais valor para sua defesa, no caso de um
ataque, do que a única espada de Washington ou de Wellington
tinha para decidir uma grande batalha. Enquanto as abelhas
comuns estão prontas a sair e sacrificar suas vidas à mínima
provocação, a rainha penetra mais profundamente entre as mi-
lhares de abelhas amontoadas, e nunca usará seu ferrão, exceto
quando engajada em mortal combate com outra rainha. Quando
duas rivais se encontram, elas se agarram imediatamente, com
cada uma demonstrando o mais vingativo ódio. Porque, então,
não são as duas freqüentemente destruídas? Nunca podemos
deixar de admirar suficientemente a previdência tão simples, e
ainda tão efetiva pela qual esta calamidade é evitada. A rainha
nunca ferroa, a menos que sua vantagem seja tão clara que ela
consiga curvar seu corpo por baixo do corpo da sua rival para
lhe infligir um ferimento mortal, mas sem risco para si mesma -
o momento em que a posição das duas combatentes é tal que
nenhuma tem vantagem, mas ambas podem perecer, elas não só
se recusam a ferroar, mas se desvencilham e suspendem o con-
flito por um curto tempo!
As interessantes afirmações que seguem foram fornecidas
para o New England Farmer (Outubro. 1855), pelo Hon. Simon
Brown, Lieutenant-Governor of the Commonwealth de Massa-
chusette, em 1855.
"Em 17 de julho último, colocamos na janela da sala de jan-
tar um núcleo de observação do Sr. Langstroth, construído em
vidro, de tal forma que todas as atividades das abelhas podiam
ser observadas ampla e convenientemente. Nele foi colocado um
favo com cerca de um pé quadrado (30 x 30cm2), contendo um
pouco de cria, coberto de operárias e zangões, mas sem rainha. A
colméia foi então observada cuidadosamente por uma moça da
família, que nos relatou o que segue sobre suas atividades.
"´A primeira tarefa em que as abelhas se envolveram, foi ini-
ciar realeiras e elas assim se mantiveram, energicamente, por
dois dias. Ao final deste período, foi apanhada uma rainha de ou-
tra colônia e introduzida entre elas, ato contínuo elas destruíram
as realeiras que tinham construído, em menos da metade do
tempo que foi necessário para construí-las e começaram, jun-
tando pedaços, a completar e a reparar o favo que precisava de
um canto. A rainha começou a botar imediatamente e encheu,
rapidamente, os alvéolos desocupados, quando então ela foi no-
vamente removida, e as abelhas uma vez mais começaram a

L. L. Langstroth 175
construção de realeiras.
"´As abelhas jovens começaram, agora, a emergir, e em duas
semanas a família tinha crescido a ponto de se tornar necessário
iniciar os preparativos para enxamear. Elas construíram seis
realeiras e em cerca de doze dias a primeira rainha emergiu. As-
sim que ela emergiu, ela andou rapidamente e da forma mais e-
nérgica possível sobre o favo e visitou as outras realeiras nas
quais havia princesas embrionárias, aparentando fúria para des-
truí-las. As operárias, no entanto, rodearam-na e evitaram tal
ímpeto assassino. Mas durante dois dias ela esteve concentrada
em seu propósito destrutivo e se mantinha em movimentação
praticamente contínua para conseguí-lo. No décimo quarto dia a
segunda rainha estava pronta para emergir, piando e fazendo vá-
rios ruídos para chamar a atenção.
"´Aparentemente uma parte da colônia concluiu ser tempo de
partir com a primeira princesa, mas por algum erro ela perma-
neceu no núcleo quando o enxame partiu. A segunda princesa
emergiu assim que as abelhas partiram e passaram a existir, a-
gora, duas princesas emergidas na colméia! elas circulavam pelo
favo, que estava agora praticamente vazio, assim era possível vê-
las distintamente. Mas parece que, aparentemente, elas não ti-
nham se percebido, enquanto as operárias estavam em estado de
grande inquietação e comoção, parecendo impacientes esperando
que uma fosse destruída. O modo que as operárias adotaram pa-
ra consegui-lo foi claro e a sangue frio. Um círculo de abelhas
manteve uma rainha estacionária, enquanto outro conduziu a
segunda para junto da primeira, assim que as cabeças das duas
rainhas praticamente se tocavam, as abelhas recuavam, deixan-
do um campo aberto para as combatentes, no qual uma seria vi-
toriosa e a outra morreria! O combate foi feroz e sanguinário. E-
las se agarraram e, como lutadores expertos, se esforçavam para
infligir um golpe fatal através de algum movimento repentino ou
hábil. Mas, por alguns momentos, parecia que as partes estavam
equilibradas; não era possível divisar vantagem para nenhum la-
do. As abelhas permaneciam observando calmamente a terrível
luta, como se elas próprias tivessem sido heróis em centenas de
guerras. Mas a briga, como todas as outras, teve seu fim; uma
sucumbiu na arena e foi imediatamente apanhada pelas operá-
rias e levada para fora da colméia. Neste momento, as abelhas
que partiram na forma de um enxame descobriram que sua
princesa tinha se perdido e, ao invés de prosseguir se alojando,
retornaram, mas não a tempo de testemunhar o combate fatal e

176 A Colméia e a Abelha


a queda de sua pobre princesa que devia ter partido com elas à
procura de uma futura casa.´"1
O apicultor já foi lembrado do valor de manter favos bons em
suas colméias. Nas colméias estes favos são como capital de giro
para um homem de negócios; enquanto eles puderem ser utiliza-
dos nunca deveriam ser destruídos (pág. 60)2. Os que tiverem
fartura de bons favos de operária deverão, inquestionavelmente,
considerar ser uma vantagem utilizá-los no lugar de guias artifi-
ciais (Lâmina I, Fig. 2,w)3. Os que usam as guias, precisam exa-
minar o enxame dois ou três dias depois de ele ter sido alojado,
quando, com um pequeno manejo, toda irregularidade nos favos
pode ser facilmente corrigida. Alguns favos podem precisar uma
pequena compressão para colocá-los na posição certa e outros
deverão, até mesmo, serem recortados e presos em outros qua-
dros; mas nenhum esforço deve ser poupado para certificar-se de
que todos estão bem, antes de considerar o trabalho concluido
pois reparar os defeitos mais tarde será muito mais trabalhoso.
Se a colônia é pequena ela deve ser confinada, com uma partição
móvel, ao espaço da colméia que contenha quadros que ela possa
proteger - como também para o seu encorajamento, além de eco-
nomizar calor animal e evitar a construção de favos irregulares.
Varro, que foi famoso antes da era Cristã, diz (Livro III, Cap. xvii-
i), que as abelhas ficam desanimadas quando colocadas em col-
méias muito grandes.
Fornecendo-lhes cinco quadros com favo de operária, inter-
calando-os com os quadros vazios, pode-se conseguir uma res-
posta admirável no desenvolvimento de um enxame novo. Dois
ou três dias depois que as abelhas tomaram posse da colméia,
elas podem ser informadas, polidamente, que estes quadros com
favos de operárias lhesforam fornecidos apenas para orientação,

1 "Introduzimos uma rainha numa colméia", diz Huber, "depois de pintar seu tó-

rax, para distingui-la da rainha existente. Se formou um círculo tão compacto de


abelhas em volta da estranha que, num único minuto, ela perdeu sua liberdade.
Outras operárias, ao mesmo tempo, se reuniram em torno da rainha existente e
restringiram seus movimentos. *** Elas retinham suas prisioneiras somente
quando parecia que elas queriam se afastar uma da outra; e se uma, menos reti-
da, se mostrava desejosa de se aproximar da rival, todas as abelhas que forma-
vam o amontoado se afastavam, dando-lhe liberdade total para atacar; depois, se
elas mostravam uma disposição para se afastar, as abelhas voltavam a retê-las."
2 O Mr. S. Wagner tem uma colônia por mais de 21 anos, cujas abelhas jovens

parece terem o mesmo tamanho das outras do seu apiário.


3Ver a explanação das Lâminas da Colméia, com a descrição dos vários estilos de
quadros móveis.
L. L. Langstroth 177
e os quadros com favos por elas construídos podem ser alterna-
dos com quadros vazios. Cinco quadros podem ser, assim, utili-
zados, sucessivamente, para vários enxames.
Como as guias artificiais aumentam o custo dos quadros e
nelas não se pode confiar invariavelmente, o apicultor prático fa-
rá de tudo, até onde possível, para dispensar o seu uso. Delineei
um plano - descrito em outro lugar - para substituí-las e permitir
ao iniciante levar suas abelhas, sem nenhum favo, a construir
nos quadros com regularidade total.
Deve ser óbvio, a todo apicultor bem informado, que o controle
perfeito sobre os favos da colméia é a alma do sistema de manejo
pode ser modificado para atender as necessidades de todos que
criam abelhas. Até mesmo o apicultor à moda antiga pode, com
quadros móveis, acabar com seu trabalho exaustivo quase tão
rapidamente quanto colocando-o numa mina de enxofre; preser-
var assim o seu mel da fumaça desagradável, mantendo o mel
em quadros dos quais ele pode cortar convenientemente, e pre-
servar todo favo vazio para uso futuro (pág. 71).
Como, pode-se perguntar, aqueles que gostariam de criar
abelhas mas temem ser ferroados, a ponto de se oporem total-
mente, até mesmo, à enxameação natural, como podem tais pes-
soas abrir colméias, levantar favos, sacudir ou escovar abelhas e
realizar outras atividades que parecem semelhantes a desafiar
um leão em seu refúgio? A verdade é que algumas pessoas são
tão tímidas, ou sofrem tão terrivelmente quando ferroadas, que
elas são totalmente desqualificadas para fazer qualquer coisa
com as abelhas e não devem ter nenhuma sob seus cuidados,
mas devem entregá-las aos cuidados de outros. Com as orienta-
ções fornecidas neste tratado, praticamente todos, no entanto,
usando proteção adequada, podem manejar abelhas com muito
pouco risco. Acredito, em poucas palavras, que o risco de ser fer-
roado é grandemente diminuído pelo uso das minhas colméias.
No entanto é muito difícil, para aqueles que não as viram em u-
so, acreditar que isso possa ser verdade.
O desconhecimento pela maioria dos apicultores de que se po-
de conseguir facilmente um controle quase ilimitado sobre as abe-
lhas, sempre foi visto pelo autor deste tratado como o maior obstá-
culo para a introdução rápida da colméia de quadros móveis. Eles
devem ter inventado dispositivos que, por estarem adaptados à
sua ignorância, se provaram, inicialmente, muito mais lucrativos
para eles, que apenas os conceberam, seja para a comunidade
178 A Colméia e a Abelha
ou para eles mesmos, para satisfação do seu ego. O desconheci-
mento conduziu à invenção de colméias custosas e complicadas1,
e os mais bem informados conhecem toda a ingenuidade e des-
pesa nelas esbanjada, que são tão desnecessárias quanto uma
custosa máquina para erguer o pão e a manteiga para a boca e
empurrá-lo goela abaixo de uma ativa e saudável criança.
O Rev. John Thorley, em seu "Female Monarchy", publicado
em Londres, em 1744, parece ter sido o primeiro a introduzir a
prática de anestesiar as abelhas com a fumaça narcótica do fun-
go "puff ball" (Fungus pulverulentus), seco para manter o fogo a-
ceso. O mesmo efeito é produzido empurrando um trapo satura-
do de clorofórmio ou éter pela entrada da colméia e fechando-a
hermeticamente para prevenir a saída dos vapores. As abelhas,
em seguida, caem imóveis dos favos e se recuperam, novamente,
depois de pequena exposição ao ar.
Alguns dos meus leitores podem supor que uma forma tão
fácil de anestesiar as abelhas deve facilitar enormemente a re-

1 Tenho na minha frente um pequeno panfleto, publicado em Londres em 1851,

escrito por W. A. Munn, Esq. O objetivo deste panfleto é descrever a construção


da "Colméia de Barra e Quadro". O objeto desta invenção é levantar os quadros,
um de cada vez, dentro de um estojo com laterais de vidro, de forma que eles pos-
sam ser examinados sem risco de perturbar as abelhas. O inventor manifesta
uma grande ingenuidade com esta colméia realmente custosa e complicada, o
qual parece imaginar que a fumaça "deve ser prejudicial tanto para as abelhas
quanto para sua cria". Além disso, se um pouco de fumaça for tão prejudicial, o
apicultor pode fazer as abelhas se encherem de mel (pág. 27) usando água doce,
ou tamborilando na colméia, depois de fechar sua entrada, quando então todos
os favos poderão ser levantados com segurança.
A colméia de Huber, ou uma colméia de barras móveis, pode ser manejada com
mais segurança do que qualquer outra que se proponha a elevar os quadros sem
permitir que eles sejam retirados (pág. 150). Uma colméia simples, cuja configu-
ração seja tal que mutile e irrite as abelhas, está mais para ser temida num apiá-
rio do que milhares apropriadamente construídas; uma vez que elas fazem as a-
belhas ver seu protetor como um inimigo.
Na pág. 15, falei sobre a colméia de barras, como tendo pelo menos cem anos de
idade. A partir do que consta no "A Journey into Greece, de George Wheeler,
Esq." de 1675-6, parece que ela era, naquele tempo, de uso comum por lá e, pro-
vavelmente, já então era prática antiga; ele descreve como ela era usada para fa-
zer enxames artificiais e retirar mel em excesso. Como os novos enxames eram
feitos dividindo os favos entre duas colméias, e não é feita nenhuma menção se
para a parte sem rainha era fornecida uma realeira - estes antigos observadores
provavelmente estavam familiarizados com o fato de que elas podiam criar uma a
partir de cria de operária. Huber diz: - "Monticelli, um Professor Napolitano, indi-
ca que a enxameação artificial foi trazida da Favignana e que sua prática é tão
antiga que até mesmo os nomes latinos são preservados pelos habitantes em
seus procedimentos."
L. L. Langstroth 179
moção dos favos; mas, embora valioso para os desconhecedores
da regra máxima que uma abelha cheia de mel nunca se lança
voluntariamente ao ataque, para os mais bem informados os
narcóticos de qualquer espécie são, em geral, mais nocivos do
que úteis. Abelhas vivas podem ser retiradas do caminho facil-
mente; mas as anestesiadas, assim como um homem embriaga-
do, são constantemente passíveis de serem mutiladas ou mortas.
Muitos apicultores – que não são mestres apícolas - desejam
uma colméia que lhes forneça, mesmo sem nada conhecer e até
mesmo sem cuidados, uma grande colheita de mel de suas abe-
lhas. Eles são facilmente enfeitiçados pelos dispositivos mais su-
perficiais e gastam seu dinheiro e destroem suas abelhas para
encher a carteira de homens sem princípios. Nunca existirá um
"caminho real" para uma apicultura rentável. Como todos os ra-
mos da economia rural, ela exige dedicação e experiência; e os
que estiverem cônscios da grande tendência em procrastinar e
negligenciar, farão muito bem em deixar as abelhas sozinhas, a
menos que eles esperem, pelo estudo de seu trabalho sistemáti-
co, reformar maus hábitos que são quase incuráveis
Ao mesmo tempo que me sinto esperançoso, de modo cres-
cente, que a colméia de quadros móveis1 será usada extensiva-
mente pelos apicultores habilidosos, conheço muito bem as difi-
culdades de uma introdução rápida de qualquer sistema de ma-
nejo que esteja muito à frente do conhecimento atual; mesmo
uma colméia perfeita (pág. 116) exigirá anos para abrir seu ca-
minho até o uso geral. Foi tão só nos últimos anos que as mara-
vilhosas descobertas de Huber - como os escritos de Bruce Sour-
ces of the Nile - emergiram das nuvens do ridículo e da calúnia
em que estiveram envolvidas durante muito tempo; e mesmo a-
gora, ao descrever um décimo das maravilhas da colméia, ainda
que tenham sido perfeitamente demonstradas, na percepção de
muitos de nossos mais antigos apicultores, merece apenas ser
taxada de loucura, de mentira ou de trapaça.

1 No dia em que planejei o quadro móvel, escrevi o que segue na minha Bee-

Journal: - "O uso destes quadros darão, estou persuadido, um novo impulso para
tornar mais fácil e lucrativo o manejo das abelhas; e tornarão a preparação de
enxames artificiais uma operação mais fácil."
180 A Colméia e a Abelha
CAPÍTULO XI

PPE
ERRD
DAAD
DAAR
RAAIIN
NHHA
A

São fatos familiares a todo apicultor que uma rainha é fre-


qüentemente perdida e que a sua colônia está perdida a menos
que esta calamidade seja remediada a tempo,.
As rainhas morrem, algumas vezes, por doença ou idade a-
vançada quando não existe cria para suprir a sua perda. Poucas,
no entanto, perecem em tais circunstâncias; as abelhas, alerta-
das para a aproximação do fim da rainha, constroem realeiras,
ou as rainhas morrem tão subitamente que ainda existe cria jo-
vem. As rainhas não só vivem mais tempo (pág. 58) do que as
operárias, mas são normalmente as últimas a perecer em caso de
fatalidade. A morte da rainha por idade avançada pode provocar,
anualmente, a perda de um grande número de colônias, se a sua
morte não ocorrer em circunstâncias favoráveis. Elas morrem,
freqüentemente, quando sua força reprodutiva não está severa-
mente afetada, e normalmente existem zangões disponíveis para
fecundar suas sucessoras.1

1 Ao preparar minhas colméias para o Inverno encontrei - em 21 de outubro de

1856 - duas que tinham realeiras operculadas. Como os zangões não são mortos,
em algumas colméias, até depois de primeiro de novembro, estas rainhas poderi-
am ser fecundadas, se o clima não se tornasse muito frio. Ao examinar, nova-
mente, em 21 de fevereiro, cada uma destas colméias tinha alguns zangões oper-
culados e larvas, enquanto colméias fracas tinham muita cria. A seguir um extra-
to da descrição que o Prof. Leidy fez destas rainhas: - "Seus ovários estavam
cheios com ovos, eles mediam quatro quintos de linha de comprimento e um oi-
tavo de linha de largura. Suas espermatecas estavam cheias com uma matéria
mucosa e granular, e células epiteliais, e não continham um traço sequer de fila-
mentos espermáticos". Enquanto os intestinos destas rainhas continham apenas
um pouco de excremento líquido, o reto de uma operária, examinado na mesma
hora, estava cheio com uma enorme quantidade de uma substância escura e re-
pulsiva.
Estas colônias zanganeiras receberam rainhas de outras colméias que, quando
abertas em abril, foi constatado terem criado rainhas em fevereiro. Uma rainha
gerava operárias, a outra ovos de zangão, a primeira deve ter sido fecundada em
março, provavelmente por alguma cria da rainha zanganeira. Não podem ser
mantidas algumas rainhas zanganeiras, como vantagem, em grandes apiários?
L. L. Langstroth 181
As princesas nascem, algumas vezes, com as asas tão imper-
feitas que elas não conseguem voar (pág. 39); e elas ficam fre-
qüentemente tão mutiladas em suas brigas com as outras, ou
pelo tratamento rude que recebem quando deixam a realeira
(pág. 121), que elas não conseguem deixar a colméia para serem
fecundadas.
Precisamos descrever ainda em que circunstâncias é que a
maioria das colônias fica sem rainha. Mais rainhas, cujas perdas
as abelhas não conseguem repor, perecem quando deixam a col-
méia para se encontrar com os zangões, do que de todas as outras
formas. Depois da partida do enxame primário, a colônia mater-
na e todos os enxames secundários têm princesas que precisam
deixar a colônia para a fecundação; seu tamanho avantajado e
vôo lento, fazem delas uma presa muito tentadora para os pássa-
ros, outras são jogadas, por uma súbita rajada de vento, contra
um objeto duro ou jogadas para dentro da água: com toda sua
dignidade real, elas não estão livres dos infortúnios comuns aos
mais humildes de sua raça.
A despeito de seus cuidados em marcar a posição e a aparên-
cia de sua moradia (pág. 125), as jovens princesas cometem, fre-
qüentemente, um erro fatal e são destruídas ao tentarem entrar
em colméia errada. Isto explica o fato notório porque apicultores
pouco informados, com colméias abandonadas e com risco de se
desmantelarem, mas não possuindo duas semelhantes, são fre-
qüentemente mais bem sucedidos do que aqueles cujas colméias
são da melhor construção. Os primeiros - a menos que suas
colméias estejam excessivamente congestionadas - perdem pou-
cas rainhas, enquanto os últimos perdem-nas na exata propor-
ção ao gosto e habilidade que os induz a fazer suas colméia de
tamanho, forma e cor uniformes.
No Verão de 1854 eu aprendi, pela primeira vez, a extensão
do risco de um apiário congestionado. Para proteger minhas
colméias do calor e frio extremos, elas foram arranjadas, lado a
lado, sobre uma trincheira, assim que, através de ventiladores
instalados em seu fundo, elas podiam receber, no Verão, um ar
mais frio e no Inverno um ar mais quente do que o ar ambiente.
Com este arranjo - que falhou completamente em atender o seu
propósito - muitas de minhas colméias ficaram sem rainha e, em
seguida, me certifiquei das circunstâncias em que as princesas
são normalmente perdidas.
Com grande uniformidade das colméias em tamanho, forma,
182 A Colméia e a Abelha
cor e altura era quase impossível para uma jovem princesa ter
certeza de estar retornando para sua colméia. A dificuldade au-
mentava, pelo fato de que em frente da trincheira não existiam
arbustos nem árvores e nenhuma colméia - com exceção das du-
as das pontas, que não perderam suas rainhas - podia ter sua
localização facilmente lembrada, graças à sua posição relativa a
alguns objetos externos. A maioria das colméias assim posicio-
nadas, que tinham rainhas jovens, ficou sem rainha, ainda que
supridas de outras rainhas, novamente e novamente; até mesmo
muitas operárias entravam constantemente em colméias próxi-
mas da sua.
Se um viajante for levado, numa noite escura, para um hotel
numa cidade estranha, e ao levantar pela manhã, encontrasse as
ruas cheias de construções precisamente iguais ao seu hotel, só
teria condições de retornar ao lugar apropriado se certificando
previamente do seu número, ou contando as casas entre o hotel
e a esquina. A facilidade da numeração, no entanto, não é forne-
cida para a rainha; na natureza, nunca serão oferecidos à rainha
uma dúzia ou mais de buracos de árvores ou outros locais fre-
qüentados pelas abelhas, posicionados proximamente, precisa-
mente iguais em tamanho, forma e cor, com suas entradas vol-
tadas para o mesmo lado e exatamente à mesma altura em rela-
ção ao solo.
Ao descrever para um amigo minhas observações sobre a
perda das rainhas, ele me disse que no manejo das galinhas, ele
cometeu um erro semelhante. Para economizar espaço e facilitar
o acesso aos ninhos das galinhas, ele repartiu uma longa caixa
numa dúzia ou mais de apartamentos separados. As galinhas, ao
retornarem para seus ninhos, ficavam confusas por causa da
similaridade das entradas, assim que, freqüentemente, uma cai-
xa continha duas ou três pouco amáveis aspirantes às honras da
maternidade, enquanto outras ficavam completamente abando-
nadas. Muitos ovos eram quebrados, outros se estragavam e difi-
cilmente chocavam em número suficiente para estabelecer uma
mãe como a feliz galinha choca da família próspera. Se ele tives-
se deixado suas galinhas seguirem os seus instintos, elas teriam
espalhado seus ninhos e alegrado seus olhos com uma numero-
sa descendência.
Pelo comprimento e largura de nossas mãos, os apicultores
que sofrem pesadas perdas, por causa da proximidade e simila-
ridade de suas colméias, desconhecedores da verdadeira causa

L. L. Langstroth 183
de sua desgraça, imputam-nas à traça da cera ou outro dos mui-
tos inimigos das abelhas. Judge Fishback, de Batavia, Ohio, me
informou, no Outono de 1854, quando visitavamos seu grande
apiário, que por muitos anos se protegeu da perda das jovens ra-
inhas, pintando a frente das suas colméias com diferentes cores
e posicionando as entradas para diferentes direções1. Todo api-
cultor, cujas colméias estão arranjadas de tal forma que as jo-
vens rainhas podem cometer erros, deve esperar pesadas perdas.
Se ele colocar várias colméias, em circunstancias semelhantes às
descritas, sobre um banco, ou nas prateleiras da casa das abe-
lhas, ele nunca conseguirá manter um bom número sem renova-
ção constante. Os enxames primários e as colméias que não en-
xameiam ficarão bem por reterem suas rainhas férteis; muitos
dos que enxameiam serão pilhados pelas outras abelhas, ou se
tornarão vítimas da traça, ou desaparecerão gradualmente.
Se o apicultor preferir manter suas colônias próximas, por
causa do espaço limitado ou outras razões, proponho um arranjo
para mantê-las sem correr o risco de perder a jovem rainha: -
Se ele praticar a enxameação natural, ele deve remover a
colméia materna, assim que ela enxamear, para uma nova posi-
ção, dando-lhe dois a três quartos das abelhas do enxame, antes
de elas entrarem na nova colméia, que será colocada no local
primitivo. Estas abelhas por terem propensão para a enxamea-
ção, permanecerão no lugar (pág. 156) das que subseqüentemen-
te saírem.
Se for praticada a enxameação artificial, as entradas das
colméias dos núcleos devem ser marcadas com um galho frondo-
so, e, se possível, com a entrada orientada para diferentes dire-
ções (pág. 189) das entradas das colméias vizinhas. As novas co-
lônias devem ser formadas como instruído na página 186. Caso
sejam usados dois apiários, os enxames artificiais podem ser fei-
tos por qualquer um dos caminhos já descritos e as colônias que
tem princesas para serem fecundadas levadas para o segundo
apiário.
Algumas vezes as abelhas ficam excessivamente agitadas

1 John Mills, num trabalho publicado em Londres, em 1766, fornece (pág. 93) as
seguintes instruções: "Não esqueça de pintar as entradas de suas colônias com
diferentes cores, como vermelho, branco, azul, amarelo, etc., na forma de meia
lua, ou quadrado, para que as abelhas identifiquem melhor sua própria colméia".
Tais cuidados evitam que as colméias fiquem sem rainha, embora eles não sejam
adotados para esta finalidade.
184 A Colméia e a Abelha
quando a princesa sai para o vôo de fecundação a ponto de exibi-
rem todos os sinais de enxameação. Parece que elas têm uma
instintiva percepção do perigo que a espera, como se elas não
quisessem que ela saísse. Eu as tenho visto rodeá-la e confiná-
la, como tentando fazê-la desistir de sair. Se a rainha for perdida
durante o "vôo de acasalamento", como dizem os alemães, o nú-
mero de abelhas da colônia antiga diminuirá gradualmente; as
abelhas do enxame secundário ou serão unidas a outra colônia
ou desaparecerão rapidamente.
Seria interessante se pudéssemos aprender como as abelhas
ficam informadas da perda de sua rainha. Quando ela é retirada
das abelhas, sob circunstâncias que excitam toda a colônia, po-
demos facilmente ver como elas percebem sua ausência; assim
como uma mãe atenciosa, em tempo de perigo, é toda preocupa-
ção para com suas crianças impotentes, assim as abelhas,
quando alarmadas, sempre procuram primeiro ter certeza da se-
gurança de sua rainha. Se, no entanto, a rainha for cuidadosa-
mente removida pode passar um dia ou mais antes que elas per-
cebam sua perda1. Como são as abelhas advertidas do ocorrido?
Talvez uma zelosa abelha, ansiosa por abraçar sua mãe, faça
uma busca cuidadosa por ela através da colméia. A notícia que
ela não foi encontrada é espalhada e toda a família fica alarmada
rapidamente. Em tais ocasiões, em vez de conversarem calma-
mente, tocando-se com as antenas, é possível vê-las golpeando-
se umas às outras violentamente e manifestando sua agonia e
desapontamento pelas demonstrações mais comoventes.
Uma vez removi uma rainha de uma pequena colônia, as a-
belha, procurando por ela, levantaram vôo e encheram o ar. Ape-
sar de ela ter retornado em poucos minutos, dois dias mais tarde
foram encontradas realeiras. A rainha estava ilesa e as realeiras
desocupadas. Este trabalho foi iniciado por algumas que não a-
creditaram nas demais, quando afirmaram que ela estava a sal-
vo? ou por causa da apreensão de que ela poderia ser novamente
perdida?
Todas as colônias cujas rainhas estão para serem fecunda-

1 "Durante dezoito horas, após a retirada da rainha, os trabalhos normais da

colméia prosseguem tão regularmente como se ela estivesse presente; mas assim
que sua perda é percebida tudo fica agitado e tumultuado - as abelhas se precipi-
tam para lá e para cá sobre os favos, com um surdo sussurro, correm em multi-
dões para fora da colméia, como se fossem enxamear, e em pouco tempo exibem
todos os sintomas de privação e desespero." Bevan, pág. 24.
L. L. Langstroth 185
das devem ser observadas, para o apicultor ficar informado a
tempo de sua perda. Tais colônias, quando supridas com favo
com cria apropriado, dificilmente abandonam a colméia, se a ra-
inha for perdida. Uma colméia velha na qual não se consiga in-
troduzir uma rainha ou fornecer os meios para ela criar uma,
deve ser dessmantelada, e suas abelhas colocadas em outra co-
lônia; um novo enxame sempre deve ser desmantelado a menos
que a rainha prestes a amadurecer lhe seja fornecida (pág. 149).
Se a nova colônia é grande, será melhor, em vez de desmantelar,
dar-lhe uma rainha de uma colméia velha que possa facilmente
criar outra. Se, no entanto, o apicultor usa colméias de quadros
móveis, e adota o sistema de núcleos (pág. 188), ele sempre terá
rainhas à mão para todas as emergências.
Huber demonstrou que as abelhas normalmente não trans-
portam os ovos da rainha de um alvéolo para outro. Pude, no en-
tanto, em várias ocasiões, vê-las carregando ovos de operárias
para realeiras. O Mr. Wagner colocou algumas abelhas sem rai-
nha, trazidas de longe, em favos vazios que estavam em seu só-
tão por dois anos. Quando supridas com cria, elas criaram sua
rainha nestes favos velhos! O Mr. Richard Colvin, de Baltimore,
bem como outros amigos apicultores, me falaram de ocasiões
quase tão intrigantes.
Tendo descrito os cuidados necessários para prevenir a per-
da das rainhas, falta mostrar como o apicultor pode se certificar
que a colméia está sem rainha e como ele pode remediar tal des-
dita. Assim que as abelhas começarem a voar vivamente na Pri-
mavera, a colméia que não estiver colhendo pólen1 laboriosamen-
te, que não aceita farinha de centeio, que refuga água que lhe for
dada em favo vazio, é quase certo não ter rainha, ou ter uma não
fértil - a não ser que esteja prestes a ser destruída pelas traças,
ou perecer de fome.
É certo que uma colméia está sem rainha se, depois de faze-
rem seus primeiros vôos na Primavera, as abelhas, circulando,
de uma forma inquiridora, para dentro e fora da colméia (pág.
67), mostrarem que uma grande calamidade caiu sobre elas. As

1 "O Mr. Randolph Peters, da Filadélfia, tinha uma colméia que ele constatara es-

tar sem rainha, uma vez que as abelhas não coletaram pólen por 28 dias. Intro-
duzi uma rainha na colméia, enquanto ele segurava um cronômetro em sua mão,
e em 3,5 minutos após a introdução da rainha foi vista uma abelha entrando com
pólen em suas pernas! Ambos ficamos observando a entrada por algum tempo e
vimos muitas abelhas carregadas de pólen." - P. J. Mahan
186 A Colméia e a Abelha
que chegam do campo, em vez de entrar na colméia com a pressa
característica das abelhas que retornam, quando carregadas, pa-
ra uma casa próspera, normalmente se demoram em volta da en-
trada com uma aparência indolente e descontente, e a colônia
permanece impaciente, até tarde do dia, quando as outras col-
méias estão tranqüilas. Sua casa, como a de um homem que é
detestável em suas relações domésticas, é um local melancólico,
e elas entram com movimentos lentos e relutantes.
E aqui, se me for permitido endereçar uma palavra de alerta
amigável, gostaria de dizer para todas as esposas - façam tudo
que conseguirem para tornar a casa de seu marido um local a-
traente. Quando afastado dela, faça seu coração pulsar com o
pensamento do retorno para o seu aconchego; quando dela se
aproximar, deixe seu semblante assumir involuntariamente uma
expressão mais alegre, enquanto seus passos rápidos e alegres
demonstrarem que ele sente não existir lugar semelhante à sua
alegre casa onde sua escolhida esposa e companheira preside
como sua alegre e honorável Rainha1. Se sua casa não é cheia de
alegres encantos, tente toda a magia das palavras agradáveis e
sorrisos, e a execução alegre dos afazeres domésticos, e explore
até onde possível a eficácia do amor, fé e orações, antes que a-
quelas palavras de terrível agonia,
"Anywhere, anywhere
Out of the world!"
sejam extorquidas dos seus lábios desesperados, quando vo-
cê reconhecer que não existe casa para você, até que você passe
para aquela habitação que não foi feita por mãos humanas, ou
habitada por corações humanos.
No entanto quando as abelhas começam seu trabalho na
Primavera, elas normalmente fornecem evidências se tudo corre
bem, ou se a desgraça se aproxima, se o seu primeiro vôo não for
constatado, é difícil saber se existe ou não alguma dificuldade
nas colméias comuns. Se as abelhas são deslocadas de entre os
favos pela fumaça, a presença ou ausência de cria pode, muitas
vezes, ser apurada. Se forem encontradas algumas abelhas im-
perfeitas no fundo, ou na frente da entrada, isto mostra que a
colméia contem uma rainha fértil.

1 "A décima e última espécie de mulher foi feita da abelha; e feliz é o homem que
tomar esta mulher para sua esposa. Ela é cheia de virtude e prudência e é a me-
lhor mulher que Júpiter pode conceder." - Spectator. No. 209.
L. L. Langstroth 187
Recomendo veementemente que toda colméia de quadros
móveis seja examinada, assim que as abelhas começarem o tra-
balho na Primavera1. Os favos, com as abelhas aderentes, devem
ser postos numa colméia limpa e a velha, depois de limpa de tu-
do que possa prejudicar os delicados sentidos das abelhas, pode
substituir outra colméia.
Ao fazer esta limpeza completa das colméias o apicultor sa-
berá qual precisa de ajuda e qual pode ajudar as outras; toda
que precisar de reparo pode ser consertada entes de colocada em
uso novamente. Tais colméias, se ocasionalmente re-pintadas,
permanecerão por gerações e se mostrarão mais baratas, por
muito tempo, do que qualquer outro tipo.
Se durante o exame da Primavera, a colméia não tiver rai-
nha, ela pode receber, se populosa, uma de outra colméia fraca.
Se estiver pequena favos, com abelhas emergindo2, podem ser
conseguidos em colônias fortes. Ou pode ser permutada de posi-
ção com uma colméia forte, enquanto as abelhas estão ativamen-
te buscando suprimento; ou abelhas trazidas de longe podem ser
adicionadas a ela3. Se ela criar rainha que não puder ser fecun-
dada oportunamente, ela pode morrer e mais favo com cria deve-
rá ser dado a ela. As colméias menores devem ser preservadas
até que apareçam os zangões, ocasião em que elas podem ser fei-

1 Gostaria de lembrar, aos que pensam "ser trabalho demais" examinar suas col-

méias na Primavera, a prática dos antigos apicultores, como colocado por Colu-
mella: - "As colméias devem ser abertas na Primavera, ou seja, todos os detritos
que nela se acumularam durante o Inverno devem ser removidos. Aranhas que
destroem os favos e as larvas, das quais surgem as traças, devem ser mortas.
Quando a colméia estiver limpa, as abelhas se empenharão em trabalhar com
mais diligência e resolução." Quanto antes os que consideram o cuidado adequa-
do com suas abelhas como "ser trabalho demais" abandonarem a apicultura me-
lhor será para eles mesmos e para suas infelizes abelhas.
2 Aquela classe de apicultores que supõe que todas estas operações são o "new

fangled" invenções dos tempos modernos, ficarão surpresos ao saber que Colu-
mella, 1800 anos atrás, recomendava reforçar as colméias fracas, cortando favos
das colméias fortes, contendo operárias "que estão roendo os opérculos dos seus
alvéolos".
3 Se uma colméia comum estiver, na Primavera, com número muito reduzido, ela
pode ser reforçada pelas duas últimas maneiras, desde que ela tenha uma rainha
saudável. Se não tiver rainha, e não for suficientemente forte para justificar que
lhe seja dada uma de outra colméia fraca, as abelhas podem ser misturadas com
outra colônia e a caixa, com seus favos, guardada para futuros enxames. Ela de-
ve, no entanto, ser mantida longe das traças da cera e antes de ser novamente
usada alguns dos seus favos centrais devem ser quebrados para ver se não estão
infestados de larvas.
188 A Colméia e a Abelha
tas tão fortes quanto desejado. As colméias sem rainha devem
ser manejadas da mesma forma. Por este manejo, toda colméia
sem rainha, embora fraca, que sobreviveu o Inverno, pode ser le-
vada a ser rentável.
Deve-se manter vigilância sobre toda a colônia que não tem
uma rainha fecundada; e quando sua rainha estiver com uma
semana de vida ela deve ser examinada, e se ela está fértil, ela
será encontrada pondo ovos em algum favo central. Se não for
possível encontrar nem a rainha nem ovos, e não existir indica-
ção certa de que ela foi perdida, a colméia deve ser examinada
alguns dias mais tarde, uma vez que algumas rainhas são fe-
cundadas com mais idade do que outras, e freqüentemente é di-
fícil encontrar uma princesa, por causa de sua habilidade em se
esconder entre as abelhas.
Se o apicultor pratica na enxameação artificial, ele pode cor-
tar as asas das rainhas, assim que elas foram fecundadas1. Num
grande apiário, onde muitos enxames podem aparecer simulta-
neamente, isto diminuirá muito o trabalho e perplexidade do a-
picultor. Delineei uma forma para fazer isto, a fim de conhecer a
idade das rainhas: - com a tesoura, apanhe as asas, de um dos
lados, da jovem rainha e corte cuidadosamente: quando a col-
méia for examinada no próximo ano, corte uma das duas asas
remanescentes, e a quarta no terceiro ano.
A fertilidade das rainhas normalmente decresce depois do
segundo ano, e antes de elas morrerem, por idade avançada, o
conteúdo de suas espermatecas fica exaurido, e elas passam a
botar apenas ovos de zangões.2 A menos que as rainhas sejam
extraordinariamente férteis, será seguro removê-las depois que
elas entram no terceiro ano de vida.3

1 Virgílio fala sobre o corte das asas das rainhas para evitar que elas saiam com

os enxames. John Mills (1766) cita o seguinte de um relatório publicado sobre as


ovelhas da Espanha: - "O número de colméias manejados na Espanha é incrível.
Estou quase desconcertado por saber que conheci um pároco que tinha cinco mil
colméias. As abelhas sugavam todo o mel das flores aromáticas que adornavam e
perfumavam dois terços do caminho das ovelhas. Este padre prendia, cautelosa-
mente, as rainhas num pequeno apanha moscas de crepe e então cortavas suas
asas. Ele me disse que nunca perdeu um enxame desde o dia de sua descoberta
até o dia em que me viu, que foi, penso eu, cinco anos depois." - pág. 77.
2 Pösel diz, que a rainha que passou fome por vinte e quatro horas nunca recupe-

ra sua costumeira fertilidade. Mostrarei, em outro lugar, que depois de recupera-


da de um frio severo, as rainhas param de botar ovos de operárias.
3 "As rainhas diferem muito quanto ao grau de fertilidade. As melhores são as
L. L. Langstroth 189
Uma rainha jovem, ou uma realeira operculada pode ser da-
da para a colônia no segundo dia depois que a velha for removida
- pois como as abelhas criarão a rainha a partir de ovos, a rainha
que elas criarem poderá encontrar quase todos os alvéolos cheios
com mel ou pão de abelha, e a população muito reduzida.
No início de outubro - quando alguma cria é encontrada em
toda colméia saudável, e quando todas as colônias devem ser e-
xaminadas, tendo em vista a aproximação do Inverno - se for en-
contrada alguma sem rainha ela deverá ser unida a outra col-
méia. Se, no entanto, a rainha velha for removida oportunamen-
te, e as colméias que criam rainhas receberem cuidados apropri-
ados, serão encontradas poucas colônias sem rainha no Outono.
Nesta estação, ou assim que a forragem terminar, estas colméias
podem ser identificadas pelas incessantes tentativas de pilhagem
pelas outras colméias.
A negligência de uma colônia em expulsar seus zangões,
quando eles estão sendo destruídos pelas outras colméias, é
sempre um sinal de suspeita, e geralmente uma indicação que
ela não tem rainha. Colméias saudáveis quase sempre eliminam
os zangões, assim que a forragem se torna escassa. Nas proximi-
dades da Filadélfia, em junho de 1858, ocorreram apenas alguns
dias que não choveu sem chuva, e naquele mês os zangões foram
destruídos na maioria das colméias. Quando o clima se tornou
mais propício outros foram criados para tomar o seu lugar. Em
estações em que a produção de mel é abundante e duradoura, vi
que, ao norte de Massachusetts, os zangões eram mantidos até
primeiro de novembro. Se as abelhas puderem colher mel e en-
xamear durante todo o ano, os zangões provavelmente morrerão
de morte natural.
A validade de evitar a super-produção de zangões foi corro-
borada pela descoberta do Mr. P. J. Mahan, os zangões que dei-
xam a colméia têm uma grande gota de mel em seus estômagos -
enquanto os que retornam de suas excursões de prazer, tendo
digerido sua janta, estão preparados para um novo consumo.1

que depositam seus ovos com regularidade uniforme, não deixando alvéolo vazio -
a cria emerge ao mesmo tempo numa região do favo, que será novamente suprido
com ovos: assim, a rainha não perde tempo procurando por alvéolos vazios." -
Dzierzon. Na vida das abelhas, bem como nos afazeres humanos, os que são sis-
temáticos normalmente atingem o máximo.
1 Aristóteles (História dos Animais, Livro IX., Cap. XI), fala dos favos grossos e ir-

regulares construídos por algumas colméias e da super-abundância de zangões


por elas produzidas. Ele cita, também, a destruição dos zangões quando a forra-
190 A Colméia e a Abelha
"O zangão," diz o fantástico e velho Butler, "é uma abelha
rude, sem ferrão, que despende seu tempo em glutonaria e inati-
vidade. De qualquer forma a sua valentia, com seu boné avelu-
dado, sua lateral avantajada, sua barriga cheia e sua voz surda,
ainda assim é uma companhia indolente, vivendo do suor de ou-
tras testas. Ele não trabalha de forma alguma, nem em casa nem
fora, e gasta tanto quanto dois trabalhadores; você sempre en-
contrará seu estômago com uma gota do mais puro néctar. No
calor do dia ele voa para fora, para cima e em volta, e isto sem o
mínimo ruído, como se fosse realizar uma grande ação; mas é
apenas para o seu prazer, consumir, e então retornar para sua
diversão."
Já foi dito (pág. 51), que os apicultores no tempo de Aristóte-
les tinham o hábito de destruir o excesso de zangões. Eles os ex-
cluíam da colméia - quando eles saiam para seu costumeiro pas-
seio - pela redução da entrada com uma espécie de cesta de tra-
balho. Butler recomenda uma armadilha semelhante, que ele
chama de "drone-pot". Minhas colméias preparadas para prevenir
a enxameação, servirão também para excluir os zangões. Ao es-
curecer, ou no início da manhã - quando amontoados na entrada
para se aquecerem - eles podem ser varridos para um recipiente
com água e dados para as galinhas, que mui rapidamente a-
prenderão a devorá-los. Para excluí-los das colméias que tem ra-
inha não fecundada, a entrada deve ser ajustada para permitir
sua passagem.
É interessante registrar o que fazem os zangões quando ex-
cluídos das colméias. Por algum tempo eles procuram ansiosa-
mente por uma entrada, ou tentam forçar seus corpos avantaja-
dos através das estreitas passagens. Concluindo que isto é em
vão eles solicitam mel das operárias e, quando fortalecidos, reno-
vam seus esforços para serem admitidos, expressando, durante
todo o tempo com sons melancólicos, seu profundo sentimento
de tão cruel exclusão. O apicultor, no entanto, é surdo às suas
súplicas; é melhor para ele que as colméias fiquem sem eles, e
melhor para eles - se eles souberem disto - perecer pelas pró-
prias mãos, do que passar fome ou serem assassinados pelas
operárias sem sentimentos. Com as colméias de quadros móveis,

gem das abelhas diminui, e descreve suas excursões da seguinte forma: - "Os
zangões, quando saem para o campo, sobem no ar em vôo circular, como para fa-
zer grandes exercícios, e quando tiverem concluído, retornam para sua casa e se
enchem de mel." Columella diz, que o tempo apropriado para colher o mel é
quando os zangões são expulsos.
L. L. Langstroth 191
piedade e lucro podem ser perfeitamente conciliados (pág. 51),
removendo todo o excesso de favo de zangão da área de cria.1
No Verão de 1853, descobri que depois que a rainha foi libe-
rada do cone de papel (pág. 159), as abelhas corriam à sua volta
por um longo tempo, provando que elas reconheciam o seu odor
característico. Este é o odor que as faz correrem curiosamente
sobre nossas mãos depois de termos segurado uma rainha, como
também sobre um ponto onde ela tenha circulado quando o en-
xame pousou.
Este odor da rainha já era conhecido provavelmente no tem-
po de Aristóteles, que diz: "Quando as abelhas enxameiam, se o
rei (rainha) é perdido, dissemos que todas elas procuram por ele,
e seguem-no pelo seu cheiro sagaz, até o encontrarem." Wild-
mann diz: "O odor do seu corpo é tão atrativo para elas, que o lo-
cal ou substância que ela tenha simplesmente tocado se torna
atrativo para as abelhas, e as induz a seguir por todo o caminho
que ela percorre."2
O apicultor inteligente perceberá imediatamente não apenas
como a perda da rainha pode ser remediada com as colméias de
quadros móveis, mas como toda operação, que com outras col-
méias é efetuada com dificuldade, se for póssível ser realizada,
nestas é executada com facilidade e sem erro. Nenhuma colméia,
no entanto, consegue fazer que o igorante e o negligente tenham
sucesso, a menos que ele viva numa região onde o clima é tão
propício e as fontes melíferas tão abundantes que as abelhas
prosperem a despeito do manejo errado e da negligência.
Estes que não têm disponibilidade de tempo ou disposição
para manejar suas próprias abelhas devem, com minhas colméi-
as, confiar o cuidado delas para pessoas competentes. A ocupa-
ção do jardineiro parece naturalmente associada com a do api-
cultor; os jardineiros práticos enxergarão o manejo das abelhas,
pelos seus empregados, quase como uma parte lucrativa de sua
profissão. Com pouco transtorno, eles podem fazer novas colô-
nias, colher o mel em excesso, e com a aproximação do Inverno

1 Se um número de zangões for confinado numa pequena caixa, eles liberam um

forte odor: Swammerdam supôs que a rainha era impregnada com este odor ("au-
ra seminalis") dos zangões.
2 Antes de tomar conhecimento destes autores, eu supunha ter feito uma desco-

berta original. O Mr. P. J. Mahan me informa que depois de manusear a rainha


diversas vezes as abelhas pousaram em seus dedos, quando ele estava a uma mi-
lha ou mais do apiário.
192 A Colméia e a Abelha
preparar as abelhas para resistir aos seus rigores.

L. L. Langstroth 193
CAPÍTULO XII

A
A TTR
RAAÇ
ÇAADDA
AC CEERRAAEEO OUUTTR
ROOSS IIN
NIIM
MIIG
GOOSS
D
DAASS AAB
BEELLH
HAASS --
D
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ENNÇÇAASS D
DAASS A
ABBE
ELLH HA
ASS

A traça da cera1 (Tinea mellonella) é mencionada por Aristó-


teles, Vergílio, Columella e outros autores antigos, como um dos
mais terríveis inimigos das abelhas. Escritores atuais, pratica-
mente sem exceção, têm se referido a ela como a praga de seus
apiários; neste país a destruição pela traça tem sido tão devasta-
dora, que a maioria dos criadores abandonaram a apicultura por
desespero. A maioria dos planos delineados para combatê-la têm
se mostrado infrutífera, e não foram muitos que ajudaram a a-
tingir o objetivo.
Tendo estudado minuciosamente os seus hábitos, tenho
condições de mostrar como, exatamente, podem os apicultores
proteger suas colônias de serem destruídas pela sua invasão. O
negligente conseguira uma colméia à "prova de traça" somente
quando o preguiçoso encontrar um solo "livre de ervas dani-
nhas". Antes de mostrar como evitar a traça descreverei breve-
mente seus hábitos.
Swammerdam fala de duas espécies de traça de cera (em seu
tempo era chamada de "lobo da abelha"), uma maior do que a
outra. Linnaeus e Reaumur também descrevem dois tipos -Tinea
cereana e Tinea mellonella. A maioria dos escritores supõem que
a primeira é o macho e a última a fêmea da mesma espécie. A
descrição que segue é um resumo do Relatório do Dr. Harris so-
bre os Insetos de Massachusetts:
"Poucas Tineas são maiores ou se igualam a seu porte. No
estado adulto é uma traça alada, ou mariposa, medindo, da ca-
beça à ponta de suas asas fechadas, de cinco oitavos (16mm) a
três quartos (19mm) de polegada de comprimento e suas asas

1 O autor utiliza o termo "bee-moth". N. T.


L. L. Langstroth 195
abertas medem entre uma polegada e um décimo (28mm) a uma
polegada a quatro décimos (36mm). As asas anteriores se fecham
juntas niveladamente sobre as costas, com inclinação íngreme
para as laterais, e são voltadas para cima na extremidade com
alguma semelhança ao rabo de uma ave. A fêmea é maior do que
o macho, e de cor mais escura. São formadas duas proles deste
inseto ao longo do ano. Algumas traças aladas da primeira ni-
nhada começam a aparecer pelo final de abril ou início de maio -
mais cedo ou mais tarde, dependendo do clima e da estação. As
da segunda ninhada são mais abundantes em agosto; mas al-
gumas podem ser encontradas entre estes períodos, e até mais
tarde."

Fêmea Macho
Fêmea

Nenhum escritor que eu tenha conhecido apresentou uma


descrição tão exata das diferenças entre os sexos, a ponto de eles
serem facilmente identificados. As belas xilogravuras das traças,
larvas e casulos, que apresento a meus leitores, foram feitas a
partir de modelos naturais pelo Mr. M. M. Tidd, de Boston, Mas-
sachusetts, e esculpidos pelo Mr. D. T. Smith, da mesma cidade.
Um grande número de espécimes foi fornecido ao Mr. Tidd, e foi
obtida uma grande precisão. Inicialmente ele observou que a lín-
gua da fêmea se projeta parecendo um bico, enquanto a do ma-
cho é muito curta.1
Enquanto alguns machos são maiores do que algumas fê-
meas, e algumas fêmeas mais claras do que a média dos ma-
chos, e ocasionalmente alguns machos tão escuros quanto as
mais escuras fêmeas, a peculiaridade da língua da fêmea é tão
marcante, que ela pode sempre ser identificada de imediato.
A língua da fêmea é bipartida, e a linha de separação é mos-

1 O Dr. Harris fala da língua da traça como "muito pequena, e dificilmente visí-
vel". Isto só é verdade para a do macho.
196 A Colméia e a Abelha
trada na figura em que ela é apresentada como se estivesse dei-
tada de costas. Tanto o macho como a fêmea, foram copiados
cuidadosamente a partir de espécimes de tamanho e forma mé-
dios.
Este esboço representa1 um macho menor do
que o normal. Sua cor era tão escura que, a não
ser pela língua, ele podia ser facilmente confundi-
do com uma fêmea de espécie diferente e muito
Macho menor.2
pequeno Estes insetos raramente são vistos em vôo, a
não ser partindo do seu esconderijo, em volta da colméia, para a
escuridão. Em dias nublados, no entanto, a fêmea pode ser vista
se empenhando, antes do por do sol, em penetrar nas colméias.
"Caso sejam perturbadas durante o dia," diz o Dr. Harris, "elas
abrem um pouco suas asas e saltam ou deslizam rapidamente
para longe, assim que é muito difícil medi-las ou apanhá-las.3 Ao
entardecer elas levantam vôo, quando as abelhas estão se reco-
lhendo, e pairam em volta da colméia, até, tendo encontrado a
entrada, penetrarem e depositarem seus ovos". "Se nos aproxi-
marmos do apiário", diz Bevan, "observando sob a luz noturna
do luar, as traças podem ser vistas voando ou andando em volta
das colméias, espreitando uma oportunidade para entrar, en-
quanto as abelhas que devem proteger a entrada dos intrusos,

1 Nesta figura estão apresentadas as pernas. Na posição sentada, elas ficam nor-
malmente dissimuladas, como na figura anterior. Estes desenhos aparecem me-
lhor na Lâmina XIII.
2 Como todos os espécimes fornecidos ao Mr. Tidd foram apanhados de duas
colméias próximas, no final do Outono, é possível que observações em outras es-
tações e em diferentes localidades, possam confirmar o ponto de vista dos que
acreditam existirem duas espécies. O Mr. Tidd, na identificação dos sexos, verifi-
cou que a fêmea, logo após ter sido presa com alfinete, expulsava o seu oviposi-
tor, o qual opera com um movimento telescópico, e começava a tatear por alguma
fresta na qual depositar seus ovos. Fendas feitas, com um pequeno canivete, na
madeira na qual ela tinha sido presa, eram enchidas de imediato com ovos. Seu
abdômen foi então recortado e o processo de postura de ovos continuou como an-
tes, enquanto o resto do seu corpo se afastou livremente! O abdômen foi então
dissecado, para expor os dutos dos ovários, e, mesmo nesta condição mutilada,
ela expulsava seu ovipositor, procurando sempre, cuidadosamente, por fendas
apropriadas nas quais depositar seus ovos! Repeti, com resultados semelhantes,
estes experimentos, tão sugestivos sobre as curiosas especulações sobre a vonta-
de do inseto.
3 Eles são surpreendentemente ágeis, tanto no andar como em vôo, comparati-

vamente os movimentos das abelhas são muito lentos. "Elas são", diz Reaumur,
"as crituras andantes mais rápidas que conheço."
L. L. Langstroth 197
podem ser vistas agindo como sentinelas vigilantes, executando
rondas contínuas em torno deste posto, estendendo suas ante-
nas ao máximo, e movendo-as para a direita e para a esquerda
alternadamente. Para desgraça da infeliz traça que fica a seu al-
cance!" "É curioso," diz Huber, "observar as artimanhas usadas
pela traça para tirar proveito da desvantagem das abelhas, que
necessitam de mais luz para ver os objetos, e as precauções to-
madas pelas últimas no reconhecimento e expulsão de um inimi-
go tão perigoso."

Estas que não conseguem entrar na colméia, botam seus o-


vos em fendas do lado de fora; e a pequena lagarta, semelhante a
uma traça, que deles depois eclode, rasteja facilmente para den-
tro da colméia pelas fendas, ou abre uma passagem por si mes-
ma nas extremidades."1 - Dr. Harris.
Assim que a larva eclode, ela se encerra num casulo de seda
branca que ela tece em volta de seu corpo; inicialmente é seme-
lhante a uma mera linha, mas cresce gradualmente em tamanho
e, durante seu crescimento, se alimenta dos alvéolos à sua volta,
para cujo propósito precisa apenas expor sua cabeça e encontrar
sua necessidade de suprimento. Ela devora seu alimento com
grande avidez e, conseqüentemente, aumenta tanto de volume,
que sua galeria rapidamente fica muito pequena e estreita, e a
criatura é obrigada a se rastejar para diante e ao longo da galeri-
a, bem como conseguir mais espaço como também buscar su-
primento adicional de comida. Seu aumento de tamanho a expõe
ao ataque de inimigos próximos, o cuidadoso inseto fortifica sua
nova casa com resistência e espessura adicional, acrescentando
aos filamentos de sua cobertura sedosa uma mistura de cera e

1 Se for usado um fundo móvel, é quase impossível evitar que a traça ponha seus

ovos entre ele e as extremidades da colméia. A menor abertura lhe permite intro-
duzir o seu ovipositor e colocar seus ovos de onde sua descendência encontrará
uma entrada fácil para a colméia.
198 A Colméia e a Abelha
de seus próprios excrementos, como barreira externa de sua no-
va galeria1, cujo interior e repartições são recobertas com uma
superfície lisa de seda branca, que permite movimentos ocasio-
nais do inseto, sem prejudicar sua delicada textura. Ao executar
estas operações o inseto se torna um obstáculo para as abelhas,
e se torna gradualmente mais atacável à medida que avança em
idade. Ele nunca, por esta razão, expõe qualquer parte a não ser
sua cabeça e pescoço, ambos recobertos com sólido capacete, ou
escama, impenetrável ao ferrão da abelha, como também é a
composição das galerias que o rodeiam." - Bevan.
A traça é aqui mostrada em
seu tamanho natural, e com todas as
suas peculiaridades cuidadosamente
representadas. A cabeça escamada é
mostrada numa das larvas; enquanto
os três pares de pernas dianteiras, semelhantes a garras, e os
cinco pares traseiros, que são apenas rebentos, estão claramente
esboçados. O rabo é também equipado com dois destes rebentos.
Os orifícios respiratórios podem ser vistos nas costas.
A cera é o principal alimento destas traças.2 Quando obriga-
das a roubar seu suprimento dentro de uma colméia forte de a-
belhas, elas, seguidamente, passam suficientemente bem para
alcançar seu tamanho que elas atingem devastando à vontade
todos os favos de uma colméia com população acanhada. Em
cerca de três semanas, as larvas param de comer, e procuram
um lugar conveniente para se enclausurar numa cobertura se-
dosa. Nas colméias onde elas imperam sem serem perturbadas,
praticamente todo o lugar atende a seus propósitos, e elas fre-
qüentemente empilham seus casulos um sobre os outros, ou se
unem umas às outras em longas filas. Algumas vezes elas ocu-
pam favos vazios, assim que seus casulos se parecem com opér-
culos das colônias com mel. Na Lâmina XIX, Fig. 56, o Mr. Tidd
apresenta um desenho, preciso em tamanho e forma, de um e-
xemplo curioso deste tipo. Os pontos pretos, lembrando grãos de

1 A representação da teia, ou da galeria de traças, foi copiada de Swammerdam.


2 "Larvas alimentadas exclusivamente com cera de abelha pura morrerão, pois a
cera é uma substância não nitrogenada e não fornece o alimento exigido para o
seu perfeito desenvolvimento." - Dönhoff.
Esta afirmação é confirmada pelo fato de que as larvas preferem os favos de cria,
e que é mais provável que os favos de uma colméia velha sejam devorados do que
os de uma colméia nova.
L. L. Langstroth 199
pólvora, são os excrementos das larvas. Em colméias fortemente
guardadas por abelhas saudáveis, muitas das larvas, enquanto
espreitando em busca de um pequeno local escondido, são apa-
nhadas pela nuca e tratadas com uma ordem de despejo imedia-
to. Se a colméia for perfeitamente construída, ela atravessa um
perigoso corredor polonês, ao passar, à procura de alguma fenda,
pela multidão de suas enfurecidas inimigas. Seus movimentos,
no entanto, são extremamente rápidos e repletos de espertos
truques, tornando-as capazes de andar para trás e se dobrarem
como uma panqueca. Se obrigadas a deixar a colméia, elas se a-
lojam em baixo de alguma taboa ou fenda dissimulada, tecem
seu casulo e esperam, pacientemente, pela sua transformação.
Na maioria das colméias, elas encontram facilmente uma fenda
pela qual penetrar, ou um pequeno espaço entre o fundo móvel e
as extremidades da colméia. Elas podem passar através de fen-
das muito apertadas, e assim que estiverem livres das abelhas,
elas começam a aumentar sua habitação, roendo a madeira sóli-
da. O tempo exigido por uma larva para se transformar em inseto
alado varia com a temperatura à qual ela fica exposta, e a esta-
ção do ano em que ela tece seu casulo.1 Eu as vi tecer e eclodir

1 Em novembro (1858), recolhi um grande número de casulos para observar du-

rante o Inverno. De muitos deles as traças emergiram rapidamente. Em outros,


as larvas se trasformaram lentamente em pupas ou crisálidas; enquanto em ou-
tros, ainda, depois de expostas por mais de dois meses à temperatura do Verão,
permaneceram no estado de larva. Algumas foram expostas durante seis sema-
nas a temperatura uniforme acima de 80oF (27°C), e apenas uma passou para
traça alada. Algumas, depois de retiradas de seus casulos por seis vezes, conse-
guiram se envolver em novo invólucro.
O Dr. Dönhoff diz que, a larva fica imóvel em temperatura entre 38 e 40oF (3 a
4°C), e inteiramente entorpecida em temperaturas menores. Um bom número que
ele deixou durante todo o Inverno em sua casa de Verão despertou na Primavera
e passou pelas mudanças naturais. Parece que ele teve mais sucesso do que eu
em fazê-las se desenvolverem no Inverno com calor artificial; mas isto pode ser
creditado ao fato de ele ter experimentado com larvas que comeram com avidez o
alimento que lhes foi fornecido, e não como eu fiz, com larvas que teceram seus
casulos. São necessários mais experimentos, para determinar se o desenvolvi-
mento retardado é peculiar às que atingem a maturidade no final do Outono, ou
é causado por um contratempo repentino por causa do clima frio.
"Se, quando os termômetros atingiam 10oF (-12°C), eu dissecasse uma crisálida
ela não se encontrava congelada, mas ficava congelada imediatamente. Isto mos-
tra que em temperatura tão baixa a força vital é suficiente para resistir ao conge-
lamento. Na colméia as crisálidas e as larvas, em diferentes estágios de desenvol-
vimento, passam o Inverno em estdo de torpor, pelos cantos e frestas e entre os
detritos do fundo. Em março ou abril elas despertam e as abelhas das colônias
fortes começam as operações para desalojá-las." - Dönhoff.
Algumas larvas, que expus a temperaturas de 6oF (-21°C) abaixo de zero, enrije-
200 A Colméia e a Abelha
em dez a onze dias; e elas tecem, seguidamente, tarde do Outo-
no, a fim de não emergirem a não ser na próxima Primavera.
Os machos normalmente abandonam a colméia, mas a fê-
mea procura nela entrar de todas as formas. Se a colméia estiver
fraca e sem ânimo, ela deposita seus ovos1 entre os favos, ou os
insere nos cantos ou fendas, ou entre os detritos de cera rejeita-
da e pão de abelha no fundo, onde sua descendência pode se es-
conder e se alimentar até ter condições de alcançar os favos.
Na Lâmina XX, Fig. 57, o Mr.Tidd delineou fielmente e o Mr.
Smith gravou habilmente, a confusa massa preta de teia, casu-
los, excrementos e favos perfurados, que podem ser encontrados
em colméias onde as traças concluíram seu trabalho de destrui-
ção.
A entrada da traça na colméia e a devastação levada a cabo
por sua descendência, ilustram violentamente a destruição que o
vício freqüentemente faz quando é permitido pilhar sem controle
os preciosos tesouros do coração humano. Apenas alguns tenros
ovos são postos pela insidiosa traça, dos quais nascem larvas
aparentemente inocentes; mas lhes sendo permitido assumir o

ceram congeladas e nunca reviveram. Outras, depois de permanecer por 8 horas


na temperatura de cerca de 12°F (-11°C), permaneceram, depois de despertar,
por semanas em condição paralisada.
1 "Os ovos da traça da cera (ver Lâmina XIII, Fig. 44) são perfeitamente redondos,

e muito pequenos, com o diâmetro medindo tão somente cerca de um oitavo de


uma linha. Nos dutos do ovário, eles ficam arranjados lado a lado na forma de
um rosário. Eles não se desenvolvem consecutivamente, como os da rainha, mas
são encontrados nos dutos total e perfeitamente formados, alguns dias depois
que a traça fêmea emerge do casulo. Ela os deposita, normalmente, em pequenas
aglomerações sobre os favos. Se quisermos testemunhar a postura dos ovos, é
necessário tão somente apanhar uma traça fêmea, com dois ou três dias de ida-
de, com o polegar e o indicador, pela cabeça, - ela instantaneamente estende seu
ovipositor, e os ovos podem ser vistos passarem distintamente através do duto
semi-transparente (Ver Lâmina XIII, Fig. 46, C).
"No último Verão desenvolvi uma traça de cera numa pequena caixa. Ela teceu
um casulo do qual emergiu um traça fêmea. Segurando-a pela cabeça, permiti
que ela depositasse ovos num pedaço de favo. Três semanas mais tarde, examinei
o favo, e encontrei alguma teia e duas larvas. Todos os ovos estavam enrugados e
secos, com exceção de alguns que estavam perfurados, dos quais, suponho, as
larvas emergiram. Este parece ser um caso verdadeiro de partenogênese na traça
da cera" - Traduzido do Dr. Dörnhoff por S. Wagner.
Como entre centenas de espécimes fornecidos ao Mr. Tidd foram vistos poucos
machos, conjeturei que os ovos destas fêmeas podiam eclodir sem serem fertili-
zados, e providenciei para que o Dr. Joseph Leidy investigasse o assunto. Parece
que, no entanto, neste assunto, nossos irmãos alemães estão mais adiantados.
L. L. Langstroth 201
controle, a fragrância1 da casa do mel será rapidamente destruí-
da, o burburinho de uma indústria feliz desaparece e tudo o que
há de útil e belo será cruelmente destruído.
A abelha não é nativa no Novo Mundo e, quando trazida para
cá, foi chamada pelos índios a mosca do homem branco.2 Long-
fellow, em seu "Song of Hiawatha", ao descrever o advento dos
europeus ao Novo Mundo, fez seu índio guerreiro dizer da abelha
e do trevo branco: -
"Wheresie´er they more, before them
Swarms the stinging fly, the Ahmo,
Swarms the bee, the honey-maker;
Wheresoe´er they tread, beneath them
Springs a flower unknown among us,
Springs the White Man´s Foot in Blossom."
Como as abelhas prosperaram por anos sem serem pertur-
badas pela traça, parece provável que estas não foram trazidas
com as primeiras colméias, mas muito mais tarde. Seja qual for
a forma como elas foram introduzidas, elas se multiplicaram tan-
to em nosso clima tão propício com verões quentes, que agora
poucas áreas estão livres da sua destruição.
Cinqüenta anos atrás nossos mercados eram proporcional-
mente melhor supridos com mel do que o são agora e era comum
se ver grandes recipientes cheios com favos brancos como a ne-
ve.
Muitos apicultores afirmam que países recentemente criados
são mais favoráveis para as abelhas; um velho provérbio alemão
diz assim:

1 O odor da traça e da larva é muito repulsivo.


2 É surpreendente o incontável número de enxames de abelhas que, em poucos
anos, se espalhou até o longínquo oeste. Os índios consideram-na o arauto do
homem branco, assim como o búfalo era do homem vermelho, e dizem que, à
medida que a abelha avançava, os índios e os búfalos se retiravam.... Elas eram
os arautos da civilização, precedendo-a constantemente à medida que ela avan-
çava a partir das margens do Atlântico; alguns dos antigos colonizadores do oeste
pretendem descobrir o ano em que as abelhas cruzaram pela primeira vez o Mis-
sissipi. Atualmente elas enxameiam aos milhares nos bosques e florestas que
margeiam e dividem as pradarias e se estendem ao longo dos fundos aluviais dos
rios. Como se estas belas regiões correspondessem literalmente à descrição da
terra prometida - ´uma terra onde corre o leite e o mel´; as ricas pastagens das
pradarias, calcula-se, sustentam rebanhos de gado tão incontáveis quanto a a-
reia da praia, enquanto as flores com as quais elas estão cobertas fornecem um
verdadeiro paraíso para as abelhas que procuram néctar." - Washington Irving,
Tour on the Prairies, Capítulo IX.
202 A Colméia e a Abelha
Bells´ ding dong,
And choral song,
Deter the bee
From industry:
But hoot of owl,
And ´wolf´s long howl,
Incite to moil
And steady toil."
Outros afirmam que nossas colônias são muito numerosas e
que não há alimento suficiente. Será mostrado que nenhuma
destas razões explica a mudança. Alguns atribuem toda a culpa
à traça e outros, ainda, ao abandono da antiga forma de criar
abelhas.
Não há dúvidas que a traça super abunda em muitas áreas
com tal intensidade, que não se consegue nenhum benefício em
manusear as abelhas da forma simples que uma vez era tão bem
sucedida. Seguidamente apicultores antigos, depois de alojar
seus enxames, nunca mais os inspecionavam até o Outono,
quando todas as colônias que tivessem poucas abelhas, ou que
estivessem leves demais para sobreviver ao Inverno, eram con-
denadas para a vala de enxofre. Algumas das mais pesadas tam-
bém eram mortas por causa da colheita do mel, e as muito me-
lhores eram mantidas como colméias reservas.
Nos países recentemente criados, onde as ervas daninhas
são praticamente desconhecidas, o fazendeiro que planta seu mi-
lho e "o abandona a si próprio" pode, seguidamente conseguir
uma colheita brilhante. Se com o passar do tempo, as plantas
daninhas aumentando, ele continua arar e plantar pelo "antigo e
maravilhoso método", ele achará graça apenas em se lamentar
que as nocivas ervas daninhas fizeram seu milho "desaparecer".
Com idêntica idiotice, muitos apicultores não entendem porque
as formas de manejo que respondiam bem quando a traça era
desconhecida ou rara, não conseguem ter sucesso atualmente.
Se as formas de manejo antigas tivessem sido rigidamente
seguidas, a destruição pela traça, tão destrutiva como tem sido,
talvez nunca teria sido tão grande quanto está sendo agora. O
uso de colméias patenteadas tem contribuído para encher a terra
com a peste voraz. Desde sua introdução, prevalece a noção qua-
se universal que as colméias não devem ser, em nenhuma cir-
cunstância, voluntariamente destruídas; ainda, milhares de co-
lônias que, sob o sistema antigo, eram impiedosamente mortas
são agora deixadas morrer lentamente de fome, enquanto outras
L. L. Langstroth 203
milhares são tão fracas na Primavera que elas servem apenas
para criar uma multidão de traças para serem a peste do apiário.
A verdade é que as colméias melhoradas, sem nenhum sis-
tema de manejo melhorado, conseguiram, como um todo, mais
prejuízo do que lucro. Em nenhum outro país elas foram mais
extensamente utilizadas do que no nosso e em nenhum lugar a
traça conseguiu ascendência tão vertiginosa. Exatamente na
medida em que elas desencorajaram os apicultores a abandonar
as antigas formas de "fazer crescer" seus enxames fracos no Ou-
tono, na mesma medida elas extenderam a "ajuda e conforto" pa-
ra a traça. Algumas delas devem, inquestionavelmente, ser ma-
nejadas para, nos casos normais, proteger as abelhas da traça;
mas nenhuma colméia que não permita um controle dos favos é
confiável para todas as emergências. Assim como a maioria dos
dispositivos complicados, concebidos por pessoas desconhecedo-
ras dos primeiros princípios da apicultura, e as "iscas enganado-
ras" dos trapaceiros que, para encher seus próprios bolsos, fica-
riam felizes em matar todas as abelhas do mundo, eles não só
não proporcionam mais segurança contra a traça do que a caixa
colméia, mas são repletas de acessórios que não servem para
nada a não ser para irritar as abelhas e multiplicar esconderijos
para as traças e larvas. Quanto mais elas forem usadas, piores
serão as condições das abelhas; assim como quanto mais o ho-
mem usar a panacéia do charlatão mentiroso, mais se afastará
da saúde.1
Enquanto se admitir abertamente que o antigo manejo de
matar as abelhas encontrou, nas mãos dos ignorantes, o melhor
sucesso estou persuadido que um sistema mais humano e claro
pode se tornar muito mais rentável. O uso de quadros móveis
permitindo, como eles permitem, reforçar as colméias fracas ou
uni-las com outras, irá, acredito, no tempo apropriado, introdu-
zir a era feliz quando o seguinte epitáfio, tomado do trabalho a-
lemão, poderá ser apropriadamente colocado sobre toda a vala de
enxofre de abelhas:2

1 Uma pessoa instruída me informou que pagou dez dólares para um professor
"charlatão de abelha" para ter um segredo infalível para a proteção das abelhas
contra a traça. Depois de sumir com o seu dinheiro, e ensinar que este segredo
consistia em "manter sempre as colméias fortes", ele sentiu ter sido tão grossei-
ramente iludido, como se, depois de pagar uma grande soma por um segredo in-
falível de preservação da vida, tivesse conseguido a verdade banal que, para viver
para sempre é preciso viver bem!
2 Matar as abelhas para retirar o seu mel era, sem dúvida, uma invenção da ida-
204 A Colméia e a Abelha
AQUI DESCANSA,

MORTA PELO TRABALHO ÚTIL

UMA COLÔNIA DE

ABELHAS LABORIOSAS

IMPIEDOSAMENTE ASSASSINADA

POR SEU

INGRATO E IGNORANTE

PROPRIETÁRIO

Ao epitáfio devem ser acrescentados os versos de Thompson


"Ah, see, where robbed and murdered in that pit,
Lies the still heaving hive! at evening snatched,
Beneath the cloud of guilt-concealing night,
And fixed o´er sulphur! while, not dreaming ill,
The happy people, in their waxen cells,
Sat tending public cares.
Sudden, the dark, oppressive steam ascends,
And, used to milder scents, the tender race,
By thousands, tumble from their honied dome
Into a gulf of blue sulphureous flame!"
A seguinte carta, datada de quando apareceu pela primeira
vez a traça da cera em nosso país, do Dr. Jared P. Kirtland, de
Cleveland, Ohio, largamente conhecido pelo seu interesse nos
assuntos de horticultura e apicultura, é de grande interesse:
"Cleveland, 19 de Fevereiro de 1859.
"Prezado Senhor: - Até 1805, as abelhas prosperaram nos
Estados Unidos. No início do século atual, a maioria dos fazen-
deiros e mecânicos do estado de Connecticut criavam abelhas.
Poucas contingências desfavoráveis, se alguma, interferiam com
esta atividade; a forma simples de caixa colméia era normalmen-
te empregada, por vezes, ocasionalmente, um hollow gum e, em
poucas ocasiões, o skep de palha cônico serviam de espaço.
"As colônias fracas e as velhas de pouco valor eram, no Ou-

de negra quando a família humana tinha perdido - tanto na atividade apícola


como em outras coisas - a habilidade dos antigos. No tempo de Aristóteles, Varro,
Columella e Plínio, esta prática bárbara não existia. Os apicultores antigos só fa-
ziam o que as abelhas esperavam, não matavam nenhuma colméia, apenas as
que estavam frágeis e doentes.
L. L. Langstroth 205
tono, destruídas pelo fogo na vala de enxofre. O mel assim obtido
era suficientemente abundante para satisfazer a demanda; ain-
da, naqueles dias caps, gavetas e caixas laterais, para as abelhas
pilhadoras, não eram empregadas.
"Durante a Primavera de 1806, eu li um artigo, no Boston
Patriot, descrevendo a mariposa e a larva e suas depredações, di-
zendo que elas tinham aparecido recentemente nas vizinhanças
da cidade. Alguns meses depois, um vizinho me informou que e-
las estavam depredando extensivamente suas colônias; e dentro
de dois anos, a partir daquela data, quatro quintos de todos os
apiários, naquelas vizinhanças, foram abandonados.1
"Desde aquela época as sucessivas colméias patenteadas,
cujos idealizadores desconheciam os hábitos das traças, se mos-
traram seus auxiliares e os dois combinados quase acabaram
com a abelha naquela região do país. Os esforços de alguns indi-
víduos, acima da perseverança e ingenuidade usual, consegui-
ram, ocasionalmente, sucesso limitado.
"No Verão de 1810, residi na comarca de Trumbull, Ohio. A
traça não tinha chegado naquela região do país e a apicultura
era extensivamente praticada com sucesso que nunca testemu-
nhei em outro lugar. Os ricos fazendeiros alemães disputavam
para exceder uns aos outros em número de colônias. Freqüen-
temente tinham duzentas ou trezentas.
"Em 1818 visitei novamente aquela comarca e lá me instalei
de forma permanente em 1823 e em ambos os períodos a ativi-
dade ainda prosperava. Em agosto de 1828, ao visitar uma famí-

1 Judge Fishback de Batavia, Ohio, diz que a destruição pela traça, em seu apiá-
rio, foi muito mais destrutiva na segunda estação depois de seu aparecimento do
que em qualquer período subseqüente. Disso pode-se concluir, apenas por supo-
sição, que inicialmente as abelhas não sabiam da sua natureza e não tomavam
nenhuma precaução especial para evitar que elas entrassem em suas colméias.
Na Europa, onde ela era muito bem conhecida por mais de dois mil anos, sua
destruição nunca foi tão indiscriminada. Como tanto a larva como a traça tem
odor peculiar as abelhas aprendem rapidamente a repeli-las de suas colméias, a
traça tem cheiro muito semelhante ao da larva que devora os seus favos.
Que as abelhas podem aprender a se defender de novos inimigos, está provado
pelos fatos relatados por Huber, elas reduzem a entrada com própolis para man-
ter do lado de fora a grande traça de cabeça morta (Sphinx atropos), das quais
uma única pode tragar uma colher de sopa de mel.
Um apicultor de Ohio, enviou-me algumas traças comedoras de mel, muito maio-
res do que a traça da cera, que entraram em suas colméias e se encheram com
mel.
206 A Colméia e a Abelha
lia doente em Mercer Co., Pa., observei que um grande apiário
estava sofrendo severamente do ataque da larva. O proprietário
me informou que ela tinha aparecido pela primeira vez na esta-
ção em curso. Durante o ano seguinte ela se espalhou por todo o
norte de Ohio e no Inverno de 1831-2 ouvi, de membros do legis-
lativo, que ela atingira todas as partes do nosso estado. Resulta-
dos semelhantes se seguiram ao seu aparecimento aqui, assim
como no estado da Nova Inglaterra.
"Até a introdução do seu sistema de quadros móveis, não ti-
nha sido divisada nenhuma forma de sucesso para contra atacar
os seus estragos. Estou feliz em lhe dizer que, com a ajuda de
sua colméia, não tive a mínima dificuldade em conseguí-lo.
"Com grande respeito, o seu, etc.
"Rev. L. L. Langstroth.
"Jared P. Kirtland."
Quase todo buraco, durante vários anos, pode ser ocupado
por abelhas bem sucedidas. Ver colméias com cavidades grandes
e abertas, desconhecidas peor seus proprietários e não repara-
das, convites provocadores para a traça, podem, à primeira vista,
colocar em dúvida a conveniência de se tomar precauções. En-
quanto famílias seguidamente prosperam em colméias favela ou-
tras, em "Palácios de Abelha" custosos, são freqüentemente de-
voradas pelas larvas - seus proprietários, com tudo o que há de
novidade em seu apiário, não conseguem proteger as abelhas dos
inimigos, ou explicar porque algumas colônias, assim como as
crianças pobres, parece florescerem mesmo negligenciadas, en-
quanto outras, como os descendentes dos ricos, são frágeis, apa-
rentemente na mesma proporção dos cuidados que lhes é pres-
tado.1
Quero agora explicar porque algumas famílias florescem a
despeito das negligências enquanto outras, com todos os cuida-
dos, são vítimas da traça e quero mostrar como, com colméias
apropriadas e com precauções apropriadas, a traça pode deixar
de incomodar seriamente as abelhas.
Os favos de uma colônia frágil que não tem condições de pro-

1 É muito comum escutar os apicultores dizerem que tiveram "sorte" ou "azar"


com suas abelhas; e pelo modo como as abelhas são manejadas o sucesso ou fra-
casso parece depender, freqüentemente, quase inteiramente do que é chamado
"sorte".
L. L. Langstroth 207
teger seus favos são, seguidamente, enchidos com ovos da traça
e o proprietário, freqüentemente, percebe sua condição somente
quando a ruína é completa. Mas o novato pode, agora, saber
quando uma família, em colméia comum, esta seriamente1 infes-
tada destas larvas que tudo devoram? O aspecto desencorajador
das abelhas indica claramente que lá dentro existe um problema
de alguma espécie, o fundo fica coberto com pedaços de pão de
abelha misturado com excrementos de larvas que se parecem
com grãos de pólvora.2
No início da Primavera, antes das famílias ficarem populo-
sas, as abelhas devem ser conduzidas, com fumaça, para fora de
seus favos, e os fundos limpos (pág. 221). Freqüentemente acon-
tece, também, que nas colméias comuns, nada pode ser efetiva-
mente feito, mesmo quando o apicultor estiver cônscio das pra-
gas internas. Com os quadros móveis, no entanto, os favos, e to-
das as partes da colméia, podem ser cuidadosamente limpos, e
se a família está fraca ou sem rainha, os remédios apropriados
podem ser facilmente aplicados. Se uma família frágil não puder
ser reforçada para que consiga proteger todos os seus favos, os
favos devem ser retirados até que as abelhas sejam suficiente-
mente numerosas para deles cuidarem.
Se a traça da cera tiver uma constituição tal que exija ape-
nas pequena quantidade de calor para o seu desenvolvimento to-
tal, elas podem ficar excepcionalmente numerosas no início da
Primavera e podem entrar facilmente nas colméias e depositar
seus ovos onde lhes agradar: durante este período, não só não
são mantidas guardas durante a noite, mas grande parte dos
seus favos está praticamente desprotegida. Todo acontecimento
na história da abelha, quando devidamente investigado, aponta
com infalível certeza para a sabedoria Daquele que tudo fez!
Favos sem cria podem ser fumegados com gases da queima
de enxofre para matar os ovos das larvas da traça. Se mantidos
longe das abelhas, eles devem ser protegidos cuidadosamente,
em local seco, da traça e examinados, ocasionalmente, para se-

1 Apicultores inexperientes, que imaginam que uma colônia está próxima da ruí-

na quando eles encontram algumas traças, devem lembrar que quase toda famí-
lia velha, ainda que forte e saudável, tem alguns destes inimigos espreitando
seus pertences.
2 Quando na Primavera as abelhas preparam os alvéolos para a cria, o fundo fica

coberto com pequenos pedaços de favo e pão de abelha; mas se não estiver mis-
turado com excremento preto são prova de trabalho e não sinais de ruína.
208 A Colméia e a Abelha
rem novamente fumegados se alguma larva for encontrada.
Na página 140 foram fornecidas instruções para evitar que
as colméias comuns enxameiem tão freqüentemente a ponto de
ficarem sem condições de proteger seus favos vazios. Se a enxa-
meação excessiva não for evitada, nas colméias de quadros mó-
veis, pelos métodos que foram tão exaustivamente descritos, al-
guns dos favos da colméia materna podem ser dados para os en-
xames secundários, em vez de permanecerem onde eles podem
ser atacados pela traça.
A maior causa da destruição pela traça permanece ainda por
ser descrita. Uma colônia abandonada sem rainha será inevita-
velmente, a não ser que destruída, vítima da traça da cera. Ob-
servando, num núcleo de observação, os comportamentos das
abelhas propositadamente deixadas sem rainha, certifiquei-me
que elas oferecem pouca ou nenhuma resistência à sua entrada
e deixam que ela deposite seus ovos onde bem entender. As lar-
vas, depois de eclodir, parece terem sua vida própria e se sentem
mais em casa do que as desanimadas abelhas.1
Quão imprestáveis são, para uma colônia sem rainha, todas
as armadilhas e outros dispositivos que, nos últimos anos, rece-
beram tanta atenção. Toda passagem que deixa passar uma abe-
lha é suficientemente grande para a traça, e se uma única fêmea
entrar na colméia ela depositará ovos suficientes para destruí-la,
ainda que forte. Numa estimativa pessimista, ela pode depositar,
pelo menos, duzentos ovos na colméia, e a segunda geração será
contada aos milhares, enquanto as da terceira excederão o mi-

1 O fato de que as famílias sem rainha não opõem nenhuma resistência efetiva às
traças e às larvas - fato que uma vez pensei ter sido descoberto por mim - é de
longa data conhecido dos alemães. O Mr. Wagner me informou "que os seus me-
lhores tratados, por muitos anos, falam disto como um fato perfeitamente conhe-
cido, a ponto de ser um axioma, se uma colônia for dominada pelas pilhadoras, o
seu proprietário não tem o direito de reparar, como estaria, em todos os casos
semelhantes, sem rainha, e teria sido, certamente, destruída pela traça.
Recentemente me chamou a atenção um artigo publicado no Ohio Cultivator de
1849, página 185, de Micajah T. Johnson, no qual, depois de detalhar alguns ex-
perimentos, diz ele: - "Uma coisa é certa - se as abelhas, por qualquer motivo,
perderem sua rainha, e não tiverem meios a seu alcance de criar outra, a traça e
a larva se apoderam rapidamente da colméia. Acredito que nenhuma colméia é
destruída pelas larvas enquanto uma eficiente rainha nela estiver presente".
A mim parece ter sido esta a primeira notícia publicada sobre este fato relevante
por qualquer observador americano.
L. L. Langstroth 209
lhão.1
Não só as abelhas de uma colméia desesperadamente sem
rainha não fazem oposição efetiva à traça da cera, mas, pela sua
condição de abandono, elas facilitam positivamente os seus ata-
ques. Parece que as traças têm um conhecimento instintivo da
condição das abelhas, e nenhuma artimanha humana poderá
mantê-las do lado de fora. Ela passa por outras colônias até en-
contrar uma sem rainha, como se estivesse cônscia de que ela
encontrará melhores condições para desenvolvimento de sua cri-
a; e assim as colônias mais fortes, depois de perder sua rainha,
são freqüentemente devoradas pelas larvas, enquanto algumas
pequenas, que estão ao lado, escapam ilesas.
É certo que uma colméia sem rainha raramente mantem
guarda na entrada e não inunda o ar com o agradável e alegre
burburinho de trabalho. A diferença entre o burburinho de uma
colméia próspera e o ar de infeliz de uma em desespero é sufici-
entemente óbvia até mesmo para nossos entorpecidos ouvidos;
não pode ser diferente para o sentido aguçado de uma astuta
traça mãe?
Sua infalível sagacidade lembra o instinto pelo qual os pás-
saros espreitam o cadáver, um único doente dentro de uma ma-
nada, pairando sobre sua cabeça com seu grasnido sombrio, ou
observando, nas árvores circunvizinhas, o rebanho com pressá-
gio de doença, olhando-os enquanto suas vidas se esvaem e esta-
lando seus bicos sedentos por sangue, impacientes para lhes ar-
rancar os olhos, recém vitrificados pela morte, e se banquetea-
rem em suas carnes, ainda mornas pelo sangue da vida. Quão
rapidamente será possível vê-los assim que um acidente fatal a-
conteça a um animal, -
"Primeiro uma pinta e depois um abutre,"
céleres dos quatro cantos do céu, seu vôo voraz para sua ví-
tima, quando um pouco antes nenhum podia ser visto.
As colméias comuns não só não fornecem nenhuma solução
confiável para a perda da rainha, mas, em muito casos, seus
proprietários não podem ter certeza se suas abelhas estão sem
rainha até que sua destruição seja certa; chegando até, com cer-
ta freqüência, depois de alguns anos de experiência, a não acre-

1Este poder de crescimento rápido explicam os fatos relatados por Judge Fish-
back e Dr. Kirtland que dizem respeito à rápida disseminação da traça.
210 A Colméia e a Abelha
ditar que exista algo como uma abelha rainha! No capítulo sobre
a Perda da Rainha, foram fornecidas instruções para proteger as
colônias em colméias de quadros móveis da calamidade que,
mais do que todas as outras - com exceção da necessidade por
alimento1 - as expõem à destruição.
Quando uma colônia se torna desesperada por estar sem ra-
inha, sua destruição é quase certa. Mesmo que as abelhas man-
tenham seu zeloso desejo de coletar as reservas e se defenderem
da traça, elas deverão, quase certamente, perecer (pág. 58), como
uma carcaça deve se deteriorar, mesmo que não seja tomada de
assalto por moscas imundas e larvas devoradoras. Ocasional-
mente, depois da morte das abelhas, são encontradas grandes
reservas em suas colméias. Tais acontecimentos, no entanto,
uma vez não eram tão raros, agora são raros; a colméia sem mãe
é muitas vezes assaltada pelas colméias fortes que, parecendo ter
um conhecimento instintivo de sua orfandade, se apressam em
se apoderar de seus recursos; ou, se escaparem da Scylla2 destes
impiedosos saqueadores, escondidos pelo mais impiedoso
Charybdis, a infame traça descobre sua penúria. A cada ano,
multidões de colméias são privadas de suas rainha, muitas das
quais são roubadas por outras abelhas ou saqueadas pela traça,
ou tanto saqueadas quanto roubadas, enquanto os seus donos
imputam todos os prejuízos a algo diferente de sua verdadeira
causa.
O apicultor conhecedor dos hábitos da traça, que esteja
constantemente se lamentando de sua destruição, parece quase
tão iludido quanto o fazendeiro que depois de procurar diligen-
temente por sua vaca perdida, encontrando-a quase devorada
pelos vermes, denuncia estes devoradores de carniça como os
grandes causadores de suas perdas.
A traça da cera é o único inseto conhecido que se alimenta
da cera. Por milhares de anos ela se manteve graças ao trabalho
da abelha e não existe razão para supor que um dia ela será ex-
terminada. A missão da traça na natureza é aproveitar os frag-
mentos da colméia sem rainha, ou numa cujos ocupantes te-
nham morrido, que não servem para mais nada, para que nada

1 As colônias que estão passando fome ficam quase tão indiferentes aos ataques

da traça como as que estão sem rainha.


2 Segundo Michaellis - Scylla = Cila: ninfa transformada em monstro que aterro-

rizou Odisseu. N. T.
L. L. Langstroth 211
seja perdido,.1
A partir destas observações, o apicultor procurará os meios
nos quais acredita, para proteger suas colônias das traças. Sa-
bendo que colônias fortes, que têm rainha fértil, podem tomar
conta de toda a colméia, ele poderá fazer tudo que puder para
manter as abelhas nestas condições. Assim elas farão mais para
se defenderem a si mesmas do que se despendessem todo o seu
tempo brigando com as traças.
É extremamente necessário, depois das observações acima,
falar um pouco mais sobre os vários dispositivos, aos quais tan-
tos recorrem, como uma salvaguarda contra a traça da cera. A
idéia de que uma tela metálica na entrada, ao anoitecer e retira-
da novamente pela manhã, possa excluir a traça, não convence
os que as têm visto voando, em estação calma, muito antes de as
abelhas pararem de trabalhar. Mesmo que elas possam ser ex-
cluídas pelo uso deste dispositivo, ele exigirá, por parte dos que o
usam, uma regularidade quase igual à dos corpos celestes.
Um dispositivo ingênuo tem sido proposto para dispensar
uma supervisão disciplinada, a fim de controlar a entrada das
colméias, algo como uma grande alavanca semelhante ao poleiro
de galinha, assim elas serão fechadas regularmente, quando à
noite, a tribo cacarejante vai para a cama, e aberta novamente
quando ela voa do seu poleiro para saudar a alegre manhã. Meu
Deus! Toda esta perícia para nada! Algumas galinhas podem es-
tar sonolentas e gostariam de se retirar antes que as abelhas te-
nham terminado seu trabalho, enquanto outras, por estarem do-
entes ou com preguiça, não têm nenhuma propensão para sair
cedo e ficam sentadas deprimidas em seu poleiro, muito depois
que o animado sol pintou de púrpura o afogueado leste. Mesmo
que este dispositivo pudesse excluir totalmente a traça não sal-
varia uma colônia que tivesse perdido sua rainha. A verdade é, a

1 No tempo de Aristóteles e de Columella, a destruição pela traça era mantida

baixa graças a um criterioso sistema de manejo. É seriamente questionável se o


seu extermínio num apiário deva ser algo desejável, a menos que ela seja destruí-
da em todos os outros lugares. As abelhas podem esquecer rapidamente tudo so-
bre ela e se forem expostas novamente a seu ataque podem se seguir resultados
semelhantes aos descritos na pág. 240; a menos que as abelhas saibam como se
proteger, nenhum artifício humano poderá salvá-las, como pode ser claramente
constatado em colméias sem rainha, onde elas não tomam conta dos seus favos.
Aristóteles diz, "que as boas abelhas expulsam as traças e as larvas, mas outras,
que por preguiça, abandonam seus favos, depois perecem". Suas abelhas ruins
eram, sem dúvida, as que não tinham rainha fértil.
212 A Colméia e a Abelha
maioria dos dispositivos nos quais fomos levados a confiar, são
equivalentes à tranca colocada na porta do estábulo depois que o
cavalo foi roubado; ou, tentar aquecer o cadáver com roupas
quentes ou calor artificial.
Não estou dizendo que não existe meio de proteger as col-
méias comuns da destruição pela traça da cera. Se os apicultores
tiverem cuidado em instalar suas colméias onde as jovens rainhas
não correm risco de serem perdidas (pág. 214), eles perderão pou-
cas de suas colméias. O conhecimento destes fatos permite que o
apicultor tenha sucesso no combate à traça, seja qual for a col-
méia que ele usar. Sem dúvida, ele perderá muitas das colméias
que ficaram sem rainha por outras causas que não a grande
proximidade de suas colméias, as quais podem ser facilmente
salvas nas colméias de quadros móveis; mas suas perdas não se-
rão em escala tão grande a ponto de ficar completamente desa-
nimado de criar abelhas.
O apicultor prudente, recordando que "prevenir é melhor que
remediar", despenderá incansáveis esforços para destruir, tão
cedo durante a estação quanto ele conseguir, as larvas e as tra-
ças. A destruição de uma única larva será mais efetiva do que o
massacre de centenas mais tarde.1 Nas colméias comuns as lar-
vas são normalmente encontradas onde o ninho é apoiado no
fundo. Tais colméias podem ser levantadas do fundo em ambas
as extremidades com sarrafos de madeira, com cerca de três oi-
tavos de polegada (1cm) de espessura, e colocado um pedaço de
lã entre o fundo e parte traseira da colméia. A traça totalmente

1 Alguns, que não viram a destruição levantando os favos, não entendem como
tantas abelhas jovens caem vítimas das traças se elas se escondem nos favos.
O Mr. M. Quinby, de St. Johnsville, New York, cujo tratado de bom senso sobre
"Os Mistérios da Apicultura" que vale a pena conhecer, é de opinião que um gran-
de número de abelhas imperfeitas que aparecem na colméia na Primavera, foram
vítimas das larvas. Ele pensa que tais perdas numa única colméia são, seguida-
mente, suficientes para fazer um enxame moderado de abelhas.
Esta estimativa não parece extravagante se levarmos em conta o número de alvé-
olos de cria que são destruídos e o grande número de vazios que são feitos, se-
guidamente, pelas abelhas retirando as teias e casulos da traça.
O Dr. Kirtland, num artigo no Ohio Farmer, Dez. 1857, em alusão ao tempo ante-
rior ao aparecimento da traça da cera, diz: "Naqueles prósperos dias de criação
de abelhas, os enxames seguidamente apareciam muito cedo e em maior número
do que nos dias atuais. Não era ocorrência muito incomum um enxame da Pri-
mavera encher uma colméia com reservas e cria jovem tão rapidamente a ponto
de lhe ser possível, também, largar um enxame suficientemente cedo para este
último conseguir acumular reservas para a Inverno."
L. L. Langstroth 213
desenvolvida impedida de tecer o seu casulo neste local escondi-
do e aquecido, será facilmente apanhada e tratada eficientemen-
te. Providencie somente um buraco que seja facilmente acessível
às larvas quando elas quiserem tecer seu casulo, e para você
quando você as quiser capturar, e, como as abelhas em boas
condições não permitem que elas teçam entre os favos, você con-
segue apanhá-las facilmente na armadilha. Se a colméia perdeu
sua rainha, e as traças tomaram conta dela destrua-a em vez de
mantê-la como criadora de traça para infestar o seu apiário.
Na colméia de quadros móveis, são usados blocos com for-
mato apropriado (Lâmina III, VI, Fig. 11, 17) tanto para apanhar
as larvas em armadilhas como excluir as traças. O único lugar
por onde elas podem entrar nas colméias é pela entrada e como
pode ser mantida ventilação abundante, independente da entra-
da, a entrada pode ser diminuída para atender a toda emergên-
cia, e assim forçar a traça a passar por um espaço que, por ser
continuamente restringido, é facilmente defendido pelas abelhas.
Estas armadilhas são levemente levantadas, a fim de permitir
que o calor e o aroma da colméia passe por debaixo através das
pequenas aberturas, dentro das quais a traça pode entrar, mas
que não permitem a sua passagem até a colméia. Em vez de for-
çar caminho através das abelhas guardas, ela entrará através
destas aberturas, que lembram as fendas comuns entre as col-
méias comuns e seus fundos; e ali encontrando pedaços de favo
e pão de abelha, nos quais sua cria possa prosperar, ela deposita
seus ovos onde eles podem ser alcançados e destruídos. Tudo is-
to, supondo que a colônia tem uma rainha saudável, e que as
abelhas não têm mais favo do que elas podem proteger; se não
existir guarda, ou até mesmo uma frágil resistência, ela penetra-
rá no coração da cidadela para ali depositar suas sementes de
destruição.
Estes blocos têm também encaixes que se comunicam com o
interior das colméias, os quais são para a larva que está à esprei-
ta, à procura de um ninho confortável, um ótimo lugar - tão
quente e seguro - no qual, tecer sua teia e "esperar o seu tempo".
Quando o apicultor inspecioná-los, concluirá que a traça foi ví-
tima de sua própria astúcia.
Todos estes dispositivos, em vez de ajudar o cuidadoso api-
cultor, lhe trarão maiores facilidades para prejudicar suas abe-
lhas. As larvas não perturbadas tecerão em baixo dos blocos, e
as traças botarão seus ovos; suas armadilhas lhes proporciona-

214 A Colméia e a Abelha


rão uma ajuda mais efetiva. Se tais pessoas incorrigivelmente
cuidadosas persistirem na tolice de criar abelhas, elas deveriam
usar apenas blocos lisos, os quais, regulando a entrada das col-
méias, ajudariam as abelhas a se defenderem de todos os inimi-
gos que tudo fazem para entrar em seu castelo.1
Se as larvas conseguirem de alguma forma supremacia nu-
ma colméia de quadros móveis, os quadros podem ser removidos
(pág. 243), e as larvas destruídas. Se cuidados apropriados forem
despendidos, tal operação raramente será necessária.2 Recipien-
tes rasos com água doce, colocados nas colméias após o por do
sol, seguidamente apanham muitas traças. Elas são tão aficio-
nadas pelo doce, que eu as apanhei grudadas em pedaços de a-
çúcar cristal molhado. Dizem que elas são destruídas por soro de
leite e leite azedo.3
Quero concluir o que tenho a dizer sobre a traça da cera com
um extrato do estudioso e muito conhecido entusiasta da apicul-
tura, Henry K. Oliver, de Massachusetts:
"A destruição causada por todos os outros inimigos4 das abe-
lhas é nada frente à destruição causada pela traça da cera. Elas
são torpes, pequenas e insignificantes, de penugem cinza, uma
raça pestilenta comedora de cera e mel e tratante destruidora de
abelha, frustra todos os dispositivos que a ingenuidade imaginou
para as capturar e destruir.
"Qualquer um ficaria muito satisfeito se conseguisse propor
algum meio efetivo para ajudar as abelhas e seus amigos contra
as invasões destes inimigos, cuja destruição desoladora é dita
ser mais desesperadora do que as de qualquer outro inimigo.
"Aquele que conseguir ser bem sucedido na elaboração de

1 Na Lâmina V, Fig. 16, é mostrada uma pequena entrada na frente da colméia

acima dos quadros. Se a entrada inferior estiver fechada, e as abelhas de uma co-
lônia frágil puderem usar esta, ela será mantida aquecida pelo calor ascendente
para a parte superior da colméia, e será guardada até mesmo nas noites frias.
Este tipo de entrada pode, em muitos casos, apresentar uma grande proteção
contra a traça.
2 É mais provável que os favos velhos sofram mais com as traças. Nas colméias
de quadros móveis, nenhum quadro precisa ficar muito tempo na colméia a pon-
to de seu valor ser diminuído.
3 Dispositivos para queimar as traças datam da época de Columella que reco-
menda instalar perto das colméias, à noite, um recipiente de latão, com fogo, pa-
ra destruir as traças que se encontram no apiário.
4 Report on Bees, do Essex County Agricultural Society, 1851.
L. L. Langstroth 215
um meio para libertar o mundo das abelhas desta peste destruti-
va e impiedosa, merecerá ser esplendidamente coroado 'Rei das
abelhas', para sempre; ser ornado com uma grinalda sempre viva
de flores melíferas em botão dos campos onde sopra uma doce
brisa com abelhas murmurejando; ter o privilégio de usar, du-
rante sua vida natural, 'velas da noite de sua cera thighs', (a me-
lhor vela de cera, duas por libra!); receber uma doação anual, de
todo o mestre apícola, dez libras do melhor mel de cada um; e
para sua proteção contra todos os inimigos, trinta mil trabalha-
dores, todos armados e equipados com os direitos das leis da Na-
tureza. Quem se habilita a receber estas altas honrarias?"
Parece quase incrível que animais tão débeis como os ratos
podem se aventurar a invadir uma colméia de abelhas; seguida-
mente eles se esgueiram para o seu interior quando o frio obriga
as abelhas a se retirarem da entrada. Conseguindo entrar, eles
constroem um ninho cálido na sua confortável moradia, comem
o mel e as abelhas que não oferecerem resistência, por estar
muito frio, ocupam o local com seu mau cheiro e as abelhas,
com a chegada do clima quente, abandonam, seguidamente, sua
casa agora poluída. Com a aproximação do clima frio, as entra-
das das colméias devem ser reduzidas para que os ratos não
consigam entrar.1
Todo apicultor sabe, por experiência própria, que existem vá-
rios pássaros que tem loucura por abelhas. Do King-bird (Tyran-
nus musicapa), que as devora em grande quantidade, é dito -
quando tem oportunidade - comer apenas os zangões; mas como
ele captura abelhas nas flores - que nunca são freqüentadas por
estes grandes e indolentes cavalheiros - as laboriosas operárias
devem, seguidamente, ser vítima da sua esperteza fatal. Existem
boas razões para suspeitar que estes glutões distinguem entre
uma abelha vazia, que está à procura de alimento, e uma que,
carregada retorna para sua casa perfumada, a qual deslizará - já
adocicada - para dentro do seu estômago voraz.
Se - como nas fábulas - os pássaros entendessem a lingua-
gem humana, poderia ser útil afixar, nas proximidades dos nos-
sos apiários, as palavras do antigo poeta grego para a andorinha:
"Attic maiden, honey fed,
Chirping warbler, bears´t away

1Se, à medida que se torna mais frio, as abelhas forem obrigadas a usar apenas
a entrada superior (pág. 250), será quase impossível para os ratos se instalarem
na colméia.
216 A Colméia e a Abelha
Thou the busy buzzing bee,
To thy callow brood a prey?
Warbler, thou a warbler seize?
Winged, one with lovely wings?
Guest thyself, by Summer brought,
Yellow guests whom Summer brings?
Wilt not quickly let it drop?
´Tis not fair; indeed, ´tis wrong,
That the ceaseless warbler should
Die by mouth of ceaseless song."
Nenhum apicultor jamais deveria, por causa de sua afeição
pelas abelhas, incentivar a destruição dos pássaros. A menos
que possamos sustar o hábito de destruir, a qualquer pretexto,
nossos pássaros insetívoros muito em breve não só ficaremos
privados de suas melodias aéreas entre os galhos frondosos, mas
lamentaremos, mais e mais, o aumento dos insetos de cuja ação
destruidora ninguém, a não ser estes pássaros, pode nos prote-
ger. Que se deixe, estes que não apreciam a música feita por es-
tes coristas alados dos céus, com exceção dos seus gritos agoni-
zantes quando caem em frente de suas armas de boa pontaria ou
perdem suas inocentes vidas em frente das insensíveis redes,
que se afastem, tanto quanto possível, de suas propriedades cru-
éis, todos os pequenos pássaros que eles não podem destruir, e
eles, eventualmente, colherão os frutos de sua tolice, quando as
mariposas tecerem suas teias destruidoras sobre suas árvores
frondosas e os insetos de todos os tipos passarem o tempo ale-
gremente em suas plantações destruídas.1
O sapo é um bem conhecido devorador de abelhas. Postado,
ao anoitecer, em baixo da colméia ele arrasta para dentro de sua
boca, com um golpe rápido de sua língua muitas das abelhas
que retornam, quando elas caem, pesadamente carregadas, no
chão; mas como ele também é um consumidor diligente de vários
insetos prejudiciais, ele possui a mesma imunidade dos pássaros
insetívoros.

1 "Os fazendeiros da Europa aprenderam por repetidas observações que, sem a

ajuda dos pássaros considerados prejudiciais, o seu trabalho poderia ser destruí-
do por uma raça de insetos mais destruidora, agora perdoam as transgressões
destes pássaros, assim como perdoamos as dos gatos e cachorros. O respeito de-
votado aos pássaros por qualquer povo, parece manter uma certa relação com a
idade da nação. Assim, a veneração com que eles são tratados no Japão, onde a
população é tão densa que os habitantes poderiam pensar que passariam fome se
dividissem a produção dos seus campos com os pássaros, a menos que eles esti-
vessem convencidos de sua utilidade." - Atlantic Monthly de 1859, pág. 325.
L. L. Langstroth 217
Pode parecer surpreendente que pássaros e sapos possam
engolir abelhas sem serem ferroados. Eles freqüentemente, no
entanto, não se intrometem com qualquer uma, exceto com as
que retornam carregadas para suas colméias, ou também com as
que, por estarem longe de suas casas, não estão dispostas a re-
vidar a um ataque. Como elas são engolidos, normalmente, sem
serem esmagadas elas não expõem instintivamente seus ferrões
e, antes que possam se recuperar da surpresa elas estão segu-
ramente enterradas.
Os ursos são excessivamente vidrados em mel; e em países
onde eles abundam, muitas precauções são necessárias para
prevenir que eles destruam as colméias.
Naquele trabalho de bom senso, singular mas admirável, in-
titulado, "The Femenine Monarchie, escrito sem experimentações,
por Charles Butler; impresso no ano se 1609", temos uma diverti-
da aventura, relatada pelo embaixador Moscovita em Roma:
"Um vizinho meu, disse que, procurando mel na floresta, es-
corregou para dentro de um grande buraco de uma árvore e ali
se afundou num lago de mel quase até o peito; onde - depois de
ficar preso por dois dias, chamando e chorando em vão por aju-
da, pois ninguém durante este tempo se aproximou daquele lu-
gar solitário - ato contínuo, quando já não esperava por mais
nada que salvasse sua vida, ele foi estranhamente resgatado por
um grande urso que, andando naquela direção com o mesmo ob-
jetivo que ele e sentindo o odor do mel, movido por seu empenho,
subiu até o topo da árvore e, em seguida, começou a descer de
volta com ele nas costas. O homem pensando consigo que o pior
era a morte, da qual ele estava certo naquele momento, abraçou
o urso fortemente com ambas as mãos em volta do lombo e, alem
disto, deu um grito tão alto quanto pode. O urso ficou assim, re-
pentinamente, assustado com as mãos e com o grito e fugiu a
toda velocidade. O homem ficou e o urso se foi com toda força,
até ficar fora de vista; e então foi possível, trotear para longe,
mais por medo do que por estar machucado, abandonando o
lambuzada pretensão numa alegre preocupação."
As formigas são tão destruidoras, em alguns locais, que é
necessário colocar as colméias em suportes com as pernas mer-
gulhadas em água.1 Minhas limitações me proíbem de falar das

1Pequenas formigas fazem, seguidamente, seus ninhos nas colméias, a fim de se


beneficiar do calor, sem molestar as abelhas nem serem por elas molestadas.
218 A Colméia e a Abelha
vespas, hornets, millepedes (ou wood-lice), aranhas e outros ini-
migos das abelhas. A melhor proteção que o apicultor pode pro-
videnciar é manter suas colméias fortes e, a menos que as col-
méias sejam guardadas por milhares de abelhas prontas a mor-
rer em sua defesa, seus tesouros sempre poderão cair nas mãos
de algum dos seus muitos inimigos, todos estes inimigos concor-
dam num ponto, pelo menos - o mel roubado é muito mais doce
do que a acumulação lenta com trabalho paciencioso.

Doenças das Abelhas

As abelhas estão sujeitas a poucas doenças que merecem


um comentário especial. Os efeitos fatais da disenteria já foram
mencionados (pág. 90). "A presença desta doença," diz Bevan, "é
indicada pelo aparecimento de excrementos, os quais, em vez de
serem amarelo avermelhado, exibem uma cor preta turva e tem
um odor intoleravelmente desagradável. Também, por evacuarem
no fundo e na entrada das colméias os quais as abelhas, em es-
tado saudável, são particularmente cuidadosas em manter lim-
pos."1
Várias hipótesees já foram lançadas para explicar as causas
desta doença. Todos os apicultores concordam que a umidade
nas colméias, especialmente se as abelhas ficam confinadas por
muito tempo, provoca, com certeza seu aparecimento. Deve ser
evitado alimentar as abelhas no final do Outono com mel líquido
- elas não terão tempo de opercular e assim azedará por absorver
umidade -; da mesma forma, evitar toda a perturbação desne-
cessária das colônias no Inverno pois, por excitar as abelhas,
provoca excessivo consumo de alimento. Colônias populosas bem
supridas de mel, em colméias ventiladas o suficiente para man-
ter os favos secos, raramente sofrem severamente desta doença.
A doença chamada pelos alemães "cria pútrida", é de todas a
mais fatal (pág. 19) para as abelhas. A cria operculada morre no

1 Descobri um tipo de disenteria que restringe a sua destruição a algumas abe-


lhas da colônia. As abelhas atacadas são inicialmente excessivamente irritáveis e
ferroam sem serem provocadas. No estágio avançado desta complicação elas po-
dem ser vistas, freqüentemente, no solo com tédio e sem vontade de voar, seus
abdomens se encontram distendidos anormalmente, com uma substância amare-
la desagradável. Não consegui identificar nem a causa nem a cura para esta do-
ença.
L. L. Langstroth 219
alvéolo e o mau cheiro de seu corpo em decomposição parece pa-
ralisar as abelhas.1
Existem duas espécies de cria pútrida, uma das quais os a-
lemães chamam a seca e a outra úmida ou fétida. A seca parece
ser moderada em seus efeitos e não é contagiosa, a cria sim-
plesmente morre e seca em algumas partes dos favos. Na úmida,
a cria, em vez de secar, se decompõe e produz um cheiro fétido, o
qual pode ser percebido a alguma distância da colméia.2
Na Primavera ou no Verão, quando o clima é agradável e a
forragem abundante, os apicultores alemães recomendam o se-
guinte remédio para a cria pútrida: - "Transferir as abelhas para
qualquer colméia limpa, e mantê-las fechadas num local escuro
sem alimento por vinte e quatro horas; preparar para elas uma
colméia limpa, apropriadamente montada com favos de colônias
saudáveis, transferir as abelhas para esta colméia e mantê-las
confinadas por mais dois longos dias, alimentando-as com mel
puro."
Meus leitores ficarão em dívida para com o Mr. Samuel Wag-
ner pela tradução do modo como Dzierzon tratava a cria pútrida:
"Admito que não consigo fornecer nenhuma instrução pela
qual uma doença da colméia possa ser curada de imediato. Ain-
da mais, considero altamente improvável que uma colônia, na
qual a doença fez progressos marcantes, possa ser curada por
qualquer medicação. O material pútrido e infeccioso, já abun-
dante nos alvéolos, deve ser, pelo menos, imediatamente removi-
do - e isto parece ser, acima de tudo, impraticável. Contudo, o
ganho será maior se pudermos neutralizar ou destruir o vírus
nas próprias abelhas e, também, colher o mel infetado. Um ami-
go apicultor me informou recentemente que, se este mel for dilu-

1Dzierzon pensa que esta doença originou-se em seu apiário pela alimentação
das abelhas com "mel americano" (mel oriundo das ilhas do oeste da Índia). Co-
mo este mel normalmente não produz esta doença, provavelmente ele utilizou al-
gum mel retirado de colônia que estava doente. Este mel sempre está contamina-
do.
Mr. Quinby me informou que ele perdeu algo em torno de 100 colônias num ano
por causa deste mal. Ela nunca apareceu em meus apiários e eu considero sua
disseminação através de nossos apiários como a maior calamidade imaginável
para a apicultura.
2Como Aristóteles (História dos Animais, Livro IX. Cap. 40) fala da doença que é
acompanhada por um odor desagradável da colméia existe razão para acreditar
que a cria pútrida era comum a mais de dois mil anos atrás.
220 A Colméia e a Abelha
ído com um pouco de água e depois fervido e escumado, ele pode
ser usado com segurança para alimentar as abelhas. Mel suspei-
to deve ser invariavelmente fervido e escumado antes de dar para
as abelhas. Cloreto de cálcio tem se mostrado um eficiente desin-
fetante para a colméia. Eu simplesmente deixo as colméias, que
continham colônias doentes, expostas ao sol e ar durante duas
estações, e as usei em seguida sem constatar o reaparecimento
da doença.
De um modo geral, a doença deixou de ser agora um terror
para mim. Ainda que minhas abelhas possam ser re-infectadas a
partir de apiários vizinhos ou de outras fontes estranhas, não es-
tou apreensivo que ela possa reduzir subitamente o número de
minhas colônias, ou se espalhar rapidamente pelos meus apiá-
rios, porque evitarei alimentar com mel estranho ou importado,
mesmo que, num ano desfavorável, se torne necessário reduzir o
número de minhas colméias para a metade ou para um quarto
do total.
"Mas quando a doença aparecer em somente duas ou três
das colônias e for descoberta de imediato (o que pode ser feito fa-
cilmente em colméias de quadros móveis), ela pode ser detida e
curada sem perda ou diminuição do lucro. Para prevenir que a
doença se espalhe, não existe processo mais confiável e efetivo
DO QUE PARAR A PRODUÇÃO DE CRIA, pois não existindo cria,
nenhuma poderá perecer ou apodrecer. A doença fica privada tan-
to de seu alimento quanto da sua vítima. A cria saudável amadu-
recerá e ermegirá no tempo apropriado e a matéria pútrida, per-
manecendo em alguns alvéolos, secará e será removida pelas o-
perárias. Tudo isto será possível pela remoção, no tempo devido,
da rainha de tais colônias. Se esta remoção se fizer necessária na
Primavera ou início do Verão, uma boa quantidade de rainhas
será obtida, graças ao que uma colônia artificial pode ser inicia-
da, a qual certamente será saudável se as abelhas e a cria usa-
da, forem apanhadas de colônias saudáveis. Se a remoção tiver
de ser feita no final do Verão, a produção de cria pode ser parada
de vez, e evitado o consumo desnecessário de mel. Assim, em
qualquer dos casos, teremos vantagem na operação. Se tivermos
um número de colônias maior do que o desejado para hibernar, é
sensato retirar o mel das colônias sem rainha, imediatamente
depois que toda a cria tenha emergido, uma vez que neste mo-
mento normalmente elas têm a maior reserva. Se a doença não
for a maligna cria pútrida, a colônia pode ser deixada sem per-
turbação depois que ela criou uma nova rainha, e em muitos ca-

L. L. Langstroth 221
sos estas colônias ficarão, subseqüentemente, livres da doença.
Eu tenho constatado o fato singular que, se tanto as abelhas
quanto os favos forem removidos da colméia infectada e ali forem
colocadas abelhas saudáveis e favos limpos, estes ficarão rapi-
damente infectados com cria pútrida; ao passo que, quando a ra-
inha de uma colônia incipientemente infectada é removida, ou
simplesmente confinada numa gaiola, e as operárias são ainda
suficientemente numerosas para remover todas as impurezas, a
colônia recuperará rapidamente as condições saudáveis. É como
se as abelhas se acostumassem com o vírus que normalmente
adere obstinadamente à colméia.
"A cria pútrida é, sem dúvida, uma doença exclusiva das lar-
vas, e não das abelhas já emergidas ou da cria desenvolvida
quase pronta para emergir. Ou seja, a causa da doença pode já
existir no alimento fornecido para as larvas, e estar alojada no es-
tômago das abelhas nutrizes, e estas últimas, ainda, elas pró-
prias, podem não estar afetadas.
"Embora as colônias assim tratadas parece ficarem geral-
mente livres da infecção durante a estação que segue, e a cria
que nascer dos ovos de uma rainha que lhes tenha sido forneci-
da em seqüência, ou de uma criada por elas mesmas, seja sau-
dável, amadurecendo e emergindo no tempo apropriado, ainda
assim, a doença, em muitos casos, re-aparece no próximo Verão.
De fato, é possível que as abelhas a re-introduzam a partir de
fontes estranhas, mas não é improvável, também, que a subs-
tância infecciosa realmente permaneça latente na colméia. As
abelhas normalmente não removem toda a matéria putrefata dos
alvéolos, mas deixam pequenas porções permanecerem nos can-
tos depois de ela ter secado, cobrindo-a simplesmente com um
filme de cera ou própolis, da qual, subseqüentemente, quando as
circunstâncias se tornam favoráveis para a sua ação, o vírus po-
de externar sua influência maligna e provocar o re-aparecimento
da doença. Assim, se eu não destruo estas colônias no Outono, e
transfiro as abelhas para novas colméias ou outras colônias com
favos limpos, invariavelmente eu as observo com desconfiança,
como não confiáveis, e as mantenho sob vigilância rigorosa du-
rante pelo menos um ano.
"Uso, também, estas colônias suspeitas, de preferência, para
a produção de rainhas que servem para suprir as colônias sem
rainha ou iniciar enxames artificiais - removendo sucessivamen-
te as jovens rainhas assim que elas se mostrarem férteis ou

222 A Colméia e a Abelha


quando eu tiver ocasião para utilizá-las. Desta forma, faço esta
colônia fornecer três ou quatro - e ainda, algumas vezes inserin-
do realeiras operculadas - até mesmo cinco ou seis jovens rai-
nhas. Mas, nestas operações, retiro as abelhas e a cria para os
enxames artificiais de colônias que estão indubitavelmente livres
de doenças. Para este propósito, seleciono colônias fortes que te-
nham uma rainha jovem e vigorosa, as quais são conseqüente-
mente capazes de fornecer os suprimentos necessários sem di-
minuição séria da população, quando a estação estiver totalmen-
te favorável para a multiplicação das famílias. Em tais estações,
colônias fortes, em boas condições, com uma rainha vigorosa no
apogeu da vida, pode suprir facilmente cria e abelhas suficientes
para quatro enxames." - Bienenzeitung, 1857, No.4.

L. L. Langstroth 223
CAPÍTULO XIII

PPIILLH
HAAG
GEEM
MEEC
COOM
MOO PPR
REEV
VEEN
NIIR
R

As abelhas são tão propensas a roubar umas às outras que,


a menos que sejam usadas grandes precauções, o apicultor per-
derá, freqüentemente, algumas de suas colméias mais promisso-
ras. A inatividade é para elas, assim como para os homens, a o-
rigem do prejuízo. Elas são, no entanto, muito mais perdoáveis
do que as indolentes patifarias das famílias humanas; razão por-
que elas raramente tentam viver de açúcar roubado quando elas
conseguem adquirir o suficiente pelo trabalho honesto.
Assim que elas conseguem deixar suas colméias na Primave-
ra, se impulsionadas pelo horror da fome, elas começam a assal-
tar as colméias mais fracas. Neste assunto, porém, a moral das
nossas pequenas amigas parece estar tristemente errada; fre-
qüentemente as colméias com os maiores estoques são - como
alguns ricos opressores - as mais ansiosas por pilhar as escassas
posses das outras.
Se as saqueadoras, que estão sempre de ronda, à procura de
uma presa, atacam uma colônia forte e saudável, normalmente
ficam satisfeitos em escapar com vida das defensoras resolutas.
O apicultor, por conseguinte, que negligencia em alimentar as
colônias necessitadas e assistir as fracas e sem rainha (pág.
122), deve contar com grandes perdas por causa das pilhadoras.
Algumas vezes é difícil para o novato discriminar entre mo-
radoras honestas de uma colméia e pilhadoras que, muitas ve-
zes, se misturam com as outras. Existe, no entanto, um ar de
malandragem no comportamento da abelha pilhadora que, para
os treinados, é tão característico como são os movimentos do ba-
tedor de carteiras para um policial treinado. Seu jeito furtivo,
nervoso, agitação criminosa, uma vez percebido, nunca engana.
Ela não pousa, como uma trabalhadora que traz para casa o fru-
to de seu trabalho honesto, despreocupadamente no alvado, nem

L. L. Langstroth 225
enfrenta as guardas, pois sabe perfeitamente que, se apanhada
por estas guardiãs fieis, sua vida pode correr grande risco. Se ela
conseguir deslizar sem ser tocada por nenhuma das sentinelas,
as que estão dentro da colméia - tendo certeza de que tudo está
certo - permitem, normalmente, que ela se sirva.
As abelhas que se perdem do caminho e pousam em colméia
errada, são identificadas imediatamente das malandras pilhado-
ras. A malandra, quando capturada, se esforça por se desvenci-
lhar de suas executoras, enquanto a infeliz desnorteada se retrai
quanto puder, submetendo-se ao destino que suas captoras pos-
sam indicar.
Estas abelhas desonestas são as "Jerry Sneaks"1 de sua pro-
fissão e, depois de se portarem assim por algum tempo, perdem
todo o gosto pela atividade honesta. Esgueirando-se constante-
mente através de pequenos buracos e se enodoando com mel,
sua pelagem assume uma aparência lisa e quase preta2, assim
como o chapéu e vestuário do vadio desonesto adquirem um as-
pecto "gasto". "A honestidade é tão boa diplomacia" entre as abe-
lhas quanto entre os homens e, se a abelha ladra conhecesse a-
penas os seus verdadeiros interesses, ela poderia trabalhar ale-
gremente com segurança nos campos, em vez de arriscar sua vi-
da provando o açúcar proibido.
É dito que as abelhas agem, ocasionalmente, como ladrões
de estrada, emboscando a mamangava quando ela retorna para
seu ninho com a vesícula melífera bem provida. Agarrando o ho-
nesto indivíduo, elas fazem ele entender que elas querem o seu
mel. Se elas o matarem, elas nunca conseguirão extrair o espólio
do fundo do seu âmago; elas, então, batem nele e o importunam,
da forma que lhes é mais conhecida, dizendo todo o tempo em
seus ouvidos "Seu mel ou sua vida", até que ele esvazia seu es-
paçoso receptáculo, quando elas então sugam o açúcar e o dei-
xam.
As abelhas algumas vezes exageram em grande escala em
suas depredações. Certificando-se da fraqueza de uma colônia
vizinha, elas atacam às milhares, se engajam com ímpeto numa
batalha intensa. É realizado um ataque furioso, e o solo, em

1 Segundo Michaelis "Jerry Sneaks" significa marica. N. T.


2 Dzierzon pensa que estas abelhas pretas, que Huber descreve como amarga-
mente perseguidas pelas demais, nada mais são do que ladras. Aristóteles fala de
"uma abelha preta que é chamada de ladra."
226 A Colméia e a Abelha
frente da colméia assaltada, fica coberto com os corpos de incon-
táveis vítimas. Algumas vezes as confusas invasoras são compe-
lidas a bater em retirada; na maioria das vezes, no entanto, como
nas disputas humanas - apenas comprovando uma barreira fra-
ca para uma força superior - a fortaleza é bombardeada e o tra-
balho de pilhagem começa em seguida. E ainda, apesar de tudo,
as coisas não estão tão ruins como parecia no início, as abelhas
dominadas, desistindo do conflito desigual, assistem as vitorio-
sas saquearem sua colméia e são recompensadas por serem in-
corporadas à nação triunfante. A pobre mãe, no entanto, perma-
nece em sua colméia pilhada, algumas de suas crianças - fieis
até o fim - ficam com ela para perecer a seu lado no meio das ru-
ínas da sua uma vez feliz moradia.1
Se o apicultor não quiser ter suas abelhas tão desmoraliza-
das pois seu valor será seriamente afetado, ele deve ser extre-
mamente cuidadoso (pág. 199) prevenindo que elas pilhem umas
às outras. Se as abelhas de uma colméia forte provarem apenas
uma vez do açúcar proibido dificilmente elas hão de parar antes
de terem testado a força de todas as colméias. Mesmo que todas
as colônias tenham condições de se defenderem, muitas abelhas
serão perdidas nestes conflitos e muito tempo será perdido; as
abelhas, tanto as engajadas na pilhagem como as que resistirem
a pilhagem das outras, perdem tanto a disposição quanto a habi-
lidade para se engajar em trabalhos úteis.2

1 "As abelhas, assim como os homens, têm diferentes inclinações, assim que até
mesmo a lealdade lhes falta algumas vezes. Numa ocasião, há não muito tempo,
chegou a nosso conhecimento algo em que, provavelmente, poucos apicultores
acreditarão. Trata-se de uma colméia que, tendo exaurido suas reservas muito
cedo foi encontrada, ao ser examinada numa manhã, estar totalmente deserta.
Os favos estavam vazios e o único sinal de vida era a pobre rainha sozinha, sem
amigos, melancólica, lenta, andando sobre os alvéolos sem mel, um triste espetá-
culo de decadência para a dignidade da abelha. Marius entre as ruínas de Carta-
go, Napoleão em Fontainebleau - eram nada frente a isto." - London Quarterly Re-
view.
2 Se o apicultor quiser proteger suas abelhas de comportamentos desonestos ele
deve ser extremamente cuidadoso em todas as suas operações, não deixar favo
com mel onde as abelhas estranhas possam encontrá-lo (ver nota pág. 172); pois,
depois de testarem uma só vez do mel roubado elas hão de pairar à sua volta as-
sim que o virem em atividade na colméia, todas prontas para lançar-se sobre ele
e agarrar o que puderem do seu tesouro exposto.
Alguns apicultores questionam se a abelha que aprendeu uma vez a roubar re-
tornará ao comportamento normal. Conheci o que significa um apiário ser tão se-
riamente enfraquecido pelas abelhas que começaram logo no início da estação a
pilharem umas às outras que o seu proprietário ficou seriamente tentado a dese-
jar nunca ter visto uma única abelha.
L. L. Langstroth 227
Mantendo os blocos móveis na entrada das minhas colméias
bem próximos um do outro, quando uma colônia estiver fraca, se
as pilhadoras tentarem se esgueirar para dentro, elas têm quase
certeza de serem inspecionadas e levadas à morte; e se as pilha-
doras são valentes o suficiente para forçar a entrada, o fundo in-
clinado para frente, fornece uma vantagem evidente para as ocu-
pantes da colméia. Se alguma conseguir entrar, ela encontrará
centenas posicionadas em arranjo de batalha, e passará tão mal
quanto um abandonado esperando que desabem as paredes de
um forte bem sitiado, somente para não perecer entre milhares
de enfurecidos inimigos.
Colocando estes blocos na entrada da colméia que parou de
oferecer resistência efetiva a colônia já desanimada freqüente-
mente recuperará a confiança e botará a correr as assaltantes.
Quando as abelhas estão engajadas ativamente na pilhagem,
elas saem com o primeiro raio de luz e, freqüentemente, continu-
am suas depredações até ficar tão tarde que elas não conseguem
encontrar a entrada de sua colméia. Quando a pilhagem se tor-
nou um hábito as abelhas ficam, algumas vezes, tão enfeitiçadas
por ela a ponto de negligenciar sua própria cria!
A nuvem de pilhadoras chegando e saindo nunca poderá ser
confundida com as trabalhadoras honestas trazendo, com vôo
desajeitado, suas pesadas cargas para a colméia. Estas ousadas
pilhadoras, quando entram na colméia, estão esfomeadas pare-
cendo as vacas magras do Faraó, enquanto, ao sair, elas se mos-
tram com aparência volumosa e, à semelhança dos conselheiros
que jantaram às custas do erário público, se encontram estufada
até onde possível.
Quando as pilhadoras dominaram uma colméia, as tentati-
vas para subjugá-las - fechando a colméia ou movendo-a para
um novo local - se apropriadamente realizada é, muitas vezes,
muito mais desastroso do que permitir que elas terminem o seu
trabalho. O ar se encherá rapidamente de abelhas vorazes as
quais, sem conseguirem suportar o seu desapontamento, ataca-
rão, com desespero furioso, algumas das colméias vizinhas. Des-
ta forma, as colônias mais fortes ficam, algumas vezes, super for-
tificadas ou milhares de abelhas se matam em disputa desespe-
rada.
Quando o apicultor perceber que uma colônia está sendo pi-
lhada, ele deve reduzir seu alvado e, se as pilhadoras persistirem

228 A Colméia e a Abelha


em abrir caminho, ele deve fechar o alvado completamente. Em
poucos minutos a colméia ficara preta com as gananciosas que
não abandonarão até conseguirem penetrar na menor abertura.
Antes de elas assaltarem uma colônia vizinha, elas devem ser
borrifadas intensamente com água fria, o que as fará retornarem
satisfeitas para suas colméias.
A menos que as abelhas que foram fechadas disponham de
ar em abundância elas devem ser levadas para um local frio e
escuro1. Na manhã do dia seguinte elas podem ser examinadas
e, se necessário, unidas a outra colméia.
Existe um tipo de pilhagem que é feito de forma tão furtiva
que, freqüentemente, não é percebido. As abelhas nele engajadas
não entram em grande número, não se vê disputa, e as operárias
da colméia pilhada parece continuarem com sua costumeira
calma. A todo o momento, no entanto, abelhas estranhas estão
carregando o mel com a mesma rapidez com que ele é recolhido2.
Depois de observar uma destas colméias por alguns dias, ocor-
reu-me, num entardecer, que ela deveria ter uma princesa que
ainda não emergira, então resolvi lhe dar uma rainha fértil. Na
manhã seguinte, levantando antes que as malandras estivessem
em atividade, tive o prazer de ver elas serem recebidas tão calo-
rosamente, que ficaram felizes em conseguir fazer uma rápida re-
tirada.
Será que a mãe fértil não fornece para cada colméia (pág.
203) seu odor característico? E não poderia uma colméia sem es-
te cheiro da rainha, ficar tão satisfeita (pág. 226) com o odor das
outras abelhas, a ponto de permitir que as pilhadoras fizessem o

1 "Na Alemanha, quando as colônias em colméias comuns são pilhadas, elas são
freqüentemente removidas para um local distante, ou colocadas num porão escu-
ro. Uma colméia, de aparência semelhante é colocada em seu lugar, e folhas de
losna e suco da mesma planta são colocados no fundo. As abelhas tem tal anti-
patia para o cheiro desta planta, que as pilhadoras rapidamente abandonam o
local, e a colônia assaltada pode ser trazida de volta.
"O Rev. Mr. Kleine diz que as pilhadoras podem ser repelidas colocando na col-
méia algum odor intenso e poderoso não familiar. Ele consegue isto mais rapida-
mente colocando nela, ao entardecer, uma pequena porção de almíscar e na ma-
nhã seguinte as abelhas, se tiverem uma rainha saudável, enfrentarão corajosa-
mente suas assaltantes. Estas ficam perdidas pelo odor não costumeiro e, se al-
guma delas entrar na colméia e carregar algo do cobiçado prêmio, ao retornar pa-
ra sua casa será morta por suas próprias familiares por causa do cheiro estra-
nho. A pilhagem se encerra rapidamente." - S. Wagner.
2Normalmente se verificará que a colméia que ficou super reforçada pelas pilha-
doras não tem rainha, ou tem uma que está doente (pág. 244, nota).
L. L. Langstroth 229
que bem entendessem com suas reservas? Como as abelhas es-
tão raramente engajadas na criação de rainhas, exceto no perío-
do de enxameação, quando o mel é tão abundante que elas não
estão inclinadas a pilhar, isto pode, se minhas conjecturas esti-
verem corretas, ser uma explicação para o inusitado deste tipo
de pilhagem.

230 A Colméia e a Abelha


CAPÍTULO XIV

IIN
NSSTTR
RUUÇ
ÇÕÕE
ESS PPA
ARRAAAALLIIM
MEEN
NTTA
ARRA
ASS
AABBEELLH
HAASS

Poucos assuntos na apicultura prática são mais relevantes


do que a alimentação das abelhas; no entanto nenhum tem sido
manejado de modo mais grosseiro ou negligenciado. Desde que a
vala de enxofre foi abandonada, milhares de colônias fracas pas-
sam fome no Inverno, ou início da Primavera; seguidamente,
quando um Verão desfavorável é seguido por um Inverno rigoro-
so e Primavera tardia, muitas pessoas perdem a maioria de suas
colméias e abandonam a apicultura por desgosto.
O apicultor prudente não deixará de alimentar na Primavera
suas colônias necessitadas com a mesma dedicação com que pro-
videncia uma mesa para si mesmo. Nesta estação, estimuladas
pelo retorno do calor e intensamente engajadas no desenvolvi-
mento da cria, as abelhas necessitam de um farto suprimento de
alimento e muitas colméias populosas perecem, as quais poderi-
am ter sido salvas com trabalho e custo insignificantes.1
"If e´er dark Autumn, with untimely storm,
The honey´d harvest of the year deform;
Or the chill blast from Eurus´ mildew wing,
Blight the fair promise of returning Spring;

1 "Se a Primavera não for favorável para as abelhas, elas devem ser alimentadas,

pois é o período em que, para alimentar as jovens, mais consomem mel. Tendo a-
limentação em abundância nesta época, elas têm condições de produzir enxames
mais cedo e mais fortes." - Wildman.
O apicultor cujas colméias podem morrer depois que a Primavera abre, se equi-
para ao fazendeiro cujas vacas passam fome em seus estábulos; o que lhes nega
a necessária ajuda, na época em que elas não conseguem colher o suprimento,
lembram o mercador que queima seu navio caso tenha feito uma viagem desfavo-
rável.
Columella fornece instruções minuciosas de como alimentar colméias necessita-
das e cita, aprovando, as instruções de Hyginus - cujos escritos não mais existem
- afirmando que este assunto deve ser o mais cuidadosamente ("diligentissima-
mente") observado.
L. L. Langstroth 231
Full many a hive, but late alert and gay,
Droops in the lap of all-inspiring May." - Evans
Quando as abelhas voam pela primeira vez na Primavera, é
bom alimentá-las um pouco, mesmo quando elas dispõem de re-
servas abundantes, uma vez que um pequeno acréscimo em su-
as reservas as encoraja a produzir cria. Muito cuidado, no entan-
to, deve ser tomado para prevenir a pilhagem; a alimentação po-
de ser suspensa assim que a forragem for abundante. Se uma
colônia for super alimentada as abelhas encherão com mel seus
favos de cria, interferindo com a produção de jovens e assim o
mel que lhes foi dado é pior do que se fosse jogado fora.
Super alimentar as abelhas lembra, em seus resultados, as
perniciosas influências sob as quais muitas crianças dos ricos
são criadas. Mimadas e alimentadas em demasia a sua prosperi-
dade se prova, seguidamente, apenas um legado de desgraça
desmoralizante, pois, destituídas de dinheiro e caráter, elas des-
cem, prematuramente, à sepultura da desonra.
O apicultor prudente cuidará da alimentação das abelhas -
dar pouco para evitar um encorajamento - como uma desgraça a
ser estimulada somente quando não pode ser evitada e preferirá,
muito antes, que elas consigam seus suprimentos da maneira
tão bem descritas por ele cujos escritos inimitáveis nos forne-
cem, sobre quase todos os assuntos, felizes ilustrações:
"So work the honey bees,
Creatures that, by a rule in Nature, teach
The art of order to a peopled kingdom.
They have a king and officers of sorts,
Where come, like magistrates, correct at home,
Others, like soldiers, armed in their stings,
Make boot upon the Summer´s velvet buds;
Which pillage they, with merry varch, bring home
To the tent royal of their emperor,
Who, busied in his majesty, surveys
The singing masons building roofs of gold;
The civil citizens kneading up the honey;
The poor mechanic porters crowding in
Their heavy burdens at his narrow gate;
The sad-eyed justice, with his surly hum,
Delivering o´er, to executors pale,
The lazy, yawning drone."
Shakspeare Ato I, Cena 2 - Henry V.,
Se as colônias empobrecidas estiverem em colméias comuns

232 A Colméia e a Abelha


elas podem ser alimentadas invertendo as colméias e derraman-
do uma taça de chá cheia de mel entre os favos nos quais as abe-
lhas estão amontoadas. Uma abelha mergulhada em doce, quan-
do longe da colméia, é um espetáculo deplorável; mas o que lhes
é dado desta forma não apresenta nenhum mal e elas se lambem
umas às outras, com uma satisfação comparável com as crian-
ças que chupam seus dedos quando se deliciam com doces.
Quando as abelhas tiverem recolhido o que foi derramado em
cima delas a colméia pode ser re-abastecida e a operação repeti-
da a intervalos, tão freqüentes quanto necessário. Se a colméia
for de quadros móveis, o alimento pode ser colocado num favo
vazio e este inserido onde ele possa ser facilmente alcançado pe-
las abelhas.
Se a colônia tiver poucas abelhas, sua população deve ser
incrementada (pág. 221) antes de ser alimentada. Se ela tiver a-
penas uma pequena quantidade de favos com cria, a menos que
alimentada com moderação, ela encherá os favos com alimento
em vez de cria. Se o apicultor desejar que as abelhas construam
favos novos, a alimentação deve ser fornecida com regularidade
para imitar um suprimento natural, ou elas o armazenarão em
alvéolos já construídos.
Para reforçar as colônias através da alimentação, exige-se
mais cuidado e critério do que para qualquer outro processo na
apicultura e raramente será necessário para os que usam col-
méias de quadros móveis. Ela só será bem sucedida quando tudo
for feito com a finalidade de produção rápida de cria.
Quando o fluxo de néctar cessar, todas as colônias devem
estar fortes em número; em períodos favoráveis, os recursos a-
cumulados devem ser tais que, quando for feita uma equi-
divisão, haja alimento suficiente para todas. Se algumas tiverem
mais e outras menos do que elas precisam, uma divisão eqüitati-
va pode ser conseguida normalmente em colméias de quadros
móveis. Este procedimento de redistribuição pode facilmente
destruir a sociedade humana, mas as abelhas assim ajudadas,
não passarão inativas na próxima estação; nem as que foram
destituídas de suas reservas limitarão sua colheita à sua neces-
sidade.
No início de outubro - pela metade de setembro ao norte - se
a forragem tiver terminado deverá ser fornecida, cuidadosamen-
te, toda a alimentação necessária para a hibernação das abelhas.
Se retardada para o final do período, as abelhas podem não ter
L. L. Langstroth 233
tempo suficiente para opercular o mel, que, por absorver umida-
de pode azedar e provocar (pág. 256) a disenteria. Tais colônias,
por terem poucas abelhas para hibernar, devem ser unidas a ou-
tras colméias.
No oeste da Índia o mel é, normalmente, o alimento líquido
mais barato que se pode dar para as abelhas. Para remover suas
impurezas e prevenir que azede ou cristalize nos alvéolos, deve-
se adicionar um pouco de água e depois ferver por alguns minu-
tos e esfriar; a espuma sobrenadante deve ser removida. Uma
mistura de três libras de mel, duas de açúcar escuro e uma de
água, preparada como acima descrito, foi usada por mim (pág.
257) por muitos anos, sem prejudicar minhas abelhas.
É desejável prosseguir com a alimentação tão rapidamente
quanto possível1, pois a alimentação excita as abelhas e elas
consomem mais alimento do que o fariam de outra maneira. Em
minhas colméias, o alimentador pode ser colocado sobre um dos
buracos da entre tampa, pelo qual o calor sobe. As abelhas po-
dem apanhá-lo sem serem subresfriadas pelo clima frio, e o seu
odor não atrairá as pilhadoras. Para fazer um alimentador barato
e adequado (ver Lâmina XI, Fig. 26), pegar uma caixa qualquer
de madeira que comporte pelo menos dois quartos; a cerca de
duas polegadas de uma das extremidades fazer uma repartição,
rebaixada, da parte superior, em meia polegada; abrir um buraco
no fundo do pequeno compartimento, assim quando o alimenta-
dor for colocado sobre qualquer buraco, as abelhas podem pas-
sar por ele e ter acesso à divisão que contem o alimento. Os can-
tos do compartimento de alimentação devem ser impermeabiliza-
dos ao mel, aplicando uma mistura (pág. 78) de cera e breu; e se
as laterais forem pintadas com a mesma mistura, a madeira não
absorvendo mel se manterá doce2. A tampa deve ter uma parte
em vidro, pelo qual será possível ver quando o alimentador ne-
cessita ser suprido, e um orifício pelo qual o alimento póssa ser
derramado, feito e fechado como os usados para permitir o aces-
so das abelhas às melgueiras. Um pouco de palha limpa, cortada
em pedaços pequenos para flutuar, à medida que as abelhas
consomem o mel, prevenirá o seu afogamento3.

1 As colméias alimentadas, deslocadas para colméias vazias no final do Outono

são, a menos que se lhes dê favos (pág. 71), raramente pagarão a despesa.
2 Embora o autor tenha usado a palavra "sweet" acredito que a intenção foi utili-

zar "dry", seco. N. T.


3 Se esta caixa for coberta com algodão ou lã grossa, para reter o calor ascenden-
234 A Colméia e a Abelha
A água é indispensável para as abelhas enquanto constroem
favo e desenvolvem cria. Elas se aproveitam de qualquer dia a-
meno do Inverno (ver Capítulo sobre Hibernação das Abelhas)
para trazê-la para a colméia; no início da Primavera, podem ser
vistas apanhando água ativamente nas bombas, drenos e outros
lugares molhados. Mais tarde, elas sugam o sereno da grama e
das folhas.
Todo apicultor zeloso cuidará para que suas abelhas estejam
sempre bem supridas de água.1 Se ele não tiver nenhum ponto
ensolarado onde elas possam obtê-la com segurança, ele fornece-
rá uma tina rasa de madeira, ou recipientes cheios com flutua-
dores ou palha, nos quais elas - protegidas dos ventos frios e a-
quecidas pelos geniais raios do sol - podem beber sem risco de se
afogarem.
Parece que as abelhas são tão aficionadas pelo sal, que elas
pousam em nossas mãos para sugar a transpiração salgada. "No
início do período de desenvolvimento da cria," diz o Dr. Bevan,
"até início de maio, eu mantenho um suprimento constante de
sal e água perto do meu apiário, e o vejo apinhado de abelhas
desde o início da manhã até o final da tarde. Durante este perío-
do, a quantidade que elas consomem é considerável, depois, po-
rém, parece ficarem indiferentes a ele. A vivacidade que as abe-
lhas demonstram pela água durante um período da estação, e a
indiferença em outro, pode ser a responsável pelas opiniões o-
postas manifestas sobre o assunto."
O Rev. Mr. Weigel, da Silésia, recomenda açúcar cristalizado
natural como um substituto para o mel líquido. Se as abelhas ti-
verem acesso a ele, desde que não estejam com frio, elas se a-
montoam sobre ele e, sendo supridas com água, o consumirão
gradualmente. Quatro libras de cande2 suprirão, é dito, a colônia

te, ela pode ser usada durante todo o Inverno como alimentador com mel ou com
água.
Columella recomenda lã, encharcada em mel para alimentar as abelhas. Se o
clima não for tão frio, um pires, tigela, ou recipiente de qualquer tipo cheio com
palha se transforma num alimentador conveniente.
1 Um antigo apicultor grego diz, "que se o clima for tal que as abelhas não pude-
rem voar, por apenas alguns dias, a cria poderá perecer por falta de água".
2 Preparação do cande para alimentar as abelhas: adicionar água ao açúcar e cla-
rificar o xarope com ovos; adicionar cerca de uma colher de chá de creme de tár-
taro para cerca de 20 libras de açúcar, e ferver até que a água tenha evaporado.
Para saber quando está pronto, mergulhe seu dedo primeiro em água fria e de-
pois no xarope. Se o que adere ficar quebradiço quando frio, ferveu o suficiente.
L. L. Langstroth 235
cujas reservas de Inverno estejam escassas. É mais barato do
que o alimento líquido e menos provável de azedar nos alvéolos.
Se as colméias comuns forem invertidas e os pedaços de
cande colocados entre os favos onde as abelhas estão amontoa-
das, elas podem se alimentar facilmente durante o mais frio In-
verno. Nas minhas colméias, se a melgueira, ou tampa, for er-
guida por sarrafos de madeira, em cerca de uma polegada e meia
(4cm) acima dos quadros, o cande pode ser colocado bem acima
do amontoado de abelhas e, assim, ele ficará acessível às abelhas
durante o clima frio. Ele pode, também, ser colocado entre os fa-
vos em posição vertical, entre as abelhas.1
O Mr. Wagner me relatou os seguintes fatos interessante,
traduzidos por ele do Bienenzeitung:
" 'O uso de açúcar cristal para alimentar as abelhas´,diz o Rev. Mr.
Kleine, ´traz ao apicultor uma segurança que ele não tinha antes. Mas,
não devemos depositar muita esperança nele, ou tentar hibernar col-
méias muito fracas, as quais um apicultor prudente uniria com uma
colméia forte. Tenho usado açúcar cristal para alimentação pelos últi-
mos cinco anos e fiz muitas experimentos com ele, os quais me confir-
maram que ele não pode ser tão insistentemente recomendado, especi-
almente depois de verões desfavoráveis. Colônias bem supridas de favos,
e abundando em pólen, ainda que deficientes em mel, podem ser ali-
mentadas com açúcar cristal com muito proveito, e devolverão esplendi-
damente o serviço que se teve com elas.
" ´Açúcar cristal dissolvido em pequena quantidade de água, pode
ser fornecido às abelhas com segurança no final do Outono, e até mes-
mo no Inverno, se absolutamente necessário. Ele é preparado dissolven-
do duas libras de açúcar cristal num quarto de água, e evaporado, por
fervura, até cerca de dois gills2 da solução; depois escumado e filtrado
numa peneira de cabelo. Três quartos desta solução, fornecida no Outo-
no, manterão com segurança a colônia durante o Inverno, num local e
estação normais. As abelhas o carregarão para os alvéolos dos favos
como preferirem, onde ele engrossa rapidamente e é coberto com um fi-
no filme, que evita azedar.

Colocar em pratos rasos, levemente engordurados e, quando frio, quebrar em pe-


quenos pedaços de tamanho conveniente. Depois de ferver, pode-se adicionar
bálsamo ao xarope, ou outro perfume que seja agradável para as abelhas.
1 Inserindo alguns pedaços de cande sob os quadros, uma pequena colônia pode

ser alimentada em tempo ameno, sem tentar as pilhadoras com o odor do mel lí-
quido. Se uma pequena quantidade de alimento líquido é necessária no Verão,
tabletes de açúcar dissolvidos em água, por terem o mínimo de odor, são mais
aconselhados.
2 "Gill": medida de líquido, 0,142 litros. N. T.
236 A Colméia e a Abelha
" ´Açúcar de uva, usado para corrigir a acidez do vinho, é agora fa-
bricado extensivamente a partir de amido de batata, em vários lugares
do Reno, e tem sido muito recomendado como alimento das abelhas. Ele
pode ser conseguido por preço menor do que o açúcar de cana e é me-
lhor adaptado à constituição da abelha, uma vez que ele constitui a sa-
carina do mel, e é chamado, freqüentemente, açúcar do mel.
" ´Ele pode ser fornecido diluído em água fervida, ou em seu estado
bruto, úmido, como vem da fábrica. Na última condição, as abelhas o
consomem lentamente e, como não ocorre o desperdício que acontece
quando são alimentadas com açúcar cristal, eu penso ser o melhor ali-
mento de Inverno.´
"O Rev. Mr. Sholz, da Silésia, recomenda o seguinte como substitu-
to do açúcar cristal para alimentação das abelhas:
" ´Apanhar um pint1 de mel e quatro libras (2kg) de açúcar em pó;
aquecer o mel, sem adicionar água, e misturar com o açúcar, amassan-
do os dois até ficar pastoso. Quando bem misturados, cortar em fatias,
ou conformar em bolo ou bolotas, enrolar em linho grosso e colocar so-
bre os quadros. Fatias finas, protegidas por linho, podem ser empurra-
das por baixo dos favos. A plasticidade da massa permite ao apicultor
aplicar o alimento da maneira que ele desejar. As abelhas tem menos di-
ficuldade em aproveitar este tipo de alimento do que se for empregado
na forma de cande, e o desperdício será menor.´
"O Mr. Kleine coloca2 açúcar cristal, como alimento de Inverno para
as abelhas, dentro dos alvéolos previamente molhados com água doce."
É impossível dizer quanto mel é necessário para uma colméia
passar tranqüilamente o Inverno. Depende muito (ver capítulo
sobre Hibernação das abelhas) de como elas estão hibernando,
onde, se ao ar livre ou em abrigos especiais, se elas estão prote-
gidas da agitação excessiva provocada pelas mudanças climáti-
cas bruscas e violentas; como também da extensão do Inverno,
que pode variar muito nas diferentes latitudes, e da precocidade
da Primavera que se aproxima. Em alguns de nossos estados do
norte, as abelhas, seguidamente, não colhem nada durante tem-
po superior a seis meses, enquanto, no extremo sul, elas estão
seguidamente privadas de suprimentos naturais por várias se-
manas. Em todos os nossos estados do norte e centrais, se as
colméias tiverem de hibernar ao ar livre, elas devem dispor de

1 Pint: medida de capacidade (Br. 0,568 litros, Am. 0,437 litros). N. T.


2 Açúcar em tabletes granulado é com certeza um bom alimento para as abelhas
e, molhando os favos depois que ele tenha sido espalhado dentro deles, é fácil
mantê-lo nos alvéolos. Nem açúcar nem cande será usado pelas abelhas a menos
que elas disponham de água para dissolvê-lo.
L. L. Langstroth 237
pelo menos vinte e cinco libras1 (12kg)de mel.
Todas as tentativas de obter lucro dom a venda de mel bara-
to como alimento para as abelhas, tem-se mostrado, invariavel-
mente, sem sucesso. A noção de que elas podem transformar tu-
do que é doce, mesmo de baixa qualidade, num bom mel,2 à luz
do mesmo princípio que as vacas secretam leite a partir de qual-
quer alimento aceitável, e uma grande ilusão.
É verdade que elas conseguem fazer um favo branco de pra-
ticamente todo líquido doce, pois sendo a cera uma secreção na-
tural da abelha, pode ser feita de toda substância açucarada, as-
sim como a gordura pode ser colocada entre as costelas de um
boi por qualquer tipo de alimento nutritivo. Mas a qualidade do
favo nada tem a ver com o seu conteúdo; e a tentativa de vender,
como artigo de primeira, um mel inferior, armazenado em favo
maravilhoso, é tão fraudulenta quanto oferecer por um bom mel,
moedas que, embora puras no exterior, contenham um metal in-
ferior em seu interior.
A qualidade do mel depende muito pouco, se depender, da
secreção das abelhas; floração de maçã, trevo branco, trigo mou-
ro e quase todas as outras variedades de mel, todas têm seu sa-
bor peculiar.3
A evaporação4 da água é a única mudança bem caracteriza-

1 Em colméias de quadros móveis, a reserva pode ser facilmente quantificada por

uma inspeção real. O peso das colméias nem sempre é um critério seguro, uma
vez que colméias velhas são mais pesadas do que as novas, além de possuírem
seguidamente super reservas de pão de abelha.
2 Quando as abelhas estão enchendo rapidamente seus favos, elas descarregam o
conteúdo de suas vesículas melíferas assim que retornam dos campos. Não pode
ser afirmado categoricamente que o mel não sofre mudança durante o pequeno
tempo que ele permanece na vesícula melífera, mas que ele pode passar por ape-
nas uma pequena mudança é evidente a partir do fato que alimentar as abelhas
com diferentes tipos de mel ou xarope de açúcar pode ser facilmente itentificado,
depois que elas o opercularam, como também antes de o opercularem.
A idade de ouro da apicultura, na qual as abelhas hão de transformar um açúcar
inferior em produtos balsâmicos como se tivessem sido recolhidos no Hybla ou
Hymettus, está tão longe da prosaica realidade como as visões do poeta, que diz -
"A golden hive, on a golden bank,
Where golden bees, by alchemical prank,
Gather gold instead of honey."
3 "Que as abelhas não secretam o mel mas o colhem é deduzido do fato que os a-

picultores encontram os alvéolos cheios com mel (em enxames novos) no primeiro
ou segundo dia." - Aristóteles.
4 Se uma colônia forte é colocada sobre uma balança, se verificará, durante o pi-
238 A Colméia e a Abelha
da pela qual o mel passa desde o seu estado natural nos nectá-
rios das florações, e as abelhas não têm nenhuma vontade de
opercular até que ele tenha atingido uma consistência tal que
não corra risco de azedar nos alvéolos.1
Mesmo que o mel barato possa ser "melhorado" pelas abelhas
a fim de se tornar de melhor qualidade, ele custará para o produ-
tor, considerando a quantidade consumida (pág. 71) na produção
de cera, quase, se não mais, do que o preço de mercado do bran-
co mel de trevo; e se ele alimentar suas abelhas depois que o su-
primento natural tenha se exaurido, a colônia será prejudicada
por encher os alvéolos da cria.2
O apicultor experiente muito se beneficiará da obrigação de
prevenir que suas abelhas provem um doce proibido, e o inexpe-
riente, se não for cauteloso, rapidamente aprenderá uma salutar
lição. As abelhas preferem colher seus suprimentos dos nectários
das flores e, seguindo seus instintos naturais, têm pouca dispo-
sição para se intrometer em propriedades que não lhes pertence;

co da colheita do mel, aumentar algumas libras num dia agradável. Grande parte
deste peso, no entanto, será perdido durante a noite pela evaporação do mel re-
centemente colhido, cuja água corre, seguidamente, como um filete pelo fundo. O
Rev. Levi Wheaton, North Falmouth, Massachussets, é de opinião que a ventila-
ção ajuda muito as abelhas na evaporação da água do mel não operculado. A
ventilação por fluxo ascendente que providenciei para minhas colméias pode, as-
sim, contribuir para aumentar o rendimento em mel.
1 Aristóteles relata este fato, que uma vez pensei ser minha descoberta. As obser-

vações deste admirável gênio sobre a criação de abelhas mostram que ele era
sensível aos obstáculos que, desde muito, tanto tem perturbado os apicultores
atuais. Depois de discutir este tópico, diz ele: "Todas as dúvidas a respeito deste
assunto ainda não foram suficientemente esclarecidas; mas, se nunca o forem,
então nos devemos depositar mais confiança em nossas observações do que em
nosso raciocínio. A teoria, não obstante, só será merecedora de crédito quando
confirmar os fatos observados." Estamos frente a um sistema indutivo tão bem
guardado e tão bem expresso como nunca o foi por Bacon?
2 Esta é a minha receita para um maravilhoso mel líquido, o qual os mais críticos

reconheceram ser um dos mais deliciosos produtos até então provado; Colocar
duas libras do mais puro açúcar branco em água suficiente para dissolvê-lo; to-
mar uma libra de mel claro de trevo filtrado - serve qualquer mel de bom sabor -
adicionar ao xarope morno, agitar vigorosamente a mistura. Como o açúcar refi-
nado cristalizado é puro e inodoro, uma libra de mel confere seu sabor para duas
libras de açúcar, e a mistura estará livre do sabor forte que seguidamente o mel
tem, e normalmente será bem aceito por aqueles que não podem comer o último
sem sofrer algum mal. Pode-se adicionar qualquer outro sabor que se desejar.
Contudo não se poderá concretizar nenhum ganho ao induzir as abelhas a arma-
zenar esta mistura nas caixas ou vidros, poderia ser opção para o amador, em
períodos ruins, ou em locais onde o mel é escasso, para desta forma garantir um
item alternativo para sua mesa.
L. L. Langstroth 239
mas, se o seu incauto dono tentá-las com alimento líquido, espe-
cialmente nos períodos em que elas nada conseguem das flora-
ções, elas ficam tão enfeitiçadas com coleta tão fácil a ponto de
perder toda a discrição, e morrerão aos milhares se o recipiente
que contem o alimento não dispuser de flutuadores, nos quais
elas podem pousar com segurança para se salvarem.
As moscas por não tencionarem se banquetear em flores,
mas em substâncias nas quais elas podem facilmente se afogar,
pousam cuidadosamente nas bordas de todo o recipiente que
contenha líquido, e cautelosamente se ajudam a si mesmas; en-
quanto a pobre abelha mergulhando de cabeça perece rapida-
mente. A triste sorte de suas infelizes companheiras não evitará,
sequer, que as outras que se aproximam da isca tentadora, pou-
sem loucamente sobre os corpos das moribundas e das mortas,
para compartilhar do mesmo triste fim! Ninguém consegue en-
tender a extensão de sua obsessão, até que tenha visto uma con-
feitaria assaltada por uma miríade de abelhas famintas. Vi mi-
lhares sendo escumadas de xaropes no qual elas morreram; ou-
tras milhares pousando em doce ainda fervente; o piso coberto e
as janelas escurecidas pelas abelhas, algumas se rastejando, ou-
tras voando e outras ainda tão completamente lambuzadas a
ponto de não rastejar nem voar - sequer uma em dez ter condi-
ções de levar para casa os espólios ilegalmente adquiridos e o ar
ainda repleto com nova multidão de imprudentes recém-
chegadas.
Uma vez guarneci as janelas e portas de uma confeitaria, nas
proximidades do meu apiário, com tela metálica, depois que as
abelhas começaram sua depredação. Sentindo-se excluídas, elas
pousavam na tela aos milhares, praticamente guinchando com
aflição por tentarem sem resultado forçar a passagem através da
tela. Frustradas em todos os esforços, elas tentaram descer pela
chaminé, impregnada com o odor doce, ainda que a maioria que
entrava caia com as asas queimadas dentro do fogo, tornando-se
necessário instalar, também, uma tela metálica sobre o topo da
chaminé.1
Vi milhares de abelhas sendo destruídas em tais lugares, ou-
tras milhares se debatendo no doce enganador e ainda outras
milhares, todas ignorando o perigo, pairando cegamente e pou-

1 Os fabricantes de doces e xaropes concluirão ser muito interessante instalar

tais proteções em suas propriedades; pois, se apenas uma abelha de entre cente-
nas fugir com sua carga, as perdas serão consideráveis ao longo da estação.
240 A Colméia e a Abelha
sando sobre elas, quantas vezes elas me lembraram da obsessão
dos que se abandonam a um copo embriagador. Ainda que estas
pessoas enxerguem as vítimas miseráveis de seu degradante ví-
cio caírem à sua volta em sepultura prematura, elas ainda insis-
tem loucamente, pisando, como se lá estivessem, sobre os corpos
mortos, elas também cairão no mesmo abismo, e sua luz tam-
bém será uma escuridão desesperada.
A avarenta abelha que, desprezando o lento processo de ex-
trair néctar de "toda flor aberta", mergulha indiferentemente
num doce tentador, terá muito tempo para lamentar sua loucu-
ra. Mesmo que ela não pague com sua vida, ela retorna para ca-
sa com uma aparência desanimada e marca lamentável, em con-
traste evidente com o brilhante matiz e sons alegres com que su-
as laboriosas companheiras retornam de sua alegre vida errante
entre "as flores nectíferas em botão e campos docemente aroma-
tizados."

L. L. Langstroth 241
CAPÍTULO XV

O
OA APPIIÁ
ÁRRIIO
O --
CCOOMMPPRRAAD DEEA ABBEELLH
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TTR
RAANNSSFFEERRÊÊNNCCIIA
AD DEEA ABBEELLH
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MÉ ÉIIA
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D E Q U A D R O
DE QUADROS MÓVEISS M Ó V EIS

Um grande conhecimento dos recursos de mel neste país é


extremamente necessário para os que desejam se engajar total-
mente na apicultura. Enquanto, em alguns locais as abelhas a-
cumulam grandes reservas, em outros, a apenas uma ou duas
milhas de distância, elas conseguem render apenas um pequeno
lucro.1
Onde quer que o apiário seja instalado, grandes cuidados
devem ser tomados para proteger as abelhas dos ventos fortes.2
As colméias devem ser colocadas onde elas não sejam molesta-
das pelos transeuntes ou pelo gado e nunca deveriam ficar muito
próximas onde cavalos suados possam ficar ou transitar. Se ma-
nejadas pelo método da enxameação, é muito desejável que elas
fiquem facilmente visíveis da peça mais ocupada da residência
ou, pelo menos, de onde o ruído da sua enxameação seja facil-
mente ouvido.
Nos estados do norte e centrais, as colméias devem ficar vol-
tadas para o sudeste, para as abelhas serem banhadas pelo sol
quando ele é mais favorável para o seu bem estar. Usando meus
suportes móveis (Lâmina V, Fig. 16) as colméias podem ser ori-

1 "Huber residia em Cour e, depois, em Vivai, onde suas abelhas sofriam por cau-

sa da forragem escassa, tanto que ele só conseguia mantê-las pela alimentação,


enquanto colméias que estavam a apenas duas milhas das dele, em tais casos,
abasteciam suas colméias abundantemente." - Bevan.
2 Colocando um pedaço de musselina na taboa de pouso e nas partes salientes do

suporte da colméia (Lâmina V Fig. 16), as abelhas, quando reduzem a velocidade


de vôo, pousarão sobre o tecido - salvando-se de resvalarem ou serem sopradas
para longe - e assim entrarão facilmente em sua colméia. Em situações de ventos
fortes, milhares de abelhas (PÁG. 186) podem ser salvas.
L. L. Langstroth 243
entadas para qualquer direção. A área ocupada pelo apiário pode
ser gramada, aparada freqüentemente, e mantida livre de ervas
daninhas. As colméias são, também, freqüentemente colocadas
onde muitas abelhas morrem por caírem na sujeira, ou entre er-
vas daninhas, ou grama alta, onde as aranhas e sapos encon-
tram seus melhores locais para espreitar.
Apiários cobertos, de alto custo, trazem pouca ou nenhuma
proteção contra os extremos de calor e frio, e aumentam em mui-
to o risco de perder as rainhas.
No Verão, nenhum local é mais apropriado para as abelhas
do que a sombra das árvores, se não for muito densa, ou seus
galhos tão baixos a ponto de interferirem com o seu vôo. À medi-
da que o clima se torna frio, elas podem ser transportadas para
qualquer outro lugar favorável para o Inverno. Se as colônias fo-
rem movimentadas na linha de vôo, e a pequena distância de ca-
da vez, não ocorrerá perda de abelhas; mas, se deslocadas so-
mente algumas jardas, todas de uma só vez, seguidamente mui-
tas se perderão. Através de um processo gradual, as colméias
num apiário podem, no Outono, serem reunidas num pequeno
perímetro, assim que elas podem ser facilmente protegidas dos
gélidos ventos do Inverno. Na Primavera, elas podem retornar
gradualmente para sua posição antiga.1

Povoamento do apiário

Normalmente será melhor para o iniciante povoar o seu apiá-


rio com enxames do ano corrente, evitando assim, até que ele es-
teja preparado para novidades, as perplexidades que seguida-
mente acompanham seja a enxameação natural seja artificial. Se
forem comprados enxames novos, a menos que eles sejam gran-
des e do cedo, eles serão apenas uma despesa. Se forem com-
prados enxames velhos, estes deverão ser saudáveis e populosos.
Para deslocar enxames depois que a estação de trabalho come-
çou, eles devem ser levados para uma distância de pelo menos

1 Removendo as famílias mais fortes do apiário no primeiro dia, e as outras não

tão fortes no próximo, e continuando o processo até que todas tenham sido re-
movidas, eu troco o apiário de lugar com segurança, quando obrigado a mover
minhas abelhas na estação de trabalho. Ao remover a última colméia, poucas a-
belhas retornarão para o antigo lugar. A mudança, assim feita, reforça as famílias
fracas.
244 A Colméia e a Abelha
duas milhas (pág. 156).
Se nem todas as abelhas estiverem em casa quando a col-
méia for deslocada, soprar um pouco de fumaça na entrada da
colméia, para fazer que as abelhas que estão dentro da colméia
se encham de mel, e evitar que elas saiam para o campo. Repetir
este processo de tempos em tempos, e em cerca de meia hora to-
das terão retornado. Se algumas estiverem amontoadas do lado
de fora, elas podem ser deslocadas para dentro com fumaça.
As colméias comuns podem ser preparadas para a transporte
pela inversão delas e colocando uma toalha de tecido grosso so-
bre elas, ou sarrafos sobre uma tela metálica, e estas pregadas
nas laterais da colméia.
Prender a colméia, de forma que ela não possa ser jogada,
sobre uma cama de palha dentro de um veículo com molas e as-
segurar-se, antes de partir, que é impossível as abelhas saírem.
A posição invertida da colméia permitirá que as abelhas tenham
o ar de que precisam, e evita que os favos sejam perdidos. Será
quase impossível, em clima quente, deslocar uma colméia que
contenha muitos favos novos.
Enxames novos podem ser levados para casa em qualquer
caixa velha que permita ventilação abundante. Uma caixa de chá
com tela metálica em cima, dos lados e no fundo é muito apro-
priada. As abelhas podem ser fechadas nesta caixa assim que a-
lojadas. Enxames novos exigem mais ar do que os antigos por es-
tarem cheios de mel e em aglomeração muito apertada. Eles de-
vem ser instalados em local frio e, se o clima estiver muito aba-
fado, não devem ser removidos antes do anoitecer. Muitos enxa-
mes são sufocados por não terem sido tomadas estas precau-
ções. As abelhas podem ser sacudidas facilmente desta colméia
temporária (pág. 139).
Quando as colméias de quadros móveis forem transportadas
para alojar um enxame, deve-se colocar sobre os quadros dois
sarrafos de madeira, com pequenos pedaços pregados para fica-
rem entre os quadros a fim de mantê-los separados. A tampa, ou
a melgueira, deve então será parafusada e, se os sarrafos forem
de espessura apropriada, ficará um espaço de um oitavo de pole-
gada (3mm) em volta da colméia, o qual, com as demais ventila-
ções, fornecerá ar suficiente. Se uma família velha, em clima
quente, deve ser movida para qualquer distância em tal colméia,
será de bom alvitre instalar uma tela metálica em frente do alva-

L. L. Langstroth 245
do, assim, as abelhas podem abandonar os favos (pág. 91) e ali
se amontoarem. As colméias de quadros móveis devem ser posi-
cionadas de tal forma que os quadros corram da frente para trás
e não de lado para lado, no veículo. Minha colméia envidraçada
nunca será enviada para apanhar enxames.
Pessoas inexperientes seguidamente pensarão ser econômico
iniciar a apicultura em grande escala. Usando a colméia de qua-
dros móveis, elas podem aumentar rapidamente o número de
colméias depois de adquirirem habilidade e terem se convencido,
de que não é só dinheiro que se consegue criando abelhas, mas
que elas podem fazê-lo. Enquanto grandes lucros podem ser con-
seguidos pelos apicultores cuidadosos e experientes, estes que
não o forem podem estar seguros de verem seus gastos resulta-
rem apenas em penosas perdas. Um apiário mal cuidado ou mal
manejado é pior do que uma fazenda coberta de ervas daninhas
ou exaurida pela lavoura ignorante; no caso da terra, um manejo
prudente, pode torná-la fértil novamente, mas as abelhas, uma
vez destruídas é perda total.

Transferência de Abelhas de Colméias


Comuns para Colméias de Quadros Mó-
veis

Este processo pode ser facilmente realizado sempre que o


clima estiver suficientemente ameno para as abelhas voarem.1 É
realizado da seguinte forma: deslocar as abelhas para uma caixa
de forçar (pág. 154), que é posta no local da antiga, e levar a
colméia materna para algum lugar onde você não seja molestado
por outras abelhas. Ter à mão ferramentas para despregar as la-
terais da colméia; uma grande faca para cortar os favos; vasilha
para o mel; uma taboa na qual deitar os favos; barbante de algo-
dão ou cadarço, para amarrá-los nos quadros; e água para lavar
as mãos, de tempos em tempos, do mel que se gruda. Tendo se-
lecionado os favos a serem trabalhados, cortá-los, cuidadosa-
mente, em grandes pedaços, para que se ajustem nos quadros, e
permaneçam na sua posição natural até que as abelhas tenham
tempo de prendê-los. Será bom enrolar o barbante ou cadarço,

1Freqüentemente ele é feito no Inverno com o propósito de experimentação, re-


movendo as abelhas para um recinto ameno.
246 A Colméia e a Abelha
que depois será removido, em volta do sarrafo superior e inferior
dos quadros, como segurança adicional. Pequenos pedaços de
favo vazio podem ser colados com cera derretida ou resina (pág.
72).1
Quando a colméia estiver assim preparada, as abelhas po-
dem ser colocadas dentro dela e confinadas, fornecendo-lhes á-
gua, até que elas tenham tempo de montar as proteções contra
as pilhadoras.
Quando o clima estiver frio, a transferência pode ser feita
num recinto aquecido para prevenir que a cria se resfrie fatal-
mente. Um apicultor experto pode completar toda a operação, fa-
cilmente - desde deslocar as abelhas até retornar com elas para
a nova colméia - em cerca de meia hora, e com perda de poucas
abelhas seja velhas ou jovens. O melhor tempo para transferir as
abelhas é cerca de dez dias depois que um enxame saiu ou tenha
sido forçado da colméia velha. A cria estará operculada e pode
ser exposta com segurança.
Até que a exequibilidade da transferência das abelhas para
quadros móveis tenha sido exaustivamente testada, eu percebo
ser irreconciliavelmente contrário a qualquer tentativa de desalo-
já-las de sua habitação anterior. O processo, como tem sido con-
duzido normalmente, tem resultado no cruel sacrifício de milha-
res de famílias.
O Dr. Kirtland diz o seguinte dos resultados de transferir al-
gumas colônias para colméias de quadros móveis: "Tinha três
famílias transferidas para igual número de colméias do Sr.
Langstroth. A primeira não enxameou durante dois anos e, há
muito tempo, parou de mostrar atividade; as outras nunca en-
xamearam. Todas as colméias estavam repletas de favos pretos e
imundos, mel cristalizado, pão de abelha duro, e um acúmulo de
casulos e larvas de traça. Em vinte e quatro horas, cada colônia

1 O Rev. Levi Wheaton prefere usar favos como guias, e prendê-los com uma es-
treita lâmina de madeira curvada entre as laterais dos favos, de forma a pressio-
nar contra a borda inferior dos quadros.
O Mr. Wm. W. Cary, ao transferir, usa tiras de três oitavos de polegada (1cm) de
largura e um oitavo (3mm) de espessura, cortada de madeira flexível, e meia po-
legada (13mm) mais comprida do que a altura dos quadros. Ele as prende aos
pares, com barbante mantendo-as afastadas apenas o suficiente para passar pelo
topo e fundo dos quadros. São necessários dois pares para cada quadro, e elas
podem ser removidas depois que os favos forem firmemente presos pelas abelhas,
o que será feito em dois ou três dias.
L. L. Langstroth 247
se acomodou em sua nova moradia, e começou a trabalhar com
atividade bem maior do que qualquer uma de minhas famílias
velhas. ....... Agora não tenho colônia mais forte do que estas,
que eu considerava de pouco valor até tomar conhecimento desta
nova colméia." - Ohio Farmer, Dez. 12, 1857.

248 A Colméia e a Abelha


CAPÍTULO XVI

M
MEELL

Que o mel é um produto vegetal, já era conhecido dos anti-


gos judeus, sobre o qual um rabino pergunta: "Se nós não pode-
mos comer abelhas, que são impuras, porque podemos comer
mel?" ao que ele mesmo responde: "Porque as abelhas não fazem
o mel, apenas o recolhem das plantas e flores."
As abelhas conseguem seguidamente substância açucarada
do honey-dew1, que é encontrada nas folhas de muitas árvores, e
algumas vezes é apenas um exudado de suas folhas, embora
mais freqüentemente dos corpos de pequenos afídeos ou plant-
lice.2
Messra, Kirby e Spence, em seu interessante trabalho sobre
entomologia, forneceram uma descrição do honey-dew produzido
pelos afídeos:
"A admiração pelas formigas e pelos afídeos é notória de longa data;
aquelas serão encontradas sempre muito atarefadas nas árvores e plan-
tas em que estes abundam; se forem examinadas mais de perto, desco-
brir-se-á que o objetivo das formigas, em acompanhar desta forma os a-
fídeos, é para conseguir o fluido açucarado que eles secretam, que pode
muito bem ser chamado de seu leite. Este fluido, que é apenas levemen-
te inferior ao mel em doçura, é liberado na forma de gotas límpidas pelo
abdômen destes insetos, não somente através de passagens normais,
mas também através de dois tubos setiformes localizados, um de cada
lado, em cima dele. Sua tromba inserida na tenra casca é empregada,
sem interrupção, para absorver o fluido, que, depois de passar por este
órgão, se mantem descarregado continuamente. Se nenhuma formiga

1 Honey-dew, segundo Michaelis "substância doce secretada por plantas ou por


afídios".
2 O abade Boissier de Sauvages, em 1672, descreveu completa e precisamente es-
tas duas espécies de honey-dew. 'O primeiro tipo, diz ele, tem a mesma origem do
maná na cinza e da árvore bordo, da Calábria e Briancon, onde ele corre abun-
dante de suas folhas e troncos, e se torna espesso, forma em que normalmente é
visto'. Eu recebi uma espécie de honey-dew da Califórnia, que é dito cair de árvo-
res de carvalho na forma de estalactites de considerável dimensão.
L. L. Langstroth 249
aparece, eles ejetam-no a certa distância, graças a um movimento do
corpo que ocorre a intervalos regulares."
"O Mr. Knight observou certa vez uma chuva de honey-dew descen-
do em inumeráveis pequenas gotas, próximo de um de seus carvalhos.
Ele cortou um dos galhos, levou-o para dentro de casa, e, segurando-o
frente a um facho de luz que entrava por uma pequena abertura, viu
claramente os afídeos ejetando o fluido de seus corpos com força consi-
derável, isto explicava porque eles eram encontrados freqüentemente em
locais onde não podia chegar por mera ação da gravidade. As gotas que
eram assim ejetadas, a menos que interceptadas pelas folhas circun-
dantes, ou algum outro corpo que se interpunha, caiam no solo; os pon-
tos podiam, seguidamente, ser vistos, por algum tempo, próximo e em
volta da árvore, marcados pelo honey-dew, mesmo depois de lavados pe-
la chuva. A força que estes insetos possuem para ejetar o fluido de seus
corpos, parece ter sido sabiamente criada para possibilitar a limpeza
durante o vôo e, sem dúvida, para preservar toda a família; pois, se api-
nhando como fazem, eles ficariam rapidamente grudados uns aos outros
e ficariam incapazes de se moverem. Olhando firmemente para um gru-
po destes insetos (Aphides salicis) enquanto se alimentam na casca do
salgueiro, o seu tamanho avantajado nos permite ver alguns deles eleva-
rem seus corpos e expelirem uma substância transparente na forma de
uma pequena chuva:
"'Nor scorn ye now, fond elves, the foliage sear,
When the light aphids, arm´d with puny spear,
Probe each emulgent vein, till bright below,
Like falling stars, clear drops of nectar glow.' - Evans.
"O honey-dew aparece normalmente sobre as folhas como uma
substância transparente viscosa, tão doce quanto mel, e por vezes na
forma de glóbulos, e outras parecendo um xarope. Normalmente é mais
abundante de meados de junho a meados de julho - algumas vezes tão
tarde quanto setembro.
"É encontrado principalmente no carvalho (oak), no olmo (elm), no
bordo (maple), no plátano (plane), no sicômoro (sycamore), no limão gale-
go (lime), na aveleira (hazel) e na amora preta (blackberry); ocasional-
mente também na cereja (cherry), groselha (currant) e em outras árvores
frutíferas. Algumas vezes apenas uma espécie de árvore o produz por
vez. O carvalho geralmente produz a maior quantidade. No período de
sua maior abundância, o ruído alegre, zumbidor das abelhas pode ser
ouvido de considerável distância, algumas vezes quase se igualando à
sonoridade do zumbido de um enxame." - Bevan.
Em alguns períodos as abelhas recolhem grandes quantida-
des deste honey-dew, mas ele normalmente abunda somente
uma vez a cada três a quatro anos. O mel dele obtido, embora
raramente de cor clara, é geralmente de boa qualidade.

250 A Colméia e a Abelha


A qualidade do mel varia muito; alguns são amargos e outros
prejudiciais quando recolhidos de flores venenosas. Um Mandin-
go africano informou a uma senhora minha conhecida que seus
compatriotas não comem mel não operculado antes que ele tenha
sido fervido. Em alguns de nossos estados do sul, todo o mel não
operculado é descartado. As propriedades nocivas do mel, reco-
lhido de flores venenosas, parece que, na maioria das vezes, eva-
poram (pág. 276) antes do mel ser operculado pelas abelhas. A
fervura, no entanto, parece que as expele mais efetivamente, pois
algumas pessoas não podem comer nem mesmo o melhor, quan-
do cru, sem sofrerem. Quando o mel é retirado das abelhas, deve
ser mantido onde fique a salvo de qualquer intruso, e não fique
exposto a baixas temperaturas que provoquem sua cristalização
nos alvéolos. As formigas pequenas vermelhas e as grandes pre-
tas são extremamente aficionadas pelo mel, e carregam grandes
quantidades se conseguirem alcançá-lo. Mel velho é mais insalu-
bre do que o mel recentemente recolhido pelas abelhas.1
Para retirar o mel dos favos virgens, levar à fervura em vasi-
lha limpa, quando frio, a cera sobrenada no topo, e o mel pode
ser filtrado e colocado em vidros ou jarras, que deverá ser herme-
ticamente fechado para evitar o contato com o ar. Se cristalizar,
pode ser colocado em água fria que será fervida, quando o mel fi-
cará tão maravilhoso como sempre. Os favos que contem pão de
abelha devem ser mantidos separados dos outros, pois o mel de-
les é de qualidade inferior.2

1 O que segue, extraído do trabalho do Sr. J. More, London, 1707, mostra o valor

exagerado que os antigos escritores atribuíam aos produtos das abelhas:


"A cera natural é modificada pela destilação num óleo de virtudes maravilhosas: é
antes uma medicina divina do que humana, pois, em feridas e doenças internas
ela realiza milagres. A abelha ajuda a curar todas as tuas doenças e é o melhor
pequeno amigo que o homem tem no mundo. ... O mel é de ação sutil, e assim
penetra como óleo, se espalha facilmente pelas partes do corpo, libera obstru-
ções, ilumina o coração e melhora o humor; limpa o corpo das sujeiras, cura os
apáticos, e estimula o estômago; retira o que prejudica a clareza dos olhos, gera
sangue bom, aumenta o calor interno, e prolonga a vida; evita a decomposição de
tudo que nele é mergulhado, e é um medicamento soberano, tanto para doenças
externas como para doenças internas; it helpeth the greif of the jaws, caroço
que cresce dentro da boca, and the squinancy; é tomado contra mordida de co-
bra e cachorro louco; é bom para quem comeu cogumelos, para quem ficar doen-
te e contra excessos. Se fervido, é de digestão mais fácil e mais nutritivo.
2 Na Rússia e na Alemanha, muito é vendido pouco mel em favo. Os compradores

destes países devem temer o mel de qualidade inferior do Oeste da Índia, o qual é
vendido seguidamente em latas como um artigo superior, por preço duas a três
vezes superior.
L. L. Langstroth 251
Os favos vazios que não puderem ser usados em colméia ou
melgueiras (pág. 71) serão colocados em água e fervidos, quando
a cera pura flutuará no topo, e solidificará se derramada em á-
gua fria. Se derretida novamente, e derramada em vasilha leve-
mente engordurada, as impurezas irão para o fundo. Os favos
que foram usados durante muito tempo na criação de abelhas
que não se separam facilmente da cera, devem ser colocados
num saco de lã grosseiro, com uma chapa de ferro em cima para
mantê-lo no fundo, e fervido até que a cera suba ao topo do ta-
cho. De favos muito velhos raramente se recupera a cera.
Enxames novos, a menos que muito grandes, não devem re-
ceber melgueiras a não ser três a quatro dias depois de alojados.
Famílias velhas podem receber bem no início do período. Se as
colméias estão ao sol, e o clima está quente, deverá ser providen-
ciada ventilação ampla1, enquanto as abelhas estão armazenan-
do o mel.
O mel em excesso pode ser retirado de minhas colméias de
várias maneiras:
1. A colméia pode ser tão grande que o mel pode ser retirado dos favos
das laterais; e se estas laterais estiverem separadas do corpo principal
da colméia por divisórias móveis permanentes, o mel nelas depositado
será mais puro. As divisórias devem ser mantidas a cerca de um quarto
de polegada do topo e do fundo, para permitir que as abelhas circulem
2
livremente por elas.
2. O mel em excesso pode ser armazenado em quadros grandes ou pe-
quenos, colocados numa caixa superior ou ninho (ver Lâmina III, V e
3
VII, Fig. 9, 16 e 20). Tais caixas , quando cheias, podem, ser fumega-
das levemente, para facilitar a remoção, e as abelhas serem delas ex-
pulsas. O seu conteúdo pode ser vendido como um todo ou cada qua-
dro em separado.

1 Minhas colméias permitem ventilação completa, assim que podem ser colocadas

com segurança em qualquer lugar exceto em local abafado.


2 Uma colméia destas, contendo uma dúzia de quadros no compartimento central

e seis em cada uma das laterais pode ser construída com baixo custo. Os com-
partimentos laterais podem ser encaixados de forma a receberem quadros peque-
nos dispostos perpendicularmente à colméia ou quadros grandes dispostos para-
lelamente à colméia.
3 Em período favorável, eu retirei duas destas caixas, cada uma contendo acima

de cinqüenta libras (25kg), de colméias que não enxamearam e, em locais bons,


pode-se conseguir até mesmo retornos melhores. As caixas podem ser colocadas
acima da colméia principal, e como as abelhas pdem alcançá-las sem serem obri-
gadas a caminhar sobre os favos, o peso pouco usual não as irritará.
252 A Colméia e a Abelha
Em todas as minhas colméias espaço adicional pode ser a-
crescentado sempre que o local ou a estação o exigirem. O api-
cultor experiente conhece bem que as abelhas fazem muito mais
mel em grandes caixas do que em várias pequenas que juntas
resultam na mesma capacidade. Em pequenas caixas, elas não
conseguem manter tão bem o seu calor animal e sua força efetiva
é, seguidamente, desperdiçada no pico da colheita de mel, quan-
do o tempo é precioso em grau máximo.1
Não são necessários deslizadores metálicos para remover o
mel em excesso das melgueiras. Soprando fumaça nelas, antes
de serem removidas, a maioria das abelhas se recolherá para a
colméia principal e, se removidas no início da manhã ou no final
da tarde, e colocadas sobre uma lâmina presa à colméia, as abe-
lhas, atraídas pelo zumbido de suas companheiras, a deixarão
rapidamente, mas não antes de engolirem tudo o que puderem.
Quando cheias, elas relutam muito em voar, e esta é a razão
porque elas demoram tanto a deixar as caixas quando estas são
retiradas das colméias. Quanto mais cedo as abelhas são afasta-
das delas melhor, e deve ser tomado cuidado para protegê-las
das pilhadoras, que podem carregar rapidamente o seu conteúdo
de volta para suas colméias. Se algum quadro contiver cria, ele
deve ser devolvido para as abelhas. Se a rainha estiver na caixa,
muitas abelhas se negarão a deixá-la até que a rainha tenha re-
tornado para a colméia.
3. Recipientes de vidro, de qualquer tamanho ou forma, são maravilhosos
para o mel em excesso; eles podem ter dentro um pedaço de favo, e
2
podem ser cobertos com algo quente se o clima estiver frio.
4. Pode-se usar caixas pequenas para o mel em excesso, a mostrada na
Lâmina X, Fig. 24, cujas dimensões estão na Explicação das Colméias,

1 Não tenho certeza se os apicultores foram alertados alguma vez sobre as perdas
que eles podem sofrer obrigando as abelhas a armazenar mel em pequenos recep-
táculos. O apicultor não pode vender mel armazenado em pequenos receptáculos,
a não ser a um preço bem mais elevado do que o armazenado em caixas grandes.
Com os quadros móveis, as objeções normais às caixas grandes são removidas,
uma vez que o mel pode ser delas convenientemente retirado para venda ou pró-
prio uso.
2 O mel armazenado em recipientes (tumblers) grandes o suficiente para receber

um favo, podem ser colocados de forma elegante sobre a mesa. Enquanto os reci-
pientes pequenos desperdiçam o tempo das abelhas, os alvéolos rasos, que de-
vem ser feitos em grande número no recipiente cilíndrico, exigem o consumo de
uma grande quantidade de tempo e material para sua cobertura e fundo compa-
rado com os que comportam mais do que o dobro de mel.
L. L. Langstroth 253
1
provavelmente serão as mais simples, mais baratas e melhores.
Para remover o mel armazenado em pequenos receptáculos,
passar uma faca fina ou espátula em baixo da caixa, para desfa-
zer sua ligação com a colméia; então, antes de levantá-los para
fazer que as abelhas os abandonem, soprar fumaça em baixo de-
la, e, quando elas tiverem se amontoado, eles podem ser removi-
dos com segurança, e o buraco da colméia será fechado ou co-
berto com outra caixa. As poucas abelhas que permanecem no
receptáculo retirado, rapidamente voarão para sua colméia. Os
que forem muito tímidos, podem usar uma lâmina para evitar
que qualquer abelha saia pelo buraco. No entanto, a fumaça será
sempre preferida.
Enquanto os mais tímidos podem, com instruções apropria-
das, remover o mel com segurança, até mesmo da colméia prin-
cipal (pág. 169), uma criança com dez anos de idade pode apren-
der a retirar as caixas pequenas ou os vidros.

1 Tal caixa, que pode ser fornecida com guias ou pedaços de favo, pode conter

três favos para armazenamento, pesando juntos mais de quatro libras (2kg), e,
retirando o vidro, pode ser cortado sem importunar os outros.
Se todas as juntas da caixa forem impermeabilizadas com uma mistura de cera e
resina, será poupado muito trabalho das abelhas em vedá-las com própolis; e,
quando a entrada for fechada e coberta com a mesma mistura, o mel pode ser
transportado sem derramamento, mesmo que os favos se quebrem. As caixas
contendo mel devem ser empacotadas cuidadosamente, e erguidas sem o mínimo
impacto.
254 A Colméia e a Abelha
CAPÍTULO XVII

FFO
OR RRRAAG GE
EMMAAPPÍÍC
COOLLA
A
SSUUPPEERR--PPO
OVVO
OAAM
ME ENNTTO
O

Todo apicultor deve se inteirar cuidadosamente dos recursos


nectíferos em suas vizinhanças. Minhas limitações me permitem
mencionar somente algumas das mais valiosas plantas das quais
as abelhas podem retirar seus suprimentos. Desde as descober-
tas de Dzierzon sobre o uso que pode ser feito da farinha de cen-
teio, florações prematuras, produzindo somente pólen, não são
imprescindíveis.
Todas as variedade de salgueiro são ricas tanto em pão de
abelha como em mel, e suas florações prematuras são para as
abelha de um valor especial:
"First the gray willow´s glossy pearls they steal.
Or rob the hazel of its golden meal,
While the gay crocus and the violet blue,
Yield to their flexile trunks ambrosial dew" - Evans
O bordo (Acer saccharinus) fornece grande quantidade de um
delicioso mel e suas flores, pendendo em graciosas franjas, fica-
rão vivas com as abelhas.
As árvores frutíferas, o damasqueiro, pessegueiro, amexeira,
cerejeira e pereira são grandes favoritas; mas nenhuma fornece
tanto mel quanto a macieira.
O dente de leão, cujas flores fornecem pólen e mel, quando a
disponibilidade nas árvores frutíferas quase terminou, se encon-
tra entre as espécies de plantas mais produtoras de mel.
A magnólia (Liriodendron), seguidamente chamada "poplar" e
"madeira branca", é uma das árvores que mais produzem mel no
mundo. Como suas flores ocorrem em sucessão, novos enxames,
algumas vezes, encherão suas colméias apenas desta fonte. O

L. L. Langstroth 255
mel, embora escuro1, é de sabor agradável. Esta árvore seguida-
mente atinge altura acima de cem pés (30m), e sua rica folha-
gem, com intensa floração verde e amarela, é a mais bela já vista.
A tília, ou bass-wood (Tília Americana) fornece uma abun-
dância de mel claro de sabor delicioso e, como ela floresce quan-
do tanto os enxames quanto as colméias maternas estão populo-
sos, o clima firme, e outras forragens apícolas escassas, seu va-
lor para o apicultor é muito grande2.
"Here their delicious task, the fervent bees
In swarming millions tend: around, athwart,
Through the soft air the busy nations fly,
Cling to the bud, and with inserted tube,
Suck its pure essence, its etherial soul." - THOMSON
Esta árvore majestosa, enfeitada, tão tarde na estação, com
belas cachopas de flores perfumadas, recebe atenção como uma
árvore de sombra ornamental. Por adornar nossos vilarejos e re-
sidências de campo não são apenas bonitas para os olhos, mas
também atrativas para as abelhas, as fontes melíferas do país
devem, com o passar do tempo, serem grandemente aumenta-
das.
É muito desejável que exista nas proximidades do apiário a
alfarrobeira que renderá muito mel por ser particularmente pro-
curada pelas abelhas. Plantações da afarrobeira e da tília Ameri-
cana podem ser, em muitas regiões, valiosas até mesmo só pela
madeira que produzem.
Colméias nas proximidades de grandes plantações de cebola
para semente ficam pesadas rapidamente, o odor desgradável do
mel recentemente colhido desaparece antes de ser operculado
pelas abelhas.
De todas as fontes das quais as abelhas buscam suas reser-
vas, o trevo branco é o mais valioso. Ele rende grande quantida-
de de mel muito claro, e onde quer que ele abunde, as abelhas
farão uma grande colheita. Em muitas regiões deste país, parece
que ele é a maior esperança do apicultor. Seu florescimento nu-

1O mel de Himettus, que foi muito apreciado desde os tempos mais antigos, é de
cor dourada. O mel de cor clara sempre é o melhor.
2 Judge Fishback diz que praticamente todo o seu mel excesso é colhido da tília
européia. Um correspondente do Bioenenzeitung, em Wiscosin, afirma que em
1853 várias de suas colméias aumentaram cem libras (50kg) em peso enquanto
esta árvore estava florida.
256 A Colméia e a Abelha
ma estação do ano quando o clima é normalmente seco e quente,
faz as abelhas colherem o mel depois que o sol secou as flores do
orvalho, e o opercularem quase de imediato. Este trevo deveria
ser cultivado mais estensivamente do que é atualmente. O Hon.
Frederick Holbrook, de Brattleboro, Vermont, um dos mais fa-
mosos fazendeiros práticos e escritor sobre assuntos agrícolas da
Nova Inglaterra, assim escreve sobre o seu valor:
"As sementes da red-top (Agrostis stoonifera major), trevo vermelho e
trevo branco quando semeadas consorciadas produzem uma forragem
cuja qualidade é sempre preciada pelos animais. Minha prática é, seme-
ar toda área seca1, arenosa e pedregosa com esta mistura, o trevo ver-
melho e branco fazem a safra do primeiro ano; no segundo, o trevo ver-
melho começa a desaparecer, e a red-top toma seu lugar; e depois disto,
a red-top e o trevo branco tomam conta, e produzem forragem muito
boa para eqüinos e bovinos, gado leiteiro e cria, que eu tenho consegui-
do produzir. A colheita por acre, comparada com capim de rebanho
(thimothy) não é tão volumosa, mas, em peso e pela qualidade perdida
durante o Inverno, é muito mais valioso."
Por muitos anos tentei em vão conseguir um cruzamento en-
tre trevo vermelho e branco, que possuísse as propriedades de
produção de néctar e de red-top, com as flores pequenas, nas
quais as abelhas pudessem inserir sua probóscide. Tal varieda-
de, originária da Suécia, foi importada pelo Mr. B. C. Rogers, da
Filadélfia. Ele cresceu tão alto quanto o trevo vermelho, apresen-
tou intensa floração no talo, parecendo-se com o branco pelo
porte e, ao mesmo tempo que atendeu admiravelmente às abe-
lhas, é dito que é preferrido pelo gado a qualquer outro tipo de
capim. E conhecido pelo nome de Alsike, ou trevo branco Sueco.
O Mr. Wagner fala dele o que segue:
"A avaliação do valor do trevo branco sueco, apresentada em relató-
rios de doze diferentes societades de agricultura no distrito de Dresden,
são o resultado de experimentos cuidadosos, feitos em localidades que
diferiam muito no tipo de solo e exposição. Vejamos os principais pon-
tos:
"1. O trevo branco sueco não é tão vil ao clima frio e úmido quanto
o trevo vermelho. 2. Em solos secos e arenosos a colheita não é tão certa
e valiosa quanto a do trevo branco comum, mas é mais bem sucedido

1 O Mr. Wagner diz: "O rendimento em mel de várias plantas e árvores dependo

não somente das características da estação, mas do tipo de solo nos quais elas
estão plantadas. Planícies pantanosas são inferiores aos solos secos para pasta-
gem apícola. Trevo branco que cresce neste último é visitado pelas abelhas, en-
quanto o que cresce no anterior é negligenciado por elas."
L. L. Langstroth 257
em solos mais argiloso e nestes supera a qualquer das outras espécies.
3. Em qualquer rotação ele pode seguir seguramente o trevo vermelho
comum. 4. O rendimento por acre do primeiro corte não é inferior ao do
trevo vermelho, e a segunda colheita anual, ou restolho, não é tão a-
bundante. 5. Com propósito de ressemeadura não deve ser cortado an-
tes que esteja em floração intensa. 6. Quando currado, ele é, à seme-
lhança do feno, uma forragem de alto valor nutricional, e é preferida, pe-
lo rebanho e gado leiteiro, à preparada com trevo vermelho. 7. O segun-
do corte é seguido por um crescimento denso e excelente, fornecendo
uma pastagem mais valiosa até memo no final da estação. 8. Ele tem al-
to rendimento em sementes, facilmente debulhável por sova ou máqui-
na, três ou quatro dias depois do corte. 9. O trevo branco sueco alimen-
ta com muita vantagem depois que sua floração amadureceu totalmen-
te; eqto o trevo vermelho, se tiver de ficar neste estágio, perderá uma
porção considerável do seu valor nutritivo.
"E. Fürst, editor do Frauendorfer Blatter, diz que este trevo é supe-
rior tanto em qualidade quanto em quantidade de produto, e é especi-
almente valioso pela permanência da suculência do talo, mesmo quando
a planta está em plena floração. Ele exige um solo menos fértil do que o
trevo vermelho, e é menos passível de ser derrubado pela geada no In-
verno. Ele também rende uma segunda colheita mais pesada do que o
trevo branco comum."
A floração do trigo-mouro fornece, seguidamente, no final da
estação, uma alimentação muito valiosa para abelha1.
O trigo-mouro é incerto2 na qualidade do mel produzido e,
em algumas estações, dificilmente se vê uma abelha em grandes
plantações dele. Os nossos melhores agriculturistas concordam
que, na maioria dos solos, é uma colheita lucrativa, e todo apiá-
rio deveria ter uma em suas proximidades3.

1 Este é colhido, normalmente, quando o clima está úmido, e em estações úmidas

corre o risco de fermentar. O mel colhido com clima seco é normalmente de con-
sistência viscosa.
2 A secreção do néctar pelas plantas, como o fluxo do açúcar do bordo, depende
de diversas situações, muitas das quais escapam ao nosso cuidadoso exame. Em
algumas estações o suco de sacarose abunda, enquanto em outras ele é tão defi-
ciente que as abelhas dificilmente conseguem algum alimento de um campo
branco de trevo. A mudança na secreção de néctar ocorre por vezes tão repenti-
namente, que as abelhas podem, em poucas horas, passar da ociosidade para
uma grande atividade.
3 Dzierzon diz: "O resto de grãos de trigo mouro que sobraram do Inverno podem

ser semeados e assim uma forragem abundante pode ser garantida para as abe-
lhas, no final da estação, e uma colheita recompensadora de grãos ser também
armazenada. Esta planta, crescendo tão rapidamente e amadurecendo tão de-
pressa, tão produtiva em estações favoráveis e tão bem adaptada para limpar a
terra, certamente deveria receber mais atenção dos fazendeiros do que recebe e
258 A Colméia e a Abelha
O cardo canadense produz um suprimento copioso de um
mel muito puro, depois que o trevo branco começou a falhar. É
interessante saber que ele é de grande valor para que os fazen-
deiros permitam que ele cresça.
A framboesa fornece o mel mais delicioso. Em sabor é supe-
rior ao do trevo branco, e o seu delicado favo quase derrete na
boca. A beira das estradas, as bordas dos campos e a pastagem
da maioria das "áreas montanhosas" da Nova Inglaterra abun-
dam em framboesa vermelha silvestre e, em locais tão favoráveis,
podem ser mantidas numerosas colônias de abelhas. Quando ela
está em flor até mesmo o trevo branco é de baixo valor. Sua flo-
ração murcha protege o mel da umidade e as abelhas podem
trabalhar nelas quando o clima for tão úmido que elas nada con-
seguem da floração aberta do trevo. Terras íngremes e rochosas,
onde ela mais abunda, podem ser tão valiosas como quanto os
terraços de vinhedos das áreas montanhosas da Europa.
O Dr. Bevan sugere o uso do tomilho para as beiradas dos cami-
nhos dos jardins e canteiros de flores. Não se consegue fornecer materi-
al suficiente, no entanto, para uma colônia forte com as poucas plantas
que se consegue semear em volta da casa das abelhas. A abelha tem
muito de andarilha para ter prazer em vasculhar os jardins1. A região
silvestre do urze e tojo (Ulex europaeus), os muitos acres de campos de fei-
jão e trigo-mouro, as avenidas de limão galego, as cercas vivas de flores
e as planícies de trevo é que são os lugares por elas visitados e enchem
seus favos. Para estes que quiserem conhecer seus hábitos, se torna ne-
cessário um sítio de flores, e não sabemos de uma abelha que possa re-
fugar o seguinte maravilhoso convite do Professor Smythe:
"'Thou cheerful Bee! Come, frely come,
And travel round my woodbine bower;
Delight me with thy wandering hum,
And rouse me from my musing hour:
Oh! Try nbo more those tedious fields;
Come, taste the sweets my garden yields;
The treasures of each blooming mine,
The buds, the blossoms - all are thine!
And, careless of this noontide heat,
I´ll follow as thy ramble guides,

seu cultivo mais freqüente e mais geral aumentaria em muito os ganhos com a
apicultura. Suas continuadas e freqüentemente renovadas florações produze néc-
tar tão abundante, que uma colônia populosa pode facilmente coletar cincoenta
libras (25kg) em duas semanas, se o clima for favorável."
1Eu posso esperar que uma pequena área de pasto forneça alimento para um re-
banho de gado, como as plantas do jardim fornecem provisão para as abelhas.
L. L. Langstroth 259
To watch thee pause and chafe thy feet,
And sweep them o'er thy downy sides;
Then in a flower's Bell nestling lie,
And all thy envied ardor ply!
Then o'er the stem, though fair it trow,
With touch rejecting, glance and go.
O Nature kind! O laborere wise!
That foam1st along the Summer's Ray,
Glean'st every bliss thy life supplies,
And meet'st prepared thy wintry day!
Go, envied, go - with crowded Gates,
The hive thy rich return awaits;
Bear home thy store in triumph gay,
And shame each idler of the day!'"
London Quarterly Review

Se existe um planta cuja única justificativa sejam as abelhas


é o borago (Borago officinalis). Ele floresce continuamente desde
Junho até as primeiras geadas e, à semelhança da framboesa, é
visitado pelas abelhas mesmo com clima úmido. O seu mel é de
qualidade superior e um acre pode sustentar muitas famílias.
O golden-rod (Solidago) fornece uma pastagem apícola tardia
e valiosa, produzindo, em algumas regiões e estações, uma par-
cela apreciável das reservas do Inverno. Algumas variedade que
florescem cedo não tem valor para as abelhas; mas as que flores-
cem em Setembro abundam em mel de qualidade superior.
As diversas espécies de áster, ornando, em muitas regiões,
na lateral das rodovias e as bordas dos campos, são quase sem-
pre tão valiosas para as abelhas quanto o golden-rod. Onde estas
duas plantas abundam, as abelhas não precisam ser alimenta-
das até que sua floração tenha passado, assim que colméias po-
pulosas mas leves obtem delas, seguidamente, tudo do que irão
precisar durante todo o Inverno.
O catálogo de plantas apícolas que segue, que pode ser fa-
cilmente ampliado, foi retirado do Nut, um apicultor Inglês:
"Alder [amieiro]1, almond [amendoeira], althea frutex [altéia],
alyssum [...], amaranthus [amaranto], apple [maçã], apricot [da-
masqueiro], arbutus [arbuto], ash [...], aspargus [aspargo], aspin
[alfazema], aster [aster], balm [erva cidreira], bean [feijão], beach
[gavieiro], betony [betônica], blackberry [amora preta], borage
[boragem], box [buxo], bramble [morácea], broom [giesteira], bu-

1 A lista contem o termo em inglês e [em português]. N.T.


260 A Colméia e a Abelha
gloss (viper's) [língua de vaca], buckwheat [trigo mouro], burnet
[sanguissorba], cabbage [repolho], cauliflower [couve-flor], celery
[aipo], cherry [cereja], chestnut [castanheiro], chickweed [morrião
dos passarinhos], clover [trevo], cole or colessed [...], coltsfoot
[...], coriander [coentro], crocus [açafrão], crowfoot botão de ou-
ro], crown imperial [coroa imperial], cucumber [pepino], currants
[groselha], cyprus [cipreste], daffodil [narciso], dandelion [dente
de leão], dogberry [cornisolo], elder [sabugueiro], elm [olmo], en-
dive [endivia], fennel [erva doce], furze [tojo], golden-rod [...], goo-
seberry [groselha espinhosa], gourd [fruto do cabaeiro], hawthorn
[espinheiro], hazel [aveleira], heath [urze], holly [azevinho], holl-
yhock (trumpet) [malva rosa], honeysuckle [madressilva], honey-
wort (cerinthe) [...], hyacinth [jacinto], hyssop [hissopo], ivy [era],
jonquil [junquilho], kidney bean [feijão comum], laurel [loureiro],
laurustinus [...], lavender [alfazema], leek [alho porro], lemon [li-
mão], lily (water) [lírio], lily (white) [lírio], lime [limão galego], lin-
den (bass-wood) [tília], liquidamber [liquidambar], liriodendron
[...], locust [alfarrobeira], lucerne [alfafa], mallow (marsh) [malva],
marigold (French) [cravo de defunto], marigold (single) [cravo de
defunto], maple [bordo], marjoram (sweet) [manjerona], mellilot
[meliloto], melons [melão], mezereon [mezereão], mignionette [re-
sedá], mustard [mostarda], nasturtium [nastúrcio], nectarine
[nectarina], nettle (white) [urtiga], oak [carvalho], onion [cebola],
orange [laranja], ozier [...], parsnip [pastinaca], pea [esvilha], pe-
ach [pêssego], pear [pêra], pepermint [hortelã pimenta], plane
[plátano], plum [ameixa], poplar [choupo], poppy [papoula], pri-
mrose [prímula], privet [ligustro], radish [rabanete], ragweed [er-
va de santiago], raspberry [framboesa], rosemary (wild) [alecrim],
roses (single) [rosa], rud-beckiae [...], saffron [açafrão], sage [sál-
via], saintfoin [...], St. John's wort [...], savory (winter) [segure-
lha], snowdrop [galanto], snoberry [...], stock (single) [...], straw-
berry [morango], sunflower [girassol], sycamore [plátano], squash
[abóbora], tansy (wild) [tanásia], tare [ervilhaca], teasel [cardo],
thistles [cardo], thyme (lemon) [tomilho], thyme (wild) [tomilho],
trefoil [trifólio], turnip [nabo], vetch [ervilhaca], violet (single) [vio-
leta], wallflower (single) [goivo], woad [isatis], willow-herb [sal-
gueiro], willow tree [salgueiro], yellow weasel-snout [doninha]."

Nosso país não corre o risco de ficar su-


per povoado com abelhas.

L. L. Langstroth 261
Se a opinião seguidamente expressa do risco de super povo-
amento estiver correta, a apicultura deve, neste país, ser sempre
uma atividade insignificante.
É difícil conter o riso quando o proprietário de algumas col-
méias, numa área onde mais de uma centena pode prosperar,
culpa convictamente sua falta de sucesso ao fato de serem cria-
das abelhas em demasia nas suas vizinhanças. Se, na Primave-
ra, uma colônia de abelha estiver próspera e saudável, ela fará
estoques abundantes, numa estação favorável, mesmo que cen-
tenas igualmente fortes estejam nas suas imediações; enquanto,
se ela estiver fraca, ela será de pouco ou nenhum valor, mesmo
que esteja numa "terra onde corre leite e mel", e não haja ne-
nhuma família a dezenas de milhas dela.
Assim como o grande Napoleão conseguiu suas grandes vitó-
rias tendo uma força esmagadora no local certo e no tempo certo,
assim o apicultor deve ter colônias fortes, quando os números
podem se transformar na melhor razão. Se suas famílias se tor-
nam forte somente quando elas nada conseguem fazer a não ser
consumir o pouco mel colhido anteriormente, ele é como o fazen-
deiro que deixa sua colheita estragar no solo, e depois emprega
um bando de preguiçosos para comê-la longe de casa e do lar.
Provavelmente não existe uma milha quadrada em todo este
país que esteja super povoada com abelhas, a menos que seja
tão impróprio para a apicultura a ponto de se tornar desperdício
total criá-las. Tal afirmativa parece ser precipitada, mas estou
contente em poder confirmá-la com a carta do Sr. Wagner, mos-
trando a experiência dos maiores criadores da Europa:
"Prezado Senhor: - Em resposta à sua colocação referente ao super
povoamento de uma região, gostaria de dizer, que a opinião atual dos
correspondentes do Bienenzeitung parece ser que ela não pode realmen-
te ocorrer. Dzierzon diz que na prática, pelo menos, 'ela nunca ocorre'; e
o Dr. Radlkofer, de Munique, Presidente da Segunda Convenção dos A-
picultores, declara que suas apreensões sobre este assunto foram des-
feitas pelas observações que ele teve oportunidade e ocasião de fazer
quando em seu retorno para casa no término da Convenção. Tenho nu-
merosos registros de apiários com grande proximidade, contando cada
um com 200 a 300 colônias. Ehrenfels tinha mil colméias, em três locais
diferentes, obviamente, mas tão próximos um do outro que ele podia vi-
sitar todos no curso de meia hora: e diz ele que, em 1801, a produção
líquida média de seus apiários foi de dois dólares por colméia. Na Rús-
sia e Hungria, apiários com 2.000 a 5.000 colônias é dito não serem
pouco freqüentes; e sabemos que 4.000 colméias seguidamente estão
reunidas, no Outono, num único ponto nos urzais da Alemanha. Por es-
262 A Colméia e a Abelha
ta razão, penso não precisarmos recear de que qualquer região de nosso
país, tão caracterizado por uma vegetação natural e abundante e cultu-
ra diversificada, venha a ficar superpovoada rapidamente, particular-
mente, depois que a vantagem de se dispor de famílias populosas no iní-
cio da Primavera for aceita. Uma semana ou dez dias de clima favorável
nesta estação, quando a pastagem for abundante, permitirá a uma co-
lônia forte reunir um grande suprimento para o ano, se o seu trabalho
for adequadamente dirigido.
O Mr. Kaden, um dos mais antigos coolaboradores do Bienezeitung,
na edição de Dezembro, 1852, falando sobre a mensagem do Dr. Radl-
kofer, diz: ´Eu também concordo com a opinião que nenhuma região do
país está super-povoado com abelhas, e que, qualquer que seja o núme-
ro de colônias, todas podem conseguir sustento suficiente, se as terras
circunvizinhas possuirem plantas produtoras de mel e vegetais na
quantidade usual. Onde prevalecer pobreza total, a situação é diferente,
sem dúvida, bem como rara´.
"O Décimo Quinto Encontro Anual dos Agriculturistas Alemães o-
correu na cidade de Hanover, em 10 de setembro de 1852, e, em aquies-
cência à sugestão da Convenção de Apicultores, foi instituída uma seção
distinta devotada para a apicultura. O programa propôs dezesseis ques-
tões para discussão, a quarta das quais foi a seguinte:
"´Pode uma região do país formada de prados, terras aráveis, poma-
res e florestas ficar tão super povoado com abelhas que estas não mais
consigam sustento adequado e, assim, não consigam um excesso re-
compensador de seus produtos?´
"Esta questão foi debatida com vivacidade considerável. O Rev. Mr.
Kleine - nove entre dez dos correspondentes do Bee Journal são clérigos
- presidente da seção, expôs sua opinião que ´dificilmente é concebível
que um país deste tipo possa vir a ser super povoado em abelhas.´ O
Consultor Herwig e o Rev. Mr. Wilkens, pelo contrário, mantiveram que
´ele pode vir a ser super povoado.' Como réplica, o Assessor Heyne ob-
servou que ´qualquer coisa que se suponha possível, como caso extre-
mo, seria certo que, com relação ao reino de Hannover, não se poderia
pensar nem mesmo remotamente que viessem a se instalar tantos apiá-
rios; e que, conseqüentemente, a maior multiplicação possível de colô-
nias pode ser tentada com segurança e incentivada. Ao mesmo tempo,
ele recomendou uma distribuição apropriada dos apiários.´
"Eu poderia lhe fornecer, facilmente, mais matéria sobre este as-
sunto e citar um número considerável de apiários em várias partes da
Alemanha contendo de duzentos e cinqüenta a quinhentas colônias.
Mas a questão pode ainda retornar, não ocupam estes apiários posições
comparativamente isoladas? e a esta distância do cenário seria obvia-
mente impossível fornecer uma resposta perfeitamente satisfatória.
"De acordo com as estatísticas do reino de Hanover, a produção

L. L. Langstroth 263
anual de cera de abelha na província de Lunenberg é de 300.000 libras
(150.000kg), metade da qual é exportada; admitindo que cada colméia
produza uma libra de cera podemos supor que 300.000 colméias sejam
anualmente destruídas pelo enxôfre na província; e, admitindo mais,
tendo em vista as causalidades, influências locais, clima desfavorável,
etc. que apenas a metade do número total de colônias existentes produ-
za um enxame a cada ano seria necessário um total de pelo menos
600.000 colônias (141 por milha quadrada) para garantir os dados indi-
cados nas tabelas. O número de colméias por milha quadrada, desta or-
dem, neste país, são, eu suspeito, raros. É muito evidente que este país
está longe de estar super povoado; nem é provável que algum dia o será.
"Um escritor Alemão alega que ´as abelhas de Lunenberg pagam to-
dos os impostos dos seus proprietários e ainda deixam um excedente.´ A
importância dada à apicultura se deve, em parte, ao fato notável que o
povo de um distrito tão improdutivo, a ponto de ter sido chamado ´a A-
rábia da Alemanha´, se encontra, quase sem exceção, em condições
tranqüilas e confortáveis. Não se poderia obter resultados ainda mais
favoráveis neste país com o uso de um sistema racional de manejo se
beneficiando da ajuda da ciência, arte e experiência?
"Mas estou divagando. Meu objetivo era lhe fornecer um relato da
apicultura como ela existe numa região inteira do país nas mãos da
classe camponesa comum. Isto, pensei eu, deve ser mais satisfatório, e
permite ter uma idéia melhor do que pode ser feito em grande escala, do
que qualquer número de casos, que podem ser selecionados, de suces-
sos maravilhosos mas isolados. - Atenciosamente,
Samuel Wagner.
Estou persuadido que, mesmo na parte mais pobre da Nova
Inglaterra, são poucas as regiões onde não se consiga retornos
tão expressivos como na província de Lunenberg, mesmo utili-
zando o manejo à moda antiga. A interessante declaração que
segue me foi fornecida pelo Mr. Wagner:
"´Quando um grande rebanho de ovelhas,´ diz Oettl, ´pasta numa
área limitada, em breve haverá deficiência de pasto. Isto, porém, não
pode ser dito das abelhas, uma vez que uma boa região para mel não
será facilmente super-povoada por elas. Hoje, quando o ar está úmido e
ameno, as plantas podem produzir uma superabundância de néctar;
enquanto ontem, tendo sido frio e seco, poderia ter ocorrido falta total
dele. Quando há suficiente calor e umidade o suco de sacarose das
plantas encherá rapidamente os nectários e serão prontamente re-
enchidos quando levado pelas abelhas. Em toda noite fria cessa o fluxo
de mel e em todo dia claro e ameno a fonte reabre. As flores que se a-
brem hoje devem ser visitadas enquanto abertas; pois se for permitido
que murchem suas reservas serão perdidas. As mesmas observações se
aplicam substancialmente para o caso do "honey dew". Por esta razão as

264 A Colméia e a Abelha


abelhas não podem, como muitos supõem, coletar amanhã o que for
deixado de ser colhido hoje, como as ovelhas podem pastar depois o que
não precisam agora. Colônias fortes e grandes apiários estão em condi-
ções de coletar grandes reservas quando a forragem fica repentinamente
abundante, enquanto, pacienciosamente, com trabalho perseverante,
elas podem ainda recolher o suficiente, e até um excesso, quando o su-
primento for pequeno, mas mais regular e prolongado.´
"O mesmo apicultor competente, cuja regra sagrada em apicultura
é manter apenas colônias fortes, diz que no espaço de vinte anos, desde
que instalou seus apiários, não houve nenhuma estação na qual as abe-
lhas não conseguissem suprimentos adequados para elas e até algum
excesso. Algumas vezes, sem dúvida, ele ficou quase desesperado quan-
do Abril, Maio e Junho foram continuamente frios e úmidos e improdu-
tivos; mas em Julho suas colônias fortes encheram rapidamente seus
depósitos e armazenaram algum tesouro para ele; em tais períodos, as
colônias pequenas não conseguiram recolher sequer o suficiente para li-
vrá-las da fome.
"O Mr. A. Braun afirma no Bienenzeitung, Setembro, 1854, que ele
tem uma colméia enorme com favos contendo pelo menos 184.230 alvé-
olos1 e instalada sobre uma balança cujo peso é verificado periodica-
mente. Em 18 de maio ela aumentou 18 libras e meia. Em 18 de junho
saiu um enxame pesando sete libras, e no dia seguinte ela ganhou mais
seis libras em peso. Dez dias de pastagem abundante permitiram tal co-
lônia obter um grande suprimento, enquanto cinco oportunidades i-
gualmente favoráveis seriam de pouco proveito para uma colônia fraca.
"A ilha de Córsega pagava um tributo anual para Roma de 200.000
libras (100ton) de cera, o que pressupõe uma produção de duas a três
milhões de libras (1000 a 1500 ton) de mel anualmente. A ilha tem 3790
milhas quadradas.
"De acordo com Oetl (pág. 389) a Boêmia possuía 160.000 colônias
em 1853, dados obtidos de uma estimativa cuidadosa, e ele pensa que o
país podia comportar facilmente quatro vezes este número. O reino pos-
sui 20.200 milhas quadradas.
"Na província de Ática, na Grécia, possuindo quarenta e cinco mi-
lhas quadradas e 20.000 habitantes, eram mantidas 20.000 colméias,
cada uma produzindo, em média, trinta libras (15kg) de mel e duas li-
bras (1kg) de cera.
"Na província de East Friesland, da Holanda, possuindo 1.200 mi-
lhas quadradas, são mantidas, em média, 2.000 colônias por milha

1 Uma colméia deste tipo pode conter três bushels. Wildman diz que "um clérigo
retirou uma colméia bem desenvolvida de abelhas de um tubo colocando o tubo
com o fundo para cima depois de ter feito um buraco no fundo, e retirou do tubo
quatrocentas e vinte libras (210kg) de mel."
L. L. Langstroth 265
quadrada - (Heubel, Bienenzeitung, 1854, pág. 11).
"De acordo com um relatório oficial na Dinamarca existia, em 1838,
86.036 colônias de abelhas. O produto anual de mel era de cerca de
1.841.800 libras (920ton). Em 1855 a exportação de cera de abelha da-
quele país país foi 118.379 libras (59ton).
"Em 1856, segundo informações oficiais, exisitiam 58.964 colônias
de abelhas no reino de Wurtemberg.
"Em 1857, avaliou-se que a produção de mel e cera no reino da
Áustria foi superior a sete milhões de dólares."
Sem dúvida que nestas regiões onde o mel é produzido em
tão alta escala as culturas recebem muita atenção e, para seu
próprio proveito, proporcionam pastagem abundante para as a-
belhas.
Embora as abelhas voem à cata de alimento mais de três1
milhas (4,8km), ainda assim, se o alimento não estiver dentro de
um círculo de cerca de duas milhas (3,2km) em qualquer dire-
ção, elas terão condições de armazenar apenas pequeno excesso
de mel2. Se a pastagem for abundante em distância inferior a um
quarto de milha (400m) das colméias será muito melhor; contudo
não existe maior vantagem em tê-la mais perto, a não ser que
haja um grande suprimento pois as abelhas, quando deixam a
colméia, raramente pousam nas flores próximas. O instinto de
voar a certa distância parece ter se formado nelas para preveni-
las de gastar tempo explorando flores que já foram despojadas de

1 "O Mr. Kanden, de Mayence, é de opinião que a faixa de vôo da abelha normal-

mente não ultrapassa três milhas em todas as direções. Muitos anos atrás, um
navio carregado com açúcar, ancorado em Mayence, foi visitado por abelhas da
vizinhança que continuaram a ir e vir do navio até a noite. Uma manhã, quando
as abelhas estavam em franca atividade, o navio partiu rio acima. Por um curto
espaço de tempo as abelhas continuaram a voar tão intensamente quanto antes;
mas gradualmente seu número diminuiu e, no espaço de hora e meia todas para-
ram de seguir o navio, o qual tinha viajado mais de quatro milhas." - Bienenzei-
tung, 1854, pág. 83.
2 Julgando a partir da movimentação das abelhas ao lado de um trem em movi-

mento, pode-se estimar sua velocidade como sendo de cerca de trinta milhas por
hora. Isto lhes permite chegar à extremidade da área de forrageamento em quatro
minutos.
O Mr. Cotton viu um homem na Alemanha que movia todas suas colméias fortes
assim que a estação de mel variava. ´Algumas vezes ele as levava para os pânta-
nos, algumas vezes para os prados, algumas vezes para a floresta e algumas ve-
zes para as montanhas. Na França - a mesma prática existia no Egito, nos tem-
pos antigos - seguidamente eles colocavam centenas de colméias num bote, que
descia o rio à noite e parava durante o dia.´" - London Quarterly Review.
266 A Colméia e a Abelha
suas doçuras por apanhadoras anteriores.
Em todos os meus manejos tenho tentado evitar sempre que
possível, todo trabalho das abelhas. Com o alvado adequadamen-
te preparado e coberto, nos casos de tempo ventoso, com tecido
de algodão (pág. 279), as abelhas terão condições de armazenar
mais mel, mesmo que elas tenham de ir a distâncias considerá-
veis, do que elas poderiam de pastagem mais próxima que esti-
vessem à mão. Muitos apicultores negligenciam totalmente as
possíveis providências que facilitam o trabalho de suas abelhas,
eles as vêem como locomotivas em miniatura sempre acesas e
capazes de uma quantidade indefinida de esforço. Uma abelha
não pode exercer mais do que um certo esforço físico, e grande
parte deste não deveria ser despendido enfrentando dificuldades
das quais ela pode ser facilmente resguardada. Elas podem ser
vistas, seguidamente, retornarem ofegantes de seu trabalho e tão
exaustas a ponto de necessitarem descansar antes de entrar na
colméia.
Já foram informadas as experiências de Dzierzon1 quanto ao

1 De forma alguma é fácil divisar uma regra para estimar os lucros da apicultura,

seja olhando o número de colônias ou o número de milhas quadradas. O o me-


lhor apicultor não é o que consegue as maiores produções por colméia, mas man-
tem apenas uma ou duas colméias. Com manejo sensato e cuidadoso cem colô-
nias podem produzir grandes lucros, ainda muito abaixo do que trezentas podem
produzir no mesmo lugar e mesmo período com muito menos cuidado e atenção.
O fazendeiro melhor sucedido não é o que consegue a produção mais extraordi-
nária de uma simples varinha, mas aquele que garante cultura mais ampla de
área extensa, bem cultivada. O sistema de enxameação pode ser de grande van-
tagem em certas localidades a despeito de seu claro desperdício; enquanto em
outras localidades ele pode, por causa do desperdício não desejado, resultar para
o apicultor um negócio decididamente com prejuízo, uma vez que o sistema en-
volve um grande gasto de mel para a produção e manutenção da cria que dificil-
mente amadurece antes de ser jogada na vala de enxofre, deixando para o seu
dono seguidamente uma quantidade menor de mel do que o enxame poderia ter
produzido se a colheita tivesse sido feita três semanas depois de alojado.
Confinando a rainha de um enxame artificial, para prevenir que ela deposite ovos
nos favos, a colônia acumulará, em curto espaço de tempo no período de produ-
ção, maiores reservas de mel do que um outro cuja rainha é deixada em liberda-
de, ainda que de mesma idade e igual população. Assim, também, uma colônia,
que tenha uma rainha realmente prolífica poderá, até mesmo em estação favorá-
vel, depositar muito menos mel, a menos que lhe seja dado amplo espaço, do que
uma cuja rainha deposita menos ovos. Destes e de fatos semelhantes, que podem
ser enumerados, é evidente que um grande número de particularidades devem
ser consideradas quando se desejar estabelecer uma regra geral para estimar os
lucros da apicultura." - Dzierzon.
Um apicultor à moda antiga deve conhecer muito bem os recursos de mel da sua
região, para poder decidir a melhor época para colher o mel de suas abelhas. Se
L. L. Langstroth 267
resultado econômico da apicultura. Com manejo adequado, po-
de-se conseguir cinco dólares em mel, como média anual de cada
colméia que for hibernada em boas condições. Eu coloco o preço
das novas colônias frente ao gerenciamento do trabalho, custo
das colméias e juros do capital investido.
Um homem disciplinado que, com minhas colméias, começar
na apicultura em escala moderada1, aumentando o porte de suas
operações à medida que sua habilidade e experiência aumentam,
concluirá, em qualquer região onde o mel tem bom preço, que as
estimativas acima são moderadas. Em locais favoráveis pode-se
obter maiores lucros.

as abelhas estiverem congestionadas ele poderá concluir ser vantajoso remover e


destruir suas rainhas, pelo menos três semanas antes de retirar o mel. Desta
forma a produção de cria e o consumo de mel serão suspensos e os favos estarão
em melhores condições para serem derretidos.
1 Os apicultores devem ser muito cautelosos ao investir em grande escala no novo

sistema de manejo, só fazê-lo depois de ter certeza, não apenas que ele é bom,
mas que eles podem fazer um bom uso dele. Existe contudo uma situação inter-
mediária valiosa entre o conservadorismo estúpido que não tenta nada e a expe-
rimentação precipitada, em escala extravagante, que é tão característica do povo
americano.
268 A Colméia e a Abelha
CAPÍTULO XVIII

A
AGGR
REESSSSIIV
VIID
DAAD
DEEDDAASS A
ABBE
ELLH
HAASS
R
REEM
MÉÉDDIIO
O PPAARRA
A SSU
UAA FFE
ERRR
ROOA
ADDAA

A docilidade das abelhas, quando adequadamente maneja-


das, torna-as maravilhosamente sujeitas ao controle do homem.
Quando cheias de mel, elas podem ser pegas aos punhados, e
podem andar sobre a face, e pode-se esfregar suavemente seu
dorso brilhante quando pousadas sobre nosso corpo; e todas as
façanhas do famoso Wildman podem ser repetidas com seguran-
ça pelos peritos, como, prendendo a rainha, fazê-las se amontoa-
rem em volta do pescoço sem incorrer em nenhum risco de vida
por causa da barba.
"Such was the spell, which round a Wildman´s arm,
Twin´d in dark wreaths tha fascinated swarm;
Bright o´er his breast the glittering legions led,
Or with a living garland bound his head.
His dextrous hand, with firm yet hurtless hold,
Could seize the chief, known by her scales of gold,
Prune´mind the wondering train her filmy wing,
Or o´er her folds the silken fetter fling."
M. Lombard, um apicultor francês muito habilidoso, narra o
seguinte fato interessante para mostrar como as abelhas são dó-
ceis quando enxameando e como são facilmente manejadas pelos
que têm tanto habilidade quanto confiança:
"Uma jovem menina, minha conhecida, muito temerosa das abe-
lhas, ficou completamente curada de seu temor depois da seguinte ocor-
rência: Tendo chegado um enxame vi a rainha pousar espontaneamente
a pequena distância do apiário. Imediatamente chamei minha pequena
amiga, pois desejava lhe mostrar a rainha; ela desejava vê-la mais de
perto; assim, depois de fazê-la vestir as luvas, coloquei a rainha em su-
as mãos. Ficamos em instantes rodeados por todas as abelhas do en-
xame. Nesta emergência, incentivei a menina a permanecer calma, or-
denando que permanecesse em silêncio e nada temesse e eu fiquei junto
dela. Fiz ela estender sua mão direita, que segurava a rainha, e cobri
sua cabeça e ombros com um lenço muito fino. O enxame em poucos
instantes pousou na sua mão e nela se amontoou, como num galho de
L. L. Langstroth 269
árvore. A pequena menina adorou, mais do que esperado, a nova sensa-
ção e ficou tão livre de todo o temor, que me pediu para descobrir sua
face. Os espectadores ficaram maravilhados com o interessante espetá-
culo. Ato contínuo trouxe uma colméia e, sacudindo o enxame de sua
mão, ele foi alojado com segurança e sem provocar nenhum ferimento."

Um Infeliz BEE-ING (abelhudo)

O conhecimento prático dos princípios lançados neste Trata-


do, tornará desnecessário, em qualquer circunstância, provocar a
fúria de uma colônia de abelhas. Quando provocadas violenta-
mente, pela abertura ou pela vibração violenta de sua colméia ou
pela presença de cavalo suado ou qualquer animal agressivo, e-
las se tornam vingativas terríveis e severas, e podem advir con-
seqüências dolorosas. Assim como nossos animais domésticos
podem, por causa de maus tratos, ficarem enfurecidos a ponto
de se tornarem perigosos para nossas vidas, assim a mais pacífi-
ca família de abelhas pode aprender muito depressa a atacar to-
do ser vivo que se aproxime de seu domicílio.
Quando uma colônia de abelhas for tratada desajeitadamen-
te elas rodearão o seu assaltante com ferocidade selvagem; e hão
de ferroar se conseguirem esgueirar-se em suas roupas ou en-

270 A Colméia e a Abelha


contrar um simples ponto não protegido do seu corpo. Ele terá a
mesma sorte do "Unfortunate Bee-ing", tão ridiculamente apre-
sentado nos "Hood´s Comic Sketches".
Estes que tiverem muito a fazer com as abelhas, devem ves-
tir a máscara, a menos que eles sejam imunes ao veneno do seu
ferrão; pois, enquanto dezenas de centenas continuam sua ativi-
dade sem atacar os que não as molestarem, algumas abelhas
mal humoradas (pág. 256) estarão zumbindo em volta dos ouvi-
dos determinadas a ferroar sem a mínima provocação. Mesmo
estas, no entanto, mantém um toque de graça em meio ao seu
desespero. Assim como o ranzinza cuja voz elevada traduz adver-
tência pelo som que sai da língua, assim uma abelha com más
intenções, por elevar o tom muito acima do pacífico dá um aviso
claro que o perigo é iminente. Mesmo assim, se elas não forem
provocadas à loucura elas raramente ferroarão, a menos que
consigam cravar o seu ferrão na face de sua vítima e, se possível,
perto do olho; pois, como toda a tribo possuidora de ferrão, tem
uma percepção intuitiva de este ser o ponto mais vulnerável. Se
a cabeça for baixada calmamente e a face coberta com as mãos,
elas seguirão a pessoa, normalmente por muito tempo, entoando
sua nota de guerra em seus ouvidos durante todo o tempo, se-
guindo o furtivo indivíduo a fim de tentar atacar de relance a sua
covarde face.
Cotton, citado por Butler, que, nestas observações, segue
principalmente Columella diz:
"Ouçam as palavras de um antigo escritor: - ´Se você deseja ser
bem quisto por suas abelhas, para que elas não o ferroem, deve evitar
tudo a as possa irritar: não pode ser lascivo ou não asseado; elas abo-
minam totalmente o impuro e relaxado (elas mesmas são muito puras e
asseadas), não se aproxime delas mal cheiroso ou suado, ou tendo mau
hálito, provocado seja pela injestão de alho-porro, cebola, alho ou asse-
melhados ou por outra razão qualquer, o mau cheiro sempre é corrigido
com um copo de cerveja; mas não deve ser tomado em excesso ou a
ponto de embriagar; não se deve chegar bufando ou assoprando sobre
elas nem se movimentar agitadamente junto delas, nem se defender vio-
lentamente quando se sentir ameaçado, mas se mover lentamente com
as mãos em frente da face, e afastá-las gentiluavemente; e por último,
não se pode ser um estranho entre elas. Numa palavra, deve ser puro,
limpo, gentil, calmo, sossegado e familiar; para que elas o amem, e o re-
conheçam dentre os demais. Quando nada as irritar, pode-se caminhar
com segurança entre elas; se você ficar parado em frente a elas num dia
quente, será maravilhoso mas uma ou outra ficará lhe espreitando e po-

L. L. Langstroth 271
derá se lançar sobre você.´"1
"Acima de tudo nunca assopre2 sobre elas; elas tentarão ferroá-lo,
se você o fizer.
"Se você quiser apanhar algumas abelhas, faça uma bold sweep at
them com sua mão, e se você as apanhar sem pressionar, elas não fer-
roarão. Tenho apanhado três ou quatro de cada vez. Se você quiser fazer
qualquer coisa com uma única abelha, apanhe-a, ´como se você a a-
masse´, entre o polegar e o indicador, onde o rabo se une ao corpo, e ela
não conseguirá feri-lo."
A pessoa que for atacada por abelhas enfurecidas, não deve
fazer movimento de revide; pois, se apenas uma só for agredida,
outras virão se vingar; se a oposição continuar, centenas e fi-
nalmente milhares se juntarão. A parte atacada deve se abrigar
imediatamente sob a proteção de uma construção ou, se não e-
xistir nenhuma por perto, deve se esconder sob uma moita de
arbustos e ficar deitada imóvel, com sua cabeça coberta, até as
abelhas se irem. Se não existir arbusto nas redondezas, normal-
mente elas desistem do ataque se a pessoa ficar deitada imóvel
sobre o gramado, com sua face de frente para o solo.
Os que se alarmarem caso as abelhas entrem em sua casa,
ou deles se aproximam no jardim ou nos campos, não sabem da
realidade que as abelhas a certa distância de sua colméia nunca
atacam espontaneamente. Mesmo sendo atacadas, elas procuram
apenas escapar e nunca ferroar, a não ser que sejam machuca-
das.
Se elas fossem provocadas tão facilmente longe de casa, co-
mo quando convocadas a defender as suas sagradas redondezas,
um décimo da alegre cambalhota que nossos animais domésticos
aceitam, poderia trazer imediatamente quase um enxame de i-
nimigas furiosas; não mais poderíamos perambular com segu-
rança pelos verdes campos; e nenhum ceifeiro alegre poderia
amolar ou utilizar sua foice pacificamente, a menos que protegi-
do por vestimenta impernetrável a seus ferrões. A abelha, em vez

1 Muitas pessoas imaginam estarem seguras, se permanecerem a distância con-


siderável das colméias, no entanto, as abelhas gostam de atacar aqueles cuja po-
sição mais distante torna-os mais identificável por sua visão de longo alcance do
que as pessoas que estão próximas das colméias.
2 Uma vez que as abelhas se ressentem do ar morno exalado lentamente pelos
pulmões, eu constatei, que elas se afastam da corrente de ar frio soprado sobre
elas pela boca do operador, quase tão prontamente quanto da fumaça. Antes de
utilizar a fumaça eu usava freqüentemente um par de foles.
272 A Colméia e a Abelha
de ser a amiga do homem, incitaria, como os animais selvagens,
todos os esforços do homem para exterminá-la.
Que ninguém, no entanto, animado pelo contraste de condu-
ta das abelhas quando em sua casa e quando fora dela, reserve
todos os seus momentos de prazer para outros lugares que não o
lar; pois em relação aos membros de sua própria família a abelha
é toda amável e dedicada; enquanto, entre os humanos a mãe é
seguidamente tratada pelas suas próprias crianças com desres-
peito ou negligência, entre as abelhas ela é sempre atendida com
reverência e afeição.
É verdade que qualquer membro da colônia que não conse-
guir realizar sua parte do trabalho dividido é arrastado para fora
da colméia por suas impiedosas companheiras. É, no entanto,
uma lei necessária para a sua economia que aquelas que não
podem trabalhar não poderão comer; nada existe na natureza da
abelha que possa ser vantajoso o cuidado com os doentes, en-
quanto os mais nobres traços de humanidade são manifestos pe-
los cuidados incessantes dedicados aos fracos e desamparados
Huber demonstrou que as abelhas têm um sentido de olfato
altamente aguçado e que odores desagradáveis excitam pronta-
mente sua fúria1. Muito antes dele, Butler disse, "Seu olfato é
excelente, assim que, quando elas voam mesmo alto no ar elas
percebem imediatamente qualquer coisa que lhes seja agradável,
mesmo que esteja encoberta." Elas têm aversão especial para to-
dos aqueles cujos hábitos são pouco asseados2, e para com a-
queles que ostentam perto delas um perfume levemente parecido
"Sabean odors
From the spicy shores of Araby the blest."
Suor de cavalo é detestado pelas abelhas e, quando atacado
por elas é, seguidamente, morto; pois em vez de fugir, como a

1 Perfumes fortes, embora agradáveis para nós, são desagradáveis para as abe-
lhas. Aristóteles observa, que elas ferroarão tudo o que com eles estiver perfuma-
do. Conheci pessoas desconhecedoras desta realidade serem tratadas severamen-
te pelas abelhas.
2Algumas pessoas, mesmo asseadas, são atacadas pelas abelhas assim que se
aproximam das colméias. Foi relatado por um notável apicultor que, depois de
um estado febril, nunca conseguiu se sair bem com as abelhas. Que elas podem
perceber prontamente a diferença mínima de odor é evidente a partir do fato que
qualquer número de colônias, alimentadas de um recipiente comum, são dóceis
umas com as outras, mas elas atacam imediatamente a primeira abelha estranha
que pousar no alimentador.
L. L. Langstroth 273
maioria dos outros animais, ele escoiceia até tombar desfalecido.
O apiário deve ser cercado para evitar que cavalos e gado moles-
tem as abelhas.
O ferrão da abelha, em algumas pessoas, produz muita dor e
até mesmo efeitos perigosos. Seguidamente verifico que, enquan-
to aqueles cujo sistema não é sensível ao veneno, raramente são
molestados pelas abelhas, parece que elas têm um prazer mali-
cioso em ferroar aqueles nos quais o seu veneno produz os mais
perniciosos efeitos. Algo na secreção destas pessoas deve provo-
car o ataque e conduzir a conseqüências mais severas.
O odor do seu próprio veneno produz um efeito realmente ir-
ritante sobre as abelhas. Uma pequena porção dele oferecido a
elas num graveto provoca a sua fúria.1 "Se você for ferroado," diz
o velho Butler, "ou qualquer outro em sua companhia - ainda
que a abelha tenha atingido apenas sua roupa, especialmente
em clima quente - o melhor que você pode fazer é se proteger tão
rapidamente quanto possível, pois as outras abelhas, sentindo o
forte odor do veneno, virão até você como uma chuva."
Se somente algumas das inúmeras curas, tão zelosamente
apregoados, pudessem ocorrer haveria pouca razão para temer
ser ferroado.
A primeira coisa a ser feita depois de ser ferroado é retirar o
ferrão tão rapidamente quanto possível. O saco do veneno e todos
os músculos que controlam o ferrão acompanham-no quando ar-
rancado da abelha; e ele penetra mais e mais na pele, injetando
continuamente mais e mais veneno no ferimento. Se retirado i-
mediatamente, raramente terá conseqüências sérias. Depois que
o ferrão é removido, tomar o máximo de cuidado para não fric-
cionar o ferimentonem mesmo por esfregação mínima. Ainda que
seja imensa a irritação e a disposição para friccionar o ferimento,
nunca deve ser feito, pois com isto a circulação sanguínea será
ativada, o veneno se espalhará rapidamente pela maior parte do
sistema e pode seguir dor intensa e inchaço. Sob o mesmo prin-
cípio, a fricção severa em picada do mosquito, mesmo depois de
passados vários dias, pode voltar a inchar. Como a maioria dos
remédios populares envolve friccionar, eles são piores do que na-
da.

1Quando as abelhas expõem o seu ferrão de forma ameaçadora, uma gota mi-
núscula de veneno pode ser vista em sua ponta, alguma delas pode, ocasional-
mente, ser arremessada no olho do apicultor e provocar irritação severa.
274 A Colméia e a Abelha
Se a ferida for succionada com a boca, podem ocorrer conse-
qüências desagradáveis; enquanto o veneno das cobras afeta a-
penas o sistema circulatório e pode ser ingerido sem risco, o ve-
neno da abelha age com grande poder sobre os órgãos da diges-
tão. Seguidamente por causa dele surge forte dor de cabeça, co-
mo todo que foi ferroado ou já provou o veneno conhece muito
bem.1
O Mr. Wagner diz: "O suco dos bagos maduros da madressil-
va vermelha (Lonicera caprifolium) é o melhor remédio que já usei
para o ferrão das abelhas, vespas, hornets, etc. Os bagos ou o
suco espremido podem ser conservados em garrafa bem fechada
e manterão seu efeito por mais de um ano."
O suco leitoso da papoula branca é altamente recomendado.
Um antigo escritor Alemão afirma que ele acalma instantanea-
mente a dor e previne o inchaço.
Outros recomendam o suco do tabaco como uma panacéia
suprema. Inquestionavelmente diversas pessoas sentiram alívio
com cada um destes remédios e existe pouca razão para esperar
que um remédio atenderá a todos, como também que a mesma
doença possa sempre ser curada pelos mesmos medicamentos.
Pessoalmente concluí que água fria é o melhor remédio para
ferrão de abelha. O veneno por ser muito volátil, dissolve-se ra-
pidamente nela e o frio da água tem também grande tendência a
diminuir a inflamação.
A folha da bananeira, esmagada e aplicada sobre o ferimen-
to, é um bom substituto quando não se consegue água. Bevan
recomenda o uso de infusão de raspas de chifre de veado e diz
que, nos casos de inúmeras ferroadas, o seu uso interno é bené-
fico.2

1 Um antigo escritor diz; "Se as abelhas, quando mortas, forem secadas a pó, e

dadas seja para o homem ou para o animal, este medicamente trará seguidamen-
te, imediato bem estar na mais penosa doença e removerá o bloqueio do corpo
quando todos os outros meios falharam." Um chá feito despejando abelhas em
água fervente foi prescrito, recentemente, por uma grande autoridade médica,
para uma violenta estrangúria; o veneno da abelha, sob o nome de apis, é um
grande remédio homeopático.
2 Pode trazer algum conforto para os novatos saber que o veneno produzirá cada

vez menos efeito sobre seu sistema. Apicultores velhos, como Mithridates, parece
que prosperaram com o próprio veneno. Quando fiquei interessado pelas abelhas
pela primeira vez um ferrão era algo que amedrontava, a dor era seguidamente
muito intensa e a inflamação do ferimento era tanta a ponto de obstruir meus
L. L. Langstroth 275
Os apicultores tímidos e todos que sofrem muito com o ve-
neno da abelha, devem se proteger com os equipamentos de pro-
teção individual. A grande objeção a tais vestimentas, normal-
mente feita, é que elas obstruem a visão clara, tão necessária em
todas as operações, alem de reterem o calor e provocarem a
transpiração, a ponto de se tornarem peculiarmente agressivas
às abelhas. Prefiro o que chamo de máscara (Lâmina XI, Fig. 25)
de construção inteiramente nova. É feita de tela metálica cuja
abertura é suficientemente reduzida para impedir a passagem da
abelha, mas grande suficiente para permitir a circulação livre do
ar e possibilitar visão clara. A tela metálica pode ser costurada
primeiro como um chapéu e ser grande suficiente para ficar so-
bre a cabeça; sua parte superior pode ser de algodão e o mesmo
tecido pode ser costurado em baixo de sua parte inferior. Se a
parte superior for feita de algum tipo de couro servirá melhor pa-
ra o mesmo propósito. Um pedaço de tela metálica com um pé de
largura e dois pés e meio de comprimento, servirá muito bem pa-
ra muitas pessoas. Com tal chapéu, abelhas irritadas não apre-
sentam risco algum, e a capa pode ser enfiada sob o casaco, ou
presa seguramente, capaz de desafiar todas as atacantes.
As mãos devem ser protegidas com luvas de borracha, atu-
almente de uso comum. Estas luvas, ao mesmo tempo que im-
penetráveis ao ferrão da abelha, não interferem com as ativida-
des no apiário. No entanto, assim que o apicultor adquirir confi-
ança e habilidade ele preferirá não usar nada alem da máscara,
mesmo às custas de alguma ferroada em suas mãos. Se as mãos
estiverem lambuzadas de mel, elas serão freqüentemente ferroa-

sentidos. Atualmente a dor normalmente é pequena e, se o ferrão for prontamen-


te removido, não advem conseqüências desagradáveis mesmo que não utilize ne-
nhum remédio. Huish fala de ter visto a careca do Bonner, um famoso apicultor
prático, coberta de ferrões que pareciam não produzir nele nenhum efeito desa-
gradável. O Rev. Mr. Kleine lembra aos iniciantes para se sujeitarem a ferroadas
freqüentes, assegurando-lhes que, em duas sessões, o seu sistema se tornará a-
costumado ao veneno!
Um antigo apicultor inglês recomenda, para a pessoa que tenha sido ferroada,
apanhar tão rapidamente quanto possível outra abelha e fazê-la ferroar no mes-
mo local. Até mesmo um discípulo entusiasta de Huber hesitaria a se aventurar a
um remédio homeopático tão singular; mas como afirmado por este antigo escri-
tor, tenho constatado por minha experiência é que quanto mais freqüentemente
uma pessoa for ferroada menos ela sofrerá com o veneno, assim decidi tentar es-
ta prescrição. Deixando o ferrão permanecer cravado até que ele tenha descarre-
gado todo o veneno eu compelia outra abelha a aplicar seu ferrão, tão próximo
quanto possível do mesmo local. Não usei remédio de espécie alguma, e tive a sa-
tisfação, no meu ardor por novas descobertas, de não sofrer mais de dor e incha-
ço do que em anos anteriores.
276 A Colméia e a Abelha
das.
Luvas de lã não são recomendadas, pois tudo que seja rugo-
so ou com pelo é extremamente irritante para as abelhas. Isto se
deve provavelmente ao fato de, na natureza, ursos, raposas e ou-
tros animais peludos serem seus principais inimigos. Assim que
elas sentem o contato com algo rugoso ou peludo, elas lançam o
seu ferrão.
Butler diz: "Elas usam seus ferrões contra tais objetos como
se tivessem externamente gum excremento desagradável, como
pêlo ou couro, cujo toque provoca o ferroar. Se elas pousam so-
bre o cabelo da cabeça ou da barba, elas ferroarão se consegui-
rem alcançar a pele. Quando elas estão ferozes, seu objetivo mais
comum é a face, mas raramente ferroam as mãos nuas, não são
peludas, a menos que muito perturbadas."

L. L. Langstroth 277
CAPÍTULO XIX

A
ABBE
ELLH
HAA IITTA
ALLIIA
ANNA
A

Aristóteles fala de três diferentes espécies de abelha conhe-


cidas em seu tempo. Ele descreve a melhor variedade como sen-
do "µιχρα, στρογγυλη και ποιχιλη" - ou seja, pequena no tama-
nho, arredondada na forma e de cor matizada.
Virgílio (Georgicon, lib. IV, 98) fala de duas espécies que
prosperavam em seu tempo; a melhor das duas ele descreve as-
sim:
Elucent aliae, et fulgore coruscant,
Ardentes Auro, et paribus lita corpora guttis.
Haec potior soboles; hinc coeli tempore certo
Dulcia mella premes.
A melhor variedade, no entender dele, é caracterizada como
matizada ou manchada e de uma bela cor dourada.
Recentemente a atenção dos apicultores foi chamada para
esta variedade de abelha que, depois de mais de dois mil anos,
permanece pura e distinta da espécie comum. A seguinte carta
do Mr. Wagner mostra o valor dado a esta espécie, por alguns
dos mais habilidosos e bem sucedidos apicultores da Europa:
"York, Pensilvânia, 5 de Agosto de 1856.
"Prezado Senhor: - A primeira referência que tivemos da abelha Ita-
liana como uma raça ou variedade distinta é a fornecida pelo Capt. Bal-
denstein no Bienenzeitung, 1848, pág. 26.1 Tendo permanecido na Itália,
durante parte das guerras Napoleônicas, tomou conhecimento que as
abelhas de Lombardo-Venetian distrito de Valtelin, nas vizinhanças do
Lago Como, diferiam na cor da espécie comum e pareciam mais laborio-

1 O Rev. E. W. Gilman, de Bangor Maine, recentemente chamou minha atenção

para o "Insectorum "Liguriae species novae aut rariores", de Spinola, onde parece
que Spinola descreve minuciosamente todas as peculiaridades desta abelha que
ele encontrou em Piedmont em 1805. Ele a identificou perfeitamente como a abe-
lha descrita por Aristóteles e a chama de Ligurian Bee, nome agora amplamente
adotado na Europa.
L. L. Langstroth 279
sas. Com o fim da guerra ele se reformou do exército e retornou ao seu
antigo castelo nos Alpes Rhaetian, na Suíça; para ocupar o seu tempo
livre recorreu à apicultura que tinha sido o seu hobby favorito em anos
anteriores. Estudando a história natural, hábitos e instintos destes in-
setos lembrou o que tinha observado na Itália e resolveu conseguir uma
colônia daquele país. Enviou dois homens para lá que compraram uma
e a levaram, através das montanhas, à sua residência em setembro de
1843.
"Em maio de 1847 esta colônia, cuja rainha sempre produziu cria
genuinamente Italiana, começou a mostrar sinais de fraqueza, mas re-
pentinamente recuperou-se no mês seguinte; ficou evidente que ela
substituiu sua rainha, a qual felizmente foi fecundada por zangão itali-
ano, assim ela continuou a produzir cria genuína ou pura. Em 15 de
maio de 1848, esta rainha saiu com um enxame e ele esperava que, co-
mo tinha instalado a colméia materna num local isolado, sua sucessora
fosse fecundada por zangão italiano. Mas agora ele ficou desapontado;
ela produziu uma descendência bastarda enquanto a rainha emigrante
produzia cria genuína, como antes. Desapontamentos semelhantes es-
peravam por ele ano após ano; em junho de 1851 ele tinha somente
uma colônia de raça pura.
"Os aspectos que ele considera perfeitamente definidos, a partir de
suas observações da abelha italiana, são os seguintes: 1. A rainha, se
saudável, mantem sua fertilidade por, pelo menos, três ou quatro anos.
2. A abelha italiana é mais laboriosa e a rainha mais prolífica do que a
abelha comum; em anos muito desfavoráveis, enquanto outras colônias
produzirem alguns enxames e pouco mel, sua colônia Italiana produziu
três enxames, que enchiam suas colméias com favos e, juntamente com
a colméia materna, armazenaram grandes estoques para o Inverno; a úl-
tima produzindo, além disto, uma caixa bem cheia com mel. As três jo-
vens colônias estavam entre as melhores do apiário. 3. As operárias não
vivem mais do que um ano; as abelhas e a cria na colméia materna,
quando o primeiro enxame e a rainha velha partiram, eram exclusiva-
mente de descendência Italiana, pouco desta espécie permaneceu no
Outono e nenhuma sobreviveu ao Inverno. 4. A jovem rainha é fecunda-
da logo depois de instalada na colônia, e permanece fértil durante toda a
vida. Se não fosse assim, a rainha genuína não continuaria a produzir
cria pura durante estes sete anos consecutivos. 5. A rainha sai para en-
contrar os zangões. Se não fosse assim, seria difícil acontecer que todas
as jovens rainhas criadas nestes sete anos, com apenas uma exceção,
fosse fecundada por zangões comuns e produzisse descendência bastar-
da. 6. A rainha velha normalmente sai com o primeiro enxame, ou então
não seria produzida, invariavelmente, cria genuinamente italiana pelo
enxame, mas ocasionalmente, pelo menos, pela colméia materna, o que
nunca aconteceu em todo este tempo.
"Estas observações e inferências levaram Dziezon - que tinha previ-
amente se certificado que os alvéolos das abelhas italianas e comuns e-

280 A Colméia e a Abelha


ram do mesmo tamanho - a se esforçar em conseguir a abelha italiana;
com a ajuda da Austrian Agricultural Society em Viena,1 conseguiu, no
final de fevereiro, 1853, uma colônia em Mira, perto de Veneza. No dia
seguinte ele transferiu os favos e as abelhas para uma de suas colméias
e, quando a estação abriu, colocou a colméia num suporte em seu apiá-
rio e a parafusou firmemente, para que não fosse roubada. Ele não pro-
vocou enxameação durante o Verão seguinte, mas retirou dela favos
com operárias e cria de zangão, a intervalos regulares, suprindo seu es-
paço com favo vazio. Desta forma, ele teve sucesso em criar cerca de
cinqüenta rainhas, das quais cerca da metade foi fecundada por zangão
italiano e produziram cria genuína. A outra metade produziu descen-
dência bastarda. Assim ele continuou a multiplicar as rainhas pela re-
novação da cria até que em 25 de junho a colméia materna e várias de
suas colônias artificiais, repentinamente, mataram os seus zangões,. As
abelhas da colônia original ainda trabalhavam com assiduidade, mas
gradualmente ficaram menos diligentes até que o trigo mouro floresceu
quando elas foram superadas por muitas colônias das abelhas comuns.
Mas, como as abelhas jovens continuavam a aparecer ele se sentiu sa-
tisfeito pois a colônia estava em condições saudáveis. Mais tarde, du-
rante a estação, ele desparafusou a colméia se preparando para colocá-
la no abrigo para hibernação; ao tentar levantá-la, verificou que prati-
camente não tinha condições de a mover. Só agora ele descobriu porque
ela ficou tão atrás das outras colônias em atividade. Tendo se libertado
dos zangões mais cedo (como provavelmente é feito instintivamente na
Itália) ela, como conseqüência de sua extraordinária atividade, encheu
todos os alvéolos com mel num curto espaço de tempo e ficou desde en-
tão condenada involuntariamente à ociosidade. Ela alcançou um peso
que nenhuma de suas colônias atingou no Verão de 1846, quando a
pastagem tinha sido abundante; enquanto no Verão de 1853 foi real-
mente ordinária.2

1 Alguns dos governantes da Europa tiveram recentemente um grande interesse

em disseminar entre sua população o conhecimento do sistema de apicultura de


Dzierzon. A Prússia provê anualmente um número de pessoas de diferentes par-
tes do Reino, com os meios para adquirir o conhecimento prático do seu sistema;
o Governo da Bavária prescreveu instruções da teoria de Dzierzon nas práticas
apícolas, como parte dos cursos regulares e nos seminários de estudos dos pro-
fessores.
2 "Os seus experimentos com esta colônia fizeram ele manifestar, que as pertur-

bações freqüentes não prejudicaram em nada a colméia. Até o meio do Verão, ele
não só removeu favo com cria contendo cerca de 5000 alvéolos, a cada segundo
dia, mas retirou, em várias ocasiões, favo depois de favo, várias vezes ao dia, para
encontrar a rainha e mostrá-la aos seus amigos apicultores que o visitavam.
Quando, como conseqüência de tais interrupções, a rainha se retirava para a ex-
tremidade oposta da colméia, ele a encontrava, meia hora depois, no mesmo favo
em que ela estava antes, engajada na postura de ovos. Tais perturbações, se os
favos não forem quebrados, ou materialmente estragados, pensava ele, não trazi-
am prejuízo; mas, pelo contrário, elas produziam com não baixa freqüência uma
certa excitação entre as abelhas, o que as impelia a sair em grande número e
L. L. Langstroth 281
"´A difusão geral desta espécie de abelha´, diz Dzierzon, ´foi um
marco na apicultura da Alemanha, como o foi a introdução da minha
colméia melhorada.1 Os lucros conseguidos pelos fazendeiros na alimen-
tação da sua criação, dependem não só da atenção aos hábitos e neces-
sidades dos animais mas principalmente da característica da sua linha-
gem. Assim também com as abelhas. Nós encontramos diferenças mar-
cantes na atividade, mesmo entre nossas abelhas comuns; mas a abelha
Italiana as ultrapassa em todos os aspectos. A maior resistência para
uma disfusão maior da apicultura,está no quase universal temor do fer-
rão destes insetos. Muitos temem até mesmo a dor momentânea que ele
inflige, ainda que não ocorra nenhuma outra conseqüência desagradá-
vel; mas em algumas pessoas ele provoca inchaço e inflamação severa e
prolongada. Isto desencoraja especialmente as mulheres a se engajarem
nesta atividade. Tudo isto pode ser evitado pela introdução da abelha I-
taliana que não é, de forma alguma, um inseto irascível.2 Ela ferroa tão
somente quando for machucada, quando intencionalmente molestada
ou quando atacada por abelhas pilhadoras; então se defenderá com des-
temida coragem e seu vigor e agilidade são tão extraordinários que ela
nunca é dominada, desde que a colônia esteja em condições normais.
Colônias de abelhas comuns podem ser convertidas rapidamente em
famílias Italianas, simplesmente pela remoção da rainha de cada uma, e
passados dois a três dias, ou assim que as operárias estivessem consci-
entes de estarem sem rainha, lhes for fornecida uma rainha Italiana.
Desta forma temos condições de constatar o desaparecimento gradual
da raça anterior, à medida que ela é substituída pela nova. Ao lado do
aumento nos lucros derivados da apicultura esta espécie nos fornece
também uma gratificação não pequena, a de estudar a natureza, hábitos
e economia do inseto com grande vantagem, pois, com ela, os experi-
mentos mais interessantes, investigações e observações podem ser feitos
e assim serem esclarecidas as dúvidas e superadas as dificuldades re-
manescentes.´
"Ele diz ainda: ´Tem sido questionado, até mesmo por apicultores

trabalhar com aplicação aumentada." - S. Wagner


1 Depois que o meu pedido de patente do quadro móvel foi despachado favorável,

o Barão Von Berlepsck, de Seeback, Thuringia (ver. Pág. 126), inventou quadros
com características similares. Carl T. E. Von Siebold, Professor de Zoologia e A-
natomia Comparada, na Universidade de Munique, fala assim destes quadros:
"Como a aderência lateral dos favos construídos a partir das barras" (ver págs. 15
e 16 deste Tratado), "freqüentemente tornam sua remoção difícil, Berlepsch ten-
tou evitar este inconveniente de uma forma muito engenhosa, suspendendo em
sua colméia, em vez de barras, um pequeno quadro quadrangular, cujo vazio as
abelhas enchem com seus favos, os quais facilitam muito sua remoção e suspen-
são, e se estes dispositivos forem incrementados na colméia de Dzierzon, onde
nada mais resta para ser desejado."
2 Spinola fala da disposição mais pacífica desta abelha; e Columella, 1800 anos

atrás, registra a mesma particularidade, descrevendo-a como "mitior moribus."


Tanto a superior atividade como a docilidade são comentários da idade antiga.
282 A Colméia e a Abelha
experientes e renomados, se a raça Italiana pode ser preservada em sua
pureza, em países onde prevalece a espécie comum. Não há porque exis-
tir inquietude por este motivo. A sua preservação pode ser acompanha-
da, até mesmo se tivermos de confiar na enxameação natural, pois elas
enxameiam mais cedo na estação do que a espécie comum, e também
mais freqüentemente. A falta de sucesso do Capitão Baldenstein foi mais
provavelmente resultado da falta de favo de zangão1 em suas colméias
Italianas, cuja conseqüência foi a produção de somente alguns zangões.
"O principal aspecto a ser analisado em qualquer localidade onde
são mantidas abelhas comuns é garantir a produção de zangões em
número extraordinariamente grande; contudo, Dzierzon tem a impres-
são que onde existem ambos os tipos de zangões em igual número as ra-
inhas italianas normalmente encontram zangões italianos, tanto rainha
como zangões são mais ativos e ágeis do que os do tipo comum. Além
disso as asas tanto dos zangões como das rainhas são mais finas e mais
delicadas do que as do tipo comum e os sons produzidos em vôo são
claramente de mais alto tom. Assim, eles são capazes de distinguir mais
fácilmente uns aos outros quando em vôo.2
"O Barão de Berlepsch, um dos apicultores mais entusiastas e habi-
lidosos, em grande escala da Alemanha diz que ele pode, a partir de su-
as experiências confirmar as afirmações de Dzierzon com relação à abe-
lha Italiana, tendo encontrado,

1 Dzierzon se protege disso, fornecendo para uma colméia muito grande, que
normalmente produz zangões em grande quantidade, uma rainha fértil muito ce-
do na estação. Milhares de zangões aparecem imediatamente, e ele formava uma
colônia artificial removendo a rainha com um número suficiente de operárias, e
juntando cria de operária de outras colônias. Passados doze dias, ele escutava a
jovem rainha ´teeting´ na colméia materna e, para sua surpresa, um grande en-
xame saia dela no mesmo dia, embora o clima estivesse frio e nublado. Este en-
xame aparecia repentinamente, sem indicação prévia de sua intenção, exatamen-
te como fazem normalmente os enxames secundários. Em dia semelhante, diz
Dzierzon, ele nunca viu sair um enxame primário das abelhas comuns. O clima
estava tão frio, que algumas das abelhas ficaram congeladas antes do enxame se
alojar. Como o enxame era normalmente grande ele o dividia em dois, uma vez
que ele tinha condições de fornecer uma rainha adicional da colméia materna.
Ambos prosperavam bem e cada uma das rainhas era fecundada por um zangão
Italiano. A partir desta ocorrência ele concluiu que estas abelhas têm uma incli-
nação instintiva de enxamear cedo. Nossa espécie comum tem se demorado mais
para ´não enxamear com clima tão frio e nublado´." - S. Wagner
2 "Se, quando as princesas estiverem emergindo, as abelhas e os zangões saírem

mais cedo do que o usual no início do dia, horas antes de os zangões comuns saí-
rem, alimentando-os com mel diluído, a perpetuação da cria genuína será mais
provavelmente garantida. Mas este objetivo será mais facilmente atingido, se fo-
rem tomadas medidas para iniciar a criação de rainhas e zangões Italianos mais
cedo na estação, antes que os zangões comuns apareçam; e novamente mais tar-
de, depois que os últimos tiverem sido mortos. Isto pode ser feito facilmente com
a colméia melhorada e com a aplicação de certos conhecimentos de apicultura." -
S. Wagner.
L. L. Langstroth 283
"1. A abelha Italiana é menos sensível ao frio do que a abelha co-
mum. 2. Suas rainhas são mais prolíficas. 3. As colônias enxameiam
mais cedo e mais freqüentemente, embora, sobre este assunto, ele tenha
menos experiência do que Dzierzon. 4. Elas são menos inclinadas a fer-
roar. Não só elas são menos inclinadas, mas raramente ferroam, embora
elas o façam se intencionalmente incomodadas ou irritadas. 5. Elas são
mais laboriosas. Sobre este assunto ele tem apenas uma experiência de
Verão, mas todos os resultados e indicações confirmam as afirmações
de Dzierzon, e deixam-no satisfeito pela superioridade deste tipo sob to-
dos os pontos de vista. 6. Elas são menos dispostas a pilhar do que a
abelha comum e são mais corajosas e ativas na própria defesa. Elas se
empenham, de todas as formas para abrir seu caminho nas colônias das
abelhas comuns, mas quando abelhas estranhas atacam suas colméias,
elas lutam com grande ferocidade, e com incrível habilidade.1
" Belepsch obteve, na estação seguinte, de uma rainha Italiana que
ele recebeu de Dzierzon, cento e trinta rainhas férteis, das quais cerca
da metade produziu descendência Italiana pura.2
"Busch (Die Honig-biene, Gotha, 1855) descreve a abelha Italiana da
seguinte forma: ´As operárias são lisas e brilhantes, e a cor dos seus a-
néis abdominais é uma média entre o amarelo palha e o amarelo ocre
profundo. Estes anéis têm um final preto estreito ou borda, assim que o
amarelo (que pode ser chamado de couro colorido) constitui a base, e é
marcado aparentemente com listras por este pequeno final preto, ou
bordas. Isto é percebido mais distintamente quando um favo com cria,
sobre o qual as abelhas estão densamente amontoadas, for tirado da
colméia. Os zangões diferem das operárias por terem a metade superior
dos seus anéis abdominais pretos e a metade inferior amarelo ocre, isto
faz que o abdômen, quando visto de cima, pareça anulado. A rainha di-
fere da espécie comum principalmente pelo maior brilho e luminosidade
das cores.´

1 Spinola fala destas abelhas como "velociores motu" - mais velozes em seus mo-

vimentos do que as abelhas comuns.


2 É um fato notável que a rainha Italiana, fecundada por zangão comum e uma

rainha comum fecundada por um zangão Italiano não produz operárias de casta
intermediária uniforme, ou híbridos; mas algumas das operárias criadas dos ovos
de cada rainha serão puras Italianas, e outras puras da raça comum, e somente
algumas delas, na verdade, serão aparentemente híbridas. Berlepsch teve tam-
bém várias rainhas bastardas, que inicialmente produziram exclusivamente ope-
rárias Italianas e, depois, exclusivamente, operárias comuns. Algumas destas ra-
inhas produziram um total de três quartos de operárias Italianas; outras, operá-
rias comuns na mesma proporção. Mais ainda, ele afirma que tinha uma bonita
rainha Italiana bastarda laranja amarelada que não produziu uma única operária
Italiana, mas apenas operárias comuns, cor sombreada mais clara. Os zangões,
no entanto, produzidos pela rainha Italiana bastarda eram uniformes da raça Ita-
liana e este fato, além de demonstrar a veracidade da teoria de Dziezon, garante a
preservação e perpetuação da raça Italiana, em sua pureza, totalmente viável em
qualquer país onde ela venha a ser introduzida." - S. Wagner.
284 A Colméia e a Abelha
"Otto Radkofer, Jr., de Munique, numa comunicação ao Bienenzei-
tung, diz que a colônia de abelhas Italianas, que ele transferiu em feve-
reiro, começou a construir favos novos antes da metade de março, en-
quanto as comuns não tinham começado, na data do seu comunicado
(final de abril), a construir nenhum favo. ´Não só,´ diz Mr. Radlkofer, `as
abelhas Italianas são distinguidas por um impulso para despertar mais
cedo para a atividade e o trabalho, mas elas são também notáveis pelo
diligente uso que elas fazem de toda flor aberta, visitando algumas para
as quais as abelhas comuns raramente ou nunca olham. Elas têm tam-
bém demonstrado sua agilidade superior na defesa; mais ainda, elas
não toleram a presença de outras abelhas no favo sobre o qual foi espa-
lhada farinha de uso comum. Por causa de todos estes aspectos, o louro
de superioridade deve ser concedido para a abelha Italiana.´
"Foram encontradas consideráveis dificuldades, até mesmo pelos
apicultores experientes, em induzir uma colônia de abelha comuns, pri-
vadas de sua rainha, a aceitar uma rainha Italiana em seu lugar e ocor-
reram muitas falhas envolvendo perda da rainha oferecida e causando
grandes desapontamentos. O melhor caminho parece ser, remover a ra-
inha vários dias antes da data em que se pretende fazer a substituição e
destruir todas as realeiras embrionárias antes da introdução da rainha
Italiana. Na hora de sua introdução os favos devem ser novamente exa-
minados exaustivamente e qualquer realeira, que tiver sido iniciada, de-
verá também ser destruída. A rainha Italiana deve ser colocada numa
gaiola para sua proteção e uma pequena quantidade de mel puro de al-
véolos abertos deve ser colocado na gaiola. A conduta das operárias
mostrará rapidamente se e quando elas a receberão. O Mr. Lage reco-
menda que a rainha italiana seja introduzida imediatamente depois que
as abelhas da colônia sem rainha manifestarem indubitável consciência
da perda que lhes aconteceu e antes que elas iniciem qualquer realeira
ou se preparem para isto. Sinceramente, Samuel Wagner.
Rev. L. L. Langstroth."
O maior obstáculo para a rápida difusão desta variedade va-
liosa tem sido a dificuldade experimentada pelos competentes a-
picultores alemães em preservar a linhagem pura, até mesmo
Berlepsch falhou totalmente em conseguí-lo. Com o auxílio da
minha colméia não enxameadora, no entanto, esta dificuldade
pode ser facilmente superada.
O apicultor que conseguir uma rainha Italiana na Primavera,
deve introduzir, com as devidas precauções (pág. 200), numa co-
lônia populosa, cuja colméia contenha uma boa quantidade de
favo para zangão, tendo antes retirado a sua rainha. Quando os
alvéolos de zangão estiverem cheios com cria fechada, um núcleo
pode ser formado (pág. 189) com esta família, e os favos removi-
dos substituídos por outros contendo operárias prontas para

L. L. Langstroth 285
emergir. Mantendo desta forma a colméia materna sempre popu-
losa, pode-se dela formar um grande número de núcleos. Exata-
mente antes de a jovem rainha Italiana amadurecer, adaptar as
colméias não enxameadoras (Lâmina II, V, Fig. 5, 17) que conte-
nham zangões comuns, para assim prendê-los, enquanto será
dada saída livre para as rainhas e para as operárias. Como ape-
nas os zangões criados pela rainha Italiana tem liberdade de vôo,
todas as jovens fêmeas serão fecundadas por eles. Assim que as
rainhas dos núcleos estiverem férteis, elas podem ser dadas a
várias famílias e destas, em pouco tempo, podem ser formados
outros núcleos que criarão rainhas Italianas. Desta forma, um
perito, tendo certeza de ter zangões Italianos até o final da esta-
ção pode converter facilmente um apiário com mil ou mais col-
méias para a nova variedade.
Para garantir o número de zangões necessários, parte da cria
de zangão Italiano deve ser dada a alguns núcleos de forma que,
no caso da colméia materna matar seus zangões, outras os terão
disponíveis. Se o apicultor remover a rainha desta colônia antes
dos zangões serem mortos, as abelhas tolerarão sua presença
por mais tempo. O mesmo objetivo pode também ser conseguido
com alimentação liberal assim que terminar a forragem natural
(pág. 224).
Dzierzon concluiu que uma rainha que tenha sido resfriada
por muito tempo, ao ser reanimada por aquecimento, depositou
somente ovos de zangões, quando anteriormente ela depositava
também ovos de fêmeas. Berlepsch resfriou três rainhas colo-
cando elas por trinta e seis horas num recipiente com gelo1, duas
delas nunca reviveram e a terceira depositou, como antes, milha-
res de ovos, mas de todos eles emergiram apenas zangões. Por
duas ocasiões o Mr. Mahan tentou, por minha sugestão, experi-
mento semelhante e obteve resultados iguais. Parece que os api-
cultores alemães não perceberam que por este processo de refri-
geração podiam garantir tantos zangões Italianos quantos neces-
sários. Tudo isto é necessário para converter, através deste mé-
todo, uma ou mais rainhas dos núcleos em zanganeiras. Receber
uma rainha muito tarde na estação pode assim se transformar
num bom negócio.
Se o apicultor está nas proximidades de colméias, nas quais

1 Uma pequena exposição da rainha a gelo em pó e sal, terá o mesmo efeito. Os


espermatozóides se tornam de alguma forma inoperantes depois de frio intenso.
286 A Colméia e a Abelha
ele não pode aplicar a não enxameação, será necessário que ele
procure outro local onde os zangões comuns não interfiram com
este procedimento. A menos que a descendência seja mantida
pura as vantagens propostas por esta introdução não podem ser
asseguradas.
As rainhas Italianas podem ser enviadas com segurança nas
minhas colméias para qualquer parte do país. Uma colméia para
este propósito deve ser tal que contenha apenas um favo o qual
deve ser velho e firmemente preso. Em tal colméia, adequada-
mente aprovisionada, uma rainha Italiana pode ser introduzida
com cerca de cem abelhas para lhe fazerem companhia e, se tive-
rem ventilação suficiente e um pouco de água todo o dia, elas
suportam vários dias. Se recebida numa estação não apropriada
para a criação de rainhas, ela pode ser introduzida em alguma
colônia forte e preservada para operações futuras.
É extremamente necessário dizer que uma espécie de abelha
tão mais produtiva que a espécie comum e tão menos sensível ao
frio será de grande valor a todas as áreas de nosso país.1 Sua
docilidade superior pode torná-la meritória da mais alta conside-
ração, mesmo que sob outros aspectos não tenha nenhum méri-
to em particular. Sua introdução em nosso país, perfeitamente
possível, iniciará uma nova era para a apicultura, e trará inte-
resse para a atividade o que permitirá, em breve, rivalizar com
qualquer parte do mundo na produção de mel.

1 Em 1856 foi feita uma tentativa pelo Mr. Wagner de importar abelhas Italianas;
mas, infelizmente, as colônias pereceram durante a viagem. As primeiras abelhas
Italianas a aportarem neste continente foram importadas no Outono de 1859 pelo
Mr. Wagner e Mr. Richard Colvin, de Baltimore, do apiário de Dzierzon. O Mr. P.
G. Mahan, da Filadélfia, trouxe na mesma época algumas colônias. Na Primavera
de 1860, o Mr. S. B. Parson, de Flushing. L. I., importou um certo número de co-
lônias da Itália. O Mr. William G. Rose, de New York, em 1861, também importou
da Itália. O Mr. Colvin fez um número de importações do apiário do Dzierzon; e
no Outono de 1863 e 1864 eu também importei rainhas do mesmo apiário. Esta
variedade valiosa de abelhas está agora espalhada por quase toda a América do
Norte.
L. L. Langstroth 287
CAPÍTULO XX

TTA
AMMA
ANNHHOO,, FFO
ORRM
MAAEEM MAATTE
ERRIIA
ALL D
DAASS
C
COOLLM
MÉÉIIA
ASS
NNÚÚCCLLE
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EOOBBSSEERRVVA
AÇÇÃ ÃO
O

Não obstante os quase incontáveis experimentos que fizemos


para determinar o melhor tamanho, forma e materiais para as
colméias os mais competentes apicultores divergem sobre o as-
sunto. Em muitas regiões de nosso país, é concordância quase
generalizada que as colméias que comportam menos do que um
bushel1 no compartimento principal não são rentáveis a longo
prazo. Com referência, no entanto, ao tamanho, tanto o ninho
como as melgueiras, depende muito da estação e do local e se as
abelhas enxameiam ou não, assim que não se pode fornecer uma
regra aplicável a todos os casos. Todo apicultor deve determinar
estas questões se referindo aos recursos melíferos da sua região.
Como minhas colméias permitem ampliação e contração sem que
suas partes sejam destruídas ou alteradas, o tamanho, seja do
ninho seja da melgueira, pode variar à vontade.
Sendo possível remover todo excesso, eu prefiro fazer o inte-
rior de minhas colméias consideravelmente maior do que um bu-
shel. Muitas colméias não contem um quarto das abelhas, favo e
mel que, em estações boas, pode ser encontrado nas minhas
colméias; enquanto seus donos ficam despontados ao abterem
tão baixos lucros de suas abelhas. Um bom enxame de abelhas
colocado, numa boa estação, numa colméia diminuta pode ser
comparado a uma poderosa parelha de cavalos atrelados a uma
pequena carroça, ou uma maravilhosa queda d´água perdida
movendo uma insignificante roda d´água.
Uma colméia alta, proporcionalmente a suas outras dimen-
sões, tem algumas vantagens óbvias; como as abelhas estão pre-
paradas para levar suas reservas tão longe da entrada quanto
possível, elas encherão suas partes superiores com mel, usando

1 Bushel: medida volumétrica equivalente a 36,7L. N. T.


L. L. Langstroth 289
a parte inferior principalmente para a cria, livrando-se assim do
risco de ficarem presas, no clima frio, entre favos vazios, quando
elas ainda têm reserva de mel. Se o topo desta colméia, como as
antigas parecidas com uma batedeira, é feito (segundo o esque-
ma Polonês) consideravelmente menor do que o fundo, estarão
melhor adaptadas para o clima frio, alem de ficarem melhor pro-
tegerem dos ventos fortes. Tal colméia é deficiente na região do
topo para armazenamento de mel em caixas, e nelas é impossível
usar quadros1; mas, para aqueles que preferem criar abelhas da
forma antiga2, uma destas formas, feita para conter não menos
do que um bushel e meio, é decididamente a melhor.
Uma colméia longa da frente para trás e moderadamente
baixa e estreita parece, como um todo, unir a maioria das vanta-
gens. Tal colméia lembra uma alta deitada de lado e, ao mesmo
tempo que fornece o espaço no topo para o mel em excesso, ela
facilita enormemente o manuseio dos quadros, além de diminuir
seu número e custo.3
A colméia comum de Dzierzon4 é comprida e baixa, mas, co-

1 Quanto mais altos os quadros, mais difícil é eles ficarem na vertical quando
pendurados nos encaixes e maior a dificuldade de os manusear sem esmagar as
abelhas ou quebrar os favos.
2 É instrutivo ver como o abandono da antiga forma prova a verdade, pelo menos

na apicultura, da citação comum:


"Pouco conhecimento é perigoso."
Até mesmo uma melhoria tão simples como as caixas de topo, como usadas por
muitos, destruirão eventualmente suas abelhas; pois, enquanto em anos favorá-
veis tais caixas podem ser removidas com segurança em outros, o excesso de mel
que elas contem, é a vida das abelhas.
3 O Mr. Quinby, de St. Johnsville, New York, chamou minha atenção para algu-
mas famílias que ele comprou em caixas colméias deste formato, me informou
que as abelhas hibernaram nelas quase tão bem quanto nas colméias altas, as
abelhas se movem para o fundo para as suas reservas do clima frio, assim como
nas colméias altas elas se movem para cima. Minha colméia, como inicialmente
construída, tinha catorze polegadas e um oitavo (36cm) da frente para o fundo,
dezoito polegadas e um oitavo (46cm) de lado a lado e nove polegadas (23cm) de
altura, contendo doze quadros. Depois que o Mr. Quinby chamou minha atenção
para a hibernação das abelhas na sua longa caixa colméia, construí uma que
media vinte e quatro polegadas da frente para o fundo (60cm), doze polegadas
(30cm) de lado a lado e dez polegadas (25cm) de altura contendo oito quadros.
Desde então preferi fazer minhas colméias com dezoito polegadas e um oitavo
(46cm) de frente a fundo, catorze polegadas e um oitavo (36cm) de lado a lado e
dez polegadas (25cm) de altura. O Mr. Quinby prefere fazer meu quadro móvel
mais comprido e mais alto.
4 Dzierzon construiu colméias para comportar duas, quatro e até mais colônias.

Na Lâmina XXII, Fig.71 (o frontispício para a primeira edição do meu trabalho),


290 A Colméia e a Abelha
mo os favos correm de lado a lado, em vez de da frente para o
fundo, as abelhas, a menos que a colméia esteja especialmente
bem protegida, passarão frio no Inverno. Como os apicultores a-
lemães usam sarrafos em vez de quadros, pode ser desajeitado
para eles remover favos muito longos de suas colméias.
As diversas opiniões a respeito dos melhores materiais para
as colméias, tem sido tantas quanto sobre seu tamanho e forma
adequados. Columella e Vergílio recomendam o tronco cavado da
corticeira, nenhum outro material se adapta melhor apenas se
puder ser adquirido por menor preço. Colméias de palha foram
usadas por anos e são mais quentes no Inverno e frias no Verão.
A dificuldade de as construir e manter a forma adequada para
melhorar a apicultura, é uma desvantagem insuperável para o
seu uso. Colméias feitas de madeira, atualmente, estão substitu-
indo rapidamente as outras. A madeira mais leve e mais porosa,
conduz menos calor e, conseqüentemente, a colméia é mais
quente no Inverno e mais fria no Verão.1 Cedar (cedro), bass-
wood (tília americana), poplar (álamo), tulip-tree (magnólia) e soft
pine (pinheiro macio) fornecem bons materiais para as colméias.
O apicultor deve ser orientado para escolher a madeira mais ba-
rata seja qual for o tipo que ele consiga em suas vizinhanças.
A maior desvantagem de todos os tipos de colméias de ma-
deira, é a facilidade com que conduzem o calor, tornando-as frias
e úmidas no Inverno e, se expostas ao sol, tão quentes no Verão
a ponto de seguidamente derreter os favos. As inconveniências
do Inverno são grandemente diminuídas se as colméias forem
bem pintadas e se não forem pintadas, elas não podem ser, nor-
malmente expostas ao sol ou ao clima sem grandes danos.2

eu forneci uma imagem de uma colméia tripla. O pouco que pode ser economiza-
do no custo inicial deste tipo de colméia parece-me ser mais do que é perdido pe-
lo maior inconveniente em manuseá-la.
1 O Mr. Wagner me informa que Scholz, um apicultor alemão, recomenda colméi-
as feitas de barro - nas quais podem ser usados quadros ou sarrafos - como as
de construção mais baratas e excelentes para o Verão e Inverno. Tais estruturas,
no entanto, não podem ser transportadas. Mas em muitos lugares do nosso país
onde tanto as madeireiras como as serrarias são escassas, e onde as pessoas es-
tão acostumadas a construir casas de barro, elas podem ser convenientes. O ma-
terial é argila plástica misturada com serragem, fibra descartada, etc.
2 A ventilação farta, sempre possível em minhas colméias, permite aos apicultores

dispensar a pintura, exceto nas uniões e telhados; se estiverem, durante o Verão,


cobertas com palha, presas com sarrafo de forma que o ar possa circular sob e-
las, elas podem ser colocadas seguramente ao sol, desde que não fiquem expos-
tas a um calor sufocante.
L. L. Langstroth 291
Para fazer os quadros móveis das colméias da melhor forma,
os quadros devem ser cortados com serra circular, movida a va-
por, água ou cavalo. Nas construções onde estas serras são usa-
das, os quadros podem ser feitos de pequenas peças de madeira,
seguidamente sem outro uso, exceto para o fogo, e podem ser
empacotadas quase como uma caixa firme, ou numa colméia que
depois servirá como padrão. Um quadro em tal caixa, apropria-
damente pregado, serve de guia para os demais. As outras partes
da colméia podem ser feitas facilmente e a baixo custo por qual-
quer um que manuseie ferramentas, mas não podem ser feitas
com lucro para serem enviadas, a menos onde a madeira for ba-
rata e as partes empacotadas para serem montadas quando che-
garem no destino.

Núcleo de Observação e Quadro Móvel

Cada favo destas colméias é preso a um quadro móvel e, co-


mo os dois lados podem ser inspecionados, toda a beleza da col-
méia pode ser exposta à luz do dia, bem como (pág. 23, 116) à
luz de lâmpadas ou gás.
No núcleo de observação comum, os experimentos são con-
duzidos somente cortando partes de favo; enquanto nestes, eles
podem ser realizados pela remoção do quadro; se a colônia ficar
reduzida em número, ela pode ser reforçada, em poucos minu-
tos, fornecendo-lhe cria madura de outra colméia.1
Estes núcleos de observação podem ser construídos para a-
comodar um enxame completo. Eu não recomendo, porém, uma
colméia destas para propósitos normais, mas uma contendo a-
penas um único quadro (Lâmina, IV., Fig. 14 e 15) que satisfaz a
curiosidade, permite um controle fácil e exige apenas algumas
abelhas que se retira de colméias mais produtivas.
Um núcleo de observação de sala com esta forma pode ser

1 Um escritor, descrevendo as diferentes colméias expostas na Feira Mundial de

Londres, lamenta que ainda não tenha sido divisado nenhum método para permi-
tir que as abelhas se amontoem no clima frio, num núcleo de observação, de for-
ma a preservá-las vivas no Inverno, mesmo no clima moderado da Inglaterra.
Com o uso dos quadros móveis esta dificuldade pode ser superada facilmente,
uma vez que com a aproximação do clima frio, os quadros com abelhas podem
ser colocados numa colméia adequada e retornar na Primavera à sua antiga mo-
rada.
292 A Colméia e a Abelha
convenientemente colocado em qualquer peça da casa - ficando o
alvado do lado de fora, e o arranjo total de tal forma que as abe-
lhas possam ser inspecionadas a qualquer hora do dia ou da noi-
te, sem o mínimo risco de ser ferroado. Duas colméias destas
podem ser colocadas em frente a uma janela, e montadas ou
desmontadas em poucos minutos, sem cortar ou estragar as pa-
redes da casa. Numa, a rainha pode sempre ser vista, e na outra,
acompanhar o processo de criação de rainha a partir do ovo da
operária. Estas colméias em miniatura podem ser povoadas da
mesma forma como é formado um núcleo, ou nelas alojando um
pequeno enxame secundário.
Um núcleo de observação se confirma uma fonte inesgotável
de prazer e instrução; e os que vivem em cidades congestiona-
das, gostarão muito dele, mesmo se condenados à pena do que o
poeta descreveu com tanto sentimento como uma "eterna refei-
ção de tijolo". As vivas asas destas ágeis coletoras os levarão ra-
pidamente para mais alto e além "das chaminés fumarentas"; e
elas trarão de volta para suas casas citadinas seu saque perfu-
mado de muitas flores rústicas, "sem enrubescer", com total a-
mabilidade. Seus agradáveis murmúrios podem despertar em al-
guns a memória de grandes alegrias esquecidas, quando as cri-
anças do país feliz ouviam sua música suave, enquanto olhando-
as atentamente no antigo jardim doméstico, ou vagueando com
elas entre os prados e montanhas, para apanhar as flores ainda
alegres na "brisa da doce campina" ou sussurrando o precioso
perfume da floresta doméstica!
"To me more dear, congenial to my heart,
One native charm than all the gloss of art;
Spontaneous joys, where nature has its play,
The soul adopts and owns their first-born sway;
Lightly they frolic o´er the vacant mind,
Unenvied, inmolested, inconfined.
But the long pomp, the midnight masquerade,
With all the freaks of wanton wealth array´d,
In these, ere triflers half their wish obtain,
The toilsome pleasure sickens into pain;
And e´en while fashion´s brightest arts decoy,
The heart distrusting asks, if this be joy."
Goldsmith

L. L. Langstroth 293
CAPÍTULO XXI

H
HIIB
BEER
RNNA
ANND
DOOA
ASS A
ABBE
ELLH
HAASS

Assim que o clima frio chega as abelhas se amontoam com-


pactamente em suas colméias para manter o calor. Elas nunca
ficam dormentes, como as vespas e os hornets (pág. 110), e um
termômetro colocado entre elas mostrará uma temperatura de
Verão, mesmo quando o ar estiver muitos graus abaixo de zero.
Quando o frio se torna intenso elas mantem um movimento trê-
mulo incessante, com a finalidade de gerar calor por exercícios
físicos; quando as da periferia do amontoado se resfriam elas são
substituídas por outras.
Como todo esforço muscular exige alimento para suprir a
energia consumida, quanto mais quietas se mantiverem as abe-
lhas menos elas precisarão comer. Por esta razão é muito conve-
niente preservá-las, tanto quanto possível, no Inverno, de cada
grau, seja de calor ou de frio, que exija delas exercídios.
O modo habitual de as manter durante todo o Inverno em
seu suporte de Verão é, nos climas frios, muito questionável.
Nestas partes do país, no entanto, onde o frio é muitas vezes tão
severo que as impede de voar, a intervalos freqüentes, de suas
colméias, talvez, considerando tudo, não exista melhor forma.
Em regiões favorecidas, as abelhas pouco se afastam de seu cli-
ma nativo e suas necessidades podem ser facilmente satisfeitas,
sem os efeitos nefastos que comumente resultam de as perturbar
quando o clima esteja tão frio a ponto de as confinar inteiramen-
te em suas colméias.
Se as colméias forem hibernadas a céu aberto, elas devem
ser mantidas populosas e bem supridas de reservas, mesmo que
para isto seja necessário reduzir o número de colônias para a
metade, ou menos.1 O apicultor que tiver dez colméias fortes na

1 As pequenas colônias consomem proporcionalmente mais alimento do que as

grandes, e seguidamente morrem pela incapacidade de gerar calor suficiente. As


colméias não devem, no entanto, serem mantidas super povoadas, pois o seu
L. L. Langstroth 295
Primavera, poderá, através de manejo criterioso com a colméia
de quadros móveis, terminar a estação com um apiário maior do
que aquele que começa com trinta, ou mais, colônias fracas.
Se duas ou mais colônias, que devem ser unidas no Outono,
não estiverem perto o suficiente, suas colméias podem ser gra-
dualmente aproximadas (pág. 280) e as abelhas podem então,
com os devidos cuidados (pág. 203), serem colocadas numa úni-
ca colméia.
Se os favos centrais da colméia não estiverem bem cheios de
mel, eles devem ser trocados por outros que estejam, assim que,
quando o frio compelir as abelhas a recuar dos favos externos,
elas poderão se amontoar entre suas reservas. Se o favo mais
cheio de mel não for de alvéolos de operária, deve ser desopercu-
lado e colocado na parte superior, de onde as abelhas podem
remover o mel e armazená-lo no centro da colméia. Nas regiões
onde as abelhas colhem pouco mel no Outono, estas precauções
de climas frios são especialmente necessárias, uma vez que, se-
guidamente, quando o desenvolvimento da cria terminar os seus
favos centrais estarão quase vazios.
Como as abelhas são nativas de clima quente, por instinto
elas não colocam o mel onde ele ficará mais acessível durante o
clima frio, mas simplesmente onde ele interferirá menos com o
desenvolvimento da cria. Como também não o fazem, se, en-
quanto o clima está quente, elas podem se comunicar facilmente
através dos favos da colméia, assim elas podem ficar dependen-
tes das passagens a serem feitas através deles, a fim de lhes
permitir passar prontamente, durante o clima frio, de um para o
outro lado.
O apicultor deve, no final do Outono, cortar com uma faca,
um buraco com diâmetro de uma polegada no centro de cada fa-
vo, a cerca de um terço do topo.1

grande calor interno pode gerar inquietação e causar disenteria por levar a um
consumo desordenado de alimento (pág. 256).
1 Se estes buracos forem feitos antes de elas sentirem necessidade deles, elas fre-

qüentemente os fecharão. O Mr. Wm. W. Cary (pág. 204) inventou um processo


para fazer estes buracos sem remover os favos. Ele fez um buraco na lateral da
colméia, o qual, quando não estiver em uso, é fechado com um tampão (Lâmina
V, Fig. 16), através deste ele rosqueia um instrumento com a forma de um amos-
trador de farinha ou manteiga (afiado na ponta), até ele alcançar o lado oposto da
colméia. Por este processo de abrir a passagem de Inverno, poucas abelhas são
machucadas. Como a rainha sempre foge do perigo, ela não corre risco de ser
machucada. Existe solicitação de uma patente, ainda pendente, para este dispo-
296 A Colméia e a Abelha
Grandes cuidados devem ser tomados para proteger as col-
méias dos ventos penetrantes que no Inverno tão eficazmente e-
xaurem o calor animal das abelhas; como a criatura humana, se
protegida do vento, elas resistem a baixa temperatura muito me-
lhor do que a uma corrente contínua de ar mais aquecido.1
Em algumas partes do oeste, onde as abelhas sofrem muito
com os ventos frios, as colméias são protegidas, no Inverno, por
feixes de palha, amarrados de modo a defendê-las tanto do frio
como da umidade. Com um pouco de engenhosidade os fazendei-
ros podem facilmente transformar as palhas descartáveis em al-
go valioso para proteger suas abelhas.
Se as colônias forem hibernadas a céu aberto, a entrada de
suas colméias deve ser grande o suficiente para permitir que as
abelhas voem à vontade. Muitas, com certeza, se perderão, mas a
maior parte destas está doente; e, mesmo que elas não estejam, é
melhor perder algumas abelhas saudáveis do que correr o risco
de perder, ou prejudicar enormemente, toda uma colônia pela
excitação criada pelo seu confinamento quando o clima está a-
meno o suficiente para animá-las a sair.2
Os melhores apicultores discordam ainda sobre a quantidade
de ar que deve ser dada às abelhas no Inverno e se as colméias
devem ter ventilação na parte superior ou não. Se as colméias
não tiverem ventilação na parte superior, penso que então elas
precisam tanto, ou até mesmo, mais ar do que no Verão. Se exis-
tir ventilação superior, quanto menor a abertura inferior melhor,
pois não se deseja uma forte corrente de ar passando através da

sitivo. Se a patente for concedida, o direito de seu uso estará livre para todos que
possuírem o direito de usar a colméia de quadro móvel.
Recomendo insistentemente a todos que utilizam a minha colméia de fazer a pas-
sagem de Inverno para suas abelhas. Como os quadros não tocam nem o topo,
nem o fundo, nem as laterais da colméia, as abelhas têm assim extraordinária fa-
cilidade de intercomunicação, assim elas não ficam dependentes de ser deixado
qualquer buraco em seus favos.
1 O Inverno de 1855-6 será lembrado por muito tempo, não só pela excepcional
temperatura e duração do frio, mas também pelos ventos extraordinários, que,
seguidamente por dias consecutivos, sopraram como um tornado polar sobre a
terra. Os apiários instalados em locais expostos foram, em muitas ocasiões, qua-
se destruídos.
2 Se o sol estiver quente e o solo coberto com alguma neve, a luz pode cegar tanto

as abelhas que elas cairão nesta neve fofa e morrerão imediatamente. Em tais o-
casiões será melhor confiná-las em suas colméias. Se a neve estiver dura o sufi-
ciente para sustentar a abelha saudável, seguidamente ela é perdida, a menos
que tente voar com o sol brilhando de sua colméia colocada em local abrigado.
L. L. Langstroth 297
colméia.
Em minhas colméias, todas as passagens inferiores podem
ser fechadas hermeticamente com facilidade, e as abelhas circu-
larão pela entrada de Inverno, que é feita no topo da colméia
(Lâmina I, Fig. 1; Lâmina V, Fig. 17).1
Se as colméias tiverem uma caixa superior, como na lâmina
III Fig. 9, os buracos no fundo devem ser deixados abertos, ou
fechados apenas com tela metálica, assim a umidade, que de ou-
tra forma condensaria ou congelaria nos favos e paredes internas
da colméia, pode sair sem prejudicar as abelhas.
Se um ninho superior, como na Lâmina V, Fig. 16, for colo-
cado sobre um em que as abelhas estão hibernando sua tampa
deve ser elevada levemente para permitir a saída da umidade. Se
for usado um ninho único, como na Lâmina I, Fig. 1, ou Lâmina
V, Fig. 17, a mesma abertura deve ser deixada para a saída da
umidade.2
Como os fatos observados são mais valiosos do que a teoria
relatarei a essência de numerosas observações feitas por mim em
Greenfield, Massachusetts, durante o Inverno de 1856-7, sobre a
hibernação de abelhas a céu aberto:
9 de Janeiro de 1857 - Examinei um grande número de col-
méias com passagens de Inverno em seus favos, e com os bura-
cos do fundo abertos. O mês anterior foi extremamente frio e, por
três dias antes da inspeção, o termômetro esteve durante a me-
tade do tempo abaixo de zero (-18°C), e apenas uma vez acima de
dez (-12°C), o vento soprava um quase contínuo gale3. Em ne-
nhuma destas colméias encontrei gelo ou umidade, ou alguma
abelha morta por ter ficado fora do amontoado de abelhas. Em
temperatura abaixo de zero, elas podiam subir de seus favos ao

1 A entrada inferior pode ser fechada no Outono enquanto as abelhas ainda estão

voando e elas prontamente se acostumarão com a superior. O Mr. Wheaton suge-


re que se faça esta entrada superior pela parte de trás da colméia e no Outono se
reverta a pilha, o suporte e tudo. Esta entrada é proposta meramente como tenta-
tiva.
2 Pequenos sarrafos de madeira, com a espessura de um oitavo de polegada

(3mm), podem ser colocados entre as laterais da colméia e a tampa e, quando a


tampa estiver firmemente presa, a umidade pode sair pela frente e pela traseira
da colméia, onde as aberturas estão protegidas pelas projeções da tampa, da ne-
ve e da chuva.
3 Segundo Michaelis – Galé: vento com velocidade de 25 a 75 milhas por hora (40

a 120km/h). N. T.
298 A Colméia e a Abelha
menor desconforto dentro de suas colméias, precipitando-se ra-
pidamente através das passagens de Inverno e mostrando sua
habilidade em alcançar qualquer de suas reservas.1 Em algumas
colônias, nas quais não existia ventilação superior, as paredes
interiores da colméia e muitos dos favos estavam cobertos de ge-
lo.
14 de janeiro - Examinei cuidadosamente três colméias. A
número 1, feita com madeira de espessura de sete oitavos de po-
legada (22mm), estava sem o fundo, como pode ser visto pela
remoção de (f) na Lâmina III, Fig. 9. Tinha uma boa família de
abelhas e, embora o termômetro estivesse pela manhã 10,5° a-
baixo de zero (-24°C), existia apenas algum vestígio de gelo na
colméia. As abelhas estavam secas e animadas e os favos cen-
trais continham ovos e cria aberta. A número 2 tinha uma famí-
lia igualmente forte, numa colméia fina contendo dezoito qua-
dros, dez dos quais (cinco de cada lado) não tinham favos. Esta
colméia não tinha ventilação superior e estava com muito gelo.
Os favos centrais tinham ovos e cria aberta. A número 3 estava
melhor protegida por parede dupla, com o vão interno cheio de
carvão, e todos os buracos do fundo estavam abertos. Ela tinha
pouco gelo, como a número 1, e os seus favos centrais conti-
nham ovos e alguma cria operculada. Embora ela tivesse uma
família de abelhas melhor do que as demais parecia que ela ti-
nha iniciado o desenvolvimento da cria apenas alguns dias an-
tes.
30 de janeiro - Os registros de mais de cinqüenta anos dizem
que este é o mês mais frio. Minhas colméias foram expostas a
temperaturas de 30° abaixo de zero (-34°C), e por quarenta e oito
horas soprou um forte gale, e o termômetro subiu apenas uma
vez para 6° abaixo de zero (-21°C). A número 1 foi examinada no-
vamente, as abelhas estavam em boas condições. O favo central
estava praticamente cheio de cria fechada, quase madura; todos
os favos estavam livres de mofo e o interior da colméia estava se-
co. Numa colméia tão bem protegida como a número 3, mas sem
ventilação superior, o vapor, ou respiração das abelhas, congelou
lá dentro e derreteu por degelo repentino, tanto os favos como as

1 Num dia frio de novembro encontrei abelhas numa das colméias sem passagem

de Inverno separadas do amontoado principal e tão frias que não tinham condi-
ções de se mover; enquanto, com o termômetro marcando temperatura ambiente
de vários graus abaixo de zero observei, repetidamente, em outras colméias, em
um dos buracos feito no favo um amontoado de diferentes tamanhos pronto para
correr ao menor desconforto de sua colméia.
L. L. Langstroth 299
abelhas em condição triste.
Enquanto o vapor permanece congelado ele prejudica as abe-
lhas tão somente por mantê-las longe de suas reservas das quais
elas precisavam; mas, assim que ocorre o degelo, as colméias
que não dispõem da ventilação superior correm risco de serem
perdidas.1
O Mr. E. T. Sturtevant, de East Cleveland, Ohio, sobejamente
reconhecido como um apicultor experiente, numa carta a mim
endereçada, assim relata sua experiência sobre a hibernação das
abelhas a céu aberto:
"Nenhum frio intenso dos que já tivemos neste clima, pode prejudi-
car as abelhas, se a sua respiração puder sair, se elas permanecerem
secas. Nunca perdi uma boa família que estivesse seca e tivesse mel em
abundância.
"No Inverno de 1855-6 eu tinha vinte famílias postadas numa linha,
todas, com exceção de uma, podiam ser consideradas em boas condi-
ções para a hibernação - não muito herméticas em baixo nem muito a-
bertas em cima. Uma se encontrava numa colméia suspensa vinte pole-
gadas (50cm) acima do solo; e sem qualquer fundo. A câmara para mel
em favo estava aberta para o norte; tinha oito buracos de uma polegada
(2,5cm), todos abertos.
"Saí de casa em 12 de fevereiro, estando o clima muito frio, todas as
colméias estavam soterradas pela neve fofa. Ao retornar no final do mês,
examinei toda a fila e encontrei dezenove delas degeladas, mas lamenta-
velmente molhadas e em estado miserável. Se eu pudesse recolhê-las
para um recinto, longe do alcance do gelo, até elas ficarem secas elas
poderiam ser salvas. Antes da manhã seguinte o clima mudou para um
frio glacial, e todos os dezenove enxames morreram em seguida; en-
quanto aquele que parecia tão abandonado, sobreviveu forte e saudável.
Antes de adotar a ventilação superior eu perdia meus melhores enxames
desta forma, a ponto de ficar desanimado."
Nas regiões mais frias do nosso país, se a ventilação superior
for omitida, nenhuma proteção que possa ser dada para as abe-
lhas, a céu aberto, evitará que elas fiquem molhadas e mofadas,

1 Em março de 1856, perdi algumas de minhas melhores colônias nas seguintes

circunstâncias: O Inverno esteve intensamente frio e as colméias não tendo venti-


lação superior ficaram cheias de gelo, em algumas ocasiões o gelo nas suas late-
rais de vidro tinha quase um quarto de polegada (6mm) de espessura. Alguns di-
as de clima ameno, nos quais o gelo começou a derreter, foram seguidos de tem-
peratura abaixo de zero, acompanhado de vento furioso, em muitas das colméias
as abelhas, que ainda estavam molhadas do degelo, foram congeladas juntas nu-
ma massa quase sólida.
300 A Colméia e a Abelha
mesmo que o gelo seja eliminado. Normalmente, quanto mais elas
forem protegidas, maior será o risco de umidade. Uma colméia
muito fina não pintada, para assim conseguir absorver pronta-
mente o calor do sol, ficará com o interior seco muito mais pron-
tamente do que uma pintada de branco, e sempre melhor prote-
gida contra o frio. A primeira, como um sótão, sofrerá com a u-
midade apenas por pouco tempo; enquanto a outra, como um
porão, estará secando durante tanto tempo que prejudicará, se
não destruir, as abelhas.
Muito tem sido dito na Alemanha, nos últimos anos, do peri-
go de as abelhas que dispõe de ventilação superior, morrerem no
Inverno por falta de água. O Mr. Wagner me forneceu uma tra-
dução de um interessante artigo do Bienenzeitung, de Von Ber-
lepsch e G. Eberhardt, cuja essência é o que segue:
"O Criador dotou a abelha de um instinto para armazenar mel e pó-
len, os quais nem sempre estão disponíveis, mas não a água, que está
sempre acessível em suas regiões nativas. Nas latitudes do norte, quan-
do confinadas em sua colméia, seguidamente por meses a fio, elas con-
seguem água de que precisam apenas das partículas de água existentes
no mel, da umidade de sua respiração que condensa nas partes mais
frias da colméia, ou da umidade do ar que entra na colméia.
"A energia vital da abelha está em seu ponto mínimo em novembro
e dezembro. Se nesta época um frio anormal não forçar as abelhas a e-
xercitarem seus músculos, elas permanecem quase imóveis, reinando
na colméia um silêncio quase mortal; nós sabemos, por experimentos
reais, que é consumido menos alimento do que em qualquer outro tem-
po. Tendo parado o desenvolvimento da cria, as abelhas estando retidas
pelo mau tempo não há necessidade de exercícios, e nunca tomamos
conhecimento de elas padecerem por falta de água neste período. Assim
que, porém, a rainha começar a botar ovos, o que ocorre em muitas co-
lônias no início de janeiro, em outras pelo Natal, as operárias devem
comer mais livremente tanto mel como pólen a fim de produzir geléia
para as larvas e cera para o fechamento dos alvéolos. Muito mais água é
necessária para estes propósitos do que quando elas coletam néctar
fresco das flores; a necessidade por água começa a ser sentida por volta
do meio de janeiro. Um sinal inquestionável da falta de água na colônia
são os grânulos de mel cristalizado depositados no fundo da colméia. As
necessitadas abelhas abriremo alvéolo após alvéolo com mel para conse-
guir o que permanece não cristalizado e, quando este suprimento de á-
gua falhar, elas atacam as larvas não operculadas e devoram os ovos, se
algum já tiver sido depositado. Elas agora caem em desespero, se dis-
persam pela colméia, se o frio não impedir, como fazem se estiverem
sem rainha, e morrem entre as reservas de mel, a menos que o clima
mais ameno lhes permita sair em busca de água, ou o apicultor a forne-
cer na colméia, quando então a ordem novamente se restabelece.
L. L. Langstroth 301
"Depois de um prolongado e severo Inverno, de cada seis abelhas
que morrem, cinco morrem por falta de água, e não, como até hoje ad-
mitido, pela penosa retenção das fezes. A disenteria é uma das conse-
qüências diretas da falta de água, as abelhas, por causa da necessidade
terrível de água, consomem mel de forma excessiva e ficam febris por
circularem entre os favos.
"Em 11 de fevereiro, examinamos um certo número de colônias em
cujos fundos foram encontradas partículas de mel cristalizado, verifica-
mos que em todas elas, o mel operculado tinha sido aberto em vários
pontos e que o desenvolvimento da cria tinha parado totalmente. As co-
lônias às quais fornecemos água por termos descoberto que elas preci-
savam, continham cria saudável em todos os estágios de desenvolvimen-
to.
"Em março e abril o aumento rápido da quantidade de cria provo-
cou um aumento na demanda por água; quando o termômetro ficou tão
baixo quanto 45° (7°C), foi possível ver as abelhas carregando-a ao meio
dia, mesmo em dias ventosos, ainda que muitas estivessem certas de
morrerem de frio. Nestes meses, em 1856, durante um período prolon-
gado de clima desfavorável fornecemos água para todas as nossas abe-
lhas e elas permaneceram tranqüilas na colméia enquanto as dos outros
apiários estavam voando ativas em busca de água. No início de maio
nossas colméias estavam congestionadas de abelhas; enquanto as colô-
nias de nossos vizinhos estavam em grande parte fracas.
"O consumo de água em março e abril numa colônia populosa é
muito grande e, em 1856, cem famílias necessitavam de onze quartos de
Berlin por semana para manter o desenvolvimento da cria ininterrupto.
Na Primavera, quando as abelhas podem voar com segurança quase to-
dos os dias, a necessidade por água não é sentida.
"A perda de abelhas por falta de água é conseqüência do clima e
nenhum tipo de colméia, ou forma de hibernação, pode prover seguran-
ça absolutamente eficiente contra ela. As colônias podem ser colocadas
em longos pátios de colméias de tronco, ou em cavaletes altos, em mon-
touros sem forma, em colméias limpas de palha, ou em colméias de Dzi-
erzon bem revestidas; em madeira, ou palha, ou moradias de barro. Po-
dem habitar buracos de árvores, ou fendas em rochas; elas podem per-
manecer não protegidas em seus suportes de Verão; serem protegidas
por coberturas de pinho ou paliçadas; ou serem mantidas em câmaras
escuras ou cavernas - ainda assim pode ocorrer a falta de água, aqui e
ali, mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos prejuízo; por ser con-
trário ao instinto natural da abelha morando em climas do norte ficar con-
finada em sua moradia por meses.
"Se a água for regularmente fornecida para as abelhas, desde meta-
de de janeiro até que a Primavera apareça (a não ser que o clima permi-
ta que elas voem com segurança), elas nada sofrerão. Esta água pode
ser colocada numa esponja no alimentador, diretamente sobre as abe-

302 A Colméia e a Abelha


lhas e protegida por uma almofada de musgo. Cem ou mais colônias po-
dem assim, sem perturbação, serem supridas rapidamente."
Que as abelhas não conseguem desenvolver cria sem água, é
conhecido desde o tempo de Aristóteles. Buera, de Atenas (Cot-
ton, pág. 104), com 80 anos de idade, disse em 1797: "As abe-
lhas suprem diariamente as larvas com água; se as condições
climáticas forem tais que impeçam as abelhas de buscarem água
por alguns dias, as larvas poderão morrer. Estas abelhas mortas
são removidas da colméia pelas operárias, se estas estiverem
saudáveis e fortes. Caso contrário a família morre por causa das
emanações pútridas." Repetidamente tenho tomado conhecimen-
to de colônias que sofreram severas perdas, por falta de água; em
minhas correspondências com apicultores, no último Inverno
(1858-9),1 tenho chamado sua atenção para este ponto, e tenho
visto minha consideração sobre o valor da água para as abelhas
no Inverno ter ter contribuído muito. Mas ainda não consegui e-
vidência satisfatória que alguma colônia, cujo mel não tenha cris-
talizado tenha morrido por falta de água.
O Barão Von Berlepsch diz, que "a morte por esta causa o-
corre mais raramente em regiões onde exista forragem para as
abelhas no final do Outono do que naquelas, como a sua própria,
onde ocasionalmente não existe pastagem apícola em julho e,
normalmente, no início de agosto. Em tais regiões o mel se torna
muito espesso no Inverno e, algumas vezes, totalmente cristali-
zado2 antes da Primavera". Somos afortunados pois nas partes
mais frias de nosso país a última forragem é normalmente abun-
dante.
Berlepsch e Eberhardt não só condenam a ventilação na par-
te superior, por privar as abelhas da umidade de que elas preci-
sam, mas insistem que ela é, seguidamente, a ruína da família

1 Particularmente tenho dívida com o Mr. William W. Cary, Mr Richard Colvin,

Rev. J. C. Bodwell, Mr. E. T. Sturtevant e Rev. Levi Wheaton, pelas observações


cuidadosas feitas - durante o último Inverno, por sugestão minha - sobre a hi-
bernação das abelhas.
2 Madame Vicat, em algumas observações sobre abelhas, publicadas em 1764 -
ver Wildman, pág. 231 - fala de conclusões, "em 24 de março, quando o clima es-
tava tão frio que as abelhas de suas outras colméias não voavam, havia muito
mel cristalizado no fundo da colméia, e abelhas que pareciam estar morrendo.
Um ruído singular era produzido na colméia, a intervalos, e nestas ocasiões inú-
meras abelhas caiam nobre o mel cristalizado e morriam. As abelhas não tendo
condições de engolir o mel cristalizado o retiravam dos favos pegando-o como se
pudessem engolir."
L. L. Langstroth 303
por causar um excesso de umidade entre as abelhas, embora e-
las estejam realmente com falta de água. Dzierzon pensa que es-
tes atentos observadores cometeram aqui um grande erro; até
onde meus limites permitem, posso mostrar que suas objeções à
ventilação na parte superior não concordam com os fatos, como
observado neste país. Muito longe de ser verdade "que a colméia
em que ocorre uma perceptível condensação de umidade precisa
de água, e aquela em que não ocorre não precisa" - a umidade
seguidamente condensa umedecendo favos e abelhas,1 mostran-
do claramente que existe um excesso de água em vez de deficiên-
cia. Os seguintes fatos, que me foram fornecidos pelo Rev. J., C.,
Bodwell, de Framingham, Massachusetts, são altamente signifi-
cativos para o assunto. Suas colônias foram hibernadas num po-
rão muito seco:
"Por volta do início do ano (1859) abri minha colméia de vidro de
um único quadro, e encontrei uma colméia repleta de abelhas e aparen-
temente saudáve, mas sem ovos nem cria.
"2 de fevereiro - Examinei a mesma colméia e encontrei cria fechada
e aberta mas nada de ovos. Uma parte considerável da cria tinha morri-
do, provavelmente por falta de água.
"Ao abrir outra colméia não tão repleta de abelhas encontrei o
mesmo quadro, com exceção que menos cria tinha morrido. Favos secos
em ambas e muitos alvéolos de mel abertos. Forneci água para todas e-
las para sua evidente alegria e fechei a colméia de vidro no topo, para
verificar a umidade, deixando as demais com ventilação na parte supe-
rior.
"5 de fevereiro - Examinei ambas as colméias. Nenhum ovo na col-
méia de vidro. As abelhas estavam ocupadas retirando cria morta. Na
outra, ovos em quantidade moderada. Poucas larvas em ambas.
"11 de fevereiro - Abri a colméia de vidro e encontrei os alvéolos o-
cupados em sua maioria com cria morta, abundância de ovos e larvas
recém eclodidas. Descobri uma abertura entre a colméia e a tampa que
possibilitava ventilação para cima e fechei-a.
"1° de março - Fiz uma verificação cuidadosa de ambas as colméias.
Ovos, larvas e cria fechada em ambas. A colméia de vidro muito úmida,
água depositada no topo dos quadros e, pelo menos, um gill2 no fundo;
favos mofados e aspecto geral de desconforto. A outra, quase seca, tanto

1Em clima muito frio, gelo e umidade podem superabundar na colméia, mas eles
podem estar tão longe do amontoado a ponto de as abelhas não conseguirem al-
cançá-los, até mesmo quando estão morrendo por falta de água.
2 Segundo Michaelis – Gill: medida para líquidos (0,l42L). N. T.
304 A Colméia e a Abelha
a colméia quanto os favos. Examinei outras duas colméias de vidro com
ventilação na parte superior encontrei-as secas. Todas foram tratadas
precisamente da mesma forma, exceto que a colméia fechada em cima
tinha menos água, pois as abelhas pareciam não querê-la - por não ma-
nifestarem nenhum prazer ao recebê-la. Esta colméia não continha tan-
tos ovos como as demais, apesar da família maior, e parecia em condi-
ções gerais menos saudável."
Em todas as minhas colméias que tem tampa, as abelhas
podem ser supridas facilmente com água, nestas que não tem, a
água deve ser injetada por um canudo pela entrada de Inverno,
ou derramada pelo telhado através de um pequeno buraco, fe-
chado com um tarugo, tomando-se o cuidado de não dar em de-
masia.1
Se as colônias estão populosas e bem supridas, tem ventila-
ção superior, fácil comunicação entre os favos e água quando ne-
cessária - a entrada da colméia protegida dos ventos penetrantes,
elas têm todas as condições necessárias para hibernar com su-
cesso a céu aberto.
A colônia de abelhas sofre muito se for perturbada quando o
clima está tão frio que elas não conseguem voar. Muitas que ten-
tam deixar o amontoado, morrem antes de conseguirem retornar
a ele, e toda perturbação, por incitá-las a atividade desnecessá-
ria, provoca aumento no consumo de alimento. Cerca de uma vez
a cada seis meses, porém, recomenda-se limpar o fundo das
colméias hibernadas a céu aberto das abelhas mortas e outros
detritos. Onde são utilizados fundos permanentes, isto pode ser
feito com um raspador (Lâmina XI, Fig. 30), fabricado de uma
peça de ferro redondo, com cerca de dois pés (60cm) de compri-
mento; este, quando aquecido, é dobrado em quatro polegadas

1O Mr. Wheaton encontrou que elas podem ser supridas facilmente com água de
uma esponja colocada sobre o buraco e coberta com um tumbler: "Se a água for
adoçada elas sempre secarão a esponja; se não, elas darão pouca atenção a ela, a
menos que impedidas de saírem em vôo."
O Mr. Wagner sugere que uma peça de cerâmica, presa em baixo do fundo, fará a
água condensar sobre ela, onde as abelhas podem conseguí-la facilmente. O Mr.
Cary, por sugestão minha, colocou uma placa de vidro sobre os quadros direta-
mente sobre as abelhas e a água condensou sobre ela parecendo atender todas
as suas necessidades. Ela pode ser elevada de forma que as abelhas possam pas-
sar sob ela. Pode-se ver que com alguns dispositivos simples podemos, sem gran-
des supervisões, suprir toda a água que uma colônia forte necessita no clima
mais frio antes de o desenvolvimento da cria ter começado ativamente. Existe
pouca dúvida que esta providência pode atender as abelhas que não hibernam a
céu aberto.
L. L. Langstroth 305
(10cm), e achatado na largura de um quarto de polegada (6mm),
com ambas as bordas afiadas.1
As abelhas muito raramente se desfazem de suas fezes na
colméia, a menos que estejam doentes ou muito perturbadas. Se
o Inverno for excepcionalmente severo e elas não tiveram opor-
tunidade para voar, seus abdomens, antes da Primavera, ficam
seguidamente muito distendidos e elas ficam muito sujeitas a se
perderem na neve se o clima, durante seu primeiro vôo, não for
favorável. Depois de terem se desfeito de suas fezes elas não se
aventuram de suas colméias com clima impróprio caso estejam
bem supridas de água.
Tendo informado as necessárias precauções a serem toma-
das para hibernar as abelhas a céu aberto, serão descritos os
métodos para defendê-las das mudanças atmosféricas colocan-
do-as em depósitos especiais.
Em algumas partes da Europa, é costume hibernar todas as
colméias de uma vila numa adega ou porão comum. Diz Dzier-
zon:
"Um porão seco é muito propício para hibernar abelhas, ainda que
ele não seja totalmente seguro contra o gelo; a temperatura será muito
mais amena e mais uniforme do que a céu aberto; as abelhas estarão
mais seguras contra perturbações e estarão protegidas dos penetrantes
ventos frios, que causam mais prejuízo do que o frio intenso quando o
ar está calmo.
"A experiência universal ensina que quanto mais efetivamente as
abelhas estiverem protegidas de perturbações e das variações da tempe-
ratura melhor elas passarão o Inverno, menos elas consumirão suas re-
servas e mais vigorosas e numerosas serão na Primavera. Eu construí
um depósito especial para as minhas abelhas perto do meu apiário. É
protegido do clima tanto externa como internamente e o espaço inter-
mediário está cheio com feno ou casca de tanino, etc.; o piso interno é
cavado até a profundidade de três a quatro pés (90 a 120cm), para ga-
rantir uma temperatura mais moderada e constante. Quando minhas
abelhas são colocadas neste depósito e a porta é fechada, a escuridão,
temperatura uniforme e o repouso total usufruído pelas abelhas permite
que elas passem o Inverno com segurança. Normalmente coloco ali mi-
nhas colônias mais fracas e estas cujas colméias não foram feitas de

1 Se na parte de trás da colméia for feito um buraco para ventilação (Lâmina V,

Fig. 16), todo detrito pode ser soprado com um par de foles. Deve ser usada mui-
to pouca fumaça antes de limpar o fundo. Palladius, bem sucedido a cerca de
dois mil anos atrás, diz que as abelhas não devem ser perturbadas no Inverno, a
não ser para limpar suas colméias das abelhas mortas, etc.
306 A Colméia e a Abelha
materiais mais quentes, elas sempre passam bem. Se esta estrutura for
parcialmente subterrânea, deve ser escolhido um local realmente seco
para construí-la."
O Mr Quinby, que foi provavelmente o maior apicultor dos
Estados Unidos, hibernou suas abelhas durante muitos anos
com grande sucesso, num recinto especialmente adaptado para
este fim. Para se livrar da umidade, ele inverte as colméias co-
muns, e remove a tábua que cobre os quadros.
O Mr. Wagner me forneceu a seguinte tradução de um artigo
muito interessante do Bienenzeitung. O autor, o Rev. Mr. Scholtz,
da Baixa Silésia, é sobejamente conhecido na Alemanha por sua
habilidade em apicultura:
"De longa data os fazendeiros tem o hábito de colocar maçãs, toma-
tes, nabos, etc, em covas, para preservá-los durante o Inverno. Eles são
empilhadas na forma piramidal, sobre um leito de palha, que cobrem
com seis a oito polegadas (15 a 20cm) de espessura com o mesmo mate-
rial, igualmente espalhado como um telhado. E o todo é coberto, com a
forma cônica, com uma camada de terra com doze polegadas (30cm) de
espessura, retirada de valas que são feitas ao redor da cova. O acaba-
mento apropriado é feito batendo esta terra fofa e alisando com as cos-
tas da pá. Este modo de preservação, quando bem executado, mantem
as frutas, tubérculos, raízes, etc., em melhores condições durante o cli-
ma frio, do que seria possível conseguir em porões e cavernas.
"Estes fatos me sugeriram proteger as abelhas durante o Inverno de
forma semelhante. É evidente, no entanto, que uma cova para abelhas
exigiria várias modificações, para garantir ventilação adequada, para e-
vitar o aumento excessivo da temperatura, e minimizar a acumulação de
umidade; também um arranjo para averiguar e regular efetivamente a
temperatura. Tudo isto, também, sem perturbar seriamente as abelhas
depois que as colméias fossem depositadas nas covas.
"Para atingir estes objetivos deverá ser marcada uma área circular,
suficientemente grande para o propósito desejado, na parte mais seca e
elevada da propriedade ou outro local apropriado. A camada de solo
contendo matéria vegetal sujeita a decomposição é, então, removida e na
parte central do local, será cavado um fosso com três pés quadrados
(1m2) e três pés de profundidade (1m) (ver Fig. 66), espalhando em volta
a terra removida da cova e alisando e socando-a. Este fosso é projetado
para servir como uma câmara de ar, como será minuciosamente expli-
cado em seguida.
"Tendo preparado apropriadamente a área, serão cavadas quatro
canaletas com uma polegada e meia (4cm) de largura e profundidade;
cada uma se estendendo a partir do meio de cada um dos quatro lados
da cova, até a lateral da periferia do área (Lâmina XXI, Fig. 66). Em cada

L. L. Langstroth 307
uma destas canaletas será colocado um cano de chumbo com uma po-
legada (2,5cm) de diâmetro, a fim de formar uma comunicação entre a
cova e o ar exterior da cova quando terminada (Lâmina XXI, Fig. 66).
Quando estes tubos forem cobertos com terra e o terreno novamente ni-
velado, deverá ser colocado um estreito sarrafo de madeira para marcar
a posição dos tubos, uma vez que eles não podem ser machucados nas
operações subseqüentes.
"A área, incluindo a câmara de ar, será agora coberta com caibros
de quatro polegadas, colocados radialmente a partir do centro, tão pró-
ximo quanto possível em distâncias regulares, para servir como plata-
forma na qual a camada mais inferior de colméias será colocada. Os
caibros devem ser cortados em comprimentos diferentes e colocados
ponta contra ponta, afastados de quatro polegadas (10cm), a fim de dei-
xar interstícios para a circulação livre do ar, e quando necessário, uma
vez que o espaço se alarga com a circunferência, peças adicionais serão
colocadas, para que as colméias fiquem firmes e niveladas. As colméias
serão colocadas em camadas sobre esta plataforma, assim que o con-
junto, quando completo, terá a forma de uma pirâmide. Assim, a cama-
da mais inferior consiste de quatro filas com quatro colméias; a segunda
de três filas com três colméias; e a terceira, duas filas com duas colméi-
as cada uma. A quarta, ou o ápice, no entanto, deve ser formado de du-
as colméias, em vez de uma, por razões que a seguir aparecerão (Lâmina
XXI, Fig. 68). O todo formará assim uma pirâmide de quatro lados, con-
sistindo de trinta e uma colméiaos, que, se forem utilizadas as colméias
duplas de Dzierzon, conterá sessenta e duas colônias, num espaço rela-
tivamente pequeno. A estrutura oblonga (Lâmina XXI, Fig. 70), é cons-
truída com princípios semelhantes, com a necessária variação na forma.
"Estas colméias, que são colocadas na plataforma diretamente so-
bre a cova, ou câmara de ar, devem ser mantdas afastadas de seis pole-
gadas (15cm), assim será formado um funil contínuo ou passagem dire-
ta de ar no centro da câmara de ar para o ápice da pilha; e nas frentes
opostas das duas colméias superiores será instalada uma espécie de
chaminé (ver pág. 351), feita com quatro peças de madeira, com oito po-
legadas (20cm) de largura e trinta polegadas (75cm) de comprimento,
tendo uma cobertura móvel com inclinação adequada para evitar a en-
trada da chuva. Serão feitos buracos nas laterais da chaminé, abaixo da
cobertura, para permitir a saída do ar do interior da pilha. As demais
colméias podem ser colocadas próximas, sempre será vantajoso que elas
não se toquem umas às outras para não obstruir a circulação do ar no
interior, pois é necessário que o apicultor tenha condições de regular a
temperatura interna uniformemente. Não é requisito um arranjo das
colméias com grande exatidão. É essencial somente que elas fiquem fir-
mes e niveladas para formar uma pirâmide regular. Deve ser tomado
cuidado de não começar colocando as colméias muito próximas da peri-
feria da área; pois, entre a borda externa da camada inferior de colméi-
as, e a boca exterior dos tubos de ventilação deve ser reservado espaço
suficiente para a cobertura externa, ou capa da pilha (Lâmina XXI, Fig.
308 A Colméia e a Abelha
69).
"Quando as colméias tiverem sido arranjadas da forma descrita, e a
chaminé tiver sido colocada entre as duas superiores, a chaminé se co-
municando com a câmara de ar, elas serão cobertas com tábuas corta-
das em comprimento adequado e colocadas inclinadas lado a lado em
volta dos lados da pirâmide. Sobre e contra estas taboas será depositada
uma grossa camada de galhos ou palha velha e seca, formando uma co-
bertura regular e densa, desde a base até o ápice. Esta cobertura será,
por sua vez, coberta com uma camada de terra, com cinco a seis pole-
gadas (12 a 15cm) de espessura, espalhada tão uniformemente quanto
possível, começando em baixo e prosseguindo para cima até a chaminé,
assim que esta, já estando firme no lugar pelas taboas, palhas e galhos
é agora coberta com terra, cinco a seis polegadas (12 a 15cm) no topo. A
terra para cobrir é retirada diretamente da base da pilha, em volta da
qual uma canaleta com seis polegadas (15cm) de profundidade, e oito
polegadas (20cm) de largura é agora cavada para expor as bocas dos tu-
bos de ventilação na borda superior do lado interno da canaleta. Ao ca-
var a canaleta, cuidar para não fechar ou machucar as bocas dos tubos,
os quais devem, além disso, receber uma tampa perfurada para impedir
a passagem dos ratos ou outros animais, e ainda permitir a passagem
livre do ar. A canaleta servirá para receber e escoar a água da chuva ou
da neve durante o Inverno; para torná-la mais perfeita, várias sarjetas
ou sulcos devem ser feitos a partir dela. Se não for conseguida terra su-
ficiente da canaleta para cobrir completamente a palha ou galhos, com
pelo menos cinco polegadas (12cm) de espessura, a falta deve ser supri-
da de outras fontes. A cobertura de terra deve ser alisada e nivelada
com as costas da pá.
"Neste estado a pilha pode ser mantida até ocorrerem geadas fortes
quando uma camada adicional de folhas ou galhos de pinus deve ser co-
locada. Esta deve ter cinco ou seis polegadas (12 ou 15cm) de espessura
e aplicada tão lisa quando possível, desde a base até o ápice, deixando
expostos apenas quatro polegadas (10cm) da chaminé. Este material de-
ve ser aplicado úmido, pois assim ele compactará mais firmemente e
depois confinará melhor o calor. Quando terminado, ele deve ser bem
borrifado com água e deixado congelar. Assim se forma uma estrutura
bem compacta (Fig. 69 e 70). As bocas dos tubos de ventilação devem
em seguida serem protegidas colocando um pedaço de madeira na frente
de cada um; e as canaletas são então enchidas com palha jogada.
"Todo este trabalho deve ser realizado com cuidado, para perturbar
o mínimo possível as abelhas. A cobertura de folhas ou galhos de pinus
deve ser aplicada logo depois que o clima frio se instalou, pode ser adia-
do até depois que as primeiras neves tenham caído e derretido e o clima
mais severo de dezembro ou janeiro indique a necessidade de proteção
adicional.
"Se um apicultor extensivo concluir ser necessário um monte de
maiores dimensões, duas ou três covas, ou câmaras de ar, com seus tu-
L. L. Langstroth 309
bos de ventilação e chaminés pertinentes podem ser usados (Lâmina
XXI, Fig. 70).
"Em dias claros e amenos a taboa de proteção das bocas dos tubos
de ventilação pode ser removida, assim o ar fresco pode entrar livremen-
te na pilha, e carregar qualquer umidade que possa ter se formado no
seu interior; como todo o interior está em comunicação direta com a
câmara de ar, uma atmosfera seca e saudável se difundirá rapidamente
pelo interior, graças à tiragem da chaminé. Por volta do final do dia as
taboas de proteção devem ser recolocadas. Com o retorno do clima a-
meno, ou término das severas e prolongadas geadas, as bocas dos tubos
de ventilação devem ser descobertas e deixadas abertas, dia e noite, pa-
ra evitar o desenvolvimento indesejável de calor no interior; mas com
clima claro, não deixar que os raios de sol incidam diretamente nas bo-
cas dos tubos. Se os buracos nas laterais da chaminé ficarem fechados
pela neve, a obstrução deve ser removida, com um rastel ou outro equi-
pamento conveniente. Quando o exterior da pilha estiver coberto de ne-
ve, a boca de um dos tubos de ventilação deve ser mantido aberto,
mesmo com clima frio, e todos eles quando o clima ficar moderado, pois
a cobertura de neve provoca um grande aquecimento interno.
"Para verificar a temperatura interna, um termômetro preso a um
longo cordão pode ser introduzido na câmara de ar através da chaminé,
depois de removida sua cobertura. Isto pode ser feito freqüentemente a
fim de servir como orientação para abrir ou fechar as bocas de ventila-
ção dos tubos. A ventilação parece, no entanto, de acordo com os nume-
rosos experimentos que fiz, contribuir menos para a saúde das abelhas
do que manter os favos e interior das colméias livres da umidade e do
mofo; e foi graças a este fato que eu adotei um arranjo particular para
as minhas pilhas instaladas no apiário, quase sempre, para conseguir
uma circulação adequada de ar puro e seco dentro delas.
Além de estas estruturas serem mais baratas elas são muito supe-
riores, para o propósito desejado, do que as melhores pilhas ou porões
acessíveis. Esta forma de hibernar as abelhas pode ser criticada por não
permitir que as colméias sejam inspecionadas durante o Inverno, no en-
tanto parece que estas inspeções são apenas desejáveis. Isto é verdade;
mas, ao projetar minhas pilhas realmente não tinha qualquer referência
sobre como os apicultores normalmente manejavam suas colônias du-
rante o Inverno. Tais casos, de fato, me parecem ser antes, no mínimo,
um desespero, uma vez que as colônias tratadas durante a estação, ra-
ramente conseguirão fazer o seu dono encontrar o apiário pouco digno
do nome. Eu prefiro deixar que minhas abelhas permaneçam não per-
turbadas durante o clima frio, crente que, se elas se encontravam em
boas condições no final do Outono, passarão o Inverno sem sofrerem e
estarão com reserva adequada de mel até mesmo em abril. Disto estou
mais certo, pois verifiquei que as abelhas conservadas nas pilhas rara-
mente consomem a metade da quantidade de mel exigido por aquelas de
hibernam a céu aberto, ou no apiário.

310 A Colméia e a Abelha


"Para estabelecer uma comparação entre os diferentes modos de hi-
bernação das abelhas, eu coloquei uma parte de minhas colônias numa
pilha conforme a construção acima indicada, em 17 de novembro de
1856, e transferi as restantes para uma câmara escura bem protegida
na minha residência. Fechei a entrada de algumas das últimas, mas
lhes deixei ventilação através de uma grade ou passagem de ventilação
na traseira de suas colméias. Das restantes, as entradas bem como as
passagens de ventilação foram fechadas. Muitas das que foram coloca-
das nas pilhas foram propositadamente escolhidas por terem apenas oi-
to a dez libras (4 a 5kg) de mel cada uma, pois eu queria verificar se po-
deriam sobreviver com tão pouca reserva de alimento. Coloquei, tam-
bém, um enxame secundário tardio que tinha construído apenas poucos
favos e que não continha mais do que quatro a cinco libras (2 a 2,5kg)
de mel. Todas as demais tinham reservas amplas. Fechei a entrada e
passagem de ventilação de uma colônia forte e coloquei algumas peças
de favo vazio no fundo da colméia para testar se, caso a umidade fosse
gerada por causa da falta de ventilação, formaria mofo nestes favos.
De 18 a 23 de novembro, o clima esteve ameno, e os tubos de venti-
lação, porisso, foram todos mantidos abertos dia e noite. No dia 24 a pi-
lha ficou coberta com neve, e eu fechei três dos tubos de ventilação. No
dia 26 começou o degelo e o clima continuou muito moderado até o final
do mês, o termômetro ficando em 33° (0°C) externo à pilha. Dois dos tu-
bos foram mantidos abertos. De 1° a 3 de dezembro, caiu dez polegadas
(25cm) de neve, com o termômetro oscilando entre 20 e 22° (-6 e -7°C);
mantive apenas um tubo aberto. No dia 6 o clima amenizou; de 7 a 12 o
termômetro ficou entre 54 a 66° (12 e 19°C), novamente abri todos os
tubos e assim mantive até o final do mês, e até 5 de janeiro. No dia 6 o
clima ficou frio e congelante, eu adicionei uma manta externa, ou cober-
tura de folhas e galhos de pinheiro, fechando todos os tubos. O tempo
frio continuou até 17 de janeiro. A partir de 18 até o fim do mês tivemos
continuamente tempo bom, clima ameno, abri todos os tubos de ventila-
ção. Em fevereiro o clima esteve particularmente ameno e bom e, de 18
a 21, o termômetro oscilou entre 76 e 78° (24 e 25°C). As abelhas dos
meus vizinhos, que foram hibernadas a céu aberto, estavam, agora vo-
ando vivamente todos os dias e muitas das colônias da minha câmara
estavam tão quietas que eu fiquei compelido a removê-las do recinto de
hibernação. Pensei assim com um pouco de relutância, pois tínhamos
uma indicação de Primavera mais cedo. O tempo bom continuava, eu
considerei errado manter as colônias confinadas por mais tempo nas pi-
lhas, e abri em 27 de fevereiro abri a pilha para as retirar as colméias.
"Assim que a pilha foi exposta aos raios do sol do meio dia, o ter-
mômetro indicava variação diária entre 76 e 78° (24 e 25°C) durante al-
gum tempo, ainda, ao remover a manta externa encontrei a terra sob a
manta ainda congelada, assim que ela teve de ser removida com cava-
deira - uma prova satisfatória de que o interior da pilha não foi afetado
pelas variações externas da temperatura. Fiquei extremamente ansioso
para ver se a água da chuva ou da neve tinha penetrado a cobertura de
L. L. Langstroth 311
palha, o que suspeitava ter acontecido, uma vez que não tinha experiên-
cia prévia sobre o assunto. Para minha surpresa e satisfação, no entan-
to, encontrei-a totalmente seca - mostrando de modo conclusivo que a
cobertura de terra foi efetivamente suficiente para proteger da água da
chuva e da neve e que a ampla e eficiente ventilação interna evitou a
formação de umidade e mofo. Ao remover a palha, não percebi nenhum
sinal de umidade sobre as tábuas; e quando, finalmente, estas últimas
foram removidas, as colméias se apresentaram tão limpas e secas como
quando lá foram colocadas no Outono.
"Ansioso agora por verificar a condição de suas ocupantes bati de
leve nas colméias, mas, para meu desânimo, não ouvi resposta. Apanhei
um sarrafo e bati cada vez mais forte, finalmente passei a soprar; ainda
assim o interior permanecia mudo. Um senhor idoso, da cidade vizinha
que desejava testemunhar, pareceu-me muito gratificado com meu de-
sapontamento e consternação, uma vez que ele e seus vizinhos tinham
criado abelhas por muitos anos, mas nunca tiveram tal idéia e nunca fi-
zeram um experimento como o meu. Devo admitir que fiquei, por um
momento, totalmente desconcertado ao verificar, como então supunha,
todas as minhas previsões e avaliações assim repentinamente e efetiva-
mente não serem confirmadas. Mas, resolvido a conhecer o pior, removi
as colméias para o apiário, onde o sol brilhava e estava ameno; foi só
abrir o alvado, para as abelhas saírem em massa para fora, zumbindo
alegremente, para meu irrepreensível deleite e para o total desconforto
do idoso senhor. Com gratificação especial constatei que as abelhas sai-
am de sua prolongada prisão com os corpos tão débeis e delgados como
estavam no Outono precedente, enquanto as que tinham sido hiberna-
das na câmara escura manchavam suas colméias e todos os objetos cir-
cunvizinhos com uma profusão de descargas fecais. Isto me levou a con-
jeturar que estas colônias consumiram comparativamente pouco mel, o
que foi comprovado ser verdade ao abrir as colméias e examinar a con-
dição de suas reservas. Estas colônias que tinham apenas oito ou dez
libras (4 ou 5kg) de mel no Outono ainda tinham alguma reserva rema-
nescente e estavam saudáveis e fortes; enquanto o pobre e pequeno en-
xame secundário tinha não só mantido seu número mas tinha uma
grande parte de sua pequena reserva de mel ainda em estoque. Foram
encontradas poucas abelhas mortas, estas morreram, provavelmente,
por idade avançada. A perda de abelhas foi muito maior nas colônias
que tinham sido hibernadas em casa e foi consumida mais do dobro da
quantidade de mel por cada colônia; assim que uma grande economia
pode ser conseguida com as pilhas, além de outras vantagens significa-
tivas que este modo de hibernação de abelhas possue. Os favos de todas
as colônias estavam limpos e livres de mofo e não pude perceber dife-
rença neste particular entre as colméias que tiveram suas entradas e
passagens de ventilação fechadas e aquelas em que estas últimas per-
maneceram abertas, os pedaços de favo velho, também, permaneceram
secos e livres de mofo. Consegui uma prova satisfatória que, onde a
temperatura é moderada e uniforme, a condensação de umidade não

312 A Colméia e a Abelha


ocorre por confinamento. Ainda, entre as várias conclusões, posso re-
comendar a ventilação em todas as colméias; a experiência acima ensi-
nou-me que as abelhas permanecerão mais tranqüilas durante o Inver-
no nas colméias devidamente ventiladas do que em colméias fechadas.
Um bom número de colônias depositadas em minha peça escura foi con-
finada, propositadamente, sem ventilação. Três delas ficaram muito agi-
tadas, consumiram uma quantidade desproporcional de seus estoques e
muitas de suas abelhas morreram. Precisamente, estas três colônias,
ainda que fortes e saudáveis na Primavera, eram as mais fracas de todo
o lote, embora em tão boas condições como as outras quando removida
do apiário no Outono. Não ocorreu nada semelhante nas colônias que
tinham apenas ventilação parcial.
"Tendo assim, por estes diferentes experimentos sobre hibernação
das abelhas, chegado a resultados certos e satisfatórios, daqui para
frente não devo hibernar minhas colônias móveis a não ser em pilhas.
"Desde a publicação do meu modo de hibernação de abelhas em pi-
lhas, foram feitas algumas críticas, que relatarei brevemente, antes de
trazer os resultados da minha última experiência sobre o assunto.
"O custo da construção da pilha tem sido apontado como uma críti-
ca a seu uso. No meu caso, o custo da mão de obra foi simplesmente o
salário de um dia para dois homens que me auxiliaram a preparar a á-
rea, carregar as colméias para lá e arranjar e fechar tudo. Os materiais
usados, com exceção dos caibros, não custaram literalmente nada, uma
vez que toda tábua velha serve e os galhos ou palha, folhas, etc., utiliza-
dos, são sempre, de custo irrisório.
"Uma segunda crítica é que os ratos e camundongos serão induzi-
dos a se reunirem e se abrigarem nas pilhas, se for usada palha. Sem-
pre usei apenas palha velha, rigorosamente separada dos grãos e preferi
usar junco sempre que facilmente encontrado. Até hoje não constatei a
presença de ratos e camundongos.
"A fim de mostrar o quanto as pilhas são melhores para hibernar as
abelhas, principalmente em colméias finas, relato que um dos meus vi-
zinhos, cujas colméias são feitas de tábuas de uma polegada (2,5cm),
que perdia invariavelmente muitas abelhas, freqüentemente todas as co-
lônias, quando as hibernava como fazia usualmente no apiário aberto,
foi induzido, por causa do meu sucesso, a colocar suas colméias em pi-
lha no último Outono. Elas foram colocadas em 11 de novembro de
1857 e permaneceram sem serem perturbadas até 29 de março de 1858.
Quando abertas, todas as colônias estavam em excelentes condições,
fortes e totalmente livres de mofo e umidade. Nunca, em períodos ante-
riores, ele teve tanto sucesso, como também nunca suas abelhas exigi-
ram ou receberam tão pouca atenção dele. Ele era o próprio ´incrédulo
Tomé´, quando me via arranjando minha primeira pilha, mas está agora
totalmente convertido para o sistema e declara que ele não usará outro
método no futuro, uma vez que parece impossível divisar um melhor.

L. L. Langstroth 313
"Minhas próprias colônias permaneceram na pilha de 13 de novem-
bro a 29 de março, 1858, e estavam perfeitamente vibrantes e saudáveis
quando as abri. A terra sob a manta externa estava congelada, foi remo-
vida com cavadeira, como no ano anterior, mostrando assim que as abe-
lhas não foram afetadas pelo clima ameno que prevaleceu. Um longo
confinamento não as prejudicou em nada, pois, repousando em tempe-
ratura baixa e uniforme elas consumiram proporcionalmente pouco mel
e não foram excitadas ou perturbadas durante todo o período. Estou a-
gora totalmente convencido que as abelhas podem ficar confinadas des-
ta maneira durante a maior parte do prolongado Inverno, não só sem
nada sofrerem, mas com benefícios positivos, uma vez que elas ficam
longe dos sempre perniciosos e freqüentemente perigosos efeitos da ex-
posição às vicissitudes do tempo em nosso clima variável.
"Para simplificar a construção das pilhas, eu fiz a minha última
mais comprida e mais baixa do que a que preparei no Outono anterior;
assim pude aplicar sucessivas coberturas, ou mantas, mais fácil e con-
venientemente. Dispensei, também, a chaminé e assim pude fechar o
topo mais regular e perfeitamente, deitando sobre o topo taboas que fo-
ram mantidas no lugar com pedras. Não vi desvantagem no fato de des-
cartar a chaminé, pois os tubos de ventilação me permitiam regular a
temperatura interna, e forneciam às abelhas ar fresco suficiente. Tam-
bém alarguei a câmara de ar, fazendo-a com três pés (1m) de profundi-
dade, como antes, com apenas trinta polegadas (76cm) de largura, e a
alonguei para atingir todo o comprimento do diâmetro interior da pilha.
Sob todos os outros aspectos a construção permaneceu a mesma."
Insisto que quando as colméias são hibernadas em depósitos
especiais lhes deve ser dada ventilação pela parte superior. Se
elas estiverem em porões ou quartos, a cobertura deve ser remo-
vida completamente; se colocadas em pilhas, ela deve ser presa,
como indicado na pág. 338, e deve-se permitir que o ar entre pe-
la parte inferior da colméia.
É óbvio que quem desejar instalar grandes apiários, em
qualquer das regiões do norte do nosso país, deverá hibernar su-
as abelhas, pois elas não podem ser expostas às normais mu-
danças climáticas. Só experimentos cuidadosos e continuados
podem indicar precisamente qual a melhor forma. Estes não de-
vem ser conduzidos de forma a trazerem muito risco.
Seguidamente se incorre em grandes perdas ao repor nos
suportes de Verão as colméias que foram mantidas em depósitos
especiais. A menos que o dia quando elas forem repostas seja
muito favorável, muitas se perderão ao fazer o vôo para descar-
regar as fezes. Em colméia de quadros móveis, este risco pode
ser diminuído pela remoção da cobertura dos quadros e permi-

314 A Colméia e a Abelha


tindo que o sol incida diretamente sobre as abelhas; isto fará e-
las se aquecerem tão rapidamente que elas descarregarão suas
fezes num curto espaço de tempo.1
Depois que as colméias estiverem nos seus suportes de Ve-
rão,2 os cuidados já descritos devem ser tomados para fortalecer
as colônias fracas ou empobrecidas (pág. 221).

1 O que segue é um extrato da minha revista:


"31 de janeiro de 1857. - Removi a cobertura expondo as abelhas a todo o calor
do sol, o termômetro estando em 30° (-1°C) na sombra e a atmosfera calma. A
colméia estava no lado ensolarado da casa, as abelhas voaram rapidamente e
descarregaram suas fezes. Poucas se perderam na neve e quase todas que nela
pousaram levantaram vôo sem ficarem congeladas. Mais abelhas foram perdidas
de outras colméias que não foram abertas, uma vez que poucas que saíram con-
seguiram retornar; enquanto, naquela em que a cobertura foi removida, as abe-
lhas ao retornarem tinham condições de pousar entre suas companheiras aque-
cidas."
2 Dzierzon lembra que se deve colocar as colméias em seus suportes anteriormen-

te ocupados, pois muitas abelhas ainda lembram o velho lugar. O Mr. Quinby
usa este momento para eqüalizar as colônias pois, pensa ele, "tendo elas hiber-
nada em um recinto comum, seu odor é muito parecido de forma que elas se mis-
turam sem muita briga".
L. L. Langstroth 315
316 A Colméia e a Abelha
Fig. 71
So work the Honey Bees,
Creatures, that by a rule in Nature, teach
The art of order to a peopled kingdom. - Sheakspeare
CAPÍTULO XXII

C
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ODDO
OA APPIIC
CUULLTTO
ORR
AAXXIIO
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DOOA
APPIIC
CUULLTTO
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Este capítulo fornecerá ao apicultor inexperiente instruções


sucintas para cada mês do ano1 e, através do índice alfabético,
tudo o que é dito em cada tópico pode ser facilmente acessado.
JANEIRO - Nos locais de clima frio as abelhas estão agora,
normalmente, em estado de repouso. Se as colônias foram ade-
quadamente tratadas no Outono normalmente nada precisa ser
feito que as possa excitar e que seria prejudicial. Em climas mui-
to frios, no entanto, quando temperaturas críticas são de longa
duração, será necessário, a menos que as colméias tenham ven-
tilação pela parte superior (pág. 340), transportá-las para um re-
cinto aquecido (pág. 341), para isolá-las do gelo, remover a umi-
dade e permitir que as abelhas tenham acesso a suas reservas.
Durante o mês de Janeiro existe, ocasionalmente, mesmo nas la-
titudes muito frias, dias agradáveis em que as abelhas podem
sair em vôo para descarregar as fezes; não as confine (pág. 337),
mesmo que algumas sejam perdidas na neve. Neste mês limpar o
fundo (pág. 347) mas perturbar as abelhas o mínimo possível.
Atentar, também, para que elas tenham suprimento adequado de
água (pág. 344), pois as famílias saudáveis já começam a desen-
volver a cria (pág. 239).
FEVEREIRO - Durante este mês, algumas vezes, é mais frio
do que em janeiro e então devem ser seguidas as instruções for-
necidas para o mês anterior. Em estações medianas, no entanto,
e em regiões quentes as abelhas começam a voar vividamente em
fevereiro e, em alguns lugares, elas colhem pólen. O fundo deve
ser novamente verificado, assim que as abelhas estiverem ativa-
mente voando e se alguma colméia estiver desconfiadamente leve
deve lhe ser fornecido açúcar cristal (pág. 272). As colônias fortes

1 Palladius, que escreveu sobre as abelhas a cerca de 2.000 anos, preparou suas

anotações na forma de um calendário mensal.


L. L. Langstroth 317
começam a desenvolver a cria consideravelmente, mas nada deve
ser feito que provoque atividade prematura. Certificar-se de que
as abelhas têm suprimento de água (pág. 344).
MARÇO - A inóspita região de Inverno continua nos nossos
estados do norte e as instruções fornecidas para os dois meses
anteriores aplicam-se também a este. Se ocorrer um dia agradá-
vel, quando as abelhas tiverem condições de voar vivamente, a-
proveite a oportunidade para remover a cobertura (pág. 361);
limpe cuidadosamente a parte externa das colméias (pág. 221) e
verifique a condição exata de cada colméia. Verificar se as abe-
lhas têm água (pág. 344) e se estão bem supridas de farinha de
centeio (pág. 84). Neste mês, as famílias fracas normalmente co-
meçam a desenvolver a cria, enquanto as fortes aumentam-na
rapidamente. Se o clima for favorável, as colônias que foram
mantidas em recintos especiais de Inverno podem ser colocadas
agora em seus suportes apropriados (pág. 361). Assim que o In-
verno severo tenha acabado será necessário fechar toda ventila-
ção superior.
ABRIL - Normalmente as abelhas começam a colher muito
pólen neste mês e algumas vezes considerável quantidade de
mel. Como a cria está agora amadurecendo rapidamente, existe
um grande aumento na demanda de mel e grandes cuidados de-
vem ser tomados para evitar que as abelhas passem necessidade
de alimento. Se os suprimentos estão totalmente deficientes, a
criação será verificada, talvez grande parte da cria não tenha
morrido, ou a colônia inteira morrerá de fome. Se o clima for
propício, pode ser iniciada a alimentação para promover um
crescimento mais rápido da cria (pág. 268). As colônias fracas
devem ser reforçadas (pág. 221) e, se o clima continuar frio por
vários dias, as abelhas devem ser supridas com água (pág. 344)
em suas colméias. Em abril, se não antes, as larvas da traça da
cera começam a aparecer e devem ser cuidadosamente destruí-
das (pág. 248).
MAIO - Como o clima vem ficando mais genial, o aumento de
abelhas nas colônias é extremamente rápido e os zangões, se não
apareceram antes, começam a sair das colméias. Em algumas
localidades as abelhas colhem agora muito mel e, seguidamente,
é recomendável lhes fornecer melgueiras adicionais;1 mas em al-

1 Caso sejam desejados enxames naturais, não se deve permitir que as abelhas

ocupem muitas melgueiras.


318 A Colméia e a Abelha
gumas estações e localidades, por causa de tempestades longas e
frias, ou deficiência de forragem, as famílias não bem supridas
de mel exaurem suas reservas e morrem a menos que alimenta-
das. Em estações favoráveis os enxames são esperados neste
mês, até mesmo nos estados do norte. Estes enxames de maio
saem seguidamente próximo do término da floração das árvores
frutíferas e, justamente, antes dos últimos suprimentos de forra-
gem e, se o clima ficar repentinamente desfavorável, podem pas-
sar fome, a menos que alimentados. Mesmo que não exista este
risco, eles podem progredir tão pouco na construção de favo e
desenvolvimento da cria, quando o alimento for escasso, a ponto
de serem ultrapassados por enxames mais tardios. O apicultor
deve ter colméias prontas para receber os enxames novos, por
mais cedo de eles saiam ou sejam formados. Deve ser providen-
ciado um suprimento razoável de rainhas se novas colônias fo-
rem preparadas pelo método artificial (pág. 188).
JUNHO - Este é o mês da grande enxameação em todos os
nossos estados do norte e centrais. Como as abelhas mantem al-
tas temperaturas em suas colméias elas são tão dependentes do
clima para progredir como as plantas e a maioria dos insetos o é.
Tive enxames do cedo tanto no norte de Massachusetts como nas
proximidades da Filadélfia.
Se o apiário não for cuidadosamente monitorado, o apicultor,
depois de curta ausência, deve examinar os arbustos e árvores
da vizinhança, em alguns dos quais ele seguidamente encontrará
um enxame amontoado se preparando para partir em busca de
uma nova morada.1
Assim que as melgueiras estiverem cheias2 e os alvéolos o-
perculados elas devem ser removidas e outras vazias colocadas

1 "Como seguidamente é necessário saber de que colméia o enxame saiu, depois

de ele ser alojado e removido para seu novo suporte, apanhar um punhado de
abelhas deste enxame e jogá-las para o ar perto do apiário; elas retornarão ime-
diatamente para a colméia materna, que poderá ser facilmente reconhecida, por-
que elas estacionam na entrada e batem as asas como abelhas ventiladoras." -
Dzierzon. Em minhas colméias, será fácil, pela ventilação traseira saber se a fa-
mília está cheia a ponto de enxamear ou enxameou recentemente, até mesmo se
não existir vidro para a observação.
2 O Mr. Quinby informou-me, que ele conseguiu fazer as abelhas encher duas
camadas de pequenas caixas, colocando primeiro um conjunto na colméia;
quando elas tinham enchido parcialmente esta, ele colocou o segundo conjunto
em baixo do primeiro. Fazendo um buraco no topo, bem como no fundo da caixa
(Lâmina XI, Fig. 24), isto pode ser feito facilmente.
L. L. Langstroth 319
em seu lugar. Apicultores cuidadosos, seguidamente, perdem
muito por negligenciarem em fazer isto na estação, condenando
assim suas colônias a inatividade não desejada. O apicultor deve
ter em mente que todos os enxames que saem no final deste mês
devem ou ajudados, unidos ou devolvidos para suas colméias
maternas. Com minhas colméias, a saída de tais enxames pode
ser evitada removendo, na estação, o excesso de realeiras. Du-
rante todo o período de enxameação, assim como durante todo o
tempo em que rainhas estão sendo criadas, o apicultor deve ave-
riguar oportunamente se a colméia que contem realeiras possui
uma rainha fértil (pág. 218).
JULHO - Em algumas estações e distritos este é o grande
mês da enxameação; enquanto em outros, abelhas saindo tão
tarde, são de pouco valor. No norte de Massachusetts conheci
enxames, aparecendo depois de quatro de julho, encher suas
colméias e, alem disso, acumular grandes quantidades de mel
em excesso. Neste mês toda a melgueira reserva deve ser removi-
da das colméias, antes que a delicada brancura dos favos fique
marcada pelo trânsito das abelhas ou a pureza do mel seja pre-
judicada por um artigo inferior colhido mais tarde durante a es-
tação.
As abelhas devem ter generosa disponibilidade de ar durante
o clima extremamente quente, especialmente se elas estiverem
em colméias não pintadas ou postadas ao sol.
AGOSTO - Na maioria das regiões existe apenas pouca forra-
gem para as abelhas durante a última parte de julho e início de
agosto e estando elas, por causa disto, dispostas a roubarem
umas às outras deve se ter muito cuidado ao abrir as colméias.
Em distritos onde o trigo mouro é altamente cultivado, as abe-
lhas, algumas vezes, enxameiam quando ele floresce e, em algu-
mas estações, são obtidos suprimentos extraordinários dele. Em
1856 tive um enxame do trigo mouro tão tarde quanto 16 de se-
tembro!
Se algumas colméias estiverem tão cheias de mel a ponto de
não ter mais espaço para desenvolver a cria alguns dos favos,
agora, devem ser removidos (pág. 183). Se os opérculos dos alvé-
olos forem removidos com uma faca bem afiada, os favos deita-
dos numa vasilha, em algum recinto moderadamente aquecido,
virados algumas vezes, a maior parte do mel drenará e eles po-
dem retornar para as abelhas a fim de serem cheios novamente.

320 A Colméia e a Abelha


O apicultor que em agosto tiver famílias sem rainha à mão
deve esperar, como resultado de sua ignorância ou negligência,
ter elas roubadas por outras colônias ou destruídas pela traça
(pág. 246).
SETEMBRO - Seguidamente é um mês cheio de atividades
com as abelhas. As flores do Outono florescem, as colônias que
até então acumularam pouco mel ficaram pesadas e ainda pro-
duzem um pouco para o seu dono. As abelhas relutam em traba-
lhar nas caixas no final da estação, mesmo que suas reservas se-
jam abundantes; mas se favos vazios forem inseridos no local
dos cheios removidos elas os encherão com rapidez impressio-
nante. Estes favos cheios podem, mais tarde, serem devolvidos
se as abelhas, sem eles, não tiverem reservas suficientes.
Se os suprimentos do Outono não forem abundantes e as
colméias estiverem muito leves para hibernar com segurança,
então, nos estados do norte, a última parte deste mês é o tempo
apropriado para alimentá-las. Já afirmei (pág. 274) que é impos-
sível dizer quanto alimento uma colônia precisará para passar
bem o Inverno; será, no entanto, muito inseguro confiar na au-
sência de suprimento, pois mesmo que exista alimento suficiente
ele nem sempre pode estar prontamente acessível para as abe-
lhas. Grande precaução será também necessária para evitar a pi-
lhagem; mas se não existirem colônias fracas, sem rainha ou de-
pauperadas, as abelhas, a não ser que provocadas por manejo
impróprio, raramente roubam umas às outras.
OUTUBRO - A forragem está agora praticamente exaurida na
maioria dos locais e as colônias que estão muito leves devem no
início do mês ser alimentadas, ou receber suprimento de mel de
outras colméias. A condição exata de cada colméia deve agora
ser conhecida, pelo menos e, se alguma estiver sem rainha, deve
ser desfeita. Pequenas colônias devem ser unidas e todas as col-
méias colocadas em condições adequadas para a hibernação. Al-
guns favos cheios com mel devem ser colocados no centro da
colméia e devem ser feitos buracos nos favos para facilitar a in-
tercomunicação (pág. 337); se as colméias tiverem passagem de
Inverno, as abelhas devem ser agora acostumadas a usá-la (pág.
338). No final do mês as colméias de vidro devem ser forradas
entre a cobertura externa e o vidro com algodão descartável,
musgo ou outro material isolante.
NOVEMBRO - Entendo que nos estados do norte todas as
preparações necessárias para o Inverno foram concluídas no fi-
L. L. Langstroth 321
nal do mês anterior. Se, porém, o apicultor não conseguiu exa-
minar suas colméias ele deve, nos dias amenos de novembro, re-
alizar todas as operações necessárias, exceto alimentar com mel
líquido. A entrada das colméias deve agora ser protegida contra
os ratos e é de bom alvitre pintar novamente os telhados. Se as
colméias ficarem expostas ao sol, nenhuma cor é melhor do que
o branco puro, mas se elas forem posicionadas na sombra das
árvores (pág. 280), uma cor escura não lhes fará mal, durante o
clima mais quente, enquanto no início da estação, antes do apa-
recimento das folhas, por absorverem em vez de refletirem o ca-
lor, se mostrarão altamente vantajosas para as abelhas.
Pelo final de novembro, nos nossos estados do norte, nor-
malmente começa o Inverno e as colônias que tiverem de ser
mantidas em depósitos especiais de Inverno, devem ser apropri-
adamente recolhidas. Quanto mais tarde na estação melhor será
para que as abelhas possam voar e se desfazer de suas fezes. O
apicultor deve controlar a hora de recolher suas abelhas pela es-
tação e pelo clima, tomando cuidado de não recolhê-las antes
que o clima frio tenha se instalado, nem retirá-las do abrigo mui-
to tarde. Se as colônias forem recolhidas muito cedo, e um perío-
do quente aparecer após o primeiro frio, pode ser aconselhável
recolocá-las em seus suportes de Verão.1
Assim que o clima congelante aparecer, as colônias que fica-
rem a céu aberto devem receber ventilação pela parte superior
(pág. 338).
DEZEMBRO - Nas regiões onde se recomenda recolher as
colméias o lúgubre reino do Inverno está agora seguramente ins-
talado e as orientações fornecidas para janeiro são, para a maio-
ria dos locais, igualmente aplicáveis neste mês. Será bom, nas
colméias que estão a céu aberto, remover as abelhas mortas e
outros detritos do fundo; mas, nem neste mês nem em qualquer
outra época isto deve ser tentado com as colméias recolhidas pa-
ra local escuro e protegido. Tais colônias não devem, a não ser
pela pressão de uma necessidade urgente, serem perturbadas
em nada.
Recomendo ao apicultor inexperiente ler esta sinopse de ma-
nejo mensal várias vezes e certificar-se que entendeu perfeita-
mente e executou prontamente as tarefas apropriadas de cada

1 Se as abelhas forem hibernadas segundo a proposta do Mr. Scholtz, não será

possível nem desejável re-instalar em seus suportes de Verão.


322 A Colméia e a Abelha
mês, não esqueceu nada e n