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INQUERITO POLICIAL

1) Conceito:

Inquérito é o procedimento administrativo inquisitório e preparatório,


presidido pela autoridade policial, consistente em um conjunto de diligências,
objetivando a identificação das fontes de prova e colheita de elementos de
informação quanto à autoria e materialidade do delito, a fim de possibilitar que
o titular da ação penal possa ingressar em juízo.

Fontes de prova são pessoas ou coisas que tem algum conhecimento sobre o
fato delituoso. Inicialmente, o trabalho da autoridade policial é buscar essas
fontes de prova. A partir daí, visa coletar elementos de informação quanto à
autoria e à materialidade.

Para ingressar em juízo é necessário um mínimo de lastro probatório, a


chamada justa causa.

Obs: Inquérito Policial x Termo Circunstanciado – Vide art.69, Lei 9.099/95:

Art. 69, Lei 9.099/95 - A autoridade policial que tomar conhecimento


da ocorrência lavrará termo circunstanciado e o encaminhará
imediatamente ao Juizado, com o autor do fato e a vítima,
providenciando-se as requisições dos exames periciais necessários.

O IP não é o único procedimento investigatório. A Lei 9.099/95 traz o termo


circunstanciado, que é utilizado para as infrações de menor potencial ofensivo.
Então, nem todo crime é investigado por IP.

A infração de menor potencial ofensivo (IMPO) compreende as contravenções


penais e os crimes com pena máxima não superior a 2 anos, cumulada ou não
com multa, submetidos ou não a procedimento especial, ressalvadas as hipóteses
envolvendo violência doméstica e familiar contra a mulher. Ex. De IMPO:
desacato.

2) Natureza Jurídica do Inquérito Policial:

É considerado pela doutrina como um procedimento administrativo. Isto


porque, do IP não resulta a imposição direta de nenhuma sanção. Na realidade,
o IP é uma fase preliminar onde se busca colher elementos para a instrução do
processo.

As irregularidades cometidas durante o inquérito (ex. a não nomeação de um


curador durante a oitiva de determinada testemunha) contaminam o processo
subsequente? Eventuais vícios constantes do IP não têm o condão de provocar
uma nulidade do processo subsequente.
Ver HC 94034 do STF:

Ementa: Habeas Corpus. Interrogatórios dos co-réus, os quais o


paciente teria sido delatado. Atos realizados sem presença do
defensor do paciente. Aplicação retroativa da lei n. 10.792/03:
impossibilidade. Vícios não reconhecidos. Condenação amparada
exclusivamente na delação dos co-réus: impossibilidade. Ordem
concedida. (julgamento 10-06-2008, relator (a) min. Cámen lúcia).

A ressalva se dá para as provas ilícitas produzidas no inquérito. Tal ilicitude


irá contaminar o processo. Inclusive irá contaminar todas as demais provas dela
derivadas.

ATENÇÃO: Eventual vício no IP não tem o poder de causar nulidade no


processo a que der origem, justamente pelo fato de o IP ser procedimento, e não
processo. Uma exceção a essa regra diz respeito às provas ilícitas. A prova
ilícita do inquérito contamina o processo sim.

3) Finalidade do IP:

A finalidade é a colheita de elementos de informação quanto à autoria e


materialidade do delito. Então, o IP não busca a colheita de provas, mas sim de
elementos de informação. “Elementos de informação” é uma expressão que o
CPP passou a usar recentemente. Por exemplo, pelo artigo 155, do CPP,
verifica-se que a denominação “prova” é só aquilo produzido em contraditório
judicial.

Art. 155, CPP - O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da
prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar
sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na
investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e
antecipadas. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)

Distinção entre elementos informativos e provas:

a) Elementos informativos:

1 - São colhidos na fase investigatória: O inquérito policial não é o único


instrumento investigatório de que o Estado dispõe.

2 - Não é obrigatória a observância do contraditório e da ampla defesa:


Durante as investigações, precisa-se do elemento surpresa/sigilo, visando a
uma maior eficácia para as investigações.

3 - O juiz deve intervir apenas quando necessário, e desde que seja


provocado nesse sentido: Cláusula de reserva de jurisdição: Há um núcleo de
direitos e garantias individuais que só podem ser restringidos a partir da ordem
da autoridade judiciária competente. Exemplos: interceptação telefônica,
prisões preventiva e temporária, violação domiciliar. O juiz, na fase
investigatória, não deve atuar de ofício. Ele não é dotado de iniciativa
acusatória. Visa-se preservar a imparcialidade do juiz.

4 - Finalidade: a) úteis para a decretação de medidas cautelares (prisão


temporária, interceptação telefônica); b) auxiliam a formação da “opinio
delicti”. É a convicção do titular da ação penal.

5 - Os elementos informativos produzidos no inquérito poderão ser


utilizados pelo juiz ao proferir a sua sentença? A resposta encontra-se no art.
155 do CPP. “Exclusivamente”: elementos informativos, isoladamente
considerados, não podem fundamentar uma sentença. Porém, tais elementos
não devem ser desprezados durante a fase judicial, podendo se somar à prova
produzida em juízo para auxiliar na formação da convicção do magistrado.

Ver RE 287.658:

EMENTA: I. Habeas corpus: falta de justa causa: inteligência. 1. A


previsão legal de cabimento de habeas corpus quando não houver
"justa causa" para a coação alcança tanto a instauração de processo
penal, quanto, com maior razão, a condenação, sob pena de
contrariar a Constituição. 2. Padece de falta de justa causa a
condenação que se funde exclusivamente em elementos informativos
do inquérito policial. II. Garantia do contraditório: inteligência.
Ofende a garantia constitucional do contraditório fundar-se a
condenação exclusivamente em testemunhos prestados no inquérito
policial, sob o pretexto de não se haver provado, em juízo, que
tivessem sido obtidos mediante coação. (julgamento 16-09-2003,
relatoria Min. Sepúlveda Pertence).

b) Provas:

1 - Em regra, produzidas na fase judicial: Exceções são as provas cautelares, não


repetíveis e provas antecipadas.

1.1 - Provas Cautelares: São aquelas em que há um risco de desaparecimento


do objeto da prova em razão do decurso do tempo. Podem ser produzidas na
fase investigatória e na fase judicial. Dependem de autorização judicial, sendo
que o contraditório será diferido (postergado). Ex. interceptação telefônica
(pode ser produzida tanto na fase investigatória como na fase judicial).

1.2 - Provas não repetíveis: É aquela que uma vez produzida não tem como
ser novamente coletada em razão do desaparecimento da fonte probatória.
Podem ser produzidas na fase investigatória e na fase judicial. Não dependem
de autorização judicial, sendo que o contraditório será diferido. Ex. alguns
exames periciais (ex. exame de corpo de delito em um caso de lesões corporais).
Observa-se que alguns exames periciais podem ser repetidos ( ex. laudo de
avaliação nos crimes patrimoniais).

1.3 - Provas antecipadas: São aquelas produzidas com a observância do


contraditório real em momento processual distinto daquele legalmente
previsto, ou até mesmo antes do início do processo, em virtude da situação de
urgência e relevância. Podem ser produzidas na fase investigatória e na fase
judicial. Dependem de autorização judicial, sendo que o contraditório será
real (contraditório para a prova). Ex. art. 225 do CPP (depoimento “ad
perpetuam rei memoriam”).

Ver HC 110.280 de 07-08-12, segunda turma, relatoria do ministro


Gilmar Mendes: Ementa Habeas corpus. 2. Furto qualificado. Réu
citado por edital. Suspensão do processo e determinação da
produção antecipada da prova testemunhal. Art. 366 do CPP. 3.
Alegação de ausência de fundamentação a justificar a colheita da
prova oral. 4. Possibilidade concreta de perecimento. Ausência de
prejuízo em razão da possibilidade de reiteração em juízo.
Constrangimento ilegal não caracterizado. 5. Ordem denegada.

2 - É obrigatória a observância do contraditório e da ampla defesa: É um


contraditório real que deverá ser observado por ocasião de produção da prova.

3 - A prova deve ser produzida na presença do juiz: Esta presença do juiz pode
ser de duas espécies: a) direta (presença física); b) remota (por vídeo
conferência). O CPP passou a adotar o PRINCÍPIO DA IDENTIDADE FÍSICA
DO JUIZ. Por ele, o juiz que preside a instrução, em regra deve proferir
sentença. O contato do magistrado com a prova acaba facilitando a sua
compreensão sobre os fatos delituosos.

4 - Durante o curso do processo, o juiz é dotado de certa iniciativa probatória, a


ser exercida de maneira residual: Desde que não o faça querendo substituir-se
às partes. Um exemplo seria o art. 212 do CPP (trata da colheita da prova
testemunhal – através do chamado exame direto e cruzado. As partes
perguntam à testemunha, primeiro quem arrolou (exame direto), após a parte
contrária (exame cruzado). O juiz pode complementar a inquirição).

Art. 212. As perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à


testemunha, não admitindo o juiz aquelas que puderem induzir a
resposta, não tiverem relação com a causa ou importarem na repetição
de outra já respondida.

Este é o instituto da gestão da prova, isto é, o papel do juiz diante da produção


da prova.

5 - Finalidade: auxiliar na formação da convicção do juiz.


PERGUNTA DE CONCURSO: O juiz pode se valer de elementos colhidos no
inquérito para fundamentar a sentença?

Art. 155, CPP - O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da
prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar
sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na
investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e
antecipadas. (Redação Lei 11.690/08)

Segundo o STF, no art.155, do CPP, a palavra “exclusivamente” quer dizer que os


elementos informativos isoladamente considerados não podem fundamentar a
convicção do juiz, porém, não devem ser desprezados, podendo se somar à
prova produzida em juízo para fundamentar uma condenação ou uma
absolvição (RE 425.734; RE 287.658).

EMENTA RE 425.734: AG. REG. EM RE. OFENSA AO ART.


5º,INCISOS LIV E LV. INVIABILIDADE DO REEXAME DE FATOS
E PROVAS. SÚMULA STF Nº 279. OFENSA INDIRETA À
CONSTITUIÇÃOFEDERAL. INQUÉRITO. CONFIRMAÇÃO EM
JUÍZO DOS TESTEMUNHOS PRESTADOS NA FASE
INQUISITORIAL. (...) 3. Ao contrário do que alegado pelos ora
agravantes, o conjunto probatório que ensejou a condenação dos
recorrentes não vem embasado apenas nas declarações prestadas em
sede policial, tendo suporte, também, em outras provas colhidas na
fase judicial. Confirmação em juízo dos testemunhos prestados na
fase inquisitorial. 4. Os elementos do inquérito podem influir na
formação do livre convencimento do juiz para a decisão da causa
quando complementam outros indícios e provas que passam pelo
crivo do contraditório em juízo. 5. Agravo regimental improvido.

EMENTA RE 287.658: I. Habeas corpus: falta de justa causa:


inteligência. 1. (...). 2. Padece de falta de justa causa a condenação
que se funde exclusivamente em elementos informativos do
inquérito policial. II. Garantia do contraditório: inteligência. Ofende
a garantia constitucional do contraditório fundar-se a condenação
exclusivamente em testemunhos prestados no inquérito policial,
sob o pretexto de não se haver provado, em juízo, que tivessem sido
obtidos mediante coação.

4) Atribuição para a presidência do IP:

Funções exercidas pela polícia:

1 – Polícia administrativa ou ostensiva: Tem caráter preventivo, visa


evitar a prática de infrações penais. Ex. Presença da PM nas ruas.
2 – Polícia judiciária e polícia investigativa: A maioria da doutrina diz
que são expressões sinônimas. Contudo, para o professor e para Denilson
Feitoza, não se confundem:

a) Polícia Judiciária é aquela que atua auxiliando o poder judiciário.

Ex. juiz dá uma ordem, como um mandado de prisão, uma busca


domiciliar, que será cumprida pela polícia judiciária.

b) Polícia investigativa é aquela que investiga crimes. Ex. A PM pode


exercer as três funções:

a) polícia administrativa;
b) crimes militares que são investigados pela própria PM;
c) polícia judiciária militar – ordem dada por um juiz da Justiça
Militar.

Ver art. 144, §1º, da CF, que faz essa distinção. No inciso I, há a previsão da PF
exercendo funções de polícia investigativa; no inciso, IV, há a previsão da PF
exercendo as funções de polícia judiciária da União.

Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e


responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem
pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos
seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.
§ 1º A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente,
organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se
a:
I - apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em
detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas
entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras
infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional
e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei;
II - prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas
afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e
de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência; III -
exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras;
IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da
União.
§ 2º A polícia rodoviária federal, órgão permanente, organizado e
mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da
lei, ao patrulhamento ostensivo das rodovias federais
§ 3º A polícia ferroviária federal, órgão permanente, organizado e
mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da
lei, ao patrulhamento ostensivo das ferrovias federais.
§ 4º - às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira,
incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia
judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares.
§ 5º - às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da
ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições
definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil.
§ 6º - As polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças
auxiliares e reserva do Exército, subordinam-se, juntamente com as
polícias civis, aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos
Territórios.
§ 7º - A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos
responsáveis pela segurança pública, de maneira a garantir a eficiência
de suas atividades.
§ 8º - Os Municípios poderão constituir guardas municipais
destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme
dispuser a lei.
§ 9º A remuneração dos servidores policiais integrantes dos órgãos
relacionados neste artigo será fixada na forma do § 4º do art. 39.

Lei n. 12.830/13 (vigência em 21/06/13):

Dispõe sobre a investigação criminal conduzida pelo delegado de polícia. Seu


artigo 2º diferencia a polícia judiciária da polícia investigativa.
Também estabelece que o Delegado de Polícia é quem irá exercê-las. Tal artigo
não atribuiu a exclusividade das investigações penais à polícia.

Art. 2o As funções de polícia judiciária e a apuração de infrações


penais exercidas pelo delegado de polícia são de natureza jurídica,
essenciais e exclusivas de Estado.

O teor da súmula vinculante nº 14 utiliza as expressões “polícia judiciária” e


“polícia investigativa” de maneira idêntica.

Autoridade com atribuições para presidência do inquérito policial: art. 2º, §1º,
da lei 12.830/13. É o delegado de polícia. Promotor de Justiça não preside
inquérito policial. Todavia, o promotor de justiça pode fazer requisições de
diligências investigatórias, conforme o disposto no art. 129, VIII, da CF. O
delegado não pode negar o cumprimento de tal requisição, salvo se ilegal.

§ 1o Ao delegado de polícia, na qualidade de autoridade policial, cabe a


condução da investigação criminal por meio de inquérito policial ou
outro procedimento previsto em lei, que tem como objetivo a apuração
das circunstâncias, da materialidade e da autoria das infrações penais.
Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:
VIII - requisitar diligências investigatórias e a instauração de
inquérito policial, indicados os fundamentos jurídicos de suas
manifestações processuais;

Esse outro procedimento previsto em lei seria o TCO, utilizado para as infrações
de menor potencial ofensivo.

Ver art. 2º, §2º, da lei 12.830/13: Salvo se necessária autorização judicial
(cláusula de reserva de jurisdição – ex. sigilo bancário).

§ 2o Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de polícia a


requisição de perícia, informações, documentos e dados que interessem
à apuração dos fatos
.
Ver art. 2º, §4º, da lei 12.830/13: Avocar significa o superior trazer para si.
Redistribuir significa passar o inquérito para outro delegado. O delegado não é
inamovível, não tem independência funcional.

§ 4o O inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei em


curso somente poderá ser avocado ou redistribuído por superior
hierárquico, mediante despacho fundamentado, por motivo de interesse
público ou nas hipóteses de inobservância dos procedimentos previstos
em regulamento da corporação que prejudique a eficácia da
investigação.

Superior hierárquico pode avocar ou redistribuir mediante despacho


fundamentado:

1 – Interesse público: Tal expressão é muito aberta. Ex. investigação de um


crime que causou grande comoção na sociedade; investigação de crimes
envolvendo organizações criminosas.

2 – Inobservância dos procedimentos previstos em lei: ex. delegado que não


cumpre os prazos previstos em lei.

Ver art. 2º, §5º: Tramita no CN uma PEC que visa a garantir ao delegado a
garantia da inamovibilidade.

§ 5o A remoção do delegado de polícia dar-se-á somente por ato


fundamentado.

A remoção é um ato administrativo, e como tal precisa ser fundamentado.

PERGUNTA DE CONCURSO (Prova Oral): A comprovação que em uma


Ação Penal em que todos os interrogatórios de um Inquérito Policial que se
embasou a denúncia foram realizados exclusivamente por um escrivão de
polícia sem a participação do Delegado, sendo que foi na fase inquisitorial
que se apurou a autoria e materialidade, invalida a ação penal? R.: A
condenação não seria válida mesmo se o inquérito tivesse sido todo conduzido
legalmente, já que não se pode haver condenação fundamentada
exclusivamente em elementos colhidos durante a fase pré-processual (art. 155,
CPP).

Em relação à pergunta: o inquérito policial é peça dispensável para o


oferecimento da denúncia e, portanto, eventuais vícios não repercutem na ação
penal, a não ser que a denúncia tenha sido baseada em prova ilícita produzida
durante a investigação, pois faltaria justa causa. Autoria e materialidade não se
provam apenas através do interrogatório. Os demais elementos de informação
foram colhidos perante a autoridade policial competente, estando esta ausente
apenas do interrogatório, que é mais meio de defesa do que de prova
propriamente dita. Caso o examinador fosse adiante e afirmasse que no
interrogatório houve confissão, responderia que também não haveria prejuízo,
já que há a possibilidade de retratação em juízo.

Se houver justa causa para propositura da ação penal e as provas forem


corroboradas em juízo sob o manto do contraditório e da ampla defesa, não há
que se falar em nulidade, até mesmo porque a finalidade do inquérito é colher
elementos informativos para o oferecimento da ação penal.

Natureza do crime e a atribuição para as investigações

1 – Crime militar da competência da Justiça Militar da União: É investigado


pelas forças armadas. Há um oficial, que é designado como encarregado para
presidir as investigações.

2 – Crime militar da competência da Justiça Militar Estadual: Ex. um soldado


da PM subtraí um armamento da PM. É investigado pela própria PM. Há um
oficial, que é designado como encarregado para presidir as investigações.

3 – Crime eleitoral: ex. corrupção para fins eleitorais. São julgados pela Justiça
Eleitoral. É uma Justiça da União. Assim, as investigações são realizadas pela
Polícia Federal.

Ver HC 439, julgado pelo TSE. Caso não haja delegacia da polícia federal na
cidade, o crime pode ser investigado pela polícia civil.

HABEAS-CORPUS. OFERECIMENTO DE DENÚNCIA.


PENDÊNCIA DE PRONUNCIAMENTO. AUTORIDADE
JUDICIÁRIA. TRE. CRIME ELEITORAL. POSSIBILIDADE.
INVESTIGAÇÃO PELA
POLÍCIA ESTADUAL. AUSÊNCIA DE ÓRGÃO DA POLÍCIA
FEDERAL. ART. 290 DO CÓDIGO
ELEITORAL. 1. Na investigação de crime eleitoral, não há óbice
para a atuação da polícia estadual quando no local do crime não
existir órgão da polícia federal. 2. Ausência de constrangimento
ilegal do paciente, em razão de oferecimento da denúncia, quando
presentes a tipicidade da conduta e indícios de autoria. 3. Não se
presta o processo de habeas-corpus ao exame aprofundado das
provas.

4 – Crime “federal”: Crimes de competência da Justiça Federal. ex. roubo a


uma agência da CEF; crime de estelionato cometido contra uma agência do
INSS. É investigado pela PF.

Art. 144, §1º, CF - A polícia federal, instituída por lei como órgão
permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em
carreira, destina-se a:
I - apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em
detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas
entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras
infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional
e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei;
(…) IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da
União.

Ver também a Lei 10.446/02 (Dispõe sobre infrações penais de repercussão


interestadual ou internacional que exigem repressão uniforme, para os fins do
disposto no inciso I do § 1o do art. 144 da Constituição).

Art. 1º Na forma do inciso I do § 1o do art. 144 da Constituição,


quando houver repercussão interestadual ou internacional que exija
repressão uniforme, poderá o Departamento de Polícia Federal do
Ministério da Justiça, sem prejuízo da responsabilidade dos órgãos de
segurança pública arrolados no art. 144 da Constituição Federal, em
especial das Polícias Militares e Civis dos Estados, proceder à
investigação, dentre outras, das seguintes infrações penais:
I – seqüestro, cárcere privado e extorsão mediante seqüestro (arts.
148 e 159 do Código Penal), se o agente foi impelido por motivação
política ou quando praticado em razão da função pública exercida pela
vítima;
II – formação de cartel (incisos I, a, II, III e VII do art. 4o da Lei no
8.137, de 27 de dezembro de 1990); e III – relativas à violação a
direitos humanos, que a República Federativa do Brasil se
comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de
que seja parte; e
IV – furto, roubo ou receptação de cargas, inclusive bens e valores,
transportadas em operação interestadual ou internacional, quando
houver indícios da atuação de quadrilha ou bando em mais de um
Estado da Federação.
Parágrafo único. Atendidos os pressupostos do caput, o
Departamento de Polícia Federal procederá à apuração de outros casos,
desde que tal providência seja autorizada ou determinada pelo
Ministro de Estado da Justiça.

Ex. pedofilia na internet, fraude eletrônica.

5) Características do IP:

5.1) Peça Escrita – Cf. Art.9º, do CPP:

Art. 9º, CPP - Todas as peças do inquérito policial serão, num só


processado, reduzidas a escrito ou datilografadas e, neste caso,
rubricadas pela autoridade.

É possível gravar as investigações/ atos do inquérito, tendo em vista que o


art.9º fala somente em “peça escrita”? Vide também art.405, §1º, CPP, que trata
do procedimento comum ordinário. Segundo a doutrina, esse dispositivo pode
ser aplicado analogicamente ao inquérito, de modo a ser possível sim que se
grave peças do inquérito

Art. 405, CPP - Do ocorrido em audiência será lavrado termo em livro


próprio, assinado pelo juiz e pelas partes, contendo breve resumo dos
fatos relevantes nela ocorridos. (Redação pela Lei nº 11.719/08).
§1º. Sempre que possível, o registro dos depoimentos do investigado,
indiciado, ofendido e testemunhas será feito pelos meios ou recursos de
gravação magnética, estenotipia, digital ou técnica similar, inclusive
audiovisual, destinada a obter maior fidelidade das informações.
(Incluído pela Lei nº 11.719, de 2008).

5.2) Peça Dispensável:

Se o titular da ação penal contar com elementos informativos obtidos em


procedimento investigatório diverso do IP, poderá ser dispensado o inquérito.

Art.39, §5º, CPP - O órgão do Ministério Público dispensará o


inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o
habilitem a promover a ação penal, e, neste caso, oferecerá a denúncia
no prazo de quinze dias.

5.3) Peça Sigilosa:

A surpresa e o sigilo são indispensáveis à própria eficácia das investigações,


pelo menos em regra. Em que caso a publicidade pode auxiliar nas
investigações?

Ex. Retrato falado de um estuprador que vem atacando mulheres em São Paulo.
A quem não se opõe o sigilo do inquérito policial? Isto é, quem vai ter acesso
ao IP?

 Juiz e MP - O juiz terá um acesso amplo e irrestrito ao IP, assim como o MP.

 Advogado - A pergunta que se faz é sobre o advogado. Ele tem acesso aos
autos? Fundamentando que sim, temos os seguintes argumentos:

A CF assegura ao preso a assistência de advogado - art.5º, LXIII, CF - LXIII - o


preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe
assegurada a assistência da família e de advogado;

Estatuto da OAB – art.7º, XIV, EOAB – Lei 8.906/90 – São direitos do advogado
(...) examinar em qualquer repartição policial, mesmo sem procuração, autos de
flagrante e de inquérito, findos ou em andamento, ainda que conclusos à autoridade,
podendo copiar peças e tomar apontamentos;

Então, o advogado pode consultar os autos do IP MESMO SEM


PROCURAÇÃO, salvo se houver informações sigilosas nos autos do IP. Nesse
caso, o advogado só poderá ter acesso aos autos mediante procuração.

Ex. IP que teve quebra de sigilo bancário, interceptação telefônica degravada,


etc.

Atenção! O advogado não tem acesso amplo e irrestrito aos autos de IP. Ele não
pode ter acesso às diligências em andamento. Então, no caso do advogado, o
acesso diz respeito às diligências já documentadas, não àquelas que estão em
andamento.

Além disso, o assunto é objeto da súmula vinculante nº 14, que diz:

Súmula Vinculante 14 - É direito do defensor, no interesse do


representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já
documentados em procedimento investigatório realizado por órgão
com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício
do direito de defesa.

Obs: Imagine que na delegacia houve uma negativa de acesso aos autos do IP.
Quais são os remédios que o advogado tem para esse problema? O advogado
pode ajuizar uma reclamação perante o STF. Além disso, pode o advogado
impetrar um Mandado de segurança, em que postulará o seu próprio direito
líquido e certo. O legitimado ativo é o advogado, defendendo o seu próprio
direito líquido e certo.

Obs: É cabível nesse caso a utilização do HC? Sim. Mas, atenção!!! O HC será
utilizado em prol da proteção da liberdade de locomoção do investigado. A
diferença é que no MS, a medida é em proteção ao direito do advogado. Já no
HC é em favor do direito do preso (Art.5º, LXVIII, CF - conceder-se-á "habeas-
corpus" sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação
em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder). A negativa de
acesso aos autos gera prejuízo à liberdade de locomoção do preso.

5.4) Peça Inquisitorial:

Sobre a inquisitoriedade do inquérito, duas correntes divergem:


→ Posição Majoritária → Não é obrigatória a observância do contraditório e
da ampla defesa no IP (a surpresa/ sigilo é essencial à eficácia das
investigações).

→ Posição Minoritária → Alguns doutrinadores sustentam a possibilidade de


ampla defesa no IP. Dizem que esse direito de defesa pode se dar de forma
exógena e endógena. Assim:

 Exercício exógeno da ampla defesa → É aquele efetivado fora dos autos


do IP, por meio de algum remédio constitucional ou mediante
requerimentos endereçados ao juiz ou ao MP. Nesse sentido Marta Saad.
Ex. HC, MS, etc.

 Exercício endógeno da ampla defesa → E aquele praticado nos autos do


IP, por meio da oitiva do investigado ou de diligências solicitadas pela
autoridade policial.

Obs: Estatuto do Estrangeiro (Lei 6.815/80) – Prevê o inquérito para a expulsão
do estrangeiro – Nesse Inquérito, a observância do contraditório e da ampla
defesa é obrigatório.

----------------------------------------------2ª Aula---------------------------------------

5.5) Procedimento Discricionário:

Discricionariedade significa que o delegado, durante a condução do inquérito,


goza de uma certa liberdade dentro dos limites traçados pela lei.

Em juízo, o juiz sabe que há uma sequência rigorosa dos atos processuais. No
inquérito, por outro lado, o delegado não está submetido a essa vinculação, essa
sequência de atos. Em alguns casos, p.ex., o delegado entenderá que é melhor
ouvir o investigado no início. Em outros casos, pode não entender assim. Uma
ordem predeterminada dos fatos e das investigações do inquérito poderia
prejudicar o andamento das investigações.

Art. 14, CPP - O ofendido, ou seu representante legal, e o indiciado


poderão requerer qualquer diligência, que será realizada, ou não, a
juízo da autoridade.
Atenção! Discricionariedade não se confunde com arbitrariedade!
Discricionariedade é liberdade DENTRO DOS LIMITES TRAÇADOS PELA LEI.

Essa discricionariedade do delegado possui algum limite colocado pela


própria lei? Cuidado com algumas diligências obrigatórias por força de lei! A
própria lei impõe ao delegado a realização de certas diligências, como, p.ex., o
exame de corpo de delito nas infrações que deixam vestígios.

5.6) Procedimento Indisponível:

O delegado não pode arquivar autos de inquérito policial. O arquivamento


parte do promotor e passa pelo juiz. O delegado não é o titular da ação penal.

Art. 17, CPP - A autoridade policial não poderá mandar arquivar


autos de inquérito.

5.7) Procedimento Temporário:

Essa é uma característica relativamente nova, apresentada por alguns


doutrinadores. Eles fazem a seguinte distinção:

Investigado preso → Quando o investigado está preso, o delegado tem um


prazo de 10 dias para concluir as investigações. A maioria da doutrina entende
que, quando o investigado está preso, esse prazo de 10 dias não pode ser
prorrogado.

Investigado solto → O prazo para a conclusão do IP é de 30 dias. Além disso, a


doutrina entende que, para o investigado solto, é possível a prorrogação do
prazo.

Art. 10, CPP - O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o


indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso
preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia em
que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, quando
estiver solto, mediante fiança ou sem ela.
§1º A autoridade fará minucioso relatório do que tiver sido apurado e
enviará autos ao juiz competente.
§2º No relatório poderá a autoridade indicar testemunhas que não
tiverem sido inquiridas, mencionando o lugar onde possam ser
encontradas.
§3º Quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado estiver solto, a
autoridade poderá requerer ao juiz a devolução dos autos, para
ulteriores diligências, que serão realizadas no prazo marcado pelo juiz.

Mas, atenção! Há um julgado INOVADOR (STJ, HC 96.666) – não é ainda


jurisprudência consolidada. Mas nesse caso, após sete anos de investigação, o
STJ determinou o trancamento do inquérito policial, fundamentando que
isso afrontava o princípio da razoável duração do processo. (Entendeu-se que,
se em sete anos não foram encontrados os elementos de autoria e materialidade,
não poderia a investigação durar ad eternun).

EMENTA HC 96.666: HABEAS CORPUS PREVENTIVO .


TRANCAMENTO DE INQUÉRITO POLICIAL. AUSÊNCIA DE
JUSTA CAUSA. ESTELIONATO CONTRA ENTE PÚBLICO E
FALSIDADE IDEOLÓGICA. ALEGAÇÃO DE QUE OS FATOS
INVESTIGADOS JÁ FORAM OBJETO DE OUTRO INQUÉRITO
POLICIAL, ARQUIVADO A PEDIDO DO MPF. FRAUDE NA
OBTENÇÃO DE FINANCIAMENTOS CONCEDIDOS PELO
FINAM E PELA SUDAM E DESVIO DE RECURSOS. NÃO
APURAÇÃO DE QUALQUER FATO QUE PUDESSE AMPARAR
EVENTUAL AÇÃO PENAL, TANTO QUE NÃO OFERECIDA A
DENÚNCIA. EXCESSO DE PRAZO. INVESTIGAÇÃO QUE DURA
MAIS DE 7 ANOS. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EXISTENTE.
ORDEM CONCEDIDA. (...). 2. O trancamento do Inquérito Policial
por meio do Habeas Corpus , conquanto possível, é medida de todo
excepcional, somente admitida nas hipóteses em que se mostrar
evidente, de plano, a ausência de justa causa, a inexistência de
qualquer elemento indiciário demonstrativo de autoria ou da
materialidade do delito ou, ainda, a presença de alguma causa
excludente de punibilidade. 3. (...) 5. No caso, passados mais de 7
anos desde a instauração do Inquérito pela Polícia Federal do
Maranhão, não houve o oferecimento de denúncia contra os
pacientes. É certo que existe jurisprudência, inclusive desta Corte,
que afirma inexistir constrangimento ilegal pela simples
instauração de Inquérito Policial, mormente quando o investigado
está solto, diante da ausência de constrição em sua liberdade de
locomoção (HC 44.649/SP, Rel. Min. LAURITA VAZ, DJU 08.10.07);
entretanto, não se pode admitir que alguém seja objeto de
investigação eterna, porque essa situação, por si só, enseja evidente
constrangimento, abalo moral e, muitas vezes, econômico e
financeiro, principalmente quando se trata de grandes empresas e
empresários e os fatos já foram objeto de Inquérito Policial arquivado
a pedido do Parquet Federal. 6. Ordem concedida, para determinar o
trancamento do Inquérito Policial 2001.37.00.005023-0 (IPL
521/2001), em que pese o parecer ministerial em sentido contrário.

6) Formas de instauração do Inquérito Policial:

 Crimes de ação penal pública condicionada ou de ação penal de inciativa


privada:
O inquérito policial não pode ser instaurado de ofício. A autoridade policial
depende do implemento da condição, podendo ser, a manifestação da vítima, a
representação ou requisição, a depender do tipo de ação.

Na representação não há necessidade de formalismos. Segundo a


jurisprudência, qualquer ato por parte da vítima demonstrando seu interesse na
persecução penal já é tido como representação. Ex. ir à delegacia e fazer o BO.

O delegado, após receber a condição ou a manifestação da vítima, e após


verificar a verossimilhança das informações, vai lavrar uma portaria.

 Crimes de ação penal pública incondicionada

a) De ofício: A autoridade policial toma conhecimento do fato delituoso através


de suas atividades rotineiras. O delegado deve lavrar uma portaria, que será a
peça inaugural do IP.

b) Requisição do juiz ou requisição do MP: Ver art. 5º, II, do CPP.

Art. 5o Nos crimes de ação pública o inquérito policial será iniciado:


II - mediante requisição da autoridade judiciária ou do Ministério
Público, ou a requerimento do ofendido ou de quem tiver qualidade
para representá-lo.

Deve-se lembrar que o nosso CPP data da década de 40, com uma inspiração
nitidamente inquisitorial/fascista. O CPP deve ser lido à luz da CF/88. Para
grande parte da doutrina, essa requisição do juiz não foi recepcionada pela CF,
pois tal disposição viola a garantia da imparcialidade.

Caso o juiz tenha contato com evidências da prática de um crime, deverá dar
vistas dos autos ao MP, e não requisitar o inquérito diretamente ao delegado.
Ver art. 40 do CPP.

Art. 40. Quando, em autos ou papéis de que conhecerem, os juízes ou


tribunais verificarem a existência de crime de ação pública, remeterão
ao Ministério Público as cópias e os documentos necessários ao
oferecimento da denúncia.

A própria requisição do MP é a peça inaugural do IP. Por isso, deve-se atentar


que é a partir da peça inaugural do IP é que se verifica quem é a autoridade
coatora, visando um possível HC e fixação da sua competência (delegado – juiz
de 1ª instância; promotor de justiça – TJ; promotor do DF – faz parte do MPU,
será julgado pelo TRF).

c) Requerimento do ofendido (ou de seu representante legal):


A própria vítima pode apresentar à autoridade policial o requerimento para
instauração do inquérito.

Contudo, este requerimento pode ser indeferido pelo delegado. Caso seja
indeferido, a vítima poderá utilizar do art. 5º, §2º, do CPP (recurso inominado
para o Chefe de Polícia – que deve ser lido como Delegado Geral da PC ou
Secretário de Segurança Pública, no âmbito estadual; ou superintendente da PF,
no âmbito federal). Outra possibilidade que a vítima teria, seria fazer o
requerimento ao MP.

§ 2o Do despacho que indeferir o requerimento de abertura de


inquérito caberá recurso para o chefe de Polícia.

A peça inaugural do IP será a portaria.

d) Notícia oferecida por qualquer do povo (“delatio criminis”):

Um terceiro, que não foi vítima do crime, comunica a ocorrência de um delito.


Observa-se que, em regra, esse terceiro não tem a obrigação de comunicar a
ocorrência de um crime. Somente os funcionários públicos e os médicos têm a
obrigação de comunicar crimes.

A peça inaugural do IP será a portaria.

e) Auto de prisão em flagrante delito:

O próprio APF é a peça inaugural do IP.

Ver art. 27 do CPPM. A depender do crime, se no APF já contiver todos os


elementos necessários ao oferecimento da denúncia, não há a necessidade de
instauração de inquérito.

Apesar de o CPP não ter dispositivo semelhante, tem-se que, na prática, tal
possibilidade vem sendo aplicada, por motivos de economia e celeridade.

Art. 27. Se, por si só, fôr suficiente para a elucidação do fato e sua
autoria, o auto de flagrante delito constituirá o inquérito, dispensando
outras diligências, salvo o exame de corpo de delito no crime que deixe
vestígios, a identificação da coisa e a sua avaliação, quando o seu valor
influir na aplicação da pena. A remessa dos autos, com breve relatório
da autoridade policial militar, far-se-á sem demora ao juiz competente,
nos termos do art. 20.

Em suma, para saber a forma de instauração do IP, a primeira coisa que se faz é
olhar para o crime, para se saber qual é a sua ação penal.

7) Notitia Criminis:
É o conhecimento espontâneo ou provocado por parte da autoridade policial
acerca de um fato delituoso. É o exato momento em que a autoridade policial
toma conhecimento de um fato. É vulgarmente conhecida como “queixa” ou
“denúncia”. Mas o correto é falar em notitia criminis.

São espécies de notitia criminis:

7.1) Notitia criminis de Cognição imediata ou espontânea: Nesse caso, a


autoridade policial toma conhecimento do crime por meio de suas atividades
rotineiras.

Ex. Delegado está investigando um crime e toma conhecimento da prática de


outro crime.

7.2) Notitia criminis de Cognição mediata ou provocada: Nessa hipótese, a


autoridade policial toma conhecimento do crime por meio de expediente
escrito.

Ex. Requisição do MP.

7.3) Notitia criminis de Cognição coercitiva: Nela, a autoridade policial toma


conhecimento do crime por meio da apresentação do indivíduo preso em
flagrante. A autoridade policial é praticamente “obrigada” a tomar
conhecimento desse crime, através do APF.

Obs: Delatio criminis: É uma espécie de notitia criminis. A peculiaridade é que ela
é uma espécie de notitia criminis feita por qualquer pessoa do povo.

Obs: Notitia criminis inqualificada: É a denúncia anônima.

É possível instaurar um IP com base em uma denúncia anônima?


Primeiramente, deve-se verificar que a denúncia anônima possui duas análises
distintas:

(1) Ela é muito importante para que seja tomado o conhecimento de


alguns crimes;

(2) A denúncia anônima também pode ser utilizada para prejudicar uma
pessoa.

Ver STF, HC 95.244.

EMENTA Habeas corpus. Constitucional e processual penal.


Possibilidade de denúncia anônima, desde que acompanhada de
demais elementos colhidos a partir dela. Instauração de inquérito.
Quebra de sigilo telefônico. Trancamento do inquérito. Denúncia
recebida. Inexistência de constrangimento ilegal. 1. O precedente
referido pelo impetrante na inicial (HC nº 84.827/TO, Relator o
Ministro Marco Aurélio, DJ de 23/11/07), de fato, assentou o
entendimento de que é vedada a persecução penal iniciada com base,
exclusivamente, em denúncia anônima. Firmou-se a orientação de
que a autoridade policial, ao receber uma denúncia anônima, deve
antes realizar diligências preliminares para averiguar se os fatos
narrados nessa "denúncia" são materialmente verdadeiros, para, só
então, iniciar as investigações. 2. No caso concreto, ainda sem
instaurar inquérito policial, policiais federais diligenciaram no
sentido de apurar as identidades dos investigados e a veracidade das
respectivas ocupações funcionais, tendo eles confirmado tratar-se de
oficiais de justiça lotados naquela comarca, cujos nomes eram os
mesmos fornecidos pelos "denunciantes". Portanto, os procedimentos
tomados pelos policiais federais estão em perfeita consonância com o
entendimento firmado no precedente supracitado, no que tange à
realização de diligências preliminares para apurar a veracidade das
informações obtidas anonimamente e, então, instaurar o
procedimento investigatório propriamente dito. 3. Habeas corpus
denegado.

Os Tribunais entendem que, por si só, ela não é idônea para instaurar o
inquérito. Antes de instaurar o IP, o delegado deve verificar a procedência das
informações (VPI – seria um procedimento preparatório e anterior ao IP).

Diante disso, deve-se ter em conta que a denúncia anônima, por si só, não serve
para fundamentar a instauração de inquérito policial. Porém, a partir dela, pode
a polícia realizar diligências preliminares para apurar a veracidade das
informações e, então, instaurar o procedimento investigatório.

8) Identificação Criminal

O que é a identificação criminal? É a identificação fotográfica e a colheita de


digitais.

A identificação criminal envolve dois momentos. Num primeiro momento,


existe a identificação fotográfica. Ocorre que ela muitas vezes não corresponde
à realidade, pois existe fotoshop e a pessoa pode mudar muito (ex. pinta o
cabelo, etc...). Num segundo momento, a identificação criminal envolve a
identificação datiloscópica. A colheita de impressões digitais envolve um
método mais eficaz.

A identificação criminal é a regra? Para responder a essa pergunta, devemos


ter em mente a evolução legislativa sobre o tema:

Antes da CF/88 Depois da CF/88


A identificação criminal era A CF/88 disse que o civilmente
obrigatória, mesmo que o identificado não será submetido à
investigado se identificasse identificação criminal, salvo nas
civilmente. O STF chegou inclusive a hipóteses previstas em lei.
trabalhar com a súmula nº 568
tratando dessa possibilidade de Então, para quem não apresentou sua
identificação criminal, ainda que a identificação civil, a pessoa pode sim ser
pessoa contivesse identificação civil. identificada criminalmente. Mas, no caso
Súmula 568 STF - A identificação da pessoa que se identificou civilmente
criminal não constitui constrangimento (apresentando o RG), a pessoa só poderá
ilegal, ainda que o indiciado já tenha ser identificada criminalmente nos
sido identificado civilmente. casos em que a lei previr.
(Superada pelo Art. 5º, LVIII, CF -
RHC 66881-RTJ 127/588) Art.5º, LVIII, CF - o civilmente identificado
não será submetido a identificação criminal,
salvo nas hipóteses previstas em lei.

A identificação criminal é gênero. Espécies:

1 – Identificação fotográfica: Utiliza-se o mesmo padrão da carteira de


identidade civil. Através da fotografia do indivíduo pode-se a sua captura.
Tal espécie de identificação não é infalível (cirurgias plásticas, adulteração
de fotos etc.).

2 – Identificação datiloscópica: É feita através da colheita das impressões


digitais. Começam a se formar a partir do terceiro mês de vida fetal.
Mesmo depois de morta, consegue-se coletar as impressões digitais da
pessoa.

3 – Identificação do perfil genético: No ano de 2012 surgiu a lei 12.654,


que passou a prever a possibilidade de identificação do perfil genético. Ex.
coletar um fio de cabelo para saber a identificação da pessoa através de
um exame de DNA

8.1) Leis Relativas à identificação criminal:



 Lei 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente (art.109) – Essa
identificação criminal era apenas para o adolescente. (Vide obs – revogada
tacitamente para alguns).

 Lei 9.034/95 - Lei das Organizações Criminosas (art.5º) – Esse artigo criou uma
identificação criminal obrigatória no caso de crimes de pessoas envolvidas em
identificação criminal. (Vide obs – revogada tacitamente para alguns). Ver nova
Lei Organizações Criminosas (Lei 12.850/2013).
 Lei 10.054/00 - Lei da Identificação criminal (art.3º) – Essa lei era muito
criticada, pois em seu artigo 3º, ela criava uma identificação criminal obrigatória
para certos delitos. Essa lei já foi revogada. (REVOGADA EXPRESSAMENTE)

 Lei 12.037/09 - Lei da Identificação criminal (art.2º e art.3º) – REGULA A


MATÉRIA ATUALMENTE.

Obs: Evolução legislativa sobre o tema:

A lei 12.037/09 REVOGOU EXPRESSAMENTE a Lei 10.054/00.

Mas e quanto às outras leis? A doutrina sustenta que houve uma revogação
tácita dos artigos 109 do ECA e art. 5º, da Lei 9.034/95 (Lei das Organizações
Criminosas), por duas razões:

a) A lei 12.037 é uma lei especial e posterior sobre a identificação criminal;

b) A própria lei 12.037, em seu artigo 1º, diz:

“O civilmente identificado não será submetido a identificação


criminal, salvo nos casos previstos nesta Lei”.

Portanto, com base nesse art. 1º, a maioria da doutrina diz que as demais leis
sobre identificação criminal foram REVOGADAS TACITAMENTE pela lei
12.037/09.

Hoje, a lei 12.037/09 regula a identificação criminal e dispõe que: Lei 12.037:

Art. 2º - A identificação civil é atestada por qualquer dos seguintes


documentos:
I – carteira de identidade;
II – carteira de trabalho;
III – carteira profissional;
IV – passaporte;
V – carteira de identificação funcional;
VI – outro documento público que permita a identificação do
indiciado.
Parágrafo único. Para as finalidades desta Lei, equiparam-se aos
documentos de identificação civis os documentos de identificação
militares.

Art. 3º - Embora apresentado documento de identificação, poderá


ocorrer identificação criminal quando:
I – o documento apresentar rasura ou tiver indício de falsificação;
II – o documento apresentado for insuficiente para identificar
cabalmente o indiciado; (ex. Certidão de Nascimento)
III – o indiciado portar documentos de identidade distintos, com
informações conflitantes entre si;
IV – a identificação criminal for essencial às investigações policiais,
segundo despacho da autoridade judiciária competente, que
decidirá de ofício ou mediante representação da autoridade policial, do

Ministério Público ou da defesa; Esse é o único inciso que depende de


autorização judicial.

Na hipótese deste inciso, a Lei Sobre a Identificação do Perfil Genético passou a


prever que nesse caso também é possível a coleta de material biológico para fins
de identificação do perfil genético.

V – constar de registros policiais o uso de outros nomes ou


diferentes qualificações;

VI – o estado de conservação ou a distância temporal ou da localidade


da expedição do documento apresentado impossibilite a completa
identificação dos caracteres essenciais.

Parágrafo único. As cópias dos documentos apresentados deverão ser


juntadas aos autos do inquérito, ou outra forma de investigação, ainda
que consideradas insuficientes para identificar o indiciado.

Obs: A lei prevê a retirada da identificação fotográfica do IP ou processo em


caso de arquivamento ou sentença absolutória transitada em julgado. Isto está
no art.7º, da Lei 12.037/09:

Art. 7º, Lei 12.037/09: No caso de não oferecimento da denúncia, ou


sua rejeição, ou absolvição, é facultado ao indiciado ou ao réu, após o
arquivamento definitivo do inquérito, ou trânsito em julgado da
sentença, requerer a retirada da identificação fotográfica do
inquérito ou processo, desde que apresente provas de sua identificação
civil.

Identificação do perfil genético (lei 12.654/12): Introduziu o art. 5º, PU, à Lei
12.037/09.

Art. 5º A identificação criminal incluirá o processo datiloscópico e o


fotográfico, que serão juntados aos autos da comunicação da prisão em
flagrante, ou do inquérito policial ou outra forma de investigação.
Parágrafo único. Na hipótese do inciso IV do art. 3o, a identificação
criminal poderá incluir a coleta de material biológico para a obtenção
do perfil genético.

Pode-se coletar o material biológico de alguém para fazer a sua identificação


criminal? Uma primeira corrente defende que viola a dignidade da pessoa
humana e o princípio que veda a autoincriminação. Uma segunda corrente,
buscando a compatibilidade com o princípio que veda a autoincriminação, tem
se que tal coleta deverá ser proporcional, através de uma técnica adequada,
indolor, sem que se produza uma prova invasiva, contra a vontade do
indivíduo. Ex. apreender um cigarro que a pessoa fumou e descartou.

Ver Reclamação 2.040 do STF. Deve-se utilizar esse mesmo raciocínio para a
coleta do material biológico.

EMENTA: - Reclamação. Reclamante submetida ao processo de


Extradição n.º 783, à disposição do STF. 2. Coleta de material
biológico da placenta, com propósito de se fazer exame de DNA,
para averigüação de paternidade do nascituro, embora a oposição da
extraditanda. 3. Invocação dos incisos X e XLIX do art. 5º, da CF/88.
4. Ofício do Secretário de Saúde do DF sobre comunicação do Juiz
Federal da 10ªVara da Seção Judiciária do DF ao Diretor do Hospital
Regional da Asa Norte - HRAN, autorizando a coleta e entrega de
placenta para fins de exame de DNA e fornecimento de cópia do
prontuário médico da parturiente. 5. Extraditanda à disposição desta
Corte, nos termos da Lei n.º 6.815/80. Competência do STF, para
processar e julgar eventual pedido de autorização de coleta e exame
de material genético, para os fins pretendidos pela Polícia Federal. 6.
Decisão do Juiz Federal da 10ª Vara do Distrito Federal, no ponto em
que autoriza a entrega da placenta, para fins de realização de exame
de DNA, suspensa, em parte, na liminar concedida na Reclamação.
Mantida a determinação ao Diretor do Hospital Regional da Asa
Norte, quanto à realização da coleta da placenta do filho da
extraditanda. Suspenso também o despacho do Juiz Federal da 10ª
Vara, na parte relativa ao fornecimento de cópia integral do
prontuário médico da parturiente. 7. Bens jurídicos constitucionais
como "moralidade administrativa", "persecução penal pública" e
"segurança pública" que se acrescem, - como bens da comunidade, na
expressão de Canotilho, - ao direito fundamental à honra (CF, art. 5°,
X), bem assim direito à honra e à imagem de policiais federais
acusados de estupro da extraditanda, nas dependências da Polícia
Federal, e direito à imagem da própria instituição, em confronto com
o alegado direito da reclamante à intimidade e a preservar a
identidade do pai de seu filho. 8. Pedido conhecido como reclamação
e julgado procedente para avocar o julgamento do pleito do
Ministério Público Federal, feito perante o Juízo Federal da 10ª Vara
do Distrito Federal. 9. Mérito do pedido do Ministério Público
Federal julgado, desde logo, e deferido, em parte, para autorizar a
realização do exame de DNA do filho da reclamante, com a
utilização da placenta recolhida, sendo, entretanto, indeferida a
súplica de entrega à Polícia Federal do "prontuário médico" da
reclamante.
A Lei 12.654/12 alterou a LEP (Lei 7.210/84), acrescentado o art. 9-A ao seu rol.
Critica-se esse dispositivo, pois torna obrigatória a identificação do perfil
genético para determinadas espécies de crimes.

Art. 9o-A. Os condenados por crime praticado, dolosamente, com


violência de natureza grave contra pessoa, ou por qualquer dos crimes
previstos no art. 1o da Lei no 8.072, de 25 de julho de 1990, serão
submetidos, obrigatoriamente, à identificação do perfil genético,
mediante extração de DNA - ácido desoxirribonucleico, por técnica
adequada e indolor.
§ 1o A identificação do perfil genético será armazenada em banco de
dados sigiloso, conforme regulamento a ser expedido pelo Poder
Executivo.
§ 2o A autoridade policial, federal ou estadual, poderá requerer ao juiz
competente, no caso de inquérito instaurado, o acesso ao banco de
dados de identificação de perfil genético.

9) Incomunicabilidade do indiciado preso:

A incomunicabilidade é a proibição de que o investigado tenha contato com


outras pessoas. É prevista no art.21, do CPP.

Art. 21, CPP - A incomunicabilidade do indiciado dependerá sempre


de despacho nos autos e somente será permitida quando o interesse da
sociedade ou a conveniência da investigação o exigir.

ATENÇÃO!! Doutrina esmagadora do processo penal diz que esse artigo 21, do
CPP NÃO FOI RECEPCIONADO pela CF/88. Isto porque (1) a própria CF
garante a assistência da família e de advogado. (2) E, além disso, a própria CF
diz que é vedada a incomunicabilidade durante o Estado de Defesa (art.136, §3º,
IV, CF). O raciocínio é que o Estado de defesa é um estado de exceção, um
estado de crise. Então, se num estado de crise não se pode manter o preso
incomunicável, muito menos num estado de normalidade.

9.1) Incomunicabilidade no Regime Disciplinar Diferenciado:

O RDD previsto na lei de Execuções Penais tem uma maior restrição às visitas.
Mas NÃO SE PODE DIZER QUE O PRESO É MANTIDO INCOMUNICÁVEL.

Art. 52, LEP - A prática de fato previsto como crime doloso constitui
falta grave e, quando ocasione subversão da ordem ou disciplina
internas, sujeita o preso provisório, ou condenado, sem prejuízo da
sanção penal, ao regime disciplinar diferenciado, com as seguintes
características:
I - duração máxima de 360 dias, sem prejuízo de repetição da
sanção por nova falta grave de mesma espécie, até o limite de um sexto
da pena aplicada; (Incluído pela Lei nº 10.792/03)
II - recolhimento em cela individual; (Incluído pela Lei nº 10.792,
de 2003)
III - visitas semanais de duas pessoas, sem contar as crianças,
com duração de duas horas; (Incluído pela Lei nº 10.792, de
2003)
IV - o preso terá direito à saída da cela por 2 hrs diárias para banho
de sol. (Incluído pela L 10.792/03)

10) Indiciamento:

10.1) Conceito de Indiciamento:

Indiciar é atribuir a alguém a autoria ou participação em determinada infração


penal. É apontar alguém como provável autor do delito.

ATENÇÃO! O nome como podemos nos referir ao agente muda-se ao longo a


instrução penal e processual penal. É importante observar a nomenclatura
correta, nos seguintes termos:

Num primeiro momento, a pessoa é tratada como suspeito ou


investigado.
Após, o delegado chega a alguns elementos e a pessoa é indiciada.
O IP vai para o MP e este, entendendo cabível, oferece denúncia.

Então, na fase judicial a pessoa é chamada de denunciado ou acusado.


Ao final do processo, após o trânsito em julgado de sentença condenatória, a
pessoa pode ser chamada de condenado ou réu.

10.2) Momento do Indiciamento:

O indiciamento é próprio da fase investigatória e não pode ser feito depois que
o processo judicial estiver em andamento (O STJ já anulou indiciamentos em
casos que já havia processo judicial).

Ver HC 182.455 do STJ.

PENAL. HABEAS CORPUS. DETERMINAÇÃO DE INDICIAMENTO


FORMAL APÓS O RECEBIMENTO DA DENÚNCIA.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL. EXISTÊNCIA. ORDEM
CONCEDIDA. 1. Esta Corte Superior de Justiça, reiteradamente, vem
decidindo que o indiciamento formal dos acusados, após o recebimento da
denúncia, submete os pacientes a constrangimento ilegal e desnecessário,
uma vez que tal procedimento, que é próprio da fase inquisitorial, não mais
se justifica quando a ação penal já se encontra em curso. 2. Habeas corpus
concedido para cassar a decisão que determinou o indiciamento formal dos
pacientes, excluindo-se todos os registros e anotações, relativos ao processo
de que aqui se cuida, sem prejuízo do regular andamento da ação penal.
10.3) Pressupostos para o indiciamento:

O indiciamento não pode ser um ato arbitrário. É indispensável a (1) presença


de elementos informativos quanto à autoria e materialidade do delito. O
indiciamento não pode ser um ato arbitrário. Além disso, a doutrina e algumas
portarias de delegacias dizem que deve haver um (2) despacho fundamentado
da autoridade policial. É importante que, neste despacho, o (3) delegado faça,
também, a classificação da modalidade delituosa. Essa classificação é
provisória, não vincula o MP. Mas ela é importante, por exemplo, para uma
fiança, uma liberdade provisória, etc.

10.4) Espécies de indiciamento:

Há 2 espécies de indiciamento:

a) Indiciamento direto → É aquele feito na presença do investigado. O


delegado manda chamar o investigado e faz o indiciamento na frente dele. É
feito após o interrogatório.

b) Indiciamento indireto → É feito na hipótese de não localização do


investigado (ex. Investigado está em local incerto e não sabido).

10.5) Desindiciamento:

Ocorre quando anterior indiciamento é desconstituído em face de ilegalidade.


Os tribunais têm admitido para este caso a própria utilização do habeas corpus.
Ex. STJ, HC 43.599.

EMENTA HC 43.599: PROCESSUAL PENAL. HC. IP.


INDICIAMENTO. FALTA DE ELEMENTOS NECESSÁRIOS.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. O indiciamento
configura constrangimento quando a autoridade policial, sem
elementos mínimos de materialidade delitiva, lavra o termo
respectivo e nega ao investigado o direito de ser ouvido e de
apresentar documentos. Ordem CONCEDIDA em parte, para
possibilitar ao paciente que preste seus esclarecimentos acerca do
fato, em termo de declaração; junte documentos e indique
providências no caderno investigatório.

10.6) Sujeitos do indiciamento:

a) Sujeito ativo do indiciamento – quem tem a atribuição para fazer o


indiciamento? É uma atribuição privativa da autoridade policial.

Ver art. 2º, §6º, da Lei 12.830/13.


§ 6o O indiciamento, privativo do delegado de polícia, dar-se-á por ato
fundamentado, mediante análise técnico jurídica do fato, que deverá
indicar a autoria, materialidade e suas circunstâncias.

Tecnicamente, não é correto o MP ou o juiz requisitar para que o delegado


indicie alguém.

b) Sujeito passivo do indiciamento – quem pode ser indiciado? A regra é que


qualquer pessoa pode ser indiciada.

Mas existem exceções. Atenção! Pessoas que não podem ser indiciadas:

(1) Juiz;

(2) Órgão do MP (vide Lei 8.625/93 – LOMNP – art.41, II).

Art. 41, Lei 8.625/93 - Constituem prerrogativas dos membros do


Ministério Público, no exercício de sua função, além de outras
previstas na Lei Orgânica:
(...)
II - não ser indiciado em inquérito policial, observado o disposto
no parágrafo único deste artigo;
(...)
Parágrafo único. Quando no curso de investigação, houver indício da
prática de infração penal por parte de membro do Ministério Público, a
autoridade policial, civil ou militar remeterá, imediatamente, sob
pena de responsabilidade, os respectivos autos ao Procurador-Geral de
Justiça, a quem competirá dar prosseguimento à apuração.

Atenção! Membro do MP e juiz não pode ser investigado por delegado.

(3) Acusado com foro por prerrogativa de função – O STF já entendeu isso (Vide
INQ 2.411/MT – Nesse julgado, o STF entendeu que é necessária autorização
do Ministro ou Desembargador relator não só para o início das investigações,
como também para o indiciamento. Esse caso era de um Senador, mas o STF
disse que o entendimento é aplicável para demais réus com foro por
prerrogativa de função).

EMENTA INQ 2.411/MT - QO: Questão de Ordem em Inquérito. 1.


Trata-se de questão de ordem suscitada pela defesa de Senador da
República, em sede de inquérito originário promovido pelo MPF,
para que o Plenário do STF defina a legitimidade, ou não, da
instauração do inquérito e do indiciamento realizado diretamente
pela Polícia Federal (PF). 2. Apuração do envolvimento do
parlamentar quanto à ocorrência das supostas práticas delituosas sob
investigação na denominada "Operação Sanguessuga". 3. Antes da
intimação para prestar depoimento sobre os fatos objeto deste
inquérito, o Senador foi previamente indiciado por ato da autoridade
policial encarregada do cumprimento da diligência. 4. Considerações
doutrinárias e jurisprudenciais acerca do tema da instauração de
inquéritos em geral e dos inquéritos originários de competência do
STF: i) a jurisprudência do STF é pacífica no sentido de que, nos
inquéritos policiais em geral, não cabe a juiz ou a Tribunal
investigar, de ofício, o titular de prerrogativa de foro; ii) qualquer
pessoa que, na condição exclusiva de cidadão, apresente "notitia
criminis", diretamente a este Tribunal é parte manifestamente
ilegítima para a formulação de pedido de recebimento de denúncia
para a apuração de crimes de ação penal pública incondicionada. (...)
iii) diferenças entre a regra geral, o inquérito policial disciplinado no
Código de Processo Penal e o inquérito originário de competência do
STF regido pelo art. 102, I, b, da CF e pelo RI/STF. A prerrogativa de
foro é uma garantia voltada não exatamente para os interesses do
titulares de cargos relevantes, mas, sobretudo, para a própria
regularidade das instituições. Se a Constituição estabelece que os
agentes políticos respondem, por crime comum, perante o STF (CF,
art. 102, I, b), não há razão constitucional plausível para que as
atividades diretamente relacionadas à supervisão judicial (abertura
de procedimento investigatório) sejam retiradas do controle judicial
do STF. A iniciativa do procedimento investigatório deve ser
confiada ao MPF contando com a supervisão do MinistroRelator do
STF. 5. A Polícia Federal não está autorizada a abrir de ofício
inquérito policial para apurar a conduta de parlamentares federais
ou do próprio Presidente da República (no caso do STF). No
exercício de competência penal originária do STF (CF, art. 102, I,
"b" c/c Lei nº 8.038/1990, art. 2º e RI/STF, arts. 230 a 234), a atividade
de supervisão judicial deve ser constitucionalmente
desempenhada durante toda a tramitação das investigações desde a
abertura dos procedimentos investigatórios até o eventual
oferecimento, ou não, de denúncia pelo dominus litis. 6. Questão
de ordem resolvida no sentido de anular o ato formal de
indiciamento promovido pela autoridade policial em face do
parlamentar investigado.

-----------------------------------------------------3ª Aula-------------------------------------------

11) Conclusão do Inquérito Policial:

11.1) Prazo: Investigado Investigado


Preso Solto
CPP (e também caso de prisão temporária 10 dias 30 dias
comum)
IP perante a Justiça Federal 15 dias + 15 dias 30 dias
CPPM 20 dias 40 dias
Lei 11.343/06 30 dias + 30 dias 90 dias + 90 dias
Crimes contra a economia popular 10 dias 10 dias
Prisão Temporária em Crimes Hediondos 30 dias + 30 dias (Não se aplica)
e equiparados

Obs: Esses prazos de investigação podem ser prorrogados? Em se tratando de


investigado solto, o prazo pode ser prorrogado. Porém, se o investigado
estiver preso, não é possível a prorrogação (sendo possível a caracterização de
excesso de prazo, levando ao relaxamento da prisão).

Obs: Natureza jurídica dos prazos de investigação:

Em se tratando de investigado solto, o prazo tem natureza processual (nesse


prazo, o dia do início não é considerado – pode ser prorrogado até o primeiro
dia útil subsequente).

Em se tratando de investigado preso, há duas correntes:

1ª Corrente - Prazo Penal - Nucci – Trata-se de prazo de natureza penal;

2ª Corrente - Prazo Processual Penal – Denilson Feitosa, Mirabete – Prazo


de natureza processual. Segundo esta corrente, prazo da prisão é diferente
de prazo de inquérito.

Consequências do descumprimento dos prazos:

 Indivíduo solto: Trata-se de um prazo impróprio. Não haverá nenhuma


consequência. É uma mera irregularidade.

 Indivíduo preso: Eventual excesso autoriza o relaxamento da prisão.


Segundo a jurisprudência, esse excesso que acarreta o relaxamento da
prisão, deve ser abusivo e desproporcional. A jurisprudência entende
que a contagem do prazo é global.

Ver HC 44.604 do STJ.

HABEAS CORPUS. DIREITO PROCESSUAL PENAL. PRISÃO


PREVENTIVA DECRETADA EM SEDE DE INQUÉRITO POLICIAL.
EXCESSO DE PRAZO. CARACTERIZAÇÃO.
1. A prisão ilegal, que há de ser relaxada pela autoridade judiciária,
em cumprimento de dever-poder insculpido no artigo 5º, inciso LXV,
da Constituição da República, compreende, por certo, aquela que,
afora perdurar por prazo superior ao prescrito em lei, ofende de
forma manifesta o princípio da razoabilidade.
2. É induvidosa a caracterização de constrangimento ilegal, quando
perdura a constrição cautelar por mais de seis meses, sem
oferecimento da denúncia, fazendo-se invocável a razoabilidade.
3. Ordem concedida.

11.2) Relatório da Autoridade Policial:

Art. 10, CPP - O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o


indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso
preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia em
que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, quando
estiver solto, mediante fiança ou sem ela.
§1º A autoridade fará minucioso relatório do que tiver sido apurado
e enviará autos ao juiz competente.
§2º No relatório poderá a autoridade indicar testemunhas que não
tiverem sido inquiridas, mencionando o lugar onde possam ser
encontradas.
§3º Quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado estiver solto, a
autoridade poderá requerer ao juiz a devolução dos autos, para
ulteriores diligências, que serão realizadas no prazo marcado pelo juiz.

Relatório é uma peça de caráter descritivo, que aponta as principais diligências


realizadas ao longo do inquérito.

Cuidado!! Em regra, não deve a autoridade policial fazer qualquer juízo de


valor no relatório (ex. “entendo que é caso de absolvição....”), pois o delegado
não é titular da ação penal.

Mas, ATENÇÃO!! Excepcionalmente, há situação em que o delegado é


obrigado a emitir juízo de valor sobre o caso: é no caso da lei de drogas, no
art.52, I, da Lei 11.343/06. Nesse caso, ao classificar o delito, o delegado deve
justificar porque entendeu de tal maneira. Embora a classificação do delegado
não vincule o MP nem o juiz, ela é importante num momento inicial, como por
exemplo, para conceder fiança, prisão do suspeito, etc.

Art. 52, Lei 11.343/06 - Findos os prazos a que se refere o art. 51


desta Lei, a autoridade de polícia judiciária, remetendo os autos do
inquérito ao juízo:
I - relatará sumariamente as circunstâncias do fato, justificando as
razões que a levaram à classificação do delito, indicando a
quantidade e natureza da substância ou do produto apreendido, o local
e as condições em que se desenvolveu a ação criminosa, as
circunstâncias da prisão, a conduta, a qualificação e os antecedentes do
agente;

O relatório não é obrigatório/indispensável para o início do processo (se nem


mesmo o IP não é obrigatório, quem dirá o relatório).
11.3) Destinatário dos autos do IP:

De acordo com o CPP, os autos do IP são encaminhados da Polícia ao poder


judiciário. Após, o judiciário abre vista dos autos ao MP.

Obs: Deve-se ficar atento a algumas portarias de alguns tribunais de justiça, no


caso de MP estadual. Alguns Tribunais já criaram as chamadas Centrais de
Inquérito. Ver resolução nº 63/2009 (Conselho da Justiça Federal): estabelece a
obrigatoriedade de tramitação direta entre a PF e o MPF. Exceção seria quando
houvesse uma medida cautelar que demanda intervenção do juízo competente,
como a prisão em flagrante por ex. (há a necessidade de convalidação do
flagrante pelo juiz).

No caso da justiça federal, atentar para a Resolução nº 63, do Conselho da


Justiça Federal.

Resolução 63, CJF: Estabelece a tramitação direta dos autos do IP entre a polícia
e o MPF, salvo na hipótese em que houver pedido de medida cautelar ou
quando for necessária a intervenção do poder judiciário. Isso é com a finalidade
de otimizar a tramitação do inquérito e priorizar a celeridade.

Ex. de caso em que o IP deverá passar pelo juiz: caso o suspeito tenha sido
preso em flagrante, os autos devem ir para o juiz, para que ele decida sobre a
conversão do flagrante em preventiva ou concessão de fiança, cautelar, etc..
Os Estados da Bahia e RJ já adotaram a tramitação direta do inquérito.

ATENÇÃO: Vale destacar que, em recente julgado, o STF decide que


Inquérito Policial deve passar pelo Judiciário!

Inquéritos policiais devem ser remetidos ao Poder Judiciário antes de serem


encaminhados ao Ministério Público. A determinação é resultado do
julgamento do Supremo Tribunal Federal que declarou a inconstitucionalidade
do inciso IV do artigo 35 da Lei Orgânica do Ministério Público do estado do
Rio de Janeiro.

A Lei Complementar 106/2003 assegurava ao Ministério Público o direito de


receber os autos diretamente da polícia em caso de infração de ação penal
pública. A decisão é resultado do julgamento da Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI 2886), ajuizada em 2003, que questionava
dispositivos da lei.

No mesmo julgamento, a corte declarou a constitucionalidade da norma que


permite ao Ministério Público estadual requisitar informações quando o
inquérito policial não for encerrado em 30 dias, se o indiciado estiver solto com
ou sem fiança (inciso V do artigo 35).
A maioria do Plenário seguiu o voto do relator, ministro Eros Grau
(aposentado) que julgou a ADI parcialmente procedente. O julgamento foi
retomado nessa quinta-feira (4/4) com o voto-vista do presidente da corte,
ministro Joaquim Barbosa, que seguiu o entendimento do relator. Com
informações da Assessoria de Imprensa do STF.

Leia a ementa da decisão:

Colhido o voto-vista do ministro Joaquim Barbosa (Presidente), o


tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, julgou
parcialmente procedente a ação direta para declarar a
inconstitucionalidade do inciso IV do art. 35 da Lei Complementar nº
106/2003, do Estado do Rio de Janeiro, vencidos os Ministros Marco
Aurélio, Roberto Barroso, Cármen Lúcia e Celso de Mello. Redigirá o
acórdão o Ministro Joaquim Barbosa (Presidente). Não votaram os
Ministros Luiz Fux e Ricardo Lewandowski, por sucederem
respectivamente aos Ministros Eros Grau (Relator) e Carlos Velloso.
Plenário, 03.04.2014.

11.4) Providências a serem adotadas pelo MP após a remessa dos autos do IP:

Obs: A depender da situação (que deve ser muito sui generis), pode haver
necessidade de o promotor trabalhar com mais de uma dessas possibilidades.

Primeiramente, o MP deve analisar a espécie de ação penal:

A. Em se tratando de crimes de AÇÃO PENAL PRIVADA → O MP vai


requerer a permanência dos autos em cartório aguardando-se a iniciativa
do ofendido ou de seu representante legal.

B. Em se tratando de crimes de AÇÃO PENAL PÚBLICA → o MP pode:

1. Oferecer denúncia;
2. Promoção de Arquivamento;
3. Requisição de diligências;
Obs: Requisição de diligências: De acordo com o CPP, essas diligências só
devem ser requisitadas se forem indispensáveis ao oferecimento da denúncia.
As diligências devem ser requisitadas diretamente à autoridade policial, salvo
se houver necessidade de intervenção do poder judiciário. Isto, em razão do
disposto no art.129, VIII, CF:

Art.129, CF - “São funções institucionais do MP:(...)


VIII - Requisitar diligências investigatórias e a instauração de IP,
indicados os fundamentos jurídicos e suas razões processuais.”

Como dito, em situações excepcionais pode ser necessária a intervenção do


judiciário.

Ex: quebra de sigilo bancário; interceptação telefônica, etc.

ATENÇÃO!! Se o juiz indeferir o retorno dos autos à Depol para a realização


das diligências complementares, caberá correição parcial.

4. Pedido de Declinação de Competência: Esse pedido deve ser feito


quando o promotor entender que o juízo perante o qual atua não tem
competência para o julgamento do delito. Ex. Juiz estadual pega um
crime de moeda falsa; deve fazer um pedido de declinação de
competência para a Justiça Federal; declinação de competência para
os juizados.

5. Suscitar um Conflito de Competência ou Conflito de Atribuições:

Conflito de competência X Declinação de competência


Pedido de declinação de competência Suscitar conflito de competência
Não houve prévia manifestação do Outro órgão jurisdicional já havia se
outro órgão jurisdicional acerca da manifestado quanto à competência,
competência. entendendo-se incompetente ou
competente.

Obs: Conflito de Competência: Tecnicamente, o correto é falar conflito de


competência, e não conflito de jurisdição, pois a jurisdição é una. O Conflito de
Competência é um conflito estabelecido entre duas ou mais autoridades
jurisdicionais.

Esse conflito pode ser de duas espécies:

 Conflito positivo – quando os juízos se consideram competentes;


 Conflito negativo – quando os juízos se consideram incompetentes;

É mais comum existir conflito negativo de competência, mas cuidado, em casos


de repercussão nacional, é mais comum o conflito positivo de competência.
O conflito de competência vem regulado no art.114, do CPP:

Art. 114, CPP - Haverá conflito de jurisdição:


I - quando duas ou mais autoridades judiciárias se considerarem
competentes, ou incompetentes, para conhecer do mesmo fato
criminoso;
II - quando entre elas surgir controvérsia sobre unidade de juízo,
junção ou separação de processos.

Atenção! Muito cuidado com a Súmula 59, do STJ - “Não há conflito de


competência se já existe sentença com trânsito em julgado, proferida por um
dos juízos conflitantes”.

Quem decide um conflito de competência? Vejamos alguns exemplos sobre a


matéria:

Ex1: Juiz Estadual (SP) x TJSP → Não há conflito, pois onde houver hierarquia
jurisdicional, não haverá conflito de competência.

Ex2: Juiz Federal (RJ) x Juiz Estadual (ES) → Para saber quem decide o conflito,
pelo menos em regra, deve-se buscar um órgão jurisdicional superior e comum
aos dois juízos conflitantes. No exemplo, analisaremos:

 Juiz Federal/RJ → TRF/2ª Reg. → STJ


 Juiz Estadual/ES → TJ/ES → STJ

Logo, o órgão para solucionar o conflito aqui é o STJ.

Ex3: STM x Juiz Federal/RS → Sempre que houver um Tribunal Superior


envolvido, o conflito será apreciado pelo STF.

Ex4: Juiz Estadual/SP x Juiz de Direito do Juízo Militar/SP → Nem todos os


Estados possuem TJM (Os TJM só existem em MG, SP e RS). Aqui tb vale a
regra do órgão jurisdicional superior comum aos conflitantes.

No exemplo, analisaremos:

Juiz Estadual/SP → TJ/SP → STJ


Juiz de Direito do Juízo Militar/SP → TJM/SP (se houver) → STJ Mas, se no
Estado não houver TJM. Ex:
Juiz Estadual/RJ → TJ/RJ
Juiz de Direito do Juízo Militar/RJ → TJ/RJ

Ex5: Juiz do JEF/MG x Juiz Federal/MG. Atenção! No caso dos juizados


especiais houve divergência jurisprudencial, devendo-se observar a evolução
do tema!
Havia uma súmula do STJ que dizia:

Súm.348, do STJ - “Compete ao STJ decidir os Conflitos de Competência entre JEF e


Juízo Federal, ainda que da mesma seção judiciária”. - CANCELADA -

Mas esse entendimento da Súm.348, STJ já está ultrapassado, de modo que o


entendimento de hoje é que SE OS DOIS JUÍZOS SÃO DA MESMA REGIÃO
DE TRF, QUEM VAI APRECIAR O CONFLITO É O TRF DA REGIÃO!!!

Isso também vale para o caso dos JUIZADOS ESPECIAIS ESTADUAIS, COM
RELAÇÃO AO RESPECTIVO TJ.

A SÚMULA 348 FOI CANCELADA APÓS UMA DECISÃO DO STF E A NOVA


SÚMULA SOBRE O ASSUNTO É A SÚMULA 428, STJ, QUE DIZ.

Súmula 428 - Compete ao TRF decidir os conflitos de competência entre JEF e juiz
federal da mesma seção judiciária. (Tecnicamente, não é a seção judiciária, mas sim
aos juízos pertencentes AO MESMO TRF).

Então, no exemplo, analisaremos:

Juiz do JEF/MG (Turma Recursal) → TRF/1ª Reg. Juiz Federal/MG → TRF/1ª


Reg.

Temos, ainda no CPP, outras disposições acerca do conflito de competência em


matéria processual penal. São as seguintes disposições:

Art. 115, CPP - O conflito poderá ser suscitado:


I - pela parte interessada;
II - pelos órgãos do Ministério Público junto a qualquer dos juízos em
dissídio;
III - por qualquer dos juízes ou tribunais em causa.

Art. 116, CPP - Os juízes e tribunais, sob a forma de representação, e


a parte interessada, sob a de requerimento, darão parte escrita e
circunstanciada do conflito, perante o tribunal competente, expondo os
fundamentos e juntando os documentos comprobatórios.
§1º Quando negativo o conflito, os juízes e tribunais poderão suscitá-
lo nos próprios autos do processo.
§2º Distribuído o feito, se o conflito for positivo, o relator poderá
determinar imediatamente que se suspenda o andamento do processo.
§3º Expedida ou não a ordem de suspensão, o relator requisitará
informações às autoridades em conflito, remetendo-lhes cópia do
requerimento ou representação.
§4º As informações serão prestadas no prazo marcado pelo relator.
§5º Recebidas as informações, e depois de ouvido o procurador-geral, o
conflito será decidido na primeira sessão, salvo se a instrução do feito
depender de diligência.
§6º Proferida a decisão, as cópias necessárias serão remetidas, para a
sua execução, às autoridades contra as quais tiver sido levantado o
conflito ou que o houverem suscitado.

Art. 117, CPP - O STF, mediante avocatória, restabelecerá a sua


jurisdição, sempre que exercida por qualquer dos juízes ou tribunais
inferiores.

Obs: Conflito de Atribuições:

Conflito de atribuições é aquele estabelecido entre órgãos do MP acerca da


responsabilidade ativa para a persecução penal.

Quem decide o conflito de atribuições?

Ex1: MP/BA x MP/BA → PGJ/BA Dentre dois órgãos do MP do mesmo


Estado, o Procurador-Geral de Justiça do respectivo Estado.

Ex2: MPF/AM x MPF/PA → CCR/MPF → Dentro do MP existe um órgão de


revisão que não existe nos MPs estaduais (só no MPF). Esse órgão é a Câmara
de Correção e Revisão do MPF.

Ex3: MPM/SP x MPF/PR → PGR → MPU é composto por MPF, MPT, MPM, e
MPDFT → Então, um conflito entre algum órgão desses MPs é conflito dentro
do MPU. O Chefe do MPU é o PGR.

Ex4: MPF/GO x MP/MS → STF. Nesse caso, há uma polêmica.

Há uma corrente minoritária, que pensa que o MPF localizado em determinado


Estado (ex. GO) atuará perante o Juiz Federal desse Estado (ex. JF de GO). No
mesmo sentido, o MP estadual atuará perante a justiça estadual do respectivo
Estado (Ex. o MPMS atuará perante o Juiz Estadual de MS). Então, num conflito
entre MPF e MP Estadual localizados no mesmo Estado, haveria um CONFLITO
VIRTUAL DE ATRIBUIÇÕES entre eles. Para esta corrente, o conflito virtual de
atribuições deveria ser decidido pelo mesmo juízo que decide um conflito entre
os JUÍZOS virtualmente em conflito (no caso, para esta corrente, o STJ).

Mas, na verdade, a corrente que prevalece é que o MPF representa a União e o


MP Estadual representa um Estado membro. Então, quem decidiria esse conflito
entre a União e um Estado membro é o STF. É o que diz o artigo 102, I, “f”, CF.

Art.102 - “Compete ao STF:


I – Processar e julgar, originariamente:
(…) f - “as causas e os conflitos entre a União e os Estados, a União e
o DF, ou entre uns e outros, inclusive as respectivas unidades da
administração indireta”.

Logo, para a maioria, o conflito de atribuições entre MP estadual e MPF é


decidido pelo STF.

Ex5: MP/SC x MP/RS → É a mesma situação do exemplo 4: Por ser um conflito


entre Estados membros, aplica-se o art.102, I, “f”, CF, de modo que quem decide
é o STF.

-------3.4 Aula ------

12) Arquivamento do Inquérito Policial (ou do Termo Circunstanciado):

O arquivamento do IP é uma decisão judicial. Na realidade, é um ato


complexo*, pois essa decisão deve começar pelo MP, através da promoção de
arquivamento, e ser, após, submetida ao juiz.

*Divergência Doutrinária: O juiz não pode determinar o arquivamento de


inquérito policial se não houver requerimento do Ministério Público.
Portanto, o arquivamento é um ato complexo.

A referida decisão é um ato jurisdicional, constituindo-se ora em decisão


interlocutória mista terminativa ora em decisão com força de definitiva, em
matéria cautelar, vinculada ao pronunciamento do Chefe do Parquet, quando
este for instado, e revestindo-se também a mesma de um ato complexo - pois
dependente, para ser válido, da colaboração e da decisão de dois Órgãos: o
Ministério Público e o Judiciário, operando, conforme as circunstâncias, efeitos
de coisa julgada formal ou material.

Para Renato Brasileiro o arquivamento do Inquérito Policial é um ato complexo:

“Na verdade, o arquivamento é um ato complexo, que envolve prévio


requerimento formulado pelo órgão do Ministério Público, e posterior decisão
da autoridade judiciária competente. Portanto, pelo menos de acordo com a
sistemática vigente no CPP, não se afigura possível o arquivamento de ofício do
inquérito policial pela autoridade judiciária, nem tampouco o arquivamento
dos autos pelo Ministério Público, sem a apreciação de seu requerimento pelo
magistrado”.

Há doutrinadores que entendem que o arquivamento não seria uma decisão


judicial. Com a devida vênia, com tal assertiva não se pode concordar. Se, de
um lado, o Código de Processo Penal refere-se ao arquivamento como mero
despacho (art. 67,1), do outro, atribui efeitos idênticos à decisão judicial de
impronúncia, possibilitando que, enquanto não ocorrer a extinção da
punibilidade, nova denúncia ou queixa seja oferecida se houver nova prova.
Ora, como adverte Pacelli, “se o que é relevante é a constatação de existência de
prova nova tanto para a reabertura da investigação (do inquérito) quanto para a
instauração de nova ação penal contra o réu (nos procedimentos do júri), não
vemos por que não se atribuir os mesmos efeitos a uma e outra, decisão ou
despacho”.

Não é ato administrativo, porque o juiz ao arquivar o IP, profere uma decisão.
Portanto, ato judicial ou ato jurisdicional. Já o ato complexo é utilizado no
sentido de que a iniciativa é do MP em requerer o arquivamento, não podendo
o juiz agir de ofício.

Digamos que o termo "ato complexo" foi empregado em sentido amplo? Tipo,
os atos, ainda que um deles seja jurisdicional, foram feitos por dois entes
públicos distintos. Só que, vejam bem, olha que situação. Se o juiz não aceitar o
arquivamento e houver a aplicação do art. 28 do CPP, e o PGJ determinar o
arquivamento, o Magistrado deverá cumprir. Continua sendo ato complexo? A
opinio delicti é do MP, e o PGJ faz parte do MP, então o pedido de arquivamento
provem do MP.

Se no nosso sistema vigorasse a autonomia do Juiz para se manifestar na


vontade do arquivamento, entenderia que seria um ato composto (partindo da
análise do pessoal, que o ato jurisdicional seria ato administrativo). Mas no
caso, o PGJ é MP, então é apenas uma vontade. O Magistrado, de qualquer
forma, terá que cumprir, independente de sua vontade.

Ademais, ato complexo é aquele que depende de duas vontades para que ele
nasça, é o caso da aposentadoria. Assim, se o MP pedir o arquivamento e o juiz
discordar fará nos termos do art. 28 do CPP, mas se o procurador geral de
justiça estiver de acordo com o pedido de arquivamento, a vontade do juiz de
nada vale, assim, entendo tratar-se de ato composto e não complexo. Em suma,
há divergências ainda sobre a natureza jurídica do ato.

12.1) Hipóteses e fundamentos do arquivamento:

Fundamentos do arquivamento: a lei não diz expressamente quando um


inquérito pode ser arquivado. Mas a lei diz quando é possível a absolvição
sumária e quando é possível a rejeição da denúncia. Então, a doutrina traz
como hipóteses de arquivamento:

1. Ausência de pressupostos processuais ou das condições da ação. Ex.


Crime de estupro em que a vítima se retratou da representação.

2. Falta de justa causa para o início do processo. A palavra justa causa é


utilizada no sentido de “lastro probatório”.Ex. Ausência de elementos de
autoria.
3. Atipicidade formal ou material da conduta delituosa. Ex. Princípio da
insignificância.

4. Causa Excludente da ilicitude. O MP deve estar CONVENCIDO quanto


à excludente de ilicitude.

5. Causa Excludente da culpabilidade.

Cuidado!!! Se a causa excludente da culpabilidade for inimputabilidade


(art. 26, caput, CP), ela obriga ao oferecimento de denúncia. Deve esse
inimputável ser denunciado, mas com pedido de absolvição imprópria.

6. Causa extintiva da punibilidade.

12.2) Coisa Julgada na Decisão de arquivamento:

A coisa julgada é uma decisão jurisdicional contra a qual não cabe mais recurso,
tornando-se imutável (porque acabou o prazo para a interposição do recurso,
ou por ter sido esgotada a via recursal). O principal efeito da coisa julgada é a
imutabilidade da decisão. Cuidado! CJ formal x CJ material:

 CJ Formal: É a imutabilidade da decisão dentro do processo em que foi


proferida. É um fenômeno que irá repercutir apenas dentro daquele
processo. É um fenômeno endoprocessual.

 CJ Material: Ela pressupõe a coisa julgada formal. Ela consiste na


imutabilidade da decisão fora do processo em que foi proferida.

Ex. impronúncia só faz coisa julgada formal. Não impede o oferecimento de


nova denúncia, caso surjam novas provas.

A coisa julgada do arquivamento irá variar e depender do seu fundamento, do


seguinte modo:

1. Ausência de pressupostos processuais ou das condições da ação CJF

2. Falta de justa causa para o início do processo CJF

3. Atipicidade formal ou material da conduta delituosa CJFM (Vide


HC 84.156, STF)

4. Causa Excludente da ilicitude CJFM

Obs: Arquivamento com base em causa excludente da ilicitude.


Vide STF - 1ª Turma – Rel. Carmen Lúcia – HC 95.211 → Nesse HC o STF
decidiu que o arquivamento com base em uma causa excludente da ilicitude
formava coisa julgada formal. (Caso do delegado, em que houve a manipulação
das investigações...). EMENTA HC 95.211:

HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. TRANCAMENTO DE


AÇÃO PENAL. IP: ARQUIVAMENTO ORDENADO POR JUIZ
COMPETENTE A PEDIDO DO MP, COM BASE NO ESTRITO
CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL. EXCLUDENTE DE
ILICITUDE. ANTIJURIDICIDADE. DESARQUIVAMENTO.
NOVAS PROVAS: POSSIBILIDADE. SÚMULA 524 DO STF.
ORDEM DENEGADA.
1. A decisão que determina o arquivamento de inquérito policial, a
pedido do Ministério Público e determinada por juiz competente,
que reconhece que o fato apurado está coberto por excludente de
ilicitude, não afasta a ocorrência de crime quando surgirem novas
provas, suficientes para justificar o desarquivamento do inquérito,
como autoriza a Súmula 524 deste STF. 2. Habeas corpus conhecido e
denegado.

STF (Plenário) – HC 87.395 – Nesse HC a votação está 3x1 para coisa julgada
formal e material. Aguardar o julgamento nos informativos.

5. Causa Excludente da culpabilidade CJFM

6. Causa extintiva da punibilidade CJFM

Atenção!!! Cuidado com o caso da Certidão de Óbito Falsa – Na hipótese de


certidão de óbito falsa, os tribunais entendem que se trata de decisão
inexistente. Logo, é possível a reabertura do processo ou das investigações (isso
não caracterizaria a revisão criminal pro societate – Vide HC 84.525, STF). É uma
minoria da doutrina que entende pela caracterização da revisão criminal pro
societate.

EMENTA HC 84.525: PENAL. PROCESSUAL PENAL. HABEAS


CORPUS. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE AMPARADA EM
CERTIDÃO DE ÓBITO FALSA. DECRETO QUE DETERMINA O
DESARQUIVAMENTO DA AÇÃO PENAL. INOCORRÊNCIA DE
REVISÃO PRO SOCIETATE E DE OFENSA À COISA JULGADA.
FUNDAMENTAÇÃO. ART. 93, IX, DA CF. I. - A decisão que, com
base em certidão de óbito falsa, julga extinta a punibilidade do réu
pode ser revogada, dado que não gera coisa julgada em sentido
estrito. II. - Nos colegiados, os votos que acompanham o
posicionamento do relator, sem tecer novas considerações,
entendem-se terem adotado a mesma fundamentação. III. - Acórdão
devidamente fundamentado. IV. - H.C. indeferido.
---------------------------------------------4ª Aula--------------------------------------------------

12.3) Desarquivamento e posterior oferecimento de denúncia:

A decisão de arquivamento por falta de provas é baseada na cláusula “rebus sic


stantibus”, isto é, mantidos os pressupostos que deram ensejo ao
arquivamento, a decisão de arquivamento deve ser mantida; alterados os
pressupostos, a decisão de arquivamento pode ser alterada.

Isso é aplicável às hipóteses de arquivamento em virtude de falta de justa causa


para o início do processo. Desarquivamento não é a mesma coisa que oferecer
denúncia. Desarquivar significa reabrir as investigações. Para que se possa
desarquivar o IP, é necessário apenas NOTÍCIA de provas novas (as “provas
novas” propriamente ditas são necessárias para o oferecimento da denúncia).

Art. 18, CPP - “Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela


autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade
policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras provas tiver
notícia.”

Qual a autoridade com atribuição para desarquivar o inquérito? A doutrina


diverge muito. Então, o delegado comunica ao MP a notícia de provas novas e o
MP solicita ao juiz o desarquivamento do IP. Em seguida, o juiz determina o
desarquivamento, retirando os autos do arquivo.

Uma vez desarquivado o IP, se surgirem provas novas, é possível o


oferecimento de denúncia. Então, o desarquivamento e o oferecimento de
denúncia são momentos distintos.

A decisão de arquivamento com base na falta de justa causa é baseada na


cláusula rebus sic stantibus (mantidos seus pressupostos a decisão deve ser
mantida; alterados seus pressupostos, a decisão pode ser modificada).

Não há diferença entre Novas Provas e Provas Novas!!!

As provas novas ou novas provas são aquelas provas capazes de alterar o


contexto probatório dentro do qual foi proferida a decisão de arquivamento.
Elas podem ser de duas espécies:

1. Prova formalmente nova → é aquela que já era conhecida, mas ganhou


nova versão após o arquivamento. Ex. Testemunha que muda o seu
depoimento.

2. Prova materialmente/substancialmente nova → é aquela prova que


estava oculta por ocasião do arquivamento. É uma prova inédita,
desconhecida. Ex. uma arma do crime encontrada depois do
arquivamento.
Ex. ouviram-se primeiro 10 testemunhas – elas não identificaram o autor. Após,
surgiram 5 testemunhas. Deve-se analisar se essas 5 testemunhas acrescentaram
algo ao que foi dito pelas primeiras 10 testemunhas. Por fim, deve-se ler o teor
da Súmula 524, do STF:

Súmula 524, do STF - “Arquivado o inquérito policial, por despacho


do juiz, a requerimento do Promotor de Justiça, não pode a ação
penal ser iniciada, sem novas provas”.

Atenção! Apesar do termo utilizado pela súmula, arquivamento não é


despacho, mas decisão!!

12.4) Procedimento do Arquivamento:

Esse procedimento pode variar de acordo com a justiça em que o inquérito


tramita.

12.4.1) Arquivamento na justiça estadual:

Esse procedimento começa com a promoção de arquivamento do MP, que é


encaminhada ao juiz estadual. Se o juiz concorda com a promoção, estará
aperfeiçoado o arquivamento do IP. Se o juiz estadual não concordar com a
promoção de arquivamento, ele irá remeter os autos ao Procurador-Geral de
Justiça, aplicando o artigo 28, do CPP.

Art. 28, CPP - Se o órgão do Ministério Público, ao invés de


apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial
ou de quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar
improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças
de informação ao procuradorgeral, e este oferecerá a denúncia,
designará outro órgão do Ministério Público para oferecê-la, ou
insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz
obrigado a atender.

Quando o juiz aplica o art.28, do CPP, ele, na verdade, está aplicando um


princípio chamado de “princípio da devolução”. O princípio da devolução é
exatamente o que está escrito no art.28, CPP, ou seja, se o juiz não concorda com
a promoção de arquivamento do promotor, ele remete/devolve a decisão final
ao chefe da instituição.

Esse artigo 28, CPP também é usado em outras situações em que o juiz não
concorda com o promotor. Um exemplo é no caso da recusa do aditamento pelo
MP nos casos de mutatio libelli (quando surge uma elementar ou circunstância
nova. Se o promotor não adita, o juiz aplica o artigo 28, CPP).
Art.384, §1º, CPP - Não procedendo o órgão do Ministério Público ao
aditamento, aplica-se o art. 28 deste Código.

O mesmo ocorre quando há recusa injustificada do MP em oferecer a proposta


de transação penal ou de suspensão condicional do processo, aplicando-se o
art.28, do CPP. (Vide Súmula 696, STF)

Súmula 696, STF - Reunidos os pressupostos legais permissivos da


suspensão condicional do processo, mas se recusando o Promotor
de Justiça a propô-la, o Juiz, dissentindo, remeterá a questão ao
Procurador-Geral, aplicando-se por analogia o art. 28 do Código de
Processo Penal.

Atenção! Quando o juiz aplica o art.28, CPP, ele está exercendo uma função
anômala de fiscal do princípio da obrigatoriedade.

Remetidos os autos ao Procurador-Geral de Justiça, ele pode:

A. Oferecer denúncia.

B. Requisitar diligências.

C. Insistir no arquivamento, hipótese que vincula o juiz.

D. Designar outro órgão do MP para atuar no caso.

Atenção! Designa-se OUTRO órgão do MP!! Não pode ser o mesmo


promotor. Em virtude da independência funcional, esta designação não
pode recair sobre o promotor que requereu o arquivamento.

Esse outro promotor está obrigado a oferecer a denúncia? Segundo a maioria


da doutrina, esse outro órgão do MP está obrigado a oferecer denúncia, pois ele
age por delegação, funcionando como uma longa manus do procurador. Essa
posição não é unânime. Denilson Feitosa entende que o outro órgão do MP
deve fazer valer a sua independência funcional.

Na prática, esse tipo de problema é resolvido pelo chamado “Promotor do 28”.


Esse promotor é o promotor que trabalha diretamente com o Procurador-Geral
de Justiça, para cuidar dos inquéritos decorrentes do art.28, CPP. O professor
Rogério Greco já foi “promotor do 28”.

12.3.2) Arquivamento na Justiça Federal:

Aqui, o procedimento é relativamente semelhante. Mas, na Justiça Federal a


promoção de arquivamento redigida pelo MPF é feita ao juiz federal. Se o juiz
federal concorda com a promoção de arquivamento, os autos de IP serão
arquivados. Mas, se o juiz não concordar com ela, ele deverá remeter os autos à
CCR (Câmara de Coordenação e Revisão) do MPF. Essa CCR só existe na
estrutura do MP da União. Existem várias CCRs. A Câmara que trata de
matéria criminal é a 2ª Câmara.

Segundo a doutrina, a manifestação da CCR é OPINATIVA. A decisão não é da


Câmara. Após a CCR, os autos vão ao PGR, a quem compete a decisão final.
Segundo a doutrina, essa competência do PGR pode ser delegada à CCR do
MPF (é o que acaba acontecendo na prática – o PGR acaba deixando com que a
manifestação da CCR seja a manifestação final sobre o assunto).

12.4.3) Procedimento do arquivamento na Justiça Eleitoral:

Nessa hipótese, o promotor eleitoral (promotor estadual) encaminha a sua


promoção de arquivamento ao juiz eleitoral (juiz estadual). Se o juiz estadual
não concordar com a promoção de arquivamento, ele mandará os autos de IP
para o Procurador Regional Eleitoral, conforme art.357, §1º, do Código
Eleitoral.

Art.357, §1º, Código Eleitoral - Se o órgão do Ministério Público, ao


invés de apresentar a denúncia, requerer o arquivamento da
comunicação, o juiz, no caso de considerar improcedentes as razões
invocadas, fará remessa da comunicação ao Procurador Regional, e
êste oferecerá a denúncia, designará outro Promotor para oferecê-la, ou
insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz
obrigado a atender.

Obs: Dentro do MPU prevalece o entendimento de que este dispositivo já não


tem mais valor. Em que pese o teor do art.357, §1º, CE, prevalece o
entendimento de que compete à 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF
manifestar-se nas hipóteses em que o juiz eleitoral não concorda com a
promoção de arquivamento (enunciado 29, da 2ª CCR/MPF). A CCR entende
que a LOMPU é posterior ao CE, tendo passado a regulamentar o arquivamento
de modo distinto.

Enunciado nº 29: Compete à 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do


Ministério Público Federal manifestar-se nas hipóteses em que o Juiz
Eleitoral considerar improcedentes as razões invocadas pelo
Promotor Eleitoral ao requerer o arquivamento de inquérito policial
ou de peças de informação, derrogado o art. 357,§ 1º do Código
Eleitoral pelo art. 62, inc. IV da Lei Complementar nº 75/93.

12.4.4) Arquivamento nas hipóteses de atribuição originária do PGJ/PGR:

Ex. Deputado Federal está sob investigação, que é conduzida pelo PGR.
Se o PGR entende que é caso de arquivamento, a decisão do procurador-geral
não precisa ser submetida à apreciação do STF. Essa decisão é administrativa, e
não faz coisa julgada formal ou material.

Então, nesse caso das ações originárias, quando se tratar de atribuição


originária do PGJ ou do PGR, prevalece o entendimento de que essa decisão
administrativa de arquivamento não precisa ser submetida à análise do
Tribunal competente, já que este não teria como aplicar o princípio da
devolução (não teria como mandar para outro órgão do MP).

Porém, nos casos em que a decisão de arquivamento for capaz de fazer coisa
julgada formal e material, é indispensável a análise do órgão jurisdicional
competente. Nesse sentido, INQ 1.443 e INQ 2.341.

EMENTA INQ 1.443: IP: arquivamento: quando se vincula o órgão


judiciário ao pedido do chefe do MP. Diversamente do que sucede
nos casos em que o pedido de arquivamento pelo MP das peças
informativas se lastreia na atipicidade dos fatos - que reputa
apurados - ou na extinção de sua punibilidade - que, dados os seus
efeitos de coisa julgada material - hão de ser objeto de decisão
jurisdicional do órgão judiciário competente, o que com a anuência
do Procurador-Geral da República - se funda na inexistência de base
empírica para a denúncia é de atendimento compulsório pelo
Tribunal.

EMENTA INQ 2.341: 1. Questão de Ordem em Inquérito. 2.


Inquérito instaurado em face de Deputado Federal supostamente
envolvido nas práticas delituosas sob investigação na denominada
"Operação Sanguessuga". 3. O Ministério Público Federal (MPF), em
parecer da lavra do PGR, requereu o arquivamento do feito. 4. Na
hipótese de existência de pronunciamento do Chefe do MPF pelo
arquivamento do inquérito, tem-se, em princípio, um juízo
negativo acerca da necessidade de apuração da prática delitiva
exercida pelo órgão que, de modo legítimo e exclusivo, detém a
opinio delicti a partir da qual é possível, ou não, instrumentalizar a
persecução criminal. 5. A jurisprudência do STF assevera que o
pronunciamento de arquivamento, em regra, deve ser acolhido sem
que se questione ou se entre no mérito da avaliação deduzida pelo
titular da ação penal. Precedentes citados (...). 6. Esses julgados
ressalvam, contudo, duas hipóteses em que a determinação judicial
do arquivamento possa gerar coisa julgada material, a saber:
prescrição da pretensão punitiva e atipicidade da conduta.
Constata-se, portanto, que apenas nas hipóteses de atipicidade da
conduta e extinção da punibilidade poderá o Tribunal analisar o
mérito das alegações trazidas pelo PGR. 7. No caso concreto ora em
apreço, o pedido de arquivamento formulado pelo PGR lastreou-se
no argumento de não haver base empírica que indicasse a
participação do parlamentar nos fatos apurados. 8. Questão de
ordem resolvida no sentido do arquivamento destes autos, nos
termos do parecer do MPF.

12.5) Arquivamento Implícito:

Ex. IP versando sobre: Tício + Mévio praticaram crime do art.155 e 213. A


denúncia narra apenas que Tício praticou um crime de furto. Nada é falado
sobre Mévio ou sobre o crime de estupro.

Nesse exemplo, percebe-se que houve um arquivamento implícito. O


arquivamento implícito ocorre quando o promotor deixa de incluir na denúncia
algum fato delituoso ou algum investigado, sem se manifestar expressamente
quanto ao arquivamento.

Como as manifestações do MP devem ser fundamentadas, nem a doutrina nem


a jurisprudência admitem o arquivamento implícito, cabendo ao juiz aplicar o
artigo 28, CPP e remeter os autos ao PGJ.

12.6) Arquivamento indireto:

O arquivamento indireto ocorre quando o juiz, em virtude do não oferecimento


da denúncia pelo MP, fundamentado em razões de incompetência, recebe tal
manifestação como se tratasse de um pedido de arquivamento. Logo, se não
concordar, deve aplicar o art.28, CPP e remeter os autos ao PGJ. O
arquivamento indireto é perfeitamente possível.

Atenção! Arquivamento implícito x Arquivamento indireto:

Ex. Um promotor estadual entende que um crime é de competência da Justiça


Federal. Pede a declinação da competência para a justiça federal. O juiz,
contudo, entende que a competência é sim da Justiça estadual. Nesse caso em
que há impasse, há o caso de arquivamento indireto. Se o promotor não oferece a
denúncia, ele está indiretamente arquivando o IP.

12.7) Recorribilidade contra a decisão de arquivamento:

Cabe recurso contra a decisão de arquivamento? Em regra, o arquivamento é


irrecorrível, não sendo cabível ação penal privada subsidiária da pública.

Excepcionalmente pode-se recorrer do arquivamento. São os seguintes casos:

A) Crimes contra a economia popular e contra a saúde pública (Lei


1.521/51 – art.7º). Nesse caso, será cabível o recurso de ofício (também
chamado de reexame necessário).
Art. 7º, Lei 1.521/51. Os juízes recorrerão de ofício sempre que
absolverem os acusados em processo por crime contra a economia
popular ou contra a saúde pública, ou quando determinarem o
arquivamento dos autos do respectivo inquérito policial.

Obs: Isso não se aplica ao tráfico de drogas, pois, apesar de este crime ser contra
a saúde pública, ele é regulado por lei especial, em que não se menciona o
recurso nesse caso.

B) Arquivamento nas contravenções do jogo do bicho e nas hipóteses de


corrida de cavalos fora do hipódromo. Lei especial (Lei 1.508/51, art.6º,
p.ú.) prevê cabimento de RESE nesse sentido.

Art. 6º, Lei 1.508/51 - Quando qualquer do povo provocar a


iniciativa do Ministério Público, nos têrmos do Art. 27 do CPP, para
o processo tratado nesta lei, a representação, depois do registro pelo
distribuidor do juízo, será por êste enviada, incontinenti, ao Promotor
Público, para os fins legais.
Parágrafo único. Se a representação for arquivada, poderá o seu
autor interpor recurso no sentido estrito.

C) Arquivamento do Inquérito pelo juiz de ofício, em que não houve


pedido do MP. Entende-se que aqui houve um error in procedendo do juiz,
um tumulto processual. Nesse caso, o ideal é trabalhar com uma
correição parcial.

D) Arquivamento nas hipóteses de atribuição originária do PGJ. Nesses


casos, conforme LONMP, cabe pedido de revisão ao Colégio de
Procuradores (órgão que só existe no MP Estadual – Lei 8.625/93, art.12,
XI).

Art. 12, Lei 8.625/93 - O Colégio de Procuradores de Justiça é


composto por todos os Procuradores de Justiça, competindo-lhe:
(...)
XI - rever, mediante requerimento de legítimo interessado, nos termos
da Lei Orgânica, decisão de arquivamento de inquérito policial ou
peças de informações determinada pelo Procurador-Geral de Justiça,
nos casos de sua atribuição originária;

12.8) Arquivamento determinado por juízo absolutamente incompetente:

Ex. crime militar arquivado por um juiz estadual, com fundamento na


atipicidade do fato.

Essa decisão é valida ou não? Faz coisa julgada? Para os Tribunais, essa
decisão é capaz de fazer coisa julgada formal e material, a depender do
fundamento do arquivamento. Ex. atipicidade do fato – gera CJFM Ex. STF, HC
94.982.

EMENTA HC 94.982: HC. PROCESSO PENAL. INQUÉRITO


ARQUIVADO EM RAZÃO DA EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE
PELO TRANSCURSO DO PRAZO DECADENCIAL PARA O
OFERECIMENTO DE QUEIXA-CRIME, NO QUAL SE APURAVAM
OS MESMOS FATOS PELOS QUAIS É PROCESSADO O
PACIENTE. SENTENÇA EXTINTIVA DA PUNIBILIDADE QUE
TRANSITOU EM JULGADO PARA A ACUSAÇÃO. SEGURANÇA
JURÍDICA. 1. Paciente processado pelos mesmos fatos que foram
objeto de inquérito policial arquivado mediante sentença transitada
em julgado para a acusação, na qual se declarou a extinção da
punibilidade pelo transcurso do prazo decadencial para o
ajuizamento de queixa-crime, assentando que se tratava de crime
contra as marcas (lei n. 9.279/96, art. 189), de iniciativa privada (lei n.
9.279/96, art. 199). 2. Prevalência do direito à liberdade com esteio
em coisa julgada sobre o dever estatal de acusar. Segurança
jurídica. 3. Superveniência da Lei n. 11.719/08, que, ao alterar o art.
397 do Código de Processo Penal, passou a reconhecer a extinção da
punibilidade - independentemente de sua causa - como hipótese de
absolvição sumária. 4. Ordem concedida.

Cuidado! Pacceli entende que a decisão de arquivamento dada por um juiz


incompetente não faz coisa julgada.

13) Trancamento do Inquérito Policial:

O arquivamento é uma medida de consenso (promotor pede e juiz concorda


com o arquivamento), de força e de natureza excepcional. Será pleiteado pelo
investigado quando ele se sentir prejudicado por um inquérito que está em
andamento.

São hipóteses que autorizam o trancamento do IP, perante os tribunais


superiores:

1) Manifesta atipicidade (formal ou material) da conduta delituosa;

2) Presença de causa extintiva da punibilidade;

3) Ausência de manifestação prévia da vítima, requerendo a instauração


do IP, nos crimes de ação penal privada ou pública condicionada à
representação.

Qual a medida cabível para pleitear o trancamento do IP?

 → HC, mas desde que haja risco potencial à liberdade de locomoção.


Ex. Crime de furto – o agente pode ser preso ao final do processo.

 → MS, quando não houver risco, nem mesmo potencial, na liberdade de


locomoção.

Ex. Porte de drogas para uso pessoal, que não é sujeito à pena privativa
de liberdade.

14) Investigação Criminal feita pelo Ministério Público:

Será que o MP pode investigar? Deve-se adequar a resposta ao concurso a ser


feito!

Argumentos Contrários Argumentos Favoráveis


(Prova: Delegado, Defensoria Pública) (Prova → MP; magistratura)
A investigação feita pelo MP atenta Não há violação ao sistema acusatório,
contra o sistema acusatório, pois cria primeiro, porque os elementos
um desequilíbrio na “paridade de colhidos pelo MP serão submetidos ao
armas” (estar-se-ia dando ao MP um contraditório judicial; segundo, porque
poder de investigar, poder este que a a defesa também pode realizar
defesa não tem). investigações, embora sem poderes
coercitivos (alguns doutrinadores
chamam esta de “investigação criminal
defensiva”).
MP pode até requisitar diligências e a Teoria dos Poderes Implícitos
instauração de inquéritos policiais, ***MUITO IMPORTANTE*** -
mas não pode PRESIDIR os inquéritos
policiais. Essa teoria surgiu nos EUA, num
precedente chamado McCulloch Vs.
Maryland (1819). Por essa teoria, ao
conceder uma atividade-fim a
determinado órgão ou instituição, a CF
também concede a ele os meios
necessários para atingir tal objetivo.
Assim, quando a CF dá a um órgão um
determinado fim, ele deve ter o poder
para atingir essa finalidade. Essa teoria
já foi usada pelo STF (ex. HC 91.661*).

A atividade investigatória é exclusiva Polícia Judiciária não se confunde com


da polícia judiciária (CF, art.144, §1º, polícia investigativa. A polícia
IV). investigativa é a polícia que investiga
infrações penais. A expressão polícia
Art.144, §1º, CF - A polícia federal, judiciária é utilizada quando a polícia
instituída por lei como órgão permanente, cumpre determinações do poder
organizado e mantido pela União e judiciário.
estruturado em carreira, destina-se a: (EC
19/98)
(...)
IV - exercer, com exclusividade, as funções
de polícia judiciária da União
Não há previsão legal de instrumento Quanto ao argumento relacionado ao
para as investigações pelo MP. instrumento que o MP utiliza para
investigar, existe o procedimento
investigatório criminal (PIC), que é o
instrumento de natureza
administrativa e inquisitorial
instaurado e presidido pelo MP, cuja
finalidade é apurar a ocorrência de
infrações penais de natureza pública,
fornecendo elementos para o
oferecimento (ou não) da denúncia.

Obs: Resolução 13, do CNMP → Por


essa resolução, disciplinasse o
procedimento investigatório do MP.

*EMENTA HC 91.661:

HC. TRANCAMENTO DE AÇÃO PENAL. FALTA DE JUSTA


CAUSA. EXISTÊNCIA DE SUPORTE PROBTATÓRIO MÍNIMO.
REEXAME DE FATOS E PROVAS. INADMISSIBILIDADE.
POSSIBLIDADE DE INVESTIGAÇÃO PELO MINISTÉRIO
PÚBLICO. DELITOS PRATICADOS POR POLICIAIS. ORDEM
DENEGADA. 1. A presente impetração visa o trancamento de ação
penal movida em face dos pacientes, sob a alegação de falta de justa
causa e de ilicitude da denúncia por estar amparada em depoimentos
colhidos pelo ministério público. 2. (...). 4. Esta Corte tem orientação
pacífica no sentido da incompatibilidade do habeas corpus quando
houver necessidade de apurado reexame de fatos e provas (HC nº
89.877/ES, rel. Min. Eros Grau, DJ 15.12.2006), não podendo o
remédio constitucional do habeas corpus servir como espécie de
recurso que devolva completamente toda a matéria decidida pelas
instâncias ordinárias ao STF. 5. É perfeitamente possível que o
órgão do Ministério Público promova a colheita de determinados
elementos de prova que demonstrem a existência da autoria e da
materialidade de determinado delito. Tal conclusão não significa
retirar da Polícia Judiciária as atribuições previstas
constitucionalmente, mas apenas harmonizar as normas
constitucionais (arts. 129 e 144) de modo a compatibilizá-las para
permitir não apenas a correta e regular apuração dos fatos
supostamente delituosos, mas também a formação da opinio delicti.
6. O art. 129, inciso I, da Constituição Federal, atribui ao parquet a
privatividade na promoção da ação penal pública. Do seu turno, o
CPP estabelece que o IP é dispensável, já que o MP pode embasar seu
pedido em peças de informação que concretizem justa causa para a
denúncia. 7. Ora, é princípio basilar da hermenêutica constitucional o
dos "poderes implícitos", segundo o qual, quando a CF concede os
fins, dá os meios. Se a atividade fim - promoção da ação penal
pública - foi outorgada ao parquet em foro de privatividade, não se
concebe como não lhe oportunizar a colheita de prova para tanto, já
que o CPP autoriza que "peças de informação" embasem a denúncia.
8. Cabe ressaltar, que, no presente caso, os delitos descritos na
denúncia teriam sido praticados por policiais, o que, também,
justifica a colheita dos depoimentos das vítimas pelo MP. 9. Ante o
exposto, denego a ordem de habeas corpus.

Os tribunais, hoje, têm se posicionado favoravelmente à investigação pelo MP.

Vide Súm.234, STJ - A participação de membro do Ministério Público na fase


investigatória criminal não acarreta o seu impedimento ou suspeição para o
oferecimento da denúncia.

No âmbito do STF, há ministros que são contrários (ex. Min. Marco Aurélio).
Mas tem prevalecido que é cabível sim a investigação pelo MP (Vide HC
89.837).

EMENTA HC 89.837:

"HC" - CRIME DE TORTURA ATRIBUÍDO A POLICIAL CIVIL -


POSSIBILIDADE DE O MP, FUNDADO EM INVESTIGAÇÃO POR
ELE PRÓPRIO PROMOVIDA, FORMULAR DENÚNCIA CONTRA
REFERIDO AGENTE POLICIAL - VALIDADE JURÍDICA DESSA
ATIVIDADE INVESTIGATÓRIA - CONDENAÇÃO PENAL
IMPOSTA AO POLICIAL TORTURADOR - LEGITIMIDADE
JURÍDICA DO PODER INVESTIGATÓRIO DO MP - MONOPÓLIO
CONSTITUCIONAL DA TITULARIDADE DA AÇÃO PENAL
PÚBLICA PELO "PARQUET" - TEORIA DOS PODERES
IMPLÍCITOS - CASO "McCULLOCH v. MARYLAND" (1819) -
MAGISTÉRIO DA DOUTRINA (...) - OUTORGA, AO MP, PELA
PRÓPRIA CF, DO PODER DE CONTROLE EXTERNO SOBRE A
ATIVIDADE POLICIAL - LIMITAÇÕES DE ORDEM JURÍDICA AO
PODER INVESTIGATÓRIO DO MP - "HC" INDEFERIDO. NAS
HIPÓTESES DE AÇÃO PENAL PÚBLICA, O IP, QUE CONSTITUI
UM DOS DIVERSOS INSTRUMENTOS ESTATAIS DE
INVESTIGAÇÃO PENAL, TEM POR DESTINATÁRIO PRECÍPUO
O MP. - O IP qualifica-se como procedimento administrativo, de
caráter pré-processual, ordinariamente vocacionado a subsidiar, nos
casos de infrações perseguíveis mediante ação penal de iniciativa
pública, a atuação persecutória do MP, que é o verdadeiro
destinatário dos elementos que compõem a "informatio delicti". - A
investigação penal, quando realizada por organismos policiais, será
sempre dirigida por autoridade policial, a quem igualmente
competirá exercer, com exclusividade, a presidência do respectivo
inquérito.- A outorga constitucional de funções de polícia judiciária à
instituição policial não impede nem exclui a possibilidade de o
Ministério Público, que é o "dominus litis", determinar a abertura de
inquéritos policiais, requisitar esclarecimentos e diligências
investigatórias, estar presente e acompanhar, junto a órgãos e
agentes policiais, quaisquer atos de investigação penal, mesmo
aqueles sob regime de sigilo, sem prejuízo de outras medidas que lhe
pareçam indispensáveis à formação da sua "opinio delicti", sendo-lhe
vedado, no entanto, assumir a presidência do inquérito policial, que
traduz atribuição privativa da autoridade policial. Precedentes. A
ACUSAÇÃO PENAL, PARA SER FORMULADA, NÃO DEPENDE,
NECESSARIAMENTE, DE PRÉVIA INSTAURAÇÃO DE
INQUÉRITO POLICIAL.- Ainda que inexista qualquer investigação
penal promovida pela Polícia Judiciária, o MP, mesmo assim, pode
fazer instaurar, validamente, a pertinente "persecutio criminis in
judicio", desde que disponha, para tanto, de elementos mínimos de
informação, fundados em base empírica idônea, que o habilitem a
deduzir, perante juízes e Tribunais, a acusação penal. Doutrina.
Precedentes. A QUESTÃO DA CLÁUSULA CONSTITUCIONAL DE
EXCLUSIVIDADE E A ATIVIDADE INVESTIGATÓRIA.- A cláusula
de exclusividade inscrita no art. 144, § 1º, inciso IV, da CF - que não
inibe a atividade de investigação criminal do MP - tem por única
finalidade conferir à Polícia Federal, dentre os diversos organismos
policiais que compõem o aparato repressivo da União Federal
(polícia federal, polícia rodoviária federal e polícia ferroviária
federal), primazia investigatória na apuração dos crimes previstos no
próprio texto da CF ou, ainda, em tratados ou convenções
internacionais.- Incumbe, à Polícia Civil dos Estados-membros e do
Distrito Federal, ressalvada a competência da União Federal e
excetuada a apuração dos crimes militares, a função de proceder à
investigação dos ilícitos penais (crimes e contravenções), sem
prejuízo do poder investigatório de que dispõe, como atividade
subsidiária, o Ministério Público.- Função de polícia judiciária e
função de investigação penal: uma distinção conceitual relevante,
que também justifica o reconhecimento, ao MP, do poder
investigatório em matéria penal. Doutrina. É PLENA A
LEGITIMIDADE CONSTITUCIONAL DO PODER DE INVESTIGAR
DO MINISTÉRIO PÚBLICO, POIS OS ORGANISMOS POLICIAIS
(EMBORA DETENTORES DA FUNÇÃO DE POLÍCIA JUDICIÁRIA)
NÃO TÊM, NO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO, O MONOPÓLIO
DA COMPETÊNCIA PENAL INVESTIGATÓRIA.- O poder de
investigar compõe, em sede penal, o complexo de funções
institucionais do Ministério Público, que dispõe, na condição de
"dominus litis" e, também, como expressão de sua competência para
exercer o controle externo da atividade policial, da atribuição de
fazer instaurar, ainda que em caráter subsidiário, mas por autoridade
própria e sob sua direção, procedimentos de investigação penal
destinados a viabilizar a obtenção de dados informativos, de
subsídios probatórios e de elementos de convicção que lhe permitam
formar a "opinio delicti", em ordem a propiciar eventual ajuizamento
da ação penal de iniciativa pública. Doutrina. Precedentes.
CONTROLE JURISDICIONAL DA ATIVIDADE INVESTIGATÓRIA
DOS MEMBROS DO MINISTÉRIO PÚBLICO: OPONIBILIDADE, A
ESTES, DO SISTEMA DE DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS,
QUANDO EXERCIDO, PELO "PARQUET", O PODER DE
INVESTIGAÇÃO PENAL.- O Ministério Público, sem prejuízo da
fiscalização intra--orgânica e daquela desempenhada pelo Conselho
Nacional do Ministério Público, está permanentemente sujeito ao
controle jurisdicional dos atos que pratique no âmbito das
investigações penais que promova "ex propria auctoritate", não
podendo, dentre outras limitações de ordem jurídica, desrespeitar o
direito do investigado ao silêncio ("nemo tenetur se detegere"), nem lhe
ordenar a condução coercitiva, nem constrangê-lo a produzir prova
contra si próprio, nem lhe recusar o conhecimento das razões
motivadoras do procedimento investigatório, nem submetê-lo a
medidas sujeitas à reserva constitucional de jurisdição, nem impedi-
lo de fazer-se acompanhar de Advogado, nem impor, a este,
indevidas restrições ao regular desempenho de suas prerrogativas
profissionais (Lei nº 8.906/94, art. 7º, v.g.).- O procedimento
investigatório instaurado pelo Ministério Público deverá conter todas
as peças, termos de declarações ou depoimentos, laudos periciais e
demais subsídios probatórios coligidos no curso da investigação, não
podendo, o "Parquet", sonegar, selecionar ou deixar de juntar, aos
autos, quaisquer desses elementos de informação, cujo conteúdo, por
referir-se ao objeto da apuração penal, deve ser tornado acessível
tanto à pessoa sob investigação quanto ao seu Advogado.- O regime
de sigilo, sempre excepcional, eventualmente prevalecente no
contexto de investigação penal promovida pelo Ministério Público,
não se revelará oponível ao investigado e ao Advogado por este
constituído, que terão direito de acesso considerado o princípio da
comunhão das provas - a todos os elementos de informação que já
tenham sido formalmente incorporados aos autos do respectivo
procedimento investigatório.

>>> Ler as resoluções do CNMP e CNJ para concursos da magistratura e MP.

PEC 37/2011: foi rejeitada pelo CN. Visava acrescentar o §10 ao art. 144,
estabelecendo que as investigações criminais seriam privativas da polícia.

Lei 12.830/13: o art. 2º, § 3º foi vetado. Investigação de acordo com o livre
conhecimento técnicojurídico pelo delegado, onde poderia sugerir um conflito
com as atribuições investigativas de outras instituições.

15) Controle externo da atividade policial pelo MP:

Controle externo da atividade policial pelo MP é o conjunto de normas que


regulam a fiscalização exercida pelo MP em relação à polícia na prevenção,
apuração, investigação de fatos tidos como criminosos (saber se a polícia
realmente está investigando), na preservação dos direitos e garantias
constitucionais dos presos que estejam sob custódia da autoridade policial (será
que o preso está sendo respeitado?), e na fiscalização do cumprimento das
determinações judiciais.

Art. 129, CF - São funções institucionais do Ministério Público:


(…)
VII - exercer o controle externo da atividade policial, na forma da lei
complementar mencionada no artigo anterior;

Esse controle externo decorre do sistema de freios e contrapesos inerente ao


regime democrático e não acarreta qualquer subordinação dos organismos
policiais ao MP. (Esse argumento rebate o argumento de que existe um controle
interno da polícia, que já analisa a atividade policial).

15.1) Formas de Controle Externo:

A doutrina mais moderna diz que existem duas formas de controle externo:

a) Controle Difuso
b) Controle Concentrado

Controle externo da atividade policial


Controle Difuso Controle Concentrado
É aquele exercido por todos e É aquele exercido pelo órgão
quaisquer promotores com do MP com atribuições
Conceito
atribuição criminal. específicas para o controle
externo.
Modo de Esse controle é realizado através: Esse controle é realizado
realização do através:
controle  O controle das ocorrências
policiais.  A propositura de
ações de improbidade
 A verificação de prazos administrativa.
das ocorrências policiais.
 A propositura de Ação
 Verificação da qualidade Civil Pública na defesa
dos inquéritos. de interesses difusos;
 (ex. Superlotação de
 Verificação de bens presos, etc).
apreendidos.
 Requisições/recomen
 Da análise da propositura dações;
de medidas cautelares.
 E celebração de Termo
de Ajustamento de
Conduta;

 E visitas às unidades
prisionais;

 Aferição das
comunicações de
prisão em flagrante
(que devem ser feitas
em até 24 horas da
prisão).

>>> Na Prova para o MP - Ver Resolução nº 20 do CNMP.

16) Investigação Criminal Defensiva:

É um conjunto de atividades investigatórias desenvolvidas pelo defensor em


qualquer fase da persecução penal, inclusive antes do oferecimento da peça
acusatória, as quais poderão ser realizadas com ou sem a assistência de
investigador particular, objetivando a colheita de elementos informativos que
possam ser utilizados para beneficiar o investigado em contraponto à
investigação policial.

O particular pode investigar. O que ele não pode é ele achar que ele tem
poderes próprios da autoridade.
Obs: Essa investigação pode ser realizada, porém o particular não é dotado de
poderes coercitivos, nem tampouco lhe é permitido violar direitos e garantias
fundamentais. Ex. É vedada a violação de domicílio, o grampo ilegal,etc.

ANEXO I – RESOLUÇÃO Nº 20, CNMP:

RESOLUÇÃO Nº 20, de 28 de maio de 2007.

Regulamenta o art. 9º da Lei Complementar nº 75, de 20 de maio de 1993 e o art.


80 da Lei nº 8.625, de 12 de fevereiro de 1993, disciplinando, no âmbito do
Ministério Público, o controle externo da atividade policial.
O CNMP, no uso de suas atribuições, em conformidade com a decisão plenária
tomada em Sessão realizada no dia 28 de maio de 2007;
O CNMP, no exercício das atribuições que lhe são conferidas pelo artigo 130-A,
§2º, inciso I, da
Constituição Federal e com fulcro no artigo 64-A, de seu Regimento Interno;
CONSIDERANDO o disposto no artigo 127, caput e artigo 129, incisos I, II e VII,
da Constituição Federal;
CONSIDERANDO o que dispõem o artigo 9º, da Lei Complementar n.º 75, de
20 de maio de 1993 e o artigo 80, da Lei n.º 8.625, de 12 de fevereiro de 1993;
CONSIDERANDO a necessidade de regulamentar no âmbito do Ministério
Público o controle externo da
atividade policial;
RESOLVE:
Art. 1º Estão sujeitos ao controle externo do Ministério Público, na forma do art.
129, inciso VII, da Constituição Federal, da legislação em vigor e da presente
Resolução, os organismos policiais relacionados no art. 144 da Constituição
Federal, bem como as polícias legislativas ou qualquer outro órgão ou
instituição, civil ou militar, à qual seja atribuída parcela de poder de polícia,
relacionada com a segurança pública e persecução criminal.
Art. 2º O controle externo da atividade policial pelo Ministério Público tem
como objetivo manter a regularidade e a adequação dos procedimentos
empregados na execução da atividade policial, bem como a integração das
funções do Ministério Público e das Polícias voltada para a persecução penal e o
interesse público, atentando, especialmente, para:
I –
o respeito aos direitos fundamentais assegurados na Constituição Federal e nas
leis;
II –
a preservação da ordem pública, da incolumidade das pessoas e do patrimônio
público;III – a prevenção da criminalidade;
IV –
a finalidade, a celeridade, o aperfeiçoamento e a indisponibilidade da
persecução penal;
V –
a prevenção ou a correção de irregularidades, ilegalidades ou de abuso de
poder relacionados à atividade de investigação criminal;
VI –
a superação de falhas na produção probatória, inclusive técnicas, para fins de
investigação criminal;VII – a probidade administrativa no exercício da
atividade policial.
Art. 3º O controle externo da atividade policial será exercido:
I -
na forma de controle difuso, por todos os membros do Ministério Público com
atribuição criminal, quando do exame dos procedimentos que lhes forem
atribuídos;
II -
em sede de controle concentrado, através de membros com atribuições
específicas para o controle externo da atividade policial, conforme disciplinado
no âmbito de cada Ministério Público.
Art. 4º Incumbe aos órgãos do Ministério Público, quando do exercício ou do
resultado da atividade de controle externo:
I –
realizar visitas ordinárias periódicas e, quando necessárias, a qualquer tempo,
visitas extraordinárias, em repartições policiais, civis e militares, órgãos de
perícia técnica e aquartelamentos militares existentes em sua área de atribuição;
II –
examinar, em quaisquer dos órgãos referidos no inciso anterior, autos de
inquérito policial, inquérito policial militar, autos de prisão em flagrante ou
qualquer outro expediente ou documento de natureza persecutória penal, ainda
que conclusos à autoridade, deles podendo extrair cópia ou tomar
apontamentos, fiscalizando seu andamento e regularidade;
III –
fiscalizar a destinação de armas, valores, substâncias entorpecentes, veículos e
objetos apreendidos;
IV –
fiscalizar o cumprimento dos mandados de prisão, das requisições e demais
medidas determinadas pelo
Ministério Público e pelo Poder Judiciário, inclusive no que se refere aos prazos;
V –
verificar as cópias dos boletins de ocorrência ou sindicâncias que não geraram
instauração de Inquérito Policial e a motivação do despacho da autoridade
policial, podendo requisitar a instauração do inquérito, se julgar necessário;
VI –
comunicar à autoridade responsável pela repartição ou unidade militar, bem
como à respectiva corregedoria ou autoridade superior, para as devidas
providências, no caso de constatação de irregularidades no trato de questões
relativas à atividade de investigação penal que importem em falta funcional ou
disciplinar; VII – solicitar, se necessária, a prestação de auxílio ou colaboração
das corregedorias dos órgãos policiais, para fins de cumprimento do controle
externo;
VIII –
fiscalizar cumprimento das medidas de quebra de sigilo de comunicações, na
forma da lei, inclusive através do órgão responsável pela execução da medida;
IX –
expedir recomendações, visando à melhoria dos serviços policiais, bem como o
respeito aos interesses, direitos e bens cuja defesa seja de responsabilidade do
Ministério Público, fixando prazo razoável para a adoção das providências
cabíveis.
§ 1º Incumbe, ainda, aos órgãos do Ministério Público, havendo fundada
necessidade e conveniência, instaurar procedimento investigatório referente a
ilícito penal ocorrido no exercício da atividade policial.
§ 2º O Ministério Público poderá instaurar procedimento administrativo
visando sanar as deficiências ou irregularidades detectadas no exercício do
controle externo da atividade policial, bem como apurar as responsabilidades
decorrentes do descumprimento injustificado das requisições pertinentes.
§ 3º Decorrendo do exercício de controle externo repercussão do fato na área
cível, incumbe ao órgão do Ministério Público encaminhar cópias dos
documentos ou peças de que dispõe ao órgão da instituição com atribuição para
a instauração de inquérito civil público ou ajuizamento de ação civil por
improbidade administrativa.
Art. 5º Aos órgãos do Ministério Público, no exercício das funções de controle
externo da atividade policial, caberá:
I –
ter livre ingresso em estabelecimentos ou unidades policiais, civis ou
aquartelamentos militares, bem como casas prisionais, cadeias públicas ou
quaisquer outros estabelecimentos onde se encontrem pessoas custodiadas,
detidas ou presas, a qualquer título, sem prejuízo das atribuições previstas na
Lei de Execução Penal que forem afetadas a outros membros do Ministério
Público;
II –
ter acesso a quaisquer documentos, informatizados ou não, relativos à
atividade-fim policial civil e militar, incluindo as de polícia técnica
desempenhadas por outros órgãos, em especial:
a) a
o registro de mandados de prisão;
b) a
o registro de fianças;
c) a
o registro de armas, valores, substâncias entorpecentes, veículos e outros
objetos apreendidos;
d) a
o registro de ocorrências policiais, representações de ofendidos e notitia criminis;
e) a
o registro de inquéritos policiais;
f) a
o registro de termos circunstanciados;
g) a
o registro de cartas precatórias;
h) a
o registro de diligências requisitadas pelo Ministério Público ou pela autoridade
judicial;
i) a
os registros e guias de encaminhamento de documentos ou objetos à perícia;
j) a
os registros de autorizações judiciais para quebra de sigilo fiscal, bancário e de
comunicações;
l) aos relatórios e soluções de sindicâncias findas.
III –
acompanhar, quando necessária ou solicitada, a condução da investigação
policial civil ou militar;
IV –
requisitar à autoridade competente a instauração de inquérito policial ou
inquérito policial militar sobre a omissão ou fato ilícito ocorrido no exercício da
atividade policial, ressalvada a hipótese em que os elementos colhidos sejam
suficientes ao ajuizamento de ação penal;
V –
requisitar informações, a serem prestadas pela autoridade, acerca de inquérito
policial não concluído no prazo legal, bem assim requisitar sua imediata
remessa ao Ministério Público ou Poder Judiciário, no estado em que se
encontre;
VI –
receber representação ou petição de qualquer pessoa ou entidade, por
desrespeito aos direitos assegurados na Constituição Federal e nas leis,
relacionados com o exercício da atividade policial;
VII –
ter acesso ao preso, em qualquer momento;
VIII –
ter acesso aos relatórios e laudos periciais, ainda que provisórios, incluindo
documentos e objetos sujeitos à perícia, guardando, quanto ao conteúdo de
documentos, o sigilo legal ou judicial que lhes sejam atribuídos, ou quando
necessário à salvaguarda do procedimento investigatório.
Art. 6º Nas visitas de que trata o artigo 4º, inciso I, desta Resolução, o órgão do
Ministério Público lavrará a ata ou relatório respectivo, consignando todas as
constatações e ocorrências, bem como eventuais deficiências, irregularidades ou
ilegalidades e as medidas requisitadas para saná-las, devendo manter, na
promotoria ou procuradoria, cópia em arquivo específico.
Parágrafo único. A autoridade diretora ou chefe de repartição policial poderá
ser previamente notificada da data ou período da visita, bem como dos
procedimentos e ações que serão efetivadas, com vistas a disponibilizar e
organizar a documentação a ser averiguada.
Art. 7º Os Ministérios Públicos dos Estados e da União deverão adequar os
procedimentos de controle externo da atividade policial, expedindo os atos
necessários ao cumprimento da presente Resolução, no prazo de 90 dias a
contar de sua entrada em vigor.
Art. 8º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 28 de maio de 2007.
ANTÔNIO FERNANDO BARROS E SILVA DE SOUZA (Presidente do CNMP)

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