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REFLEXÕES ACERCA DAS DEFINIÇÕES IMPRECISAS DE SINONÍMIA

Cassiano Ricardo Galli1


Thiago Benitez de Melo2
Prof. Dr. Ivo José Dittrich (Orientador)3

RESUMO: Nosso objetivo neste artigo é realizar uma reflexão teórica acerca das incoerentes
e imprecisas definições de sinonímia que são apresentadas em alguns meios impressos.
Pretendemos mostrar o que os leigos da linguagem e também os mais conhecedores dos
estudos linguísticos pensam sobre esse campo pertencente aos Estudos Semânticos e como o
definem. Apresentaremos as incoerências que foram encontradas em dicionários, manuais de
português e gramáticas normativas, argumentando sobre as superficiais explicações que estes
meios de informação divulgam, criando assim, diversos conceitos acerca de um mesmo
campo semântico. Este trabalho se justifica pela importância da pesquisa e da produção
bibliográfica na graduação, possibilitando a ampliação dos conhecimentos e uma visão mais
crítica e analítica sobre imprecisas definições e incoerentes conceitos teóricos no campo da
Semântica.

PALAVRAS-CHAVE: incoerências; sinonímia lexical; sinonímia discursiva.

ABSTRACT: Our goal in this paper is to elaborate a theoretical reflection of the inconsistent
and imprecise definitions of synonymy that are presented in some media education. We intend
to show what the common people and the most knowledgeable of linguistic studies think
about this field that belongs to semantics and how it's defined. We will present the
inconsistencies that were found in dictionaries, manuals of Portuguese grammar and
prescriptive, arguing over the surface explanations that these media provide information, thus
creating several concepts about the same semantic field. This paper is justified by the
importance of research and literature production undergraduate, enabling the expansion of
knowledge and a more analytical and critical about vague definitions and inconsistent
theoretical concepts in the field of semantics.

KEYWORDS: inconsistencies; lexical synonymy, discursive synonymy.

INTRODUÇÃO

Nosso objetivo neste trabalho é realizar uma reflexão teórica acerca das definições de
sinonímia que são apresentadas em alguns meios impressos. Pretendemos mostrar o que os
leigos da linguagem e os mais conhecedores dos estudos lingüísticos pensam sobre esse
campo pertencente à semântica. Apresentar as incoerências que aparecem em dicionários,

1
Acadêmico do 4º Ano de Letras Português/Inglês da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
2
Acadêmico do 4º Ano de Letras Português/Espanhol da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
3
Professor Doutor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
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manuais de português e gramáticas normativas, argumentando sobre as superficiais


explicações que estes meios de informação divulgam.
É falsa a ideia de que todas as definições encontradas nos dicionários e gramáticas
normativas são verdades absolutas e irrefutáveis. Assim como a língua é heterogênea e
variável, os conceitos de sinonímia também se diferem. Por isso, uma outra tarefa que nos
propomos é mostrar que os conceitos de sinonímia não são unos. Buscaremos diferenciar dois
tipos de sinonímia: a lexical e a discursiva, para mostrar, assim, que não basta conhecer a
definição de sinonímia para utilizar-se de sinônimos frequentemente, também é necessário
analisar o contexto de cada palavra para saber utilizá-la em variadas situações. Nos estudos
semânticos, o contexto e a situação são extremamente imprescindíveis e relevantes,
comprovando que a língua é polissêmica, variável, heterogênica e dinâmica.

AS DEFINIÇÕES DE SINONÍMIA COMUMENTE ENCONTRADAS

Segundo Tamba-Mecz (2006): “no uso comum, chama-se sinonímia palavras de


forma diferente, mas de sentido idêntico ou semelhante e com mesmo estatuto
morfossintático” (p. 105). Assim, a noção comum de sinonímia repousa na ideia de trocar um
vocábulo por outro, por meio de uma expressão que estabelece sua equivalência semântica.
É muito comum encontrarmos definições um pouco tanto vagas sobre o conceito de
sinonímia, deturpando, ou até mesmo mascarando, sua função. Observemos as seguintes
definições:

“Sinonímia é o fato de duas ou mais palavras possuírem significados iguais ou semelhantes –


sinônimos” (PASCHOALIN e SPADOTO, 1996, p. 347).

“Sinonímia: s.f. Emprego de sinônimos; qualidade do que é sinonímico” (BUENO, 1996, p.


609).

Percebe-se que estas definições não são muito esclarecedoras e coerentes. Se


afirmarmos, por exemplo, que as palavras beber e tomar são sinônimas, estaremos afirmando
que o verbo beber pode ser sempre trocado pelo verbo tomar em qualquer contexto e situação.
No entanto, há casos em que um verbo não pode ser substituído pelo outro. Tomemos como
exemplo as frases a seguir:
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(1) Ele tomou o ônibus para chegar até sua casa.


(2) Tomei para mim o caderno outra vez.
(3) Tomamos o caminho de casa.

Se trocarmos o verbo tomar pelo verbo beber teremos as seguintes frases:

(4) Ele bebeu o ônibus para chegar até sua casa.


(5) Bebi para mim o caderno outra vez.
(6) Bebemos o caminho de casa.

Nota-se, assim, que “certas descrições da sinonímia, por não levarem em conta o
nível de observação escolhido, misturam as redes relacionais e obscurecem a questão”
(TAMBA-MECZ, 2006, p. 106).
No site “Vem Concurso”, Rachel Costa define sinonímia da seguinte maneira:

Sinonímia é um processo muito utilizado por falantes de uma língua. Sabe


quando não queremos repetir o mesmo termo ou palavra a todo o momento?
Uma das maneiras de sanarmos esse problema é com uso de sinônimos. Por
exemplo, se digo: “Passe um dia na minha casa.” e quiser referir-me
novamente ao termo sublinhado “casa”, posso lançar mão de um sinônimo
para não o ter que repetir: “Passe um dia na minha casa e verá como meu lar
é aconchegante”.

Evanildo Bechara, em sua “Moderna Gramática Portuguesa”, também utiliza a


palavra “casa” para dar uma definição de sinonímia:

É o fato de haver mais de uma palavra com semelhante significação,


podendo uma estar em lugar da outra em determinado contexto, apesar dos
diferentes matizes de sentido ou de carga estilística: casa, lar, morada,
residência, mansão (BECHARA, 2001, p. 404).

Tanto Bechara quanto Costa afirmam que as palavras casa e lar são sinônimas.
Bechara ainda amplia a quantidade de palavras, afirmando que casa, lar, morada, residência e
mansão são sinônimas, ou seja, podem ser substituídas umas pelas outras. No entanto, se
fizermos uma análise componencial ou sêmica, percebemos que cada uma dessas palavras
possui cargas semânticas diferentes. Com este tipo de análise podemos estabelecer uma
composição semântica de uma unidade lexical e conhecer o conteúdo das unidades da língua,
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já que existe diferença entre o conteúdo de uma palavra e sua expressão. Cada termo tem
particularidades de sentido e especificidades de uso:

Semas Construção Pode ser Impressão Impressão Impressão


destinada comprado de grande de luxo de
Palavras à extensão aconchego
habitação
Casa + + +/- - +

Lar + - - - +

Moradia + + +/- - -

Residência + + +/- +/- -

Mansão + + + + -

A partir desses exemplos, podemos perceber que as palavras dadas como sinônimas
por Bechara (2001), apesar de terem pontos em comum, também possuem pontos divergentes,
cargas semânticas distintas que os tornam diferentes, por isso mesmo não podem ser tomadas
como sinônimas pelas definições clássicas que encontramos em diversas gramáticas, livros
didáticos e dicionários de língua portuguesa.
Segundo Tamba-Mecz (2006):

A identidade formal da palavra, unidades lexical e ocorrência discursiva,


junto com a indeterminação temporal da relação de equivalência (...),
favorece a passagem de um nível para outro, quando não sua confusão (p.
106).

Como afirmado anteriormente, algumas definições de sinonímia não levam em


consideração o nível de observação escolhido, ignorando as diferenças de contextos e
especificidades de uso (problema que a maior parte dos meios impressos ainda insiste em
trazer). Por isso, torna-se necessária, para um estudo mais esclarecedor e delimitado, uma
distinção entre dois tipos de sinonímias: lexical e discursiva. A seguir diferenciaremos cada
uma delas.

SINONÍMIA LEXICAL
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Ilari e Geraldi (2004, p. 43) conceituam sinonímia lexical como uma relação
estabelecida entre palavras. Assim, ela aparece como um dos fatores possíveis pelos quais
duas frases se revelam como paráfrases.
Para Tamba-Mecz (2006, p. 107), “a sinonímia geralmente é parcial, vinculada a
uma acepção de um vocábulo freqüentemente polissêmica”. Pode-se dizer também que ela é
aproximativa: basta que dois termos sejam intercambiáveis em determinada posição no
interior de redes lexicais definidas.
Se usarmos, por exemplo, a palavra “manga” e tomarmos ela como uma fruta
proveniente de uma árvore chamada mangueira, nos é remetida a imagem de uma fruta
amarela (quando madura) que nasce nos galhos de uma árvore geralmente alta. Este sentido já
não pode ser atribuído à palavra “manga”, se tomarmos esta como a parte de uma peça de
vestuário, por onde passam os braços de quem a veste.

Dessa forma, febrilmente pode substituir fervorosamente, do qual só é


sinônimo quando esse advérbio de modo tem por sinônimo exaltadamente,
por antônimo calmamente etc. e quando denomina um mesmo referente.
Nada proíbe diferenciações semânticas que deixem intacto o quadro lexical
no qual ocorre a troca sinonímica (p. 107).

Pequenas gradações semânticas nos são apresentadas por uma série sinonímica, isso
quanto a diversos domínios: o sentido abstrato ou concreto; o verbal literário ou popular; a
maior ou menor intensidade de significação; o aspecto cultural e outras.

SINONÍMIA DISCURSIVA

Para Tamba-Mecz (2006):

No nível das ocorrências discursivas, a sinonímia deve, ao mesmo tempo,


respeitar uma rede lexical e uma identidade referencial, pois o vocábulo vê
sua significação especificada por esse duplo fundamento relacional.
Contrariamente àquilo que por vezes se pretende, uma equivalência
referencial não basta para tornar duas palavras sinônimas (p. 107).

Por exemplo, as palavras senhor e papai podem servir para chamar a mesma pessoa,
sem ter o mesmo sentido. Contudo, é extremamente possível dizer que pai e papai entram nas
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mesmas redes de relações lexicais e referenciais, nas quais são intercambiáveis. O que
diferenciam, formalmente, pai e papai são os modos de avaliação ou apresentação distintos.
Modos estes presentes na relação do enunciador com o interlocutor em uma determinada
situação.
“A possibilidade de atribuir vários nomes a um objeto é um meio de ‘significar’,
pela mediação de distintas denominações, cortes ‘qualitativos’, projetáveis sobre
configurações lexicais e referenciais que elas modulam” (p. 108). Assim, a sinonímia acaba
por se aproximar dos fenômenos de conotação, que se utiliza que significações interpessoais
de ordem sociocultural.
Para Lyons apud Tamba-Mecz (2006)

A sinonímia depende do contexto em um grau que não se repete em


nenhuma outra relação de sentido e de um modo que é interessante do ponto
de vista teórico. Ela não é, em si mesma, uma relação estrutural, visto que
poderiam ser eliminados do vocabulário de uma língua todos os exemplos de
sinonímia sem alterar o sentido do restante das unidades lexicais (p. 108).

Assim, o importante é reconhecer a sinonímia como uma relação estrutural, que


permite “representar” valores semânticos advindos das relações lexicais e discursivas. Desta
maneira, as trocas sinonímicas, que modulam na maneira de apresentar um objeto, têm, no
nível da palavra, a mesma função das modalidades no nível das frases simples ou da
proposição, onde indicam o modo de “apresentar” um predicado.
Um estudo mais profundo de sinonímia revela-nos até que ponto a relação semântica
difere da relação lógica de equivalência. A sinonímia “é tributária de dois sistemas de
relações semânticas: as palavras lexicais, e permite, em cada um desses sistemas,
‘substituições’ de vocábulos diferentemente equivalentes” (p. 110). Dessa forma, podemos
falar em sinonímia absoluta ou relativa, segundo o grau de equivalência, e de sinonímia total
ou parcial, de acordo com os números de acepções doa vocábulos polissêmicos que são
sinônimos.
Contudo, “estamos longe de relação lógica de equivalência, apartada de toda
intervenção ‘enunciativa’, porque as relações entre escrita e língua oral são invertidas na
linguagem comum e nas línguas ‘lógicas’” (p. 111).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
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Comumente tem-se uma ideia muito superficial da definição de sinonímia. Muitas


pessoas apresentam ideias equivocadas a respeito do seu significado, o qual pode ser
encontrado em dicionários, gramáticas normativas, livros didáticos, manuais de português e
outros. Essas pessoas acabam por internalizar uma opinião equivocada, imprecisa e incoerente
a respeito da sinonímia, pois não levam em consideração o contexto em que uma palavra está
sendo propagada e suas especificidades e particularidades de uso.
Contudo, por mais falso e infiel que seja a definição de sinonímia para o senso
comum, deve-se ter em mente o que os leigos da linguagem, e também estudiosos com pouco
conhecimento linguístico, pensam a respeito dessa definição, pois só assim será possível obter
estudos mais criteriosos sobre esse campo pertencente aos estudos semânticos.
Dizer que a própria expressão “uso de sinônimos” e a palavra “sinonímia” são
sinônimos, já é estar sendo impreciso e superficial, pois não se está analisando o contexto em
que essa expressão e essa palavra estão sendo usadas. Se fizermos um exame mais detido,
perceberemos que a identidade dos sinônimos é muito relativa, pois no uso corrente, eles
assumem sentidos ocasionais que no contexto um não pode ser empregado pelo outro sem que
se quebre, pelo menos um pouco, o sentido da expressão. Cabe ao locutor saber analisar cada
situação para conseguir utilizar coerentemente as palavras e seus sinônimos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37º ed. Rio de Janeiro: Lucerna,
2001.

BUENO, Francisco Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD: LISA,
1996.

COSTA, Rachel. Vem concurso. Disponível em:


http://www.vemconcursos.com/opiniao/index.phtml?page_id=2060. Acesso em: 07/10/09.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio século XXI: Minidicionário da


língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia: Guia prático da linguagem sociológica. Rio


de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

PASCHOALIN, Maria Aparecida; SPADOTO, Neuza Terezinha. Gramática: teoria e


exercícios. São Paulo: FTD, 1996.

TAMBA-MECZ, Irène. A semántica. São Paulo: Parábola, 2006.


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ILARI, Rodolfo; GERALDI, João Wanderley. Semântica. São Paulo: Ática, 2004.