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1.

Levantamento histórico/contextual da banda a fim de compreendermos


a trajetória do grupo e experiências que os levaram a tais conceitos
composicionais.

Bestial Devastation (O início)

O bairro de Santa Teresa, Belo horizonte, é considerado uma das grandes


glórias da música brasileira. Foi lá onde Milton Nascimento, Fernando Brant, Beto
Guedes, Toninho Horta, os irmãos Lô e Telo Borges, formaram o Clube da Esquina
na década de 1970. Foi também onde nasceram, respectivamente em 1969 e 1970,
os irmãos Massimiliano Antonio Cavalera (Max) e Igor Graziano Cavalera (Igor),
fundadores da banda Sepultura. Max e Igor, haviam mudado para Belo Horizonte
após a morte de seu pai Graziano Cavalera em 1981. Sua morte chocou a família,
principalmente os irmãos Cavalera, que eram muito próximos do pai. A situação
financeira da família piorou, forçando Vânia, mãe dos irmãos Cavalera, a se mudar
para Minas Gerais, pra casa da sua mãe(??). A morte de Graziano, pai dos irmãos
Cavalera, influenciou diretamente no estilo de som e de vida que eles passaram a
levar. A perda do pai deu origem à anarquia e à anti religião dos primórdios do
Sepultura. Na questão de gosto musical eles se direcionaram para um caminho
agressivo e barulhento, ouvindo bandas como Black Sabbath, Van Halen, AC/DC
Venom e Motorhead aos 13 anos. Em 1981 os irmãos, acompanhados de seu tio
Sinval, foram ao show do Queen, no Morumbi, um dos primeiros shows de rock
dessa magnitude no Brasil. Esse show foi uma marco para os dois, impressionados
com a qualidade e energia, decidiram começar a formar uma banda.
No colégio conheceram Wagner Lamounier, que se candidatou ao posto de
vocalista, enquanto Max já se interessava e arranhava o violão, e Igor pela bateria,
mesmo sendo apenas um tambor, pois não tinha dinheiro para comprar uma. Essa
seria a primeira formação da banda, que já possuía o nome de Sepultura. A origem
do nome se dá pela música “​Dancing On Your Grave1”​, da banda Motorhead, que
era uma das bandas prediletas dos irmãos Cavalera.
Nessa época a banda era muito crua e sem uma idéia concisa. Suas
influências eram bandas pesadas, mais especificamente do gênero Death Metal, ou
seja, baterias rápidas, letras satanistas, gritos e guitarras distorcidas. Em 1984,
Paulo Xisto Pinto Júnior, entra para o posto de baixista na banda e permite que os
ensaios sejam em sua casa. No mesmo ano a banda faz seu primeiro show, ao lado
das bandas Overdose e Tropa de Choque, que atuavam na nas casas de show da
época.
Em Janeiro de 1985, um evento mudou a história do rock no Brasil: o Rock In
Rio. Reunindo as maiores bandas do mundo na época, o evento colocou o Brasil no

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Grave = Sepultura
mapa para bandas internacionais, o que gerou um aumento no número de bandas
locais, lojas de discos, gravadoras e revistas especializadas no gênero. Em Belo
Horizonte, a loja que mais se destacou foi a Cogumelo Records, lugar onde os
integrantes do Sepultura ficavam o dia inteiro ouvindo os discos que chegavam. Lá
eles tiveram a oportunidade de ouvir inúmeras bandas que faziam sucesso mundo
afora, como, Metallica, Kreator, Testament e Exodus, pioneiros do Thrash Metal,
que é um subgênero do Heavy Metal, mas mais rápido, técnico e letras com temas
que abordam política, guerra e violência.
Após um show em um pequeno festival chamado “Metal BH”, Wagner larga a
banda e entra na banda Sarcófago, o que gerou futuras rixas entre os dois grupos
conterrâneos. Com a saída do vocalista, Max assume os vocais e procura por um
segundo guitarrista. O segundo guitarrista viria a ser Jairo Guedes, aumentando a
qualidade da banda, pois seu nível técnico era mais alto do que o do restante da
banda. Com ele, também veio a idéia de compor as letras das canções em inglês,
pois para eles fazia parte da estética da música que tocavam.
Agora a banda parecia firme e pronta para se desenvolver, tanto que se
inscreveram para participar de um festival chamado “Hoje é dia de Rock”. A banda
surpreendeu muito com seu desempenho chegando às finais do festival, e foi aí que
Vladimir Faria, que trabalhava na Cogumelo Records, sugeriu aos donos da loja que
gravasse um disco com as duas bandas finalistas, Sepultura de um lado e Overdose
do outro. Assim surge o primeiro álbum da banda, chamado de Bestial Devastation
(lado do Sepultura) e Século XX (lado da Overdose). A produção do disco foi
bastante precária e de má qualidade, mas mesmo assim o disco surpreendeu com o
sucesso de vendas. João Eduardo de Faria, dono da Cogumelo, dizia que era só
chegar uma caixa de cópias do disco que logo esgotava.
A relação do Sepultura com a Cogumelo foi de suma importância para o
sucesso da banda, pois a gravadora ajudava sempre que podia, pagando
passagens, abrigando-os quando necessário e sempre motivando a banda a
crescer; por outro lado a banda se esforçava ao máximo para sempre tocar de
forma mais profissional.
Não era apenas no Brasil que o álbum estava sendo notado. Sem que a
banda soubesse um dos maiores incentivadores para seu sucesso foi Don Kaye,
colaborador da famosa revista ​Kerrang​!2 , que escrevia uma coluna com críticas
sobre fitas de bandas desconhecidas que lhes eram mandadas. Quando recebeu o
Bestial Devastation de um leitor brasileiro que lhe enviou uma fita, escreveu: “Nunca
poderia imaginar que no Brasil, um país sem tradição alguma no gênero, pudesse
surgir uma banda tão boa.”

Morbid Visions e Schizophrenia

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Uma das maiores revistas sobre Heavy Metal do mundo.
Em meados de 1986, os integrantes do Sepultura tomaram a decisão de
focar totalmente na banda e largar o colégio, o que os proporcionou mais tempo de
criação. Com o sucesso de seu primeiro álbum, a Cogumelo Records resolveu
bancar o próximo álbum da banda. Assim o grupo mais uma vez vai ao estúdio para
gravar o ​Morbid Visions​.
O álbum foi gravado no estúdio Vice-Versa, em São Paulo. Um lugar muito
bem equipado e confortável, mas mesmo assim ainda não era o ideal, pois ficaram
hospedados na casa da tia de Paulo, o baixista, em Alphaville, muito longe do
estúdio. Como o grupo não tinha os instrumentos, a banda pegou emprestado de
amigos todos os equipamentos necessários, mas a banda estava tão feliz por gravar
em outra cidade que nem se importaram.
O álbum ainda seguia a mesma linha de estilo Death Metal, mas agora as
músicas estavam mais bem trabalhadas e a qualidade de gravação havia
melhorado.
O disco foi lançado em dezembro de 1986. Nesse mesmo mês, o Sepultura
foi convidado para abrir o show das bandas Venom e Exciter, no ginásio do
Mineirinho, em Belo Horizonte. Era o maior acontecimento da história do Black
metal no Brasil até então, reunindo duas das maiores bandas do gênero. João, dono
da Cogumelo, lembra que as vendas dos discos do Sepultura cresceram muito
depois dessa apresentação. Durante os ensaios para o show com essas bandas o
Sepultura recebeu a visita de João Gordo, vocalista do grupo punk paulista Ratos de
Porão. Desse primeiro encontro nasceria uma grande amizade entre as duas
bandas. Em 1987 um acontecimento chocou a banda, o guitarrista Jairo decide
largar a banda pois queria seguir outro gênero de música. A saída de Jairo foi de
forma pacífica e mantiveram a amizade entre eles, Jairo até ajudou na gravação do
álbum que posterior. Max e Igor também estavam mudando seus gostos musicais,
agora os dois estavam vidrados no punk, por influência de João Gordo.
As próprias bandas internacionais de black, death e thrash estavam
passando por um processo de transformação: a partir da metade da década de 80
as bandas começaram a limpar e trabalhar mais nas músicas, deixando-as mais
complexas e inteligentes. Para que o Sepultura seguisse o mesmo caminho era
necessário fazer uma mudança, e essa mudança veio após a entrada do guitarrista
Andreas Kisser, no lugar de Jairo.
Andreas Rudolf Kisser, nascido em 1968, em São Bernardo, já era conhecido
no meio do Metal e tinha a reputação de ser um bom guitarrista. Conheceu Max e
Igor quando foi passar suas férias com uns amigos em Belo horizonte. Seus amigos
conheciam os dois fundadores da banda e apresentaram uns aos outros. Assim que
Andreas soube da saída de Jairo, foi procurar por Max para demonstrar seu
interesse de entrar na banda. Em abril de 1987 Andreas se torna o novo guitarrista
do grupo.
A entrada de Kisser no grupo iniciou uma engrenada na banda. As novas
influências trazidas por ele diversificou o som da banda e impediu o grupo de se
estagnar no Death Metal. Empolgados com a entrada do novo guitarrista, a banda
passava o dia todo ensaiando. Fizeram seu primeiro show com essa formação em
abril de 1987 e o show foi um sucesso, a energia do Sepultura no palco era
invejável. Essa seria a formação que se manteria estável pelos próximos 10 anos:
Max nos vocais e guitarra base, Andreas na guitarra solo, Paulo Jr. no baixo e Igor
na bateria.
A Cogumelo havia crescido muito com as vendas do primeiro álbum do
Sepultura. João e Pat, donos da loja, havia ampliado o catálogo de discos, lançando
discos de bandas como: Sarcófago, Holocausto, Chakal, Mutilator e Ratos de Porão
( o “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo”, nome inspirado numa pichação que João
Gordo viu no quarto de Max e Igor). Mesmo com tantos lançamentos a gravadora
sabia que sua maior promessa seria o Sepultura, por isso tratou de assinar um
contrato para mais um disco, o ​Schizophrenia. S ​ eria um álbum de luxo, bem
gravado e com capa dupla, uma profissionalização do metal brasileiro.
A banda entrou em processo de criação e rapidamente já tinham material
necessário para realizar a gravação. Musicalmente, o Schizophrenia era superior
aos álbuns anteriores. Deixaram de lado a temática satanista e focaram mais em
letras sobre alienação, loucura e guerra. Até suas vestimentas mudaram, antes com
rosto maquiado e pregos nos braços, agora usavam jeans rasgados e camisetas.
O grupo de fato havia melhorado, cada um estava mais à vontade e com
mais controle sobre o instrumento. Mas mesmo assim Paulo não conseguiu gravar,
Andreas teve que gravar suas partes no baixo. Na verdade Paulo só conseguiu
gravar no álbum ​Chaos A.D.​ em 1994.

Beneath The Remains e Arise (Desenvolvimento)

Nesse momento a banda já estava sendo reconhecida internacionalmente,


não apenas, mas graças aos esforços de Don Kaye e Borivoj, jornalistas de revistas
focadas no gênero de Metal. Em 1987, Kaye entrevistou Max por telefone e publicou
na revista britânica ​Kerrang!,​ que tratava apenas de Metal.
O interesse pelo Sepultura no exterior ficou evidente quando a banda
descobriu, através de cartas enviadas de fãs europeus, que uma gravadora alemã,
chamada Shark, havia lançado versões piratas dos três discos da banda. Sua
popularidade rendeu o interesse da gravadora Roadrunner, uma empresa
independente que estava se destacando no gênero do metal, tendo assinado com
King Diamond e Annihilator. No fim de 1987, a gravadora Roadrunner estava a
procura de novos grupos e contratou o Monte Conner para fazê-lo. Conner era
amigo de Don Kaye e Borivoj, e já havia ouvido falar do Sepultura. Contatou Max e
marcou uma reunião em Nova York. Max, bancado pela gravadora Cogumelo, disse
que ia negociar sobre o direito dos três álbuns anteriores, mas na verdade ele tinha
a esperança de fechar um novo LP. A gravadora tinha interesse na banda mas não
confiava no potencial dela, por isso as gravações seriam feitas em um estúdio no
Brasil. Uma semana após a reunião um pacote chegou para os irmãos Cavalera, um
contrato para gravação de 7 álbuns. O contrato não era o melhor que poderia ser
para o grupo, mas era o melhor que já haviam conseguido.
Os anos de 1988 e 1989 foram ótimos para o grupo, shows aos montes e em
diferentes estados do país. A expectativa crescia em torno da gravação do disco
com a Roadrunner. Max e Igor estavam compondo materiais novos de qualidade.
Sabiam que após o lançamento do disco teriam a chance de tocar fora do Brasil. O
interesse em tocar no exterior fora tanto que todos os integrantes iniciaram um
curso de inglês para ajudá-los a se comunicar com o público.
A gravadora se preparava para começar as sessões de gravação no Brasil,
mas preferiram usar um produtor americano. O nome escolhido foi Scott Burns,
famoso produtor que havia feito trabalhos com bandas reconhecidas do gênero,
como Death, Obituary e Morbid Angel. As gravações foram realizadas no estúdio
Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Scott realmente se esforçou ao máximo para
conseguir obter um som de metal, pois o estúdio nunca havia gravado nada do
gênero. Mudou a disposição dos equipamentos e desmontou e montou a bateria de
Igor por completo para chegar ao mais próximo de uma sonoridade de bateria de
Metal profissional.
Após duas semanas de muito trabalho a banda havia terminado a gravação
com nível técnico que excedeu as expectativas de todos os integrantes. Por um
problema técnico Max terminou os vocais em um estúdio na Flórida. Quando
finalmente puderam ouvir a primeira cópia do disco ficaram chocados com a
qualidade dele, nas palavras de Andreas: “Ninguém acreditou na qualidade do
disco, parecia banda estrangeira!”. Após o lançamento do disco, a quantidade de
revistas internacionais falando sobre o álbum foi enorme. Críticos de diversas
revistas do gênero elogiando o quarto álbum do grupo. A revista mexicana ​Heavy
Metal Subterrâneo​, e as revistas ​Sounds ​e ​RAW d
​ a Inglaterra fizeram críticas muito
boas para as composições contidas no disco.
Após a gravadora Eldorado ter comprado os direitos do disco da Roadrunner
no Brasil, os integrantes da banda se mudaram para São Paulo para ficarem mais
próximos da sede da gravadora nacional. A Eldorado ainda financiou um clipe para
a música “Inner Self”, com gravações pelas ruas da capital.
O álbum fazia sucesso no exterior e a banda estava delirando para tocar fora
do país. Em setembro de 1989, o Sepultura finalmente consegue uma turnê pela
Europa e Estados Unidos. Seriam quase quatro meses de turnê, com mais de 50
shows confirmados. Em um show na casa Ritz, nos Estados Unidos, a banda
conheceu a empresária, do grupo Sacred Reich, Gloria Bujnowski, que demonstrou
interesse em ajudar a banda brasileira, e como a banda não ainda não possuía
oficialmente um produtor, aceitaram de bom grado. Como o grupo estava fazendo
sucesso no exterior, os brasileiros começaram a reconhecer a qualidade do grupo.
Nas palavras de Max: “Para ser sincero, eles nos ignoram, assim como ignoram
qualquer coisa nova e diferente, mas agora que fazemos um pouco de sucesso no
exterior e, quem sabe, daqui a alguns anos poderemos fazê-los sofrer um pouco”.
Neste período a banda fez mais de 60 shows e vendeu mais 600 mil cópias de
Beneath The Remains.
Após um período de descanso, devido à exaustão que a turnê provocou, a
banda volta ao Brasil, mas não deixa de fazer shows esporádicos mundo afora. Em
agosto de 1990, o Sepultura foi para a Flórida gravar o disco novo, que agora seria
gravado totalmente no exterior e com um orçamento maior que os anteriores. Scott
Burns continuou como produtor pois já tinha criado um laço com a banda, mesmo
com as dificuldades de se comunicarem. Nesse momento os integrantes já estavam
com uma qualidade técnica alta e seu inglês havia melhorado, com isso as letras
estavam mais bem escritas e os arranjos estavam mais elaborados.
O álbum recebeu o nome de “Arise”, e continha uma temática um pouco mais
séria que o disco anterior. Na faixa “Murder”, temos um uso do poema de Augusto
Dos Anos, “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Na faixa “Altered State”
pode ser verificado o uso de traços tribais e indígenas, mesmo sendo mínimos. O
disco de fato foi um sucesso, tanto que logo após o lançamento, a banda se
preparava para a maior turnê de sua carreira: nos 25 meses seguintes, fariam 220
shows em 39 países, incluindo Indonésia, Japão e Estônia. A banda ainda foi
convidada a se apresentar na segunda edição do Rock in Rio.
O Rock in Rio 2 foi uma grande guinada para a carreira do Sepultura, após
sua apresentação, o grupo já podia ser ouvido em algumas rádios, o que nunca
antes havia ocorrido. Nessa altura a imprensa brasileira já estava acompanhando de
perto o sucesso do grupo e deu boa cobertura para o lançamento do Arise.
Neste mesmo ano a banda procurou a prefeitura de São Paulo para realizar
um show gratuito no dia 11 de maio, na praça Charles Miller, em frente ao estádio
do Pacaembu. A ideia surgiu como uma forma de agradecer aos fãs pelo apoio que
tiveram. O show aconteceu, mas não como esperado. Infelizmente o resultado foi de
um morto, seis feridos e dezoito presos. Isso porque, além de a produção ter sido
precária, o público foi o triplo do esperado, o que gerou atritos e brigas durante todo
o show. Isso repercutiu de forma negativa, não só à banda, mas aos “metaleiros”. O
Sepultura nem teve tempo de se defender das acusações, logo em seguida do show
embarcaram para Londres, onde iam fazer uma pequena turnê pela Europa.

Chaos A.D. e Roots (Auge)

Após uma série de shows bens sucedidos, a banda já era digna de lotar
ginásios sendo atração principal, e não mais como uma banda de abertura para
bandas maiores. Seu nível de popularidade cresceu tanto que, no fim do ano de
1991, foram chamados para doze meses de shows, incluindo uma turnê com
Motorhead e uma excursão com Ozzy Osbourne, além de patrocínios com fábricas
de instrumentos e uma negociação sobre os valores de royalties de vendas dos
discos, tudo graças a empresária Gloria. Foi nesse momento que os integrantes
decidiram se mudar para os Estados Unidos.
A influência de Gloria sobre a banda cresceu muito com a mudança dos
rapazes, e multiplicou-se quando anunciou um romance com Max Cavalera, o que
não animou a banda.
A banda não chegou a morar definitivamente no exterior. Decidiram ficar 6
meses no Brasil e 6 meses em Phoenix, na casa de Gloria, com viagens pouco
frequentes ao Brasil. Durante uma das viagens ao Brasil, Max e Igor assistiram a
uma apresentação do Olodum e ficaram entusiasmado com os ritmos tocados em
percussão. Na verdade nesse momento a banda já estava caminhando para uma
transformação em seu gênero musical. Max começou a falar em entrevistas que o
som do Sepultura ia caminhar em outras direções, como o heavy com percussão
brasileira.
No ano de 1993 todos os integrantes do Sepultura já haviam se mudado para
Phoenix e estavam iniciando as composições para seu álbum novo. Dois anos de
turnê com o disco anterior deixou a banda esgotada. Estavam cansados do
repertório antigo e ansiosos para explorar novas direções composicionais. Como
disse Andreas: “Ninguém aguentava mais tocar as músicas do ​Arise.​ Chega uma
hora em que a repetição te mata. Como músicos, queríamos tentar coisas novas,
buscar outros caminhos para o nosso som.”
A banda não queria ser uma banda que só fazia a mesma coisa todo álbum,
queriam ser diferentes e isso foi um momento crucial para a sua busca de novas
sonoridades, principalmente no que tange ao uso de brasilidades no álbum a ser
lançado. Max e Igor estavam cada vez mais interessados em percussão brasileira,
tambores africanos e ritmos brasileiros, o que poderia ser um ingrediente único nas
suas músicas, pois, até então, ninguém havia feito isso com o Heavy Metal. A busca
por novas sonoridades também forçou, mas de forma consciente e compassiva, o
guitarrista Andreas Kisser a mudar seu estilo de tocar guitarra. Com menos notas e
mais ruídos, e timbres diferentes. Nas palavras dele: Estabelecemos uma regra para
esse disco, que era a de que não haveria regra nenhuma! Todo mundo podia
experimentar à vontade e tentar coisas novas.
A banda foi compor e gravar o álbum no Rockfield, famoso estúdio localizado
numa zona rural no País de Gales, longe de qualquer cidade grande e cercado por
mato. O estúdio já tinha uma fama por gravar bandas como Queen, Rush e Black
Sabbath.
O processo de gravação foi lento mas recompensador. Cada um da banda
estava mais focado no seu timbre e idéias, e como fazer seu instrumento soar de
forma brilhante. Além da parte instrumental estar seguindo novos horizontes, as
letras também estavam mais desenvolvidas. A maturidade da banda e a distância
do Brasil trouxe uma nova perspectiva em relação aos problemas do país. Pouco a
pouco a banda voltava os olhos para os ritmos brasileiros e às situações
sócio-políticas.
O disco ficou ótimo. Contendo treze faixas, logo na primeira, ​Refuse/Resist,
já podemos ter uma idéia de como a banda havia mudado seu estilo. Com menos
solos, andamentos menos rápidos e mais ódio, a banda havia achado seu estilo que
mais se identificavam. Além de conter uma frase executada na caixa, da bateria,
que claramente é uma simulação de tamborim. O álbum contém duas faixas que
são sobre massacres ocorridos no Brasil. Um deles é a música ​Kaiowas​, uma
homenagem à tribo de mesmo nome, que cometeu suicídio em massa como forma
de protesto ao governo que estavam querendo expulsá-los de suas terras. A outra,
chamada ​Manifest, é sobre um episódio triste ocorrido em um presídio chamado
Carandiru, em São Paulo. Onde houve uma chacina em um conflito entre os
presidiários e os policiais. Uma música que também deixa claro sua transformação é
a ​Chaos B.C., ​que é, nada mais que uma versão de alguns trechos de músicas de
todo o álbum, com um acompanhamento de percussão com traços de escolas de
samba, e alguns efeitos eletrônicos. O álbum foi lançado em outubro de 1993 e
recebeu o nome de ​Chaos A.D.
A gravadora Roadrunner sabia do potencial do disco e fez uma enorme
campanha de lançamento. Inclusive uma festa de comemoração de lançamento em
um castelo medieval no País de Gales. Em poucas semanas, o álbum recebeu disco
de ouro3 na Bélgica e de prata4 na Inglaterra e França. A faixa “Territory” ficou em
primeiro lugar nas mais tocadas, de metal, na rádio nos Estados Unidos, superando
Nirvana e Pearl Jam, que estavam no auge de suas carreiras.
Após o lançamento do disco, a banda fez turnês e participou, como banda
principal, de festivais como o Hollywood Rock, renomado ao redor do mundo. Mas o
ano de 1994 parecia ser o melhor da carreira do Sepultura. O disco vendia muito
bem e as críticas eram sempre das melhores. Após tocar ao lado de bandas como
Aerosmith e Robert Plant a banda já tinha um nome famoso. Em tal grau que foram
convidados a tocar no festival Monsters of Rock, em Castle Donington, na Inglaterra,
um dos festivais mais importantes do gênero.
Entretanto, não era o melhor momento da relação interna do Sepultura. Aos
poucos Max foi se distanciando dos demais integrantes e isso estava relacionado
ao fato de que a vida de Max havia mudado muito após o nascimento de seu filho
com Gloria, empresária da banda. Sua vida na estrada estava isolada do restante
da banda, muitas vezes Max ficava com o fundo do ônibus da banda, para que não
houvesse intervenções enquanto estivesse com sua família. Afinal de contas , Max
sempre levava seu filho Zyon para as turnês e shows. Entretanto, o restante do
grupo não se importavam com o fato de ele estar intimamente relacionado com a
empresária da banda, mas não gostavam de como as coisas estavam indo. Cada
vez mais, Gloria, arrumava entrevistas, apenas para Max, para revistas, programas

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de tv e rádios, representando o nome do Sepultura. A amizade entre os integrantes
foi diminuindo aos poucos com o tempo.
No entanto, enquanto estavam no palco, não havia como melhorar a química
do quarteto brasileiro. O show em Castle Donington foi a prova de que a banda
havia chegado no auge: eles eram a primeira banda do terceiro mundo a tocar no
festival Monsters of Rock, que reuniu nomes como Aerosmith, Pantera, Extreme e
Biohazard. Tudo estava dando certo para o Sepultura, os discos vendiam bem em
todo o mundo, inclusive recebeu um disco de ouro brasileiro, pela venda de 100 mil
cópias de ​Chaos A.D.
Só havia dois lugares onde o Sepultura estava imune à desavenças
familiares: o palco e o estúdio. Em janeiro de 1995, os quatro se reuniram para
começar a pré produção do novo disco, ​Roots, que segundo Max o nome surgiu
como uma indicação dos caminhos sonoros que iam seguir no álbum. O título
sugeria primitivismo e simplicidade, o que indicaria tirar os excessos, em suma um
trabalho mais refinado. Pelo fato de agora terem todo o tempo e liberdade para as
composições, a banda procurou inspiração em suas raízes, ou melhor, no que mais
poderia definir o caráter de suas músicas. Este processo todo feito com a
sinceridade e sem compromisso algum com o mercado, apenas algo que mostrasse
a sua identidade sonora. Algo maduro e resolvido dentro de sua proposta.
Em setembro, o Sepultura entrou no estúdio Indigo Ranch, na Califórnia, para
trabalhar naquele que seria sua obra-prima e um dos mais autênticos álbuns do
gênero Heavy Metal. O estúdio foi propositalmente escolhido pois era
demasiadamente simples e com equipamentos antigos. Segundo Andreas, eles
queriam um som com mais sujeira e pegada, e nos equipamentos do estúdio isso
seria perfeito. A idéia era de radicalizar ainda mais nos experimentos com
percussão e ritmos brasileiros. E as composições estavam mostrando a nova cara,
que vinha sendo construída, de forma incrível. A música chamada “​Roots Bloody
Roots”​ é um exemplo do que era o Sepultura, em sua essência, traduzida em som.
A obra não tem excessos, nem faltas, é completa do jeito que é. Sem solo, com
ruídos característicos e riffs simples e diretos. Bateria cheia e com traços de
percussão brasileira adaptada. Mas ela não é a única, a faixa “​Attitude”,​ começa
com uma introdução de berimbau, característico em danças de capoeira, e com uma
passagem que tem um ritmo que se assemelha muito ao estilo Baião. As letras
continuavam explorando injustiça e problemas sociais, mas agora ainda mais
centradas no Brasil. A própria capa do disco é uma figura de um índio, que
estampava a cédula de mil cruzeiros na época, já traduzia a mensagem. A faixa
“​Ambush” protestava contra o assassinato de Chico Mendes, enquanto a
“​Endangered Species​” sobre a destruição da Amazônia, e “​Dictatorshit” criticava a
ditadura militar, ocorrida no Brasil no período de 1964 à 1985.
O interesse por percussão ficou evidente quando decidiram chamar, o
percussionista e produtor Carlinhos Brown, para ajudá-los. Brown ficou muito
empolgado e foi direto para Los Angeles para se encontrar com a banda. Gravou e
ajudou a escrever a música “​Ratamahatta” que homenageia três figuras da história
do Brasil: Zé do Caixão, famoso personagem da televisão brasileira; Zumbi,
importante líder do quilombo dos Palmares; e Lampião, cangaceiro que ficou
conhecido como Rei do Cangaço. O álbum ainda fez uso de gravações com o grupo
Olodum de percussão, com participações em quase metade do disco. Contudo, a
banda não focou apenas no Brasil, eles não poderiam deixar de lado a sua trajetória
pra trás, por isso o álbum conta com algumas músicas de sonoridade semelhante
aos discos mais antigos.
Após terminar as gravações na Califórnia, a banda mostrou interesse e
conseguiu a oportunidade de vivenciar uma experiência única de passar uma
semana em uma aldeia de indígenas da tribo Xavantes, no Mato Grosso. Segundo
Paulo Jr, baixista, a ideia era trocar experiência com os índios, tocar com eles.
Numa noite, a tribo reproduziu um canto cerimonial chamado “​Datsi ​Wavere”​ , um
rito de celebração do fim da adolescência, enquanto Max e Andreas tocaram violões
e Igor e Paulo improvisaram na percussão. “​Itsári” ​, Raízes na língua Xavante, foi o
resultado dessa interação que foi gravada e incluída no disco. Essa experiência
mexeu muito com a banda, eles realmente se sentiram conectados com a tribo.
Roots foi lançado em fevereiro de 1996 e recebido com um entusiasmo
enorme. A grande imprensa mundial estava com manchetes sobre a
banda,ganharam espaço no The New York Times, Daily News e Los Angeles Times.
O disco foi um sucesso de vendas e seu reconhecimento era imensurável em
relação ao que se poderia imaginar de uma banda de Metal vinda de Belo
Horizonte. A banda havia extrapolado o gênero do metal e não poderia ter uma
forma mais direta de mostrar quem eram e de onde vinham.
No que tange ao rumo que a banda tomou, este trabalho não se trata disso,
portanto não abordaremos seus detalhes.
A banda continuou contendo traços brasileiros em suas composições, mas
sofreu mudanças de formação em sua carreira: a saída de Max, e a entrada de
Derrick Green nos vocais; A saída de Igor e a passagem de dois bateristas, sendo
eles Jean Dolabella, e Eloy Casagrande que atua como baterista na formação atual
do ano de 2019.
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