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Lycia de Brito Gitirana

Coleção Conhecendo:
Histologia dos Tecidos
Copyright© 2013 Lycia de Brito Gitirana
Título Original: Coleção Conhecendo: Histologia dos Tecidos

Editor
André Figueiredo

Editoração Eletrônica
Luciana Lima de Albuquerque

G536 Gitirana, Lycia de Brito


Histologia dos tecidos / Lycia de Brito Gitirana. — Rio de Janeiro: Publit, 2013.
252 p. : il. color. ; 21 cm. (Coleção Conhecendo)

ISBN 978-85-7773-626-3
Inclui referências bibliográficas.
1. Histologia. 2. Ciências Biológicas. I. Título. II. Coleção Conhecendo.

CDD 611.018
CDU 611.018

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Sumário

1 – Introdução à Histologia................................................................................ 5

2 – Tecidos....................................................................................................... 35

3 – Tecido Epitelial........................................................................................... 41

4 – Tecido Conjuntivo....................................................................................... 77

5 – Sangue e Hematopoiese........................................................................... 115

6 – Tecido Cartilaginoso................................................................................. 151

7 – Tecido Ósseo............................................................................................ 163

8 – Tecido Nervoso......................................................................................... 191

9 – Tecido Muscular....................................................................................... 219

10 – Bibliografia............................................................................................. 245
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Introdução à Histologia

A Histologia é um especialidade das Ciências Biológica e Biomédica que


estuda a estrutura e a interrelação dos constituintes teciduais de um organismo,
isto é, a estrutura celular e a interação das células com o material extracelular.
Quando as células interagem com os elementos extracelulares, de forma integra-
da, estruturam-se os tecidos que irão desempenhar funções específicas.
Para se estudar os constituintes de um determinado tecido há a necessidade da
utilização de equipamentos específicos, além do emprego de métodos especiais.
Ao olho desarmado (olho nu) é possível visualizar nitidamente estruturas com
dimensões de até 1 mm. Como os constituintes teciduais possuem dimensões
bem menores, são usados equipamentos que aumentam suas dimensões para
facilitar a análise mais precisa.
De um modo geral, dois principais problemas dificultam a observação das
microestruturas biológicas: (1) as pequenas dimensões dos elementos teciduais
(células e elementos extracelulares), e (2) a sua transparência à luz visível em
decorrência da falta de contraste entre as suas estruturas e o próprio meio que
as rodeia.
A construção de microscópios e os seus aperfeiçoamentos superaram o
primeiro impasse, pois esses equipamentos são capazes de aumentar significativa-
mente as dimensões das células, revelando detalhes estruturais. Com a finalidade
de se contornar o segundo problema, o desenvolvimento de técnicas para pro-
cessamento histológico, assim como métodos de coloração e/ou evidenciação
de elementos teciduais são importantes por permitirem melhorar o contraste das

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estruturas teciduais, tornando-as visíveis quando visualizadas com os diferentes
tipos de microscópios.
Como certos objetos podem ter dimensões inferiores ao poder de resolução
do olho humano, o desenvolvimento de equipamentos que permitiram visualizar
pequenas estruturas foi fundamental (Fig. 1.1).

Fig. 1.1: Orientação das dimensões

TIPOS DE MICROSCÓPIOS

O vocábulo grego mikro significa pequeno e skopein examinar. Assim, o


termo microscópio foi criado para designar um instrumento que permite a ob-
servação de pequenos objetos, tendo sido denominado Microscópio Composto,
Microscópio de Luz ou Fotônico.
O desenvolvimento de lentes em um mesmo eixo foi indispensável para a
construção dos diferentes tipos de microscópio. A associação das lentes permite
ampliar imagens, facilitando a visualização de estruturas teciduais. Além disso, a
utilização de diferentes fontes de iluminação também foi importante para expan-
dir a utilização dos microscópios. Assim, dependendo do tipo de lentes, do tipo de
iluminação e dos diversos acessórios foram construídos diferentes microscópios.

Microscópio de Luz ou Fotônico

O primeiro microscópio foi construído por volta de 1585, quando Zacharias


Jansen1 (1589-1638) teve a ideia de reunir duas lentes em um mesmo eixo para
ampliar uma imagem.
Anos mais tarde, Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723) e Thomas Hooke
(1635-1703) desenvolveram o microscópio de luz. Leeuwenhoek, um micros-
copista holandês, foi o primeiro a observar bactérias e protozoários, tendo sua
pesquisa contestado a teoria da geração espontânea. Leeuwenhoek fabricou
1 Alguns autores supõem que devido a sua pouca idade, tenha o primeiro microscópio
tenha sido desenvolvido por seu pai Hans Jansen, fabricante de óculos.

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microscópios com lentes simples e de alta qualidade, mas com aumento re-
lativamente pequeno (de 50 a 300 vezes). Foi a partir das observações de um
pedaço de cortiça que o inglês Robert Hooke, fabricante de um microscópio
óptico composto, notou numerosas cavidades, utilizando o termo “célula” para
designar tais cavidades.
Como os primeiros microscópios, os atuais microscópios de luz utilizam a
luz visível para gerar imagens, sendo bem mais complexos e constituídos por
uma parte mecânica e uma parte óptica, a qual possui lentes capazes de ampliar
as estruturas a serem analisadas (Fig. 1.2).

Fig. 1.2: Desenho de um microscópio de luz, indicando seus constituintes.

A parte mecânica, formada por diferentes componentes, sustenta os elemen-


tos envolvidos na iluminação do material a ser visualizado com o objetivo de se
obter uma imagem nítida. Esses componentes são a base, a estativa, o tubo, o
revólver e a mesa do microscópio.
O pé ou base do microscópio confere o suporte básico ao microscópio, pro-
vendo o devido apoio e equilíbrio ao microscópio. A coluna ou a estativa apoia
as demais peças que compõem o microscópio, enquanto que o tubo é a peça
de ligação da ocular ao revólver, o qual suporta as lentes objetivas. A platina ou
mesa sustenta o material a ser observado e apresenta normalmente um sistema de
pinças ou um charriot, o qual é utilizado para firmar e movimentar o preparado
histológico durante a sua observação.

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A parte óptica de um microscópio é constituída por três sistemas de lentes: o
condensador, as objetivas e a ocular. As “lentes” são normalmente feitas de vidro
e capazes de produzir convergência ou divergência dos raios luminosos que
as atravessam.
O condensador é uma lente que converge os raios luminosos para o material,
sendo equipado com um diafragma que proporciona o controle da intensidade
luminosa. A lente objetiva amplia e projeta a imagem do material em direção à
lente ocular, a qual funciona como uma lupa, ampliando a imagem obtida pela
objetiva de modo que essa imagem seja perceptível pelo olho do observador ou
detectada com o auxílio de um equipamento fotográfico.
As lentes objetivas permitem diferentes aumentos e estão fixadas no revólver,
que conforme gira, muda a posição das objetivas, permitindo que o observador
amplie a imagem do seu material. Atualmente, essas lentes são complexas,
chegando a possuir 15 ou 16 lentes internas.
Além desses elementos, há ainda a fonte de iluminação, que normalmente é
uma lâmpada de halogênio, e o diafragma que permite regular a quantidade de
luz que chega ao material.
Ao se movimentar os parafusos macrométrico e micrométrico pode-se obter
uma imagem nítida do material, isto é, o material é focado. Enquanto o botão
macrométrico proporciona movimentos de grande amplitude, o botão micromé-
trico executa movimentos de pequena amplitude com a finalidade de se ajustar
o foco ideal para o observador.
Os microscópios de luz fornecem ampliações de até 1.500 vezes e a amplia-
ção total é obtida através da associação de suas lentes. Dessa forma, para se obter
o aumento final, multiplica-se o aumento fornecido pela lente objetiva multiplica-
da pela ampliação fornecida pela lente ocular. Assim, ao se observar um material
utilizando uma ocular de 10x (dez vezes) e uma objetiva de 20x (vinte vezes), a
imagem final visualizada pelo observador terá um aumento de 100 vezes.
Durante a prática de microscopia, deve-se também considerar o poder de re-
solução do microscópio por ser esse um fator fundamental na obtenção de boas
imagens. O poder de resolução representa a distância mínima entre dois pontos,
capaz de permitir a formação uma imagem nítida do material (Fig. 1.3). Em con-
dições ótimas, o limite mínimo de resolução alcançado por um microscópio de
luz é aproximadamente de 0,2µm (micrômetro), enquanto que os olhos humanos
têm o poder de resolução em torno de 200µm. A unidade utilizada para definir
as dimensões ao microscópio de luz é o micrômetro2, sendo que um micrômetro
equivale à milésima parte de um milímetro.

2 Micra é o plural de micrômetro.

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É importante ressaltar que se deve tomar cuidado para não confundir “au-
mento” com “ampliação” de uma fotomicrografia. Por exemplo, uma estrutura
com dimensões de 10µm, por mais se amplie a fotomicrografia, essa estrutura
terá sempre as dimensões de 10µm.

Fig. 1.3: Fotomicrografia de um fragmento de osso compacto obtido através do em-


prego da técnica de desgaste e observado ao microscópio de luz de campo claro.
Coloração de fundo: imersão em ácido pícrico. 200X

Microscópio de Contraste de Fase

Como o seu próprio nome sugere, o microscópio de contraste de fase


fornece imagens de material in vivo com contraste, sem a necessidade de se
recorrer ao uso prévio de corantes, os quais podem ser tóxicos à célula. Mui-
tos dos corantes utilizados in vivo acabam por danificar ou mesmo matar as
células que se pretende analisar, originando artefatos, isto é, certos corantes
podem alterar a conformação natural de estruturas teciduais, levando à dis-
torção da sua imagem.

Microscópio de Polarização ou Microscópio de Luz Polarizada

Para se compreender melhor os fundamentos da microscopia de luz po-


larizada, é necessário a compreensão da constituição da luz e o que significa
luz polarizada.
A luz consiste de radiações eletromagnéticas (campos elétricos e magnéticos
perpendiculares entre si) que oscilam em todas as direções em torno da trajetória
de propagação (Fig. 1.4).

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Fig. 1.4: Planos da luz

Na luz polarizada, a oscilação se processa num só plano. Assim, um pola-


rizador de luz é um material que permite a passagem de luz somente em um
ângulo específico de vibração.
Certas substâncias químicas, denominadas substâncias opticamente ativas,
têm a propriedade de produzir rotação no plano de luz polarizada (ângulo α) que
passa através delas (Fig. 1.5). Algumas substâncias opticamente ativas desviam o
plano da luz polarizada para a direita (α-positivo), enquanto outras substâncias
desviam a luz para a esquerda (α-negativo). Dentre as substâncias opticamente
ativas pode-se citar a glicose (C6H12O6, α = +52,7°); a frutose (C6H12O6, α = _ 92,3°);
e a sacarose (C6H22O11, α = +66,5°). A figura 1.5 fornece uma representação
desse fenômeno.

Fig. 1.5: Plano de desvio da luz polarizada

O microscópio de luz polarizada basicamente é um microscópio de luz que


permite o acoplamento de acessórios com a finalidade de interferir no trajeto da
luz. Nesse caso, utiliza-se dois filtros polarizadores, um fixo e outro móvel. O
primeiro é colocado próximo ao condensador, sendo denominado polarizador
(geralmente cristal de Nicol em calcita ou cristal de quartzo) (Fig. 1.6). O segundo,

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chamado analisador, se localiza entre a objetiva e a ocular. O eixo do analisa-
dor é perpendicular ao do polarizador e quando esses "filtros" apresentam seus
planos paralelos, o microscópio funciona como um microscópio de luz comum.
No microscópio de polarização, a luz emitida pela fonte luminosa é polari-
zada, isto é, depois de atravessar o polarizador passa a vibrar numa só direção,
incidindo sobre o material da preparação que se pretende analisar. Se não houver
qualquer material entre o polarizador e o analisador, os raios luminosos não são
desviados e não atravessam o analisador, obtendo-se um fundo escuro. Quando
há algum elemento macromolecular capaz de desviar o feixe de luz, esses podem
ser observados com um brilho colorido, sendo birrefringentes (anisotrópicos), em
contraste com outros componente não birrefringentes (isotrópicos).

Fig. 1.6: Desvio da luz polarizada ao atravessar o polarizador.

Uma estrutura é dita isotrópica quando não promove o fenômeno de du-


pla difração e não modifica o plano de polarização da luz, sendo também
denominada monorrefringentes. Desse modo, o raio de luz que parte do po-
larizador atravessa o material sem mudar a direção de vibração e, ao chegar
ao analisador, vibra perpendicular ao mesmo, não permitindo passagem de
luz para o observador.
Quando o polarizador e o analisador estiverem com seus planos perpen-
diculares (cruzados), somente estruturas birrefringentes podem ser visualizadas.
As estruturas anisotrópicas são birrefringentes, pois promovem o fenômeno da
dupla refração, ou seja, um raio de luz polarizada, segundo a direção do pola-
rizador inferior, ao incidir sobre a estrutura é refratado no seu interior, surgindo
dois raios de luz que vibram perpendicularmente entre si com velocidades pro-
porcionais aos índices de refração a eles associados. Quando os dois raios de luz
(um lento e um rápido) deixam a estrutura e atingem o analisador, os raios de luz

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passam a interferir entre si formando uma resultante (R), paralela à direção do
analisador, com passagem de luz através dele até o observador.
Devido às suas características, o microscópio de luz polarizada é utilizado para
evidenciar estruturas compostas por moléculas anisotrópicas ou birrefringentes ca-
pazes de desviar a luz polarizada (Fig. 1.7). As substâncias birrefringentes desviam
os raios luminosos polarizados que passam a atravessar o analisador com maior ou
menor intensidade consoante o ângulo por elas formado com o analisador, forman-
do assim a imagem ao nível da ocular. Certos constituintes teciduais podem ter sua
birrefringência aumentada utilizando corantes como o picrossirius red ou o direct
blue. Como exemplo de elementos birrefringentes tem-se a celulose, o colágeno,
microtúbulos, microfilamentos, queratina e os tecidos mineralizados.

Fig. 1.7: Fotomicrografia de corte de osso compacto obtido por desgaste observado ao
microscópio de luz polarizada, sem coloração prévia. 200 x.

Microscópio de Fluorescência

Nesse tipo de microscópio, a fonte luminosa emite radiações ultravioletas


próximas ao espectro do visível, que atravessam o material da preparação como
no microscópio de luz comum. As lentes são geralmente de quartzo, pois o vi-
dro absorve a radiação ultravioleta. Depois da lente objetiva, existem filtros que
retêm a radiação ultravioleta, deixando passar a radiação visível de modo
a proteger o olho humano. A imagem fluorescente é obtida pela ação de cer-
tas substâncias que, quando excitadas com radiação de baixo comprimento de
onda, as absorvem e emitem outras de maior comprimento de onda, na gama do
visível - fenômeno de fluorescência.
A fluorescência pode ser devida à substâncias existentes nos tecidos (au-
tofluorescência), como no caso da vitamina A, da tiamina, da riboflavina, dos
pigmentos lipogênicos, das porfirinas, dentre outras substâncias. A fluorescência

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também pode ser originada pelo uso de corantes fluorescentes denominados
fluorocromos (fluorescência secundária) (Fig. 1.8). Por exemplo, o alaranjado de
acridina (acridin orange) é um fluorocromo que identifica o RNA com fluorescên-
cia vermelha e o DNA com fluorescência verde-amarelada. Uma vantagem desse
tipo de microscopia é a sua grande sensibilidade, permitindo a identificação de
substâncias específicas pela sua cor de fluorescência característica.

Fig. 1.8: Fotomicrografia da mucosa intestinal do intestino de rato. Imunomarcação com


fluoresceína para heparansulfato com coloração de fundo com azul de Evans. 400 x.
(Cortesia de Morgana Teixeira Lima Castelo Branco)

Microscópio de Varredura Confocal a Laser

O microscópio confocal representa uma combinação do microscópio de


fluorescência com a análise eletrônica de imagem, capas de produzir imagens
em três dimensões. Esse microscópio utiliza raios laser para originar imagens de
diversos planos ópticos do material (Fig. 1.9).

Fig. 1.9: Microscópio de varredura confocal a laser, modelo LSM Zeiss

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Através dessa técnica é possível se obter imagens muito nítidas, pois somente
o material do plano óptico da varredura do laser contribui para a formação da
imagem (Fig. 1.10). O material, acima e abaixo do plano de observação, não
interfere na imagem final, por ser eliminado pelo pinhole (ou íris), um orifício do
tamanho da cabeça de um alfinete. Dessa forma, espécimes íntegros podem ser
observados sem que se corte fisicamente a amostra.
Para que o laser identifique um espécime, esse deve estar ligado a um
elemento de modo a formar um composto fluorescente. Após a leitura do laser,
a luz emitida e a luz refletida são captadas e processadas com o auxílio de um
computador e os sinais são enviados para o monitor para compor a imagem que
pode ser posteriormente armazenada no próprio computador.

Fig. 1.10: Fotomicrografia da pele de sapo (Rhinella icterica) ao microscópio de


varredura confocal a laser

Microscópios Eletrônicos

A microscopia eletrônica permite o estudo da ultraestrutura dos elementos


teciduais devido ao seu alto poder de resolução, que é bastante superior ao do
microscópio de luz. Nesse tipo de microscópio, ao invés de fótons, são utilizados
feixes de elétrons, os quais possuem um comprimento de onda de 0,005 nm,
enquanto que o comprimento de onda da luz visível é de 550 nm. Assim, a reso-
lução do microscópio eletrônico é muito maior que do microscópio de luz.

Microscópio Eletrônico de Transmissão

O microscópio eletrônico de transmissão (MET) utiliza um filamento de


tungstênio ou catodo que, quando aquecido no vácuo, funciona como fonte

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emissora de elétrons, os quais são focados no plano da preparação por meio de
uma bobina eletromagnética com função de condensador.
Quando os feixes de elétrons atingem o material a ser analisado, muitos
elétrons são desviados, enquanto que os elétrons que atravessam o material
são defletidos por outra bobina eletromagnética, a qual funciona como uma
objetiva, fornecendo uma imagem ampliada do objeto. Essa imagem atravessa
uma terceira bobina que funciona como ocular ou lente projetora, ampliando
a imagem resultante da objetiva e projetando os elétrons sobre uma tela fluo-
rescente (Fig. 1.11).

Fig. 1.11: Primeiro microscópio eletrônico fabricado pela Zeiss em 1956. Atualmente,
encontra-se em exposição no Museu Óptico da Zeiss em Jena, Alemanha.

Todo esse processo ocorre em vácuo e o resultado final é apreciado em uma


tela de écran fluorescente, registrado sobre uma chapa fotográfica ou capturado
por uma câmara digital. A tela fluorescente é uma chapa revestida por sulfeto de
zinco, uma substância que emite luz ao ser excitada pelos elétrons.
Os modelos mais recentes de microscópio eletrônico utilizam um sistema
digital de captura de imagens através de um sistema computadorizado, armaze-
nando a imagem em um computador.
O material a ser analisado pelo MET passa para por um tratamento especial
de modo a ser impregnado por uma resina acrílica que, devido a sua dureza,
permite a confecção de cortes ultrafinos, sendo esse processo designado ultra-
microtomia, uma técnica trabalhosa que requer muita prática e paciência. O
equipamento utilizado para confeccionar os cortes ultrafinos é o ultramicrótomo
(Fig. 12).

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Fig. 1.12: Fotomicrografia de um ultramicrótomo, modelo da Reichter Jung.

Para a confeccionar cortes ultrafinos utilizam-se facas de vidro ou de diaman-


te, sendo esse posteriormente tratados com metal pesado, citrato de chumbo e/ou
acetato de uranila, para promover o contraste dos elementos teciduais.
Certas estruturas teciduais são tão densas que impem a passagem dos elé-
trons, desviando-os, sendo denominadas elétrondensas ou elétrondispersantes.
As estruturas teciduais que se deixam atravessar pelos elétrons são denominadas
elétronluscentes. Conforme a variedade das estruturas teciduais, mais densas e
menos densas, as imagens obtidas por esse tipo de microscópio aparecem em
diversos tons de cinza (Fig. 1.13)

Fig. 1.13: Eletronmicrografia de cortes transversais de cílios do epitélio do esôfago do


sapo Rhinella icterica. barra = 0,2 µm.

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Microscópio Eletrônico de Varredura

Com o microscópio eletrônico de varredura (MEV) é possível se obter uma


imagem tridimensional da superfície de determinada estrutura. Estruturalmente, o
MEV difere do MET pela existência de uma bobina de varredura que movimenta
os elétrons, como ocorre com o movimento de elétrons em um tubo de televisão.
Quando os elétrons se chocam com a superfície da estrutura, eles são refletidos
(os elétrons secundários), sendo são captados por um tubo fotomultiplicador
gerando um sinal elétrico e a imagem é formada em uma tela de écran ou em
uma tela de um monitor.
As fotomicrografias são obtidas através da fotografia da imagem que se forma
na tela e não pela ação direta dos próprios elétrons sobre um filme fotográfico
como acontece no MET.

Fig. 1.13: Eletronmicrografia de cortes do tegumento de Rhinella marina ao MEV,


destacando a abertura do ducto de uma glândula.

Unidades de Medida

Além do micrômetro (m), há outras unidades de medida, dependendo o tipo


de microscopia.

Unidade de medida Símbolo Valor

micrômetro μm 0,001 mm
nanômetro nm 0,001 μm
Angstron Å 0,0001nm ou 0,0000001mm

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PRÁTICA DA TÉCNICA HISTOLÓGICA

Normalmente, os tecidos precisam ser submetidos a um tratamento prévio,


específico para cada um dos diferentes tipos de microscopia, de modo a permitir
a observação de seus constituintes teciduais.

Exame a fresco

Nesse tipo de exame, o material é observado sem uso prévio de substâncias


que promoveriam a sua preservação (fixação).

Exame direto

O exame direto é efetuado em material com aspecto transparente diretamente ao


microscópio, permanecendo o organismo intacto. Como exemplo, pode-se ci-
tar a visualização de protozoários em uma gota de água ou a observação
do mesentério de rato ou de rã distendido sobre uma lâmina. Esse método era
utilizado em aulas práticas de Biologia. Atualmente, existem equipamentos que
foram desenvolvidos com esse objetivo, como o microscópio intravital, utilizado
em laboratórios de pesquisa especializados.

Exame indireto

Esse exame é realizado em material retirado do organismo, apresentando


ainda atividade biológica (Ex.: leucócitos, hemácias, células descamadas, es-
permatozoides).

Cultura de células e tecidos

A cultura de células tecidos é amplamente utilizada na pesquisa biológica e


se refere a manipulação de tecidos e/ou células fora do organismo, em um am-
biente controlado, permitindo a observação de células vivas. Tal procedimento
é feito a partir de fragmentos de tecidos e requer condições estéreis. Para a ma-
nutenção da viabilidade celular, de modo a permitir o seu crescimento fora do
corpo, é necessário que o meio de cultura contenha as substâncias nutridoras
necessárias para mantê-las viáveis.

Exame após coloração vital

A coloração vital é realizada em células vivas, visualizadas depois de coradas


com determinados corantes, os quais devem estar diluídos em certas substâncias

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de modo a não afetar a vitalidade celular. Como exemplo de coloração vital tem-se
a coloração pelo verde janus B, usado para visualização das mitocôndrias.

Fig. 1.14: Fotomicrografia do fígado da rã-manteiga (Leptodactylus ocellatus), após o


animal ter recebido injeção de azul de tripan 0,1%. Os macrófagos são detectados,
pois englobaram as partículas azuis do corante.

Para a visualização de células fagocitárias, como os histiócitos do tecido


conjuntivo, o corante azul de tripan é usado porque não é tóxico e pode ser
englobado por células fagocitárias. Na coloração intravital, o corante é injetado
no animal experimental por 2 a 3 dias, aguardando que as células fagocitárias
englobem o corante. Após esse período, o animal é eutanasiado, o órgão (ou a
biópsia) é retirado e processado conforme a técnica histológica de rotina. Como
resultado, as células fagocitárias são identificadas pela presença de granulações
azuis que correspondem ao corante que foi englobado (Fig. 1.14).

Exame post-mortem (após a morte do organismo)

O exame post-mortem é realizado depois o óbito do animal, sendo comu-


mente utilizado na análise histológica.
Nesse caso, para a manutenção da estrutura tecidual é necessário a preser-
vação dos seus constituintes. Para tal, o material passa por uma sequência de
tratamentos, desde a fixação, inclusão do material em resina, microtomia até a
confecção de lâminas histológicas.
Ao iniciarmos o manuseio do material com vistas à análise microscópica,
devemos também considerar a avaliação macroscópica do espécime por essa
fornecer informações importantes. Por exemplo, a cor e a textura da maioria dos
órgãos são parâmetros a serem considerados para o diagnóstico pela anatomia
patológica e na pesquisa científica.

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Ressalte-se que o manuseio de material biológico deve ser cuidadoso, pois
qualquer erro durante alguma etapa da técnica histológica, pode ter graves con-
sequências, como o aparecimento de artefatos e, consequentemente, conduzir a
uma interpretação errônea dos resultados.
Neste livro, iremos comentar apenas o preparo rotineiro de material incluído
em parafina com vistas à análise pela microscopia de luz.

ETAPAS DA TÉCNICA HISTOLÓGICA

No processamento habitual adotado pela técnica histológica de rotina, o


material biológico passa pelas seguintes etapas básicas: coleta, fixação, pro-
cessamento para inclusão em parafina, microtomia, coloração e observação
ao microscópio.
Antes mesmo de iniciarmos qualquer procedimento, é fundamental que se
observe as condições de manuseio do espécime assim como a legislação vigente.
Também é importante considerar todos os cuidados laboratoriais, como o uso de
jalecos, luvas, trabalhar sempre em capela de exaustão de gases. É fundamental
que o laboratório esteja sempre limpo e deve-se seguir as normas de biosseguran-
ça e as boas práticas laboratoriais.
Casos especiais da prática da pesquisa científica é necessário se evitar o
uso de substâncias anestésicas que possam interferir ou alterar a morfologia do
tecido ou órgão a ser analisado. Nesses casos, a insensibilização de animais
sem uso de substâncias químicas é permitida pela legislação vigente. A desce-
rebração, comum em animais de pequeno porte, é realizada com o auxílio de
um estilete para seccionar o bulbo. Esse método traz como consequência a in-
sensibilização dos animais e tem sua normatização na Resolução no 714 de 20
de junho de 2002 promulgada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária
cuja atribuição lhe foi conferida pelo art. 16, alínea “f” da Lei no 5.517/86 de
23 de outubro de 1968.

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Coleta de Material e a Legislação
Para a realização da prática de fixação é importante considerar
o material biológico a ser utilizado na dissecação, tomando-
-se cuidados na sua organização e no manuseio dos animais
experimentais.
Existem legislações que normatizam a utilização de animais em
aulas práticas ou na pesquisa científica. A primeira legislação que
determinou normas para a vivissecção foi a Lei no 6.638 de maio
de 1979 (artigo 3o). Recentemente, a Lei 11.794 de 2008 revogou
a lei anterior e estabeleceu normas para uso de animais.
O Art. 1º, §1º da Lei 11.794/08 define que a utilização de animais
em atividades educacionais fica restrita a:
I – estabelecimentos de ensino superior;
II – estabelecimentos de educação profissional técnica de nível
médio da área biomédica.

Essa lei também cria o CONCEA (Conselho Nacional de Con-


trole de Experimentação Animal) para vertebrados e institui a
criação de cadastros das instituições de pesquisa e do pesqui-
sador, além de determina que todas instituições com atividade
de ensino ou pesquisa deve possuir CEUA (Comissão de Ética
no Uso de Animais).

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Fixação

A fixação visa a preservação dos elementos teciduais e normalmente é


realizada após a coleta do material, sendo conseguida com a utilização de
substâncias fixadoras, simplesmente designadas fixadores, os quais são subs-
tâncias químicas que tem por finalidade a manutenção da integridade tecidual
após o óbito do animal, além de causar o mínimo possível de alterações da
estrutura tecidual.
A fixação de material biológico tem por objetivo:
ü Evitar, ao máximo, as possíveis alterações na constituição celular (autólise);
ü Impedir a atividade e a proliferação de bactérias;
ü Preservar as proteínas;
ü Inativar as enzimas proteolíticas;
ü Enrijecer os tecidos para que resistam às etapas subsequentes da técnica
histológica;
ü Aumentar a afinidade das estruturas teciduais por corantes.

1.4.1.1 Fatores que influenciam a fixação


Vários fatores interferem no processo de fixação e, dependendo do objetivo
do estudo, podem ser modificados. Tais fatores são:
ü Tamponamento: o pH deve estar entre 6,0 e 8,0;
ü Temperatura: evitar temperaturas muito altas;
ü Velocidade de penetração das substâncias fixadoras;
ü Volume da peça (o volume do fixador deve ser vinte vezes o volume da
peça);
ü Osmolaridade da solução fixadora (solução hipertônica/hipotônica);
ü Substâncias adicionais contidas nas misturas fixadoras;
ü Concentração dos fixadores;
ü Tempo de fixação.

Há substâncias fixadoras que penetram rapidamente no tecido, mas não são


muito eficientes na preservação tecidual. Outras substâncias penetram lentamen-
te e preservam o material com boa qualidade estrutural.
Na maioria dos casos, é aconselhável consultar a literatura especializada
com o objetivo de analisar as vantagens e as desvantagens de cada substância
fixadora. Frequentemente, são utilizadas misturas fixadoras (solução contendo
várias substâncias fixadoras), onde as vantagens se sobrepõem as desvantagens
de cada substância constituinte da solução.

22
Métodos
A fixação de material biológico pode ser realizada pela ação de substâncias,
como os fixadores ou misturas fixadoras (método químico) ou através do conge-
lamento do material (método físico).
Um bom fixador deve revelar:
ü Rapidez de ação;
ü Bom poder de penetração;
ü Promover boa preservação das estruturas;
ü Possibilitar o emprego subsequente de técnicas de coloração.

Classificação dos fixadores


Fixador Aldeídico
Os fixadores aldeídicos se ligam às estruturas teciduais através de ligações
cruzadas com proteínas, particularmente entre os resíduos de lisina. Como exem-
plo tem-se o formaldeído (também conhecido como formol), paraformaldeído.

Formaldeído (Fig. 1.15)


ü Penetra bem, porém relativamente devagar;
ü O tampão associado à solução de formaldeído previne a acidificação da
solução fixadora, impedindo a autólise celular e a formação de pigmento
formólico no tecido;
ü Bom para utilização de técnicas de imuno-histoquímica.

Fig. 1.15: Fórmula química do formaldeído

Glutaraldeído
ü Causa deformação da estrutura em α-hélice das proteínas;
ü Não é recomendado para material a ser submetido a técnicas de imuno-
-histoquímica;
ü Penetra lentamente;
ü Fixa rapidamente, sendo bom para análise pela microscopia eletrônica.

O formaldeído e o glutaraldeído são os fixadores frequentemente utilizados


e ambos reagem, primariamente, com grupamentos amino das proteínas. O for-
maldeído foi descoberto em 1867 pelo alemão August Wilhelm von Hofmann;

23
porém, foi Ferdinand Blum, em 1897, quem utilizou o formol na fixação de teci-
dos biológicos após descobrir que uma solução aquosa de formaldeído tornava a
pele dos seus dedos dura e ressecada como o couro.

Fixadores Mercuriais
Não se conhece mecanismo exato de ação dos fixadores que contém mercú-
rio sobre os elementos teciduais. O líquido de Zenker é um exemplo de fixador
mercurial.
ü Contêm cloreto de mercúrio;
ü Penetram lentamente nos tecidos;
ü Causam endurecimento dos tecidos;
ü Melhor aplicação: fixação de tecido hematopoiético.

Fixadores Alcoólicos
São exemplos de fixadores alcoólicos o metanol e o álcool etílico.
ü Desnatura proteínas;
ü Causa endurecimento e clareamento do material;
ü Bom para estudo citológico por fornecer detalhes nucleares.

Agentes oxidantes
Dependendo do objetivo do estudo, algumas substâncias podem ser adicio-
nadas à solução fixadora; porém, deve-se considerar a ação de tais compostos,
pois muitos deles podem promover ligação cruzada com proteínas e causar
desnaturação.
Como exemplo de agentes oxidantes usados nas misturas fixadoras tem-se o
permanganato de potássio, dicromato de potássio e tetróxido de ósmio.

Picratos
Contêm ácido pícrico, mas sua ação junto ao tecido ainda permanece des-
conhecida. Sabe-se que o ácido pícrico precipita, formando picratos de proteína.
Ao se utilizar fixadores a base de ácido pícrico, recomenda-se que os tecidos
permaneçam na solução por um período de até 24 horas, sendo depois lavado
em água e deixados em álcool à 70%. Exemplo: líquido de Bouin e líquido
de Gendre.

Tipos de fixadores
Fixadores Simples: quando a solução fixadora contém apenas um tipo de subs-
tância. Por exemplo: etanol, ácido tricloroacético, cloreto de mercúrio, ácido
pícrico, ácido acético, tetróxido de ósmio, formaldeído, etc.

24
Misturas fixadoras: resultam da combinação de várias substâncias com o objetivo
de que a vantagem de uma substância anule a desvantagem da outra substância
presente na mistura.
ü Líquido de Clarke: etanol e ácido acético;
ü Líquido de Carnoy: etanol, clorofórmio e ácido acético;
ü Líquido de Bouin: solução aquosa saturada de ácido pícrico, formol, ácido
acético;
ü Líquido de Gendre: solução alcoólica saturada de ácido pícrico, formol,
ácido acético.

Tipos de fixação
A fixação de material biológico pode ocorrer pela simples imersão do mate-
rial em uma solução fixadora (fixação por imersão) ou pela injeção do fixador
no animal (fixação por perfusão). Na fixação por perfusão, para que o fixador
possa atingir a intimidade de todos os tecidos e preservar a estrutura tecidual, a
injeção do fixador é feita via corrente sanguínea. Os vasos sanguíneos funcionam
como “canais de distribuição” do fixador, visto que eles conduzem o sangue até
a intimidade dos tecidos do organismo.

Processamento de material mineralizado

Tecidos rígidos, como o tecido ósseo, são mineralizados, isto é, possuem


depósitos de cálcio na sua matriz extracelular. Para que esses tecidos possam
ser observados ao microscópio de luz, o cálcio deve ser removido antes de se
iniciar os procedimentos da técnica histológica de modo a permitir a microto-
mia do material.
Dependendo do objetivo do estudo, isto é, analisar a porção mineral ou a
porção orgânica do tecido, a metodologia empregada deverá ser distinta. No
método de desgaste, a técnica é empregada para se analisar a porção mineral do
tecido, enquanto que a técnica da descalcificação é utilizada quando se deseja
estudar a porção orgânica dos tecidos (células e material extracelular).
Por não estudar a porção orgânica, no desgaste, não há a necessidade de fixa-
ção prévia e o material é desgastado através da ação mecânica, obtendo-se fatias
finíssimas que são levadas ao microscópio para análise (Fig. 1.7).
Na descalcificação há a necessidade de se realizar a fixação prévia do tecido
para que a sua porção orgânica possa ser preservada para estudo posterior. Após
a fixação, o tecido é submetido ao tratamento com substâncias químicas [áci-
dos minerais ou ácidos orgânicos (ácido nítrico, ácido diaminotetracético
(EDTA), ácido fórmico ou ácido acético], que visam a remoção do cálcio
tecidual (Fig. 1.16).

25
Fig. 1.16: Fórmula química do EDTA e sua interação com o cálcio tecidual durante o
processo descalcificação

Clivagem

A clivagem é a etapa subsequente à fixação e tem por objetivo diminuir as


dimensões do material coletado, reduzindo-os à fragmentos menores. Essa etapa
se faz necessária para permitir a penetração adequada do fixador no material.
Peças de vísceras compactas, como fígado, coração, encéfalo, devem ter suas
dimensões reduzidas em torno de 5-6mm de espessura, para permitir a penetração
do fixador, de modo que haja a preservação adequada dos elementos teciduais
visto que fragmentos muito espessos impedem a penetração das substâncias fixa-
doras e, consequentemente, a preservação do material.

Processamento para inclusão em parafina

O tratamento subsequente à clivagem envolve várias etapas e tem por fina-


lidade permitir a confecção de cortes delgados que possam ser observados ao
microscópio. Como o processamento inclui algumas etapas que utilizam subs-
tâncias tóxicas, todo o cuidado é necessário ao se manusear tais substâncias,
preferencialmente dentro de capelas de exaustão.
O processamento histológico inclui as etapas da desidratação, diafanização,
impregnação e emblocamento em parafina.

Desidratação
A desidratação visa remover a água dos tecidos, preparando-os para a pene-
tração de resinas não miscíveis com a água nos tecidos. Nessa etapa se utiliza

26
concentrações crescentes de álcool etílico (álcool a 70%, 80%, 90% e 100%),
de modo que a retirada de água dos tecidos deve ser lenta de modo a não causar
danos ao material.

Diafanização ou Clarificação
Após a desidratação, o material é tratado com solvente orgânico, geralmente
o xilol, que tem a finalidade de remover o álcool dos tecidos e prepará-lo para a
impregnação em parafina propriamente dita. Essa etapa torna-se necessária, visto
que o álcool e a parafina não são miscíveis, isto é, não se combinam.
Como o xilol é um solvente orgânico com alta toxicidade, recomenda-se
extremo cuidado com o manuseio dessa substância e trabalhar sempre dentro de
uma capela de exaustão de gases.

Impregnação e emblocamento em parafina


Como a parafina é sólida à temperatura ambiente, para que possa penetrar na
intimidade dos tecidos ela deve estar na forma líquida. Assim, essa etapa deve ser
realizada em estufa pré-aquecida, em torno dos 58oC (ponto de fusão da parafi-
na), temperatura em que a parafina é líquida.
Durante a impregnação em parafina, temperaturas muito elevadas devem ser
evitadas, assim como a permanência do material por um período muito prolon-
gado em estufa aquecida. O calor excessivo pode alterar a estrutura tecidual,
causando artefato e impedindo análise morfológica posterior.
Para a confecção de blocos, o espécime impregnado em parafina é colocado
em fôrmas próprias para, em seguida, se adicionar a parafina líquida. Com o
resfriamento, a parafina se solidifica e formam-se os blocos com a dureza neces-
sária, os quais são levados a um micrótomo para que, então, cortes delgados com
espessura de 5 a 6 µm possam ser confeccionados.

Microtomia

A microtomia visa reduzir os fragmentos à cortes finíssimos (de 5 a 6


µm) de modo que, após sua coloração, os tecidos possam ser observados ao
microscópio, sendo os micrótomos os equipamentos voltados à confecção
desses cortes.

Tipos básicos de micrótomo


Micrótomo rotatório: propicia a confecção de cortes de material que foi incluído
em parafina.

27
Micrótomo frio (criostato): utilizado em material que não foi emblocado em pa-
rafina. Após fixação, o material é levado ao micrótomo para ser seccionado sem
necessidade de se utilizar agentes desidratantes ou solventes orgânicos, como o
xilol. No criostato, devido à baixa temperatura, o material, ao se congelar, enrijece,
permitindo a confecção de fragmentos delgados. Esse procedimento é utilizado
em técnicas especiais, as quais visam demonstrar componentes teciduais, como
as gorduras, ou um produto temporário de reação com um corante, que podem
ser removidos do tecido durante a técnica histológica de rotina, devido aos
solventes orgânicos.

Acessórios para realização de corte


Para a realização da microtomia se utilizam navalhas metálicas que podem
ser descartadas após o seu uso (navalhas descartáveis) ou reutilizáveis (navalhas
convencionais).
O uso de navalhas convencionais requer que elas sejam frequentemente
afiadas, sendo necessária a utilização de um equipamento, denominado afiador
de navalhas.
Após a confecção dos cortes, esses são coletados em lâminas de vidro (lâ-
minas histológicas), que podem receber um tratamento prévio com substâncias
adesivas, as quais visam previr o descolamento do corte da lâmina durante o
tratamento subsequente do material.

Coloração

Essa etapa se faz necessária para promover contraste dos componentes teci-
duais específicos para posterior visualização ao microscópio.
Os corantes são substâncias que imprimem cor aos tecidos. O modo como
um corante atua em um tecido é variado, podendo ser resultado de um fenômeno
físico ou de uma reação química.

Estrutura geral de um corante


A molécula de um corante apresenta duas partes: o cromógeno – parte da
molécula do corante responsável pela cor do corante, e o auxocromo – parte da
molécula que se liga ao substrato (Fig. 1.17).
Alguns corantes, como a hematoxilina, necessitam de uma substância que
propicie sua ligação com os elementos teciduais. Essa substância intermediária
entre o corante e o tecido é denominada mordente, sendo o conjunto de corante
e mordente é conhecido como laca.

28
Fig. 1.17: Representação esquemática da molécula de um corante que necessita de
um mordente para que haja a sua interação com elementos teciduais

Classificação dos corantes


Segundo a sua carga elétrica, o corante poderá ter afinidade por diferentes
estruturas teciduais, podendo ter designação distinta. Assim, tem-se:
Corante catiônico ou básico → possui carga elétrica positiva. Ex: hematoxilina,
azul de metileno.

Corante aniônico ou ácido → possui carga elétrica negativa. Ex: eosina, fast green.

Corantes básicos se ligam e coram componentes teciduais com caráter ácido.


Assim, as estruturas teciduais que são identificadas pelo corante básico são indi-
cadas como estruturas basófilas.
Corantes ácidos se ligam e coram os componentes teciduais básicos. Dessa
forma, as estruturas teciduais que se unem ao corante ácido são denominadas
estruturas acidófilas.
Para a visualização das características gerais de um tecido/órgão, a coloração
histológica mais usual utiliza dois corantes: um corante básico (hematoxilina) e
um corante ácido (eosina).
A ligação do corante com o substrato pode ocorrer em diversos tempos, de-
pendendo do tipo do corante. Assim, a coloração poderá ser classificada como:
Progressiva: na coloração progressiva, o corante age lentamente até se obter o
efeito desejado.

Regressiva ou com diferenciação: na coloração regressiva, o tecido é supercorado


e o excesso do corante é removido do tecido, emergindo-se o corte em água ou
outras substâncias como o álcool, o álcool acetificado ou mesmo outro reagente.

29
Etapas Gerais da Técnica de Rotina de Material Submetido à
Dupla Coloração

A coloração pela Hematoxilina e pela Eosina (HE) é usualmente utilizada


para se obter a imagem morfológica do tecido ou órgão, de modo a facilitar o
seu diagnóstico.
As etapas dessa técnica incluem sequências importantes referidas a seguir.

1. desparafinização, utilizando xilol;


2. hidratação, em concentrações decrescentes de álcool etílico (100%, 90%,
80% e 70%);
3. lavagem em água destilada;
4. coloração pela hematoxilina (o tempo de coloração varia conforme o tipo
do corante);
5. lavagem em água corrente (diferenciação);
6. lavagem em água destilada;
7. coloração pela eosina (o tempo varia conforme o tipo do corante);
8. lavagem em água destilada;
9. desidratação, utilizando concentrações decrescentes de álcool etílico (70%,
80%, 90% e 100%);
10. diafanização, usando xilol;
11. montagem em resina sintética: o corte histológico corado é coberto com
um lamínula, utilizando uma resina, que pode ser o bálsamo do Canadá ou
Enthelan®).

Como resultado da aplicação dessa técnica, temos:

ü Corados em roxo (pela hematoxilina): núcleos das células.


O núcleo das células é corado pela hematoxilina por conter elementos preferen-
cialmente ácidos (ácidos nucleicos), sendo uma estrutura basófila.

ü Corados em róseo (pela eosina): citoplasma, queratina e substância intercelular.


Esses elementos, preferencialmente básicos, são corados pela eosina e são desig-
nados como estruturas acidófilas.

Após a coloração, o preparado histológico poderá ser acondicionado em re-


cipientes próprios, como caixas para acondicionamento de lâminas histológicas,
arquivos para lâminas, etc.
Além dos corantes usuais têm-se os corantes especiais, que revelam
elementos teciduais específicos. Por exemplo: o mucicarmim cora mucina
(glicoconjugados) em vermelho; o ácido ósmico evidencia os lipídeos em preto;

30
as impregnações a base de prata revelam elementos do citoesqueleto e as fibras
reticulares do tecido conjuntivo (essas colorações serão abordadas nos capítulos
subsequentes).

MICROSCOPIA DE MATERIAL BIOLÓGICO

Para o manuseio correto do microscópio de luz para análise dos preparados


histológicos devemos seguir corretamente um protocolo de microscopia, pois o
manuseio correto é importante para a interpretação das imagens histológicas.

Procedimento para estudo pela microscopia de campo claro

Início da microscopia
1. Antes do início da microscopia deve-se consultar o manual do microscópio.
2. O microscópio deve estar na posição de repouso, isto é:
a) A ocular e a objetiva de menor aumento devem estar alinhadas seguindo
o eixo óptico do microscópio;
b) A platina deve estar totalmente afastada do revólver (elemento que con-
tém as objetivas);
c) O diafragma deve estar fechado.
3. Observar em que lado da lâmina em que a lamínula que recobre o material.
4. Colocar a lâmina, com a lamínula voltado para cima, sobre a platina do
microscópio; o material deve ser colocado no caminho do feixe de luz.
5. Movimentando o parafuso macrométrico do microscópio, aproximar a mesa
do microscópio da objetiva de menor aumento.
6. Ligar a lâmpada o microscópio.
7. Abrir o diafragma.
8. Olhando, agora, pela ocular, afastar a mesa do microscópio da objetiva até
obter uma imagem nítida do material.
9. Para movimentar lâmina histológica contendo o material, utilize o charriot;
coloque o material a ser analisado fique sobre o local da passagem do feixe
de luz.
10. Desejando aumentar a imagem para visualizar os detalhes do material, rodar
o revólver na sequencia dos aumentos das objetivas.

ATENÇÃO: Para focar a imagem analisadas com as objetivas de maior aumento,


deve utilizar apenas com o parafuso micrométrico.

Muitas das vezes, mesmo observado esses passos, a imagem obtida não se
apresenta em condições ótimas de visualização. Assim, deve-se proceder a regu-
lagem do microscópio, ajustando a iluminação como recomendado por Köhler.

31
A iluminação de Köhler é o ajuste dos elementos ópticos do microscópio
de modo a fazer com que a luz ilumine o material a ser analisado, permitindo o
seu melhor contraste. Essa etapa deve ser posterior ao item 9, utilizando ainda a
objetiva de menor aumento.

Procedimentos para realização da iluminação segundo Köhler

9.1 A lâmina deve esta sobre a mesa do microscópio, com a objetiva de menor
aumento.
9.2 Focar, com o auxílio do macrométrico, o corte histológico com material a ser
analisado.
9.3 Fechar totalmente o diafragma de modo a se formar um círculo ou se obtenha
uma figura geométrica, que dependendo do microscópio, pode ser um hexágono
ou um dodecaedro. Estando o diafragma fechado, com o parafuso de ajuste do
condensador, manuseia-se o condensador até que as bordas dessa figura geomé-
trica fiquem nítidas. Essa figura geométrica também deve estar centralizada no
campo de observação. Caso o orifício do diafragma não esteja centralizado utili-
ze os parafusos do condensador para centralizar essa figura geométrica no centro
do campo visual. Feito esses procedimentos, abre-se o diafragma de campo até
que todo campo de observação seja iluminado.
9.4 Prosseguir com as demais etapas da microscopia (item 10).

Término da microscopia
1. Desligar a luz do microscópio;
2. Colocar a objetiva de menor aumento no eixo óptico do microscópio;
3. Afastar a platina do revólver do microscópio;
4. Retirar a lâmina do microscópio, deslizando-a sobre a mesa;
5. Deixar o microscópio na posição de repouso;
6. Colocar uma capa protetora no microscópio, evitando que partículas de
poeira possam danificar o equipamento.

Procedimento para microscopia de distensão sanguínea

Início da microscopia
1. Observar se o microscópio possui uma lente objetiva de imersão (100x);
2. Colocar a objetiva de imersão no eixo óptico do microscópio;
3. Colocar a distensão sanguínea sobre a platina;
4. Colocar uma gota de óleo de imersão sobre a lâmina (na direção da objetiva);
5. Olhando, por fora do microscópio, aproximar a objetiva até que ela toque a
gota de óleo;

32
6. Ligar a luz do microscópio;
7. Olhando pela ocular, afastar (com o auxílio do parafuso do macrométrico) a
objetiva até conseguir uma imagem nítida;
8. Ajustar o foco com o parafuso do micrométrico e observar o material.

Término da microscopia
1. Desligar a luz do microscópio;
2. Afastar totalmente (com o auxílio do parafuso macrométrico) a objetiva da
distensão sanguínea;
3. Retirar a lâmina da mesa do microscópio;
4. Limpar a objetiva utilizando uma mistura de álcool-éter (utilizar algodão ou
papel especial indicado pelo fabricante do microscópio). NUNCA usar xilol !
5. Colocar o microscópio na posição de repouso.
6. Colocar uma capa protetora no microscópio para evitar partículas de poeira
que possam danificar o equipamento.

33
2
Tecidos

Nos organismos multicelulares complexos, grupos específicos de células


se inter-relacionam com a substância extracelular para constituir os tecidos, os
quais se associam, formando os órgãos com funções definidas e integradas às
necessidades do organismo.
A separação dos tecidos em estruturas distintas é realizada com fins mera-
mente didático.
Nos vertebrados, é possível distinguir quatro tipos básicos de tecidos:

1. Tecido epitelial: é o tecido que reveste as superfícies e as cavidades corpo-


rais, além de constituir as unidades funcionais das glândulas. Esse tecido é
constituído por células em íntima associação com muito pouca substância
intercelular.
2. Tecido conjuntivo: o tecido conjuntivo protege e sustenta o corpo, preen-
chendo espaços, mantém os órgãos unidos, além de participar na nutrição
dos outros tecidos e no processo imunológico. A designação "tecido conjun-
tivo" é geral e se refere a um grupo de tecidos diversos, caracterizados por
possuir uma matriz extracelular abundante.
3. Tecido nervoso: esse tecido apresenta células especializadas na geração e
propagação dos impulsos nervosos, coordenando as atividades corporais,
além de receber informações do meio interno e externo e convertê-las em
impulsos elétricos. O tecido nervoso é constituído pelos neurônios e pelas
células da glia (ou neuroglia).

35
4. Tecido muscular: é formado por células altamente especializadas, capazes
de converter energia química em energia mecânica. Como resultado dessa
conversão tem-se a contração muscular, que se relaciona com a capacidade
de movimentação do corpo e contração de diversos órgãos, como o coração
e estruturas da via digestória.

Os diversos tecidos são formados a partir da progressiva multiplicação e di-


ferenciação das células embrionárias que, nos estádios iniciais do embrião, são
indiferenciadas e pluripotentes. Essas células são autorrenováveis e podem se
diferenciar em vários tipos celulares (Fig. 2.1).
Após a fecundação (ou fertilização), processo pelo qual os gametas mascu-
lino e feminino se fundem, o zigoto passa por uma série de divisões mitóticas,
levando a um aumento do número de células, mas de dimensões menores. Esse
grupamento de células constitui a mórula, que prossegue no desenvolvimento até
formar o blastocisto. O blastocisto é formado por uma massa celular interna, que
dá origem aos tecidos do embrião propriamente dito, e a camada celular externa,
que forma o trofoblasto e contribuirá na formação dos anexos embrionários.

Fig. 2.1: Esquema ilustrando a origem e os derivados dos três folhetos embrionários:
endoderma, mesoderma, ectoderma.

36
As células da massa celular interna, o embrioblasto ou nó embrionário,
passam por uma série de modificações até se constituir uma estrutura típi-
ca, que caracteriza o embrião no estádio de disco didérmico ou bilaminar,
formado pelo hipoblasto e o epiblasto. Ao final da 3ª semana, começam
modificações na região cefálica que progridem em direção caudal e ao final
da 4ª semana estão estabelecidos três folhetos embrionários, constituídos
pelo endoderma, mesoderma e endoderma. Assim, no embrião, os três fo-
lhetos germinativos dão origem a todos os tecidos e órgãos do embrião. As
células de cada folheto germinativo se dividem, migram, se agregam e se
diferenciam em padrões precisos à medida que as células constituem os
vários sistemas orgânicos.
A partir do ectoderma se originam os epitélios de revestimento da superfície
externa do corpo, da cavidade oral, da ampola retal e as glândulas associadas,
bem como o tecido nervoso. Do mesoderma originam-se tecidos epiteliais (en-
dotélio, rins e vias urinárias, gônadas), tecidos conjuntivos comuns e especiali-
zados, tecidos musculares. O endoderma origina os epitélios de revestimento de
órgãos cavitários (vísceras ocas) e suas glândulas.

CÉLULAS-TRONCO

No início da vida embrionária, algumas células podem permanecer nos teci-


dos, guardando características de células indiferenciadas. Essas células, com grande
capacidade de se dividir, formam cópias idênticas de si mesmas, regenerando e/ou
substituindo todos os tipos celulares que compõem determinado tecido, sendo
denominadas células-tronco e podem apresentam diferentes designações em
função de sua potencialidade de gerar novas células ou o seu surgimento durante
o desenvolvimento embrionário.
Segundo a potencialidade das células-tronco, elas podem ser classificadas
em totipotentes, pluripotentes ou multipotentes.
As células-tronco totipotentes ou embrionárias são capazes de gerar todos
os tipos celulares embrionários e extraembrionários. Assim como o zigoto, a pri-
meira célula-tronco totipotente, os blastômeros presentes nos embriões de 16 a
32 células são células-tronco totipotentes (Fig. 2.2).

37
Fig. 2.2: Esquema ilustrando a sequência de eventos do desenvolvimento que se ini-
cia com a penetração do espermatozoide no ovócito secundário. A partir da formação
do zigoto, inicia-se uma série de clivagens, dando origem aos blastômeros. A cliva-
gem do zigoto e a formação da mórula ocorre ao longo da tuba uterínica. A mórula
começa no estádio de 12 a 16 blastômeros.
Ao se formar uma cavidade na mórula, essa se converte em blastocisto, que consiste
de: uma massa celular interna - o nó embrionário ou embrioblasto, que dá origem ao
embrião; uma cavidade - a blastocele; o trofoblasto, que ao entrar em contato com
a mucosa uterínica na nidação, se diferencia em citotrofoblasto e sinciciotrofoblasto.

Em humanos, a célula-tronco embrionária é definida pela expressão de fato-


res de transcrição e proteínas na superfície celular, como os fatores de transcrição
Oct-41, Nanog2 e Sox23, que atuam na supressão de genes relacionados com a
diferenciação e manutenção da pluripotencialidade. Há ainda os glicolipídeos
SSEA-34 e SSEA4 e os queratansulfatos (Tra 1-60 e Tra-1-81) presentes nas

1 OCt-4 é fator de transcrição de ligação ao octâmero 4


2 NANOG é um fator de transcrição envolvido com a autorrenovação de células tronco
embrionárias que, em humanos, é codificado pelo gene NANOG.
3 SOX2, também conhecido como SRY (uma região do cromossoma Y determinante do
sexo)
4 O SSEA-3 e SSEA-4 são sintetizados durante a oogenese e estão presentes nos oócitos,
no zigoto e na membrana dos blastômeros.

38
membranas das células-tronco embrionárias, os quais são utilizados na identifi-
cação dessas células.
As células-tronco pluripotentes são provenientes do embrioblasto (ou nó em-
brionário) e tem potencialidade para se diferenciar em quase todos os tecidos,
exceto a placenta e os anexos embrionários.
As células-tronco multipotentes são aquelas com capacidade de formar um
número menor de tecidos do que as células-tronco pluripotentes, como as
células-tronco mesenquimais e as células-tronco neurais. Para alguns autores
células-tronco pluripotentes e multipotentes são sinonímias.
Há ainda autores que, em função do surgimento das células-tronco no de-
senvolvimento embrionário, dividem essas células em três classes: embrionária,
fetal e adulta. Para esses autores, as células-tronco embrionárias são as células
provenientes do embrião (embrioblasto), enquanto que as células-tronco adultas
são obtidas do tecido já diferenciado e podem ser induzidas à diferenciação
de outros tipos celulares através da administração de fatores de crescimento
apropriados ou outras moléculas sinalizadoras.
Uma das fontes de célula-tronco adulta é o tecido hematopoiético da medula
óssea. Esse tecido é fonte de célula-tronco hematopoiética e mesenquimal. Ou-
tros tecidos possuem células-tronco mesenquimais, como o sangue periférico, o
tecido adiposo e o sangue de cordão umbilical, dentre outros.
As células-tronco fetais são células encontradas em diversos órgãos de fetos
após a 8ª semana do desenvolvimento e estão comprometidas com determinadas
linhagens, sendo consideradas multipotentes. Há ainda as células-tronco umbili-
cais, aquelas obtidas do sangue contido em vasos do cordão umbilical.

39
3
Tecido Epitelial

O tecido epitelial, ou simplesmente designado epitélio, apresenta características


que permite sua diferenciação dos outros tipos tecidos. As células epiteliais guardam se-
melhança entre si, estando intimamente unidas com pouquíssimo material extracelular.
A união das células epiteliais é feita por especializações de união celular e
por moléculas de adesão celular (CAM, cellular adhesion molecules), como as
caderinas, as selectinas, as integrinas, que dependem de cálcio extracelular para
consolidarem a ligação intercelular, e as moléculas pertencentes à família das
imunoglobulinas (Ig), que não dependem de cálcio (Fig. 3.1).
As caderinas são glicoproteínas transmembranares de passo simples de 720
a 750 aminoácidos que se apresenta na forma de um dímero, sendo responsáveis
pela adesão célula-célula. Com mais de 40 tipos, a caderina E é abundante nos
epitélios, a caderina P na placenta, caderina N no sistema nervoso; outros tipos
podem ocorrer em invertebrados e vertebrados.
As selectinas atuam conjuntamente com as integrinas, tendo um papel im-
portante na migração dos leucócitos através dos capilares sanguíneos, enquanto
que as integrinas, além de atuarem na adesão entre as células endoteliais (células
epiteliais de revestimento dos vasos sanguíneos) e os leucócitos, também participam
das interações célula-matriz extracelular.
As proteínas de adesão pertencentes à superfamília das Ig são proteínas da
superfície celular que contem um ou mais domínios semelhantes à imunoglobulina
e atuam no processo de reconhecimento celular, na diferenciação das células
musculares e das células nervosas, mediando preferencialmente as interações
homofílicas, mas também estão envolvidas com as interações heterofílicas.

41
Fig. 3.1: Esquema ilustrando algumas moléculas de adesão celular

A membrana das células epiteliais possui a estrutura básica, isto é, é forma-


da por uma bicamada lipídica contendo proteínas especializadas, que podem
estar parcialmente ou integralmente inseridas na bicamada lipídica (Fig. 3.2). Os
elementos estruturais (proteínas e lipídeos) podem se associar aos carboidratos;
quando os carboidratos se unem às proteínas, formam-se glicoproteínas; e ao se
unirem aos lipídeos, formam-se glicolipídeos.
A cobertura glicídica externa à membrana plasmática da célula epitelial forma
uma estrutura denominada glicocálice, que está intimamente associado à proteção
e ao reconhecimento de substâncias próximas às células. O reconhecimento celular
adequado é importante para realização de diversos processos biológicos, como
os processos envolvidos com a defesa do corpo, a organização das células na
formação dos tecidos e órgãos durante a embriogênese e a inibição por contato
percebido durante o processo de cicatrização dos tecidos lesionados.

Fig. 3.2: Modelo da membrana plasmática

42
As células epiteliais, ao se organizarem, formam um tecido coeso que reveste
a superfície do corpo ou o lúmen de órgãos cavitários, além de limitar as cavida-
des corporais ou mesmo se especializar formando estruturas glandulares. Quase
todas as células epiteliais estão associadas à membrana basal, uma estrutura rica
em glicoproteínas e serve para aderir as células epiteliais ao tecido conjuntivo
subjacente (ver capítulo sobre tecido conjuntivo).

FUNÇÕES GERAIS

Como cada região da célula epitelial apresenta propriedades distintas, a sua


organização é fundamental para a compreensão da fisiologia do epitélio.
Considerando que, em regra, o tecido epitelial é avascular, isto é, não pos-
sui vascularização própria, os vasos sanguíneos que fornecem os nutrientes e
removem os resíduos do epitélio, se encontram localizados no tecido conjuntivo
subjacente. Assim, a troca de substâncias se realiza por difusão a partir de vasos
sanguíneos presentes no tecido conjuntivo subjacente.
Raros são os epitélios que possuem vasos sanguíneos intraepiteliais como, por
exemplo, a cóclea (orelha interna) e a epiderme de vertebrados não mamíferos,
como dos anfíbios anuros.
Como o tecido epitelial frequentemente está sujeito ao atrito, as células apresen-
tam alta capacidade de renovação, que se reflete na alta taxa mitótica de suas células.
Apesar da função básica do tecido epitelial ser o revestimento de superfícies e de
cavidades, o epitélio também desempenha outras funções como proteção, secreção,
absorção, excreção e recepção sensorial. Em alguns locais do organismo, o epitélio
também pode desempenhar outras funções, como a função sensitiva devido a presença
de determinadas células associadas à estruturas nervosas especializadas. Por exemplo,
os corpúsculos gustativos presentes no epitélio de revestimento das papilas fungifor-
mes e valadas da língua, que participam na percepção do gosto (gustação). O epitélio
olfativo das fossas nasais também apresenta células olfativas (células neuronais espe-
cializadas), capazes de captar o odor proveniente do ambiente pelo reconhecimento
de substâncias específicas - odorantes. Outro exemplo de epitélio sensitivo é o órgão
de Corti, uma estrutura importante na audição e que possui células especializadas por
entre as células epiteliais de revestimento. Esses epitélios com funções sensitivas têm
sido designados como neuroepitélios.

POLARIDADE DAS CÉLULAS EPITELIAIS

A maioria das células epiteliais é morfologicamente e fisiologicamente po-


larizada, isto é, apresenta sua membrana plasmática e citoplasma subadjacente
quimicamente especializado. Essa diferença química se reflete na organização

43
estrutural polarizada de cada célula epitelial. Por essa razão, as superfícies das
células epiteliais também são denominadas domínios.
Na célula epitelial se reconhecem várias superfícies: a superfície ou domínio
apical, a superfície ou domínio lateral e a superfície ou domínio basal (Fig. 3.3).
A superfície apical ou livre da célula epitelial é a superfície voltada para o
meio externo. A superfície lateral é a região de contato entre células contíguas,
onde se observa a presença de complexos juncionais. A superfície basal está
voltada para o tecido conjuntivo subjacente, ou mesmo, em contato direto com
a membrana basal.
Frequentemente, a superfície basal exibe profundas invaginações de mem-
brana, as quais aumentam a superfície de intercâmbio da célula com o meio
extracelular e facilitam a troca de elementos do meio externo com o meio interno
e vice-versa. As invaginações da membrana da superfície basal também ajudam
na manutenção do contato da célula com a membrana basal.
Um aspecto importante para o diagnóstico histológico é a posição do núcleo
da célula epitelial, pois auxilia no reconhecimento da organização estrutural da
célula. Dessa forma, a região do citoplasma compreendido entre o núcleo e a
superfície apical pode ser denominado polo apical, enquanto que a região do
citoplasma localizado entre o núcleo e a superfície basal da célula é o polo basal.

Fig. 3.3: Esquema ilustrando as diversas superfícies da célula epitelial

Especializações de superfície apical (domínio apical)

As células epiteliais podem apresentar especializações na sua superfície


em contato com o meio externo. Tais especializações podem ser de vários
tipos, como a planura estriada, a borda em escova, os estereocílios e os cílios
(Fig. 3.4).

44
Fig. 3.4: Tipos de especialização da membrana plasmática da superfície livre

A planura estriada é a designação conferida, ao microscópio de luz, às micro-


vilosidades das células epiteliais de origem endodérmica. Ao microscópio eletrônico
de transmissão, as microvilosidades representam projeções regulares, digitiformes da
membrana plasmática, com 1 a 2µm de comprimento e com 80 a 90nm de diâmetro,
estando normalmente associadas à glicoproteínas específicas na face extracelular da
membrana plasmática. Essas projeções regulares da membrana das células epiteliais
voltadas para a superfície livre encontram-se sustentadas por um eixo central de fi-
lamentos de actina dispostos paralelamente e de forma ordenada. Tais filamentos de
actina estão interligados entre si pela fascina e fibrilina e associados à membrana plas-
mática através de pequenas moléculas de miosina. Na extremidade distal da microvi-
losidade, os filamentos de actina se ancoram à membrana através da vilina (Fig. 3.5).

Fig. 3.5: Tipos de especialização da membrana plasmática da superfície livre

45
A planura estriada está associada aos processos de absorção, como realizado
pelas células intestinais. Contudo, outras células, que não formam o epitélio de re-
vestimento da via digestória, também podem apresentam microvilosidades; porém,
tais projeções não são tão regulares como das células epiteliais da via digestória.
Nesse caso, para diferenciá-las das microvilosidades recomenda-se designar essas
estruturas como micropregas, ou simplesmente microprojeções. Como exemplo de
células com micropregas podemos citar as células hepáticas, cuja membrana forma
microprojeções voltadas para o canalículo biliar e para o espaço perivascular.
A borda em escova é a designação conferida as microvilosidades das células
epiteliais de origem mesodérmica, como nas células epiteliais que revestem o
túbulo contorcido proximal do rim. A borda em escova exibe dimensões maiores
quando comparada à planura estrada; porém, são menos regulares.
Os estereocílios correspondem às microprojeções longas, ramificadas ou não,
que diferem dos cílios por não apresentarem um arranjo de microtúbulos em seu
interior. Os estereocílios tem a função de absorção e estão presentes nas células
de revestimento do epidídimo e do ducto deferente do sistema genital masculino.
Os cílios são projeções com diâmetro de 0,2µm e comprimento de 7 a 10µm,
que se projetam da superfície apical de determinadas células epiteliais, como
as células cilíndricas que revestem a traqueia e os brônquios, mas também são
observados nas células de revestimento da tuba uterínica. A movimentação dos
cílios é possível graças a uma organização especial dos elementos do citoesque-
leto. Em corte transversal, o cílio revela uma estruturação própria, sendo formado
por nove pares de microtúbulos unidos a um par central de proteínas especiais
(9x2 + 2). Os cílios facilitam o transporte de muco e outras substâncias sobre a
superfície do epitélio das vias respiratórias, atuando também no deslocamento de
certas células, como do ovócito ou do próprio zigoto ao longo da tuba uterínica.

Fig. 3.6: Esquema da estrutura ciliar

46
Os flagelos possuem a mesma estrutura básica dos cílios, embora sejam mais
longos e pouco numerosos. A presença de flagelos é observada em protozoários
flagelados (Giardia lamblia) e nos espermatozoides, isto é, células que realizam
movimentos. Nos cnidários, certas células epiteliais (coanócitos) apresentam fla-
gelos, que auxiliam na captura de alimento.

Especializações da superfície lateral (domínio lateral)

Na superfície ou domínio lateral, as células epiteliais entram em contato


umas com as outras e, nessa região, as células se unem através de complexos
juncionais que podem ser de diversos tipos (Fig. 3.7).
As junções oclusivas (zonula ocludens) unem as células epiteliais en-
tre si e formam uma barreira relativamente impermeável devido a fusão
dos folhetos externos das membranas plasmáticas de células contíguas e,
consequentemente, obliteração do espaço intercelular. Através da junção
oclusiva, o trânsito de material pelo espaço intercelular através do epitélio
é impedido.
As junções de ancoragem ou de aderência participam na manutenção da
adesão célula-célula ou na adesão célula-lâmina basal. Há dois tipos de junção
de aderência. O primeiro tipo de junção forma um cinturão ao redor das células
epiteliais na região subapical (zonula adherens); o outro tipo de junção de ade-
rência ocorre como contatos focais e é representado pelos desmossomos, que
une a membrana de células contíguas. Nesses dois tipos de especializações, a
participação de elementos do citoesqueleto é fundamental para a manutenção
da aderência celular.
As junções comunicantes (nexus ou gap junction) permitem o trânsito de
íons ou de moléculas sinalizadoras entre as células, devido à formação de canais
intercelulares também denominados conexônios.
Reforçando a coesão celular, as células epiteliais também formam interdi-
gitações laterais, que correspondem a projeções citoplasmáticas entre células
vizinhas e se encaixam umas às outras.

Especializações de superfície basal (domínio basal)

Na superfície ou domínio basal, onde a célula epitelial se associa à


membrana basal, os hemidesmossomos auxiliam na fixação da membrana
plasmática à lâmina basal (um dos componentes da membrana basal) (Fig.
3.7).

47
Fig. 3.7: Especializações da superfície lateral e basal das células epiteliais:
(1) junções oclusivas; (2) desmossomos; (3) conexônios ou junções do tipo "gap" (do
inglês); (4) hemidesmossomos

Nas células envolvidas com o transporte ativo de íons há aumento da su-


perfície de troca da célula com o meio extracelular e, nesse caso, a membrana
plasmática forma várias invaginações; no citoplasma dessa região, ocorre um
grande número de mitocôndrias, as quais fornecem a energia necessária à
realização do transporte iônico.

Membrana basal

A membrana basal se localiza na interface entre o epitélio e o tecido con-


juntivo subjacente, logo abaixo da região basal de todos os epitélios. Tanto
o epitélio quanto o tecido conjuntivo subjacente participam na formação da
membrana basal, que é uma especialização de elementos da matriz extracelular
e apresenta na sua constituição glicoproteínas, glicosaminoglicanos e proteínas.
Além disso, a membrana basal atua como elemento de interface entre as células
parenquimatosas (elementos que correspondem ao componente funcional de
um determinado tecido/órgão) e o estroma (elementos de sustentação de um
tecido e/ou órgão).

48
Fig. 3.8: Especializações da superfície lateral e basal das células epiteliais.

Com o auxílio da microscopia eletrônica é possível verificar que a membra-


na basal é constituída por uma lâmina basal, de origem epitelial, e uma lâmina
reticular, de origem conjuntiva (Fig. 3.8).
A lâmina basal apresenta cinco componentes principais: colágeno tipo IV,
laminina, heparansulfato, entactina e fibronectina.
Nas micrografias eletrônicas, a lâmina basal exibe duas regiões distintas: a
lâmina lúcida, localizada logo abaixo do epitélio, e a lâmina densa, ambas com
50nm de espessura. A lâmina lúcida consiste principalmente de glicoproteínas
extracelulares (a laminina e a entactina), além das integrinas e das desmogleínas,
que fixam a membrana plasmática da célula epitelial à lâmina densa. A lâmina
densa compreende a uma rede formada pelo colágeno tipo IV associado ao pro-
teoglicano perlecano, o qual possui em suas cadeias laterais de heparansulfato o
sítio de ligação para a fibronectina. A laminina também está presente na lâmina
basal e possui sítios de ligação para o colágeno tipo IV, para o heparansulfato e
para integrinas (proteínas da membrana da célula epitelial). Dessa forma, é atra-
vés desses elementos que a célula epitelial permanece aderida à lâmina basal
(ver capítulo sobre Tecido Conjuntivo).
A lâmina reticular é formada por feixes de fibrilas colagenosas, predominante-
mente de colágeno tipo III (classicamente diagnosticadas como fibras reticulares), e
fibrilas colagenosas de colágeno tipo VII (fibrilas de ancoragem). Tais fibras reticulares
interagem com as fibrilas de ancoragem, que se encontram interligadas através do co-
lágeno tipo IV. A lâmina reticular representa a interface entre a lâmina basal e o tecido
conjuntivo subjacente, sendo produzida pelos fibroblastos do tecido conjuntivo e sua
espessura varia de acordo com a quantidade de forças de atrito impressa ao epitélio.

49
Ao microscópio de luz, a membrana basal pode ser visualizada após em-
prego de técnicas histoquímicas especiais, tais como: a impregnação pela
prata (impregnação argêntica) e o método do ácido periódico e reativo de
Schiff, (PAS, Periodic acid Schiff, do inglês). De fato, essas duas técnicas
evidenciam as glicoproteínas associadas às fibras reticulares que formam a
lâmina reticular da membrana basal. Atualmente, outras técnicas especiais
também podem ser empregadas, como as técnicas de imuno-histoquímica
que utilizam anticorpos específicos para detectar os elementos constituintes
da lâmina basal.

DIVISÃO DIDÁTICA

Para fins didáticos, o tecido epitelial pode ser dividido em dois tipos básicos:

(1) o tecido epitelial de revestimento e


(2) o tecido epitelial glandular.

Tecido epitelial de revestimento

Como o próprio nome indica, esse epitélio está relacionado basicamente


com o revestimento de superfícies e de cavidades do corpo.

CLASSIFICAÇÃO

Para se classificar o tecido epitelial de revestimento, a utilização de alguns


parâmetros se faz necessário. O formato celular e a organização de suas células
em camadas, assim como a presença ou não de especializações de superfície
livre são parâmetros que devem ser considerados ao se classificar o tecido epite-
lial, sendo importantes no diagnóstico histológico.

Formato celular
As células epiteliais se apresentam de diversas formas. Como o formato da
célula é acompanhado pelo formato do núcleo, a identificação da morfologia
nuclear é importante para caracterizar o tipo de célula, tendo em vista que ao
microscópio de luz não é possível observar o limite celular.
A classificação das células epiteliais está fundamentada em quatro formas
básicas: células pavimentosas, células cúbicas, células cilíndricas e células tran-
sicionais (Fig. 3.9).

50
Fig. 3.9: Formas das células epiteliais. As setas indicam a região da membrana basal.

Células pavimentosas
As células pavimentosas são células achatadas ou planas, que se unem entre
si lateralmente por complexos juncionais e se dispõem como as lajotas de reves-
timento de um piso. As células pavimentosas possuem núcleo achatado com o
seu maior eixo paralelo à região da membrana basal.

Células cúbicas
As células cúbicas são células mais volumosas, cuja forma lembra um cubo
ou um hexágono, sendo caracterizadas por apresentarem núcleo esférico.

Células cilíndricas
As células cilíndricas são células altas e/ou alongadas com núcleos ovais,
cujo maior eixo é perpendicular à região da membrana basal.

Células transicionais
As células transicionais variam de cuboide à cilíndrica, podendo ser mono
ou binucleadas. Sua morfologia depende do estado fisiológico do órgão, isto é,
se o órgão onde estão presentes encontra-se distendido ou relaxado. Assim, o
aspecto dessas células nos preparados histológicos depende do momento em que
o tecido foi fixado.

Organização celular em camadas


Dependendo do órgão, as células epiteliais podem se organizar em uma única
camada ou em várias camadas celulares que se superpõem e para se identificar
o número de camadas celulares é importante observar a posição dos núcleos em
relação à espessura total do epitélio, pois os núcleos podem estar posicionados
em um único nível ou em diferentes níveis. Assim, considerando o número de
camadas celulares, o epitélio pode ser classificado em simples, estratificado e
pseudoestratificado.

51
Epitélio simples
No epitélio simples, as células se encontram dispostas em uma única cama-
da, lado a lado. Ao se visualizar o núcleo das células em um epitélio simples
pode-se verificar que todos os núcleos estão localizados em uma mesma altura
em relação a espessura total do epitélio. Dessa forma, no epitélio simples todas
as células estão em contato com a membrana basal.
Oposta à superfície basal, a superfície apical da célula epitelial está em con-
tato com o meio externo. Considera-se meio externo tanto a superfície externa do
corpo quanto o interior (lúmen) de um órgão cavitário como, por exemplo, a luz
da via digestória, da via respiratória e da via urinária, ou as cavidades internas no
corpo, como a cavidade abdominal ou o lúmen dos vasos sanguíneos.

Epitélio estratificado
No epitélio estratificado, as células se organizam em duas ou mais camadas
que se superpõem; porém, somente as células da camada mais interna, isto é, as
células da camada voltada para o tecido conjuntivo subjacente, estão em contato
com a membrana basal.
Nesse tipo de epitélio, os núcleos das células epiteliais são visualizados em
vários níveis considerando-se a espessura do epitélio.

Epitélio pseudoestratificado
Apesar de formado por uma única camada de células, os núcleos das célu-
las do epitélio pseudoestratificado se organizam em vários níveis, mas ocupam
preferencialmente os dois terços basais da espessura total do epitélio. Ao micros-
cópio de luz, em função da posição dos núcleos que se apresentam em várias
alturas em relação à espessura do epitélio, atribuiu inicialmente ao epitélio um
aspecto de estratificação. Contudo, a análise ao microscópio eletrônico revelou
que todas as células epiteliais estabelecem contato com a membrana basal, mas
nem todas alcançam a superfície livre do epitélio. Assim, na realidade, o epitélio
pseudoestratificado não é estratificado como os autores acreditavam, passando,
assim, a ser designado pseudoestratificado.

Diagnóstico Histológico

Ao se classificar os epitélios, é importante reunir os diferentes parâmetros,


isto é, deve-se observar tanto o formato quanto a organização em camadas das
células epiteliais. Além disso, a denominação completa do tipo de epitélio
também se deve incluir na designação a presença e o tipo de especializações
na superfície livre, assim como os tipos celulares especializados que ocorrem
no epitélio.

52
Epitélios Simples (Fig. 3.10)
Epitélio pavimentoso simples
As células pavimentosas se organizam em uma única camada, estando todas
elas em contato com a membrana basal. Esse tipo de epitélio é encontrado nos
pulmões, constituindo o revestimento da parede de alvéolos pulmonares, onde,
além de revestir, as células epiteliais participam na difusão de gases respiratórios
(oxigênio e dióxido de carbono).
O revestimento dos vasos sanguíneos, que é constituído por um epitélio pa-
vimentoso simples, também é denominado endotélio. Já, revestindo a superfície
externa de determinados órgãos internos, como o fígado, o baço, o pulmão, den-
tre outros, também são revestidos por um epitélio do tipo pavimentoso simples,
sendo denominado mesotélio. Ao conjunto formado pelo mesotélio e o tecido
conjuntivo subjacente denomina-se serosa do órgão.

Epitélio cúbico simples


Nesse epitélio, as células epiteliais do tipo cúbico estão dispostas em uma
única camada. A identificação desse tipo de epitélio é obtida através da visualiza-
ção dos núcleos esféricos, que estão posicionados em um mesmo nível. Esse tipo
de epitélio é observado revestindo a porção inicial dos túbulos coletores no rim e
a superfície externa do ovário de mamíferos, inclusive no ser humano.

Epitélio cúbico simples com borda em escova


Esse epitélio reveste os túbulos contorcidos proximais do rim, onde as células
epiteliais de revestimento desses túbulos se dispõem em uma única camada e
apresentam borda em escova na sua superfície apical. A borda em escova cor-
responde às microvilosidades presentes nas células epiteliais originadas a partir
do mesoderma.
Devido à borda em escova, esse epitélio participa na absorção de nutrientes
e excreção de catabólitos.

Epitélio cilíndrico simples


No epitélio cilíndrico simples, as células cilíndricas estão organizadas em
uma única camada. Esse tipo de epitélio reveste a superfície interna do estômago
e do útero.
No caso específico do estômago, as células de revestimento também pro-
duzem muco (glicoconjugados), o qual protege as próprias células epiteliais da
acidez do suco gástrico. Assim, alguns autores se referem a esse epitélio como
epitélio cilíndrico simples mucossecretor para enfatizar que as células de revesti-
mento também são células produtoras de muco (células mucossecretoras).

53
Epitélio cilíndrico simples ciliado
Nesse epitélio, as células cilíndricas se organizam em uma única camada e
possuem cílios na sua superfície livre. Esse epitélio reveste a superfície interna das
tubas uterínicas, que é formado preferencialmente por células cilíndricas cilia-
das, mas também pode apresentar células cilíndricas aciliadas mucossecretoras.

Epitélio cilíndrico simples com planura estriada e células caliciformes


Esse epitélio é encontrado no intestino delgado, revestindo as vilosidades
intestinais. As células cilíndricas se dispõe em uma única camada, sendo provi-
das de microvilosidades na superfície livre que, no caso do intestino por ter sua
origem a partir do endoderma, ao microscópio de luz, são denominadas planu-
ra estriada. Por entre as células epiteliais cilíndricas pode-se observar ainda a
presença de células caliciformes (células envolvidas na produção de muco; ver
epitélio glandular).

Fig. 3.10: Tipos de epitélios simples (as setas indicam a região da membrana basal)

54
Epitélios Pseudoestratificados
Recorde-se que, nos epitélios pseudoestratificados, todas as células cilíndri-
cas estão em contato com a membrana basal, mas nem todas as células alcançam
a superfície livre (lúmen do órgão).

Epitélio pseudoestratificado cilíndrico ciliado com células caliciformes


Nesse tipo de epitélio, as células cilíndricas que alcançam a superfície livre
possuem cílios e, por entre elas também estão presentes células caliciformes pro-
dutoras de muco (ver adiante).
Esse tipo de epitélio revestimento é observado revestindo a maior porção da
árvore respiratória e, por essa razão, muitos autores se referem a esse epitélio
como epitélio respiratório.

Epitélio pseudoestratificado cilíndrico com estereocílios


Nesse epitélio, as células cilíndricas tem em sua superfície livre, em
contato com o meio externo, estereocílios. Esse tipo de epitélio reveste os
túbulos epididimários que formam o epidídimo, órgão pertencente ao siste-
ma genital masculino.

Epitélio de transição
No epitélio de transição, todas as células epiteliais se encontram em
contato com a membrana basal, mas nem todas alcançam a superfície
livre. Esse epitélio é, na realidade, um tipo de epitélio pseudoestratifica-
do; porém, em relação ao formato celular, se observa que a morfologia
das células do epitélio de transição varia conforme o estado funcional do
órgão, por ser formado por células transicionais. Apesar desse epitélio ser
comumente denominado epitélio de transição, deve-se ressaltar que esse
epitélio seria mais apropriadamente classificado como epitélio pseudoes-
tratificado transicional.
Esse tipo de epitélio reveste internamente a maior parte das vias urinárias (na
pelve renal, nos ureteres e na bexiga urinária). Na bexiga, as células podem se
tornar achatadas quando o órgão é submetido ao estiramento causado pela dila-
tação do órgão devido ao acúmulo de urina.

55
Fig. 3.11: Tipos de epitélios pseudoestratificados (as setas indicam a região da mem-
brana basal)

Epitélios estratificados (Fig. 3.12)


Ao contrário dos epitélios simples, nos epitélios estratificados as célu-
las se encontram organizadas em várias camadas superpostas, sendo que
somente as células da camada mais profunda estabelecem contato com a
membrana basal.
Como não é possível se observar a membrana das células epiteliais ao mi-
croscópio de luz, para a caracterização desse epitélio deve-se verificar a posição
dos núcleos, pois esses fornecem informações sobre a posição das células em
relação a espessura do epitélio. Assim, no epitélio estratificado, os núcleos são
observados em várias alturas quando se considera a espessura total do epitélio.
Por ser constituído por várias camadas de células, esse tipo de epitélio é encon-
trado em áreas sujeitas ao atrito.

56
Fig. 3.12: Tipos de epitélios estratificados

Como as células exibem morfologias variadas dependendo da camada que


localizam, para a classificação desse epitélio considera-se o formato das células
localizadas na camada mais externa.

Epitélio pavimentoso estratificado queratinizado


Nesse epitélio, as células epiteliais se organizam em várias camadas, sendo
que as células mais superficiais apresentam seu citoplasma preenchido por uma
escleroproteína1 – a queratina.
A produção de queratina se inicia nas células epiteliais da camada mais ba-
sal e progressivamente se acumula no citoplasma à medida que essas células
ganham as camadas mais superficiais, de modo que o acúmulo de queratina no
citoplasma limita a atividade da célula, podendo levar à morte a própria célula,
a qual será posteriormente descamada.
No epitélio pavimentoso estratificado, a queratina é mais um elemento que
corrobora para a função de proteção contra o atrito. Dessa forma, quanto mais
queratinizado, mais resistente ao atrito é o epitélio.
Esse tipo de epitélio é encontrado constituindo a camada mais externa da
pele de mamíferos (a epiderme), sendo que as células da camada mais profunda
(camada basal) são ricas em polirribossomos livres, organela responsável pela
produção da queratina. Como os polirribossomos são constituídos basicamente
1 Escleroproteína é uma proteína fibrosa, insolúvel em água.

57
por ácido ribonucleico ribossomal (RNAr), eles são responsáveis pela leve basofi-
lia citoplasmática das células da camada basal da epiderme. Como a maioria das
células da epiderme estão engajadas com a produção de queratina, comumente
essas células são denominadas queratinócitos. Outras células, como melanóci-
tos, células de Langerhans e células de Merkel também ocorrem na epiderme,
mas não serão tratadas nesse livro.
As células da camada basal são mitoticamente ativas, dando origem à novas
células basais e aquelas que originam as células mais superficiais à medida que
essas vão sendo descamadas.
Nos mamíferos, o epitélio pavimentoso estratificado é observado em órgãos
frequentemente submetidos ao atrito. Por exemplo, o epitélio do esôfago dos ro-
edores ou os animais que ingerem alimentos com materiais duros ou resistentes,
que podem agredir o epitélio, possuem um epitélio pavimentoso estratificado
queratinizado. Assim, o grau de queratinização desse epitélio pode ser relaciona-
do com o hábito alimentar do animal.
Alguns vertebrados não mamíferos também apresentam esse tipo de epitélio
constituindo a sua epiderme e é possível relacionar a espessura da camada de
queratina com o modo de vida anima, isto é, quando mais queratinizado for o
epitélio, mais resistente ao atrito é a epiderme. Assim, animais com a epiderme
bastante queratinizada são mais adaptados a ambientes terrestres e áridos em
comparação com animais cuja epiderme é fracamente queratinizada.

Epitélio pavimentoso estratificado não queratinizado


Nesse epitélio, as células se encontram organizadas em várias camadas, sen-
do que as células pavimentosas são as mais superficiais; porém, não se forma a
camada de queratina.
Esse tipo de epitélio reveste a mucosa do esôfago humano, a pele de alguns
mamíferos aquáticos (golfinhos) e constitui o tegumento de algumas espécies de
anfíbios que habitam ambientes essencialmente aquáticos.

Epitélio cilíndrico estratificado


O epitélio cilíndrico estratificado é um tipo incomum de epitélio encontrado
nos mamíferos. No homem, o epitélio cilíndrico estratificado é observado reves-
tindo a uretra membranosa, uma porção da uretra masculina.

Tecido epitelial glandular

No epitélio glandular, as células de revestimento também se especializa-


ram na elaboração de vários tipos de secreção. Na maioria das glândulas, o

58
produto de secreção pode ser acumulado no citoplasma no interior de vesí-
culas ou grânulos.
As células secretoras são responsáveis pela funcionalidade e representam o
parênquima glandular (a porção funcional), enquanto que o estroma glandular
representa a porção do órgão responsável pelo suporte dos elementos parenqui-
matosos e, geralmente, é constituído por tecido conjuntivo. O tecido conjuntivo
do estroma sustenta as células secretoras ou está presente externamente revestin-
do o órgão, ajudando na delineação da morfologia glandular e participando
também na sustentação de estruturas vasculares (vasos sanguíneos e vasos
linfáticos) e de nervos.
Nos mamíferos, inclusive o homem, as glândulas têm sua origem a partir do
epitélio de revestimento (Fig. 3.13).

Fig. 3.13: Formação glandular a partir das células epiteliais de revestimento

59
Na sua grande maioria, as glândulas podem ser formadas a partir da prolife-
ração de células epiteliais de revestimento que, progridem em direção ao tecido
conjuntivo subjacente, resultando na formação de uma estrutura morfologica-
mente definida, onde algumas dessas células se diferenciam para elaborar o pro-
duto de secreção. Durante esse processo, o contato das células secretoras com
as células epiteliais de revestimento que as originaram pode permanecer ou não.
Caso as células secretoras mantenham o contato com o epitélio que as originou,
forma-se uma glândula exócrina e as células secretoras lançarão o seu produto
de secreção para o meio externo através de um conduto – o ducto excretor. Con-
tudo, se as células secretoras perderem contato com as células epiteliais que as
originaram, a secreção elaborada pelas células secretoras é lançada em capilares
sanguíneos presentes no tecido conjuntivo subjacente e, dessa forma, estabelece-
-se uma glândula endócrina.
A formação glandular em outros vertebrados não mamíferos apresenta certas
peculiaridades. Nos anfíbios anuros, estudos sobre a morfogênese glandular re-
velaram que esse processo é bem orquestrado (Fig. 3.14).

Fig. 3.14: Formação glandular em anfíbios anuros.

Nas fases iniciais do desenvolvimento larval, por volta do estádio 24, quando
os girinos não apresentam nenhum esboço dos membros, o tegumento apresenta-
-se estruturado em três camadas de células epiteliais: a camada basal, a camada
intermediária e a camada superficial. Por volta do estádio 31, quando os animais
começam a esboçar os brotos dos membros posteriores, observa-se o início da
formação glandular. Nesse processo, as células da camada superficial proliferam
em direção ao tecido conjuntivo subjacente, onde está se desenvolvendo a futura
derme. As células superficiais irão formar o ducto e a porção secretora, enquanto
que as células da camada basal se relacionam com a formação das células mio-
epiteliais que envolvem a porção secretora. As células da camada intermediária
não participam da formação da glândula propriamente dita.

60
CLASSIFICAÇÃO

Ao se classificar os diferentes tipos de glândulas, alguns parâmetros devem


ser considerados, tais como: o número de células que constitui uma unidade
secretora e o local onde a secreção é lançada.

Quanto ao número de células

As glândulas podem ser classificadas como unicelular ou multicelular.

Glândula Unicelular ou Difusa


Na glândula unicelular, a secreção é elaborada por células especializadas
individualmente, podendo essas células estarem dispostas de forma isolada ou
em pequenos grupos, cujo funcionamento de uma célula independe do funcio-
namento das outras adjacentes.
A glândula unicelular pode ser ocasionalmente encontrada por entre as de-
mais células de um epitélio de revestimento, ou ocorrer no tecido conjuntivo
intersticial de determinados órgãos.

Glândula multicelular
Na glândula multicelular, as várias células se reúnem para produzir uma de-
terminada secreção.

Quanto ao local onde a secreção é lançada

As glândulas podem ser classificadas exócrina ou endócrina.

Glândula exócrina
Na glândula exócrina, a secreção produzida pela unidade secretora é lança-
da no meio externo. Ressalte-se que meio externo pode-se citar a cavidade oral,
a luz da via digestória, da via respiratória, ou a via urinária, isto é, cavidades cujo
lúmen se continua com o meio externo do corpo.

Glândula endócrina
A glândula é classificada como endócrina quando a sua secreção é lançada
em vasos sanguíneos do tecido conjuntivo adjacente, sendo o produto secreção
denominado hormônio. Considera-se secreção endócrina a secreção de mensa-
geiros químicos, os quais atuam sobre elementos teciduais distantes do local de
sua produção da secreção (Fig. 3.13).

61
Outros tipos de glândulas

Algumas glândulas multicelulares lançam sua secreção, simultaneamente,


tanto no meio externo quanto no meio interno, sendo classificadas como glândulas
anfícrinas. O pâncreas é um tipo de glândula anfícrina, isto é, apresenta uma
porção exócrina e uma porção endócrina (Fig. 10.13). A porção exócrina do pân-
creas (pâncreas exócrino) libera diversas enzimas (RNases, DNases, carboxipep-
tidades, tripsinogênio, quimiotripsinogênio, lipases, etc.) no intestino delgado e
irão participar no processo de digestão. A porção endócrina (a ilhota pancreática
ou ilhota de Langerhans) secreta hormônios (insulina, glucagon, somatostatina)
que regulam a glicemia (nível de glicose) no sangue.
Alguns autores também consideram, fisiologicamente, o fígado como uma glân-
dula anfícrina. Nesse caso específico, são as próprias células hepáticas (hepatócitos)
que produzem substâncias a serem lançadas no meio interno ou no meio externo.
A secreção endócrina do fígado é representada por certas proteínas (albumina, fi-
brinogênio, pró-trombina), as quais ganham a corrente sanguínea, enquanto que a
secreção exócrina do fígado é representada pela bile, que se acumula na vesícula
biliar para ser posteriormente lançada no duodeno (porção do intestino delgado).
Há ainda alguns casos particulares, pois as gônadas também podem ser
incluídas nessa classificação. No ovário, a secreção endócrina é representada
pelos hormônios estrogênio e progesterona, enquanto que a secreção exócrina é
representada pelos ovócitos (gametas sexuais femininos), sendo o ovário conside-
rado uma glândula citogênica. Nos testículos, a secreção endócrina (testosterona,
deidrotestosterona) é produzida pela célula de Leydig (uma glândula endócrina
unicelular), que se localiza no tecido conjuntivo entre os túbulos seminíferos,
enquanto que a secreção exócrina é representada pelos espermatozoides.

Secreção dos mensageiros químicos


Em muitos locais do nosso organismo, a comunicação entre as células é me-
diada por um mensageiro químico. Essa substância é capaz de ativar células-alvo
devido a sua interação com os seus receptores específicos.
Segundo alguns autores, quanto ao modo de secretar, uma glândula pode ser clas-
sificada como autócrina, parácrina, endócrina, neuronal e neuroendócrina (Fig. 3.15):

Secreção autócrina
Ocorre quando uma célula secreta um determinado mensageiro químico que
atuará em seus próprios receptores. A produção do fator de crescimento epidér-
mico pelas células epiteliais da epiderme (a camada mais superficial da pele) é
um tipo de secreção autócrina.

62
Secreção parácrina
Nesse tipo de secreção, os mensageiros químicos atuam em células próximas
da célula que secretou a substância. Esse é o modo de ação de muitas células que
constituem o sistema neuroendócrino difuso, como as células enteroendócrinas
distribuídas por entre as células epiteliais de revestimento ao longo da mucosa
da via digestória, desde o estômago até o intestino grosso. A tabela 1, apresenta
alguns tipos de células enteroendócrinas.

Tabela 1: Exemplos de células enteroendócrinas, suas localizações, hormônios pro-


duzidos e respectivos efeitos.

Hormônio
Célula Localização Ação hormonal
produzido
Estômago e intestino Estimula a glicogenólise, elevando os níveis de glicose no
A glucagon
delgado sangue

Estômago e intestino Estimula a secreção de ácido clorídrico, a motilidade


G gastrina
delgado gástrica e a proliferação de células-tronco

I Intestino delgado colecistoquinina Estimula a liberação da secreção pancreática

Estimula a liberação de secreção rica em íons bicarbonado


S Intestino delgado secretina
pelo pâncreas
Peptídeo
Estômago, intestinos
VIP intestinal vaso Aumenta a ação peristáltica
delgado e grosso
ativo

Secreção endócrina
Na secreção endócrina, a secreção de mensageiros químicos (hormônios) é
lançada para a corrente sanguínea e os hormônios atuam em outros elementos,
localizados em tecidos distantes do seu local original de produção.

Secreção neuronal e neuroendócrina


Esses tipos se referem à secreção elaborada por células nervosas (neurônios).
Na secreção neuronal, há a liberação do produto elaborado por neurônios e
a comunicação se faz por contato de um neurônio com outro neurônio, havendo
a liberação de neurotransmissores. Esse tipo de secreção se restringe às células
nervosas do sistema nervoso.
Como alguns neurônios lançam seu produto de secreção na corrente sanguínea,
essa secreção é dita neuroendócrina. Por exemplo, a secreção de norepinefrina ou
noracrenalina, que aumenta os batimentos cardíacos e a pressão arterial, recruta a
glicose armazenada no corpo para ser utilizada, prepara o músculo para agir rapi-
damente e aumenta a sua contratura, além de aumentar o estado de alerta, estando
também está ligada a problemas de sono. A produção de ocitocina é também um
exemplo de secreção neuroendócrina, visto que essa substância é produzida por
neurônios hipotalâmicos, sendo lançada em capilares sanguíneos da neuro-hipófise.

63
Fig. 3.15: Ação dos mensageiros químicos.

Secreção citócrina
Há autores que também citam a secreção citócrina, como sendo a secreção
produzida por uma célula mas é transferida para outra célula (Fig. 3.16). Esse
modo de secretar é observado pelos melanócitos da epiderme dos mamíferos ao
produzir a melanina. Nesse caso, o produto de secreção (o grânulo de melanina)
é transferido diretamente para o citoplasma dos queratinócitos (células epiteliais
de revestimento relacionadas com a produção de queratina da pele).

Fig. 3.16: Os melanócitos, células produtoras de melanina da pele, transferem os grâ-


nulos de melanina para os queratinócitos através de um processo de secreção citócrina.

64
Tipos de Glândulas

Ao se reunir os dois parâmetros acima citados (número de células e o local


onde é lançada a secreção), as glândulas podem ser classificadas como: glândula
exócrina unicelular, glândula exócrina multicelular, glândula endócrina unicelular
e glândula endócrina multicelular.

Glândulas exócrinas

Glândula exócrina unicelular


Na glândula exócrina unicelular, a secreção é elaborada por uma única cé-
lula sem o comprometimento das demais células próximas à ela, sendo lançada
no meio externo.

Fig. 3.17: A mucina, contida nos grânulos de secreção, são produzidas no retículo en-
doplasmático rugoso e transportada para o aparelho de Golgi, sendo armazenada em
pequenas vesículas. A morfologia da célula varia conforme o seu estado funcional.

A célula caliciforme, presente entre as células epiteliais de revestimento, envolvida


com a produção de mucina (uma glicoproteína resente no muco), é um exemplo desse
tipo glandular (Fig. 3.17). Elas podem fazer parte do epitélio de revestimento do intesti-
no delgado e do intestino grosso, estando também são presentes por entre as células ci-
líndricas ciliadas do epitélio respiratório que reveste a maior parte das vias respiratórias.

Glândula exócrina multicelular


A secreção produzida por esse tipo de glândula é o resultado do trabalho
conjunto de várias células. Essas glândulas não representam apenas simples
aglomerados celulares, mas órgãos definidos com uma arquitetura bem definida.

65
Na glândula exócrina multicelular é possível se distinguir duas porções
distintas, importantes para a sua classificação: a porção secretora e a porção
excretora ou ducto excretor (Fig. 3.18).

Fig. 3.18: Constituintes de uma glândula exócrina multicelular

Classificação das glândulas exócrinas multicelulares

Ao se classificar as glândulas exócrinas multicelulares, deve se levar em


consideração alguns parâmetros.

Quanto à morfologia do ducto excretor e da porção secretora

Considerando-se ducto excretor, as glândulas exócrinas multicelulares


podem ser simples ou composta.

Simples: Quando a glândula apresenta um ducto único que não se divide


(ex: glândula sudorípara écrina).

Composta: Quando o ducto se ramifica repetidamente, originando outros ductos


e, à medida que o ducto se divide, o lúmen ductal diminui suas dimensões (ex:
fígado e pâncreas).

Porção secretora
Analisando-se o formato da porção secretora, as glândulas são classificadas
como acinosa, tubulosa, túbuloenovelada e ramificada.

66
Acinosa: A porção secretora se apresenta sob a forma de bagos de uva (ex: glân-
dula sebácea da pele, glândula parótida).

Tubulosa: A unidade secretora apresenta aspecto de túbulos alongados (ex: glân-


dulas intestinais).

Túbuloenovelada: A unidade secretora se apresenta em forma de túbulos de tra-


jeto contorcido (ex: glândulas sudoríparas écrinas).

Ramificada: A porção secretora se apresenta ramificada, originando várias


unidades secretoras (ex: glândula sebácea, glândulas gástricas da região
fúndica).

Ao se reunirem as características morfológicas do ducto excretor e da


porção secretora, podemos obter diferentes classificações para os vários tipos
de glândula (Fig. 3.19).
As porções secretoras de algumas glândulas acinosas, também designadas
ácinos, apresentandp seu lúmen muito amplo, sendo frequentemente deno-
minadas alvéolos. Já em outras glândulas, o ducto excretor também secreta
substâncias que podem, de alguma forma, intervir na composição final do
produto de secreção elaborado pelas células secretoras. Nesse caso, o con-
junto formado pela porção secretora e pela porção do ducto é denominado
adenômero.
Como exemplo de glândula cujas células do ducto secretor alteram a
composição da secreção, podemos citar a porção exócrina do pâncreas
(pâncreas exócrino). As células glandulares do pâncreas secretam as en-
zimas pancreáticas, enquanto que as células do ducto secretam água, ele-
trólitos como Na, K, Cl, Ca e principalmente bicarbonato (HCO 3). Assim,
o produto final elaborado pelo pâncreas exócrino (enzimas) é distinto, em
sua composição, da secreção que é produzida pelas células pancreáticas;
porém, ss enzimas pancreáticas se tornam ativas ao atingirem o lúmen do
intestino delgado. A secreção de bicarbonato pelas células do ducto auxilia
na produção de uma secreção alcalina que, ao alcançar o intestino delgado,
é importante por participar na neutralização da secreção ácida que chega
ao ambiente intestinal.
Deve-se ressaltar que nunca se deve confundir adenômero com porção se-
cretora de uma glândula; essas duas designações não são sinônimos.

67
Fig. 3.19: Diferentes tipos de glândulas, segundo sua classificação.

Quanto ao modo de secretar

Dependendo de como a secreção é liberada pela célula secretora, as glân-


dulas exócrinas podem ser classificadas como glândula holócrina, apócrina e
merócrina.

Glândula holócrina: A glândula é classificada como holócrina quando toda a


célula é liberada junto com seu produto de secreção, constituindo a própria se-
creção da glândula (Fig. 3.20).

Conforme a secreção é produzida, ela se acumula progressivamente no


citoplasma, ficando esse repleto pela secreção e, dessa forma, as organelas pra-
ticamente não conseguem funcionar. Com isso, a célula morre, sendo liberada
juntamente com a secreção que ela mesma produziu. Na glândula holócrina
observa-se intensa atividade mitótica nas células basais, que visam repor as
células que são perdidas.
As glândulas sebáceas presentes na pele de mamíferos são exemplo de glân-
dula do tipo holócrino, assim como as glândulas uropigianas das aves.

68
Fig. 3.20: Glândula holócrina: as células da porção basal apresentam núcleo mas
volumoso. A medida que as células elaboram e acumulam a secreção no citoplasma,
o núcleo se torna picnótico, chegando a se desintegrar. Com a desintegração das
células, a membrana se rompe e elas são liberadas junto com a secreção produzida
pelas próprias células..

Glândula apócrina: A glândula é classificada como apócrina quando a secreção,


que se acumula na porção apical da célula, e uma parte microscópica do cito-
plasma são eliminadas juntas no meio externo (Fig. 3.21). Esse modo de secretar
é observado nas células secretoras da glândula mamária ao liberar o componente
lipídico do leite, quando a mama se encontra na fase de lactação. Como o a gotí-
cula lipídica não se encontra separada da matriz citoplasmática por uma unidade
de membrana, quando o lipídeo é liberado, um pouco de material citoplasmático
ao redor da inclusão lipídica também é liberado, caracterizando o modo apócri-
no de secretar.

69
Fig. 3.21: Glândula apócrina: Na glândula mamária, a secreção lipídica é liberada
carreando consigo um fino halo citoplasmático e uma porção da membrana. O con-
teúdo proteico é liberado por exocitose.

Glândula merócrina ou écrina: Na glândula merócrina, a secreção é eliminada


para o meio externo por um processo de exocitose, não havendo perda de ma-
terial citoplasmático (Fig. 3.22). A maioria das glândulas exócrinas é desse tipo,
como as glândulas salivares e a porção exócrina do pâncreas.

Quanto ao tipo de secreção elaborada

Esse parâmetro deve ser apenas considerado para se classificar as glândulas


merócrinas, pois, nesse caso, através da fixação a secreção elaborada pela glân-
dula é preservada. Assim, a natureza química do produto de secreção favorecerá
as características tintoriais necessárias à classificação das glândulas devido a afi-
nidade do produto de secreção com os corantes empregados.

70
Fig. 3.22: Glândula merócrina: somente o produto de secreção é liberado.

Ao se classificar essas glândulas é importante se considerar o formato e a


localização do núcleo, assim como a afinidade tintorial do citoplasma das cé-
lulas glandulares, visto que as células que compõem cada tipo glandular tem
morfologia distinta. Dessa forma, as glândulas merócrinas são classificadas como
mucosa, serosa e mista.

Glândula mucosa
A glândula mucosa é aquela formada por células mucosas, caracterizada por
apresentar núcleo achatado, deslocado para a porção basal, citoplasma fraca-
mente corado e expressando leve basofilia citoplasmática. As células mucosas
são bem evidenciadas com o emprego de colorações específicas para detecção
de glicoconjugados, como o método do Alcian blue (AB), que identifica glico-
conjugados ácidos, e a técnica do PAS (ácido periódico e reativo de Schiff), que
detecta glicoconjugados neutros. Como exemplo de glândulas mucosas tem-se
as glândulas sublinguais.

Glândula serosa
A glândula serosa é formada exclusivamente por células serosas, as quais
possuem núcleo esférico e localizado na região central ou levemente deslocado
para a região basal da célula; o citoplasma da célula serosa é acentuadamente
acidófilo. A parótida é uma glândula tipicamente serosa.

71
Glândula mista
A porção secretora de uma glândula mista é constituída tanto por células mu-
cosas quanto por células serosas. Frequentemente, as células serosas se associam
às células mucosas, localizando-se externamente à porção secretora; porém, há
glândulas mistas cujas células serosas se localizam entre as células mucosas. Em
ambos os casos, as glândulas são classificadas como mistas.
Em certas glândulas mistas, como as glândulas submandibulares de mamíferos,
as células serosas se organizam em forma de uma semi-lua, localizadas externamen-
te às células mucosas. Nesse caso, a secreção produzida pelas células serosas são
conduzidas por canalículos intercelulares, cujas paredes são as próprias células
mucosas, e a secreção de ambas as células se misturam no lúmen do ácino
mucoso (Fig. 3.23).

Fig. 3.23: Ácino misto de uma glândula merócrina.

Algumas glândulas exócrinas, as células secretoras exibem o citoplasma ba-


sal predominantemente basófilo, enquanto que o citoplasma apical é acidófilo.
Tal basofilia se deve ao acúmulo de retículo endoplasmático rugoso na região
basal, organela que está envolvida com a produção de proteína para exportação,
enquanto que a proteína sintetizada pela célula secretora se acumula em grânu-
los na região apical e é responsável pela acidofilia do citoplasma apical. Dessa

72
forma, a mesma célula apresenta diferentes afinidades tintoriais dependendo da
área citoplasmática, sendo classificada como célula seromucosa. O pâncreas
exócrino é um exemplo de glândula seromucosa.

Glândulas endócrinas
Glândula endócrina unicelular

Nesse tipo de glândula, a secreção (hormônios) elaborada por uma única


célula é lançada em vasos sanguíneos. Apesar de em alguns animais as célula
intersticial serem observadas em pequenos aglomerados no tecido conjuntivo
intertubular, a fisiologia de uma célula independe de sua associação com outras
células.
A célula de Leydig, ou célula intersticial testicular, é um exemplo de uma
glândula endócrina unicelular, encontrada no testículo, mais especificamente,
no tecido conjuntivo intersticial e por entre os túbulos seminíferos. O produto de
secreção da célula intersticial, a testosterona, é lançada em capilares sanguíneos
presentes no tecido conjuntivo intertubular.

Glândula endócrina multicelular

A glândula endócrina multicelular é constituída por várias células que, por


terem perdido a conexão com o epitélio de revestimento que as originou, isto é,
por não possuírem ducto excretor, sua secreção é lançada em vasos sanguíneos
que transitam no tecido conjuntivo adjacente, em íntima associação com as
células secretoras.
Dependendo do arranjo das células secretoras, essas glândulas podem ser
classificadas como glândula cordonal e glândula vesicular.

Glândula cordonal
As células se organizam em cordões celulares que se anastomosam;
porém se mantém separados por vasos sanguíneos (Fig. 3.24). As adrenais
dos humanos e as suprarrenais dos quadrúpedes, assim como a ilhota pan-
creática (porção endócrina do pâncreas) são exemplos de glândula endócri-
na cordonal.

73
Fig. 3.24: A porção exócrina do pâncreas é representada pelos ácinos seromucosos,
enquanto que a porção endócrina é formada por cordões de células, os quais estão
separados por capilares sanguíneos.

Glândula vesicular ou folicular


Na glândula vesicular, as unidades secretoras formam vesículas, as quais se
encontram separadas por tecido conjuntivo com vasos sanguíneos (Fig. 3.25).
A tireoide é um exemplo de glândula folicular e suas unidades secretoras são
frequentemente denominadas folículos tireoideanos. No interior do folículo ti-
reodeano fica armazenado o precursor do hormônio da tireoide, denominado
coloide da tireoide.
A tireoide possui dois lobos, ligados por uma porção denominada istmo.
Ela se localiza à frente da traqueia, na região anterior do pescoço, e as células
foliculares estão envolvidas com a produção dos hormônios, a tiroxina (T4) e a
triiodotironina (T4), os quais regulam o metabolismo celular, atuando nos proces-
sos de ganho e perda de peso, assim como na regulação da temperatura corporal.

74
Fig. 3.25: A tireoide é uma glândula endócrina vesicular, formada por vesículas (folí-
culos) de diferentes dimensões, sustentadas por tecido conjuntivo com uma delicada
rede vascular.

75
4
Tecido Conjuntivo

O tecido conjuntivo, além de sustentar e estabelecer continuidade entre o teci-


do epitelial e outros tecidos (como o muscular e nervoso), compreende um grupo
diversificado de tecido com propriedades especiais e desempenha várias funções.
O tecido conjuntivo é constituído por diferentes tipos de células imersas em um
material intercelular abundante, denominado matriz extracelular. A variação nos ti-
pos de células e da matriz extracelular define os diferentes tipos de tecido conjuntivo.
Didaticamente, pode-se dividir o tecido conjuntivo em: tecido conjuntivo propria-
mente dito e tecidos conjuntivos especiais, os quais incluem o tecido cartilaginoso, o
tecido ósseo, o tecido sanguíneo, o tecido linfoide e o tecido hematopoiético.

Tecido conjuntivo propriamente dito

O tecido conjuntivo propriamente dito é o tecido mais abundante do corpo.


Esse tecido reforça a estruturação de outros tecidos, protegendo e isolando órgãos
internos, além de manter o organismo funcionalmente integrado.

Características gerais e origem embrionária


O tecido conjuntivo propriamente dito é um tecido altamente vascularizado
e inervado e, devido à constituição da sua matriz extracelular, apresenta-se sob
a forma de um gel altamente hidratado. Esse tecido se desenvolve a partir tecido
conjuntivo embrionário, também denominado mesênquima (Fig. 4.1), o qual é
formado pelas células mesenquimais com elevado poder de proliferação. A cé-
lula mesenquimal tem núcleo oval, com cromatina frouxa e nucléolo evidente,

77
evidenciando uma célula em alta atividade; possui numerosos prolongamentos
citoplasmáticos e encontra-se engajada com a produção do material extracelular
- matriz extracelular.
Além de originar as células do tecido conjuntivo propriamente dito, as células
mesenquimais também dão origem às células dos tecidos conjuntivos especiais,
como as células de revestimento dos vasos sanguíneos (célula endotelial), os
elementos figurados do sangue, as células dos tecidos ósseo e cartilaginoso. É o
mesênquima que estrutura o mesoderma (vide capítulo 2).

Fig. 4.1: Representação resumida da origem das células dos tecidos conjuntivos a par-
tir da célula mesenquimal. A célula mesenquimal apresenta grande potencialidade,
sendo capaz de se diferenciar em várias linhagens celulares.

FUNÇÕES GERAIS

Devido à sua localização e à sua constituição, o tecido conjuntivo participa


da sustentação dos elementos que estruturam os diferentes órgãos do nosso or-
ganismo, além da manutenção da forma do corpo. Também participa na defesa
imunológica, na sustentação, no preenchimento dos espaços intercelulares e na
proteção do organismo, além de ser um local de armazenamento de gordura.
Por ser altamente vascularizado, o tecido conjuntivo fornece nutrientes para
os tecidos vizinhos como o tecido epitelial e o tecido muscular.

78
MATRIZ EXTRACELULAR

A matriz extracelular (MEC) é difícil de ser observada a fresco, se apresen-


tando incolor, transparente, viscosa e opticamente homogênea. Devido a seus
constituintes, a matriz extracelular possui propriedades de um gel semissólido,
intensamente hidratado.
No tecido conjuntivo propriamente dito, os elementos da matriz extracelular
são sintetizados pelo fibroblasto (ver adiante).
Classicamente, a matriz extracelular é subdividida em elementos fibrosos,
que incluí as fibras colágenas, fibras reticulares, as fibras elásticas e a substância
fundamental, que contém, além da água, mucopolissacarídeos. Essa visão não é
suficiente para se compreender a estruturação e a fisiologia da matriz extracelu-
lar. Contudo, a visão clássica não pode ser totalmente abandonada, visto que as
células e os elementos fibrosos, juntamente com a afinidade tintorial dos elemen-
tos da substância fundamental, são importantes para o diagnóstico histológico.
Nas últimas décadas, com o auxílio da bioquímica e o desenvolvimento de
técnicas em imuno-histoquímica, foi possível se conhecer melhor os elementos da
matriz extracelular. Atualmente, é possível diferenciar os constituintes da matriz ex-
tracelular em elementos fibrosos, os quais estão imersos na substância fundamental.
Os elementos fibrosos incluem proteínas fibrilares, como o colágeno e a fibri-
lina que se associa à elastina. Já a substância fundamental é um material viscoso,
altamente hidrofílico, formado por macromoléculas aniônicas, formada pelos
glicosaminoglicanos, glicoproteínas adesivas, além da água de solvatação, os
íons e sais minerais.
Assim, podemos resumir que a matriz extracelular é constituída por:
1) Elementos fibrosos, formados por proteínas fibrilares:
ü Colágeno
ü Elastina + Fibrilina

2) Substância fundamental, que contém:


ü Glicosaminoglicanos
ü Glicoproteínas
ü Água de solvatação
ü Íons e sais minerais

Proteínas Fibrilares
Muitas proteínas presentes na matriz extracelular, ao se polimerizar, têm a
capacidade de constituir estruturas fibrilares, como os colágenos e a fibrilina, a
qual comumente se associa à elastina.

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Os elementos do tecido conjuntivo que tem em comum, na sua constituição,
a proteína básica colágeno são agrupados no sistema colágeno, enquanto que os
elementos fibrilares capazes de se associar à elastina, organizando-se em fibras,
são incluídos no sistema elástico. O sistema colágeno reúne as fibras colágenas e
as fibras reticulares; já o sistema elástico é representado pelas fibras elásticas, pelas
fibras elaunínicas e pelas fibras oxitalânicas, apesar de que as fibras oxitalânicas
são formadas apenas pela fibrilina.
Para fins didáticos, iremos comentar cada um desses componentes separadamente.

Colágeno
Os colágenos são proteínas fibrosas, resistentes à tensão, pertencentes a uma
família de proteínas, abundante nos tecidos, representando cerca de 25% da
massa proteica total, com cerca de 28 tipos de diferentes de colágenos.
A síntese do colágeno se inicia no citoplasma do fibroblasto, mas a sua or-
ganização final ocorre no meio extracelular (Fig. 4.2). A estrutura dos colágenos
é formada por três cadeias proteicas longas organizadas em α-hélice, sendo a
hidroxilisina e a hidroxiprolina os aminoácidos mais abundantes no colágeno.

Fig. 4.2: Sequência de eventos relacionados à síntese de colágenos fibrilares. RER -


retículo endoplasmático rugoso.

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A síntese cada tipo de colágeno é regulada por um gene específico e, apesar
dos vários tipos, nem todos os tipos de colágenos são capazes de se organizarem
para constituir fibrilas colagenosas. Assim, o colágeno pode ser dividido em classes:
colágenos fibrilares e colágenos formadores de rede.

Colágenos fibrilares: colágeno do tipo I, II, III, V, IX e XI


Os colágenos fibrilares são sintetizados pelo fibroblasto nos ribossomos ligados
às cisternas do retículo endoplasmático (RER, Retículo Endoplasmático Rugoso),
sendo formado por três cadeias polipeptídicas organizadas em α (alfa) hélice, as
quais apresentam em suas extremidades grupamentos carboxila e amina. A estrutura
primária das três cadeias α é uma sequência de aminoácidos GLY-X-Y (domínios
colagenosos) que se repete por grandes extensões, sendo que a glicina corresponde a
30% dos aminoácidos, enquanto que os aminoácidos colocados nas posições X e Y
são frequentemente a hidroxiprolina (12%) e a hidroxilisina (10%), respectivamente.
A hidroxilação dos aminoácidos prolina e lisina da molécula do colágeno,
além da glicosilação de resíduos hidroxilisil nas cadeias em formação, ocorre
ainda nas cisternas do RER. Ao conjunto das três cadeias polipeptídicas de coláge-
no, no interior das cisternas do RER e de vesículas citoplasmáticas, denomina-se
procolágeno. Tanto no início quanto no final da molécula de procolágeno se
observa a presença de expansões polipeptídicas não-helicoidais, denominadas
peptídeos de registro (Fig. 4.2). Os peptídeos de registro impedem a polimeriza-
ção do colágeno em fibrilas no interior das células engajadas com a sua síntese
(no tecido conjuntivo propriamente dito, o fibroblasto).
Ao ganhar o meio extracelular, pela ação de colagenases, ocorre a clivagem
dos peptídeos de registro da molécula de procolágeno, formando-se uma molé-
cula funcionalmente polarizada, denominada tropocolágeno. A estruturação da
molécula de tropocolágeno permite que as moléculas se organizem em arranjos
lineares formando filamentos longos, as fibrilas colagenosas (Fig. 4.2).
Dependendo do tipo do colágeno, essas fibrilas se organizam e se associam
à outras fibrilas colagenosas, constituindo fibras colagenosas mais espessas que,
por sua vez, podem se reunir para formar grandes feixes de fibras colagenosas.
Por exemplo, as cadeias polipeptídicas de colágeno do tipo I se organizam e
formam fibrilas. Essas fibrilas colagenosas do tipo I se reúnem para formar fibras
espessas, as quais são classicamente denominadas fibras colágenas.
Através da observação à fresco do tecido, as fibras colagenosas espessas são
esbranquiçadas, conferindo essa cor aos tecidos onde elas predominam, como
nos tendões, nos ligamentos, nas cápsulas de vários órgãos e na derme.
Por serem acidófilas, nos cortes histológicos corados pela hematoxilina-eosina
(HE), as fibras colagenosas espessas (fibras colágenas clássicas), se coram em rosa

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pela eosina, em azul quando corados pelo tricrômico de Mallory e em verde pelo
tricrômico de Gomori.
As fibras colagenosas espessas apresentam grande resistência às forças de
tensão, sendo inelásticas e formadas preferencialmente por colágeno do tipo I [2
cadeias 1(I) e 1 cadeia α2 (I)], com diâmetro que varia de 50 a 90 nm. Sua prin-
cipal função é repassar a sua força tensiva aos tecidos pela formação das fibras
colagenosas.
Atualmente, sabe-se que as fibras colágenas clássicas são fibras híbridas, isto
é, apresentam outros tipos de colágenos (fibrilares ou não) associados a elas. De-
vido a esse fato, recomendamos a utilização do termo fibras colagenosas ao se
referir às fibras do conjuntivo que tem o colágeno como proteína básica. Assim,
as fibras colágenas clássicas são fibras colagenosas espessas constituídas pre-
dominantemente por colágeno do tipo I, embora contenham o colágeno tipo V
em pequena quantidade. Nas fibras colagenosas híbridas formadas por colágeno
tipo I e colágeno tipo V, quando o colágeno I é removido, o colágeno tipo V fica
suscetível à clivagem.
O colágeno tipo III forma fibrilas finas com 3 cadeias α1(III), podendo ter
de 20 a 40 nm que, ao se organizam, formam uma trama frouxa nos tecidos de
sustentação, por exemplo, nos órgãos linfoides. As fibrilas constituídas predominan-
temente pelo colágeno tipo III são classicamente denominadas fibras reticulares.
Recentemente, reconhece-se que as fibras reticulares são fibrilas colagenosas
preferencialmente constituídas por colágeno do tipo III, contendo também co-
lágeno do tipo I e outras proteínas não colagenosas. Essas fibrilas colagenosas
(do tipo III) podem se associar aos glicosaminoglicanos, os quais impedem sua
associação com outras fibrilas colagenosas. Dessa forma, formam-se fibrilas mui-
to delicadas, as quais só são visualizadas ao microscópio de luz após a utilização
de técnicas especiais. Através da impregnação pela prata, as fibras reticulares
são detectadas em preto, pois sendo a prata uma metal, essa se deposita sobre
a fibrila e, na realidade, o que se visualiza é a sua silueta. Já com o método do
PAS (ácido periódico + reativo de Schiff), as fibras reticulares são visualizadas na
cor magenta, pois esse método cora os carboidratos neutros associados à fibrila
colagenosa do tipo III.
As fibras reticulares estão presentes na membrana basal, fazendo parte da
lâmina reticular, atuando na sustentação do tecido epitelial. Essas fibras formam
o estroma de sustentação do baço, no linfonodo, na medula óssea, do fígado e
do rim, onde participam na formação do estroma que sustenta o parênquima
desses órgãos.
O colágeno tipo II é o principal tipo de colágeno encontrado nas cartilagens
e no humor vítreo, sendo encontrado também em outros tecidos em formação. O
colágeno do tipo II possui 3 cadeias α 1(II), na maioria são fibrilas delicadas

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(10 nm de diâmetro), mas pode atingir cerca de 200 nm como na cartilagem ar-
ticular. O colágeno tipo II estabelece ligações cruzadas com o colágeno tipo IX
(através dos resíduos de lisina e de hidroxilisina) e interage com o núcleo proteico
dos proteoglicanos fibromodulina e decorina.
O colágeno do tipo V forma fibrilas heterotípicas com os colágenos do tipo I e
tipo III presente nos ossos, nos tendões, na córnea, na pele e nos tecidos vasculares,
mas também ocorre no fígado, no pulmão e na placenta. Já o colágeno tipo XI for-
ma fibrilas heterotípicas com os colágenos do tipo II e IX nos tecidos cartilaginosos.

colágenos não fibrilares


Esses tipos de colágenos, ao se organizarem, não formam fibrilas colagenosas.
Os colágenos não fibrilares podem ser subdivididos em: colágenos formadores
de rede (tipo IV) encontrado nas membranas basais; colágenos filamentosos (tipo
VI); colágeno com cadeia longa (tipo VII); colágeno com cadeia curta (VIII e X);
colágenos associados com fibrila com tripla hélice interrompida ou colágeno
FACIT (fribril-associated collagens with interrupted triple helices) (tipos IX, XII,
XIV e XVI); e outros tipos de colágeno (XIII, XVII e XIX).
Os colágenos do tipo IV, VIII e X podem se associar às membranas celulares,
enquanto que o colágeno XVIII se associa às células e participa da estruturação
dos hemidesmossomos.
O colágeno tipo IV, por se organizar em rede, é designado por vários autores
como colágeno formador de rede, sendo um dos componentes das membranas
basais. Contudo, em algumas membranas basais, o colágeno do tipo VII forma as
fibrilas de ancoragem.
Os colágenos do grupo FACIT, como o colágeno IX, XII, XIV e XVI, se asso-
ciam as fibrilas colagenosas. Eles são membros de uma subfamília, onde a sua
estrutura em tríplice hélice é interrompida por 1 ou 2 pequenos domínios não
helicoidais que geram moléculas mais flexíveis e atuam na ligação entre as fibri-
las de colágeno I ou II. Esses tipos de colágeno não são clivados após secreção,
e retém seus pró-peptídeos. Os colágenos FACIT também participam na ligação
com glicosaminoglicanos e com outros componentes da matriz extracelular, se
ligam à superfície de fibrilas colagenosas de maneira periódica e parecem parti-
cipar na formação dos colágenos fibrilares.
O colágeno tipo XI é composto por três cadeias α distintas e se associa ao
colágeno fibrilar tipo II, o qual é encontrado na matriz da cartilagem hialina e da
cartilagem elástica, sendo também detectado nas proximidades da lâmina basal
durante o desenvolvimento embrionário, constituindo um sinal morfogenético
importante na interação tecidual, especialmente no estabelecimento da forma do
condrocrânio dos vertebrados.

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A síntese normal do colágeno depende da presença de aminoácidos, de ácido
ascórbico (vitamina C) e de outros metabólicos. No escorbuto, com a falta de vitamina
C, os fibroblastos interrompem a síntese de colágeno de modo que as fibras colage-
nosas destruídas não são substituídas. O ácido ascórbico é um cofator das enzimas
prolina hidroxilase e lisina hidroxilase, essenciais para a síntese do colágeno.
A renovação normal do colágeno varia conforme o tecido, mas geralmente
é lenta. Nos tendões, o colágeno quase não é renovado; porém, no tecido con-
juntivo frouxo sua renovação é rápida. A destruição fisiológica do colágeno é
promovida pela ação da enzima colagenase, produzida por células do tecido
conjuntivo. Em algumas patologias, como na gangrena, onde há necrose isquê-
mica das extremidades do corpo seguida de invasão bacteriana, há a produção
de colagenase por bactérias do gênero Clostridium, que degrada o colágeno e
facilita a disseminação bacteriana tecidual.
Através da microscopia eletrônica de transmissão, as fibrilas colagenosas são
identificadas devido à sua periodicidade axial distinta, isto é, um padrão de re-
petição de áreas escuras (densas) e claras (eletronluscentes) a cada 64nm, ao
longo do comprimento da molécula; essa periodicidade se deve à organização
das moléculas de tropocolágeno.
Ressalte-se ainda que as fibrilas colagenosas podem se agregar para formar
fibras colagenosas e esse processo é mediado, em parte, por outros tipos de colá-
genos (colágenos tipo IX, XII e colágenos associados às fibrilas).
Os colágenos são seletivamente degradados, principalmente durante o desenvol-
vimento embrionário. Os colágenos fibrilares são degradados por colagenases, apesar
da estromalisina, uma metaloproteinase de matriz, não clivar colágenos fibrilares.

Fibrilina
A fibrilina é uma glicoproteína que se organiza em fibrilas, sendo o principal
componente das microfibrilas extracelulares de 8-12 nm de diâmetro, além de
ser um dos constituintes das fibras elásticas (Fig. 4.6). As microfibrilas são media-
dores da adesão entre os diferentes componentes da matriz extracelular, sendo
rica no aminoácido cistina.
A fibrilina é encontrada no pulmão, na pele, na parede dos vasos sanguíneos,
na matriz extracelular dos glomérulos renais (mesângio), no baço e nas fibras de
sustentação do cristalino.

Elastina
A elastina (65 kDa) é uma proteína com partes hidrofílicas e hidrofóbicas
que se agrega à filamentos e lâminas por ligações cruzadas, sendo o principal
componente das fibras elásticas.

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As fibras elásticas apresentam cor amarelada quando observadas a fresco,
sendo dotadas de grande elasticidade por ceder facilmente às trações mínimas.
No estado relaxado, a elastina possui uma estrutura que pode ser estirada, mas
a elastina retorna ao estado enovelado com o relaxamento. Essa propriedade de
elasticidade é repassada aos tecidos onde as fibras elásticas estão presentes,
assim, quanto mais elastina, mais elástico é o tecido.
A fibrilina e a elastina frequentemente se associam para constituir as fibras
elásticas presentes na pele, no ligamento suspensor do pênis e na parede das
artérias de grande calibre (Fig. 4.3). Elas são sintetizadas pelos fibroblastos, con-
drócitos e células musculares lisas, sendo as cadeias polipeptídicas da elastina
são ricas em valina e alanina, além de conter os animoácidos desmosina e
isodesmosina; porém, a elastina não é glicosilada.

Fig. 4.3: A fibra elástica é o resultado da associação da fibrilina com a elastina, uma
proteína amorfa1.

As fibras elásticas são estruturas delgadas, com dimensões que atingem 1µm
de espessura, não apresentando estriações transversais quando observadas ao
microscópio eletrônico de transmissão. Nos cortes histológicos corados pelas
técnicas de rotina, as fibras elásticas não são facilmente visualizadas por se co-
rarem fracamente, sendo somente visualizadas quando se agrupam formando as
lâminas elásticas, como na aorta. Devido às suas dimensões, as fibras elásticas
são visualizadas através de técnicas especiais, como a coloração seletiva pela
orceína, a coloração pela resorcina fucsina de Weigert e pelo método do
paraldeído fuscina (PAF).
As fibras elaunínicas, primeiramente descritas na pele, contêm proporcio-
nalmente muitas microfibrilas, organizadas em feixes, e pequena quantidade de
elastina. Já as fibras oxitalânicas são constituídas exclusivamente por microfibrilas
e podem ser encontradas em menor frequência, como no ligamento periodontal,
o qual fixa os dentes à mandíbula ou à maxila.

1 O termo amorfa aqui não se refere à estrutura "não ter forma", mas sim a capacidade de
se deformar quando submetida a uma força de estiramento.

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A síntese da fibra elástica ocorre próxima à superfície extracelular da mem-
brana do fibroblasto a partir do seu precursor solúvel, a tropoelastina. Para que
a tropoelastina se estruture formando fibras é necessário um suporte de feixes de
fibrilina. Após a associação da tropoelastina com as fibrilas, formam-se as fibras
elásticas, que, por usa vez, podem-se se reunir para formar lâminas elásticas.
A redução de fibrilina conforme a idade é um dos fatos que ajuda a compreender
a perda de elasticidade de determinados órgãos, como na pele. Em algumas condições
patológicas, como na síndrome de Marfan, uma doença hereditária autossômica, há
o comprometimento do tecido conjuntivo, acometendo diversas estruturas do corpo,
como o esqueleto (os membros dos indivíduos são anormalmente longos), os pulmões,
coração e vasos sanguíneos. Essa síndrome é vinculada a deficiência de fibrilina-1,
uma glicoproteína ligante de cálcio, rica em cisteína. Em função dessa deficiência há
flacidez tecidual, como aumento de elasticidade da pele e alteração da aorta. Ocasio-
na também flacidez nos ligamentos articulares, causando hipermobilidade articular e
perda na contenção do crescimento ósseo e os indivíduos crescem demais.

Glicosaminoglicanos (GAG)
Os glicosaminoglicanos eram denominados mucopolissacarídeos. Embora
ultimamente esse termo não seja utilizado, é importante conhecê-lo devido à
ocorrência de determinadas patologia que acometem o tecido conjuntivo; por
exemplo, o termo mucopolissacaridose se refere aos distúrbios relacionados ao
metabolismo dos mucopolissacarídeos, sendo utilizado para se referir às doenças
resultantes de defeitos no metabolismo dos glicosaminoglicanos.
Os glicosaminoglicanos estão envolvidos em vários eventos, como no desen-
volvimento e sinalização celular, angiogênese, crescimento axonal, progressão
tumoral, metástase, e na anticoagulação, estando envolvidos no reparo tecidual e
nas doenças vasculares e pulmonares. Os glicosaminoglicanos sulfatados são um
constituinte comum em diferentes tipos de amiloide, participando na patologia
de doenças, como a amiloidose A, na doença de Alzheimer, no diabete tipo 2, e
na doença de Parkinson. Essas patologias são caracterizadas pela deposição de
agregados fibrilares de polipeptídeos nos tecidos.
Os glicosaminoglicanos são polímeros lineares de cadeia longa formados por
unidades dissacarídicas repetitivas, formadas por uma hexosamina (N-acetilgli-
cosamina ou N-acetilgalactosamina) ligada a um ácido urônico (Fig. 4.4).

Fig. 4.4: Fórmula química da unidade tetrassacarídica do glicosaminoglicano


heparansulfato

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Por serem poliânions, os glicosaminoglicanos encontram-se carregados ne-
gativamente, o que favorece a sua ligação por eletronvalência aos íons positivos
(cátions) como o Na+. A carga negativa dos glicosaminoglicanos se deve a pre-
sença de grupamentos sulfato (SO3¯) e de grupamentos carboxílico (COO¯). Esses
grupamentos (sulfato e carboxílico) são responsáveis pela carga negativa da mo-
lécula, fato que contribui para a retenção de íons Na+ e de água, importante na
hidratação da matriz extracelular e na manutenção da arquitetura tecidual.
Os glicosaminoglicanos são de dois tipos principais: os glicosaminoglicanos
sulfatados, incluindo o condroitinsulfato, dermatansulfato, queratansulfato, he-
paransulfato, heparina, e o glicosaminoglicano não sulfatado, o hialuronano2.
Devido à presença de radicais negativos, os glicosaminoglicanos são estru-
turas basófilas, isto é, apresentam afinidade por corantes básicos e, assim, sendo
evidenciados em roxo na coloração pela hematoxilina. Porém, quando ocorrem
em pequenas quantidades, os glicosaminoglicanos somente são detectados por
técnicas histoquímicas especiais, empregando corantes catiônicos especiais,
como o azul de alcian (Alcian Blue, no inglês) que os evidencia na cor azul.
Alguns corantes catiônicos, como o azul de toluidina e o cristal violeta, ao
reagirem com os grupamentos aniônicos dos glicosaminoglicanos sofrem altera-
ções do seu espectro e mudam a sua cor. Por exemplo, os glicosaminoglicanos são
corados em magenta após terem sido corados pelo azul de toluidina (coloração
azulada), sendo metacromáticos. A metacromasia a propriedade apresentada por
certos corantes que, ao se combinarem com determinados elementos teciduais nas
preparações histológicas, mudam sua cor, sendo os elementos teciduais evidencia-
dos em uma coloração diferente daquela original do corante empregado.
Os vários tipos de glicosaminoglicanos podem se associar com proteínas e
esse conjunto constitui os proteoglicanos (Fig. 4.5). Como exceção à essa regra,
tem-se o hialuronano, o qual não se liga às proteínas, mas serve de ancoragem
aos proteoglicanos para formarem agregados de proteoglicanos (Fig. 4.6).

Fig. 4.5: Organização estrutural de um proteoglicano formado pela associação de


glicosaminoglicanos, ligados covalentemente à uma proteína central.

2 O termo hialuronano vem sido utilizado em substituição aos termos ácido hialurônico
e hialuronato.

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Fig. 4.6: Os proteoglicanos se associam ao hialuronano, formando agregado de
proteoglicano.

A classificação dos glicosaminoglicanos se baseia na composição dissacarí-


dica e no tipo de ligação entre os seus glicídios, assim como na quantidade e na
localização dos grupamentos sulfatos presentes em sua molécula (Tabela 4.1).

Tabela 4.1: Glicosaminoglicanos e suas características


• Não se associa à proteína central
• Não é sulfatado
Hialuronano
• Sua síntese ocorre por um complexo enzimático que se localiza na membrana
plasmática

• A ligação do ácido glicurônico à uma N-acetilgalactosamina é do tipo β3


• A ligação entre dissacarídeos é do tipo β4
Condroitinsulfato
• A sulfatação pode ocorrer no carbono 4 (C4: condroitinsulfato-4) ou no carbono 6
(C6: condroitinsulfato-6) da sua molécula

• A N-acetilgalactosamina se liga a um ácido idurônico


Dermatansulfato • A N-acetilgalactosamina é sulfatda na posição C4
• Apresenta a capacidade de se ligar a fatores peptídicos básicos

• O ácido urônico se encontra associado a uma N-acetilglicosamina em ligação


glicosídica do tipo β14
• Na sua cadeia, o ácido glicurônico pode coexistir com o ácido idurônico
Heparansulfato
• A ligação entre os dissacarídeos é do tipo
• A sulfatação ocorre frequentemente no carbono 6 (C6) do açúcar e,
eventualmente, o carbono 3 (C3) apresenta-se aminado (com grupamento amina)

Heparina O ácido glicurônico se encontra ligado à N-acetilglicosamina

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O hialuronano é um polissacarídeo aniônico composto por unidades dis-
sacarídicas repetitivas de β1-4-glucoronato-β1-4-N-acetilglucosamina. O seu peso
molecular varia de 300 kDa a 8.000 KDa dependendo do tecido onde está
presente. A sua síntese é catalisada pela hialuronansintase, que se localiza no
citoplasma próximo à membrana plasmática e, conforme o polímero cresce, ele
vai sendo exocitado para o ambiente extracelular. A síntese ocorre pela adição de
glicoconjugados (N-acetilglucosamina e ácido glucurônico) na porção terminal
da molécula.
O reprocessamento do hialuronano na maioria dos tecidos é rápido. Por
exemplo, 1 (um) dia na epiderme; porém, em alguns tecidos, como a cartilagem,
ele se mantém por um período mais longo.
Apesar de o hialuronano ser o único glicosaminoglicano que não se liga a
proteína para formar proteoglicanos, ele desempenha importante papel na inte-
ração com o proteoglicano agrecano.
O hialuronano tem um papel essencial no desenvolvimento, na organização
tecidual, na proliferação tecidual, as reações de sinalização através da membrana
plasmática e na virulência microbiana.
Devido às proteínas de ligação - hialaderinas, o hialuronano permite a anco-
ragem de proteoglicanos à sua molécula, formando típicos e grandes agregados
de proteoglicanos, os quais são importantes para a fisiologia da cartilagem,
podendo também ser encontrado na superfície celular (Fig. 4.6).
O hialuronano também pode se ligar a outras moléculas, tais como o
versicano, o neurocano, ao CD44 (CD, Clusters of Differentiation em inglês) e
aos receptores de superfície celular RHAMM (receptor para motilidade mediada
pelo hialuronano) para induzir adesões focais, importantes para a motilidade e
transformação celular. As interações hialuronano/CD44 podem mediar o
rolamento e extravasamento de leucócitos dos vasos sanguíneos. Além disso,
mudanças da expressão do CD44, um receptor transmembranar expresso por
muitas células, contribuem para o crescimento tumoral. Ambas as interações do
CD 44 e do RHAMM com o hialuronano pode influenciar a sobrevivência celular.
Além dessas características, o hialuronano desempenha importante papel na
hidratação dos tecidos devido a sua capacidade de fixar moléculas de água em
seus grupos polares e de reter numerosos cátions hidratados. O hialuronano atua
na lubrificação da articulação sinovial e no movimento das articulações, sendo
um protetor das superfícies articulares, suprimindo a degeneração da cartilagem
e também está envolvido em vários eventos relacionados à morfogênese e à
diferenciação tecidual.
Com relação ao condroitinsulfato e o dermatansulfato é necessário fazer
algumas considerações, pois a literatura especializada descreve três tipos

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de condroitinsulfato: o condroitinsulfato A, o condroitinsulfato B e o condroitin-
sulfato C.
O condroitinsulfato A é o nome alternativo para o condroitinsulfato-6, isto é,
o condroitinsulfato com o grupamento sulfato no carbono 6 (C6). O condroitin-
sulfato B é o nome alternativo do dermatansulfato, que apresenta sulfatação no
C4 da N-acetilgalactosamina ligada ao ácido idurônico. O condroitinsulfato C
é o nome alternativo do condroitinsulfato-4. A distinção do dermatansulfato do
condroitinsulfato C reside na presença do ácido idurônico no dermatansulfato.
A diferenciação entre o condroitinsulfato e o dermatansulfato também
é possível com a utilização de enzimas. A condroitinase AB cliva somente os
dissacarídeos que contém o glucuronato, isto é, condroitinsulfato, enquanto a
condroitinase B cliva somente os dissacarídeos contendo iduronato, isto é, o
dermatansulfato. Por conseguinte, a condroitinase ABC cliva tanto o condroitin-
sulfato quanto o dermatansulfato. Assim, através da utilização de enzimas em
auxílio às reações histoquímicas e imuno-histoquímicas, é possível diferenciar os
tipos de condroitinsulfato (A, B e C) presentes na matriz extracelular.
Queratansulfato (4-19 kDa) (KS, keratan sulfate do inglês) é o glicosaminogli-
cano mais heterogêneo, sendo de dois tipos. Queratansulfato I (KS I) é encontrado
na córnea, enquanto que o queratansulfato II (KS II) ocorre na cartilagem forman-
do agregado com o condroitinsulfato. Na córnea, o alto nível de queratansulfato
está relacionado com o nível de hidratação tecidual, importante para a transpa-
rência da córnea. O queratansulfato também está envolvido no reconhecimento
celular de proteínas ligantes, na orientação axonal, motilidade celular e na
implantação do embrião.
A diferença entre heparansulfato e heparina é quantitativa e não qualitativa.
A heparina (10-12 kDa) é altamente conservada com estruturas similares numa
variedade de vertebrados e invertebrados, sendo linear, não ramificada, e tende a
ter uma conformação estendida em solução por causa da sua natureza altamente
hidrofílica. A heparina é sintetizada e estocada exclusivamente nos mastócitos,
especialmente no fígado, pulmões e na pele.
O heparansulfato (10-70 kDa) contém alto nível de glucosamina acetilada e
é menos sulfatado que a heparina, sendo expresso na superfície de células e na
matriz extracelular como parte de um proteoglicano. Os proteoglicanos de he-
paransulfato são os principais componentes da matriz extracelular de mamíferos,
ocorrendo na membrana basal.
No tecido conjuntivo, os glicosaminoglicanos frequentemente se encontram
na forma de proteoglicanos, os quais colaboram para a manutenção da hidra-
tação da matriz extracelular (Fig. 4.5), além de participar também na interação
célula-matriz extracelular.

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Os proteoglicanos desempenham outras importantes funções no tecido
conjuntivo, como controlar a forma, a proliferação e a sobrevida celular. Os
proteoglicanos também participam na sinalização celular, atuando como co-
receptores junto às moléculas de superfície celular para formar complexos com
receptores. Por exemplo, na matriz extracelular, os fatores de crescimento
encontram-se ligados a certos glicosaminoglicanos, como o heparansulfato,
que reconhecem certas regiões específicas desse glicosaminoglicano.
Existem duas classes de proteoglicanos (Fig. 4.7): (1) os proteoglicanos grandes,
como o agrecano, o versicano, o perlecano; e (2) os proteoglicanos pequenos,
como a decorina, o biglicano, a fibromodulina, o sindecano, e o lumicano.

Fig. 4.7: Os proteoglicanos da matriz extracelular

O agrecano (210-250 kDa) apresenta 100 cadeias de condroitinsulfato e 30


cadeias de queratansulfato ligadas ao hialuronano através de proteínas de liga-
ção. No espaço extracelular, o agrecano forma um gel rígido e reversivelmente
deformável.
O versicano (1.000 kDa), pela primeira vez isolado dos vasos sanguíneos, se
assemelha ao agrecano por se ligar ao hialuronano. Contudo, a diferença reside
no fato que o versicano não possui o queratansulfato, mas possui poucas cadeias
de condroitinsulfato. O versicano participa provavelmente da sinalização e do
reconhecimento celular, além da interconexão de componentes da matriz extra-
celular com glicoproteínas da superfície celular.

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Os proteoglicanos agrecano e versicano podem se ligar covalentemente ao
hialuronano, formando grandes agregados de proteoglicanos, os quais são res-
ponsáveis pelo estado de gel altamente hidratado da matriz extracelular (Fig. 4.4).
O perlecano é o proteoglicano de maior dimensão, sendo constituído por 3
cadeias de heparansulfato (40-60 kDa) ligadas a uma proteína central (400 kDa)
e, ocasionalmente, pode conter tanto o heparansulfato quanto o condroitinsulfato/
dematansulfato. O perlecano encontrado na membrana basal é capaz de interagir
com vários elementos da membrana basal, constituindo um arcabouço firme, mas
flexível; serve como substrato para a fixação de células e participa da estrutura-
ção das membranas basais. Nos rins, por exemplo, o perlecano está presente na
membrana basal dos glomérulos renais e participa da barreira de filtração.
Há outros glicosaminoglicanos que não se associam ao hialuronano. A deco-
rina (90-140 kDa) e o biglicano (150-240 kDa) são proteoglicanos que contém
condroitinsulfato e dermatansulfato, sendo abundantes nos tendões, na pele, na
aorta, na esclera e na córnea.
A decorina apresenta uma única cadeia de GAG (condroitinsulfato ou derma-
tansulfato), enquanto que o biglicano possui 2 cadeias de glicosaminoglicano. A
cadeia de glicosaminoglicano da decorina contém 11 estruturas repetitivas de 23
resíduos ricos em leucina e suas proteínas centrais são semelhantes entre si. A de-
corina tem um papel importante na fibrilogênese do colágeno e pode interagir com
os colágenos fibrilares do tipo I, II, III e IV e também com os colágenos VI, XII e XIV.
A partir dessas possíveis ligações, vários processos teciduais são desencadeados.
O biglicano é encontrado em associação com a superfície celular ou matriz
pericelular de várias células de origem mesenquimal (músculo esquelético, carti-
lagem, osso, endotélio dos vasos sanguíneos) e células epiteliais (queratinócitos),
sendo constituído por duas cadeias de condroitinsulfato ou de dermatansulfato
com um núcleo proteico. Esses glicosaminoglicanos podem se ligar à fibronecti-
na, sendo importantes durante a morfogênese.
O sindecano é um proteoglicano que se associa à superfície celular e apresenta
a cadeia proteica central com vários domínios: um domínio intracelular, um do-
mínio intramembranar e um domínio extracelular. O domínio intracelular interage
com o citoesqueleto (actina) do córtex celular, enquanto que o domínio extrace-
lular é formado por dímeros de condroitinsulfato e heparansulfato. É através do
domínio extracelular que o sindecano se liga ao colágeno e à outras proteínas da
matriz extracelular. Assim, a proteína central se continua do meio intracelular até o
meio extracelular. Até cinco glicosaminoglicanos (condroitinsulfato e/ou heparan-
sulfato) se encontram associados ao domínio extracelular da proteína, a qual possui
um sítio susceptível à ação de proteases. O sindecano atua como correceptor para
o fator de crescimento de fibroblastos (FGF, Fibroblastic Grow Factor). Recentes
estudos sugerem o envolvimento do sindecano na modulação das interações entre

92
os leucócitos (neutrófilos) e as células endoteliais, sendo importante no processo
de inflamação aguda, participando no processo de diapedese.
A fibromodulina é um proteoglicano que possui uma proteína central e 4 ca-
deias de queratansulfato, sendo capaz de interagir com as fibrilas de colágeno I e
as fibrilas de colágeno II, além de apresenta capacidade de modular a montagem
dessas fibras/fibrilas. A decorina e a fibromodulina interagem com o colágeno,
modulando sua síntese, a fibrilogênese.
O lumicano pertence à família dos proteoglicanos pequenos, cuja proteína é rica
em leucina. O lumicano está presente na matriz extracelular da córnea, na derme e no
tecido conjuntivo dos músculos e é expresso na matriz cartilaginosa no início do de-
senvolvimento embrionário de camundongos e também na matriz óssea em desenvol-
vimento, sugerindo a sua participação na formação óssea. Recentes estudos mostram
que o lumicano presente na matriz extracelular regula a resposta imunológica inata.
Ultimamente, outros proteoglicanos têm sido descritos, mas suas funções ain-
da estão sendo estabelecidas. Por exemplo, há proteoglicanos que se encontram
armazenados em grânulos no interior de células, como a serglicina (20 kDa). A ser-
glicina é um proteoglicano presente nos grânulos dos mastócitos e nas vesículas
secretoras dos leucócitos, que contribuem para o empacotamento e a estocagem
de moléculas de secreção, sendo formada por dímeros de condroitinsulfato e
dermatansulfato. A agrina é um proteoglicano grande (cerca de 500 KDa) com
um núcleo proteico de 200 kDa que contém heparansulfato, participando na
agregação de receptores de acetilcolina no desenvolvimento da junção neuro-
muscular durante a embriogênese. O neurocano, um proteoglicano que contém
condroitinsulfato, também é importante no desenvolvimento do sistema nervoso
central e atua na adesão e migração celular.
Considerando a sua capacidade para múltiplas interações com outras mo-
léculas, os proteoglicanos atuam nas interações celulares, podendo se ligar aos
componentes da matriz extracelular, além de capturar moléculas solúveis como
fatores de crescimento presentes na matriz extracelular e na superfície celular.
A ligação dos glicosaminoglicanos às várias moléculas de matriz, às molé-
culas de adesão celular e aos fatores de crescimento, parece ser dependente de
sua carga, pois a força de ligação com essas moléculas depende primariamente
do grau de sulfatação dos glicosaminoglicanos. A literatura especializada sugere
que o grau de sulfatação de um glicosaminoglicano direciona sua ligação com
outros elementos da matriz extracelular. Dessa forma, um glicosaminoglicano
com maior sulfatação permite sua ligação com a fibronectina; enquanto que um
glicosaminoglicano com menor sulfatação se liga ao heparansulfato, ao derma-
tansulfato ou ao condroitinsulfato. A ligação dos glicosaminoglicanos com elemen-
tos da matriz extracelular também depende do tamanho e do número de cadeias
ligadas ao núcleo proteico (proteic core, do inglês).

93
Os proteoglicanos também atuam no controle da proliferação celular através
da ligação com outras moléculas. Quando os proteoglicanos se ligam ao TGF-β
(fator de crescimento tumoral beta), esse estimula a síntese de vários proteoglica-
nos pelas células. Por exemplo, os fibroblastos sob estímulo do TGF-β aumentam
a síntese de decorina. Já as metaloproteases dependentes de Ca++ e de Zn++ atuam
no metabolismo da matriz extracelular, degradando uma área específica da matriz.

Glicoproteínas Estruturais Extracelulares


As glicoproteínas extracelulares são proteínas associadas à glicídeos que me-
deiam a interação entre as células e os elementos da matriz extracelular.
Dentre as glicoproteínas estruturais tem-se a fibronectina, a laminina, entac-
tina e tenascina, dentre outras.
A fibronectina é uma glicoproteína multifuncional que ocorre sob a forma
de uma proteína circulante do plasma, ou como uma proteína tecidual que se
liga transitoriamente à superfície de muitas células, ou ainda sob a forma de fi-
brilas insolúveis formando parte da matriz extracelular. A fibronectina é formada
por duas cadeias polipeptídicas de 250 kDa cada uma, interligadas por pontes
dissulfeto (S-S) próximos aos terminais carboxílicos, favorecendo a ligação das
células com os glicosaminoglicanos, além de apresentar sítios de ligação para o
colágeno, para o heparansulfato e para moléculas de adesão às células.
Durante a proliferação tecidual e nos processos de migração celular na vida
embrionária, a fibronectina pode se ligar ao colágeno e às superfícies celulares,
permitindo o movimento das células através da matriz extracelular, por causar
reorganização do citoesqueleto e facilitar o movimento celular. Essa ligação se dá
através de uma integrina, uma proteína de uma família de receptores da superfí-
cie celular que se liga aos componentes da matriz extracelular. Nesses processos,
acredita-se que desempenhe um papel importante na organização da deposição
subsequente e orientação das fibrilas colagenosas precoces por meio dos seus
sítios ativos.
A fibronectina também ocorre na forma solúvel no tecido sanguíneo, que é
um tipo especial de tecido conjuntivo. As extremidades da sua cadeia têm alta
afinidade pela fibrina, sendo capaz de se ligar às plaquetas durante a formação
do coágulo. Como os receptores de fibronectina estão ligados a actina intrace-
lular, a orientação do citoesqueleto de uma célula influencia a organização dos
elementos da matriz extracelular e vice-versa.
A laminina é uma glicoproteína não sulfatada produzida pela maioria das cé-
lulas epiteliais e pelas células endoteliais, cuja molécula se apresenta em forma
de cruz e contêm sítios de ligação para receptores celulares específicos da família
das integrinas, sítios de ligação para o heparansulfato, para o colágeno IV e para a

94
entactina. Presente na lâmina basal, a laminina é responsável pela aderência das
células epiteliais à membrana basal. Os múltiplos sítios de ligação da laminina a
torna uma importante molécula extracelular de ligação entre as células e a matriz
extracelular, participando na migração e na diferenciação celular.
Entactina, ou nidogênio, é uma glicoproteína sulfatada (148 kDa) presen-
te nas membranas basais que modula a adesão célula, atuando também como
proteína de ligação entre a laminina e o colágeno IV, além de apresentar sítios
de ligação para os íons cálcio. O grupo carboxílico se liga firmemente a um dos
braços curtos da laminina e esta mesma região também parece ser responsável
para a ligação da entactina ao colágeno IV.
A tenascina é uma glicoproteína da matriz extracelular (200 e 230 kDa) en-
volvida na adesão celular, sendo particularmente expressa no tecido conjuntivo
embrionário e parece interferir na adesividade celular, na morfologia e na dife-
renciação celular. Acredita-se que a tenascina seja importante para a migração
celular durante o desenvolvimento do sistema nervoso. A tenascina é expressa
transitoriamente em muitos órgãos em desenvolvimento, voltando a reaparecer
em neoplasias.

Sais minerais
Os sais minerais na matéria viva são encontrados sob três formas principais,
geralmente reversíveis. A forma cristalina ou molecular, como o cálcio e o fós-
foro, é encontrada nos ossos. A forma iônica constitui soluções verdadeiras, es-
tando sob a forma de iontes nos líquidos. Os sais minerais mais comuns são Cl¯,
HCO3¯, CO3-2 e fosfatos entre os ânions; e o Na+, K+, Ca++ e Mg++ entre os cátions.
A forma orgânica é representada pelo ferro (Fe++) presente na hemoglobina e
nos citocromos, pelo fósforo (P) no DNA, ATP, fosfolipídeos, etc. Todos os sais
minerais da célula provêm da ingestão de alimentos ou da absorção do solo, ou
mesmo das águas salgada e doce.
A composição dos sais minerais varia conforme sua localização, isto é, no
líquido intracelular (LIC) ou no liquido extracelular (LEC), como exemplificado
na tabela 4.2.

Tabela 4.2: Quantificação dos cátions, ânions e água na matriz extracelular


LIC (mM) LEC (mM)
K +
125 5
Na+ 12 120
Cl¯ 5 125
Ânions orgânicos 108 2
H2O 55.000 55.000

95
Água de solvatação
A água é o componente quantitativamente mais importante, ocorrendo em
média de 60 a 80% nos vegetais e de 50 a 70% nos animais. A água provém, em
sua maior parte, do meio externo (exógena) e em menor parte dos processos me-
tabólicos vitais (água endógena). A quantidade de água varia: (a) de espécie para
espécie; (b) de indivíduo para indivíduo, variando principalmente com a idade
(indivíduos jovens possuem mais água que os adultos); (c) de tecido para tecido,
estando diretamente relacionada com a atividade metabólica.
Há três formas de ocorrência da água. A água livre é a água líquida, cujas
moléculas se encontram em movimentos desordenados, podendo ser encontrada
nas células, no sangue, na linfa, no líquido intersticial. Enquanto a água de sol-
vatação está fortemente associada às micelas proteicas do citoplasma e da matriz
extracelular, encontrando-se adsorvida à superfície das micelas (Fig. 4.8), a água
de embebição está adsorvida no interior das micelas.

Fig. 4.8: Água de solvatação: devido à carga de sua molécula, se associa a moléculas
proteicas.

As moléculas de água de solvatação e de embebição estão quase imobiliza-


das e não são consideradas água líquida.
Associada à água da matriz extracelular estão presentes íons, moléculas
pequenas e algumas proteínas de baixo peso molecular. Esse fluido extra-
celular muitas vezes é denominado plasma intersticial, líquido tecidual ou
líquido intersticial.
O líquido intersticial é uma solução aquosa, capaz de atravessar a parede dos
capilares sanguíneos, passando do sangue para o meio extracelular do tecido. Sua
composição depende das trocas entre as células e o sangue. Em condições nor-
mais, a saída de água dos capilares se deve ao fato de que a pressão hidrostática
é maior na porção arterial em comparação com a pressão coloidosmótica,
que é menor.

96
À medida que o sangue progride no capilar, a pressão hidrostática diminui
e a coloidosmótica aumenta, atraindo a água de volta para o capilar na sua ex-
tremidade venosa. Assim, a água deixa o capilar na sua porção arterial, banha o
tecido conjuntivo e retorna ao sangue pela porção venosa. Contudo, a água que
não é drenada pelas veias e permanece no tecido conjuntivo, pode ser drenada
pelos vasos linfáticos (Fig. 4.9).

Fig. 4.9: A pressão hidrostática é maior na extremidade arterial de um capilar sanguíneo.


Em consequência da saída de água para o tecido conjuntivo, o material dissolvido no
sangue vai se concentrando; assim, quando o sangue percorre a extremidade venosa,
a pressão hidrostática é menor e a pressão coloidosmótica é maior. Dessa forma, a
água é atraída de volta para o sangue.
A água do líquido tecidual que não retorna ao sangue pela extremidade venosa é
drenada pelo capilar linfático, indo constituir a linfa.

Quando a água tecidual não retorna ao sangue pode haver a formação de


edema, que pode ter várias causas. A lesão da parede do capilar no lado ar-
terial, permitindo a saída de água e perda de macromoléculas, seria um fator
que diminuiria a pressão coloidosmótica na porção venosa do vaso sanguíneo,
tendo como resultado um aumento do líquido tecidual. A obstrução dos vasos
linfáticos, que ocorre em certas doenças parasitárias, como na filariose e em
metástases de tumores, pode levar também a formação de edema. A redução
de proteínas plasmáticas, reflexo da desnutrição, também ocasiona a formação
de edema devido à queda da pressão coloidosmótica e o acúmulo de água no
tecido conjuntivo.

97
CÉLULAS

A divisão de atividades entre as células do conjuntivo determina o apare-


cimento de vários tipos celulares com características morfológicas e funcionais
próprias (Fig. 4.10).
Em certos tipos de tecido conjuntivo propriamente dito, algumas dessas célu-
las estão presentes em número e padrão relativamente fixos, sendo denominadas
células residentes, as quais são representadas pelo fibroblasto, pelo macrófago,
pelo plasmócito, pelo mastócito e pela célula adiposa.
Além das células residentes, observam-se células migrantes, as quais são de-
rivadas de precursores encontrados na medula óssea. As células migrantes são
representadas pelos leucócitos encontrados normalmente no sangue, como os
eosinófilos, os neutrófilos, os basófilos, os linfócitos e os monócitos.
De um modo geral, as células migrantes só aparecem nos tecidos conjuntivos
como parte de uma reação inflamatória ou em resposta a uma lesão celular.
Nesse capítulo, serão descritas as células residentes; as células migrantes se-
rão tratadas no capítulo sobre sangue.

Fig. 4.10: Elementos que podem ser observados no tecido conjuntivo propriamente dito.

4.3.1 Célula mesenquimal


Na vida embrionária, encontramos o tecido conjuntivo embrionário com
características estruturais ainda indiferenciadas, sendo também denominado

98
mesênquima. A célula predominante é a célula mesenquimal, considerada uma
célula-tronco com a potencialidade de originar os diferentes tipos celulares
(fibroblastos, condroblastos, osteoblastos, célula endotelial, célula adiposa,
dentre outras) (Fig. 4.1).
A célula mesenquimal possui forma irregular, com vários prolongamentos.
Seu núcleo é alongado, com predomínio de cromatina frouxa (eucromatina); o
citoplasma é pobre em organelas, mas rico em polirribossomos livres, organela
responsável pela leve basofilia citoplasmática.
No adulto, células provenientes da célula mesenquimal são encontradas ao re-
dor das células endoteliais de capilares e de vênulas, sendo denominada pericitos.
Os pericitos são células relativamente indiferenciadas com características tanto de
células musculares lisas quanto de células endoteliais e atuam no suporte de vasos
sanguíneos, sendo importante fonte de células para o reparo e a manutenção de
vários tecidos. Apesar dessas células apresente positividade para certos marcadores
como, por exemplo, α-actina de célula muscular lisa, desmina, CD13, angiopoeti-
na-2 (Ang2), dentre outros, o pericito não é uma célula muscular lisa.

Fibroblastos
O fibroblasto é a célula mais frequente no tecido conjuntivo propriamente
dito e pode ocorrer sob três formas: na forma ativa, na forma inativa e como mio-
fibroblastos. (Fig. 4.11).

Fig. 4.11: A estrutura morfológica do fibroblasto varia conforme seu estado funcional.

99
A forma ativa representa o momento em que a célula está ativa na produção da
matriz extracelular. O fibroblasto ativo apresenta prolongamentos citoplasmáticos
irregulares, núcleo ovoide e grande, com um ou dois nucléolos bem evidentes,
sendo o complexo de Golgi e retículo endoplasmático rugoso bem desenvolvi-
dos. Essa grande quantidade de retículo endoplasmático confere leve basofilia
citoplasmática. Assim, quanto mais engajado com a produção de material para o
meio extracelular estiver o fibroblasto, mas basófilo será o seu citoplasma.
A forma inativa ou quiescente é o momento em que a célula não está secretando a
matriz extracelular e o fibroblasto se apresenta como uma célula fusiforme, alon-
gada e com poucos prolongamentos. Na forma inativa, o núcleo é alongado com
cromatina mais densa e citoplasma acidófilo; nessa fase, o complexo de Golgi
e o retículo endoplasmático rugoso são pouco desenvolvidos. Deve-se tomar o
devido cuidado, pois muitos autores ainda se referem ao fibroblasto na fase ina-
tiva como fibrócito. Contudo, esse termo deve ser evitado, pois pode levar a uma
falsa correlação entre a morfologia e o tempo de vida dessa célula. Antigamente
o sufixo blasto era conferido a uma célula jovem, enquanto que o sufixo cito a
uma célula mais madura. Esse conceito foi totalmente excluído do meio científi-
co por não se tratar de uma verdade absoluta. Dessa forma, no tecido conjuntivo,
dependendo do momento da fixação, que interrompe a atividade tecidual, pode
se observar o fibroblasto na sua forma ativa ou na quiescente.
O miofibroblasto é uma célula com características intermediárias entre o fibro-
blasto e a célula muscular lisa. A morfologia do miofibroblasto é semelhante à de um
fibroblasto, mas contêm grande quantidade de miofilamentos de actina e miosina,
responsáveis pela acidofilia citoplasmática dessa célula. Essa célula aparece nos pro-
cessos de cicatrização dos ferimentos, participando na contração da cicatriz. Além
de anticorpos específicos para actina, a calponina, uma proteína específica de célula
muscular lisa, tem sido também usada para identificar miofibroblastos.

Macrófagos
Através de técnicas rotineiras de coloração, os macrófagos são células de
difícil visualização (Fig. 4.10), se originando de monócitos do sangue.
Devido à capacidade fagocitária dos macrófagos, é possível identificá-los,
à microscopia de luz, através da coloração vital com o corante azul de tripan.
Esse corante, por não ser tóxico ao organismo, pode ser injetado no animal vivo.
Como o corante é reconhecido como material “não próprio", os macrófagos teci-
duais fagocitam o corante. Dessa forma, ao ser englobado, o corante é visualiza-
do no citoplasma dos macrófagos sob a forma de granulações azuis, facilitando a
sua identificação (Fig. 1.14, capítulo 1).
O núcleo dos macrófagos é ovoide ou com forma de rim, apresentando cromatina
condensada. O citoplasma pode variar de acidófilo, quando tiver grande quantidade

100
de enzimas em vesículas citoplasmáticas estocadas, à basófilo, quando a célula
estiver engajada com a síntese enzimática (devido às cisternas do RER).
No tecido conjuntivo propriamente dito, os macrófagos podem ter uma lo-
calização fixa (macrófagos fixos) ou se deslocar por movimento ameboide (ma-
crófagos livres).
Os macrófagos participam ativamente nos processos de defesa do organismo;
fagocitam restos celulares, material alterado, bactérias, etc., além de participar na
secreção de diversas substâncias relacionadas com os processos de defesa imu-
nológica. Eles também podem atuar como células apresentadoras de antígenos às
células relacionadas ao processo de defesa do organismo (Fig. 4.12).

Fig. 4.12: Macrófago participando da fagocitose.

Ultraestruturalmente, nota-se que a superfície dos macrófagos é muito


irregular, exibindo pequenas, mas numerosas, projeções. O citoplasma possui
vários lisossomos primários que, ao se fusionar com vacúolos com material
englobado, lançam seu conteúdo nesses vacúolos. Desse modo, formam-se
lisossomos secundários ou fagossomos, onde se processa a digestão das par-
tículas englobadas.
Quando os macrófagos encontram material estranho com grandes dimen-
sões, vários macrófagos podem se fusionar e constituir células sinciciais com 100
ou mais núcleos, denominadas células gigantes multinucleadas.
Devido as suas características, os macrófagos participam do sistema mono-
nuclear fagocitário, nome conferido ao conjunto das células potencialmente fa-
gocitárias que se originam na medula óssea, representado pelos precursores dos
monócitos, pelos monócitos e pelos macrófagos.

101
Plasmócitos
Os plasmócitos são células residentes do tecido conjuntivo e têm sua origem
a partir dos linfócitos B ativados. Os plasmócitos encontram-se envolvidos com a
produção de anticorpos. Essas células são pouco numerosas no tecido conjuntivo
normal, exceto em locais frequentemente sujeitos à penetração de bactérias e de
proteínas estranhas, como a mucosa intestinal. Em áreas de inflamação crônica,
os plasmócitos são observados em grande quantidade, podendo ser considerados
como elementos tanto do tecido conjuntivo frouxo quanto do tecido linfoide.
São células ovoides com citoplasma predominantemente basófilo. Seu nú-
cleo, geralmente localizado em uma posição excêntrica, varia de esférico a oval
e a cromatina se organiza em grumos compactos e grosseiros, que se alternam
com áreas claras de iguais dimensões, conferindo ao núcleo o aspecto de uma
“roda de carroça antiga”. Quando visualizado, o nucléolo é bem evidente.
O aparelho de Golgi, localizado em uma área próxima ao núcleo, é identi-
ficado como uma região de coloração pálida quando observado ao microscópio
de luz (Fig. 4.13). O restante do citoplasma revela-se basófilo é devido à riqueza
em retículo endoplasmático rugoso; assim, quanto mais estiver engajado com a
produção de anticorpos, mais basófilo será seu citoplasma.

Fig. 4.13: Plasmócito. Núcleo excêntrico com cromatina nuclear disposta radialmen-
te e área clara perinuclear.

Os anticorpos, proteínas específicas também denominadas imunoglobulinas


(Ig), são sintetizadas pelos plasmócitos em resposta à penetração de moléculas
estranhas (antígenos). Cada anticorpo é específico para o antígeno que levou à
sua formação, se combinando com o mesmo. As moléculas de anticorpo circu-
lam por todo o corpo sob a forma de proteínas plasmáticas e são denominados
anticorpos humorais.

Mastócito
O mastócito é uma célula globosa e grande, apresentando citoplasma repleto
com grânulos basófilos de coloração intensa. O núcleo é esférico e central, cuja
visualização é dificultada devido à presença dos grânulos citoplasmáticos basófi-
los (com a mesma afinidade tintorial que do núcleo) (Fig. 4.14).

102
Os mastócitos se originam de células agranulares (células sem grânulos ci-
toplasmáticos) encontradas na medula óssea e estão envolvidos na produção e
no armazenamento de potentes mediadores químicos que atuam nos proces-
sos inflamatórios. Seus grânulos contêm histamina, heparina e mediadores de
quimiotaxia que atraem neutrófilos, monócitos e eosinófilos, contendo também
proteases, sendo a triptase um marcador exclusivo para mastócitos.

Fig. 4.14: Mastócito. Após ativação (ligação de uma antígeno específico à dois recep-
tores de IgE), os mastócitos liberam o conteúdo dos seus grânulos.

Nas preparações coradas pelo azul de toluidina (corante de cor azulada),


os mastócitos se destacam por seus grânulos se apresentam corados em tom de
vermelho. A metacromasia3 observada nos seus grânulos se deve ao conteúdo de
heparina, que é sulfatada.
Ao contrário da heparina exógena, a heparina dos mastócitos humanos é
apenas um fraco anticoagulante e, ao invés de evitar a coagulação do sangue, as
pequenas quantidades liberadas durante a degranulação provavelmente auxiliam
na liberação de lipídeos plasmáticos mediante ação como um co-fator enzimá-
tico. A heparina contida nos grânulos parece promover a ligação de várias das
moléculas mediadoras carregadas à matriz granular.
Os grânulos dos mastócitos também contém histamina, uma amina que atua
como potente mediador da inflamação e que também age nas células endoteliais
das vênulas, induzindo sua contração e ocasionando a separação parcial das células
endoteliais onde suas margens estão unidas por junções de oclusão. A ampliação de
fendas intercelulares resulta no extravasamento de imunoglobulinas e de outras pro-
teínas plasmáticas, sendo esse um importante estágio da reação inflamatória aguda.
Em algumas outras espécies, mas não o homem, a serotonina também ocorre
nos grânulos dos mastócitos e parece possuir funções diversas, como o controle

3 Metacromasia é a propriedade de um corante que, ao se combinar com o elemento


tecidual, revela uma cor diferente da cor original do corante.

103
da liberação de alguns hormônios e a regulação do ritmo circadiano, do sono e
do apetite, dentre outras.
Seus grânulos ainda contêm um proteoglicano distinto – a serglicina, que
possui heparansulfato ou uma forma mais sulfatada de condroitinsulfato. A ser-
glicina interage com a histamina, quimase, triptase e carboxipeptidase nos mas-
tócitos, sendo importante para a retenção dos mediadores inflamatórios dentro
dos grânulos.
Os mastócitos contêm outros mediadores inflamatórios, como o fator qui-
miotático dos eosinófilos na anafilaxia (ECF-A, eosinophil chemotactic factor
of anaphylaxis), o fator quimiotáxico para neutrófilos (NCF, neutrophil chemo-
taxic factor) e hidrolases lisossômicas e, ainda, gerar outros mediadores da in-
flamação com grande velocidade e liberá-los juntamente com esses mediadores
pré-formados.
O alérgeno é uma substância que, ao ser ingerida ou inalada, causa reação
alérgica, induzindo a ação de mastócitos (Fig. 4.15).
No momento da degranulação dos mastócitos algumas substâncias podem
ser produzidas, como os leucotrienos, o fator de ativação plaquetária (PAF, pla-
telet activating factor) e as prostaglandinas.
Os leucotrienos são mediadores lipídicos eicosanoide, de ação autócrina e
parácrina, derivados do ácido aracdônico pela ação da 5-lipoxigenase e conhe-
cidos como substância da reação lenta da anafilaxia (SRS-A, Slow Reacting Subs-
tance of Anaphylaxis). Os leucotrienos estão envolvidos nas reações asmáticas
e alérgicas; seus grânulos são morfologicamente semelhantes aos grânulos da
histamina, embora mais alongados.
Quando as prostaglandinas foram primeiramente isoladas do líquido seminal
em 1936, se acreditava que essa substância tinha sua origem na próstata, daí
o seu nome. As prostaglandinas representam um grupo de moléculas lipídicas,
derivadas dos ácidos graxos, que funcionam como mediadores químicos e com
uma variedade de efeitos fisiológicos, sendo encontradas em todos os tecidos e
órgãos. As prostaglandinas agem em uma variedade de células; nas células mus-
culares lisas, causam constrição ou dilatação; nas plaquetas, causam agregação
ou desagregação; e nos neurônios da medula espinhal, as prostaglandinas indu-
zem à sensação de dor.

104
Fig. 4.15: Mastócito. Após ativação (ligação de uma antígeno específico à dois recep-
tores de IgE), os mastócitos liberam o conteúdo dos seus grânulos.

O fator de ativação plaquetária induz agregação de plaquetas e promove a


reação de liberação dos grânulos secretores dos mastócitos, os quais também
secretam leucotrienos (SRS-A, slow reacting substance of anaphylasis). Esses
compostos são sintetizados a partir dos fosfolipídeos da membrana plasmática e
liberados para o meio extracelular.
Como a superfície dos mastócitos contém receptores específicos para IgE
(produzidas pelos plasmócitos), após segunda exposição a um antígeno IgE, há
ativação da adenilatociclase e a fosforilação de certas proteínas citoplasmáticas,
o que permite a entrada de cálcio, levando à exocitose dos grânulos dos mastócitos.
A ação de fosfolipase sobre os fosfolipídeos da membrana induz a produção de
leucotrienos (SRS-A) (Fig. 4.15).
Uma resposta local moderada envolvendo mastócitos pode produzir os sinais
e os sintomas de uma alergia (reação de hipersensibilidade imediata). A reação
de hipersensibilidade imediata grave pode se desenvolver em qualquer indivíduo
que produza quantidades significativas de IgE, como em indivíduos vítimas de
ferroadas de marimbondo. Algumas vezes, basta mais de uma exposição ao mes-
mo antígeno para se deflagrar a liberação maciça de histamina em todo o corpo e

105
a liberação de outros mediadores produzidos pelos mastócitos e pelos basófilos.
Isso pode resultar em uma reação profunda, denominada anafilaxia sistêmica, a
qual pode ser fatal, podendo causar colapso do sistema cardiovascular.
Apesar da íntima semelhança entre os mastócitos e os basófilos do tecido
sanguíneo, diferenças essenciais entre essas duas células podem ser observadas
através do formato de seus respectivos núcleos e o tecido onde residem. Seus
mediadores são quase idênticos e parecem ser liberados em condições essencial-
mente similares. As semelhanças histoquímicas entre os mastócitos e os basófilos
do sangue levaram muitos pesquisadores a especular a mesma origem para essas
duas células. Contudo, as evidências atuais sugerem que os mastócitos e os ba-
sófilos têm diferentes precursores na medula óssea.
Atualmente, se reconhecem dois tipos de mastócitos: os mastócitos residentes
do tecido conjuntivo e uma linhagem distinta de mastócitos presente no tecido
conjuntivo das mucosas – mastócitos das mucosas, cujas atividades dependem
dos linfócitos T (ver sangue).

Célula Adiposa (adipócito)


Os adipócitos são células especializadas no armazenamento de triglicerídeos
(gordura neutra), formado por ácido graxo e glicerol, constituindo a principal
reserva de energia do corpo.
A quantidade de gotículas de gordura no citoplasma do adipócito varia de
acordo com a dieta alimentar, sendo que os adipócitos maduros repletos de lipí-
deos não se dividem, mas possuem vida comparativamente longa.
Em material que foi processado visando à obtenção de cortes incluídos em pa-
rafina, não é possível a preservação da gordura. A passagem por solventes orgânicos
durante o processamento, como o xilol, extrai os lipídeos. Como o lipídeo não é ob-
servado nos cortes histológicos, o local previamente ocupado pela gotícula lipídica é
denominado imagem negativa da gordura. A plena preservação das células adiposas
em microscopia de luz somente é possível com o emprego de métodos especiais que
evitem o tratamento com solventes orgânicos, como a criomicrotomia (microtomia de
material congelado). Para tal, após a fixação, o material é congelado e clivado em fatias
muito delgadas com auxílio de um micrótomo especial, o criomicrótomo (criostato).
Esses cortes podem, então, ser posteriormente submetidos a diversas técnicas especiais
de coloração para evidenciar os lipídeos, desde que não se use solventes orgânicos.
A célula adiposa surge a partir da célula mesenquimal, a qual origina lipoblastos
que se diferenciam em adipócitos (Fig. 4.1). Após o nascimento, adipócitos adicio-
nais podem se originar a partir de precursores dos adipócitos que persistem no
tecido conjuntivo. As pessoas com excesso de adipócitos, se ingerirem alimento
excessivamente, são suscetíveis a se tornarem obesas.

106
Os adipócitos são frequentes no tecido conjuntivo frouxo. Contudo, em de-
terminados locais no organismo, os adipócitos predominam e constituem o teci-
do adiposo, um tecido altamente vascularizado.
Há dois tipos de células adiposas, a célula adiposa unilocular e a célula
adiposa multilocular. Desse modo, dependendo do tipo de adipócito que predo-
mina no local, o tecido adiposo pode ser classificado como do tipo unilocular ou
do tipo multilocular. O tecido adiposo unilocular, também denominado tecido
adiposo branco, é formado por células adiposas uniloculares e a gordura arma-
zenada é quebrada para fornecer ATP ao organismo.
Os adipócitos uniloculares são células volumosas, com 50 a 150µm de diâme-
tro, possuem uma única gotícula de gordura no citoplasma e poucas organelas. A
gordura armazenada é para uso por outros tecidos do corpo, servindo como fonte de
energia para os diversos processos metabólicos. O núcleo do adipócito unilocular é
pequeno e encontra-se deslocado para a periferia da célula (Fig. 4.16).
Externamente à célula adiposa unilocular, há uma lâmina externa4 com fibras
reticulares. A célula adiposa possui receptores para o hormônio do crescimento,
para a insulina, para glicocorticoides, para o hormônio da tireoide e para a nora-
drenalina, que modulam a captação e liberação de gordura.
Por se localizar abaixo da pele, o tecido adiposo também participa da modelagem
da superfície do corpo e delineia as diferenças entre o homem e a mulher, além de au-
xiliar na manutenção de certos órgãos nas suas posições anatômicas usuais (Fig. 4.16).

Fig. 4.16: As células adiposas se reúnem e formam o tecido adiposo, que se encontra
em diversos locais. A célula adiposa unilocular tem seu citoplasma quase totalmente
preenchido por uma gotícula de gordura. Nos preparados histológicos, quando o lipí-
deo é removido pela ação de solventes orgânicos, como o xilol, o local anteriormente
ocupado pelo lipídeo é referido como a imagem negativa da gordura.

4 A lâmina externa é uma estrutura semelhante à membrana basal das células epiteliais

107
O adipócito multilocular é menor quando comparado com o adipócito uni-
locular, possui núcleo esférico preferencialmente localizado na região central e
grande quantidade de mitocôndrias, além de várias gotículas lipídicas (Fig. 4.17).
A principal função do adipócito multilocular é gerar calor através da metaboli-
zação da gordura.
No recém-nascido, a função da célula adiposa multilocular é metabolizar a
gordura para produzir calor durante o período neonatal (período compreendido
entre o nascimento e os 28 dias após o nascimento).

Fig. 4.17: O citoplasma da célula adiposa multilocular é preenchido por várias gotí-
culas de lipídeo e o núcleo se localiza preferencialmente na região central.

No tecido adiposo multilocular predominam os adipócitos multiloculares


e, devido à alta vascularização e à grande quantidade de mitocôndrias ricas em
citocromos, é macroscopicamente caracterizado pela coloração castanha, dando
origem ao seu nome alternativo de gordura parda. A principal função do tecido
adiposo multilocular é a produção de energia calorífica. Devido a presença de
uma proteína chamada termogenina, também denominada UCP-1 (uncoupling
protein 1), a oxidação dos ácidos graxos produz calor e não ATP. A termogenina
capta os prótons lançados no espaço intermembranoso da matriz mitocondrial
para gerar calor.
Nos mamíferos que hibernam ou que habitam locais extremamente frios, os
adipócitos multiloculares são particularmente abundantes e importantes para a
manutenção da temperatura corporal. Nos cetáceos, o tecido adiposo subcutâ-
neo da pele ("blubber", do inglês) é do tipo multilocular, mantendo o estoque
energético e sua espessura reflete o estado nutricional dos animais. Essa camada

108
atua como isolante térmico, sendo essencial na termorregulação. Além disso,
essa camada também auxilia na flutuabilidade e torna o deslocamento hidrodi-
nâmico eficiente.
Em alguns animais, as células mesenquimais, ao dar origem aos adipócitos
multiloculares, assumem o aspecto epitelioide, lembrando a morfologia de uma
glândula cordonal. Esse fato, associado a grande quantidade desse tecido encon-
trado em animais que hibernam, levou alguns autores a nomeá-lo como glândula
hibernante, apesar de não haver relação com o epitélio glandular.
Em algumas regiões do corpo, particularmente no tecido subcutâneo das
costas e dos ombros, ocorre uma mistura de tecido adiposo unilocular e tecido
adiposo multilocular.
Os triglicerídeos representam a principal fonte energética do tecido adiposo
e se renovam continuamente, sendo influenciado por estímulos nervosos e hor-
monais. Os lipídeos presentes na corrente sanguínea são transportados na forma
de quilomícrons e de lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL) (Fig. 4.18).

Fig. 4.18: O lipídeo provém de moléculas que circulam pelo sangue e é renovado
constantemente nos adipócitos. Os triglicerídeos dos adipócitos são sintetizados a
partir de ácidos graxos oriundos da corrente sanguínea.

Na célula adiposa, através de uma lipase lipoproteica, os lipídeos são hidro-


lisados em ácido graxos e glicerol. Os ácidos graxos se difundem e, no adipócito,
são reesterificados em triglicerídeos para serem armazenados. Havendo necessi-
dade, os triglicerídeos são hidrolisados em ácido graxo e glicerol por uma lípase
sensível ao hormônio.

109
Atualmente, várias pesquisas são realizadas para ampliar os conhecimentos
sobre a fisiologia da célula adiposa, com o objetivo de se compreender algumas
patologias do tecido adiposo. Esses estudos têm aberto discussões em relação ao
papel do tecido adiposo que, além de armazenar gordura para posterior metabo-
lização e fornecimento de energia, também passa a ter outro enfoque – um tecido
com atividade endócrina.
A obesidade é uma doença relacionada ao desequilíbrio energético, onde
há o acúmulo excessivo de tecido adiposo. Vários fatores são pesquisados para
esclarecer esse distúrbio. Um dos produtos secretado pelo adipócito é a leptina,
uma proteína codificada pelo gene ob (obese gene). A leptina é um hormônio
proteico e constituído por 167 aminoácidos (aproximadamente de 16 kDa), pro-
duzido, a princípio, pelo tecido adiposo unilocular. A leptina é expressa predo-
minantemente pelos adipócitos, mas também pelos neurônios hipotalâmicos, no
ovário e na placenta.
A ativação do receptor de leptina dá início a uma série de mecanismos que
ajustam a massa adiposa para menos. Os mecanismos efetores diminuem a inges-
tão de alimento, aumentam o gasto de energia e modulam a secreção de hormô-
nios, visando diminuir a atividade lipogênica e aumentar a atividade lipolítica do
tecido adiposo. Assim, a quantidade de leptina expressada pelos adipócitos está
diretamente correlacionada com o seu conteúdo de lipídeos; porém, o mecanis-
mo exato para a expressão da regulação da leptina nos adipócitos ainda não é
totalmente conhecido.
A produção, liberação e os níveis plasmáticos de leptina são proporcionais
à massa de tecido adiposo e sinalizam as suas dimensões para o hipotálamo e
outras áreas do sistema nervoso central (SNC). A leptina fornece informações aos
centros hipotalâmicos e para outras áreas do sistema nervoso (núcleos arqueados
no SNC) sobre a quantidade de gordura do corpo e o estado nutricional, regulan-
do o apetite e o balanço energético (Fig. 4.19).

Fig. 4.19: Relação dos níveis de leptina e a massa adiposa.

110
A leptina atua nos neurônios do hipotálamo reprimindo a produção do neuro-
peptídeo Y (NPY), um poderoso estimulador da busca pelo alimento (ingestão
energética) secretado por células do intestino. Ao mesmo tempo, a leptina repri-
me a produção de um peptídeo relacionado com um receptor para o peptídeo
anorexigênico, inibindo a ingestão alimentar. Assim, o aumento da leptina induz
a redução da ingestão de alimento.
Camundongos deficientes em leptina (ob/ob) são obesos e inférteis, sendo
essas condições reversíveis com a administração de leptina. A mutação ob/ob
no gene LEP leva à ausência de leptina, enquanto que a mutação db/db, causa
ausência do seu receptor (OBRb). Essas alterações estão associadas a diabetes
tipo II, às disfunções das glândulas suprarrenais e da tireoide, à esterilidade, à
diminuição na termogênese e à obesidade grave e precoce.
A insulina, um hormônio produzido pelas células β da ilhota pancreática, e
o cortisol também reforçam a ação da leptina. Os níveis plasmáticos de insulina
se elevam quando a massa de tecido adiposo aumenta. A insulina, ao penetrar no
sistema nervoso central, induz a saciedade e aumenta o gasto energético através
do aumento da atividade do sistema nervoso simpático.
A leptina também atua na supressão da formação óssea através da inibição
de neurônios hipotalâmicos, visto que sua ação no osso é mediada pelo sistema
nervoso simpático. Essa ação da leptina explica o fato de que pessoas obesas
raramente sofrem de osteoporose. Dessa forma, a atividade reduzida da leptina
leva ao aumento da massa óssea assim como a obesidade.
Além da leptina, o adipócito também está envolvido na produção de ou-
tras substâncias. A resistina, recentemente descrita, é uma proteína pequena
(114 aminoácidos) produzida pelo adipócito e relaciona a diabete à obesidade,
apresentando uma ação de resistência à diabete. A resistina inibe a produção
de leptina pelo adipócito. Como a diminuição de leptina leva a um aumento
do tecido adiposo, como explicado anteriormente, a resistina teria uma função
antagônica à leptina.
Outra proteína expressa pelos adipócitos maduros é a adiponectina (ACRP
30, adipocyte complement-related protein de 30 kDa), que atua reduzindo os
níveis plasmáticos de ácidos graxos livres e glicose. Essa redução ocorre atra-
vés do aumento do catabolismo da glicose e/ou da síntese de glicogênio pelos
músculos.
Ainda em relação à obesidade, os estudos recentes têm demonstrado que
vários fatores atuam e interagem na regulação da ingestão de alimentos e de
armazenamento de energia, contribuindo para o surgimento e a manutenção da
obesidade. Entre eles, fatores neuronais, fatores endócrinos e adipocitários e fato-
res intestinais. Os mecanismos para o controle da ingestão de comida envolvem

111
uma complexa rede de neuropeptídeos e/ou monoaminas de sistemas periféri-
cos (estimulação gustativa, secreção de peptídeos intestinais, respostas vagais
aferentes) e do sistema nervoso central. A grelina, um dos mais importantes
sinalizadores para o início da ingestão alimentar, é um peptídeo que foi iso-
lado primeiramente do estômago de ratos e posteriormente do estômago de
humanos, sendo secretada pelas células parietais das glândulas fúndicas da
mucosa gástrica. A concentração de grelina se mantém alta nos períodos de
jejum e nos períodos que antecedem as refeições, caindo imediatamente após
a alimentação, o que também sugere um controle neural. A grelina, além de
aumentar o apetite, também estimula as secreções digestivas e a motilidade
gástrica. Assim, antagonistas da grelina poderiam ter sucesso no tratamento
de pessoas obesas.

VARIEDADES DO TECIDO CONJUNTIVO

As variedades de tecido conjuntivo dependem dos seus constituintes básicos


(células e matriz extracelular). A classificação dos diferentes tipos de tecidos re-
flete o componente predominante e/ou a sua organização estrutural. Essa classi-
ficação é importante no diagnóstico histológico, embora não seja completa para
enquadrar todos os tipos de tecido conjuntivo.

Tecido Conjuntivo Frouxo


O tecido conjuntivo frouxo é o tecido conjuntivo mais comum no organis-
mo e contém todos os elementos estruturais característicos do tecido conjuntivo
propriamente dito, sem que haja predomínio de qualquer um deles. Esse tecido
tem por função preencher espaços entre os feixes musculares, além de servir de
sustentação para os epitélios, os vasos sanguíneos e linfáticos. Devido à riqueza
em vasos sanguíneos, o tecido conjuntivo frouxo desempenha importante papel
na nutrição do tecido epitelial. É um tecido pouco resistente às forças de tensão,
sendo flexível e delicado.
O tecido conjuntivo frouxo se localiza logo abaixo dos epitélios, fazendo
parte das mucosas. Nesse caso, a designação “mucosa” indica o conjunto forma-
do pelo tecido epitelial e pelo tecido conjuntivo frouxo adjacente que reveste as
cavidades de órgãos cavitários internos, como por exemplo, a mucosa do esto-
mago, a mucosa intestinal, a mucosa respiratória e a mucosa das vias urinárias
e genitais.

Tecido Conjuntivo Denso


O tecido conjuntivo denso possui os mesmos constituintes do tecido conjun-
tivo frouxo; porém, há o predomínio de elementos fibrosos, preferencialmente
feixes de fibras colagenosas (fibras colágenas clássicas) que confere ao tecido

112
muito mais resistência às trações. Dependendo da organização das fibras cola-
genosas, o tecido pode ser classificado como tecido conjuntivo denso modelado
ou tecido conjuntivo denso não modelado.
No tecido conjuntivo denso modelado, os feixes de fibras colagenosas
encontram-se organizados, seguindo uma determinada orientação e, essa orga-
nização se deve às forças exercidas no local; esse tecido constitui os tendões e a
cápsula dos órgãos.
No tecido conjuntivo denso não modelado, as fibras colagenosas, apesar de
se organizarem em feixes, não possuem uma orientação definida e se dispõem
em várias direções. Esse tipo de tecido é observado na região mais profunda da
pele de mamíferos (derme reticular).

Tecido Mucoso
No tecido mucoso há o predomínio de glicosaminoglicanos, principalmen-
te o hialuronano, o qual confere à esse tecido uma consistência gelatinosa. O
tecido mucoso contém poucas fibras colagenosas (fibra colágena) e fibrilas co-
lagenosas (fibras reticulares), sendo as fibras elásticas raras. A principal célula
presente no tecido mucoso é o fibroblasto, responsável pela produção desses
elementos. Esse tipo de tecido é encontrado principalmente no cordão umbilical,
onde foi denominado geleia de Wharton. O tecido mucoso também está presente
na polpa dental jovem.

Tecido Elástico
Nesse tecido há o predomínio de fibras elásticas, embora também apresente
poucas fibras colagenosas e fibroblastos. Em muitos locais, como na aorta, as
fibras elásticas podem se associar umas às outras, formando verdadeiras lâminas
elásticas. A riqueza em fibras elásticas confere grande elasticidade nos locais
onde predomina esse tipo de tecido.

Tecido Reticular
O tecido reticular é formado por delicadas fibrilas colagenosas (fibras reticu-
lares), as quais se encontram em íntima associação com fibroblastos, sendo aqui
designadas como células reticulares. Esse tecido constitui o estroma de sustenta-
ção de órgãos hematopoiéticos, fazendo parte dos tecidos linfoide e mieloide da
medula óssea e nos órgãos linfoides (linfonodo, baço).

Tecido Adiposo
No tecido adiposo há o predomínio de células adiposas e, dependendo do
tipo de adipócito que predomina, ele pode ser classificado como tecido adiposo

113
unilocular ou tecido adiposo multilocular, isto é, formado pela célula adiposa
unilocular ou célula adiposa multilocular, respectivamente.

Tecido Linfoide
O tecido linfoide é uma variedade de tecido conjuntivo, onde há o predomínio
de células relacionadas a defesa imunológica, como os linfócitos, macrófogos e
seus precursores, plasmócitos, dentre outras células. Essas células são sustentadas
por um estroma celular, constituído por células reticulares, engajadas com a pro-
dução de fibras reticulares (fibrilas colagenosas predominantemente do tipo III);
nesse tecido ocorrem ainda macrófagos fixos.
As células reticulares produzem as fibras reticulares e se assemelham aos
fibroblastos do tecido conjuntivo propriamente dito.

114
5
Sangue e Hematopoiese

O sangue é um tipo especial de tecido conjuntivo, que se apresenta na forma


de um fluído devido a água da matriz extracelular estar no estado líquido.
Nos vertebrados, o sangue flui em um compartimento fechado, representado por
estruturas que formam o sistema vascular sanguíneo.
A principal função do sangue circulante é transportar oxigênio e nutrientes
como glicose, aminoácidos, proteínas, gorduras, água, eletrólitos e elementos
minerais até várias células do organismo, além de remover o dióxido de carbo-
no e outros resíduos do metabolismo celular para detoxicação ou eliminação.
Assim, o sangue atua no processo de detoxicação, no transporte e eliminação
de substâncias absorvidas pelo organismo, inclusive os agentes farmacológicos,
promovendo eliminação de substâncias ao nível dos pulmões, rins, pela pele ou
mesmo pelas fezes.
A permuta dos elementos contidos no sangue com os tecidos se processa
nos capilares sanguíneos [vasos sanguíneos de paredes mais simples, constituído
apenas pelo endotélio (epitélio pavimentoso simples)] e sua membrana basal. Em
alguns capilares, o endotélio apresenta pequenos poros, que permite o trânsito da
água, de um grande número de moléculas hidrossolúveis e da maioria dos íons.
Esses capilares com poros na membrana são designados como capilares fenestra-
dos; porém, substâncias lipossolúveis, como algumas vitaminas, dissolvem-se na
membrana capilar e atravessam a sua extensão sem passar pelos poros. O trânsito
de substâncias através das membranas celulares ocorre por dois mecanismos:
difusão e transporte ativo.

115
No homem adulto, o volume total de sangue é de aproximadamente 5 litros,
o que corresponde a 7% do peso corporal. A homogeneidade do sangue é ape-
nas aparente, pois o sangue apresenta duas fases: uma fase que compreende os
elementos figurados, os quais encontram-se suspensos em outra fase líquida - o
plasma sanguíneo, com 91% de água e 9% restante, representado pelas proteí-
nas, eletrólitos, gorduras, glicose, hormônios e numerosas outras substâncias.
O plasma representa 55% do volume total de sangue, sendo 2% de leucócitos e
plaquetas e os 43% restantes correspondem às hemácias.
A regulação do fluxo sanguíneo nos capilares depende das necessidades
locais dos tecidos, pois o sangue não flui num ritmo contínuo. Os esfíncteres
pré-capilares e as metarteríolas, por possuírem células musculares lisas em sua
parede, se contraem e se relaxam alternadamente em ciclos de 5 a 10 vezes por
minuto, sendo a concentração de oxigênio nos tecidos o fator que determina o
grau de abertura desses esfíncteres. Quando a concentração de oxigênio é bai-
xa, os esfíncteres pré-capilares permanecem abertos, o que aumenta o fluxo de
sangue. Assim, quanto maior for a utilização de oxigênio pelos tecidos, maior
será o fluxo de sangue nos seus capilares. O ritmo da contração dos esfíncteres
é próprio e independe dos batimentos cardíacos ou da transmissão da onda de
pulso do sistema arterial até a microcirculação.
O sangue participa do ajuste do teor de água dos diversos compartimentos
líquidos do organismo, além de regular a concentração de íons H+ mediante tro-
cas iônicas e pela ação dos sistemas tampão, fundamentais ao equilíbrio ácido/
básico osmótico dos líquidos teciduais, mantendo o pH dentro de limites ade-
quados à função das enzimas e organelas celulares. Assim, o sangue contribui
para a homeostase, isto é, manutenção do equilíbrio do meio interno do corpo.
Além da distribuição dos hormônios produzidos pelas glândulas endócrinas
por todo o organismo, o sangue também participa dos mecanismos de regulação
da temperatura corporal.
Devido à presença de células de defesa e de elementos humorais, o sangue
também representa um importante sistema de defesa contra agentes invasores de
diversas naturezas, incluindo as bactérias e os agentes químicos.

Constituição do sangue

Na matriz extracelular do sangue, denominada plasma, encontram-se os


elementos figurados (hemácias ou glóbulos vermelhos, leucócitos ou glóbulos
brancos e plaquetas) em suspensão.
A quantidade de hemácias existente no sangue é um indicador de grande
importância para a avaliação a condição clínica dos indivíduos. A sua expressão

116
mais simples é o hematócrito, que representa o percentual de hemácias contido
no sangue (Fig. 5.2).

Fig. 5.2: Tubo de hematócrito é um tubo com graduação de 0 a 10, no qual se coloca
o sangue para se estimar a o volume de hemácias, que é expresso em percentagem.
Note um tubo com sangue antes da centrifugação (A) e depois da centrifugação (B).

Como o volume de hemácias tem relação direta com a quantidade de he-


moglobina, o hematócrito é um indicador indireto da capacidade do sangue em
transportar oxigênio para os tecidos.
O hematócrito normal varia de 40 a 54% para os homens e de 35 a 47%,
para as mulheres. De acordo com a técnica de preparo do hematócrito, a cen-
trifugação em alta velocidade de um pequeno volume de sangue dentro de um
tubo graduado (de 0-10) permite estimar o volume ocupado pelas hemácias em
relação ao sangue total. Os valores normais estão representados na tabela 5.1.

Tabela 5.1: Valores do hematócrito normal, mostrando a percentagem dos


elementos figurados
Homem 40% a 54%
Mulher 35% a 47%
Criança 36% a 44%
Recém-nascido 44% a 62%

Plasma Sanguíneo
O plasma sanguíneo é a fase líquida do sangue e representa a porção não
celular, sendo um líquido viscoso, de tonalidade amarela pálida. Ao se centrifu-
gar determinado volume de sangue em um tubo de ensaio por alguns minutos, os

117
elementos figurados se depositam no fundo e sobre esse depósito se observa uma
camada de líquido amarelo palha ou âmbar, claro, opaco e viscoso, o plasma
sanguíneo.
Em um indivíduo normal, o plasma corresponde a 60% do volume de sangue
para um hematócrito de 40%; porém, quando recolhemos um volume de sangue
em um tubo de vidro e deixamos descansar após alguns minutos, forma-se um
coágulo, que se consolida, tornando-se mais firme e sólido por um mecanismo
conhecido como retração.
Ao se retrair, o coágulo expele a maior parte de líquido retido no seu interior,
sendo esse líquido expelido denominado soro sanguíneo. Resumindo, pode-se
dizer que o soro corresponde ao plasma sem as proteínas do sistema de coagula-
ção e outros elementos retidos no coágulo.
A água, sob a forma líquida, é o principal componente do plasma sanguíneo
e corresponde a 91% do seu volume, enquanto que os 9% restantes correspon-
dem a proteínas (7%) e outros elementos dissolvidos (2%).
Através do plasma há livre intercâmbio de vários componentes entre o san-
gue e o líquido intersticial, o que é preferencialmente realizado através dos poros
da membrana da célula endotelial do capilar.
Em condições habituais, devido às dimensões de sua molécula, as proteínas
plasmáticas não atravessam a membrana do capilar, permanecendo no plasma.
Entretanto, as moléculas de água e outras substâncias dissolvidas no sangue
podem se difundir livremente através do endotélio. A saída da água do plasma
através os capilares é controlada pela pressão coloidosmótica (pressão oncótica1)
e pelo estado da permeabilidade das membranas. Em outras palavras, as pro-
teínas participam do processo de saída de água dos tecidos para os capilares e
dificultam a saída de água dos capilares para os tecidos.
As proteínas do plasma são de três tipos principais: a albumina, as globulinas
e o fibrinogênio.
A albumina corresponde a 55% do total de proteínas plasmáticas, sendo o prin-
cipal elemento responsável pela manutenção da pressão coloidosmótica do plasma.
As globulinas correspondem a 38% do total de proteínas e são de três tipos
principais: -globulinas, β-globulinas e δ-globulinas. As globulinas alfa (α) e beta
(β) desempenham diversas funções, auxiliando no transporte de outras substân-
cias pelo organismo e são designadas globulinas carreadoras ou transportadoras.
Elas se combinam com outras substâncias e formam complexos conjugados, os
quais são transportados aos diversos órgãos para exercer suas funções. As glo-
bulinas gama (δ) e algumas beta representam a parte fundamental do sistema de

1 pressão oncótica é a pressão osmótica gerada pelas proteínas no plasma sanguíneo.

118
defesa do organismo, incluindo os mecanismos de imunidade e da alergia. Essas
globulinas são anticorpos, que protegem o organismo contra infecções.
O fibrinogênio, outras proteínas e alguns fosfolipídeos compõem a porção
plasmática, sendo responsável pelo fenômeno da coagulação do sangue e cor-
responde a 7% do total de proteínas do plasma, existindo entre 100 e 700mg de
fibrinogênio em cada 100mL de plasma. O fibrinogênio é sintetizado no fígado,
sendo o principal responsável pela viscosidade do plasma e, devido ao grande
peso molecular, não costuma passar para o líquido intersticial. Contudo, quando
a permeabilidade dos capilares aumenta, o fibrinogênio passa para o interstício em
quantidades suficientes para permitir coagulação, a qual envolve uma cascata de
reações químicas que resulta na conversão do fibrinogênio em fibrina (ver adiante).
No plasma também há outras substâncias dissolvidas, como os eletrólitos. Os
principais eletrólitos são o potássio, o sódio, o cloro, o cálcio, o fosfato, o sulfato
e o magnésio, necessários na realização da função celular, difundindo-se para o
líquido intersticial e depois para o líquido intracelular. O cálcio, o sódio e o po-
tássio são essenciais à condução dos impulsos elétricos e à contração muscular.
Além dos eletrólitos, diversas substâncias são transportadas pelo plasma san-
guíneo e alcançam o líquido intracelular, sendo fundamentais na manutenção
das funções celulares.
O sangue transporta substâncias como a glicose, os hormônios, o colesterol,
a uréia, a creatinina, os aminoácidos, os hidratos de carbono, os ácidos graxos,
as vitaminas, diversos sais inorgânicos, dentre outras substâncias como produtos
destinados à excreção. A glicose é fonte essencial de energia para todos os teci-
dos do organismo e sua concentração normal no plasma é, em média, de 70 a 90
mg/dL, pela manhã, após uma noite de jejum. Sua concentração no sangue pode
variar em função do tempo e conforme o consumo de alimentos. A glicose que se
encontra dissolvida na água do plasma, junto com outros açúcares, penetra nas
células por difusão, o que é favorecido pela insulina, um hormônio produzido
pelo pâncreas.

ELEMENTOS FIGURADOS

Os elementos figurados do sangue são representados pelas hemácias, leucó-


citos e plaquetas (Fig. 5.3). No interior dos vasos sanguíneos, as hemácias têm
fluxo axial, isto é, predominam na região mais central do vaso, enquanto que os
leucócitos apresentam fluxo mais marginal, isto é, mais na periferia do vaso e
próximo ao endotélio, o que facilita a migração de leucócitos do sangue para o
tecido adjacente.
A análise microscópica desses elementos é obtida através da confecção de
distensões sanguíneas. Para tal, uma gota de sangue é colocada sobre uma lâmina

119
histológica, bem limpa. Em seguida, com o auxílio de outra lâmina - a lâmina
distensora, distende-se a gota de sangue sobre a lâmina, de modo a se conseguir
uma fina película de sangue sobre a lâmina. Esse procedimento facilita a obser-
vação dos elementos figurados ao microscópio de luz (Fig. 5.1).

Fig. 5.1: Modo de confecção de distensão sanguínea.

Frequentemente, as distensões sanguíneas são coradas por corantes espe-


ciais, cujo preparo está baseado na mistura de Romanowsky, que reúne corantes
como a eosina, o azul de metileno e azures de metileno. Outras misturas de co-
rantes são encontradas comercialmente, como Leishman, Wright e Giemsa, que
são misturas semelhantes àquelas do tipo Romanowsky. Vale à pena ressaltar que
nas distensões, os elementos figurados se depositam sobre a lâmina, o que deve
ser considerado ao se visualizar os leucócitos granulares, pois os grânulos desses
leucócitos pode de depositar sobre o núcleo, dificultado a visualização da mor-
fologia nuclear. Ressalte-se ainda que para uma boa fixação dos elementos figu-
rados, esses devem ser fixados logo após a confecção da distensão, imergindo
as distensões em álcool metílico (metanol). Como o metanol é extremamente
tóxico, todo esse procedimento deve ser realizado dentro de uma capela de
exaustão de gases.

120
Fig. 5.3: Elementos figurados observáveis nas distensões sanguíneas de sangue perifé-
rico em condições normais

Os elementos figurados apresentam diferentes dimensões e ocorrem em dife-


rentes proporções no sangue (Tabela 5.2).

Tabela 5.2: Elementos figurados do sangue periférico

Elemento figurado Dimensões Quantidade

6,9 a 5,5 milhões/μL na mulher


Hemácias 6,5 a 8 μm
4,1 a 6,0 milhões/μL no homem
Leucócitos 6.000 a 10.000/μL
Neutrófilo 12 a 15 μm 60% a 70%
Eosinófilo 12 a 15 μm 2% a 4%
Basófilo 12 a 15 μm 10% a 1%
Linfócito 6 a 8 μm 20% a 30%
Monócito 12 a 20 μm 3% a 8%

Plaquetas 2 a 4μm 200.000 a 400.000/μL

Hemácias
As hemácias são os glóbulos vermelhos presentes no sangue que, nos ma-
míferos, são estruturas anucleadas que se deformam com facilidade. Nos outros
vertebrados, como peixes, anfíbios, répteis e aves, essas estruturas, apresentam
núcleo, sendo o termo eritrócito o mais apropriado para se referir a esses ele-
mentos nesses grupos animais. Nesse livro, apresentaremos apenas os aspectos
morfofisiológicos das hemácias dos mamíferos.
Nas distensões sanguíneas de sangue periférico, a hemácia é visualizada
como um disco de formato bicôncavo de 1,8µm de espessura, variando de 7,5 a

121
8,7µm de diâmetro, sendo que suas dimensões diminuem levemente com a ida-
de. A forma bicôncava das hemácias é ideal para a absorção e liberação rápida
de gases, sendo mantida devido aos elementos do citoesqueleto (tetrâmeros de
espectrina, actina e a proteína da banda 4.1), que se localiza preferencialmente,
logo abaixo da membrana plasmática.
A principal função das hemácias é desempenhada pela a hemoglobina (cerca
de 15 g/dL de sangue), a qual é responsável pelo transporte dos gases respirató-
rios (oxigênio e gás carbônico) em todos os tecidos, sendo esse transporte tam-
bém facilitado pela forma bicôncava da hemácia.
As hemácias não apresentam organelas e o seu citoplasma, constituído de ma-
terial denso e granular, corresponde praticamente à hemoglobina, responsável por
sua acidofilia típica. Na membrana da hemácia é essencialmente constituída por
lipídeos e proteínas, possuindo várias proteínas integrais, como as glicoforinas, as
proteínas dos canais iônicos e a proteína banda 3 (um transportador aniônico). Os
elementos do citoesqueleto estão conectados à bicamada lipídica por meio da três
proteínas (proteína da banda 3, anquirina e proteína da banda 4 (Fig. 5. 4).

Fig. 5.4: Membrana da hemácia, indicando seus constituintes

A superfície extracelular da membrana plasmática apresenta cadeias de carboidra-


tos específicos, que encontram associados à proteínas, formando glicoproteínas. Den-
tre as glicoproteínas, tem-se as glicoforinas, as quais são de 4 tipos: A, B, C e D. Essas
glicoforinas atuam como antígenos, sendo a base dos tipos sanguíneos por participar
do reconhecimento entre as hemácias, além de participar na estabilização do citoes-
queleto através de ligações com a proteína banda 4-1 na face interna da membrana.
A proteína banda 3 é considerada a principal proteína integral da membrana
representa cerca de 30% de todas as proteínas de membrana da hemácia e atua
na remoção de CO2 dos tecidos, regulando também o transporte de HCO3-. Além
de participar da regulação do metabolismo da glicose, na manutenção da morfo-
logia da hemácia e na remoção de células senescentes (envelhecidas).

122
A espectrina, uma proteína longa e fibrilar, é constituída por duas cadeias
polipeptídicas α e β e serve de sustentação à membrana da hemácia.
A sobrevida média das hemácias no sangue circulante varia de 100 a 120 dias. Ao
final desse período, as suas membranas se tornam frágeis e as hemácias mais velhas são
removidas da circulação. O número de hemácias circulante é razoavelmente constante
em condições normais, havendo um equilíbrio entre a destruição e a produção de
hemácias. Caso haja um desequilíbrio entre a destruição e a produção pode haver ane-
mia ou poliglobulina, respectivamente. A produção das hemácias (eritropoiese) ocorre
continuamente na medula óssea, visando sua renovação no sangue circulante, sendo
regulada pela glicoproteína eritropoetina, secretada principalmente pelos rins.
A produção da hemoglobina ocorre no interior das células precursoras das
hemácias na medula óssea, as quais utilizam o ferro captado da circulação. O ferro
absorvido pelo intestino ao nível do duodeno e do jejuno, principalmente sob a
forma "não heme" (95%), é transportado para a medula óssea mediante combi-
nação com a glicoproteína transferina. O ferro também pode ser reaproveitado
através do processo de destruição das hemácias envelhecidas (hemocaterese);
porém, o ferro, que não é imediatamente usado para a produção da hemoglobina,
pode ficar armazenado no tecido hemopoiético sob a forma de ferritina.
Quando a hemoglobina está ligada ao oxigênio é denominada oxi-hemo-
globina e confere ao sangue uma cor avermelhada característica; mas quando
a hemoglobina se une ao gás carbônico é denominada carboxi-hemoglobina,
apresentando a tonalidade mais escura e menos brilhante. Como a hemoglobina
apresenta maior afinidade ao CO2 do que ao O2, quando as hemácias passam pe-
los pulmões, a hemoglobina se liga ao O2 (em grande concentração nos alvéolos)
e o O2 passa a circular ligado à hemoglobina (Fig. 5.5). À medida que as hemá-
cias carregadas de oxi-hemoglobina se aproximam das células, repletas de CO2,
suas hemoglobinas liberam o O2 para se ligarem ao CO2, distribuindo o oxigênio
para todas as células do corpo.

Fig. 5.5: Troca gasosa ao nível dos alvéolos pulmonares.

123
A hemoglobina é formada a partir da combinação de quatro moléculas, ou
radicais heme, com uma proteína - a globina. O radical heme é um comple-
xo metálico que contém ferro no estado ferroso, sendo responsável pela cor do
pigmento. As moléculas do oxigênio se combinam com o ferro da hemoglobina
mediante ligação química especial, facilmente reversível, e que favorece a sua
liberação nos tecidos do organismo. A globina é uma proteína incolor formada
por dois pares de cadeias de polipeptídeos: um par chamado polipeptídeo alfa
(α) e outro par, o polipeptídeo beta (β). Portanto, a molécula da hemoglobina é
formada pela união de quatro polipeptídeos à quatro radicais heme.
A cadeia α-globina (polipeptídeo alfa) é constituída por um conjunto de 141
aminoácidos, enquanto a cadeia de β-globina (polipeptídeo beta) possui 146
aminoácidos. Elas se reúnem duas a duas, formando 3 tipos principais de
hemoglobinas (Hb). No adulto, a hemoglobina A1 (Hb A1) é a principal hemo-
globina, enquanto que a hemoglobina A2 (Hb A2) ocorre em menor quantidade.
A hemoglobina fetal (Hb F) possui duas cadeias gama (γ) ao invés de duas cadeias
β. Essa substituição aumenta a sua afinidade pelo oxigênio, sendo de grande im-
portância na vida fetal, visto que o feto não tem acesso ao ar. Nos adultos, 96%
da hemoglobina é normalmente Hb A1, 2% de Hb A2 e 2% de Hb F.
Além da hemoglobina, na hemácia há uma grande quantidade da enzima
anidrase carbônica, cuja função é catalisar a ligação entre o gás carbônico e a
água, formando o ácido carbônico, o qual é altamente instável e se dissocia natu-
ralmente em bicarbonato e hidrogênio. Assim, por ser tóxico para a célula, o gás
carbônico é transportado também na forma de bicarbonato.
A hemácia também contém o 2,3-DPG (2,3-difosfoglicerato), um composto
químico que se encontra combinado com a hemoglobina, cuja principal função
é reduzir a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, facilitando a sua liberação
nos tecidos.

Leucócitos
Os leucócitos ou glóbulos brancos são os elementos figurados do sangue
engajados com a defesa do organismo. A denominação glóbulos brancos se deve
a observação macroscópica do sangue após sua coagulação em um tubo de en-
saio, onde há a formação de uma camada esbranquiçada, acima das hemácias
(Fig. 5.2).
A migração dos leucócitos para os tecidos vizinhos envolve diversos eventos
e se deve à alteração do diâmetro do lúmen do capilar sanguíneo, à diapedese e
à quimiotaxia. Inicialmente, no lúmen do capilar sanguíneo ocorre marginação,
que é o trânsito dos leucócitos predominam na periferia do vaso, sendo seguida
pelo rolamento (adesão frouxa através de interação de moléculas da membrana
do leucócito com moléculas da membrana da célula endotelial) e adesão

124
(aderência firme). A adesão de leucócitos às células endoteliais necessita da ação
de moléculas de adesão, tais como: as selectinas (selectina E, selectina P e selec-
tina L), as imunoglobulinas, as integrinas e determinadas glicoproteínas (Fig. 5.7).

Fig. 5.6: Rolamento, adesão e migração de leucócito do sangue para o tecido con-
juntivo adjacente.

Nos processos inflamatórios, a penetração dos leucócitos no interstício é fa-


cilitada através de liberação de determinadas substâncias, como colagenases que
degradam a membrana basal do endotélio.
A vida média dos leucócitos circulantes é variável, podendo ser de algumas
horas até alguns dias, dependendo do tipo de leucócito. Os leucócitos são células
verdadeiras, sendo nucleadas e reunidos em dois grandes grupos:

• Granulócitos, também denominados polimorfonucleares, apresentam


núcleo com vários lóbulos e com grânulos específicos no citoplasma;
• Agranulócitos ou mononucleares, leucócitos que não possuem grânulos
específicos citoplasmáticos.

Granulócitos
Os granulócitos possuem núcleo com formato irregular e, de acordo com a
afinidade tintorial de seus grânulos citoplasmáticos, podem ser classificados de
três tipos: os neutrófilos, os eosinófilos e os basófilos.

Neutrófilos
Os neutrófilos são os leucócitos mais numerosos e possuem forma arredon-
dada com um núcleo com três a cinco lóbulos unidos por pontes de cromatina
(Fig. 5.3 e 5.6). Quando jovem, o núcleo não é lobulado e a lobulação nuclear
aumenta conforme a célula envelhece.

125
Nas pessoas do sexo feminino nota-se frequentemente um apêndice nuclear
em forma de raquete (corpúsculo de Barr) que contém a cromatina sexual cons-
tituída por um cromossomo X heterocromático (Fig. 5.8).

Fig. 5.7: Tipos de neutrófilos

Os neutrófilos são dotados de capacidade fagocitária e possuem numerosos


grânulos no seu citoplasma. Os primeiros grânulos a serem produzidos são os
grânulos primários ou azurófilos; em seguida, inicia a síntese dos grânulos espe-
cíficos ou secundários.
Os grânulos azurófilos, com afinidade pelo azur de metileno, são lisossomos
e contêm peroxidases e enzimas hidrolíticas, atuamdo na degradação dos com-
ponentes fagocitados. Os grânulos secundários, menores e mais numerosos que os
grânulos primários, contém fosfatase alcalina, lactoferrina (uma proteína ávida por
ferro), lisozima (ataca os peptidoglicanos da parede das bactérias Gram-positivas)
e outras substâncias de ação bactericida capazes de formar poros no envoltó-
rio das bactérias e causar sua morte; contém também um agente bacteriostático
que impede a proliferação de bactérias. Um terceiro grânulo, o grânulo terciário,
contém a enzima colagenase, responsável pela degradação da matriz do tecido
conjuntivo, facilitando o deslocamento do neutrófilo para o local de inflamação.
Os neutrófilos também possuem elastase, uma serina-protease encontrada
no plasma e nos tecidos, que catalisa a hidrólise da elastina e do colágeno tipo
IV, o que facilita o deslocamento do neutrófilo pela matriz extracelular do tecido
conjuntivo. Nos tecidos, a elastase é inibida pela α-antitripsina (também denomi-
nada α-antielastase ou α-antiproteinase), a qual é produzida pelo fígado.
Na circulação sanguínea, os neutrófilos podem estar suspensos no plasma
e circulando nos vasos sanguíneos (compartimento circulante) ou aderidos ao
endotélio, não se deslocando pela corrente sanguínea (compartimento marginal).

126
Eosinófilos
Os eosinófilos são células com 12-17µm de diâmetro; possuem um núcleo
bilobulado, sendo facilmente reconhecido nas distensões sanguíneas pela pre-
sença de grânulos citoplasmáticos, fortemente acidófilos (Fig. 5.3). Os eosinófilos
são células com capacidade fagocitária seletiva pelo complexo antígeno-anticor-
po, mas a atividade microbicida é menor do que aquela dos neutrófilos.
Os grânulos dos eosinófilos são ovoides (0,15-1,5µm de comprimento e 0,3-1µm
de espessura), exibindo um cristaloide central eletrondenso circundado por uma
matriz eletronluscente. No homem, o cristaloide consiste da proteína básica prin-
cipal, de enzimas hidrolíticas e da peroxidase. Grânulos menores (0,15-1,5µm)
contêm fosfatase ácida e arilsulfatase. A arilsulfatase A é responsável pela degra-
dação de lipídeos sulfatados; a não degradação desses lipídeos ocasiona compro-
metimento progressivo da substância branca do sistema nervoso central e nervos
periféricos. A arilsulfatase B é essencial na degradação do dermatansulfato que,
ao se acumular no tecido, ocasiona lesão como na síndrome de Maroteauz-Lamy,
também conhecida como mucopolissacaridose VI, sendo o transplante de medula
óssea um tratamento recomendado para essa doença.
Há evidências que os eosinófilos produzem substâncias capazes de inativar
os leucotrienos e a histamina. A arilsulfatase neutraliza a ação da substância de
reação lenta (SRL), enquanto que a histaminase atua sobre a histamina. Dessa
forma, quando o conteúdo dos grânulos dos eosinófilos são liberados, eles im-
pedem a vasodilatação e, consequentemente, diminuem a reação inflamatória.

Basófilos
Os basófilos são os leucócitos menos numerosos; possuem um núcleo bilobula-
do, normalmente de difícil visualização nas distensões sanguíneas devido a grande
quantidade de grânulos citoplasmáticos basófilos (Fig. 5.3), visto que ao se depositar
na lâmina, esses grânulos mascaram o núcleo por terem a mesma afinidade tintorial.
Seus grânulos contém enzimas hidrolíticas, heparina, histamina e a substância
de reação lenta (SRL). A histamina e a SRL são agentes vasodilatadores que auxi-
liam na saída de leucócitos do sangue para o tecido conjuntivo adjacente durante
a reação inflamatória. A heparina tem função anticoagulante, agindo localmente
e, junto com a histamina e a SRL, auxilia a saída dos basófilo do sangue.
A membrana dos basófilos possui receptores para a fração Fc da IgE. A IgE é
produzida em resposta a presença de substâncias alérgicas, sendo que sua ligação
com os antígenos específicos da membrana promove degranulação da célula,
liberando histamina e outras substâncias vasoativas. Como resultado, ocorre uma
reação de hipersensibilidade imediata (anafilática), observada em algumas for-
mas de asma, urticária e anafilaxia.

127
Agranulócitos
No sangue, há dois tipos leucócitos agranulócitos: os monócitos e os linfó-
citos.

Monócitos
Os monócitos são os maiores leucócitos (Fig. 5.3), possuem núcleo irregular
com uma pequena reentrância e citoplasma com numerosos grânulos pequenos e
densos (lisossomos), os quais, devido às suas dimensões, não são visualizados em
microscopia de luz; esse fato fundamenta sua classificação como agranulócito.
Os monócitos são células circulantes que utilizam o sangue como veículo
de transporte. Ao deixarem a medula óssea, onde são produzidos, os monócitos
permanecem no sangue apenas por algumas poucas horas no sangue. Após esse
período, os monócitos atravessam a parede de capilares sanguíneos, ganham o
tecido conjuntivo e dão origem aos macrófagos. O conjunto de células repre-
sentado por precursores da medula óssea, monócitos circulantes e macrófagos
presentes em diversos tecidos, constitui o sistema macrofágico-monocitário
(sistema mononuclear fagocitário, SMF).

Linfócitos
Os linfócitos são as principais células do sistema imunológico; possuem nú-
cleos esféricos, ligeiramente endentados, ocupando quase todo o citoplasma da
célula (Fig. 5.3). Nesse escasso citoplasma, há principalmente polirribossomos
livres e poucas mitocôndrias; porém, eventualmente, podem ser identificados
pequenos lisossomos, com conteúdo denso, que correspondem aos grânulos
azurófilos visualizados em alguns linfócitos.
Existem dois tipos funcionais de linfócitos: os linfócitos T e os linfócitos B.
Os linfócitos B são assim denominados porque foram detectados pela pri-
meira vez ao se estudar a bursa de Fabrício das aves, a qual é um aglomerado
de tecido linfoide localizado abaixo do epitélio que reveste a cloaca das aves.
Atualmente, sabe-se que ambos os linfócitos também podem ser produzidos nos
tecidos linfoides e na medula óssea. Os linfócitos B têm um tempo variável de
vida e, ao alcançarem o tecido conjuntivo, se diferenciam em plasmócitos, os
quais estão envolvidos com a produção de anticorpos.
Os linfócitos T são assim nomeados porque completam a sua maturação no
timo; são de vida longa e participam ativamente dos mecanismos relacionados à
imunidade celular.
Os receptores existentes na superfície do linfócito T são capazes de iden-
tificar antígenos específicos. Assim, ao reconhecer um antígeno, os linfócitos
T interagem com os linfócitos B e estimulam a diferenciação dos linfócitos

128
B em plasmócitos, dando início à produção de anticorpos específicos para
aquele antígeno.
Os principais linfócitos T são linfócitos T citotóxicos, responsáveis pela proteção
à longo prazo do organismo contra alguns vírus, bactérias e células cancerígenas.
Os linfócitos T também são elementos ativos nos eventos que levam à rejeição de
órgãos transplantados.
Também há outros linfócitos T: os linfócitos T auxiliares (também mencionadas
como células T auxiliares), que ativam o linfócito B; e os linfócitos T supressores
(células T supressoras), que inibem a atividade dos linfócitos B.
Os linfócitos que foram ativados devido à estímulos de antígenos específi-
cos, e que não chegam ao final do seu processo de diferenciação, guardam a
“lembrança” do antígeno que os ativou, sendo então denominados células de
memória, as quais permanecem na circulação, garantindo uma resposta rápida e
eficaz em caso de futura exposição àquele antígeno.
Os linfócitos B são responsáveis pela imunidade humoral, enquanto que os
linfócitos T se relacionam com a imunidade celular, isto é, imunidade mediada
célula-a-célula.

Fig. 5.8: Cooperação entre o linfócito T e o linfócito B na defesa imunológica.

Plaquetas
As plaquetas dos mamíferos são corpúsculos ou fragmentos celulares, des-
providas de núcleo, formadas a partir de uma célula gigante residente na medula
óssea, denominada megacariócito. Quando se tornam maduros, ocorre fragmen-
tação do citoplasma dos megacariócitos, resultando na formação das plaquetas,
as quais são lançadas na circulação sanguínea sob a forma de corpúsculos ligei-
ramente arredondados (Fig. 5.9). Contudo, em outros vertebrados não mamíferos,

129
como anfíbios, répteis e aves, as plaquetas possuem núcleo e, por essa razão, são
verdadeiras células, sendo denominadas trombócitos.
As plaquetas não contêm grânulos no seu interior e seu diâmetro médio é de
1,5 a 4µm, com espessura de 0,5 a 1µm. Quando ativadas, as plaquetas intumes-
cem substancialmente, podendo atingir diâmetros que variam de 25 a 50µm.
O homem adulto produz cerca de 1 x 1011 plaquetas por dia, sendo que esse
número pode aumentar dependendo da demanda do organismo.

Fig. 5.9: Formação das plaquetas a partir da fragmentação do citoplasma do


megacariócito.

As plaquetas contém numerosas organelas e grânulos e seu citoplasma pode


ser subdividido em duas regiões: uma mais interna - o granulômero e outra região
mais externa - o hialurômero. No granulômero são visualizadas mitocôndrias,
lisossomos, glicogênio e dois tipos de grânulos limitados por membrana. No hia-
lurômero predominam microfilamentos e microtúbulos.
Sue estrutura interna é bastante complexa e adaptada às funções que exer-
cem. Entretanto, envolvendo as plaquetas existe uma camada rica em glicoprote-
ínas, chamada glicocálice, o qual funciona como receptor para diversos agentes
capazes de ativar as plaquetas. Algumas dessas glicoproteínas são importantes
para as funções de adesividade e agregação plaquetária. Internamente na região
do hialurômero, logo abaixo da membrana plasmática da plaqueta, existe um
conjunto de filamentos especializados próximos de um sistema canalicular. Esses
canalículos penetram no interior das plaquetas, sendo denominado sistema cana-
licular aberto, pois o lúmen mantém contato com o meio extracelular. O sistema
canalicular aumenta a superfície da plaqueta e permite a expulsão de produtos
secretados para o plasma e, ainda, a entrada facilitada de substâncias do plasma
para o interior das plaquetas.
Os microfilamentos de actina e os microtúbulos de miosina contribuem para
a manutenção da forma discoide, além de participar na contração das plaquetas
quando são estimuladas pelo aumento do cálcio no seu interior. Dessa forma, a
contração das plaquetas é o resultado da movimentação dos microfilamentos,
que comprimem as organelas e grânulos citoplasmáticos, liberando seu conteúdo

130
para o plasma. Esse processo representa um sofisticado mecanismo de liberação
de substâncias produzidas pelas plaquetas.
As organelas e os grânulos no interior do citoplasma são de vários tipos,
sendo os principais elementos as mitocôndrias, os grânulos densos e os grânulos
alfa. Os grânulos alfa contêm a beta-tromboglobulina, o fibrinogênio e o fator
plaquetário IV, o qual participa dos fenômenos da coagulação do sangue. Os
grânulos densos representam reservas de difosfato de adenosina (ADP), trifos-
fato de adenosina (ATP), cálcio e serotonina. O sistema tubular denso contém
ciclooxigenase, uma enzima que converte o ácido aracdônico da membrana em
prostaglandinas e em tromboxano A2, que é a substância vasoconstritora mais
potente do organismo, cujo metabólito é o tromboxano B2. A mitocôndria é a
organela responsável pela produção e pelo armazenamento de energia na pla-
queta, onde o ATP é produzido e armazenado. Outros grânulos do citoplasma
contêm diversas enzimas, como a fosfatase ácida, glicuronidase e a catalase no
interior de peroxissomos.
As plaquetas são fundamentais nos processos de interrupção da perda san-
guínea (hemostasia), participando na formação e na retração do coágulo; sua
atuação depende das propriedades de adesão e agregação. A literatura fornece
várias explicações para o mecanismo de agregação e adesão plaquetária e para
a coagulação sanguínea. Como a superfície externa das plaquetas possui cargas
elétricas negativas, iguais às do endotélio dos vasos, tais cargas elétricas tendem
a se repelir. Essa seria a explicação do motivo das plaquetas tenderem a perma-
necer intactas na circulação, sem se aderir ao endotélio. Quando esse equilíbrio
elétrico se rompe, através de lesão do endotélio ou contato com qualquer super-
fície diferente do endotélio vascular, as plaquetas imediatamente aderem a essa
superfície. Essa é a propriedade de adesividade.
Em condições normais, o endotélio intacto também produz certas substâncias
como a prostaciclina e o óxido nítrico (NO), que inibem a agregação plaquetária.
O endotélio também bloqueia a coagulação sanguínea devido à presença da
trombomodulina e de uma substância semelhante à heparina presente na mem-
brana das células endoteliais, tendo em vista que essas substâncias inativam os
fatores específicos da coagulação.
Quando um vaso sanguíneo é seccionado ou sua superfície endotelial é le-
sada ou alterada, as plaquetas se aderem no ponto danificado. O contato com
superfícies não endoteliais faz com que haja o intumescimento das plaquetas e
a formação de diversas projeções da membrana, facilitando a adesão entre as
plaquetas. Como consequência, novas plaquetas próximas são atraídas para se
aderirem ao grupo inicial e, durante esse processo, hemácias e leucócitos
também podem ser aprisionados, formando-se o chamado grumo plaquetário,
que originará o futuro coágulo. Essa é a propriedade de agregação.

131
Existem diversas substâncias que estimulam a agregação das plaquetas,
como: ADP (difosfato de adenosina), adrenalina, vasopressina, serotonina, ácido
aracdônico, tromboxano A2. O ácido aracdônico é formado na membrana da
plaqueta ativada, sendo convertido a tromboxano A2. Algumas dessas substâncias
são liberadas pelas próprias plaquetas para favorecer a agregação das demais.
A ativação das plaquetas também pode ocorrer em resposta a estímulos físicos.
Uma vez ativadas, a sequência de fenômenos (adesividade, aglutinação e for-
mação de grumos) é a mesma qualquer que seja a natureza do estímulo inicial.
O processo de coagulação, que se inicia pela lesão das células endoteliais,
induz a liberação de substâncias (fator de Von Willebrand e tromboplastina tis-
sular) e a interrupção da produção de inibidores da coagulação e da agregação
plaquetária (Fig. 5.9).
A célula endotelial também produz a endotelina, um potente vasoconstrictor
que impede a perda de sangue, por reduzir o calibre do vaso. Assim, as plaque-
tas se aderem ao colágeno subendotelial e, na presença do fator de Willebrand,
liberam o conteúdo de seus grânulos, promovendo a adesão umas com as outras.
Ao conjunto desses eventos denomina-se ativação plaquetária.
A liberação de ADP e de tromboplastina estimula a aderência de plaquetas
circulantes às plaquetas associadas ao colágeno e a degranulação dos grânulos
plaquetários. As plaquetas agregadas formam um pequeno trombo que impede
a saída de sangue do vaso. Tanto a tromboplastina tissular, produzida pelo endo-
télio quanto a tromboplastina plaquetária agem sobre a pró-trombina circulante,
convertendo-a em trombina. Na presença de Ca2+, o fibrinogênio é convertido
em fibrina pela ação da trombina. Nessa malha de fibrina, os elementos figurados
do sangue ficam retidos e esse conjunto forma o coágulo (trombo) (Fig. 5.10).

Fig. 5.10: Sequência de eventos associados à formação do coágulo.

132
A serotonina liberada pelas plaquetas também estimula a adesividade e a
agregação, além de produzir vasodilatação local, acentuando a difusão das pla-
quetas para as regiões onde os grumos serão formados.
Através da liberação dos fatores III e IV, as plaquetas participam das modifi-
cações das proteínas envolvidas da cascata de eventos da coagulação, levando à
formação do coágulo.
Após a formação do coágulo, a actina e a miosina das plaquetas presas nas
malhas de fibrina interagem de modo similar ao do músculo, resultando em con-
tração, retração do coágulo e expulsão do soro (plasma sem fibrinogênio). Esse
processo é conhecido como retração do coágulo, onde as plaquetas tem um
papel fundamental.
Por outro lado, o coágulo pode ser liquefeito (fibrinólise) por uma enzima
proteolítica denominada plasmina. O sangue normal contém plasminogênio, um
precursor inativo da plasmina, sendo que ativadores da conversão do plasmino-
gênio em plasmina são encontrados em diferentes tecidos, no plasma e na urina
(uroquinase).
Existe um grande interesse pelas substâncias capazes de inibir, temporaria-
mente e por curto prazo, a atividade das plaquetas com o objetivo de se impedir a
ativação, adesão e agregação plaquetária. A aspirina e o dipiridamol são substân-
cias com efeito inibidor da agregação no ser humano. Outra substância utilizada
recentemente com essa finalidade é a aprotinina.
A atropina é um polipeptídeo natural, extraído de pulmão de bovino que
apresenta atividade inibidora das enzimas que degradam as proteínas serinapro-
tease, tripsina, plasmina e calicreína. Um dos seus efeitos básicos é a inibição da
fibrinólise. Diversos estudos têm demonstrado que a aprotinina inibe temporária
da adesividade plaquetária, preservando um número maior de plaquetas, prin-
cipalmente durante certos procedimentos de cirurgia cardíaca com circulação
extracorpórea. Contudo, essa substância, além de ser metabolizada muito rapida-
mente no sangue, produz efeitos colaterais, como a hipotensão arterial.

TEMPO DE VIDA DOS ELEMENTOS FIGURADOS

Os elementos figurados do sangue em vida média distinta. As hemácias vi-


vem em média 120 dias, sendo posteriormente fagocitadas pelos macrófagos
residentes no baço e no fígado ou na própria medula óssea. Os granulócitos
podem viver até alguns dias e, após exercerem suas funções no compartimento
extravascular, são fagocitados por macrófagos teciduais. A vida média dos neu-
trófilos é cerca de 6 horas, mas pode chegar a alguns dias. Os eosinófilos, a vida
média é de 8 a 12 dias na corrente sanguínea. Os linfócitos B vivem cerca de 3
a 4 meses, enquanto que os linfócitos T podem permanecer no sangue por cerca

133
de 20 a 30 anos. Já os monócitos podem viver meses ou anos. As plaquetas têm
uma sobrevida média de 10 dias.

GRUPOS SANGUÍNEOS

No plasma sanguíneo também é possível verificar a presença de vários an-


ticorpos que auxiliam na diferenciação dos grupos sanguíneos, produzidos por
determinação genética de cada um dos genótipos.
Em contraposição, na membrana das hemácias há antígenos específicos de-
nominados antígeno A e antígeno B. A presença dos antígenos A e B é deter-
minada por genes que existem em cromossomos adjacentes (um gene em cada
cromossomo), sendo que a presença dos genes das células precursoras das he-
mácias determina o tipo de antígeno que irá conter. Assim, os diferentes tipos de
indivíduos podem ter apenas um dos antígenos, ambos ou nenhum dos antígenos
em suas hemácias (Tabela 5.3).

Tabela 5.3: Grupos sanguíneos: antígenos e anticorpos


Grupo A Grupo B Grupo 0 Grupo AB

Hemácias

Antígeno A Antígeno B Antígeno AB ̶

Plasma
Anticorpo anti-B Anticorpo anti-A ̶ Anticorpo anti-AB
sanguíneo

Os indivíduos do grupo A, possui o antígeno A nas hemácias e anticorpos


anti-B no plasma. Os indivíduos do grupo B têm anticorpos anti-A no plasma. Já
os indivíduos do grupo AB não têm anticorpos. enquanto que os indivíduos do
grupo 0 possuem ambos os anticorpos anti-A e anti-B (ver tabela 5.3).
Os anticorpos no plasma sanguíneo são as gamaglobulinas e a sua maior
parte corresponde a moléculas de imunoglobulinas das frações IgM e IgG, sendo
também chamados aglutininas devido a sua capacidade de reagir com os antí-
genos (aglutinogênios) das hemácias, produzindo aglutinação celular. As aglu-
tininas só começam a ser produzidas após o nascimento, estando totalmente
formadas após os primeiros meses de idade.
Devido à presença desses elementos, simples testes laboratoriais permitem
determinar o grupo sanguíneo dos indivíduos, fator esse que deve ser conside-
rado na doação de sangue. A transfusão de sangue entre indivíduos de grupos
sanguíneos não compatíveis determina reações de aglutinação das hemácias e
outras reações mais severas que podem levar até a morte do indivíduo.

134
Dentre os antígenos conhecidos, dois sistemas ou grupos básicos ocorrem
em todos os indivíduos, estando relacionados às causas das reações de incom-
patibilidade nas transfusões. Esses sistemas são os sistemas de antígenos AB0 e
o sistema de antígenos Rh. O sistema AB0 se refere à presença ou a ausência de
antígenos na membrana das hemácias, os quais são glicolipídeos ou glicoproteí-
nas. O Sistema Rh varia conforme a presença dos antígenos Rh no plasma.
A transfusão de sangue entre diferentes indivíduos é possível, desde que se
respeite a presença dos antígenos e dos anticorpos. Esse fato significa, na prática,
a determinação da compatibilidade entre o sangue doador e o sangue do indi-
víduo receptor. Atualmente, após a doação, o sangue do doador passa por um
processamento, que leva a separação dos seus componentes que são mantidos
sob refrigeração para posterior doação a um receptor.
Na doação de hemácias, o indivíduo do grupo 0, como não possui antígenos
de membrana, é considerado doador universal de hemácias e pode doar hemá-
cias para qualquer indivíduo do mesmo grupo ou para indivíduos dos outros
grupos. O indivíduo do grupo AB é o receptor universal de hemácias (Fig. 5.11),
não doando hemácias, mas apenas recebendo-as.

Fig. 5.11: Relação de compatibilidade na doação de hemácias.

Quando o enfoque é na doação de plasma, o indivíduo do grupo 0 é o re-


ceptor universal de plasma, pois possui no plasma anticorpos anti-A e anti-B, en-
quanto que o indivíduo do grupo AB é o doador universal de plasma (Fig. 5.12).

Fig. 5.12: Relação de compatibilidade na doação de plasma.

Além do grupo sanguíneo AB0, há ainda o fator Rh (fator Rhesus), desco-


berto inicialmente no macaco Rhesus, em 1940. Posteriormente, descobriu-se
que uma certa percentagem de humanos possuía esse fato nas suas hemácias;

135
assim, as pessoas que possuem esse fator são designadas RH-positivo, enquanto
que aquelas que não o possuem são Rh-negativo. As pessoas com Rh-positivo só
podem doar e receber sangue de outro indivíduo Rh-positivo. Já o indivíduo Rh-
-negativo pode doar para um indivíduo Rh-positivo, mas só pode receber plasma
de indivíduo Rh-negativo.
Resumindo, o verdadeiro doador universal de hemácias é o indivíduo do
grupo 0 e Rh-negativo, que pode doar hemácias para qualquer grupo sanguíneo,
com qualquer tipo de fator Rh; enquanto que o verdadeiro doador universal de
plasma é o indivíduo do grupo AB Rh-negativo.
Além desses grupos sanguíneos há outros grupos, como o grupo MN, mas
devem ser estudados em literatura específicas de Hematologia.

Hematopoiese

Hematopoiese, hematopoese ou hemopoiese são termos utilizados para de-


notar a formação (gênese, poiese) dos elementos figurados do sangue (hemo), isto
é, células (leucócitos) e corpúsculos sanguíneos (hemácias e plaquetas).
No embrião, a hematopoiese se inicia por volta do 2o mês do desenvolvimen-
to embrionário e continua por toda a vida do indivíduo. Durante o desenvolvi-
mento intrauterino (fase intrauterínica da hematopoiese), a produção das células
sanguíneas se inicia no mesênquima da parede do saco vitelino e, à medida que
os órgãos se definem estruturalmente, a hematopoiese se estabelece no fígado,
no baço, no timo e finalmente na medula óssea.
O tecido hematopoiético, que é derivado do mesênquima, pode ser
dividido em tecido mieloide, que preenche a medula óssea e em tecido
linfoide, encontrado nos nódulos linfoides, nos linfonodos, nas tonsilas,
no baço e no timo.
O tecido mieloide é responsável pela produção da maioria dos elementos
figurados do sangue, pela produção e destruição de hemácias (hemocaterese) e
pelo armazenamento de ferro.
O tecido linfoide é responsável pela proliferação de linfócitos B e T. Os lin-
fócitos B são produzidos na medula óssea2 e migram para os órgãos linfoides
periféricos, onde proliferam sob estímulo antigênico. Outros linfócitos ainda não
diferenciados ao transitarem pelo timo são ativados e se diferenciam em linfóci-
tos T; assim como os linfócitos B, os linfócitos T ocuparão sítios específicos nos
órgãos linfoides secundários.

2 o termo medula óssea será utilizado para se referir o tecido hematopoiético que ocupa
a medula óssea.

136
A hematopoiese ocorre em vários compartimentos e subcompartimentos e
compreende uma sequência de eventos com estádios definidos na maturação dos
elementos figurados do sangue.
Nos compartimentos mitóticos notam-se células jovens em ativa mitose, en-
quanto que nos compartimentos pós-mitóticos (ou de distribuição) as células
maduras não sofrem mais divisão celular.
A maioria das células sanguíneas tem vida relativamente curta e são incapa-
zes de se dividirem, precisando ser renovadas.
O tempo de geração para um determinado tipo celular é igual em sucessivos
compartimentos, havendo uma correlação entre o compartimento de produção e
o compartimento de distribuição; ou seja, a circulação dos elementos figurados
no sangue reflete a sua produção medular.

Fases da Hematopoiese

Considerando as fases de formação dos elementos figurados do sangue, a he-


matopoiese pode ser dividida em fase pré-natal e fase pós-natal. Ambas as fases
podem ocorre em órgãos linfoides, no fígado (hematopoiese extramedular) e na
medula óssea vermelha (hematopoiese medular).

Fase extramedular da hematopoiese


A formação dos vasos sanguíneos (angiogênese) ocorre durante a 3a semana
da vida embrionária. Os angioblastos, células formadoras de vasos sanguíneos
derivadas das células mesenquimais, se agregam e formam grupos de células – as
ilhotas sanguíneas no mesênquima intraembrionário do saco vitelino (fase meso-
blástica ou pré-hepática ou primordial).
No interior dessas ilhotas sanguíneas, formam-se pequenos espaços que
confluem para formar pequenas cavidades. Os angioblastos, localizados mais
externamente e voltados para a cavidade, se achatam e originam as células
endoteliais. As cavidades com revestimento de células endoteliais se fundem,
formando os primórdios dos vasos sanguíneos.
Ao final da 3a semana, as primeiras células sanguíneas (hemocitoblastos) se
formam a partir das células endoteliais, sendo consideradas as primeiras células-
-tronco hemopoiéticas.
No final do 1o mês, o embrião possui um sistema vascular e um coração
rudimentar; porém, nesse período o sangue ainda não contém nem leucócitos
nem plaquetas. Na fase mesoblástica da hematopoiese quase todas as células
formadas são eritrócitos nucleados.

137
Fig. 5.13: Formação dos vasos sanguíneos e dos elementos figurados do sangue no
mesênquima.

Durante o 2o mês de vida, algumas células migram para o fígado, o qual


passa a ser o principal local de formação eritropoiética fetal (fase hepática da he-
matopoiese: do 2o ao 6o mês). Também nesse período, os leucócitos granulócitos
e os megacariócitos também surgem ao longo dos sinusoides do fígado.
A partir do 3o mês, além do fígado, os linfonodos, o timo e o baço também
passam a contribuir para a formação dos elementos figurados do sangue (fase
hepato-esplênica-tímica da hematopoiese).
Por volta da 4a e 5a semana, com o aparecimento dos centros de ossificação
no molde de cartilagem dos futuros ossos longos, a fase medular-linfoide (ou
definitiva) tem seu início e essa fase se sobrepõe à fase anteriormente citada. A
clavícula é o primeiro osso a revelar atividade hemopoiética e a sua medula se
torna ativa entre o 2o e o 3o mês de vida fetal; mas essa atividade se torna bastan-
te significativa no 4o mês de vida intrauterínica. A hematopoiese no fígado e no
baço diminui à medida que a medula óssea se estabelece e elabora a maior parte
dos elementos figurados do sangue.
Nos vertebrados não-mamíferos, outros órgãos também revelam atividade
hematopoiética. Por exemplo, o baço e a Bursa de Fabricius das aves (um diver-
tículo que se estende dorsalmente a partir da cloaca e que produz linfócitos B),
o baço, os rins dos e o fígado dos teleósteos, o fígado e os rins (eritropoiese) dos
anfíbios e o fígado dos répteis (granulopoiese).

Fase medular da hematopoiese


No homem, por volta do 5a mês do período fetal, com o início da formação
dos ossos, a medula ósseas se torna importante fonte de geração dos elementos
sanguíneos. Nesse momento, a medula óssea fetal inicia a produção dos leucóci-
tos (granulopoiese) e das plaquetas (megacariopoiese), enquanto que a produção
de hemácias pela medula óssea só se inicia por volta do 7o mês. Assim, a fase
medular se inicia no 6o mês e se propaga até a idade adulta. Na puberdade, os

138
principais ossos que apresentam medula hematogênica (medula óssea vermelha)
são os ossos da base do crânio, o esterno, as vértebras, os ossos ílio, as costelas,
as cabeças dos ossos úmero e fêmur. Contudo, 50% das cavidades ósseas são
ocupados por medula óssea amarela, isto é, não hematogênica.
A medula óssea pode ser considerada um órgão constituído por diferentes
tecidos e encontra-se dividida em compartimentos: o compartimento vascular
(representada pelas artérias, veias e capilares do tipo sinusoide) e o comparti-
mento hematopoiético (formado pelo estroma de tecido reticular e células livres,
além de células adiposas).
Distinguem-se dois tipos de medula óssea: a medula óssea amarela, consti-
tuída principalmente por tecido adiposo, e a medula óssea vermelha, ativa na
hematopoiese.
A medula óssea vermelha é formada por material com consistência
semelhante a uma geleia e ocupa espaços entre as trabéculas ósseas do osso
esponjoso. Os elementos hematopoiéticos da medula óssea vermelha são sus-
tentados por rede de fibrilas colagenosas (fibras reticulares) e células reticulares.
A vascularização da medula óssea é feita por uma artéria nutridora principal e
arteríolas terminais e, na medula, o sangue circula dentro de capilares sinusoides
que se dirigem a um sinusoide central que apresenta uma lâmina basal permeável
e células reticulares adventiciais. As células precursoras dos elementos figurados
do sangue repousam sobre os prolongamentos das células adventiciais, que
formam uma fina malha.
Na organização tecidual da medula óssea se observam células da linhagem
eritrocítica (ilhotas eritroblásticas), as quais ocupam os espaços centrais da
medula e circundam um macrófago (histiócito) central – a célula auxiliar. Essa
célula auxiliar fagocita o material nuclear extrusado pelos normoblastos em
maturação, reciclando o ferro necessário a estabilização da hemoglobina. As
células das linhagens leucocíticas (granulocítica, monocítica, linfocítica) têm
uma distribuição mais difusa e sua produção se inicia em locais próximos ao
tecido ósseo, no limite entre o osso recém-formado e o tecido medular (jun-
ção osteoide-medula), enquanto que a linhagem megacariocítica se desenvolve
próximo aos sinusoides, o que facilita a liberação das plaquetas diretamente na
corrente sanguínea.
O primeiro grupo de animais a possuir medula óssea e apresentar tecido
mieloide envolvido com a produção de células leucocíticas foi os anuros (sapos,
rãs e pererecas) e, posteriormente, os amniotas (répteis, aves e mamíferos), cujo
tecido mieloide atua tanto na granulopoiese quanto na eritropoiese.
No adulto, se algum estresse afetar o componente medular, a hematopoiese
extramedular poderá ser ativada como um mecanismo compensatório.

139
TEORIAS DA HEMATOPOIESE

Existem três teorias para explicar a hematopoiese. A Teoria Monofilética é


a mais aceita e admite a existência de um precursor mais jovem, capaz de se
diferenciar em qualquer tipo de elemento figurado do sangue, isto é, uma célula-
-tronco (ou célula-fonte, “stem cell” em inglês) comum, o hemocitoblasto.
A Teoria Difilética ou Polifilética Dualista admite a existência de dois tipos
de células precursoras: um leucócito primitivo capaz de produzir granulócitos
(linfócitos e monócitos); e uma célula endotelial primitiva que reveste os sinusoi-
des colapsados, capaz de produzir hemácias e megacariócitos.
A Teoria Polifilética ou Polifilética Completa reconhece uma célula-tronco
capaz de autorreplicação e/ou diferenciação; porém, essa célula-tronco é fisiolo-
gicamente diferente para cada tipo de elemento figurado.
Com base na Teoria Monofilética, as ilhotas de células sanguíneas em for-
mação (CFU= unidades formadoras de colônias) e em diferenciação podem ser
agrupadas em categorias gerais: a Célula-tronco (célula-fonte ou stem cell, do
inglês) pluripotencial ou totipotencial.
A célula-tronco (hemocitoblasto) se localiza na medula óssea e tem a capa-
cidade de se diferenciar em qualquer tipo de elemento figurado do sangue. Nos
humanos adultos, a primeira célula-tronco reportada foi a hematopoiética (HSC,
Hematopoietic stem cell = célula-tronco hematopoiética). Essa célula se asse-
melha aos grandes linfócitos, possuindo núcleo indiferenciado com cromatina
densa e citoplasma basófilo devido à presença de muitos ribossomos.
O hemocitoblasto tem vida longa e possui capacidade de autorrenovação
ilimitada ou prolongada, de extensiva proliferação por divisão mitótica e é capaz
de originar células-tronco semelhantes (PHSC, Pluripotente Hematopoietic Stem
Cell = célula-tronco hematopoiética pluripotentes). O hemocitoblasto garante a
sua própria manutenção, além de originar células multipotenciais (MHSC, Multi-
potente Hematopoietic Stem Cell = células-tronco hemopoiéticas multipotentes),
fonte dos elementos figurados do sangue. Atualmente, reconhece-se a existên-
cia de uma célula-tronco estromal na medula óssea, com potencialidade para
originar células musculares estriadas esqueléticas, células musculares cardíacas,
células epiteliais do revestimento cutâneo e células neuronais e gliais.
Há duas populações de células hematopoiéticas multipotentes (MHSC): cé-
lulas que formam a unidade formadora de colônia no baço (CFU-S, colony for-
ming unit of Splenic) e células que formam a unidade formadora de colônia
linfoide (CFU-L, Linfoid Colony Forming Unit).
As células CFU-S são as células precursoras das células mieloides, isto é,
precursoras das hemácias, granulócitos, monócitos e plaquetas, enquanto que as

140
células CFU-L são as células precursoras das células linfoides, isto é, dos linfóci-
tos T e B (Fig. 5.14).

Fig. 5.14: Diferenciação dos elementos figurados do sangue a partir das células-tronco.

Células progenitoras restritas


O destino dos vários progenitores celulares é restrito e as células progenitoras
restritas não são autorrenováveis, formando-se células progenitoras da linhagem
mieloide (CFU-HC) e células progenitoras da linhagem linfoide (CFU-L). Após
estabelecidas, surgem as células progenitoras unipotentes ou bipotentes e, fi-
nalmente, as células precursoras específicas, as quais são as primeiras células
a apresentar morfologia distinta para cada célula sanguínea (eritroblasto, me-
gacarioblasto, monoblasto, pró-mielócito). A proliferação e a diferenciação das
células progenitoras restritas está sob controle de fatores reguladores específicos
para cada linhagem celular.

Elementos figurados
Nos mamíferos, os elementos figurados do sangue incluem células madu-
ras, representadas pelos granulócitos (neutrófilos, eosinófilos e basófilos), pelos
agranulócitos (monócitos e linfócitos), e os elementos anucleados (hemácias e
plaquetas). Nos vertebrados não-mamíferos, as hemácias e as plaquetas são
verdadeiras células possuidoras de núcleo, sendo designados eritrócitos e
trombócitos, respectivamente.

Citocinas Hematopoiéticas
As citocinas são fatores solúveis de pequeno peso molecular, liberadas por
células, que atuam na comunicação celular. As citocinas influenciam a função
de outras células através de receptores específicos de superfície, cuja produção é
regulada e não constitutiva. Cada citocina produz vários efeitos em diferentes
células, sendo essa propriedade denominada pleiotropia. As citocinas também

141
podem agir em conjunto para alcançar um efeito maior do que o efeito quando cada
citocina agem individualmente; essa propriedade é conhecida como sinergismo.
As citocinas também podem atuar de forma autócrina, parácrina ou mesmo
endócrina, podendo também induzir a liberação de outras citocinas.
Após a ligação da citocina com o seu receptor na superfície de uma célula,
o conjunto (citocina-receptor) é internalizado e a internalização do complexo
receptor-citocina atua como um mecanismo de feedback. Existe uma rede mul-
tigênica de citocinas incluindo os reguladores positivos (CSF, cell stimulating
factor = fator estimulador de colônia), as interleucinas (IL, interleukin) e os regu-
ladores negativos (TGF, tumoral growth factor = fator de crescimento tumoral).
As citocinas hemopoiéticas ou linfopoiéticas foram quimicamente identifica-
das e seus genes clonados e sequenciados, sendo que a sua maioria é produzida
por células do estroma medular, como as células endoteliais, os fibroblastos, os
macrófagos, os linfócitos T ativados e pelo mesângio extraglomerular peritubular
no rim (eritropoetina).

LINHAGENS HEMATOPOIÉTICAS

Eritropoiese
A eritropoiese é o termo utilizado para se referir à formação das hemácias
(ou eritrócitos, nos animais não-mamíferos) e depende da adequada captura de
proteínas, carboidratos, lipídeos, sais minerais e vitaminas, sendo o ferro, o ácido
fólico e a vitamina B12 elementos importantes.
No homem adulto, a eritropoiese ocorre exclusivamente na medula óssea.
Durante esse processo, verifica-se redução do tamanho das células, redução da
basofilia citoplasmática (devido à redução de ribossomos livres) e aumento da
acidofilia (face à síntese de hemoglobina), associada à condensação da cromatina
e eventual perda de material nuclear e organelas, além da perda da capacidade
de proliferação.
As células-tronco pluripotenciais precursoras das hemácias apresentam dois
tipos de células progenitoras unipotenciais: a BFU-E (burst-forming units of
Erythrocytes = unidade formadora por explosão de eritrócitos) e a CFU-E (cell
forming units of Erythrocytes = unidades formadoras de colônias de eritrócitos),
que necessitam da presença de fatores de crescimento para a sua proliferação e
diferenciação.
Os progenitores finais e os precursores celulares das hemácias são estimulados
pelo hormônio eritropoetina, a qual é uma glicoproteína produzida e liberada
por células do aparelho justaglomerulares nos rins que estimula a remoção de
hemácias envelhecidas e a diferenciação dos precursores em hemácias.

142
A diferenciação e maturação da linhagem eritrocítica (também designada
eritroide) necessita cerca de 6 dias; mas, sob estresse, a medula pode reduzir esse
tempo para 2 ou 3 dias.

Estádios da Eritropoiese
Ao longo do processo de diferenciação, as células progenitoras das hemácias
passam por modificações morfológicas que caracterizam os diferentes tipos ce-
lulares (Fig. 5.15).

Pró-eritroblasto: é uma célula grande (14-20µm de diâmetro) com núcleo esféri-


co e volumoso com cromatina frouxa e uniformemente distribuída. O pró-eritro-
blasto contém dois ou mais nucléolos proeminentes e a basofilia citoplasmática
é evidente em face da riqueza de ribossomos livres.

Eritroblasto basófilo: é uma célula um pouco menor (10-18µm de diâmetro);


possui núcleo esférico e relativamente pequeno com cromatina densa, não sendo
evidente o nucléolo. Apesar da síntese de hemoglobina ter iniciado a basofilia
citoplasmática ainda é observada.

Eritroblasto policromatófilo: é uma célula com 8-15µm de diâmetro; possui um


núcleo esférico com cromatina mais densa que ocupa cerca de 50-60% da área
celular. No citoplasma dessas células se observam áreas basófilas (devido aos
ribossomos) e áreas acidófilas devido à produção de hemoglobina.

Nesses três primeiros estágios, as células são capazes de proliferar, enquanto


que nos próximos estádios as células apenas se diferenciam.

Fig. 5.15: Estádios da eritropoiese.

143
Eritroblasto ortocromático, Eritroblasto acidófilo ou Normoblasto: é uma célula
com 8-12µm de diâmetro. O núcleo é pequeno com heterocromatina em flocos
grosseiros, sendo intensamente corado; nota-se acentuada acidofilia citoplasmá-
tica com traços de basofilia. Nesse estádio ocorre a extrusão nuclear.

Reticulócito (Eritrócito policromatófilo): é um corpúsculo com 8-9µm de diâ-


metro, anucleado, exibindo acidofilia citoplasmática, além de alguma basofilia
remanescente devido à presença de ribossomos residuais. O reticulócito perma-
nece na medula óssea cerca de 3 dias até a sua maturação e sua sobrevida na
circulação é cerca de um dia, ocorrendo de 1 a 2% no sangue periférico.

Hemácia: Nos humanos, como na maioria dos mamíferos, as hemácias são cor-
púsculos bicôncavos anucleados de 7,3-8µm de diâmetro, de citoplasma intensa-
mente acidófilo apresentando uma área central pálida. Nos vertebrados não-ma-
míferos, são nucleados e denominados eritrócitos, exibindo de forma discoide ou
elíptica com dimensões entre 2,5µm e 8µm de diâmetro.

Granulopoiese
Granulopoiese se refere à formação de células das linhagens granulo-
cítica. Durante esse processo, ocorre redução relativa das dimensões das
células,acompanhado por um aumento da condensação e alteração da forma e
lobulação do núcleo. No citoplasma há acúmulo de grânulos específicos e redu-
ção relativa de grânulos azurófilos, os quais são destacados pelas colorações a
base da mistura de Romanowsky.
Os precursores se sucedem num processo de maturação, que dura cerca de 14
ou mais dias e apresentam mecanismo de feedback negativo, capaz de regular a li-
beração de granulócitos na medula, que pode envolver o hormônio leucopoietina.
À medida que a granulopoiese progride, nos precursores granulocíticos se
verifica condensação nuclear e atrofia nucleolar com segmentação do núcleo e
síntese de grânulos citoplasmáticos. Os grânulos primários, azurófilos ou não es-
pecíficos (com cerca de 1µm de diâmetro) contém hidrolases ácidas semelhantes
aos lisossomos, mieloperoxidase (enzima que media a morte de microrganismos
oxigênio-dependentes) e defensinas, uma família de proteínas catiônicas que
mediam a morte de microrganismos não dependentes de oxigênio. Os grânulos
secundários ou específicos (0,5µm de diâmetro) contêm receptores de adesão,
receptores quimiotáticos e receptores do complemento.
O conteúdo dos grânulos varia de acordo com o tipo celular, podendo conter
grânulos de gelatinase (uma enzima colagenolítica) e vesículas de secreção (com
fosfatase alcalina, receptores para peptídeos quimiotáticos, proteínas de adesão
Mac-1). Em resposta a um processo inflamatório, os grânulos de gelatinase e as

144
vesículas secretoras se fundem à membrana plasmática, seu conteúdo liberado
ou pelo menos exposto ao meio externo e a enzima atua em elementos da matriz
extracelular. Durante os processos que envolvem a fagocitose, o conteúdo dos
grânulos azurófilos e dos grânulos específicos são exocitados.

Estádios da Granulopoise
A célula precursora passa por diferentes estádios de diferenciação (Fig. 5.16).

Fig. 5.16: Células da linhagem granulocítica.

Mieloblasto: é uma célula esférica (15-21µm de diâmetro), com núcleo esférico,


2 ou mais nucléolos e com delicada rede de cromatina que ocupa a maior parte
da célula, que se cora no tom de azul-avermelhado e. O citoplasma é desprovido
de grânulos, corando-se em azul pálido.

Pró-mielócito: apresenta dimensões próximas ao do mieloblasto, variando de


esférica à oval (18-30µm de diâmetro) com núcleo oval ou reniforme, nucléolo
ainda visível e cromatina condensada. O citoplasma é mais abundante e apresen-
ta alguns grânulos azurófilos (grânulos primários de 0,1 a 0,25µm de diâmetro).

Mielócito: é uma célula com 16-25µm de diâmetro, com núcleo oval ou acha-
tado em uma face, que ocupa cerca de 50% da célula, com cromatina densa
em grumos que se coram em púrpura-avermelhada. O citoplasma se apresenta
cinza-azulado pálido e encontra-se repleto por grânulos específicos (grânulos
secundários: neutrófilos, eosinófilos ou basófilos).

Metamielócito (neutrófilo, eosinófilo e basófilo): é uma célula de 10-16µm de


diâmetro com núcleo reniforme (endentado) ou oval, a cromatina grosseira e

145
densamente compactada, embora o nucléolo seja ausente. Os grânulos específi-
cos predominam no citoplasma.

Formas em bastão ou em bastonete (neutrófilo, eosinófilo e basófilo): são célu-


las ligeiramente menores (10-15m de diâmetro) com núcleo em forma de “U”,
curvado ou enrolado exibindo grosseiros grumos de cromatina. O citoplasma é
preenchido por grânulos específicos.

Formas segmentadas ou granulócitos maduros (neutrófilos, eosinófilos e basófilos):


a forma funcional de cada célula (com 8-15µm de diâmetro) contém núcleo único
que pode apresentar 2-5 lobulações interligadas por filamentos de cromatina.
O citoplasma encontra-se repleto de grânulos específicos.
Neutrófilo: o núcleo é polissegmentado, com citoplasma cinza-rosado de-
vido à presença de grânulos específicos extremamente pequenos e de difícil
individualização ao microscópio de luz;
Eosinófilo: apresenta 2-3 lóbulos nucleares, com citoplasma alaranjado
brilhante devido à riqueza de grandes grânulos acidófilos;
Basófilo: com 2-3 lóbulos nucleares e citoplasma púrpuro-azulado face aos
grandes grânulos basófilos.

Os neutrófilos são os granulócitos mais abundantes e se localizam em di-


versos compartimentos anatômicos e funcionais denominados compartimento
de formação, compartimento de reserva, compartimento circulante e compar-
timento marginal.
O compartimento medular de formação é o local onde novos neutrófilos
são produzidos e sofrem maturação, enquanto que o compartimento medular
de reserva contém células maduras que são mantidas por intervalos de tempo
variável antes de ganharem a circulação periférica. O compartimento circulante
é representado pelos neutrófilos suspensos no sangue periférico e o comparti-
mento marginal representado pelos neutrófilos que, apesar de se encontrarem na
corrente sanguínea, praticamente não circulam, mas encontram-se aderidos ao
endotélio do capilar sanguíneo.

Monocitopoiese
O termo monocitopoiese se refere à formação de células da linhagem mo-
nocítica (Fig. 5.13). Os monócitos são células derivadas de células-tronco bipo-
tenciais restritas (CFU-NM, colony forming unity = unidades formadoras de
colônias de neutrófilos e monócitos), do mesmo conjunto dos neutrófilos. Os
precursores dos monócitos (monoblastos, pró-monócitos) são estimulados pelo
CSF-M (colony stimulating factor = fator estimulante de colônias de monócitos)
e não ocorrem normalmente na medula óssea. Em condições especiais, como em

146
culturas de células, os monoblastos e os pró-monócitos podem ser reconhecidos
através do uso de marcadores de proliferação.
A monocitopoiese dura cerca de 55 horas e, durante esse tempo, notam-se
algumas modificações das células, como a redução de volume e a formação da
endentação nuclear, ocorrendo ainda intensa formação de grânulos azurófilos
(lisossomos). A célula madura é capaz de proliferar quando exposta aos fatores de
crescimento; mas, aparentemente, essa proliferação não contribui para aumento
significativo da população tecidual em condições fisiológicas.

Estádios da Monocitopoiese
As células passam por diversos estádios de diferenciação (Fig. 5.17), revelando
diferentes morfologias que estão listadas abaixo.

Monoblasto: é de difícil caracterização na medula óssea e sua existência ainda é


um assunto controverso.

Pró-monócito: apresenta cerca de 20µm de diâmetro, núcleo com cromatina


frouxa e o citoplasma basófilo.

Monócito: é uma célula grande com 10-20µm de diâmetro, com núcleo em for-
ma de ferradura ou de rim e cromatina uniformemente distribuída, mas menos
densa quando comparada com a disposição da cromatina no núcleo do linfócito;
o nucléolo não é visível. O citoplasma é abundante e de coloração cinza-azulado
pálido, com numerosos e delicados grânulos azurófilos (lisossomos).

Fig. 5.18: Células da linhagem monocítica.

Linfocitopoiese
Linfocitopoiese é a formação de células da linhagem linfocítica (linfócitos).
Os linfócitos se originam nos órgãos linfoides a partir de células provenientes da
medula óssea (célula-tronco multipotencial), as quais originam células progenito-
ras: os progenitores CFU-TL (originam os linfócitos T: T1 e T2), CFU-TB (originam

147
os linfócitos B) e CFU-NK (originam as células “natural killer”, capazes de lisar
células infectadas por vírus e células tumorais).
O linfoblasto é a maior célula da linhagem linfocítica, com citoplasma basó-
filo sem granulações azurófilas. As citocinas IL-1 regulam os linfócitos T e, nesse
processo, as evidências morfológicas para a diferenciação dessa célula não são
marcantes, mas ocorre redução do tamanho do núcleo e condensação da cromati-
na nuclear. A inversão na relação núcleo-citoplasma torna o núcleo proeminente
e o citoplasma se resume a um delgado halo em torno do núcleo. Não se observa
distinção morfológica entre o linfócito T e o linfócito B.
A formação, a diferenciação e a maturação dos linfócitos B ocorrem na medula
óssea, enquanto que a diferenciação e a maturação de linfócitos T se realizam no
timo; posteriormente, as células migram para órgãos linfoides secundários como
o baço, os linfonodos, os nódulos isolados e, nas aves, para a bursa de Fabricius.
Nos mamíferos adultos, a grande maioria dos linfócitos é provenientes de lin-
fócitos preexistentes no interior do tecido linfoide, os quais respondem à invasão
de antígenos estranhos.

Estádios da Linfopoiese
Até se formar o linfócito maduro, a célula precursora passa por estádios que
são morfologicamente caracterizados como linfoblastos, pró-linfócitos e linfócitos.
O linfoblasto é a maior célula da linhagem, enquanto que o pró-linfócito é menor,
mas ainda maior que os linfócitos.
Os linfócitos podem ser de dois tipos: linfócito não ativado e linfócito ativado.
O linfócito não-ativado possuem núcleo esférico, oval ou levemente endentado
com cromatina densa e nucléolo raramente distinto; o citoplasma é de coloração
azul-pálida e translúcida pode conter grânulos azurófilos (púrpura). O linfócito
não-ativado pode ser observado como um pequeno linfócito de 7,3-10µm de
diâmetro com citoplasma muito escasso, visível apenas como um delegado anel
periférico ao redor do núcleo. O linfócito médio ou o linfócito grande apresenta
10-14µm de diâmetro e o citoplasma é abundante.
O linfócito ativado ou reativo é pouco frequente em pessoas sadias, mas
ocasionalmente pode ser observado como uma célula volumosa (10-20µm de
diâmetro). O núcleo apresenta cromatina frouxa de aspecto reticulado e o cito-
plasma exibe intensa basofilia (devido ao retículo endoplasmático rugoso bem
desenvolvido).

Megacariocitopoiese ou Trombopoiese
A megacariocitopoiese se refere à formação de células da linhagem megacario-
cítica ou trombocítica. Os progenitores da linhagem são BFU-Mk (burst-forming

148
units of Megakariocytes = unidade de formação por explosão de megacariócitos)
e CFU-Mk (cell forming units of Megakariocytes = unidades formadoras de
colônias para megacariócitos) e são regulados pela citocina trombopoietina.
Nesse processo, a maturação das células ocorre geralmente após completa am-
plificação (Mk-1), que é representada marcadamente pela lobulação nuclear.
Não há correlação entre o número de lóbulos e a ploidia, nem há clara distin-
ção entre o tamanho e a maturação celular, podendo as células 8n, 16n, 32n
formar plaquetas.

Estádios da Trombopoiese
Os precursores das plaquetas seguem o seguinte estadiamento:

Megacarioblasto: não é usualmente encontrado; é uma célula com 15-30µm de


diâmetro, núcleo único com delicado padrão cromatínico e diversos nucléolos;
o citoplasma é basófilo e de aspecto vítreo.

Megacariócito basófilo, Megacariócito linfoide, Mk 1 ou Pró-megacariócito: re-


presenta 15% das células do total, sendo células gigantes poliploides (4n-64n)
com 20-40µm de diâmetro capaz de sofrer múltiplas divisões mitóticas sem divisão
citoplasmática (endomitose). O núcleo é bilobulado com nucléolos visíveis; o
citoplasma é basófilo claro de difusa aparência granular devido à grande número
de ribossomos e o número de centríolos corresponde à ploidia celular.

Megacariócito granuloso ou Mk 2: 65% das células são gigantes com 50-80µm


de diâmetro, apresentando núcleo endentado de forma irregular com 4 a 16 lo-
bulações; a cromatina densa é periférica com nucléolos pequenos. O citoplasma
exibe granulações secundárias vermelho-vinhosa devido à redução do número
de ribossomos. Invaginações da membrana plasmática na periferia celular podem
ser visualizadas.

Megacariócito formador de plaquetas, Mk 3 ou Megacariócito maduro:


representa 20% das células com 50-100m de diâmetro, com núcleo denso de
pequena dimensões, revelando complexa lobulação nuclear (8 à16 lóbulos). Há
uma evidente demarcação do sistema membranar, onde invaginações da mem-
brana do megacariócito formam delicados canais, os quais são preenchidos por
glicoproteínas com aspecto granular. Esses canais se anastomosam e dividem o
citoplasma em territórios citoplasmáticos, tendo como resultado a fragmentação
que ocorre ao longo desses canais, com eliminação de material citoplasmático
sob a forma de plaquetas. No citoplasma há abundantes monômeros de tubulina
e actina-miosina, na proporção de 100:1 de actina/miosina.
O megacariócito libera suas plaquetas dentro de poucas horas (menos de 12
horas). A célula se aproxima do sinusoide central, alinha-se ao endotélio e emite

149
expansões citoplasmáticas em fita que representam plaquetas conectadas, sendo
lançadas individualizadas no interior da corrente sanguínea.
A fase final da trombopoiese ocorre em íntima associação com o endotélio
dos vasos sanguíneos da medula óssea.

Plaqueta: corpúsculo com diâmetro que varia de 2,5 a 4µm, anucleado nos mamíferos,
contendo grânulos azurófilos e grânulos secundários. Os grânulos secundários
podem ser: grânulos alfa (fatores de coagulação e fator mitogênico), grânulos
beta (serotonina, um potente vasoconstritor) ou grânulos denso (ADP e cálcio).
Em condições normais, o baço acumula 1/3 do total de plaquetas do sangue.
Ressalte-se que trombócito é a denominação conferida às plaquetas nucleadas
dos vertebrados não mamíferos, por serem verdadeiras células, isto é, apresenta-
rem núcleo.

150
6
Tecido Cartilaginoso

O tecido cartilaginoso, ou simplesmente designada cartilagem, é uma


variedade de tecido conjuntivo com consistência firme, mas flexível, capaz de
absorver e de resistir à compressão. A flexibilidade e a resistência à compressão
permitem que a cartilagem atue na absorção de choques mecânicos.
A cartilagem desempenha várias funções, tais como: 1) sustentar tecidos mo-
les, como no septo nasal, na orelha, na traqueia; 2) revestir superfícies articulares,
facilitando a sua movimentação e; 3) proporcionar a formação e o crescimento
dos ossos longos. O tecido cartilaginoso também participa na sustentação do
corpo do embrião no início do desenvolvimento, funcionando como um tecido
esquelético.
O tecido cartilaginoso maduro é constituído por células, imersas em uma
matriz cartilaginosa abundante, que não apresenta nem vascularização nem
inervação própria.
A nutrição do tecido cartilaginoso ocorre a partir de capilares sanguíneos
presentes no tecido conjuntivo denso que envolve a peça de cartilagem, denomi-
nado pericôndrio. Em alguns locais, onde o tecido cartilaginoso não se apresenta
envolvido pelo pericôndrio, como nas articulações, sua nutrição é realizada
através do líquido sinovial.

Células cartilaginosas

As diversas células do tecido cartilaginoso têm sua origem na vida embrio-


nária a partir das células mesenquimais presentes no mesênquima. Essas células

151
passam por processos de proliferação e diferenciação até constituir as células
maduras da cartilagem, os condrócitos (ver histogênese adiante).
Durante o processo de diferenciação das células cartilaginosas, vários fato-
res estão envolvidos, como as proteínas produzidas sob influência dos genes
hedgehog (sonic e indian hedgehog), as proteínas morfogenéticas ósseas (BMP,
bone morphogenic proteins) e o fator de transcrição Sox9.
As BMP são expressas durante a formação do esqueleto e atuam na diferen-
ciação dos condrócitos e dos osteoblastos. Na diferenciação dos condrócitos, a
BMP-2 é a mais atuante e induz a expressão de Sox9, o qual é o fator necessário
para a diferenciação de condrócitos e para a expressão de vários genes dos
condrócitos envolvidos na produção de elementos da matriz extracelular, como
a cadeia alfa 1 do colágeno do tipo II e o agrecano.

Células condrogênicas
As células condrogênicas são células fusiformes, com núcleo alongado e
cromatina frouxa, localizadas na camada celular mais interna do pericôndrio
(Fig. 6.1), e exibem potencialidade para se diferenciar em condroblastos, bem
como em células osteoprogenitoras (ver ossificação).
No pericôndrio, as células condrogênicas originam os condroblastos, os
quais sintetizam a matriz cartilaginosa, aumentando a peça de cartilagem em es-
pessura, sendo responsáveis pelo crescimento aposicional, onde novas camadas
de cartilagem são adicionadas à peça preexistente.

Condroblastos
Os condroblastos são células arredondadas com projeções que aumentam a
sua interação com o meio extracelular, Seu núcleo apresenta cromatina frouxa
e o citoplasma é relativamente abundante, rico em retículo endoplasmático
rugoso, responsável pela leve basofilia citoplasmática.
Os condroblastos se localizam próximos à superfície da peça de cartilagem,
entre o pericôndrio e a peça de cartilagem propriamente dita (Fig. 6.1); revela
capacidade mitótica, sendo ativas na síntese da matriz cartilaginosa, sendo os
precursores dos condrócitos.

Condrócitos
Os condrócitos na cartilagem madura se localizam no interior da matriz em
pequenas lacunas e estão ativamente envolvidos com a síntese e a renovação dos
elementos da matriz cartilaginosa (Fig. 6.1).
Os condrócitos localizados mais próximos à periferia da peça cartilaginosa
tendem a ser ovoides, enquanto que aqueles localizados na porção mais profunda

152
são esféricos, com um diâmetro que varia de 10 a 30µm. Eles exibem núcleo
grande com nucléolo bem evidente e suas organelas são típicas de uma célula
secretora de proteínas, isto é, apresentam muitas mitocôndrias, retículo endo-
plasmático rugoso e complexo de Golgi bem desenvolvidos.
Os condrócitos podem se organizar em pequenos grupos denominados
grupos isogênicos, pois têm sua origem a partir de uma única célula precursora
(condroblasto).Tais grupos podem assumir o aspecto de ninhos celulares, for-
mando os grupos isogênicos coronários, ou se organizar em fileiras constituindo
os grupos isogênicos axiais. Os condrócitos, mesmo organizados em pequenos
grupos, não formam junções intercelulares entre si e se encontram circundados
pela matriz cartilaginosa, que eles mesmos produzem.

Matriz Cartilaginosa

A matriz cartilaginosa é constituída por proteoglicanos (glicosaminoglicanos


associados à proteínas, ver tecido conjuntivo propriamente dito), intimamente
associados aos elementos fibrilares como o colágeno do tipo II, colágeno do tipo
I, mas também os colágenos do tipo IX, X e XI, dentre outros elementos fibrilares,
como as fibras elásticas. O elemento predominante e a sua quantidade variam de
acordo com o tipo de cartilagem. Na matriz cartilaginosa há reciclagem constan-
te dos proteoglicanos, os quais se modificam em função da idade do indivíduo.
Tanto os hormônios quanto as vitaminas também influenciam o crescimento, o
desenvolvimento e a função da cartilagem.
Na matriz cartilaginosa também ocorre a condronectina, uma glicoproteína
de adesão semelhante à molécula da fibronectina, que possui sítios de ligação
para o colágeno do tipo II, para o condroitinsulfato-4 (condroitinsulfato C) e o
condroitinsulfato-6 (condroitinsulfato A), para o hialuronano (ácido hialurônico),
para o queratansulfato e para as integrinas (proteínas transmembranar das célu-
las). Na matriz cartilaginosa, os monômeros de proteoglicanos estão ligados ao
hialuronano por uma proteína de ligação (de 39kDa), formando agregado de
proteoglicanos.
A cartilagem é altamente hidratada, sendo que cerca de 80% do seu peso se
deve a água presente na matriz extracelular. O alto teor de água de solvatação
encontra-se associado aos glicosaminoglicanos, de forma a atuar como um siste-
ma de absorção de choques mecânicos e de grande importância, principalmente,
na cartilagem articular. A água de solvatação também permite a difusão de
nutrientes através da matriz cartilaginosa.
Além desses elementos da matriz extracelular, outros glicosaminoglicanos
também estão presentes. A decorina, a fibromodulina e os tipos IX e XI de coláge-
no interagem com o colágeno tipo II e regulam a formação e a estrutura da fibrila

153
colagenosa. Grandes agregados de proteoglicanos se formam quando múltiplas
moléculas de agrecano se ligam ao hialuronano, o qual se ancora ao condrócito
através do CD44. Além desses, outras moléculas de matriz, como a proteína oli-
gomérica da cartilagem (COMP), estão presentes (Fig. 6.2).

Fig. 6.2: Modelo das proteínas de matriz extracelular e suas interações entre si e com
receptores de matriz no condrócito. Em função da área da matriz há uma deposição
diferencial desses elementos.

PERICÔNDRIO

O pericôndrio reveste as peças de cartilagem, exceto as cartilagens articula-


res. Apesar de ser um tecido conjuntivo denso, o pericôndrio não é uma estrutura
homogênea, encontrando-se subdividido em duas camadas. A camada mais
externa, denominada camada fibrosa do pericôndrio, é predominantemente
fibrosa, sendo constituída principalmente por fibras colagenosas preferencial-
mente do tipo I e células muito semelhantes aos fibroblastos. A camada mais
interna do pericôndrio é predominantemente celular, apresentando principal-
mente células condrogênicas, comprometidas com a formação da cartilagem.
Essa região do pericôndrio é denominada camada celular do pericôndrio ou
pericôndrio condrogênico (Fig. 6.1).

154
Fig. 6.1: Representação da cartilagem hialina com seus elementos constituintes.

Por ser vascularizado, o pericôndrio é responsável pela nutrição da peça de


cartilagem e pela eliminação de seus resíduos metabólicos, sendo que a sua
integridade é essencial para a sobrevivência da peça de cartilagem, pois, além de
ser fonte de novas células cartilaginosas, também participa do crescimento em
espessura da peça de cartilagem (crescimento aposicional).

Histogênese da cartilagem

A cartilagem se origina a partir do mesênquima, onde as células mesenqui-


mais se multiplicam intensamente (Fig. 6.3). A partir do momento em que as
células mesenquimais começam a se diferenciarem, ocorre retração de seus pro-
longamentos, se tornando arredondadas e, ao se agrupar, formam os chamados
centros de condrificação.
Conforme há redução dos prolongamentos, as células mesenquimais se
diferenciam em condroblastos, os quais começam a secretar uma matriz
extracelular diferenciada, isto é, sintetizam os elementos característicos da
matriz cartilaginosa.

155
Fig. 6.3: Histogênese da cartilagem hialina a partir do mesênquima.

À medida que a formação do tecido cartilaginoso avança, os condroblastos


continuam com a produção da matriz e acabam por firam restritos à compar-
timentos na matriz cartilaginosa denominados lacunas. Nesse momento, os
condroblastos assumem as características morfológicas de condrócitos, estando
circundados por uma matriz cartilaginosa, predominantemente basófila, denomi-
nada matriz territorial, na qual há o predomínio de glicosaminoglicanos.
No interior da lacuna, os condrócitos desempenham importante papel na
manutenção da matriz cartilaginosa por ainda apresentar alta capacidade pro-
liferativa. Após se dividirem no interior de uma mesma lacuna, os condrócitos
constituem pequenos grupos celulares denominados grupos isogênicos. Entre os
grupos isogênicos, a matriz cartilaginosa é menos basófila, devido a presença de
fibrilas colagenosas, ou outros elementos fibrilares da matriz, sendo denominada
matriz interterritorial.
Esse tipo de crescimento é característico da vida embrionária, onde a peça de
cartilagem se forma a partir de modificações do mesênquima, sendo denominado
crescimento intersticial.
Ao mesmo tempo em que se forma uma peça de cartilagem, o mesênquima
ao redor da peça se diferencia, constituindo o pericôndrio. A partir do momento
em que existe um pericôndrio, a peça de cartilagem continua o seu crescimento
por adição de novas camadas de tecido cartilaginoso a partir de modificações

156
da camada condrogênica do pericôndrio, sendo esse tipo de crescimento, isto
é, formação de cartilagem a partir do pericôndrio, conhecido como crescimento
aposicional.

TIPOS DE CARTILAGEM

Com base na constituição da matriz extracelular e na estruturação de seus


elementos, pode-se distinguir três tipos de cartilagem: a cartilagem hialina, a
cartilagem elástica e a cartilagem fibrosa.

Cartilagem Hialina
A cartilagem hialina é a mais abundante do organismo e forma a maior
parte do esqueleto do embrião, que servirá como molde para a formação
subsequente dos ossos longos, durante o desenvolvimento embrionário (ver
ossificação endocondral).
No adulto, a cartilagem hialina é encontrada na extremidade do nariz, na
laringe, nas extremidades das costelas onde se articulam com o esterno, além
de constituir os anéis da traqueia e as peças de cartilagem nos brônquios extra e
intrapulmonares. A cartilagem hialina também recobre as superfícies dos ossos,
protegendo as articulações.
A matriz cartilaginosa é constituída por fibrilas colagenosas do tipo II e
condroitinsulfatos, os quais são os elementos responsáveis pela basofilia da ma-
triz cartilaginosa. Como as fibrilas colagenosas têm dimensões abaixo do limite
de resolução do microscópio de luz, elas não são visualizadas pelas colorações
rotineiras, como a coloração pela hematoxilina-eosina (HE), justificando o as-
pecto homogêneo da matriz cartilaginosa da cartilagem hialina. Contudo, os
constituintes da matriz cartilaginosa apresentam certa localização preferencial,
diferenciando-se' duas regiões distintas: a matriz territorial ao redor dos condrócitos
e a matriz interterritorial entre os grupos de condrócitos (Fig. 6.1). Devido ao
alto teor de condroitinsulfato e a pequena quantidade de fibrilas colagenosas, a
matriz territorial é bem mais basófila que a matriz interterritorial, a qual é mais
rica em fibrilas colagenosas e pobre em proteoglicanos.
Na periferia da peça de cartilagem hialina, os condroblastos se encontram
de forma isolada, assumindo preferencialmente a forma alongada, enquanto que
os grupos isogênicos coronários congregam até oito condrócitos e se localizam
mais profundamente na cartilagem.
O crescimento da cartilagem hialina ocorre por dois processos distintos, já
descritos anteriormente: crescimento intersticial nas primeiras fases da vida e,
posteriormente, pelo crescimento aposicional a partir do pericôndrio.

157
Cartilagem Elástica
A cartilagem elástica é encontrada sustentando orelha externa, no meato
acústico externo, na orelha externa, na epiglote e na laringe.
Além das fibrilas colagenosas do tipo II imersas na substância fundamental
da matriz cartilaginosa, a cartilagem elástica contém grande quantidade de
fibras elásticas., o que confere certa elasticidade a esse tipo de cartilagem.
Como as fibras elásticas não são facilmente visualizadas nas colorações
de rotina (hematoxilina-eosina, HE), para a sua visualização recomenda-se
a coloração seletiva pela orceína, método histoquímico que identifica as
fibras elásticas..
Os condrócitos da cartilagem elástica parecem ser mais volumosos em compa-
ração com os condrócitos da cartilagem hialina e, devido a grande quantidade de
fibras elásticas, a organização dos condrócitos em grupos isogênicos coronários
não é muito evidente (Fig. 6.4).

Fig. 6.4: Cartilagem elástica, destacando a presença de fibras elásticas na matriz


cartilaginosa.

Através de técnicas especiais que se baseiam na propriedade metacro-


mática de certos corantes (ver capítulo de técnicas histológicas), como a
que utiliza o azul de toluidina, é possível verificar que a matriz cartilaginosa
é metacromática, indicando que os glicosaminoglicanos coexistem com as
fibras elásticas.

158
Também possui pericôndrio, sendo que as fibras elásticas da matriz cartila-
ginosa se inserem na camada externa fibrosa do pericôndrio e colaboram para a
fixação do pericôndrio à peça de cartilagem.
Inicialmente, a cartilagem elástica surge no interior do mesênquima através
do crescimento intersticial, onde a matriz se torna cada vez mais consistente.
Logo após o estabelecimento da peça de cartilagem, essa passa a crescer também
por aposição de novas camadas (crescimento aposicional).

Cartilagem Fibrosa ou Fibrocartilagem


A cartilagem fibrosa participa da estruturação dos discos intervertebrais, se
associando à cartilagem hialina, sendo também encontrada na sínfise pubiana,
nos meniscos das articulações dos joelhos, em alguns tendões e em ligamentos
que se inserem ao osso (Fig. 6.5).

Fig. 6.6: Cartilagem fibrosa. Os condrócitos se organizam formando grupos


isogênicos axiais.

A cartilagem fibrosa se caracteriza por possuir feixes espessos de fibras colage-


nosas di tipo I, além das fibrilas colagenosas do tipo II. O predomínio de feixes de
fibras de colagenosas confere a cartilagem fibrosa uma maior resistência à tração.
Por ser rica em fibras colagenosas espessas com orientação definida, esses
elementos fibrosos fazem com que os condrócitos contidos em lacunas se dispo-
nham em fileiras alongadas e paralelas, constituindo os grupos isogênicos axiais.

159
Essa orientação está diretamente relacionada às forças que atuam sobre a cartila-
gem fibrosa (Fig. 6.5).
Como a cartilagem fibrosa está sempre associada ao tecido conjuntivo den-
so, não é possível observar o limite preciso entre os dois tecidos. Esse fato leva
a maioria dos autores a divergir quanto a presença de um pericôndrio típico.
Além disso, é importante ressaltar que o crescimento intersticial é o único tipo
de crescimento que ocorre na cartilagem fibrosa, reforçando a presunção de que
ela não possui pericôndrio.
A típica acidofilia da cartilagem fibrosa se deve à riqueza de fibras colageno-
sas espessas (fibras colágenas, colágeno tipo I). Contudo, os glicosaminoglicanos
também estão presentes na substância fundamental, apesar de escassos e comu-
mente restritos às lacunas, sendo responsáveis pela basofilia e metacromasia de
uma pequena região ao redor dos condrócitos, indicando a presença dos glicosa-
minoglicanos nessa escassa matriz territorial.

Discos Intervertebrais
Os discos intervertebrais são coxins localizados entre o revestimento de car-
tilagem hialina da superfície óssea articular dos corpos de vértebras adjacentes,
protegendo-as dos impactos constantes.
Cada disco intervertebral é formado por dois componentes: o anel fibroso, o
qual envolve o núcleo pulposo (Fig. 6.5).
O núcleo pulposo é um tecido derivado do notocorda e se localiza na região
central do anel fibroso, sendo formado por células arredondadas imersas em
uma matriz muito hidratada, rica em agrecano (hialuronano e proteoglicanos).
Perifericamente tem-se o anel fibroso, formado por tecido conjuntivo denso,
cujos feixes de fibras colagenosas se organizam formando camadas concêntricas;
porém, sua maior extensão é constituída por cartilagem fibrosa. Nas porções
posteriores dos discos intervertebrais, os feixes de colágenos são menos densos.
Como o núcleo pulposo é uma estrutura altamente hidratada e se encontra
constantemente sobre pressão, se ocorrer rompimento das fibras colagenosas do
anel fibroso, pode haver deslocamento do núcleo pulposo. Esse deslocamento para
além de sua posição normal pode ocasionar a hérnia de disco e ter como causa um
esforço muito grande, como o levantamento cargas muito pesadas, que forçam a
coluna vertebral, ou mesmo a realização de movimentos incorretos, quedas, exces-
so de peso e ter uma postura incorreta ou no caminhar ou quanto sentado.
A herniação pode acontecer em qualquer local da coluna vertebral. Devido à
inflamação e a formação de edema no tecido, pode haver protrusão do disco in-
tervertebral, o que pode comprimir os nervos espinhais inferiores (como o nervo
ciático) e causar distúrbios neurológicos, proporcionando forte dor ao indivíduo.

160
Regeneração da cartilagem
Exceto nas crianças, a regeneração do tecido cartilaginoso é ineficiente. No
adulto, após lesão de uma peça de cartilagem, as células condrogênicas do peri-
côndrio podem penetrar na região lesada, originando novo tecido cartilaginoso.
Contudo, se a lesão for extensa, as células condrogênicas se diferenciarão em
fibroblastos, formando um tecido conjuntivo denso na região lesada para a sua
reparação.

Degeneração da cartilagem
A cartilagem está sujeita com frequência à processos degenerativos. O mais
comum é a calcificação de sua matriz, que consiste na deposição de fosfato de
cálcio sob a forma de cristais de hidroxiapatita. Embora a calcificação da matriz
cartilaginosa represente a degeneração do tecido cartilaginoso, esse é um pro-
cesso usual e fundamental na formação dos ossos (ver ossificação endocondral).
Em alguns animais, como os peixes cartilaginosos, o esqueleto de sustenta-
ção é formado por cartilagem hialina. Nos tubarões, apesar da cartilagem hialina
apresentar sua matriz calcificada, essa calcificação não deve ser considerada
como um processo degenerativo.
Como o tecido cartilaginoso é um tecido avascular, para que a ossificação
(endocondral) ocorra há a necessidade da presença de vasos sanguíneos, os quais
carreiam o cálcio para que esse seja depositado na matriz cartilaginosa e, assim,
ocorra a calcificação.
Muitos estudos sobre a cartilagem de tubarão verificaram, apesar de se apre-
sentar calcificada, a cartilagem não se transforma em tecido ósseo. Os autores
relacionam a interrupção do processo de ossificação a uma substância com ação
antiangiogênica (inibidora da formação de vasos sanguíneos), a qual impediria a
chegada de vasos sanguíneos, que trariam o cálcio, importante na formação do
tecido ósseo. Assim, ao esqueleto do tubarão permanece como tecido cartilagi-
noso e não evolui para tecido ósseo. Além disso, os estudos relatam a presença
de um proteoglicano com 10kD, termoestável com unidades de queratansulfato
e peptídeos, que impede a formação de vasos sanguíneos na cartilagem de
tubarão. Apesar dessa atividade antiangiogênica, os dados científicos ainda não
confirmaram a sua eficiência.
Substâncias antiantiogênicas tem sido alvo para o tratamento de várias doenças,
inclusive o câncer. Através da produção do fator de crescimento vascular endote-
lial (VEGF), as células cancerosas estimulam o crescimento de vasos sanguíneos,
os quais nutrem o tumor. Assim, substâncias que reduzam a produção de VEGF
podem ser alvos na terapia anticâncer, por inibir a angiogênese.

161
7
Tecido Ósseo

O tecido ósseo é uma variedade de tecido conjuntivo que constitui os ossos


do esqueleto, tendo como principal função sustentar o corpo, proporcionando-
-lhe forma.
Dentre as diversas funções exercidas pelo tecido ósseo pode-se citar: (1) ser-
vir como apoio e suporte para partes moles do nosso organismo; (2) fornecer a
proteção dos órgãos internos vitais como, por exemplo, o cérebro e o coração;
(3) atuar na locomoção por promover um sistema de alavancas para os músculos,
acentuando a contração muscular; (4) proteger o tecido hematopoiético, o qual
se encontra alojado na medula óssea; e (5) servir também como reservatório de
íons e sais minerais, principalmente o cálcio.

Tipos de ossos

Anatomicamente, os ossos podem ser classificados como (Fig. 7.1):

Ossos longos: têm comprimento maior que a largura, consistindo de uma por-
ção cilíndrica e mediana (diáfise) e as extremidades (epífises). Os ossos longos
incluem o fêmur, o úmero e a tíbia.

Ossos curtos: são ossos levemente cuboides, com o comprimento quase igual à lar-
gura. Os ossos curtos incluem os ossos da mão (ossos carpais) e do pé (ossos tarsais).

Ossos planos: são ossos geralmente finos, como os ossos do crânio (osso parietal,
frontal, occipital), o esterno, as costelas e as escápulas.

163
Ossos irregulares: possuem formas variadas e não podem ser agrupados nas ca-
tegorias descritas; incluem as vértebras e certos ossos faciais.

Ossos sesamoides: são ossos pequenos e arredondados, que se localizam próxi-


mos às articulações, no trajeto ou intimamente relacionados aos ligamentos; são
exemplos a patela e o osso sesamoide poplíteo.

Ossos pneumáticos ou pneumatilados: são os ossos encontrados nas aves. Alguns


ossos de mamíferos, como o processo mastoide do osso temporal e os ossos dos
seios da face podem ser considerados como ossos pneumáticos.

Fig. 7.1: Alguns tipos de ossos.

Métodos para estudo do tecido ósseo ao microscópico de luz

Como o tecido ósseo é um tecido duro, onde parte de sua matriz apresen-
ta um componente mineral, existem dois métodos que são empregados para se
preparar o tecido ósseo visando a análise microscópica. Cada um dos métodos
histológicos de análise apresenta vantagens e desvantagens; porém, seu emprego
dependerá do objetivo do estudo, isto é, se a análise enfoca a porção orgânica ou
se detém ao estudo da porção mineral do tecido ósseo.

164
Descalcificação
A utilização desse método visa remover a porção inorgânica do tecido ósseo,
permitindo o estudo dos constituintes orgânicos (células e elementos da matriz
óssea). Para essa análise, fragmentos de um osso devem ser primeiramente fixa-
dos, cujo tempo de fixação varia de acordo com o tipo de fixador empregado.
Em seguida, o material é tratado com uma solução ácida diluída (por exemplo,
ácido nítrico a 3-5%) ou em solução contendo um quelante, como o EDTA (sal
sódico do ácido etileno-diamino-tetracético), em solução aquosa, para a remo-
ção dos sais de cálcio. O quelante é uma substância capaz de se combinar com
o cálcio tecidual e, quando o quelante é removido subsequentemente, ele carreia
o cálcio, removendo-o do tecido. Após a descalcificação, o material se torna tão
flexível que pode ser dobrado como um pedaço de borracha.
Após a remoção do conteúdo inorgânico, o material sofre o mesmo trata-
mento segundo a técnica histológica de rotina para inclusão em resina, isto é,
o material é desidratado, clarificado, impregnado e emblocado em parafina, de
modo a permitir a confecção de cortes histológicos.

Desgaste
O tratamento do osso pelo método de desgaste visa analisar a organização do
componente inorgânico do tecido ósseo, sem a preocupação com a análise dos
elementos orgânicos. Através desse método, o osso deve ser cortado com uma
serra com a finalidade de se obter pequenos fragmentos de osso. Em seguida,
esses finos fragmentos são desgastados com o auxílio de lixas especiais para se
obter fatias finas de osso.
As fatias devem ser delgadas, de modo a deixar passar os raios luminosos,
permitindo a observação do material ao microscópio de luz ou de luz polarizada.
Essas finíssimas fatias são colocadas em lâminas de vidro, cobertas ou não com
lamínulas e levadas ao microscópio para a análise histológica.

Fig. 7.2: Sequência de preparo do material a ser desgastado. A: o fragmento do osso é


colado a uma lâmina com material adesivo; B: duas ventosas são aderidas à lâmina para
facilitar o deslocamento da lâmina sobre a lixa d´água; C: com a superfície do material
voltado para a lixa, deslizar as lâminas com movimento para proporcionar o desgaste do
material. Observar, de tempos em tempos, ao microscópio para controlar a espessura.

165
Constituição do tecido ósseo

O tecido ósseo é constituído por diferentes tipos de células (osteoblastos,


osteócitos e osteoclastos) imersas em uma matriz extracelular que se encontra
calcificada, a matriz óssea. Essa matriz é constituída por uma porção orgânica
e uma porção inorgânica. Os componentes orgânicos são representados pelas
fibras colagenosas e pela substância fundamental, que contém outros elementos
como proteínas não colagenosas e proteoglicanos, além da água de solvatação.
A porção inorgânica é constituída principalmente por cálcio, fósforo e outros
componentes minerais.
Exceto na região das articulações sinoviais, o osso é recoberto externamente
por um tecido conjuntivo denso - o periósteo. Fibras colagenosas, denominadas
fibras de Sharpey, partem do periósteo e penetram no tecido ósseo fixando firme-
mente o periósteo ao osso, ajudando na fixação do periósteo ao osso. É também a
partir do periósteo que os vasos sanguíneos chegam e penetram no osso, levando
nutrientes para nutrir os próprios elementos do osso e para os elementos cons-
tituintes do tecido hematopoiético, alojado na medula óssea. Vasos oriundos da
medula óssea chegam ao periósteo, trazendo os elementos figurados produzidos
na medula óssea e que irão circular no sangue periférico (ver tecido sanguíneo).
Revestindo a cavidade central dos ossos tem-se o endósteo, um tecido con-
juntivo muito frouxo, o qual pode ser tão escasso que pode se resumir a uma
única camada de células, representadas pelos osteoblastos e osteoclastos.

CÉLULAS

As células do tecido ósseo são: (1) as células osteoprogenitoras; (2) os osteo-


blastos, células com alta atividade relacionada à síntese e manutenção da matriz
óssea; (3) os osteócitos, localizados no interior de lacunas; e (4) os osteoclastos,
que participam na reabsorção óssea (Fig. 7.3).

Fig. 7.3: Células do tecido ósseo.

166
Células osteoprogenitoras
As células osteoprogenitoras, derivadas do mesênquima e com potencialida-
de para se diferenciar nos osteoblastos, são células fusiformes com núcleo oval,
pouco corado, e citoplasma levemente basófilo. As células osteoprogenitoras são
as células mais ativas durante o processo de crescimento ósseo. No osso maduro,
essas células se situam na face interna do periósteo (no endósteo), podendo ser
observadas também revestindo os canais de Havers.

Osteoblastos
Os osteoblastos tem origem a partir das células osteoprogenitoras e encon-
tram-se ativamente engajados com a síntese dos elementos da matriz óssea. Os
osteoblastos são células que variam de cúbicas a cilíndricas, exibindo citoplasma
basófilo devido à riqueza de retículo endoplasmático rugoso, além do aparelho
de Golgi que é bem desenvolvido. Seus prolongamentos citoplasmáticos são curtos
e se intercomunicam com os prolongamentos de osteoblastos vizinhos (Fig. 7.3).
Nos locais onde os prolongamentos se tocam, as membranas plasmáticas dos
osteoblastos formam junções comunicantes (ou do tipo gap).
São células ativas no processo de síntese dos elementos da matriz extracelular,
como colágeno tipo II e outras proteínas não colagenosas, como a osteocalcina, a os-
teopontina, sialoproteína óssea, fibronectina, vitronectina, a glicoproteína ácida óssea,
a trombospondina, que atuam na adesão dos osteoblastos à superfície óssea. A osteo-
calcina (ou proteína óssea Gla) tem sítio de ligação para o cálcio e está relacionada à
mineralização da matriz óssea, sendo sua ação estimulada pela vitamina D3. Os osteo-
blastos também secretam o fator transformador beta (TGF-β-1) e o fator de crescimento
semelhante à insulina, que exercem ação parácrina e autócrina concomitantemente.
Os osteoblastos se localizam na superfície do tecido ósseo. Em material co-
rado pela hematoxilina-eosina, frequentemente nota-se uma região mais clara,
localizada entre a matriz óssea propriamente dita e os osteoblastos. Essa região
pouco corada representa uma área da matriz óssea que ainda não foi totalmente
calcificada, sendo denominada osteoide (Fig. 7.4).

Fig. 7.4: Osteoblasto.

167
Quando a matriz óssea ao redor do osteoblasto se torna calcificada, aprisio-
nando-o, ele passa a ser denominado osteócito. A vida útil dos osteoblastos é de
3 meses; cerca de um terço dos osteoblastos tornam-se osteócitos e dois terços
sofrem apoptose.
No adulto, quando o tecido ósseo está totalmente formado, alguns os-
teoblastos tornam-se inativos e permanecem sobre a superfície óssea do
endósteo ou do periósteo. Nesses locais, os osteoblastos se dispõem lado a
lado e são denominados células do revestimento ósseo. Essas células protegem
a superfície do tecido ósseo e, dependendo de estímulos, podem entrar em
atividade novamente.

Osteócitos
Os osteócitos são as células maduras do tecido ósseo, derivadas dos oste-
oblastos, e podem viver cerca de 20 anos. A região do citoplasma que contém
o núcleo se localiza em lacunas, a lacuna óssea, a qual também é denominada
osteoplasto. Os osteócitos emitem delgados prolongamentos que se projetam
em diferentes direções, percorrendo pequenos espaços que intercomunicam as
lacunas ósseas. Esses túneis microscópicos são denominados canalículos ósseos.
Os prolongamentos estabelecem contato com prolongamentos de osteócitos vi-
zinhos através de junções comunicantes, as quais permitem a passagem de íons
e pequenas moléculas (Fig. 7.5 e 7.6).

Fig. 7.5: Osteócitos inseridos na matriz óssea e se comunicam através dos seus
prolongamentos.

168
Fig. 7.6: O sistema de Havers é formado por lamelas concêntricas ao redor do canal
de Havers. Os osteócitos situam-se em lacunas ósseas, localizadas entre as lame-
las ósseas; seus prolongamentos transitam pelos canalículos ósseos. A dimensão do
canal de Havers varia conforme o tempo de formação do sistema de Havers, isto é,
sistema de Havers mais antigos possuem canais menores.

Nos preparados histológicos de material submetido à descalcificação, só é


possível observar o corpo dos osteócitos (núcleo e citoplasma perinuclear); po-
rém, devido às suas dimensões, a visualização dos seus prolongamentos só é
obtida pela microscopia eletrônica de transmissão.
Quando o material é submetido à técnica de desgaste, como não há a fixação
do material, a célula não é preservada e o que é visualizado, na realidade, é o local
ocupado previamente pela célula, isto é, a lacuna óssea e os canalículos ósseos.

Fig. 7.7: Estruturas do tecido ósseo observados após a técnica do desgaste.

169
Osteoclastos
São células grandes com cerca de 150µm de diâmetro, multinucleadas com
mais de 50 núcleos; exibem citoplasma acidófilo devido a um grande número de
mitocôndrias e lisossomos.
O precursor dos osteoclastos tem origem na medula óssea a partir do precursor
comum ao dos monócitos (MG-CSF, célula progenitora do granulócito-macrófago).
Quando se inicia a formação do tecido ósseo, as células progenitoras migram
para a região do osso em formação, se fundem e formam osteoclastos.
Os osteoclastos têm capacidade de se deslocar sobre a superfície óssea, com
uma vida útil curta (cerca de 2 semanas); no tecido ósseo se localizam em
depressões na superfície óssea, denominadas lacunas de Howship ou lacunas de
reabsorção, locais onde ocorre a reabsorção óssea (Fig. 7.8).

Fig. 7.8: Osteoclasto localizado na lacuna de Howship.

A análise mais detalhada revela que a face do osteoclasto, voltada para a


superfície óssea, apresenta numerosas microprojeções da membrana plasmática,
denominada borda pregueada. Próximo a essa região, o citoplasma apresenta
numerosas vesículas de endocitose e de exocitose, resultado do transporte de
enzimas lisossômicas e dos produtos da degradação óssea para a célula.
Os osteoclastos são células responsáveis pela reabsorção óssea e, consequen-
temente, diminuição da massa óssea. A reabsorção óssea envolve uma complexa
sequência de eventos, desde a fixação do osteoclasto à superfície óssea, quanto
à produção de vários compostos.
A proteína ligante de RANK (RANKL), produzida pelo osteoblasto, ao se ligar
às células precursoras dos osteoclastos, induz a diferenciação do precursor de

170
osteoclastos em osteoclastos maduros, capazes de realizar a reabsorção óssea. O
CSF-M (Fator estimulador de colônias de Macrófagos, [CSF-1]) e o RANKL são
essenciais para a osteoclastogênese.
Os osteoclastos se fixam à superfície óssea por um processo mediado por
integrinas. Para tal, o osteoclasto secreta a osteopontina, uma glicoproteína fos-
forilada rica em ácido siálico, capaz de mediar a adesão seletiva da integrina ανβ3
ao osso. Dessa forma, um microambiente é formado e o osteoclasto fica com sua
atividade restringida a esse local.
No interior dos osteoclastos, a enzima anidrase carbônica forma ácido carbô-
nico (H2CO3) a partir do dióxido de carbono e da água. Como o ácido carbônico
é instável, esse se dissocia em íons H+ e íons bicarbonato que, acompanhados
dos íons Na+, atravessam a membrana plasmática e entram nos capilares sanguí-
neos. Uma bomba de prótons na membrana do osteoclasto transporta ativamente
íons H+ reduzindo o pH do microambiente, favorecendo a desestabilização dos
cristais de hidroxiapatita nessa microrregião e, consequentemente, a descalcificação
da matriz óssea, além de promover a ação de determinadas enzimas produzidas
pelo osteoclasto (Fig. 7.9).

Fig. 7.9: Participação do osteoclasto na reabsorção óssea.


A anidrase carbônica gera prótons (H+) a partir do CO2 e H2O. O H+ é liberado para
a lacuna de Howship por uma bomba dependente de ATP para criar um meio ácido
(pH 4,5) que solubiliza o cálcio do osso mineralizado
As enzimas lisossomais (proteinases e fosfatases) e não lisossomais (metaloproteina-
ses) são liberadas para a lacuna de Howship para degradar o colágeno e proteínas não
colagenosas da matriz óssea. Como resultado tem-se a absorção óssea.

171
Após descalcificado, o osteoclasto atua em uma fina camada externa de 1 a
2µm de osteoide (matriz óssea não mineralizada), através da sintetize de cola-
genases que degradam o colágeno da matriz óssea. Além disso, os osteoblastos
também secretam enzimas para atrair osteoclastos para o local do osso desnudo.
Dentro da zona selada, o processo de dissolução do osso é realizado pela
colagenase, fosfatase e enzimas lisossômicas. Assim, os osteoclastos “abrem
espaços”, estruturando seu caminho para dentro do osso mineralizado numa ve-
locidade de 25µm por dia. Durante esse processo, os osteoclastos reabsorvem
uma área do osso mineralizado e macrófagos locais completam a limpeza dos
elementos dissolvidos.
A proteína osteoprotegerina (OPG) atua como um receptor antagonista do
RANKL, isto é, inibe a diferenciação do precursor do osteoclasto em osteoclasto
maduro, impedindo a reabsorção óssea. A osteoprotegerina é produzida pelas célu-
las do estroma da medula óssea, pelos osteoblastos, como também pelas células
dendríticas do sistema imunológico e pelas células musculares lisas da parede
vascular. A principal função da osteoprotegerina é a redução da atividade osteo-
clástica, protegendo o organismo contra a perda óssea, sendo utilizada como um
marcador para a verificação da atividade óssea. A dosagem da osteoprotegerina
tem sido utilizada na clínica para identificar doenças osteometabólicas, como a
osteoporose pós-menopausa, o hiperparatiroidismo primário, a doença de Paget
óssea, a artrite reumatoide, a doença óssea dos tumores malignos com ou sem
metástases, a hiperfosfatasia e a doença periodontal.
A atividade de reabsorção óssea realizada pelos osteoclastos é regulada pelo
paratormônio, produzido pelas glândulas paratireoides, e pela calcitonina, secre-
tada pelas células parafoliculares da tireoide. O paratormônio é importante por
ser o responsável pelo controle do nível plasmático de cálcio em nosso organis-
mo. Quando o nível plasmático de cálcio fica abaixo do normal, as paratireoides
aumentam a secreção de paratormônio, fazendo com que a calcemia aumente,
retornando o nível de cálcio ao normal. Quando o nível plasmático de cálcio
se torna acima do normal, as células parafoliculares da tireoide aumentam a
secreção de calcitonina, reduzindo a calcemia e retornando os níveis de cálcio
ao normal.
O processo de reabsorção é acompanhado da formação óssea na medida
em que precursores de osteoblastos também são recrutados por sinais parácrinos
para o local de reabsorção, se diferenciando em osteoblastos ativos; assim, o
processo é revertido para a formação de tecido ósseo.
A osteoporose é uma doença caracterizada pela perda da massa e da es-
trutura óssea, tornando o osso frágil, aumentando a probabilidade a fraturas. A
princípio, nas mulheres, a osteoporose ocorre em uma condição pós-menopausa
quando há diminuição dos níveis de estrogênio, resultando em osteoblastos me-

172
nos ativos; porém, os osteoclastos não são afetados. Assim, há uma reciclagem
do osso normal na direção da reabsorção óssea, isto é, a uma redução da massa
óssea. Bloqueadores da reabsorção óssea são utilizados na terapia de osteoporose e
induzem a apoptose de osteoclastos.
A osteogênese imperfeita é um defeito genético que envolve um gene envol-
vido na síntese de colágeno. A forma mais grave é letal e a forma mais branda é
responsável por múltiplas fraturas que ocorrem na infância.

Matriz óssea

Componente orgânico
O componente orgânico constitui aproximadamente 35% do peso seco do
osso e inclui as fibras colagenosas, que são quase exclusivamente de colágeno
tipo I, os glicosaminoglicanos e outras proteínas.

Colágeno
O colágeno do tipo I representa cerca de 90% do componente orgânico do
osso e, ao se organizar, forma feixes espessos com grande quantidade de ligações
cruzadas, o que impede sua fácil remoção.
A grande quantidade colágeno é responsável pela acidofilia da matriz óssea
observada nas preparações histológicas.

Glicosaminoglicanos e proteínas da matriz óssea


A matriz óssea contém glicosaminoglicanos sulfatados, principalmente
condroitinsulfato e queratansulfato, que se encontram associados a peque-
nas proteínas, formando moléculas de proteoglicanos. Os proteoglicanos
podem se ligar covalentemente ao hialuronano, formando agregados de
proteoglicanos.
Várias glicoproteínas também são encontradas na matriz óssea, como a os-
teocalcina, a osteopontina e a osteonectina, e estão envolvidas no processo de
osteogênese (na mineralização da matriz óssea); a síntese dessas glicoproteínas é
estimulada pela vitamina D.
A osteocalcina é secretada exclusivamente pelos osteoblastos, tendo papel
importante na mineralização da matriz óssea e na homeostase do íon cálcio. Tem
sido proposto que a osteocalcina também funciona como um regulador negativo
da formação óssea.
A osteonectina é uma glicoproteína que se liga fortemente à hidroxiapatita,
com afinidade tanto para o colágeno quanto para o cálcio do tecido ósseo.

173
A osteonectina encontra-se frequentemente sob a forma de um complexo co-
valentemente ligado com a osteoaderina (complexo osteonectina-osteoaderina).
A sialoproteína óssea é uma proteína da matriz óssea com sítios de ligação
para componentes da matriz e para as integrinas, as quais estão presentes na
membrana plasmática dos osteoblastos e dos osteócitos.
Na matriz óssea também há outras substâncias importantes para a formação
óssea, como as proteínas morfogenéticas ósseas (BMP, Bone Morphogenetic
Protein), que representam um grupo de fatores de crescimento que induzem
a formação do osso. Contudo, essas proteínas também são importantes
na vida embrionária, participando do desenvolvimento do coração, do
sistema nervoso central, da cartilagem, assim como no desenvolvimento
pós-natal do osso. Mutação ou inibição das BMP pode ocasionar diversas
doenças no homem.

Componente inorgânico
A porção inorgânica representa cerca de 65% do peso do osso a seco, sen-
do constituída principalmente de cálcio e fósforo além de outros componentes
como o bicarbonato, magnésio, sódio e potássio.
O cálcio e o fósforo encontram-se na forma de cristais de hidroxiapatita
[Ca10(PO4)6(OH)2]; porém, o cálcio também pode ser observado sob a forma
amorfa. Os cristais de hidroxiapatita (40nm de comprimento, 25nm de largura
e 1,5 a 3nm de espessura) se organizam ao longo das fibras colagenosas
(predominantemente de colágeno do tipo I) e se depositam nos intervalos en-
tre as moléculas de tropocolágeno. A superfície livre dos cristais é envolta pela
substância fundamental, que atraem a água, formando uma capa de solvatação,
importante para a troca iônica com o líquido extracelular.

Estrutura do osso

A observação ao olho desarmado de um osso longo revela dois tipos de


textura óssea. A região externa é densa e compacta, sendo denominada osso
compacto, enquanto que internamente, o osso exibe grandes espaços, delimitados
pelas traves ósseas, sendo denominado osso esponjoso ou osso trabecular. As
trabéculas são lâminas ósseas anastomosadas que terminam em espículas ósseas,
as quais se projetam em direção à cavidade central do osso - cavidade medular
ou medula óssea (Fig. 7.10).
A análise microscópica revela que o tecido ósseo possui morfologia distinta,
caracterizando dois tipos de ossos: osso primário ou osso imaturo e osso secun-
dário ou osso lamelar.

174
O osso primário é o primeiro osso a se formar durante o desenvolvimento
embrionário e durante a reparação óssea, apresentando numerosos osteócitos
imersos na matriz óssea. Os feixes de fibras colagenosas se dispõem em um
arranjo irregular, sem organização definida, sendo sua matriz óssea pobre em
sais minerais.
O osso secundário é histologicamente um osso maduro, cujo tecido ósseo
se apresenta organizado em lamelas ósseas paralelas que assumem um arranjo
concêntrico ao redor de canais (Fig. 7.10). O arranjo das lamelas ósseas permite
distribuir as forças que agem sobre o tecido ósseo. Por entre as lamelas ósseas,
os osteócitos encontram-se distribuídos em intervalos regulares. No osso se-
cundário, a matriz óssea é mais calcificada em comparação com a matriz do
osso primário.

Fig. 7.10: Corte transversal de um osso longo mostrando a disposição das fibras cola-
genosas, que refletem na disposição das lamelas ósseas.

Apesar da classificação anatômica utilizar parâmetros da textura óssea


para diferenciar o osso compacto do osso esponjoso, a histologia absor-
veu essas denominações para se diferenciar os dois tipos no diagnóstico
histológico.
Nos cortes transversais das diáfises dos ossos longos, nota-se uma região externa
de osso compacto, que se caracteriza por apresentar as lamelas ósseas paralelas,

175
constituindo estruturas organizadas - os sistemas lamelares. Tais sistemas podem
ser classificados como: sistema circunferencial interno, sistema circunferencial
externo, sistema de Havers e sistema intermediário.

Sistema circunferencial interno e sistema circunferencial externo


Os sistemas circunferencial interno e externo são formados por lamelas ósseas
num arranjo paralelo entre si, enquanto que o sistema circunferencial externo se
localiza logo abaixo do periósteo, disposto em um arranjo concêntrico segundo
o maior eixo do osso e, normalmente, é mais desenvolvido que o sistema circun-
ferencial interno o qual é observado na porção interna do osso, circundando o
canal medular (Fig. 7.10).

Sistema de Havers
O sistema de Havers é formado por lamelas ósseas organizadas em um arran-
jo concêntrico ao redor de um canal, denominado canal de Havers, o qual aloja
uma rede vascular. Ao conjunto formado pelo canal de Havers e pelas lamelas
ósseas concêntricas denomina-se sistema de Havers ou sistema haversiano ou
osteon (Fig. 7.11).
O canal de Havers, com trajeto paralelo ao maior eixo do osso, pode se bifurcar
ao longo de seu comprimento. Intercomunicando os canais de Havers observam-se os
canais de Volkmann, de trajeto perpendicular ao canal de Havers (Fig. 7.10). Esse
labirinto de canais é importante, pois permite o trânsito de estruturas vasculares
e estruturas nervosas da periferia para o interior do osso e vice-versa. Assim, é
através desses canais que as artérias nutridoras e nervos provenientes do periós-
teo chegam até a cavidade medular e é também por esses canais que ocorre o
retorno de veias.
Em contraste com o osso compacto, que apresenta usualmente sistemas de
Havers, o osso esponjoso não contém sistemas de Havers verdadeiros, mas é
constituído por delgadas lâminas de tecido ósseo lamelar, denominadas trabé-
culas, as quais se dispõem segundo as direções que correspondem às linhas de
força que o osso suporta.

Sistema intermediário
Os sistemas intermediários representam restos de sistemas de Havers que
foram parcialmente destruídos durante o crescimento e o remodelamento ósseo
(Fig. 7.10).

176
Fig. 7.11: Elementos que estruturam o sistema de Havers.

Histogênese do tecido ósseo (Ossificação)

A ossificação envolve a produção de uma matriz orgânica, que serve de subs-


trato para a deposição de sais minerais, posteriormente se tornando mineralizada.
A formação do tecido ósseo durante o desenvolvimento embrionário pode ocor-
rer por dois processos distintos: a ossificação endoconjuntiva (também designada
ossificação intramembranosa) e a ossificação endocondral.

Ossificação Endoconjuntiva
Na vida embrionária, no interior do mesênquima, as células mesenquimais
proliferam e iniciam sua diferenciação, dando origem às células osteopro-
genitoras (células indiferenciadas, mas comprometida com a formação do
tecido ósseo).
A região no mesênquima onde se detecta o início da osteogênese é
denominada centro primário de ossificação. Nesse local, as células osteo-
progenitoras se dividem e se diferenciam, dando origem aos osteoblastos,
os quais começam a secretar os elementos característicos da matriz óssea.
Após os osteoblastos ficarem aprisionados na matriz extracelular minera-
lizada, os osteoblastos se modificam e se transformam em osteócitos (Fig.
7.12).

177
Fig. 7.12: Ossificação endoconjuntiva.

Na maioria dos ossos chatos, a formação óssea ocorre no tecido mesenqui-


mal ricamente vascular. Como esse fenômeno ocorre no interior do tecido con-
juntivo, utilizamos o termo ossificação endoconjuntiva para nos referir a forma-
ção do tecido ósseo a partir do tecido conjuntivo embrionário. Contudo, muitos
autores ainda se referem a esse processo como ossificação intramembranosa.

Calcificação e formação de cristais de hidroxiapatita


O cálcio é depositado como massas amorfas de fosfato de cálcio em um
meio no qual as concentrações de cálcio e fosfato são reguladas pelo osteoblas-
to. Cerca de 10 dias se passam entre a formação do osteoide e a mineralização
da matriz extracelular. Uma vez iniciada a mineralização, a maioria do fosfato
de cálcio é depositada de 6 a 12 horas. Em seguida, os íons de hidróxido e de
bicarbonato são gradualmente adicionados e os cristais de hidroxiapatita vão
sendo lentamente formados. O processo de mineralização depende da vitamina
A, sendo que enzima fosfatase alcalina e outras macromoléculas produzidas pelo
osteoblasto também participam desse processo.
A osteocalcina se liga ao colágeno e o complexo resultante (osteocalcina-colá-
geno) se liga aos cristais de hidroxiapatita. A osteocalcina com afinidade pelo cálcio
apresenta forte avidez por hidroxiapatita não cristalizada. O nível plasmático de
fosfatase alcalina e de osteocalcina é utilizado como marcador-padrão da ativida-
de dos osteoblastos. Já os derivados peptídicos específicos do pró-colágeno são
excretados pela urina e utilizados como índices de formação óssea.

178
Ossificação Endocondral e Formação dos ossos longos
Apesar da ossificação endocondral ter seu início na vida embrionária, esse
tipo de formação óssea necessita de um molde pré-estabelecido de cartilagem
hialina, que servirá de base para a formação do futuro osso (Fig. 7.13-A).
As primeiras modificações são visualizadas na cartilagem da região da futura
diáfise, mas terão consequências em todo o molde cartilaginoso.

Fig. 7.13: Ossificação endocondral.


A: molde de cartilagem hialina; B: o pericôndrio da região da futura diáfise sofre os-
sificação endoconjuntiva e se modifica em periósteo,

No pericôndrio ocorrem alterações semelhantes àquelas da ossificação endo-


conjuntiva e a matriz conjuntiva do pericôndrio se torna calcificada. Dessa forma,
forma-se um tecido conjuntivo calcificado ao redor de um molde cartilaginoso. A
calcificação se inicia na região mediana do molde (futuras diáfises) e progride em
direção às extremidades do molde cartilaginoso (futuras epífises). As células do
pericôndrio voltadas para o molde cartilaginoso, agora calcificado, passam a exibir
morfologia semelhante às células da linhagem óssea, isto é, as células condrogê-
nicas se transformam em osteoprogenitoras, que irão dar origem aos osteoblastos.
Assim, forma-se um pequeno cilindro ósseo ao redor do molde de cartilagem. O
tecido conjuntivo ao redor do cilindro ósseo exibe características de um periósteo.
Os osteoblastos recém-formados passam a secretar a matriz óssea, formando
um cilindro ósseo ao redor do molde cartilaginoso, através de um processo se-
melhante ao da ossificação endoconjuntiva. Esse pequeno cilindro ósseo passa,
então, a ser envolto pelo periósteo (Fig. 7.13-B).

179
As modificações do tecido conjuntivo, que se torna altamente vascularizado,
progridem ao longo do molde cartilaginoso (Fig. 7.13-C). Com a formação do
cilindro de tecido ósseo, a matriz calcificada impede a difusão de nutrientes,
havendo redução do nível de oxigenação dos condrócitos.
Como consequência da falta de nutrientes e oxigênio, os condrócitos hiper-
trofiados passam à sintetizar colágeno do tipo X que, por sua afinidade aos íons
cálcio, colabora na calcificação da matriz. Esse processo parece estar associado
com certos proteoglicanos e com a glicoproteína osteonectina, que facilita a liga-
ção do cálcio à matriz. A mineralização da matriz cartilaginosa também requer
ATPase dependente de Ca2+/Mg2+ e pirofosfoidrolases, gerando um microambien-
te propício para que este processo ocorra.
Os condrócitos hipertrofiados também se tornam vacuolizados devido ao
acúmulo de glicogênio em seu citoplasma; são células de vida curta, que em
face da falta de oxigenação e nutrição, acabam morrendo.

Fig. 7.13: Ossificação endocondral.


C: Na região central do molde, os condrócitos se hipertrofiam e àqueles adjacentes ao
centro primário de ossificação se organizam em fileiras em direção às futuras epífises;
D: devido à ação de osteoclastos no periósteo, vasos sanguíneos penetram na peça
de cartilaginosa, trazendo sangue oxigenado e cálcio; E: há calcificação da matriz
cartilaginosa, com consequente morte dos condrócitos; F: forma-se um amplo espaço
- futura cavidade medular, e as células osteogênicas, vindas junto com o tecido con-
juntivo adjacente ao vaso começam a povoar os tabiques de cartilagem calcificada.

180
Paralelamente à hipertrofia dos condrócitos, ocorrem modificações na su-
perfície externa do cilindro ósseo. Nesse momento, os osteoclastos presentes no
periósteo iniciam a reabsorção da matriz óssea. Conforme progride a reabsorção
da matriz óssea, pequenos orifícios se formam. Esses micro-orifícios permitem
que os vasos sanguíneos atravessem o cilindro ósseo para ganhar o interior do
futuro osso (Fig. 7.13-D).
Os condrócitos hipertrofiados também produzem diversos fatores como o
fator de crescimento do endotélio vascular (VEGF, vascular endothelial growth
factor) que induz o crescimento de vasos sanguíneos em sua direção. Segundo
alguns autores, com o sangue também chegam fatores indutores da apoptose dos
condrócitos hipertróficos. Com a morte dos condrócitos, permanecem os espa-
ços por eles ocupados e a matriz cartilaginosa ao redor permanece parcialmente
calcificada. Conforme os vasos sanguíneos penetram no interior da cartilagem,
eles carreiam células osteoprogenitoras do periósteo, as quais irão se instalar so-
bre os tabiques cartilaginosos parcialmente calcificados, iniciando a síntese dos
elementos da matriz óssea (Fig. 7.13-E, 7.13-F e 7.13-G).
Em seguida, as células osteoprogenitoras alojadas sobre os tabiques de car-
tilagem se diferenciam em osteoblastos e continuam a sintetizar a matriz óssea,
prosseguindo com a deposição de cálcio. Quando os osteoblastos ficam aprisio-
nados na matriz óssea, eles se modificam e se tornam osteócitos. Dessa forma,
estabelece-se tecido ósseo onde anteriormente existia cartilagem.
Com a formação do tecido ósseo se estabelece um canal medular no interior
do osso; as células progenitoras de osteoclastos, que chegaram junto com o san-
gue, darão origem aos osteoclastos, os quais se instalam sobre as espículas ósseas
e participarão do processo de remodelação da futura cavidade medular do osso
(Fig. 13-G).
As modificações que ocorreram na região mediana da diáfise caracterizam o
centro primário de ossificação (Fig. 7.13-F).
Mais tarde, surgem simultaneamente nas epífises dos ossos os centros secun-
dários de ossificação (Fig. 7.13-G); porém, seu crescimento é radial (do centro
para a periferia). Como na superfície articular não existe pericôndrio, não se
forma o anel ósseo nessa área e a cartilagem hialina persiste revestindo o osso
(Fig. 7.13-G).
À medida que ocorre a formação de tecido ósseo nas epífises, a cartilagem
fica restrito a dois locais, (Fig. 7.13-G): (1) como cartilagem articular, que per-
sistirá por toda vida do indivíduo recobrindo a superfície dos ossos na epífise, e
(2) como cartilagem epifisária ou cartilagem de conjugação, localizada entre as
epífises e a diáfise e será responsável pelo crescimento longitudinal do osso. A
cartilagem epifisária pode permanece até os 20 anos de idade do indivíduo.

181
Como resultado de todas essas modificações, na cartilagem epifisária se re-
conhece 5 regiões distintas: zona de cartilagem em repouso ou de reserva, zona
de cartilagem seriada, zona de cartilagem hipertrofiada, zona de cartilagem
calcificada, zona de ossificação (espículas ósseas) (Fig. 7.13-G).

Fig. 7.13: Ossificação endocondral.


G: Com a formação do centro secundário de ossificação, a cartilagem fica restrita a
uma área entre a diáfise e a epífise do futuro osso; essa área é designada como disco
epifisário, no qual se reconhece cindo regiões morfologicamente definidas H: ao ces-
sar a ação hormonal, a cartilagem epifisária desaparece e o osso está completamente
formado e seu crescimento em espessura prosseguirá às custas do periósteo.

Na zona de cartilagem em repouso, os condrócitos possuem morfologia típi-


ca de cartilagem hialina; não proliferam ou se dividem esporadicamente. A zona
de cartilagem seriada, também designada como zona proliferativa, apresenta
condrócitos esféricos ou achatados, os quais se organizam em fileiras paralelas
no sentido longitudinal do osso em formação. Nessa região, os condrócitos pro-

182
duzem a proteína "Indian hedgehog", a qual impede que eles se tornam hipertro-
fiados e induz a liberação da proteína relacionada ao paratormônio (PTH-RP), a
qual promove mitose dos condrócitos.
Na zona de cartilagem hipertrofiada, os condrócitos são mais volumosos
com citoplasma vacuolizado e começam a expressar fatores de transcrição
(Cbfa1; também conhecido como Runx2), além do colágeno do tipo X e o fator
de crescimento vascular endotelial (VEGF), que favorece a invasão vascular. O
Cbfa1 é um indicador precoce e específico da osteogênese, sendo sua expressão
induzida pela BMP7. Já na zona de cartilagem calcificada, ou zona de calcificação
provisória, resulta da deposição de cálcio (mineralização) da matriz cartilagino-
sa; levando à morte de condrócitos por apoptose (provavelmente um reflexo da
redução de nutrientes e oxigenação). Na zona de ossificação há o estabelecimento
do tecido ósseo com a formação de espículas ósseas, as quais são povoadas em
sua superfície por células da linhagem óssea, formando-se osso.
Esses eventos explicam o crescimento dos ossos em comprimento, isto é,
pela proliferação e crescimento intersticial da cartilagem, que mais tarde é
substituída por tecido ósseo (Fig. 7.13-H). Contudo, na diáfise, o crescimen-
to aposicional do osso prossegue graças ao periósteo, onde camadas de tecido
ósseo são adicionadas, aumentado o osso em espessura. Cabe ainda ressaltar
que, quando a cartilagem ainda estava presente, o tecido conjuntivo ao redor do
molde de cartilagem tinha características de pericôndrio e, após a formação do
cilindro ósseo, esse conjuntivo modifica-se à periósteo. Ao final desse processo
se formará o osso e a cartilagem hialina permanecerá apenas como cartilagem
articular (Fig. 13-H) que protegerá a superfície do osso na região da articulação.
Outro ponto que merece destaque é o fato de que, como as células osteopro-
genitoras da camada mais interna proliferam e se diferenciam em osteoblastos,
ao sintetizar a matriz óssea, os osteoblastos ficam aprisionados nela, transforman-
do-se em osteócitos. Durante esse processo, os osteoclastos também são ativos.
Assim, durante o crescimento ósseo, a reabsorção óssea tem papel tão importante
quanto a formação óssea. Por conseguinte, enquanto externamente ocorre depo-
sição de tecido ósseo, internamente estará ocorrendo reabsorção óssea.
Pelo descrito, verifica-se que a ossificação endocondral, processo que desig-
na a formação de tecido ósseo a partir do tecido cartilaginoso do tipo hialino, é
uma etapa importante na formação dos ossos longos.

Crescimento Ósseo em Espessura


Na formação do osso longo, há ainda a necessidade do tecido ósseo se orga-
nizar para que esse se constitua externamente em uma camada capaz se suportar
as forças de tensão (Fig. 7.14).

183
Fig. 7.14: Reorganização do osso a partir de modificações do periósteo.
A: a superfície óssea na região da diáfise não é regular, revelando cristas e sulcos; B:
a partir do periósteo há formação de tecido ósseo, estruturando-se cristas ósseas; C:
as cristas se encontram e se fusionam, formando-se um canalículo que contém um
vaso sanguíneo; D: o periósteo que recobria a superfície do sulco passa a revestir o
canalículo, constituindo o endósteo; E: os osteoblastos do endósteo depositam novas
camadas de tecido ósseo dentro do canalículo; F: forma-se o sistema de Havers, cons-
tituído por lamelas concêntricas ao redor do canal de Havers, o qual contém um vaso
sanguíneo, que anteriormente pertencia ao periósteo.
O tecido conjuntivo não foi esquematizado para facilitar a visualização do processo.

Durante a reorganização óssea, a superfície óssea na região da diáfise se


revela com forma irregular devido à ação de osteoclastos, exibindo cristas e sul-
cos. Os osteoblastos sobre a superfície do tecido ósseo formam o osso através
do aumento das cristas ósseas, enquanto que os osteoclasto, engajados com a
reabsorção, estruturam os sulcos.
Normalmente os vasos sanguíneos transitam no periósteo e com o cres-
cimento das cristas, essas acabam por se fundir, transformando o que era
um sulco em um túnel (canal). Como consequência, parte do conjuntivo
que contém o vaso sanguíneo é aprisionado nesse canal, apresentando os-
teoblastos e osteoclastos em sua superfície. Assim, o periósteo que revestia
o sulco passa a ser o endósteo do canal. Como os osteoblastos do endósteo
continuam a formar novas camadas de tecido ósseo e, em consequência, o
diâmetro do canal irá progressivamente reduzindo, originando um pequeno
canal, o canal de Havers. Esse canal juntamente com as lamelas concên-
tricas constituirá o Sistema de Havers ou osteon. Esse processo prossegue e

184
o tecido ósseo externamente, localizado na diáfise, aumenta em espessura, se
organizando de forma compacta.

REMODELAÇÃO DOS OSSOS

Como os outros tecidos, o tecido ósseo é continuamente renovado durante


a vida adulta. Nos jovens, a formação do osso (histogênese) é maior do que a
reabsorção.
O remodelamento é a substituição do tecido ósseo envelhecido por um novo,
mesmo após o osso ter sua forma e tamanho definidos. Esse processo também
permite que o osso funcione como um reservatório de cálcio, sendo que a tro-
ca do cálcio do tecido ósseo com o sangue ocorre continuamente. Essa troca é
necessária para suprir a necessidade de cálcio em outros tecidos, pois o cálcio
também é fundamental para o desempenho da função muscular e nervosa, sendo
também importante para a coagulação do sangue.
Como os níveis adequados de cálcio são importantes, um excesso na depo-
sição de cálcio no tecido ósseo pode levar a formação de elevações espessas
(esporões), enquanto que a perda excessiva pode tornar os ossos quebradiços
ou muito flexíveis. Vários elementos atuam nesses processos, como a oferta de
minerais na dieta alimentar, sendo o cálcio, fósforo e o magnésio os elementos
mais importantes, além das vitaminas A, C e D.
Na remodelação dos ossos existe uma cooperação delicada entre o osteo-
clasto e o osteoblasto. A atividade coordenada de ambas as células é importante
para a manutenção da homeostase do tecido ósseo, sendo também é influencia-
da por vários hormônios, como o hormônio do crescimento (ou somatotrofina),
os hormônios sexuais (estrogênio e progesterona), a insulina, o hormônio da ti-
reoide, a calcitonina e o hormônio da paratireoide (paratormônio, PTH). Recep-
tores de PTH foram identificados nos osteoblastos e seus precursores, mas não
nos osteoclastos, levando à conclusão que os efeitos do PTH sobre a reabsorção
óssea são intermediados pelos osteoclastos. Quando os osteoblastos são ativados
pelo PTH há a produção de fatores de crescimento e a estimulação e recrutamen-
to dos osteoclastos e, assim, ocorre a reabsorção do tecido ósseo.
Também não se deve esquecer do exercício físico, que submete o osso ao
estresses (atividade de suporte de peso), pois o osso tem a capacidade de alterar
sua força em resposta ao estresse mecânico. Sem o estresse mecânico, o osso
não se remodela normalmente, já que a remodelação óssea é mais ativa quando
comparada com a formação óssea.
Em uma pessoa restrita ao leito ou com um osso imobilizado pelo gesso, a
força do osso não estressado diminui. Nesses casos, a perda óssea pode ser signi-
ficante, atingindo até 1% por semana.

185
Em adultos normais, há um equilíbrio entre a quantidade de osso removido
pelos osteoclastos e a quantidade de osso formado pelos osteoblastos. Ambas as
células somam de 3 a 4 milhões de sítios de remodelação, denominadas Unida-
des Básicas Multicelulares (BMU) de Remodelação Óssea.
A remodelação sempre ocorre na mesma sequência: uma fase de reabsorção
rápida (cerca de 2 semanas) seguida de uma fase de formação óssea mais lenta
(de 2 a 3 meses). A vida útil de uma unidade típica de remodelagem óssea (oste-
on) é de 6 a 9 meses.
O ciclo da remodelação óssea é regulado por fatores de crescimento e pode
ser dividido em 4 fases:

1. Fase de reabsorção: os osteoclastos multinucleados ativados derivados dos


precursores de monócitos da medula óssea reabsorvem uma discreta área de
matriz óssea mineralizada.
2. Fase reversa: as células osteoprogenitoras (precursoras dos osteoblastos), que
podem proliferar localmente e diferenciar em osteoblastos, migram para a
lacuna de reabsorção.
3. Fase formadora: os osteoblastos depositam matriz óssea nova, inicialmente
não mineralizada (osteoide), preenchendo a lacuna de reabsorção.
4. Fase de repouso: uma vez submersos no osteoide, os osteoblastos amadure-
cem e se diferenciam em osteócitos. Os osteoblastos revestem a superfície
do osso recentemente formado e permanecem quiescente até serem ativadas.

Sugere-se que a ativação da sequencia de ocorrências celulares responsáveis


pela remodelação seja controlada localmente por fatores autócrinos ou parácri-
nos gerados no microambiente ósseo. Recentemente foi demonstrado que a força
mecânica pode ser percebida pelos osteócitos. Em resposta às forças mecânicas,
os osteócitos secretam fatores parácrinos, como o fator de crescimento semelhante
à insulina (IGF)-1.
A finalização da reabsorção óssea e o início da formação óssea nas lacunas
de reabsorção ocorrem através de um mecanismo de aposição. Inicialmente, os
osteoblastos sintetizam e liberam metaloproteínas (MMP), as quais são proteínas
com um grupamento prostático metálico que degrada elementos da matriz ex-
tracelular. No tecido ósseo, as metaloproteínas são responsáveis por degradar o
osteoide, expondo a matriz mineralizada que pode ser quimiotática ao osteoclas-
to. Assim, o osteoblasto também estimula diretamente a atividade do osteoclasto.
Durante o processo de reabsorção, fatores de crescimento são liberados na
matriz óssea, ativando as células osteoprogenitoras, as quais amadurecem e ori-
ginam os osteoblastos que, ao sintetizar o osso, substituem o osso removido.
Os mecanismos que levam os osteoblastos a formar osso somente na lacuna de

186
reabsorção estão relacionados à presença de moléculas como o TGF-β (fator de
crescimento transformador beta) e BMP (proteínas morfogenéticas ósseas) dei-
xados durante a atividade osteoclástica.
A reabsorção óssea é desencadeada por sinais dos osteoclastos e de células
da sua linhagem. À medida que se formam, os osteoclastos secretam anexinas,
que são moléculas sinalizadoras capazes de recrutar mais osteoclastos a partir de
seus precursores.
A remodelagem ocorre em áreas do osso que foram enfraquecidas estru-
turalmente por “fadiga”, por estresse mecânico comum ou pela falta de uso.
O estresse mecânico aumenta o fluxo de líquido, gerando uma força dentro do
canalículo ósseo que contém os prolongamentos dos osteócitos. Assim, os oste-
ócitos funcionam como mecanossensores, recebendo os sinais mecânicos trans-
mitidos via líquido intersticial. Os osteócitos respondem aumentando a atividade
da fosfolipase c e da proteína quinase C, que desencadeiam um processo que
culmina com o recrutamento e a diferenciação dos osteoclastos via comunica-
ções com precursores estromais da medula óssea, que estão em contato com as
células endoteliais.

Articulações

As articulações são os locais onde peças ósseas se associam para formar o


esqueleto e podem ser classificadas de acordo com a sua estrutura (base morfoló-
gica) ou de acordo com o tipo de movimento (base fisiológica).

Classificação das articulações segundo os tecidos que unem os ossos


De acordo com o tipo de tecido que une os ossos, as articulações podem se
classificadas como (1) articulações fibrosas, (2) articulações cartilaginosas e (3)
articulações sinoviais.

Articulações fibrosas
Na articulação fibrosa, a superfície articular dos ossos é revestida por tecido
conjuntivo fibroso. As suturas que unem os ossos do crânio são exemplos de articu-
lações fibrosas. Essas articulações podem ser de dois tipos: suturas e sindesmoses.
As suturas são encontradas entre os ossos do crânio. As sindesmoses ocorrem
unindo as extremidades distais da tíbia e da fíbula.

Articulações cartilaginosas
As articulações cartilaginosas podem ser divididas em dois tipos: primárias e
secundárias. As articulações primárias ou sincondroses é uma articulação onde
os ossos estão unidos por cartilagem hialina. Por exemplo, na união ente a

187
primeira costela e o osso externo. Nesse tipo de articulação, nenhum movimento
é possível. Nas articulações cartilaginosas secundárias ou sínfise, os ossos estão
unidos por fibrocartilagem e as superfícies articulares são revestidas por uma fina
camada de cartilagem hialina. Como por exemplo, nas articulações intervertebrais.
O movimento é possível, mas depende das qualidades físicas da fibrocartilagem.

Articulações sinoviais
Nas articulações sinoviais, as superfícies articulares dos ossos são revestidas
por uma fina camada de cartilagem hialina separadas por uma cavidade sinovial.
Este tipo de articulação permite grandes movimentos (Fig. 7.15).

Fig. 7.15: Articulação sinovial

Na articulação sinovial, a cavidade é revestida pela membrana sinovial que


se estende das margens de uma superfície articular a outra e recobre as superfí-
cies não articulares.
A membrana sinovial é uma estrutura constituída por tecido conjuntivo frou-
xo, sendo revestida por dois tipos de células: (1) as células do tipo A, que são
macrófagos e responsáveis pela remoção de restos do espaço articular, e (2) as
células do tipo B, semelhantes a fibroblastos e parecem estar envolvidas na se-
creção do líquido sinovial.
A cavidade articular contém o líquido sinovial, que é um líquido transparente
e viscoso rico em hialuronano (ácido hialurônico) e em uma glicoproteína (lubri-
cina), importante por manter as superfícies lubrificadas.
A membrana sinovial é protegida externamente por uma camada fibrosa – a
cápsula da articulação. A camada fibrosa da cápsula é contínua com o periósteo.

188
Em várias articulações sinoviais, interpostas entre as superfícies articulares,
encontram-se formações fibrocartilaginosas – os discos e os meniscos intra-articula-
res, cujas funções ainda são discutidas. Os discos intra-articulares são encontrados
nas articulações esterno-clavicular e na articulação temporomandibular.
Os meniscos são encontrados na articulação do joelho.

Classificação das articulações segundo o grau de movimentação


Dependendo do grau de movimentação, as articulações podem ser classifica-
das em: (1) sinartroses, onde o movimento é mínimo e (2) diartroses, com ampla
margem de movimento.
Como o tecido de união influencia o grau de movimento, as sinartroses
podem ser dividias em: (1) sinostose, (2) sincondrose e (3) sindesmose.

Sinostose: São articulações com pouco ou nenhum movimento. Nesse tipo de


articulação, os ossos se interdigitam em suas extremidades, o que os mantém
firmemente unidos (ex.: ossos planos do crânio dos adultos). Na maturidade, as
suturas tornam-se firmemente unidas e fundidas.

Sincondrose: São articulações com pouco movimento. Muitas sincondroses são


articulações temporárias, sendo substituídas por osso com o passar do tempo.
Contudo, há sincondroses permanentes, como as articulações entre as dez
primeiras costelas e as cartilagens costais.

Sindesmose: São articulações com pouco movimento e o tecido interposto entre


os ossos também é o tecido conjuntivo fibroso. Como exemplos: sindesmose
tíbio-fibular e radio-ulnar.

Diartrose: As diartroses são articulações móveis e permitem amplos movimentos


e também são chamadas articulações sinoviais (ver acima).

189
8
Tecido Nervoso

O tecido nervoso é constituído por células altamente especializadas, com


pouquíssima matriz extracelular em um mínimo espaço intercelular, sendo re-
gionalmente especializado e bem vascularizado, refletindo sua elevada atividade
metabólica.
O tecido nervoso estrutura o sistema nervoso, sendo anatomicamente repre-
sentado pelo sistema nervoso central (SNC), formado pelo encéfalo e a medula
espinhal, e o sistema nervoso periférico (SNP), que inclui os nervos cranianos e
espinhais, os gânglios nervosos e as terminações nervosas. Através de sua complexa
rede de estruturas, o tecido nervoso permite ao organismo interagir adequada-
mente tanto com órgãos internos quanto com o meio externo.
Embora o sistema nervoso seja formado quase exclusivamente pelo tecido
nervoso, outros tecidos também ocorre, como o tecido conjuntivo que sustenta
os vasos sanguíneos que nutre o sistema nervoso e o próprio tecido epitelial que
forma o revestimento dos vasos sanguíneos (endotélio).
Formando uma complexa organização tecidual, o tecido nervoso possui duas
classes de células: os neurônios (ou células nervosas) e as células gliais (ou célu-
las da glia ou neuroglia). Estima-se que haja cerca de cem bilhões de neurônios
no corpo humano, sendo que a proporção de células gliais em relação aos
neurônios é da ordem de 10:1.
Os neurônios e as células da glia têm origem a partir das células que constituem
o tubo neural (neuroepitélio) (Fig. 8.1). Os neurônios são células especializadas
na condução do impulso nervoso, que representa alterações da carga elétrica que

191
se propaga ao longo da membrana plasmática, enquanto que as células da glia
proporcionam a sustentação e a nutrição dos neurônios. O trabalho coordenado
e harmônico entre os neurônios e as células da glia é importante para a homeos-
tase do tecido nervoso.

Fig. 8.1: Origem dos neurônios e das células da glia a partir do neuroepitélio que
constitui o tubo neural.

Métodos de estudo do tecido nervoso

Devido à morfologia das suas células que possuem diversos prolongamentos


delgados com dimensões que estão abaixo do poder de resolução do microscópio

192
de luz, a análise histológica do tecido nervoso requer a utilização de técnicas especiais
em complementação às técnicas histoquímicas de rotina, como hematoxilina-eosina
(HE). Dessa forma, é possível observar apenas o núcleo e o citoplasma perinuclear
das células nervosas. Em relação às células da glia, praticamente só os núcleos
são visualizados, ficando difícil determinar o tipo de célula da glia.
Para se observar os prolongamentos das células nervosas, assim como o das
células da glia, várias técnicas foram desenvolvidas. Tais técnicas utilizam, de um
modo geral, soluções à base de prata metálica. Quando a prata é reduzida ela
se precipita e se deposita sobre os prolongamentos das células, facilitando sua
visualização da sua silueta. Dessa forma, através da observação de seu contorno
é possível observar os elementos celulares. Por essa razão, as impregnações me-
tálicas são comumente recomendadas para o estudo do tecido nervoso. Contudo,
também há técnicas especiais que utilizam corantes que tem afinidade pelos
diferentes elementos celulares do tecido nervoso.

Neurônios

Responsável pela função de excitabilidade e de condutibilidade do tecido


nervoso, o neurônio (célula nervosa) é a unidade morfofuncional, transmitindo
sinais e informações, através da combinação de processos elétricos e químicos.
Dessa forma, as funções dos neurônios são a recepção, a integração, a condução
e a transferência de informações.
A grande maioria dos neurônios é gerada antes do nascimento. Contudo, algumas
células-tronco (stem cells, no inglês) persistem e originam um pequeno número de
novos neurônios ao longo do tempo de vida dos mamíferos, inclusive nos humanos.
A constante adição de novos neurônios pode ser importante para a manuten-
ção e a plasticidade de algumas partes do sistema nervoso central; porém, essa
adição é insuficiente para repor neurônios que morrem devido às doenças ou
lesões agudas, visto que os neurônios maduros não são mitoticamente ativos, ou
seja, não se dividem.
Geralmente, a atividade neuronal, assim como o seu controle, requer a ex-
pressão de muitos genes, o que se reflete na morfologia nuclear, revelando que o
núcleo é predominantemente eucromático da maioria dos neurônios.
As chaves para o entendimento dos neurônios residem:

• na forma do neurônio e, em particular, em seus processos citoplasmáticos;


• nas substâncias (neurotransmissores) que o neurônio utiliza para se comuni-
car com outros neurônios;
• nos trajetos através dos quais os neurônios podem alcançam outros neurô-
nios e liberar seus neurotransmissores.

193
Estrutura e função dos neurônios
Os neurônios são células grandes com um corpo celular ou pericário, de
onde partem dois tipos de prolongamentos celulares: os dendritos (único ou vá-
rios) e o axônio (único) (Fig. 8.2).

Pericário
O pericário, com diâmetro que varia de 5 a 150µm, é o centro trófico da cé-
lula, sendo representado pelo núcleo e citoplasma perinuclear (Fig. 8.2). O núcleo
dos neurônios é grande, geralmente esférico e rico em cromatina frouxa (eucro-
matina), localizado na região central, exibindo um nucléolo que é bem evidente.
O citoplasma perinuclear apresenta grande quantidade de retículo endoplasmá-
tico rugoso que, devido à riqueza em ribossomos, são visíveis ao microscópio de
luz como aglomerados basófilos e denominados corpúsculos de Nissl ou subs-
tância basófila. O retículo endoplasmático rugoso também ocorre nos dendritos,
mas é ausente na região do pericário onde emerge o axônio e no próprio axônio.
Essa região do pericário de emergência do axônio tem sido denominada cone de
implantação, embora a designação mais apropriada seria cone de emergência,
pois é dessa região que o axônio emerge. O complexo de Golgi é bem desenvol-
vido e está presente numa região próxima ao núcleo. Numerosas mitocôndrias
encontram-se dispersa no pericário, nos dendritos e no axônio, sendo mais
numerosas nas terminações dos axônios.

Fig. 8.2: Neurônio

194
Inclusões, como os grânulos de melanina e os grânulos de lipofuscina, po-
dem ser encontradas nos neurônios de certas regiões do Sistema Nervoso Central
(SNC). A função dos grânulos de melanina ainda permanece não elucidada. O grâ-
nulo de lipofuscina exibe formato irregular, predomina no citoplasma de neurônios
de pessoas idosas e representa o remanescente da atividade de enzimas lisossômicas.
Gotículas lipídicas também são visualizadas em alguns neurônios, podendo
representar uma falha no metabolismo ou uma forma de reserva de energia.
Elementos do citoesqueleto estão distribuídos por todo pericário e pelos
prolongamentos, como neurofibrilas (com mais de 2µm de diâmetro), microtú-
bulos (24nm de diâmetro), neurofilamentos (filamentos intermediário de 10nm
de diâmetro) e microfilamentos (6nm de diâmetro) e desempenham importante
papel na manutenção da forma celular. Os elementos do citoesqueleto podem
ser detectados em microscopia de luz através de técnicas especiais que utilizam
soluções à base de nitrato de prata.

Dendritos
Os dendritos são prolongamentos delicados que partem do pericário e, em
regra, são especializados em receber estímulos oriundos de células sensoriais e
de axônios de outros neurônios (Fig. 8.2). Podem apresentar numerosas ramifica-
ções e possuir os corpúsculos de Nissl. Localizadas na superfície dos dendritos,
há diminutas expansões da membrana plasmática, denominadas espículas, as
quais estão relacionadas ao controle sensorial e à seletividade. Tais espículas
diminuem com a idade e com o estado de subnutrição.
Os impulsos de vários neurônios que chegam aos dendritos são encaminha-
dos ao pericário; porém, algumas vezes é através dos dendritos de um neurônio
que o impulso nervoso pode ser transmitido a outro neurônio, isto é, o sentido do
impulso nervoso é do pericário em direção ao dendrito (ver adiante).

Axônio
É um prolongamento único de vários diâmetros que emerge do pericário e
pode ter mais de 100 cm de comprimento. A região terminal do axônio comumen-
te se apresenta ramificada, constituindo as terminações axonais ou telodendro, as
quais apresentam expansões denominadas botões terminais, onde são observadas
as vesículas sinápticas, nas quais os neurotransmissores são armazenados (Fig. 8.2).
Alguns neurônios apresentam ramos colaterais que emergem em ângulo reto
a partir do tronco do axônio.

Fluxo axoplasmático
Como no axônio não há organelas fixas, como ribossomos, retículo endoplas-
mático e mitocôndrias, os axônios necessitam de um fluxo contínuo de substâncias

195
solúveis e de organelas que se desloquem do pericário até a terminação axonal (ou
axônica). Contudo, a renovação dos componentes da terminação nervosa é obtida
através de um fluxo em sentido contrário, ou seja, do axônio ao pericário.
O trânsito de substâncias e de organelas é denominado fluxo axoplasmático,
podendo ocorrer em dois sentidos:

• fluxo axoplasmático anterógrado: fluxo em direção à terminação axônica;


• fluxo axoplasmático retrógrado: fluxo em direção ao pericário.

Além do sentido, o fluxo nos axônios transcorre em duas fases: uma fase
rápida, quando organelas com membrana circulam, e uma fase lenta, quando
predomina o trânsito de proteínas solúveis e proteínas do citoesqueleto.
O transporte axonal é um mecanismo especial dependente dos filamentos
de transporte, sendo que a energia necessária é fornecida com o catabolismo da
glicose. As mitocôndrias controlam os níveis de cátions no axoplasma através
do fornecimento de ATP às bombas de íons. Para esse transporte axoplasmático,
assim como os neurofilamentos do citoesqueleto, o cálcio também é importante
(Fig. 8.3).

Fig. 8.3: Participação do cálcio no transporte axoplasmático, com participação de


neurofilamentos neurotúbulos.

Classificação dos neurônios

Levando-se em consideração a morfologia e função, os neurônios podem


classificados de acordo com: (1) a forma do pericário, (2) a quantidade de pro-
longamentos, (3) sua função e (4) localização. Contudo, outras classificações
também podem ser adotadas.

196
De acordo com a forma do pericário

Os neurônios podem ser classificados de diversas maneiras embora neurônios com


morfologia diferente daquelas aqui mencionadas podem ser encontrados (Fig. 8.4).

Fig. 8.4: Tipos de neurônios (de acordo com a forma do pericário).

• neurônio estrelado: pericário lembrando a forma de estrela (ex.: neurônio


motor da medula espinhal);
• neurônio piramidal: pericário com formato triangular, com um dendrito
ascendente proeminente (ex.: neurônio do córtex cerebral);
• neurônio piriforme: pericário em forma de uma pera (ex.: neurônio de
Purkinje do córtex cerebelar);
• neurônio fusiforme: pericário com forma alongada como de um fuso.
Esse neurônio é observado entre as células do epitélio respiratório na
região olfatória da cavidade nasal (ex.: epitélio olfativo);
• neurônio globoso: pericário com forma esférica (ex.: neurônios ganglionares
presentes nos gânglios cérebro-espinhais);

197
• neurônio em cesta: pericário com aspecto de uma cesta, onde o axônio emi-
te grupo de pequenos ramos que envolvem a célula de Purkinje (ex.: célula
em cesta do córtex cerebelar);

Quanto à quantidade de prolongamentos

Os neurônios também podem se classificados quanto à quantidade de


prolongamentos que emergem do pericário (Fig. 8.5):

Fig. 8.5: Tipos de neurônios (de acordo polaridade).

• neurônio unipolar: possui um único prolongamento, mas pequenas expan-


sões desse prolongamento funcionam como receptores sensoriais e outros
como efetores. Esses neurônios são comuns em invertebrados, na fase em-
brionária dos vertebrados e em células amácrinas da retina.
• neurônio bipolar: possuem um dendrito e um axônio (neurônios sensoriais
do epitélio olfativo ou na retina).
• neurônio pseudounipolar: apresenta um único prolongamento que se ramifi-
ca próximo ao pericário. Esses neurônios surgem na vida embrionária como
neurônios bipolares, cujas regiões proximais do axônio e do dendrito se fu-
sionam para formar um segmento único, embora curto, que deixa o corpo
celular (ex.: neurônio sensorial globoso dos gânglios cerebroespinhais).
• neurônio multipolar: possui um axônio e diversos dendritos. Esse neurônio
é o tipo mais frequente de neurônio (ex.: neurônios motores estrelados da
medula espinhal, neurônios piramidais do córtex cerebral e neurônios piri-
formes de Purkinje do córtex cerebelar).

198
De acordo com a função

De acordo com a função, os neurônios podem ser classificados em considerando:


(1) como a informação é transmitida e (2) onde os neurônios estão localizados. Como
a informação em um mesmo neurônio só pode ser transmitida em uma direção, os
neurônios podem ser classificados como neurônios sensoriais e neurônios motores.

• neurônios sensoriais ou aferentes: captam as informações a partir de recep-


tores sensoriais e transmitem as informações para o SNC, conduzindo-as sob
a forma sensorial.
• neurônios motores ou eferentes: inervam e regulam a atividade de células-
-alvo, transmitindo comandos originados no SNC para as células musculares
e para as glândulas.
• interneurônios: neurônios que conectam um neurônio com um outro, sendo
representado pela maioria das células nervosas do tecido nervoso.

Quanto à localização

Quanto à localização dos neurônios, os neurônios podem ser classificados


como centrais e periféricos.

• centrais: localizados no interior da substância cinzenta ou da substância


branca do SNC, podendo estar:
ü Organizado em camadas: neurônios localizados no córtex cerebral e
córtex cerebelar, regionalmente diferenciados em áreas distintas.
ü Organizados em grupos (ou núcleos): grupos de neurônios presentes no
interior da substância branca (substância nigra, núcleo rubro, núcleo olivar).

• periféricos: neurônios localizados na retina ou em gânglios do sistema ner-


voso autônomo (simpático e parassimpático).
ü Organizado em camadas: organizados no córtex retiniano.
ü Localizados em gânglios: gânglios cerebroespinhais, gânglios intramurais
(parassimpático) e células ganglionares intramedulares (medula da adrenal).

Sinapse

Os neurônios estabelecem comunicação com outros neurônios com a finali-


dade de transmitir o impulso nervoso; esses locais especializados são conhecidos
como sinapse. É através das sinapses que os neurônios realizam suas funções,
passando suas informações para outros neurônios.
Além das sinapses, os neurônios também podem estabelecer contato com
uma célula muscular, formando as placas motoras, ou mesmo com uma célula
(complexo de Merkel da pele) ou com uma glândula.

199
Classificação das sinapses
Quanto à transmissão da informação, as sinapses podem ser classificadas
como sinapses químicas ou sinapses elétricas.

Sinapse química
Para a propagação da transmissão do impulso nervoso há a necessidade de que
o neurônio transmissor da informação produza uma substância química (neurotrans-
missor), a qual deve se ligar à receptores da célula nervosa receptora do estímulo.
Na estruturação desse tipo de sinapse nota-se que há um elemento pré-si-
náptico, formado pelos prolongamentos terminais (botões terminais sinápticos)
da célula transmissora, e um elemento pós-sináptico, representado por uma re-
gião da membrana da célula receptora. No elemento pré-sináptico acumulam-se
vesículas contendo os neurotransmissores e entre o elemento pré-sináptico e o
elemento pós-sináptico há um espaço de 20-30nm, a fenda sináptica.
Quando o impulso nervoso chega ao botão terminação (estrutura pré-sináptica),
a despolarização da membrana provoca abertura de canais de cálcio. Com o influxo
de cálcio, desencadeia-se a movimentação das vesículas sinápticas, levando à libera-
ção do seu conteúdo (neurotransmissores) para a fenda sináptica (Fig. 8.6).
Ao ganhar a fenda sináptica, o neurotransmissor se liga ao receptor localiza-
do na membrana do elemento pós-sináptico, se fixando. Dessa forma, o impulso
é propagado. A quantidade de neurotransmissor liberada está diretamente rela-
cionada ao número total de potencial de ação por unidade de tempo que chega à
terminação. Na membrana pré-sináptica, as variações do potencial de membrana
podem excitar ou inibir o elemento pós-sináptico, caracterizando as sinapses
como excitatórias ou inibitórias, respectivamente. Devido à estrutura e à organi-
zação, a condução do impulso nervoso na sinapse química é unidirecional.

Fig. 8.6: A vesícula com neurotransmissores se ancora em um sítio ativo. Com o aumento de
Ca2+ local, as vesículas se fundem com a membrana plasmática, liberando os neurotransmis-
sores para a fenda sináptica. Após liberação, a vesícula recoberta de clatrina, se reconstitui.

200
Neurotransmissores
Alguns neurotransmissores têm efeitos rápidos, mas transitórios, nas células
pós-sinápticas, enquanto outros têm efeitos mais lentos e podem durar por minu-
tos ou até mesmo horas. Muitos dos neurotransmissores conhecidos pertencem
a uma das três maiores classes químicas: aminas, aminoácidos e oligopeptídeos.

Acetilcolina
A acetilcolina é produzida pela reunião da acetilcoenzima A (acetil CoA)
com a colina, sendo obtida por captação ativa do fluido extracelular. Os neu-
rônios motores estão entre as poucas células nervosas capazes de sintetizar a
acetilcolina; porém, a maioria dos outros neurônios é incapaz de sintetizar esse
neurotransmissor.

Aminas biogênicas transmissoras


Entre as aminas que funcionam como neurotransmissores estão a norepine-
frina, a epinefrina, a dopamina, a serotonina e a histamina. A dopamina, a no-
repinefrina e a epinefrina são catecolaminas, compostos químicos derivados do
aminoácido tirosina, sendo solúveis em água; 50% das catecolaminas circulam
no sangue ligadas à proteínas plasmáticas.

Aminoácidos transmissores
A glicina, o aminoácido mais simples, é um neurotransmissor inibitório libe-
rado por certos interneurônios espinhais.
O ácido γ-aminobutírico (GABA) não é incorporado em proteínas e estão
presente em certos neurônios do SNC, como os neurônios basais, as células de
Purkinje do cerebelo e certos interneurônios espinhais, sendo mais comum no
cérebro. O GABA funciona como um transmissor inibitório. Já o glutamato e o
aspartato excitam fortemente muitos neurônios no cérebro.

Oxido nítrico (NO)


O óxido nítrico é um transmissor presente na sinapse neuromuscular, entre
os neurônios inibitórios do sistema nervoso entérico e de células do músculo liso
da via digestória; funciona também como um neurotransmissor no SNC, sendo
importante sinalizador intracelular e extracelular.
O NO é produzido por uma ampla variedade de tipos celulares, incluindo
células epiteliais, nervosas, endoteliais e inflamatórias. Sua síntese se realiza por
ação de uma enzima, a óxido nítrico sintetase (NOS) a partir do aminoácido L-
-arginina, produzindo NO e L-citrulina na presença de dois cofatores, o oxigênio
e o fosfato dinucleotideo adenina nicotinamida (NADPH).

201
Peptídeos neuroativos
Certas células liberam peptídeos que atuam em baixas concentrações para
excitar ou inibir neurônios. Esses neuropeptídeos podem atuar como hormônios,
como neurotransmissores ou como neuromoduladores.
Como exemplos de neuropeptídeos ativos tem-se a neurotensina, a motilina,
a insulina, a somatostatina (fator de inibição da liberação do hormônio de cresci-
mento), a ocitocina, a bombesia, dentre outros.

Sinapse elétrica
Os neurônios que participam da formação de uma sinapse elétrica se unem
através de junções comunicantes (junção gap), as quais permitem a passagem de
íons de uma célula nervosa para outra, através uma conexão elétrica e consequen-
temente a transmissão do impulso. Nesse tipo de sinapse não há a fenda sináptica e
o elemento pré-sináptico entra em contato direto com o elemento pós-sináptico.
As sinapses elétricas estão presentes no SNC de diversos grupos animais, sendo
raras em mamíferos, mas observadas nos vertebrados inferiores e nos invertebrados.

Classificação das sinapses quanto ao contato


Apesar de um mesmo neurônio poder estabelecer múltiplas conexões sináp-
ticas, dependendo do contato sináptico estabelecido entre neurônios, as sinapses
podem ser ainda classificadas como (fig. 8.7):

Fig. 8.7: Tipos de sinapse.

202
• Sinapse axossomática: a transmissão do impulso se faz do axônio de um
neurônio para o pericário de outro neurônio.
• Sinapse axodendrítica: a transmissão do impulso se faz do axônio de um
neurônio para o dendrito de outro neurônio.
• Sinapse axoaxônica: o impulso é transmitido do axônio de um neurônio para
o axônio de outro neurônio.
• Sinapse dendodendrítica: o dendrito de um neurônio entra em contato com
o dendrito de outro neurônio.

Os neurônios peptidérgicos ainda podem desempenhar atividade secretora,


estando seus pericários localizados no hipotálamo e seus axônios se dirigem para
a porção posterior da hipófise (neuro-hipófise) onde liberam os hormônios oci-
tocina e vasopressina, numa clara demonstração da integração entre o sistema
nervoso e o sistema endócrino.
Milhares de axônios fazem contato com o neurônio motor-espinhal. Alguns
desses neurônios são excitatórios e provocam despolarização da célula pós-
-sináptica, levando-a para próximo do limiar. Outros neurônios são inibitórios e
hiperpolarizam o neurônio motor, o afastando-o do limiar.

Células da glia ou neurOglia

A neuroglia forma um sistema de sustentação crítico para os neurônios, além


de protegê-los. Essas células geralmente são menores do que os neurônios;
porém, são de 5 a 50 vezes mais numerosas (Fig. 8.1).
Nas preparações histológicas coradas pela hematoxilina e eosina (HE),
somente os núcleos das células da glia são visualizados; portanto, para melhorar
a visualização dessas células, deve-se utilizar técnicas especiais, como a impreg-
nação pela prata ou pelo ouro.
As células da glia não geram nem conduzem o impulso nervoso, mas partici-
pam no controle do microambiente onde estão os neurônios e, ao contrário dos
neurônios, são capazes de se dividir, mesmo no adulto.
Existem seis tipos morfologicamente distintos de neuroglia: microglia, astrócitos,
oligodendrócitos, células de Schwann (neurolemócitos), células ependimárias, e
células satélites (Fig. 8.1).

Microglia
A microglia é representada por células pequenas com núcleo oval, citoplasma
escasso e prolongamentos pequenos e irregulares (Fig. 8.8). Essas células possuem
capacidade fagocitária e representam macrófagos pertencentes ao sistema mononu-
clear fagocitário, atuando na remoção de resíduos e estruturas danificadas no SNC.

203
Fig. 8.8: Microglia.

Astrócitos
Os astrócitos possuem núcleo esférico e central e numerosos prolongamen-
tos citoplasmáticos, sendo as maiores células da glia; participam no metabolismo
de neurotransmissores e mantêm o equilíbrio do K+ no microambiente dos
neurônios no SNC para a geração de impulsos nervosos.
A porção terminal dos prolongamentos dos astrócitos forma pequenas dilata-
ções, denominados pés terminais (pedicelos), os quais estabelecem contato com os
neurônios e com vaso sanguíneo. Aqueles que interagem diretamente com os capi-
lares sanguíneos são denominados pés vasculares e formam uma camada contínua,
isolando o capilar (Fig. 8.9). Esse isolamento é importante, pois toda substância que
transita pelo sangue para alcançar os neurônios tem que passar obrigatoriamente pe-
los astrócitos. Dessa forma, se estrutura a barreira hematoencefálica que controla o
trânsito de substâncias que chegam aos neurônios. Assim, estruturalmente, a barreira
hematoencefálica é formada pelos pés vasculares dos astrócitos, pela membrana ba-
sal dos capilares sanguíneos e pela própria célula endotelial do capilar.

Fig. 8.9: Relação dos astrócitos com os neurônios e os vasos sanguíneos.

204
Os pés astrocitários também estabelecem contato com o tecido conjuntivo
na superfície do SNC - a pia-máter, a camada mais interna das meninges (ver
adiante). Esses prolongamentos auxiliam também na integridade do tecido ner-
voso, pois limitam a livre difusão de substâncias para o SNC. Nessa região, os
pés terminais dos astrócitos localizados se organizam lado a lado, formando uma
camada contínua em contato com a pia-máter, sendo denominados pés terminais
subpial e constituem a membrana pia-glial (ver adiante, meninges).
Os astrócitos também participam no controle da concentração de íons no
espaço intercelular. Quando ativos, os neurônios liberam K+, aumentando a sua
concentração no meio extracelular. Como os astrócitos são altamente permeáveis
ao K+, o K+ do meio extracelular é rapidamente removido, causando despolari-
zação neural.
Os astrócitos também atuam na vasomodulação, isto é, são intermediários
da regulação neural do fluxo do sangue através da sua ação sobre o capilar
sanguíneo. Morfologicamente, distingue-se dois tipos de astrócitos: astrócitos
protoplasmáticos, que predominam na substância cinzenta, e astrócitos fibrosos
presentes principalmente na substância branca do SNC (Fig. 8.1). A manutenção
da forma dos astrócitos é conferida por filamentos citoplasmáticos constituídos
principalmente pela proteína ácida fibrilar glial. Os astrócitos protoplasmáticos
apresentam citoplasma abundante e numerosos prolongamentos espessos e ra-
mificados, enquanto que o citoplasma dos astrócitos fibrosos é menos abundante
e seus prolongamentos são longos, delgados e não se ramificam. A literatura
especializada também apresenta outro tipo de nomenclatura, sendo o astrócito
protoplasmático designado como astrócito do tipo I, enquanto que o astrócito
fibroso é o astrócito do tipo 2.

Oligodendrócitos
Os oligodendrócitos são células menores e com menos prolongamentos
quando comparado com os astrócitos (Fig. 8.1), sendo encontrados tanto na subs-
tância branca quanto na substância cinzenta. Quando o axônio de um neurônio
é envolto por prolongamentos do oligodendrócito, forma-se uma fibra nervosa.
O prolongamento do oligodendrócito, ao envolver o axônio, pode dar várias vol-
tas sobre si mesmo, resultado na superposição da membrana plasmática, formando a
bainha de mielina, que serve para isolar os prolongamentos dos neurônios (Fig. 8.10).
Nesse caso, a fibra nervosa formada é uma fibra nervosa mielínica.
Caso o prolongamento do oligodendrócito envolva o axônio de um neurônio,
sem dar várias voltas, isto é, sem formar a bainha de mielina, forma-se uma fibra
nervosa amielínica.
No SNC, as fibras nervosas mielínicas e amielínicas se reúnem em grupos,
constituindo os tratos.

205
Existe um trabalho cooperativo entre o oligodendrócito e o astrócito fibroso,
o qual tem como função auxiliar a promoção da atividade mielinizante pelos
oligodendrócitos. A atividade elétrica nos neurônios causa a liberação de ATP, o
qual serve de estimulo para a mielinização. Contudo, o ATP não atua diretamente
nos oligodendrócitos, mas faz com que os astrócitos secretem citocina LIF (fator
inibitório de leucemia), uma proteína regulatória que promove a atividade mieli-
nizante do oligodendrócito.

Fig. 8.10: Oligodendrócitos e a formação de fibras nervosas no sistema nervoso central.

Células de Schwann
As células de Schwann são células alongadas com um núcleo achatado; o
citoplasma é relativamente abundante, possui um complexo de Golgi pouco de-
senvolvido e poucas mitocôndrias. Essas células se localizam no sistema nervoso
periférico (SNP), onde, ao envolver um ou vários axônios, formam fibras nervosas
(Fig. 8.11).

206
Fig. 8.11: Formação da fibra nervosa no sistema nervoso periférico pela célula de
Schwann.

Na formação das fibras nervosas, a célula de Schwann pode envolver um


axônio, enrolando-se muitas vezes ao redor do axônio. Quando ocorre a su-
perposição da membrana plasmática constitui-se a bainha de mielina e, dessa
maneira, a fibra nervosa formada é denominada fibra nervosa mielínica. Em outros
locais, quando a célula de Schwann envolve o axônio, mas sem se enrolar vá-
rias vezes o axônio, apenas revestindo-o, isto é, sem formar a bainha de mielina,
forma-se uma fibra nervosa amielínica.
A reunião de várias fibras nervosas, mielínicas e/ou amielínicas, forma os
nervos do SNP.
Como a célula de Schwann é pequena, para envolver um axônio, há a
necessidade da participação de várias células de Schwann para se formar uma
fibra nervosa. Nos locais que representam o limite entre duas células contíguas
ao longo do mesmo axônio é possível notas interrupções de pontos em pontos
denominadas nó de Ranvier, os quais tornam-se mais evidentes quando a fibra
nervosa é mielínica. O espaço entre dois nós de Ranvier é denominado internó-
dulo (Fig. 8.11).

207
Quando a célula de Schwann envolve um axônio para formar a bainha de
mielina, certa quantidade do citoplasma pode ficar retida entre as suas membra-
nas, constituindo as fendas ou incisuras de Schmidt-Lanterman, características
do SNP.
A mielinização aumenta dramaticamente a velocidade de condução do im-
pulso nervoso do axônio de um nervo e o potencial de ação é conduzido muito
rapidamente de um nó de Ranvier para outro.

Mielina
A bainha de mielina é designação conferida à superposição das membranas
plasmáticas quando o oligodendrócito (SNC) ou a célula de Schwann (SNP) en-
volvem o prolongamento de neurônios.
De um modo geral, a composição básica de membrana é a mesma, isto é, é
formada por lipídeos e proteínas que estruturam a membrana plasmática. Entre-
tanto, a esfingomielina e glicoproteínas1 são mais frequentes na mielina do SNP.
As glicoproteínas podem ser de três tipos: a proteína básica da mielina, a proteína
proteolipídica e a proteína zero da mielina.
A proteína básica da mielina (MPB) está relacionada à estabilização da mielina
e é uma proteína da matriz citoplasmática ligada à membrana plasmática, presente
no SNC (oligodendrócito) e no SNP (célula de Schwann). A proteína proteolipí-
dica (PLP) está relacionada à estabilização da bainha de mielina e possui quatro
domínios transmembranares; no SNC está relacionada com o desenvolvimen-
to neural. A proteína zero da mielina (P0) predomina no SNP e se projeta para
o meio extracelular onde interage com outra P0 semelhante, estabilizando as
membranas plasmáticas, sendo importante no processo de formação da mielina.
Tanto a proteína proteolipídica quanto a proteína zero da mielina participam
da estabilização da bainha de mielina e, alteração dessas proteínas podem causar
diversas doenças desmielinizantes, como a esclerose múltipla.

Células ependimárias
As células ependimárias são células cilíndricas ou cúbicas que revestem as
cavidades do encéfalo (ventrículos cerebrais) e o canal central da medula espi-
nhal (Fig. 8.1), sendo responsáveis pela produção do líquido cerebrospinal (Fig.
8.12). O citoplasma das células ependimárias encontra-se repleto de filamentos
intermediários e de mitocôndrias.

1 glicoproteínas são proteínas ligadas à carboidratos, sendo que a parte proteica encontra-
se inserida na bicamada lipídica, entre os fosfolipídeos, enquanto que a porção glicídica
está voltada para o meio extracelular.

208
Fig. 8.12: Relações funcionais e estruturais envolvendo a barreira hematoencefálica
e a hematoliquórica.

Em algumas regiões, as células ependimárias apresentam cílios e participam


do deslocamento do líquido cerebroespinhal que preenche as cavidades do SNC.
Certos locais do SNC, a pia-máter forma pregas de tecido conjuntivo alta-
mente vascularizado, sendo revestido por células ependimárias modificadas que
apresentam microprojeções; essas estruturas são o plexo coroide, que secreta o
líquido cefalorraquidiano (LCR) ou líquor. O líquido cerebroespinhal preenche
as cavidades dos ventrículos cerebrais, o canal central da medula, o espaço
subaracnoideo e os e os espaços perivasculares. O LCR é importante no metabo-
lismo do SNC, além de protegê-lo contra traumatismos externos. Sua composição
difere da sangue por apresentar menor concentração de K+, glicose e proteína e
maior concentração de Na+ e Cl-. Em condições normais, no LCR não há células
sanguíneas.

Células satélites ou células capsulares


As células satélites são células achatadas, dispostas em torno do pericário
dos neurônios ganglionares localizados nos gânglios nervosos. Esses gânglios re-
presentam agrupamentos de pericários de neurônios no SNP, sendo sustentados
por um estroma de tecido conjuntivo. As células satélites se originam a partir de
células provenientes da crista neural e têm como principal função a sustentação
dos neurônios ganglionares (Fig. 8.13).

209
Fig. 8.13: Células ganglionares em um gânglio nervoso.

GÂNGLIOS NERVOSOS

Os gânglios representam agrupamentos de pericários de neurônios ganglionares


(pseudounipolar) localizados fora do SNC, formando estruturas esféricas comumente
interpostas no trajeto de nervos. Os pericários desses neurônios são revestidos por uma
única camada de células satélites e seus prolongamentos pelas células de Schwann,
sendo que o estroma de sustentação é feito por um tecido conjuntivo frouxo.
Os gânglios nervosos são envoltos por uma cápsula de tecido conjuntivo – a
cápsula do gânglio (Fig. 8.13), sendo que o tecido conjuntivo da cápsula se con-
tinua com aquele do epineuro dos nervos. Pequenos gânglios nervosos podem
ser encontrados também na parede de vários órgãos, como na parede do tubo
digestório, e constituem os gânglios viscerais.

NERVOS

Nervo é a denominação conferida ao conjunto de feixes de fibras nervosas no


SNP e se apresentam como estruturas esbranquiçadas devido à riqueza em fibras
colagenosas, as quais mantém as fibras nervosas unidas, sustentando os consti-
tuintes dos nervos e permitindo o trânsito de estruturas vasculares, importante
para a nutrição dos elementos teciduais (Fig. 8.14).

Fig. 8.14: Elementos de um nervo.

210
Raros são os nervos formados somente por fibras amielínicas. Em sua maio-
ria, os nervos são mistos, isto é, formados tanto por fibras nervosas mielínicas
quanto por fibras nervosas amielínicas.
A camada mais externa, formada de tecido conjuntivo denso não modelado,
é denominada epineuro. À medida que se dirige ao interior do nervo, o tecido
conjuntivo se torna gradativamente mais delgado, envolvendo pequenos grupos
de fibras nervosas, sendo denominado perineuro. Conforme se dirige ao interior
do nervo, a espessura do perineuro é progressivamente reduzida e cada fibra ner-
vosa é envolvida por tecido conjuntivo frouco, denominado endoneuro, o qual é
constituído principalmente por fibrilas colagenosas (fibras reticulares) produzidas
pelas células de Schwann.

Classificação funcional dos nervos


Os nervos estabelecem comunicação entre os centros nervosos e os órgãos.
Tendo como ponto de referência o SNC, os nervos possuem fibras aferentes (que
chegam ao SNC) e fibras eferentes (que deixam o SNC).
Os nervos que possuem apenas fibras de sensibilidade (aferentes) são
denominados nervos sensitivos e os nervos formados por fibras que levam a
mensagem para os centros efetores (eferentes) são os nervos motores. A maioria
dos nervos é do tipo misto, isto é, formado por fibras aferentes e fibras eferentes.

REAÇÃO DO TECIDO NERVOSO À LESÃO

As lesões podem induzir respostas dos neurônios e das células da glia. A


resposta do neurônio à lesão pode levar à sua degeneração ou à regeneração, ou
melhor, regenerar alguma parte do neurônio.
Quando as lesões são muito graves, pode ocorrer morte celular. Uma vez
que o neurônio é perdido, ele não poderá ser substituído, mas a área lesada é
repovoada por células da glia.

Degeneração e Regeneração
A secção do axônio de um neurônio induz uma reação que ocorre no
pericário - a cromatólise, caracterizada pela dispersão da substância de Nissl
e aumento do volume do pericário com deslocamento do núcleo para uma
posição excêntrica.
Quando o axônio é lesionado, as células de Schwann ao redor do axônio se
dividem e preenchem o espaço entre os cotos proximal e distal do axônio em
degeneração. O coto proximal forma múltiplos brotamentos que avançam em
várias direções por entre as células de Schwann. Persistindo um brotamento, esse

211
cresce ao longo de caminhos delimitados pelas células de Schwann e o axônio
poderá inervar novamente o órgão-alvo. enquanto que os remanescentes dos ou-
tros brotamentos que não seguem esse "caminho" degeneram, sendo fagocitados
por macrófagos.
Como o crescimento dos axônios ocorre numa velocidade de 0,5 a 3mm
por dia e, uma vez que o axônio regenerado atinge o órgão-alvo, o que pode ne-
cessitar até vários meses, as células de Schwann iniciam a produção da mielina,
completando a regeneração da fibra nervosa.
Após a regeneração do neurônio, o pericário restabelece sua morfologia usual;
porém, no axônio reparado, os segmentos internodulares são mais curtos.

Funções gerais do sistema nervoso

As funções gerais do sistema nervoso incluem a percepção sensorial, o


processamento de informações e o comportamento.
A aprendizagem e a memória são formas especiais do processamento de
informação, que permite ao comportamento se adequar em resposta a desafios
prévios do meio e depende da comunicação intercelular nos circuitos neurais e
envolve eventos químicos e elétricos.
A excitabilidade é a propriedade celular dos neurônios que estruturam o
sistema nervoso, relacionada com sinais elétricos, permitindo a recepção e a
transmissão de informações, sendo a percepção sensorial o processo onde os
neurônios especiais, denominados receptores sensoriais, traduzem a energia am-
biental em sinais neurais,.
A totalidade das respostas de um organismo ao seu ambiente representa seu
comportamento, o qual pode ser oculto, como no caso da cognição, mas fre-
quentemente observado como um ato motor, como um movimento ou uma
resposta autônoma.

DIVISÃO ANATÔMICA DO SISTEMA NERVOSO

Como já referido, anatomicamente, o Sistema Nervoso pode ser dividido em


sistema nervoso central (SNC) e sistema nervoso periférico (SNP). Essa divisão se
baseia na distribuição anatômica dos seus constituintes.

Sistema nervoso central


O sistema nervoso central é representado pelo encéfalo e a medula espinhal.
No embrião de 5 semanas, o encéfalo se apresenta dividido em 5 regiões: o mie-
lencéfalo, o metencéfalo, o mesencéfalo, o diencéfalo e o telencéfalo (Fig. 8.15).

212
Fig. 8.15: Divisão do sistema nervoso central no embrião por volta da 5ª semana do
desenvolvimento, com as vesículas cerebrais.

Com o desenvolvimento do mielencéfalo dá origem a medula oblonga (ou


bulbo); o metencéfalo inclui a ponte e o cerebelo; o mesencéfalo é o próprio
mesencéfalo; o diencéfalo originará o tálamo e o hipotálamo, enquanto que o
telencéfalo forma os gânglios da base e o córtex cerebral.
O encéfalo é dividido em lobos, sendo seus nomes relacionados com o nome
dos ossos da calota craniana que os recobre, a saber: lobo frontal, lobo parietal,
lobo temporal e lobo occipital; os hemisférios cerebrais, direito e esquerdo, são
conectados através da linha média por um feixe maciço de axônios, o corpo
caloso (Fig. 8.16).

Fig. 8.16: Sistema nervoso central do adulto e suas principais regiões.

213
A observação macroscópica de um corte de encéfalo ou da medula espinhal
revela áreas claras e áreas escuras, denominadas substância branca e substância
cinzenta, respectivamente.
A localização de ambas as substâncias depende da porção do sistema ner-
voso analisada. No encéfalo, a substância cinzenta se localiza perifericamente
em relação à substância branca, que é interna. Na medula espinhal, essa dispo-
sição se inverte, isto é, a substância branca passa a se localizar externamente em
relação à substância cinzenta, que é interna. Na medula espinhal, a substância
cinzenta forma o eixo central, sendo envolta pela substância branca; em corte
transversal, a substância cinzenta da medula lembra a letra forma “H”, mas com
variações conforme a região da coluna vertebral. Em certas regiões do SNC, agre-
gados de substância cinzenta são circundados totalmente por substância branca,
sendo esses agregados denominados de núcleos.
A análise microscópica revela que existe uma preferência de localização
dos elementos do tecido nervoso nas diversas regiões do sistema nervoso.
Na substância cinzenta ocorrem os pericários de neurônios, os astrócitos
protoplasmáticos, os oligodendrócitos e a microglia, havendo predomínio das
fibras amielínicas,enquanto que na substância branca são observados os prolon-
gamentos dos neurônios (dendritos e axônios), os oligodendrócitos, os astrócitos
fibrosos, a microglia, além de predominar as fibras nervosas mielínicas.

Meninges
As meninges, constituídas por tecido conjuntivo, envolvem o encéfalo e a
medula nervosa, sendo formadas por três camadas: (1) dura-máter, (2) aracnoide,
e (3) pia-máter (Fig. 8.17).

Fig. 8.17: Meninges.

214
A dura-máter, constituída por tecido conjuntivo denso, se continua com o
periósteo dos ossos do crânio, sendo a face interna revestida por um epitélio
pavimentoso simples. A aracnoide-máter, formada por uma delgada camada de
tecido conjuntivo, é avascular, isto é, não possui vasos sanguíneos. Entre a dura-
-máter e a aracnoide há o espaço extradural (antigamente denominado epidural),
o qual possui estruturas venosas e delicadas projeções de tecido conjuntivo que
partem da aracnoide, ligando-a à pia-máter.
A pia-máter é muito vascularizada e se encontra aderida ao tecido nervoso;
porém, entre a aracnoide e a pia-máter, existe o espaço subaracnoideo. Apesar
de os vasos sanguíneos da pia-máter penetrarem no tecido nervoso, existe uma
membrana limitante glial superficial formada pelos pés-terminais dos astrócitos
protoplasmáticos, que tem por finalidade constituir uma barreira entre os vasos
sanguíneos e o tecido nervoso do SNC, evitando que outros elementos não te-
nham contato direto com os neurônios.

Sistema nervoso periférico


O sistema nervoso periférico é representado pelos nervos e os gânglios ner-
vosos, os quais já foram comentados anteriormente.

DIVISÃO FUNCIONAL DO SISTEMA NERVOSO

Funcionalmente, o sistema nervoso é subdividido em sistema nervoso somá-


tico e sistema nervoso autônomo, ambos importantes na manutenção da home-
ostase do organismo. O sistema nervoso somático propaga os impulsos nervosos
motores aos músculos esqueléticos, enquanto que o sistema nervoso autônomo
propaga os impulsos motores ao músculo liso das vísceras, ao músculo cardíaco
e às células secretoras das glândulas exócrinas e endócrinas.

Sistema nervoso autônomo


Também denominado sistema nervoso involuntário ou visceral é responsável pelo
controle da musculatura lisa, do ritmo cardíaco e da atividade secretora de glândulas.
As vias motoras autônomas envolvem dois neurônios motores: um neurônio que
se estende do SNC até um gânglio nervoso e o outro neurônio que parte do gânglio e
vai até o órgão efetor. Em uma via autônoma, o primeiro neurônio motor, o neurônio
pré-ganglionar, tem seu pericário na substância cinzenta do encéfalo ou da medula
espinhal e seu axônio mielinizado é denominado fibra pré-ganglionar.
A fibra nervosa que atinge um gânglio autônomo estabelece sinapse com um
segundo neurônio motor, denominado neurônio pós-ganglionar, que se situa total-
mente fora do SNC. A fibra nervosa do neurônio pós-ganglionar, que é amielínica,
termina em um órgão efetor. Assim, os impulsos nervosos vindo do SNC chegam

215
aos neurônios dos gânglios autônomos através de neurônios pré-ganglionares, sen-
do retransmitidos aos órgãos efetores viscerais pelos neurônios pós-ganglionares.
Os gânglios autônomos são encontrados nos troncos simpáticos, nos plexos
(plexo celíaco e mesentérico) e próximos ou no interior de vísceras – plexo visce-
ral (plexo de Auerbach e plexo de Meissener).
Anatomicamente e fisiologicamente, o sistema nervoso autônomo pode ser
subdividido em duas porções distintas: o sistema nervoso simpático e o sistema
nervoso parassimpático. O sistema nervoso simpático geralmente prepara o or-
ganismo para a ação, aumentando a frequência respiratória, a pressão sanguínea,
o ritmo cardíaco e o fluxo do sangue que se dirige para os músculos esqueléticos,
dilatando as pupilas e, geralmente, diminuindo a função das vísceras. Já o siste-
ma nervoso parassimpático tende a ser funcionalmente antagonista ao sistema
simpático, isto é, diminui o ritmo da respiração, reduz a pressão sanguínea, o
ritmo cardíaco e o fluxo do sangue para os músculos esqueléticos, causando
constrição das pupilas e, geralmente, aumentando a função das vísceras.

Sistema somatossensorial
O sistema somatossensorial transmite informações dos órgãos receptores sensoriais
na pele, nos músculos, nas articulações e nas vísceras para o córtex cerebral. As infor-
mações que se originam desses receptores alcançam inicialmente a medula espinhal.

Receptores cutâneos
Os receptores cutâneos podem ser divididos de acordo com o tipo de estímulo
para o qual eles respondem. Os principais receptores cutâneos são os mecanor-
receptores, os termorreceptores, os nociceptores (Fig. 8.18).

Fig. 8.18: Receptores cutâneos.

216
Os mecanorreceptores, terminações táteis situadas ao nível da junção epider-
me-derme, detectam os movimentos lentos e respondem à estímulos mecânicos,
como deformações ou pressões sobre a pele (pancada). Os mecanorreceptores
cutâneos de ação rápida incluem os receptores do folículo piloso, os corpúscu-
los de Meissner na pele sem pelos (pele glabra) e os corpúsculos de Pacini no
tecido subcutâneo. Os mecanorreceptores cutâneos de adaptação lenta incluem
as terminações de Merkel e as terminações de Ruffini, as quais são ativadas pelo
estiramento da pele.
Os termorreceptores são terminações nervosas ramificadas encontradas
na base da epiderme, enquanto que os nociceptores são terminações nervosas
cutâneas sensíveis a estímulos agressivos e dolorosos, que podem ser mecânicos
como uma picada ou esmagamento, podendo causar dor aguda em resposta a
estímulos que ameaçam ou danificam o organismo.

Sistema Neuroendócrino Difuso


Existe uma variedade de células endócrinas unicelulares secretoras de pep-
tídeos reguladores que podem atuar por mecanismos endócrino ou parácrino.
Essas células são denominadas células neuroendócrinas e diferem dos neurônios
por não possuir nem dendritos, nem axônio.
Antigamente, acreditava-se que as células neuroendócrinas eram originadas
da crista neural; porém, atualmente sabe-se que elas podem se originar a partir de
células precursoras no próprio local. Essa célula é um claro exemplo da interação
entre o sistema nervoso e o sistema endócrino, sendo incluída no Sistema Neu-
roendócrino Difuso (SND). Algumas células neuroendócrinas têm um programa
genético comum que lhes permite expressar vários marcadores bioquímicos.
Como algumas células neuroendócrinas ocorrem por entre as células epiteliais
do revestimento da via digestória, aí, elas são denominadas células enteroendó-
crinas e podem ser visualizadas em microscopia de luz através do emprego de
técnicas especiais.

217
9
Tecido Muscular

O tecido muscular tem origem a partir do mesênquima, onde as células mesenqui-


mais originam células alongadas com capacidade de se contrair - os mioblastos.
No adulto, o tecido muscular representa cerca de 40 a 50% do peso corporal
total, sendo constituído por células especializadas na contração muscular.
O organismo se aproveita da contração dessas células e da organização dos
elementos extracelulares para realizar a locomoção, a constrição de estruturas e
outros movimentos propulsores.
As características do tecido muscular são importantes para a compreensão
de suas funções, como a excitabilidade, a contratilidade, a extensibilidade e a
elasticidade. A excitabilidade é a capacidade do tecido muscular em receber e
responder à estímulos; a contratilidade é a habilidade que uma estrutura apre-
senta de reduzir suas dimensões (contração); a extensibilidade é a capacidade de
distender-se; e a elasticidade é a capacidade de retornar à sua forma original após
contração ou extensão.
As células do tecido muscular são altamente especializadas na conversão de
energia química em mecânica, utilizando a energia do trifosfato de adenosina
(ATP) para gerar força ou realizar trabalho.
Frequentemente, na descrição dos constituintes da célula muscular são uti-
lizadas designações próprias. A membrana celular é denominada sarcolema, o
citoplasma designado sarcoplasma e o retículo endoplasmático liso nomeado
como retículo sarcoplasmático, enquanto que as mitocôndrias são denominadas
sarcossomos.

219
Em razão do comprimento das células musculares ser maior que sua largura,
essas células são comumente chamadas fibras musculares, embora sejam células
verdadeiras e não fibras.

Funções

Através da contração da célula muscular, alternada pelo seu relaxamento, o


tecido muscular é capaz de realizar diversas funções, tais como:

• produção de movimento do corpo em situações como na realização de ca-


minhada, onde o movimento do corpo depende da integração de diversas
estruturas como os ossos e as articulações;
• fornecer estabilização das posições do corpo, como na postura ao ficar em
pé ou sentado;
• movimentação de substâncias no interior de determinados órgãos através da
produção de contrações, como no deslocamento do sangue no interior dos
vasos sanguíneos, a movimentação do alimento pela via gastrointestinal e o
deslocamento das células sexuais pelas vias genitais;
• regulação do volume dos órgãos, a exemplo do que ocorre com o estômago
durante o armazenamento temporário de alimento; e
• geração de calor durante a contração do músculo para realizar trabalho, sen-
do que o calor liberado é utilizado na manutenção da temperatura corporal.

Tipos

De acordo com as características morfológicas e funcionais das suas células,


o tecido muscular pode ser subdividido em músculo estriado esquelético, mús-
culo estriado cardíaco e músculo liso (Fig. 9.1).

Músculo estriado

Existem dois tipos básicos de tecido muscular estriado: o tecido muscular


esquelético, que constitui a maior parte da massa muscular do corpo e que se
encontra sob controle voluntário; e o tecido muscular cardíaco, quase exclusiva-
mente restrito ao coração, estando sob o controle involuntário.
As células musculares estriadas apresentam em seu citoplasma proteínas
contráteis organizadas em um arranjo específico formando os miofilamentos, os
quais se reúnem e formam as miofibrilas; seu arranjo é responsável pelo padrão
estriado conferido às células, quando observadas em corte longitudinal, ao mi-
croscópio de luz.

220
Fig. 9.1: Tipos de tecido muscular:

MÚSCULO ESTRIADO ESQUELÉTICO

O músculo estriado esquelético é formado por feixes de células cilíndricas


muito longas, multinucleadas, cujos núcleos se situam na periferia do citoplas-
ma, logo abaixo da membrana celular, sendo que as estriações transversais se
deve ao arranjo específico dos miofilamentos (Fig. 9.1).
O diâmetro da célula estriada esquelética varia de 10 a 100µm, embora cé-
lulas hipertrofiadas podem exceder essas dimensões. Devido às suas dimensões,
os primeiros morfologistas se referiam à célula muscular como fibra muscular,
sendo tais denominações ainda empregadas como sinônimos.

221
O músculo estriado esquelético apresenta, à fresco, coloração que vai do
róseo ao vermelho. Essa coloração se deve aos pigmentos de mioglobina no cito-
plasma da célula muscular e a grande quantidade de vasos sanguíneos no tecido
conjuntivo que permeia as células. A mioglobina é uma proteína transportadora
de oxigênio, semelhante à hemoglobina das hemácias.

Tipos de fibras musculares estriadas esqueléticas


Com base na velocidade de contração muscular, isto é, se a contração é rápi-
da ou lenta, o músculo estriado esquelético pode ser classificado como músculo
de contração rápida ou músculo de contração lenta.
Existe uma relação entre a velocidade de contração do músculo e a ativida-
de de ATPase da miosina na célula muscular, sendo a atividade da miosina um
reflexo da expressão de diferentes isoformas de miosina nos dois tipos de fibras
musculares. As fibras musculares de contração rápida podem ser convertidas em
fibras musculares de contração lenta e vice-versa.
Através de métodos histoquímicos é possível distinguir os tipos de fibras
musculares conforme a atividade da ATPase da miosina. Nos músculos estriados
esqueléticos dos mamíferos, as fibras rápidas (fibras dos tipos IIA e IIB) encon-
tram-se mescladas com as fibras lentas (fibras do tipo I). Na maioria das fibras
rápidas, a atividade das enzimas glicolíticas é elevada enquanto que a atividade
das enzimas oxidativas é baixa.
Também é possível correlacionar o número de mitocôndrias nas fibras mus-
culares. As fibras rápidas revelam poucas mitocôndrias e retículo sarcoplasmáti-
co mais desenvolvido quando comparadas com as fibras lentas. Como as fibras
rápidas dependem do metabolismo glicolítico (degradação da glicólise1), elas
entram em fadiga rapidamente. Já as fibras rápidas apresentam tanto capacidade
glicolítica quanto atividade oxidativa2 elevadas, sendo denominadas fibras do
tipo IIA. Essas fibras são comuns nos mamíferos, mas raras em humanos. As fibras
lentas tipo I e as fibras rápidas tipo IIA contêm numerosas mitocôndrias e altos
níveis da proteína mioglobina.
Dependendo da quantidade de mioglobina, da quantidade de mitocôndrias,
da concentração de várias enzimas e do grau de contração da célula, a célula
muscular também pode ser classificada como: fibra vermelha, fibra branca e fibra
intermediária. A fibra vermelha possui grande quantidade de mioglobina e nu-
merosas mitocôndrias, sendo seu citoplasma rico em enzimas oxidativas e pobre
em ATPase; sua contração seja lenta, mas repetitiva. Já o citoplasma da fibra branca

1 a glicólise é uma sequência de eventos metabólicos que congrega dez reações catalisadas
por enzimas citosólicas, onde a glicose é oxidada produzindo duas moléculas de piruvato,
duas moléculas de APT e dois NADH+.
2 ocorre na mitocôndria, na dependência de oxigênio, onde uma molécula de glicose-1-
fosfato gera 36 moléculas de ATP

222
é pobre em mitocôndrias e em enzimas oxidativas, mas rico em fosforilases e
ATPase, sendo de contração rápida, mas facilmente esgotável. As fibras inter-
mediárias apresentam características intermediárias entre as fibras vermelhas e
fibras brancas.

Envoltórios
Em um músculo, as células ou fibras musculares encontram-se agrupadas for-
mando feixes de células musculares, as quais são envoltas por tecido conjuntivo
(Fig. 9.2).
O epimísio, constituído por tecido conjuntivo denso, envolve externamente
todo o músculo. Do epimísio partem septos de tecido conjuntivo que se tornam
menos densos à medida que progridem para o interior do músculo. Esse tecido
conjuntivo circunda grupos de fibras musculares (fascículos) e constitui o perimí-
sio. Partindo do perimísio, o tecido conjuntivo penetra no músculo, envolvendo
cada célula muscular e é formado por uma delicada rede de fibrilas colagenosas
(principalmente de colágeno tipo III) associada a uma lâmina externa (correspon-
dente à lâmina basal), sendo denominado endomísio. O tecido conjuntivo que
forma o epimísio, o perimísio e o endomísio mantém o músculo coeso e permite
que a contração muscular seja homogênea e vigorosa.

Fig. 9.2: Envoltórios do músculo estriado esquelético.

O músculo não se fixa diretamente ao osso, mas através de um tecido


intermediário entre o osso e o músculo. Esse tecido é constituído por tecido
conjuntivo denso modelado e forma os tendões. Assim, o tecido conjuntivo do

223
periósteo se continua com o tecido do tendão que, por sua vez, é contínuo
com o tecido conjuntivo dos envoltórios do músculo. É ainda através do teci-
do conjuntivo que a força de contração é transmitida à outras estruturas como
aos tendões, aos ligamentos e aos ossos, além de permitir o trânsito de vasos
sanguíneos.

Célula muscular estriada esquelética


As células musculares estriadas esqueléticas são células multinucleadas,
cujos núcleos se localizam preferencialmente na periferia da célula, logo abaixo
da membrana plasmática (Fig. 9.1).
Externamente à célula muscular, localizadas em depressões rasas, encon-
tram-se as células satélites, as quais são pequenas, com um único núcleo, e com-
partilham a lâmina externa ao redor de cada célula muscular. A célula satélite
atua como uma célula regenerativa, importante na regeneração muscular.
A maior parte do citoplasma da célula muscular é preenchida por feixes de
miofibrilas com 1 a 2µm de diâmetro, organizados lado a lado em um arranjo
paralelo. Cada miofibrila é rodeada por cisternas do retículo sarcoplasmático. Ao
microscópio de luz, o arranjo das miofibrilas no citoplasma da célula muscular
é responsável pelas estriações transversais, reflexo da alternância repetitiva de
faixas claras e faixas escuras ao longo da célula muscular.
A faixa escura é denominada faixa A ou banda A (anisotrópicas3 à luz pola-
rizada), enquanto que a faixa clara é nomeada faixa I ou banda I (isotrópicas4 à
luz polarizada) (ver microscópio de polarização, capítulo 1). No centro de cada
banda A existe uma área clara - a banda H, a qual é dividida em duas partes
iguais pela linha M. Por sua vez, cada banda I é dividida em duas partes por uma
fina linha - a linha Z.
A região da miofibrila compreendida entre duas linhas Z sucessivas repre-
senta a unidade morfofuncional da fibra muscular estriada, sendo denominada
sarcômero. Um sarcômero possui 2,5µm de comprimento em média; porém, as
dimensões do sarcômero variam em função do grau de contração ou relaxamento
da fibra muscular (Fig. 9.3a e Fig. 9.3b).

3 Anisotropia é um fenômeno de variabilidade das propriedades físicas de uma estrutura,


como observado quando a luz polarizada incide sobre essa estrutura e apresenta mais de
que um índice de refração nas diferentes direções de propagação da luz no seu interior. A
anisotropia óptica tem o efeito de birrefringência, ou seja, ocorre divisão de uma raio de
luz não polarizada em dois componentes polarizados e com velocidades distintas, sendo
refletidos e refradados em ângulos diferentes.
4 Isotropia de uma estrutura é verificada quando a luz polarizada ao passar por ela
apresentar sempre a mesma velocidade

224
Fig. 9.3a: Organização das miofibrilas no sarcômero.

A estriação transversal das miofibrilas é mais evidente à microscopia eletrô-


nica de transmissão e se deve ao arranjo dos miofilamentos delgados e miofila-
mentos espessos. Os filamentos espessos, com 15nm de diâmetro e 1,5µm de
comprimento, são constituídos basicamente por miosina, enquanto que os fila-
mentos delgados, de 7nm de diâmetro e 1,5µm de comprimento, são formados
principalmente pela actina.

225
Fig. 9.3b: Organização das proteínas no sarcômero.

Vários estudos têm revelado outras proteínas que participam da manutenção


estrutural do sarcômero (Fig. 9.4). Por exemplo, os miofilamentos são mantidos
unidos por filamentos intermediários de desmina e de vimentina, os quais se
ligam à periferia das linhas Z. A desmina forma filamentos intermediários que
se dispõem por entre as miofibrilas, se ligando entre si e às proteínas da linha Z
através de outra proteína - a pectina.

226
Fig. 9.4: Relação dos filamentos de desmina e pectina com o sarcômero

No sarcômero para se manter a organização estrutural das miofibrilas, é im-


portante a presença de outras proteínas: a titina, a α-actinina e a nebulina. A titi-
na é uma proteína elástica com peso molecular acima de 3000KDa, se encontra
ancorada na linha Z e se estende até o centro do sarcômero. A α-actinina partici-
pa na manutenção estrutural dos filamentos delgados. A nebulina é uma proteína
não elástica que se enrola ao redor do filamento fino e se ancora na linha Z e
participa na regulação do comprimento do filamento delgado.

Fig. 9.4: Detalhe do sarcômero.

227
Durante a contração muscular, a banda I se torna mais estreita, a banda H
pode desaparecer e as linhas Z se aproximam; no entanto, as dimensões das ban-
das A permanecem inalteradas durante a contração e o relaxamento da miofibrila
(Fig. 9.6).

Fig. 9.6: Morfologia do sarcômero em repouso e após a contração. O comprimento


dos filamentos espesso e delgado não variam, mas a dimensão do sarcômero varia em
função do deslizamento dos filamentos delgados sobre os filamentos espessos. Nesse
processo, a dimensão da banda A permanece inalterada, mas há redução da banda
H e das semi-bandas I.

Filamento espesso
O filamento espesso consiste de 200 a 300 moléculas de miosina (Fig. 9.4),
a qual é uma proteína grande (~480 KDa), constituída de duas cadeias pesadas
idênticas (~200 KDa) e dois pares de cadeias leves (~20 KDa). As duas cadeias
pesadas de miosina se enovelam formando uma configuração do tipo α-hélice,
estruturando um segmento longo em forma de bastão (Fig. 9.3b).
Quando submetidas à ação da tripsina, a cadeia pesada é clivada, revelando
duas regiões: uma região em forma de bastão - a meromiosina leve, e uma cabeça
globosa - a meromiosina pesada. A meromiosina pesada apresenta duas porções
globosas (S1) e um pequeno segmento helicoidal (S2), sendo que o subfragmento
S1 se liga ao ATP e atua na formação de pontes cruzadas entre os filamentos finos

228
e grossos. A miosina é capaz de hidrolisar o ATP e essa atividade ATPase reside
na cabeça globular e requer a presença das cadeias leves.

Filamento delgado
O principal componente do filamento delgado é a actina-F (actina filamen-
tosa), a qual é formada por subunidades globulares de actina-G (actina globular).
Cada molécula de actina-G contém um sítio ativo, ao qual a região da cabeça da
miosina (subfragmento S1) pode se ligar (Fig. 9.5). Os filamentos de actina-F se
entrelaçam entre si, formando uma α-hélice.
Associada ao filamento de actina, notam-se moléculas de tropomiosina or-
ganizadas em pequenos filamentos através de uma superposição parcial; elas
encobrem os sítios ativos das moléculas de actina. Unindo-se fortemente a tropo-
miosina tem-se a molécula de troponina, a qual é formada por três polipeptídeos
globulares (TnT, TnC e TnI). A subunidade TnT liga a molécula de troponina à tro-
pomiosina; a subunidade TnC da troponina possui grande afinidade pelo cálcio
(Ca2+), enquanto que a subunidade TnI é capaz de se ligar à actina, prevenindo a
interação entre a actina e a miosina. A interação do Ca2+ à porção TnC da troponi-
na induz modificação conformacional na molécula da tropomiosina que resulta
na exposição do sítio ativo da actina, previamente bloqueado. Dessa forma, é
possível a interação da miosina com a actina.
Outras proteínas também estão associadas aos filamentos finos, incluindo a
tropomodulina, a α-actinina e a proteína capZ. A tropomodulina se localiza na
extremidade do filamento fino, próximo ao centro do sarcômero, e participa no
adequação do comprimento do filamento fino, enquanto que a α-actinina e a
proteína capZ ancoram o filamento fino à linha Z (Fig. 9.4).

Contração e relaxamento muscular


A atividade do músculo estriado esquelético está sob o controle do sistema
nervoso central (SNC), mais especificamente dos nervos motores; porém, os peri-
cários desses neurônios motores se localizam na substância cinzenta da medula
espinhal.
Na contração do músculo esquelético é importante que todas as células
se contraiam sincronicamente quando o nervo motor dispara um potencial de
ação. Para isso, é importante o funcionamento apropriado da unidade moto-
ra, a qual consiste da terminação de um nervo motor e todas as fibras muscu-
lares estriadas esqueléticas inervadas por esse nervo. Assim, a unidade motora
representa a unidade funcional contrátil do músculo estriado esquelético, isto
é, o conjunto das fibras musculares inervadas por um único neurônio motor
(Fig. 9.7).

229
Fig. 9.7: Unidade motora. uma fibra nervosa pode estabelecer contado com várias
células musculares. O botão terminal associa-se intimamente com a membrana da
célula muscular, constituindo a placa motora.

A unidade motora varia conforme o músculo, dependendo da função exer-


cida pelo músculo. Por exemplo, no músculo reto do olho, as unidades motoras
são pequenas, isto é, um neurônio motor inerva somente um pequeno número
de células musculares e, por essa razão, os olhos estão sob um controle mais
preciso. Já as unidades motoras dos músculos das costas são grandes, facilitando
no controle da manutenção em uma postura ereta.
Do ponto de vista histológico, pode-se simplificar o processo de contração
muscular como sendo o deslizamento dos filamentos delgados (principalmente
de actina) sobre os filamentos espessos (principalmente de miosina), que geral-
mente é desencadeado por impulsos nervosos. Lembre-se que a interação entre
os filamentos espessos e os filamentos delgados é dependente de Ca2+, gerando a
força de contração com o estímulo do músculo (Fig. 9.6).
De fato, a contração muscular se inicia com a chegada do impulso nervoso à
extremidade do axônio - no botão terminal (dilatações nas porções terminais do
telodendro), os quais se apoiam na célula muscular, formando individualmente
a placa motora das fibras musculares (Fig. 9.7). Cada uma dessas junções neu-
romusculares (junção mioneural) é formada pela porção terminal de um axônio,
por uma fenda e pelo sarcolema da célula muscular, que normalmente apresenta

230
sua superfície pregueada. Cada músculo é inervado por pelo menos dois tipos de
fibras nervosas: fibras motoras ou fibras sensoriais.
O impulso nervoso ao chegar na terminação axonal do neurônio motor de-
sencadeia a liberação de acetilcolina contida nas vesículas sinápticas no botão
terminal que, ao ser liberada na fenda sináptica, interage com seus receptores na
membrana da célula muscular na região da placa motora; como resultado dessa
interação, o potencial de ação muscular é desencadeado (Fig. 9.7).
O impulso muscular gerado é transmitido ao longo da membrana celular, ga-
nha o interior da fibra através de invaginações digitiformes do sarcolema, sendo
denominadas túbulos T (Fig. 9.8).
Na célula muscular estriada esquelética de mamíferos, os túbulos T se loca-
lizam na região entre a banda A e a banda I; assim, cada sarcômero possui dois
túbulos T (Fig. 9.8). Ao lado de cada túbulo T, a cisterna do retículo sarcoplas-
mático forma uma expansão e esse arranjo (um túbulo T e as duas expansões da
cisterna do retículo sarcoplasmático) é denominado tríade.

Fig. 9.8: Disposição das organelas na célula muscular estriada esquelética e a espe-
cialização do sarcolema em formar os túbulos T.

231
Devido à íntima associação dos túbulos T com as cisternas do retículo sarcoplas-
mático, o impulso transmitido do sarcolema do túbulo T é repassado para membrana
do retículo sarcoplasmático, que, ao se despolarizar, permite a saída do Ca2+ do inte-
rior das cisternas para o citoplasma através de canais liberadores de cálcio.
O mecanismo de elevação do Ca2+ intracelular envolve a interação entre pro-
teínas da membrana do túbulo T com proteínas na membrana da cisterna termi-
nal do retículo sarcoplasmático adjacente. Ressalte-se que não há contato direto
da membrana do túbulo T com a membrana do retículo sarcoplasmático. Nesse
local há uma pequena fenda (espaço), a qual contém proteínas responsáveis pela
interação entre as duas estruturas, como a RyR (receptor rianodina), uma prote-
ína presente na membrana das cisternas terminais do retículo sarcoplasmático.
A maior porção da molécula do RyR se estende pela fenda, entre a cisterna
terminal e o túbulo T, e interage com uma proteína na membrana do túbulo T – o
receptor para diidropiridina (DRHP), o qual é um canal para Ca2+ controlado por
voltagem. O DRHP não é necessário para que haja a liberação do Ca2+ do retí-
culo sarcoplasmático; porém, o potencial de ação que percorre o túbulo T induz
mudança conformacional do RDHP que, face à sua ligação com o RyR, faz com
que o RyR promova a liberação do Ca2+ para o citoplasma da célula muscular. Na
membrana do retículo sarcoplasmático há uma outra proteína – a triadina, que
parece participar da interação entre o RyR e o DRHP.

Fig. 9.9: (A) Saída espontânea do cálcio através da ativação do receptor rianodina, in-
dependente do DRHP. (B) canais de cálcio controlado por voltagem ativam os sensores
do DRHP pela despolarização do sarcolema dos túbulos T e apertura posterior do RyR.

232
Recorde-se que a disponibilidade de Ca2+ no citoplasma permite que esse se
ligue à subunidade TnC da troponina, causando alteração da sua conformação, oca-
sionando modificação da posição da tropomiosina sobre a actina e, consequente-
mente, exposição do sítio ativo de ligação dos componentes da molécula de actina.
Assim, a actina fica livre para interagir com o sítio de ligação com a miosina.
A combinação do Ca2+ com a subunidade TnC corresponde à fase de ativação
do complexo miosina-ATP. Nessa fase, o ATP presente no fragmento S1 da miosina
é hidrolisado, decompondo-se em ADP e fosfato inorgânico (Pi) com liberação de
energia. Entretanto, o ATP e a miosina continuam ligados ao fragmento S1 e esse
complexo se liga ao sítio ativo na actina. Assim, a liberação do fosfato inorgânico
(Pi) promove a alteração conformacional do fragmento S1 da miosina. Como a acti-
na está ligada a miosina, o movimento da cabeça da miosina empurra o filamento
de actina, promovendo o deslizamento da actina sobre o filamento de miosina.
Com a liberação do ADP, o filamento fino é deslocado ao centro do sarcômero.
A contração continua até que o Ca2+ seja removido do citoplasma e o com-
plexo de troponina-tropomiosina mascare novamente o sítio ativo da molécula
de actina, prevenindo a interação da actina com a miosina. O retorno do cálcio
para o interior das cisternas do retículo sarcoplasmático ocorre por um transporte
ativo com o auxílio da proteína cálciosequestrina, uma proteína ligante de Ca2+
de baixa afinidade. O transporte de Ca2+ se deve à ação da bomba de Ca2+ (Ca2+-
-ATPase) que, apesar de abundante, não é exclusiva do músculo estriado esquelético.
Os fisiologistas denominam essa bomba de SERCA (Sarcoplasmic endoplasmic
Reticulum Calcium ATPase). Com a remoção do Ca2+ citoplasmático, uma nova
molécula de ATP se liga ao fragmento S1, levando à liberação da ligação entre
a actina e a miosina e, como consequência, o músculo relaxa. Assim, o ATP é
importante para a conversão da energia química em movimento.
A fonte de energia para todas as etapas da contração muscular provém de inclu-
sões de lipídeo e glicogênio, abundantes no sarcoplasma. Durante prolongados perío-
dos de contração muscular, o ADP gerado pode ser refosforilado de duas maneiras: (1)
glicose anaeróbica, levando ao acúmulo de ácido lático e, (2) transferência de fosfato
de alta-energia do fosfato de creatinina, catalisado pela fosfocreatininaquinase.
Como o axônio terminal da placa motora possui numerosas vesículas sinápticas
contendo acetilcolina, o relaxamento muscular também pode ocorrer pela degradação
da acetilcolina através da enzima acetilcolinesterase, localizada na lâmina externa que
reveste as fendas. Essa degradação cessa o potencial de ação no neurônio na placa
motora, permitindo o restabelecimento do potencial de repouso, a menos que mais
acetilcolina seja liberada do neurônio motor, dando início a novo potencial de ação.
No rigor mortis, rigidez muscular muito intensa que ocorre após a morte
do indivíduo, advém da autólise das células musculares e, consequente, extra-
vasamento do Ca2+ para fora das cisternas do retículo sarcoplasmático (para o
citoplasma). Com isso, o Ca2+ se liga a troponina, desencadeando o deslizamento

233
dos filamentos de actina. Como a produção de ATP cessou, as cabeças de miosi-
na não se destacam da actina e o músculo permanece em um estado de rigidez,
que dura cerca de 24 horas. Após esse período, a rigidez muscular irá diminuir à
medida que os tecidos comecem a se desintegrar.
Certas substâncias neurotóxicas (neurotoxinas), contida em certos venenos
de cobras, também podem se ligar aos receptores de acetilcolina, impedindo
todo o processo de contração muscular. Como consequência, pode ocorrer para-
lisia muscular, podendo levar à insuficiência respiratória e eventual morte.
A contração do músculo estriado esquelético está sob controle do sistema
nervoso central, isto é, sob controle voluntário. Embora cada fibra muscular es-
quelética seja inervada somente por um neurônio motor, uma fibra nervosa pode
inervar várias fibras musculares que participam da formação um músculo.
Caso haja perda da inervação, as fibras musculares estriadas esqueléticas se
atrofiam, pois suas atividades dependem dos nervos motores para a manutenção do
fenótipo diferenciado. A reinervação pode ser estabelecida através do crescimento
dos axônios de neurônios em um nervo, podendo ser revertida essas mudanças.

Miogênese da célula muscular estriada esquelética


A miogênese é o processo de formação do tecido muscular, sendo que a
formação da célula muscular estriada esquelética ocorre na vida embrionária a
partir das células mesenquimais que estruturam os somitos (Fig. 9.10). Através de
mecanismos sinalizadores, a célula mesenquimal perde seus prolongamentos e
se torna uma célula arredondada – o pré-mioblasto. Os pré-mioblastos ou mio-
blastos imaturos apresentam atividade mitótica e não expressam nenhuma pro-
teína muscular como a desmina, uma proteína específica de tecidos musculares.

Fig. 9.10: Miogênese da célula muscular estriada esquelética.

234
Quando os pré-mioblastos se tornam arredondados ou fusiformes e começam
a expressar desmina, eles são denominados mioblastos, sendo células mononu-
cleadas. Os mioblastos não apresentam estriações transversais no citoplasma,
nem demonstram capacidade mitótica. Conforme o desenvolvimento muscular
prossegue, vários mioblastos se unem, perdem seus limites, resultando em uma
célula longa com múltiplos núcleos (um sincício), também conhecido como mio-
tubo ou miócito jovem. O miotubo continua seu desenvolvimento, as miofibrilas
se organizam no interior da célula e os núcleos passam a ter uma localização
preferencialmente na periferia. Dessa forma, forma-se a célula muscular estriada
esquelética ou miofibra.

Tônus muscular
O corpo do homem é mantido em uma posição ereta graças à interação dos
ossos com os músculos, havendo um gasto relativamente pequeno de energia.
Contudo, mesmo em repouso, os músculos possuem algum nível de atividade
contrátil, designado tônus muscular.
Os músculos isolados (não inervados), não estimulados, se encontram no
estado de relaxamento e são designado como flácidos. Contudo, os músculos
relaxados no corpo são firmes. Essa firmeza, ou tônus, se deve ao baixo nível de
atividade contrátil em algumas unidades motoras.

Fontes de energia da célula muscular


As células musculares convertem energia química em mecânica, sendo o ATP
(trifosfato de adenosina) sua fonte de energia. Como o estoque citoplasmático
de ATP é pequeno no músculo estriado esquelético, se o ATP não for reposto, o
músculo é capaz de suportar apenas algumas contrações. Dessa forma, as célu-
las musculares utilizam várias substâncias para produzir ATP, como o fosfato de
creatinina que, ao converter o ADP (difosfato de adenosina) em ATP, repõe o seu
estoque durante a contração muscular.
Carboidratos, como o glicogênio nas células musculares, podem ser me-
tabolizados durante a contração muscular para fornecer glicose, a qual é
utilizada na fosforilação oxidativa e na glicólise, gerando ATP e restabelecendo
seu estoque ATP.
Durante o exercício prolongado, os ácidos graxos também representam uma
importante fonte de energia para as células musculares, assim como os triglicerí-
deos, os quais são hidrolisados havendo necessidade.
A capacidade do músculo em suprir as necessidades de energia é o fator deter-
minante da duração do exercício, pois a depleção de ATP leva à fadiga muscular
durante o exercício. Embora o acúmulo de vários produtos metabólicos como

235
o lactato, o fosfato inorgânico e o ADP tenham sido relacionados com a fadiga
muscular, o mecanismo da fadiga induzida por exercício ainda não é totalmente
conhecido.

Regeneração e crescimento
O músculo estriado esquelético não possui capacidade mitótica, mas pode se
regenerar a partir das células satélites. Sob algumas condições, as células satélites
podem se fusionar com células musculares pré-existentes, aumentando a massa
muscular durante a hipertrofia do músculo esquelético.
O crescimento normal do músculo está associado à hipertrofia celular causa-
da pela adição de miofibrilas nas extremidades da célula, equilibrando o cresci-
mento do esqueleto. O treinamento de força induz a hipertrofia celular, enquanto
que o treinamento da resistência aumenta a capacidade oxidativa das unidades
motoras envolvidas. Contudo, essas mudanças relacionadas ao exercício não são
capazes de alterar o tipo de fibra ou a expressão das isoformas de miosina.

MÚSCULO ESTRIADO CARDÍACO

O músculo estriado cardíaco constitui o miocárdio do coração, ocorrendo


também na parede das veias pulmonares, na junção dessas com o coração.
As células cardíacas, também denominadas cardiomiócitos, são menores
quando comparadas com a célula muscular estriada esquelética, possuem estriações
transversais, com um ou dois núcleos grandes e ovais, preferencialmente localizados
na região central (Fig. 9.1). Elas estão envoltas por uma delicada bainha de tecido
conjuntivo frouxo equivalente ao endomísio do músculo estriado esquelético.
Ao microscópio de luz, além das típicas estriações transversais, o músculo
cardíaco revela linhas transversais fortemente acidófilas, com distribuição irre-
gular, denominadas discos intercalares (Fig. 9.1). Essas estruturas representam os
locais de união entre células cardíacas adjacentes, onde cardiomiócitos se unem
através de junções de adesão (zônula de adesão e desmossomos), havendo gran-
de quantidade de junções comunicantes (junção do tipo “gap”), as quais somente
são visualizadas pela microscopia eletrônica de transmissão.

Célula muscular estriada cardíaca (cardiomiócitos ou cardiócitos)


Como as estriações transversais citoplasmáticas são idênticas às do músculo
esquelético, o mecanismo de contração muscular ocorre virtualmente de manei-
ra semelhante.
As miofibrilas dos cardiomiócitos também apresentam sarcômeros. Todavia,
o sistema de túbulos T e o retículo sarcoplasmático não apresentam a mesma

236
organização estrutural como no músculo esquelético. No cardiomiócito, os tú-
bulos T se estruturam ao nível da linha Z e se associam apenas a uma expansão
lateral do retículo sarcoplasmático, constituindo as díades (Fig. 9.11).
As células musculares cardíacas são ricas em mitocôndrias e a energia neces-
sária para o desempenho dos cardiomiócitos provém dos ácidos graxos carreados
pelas lipoproteínas do sangue, que são armazenados sob a forma de trigliceríde-
os. Nos cardiomiócitos existe pequena quantidade de glicogênio, mas também
grânulos de lipofuscina.
Nos átrios, os cardiomiócitos são menores quando comparados com aqueles
dos ventrículos. Principalmente no átrio direito, eles possuem numerosos grânu-
los citoplasmáticos, os quais contêm o peptídeo natriurético atrial, que atua nos
rins aumentando a eliminação de sódio e água através da urina, o que leva a uma
redução da pressão arterial.

Fig. 9.11: Organização das díades na célula muscular cardíaca.

Células cardíacas especializadas


O músculo cardíaco tem um sistema próprio de geração de estímulos, o
qual é representado por células musculares modificadas associadas aos cardio-
miócitos. Essas células são importantes na geração e na condução do estímulo
cardíaco, de tal modo que as contrações dos átrios e dos ventrículos ocorrem
em sequência, permitindo ao coração exercer com eficiência a função de bom-
beamento do sangue.

237
Essas células cardíacas especializadas constituem o complexo estimulante
do coração, formado pelo conjunto de estruturas responsáveis pela produção e
condução dos estímulos cardíacos. As estruturas que compõe o complexo esti-
mulante do coração são o nó sinoatrial, o nó atrioventricular e o feixe interven-
tricular (antigamente conhecido como feixe de His) (Fig. 9.11).

Fig. 9.12: Complexo estimulante do coração e estrutura das células de Purkinje.

O nó sinoatrial (SA) se localiza no átrio direito nas proximidades da veia cava


e, nos humanos, tem cerca de 8 mm de comprimento e 2 mm de espessura. O nó
sinoatrial é uma massa celular, constituída por dois principais tipos: (1) células
pequenas, esféricas, ricas em sarcoplasma e pobres em miofibrilas, localizadas

238
no interior do nó; (2) células delgadas, fusiformes, com aparência intermediária
entre as células esféricas e os cardiomiócitos. As pequenas células esféricas são
as células marca-passos, isto é, células geradoras do impulso. As células fusi-
formes provavelmente conduzem os impulsos do interior do nó para as células
localizadas na periferia, sendo que o impulso cardíaco gerado no nó sinoatrial
propaga-se radialmente pelo átrio direito através de cardiomiócitos normais, atin-
gindo o nó atrioventricular.
O nó atrioventricular (AV) tem estrutura semelhante ao sinoatrial, mas as
células esféricas são menos numerosas, enquanto que as células fusiformes pos-
suem prolongamentos que se anastomosam. Funcionalmente, o nó AV apresenta
três regiões: (1) região AN, que representa a zona de transição entre o átrio e o
restante do nó; (2) região N, a região mediana do nó; (3) e a região NH, a região
onde as fibras do nó gradativamente se misturam com o feixe interventricular
(feixe de His).
O feixe interventricular é formado por células com um ou dois núcleos,
citoplasma rico em glicogênio e pobre em miofibrilas, as quais predominam na
periferia da célula, a qual é conhecida como célula de Purkinje. O feixe inter-
ventricular percorre a região de tecido conjuntivo abaixo do endotélio vascular
do ventrículo (região subendocárdica) no lado direito do septo interventricular e
se estende por cerca de 1 cm antes de se dividir nos ramos direito e esquerdo,
embora o ramo esquerdo consideravelmente mais espesso.

Regeneração
Os cardiomiócitos são considerados células em fase terminal de diferencia-
ção, incapazes de se regenerarem. Por essa razão, após uma lesão, os fibroblastos
do tecido conjuntivo invadem a região lesada do coração, produzindo tecido
conjuntivo fibroso de reparação.
O coração é um órgão aeróbico, dependendo quase exclusivamente da oxi-
dação de substratos para a geração de energia. Portanto, períodos prolongados de
isquemia podem causar danos ao músculo cardíaco, levando suas células à morte.

Músculo liso

O músculo liso participa da estruturação das paredes de vísceras ocas (como


a parede dos órgãos da via digestória, do aparelho reprodutor e das vias uriná-
rias), ocorrendo também nas paredes de vasos sanguíneos, nas vias respiratórias
ou estruturando pequenos feixes de células musculares na derme da pele.
As células musculares lisas são fusiformes, com núcleo único e central (Fig.
9.13); seu tamanho pode variar de 0,2 a 6µm, podendo atingir 20µm na parede
dos vasos ou até 500µm na parede do útero gravídico.

239
A célula muscular lisa também sintetiza elementos da matriz extracelular
como fibrilas colagenosas (colágeno tipo III), fibras elásticas e proteoglicanos,
justificado pelo retículo endoplasmático rugoso desenvolvido.

Fig. 9.13: Célula muscular lusa relaxada e contraída.

O músculo liso é constituído por células com citoplasma de aspecto ho-


mogêneo, sem estriações transversais. As células musculares lisas também não
possuem sistema de túbulos T; porém, a membrana plasmática forma pequenas
reentrâncias logo abaixo da membrana, formando estruturas vesiculares conheci-
das como cavéolas, as quais podem se destacar das invaginações da membrana
plasmática. As cavéolas podem se associar com o retículo sarcoplasmático, que é
escasso, e se relacionam com a liberação e o sequestro de cálcio citoplasmático.
As células musculares lisas podem formar numerosas junções comunicantes
entre si, sendo importantes para desempenho funcional das células musculares
lisas, permitindo também a comunicação química intercelular através da difu-
são de compostos de baixo peso molecular. As junções aderentes (muitas vezes
denominadas placas densas) representam a ligação mecânica entre as células
musculares lisas.
Filamentos de actina e de miosina que ocorrem no citoplasma se organizam
em feixes dispostos em diversas direções, mas não se estruturam em sarcômeros.
Esses filamentos se inserem em estruturas ricas em material proteico - os corpos
densos, os quais são observados no intercruzamento dos feixes intracitoplasmáti-
cos e em locais onde eles se ancoram à membrana plasmática. Os corpos densos
contêm α-actinina e são análogos à linha Z do músculo estriado.
Além dos filamentos de actina e miosina, a célula muscular lisa apresenta
desmina e vimentina.

240
Contração na célula muscular lisa
A atividade contrátil do músculo liso está sob influência de vários fatores,
como hormônios, inervação autônoma, atividade de marca-passo e uma varie-
dade de drogas.
Como na célula muscular estriada (esquelética e cardíaca), a contração da
célula muscular lisa depende de Ca2+ intracelular e tem como consequência o
deslizamento dos seus miofilamentos. Como os miofilamentos estão inseridos à
membrana celular, o tamanho da célula muscular durante a contração diminui,
promovendo a contração do músculo como um todo. Devido à contração, o
núcleo sofre uma leve deformação (Fig. 9.13).
Embora a regulação da contração do músculo liso seja semelhante àquela
dos músculos estriados, isto é, dependente de cálcio, o mecanismo de controle
da contração muscular é distinto, pois os miofilamentos delgados não possuem
troponina.
A contração da célula muscular lisa tem início com a liberação do cálcio
das cavéolas para o citoplasma. O cálcio, ao se ligar a calmodulina, promove
alteração da sua conformação estrutural. O complexo calmodulina-cálcio ativa
a enzima miosinaquinase de cadeia leve, a qual fosforila uma das cadeias leve
da miosina, permitindo o desdobramento da metade da meromiosina leve para
formar a típica molécula de miosina na forma de um “taco de golfe”. A fosfori-
lação da cadeia leve expõe o sítio ativo da miosina, propiciando a interação da
actina com o fragmento S1 da miosina. Como resultado, célula muscular lisa se
contrai. A diminuição do nível de cálcio citoplasmático resulta na dissociação
do complexo calmodulina-cálcio, causando inativação da miosinaquinase de ca-
deia leve e subsequente relaxamento da célula muscular lisa.
A regulação e a modulação da contração da célula muscular lisa está relacio-
nado a uma proteína que se liga ao filamento fino de actina - a calponina, a qual
não se combina diretamente ao cálcio, mas possui sítio de ligação com outras
proteínas que se ligam ao cálcio, como por exemplo, a calmodulina e caltropina.
A calponina é específica de célula muscular lisa, sendo utilizada na identificação
das células musculares lisas, como também os miofibroblastos.
A contração do músculo liso pode ocorrer por estímulo nervoso (sistema nervoso
autônomo), gerando contrações involuntárias, lentas e vigorosas, mas também
ocorre devido a ação de fatores não neurais, como hormônios (ocitocina, pro-
gesterona), níveis plasmáticos de oxigênio e gás carbônico e fatores locais como
a temperatura.
A ocitocina (um neuro-hormônio) causa a contração do músculo liso da pa-
rede do útero durante o parto, assim como das células mioepiteliais que envol-
vem as porções secretoras das glândulas mamárias (durante a amamentação).

241
Em contraposição, a progesterona inibe a contração muscular, sendo importante
durante a gestação.
Enquanto o gás carbônico causa relaxamento do músculo liso na parede dos
vasos sanguíneos, o oxigênio causa contração, sendo que os níveis plasmáticos
desses gases são percebidos por células especializadas localizadas na parede de
certos vasos.
Como a membrana das células musculares lisas tem uma variedade de re-
ceptores, o processo contrátil pode ser desencadeado como também pode ser
inibido, fato esse que não acontece no músculo estriado esquelético.

Controle do Ca2+ no sarcoplasma da célula muscular lisa


No músculo liso há dois locais de reserva de cálcio: (1) no meio extracelular
e (2) no retículo sarcoplasmático.
A entrada (influxo) e a saída (efluxo) de Ca2+ a partir de reservas extracelulares
é regulada pelo sarcolema, sendo que as membranas do retículo sarcoplasmáti-
co determinam o deslocamento do Ca2+ entre esses dois compartimentos. Dessa
forma, tanto o citoplasma quanto o retículo sarcoplasmático estão envolvidos na
regulação do Ca2+.
A estimulação da célula muscular lisa faz com que os canais de Ca2+ do
retículo sarcoplasmático se abram, elevando o nível de Ca2+ citoplasmático.
Essa liberação não está associada à sensores de voltagem como na célula mus-
cular estriada esquelética, mas à receptores ligados à membrana do retículo
sarcoplasmático, os quais estão acoplados a proteína G (proteína ligante do
nucleotídeo Guanina) e necessários para ativar a fosfolipase C que, por sua
vez, hidrolisa o fosfolipídeo bifosfato de fosfatidilinositol (PIP2) em IP3 (trifosfato
1,4,5 de inositol) e diacil glicerol. O IP3 se difunde para o retículo sarcoplas-
mático, abrindo o canal para o Ca2+, que é dependente de IP3, resultando em
liberação de Ca2+ para o citoplasma. Assim, o restabelecimento do Ca2+ no retí-
culo sarcoplasmático envolve o transporte tanto do Ca2+ citoplasmático quanto
do Ca2+ extracelular.
Uma variedade de drogas e de hormônios atuam no relaxamento da célula
muscular lisa através do aumento das concentrações celulares de AMPc (mo-
nofosfato de adenosina cíclica) ou GMPc (monofosfato de guanosina cíclica).
Por exemplo, o óxido nítrico produzido pelos nervos e pelo endotélio vascular
atua no relaxamento do músculo liso através da elevação do GMPc. Assim, a
regulação do tônus da musculatura lisa pode ser influenciada não somente pelo
sistema nervoso autônomo e hormônios circulantes, mas também pelas células
endoteliais através da produção de óxido nítrico.

242
Regeneração
O músculo liso conserva sua capacidade mitótica em formar novas células a
partir de células preexistentes, sendo essa capacidade evidente no útero grávido,
quando a parede uterínica se torna mais espessa tanto por hipertrofia das células
individuais quanto por hiperplasia derivada de mitoses.
Na parede de vasos sanguíneos, as células musculares lisas também podem
se regenerar por mitose ou a partir da diferenciação de pericitos, os quais são
células indiferenciadas que acompanham alguns vasos sanguíneos, capazes de
originar a novas células musculares. Há evidências que os pericitos participam
no transporte através da barreira hematoencefálica e na regulação da permeabi-
lidade vascular.

Fisiologia do músculo liso


Com base no enfoque fisiológico, o músculo liso pode ser classificado em
músculo liso unitário e músculo liso multiunitário.
No músculo liso unitário, as células estão acopladas eletricamente (unidas
por junções comunicantes), de tal maneira que a estimulação elétrica de uma cé-
lula é repassada às células musculares lisas adjacentes. Esse processo resulta em
uma onda de contração, observada durante o movimento peristáltico. A contração
de um músculo liso unitário pode ser iniciada por uma célula marca-passo, isto
é, uma célula muscular lisa que apresenta despolarização espontânea.
No músculo liso multiunitário, as células não se encontram acopladas eletri-
camente e a estimulação de uma célula não resulta necessariamente na ativação
de uma célula muscular lisa contígua. O músculo da íris do olho é exemplo de
músculo multiunitário.
Em relação ao padrão de atividade do músculo liso em alguns músculos, as
células se contraem de modo rítmico ou intermitente, enquanto que em alguns
órgãos, as células musculares lisas se encontram constantemente ativas, manten-
do-se em um nível de tônus.
Quando o músculo liso desempenha atividade rítmica ou intermitente é de-
nominado músculo liso fásico, como por exemplo, o músculo liso da parede
da via digestória e da via urogenital. O músculo liso que se encontra constante-
mente ativo é denominado músculo liso tônico, como o músculo liso vascular,
o músculo liso da parede da via respiratória e alguns esfíncteres continuamente
ativos. O músculo liso tônico corresponde ao músculo liso multiunitário.

243
10
Bibliografia

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