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SUTURAS: FIOS E AGULHAS

Fio ideal:

Maior força tensil; mole, flexível e pouco elástico; baixa reatividade tecidual; estabilidade a longo prazo; absorção
lenta; baixo custo; fácil esterilização.

Classificação dos fios: Propriedades dos fios:

 Natureza  Reação tecidual:


 biológico x sintético  Resposta inflamatória desencadeada pelo
 Número de filamentos: fio (pico entre 2-7 dias)
 monofilamentar x multifilamentar  Tamanhos “zeros”:
 Absorção:  Maior o valor numérico: menor calibre
 absorvíveis x inabsorvíveis  Elasticidade:
 Quanto à agulha:  Tensão intrínseca, propriedade desejável
 com x sem  Memória:
 Tendência a retornar ao seu formato
original após manipulação

Configuração física:

 Monofilamentares:
 único filamento, menos maleáveis
Absorvíveis Tempo Não absorvíveis
 Ex.: nylon, PDS, prolene
Catgut simples 7-10 dias Algodão
 Multifilamentares:
Catgut cromado 15-20 dias Nylon
 Filamentos torcidos e trançados; melhor Vicryl 2-3 meses Prolene
manuseio e flexibilidade; mais traumático; Monocryl 2-3 meses Aço inoxidável
mais propício a infecções PDS 6 meses Seda
 Ex.: catgut simples e cromado; algodão;
vicryl

Catgut Algodão

Biológico, multifilamentar, absorvível Biológico, multifilamentar, não absorvível, baixo custo

Situações: sutura de mucosas, bolsa escrotal Nylon (poliamida)

Vicryl (poliglactina 910) Sintético, monofilamentar, não absorvível, baixo custo,


alta memória
Sintético, multifilamentar, absorvível

Ex.: anastomose de alças intestinais


Características das agulhas:

Resistência, olho, forma, comprimento, geometria transversal.

Classificação

 Não traumática (com o fio) x traumática


 Cilíndrica (não traumática) x triangular (mais
cortante)
 Fortes (00, 0, 1 e 2)  normais (3, 4, 5, 6) 
delicadas (7, 8, 9)
 Forma e comprimento:

SUTURAS

Características ideais: Quando suturar?

 Simetria; 1. É possível suturar?


 Evitar nós sob a ferida; 2. Tamanho da lesão
 Fio e agulha adequados; Enxerto ou retalho?
 Tração adequada; 3. Gravidade da lesão
 Sem tensão. Estruturas acometidas
4. Risco de infecção
Alto ou baixo?
Quanto tempo desde a lesão?

Mordedura

O que causou? Vale a pena fechar? Risco de contaminação.

 Mordedura animal  Mordedura humana


 Mais limpas  Ferida contaminada (GRAM+ e
 Vacina antirrábica humana ou anaeróbios)
imunoglobulina antirrábica  Amoxicilina + Clavulanato
 Vigilância sanitária
Procedimentos prévios

1. Lavar muito bem com solução salina morna pressurizada!


2. Antissepsia (não passar na lesão) com clorex alcoólico ou aquoso
3. Anestesia local (pode anestesiar no começo do procedimento) – lidocaína local (1-2%) sem vasoconstritor em
extremidades distais – começar com agulha de insulina; sempre lembrar de aspirar e verificar a presença de
sangue; anestesia em leque, utilizando um botão anestésico; testar a anestesia antes da sutura
4. Retirar materiais estranhos
5. Remover tecidos desvitalizados (desbridar)

Principais tipos de suturas

 Ponto simples separado


 Permeáveis à saída de secreções; nós independentes; pode ser reaberta em infecções; permite
crescimento do tecido (crianças); locais que possuem muito edema; trabalhoso e demorado; incisões
impermeáveis; retirada ponto-a-ponto.
 Ponto contínuo simples
 Ponto hemostático; rápido e de fácil confecção; maior gasto de fio; mais isquemiante; menos bonito
esteticamente; sutura interdependente
 Ponto contínuo ancorado
 Ponto hemostático; ancorado na alça anterior; maior gasto de fio; mais isquemiante (não se faz na pele
[ex.:útero]).
 Sutura Horizontal em “U”, de Wolff
 Está indicada para suturar feridas sob tensão moderada. Pode ser usada como sutura de
tensão quando colocada longe das bordas da pele; pode ser usada para reduzir espaço
morto. Formação de cicatriz excessiva devido a eversão das bordas; tendência a reduzir o
suprimento sanguíneo das bordas da ferida, quando os pontos são apertados demais.
 Sutura Vertical em “U”, de Donatti
 Promove uma aposição completa e precisa das bordas, com leve eversão após a
confecção dos nós. mínima alteração do suprimento sanguíneo, se colocado distante da
borda. Maior reação inflamatória.
 Sutura de colchoeiro ou “U” contínua
 Pode ser usada na pele quando houver indicação para sutura contínua e um certo
grau de eversão. Distâncias de 1 cm. Rapidez no fechamento é a principal vantagem
desta sutura.
 Sutura em “X” ou Cruzado
 Sutura de aposição que não promove alteração do suprimento sanguíneo, mesmo sob
tensão; previne a eversão dos tecidos.
 Tensão moderada e aposição
 Sua principal indicação é quando a pele requer tensão moderada para aposição. O componente longe atua
como redutor de tensão, ao passo que o perto faz aposição. A tração excessiva dos fios deve ser evitada,
para prevenir a inversão da incisão. A força de tensão obtida com esta sutura é maior do que a obtida com
sutura interrompida simples.

Perto-longe-longe-perto: Longe-perto-perto-longe: Longe-longe-perto-perto:

 Intradérmico
 Na transição entre a derme e a epiderme;
 Boa estética; trabalhoso; gasto significativo de material.
 Aposição sero-mucosa
 São muito usadas em anastomose intestinal, quando somente uma camada de sutura é desejável. O fio
inicial e o final são apertados de maneira que a sutura penetre nos tecidos.
Curativo e cuidados

 Limpeza com antisséptico ou álcool Retirada de pontos não absorvíveis


 Curativo com gaze e esparadrapo Local Número de dias
 Se contaminada: ATB Face 3-5
 Analgesia Couro cabeludo 7
 Vacina antitetânica e antirrábica humana Tórax e extremidades 8-10
 Orientações gerais – voltar ao pronto socorro Alta tensão (articulações, mãos) 10-14
Costas 10-14

ROTEIRO PARA A REALIZAÇÃO DO PROCEDIMENTO

Reunir material:
- P/ lavar a ferida: soro fisiológico, cuba redonda, seringa
1 - P/ antissepsia: cuba, antisséptico, pinça, gazes
- P/ anestesia: lidocaína, seringa, agulha
- P/ síntese: porta agulha, pinça, tesoura, agulha e fio de sutura
2 Adequar a iluminação do ambiente se necessário
3 Lavagem cirúrgica das mãos e abrir bandeja
4 Luva estéril
5 Lavar a ferida com SF
6 Antissepsia
7 Anestesia, de preferência a partir de um botão anestésico
8 Trocar luvas, se necessário
9 Colocar o campo fenestrado
10 Realizar a sutura
11 Retira o campo, limpa a pele com SF, seca com gaze e cobre com curativo estéril

ROTEIRO PARA LAVAGEM CIRÚRGICA DAS MÃOS

1 Molhar as mãos
2 Pegar a escova com solução degermante (PVPI, clorex)
3 Escovação das unhas
4 Escovar a palma das mãos de cima para baixo
5 Escovar entre os dedos em 3 eixos
6 Escovar o dorso da mão
7 Escovar o braço até o cotovelo
8 Repete do mesmo jeito do outro lado
9 Joga a escova na pia e enxagua
Enxuga as mãos com uma compressa estéril: cada mão com uma face da compressa
10
O sentido correto é dedos  palmas  punhos  braços

ROTEIRO PARA LAVAGEM SIMPLES DAS MÃOS

OBS.: retirar acessórios (anéis, pulseiras e relógio); caso a torneira possua fechamento manual, sempre utilize papel toalha.

1 Molhe as mãos com água


2 Aplique sabão para cobrir toda a superfície das mãos
3 Esfregue as palmas das mãos uma na outra
4 Palma da mão direita no dorso da mão esquerda, com dedos entrelaçados e vice-versa
5 Palma com palma com dedos entrelaçados
6 Esfregue atrás dos dedos, nas palmas opostas, com os dedos entrelaçados
7 Esfregue o polegar em sentido rotativo, entrelaçando na palma da mão
8 Esfregue os punhos também em sentido rotativo com a palma da mão oposta
9 Esfregue rotativamente os dedos de uma mão na palma da outra
10 Enxague as mãos com água no sentido dedos  punho
11 Seque as mãos com uma toalha descartável e use ela para fechar a torneira se esta for manual
ANESTESIA

Anestesia local

Os anestésicos locais possuem em sua maioria um grupo aromático (lipossolúvel, hidrofóbico) associado a um
grupo amina (polar, hidrofílico). Esses dois grupos são ligados por uma cadeia intermediária que determina a
classificação do anestésico local como amida ou éster. Os exemplos de amidas são a lidocaína, bupivacaína e prilocaína.
Os exemplos de ésteres incluem a cocaína e ametocaína. O metabolismo da maioria dos ésteres resulta na produção
de ácido para-aminobenzóico (PABA) que pode ser associado a reações alérgicas, enquanto as amidas raramente
causam reações alérgicas. Por essas razões, atualmente as amidas são mais utilizadas.

Os anestésicos locais bloqueiam a ação de canais iônicos na membrana celular neuronal, impedindo a
neurotransmissão do potencial de ação. A forma ionizada do anestésico local liga-se de modo específico aos canais de
sódio, inativando-os e impedindo a propagação da despolarização celular. O bloqueio das fibras nervosas ocorre
gradualmente, iniciado com a perda de sensibilidade à dor, à temperatura, ao toque, à propriocepção e finalmente
perda do tônus músculo esquelético. Por essa razão os indivíduos podem ainda sentir o toque no momento em que a
dor já está ausente após aplicação do anestésico local.

Anestésicos mais usados

 Lidocaína com adrenalina: até 7 mg/kg  Bupivacaína


 Lidocaína sem adrenalina: até 10 mg/kg  Prilocaína

A importância do pKa dos anestésicos locais

Todos os anestésicos locais são bases fracas, assim eles podem se apresentar de duas formas: não ionizada (B)
ou ionizada (BH+). O pKa de uma base fraca define o pH no qual as duas formas coexistem em equilíbrio. Como o pH
dos tecidos difere do pKa de uma determinada droga, haverá maior proporção de uma das formas, a ionizada ou a
não ionizada.

O pKa dos anestésicos locais determina a quantidade de droga existente na forma ionizada em um
determinado pH. No pH fisiológico (7,4) todos os anestésicos locais apresentam sua forma ionizada em maior
proporção, visto que o pKa de todos os AL é maior que 7,4. Todavia, como cada droga possui um pKa diferente, a
proporção da forma ionizada e não-ionizada (molecular) presentes no local apresenta variabilidade. A lidocaína possui
pKa de 7,9, por isso em pH fisiológico apenas 25% da droga apresenta-se na sua forma não-ionizada. A bupivacaína
possui pKa de 8,1, por isso em pH fisiológico haverá uma fração ainda menor da forma não-ionizada, aproximadamente
15%. A droga deve atravessar a membrana lipídica da célula para no meio intracelular atuar nos canais de sódio. A
porção não-ionizada atravessa a membrana mais facilmente que a ionizada. Assim, a droga com maior fração não-
ionizada em pH fisiológico alcança seu sítio efetor de forma mais rápida. Isso explica porque a lidocaína tem menor
tempo de latência que a bupivacaína.

O fato relevante em relação aos tecidos infectados é que eles tendem a ser um meio mais ácido que o habitual.
Como há redução no pH local, há menor fração não-ionizada de anestésico local e por isso o efeito será mais lento e
reduzido. Tecidos infectados também podem apresentar maior fluxo sanguíneo local, levando à maior remoção do
anestésico local antes que ele atue sobre os neurônios.  Em caso de abcesso, bloqueia o membro ou faz um
quadrado de anestésico em volta.

Drogas lipossolúveis penetram mais facilmente a membrana celular para exercer seu efeito. Quanto mais
potente, menor a quantidade de droga necessária para ocasionar o mesmo efeito. Assim, a bupivacaína – altamente
lipossolúvel – é aproximadamente quatro vezes mais potente que a lidocaína. Isso se reflete nas preparações de drogas
comercialmente disponíveis, pois como a bupivacaína é mais potente, suas apresentações são em soluções de 0,1 a
0,5%, enquanto a lidocaína é geralmente apresentada em soluções de 1 a 2%.

Associação com substâncias

 A adrenalina atua como um vasoconstritor, minimizando o efeito vasodilatador de alguns anestésicos locais (como
a lidocaína), por isso reduz a taxa de absorção da droga para a circulação sistêmica, aumentando o efeito local.
Através da vasoconstrição local, a adrenalina também reduz a perda sanguínea em casos de trauma.
 O bicarbonato adicionado aos anestésicos locais aumenta o pH do meio e, consequentemente, haverá maior
proporção da droga na forma não-ionizada, o que aumenta a velocidade de ação da anestesia (redução da
latência). Porém, a adição de concentrações excessivas de bicarbonato à solução pode levar à precipitação do
anestésico local, porque a forma não-ionizada do AL é menos solúvel em água que o sal de hidrocloreto.
 A glicose é adicionada à bupivacaína para aumentar a baricidade da solução, tornando-a hiperbárica em relação
ao líquor, o que permite maior controle da dispersão intratecal do anestésico.

Sinais de intoxicação por anestésicos

 Alterações gustativas e visuais  Choque circulatório


 Crise convulsiva  Bloqueios e arritmias cardíacas
 Depressão do SNC !!! Sempre atentar para a dose máxima de
anestésico

Modelo de anestesia local

Botões anestésicos – anestesia em losango  aspira e retira a agulha injetando o anestésico.

* *

Observação: caso o curativo tenha sido feito em ambiente estéril (CC) – refazer após 48 horas; molhar a sutura lavando
com água e sabão neutro apenas no 5º dia.