Maquiavel, o estado moderno e a fundação da ciência política1

Randolph Frederich Rodrigues Alves* Resumo: O presente artigo trata de uma leitura de O Príncipe do teórico político Nicolau Maquiavel, a partir do uso do termo maquiavélico como sinônimo de falta de escrúpulos na política e sua extensão a outros campos das relações privadas e no senso comum. Desta maneira, o texto procura dialogar com estas afirmações e com a obra deste que é considerado fundador da ciência política, contrariando essa interpretação ao demonstrar que a referida obra inaugura uma percepção sobre a moral na política. Palavras-chave: Ciência Política. Maquiavelismo. O Príncipe.

Machiavelli, the state and the foundation of modern political science
Abstract: This article deals with a reading of The Prince of the political theorist Nicolo Machiavelli, based on the use of the Machiavellian term as a synonym for absence of scruples in politics and its extension to other fields of private relationships and common use. In this way, the text tries to dialogue with those statements and with the text that is considered the founder of political science, countering that interpretation by demonstrating that the above mentioned work inaugurates a perception of morality in politics. Key words: Political Science. Machiavelli. The Prince.

Artigo apresentado ao professor Dr. Josênio Parente, como avaliação da disciplina: Teoria Política I, Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas da UECE, em convênio com o Governo do Estado do Amapá. *Acadêmico do curso de Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará-UECE. Bacharel em História pela Universidade Federal do Amapá e professor da rede pública do Estado Amapá.
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Ele não desprezava os fins.Introdução Se ensinei aos príncipes de que modo se estabelece a tirania. 245) o chamou de “The Murderous”. seria necessária a disposição de um príncipe munido de fortuna e virtú para realiza- 29 . Esta compreensão republicana e democrática torna-se clara em dois momentos de suas obras: os comentários sobre a primeira década de Tito Lívio e o último capítulo de O Príncipe. 2004). mesmo que sejam aniquiladas por isso. (Nicolau Maquiavel) Maquiavel é um teórico mal compreendido tanto pela crítica quanto pelo senso comum. ao estabelecer um paralelo entre o povo hebreu e o povo italiano. perverso. É neste aspecto que reside a revolução maquiaveliana. sedutor e enganador. identificando-o com o diabo. Maquiavel procurava reunificar a Itália e construir uma instituição republicana na qual a vontade do povo fosse respeitada. os colocava em seu devido lugar. que leva as pessoas a fazerem exatamente o que ele deseja. Assim Shakespeare (Apud CHAUÍ. os objetivos. Nada mais contrário a Maquiavel do que vinculá-lo à expressão “os fins justificam os meios”. em que se observa que. O maquiavelismo serve a todos os ódios. modifica-se de acordo com os acontecimentos (SADEK. Estes termos são usados no dia-a-dia. ao mesmo tempo mostrarei ao povo os meios para dela se defender. Maquiavel desejou ver a Itália livre dos bárbaros. mas. há de se perguntar sobre quais eram os fins que Maquiavel propunha. Neste sentido. no centro do planejamento da ação política: “Toda a ação é designada em termos do fim que se procura atingir” (MAQUIAVEL. sim. Os jesuítas incriminavam os protestantes considerando-os discípulos de Maquiavel. Para atingir esse fim. p. Seu uso extrapola o mundo da política e habita também o universo das relações privadas. Os termos vinculam a identidade com o que é considerado em nossa cultura como diabólico. 1995. 1996). e pertencer ao povo para conhecer a natureza dos príncipes. Fundamentalmente. É necessário ser príncipe para conhecer perfeitamente a natureza do povo. A própria significação que se dá ao termo maquiavélico revela o grau de incompreensão do que foi escrito por este florentino do início do século XVI. O principal equívoco sobre Maquiavel é o que vincula a ação inescrupulosa ao desejo do poder pelo poder. Os termos maquiavélico e maquiavelismo nos fazem pensar em alguém extremamente poderoso.

p. o intelectual de virtú. pois a sorte auxilia os audazes (CHAUÍ. e que para um governante que não consegue manter-se em paz com o povo. devemos a reinauguração da ciência política moderna (GRUPPI. Ele adverte que. enxergar a realidade como ela é. os riscos devem ser corridos. pensar nas táticas que podem ajudar a concretizar o objetivo através de metas realistas e concretas (GOMES. A atualidade do pensamento político precisa resgatar e decifrar este pensador sem preconceitos e em sua verdade fundamental. cuja aquisição o príncipe possa compreender como necessária a fim de “manter seu estado e realizar grandes feitos” (GOMES. Para Maquiavel. O contrário dessa caracterização preconceituosa de Maquiavel nos é apresentado por Rousseau. o principado provém do povo ou dos grandes. 1986. deu grandes lições ao povo” (apud GRUPPI. Ela não será unificada a não ser por um príncipe forte e que este 30 . que se opõe aos intérpretes “superficiais ou corrompidos” do autor florentino. Entende Maquiavel que a energia criadora de uma sociedade é derivada deste sistema de oposição. conforme as exigências das circunstâncias. A Maquiavel. reunindo em sua pessoa boas ou más qualidades. Segundo Maquiavel.ção de tão nobre feito. de um lado. muitos têm lido e comentado a sua obra. portanto os conflitos sociais são necessários para consolidação do Estado. a partir daí. Estes são os contrapontos de Maquiavel: mestre da artimanha e da maldade ou conselheiro do povo que alerta os dominados contra a tirania. não é linear. O conceito de risco calculado da estratégia militar contemporânea tem muito de Maquiavel. Ainda em O Príncipe. o fato. rever os objetivos e. ou ainda. 2008). elaborou-se uma teoria sobre como constituir o Estado moderno. 1995). 1 A arte e as metas do florentino A partir de Maquiavel. nem são infinitas as escolhas. adverte-se que é perigoso ser odiado pelo povo. virtú é um conjunto de qualidades. Cabe ao príncipe com virtú tirar as melhores possibilidades desta oposição. que nem toda tática é recomendável. fingindo dar lições aos Príncipes. Quatro séculos após. como é possível se chegar à situação desejada no objetivo. Maquiavel sabe que o Estado que deseja não será obtido enquanto a Itália não for unificada. porque algumas ampliam o risco admissível. O ponto de partida da política é a divisão social entre os grandes e o povo: “Enquanto o povo não quer ser oprimido pelos grandes. os grandes desejam oprimir o povo”. 2008). de outro. segundo a oportunidade que tiver uma ou outra dessas partes. sejam elas quais forem. A visão de Maquiavel é essencialmente estratégica: definir o objetivo. Maquiavel recebe hoje as mesmas acusações que a Igreja e a nobreza lhe impingiram ao longo do tempo. por fim. o importante é que não se perca o objetivo de vista e. Assim afirma o iluminista francês: “Maquiavel. Portanto. 12). é inútil a proteção dos exércitos e de fortalezas. 1986).

O Estado passa a ter a sua própria dinâmica. A intenção da obra foi encontrar um processo que unificasse a Itália e fundasse um Estado duradouro. ameaças externas e ausência de unidade nacional. o Estado não tem como função principal assegurar a felicidade e a virtude. este Estado não é mais a preparação dos homens para o reino de Deus. deixa transparecer a amargura e descrença do autor em relação à condição humana. convulsionada por crises políticas.processo inevitavelmente conduzirá a guerras e violência. todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens são Estados: ou são repúblicas ou principados. para Maquiavel. E completa afirmando que: Grande é a diferença entre a maneira em que se vive e aquela em que se deveria viver. Maquiavel nos apresenta a sua distinção sobre a realidade efetiva da política e sobre os tipos de Estado: Todos os Estados. Porque quem quiser comportar-se em todas as circunstâncias como um homem bom vai ter que perecer entre tantos que não são bons (MAQUIAVEL. p. Diferentemente de Aristóteles. A condição da Itália. Maquiavel desempenhava funções políticas. porque precisará combater as elites aristocráticas que impedem a consolidação de um Estado republicano. segue sua técnica e faz suas leis (GRUPPI. 43). através do absolutismo. A obra.. p. Trata da política e identifica as leis específicas da política enquanto ciência. Mais adiante. por sua vez. no decorrer de sua célebre obra. Ao contrário do pensamento medieval. ou são novos (MAQUIAVEL. que é a separação da ética e da moral aristotélica da política. Logo no início da obra. Maquiavel não se ocupa da moral. apresenta o seu principal ensinamento. 31 . neste caso o príncipe é por descendência antiga. faz política. 1996. quem deixar de fazer o que é de costume para fazer o que deveria ser feito encaminha-se mais para a ruína do que para sua salvação. acrescenta que “muitos imaginam repúblicas e principados que nunca foram vistos nem conhecidos realmente [. Esta centralização somente será possível através de um nome forte. Os principados. 1996. Ao descrever o processo real da formação do Estado moderno. ou são hereditários. influencia diretamente em O Príncipe. administrativas e diplomáticas em Florença. claramente. A política passa a ter contornos de uma ciência autônoma separada da moral e da religião medievais. 2 Maquiavel e o surgimento das teorias modernas de estado e política Na abordagem que encontramos em O Príncipe. assim. 11). Com isso. Quando a escreveu.. Maquiavel inaugura a ciência política. 1986).]”. Tinha caído em desgraça e havia sofrido pena de prisão.

não aquilo que seria certo fazer. podemos dizer o seguinte: eles são ingratos. se tivermos que renunciar a uma delas. Ao longo dos séculos. eles viram as costas. Embora se imaginem estados ideais. A política tem uma ética e uma lógica próprias.. simuladores e dissimuladores... esta resistência acabou nublando a riqueza das descobertas para as ciências do Estado e da política. mas como é difícil juntar as duas coisas. Mas quando você precisar. distinguindo-se da elaboração aristotélica. como Platão elaborou na sua “República”. 1995). volúveis. Finalmente a política é. ou viceversa. 17). o centro desta elaboração encontra sua genialidade na separação entre política e moral. são todos seus. devemos observar os fatos como eles são e elaborar o que se pode e é necessário fazer. Maquiavel ainda descortina sobre o comportamento do príncipe em relação à natureza humana e à necessidade das virtudes: Há uma dúvida se é melhor sermos amados do que temidos. [.Estes trechos de O Príncipe têm um profundo significado para o que podemos chamar de fundação da ciência política contemporânea e da teoria da formação do Estado moderno. a arte da realidade que pode ser efetivada. oferecem-lhe seu próprio sangue. 3. O preconceito sobre Maquiavel e sua obra foi fundado como resistência às suas concepções. A resistência a esta compreensão é o que dá origem ao termo “maquiavélico”. Deve-se responder que gostaríamos de ter ambas as coisas. Enquanto você fizer o bem para eles. Estas afirmações podem ser feitas em decorrência do seguinte: 1. eles furtam-se aos perigos e são ávidos de lucrar. Na política. funda-se uma nova moral: a moral do cidadão. a arte do possível. mas o temor é mantido por um medo de castigo que não nos abandona nunca (MAQUIAVEL. que atua a partir das coisas como são e não como deveriam ser. Isso tudo até o momento que você não tem necessidade. 32 . eles de fato não existem. portanto.] pois dos homens. p. Pois o amor depende de uma vinculação moral que os homens. Maquiavel nos apresenta um novo horizonte para se pensar e fazer política.] Os homens têm menos escrúpulo de ofender quem se faz amar do que quem se faz temer. rompendo com o tradicional moralismo piedoso. seus filhos. suas posses.. Por outro lado. sermos amados e temidos. em geral. a sua natureza e agir na realidade efetiva. Na obra de Maquiavel. 2.] [. Portanto. pois é a moral que cuida do dever ser (CHAUÍ. sendo malvados. é muito mais seguro sermos temidos do que amados [. suas vidas. 1996.. rompem. típico destes tempos humanistas: É o homem que edifica o Estado.. é necessário conhecer o homem.

poderdapalavra. Nicolau. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2008.br/portal/book/export/htlm>. ed. 1988. Paulo. Disponível em: <http:// www. In: WEFFORT. Luciano.). Maria Tereza. São Paulo: Malheiros. Porto Alegre: L&PM. Convite à Filosofia. Alexandre. Maquiavel. 2004. Maquiavel e a política contemporânea. São Paulo: Ática. São Paulo: Ática. 1986. Engels. Francisco C. 2003.Referências BONAVIDES. Acesso em: 23 jul. MAQUIAVEL. 14. Tudo começou com Maquiavel: As concepções de Estado em Marx. 1995. Ciência Política. ed. Antonio. ed. a Política e o Estado Moderno. GRUPPI. GOMES. GRAMSCI. Marilena. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna. O Príncipe. 11.com. SADEK. 1996. Os Clássicos da Política. CHAUÍ. (Org. 10. 33 . Lênin e Gramsci. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

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