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Wole Soyinka

Os intérpretes
Tradução de:
Maria Helena Morbey

Título original:
The Interpreters
Primeira Parte

- Estes sons metálicos rebentam-me os tímpanos protestava


Sagoe, enquanto tapava os ouvidos com os dedos para se proteger do
ranger ensurdecedor das mesas de ferro.
Pouco depois, Dehinwa levantou-se subitamente e Sagoe quase
partiu o pescoço, ficando com a cabeça suspensa no espaço onde
estivera o colo dela. Os braços de Bandele eram de facto fantásticos.
A uma distância mínima, conse-guiam abarcar a mesa e as cadeiras,
empurrando-as contra a parede, à medida que os dançarinos fugiam
das enormes línguas dos camaleões, que surgiam com a chuva e o
vento e saltavam sobre eles, visivelmente ameaçadores. De um
momento para o outro, ficou apenas a orquestra.
Só passado algum tempo é que Egbo se apercebeu do que
estava a acontecer, olhou para o telhado que não parava de gotejar,
e despejou a cerveja para o chão, murmurando indignado:
- Não preciso da sua piedade. Não há ninguém que diga a Deus
que pare de chorar para a minha cerveja?
Sagoe continuava a friccionar o pescoço.
- És uma mulher terrível! Viste o que fizeste? Até podia ter
partido o pescoço!
- Tenho de ter cuidado com o meu cabelo!
- O cabelo! É mais importante o cabelo dela do que o meu
pescoço! Porque é que não usas peruca como todas as mulheres
elegantes?
- Detesto perucas.
- Se persistes em andar sempre com o teu cabelo, as pessoas
ainda vão pensar que és calva...
Separado apenas pela parede de bambu, com cerca de um metro
de altura, que dava ao clube uma certa intimidade visite os
reservados do nosso Clube Campana, etc., etc. -, Egbo observava o
charco cada vez maior, onde ainda boiava a espuma da sua cerveja.
Uma parte desta agarrara-se obstinadamente à parede de bambu e
aumentava de volume com a água; a restante, tendo caído
directamente sob as goteiras de água, escorregara logo de seguida.
- Ora bem, a decisão foi minha. Não me posso queixar. Bandele
olhou para ele.
- Oh, isto é apenas uma conversa entre mim e este eloquente
charco.
Dois ramos afastavam as águas calmas do riacho e a canoa
arrastava-se, deixando atrás de si um sulco entre as margens
lamacentas; o silêncio era profundo e eles chegaram a um lugar onde
se via um velho canhão ferrugento à superfície das águas. As velhas
canoas, ancoradas ao longo da margem, consti-tuíam um triste
quadro do passado; mas tudo aquilo parecia irreal. Os rema-dores
reduziram a velocidade e atracaram o barco ao canhão. Egbo pôs a
mão dentro de água e os seus olhos mergulharam na quietude
salobra, nas profun-dezas escuras, fixando-se no leito lodoso. Tinha
um olhar calmo e parecia profundamente absorto.
- Talvez tenham adivinhado. Os meus pais morreram afogados
precisamente aqui.
A canoa retomou o seu percurso.
- Os vossos sábios chineses diriam certamente que o que eu
disse é falso. Como posso eu afirmar que os meus pais morreram
neste lugar, se a água que hoje aqui corre não é a mesma que aqui
corria o ano passado, ou mesmo ontem!? Ou há momentos atrás,
quando eu falei. De qualquer forma, o meu avô não é filósofo. Ele
colocou aquele canhão ali para assinalar o lugar, por isso os meus
pais morreram ali.
Os outros afastaram o olhar, sem saberem o que dizer. Do
canhão, que se afastava, emergia um caranguejo caricato, cujas
patas pareciam estender-se ao sol, chegando mesmo a penetrar na
água. Formara-se uma crosta de lodo da cor da água nas canoas
ancoradas, que em tempos haviam sido orgulhosas canoas de guerra.
O mangai parecia não ter fim e Kola quebrou o silêncio, dizendo:
- O mangai deprime-me.
- A mim também - disse Egbo. - Creio que nunca poderei libertar-
me totalmente da água, mas na verdade odeio tudo o que se
relaciona com a morte. Lembro-me de que, quando estava em
Oshogbo, gostava de ir para as margens do Óshun, lá permanecendo
horas a fio, escutando o rumor das águas. A particularidade que me
atrai nestes riachos é a sua quietude. E lá permanecia, convencido de
que os meus pais surgiriam da água para me falarem. Eles tinham-se
tornado parte integrante da água; quanto a isso não possuía quais-
quer dúvidas, portanto esperava que aparecessem logo que para tal
houvesse condições. Oshun tinha este mesmo aspecto sombrio e eu
ia, noite após noite, para as suas margens, chamando por eles e
colocando o meu ouvido contra as águas do riu. - Só me deixei vencer
pelo cansaço físico. Os meus tutores pensavam que eu me tornara
seguidor de oshun. Que valor teria eu para Oshun, não me dizem?
Enquanto falava, Egbo arrastava a mão pela água, arrancando as
plantas aquáticas e dobrando os longos caules esbranquiçados.
- Evidentemente que isto foi apenas uma fase, mas eu sentia-me
de facto atraído pela incerteza. Adorava a vida calma e misteriosa.
Durante as férias, ia para lá ler os meus livros. Porém, mais tarde,
comecei a ir mais longe, para a velha ponte suspensa, onde a água
corria livremente sobre rochas e areia branca. E o Sol brilhava
intensamente. Também havia profundidade naquela turbulência, pelo
menos eu tinha a impressão de estar imerso na escuridão, com um
céu sem nuvens. Era tão diferente do mangai, onde a profundidade
me sufocava! Na ponte, ela era indefinível e era preciso perscrutá-la
atentamente.
Subitamente sentiu-se apreensivo, o que lhe provocou uma certa
frus-tração e embaraço, desejando, agora mais do que nunca, parecer
claro e inequívoco.
- Estou a tentar explicar por que é que as recordações não me
dominam. Não voltei a este lugar desde que os meus pais morreram.
Ocasionalmente, a minha tia trouxe-me aqui, decerto para dizer aos
velhotes que eu ainda estava vivo. Tinha então catorze anos e desejei
que fosse, de facto, a última vez.
Bandele franzia o sobrolho, o que não passou despercebido
aEgbo.
- Por que franzes o sobrolho? Bandele limitou-se a abanar a
cabeça.
- Não concordas? Sekoni, qual é a tua opinião? Se os mortos não
são suficientemente fortes para estarem sempre presentes na nossa
existência, não poderiam ficar como estão, mortos?
- S-s-se f-fazemos tais d-distinções, estamos a quebrar a cúpula
da continuidade, que é afinal a p-própria vida.
- Mas então - continuou Egbo -, será que temos de continuar a
tentar captar os mortos? Por que e que os mortos, por seu lado, hão-
de recear falar à luz?
- P-p por isso mesmo, d-devemos aceitar a cúpula universal, p-
porque não existe q-q-qualquer rumo. A p-ponte é a cúpula da religião
e as pontes não se m-movimentam de um lado para o outro; uma p-
ponte t-t-também está voltada para t-trás.
- Devia haver mais Alhajis como tu, Sheikh - disse Egbo. - Todos
violam o silêncio, mas as pessoas como tu têm um objectivo preciso.
Lentamente, a letargia apoderara-se dele e alastrara de uma
forma imperceptível; as suas vozes projectavam-se num longínquo
eco. à semelhança das lamúrias de um catequista muezim. E a súbita
aparição da cidade, ainda distante e envolta numa espessa névoa,
violando a paz, ao rodeá-los sem os avisar, tirou-lhes por momentos a
vontade de falar. Lentamente, como se qualquer movimento
repentino pudesse perturbar os balanços cadenciados, Kola pegou
nos seus lápis de desenho e com a mão fez sinal ao remador mais
próximo. A canoa abrandou a marcha e parou.
- Corresponde exactamente à imagem que tenho dela murmurou
Egbo. - Um interlúdio da realidade.
Estacas lamacentas e, sobre elas, paredes lisas, brancas e
cinzentas, cobertas por telhados de colmo. Na doca seca. sob uma
prancha, estavam canoas de cores contrastantes, relíquias dos dias
em que os peixes alimentavam aqueles que contestavam as leis da
caça. Agora, esperavam a competição anual e a reconstituição da
guerra das grandes canoas. Osa dormitava tranquilamente sob
espessas sombras entrecortadas, aqui e ali. por raios solares, cujos
reflexos quase cegavam, quando, subitamente, um pequeno barco
emergiu de uma enseada oculta, parando junto aos restantes barcos
ancorados. Dele saiu um homem corpulento, seminu, cuja barriga
tinha um aspecto luzidio, como se o azeite da sua última refeição
estivesse lentamente a vir à superfície. Mesmo àquela distância, a
sua obesidade não lhes passava despercebida; o homem atracou
facilmente o seu barco, pôs um saco ao ombro e desapareceu nas
sombras.
Os remadores haviam recomeçado o percurso, mas Egbo
ordenou-lhes que parassem de novo.
- Esperem.
O homem desconhecido quebrara a crosta do tempo; Egbo viu
anões sentados aos pés de um grande senhor, cujas fortes
gargalhadas semeavam o terror no grupo desordenado de pessoas
que o escutavam. Foi empurrado para o centro desta cena pela tia
que, sempre insensível à dignidade de seu pai, lhe gritou quase ao
ouvido:
- Trouxe-te o teu neto.
E Egbo recordava-se nitidamente da súbita transformação do
velho, de como as suas gargalhadas ameaçadoras se haviam tornado
num verdadeiro deleite e da força súbita e incompreensível que o
elevou por cima dos anões, colocando-o nos seus joelhos. Egbo sentiu
de novo o contacto de uma terrífica virilidade, de duas mãos que lhe
acariciavam o rosto e a cabeça, especialmente a cabeça, de dedos
que, debaixo dos seus cabelos, lhe comprimiam o crânio como se
pretendessem esmagar-lhe o cérebro. E sentiu nos músculos e no
peito o som de um tornado, que era novamente a gargalhada de
satisfação do seu avô. Fora este o seu último encontro. E agora, algo,
algo, uma visão do grande senhor abandonando a audiência com
passos firmes, deixando mesmo para trás os seus anões, os seus
eternos companheiros, ainda que Egbo tivesse tido a sensação de que
eles eram os seus guias, na cabeça dos quais ele apoiava a mão para
obter directivas. Examinando-os cuidadosamente, começou a reler as
suas memórias...
- Perante isto - começou Kola, mal desviando a atenção do seu
caderno de esboços -.... controlando rigidamente qualquer movimento
à sua volta, para todos os efeitos um deus entre os homens... é assim
que eu imagino o teu avô. E uma cabeça completamente branca.
- E também cego, suponho!? - disse Egbo, dirigindo-se aos
remadores, na expectativa de uma resposta. Estes hesitaram e
gaguejaram, nitidamente pouco à vontade. Egbo pressentiu,
vagamente, como que um código de tabus, o que lhe deu a sensação
de afastamento. - Mas eu sou neto dele - protestou.
- Vocês não estão a falar com um estranho.
Porém, os remadores continuaram em silêncio. Egbo insistiu:
- Eu era ainda uma criança quando o vi pela última vez e já então
a vista lhe começava a falhar. Será que agora vê perfeitamente?.
O remador mais velho refugiou-se num provérbio. Quando lhes
perguntavam por que motivo nunca respondiam objectivamente às
questões que lhes eram postas, os conselheiros respondiam: “O rei
diz que está cego.”
O espectro de gerações surgia agora à sua frente e Egbo pensou
que iria retrair-se sempre, ainda que incessantemente atraído pelo
modelo dos mortos. Porém, o fim da viagem aproximava-se, e ele
hesitava e estremecia precisa-mente no último momento. Não seria a
exumação de um passado melhor e já esquecido? Pensando bem,
quem sou eu para me imiscuir? Quem? Contudo, e isto era muito
importante, ele tinha consciência e desprezava a época que tentara
mutilar os seus princípios.
E havia a ameaça pessoal ao seu avô; porém, não duvidava de
que o velho conhecia os riscos políticos e aceitaria reversões. E Egbo
desejava que isso fosse tudo, que a luta fosse apenas política, nada
mais. Contudo, Egbo sentira no velho e na sua existência uma
essência viril, uma graça redentora. Ele sabia que isto estava a ser
destruído por homens sem valor e de mau carácter, que se
envaideciam por motivos fúteis.
- Há também o meu orgulho de raça - disse Egbo. Apesar de
tudo, eu sou um Egbo.
Pois bem, ele podia ficar. A União dos Descendentes de Osa
enviava diariamente os seus porta-vozes para o importunarem,
obcecados com a ideia de um “chefe iluminado”, e. gradualmente,
Egbo começara a interrogar-se e a indispor o chefe militar das
enseadas contra as faces obtusas, cinzentas e burocráticas dos
Negócios Estrangeiros. E uma raiva surda, pânico e receio daquele
complexo abismo, crescia dentro dele. Que queriam dele? Como
ousavam sugerir obrigações? E este estranho, cuja respiração
vacilante podia ouvir em todas as súplicas deles - e era, com efeito,
um estranho separado por uma geração hão menos frágil - um pai
cuja canoa se movia entre as povoações espalhando uma palavra
que. apesar da aceitação ritual, pouco alterava, um pai cuja morte
imprudente deixara uma dúvida maior do que as conversões ao
evangelismo de uma vida inteira. E a sua mãe era a princesa Egbo.
cujo fardo ele agora transportava; dela era a linha de sucessão e
desaparecera no mesmo local, nada restando dela. salvo o canhão
enferrujado... Cedeu mentalmente ao estorço de desenredar meadas
sanguíneas e ficaram-lhe apenas as suas energias tirânicas.
O remo mergulhava de vez em quando, forçando a canoa contra
a maré, para ficar sempre à mesma distância da costa. A cabeça de
Sekoni descaiu para o peito, sucumbindo a uma sonolência geral. Mas
os restantes voltaram-se gradualmente, inseguros, desconfiados
daquela futura intrusão e dos seus motivos.
- Iremos encontrar este teu progenitor, ou não?
- Sinceramente, não sei - respondeu Egbo.
Nesta altura tudo se tornara diferente, enquanto esperava para ir
a terra e atracar, com a sua incapacidade de isolar da distante
desilusão os seus receios pela dignidade das suas raízes e o destino
de um homem que se queimara ao brincar com o fogo. Finalmente,
reconheceu que aquele era um lugar de morte. E compreendeu
também que era arrastado para ele, arrastado como para um sonho
de isolamento, farejando a sua arcaica ameaça e as suas violentas
ressacas, incapaz de negar a sua sombria vitalidade.
- Mas por que é que não sabes? Não me digas que nos fizeste vir
até aqui só para nos dizeres que não sabes.
- Ali, algures, está um velho cego e um povo à espera de uma
mítica omnisciência da minha geração. Mas que raio me poderá
oferecer tal existência?
- Para já, tantas mulheres quantas puderes aguentar replicou
Bandele.
- Ah, sim, isso. Admito que é um forte argumento.
- E poder, também? - perguntou Kola.
- Essa espécie de poder seria apenas um passatempo. Há de
facto um poder, e grande, dado que estas tentações do meu país
sempre me impressio-naram. Oh, há poder, sim senhor. Sob qualquer
forma. Aliando-se aos novos deuses ou sequestrando-os para os
resgatar. Osa controla uma série destas vias vitais de contrabando e
ao diabo com os vossos helicópteros e vedetas rápidas. O governo
apenas apanha o que o velho quer sacrificar. É uma terra pequena,
mas é a mais rica destas povoações costeiras. E as áreas vizinhas
sabem donde provém o seu pão secreto. Estão com Osa desde os
tempos dos tributos.
- Mas todos eles cedem, não concordas... Mais cedo ou mais
tarde, todos cedem.
- Não quero ver isso acontecer.
- Quem o impedirá? O teu cansado avô?
- Não. Mas nós poderíamos
- Mas será que o desejamos? Mesmo tentar que seja?
- Não. Estamos demasiado ocupados, embora nunca tenha
descoberto a fazer o quê. É isso que constantemente pergunto a mim
próprio - a fazer o quê? Para além de amparar os arautos do futuro,
escravos nos seus corações e, na realidade, vozes lamentosas, afinal
que fizemos nós? Nunca sentiste que toda a tua vida poderá ser uma
superfície delgada e sinuosa suportando o peso dos loucos, uma mera
passagem, um mero meio reflector ou uma fina massa ocasional
controlada por fermentos que estão para além de ti?
Bandele encolheu os ombros.
- Não sou funcionário público.
- Mas submetes-te ao sistema. Existes nele. Emprestando sei vá
a hastes ocas.
- É por isso que o poder te atrai? - inquiriu Bandele.
- Apenas quero ser libertado da superfície sinuosa.
- Da apostasia - disse Kola.
- O que é isso?
- O quê? Oh, referes-te a apostatar? Um apóstata é uma face que
não consigo delinear, nem mesmo grosseiramente. É uma
neutralidade absoluta.
Um remo tombou na água, iniciando o movimento.
Ansiosamente, afir-mou:
- A maré muda de direcção pelo fim da tarde.
- Muda como? Para longe da costa? O outro acenou com a
cabeça. Afectando inocência, Kola perguntou:
- Quantas mulheres tem o velho?
Por momentos Egbo foi iludido, depois riu-se.
- Já reconheci que é uma ideia de peso. Pensei nisso. Longa e
seriamente. Imaginem: não só poder encher a minha casa com
mulheres, mas tal ser encarado como correcto e próprio de um
homem. Não sei quantas ele tem, mas não serei parco, garanto-te.
- Não precisas dizê-lo.
- Oh! Sonhei dezenas de vezes ter uma casa como essa. E com
as perspectivas futuras para as tradições do país. Como exemplo para
converter o mundo.
- És o primeiro retrógrado genuíno desta geração.
- Pelo contrário. A poligamia é um conceito inteiramente
moderno. Oh, não nego que a prática é antiga, mas quem pensava
então que isso era poligamia?
- Está bem, está bem, desembarcamos ou não?
Como se não tivesse ouvido, prosseguiu: - Por vezes, suspeito
que levei a objectividade aos seus limites negativos. Que escolha,
pergunto a mim próprio, existe entre os feios gobiões das lamas desta
enseada e os sapos rouquenhos dos nossos portos imundos? Que
diferença?
- Nenhuma.
- Essa é a resposta que receio encontrar se ceder à tentação e
reclamar o meu lugar aqui. Nenhuma diferença. Por vezes, vou
mesmo ao ponto de dizer: “O que é o meu avô senão um bandido
glorificado?” Só que isso também não me ajuda. Antes um bandido
glorificado que um escravo eloquente.
O remador apontou para a água. As correntes haviam-se tornado
discer-níveis, veias indolentes sob a sonolenta serpentina de uma
jibóia. Elas afagam-nos, diriam os homens da costa, atraem-nos com
braços voluptuosos de sereia para profundíssimas cavernas,
infinitamente recatadas e maternais.
- Ainda não - afirmou Egbo -, tão cedo não tereis outro Egbo, oh
profun-dezas ninfomaníacas.
Mas permanecia ainda a questão de uma escolha e ele não fizera
alguma, pelo menos alguma de que estivesse plenamente consciente.
- Muito bem, vamos.
- Para onde, homem? Não nos disseste.
Talvez tivesse desejado que os outros se pusessem simplesmente
em movimento e lhe retirassem o peso de uma escolha, mas era
característico de Bandele insistir, embora sem motivo. Assim, sem
mais, Egbo acrescentou simplesmente:
- Com a maré. Kola sorriu.
- Como apóstatas?
Uma sombra de ira encheu a sua face, enfadado pelo malogro de
não ter finalmente enterrado a questão abortada, especialmente a
promessa que ela ainda continha para ele, como que de uma
salvação. O seu olhar percorreu o clube procurando um objecto para
libertar a sua cólera e ser aquecido depois pelas energias
despertadas. Havia apenas Lasunwon, o advogado-político. Este
perseguia sempre a companhia deles, como um eterno resquício
daquelas mani-festações esporádicas de que nunca se queixava.
Silenciosamente observou-o, começando a sufocar sob a gravata da
universidade que parecia assumir vontade própria e pressionava o
respectivo nó contra a sua maçã-de-adão. A cerveja inverteu a
direcção e as narinas de Lasunwon pareceram duas agulhetas
gémeas da mangueira de um bombeiro. Quando Egbo abriu os olhos,
ficou surpreendido ao ver Lasunwon acenando para um conhecido no
outro extremo da sala.
O grupo sentado entre eles e a chuva levantou-se e fugiu quando
uma inesperada mudança de vento os assaltou, borrifando a mesa de
Sagoe com salpicos. Bandele estendeu a sua perna comprida e magra
e fez tombar a mesa abandonada sobre o bordo, de modo a constituir
um escudo de protecção. Sagoe estremeceu subitamente e a voz de
Dehinwa tornou-se ansiosa.
- Estás a tremer - e pousou a mão na testa de Sagoe para ver se
ele tinha febre.
- É esta humidade - replicou Sagoe. - Não tenho frio, mas não
consigo habituar-me à humidade.
- Mentiroso. Diz antes que é a constipação que apanhaste ontem.
- Voltou-se para os outros. - Foi mais uma vez pela estrada de Apapa.
E sabem por que o faz? Para gozar com os carros atolados.
- Isso não é verdade. Vou fazer prospecção de petróleo nos
buracos da estrada.
- Muito engraçado.
- Procura antes restos filtrados no meio da estrada, é tudo o que
há ali.
- Andar de bicicleta com este tempo! É por isso que todos te
chamam comunista. Sabes bem que estás à cabeça da lista de
detenção preventiva.
- Pelo menos espera até a lei ser aprovada.
Dehinwa, ainda com o seu ar protector, virou-se para Bandele:
- Voltou a casa com a cabeça a escaldar e o nariz a pingar. É bem
feito.
Sagoe fez uma careta, tapou as orelhas com o xaile e. por
momentos, ficaram em silêncio.
O trompete cortou a noite com uma última nota arrogante e o
saxofone foi-se apagando, como uma serpente ferida encolhendo-se
em silvos obscenos. Kola esgotara os guardanapos de papel
arrancados aos criados e Sekoni ajudou-o a procurar algum espaço
esquecido entre as confusas garatujas. Apontou um modesto canto,
mas Kola abanou a cabeça.
- Aí, não conseguiria desenhar nem um feijão.
Começou a acenar com os guardanapos, na esperança de atrair
a atenção de um criado. Sekoni arrancou-lhe a esferográfica da mão e
desenhou um objecto semelhante a uma cebola no espaço rejeitado.
Kola desistiu. Os criados amontoavam-se perto do bar. Todos
exibiam o olhar vazio do aborrecimento e dois estavam totalmente
hipnotizados pelas cascatas que caíam do telhado. Contemplou
brevemente a cebola de Sekoni e voltou-se para Egbo.
- Que ias tu a dizer?
Algures no espaço soou um ruidoso apelo, a agonia de vigas
arrancadas à força, e todos esperaram o estrondo da queda do zinco.
Era muito perto e inclinaram as cabeças sob os tectos baixos do pátio,
na direcção do som. Mas os olhos de Sekoni eram felinos.
- A-ali, é a-ali.
E imediatamente o estrondo chegou, um baque de tijolos e
depois o timbre agudo do colapso de lâminas enferrujadas.
- Um dente - anunciou Egbo. - O horizonte perdeu um dente das
suas longas gengivas podres.
Sekoni gaguejou mais do que nunca:
- V-v-vão f-f-ficar sem c-casa... h-hoje. T-t-t-talvez devêssemos p-
parar lá e v-ver s-s-se podemos a-a-ajudar.
Sagoe começara a ressonar suavemente. Normalmente, Egbo
entusiasmar-se-ia com uma trovoada, o seu rosto ficaria mais
animado. Esta noite limitou-se a fitar o céu, murmurando
imprecações.
- Não te pedi que te juntasses na celebração da minha
depressão.
Usando a sua palma esquerda como superfície, Kola retomou os
seus esboços. Bandele instalou-se num canto.
Como uma arma secreta, algo chamado uma cabeça-dura; para
Egbo, fora sempre um termo usado para as crianças teimosas e
sentia-se melindrado com a sua debilidade. Eles também o haviam
pronunciado quando o salvaram - eles, o mundo dos adultos, dos
estranhos, da humanidade erudita -, pronunciaram-no enquanto o
salvavam das águas, plenamente consciente: “este aqui”, diziam,
“tem uma cabeça dura”. Mas não os outros dois, o pregador seu pai e
a filha de um rei, cujos corpos só foram recuperados horas mais
tarde. A partir daí, passara de pai para pai, pois a tia, que
efectivamente ficara responsável por ele, era um espírito turbulento e
ainda hoje a sua face lhe aparecia de forma indefinida. O mestre-
escola, o seu primeiro guardião, gastava as varas a bater-lhe. A tia
regressou subitamente de Daomé e, mal olhou os vergões, quebrou
um tinteiro na cabeça do mestre-escola. Seguidamente, foi para
Oshogbo viver com um sócio da tia. Mas a mulher do comerciante
limitou-se a aproveitar os vergões para os cruzar com outros, feitos
pela sua vergasta, pois ele recusava-se a cuidar da loja.
- A minha tia é o seu sócio comercial - dizia Egbo -, portanto,
como é que isso me torna seu empregado?
Mas havia pior.
- Quando cumprimentares as pessoas mais velhas afirmava o
comerciante -, prostra-te a seus pés.
- Quer dizer que devo deitar-me sobre a barriga?
- Sobre a barriga, sim, filho do diabo. E Egbo corrigia-o
calmamente:
- O meu pai foi um respeitável reverendo e nunca me ensinou a
prostrar-me.
Apoderando-se do seu koboko, o homem despedaçou-o na pele
de Egbo, gritando:
- És ainda uma criança. Aprenderás da maneira mais difícil ou
com a ajuda do chicote!
Anos mais tarde foi para um internato e só regressava a casa do
comerciante para passar férias. Mas o tutor esperava-o, com a sua
barriga flácida e inchada, descaída, enormes rolos de macia amala
sobre um cinto de couro. E Egbo poisava a mala, reunia todas as suas
forças e cumprimentava-o de pé. Da primeira vez, o chicote apareceu
como um foguete de debaixo da cadeira, só que agora já havia
argumentos intelectuais a utilizar.
- Se só me ajoelho perante Deus, por que me devo prostrar
diante de si?
O comerciante deteve-se, trémulo. E se Deus, por acaso, ouvisse
a discussão e se pusesse do lado de Egbo? Era uma razão suficiente
para temer a represália divina. Durante alguns dias o comerciante
comportou-se com humildade, falando sempre baixinho, esperando
que Deus esquecesse aquele seu pensamento e a sua própria
existência. Porém, nada aconteceu durante uma semana, três
semanas, e, pouco a pouco, readquiriu a sua audácia. Só que o ponto
de vista de Egbo continuava de pé e poderia ele rejeitá-lo com o
fundamento de ser conversa infantil? Não era difícil inventar novas
desculpas; Egbo foi descoberto, à meia-noite, deitado à beira da água
no pequeno bosque de Oshun, com uma orelha colada ao solo.
- Que estavas ali a fazer? - perguntaram-lhe. Respondeu que
estava a rezar. Então, bateram-lhe por ter inclinações pagãs.
- Todas as crianças bem educadas rezam na igreja gritou a
mulher -, e não num demoníaco bosque de pagãos.
Esperaram que a chuva parasse, passando pelas brasas. Sagoe
agitou-se, puxou a cabeça de Dehinwa e segredou-lhe:
- Diz-me, honestamente, pareço tão vazio como os outros? - Mas
mesmo assim fê-lo suficientemente alto para que Bandele o pudesse
ouvir.
- Oco - assegurou-lhe, e Egbo acrescentou:
- Como um político numa conferência de imprensa.
- Estes dois ainda estão muito despertos - disse Dehinwa
referindo-se a Kola, cuja palma da mão era agora uma confusão de
riscos de tinta, e a Sekoni, que só Deus sabia em que magicava.
De facto, meditava sobre a sua própria mitologia, a sua única
aberração humoral, numa vida de dolorosa sinceridade...
- D-d-durante a minha in-in-infância, g-g-gostava de engolir b-b-
bocados de carvão. Agora, quando so...luço, afluem-me à g-g-
garganta e não p-p-posso f-falar.
Os “soluços” eram mais violentos quando Sekoni se excitava e a
sua excitação, enquanto explicava esta história, só era comparável à
dos ouvintes. Porque isto era, vindo de Sekoni, profundamente
engraçado. Era espantoso, mas o esforço deixava-o como se se
tratasse de uma criança a quem obrigam a comer, resistindo à tensão
a que estava submetida. Neste caso. a tensão das suas ideias.
Quando lhe acontecia qualquer coisa de novo. ficava fora de si - quer
fossem coisas bizarras, ininteligíveis, triviais, inspiradas, ou mesmo
algo que ele próprio dissera ou fizera e que. geralmente, era aceite
como agradável.
Por momentos, os olhos de Sagoe assemelharam-se aos de um
bêbado e depois esbugalharam-se ao mesmo tempo que se
movimentavam como os de uma cobra, indiferentes a queixa de
Hehinwa:
- Por amor de Deus. esta quieto!
Aluo o impeliu a aproximar-se de Egbo e postou-se diante dele
hegbo observou-o indulgentemente, encorajando-o depois com um
sorriso bêbado, imbecil.
- Encontraste o que querias? Sagoe abanou a cabeça e suspirou:
- Que desperdício!
Só Dehinwa persistiria em procurar significado nas palavras de
um Sagoe embriagado.
- O que é que é um desperdício? - perguntou.
Com certa dificuldade, descortinaram as razoes de Sagoe.
- Vês a cara de Egbo em azul-ultramarino? Este clube tem
ambiente.
A luz azul da lâmpada eléctrica do aquário reflectira-se em Egbo.
Também se viam manchas tremeluzindo na cara de Lasunwon,
funcionando como raios amaciadores de carne. Os seus músculos
faciais relaxavam-se e resistiam a todos os esforços de Kola para os
colocar no seu devido lugar. Dehinwa continuou a insistir:
- Mas o que é que é um desperdício?
- O ambiente, rapariga, o ambiente. Devíamos ser pares de
apaixonados. Até devassos e lorpas serviriam, mas o que é que aqui
temos? Cinco palermas bêbados.
A réplica de Dehinwa perdeu a sua força, pois Sagoe paralisou-a,
envolvendo-a com o seu xaile. Bandele surgiu da sombra de uma
coluna, abriu bem os olhos e inspeccionou a cena.
- Ainda não parou.
- A chuva, não.
Sekoni soltou subitamente um riso abafado, no seu jeito habitual.
Kola parou e levantou os olhos, mas não pediu qualquer explicação.
Parecia que nada particularmente divertido acontecia à sua volta,
portanto regressou ao trabalho. Sem dúvida algum incidente passado.
Sekoni nunca ria no preciso momento em que as coisas aconteciam.
Muitas vezes reagia com alarme, preocu-pação e, se os interlocutores
fossem estranhos, acabavam por perguntar a si mesmos se não
seriam culpados de insensibilidade. Todavia, estimulado por qualquer
acontecimento inesperado e casual, ou por qualquer mecanismo de
retrospecção que engendrara, Sekoni voltava sempre a recordar a
cena e ria, um riso um tanto ou quanto ilícito.
O peixe iniciou uma espécie de jogo anfíbio, agitando-se
violentamente e surgindo por trás de uma rocha, acabando por fixar
os olhos nalgum perse-guidor invisível. Lasunwon observava-o e
sentiu-se sentimental. Apontando em direcção ao aquário, afirmou:
- Nós, os humanos, somos um pouco assim. Vivemos numa
armadilha perpétua, presos nas avenidas onde a fuga está proibida.
O peixe, ofendido, deteve-se a meio de uma pirueta e atacou
com a boca; Sekoni tentou vencer os bocados de carvão na sua boca,
mas perdeu, acabando por abanar a cabeça em sinal de reprovação.
Egbo limitou-se a agarrar Lasunwon pela gravata, aproximando a sua
cabeça da dele, enquanto rosnava:
- Deus há-de punir-te.
Sagoe sentou-se finalmente e procurou o empregado.
- Preciso de um brandy para afastar a malária.
- Mais não, mais não. Já estás suficientemente bêbado.
- Como a única mulher do grupo, devias saber colocar-te no teu
lugar. Nunca, nunca, mas mesmo nunca, devias ser ouvida entre
companhia masculina.
- Vês? Estás bêbado.
- Não, estou é deprimido. Raios, estou mesmo deprimido. E
aquele miserável conjunto musical é o culpado. Deprimiram-me
desde o momento em que começaram a tocar. E depois, este
martelar da água da chuva já dura há demasiado tempo. O ritmo da
chuva é demasiado complexo e eu sou dema-siado lento a
compreendê-lo. Tu também.
- Estás é a falar demasiado.
- Já te disse que devias estar calada. Seja como for, recuso
deixar-me abater como os outros. Olha só para eles. E se o Sheikh
não estivesse tão preocupado com os seus bocados de carvão, estaria
a falar.
- Já que estás tão bem, dá-me cá o teu ombro. Dehinwa
encostou-se a ele e depressa adormeceu. Sagoe olhou a sua volta
alarmado, perguntando a si mesmo se o tinham deixado sozinho para
enfrentar Sekoni. Ele, a sós com a força de Sheikh! Como que por
acidente, deu um pontapé a Egbo por baixo da mesa, mas as pernas
do outro limitaram-se a encolher-se. Tentou espreitar cautelosamente
por baixo das pálpebras de Bandele. acabando por ver que os olhos
dele o estudavam com a sua habitual suavidade.
- Não te preocupes, não estou a dormir. Sagoe inclinou-se sobre a
mesa e baixou a voz.
- Ele deprime-me, já me basta a minha tristeza.
- Que se passa contigo? Sagoe sorriu.
- Não vais acreditar, mas foi a morte do nosso presidente. Sir
Derinola. Nunca pensei vir a verter uma lágrima por ele.
- O ex-juíz?
- Sim. Os homens do foro puseram-lhe a alcunha de Morgue. Foi
um tipo decente até ter deixado que os políticos o subornassem. Tem
graça, mas eu desprezava-o quando era vivo!
- Pensei que querias afastar os pensamentos mórbidos.
- É verdade, o Sheikh foi o único culpado. - Baixou o tom de voz. -
É aquela sinceridade dele, que nunca nos deixa saber o que devemos
fazer... como se um coxo saísse de um carro e não soubéssemos
como ajudá-lo. Devemos segurá-lo pelos cotovelos, ou deixá-lo
desenvencilhar-se sozinho, limitando-nos a abrir a porta? Tirar-lhe as
muletas do carro e estender-lhas cá de fora? Sabes o que quero
dizer... Por que há-de ele ser tão casmurro!? Não me consigo habituar
àquela maneira de ser!
- Nem tens de te habituar. Tenta apenas ser indiferente.
- Isso é fácil de dizer. Ou talvez seja fácil para ti, mas para mim
não. Por vezes, quando o interrompo e pressinto que continua a
insistir, embora em surdina, sinto que, de certa forma, o estrangulei,
sabes o que quero dizer, que o estrangulei, mas que, ao mesmo
tempo, não acabei com ele. Não sei como Kola consegue...
- Kola tenta não o magoar.
Decerto que Kola escutava Sekoni pacientemente. Quando se
imaginou num papel daqueles, chegou à conclusão de que não era
correcto o que faziam com ele.
- Mas diz-me lá - continuou Sagoe -, o que vem a ser aquilo da
cúpula?
Bandele olhou furtivamente à sua volta. Sekoni não estava a
ouvi-los, mas mesmo assim disse:
- Mais tarde, mais tarde. Kola explicará isso melhor... Poucas
eram as pessoas que conseguiam ter, em relação a Sekoni, uma
indiferença equilibrada, pois as suas fantasias levavam muito tempo a
ser expressas.
Apresentou-se um novo grupo musical; todavia, este não viera
para se bater em duelo com a chuva. O pequeno grupo apala
começara a actuar como o trio de cordas, o quarteto, ou o solitário
violinista dos restaurantes europeus, cujas serenatas apenas visavam
as carteiras recheadas. Este era um grupo itinerante, bastante pobre;
o seu sustento dependia das esmolas. Normalmente, os lugares por
onde andavam eram as ruas, os mercados e até escritórios
particulares, onde sempre podiam fazer uma pequena chantagem.
Sabiam valer-se bem das situações e estavam sempre preparados
para qualquer eventualidade.
Eram corajosos, estavam bem adaptados às necessidades
urbanas, ensina-vam os jovens oyinbos a tocar e tornaram-se tão
indispensáveis às festas como a azeitona num palito. Primeiro as suas
melodias, depois os seus instrumentos - especialmente o tambor-
falante - invadiam os clubes nocturnos. Apareciam em qualquer
altura, para tirar partido de intervalos e outros silêncios forjados na
ocasião. Foi o que este grupo fez neste momento. Apenas uma viola
de caixa, três tambores, que pareciam ser parte integrante dos seus
corpos, e vozes moduladas em surdina pelo som dos tambores. E
dominavam a atmosfera como verdadeiros profissionais, falando uns
com os outros, não com as pessoas que os escutavam, que, se eles
quisessem, não perceberiam a sua linguagem. Mas os tempos tinham
mudado. A negativa estava fora de moda e depois da aparatosa,
exibicionista intrujice daquela banda de “alta roda”, esta renovou a
razão de ser de um sentimento, cujo significado adivinhavam e de
que, pouco antes, quase se envergonhariam.
Mas ninguém ia dançar. O gerente apareceu subitamente,
enfurecido, esbracejando e gritando:
- Quem deixou entrar esta gente?
Aquilo, porém, era só para pôr à prova a reacção dos seus
clientes mais abastados. Fizeram-lhe sinal para que se calasse e ele,
rindo entre dentes, regressou ao bar. Ò seu contentamento residia no
facto de obter lucro com o menor custo possível.
- Arautos do pós-lavagem - disse Ego. Acordara e parecia um
pouco excitado. Kola ergueu o olhar na sua direcção.
- Que foi que disseste?
Os criados de mesa pareciam de novo activos e Kola conseguiu
mais guardanapos. Sagoe gemeu.
- Tenho de me deitar sobre a barriga. Sei que não acreditam no
que vos vou dizer, mas o som daquele tambor faz com que a minha
barriga se agite.
Dehinwa exclamou, enfadada:
- Oh, Sagoe...
- Mas se é verdade! Deve ser qualquer coisa relacionada com a
vibração. Garanto-te que não estou a mentir. A música é óptima, só
que o meu estômago não a suporta.
- Tens sempre tantos problemas! Nem sei como conseguiste
chegar a esta idade!
- Calem-se - disse Egbo bruscamente.
Como que regressados a um passado distante, conjurando as
ténues memórias, os músicos cantavam para complementar as
torrentes de chuva, já não numa atmosfera asfixiada, mas numa
cinzenta lassitude; e, um a um, os ouvintes estremeceram, inquietos
mas submissos. Subitamente, Egbo deixou de os escutar, logo
seguido pelos outros, pois Sekoni recomeçara a sua luta com os
pedaços de carvão. A sua angústia era evidente, muito embora ainda
não tivesse conseguido pronunciar uma única palavra. Com os olhos
brilhantes, Egbo esperou que ele falasse.
- Nnnniilista! - explodiu finalmente, como o violento escape de ar
da válvula de um pneumático. - T-t-ter medo da bon-b-b-bondade.
Num homem in-inteligente, o m-medo da b-b-b-beleza ou da b-b-
bondade é c.. .cobardia.
- Será que nem sequer podemos escutar estes músicos
ambulantes, sem que tu desates a discutir?
Egbo tirou das mãos de Kola o desenho ofensivo e examinou-o.
Kola limitou-se a comentar:
- Estava farto de a ver.
Como se tal fosse suficiente para explicar por que havia plantado
um bócio no pescoço da mulher e envolvido os seus pés em
gigantescas botas Wellington, semelhantes a canoas, o que lhe dava
o aspecto de um animal platípode. Só então Egbo avistou o original,
sozinha na pista de dança. Nenhum deles, excepto, obviamente, Kola
e Sekoni, a vira apoderar-se daquele espaço vazio. Não precisava de
par, pois era totalmente auto-suficiente. Era imensa. Sobressairia,
dominante, fosse onde fosse. Enchia a pista com o corpo, dissolvendo
o espaço circundante com um ar natural de superfluidade. Movia-se
com lentidão, intensamente, mergulhada na melodia e na cadência
da chuva. E trouxe um novo significado à música que a banda tocava.
Esta soava agora como uma moldura, um ornamento lírico aos
movimentos da dançarina solitária.
Viram-na entregar-se lentamente, a cabeça atirada para trás
para melhor comungar intimamente com as copas de palmeiras, as
hastes de bananeiras ou o que quer que fosse que simulasse a
frescura tropical na peça artificial colocada no centro da pista. O
percussor principal avançou para ela. como que delineando a sua pele
na curva do tambor. Listas de chuva, em tons de verde e laranja,
envolviam-na, tombando das margens daquele “guarda-chuva”
aberto, e os reflexos dela eram distorcidos pelas quatro faces do
espelho. De tempos a tempos, o vento mudava ligeiramente,
lançando alguns salpicos sobre ela. mas mesmo assim persistia na
sua dança; mas o percussor recuava, esfregando rapidamente a pele
do tambor, como para lhe restaurar a textura, ainda que a sua voz
nunca abandonasse a dançarina.

Um longo braço surgiu da escuridão do canto, longo e esguio,


enganadoramente frágil. Era Bandele. O desenho foi arrancado das
mãos de Lasunwon, que se preparava para o deitar para o chão
molhado.
- Preteria que me tivesses deixado deitá-lo fora - disse Egbo.
- O lugar dele é na lama - insistiu Lasunwon.
- Talvez antes o teu! E era onde terias ido parar.
- Oh, deixem o advogado expressar a sua opinião disse Sagoe.
- Isso pouco me importa - replicou Egbo. - Mas preparava-se para
ir demasiado longe. Ia expressar um sentimento.
Bandele riu.
- Deixem o Lasunwon em paz. Sagoe acrescentou:
- Deixa-o em paz. Ele não tem culpa de ser como é. Bandele
passou o desenho a Egbo, que afirmou:
- Sempre o mesmo, o Sheikh tem razão. És um cínico. E agora
vamos lá ouvir a música.
- Mas qual é o mal?
- Se ignorarmos o bócio e estas botifarras descabidas nos pés...
- Porquê descabidas? Olha para o chão. Como julgas tu que ela
dança neste charco?
Egbo atirou o desenho para cima da mesa, enfadado.
- Deviam fazer qualquer coisa à tua cabeça.
A canção, um grito e uma lenda do passado, recordaram-lhe os
seus próprios compromissos e Egbo cerrou os punhos. Depois, virou-
se para a dançarina, apoiou-se na parede e perdeu-se imediatamente
na sua auto-imersão. Porém, primeiro, o esboço de Kola introduziu-se
na sua mente, uma transparência colada á sua retina e ele maldizia-o
silenciosamente, rejeitando o ultraje.
- Ela dança numa só peça, não apenas nádega por nádega. A
mulher continuava sozinha, os pés na água, com o seu
vacilante manto aveludado, com desenhos já fora de moda
Owolebi - arrastando-se de um dos lados, irreverente, encharcado. Por
isso, Egbo lhe chamava Owolebi, murmurando o nome
repetidamente, Owolebi, Owolebi. Até que Dehinwa o ouviu e
exclamou:
- E isso, estava a tentar lembrar-me de como se chamava aquele
desenho. - Porém , Egbo já não os ouvia. Tentava ver através das
pálpebras da dançarina, que se cerravam vagarosamente até deixar
de ver os braços gotejantes da peça central, enquanto a água
escorria indulgentemente sobre ela.. Egbo concluiu que ela devia ter
iyun em torno dos tornozelos, anéis de antimónio nos seios e ligeiros
sinais de dentes, um circulo completo de vales afundados em
antimónio. E em noites como esta, ao retinir de sinos de ferro e
apelos surdos de tambores, até as mulheres velhas abririam ao céu
as suas coxas engelhadas. A dançarina voltou a cabeça, as suas
sobrancelhas arquearam-se em arco-íris e os montes e arroios dela
revelaram-se claramente aos olhos de Egbo.
- Como um rio que se distende sobre frescas colinas de inhame.
E Egbo fechou os olhos, apagando a distância, a corrente que o
separava daquelas margens húmidas, nas quais os seus ombros
ansiavam descansar.
- Aquilo nela não é só água da chuva - disse Kola, prosseguindo a
sua defesa. - Suor. A maior parte é suor. Os músculos cansam-se com
aquele trabalho forçado. Ou julgas que aquilo é tudo automático?
Bandele espreitou de novo o original.
- Aquela aparência é ilusória - insistiu Kola. - Concordo que o
rosto é tranquilo, suave, mas...
- Silêncio! - berrou Egbo. - Silêncio! Ó silêncio que iluminas toda a
compreensão! Silêncio transcendente da distante divindade! A virgem
de Sango depois da posse está silenciosa. Uma cama depois de um
amor apaixonado está silenciosa. Silenciosa! No fundo e vasto centro
do amor - silenciosa!
-F-f-f-faz o que quiseres - disse Sekoni. - Ela é uma b-b-bela
mulher.
- É tudo quanto se te oferece dizer? - perguntou Egbo.
- Ante ti tens a exultação da imanência negra e tudo o que dizes
é... - Kola colocou-lhe sob o nariz um retraio emendado da mulher.
Por momentos, Egbo estudou-o solenemente. Por fim, concluiu
com gravidade:
- Às vezes, meu ateu pinta-monos, gostaria de te matar. Kola
atirou ao ar a caneta.
- O que encontras agora aí de criticável?
- O quê!? Onde estão as escuras colinas e as fendas nebulosas?
Então, onde estão elas? Em vez disso, desenhaste simplesmente um
par de gomos de laranja.
E era verdade. Naquele papel, os gomos alteavam-se,
independentes do corpo.
- Olha, pega numa caneta e desenha-a tu.
- Eu não sei desenhar - disse Egbo, virando-lhe as costas
desanimado. - Não, sou incapaz de a desenhar e é por isso que
merecias ser afogado lenta-mente.
Lasunwon comentou:
- Não vejo o que estão as laranjas a fazer ali, mas pelo menos
agora está melhor.
- O conselheiro real aprova - disse Sagoe.
- Escusas de escarnecer. - Lasunwon começava a ficar vexado. -
Afinal, que percebes tu disto?
- O suficiente para ver que Egbo está mortinho por ir para a
cama com o original!
- Com aquilo? - E a gargalhada de Lasunwon fez voltar diversas
cabeças na direcção deles. - Ir para a cama com aquilo?
Egbo perguntou:
- Por que não?
- Ela é repugnantemente gorda. Olha, eu quase consigo ouvir as
nádegas dela a ranger, como estas laranjas do desenho de Kola.
- És simplesmente grosseiro.
Egbo fixou o olhar na subtil independência daquelas nádegas.
Sagoe também as contemplava.
- Fazem-me lembrar dois satélites, saltitando suavemente no
espaço, mal se tocando.
Egbo olhou-o, de forma que ele tentou acalmá-lo.
- Sabes, uma branca daquele tamanho seria completamente
amorfa. Bastante repugnante, até. Porém, uma negra...
- Isso é mais uma das tuas generalidades desprovidas de
qualquer fundamento - disse Lasunwon.
- O que eu disse não é infundado... Já vi ambas as cores no seu
meio natural e sei bem o que digo. Aquela mulher, por exemplo, é
forte, volumosa, mas não é excessiva. Todos aqueles gramas de
carne têm uma função determinada, e é feminina.
- Mas consegues imaginar-te na cama com ela?
- Quanto queres apostar'.' - Dehinwa deu-lhe um valente sopapo.
Egbo, com o olhar constantemente fixo na dançarina, exclamou:
- Eu punha a minha cabeça entre os seios dela e abafava neles
os meus ouvidos. E até Deus todo-poderoso poderia chamar “Egbo!”,
que eu responderia: “Chama-me mais tarde, não percebo uma
palavra do que dizes.”
Sekoni, horrorizado, recomeçou a agitar-se.
- N-não, não d-d-deves fazer isso. Uma mu-mulher... é o corpo da
religião. F-f-f-f-fazê-la entrar em c-c-conflito com...
Sagoe interrompeu-o, nervoso:
- Não leves tudo tão a sério, Sheikh. Uma pessoa já não pode
dizer uma piada?
Sekoni abanava a cabeça com crescente violência. Bandele disse
tranquilamente:
- Agora agravaste a situação.
Esperaram mais alguns segundos e Sekoni explodiu por fim:
- B-b-b-blasfémia!
Egbo, sem retirares olhos da mulher, replicou:
- Não sei por que pensam que estou a gracejar. - Olhou de novo
os seios dela, vendo-os como se fossem a coisa mais importante da
vida, e suspirou, desejoso que o tempo parasse.
- Tal como a chuva nos isola - murmurou -, expulsando o resto do
mundo e fazendo-te ceder ao teu amante. - Dirigindo-se a Sekoni,
exclamou: - Que mal vês tu em espevitar o mundo com os frutos da
própria cornucópia de Deus?
Sekoni debatia-se já com a resposta, quando o seu olhar caiu
sobre o papel e, pela primeira vez, viu as alterações que Kola fizera.
Puxou-o para si quase com desespero e esteve à beira de sufocar de
excitação.
- M... mas isto é... N-não sabia que o tinhas a-a-alterado.
Mmmmais honesto...
Kola olhou-o boquiaberto.
- Realmente és um tipo imprevisível. Sheikh. Lasunwon ficou
igualmente surpreendido:
- Então tu aprovas esta história das laranjas?
- L... laranjas, abóboras... a mmmesma coisa... São tudo c-c-
cúpulas suculentas... femininas.
Sagoe riu.
- Não foi muito feminino aquilo que ele fez aos amortecedores
dela. Uma obscenidade típica de Kola.
- N-n-não. Oh, não. Kola tem r-razão. Afinal, a vvvida, o ammmor,
são c-c-caminhos para a c-c-cúpula universal. E as c-c-cúpulas
suculentas... um p-p-ponto de vista o-optimista, uma v-v-visão da hu-
u-u-manidade. F-f-f-foi o que Kola fffez c-c-com os seus símbolos
criativos. Lem... lembrem-se, uma mulher é a cúpula do amor e é a c-
c-cúpula da religião...

Sekoni, engenheiro diplomado, lançara o olhar por cima da


balaustrada todos os dias, durante a sua viagem de regresso à pátria.
E, diante dos seus olhos, a espuma do mar construía pontes e
hospitais. O largo sulco que deixavam para trás tornava-se uma
catarata ensurdecedora, desafiando a vontade do homem, até ele a
recolher entre os dedos, fazendo a água correr em riachos pela palma
da mão em direcção aos gigantes primitivos das florestas das
margens. E ele cerrou de novo a mão, embalando a onda de poder.
Uma vez, cavalgara num alto jorro de água, bem acima das árvores
mais altas e para além das nuvens baixas. A sua vista abarcava
intermináveis volutas gigantescas, colunas de rocha, petrificações de
excrementos divinos caídos do paraíso. Se a montanha não pode vir
até nós, se a montanha não pode vir, então vamos nós à montanha,
em nome de Maomé! Assim, ele abriu a palma da mão ao gorgolejar
do poder até então aprisionado, e as torres e lanças da sua energia
abriram caminho entre os monólitos, ao longo das fissuras, arfando
em êxtase orgânico. E as meditativas matriarcas abdicavam de toda a
sua força, jaziam a seus pés em elegantes padrões geométricos.
Sekoni baralhava-as como cartas e elas reorganizavam-se em vastos
portos, como que por fórmulas mágicas. Reduzidas a átomos,
pavimentavam a terra de ponta a ponta. Um canal sondava
profundamente o solo, reaparecendo a mil milhas da origem, com um
catálogo das energias subterrâneas; Sekoni percorria-as com o seu
olhar conhecedor e selector, avaliando-as cuidadosamente. E a lógica
do crescimento da natureza era melhorada pelas equações
cabalísticas do guindaste brotando do solo, um caos de cobras e
outras fibras da floresta, mediante carris paralelos, estradas, e um
nervoso núcleo electrónico. Sekoni desceu, correndo, o portaló,
procurou a mão dos espíritos bons em busca do fulgor da
electricidade estática, mas ela estava escorregadia de óleo e
apontava para a sua secretária...
- Fica aqui. Se precisar de mais alguma coisa, diga-me. Esta é a
campainha para chamar o mandarete...
Também havia ar condicionado. Sekoni não tinha razões para se
queixar.
- Cartas para assinar, senhor engenheiro...
- Importa-se de dar uma olhadela a estes pedidos de licença e
redigir uma ordem de serviço?...
- Empréstimo para as bicicletas... empréstimo para as bicicletas...
ora vejamos, isso deve estar no arquivo C/S 429. Eu verificarei isso
nos escritórios da S.M.E.K. Entretanto, importa-se de se encarregar
também de...
- Importa-se de me dar a sua cota, senhor engenheiro? Para o
chá da manhã; ou prefere tomar café?
- Desejava pedir-lhe que se associe à comissão preliminar que vai
estudar as candidaturas ao lugar de escriturário de terceira classe...
- Não se esqueça da reunião de administração. O senhor é um
dos nossos membros ex-officio...
A temperatura subiu lentamente nessa reunião, até que acabou
por explodir, destruindo as minutas e a agenda da administração, o
que levou a que todos o olhassem, incrédulos.
- Sr. Sekoni, não compreende que isso não faz parte da ordem de
trabalhos?
- O q-q-que eu compreendo, Sssssenhor Presidente, é que n-n-
não posso continuar a ass-assinar garantias e c-c-c-cartas e s-s-
subsídios para bicicletas...
Foi um pandemónio; só o experiente presidente se conservou
calmo e plenamente calculista.
- Sr. Sekoni, aguarde um pouco lá fora, por favor.
- Este tipo é maluco?
- Orno tani?
- Por que damos nós emprego a estes sabichões?
- Não, não, não - e o presidente tentava acalmá-los. É óbvio que
ele precisa de ser transferido. É um dos nossos engenheiros mais
competentes.
E Sekoni partiu para Ijioha, “onde se trabalha até as mãos terem
bolhas”. Aí, Sekoni construiu uma pequena central eléctrica
experimental. O presidente riu-se e comentou:
- Eu bem sabia que ele era o nosso homem. Mandem-me cá o
perito expatriado.
Orgulhoso, devido à sua última e lucrativa “graduação”, surgiu o
perito expatriado. Expatriado, logo, imparcial.
- Nomeio-o elemento único de uma comissão de inquérito para
testar a construção da nossa central eléctrica de Ijioha, que foi
construída sem orçamento aprovado.
- Não tem garantias de segurança para começar a funcionar? - e
piscou o olho. Um olho perito, de um verdadeiro perito expatriado.
- E o mais certo. Ponha isso em linguagem técnica.
E o perito expatriado dirigiu-se a Ijioha, viu e condenou.
O presidente leu o relatório e disse:
- Aquele perito nunca falha.
Entretanto, digeria os epítetos: “Uma despesa ruinosa, condições
alta-mente perigosas, materiais inadequados, funcionamento sem
garantias de segu-rança.”
- Tragam o dossier de cancelamentos - ordenou o presidente,
rindo.
E o projecto foi cancelado enquanto no Parlamento se insinuava
a “proeza do engenheiro louco”.
- Suspendemo-lo indefinidamente, não concordam? Tragam-me
um impresso S2/7, “suspensão de funcionários públicos superiores”.
E o dossier confidencial de Sekoni, engenheiro-chefe dejjioha.
O presidente - dado que a companhia subsidiária registada em
nome do seu sobrinho de dois meses fora a única contratante do
Projecto Ijioha - embolsou alguns milhares de libras como
compensação imediata e intentou um processo judicial no valor de
mais alguns milhares.
- Eu sempre disse que os cancelamentos rendem mais do que os
contratos cumpridos. - E informou Sekoni: - O perito diz que aquilo é
lixo, senhor engenheiro, lixo.
Sekoni, espantado, murmurou:
- L-l-l-lixo?L-l-lixo?...
E os jornais apregoaram “a proeza do engenheiro louco”.
Sekoni ocultava-se nas ruas de Ibadan, labutava entre os
cavaletes nas aulas de pintura de Kola, passeando sem se sentir um
intruso, sem comentários, esperando que fosse tomada uma decisão
sobre o seu destino na próxima reunião da administração vigente.
Ouvia frequentemente o ronronar de motores que ele próprio
construíra, a montagem de um milhão de peças que ele mesmo
limpara quando percorria as várias centrais a seu cargo, mais como
uma carroça de lixo do que como engenheiro civil responsável/revia-
se inspeccio-nando montes de carros, camiões, tractores
amachucados, depósitos ferro-viários, e recordava com afecto aquele
cortês agente de empreiteiro pronto a entregar até o céu se o
governo o requisitasse, com ou sem orçamento.
- L-l-lixo? - O presidente chamara àquilo lixo! E a instalação nem
sequer chegara a ser experimentada! As grandes cidades
alimentavam ainda os seus refrigeradores a querosene, todavia a
instalação de Sekoni poderia banhar jioha numa incandescência
eterna. O chefe da povoação rira quando o ouvira, e Sekoni, arrastado
pelo entusiasmo, iniciara planos para um sistema de abastecimento
de águas, a ser construído logo que estivesse concluída a central
eléctrica. Incrédulo, no seu lugar dirigente, o chefe prometera-lhe três
mulheres, inclusive a sua própria filha.
E a isto chamara o presidente da administração “lixo”, quando a
fornalha nem sequer tinha sido acesa!
Em Ijioha o capim despontava, bastante alto, entre os edifícios
de tijolo da instalação eléctrica. Um tufo de capim-elefante curvara-se
para o interior do edifício de inspecção da fornalha, como uma orelha
que se coçava. E, por momentos, Sekoni julgou ter ouvido uma
gargalhada repercutindo-se nas paredes. Uma cabeça suja espreitou
do seu esconderijo, seguida de outra. As crianças compreenderam
que haviam sido descobertas e escaparam-se. O silêncio instalou-se
de novo. Uma cobra do capim contorcia-se ao longo de um parapeito
caiado, lado a lado com cabos enferrujados. Seguindo-os, Sekoni
chegou ao mecanismo que impelia o carvão para a fornalha. Havia-se
sentido bastante orgulhoso daquilo. Caminhou até à sala de controlo.
Viam-se agora novos ferrolhos na porta, além da velha fechadura, e
na parede alguém escrevera com cal “PERIGO. NÃO ENTRAR”, em
duas línguas. Olhou à sua volta procurando um objecto pesado, e
avistou uma pedra grande, que fez menção de apanhar.
- Oh, é você, senhor engenheiro...
Sekoni girou sobre os calcanhares e deu de caras com o chefe da
aldeia.
- Assustei-o? Umas crianças vieram avisar-me que andava um
estranho por aqui. De forma que pensei ser melhor vir até cá dar uma
vista de olhos.
Um estranho! Haviam passado apenas dois meses. Sekoni
conhecera aquelas crianças e elas deviam lembrar-se dele. O chefe
pareceu adivinhar os seus pensamentos.
- Deve ter sido a sua barba. Não a tinha quando cá esteve. A
mão subiu-lhe involuntariamente até ao queixo, alisando a barba.
Tinha-se esquecido dela; não, era mais exacto dizer que, na verdade,
nunca tivera consciência de que ela crescera. E começou a meditar
naquilo como um novo problema, a causa de mais uma decisão,
atónito por nunca a ter notado.
O chefe fitou-o com uma certa apreensão; parecia procurar um
modo de avaliar as intenções do engenheiro. Adivinhava nele algo
indefinível que o incitava a ser prudente.
- Foi-se embora sem sequer se despedir de nós.
- Eu... eu... r-regressei.
- Oh, sim, sim. Há muitas pessoas que ainda falam de si.
- Eu... eu vim ex-ex-perimentar a instalação.
A princípio, o chefe julgou não ter ouvido bem. Olhou-o,
duvidoso, e apontou para a sala de controlo. Sekoni acenou a cabeça.
Finalmente, o chefe recuperou a palavra.
- Quer pôr esta coisa a funcionar?
Sekoni voltou a acenar a cabeça, mas agora com mais vigor.
- E-eles dizem que isto n-n-não fun-funciona, m-m-mas é
rrridículo.
Agora, a hostilidade do chefe era evidente.
- Eles não dizem que não funciona. Não só funciona, como
explodirá imediatamente. E com ela a aldeia.
Sekoni começou a ficar nervoso, uma veia pulsava-lhe na testa e
os músculos do pescoço contraíam-se com energia suicida.
- N-n-não acredite nisso. N-n-não acredite nisso. Se e-eles me
tivessem ao menos d-d-deixado en-ensaiá-la...
- Se quiser experimentá-la, meu amigo, arranque essa coisa pela
raiz e leve-a consigo. Vá ensaiá-la na floresta ou na sua terra. A
electricidade é assunto do governo, todos o sabemos. Os brancos
também o sabem e um deles veio cá e disse-nos isso mesmo. Eles
sabem o que dizem.
- Mmmmentiras. Mmmmentiras. E-eles ch-ch-chamaram a isto
1-1-lixo! E a-aquele homem veio aqui e nem v-viu os meus p-p-planos.
- Ouça, aceite o meu conselho, vá-se embora antes que mais
alguém o veja.
Sekoni não se deixava demover.
- A-a-apenas precisamos de le-lenha. S-se você d-ddisser às c-c-
crianças que apanhem le-lenha, usá-la-ei em v-v-vez de c-c-carvão.
- Meu amigo, vá-se embora.
- Uma c-c-carga de cada c-c -c -criança e de-depois vai vê-la tr-
trabalhar. Se me ar-arranjar a le-lenha, vai ver a 1-1-luz brilhar
naquela 1-1-lâmpada.
- Muito obrigado. Até agora temos usado candeeiros a petróleo.
Quando o governo puder, há-de construir-nos uma instalação
adequada.
- É apenas uma ex-ex-periência, uma experiência. Você tem de v-
ver com os seus p-p-próprios olhos.
- Venha daí, antes que as pessoas comecem a juntar-se... E
quando apoiou a mão no braço de Sekoni, este libertou-se
repentinamente e apanhou a pedra. O chefe gritou por socorro e
fugiu, sem sequer olhar para trás. Sekoni começara entretanto a
martelar a porta. A velha fechadura, os ferrolhos e o reforço de
pregos de seis polegadas depressa cederam. Quando o chefe
reapareceu com auxílio, encontraram Sekoni oleando as máquinas e
inspeccionando os contadores. Voltou-se e, dirigindo-se ao chefe,
perguntou:
- Tr-trouxeram a lenha?
Surpreendentemente, permitiu que a polícia o levasse dali, sem
oferecer resistência. Houve outra comissão de inquérito, mas nessa
altura Sekoni já estava num hospital psiquiátrico.
Deixaram o clube quando a manhã se avizinhava. Egbo impeliu-
os a sair, seguindo a bailarina solitária quando os cançonetistas
saíram e o encantamento pareceu dissipar-se à volta dela.
- Tens algum encontro importante? - perguntou Sagoe.
- Não me chateies. Importante, claro. Que te parece, meu
pequeno secretário?
Egbo tem razão. É tempo de irmos para casa. Bandele levantou-
se.
- Quando partes para Ibadan? - perguntou-lhe Sagoe.
- Logo que acordar. Vou-me embora antes daqueles dois.
Duvido. Sheikh quer regressar cedo. Mas se estiveres pronto
antes de mim, ele pode ir contigo.
De qualquer modo, se eu não te vir antes de partires, basta
deixares o criado de guarda.
Escusas de regressar. Boa noite. Dehinwa. Não o deixes conduzir.
- Não te preocupes. Não quero suicidar-me.
- Que queres dizer com... - Com metade do peso dele sobre ela,
Dehinwa guiou Sagoe por entre as poças, até ao pequeno carro.
- Por favor - pediu Sagoe. - Vamos até à praia. Preciso de um
pouco de vento salgado para desanuviar a cabeça.
- Isso para ti não tem problema, és jornalista. Mas não te
esqueças que tenho de estar no meu escritório às oito da manhã.
- Nunca me devia ter comprometido com uma rapariga que quer
fazer carreira.
Durante algum tempo rodaram em silêncio, depois Dehinwa
voltou-se para ele e Sagoe, mesmo através da sua ébria obnubilação,
reconheceu o perigo no tom dela.
- Que querias tu dizer com aquilo que disseste a Bandele? Ele
sabia muito bem, mas replicou:
- O quê?
- Disseste que no caso de não o veres, e aos outros, antes de
eles partirem...
- E então?
- E então! ? Eles vão dormir a tua casa, não vão?
- Emprestei-lhes o meu apartamento.
- Sabes muito bem a que me refiro.
- Minha querida jovem, não faço ideia a que se refere.
- Biodun, não vamos discutir isso outra vez. Não podes ficar em
minha casa.
- Por que hás-de ter tantas suspeitas? Apenas te pedi que me
levasses até à praia.
Dehinwa descreveu vingativamente a curva seguinte e Sagoe foi
jogado contra a porta, que se abriu.
- Isso mesmo - disse. - Mata-me. Mata-me devido a meras
suspeitas.
Sagoe adormeceu antes de chegarem à praia. E caiu
desamparado, quando Dehinwa lhe abriu a porta, esperando que ele
saísse.
Nesse momento acordou, murmurando:
- Areia. Agora está a chover areia?
Subitamente arrepiada pela solidão, Dehinwa olhou em redor,
julgando ouvir movimentos furtivos em cada agitação do vento.
- Onde estamos, Dehin?
- Na praia.
- Na praia? A esta hora?
- Não querias vir?
- A sério? Imagina que o meu amigo Sir Derin surge das águas do
mar, para onde é que eu vou fugir?
- Ele já morreu. Não podes deixá-lo em paz?
- Suponho que queres dizer: respeito pelos mortos!
- Vamos embora, Biodun.
- Oh, oh, ela tem medo de fantasmas.
- Biodun, anda.
- Para não falar em assaltantes. Já pensaste que podemos ser
atacados? Com tantos marginais que há por aí! Mesmo em boa forma,
não sou o Egbo, bem sabes. Ou Bandele, com os seus braços de
gorila.
- Devias ter pensado nisso antes.
- Eu devia ter pensado nisso antes. - E, erguendo a sua voz
altissonante contra o vento, gritou: - Ouviram esta sereia? Diz que eu
devia ter pensado nisso antes!
Dehinwa levantou-se, olhando apreensivamente em volta.
- Vamos embora.
- Agora está assustada, embora eu não saiba bem porquê. Tens
sorte. Afinal a única coisa que te tirariam era o teu tesouro. No
entanto, eu, eu poderia perder a vida. No mínimo, cortar-me-iam uma
orelha, como àquele político que veio aqui divertir-se.
- Ela estava associada a eles.
- Rico divertimento, hem? Nunca nos devemos fiar nesses
divertimentos. Como poderei saber se tu também não estás
associada a eles? Ora vejamos, já alguma vez me deste aquilo que
desejo? Manténs-me nesta espera contínua porquê?
Dehinwa agarrou-o pelos ombros e tentou pô-lo de pé.
- Além disso, trouxeste-me aqui num momento em que não me
posso defender, nem afirmar a minha virilidade. São cinco da manhã,
estamos sós nesta praia e, uma vez mais, vais voltar à tua cama
incólume...
Finalmente conseguiu metê-lo no carro e trancou a porta. Depois,
partiu a alta velocidade, aterrada, e só se tranquilizou quando viu
aproximarem-se as luzes da primeira ponte. Sagoe caiu sobre o
guiador e ela teve de afastar os dedos dele da barra do guiador.
- Sabes uma coisa? Aquele conjunto apala era desmoralizante.
- Qual era o defeito deles?
- Simplesmente desmoralizantes. Às três e meia da manhã, sob
aquela chuva lúgubre, não é altura para eles virem fazer vibrar o
nosso estômago, não achas?
Dehinwa tirou-lhe novamente a mão do guiador.
- Então? És uma rapariga sensata, portanto diz-me, achas que foi
justo?
- Não, Sagoe, não foi.
- Pois foi por isso mesmo que bebi tanto. - E adormeceu logo de
seguida. Despertou mais tarde, após uma série de sobressaltos,
quando Dehinwa virou para uma rua secundária e passou sobre os
buracos do asfalto, um após outro.
- Cuidado, cuidado. Que estás tu a fazer?
- Não fui eu quem construiu a estrada.
- Estás a sacudir a minha cabeça.
- Estás outra vez a tremer. Fecha a janela.
- Só devia ter bebido cerveja. Aqueles whiskies carbonizaram
toda a minha negritude. - Um novo solavanco fez que batesse com a
cabeça no tecto. - Tens a certeza de que estamos na estrada?
- Anima-te, estamos a chegar. Erguendo subitamente os braços,
gritou:
- À vossa tenda, ó donzela. Dehinwa parou o carro.
- Chegámos.
Sagoe afundou-se no assento.
- Onde?
- A tua casa.
- Recuso-me a sair.
- Biodun, sê razoável. Não podes ficar no meu apartamento.
- O meu está cheio. Três homens, qual deles o maior. Onde
queres que vamos dormir?
- Porque é que não ficou um deles com Lasunwon?
- E a mulher dele e as duas crianças? De qualquer forma, quem é
que se dispõe a suportar aquela mulher? E o Egbo saiu. Viste aquela
mulher com os teus próprios olhos. Ela precisaria de uma cama dupla
e ainda ficava metade de fora.
- Não, Biodun, tens de ficar aqui.
- Se estás preocupada com aquilo, prometo portar-me bem.
Pensando bem, nem sequer estou em condições para isso.
Sagoe recomeçara a tremer. Sem saber o que fazer, Dehinwa
perscrutou-lhe o rosto e pôs-lhe a mão na testa.
- Biodun, estás doente!
- Não, não... deve ser da humidade, sabes?
Dirigiu-se para sua casa furiosamente, enquanto ele continuava a
mur-murar:
- Devias ter mais cuidado com a minha cabeça. Estás a sacudi-la
nova-mente.
Nem sequer despertou quando mudaram de estrada e Dehinwa
teve de abaná-lo para o acordar.
- A garagem ainda é longe. Sais aqui e vais direito ao meu
apartamento. Eu vou arrumar o carro e volto já.
Sagoe desceu, cambaleou e encostou-se ao carro. Dehinwa abriu
imediatamente a sua porta e correu para ele.
- O melhor é eu ajudar-te a subir.
- Não, não. Eu sou capaz de ir sozinho.
- Tens a certeza?
- Claro. Mas falando a sério, acho que há algo de errado na minha
cabeça. Sabes a que me refiro, não sabes?
Ela disse que sim, sem saber que mais poderia fazer, e pensou:
“Todos nascem com uma, mas tu tiveste de descobrir que a tinhas.
Tomaste consciência da tua cabeça quando te tornaste bêbado de
profissão. E então quando ela lateja e parece explodir, já sabes o que
aconteceu. A primeira vez e um momento verdadeiramente
religioso... é como se estivesses a ser crismado...”
Ela conduziu-o cuidadosamente para as escadas.
- Não me segures assim como um inválido. Já te disse que sou
capaz de andar.
- Está bem, eu já venho. - Correu para o carro e arrancou.
Sagoe subiu as escadas lentamente, fazendo curtas paragens
para combater as vertigens. Com dificuldade, abriu a porta,
deparando com sinais de que havia alguém em casa. Depois, a luz do
patamar revelou um vulto numa cadeira. Por momentos ficou imóvel,
depois apressou-se a bater com a porta, dizendo:
- Desculpe, enganei-me na porta.
Voou escada abaixo com falsa energia, acabando por quase
colidir com Dehinwa.
- Que foi que aconteceu?
- Enganei-me na porta.
- Es mesmo um desastre. Já tens obrigação de conhecer bem a
minha porta... - Porém, deteve-se. começando a achar aquilo um
pouco estranho. - Mas disseste que a tinhas aberto!
Sagoe restituiu-lhe a chave, dizendo:
- Vê com os teus próprios olhos. Uma sombra negra numa
cadeira e julgo que vi mais algumas ao fundo da sala. Sói sei que algo
me fez fugir a correr.
- Estás mesmo mal. - Tinham finalmente chegado ao> patamar. -
Tens a certeza que foi esta a porta?
- Abre-a. Pareciam morcegos monstruosos... bruxas; negras.
- Pára de tremer.
- Não consegui perceber bem o que eram, mas a que eu vi era
bem nítida. Parecia uma mulher.
Dehinwa ficou paralisada, com a chave na mão. Pensativa,
murmurou:
- Uma mulher? Tens a certeza de que era uma mulher?
- Primeiro parecia uma mulher, depois uma ratazana alada. Em
especial as outras, na escuridão. A sala parecia uma caverna.
Dehinwa murmurava:
- Deve ser a minha mãe. Ela e mais alguns parentes meus, tenho
a certeza. Que chatice, estou tão cansada!
Quando ela abriu a porta, um vulto ergueu-se na obscuridade,
um xaile negro deslizou para o chão e um enorme turbante eriçou-se.
Sagoe deu um salto para trás e bateu com a cabeça na balaustrada. A
escuridão era total e, por momentos, julgou ouvir vozes vindas de
Gehenna...
- Com que então, Dehinwa, é esta a vida que vocês levam em
Lagos... Serão horas decentes para uma menina andar por aí?
- Ah, mamã... e a tia também... Lamento muito. Esperaram muito
tempo?
- O que é que esse homem tem? E isto porque Sagoe gritava:
- Não as deixes aproximar, não as deixes aproximarem-se de
mim!
E felizmente, mesmo antes de elas lhe tocarem, ele perdeu o
conheci-mento, caindo redondamente no chão.
- Bêbado, aposto. - E Dehinwa reconheceu uma nota de
repugnância na voz da mãe. - Bêbado, mas traze-lo para casa. Achas
que podes confiar num homem assim?
Não era a primeira vez que Dehinwa via a sua noite estragada.
Mas como teriam elas entrado? O porteiro, certamente; elas sabiam
onde ficavam os aposentos dos criados. Uma vez, a mãe viajara toda
a noite para a vir visitar, tendo chegado pela madrugada. Mas,
mesmo assim, Dehinwa ainda procurava uma explicação. Uma
explicação razoável, um desastre, uma emergência. Dessa vez, a sua
mente recorrera a um 'avô que estava no hospital havia algum
tempo. Mas não era nada do género. Nem daquela vez, nem desta,
nem de qualquer outra.
- Oh, mãe, mas que foi que aconteceu?
A mãe voltou a sentar-se, perguntou se ela tinha chá em casa,
mas primeiro Dehinwa fechou à chave a porta do quarto onde Sagoe
jazia inconsciente ou adormecido. Ela nunca vinha só, talvez receasse
uma alteração em Dehinwa, de forma que necessitava do apoio moral
de um parente. Inevitavelmente, havia sempre uma tia ou uma prima
indulgente, que podia ser arrastada até Lagos de um momento para o
outro, uma que se sentasse, suspirasse e fizesse coro:
- Para teu bem, escuta, pequena, escuta o que a tua mãe diz
para teu bem. A nós, ninguém nos disse estas coisas, portanto
considera-te com sorte.
O chá estava pronto e a tia pediu pão com sardinhas.
- Bem vês, não tive tempo de comer. Eu podia lá parar para
comer quando a minha querida estava em perigo? Nunca. E aquilo
que preocupa a tua mãe, preocupa-me a mim. Para mim és como
uma filha. Oh, então talvez um guisado, se não tens sardinhas...
A tia, .aspirando o chá fumegante como que através de uma
palhinha, prosseguiu:
- O tladura da tua mãe teve uma visão a teu respeito. A tensão,
mais do que o calor, fazia brotar grandes gotas de suor no rosto da
mãe. A tia engoliu pimentos quentes com o pão e começou a suar por
simpatia. - A tua mãe estava muito preocupada. Alugou um táxi e
pediu-me que a acompanhasse. E, como vês, cá estamos. Foi por isso
que viemos.
- Que visão foi essa? - quis saber Dehinwa.
- Ele viu-te a ser trazida para a cama. Deste-me um neto.
Dehinwa não conseguiu evitar um sorriso.
- E ele viu o pai?
A tensão cresceu, bem como o clima de mexericos. A tia
procurou refúgio no tom hipócrita, deferente, obsequioso, até para
com a sua companheira.
- Limita-te a escutar o que a tua mãe te vai dizer. Eu sei o que ela
sofreu por vocês, filhos dela. Agora deves ouvi-la, para teu bem.
- Então não me dizem? Quem é o pai?
A mãe reuniu forças para a batalha. Chegara o momento crucial,
o momento de fazer a revelação, que era afinal o único objectivo da
visita nocturna.
- Ele não o disse. Mas várias pessoas me têm dito que andas com
um nortenho.
A tia interpôs:
- Isso entristece-nos sobremaneira.
- Há assim tanta falta de homens nesta cidade? Hem? Diz-me,
Dehinwa, é assim tão difícil encontrar homens decentes, com bom
aspecto, que tenhas de sair com um Gambari? Não sabes o que te
vão chamar, se te virem na companhia de um Gambari?
- Oh, mamã, não deves prestar atenção a esse tipo de conversa.
Para a próxima diz-lhes que se metam na sua vida.
A tia ficou boquiaberta.
- Que disse esta criança? Dizer às pessoas que se metam na sua
vida, quando é a amizade que têm pela tua mãe que as leva a contar
aquilo que sabem?
- Eu dou-me com quem quero, o problema é apenas meu
- Oh, não, não é apenas um problema teu e não te podes dar
com quem queres, pelo menos enquanto fores minha filha. Parece-me
que tenho voto na matéria. Não trabalhei como uma escrava para te
mandar para Inglaterra, nem puxei os cordelinhos para te conseguir
um excelente lugar junto do Sénior Service, para no fim me dares
uma neta Hausa.
- Mamã...
- Afinal o que fez o teu pai? Não mexeu um dedo para te ajudar.
Mandou todos os filhos para Inglaterra, mas quando chegou a tua vez,
lembras-te do que ele disse, não te lembras? Mas como podes tu
lembrar-te? Sisi, é melhor contares-lhe tu o que o pai dela disse. Não
é segredo, pois ele repetiu-o por toda a cidade.
A tia assentiu.
- Ele disse que não mandaria para Inglaterra fosse que rapariga
fosse, para depois engravidar em menos de três meses.
- Foram mesmo essas as palavras dele. Eu só tinha o meu
negócio insignificante, mas mesmo assim consegui poupar o
suficiente para te enviar à minha custa.
A irritação de Dehinwa ia crescendo. Acabavam de pisar terreno
conhecido e a conversa aborrecia-a.
- Está bem, mamã, está bem. Tenho economizado o mais
possível. Hei-de pagar-te o que gastaste comigo, antes mesmo de me
casar.
Agora apareciam lágrimas, lágrimas perante tanta ingratidão,
tanta fadiga e sacrifício não reconhecidos. Arrependimento,
tolerância, renascimento do amor e um pouco de terreno cedido.
- Não é que esteja a pensar em casar-me ou algo semelhante.
Mais uma asneira.
- Não compreendes que é no teu próprio interesse? Já nada mais
temos a fazer neste mundo. Deus poupou-nos até aqui, apenas para
olharmos por ti.
O tom tornara-se mais leve e cada uma chorava pela sua
infelicidade. Tal como uma vez, meses antes, nesta altura Dehinwa
disse com um ar brincalhão:
- Mas, mamã, não deves fazer mais viagens destas durante a
noite. Imagina que eu tinha um homem comigo?
As lágrimas suspenderam-se imediatamente e uma incredulidade
substituiu lentamente a breve satisfação.
- Que foi que disseste?
Desejando não estragar tudo, pronta a sacrificar-se em nome da
paz, propôs:
- Vamos, mamã, estava apenas a brincar.
- Eu ouvi. Ouvi o que disseste e não estavas a brincar. Supondo
que tinhas um homem contigo, hem? É esse o género de vida que
queres levar? Que Deus me proteja, que espécie de filha dei eu à luz?
Se encontrar um homem em tua casa a horas menos próprias, ele
ficará a saber por que razão a minha família se chama Komolola. Um
homem nesta casa durante a noite? Gritarei ibosi e humilhá-lo-ei em
público...
Mas esta noite falavam com tacto. Por mútuo acordo, Sagoe não
existia, trancado algures como qualquer peça de roupa suja longe da
vista de pessoas decentes. Simplesmente, a mãe não conseguia
esquecê-lo e a tia começava paulatinamente a pesar os riscos.
Esperaria a mãe que ela abrisse aquela porta? Sentia-se um cão
açoitado, por vezes a família era quase insuportável. Seria esta pausa
um armistício ou o reinicio da batalha? Dehinwa varreu as migalhas
do prato, evitando o olhar da mãe. Reunindo forças para o acto final
que deve anunciar o intervalo, Dehinwa sentia-se desgastada pelas
visitas nocturnas de tias e mães protestando amor, com intenções
transparentes e elaboradas ansiedades e, obviamente, com muita
crueldade...
Monica Faseyi estava sempre a ser humilhada. E por isso, à
entrada da recepção, na embaixada, o marido parou e inspeccionou-a
minuciosamente. Satisfeito, acenou com a cabeça, e rapidamente
corrigiu a linha da sua gravata. Depois sorriu e beijou-a formalmente
na testa.
- Agora podes pôr as luvas.
- Quais luvas? Não trouxe luvas nenhumas!
Faseyi pensou que ela estava a tentar arreliá-lo e, por seu lado,
Monica tinha a certeza de que o marido estava a brincar, embora tal
não se coadunasse com o seu feitio.
- Vá lá, põe as luvas.
- Deixa-te de brincadeiras. Quem vês tu usar luvas na Nigéria?
Faseyi perdera a boa disposição. Arrancou a malinha das mãos
da mulher e concluiu que, de facto, ela não tinha trazido luvas.
- Resumindo, não as trouxeste!? -- Não trouxe o quê, Ayo?
- As luvas, evidentemente. O que havia de ser?
- Mas eu não tenho luvas nenhumas. Ofereci as que tinha pouco
depois de ter chegado.
- Não estou a falar daquelas que tinhas há dois anos. Refiro-me
às luvas que compraste para esta noite.
- Mas eu não comprei luvas nenhumas, Ayo. Que história é essa?
- Que história é essa!? Eu é que devia perguntar que história é
essa! Não te dei um convite há mais de uma semana?
- Sim, deste-me, mas...
- Querida, dei-te um cheque de quinze libras para comprares
tudo o que necessitasses.
- Pensei que querias que eu comprasse um vestido novo.
- Por amor de Deus, e as luvas?
- Mas tu não me falaste em luvas!
- E era preciso falar? Estava lá escrito no cartão. Preto no branco.
- Procurou o cartão no bolso, tirou-o do envelope e pô-lo em frente do
nariz dela: - Lê o que está aí escrito, lê.
Monica leu o cartão até à última linha.
- Mas, Ayo, isso refere-se apenas àqueles que vão ser
apresentados. Nós não vamos ser, pois não?
Ayo esforçou-se por manter a calma.
- Nós vamos ser apresentados.
- Não mo tinhas dito. Como podia eu adivinhar?
- Como podias tu adivinhar! Levei duas semanas para conseguir
arranjar esta apresentação e agora perguntas-me como podias
adivinhar!? Qual seria o interesse de virmos cá, se não fôssemos ser
apresentados?
- Lamento muito - disse Monica -, nunca me tinha ocorrido tal
coisa...
- Nunca te ocorre nada!
Bandele e Kola continuavam mergulhados nas sombras onde
haviam procurado um pouco de ar fresco. Eram, contra vontade,
ouvintes ocultos, mas já era tarde para saírem dali.
- Conhece-los?
- Ayo Faseyi, do hospital escolar.
O tom de voz alterou-se ligeiramente, quando Faseyi prosseguiu:
- Mas ao menos podias ter um mínimo de iniciativa. Mesmo que
não se tratasse de sermos apresentados, sabias bem que Suas
Excelências estariam presentes.
- Sinto muito.
- Querida, se a rainha estivesse presente numa recepção ou
numa festa, irias sem luvas?
- Já disse que sinto muito, Ayo. Podes crer. Talvez seja melhor eu
voltar para casa.
- Mas responde-me. Irias sem luvas a uma festa onde estivesse a
rainha?
-- Sinceramente não sei, Ayo. Nunca frequentei esses meios.
- Querida, estou surpreendido contigo. Há algumas regras
simples da sociedade que qualquer pessoa inteligente conhece. -
Faseyi consultou o seu relógio, pensativo, enquanto mordia os lábios.
Até que encontrou uma solução. - Claro, a mamã vai salvar-nos.
Provavelmente terá um par de luvas em casa.
A jovem de voz meiga respondeu:
- Não, Ayo. É muito mais simples eu ir já para casa.
- Que me interessa ser apresentado, se não o for com a minha
esposa? Vamos buscar as luvas.
- A recepção já terá terminado quando voltarmos. Esta ideia
deteve defini-tivamente Faseyi.
- Muito bem, vamos entrar. Mas terás de ficar atrás quando nos
chamarem.
- Claro. Lamento muito que isto tenha sucedido, Ayo. Entraram,
finalmente; Bandele e Kola ficaram! enfim, libertos da sua longa
restrição.
- Uma bela cena doméstica. Bandele suspirou.
- Amanhã vai contar-me tudo novamente.
- Quem?
- Faseyi. Conheço-o muito bem.
- Oh, costumam encontrar-se muito?
- Pelo menos em todas as reuniões da sociedade, incluindo as
mais íntimas, em casa deles.
- Vai chover. - Kola sacudiu uma gota que lhe caíra no braço.
- Será que alguma vez parou?
- Mas o que estará a acontecer? A estação das chuvas costumava
ser mais precisa. E no máximo durava quatro meses, raramente
cinco.
- Bommmmmmmmbas - replicou Bandele, em tom baixo e
profundo.
- A semana passada senti-me repentinamente ávido do brilho de
algumas cores, por isso me levantei cedo para contemplar a aurora. E
ela veio por fim, meu Deus, como ela veio! Uma gigantesca
suspensão de ewedu.
- Vamos, o melhor é entrarmos.
Sagoe, na companhia do embaixador, cheio de virtude no
desempenho do seu dever, aparecera com um fato emprestado e
nada no seu aspecto traía o jornalista. Sagoe, o desesperado. Entre
ele e uma “declaração exclusiva” esta-vam anos de treino cuidadoso
e nada o demoveria.
- Nessa altura estávamos todos inundados de propaganda: “o
segredo da vida descoberto pelos médicos de Estaline”. Um plasma
especial extraído de crianças vivas e cada injecção tornava Estaline
dez anos mais novo. Estaline nunca morreria, diziam.
- Bem - o embaixador falava lentamente -, posso concordar, de
certo modo, com isso. Estaline, como outros ditadores, tentaram,
efectivamente, obter a longevidade com vidas humanas. O mesmo
fez Hitler. Mas faz parte da natureza dos ditadores serem bastante...
vorazes de vidas humanas.
- Concordo. Mas ainda assim não lhe parece que a ditadura é
muitas vezes o governo mais indicado para uma nação.
- Depende da nação, como já lhe disse.
- Se me permite que recorra ao seu exemplo, não concorda que...
- Ah, desculpe-me. Sr. Sagoe. Tenho de ir cumprimentar os
convidados que estão a chegar...
Sagoe cruzou-se com Kola e Bandele junto da porta, quando saía
precipitadamente.
- Que bicho lhe mordeu?
- Não conseguiu a história que queria. Eh, Sagoe, espera...
- Encontramo-nos lá em casa - gritou-lhes.
- Deve sentir-se bastante frustrado. Nem sequer esperou para se
embebedar.
O embaixador dirigiu-se aos Faseyi, acompanhado de um criado
que segurava uma bandeja com taças de champanhe. Monica abanou
a cabeça e Faseyi pareceu ficar descontente. O embaixador estava
incrédulo, mostrando-se hospitaleiro.
- Mas não bebe mesmo, Sra. Faseyi?
- Não, só bebo ocasionalmente o vinho de palma que o nosso
criado faz quando quer ser simpático connosco.
- O embaixador riu-se e abriu os braços com pesar.
- Lamento imenso, quem me dera ter vinho de palma cá em
casa.
Um dos criados, que passava com mais champanhe, ouviu-os.
Faseyi afastara-se entretanto em busca do mestre de apresentações.
Quando voltou, Monica tinha na mão um copo de vinho de palma e
um colega de Faseyi perguntava-lhe:
- O que está a beber, Monica? Conhaque?
- Onde arranjaste isso? - berrou Faseyi,
- Trouxe-me um dos criados. Ouviu-nos falar em vinho de palma e
foi aos aposentos dele buscar um pouco que lá tinha. Não foi uma
simpatia?
Faseyi, furioso, foi desabafar com Bandele.
- Vês, vês, lá recomeça ela.
Bandele afivelou a sua máscara de paciência infinita.
- Que fez ela agora?
- Já foi suficientemente mau ter recusado o champanhe, embora
eu não visse qualquer necessidade de o fazer. Senão vejamos,
quantas destas mulheres aqui presentes chegam a tocar nas suas
bebidas? Seguram apenas o copo para serem sociáveis, e que mal há
nisso?
Kola murmurou:
- Nenhum, nenhum, é claro. Faseyi olhou-o com afecto e
gratidão.
- Mas, imaginem, isso não foi tudo. Ela não ficou por aí. Tinha
ainda de pedir vinho de palma numa recepção da embaixada. Já se
viu alguma vez tal coisa? Vinho de palma!
O semblante grave de Bandele não o consolou absolutamente.
- Se ela fosse uma campónia saída de algum subúrbio londrino,
eu ainda compreenderia. Mas é uma rapariga educada. Foi
introduzida na melhor sociedade. Por que há-de chegar aqui e fazer a
minha desgraça, bebendo vinho de palma?
- Oh! - Kola parecia pesaroso. - Quer dizer que lho deram?
Faseyi girou sobre si mesmo.
- Olhe para ela se não acredita nas minhas palavras. Ali a tem,
bebendo vinho de palma. E houve alguém que já o descobriu e,
aposto, anda já pela sala a espalhar a história.
- Oh, talvez não saiba que é vinho de palma.
- Mas sabe. Ele até escarneceu. “Isso é conhaque?” Foi o que ele
disse.
- Devia ter dito que sim - contrapôs Kola. - Sempre teria sido
mais compreensível. Explicaria que a sua esposa se sentira mal e
precisara de um conhaque.
- Sim... Suponho que sim... Suponho que sim. Devia ter pensado
nisso. Mas Monica é sempre um problema. Mais cedo ou mais tarde,
cometeria uma gafe e seria motivo de risota. Ouve, Bandele, sê meu
amigo. Se ouvires quaisquer comentários desfavoráveis, informa-me,
por favor. E melhor saber-se a tempo o que as pessoas dizem de nós,
para que possamos fazer algo. E também...- Faseyi aproximou-se mais
e sussurrou: A respeito do vestuário dela.
Bandele replicou:
- A que te referes?
- Não vês que ela não está vestida como manda a regra?
- Não tinha reparado.
No olhar de Faseyi brilhou um inesperado clarão de esperança.
- A sério que não tinhas reparado? Bem, isso é um alívio, talvez a
maioria das pessoas também não repare.
- Receio que esteja enganado - afirmou Kola.
- Ah, você reparou!
Kola replicou:
- Eu não. Não sou muito entendido em roupas. Mas ouvi um
grupo fazer comentários acerca dela.
Voltando-se para Bandele Faseyi disse:
- Estás a ver?
- Eu não ligaria muito - prosseguiu Kola. - Encontramos tipos
malévolos, como estes, por toda a parte, e como aqueles ali... - e
acenou lugubremente a cabeça. - Todavia, não preciso dizer-lho. Sabe
muito bem como as pessoas podem ser rancorosas.
- Não, não é rancor. Elas têm toda a razão. Oiça, quais foram
concre-tamente os comentários?
Bandele interveio e afastou-se com Faseyi na direcção da esposa
deste. Mal se tinham aproximado de Monica, quando Faseyi explodiu:
- Vês como acabaste por atrair as atenções sobre nós? Olha à tua
volta e repara bem. Mesmo aquelas que vêm em traje nativo usam
luvas.
Bandele retirou-se na primeira oportunidade, indo atacar um Kola
não arrependido.
- Para que lhe disseste aquelas mentiras?
- O tipo gosta de se preocupar por tudo e por nada. Limitei-me a
fornecer-lhe mais material.
Bandele abanou a cabeça.
- Não gastes a tua simpatia com a Monica. Conheço-os bem.
- Não é uma questão de simpatia.
- Ela parece meiga, mas não é. Na verdade, nunca conheci uma
rapariga tão casmurra.
- Mas parece ser muito nova.
Um funcionário, o mestre de apresentações, avançava por entre
os convidados com uma lista, reunindo os escassos escolhidos, e
acompanhando-os até ao local da sua função. Faseyi seguiu-o,
olhando à sua volta furtivamente. Percorrendo mentalmente o
alfabeto, calculando quando seria a sua vez, acercou-se novamente
de Bandele. A manobra era óbvia e Monica baixou a cabeça sobre o
vinho de palma, fingindo nada “ver.
- Ah, está aqui, Sr. Faseyi. Importa-se de trazer a sua esposa e vir
comigo, por favor?
- Oh, a minha esposa está... hum... ela é bastante tímida. O
melhor é eu ir sozinho.
- Que ideia. Isso é impossível. Deixe-me falar com ela
- Não, não, não, acredite que é inútil. Toda a noite tenho tentado
persuadi-la. Vamos lá resolver isto de vez.
Momento depois, Bandele puxou a manga do casaco de Kola.
- Olha!
- Excelência, permita-me que lhe apresente... oh... assim é
melhor, afinal sempre arranjou coragem... desculpe-me, Excelência,
permita-me, pois, que lhe apresente o Sr. e a Sra. Faseyi do hospital
escolar da universidade.
No rosto de Kola estava espelhada a sua perplexidade.
- Afinal quem é o teu amigo?
- Dizem que é o melhor especialista de raios X deste continente.
- Isso significa alguma coisa? Bandele encolheu os ombros.
Logo que a apresentação terminou, Faseyi passou por eles,
enfurecido, seguido de Monica. Cinco minutos depois reapareceu
sozinho, mas Monica surgiu de imediato. Aparentemente calma,
parecia procurar Faseyi. Bandele segurou-lhe no braço.
- Venha para o pé de nós.
- Onde está o Ayo? Viram-no?
- Está algures por aí., oh, ali está ele com o senador Okot. Quer
que eu vá chamá-lo?
- Não, não. Não tem importância.
- A propósito, já conhece o Kola? A voz dela era claramente
hostil:
- Sou a esposa de Ayo.
- Kola é professor de arte na universidade.
- Ah, sim, é verdade. O meu marido falou-me de si há pouco.
Informou-me que tinha ouvido alguns comentários sobre a minha
seminudez. Não é verdade?
Kola reconheceu que tinha de admirar o modo como ela ia direita
ao assunto. Nesse momento, porém, não lhe ocorreu qualquer
resposta.
A voz dela modificou-se totalmente e conseguiu fazer
transparecer uma certa preocupação:
- Será que meti o meu marido em trabalhos? Bandele riu-se.
- Não fique tão preocupada. Onde pôs o seu copo? Também
preciso de outra bebida.
Monica indicou-lhe onde estava o copo e Bandele afastou-se.
- Há quanto tempo conhece Bandele?
- Bandele é um bom amigo nosso. Quando a mãe de Ayo não
está lá em casa, ele desabafa com Bandele.
- Desabafa? Não compreendo.
- Oh, mas decerto compreende. Há pouco devem ter estado a
discutir a minha pessoa. De outro modo, como poderia ter-lhe dito os
comentários que ouviu por aí?
Kola permaneceu silencioso.
- Ou será que você é apenas mais um intriguista? A maioria dos
amigos do meu marido são-no. E admitem-no. Com efeito, Ayo é o
único que se aborrece quando eu o digo.
- Acho natural. O marido tem o direito de exigir algum respeito
pelos seus amigos.
- Mas são todos intriguistas. A maior parte do que insinuam é
pura imaginação, não acha? Não quer admiti-lo? Mas sabe decerto
que assim é!
- Há quanto tempo está cá?
- Dois anos. Não considera que é tempo suficiente para formar
uma opinião?
- Claro. Por vezes até uma semana pode bastar.
- Neste caso, bastou. Estava tão assustada quando vim, mas
acabei por me habituar. De facto, agora até acho divertido ouvir os
colegas do meu marido. Bem vê, eu nunca tinha vivido num ambiente
universitário, creio que esperava algo de qualidade superior, irreal
até. No entanto, pareceu-me tudo muito semelhante ao meu velho
instituto normal de magistério.
- Considera então que somos simplesmente um bando de
ingleses mexeriqueiros?
- Oh, não, não era minha intenção ofendê-lo! Bandele voltou com
as bebidas.
- Quer que lhe diga o que ouvi a seu respeito? continuou ela.
- Não, não tenho a menor curiosidade em sabê-lo.
- Oh, não creio. Todos gostamos de saber o que os outros dizem
de nós. Pergunte ao Ayo.
- Muito bem então o que foi que ouviu a meu respeito?
- Vê como tenho razão? Bom, para começar, você tem um amigo
que todos consideram louco.
- Pensei que íamos falar de mim.
- Mas é o que estamos a fazer. Você está a trabalhar numa tela
enorme, que vai conter todos os seus deuses, e eu gostaria de a ver.
- Não há nada para ver, mal a comecei.
- Isso não é bem assim. Não é verdade que uma mãe enfurecida
quase destruiu o seu estúdio porque descobriu a filha a posar para si?
Foi o que me contaram.
- Sim, creio que está bem informada.
- Então posso ir vê-la?
- Francamente, não. Ainda não chegou ao ponto de significar
alguma coisa.
- Está bem, talvez mais tarde.
- Sim, mais tarde.
- Tenho de ir procurar o meu marido. Se me dá licença... Bandele
esperou que ela se afastasse.
- Que aconteceu? Vocês não pareciam muito amigáveis.
- Nada de especial.
- No entanto, não parecias muito satisfeito.
- Porquê?
- Tu lá saberás. Seja como for, amanhã vamos almoçar a casa
deles. Faseyi acaba de nos convidar.
- Mas eu também fui convidado?
- Realmente, o convite dirige-se mais a ti do que a mim. Não
conheces o Fash. Quer saber se ouviste mais alguma coisa e é
incapaz de esperar.
- Bom. na verdade não ouvi nada. O melhor será ele esquecer o
assunto.
- A mãe dele não deve tardar a chegar; depressa ficarás a
conhecer a engrenagem. Depois de uma cena como esta, ele pede à
mãe que venha ter uma conversa com Monica. E elas entendem-se
muito bem, a mãe e a mulher dele, quero eu dizer! Seja como for, de
vez em quando gosto de me deliciar com uma boa refeição e a Sra.
Faseyi é uma fada na cozinha.
- Então, bom apetite e sacia-te.
- Estás preocupado com alguma coisa, Kola...
- Por que é que havia de estar? Pára com isso, está tudo bem.
Monica veio abrir-lhes a porta no dia seguinte.
- Espero que venham com apetite - disse. - A minha sogra está a
preparar o almoço.
Faseyi ficou na sala apenas por momentos, dizendo:
- Kola ainda não conhece a mamã, pois não?... Mama!... - E
desapareceu em direcção à cozinha.
- Vou buscar cerveja - anunciou Monica, e voltando-se para Kola:
- Aqui na Nigéria bebem sempre cerveja, não é? Até ter vindo para cá
nunca toquei numa bebida, mas desde que provei o vinho de palma,
não quero outra coisa.
Faseyi voltou da cozinha.
- Sinto muito, mas a mamã diz que neste momento não pode
largar o seu cozinhado. Disse-lhe que estavas cá, Bandele.
- Isso significa um petisco ainda mais apurado - comentou
Monica. - Sabe, Bandele é o favorito da mãe. Ela não suporta nenhum
dos outros amigos do Ayo.
- Querida, como podes tu dizer uma mentira dessas?
- Pois bem, esperemos até a mãe chegar para lhe perguntarmos.
- Nada disso. Não estou disposto a ouvir-vos discutir outra vez
acerca dos meus amigos. Já to tinha dito.
Da cozinha veio uma voz forte e estertórea:
- Moni!
- Creio que a mãe está a precisar de ajuda - disse Monica saindo
da sala.
Momentos depois, Faseyi, que ainda não conseguira ocultar o seu
nervosismo, fez sinal a Bandele e arrastou-o para a varanda. Só
quando ia a sair é que se lembrou de dizer:
- E só um minuto. Kola, fique como se estivesse em sua casa.
Através das portas da varanda, ouviu-se, quase de imediato:
- Ele disse-te mais alguma coisa sobre o que ouviu? Conseguiste
saber quem foi o autor do comentário?
Kola abstraiu-se deliberadamente da conversa, pois não estava
interessado em ouvi-la.
Ficou só, por momentos. A certa altura, Monica entrou na sala e
perguntou:
- Onde estão eles?
Kola apontou para a varanda e ela exclamou:
- Oh! - como se compreendesse e isso a deixasse surpreendida e
triste. Permaneceu no limiar durante algum tempo, acabando por
entrar na sala.
Conversaram longamente e cedo Kola começou a sentir o efeito
da cerveja, uma sonolência crescente. Então, ouviu a porta da rua
abrir-se ligeiramente e sentiu nas suas costas um movimento vago e
delicado. Algo como uma mari-posa amarela, tépida, afagou-lhe a
face e introduziu-se entre ele e a mesinha. Espreitou miopemente o
copo que ele segurava, bebeu um gole e o seu rosto contraiu-se
devido ao sabor amargo. Depois, a sua facezinha encostou-se
momentaneamente aos dedos descontraídos de Kola, por entre os
quais os amendoins iam quase caindo no chão. De costas para ele.
acariciando-lhe a face com o seu cabelo louro entrançado, estava
uma rapariga albina. Era frágil e indecisa, uma criança perturbante,
débil, crepuscular. Monica interveio.
- Usaye! Oh, querida, onde estão as tuas maneiras? Anda cá.
Kola pestanejou, incrédulo.
- Usaye é filha do nosso cozinheiro - informou Monica.
- Ele é albino?
- Não. O milagre é esse. Nem ele nem a mulher. Ambos são tão
pretos como você. Oh, não se importa que eu diga preto, pois não?
- Só ponho objecções a escuro, de cor, pigmentado, ou quaisquer
outros eufemismos idiotas.
- Bem me parecia. Aqui é preciso ter-se muito cuidado com as
palavras. Por que será a maioria das pessoas tão susceptível? Oh, lá
estou eu outra vez. Como ia dizendo, Usaye tem quatro irmãos; e,
além dela, três deles são albinos. E a mãe está à espera do sexto. O
pobre pai está aterrado.
- Ela parece bastante vulnerável.
- Usaye é a que vê pior. É terrivelmente míope.
- Reparei nisso.
- Creio que ela vem aqui por minha causa. Complexo de cor,
sabe?
- É uma coisinha tão frágil... como um pintainho recém-nascido.
Usaye, anda cá beber mais um bocadinho de cerveja.
- Oh, não, não faça isso.
- Não lhe fará mal... embora brandy fosse melhor. Talvez as suas
faces se corassem.
Usaye sorveu a cerveja com a mesma repugnância. Em seguida,
voltou a olhar de perto o rosto de Kola e os olhinhos dela percorreram
o fato dele a poucos centímetros de distância. Subitamente, ele
sentiu-se aterrado:
- Mas como consegue ela atravessar as ruas?
- Por enquanto não o faz. Terá de usar óculos. Já marquei
consulta num oftalmologista.
Kola sentia ao mesmo tempo repulsa e fascínio por Usaye.
- Como um ovo acabado de pôr - murmurou -, quando a casca é
muito frágil... Ou o sensível centro pulsante da cabeça de um bebé...
Oh, não faça caso. Por vezes sofro destas emoções irreais.
Ela olhou-o com estranheza e ele sentiu-se desconfortável.
- Diz que tem emoções irreais?
Kola tentou mudar o rumo da conversa, mas ela chamou-o:
- Venha até à janela.
A janela dominava o pátio das traseiras.
- Ali... vê aquele tronco de árvore? Ela é tão míope que fala com
ele.
- Mas por que não fizeram nada até agora?
- O Ayo ia prometendo sempre. O problema é que eu não tenho
carro e de qualquer modo também não sei guiar.
- Isso não é problema, eu... eu arranjarei maneira.
- Vem cá buscá-la?
- Certamente. Em pessoa.
- Obrigada - disse ela. - Ficou ofendido na noite passada? -
perguntou pouco depois.
- Ofendido? Porquê?
- Bom, você foi um pouco desagradável. É daqueles que não
acredita em casamentos mistos? Sei que alguns amigos de Ayo o
censuram por ter casado comigo.
- Isso não é um assunto que apenas diz respeito a si e ao seu
marido?
- Estou contente por você ir levar a Usaye. Talvez ache que tirei
partido de si abusivamente!
- Claro que não, isso é ridículo.
- Mesmo assim, julgo que me aproveitei de si, mas não o
lamento.
- Nem eu, por isso não falemos mais nisso. Enquanto ele fitava o
tronco da árvore, as pestanas de Usaye roçavam-lhe as palmas das
mãos, examinando-as pormenorizadamente. Kola nem se apercebeu
de que Monica deixara a sala. Subitamente sentiu-se ansioso de agir,
contemplando aquela criança e falando em surdina. Há muito que
perdera as esperanças de encontrar um rosto adequado, entre as
crianças da vizinhança, para ser criada de Obaluwaiye e Usaye surgia-
lhe agora quase como uma intervenção divina. A cor e as feições,
exactamente como a imagem que ele idealizara. Já descortinava
Usaye com a sua pele de luar luminoso, sentada aos pés de
Obaluwaiye, reflectindo a fase das experiências do divino flagelo,
sempre incólume, angelical.
E havia ainda algo mais, o insidioso despertar de um imenso
desejo... desta vez, certamente, sem a presença residual de qualquer
ternura que enfraquecesse as leis da sua própria criação... foi então
que ouviu as portas da varanda abrirem-se e Bandele a chamá-lo.
Girou abruptamente sobre os calcanhares, sem mesmo pensar
no que fazia, e fugiu daquela casa.
Até as crianças falavam de Simi! As esposas ajoelhavam e
oravam para que os seus maridos pecassem cem vezes com cem
mulheres, mas que os seus pés pecaminosos nunca procurassem a
Simi das pálpebras langorosas. Porque então estaria perdida a
esperança de salvação para os homens. As suas casas, e filhos
tornavam-se fantasmas de uma ilusão passada ao descobrirem com
Simi uma nova visão da vida e do amor, mergulhados numa realidade
canibalesca. Simi destruía homens e amizades. Era tão inocente, sem
nunca fazer trans-parecer o saber da idade, que cada homem sentia
ser ele a traí-la, nunca ela que o enganara. Protegiam-na, assim, da
fúria das mulheres, aos olhos das quais tal inocência não existia.
Decerto que havia canções, os vários episódios dos amores de Simi,
canções de louvor e muitas outras que injuriavam, não Simi, isso
nunca, mas as mulheres que ousavam profanar a deusa da
serenidade, Simi, abelha-mestra de pele delicadamente corada pelo
ar e pela terra-mãe. Simi nunca pagava para que lhe cantassem os
dotes; os homens sim. Mas era essencialmente um acto de
homenagem espontânea; o poeta, ao vê-la, irrompia numa torrente
de louvores.
Na companhia deles, Simi sentava-se, imóvel, calma, parecendo
nada ver, indiferente aos homens que a admiravam. E ainda que ela
reparasse neles, só quando estes haviam partido, esgotadas as
fanfarronadas, os bolsos esvaziados, a virilidade envergonhada -
porque Simi desafiava-os copo a copo e conservava o seu mistério,
enquanto os homens iam murchando e eram levados para fora,
exaustos ou roucos, mais tristes mas nunca mais sensatos -, só então
Simi fazia a sua escolha, mas nem nesse momento as suas pálpebras
gélidas traíam qualquer sentimento.
- Egbo! Vem cá, vem cá!
O professor de geografia, o único homem numa carreira
recheada de sobressaltos que encontrava um laivo de benevolência
em “aquele Egbo!”, segurou-o pelo seu casaco novo e arrastou-o para
a sala de aulas. Inspeccionou o tecido azul e o emblema da escola,
sinais de incipiente liberdade, pois apenas podiam ser comprados
pelas classes mais avançadas e Egbo tivera de esperar até estar
prestes a deixar a escola.
- Caro Egbo - disse o professor -, tu és uma espécie de milagre.
Sabes que já estiveste seis vezes em vias de ser expulso? Seis vezes
num curso secundário! Caro Egbo, era caso para pedires um
certificado, pois tal facto impressionará Certamente qualquer homem
recto.
- Sim, senhor professor. - O jovem encolhia-se, pois este era o
único professor que tinha o poder de o embaraçar.
- Sim, estabeleceste um verdadeiro recorde. Agora escuta. Eu
identifico um maníaco sexual à primeira vista. E estou a ver um,
neste momento, diante de mim. Mantém-te afastado das mulheres,
compreendes? Agora some-te para longe da minha vida, ó miserável
verme humano.
Este professor herdara a tradição das hipérboles, porque Egbo
era conhe-cido pelo seu medo das mulheres. Pelo menos até uma
semana antes, quando a história de uma noitada na cidade chegara
aos ouvidos dos professores, uma escapadela em que não participara
apenas Egbo, mas que ficara célebre devido ao seu papel nela. Ébrios
com a euforia da liberdade que se aproximava, seis jovens
audaciosos, finalmente libertos da tirania do certificado escolar,
concretizaram um impudente assalto a um clube nocturno. Só
passado algum tempo os seus companheiros se aperceberam de que
Egbo não se levantara para dançar nem pronunciara uma única
palavra desde que haviam chegado. E o seu olhar nunca se desviara
de uma certa direcção.
- Olhem o Egbo, hem? Nunca viste uma mulher?
- E fácil descobri-los. Orno alufa, os maiores femeeiros à face da
Terra.
Após o exame final, entregue a última prova aos seus
professores, as horas pareciam-lhes carregadas de lassidão; e a
época do ano, fria, seca, frágil, produzia neles uma sensação de
vivacidade; um cessar da consciência no espaço, no tempo; até uma
indiferença geral na “natureza, na poeira e nas faces dos outros. De
manhã cedo e à noite, o ar adquiria a agudeza de um aguilhão
perfurante e, no crepúsculo, os falcões revoluteavam em torno do
fumo, espe-rando os esquilos ou ratazanas que tentassem escapar.
Mas era especialmente o aguilhão daquela noite que lhe doía na pele;
caminhando pela senda entre arbustos, sobre ondas titilantes de
ekan, a atmosfera era um corno cheio de vinho de palma após dez
dias de jejum; com a garganta seca e os lábios gretados depois de
três milhas de marcha, Egbo descobriu a embriaguez total.
Sentado à mesa, toda a sua inépcia se dissipara, incapaz de ver
a sua própria estranheza. Simi. no período imortal da sua vida,
sentara-se junto de um grupo, que ele viria a conhecer muito bem,
não dispensando a sua atenção a ninguém. A mesa dela estremecia
com as gargalhadas, com muita futilidade, é certo, mas Simi parecia
insensível ao que a rodeava.
- Ela tem os olhos de um peixe - murmurou Egbo. e os rapazes
exclamaram:
- Oh, o jovem costeiro encontrou a sua Mammy Watta!
Simi ergueu os olhos uma única vez e fitou-o. Pareceu ridículo, no
momento em que mergulhava naqueles olhos, pensar em fígado
fresco no balcão de um talho, rever as suas frias profundezas
gelatinosas. Por momentos, Simi deixou o seu olhar acariciar o dele e
Egbo, confuso e perdido, levantou-se lentamente, o sangue
redemoinhando-lhe na cabeça a ponto de nada mais compreender
senão que Simi o vira e o olhara. As suas mãos estavam húmidas e
Egbo cambaleou até à rua, passando cegamente por entre bandejas
de nozes de cola e carne frita, enquanto os vendilhões riam e
comentavam:
- Olhem, outro perdido de bêbado.
Recordando a caminhada de regresso apenas como um refluxo
febril de sons abafados, ecos remotos de grilos e sussurros furtivos na
escuridão da noite, Egbo vacilava sob a mordedura lasciva da
serpente e acolhia, contente, o veneno que se lhe introduzia nas
veias.
No dia seguinte, Egbo explicou tudo isso na sala de aulas.
- Se eu a tivesse visto antes do exame de Zoologia, teria
respondido a pergunta sobre a abelha-mestra. O assunto ficaria
arrumado de uma vez por todas.
Estas coisas chegavam sempre ao conhecimento dos
professores.
- Caro Egbo, venha cá, seu maníaco precoce... Mais tarde, Egbo
diria a Simi:
- Foi o meu primeiro acto de ingenuidade e o último. Abandonou
imedia-tamente a escola, arranjou emprego e começou a economizar.
E as suas priva-ções eram de tal ordem, que chegava a pensar estar a
fazer um treino muito útil para o caso de vir a ser eremita.
Alimentava-se tão pouco que atingia os limites da inanição e a
biblioteca constituía o seu único prazer. Com dezoito libras no bolso,
três polegadas de sola de borracha para maior altura e confiança, um
fato de pêlo gasto, listrado, e uma gravata - o colarinho branco
engomado tinha um bordo cortante -, Egbo partiu à conquista de
Ibadan, onde Simi ainda detinha a sua corte. A escolha de um
hospedeiro era decerto muito importante e. por acaso. Egbo
recordou-se de um estudante da sua idade. Parecia ser o ideal até
que. à porta do seu possível hospedeiro. Egbo hesitou ao deparar com
um cartão. dizendo: E. Ayo Dejiade. secretário do S.C.M. ('). É favor
bater e entrar com Deus.
Esteve prestes a dar meia volta e escapar-se, mas entretanto
Dejiade abriu a porta.
- Viva, Egbo! Que fazes por aqui? Mas Egbo nem sequer sorriu.
- O que significa isto aqui? - perguntou, tocando no cartão com
os nós dos dedos. - Não me digas que também resolveste erguer a
bandeira da família.
- Quem me dera que tu fizesses o mesmo - exclamou Dejiade,
filho do colega do seu falecido pai. O reverendo Dejiade lutara para
que o filho do seu amigo ficasse ao seu cuidado, para pelo menos
conseguir confiá-lo à sua paróquia. Mas a tia de Egbo não concordara.
“Nem você”, afirmou ela, “nem o velho demónio do avô dele ficarão
com o meu sobrinho. Eu própria me encarregarei da sua educação.”
O quarto de Dejiade proclamava os horrores de uma vida
pecaminosa em textos encaixilhados nas paredes, e cedo Egbo se
apercebeu da inutilidade das suas esperanças de apoio moral por
parte de Dejiade, em relação ao almejado encontro.
- Isso seria uma ajuda imoral - exclamou Dejiade. Um apelo ao
seu sentido de camaradagem falhou igualmente. Demonstrei
verdadeira camaradagem ficando aqui a orar por ti.
- E melhor não negligenciares os teus estudos - replicou Egbo. -
Não te preocupes comigo.
- Rezo sempre antes de começar a estudar tranquilizou-o
Dejiade. - Faço uma pausa para tomar chá às onze. Se a minha prece
for atendida, verás a luz e estarás de volta a tempo de tomar chá
comigo.
E Egbo sentiu-se verdadeiramente aterrorizado, entrevendo a
prece de Dejiade a ser atendida e ele a regressar a casa frustrado.
Enquanto caminhava pelo recinto da universidade, os seus receios
avolumavam-se. A causa de Dejiade surgia, subitamente, sensata,
justa e razoável. Egbo sentia-se de novo dominado pela piedade do
seu amigo e começou a suar temendo a magia daqueles textos.
Desesperadamente. contrapôs as suas súplicas às de Dejiade.
- Esta noite, bom Deus, deixa que eu esteja perdido para ti.
Esquece a minha desprezível existência e abençoa o meu amigo que
estuda. Faz dele um exemplo resplandecente, ò Deus, mas deixa-me
ser um daqueles para quem ele deveria ser um exemplo.
- Também há religiosidade no auto- sacrifício”, prosseguia a
mente de Egbo, - e o que é esta sua oração senão isso?”
Encontrou Simi no terceiro clube nocturno que tentou. Não a viu
imediatamente, mas o ajuntamento era inconfundível. Simi enchia a
totalidade do pátio aberto, altiva, impassível e imóvel como sempre.
Aqueles que se vangloriavam de Simi lhes ter dado o seu amor, de
viver para eles, não encontravam quem os acreditasse, pois Simi fora
moldada como uma deusa distante, o que lhe conferia a suprema
inocência. Como se nunca tivesse havido qualquer contacto entre ela
e o mundo, estes homens com quem ela dormira nada mais sentiam
além de desespero, pois só depois se apercebiam de que não lhe
haviam tocado. Recapturar o acto era um sacrilégio, o olhar gélido de
Simi derrotava os que o desafiavam. E assim os homens não se
saciavam jamais daquela que nunca haviam de facto possuído, e a
ilusão enlouquecia-os, despertando desejos que nada acalmaria.
“Ela é a abelha-mestra”, pensou Egbo. “Os homens têm de
dançar e fazer de bobos diante dela.” E manteve-se de pé, evitando
comprometer-se, por enquanto, sentando-se a uma mesa e pedindo
uma bebida. Egbo manteve-se de pé, ganhando coragem para o acto
de submissão à fera que esperava para o devorar. Tal como uma vez
se mantivera de pé no aeródromo de Warri, um campo miserável e
desleixado, naqueles dias dos primórdios da aviação civil, esperando
que o frágil Dove (pomba) o engolisse. Egbo e a tia, Egbo reflectindo
sobre a temeridade deste piloto experimentado que pensava mais no
negocio de tecidos da tia do que no grave perigo a que ela achava
por bem expor a sua vida. E lembrou-se novamente da mãe e do pai
miraculosamente mortos. O reverendo Johnson e a sua esposa, a
princesa Egbo. No seu primeiro caderno escolar, a tia rabiscara Egbo,
e Egbo ficara. Quando cresceu e foi capaz de compreender, descobriu
que não tinha qualquer desejo de se chamar Johnson, e permaneceu
Egbo.
- Tens de ir para a escola - disse-lhe a tia. - Tens que ir para a
escola em Lagos, como todos os seres civilizados. Aquele teu avó
pagão apenas te ensi-nará a contar mulheres e suponho que também
os proventos do contrabando.
E lá no alto, uma vez acima do odor e humidade do cais. o medo
dissipou-se. Lutara com cada um dos degraus da escada,
esperneando, mordendo, agarrando-se aos varões e. mesmo no
interior do avião, tentara abrir uma vigia, o que fora motivo de
chacota por parte dos outros passageiros. O motor pusera-se em
movimento e as vibrações tranquilizaram-no um pouco, para de
seguida voltar a dar gritos estridentes. Mas as asas do aeroplano
endireitaram-se, entrando subitamente no seu ângulo de visão, tal
como acontecia quando fingia que voava no quintal. Egbo aquietou-
se. Olhou para baixo e viu o rio, os espessos e vastos mangues, e
desatou aos pulos no assento. Por fim, o céu cresceu, envolvendo
tudo como a imensa cauda de um pavão, e Egbo voltou-se para a sua
nova mãe, perguntando:
- Mamã, não é aqui que mora Deus?
O medo desaparecera totalmente, como uma ave morta caída
nas enseadas que passavam vertiginosamente lá em baixo. Egbo
passou o resto da viagem a dormir profundamente.
Egbo sentara-se, por fim: ansioso, vasculhou os bolsos e
tranquilizou-se ao sentir o volume do seu pecúlio. Um rapazinho
aproximou-se, uma face pequena e rude com uma grande cicatriz.
Perfilou-se diante de Egbo durante algum tempo, até que este
compreendeu que era ele quem servia aquela mesa.
- Uísque. Não, brandy com limonada. Hum... uma dose dupla, por
favor. E limonada.
O rapaz afastou-se e Egbo pôs-se de pé. Agora, agora, antes
mesmo de beber o primeiro gole de álcool, era o momento de agir.
Agora, agora, antes de ela erguer os olhos e o reconhecer, enchendo-
o daquele desespero que nada aliviaria.
Espantoso como tudo foi tão fácil! Ele pediu e Simi levantou-se
instanta-neamente, acompanhando-o. Ela levantou-se casualmente,
nada transpare-cendo, nada significando, limitando-se a levantar-se e
a mover-se como se já esperasse que a convidassem a fazê-lo e que
muitos mais lho pediriam em vão. Egbo, desculpando-se por as suas
mãos continuarem húmidas, guiou-a até à pista para dançarem um
gracioso fòx-trot. pois era um membro assíduo da classe de dança
para alunos avançados e executava-o com uma habilidade acima da
média. “Isto deveria satisfazer-me”, pensava, “tê-la nos meus braços,
receoso de a apertar um pouco mais”, imaginando que pedir mais
seria estragar a noite. As coisas haviam-se processado erradamente
fora demasiado apres-sado. A sua campanha deveria ter sido lenta,
crescendo e fortificando-se ate ao momento em que não precisasse
de pedir. Visitá-la, talvez, em sua casa. depois de ter sido admitido no
seu honroso círculo.
Indeciso, não sabendo como começar uma conversa, perguntou:
- O que é que deseja tomar? Uísque? Ou prefere gin..
- Você é muito novo - respondeu ela. - Não comece já a esbanjar
dinheiro.
Desorientado, Egbo devolveu-a aos seus companheiros, só então
notando que a mesa estava cheia, não de bebidas a copo. mas de
garrafas. E pedira ele para lhe oferecer um mesquinho copo...
O resto da noite escoou-se sem novidades e Egbo manteve uma
longa vigília. Os homens chegavam e partiam punidos: grandes
homens de negócios, senhores da lei, médicos. Estes últimos eram os
mais confiantes de todos, pois na altura esta era uma das melhores
profissões, sinal de máxima inteligência, conquista dos mais dotados
e a mística mais íntima dos talentos do homem branco. Mas Simi
mantinha-se como o espinheiro nocturno com os pirilampos adejando
intermitentemente à sua volta e caindo queimados a seus pés.
Havia também parasitas, a maioria dos quais ela tolerava porque
lhe davam protecção. Eles transmitiam as suas mensagens de tacto,
inventavam-lhe caprichos, recebiam comissões por “uma palavrinha à
tua irmã a meu favor” e bebiam por espalharem a esperança eterna.
Sentado à parte, consumido pelo ciúme e pelo ódio, Egbo absorvia o
seu brandy sem dar por isso, e continha a respiração enquanto o
líquido lhe cauterizava os intestinos e lhe incendiava o peito.
Dominando-se um pouco, Egbo considerou a hipótese de abandonar a
campanha nesta fase, pensando com genuína expectativa no chá
nocturno com Dejiade. Ah, Dejiade, aí estava o verdadeiro conforto.
- Depressa, traz-me o meu troco - e o rapazinho desapareceu
apressado.
O brandy matizava a sua visão como uma neblina: Egbo
descobriu que a sua vontade o impelia à consumação, a
autodestruição, recordando que afinal ele ainda era virgem e por que
não Simi? Por que não havia Simi de o iniciar de uma vez para sempre
nos mistérios da vida? E disse de si para si que não era isso. Tratava-
se de muito mais do que isso. A verdade ofuscou a sua esperança de
retirada e levantou-se como um louco, animado por aquela espantosa
simpli-cidade. Era para isso que ele a perseguia. Viera buscá-la para
longe daquilo, de tudo aquilo, para fazer dela sua esposa. Relembrou
a sua ingenuidade. a sua passada existência de eremita, o seu
desinteresse por outras mulheres, tudo isso apenas devido a uma
noite? Apenas por aquela noite? Não. ele não viera para tudo acabar
assim. Simi tinha de ir, partir com ele, para ambos construírem um
lar.
Estava novamente de pé junto dela e Simi deve ter dito não uma
dúzia de vezes. Egbo nada ouvia. “Não. não quero dançar”, mas Egbo
nada entendia. “Asseguro-lhe que estou cansada e além disso não
gosto desta música. Para a próxima, está bem?” Mas como poderia
ela não querer dançar naquele momen-to, se era agora que ele tinha
algo tão importante para lhe dizer e, daqui a pouco, até podia já ter
saído? Ele conhecia bem Simi e os seus retiros quase místicos. Sim,
naquele momento Simi encontrava-se indiscutivelmente no centro do
grupo; mas daqui a pouco podia partir com qualquer um. E durante
semanas permaneceria em reclusão.
E como podia Simi ser capaz de o contrariar perversamente e de
lhe responder “esta vez não”, quando a próxima vez poderia
equivaler a uma espera mais longa do que ele poderia suportar?! De
repente, compreendeu que estava a tentar arrancá-la da cadeira com
insistente rudeza, dizendo:
- Mas eu tenho uma coisa para lhe dizer.
- Então por que não diz aqui? - Ela era muito suave, não sendo
paciente, mas não chegando também a ser impaciente.
Egbo sentia-se incapaz de se mover... “Não serás um milagre? A
tua face é tão macia como a vasa alisada pela maré, onde nenhum
caranguejo jamais ousou passear. Nenhuma criança travessa ousou
gatinhar sobre a filha dos rios quando ela se banha... ayaba Osa...
orno Yemoja...”
- Escuta, rapazinho, vai-te embora. Bem ouviste a senhora dizer
que não queria dançar.
Um estranho, um homem que ele não conhecia, que nunca tinha
visto, erguera-se em defesa dela. “Nunca mais serei tão simplório...
nunca mais... fazer frente a todos estes homens, ricos e importantes,
quem julgo eu que sou?...” Mas ser interpelado daquele modo,
apanhado desprevenido, um parasita falando por ela, uma mão
grosseira, molhada de uísque, no seu pulso, puxando-o, empurrando-
o...
Egbo ouviu a sua própria voz por entre a música:
- Tira as mãos! – “Obrigado, meu Deus, por ninguém aqui me
conhecer, mas apetece-me afogá-lo num vómito de bêbado, só
isso...”
- Meu amigo, retire-se - e o outro voltou a empurrá-lo.
- Quem julga você que é para gritar aqui? - E dois 'novos
guardiões surgiram, ameaçadores.
Simi interveio.
- Não. não. larguem-no. Por que estão a incomodar o rapaz?
Rapaz! Então era realmente isso. Rapaz!
Sem saber como. reencontrou a sua mesa. Pareceu-lhe mais
perto do que a porta, além de pensar não ser aquele o momento
oportuno para sair. A espera não foi um tormento, porque Egbo nada
via, nada ouvia. Nem mesmo deu por ela sair.
Horas e horas mais tarde, ou talvez somente alguns minutos,
uma face minúscula e astuta, com uma cicatriz, abordou-o pela
sétima vez.
- Sim, sim, traz outro. Desta vez, uísque.
- O sah. A senhora ni npe vin.
- Hein?
- A senhora. Won ni npe y in wa.
Egbo olhou à sua volta, ansioso, mal podendo acreditar. Simi já
ali não estava. Furioso, agarrou o rapazinho por uma orelha,
apertando-lha.
- Estás a brincar comigo?
O pequeno contorceu-se com a dor, protestando.
- Vá, fala. Que senhora? Onde? Onde?
- N ta. Won wa nnu táxi.
Egbo esforçou-se por recuperar a calma, decidido a destruir a
alucinação. Mas o rapazinho continuava diante dele e falava verdade,
isso era óbvio.
- O troco, yinxah. -Mas Egbo já não o ouvia...
A porta do táxi estava aberta e Simi estava sentada no canto
oposto. Egbo ficou imóvel, fulminado.
- Então, não entras?
Egbo deixou-se cair no assento, os membros entorpecidos.
- Neste meu dia festivo, neste meu dia festivo...” recordava os
avisos de rapazes com maior experiência, sobre o estado de
ansiedade e a possibilidade de desastre... “Flácido? Deus, nesta hora
tão decisiva, não me ridicularizes com um bocado de algodão cru e
mole...
- Não devias tentar fazer frente a homens mais velhos do que tu.
sabes? Sairias a perder!
Mas Egbo nem sequer era capaz de olhar para ela.
Procurava unicamente um meio de escapar, desejoso de estarem
qualquer sítio menos ali. O quarto de Dejiade assumia as cores da
felicidade, da segu-rança eterna. Antes os exames espirituais, do que
esta perspectiva de humi-lhação. Mas ele seria realmente tão idiota.
Ter ido procurá-la, sem quaisquer conhecimentos para além das
bazofias de outros rapazes e de uma lição especial, que lhe parecia
agora obscena, perante a suprema realidade, a confrontação final.
Quando o táxi parou, a sua mão voou em direcção ao bolso, mas
Simi deteve-o. pousando a mão no volume dentro do bolso, pelo que
Egbo estremeceu.
- Poupa o teu dinheiro - disse ela.
Quando entraram em casa. Simi fechou a porta á chave e
ficaram face a face.
- Não estejas tão ansioso. Não tens muita experiência. Na
realidade, não tens experiência nenhuma.
-... Se abro a boca, certamente rebento. Se digo alguma coisa,
qualquer fanfarronada. logo me arrependerei. Serão Uxlas as
mulheres como esta, que vê o fundo de um homem num instante?
Com um olhar, vasculham-nos o íntimo...
Ela entrara noutro quarto nas profundezas da casa e Egbo
relanceou os olhos, incapaz de apreender algo mais do quê a
presença de Simi em toda a parte.
Nesta hora tão decisiva

Simi regressara e ele apercebia-se do seu delírio crescente.


- ... Deus, Deus, se isto ê pecado... Deus. que eu não viva mais
do que um ano. mas esta noite, esta única noite, deixa-me venerar
aqui. que eu nunca mais veja a luz. mas revela-me o brilho dos olhos
dela...
- Ainda não te despiste? Não. deixa. Eu faço-o por ti.
De início ele nada sentia, pois os seus dentes rangiam uns contra
os outros.
- És jovem - disse ela. ajoelhada, levantando o rosto para ele.
que a dominava, de pé.
Egbo. ao contemplá-la, esqueceu tudo. adivinhando tal
melancolia que temeu por ela e perguntou a si mesmo se aquilo era
amor. Mas aquele impulso passou, porque cia tornara-se brincalhona,
mas sempre com aquele ar arave ate quando murmurava:
- O teu coração palpita loucamente. Não esteias tão ansioso.
Ela tocou-o e Egbo parecia vogar, nada sentindo sob os pés.
Experimen-tava agora uma sensação de perigo e para lhe escapar
perguntou-lhe:
- Nunca amaste nenhum homem?
- Ssshiu!...
Uma rajada de vento irrompeu por entre os seus dentes
cerrados, martelando palavras que ela não media, nas quais Egbo
buscava a sua salvação.
“... Eu sou aquele saco insuflado pela brisa agreste, cavalgando o
capim alto do aeródromo de Warn, quando as terras estão no
pousio...”
- Querido, que estás a dizer?
“... Saco insuflado numa brisa agreste, capim alto no aeródromo,
quando as terras estão no pousio...
- O quê, querido?
Embora tudo aquilo fosse maravilhoso, significava dor e ele, que
se preparava há tanto tempo e agora estava pronto, descobriu que a
luta estava em reter este momento, manter-se com unhas e dentes à
beira do profundo abismo, enquanto o sangue corria, descendo
docemente da sua boca. E em pensamento revia a sua vida,
perguntando a si próprio o que significava aquilo dentro de si, quem
era ele o que viria a ser.
“... Bom Deus, deixai-me permanecer nas trevas...”
- Oh, querido, o que é isso?
O prazer deve ser pecaminoso e o prazer excessivo é a maldição
eterna. E Dejiade amanhã iria dizer-lhe que a vida dele era simples,
tão simples e morta...
“... Através de inundações ocultas, uma canoa separa altos
caniços, sem desfalecer, Deus, sem desfalecer como um destroço
apodrecido...”
- Mas, meu querido...
“...E uma vagem solitária cavalgava o imbondeiro na coxa
delgada, despida, e as névoas remoinhavam, velozes, em torno dele,
furacões e cerrações envolviam-no, mas ele mantinha-se erecto...”
- Querido, diz-me, qual é o problema?
“... Quando tudo jazia alagado, quando tudo jazia alagado...
Havia borlas, raízes doces para a criança e, no alto, nuvens
semelhantes a requeijão espe-ravam aquele que Deus escolhera...
“... Abrindo neblinas rasteiras numa canoa escura... nas trevas,
deixai-me permanecer nas trevas, chorar...”
Era a pior manhã que Sagoe podia ter escolhido para encolerizar
a rapariga, mas acabava de descobrir o guarda-fato - ainda nunca
entrara no quarto - e estivera adormecido durante a provação de
Dehinwa perante a mãe e a tia. Dehinwa acabou finalmente por levá-
las à paragem do autocarro e agora parecia desfazer o quarto em
pedaços, na sua pressa de se vestir para chegar a horas ao escritório.
O barulho acordara-o e os seus olhos injectados chocaram com os
dois puxadores do guarda-fato.
Por fim, perguntou:
- Foste tu que compraste aquilo?
- O quê?
- O guarda-fato. Foste tu que o compraste? - Sagoe gritava para
se impor à chuva que recomeçara a cair; o esforço parecia estalar-lhe
a cabeça, mas não desistiu.
- Ninguém me mantém, se é isso que queres saber.
- Só sei que eu não sou.
- Nem sequer tens dinheiro que chegue para me manter.
- Isso não é razão para te gabares.
- Ouve, não dormi nada esta noite e agora tenho de ir trabalhar;
por isso, guarda os insultos para quando eu voltar.
- Todas as mulheres neste maldito país estão tão desejosas de
serem insultadas!
Espremendo-se para entrar no vestido justo, ela contorcia-se
como um peixe capturado, e Sagoe nem conseguia rir, pois o esforço
despedaçar-lhe-ia a cabeça. Dehinwa tacteou o puxador do guarda-
fato e puxou a porta, obstruindo a visão de Sagoe. A porta balanceou
até perto dele e Sagoe insistiu.
- Não respondeste à minha pergunta. Foste tu que compraste
esta coisa horrorosa?
- - Isso mesmo. Estira-te aí na cama e continua a arreliar-me.
Só então Sagoe se lembrou das mulheres. A cena voltou à sua
mente até ao momento em que caíra e o mundo à sua volta se
apagara. Lentamente foi tomando consciência do que se passara e
começava a sentir-se culpado e ansioso por saber se pusera Dehinwa
em posição embaraçosa. Com mil cuidados, disse:
- Suponho que aquelas pessoas eram da tua família...
- Não. Eram bruxas sugadoras de sangue lá da minha aldeia.
Afinal que foi que te assustou daquela maneira?
- Eu... não sei... elas meteram-me realmente medo, sabes?
Especialmente aquela com um aspecto tão extraterrestre.
- Essa era a minha mãe e agora cala-te.
- Oh, eu não queria dizer...
- Deixa lá o que querias dizer! - E ela parecia esbofetear o rosto
enquanto punha o pó-de-arroz, em vez de o acariciar como era usual.
O pó espalhou-se e agarrou-se-lhe ao cabelo, depositando-se também
no vestido cinzento. - Vês o que fiz por tua causa?
- Não vejo onde esteja a minha culpa, mas se isso te importa,
peço desculpa.
Depois, com mais suavidade, perguntou:
- Elas incomodaram-te muito?
Dehinwa não lhe deu resposta. Sagoe inclinou-se para a frente,
tentando tocar-lhe, mas ela afastou-se.
- Bom, ao menos diz-me se elas te incomodaram muito por
minha causa.
Ela dirigiu-se ao guarda-fato e fechou a porta. Esta raspou
ligeiramente o braço que ele estendera. Dehinwa admirou-se com a
veemência do recuo dele e ficou onde estava, perplexa:
- O que é que se passa contigo?
- Não tenho nada, é apenas este maldito guarda-fato.
- Mas afinal o que tem de especial o guarda-fato?
- O que tem de especial? Meu Deus! Quer dizer que não vês?
- Tenho de ir trabalhar.
- Não, não, espera. Senão, juro que o ponho lá fora e o queimo
antes de regressares.
- Como queiras. Com esta chuva certamente não vai arder.
- E o óleo todo que tem entranhado? Vá lá, diz-me a verdade. És
obrigada a viver com ele, não és? Foi um presente da tua tia ou da
tua avó e não ousas deitá-lo fora.
- Comprei-o. - Dehinwa já estava fora de si. - E se não gostas
dele, guarda os comentários pois não me interessam.
- A mulher é cega... mas pelo menos é capaz de sentir. Abres a
porta, não abres? Deves ter tocado nela uma centena de vezes. Será
que nunca te repugnou a pele de um lagarto?
- Obrigada. Suponho que estamos de volta à velha cantiga.
Nunca paras de nos lembrar que estiveste na América e que sabes
tudo sobre mobiliário futurista.
- Isto nem sequer é uma questão de estilo. Como podes suportar
o toque do puxador?
- O puxador? Mas é a parte mais bonita!
- Então os teus sentidos devem estar gelados como esta coisa
repugnante. Por que diabo havias tu de comprar um puxador de
flores petrificadas? E olha para o verniz, acho que vou vomitar.
- Claro, bebeste bastante ontem à noite.
Por vingança, Dehinwa bateu com a porta estrondosamente,
castigando-o na sua ressaca. No segundo andar, ele sentiu o pulsar
vibrante do motor bem no fundo do seu cérebro irritado. Só que agora
não o afectava tanto, pois o horror do guarda-fato paralisara-o
parcialmente.
Uma vez, em Seattle, às primeiras horas da manhã, após uma
noite de forte bebedeira, Sagoe avistou uma pedra que se movia
lentamente, cuspida por um carro à sua frente. Instintivamente,
baixou-se, mas o seixo atravessou o pára-brisas do carro em que
seguia, e atingiu-o na têmpora esquerda. A sua cabeça fendeu-se
imediatamente como o pára-brisas e, agonizante, esperou que a sua
estrutura se desmoronasse. Mas o crânio manteve-se intacto,
separando-se e flutuando sem cessar em redor do seu cérebro, à
espera de apanhar os pedaços cinzentos quando eles se
desintegrassem. Foi essa espera que Sagoe achou desumana. Tal
como o homem do andar de baixo espera que o vizinho de cima atire
ao chão o segundo sapato, acabou por adormecer e pareceu-lhe ter
acordado num fosso.
Sagoe estremeceu subitamente, aguardando que aquele
momento realmente mau passasse... o lamacento remoinho a meio-
rio, como outrora o hábito exclusivo de uma noite de Bourbon...
“acabo como comecei”, murmurou Sagoe, “on the rocks... Quanto a
este maldito guarda-fato, foi concebido por algum vampiro inspirado”.
A obsessiva peça de mobiliário tinha a forma de um coração.
Madeira barata revestida a verniz, que parecia escorrer
continuamente. Mas a parte superior era engenhosa. O coração
completava a sua curva apical normal em direcção ao tecto, mas
quando as portas eram abertas revelavam um topo plano onde se
empilhavam malas e caixas de chapéus. Naquela manhã estava lá
uma caixa de chapéus e Sagoe transferiu a concentração da sua
cabeça suada para aquela caixa. Sentiu-se aliviado. Curiosamente, a
caixa de chapéus fê-lo pensar em Sir “qualquer coisa” e as suas
sobrancelhas franziram-se enquanto tentava lembrar-se.
O esforço provocou-lhe vertigens e caiu sobre a almofada,
enquanto o suor lhe nascia como pérolas na testa. Desejou que
Dehinwa não o tivesse deixado só; ela era irritante, mas tinha mãos
suaves... Ah!, SirDerinola, era o nome do seu presidente. Sagoe girou
a cabeça na direcção da caixa e piscou-lhe o olho. Sir Derinola,
obviamente, eis quem tu és.
O quarto tornou-se ainda mais pequeno e, com profunda
melancolia, Sagoe descobriu que o seu olhar descaía para a superfície
repelente do guarda-fato.
“Salaam, Sir Derinola, salaam.. Oh, mas o senhor é um lagarto,
Sir Derin, e a sua pele é áspera e viscosa, embora derrame nela
torneiras eternas de óleo rançoso.”
Tornou-se óbvio que este era o momento de fechar o cavaleiro
morto. Oh, ele morrera finalmente, de chapéu e peruca, Sir Derinola
estava morto. A cortina descera e mantinha-se sobre ele como uma
vela enfunada pelo vento húmido. Sagoe não se levantou para fechar
a janela: a chuva tornou-se gélida. Algumas gotas caíram-lhe nos
lábios e lambeu-as com um certo agrado. E a extremidade da cortina
esvoaçava, parecendo importunar a caixa de chapéus que se
mantinha à beira da queda. E Sagoe recordou de novo as fotografias
de Sir Derinola de chapéu alto, tiradas quando passeava pelo St.
James Park antes de receber o título das mãos da rainha.
- Não - disse Sagoe em voz alta -, eles não foram capazes de lhe
tirar isso, Sir Derin. Vão enterrá-lo com esse título. Mas agora o
chapéu alto, vejamos, o chapéu alto, que vamos fazer ao chapéu
alto? A menos, é claro, que use a sua peruca reformada. - E Sagoe riu
entre dentes, lembrando-se de que agora Sir Derin era alcunhado de
a Morgue.
O vento e o peso do penteador de Dehinwa acabaram por
vencer. A caixa de chapéus continuou no lugar, mas a porta do
guarda-fato pendeu para fora muito, muito lentamente, e o bom
cavaleiro, em pessoa, surgiu nu, usando apenas um soutien de
Dehinwa no peito. Sagoe sentiu-se repentinamente obrigado a afectar
modéstia e berrou acima do som da chuva.
- Sir Derin, que quer agora? O seu aspecto é indecente! A Morgue
manteve a sua solenidade.
- Oh, engana-se, engana-se redondamente. Presumo que se
refere a isto, não é verdade? Na realidade, é apenas um verme.
- Protesto, Sir Derin. Será que todos os presidentes se
comportam assim? E pensar que em tempos foi juiz!
- Nem me fale nisso. Nunca devemos confiar nos políticos. Oh,
como eles me traíram!
- Realmente?
- Vocês, jovens, nada sabem. Mas não falemos nisso. Quando cai
sobre nós o encargo de dirigir o país... oh, deixemos isso de parte.
Tem alguma ideia sobre o modo como vou ser enterrado? Certamente
conhece os meus sentimentos.
Sagoe mantinha-se firme.
- Tem de voltar para dentro. Pelo menos vista mais qualquer
coisa. Tape-se. Ou livre-se desse verme que tem agarrado à virilha.
- Que utilidade teriam agora para mim as roupas, meu jovem?
Sagoe acenou a cabeça.
- Isso é verdade, Sir Derin, as roupas, no seu caso, foram sempre
um desperdício.
- Com efeito, e não é agora que vou alterar os meus princípios. O
hábito não faz o monge. Já reparou que os jornais ainda repetem esta
minha citação?
Sagoe pôs os dedos nos ouvidos.
- Não diga mais, Sir Derin. Esquece-se de que eu estava lá?
A Morgue acenou com pesar.
- E claro que estava. Vocês são tantos, como quer que eu me
lembre de qual subornei num determinado dia? Mas espero que não
me guarde rancor. Desempenhei o meu dever de acordo com a minha
consciência.
Sagoe olhou-o da cabeça aos pés, cantarolando.
- E afinal não paguei? Quando o outro partido subiu ao poder,
correram comigo. Oh, bem sei que me demiti, mas que mais podia eu
fazer? Com todos aqueles jovens a passarem à minha frente! - E a
Morgue começou a rir, uma gargalhada curiosamente cavernosa que,
de certo modo, tranquilizou o cérebro martirizado de Sagoe. - Mas,
bem vê, não se pode pôr de lado um homem de valor. Deram-me o
meu título. É por isso que mantenho o soutien.
Sagoe confessou que não via a relação.
- Para as medalhas, meu jovem. As medalhas. Eles costumam
pregá-las com alfinetes, quando nos dão o título. Não sabia? E eu
tenho um título.
- Sir Derin, neste ponto tenho de o repreender. Como pode
separar a medalha do resto do vestuário?
- Vamos, vamos, meu jovem, não tente enrolar-me com esses
pontos legais. Eu conheço a lei. Os meus amigos juizes encarregaram-
se disso. Se aqueles políticos não me tivessem desencaminhado...
- Não me compreendeu bem, bom cavaleiro. Referia-me à sua
filosofia. Será que a peruca faz o juiz?
A Morgue sobressaltou-se e os grãos de areia saltitaram nas suas
órbitas cegas, os olhos da justiça.
Sagoe insistiu, cruel mas suavemente: - E então em que é que
uma medalha o transformou?
A Morgue conservou-se silenciosa durante muito tempo,
brincando com os bicos do soutien. Nesse momento, merecia
inteiramente a alcunha que ganhara devido ao seu ar de tristeza
fúnebre, quando era o terror do tribunal e, com os óculos
encavalitados no nariz, mirava lá do alto o pobre prisioneiro. A sua
voz tornara-se lúgubre como um túmulo.
- Mas eles tiraram-me tudo o mais, tudo...
- Fizera a sua escolha - disse Sagoe.
E a Morgue pôs-se subitamente à escuta, a sua pele formigando
perante uma presença hostil.
- Oh, oh, estamos a ser observados - e mergulhou no guarda-
fato.
Sagoe viu então Dehinwa empurrar a porta.
- Estavas a falar com quem?
- Estava a rezar.
- Pareceu-me que estavas a falar com alguém - replicou ela.
- Talvez comigo próprio.
- Estás doente.
- Bem sei. Este guarda-fato põe-me doente.
Ela começara a remexer num armário, gotejando água por toda a
parte. Ele seguiu-a com os olhos, tentando adivinhar que bicho lhe
mordera. Inesperada-mente, Dehinwa puxou a cama para si e
inclinou-se sobre ele. Assustado, verdadeiramente assustado, Sagoe
gritou:
- Não me toques!
Ela curvou-se bem sobre ele e espreitou pelo espaço entre a
cama e a parede. Sagoe contraiu-se num novelo.
- Meu Deus, tens de ser tão brusca?
Mas ela limitou-se a empurrar a cama para o seu sítio e o
impacto com a parede fê-lo estremecer.
- Assassina! Assassina!
Ela parou a seu lado, olhando-o insistentemente.
- Não seria melhor ires ao médico?
- Não tenho nada. Deixa-me em paz.
- Por que gritaste? Pensaste que ia atacar-te?
- Se pensei? Que mais fizeste tu além de me atacar toda a
manhã? Olha só as minhas mãos, hein, olha - e Sagoe levantou-as.
- Estão a tremer. E daí? Que esperavas depois dos teus excessos
da noite passada?
- Uma coisa nada tem a ver com a outra. Atiras a cama contra a
parede, esperas que a minha cabeça esteja no limiar para bater com
a maldita porta, passeias sobre o meu pobre cérebro com os teus
tamancos... Por que não arranjas um machado e o enterras no meu
crânio, maldita Jael!
Sagoe parecia magoado e Dehinwa pensou que os homens são
exacta-mente como as crianças, não conseguem suportar qualquer
dor. Sentou-se na beira da cama e, com ternura, pousou a cabeça
dele no seu-colo. Sagoe, a princípio submisso, envergonhou-se da sua
fraqueza.
- Deixa-me - disse, afastando a cabeça. - Por que diabo voltaste
atrás? Se queres abraçar-me, ao menos enxuga-te.
A reacção dela espantou-o, porque quase imediatamente os
olhos de Dehinwa se encheram de lágrimas. Para as ocultar, começou
a revistar de novo o quarto, com uma fúria que não exibira
anteriormente.
- Será possível que eu tenha visto o que tu procuras?
- Um dossier. Trouxe-o para casa ontem.
- Um dossier do teu escritório?
- Não, um dossier escolar.
- Não precisas ser tão sarcástica. Diz-me só se está marcado:
confidencial.
- Viste-o?
- Não. Sou vidente.
- Por favor, Biodun...
- Debaixo do assento da frente do teu carro.
- Mas...
- Fui eu mesmo quem lá o pôs. Dei-lhe uma olhadela enquanto te
espe-rava, quando foste fazer as compras. Quase me ias apanhando,
de modo que o meti debaixo do assento.
Ela fitou-o, como se procurasse a melhor maneira de o matar.
- Descobri pouca coisa - escarneceu ele -, não é suficiente para
fazer uma boa cena escandalosa.
E Sagoe preparou-se o melhor que pôde, da cabeça aos pés, mas
de nada lhe serviu. Ela abriu a porta o máximo que conseguiu, com
maligna satisfação. Fê-lo esperar, esperar, esperar. Seguidamente,
recorrendo a toda a sua força, bateu violentamente com ela. A cabeça
de Sagoe explodiu como se tivesse sido colocada entre dois vagões
que chocassem entre si. Uma mulher assim... é preciso espancá-las
até à morte... e Sagoe, esquecendo a sua debilidade, saltou atrás
dela, acabando por cambalear após o primeiro passo. Caindo de
encontro ao guarda-fato, agarrou-se a ele, e as suas mãos
encontraram os olhos petri-ficados da sua aversão. O contacto fê-lo
recuar, surpreendido por esta traição física de um corpo que conhecia
tão bem. Geralmente, era apenas a cabeça que lhe pregava partidas.
Na mesma situação em que agora se encontrava, subira uma vez à
janela de um terceiro andar, quando era estudante, atravessando os
parapeitos das janelas. Até que foi trazido de novo ao solo,
incompreendido, sob a ameaça do buraco negro do revólver de um
polícia nova-iorquino.
- Estou a tentar chegar ao meu quarto - disse. E o outro, por sua
vez, sorriu:
- Claro, claro, o melhor é desceres com calminha, meu macacão.
Sir Derin emergiu uma vez mais naquela manhã, após um curto
sono que deixou Sagoe ainda pior. Sagoe viu-o reaparecer de costas,
e as ondulações do traseiro do bom titular eram tão cómicas que ele
rebentou a rir e a sua cabeça castigou-o de imediato, com a velha
sensação do pára-brisas a partir-se.
- Aquela era a sua esposa? - quis saber a Morgue. Sagoe não
queria mais conversas, pelo que fingiu estar profundamente
adormecido.
O cavaleiro ficou pesaroso.
- Não quer falar comigo? É o único amigo que me resta, não
compreende?
- Eu, seu amigo?
- Sim. Oh, não se importe com o passado. Pelo contrario, sem
dúvida, o passado tem importância. Você era meu amigo. Pelo menos,
dizia-me a verdade e isso, nos tempos que correm, tornou-se valioso,
não concorda? Antigamente, não tínhamos tempo para dizer a
verdade.
- Creio que tem razão.
- Agora nada me resta excepto a verdade. É tudo o que agora
vejo, enquanto vos observo dia e noite. É por isso que... espere, vou
só tirar isto. - Tirou o soutien. - Agora já está satisfeito?
- Que tenho eu a ver com isso? Era a sua filosofia, recorda-se? Eu
gosto de estar vestido.
- Com toda a razão. Agora estou satisfeito. Não os deixe enterrar-
me senão como estou agora. Nem sequer uma mortalha.
- Compreendo o que quer dizer, a mortalha não faz o cadáver.
Sir Derin acenou judiciosamente, pestanejando as suas órbitas
na direcção do armário.
Era tão difícil pensar em Sir Derinola morto! Quando, pela
primeira vez, se encontrou diante dele, candidato perante um
conselho de admissão, o titular irritara-o declaradamente. Era incrível
que ele não só tivesse obtido o lugar, mas se mantivesse ainda ao
serviço. Não era apenas Sir Derinola, mas a totali-dade do
Independem Viewpoint que estava contra a sua presença naquele
jornal. Excepto, evidentemente, Mathias. o contínuo. Mathias era um
bom augúrio, se é que alguma vez houve um. E depois de ele ter
começado a trabalhar, Mathias continuou a realizar o milagre de o
manter fixo à secretária; era como um cão de caça, deixando cair,
destramente, Sagoe aos pés da razão. Ou, mais precisamente, Sagoe
segurava Mathias, aprisionando-o, e insistindo:
- Agora, meu malandro, volta a pôr-me aos pés da razão. Para
celebrarem, pois fora Mathias quem fizera com que ele esperasse
pela sua entrevista de admissão, no primeiro dia de trabalho Sagoe
mandou-o buscar cerveja.
- Fecha a porta, Mathias - tirou-lhe das mãos uma das garrafas e
encheu a sua caneca. - Fica com a outra garrafa.
Mathias, embaraçado, agradeceu:
- Obrigado - e deu meia volta para se retirar.
- Onde julgas que vais? Senta-te aí. Parece-me que vais ter de
beber a tua pela garrafa; só tenho uma caneca Oga, ia beber sozinho
para a cantina.
- Para quê? Quero que tu bebas comigo. Ou a minha presença
estraga-te o prazer da bebida. Sei que es bastante sensível.
Mathias afirmou o seu gosto pela companhia de Sagoe.
- Nesse caso, não te sentes à beirinha da cadeira. Descontrai-te,
homem, o que é que se passa? Quero falar contigo.
- Ogu, por vezes chamam-me a outro serviço. O trabalho de
contínuo nos escritórios de um jornal não dá tempo para estar
sentado.
- Como sou novo aqui, alguém tem de me mostrar os
cordelinhos. Certo? - Mathias acenou que sim. - Bem, tenciono
monopolizar-te esta manhã para esse fim. Bebe, Mathias.
- Sim, sor - e Mathias obedeceu respeitosamente.
- E por favor não me respondas “Sim sor.
- Sim, sor. Oh, desculpe, Oga.
- Não faz mal, mas não te esqueças.
- Sim, sor.
Sagoe estremeceu e Mathias explodiu numa gargalhada
involuntária.
- Ah. é melhor ter paciência, Oga, essa vai levar algum tempo.
Sagoe pegou na sua pasta e tirou dela um volume encadernado.
- Pois bem, Mathias, és a primeira coisa boa que me surgiu desde
que regressei. Se não fosses tu, nunca teria conseguido este emprego
e permanecer nele vai dever-se inteiramente a ti.
- Como é isso, Oga?
- E isso que quero explicar-te. Tu e eu somos espíritos afins.
- Espíritos? Oga, não percebo nada disso.
- Mathias, não posso pedir-te que me chames Biodun, porque
acredito num mínimo de decoro no trabalho. Mas esta história do
“Oga” é tão mau como o “Sim sor”.
Mathias mostrava-se um pouco impaciente.
- Mas, Oga, como vamos fazer isso? Como hei-de tratá-lo?
- Sagoe, basta.
- Está bem.
- Tal como ia dizendo, Mathias... ah, é verdade, querias saber o
que é um espírito afim. Bom, significa simplesmente que somos, bem,
vejamos, oh, quer dizer que vemos e sentimos o mesmo.
- Ah, percebo.
- Lembras-te do que sucedeu quando vim à minha entrevista de
admissão?
- O quê, Oga! - Sagoe não respondeu imediatamente e os olhos
de Mathias arregalaram-se de repente. - Refere-se àquela história da
latrina?
- Exactamente. - Sagoe abriu o volume. - E para explicar o que
quero dizer, vou ler-te parte de um discurso muito importante que
uma vez fiz, nos tempos em que era filósofo. Vou ler-te umas linhas
todos os dias, enquanto aqui estiver, e se tiveres alguma dúvida é só
perguntares. Na verdade, se fizermos convertidos, organizaremos
discussões de grupo.
- Sim, sor.
- Devia ser parte da minha tese, mas infelizmente os meus
professores não aceitaram o tema. Julgaram-no demasiado esotérico,
suponho. Preciso de ter um amigo, Mathias, porque ao vir para aqui
tenho a sensação de desbaratar a minha vida. Todavia, se lermos este
trecho todos os dias, compreendes o que quero dizer, fazendo dele a
nossa Bíblia, ele conferir-nos-á força e consolação. Tu és como eu, um
homem religioso, não é verdade?
Mathias assentiu gravemente e Sagoe apontou a garrafa.
- Bebe, Mathias, ajuda. Põe-te numa disposição receptiva.
Respeitosamente, Mathias bebeu, fazendo um dos olhos deslizar
na direcção da porta, não fosse alguém entrar. A voz de Sagoe
chamou de novo a sua atenção.
- Bem vês, Mathias. és um vacuolizador instintivo...
- Sor?
- Vacuolizador... oh. deixa lá. Compreenderás tudo isso após
algumas sessões. Não tenhas pressa. És um elemento natural. É só
uma questão de assimilares os fundamentos do sistema. Mas,
espiritualmente, meu amigo, estás preparado...
- Oga, espere aí. Começo a ficar confuso.
- Não há nisto qualquer dificuldade. Mathias. Escuta e
compreenderás a filosofia da merda.
Mathias sorriu abertamente e Sagoe pigarreou.
- ... Neste dia, entoo endechas aos -ismos. desde o marxismo
homeopático ao existencialismo. Se os distingo particularmente, é
porque na exposição da história de mim próprio nada mais faço do
que descerrar o mistério do meu desenvolvimento filosófico, pois é
um ritualismo pelo qual não estou em dívida para com predecessor
algum, excepto toda a humanidade, e é uma visão de que não
reconheço causa alguma, excepto as leis imutáveis da Natureza. Se
desço ao particular, e porque esta filosofia se ergue como a mais
íntima na existência humana. Funcional, espiritual, criativa ou
ritualística. a vacuolização perma-nece a única verdadeira filosofia do
verdadeiro egoísta.
Como definição, senhoras e senhores, que isto baste. A
vacuolização não é um movimento de protesto, mas protesta: é não-
revolucionária. mas revolu-ciona. A vacuolização - diremos - é a
quantidade desconhecida. A vacuolização é a ultima mina inexplorada
de energia criativa, no seu paradoxo encontra-se o núcleo da liturgia
criativa - na libertação, o nascimento. Não sou um messias e. mesmo
assim, não posso deixar de sentir que nasci para desempenhar este
papel, porque na natureza congénita do meu sofrimento estão as
primeiras imitações do meu martírio e inevitável apoteose. Nasci com
um estômago emocional. Se me zangava, o meu estômago rebelava-
se; se tinha fome. amotinava-se: se era repreendido, reagia; e quando
eu me sentia frustrado, ele ficava destroçado. Corria com ansiedade,
contraía-se enervado, era desconfiado nos exames e imprevisível no
amor. Meus bons amigos, um profeta tem a sua honra...
Frequentemente, suspeitavam que me fingia doente e a punição era
imediata; e a indicação mais enfática de um estômago emocional é a
concomitância de uma forte sensação de injustiça. Outra influência na
formação da minha introversão vacuolizante foi a tia da minha
namorada de infância, uma antiga visita da nossa casa. Ela peidava-
se como um animal. E ainda mais marcante foi a influência da minha
própria mãe. que sofria do mesmo distúrbio. Era uma peidadora
imensamente religiosa e vangloriava-se, mesmo quando estava já
perto da cova, de que a voz de Deus era um vento que nunca deixava
de lhe falar todos os dias após as orações vespertinas. E chamava a
família para o testemunhar, ao que todos respondiam amen. A minha
concepção da natureza de uma oração deve, portanto, ter começado
nesses dias, quando a causa da minha reclusão na retrete era uma
necessidade não só fisiológica mas também psicológica e uma
solicitação religiosa. Gostaria de acrescentar que, neste período da
minha vida, se iniciou o meu sentido de dedicação ao estudo
sistemático e objectivação do comportamento digestivo numa criança
sensitiva. Rebelei-me contra a bem conhecida atitude de acabar-
depressa-e-sair. E, assim, noutras ocasiões, experimentei uma
autocomunhão. uma resolução, aceitação e consecução da paz;
desenvolvi uma reconciliação espiritual com um mundo de tensões e
discórdia.
Sagoe parou e, ao ver a boca aberta de Mathias, fechou o
volume com um estalo.
- Por hoje é tudo, Mathias. Aqui termina a nossa primeira lição.
Mathias conseguiu articular um:
- Sim, sor. Muito obrigado - e abandonou Sagoe à sua tese,
segurando a garrafa de cerveja com afectado à-vontade, mascarando
a sua impaciência de se retirar.
... Sagoe, enquanto esperava a chegada da totalidade do
conselho de admissões, realizou a sua primeira visita às instalações.
A área fora escolhida, segundo Mathias, por razões de pura estratégia
política. Toda a grande cidade tem os seus bairros de lata e Isale-Eko
simbolizava a vitória da moderna capital africana sobre as nações
europeias neste aspecto da civilização. Alguns estran-geiros, que
procuravam o exotismo local, acabavam por encontrá-lo sempre em
Isale-Eko; aventurando-se no seu escuro labirinto, admitiam depois
que fora uma experiência única. Podia jogar-se a macaca entre
montes de lixo e os mais medrosos viam a retirada cortada peias
águas sujas que as donas de casa lançavam fora. O Independem
Viewpoint possuía um enorme edifício nesses subúrbios; o jornal em si
era o órgão de um partido, a sua localização equivalia à protecção
fácil dos rufiões locais. E Isale-Eko era chão rico e fértil para todos.
Mathias explicou:
- Um construtor local veio fazer alterações no interior. A parede
estava podre até ao chão e então eles trouxeram uma mulher gorda
para se encostar à parede. Antes, aquilo era uma retrete e então eles
deitaram abaixo a parede e transformaram aquilo em escritório. E
aproveitaram a parede derrubada para servir de soalho. - E afastou-se
rindo estrondosamente.
Sagoe espreitou através da janela das traseiras. A parede do
edifício mergulhava a pique num canal que desaguava na laguna. A
sua água nausea-bunda estagnava e enormes massas de
excrementos flutuavam em círculos, roçando e decompondo-se contra
a parede. Voltou-se para Mathias e exclamou:
- Como podem trabalhar com este fedor?
- Ah, isso é o que todos dizem da primeira vez. Mas olhe para
mim e para eles. até parece que engordamos com o cheiro.
Sagoe pediu para ver a cantina. Pagou um café. mas não foi
capaz de o beber. As duas metades da chávena mantinham-se juntas
devido à porcaria acumulada numa profunda racha. E era difícil dizer
o que dava a característica especial ao odor da cantina; podia ser a
água gordurosa que ensopava os pratos da véspera ou talvez a
rapariga suada que servia o pessoal, mergulhada num torpor,
aparentando, no máximo, dezoito anos. Os seus movimentos
sugeriam um chumaço de pensos hiaicnicos até ao joelho. E
permanecia embaraçada durante os vinte e oito dias do seu ciclo.
Parecia ter sempre as pupilas coladas ao umbigo, e os seus únicos
movimentos externos consistiam em limpar a testa com um braço
que revelava um sovaco coberto de malhas alternadas, brancas e
pretas, de pó e fuligem. A sua face embranquecida confirmava
plenamente uma toilette diária de pó e nenhuma água.
Obedecendo a um impulso, Sagoe perguntou:
- Costuma atender o telefone?
- Hein?
- Perguntei se. por vezes, não é você a telefonista?
- Eu?
- Sim, acaso trabalha às vezes no... oh, esqueça o que eu disse. -
E Sagoe desistiu, desesperado. Pois como poderia explicar-lhe que a
voz pastosa, indolente, que por duas vezes, quando ele telefonara
para o jornal, erguera o receptor na outra extremidade, parecia
provocar a mesma sensação que aqueles sovacos semelhantes ao
teclado de um piano?
Chocou com Mathias ao passar a porta.
- Oga, não se afaste muito.
- Vou-me embora, Mathias. Não posso esperar mais tempo pelos
membros do conselho.
- Ah, Oga, não faça isso. O melhor é vir já. Por acaso, o chefe
Winsala acaba de entrar. Agora só falta chegar um.
Sobressaltaram-se ambos quando, ao murmúrio das máquinas,
se sobre-pôs asperamente um repentino H-h-r-r-r e um som abafado
gelou Sagoe da cabeça aos pés. O som viera da direcção do canto da
recepcionista, mas já não se via ali qualquer recepcionista ou a sua
secretária. Em vez disso, Sagoe viu apenas uma tenda feita de tecido
de Ancara com uma inscrição: “Independência nigeriana 1960.”
Espantado, olhou Mathias, procurando detectar o artifício, mas
Mathias limitava-se a rir entre dentes. O som chegou novamente, um
som formidável, e desta vez Sagoe viu a lâmina de uma faca cortar
uma linha recta ao longo de uma parte retesada do tecido. Uma
cabeça feminina irrompeu da tenda, exclamando sufocada:
- Socorro, ele está a estrangular-me.
Mathias permanecia segurando a bandeja com dois cafés e ia
exclamando:
- O-ko-ko-ko-o.
E tal como uma máscara que é arrancada, a tenda caiu
subitamente para trás e um boné ikori, o longo pano tombando sobre
uma testa alta, baloiçou-se quase dois metros acima do solo.
- Onde esta aquela cadela? - intimidou o chefe WinsaIa, batendo
a sua agbada sobre a mesa. - Ela ainda agora estava aqui. tinha-a
bem agarrada. - Vasculhou as dobras de tecido, mas não localizou a
rapariga aí enterrada.
Como uma louca, a jovem começou a debater-se entre as dobras,
apenas preocupada em pôr a cabeça de fora para respirar. Houve
outro Hr-r-r-r-r, mais áspero e mais prolongado, quando as mãos dela
encontraram o rasgão original e uma das mangas da agbada do Dia
da independência de Winsala se separou totalmente.
- Cá está ela, a cadela esquiva. Anda cá, minha menina. Mas
agora já nada deteria a rapariga, no momento em que imensos
volumes de tecido avançavam para a engolir novamente, ela
mergulhou sob a mesa, passou completamente entre as pernas dele e
ninguém mais lhe pôs a vista em cima nesse dia.
- Quem é o gigante?
- O chefe Winsala que mencionei mesmo agora. Ele andou nos
copos e agora são como David e Golias.
Naquele estado de profunda amorosidade alcoólica, outro
qualquer que não o chefe Winsala não se susteria de pé sob tão
grande bebedeira. Inclinava-se para trás mais do que qualquer
igunuko poderia gabar-se de ter conseguido e o seu peso tomava a
exibição ainda mais impressionante. Mathias aproximara-se dele.
- Chefe, chefe, a princípio não sabia que era o senhor. Foi
interrompido por uma violenta palmada nas costas e o café entornou-
se todo sobre a bandeja.
- Que se passa hoje com aquela mulher, hein? exclamou o chefe,
quando conseguiu controlar o seu regozijo perante a surpresa de
Mathias.
- Chefe, aquela é a nova recepcionista. Ela ainda não o conhece.
- Nova recepcionista? Não admira. - E de novo dançou como uma
cadeira de baloiço. Mathias interveio, aproveitando a oportunidade.
- Oga. este café acabou de ser feito. Que vou eu agora dizer ao
revisor?
Mathias sabia o que fazia. O chefe Winsala introduziu as mãos
nos profundos recessos da vestimenta e trouxe à luz uma mão cheia
de moedas.
- És um belo malandrete. Mathias. Vai lá comprar cate para todos
os tipos que aqui estão. Olha. compra dois cates para cada uma das
mulheres e pasteis de salsicha. Vamos, põe-te a andar.
A sua vez chegou meia hora mais tarde e Sagoe pensou: “Aquela
Dehinwa tem muitas vezes razão, nos apenas desprezamos os
pequenos criminosos.” A sala para a qual o mandaram entrar poderia
ser um salão para banquetes. Uma carpete de pelúcia engolia todos
os sapatos com menos de três polegadas de sola, contrastando com o
próprio edifício que fora apressadamente reforçado para passar no
segundo exame de um inspector subornado. A sala do conselho, um
mundo à parte, contrariava tudo o que se via nos outros escritórios. Aí
se encontrava instalado o único aparelho de ar condicionado do
edifício, as paredes eram cobertas de madeira e havia pequenos
cortinados, condizendo com as paredes, que abrigavam as ventoinhas
quando estas não estavam em uso.
Cada lugar consistia numa cadeira de braços, giratória, que se
reclinava para trás. e a mesa era no melhor mogno: o arranhão de um
alfinete na sua superfície seria tão evidente como uma pegada de
elefante. Junto de cada assento havia um bloco de orla dourada,
formando ângulos escrupulosamente iguais com a beira da mesa.
Num canto, um apopléctico aparelho de alta fidelidade, sem discos,
cujo rádio era a única peça usada e apenas para ouvir as notícias. O
rádio tinha nove luzes que piscavam, todas de cores diferentes,
embora ninguém tivesse ainda descortinado o que significavam. Este
rádio era o orgulho do director-gerente. Na sua visita à Alemanha, na
sua décima primeira missão em torno do globo, a grandiosidade da
coisa impressionou-o e apenas conseguia tartamudear:
- Tem classe, tem classe. - A Fraulein vendedora felicitou o seu
bom gosto e ele pagou a pronto com traveller's cheques. - A propósito
- disse ele -, não quer vir ao meu hotel mostrar-me como funciona
isto?
- Não quer que lhe enviemos o aparelho para o seu país?
- Claro, claro - concordou o director . - Queria eu dizer que podia
ir com as instruções ao meu hotel, explicar-me tudo isto. Bem vê. eu
não sei alemão.
- Também tem instruções em inglês - informou a rapariga -, e em
francês, espanhol e árabe. - Arrastando atrás de si o seu longo
séquito de tradicional esplendor, o director comentou para o
secretário particular:
- Como estas raparigas alemãs são estúpidas!
Sagoe parou, vendo o interior para Ia da porta entreaberta.
Voltou-se para o corredor onde cinco outros candidatos esperavam e
enviou um em seu lugar. Seguidamente, foi procurar Mathias no
cubículo do revisor.
- Onde é a casa de banho?
- A-ah, Oga. Ainda não o chamaram?
- Ainda não. Diz-me onde é a retrete.
E suspirou, perguntando a si mesmo se teria de se submeter a
isto, que lhe recordava um grupo de parasitas iletrados, untuosos e
irritantes, que perse-guiam as pessoas através das poças estagnadas
da última estação de chuvas e tinham o poder de as admitir neste
monte de esterco, conferindo-lhes os sinais exteriores da
materialidade. Materialidade, era isso mesmo, e Sagoe saboreou a
palavra enquanto Mathias o guiava lentamente até à retrete, dizendo:
- Se só quer mijar, vamos à laguna ali atrás. É onde todos
fazemos.
- Não, Mathias, quero um sítio onde me possa sentar.
- Sentar-se para mijar? Essa é boa... o-oh... - e curvou-se para
diante, rindo à gargalhada. - Oga. que boa piada. Juro que nunca
tinha ouvido uma tão boa.
Mathias ia à frente, mas o olfacto de Sagoe chegou lá muito
antes e a visão de bocados de papel de jornal húmidos, mergulhados
em urina, confirmou a primeira impressão. Desde que regressara,
apenas a retrete da estação radio-fónica o inibira tão eficazmente.
Esta cisterna estava empastada e inundada. As suas paredes
competiam com as da estação radiofónica em manchas lambu-zadas
de matéria suspeita. A derrota era completa. os intestinos
paralisaram imediatamente. Sagoe deu meia volta.
Mathias, espantado, exclamou:
- Julguei que o Oga quisesse cagar!
- Não, não, a vontade passou-me.
- Hein? Quer dizer que eles entraram em greve? - E a graça fê-lo
contrair-se, hilariante. Sagoe chegou a recear que tanta gargalhada
lhe fizesse mal.
- Vamos embora - disse, arrastando-o à força. Vamos rir para
outro sítio qualquer.
- Eu vou. eu vou. Oga. Mas sente-se ali. Às vezes a vontade volta.
- Sento-me onde?
- Senta-se onde? A-ah. em si mesmo. Oí-i. Como se senta uma
pessoa numa latrina?
- Deixa lá. - Sagoe pressentia que podia perder um amigo se
confessasse a verdade. - Por vezes a minha barriga prega-me destas
partidas. Não regula bem.
Mathias não se deixou iludir, a exasperação na voz de Sagoe
traíra a verdade.
- Ah-ah, não gosta do local. É pena. oga. pois e o único que
temos.
- O quê? Não há outra retrete onde possamos ir?
- A não ser a das mulheres. É lá em cima.
- Está bem, vamos tentar aí.
Rindo com os modos desenfreados de um homem que
considerava, finalmente, o seu companheiro um irreprimível
gracejador, Mathias liderou a retirada.
- Na realidade - ia dizendo -, há outra, mas é só para membros da
administração e tipos importantes. O chefe da redacção tem a chave.
Os tipos das limpezas também têm e às vezes usam-na. Já os avisei
de que é arriscado. Qualquer dia. acabam por ser apanhados.
- Há só essas três retretes, hein?
E assim era. Uma masculina, outra feminina e uma para a
administração neutra.
Era mais uma confirmação. Segundo o sistema de Sagoe. uma
adminis-tração que, com autêntica devoção vacuolizante. trancava
uma retrete para autocomunhão privada, não podia ser totalmente
desprovida de alma. Com crescente respeito pelos seus futuros
superiores, Sagoe encaminhou-se uma vez mais para a sala do
conselho, cheia, como todos os conselhos, de membros de
compensação.
Eleições perdidas, nomeações falhadas, recrutamento de
malandrins, apoio financeiro, apadrinhamentos ministeriais,
parasitismo ministerial, baju-lação geral, concubinagem ministerial...
Nos primeiros minutos, Sagoe entre-teve-se a encaixar cada uma das
faces em cada aspecto de compensação e descobriu que um rosto
sobressaía entre todos. Um rosto não exibia a vacui-dade e desprezo
gerais pelo mérito dos Cavaleiros da Távola Redonda. Emergia
tranquilamente no extremo oposto da mesa: um par de olhos
amarelos visto-riavam-no por cima dos aros prateados de uns óculos
fora de moda. Na sua pessoa havia algo de insólito. Era o boné.
Tratava-se de um simples abetiaja. mas posto de modo a que as abas
estivessem à frente e atrás, e não curvadas sobre cada uma das
orelhas, como é normal. Esta singularidade, de aspecto sábio, tinha
uma cabeça estreita, que se ia reduzindo cada vez mais na parte de
trás. como a cabeça esculpida de um ibeji, uma verdadeira peça de
frenologista.
Sasioc estudou-a, mas. como recém-chegado ao pais. não ouvira
ainda talar do famoso crânio de uma da lista de mitos que o
rodeavam. Estando sempre coberta, alguns diziam que terminava
num orifício, outros procla-mavam que era rematada por um ponto
triplo: outros ainda, mais curiosos que os restantes, tentaram
descobrir o seu barbeiro e interroga-lo. O milagre era Sir Derin não ser
idiota, pois esta era a conformação média da cachola dos cretinos.
- Por favor, sente-se.
Sagoe continuou a tentar adivinhar por que razão Sir Derin
preteria usar o seu uhetiaja de través, e a primeira questão apanhou-
o de surpresa:
- Por que quer este emprego?
Veio do homem sentado ao lado do chefe Winsala. cuja pata
poderosa embalava agora um copo de u isque. Sagoe viu o armário-
bar aberto. Todavia, o chefe Winsala era o único que tirava partido
deste conforto do Conselho. O seu olhar encontrou o do chefe e o
velho pirata piscou-lhe o olho. Sagoe compre-endeu que Winsala
votaria em quem quer que fosse que colocasse um copo de uísque
perto dele.
Estremecendo. Sagoe perguntou a si próprio se algum dos
presentes saberia que um aparelho de ar condicionado pode ser
regulado. Voltou-se, encarando o seu inquiridor.
Tal como duas metades de uma fava. ali estavam o paquidérmico
sistema de alta fidelidade e o director-gerente. A tentativa de negar o
seu irmão gémeo revelava-se inútil, apesar do delicado serviço da
China pelo qual todos, excepto o chefe Winsala, sorviam o chá. D
director adquirira o serviço na décima missão económica ã China
americana: e doara-o ao conselho, comentando:
- Sabem. Chang Kai-Chek tem exactamente este tipo de
chávenas e pires.
- Então? - e o director-gerente olhou em tomo. obtendo a
confirmação de que a espera já ia longa. - Responda á pergunta. Por
que quer este emprego?
- Não sei - disse Sagoe.
A reacção foi unânime e de completa incredulidade. Nos vários
anos que já tinham de conselheirismo profissional, nenhum deles
jamais deparara com algo que se assemelhasse a ignorância de
Sagoe.
- Você disse que não sabe? - E Sagoe acenou que sim. Parecia
que a entrevista estava concluída antes de ter principiado. O padrão
normal destas sessões tora profundamente alterado; o processo
tornara-se um misto de escárnio e enfado. Apenas o chefe Winsala
permanecia imperturbável.
- Ena, ena - disse. - Isso é o que se pode chamar uma resposta
honesta.
Sir Derin dirigiu-lhe uma repreensão tão azeda sobre a sua
leviandade que Winsala se refugiou apressadamente na amizade do
armário-bar. O director-gerente expressou-se com à-vontade:
- Bom. se nem o próprio candidato sabe porque veio à entrevista,
creio que nós também não devemos saber os motivos que o
trouxeram!
Foi a vez de Sir Derin falar:
- Meu rapaz, espero que não pensasse vir aqui só para nos fazer
perder tempo.
- Não, senhor.
- Deixe-o ir-se embora, senhor presidente. Como pode realizar-se
uma entrevista com uma pessoa que não leva as coisas a sério?
- Calma. Ora bem, meu rapaz, suponho que é uma pessoa
educada!...
- Julgo que sim.
- E tenho a certeza de que é um jovem inteligente... Sagoe ficou
silencioso.
- Não é preciso ser modesto, estou seguro de que se considera
um rapaz inteligente.
- Isso depende das pessoas com quem estou.
Houve uma quebra na segurança de Sir Derin, mas acabou por
decidir deixar passar aquela em branco.
- Agora, diga-me honestamente, como um rapaz inteligente: se
você estivesse sentado aqui e eu estivesse onde você está agora, que
pensaria se, ao perguntar-me porque quero um emprego, lhe
respondesse “não sei - Pensaria, possivelmente, que o senhor estava
a começar a achar que cometera um erro.
A carcassa do director-gerente inchou, brotando da sua pele
glóbulos gordurosos em estádios extremos de putrefacção e. através
da sua garganta, irrompeu uma torrente ininteligível.
- Julga que viemos para aqui tolerar a sua pretensiosa
imprudência? Escuta, rapazinho, entraste aqui pedindo um
emprego...
- Não pedi nada.
- Não me interrompas quando estou a falar, senão ponho-te na
rua. Queremos pessoas que respeitem os seus superiores e não
rapazinhos presumidos como tu Dizes que nada pediste, que nos
interessa isso. Os teus superiores pedem-te então que te vás embora
- Se me dão licença e Sagoe ergueu se para sair.
- Faça favor de sair.
E o director soltou um longo assobio.
- Estes hadameeos julgam que precisamos muito deles, só
porque tem um diploma...
Sir Derin interrompeu-o gravemente:
- Um diploma não faz um doutor.
A sentença teve o efeito apaziguador de um oráculo. O director
acalmou-se e na sala imperou o silêncio e a atenção.
- É o erro que todos estes rapazes cometem. Um diploma não faz
um doutor.
O chefe Winsala tornou-se bastante imaginativo naquela nova
atmosfera, sentindo-se à vontade ao ver restabelecer-se a sabedoria
dos decanos. E parecia ansioso por agradar, como se houvesse uma
relação especial entre os dois. o sábio e o seu protegido.
- O presidente tem razão - e acrescentou - assim como uma
árvore não faz uma floresta.
O director-gerente acenou aprovativamente, mas o presidente
deteve-o com um sorriso indulgente e um abano firme da cabeça
cónica.
- Não é bem a mesma coisa, chefe Winsala. Queria simplesmente
dizer que as aparências iludem. Quando ele entrou, eu fiquei com a
certeza de que este era o homem que queríamos.
- A-ah, não se pode dizer que saiba avaliar bem o carácter das
pessoas, senhor presidente.
Sir Derin retraiu-se como se o tivessem atacado traiçoeiramente,
mas o director estava absolutamente perdido no seu glorioso
momento de saber comum e não podia ver a passagem de memórias
dolorosas através do rosto de Sir Derin. Ele. um mau juiz de
caracteres? Que outra coisa adquirira nos longos anos de tribunal
senão esse talento, essa magia de conhecer um homem
independentemente das suas roupas, da sua fingida humildade ou
contrição? Que era ele senão o divino oráculo que penetrava os
corações dos homens e desnudava os seus temores e paixões
ocultos? Ele era inatacável. Dele era a última palavra, salvo a de
Deus. E mesmo essa... por vezes... sim. por vezes, acima da vulgar
humanidade que tremulava diante dele. que nas profundezas do seu
desespero tentava por vezes ligeiros assaltos à dignidade do juiz,
quando ele os derrotara, varrendo-os duramente com o olhar onde
não luzia qualquer piedade, nesses momentos ele perguntava a si
mesmo se Deus era mais do que isto. Tal como aquele atrevidote que.
cabisbaixo, se retirava da sua presença, de diante d'Ele, a Morgue,
Ele! Eram assim os dias passados... e Sir Derín puxou a aba do
abetiaja para trás e sentiu-se confortado por ela lhe acariciar a nuca:
os advogados conheciam aquele gesto... quando a Morgue puxava a
sua peruca para trás e movia o pescoço contra a cauda dela numa
carícia lenta, era sinal de tempestade, pois Sir Derin estava
baralhado. Era então que retrucava, enfurecido, numa chuva de
insultos ao brilho que apagava o seu.
Sagoe, emergindo no corredor, sentiu novamente os apelos dos
seus intestinos, confirmando mais uma vez as profecias
vacuolizantes.
Berrando o seu nome, um homem perseguia-o, mas Sagoe
limitou-se a apressar o passo. Mathias. o ubíquo Mathias, surgiu de
uma porta três metros à sua frente, forçando-o a parar.
- Oga, que aconteceu? Houve luta?
O seu perseguidor alcançou-os, ofegante.
- Sr. Sagoe, isto é uma prova de atletismo? Qualquer outro
pensaria que o senhor fugia do diabo. - Fez uma pausa para recobrar
o fôlego, estendendo a sua mão. - Chamo-me Nwabuzor, sou o chefe
de redacção. - Silenciosamente, Sagoe apertou-lhe a mão. - Lamento
o que aconteceu ali dentro.
- Oh? - E Sagoe não conseguia reconhecer aquele rosto.
Nwabuzor antecipou-se-lhe:
- É verdade, eu não estava lá, mas estava a ouvir. Sou obrigado a
isso, compreende? Importa-se de vir comigo ao meu escritório?
Sagoe tentou reprimir a pressão dos seus intestinos, mas não o
conseguiu imediatamente. Nwabuzor não o compreendeu, vendo
apenas a sua evidente impaciência.
- Ou, se preferir, podemos conversar mais tarde. Com efeito, eu
devia voltar já para lá, para ouvir o que estão a dizer e saber com
quem terei de lidar depois. Compreende, não é verdade? Por isso,
deixe ficar a sua morada e o número de telefone, se tiver.
Mathias ofereceu-se:
- Eu tomo nota, Sagoe disse:
- Estou num hotel, acabo de chegar do estrangeiro. Hotel
Excelsior.
- Óptimo, óptimo. Não se importe com o que sucedeu ali. Eles
costumam eliminar os melhores, e o que me chateia naquele
conselho. Sou o chefe de redacção e no entanto, não permitem que
participe na entrevista. Tenho de escutar as escondidas junto da porta
e tentar tirar as minhas próprias conclu-sões. Só depois procuro
convencê-los sobre quem devem admitir. É uma tareia ingrata.
Sagoe murmurou:
- Estou a ver. Estendeu-lhe a mão de novo.
- Então, não vou prendê-lo mais. Amanhã telefonar-lhe-ei e talvez
nós possamos encontrar.
Sagoe já mal o ouvia, a situação interna tomara-se: fazer ou
explodir.
- Para lhe dizer a verdade - confessou -, eu ia a correr em busca
do hotel mais próximo. Preciso urgentemente de uma casa de banho.
- Oh; desculpe... e eu estive aqui a detê-lo com a minha
conversa. Mas por que procurar um hotel? Mathias...
- Sim, sor.
Sagoe interpôs-se rapidamente.
- Não, obrigado. Eu já vi a retrete do pessoal. N wabuzorsorriu.
- Eu não ia juntar um insulto a outro. O Mathias vai acompanhá-lo
à outra que mantemos fechada à chave.
- Obrigado.
- E prometo telefonar-lhe amanhã à tarde o mais tardar. Mathias,
sabes onde guardo a chave no meu escritório. Acompanha este
senhor à retrete que tu usas.
- Eu?
- Que tu usas, já dei por isso várias vezes. Vai buscar a chave e
acompanha este senhor até lá. Eu tenho de ir a correr ver o que estão
os grandes a fazer.
A confusão de Mathias era verdadeiramente patética. Soltou o
suspiro de um homem tremendamente incompreendido e resignado,
de cabeça baixa, e indicou o caminho até à retrete neutra. Estava tão
abatido por se ver descoberto que se dirigiu directamente para os
lavabos, esquecendo mesmo o subterfúgio de ir, tal como lhe fora
dito, ao escritório do chefe de redacção. Do bolso tirou uma longa
cadeia e inseriu a chave. Só então reparou no que fazia e um sorriso
envergonhado espalhou-se-lhe pela cara.
- A-ah, hoje Deus apanhou-me em flagrante. Mas, para dizer a
verdade, não sei como se pode cagar aqui. Tudo tão limpinho. Quando
uma pessoa se senta ali, a barriga até perde a vontade. Que outra
coisa podia acontecer numa sala que parece uma sala de visitas? -
Mathias escancarou a porta e convidou-o a entrar com uma vénia: -
Está a ver?
Sagoe acenou afirmativamente e o outro insistiu:
- Está a ver o problema? Como pode alguém cagar numa sala
com carpete e tudo, para não falar na madeira encerada? Cá por mi
m, não sou capaz.
- Então por que tens um duplicado da chave?
- Venho para aqui ler o jornal. Este é o único sítio onde um
homem pode estar descansado, sem ser incomodado. E o cheiro aqui
dentro é o melhor que há em Isale-Eko. Nem a sala da administração
cheira tão bem como esta.
- Obrigado, Mathias.
Mas Mathias manteve a porta aberta por mais algum tempo.
- Oga, vai ver que consegue aquele emprego. Sei bem quando
ele simpatiza com alguém. E ele gostou muito de si.
- Obrigado, Mathias.
E Sagoe cerrou finalmente a porta, correndo o fecho que tornava
visível, do lado de fora, o sinal OCUPADO. Imediatamente, uma ligeira
brisa perfu-mada, fantasmagórica, soprou junto do seu pescoço,
enchendo a luxuosa decoração da ante-sala. Era um sistema
automático de purificação, importado pelo director-gerente na sua
sétima missão económica à Suécia... E Sagoe, correndo sobre as
espessas carpetes até ao assento de baquelite rosa na íntima alcova,
suspirou com pesar, lamentando: “Este tipo e o Mathias são dois
génios mal aproveitados.”
Mas, mais tarde, a inevitável conclusão.
O chefe Winsala, no auge da sua cordialidade, procurou-o no
Hotel Excelsior. Estava instalado numa profunda poltrona quando
Sagoe apareceu e, a princípio, este simulou não o reconhecer, o que
Winsala achou meramente engraçado.
- Ah, ah, então cá está o sr. Sagoe! Sente-se, vamos, sente-se.
Que se passa, não sabe quem eu sou?
- Lamento, mas não sei. Acabo de regressar ao país.
- Isso vejo eu, ah, ah, ah. As suas maneiras, o seu
comportamento, indicam que é jovem, negligente e recém-chegado.
Ah, ah, ah.
- Não compreendo.
- Há-de compreender, há-de compreender. Deixe-me refrescar-
lhe a memória. Você foi um dos nossos entrevistados na manhã de
anteontem.
- Um dos vossos quê?
- Foi nosso entrevistado. Eu sou membro do conselho que
estudou a sua resposta ao nosso anúncio. - Winsala ergueu o copo
vazio. - A propósito, eu bebo genebra.
Sagoe pediu desculpa e chamou o criado.
- De manhã, bebo uisque, à tarde, genebra. À noite, não bebo
nada, durmo, ah ah ah ah.
Sagoe aguardou pacientemente.
- Ora bem, agora que já nos conhecemos, penso que devo dizer-
lhe. Você portou-se muito mal no outro dia. Muito mal mesmo. Mas
convosco, rapazes acabados de chegar, acontece sempre a mesma
coisa. Da Inglaterra, ou no seu caso foi da América? De qualquer
modo, vêm todos inchados com as suas pessoas. - Olhou em volta e
fez estalar a língua. - Hum, o seu pai deve ser um homem rico, para
você estar a viver num hotel destes.
- Com efeito, é milionário.
- Ena, ena, realmente? Não sabia que tínhamos milionários na
Nigéria.
- Ele não o anuncia.
- Muito inteligente. E perspicaz. E você, andando à procura de
emprego, também demonstra sensatez. Os jovens devem ser
independentes dos pais, escolher a sua própria vida.
Até a genebra chegar, Sagoe escutou trivialidades irrelevantes
do mesmo jaez. Para onde a conversa se encaminhava tomara-se
óbvio, e Sagoe esperou docilmente até que, após a genebra ter
aparecido, os modos de Winsala se avivaram.
- Sr. Sagoe, sou um homem franco. Gosto de ver rapazes
impulsivos terem êxito. Infelizmente, as coisas são sempre mais
difíceis do que desejaríamos. Você mesmo viu o número enorme de
pessoas que vieram ser entrevistadas para aquele emprego.
- Foram muitas?
- Oh, sim. E ontem ainda mais. É certo que, com a
independência, todos os oyinbo foram postos na rua, mas isso foi há
muito tempo. Outrora, um diploma valia alguma coisa, mas agora
toda a gente tem um. Os diplomas são uma bagatela, por isso toda a
gente acorre às vagas de emprego com um ou mais na mão. O
diploma já não é um passaporte. - Há muito que ele desenvolvera
esta arte e Sagoe não o viu fazer sinal ao criado, que apareceu pouco
depois com outra genebra.
- De qualquer forma, o caso é este. Você mesmo sabe que não
tem experiência para este lugar. O chefe de redacção disse-nos na
reunião que você é especializado em... ha... algo relacionado com
construções ou algo... ah, sim. agrimensor.
E concedeu a si mesmo uma longa pausa; era um indicio de
perícia, uma pausa depreciativa, o bastante para a vítima se
compenetrar bem da sua insuficiência. Mas onde teria ele arranjado
aquela ideia do agrimensor... Sagoe encolheu os ombros. Afinal pouco
importava.
- E, como é óbvio, você aborreceu imenso o nosso conselho,
especialmente o nosso presidente. Mas... hum... a situação ainda
pode ser reparada... bem, só depende de si, compreende o que quero
dizer?
Winsala fez sinal pedindo outra bebida. Seguidamente, abriu as
mãos e sorriu.
- Se wa s'orno fur wa?
- Quanto?
- Há quatro de nós que é preciso convencer. Se fosse só eu...
- Quanto?
Winsala pegou na genebra, rindo.
- Não lhe resta muito da diplomacia britânica. Parece-se mais
com os americanos, franqueza acima de tudo. Eu também sou assim.
Sabe, gosto dos americanos, não são como os ingleses, cheios de
subtilezas, muita diplomacia, mas muito mais perigosos quando
dizem “Sim, se faz favor” ou “Não, obrigado”. Ah ah ah ah ah. Prefiro
as pessoas francas, como eu.
Escondido no íntimo de Sagoe, tal como em diversos outros
jovens da sua idade, havia um centro traumático de óleo de rícino, e a
proximidade deste colóide desprezível tomava a genebra a poção
mais repugnante da sua existência. A genebra podia ser famosa como
o segredo dos velhos sem idade das ribeiras nigerianas e o único
antídoto do reumatismo dos pântanos, mas era difícil imaginá-la
deslizando por aquelas tripas velhas abaixo; parecia mais provável
que descesse até às suas articulações raquíticas e Sagoe sentia-se
nauseado cada vez que Winsala fazia estalar os lábios.
- Diga-me apenas quanto.
Winsala parou de passa a língua sobre o rasto de genebra nos
lábios e assumiu novamente uma pose de homem de negócios.
- Como você é novo, digamos que é algo para bebermos um
copo. Hum, que tal... cinquenta libras?
Havia muitas formas de fazer o jogo do outro, alimentar-lhe as
esperanças como a uma criança esfomeada, e Sagoe percorreu-as
mentalmente uma a uma. eliminando-as: por fim. quando o aroma da
genebra foi mais forte, disse:
- Suponha... suponha que eu lhe dizia que recebi um telefonema
do chefe de redacção, não há ainda quinze minutos, dizendo-me que
o lugar já é meu?
Winsala pareceu sucumbir e a sua confiança desvaneceu-se. Ou
não? Não era impossível que tudo tivesse sido uma ilusão. Que era
agora substituída por um Winsala rindo às gargalhadas, igual ao do
episódio amoroso, olhos cerrados e a cadeira apoiada apenas nas
pernas de trás, durante uns bons sessenta segundos.
- Meu caro, nunca dá resultado tentar enganar os nossos
superiores. Quando um cachorro cede a passagem a um antílope, o
melhor é olhar e ver se o pai leopardo, em pessoa, não está alguns
metros atrás. Vou confessar-lhe um segredo e, se quiser, faremos
uma aposta e veremos quem tem razão. Segunda-feira você vai
receber outro telefonema do seu chefe de redacção, dizendo-lhe que
a administração rejeitou a sua nomeação. Bem vê, somos nós que
temos a última palavra. Não acha que devo ter tido o senso de falar
com o Nwabuzor antes de vir aqui? Eu sabia que ele lhe ia telefonar.
O lugar está ao seu alcance, mas cabe-lhe a si assegurá-lo.
Desta vez, Sagoe estava tão atento ao rosto do outro que viu o
sinal para pedir a genebra. O criado de casaco verde também parecia
conhecer este homem, quase reagindo antes de Winsala ter
levantado a cara no jeito especial. Sagoe, frustrado, concluiu que o
chefe não se deixava derrotar facilmente. Mas não suportava por
mais tempo o cheiro do outro e pôs-se de pé quando o criado se
avizinhou.
- Vou ver o que posso fazer.
- Ora assim é que é. Quando o inspector sanitário espreita para
debaixo da cama, anda à procura de kola e não de tanwiji.
O cheiro da nova bebida acompanhou Sagoe na sua retirada e
apeteceu-lhe ter ali uma casca de limão para mascar.
Dirigiu-se a varanda, aspirando avidamente golfadas do ar da
lagoa. O crepúsculo caía e as luzes na rua começavam a bruxulear na
sua eterna luta contra um poder incerto. A, sim prosseguiriam
durante metade da noite e então talvez o empregado de serviço
descobrisse a bobina deficiente e a tirasse, deixando a rua na
escuridão por um mês ou mais.
Um comprido carro americano estava estacionado quase por
baixo da varanda. Havia algo familiar naquelas linhas cromadas...
efectivamente, era mais que isso. As almofadas orientais, visíveis
através da janela da retaguarda, símbolos familiares de uma
opulência ordinária; Sagoe recordou o local - O Independem
Viewpoint. Esgueirara-se entre aquele pára-choques e a parede,
quando abandonara o edifício. Seria o chefe Winsala? Sagoe olhou de
novo a vaga figura na retaguarda que julgara ser o condutor; um
homem dormia com a cabeça caída para diante, sobre o peito. O boné
era inconfundível, com a aba triangular do abetiaja espetada
heterodoxamente sobre o pescoço. Sir Derinola, presidente do
conselho de administração.
Sagoe não o relacionou logo com a personagem que acabara de
deixar, mas os seus desígnios revelavam-se impiedosa e cruelmente.
E Sagoe sentiu um intenso embaraço por ser testemunha da
descoberta cruel de que homens cuja idade exigia respeito, se
entregassem a maquinações tão mesquinhas. Sir Derinola dormia
pacificamente e Sagoe experimentava um sentimento de vergonha.
Era ele o culpado por se ter assenhoreado de segredos que nunca
deveria conhecer. Mas como, como começara aquilo? Afinal, Winsala
apenas pedira cinquenta libras. Para ele era obviamente bastante,
mas para Sir Derinola significaria alguma coisa? Talvez vinte para
Winsala e trinta para Sir Derin. A sua mente concentrou-se na fria
realidade dos números. Haveria outros conselhos de admissão e
outras oportunidades, quiçá duas vezes por mês. Um provento
ocasional sessenta por mês, isentos de impostos. Fazia sentido. Valia
a pena dormitar incógnito num carro com ar condicionado, enquanto
um testa-de-ferro, um palhaço descarado :omo WinsaIa, tratava dos
ajustes. Provavel-mente, haveria mais encontros destes esta noite. A
genebra, que parecia ter-se-lhe agarrado à roupa, e a astuta cabeça
no carro, lá em baixo, provocaram-lhe náuseas. Winsala parecia-lhe o
mais limpo dos dois, abordando-o e mostrando claramente aquilo que
era. Agora Sir Morgue, lá em baixo...
Sagoe dirigiu-se ao seu quarto e deitou-se na cama.
contemplando o tecto. Ligou ao serviço de quartos e pediu que lhe
enviassem um gin tónico e um limão fresco à parte.
Uma vez. havia muito, muito tempo, nem mesmo lhe era
permitido o limão depois do purgante semanal. Egbo e ele discutiam
o problema na catequese, ao domingo, garatujando as mesas com o
lápis.
- É melhor preparares-te. A minha mãe vai a tua casa hoje e ela
não me deixa chupar limão.
- Porquê?
- Não sei. Só sei que tu também vais ser proibido. Houve um
longo intervalo. A tutora de Egbo casara recentemente e a mãe de
Sagoe resolvera ensiná-la a combater as enfermidades infantis.
Particularmente, os métodos preventivos. Um deles era o purgante
semanal ou. no mínimo, quinzenalmente. O sábado era um dia
angustiante para Sagoe e agora surgia esta ameaça de cenapodium
sem limão, o horror da náusea eterna, de uma língua que, dois dias
depois, ainda estava viscosa como um caracol.
- E por que não o alúmen? - escreveu Egbo. O caso não o
incomodava muito, pois a esposa do mestre-escola receava-o um
pouco. Mas a mãe de Sagoe estava sempre presente e persuadira-a
de que Egbo era uma mercê divina para experiências de saúde.
- Experimente isso naquele diabrete durante um mês e veja a
diferença que faz.
Sagoe considerou o alúmen como hipótese.
- Sim, deve resultar. Onde o poderei arranjar?
- Nós temos lá em casa. O professor guarda-o no armário dos
remédios.
- Há lá o suficiente?
- De sobra.
A mesa já estava coberta de garatujas e não tinham borracha.
Porém, a solução fora encontrada. E então Sagoe lembrou-se de uma
ideia que o inquie-tava havia algum tempo e que lhe parecia urgente.
De modo que rasgou a margem de uma das folhas do seu Pilgrim's
Progress e rabiscou nela.
- E Deus também toma. O catequista surpreendeu-os.
- Tu, Sagoe. e tu, Egbo. Tragam os vossos corpos infinitesimais
até aqui e aproveitem para trazer essa correspondência.
Ficou claramente desapontado. - E Deus que faz? Numa aula
dominical de catequese até a criança mais estúpida acharia
explicações legítimas e louváveis para uma tal questão, pelo que
preferiu não investigar. Todavia, o papel parecia-lhe suspeito e exigiu
que eles lhe trouxessem os livros. Dehinwa estava sentada perto
deles, mas a sua recusa em trocar os livros foi firme, apesar das
ameaças ciciadas de diabólicas torturas depois da aula. No entanto, a
punição foi leve. duas páginas de Pilgrim's Progress a serem
memorizadas até à aula do domingo seguinte.
Posteriormente, havia a dúvida a ser esclarecida.
- Querias saber se Deus bebe óleo de rícino?
- Sim.
- Ele não come, por isso não precisa.
- Se eu não comesse durante uma semana inteira, a minha mãe
continuaria a dar-me a dose habitual. Na verdade, até era capaz de
pensar que se esquecera da última dose.
Dehinwa acercara-se deles, mas os rapazes ignoraram-na.
- O cenapodium é pior. O meu vai ser de novo no próximo
domingo. É claro que Egbo tem sorte, não tem de fazer estes
tratamentos.
- Só quando tenho dores de barriga ou quando liberto
demasiados gases. E, mesmo assim, ela tem de pedir o apoio da tua
mãe.
Dehinwa perguntou:
- És mesmo tu quem libertas os gases? Tens de estar atento,
sabes? A minha tia passa o tempo a fazê-lo e atira as culpas para
cima de nós, as crianças. Mas eu sei quando é ela. Adivinho sempre
quando ela o vai fazer. Curva as nádegas para um lado e, então, toda
a gente foge.
Sagoe sentiu a sua superioridade.
- A minha mãe é mais regular. Sempre, depois das orações da
tarde, bem alto e prolongado. Quando o bombardeamento cessa, diz:
“Obrigada, Senhor.” E todos nós temos de responder: “Ámen.”
Dehinwa exclamou:
- A tua mãe não tem vergonha. Mesmo diante de convidados. -
Sagoe tentou bater-lhe com a Bíblia, mas ela esquivou-se com
ligeireza.
Haviam chegado à porta de Egbo.
- Não te esqueças do alúmen. Egbo deteve-se.
- Agora me lembro. Sabes o que é que o farmacêutico me disse?
Garantiu-me que agora fazem o rícino em comprimidos como os
rebuçados.
- Verdade?
- Ele mostrou-mos. Redondinhos. como os ovos de um lagarto.
Sagoe deu largas à sua alegria, mas pouco depois sacudiu a
cabeça.
- Não servirá de nada. A mama vai dizer que não pode resultar
tanto como o líquido.
- Mas se o farmacêutico disse...
- O farmacêutico vai concordar com ela. Bem sabes que ele está
sempre pronto a agradar à clientela. - Dehinwa ergueu a cabeça, com
desdém, afas-tando-se alguns passos.
Os dois rapazes ficaram reflectindo por instantes, acabrunhados
pela desesperança da situação.
- Não te esqueças do alúmen - e Sagoe apressou o passo,
ultrapassando Dehinwa. Ela correu atrás dele. censurandoro:
- Só porque eu não quis trocar o meu livro pelo teu...
Alguém o despertou um pouco mais tarde e Sagoe saltou da
cama alarmado.
- Meu Deus, que horas são?
- Sete e meia.
- Oh! Ainda? Pensei que tivesse dormido mais tempo...
- Parou de repente e Bandele riu brandamente. Sagoe estendeu a
mão para a parede e carregou no interruptor. Durante um longo
minuto ficaram parados, olhando-se. Depois, caíram silenciosamente
nos braços um do outro. Kola apareceu então e Sagoe soltou-se,
abraçando-o por seu turno e gritando pala-vras triviais que nunca
pensara vir a dizer: - Não mudaste nada. recebendo a resposta: - Nem
tu. - Transbordando de alegria, envolveu a cintura de Bandele com os
braços e levantou-o bem alto, fazendo com que a cabeça de Bandele
quase chocasse com o tecto. Sagoe pô-lo no chão, exclamando:
- Meu Deus, se não é o gigante Alakuku! Nem um centímetro
mais baixo e tão solene como a realeza britânica.
Bandele sentou-se na cama.
- És o último a regressar. Sekoni antecipou-se-te por três meses.
Kola inquiriu:
- Por que tens estado escondido? Confessa.
- Depois explico. Como souberam que eu regressara? Kola riu-se.
- Pela tua ficha. Ou não sabias que tens uma?
- Uma ficha? A que propósito?
- No Foreign Office. Não é voz corrente que és comunista?
- Bem.
- Egbo trabalha no Foreign Office. Disse-nos que tinhas
regressado.
- Com mil raios... - Sagoe deu uma palmada na coxa, rindo - E
andava eu a passear-me por aí, furtivamente, pensando que ninguém
sabia da minha existência.
- O teu dossier enche um arquivo inteiro. Egbo há-de contar-te
mais sobre isso.
Sagoe coçou a cabeça.
- O que é que aconteceu a Egbo? Podia ao menos ter-me
telefonado.
- Bom. suspeitámos que lá terias as tuas razões para te
esconderes. Por conseguinte, decidimos esperar uma semana ou
duas.
- Bem. não é nada sinistro, garanto. Simplesmente, não queria
que a minha família soubesse que eu estava de volta. Sabes, decidi
arrumar a minha vida primeiro: arranjar um emprego ou decidir não
arranjar nenhum, uma breve visita de cortesia e depois acabou-se.
Cada um à sua vida.
Bandele abanou a cabeça:
- Isso não é fácil.
- Talvez não, mas tenciono tentá-lo.
- Egbo ainda não chegou?
- Não, ainda não o vi.
- Combinámos encontrar-nos aqui às sete. para te fazermos uma
surpresa. Apanhámos um engarrafamento na estrada de Ibadan. Um
acidente horrível.
- Vamos lá para baixo, para o bar. Tinham algum plano para esta
noite?
- A noite é tua. Diz-nos o que queres fazer.
Ao descer o último degrau da escadaria. Sagoe apercebeu-se de
um silên-cio invulgar no salão. Interrompendo a sua turbulenta
entrada. Sagoe deteve-se. recordando a visita do chefe Winsala A
entrada deles pareceu coincidir com o auge de uma peça teatral de
baixa qualidade. O bar ficava no outro extremo do salão e um cacho
de uniformes verdes concentrava as atenções sobre a cena.
- O que é aquilo?
- Esperem
O chefe Winsaja parecia estar adormecido e um criado rondava-
o, esperando uma oportunidade. Subitamente, esta surgiu. A ampla
manga da nçInuUi subiu e virou na sua direcção. Obviamente, o
criado esperava esto gesto. Recuou elefantemente, murmurando:
- Mas, Oga, responda-me. - Os outros criados alimentaram a
fogueira, para quebrar o aborrecimento, rindo-se ruidosamente.
Era óbvio que esta cena já se desenrolava havia algum tempo. A
voz de Winsala era forte:
- Não te aproximes de mim a não ser que me tragas mais
genebra.
- Mas, Oga, tem de pagar primeiro aquelas que já bebeu. Em
frente do chefe Winsala estava uma garrafa semi vazia, deitada de
lado.
O papel de uma varejeira verde de hotel, pairando em tomo de
bêbados sem dinheiro, era um papel que ele compreendia e o criado
voltou a avançar:
- Mas, Oga, peco-lhe... eu queria fechar. Winsala berrou
atroadoramente:
- Você é um atrevido. Se me continua a chatear, faço com que o
despeçam. Já lhe disse que estou à espera do meu amigo. Agora
desapareça.
Bandele, notando a expressão do rosto de Sagoe, perguntou:
- Conhece-lo?
- Espera.
Nos obscuros recessos da fé de Winsala, Sagoe ia regressai com
cinquenta libras ou metade daquela soma e uma promessa de
conseguir o resto. Com a mesma segurança, aproveitara a ocasião
para pedir uma garrafa de genebra. Já a reduzira liberalmente a
metade, mas Sagoe demorava a regressar de bandeja estendida, a
varejeira verde apresentou-se novamente, cercando-o; todavia,
Winsala parecia estar finalmente a dormir.
- Hein? Então está a dormir? - a varejeira tentou espreitar os
olhos sob o boné. A paciência de Winsala foi premiada, uma mãozorra
que estava vigilante subiu disparada e a bandeja voou, colhendo a
varejeira na probóscide e acabando por tilintar sobre os azulejos.
A varejeira retirou-se ferida, e o seu rosto passou por diversas
expressões de fealdade. O cochichar dos colegas indignados ampliava
o incidente para além dos limites Era o único som que se ouvia, o
zumbido indolente de um enxame de varejeiras ocupadas sobre
algum fruto apodrecido. Os ordeiros clientes do salão viraram as
costas, embaraçados por adivinharem a humilhação que se ia seguir.
Os criados tinham antenas sensíveis, um homem bem grande estava
prestes a ser lançado no estrume e todos esperavam já a primeira
torrente de insultos do criado.
A bola da indignação fora-lhe passada e a varejeira não se
apressou, aquecendo lentamente. Não era um noviço, sabia
exactamente quando o impulso se perderia e a indignação se tornaria
oca.
- E injusto, inconcebível, ter de ouvir uma coisa destas. Trabalho
aqui honestamente, ninguém me deveria tratar como um cavalo.
Atrás dele. ouviram-se murmúrios de aprovação.
- Acho que é caso para a polícia. Nenhum cliente tem o direito de
me enfiar a bandeja na cara.
O chefe Winsala, com as imensas formas encolhidas, a confiança
esfumada, esperou num espesso nevoeiro, resignado com o
desenrolar de uma cena vergonhosa, degradante para um homem da
sua posição. Intimamente, só para si. murmurou uma torrente de
impropérios silenciosos enquanto a sua cabeça se sacudia, pesarosa...
Agba n't'ara... não é caso para regozijo quando a criança vê o pai
nu, L'ogolonto. Agba n't'ara. O eunuco sensato afasta-se das
mulheres: o amanu-ense esfomeado aperta o casaco sobre a sua
esguia cintura e quem dirá que a sua barriga está vazia? Mas quando
o elegungun é desmascarado no mercado, poderá ele então rogar a
egbe que o arrebate para a segurança do igbale'1 Não lhe dirão que o
bosque é só para os detentores do mistério? Agba n t'ara... Quando o
homem imprevidente pede emprestada uma cauda de cavalo envia,
um lacaio: quando o criado regressa de mãos a abanar, exclama: -fui
eu quem te mandou ir?” O adúltero que marca encontros num quarto
com uma única saída, não está pedindo que o seu escroto seja pasto
dos peixes de Ogun? Auba n'f ara...
- Não quero que se diga que me rebaixaram. Estes tipos
importantes não respeitam ninguém, mas este agora vai ver...
Sagoe avançara inconscientemente, pegando na bandeja caída.
Quando se ergueu, ouviu um súbito roçagar de tecido e voltou-se com
vivacidade na direcção da entrada principal. Junto do rebento de
palmeira espetado numa metade de tambor de petróleo, estava Sir
Derinola. E Sagoe nunca, nunca mais esqueceria o seu semblante.
Além do medo e da dignidade ofendida, reflectia-se nele a angustia
da indecisão. Viera ver o que ocasionara a longa demora e entrara no
início da desforra. Era. a princípio, uma estranha espécie de fascínio,
como se visse no chefe Winsala o seu próprio destino, reconhecesse a
lógica decadente da perda de respeito próprio. Apercebera-se
demasiado tarde do momento de socorro e, à medida que o ia
adiando, a situação tomava-se ainda mais irremediável e, a cada
passo que dava em frente, a sua mente aconselhava-o a retroceder,
avisando-o de que Sagoe poderia voltar a vê-lo com o chefe Winsala.
Mas, acima de tudo, Sir Derinola estava realmente paralisado
meditando numa imagem futura, bem mais ameaçadora. Quando viu
Sagoe avançar, tentou encolher-se atrás da pobre palmeira. Os seus
olhares encon-traram-se, todos os subterfúgios estavam inutilizados.
Foi Sagoe quem desviou o olhar.
- O que é que se passa? - perguntou, empurrando de novo a
bandeja para as mãos do criado.
- Ele não quer pagar as bebidas.
- Então devia ter chamado o gerente.
- Não está cá. E eu não admito que me tratem assim. O próprio
governador-geral, quando vem cá, fala-me educadamente...
- Não sabe que ele é meu convidado?
- E que outra coisa podia eu fazer? Já passou a minha hora de
saída. Eu disse isso mesmo ao...
- Ponha as bebidas na minha conta. E pare de gritar comigo.
Pousou a mão no ombro do chefe Winsala.
- Vamos embora?
O outro levantou-se humildemente, dissipada a jactância.
Bandele fora ajudar Winsala do outro lado, mas Sagoe fê-los dar meia
volta repentinamente:
- Vamos para o outro elevador.
E pelo canto do olho viu Sir Derin ficar aliviado, virar-se e
encaminhar-se para o outro elevador.
Nwabuzor telefonou a Sagoe na manhã seguinte, incrédulo:
- Você trouxe consigo algum feitiço da América? O presidente
afirma que eu tenho de lhe dar o emprego. Sinceramente, que foi que
você lhe fez? Diga-me, que foi que você lhe fez?
- Mathias! Mathias! Vem cá, Mathias. O mandarete enfiou a
cabeça pela porta.
- Chamou, sor?
- Mathias, ainda és meu discípulo?
- Oga?
- Estou depenado. Conheces bem o empregado do bar?
- Ele é lá da minha terra.
- Nesse caso, não te deve ser difícil conseguir crédito.
- Oga, isso não. Isso é outra história. Quando é assunto de
dinheiro, ninguém se lembra de que terra é.
- Mathias, vai lá e não voltes sem o habitual. Duas.
- Oga, repito...
- Mathias, hoje é dia de leitura da Bíblia. Vai lá.
- Está bem, oga. Vou tentar.
A sessão com o chefe de redacção fora penosamente breve.
Nwabuzor chamara-o ao seu escritório e dissera:
- Quero que oiças isto. - Na mão tinha um maço de folhas que
continham a história de Sagoe sobre Sekoni. Intitulava-se: Quem
organizou a Jugo? Os factos eram bem expostos, nada podia ser posto
em causa.
Enquanto Nwabuzor esperava o telefonema, disse-lhe:
- A propósito, o teu amigo, o perito branco, desapareceu. Aquele
cujo relatório reprovou a instalação de energia.
- Desapareceu como?
- Desapareceu, simplesmente. A comissão de reclamações do
pessoal aprovou uma reclamação dele por lesões sofridas no
cumprimento do dever. Adivinha quanto recebeu ele...
Sagoe abanou a cabeça.
- Oito mil. Mais dois mil como compensação pela cessação do
contrato.
- Estou a perceber.
- Não percas já a esperança. A tua história não perde o valor. Pelo
menos, por enquanto... Há várias maneiras de o comprovar... se
quisermos.
- Mas tu não queres?
- Isso depende. Espera, depois explico... estou... Sagoe levantou-
se.
- Prefiro não ouvir qualquer explicação. Isso representa duas
semanas de trabalho árduo.
- Senta-te, senta-te. Caramba, detestas mesmo esperar. Estou,
estou... daqui fala Nwabuzor. Desejava falar com o presidente...
- Sinceramente, preferia deixar as coisas como estão. Bem sabes
que para mim era quase uma questão pessoal.
- Essa é uma má visão jornalística, meu amigo. Em breve o
descobrirás. De qualquer modo, cumpriste o teu dever, conseguiste a
história e o resto fica a nosso cargo. Não faças essa cara... estou...
estou... - Cobriu o bocal com a mão: Depressa, pega naquela
extensão.
Na outra extremidade do fio, soou a voz inconfundível de Sir
Derinçla:
- É você. Nwabuzor?
- Sim, senhor presidente. A respeito das “revelações”, podemos
usá-las agora?
- Não, arquive-as.
- Quer dizer que as devo adiar, senhor presidente?
- Não, já as usámos.
- Oh, compreendo, senhor presidente. - E, obviamente em
atenção a Sagoe, insistiu: - Então eles aceitaram um acordo?
- Não quero falar desse assunto pelo telefone.
- Claro que não. senhor presidente, desculpe.
- A propósito, quem trabalhou naquilo?
- O nosso novo homem, senhor presidente.
- Quer dizer aquele... o rapaz que veio da América?
- Sim, senhor.
Sir Derin manteve-se calado por algum tempo. Nwabuzor
prosseguiu:
- Fez um bom trabalho, não acha?
- Sim, bastante satisfatório.
Sagoe estava espantado, porque Nwabuzor escarnecia
claramente o seu interlocutor.
- Não foi uma sorte termos ficado com ele, senhor presidente?
A voz de Derin endureceu bruscamente:
- Esquece-se de que fui eu quem lhe disse para o empregar? - e
desligou irritado.
Sagoe baixou lentamente a extensão, encarando Nwabuzor. O
chefe de redacção fez-lhe sinal paia que se sentasse.
- Bom. acabou-se. Agora já sabes.
- Já sei o quê?
- Tu calas a tua boca. eu calo a minha. Simples e claro.
Conseguiste tirar o presidente de alguma sórdida encrenca.
- É sempre o mesmo. Faz parte da protecção mútua. Antes de
publicarmos qualquer revelação sensacional como esta. o caso passa
pelo nosso advogado. E ele. por sua vez. consulta o presidente. A
decisão está fora do nosso alcance.
- Continua. Estou ansioso por aprender.
- Bem. ele informa a outra parte de que dispõe de certas provas
e dados. Se eles decidirem que podem suportar as consequências,
respondem-nos que façamos o que quisermos. De outro modo,
replicam: -.Bem, realmente temos estado a coligir certas coisas sobre
fulano, um dos vossos elementos”, e enviam-nos uma cópia. Ora.
imagino bem em que sarilho se teria metido Sir Derin! Porém, a tua
investigação chegou a tempo. Concordaram numa troca de silêncios.
- E em relação ao meu amigo?
Nwabuzor encolheu os ombros como que dizendo: - Que posso
eu fazer?” Sagoe pôs-se de pé.
- Espero que não ponhas objecções se enviar isto a outro jornal.
- Sagoe, escuta, estou neste jogo há trinta anos. Acredita que
houve um tempo em que eu lutava por esses ideais. Passei de um
jornal para outro, despedindo-me de cada um num acesso de virtuosa
indignação. Mas. meu amigo, o jornalismo aqui é apenas um negócio
como outro qualquer. Tu fazes o que o teu patrão manda. Acredita.
Sagoe, é o melhor a fazer.
Sagoe pegou no manuscrito.
- Vou enviá-lo aos outros jornais. Nwabuzor abanou a cabeça,
sem esperanças.
- Mas. Biodun. tu és nosso empregado. Usaste o tempo que te
pagamos, isso é propriedade nossa.
- Não se eu me demitir.
- Não, não. e inútil. Escuta, os outros jornais não tocarão nisso. O
processo vai repetir-se e apôs o primeiro contacto compreenderão
que já se realizou um acordo anterior.
- Nesse caso...
- Não. não. não digas nada que agrave a tua posição aqui.
Esquece isto tudo. Sei que pensas dever alguma lealdade ao teu
amigo: crê no que te digo. não deves lealdade a ninguém. Um dia
hás-de compreender que cada um tem de se defender sozinho.
- Essa é certamente uma boa maneira de encarar a vida.
- £ uma boa maneira e a única. Olha. o teu amigo há-de arranjar
outro emprego e tu logo esquecerás isto tudo...
A porta bateu violentamente e Nwabuzor voltou ao seu trabalho,
pensando que Sagoe iria amadurecer.
Sagoe pegou no seu volume in-quarto e abriu-o ao acaso.
- Anda cá, Mathias, tiveste sorte? Mathias entrou com uma
garrafa em cada mão.
- Ele diz que não espera até ao fim do mês. Só me deu crédito
até depois deste fim-de-semana.
- Estás bem, senta-te.
- Vou abri-las primeiro, ora.
- Obrigado. - Esperou até a cerveja cessar de gorgolhar, depois
passou o livro a Mathias. - Abre-o. Abre-o onde te apetecer.
Avidamente, como alguém que se habituara àquele prazer,
Mathias obedeceu.
- Óptimo. Agora bebe que eu vou começar.
- ... E o silêncio é para o vacuolizador como as emanações de
ópio são para os místicos do Oriente. O silêncio dos lavabos numa
mansão suburbana inglesa, quando a família e os vizinhos partiram
para a sua labuta diária, e o hóspede se esvazia sozinho. Esse é um
silêncio palpável. Em França, é claro, o mito da sofisticação não é
mais do que uma postura superficial e grosseira - como sapos
desovando. Aí busquei em vão as emanações do silêncio, até que,
finalmente, para escapar ao estado humilhante dos lavabos das
hospedarias, me retirei com um livro e uma pá para os bosques
vizinhos - havia ao menos essa redenção, os bosques espalhavam-se
a perder de vista. Aí construí um pequeno caraman-chão onde
regularmente meditava, lia ou escutava meramente as melodias dos
pássaros gauleses. Era, confesso, uma vacuolização retraída, carecia
de completo conforto, total relaxamento muscular. Pior ainda, a
súbita sensação de uma folha de erva molhada no meio das minhas
devoções fazia-me saltar com medo de que uma cobra estivesse a
tentar lamber-me os tomates. Mas o silêncio húmido, pesado,
intercalado com os chilreios dos pássaros, era uma experiência
mística, tornava o risco de emasculação uma coisa de somenos
importância. E agora, meus amigos, tenho de narrar-vos um episódio
vergo-nhoso. Dois estudantes em passeio seguiram-me um dia,
curiosos de saber onde conduziria aquela combinação diária de livro e
pá. Ainda hoje me revolta pensar Que fui de facto observado às
ocultas nesta função individualíssima do homem. Mas revelaram-se
alunos interessados, purificando-se do tabu ao gastarem, num tasco,
o orçamento de três dias numa só noite. Concedi-lhes a minha
absolvição e o vinho tomou-se generoso, pelo que os iniciei
inteiramente nos mistérios da vacuolização. Pergunto-me agora se a
questão alguma vez se resolveu. Eles converteram-se, recordo hoje,
àquilo que, para mim. era um mero sistema de recursos. No solo
húmido e na vegetação molhada, clamavam eles, nas manhosas e
dissimuladas manobras de répteis e arbustos, estava a verdadeira
vacuolização. Isso e primitivismo vegetal, gritei eu, a vacuolização
exige a arte e a ciência do homem. A luz tem de ser suave aos nossos
olhos. O purificador do ar - pois isto é incenso - tem de ser
seleccionado para os correctos cambiantes do odor. Os livros e as
pinturas devem ser também os indicados, de modo a que um desejo
de mudar a direcção do pensamento não induza à frustração. Uma
extensão altifalante de música seleccionada, não os caprichos de
migração periódica. Durante três dias, saciámo-nos de dialécticos
vacuo-lizantes. És um burguês vacuolizador, berravam eles - bem
sabem como os franceses adoram polémicas -, e eu replicava: e
vocês são pseudonegritudinistas vacuolizadores! Seus loucos
desviacionistas, não sois capazes de compreender? A atmosfera deve
ser criada como numa igreja. As minhas passeatas de livro e pá eram
meros expedientes. Mas eles lançavam-me à cara Andrew Marvell.
proferiam refrões de -.um pensamento verde por uma sombra verde”.
Contra as suas visões de natureza virginal e vacuolização arbórea, as
minhas advertências sobre a ameaça reptilária resultaram ineficazes.
Era uma satisfação espalhar as sementes da vacuolização no
continente europeu, mas, de certa forma, era uma pequena derrota,
pois encontrava-me impotente perante a diabólica regressão deles...
Solenemente, Sagoe fechou o livro e permaneceram em
silenciosa medi-tação.
- Jii sabia. Mathias. que eras naturalmente dotado. Com efeito, es
uma espécie de vidente. Poucas pessoas têm dedos tão subtilmente
harmonizáveis com a sua psique.
- Se acha que sim.
- Absolutamente, Mathias. Silêncio. Era isso. Silêncio. Tê-lo aberto
no silêncio, eis a genialidade. Mathias. meu bom amigo, eras um
predestinado a salvar-me do manicómio, tenho melhor sorte do que o
meu querido amigo Sheikh. Agora ele. e para aí que caminha...
Que Deus o salve

- Deus não o salvará, Mathias. Imagina, eu nem sequer sabia que


fora vendido de corpo e alma ao senhor presidente deste lugar, e
hoje, após duas semanas de remar contra a maré, dizem-me... não,
nem mesmo me dizem, esfregam a minha cara naquilo, com toda a
calma. És propriedade da Morgue, dizem-me. agora volta para o
trabalho.
- Não encare as coisas assim, oga.
- Porque o bom cavaleiro deve ser poupado, queimam o Sheikh.
Não ligues, Mathias, sei que estou apenas com pena de mim mesmo.
Afinal, as pessoas como Sekoni acabam sempre na fogueira, mas
caramba, eu não sou obrigado z ajudá-los a construir a pira.
Mathias esvaziou a garrafa.
- A vida é assim, oga.
- Silêncio. Mathias. Silêncio. Já conhecia muitas formas de
silêncio, mas é altura de aprender mais algumas.
E os votos de silêncio. Acima de tudo, os votos de silêncio devem
ser mantidos. Contra o amor, contra a necessidade e a complacência
de ceder. E o remorso, mesmo o remorso, mostrava-se impotente
contra um silêncio como o que ligava o pai de Sekoni a uma distância
silenciosa até à morte. Uma rapariga cristã! Este pecado, tão odioso,
blasfemo, tão impróprio de um filho, já não feria a memória de Alhaji
Sekoni, mas um voto era um voto e o orgulho refreava a sua carne
sequiosa quando esta desejava apaixonar-se. Há cinco anos estivera
ele à porta do Registo Civil e implorara à fúria das tempestades que
se abatesse sobre a traição do seu sangue, o manto haji enfunado à
volta dos ombros como a juba de Lear num tojal de asfalto. E a sua
desolação caia igualmente, igualmente insolúvel. - Nunca, nunca mais
abrirei a minha boca para te falar. Que Alá em todo o seu poder me
fira de morte se voltar a dirigir-te a palavra!
E agora, virando as costas, obstinado e firme, aos transes da
separação. Alhaji Sekoni, que quase enlouquecia de dor e aflição, não
se separava do médico por um instante. Como está ele. senhor
doutor, diga-me como está ele! Vai melhorar? E lembre-se que nada
lhe deve faltar. Se quiser enviá-lo a especialistas no estrangeiro...
não? Não é verdade que a Suíça tem o melhor de tudo? Mas. senhor
doutor, certamente haverá algo que eu possa fazer... não há nada que
eu deva fazer? De que fala ele? E sobre quem fala? Menciona nomes?
Não, não, era só para saber... Ele expressou o desejo de ver alguém
em particular? Não? Sempre ouvi dizer Que. muitas vezes, eles
querem ver uma ou outra pessoa. Está uma enfermeira com ele
permanentemente? Mas devia estar... seria terrível que ele quisesse
ver algum dos amigos ou... parentes, e nós nem sequer chegássemos
a saber... não, não, ele não tem irmãos nem irmãs... bom, se houver
alguma coisa, talvez uma mudança de ares. o senhor é o médico, que
acha? Uma mudança de ares, umas férias são sempre uma coisa boa.
não é verdade?
O médico compreendia quem necessitava realmente de alívio e o
paciente mais idoso saía então, já a caminho da convalescença.
Aproximava-se o tempo de peregrinação e Alhaji Sekohi conhecia uma
cura para os sem esperança, e essa seria obtida quando o seu filho
voltasse o rosto, não para um Verão em Londres ou quinze dias em
Veneza, mas para Meca. As mãos de Sekoni, plenas de admiração e fé
nos milagres, transbordavam de esperança enquanto beijavam as
ruínas da velha Jerusalém e não a Pedra Santa... mas que podia Alhaji
saber disto...? Através de bazares de relíquias espúrias e recordações,
deixando bem para trás as camisas dos milhares de brancos na sua
louca corrida de quarenta voltas ao negro santuário e a morte de
quatro ou cinco que tropeçaram... Sekoni forçando os dedos através
das muralhas esboroadas da velha Jerusalém, erguendo-se sem
piedade sobre a sua herança face a intimações perturbastes,
afinidades subitamente significativas... e ele estava apavorado, tão
apavorado... para lá de toda a realidade palpável!
Depois de regressar, Sekoni começou a esculpir quase
imediatamente. À sua primeira obra, uma frenética figura de madeira,
chamou O Lutador. Não pedira a Bandele ou a qualquer outra pessoa
que posasse para ele, porém, as feições e formas da figura central,
um protagonista em traje de peregrino, eram, inconfundivelmente, de
Bandele. Tendões retesados, quase agonizantes em excessiva tensão,
uma jibóia enroscada captada no instante do assalto, o equilíbrio de
estrangulamento antes da libertação, tudo era elasticidade e esforço.
E o resto, como um acto da sua criação que lhe levou um mês inteiro,
era delírio e desespero, como se o tempo fosse um empecilho. Kola
mandara construir um alpendre para ele, no prolongamento do seu
próprio estúdio, e observava, com respeito crescente. Sekoni a
transformar a madeira num espírito caprichoso cuja domesticação era
uma magia encerrada em energia. A face de Bandele era obviamente
uma evasão deliberada, mas inevitável. Apenas a figura singular de
Bandele poderia ter atingido tal conivência física e flexível com a
forma. Kola chamou Joe Golder, que posava para o quadro do
Panteão, e Golder, o americano, contemplou longa e silenciosamente
a escultura, acabando por se oferecer para a comprar. Sekoni abanou
simplesmente a cabeça e continuou a trabalhar. Entalhava agora -
eram os retoques finais - com firme concentração, eloquentemente,
com uma delicadeza que contrastava com a agitação anterior, e com
tal certeza que Kola começou a duvidar do seu conhecimento deste
homem, duvidando, no seu íntimo, se Sekoni alguma vez fizera outra
coisa na vida além disto.
- Vamos Joe - disse Kola -, regressemos ao Panteão.
- Mas ele não quer mesmo vender? - resmungou Joe Golder.
Impacientemente, com um traço de inveja na voz. Kola atalhou:
- Oh, bolas para a mania de comprar que vocês, Americanos,
têm!
E Kola descobriu que, realmente, sentia inveja. A menos que O
Lutador fosse uma daquelas coordenações de experiência e memória
que surgem uma vez na vida, Sekoni era um artista que esperara
muito até se encontrar, mas que finalmente o conseguira.
Certamente não havia hesitação na mão de Sekoni, hesitação que de
modo algum transparecia nesta sua primeira tentativa. Ó veredicto de
Joe Golder era o mesmo. Kola lutou futilmente com a sua tela durante
algum tempo, depois desistiu, confessando:
- O Lutador de Sekoni tirou-me a vontade de pintar.
Continuaremos amanhã.
- Tirou-te a vontade? Porquê? Auto-identificação?
- Quem me dera que fosse isso. Não. Simples inveja! explodiu
Kola. - Bolas! Tu sabes muito bem há quanto tempo ando a lutar com
esta coisa.
- Mas ainda não terminaste.
- Não é isso. Devias ter visto Sekoni a trabalhar. E depois, o
resultado. Meu Deus, quando penso que aquele tipo nada mais fez do
que andar metido em instalações eléctricas...
- Não sejas idiota. És um excelente pintor. Kola...
- Não tentes consolar-me.
Joe Golder levantou-se e dirigiu-se para a tela: Kola, porém,
impediu-o.
- Ainda não o podes ver. Oh, sei que parte dele c bom. Mas olha,
Joe, aquela coisa, aquela insignificância que te atinge infamemente.
que te faz vibrar, vim eu com frequência durante a noite estudá-la,
analisar-lhe os fundamentos...
- Mas julgas que isso é possível? Kola, foste tu quem pintou esta
tela, portanto, como esperas reagir a ela do mesmo modo como
reages ao trabalho de uma outra pessoa?
- Também sei isso. No entanto, houve algo que me sobressaltou
realmente quando observei aquele cavalo gago a trabalhar...
- Oh, acho que estás simplesmente com inveja - censurou Joe
Golder.
- Acaso já o neguei?
Gracejando a princípio, Joe Golder tornara o soturno receio de
Kola mais difícil de conter devido à sua feminina avidez pela escultura
de Sekoni. A sua chantagem foi inicialmente apenas experimental,
depois, sabendo as compli-cações que agora desesperavam Kola,
tornou-se verdadeiramente irresponsável, egoisticamente perigoso.
- Se não conseguires que ele ma venda, não voltarei a posar para
ti.
- Não me apetece brincar - replicou Kola.
- Não estou a brincar - avisou Golder.
Joe Golder não apareceu no estúdio na tarde seguinte e Kola
correu à biblioteca e seguidamente ao clube; todavia, não o
encontrou. Era improvável que ele estivesse no seu quarto; contudo.
Kola foi lá. Um pensamento tardio levou-o à sala de música onde o
trilo cheio de uma voz de tenor indicava a presença de Joe Golder.
Parou logo que viu Kola.
- Tenho um ensaio - disse.
- Ontem não tinhas.
- Pois. Tenho hoje. Kola gritou:
- Não te faças engraçado. Sabes muito bem o que quero dizer.
A acompanhante inglesa olhou de um para o outro, juntou as
suas folhas de música e disse:
- Bem, de qualquer modo, já estávamos quase a terminar. Se me
dão licença...
Kola rangia os dentes, sabendo perfeitamente o que a mulher
deveria estar a pensar dele, dado que toda a gente sabia o que Joe
Golder era.
- Então, vens posar? - perguntou logo que a mulher desapareceu.
- Se conseguires que o teu amigo me venda a escultura, posarei
parati.
Kola deixou-se cair numa cadeira.
- Por amor de Deus, o que é que se passa contigo? Não vês que a
tua cara está a sarar tão rapidamente que em breve será inútil?
Joe Colder, americano e três quartos branco, detestava a sua
cara e praticava nela horror atrás de horror. O Erinle do Panteão de
Kola, Joe Colder, apareceu um dia no estúdio com bocados
amarfanhados de papel de embrulho espalhados pela face,
consequência de diversas tardes de exposição a um sol abrasador.
- Que raio de mascarada é essa? - gritou Kola, furioso.
- O vosso sol é mais forte do que eu pensava. Kola, desesperado,
pôs a paleta de lado.
- Julgas que vou pintar a tua cara nesse estado? - Mas parou,
porque, à medida que ia falando, via a face de Colder mais
intensamente, descortinando a distinta ferocidade deste novo
carácter. Quando Joe Colder se zangava, sofria uma transformação
radical. Os olhos revelavam uma grandeza insuspeitada, distendendo-
se quase desproporcionadamente. Por vezes, a cabeça parecia ser
movimentada por cordas invisíveis sob a pele lisa, como a de um
cavalo aterro-rizado, à beira da epilepsia. E ele irritava-se agora, por
melindre e desprezo pela sua pessoa, ao ver que não podia suportar o
sol como um verdadeiro negro. Kola, mesmo antes de iniciar o seu
quadro sobre o Panteão, reparara como ele exprimiria bem um dos
deuses; quando, por fim, encetou a gigantesca tarefa, Colder surgiu
na sua mente como Erinle, quase tão obviamente como Egbo era
Ogun. E agora, com a pele áspera e a descamar-se, com algumas
clareiras de pele lisa, Joe Colder exibia uma ferocidade pós-sacrificial,
com restos de penas da carnificina coladas ao rosto. Kola agarrou de
novo no pincel e deitou mais tinta na paleta, trabalhando
furiosamente.
- Não queres lavar a cara? - pediu.
- Nem posso tocar-lhe. Não imaginas como me dói.
- Quando é que desistes de querer ser negro?
- Quando parecer três quartos negro. Sinto-me como Esau,
roubado e enganado nos meus direitos.
- Pareces o Jacob com crostas de trampa na face.
Os dias que se seguiram foram quase desesperantes; o rosto de
Joe Colder parecia descamar-se rapidamente. Uma inesperada brisa
atravessava o estúdio e um fragmento de pele desprendia-se
suavemente, flutuava zombeteiramente sobre os cavaletes e, após
diversos volteios no ar, saía ondulando pela janela aberta, enquanto
Golder sorria, divertido, e Kola olhava, impotente. Até que um grande
pedaço, quase vital para aquela colagem facial, um enorme bocado,
sépia e enrugado como uma chinela turca, se separou da face de
Golder e Kola descontrolou-se, atacou-o, capturou-o com a ponta do
pincel e esmagou-o na pintura, onde ficou, como um estranho
apêndice da orelha de Erinle.
Mais tarde, brigaram por causa da vaselina. Joe Golder tinha
tanto medo da dor que chegava a ser infantil. Mas o seu rosto fora
cruelmente queimado e um pouco de pomada retardaria o processo
de descarnação.
- Dói - e protegia o rosto dos dedos de Kola.
- Claro que dói. Quem te manda assar a cara?
E agora isto. Kola contemplou a frágil pele e viu o seu apelo à
sensatez de Golder despertar nele apenas os seus instintos de
arreliador. Golder ocupou o banco do piano e começou a trautear a
melodia do espiritual negro que estivera a ensaiar. Kola aproximou-se
e desfechou a tampa do piano sobre as mãos dele, com energia, mas
de modo a não o magoar demasiado.
- Vens comigo?
- Não.
- Muito bem. Mas desafio-te a entrar em qualquer clube nocturno
desta cidade, a partir de hoje. A tua última experiência não será nada,
comparada com o que te espera.
Golder estremeceu, relembrando, e Kola jogou mais
insistentemente com este medo de violência.
- Não te esqueças de que eu conheço toda a gente e tu não.
Qualquer clube nocturno, estás avisado. - Deu meia volta e afastou-
se. Joe Golder hesitou. Ibadan sem a música dos bares e dos clubes...
e seguiu Kola até ao estúdio.
E agora Sir Derin morrera. Sagoe experimentou as pernas,
perguntando a si mesmo por que se sentiria obrigado a ir ver o
enterro do presidente. Todos esperavam dele um grande artigo, mas,
no entanto, não era por isso. O seu fotógrafo estaria presente e o
orador, que faria o elogio fúnebre, forneceria de bom grado uma
cópia do discurso - Sagoe poderia encher duas centrais sem se mexer
daquela cama. Mas lá estava aquela sensação, aquela necessidade de
ir pessoalmente. Ergueu-se sobre os cotovelos e espreitou pela janela.
O tempo não estava convidativo. A chuva apagara a última chama de
vida no mundo lá de fora. A atmosfera estava morta. Chegou-lhe aos
ouvidos o som de panelas do outro lado da porta, e compreendeu que
Dehinwa regressara do trabalho. A cabra. Grande cabra. Acordara-o
com aquele chinfrim de panelas – deliberada-mente, tinha a certeza.
Mesmo assim, sentia-se melhor: o sono curara-o mila-grosamente. A
porta abriu-se.
- Oh, afinal não estás morto.
- Que horas são?
- Quase quatro. Queres comer alguma coisa?
Sagoe pôs-se de pé, experimentando uma perna depois da outra.
- Já me aguento em pé - anunciou.
- Perguntei-te se querias comer alguma coisa.
- Já que insistes, está bem. Mas primeiro preciso de um duche.
Sagoe sentou-se na banheira demoradamente, tomado por um
vago descontentamento. Ouviu Dehinwa chamá-lo diversas vezes,
mas não tinha vontade de responder. E então Dehinwa, pensando que
ele desmaiara nova-mente, precipitou-se para a porta da casa de
banho e abriu-a de repente. Sagoe estava sentado na banheira vazia,
fitando melancolicamente um comprido tubo de borracha que tinha
na mão. Ela soltou um grito e bateu com a porta enquanto Sagoe ria
entre dentes.
- Mas porquê uma banheira, Dehinwa? Por que há-de um
apartamento destes ter uma banheira, e não um chuveiro?
- Tens o chuveiro manual na mão.
- Esta coisa? Ora! Isto é um aspersório, um borrifador, um
irrigador de eunucos. Não sabes o que é um chuveiro? Pensei que
tinhas frequentado uma escola inglesa.
- Não fui eu quem construiu o apartamento.
- Ontem não foste tu quem construiu as ruas, hoje não foste tu
quem construiu o apartamento, portanto, suponho que também não
construíste aquele guarda-fato de pesadelo.
Ela manteve-se silenciosa, o que o enfadou.
- É sempre o mesmo nestas casas novas. Esta coisa
escorregadia que não se ajusta à torneira. A água sai toda pelos lados
- lá vai ela, já sabia. E depois dobra-se sobre si mesma e
bloqueia o fluxo. De qualquer modo, é demasiado curta. Como é
que me vou lavar agachado? Preciso de um jorro forte sobre a cabeia
que ponha no lugar os meus lobos doridos... - Sagoe calou-se. - Estás
a ouvir, mulher?
- Estava a imaginar-te quando fores velho. Um rabujento
impossível.
- Bom, já sabes de antemão o que te espera.
- Não temas, eu sei.
- E a outra coisa que te espera. Suponho que gostaste do que
viste.
- De que estás a falar?
- Daquilo que te assustou terrivelmente quando abriste a porta
há pouco. - E ele soltou um agudo grito de deleite, sentindo através
da parede o furioso silêncio de Dehinwa. Não compreendo como pode
uma rapariga civilizada como tu ser alvo de uma repressão tão
perigosa...
- Esse argumento é para as tuas amigas universitárias
americanas.
- Não precisas escarnecê-las. Ao menos não andam por aí
obrigando os noivos a agarrarem-se às virilhas com dores na sua
presença.
- Pelos vistos, não eram só os noivos, ou estiveste noivo de todas
elas?
- Ah, é assim? Pois toma cuidado. Um dia destes descobres que
foste longe de mais e então es. simplesmente, violada. Violada à boa
maneira antiga. E que diria a tua mãe a isso?
Momentos depois. Sagoe riu. saboreando a ideia.
- Oh, oh. estou mesmo a imaginar-te, dizendo: - Mamã. estou
grávida, mas a culpa não foi minha. Violaram-me.- E a tua querida
mamã responderia: - Pois é muito bem feito. Não te avisei que
evitasses acompanhar com esse tipo do norte?- A propósito, não me
disseste ainda quem é esse nortenho com quem dizem que costumas
sair.
- Um ministro bonitão com iate particular.
- Não digas disparates. Não pode ser tão perfeito.
- Uma mulher metediça. cujo conhecimento de Hciuxti se reduz a
xai í>t>he. ouviu o teu nome e pensou que eras do norte.
- Quem me dera sê-lo realmente, para que ela esticasse com um
ataque cardíaco quando nos casarmos.
- Esta bem. esta bem - disse Dehinwa. - Olha que eu não digo
coisas dessas soba- ;i tua família.
- Podes fazê-lo à vontade, minha menina. Detesto até o chão que
eles pisam e digo-lhes isso mesmo.
- No entanto, deixa a mamã em paz.
- Diz-lhe tu que me deixe a mim em paz.
- Que mal te fez ela?
- Veio expressamente de Ibadan para protestar por minha causa.
Isso é interferência por interesse. Por falar nisso, espero que não a
tenhas desiludido...
- Não. Porquê?
- Bom, contigo nunca se sabe. Comovida com o sofrimento dela,
isso seria exactamente o tipo de concessão que eras capaz de fazer.
Sabias que és a vítima ideal para as lágrimas da mãe?
- Com efeito - prosseguiu após uma pausa infrutífera, esperando
que Dehinwa se irritasse -, penso que tenho de pedir à tua avó que
fale contigo. Ela, sim, é o género de mulher que merece viver os anos
que lhe restarem.
- Claro, eu sabia que ela te agradaria.
A avó olhara longamente Dehinwa, estudando-a com grande
cuidado.
- Por que estás tão magra? Eras bastante roliça quando
regressaste a primeira vez de ilu oyinbo. - Fitou-a severamente, como
que perfurando-a com o olhar, depois abanou a cabeça, aliviada, e
disse maliciosamente: - Não, não me parece. Mas escuta, rapariga, eu
sei desse novo hábito que vocês, raparigas modernas, têm. Não sejas
estúpida como as outras. Se estiveres à espera de um filho, tem-no.
Um filho é uma coisa muito bela. O importante é conhecer o pai. Nós
nunca nos envergonhámos dos filhos que tivemos, diga a tua mãe o
que disser, e tu já tens idade para isso.
Dehinwa sentia-se embaraçada e apontou para Sagoe:
- Avó, não diga isso diante dele.
- Por que não? É o teu homem, não é? Deve ser, para vir contigo
até Ifo. Meu rapaz, espero que sejas mais sensato do que ela. Se
surgir uma criança, chamem-me e eu virei abençoá-la. - Interrompeu-
se, olhando ambos. - Afinal que esperam vocês? Por que não casaram
já? Não, não me levem já. Quero apenas saber. Vocês deveriam casar
e dar-me netos...
Sagoe apareceu à porta da casa de banho, enrolado numa
toalha.
- A tua comida está pronta - disse Dehinwa.
- Desculpa, mas não me parece que consiga comer já. Conserva-
a quente enquanto vou dar uma volta.
- Está bem. - Sagoe beijou-a no ombro, esfregou o rosto húmido
no pescoço dela, depois beliscou-a rudemente e ela gritou.
- És a secretária confidencial mais esquiva e arreliadora que
alguma vez comi...
- O quê?
- ... Com os olhos, com os olhos, sua sovina.
Durante quatro dias, o Sol permanecera oculto.
- Quem me dera um pouco de negritude - resmungou Sagoe -,
algo que me aquecesse. - Recordou que se estava na estação das
chuvas quando regressara da Europa e da América. Em vez de calor,
recebia choques eléctricos - uma vez, quando tocara a torneira da
banheira com os dedos dos pés, e outra vez através de um dedo,
quando discava um número no telefone. Quando contou a Mathias,
este comentou:
- Medidas de austeridade. O governo quer juntar três ministérios
num só - Trabalho, Electricidade e Comunicações - e rebentou às
gargalhadas.
Sagoe usara os episódios na sua coluna, fazendo apostas sobre
qual dos três ministros em questão mataria os outros para controlar a
nova pasta tripla. Ganhara assim a sua primeira delegação familiar,
uma hábil mistura de primos em décimo primeiro grau, que Sagoe
nunca vira. Um aviso e um pedido. Por favor, não faças inimigos.
Devia estar próxima a hora do funeral de Sir Derin. Talvez os
ofícios já tivessem terminado e o horrível cortejo tivesse começado.
Sagoe decidiu ir a pé. Mesmo que faltasse aos ritos junto da campa,
observaria os coveiros deitando a terra e talvez lhe juntasse uma
mão-cheia.
Algo o atingiu subitamente, uma mão molhada cobriu-lhe as
calças até à cintura, transformando-lhe o traseiro num sólido muro de
lama.
- Safado! Porco! - E sentiu-se justamente irado, achando aquele
acto uma grande traição. Sagoe acabava de passar pelo quinto ou
sexto carro abandonado e. como sempre, saudava a chuva, a grande
igualitária. Foi então que um autocarro o encharcou. - Só sabem sujar
os outros! - Um impulso de correr atrás do autocarro e entrar nele
seduziu-o momentaneamente; uma centena de gafanhotos dançava-
lhe nu cabeça. Encostou-se a um candeeiro esperando que aquilo
passasse. O facto de ter as calças imundas tornava-o estouvado e. ao
retomar a marcha, punha o pé, indiferente, nas poças de lama,
torcendo os tornozelos nas pedras submersas. Hoje é o dia ideal para
me afogar, pensou. Deus está a fazer a limpeza no céu. lavando a sua
maldita retrete. O dilúvio que caíra fazia com que tudo o que o
rodeava parecesse saído de uma retrete. Avistou uma película de
óleo, óleo de palma numa poça castanha que se estendia até à choça
de um comerciante de géneros. Sagoe comentou: “Óleo de rícino,
evidentemente.”
Ainda não eram cinco horas, todavia, Sagoe já começara a
encontrar os homens do lixo. Depois da .morte, concluiu, a merda é o
ambiente mais vernacular do nosso amado país. Decorrera pouco
mais de um mês desde que Mathias lhe dera uma notícia em que ele
dificilmente acreditara.
- Mas, oGa, a minha boca diz a verdade, vá ver com os seus
próprios olhos.
E Sagoe fora, levando um fotógrafo. Mathias vira aquilo quando
viera para o trabalho, de manhã, no momento em que o autocarro
curvara de repente, quase provocando um desastre, na tentativa de
evitar o local. Jazia ao virar da esquina de Renascent High School, a
alguns metros da primeira paragem de autocarro, na Abule Ijesha.
Sagoe deparou primeiro com o camião e a cisterna vazios; alguns
metros atrás, o seu conteúdo estava espalhado pela rua. Recons-
tituíra o acidente - a enorme porta escancarara-se e o condutor não
travara sufi-cientemente depressa. Uma massa informe estendia-se
por vinte metros, vinte metros de merda sólida, plebeia e política,
indígena e estrangeira. Em plena rua alcatroada. Nwabuzor, por
certos raciocínios, expurgou as fotografias, dizendo que ofenderiam o
leitor comum.
- Mas é a realidade - exclamou Sagoe - , toda aquela merda está
ainda espalhada pela rua, diante de uma escola, numa área
residencial!
E cinco dias mais tarde Sagoe voltou ao local numa peregrinação
expiatória e tirou mais fotografias para mostrar a Nwabuzor. Era
impossível convencer o chefe de redacção a lá ir pessoalmente: no
entanto, ela ainda reinava, suprema, tirânica. O seu volume diminuíra
- os cães têm gostos peculiares e alguns condutores não eram
suficientemente expeditos e pati-navam sobre ela - mas continuava
tão tifóide como antes, monocromática, castanha.
Nas ruas laterais de Yaba, os homens do lixo continuavam
atarefados em torno das janelinhas baixas das paredes traseiras,
porteiros sem rosto, silêncios cortados por baldes, vassouras curtas
varrendo rugidiamente, do crepúsculo à aurora, os sinais do acidente.
E Sagoe pôs-se a imaginar Sir Derin passando em direcção ao túmulo
sob um arco de vassouras, mas a visão dissipou-se quando pensou
que o facto de ver aqueles homens profanava a verdadeira vacuo-
lização.
Chuviscava novamente. Sagoe sentiu-se subitamente cansado e
mandou parar um táxi. Começava a sentir-se descontraído quando
reparou no pescoço do condutor; os músculos, brilhantes de suor,
entumesciam-se como cabos dos C.T.T. em isoladores cheios de óleo.
Em que quadrilha trabalharia ele quando não estava de serviço no
táxi? De repente, com um súbito pressentimento, a mão de Sagoe
mergulhou no bolso. Não trazia carteira. Lembrava-se agora de vê-la
na cómoda de Dehinwa e fazer tenção de pegar nela. Tentando não
atrair a atenção do condutor, rebuscou os bolsos sucessivamente.
Não tinha dinheiro em nenhum deles. Nem um tostão.
- Onde deseja ir, Obalende?
- Para a esquadra da polícia.
Conhecia bem estes condutores individualistas. Preferiam um
acordo particular a pararem junto do primeiro polícia e apresentarem
uma queixa. O outro voltou-se com vivacidade, tirando a conclusão
errada. Os seus modos tornaram-se imediatamente servis,
insinuantes.
- Oga, hum, com que então nem a polícia nigeriana é capaz de
deter esta estúpida chuva.
Por momentos, Sagoe quase se traiu. Depois, compreendeu e
deixou de se preocupar.
- O que é que tem o teu limpa-pára-brisas? - inquiriu com um
indício de ameaça na voz.
Era a confirmação das suspeitas.
- Sor? Refere-se ao limpa-pára-brisas? Sagoe não condescendeu
em repetir a pergunta.
- Oga, é uma situação tão idiota! Olhe, hoje mesmo levei o carro
à minha garagem, depois começou a chover e veja esta chatice.
Aquela coisa continua a não trabalhar.
- Também não tens velocímetro.
- Enh, oga, está a ver com sofremos, nós, os que não temos
protecção? Queriam dezasseis libras e tal por me instalarem um. A
menos que nós, africanos, trabalhemos para as firmas estrangeiras...
- Pára!
- Oga, hum, disse para eu parar?
- Eu disse para parares. Pára!
- Ah, Oga, não precisa zangar-se... Peco-lhe, oga, eu já tenho um
caso no tribunal por conduzir só com uma luz...
- És surdo? Pára já aqui!
O homem parou, tremente como geleia, convencido de que
queimara a última esperança de perdão com a sua demora em
obedecer à autoridade. Prostrou-se ainda dentro do carro, torcendo as
mãos implorativamente. Tinha a certeza de que, no mínimo, lhe ia ser
aplicada a proibição de conduzir. Estes filhos da puta dos polícias
costumavam fazer isso a torto e a direito.
Sagoe saiu. Olhou longamente o condutor prostrado no carro,
depois deu meia volta e afastou-se sem uma palavra. O condutor
esperou um pouco e afastou-se por sua vez, com uma sensação de
milagre. Na sua mão estava ainda a amarrotada nota de cinco xelins
que se preparava para entregar numa das prestidigitações mais
praticadas.
Ao virar da esquina, situava-se a loja de mobiliário que chamara
a atenção de Sagoe quando o carro passara por ela. Era ao lado do
antigo cemitério de Alagomeji, em desuso, separada dele por uma rua
não alcatroada. Nomeados fabricantes de mobiliário por sua alteza
susceptível Dehinwa, secretária confídencial, etc., etc. Foi aqui,
declarou Sagoe, apostaria o meu dinheiro. Nos puxadores dos guarda-
fatos estava o mesmo motivo de flores petrificadas.
- Se faz favor?
- Não, não, não quero comprar nada.
- Arranjamos de tudo. Seja qual for o tipo de mobiliário. E
aceitamos encomendas ao seu gosto.
- Não, queria só dar uma olhadela.
Lado a lado com guarda-fatos, secretárias e cómodas viam-se
caixões, alguns deitados sobre bases de madeira e dois deles
suspensos para revelar os ornamentos de bronze da tampa. Sagoe
olhou para o cemitério vizinho onde havia coroas de vidro, muitas já
rachadas ou partidas, coladas em lajes de concreto, olhou de novo as
pegas de vidro dos guarda-fatos, com flores mortas por baixo e
compreendeu então de onde proviera a inspiração dos marceneiros;
foi invadido por um sentimento de exorcismo. Mesmo assim, tomou
nota mentalmente, para fazer algo a respeito dos gostos de Dehinwa.
Sagoe já percorrera toda a Ponte Cárter sem dar por isso, pois o
seu cansaço dissipara-se completamente. Hoje a lagoa não era a
lagoa de um postal turístico, a lagoa ondulada como o cabelo oleoso
de Nat-King-brilhantina-Cole, nem as palmeiras pareciam petrificadas
ou a praia envernizada. A lagoa era uma selha de leite desnatado; e
ninhos de baratas, feitos de talos de ako, circundavam irregularmente
a beira da água. A ponte estava deserta, notou com alívio, pensando
de novo como este dia parecia especialmente indicado para um
afogamento. Inconscientemente examinou as águas, quase
esperando descobrir um corpo flutuando, imóvel, que já nada podia
salvar.
Nesse momento, tudo se iluminou milagrosamente. Ou talvez
tivesse parado de chover muito tempo antes, sobre a ilha. Mas à
medida que a ponte ficava para trás, o ar aligeirava-se muito
rapidamente, o horizonte abria-se num pôr-do-sol turístico, o céu
desnudava-se desenfreado, ruidoso, como uma criança malcriada
deitando a língua de fora. Enquanto observava a secção de vinhos da
montra da loja francesa, espantado por ser capaz de olhar
insensivelmente para uma tão rica exposição, captou um reflexo da
morte no vidro e virou-se, exclamando:
- Que piada!
Um carro muito maltratado - parecia um Vauxhall de mil
novecentos e quarenta e cinco - movia-se tão pachorrentamente que
as canelas dos dois primeiros acompanhantes chocavam
frequentemente com o pára-choques da retaguarda. Era a maior farsa
que uma morte alguma vez produziu, pois o carro tinha o porta-
bagagens aberto e o monte de esterco que sobressaía tão
repulsivamente era o caixão. O cortejo constava
- Sagoe cedeu ao impulso de contá-las - de apenas onze pessoas.
Mostra-vam-se desajeitados e a sua dor parecia real. Era incrível -
sendo os onze todos homens -. mas quase se podia jurar que todos
haviam estado a chorar; de facto, alguns deles ainda o faziam. Os
dois que lideravam o cortejo estavam incom-preensivelmente pouco à
vontade: as suas canelas mal largavam o pára-choques. Caminhavam
dum e doutro lado da parte saliente do caixão. O caixão era grosseiro,
ordinário, mais tosco do que qualquer dos que ele vira antes, na
marcenaria Alagomeji: era decorado com dourados de ouropel barato
e brilhava com lustro ceroso de um vermelho terrível. Fazia lembrar a
língua de um viciado em noz de cola.
- Grandes idiotas - murmurava Sagoe -. porque não ataram ao
menos o caixão ao tejadilho? Não que isso importe muito ao morto,
mas será preciso tomar a morte tão ignóbil?
De calças e camisas brancas, de uma confecção desastrosa.
sapatos de ténis a que faltavam os atacadores e colarinhos
parcialmente arrepanhados, cada enlutado parecia culpado, furtivo,
como se no fundo da sua mente acreditasse que poderia ter feito
mais pelo morto. Eles próprios haviam sentenciado esta vergonhosa
marcha arrastada até ao cemitério de Ikoyi e o morto deitava-lhes a
língua de fora, sacudia-se como uma coisa oca e fútil e desafiava os
enlutados a deixarem-no cair.
Sagoe piscou os olhos. Parecia-lhe que ao volante ia um branco.
Sem pensar, acertou o passo com o homem isolado que seguia atrás
e desceram a Moloney Bridge Street, em direcção à pequena ponte,
uma ponte quase simbólica, devido à sua localização, separando os
vivos dos mortos. E entre os mortos. Sagoe incluía as residências
suburbanas de Ikoyi, onde tanto os brancos que restavam como os
novos oyinbos nebros viviam num vazio colonial.
Um minuto depois, o cortejo que resolvera acompanhar pôs-se
em debandada. O rumor das rodas do féretro era inconfundível e o
pisar de um milhar de pés fazia tremer a terra sob o pés de Sagoe,
pelo que era de duvidar que os outros não o sentissem também.
Excepto o condutor, agarrado ao seu volante, conduzindo tão
funebremente. Sagoe perguntou a si mesmo se deveria avançar,
avisá-lo do outro cortejo e incitá-lo a aumentar a velocidade. Porém,
nada fez. preferindo observar o que aconteceria se os dois cortejos se
encon-trassem na ponte. E assim sucedeu. E com o respeito
automático do pobre pela opulência, a comitiva de Sagoe parou,
enquanto a outra, uma milha de carros e pessoas, desfilou
lentamente por eles. Quarenta carros, pelos menos, seguiam o féretro
empurrado à mão. e todos os carros estavam apilhados de cravos
vermelhos. O próprio féretro estava coberto de coroas e os enlutados
transpor-tavam mais coroas de flores. Obrigado. Senhor, pensou
Sagoe. pelos nossos orgíacos funerais. Se alguma vez se tomasse um
jornalista independente, já sabia onde ir nos dias em que nada tivesse
para fazer. Havia os casamentos, e claro, os baptizados, os noivados e
as recepções, mas um funeral, com a sua vigília nocturna, a
caminhada, o virar do corpo quarenta dias depois, o serviço memorial
apenas algumas semanas mais tarde, o segundo virar do corpo, as
súbitas e irracionais festas em memória do morto - uma pessoa podia
despender a sua vida inteira festejando um morto. E muitos faziam-
no.
Num dos primeiros carros, um rosto inclinava-se com penosa
concen-tração sobre um maço de papeis - o orador fúnebre, sem
dúvida. E Sagoe sentiu-se traído pelos seus acompanhantes. Se
anteriormente pareciam estú-pidos, assemelhavam-se agora a
atrasados mentais. Mergulhados, sem dúvida, na sua dor. era
necessário mais do que isso para permanecerem imóveis enquanto
uma cone de cinco milhas marchava em monótona glória a quatro
milhas por hora. Não conseguiam fingir indiferença pelo pomposo
espectáculo que passava diante deles e encolhiam-se com visível
embaraço; cada um refugiava-se no exame dos sapatos de ténis do
que ia à sua frente. Os dois da frente olhavam com a mesma
intensidade para o pára-choques amolgado.
Todavia, os componentes da outra mascarada, o tributo final a Sir
Derinola pelo seus concidadãos, também não ousaram tirar os olhos
do pára-brisas precedente, nem as suas mentes cessavam de
acalentar esperanças de um dia os seus próprios funerais se
aproximarem da glória do enterro deste recto filho da Pátria. Mais
tarde, o engarrafamento de tráfego de três horas devido a Sir Derin
entraria nas suas histórias como sendo de seis. Já metade do séquito
de Sir Derin desfilara, quando um polícia veio em socorro do outro
cortejo fúnebre, fazendo parar a multidão e permitindo que a reduzida
fila onde Sagoe estava transpusesse a última ponte. No cemitério,
separados por uma centena de túmulos ou mais, os dois corpos
aceitaram então um destino comum, o desaparecimento final.
Sagoe juntou-se ao cortejo de Sir Derin e abriu caminho, lutando
firmemente até alcançar as coroas empilhadas. À vista de todos,
pegou numa grinalda artificial e em duas coroas de flores frescas,
murmurando: “A de vidro para o espírito Santo, as restantes para filho
e pai; no mínimo, deves-me isto. Sir Morgue, estou certo de que não
te importas.”
Com dificuldade, abriu caminho, desenvencilhando-se da
multidão a tempo de ver os outros esforçando-se por libertar o caixão
do porta-bagagens. Sagoe entregou as coroas ao homem mais
próximo, sem uma palavra. Só nesse momento reparou que o
condutor não era branco mas albino. Permaneceu ali apenas alguns
minutos e, em seguida, subitamente envergonhado com o seu papel -
pois só agora saltava à sua consciência que andava por ali porque via
naquilo uma história para a sua coluna -, deu meia volta e afastou-se,
precisamente quando o albino se dirigia a ele, talvez para lhe
agradecer as coroas.
Caminhava rapidamente, quase correndo, fugindo do cemitério.
Na sua cabeça martelavam as palavras saídas dos altifalantes, à
medida que o orador lia o seu panegírico a um milhar de pesarosos
enlutados. Sagoe escapou-se, perseguido por silêncios que deixavam
no mundo barulhos como: ... A sua vida era a nossa inspiração; o seu
idealismo, as nossas esperanças; a sobrevivência do seu espírito
entre nós, a esperança de uma Nigéria futura, de um irredentismo
moral, de um rejuvenescimento nacional...

Corre, pobre negro, corre - o refrão de um poema


verdadeiramente mau, que Sagoe lera num jornal e há muito
esquecera, percorria-lhe agora a mente, tendo sido desperto por uma
histeria que se desenrolara sob a varanda do Hotel Excelsior. Iniciara-
se logo atrás do mercado Oyingbo, onde os ociosos de profissão se
abrigavam momentaneamente da chuva, emergindo para vaga-
bundear entre mercadorias desprotegidas, pilhando uma existência
oca. A “caçada” colheu-os no caminho. Depois, os angariadores de
apostas juntaram-se-lhes. E os vendedores de relógios enfiaram
objectos suspeitos, de 17 rubis, nas profundezas das algibeiras, e
engrossaram as filas em debandada - corre, pobre negro, corre -
também aquele versejador fizera um cristo do seu fugitivo, e esta
escória de Oyingbo não o substituía mal. Pôncio Pilatos no momento
crucial hesitou apenas brevemente, porém o seu sentido do dever
venceu. Voltou-lhes um rabo formal e continuou a lavar as mãos no
fluxo do tráfego. De modo que a multidão prosseguiu, invadiu o
parque de automóveis, escorregou no alcatrão fresco e ergueu-se suja
e contente, surripiou uma malinha de mão ou duas, com sentido de
oportunidade, e enegreceu o chão defronte da fábrica atarracada e
informe que era o Hotel Excelsior.
Sagoe saltou do autocarro e associou-se ao tropel - corre,
Barrabás, corre - qual oprimido complacente. Corre, pequeno ladrão,
ou os grandes ladrões decretarão uma lei contra a tua existência
como uma ameaça para a sociedade. Sagoe seguiu-os... corre,
Barrabás, foge da mesma multidão que se reformará amanhã e irá
aplaudir o maior ladrão regressando da sua vigésima missão
económica e empurrará o seu carro atolado na lama, sorrindo como
cachorrinhos.
Os jovens decidiram impulsivamente e, juntos, construíram como
que uma linha de violência impedindo ao ladrão a duvidosa
segurança da lagoa.
Olef Ole-e-e-e-e-e!

Diariamente, Lagos era palco de perseguições destas, o infeliz


ladrãozeco e uma multidão indignada. Era uma manifestação moral e
a perspectiva de um espancamento indiscriminado era um incentivo.
O rapaz ou o homem - era difícil afirmar se ele era uma coisa ou outra
- parecia dizer algo. Fizera já outras tentativas de falar, mas os rostos
ameaçadores que o perseguiam despertavam nele tal medo que
acelerava a corrida. De forma que. agora, gritava na direcção da
lagoa:
- Mas eu não tirei nada... juro que não tirei nada... Naquela
manhã, ele era, enganosamente, o símbolo da pureza - na ausência
do Sol, o seu dansiki de seda macia e as calças largas flutuavam,
funestamente brancos naquela manhã cinzenta. E era igualmente
bem parecido. Quando o trouxeram, nu, apenas com as cuecas
negras, tinha, com efeito, o torso esguio, flexível, de um dos não-
muito-santos companheiros da agonia. Sagoe não estendeu mais
longe a comparação. Envergando o seu dansiki branco, estaria acima
de qualquer suspeita em qualquer parte; em fuga, representava uma
vergonhosa exibição de injustiça. Era, todavia,' um corredor
desastrado, tosco até, ou talvez fosse o medo. Mas havia desculpa
nos pedaços de seda branca que remoinhavam em tomo das suas
axilas, acelerando as pernas magras em busca de um imaginado
refúgio. Mesmo o seu regresso esteve longe de ser ignominioso.
Perdera a seda, mas mantinha-se calado: o medo roubara as cores do
seu rosto e esta palidez contrastava com a pesada figura cuja
manápula peluda estava grosseiramente enfiada nas cuecas. O
sangue esteve prestes a correr. O Barrabás tinha um bom avanço
sobre os perseguidores e um condutor, apontando o automóvel ao
itinerário do fugitivo, dera uma ajuda. A horrenda concentração da
face deste homem não deixava quaisquer dúvidas, o seu objectivo
era esmagar as pernas do ladrão quando este passasse junto da
capota do seu automóvel. Mas o Barrabás saltou! Uma nova ameaça
trespassou o seu terror no momento em que o motor uivou. Estava-se
em Lagos, em pleno dia, mas ele corria o risco de ser morto.
- Aquele tipo queria matá-lo! - gritou Sagoe involuntariamente.
- Mata-me esse filho da mãe! - berrou um homem a seu lado.
Por causa de um estranho, impreciso e irreflectido acordo, o
jovem em fuga podia ser assassinado. Esta indiferença encolerizou
Sagoe, mas também o excitou. E não desejava meramente que a
multidão recebesse uma lição - era duvidoso que fossem capazes
disso -, mas acostumara-se a uma ideia que exigia a abordagem
violenta, penetrante, de problemas subjacentes: como a barbárie
casual desta multidão e a sua perfídia contra aqueles que desciam
momenta-neamente abaixo dela na escala das humilhações diárias.
Sagoe correu para o hotel e precipitou-se escada acima, até à
varanda. Podia agora ver por cima das cabeças dos perseguidores,
ver o Barrabás evitar um atacante que jazia agora estendido no solo,
descansando por momentos. Sagoe aplaudiu: porém, embora aquilo
não fosse mais do que um desporto para a maioria, a populaça não
perdeu tempo a aplaudir a finta do ladrão. As pernas de Barrabás
haviam perdido a esperança. Como os anões de areia em Ogboju
Ode, a multidão crescia a cada passo e o aguilhão das pedras ou a
sucessão de tentativas falhadas de o agarrarem fizeram que
começasse a desejar uma misericordiosa libertação.
- Mas que fiz eu, hein?... Que fiz eu?...
Foi após esta malograda súplica que se submeteu ao veredicto
dos seus atormentadores, dirigindo-se para o mar. A multidão
obstruía agora a visão de Sagoe e ele lembrou-se do pátio no telhado.
Ofegante e cansado, depois de subir a correr quatro lances de
escadas, olhou à sua volta quando penetrou no pátio. Via-se
unicamente um homem com as mãos levemente apoiadas no
parapeito. Todavia, o que espantou Sagoe foi o facto de o mesmo
homem ter estado junto dele no piso inferior. Não havia engano
possível; não só porque era albino, como também porque Sagoe
reconhecia o caftan, o fez e os óculos escuros.
Em baixo, ouvia-se:
- Não o deixem chegar à água... não o deixem chegar à água...
Um ladrão, isto é, um ladrão vulgar, é um super-homem. É capaz
de saltar do sexto andar de um edifício e de suster a respiração
enquanto percorre a nado todo o comprimento de uma lagoa. Por
isso, ninguém duvidava que ele escaparia, caso conseguisse chegar à
água.
O Barrabás transpôs num pulo o declive desgastado, em direcção
à água. mas escorregou nos últimos metros, deslizando
deselegantemente sobre o rabo. Levantou-se num ápice, ladeando a
lagoa onde a terra formava uma saliência sobre a margem, de modo
que esteve invisível durante uns dez metros. Todos os olhares se
voltaram para o outro lado. onde ele deveria aparecer.
Quando assim aconteceu, o rapaz parou e despiu calmamente as
suas vestes de mártir. Uma pequena ilha, o suficiente para abrigar um
homem, aflorava as águas a certa distância da margem. O Barrabás,
segurando as suas roupas sobre a cabeça, passou a vau, chegou lá e
sentou-se fora do alcance dos perseguidores. A sua intenção era
evidente. Ao primeiro sinal de perigo, saltaria para a água.
- Na realidade, o rapaz pode estar inocente.
A voz soara tão próxima que Sagoe quase pulou do edifício
abaixo. O estranho acercara-se e estava a seu lado. Sagoe hesitou e
decidiu ser cortês.
- Não me parece.
O albino conservou-se silencioso por momentos, exclamando em
seguida:
- Vejo que não se lembra de mim!
Sagoe olhou-o e, por fim, abanou a cabeça. O albino virara-se
para a cena da lagoa.
- Qualquer um de nós pode desatar a fugir se for acusado
injustamente. Pode acontecer a qualquer pessoa. Não acha que é um
facto a ter em consideração?
- As multidões raramente se enganam no seu homem, mas é
possível que ele esteja inocente.
A populaça afastava-se para deixar passar um homem.
- Talvez seja um polícia - disse o albino. - O ladrão deve estar à
espera de um, de outro modo não sairá do seu lugar.
Irritado pela presença contínua do outro a seu lado. Sagoe
comentou:
- Você parece saber muito sobre os hábitos dos ladrões.
- Oh, sim - concordou o albino.
Estava obviamente em curso uma discussão entre o recém-
chegado e o ladrão. Finalmente, o homem gritou à multidão que
dispersasse e fosse à sua vida. Houve um murmúrio de
desapontamento e todos recuaram um pouco. Durante algum tempo,
o Barrabás observou aqueles movimentos. Tranqui-lizado, por fim,
com a autoridade do recém-chegado. abandonou o seu poleiro e
entregou-se, confiante, à sua custódia.
A multidão abriu passagem para eles. A mão do homem agarrava
firme-mente as cuecas do rapaz, o único ponto de apoio num corpo
suado. Os perseguidores pareciam ter perdido o interesse; havia
quem escarnecesse, mas ninguém manifestava aprovação: as
ameaças da anterior caçada dissolviam-se agora numa curiosidade
passiva: muitos conseguiam ver o ladrão pela primeira vez.
Sagoe não esquecera ainda a cara do condutor que tentara
esmagar o jovem e reconheceu-o entre a multidão, visivelmente
contrariado e incapaz de aceitar o falhanço da sua sede de sangue. O
homem abriu caminho até à primeira fila, colocando-se de forma a
que o Barrabás passasse junto dele. Quando os dois homens o
alcançaram, gritou:
- Orno ole - e agrediu o jovem no rosto.
Então, todo o constrangimento foi esquecido e o Barrabás,
arrancado ao seu protector, viu-se sujeito à veemência, de uma
centena de rudes golpes. Sem pensar, Sagoe voltou-se e correu para
as escadas na esperança algo vã de fazer qualquer coisa para salvar
o rapaz. Só então se apercebeu de que o albino desaparecera. Após
ter descido o primeiro lance, Sagoe deteve-se. Experimen-tava uma
súbita sensação de certeza, inexplicável, e regressou ao terraço,
aguardando que o albino reaparecesse entre a multidão.
... Eu bati-lhe! Ah, ah, foi mesmo bom, mesmo em cheio na
cara...
... Ole! Efi'gbatifun yeye!
... Viste aquela? Em cheio naquele estômago conspurcado...
... Empresta-me aí o teu pau. Alakori...
Pouco depois, o albino reapareceu e agarrou o rapaz. Juntamente
com o outro homem, protegeram-no da multidão, prorrompendo o
albino numa torrente de injúrias aos que os rodeavam. Mas os seus
oponentes não se calaram.
- Pai de morcegos!
- Os ladrões ajudam-se uns aos outros.
- Es tímido? Tira essas gaga pretas para reconhecermos a tua
cara.
Gargalhadas sonoras e trocistas acompanhavam cada injúria,
mas ninguém se atreveu a tocar-lhe...
- Lá em casa não tinham lenha suficiente? A tua mãe esqueceu-
se de te tostar convenientemente...
Ele empurrou o Barrabás para o elevador e fez retinir as portas,
enquanto lhes lembrava a profissão e as doenças venéreas que
tinham apanhado das suas próprias irmãs. A autoridade vencida
rechaçou uma última tentativa solitária de bater no Barrabás, e o
elevador pôs-se em movimento.
Sagoe desceu até ao piso do salão, colocando-se em frente do
elevador para ver onde iam pôr o rapaz. Lá fora, a populaça
continuava a manifestar ruidosamente o seu desapontamento.
Em breve se congregariam em grupos de dois e de três e
regressariam à vizinhança dos mercados, aborrecidos, até lhes ser
proporcionada nova diver-são - quer fosse um cortejo nupcial ou um
choque de automóveis.
Sagoe manteve-se um pouco afastado quando o elevador parou
e os homens saíram. Hesitou de novo, recordando a tentativa do
albino de impor a sua companhia. O outro aproximou-se:
- Sinto-me um ingrato, porque não vim agradecer-lhe a sua
dádiva para o nosso defunto irmão.
- Não me. lembro de...
- No cemitério, há quinze dias. Você levou coroas de flores para o
enterro.
Pois claro! O albino que ia ao volante.
- Quis agradecer-lhe, mas você foi-se embora tão depressa!
- Deve ter uma boa memória para fixar caras.
- Nem por isso. Já tinha visto a sua fotografia na sua coluna do
jornal. Reconheci-o naquele dia.
- Ah, está bem.
- Ele era seu amigo? Quero dizer, o nosso falecido irmão.
- Não, nem sequer o conhecia. O outro ficou perplexo:
- Não o conhecia? Mas...
- Por favor, não tire conclusões erradas. Eu limitei-me a tirar as
coroas do outro funeral que estava a abarrotar delas.
- Compreendo. Você é um homem de Deus.
- Sou?
- Sim. E agora, por favor, Sr. Sagoe, se me permite, gostaria de ir
falar consigo ao seu escritório.
- Quando quiser. Sabe onde é?
- Sei. Gostaria de ter uma conversa bastante importante consigo.
Apertaram as mãos e o albino afastou-se. Sagoe ficou pensativo,
não percebendo o que o outro quereria dele. Não sorrira uma única
vez desde que se haviam encontrado, nem traíra fosse que
sentimento fosse através dos óculos escuros. Quem eram eles afinal,
a confraria do maltratado Vauxhall e do caixão proeminente? Quanto
ao papel do albino no salvamento do ladrão, houvera nele uma fria
eficiência que lhe despertava calafrios. Os albinos sempre lhe haviam
provocado um efeito perturbante, parecendo não partilhar com ele
uma consistência física normal... Sagoe seguiu com a vista o homem
que voltava ao salão. Escolheu instintivamente um canto sombrio,
donde podia ver a pele branca da nuca do albino, que puxara uma
poltrona para se sentar. Confortavel-mente instalado, a sua nuca, a
única parte visível, flutuava na obscuridade do salão como um pálido
morcego. Com brusquidão, Sagoe silenciou a sua imaginação e
decidiu esquecer aquele homem até ele o procurar.
Na segurança e significado da casa de Bandele, para Egbo, Osa
tomava-se sempre uma peregrinação sem sentido mas necessária. Ao
seu alcance, a presença tranquilizante de sons numa atmosfera que
exigia menos dele, exigia menos daqueles recursos que um homem
deve arrancar à natureza, perigosa-mente, como num poço de
petróleo; podia revelar-se seco e ele descobri-lo-ia no momento em
que a sua presunção mais dele necessitasse. Havia uma maior
difusão, por exemplo, no retumbante gramofone que o acompanhava
no trajecto até ao escritório, na algazarra disparatada dos táxis, nas
pragas do irado comerciante e do cliente regateador, na réplica
burocrática de tudo aquilo em arquivos e minutas e gíria diplomática.
Contributos perfunctórios à União dos Descendentes de Osa...
mensagens entre o velho e ele próprio... tudo isto construíra laços,
sub-repticiamente... também delegações para o examinarem,
enviadas por Ebgo Onosa, como ele muito bem sabia - destino, diziam
sempre eles, tu foste destinado... tudo isto e muito mais... a sua
própria necessidade opressiva de reter aquele elo com uma existência
fora dos carris da rotina... o ilícito prazer de pensar que um reino o
esperava quando ele quisesse, um reino, por intermédio de uma filha
cujo rosto ele nunca conseguiria recapturar, o que o levava a
perguntar a si próprio se ela fora como a sua tia, um vento revolto
que as enseadas haviam produzido... um subtil estremecimento de
poder. Tudo isso de nada lhe valia. Mal tocara o âmago e sentia que
ele o iludia. E isto agora não era uma questão de consciência, mas o
progresso do saber e, para um homem, simplesmente uma questão
de afogamento. Porque Egbo resolvia tudo numa simples alternativa
de afogamento... como a escuridão do bosque e depois a outra água,
a água da ponte suspensa, vendo, por um fugidio momento, a água
realmente suspensa, uma ponte de suspensões de água límpida. E ele
apenas mergulhava de novo no antigo terreno psíquico de sedimentos
depostos, murmurando: “quanto tempo continuará o morto ciumento
a interpor-se entre nós?”...
- Por que insistes em cismar? - Bandele sabia sempre
exactamente quando o seu espírito remordia a decisão de Osa.
- Colocaste-te a ti mesmo numa alternativa. Isso tinha que
suceder, bem sabes.
- Até essa alternativa é uma medida de tirania. A dádiva de vida
de um homem deveria ser distinta, uma coisa independente. Toda a
escolha deve provir do seu íntimo, não das instigações do seu
passado.
- Continuas a falar do passado como se ele não tivesse lugar na
nossa vida.
- Ele devia ser morto. E não quero dizer apenas extinção
corpórea. Não, aquilo a que me refiro é o fóssil existente no seio da
sociedade, os ramos mortos numa árvore viva. Quando alguém
morre, num sentido ou noutro, não deve ter importância o que essa
pessoa era para nós. Os mortos têm para com os vivos o dever de
serem esquecidos rapidamente, proveitosamente. Acredita, os mortos
não devem ter rosto.
- Tu e Sagoe deviam juntar-se - disse Kola.
- Ele é um político.
- E depois? Diz-me qual o africano moderno que não vomita
política.
- Vês? Nem sequer sabes de que estou a falar. Não és capaz de
meter na cabeça que as vossas políticas globais ou nacionais não têm
efectivamente grande peso. a menos que te tornes implacável para
com a textura do passado...?
- Então de que te queixas? - perguntou Kola.
- De nada. Tanto quanto a minha mente alcança... nada...
- Mas. de outro modo...? Impaciente. Egbo gritou:
- É assim tão impossível selar o passado e deixá-lo em paz?
Deixá-lo ficar na sua unidade anacrónica e inofensiva, de forma a que
possamos imergir nele à vontade e sair dele sem prisões, sem
imposições! Uma pessoa precisa disso especialmente quando o
presente, igualmente fútil, se distingue apenas por uma falta de
coragem particularmente abjecta.
- O que nos traz de novo a Osa, não é verdade? interrompeu
serenamente Bandele.
- Estou a falar genericamente.
- Claro, claro. - E riu-se, levantando-se para responder ao bater,
agora persistente, à sua porta. Voltou momentos depois, agitando
várias folhas de papel. - Vejam, um presente dos meus alunos. Ontem
era a data-limite, mas este é o primeiro ensaio a chegar. Toda a gente
quer alterar o universo, acomo-dando-o aos seus caprichos, mas que
me interessa isso a mim?
- Não olhes assim para mim - disse Kola. - Não fui eu que encetei
esta excursão até Mungo Park para vermos a baía dos canibais.
- Eu disse apenas que os mortos estarão mais bem guardados
algures. Não devemos interferir com eles, porque então eles
emergem, forçando os vivos a dilemas terríveis. Todavia, eles não têm
o direito de nos fazer imposições.
- Mas nunca houve qualquer questão de imposições.
- E eu repito que houve. Ser manobrado até uma alternativa -
pouco interessa por que forças ou circunstâncias, pouco interessa
quão ténues eram as forças...
Kola interrompeu-o.
- Atiras deliberadamente o teu ressentimento contra os ventos.
Atira-o para dentro da tua própria cabeça, que é aí o lugar dele.
Outro estudante interrompeu-os com as pancadas na porta e
Bandele resmungou:
- Mais ensaios, suponho. A propósito, é melhor irmos andando ou
chegaremos atrasados ao espectáculo do Joe.
- A que horas é aquilo?
- As nove. O Sheikh vem?
- O Sheikh?
Egbo olhou à sua volta, descobrindo Sekoni sentado, imóvel,
junto do gira-discos.
- Sabes, Sheikh, por vezes és a pessoa mais inexistente deste
mundo.
- Que horas são?
- Nove.
- Vamos embora. Podemos continuar a discussão no intervalo.
Porém, Sekoni estivera a trabalhar a ideia e explodiu num esforço
repentino perante a ameaça de encerramento do tema:
- Na c-c-cúpula do c-cosmos, h-há com...pleta unidade da V-v-
vida. A V-v-vida é como a d-d-divindade, a p-p-pluralidade das suas
mmmanifest.. .tacões é apenas uma ilusão. A-a d-d-divindade é uma
ilusão. Assim é a v-v-vida, ou a m-m-morte, a-a-ambas estão c-c-
contidas n-na c-c-cúpula única dae e...xistên-cia...
Fez uma pausa para ganhar fôlego e Kola pôs-se de pé:
- Vem daí. Sheikh, discutiremos isso pelo caminho.
- Não, não! - gritou Egbo. - Ele ainda não terminou.
- Se não nos despacharmos, quando lá chegarmos acabou o
recital.
Bandele voltou, jogando uma nova fornada de ensaios sobre a
mesa.
- Vamos? Que fazemos em relação a Simi?
- Eu espero aqui por ela - declarou Egbo.
- Quer dizer que vais chegar atrasado. Egbo riu-se.
- Bem, isso depende de quando a Simi chegar, não achas?
-- Suponho que estás numa ansiedade louca.
- Praticamente nenhuma. E há semanas que não me aproximo de
uma mulher.
Bandele recordou-lhe suavemente:
- E a Owolebi das laranjas esmagadas? Foi apenas há quinze
dias.
- Tinha-me esquecido dela - confessou Egbo. Kola exclamou
ruidosa-mente:
- Já a tinhas esquecido? Aquela cujas margens estavam
despidas...
- Oh, vai-te lixar.
- Talvez Egbo tenha descoberto que afinal não era uma mulher.
- Sim, agora que falas nisso, acho que nunca mais te ouvi falar
nela.
- Tens razão. Ela não era uma mulher, era apenas um símbolo
matriarca!... e agora vais-te embora?
- Tenta ao menos assistir à segunda parte. Joe canta sempre
Sometimes I feel like a motherless child lá para o fim.
- B ande lê, importas-te de levar daqui este artista improfícuo
antes que eu...
- Eu vou, eu vou. Procura ao menos ir lá.
- Está bem.
Owolebi? Um dos muitos acidentes, e a visita a casa varrera-lhe a
imagem dela da mente. O que não acontecera com Simi. Todavia,
Ebgo duvidava que houvesse algum momento, quando não estava a
dormir, em que Simi estivesse totalmente ausente do seu
pensamento. Porque, com a perda da sua “virgin-dade órfã” - era
assim que ele a diferenciava da normal perda da inocência - “mulher,
tiraste-me a minha virgindade órfã, que mais queres!” - com esta
perda, surgiu a sua primeira consciência e medo de pecar. E medo.
Egbo pensava que o verdadeiro medo se havia dissipado entre as
nuvens no seu primeiro voo e esta percepção do medo nunca mais
regressara até àquela noite no quarto de Simi, quando experimentara
um terror dos sentidos, não ousando reviver a revelação da noite,
dado que o seu corpo estava nesse instante dividido entre o céu e a
terra, e o impulso vital que nascia no seio da sua sensualidade era
como o rasgar de abóbadas celestes e cataclismos no centro da terra.
Nenhum homem solteiro tinha o direito de sentir o que ele sentia,
ordenar rebeliões do cosmos na fulminação da sua subida jactanciosa
entre sarças. E ele, afinal um simples estudante, que mal limpara
ainda dos dedos as manchas de tinta permanente...
Egbo agitou-se no seu sono, embora tivesse adormecido apenas
pouco tempo antes.
- Querido...
Subitamente vigilante, Egbo perguntou:
- Quem me tocou?
- O quê?
- Alguém me tocou.
- És muito engraçado - disse Simi.
- Engraçado? Acreditas em Deus?
Egbo sentia-se incapaz de controlar os devaneios da sua língua.
Avançava, com plena consciência, para o enorme, inevitável desafio
da vida, desafiando mesmo quando se encolhia e acobardava,
desafiando a vingança divina com a sua deliberada blasfémia na
asserção do passado.
- Por que me fazes tal pergunta? - quis saber Simi.
- Acreditas em Deus?
- Claro. Não acreditamos todos?
- Alguns não. No meu último ano, na escola, quase deixei de
acreditar. Mas então descobri que, sempre que desejava uma coisa,
ficava cheio de um medo terrível de que esse poder pudesse impedir-
me.
- Persististe em querer o que desejavas?
- Sim. Foi assim que vim parar aqui.
Simi compreendeu após alguns instantes e começou a massajar-
lhe o pescoço com crescente suavidade.
- Porém, o que eu ia dizer-te é isto... Foi-me retirada uma
virtude ... E agora mereço plenamente que Deus erga a mão e me
fulmine.
- Mas porquê?
- Porquê? Quer dizer que não sabes quem proferiu estas
palavras?
- Quem foi?
- Não, é melhor não te envolver nisto. No entanto, suponho que
isso pouco importa. De qualquer forma, as palavras já tinham surgido
na minha mente e o pensamento é tão pecaminoso como o acto.
Confessá-los faz que pareçam menos criminosos, não é isso que nos
ensinam?
- Não sei.
Nesse momento, o que Egbo desejava era regressar à sua
hospedaria. Não suspeitara a realidade de tais áreas dos sentidos e
receava conhecer de novo esse terror, atingir os abismos que
desvendavam, sob os seus pés, a ameaça de sublimação. O desejo
era uma coisa estranha, alheia, Egbo era incapaz de recordar a sua
existência. Olhou novamente na direcção de Lagos, para o quartinho
alugado, para os livros-mestres no escritório e os bolos rançosos a
crédito mensal. Acima de tudo, olhou aquele trepidante e perigoso
passeio de bicicleta até ao escritório através da Ponte Cárter.
- Que estás a fazer?
- A vestir-me.
- Mas porquê?
- Porquê? Para regressar à minha hospedaria, é evidente.
- A voz dele tomou-se um murmúrio à medida que ela lhe tirava
as roupas. - Quer dizer que... tu, hum, queres que eu fique aqui toda a
noite?
- Se eu quisesse dormir sozinha não te tinha trazido para aqui.
Tendo perdido toda a sua arrogância, Egbo quase suplicava
piedade.
- Mas eu estou exausto.
- Bem te disse para não exagerares.
- Bom, agora já é tarde e eu preciso de descansar.
O tom de voz de Simi tomou-se mais dócil, zombeteiro.
- Qual é o problema? Isto foi só o princípio. Temos ainda de nos
conhecer melhor. À nossa frente está uma noite inteira e o dia de
amanhã. Não tens de ir para Lagos antes do fim da tarde.
- Quem tem tanto tempo? Mas tu tencionas... tu esperas
realmente mais de mim? E onde diabo pensas tu que vou arranjar
forças?
- És mesmo engraçado. Julgas que dormes com uma mulher e a
abandonas assim? Não sabes que para ela isto é apenas o começo?
- O-oh, então queres mesmo matar-me. Nem sequer te interessa
o facto de, provavelmente, não me conseguir mexer durante um ano.
- Oh! Onde está a minha mala cheia no aeródromo de Warri,
hein? Ora, ora, não percebes nada disto... vamos, deixa-me mostrar-
te... vês, não sabes absolutamente nada. . tens de confiar
plenamente em mim.
E Egbo, espantado com a sua carne, incrédulo de que, de algures
no seu íntimo, voltasse outra vez esse novo pilar de poder, na mesma
noite, menos de duas horas após a sua primeira iniciação. Depois
disso, da segunda vez, Egbo sentiu-se como a pedreira de Abeokuta
quando mandaram explodir todo o granito e nada além das águas
lamacentas da chuva enchia as enormes cavernas subterrâneas.
Egbo começara a agarrar-se à longa e lenta viagem de comboio
até Lagos, com a esperança de restauração; o equilíbrio da sua vida
fora perturbado, e ele entrou para o comboio, naquela tarde de
domingo, sentindo-se claramente vazio, débil, nervoso e apreensivo.
Alguém devia saber, alguém devia ser testemunha da sua noite de
fantasia, quando a feiticeira Simi lhe pegou na mão e o guiou pelos
caminhos e atalhos do mais torturante êxtase. E Egbo estudava os
rostos dos passageiros um a um, perguntando-se quais deles
adivinhariam a sua transformação. Porém, eles limitavam-se a olhá-lo,
e uma mulher com quatro crianças endomingadas continuou a
importuná-lo' com milho e inhames cozidos que ele recusava com
decrescente cortesia. Por fim, surgiu o revisor e pediu-lhe o bilhete,
mas nem mesmo esse parecia saber.
Egbo emocionava-se sempre com o melancólico rumor das rodas
quando o comboio atravessava a ponte de Olokemeji e nunca deixava
de alongar a vista até aos rochedos sobranceiros ao rio Ogun. A ponte
atravessava o Ogun onde as rochas pareciam os carrancudos
antepassados Egba em conclave. Eram os dedos dos pés, muito
esticados, do deus inflexível, Olumo de Egba. Para Egbo, o deus
expandia-se sempre através da floresta, vindo do seu lugar em
Ikereku, com os pés colossais lançados através do macio baixo-ventre
da terra, pois ele viera descansar e os pés cansados apaziguavam-se
sob o alívio da corrente das águas do Ogun. Egbo abandonou o
comboio em Olokemeji: o doce e enigmático odor licoroso dos fumos
do carvão haviam-no tornado sonolento, Lagos ficava longe e os
escritórios surgiam antiquados e deslocados nestas novas dimensões
da sua vida.
Hoje ia escutar aquele rumor debaixo da ponte, pois era o que
desejava. Caminhou ao longo dos carris, enquanto o comboio se
atestava de água e recebia carga, e escorregou pelo declive até às
margens do rio, perseguido por pedras soltas e musgo, e com o peso
do sentimento de perda e salvação enfraquecido pelos mistérios da
celebração.
Afinal, talvez Simi pudesse chorar, pois as águas luminosas junto
aos rochedos eram filhas dos olhos de Simi. Assim. Egbo deitou-se em
cima das rochas e aguardou que o comboio passasse sobre ele com
aquele rumor grave que ali em baixo soaria como a gargalhada dos
deuses ou as suas insondáveis ameaças. Sonolentamente,
tranquilizou-se com resmungos dispersos, dizendo que ainda podia
apanhar uma camioneta e reentrar no comboio noutra estação mais
abaixo, ou ir mesmo direito a Lagos. Com efeito, o comboio não era
muito divertido depois do escurecer: decidiu que ia fazer o resto da
viagem de camioneta...
Procurou agastar o sono e desembaraçou-se das suas vestes. Era
bom banhar-se nas lágrimas de Simi. agora que o podia fazer, pois
aqueles olhos pareciam olhos que nunca choravam. Nadou pouco
tempo, descobriu que nunca conhecera tamanha fadiga e arrastou-se
para o cimo de uma rocha, onde se estendeu a secar. Momentos
depois o comboio passou sobre ele, mas o caótico trovejar das suas
rodas chocava de viga em viga, de rocha em rocha, e as crescentes
vibrações nas águas do sofrimento de Simi eram parte de sonhos que
haviam começado a agitá-lo sobre as rochas. O comboio perdeu-se ao
longe e Egbo ficou só entre os penhascos e a floresta cerrada, nu no
crepúsculo que caía.
A meio da noite, despertou sem saber onde se encontrava. A
meio da noite, às apalpadelas no vazio, sem estrelas, sem pirilampos.
A outra margem contivera o curso de águas claras, vibrantes, agora
estas haviam-se tomado escuras, negras como os fundos caldeirões
das tintureiras, e as correntes anis de adire estendiam-se a secar,
pingando como o sangue no oriki de Ogun, to to to to. E onde estava
o brilho da pele de Simi? E onde estavam as ameixas bravas no leito
do rio? E onde estavam os reflexos de luz nas pesadas unhas dos
dedos dos pés de Olumo?
De forma que agora, pela primeira vez desde a sua ascensão
infantil ao domínio dos deuses, Egbo sentia e reconhecia o medo,
sentia-se despido ante a sua nova intrusão. Esta não era uma
habitação humana e que era ele senão um fruto da espécie, mal
amadurecido, que acabara de celebrar a libertação do homem...
E Egbo relembrava agora os seus gritos dilacerantes quando
fazia amor... Deixai-me jazer na escuridão... e agora ria. Na grande
voragem da terra, a torrente do rio era calma, mostrando uma língua
negra, sufocada, e ele ria, porque as palavras secavam com
dificuldade na sua língua... deixai-me jazer na escuridão... chorar
também... chorar na escuridão. Não costumava o seu professor dizer
que aquilo que fazia um rapazinho rir havia de fazê-lo chorar?
Gostara da escuridão, da estagnação silenciosa. Mas não deste
ribombar de apatia e cegueira da sua senda. Dormindo
excessivamente em cavernas na escura residência de um Deus
vingador? Por que remotos desígnios? Que sereia roubou o toque de
brisas cortantes?
Até que, com o medo, nele cresceu a ousadia e a ira, ira
verdadeira. Que truque mesquinho era este? De quem era a
gargalhada protegida pelo escuro, espiando os seus apuros? E a sua
ira subia, vendo somente a chantagem do medo.
Se isso fosse pecado? - e ele sabia que o seu enfraquecimento
proviera disso, de forma que terminou com as indecisões. Se isso
fosse pecado - então - deixa vir a paga, ó morte!
E Egbo deitou-se de novo sobre as rochas e adormeceu.
Depois veio a manhã, desvendando filões nas rochas, fazendo
nascer uma rede lá ao longe; era um arco-íris de aço cinzento, liso, e
vigas erguendo pilares dos intestinos da.terra. Egbo pôs-se de pé e
olhou à sua volta, maravilhado com a vida, pois parecia-lhe que tinha
nascido outra vez, sentia agora a noite como um útero de deuses e
uma passagem para viajantes... Recorda a tua promessa, orou ele,
recorda a tua promessa, porque eu sobrevivi a esta noite. Recorda os
meus terrores desta noite.
Partiu com um dom que não era capaz de definir, pois qual o
viajante que enfrenta os deuses nas suas cavernas e se vai embora
sem uma dádiva divina? Chamou-lhe sabedoria, por vezes um dom
para a beleza, uma consciência que o impelia perigosamente para
uma psique de sal-gema, um explorador da natureza.
E fez disso a sua coutada, um lugar de peregrinação.
- Venha cá - disse Egbo -, vou mostrar-lhe uma maravilha.
Estava sozinho em casa, Bandele fora para as suas aulas e uma
rapariga tímida encontrava-se no limiar da entrada. Tinha talvez
dezanove anos e segu-rava folhas de papel pautado, coberto de
grandes rabiscos pouco femininos. Sem pegar no ensaio dela, Egbo
perguntava a si próprio como podia uma frágil, quase débil criatura
ter uma escrita tão monstruosa.
- Vim só entregar o meu ensaio.
- Eu sei. Devia tê-lo apresentado ontem, não é verdade?
- Posso deixá-lo simplesmente em cima da mesa, por favor?
- O seu professor não está.
- Eu sei.
- Aha, com que então esperou até ele sair!
A rapariga tentou rodeá-lo e entrar em casa, mas Egbo enchia o
limiar com o seu corpo.
- Bem, importa-se de o receber, já que eu não posso entrar?
- Não, obrigado. Não vou ajudar uma estudante preguiçosa.
- O seu amigo não é superior a mim. Nós não receberemos isto
de volta antes do fim do período.
- O-oh, uma estudante impiedosa, hein? Como se atreve a falar
assim do seu professor? Vou dizer-lhe que a reprove.
- Diga-lhe. Ele sabe que é verdade. Se pudesse, até levava a
cama para as aulas e ensinava deitado.
Egbo curvou-se solenemente.
- Devo dizer-lhe que concordo com essa arguta observação sobre
o meu amigo.
- E agora, posso deixar cá o meu ensaio?
- Depois dessa observação, é claro que sim.
Egbo seguiu-a com o olhar, enquanto ela pousava o ensaio na
mesa. Esperou até ela voltar ao limiar e pediu:
- Fique a conversar comigo.
Ela imobilizou-se, franzindo o sobrolho.
- Ou não tem licença para o fazer?
- Não é uma questão de licença. Porém, não posso ficar, muito
obrigada.
- Por que não? Estou a beber sozinho, o que é mau. Sinto-me até
só, o que é pior.
- Não se incomode a tentar essa comigo. Não resulta. Ela parecia
subita-mente adulta.
- Meu Deus, vocês estudantes são todas tão perspicazes!
- Não somos totalmente idotas, sabe?
- Está bem, está bem. Ela acenou alegremente.
- Então, adeus. Beba, mas não se embebede.
Egbo viu-a afastar-se e, de repente, foi percorrido por uma
enorme sensação de solidão. Adormecera meio ébrio, porque Simi
afinal não aparecera, despertara perguntando a si próprio se Simi
satisfaria realmente os seus crescentes desejos, se Simi
permaneceria imutável enquanto ele... ele saía da cama e
contemplava a barba no queixo. Havia agora rugas na sua testa e
apenas um mês antes Simi arrancara cinco cabelos brancos da sua
cabeça. Este facto impressionara-o bastante e ele esticara-os numa
folha negra de papel químico. Por que envelhecera ele tão depressa?
Vinte e oito anos e com cabelos brancos!
Egbo precipitou-se atrás da jovem.
- Sabe, não me chegou a perguntar qual era a maravilha.
- Qual maravilha? - ela olhou-o com um vago divertimento.
- Não se lembra? Quando abri a porta e a vi ali parada...
- Ah, sim. Você disse: venha cá, vou mostrar-lhe uma maravilha...
qualquer coisa assim.
- E você nem sequer me perguntou ao que é que eu me estava a
referir.
- A princípio, pensei que era louco.
- A sério?
- Ou que estava a ensaiar mentalmente algum texto.
- Isso já é mais caritativo. E agora quer ir comigo ver o que é?
- Não, obrigada. Quem julga você que eu sou?
- Uma coincidência. Ela franziu o sobrolho.
- Que significa isso?
- Significa simplesmente que eu estava a pensar em voltar a
visitar um santuário que eu próprio criei. Desde que me levantei esta
manhã, não tenho pensado noutra coisa. Já decorreu bastante tempo
desde que lá fui a última vez.
- Bom, e o que é que isso...
- Espera, pequena, já lá vamos.
- Mas quem é que você julga que está a tratar por pequena?
- Por favor... não me interrompa agora. Ora eu estava
simplesmente a desejar ir lá com alguém, pois até hoje sempre lá fui
sozinho. A semana passada a ideia parecer-me-ia sacrílega, mas
hoje... bem, não consigo explicar. Descobri isso apenas pouco antes
de você chegar: desejei poder levar alguém comigo.
- Porquê eu?
- E por que não você? Serve tão bem como qualquer outra
pessoa.
- Oh! - ela fez uma vénia de mofa. - Obrigada pela honra.
- Então, vamos? Tenho só de tirar o carro.
- Oh, um passeio de carro. Isso é para me impressionar?
- Bolas para si, menina, mais as suas respostas memorizadas.
- Obrigada, lobo mau, mais as suas maquinações espontâneas.
Egbo deteve-se, incapaz de conter o seu prazer.
- Você mostra ter muito espírito Com efeito, acho que você é
uma pessoa deliciosa. A maioria dos estudantes que conheço não o
são.
A jovem deu um passo na direcção dos edifícios da universidade.
- Então, vem comigo?
- Tenho muito que estudar. Os nossos exames estão à porta.
- Exames finais?
- Não, ainda não. Mas também são importantes. Paru mim são.
- Você é uma jovem muito circunspecta.
- Nesta atmosfera, tem de ser assim
- De qualquer modo, venha comigo. Prometo que não nos
demoraremos.
O rosto dela tornou-se sério. Parecia meditar sobre outras coisas,
nada que lhe dissesse respeito, e estava preocupada.
- Acaso não confia em mim?
Sem levantar os olhos, ela abanou a cabeça.
- Não, não é isso.
Uma urgência em cometer o sacrilégio - acima de tudo, Egbo
tinha consci-ência disso. Quiçá em segredo, talvez há muito tempo
ele ansiasse mostrar a alguém o seu refúgio, o último baluarte
daquela iniciação, para partilhar a experiência da sua noite sob a
ponte com uma companhia humana. E Simi nunca poderia fazê-lo.
Embora sendo a causa directa, Simi, nem por um minuto, em todo
aquele tempo, parecera ser parte deste retiro. A reacção dela seria
profana, não entendendo as diferentes fases do seu carácter, as
claras águas correndo velozes para um cemitério de deuses, enormes
lápides de granito sobre prados de água cinzento-azulada. Ela
surpreendera-o uma vez e então ele compreendera, aprendendo a
deixar Simi no seu próprio ambiente, porque aí ela era infalível, a
única e perpétua rainha. O mundo de Simi eram quatro paredes, um
rádio, um gira-discos, uma preciosa carpete de pêlo curdo, e não
agulhas de pinheiro desfazendo-se nas reservas florestais, ao lado de
espessos formigueiros, sob o assobio do vento através de pinheiros
cobertos de pinhas encimadas por gotas de cristais de goma
castanho-dourada, segregadas pela árvore. Uma vez ele fizera para
Simi um colar com esses cristais secos e ela limitara-se a dizer:
- És muito engraçado. A jovem perguntava-lhe:
- Que faz você?
- Foreign Office. E eles apenas empregam homens de carácter sói
ido.
- E o que é um caracter solido?
- Bom, isso é um pouco complicado, no entanto, tudo se resume
nisto: podemos passar as noites num bordel desde que seja indígena,
mas não podemos (alar com a filha de um embaixador estrangeiro.
Percorreram de automóvel as doze milhas até Ilugun, numa
estrada que se enrolava e desenrolava, e Egbo repetia,
silenciosamente, vou mostrar-lho ape-nas uma vez e nunca mais,
nunca mais, só hoje. Admitamos, também, não ser estranho eu
necessitar de companhia, precisar de me sentir sincero, sem maqui-
nações. E era também o que ela procurava, apenas a companhia
impulsiva dele, pois era terrivelmente independente.
- É uma condição que imponho - continuava ela a repetir -, você
nunca mais me deve procurar depois disto.
- Claro que não.
Ela ergueu os olhos rapidamente, descrendo do assentimento
dele.
- Não devia encarar a situação tão levianamente. De qualquer
forma, que outra coisa seria de esperar? Você já esta formado, por
isso é-lhe indiferente que eu reprove ou não.
- Não está a ser justa.
- Isso já aconteceu a amigas minhas, sei bem o que digo.
- Está bem, está bem, pense o que quiser.
Em Ilugun pararam e Egbo comprou carne fresca, acabada de
assar em pequenas fogueiras. Debaixo do assento surgiu o seu
companheiro constante, uma barrica vazia, e. de seguida. Egbo
começou a rastejar, olhando para ambos os lados, por entre o
matagal.
- Vamos encontrar-nos com alguém aqui?
- Sim, mas ele não sabe. Temos de esperar que ele desça.
- Desça donde?
- Do colo do deus. O senhor da costela espiral, a palma.
- Ela estava tão divertida que era incapaz de parar de rir. - E
melhor não se rir na cara dele - acautelou Egbo -. a menos que não
tencione beber do leite dele.
- A culpa é sua - disse ela -, a andar de rastos com esse enorme
garrafão atrás de si...
- Esteja preparada, esteja bem preparada para a descida do
deus. Por estes trilhos fora, eles não sabem o que e a agua. O vinho
de palma é o que cai da arvore. Nas cidades foi inventada a água e, ai
de nós!, já penetrou nas aldeias. Porem, o vinho de palma nestas
paragens bravias esta só, nada mais tendo do que ar entre ele e o
seu deus. E não se atreva a diluir o sacramento.
Ela bateu palmas.
- Uma palestra maravilhosa, muito inspirada... espere. espere, ali
está uma.
- Uma barrica de vinho, caça assada e um livro como o
enigmático tu. a meu lado neste deserto
- Gosta de Ornar Khayam?
- Conheço e gosto unicamente desse tetrástico - é esse o nome,
não é?
- Mas o que quer dizer com enigmático?
- Se soubesse responder-lhe não lhe chamaria enigmática.
A vereda havia quase desaparecido, mas Egbo desviava os
arbustos altos e as moitas rasteiras, fazendo a pesada barrica oscilar
de um lado para o outro.
- Seria bem feito que ela se soltasse e partisse.
- O vinho de palma não trai os seus, acredite. Deteve-se. - Olhe.
- Estamos perto do rio?
- Fica a alguns metros para aquele lado. O que eu quero que veja
é outra coisa. - Pareceu calcular a distância até uma árvore e,
satisfeito, separou os arbustos em determinado local.
- Siga-me. Agora tenha muito cuidado. Não me agrada
abandonar uma vereda.
- O que é?
- Espere um minuto.
Como sempre, invadia-o aquele sentimento de culpa devido ao
seu egoísmo. Pensara uma centena de vezes, tenho de trazer Sekoni
a ver esta mara-vilha, e prometia a si próprio ser para a próxima vez.
Chegaram então a uma parte do matagal que' parecia nunca ter sido
bafejado pelo hálito humano e aí ele mostrou-lhe as catedrais
desoladas, agora ignoradas peias gordas formigas esbranquiçadas
que as haviam construído. Viam-se outras, novas, crescendo
lentamente do solo. A estrutura erguia-se quase diante dos olhos
deles, pulu-lada por centenas de suaves palpitações brancas,
amamentando laboriosamente e dando vida a pequenas colinas.
- Como um grupo de monges diligentes - disse ela.
- É tão absurdo... Limitam-se a abandoná-las uma vez
completadas. Venha por aqui, vou mostrar-lhe uma obra-prima.
- Apartou as folhas a alguma distância dali e ficou parado,
esperando a aprovação dela, como se desvendasse ao mundo uma
obra criada por ele próprio. - É ou não é - perguntou quase
ansiosamente - a mãe e o filho?
Construído em forma de espata, um vasto manto moldava duas
figuras, sobrenaturais no seu realismo, como faces flutuando no céu;
o vento dera-lhes um acabamento de grão grosseiro e elas elevavam-
se como um sepulcro castanho entre a frescura do orvalho. O manto
formava uma alcova, dentro dela estavam a mãe e o filho. Um
terceiro plano, por detrás de ambos, em obelisco, erguia-se como que
para prestar homenagem, feito de borlas baloiçando à mais leve
aragem.
- Tal vez agora eu traga aqui o Sheikh.
- Trazer quem?
- O Sheikh. O verdadeiro nome dele é Sekoni. É escultor.
- Sim, devia trazé-lo.
- Se não tiver medo e puder ficar até as sombras se alongarem,
verá a escuridão crescer por detrás do par, conferindo maior
profundidade à alcova.
Caminharam depois em direcção ao rio, patinharam nas poças
até uma rocha arredondada, saliente e macia, que era o leito favorito
de Egbo. Ele olhou o local onde Olumo meditava, invisível para lá de
vinte milhas de floresta interposta.
- Não agites o teu maldito dedo do pé - exclamou Egbo -, tenho
uma convidada.
Quando comiam, ela fez uma careta dizendo:
- Não está bem assada.
Egbo sorveu enormes goles de vinho e estendeu-lhe a barrica.
Ela deixou o líquido gorgolejar pela garganta.
- Cuidado, cuidado - avisou ele -, essa coisa está isenta de
manipulações e água.
Ela sentiu o vinho correr-lhe pelo queixo, caindo sobre o peito,
colando-lhe o vestido à pele, e apressadamente Egbo desviou o olhar
dos pequenos seios, sentindo a agitação no seu coração.
- Nunca tinha bebido vinho de palma com este sabor.
- Não se consegue deste vinho passando os dias na biblioteca.
Ela tornou-se de novo solene.
- Se ontem, não, se mesmo esta manhã, alguém me dissesse que
eu agora estaria sentada no meio do Ogun, bebendo vinho de palma
e comendo carne semiassada...
Egbo contemplou-a longamente antes de ela lhe perguntar:
- Como foi que veio a descobrir este lugar? Egbo narrou-lhe a sua
noite de terror sob a ponte.
Ela continuou sentada, agitando a água da poça com os pés, de
cabeça inclinada, enquanto ele falava e revivia a sua travessia da
escuridão.
- E você nunca trouxe ninguém aqui? Nem mesmo a mulher,
Simi?
- Não. Foi... uma noite de descobertas e eu fi-las sozinho. Como
despertar pela manhã e sentir em mim uma grande dádiva,
aceitando-a sem procurar interpretá-la. Venho aqui com frequência
evocar essa dávida e ser indultado. Acho que preciso mais dela do
que todos os meus amigos. Eles estão todos ocupados a fazer
qualquer coisa, eu, porém, pareço passar meramente de um
acontecimento para outro. Como se a vida não fosse mais do que
experiência. Quando aqui venho, descubro, e é suficiente. Venho aqui,
digamos, para ser novamente justificado. Acto que se renova sempre,
embora algum dia possa chegar à conclusão de que uma vez foi
suficiente.
- O que foi que aconteceu desta vez para precisar desta...?
- Justificação? Não, é ainda demasiado cedo para falar nisso.
- Não julgue que eu não compreendo. Alguns homens procuram
outros homens para serem tranquilizados.
- Até certo ponto, assim é. A imperfeição deles é maior que a
minha.
- Você não é imperfeito.
- É muito amável, mas engana-se. Quem se atreve a ser perfeito?
- Pode-se sê-lo. É preciso sê-lo.
- Nem mesmo quando alcançarmos os primeiros lugares. Nem
mesmo quando a nossa pretensa sofisticação serena realmente e se
torna parte de nós.
- Então, pelo menos, confiamos plenamente em nós próprios.
- Sim, creio que sinto isso em si. Como quando veio comigo. Foi
uma decisão muito obstinada, mandando ao diabo as suas naturais
suspeitas e inquietação.
- Não, não, não deve julgar as coisas desse modo.
- Porque não são verdadeiras? Oh, é uma característica das
pessoas solitárias e eu estava cheio de respeito.
- Não, por favor, não falemos mais nisso. Não gosto do modo
como põe as questões.
- O seu instinto tem razão. A continuar como começamos,
poderíamos acabar por revelar demasiado um ao outro.
- Sim, falemos sobre o que quiser, mas não sobre nós. Fale-me do
Foreign Office e dos seus arquivos diplomáticos, fale-me sobre o que
quiser...
Egbo puxou-a para si. A dureza era somente uma crosta exterior,
apenas a pele teimosa do instinto de defesa dela, cedendo sob as
suas mãos ávidas. O puro centro escorria sangue rubro, salpicando os
dedos dos pés do deus e, mais tarde, ele lavou-o no rio. apesar dos
tímidos protestos dela. E Egbo confessou que nunca, desde aquela
noite com Simi, se sentira tão nervoso, tão receoso de se aventurar.
Ela disse:
- Os meus exames são no próximo mês. Não deves tentar ver-me
de novo.
Bandele parou, com a chave na mão.
- Esqueci-me de te avisar. Tenho um hóspede e poderás não
gostar dele.
- Pelo privilégio de sair de Lagos - replicou Sagoe -, aceitarei
qualquer tormento. Quem é ele?
- Um jornalista que viaja à boleia através de África. Possui um
arsenal formidável de equipamento fotográfico como nunca vi na
minha vida.
- Inglês?
- Não, alemão, mas julga ser americano.
- O quê?
- Provavelmente vais achá-lo insuportável. Eu cá, acho.
- Se acontecer o pior, posso ir ficar em casa de Kola.
- Não te aconselho. Ele tornou-se um maníaco pelo Panteão.
Bastante insuportável como animal social.
Nas escadas soou algo como uma debandada de elefantes e um
grito:
- És tu, Bandili? - Ouviram um salto do quinto degrau e um
estrondo logo atrás da porta. Durante alguns segundos, alguém lutou
com a maçaneta, enquanto uma voz aconselhava mais calma, não vai
demorar um minuto, que se passa com esta maldita porta, até que a
porta se abriu subitamente, uma oval cor-de-rosa surgiu sorridente,
uma mão rósea e peluda sacudiu-lhes as mãos, deu-lhes uma
palmada nas costas - como estás meu malandro -, arrancou-lhes as
malas das mãos -, este é que é o teu amigo do Foreign Office? - e,
empurrou-os para a sala de estar com uma cerveja em cada mão.
Seguidamente, o mesmo espécime zoológico precipitou-se
escada acima, bramindo:
- Já tinha começado a pensar que não vinhas esta. noite, que tal
achou o teu amigo a América, quero falar pessoalmente com ele,
alguma vez esteve em Chicago?
- Isto é alguma piada? - perguntou Sagoe.
- Não sei.
- Que é isso? Não sabes? - Mas Bandele limitou-se a encolher os
ombros e sorveu um gole de cerveja. - Bem, esta é a tua casa, não é?
Agora tens um bobo privado.
- Conheci-o através de Joe Colder.
- E quem é esse Joe Colder?
- Desculpa. É um leitor americano de História. Hás-de encontrá-lo
qualquer dia. De qualquer modo, só sei que, de um momento para o
outro, Joe Colder saíra e me deixara este palhaço entre as mãos.
- Convidaste-o a ficar em tua casa? Bandele abanou tristemente
a cabeça.
- Não me recordo de ter feito tal coisa. Mas ele está aqui. Peter
desceu novamente de uma forma muito semelhante à anterior. Desta
vez apresentou-se formalmente:
- Chamo-me Peter. Ola!
- É americano? - perguntou Sagoe. Nada mais podia fazer do que
permanecer sentado. Peter colocara ambas as mãos nos braços da
sua cadeira e plantara a face diante da de Sagoe. Depois, entreteve-
se a misturar todas as pronúncias.
- Sim. Bem, não exactamente. Sou alemão mas uso passaporte
americano. Vou só buscar uma bebida, venho já. Lamento tanto não
ter podido ir convosco a Lagos, mas tinha um encontro com um
ministro. Sou jornalista, acho que Bandili já lhe disse. Divertiram-se
muito na cidade a noite passada? Um tipo fabuloso, o vosso ministro,
um tipo às direitas. Convidou-me para passar um fim-de-semana na
sua casa de campo.
- E vais lá? - A afectada indiferença de Bandele divertiu bastante
Sagoe.
- Claro, senti-me realmente honrado.
- Qual ministro? - quis saber Sagoe.
- Um qualquer. Um pouco de publicidade grátis no estrangeiro.
- Mas só até verem o resultado, depois compreenderão que as
suas palavras foram adulteradas.
- E então é o: corram com eles, corram com eles, quem diabo
julgam eles que são, como ousam eles abusar da nossa integridade
soberana com as suas mentiras reaccionárias, neocolonialistas,
neocapitalistas, deportem esses saca-nas, viva a Nigéria...
O frigorífico estremeceu com desusada violência e Sagoe
lembrou-se de que Peter ainda estava com eles.
- O teu amigo é mesmo um tipo engraçado. O que era aquilo que
ele gritava ainda agora?
Sagoe murmurou quase para si:
- Que tu me pareces um excerto de vacuidade nas escórias da
bestialidade ariana.
Peter riu-se.
- Primeiro gritas a ponto de toda a casa abanar, depois murmuras
de modo que ninguém percebe uma palavra do que dizes.
- Eu sou assim - confessou Sagoe.
- E como vai a vida no Foreign Office?
- Nenhum espião, ultimamente. E a sua, como vai?
De certo modo, Peter fazia-lhe lembrar o chefe Winsala, em
particular o riso,
- Bandili, o teu amigo é mesmo o tipo mais engraçado que
conheci em África. Achas que eu sou um espião, Bandili?
- Não, não me parece que sejas um espião. Peter.
- Mas ele pensa o contrário. Bandili. tu és todo solene, mas o teu
amigo é pouco cortês. Nem por sombras me passaria pela cabeça que
ele trabalha no serviço diplomático.
- Admiro a sua perspicácia. Realmente, não trabalho no Foreign
Office.
- Bandili, olha-me esta, não achas que ele é mesmo...
- Estás enganado. Peter, este é Sagoe e trabalha num jornal.
- Mas disseste-me que esperavas um amigo do Foreign Office.
- O avião dele vinha atrasado. Deve chegar mais tarde. Sagoe
sentiu-se confuso. Voltou-se na direcção de Bandele mas foi
silenciado, por sinais, com a promessa de uma ulterior explicação.
- Então és um dos nossos! - Peter avançou e voltou a sacudir-lhe
a mão. - Bem, devo confessar que agora me sinto realmente em casa.
Bandele estremeceu.
- Maldita mania a tua desta familiaridade instantânea e vitalícia –
resmun-gou Sagoe. desviando o rosto quando o bafo malcheiroso de
Peter o atingiu em cheio. Abriu caminho, dizendo: - Vou só lavar as
mãos.
- Que vamos fazer esta noite, Bandili? Proponho irmos festejar o
conhecimento deste teu amigo e colega de profissão.
- Na realidade, fui convidado para uma espécie de festa.
- Óptimo. Vamos todos. Bandeie pareceu entristecer-se.
- Ah, não sabes como são as nossas famílias aqui. É uma coisa
íntima, só para a família.
- Por isso eu posso ir, hein? Eu faço parte da família. Sinto-me
nigeriano. Sinto-me mesmo em casa, sabes? Não me sinto diferente
de vocês. Todos os dias faço amigos nas ruas e nas casinhotas à beira
das estradas tal como qual-quer nigeriano.
- Parou, vendo Sagoe dirigir-se à porta das traseiras. - Onde vai o
teu amigo? Eh, a casa de banho não é aí. É lá em cima.
- Deixa-o ir - explicou pacientemente Bandeie. - Ele apenas usa o
chuveiro nas instalações dos rapazes.
- Ena, é um tipo porreiro, o teu amigo. Um tipo às direitas. Sabes
que eu gosto do género de pessoas que não estão para cerimónias.
Ah, Bandili, tive uma ideia. Primeiro vamos a essa festa, depois
vamos a um cabaré qualquer e engatamos uns borrachos, que dizes?
- Está bem, Peter.
Peter, após algumas tentativas, optou pelo uísque e enfiou o
gargalo da garrafa na boca.
- Eis aquilo que eu gosto nos lanques. Sabes, quando vou a um
clube nocturno, aqui, as pessoas ficam sempre a olhar para mim
porque bebo pela garrafa. Os Americanos não perdem tempo com
copos, bebem sempre pela garrafa.
Bandeie suspirou, tomando nota mentalmente para não oferecer
o que restava daquela garrafa a alguém que considerasse seu amigo.
Sagoe regressava a casa, resmungando:
- Por causa daquele maldito idiota, esqueci-me de levar sabão e
toalha.
Antes de ter alcançado o cimo das escadas. Peter já ia atrás dele.
Quando Sagoe tentou fechar-se na casa de banho era tarde, a chave
caíra no chão. Deses-perado, dado que o lugar da porta era agora
ocupado pelo vasto arcaboiço de Peter, voltou-se para o armário e
iniciou os preparativos para se barbear. Ensaboou furiosamente o
queixo e o lábio superior para não ter de abrir a boca, perguntando a
si mesmo se. afinal, o idiota teria ouvido aquilo que murmurara.
- Ouve, pensei que talvez gostasses de dar um gole enquanto te
barbeias. Não queres um gole?
Sagoe abanou a cabeça.
- O que é isto? Ah, loção para depois da barba. Oh. oh, o uísque é
muito melhor para esfregar na pele, queres experimentar? Melhor
ainda, vamos apanhar uma bebedeira. Eu apanho sempre uma antes
de me encontrar com a família. A minha família foi sempre muito
conservadora. Muito conservadora mesmo.
- Tira-me essa garrafa da frente do nariz!
Bandele riu-se entre dentes e veio ao encontro de Peter, que já
descia as escadas.
- Ena, o teu amigo é realmente um tipo irritável. Que mosca lhe
mordeu?
- Pergunta-lhe.
- Não faço a mais pequena ideia do que possa tê-lo chateado.
Que diabo, hein? Apenas lhe ofereci uma bebida. Sorveu mais uma
golada. - Queres beber, Bandili?
Bandele abanou a cabeça.
- Vá lá, homem, vamos ficar alegres.
- Já estou a beber cerveja.
- Está bem, mas bebes também um pouco de uísque a
acompanhar. Então, homem, que se passa com vocês hoje'?
Tentou meter a garrafa nas mãos de Bandele, mas este não
conseguiu segurá-la. A garrafa estilhaçou-se no chão e Bandele
regressou calmamente à sua cerveja.
Peter subiu ao primeiro andar. Pegou no esfregão e deteve-se no
limiar da casa de banho, dizendo:
- O teu amigo está mesmo maluco. Para que foi ele desperdiçar
um uísque tão bom? - Parecia verdadeiramente magoado e começou
a esfregar o líquido derramado, continuando a manifestar o desejo de
se embebedarem a sério.
Na garagem. Bandele parou.
- Tens a certeza de que queres ir à festa?
- Farei tudo para me afastar de Peter. Meu Deus. em cinco
minutos aquele homem reduziu-me a uma pilha de nervos.
- Está bem. vamos embora.
- O que é que ele dirá quando descobrir que nos fomos embora?
- Oh. há-de arranjar-nos uma desculpa. E de compreensão lenta.
- Que historia era aquela dos aviões'.'
- Uma desculpa para me livrar dele. Disse-lhe que um amigo
meu, que estivera no serviço diplomático no Canadá, estava de
regresso com a família e iria ficar em minha casa.
- Mas Egbo vem?
- Ele agora pouco sai daqui. Uma das raparigas deu-lhe volta à
cabeça.
- Não acredito.
- Hás-de ver com os teus próprios olhos.
- Não, não acredito.
A calçada estava impedida pelos carros dos convidados da festa
e Sagoe propôs:
- Vamos voltar para trás e ir a pé. - Bandele abanou a cabeça.
- Os cães ladrarão. Ou morder-nos-ão, se pensarem que somos
criados.
- Hum, parece-me que são cães muito finos. E que fazem eles
aos ciclistas?
- Depende. Os criados conseguem passar. Os leitores da
universidade recebem dois latidos breves; quer dizer comunistas.
- Estou impressionado.
À luz dos faróis, a face de Bandele era seca e lisa.
- Isso não é nada. Se chegares ao volante de um dos carros dos
maiores, eles deitam-se na estrada e deixam-se atropelar.
Um zumbido de gargalhadas suaves e galantes acolheu-os à
porta e penetraram na casa da morte. Do lado da taça de ponche,
soou uma voz aguda, decerto o estranho dialecto de alguma tribo
britânica:
- E então ela revelou um súbito interesse pelo grupo de madrigal,
de modo que John disse: é melhor ir ver o que se passa.
Soaram risos abafados e depois uma voz grave afirmou:
- Realmente achei a partida dela para Londres muito apressada -
e uma vez mais soaram risos comedidos.
- Será que conseguiremos chegar às garrafas?
- Basta irmos empurrando, pouco a pouco, e conseguiremos
passar.
- Espera aí. Estou a ver caras negras - são nigerianos?
- As aparências iludem, vamos embora.
Entre as taças de acepipes - amendoins, popadums, espetadas e
as inevitáveis azeitonas -, Sagoe viu uma taça com frutos frescos e
dirigiu-se a ela. gritando:
- Para o interno com o patriotismo, Bandele, não há fruta no
mundo que se compare à maçã europeia.
- Estás enganado - replicou Bandele -, mas vai. hás-de ser tu
próprio a descobri-lo.
Sagoe voltou furioso.
- Que ideia esta de porem ali fruta de plástico... eh... eh. espera
aí, Bandele, espera aí... - Só agora começava a aperceber-se da
decoração da sala e estalava com a língua à medida que. com os
olhos, ia completando lentamente um círculo.
- O que é que se passa? Oh, ainda estás com essa ideia das
frutas?
- Para usar a expressão favorita de Mathias, O-ko-ko-ko! Do tecto
pendiam cachos citrosos suspensos por fios invisíveis. O verniz, que
substituía o calor da vida e a suculência, dizia tudo, eram iguais às
maçãs artificiais. Nas paredes havia vasos extravagantes parecidos
com chapéus de praia e deles caíam heras que se agarravam a uma
moldura, tudo em plástico, e o tecto estava coberto de líquenes de
plástico. Sagoe passara, compreendia agora, sob um grupo especial
composto por uma laranja, duas pêras e um leque de bananas
trabalhadas em cera, à europeia.
- Sinto-me transportado à floresta petrificada. O que é que se
passa com a gente que vive aqui?
- Nada.
- Será que têm cérebros petrificados a condizer? Na área das
trufas ouvia-se:
- É como te digo, tive de desistir da minha licença por causa
dela. Os nefríticos nunca puderam com os africanos. E ela é uma
pessoa tão sensível! Quem iria tomar conta dela?
Bandele afastou com gentileza os dedos de Sagoe que
apertavam o seu braço.
- Também ouvi. E não preciso de um torniquete.
- Mas ouviste aquilo? Quero dizer, ouviste bem aquilo?
- Sim, sim, mas vem para o pé da mesa das bebidas
- Mas quem é o negro idiota que ouviu aquilo com ar de
simpatia? Quem é o mandarete em fato de gala?
- Não fales tão alto. Aquele é o novo professor. É a festa dele.
- ... Pois ela fica positivamente cheia de borbulhas.
Simplesmente alérgica a africanos. Oh. ela é simplesmente amorosa.
- E de novo o professor acenou compreensivamente.
- Mas se ela estivesse a falar com um branco eu
compreenderia...!
E, gradualmente, começando na ponta dos dedos. Sagoe sentiu
uma estranha excitação. Uma sensação estranha na pele. de
expectativa ambígua e perigosa.
Uma mulher aproximou-se.
- Acho - disse Bandele - que agora é que vais ter de pagar o que
bebeste. Devias ter posto uma gravata.
- Que queres dizer com isso?
- Vem aí a dona da casa. Boa sorte.
- Boa noite, Bandele - saudou a mulher. - Não o vi entrar.
E a excitação cresceu até Sagoe compreender que precisava de
ir aos lavabos.
- Cheguei muito tarde, lamento. Acabo de regressar de Lagos.
- Não me diga que conduziu à noite naquela estrada! É muito
perigosa, bem sabe... aqueles loucos. Insisto sempre com o meu
marido para levar o motorista quando tem mesmo de viajar de noite.
- Estava decidido a não perder a vossa festa - replicou Bandele e
Sagoe quase deixou cair o copo das mãos.
- É muito simpático da sua parte dizer isso. Quem é o seu amigo?
Sagoe antecipou-se com vivacidade.
- Nós apenas nos encontrámos à entrada, nem tive tempo de me
apre-sentar. Chamo-me Edward Akinsola, a senhora deve ser a
anfitriã - e intima-mente ia trauteando... campainhas nos dedos, o
Big-Ben no pé e, apesar da sua rosa, ela há-de cheirar a chulé...
A mulher estendeu uma mão enluvada. Enluvada até ao
cotovelo.
- Como está? Nunca nos encontrámos antes, pois não?
- Não. creio que não. - Sagoe, mentalmente, retirou-lhe a luva...
que tens tu lá dentro? Um peixe escorregadio?
- É evidente que você é novo na universidade.
- Acabo de chegar da América.
- A-ah, os Estados Unidos! Isso explica tudo. - Sagoe fitou-a na
esperança de que ela explicasse o que explicava o quê e ela foi
constrangida a fazê-lo. - Os Americanos são tão informais, não são?
Sagoe. apanhado desprevenido, sentiu-se ofendido. Mas ela
impediu-o de, talvez, retorquir asperamente, perguntando:
- Já começou a leccionar?
- Não, tenho estado a fazer pesquisas - ... e; para começar, vou
tentar saber por que germinou no teu umbigo bulboso uma rosa
artificial..
- Tinha-me esquecido de que as aulas já acabaram. De momento
há exames e coisas dessas.
- Precisamente - corroborou Sagoe -, exames e coisas dessas.
Ela sorriu docemente.
- De qualquer modo, creio que vai precisar de tempo para
assentar. É certamente uma coisa difícil uma pessoa assentar depois
da sua vida de estudante. Sempre achei que é terrível para os
estudantes serem colocados imediatamente a leccionar, é muito
difícil reajustarem-se. Bandele, há-de trazê-lo consigo quando vier
tomar chá connosco.
- Com o maior prazer, Mrs. Oguazor.
- A propósito, conseguiram encontrar alguma coisa para comer?
Era apenas um jantar no bufete. Se se apressarem, talvez consigam
alguma coisa...
... A maçã de plástico estava muito boa. obrigado... Mas Sagoe
dominou silenciosamente a sua fúria e. para agravar a situação,
Bandele ria entre dentes ao mesmo tempo que a anfitriã lhes voltava
as costas e os abandonava.
- Que diabo encontras tu de divertido nisto tudo? explodiu Sagoe.
- A tua cara. Aquilo foi mesmo pontaria.
- Não vejo onde possa estar essa pontaria.
- Não fiques de mau humor. Não te portaste nada mal pela tua
parte, simplesmente, com pessoas como ela. e preciso estarmos mais
preparados.
Uma concentração ruidosa num dos cantos da sala. perto da
escada. Todas as senhoras pareciam ter-se reunido ali. esperando
qualquer coisa. Sagoe voltou-se para Bandele na intenção de
perguntar se a testa acabara, quando o professor se aproximou deles.
- Pensei que Ceroline estava aqui.
- Esteve aqui há momentos.
- Oh. meu Deus. e as senhoras estão a espera dela. Nesse
momento. Mrs. Oguazor emergiu de um dos grupos e encaminhou-se
para o professor.
- Ceroline. as senhoras estão à tua espera.
- Bem sei. Andava à tua procura para te dizer que tenho de ir Ia
acima. Importas-te de tratar das coisas aqui'
- Claro que não.
- Ah, vejo que já conheces o novo leitor da universidade - e
Sagoe apercebeu-se claramente da troca de olhares de
entendimento. - Pedi a Bandele que o trouxesse a tomar chá; ele
ainda não está habituado às coisas daqui.
Parecendo uma marioneta saída dos manuais de etiqueta
vitoriana, o professor inclinou-se. O desprezo que os seus modos
manifestavam era demasiado evidente para subsistirem dúvidas, e foi
com muita dificuldade que Sagoe controlou o impulso de verificar se a
sua braguilha estaria desabotoada.
- Vamos, crida - e o professor pegou na mão de sua esposa -, não
devemos deixar as sinhoras à espera.
Caroline concedeu a Bandele outro sorriso fugaz e viram-na
desaparecer entre sussurros.
- Bem te disse para pores uma gravata.
- Arruinei a tua reputação?
- Tê-lo-ias feito, irreparavelmente. Porém, esqueces-te que lhe
disseste que não te conhecia.
- É verdade! Melhor ainda. Tenho um sexto sentido para estas
coisas. Mesmo assim, é melhor não pôr em risco a tua reputação.
- Já está arruinada, não te preocupes. Relações de cortesia é o
máximo que me concedem.
- Então por que te incomodas a vir às festas deles?
- Mas tu não gostas de apreciar as pessoas de vez em quando,
especialmente quando sabes que elas nem suportam a tua presença?
- É um gosto estranho.
- Não tão estranho como o deles. Por que me convidaram?
- Se posso expor a minha ideia, não me pareceu haver qualquer
tensão entre ti e eles.
- Isso é aquilo a que se chama civilização. Aqui somos todos
criaturas civilizadas.
O vestíbulo estava vazio. As mulheres agrupavam-se junto a
escadaria, esperando a ordem definitiva para subirem. Os homens,
domesticados e correctos, haviam criado um cantinho dos homens na
extremidade oposta da sala. Alguns exigiram certas manobras por
parte do professor, mas as suas sugestões eram imperceptíveis. Veio
o café e trocaram-se cigarros. Por tácito acordo, mantiveram-se com
as costas voltadas para as escadas até ao momento em que as
mulheres desapareceram totalmente. Passava-se tudo com tanta
elegância que Sagoe estava perdido na sua admiração O professor
murmurava-lhe que os lavabos do rés-do-chão estavam a disposição
deles, mas Sagoe havia-os descoberto muito antes. A excitação subia
dentro dele gota a gota e. de modo algo estranho e pervertido, sentiu
a tensão crescer-lhe no peito até parecer que. se não acontecesse
rapidamente alguma coisa, morreria de ataque cardíaco.
Os movimentos nas escadas demoraram excessivamente,
sabotados pelos esforços de uma jovem no meio do vestíbulo,
explicando pacientemente um ponto de desacordo a duas luvas que
gesticulavam caprichosamente.
Momentos antes, ela estivera envolvida em animada conversa
com alguns convidados masculinos, mas estes haviam-se afastado
com elegância quando Mrs. Oguazor surgiu por trás deles e tossiu
suavemente não foi necessário mais. A jovem, porém, ignorava estes
sinais. E quando, finalmente, Mrs. Oguazor lhe explicou o que iam
fazer, a sua resposta foi:
- Oh, talvez mais tarde, obrigada, Mrs. Oguazor.
A interrupção tomara-se bastante embaraçosa antes de Sagoe
captar as primeiras palavras trocadas pelas duas mulheres.
A rapariga continuava a dizer:
- Mas não me apetece ir lá.
E a anfitriã, com a doçura a dissipar-se lentamente da face:
- Mrs. Faseyi, estamos a fazer as outras esperar.
A voz da jovem manteve-se, num murmúrio pleno de paciência.
- Garanto-lhe que não quero ir lá acima.
- Minha querida, está a ser indelicada. Todas as senhoras se
devem retirar para o piso superior neste momento. Estamos todas à
sua espera.
- Mas eu não quero ir.
- Estes pormenores de etiqueta corrente não lhe devem ser
estranhos. E se o são, limite-se a ver o que as outras fazem, e siga o
seu exemplo. - A anfitriã parecia agora mais enervada.
- Usei os lavabos do rés-do-chão há cerca de dez minutos. Não
tenho vontade de lá ir tão pouco tempo depois.
- A questão não está em você querer ou não... - A voz subiu-lhe
subitamente de tom e ela dominou-se, olhando rapidamente em torno
de si. Os poucos homens que se haviam voltado rapidamente,
procurando perceber o que se passava, aparentaram indiferença por
entre enormes nuvens de fumo. Sagoe ignorou todo e qualquer
sentido de decência e aproximou-se para escutar melhor, enquanto
as mulheres voltaram categóricamente as costas à vergonhosa cena
da jovem. Mrs. Oguazor tentou novamente o tom xaroposo:
- Minha querida, a questão e esta. todas as mulheres devem
dirigir-se ao piso superior. Talvez deseje retocar a sua maquilhagem
ou...
- Mas eu não uso maquilhagem.
- Certamente que deseja ir ret'rescar-se. Mrs. Faseyi. E. de
qualquer modo, se não vier, ficará sozinha com os homens.
- Oh, não me importo nada.
- Está a ser impertinente. Mrs. Faseyi. E logo você de entre todas
as minhas convidadas. Não compreendo por que há-de incomodar
toda a gente desta maneira.
Os olhos da jovem escancararam-se.
- Estou a incomodar alguém?
- Vá lá, venha daí como uma rapariguinha obediente. Assumindo
o comando, pegou no braço da outra. - Vamos embora.
A jovem deteve-lhe o movimento, colocando amigavelmente
uma mão no ombro de Caroline.
- Leve as outras. Mas não me deixem sozinha por muito tempo.
Isto devia ter sido o fim e alguns dias atrás tê-lo-ia sido. Mas
tratava-se da sua primeira recepção social como esposa do professor
e a cena - não podia continuar a ignorá-lo tornara-se pública. E ela,
um espécime raro. a esposa negra de um professor, era encarada
com arrogância por uma vulgar dona de casa. pouco mais do que
uma criança, na sua própria casa, publicamente, e o código de
etiqueta estava do lado dela, Mrs. Oguazor!
- Venha imediatamente connosco - afirmou Caroline -, ou nunca
mais será convidada para vir a minha casa.
E a jovem respondeu simplesmente:
- Oh, acho isso muito natural.
Foram as outras mulheres que vieram salvar a situação. Mrs.
Oguazor estava agora decidida a ir sozinha com as outras, mas
entretanto o vestíbulo parecia ter-se tornado enorme e a distância
que a separava delas dilatara-se. Através deste deserto, surgiu a
salvação, a magra Mrs. Drivern, esposa do ginecologista.
- Parece-me que já esperámos o suficiente, Mrs. Oguazor. - Pegou
na mão enluvada da anfitriã, que se sentiu grata, e, voltando
orgulhosamente as costas à proscrita, partiram à frente de mais de
quarenta apoios morais, em direcção ao santuário artificial das
senhoras repletas. Sagoe inquiriu:
- O marido da jovem está cá? - e quando Bandele assentiu,
acrescentou: - Queres apostar em como o descubro à primeira
tentativa?
- Não. Não é difícil adivinhá-lo.
O suor corria livremente pelo pescoço de um dos maridos. Nada
o mantinha pregado ao solo além do desejo desesperado de que este
se abrisse a seus pés e o engolisse. Os seus movimentos haviam-se
paralisado e as palmas das mãos humedeciam um cigarro até que
este se apagou.
- Ele há-de ir-se embora - disse Sagoe. - O chão não se lhe vai
abrir sob os pés, de modo que há-de ir-se embora. Montado no nó da
sua gravata.
- Já está a preparar uma desculpa. Conheço bem Ayo. Ouviram o
copo dele tilintar numa mesa e o Sr. Faseyi, endireitando as costas,
voltou-se com a determinação de um homem em julgamento, pronto
a dissociar-se da conduta da sua esposa - mediante uma reparação
imediata.
Simultaneamente, Bandele e Sagoe dirigiram-se para o centro da
sala.
- Tu tens de viver com eles. É melhor não te intrometeres. - E
Sagoe empurrou Bandele para trás, com firmeza.
Mas já era demasiado tarde. Kola acabava de entrar com Egbo
quando a cena começara e ficara a observá-la da porta. Viram-no
encaminhar-se rapida-mente para a jovem que continuava sozinha,
dizer-lhe algo e, seguidamente, iniciarem loucamente uma dança
lenta ao som da música de bailado que emanava com suavidade dos
amplificadores ocultos. Sagoe voltou a pegar no seu copo, declarando
com fingido descontentamento:
- Esta sala está a abarrotar de S ir Galahads.
O disco era Temas Populares de Bailados Famosos e o par fundiu
os seus movimentos com os compassos do Lago dos Cisnes. Ao canto,
Faseyi suava, derrotado, indeciso. Quando decidira permanecer
imóvel, uma mão poisou-lhe nas costas, lembrando-lhe que o
professor continuava atento, e deu então um passo em frente.
- Fash! - deteve-se paralisado. Voltou-se e ficou aliviado por ver
que se tratava de Bandele.
- Ah, olá, desculpa mas tenho de me ir embora.
- Logo agora que as danças começaram.' - e Bandele prosseguiu:
- Ou será que tens de ir fechar os rapazes'?
- Anh? Desculpa... eu... que disseste?
- Escusas de fingir. Toda a gente sabe que conseguiste o lugar de
director da prisão de Shehu Hall.
- Anh, que história é essa? Hum? Onde ouviste tu isso?
- Parecia um cão de caça, tentando farejar o que havia no ar.
- Conta-me lá o que ouviste...
- Oh, deixa-te disso, Fash... - e nesse momento o disco calou-se.
O profes-sor pousou, com gravidade, o braço do gira-discos no
descanso, sem sequer olhar os profanos dançarinos.
Sagoe não estava embriagado, mas voltou a sentir a mesma
excitação. O professor regressava ao grupo, depois de restaurada a
dignidade da sua casa, protegido por uma armadura de rectidão.
- Muito bem! - No silêncio reinante, a voz de Sagoe sobressaltou
toda a gente. - Toca a dançar uma coisa mais alegre.
O professor quedou-se a meio do trajecto e o cantinho dos
homens ficou mudo de indignação. Os copos detiveram-se no ar, tal
como se o orador que ia propor um brinde tombasse redondamente
sobre a mesa. Era o silêncio que segue um cheque sem cobertura, o
silêncio - sentiu-o Sagoe - de um vácuo temporário.
Por fim, o professor continuou a andar, com o rosto de tal modo
deformado que cada convidado perguntava ao vizinho:
- Espero que não tenha sido você quem trouxe este tipo - e
suspiravam, desapontados por receberem uma fria negativa.
Todavia, tudo levava a crer que J. D. Oguazor decidira esquecer
todo o episódio. A nomeação para professor exigia novas virtudes,
como a magnani-midade. O seu rosto apelava à calma, dignidade e
coibição face a esta bárbara provocação. A resposta foi pronta e,
lentamente, a conversação reavivou-se. Egbo juntou-se a Kola no
centro da sala e Sagoe juntou-se-lhes quase de imediato, mas o
marido afastou-se um pouco com Bandele, começando a interrogá-lo
sobre o lugar de director. Era tudo rumores, insistiu Bandele, mas
vindos de fontes bem informadas.
Finalmente, acabou por convidar Bandele para almoçar.
Adeora, leitor de terceiro grau, que conseguira descobrir onde
havia almoçado o presidente da Guiné quando visitara a
universidade, narrou então uma conversa íntima que ambos haviam
travado pouco depois do almoço.
- Sim, sim. Almocei com ele. Uma pessoa excelente. Nnojekwe
pediu ao professor um conselho paternal sobre o melhor momento
para tirar a sua licença anual e, seguidamente, elogiou os
candelabros de bronze nas quatro paredes.
- Candelabros? - inquiriu o professor. - Oh, oh, sim.
Oguazor, receoso de parecer ignorante, não se apercebeu da
armadilha em que caía.
- Foram muito caros, mas são valiosos e Caroline gosta tanto
delis!
Nnojekwe induziu-o a falar um pouco mais e depois regressou ao
seu grupo para transmitir a última de Oguazor. Dizia o Dr. Lumoye:
- ... Isto é realmente confidencial, como calculam, mas já sabiam
que uma das raparigas está grávida? - As respirações suspenderam-
se, horrorizadas. - Uma aluna do segundo ano procurou-me na minha
clínica e perguntou-me se a podia ajudar. Bem, esse tipo de coisas
não faço, foi o que lhe respondi. Acon-selhei-a a esperar mais
algumas semanas, ir para casa e pôr o caso nas mãos dos pais.
- Isso é a última coisa que ela deseja. A maioria delas pouca ou
nenhuma compreensão deve esperar por parte das famílias.
- Bom, esse tipo de compreensão é que ela não recebe da minha
parte. Não vou arriscar-me a sete anos devido ao prazer de um tipo
qualquer. Se eu próprio o tivesse experimentado, ao menos teria algo
em troca para me gabar... - e as gargalhadas abafaram
educadamente o borbulhar da champanha.
O professor Singer brincava com um cinzeiro e Oguazor abordou-
o.
- Gosta deli?
- Muito bonito, oh, realmente muito bonito.
- Comprei-os pelo aniversário da minha mulher. Seis. E aquelis
candilabros na paredi.
- Desculpe... hum... que foi que disse?
- Refiro-me aos de bronzi. É muito útil tê-los em casa. Sou uma
pissoa que prifere presentes práticos. E Ceroline gosta tanto de
candilabros!
O professor Singer passou o resto do serão tentando localizar os
candelabros de bronze nas paredes.
Na casa da morte, onde cérebros eram petrificados para servir
de puxadores para o guarda-fato de Dehinwa, Sagoe olhou uma vez
mais para cima e descobriu montes de bagos verdes e negros,
colgados nas travessas das paredes, acompanhados de reluzentes
folhas verdes, sintéticas.
O dr. Ajilo negava que levasse prostitutas para casa. Não
passavam além da sua garagem, jurava, mas Oguazor estava mesmo
atrás dele e não parecia divertido.
- Aqueles madrigais! Uma boa desculpa, depois o marido
começou a suspeitar dos ensaios tardios...
- Ouvi dizer que o Sr. Udedo nem sequer pode pagar as contas da
electricidade. Que faz ele ao dinheiro que tem?
- Com quem anda Salubi agora? Aquele rapaz é moralmente
corrupto, garanto-vos. Nem poupa as estudantes.
- Um dia destis - dizia Oguazor -, a direcção da universidadi há-di
acusá-lo de torpeza moral.
Um homenzinho avançou na direcção de Bandele e acabou por
ficar sozinho com Sagoe.
- Aguenta-o aqui se puderes - tartamudeou Bandele, misturando-
se instantaneamente com os outros convidados. Sagoe estava agora
no auge da sua excitação. Alcançara a leveza de um verdadeiro vácuo
após um clister.
- Você deve ser o nabo - foi a saudação de Sagoe.
- Como?
- O nabo. Faltava o nabo. Já vi maçãs e pêras. Até visco de
plástico, embora nem olhe naquela direcção se vir Carolina debaixo
deles. E você?
- Não compreendo.
- Pergunto se você é o nabo.
- Quem é você, não me parece que esteja a compreendê-lo.
- Ah, não? Não fala inglês?
- Ah! ah! Realmente acho que falo. Cem por cento inglês e não
me envergonho de o ser.
- Nesse caso, apresento-lhe as minhas desculpas. Enganei-me na
pessoa.
- Não tem importância. Com efeito, estava-me a parecer uma
conversa muito estranha. Camo-me Pinkshore.
- Pinkshawl?
- Não. Pinkshore, ah ah! Você é novo na universidade?
- Sim e não. Sou o genro do professor.
Sagoe achou que o seu dever terminara, Bandele desaparecera
para lugar seguro, pelo que cessou o seu interesse pelo homenzinho.
Mas Pinkshore parecia tê-lo adoptado, seguindo-o por toda a parte.
Inicialmente, pensou que se tornara um conhecimento valioso como
genro do professor, mas tal era um erro. Pinkshore sabia tudo sobre
os professores, deões, funcionários, directores, catedráticos,
assistentes e respectivas famílias, até aos mais íntimos pormenores, e
estava a par do simples facto de o professor Ogua7or ter três filhos e
uma filha de apenas cinco anos, que era para ele causa de bastante
desgosto por não a poder reconhecer publicamente, dado ser filha da
criada. A pobre criança estava escondida numa escola particular em
Islington, embora fosse realmente o rebento favorito de Oguazor e a
menina - de plástico - dos seus olhos... pelo que se tornava óbvio que
Sagoe era um impostor que viera roubar as pratas e era uma boa
ideia mostrar simpatia por esta nova elite negra que ele desprezava
em segredo. Mas, diabos, se estas bestas são susceptíveis de serem
lisonjeadas e aduladas, toca a dar-lhes o que querem e a sacar deles
o que for preciso.
Por isso, Pinkshore manteve-se junto de Sagoe e nada o demovia.
Parecia uma obsessão, e Sagoe recorreu inutilmente aos mais sádicos
estratagemas para ver se se livrava daquela peste.
E, repentinamente, Pinkshore pareceu esmorecer. Da sua
garganta saiu um ruído animalesco e os seus olhos arregalaram-se
alarmados. Recuou três passos velozes, chocando com um pequeno
grupo, e Sagoe caiu em si, compreendendo a razão de tal espanto. Na
sua mão estava outra das maçãs e a mão estava estendida para trás,
fazendo menção de a arremessar contra o outro fruto gémeo.
Vagamente, recordou que a sua mão executara um movimento
semelhante no passado... mas o tempo era agora confuso - era-lhe
impossível recordar quando acontecera esse arremesso. Dois reflexos
brilhantes assina-laram o voo dos óculos de Pinkshore, que se curvou
para os apanhar. Antes que tivesse tempo de se endireitar, a maçã
passara através da janela e Sagoe foi buscar uma pêra do cesto de
fruta à parede mais próxima. Pinkshore cambaleou, tão ébrio de
espanto como Sagoe de uísque e euforia.
- Mas que... que diabo pensa que está a fazer?
- A alimentar o cão.
- Julga-se muito engraçado? O que você atirou pela janela era
propriedade do professor.
Sagoe arremessou a pêra.
- Enlouqueceu? Que direito tem você de lançar fora essas coisas?
- Quais coisas?
- Os ornamentos E escusa de fingir que não sabe do que se trata.
- São frutos e não ornamentos. E arremessou um cacho de
bananas.
- Pare com isso ou vou queixar-me ao professor.- E Pinkshore
avançou para ele.
- Se se aproximar, chamo o cão.
- Deixe-se de palhaçadas, o caso é sério.
- Palhaçadas? Isso é o que você pensa. Espreite lá para fora, se
quiser, mas é melhor ter cuidado com a ponta do nariz. É selvagem. -
Também decidira deitar fora o cesto, mas a dona da casa estava
diante dele. Desta vez, ele foi mais rápido do que ela no jogo das
palavras.
- Antes que a festa termine, dá-me licença que a felicite pela
nomeação do seu marido para o lugar de professor?
- É muito gentil da sua parte, mas importa-se de me explicar...?
- Agora compreendo porque é uma festa de traje a rigor. Este
tipo de festejos mais não merece do que um fato de luto.
- Diga-me quem é você e por que se entreteve a atirar pela
janela a decoração desta sala.
- Mas, minha senhora, já lhe disse que sou o perito da UNESCO
em planeamento arquitectónico.
- Essas futilidades - e lançou-lhe um olhar mortífero não me
interessam.
- Ele deve estar bêbado, Mrs. Oguazor - disse Pinkshore.
- Isso é mentira, ó anglo-anémico!
- A que departamento pertence o senhor'?
- Arquitectura. Rispidamente, ela retorquiu:
- Não há qualquer departamento de arquitectura na
universidade.
- Isso não me surpreende, minha senhora. Basta olhar para os
edifícios. Um trabalho de amadores!
- Importa-se de...
- É claro que a sua casa é um encanto. Obviamente um trabalho
do exterior!
O rosto dela endureceu, olhou em volta, e Sagoe compreendeu
que procurava o marido. Para Pinkshore, tal significava que os seus
esforços haviam falhado e que a situação também o podia arruinar.
Plantou o seu minúsculo arcaboiço diante de Sagoe e exclamou:
- Oiça. meu amigo. Acho que você entrou sem ser convidado.
- É isso mesmo! - e ela voltou-se para os olhar. Inesperadamente.
Sagoe perguntou:
- Vocês têm ouriços-cacheiros ca em casa?
Pmkshore deu um passo para trás. assustado.
- É que - e Sagoe sorriu benevolentemente - tenho comichão no
pescoço devido a farpas venenosas. - Relanceou o olhar em torno de
si, fixando cada um dos convidados e acenando-lhes.
Pinkshore murmurou:
- É melhor pedirmos auxílio, Mrs. Oguazor. Acho que ele
enlouqueceu!
- Ah, acha que sim? - O resmungo era o de um louco, saído há
pouco de um asilo. Pinkshore deu um grito e cinquenta cabeças
voltaram-se naquela direcção. Sagoe viu o professor abrir caminho,
pedindo desculpa através do mar de copos e fumo, e começou a
preparar a retirada.
- Pensando melhor, minha senhora - disse, inclinando-se -, vou
buscar a sua cornucópia de plástico. Se aqui este seu lacaio tem
razão e aquilo eram apenas ornamentos, o cão não lhes deve ter
tocado. É mesmo um cão de gostos estranhos.
Antes que Mrs. Oguazor pudesse adivinhar as suas intenções,
Sagoe pegou-lhe na mão e beijou-a. Oguazor chegou nesse momento.
- As minhas felicitações, professor - lisonjeou. - Que dias felizes
como este se repitam. - Sagoe hesitou, mas decidiu que o dono da
casa não era realmente de nível ministerial, pelo que não lhe beijaria
a mão. Contentou-se com duas vigorosas sacudidelas à mão de
Oguazor. Seguidamente, com uma rapidez que até a ele próprio
surpreendeu, curvou-se e aspirou a rosa de plástico que ornamentava
o umbigo de Mrs. Oguaor e endireitou-se de novo apontando o nariz
para o ecu em êxtase aromático.
- Parece mesmo real. Caro. Mesmo real. - E tugiu daquela sala
como um louco.
Caminhou apressadamente, na expectativa de alguma torma de
perse-guição, mas incapaz de dizer porquê Um cão vizinho começou a
ladrar e Sagoe parou. O coração pulsava-lhe violentamente e a
excitação não se dissipara totalmente. Iniciou o regresso àquela casa,
sem resistir à loucura que o impelia. Torneando a casa, introduziu-se
entre os arbustos que delimitavam o lar dos Oguazor, escorregou
subitamente mas endireitou-se. Ao olhar para o solo, compreendeu
qual fora a causa. Era um dos limões de plástico que deitara fora.
Sagoe pegou nele. Deu a volta à casa, mantendo-se curvado entre as
sombras até chegar à janela que procurava. Estavam todos lá, sem
dúvida discutindo o ocorrido. De tempos a tempos, Pinkshore vinha
até à janela para ver se descobria algum dos frutos que jaziam no
jardim. Sagoe fechou os olhos, pensando: Pinkshore, não me devias
tentar dessa maneira. E contou até cinco para lhe dar aquilo que
considerou uma hipótese de se escapar. Mas Pinkshoré conservou-se
no mesmo sítio, agora um pouco de lado, dizendo algo a Oguazor. O
fruto era leve e Sagoe aproximou-se, dizendo para si: ventos, estejam
calmos... e arremessou o limão. Este apanhou Pinkshore em cheio na
boca, inesperado, macio, ainda molhado da erva húmida. O cérebro
da vítima, saltando de explicação em explicação, encontrava apenas
razões de misterioso terror - bruxa-mariposa, merda de morcego,
assassínio, bumerangue africano, morte, áfrica nocturna... - e
Pinkshore, ignorando ainda o que o atingira, desacreditou a sua
reputação de herói ao desmaiar nos braços dos donos da casa.
Segunda parte
Em Julho, as chuvas de Maio tomam-se o sangue que brota das
artérias rasgadas de um touro sacrificial, um milhão de golpes
sangrando do negro touro escondido algures nos céus, entre nuvens
corcovadas, convulsivas, superalimentado para este acontecimento
único, nutrindo-se a pastar sem concorrência nas intermináveis
cristas do horizonte. Cá em baixo, porém, a luta é dura, com camiões
cheios até mais não poder, correndo em direcção a uma única ponte.
E o alcatrão húmido, sob os heróicos veículos, reflecte miragens de
velocidades ilimitadas, até as suas cargas encontrarem descanso no
fundo do precipício. O sangue dos habitantes da terra dissolve-se nas
descoradas torrentes do touro escarnecedor e flui eternamente em
rios sob a terra. Numa acidentada noite, a cúpula estalava sobre a
cabeça míope de Sekoni. Só demasiado tarde viu um camião que um
louco abandonara no meio da estrada. Ao desviar-se, derrapou, e os
pneus desenharam um cruel arabesco. Num inútil monte de metal, o
corpo de Sekoni jazia surpreendido, atravessado na porta aberta, com
uma chuva de vidro laminado à sua volta e a barba tingida de sangue
e lama.
Egbo não se sentiu mais consolado por se ter refugiado nas
rochas junto à ponte, até o funeral ter terminado, e aí, longe de todos,
derramar as suas lágrimas amargas. Nem Sagoe por se ter trancado
entre cervejas e vómitos durante uma semana, com Dehinwa
desesperada devido à temperatura dele, lutando por mantê-lo calmo
enquanto ele berrava: estás a molhar-me todo com as tuas malditas
lágrimas. E só descansava quando ela concordava em ir buscar os
evangelhos dele e lhe lia uma página ao acaso.
- ... Recordo, este período da minha infância - e a porta do nosso
enorme lugar secreto garantia-nos abrigo eterno - um retraio colorido
de um par de seres sobre-humanos, etéreos, meta-existenciais, com
coroas e jóias, com amplas orlas de pele. ouro, veludo e arminho, com
orbes e ceptros, e, atrás deles, tronos dourados. Estas imagens, aos
meus olhos de criança para que não se atribuísse qualquer significado
ideológico à localização dos retratos, estes também estavam
presentes na sala de visitas e nos quartos, pois a minha família era
firmemente monárquica - aos meus olhos de criança, estas duas
figuras não podiam ser menos do que anjos, ou Deus e a sua esposa.
Foi uma fase critica da minha introspecção e. se eu vivesse neste país
onde todas as comodidades estão à nossa disposição, teria
indubitavelmente evoluído para um esquizofrénico em tempo integral.
Pois, para mim, tomara-se uma obsessão meditar nas limitações
deste par delicado, irreal. Quem eram, que faziam? Como que numa
sessão espírita, a solução surgiu com deslumbrante simplicidade.
Numa única sessão de natureza vacuolizante, compreendi finalmente
a divisão postural dentro desta função humana. Eles eram
vacuolizadores, era isso!
Cagar é humano, vacuolizar, divino.
Isto era o nascimento, a formulação concreta da vacuolização...
Sobre Bandele recaiu a agonia de consolar Alhaji Sekoni. Com o
voto violentamente renegado para sempre e a penitência insinuando
a uma vaga salvação na sua dor intensa e confusa, tão confusa que
ele se sentava obser-vando a sua mente “a dissolver redondas noções
de penitência, alguma penitência ambicionada, alguma penitência
requerida, o pai de Sekoni não era capaz de saber o que aquilo era;
apenas sabia que a perda era a penitência. Mas Alhaji Sekoni não
conseguia aceitá-la...
E o pincel de Kola subia, descia, voltava a subir, de novo
descendo, vacilante, e trabalhando cegamente em espasmos de dor e
incredulidade...
Egbo, ao regressar do rio noite adentro, encontrou Bandele
sentado no escuro, vestindo ainda o fato que levara ao funeral.
Sobressaltado por deparar com um vulto imóvel, fantasmagórico,
num quarto que julgara vazio, procurou imediatamente o interruptor,
mas a voz de Bandele deteve-o.
- Sou eu. Não acendas a luz.
- Bandele?
- Sim.
- Oh, desculpa.
- Está um bilhete para ti em cima da mesa. Uma rapariga veio
trazê-lo.
Egbo pegou no bilhete e passou por Bandele em direcção ao seu
quarto, deixando-o sentado no escuro, impassível como uma rocha.
Era daquela rapariga estranha. “Lembro-me”, dizia ela, “de teres
falado num amigo teu, escultor, chamado Sekoni. Lamento que ele
tenha falecido. Viria se pensasse que precisas de mim, mas estou
certa de que preferes estar só. Lamento profundamente o sucedido.”
Ela assinara, mas ele foi incapaz de perceber o nome. E, pela
primeira vez, ocorreu-lhe que nem sequer sabia o nome dela.
Duas semanas após o funeral reuniram-se de novo, escutando
indiferente-mente outro grupo de músicos errantes, o longo lamento
de um arco numa corda e a caixa de ressonância de uma cabaça.
No outro lado da sala, estava sentado um albino, inclinado como
um leproso raio de luar sem suavidade. As sardas do seu rosto
pareciam sementes venenosas; crostas escuras flutuavam numa pele
de fina fosforescência. Kola, ocupado com os seus eternos
guardanapos, esborratava os pormenores, dissol-vendo manchas de
gordura de galinha nas pálidas profundezas das cavidades oculares e
das maçãs do rosto do homem. Por fim, relegou-o para um ponto
meditative num cabaré de selvagem algazarra e de devoradores de
fogo. A música tornara-se animada, para o espectáculo. Era o ritmo
familiar que anunciava a entrada gutural da feiticeira nos filmes
estrangeiros sobre a África.
- Nunca consegui solucionar o mistério desse rito disse Kola. -
Eles engolem o fogo convincentemente.
Dehinwa lançou outro olhar apreensivo ao albino.
- Qual de nós conhecerá ele? Porque persiste em olhar para aqui?
Sem virar a cabeça, Sagoe perguntou:
- Referes-te ao albino?
- Também reparaste nele?
- É a mim que ele quer. Não sei como conseguiu descobrir o meu
refúgio.
- A ti? Que te quer ele?
- Isso também eu gostava de saber. Mas não me apetece tratar
disso hoje.
... Oyekoko moniran ... oyekoko moniram ... oyeroba, oyeroba...
- Nos Estados Unidos - afirmou Sagoe -, havia um grupo que se
chamava Authentic Cobra Maidens of Kokokaburã. Se não me
voltasse, pensaria que eram elas que ali estavam. Os mesmos gritos
de guerra, a mesma entoação algaraviada, a mesma palhaçada. A
única diferença está no vestuário: nos Estados Unidos elas vão
mesmo aos extremos.
... Oyeyeye moniran ... yiaooow!
- Quem me dera - dizia Egbo - que'a chuva recomeçasse e
acabasse com isto.
O devorador de fogo fez correr as chamas sobre as plantas
calejadas dos pés, os braços reluzentes, o corpo com pinturas
guerreiras, deixando-as demorarem-se naquele contacto.
Depois, circulou entre a assistência com o archote, para
demonstrar o calor. Passou pelo albino e este protegeu os olhos,
incomodado, enquanto o facho rodopiava, parava e avançava
subitamente para ele. Kola gritou:
- Olhem para ele, depressa! - Mas a chama passara para a mesa
seguinte e um homem acendia um cigarro com ela.
- O que foi?
- Agora já é tarde. Deviam ter visto o albino contra as chamas.
O outro recompusera-se e exibia novamente a sua palidez de
néon. Sentava-se como um cadáver de afogado, curvado para a
frente como se lutasse com a gravidade.
- Não é mesmo nada como Usaye - observou Kola. Usaye é
suave, realmente muito bela. Quando ela tiver setenta anos, não se
parecerá nada com aquele albino.
- No entanto, a princípio ela despertou-te repulsa. Foste tu
mesmo que o disseste.
- Só um pouco, e isso depressa passou. Ela é feita de uma
substância inteiramente diferente, é. com efeito, algo de espantoso.
Aquele homem, porém, parece cortiça amarela eternamente
embebida em agbo e cozida até ficar rija e seca.
O saltimbanco saltou repentinamente numa pirueta e escorregou
para lá da beira do palco, aterrando numa pequena poça junto de um
cacho de bananas. Os seus acólitos correram a auxiliá-lo a subir ao
palco, o archote pingando lamentávelmente, vomitando fumos
escuros e cheirando a querosene. As suas pinturas escorriam,
desenhos que ele possivelmente copiara do filme das aventuras do
Tarzan com as Authentic Cobra Maidens of Kokokabura.
- O vendedor ambulante de Sango - anunciou Egbo não resistiu a
divindades demasiado aquosas.
Mas sentiam-se todos um pouco como ele, desmoralizados,
derrotados. A morte de Sekoni deixara-os húmidos, esfarrapados; a
tinta ia dissolvendo a sua aceitação da vida, onde eles pensavam que
a imagem estava fixa, dissolvendo-a em nódoas disformes. Sentiam-
se desarmados, despidos, e, pensava Kola, nada semelhantes à sua
obra quase terminada, mais parecendo cinco figuras do meu Panteão
saídas de um alguidar de terebentina.
Dehinwa, por seu lado, tinha a certeza de uma coisa - eles não
voltariam ali. Os hábitos têm de se alterar quando a memória se torna
insuportável, e Sekoni fora parte integrante de uma união que haviam
julgado inalterável. E estes eram os factos reais, inelutáveis, como
reunirem-se no Cambana quase todos os quinze dias e no Mayomi,
em Ibadan, nos restantes fins-de-semana. Estes eram os acasos que
se tomavam hábitos fixos, recordações, entre outras, de Sekoni, que
estava com eles agora mais opressivamente do que o esforço da
gaguejante veemência dele alguma vez estivera.
- Ele vem aí - murmurou Dehinwa entre dentes. Sagoe voltou-se
e recebeu o albino com simulado bom-humor. Afinal, o que lhe
quereria o homem?
- Viva, viva, não tinha bem a certeza de que era você. Então
sempre me encontrou, hein?
- Não foi fácil, mas por fim lá consegui encontrar o seu moço de
recados...
- Mathias?
- Sim, foi assim que disse chamar-se. E ele informou-me de que
este é o seu local favorito para passar a noite.
- Sente-se, sente-se, puxe uma cadeira. Aí está bem, eu vou
buscar outra.
Quase imperceptivelmente, Dehinwa retraiu-se quando o albino
se sentou na cadeira ao lado dela.
Sagoe voltou com uma cadeira e o outro começou a falar de
imediato, num tom que associava deferência a um grau enorme de
segurança íntima.
- Sr. Sagoe. não desejo incomodá-lo mais do que o necessário,
todavia, como jornalista, pode ajudar-me.
Rebuscou os bolsos do seu caftan e tirou deles uma carteira.
Desta, retirou uma capa de plástico onde se encontrava um velho e
desbotado recorte de jornal. Através do plástico acastanhado, era
evidente que o pedaço de papel estivera durante muito tempo metido
num livro, dobrado e vincado. Alarmado, então, com a fragilidade do
importante documento, o seu possuidor introduziu-o cautelosamente
numa capa de plástico. onde podia agora ser visto e lido sem que se
desgastassem as margens ou desaparecessem as preciosas palavras.
Sagoe ergueu-se, voltou-se para a luz e leu. Olhou de novo o
albino e passou o plástico a Bandele. Um por um, todos leram sem
comentários, limi-tando-se a olhar o homem que tinham diante de si,
com um misto de admiração e cepticismo. Todos aguardavam que
Sagoe falasse. O estranho, no fim de contas, viera procurá-lo a ele.
Sagoe recebeu o recorte de Dehinwa e devolveu-o ao albino.
- Há quanto tempo foi isto?
- Há quase seis anos.
- Talvez eu deva perguntar primeiro por que razão me procurou...
- Porquê? Como jornalista e homem de Deus pode ajudar-nos.
- Nos?
- Sim, à minha Igreja. Quando o grande acontecimento surgiu na
minha vida e me ergui de entre os mortos, a minha vida deixou de me
pertencer. Doei-a a Deus.
Bandele inquiriu placidamente:
- O recorte não diz muito, importa-se de nos dizer algo mais?
- Sim. eu sei. Não passa de uma breve noticia e. de tacto,
dificilmente se saberia mais daquilo que se passou entre mim e Deus.
Caí morto nas ruas de uma aldeia estranha. Pessoas bondosas
enterraram-me no dia seguinte e só quando desciam o caixão ao
túmulo eu despertei e comecei a bater na tampa. Eis tudo o que
viram os olhos das testemunhas humanas.
Egbo deu consigo a tentar adivinhar a idade do albino, mas era
impossível.
Lasunwon pensava em comer aquilo sucedia todos os dias.
Pois. apenas dias ames. um pobre homem acordara numa casa
mortuária. Como estes médicos podem ser descuidados! Meu Deus.
que ideia horrível...
A mente de Kola estava cheia de fantasias - que deveria concluir-
se da precisão deste estranho, surgindo tão pouco tempo depois da
morte de Sekoni?... Sim. actualmente os médicos ate talam em morte
aparente. Que significa isso, afinal. Morte ou não morte. Por exemplo.
Sekoni ao ser descido para o túmulo: suponhamos que se ouve uma
pancada inesperada e Sekoni gaguejando: d-d-deixem-me sair, d-d-
deixem-me sair... e Kola apercebeu-se de que sondava o rosto
daquele homem como se julgasse ver o de Sheikh metamorfoseado
no do albino... no rosto amarelo, sarapintado, donde fora espremido
todo o suco da vida...
Dehinwa ansiava pelo braço de Sagoe, para se apoiar, pensando:
eu sabia que havia algo de sobrenatural nele... como se não tivesse
sangue normal...
Sagoe sobressaltou-se subitamente, quando uma nova ideia lhe
brilhou no espírito. Olhou vivamente o seu interlocutor, mas nada
disse O albino prosseguiu.
- Não sei o que era antes de ter morrido, nem donde vim, porém,
o que realmente assustou os aldeões é que antes de me terem posto
no caixão eu era como você. como os seus amigos, negro. Quando
despertei, estava assim.
Sagoe observou:
- O jornal nada diz acerca disso.
- Que outra coisa podiam fazer!? - replicou o albino. Quem iria
acreditar? Você? No curto espaço de tempo em que estivera no
caixão, transformara-me num albino! Mas todos mo asseveraram,
inclusive a enfermeira do centro rural de saúde para onde me
levaram inicialmente. Ouvi-o da sua própria boca.
Lasunwon explodiu:
- Que destino horrível! Sabe. devia haver medidas de
salvaguarda contra esta espécie de coisas. Pode acontecer a qualquer
um. Pensem só. sermos enterrados vivos!
As feições do albino endureceram: todavia, somente Ságoe. que
estava a seu lado, o notou.
- Eu não fui enterrado vivo. Estava morto. Lasunwon riu-se.
- Decerto não acredita que tenha realmente momdo. Se agora
esta vivo, não podia ter morrido. Talvez fosse um coma ou coisa
semelhante, há explicações médicas para esse tipo de situações.
O albino voltou-se para Sagoe:
- O que eu queria era convidá-lo para os ofícios da nossa Igreja.
Gostaria imenso que viesse, porque é uma cerimónia especial.
Bandele insistiu.
- Mas você é capaz de dizer... é capaz de recordar... o que sentiu?
Quero dizer, durante aquele período, quando você... despertou e
começou a bater no caixão.
- Terei muito gosto em contar-lhe, mas tudo tem a sua ocasião
apropriada. É inconveniente tratar um assunto como esse neste local,
onde a vida parece ter pouco valor. No entanto, se no próximo
domingo for a minha igreja...
Os olhos de Egbo ainda não se haviam despregado do estranho;
cintilavam com mórbida intensidade, procurando, tal como os
restantes, extrair daquele rosto a essência da experiência do seu
possuidor. O albino pôs-se de pé.
- Convido igualmente os seus amigos a assistir, eles também nos
podem ajudar. - Afastou-se, depois de se inclinar cortesmente diante
do grupo.
- Mas... onde é a sua igreja?
- Ah, já me esquecia de que não sabem. Porém, não é possível
descrevê-la, de modo que vou enviar alguém para vos guiar.
- Sabe onde moro?
- Não, mas nós já nos encontrámos noutro local. O Hotel
Excelsior, perto do qual um rapaz foi perseguido como ladrão.
Poderemos encontrar-nos aí?
- Está bem, a que horas?
- Os nossos ofícios iniciam-se às oito da manhã. Um dos nossos
irmãos estará à vossa espera a partir das sete e meia.
- Está bem. Lá estarei.
- Por favor, não se esqueça de que nos pode ajudar, bem como
os seus amigos. Se vierem todos, sentir-me-ei honrado por recebê-los
na minha igreja.
Ainda mal o albino estava fora do alcance da sua voz, quando
Lasunwon exclamou:
- Ele não acredita realmente naquilo, ou acham que sim? Será
que ele cré ter efectivamente morrido?
Sagoe disse:
- Nem era nisso sequer que eu estava a pensar. Ocorreu-me a
ideia de que aquele recorde pode perfeitamente não se referir a ele.
Bandele acenou a cabeça.
- Sim, é verdade.
- Tens razão - gritou Lasunwon -, e aquela história da mudança
de pigmentação toma tudo aquilo mais duvidoso. Evidentemente que,
a ser verdade, os jornais tê-lo-iam mencionado.
Kola concordou:
- Sim, custa bastante a engolir. Mais, é mesmo uma espinha
atravessada na garganta.
- Bom, então o que é que vos parece? - perguntou Sagoe. - É um
intrujão?
- Ele despertou a minha curiosidade - admitiu Kola. Será que não
passa de mais um dos profetas locais?
- Só o encontrei há seis, talvez sete semanas atrás, quando
salvou um carteirista de uma multidão enfurecida. E também num
funeral. No entanto, pode ser mais um dos nossos videntes em busca
de publicidade. Por exemplo, pode ter visto aquela notícia nalgum
jornal velho e tê-la recortado para uso futuro. Nos nossos dias, a
religião é um bom ramo de negócio.
- Mesmo assim... bem, que te parece, Bandele, vamos lá?
Bandele resmungou:
- Queres dizer que vamos fazer mais cem milhas para a semana?
- Virei eu a conduzir.
- Mas quem sofre com os saltos nos buracos sou eu.
- Vamos lá, não sejas tão preguiçoso!
- Por que queres tu ir a uma coisa daquelas? - perguntou
Lasunwon.
- Curiosidade, entre outras coisas.
- Não passam de simplórios religiosos.
- E tu - replicou Kola - és simplesmente desprovido de
imaginação.
- Pois claro que sim, nem todos podemos ser artistas, não é
verdade?
- Quando tentas ser sarcástico, Lasunwon, tornas-te
simplesmente asqueroso.
- Oh, eu sei, eu sei. Acho que o sarcasmo é uma arte que não
domino. Nós, os advogados, não podemos competir com os artistas.
Serenamente, Bandele interveio:
- Basta. O que é que se passa com vocês dois?
- Estou simplesmente farto dos ares eternamente superiores que
ele assume. E tudo. Como se fosse alguma coisa especial rabiscar
meia dúzia de bonecos num papel. Não tenho imaginação!
- Oh, compreendo, é isso que te dói. Muito bem, tens realmente
imagi-nação. Uma imaginação cheia de água, pesada, inimaginativa.
- E tu não passas de um parasita, és o membro mais inútil da
sociedade e sabe-lo muito bem.
Egbo disse:
- Cuidado, Lasunwon. Onde pões tu jornalistas falhados corno
Sagoe?
- Não há nada a apontar-lhe, à excepção do seu cérebro de
retrete.
- Alto aí! Estás a referir-te à minha filosofia vacuolizante?
- E isso que tu lhe chamas.
Interiormente, Bandele ria.
- É melhor deixarem Lasunwon em paz. Esta noite parece
desejoso de andar à pancada.
- Afinal que mosca lhe mordeu? - perguntou Egbo. Sagoe disse:
- Kola tocou-lhe num ponto sensível. - E a discussão reacendeu-
se como se Sagoe tivesse carregado num botão, fazendo com que
Lasunwon recomeçasse com veemência crescente.
- Sim, não o nego. E não é a primeira vez. No fim de contas,
quem é ele para andar por aí convencido que pertence a alguma
categoria especial do Universo? E não me refiro só a ele. é a toda a
cambada de artistas. Todos os dias, em qualquer parte dos jornais, lá
os vemos a despejar a sua verborreia sobre cultura, arte e
imaginação. As suas atitudes são tão superiores como se estivessem
a falar para os vulgares bárbaros iletrados da sociedade.
- Lasunwon, talvez o problema seja tu não compreenderes o que
eles dizem.
A suave zombaria de Bandele foi o rastilho que fez Lasunwon
explodir.
- Não compreendo o quê? Mas eles não dizem nada... Lixo sem
nexo, é o que é. Como aquela de Sekoni e a sua cúpula infernal...
Calou-se, lembrando-se já demasiado tarde que Sekoni falecera.
Kola deu um salto, berrando:
- Cala-te, depravado!
Mas não era necessário. Lasunwon encolhera-se na cadeira,
desejando poder retirar as palavras que pronunciara, enquanto
pensava: e por que não. por que não. “Por que parou ele”. Apenas por
Sekoni ter morrido? Nunca vira Kola tão emocionado. Kola, erguera-se
- uma gota de chuva tremeu no beiral -, g acabou por sucumbir na
sua cadeira com o rosto enterrado entre as mãos.
- O meu nome é Lázaro - disse o homem de vestes brancas com
orlas de renda -, o meu nome é Lázaro, não Cristo, Filho de Deus. -
Estavam num pequeno barracão junto de uma lagoa pardacenta, uma
cubata com cobertura de colmo e restos de caixas de cervejas, tendo
palmeiras entrançadas em vez de portas e janelas. Poderia ser um
moinho com aquelas pranchas estreitas caiadas e o sussurro
cadenciado, como o de cereal a ser moído, dos refrões litúrgicos que
se filtravam através das paredes enquanto eles esperavam o termo
das orações. Por fim, a voz de Lázaro sucedeu ao arrastar de pesados
bancos e eles entraram, olhos colados ao homem junto da tosca
estante. Sentaram-se furtivamente num banco à retaguarda, mas um
dos presentes precipitou-se para eles e conduziu-os ao exterior. E
então repararam em algo que os deveria ter informado sobre o que
deviam fazer antes de entrar. Junto à porta, viam-se algumas filas de
sapatos, bem ordenadas.
- O meu nome é Lázaro, não Cristo, Filho de Deus. Descalçaram
os sapatos, bastante embaraçados devido à distracção que haviam
provocado ao atrair as atenções gerais. A frescura que atravessou os
pés de Egbo fê-lo olhar para baixo, descobrindo um soalho de betão
vidrado onde ainda eram visíveis as marcas das colheres dos
desajeitados trolhas. Esperava-os ainda mais uma manifestação de
ignorância. Quando Dehinwa se preparava para se instalar no banco
deles, viu-se respeitosamente empurrada para o outro lado, e só
então se aperceberam de que os homens estavam separados das
mulheres. Com um aceno, o guia deles indicou-lhe um espaço vago
num banco. Finalmente, quando todos estavam instalados, Egbo
perguntou a si próprio se a revelação que Lázaro prometera para este
domingo justificaria o seu crescente mal-estar por esta intrusão.
- É certo que Cristo ressuscitou de entre os mortos, mas Ele é
Cristo o Pai, Cristo o Filho e Cristo o Espírito Santo. Ressuscitou-se a Si
próprio, pois ele é o Pai que ressuscitou o Filho, o Filho que
ressuscitou o Espírito Santo, o Espírito Santo que ressuscitou o Pai.
Eu, porém, que fui rebaptizado Lázaro, o Senhor me ressuscitou de
entre os mortos.
Banhado pela luz sarapintada da manhã, coada através do
telhado de colmo. Lázaro parecia mais enfermiço do que nunca.
- Meus irmãos, hoje é o décimo dia após o falecimento do nosso
irmão: é o dia em que realizamos a via-sacra de acordo com as
tradições da nossa Igreja. E aqueles que sofrem perguntarão
certamente: “Não prometeu Jesus, Nosso Senhor, a ressurreição? Este
homem era um apóstolo da nossa Igreja, um homem temente a Deus,
por que não está ele aqui hoje?”
Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim não
morrerá, mas terá a vida eterna.
Um homem, dos que ocupavam um banco perto do altar
separado da nave principal da igreja, levantara-se. Ficou de pé com
os olhos postos algures num canto do telhado e parecia que citara
sem instigação, de memória.
Lázaro acenou enfaticamente:
- Eu sou a ressurreição e a vida... E eu. Lázaro, dou-vos esta
certeza, com a confirmação pessoal que me foi dada pelo Senhor.
Porque a mão de Deus baixou sobre a minha cabeça e a luz do Senhor
derramou em mim uma nova vida.
- E meu dever, como todos sabeis, quando um membro
importante da nossa Igreja morre, assegurar-vos...
Vinde de boa fé; o Senhor está convosco.
- ... que antes de terdes nascido, antes de eu ter nascido, antes
dos bisavós dos nossos avós terem nascido, o Senhor Jesus Cristo
derrotou a morte...
Onde está o teu aguilhão, onde morreu a tua vitória?
- Ele lutou com a morte e lançou-a ao solo. A morte disse,
tentemos o gidigbo e Cristo segurou-a pelo pescoço, apertando
aquele pescoço até a morte suplicar misericórdia. No entanto, a
morte nunca aprende a lição, por isso foi buscar as suas luvas de
boxe. Quando Cristo lhe deu um uppercut como Dick Tiger, todos os
dentes dela se espalharam de Kaduna a Aiyetoro...
E todos visualizaram a morte escondendo-se, combalida. No
meio das gargalhadas da congregação, Bandele, já contente por ter
vindo com os outros, era o que ria mais, em silêncio.
- ... Mesmo assim, julgam que a morte desistiu? Nada disso,
meus amigos, nada disso. A morte correu a sua quinta, pegou num
machado e atacou Cristo pelas costas. Cristo f'-. ,u-a como um
acrobata e puxou então de uma longa espada cintilante, de aço
inoxidável, cortando ao meio o machado de Satã. Porém, não quis
matá-la, de modo que lhe fez imensos cortes minúsculos por todo o
corpo, e a morte andava coberta de pensos e ligaduras da cabeça aos
pés como um ologomugomu. Meus irmãos, eles tiveram muito mais
lutas, mas hoje a morte conhece o seu Senhor, o seu vencedor a
quem tem de obedecer. E ele é Cristo.
- Como todos vós sabeis, há muito tempo que a minha
preocupação tem sido o dever que temos de construir algo melhor
para honrarmos este homem que sovou a morte para nosso bem. Foi
isto que me levou, pouco tempo depois da morte do nosso irmão, um
dos nossos mais devotos e enérgicos apóstolos, a entrar numa casa
de pecado e imoralidade, pois onde quer que os assuntos de Nosso
Senhor nos obriguem a ir, não devemos hesitar em fazê-lo. O homem
que fui procurar está hoje connosco...
Eram eles os estranhos. Uma centena de cabeças voltou-se e
estudou-os minuciosamente.
- ... O Senhor seja louvado. Ele veio auxiliar-nos. Com o poder de
Deus, construiremos esta Igreja, própria para Nosso Senhor a habitar,
erguê-la-emos sobre as fundações da fé e boa vontade dos nossos
amigos.
Sagoe sussurrou:
- Aquele tipo sofre de optimistologia.
- Enquanto eu conversava com ele, um dos seus amigos, que
também aqui está, louvado seja o Senhor - e as cabeças voltaram-se
novamente - ele está cá, tal como os outros, para nos ajudar nesta
tarefa... Pois, quando lhes apresentei a marca que a morte deixou em
mim, este homem exclamou: “Decerto não acredita que tenha
realmente morrido!?”
Lasunwon, ofendido, preparava-se para abandonar a igreja,
todavia Egbo segurou-o pelo pulso, murmurando:
- Não sejas parvo!
- E a partir das palavras deste irmão que desejo escolher o nosso
texto de hoje. Pois não disse o próprio Senhor Jesus Cristo a mesma
frase, apenas com palavras diferentes, quando ó informaram da
morte de Lázaro?
E, prontamente, aproveitando a deixa, o vomitador de versículos
recitou: - Lázaro, o nosso amigo, dorme.
- Irmãos, ouçamo-lo outra vez.
Lázaro, o nosso amigo, dorme.
- Outra vez. Canta-nos a mensagem de esperança! Lázaro, o
nosso amigo, dorme.
- Meus irmãos, Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas eu vou...
... despertá-lo do seu sono.
- A dor, caros irmãos, é uma coisa natural. A dor e a tristeza são
o nosso quinhão neste mundo. Até Jesus Cristo, o Filho do Homem, foi
vencido pela dor. Quando chegou ao sepulcro onde Lázaro jazia, um
sepulcro com uma enorme pedra na entrada, Lázaro já lá fora posto
havia quatro dias; de forma que até Marta, a irmã do morto, tapava o
nariz com um lenço. Quando o Filho do Homem lhe ordenou que
removesse a pedra, ela fungou, escarnecendo-O, e disse:
Senhor, já cheira mal, morreu há quatro dias.
- Sim, meus irmãos, o destino da vossa vida terrena é a morte e
a corrupção, mas o Senhor, se acreditarmos n'Ele, salvar-nos-á do
desespero. Irmão, recorda-nos a mensagem da ressurreição.
Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda
que esteja morto, viverá. E quem crê em mim nunca morrerá.
- Desejava, pois, dar-vos esta mensagem. Dor, mas nunca
desespero. Porque Cristo também se tomou como eu e vós, como os
onze apóstolos que transportaram o nosso amado irmão até ao seu
túmulo; porém, deveis compreender estas duas palavras de
misericórdia divina.
Jesus chorou.
- Ele não desesperou, não perdeu a esperança, mas... Jesus
chorou.
Lázaro fez uma pausa.
Seguidamente, fez um sinal, mas foi necessário que um homem
a seu lado lhe puxasse pelo casaco para o vomitador de versículos
sair do seu transe e sentar-se.
- Sim, embora eu caminhasse através do vale da sombra da
morte... Foi nesse vale que senti a mão de Deus. Sonhei que
caminhava através de um campo de algodão, algodão em rama que
flutuava saindo dos casulos. Porém, não se ouvia um som, à minha
volta viam-se casulos de algodão estalando suavemente, a meus pés
um tapete de algodão, no ar, no céu, casulos estalando sem ruído. A
rama do algodão dissipava-se lentamente, como pequenas almo-
fadas deitando fora o algodão quando a nossa cabeça se apoiava
nelas. Tudo era branco. O problema é que eu não conseguia encontrar
a saída. Ao fim de algum tempo, comecei a ficar assustado e desatei
aos gritos, chamando os trabalha-dores do algodão para que me
indicassem o caminho. Mas nem sequer eu ouvia o som da minha voz.
Comecei a correr de cá para lá. Procurei avistar uma saída daquela
coisa, pois aquilo crescia cada vez mais e eu sabia que em breve
seria incapaz de respirar. Já me começava a ser difícil afastá-la dos
olhos, do nariz, da boca. Até que, subitamente, tudo parou. Todos os
movimentos daquela coisa cessaram e o ar clareou um pouco.
- Eu estava cansado. A minha garganta estava seca, talvez
devido aos gritos ou talvez eu tivesse respirado demasiada rama de
algodão, não sei. Todo o corpo me doía e a minha cabeça parecia
prestes a rebentar. Então, disse: vou descansar um pouco. Se estas
coisas recomeçarem o seu movimento, acordarei e fugirei. Deitei-me.
Era a cama mais macia que jamais conhecera na minha vida. Porém,
quando estava quase a adormecer, surgiu de repente, vindo do nada,
um homem muito velho e encarquilhado, com uma longa barba
branca, e ficou a olhar-me. Eu não conseguia mover-me. Depois, ele
pegou no cajado e começou a aguilhoar-me. Nesse momento,
recomecei a ouvir: “Que estás a fazer aqui?”, perguntou ele. Respondi
que estava estafado e queria descansar. Ele sorriu e disse: “Óptimo,
óptimo. Estou contente por estares aqui. Não podias ter escolhido um
lugar melhor para descansar. Espero que estejas confortável. “Oh,
sim”, respondi eu. “Era capaz de ficar aqui a dormir para sempre.” O
velho sorriu novamente, um sorriso terrível, pouco natural, meus
irmãos. Porque eu vi-lhe o interior da boca e estava cheia de algodão
em rama. Não tinha língua, nem dentes, apenas algodão em rama.
Ele disse: “Não me surpreende ouvir-te dizer isso, todos os que aqui
vêm pensam que podem adormecer para sempre.” Seguidamente, fez
menção de se afastar e eu lembrei-me de que não sabia como sair
dali. Mas ele aproximou-se de novo, antes de eu o chamar. E disse:
“Esqueci-me de perguntar, o teu pai é o dono desta quinta, não é
verdade?” Respondi que não, que não fazia ideia de quem fosse o
dono daquela quinta. “O-oh, não fazes ideia de quem seja esta
quinta? Alguém te deu permissão para dormir aqui?” Antes que eu
pudesse abrir a boca para pedir perdão, deu-me uma pancada com o
cajado. Tentei pôr-me de pé, mas, antes de o conseguir, deu-me mais
uma boa dúzia de pancadas, sem se preocupar onde me acertava.
Desatei a correr. Descortinei as marcas que os pés dele haviam feito
no algodão e segui-as; porém, este velho não tinha qualquer
dificuldade em correr atrás de mim, sovando-me cruelmente com o
seu cajado. Por fim, as pegadas termi-naram. À minha frente,
encontrava-se um gigantesco portão e eu conseguia ver-lhe o cimo,
mas... as extremidades? Não se avistavam. Nem à esquerda nem à
direita se via qualquer extremidade. E o velho estava agora com a
sua boca cheia de algodão escancarada numa grande gargalhada,
vigiando aquilo que eu iria fazer. Corri para um lado e para o outro e
ele ficou parado, rindo-se de mim, como que dizendo que eu não
escaparia. Depois, repentinamente, a rama de algodão começou a
soprar de novo e o velho exclamou: “Vês o que fizeste?” E recomeçou
a espancar-me. Este velho não mostrava qualquer sinal de piedade e
o algodão em rama chovia sobre mim mais pesado que nunca. Virei-
me para ele na intenção de suplicar misericórdia, mas recebi um tal
golpe na boca que julguei estar perdido. A minha boca inchava devido
ao golpe até se tornar quase tão grande como a minha cabeça. Com
um enorme medo de morrer, desatei a gritar: “Socorro! Por amor de
Deus, socorro!” Não veio socorro de parte alguma. Voltei para trás e
tentei saltar o portão, mas a rama de algodão fez-me escorregar e o
velho golpeou-me enquanto estive caído. “Por amor de Deus, ajudai-
me ou dizei-me como se sai deste lugar!” A minha voz falhava, o
algodão em rama sugava-me as forças e puxava-me para o solo.
Depressa alcançou os meus joelhos, e mesmo assim o velho não tinha
piedade de mim. Como um lagarto, tentei escalar o portão, que não
tinha enfeites ou pregos de qualquer tipo onde apoiar os pés. Era liso
e negro. “Por amor de Deus, mostrai-me a saída, salvai-me! Por amor
de Deus, salvai-me deste lugar!” Lutei com o algodão que me invadia
a boca e o nariz. A rama que caía depressa ocultou completamente o
velho e deixei de o ver, bem como ao seu cajado. Depois, deixei de o
ouvir rir, deixei de ouvir a minha voz, mas as pancadas prosse-guiam
mais cruéis do que nunca e o algodão empurrava-me para baixo,
insistente, envolvia-me já até ao pescoço, os braços começaram a
fraquejar. Naquele tremendo silêncio, gritei: “Salvai-me!”, mas da
minha boca não saiu qualquer som. “Senhor, libertai-me! Senhor,
libertai-me! Senhor, libertai-me...!”
Lázaro estava com os olhos esbugalhados e alagado em suor.
Agarrava desesperadamente o suporte da estante, e o suor escorria,
caindo sobre a Bíblia; o terror da morte dominava-o de novo e
espalhava-se, introduzindo-se no seio da congregação. O seu olhar
enlouquecido roçava as paredes como um míope, até vir descansar,
fixo, na luz do Sol que penetrava pela porta aberta...
- ... Sim, assim como eu olho esta porta, assim levantei
subitamente os olhos e vi aquele portão abrir-se à minha frente...
Estava novamente imbuído daquela sensação de milagre. Lázaro
fechou a Bíblia, dizendo simplesmente:
- Irmãos, ajudem-me a agradecer a Deus.
Um homem ergueu-se no banco da frente e liderou a
congregação numa longa oração. E foi a oração que os descontraiu
lentamente. Seguiu-se um hino. Porém, só muito mais tarde, no
decurso dos ofícios, aquela Igreja se recompôs totalmente.
O banco da frente parecia deter a autoridade durante o culto.
Outro homem se ergueu e dirigiu-se à Igreja reunida.
- Meus irmãos, é um dia terrível para nós, quando nós, os
apóstolos do Senhor, nós, a quem ele confiou todo o peso e tarefas da
Igreja, baptismos, casamentos, confirmações, quando nós, que
suportamos a maior parte da carga da morte sobre os ombros, vemos
chegar o dia em que nos compete a nós fornecer a próxima carga
para o túmulo. Foi uma coisa que nos despertou uma dor intensa,
termos sido visitados pela mão da morte e termos de enterrar um de
nós. Mas a morte não respeita ninguém. O médico, no hospital, morre.
O rico morre. O pobre morre. Deus não aceita suborno. É imparcial. O
próprio Jesus Cristo morreu para nos provar que não devemos esperar
qualquer favor. O irmão Ezra era o nosso homem mais velho. A sua
sagacidade deu-nos muitos e bons conselhos sobre inúmeros dos
nossos problemas. Guiou-nos bem em todos os momentos
conturbados. Desde que esta Igreja foi fundada pelo nosso irmão
Lázaro, somos nós, os membros fundadores, que temos tentado
resolver todas as questões e disputas, escutar os problemas dos
nossos membros, e esforçamo-nos por fazer o melhor de acordo com
os nossos parcos recursos e sabedoria. É terrível para nós olharmos
hoje à nossa volta e descobrirmos que o irmão Ezra não está
connosco. Mas damos graças a Deus.
O vomitador de versículos não se pôs de pé desta vez, mas falou
com a mesma concentração contemplativa.
O Senhor o deu e o Senhor o levou; louvado seja o Seu nome
para sempre.
- Esperamos que ele tenha partido para uma terra de paz. ámen.
Da congregação soou o grave murmúrio. Ámen.
- Rezemos para que ele esteja sentado à direita de Deus. Amen.
- Esperemos que Deus nos ensine a enriquecer pela luz dos
factos desta vida. Ámen.
- E que quando for a nossa vez de morrer. Deus nos diga: “Que se
passa? Ah-Ah! Não te preocupes, meu amigo. Não conheces aquele
que já cá chegou muito antes de ti? Vai procurar o irmão Ezra. Onde
ele estiver sentado, senta-te a seu lado.
Amen. Amen, Senhor, Ámen. Ámen.
- Sim, meus irmãos. Deus falou-nos. Ele deu-nos um testemunho.
Aleluia!
- Deus prometeu-nos e cumpriu a sua promessa. Aleluia!
- O irmão Lázaro perguntou a Deus: “Onde encontrarei um
apóstolo que substitua o homem que levaste? Quem da minha
congregação deve ser o duodécimo apóstolo ao teu serviço?” Todavia,
o Senhor abanou a cabeça. E disse: “Procura fora da tua Igreja, vai
para as ruas e atalhos.” Assim fez o irmão Lázaro. Pois não nos disse
o Senhor...?
Estai atentos, eu virei ao vosso encontro como um ladrão na
noite.
- O irmão Lázaro encontrou o eleito do Senhor e disse: “Senhor,
como saberei que é ele?” E o Senhor replicou de novo...
Estai atentos, eu virei ao vosso encontro como um ladrão na
noite.
- Porém, a dúvida persistia ainda na mente do irmão Lázaro.
Porque, compreendem, tratava-se de um jovem. O eleito do Senhor é
muito jovem. “Como”, perguntava o irmão Lázaro, “poderá este
jovem carregar o fardo da congregação? Como poderá ele seguires
teus caminhos?”
E ele abraçou uma criança e colocou-se no meio delas. E disse-
lhes: “Deixai vir a mim as criancinhas.
- E em seu nome, para o serviço de Deus Nosso Senhor, peco-vos
que recebais o nosso irmão apóstolo, um pecador que renasceu, um
pecador que foi lavado no sangue de Cristo e escolheu o caminho da
rectidão.
Dirigiu-se à porta lateral junto da mesa que servia de altar. A
congregação, curiosa e excitada, agitava-se com impaciência. O
apóstolo afastou uma cortina, o objecto mais esmerado naquela
igreja, uma cortina muito trabalhada, de seda ornamentada. De entre
os retratos de dois santos, emergiu um rapaz frágil que parou
hesitante.
Lázaro, agora recomposto, levantou-se, e todo o banco da frente
o imitou. O versejador de memória irrompeu numa entoação
entrecortada:
E quando ele chamou para junto de si os seus doze discípulos,
deu-lhes poder contra espíritos impuros, o poder de expulsá-los e
curar todas as formas de enfermidade e todas as formas de doença.
E à medida que avançardes, pregai, anunciando: -O Reino de
Deus está perto.
E quando entrardes numa casa, saudai-a. E se a casa for digna,
deixai a vossa paz descer sobre ela: mas se ela o não for, que a paz
volte para vós.
Em verdade vos digo que haverá menos rigor para com a terra
de Sodoma e Gomorra, no dia do julgamento, do que para com esta
cidade.
Pois não sois vós quem fala, mas o espírito do vosso Pai que fala
em vós.
Lázaro avançou e acolheu o rapaz. Ouviu-se uma forte inspiração
no último banco e a voz constrangida de Sagoe:
- Mas... aquele é o ladrão.
- Quem? Conhece-lo?
- É o ladrão que perseguiam em Oyingbo.
Este jovem não se parecia com um ladrão, era a pureza em
pessoa comparado com os outros apóstolos. Uma simples camisa
branca até aos pés, quase um saco direito, com duas aberturas para
os braços e outra para a cabeça. Alguém trouxe uma bacia com água
e estendeu-a. Sobre ela, Lázaro pronunciou uma oração.
Seguidamente, acompanhou o noviço até junto de cada apóstolo.
- Recebei-o, irmãos. Recebei-o no rebanho que serve o Senhor.
Sagoe batia com os punhos na cabeça.
- Que idiota! Aqueles são os onze homens que caminhavam atrás
do caixão.
- Onde?
- No funeral. No mesmo dia em que Sir Derinola foi enterrado.
Todos o abraçaram enquanto Sagoe continuava transtornado,
como um homem torturado pelas formigas.
- Mas que lhe fez ele? Uma lavagem ao cérebro? Pouco resta
daquele Barrabás. Como se tivessem esfregado uma esponja húmida
adstringente num rosto com eczema. Um sussurro de Dehinwa veio
do outro lado:
- Caluda!
- Os apóstolos - dizia Lázaro - são os servos do rebanho. As
tarefas para que são designados são actos de grande humildade, pois
seguem o caminho d'Aquele que os escolheu.
O noviço ajoelhou-se e começou a lavar os pés dos apóstolos.
- Baptizamo-lo Noe - disse Lázaro -, porque receamós que o
Senhor tenha esquecido a sua aliança com a terra. Olhem Ia para
fora, irmãos, olhem lá para fora e vejam o grande dilúvio. As nossas
culturas, que traziam um pequeno rendimento ao tesouro da Igreja,
foram varridas pelas águas. A própria igreja tem de ser
constantemente reparada e fomos inundados duas vezes. As
fundações da nossa igreja vacilam devido à erosão. Irmãos, se a
humanidade esquece o seu dever para com Deus, não será estúpido
esperar que Deus se lembre da sua aliança com a terra? E, mesmo
assim, dou graças a Deus. Pois esta manhã, pela primeira vez em
quatro domingos, o Sol brilha sobre a terra. É um sinal e eu dou
graças a Deus por isso. Significa que ele está contente com o que
estamos a fazer. O nosso irmão Noé trouxe-nos um sinal de perdão do
Senhor. Irmãos, ergamos as nossas vozes e louvemos o Todo-
Poderoso!
- Louvado seja Deus.
- Ele não consegue ouvir-vos. Louvado seja Deus!
- As abóbadas celestes são altas. Vocês não o alcançarão!
- Louvado seja Deus!
- Irmãos, louvai-o! Louvado seja Deus!
- E o seu Filho nas Alturas! Graças ao Seu Filho, Jesus Cristo!
- E ao Espírito Santo! Vem, Espírito Santo!
- Alelu... Aleluia!
- Alelu... Aleluia!
E Lázaro voltou-se para o vomitador de versículos, no auge da
sua exaltação:
- Mulher, porque choras...? Mulher, porque choras? Quem buscas
tu? Procura os meus irmãos e diz-lhes que eu vou subir para meu Pai
e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.
- Por que buscais vós... Por que buscais vós os vivos entre os
mortos? Ele está aqui, ressuscitou.
- Então, irmãos, o irmão Ezra está morto? Ele vive!
- Pergunto, o irmão Ezra está morto? Ele está vivo no seio do
Senhor, louvado seja Deus. Aleluia!
- Estará ele vivo no seio do irmão Noé? Ele está entre nós!
- Alegrai-vos, irmãos.
Recebei-o nos vossos corações! Aleluia!
Porque Ele concedeu-nos uma criança...
Porque Ele nos concedeu uma criança Alelu Alelu
Porque Ele nos concedeu uma criança
Para nos pôr no Seu caminho Alelu Alelu
Porque Ele nos deu um guia Alelu Alelu
Porque Ele nos deu um guia
Para nos iluminar na escuridão Alelu Alelu!

Entre pés que batiam e saltavam e palmas estrondosas, Noé


lavava pés que não se mantinham quietos, sempre acompanhado
pelos apóstolos que tentavam abrir caminho para ele por entre
aquela onda de êxtase, enquanto Lázaro andava de cá para lá. A sua
obsessão era o violinista, integrado num grupo de agidigbo, como se
não fosse ele quem iria submeter totalmente o seu corpo à alegria
comunal, mas houvesse uma força determinada que o mantinha
separado na sua própria cápsula espiritual.
- Recebei-o, Senhor! - gritava ele de tempos a tempos.
- Recebei-o, Senhor!
Porque Ele nos deu uma espada Alelu Alelu
Porque Ele nos deu uma espada
Para O livrar dos Seus inimigos Alelu Alelu

Ouviam-se sinos repicando desordenadamente e as mulheres


vestidas de branco, que pareciam intervir nos ofícios da igreja, como
que despertaram, correndo de um lado para o outro com pequenos
sinos na mão. O resultado é um sabat, clangoroso e sobrenatural. De
tempos a tempos, agarram em Noé, dançam com ele, e os apóstolos
são atacados pelo som claro dos sinos e a tina de água tem de ser
substituída diversas vezes, tão frequentemente é entornada pelos
exultantes fantasmas brancos. Até as crianças são envolvidas na
confusão. As amplas mangas das sobrepelizes das mulheres agitam-
se incessantemente, assemelhando-se a desproporcionadas
mariposas em tomo da frágil chama bruxuleante que era Noé.
Lasunwon soltou uma súbita gargalhada e disse:
- Se ele fosse tão velho como os outros apóstolos, elas não o
perseguiriam tanto.
- Tens de concordar que ele não é nada feio. - Era Dehinwa. -
Chega-te para lá. Parece que todos resolveram misturar-se, de modo
que julgo poder juntar-me a vocês.
- Não seria melhor juntares-te a elas e tentares a sorte?
perguntou Sagoe.
- Não, querido. Não tinha qualquer hipótese.
E então, antes que de tal se apercebessem, a bacia estava junto
deles e Noé ajoelhava-se diante do banco.
- Isto já ultrapassou os limites - disse Lasunwon. Desta vez, os
apóstolos formaram uma barreira cerrada contra o êxtase das
mulheres, e as suas manifestações ficaram limitadas à parte superior
da nave. E não só; surgiu também uma nova toalha para os visitantes
e, com tocante brandura, Noé começou a lavar os pés de Dehinwa.
- É excitante, querida? - perguntou Sagoe.
- Pelo menos tem as mãos mais suaves do que as tuas replicou
Dehinwa.
Depois foi a vez de Sagoe, seguidamente a de Bandele.
Lasunwon agitava-se e maldizia-se por ter cedido ao impulso idiota de
ir ali.
- Mas que mal tem lavarem-te os pés. - perguntou Bandele.
- Não me agrada. É tudo.
- Não nos podemos queixar - disse Kola. - Temos tratamento
diferente.
Quando a bacia chegou a Egbo, os apóstolos insistiram e
protestaram, mas Egbo, com silenciosa firmeza, opôs-se a que lhe
lavassem os pés, não ofere-cendo qualquer explicação, limitando*se a
acenar negativamente com as mãos e a cabeça.
A bacia foi levada e os apóstolos dirigiram-se para o exterior.
Uma mulher foi dominada pelo espírito e desatou a profetizar, mas
não perturbou a dedicação de Noé, arrastado agora para o exterior
pelo seu poder triunfante. Dois dos profetas ficaram com ela e os
outros precediam a vaga da multidão exultante.
Eles haviam reparado na enorme cruz quando entraram. E agora
viram-na ser erguida e deposta sobre os ombros de Noé. Animados
pelos sinos e cânticos, pelo poder jubilante de uma mente
galvanizada, começaram a circular à volta da igreja, parando de todas
as vezes que passavam diante da porta para ofere-cerem uma breve
e silenciosa oração. Quando Noé parecia cansado, os após-tolos
limitavam-se a tirar-lhe a cruz e davam uma volta com ela, enquanto
ele recuperava as forças. Era uma cruz pesada e, enquanto eles
estavam parados junto à entrada, Lázaro dirigiu-se-lhes pela primeira
vez.
- Aquela é uma das poucas dádivas que recebemos para a nossa
igreja. Quando a tivermos construído, aquela cruz há-de encimá-la.
Um dos nossos membros, um carpinteiro, fê-la para o Senhor. A
mulher dele fez o bordado da cortina da sacristia com o desenho dos
dois santos - repararam nela?
Acabavam de passar a sétima estação, quando um apóstolo
apareceu, vindo da igreja, e chamou Lázaro. No interior, Egbo ouviu a
agonia da mulher possessa, os gritos em línguas estranhas e a luta
dela para respirar. Através da porta entreaberta, viu-a lutar com força
contra três homens e uma mulher; porém, eles podiam mais do que
uma pobre mulher; quarenta demónios luta-vam dentro dela e a sua
mente não dominava o corpo. Ainda antes de eles deixarem a igreja,
ela enovelara-se repentinamente como um feto, saltando no ar,
retesada, e tombando surdamente no solo. Sob as garras dos seus
indes-critíveis tormentos, parecia uma mola de aço. Assemelhava-se
a um verme, um insecto, um caracol, um escorpião. A boca
espumava, libertando torrentes de baba. E, por vezes, rastejava como
uma serpente, atacando como se o fosse. Egbo saiu antes dos outros;
já vira muitas como ela e nunca conseguira habituar-se ao
espectáculo. Esu. Sango. Angústias iguais às de uma jibóia ferida.
Nesses momentos, Egbo ansiava pela outra possessão, o triunfo de
serenas alegrias e paixões sublimadas. A jovem de Ela. As rugas
transfiguradas de Orisa-nla. Corpos entregando-se, inertes, e o júbilo
irreal nos olhos e na pele. Hábeis murmúrios da divindade, presença
divina dominando a simpatia do médium; em tal comunhão, ele seria
participante, mas não nesta violação do corpo da mulher.
Sagoe continuava a abanar a cabeça.
- Por vezes não acredito que este seja o jovem ladrão. Parece
impossível. Mas talvez ele estivesse demasiado assustado naquela
altura.
Lázaro acenou, satisfeito.
- Alegra-me que o ache mudado. Estava ansioso por ouvir a sua
opinião.
- Não consigo gostar do novo apóstolo - disse Egbo. Parece
submisso e não redimido. Acho o seu ar de pureza apenas isso... ar.
Não há qualquer brilho interior naquele rapaz, somente um reflexo
das chamas dos fanáticos.
Lázaro escutava-o, boquiaberto.
- Engana-se. Aquele jovem recebeu o espírito santo do Senhor.
- Não gosto de apostasias - disse Egbo. - Ele tem o rosto
insinuante de uma apóstata.
Bandele voltou-se:
- Que ideia é essa?
- Concordo com Egbo - disse Kola. - Se o pintasse, seria como
Cristo.
- Queres dizer como Judas - corrigiu-o Dehinwa.
- Não. Quero dizer como Cristo, o apóstata.
- Espera aí. Penso que devemos esclarecer as nossas definições.
- Não é preciso - disse Egbo. - Kola está apenas a especular. Mas
não comecem a agarrar-se às minhas definições e noções. Quando
digo apóstata, refiro-me ao tipo mais claro de Judas.
- E eu refiro-me ao tipo de Jesus. E era precisamente assim que
eu pintaria Noé.
Bandele lamentou:
- Suponho que vos custava muito esperar até termos saído daqui
para pronunciarem essas palavras blasfemas.
- Estás a tornar-te hipócrita à medida que envelheces? Desde
quando te importas com essa expressão?
- Não é isso - insistiu Bandele. - Mas será preciso declararem
essas vossas ideias perto de Lázaro?
Lázaro, que dera meia volta e observava, com Sagoe. a procissão
em torno da igreja, encarou-os de novo. dizendo:
- Por favor, não julguem que me importo. No fim de contas, todos
os homens quando chegam até Deus são infiéis. A nossa tarefa é
mostrar-lhes a luz.
Outro dos apóstolos aproximou-se e dirigiu-se a Lázaro com
insistência. Este desapareceu com ele no interior da igreja, avisando:
- Eu volto já. Aquela pobre mulher exige a minha presença.
Depois de ele se ir embora, Sagoe disse:
- Concordo com Bandele. Toda essa conversa poderia ter
esperado até o homem se ter afastado.
Todavia. Egbo limitou-se a repetir:
- Não gosto de apostasias.
- Nem eu, e daí? Estava em Oyingbo quando aquele rapaz foi
perseguido e acredita que nem mesmo aí ele era um espectáculo tão
lamentável como aqui. Parece que se tornou barro mole entre as
mãos de Lázaro.
- Vamo-nos embora - pediu Dehinwa. - Nada disto me agrada.
- Bem, eu não sei o que pretende Lázaro, mas o meu chefe de
redacção poderia ocupar duas centrais com um profeta, mas numa
edição de domingo.
Bandele olhou-o:
- E é tudo?
Sagoe virou-se na direcção do outro:
- Que queres tu dizer com isso?
- Deixa lá, não tem importância.
- Não, continua, que tinhas tu em mente?
- Nada.
- Por que é que não o pintas como dizias há pouco. Kola? Depois
eu usaria a pintura no meu artigo, dar-lhe-ia uma espécie de
dimensão nova... não sei dizer exactamente como a ideia surgiu-me
no cérebro, mas ainda não é suficien-temente clara...
- Não - Kola abanava a cabeça. - Poderei pintá-lo, mas não com a
cruz ou com qualquer dessas parvoíces. Estava a pensar nele como
Esumare. Interme-diário. Mais precisamente, como a Aliança, a
Aliança apóstata, a Aliança ambígua. Quando Lázaro lhe chamou Noé.
pensei nisso. Com efeito, ele possui aquele tipo de pureza
lechnicolour.
- Sim, sim - murmurou Egbo. - E é tão vaporoso como ela.
Bandele optou por escarnecer jocosamente:
- Sagoe tem o seu artigo. Kola encheu mais um espaço vazio na
sua tela, que vais tu extrair de tudo isto, Egbo?
Egbo voltou-se para ele, irado:
- E que vais tu extrair de tudo isto?
- O conhecimento da nova geração de intérpretes.
- Falas com um ar tão superior - explodiu Sagoe - que até um
santo se enfureceria.
- Tem cuidado. Enquanto crias o teu próprio mito. não faças
negligente-mente publicidade ao mito de outrem, talvez ainda mais
pernicioso.
- De quem é agora a vez?
- Lázaro. Não promovam descuidadamente o mito dele.
- E que vem a ser isso?
- E simples - explicou Bandele. - Vocês nem tentaram descobrir
os porquês. Ele pediu-vos que viessem aqui, não é verdade? Já
pensaram por que razão o fez? Ou acreditam naquele disparate de a
Igreja se construir sozinha?
- Que outra coisa deseja ele? Publicidade, evidentemente. Todos
os profetas locais querem publicidade. É um negócio excelente.
Bandele abanou a cabeça.
- Eu vi a cara dele quando Kola falou na ideia de pintar Noé como
Cristo.
- Eu também - admitiu Sagoe. - Mas por que não? Se ele deseja
ser um criador de vedetas em vez de ser ele próprio a vedeta, isso
apenas lhe honra a inteligência. Repito, o homem torna-se cada vez
mais interessante.
- Porque não nos vamos embora, Sagoe?
- Por favor, não interrompas... espera. Sabem, estive a pensar.
Querem apostar que todos estes pretensos apóstolos são ex-
condenados ou tipos com passados de certa forma duvidosos?
- O teu cérebro está outra vez avariado.
- Não, não. Lázaro e a sua “ressurreição”. Funda uma Igreja,
transforma ladrões em apóstolos e aguarda calmamente a segunda
vinda... humm. não é muito verosímil, mas ainda assim... caramba, o
homem é intrigante.
- Tal como o jogo de palavras cruzadas é intrigante. Ou uma
novela policial.
- Por favor, Bandele. Guarda aí por momentos as tuas
susceptibilidades. O tipo pediu-me que viesse aqui para se servir de
mim e eu, por minha vez, ganho a vida servindo-me dos outros. Isto é
uma coisa que se poderá estender por semanas, um artigo sobre
cada um dos apóstolos e um outro de sensação sobre Lázaro. Repito,
ele é uma mina de ouro.
- Que pensas tu sobre a experiência da morte dele?
- Acreditaste nela? Então, que dizes? Bandele ponderou por
algum tempo.
- Pouco importa se acreditei ou não. No entanto, uma coisa é
certa, este tipo atravessou uma experiência crítica. Se ele preferiu
interpretá-la de uma forma que traz um sentido qualquer à vida das
pessoas, quem és tu para zombar, para o desfazeres nas tuas páginas
sujas do mais barato cinismo, ou Kola...
- Deixa-me de fora, hein? Não faço ideia que bichinho se meteu
na tua cabeça ultimamente, mas deixa-me de fora. Bolas, Bandele,
afinal que se passa? Tomaste-te tão insuportavelmente crítico e
intrometido...
Era quase como se Bandele fosse um louva-a-deus encolhido.
Retraía-se visivelmente num buraco, as antenas estendidas como
uma formiga incauta. Limitou-se a dizer:
- Nenhum de vocês se preocupa com o sofrimento que possa
provocar.
Kola disse:
- Eu sabia que tinha de vir. O que eu queria era o elo e ele aqui
está. Aqui mesmo. Quem me dera um foguetão que me disparasse
imediatamente para Ibadan com Noé.
- Queres dizer que o Panteão está finalmente pronto? perguntou
Egbo.
- Desde que vi Noé pela primeira vez soube que tinha de o levar
comigo ainda hoje.
- Como pensas conseguir isso?
- Se eu disser a Lázaro que desejo pintar o seu último santo e
doar o quadro à igreja, julgas que ele fará objecções? Sou capaz de
fazer melhor do que o bordado da mulher do carpinteiro.
- Vais ter de lhe mostrar alguma coisa - disse Egbo.
- Dêem-me uma hora. Sou capaz de pintar algo que Lázaro
aceite, em apenas meia hora.
- E quanto àquilo que Bandele disse? Imagina que Lázaro o quer
numa cruz?
- Então ele que pinte o seu maldito Jesus. Sagoe estava
pensativo.
- Seria bom que o fizesse. Realmente, seria uma notícia
fantástica do nosso jornal se eu conseguisse estar presente desde a
redenção até à produção de um novo Cristo.
- Seria sensacional - troçou Dehinwa.
- Escuta, menina, não tentes substituir Bandele, entendido?
Quanto a Lázaro, se o meu chefe de redacção aprovar, tenciono ir à
aldeia da sua ressur-reição, ver se alguém se recorda disso.
Dehinwa insistiu:
- Por que te hás-de incomodar a ir lá? Vocês, afinal, não estão
interessados na verdade...
- Apenas em certos aspectos dela. Por exemplo, se descobrir que
Lázaro é uma fraude total, será obrigação minha dizê-lo à sua
congregação? A esse respeito, até Bandele tem uma opinião bem
firme. Apenas alguns aspectos da verdade são de facto importantes.
Supõe que amanhã Noé se toma Cristo e Lázaro é capaz de conseguir
a sua popularidade; que é que me obriga a dizer a verdade? Como
diria Bandele, o meu cinismo ou a minha mentalidade de “pensem o
que quiserem”.
- Em todo o caso, que importa? O rebanho continuaria a crer
naquilo que quer acreditar. Não foi o teu jornal que tentou
desmascarar um Cristo não há muito tempo?
- Não me recordo. Deve ter sido antes de eu ter regressado.
- Era o mais descarado de todos. Afirmava que viera para se
divertir nesta segunda vinda, e não para sofrer... Os jornais
desencadearam um violento ataque contra ele.
- Conseguiu sobreviver?
- Está mais próspero do que nunca. Um grande negócio de
transportes, uma padaria e um grande harém que resistiu a dois
processos judiciais por sedução.
- E os jornais atacaram-no?
- Violentamente.
- Vês? O mundo não tolera profetas da alegria. Toda a gente está
apaixo-nadamente mergulhada nas agonias.
- Não - exclamou Egbo -, as agonias não, apenas o acto de
sacrifício. Imolação ritual.
- Tens uma mentalidade sanguinolenta, é esse o teu problema.
Afinal, há algo mais lógico? Da primeira vez, ele escolheu o
sofrimento e nós aceitámos o seu direito de escolha. Então porque é
que ele não há-de escolher agora o prazer? Por que não havemos de
aceitar a sua nova escolha?
- Acho que devia tentar descobrir se esse Cristo ainda está no
activo. Provocar uma competição entre os dois. Sobrevivência do
cagalhão mais forte... isso são quatro páginas... coro fotografias. - E
Sagoe pontapeava a terra, lançan-do torrões para a lagoa. - Outra
central: apenas fotografias e legendas e os seus dedos dos pés
introduziam toneladas de tipos e faziam-nos estalar contra as páginas
límpidas da lagoa. A planura desta parecia exasperá-lo. - Reservem
este espaço! gritava, e os seixos ricocheteavam na água. - Pequenas
notícias para estimular o apetite dos leitores. - E Sagoe continuava a
agitar a superfície, e a sua história espalhava-se em ondas infinitas,
até que gemeu subitamente e se agarrou a um dos pés.
- A máquina de composição avariou-se.
Dehinwa ofereceu-lhe o ombro para apoio enquanto ele se
mantinha sobre um único pé.
- É muito bem feito.
Apesar do pequeno grupo isolado à beira da lagoa, ignorando a
sua presença, um campo de cereal maduro passava e voltava a
passar, detendo-se para orar diante da porta. Depois a brisa crescia
uma vez mais, e velas brancas, velas de leve ráfia varriam a terra. E
uma centena de mãos erguiam Noé e a cruz, até ambos parecerem
voar acima da multidão exultante.
Bandele quebrou o silêncio:
- Eu não teria qualquer curiosidade em ouvir Lázaro se Sekoni
não tivesse falecido recentemente. No fundo, suponho que foi por isso
que vim.
Egbo contemplou a escuridão da igreja deserta.
- O que é que Lázaro nos quereria dizer? Bandele encolheu os
ombros.
- Sentia-me curioso. Era uma sensação estranha estar sentado
diante dele naquela mesa e ouvi-lo afirmar que tinha morrido.
- E melhor irmos embora - disse Egbo, encaminhando-se para os
carros.
- Vão andando - propôs Bandele -, eu vou despedir-me de Lázaro.
Porém, Lázaro acabava de reaparecer e acompanhou-os ate ao
local onde os carros estavam estacionados.
- Espero - disse Sagoe - que aquela mulher tenha profetizado um
filan-tropo para a sua Igreja.
Lázaro parecia bastante mais solene do que quando os deixara.
- Não. hoje ela não estava a profetizar. Não havia nada sobre o
futuro no que ela dizia, mas sim sobre o passado. As visões dela
referiam-se ao passado, porque ela viu-me ao lado de um
companheiro sem rosto e afirma que era a morte.
- Ando já há uns tempos para te perguntar - declarou Bandele
quando o carro havia deixado a igreja para trás - se já tiveste notícias
de...?
- De casa? A lagoa também to recordou. Não. E os jornais
assustam-me. - Egbo riu por momentos. - Pensei que isso estivesse
enterrado no passado, mas não é bem assim. Por vezes, ainda sou
assaltado pela sensação dos dedos daquele velho na minha face e
por aqueles olhos cegos, e acordo a rasgar os lençóis.
O automóvel rodava ruidosamente e mantiveram-se calados
durante algum tempo, até que Egbo disse:
- Tenho pensado nisso com frequência e se a ocasião se repetisse
não garanto que não ficasse lá. O meu repúdio do poder foi
irreflectido.
- É o que pensas agora?
- Se queremos transformar, não devemos temer o poder. Olhem
o exemplo de Lázaro.
- Nunca aqui tinha estado - afirmou Kola no banco de trás.
- Há um certo número de aldeias lacustres por aqui. A algumas
delas só se consegue chegar de canoa.
- E pertencem a Lagos?
- Julgo que sim.
- Hei-de voltar cá mais tarde - anunciou Kola -, para falar com
Lázaro sobre Noé. Se ele concordar, vou levá-lo comigo para Ibadan
esta noite.
- Ele não se oporá - disse Bandele.
- O problema é que receio perder-me. O meu sentido de
orientação é fraco.
- Eu venho contigo - propôs Egbo.
- Óptimo. Assim só corremos o perigo de o carro se atolar.
- Teremos de vir antes de anoitecer.
O transeunte pensou que Sagoe vagabundeava. Mas foi uma luz
prove-niente da casa que o deteve no limiar, curvado para a
fechadura, escutando atentamente. Cantarolando: “Nada vejo, mas
isso não significa nada”, Sagoe deu a volta à casa. Peter podia estar a
dormir, mas já estava a vê-lo descendo a correr, logo que abrisse a
porta, para lhe perguntar como ia a saúde ou sugerir que bebessem
um copo. Considerou então a hipótese de tentar uma corrida directa
até lá acima, ao seu quarto, mas imaginava Peter alcançando-o à
porta e oferecendo-se para lhe ler uma história antes de adormecer.
Sagoe caminhava ainda de um lado para o outro quando um homem
o abordou.
- Olá! - Era um rosto branco. A luz ténue da casa fazia sobressair
as suas narinas achatadas. - Algum problema?
- Não. Não tenho simplesmente onde dormir. É tudo.
- Essa é boa.
- Acha? Alegra-me que assim pense.
- Oh, suponho que o facto não tem qualquer graça. Acontece
apenas que oiço essa expressão quase todos os dias.
Sagoe endireitou-se.
- Oiça...
Porém, o outro interrompeu-o calmamente:
- É verdade... oiço-a com frequência. Sou americano,
compreende, e ela parece ser o sinal para alojamento gratuito de
todos os vagabundos americanos neste país.
Há muito que Pinkshore despertara nele uma aversão a rostos
brancos. Nem mesmo a recordação das feições desafiadoras de Mrs.
Faseyi, desde-nhando o embaraço dos seus próprios compatriotas e
indiferente ao choque e indignação do seu marido, nem mesmo ela
era capaz de redimir a raça branca desde aquela festa.
Efectivamente, só com um supremo esforço de memória conseguia
pensar nela com consciência de que era uma rapariga branca. E
Sagoe achava os modos deste homem particularmente insolentes,
untuosos.
- Bom, eu não sou um vagabundo americano. - Sorriu.
- Ainda não encontrei um africano que não se sinta insultado por
tudo e por nada.
- Ainda não encontrei um americano que não julgue que a sua
insolência deva ser tomada como cordialidade.
- Meu Deus! Quando saí, tencionava apenas dar uma volta. Onde
foi que errei?
Sagoe deu por si a murmurar.
- Oh, desapareça simplesmente. A sua cara é antipática no
estado em que estão os meus lóbulos.
- Perdão, não percebi o que disse. - Sagoe nada respondeu e
começou a pensar se o risco de encontrar Peter não seria preferível a
isto. - Sabe – prosse-guiu o estranho -, acho que vocês neste país não
são mesmo nada amistosos.
- Sim, eu sei. Os americanos esperam ser amados...
- Não, por favor... isso não. Tudo menos isso.
Sagoe sentiu que se denunciava fazendo uma observação
ridícula.
- Olhe, chamo-me Joe Colder. Ensino história africana. Sofro de
insónias, de modo que costumo passear à noite.
Sagoe acenou a cabeça e inclinou-se novamente para escutará
porta.
- Bem, se ficou fechado cá fora, venha daí. Vamos beber
qualquer coisa.
- Não, obrigado. Esta noite mantive-me razoavelmente sóbrio,
não quero estragar tudo agora.
- Bom, então um café. Mas venha daí para conversarmos um
pouco. É um pouco longe, mas posso trazê-lo cá de carro.
Sagoe meditou durante algum tempo e decidiu que, na verdade,
precisava de espairecer. Enquanto caminhavam lado a lado, reparou,
surpreso, que Joe Colder era bastante baixo. Inicialmente, parecera
maior. Porém, o corpo confe-ria-lhe um ar de verdadeiro atleta. E a
cabeça tinha um aspecto invulgarmente compacto para um branco.
Um tipo susceptível, pressentiu Sagoe. Os idiotas como Joe Golder
vêm para África para serem maltratados.
- A sua pronúncia não parece americana.
- Oxford. Cinco anos em Oxford encarregaram-se disso. Não o
lamento. Não me sinto um verdadeiro americano.
- Penso que devia trocar a sua certidão de nascimento com um
alemão que conheço...
- Peter, não?
- Exactamente, conhece-o?
A face de Joe Golder sumiu-se sob uma dura máscara de couro
rugoso.
- O problema é esse, sabe? É sempre a mesma coisa. Como sou
americano, todo o palerma que chega com uma pronúncia ou um
passaporte americanos procura a minha casa.
Já mudei de apartamento meia dúzia de vezes nos dois anos que
aqui estou. Dizem-lhes: temos um professor americano, e daí a pouco
tenho-os à minha porta ou até já na minha sala de visitas prontos a
acamparem. Deixo-lhes a casa ou envio-os ao consulado, mas pouca
diferença faz; no dia seguinte lá está outro rapaz, ou rapariga, à
minha espera depois das aulas. Sabe. eu sou um misantropo. Não
gosto dos seres humanos. Prefiro estar sozinho, que mal terá isso?
Subjugado, Sagoe apenas conseguiu murmurar:
- Há pessoas assim.
- E alguns julgam que me estão a fazer um favor. Um, que dizia
ser estudante de psicologia no Arizona e veio completar a tese de
doutoramento, ficou sentado no meio do meu apartamento até às
três da manhã e continuava ainda indeciso se ficaria ou iria instalar-se
no hotel. “Que pena não ter tele-fone”, dizia, “preciso de marcar
tantos encontros...” E, enquanto eles lá estão, a minha casa é tudo
menos minha. Entro em casa e deparo com um estranho de que me
esquecera totalmente. Compreende, eu não sou um filantropo. Não
gosto de ser usado dessa maneira.
Havia já algum tempo que Sagoe concentrara toda a sua atenção
naquele insólito encontro. Prosseguindo a caminhada, perguntou:
- Mas por que não lhes diz simplesmente que se vão embora e
não o incomodem?
- Confesso que gosto de ajudar as pessoas, mas detesto que
abusem da minha generosidade. Não sou obrigado a auxiliar seja
quem for. Posso fechar-me no meu apartamento e dizer-lhes que
desapareçam. Gosto de ter paz. E pelo facto de gostar de ajudar os
outros não gosto que me retribuam daquela maneira.
- Dava a impressão de se ter acalmado um pouco, como que
envergo-nhado da sua própria explosão. - Desculpe - disse, por fim. -
Tenho o hábito de recordar as coisas como se estivessem a acontecer
no momento. É um mau hábito. Quando estou a falar com alguém e
me lembro de algo desagradável, tento sair dali antes que a questão
me domine.
Desta vez, calou-se durante quase meia milha.
- Sou uma pessoa muito brusca. O meu humor muda facilmente.
Por vezes, sou um perfeito hospedeiro. Até que, certo dia, entro em
casa e peço ao meu hóspede que faça as malas. Uma vez, até
interrompi uma aula para correr a casa e expulsar um músico que ali
estava havia quase um mês - Lembrou-se de algo que ele tivesse
feito?
- Não. Apeteceu-me subitamente vê-lo fora de casa. Recordo que
conduzi tão estupidamente que fui para- à valeta, pelo que abandonei
o carro e corri o resto do caminho. - Riu-se. - Sou imprevisível, vê?
Posso estar gracejando com um colega num dado momento e daí a
pouco voltar-lhe as costas.
- Como encaram eles isso?
- Depende. Alguns classificam-no de pedantismo.
- E isso não o incomoda?
- Não me importo com esses tolos. Não sou um indivíduo
sociável. Não frequento as recepções deles, nem as suas festas. Dou
imenso valor ao meu tempo e detesto até ao fanatismo ter de
conceder um segundo que seja a outra pessoa. Se desperdiço um dia
inteiro sozinho, sentado no meu apartamento, sem fazer nada, isso é
comigo, mas deixem-me fazê-lo em paz.
As luzes estavam apagadas na maior parte das casas. Alguns
cães ladravam bastante perto e, recordando a análise de Bandele ao
código dos cães, Sagoe pegou num pau.
- Isso é por causa dos cães? Eles não mordem.
- Com isto terei a certeza de que não.
- Tem medo dos cães?
- Não. Mas já fui mordido.
- Eu também. No entanto, foi diferente. Na minha terra natal, um
branco idiota atiçou o cão contra mim. - Riu e parecia prever a
perplexidade de Sagoe. - Oh, você foi induzido em erro tal como
muitos outros. Eu sou negro. Mais precisamente, um quarto negro - e
sorriu. - Quem me dera que fosse mais.
- Conheci muita gente assim nos Estados Unidos. Golder ficou
surpre-endido.
- Você esteve nos Estados Unidos?
- Durante algum tempo.
- Então estou espantado por ninguém lhe ter dito para ir a minha
casa. - A sua voz subiu até atingir um tom de falsete. Você esteve nos
Estados Unidos? Oh, então tem de conhecer Joe Golder. Um ho-o-
omem muití-í-íssimo encan-tado-o-or... Tem uma voz de tenor
maravilho-o-o-osa.
- Você canta?
- Acabaria por descobrir mais tarde ou mais cedo. Infelizmente,
adoro cantar e creio que tenho, de facto, uma boa voz - o melhor
tenor da universidade, dizem alguns. Mas geralmente são as
mulheres que o dizem. E a maioria destas estafadas donas de casa
não compreendem que eu aderi ao seu grupo de ópera para cantar e
não para o sherry e o bla-bla-bla habitual. – Come-çava a excitar-se
novamente. - E como eu tenho um piano no meu apartamento, elas
julgam uma óptima ideia aparecerem constantemente para um breve
ensaio. Pouco importa que eu diga “não- cada vez que me batem à
porta, elas crêem que conseguem vencer a minha oposição com a sua
insistência. Olhe, se há coisas que não suporto, e uma voz feminina a
cantar no meu apartamento. É uma intrusão insuportável. Sou muito
cioso da minha intimidade, não tolero que qualquer idiota a invada, e
elas deliciam-se a abusar de mim...
Depois de dobrarem a última esquina e entrarem numa rua
recente, acabada de construir, a natureza do silêncio alterara-se. Já
não era uma mera interrupção produzida por uma comunidade
adormecida, mas um peso que amortecia tudo, um terceiro e
opressivo companheiro daquele passeio. Vinha do entrelaçamento de
arbustos e húmidos troncos de palmeira desbastados, desarraigados
mas vivos, e de uma manta negra de ovas de sapos num regato
profundo. Mesmo através do grasnido e das pausas agitadas dos
sapos, ele lá estava. Sagoe esboçou o sorriso de um vacuolizador
satisfeito, imerso em silêncios perfeitos.
- Você está a sorrir - acusou de repente Joe Golder. Sagoe
pareceu ouvi-lo, mas depressa se alheou de novo.
- Você é uma pessoa silenciosa - insistiu Joe Golder.
- Hum?
- Disse que você é uma pessoa silenciosa. Não fala muito, mas
sorri bastante.
- Eu?
- Sim. Em que pensava?
- Na metafísica da vacuolização.
- Oh, sim. Muito, mas muito obrigado. Continuaram a andar em
silêncio e Sagoe mergulhou de novo nos seus pensamentos. Sentia
que o vácuo crescia cada vez mais dentro de si. Depressa a sua
mente estava quase vazia - o que parecia um erro, no que dizia
respeito a Joe Golder.
- Em que está a pensar? Não obteve resposta.
Indiferente ao estado de beatífica passividade de Sagoe, Joe
Golder tornou-se uma intrusão insuportável. Sagoe desejou
sinceramente que o outro se calasse. Não conseguia compreender
que um ser humano pudesse parecer tão sensível e permanecer
alheio à letargia octopóide da noite. Golder conti-nuou a intrometer-se
naquele encantamento com a sua resenha de tribulações até
chegarem ao apartamento.
Vivia no bloco de apartamentos mais recentes, o mais distante
da univer-sidade e o mais alto. E ele havia assegurado, sem qualquer
dificuldade, o acesso ao último piso - ninguém mais. a excepção dele.
parecia desejá-lo.
- São oito lances de escadas, portanto, vamos devagar. Esperava
que o esforço da subida desencorajasse as visitas importunas.
- Como conseguiu pôr o piano cá em cima?
- Do mesmo modo que o poria no primeiro andar. Custou, mas eu
sou um tipo persistente.
Enquanto punha a chave na fechadura, informou:
- Não tenho amigos. Há-de ouvir bastante gente dizer que Joe
Colder é amigo deles, porém, isso é apenas presunção. As vezes,
tipos que nunca vira dirigem-se-me dizendo: “Então você é que é Joe
Colder! Ainda ontem encontrei um amigo seu...-
- Por vezes é apenas uma maneira de falar. - Sagoe começava a
irritar-se, com razão.
Á fotografia de uma mulher idosa surgiu diante de Sagoe: o resto
daquela parede estava coberto de livros, todos com a mesma
elegante encadernação.
- Em tempos trabalhei numa biblioteca. Em Paris. Já esteve em
França? Esteve? A maioria dos livros que a biblioteca deitava fora, eu
guardava. E, às vezes, vendiam-me outros a baixo preço. Mandei-os
encadernar de novo. Não importava que livros fossem, eu ficava com
tudo. A seguir à música, os livros são a minha paixão.
A sala tinha um ar tão enfadonho que Sagoe foi incapaz de se
sentar imediatamente. E apesar de uma cadeira leve, de metal e
lona, uma mesinha moderna, baixa, com tampo de formica branca,
apesar dos desenhos cubistas nas pequenas almofadas, Sagoe
achava que penetrara num mundo remoto, grave, arcaico. Havia dois
candelabros sobre o piano, com velas vermelhas...
- Por amor de Deus, não se saia com piadas sobre Liberace.
Todos os americanos que aqui vêm o fazem.
- Liberace está ultrapassado - disse Sagoe, inspeccionando o
desenho das decorações.
Um resguardo oval estendia-se sobre o piano: em cima dele,
outra fotografia emoldurada: os pais.
- Sim, eles parecem completamente brancos, não é verdade?
Mas o meu pai é mestiço. É daqueles que não parecem ser. Partiu da
terra natal com a mulher, antes de eu nascer. Porém, como eu não
parecia negro, resolveram regressar.
- Que aconteceu então?
- Durante quinze anos, nada. Até que foi como. que agarrado
pelo passado. - Golder calou-se por momentos. - O choque deve ter
sido terrível. Suicidou-se. Talvez você fique horrorizado quando lhe
disser que fui eu quem o levou a tal. Sentia-me tão envergonhado
dele que não o ocultava. Cuspi na minha pele diante dele, apenas
porque ela provinha dele... Eu era demasiado novo...
Havia alguns objectos espalhafatosos sobre o piano e uma
imagem de Buda.
- Jade? - perguntou Sagoe. Golder disse que não sabia. Numa
prateleira, três macacos de bronze.
Golder tinha uma falsa lareira.
- Levo-a comigo quando mudo de apartamento. Construí-a eu
próprio. Tenho gostos muito especiais, há certas coisas que não
dispenso numa sala.
O quebra-luz sobre o piano era uma singular caixa de madeira
pintada de negro e na prateleira da lareira via-se um trabalho similar,
puramente ornamental.
- Tenciono transformar aquilo num aquário. - Sagoe ficou
intrigado sobre o modo como ele o faria, mas absteve-se de fazer
perguntas.
- Que deseja tomar? Café?
- Neste momento tenho sede. Tem cerveja?
- Está com ar carrancudo. Qual é o problema?
- Eu?
- Sim.
- Não dei por isso. Suponho que acho isto tudo muito inquietante.
Demasiado calmo. Uma quietude inquietante que nos quebranta. Que
me diz a esta?
Nem mesmo um sorriso aflorou os lábios de Golder. Em vez disso,
o rosto dele endureceu, dizendo:
- Que quer dizer com isso? Você tem qualquer ideia na cabeça. O
que é?
- Não sei. Dê-me a cerveja, por favor. - E Sagoe afastou-se na
direcção da varanda.
A cidade estendia-se para lá da realidade, camadas congeladas
de ferrugem e retalhos prateados. Uma floresta miniatura jazia lá em
baixo, apenas verdadeira na solidão da sua mata de cabelos. O regato
que haviam atravessado parecia uma corda abandonada, e os troncos
de palmeira tubérculos gigantes. O edifício era tão alto como isso. Um
solitário pirilampo brilhava regularmente, acabando por aterrar perto
do relógio de Sagoe. Duas da manhã..
- Que está você a pensar? - A voz do outro era bastante áspera,
ressentida. - Não me diga que não estava a pensar em nada.
- Porquê?
- Lá está você de novo carrancudo. Por que há-de estar sempre
carrancudo?
Sagoe tentou cooperar, fazendo um sério esforço para descobrir
por que estava carrancudo. Todavia, o resultado foi pior. A
tranquilidade venceu-o e o seu esforço de concentração depressa foi
envolvido pela lassidão. Esqueceu imediatamente a presença de
Golder.
- Bem, se é preciso tanto tempo para se lembrar do que
pensava...
Sagoe despertou.
- Desculpe. Acho que não estava realmente a fazer isso. Aquilo
sucedeu quatro ou cinco vezes: Golder era persistente e Sagoe nunca
recuperava o suficiente para levar a mal as aguilhoadas da sua
intrusão. Era como se adormecesse constantemente ante um
convidado e permanecesse consciente da sua falta de delicadeza.
- É uma pessoa muito calada, não é? Não parece ser muito
falador.
Sagoe achou isto divertido.
- Se soubesse...
- Afinal sempre fala. Então por que não conversa comigo? Pouca
coisa disse desde que nos encontrámos. Dificilmente abre a boca, a
menos que eu o incite.
- Talvez esteja cansado.
- Você não está cansado. Sei ver quando um homem esta
cansado.
- Bom, então estou apático. Sabe o que quero dizer. As altitudes
afectam-me desta forma e a calma e como um narcótico.
- Mas agora está a falar. Por isso diga-me em que pensava há
momentos.
- Serei obrigado a pensar em algo?
- Então fale-me de si. Vá lá. Gostava de saber que espécie de
pessoa é você. Diga-me quais são os seus interesses e ideias. Bem sei
que sou um misantropo. Não me importo com os outros e não quero
que eles se importem comigo. A maior parte deles são falsos. Estive
em diversos países europeus e os seres humanos são todos iguais.
Chatos, hipócritas. Vim para aqui na esperança de que os Africanos
fossem diferentes.
Golder sentara-se no parapeito como um inquisidor, mas
mergulhava apenas cada vez mais fundo na sua própria história.
- Prefiro estar sozinho. Fico aqui em cima a escrever. Estou a
escrever o meu segundo livro, um romance histórico passado em
África. - E depois, com uma ponta de irritação na voz: - Você não me
está a ouvir. Continua a meditar. Em que pensa?
Desta vez, Sagoe reagiu, endireitando-se bruscamente.
- Qual é o problema? Eu disse que não estava a pensar e, mesmo
se estivesse e não lho quisesse dizer, isso é cá comigo.
Joe Golder, quando por vezes se ria, era assustador. Tinha
grandes dentes e os lábios separavam-se quase insidiosamente.
Sagoe estava agora mais vigilante e começou a pensar se aquele tipo
não estaria a representar.
- Você gosta de fingir-se diferente? Joe Golder parou de rir.
- Por que me pergunta isso?
- Por nada. Ocorreu-me que talvez fosse melhor perguntar-lho.
- Sou uma das pessoas mais sinceras que conheço.
- Mesmo isso pode ser uma fachada. Isto é, uma atitude
deliberada.
- Ainda acabamos num impasse - afirmou Golder, dirigindo-se à
cozinha. - Estes passeios abrem-me sempre o apetite. Também quer
comer qualquer coisa?
Aparentemente, Sagoe levou muito tempo a ponderar a oferta.
Golder levantou-se de um salto.
- Caramba, não é obrigado a comer. Limitei-me a dar uma
sugestão.
- Isto está a tomar-se impossível. Você nunca hesitou entre
comer e não comer?
Porém, Golder saíra da sala e Sagoe ouviu-o abrir um armário.
Acabou por segui-lo, fazendo um verdadeiro esforço para ser sociável.
- Quando estive em Paris - disse Joe -, conheci um bailarino da
Guiana Britânica tão irritantemente orgulhoso que ficava melindrado
quando era obrigado a agradecer algo, pelo que procurava evitar que
alguém lhe fizesse fosse que favor fosse. Meu Deus! Cheguei a odiar-
lhe a própria sombra e ele a minha. Ele estava a passar fome em
Paris, imagine, e eu tinha um bom emprego na tal biblioteca.
Costumava vir ao meu apartamento depois de calcorrear todos os
agentes em busca de trabalho. Deixava-se cair pesadamente numa
cadeira a ouvir discos. Os sapatos estavam numa lástima e via-se à
légua que não comia há uma semana. Mas julga que ele aceitava
comer comigo? Não, muito obri-gado, na sua melhor pronúncia de
Oxford. Não, muito obrigado! E eu acabava por perder a cabeça ao
vê-lo ali sentado, fingindo que tinha comido, quando as tripas lhe
suspiravam por uma migalha de pão. Oh, ele era insuportavelmente
britânico! Tão exageradamente correcto! Conhecemo-nos quando
estudávamos em Oxford, mas ele chumbou nos exames, de modo que
fomos os dois para Paris. Ao fim e ao cabo, era a dança que o
interessava. Sabe, fui uma vez ao quarto dele, uma miserável toca de
rato num sótão. Já não o via há dias, pelo que fui procurá-lo. Levei
três horas para encontrar a espelunca onde vivia. Estava de cama,
enfraquecido, quase agonizante de fome... Abri o armário da cozinha
e nem sequer um alho ali havia. No entanto, conseguiu levantar-se,
abrir a janela e dizer-me, com aqueles malditos modos britânicos, que
tinha comido. Meu Deus, tornava-se simplesmente ridículo com tanto
orgulho. Tive de sair, comprar-lhe comida, cozinhá-la, e até se podia
ver que ele chorava interiormente para conseguir engolir a comida
que lhe comprara.
Sagoe, fascinado, observava-o a acender o fogão a gás.
- Não uso o fogão eléctrico - informou Golder. - Pelo menos,
desde que recebi a primeira conta.
Começou a partir ovos e a pô-los numa frigideira. Estava a partir
o terceiro, quando Sagoe disse:
- Espero que não esteja a contar comigo.
- Não quer nenhum?
- Não, creio que não.
- Vejo que continua a pensar.
- Não quero nenhum.
- Tem a certeza? Não será a sua costela britânica a falar por si?
- E claro que é a minha costela britânica. MSS, mesmo assim, não
quero nenhum ovo, muito obrigado, é muita bondade da sua parte,
não queria que se incomodasse por minha causa; uma vez mais,
muito obrigado.
- Ao menos você tem sentido de humor.
- Não creio que tenha, porém, pouco importa.
- Não? Devo confessar que tenho um certo prazer em detectar
fome nas pessoas. Foi outro mau hábito que criei. Ainda não lhe
disse, mas antes de conseguir aquele emprego na biblioteca, também
pratiquei um pouco de inanição. Foi o suficiente para ficar a detestar
a fome. Aquele género de pessoas que proclamam estar a passar
fome por amor à arte, à passar fome por amor à sua liberdade, a
passar fome até ao dia em que o seu génio inundará o mundo, são
todas idiotas! Nada tinham de positivo, aqueles doidos do Quartier
Latin. Oh, levei aquela vida durante algum tempo. Recebia algum
dinheiro de casa, ainda me podia considerar com sorte. Eram
repugnantes, aqueles hipócritas! Havia uma coisa que todos eles
sabiam fazer muito bem: cravar dinheiro aos outros. Nisso eram
geniais.
- Também conheci alguns em Nova Iorque.
- Ah, sim. Em Greenwich Village.
- E em São Francisco. Os vossos beatniks espantaram-me. Por
que se agregam eles daquele modo?
- Não me diga que se preocupou com isso. Aquele bailarino meu
amigo passava fome, mas não o alardeava como esses a que se
refere. Quando não tinha dinheiro, limitava-se a ficar em casa e
sonhava. Éramos grandes amigos. Gostava bastante dele e ao mesmo
tempo odiava-o mortalmente. Meu Deus, como eu o odiava! Sabe
quando o compreendi? Quando ele estava doente, sem dinheiro, no
hospital. Pessoalmente, detesto hospitais e nunca vou lá visitar
ninguém. Quando uma vez a minha mãe adoeceu, imaginei todo o
tipo de subterfúgios para evitar ir vê-la. Mas logo que soube que este
rapaz estava realmente doente, dirigi-me ao hospital apenas para o
ver, desamparado, totalmente dependente. Compreende, ele não
tinha um centavo. Paguei as contas dele, levei-lhe fruta e flores. Pois
ele rebentava de orgulho e na sua cara transparecia toda a sua
humilhação e nenhuma gratidão. Eu só desejava que aquilo
retardasse a sua recuperação. Paguei a renda dele, pois havia
algumas semanas, antes de adoecer, que estava desempregado e já
devia dois meses. E fui lá limpar-lhe a casa antes de ele regressar. Oh,
mas ele odiou-me, odiou-me mais do que nunca. No entanto, era
inevitável. Tinha de aceitar o meu auxílio e até pedi-lo. Obriguei-o a
isso, sabe? Tinha de entrar num espectáculo e precisava de novos
sapatos de ballet. Eu sabia-o muito bem, mas não disse nada. Teve de
ser ele a pedir-me. Pedir-me! Ele pediu-me dinheiro!
Da varanda soprava ar fresco, revigorante. Sagoe sentiu-se
afundar para além de tudo aquilo. Que se passa com ele? Que tem
este tipo? Desesperada, a sua mente voou para Dehinwa e a sua rude
e exasperante afeição; para Egbo, que seria capaz de igualar a
violência de Joe Golder. mas de modo mais directo.
- Não se importa que eu ponha isto a tocar'.' - O outro estava
junto do gira-discos.
- Eu não. - Sagoe não acrescentou que a sua letárgica
autocomplacência já se dissipara, embora ainda estivesse ressentido
por isso. Uma voz de soprano abafou o som de óleo esguichando.
- Coloratura, italiana. Gosta? Gosto da voz humana. A seguir ao
violino, a voz humana é o instrumento mais perfeito. Só toco as
minhas peças favoritas quando estou sozinho. Choro frequentemente
ao escutá-las.
- É engraçado que não me surpreende ouvi-lo dizer isso.
- Pareço-lhe ser do género de pessoa que chora facilmente?
- Digamos, simplesmente, que é bastante vulnerável. Sagoe
estava de pé, diante da única pintura da sala.
Tratava-se de listas brancas num fundo totalmente negro.
Poderia ser um relâmpago ziguezagueando num céu negro, mas ele
sabia que não era. As línguas que partiam do traço principal eram
líquidas, gotejantes. Não havia ali qualquer poder ou violência,
apenas uma viscosidade deliberada, restos de leite escorrendo
através de uma película amarfanhada e caindo como que indecisas.
- Gosta?
- Acho-a enjoativa.
- E a primeira pessoa a dizê-lo. A maioria diz que não a
compreende.
Durante muito tempo depois daquela noite, Sagoe costumava
perguntar a si próprio por que havia feito aquela pergunta.
Inconscientemente, sem qualquer razão aparente, deu por si a
perguntar:
- Foi o seu amigo bailarino que o pintou
-- Foi - e Joe Golder olhou-o atentamente durante algum tempo. -
Como adivinhou?
- Não faço ideia. O outro irritou-se:
- Você nunca quer explicar nada do que afirma. É um tipo tão
reservado...
- Antes que arme uma discussão por causa de uma ninharia,
repito, não faço ideia de como adivinhei.
- Já percebi. Vocês, africanos, quando dizem uma mentira,
sentem-se obrigados a insistir nela. Mesmo quando vos apresentam
provas evidentes de que mentiram, vocês continuam a mentir...
Sagoe sentiu-se à beira de agredir Golder.
- Se volto a ouvi-lo repetir essa merda...
- Eu posso dizê-lo porque não sou branco. Por exemplo, o meu
primeiro criado...
- Você proclama desprezar os modos britânicos e agora está para
aí a exibi-los calmamente. Experimente essa conversa de indivíduo
superior com outra pessoa.
- Com que então, nem sequer aceita uma simples verdade. Vocês
africanos, são tão nacionalistas!
- Cale essa boca porca! - Pusera-se de pé, ameaçadoramente.
Golder recuou, visivelmente assustado. -- Odeio a violência.
- Então não volte a abrir essa boca para tirar profundas
conclusões da conversa do seu criado! Meu Deus, vocês, americanos,
são tão insuportáveis que é um milagre escaparem vivos de qualquer
sítio onde vão.
A tensão aumentou quando o disco chegou ao fim. Joe Golder
afastou de si a comida e encaminhou-se para as garrafas de bebidas.
- Agora nem me apetece comer. - Tremia ligeiramente.
- Porquê?
- Odeio a violência. Todas as formas de violência me transtornam.
Sagoe não se compadeceu.
- Então devia ser mais cuidadoso. Também existe violência nas
palavras.
- Não, não, isso não passa de retórica. Deixe-me tentar encontrar
uma fotografia daquele rapaz. Não tenho álbum, mas costumo
guardar os recortes sobre ele. Ultimamente, tem tido muito êxito. Já
dançou em Berlim, nos Estados Unidos e em mais algumas capitais
europeias. Recentemente, recebi um postal dele de Madrid. - Riu-se. -
Sim, ele começou a conseguir trabalho mais regular-mente e pagou-
me o que eu gastara com ele até ao último centavo. Já vê como ele é.
Pagou-me tudo o que me devia. Mas ao menos tinha-o recebido, foi
obrigado a aceitar a minha generosidade. E aquilo era a única forma
de satisfazer o seu orgulho: pagar-me o que me devia. Mas eu havia-o
derrotado de uma vez para sempre. Daí em diante, quando precisava
de dinheiro, não hesitava em pedir-mo.
Joe Golder ia-se tornando progressivamente mais desagradável;
no entanto, Sagoe preferiu aguardar. Para continuar ali - e com
razoável cortesia -. começou a procurar em Joe coisas que pudesse
admirar. Havia o seu amor pela solidão, o seu isolamento deliberado
que transparecia naquela sala, ainda que ela lhe fosse repulsiva.
Provocava-lhe uma sensação de arrepio que lhe descia pelas costas e
se confundia com outra, de enjoo.
- Está de novo calado. Continuo sem saber nada de si. Ou será
que não há nada que se possa saber a seu respeito? Quero dizer, o
que busca você na vida? Vamos, quais são os seus interesses?
- Você faz sempre isso com os seus amigos, desculpe,
conhecidos, se preferir este termo; você costuma fazê-los sentir-se
como se fossem relógios de contrabando à venda em Kingsway: ah
oga, dezassete rubis, baratíssimo, automático, com calendário,
compre este, oga.
- O-oh, não faço ideia do que poderão sentir aqueles com quem
converso. Todavia, não gosto de mistérios.
- Já vi que gosta de sondar os mecanismos para compreender
como funciona cada um...
- Não sei do que gosto. Mas você não disse absolutamente nada.
E eu gosto sempre de conhecer as pessoas. Acho que as pessoas nos
exploram. Se somos generosos para elas, somos explorados. Já tentei
ajudar diversas pessoas, especialmente quando estava em Paris,
onde os vagabundos de todo o mundo se reúnem. Mas, atenção, não
ajudava qualquer um. Apenas pessoas da minha cor. Sinceramente,
gosto de negros. São excitantes, a sua cor tem uma tremenda
vitalidade, isto é, é algo realmente belo, único...
Bastante injustamente, pois ele próprio sabia que isso era falso,
Sagoe comentou:
- Mentalmente, você é um branco, sabe?
- Parece uma ideia de Rousseau, mas tenho o direito de pensar
assim. Ser negro é algo que me agrada ser, que tenho o direito de
ser. Não há qualquer motivo por que eu não pudesse ter nascido
negro como azeviche.
- Teria morrido de masturbação excessiva, certamente.
- Agora diverte-se a ser grosseiro?
- Uma gentil increpação britânica. É espantoso como você se
parece com os ingleses. Talvez seja por isso que está constantemente
a atacar os outros. Olhe, na verdade, fico bastante nauseado perante
o excessivo amor-próprio. Até o nacionalismo é uma forma de amor-
próprio, mas podemos apontar-lhe algumas vantagens. Este culto da
beleza negra é que me causa náuseas. Por exemplo, serão os albinos
obrigados a irem afogar-se por causa disso?
Até então, esquecera completamente Lázaro. A sua mente fixou-
se no albino e Sagoe acabou por se sentir inquieto. Pôs-se de pé.
- Vai-se embora?
- Vou.
- Quer então dizer que não acha a sua pele bela?
- Nem sequer tinha pensado nisso. Uma destas noites, vi uma
rapariga branca numa festa e achei-a muito bela. Trata-se de um juízo
estético. Não consigo lembrar-me muito bem da cor dela. Quando
você se refere a essa vitalidade negra, quase consigo ouvir a saliva a
crescer-lhe na boca e, como sou negro - não há nisso qualquer culpa
ou crédito meu -, acho isso repugnante.
- Não, espere aí...
- Espanta-me que haja negros que suportem ser adulados,
mesmo por outros negros.
Joe Golder levantou-se.
- É um pouco longe. Levo-o lá de carro. Ou, se preferir, pode ficar
cá, é bastante tarde.
- Não, o meu amigo ficaria preocupado sem saber o que me
aconteceu.
- Mas, quando o vi, parecia que não conseguia entrar.
- Não, não era isso. Aquele Peter, o rapaz alemão com mau
hálito, não chegou a partir. E eu não estava muito disposto a
encontrá-lo.
- Estão a vi ver juntos?
- Somos ambos hóspedes de um velho colega e amigo meu.
- Oh, conheço Bandele muito bem.
- E pregou-lhe uma partida muito feia. Ele viu-se a braços com
Peter depois de você o ter abandonado lá. Um minuto que seja na
mesma casa com Peter é um suplício. Bandele é quase um santo.
- Você pode vir para aqui, se quiser. Sagoe riu.
- E as suas súbitas mudanças de humor? Não me agrada pensar
que posso estar aqui descontraidamente e você aparece a correr,
vindo da sala de aulas, apenas para me pôr na rua. Além disso, julgo
que ao ser expulso podia cair nas escadas e partir a cabeça.
- Não. não, não se preocupe. Não ha qualquer possibilidade de
isso acontecer.
- Não, de qualquer modo, só vou estar cá alguns dias e
acabaríamos por nos irritar um com o outro. Ainda estou um pouco
confuso, sabe? Tem de concordar que você é uma pessoa
surpreendente. É demasiado para eu “engolir” de uma só vez.
- Pelo menos, fique esta noite. Logo pela manhã, levo-o a casa de
carro.
Sagoe sentiu-se tentado.
- Devo confessar que dormiria melhor sabendo que a primeira
coisa com que depararia pela manhã não seria a cara de Peter.
- Óptimo. E nem sequer há mosquitos. É demasiado alto,
suponho. Eu durmo aqui e você fica no quarto.
- Não. Eu gosto deste sofá. Durma você no quarto. Golder
mostrava-se muito animado.
- Não, não, não é essa a ideia que tenho de hospitalidade.
- Mas vai ter de ceder. Eu não durmo numa cama quando o posso
fazer num sofá. Até um colchão no chão me serve.
- Muito bem. Então dormiremos ambos em colchões retrucou Joe.
- Escute, eu não... - Porém, o outro entrara no quarto e, sozinho
na sala, Sagoe sentiu regressar um certo embaraço. Mas ficou ali,
indeciso. Quando Joe Golder reapareceu, compreendeu que não ia
ficar.
- Pus uma toalha nova para si na casa de banho. É a porta ao
fundo do quarto. - Pôs outro disco a tocar. - Espero que se tenha
resolvido a ficar com o quarto.
- Não, eu... acho que não.
Golder voltou-se para ele bastante alegre:
- Está bem, então ficamos ambos nos colchões.
- Não, não, acho que não posso ficar cá. Joe Golder desligou o
gira-discos, incrédulo.
- Porquê? Por que mudou de ideias?
- Eu nunca cheguei a decidir-me a ficar. Acusadoramente, Joe
atacou-o:
- Isso é que não, você tinha concordado em ficar.
- Muito bem, digamos que sim. - Sagoe sentia que já tinha tido
aborrecimentos a mais para uma única noite. - Fique sabendo que não
tem o monopólio das mudanças súbitas de humor.
- Mas porque é que não quer ficar?
- Simplesmente porque não me apetece.
- Não. Não é por isso. Qual é a verdadeira razão?
- Quer saber quais são as minhas verdadeiras razões?
- Sim, quero saber os porquês. - A sua voz tomara-se aguda, todo
o seu equilíbrio e ponderação se haviam desvanecido. - Diga-me
simplesmente a verdade.
- Bem, primeiro, você demonstrou-me muito bem que detesta
intrusões na sua vida.
- Não, isso era apenas para explicar a minha maneira de ser,
coisa que você, tipicamente, se recusou a fazer. É verdade que estou
sujeito a mudanças de humor, mas gostava realmente que você
ficasse. Deve compreender que quero mesmo que fique.
- Acabaríamos por nos irritar um com o outro.
- Numa noite? Qual é a verdadeira razão? Subitamente, Sagoe
pensou: “Estamos ambos a esgrimir, mas porquê? Por que estou eu a
lutar com ele? Que será que ele pensa que eu sei?” No seu cérebro,
pressentia uma barreira que impedia a aceitação consciente da
questão, mas esta noite era uma das suas noites lentas e Sagoe
perguntava a si próprio qual a razão daquilo tudo. Joe Golder era
insultuoso e Sagoe descobriu que o rosto dele sofrera nova alteração;
estava agora retorcido, parecendo o de um monstro.
Finalmente, Sagoe disse:
- Vejo que tem qualquer suspeita na sua cabeça. Tanto pode
deitá-la cá para fora como guardá-la para si que eu vou-me embora. E
se as minhas razões não o satisfazem, procure você mesmo outras
melhores.
- Você é que tem estado sempre com rodeios desde que o
encontrei; é a sua costela inglesa...
- Por amor de Deus!
- Sim, e você sabe-o bem... É muita bondade sua, é muito gentil,
mas não posso ficar. Tal como aquele meu amigo bailarino que não
queria comer comigo. Não suporto todas essas pretensões. Diga-me
sinceramente aquilo que pensa, quero sabê-lo.
Sagoe olhava-o agora deliberadamente com pena e encaminhou-
se para a porta.
- Já que está tão obcecado com os britânicos para aqui e para ali,
vou dar-lhe mais uma razão para não ficar aqui. Você maça-me
brutalmente. Espero que isso chegue para si.
- Espere. - Golder aproximou-se dele, quase suplicante. - Diga-me
uma coisa, honestamente. Tem medo de mim?
Sangoe ficou sem saber o que dizer: abriu a boca. espantado, e
assim ficou.
- Escusa de ficar tão surpreendido. Quero uma resposta sincera.
Tem medo de mim?
- Medo de si?
Uma vez mais, Sagoe foi obrigado a desistir. Não tencionara
expressar qualquer desprezo no seu tom de voz. nem qualquer
motivo para a fúria subsequente de Golder.
- Meu Deus, você é daqueles tipos fortes, confiantes, não é?
Percebi logo isso quando o vi. Arrogante, tão seguro de si. É o tipo de
negro poderoso, que nada teme. Afinal, onde vai buscar tanta
presunção? Perguntei-lhe quais eram os seus gostos e interesses na
vida, mas você nada disse. Um tipo forte, silencioso, seguro de si.
Nada o assusta.
Deliberadamente. Sagoe escarneceu:
- Claro que sou capaz de tomar conta de mim mesmo. E depois?
Seguidamente, pensou que o tipo era maluco. Completamente
louco. Se tivesse uma faca, esfaqueava-me. Mas porquê? Que mal lhe
fiz eu?
O americano estava de novo a falar, agora muito mais
lentamente.
- Julga que.. receia que possa molestá-lo? É isso? Acha que eu
sou homo...?
- Caramba, não é isso! - A sugestão sobressaltou Sagoe que nem
sequer pensou antes de a rejeitar. - Tem alguns tiques um pouco
efeminados, nada mais.
- Vamos, vamos, seja totalmente franco.
- Já lhe disse! Oiça, é certo que passei algum tempo em lugares
onde se praticavam todas as perversões possíveis, porém, não é por
causa disso que tiro logo conclusões apressadas. Acontece que nasci
numa sociedade relativamente saudável...
Golder atacou-o de imediato.
- Não me venha com essa! Uma sociedade relativamente
saudável, uma figa! Julga que não sei nada dos vossos emires e os
seus rapazinhos? Esquece-se de que a História é a minha disciplina. E
que me diz aos selectos conventículos de Lagos?
Sagoe abanou a cabeça.
- Parece estar mais bem informado do que eu: mas, se não se
importa, pretiro continuar na minha ilusão. Seja como for, estou
estafado. Escute, estou apenas a tentar dizer-lhe que não alimento
quaisquer suspeitas sobre si. Apren-di a não tirar conclusões
apressadas em muitas coisas. Por favor, continuaremos esta
discussão noutra ocasião.
Golder parecia um pouco mais calmo.
- Eu levo-o lá de carro.
Até àquele momento, Sagoe nada ocultara dos seus sentimentos.
Havia evitado os contactos com sociedades onde o sexo era a chave
do planeamento das cidades, onde os desenhos dos gradeamentos
dos parques eram rejeitados devido a simbolismos ignorados.
Durante a sua estada na América, incapaz de aceitar que três em
cada cinco amigos seus fossem pervertidos, activos ou laten-tes, e
que o quarto estivesse apaixonado pela mãe, limitara-se
simplesmente a proteger-se num invólucro de aço e a aperfeiçoar um
golpe de judo para aqueles cujos movimentos na escuridão de um
cinema não lhe deixassem dúvidas sobre as suas intenções.
Aprendeu a ignorar alusões e interrogações perscrutantes,
receando ter compreendido mal. No entanto, quando a linguagem era
clara, travava calmamente o pulso errante. Acabou por ganhar fama
de solitário.
- Em que pensa?
- Oh, não, não vamos recomeçar.
Conduzindo através da estrada imunda em direcção à avenida,
Golder afirmou:
- Sabe, eu gosto de homens.
Sagoe estava singularmente estúpido naquela noite ou talvez
nem o estivesse a ouvir. Joe Golder repetiu-o duas vezes, com ênfase
crescente, até Sagoe admitir finalmente que o entendera, maldizendo
intimamente a sua compreensão lenta.
- Quer dizer... gosto mesmo. Gosto de homens e é tudo. Pensei
que você soubesse.
- Não, lamento mas não sabia.
- Bem, pensei que soubesse. Não consegui imaginar outra razão
para não querer ficar. Mas... quer dizer que nem sequer suspeitou?
- Normalmente, não sou tão obtuso, não sei explicar o que tenho
hoje. Mas a ideia deve ter passado pela minha cabeça algumas
vezes... Realmente não sei por que não o compreendi. Suponho que
foi uma reacção que desenvolvi. Quando não consigo imaginar qual o
problema de um homem, procuro não pensar mais nisso.
- Bem, parece-me que era óbvio.
- Não. Eu vivi com esta conspiração europeia para
“dessexualizar” os homens e era de dar em maluco. Por isso,
desenvolvi uma reacção obstina-damente enraizada. Porém, mesmo
assim... ultrapassei-me a mim mesmo... a bebida deve ter-me
congelado os lóbulos, suponho.
- Sabe que ainda nem me disse o seu nome?
- É corrente nestes casos de engate, não acha.' - Agora que tudo
se clarificara na sua mente. Sagoe não estava disposto a ser muito
cortês.
Reparou então num livro no assento a seu lado e pegou nele,
voltando a capa para as luzes do tablier do carro.
- É Another Country, o último livro de Baldwin. Já o leu?
- Eu soletro-o Another Cuntry, C-U-N-T (Cunt é calão e designa os
órgãos sexuais femininos. (N. do T.). (-) Eric, ou A Pouco e Pouco. (N.
do T.).
- Não gosta dele?
- De certo modo, fez-me lembrar outro livro: Eric, or Little by
Little. Dito com um suspiro anal, se é que percebe o que quero dizer.
- Você gosta de ser grosseiro - repetiu Golder.
- E você? Por que razão está este livro aqui no assento do carro?
Para quando der boleia a estudantes poder encontrar um ponto de
partida fácil para a sedução?
- Está a tentar ofender-me?
O silêncio pairou entre eles durante o resto do caminho. Golder
parou diante da casa e perguntou, ainda esperançoso.
- Então?
- Então o quê?
- O convite continua de pé. Pode vir ficar a minha casa quando
quiser.
- Obrigado, mas, com franqueza, não creio que o faça.
- Por causa do que eu disse?
- Pela centésima vez, eu sou capaz de tomar conta de mim
próprio.
Foi como se lhe tivesse esmurrado o rosto.
- Ah, sim, sim, já me esquecia. - De novo aquele olhar de
desprezo. - Você é grande e forte. O grande africano silencioso.
Bandele abriu-lhe a porta.
- Aquele não era o carro de Joe Golder?
- Era. E obrigado por esta memorável estada em tua casa. Muito,
mas muito obrigado.
- Que foi que aconteceu?
- Primeiro foi Peter, depois os vossos espécimes nativos, agora
aquele Golder. Só espero que não tenhas na manga mais surpresas
para mim.
Bandele fitou-o.
- Oh, percebo, percebo. Desculpa, penso que devia ter-te
avisado.
- Agora já lá vai. Acho até que, como jornalista, devo aproveitar a
experiência. O problema é que não estou a ver nada que o meu chefe
de redacção deixe publicar.

Era, uma vez mais, a hora de almoço em casa dos Faseyi. Para
Bandele. tal era um prazer a que nunca conseguia resistir, pois
tratava-se de um almoço após uma crise conjugal e a mãe de Faseyi
deveria estar a realizar milagres culinários. A penalidade a pagar era
insignificante. Nada ouvia que não dese-jasse ouvir, proferia as
palavras adequadas na altura certa e virava as narinas na direcção da
cozinha para captar os primeiros aromas do festim.
Monica, habituada àquela rotina, servia as bebidas e saía. Faseyi
nem esperava que a porta acabasse de se fechar sobre ela para
colocar Bandele entre a espada e a parede.
- Viste tudo, não viste? Viste o que se passou. Viste como aquela
mulher me arruinou ante todos!
Bandele gesticulou suplicante.
- Não foi nada. Ninguém reparou realmente.
- Como podes tu dizer isso? Escuta, Bandele, tu sempre foste
sincero comigo. Enh? E quanto a Kola, ele estava lá? Olhava
directamente para Kola, mas dirigindo-se, curiosamente, a Bandele. -
Ele estava na festa?
- Não, não estava - disse Kola, muito firmemente.
- Não estava? Era capaz de jurar que foi ele quem, depois,
dançou com Monica.
- Não, não fui eu. - Kola voltou-se para Egbo e iniciou uma
conversa com ele.
- Não, não me recordo de lá ter visto Kola - afirmou Bandele.
- Compreendes a minha posição? Ainda se eu fosse um daqueles
que casam com raparigas londrinas analfabetas só para poderem
gabar-se de ter uma mulher branca. Diz-me sinceramente, pareço ser
um desses?
Bandele murmurou algo sobre a boa educação de Monica.
- Estás a ver? E vai ela desgraçar-me daquela maneira! Como se
não conhecesse as mais simples regras de etiqueta.
- Escuta, Fash...
Porém, Faseyi interrompeu-o:
- Não estás a ver o caso do meu ponto de vista... não, espera aí. -
Dirigiu-se à porta e parou a escutar. - Óptimo. A minha mãe está
neste momento a falar com ela. Sabes o que a esposa do professor
lhe disse? Que nunca mais toleraria a presença de Monica em sua
casa.
Bandele murmurou:
- Meu Deus!
- Começas agora a ver pelo meu ponto de vista, não é verdade?
Com-portar-se daquela forma num círculo social tão decente! Porquê?
Às vezes penso que Monica não tem qualquer respeito pelos
africanos. E isso o que me ocorre. Faria ela aquilo em casa de um
branco? Se o professor fosse branco, teria ela feito aquilo?
- Já estiveste com o professor? - quis saber Bandele.
- Ainda não. Mas vou ter de lá ir apresentar as minhas desculpas.
Não que isso repare os estragos feitos. Deve saber que estava
presente um ministro. Sim, e mais um ou dois tipos altamente
importantes. Oguazor conhece bastante gente, sabes? Vi lá quatro
presidentes de empresas e alguns secretários. Uma coisa daquelas.
Kola, é o suficiente para me arrumar socialmente.
- Sim.
- Escute, enfrentemos os factos. A universidade não é mais do
que um trampolim. Política, grandes empresas. Há sempre uma
possibilidade. Para não falar destas firmas estrangeiras, sempre à
procura de directores nigerianos. Kola, você é um artista, mas tenho a
certeza de que tudo isto não é mais do que um meio, ou não é assim?
Kola simulou não ter ouvido.
- Não consegui pregar olho toda a noite, sabem? Realmente
estou mesmo contente por vocês terem vindo. A mamã e excelente.
Esta manhã, a primeira coisa que fiz foi ir buscá-la.
Mas na realidade uma pessoa só consegue falar com pessoas da
mesma idade. Além de que a mamã gosta demasiado de Monica.
Chega mesmo a mimá-la.
- E que disse a tua mãe?
- Por enquanto, nada. Declarou que vai ouvir primeiro o que
Monica tem a dizer. Como se ela tivesse algo a acrescentar ao que eu
lhe disse!
- Vamos até à varanda, Egbo.
Deixaram a sala de estar entregue a Faseyi e Bandele. Egbo
murmurava:
- Nunca conseguirei perceber aquele Bandele. Como suporta ele
este tipo?
- Não mo perguntes.
- Não fazia a mínima ideia do que me esperava quando concordei
em vir.
- Eu fazia. E é esse o meu problema.
- Como?
- Monica.
Egbo fitou-o e abanou a cabeça.
- Percebo. O pólen do amor voa, livre, por toda a parte.
- Já descobriste a rapariga? - inquiriu, por sua vez, Kola.
- Desapareceu. Eu não sabia que as férias estavam tão perto.
Kola riu:
- Nunca pensei ver-te tão abatido.
- Nem eu - reconheceu Egbo. - Devo estar a envelhecer.
O aspecto das instalações universitárias mudara, os sons eram
diferentes, os movimentos no seu interior mais ordenados - quase em
sequências predeter-minadas: um grupo de conferencistas passava
de um salão a outro e de novo regressava aos enormes dormitórios,
agora melancolicamente despovoados. Haviam-se silenciado as
tumultuosas manifestações estudantis, os insípidos excessos da
juvenilidade que, apropriadamente denominadas de “Verme” ou
“Lodo”, ultrajavam até o mais liberal dos elementos docentes e
levava-os a suspirar, perguntando a si próprios se os seus esforços
não seriam mais úteis se fossem ministrados aos macacos do Jardim
Zoológico. Porém, sempre por uma boa causa, os Oguazor
resignavam-se a que alguns rapazes simpáticos lhes sujassem as
almofadas com a sua presença, esperando que o chá e as sanduí-
ches conseguissem introduzir alguma gentileza no seio daqueles que
fosse possível remir. Mas os convidados regressavam aos seus
mimeografos para lançarem mais um sórdido assalto à inviolabilidade
dos superiores, desenca-deando novas apoplexias nos empolados
disciplinadores. Seguidamente, retiravam as suas palavras com
abjecta humildade, lançando-se aos pés do deão, mas regressavam
para junto dos outros estudantes vangloriando-se ruidosamente de
terem desafiado abertamente, não só o deão, mas a totalidade do
Senado universitário. E os convites foram tentados com selecções
mais cuidadas e seguras, filhos de ministros e outras personalidades
famosas. Porém, o chá acabava por arrefecer, as sanduíches
endureciam, as almofadas perma-neciam sem ocupante e o professor
Oguazor consolava a esposa dizendo; “Que ti disse eu? Estes rapazes
não têm qualquer cultura.” E o “Lodo” deslizava novamente e o
“Verme” rastejava. Os editores esperavam em vão a lógica repressão,
canonização e inevitável crescimento de popularidade em nome da
“liberdade de expressão”, com as esperanças fixas nas próximas
eleições sindicais. Mas, nessa altura, o deão estava já farto do caso, o
corpo docente mostrava-se indiferente e os estudantes deploraram a
perda de “dinamismo académico”. Os quadros negros também
estavam agora limpos, não só dos mistérios do cálculo matemático,
mas também dos desenhos pornográficos e dos chistes estudantis. E
as salas viam-se finalmente libertas do áspero ecoar de conversas
obscenas, com ilustrações e exemplos inconfundíveis, produtos da
imaginação estudantil, vingança por tentativas de aproximação
falhadas, frustração geral, cólera devido à existência de raparigas
daquele meio que lutavam pela igualdade, e que, em inferioridade
numérica, tinham de dizer cem nãos por cada sim, e cujo enorme
privilégio se tornava, assim, para aqueles que perdiam, uma
imperdoável arrogância. E de novo voltavam as conversas, centenas
de ficções, lúridos diagramas, engenho de cérebros diarreicos...
- E mesmo assim, de entre eles... por vezes é incrível.
- O que foi?
- Estava simplesmente a pensar que de entre eles, isto é, de
entre estes estudantes, surge por vezes um futuro génio.
- Não fales tão afectadamente como se fosses um velho.
- E não sou ?
- Tens trinta e um. Isso é ser velho?
- Trinta e dois.
- E então? Não deixas de pertencer à mesma geração dos teus
alunos.
- A geração não depende apenas da idade.
- De qualquer modo, não te lamuries como qualquer velhote
dirigindo-se à sua alma mater.
Kola, impaciente, exclamou:
- Aquele Bandele às vezes irrita-me. Há quanto tempo ele está a
ouvir aquele tipo!
- Espera. Deixa-os resolver o assunto.
Kola, porém, já abrira a porta, pondo de lado os últimos vestígios
de compunção. Faseyi dizia:
- Não há outra coisa a fazer, repito, tudo isto já foi longe de mais
e já decidi o que vou fazer. Pedi à mamã que cá viesse apenas para
lhe dizer isso mesmo, porque ela gosta muito de Monica. Não queria
expulsá-la de casa sem primeiro informar a mamã.
Kola sentiu um arrepio e recusou aceitar o que ouvia. Lamentava
agora ter adiado a sua própria decisão até muito tarde, pois parecia
que afinal o caminho lhe estava a ser aberto e tal não era o que
desejara. O que ele queria, pelo menos como certa forma de
compensação, era que este tipo se rebaixasse totalmente, que
regateasse os seus direitos sobre Monica. Lamentava que Faseyi fosse
incapaz de evidenciar a mínima manifestação de virilidade de modo
que ele o pudesse humilhar impiedosamente, deliberadamente, sem
procurar desculpar-se com a fraqueza do marido...
- Talvez se você suplicasse a Oguazor, tudo se recompusesse.
Faseyi virou-se ao ouvir a sua voz, olhando a aproximação de
Kola como se ele fosse a imagem da esperança.
- Que queres tu dizer com suplicar a Oguazor? - e a veemência
de Bandele parecia desnecessária, plena de desconfiança. Uma vez
mais, Faseyi desiludiu-o.
- Mas Kola tem razão. Com efeito, desejava lá ir esta manhã, mas
a mamã disse que eu devia aguardar. Parece ser a única coisa
sensata a fazer.
- Eu diria que o melhor é esqueceres tudo, Fash.
- Oguazor não esquecerá - avisou Kola e insistiu para não deixar
dúvidas: - Oguazor é um elefante. Eu conheço-o. Não vai esquecer
uma coisa dessas.
- Que queres tu dizer com isso? - ripostou Bandele, exaltado.
- Tu próprio afirmaste que nem sequer estavas presente.
- Mas contaram-me tudo.
- Então o que sabes não passa de mexericos que ouviste. Como
podes tu julgar seja o que for?
O olhar de Faseyi ia de um para o outro, grato pelo tom de
interesse pessoal de Kola e pela sua convicção. E, por pura gratidão,
pegou nos copos e foi enchê-los. Bandele aproveitou a ocasião para
sussurrar:
- Kola, que raio de jogo é o teu?
- Deixa-o humilhar-se se é isso que ele quer.
- Isso é uma coisa que ele deve decidir sozinho.
- Quem és tu? O anjo-da-guarda dele?
Bandele fitou-o longa e friamente. Todavia, Kola recusou dizer o
que pensava.
Faseyi regressou com as bebidas.
- Compreendem, tudo depende realmente da mamã. E é pena o
papá ter partido numa das suas viagens ao estrangeiro. Ele poderia
dar-nos uma ajuda preciosa. Conhece todas estas pessoas.
Bandele afastou-se deles e juntou-se a Egbo no exterior.
- Vou só dizer à mamã...
- Por que lhe há-de dizer? - perguntou Kola. - Ela apenas o
aconselhará a aguardar. O melhor é ir lá imediatamente e arrumar o
caso.
- É isso, você tem toda a razão. Eu... hum... escute, se é meu
amigo, quando a mamã perguntar por mim diga-lhe simplesmente
que eu tive de ir fazer um trabalho urgente ao laboratório.
- Claro, claro.
E Kola teve a sensação peculiar de que isto era muito melhor,
que era necessário ele dar um jeito no que quer que sucedesse.
Monica reapareceu alguns momentos depois.
- Parece que você acaba sempre por ser abandonado sozinho,
quando cá vem. Lamento muito.
- Eu não me importo nada. - O silêncio interpôs-se, embaraçoso.
- Obrigada pelo que fez na festa.
- Por favor... não nos vamos pôr com salamaleques.
- Eu estou a ser sincera.
- Bem sei. O que quero dizer é que há coisas que nunca devemos
agradecer.
- Não vejo quais sejam.
- Isso deve-se ao facto de você ter sido educada erradamente.
- Deseja beber alguma coisa?
- Não, não quero nada... O meu amigo jornalista envia-lhe os
seus protestos de admiração. Chamou-lhe a guerreira desconhecida
no cemitério dos Oguazor.
- É melhor não dizer isso na presença de Ayo.
- Dir-lho-ei directamente, se preferir.
- Não faça isso. - Ela calou-se, por instantes. - Como vai a
pintura?
- Estará terminada brevemente. Pode ser que a apresente na
exposição do Sekoni. Uma única pintura minha.
- Mais nenhuma?
- Não, a exposição é realmente dedicada a Sekoni, acontece
apenas que não vejo ocasião mais indicada para experimentar
mostrar o maior trabalho que fiz até hoje.
- Vejo-o vir com frequência buscar Usaye, mas nunca se lembra
de vir visitar-nos.
- Bem, é ela quem eu venho procurar.
- E nós não temos qualquer utilidade para si; ao menos é franco.
- Os óculos dela devem estar prontos na próxima semana.
- Muito obrigada. Foi muito amável da sua parte ter-se
incomodado tanto.
- Lá está você a agradecer-me outra vez, quando o que fiz foi
aproveitar a pobre rapariga para o meu próprio trabalho.
- É verdade, agora me recordo. Você gosta de rejeitar a bondade
e... como foi que lhe chamou?... ah, sim, emoções irreais.
- Mas eu estou a dizer-lhe a verdade. Ela posou para mim várias
vezes.
- Está bem, não discuto. Obrigada por tê-la levado ao
oftalmologista, qualquer que tenha sido o motivo.
Continuaram sentados junto da janela, de novo em embaraçoso
silêncio. Usaye brincava sob uma fila de blusas brancas, de renda e
estampadas, a alguma distância do tronco da árvore.
- Não sei como isso acontece - disse Monica -, mas acabo sempre
por o deixar ficar mal.
- É isso o que sinceramente pensa?
- Compreendo o que ele sente. Acha que, por vezes, me
comporto estupidamente?
- Você acredita nisso?
- Sim. Eram os amigos do meu marido. A sociedade a que ele
pertence. Eu não tinha o direito de o humilhar daquela maneira.
- É uma questão de opinião.
- O quê?
- Que aquela é a sociedade do seu marido. Que aquilo que você
viu representa uma sociedade. É isso a que me refiro. Quanto à sua
conduta, é coisa a ser decidida entre si e o seu marido, ou não acha?
- Sim. E a minha sogra é muito boa para mim. Adoro-a.
Sinceramente. Você nem imagina como somos amigas. Na realidade,
ela não vem aqui muito frequentemente. Se Ayo não lhe pedisse, ela
nunca viria visitar-nos.
- E o que diz ela a isto tudo?
Durante algum tempo ela calou-se, pensativa, e Kola disse:
- Desculpe, talvez eu não devesse ter perguntado...
- Sim. Estava a pensar se deveria discutir consigo este assunto.
Mas não me importo de lhe dizer. Ela acha que eu devia abandoná-lo.
Kola virou a cara.
- Ficou chocado? Não é a primeira vez que ela me diz isso. E
quando eu analiso verdadeiramente a situação, penso... bem, por que
não? Não será o passo mais lógico? Ao fim e ao cabo isto envolve
atitudes profundamente enraizadas e nenhum de nós mudará.
Ela estava agora preocupada porque Kola nada dizia.
- Você está chocado. Será por a sugestão ter vindo da própria
mãe dele...? Desculpe, esqueça o que eu disse. Não devíamos discutir
este assunto...
Bandele e Egbo regressaram da varanda.
- Bom, não acredito nisso - dizia Egbo.
- Repito, se eu visse de novo a cara dela. nem a reconheceria.
Era já noite escura quando ela me trouxe o bilhete.
- Mas eu descrevi-ta. Certamente deves recordar qual das tuas
alunas é.
- Nada disso. As caras deles e delas parecem-se umas com as
outras. Nem os distingo.
Egbo apelou para Kola.
- És capaz de lhe dizer que eu não quero seduzi-la e mesmo que
queira fazê-lo ninguém tem nada com isso? Por que não me diz ele o
nome dela?
- Ele sabe-o?
- É o que me fano de lhe dizer. Eu não conheço a rapariga.
- Está bem. Dá-me os nomes de todas as raparigas que
frequentam as tuas aulas.
Kola riu.
- Queres que ele faça isso agora? Bandele contemporizou:
- Quando sairmos daqui, vamos ao meu gabinete. Então,
entregar-te-ei essa lista.
- Quantas são elas?
- No total?
- No segundo ano.
- Não sei. Sinceramente, não sei.
- Bem, talvez tenhas ainda alguns ensaios que não tenhas
devolvido. Sou capaz de reconhecer a letra dela.
- É possível. Terei de procurar no meu gabinete. De qualquer
modo, a culpa é tua. Devias ter-lhe perguntado o nome.
- Pensei que tu mo poderias dizer, por isso nunca lhe pedi que
mo dissesse.
A porta da cozinha abriu-se subitamente. Mrs. Faseyi parou no
limiar e relanceou rapidamente o olhar pela sala e depois espreitou
na varanda.
- Foi o carro dele que eu ouvi há pouco?
Monica olhou também à sua volta, consciente, pela primeira vez,
de que Faseyi estava ausente.
- Julguei que ele estava na varanda convosco - disse, fitando
Bandele.
Bandele respondeu:
- Não, deixei-o aqui com Kola.
E Kola, sentindo a acusação no tom dê Bandele, defendeu-se:
- Ah, sim, ele foi tratar de um trabalho urgente no laboratório.
Afirmou que não demoraria muito.
Mrs. Faseyi era imponente, negra, o negro firme conferia-lhe
quase uma outra dimensão. Pertencia à raça de esbeltas estátuas,
arrogantes, orgulhosa-mente estúpidas, como um puro-sangue
travado em plena carga da cavalaria. Neste momento, fungava,
incrédula, expressando também o seu espanto por uma mentira tão
pueril ser usada na tentativa de a iludirem.
- Qual dos amigos de Ayo é você?
- Mãe, este é Kola...
Ela atacou-o, irada:
- Com que então é você o bandido que desprezou o meu
cozinhado no outro dia! E, segundo parece, também é mentiroso. Foi
ao laboratório! Qual laboratório? O laboratório-sala-de-estar dos
Oguazor?
- Lamento o que sucedeu no outro dia, Mrs. Faseyi. Vou tentar
remediar isso hoje.
- Por que julga você que tenciono oferecer-lhe de novo a minha
comida depois da forma como a tratou da última vez?
- Estou realmente arrependido, minha senhora...
- O meu filho disse-me que você já cá estava. Porém, quando o
almoço ficou pronto, você desaparecera. Que foi que lhe aconteceu?
- Foi, hum... eu... é difícil explicar. Tive uma ideia inesperada para
um trabalho em que estava empenhado...
- Sim, Monica falou-me sobre o seu trabalho. Mas que tem isso a
ver com o desdém pela minha comida?
Kola deu por si começando a sentir-se verdadeiramente culpado
de um crime odioso.
- Lamento profundamente, Mrs. Faseyi, a minha intenção era
apenas dar lá um salto, mas o tempo voou...
- O tempo voou! Hein? Vocês, artistas, parecem julgar que têm a
prerrogativa da falta de educação. O tempo voou!
Monica tentou salvar a situação.
- Mãe, está a embaraçar o pobre homem.
- Como ele bem merece. E espero que também esteja
envergonhado.
- Imensamente, Mrs. Faseyi. Garanto-lhe...
- Não admito que excentricidades interfiram com os meus
cozinhados. Se deseja fazer esse tipo de coisas, vá para Chelsea.
Monica puxava-lhe por um braço.
- Chega, mãe. Acho que ele aprendeu a lição, não é verdade,
Kola?
Ansiosamente, Kola exclamou:
- Sim, sim, nunca mais voltarei a fazê-lo. Juro.
- Agora venha daí, mãe, vamos ver como vai a comida. Bandele,
é melhor tranquilizar Kola, pois isto são apenas bravatas, não vá ele
fugir de novo.
- Que queres tu dizer com “são apenas bravatas”? - No entanto,
ela já transpusera o limiar arrastada pela nora.
Kola ficou imóvel, atordoado, e Bandele pôs-lhe um copo nas
mãos.
- Bebe isto e descontrai-te. Já acabou.
- Que mal fiz eu?
- A prova do fogo. Com ela, é um ritual.
- Mas... aquela mulher estava mesmo enfurecida.
- Ela faz um casus belli do primeiro encontro com toda a gente.
Especialmente com aqueles que ela pensa serem amigos de Ayo.
- Que ironia!
- Bem, tu estavas a mentir em benefício dele, não estavas? Ou
talvez não estivesses. Tomaste a mentira tão óbvia que até uma
criança a detectaria.
- Onde queres tu chegar?
- Vais dizer-me?
- Escuta. És o pai dele ou quê?
- Tenho a certeza de que podias ter mentido muito melhor se
quisesses.
- Ora cala-te.
- Por que não deixas tu aqueles dois resolverem sozinhos o seu
problema?
Mrs. Faseyi ignorou-os quando regressou com as travessas
fumegantes, seguida de Monica, que protestava:
- Vamos esperar um pouco por Ayo.
- Tolice. Ouça! - Kola deu um salto. - O seu amigo disse-lhe para
espe-rarmos por ele?
Assustado, Kola balbuciou algo ininteligível.
- Vêem? Provavelmente ele está a almoçar neste momento com o
professor.
- Kola disse que ele tinha ido ao laboratório. Mrs. Faseyi riu
sonoramente.
- Os homens têm um sentido de honra muito peculiar. Saiu
novamente e reapareceu com mais comida. - Estes leais amigos dele
devem pensar que eu não conheço Ayo. Acontece simplesmente que
eu sou mãe dele. Vamos, vamos. Sentem-se onde quiserem.
Monica disse a Kola:
- É melhor você comer e comer avidamente.
- O meu filho deixa-me ficar mal - prosseguiu Mrs. Faseyi. - Por
exemplo, que estou eu aqui a fazer hoje? Já não suporto encontrar
aqui qualquer dos amigos dele, sem pensar que eles devem comentar
entre si: “Aquela é a mulher que governa a vida de Ayo.” E é mentira,
sabem? A causa é ele falar tanto sobre mim.
- Deve gostar muito de si - afirmou Bandele.
- Gostar de mim? Porquê? Seria um filho desnaturado se não
sentisse alguma coisa, mas isso é uma trivialidade. Quanto a gostar
de mim, isso é outro problema. Acontece que eu gosto muito de Moni,
embora ela não seja minha filha. Todavia, gosto realmente desta
rapariga pateta. Ela, por vezes, é bastante pateta, sabem? Mas eu
interesso-me pela felicidade dela.
Monica mostrava-se aflita, como se soubesse o que se ia seguir.
Murmurou algo sobre a comida que guardara para Usaye e
abandonou a mesa.
- Se eu não me preocupasse com ela, continuaria a sarar as
disputas deles. Em vez disso; digo-lhe simplesmente: “Deixa-o e vai
procurar a felicidade noutro lugar, não a conseguirás junto deste meu
filho.”
Bandele, Egbo e sobretudo Kola fitavam-na como peixes
estripados, perguntando-se até que ponto estaria ela a falar
seriamente.
A mãe de Ayo soltou uma ruidosa gargalhada e o seu semblante
endureceu, pleno de desafio.
- Ena, ena, vejo que estão todos escandalizados. Não existe nada
de misterioso num lar desfeito. Sei-o por experiência própria e, talvez
por isso, vocês dirão que eu não sou a pessoa indicada para lhes dar
conselhos. Porém, não me agradam sentimentalismos supérfluos.
Bandele inquiriu:
- Será só sentimentalismo, Mrs. Faseyi?
- Que outra coisa pode ser? Meu rapaz, eu estou separada do pai
de Ayo há doze anos, não, há quinze. Sei bem quando um casamento
é apenas sustentado por mero sentimentalismo. Nessa altura, servia
Kola e hesitou brevemente. - É decerto uma opinião contestável,
escaldante até. mas não suporto um nigeriano que não goste de
picante - E, com deliberada malícia, pôs mais comida no prato que
tinha na mão e empurrou-o para diante de Bandele. Depois, encarou-
o, marcando a cadência das suas palavras com movimentos da colher
com que o servia. Você acha que eu não me preocupo o suficiente,
não é assim?
- Não, não. No entanto, penso que se a senhora dissesse a Ayo
que ele deveria fazer tudo para salvar o seu casamento, ele fá-lo-ia.
- Não. O que você quer dizer é que se eu lhe dissesse para não
mandar embora Monica, ele me obedeceria.
- Muito bem - concordou Bandele. - É o mesmo.
- Não, não é o mesmo. Oh, se eu quisesse que Monica
continuasse cá, o que desejo, ela ficaria, mas que tem isso a ver com
o casamento deles? É melhor seguirem caminhos diferentes antes de
terem filhos que lhes compliquem a vida. Portanto, o que vou dizer a
Ayo é o que sempre disse: “Tens que ser tu próprio a decidir. Faz o
que quiseres.“ Respondi-lhe a mesma coisa quando ele me escreveu
dizendo que queria casar com uma rapariga branca. E sei qual vai ser
a sua opinião sobre isto, de modo que já avisei Moni para se ir
preparando.
De início, Kola não ousava erguer o olhar. Agora, examinava a
casa deles, confuso por não sentir qualquer altivez. Dificilmente teria
esperado aquela argumentação. Quando Monica lhe comunicara o
que a sogra aconselhara, apenas vislumbrara uma mulher ressentida,
amarga. Ao escutar agora as palavras da boca dela, via-se forçado a
um reajustamento do quadro.
- O seu amigo é casado? Eu sei que você não é. Dirigia-se a
Bandele.
Desconfiado, Kola perscrutou o rosto dela, mas era uma pergunta
bem intencionada.
- É casado? - repetiu ela, voltando-se para ele.
- Não.
- Mas provavelmente tem filhos!?
- Não tenho.
- Bem, escusa de assumir esse ar virtuoso. Provavelmente sabia
o que fazia. Há muitos jovens que o não sabem ou simplesmente não
se importam.
Monica regressara.
- Usaye esteve aqui?
- Anda cá, rapariga, anda, senta-te aqui. Tu e o teu marido
deixam os convidados sozinhos e contam comigo para cuidar deles.
Quem julgas tu que eu sou? A criada?
Monica perguntou descontraidamente:
- A mãe continua a armar em dura?
- Bem, o melhor é tu começares a aprender a armar em dura.
Sabiam que esta pateta quase fugiu para Inglaterra uma semana
depois de ter chegado? Fui esperá-los ao barco e vi-a agarrada ao
braço de Ayo, um pouco assustada por tudo o que via de estranho.
Oh, eu de vez em quando também sou muito pateta, sabem o que fiz?
Desatei a chorar. Moni, porém, não me compreendeu, pensou que
ficara desapontada ou algo assim. Julgou que eu não gostara dela.
Não, só uma rapariga branca poderia ser tão pateta.
Kola perguntou, fitando directamente Monica, indiferente à
confirmação das suspeitas que Bandele poderia conseguir:
- A senhora chama-lhe Moni, foi .ideia sua?
- E de que outra pessoa poderia ser, do meu filho? Ele tem tanta
imaginação como o pai. Qualquer outra pessoa pensaria ser natural
que ele já a tratasse por Moni; não existe nome mais belo de que me
recorde. Mas não, oh, não, ele chama-lhe querida. E a mim mamã.
Bandele contrapôs:
- Bom, não se pode condená-lo por conservar um hábito de
infância.
- De infância? Mas em criança ele não o fazia. Não, este hábito
de chamar-me mamã apanhou-o em Inglaterra. E o que me aborrece
é que ele só me trata assim diante de outras pessoas. Porquê?
Digam-me, porquê?
Kola descobriu que não procurava uma justificação, o que
desejava era uma abdicação forçada, uma transferência do título de
posse. Nem mesmo buscava a sua própria exoneração, porque isto
implicava o reconhecimento de um julgamento da culpabilidade e
uma absolvição. Repentinamente, ansiou que o tivessem deixado
seguir cegamente o seu destino, arremessado contra um seu igual,
contra um vencido relutante. Na sua boca. sentiu um travo nauseante
que depressa comprometeu a imagem de Monica, até que deu por si
a desprezá-la pelo seu crime 'de acessibilidade, de falta de
discriminação, o seu crime de mau julgamento. Lentamente, a auto-
anulação de Faseyi surgia a seus olhos menos grave. Afinal, que vira
ela nele? Atendendo a que deveriam existir conversas amorosas,
promessas e juras e quanto ao acto de amor... ?
- Que se passa? - A voz de Monica soava directamente diante
dele.
- O frango já está morto, tranquilize-se. Não há qualquer
necessidade de esfaqueá-lo dessa maneira.
Até que ponto se teria traído? Se Bandele estivesse a olhá-lo,
teria concluído erradamente. Mas se ele soubesse a verdade, se ele
soubesse qual o seu actual estado de espírito...
Mrs. Faseyi falava ainda.
- Ele vai voltar mais logo e esperar que esta pobre criança o
compreenda.
“Querida, eles convidaram-me para almoçar, teria sido falta de
educação da minha parte não aceitar... oh, eu achei simplesmente
que seria boa ideia visita-los no regresso do laboratório.”
A inversão dos seus sentimentos aproximava-se do auge e Kola
duvidava que Mrs. Faseyi alguma vez viesse a saber que expiação
inconsciente ela conseguira ao desequilibrar tanto a sua escala moral,
da qual os valores de Faseyi se vingavam radicalmente, reduzindo
tudo o que lhe dizia respeito a uma ineficácia total. Kola contemplava
de novo o rosto de Monica... teria sido simplesmente o desejo de ver
a África? Quando ela o amava, seria os sonhos que ela amava, o Sol,
o riso lendário, a vitalidade inesgotável?... Em relação ao marido, Kola
não se sentia misericordioso e não lhe concedia atenuantes: o
prestígio de uma mulher branca, acima de tudo o prestígio de uma
esposa branca, mas porquê? Porquê? Pois se afirmavam ser Faseyi um
homem bri-lhante e os seus colegas no hospital respeitavam os seus
vastos conhecimentos! Então porquê...?
A sua mente recuou num salto ao início da refeição, Monica
sentada com a cabeça inclinada, as mãos cruzadas sobre o peito e a
voz de Mrs. Faseyi interrompendo a admiração de Kola:
- Por favor, poupa-nos a acção de graças, guarda-a para quando
tu e o teu marido estiverem sozinhos.
Naquela tarde ele deixou a casa dos Faseyi com um sentimento
de derrota e era incapaz de apontar com clareza o que exigia
verdadeiramente; apenas sabia que se ressentia desta contaminação
de Monica. De volta ao estúdio, empoleirou Usaye no banco e pegou
nos pincéis. Era este novo sentimento que experimentava que era a
traição. Conquanto nem uma palavra tivesse sido trocada entre eles,
sentia agora que havia traído Monica.
- Usaye, por favor, está quieta.
Porém, Usaye naquela tarde estava irrequieta, baixando a cabeça
para esquadrinhar as borlas de seda do vestido especialmente criado
para as aias de Obaluwaiye.
- Usaye, por favor... - Mas de qualquer modo ele acabou por
descobrir que sentia pouco entusiasmo e deixou-a ir-se embora. A
jovem não abandonou imediatamente o atelier, movimentando-se
entre os cavaletes, colando os olhinhos a todos os objectos, como se
os inspeccionasse minuciosamente. A porta abriu-se lentamente e Joe
Colder entrou.
- Vi o teu carro lá fora.
- Entra.
- Não estás a trabalhar? Estou estafado com todos estes ensaios
para o Concerto de Férias. Ainda cá estarás nessa altura?
- Não tenciono sair.
- Não achas as instalações quase saudáveis? Os estudantes
partiram todos. Os edifícios estão deliciosamente vazios.
- Há um pouco mais de paz.
- Quando o corpo docente e o pessoal menor também tiverem
partido, a cura será total.
- Suponho que sim.
- Há algum problema? Não estás a prestar-me atenção.
- Estou sim, continua.
- Penso que as universidades residenciais como esta somente
são inte-ressantes nos poucos meses do ano em que estão
completamente vazias. É então que vale realmente a pena viver
nelas. Suponho que para ti isto soa como um belo paradoxo
académico.
- Sim.
Golder baixou a voz.
- Para mim é óptimo. Quando as instalações da universidade se
esvaziam, há menos tentações. Meu Deus, os períodos de aulas são
um inferno para mim. Um verdadeiro inferno!
Kola estava apreensivo. Não se sentia com disposição para
enfrentar mais um dos acessos periódicos de depressão, aversão por
si mesmo e degradação física de Golder. Ele conhecia as diversas
fases desta doença. Joe Golder, posan-do para o seu retraio,
sucumbia de repente e começava a chorar abertamente, sem
constrangimento. Uma vez havia afirmado: “Devias pintar-me como
um daqueles deuses índios hermafroditas.” Kola rira e replicara:
“Talvez te surpreenda saber que nós também temos alguns deuses
assim. Numa área são masculinos, noutra femininos.” Mas Golder
abanara a cabeça: “Não, existe maior precisão nos vossos deuses,
como se eles tivessem resolvido, desde o princípio, aquilo que eram;
a confusão existente encontra-se apenas na mente dos cronistas. E as
vossas esculturas deles são robustas, masculinas. Até as das
divindades femininas. Organicamente, os deuses índios são
hermafroditas. Nem uma coisa nem outra.” E com o rosto
impetuosamente distorcido, com uma angústia que Kola
ingenuamente tentava em vão transpor para uma tela, com profundo
desprezo por si próprio, colérico, Joe Golder brandara subitamente:
“Meu Deus! Eles enojam-me.”
Curvado sobre um banco como uma alma deformada, Joe Colder
pranteava a sua vida.
Joe conhecia o tormento das conversas tendenciosas nas aulas
que encami-nhava para o seu objectivo, tentando descobrir membros
do culto, discutindo casualmente o relatório Wolfenden e
perscrutando, como um falcão, a reacção do interlocutor. E possuía
um livro de pinturas índias. Quando convidava alunos para o chá,
costumava mostrá-lo e observar as suas faces, quando, perplexos,
perguntavam: “Isto é um homem ou uma mulher?” Emprestava-lhes a
sua Vida de Nijinsky. Havia uma torrente de filmes de índios em todos
os cinemas e Joe Colder, que detestava as espalhafatosas e ridículas
imitações das banalidades de Hollywood, oferecia-se para levar os
alunos ao cinema.
- Eles têm heróis tão formosos - comentavam sempre alguns
estudantes.
- Achas que sim? - perguntava Joe Colder. - Gostas daquele tipo
de beleza?
- Oh, sim, dava tudo para ser tão belo como eles.
- Mas não achas que são demasiado efeminados, quase
mulheres?
- Claro, são demasiado formosos.
- Mas tu não te importarias de ser assim?
- Qual é o mal de se ser belo?
- Às vezes - prosseguia Joe -, pergunto a mim mesmo se aqueles
homens serão o modelo dos deuses ou os deuses o modelo dos
homens. De qualquer modo, nos deuses aquela beleza até fica bem,
mas tu, se tivesses aquele aspecto, poderias ser assaltado por
homens.
- Quer dizer que me tomariam por uma mulher?
- Sim e não. Para algumas pessoas isso é indiferente.
- Que raio de lunáticos são esses? Constantemente mortificado
por desco-brir que o desejo de beleza ou “formosura” era unicamente
mais uma defor-mação estética estudantil, Joe Colder vagueava pela
universidade; à noite, vagueava pelos clubes nocturnos onde era
induzido em erro pelo menear das ancas de um rufia de calças muito
justas, pela cultivada indolência das suas pálpebras, pela pomada dos
seus cabelos; e acabou selvaticamente espancado no seu
apartamento pelo incrédulo rufia, sumamente insultado, e nem se
atreveu a chamar a polícia.
E uma vez o criado fizera chantagem com ele, a ponto de, pleno
de desespero, ter procurado um advogado que o aconselhou a ignorar
as ameaças e que, eficientemente, fizera o chantagista fugir para a
segurança da sua cidade natal.
Joe Colder convidava estudantes para beberem xerez e
escutarem recitais, aproveitando para roçar acidentalmente o seu
joelho, pedindo reciprocidade.
Joe Colder corria a sala de leitura da biblioteca sempre que o
desejo o dominava e receava as consequências das sondagens mal
sucedidas. Aí, contemplava-os e desprezava-os. Animais, pensava,
meros vermes. Enchem as cabeças de sabedoria, vomitam-na
laboriosamente, mas permanecem imutáveis em todo o processo, são
como o intestino único e recto da barata, misturando saber com
saliva e cuspindo-o de novo para o examinador. Desprezava-os, mas
não aos seus corpos, pelo que continuava na sala de leitura, via-os
entrar, via os seus reflexos no soalho lustroso, e maravilhava-se com
a beleza deles, deixando-a subjugá-lo. E só na saciedade Joe
encontrava segurança. Daquele soalho subiam até ele a sensualidade
e o escárnio dos outros, nele se reflectiam as suas fantasias íntimas e,
afirmara uma vez, o seu destino, como numa bola de cristal. Entre
grande número de jovens sentia-se a salvo, os seus sentidos
confundiam-se, não sabia para onde se voltar e o desejo morria. Joe
Colder permanecia na biblioteca olhando enormes tomos de
enciclopédias, espreitando pernas em calções, babando-se por aquela
negrura até se sentir enjoado e com vertigens, e recompondo-se
gradualmente.
Em cima do banco, Joe Colder, um homem feio, confessava:
- Lembras-te daquela primeira vez, quando te convidei para
beberes um copo comigo? Aquela tarde, quando...
Como poderia ele esquecer? Ao entrar no apartamento ficara
admirado por ver Joe deitado, nu. no sofá. com uma escassa toalha
sobre a cintura, fingindo Giovanni's Room.
- Está um calor terrível, não está? Que horas são? Ia agora tomar
banho.
Porém, Kola avistara Joe quando virara em direcção ao prédio e
Joe estava então completamente vestido, de pé, na varanda. Logo
que Kola entrou, ergueu-se, deixando que a toalha tombasse no chão
e ficou de pé na sua nudez incircuncidada. Kola dirigiu-se à lareira e
disse:
- Não sabia que estes apartamentos tinham lareira.
Joe Colder tentou mais algumas experiências, acabando por
desistir, e puderam então tornar-se amigos. E de todos os seus
modelos, apenas ele aceitava posar totalmente despido. Possuía um
corpo torneado, realmente belo.
- Compreendes - dizia -, o meu corpo é o de um negro; é
simplesmente um acto de perversidade que eu tenha saído quase
branco. - Seguidamente, saltava de repente, vindo ver o resultado das
primeiras pinceladas. - Por amor de Deus, pinta-me mais escuro.
Toma-me a mais negra negrura do teu Panteão.
- O que eu vim realmente perguntar-te - dizia neste momento Joe
Colder -, diz respeito ao trabalho de Sekoni. Sabes que eu quero O
Lutador.
- Vou realizar brevemente uma exposição dos trabalhos dele. Há-
de vir alguém de Lagos ajudar-me a avaliá-los. A totalidade do
dinheiro irá para a mulher dele.
- Ele era casado?
- Sim. Haja muito tempo, com efeito.
- Filhos?
- Um.
- Nunca o suspeitara.
- Se for possível, tentarei fazer coincidir a exposição com o teu
concerto. Poderíamos até realizá-la no foyer da sala do concerto.
Joe Colder ficou exultante com a ideia.
- Vou colocar uma etiqueta de “vendido” no Lutador, mas só será
teu depois da exposição.
- De acordo. Obrigado, Kola. E a tua ideia de usar a sala do
concerto é excelente, simplesmente excelente.
A porta voltou a abrir-se e Bandele entrou, pondo imediatamente
Kola de sobreaviso, quase beligerante:
- Se vieste cá para recomeçares... Bandele ergueu o livro que
tinha na mão.
- Apenas venho procurar um pouco de paz. Simi descobríu que
Egbo está cá. Estava à minha espera no meu apartamento quando lá
cheguei.
Kola soltou um longo e agudo assobio.
- Ela sabe da outra rapariga?
- Não fiquei lá para o descobrir.
Poder... Kola deu por si meditando no que Egbo havia dito, pois
Egbo, ao dizê-lo, fazia-o soar quase como uma experiência e Kola
sentira frequentemente que, a esse respeito pelo menos, o seu papel
e o de Egbo deveriam inverter-se. Caprichosamente, demasiado
caprichosamente para plena compreensão do seu significado, ele
havia sentido esta sensação de poder, o conhecimento do poder
dentro das suas mãos, da vontade de transformar. E compreendia
então que o meio era de somenos importância, que o acto, na tela ou
na matéria humana, era o processo vital, e isso trazia-lhe o medo
intenso de se realizar. E este era outro paradoxo, ele não ousava,
verdadeiramente, realizar-se. Junto da sua mão achava-se o travão
invisível que o impedia de concretizar o impulso final no acto. Era
característico que Egbo se oferecesse para regressar com ele para ir
buscar Noé, pois Egbo não hesitava em perseguir o ilusório, nunca
procurava definir o que dizia nas suas frequentes e fúteis discussões.
Efectivamente, era peculiar do combate de Egbo com o mundo que a
experiência o levasse às suas admissões e que ele nada formulasse
antes. E Sekoni, havia também Sekoni, que explodira subitamente
com este feito de poder, mas Kola, recuando mental-mente a tempos
longínquos, compreendia que isso não fora tão súbito. Pois como
podia o artefacto ser mais importante que a revelação no poder vital
do homem? O Lutador, reconhecia agora, tardiamente, sabendo que a
sua identi-dade física provinha de uma luta há muito esquecida no
clube Mayomi, que tivera o seu início, inevitavelmente, em Egbo.
Egbo mostrara-se verdadeira-mente irritável nessa noite. Alguns
pensamentos despeitavam as passagens mais sombrias da sua mente
e, é claro, seguidamente tomava-se a raposa da fábula: Tu sujaste a
minha água. Não? Bem, se não foste tu foi o teu pai.” Todos os
pretextos lhe serviam, manifestando as suas ideias com inesperada
violência. Um criado contribuiu com uma desculpa para tal,
expressando comentários francos por as cadeiras estarem empilhadas
sobre as mesas e os outros clientes já terem saído. Só a mesa deles
permanecia ocupada e silenciosa e os criados estavam ansiosos por
chegar a casa e deitarem-se. Todavia, eles continuavam sentados,
imóveis, sem beberem, e nem sequer conversavam. Ninguém sabia
como aquilo principiara, mas o que fora insolente passou perto de
Egbo e este passou-lhe uma rasteira. De um momento para o outro, o
caos encheu a noite. Bandele permanecera sentado, indiferente, até o
porteiro, um pesado bota-fora de calças justas de ganga, chocar com
ele como que por acidente e Bandele ser catapultado para trás,
mergulhando numa pilha de cadeiras, sob as quais ficou
completamente enterrado. O rufia - chamava-se Okonje - rondava-os,
provo-cante, enquanto Kola o conservava à distância com uma
garrafa, esperando que a polícia chegasse e os substituísse na tarefa
de se protegerem. Porém, subita-mente, Okonje caiu. Sem que nada o
fizesse prever, sem causa imediata, Okonje caiu. E então viram um
objecto duplo, um par de laços de cânhamo esfiado, ao que parecia,
em ambas as extremidades, que deslizara silenciosamente através da
confusão de pernas das cadeiras e puxava Okonje pelos pés. Com a
mesma eficiência, todos eles começaram a atá-lo, trabalhando
velozmente. Uma extre-midade passou por baixo do braço do finório,
em tomo da garganta, e desceu pelas costas. A outra envolveu-lhe o
joelho e a virilha, forçando a coxa a apro-ximar-se do peito. Era
grotesco, como um cadáver dobrado e seco dos Maori, soltando
guinchos qual porco amarrado pelas patas a caminho do matadouro.
Até Egbo interrompeu o seu próximo salto ao ver a cena. Não se viam
sinais de Bandele, pelo que o homem parecia ter-se atado sozinho.
Rapidamente, Okonje foi arrastado, deslizando sobre as nádegas em
direcção à pilha de cadeiras. Gradualmente, os tendões
desapareceram dando lugar a uma pele complacente, aliviada de
tensão... e Sekoni deu uma volta ao cativo, assombrado com o
resultado. Os seus olhos percorreram os braços observando o traçado
de fios e músculos reteses enquanto Kola e Egbo desempilharam
cautelosamente o inexpugnável catafalco. Sekoni, enleado em
incredulidade, comoção, admiração e expectativa crescentes, imergiu
num estado de tranquila mudez. Á luta ocorrera vários anos antes da
feitura do Lutador, antes de todos terem abandonado o país,
espalhando-se pelo mundo ocidental, e Kola recordava agora como a
tensão que emanava da escultura lhe fora de imediato familiar e
alheia... Mas Sekoni conservara este conhecimento dentro de si até o
seu poder irromper, num trabalho aparentemente discordante, de
intensa dor e piedade, obscurecendo a sua própria identidade.
Assim, talvez se esta intuição final não o traísse e a tela
estivesse pronta. Kola a exibisse na exposição de Sekoni... Se acaso
regressarmos vivos - pronunciara em voz alta o mesmo pensamento
que martelava no cérebro de Egbo.
Porque eles estavam perdidos. A chuva começara a cair ao
princípio da tarde, varrendo tudo à superfície da terra e submergindo
as cabanas e as tendas mais pequenas do mercado. Nos
estabelecimentos à beira da lagoa a água subira rapidamente,
cobrindo a vegetação e tomando imunda a água limpa armazenada
até nas prateleiras mais altas.
Cacos flutuantes, brilhando entre fuligem e massas solidificadas
de óleo, moedas e aves domésticas sacrificadas. Era como se o mar
ciumento tivesse irrompido dos intestinos da terra, devastando as
oferendas a deuses menores... Abandonaram o carro numa ponte de
pranchas tangentes - todas as pontes se assemelhavam -, provisória
e insegura, quatro tábuas estendidas através dos inertes semicanais
de detritos da lagoa. Um bode morto, imensamente disten-dido,
estava entalado num dos extremos das tábuas e dois cães tentavam
puxá-lo para fora sem molharem os focinhos. Levaram ambos as
mãos ao nariz devido ao fedor e passaram adiante.
- Assim termina o reinado de Noé como santo solar resmungou
Kola.
- Não atravessámos tanta água como isso. Kola. Não devemos
estar perto do local.
- Não, estamos no caminho certo.
- Voltemos para trás. Não fui feito para esta caça aquática ao
tesouro.
- Não, o que temos a fazer é separarmo-nos. Tu vais por ali e eu
vou por aqui. Se um de nós descobrir o caminho, regressa aqui e
espera pelo outro.
- Enquanto espera pode ir gritando. O som propagar-se-á muito
bem sobre a água.
- Está bem. Inicialmente, vamos procurar durante trinta minutos.
- Qual inicialmente! Ao fim de trinta minutos regressamos a casa.
Uma pesada enfiada de objectos submersos e pés de cereais
arrastavam-se no regaço cuprino das cheias. O solo por baixo deles
era traiçoeiro e Egbo pegou numa estaca e começou a sondar a água
à medida que avançava, reti-rando, com tédio crescente, cada pé da
aspiração do solo sob a perigosa toalha líquida. Era impossível tornear
todas as poças e até a terra descoberta lhe embaraçava os
movimentos. “Custa a crer que os nossos carros tenham vindo por
aqui”, pensou Egbo. Parecia-lhe agora bem possível errar um passo,
avaliar mal o terreno e desaparecer para sempre nalgum atoleiro
oculto.
Contemplando aquela cinzenta desolação, Egbo perguntava a si
mesmo a que altura teria subido a água na igreja de Lázaro.
Recordava agora que fora construída numa ligeira elevação do solo,
mas a cheia parecia-lhe suficien-temente grande para alcançar a
igreja e até o altar, vários degraus acima do chão da nave. A metade
apodrecida de uma canoa rompendo as águas lodosas lembrou-lhe a
voz da telefonista no escritório de Sagoe, que o punha maluco; e
agora duvidada de tudo o que sabia, e de tudo o que vira, pois
compreendia que a humanidade brotava da garganta dela como a
água suja numa negra canoa em decomposição. Frequentemente vira
Sagoe suspirar, nostálgico, pela companhia de alienados com quem
pudesse expelir e inalar emoções como um estranho... Sagoe,
Sagoe... mas então, não tinham sido todos eles capturados numa
centrifugadora vulgar através da mágoa de douradas abstracções,
cheias de moscas, buscando um enxota-moscas que afastasse os
pensamentos enterrados em cada ferrão...
Era impossível que este silêncio frouxo, cinzento, fizesse parte do
oceano matinal de seixos castanhos volteando placidamente na praia,
porque Egbo avistava agora a cruz. Como se tivesse um ramo
enganchado no sovaco, a cruz, com a base cravada na lama, erguia
uma curta parte da ponta superior acima das águas, apontando para
Egbo. Olhando à sua volta, Egbo não viu sinais da igreja. Era já noite,
porém, sabia que ela devia estar perto e, pondo-se em bicos de pés,
olhou para longe. Não tinha a certeza, mas julgara discernir os
contornos da igreja contra o fundo liso e cinzento. Prosseguiu naquele
sentido, sendo totalmente engolido pela escuridão.
Egbo-o-o-o-o-o Egbõ-o-o-o-o-o Egbo-o-o-o-o-o. A voz parecia
muito distante, ressaltando, num timbre agudo, sobre a superfície da
água imobili-zada... Soava tão distante e remota como a de sua tia,
chamando-o do outro extremo da praia, para lá do mar de ondas
fluindo, refluindo, chocando com os seus ouvidos, ensurdecendo-o...
Egbo-o-o-o-o-o-o Egbo-o-o-o-o-o-o-o... era a primeira recordação da
sua infância; via a excitada corrida que fizera para banhar os pés no
mar, vencendo as furiosas advertências da tia que jazia, cansada, sob
o luar, e cerrara os olhos por um breve momento, demasiado longo. E
achara estranho que ela, que se elevava nos ares tão à vontade,
vivesse com tal terror do oceano.
- Fica aqui ao pé de mim e deixa a orla branca vir lamber-te os
pés. Espera aqui mesmo e a água virá ter contigo.
- Todavia, ele escapara-se para longe, muito longe, da forma
adormecida... - Socorro! Socorro! Egbo, volta para aqui! Egbo-o-o-o-o.
Ele, porém, desejara receber duas grandes pulsações daquele
mar e queria sentir a água pelos joelhos e não apenas nos dedos dos
pés. No momento em que a água recuava, a tia alcançara-o e a
palmada dela catapultara-o em direcção ao perigo real de que
tentava protegê-lo.
Perguntara, enquanto regressavam ao local onde estava
estendida a capa dela:
- É agora que a mamã-água vai aparecer?
- Fecha-me essa boca e vamos embora. Egbo-o-o-o-o-o Egbo-o-o-
o-o... Ressaltando na superfície envidraçada da água à sua volta.
Kola! Há muito expirara a meia hora estabelecida e Kola devia
estar preocupado com ele. Parou. De qualquer modo, estava farto
daquela busca inútil...
Nesse momento, viu as chamas. Onde até momentos antes fora
total escuridão, um súbito clarão de chamas reflectia-se, bruxuleante,
nas paredes do moinho-igreja. Num arco, e quadrava-se uma canoa
entre duas alas de chamas; a água dançava violentamente
incendiada por dentro, mas à superfície apenas uma suave pulsação o
denunciava. As chamas - e abalado com aquele mistério, Egbo
procurava explicações não eram mais altas do que o seu peito e
esten-diam-se por quase cem metros ao longo da margem.
Iluminadas pelo fulgor, Egbo visualizava agora claramente as estacas
dos pescadores penetrando no leito da lagoa, uma estreita rede de
pesca separada das águas por um banco de aluviões. Por dentro
desta profunda enseada, num esguio curso de água, erguiam-se as
chamas, pois não havia dúvida, elas brotavam da superfície líquida.
Uma mudança do vento trouxe-lhe o odor acre da gasolina e,
vendo um barril deitado de lado, compreendeu o que sucedera. Não
se via qualquer outro ser humano ali perto e distinguia agora as duas
figuras que aguardavam do outro lado daquela armadilha: Lázaro e
Noé.
As chamas mal se haviam ateado quando a canoa avançou,
entrando na única passagem. Num instante, com golpes expeditos, os
remadores chegaram ao local onde Lázaro e Noé esperavam. Lázaro
saltou para a canoa, recuperou o equilíbrio, depois estendeu a mão a
Noé. Egbo forçou a vista, em busca de pormenores. Parecia que as
mangas brancas dos remadores haviam sido chamuscadas de negro
na viagem de ida. O suor corria livremente nas suas faces e
mantinham-se, naquela espera
claramente alargada, no centro das duas muralhas de fogo. E o
seu desconforto sob o calor aumentava, porque Noé não se mexia.
Lázaro estendera a mão e retirara-a imediatamente quando as
chamas lhe lamberam a manga vorazmente.
Porém, Noé continuava petrificado, incapaz de afastar os olhos
do fogo. Lázaro esperava e os dois remadores não se atreviam a
olhar, esperando que Lázaro agisse.
Não pronunciaram uma só palavra, limitaram-se a esperar até
Noé, o apóstata, encontrar coragem, ou a pálida figura, erecta na
canoa enquadrada pelas chamas, ceder e viajar sozinha através do
túnel de fogo.
Noé não olhava Lázaro e era evidente que este aguardava o
momento em que o rapaz o fizesse. A espera já fora demasiado longa
e o alcatrão começara a reluzir com um brilho viscoso, perigoso, nos
lados da canoa. Por trás de Lázaro, as águas dissolviam-se na negrura
da noite, vastos lagos de escuridão, oihos-antenas de Olokun;
permaneceria a canoa ali, insuportavelmente imóvel, qual oferenda a
um deus que o fogo consumiria à meia-noite?
Todavia, Noé continuava a fixar as chamas. A madeira da canoa
deu um estalo e os remadores olharam, não implorativamente, mas
olharam para Lázaro como se dissessem que agora decerto não
deviam esperar mais tempo. Ouviu-se outro estalo e algo quebrou
dentro de Noé. Deu meia volta e desatou a correr. Corria na direcção
de Egbo, mesmo à medida que as chamas iam morrendo, e a canoa,
com os flancos totalmente queimados, soltava estalidos cada vez
mais fracos. A fila de espectadores precipitou-se para a margem e,
com uma vara, puxaram Lázaro para terra. Noé prosseguia
cegamente a sua corrida, enquanto Lázaro permanecia de pé,
indiferente ao facto de o barco estar já atracado, e os apóstolos
observavam a figura de Noé que, na sua fuga, tropeçara na espessa
lama, emaranhando-se em redes ocultas. Egbo escutou o repulsivo
esmagamento de caranguejos nocturnos, espremidos sob os pés nus
de Noé, que espreitava constantemente por sobre o ombro, receando
ser perseguido. As chamas abateram-se lentamente, lançando a
longa sombra de Lázaro sobre a igreja. Conservou-se imóvel por
muito tempo, com os apóstolos atrás de si. Até que, por fim, se
afastou da margem e foi engolido pela igreja, sozinho, com o peso
enorme da sua derrota.
Egbo perguntava a si mesmo por que não sentira pena de
Lázaro, mas alegrava-se por o albino ignorar a sua presença ali.
E, caminhando na direcção que Noé tomara, sentia intimamente
que devia guardar o segredo da derrota daquele homem.
E o que é feito destes dilúvios do princípio de tudo, dos febris
nevoeiros do princípio, do primeiro arauto, o dedal da terra, uma ave
doméstica e uma espiga de cereal, procurando o local onde um
arranhão se tornaria uma ilha povoada? O que é feito do primeiro
apóstata rolando o penedo ao longo do dorso da divindade confiante -
porque elas devem receber a primeira facada nas costas e fazer que
os inferiores se conservem inofensivos, debaixo de olho-, e a
divindade a despedaçá-lo em mil pedaços, que eram recolhidos e
colados com devoção? O que é feito da concha da tartaruga em tomo
da divina ? E da interminável cadeia às ordens do deus, e do falo sem
origem apontado para um buraco do céu não divino! O que é feito do
amante da pureza, o irrepreensível cuja imensa compaixão abraçava
os estropiados e os mudos, os anões, os epilépticos e, realmente, por
que não? - Eles eram criação da sua mão ébria e qual a utilidade da
eterna penitência de favoritismo e abstinência? Que é feito do
amante de sangue, invencível em combate, insaciável no amor e na
carnificina, o explorador, o descobridor, protector da forja e das mãos
criadoras, companheiro da cabaça cuja visão carmínea de devassidão
o levou a atacar os seus e a chaciná-los até o grito penetrante cortar
aquele nevoeiro vínico, sustentando o seu braço e fazendo-o
pendurar a espada, tão absurda como a sua boca entreaberta? O que
é feito daquele que estava suspenso, imóvel, que ascendeu no lhama
às abóbadas celestes e domou o relâmpago de língua bífida e a pedra
de incandescência, longos braços da funda divina brincando ao jogo
fortuito das crianças, arrancando casas, árvores e crianças como a
manga ainda verde? O que é feito do ser bissexuado que se fendeu
no rio? E o rompimento do nevoeiro e o recuo do princípio, a guerra
eterna dos olhos perscrutadores, dos cento e um olhos de erudição,
ante e após-visão, a eterna guerra do primeiro processo com a longa
foice do acaso, ridicularizando eternamente as pretensões da taça
dos desígnios, ridicularizando linhas de ordem no anel do caos? O que
é feito do repulsivo flagelo purulento açoitando merídinas marés de
silenciosas selecções de vítimas? O que é feito daquele que ficou a
vigiar os primeiros frutos de gengibre terrestre com o vento soprando
à sua volta e o calor, a chuva e os sinais de mudança das estações...
- Apenas é necessária a ponte - disse Kola - ou a escadaria entre
o céu e a terra. Uma corda ou uma corrente. O elo, simplesmente.
Quinze meses depois, apenas falta o elo... Egbo interrompeu-o:
- No momento em que disseres de acordo, a minha faca
penetrará no pescoço deste carneiro. De acordo e um jorro de sangue
chegará ao tecto deste estúdio.
- Espero que ele te agrade - disse Simi.
- Sabes o que ela comprou primeiro? - perguntou Egbo.
- Um carneiro branco. Um carneiro branco, imagina!
- Bem, tu disseste um carneiro sem mancha.
- Mais uma razão para tu comprares um carneiro negro. Um
carneiro branco não pode ser sem mancha, é impossível não ter uma
mancha, ou estarei enganado?
- Joe Colder ter-te-ia feito uma prelecção se o carneiro fosse
branco. Complexo de inferioridade de cor, eis o que eu lhe chamaria.
- Quem é Joe Colder?
- Não o conheces? Agora me lembro, tu não assististe ao
concerto dele naquele dia.
- Não, não assisti. Foi naquele dia em que esta desnaturada não
apareceu.
- A culpa foi tua. Mandaste-me recado dizendo que irias buscar-
me a minha casa.
- Não: que devias ir ter comigo a casa de Bandele.
- Já te expliquei que o rapaz me disse...
- Vão recomeçar outra vez? E eu ainda não tive oportunidade de
te agradecer o carneiro. Simi.
- Devias agradecer-me era a mim, não a ela. Fui eu que lhe disse
para o comprar.
- E quem o pagou?
- A questão não é essa.
- No que me diz respeito, é.
Monica entrou, imobilizando-se ao ver Simi. Egbo fez as
apresentações e Monica estava cheia de admiração.
- E verdade. Você é aquela jovem bela, mas... é incrível! Kola
explicou:
- Ela estava convencida de que eu tinha idealizado Simi na
pintura.
- Sim, pensei que ele... oh, que falta de educação a minha em
estar a olhá-la assim, mas é realmente muito formosa. Não me parece
que a sua deusa pudesse ser mais bela na vida real. Sinceramente,
Kola, agora que a vi, digo-lhe que a sua pintura não lhe faz justiça.
- Esperem aí. - Egbo.levantou-se. - Eu julgava que nenhum de
nós podia ver essa coisa antes de a teres terminado.
A mão de Monica voou em direcção à boca e deu um pequeno
grito, corando violentamente.
Kola acenou as mãos, apelando à calma.
- Foi uma casualidade...
- Claro que foi uma casualidade, continua.
- Bom, isso não tem importância porque ela não posou para mim.
Eu não poderia aceitar que vocês... bem, ouviste o género de coisas
que ela tem estado a exclamar desde que entrou, como se eu tivesse
pedido a Simi que viesse aqui posar para mim. Suponhamos que
todos vocês se começavam a queixar porque eu vos deturpara no
meu trabalho... Quer dizer, a verdade é que vocês estão a substituir...
- Pois, pois... Nós compreendemos, não é, Simi?
- Bem, foi uma casualidade como já te disse, só que, em relação
a ela, o caso pouco importa.
- Oh, por favor, escusas de explicar, nós compreendemos. - Egbo
esquivou-se rapidamente a um tubo de tinta, enquanto Simi sorria
dentro da plácida armação do seu enigma.
- Vamos embora, Simi, alguns esperam quinze meses para ver
uma obra-prima, outros conseguem-no numa semana.
- Amarrem o carneiro lá fora quando saírem.
- Claro, claro, já sabemos que não somos precisos aqui.
- Você não está a trabalhar - declarou Monica. Havia já algum
tempo que estavam sós.
- Estou à espera de Lázaro.
- Lázaro? Pensava que ele se chamava Noé.
- Já acabei com Noé. Este ser sem rosto, aqui, é Noé... repare... é
o servo traiçoeiro fazendo rolar a pedra que esmagaria o seu patrão.
- Mas você disse...
- Foi um erro de avaliação. Noé como elo? Devia ter-me afogado
antes de dizer tamanha estupidez. Tive-o aqui, sentado, enquanto
tentava formular Esumare em torno da neutralidade dele. Enganava-
me redondamente, estupida-mente. Depois de lutar com ele quatro
horas sem sinal de um princípio, de um começo, tive de parar e, pela
primeira vez, olhei realmente para Noé. Se não tivesse sido vítima de
uma dose excessiva de cinismo, tê-lo-ia visto logo da primeira vez.
Noé era meramente negativo. A inocência do seu rosto era vacuidade
não aliviada. Ele não tinha nada, absolutamente nada. Desgostou-me
a minha falta de percepção.
- Então quem é Lázaro?
- O mestre de Noé. Um albino traficante de religião que Sagoe
conheceu. Ele vai trazê-lo cá esta tarde; é ele que eu espero.
- E depois?
- Depois, estará finalmente terminado. Trabalharei toda a noite se
necessário for. Sabe, Monica, tenho andado tão desesperadamente
ansioso por acabar com isto... Se amanhã não fosse a exposição...
Estou farto, farto e enjoado de ver este quadro. E... ora, isso pouco
importa.
- Porquê? Conte-me lá.
- Não, não tem importância, acredite. Agora já deve saber que
não sou verdadeiramente um artista. Nunca me decidi a sê-lo. Porém,
compreendo a natureza da arte e, por isso, sou um excelente
professor de arte. É tudo. Este quadro, por exemplo. Egbo obrigou-me
a começá-lo, sem o saber, é claro, e, com efeito, deveria ser ele a
pintá-lo, não eu, porque está mais ligado ao tema dele, bem
intimamente, e porque é suficientemente impiedoso. Mas, ao menos,
sou capaz de recordar, as minhas reminiscências de todas estas
presenças foram demasiado momentâneas e elas surgem em
fragmentos desarticulados, eis a razão porque levei tanto tempo...
- Quinze meses não é muito tempo e você fez outras coisas
entretanto.
- Nada de que me orgulhe particularmente. Nada que pusesse ao
lado dos trabalhos de Sekoni, mesmo sem falar no Lutador.
- E o Panteão?
- O Panteão é pesado. Confunde os sentidos, envergonha as
respostas objectivas. Mas refiro-me a mim próprio e ao processo vital.
Até Sagoe tem uma espécie de sétimo sentido, algo como uma
antena criadora com a qual desem-penha a sua vocação. Eu, porém...
Diga-me, acha que Egbo alguma vez tomaria Noé pelo Esumare? São
acidentes como esse que destroem a espontaneidade e fazem de um
artista um pinta-monos. E eu enganei-me quanto à natureza da sua
apostasia...
Monica estava de pé diante dele e indecisa, dando finalmente o
primeiro passo que iria comprometer ambos, ao acariciar o pescoço
dele com a sua longa cabeleira.
- Não será simplesmente porque o trabalho está quase terminado
e você está cheio de dúvidas? Kola, isso é normal, o desejo de não
crermos em nós próprios porque receamos que os outros não o
façam.
- Não, não é isso...
- E tem tanto medo da compaixão, da ternura até, como se isso o
pudesse enfraquecer. Mas a sua natureza é tema, por isso, porque
olha especialmente para Egbo quando afinal não o compreende?
- Não o compreendo?
- Não é o único. Bandele também é de opinião de que todos
vocês levam uma vida insensível, indiferente.
Ouviu-se um carro aproximar-se e Monica afastou-se dele.
- Espero que seja Sagoe - disse Kola.
- Sou eu - anunciou a voz no outro lado da porta. Lázaro está lá
fora. Posso trazê-lo aqui?
- Claro.
- Chegou a sua última figura, não o incomodarei mais.
- E Monica dirigiú-se para a porta. - Que nome lhe pôs?
- Esumare. O rasto de vómito da serpente celestial. Kola
começou a trabalhar como um louco enquanto Lázaro se sentava com
monumental tranqui-lidade; era, sem dúvida, o modelo mais sereno
que ele jamais tivera. Que algo o preocupava, era óbvio. Os seus
olhos interrogativos vasculhavam o estúdio, todavia. Kola preferiu
adiar a resposta àquela pergunta evidente, até ter o albino
aprisionado no ente que havia formulado e diariamente remode-lado.
Lázaro conservava-se obedientemente imóvel e Kola trabalhava com
frenesim, como se o mundo não lhe concedesse mais tempo.
Duas horas se escoaram antes' que ele começasse a afrouxar, e
Lázaro começou a agitar-se no banco.
- Onde está Noé?
- A passear pela universidade, suponho. Vem aqui comer quando
tem fome. Ò meu criado trata dele.
O outro parecia reordenar novamente as suas ideias.
- No mínimo, pensei ver nele um sucessor. Precisava de arranjar
um, fora da igreja. Os apóstolos, como humanos que são, invejam-se
entre si. Eu procu-rava um jovem com audácia, um jovem com um
fogo íntimo.
- Como os outros apóstolos?
- Sim - concordou. - Como os outros. Tem de haver algo a
converter. Um homem pacífico pode ser um bom praticante da
religião, mas não é um cristão seguro, cheio de fogo e dedicação. De
facto, quanto mais um homem conheceu o mal, mais força e poder
consegue tirar dele. Sei o que digo. Estas coisas ensinei-as a mim
próprio por tentativas. A igreja é a minha dedicação e tudo o que sei
aprendi-o sozinho. Sou capaz de ler a Bíblia em grego, sabia? Em
grego. Encontrei um dia uma velha Bíblia em grego e fui assaltado por
um desejo de aprender a língua dos Gregos, julgando que era a
mesma dos Hebreus. Não era. Porém, fiquei a saber a grega.
- Poucas pessoas se podem gabar disso.
- Para mim, o que é realmente importante é eu saber a
aritmética da religião. O assassino é o nosso futuro mártir, é o que se
inclina mais a ser o nosso mártir. Poucas pessoas se apercebem disso.
- Diga-me, como converteu Noé? - Kola estava apenas
semiatento e a reacção do albino quebrou a sua concentração.
Estava quase a gritar:
- Converti!? Eu não converti nada. Aquilo com que temos de
lutar, aquilo que combatemos e derrotamos, isso é que é uma
conversão. Transformar a natureza de um verdadeiro ladrão numa
semana, já alguma vez ouviu uma coisa dessas? Eu apenas persisti
porque era a época das cheias e essa é a altura dos nosso ritos
evangelizadores. Precisávamos de Noé. Os meus verdadeiros
discípulos são os ladrões, os rejeitados pela sociedade. Um dos
apóstolos é um falsário que passou cinco anos na prisão. Outro foi o
único membro que escapou à captura quando a quadrilha dele foi
presa após o assalto a um banco. Por muito urgente que fosse a
minha necessidade, não podia quebrar esta regra. Tinha de encontrar
um pecador.
- E assassinos? - inquiriu Kola.
- Um. Esfaqueou a mulher numa aldeia perto de Ughelli. Alguns
minutos depois, tendo recuperado a calma, afirmou:
- Tenho de tentar fazer com que Noé não regresse à sargeta.
- Tem planos?
- Não. Ele é livre de ir para onde quiser, à excepção de Lagos. - E
a sua veemência renasceu: - Não o quero em Lagos. Não está certo
que qualquer um daqueles que vai à minha igreja o possa encontrar a
surripiar ou a pilhar os mercados.
Aquela ideia parecia obcecá-lo. Lázaro ergue-se repentinamente.
- Você diz que não sabe onde ele está? Deixou-o ir para onde ele
quisesse?
- Não deve estar longe. Por favor, sente-se.
- Vamos procurá-lo.
- Só mais alguns minutos.
- Voltaremos depois, sr. Kola, não deve impacientar-se tanto; ao
fim e ao cabo, submeti-me à sua lei da imobilidade desde que
cheguei.
- Noé está bem, certamente. Deve andar pelos arredores.
- Você devia ter mais paciência. Mesmo o homem que possui o
dom da criação é cheio de paciência.
- Ah, sim? Se estamos a pensar na mesma pessoa, ele não criou
o mundo em apenas seis dias?
- Por favor, vamos procurá-lo imediatamente. Sinto em mim uma
impressão de perigo sempre que penso no caminho que ele tem à sua
frente a partir de agora.
- Está bem, se acha que precisa de uma pausa...
- Não, sr. Kola, não é uma questão de cansaço. Se neste
momento um homem qualquer encontar Noé e lhe disser: “Vem,
vamos roubar uma galinha”, ele segui-lo-á.
- E porque é que isso o preocupa tanto? Se ele for parar à cadeia,
você poderá dormir muito mais descansado.
Quando levava Simi no seu carro, de volta a casa de Bandele,
Egbo avistou Noé sob uma mangueira e parou a viatura. Estava de
pé, no meio de outros pilhantes de fruta, arremessando paus à
solitária manga madura num ramo de cachos verdes, duros. Chamou-
o, mas como Noé não deu sinal de ter ouvido, Egbo perguntou a si
próprio se seria de facto ele. Da sua experiência, dias atrás, não
restavam vestígios; algo ele não sabia bem o quê - deveria haver nele
que lhe recordasse a cena do fogo, mas Egbo nada descobriu que
sugerisse, que testemunhasse o terror e a fuga. Nada restava da
arrebatada gratidão com que havia aceitado a oferta de uma boleia,
da sua patética avidez quando Kola lhe perguntara: “Gostavas de vir
comigo para Ibadan?” E o modo como se acobardara num canto do
banco de trás, nada dizendo até Egbo sair defronte do seu
apartamento e Kola regressar a Ibadan com o seu trofeu.
- Quem é? - quis saber Simi.
- Só um minuto, eu já venho. - E avançou sobre os frutos
apodrecidos, levantando enxames de gordas varejeiras, batendo, por
fim, no ombro de Noé. Este sobressaltou-se e
olhou-o sem expressão. Examinando-o de peno. Egbo descobriu
que o resultado era o mesmo; a experiência da passagem pelo fogo
fora varrida ou simplesmente nunca existira. Noé estava purificado de
todos os momentos do seu passado, à excepção deste instante
recente de assalto às mangas.
- És um fenómeno - disse Egbo.
- Sor?
- Vem comigo.
Foi um súbito impulso de curiosidade. Como seria a confrontação
entre Noé e Lázaro após aquela noite.' Compreendeu então que
desejava estar presente nesse encontro. Felizmente, Noé
acompanhou-o, embora - Egbo estava certo não se lembrasse dele.
Para purificar, pensava Egbo, para purificar verda-deiramente um ser
humano, há que deixá-lo como Noé, morto, desvitalizado, sem
qualquer tipo de carácter, uma folha branca aguardando acidentais
garatujas.
- Foste sempre assim, Noé? Ou isso será obra de Lázaro?
- Sor?
Simi bateu-lhe, por brincadeira.
- Porque falas assim com ele, sabendo de antemão que não te
compreende?
- Na verdade, estou a falar comigo próprio, faço a minha voz
ressaltar no bronze polido do reflexo daquele... ah, agora nem sequer
lhe posso chamar apóstata. Estávamos todos enganados,
terrivelmente enganados. Kola deixou os corpos celestes fora do seu
Panteão, senão descobriria aquilo que Noé é. A apostasia de Noé não
é do género voluntário, trata-se unicamente da recusa de existir, a
recusa de ser um ente vivo, como a Lua.
- De que estás tu a falar?
- Não tem importância. Se não fosses uma canibal,
provavelmente também acabarias assim...
Saltou do automóvel antes que Simi lhe pudesse tocar. Quase de
imediato, o seu rosto tornou-se grave e entrou arrastando os pés,
dominado pela ver-gonha que lhe causava a recordação de, em
tempos, ter chamado apóstata ao seu próprio avô.
Egbo notou um movimento furtivo no canto, por detrás da tela, e
deteve-se, expectante. Por fim, um rosto branco espreitou junto do
cavalete e um homem avançou para ele, sorrindo timidamente.
- Olá.
- Quem é você?
- Lamento parecer tão comprometido, mas entrei aqui às
escondidas para dar uma olhadela ao quadro. Estava ansioso por ver
a parte que foi pintada por último.
Egbo deu cautelosamente um passo na direcção do seu
interlocutor, fitando-o ainda com desconfiança.
- Você deve ser um dos amigos de Kola. Eu sou Joe Colder.
- Ah, o cantor.
- Sim. Vinha à procura de Kola.
- Onde foi ele?
- Eu vi-o sair com o tipo de Lagos. Do meu apartamento consigo
ver este edifício, de modo que, quando eles saíram, pensei dar um
salto aqui, às escondidas, e dar uma vista de olhos ao quadro. A falar
verdade, já o fiz diversas vezes, mas por favor não vá contar isso a
Kola!
- Acho que vou seguir as suas pegadas. Parece que sou o único
com um sentido de respeito demasiado forte por este artista.
Joe Colder sorriu. Parecia quase uma criança cheia de alegria por
descobrir um amigo e conspirador.
- Julgo que sei qual das figuras é você. Com efeito, reconheci-o
imediatamente. Que me diz à última aquisição?
Egbo afastou os olhos daquilo que realmente desejava ver, a sua
própria presença naquela tela irresistível. A parte inacabada era uma
figura arqueada erguendo-se não de uma campa árida mas de um
caos primitivo de vórtices gasosos e águas diluvianãs. Nada a
envolvia excepto a luz, uma translucidez de arco-í ri s. Era Lázaro, a
nova dimensão que Kola via na aliança.
Egbo abanou lentamente a cabeça, como que tentando clarificar
a confusão dentro dela.
- Estou embaraçado - confessou.
- Porquê?
- Não posso aceitar esta concepção da vida. Ele fez do próprio
princípio uma ressurreição. É uma ilusão optimista da continuidade.
- Eu penso que o quadro é muito engenhoso.
- Não me estava a referir a isso.
- É eficaz. Que mais lhe podemos nós exigir?
- O meu amigo tem talentos muito dispares. Por exemplo, olhe
para aquilo que ele fez de mim: um maldito maníaco sanguinário
fugido de uma cela ultravigiada. Será que aquilo sou eu? Ou até
mesmo Ogun, que, presumo, é o que aquilo representa?
- Que tem aquilo de errado?
- É uma distorção desinspirada, é isso que está errado naquilo.
Ele agarrou num único mito, Ogun no auge da bebedeira, perdendo o
seu sentido de recognição e chacinando os seus próprios homens na
batalha; e Kola pintou-o no apogeu da carnificina.
- Bom, certamente que lhe concede o direito de escolher esse
momento.
- É a selectividade dele que eu disputo e contesto. Mesmo o
momento de reconhecimento tardio de Ogun teria sido... pelo menos
esse contém possibili-dades poéticas. Este demónio salpicado de
sangue é meramente melodramático. E, além disso, existe o Ogun da
forja, Ogun como primeiro artesão... ele, porém, deixa tudo isso de
lado para me registar como um facínora animalesco, cego pelo
sangue!
- Acredite, ele tem razão. Sempre lhe ouvi dizer que seria este o
resultado se permitisse que você visse o quadro.
- No que lhe diz respeito, está tudo muito bem. Esta não é a sua
cabeça niquelada substituindo a de Erinle?
- Não acho isso muito lisonjeiro. Todavia, talvez o deus seja ainda
pior. Isso serve-me de consolação.
- Vou-me embora - anunciou Egbo. - E levo comigo o meu
carneiro.
- Oh, aquele belo carneiro é seu?
- Sim, mandei comprá-lo para assinalar a conclusão da pintura e
a exposição de Sekoni; oh, já me esquecia que não era só para aquele
palhaço da paleta.
- Quer dizer que vai... matá-lo?
- Que outra coisa se faz com um carneiro? Mungi-lo? Joe Colder
reagiu com uma expressão nervosa que Egbo captou mas interpretou
erradamente.
- Não gosta de carne de carneiro?
- Não, não é isso. É o acto de matar. A ideia de ver •sangue a
jorrar provoca-me uma sensação esquisita.
Egbo contemplava aquela sólida cabeça, aquele corpo forte,
compacto, musculoso, e mal podia acreditar nos seus ouvidos.
- E verdade. Não suporto ver sangue. Egbo saiu abanando a
cabeça.
- Onde está Noé? - perguntou ao ver Simi sozinha no automóvel.
- Ele saiu logo a seguir a ti. Julgava que tinha ido ter contigo ao
estúdio.
- Oh, que vão todos para o diabo! Vamos embora.
O movimento preferido dela quando o via furioso era começar a
acariciar-lhe a nuca.
- Que foi que te aborreceu ali dentro?
- Aquele pintorzeco ateu! Devias ter visto o monstro que ele fez
de mim.
- Oh, viste o quadro? E a minha figura?
- A tua? Oh, a tua... Até me esqueci que tu também estavas
naquela maldita coisa.
Ligou o motor e partiu irritado, deixando Noé no estúdio com Joe
Golder.

Os frios braços da escuridão e as luzes da Eucaristia Egbo


guardava a liturgia em ressonâncias, na cabeça, não tão poderosas
como quando da sua primeira noite com Simi - e não temo despertar
no medo de encerramento porque existem faróis nas coxas de Simi.
Encherei o Graal com a tua essência, imolar-me-ei na tua lascívia e
argumentarei até ao dia do juízo final se isto é pecado. Vem...
Nenhuma outra mulher detinha este poder de precipitá-lo através dos
sons infinitos e dos timbres agudos da pele.
- Esta noite não estás comigo, Egbo.
- Não estou?
- Em quem estás a pensar?
Porque ele estava realmente tentando descobrir qual a razão por
que havia buscado auxílio no poder daquela rapariga estranha para
corroer a prisão do amor de Simi e o mistério dela perturbava-o uma
vez mais, a ponto de quase desejar levantar-se de um salto logo que
tivessem acabado de fazer amor, sair a correr e procurá-la onde quer
que ela se ocultasse. Sentia-se incapaz de compre-endê-la, pois ela
enviara o bilhete para o consolar quando Sekoni morrera e dera-se-
lhe anteriormente como se dava nesse momento através daquele
acto de bondade. Egbo não sabia qual daqueles actos era mais
tocante, mais humano, a tarde no rio ou a disforme garatuja no papel
que fora certamente uma medida de consolação. Ela defendera os
seus pensamentos, não lhe dando mais do que aquilo que ele
desejara e ele havia-a contemplado, amando-a, adorando-a, dizendo:
esta é a nova mulher da minha geração, orgulhosa dos seus dotes
mentais e protegendo a sua pessoa de toda a violação. Porém, a
recordação era mais amarga, porque ele não a tinha possuído
totalmente nem se entregara, pois ela fechara-se como uma deusa e
haviam terminado separados, estranhos. E assim era igualmente
Simi, mas num sentido tão diverso que a cabeça dele ficava plena de
confusão e Egbo acabava por permanecer deitado, dolorosa-mente
frustrado.
Simi também tinha o seu ritual. Solenemente, começava por
trancar as calças dele no guarda-fato e pendurar a chave num
comprido fio que ficava baloiçando quase junto ao chão.
Às duas horas, ela ouviu o ruído de pedras chocando contra a
janela e acordou-o. Ele foi à janela. De pé, sob a luz amarela de um
candeeiro, estava Bandele.
- O que é?
- Desce. Veste-te e vem cá abaixo.
A mente de Egbo era um poço vazio e ele recusou-se a puxar por
ela. Simi havia-se sentado e olhava-o
- Quem é?
- Bandele.
- A esta hora da noite? - Egbo pegou na chave que pendia do fio.
- Que quer ele?
- Não lhe perguntei. Bem ouviste.
- Combinaste isto com ele?
- Sim.
- Oh, eu não me importo. Egbo vestiu-se num ápice.
- Quando é que regressas?
- Sei lá.
Correu escada abaixo e entrou no carro de Bandele. Sentado lá
atrás, achava-se um homem que não conhecia. Era um macaco
encolhido, fátuo, pare-cendo ter sido volumoso, mas estando agora
esvaziado, e murmurava torrentes de rouco calão em que o refrão
constante, inteligível, era: “Eu não quero ser obrigado a abandonar o
país... Eu não quero ser obrigado a abandonar o país...” Somente a
capacidade de falar distinguia esta figura do destroço que Noé fora na
noite da prova do fogo.
Bandele pôs o carro em andamento, dizendo:
- Noé morreu.
O carro deteve-se diante da casa de um médico amigo de
Bandele e administraram um sedativo a Joe Colder. Só então Egbo
vislumbrou uma remota parecença entre o homem no banco de trás e
o Joc (i older que havia encontrado nessa tarde.
Havia luz no estúdio e Kola estava a pé, trabalhando até tarde
nos últimos retoques, enquanto Lázaro estava estendido numa cama
improvisada, embora não estivesse a dormir. B ande lê parou o carro
um pouco mais abaixo, na outra rua, e disse a Egbo:
- E melhor chamá-lo cá fora, Lázaro pode estar lá. Kola veio ao
exterior e Bandele informou:
- Noé morreu. Joe diz que ele caiu da varanda.
O sedativo começava a fazer efeito em Joe Golder e ele
lamuriava numa sonolenta monotonia:
- Eu disse-lhe para não o fazer... Gritei-lhe: pára! pára! Jurei que
não lhe tocava... Supliquei, jurei que não lhe tocava...
Bandele disse:
- Egbo, acalma-o, está bem?
Egbo inclinou-se sobre o assento e deu-lhe algumas pancadinhas
no joelho.
- Ele começou a fazer as tolices dele? - perguntou Kola.
Bandele acenou a cabeça.
- Eu estava a dormir e ouvi-o bater violentamente à minha porta.
Entrou pela casa dentro quase histérico, balbuciando
incoerentemente. Por fim, lá consegui perceber que Noé ficara
aterrado quando ele começara a fazer o que é costume.
- Mas o que vem a ser tudo isto? Que história é essa?
- Não sabias? - inquiriu Bandele.
- Não sabia o quê?
- Sobre o Joe Golder. Ele é maricas.
Como se fugisse a uma abjecção para além das raias do
imaginável, Egbo retirou a mão que pousara no joelho de Golder, o
rosto distorcido pela aversão e uma sensação de contaminação
degradante. Curvou-se para a frente, o mais longe do banco da
retaguarda, fitando aquela figura encolhida lá atrás, como se ela
fosse um insecto nocivo e sentiu todo o seu corpo arrepiar-se de nojo.
A mão que havia tocado Joe Golder parecia-lhe subitamente estranha
ao seu corpo e saiu do carro para a limpar no orvalho da relva.
Bandele e Kola olhavam pasmados este ódio que não conheciam em
Egbo e os repentinos espasmos de fúria que pareciam sobrepor-se
aos movimentos do corpo dele.
Kola perguntou finalmente:
- E agora que f azemos?
Bandele encolheu os ombros.
- Dizemos a Lázaro.
- Viste o corpo?
- Vi.
- Tens a certeza de que ele está morto? Chamaste um médico?
- Ele está morto.
- Bem, vamos lá dizer a Lázaro.
Bandele saiu do automóvel e Egbo, tentando evitar qualquer
proximidade física com Joe Colder, seguiu-os.
Lázaro, a ponte de luar atravessando o céu e a terra, ligeiro
como um fantasma e cansado com um ressuscitado, estava sentado,
curvado na cama de campanha, como se os esperasse. O seu corpo
contraía-se na espectativa e observou-os quando entraram.
Bandele informou-o simplesmente de pé, diante dele. Lázaro
nem estre-meceu, a sua face não reflectiu qualquer sentimento. Por
fim, perguntou:
- Apanharam-no a roubar e espancaram-no até à morte? Kola
ergueu lentamente os olhos para Bandele, mas este nada mais disse.
Egbo mantinha-se à pane, sentado num banco e fitando o quadro de
Kola. E dentro dele crescia um sentimento de que estava ali preso,
para sempre, como numa ratoeira, com a primeira lama de toda a
criação.
- Ele já tinha escapado uma vez - dizia Lázaro. Talvez pensasse
que eu estaria sempre perto dele para o salvar.
- Ele não foi espancado - interpôs Bandele. - Caiu do último andar
de um edifício.
- Nem sequer era capaz de subir até uma janela como qualquer
ladrão decente - disse Lázaro.
Bandele olhou então à sua volta e fitou Egbo sentado a certa
distância deles. Depois pareceu tomar uma decisão.
- Sim, o dono do apartamento surpreendeu-o e Noé caiu ao
tentar fugir.
Bandele afirmou-o elevando a voz. Egbo sobressaltou-se por
breves instantes e voltou-se para Bandele e Kola com os olhos
brilhando de desprezo. Lázaro deitou-se, virando-lhes as costas, e os
três saíram do estúdio.
- Tens de pô-lo num local onde ele esteja em segurança e calado.
Se começar a falar por aí, acabará por ficar em perigo.
- Vamos ter de informar a polícia e aí é que vai haver problemas.
- Eu vou falar com um médico. Se Joe estiver em estado de
choque não poderá prestar declarações.
Egbo recusou-se a entrar no carro. Disse que preferia caminhar
os sete quilómetros que o separavam da cidade e da casa de Simi.
- Pouco haveria a apontar - afirmou Sagoe -, se o tipo o tivesse
declarado completa e objectivamente. Mas ele deixou a imaginação
cavalgar por aí fora. - E Sagoe leu novamente em voz alta o editorial:
- “... Em conclusão, gostaríamos apenas de dizer que esta ideia
original do ilustre deputado pela província Leko ecoou nas veneráveis
paredes de um Parlamento admirado e que ela possui todo o
dinamismo da espontaneidade, sem a respectiva frescura.”
Agarraram-se àquela deixa, plenos de gratidão, pois Noé era um
assunto a varrer do pensamento, a apagar totalmente da consciência.
- Suponho que foste tu quem escreveu isso...
- Claro. É fácil reconhecer o meu estilo.
- Primeiro, acho que o induziste em erro.
- Não intencionalmente. Escutem, quero que me dêem a vossa
opinião sobre isto...
- Por favor...
- Está bem, está bem. Olha, Kola, o que sucedeu foi isto.
Encontrei este tipo numa dessas festas políticas, que é costume dar
para manter os jornalistas de bom humor. E ele, então, disse-me:
“Vocês, rapazes, estão sempre a criticar-nos. Só criticam
destrutivamente; porque não apresentam uma proposta concreta, um
esquema para melhorar de algum modo o país? Depois verão se nós
nos encarregamos de o realizar ou não.”
- E tu aceitaste o desafio.
- Apenas para me ver livre dele. Disse ao ilustre chefe Koyomi - a
propósito, ele é aquele que se ajoelha e beija a mão de todos os
ministros - disse-lhe: “Vocês deviam fazer qualquer coisa em relação
ao sistema de limpezas, é lamentável que ainda hoje os homens do
lixo andem à noite pela capital carregando baldes de merda. E, de
qualquer modo, porque não
se utilizam essas matérias? Repare nas terras desertas do
Norte”, disse-lhe eu. “Deviam enviar essas matérias de comboio para
o Norte e fertilizar o território de Sardauna. Era mais terra que podia
ser utilizada, logo, menos desemprego.
- Soa economicamente correcto - concordou Egbo. Bandele, tu és
o economista, que te... oh, já me esquecia que ele comigo não fala.
- Espera, ainda não acabei. Em troca, eu propus que o Norte
enviasse os seus burros de forma que nós os usássemos no
transporte dos detritos dentro da cidade. Isso libertaria mais homens
para as novas indústrias que nasceriam em consequência do novo
programa agrário.
- Existe uma dificuldade prática - objectou Egbo. - A tribo dos
homens do lixo não aceitaria essa mudança. Parece-me que eles
consideram o seu trabalho uma vocação insubstituível.
- Bem, se gostam assim tanto do lixo, podem ir com ele para as
quintas. Eu disse ao chefe Koyomi que se organizariam comboios
nocturnos especiais, a que se juntariam, em cada estação, vagões
selados, com o contributo local, o produto final de cada noite rolaria
até ao Norte, fertilizando as terras menos produtivas. Num ano, disse-
lhe eu, os produtos da agricultura deste país teriam duplicado.
- Espera aí, espera aí. - Egbo pegou no jornal, procurando a
reportagem. - Ah, ah, bem me parecia, isso é quase o discurso do
tipo, palavra por palavra.
- Tenho de concordar que ele tem uma memória fantástica, a
menos que, evidentemente, ele saiba estenografia e tenha transcrito
por trás das costas o que eu ia dizendo. Notem que eu já havia escrito
algumas notas sobre o assunto e é nessas circunstâncias que o meu
aspecto convincente é verdadeiramente irresistível. Creio que
também lhe assinalei a metafísica do meu plano...
- Compreendo - exclamou Egbo -, deve ter sido a isso que ele
chamou físico-química mental.
- Vês? Repito que o tipo se deixou arrastar pela imaginação.
- Oiçam isto, mais um trecho da tua reportagem, aposto: ...”A
recolha dos baldes de dejectos”, declarou o ilustre Koyomi, “é
desumana”; e, enquanto falava, o cérebro longamente reprimido do
ilustre deputado tomava-se febril, o plano assumia proporções
grandiosas e dele germinavam os mais inesperados rebentos de cores
e odores variados... isto é teu, não é?
- O estilo é realmente inconfundível. Sabem, aquele Mathias é
um traidor. O chefe de redacção chamou-me e disse: “Soube pelo
Mathias que você se interessa por esta espécie de coisas; que me diz
a encarregar-se de aprofundar o assunto?”
- Confesso que gosto da ideia dos burros - disse Kola -, só que
eles podem ser alérgicos ao cheiro.
- Máscaras de gás. A polícia pode fornecer tantas quantas
precisas.
- Isso poderia ser um risco grave para a segurança nacional,
deixar máscaras de gás à mercê de burros. Imagina que eles
organizam manifestações? O gás lacrimogéneo seria ineficaz contra
eles.
- Mesmo assim, continuo a preferir os burros e não apenas dentro
da cidade. Porque não também no transporte para o Norte?
- Achas os comboios demasiado... prosaicos?
- Isso mesmo.
- Hum. Nisso és capaz de ter razão. Imaginem só esta visão
nómada: manadas de gado vindo para Sul e filas de burros
carregados em direcção ao Norte com carregamentos de merda.
Bandele levantou-se e saiu.
Ficaram a olhar por alguns instantes a porta que acabava de
bater ruidosamente. Egbo, finalmente, perguntou:
- Que mosca mordeu àquele tipo? - fitou primeiro Simi, depois
Dehinwa: - Que dizem as senhoras? Haverá alguma coisa que a vossa
intuição vos tenha revelado e que nos tenha escapado?
Simi continuou a acariciar a nuca dele e Dehinwa disse:
- A vossa conversa é suficiente para enjoar qualquer um. Sagoe
riu.
- Nem vais acreditar nisto, Kola, tu também não, Egbo, mas num
dia de bebedeira prometi estupidamente a esta mulher que quando
nos casássemos queimaria o meu livro iluminador.
- Tu juraste - recordou-lhe ela.
- E embora me tenha sido arrancado de má-fé, hei-de cumprir o
meu juramento.
- Como diabo o conseguiu ela? Vingativamente, Sagoe voltou-se
para Dehinwa:
- Conto-lhes?
- Se tiveres coragem...
- Tenho, sim.
- Não acredito...
- Isso aconteceu, pode dizer-se num momento de extrema... -
Dehinwa levantou-se e correu escada acima, perseguida pela
gargalhada de Sagoe. - Olha-me só o preço que vou pagar, Dalila! O
preço que vou pagar pela virgin-dade de Dalila! Simi perguntou:
- Vocês vão mesmo casar?
- Estou encurralado - suspirou Sagoe - entre a espada e a parede
e imensamente feliz.
- Avisa-me com antecedência - disse Kola -, para eu oferecer um
par de algemas a Dehinwa.
- E de mim recebes um penico - prometeu Egbo. Bandele
reentrou, qual coluna de um palácio esculpida em pau-ferro.
- Joe Colder vai realmente para a frente com esta coisa? Kola
sorriu.
- Bandele, parece que não compreendeste. Que há-de ele fazer?
A única alternativa é sentar-se a cismar até acabar por enlouquecer.
- Por vezes, comportas-te como se não sentisses... insistiu Egbo.
- Não te perguntei nada, Egbo. Egbo pôs-se de pé.
- Se vais continuar a portar-te desta forma idiota, infantil, vou-me
embora de tua casa!
A voz de Bandele suavizou-se.
- A porta é ali. Não posso esquecer que esta manhã vim pedir-te
auxílio e tu recusaste-mo.
- Não te recusei nada.
- Eu pedi-te a ti, não pedi? A casa de Kola era mais próxima, mas
eu vim pedir-te a ti!
- Mas não era para ti. Pediste-me auxílio para aquela repugnante
aberra-ção da natureza e eu desejava nem sequer tê-la conhecido.
Vem, Simi, vamos embora.
- Antes de saíres - disse Bandele -, quero comunicar-te notícias
impor-tantes...
- Mais tarde falaremos nisso.
- ... Respeitantes a uma aluna minha.
Egbo imobilizou-se, os seus modos mudaram totalmente.
- Dela...?
- Sim.
- Há quanto tempo recebeste essas notícias?
- É melhor irmos lá para fora.
Ignorando a presença de Simi, Egbo saiu da sala quase a correr.
Dehinwa dirigiu a Simi um rápido olhar de simpatia e solidariedade
feminina e ocupou o lugar que Egbo deixara vazio ao lado dela. Sagoe
tentou uma observação alegre, mas depressa desistiu, encolhendo os
ombros.
Uma vez fora de casa, Bandele disse:
- Sei onde ela está.
- Escuta, antes de mais nada existe uma lacuna a preencher.
Como é o raio do nome dela?
- Escuta-me tu, Egbo. Vou apenas passar-te a mensagem que ela
me comunicou e tal como ela me pediu que a dissesse. Penso,
evidentemente, que ela não regula bem da cabeça, mas
provavelmente tu já o deves saber.
- Por amor de Deus, que se passa? Ela está grávida?
- Sim.
- Percebo.
- E ela sabe que tu e Simi são ainda... viu-te numa festa
qualquer.
- Ela não fez nenhuma asneira, pois não?
- Bem o desejou. Foi a um médico no hospital, aquele palhaço do
Dr. Lumoye e ele comportou-se tão estupidamente quanto realmente
é. Creio até que quis ir para a cama com ela e quando ela recusou,
disse-lhe que nada podia fazer. De modo que Lumoye tem andado a
espalhar este mexerico por toda a parte e como ela é bastante
maluca resolveu fazer exactamente o contrário. Vai ter a criança, diz
ela agora, e continuar aqui como estudante.
- Onde posso eu encontrar esse médico?
- Eu disse que tinha uma mensagem para ti.
- E eu perguntei-te onde posso encontrar o filho da puta desse
curandeiro!
- Não precisas gritar, Egbo.
- Diz-me onde ele mora, de contrário podes ficar com a maldita
mensa-gem!
- Como queiras.
- Espera. - Egbo deteve-o, engolindo a sua cólera, sentindo o seu
veneno gelar dentro de si. - Bandele, Bandele, este papel de verdugo
não é digno de ti, diz-me onde posso encontrar esse tipo.
- Apenas te chamei cá fora para te dar um recado.
- Está bem, está bem, diz lá. Onde está ela? Tenciona realmente
voltar para cá?
- Foi o próprio secretário da universidade quem me informou. Ela
enviou-lhe uma carta.
- Onde está ela?
- Não sei.
- Estás a mentir, Bandele.
- Não sei ou não quero dizer, acredita no que quiseres.
- Muito bem, acabemos com isto. Diz-me a mensagem.
- Quando tiveres a certeza do que queres fazer, deverás
comunicar-mo e eu passarei palavra. Além disso, pediram-me que te
fizesse compreender que não és obrigado a nada. Espero que isso
tenha ficado claro. A mensagem é esta. - Bandele deu meia volta para
reentrar em casa.
- Não, espera. - Egbo puxou-o pela manga, perscrutando-lhe o
rosto. - É evidente que isto explica muita coisa. Suponho que foi esta
a causa do teu estranho comportamento...
- Não sejas tão presumido. Julgas que foi só por isto?
- Está bem, deixemos-te de parte. Mas, por amor de Deus, fala-
me da rapariga... Ela é um ser tão extraordinário, de certo modo até
selvagem. Não creio que...
- Desejo envolver-me o mínimo possível nesta coisa. Portanto, se
fazer o favor, dás-me a tua resposta quando quiseres, nada mais me
interessa.
Desta vez, Egbo não se mexeu para o deter. Ficou de pé, nos
degraus, algum tempo, seguidamente voltou as costas àquela casa e
caminhou em direcção à escuridão.
Bandele foi direito ao piso superior e os outros ouviram-no
chapinhando na casa de banho.
- Aquele tipo - disse Kola - está a destruir-se a si próprio, mas
porquê?
- O que ele precisa - observou Sagoe - é de uma longa sessão de
vacuo-lização.
Simi estava triste e Dehinwa tagarelava com ela, com incessante
jovialidade.
Já estavam um pouco atrasados para o recital e sabiam-no,
porém, nenhum deles se ergueu sugerindo que partissem. A
exposição de Sekoni fora inaugurada nessa tarde com vinho de palma
e carne assada do carneiro negro, e o seu sangue coagulado
manchava ainda o chão do estúdio de Kola. Bandele dissera:
- Para que precisam vocês do carneiro? Não tiveram já o vosso
sacrifício?
E, durante momentos intermináveis, parecera-lhes que Egbo ia
mergulhar a faca na garganta dele. Ficaram todos quietos,
horrorizados, entre os vapores do sangue, à volta do vaso convulsivo
da garganta coitada. Todavia, Egbo dera à faca um movimento de
brincadeira na direcção de Bandele e um estreito fio de sangue sujara
a camisa deste. Imediatamente a tensão se dissipara e uma garga-
lhada substituiu aquele momento de antagonismo, sem sentido; até
Bandele sorrira, recordando que afinal aquilo era também por Sekoni.
Na tela de Kola a tinta ainda mal secara em Esumare, mas eles
haviam-na transportado e pendu-rado no foyer da sala onde Joe
Golder iria cantar mais tarde, nessa noite. E todas as figuras
importantes da universidade haviam estado presentes, inclu-sive os
Oguazor; porém, eles tinham saído apressadamente logo que viram
chegar uma ou duas “moscas domésticas” na pista do vinho de
palma. O acto da matança e o sabor do vinho sobre o odor pungente
da carne assada alcançou novamente as narinas de Egbo e trouxe-lhe
à memória o acto solitário, único, a primeira companheira no seu
santuário à beira-rio, e Egbo compreendeu que não podia conservá-la
meramente como uma fantasia idílica, pois uma vez mais se sentia
assombrado com a força de vontade dela...
E Egbo continuava a caminhar, a caminhar.
Na sala de estar de Bandele permaneciam todos sentados,
receando o momento em que teriam de partir e enfrentar Joe Golder
no outro lado das luzes. Bandele desceu as escadas.
- Não está na hora do espectáculo?
- Queres pôr-nos fora da tua casa?
- Não. Na realidade, vou convosco. Mas primeiro digam-me uma
coisa. Reparei no programa e Joe Golder vai cantar um requiem na
segunda parte. Será uma ideia de expiação?
- O programa foi organizado já há meses - disse Kola,
tranquilamente.
- Ah, então o outro caso é que inspirou isto. - O tom de Bandele
era seco como quando em tempos dissera: - Se chegares ao volante
de um dos carros maiores, eles deitam-se na estrada e deixam-se
atropelar.
- Hás-de ir-te abaixo. - Era Kola de novo, suavemente.
- Não. Parece que vamos todos mortificar-nos
desnecessariamente e creio que, por causa de Joe Golder, envelheci
anos. Mas não me hei-de ir abaixo.
Bandele tornava-se-lhes totalmente estranho e cada vez mais
impers-crutável.
Era como se ele não tivesse nem piedade nem indulgência e, no
entanto, o contrário é que era a verdade. Na sala de concertos,
sentou-se à parte dos outros; seguira-os quando haviam penetrado
numa fila de cadeiras, mas deixou ficar alguns lugares entre si e os
outros. A seu lado estava Simi; Kola, Sagoe e Dehinwa sentaram-se
alguns lugares mais à frente. Kola escolhera aqueles lugares ao ver
onde estavam Mrs. Faseyi e a sua nora e conseguira para si a cadeira
imediatamente atrás da de Monica. Na primeira fila estavam sentados
os Oguazor e com eles Ayo Faseyi.
Bandele conservava-se inflexível, imóvel, como o bordão de
Ogboni, rígido, num só molde. E parecia perguntará figura, no palco,
aparentemente calma: que nos fizeste vir aqui presenciar? Uma farsa
de expurgação? Bandele era uma imagem intemporal meditando
sobre seres menores. E Kola, que tentava compreender tudo, que
tentava clarificar as peças dentro das vestes acomodatícias do
tempo, sentiu, mais tarde, num momento de tranquilidade e ordem,
que aquele era um momento de frustração, que o que faltava naquela
noite era o poder de sacudir os acontecimentos, separando-os um a
um e colocando-os em etapas sucessivas do período de criação.
Sometimes I feel like a motherless child... (')
Kola olhou então para Bandele e pensou: se nós nos deixássemos
simplesmente existir, existir tal como somos, e nada sentíssemos dos
cordões escravizantes, se pudéssemos mergulhar, dos nossos nichos
impessoais, no vazio, e nada dever de nós mesmos a vivos ou mortos,
evoluiríamos em direcção a isto, não reconhecendo nem
enfraquecendo a nossa vontade através da compreensão, de modo
que quando o presente se desfizesse sobre as nossas cabeças,
encontrássemos rapidamente uma nova lei para a vida. Como Egbo
sempre fez e agora Bandele.
Sometimes I feel like a motherless child... (Por vezes, sinto-me
como uma criança sem mãe.”)
O palco apresentava-se pobremente, despido; sacos de areia e
plataformas transversais, desmontáveis, enfunavam cortinas negras
em ambos os lados, dois feixes convergentes de luz nua e Joe Colder.
Para além dele, um profundo vazio e escuridão total. Salientando-se
entre as margens negras do proscénio móvel que o enquadrava, qual
figura arcaica e repudiada de um álbum de família, Joe Golder
procurava no mundo uma esperança, um mundo sem rosto, sem
fundo, um vácuo total para aquele homem que as notas pareciam
dilacerar. Joe Golder desnudava a sua alma, como um ser mutilado
agitando-se nas fontes sombrias da dor que o embalava, uma criança
há muito perdida...
A long way from ho-o-ome, a long wa-ayfrom home. (“Muito
longe de casa.”)
E Kola sabia que não era uma mera questão de geografia. Sentiu
um forte aperto em torno da sua perna e, olhando para baixo, viu o
braço de Monica tremendo, os dedos cravando-se rudemente na sua
carne. Kola segurou-lhe a mão, reconhecendo: esta é uma noite de
ruptura, cada um segue o seu caminho.
Dominado por um sentimento que era incapaz de explicar, Kola
virou-se para a saída. Junto à porta estava Egbo e, mesmo sob o
ténue jorro de luz vindo do foyer, parecia grave e preocupado, como
um homem que perdeu subitamente a sua juventude.
Egbo havia percorrido quase toda a extensão da universidade,
indiferente ao juntar de nuvens mercuriais por cima de si, às
repentinas crepitações secas que lhe electrizavam a pele como
quando os seus pelos se eriçavam passando um pente ao longo do
braço. Elas lembravam-lhe as características da cólera de Bandele,
uma corrente estática cortando o ar límpido, um roçagar surdo de
antagonismo. As nuvens, porém, retinham a sua água, ainda que ele
desejasse ver a chuva cair para ao menos dissolver em lama mole a
terra debaixo dos seus pés, mesmo que o céu conservasse a sua
dureza. E que essa chuva libertasse a sua pele daquele formigueiro
febril na viva liberdade da claridade, quartzo nu em velozes ribeiros,
ouvindo o seu coração apressado palpitando, lento mas vibrante,
contra lajes frementes de velho granito... No entanto, a chuva conser-
vava-se oculta Já nas alturas e os seus fúteis pontapés apenas
encontravam torrões húmidos de terra... Inconscientemente, foi
atraído pelo ruído que enchia a noite através dos ventiladores de
alumínio, o choro penetrante e agudo de um touro castrado, e Egbo
avançou para a porta perguntando a si próprio: quem é este tipo que
berra por ter sido desterrado pela compreensão do mundo!?
O duplo feixe de luz desenhava um buraco no chão e Joe Golder,
de pé, brotava deste círculo de solidão. Egbo pensava no modo como
se iriam apo-derar da tinturaria quando as mulheres partissem
equilibrando-se nas bordas das enormes caldeiras dos tintureiros,
profundamente enterradas na areia negra e molhada. Quando as
mulheres partissem eles iriam saltar e agarrar-se às varas de bambu,
deixando-se ficar suspensos por algum tempo. Porém, às vezes, o
bambu quebrava-se e uma criança mergulhava na caldeira. Uma
enorme vaga de tinta voava por sobre o rebordo e o rapaz emergia
vertendo lágrimas de anil, enegrecido até aos cabelos. A escuridão
engoliu agora Joe Golder, ante os seus olhos, e Egbo escutou uma vez
mais o grito de terror infantil, as mãos enegrecidas que se agitavam
desesperadamente em busca de outras mãos, os lábios implorando
águas limpas que os lavassem. Fontes de índigo nasciam e
redemoinhavam a seus pés. Joe Golder, tacteando na escuridão,
penetrou no pátio das traseiras das mulheres velhas através de
labirintos de bambus, tão baixos que pareciam um lugar para enforcar
anões, e avançou agachado e corcovado através de bambus
cruzados, estilhaçados e atados, suspenso de potes de madeira, e os
tecidos tingidos pingavam desfraldados. Havia chuvas negras de céus
minúsculos e as areias movediças sob os seus pés ensopavam-se
nessa tinta que ele escolhera. Joe Golder pisou algures com força e
jorraram sobre eles fontes de tinta e de mijo de velhas, longamente
contido. As velhas escarranchadas sobre o rebordo das suas caldeiras,
a papa negra espumando por entre bolhas negras de cornijas de lava
negra nas profundezas dos ventres dos potes amadurecidos, nas
profundezas do solo que beijava os rebordos... Oh, eu brinquei entre
eles, pensava Egbo, lá onde as velhas mulheres tingem as suas
mortalhas e a dor é estas mulheres, velhas como a maldição, saída de
gargantas plenas de rapé. Joe Golder, fazendo esguichar tinta de
areias movediças, atravessou a boca rasgada dos caldeirões e as
húmidas mortalhas revoluteando pesadamente ao vento, espumando
escuma de anil. Elas envolveram-lhe os pés, devorando-o
progressivamente, arrastando-o para o solo, as negras bolhas
gigantescas como as pupilas iradas de Olokun, murmurando: Ebgo-lo,
e-pulu-pulu, Egbo-lo, e-pulu-pulu, Egbo-lo...
Até que as luzes inundaram subitamente a sala e ouviu o som de
palmas, enquanto a assistência se levantava para o intervalo.
- Assustada! Estas raparigas inglesas são tão tolinhas! Que
haveria agora de assustá-la? Eu estava a chorar. - E Mrs. Faseyi ainda
o fazia numa embara-çosa mistura de fungadelas e gargalhadas
barítonas.
O seu olhar cruzou-se com o de Bandele, que se mantinha
afastado, ao lado de Simi; Bandele baixou a cabeça com uma singular
formalidade que a espantou e ela desviou o olhar, magoada e
incrédula. Sagoe lutava com a multidão que o rodeava, tentando
alcançar a mesa das bebidas, e acabou por ficar face a face com
Oguazor. Por um breve instante, ambos deram sinal de que se
reconheciam. Faseyi precipitou-se então entre eles, exclamando:
- Oh, eu vou buscá-la, professor, diga-me só o que deseja.
Sagoe sorriu e interpôs:
- Por favor, deixe-me ir eu, estou a dever algumas bebidas ao
professor.
Oguazor voltou-lhe as costas e encetou uma conversa com
Faseyi. Depois, o professor afastou-se para se juntar à sua Caroline
que estava diante do Panteão, experimentando a pintura para ver se
ela borrava. Pouco depois, Sagoe viu-a olhar na direcção dele.
Sagoe levou um copo a Simi e ofereceu outro a Bandele, que
continuava a fitar fixamente a escultura de Sekoni. Simi, receosa e
infeliz, tirou a bebida das mãos de Sagoe e tentou enfiá-la entre os
dedos de Bandele.
Monica, que os observava, comentou:
- Bandele parece zangado com qualquer coisa.
- Também reparaste - retumbou a voz da sogra dela.
Cumprimentou-me há momentos de forma bastante peculiar. Que tem
ele?
- Oh, bem, compreendem... hum - Kola calou-se, mas Sagoe veio
em seu auxílio.
- Um amigo nosso ausentou-se, deixando a mulher a cargo dele e
Bandele não acha a situação muito divertida.
- Homens! - A exclamação foi de Mrs. Faseyi. Animais!
- Mas por que não vem ele para junto de nós? perguntou Monica.
Kola estava cada vez mais aflito. Não havia um único dos
presentes que não conhecesse Simi, cortesã notória, internacional. E
Bandele continuava asperamente indiferente à jovem que estava
junto dele. Ela sentia-se deslocada naquele meio e necessitava de
alguém em quem se apoiar. Os puritanos melindrados começavam já
a murmurar entre si e a acotovelar-se, indicando-a com o queixo. Os
comentários flutuavam delicadamente em bolhas elegantes.
- Creio que devia ir buscar Simi para junto de nós disse Kola. - Se
não vê inconveniente, Mrs. Faseyi...
- Inconveniente! Porquê? Não é aquela mulher encantadora que
está junto de Bandele?
- Sim, eu pensei...
- Meu rapaz, aquela jovem ali, Simi, tem mais valor num só dedo
do que quaisquer dez hpmens fora desta sala ou do que todos os
homens aqui presentes. Traga-a para junto de nós.
- Olhem. Aquele ali não é um dos amigos de Ayo? perguntou de
imediato Mrs. Faseyi.
- É Egbo. Egbo! Estamos aqui!
- Ele não é amigo de Ayo, mãe - corrigiu Monica. Bandele levou-o
lá a casa uma vez para almoçar. Pare de chamar a toda a gente
amigo de Ayo.
- Egbo! Estamos aqui!
Kola, que ia buscar S irai, ouviu-o e parou, indeciso se o seu acto
seria prudente, agora que Egbo se lhes ia reunir. Em vez disso, dirigiu-
se a Egbo, mas deteve-se bruscamente ao ser atacado, parecia, pelo
olhar furioso de um cão selvagem. E viu Egbo voltar o seu duro olhar
para um grupo que conversava a um passo de si. Tão
descuidadamente perto, que as lascivas rajadas do gargalhar do Dr.
Lumoye ao fazerem-no recuar pouco a pouco, o levaram a chocar com
Egbo, murmurando um rápido perdão e regressando logo ao círculo
de fino espírito.
- Quer dizer que ela escreveu, teve a audácia de escrever
dizendo que queria voltar?
- Naquele estado? - perguntou Caroline.
- A esperteza de barriga cheia... - gargalhou Lumoye.
- Mas por que se espantam vocês? A moral nada significa para
estas raparigas modernas.
- E logo ela que sempre me pareceu uma jovem simpática,
recatada - acrescentou Caroline.
- Ah ah - avisou o Dr. Lumoye -, as mais recatadas são
geralmente as mais desavergonhadas. Percebi-o mal ela entrou na
clínica. Uma das recatadas, pensei com os meus botões, aposto que o
problema dela é consequência da velha penalidade marcada na baliza
ah ah ah ah ah... uups! Perdão.
Faseyi mostrava-se algo hesitante.
- Não sei, algumas destas raparigas são imensamente
susceptíveis. É preciso termos cuidado senão elas recorrem a todo o
género de medidas desesperadas...
- Oh, elas sabem o que fazem - assegurou Lumoye. Acredite no
que lhe digo: quando as aulas recomeçarem, a minha jovem paciente
estará tão magra em torno do umbigo como a minha filha mais nova,
ah ah ah ah.
- Mesmo assim - insistiu Faseyi timidamente -, não posso deixar
de sentir bastante pena delas.
- Não desperdice o seu dó em tais raparigas. Elas têm de
aprender a pagar pelos seus prazeres.
Os olhos exorbitantes de Egbo eram cúspides negras, cinzas na
ponta das tenazes de um ferreiro.
- O padrão da moral baixou realmente muito - comentou
Caroline.
- O país inteiro está mergulhado numa apatia moral. Neste
momento, apenas esperamos descobrir o estudante responsável,
depois saberemos o que fazer com ele.
- Ora, não vão conseguir apanhá-lo. Porque eu aposto, professor,
que aquela baliza vai estar vazia no próximo período escolar, ah ah,
uup's, desculpe... - Disse isto por sobre o ombro, erguendo o rosto
num sorriso aberto, transmitindo um pouco do prazer do seu regozijo
a este estranho atrás de si. Era uma face alegre a que levantou para
Egbo, girando o pescoço, e Egbo, cuja boca não pareceu mover-se,
cuspiu nela. Lumoye cambaleou para diante, cego e surpreendido,
levantando instintivamente o braço para deter aquele delgado
esguicho; delgado porque os lábios e a garganta de Egbo há muito
estavam secos. Mas cuspira sem sequer dar por isso e Faseyi, contra
quem Lumoye esbarrara, perguntava:
- O que foi? Entrou-lhe alguma coisa para o olho?
Egbo, porém, já estava no seio do grupo, aguardando apenas
que Lumoye abrisse os olhos e o visse. Lumoye, sentindo-se em
perigo mortal e apercebendo-se, após as palavras de Faseyi, que
ninguém vira o ataque de que fora vítima, optou por permanecer sob
a protecção da sua cegueira. O seu instinto estava certo, porque Egbo
esperava e Caroline, tão intrigada como os outros, andava à volta
dele tentando auxiliá-lo.
O Dr. Lumoye não era tolo; enquanto se esforçava por
diagnosticar as causas do sucedido, ansiava evitar a todo o custo
qualquer escândalo. Isso acima de tudo; suspirava já que os seus
“perdoes” tivessem sido mais atencio-sos, pois era incapaz de.
recordar a cara do homem que tão infundadamente o ofendera.
Uma voz soava a seu lado, atraindo a atenção de Oguazor, que
olhava desorientado do Dr. Lumoye para o homem silencioso, em
quem pressentia um vago elo; e a indefinida ameaça que era Egbo
tornava Oguazor obtuso à presença de Bandele, que inquirira:
- Que teria o senhor feito, professor? Faseyi, inseguro, saudou:
- Ólá, Bandele. Não sabia que estavas cá.
Oguazor, cedendo-lhe paternalmente algum espaço naquele
círculo apertado, exclamou:
- Oh, venha juntar-se a nós. Estávamos precisamente discutindo
uma das suas alunas.
- Oh, ela é sua aluna? - perguntou Caroline ao recém-chegado;
todavia, Bandele não a ouvia.
- Estava a perguntar-lhe, professor, que faria o senhor se
conhecesse o pai? - Não deixava margem para dúvidas.
Egbo compreendera-o desde que o outro surgira e os seus modos
revelavam como ressentia a interferência de Bandele. Rapidamente,
olhou de novo Lumoye esperando que ele abrisse os olhos, ao menos
uma vez, de modo que pudesse toma-los tumefacções doridas, antes
que este novo perigo lhe roubasse o direito à sua cólera. O tom da
voz de Bandele chegou ao Dr. Lumoye e este compreendeu que
estava salvo.
- Se se refere ao rapaz responsável pelo estado daquela
rapariga...
- Sim.
- Bom, farei com que ele seja expulso, é claro. Não merece
menos do que isso.
- Compreendo.
Iradamente, sentindo-se algo desafiado e vendo no seu opositor
um impertinente, Oguazor quase berrava:
- A universidade não pode admitir que o seu nome seja arrastado
na lama por causa da torpeza moral de jovens irresponsáveis. A
geração actual é demasiado corrupta.
Lumoye levantou a cabeça, restabelecido e intrépido, por estar
bem longe de Egbo.
- Sim, concordo plenamente. Eles desonram os nomes das
famílias por ninharias, e isso é que é o mais triste disto tudo.
- Como médico, é evidente - disse Bandele -, você prescreveria a
morte de preferência à desonra.
- Oiça cá... - principiou Oguazor.
- Eu fiz a pergunta ao doutor. Antes a morte que a desonra, não é
essa a sua ideia? Ou procurar curandeiros e abortadeiras, porque
elas... sabem o que se deve fazer?
- Não faço ideia do que quer dizer.
- Não me diga! Mas estes problemas são-lhe decerto familiares.
Aquelas que vão procurá-lo ao hospital devem falar-lhe nisso.
- Espero que Bandele não ache que a universidade é um centro
de assistência social.
Bandele contemplou o outro pensativamente e olhou os que os
rodeavam, com o corpo de novo descontraído. Olhava-os com
piedade, só que a sua piedade era mais inexorável que a sua dureza
interior. Bandele, velho e imutável como as mães reais do trono de
Benim, velho e cruel como o ogboni em conclave pronunciando a
palavra.
- Espero que todos vocês vivam para verem a desonra das
vossas filhas.
Fim do intervalo. O repique do sino convocava-os, distante e
agudo como o sino de um leproso. Mas eles permaneciam ali,
incrédulos, junto do Lutador de Sekoni. Simi esperava, Kola, a seu
lado, estava imóvel, confuso. Egbo observou-a e veio ao seu
encontro, os olhos eram faróis num oceano de singular tristeza... uma
alternativa para um homem que se afogava... sim, pensava Egbo, é
apenas a alternativa para um afogamento.
GLOSSÁRIO

Os deuses no Panteão de Kola: Esu, espírito da desordem. Sango,


deus do relâmpago. Orisa-nla, a divindade principal. Esumare, o arco-
íris. Erinle, um espírito animal. Obaluwaiye, o nome respeitoso de
Sopona, deus da varíola. Ogun, o deus explorador, guerreiro, criador.

Abetiaja: um gorro de tecido com abas sobre as orelhas usado


pelos lombas (literalmente, aquilo que cobre as orelhas de um cão).

adire: tecido tingido.

agba n't'ara: respeito por um corpo idoso. agbada: uma peça de


roupa ioruba volumosa. agbo: uma poção de cortiça e raízes.
agidigbo: um tipo de música ioruba. atadura: urna seita cristã cujos
ritos são caracterizados por ritmo e êxtase.

alakori: uma expressão insultuosa.

alhaji: aquele que fez a hadji, i. e., a peregrinação a Meca. amala:


um prato pastoso, mole, feito com farinha de inhame. apala: um tipo
de música ioruba. ayaba osa, orno Yemoja: rainha do mar, filha de
Yemoja (uma

divindade aquática).

dansiki: uma blusa curta usada pelos homens.

efigbatifun yeye: esbofeteia esse bastardo.

egbe: magia para desaparecer.

ekan: erva de elefante

elegungun: mascarada ancestral.

ewedu: uma sopa viscosa de vegetais.


gaga: óculos.

gambari: gíria local para um homem hausa (pejorativo).

gidigbo: uma forma rude de luta livre.

ibeji: gémeos, ou, mais correntemente, figuras de madeira


esculpidas em forma de gémeos, geralmente com cabeças
exageradamente alongadas. ibosi: vergonha.

igbale: sepulcro de cultos privados.

ikori: um gorro de caçador terminando numa espécie de bolsa. ilu


oyinbo: o país do homem branco. iyun: contas de coral (muito
valiosas). koboko: chicote de cabedal. kola: noz de cola (um suborno).
maraccas: um tipo de castanholas. Ogboju Ode: uma obra famosa da
literatura ioruba de D. O.

Fagunwa. ogboni: uma assembleia de anciães, uma espécie de


conselho executivo junto do trono. obogomungomu: uma imagem
espectral. orno alufa: filho de vigário. orno ole: uma expressão
insultuosa. orno tani: de quem julga ele que é filho? oríki: um cântico
de nomes de família, títulos, antecedentes, etc. oyekoko moniran;
oyeroba: expressões ininteligíveis e sem significado.

oyinbo: homem branco. se wa s'orno fun wa: literalmente: “vais


agir como um filho respeitoso deve agir?”, isto é, cuida dos
antepassados. tanwiyi: larva de mosquito.