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JAKOB VON UEXKÜLL, NASCEU NA ESTÓNIA

EM 1864; ESTUDOU ZOOLOGIA NA UNIVER­


SIDADE DE DORPART E FISIOLOGIA NA UNI­
V E R S ID A D E DE H E ID E L B E R G . OS SEU S
-TRABALHOS SOBRE O «MUNDO-PRÓPRIO
E MUNDO-INTERIQR DOS ANIMAIS» FORAM
NÃO SÓ PIONEIROS, CRIANDO RAMO CIEN­
TÍFICO, MAS TAMBÉM, ATÉ HOJE, DEFINI­
TIVOS, JA QUE 0 ,áEU CONCEITO DE CICLO-
-DE-FUNÇÃO JAMAIS FOI CONTESTADO OU
ULTRAPASSADO. V IA J O U POR TO DO
O MUNDO, çj^M O INVESTIGADOR E CONFE­
RENCISTA. pÒUTOROU-SE TAMBÉM EM MEDI­
CINA, PELjjí UNIVERSIDADE DE HEIDELBERG
E FOI PROFESSOR NA DE HAMBURGO E NA
DE KIEL, TENDO SIDO GALARDOADO DOUTOR
HONORIS CAUSA POR OUTRAS UNIVERSI­
DADES EUROPEIAS
C O L E C Ç Ã O V I D A E C U L T U R A

JA K O B V O N U EXK Ü LL

Dos animais
e dos homens
Digressões pelos seus próprios mundos

D outrin a do Significado

T r a d u ç ã o de
ALBERTO CANDEIAS e ANÍBAL GARCIA PEREIRA

Capa de
A. PEDRO
*
Título da edição original
STREIFZUGE DURCH DIE UM W ELTEN
VON T IER E N UND M ENSCHEN
*
Reservados todos os direitos pela legislação em vigor
*
Edição feita por acordo com a EDIÇÃO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA
BOWOHLTS DEUTSCHE ENZYKLOPÄDIE R u a do s C a e t a n o s , 22
UM PRECURSOR DA NOVA BIOLOGIA
p o r A d o lf Portmann

A obra de Jacob von Uexküll veio a ter resultados


fecundos nas ideias e nas tarefas da biologia actual. As
investigações dos nossos dias falam de m undos-próprios
dos anim ais no sentido particular que Uexküll atribuiu a
este conceito e apresentam ciclos-de-função do s e r vivo
exactamente como ele no-los tinha definido em dezenas
de anos de labor intenso. Se hoje encaramos os fenóme­
nos da vida não só como causa de certos efeitos mas
também como partes componentes de um conjunto
preexistente devemo-lo principalmente ao seu trabalho.
A nova geração, que agora começa a trabalhar, já não
teve oportunidade de o conhecer e quase não mantém
com a sua obra relações directas. Uexküll morreu durante
os anos negros do fim da Segunda Grande Guerra e,
na confusão desse período, muitos investigadores se
esqueceram de quanto ficaram devendo a esse homem
que foi, simultaneamente, um grande biólogo e um génio
de forte personalidade. Vamos acompanhar a elaboração
e a influência desta obra notável, para entrarmos depois
na própria natureza dos dois trabalhos mais recentes,
reunidos neste volume.

[5]
A AUTONOMIA DO SER VIVO resultado de processos ocasionais de transformação, dos
quais a selecção natural manteve os favoráveis, permi­
O que Uexküll trouxe de novo ou simplesmente apro­ tindo assim a evolução das formas vivas.
fundou, a partir\de investigações já feitas, teve o seu Desde o princípio, Uexküll dirige a atenção do obser­
início na última década do século passado, nos anos que vador para as propriedades supermecânicas da matéria
se seguem imediatamente aos sugestivos estudos de viva, para o facto misterioso de que no organismo adulto
Hans Driesch. As experiências de Driesch com as pri­ se nos apresenta um todo organizado segundo um plano.
meiras formas embrionárias do ouriço-do-mar tinham Nós verificamos, impressionados e surpreendidos, que
revelado particularidades de desenvolvimento que deixa­ este plano já actua no óvulo e continua no desenvolvi­
vam transparecer nitidamente a autonomia do ser vivo e mento individual deste. Uexküll já tinha mostrado há
contnibuíram também de maneira definitiva para que, na muito, em expressivas descrições, o que existe de
busca de uma interpretação do ser vivo, se afirmasse, extraordinário na matéria viva, no protoplasma. Esta
com nova força, a par da interpretação mecanista domi­ necessidade de expor com clareza impeliu-o toda a sua
nante, a outra possibilidade: o vitalismo. Se, daí em vida para o género de comunicação mais capaz de atingir
diante, caem em desuso os termos m ecanism o e vita ­ um largo círculo de pessoas interessadas no assunto.
lism o, por se ter reconhecido amplamente a existência Tornou-se um mestre na exposição arguta e incisiva da
de uma autonomia relativa, de uma independência, do sua concepção da natureza. Era-o na explanação oral e é-o
ser vivo, também para este facto tão importante deu também, com igual vigor e poder de sugestão, nos seus
larga contribuição o trabalho criador de Jacob Uexküll. escritos. O nunca se ter integrado nas verdadeiras activi­
A sua obra foi muito particularmente sugerida pela dades da ciência académica retardou, porventura, a
vida dos animais marinhos. E é mais uma vez a utilização expansão das suas ideias no campo espiritual da Univer­
genial deste campo das formas animais marinhas que sidade, mas permitiu, por outro lado, que tirássemos pro­
lhe revela novos factos acerca da função dos músculos veito de muitos trabalhos seus, estimulantes e combati­
e nervos e das relações com o meio. Os movimentos dos vos, que possivelmente seriam incompatíveis com a faina
espinhos do ouriço-do-mar, os movimentos das lapas ou do ensino.
da medusa, o estímulo da sombra que actua no ouriço-
-do-mar, a maneira como os vermes ou os espatangói-
CICLO-DE-FUNÇÃO E MUNDO-PRÓPRIO
des (1) se ocultam na areia, a observação da vida dos
chocos e das lagostas — cada um destes estudos é um A concepção de ser vivo, de Uexküll, encontrou a sua
raio de luz que ilumina as densas trevas da vida marinha. integral explanação nas obras U m w elt und In n e n w e lt der
Já nestes primeiros trabalhos de fisiologia se dese­ Tiere, 1921, e Theoretische Biologie. A primeira trata com
nham os contornos de uma concepção de organismo que mais pormenor da observação de factos particulares da
está em flagrante oposição com as ideias ainda larga­
vida das mais diversas formas animais; a segunda, mais
mente aceitas no seu tempo, que vêem no organismo o
abstracta, é uma tentativa para ajustar o estudo da vida
animal, principalmente com a posição filosófica inspirada
(’) Ouriços-do-mar de simetria bilateral.
em Kant.

[ 6] [ 7]
Uexküll tem o seu lugar histórico na solução da nismos ou até inimigos e chamou a essa correlação
antiga querela travada à volta das concepções m ecanista «ciclo-de-função». O ambiente tem notas ou sinais, no
e v ita lis ta do ser vivo. Pela influência da época, da escola, verdadeiro sentido destas palavras: estruturas que o
e da natureza fisiológica do trabalho, está ligado de várias animal assinala por meio dos órgãos sensoriais consti­
maneiras — e mais solidamente do que ele próprio era tuídos para esse efeito e para as quais se elaboram res­
capaz de ver — à interpretação mecanista, para a qual, postas e reacções especiais no organismo. Quanto às
aliás, era solicitado pelo mais íntimo do seu ser. Verifica, possibilidades de relação ,d e -, um organismo com o
assim, como eminente fisiólogo da vida animal inferior, ambiente, elas estão já determinadas segundo qualidade
as grandes possibilidades da simplificação mecanista, e intens idadé7 por estrüturas previámente~-or-qaaizadas..
que concebe, por vezes/com o mecânico cada um dos sis­ Os diversos ciclos^de-função, no seu conjunto, deter­
temas da vida animal. Ele considera como maquinismos minam uma secção de propriedades com significado na
as estruturas mais evoluídas. Assim, para ele, «a amiba vida do animal. Elas são, no âmbito mais largo da natu­
é menos maquinismo que o cavalo» porque dispõe de reza, a parte que no caso respectivo forma o am biente
menos estruturas adultas. Finalmente, Uexküll também limitado e típico de uma espécie animal.
se aproxima da interpretação mecanista quando isola a
substância e a concebe como dirigida por uma forma de
actividade não dimensional. São pois os «impulsos» — OS «PAPÉIS» DAS COISAS NO CENÁRIO DA VIDA;
agentes não espaciais de ocorrências espaciais — que, O ESTUDO DO SEU SIGNIFICADO
por um processo morfogenético conferem à substância
uma contextura mecânica. O protoplasma, como um todo, Na vida animal, as coisas são portadoras de signi­
é sempre supermecânico. ficados, têm nela papéis a desempenhar. Ao referir-se
Na luta que travou por esta concepção, Uexküll a este facto potencial e real, Uexküll revelou à investi­
emparelha com Hans Driesch. Mas em breve se manifesta gação biológica um aspecto do ser vivo que, nas Ciências
a originalidade das suas investigações, quando, no núcleo Naturais do século XIX, alguns tinham votado a inteiro
do seu trabalho, se começa a levantar, a cada passo, uma esquecimento e outros simplesmente banido, como não
questão soberana: como deve então entender-se a rela­ científico, do domínio dos estudos biológicos.
ção entre o ser vivo e o meio quFõ~cTrcunHã?~A pãrtTF Guiados por Uexküll, encontramos circunstâncias que
de 1910, começa também a expor, de maneira mais inci­ não podem entrar, reduzidas a medidas e números, numa
siva, as suas ideias fundamentais, com que ajudou a for­ explicação matemática da natureza, circunstâncias que
mar, tão decididamente, a biologia dos tempos futuros. dizem respeito a um aspecto da vida que é complementar
Duas dessas ideias directrizes vieram a tornar-se parti­ de todas as conclusões obtidas por métodos quantitati­
cularmente importantes. vos. O mundo das qualidades experimentadas, com as
Uexküll verificou uma correlação estrutural, já exis­ suas cores e formas, os seus sons e aromas, as suas
tente no óvulo, entre o corpo do animal e certos factores dores e os seus prazeres, aparece então como o objecto
do ambiente, sejam estes de natureza inanimada, orga­ primacial da investigação biológica. Com Uexküll, o

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sujeito percipiente é tomado, pela primeira vez, como idênticas, meramente estimulantes, o nervo óptico é sem-
objecto de investigação positiva. Neste mundo comple­ pre afectado sob a forma de sensação luminosa, conside­
mentar, tornh-se essencial o que no outro não passa de rando-se a srproprTõ^mergGTFiãdo na escuridão, quand<5
secundário; é\, pelo contrário, insignificante o que ali se em repouso.» Também cedo Uexküll acentuou o papel
tomava como decisivamente importante. Sucede assim, do «estado interior» como um dos factores decisivos
ser indiferente no mundo dos sujeitos se uma cor, como, para a tonalização das coisas do mundo-próprio. Limitou
por exemplo, o azul do céu, depende do carácter de uma então o conceito da disposição interior às influências
combinação química ou se resultou de determinadas naturais no equipamento interno e define-o pela designa­
estruturas físicas. O importante, neste mundo, é que o ção de «disposição química».
azul se apresenta como fenómeno experimentado e que,
como tal, desempenha no cenário da vida papéis diversos
e rigorosamente determinados. O MUNDO-PRÓPRIO E O HOMEM
E com que sagacidade dirige Uexküll esta introdução
do sujeito na biologia! Ele afirma que as coisas do A doutrina de Uexküll acerca do mundo-próprio,
ambiente possuem um tom ou «teor» prático, quer dizer, característico de cada espécie animal, veio a constituir
que lhes pertence, conforme o seu papel, uma qualidade uma parte fundamental da biologia moderna mas a exten­
são que o autor fez da sua doutrina até ao homem foi,
qüe~nÕs"véFdàdèiramente não conhecemos no seu con­
teúdo" subjecfivõ mas- cuja actividade é possível discernir desde o início, justamente contestada. Como a digressão
~através"dò comportamento do animal. Com o reíevo dado aqui publicada conclui com uma aplicação pormenorizada
ã- esfã_tõnãTiFáção dos objectos inicia-se uma orientação desta doutrina ao homem, é necessário que nos detenha­
na investigação que teve finalmente de reconhecer, como mos por um momento neste caso limite.
uma das últimas realidades biologicamente inteligíveis, O que há de fundamental na teoria do mundo-próprio,
o complemento e a correspondência interiores dessa de Uexküll, é que, segundo ela, este mundo-próprio tem
tonalização: a disposição íntima. para um gato, para um cavalo ou um macaco, a sua forma
A tonalização, atribuição dos teores, eis uma das específica, não obstante as características comuns de
primeiras verificações no caminho da subjectividade mamíferos. Do mesmo modo, é também específico o
oculta. Uexküll remonta, muito conscientemente, ao mundo da gralha, o da galinha-d agua, o do falcão, ape­
grande biólogo Joh. M üller (1801-1858), cuja concepção sar das suas características comuns de aves. Trata-se
da vida comentou mais tarde com desenvolvimento e cujo de uma particularidade hereditária, tipicamente especí­
conceito de energia específica dos sentidos cedo se reve­ fica, invariável. Se no mundo do cão ou no do papagaio
lou um poderoso estímulo no seu pensamento. «Qualquer que habita connosco o mesmo quarto podem aparecer
que seja o meio por que se excite um olho» — escreve coisas do mundo do homem, elas transformam-se em
M üller-— «seja ele esfregado, puxado, comprimido, gal­ coisas do papagaio ou do cão, com as suas tonalidades
vanizado ou receba estímulos que de outros órgãos lhe inteiramente próprias. Mas, para ilustrar o seu conceito
são transmitidos por simpatia, em resultado de todas de mundo-próprio, Uexküll também põe em relevo o
estas causas diferentes, como se se tratasse de causas mundo diferente em que, separadamente, se move cada

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pessoa e mostra, com o exemplo da árvore, como a
NA SENDA DO ESTUDO DO COMPORTAMENTO
mesma coisa toma, consoante o género de vida da pes­
soa, tonalidades absolutamente diferentes. Aqui, escapa-
A influência das ideias de Jacob Uexküll alarga-se
-Ihe, no entanto, um pormenor: que todas essas maneiras
ao estudo do comportamento nos nossos dias. A sua
diversas de ver o mundo fazem parte de um mundo
acção, embora velada, é tanto maior, quanto estimula,
comum à espécie, que é possível uma compreensão des­
de maneira decisiva, o começo de uma nova orientação no
ses vários mundos-próprios da mesma espécie, que é
campo da investigação alemã. O que O. Heinroth e
possível, enfim, existirem contrastes de interpretação.
K. Lorenz, o que H. Hediger e Frau Meyer-Holzapfel, entre
Estas esferas de afinidade do mundo do homem, nas
outros, lograram descobrir de essencial durante a ter­
quais se incluem os mundos individuais com as suas
ceira década do século, pressupõe a fermentação das
peculiaridades — grandes peculiaridades como Uexküfl
ideias de Uexküll, até onde elas se não encontram expres­
e nós próprios reconhecemos — , esta amplitude da possi­
samente mencionadas. Uexküll não é o fundador do
bilidade fundamental de compreensão criam uma situação
estudo do comportamento, produto colectivo de várias
particular para o homem. Por muito acentuados que se
fontes. Vamos indicar mais uma vez, apenas algumas
considerem os contrastes dos mundos humanos, filhos
destas fontes, para mostrar o maior âmbito de ideias em
da tradição ou das diferenças de factores hereditários, o
que a obra de Uexküll exerceu influência de relevo.
certo é que todos se contêm na mesma esfera. Toda a
Num trabalho notável, o americano Craig salienta,
poesia vive da representação dessas variadas maneiras
em 1918, a importância do estudo das coisas do mundo-
de ver o mundo e das suas coincidências. Mas precisa­
-próprio, estudo que, por sua vez, faz intervir o ciclo-de-
mente a poesia assenta no princípio da última possibili­
-função do animal. Designa o estado que conduz a deter­
dade de compreensão dos outros. A expressão «mundo-
minados fins por apetência, paralelamente ao que sucede
-próprio» afirma e acentua a separação de mundos
no fenómeno elementar da nutrição e reconhece, assim,
específicos dos animais, como esferas particulares e,
exactamente por isso, devemos excluir este conceito na a validade de uma generalização que já era corrente na
caracterização dos contrastes de visão do mundo entre Antiguidade (em Santo Agostinho, por exemplo). A ape­
os homens. Todavia, o homem põe à antropologia filosó­ tência é um tipo de comportamento: corresponde-lhe um
fica do nosso tempo um problema particularíssimo, que estado interior especial. Lembremo-nos de que também
se avoluma ainda com a caracterização do nosso compor­ Uexküll já reconhecera distintamente este aspecto do
tamento como independente do mundo, em oposição à fenómeno vital.
conduta das espécies animais, estritamente obrigadas ao Pela mesma época, o ornitólogo inglês E. Howard
mundo-próprio. Rejeitando os excessos do conceito de (1922) provou que as aves, no período de incubação, rei­
mundo-próprio, a biologia e a antropologia modernas vindicam e defendem uma porção de espaço, um territó­
defendem o que há de mais original na obra de Uexküll rio — observação que então ocasionou uma imensidade
contra os seus impulsos temperamentais. de outras verificações, como, por exemplo, a descoberta
da distância rigorosamente mensurável do voo e da resis­
tência, etc., devida a Hediger. A explicação de muitos
destes factos estava confiada, desde os tempos primiti-
[ 12]
[ 13]
vos, aos caçadores familiarizados com a Natureza. A im­ a existência de grupos de animais sem tal escala de cate­
portância dò «defeso» para as aves já foi posta em relevo gorias. Para a investigação biológica, estes trabalhos
por B. von Al(tum, na Alemanha, na sexta década do século significam o início de uma revalorização das formas de
passado. Assim, quando Howard é hoje apontado como o vida animais que era tanto mais importante quanto mais
«descobridor» da posse territorial, isso significa que ele profundamente a fatuidade da teoria mecanista menos­
pôs o facto em evidência num momento particularmente prezara o animal.
«exacto» e que desempenhou papel preponderante no Em 1899, o biólogo dinamarquês Mortensen intro­
duziu a marcação individual das aves por meio de anilhas.
reconhecimento da sua importância.
Já em 1912, Julian Huxley observara a descrevera Desde então, inúmeras aves isoladas da multidão anó­
nima, por meio de anilhas numeradas, transformaram-se
pormenorizadamente em Inglaterra, pela primeira vez, a
cópula dos mergulhões, que ele depois interpretou com para nós, observadores humanos, em indivíduos e o
notável clareza. Abriu-se, assim, à investigação científica número de aves marcadas é hoje tão extraordinário como
um vasto campo de trabalho. Desde tempos imemoriais o de conhecimentos que devemos a este método. Algu­
que estes factos se tinham observado repetidas vezes. mas conclusões fundamentais dos nossos investigadores
Desde os tempos primitivos que o homem observava a do comportamento animal assentam exactamente na mar­
cópula do galo e outros fenómenos semelhantes. Mas a cação do indivíduo isolado, pelo que a «história natural»
consideração conscienciosa da sua significação e a clara geral e vaga de uma espécie pôde transformar-se na des­
ordenação de conceitos que agora se apresentava tiveram crição fiel da vida do animal individualizado. Por isso, a
importância decisiva. O. Heinroth actuou no mesmo sen­ marcação de animais de todos os grupos, do insecto ao
tido mas a contribuição de Huxley quase não é citada morcego, se tornou um dos processos técnicos impor­
por ele. tantes da biologia e fonte de perspectivas inesperadas.
Por volta de 1920, Thorleif Schjelderup-Ebbe começou Além destas, outras tendências de valia se podiam
a estudar em Greifswald a hierarquia social num pátio de ainda mencionar, se o nosso intento não fora apenas
criação de aves. Mostrou então que um grupo qualquer apontar que, das muitas tentativas, resulta, enfim, uma
de aves de criação se encontra solidamente organizado; nova orientação investigadora. Uma destas fontes abriu
que os vários indivíduos se dispõem numa hierarquia só a muitos investigadores o caminho de êxitos futuros e
deles próprios dependente e que esta hierarquia é muito veio aumentar a possibilidade de aceitar novas concep­
complicada e variável, isto é, depende da condição dos ções: foi a doutrina de Uexküll, com os seus ramos fun­
indivíduos. Como consequência desta primeira investi­ damentais na apresentação dos ciclos-de-função e na do
gação, surgiu grande número de estudos sobre a ordem mundo-próprio.
de precedência observada no exercício das actividades
vitais dos animais de várias espécies. Muitos biólogos
ficaram tão surpreendidos com a novidade que foram A INVESTIGAÇÃO PROSSEGUE
levados à generalização precipitada que via nessa hierar­
quia uma lei geral. Só mais tarde se impôs uma observa­ A importância da obra de Uexküll reside principal­
ção dirigida em maior número de sentidos, a qual revelou mente na sua luta tenaz em favor da actual posição bio­

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lógica, que reconhece a particularidade da esfera da vida pela verificação mais intensa de todas as provas que apre­
e a autonomia relativa do ser vivo. As suas contribuições sentam o organismo como centro especial de actividade
foram dominadas pelo método fisiológico e pelo exame e simultaneamente de um viver que, embora velada-
da natureza especial do ser vivo como objecto de investi­ mente, é aparentado com o que melhor conhecemos do
gação. O desejo de se lim itar aos métodos científicos nosso próprio ser mais íntimo. É principalmente pelo
levou-o à rejeição total de qualquer afirmação sobre o estudo desta «intimidade», desta maneira de ser peculiar
aspecto experimental do sujeito e, implicitamente, à do ser vivo e do animal em especial que aquilo que é
renúncia a qualquer espécie de psicologia animal, que ele observável de fora recebe a sua mais ampla interpreta­
considerava situada para além do «biológico». O seu ção. Tomar, de vez, o sujeito para objecto da investigação
caminho para chegar à compreensão do animal era, por­ biológica, eis o passo para o desconhecido que a obra de
tanto, o estudo da harmonia entre a estrutura e o com­ Uexküll principalmente preparou.
portamento. Não esqueçamos que, exactamente no seu O estudo da presença desta subjectividade é_a_carac-
tempo, era particularmente vivo o clamor erguido a pro­ terístÍcã~dõ~trãbalho biológico dos nossos dias. Mas tão
pósito do cavalo sábio e de outros cavalos calculadores peculiares como isso são as consequências metodológi­
e de cães que raciocinavam. A humanização do animal cas desta atitude. Em vez de introduzirmos no jogo de
encontrava-se então no seu ponto culminante. Esta coin­ factores do fenómeno vital um agente misterioso, que
cidência temporal havia de fortalecer, no pensamento de interviesse em toda a parte como factor explicativo, nós
Uexküll, todas as tendências contrárias e, na verdade, vemos nesta subjectividade uma das incógnitas que o
o seu temperamento combativo fê-lo, às vezes, parecer naturalista procura abordar, objectivamente, pelo estudo
quase mecanista, muito mais singularmente do que seria das manifestações. Pela observação rigorosa de todas as
de esperar da sua concepção da natureza, que reconhecia manifestações do animal, de todas as suas respostas,
sempre em acção qualquer coisa de supernatural. A mis­ nós avançamos cautelosamente para resultados que des­
são do biólogo parecia-lhe residir na busca de estruturas crevem a descoberta e ocupação de espaço ou compreen­
que, por exemplo, no sistema nervoso central, determi­ dem a relação com o ritmo do dia e da noite e com o
navam a génese do mundo-prório e o comportamento do das estações do ano, exactamente como também des­
animal. Tão onge foram os seus escrúpulos perante cobrimos nas hierarquias da vida social a subjectividade
"os resultados de carácter experimental que se, na ver­ de um sujeito em acção. A grande lista de «manifesta­
dade, por um lado, classificava a «tonalidade» das coisas ções» que nos dão testemunho da subjectividade é uma
do mundo-próprio como descritível, como parte do mundo das mais significativas realizações da biologia contem­
exterior, por outro, nunca deixa de mencionar, cautelosa­ porânea.
mente, a, correspondente «disposição» complementar e,
O estudo do comportamento já hoje não se desvia
como já vimos, acentua bem o que nela há de «químico»,
dos problemas que o duplo aspecto do ser vivo nos apre­
a natureza material do seu condicionamento, não fossem
senta: aborda-os por vários caminhos e cautelosamente.
torná-lo suspeito de impulsos românticos.
Aprendemos a distinguir, no estabelecimento de correla­
A evolução mais significativa, a partir de Uexküll é
ções, o que é inato, hereditário, do que tem de ser
o aprofundamento dos estudos da autonomia do ser vivo
aprendido e transformado em hábito. Aprendemos a dis­

[16] 2 - A. HOMENS [17]


cernir as estruturas transmitidas, relativamente rígidas, frente ao considerar com clareza inexcedível e graças a
das outras, mais flexíveis^ Sabemos como estímulos um trabalho insano, não só a actividade do centro vital
iguais podem actuar de maneira tão diversa-s- reconhe­ como a de um_suje[to criador de mundos mas também o
cemos assirrTã variacãa..dQS_estados interiores. Por sua entrelaçamento intrínseco do ser vivo com partes do seu
vez, nestes estados, nestas «disposições», entramos em ambiente.
contacto com um último elemento, para além do qual a
investigação não passa, por enquanto. Assim, numa época
em que a própria filosofia descobriu — ou melhor, redes- O PROBLEMA DA ORGANIZAÇÃO
cobriu o papel fecundo da adaptabilidade perfeita (Befin- SEGUNDO UM PLANO
d iic h k e it) os que se dedicavam ao estudo do comporta*
mento chegaram, por caminhos absolutamente diferentes, Ainda noutro sentido o estudo da vida, no nosso
a este princípio fundamental da conduta e, desse modo, tempo, está prestes a transpor a posição em que o pen­
a uma manifestação objectiva da maneira de ser, des­ samento de Uexküll se deteve há cerca de vinte anos.
conhecida para nós, como experiência, da subjectividade Trata-se da superação do conceito de «planeamento» do
dos animais. O estudo dos estados interiores e do com­ ser vivo.
portamento eliminou um grave inconveniente: superou a Uexküll mostrou incansavelmente, em repetidos
distinção entre corpo e alma como substâncias distintas exemplos, que o plano de construção de .um„Pxq3ílÍsmQ
qüè, ~jüritas, constituem o ser vivo — separação que não está situadorFõra deíêTcomo o de uma máquina. A sua
rãcfica em tradições antiquíssimas da nossa vida repre­ obra d^crêvê7cõm~grande minúcia, como os organismos
sentativa, da nossa imaginação. A biologia contemporâ­ se constroem por si próprios, como os estádios de desen­
nea não estuda separadamente.-o. .aspectõTcofpõfèo ou volvimento se sucedem, ordenados como numa melodia
somático, por um lado, e o espiritual ou psíquico, por e como o plano de amadurecimento da forma funcio­
outro. Pelo estüdo~cfõ’ cõmportamento, nós procuramos nal é um processo de autoconstrução e auto-requlação.
■fioje surpreender, na sua pureza, a realidade desconhe­ Mas o «planeamento», operante, por si mesmo, no orga­
cida e, antes de qualquer divisão mais ou menos estabe­ nismo, acabou por se tomar,~nãsua exposição, um factor
lecida, conhecê-la na sua actividade, como a unidade que particular, uma forma de actividade do género superme-
originalmente nos é dada. Do mesmo modo, a nova ciên­ cânico e inespacial. Outra não era a posição do vitalismo/
cia do homem — a antropologia — também já começa a que, na verdade, tinha superado a estreiteza do meca­
dirigir-se para o comportamento do homem, para a par­ nismo mas que, ao fazê-lo, tinha também ultrapassado,
ticularidade dos seus modos de relação e não reconhece, na sua ânsia de esclarecimento completo, os limites da
neste campo, discutíveis esquematizações de «compo­ possibilidade científica.
nentes» do género corpo-alma-espírito ou «bios» e A panaceia de Driesch era o princípio orgânico indi­
«logos», como partes do ser vivo. vidual da enteléquia; a solução de Uexkiill era a -ru-gani-
Esta orientação tem uma longa história que se não zação segundo um plano que, à luz..da._.a.QSÍcãQ_.„tomada
pode expor aqui. Ela ultrapassa também a posição atin­ pelo autor, passava a ser factor explicativo, uma das
gida pela obra de Uexküll que preparou este passo em qualidades Têconhecidas no ser vivo.

[ 18] [ 19]
A biologia admite hoje esta dificuldade. Como sol mas um sol dos mosauitos que só existe graças aos
W. Szilasi afirma radicalmente numa importante exposi­ olhos destes.» Nada porém, podemos dizer do sol dos
ção, o «plano» do comportamento animal formula, nem mosquitos sem ter verifjcado^o plano de organização do
sempre com felicidade, esta questão: «Como é que, por mundo-próprio dos mosquitos (Teor. Biológ., pág. 233).
exemplo, a abelha é exactamente uma abelha ou como é E aqui se nos apresenta, com clareza, a organização
que o animal é, em suma, um animal» (C iência e F iloso­ segundo um plano como aquilo que é para nós: um enigma
fia, Zurique/Nova Iorque, 1945, pág. 72). Na afirmação de que se entrevê de uma para outra espécie animal e que,
que determinada coisa é susceptível de plano, é «planeá- de cada vez, importa resolver.
vel», atribui-se a essa «alguma coisa» uma qualidade, um O próprio Uexküll acentuou mais de uma vez ser a
predicado, o que sugere a ideia de que, com isso, alguma pesquisa deste plano a missão da biologia: «Todos os
coisa é esclarecida ou explicada. Na realidade, a expres­ planos se enquadram num plano de organização extraor­
são aponta o grande e obscuro enigma, exactamente dinariamente vasto que, até agora, tem sido negado obsti­
aquilo que escapa à compreensão: o mesmo enigma que nadamente. Por muito cómodo que isso fosse, já hoje,
nós também designamos, sim, mas não explicamos, com porém, não é admissível.» Com estas palavras termina a
a palavra «vida». Biologia Teórica, de Jacob Uexküll. Elas apontam muito
Vemos hoje mais claramente que não podemos ocul­ para além do horizonte que limita o campo de trabalho
tar o mistério que envolve o problema do ser vivo com biológico e atestam a atitude do investigador que durante
uma palavra que finge de predicado. Sentimos, de novo, toda a sua vida pesquisou os modos de ordenação do
o que há de obscuro na realidade, em todo o seu poder mundo orgânico e cujo labor arreigou cada vez mais a
misterioso e procuramos descobrir, pela investigação sua convicção acerca das ordenações cósmicas. Os tra­
cautelosa das propriedades reconhecíveis, o que é inves- balhos reunidos neste volume também aludem, repetidas
tigável. vezes, à concepção da Natureza que Uexküll representou.
Assim, fala-se hoje menos de totalidade e de organi­ Essa concepção não se limita a ver nos fenómenos da
zação segundo um plano do que habitualmente se falava natureza só os aspectos pesquisados mas também venera
há vinte anos e por isso vamos pondo, a pouco e pouco, o segredo que se fecha em cada ser vivo à nossa volta.
a descoberto o conjunto de factores, por meio de cuja
acção uma coisa se nos apresenta como um todo ou pro­
curamos determinar a espécie de estrutura que sugeriu
a existência de um plano. É uma ciência do ser vivo na
sua evolução, ciência que não é uma mecânica, nem uma
pneumática, para empregar uma expressão de E. Heuss
(1939). A nova noção de realidade explica também a ati­
tude perante o problema da organização segundo um
plano.
O próprio Uexküll diz algures: «O Sol que propor­
ciona a dança de uma nuvem de mosquitos não_é_o nosso

[20] [ 21 ]
DIGRESSÕES PELOS MUNDOS-
-PRÓPRIOS DO HOMEM
E DOS ANIMAIS
Por J. v. U exküll e Georg Kríszat

P R E F Á C IO

O presente livrinho não tem a pretensão de servir


de guia de uma ciência nova. Limita-se, antes, a incluir
o que podia chamar-se a descrição de um passeio por
mundos desconhecidos. Estes mundos não são apenas
desconhecidos, são também invisíveis: mais do que isso:
o seu direito de existir é-lhes, em geral, contestado por
muitos fisiólogos e zoólogos.
Esta bem curiosa atitude é, para quem conheça esses
mundos, perfeitamente compreensível, pois que o cami­
nho que a eles conduz não é transitável para quem sofra
de certos preconceitos capazes de obstruírem a porta
que lhes dá acesso, tão impenetravelmente que nem um
raio da luz esplendorosa que os inunda a pode atra­
vessar.
Quem se agarrar ao preconceito de que todos os
seres vivos são apenas máquinas, perde toda a esperança

[ 23 ]
de vir jamais a lobrigar os seus mundos-próprios (’)■ Mas mento simultaneamente de assinalamento e de acção,
quem ainda não se ajuramentou na doutrina mecanista não se limitaram aqueles a fazer passar os órgãos dos
dos seres vivos, pode prosseguir nas suas especula­ sentidos e os órgãos de movimento por peças de uma
ções. Todos os nossos dispositivos^e todos os nossos máquina (sem atenderem ao seu assinalar e actuar) mas
maquinismos não passam de meios auxiliares das acti­ foram mais longe, mecanizaram o homem, reduziram o
vidades do hfltnem. E, efectivamente, há certos meios homem a uma máquina. Segundo os beaviouristas, as
auxiliares de trabalho — os chamados instrum entos de nossas sensações e a nossa vontade são meras aparên­
trabalho — em que se incluem todos os complicados cias, no melhor dos casos vêm a valer como acidentes
maquinismos que servem, nas nossas fábricas, para a incómodos.
laboração de matérias-primas, e ainda caminhos-de-ferro, Quem, porém, ainda considera que os nossos órgãos
automóveis, aviões... Mas há também meios auxiliares dos sentidos servem para o nosso assinalar e os nossos
de controlo, a que podemos chamar instrum entos-indica- órgãos de movimento servem para o nosso actuar, verá
dores, como telescópios, óculos, microfones, aparelhos nos animais, não apenas um sistema mecânico, mas dis­
de rádio, etc. cernirá também o m aquinista que se aloja nos órgãos,
De sorte que é, então, óbvio admitir que um animal como nós próprios no nosso corpo.
não é mais do que um conjunto de instrumentos-de-traba- Então considerará os animais, não já como meros
Iho e de instrumentos-indicadores que, pela intervenção objectos, mas como sujeitos, cuja actividade essencial
de um dispositivo coordenador, constituem um todo, que, consiste em assinalar e actuar.
na realidade, não deixará de ser um maquinismo, ainda
Com o fazê-lo abre-se já a porta que conduz aos mun­
que adequado ao desempenho da função. É esta, de facto,
dos-próprios animais, porque tudo aquilo que um sujeito
a maneira de ver de todos os mecanistas teóricos, quer,
assinala passa a ser o seu mundo-de-percepção, e o que
até certo ponto, se inclinem mais no sentido de pensar
ele realiza, o seu mundo-de-acção. Mundo-de-percepção e
num mecanismo rígido, quer no de um dinamismo plás­
mundo-de-acção constituem uma unidade íntegra — o
tico. Os animais ficam, pois, taxados de meros objectos.
mundo-próprio do sujeito,
Com o que se esquece que, desde logo, se pôs de parte
o que é essencial, istò é, o su je ito , o qual se utiliza do Os mundos-próprios, que são tantos quantos os pró­
instrumento auxiliar, com ele assinala e com ele actua. prios animais, oferecem a qualquer admirador da Natu­
A partir da concepção inadmissível de um instru- reza novas terras, tão ricas e tão belas que compensam
bem uma excursão através delas, mesmo quando elas se
não patenteiem aos nossos olhos materiais mas somente
('} O termo U m w elt corresponde em português a ambiente, à nossa visão espiritual.
mundo ambiente ou, com menos propriedade, m eio am biente. No As melhores condições para iniciar tal digressão são
sentido, porém, em que o autor o emprega, ele significa qualquer
um dia de Verão e um prado coberto de flores, ressoante
coisa que depende do ser vivo considerado, e resulta de uma como
que selecção por este realizada, dentre todos os elementos do de zumbidos de coleópteros e pululante de adejares de
ambientè, em virtude da sua própria estrutura específica — o seu borboletas; então construiremos para cada animal dos
mundo-próprio. que povoam o prado, uma como que bola de sabão, que

[ 24 ] [ 25 ]
represente o seu mundo-próprio, preenchida por todos letas nocturnas. O conhecido aguarelista Franz Hutk esbo­
aqueles sinais^ característicos que são acessíveis ao çou para nosso uso os desenhos do quarto e do carvalho.
sujeito. Logo qi^e entremos numa dessas bolas de sabão A todos deixamos aqui expressos os nossos cordiais agra­
transfigura-se completamente o mundo ambiente (') que decimentos.
se abria em volta do sujeito. Muitas qualidades do varie­
gado prado desaparecem inteiramente, outras perdem as Hamburgo, Dezembro, 1933.
suas propriedades gerais; surgem novas correlações. Em
cada bola de sabão passa a existir um mundo novo. J. v. U exküll
Para atravessar connosco esses mundos convidamos
o leitor a acompanhar a descrição que se segue. Os auto­
res, ao prepararem este livro, distribuíram as suas tare­
fas; de modo que um (Uexküll) encarregou-se do texto, e
o outro (Kriszat), do material das gravuras.
Esperamos dar, com esta descrição de viagem, um
decisivo passo em frente, e assim convencer muitos leito­
res de que existem, com efeito, mundos-próprios, e que
com isso se abre um novo e inesgotável campo de investi­
gações. Simultaneamente, este livro testemunhará o espí­
rito de investigação colectiva dos activos colaboradores
do Instituto para o Estudo do Mundo-Próprio, em Ham­
burgo (2).
Agradecemos em particular a o J D r_ K. Lorenz, que
enviando-nos as gravuras que ilustram as suas fecundas
experiências sobre gralhas e estorninhos favoreceu o
nosso trabalho. O Prof. Eggers cedeu-nos amavelmente
um relato pormenorizado dos seus estudos sobre borbo-

(’) Umgebung, em alemão, na acepção de tudo que em volta


do sujeito se desenrola, independentemente de o impressionar ou
o estimular, ou não.
H Comp. Friedrich Brock: Verzeichnis de r S chrifte n J. v.
U exküll und der aus dem In s titu t fu r U m w eltíorschung zu Hamburg
hervorgegangenen A rbeiten. Sudhoffs Archiv fur Gesch. d. Medizin
und d. Naturwiss. Bd, 27, H. 3-4, 1934. J. A. Barth, Leipzig. (Nota da
ed. alemã.)

[ 26 ] [ 27 ]
IN T R O D U Ç Ã O

Não há, certamente, camponês que tendo batido com


o seu cão matos e bosques não tenha travado conheci­
mento com um animalzinho que, suspenso dos ramos dos
arbustos, espia a sua vítima, homem ou bicho, para sobre

Fig. 1 — Carraça

ela se precipitar e se saciar com o seu sangue, inchando,


das dimensões de, o máximo, dois milímetros, até ao
volume de uma ervilha (fig. I).
A carraça, ou carrapato, nomes por que se designa

[ 29 ]
esse animal,^ não é realmente perigosa, mas nem por isso perfurar a membrana absorve qualquer líquido, contanto
deixa de ser um hóspede incómodo dos mamíferos, e que este esteja a temperatura conveniente.
mesmo do homem. O seu ciclo biológico foi de tal modo Se a carraça cai sobre qualquer coisa fria, depois
esclarecido po^r trabalhos recentes que dele podemos de o sinal de ácido butírico ter funcionado, então errou
traçar um relato exacto. de hospedeiro, e tem de voltar a trepar para o seu posto
Do ovo sai um pequeno ser ainda não completamente de espia.
desenvolvido, a que faltam um par de patas e os órgãos . O lauto festim de sangue que a carraça goza é, simul­
da reprodução. Nesta fase já pode atacar animais de tem ­ taneamente, o seu último repasto, pois que agora nada
peratura variável, como, por exemplo, lagartos, que espera lhe resta senão deixar-se tombar no chão, fazer a postura
emboscado na extremidade da haste de uma erva. Depois e morrer.
de sofrer algumas mudas, os órgãos que lhe faltavam Os breves acidentes da vida da carraça dão-nos uma
acabam por se desenvolver, passando então a caçar ani­ adequada pedra-de-toque da solidez do ponto de vista bio­
mais de temperatura constante. Já fecundada, a fêmea lógico, comparado com o método fisiológico, como até
sobe, com as suas já então oito patas, até à parte supe­ aqui se tem aplicado. Para o fisiólógo, cada ser vivo é
rior de um arbusto que lhe agrade, para, de altura conve­ um objecto que se situa no seu mundo-próprio do
niente, se deixar cair sobre pequenos mamíferos furtivos homem. Examina-lhe os órgãos e o seu funcionamento
que passem ao seu alcance, ou arrastar por animais de total, como um técnico examinaria uma máquina que seja
maior porte. nova para ele. O biólogo, ao contrário, toma em conta
O caminho para a sua torre de vigia descobre-o o ani- que cada ser vivo é um sujeito, que vive num mundo
malzinho, que é desprovido de olhos, valendo-se do seu que lhe é particular, de que ele constitui o centro; e, por
tegumento, sensível à luz. A aproximação da vítima é isso, pode comparar-se, não a uma máquina, mas apenas
revelada ao salteador, que além de cego é também surdo, ao maquinista que maneja a máquina.
pelo seu sentido do olfacto. As emanações de ácido Resumindo, a questão pode pôr-se assim: a carraça
butírico que provêm das glândulas da pele dos mamífe­ é uma máquina ou um maquinista? É um mero objecto ou
ros servem para a carraça de sinal de advertência para um sujeito?
abandonar o seu posto de vigia e lançar-se sobre a presa. A fisiologia interpretará a carraça em termos de uma
Se vem a cair sobre qualquer animal de temperatura cons­ máquina e dirá: na carraça podem-se distinguir recepto­
tante, que um apurado sentido térmico lhe denunciou — res, isto é, órgãos dos sentidos, e efectores, isto é, e
então atingiu a sua vítima, e só falta agora, ainda com o órgãos de acção, que, por meio de dispositivo coorde­
auxílio do seu sentido do tacto, encontrar uma zona tanto nador no sistema nervoso central, estão mutuamente rela­
quanto possível livre de pêlos, para se introduzir, até para cionados. O conjunto é uma máquina de que se não dis­
trás da cabeça, nos tecidos cutâneos daquela; e põe-se cerne o maquinista.
a sugar lentamente o sangue quente que jorra. «É exactamente nisso que está o erro», objectará o
Experiências feitas com membranas artificiais e com biólogo. «Nenhuma das partes do corpo da carraça tem
outros líquidos que não sangue mostraram que a carraça as características de um ãlriáquina, ém to'da efa o~que~
é desprovida de sentido do gosto, pois que depois de actua são maquinistas.p

[ 30 ] [ 31 ]
cará o biólogo. «Do que se trata, principalmente, é de
O fisiólogo continuará inabalável: «Na carraça,
maquinistas e não de partes de máquinas. Porque todas
precisamente, verifica-se que todas as actividades assen­
e cada uma das células do arco-reflexo funcionam não
tam exclusivamente em reflexos (1), e o arco-reflexo cons­
com transmissão de movimento, mas com transporte de
titui a base de cada máquina animal (fig. 2). Este começa
estímulo. Um estímulo, porém, deve ser notado por um
por um receptor, isto é, um dispositivo que só admite
sujeito e essencialmente não provém de um objecto.»
certas influências exteriores, como ácido butírico e calor,
Qualquer parte de uma máquina, um badalo de um
mas rejeita tudo mais. E termina num músculo que põe
sino, por exemplo, trabalha apenas maquinalmente quando
de determinada maneira é posto a oscilar. Quaisquer
outras intervenções despertam nele respostas como o
fariam em qualquer mero pedaço de metal. Ora, desde
>ft — 0£2. - 0ttZ - t> John M üller O , nós sabemos que um músculo se com­
porta de uma forma completamente diferente. A qualquer
Fig. 2 — Arco-reflexo intervenção exterior ele responde sempre da mesma
maneira: por uma contracção. Toda a intervenção exterior
é por ele transformada no mesmo estímulo; a todas res­
em actividade um efector, o dispositivo locomotor, ou o ponde com o mesmo impulso que obriga o corpo da célula
dispositivo perfurador. à contracção.
As células sensoriais, que libertam a excitação dos John Müller demonstrou ainda que todas as acções
sentidos, e as células m otoras, que libertam o impulso exteriores que incidem nos nossos nervos visuais, sejam
de movimento, funcionam apenas como peças conecto- elas ondas do éter, compressões ou correntes eléctricas,
ras que conduzem as ondas excitadoras, absolutamente produzem uma sensação visual, isto é, as nossas células
materiais, que são originadas nos nervos, sob a acção do sensoriais visuais respondem com o mesmo sinal-per-
choque exterior. Todo o arco-reflexo trabalha com trans­ ceptivo.
missão de movimento, como qualquer máquina. Nenhum Disto devemos concluir que cada célula viva é um
factor subjectivo, como seja, um ou mais maquinistas, maquinista, que assinala e actua, e por isso possui «assi­
intervém no fenómeno, seja como for.» nalamento» ou percepção e «activação^» ou impulso. As
«O que se passa é exactamente o contrário», repli- múltiplas marcas e acções do sujeito-animal total são,
por consequência, atribuíveis ao trabalho de conjunto de
pequenos maquinistas celulares, cada um dos quais
(') Reflexo, originalmente, significa a captação e reenvio de
somente decide sobre um sinal-perceptivo ou um sinal-
um raio de luz, por um espelho. Aplicado aos seres vivos, o termo
reflexo significa a captação de um estímulo exterior por um recep­ -de-impulso.
tor e a resposta provocada pelo estímulo do efector do ser vivo. Para que seja possível uma cooperação ordenada, o
No fenómeno o estímulo transforma-se em excitação nervosa, que
tem de passar por várias estações para ir do receptor ao efector.
(') Fundador da moderna fisiologia (1801-1858). (Nota da ed.
O caminho assim seguido designa-se por arco-reflexo. (Nota da ed.
alemã.) alemã.)

3 - A. IIOMENS [ 33 ]
[ 32 ]
organismo se^ve-se das células do cérebro (que são tam­ Outro tanto, exactamente, se passa no órgão-de-
bém maquinistas elementares), e agrupa metade delas -impulso. Nele as células-de-impulso desempenham o
como «células assinaladoras» ou células-de-percepção na papel de maquinistas elementares, que, neste caso, con­
parte do cére&ro receptora de estímulos, isto é, no soante as suas actividades, ou impulsos, se ordenam em
«órgão-assinalador, ou de-percepção», em faixas mais ou grupos bem articulados. Também aqui existe a possibili­
menos extensas. Estas faixas correspondem a grupos de dade de os impulsos individualizados se concentrarem em
estímulos exteriores que entram como perguntas no unidades que actuam sobre os músculos, a elas subordi­
sujeito-animal. A outra metade das células do cérebro nados, como impulsos encadeados ou melodias de impul­
utiliza-as o organismo como «células activadoras» ou sos, ritmicamente articulados. Depois do que os efectores
células-de-impulso, e agrupa-as em faixas com que postos em acção pelos músculos imprimem aos objectos
comanda os movimentos dos efectores, que comunicam situados fora do sujeito a sua realidade.
ao mundo exterior as respostas do sujeito-animal. A _marca-de-acção que os efectores imprimem ao
As faixas das células-de-percepção constituem o objecto é directamente reconhecível — como a ferida que
«órgão-de-percepção» do cérebro, e as faixas das células- o ferrão da carraça produz na pele do mamífero por ela
-de-impulso, o «órgão-de-impulso». atacado. Mas, primeiro, a difícil descoberta dos sinais
Se, pois, nos permitimos imaginar um órgão-de-per­ característicos do ácido butírico e do calor completou o
cepção como um centro de faixas de percepção alternadas quadro da carraça laboriosa no seu mundo-próprio.
e maquinistas celulares que são os portadores de percep­ Em sentido figiiradfl.,.p_ode. d izer-aeque cada sujeito-
ções específicas, no entanto elas conservam-se entida­ -animal apreende o seu obieclQ-com-as_duas hastes de
des espacialmente distintas. Os seus sinais-perceptivos urna_tenaz — uma haste de perceber out ra de impulsio­
permaneceriam também distintos, se não tivessem a pos­ nar. Com uma confere-lhe, um atributo, com a_ontra. uma
sibilidade de se fundirem em novas unidades, fora do m arca-de-acção. Por este meio certas propriedades do
órgão-de-percepção, espacialmente fixado. Ora tal possi­ objecto passam a ser portadoras de sinal-caracterís­
bilidade existe efectivamente. Os sinais-perceptivos de tico, certas outras, de marca-de-acção. Como todas as
um grupo de células-de-percepção reúnem-se fora do propriedades de um objecto estão ligadas umas às outras
órgão-de-percepção, na realidade fora do corpo de animal, pela estrutura deste, as atingidas pelo sinal-de-impulso
em unidades que passam a ser atributos dos objectos devem exercer no objecto a sua influência sóbre as por­
situados fora do sujeito-animal. Este facto é bem conhe­ tadoras de sinal-característico e também actuar sobre
cido de todos. Todas asjiossas sensações humanas, que estas modificando-as, o que resumidamente melhor se
figuram os nossos assinalamentos, ou percepções, espe.- exprime dizendo: a marca-de-acção cancela o sinal-carac-
cíficos, convergem nos atributos dos objectos exteriores, te rístico .
que nos servem como sinais-característicos que utiliza­ O número e a ordenação das células-de-percepção
mos. A sensação «azul» passa a ser a «cor azul» do céu; que por meio dos seus sinais-perceptivos assinalam os
a sensação «verde» passa a ser a «cor verde» da relva, objectos do seu mundo-próprio com sinais-característicos
etc. No sinal-característico, ou carácter, azul, reconhece­ e o número e ordenação das células-de-impulso que por
mos o céu, no carácter verde reconhecemos a relva. meio dos seus sinais-de-impulso dão aos mesmos objec-

[ 34 ] [ 35 ]
tos marcas-de-acção são, principalmente, e a par da
feição aos seus mundos-próprios. Aos primeiros corres­
selecção de estímulos que os receptores realizam e da
pondem mundos-próprios simples, aos segundos, mundos-
ordenação dos músculos que permite aos efectores mani­
-próprios complexos.
festarem-se, decisivos no desenrolar de cada forma de
E agora situemos no esquema do ciclo-de-função a
comportamento de todos os sujeitos animais.
carraça como sujeito e o mamífero como objecto. Verifi­
O objecto, somente no que respeita ao comporta­
ca-se imediatamente que decorrem segundo um plano
mento, é como se devesse possuir as propriedades neces­
três ciclos-de-função, e uns a seguir aos outros. As glân­
sárias, que por um lado pudessem servir como portado­
dulas cutâneas do mamífero constituem o portador de
ras de sinais-característicos, e por outro de portadoras
sinal característico do primeiro ciclo, pois o estímulo
ácido butírico liberta no órgão-de-percepção sinais-per-
ceptivos, específicos, que são transportados para a peri­
Mundo de Percepção feria como carácter olfactivo. Os fenómenos que se pas­
sam no órgão-da-percepção provocam por indução (em
Receptor que tal consiste, ignoramo-lo) no órgão-de-impulso impul­
órgão de Percepfio Portador de sinal característico sos correspondentes, que produzem o movimento dos
membros locomotores e a queda do animal. A carraça
Órgão de impulso Portador de marca de acção ao cair confere aos pêlos do mamífero a marca-de-acção
Efector do choque, que então, por seu turno, liberta um carácter
táctil pelo que o carácter olfactivo do ácido butírico é
Mundo de acção cancelado. O novo carácter provoca um movimento de
vaguear, até que na primeira zona sem pêlos é remido
Fig. 3 — Ciclo-de-Função pelo carácter calor, e aí começa o trabalho de perfu­
ração.
Sem dúvida trata-se aqui de três reflexos que se vão
anulando sucessivamente e são sempre desencadeados
de marcas-de-acção que devessem estar em associação
por ajustamento mútuo. por acções físico-químicas objectivamente determináveis.
As relações de sujeito com objecto jsstão ilustradas Mas quem se contente com esta verificação e julgue ter
no ésquemã~gõ~ciclo-de-funcão ffiq. 3). Ele mostra corrio com ela resolvido a questão, mostra apenas que não
sujeito e objecto se ajustam reciprocamente e constituem alcançou o verdadeiro problema. Não é o estímulo quí­
um todo que obedece a um plano. Se, além disso, se supõe mico do ácido butírico que se debate, nem tão-pouco o
que um sujeito se liga a um ou vários objectos por vários estímulo mecânico (desencadeado pelos pêlos), nem
ciclos-de-função, fica-se, então, fazendo uma ideia do ainda o estímulo térmico da pele, mas apenas o facto
conceito fundamental da doutrina do mundo-próprio, a de saber £orquê, entre as centenas de. acções que resul-
saber: todos os sujeitos animais, os mais simples como tam_das propriedades do corpo do mamífero, só três se
os mais complexos, estão ajustados com a mesma per­ tornam portadoras de sinais característicos relativamente
à carraça, e porquê essas três e não outras.
[ 36 ]
[ 37 ]
Não se trata de qualquer reciprocidade de forças vel, que nos desvenda uma perspectiva muito mais vasta
entre dois objectos, mas sim das correlações entre um dos mundos-próprios.
sujeito vivo e o\seu objecto, e estas manifestam-se num É imediatamente evidente que a inesperada fortuna
plano inteiramente diferente, a saber entre as percep­ da passagem de um mamífero por sob o ramo sobre que
ções do sujeito e o estímulo do objecto. a carraça se encontra é muito rara. Este inconveniente
nem pelo grande número de carraças que se emboscam
A carraça está suspensa, imóvel, da extremidade de
nos arbustos é suficientemente compensado para asse­
um ramo numa clareira. Pela sua situação oferece-se-lhe
gurar a subsistência da espécie. A faculdade de a carraça
a oportunidade de cair sobre um mamífero que por ali
poder viver muito tempo sem se alimentar, aumenta as
passe. De todo o ambiente não incide sobre ela nenhum probabilidades de vir a passar uma presa ao seu alcance.
estímulo. Então, aproxima-se um mamífero, de cujo san­ Essa faculdade possui-a a carraça em grau invulgarmente
gue ela necessita para o desenvolvimento da sua prole. elevado. No Instituto Zoológico de Rostock conserva­
E agora qualquer coisa de bem maravilhoso se passa: ram-se vivas carraças que chegaram a jejuar durante
de todas as acções provenientes do corpo do mamífero dezoito anos (1). Isso a nós, homens, ser-nos-ia impossí­
só três passam a constituir estímulos e, essas, em vel. O tempo no nosso mundo-humano é constituído por
sequência bem determinada. Do vasto mundo que rodeia uma série de momèntos curtrssmTõí^^injrante os quais
a carraça fulguram três estímulos, como sinais luminosos o mundo não manifesta qualquer mudança._ D urgiile- um
dentre as trevas, e servem à carraça de guias, que ela momen tã Ã ia u n d o xions.erva;se.invarlável. O momento do
confiadamente segue até atingir o seu objectivo. Para
tal ser possível as carraças são dotadas, além do seu
(') A carraça está, sob todos os pontos de vista, organizada
corpo com os seus receptores e efectores, de três sinais- para resistir a um longo período de jejum. As células seminais que
-perceptivos que pode utilizar como três sinais caracte­ a fêmea recebeu e conserva dentro de si durante o período de
rísticos. E é por meio destes que à carraça o fluir do seu espera estão contidas dentro de cápsulas, até o sangue do mamí­
comportamento é tão determinadamente prescrito que fero chegar ao estômago da carraça. Quando isso se dá elas são
postas em liberdade e fecundam os óvulos que esperavam nos
ela só pode realizar actos perfeitamente determinados.
ovários. Em contraste com a adaptação perfeita da carraça ao seu
Todo o opulento mundo ambiente que rodeia a car­ objecto-presa, que ela acaba por encontrar, está a fraquíssima pro­
raça se contrai e se transforma num quadrõ~me"squinh5 babilidade de que tal suceda, mesmo apesar do longo tempo de
que essencialmente consiste ainda em três sinais carac- espera possível. Bodenheimer tem perfeitamente razão quando fala
de um péssimo, isto é, de um mundo reconhecidamente desfavo­
te ríitlcõ s~ ê lrê s marcas-dF-ãQ ção^rã-seu-m uncio-pró pxJo .
rável em que vive a maioria dos anit|hais. Somente, este mundo não
A indigência desse mundo-próprio ajusta-se, porém, é o mundo-próprio de cada um delés, mas o mundo ambiente de
estreitamente à segurança do comportamento, e segu­ todos. Mundo-próprio óptim o, isto é, reconhecidamente favorável, e
rança vale mais que riqueza. Do exemplo da carraça pode mundo am biente péssimo, pode considerar-se a regra geral. Porque
deduzir-se o que é fundamental na estrutura dos mundos- sucede sempre deverem tombar muitos indivíduos para que a espé­
cie subsista. Se o mundo ambiente não fosse, para certa espécie,
-próprios dos diferentes seres, e é válido para todos os péssimo, então esta, devido ao seu mundo-próprio, óptimo, podia
animais. Mas a carraça possui uma faculdade muito notá­ conquistar a supromacla sobro todas as outras. (Noto do autor.)

[ 38 ] [ 39 ]
homem é de 1/18 segundos Q . Veremos adiante que a Kant, unidade que ela aproveitará no aspecto científico-
duração do momento varia com os diferentes animais, -natural da doutrina dos mundos-próprios, ao acentuar-se
o papel decisivo do sujeito.
mas seja qual for o valor que queiramos estabelecer para
o caso da carraça, a possibilidade de suportar um mundo-
-próprio invariável durante dezoito anos está fora do
1. OS ESPAÇOS DOS MUNDOS-PRÓPRIOS
alcance de todas as probabilidades. Admitiremos, pois,
que a carraça durante o seu período de espera se encon­
Assim como um gastrónomo, do bolo só escolhe as
tra como que num estado de letargia, que também em
passas, assim também a carraça, das coisas do seu
nós interrompe o tempo por horas. Somente, o tempo no
ambiente só seleccionou o ácido butírico. Não nos inte­
mundo-próprio da carraça pára, durante o seu período de
ressa saber que sensação gustativa as passas desper­
espera, não por horas apenas, mas por vários anos, e ela tam no gastrónomo, mas apenas o facto de as passas se
volta à actividade quando o sinal de aviso «ácido butírico» tornarem sinais-característicos do seu mundo-próprio,
a desperta para a nova fase de actividade. pois que, para ele, são dotadas de significado biológico
Que ganhámos com esta noção? Alguma coisa muito especial; assim, também, não perguntamos como o ácido
significativa. O tempo, que serve de moldura a todo o butírico cheira ou sabe à carraça, mas registamos apenas
acontecer, apresenta-se como a única constante objectiva o facto de o ácido butírico ter passado a ser biologica­
perante a variada mudança do seu conteúdo, e agora mente significante como sinal-característico carraça.
vemos que o sujeito controla o tempo do seu mundo-pró- Contentamo-nos com o admitir que no órgão-de-per-
prio. Ao passo que até agora dizíamos: sem tempo não cepção da carraça devem existir células de percepção
pode existir nenhum sujeito vivente, devemos agora que manifestam os seus sinais-perceptivos, como o admi­
dizer: sem um sujeito vivente não pode existir qualquer timos igualmente relativamente ao órgão assinalador do
tempo. gastrónomo. A única diferença é que a percepção do
No próximo capítulo veremos que outro tanto sucede ácido butírico passa a ser um sinal característico do seu
com o espaço: sem um sujeito vivente não pode existir mundo-próprio, ao passo que é a percepção das passas
nem qualquer espaço nem qualquer tempo. Com isto o que, no gastrónomo, passa a ser um sinal característico
encontrou a biologia unidade definitiva na doutrina de do seu.
O mundo-próprio do animal, que exactamente preten­
demos estudar, é apenas uma fracção do mundo ambiente
{') Demonstra-o o cinema. Na passagem de um filme, os qua­ que nós vemos desenrolar-se em volta do animal — e este
dros devem suCeder-se e deter-se alternadamente. Para que apare­
mundo ambiente não é mais que o nosso mundo-próprio
çam com perfeita nitidez, as exposições instantâneas e distintas
humano. O primeiro problema no estudo dos mundos-
devem ser ocultadas por um anteparo. A ocultação produzida, ver­
dadeiramente passa despercebida, se entre a ocultação e a exposi­ -próprios consiste em escolher, dentre os sinais carac­
ção medear um intervalo de tempo de 1/1 8 segundos. Se esse terísticos do mundo que o rodeia, aqueles que são par­
tempo fosse mais longo resultaria uma tremulação insuportável. ticulares ao animal e com eles construir o seu mundo-
(Nota do autor.) -próprio. O sinal característico «passas» deixa a carraça

[ 40 ] [ 41 ]
perfeitamente indiferente, ao passo que o sinal caracte­ a) O espaçazd£.-axzeãe-
rístico ácido bgtírico desempenha no seu mundo-próprio
um papel importante. No mundo-próprio do gastrónomo o Quando, de olhos fechados, movemos livremente os
que tem significado acentuado é, não o sinal caracterís­ nossos membros, estes movimentos, tanto em direcção
tico ácido butírico mas o sinal característico «passas». como em extensão, são-nos exactamente conhecidos.
Cada sujeito fia as suas correlações como os fios Abrimos com as nossas mãos caminho num espaço a que
de uma aranha, relativamente a determinadas proprie­ damos o nome de âmbito dos nossos movimentos, ou,
dades das coisas, e tece-as numa sólida teia que suporta abreviadamente, espaço-de-acção.
a sua existência. Todos estes caminhos são por nós seguidos a peque­
Quaisquer que possam ser as correlações entre o nas passadas a que chamamos passos-de-orientação, por­
sujeitõ~e~os objectos do seu mundo ambiente elas ocor- que a direcção de cada uma delas nos é rigorosamente
r6[D„sempre exteriorm ente.ao sujeito em que temos de conhecida mercê de uma sensação de orientação, ou
escolher os sinais característicos. Os sinais característi­ sinal-de-orientação. E, na realidade, distinguimos seis
cos, ou qualidades, são, por isso, sempre de qualquer orientações, que se opõem duas a duas: para a direita e
modo espacialmente ligados, e, põís que eles sVlibertãm para a esquerda, para cima e para baixo, para diante e
uns aos outros numa certa ordem, são também ligados para trás.
temporalmente. Têm-se feito estudos que provam ser de cerca de
Só por excessiva leviandade alimentamos a ilusão dois centímetros as passadas mais curtas que podemos
de as correlações do sujeito, outro que não nós, com as dar, avaliadas pelo avanço do dedo indicador com o braço
coisas do seu mundo-próprio existirem no mesmo espaço estendido. Estas passadas não dão, como se vê, uma
e no mesmo tempo que as que nos ligam às coisas do medida exacta do espaço em que elas são seguidas. Cada
nosso próprio mundo humano. Esta ilusão é alimentada um de nós pode fazer uma ideia aproximada desta inexac­
pela suposição da existência de um mundo único em que tidão, procurando levar ao contacto uma da outra, as pon­
todos os seres vivos estão encerrados. Daí, a convicção tas dos dois indicadores das mãos. Verificaremos que
geralmente aceite, de que deve haver um único espaço a maior parte das vezes isso não se consegue e que
e um único tempo para todos os seres vivos. Só recen­ aquelas passam à distância de dois centímetros uma
temente surgiram no espírito dos físicos dúvidas sobre da outra.
a existência de um universo com um espaço válido para É, para nós, do mais alto significado o poder muito
todos os seres. Que tal espaço não pode existir resulta facilmente reter de memória o deslocamento uma vez
já do facto de cada homem viver em três espaços que seguido, o que nos permite escrever às escuras. Chama­
se penetram mutuamente, completando-se, mas que tam­ mos a esta capacidade «cinestesia», designação que
bém até certo ponto se contrapõem. nada de novo nos diz.
Ora, o espaço-de-acção não é meramente um espaço
de movimento constituído por milhares de passadas-de-
-orientação que se cruzam, mas possui um sistema de
referência formado por planos perpendiculares entre si,

[ 42 ]
[ 43 ]
rir a tridimensionalidade do nosso espaço a um órgão
que definem o conhecido sistema de coordenadas, que
sensorial situado no nosso ouvido interno — os canais
serve de base a todas as determinações espaciais.
semicirculares (fig. 5), cuja posição corresponde aproxi­
É de fundamentai importância que quem se ocupa do
madamente aos três planos do espaço-de-acção.
estudo do problema do espaço se compenetre deste facto.
Esta correspondência mostram-na tão claramente
Que é tudo que há de mais simples. Basta movermo-nos
numerosas experiências, que podemos formular a
para um e outro lado, com os olhos fechados e as palmas
seguinte proposição: todos os animais que possuem três
das mãos verticais e perpendiculares à testa, para, sem
canais semicirculares dispõem também de um espaço
mais nada, podermos fixar o limite entre direita e
esquerda. Este limite coincide aproximadamente com o
plano mediano do corpo. Se nos deslocamos com as pal­
mas das mãos colocadas horizontalmente e à altura dos
olhos, para cá e para lá, podemos analogamente determi­
nar onde se encontra o limite entre abaixo e acima. Este
limite está, na maioria das pessoas, situado à altura dos
olhos; mas em muitas encontra-se à altura do lábio supe­
rior. O limite entre o anterior e o posterior, que se deter­
mina com as palmas das mãos voltadas para a frente de
um e outro lado da cabeça e deslocando-as para trás e
para diante, está situado, em grande número de pessoas,
à altura do orifício do ouvido, noutras, à altura da arcada
zigomática, e ainda noutras, à altura da ponta do nariz.
Cada pessoa normal dispõe de um sistema de coordena­
das formado por estes três planos, estritamente relacio­
nado com a cabeça (fig. 4) e com que confere ao seu
espaço-de-acção o quadro fixo em que se dão os passos-
-de-orientação.
No labirinto confuso dos passos-de-orientação, que
como elementos de deslocamento não podem conferir ao
tridimensional. A fig. 6 representa os canais semicircula­
espaço-de-acção nenhuma fixidez, os planos fixos de refe­
res de um peixe. É evidente que estes devem ser da
rência fornecem uma estrutura segura que garante a
máxima importância para o animal. Em apoio disto se
ordem no espaço-de-acção.
pronuncia também a sua estrutura interna, que neles tem
A grande contribuição de Cyon (1) consistiu em refe-
um sistema de canais em que, sob o controlo dos nervos,
se desloca um fluido nas três direcções do espaço.
O Elie v. Cyon (1842-1912), fisiólogo russo, descobridor de O movimento do fluido reflecte fielmente os movimentos
nervos e funções nervosas muito importantes. (Nota da edição
de todo o corpo. Isto mostra-nos que o órgão, além da
alemã.)

[ 44 ] [ 45 ]
direcção das «portas de entrada». Quando todos os movi­
mentos do corpo em bloco, se decompõem e são regista­
dos em três direcções nos canais semicirculares, o ani­
mal deve encontrar-se no ponto de partida, quando, por
meio de vibrações, os sinais nervosos tenham voltado
ao zero.
É indubitável que uma bússola que indique as portas
de entrada deve ser, para todos os animais que dispo­
nham de um lugar onde se recolham, ninho ou local de
postura, um recurso indispensável. A garantia de terem
à sua disposição as portas que lhe dão acesso, obtida por
sinais ópticos no espaço visual, não é, em geral, sufi­
ciente, porque eles devem poder reencontrá-las mesmo
quando elas tenham mudado de aspecto.
A capacidade de redescobrirem as portas de entrada
no espaço-de-acção puro, pode demonstrar-se que existe
também nos insectos e moluscos, apesar de estes ani­
mais não possuírem canais semicirculares.
A seguinte experiência é bem convincente (fig. 7).
função de deslocar os três planos no espaço-de-acção, Enquanto a maior parte das abelhas de uma colmeia voam
tem ainda um outro significado. E, de facto, parece que pelo campo, desloca-se esta do seu lugar habitual para
ele desempenha ainda o papel de bússola. Não uma bús­ uns dois metros de distância. Verifica-se então que, de
sola que se oriente sempre na direcção norte-sul, mas na volta a ela, se acumulam pairando no ar, no lugar em que
ela antes se encontrava e com ela o orifício de acesso —
o seu ponto de partida. Só passados uns cinco minutos
elas se resolvem a voar para aquela sua nova situação.
Levando mais longe esta experiência demonstrou-se
que aquelas abelhas a que se tinham cortado as antenas
se dirigiam sem se deterem para a colmeia deslocada, o
que significava que, só enquanto as possuíam se orienta­
vam no espaço-de-acção. Sem elas orientam-se à custa
dos sinais visuais do campo. As antenas da abelha devem,
pois, considerar-se como órgão que, de qualquer modo,
desempenha o papel de bússola da porta de acesso na
sua vida normal, e lhe indica o caminho de regresso com
Fig. 6 — Canais semicirculares de um peixe mais certeza que os sinais visuais.

[ 46 ] [ 47 ]
b) O espaço tá c til

A pedra de fundação do espaço táctil não é nenhuma


grandeza cinemática como a passada-de-orientação, mas
sim uma grandeza estática, isto é, o local. O local tam-

Posição anterior da cclmsia


Fig. 7 — Espaço-de-acção da abelha

Ainda mais surpreendente é a análoga descoberta-


-do-lar, que os Ingleses designam pelo termo hom ing, por
parte da lapa (’} (fig. 8). A lapa vive entre as zonas das
marés, sobre as rochas. Os grandes exemplares da espé­
cie gravam na rocha para seu uso e com a sua concha
dura, um leito em que, aderindo fortemente a ela, pas­
sam o período da baixa-mar. No período da preia-mar
começam a deslocar-se e a pastar nas rochas dos seus
Fig. 8 — Descoberta do lar pela lapa
arredores. Logo que a maré começa a baixar buscam de
novo o seu leito, não seguindo sempre o mesmo caminho.
Os olhos da lapa são tão rudimentares que o molusco, só
à custa deles, muito dificilmente consegue reencontrar o bém deve a sua existência a um sinal-perceptivo do
seu ponto de partida. A existência de qualquer indício de sujeito e não é qualquer aspecto inerente à matéria
olfacto é tão improvável como a de um sentido de visão. do ambiente. Foi Weber (') quem o demonstrou. Quando
Só resta admitir a existência de uma como que bússola se colocam as pontas de um compasso, afastadas de
orientadora no espaço-de-acção, de que todavia não pode­
mos fazer a mínima ideia. (') Ernest Heinrich W eber (1795-1878) contribuiu para a
fundação da fisiologia moderna. Estudou o sentido do tacto na pele.
(’) Molusco gastrópode marinho do género Patella. (Nota da ed. alemã.)

[48] 4 -A . IIOMENS [49]


um centímetro uma da outra (fig. 9), sobre o pescoço de um local em espaço-táctil. Os territórios da nossa pele
uma pessoa, elas são apercebidas como distintas uma da que, ao serem tocados, produzem a mesma percepção-
outra. Cada àma delas encontra-se num local diferente -de-localização variam largamente de extensão, conforme
do da outra. Quando se transportam, sem alterar a sua a importância que tem para o tacto a região da pele que
distância, as duas pontas do compasso para as costas e é tocada. A par da ponta da língua, que tacteia a cavi­
para pontos cada vez mais afastados do pescoço, é como dade bucal, as extremidades dos nossos dedos possuem
os territórios de menor extensão, e podem, por isso, dis­
tinguir uns dos outros a maior parte dos locais. Quando
tocamos com os dedos um objecto, atribuímos, por inter­
médio destes, à sua superfície um delicado mosaico de
locais. O mosaico de locais dos objectos dos lugares fre­
quentados por um animal é, tanto no espaço táctil como
no espaço visual, uma atribuição feita pelo sujeito às
coisas do seu mundo-próprio, que de modo nenhum
existe no ambiente.
Ao tocarem-se pontos diferentes, os locais relacio­
nam-se com as passadas-de-orientação e juntos servem
para o esboçar da forma.
O espaço táctil desempenha um papel muito impor­
tante em muitos animais. Os ratos e os gatos continuam
a deslocar-se sem hesitar, mesmo quando cegos — con­
tanto que conservem os seus pêlos tácteis. Todos os ani­
mais nocturnos e todos os que habitam em grutas vivem
essencialmente em espaço táctil, que uma fusão de loca­
lizações e passadas-de-orientação delimita.

Fig. 9 — Compasso de Weber


c) O Rspar.n-viRual

se elas estivessem cada vez mais próximas uma da outra,


Os animais desprovidos de olhos, que, como a car­
até que, com esse mesmo afastamento, é como se as
raça, possuem pele sensível à luz, é de presumir que
duas pontas tocassem a pele no mesmo ponto.
possuam as mesmas zonas tegumentares para a realiza­
Daqui se conclui que além do sinal-perceptivo da
ção de localizações, tanto por meio de estímulos lumino­
sensação do tacto possuímos sinais-perceptivos para a
sos como por meio de estímulos tácteis. Localizações
sensação do local, a que chamamos sinais do local. Cada
ópticas e localizações tácteis coincidem no seu mundo-
percepção-de-localização corresponde, exteriorizada, a
-próprio.

[ 50 ]
[ 51 ]
Só nos animais providos de olhos, o espaço visual local. De modo que o local representa a menor porção de
e o espaço táctil se distinguem um do outro. Na retina espaço dentro do qual não há qualquer diferenciação.
do olho os pequeníssimos territórios elementares — os A aparente diminuição de grandeza dos objectos não
elementos visuais — dispõem-se muito densamente uns se dá no espaço táctil. E é neste ponto que espaço visual
em relação aos outros. A cada elemento visual corres­ e espaço táctil se opõem. Quando pegamos numa chá­
ponde um acidente local no mundo-próprio, pois que se vena com o braço estendido e a dirigimos para a boca,
provou que a cada elemento visual corresponde um sinal- ela aumenta de dimensões aparentes em espaço visual,
-do-local. mas não em espaço táctil. Neste caso o espaço táctil
A fig. 10 representa o espaço visual de um insecto tem vantagem sobre o espaço visual pois que o aumento
de tamanho da chávena passa despercebido a um obser­
vador não atento.
Como a mão que palpa, o olho que olha em volta
estende sobre todas as coisas do mundo-próprio um deli­
cado mosaico de locais, cuja finura depende do número
de elementos visuais que atingem as mesmas secções
do ambiente.
Pois que o número dos elementos visuais varia muito
de animal para animal, o mosaico-de-locais deve também
variar. Quanto menos fino for tanto maior número de par­
ticularidades das coisas devem perder-se, e o mundo,
visto por um olho de mosca deve parecer muito mais
grosseiro do que o visto por um olho humano.
Como cada imagem pode variar por sobreposição de
uma rede fina num mosaico de locais, o método da rede
proporciona-nos a possibilidade de realizar a representa­
ção dos mosaicos de locais dos diferentes animais.
Basta, para tanto, reduzir sucessivamente a mesma
representação, vê-la depois através da mesma rede, foto-
grafá-la e depois ampliá-la. Assim aquela se pode trans­
voador. É fácil ver que, em consequência da forma con­
formar num mosaico cada vez mais grosseiro, reprodu­
vexa do ,olho, o território do mundo exterior que atinge
zindo-o em aguada, sem rede, que tornaria confuso o seu
um elemento visual aumenta com a distância, e por cada
aspecto. As figs. 11 a-d são aqui representadas tal como
local é discernida uma parte do mundo ambiente cada
se obtiveram pelo método da rede, e dão-nos a possibili­
vez mais vasta. Disto resulta que todos os objectos que
dade de se obter um aspecto do mundo-próprio de um
ficam mais afastados do olho se apresentam cada vez
animal, quando se conhece o número de elementos
mais pequenos até desaparecerem no interior de um
visuais do seu olho. A fig. 11 c corresponde aproximada-

[ 52 ]
[ 53 ]
mente à reprodução fornecida pelo olho da mosca domés­
tica. É fácil de compreender que num mundo-próprio que
apresenta tão poucas particularidades, os fios de uma
teia de aranha devem passar completamente despercebi­
dos, e é legítimo dizer: a aranha tece uma teia que é
completamente invisível à sua presa.
A última figura (11 d) corresponde aproximadamente
à representação da impressão dada por um olho de
molusco. Como se vê, o espaço visual das lapas e dos
mexilhões contém apenas algumas manchas escuras e
claras (’).
Como no espaço táctil, as conexões no espaço visual
são feitas por passadas de orientação de local para local.
Quando fazemos uma preparação à lupa, que tem por
função discernir um grande número de locais em uma
pequena área, podemos verificar que não é só a nossa
Fig. 11 a — Fotografia de uma rua de aldeia vista mas também a nossa mão que guia a agulha de
dissecção, realiza passadas-de-orientação muito mais
curtas, correspondentes a locais tornados muito mais
próximos uns dos outros.

2. O HORIZONTE

Ao contrário do espaço-de-acção e do espaço táctil,


o espaço visual é limitado em toda a volta por uma
parede impenetrável, a que chamamos o campo longín­
quo, ou o horizonte.
Sol, Lua e estrelas movem-se, sem distância em pro-

(’) Estas representações indicam apenas o processo que leva


a fazer uma primeira ideia das diferenças dos aspectos sob que
vários animais vêem os objectos exteriores. Quem queira ficar com
uma ideia das particularidades desses aspectos dinâmicos, no caso
dos insectos, terá um guia na obra de K. v. Frisch Aus dem Leben
der Bienen («Acerca da Vida das Abelhas»), ed. Springer, 5.“ edi­
ção, 1953. (Nota da ed. alemã.)

[ 54 ] [ 55 ]
r< fundidade entre si, sobre o mesmo horizonte, que inclui
tudo o que se abrange com a vista. A situação do hori­

f WM f
zonte não é invariavelmente fixa. Quando depois de uma
grave febre tifóide eu dei o meu primeiro passeio fora
de casa, o horizonte pendia como uma colgadura varie­
gada a uns vinte metros de distância, sobre a qual tudo
. í. o que eu via se delineava. Para além de vinte metros
*>.- rf f não havia quaisquer objectos mais próximos ou objectos
mais afastados, mas só objectos maiores ou menores.
fv A lente do nosso olho (o cristalino) tem a mesma
função que a de uma câmara fotográfica: a de projectar
nitidamente na retina, que corresponde à placa fotográ­
fica, os objectos situados em frente dos nossos olhos.
d B a & tt-
A lente do olho humano é elástica e pode, pela acção de
músculos próprios a ela ligados, variar mais ou menos
de curvatura (o que corresponde à focagem da lente da
Fig. 11 c — A mesma para um olho de mosca
câmara fotográfica).
Em virtude da contracção dos músculos do cristalino
manifestam-se sinais de orientação no sentido de trás
para diante do olho. Quando esses músculos, relaxan-
do-se, se alongam pela acção da elasticidade da lente, os
sinais dados indicam o sentido de diante para trás.
Quando os músculos estão completamente relaxa­
dos, o olho está acomodado para a distância desde dez
metros até ao infinito.
Dentro de um círculo de dez metros, as coisas no_
nosso mundo-próprio, em virtude da acção dos movimen:
tõs~dõs músculos do cristalino, apresentam-se-nos como
próximas ou afastadas. Para além desse .círculo dá-se,
naturalmente, apenas um aumento ou diminuição do tama­
nho dos objectos. Nas crianças de peito o espaço visual
termina àquela distância, limitado por um horizonte que
tudo abrange. Só depois, a pouco e pouco, começamos
a aprender, à custa de sinais-de-distância, a alargar cada
vez mais o nosso horizonte, até que, ainda gradualmente
Fig. 11 d — A mesma para um olho de molusco
com o nosso desenvolvimento, este limita o espaço visual

[ 56 ] [ 57 ]
a uma distância de seis a oito quilómetros, em que aquele
começa.
A diferença entre o espaço visual de uma criança e o
de um adulto eWá figurada na fig. 12, que reproduz grafi­
camente uma experiência comunicada por Helmholtz (1).
Relata ele que, ainda pequeno, ao passar pela igreja da
guarnição de Potsdam, notara na galeria da torre daquela
alguns operários. Pediu então a sua mãe que lhe fosse
buscar um daqueles bonequitos pequenos. A igreja e os
operários já estavam contidos no seu horizonte, e por
isso não estavam afastados, eram apenas pequenos. Tinha
pois toda a razão para admitir que sua mãe podia, com
os seus braços compridos, tirar os bonecos da galeria.
Ele não sabia que no mundo-próprio de sua mãe a igreja
tinha dimensões perfeitamente diferentes das que tinha
no seu, e que na galeria o que havia era homens, não,
pequenos, mas, afastados. Quanto aos animais, a situa­
ção do horizonte nos seus mundos-próprios é difícil de
determinar, porque a maior parte das vezes não é fácil
de experimentalmente verificar quando é que um objecto
do ambiente, ao aproximar-se do sujeito não só passa a
ser maior mas também a ficar aparentemente mais pró­
ximo. Estudos de captura de moscas domésticas mostram
que só quando a nossa mão se aproxima até cerca de
meio metro de distância esta foge voando. Por conse­
guinte, é de admitir que o horizonte da mosca deverá
estar a esta distância aproximadamente.
Mas outras experiências realizadas ainda com a
mosca doméstica deixam entrever que no seu mundo-pró­
prio o horizonte se revela de outra maneira. Sabe-se que
as moscas não só giram em volta de uma lâmpada sus-

(') Hermann v. Helmholtz (1821-1894), fisiólogo e físico


inventor do oftalmoscópio, defensor da teoria ondulatória de Max­
well; autor de interpretações sobre a natureza da energia, etc (Nota
da ed. alemã.) Fig. 12 — O horizonte de um adulto (em baixo) e de uma criança
(em cima)

[ 58 ]
[ 59 ]
pensa ou de um lustre, mas interrompem o voo, sempre de um dispositivo que substituiria os músculos do crista­
recuando, quando se tenham afastado de meio metro des­ lino do olho humano.
sas fontes luminosas, para depois fugirem para o lado Se admitirmos que o dispositivo óptico dos elemen­
ou para baixo delas. De modo que se comportam como tos visuais funciona como uma lente, o lustre, a uma
um homem do mar que, no seu barco à vela não quer
perder uma ilha de vista.
Ora, o olho de uma mosca é constituído de modo tal
que os seus elementos visuais (rabdomas) (fig. 13) apre­
sentam estruturas alongadas nervosas que a imagem

Fig. 14 — Lustre, para um homem

Fig. 13 — Forma de um olho composto de uma mosca. Repre­


sentação esquemática: a) o olho de que se destacou um
sector (segundo Hesse); b) duas omatídeas: Cor, córnea,
quitinosa; K, núcleo; Kr, cone cristalino; Krz, célula desse
cone; Nf, fibra nervosa; P, pigmento; Pz, célula pigmentar;
Retl, retícula; Rh, rabdoma; Sz, célula visual

dada pelas suas lentes devem atravessar até diferentes


profundidades, correspondentes às distâncias dos objec­
Fig. 15 — Lustre, para uma mosca
tos vistos. Exner (1) sugeriu que neste caso podia tratar-se

(’) Siegmundo Exner (1846-1926), desde 1875 professor do certa distância deixava de ser visto; e a mosca voltava a
«Physiologischen instituí». Viena. Publicou trabalhos sobre óptica aproximar-se. Comparem-se, a este respeito, as figs. 14
fisiologica assim como sobre a função do córtex cerebral. (Nota da e 15, que representam um lustre visto sem ou com uma
lente interposta.

[ 60 ] [ 61 ]
Se, seja como for, o horizonte encerra, incluindo-o, que os sujeitos vivem nojnesm o intervalo de tempo. Os
o espaço visual — ele existe sempre. De modo que deve­ momentos sao os mínimos, indivisíveis, continentes_de^
mos considerai todos os animais que à nossa volta ani­ tempo, p o is ln je são a expressão de sensações elemen­
mam a naturezte — os coleópteros, borboletas, moscas, tares indivisíveis,L_os_ chamados TsTnãlsUnsfãííi^neos. No
mosquitos, libelinhas, que povoam um prado — como que homem, como já dissemos, a duração de um momento
encerrados numa «bola de sabão» que limita o seu é de 1/18 do segundo. E, na realidade, é o mesmo para
espaço-visual e em que tudo o que é visível para o sujeito todos os domínios sensoriais, porque todas as impres­
está contido. Cada «bola de sabão» aloja um local dife­ sões dos sentidos são acompanhadas por os mesmos
rente dos das outras, e em cada uma delas existem ainda sinais instantâneos.
os planos de referência dos espaços-de-acção que con­ Dezoito vibrações do ar por segundo já não se ouvem
ferem ao espaço uma estrutura permanente. As aves que como sons separados, mas como um som contínuo.
esvoaçam, os esquilos que saltam nos ramos, ou as vacas Demonstrou-se que nós sentimos dezoito choques que
que pastam no prado, todos estão constantemente encer­ nos afectem a pele num segundo, como se fosse uma
rados nas suas «bolas de sabão» que limitam o espaço. pressão còTiitante.
Se tivermos estes factos bem presentes na mente,
A cinematografia torna possível projectar na tela
reconheceremos também a «bola de sabão» do nosso
movimentos do mundo exterior no ritmo que nos é habi­
mundo-próprio — que envolve cada um de nós. Então
tual. As imagens destacadas seguem-se ali com peque­
veremos todos os nossos semelhantes encerrados em
nos intervalos de 1/18 do segundo.
«bolas de sabão», que se interceptam sem resistências,
porque são constituídos por sinais-perceptivos subjecti­ Se quisermos seguir movimentos que, para a nossa
vos. Não exisífi^de modo nenhum, espaco independente vista, fluem com demasiada rapidez, temos de nos servir
do sujeito. Se, porém, nós nos agarramos à ficção de um da lupa-de-tempo.
espaço universal, é apenas porque recorrendo a essa Chama-se lupa-de-tempo ao procedimento que con­
mentira convencional conseguimos compreender-nos me­ siste em tirar um grande número de negativos por
lhor uns aos outros. segundo, projectando-os depois no ritmo normal. Deste
modo alargamos o decorrer do movimento por um maior
intervalo de tempo, e teremos a possibilidade de distin­
3. A PERCEPÇÃO DO TEMPO guir acontecimentos que para o nosso ritmo de tempo
(de dezoito por segundo) são demasiado rápidos, como
É a Karl Ernest v. Baer (') que cabe o mérito de ter o bater de asas das aves e insectos. Assim como a lupa-
considerado evidente ser o tempo uma criação do sujeito. -de-tempo retarda o fluir do movimento, assim também
O t empo como sequência de momentos varia do-iim ,. este é apressado pelo redutor-de-tempo. Quando regista­
mundo para os oujros. consoante o número de momentos , mos graficamente hora a hora um acontecimento, e
depois projectamos as suas diferentes fases com inter­
('} 1792-1876. Zoólogo, fundador de uma doutrina da evolução valos de 1/18 de segundo, contraímo-lo num certo inter­
diferente da de Darwin. (Nota da ed. alemã.) valo de tempo e assim conseguimos a possibilidade de

[ 62 ] [ 63 ]
distinguir acontecimentos que para o nosso ritmo de modo ele não é impedido de rastejar, conservando-se con­
tempo são muito lentos, como o abrir de uma flor. tudo sempre no mesmo lugar. Se agora pusermos em
Põe-se a questão de saber se há animais cuja per­ contacto com a palmilha do caracol uma varazinha, este
cepção do tempo tenha momentos mais longos ou mais rastejará sobre ela. Se aplicarmos um a três toques da
curtos do que os nossos, e em cujos mundos-próprios, vara, por segundo, sobre o caracol, ele reage afastando-se
por isso, os decursos de movimento1 sejam mais lentos dela, mas se os toques se repetirem quatro ou mais
ou mais rápidp_s_ que_no- nosso. vezes por segundo, então o caracol começa a arrastar-se
Os primeiros estudos feitos a este respeito foram
realizados por um jovem investigador alemão, que mais
tarde teve a colaboração de um outro, principalmente no
estudo da reacção do peixe-lutador à sua própria imagem
dada por um espelho. Este peixe não reconhece esta
quando ela lhe é apresentada dezoito vezes por segundo;
para a reconhecer necessita que o seja o mínimo trinta
vezes por segundo. Um terceiro investigador ensinou o
peixe-lutador a abocar o isco quando por trás dele se
fazia girar um disco cinzento. Quando, porém, se fazia
girar lentamente um disco com sectores negros e bran­
cos funcionando como «quadro-de-aviso», imediatamente
o peixe tinha um ligeiro sobressalto quando se aproxi­
mava o isco. Aumentando então a velocidade de giração
do disco, as reacções tomam-se menos regulares a uma
certa velocidade para logo depois suceder o contrário Fig. 16 — O momento do caracol. S = esfera; £=engrenagem;
quando aquela aumenta. Isto começava a dar-se só quando A/=varazinha; S=caracol
os sectores negros se seguiam uns aos outros com um
intervalo de 1/50 do segundo. O quadro de aviso branco-
-negro tornava-se então cinzento. Daqui se conclui com ao longo da varazinha. No mundo-próprio do caracol, uma
certeza que, nestes peixes, os quais se alimentam de vara que vibra com o períodcTde quatro vezes por segundo
presas que se deslocam rapidamente, todos j>s fenóme- é como se estivesse em repouso. De onde devemos con­
nos de movimento no seu mundo-próprio se passam, cluir que o tem pojdo caracol flui num ritmo de três a
como na lupa-de-tempo, retardadamente. ~ quatro momentos por segundo. Isto tem como conse-
Um' exemplo de contracção de tempo está represen­ quência que no mundo-próprio do caracol todos os fenó­
tado ha fig. 16, tirada da obra antes citada. Sobre uma menos de movimento se passam muito mais rapidamente
bola de borracha aue, flutuando na água, pode nela escor- do que no nosso. Além disso os movimentos típicos do
reaar praticamente sem atrito, coloca-se um caracol, que caracol não fluem para ele mais lentamente do que os
se fixa pela concha, com uma pinça, a um suporte. Deste nossos para nós.

[ 64 ] 5 - A. HOMENS [ 65 ]
4. OS MUNDOS-PRÓPRIOS ELEMENTARES o mundo-próprio da paramécia, um pequeno ciliado.
\
A paramécia é revestida de densas fiadas de cílios, por
Espaço e tempo não são de qualquer préstimo ime­
meio de cuja agitação se move rapidamente na água,
diato para o sujeito. Só adquirem significado quando mui­
girando em torno do seu eixo maior.
tas características que, sem o quadro temporal e espa­
De todas as diferentes coisas que se encontram
cial ruiriam, tem de ser diferenciadas. Um tal quadro,
no seu mundo ambiente, o seu mundo-próprio apreende
em mundos-próprios elementares, em que há um único
apenas a característica, sempre a mesma, pela qual a
sinal-característico, não é, porém, necessário.
paramécia quando quer que seja, seja como for e onde
A fig. 17 representa par a par o mundo ambiente e for, é estimulada a desencadear o mesmo movimento.
O mesmo carácter de obstáculo provoca sempre o mesmo
movimento de fuga. Este consiste em um movimento de
recuo, a que depois se segue um desvio lateral, seguido
de novo avanço, de modo que o obstáculo é ultrapassado.
Pode dizer-se que, neste caso, o mesmo sinal caracterís­
tico é cancelado pela mesma marca-de-acção. Quando o
animalzinho contacta com uma partícula das que lhe ser­
vem de alimento (1) — as bactérias de decomposição, que,
de entre tudo que existe em todo o mundo-ambiente, não
determinam qualquer estímulo — o animal detém-se.
Estes factos mostram-nos como a natureza consegue
estruturar a vida segundo um.plano com um único ciòío-
-de-função.
Alguns animais pluricelulares, como as medusas
pelágicas do género Rhizostoma, também podem, bas­
tar-se a si próprias com um único ciclo de função.
Neste caso o organismo consiste num dispositivo
hidráulico natatório que recolhe em si a água do mar não
filtrada, rica em plâncton, e a reexpele filtrada. A única
manifestação de vida na medusa consiste em oscilações,
para um e outro lado, da umbela gelatinosa e contráctil.
Por meio de uma pulsação sempre igual, o animal man­
tém-se nadando à superfície do mar. Ao mesmo tempo, o
intestino, membranoso, dilata-se e contrai-se alternada­
mente, assim entrando e saindo a água do mar, por peque-

Fig. 17— Mundo ambiente e mundo-próprio da paraméciá


C) Na figura 17, Nahrung.

[ 66 ] [ 67 ]
é°moeido« I eX'St! nteS- 0 conteúdo f,u id ° do intestino No mundo-próprio da medusa soa sempre a mesma
d Ü h 90 extensos canais digestivos, cujas
badalada, que governa o ritmo da vida. Todos os outros
Mat a S n 6m ? a,Íment0S 6 ° ox,9®ni° arrastado. estímulos se apagam.
to d a fS n l 83?. alimentos e respiração mecânica No caso em que um único ciclo-de-função se mani­
r..In Sa° r aS Pela contracção rítmica dos mús-
festa, como em Rhizostoma pode realmente falar-se de
mnv meX' f 6nteS naS margenS da umbela' Para que estes um animal reflexo, porque o mesmo reflexo se desenca­
movimentos se continuem sem interrupção, existem nas
% deia desde cada campânula até à faixa muscular na mar­
gem da umbela. Deveremos, porém, falar de animais
reflexos, quando existem ainda outros arcos reflexos,
como sucede em outras medusas, quando eles se con­
servam completamente independentes. Assim, há medu­
sas que possuem filamentos pescadores que contêm em
si a fonte de arcos reflexos que se fecham sobre si pró­
prios. Muitas possuem ainda um manúbrio bucal móvel,
provido de musculatura própria, que está ligado aos
receptores da margem da umbela. Todos estes arcos
reflexos funcionam com perfeita independência uns dos
outros, não sendo controlados por nenhum órgão central.
Quando um órgão exterior é a sede de um arco reflexo,
diz-se que é como se fosse um «indivíduo reflexo». Os
ouriços-do-mar são constituídos põr um grande numero
desses indivíduos reflexos, cada um dos quais, por si e
sem coordenação central, desempenha a sua função
reflexa. Para tornar claro o contraste entre os animais
assim constituídos e os animais superiores, formulei a
Fig. 18- M e d u s a pelágica com corpos marginais proposição seguinte: quando um cão se desloca, o animal
move as pernas, quando um ouriço-do-mar se desloca, as
margens da umbela oito órgãos campanuliformes (corpos «pernas» movem o animal. Os ouriços-do-mar põssuerrrr
m argmbad
cujos a,s) l0Si
í convencionalmente
a cada puIsaç_0j representados
cPQca fiq 18
na fig.
os na )
18).
como o ouriço-cacheiro, muitos espinhos, que, contudo,
fazem parte de indivíduos reflexos autónomos.
nervosa. O estímulo resultante do choque, p r o v ia a oul Além dos espinhos rígidos e picantes que assentam
saçao seguinte da umbela. Deste modo a medü™ p Z c a numa superfície articular esférica do testo e estão pron­
tos a opor uma floresta de lanças a qualquer objecto,
característico ' “ - es,a U b e r t s T Z l l
capaz de provocar qualquer irritação, que se aproxime
provoca de ° • do testo, existem ventosas pediceladas (pés ambulacrá-
rios) moles, longas e musculosas, que servem para a
[ 68 ]
[ 69 ]
locomoção. A^lém disto, muitos ouriços-do-mar possuem notas, ou sinais característicos, se se compuser de vários
ainda, espalhadas por toda a superfície do testo, quatro indivíduos-reflexos. Tais notas, porém, devem manter-se
tipos de pinças (pinças ornamentais, pinças percussoras, completamente isoladas, pois que todos os ciclos-de-fun-
pinças preensof-as e pinças venenosas) cada tipo com a ção se realizam, completamente isolados uns dos outros.
sua utilização especial. Já a carraça, cujas manifestações vitais consistem,
Apesar de muitos indivíduos-reflexos funcionarem como vimos, em três reflexos, representa um tipo mais
em conjunto, as suas actividades são absolutamente inde­ elevado, pois que os ciclos-de-função não se utilizam
pendentes umas das outras. Assim, actuados pelo mesmo desses arcos reflexos isolados, mas possuem um órgão-
estímulo químico proveniente do inimigo do ouriço — a -de-percepção comum. Existe, por isso, a possibilidade de,
estrela-do-mar — os espinhos divergem subitamente e em no mundo-próprio da carraça, o animal-presa, embora con­
vez deles surgem as pinças venenosas que encarniçada- sista apenas em estímulo do ácido butírico, estímulo do
mente se lançam contra os pés ambulacrários daquela. tacto e estímulo do calor, constituir, não obstante, uma
Pode-se, pois, neste caso, falar de uma «república unidade.
reflexa», em que, porém, apesar da independência de Tal possibilidade não existe no caso do ouriço-do-
todos os indivíduos reflexos, reina um «espírito cívico» -mar. Os seus sinais característicos, que se compõem de
perfeito. Porque os próprios pés ambulacrários, moles, estímulos graduados de pressão e estímulos químicos,
do ouriço-do-mar nunca são atacados pelas pinças preen- constituem grandezas completamente isoladas.
soras, que aliás mordem qualquer objecto próximo. Muitos ouriços-do-mar respondem a qualquer
Este «espírito cívico» não é ditado por qualquer posto obscurecimento do horizonte com um movimento dos
central, como sucede com o homem, onde também os espinhos que, como o mostram as figs. .19 a e 19 b, se
dentes cortantes constituem um perigo para a língua, o verifica igualmente como resposta contra uma nuvem, um
qual só é evitado mediante a intervenção do sinal-percep- navio, e o seu verdadeiro inimigo, um peixe. Mas a repre­
tivo do perigo de dor no órgão central. Porque o perigo sentação do mundo-próprio ainda não está suficiente­
de dor impede o acto que o provoca. mente simplificada. Não é o caso de o sinal característico
Na república de reflexos do ouriço-do-mar, que não som bra ser transferido pelo ouriço-do-mar para o espaço,
possui nenhum centro superior de coordenação, o «espí­ pois que este não possui nenhum espaço visual, e as
rito cívico» tem de ser atribuído por outros meios. É a sombras só se efectivam como por uma leve passagem
substância, autodermina, que o consegue. Não diluída, de um floco de algodão sobre o tegumento, sensível à luz.
ela não paralisa os receptores dos indivíduos reflexos. Representar isto graficamente era tecnicamente impos­
Nos tegumentos existe em diluição tão elevada que é sível.
inactiva quando ao contacto de um objecto estranho.
Logo, porém, que dois pontos do tegumento contactam, 5, FORMA E MOVIMENTO
a sua actividade manifesta-se e impede o desencadear
COMO SINAIS-CARACTERÍSTICOS
do reflexo.
Uma república de reflexos, como é o ouriço-do-mar, Mesmo qué se quisesse admitir que, no caso do
pode perfeitamente admitir no seu mundo-próprio várias mundo-próprio do ouriço-do-mar, todos òs sinais-caracte-

[ 70 ] [ 71 ]
rísticos, ou notas, dos diferentes indivíduos-reflexos são
dotados de uma representação em espaço, e por isso cada
um se encontra num local diferente do de cada outro —
não havia, contudo, nenhuma possibilidade de relacionar
estes locais uns com os outros. Por isso a este mundo-
-próprio devem necessariamente faltar os sinais caracte­
rísticos de forma e de movimento que pressupõem a
ligação de vários locais de uns com os outros — e é isso
o que se dá. Forma e movimento aparecem pela primeira
vez em mundos de percepção superiores. Ora nós estamos

Fig. 19 a — Mundo ambiente do ouriço-do-mar

Fig. 20 — Gralha-de-bico-vermelho e gafanhoto

habituados a admitir, graças às experiências adquiridas


no nosso mundo-próprio, que a forma de um objecto ó
a nota, ou sinal-característico, dada em primeiro lugar, e
que o movimento sobrevem ocasionalmente como sinal-
-característico secundário. Isto porém não é o que se
passa em muitos mundos-próprios dos animais. Neles,
forma em repouso e forma em movimento não são dois
-^ 'IV , sinais-característicos inteiramente independentes um do
outro, podendo também ocorrer o movimento sem forma,
v 3 ^ w’" -
como sinal-característico independente.
A fig. 20 representa a gralha-de-bico-vermelho, ou
Fig. 19 b — Mundo-próprio do ouriço-do-mar corvacho, caçando gafanhotos. A gralha é completamente

[7 2 ]
[ 73 ]
incapaz de descobrir um gafanhoto em repouso, e só o
Mas que o movimento independente de forma pode
ataca quando ele salta.
figurar como sinal característico, pode-se concluir da
Nestas circunstâncias conjecturamos imediatamente fig. 21, que representa comparadamente o que se passa
que a forma <^o gafanhoto em repouso é bem conhecida
com a vieira no seu mundo ambiente e no seu mundo-
da gralha, mas por causa da erva que dissimula não é por -próprio.
aquela reconhecida como unidade, exactamente como
No mundo ambiente do molusco, e ao alcance da
nós só com dificuldade conseguimos destacar num dese-
vista dos seus cem olhos, encontra-se o seu mais encar­
nho-quebra-cabeças uma forma conhecida. Segundo esta
niçado inimigo, a estrela-do-mar, astéria. Enquanto esta
maneira de ver, a forma só ao saltar se distingue das dis-
se conserva imóvel, não tem qualquer acção sobre o
simuladoras imagens circumvizinhas.
molusco. A sua forma característica não é para ele um
Mas segundo outras experiências é de admitir que sinal. Mas logo que ela se põe em movimento, o molusco
a gralha não reconhece a forma do gafanhoto em repouso estende, como reacção, os seus longos tentáculos, que
mas apenas está adaptada a reconhecer a forma em funcionam de órgãos do olfacto; aproximando-se da
movimento. Isto explicaria «a simulação da morte» de estrela-do-mar e recebem o novo estímulo. A seguir, o
muitos insectos. Quando a sua forma imóvel não existe molusco ergue-se e afasta-se nadando.
essencialmente no mundo de percepção do inimigo per­ As experiências têm mostrado ser indiferente a
seguidor, eles por meio desse subterfúgio, escapam-se
forma ou a cor que um objecto móvel possua. Pois que,
a salvo desse mundo de percepções do inimigo e nunca
no mundo-próprio do molusco, ele manifesta-se sempre
podem ser descobertos quando ele os procura.
como sinal característico, se o seu movimento é tão
Eu construí um «anzol» para moscas, que se compõe lento como o da estrela-do-mar. Os olhos da vieira não
de uma varazinha de que suspendi por um fio fino uma são adequados para distinguir a forma ou a cor mas.
ervilha revestida de visco. Se por meio de uma leve vibra- excTusivamenteT um^ 'cèrto^ritmo de movimento, o ritmo
çao da varazinha pusermos a ervilha em movimento no próprio do seu inimigo. Mas este não fica, por este meio,
parapeito de uma janela sobre que haja muitas moscas completamente caracterizado: para que o segundo ciclo-
sempre algumas se lançarão sobre a ervilha, ficando pega- -de-função se desencadeie é preciso que, primeiro, sobre­
as a ela, podendo depois verificar-sè que são sempre venha um sinal olfactivo; então o molusco afasta-se daj
machos.
proximidade do inimigo, fugindo, e, por meio deste sinalj
O fenómeno representa uma espécie de falsas -de-acção, o sinal característico do inimigo é finalmente
núpcias. No caso de moscas que voam em volta de um anulado.
ustre. e ainda de machos que se lançam sobre fêmeas
Durante muito tempo supôs-se que no mundo-próprip
que por ali voam, que se trata. A ervilha ao agitar-se
da minhoca existia um sinal característico para a forma.
imita o sinal-característico de fêmea que voa e por isso
Já Darwin sugerira a esse respeito que a minhoca se com­
e tomada, nunca tal sucedendo quando está imóvel do
portava como se reagisse à forma tanto de folhas, como
que se pode ainda concluir que fêmeas imóveis e fêmeas
de agulhas de pinheiro.
a voar sao dois sinais-característicos distintos
A minhoca transporta para a sua alongada moradia,

[ 74] [ 75 ]
folhas e agulhas de pinheiro (fig. 22), que lhe servem
indiferentemente de protecção e de alimento. Verifica-se
que quando se tenta fazer entrar numa galeria estj-eita
e com o pecíolo para a frente, a maior parte das folhas,
elas encontram certa resistência. Pelo contrário, enro-

Fig. 22 — A capacidade de discernimento


pelo gosto, na minhoca

lam-se facilmente e não se nota qualquer resistência


quando é o vértice que vai à frente. Quanto às agulhas
de pinheiro, que se desprendem dos ramos sempre aos
pares, essas devem fazer-se entrar na galeria não com
Fig. 2 1 — Mundo ambiente e mundo-próprio da vieira o vértice mas com a base para a frente.

[ 77 ]
[ 76 ]
A fig. 23 apresenta uma comparação imaginada do
Do. facto de a minhoca se utilizar, sem encontrar difi­
mundo-ambiente e do mundo-próprio da abelha para ilus­
culdades, de folhas e de agulhas de pinheiro, concluíra-se
que a forma pestes objectos, que no mundo-de-acção da trar o que se passa. Vemos a abelha, no seu mundo-
-ambiente de um prado florido, distinguir entre as flores
minhoca desempenham um papel tão importante, devia
abertas e os botões. Situada a abelha no seu mundo-pró
existir no seu mundo-de-percepção como nota-carac-
prio e reduzindo as flores, segundo a sua forma, a estre­
terística.
las ou cruzes, os botões passarão a ter a forma não
Verificou-se* que esta conclusão era incorrecta. Pôde
recortada de círculos.
demonstrar-se que as minhocas arrastam para dentro das
Daqui concluiremos ainda o significado biológico
suas galerias pequenas varazinhas, todas com a mesma
forma e que se tinham revestido de gelatina, indiferente­ desta nova particularidade das abelhas, assim revelada.
mente com uma ou a outra extremidade para a frente. Só as flores abertas, não os botões, têm para elas um
Mas quando se polvilha com pó de um vértice de folha significado.
de cerejeira uma das extremidades da varazinha, e a outra Mas as correlações de significado são, como nós já
com pó da sua parte basilar, as minhocas distinguem per­ vimos na carraça, os únicos guias seguros na exploração
feitam ente as duas extremidades como se fossem o vér­ dos mundos-próprios. Para o caso é perfeitamente indife­
tice e a base da própria folha. rente que as formas descontínuas, decomponíveis, sejam
Apesar de a minhoca se comportar perante as folhas fisiologicamente eficientes.
de maneira relacionada com a sua forma, não é realmente Q problem a-da-form a foi reduzido por estes trabalhos
pela forma, mas pelo gosto, que ela se orienta. Este a uma fórmula mais simples. Basta admitir que as células
arranjo é muito feliz, porque os órgãos-de-percepção da de percepção para os sinais locais se articulam em dois
minhoca são constituídos segundo um modelo demasiado grupos no órgão-de-percepção, umas segundo o esquema
simples para produzir sinais de forma. Este exemplo mos­ «decomposta», ou aberta, outras segundo o esquema «não
tra-nos como a natureza sabe«e,vitar dificuldades que a decomposta», ou fechada. Não há quaisquer outras dis­
nós parecem insuperáveis. tinções. Se os esquemas se afastam disto, então resul­
No caso da minhoca também nada havia de percep­ tam deles «imagens perceptivas» que se conservam
ção de forma. Tanto, pois, mais instantemente se põe inteiramente gerais, que, como novas e muito belas inves­
a questão de saber — em que animais é legítimo conjec­ tigações mostram, incluem no caso das abelhas, cores
turar que a forma existe originalmente como sinal-carac-
e cheiros.
terístico do seu mundo-próprio?
Nem a minhoca, nem a vieira, nem a carraça, dis­
Esta questão foi resolvida mais tarde. Foi possível põem desses esquemas. Cárecem, por isso, no seu mun-
demonstrar que as abelhas pousam de preferência em
dò-próprio, de verdadeiras imagens-perceptivas.
coisas cujas formas recortadas são virtualmente decom-
poníveis em outras mais simples, como estrelas e cruzes,
evitando, pelo contrário, formas inteiriças, como círculos
e quadrados.

[ 78 ] [ 79 ]
6. FINALIDADE E PLANO

Como nós, homens, estamos habituados a prosse­


guir penosamente a nossa existência, de finalidade em
finalidade, estamos por isso convencidos que com os
animais se passa o mesmo. Ora isto é um erro funda­
mental, que leva as investigações até aqui realizadas por
caminhos falsos. Na realidade ninguém atribuirá finali­
dades a um ouriço-do-mar ou a uma minhoca. Mas já na
descrição da vida da carraça nos referimos a o ela «espiar
a sua presa». Por esta expressão já introduzimos, indevi­
damente ainda que involuntariamente, as nossas mes­
quinhas preocupações diárias, na vida da carraça, que
é dominada por um plano puramente natural.
O nosso primeiro cuidado deve, pois, ser o eliminar
da interpretação dos mundos-próprios a falácia da finali­
dade. Só assim poderemos chegar a pôr certa ordem,
no ponto de vista da existência de um plano natural, nas
manifestações da vida dos animais. Talvez mais tarde se
considerem como tendo finalidade certos comportamen­
tos dos mamíferos superiores, que, mesmo eles, estão
por sua vez subordinados ao plano natural de conjunto.
Em todos os outros animais não existem comporta­
mentos orientados no sentido de um fim. Para demons­
trar esta proposição será necessário que o leitor lance
um golpe de vista por alguns mundos-próprios que não
levantem quaisquer dúvidas. A fig. 24 funda-se nas curio­
sas interpretações a que cheguei, sobre a percepção dos
sons pelas borboletas nocturnas. Como nela se dá a
entender, é perfeitamente indiferente que o som a que
os animais estão submetidos, seja o produzido por um
morcego ou o resultante do atrito de uma rolha de vidro:
a acção é sempre a mesma. Aquelas borboletas noctur­
Fig. 23 — Mundo ambiente e mundo-próprio da abelha
nas que em virtude da sua brilhante coloração são bem
visíveis, afastam-se, voando, pela acção de sons altos, ao

[8 0] 6 -A . HOMENS [8 1 ]
passo que as que possuem colorações dissimuladoras
se aproximam deles. A mesma nota ou sinal-caracterís-
tico provoca resultados opostos. A alta conformidade com
um plano patenteia-se nos dois modos opostos de com­
portamento. Não pode tratar-se aqui de qualquer discri­
minação ou intenção, pois que nenhuma borboleta noc­
turna jamais viu a cor do seu próprio tegumento. O que
há de pasmoso na conformidade com um plano torna-se
neste caso ainda mais impressionante ao verificarmos
que a engenhosa estrutura microspópica do órgão da
audição da borboleta nocturna é exclusivamente recep­
tiva destes sons altos emitidos pelo morcego. São abso­
lutamente surdas para os outros sons.
A oposição entre finalidade e plano já resulta de
uma bela observação feita por Fabre ('). Este pôs a fêmea
de uma borboleta nocturna, olhos-de-pavão, em cima de
uma folha de papel branco, sobre que aquela fez, durante
algum tempo, certos movimentos com o abdómen. Depois
pôs a mesma fêmea ao lado da folha de papel sob uma
campânula de vidro.
Durante a noite entraram pela janela verdadeiros
enxames de machos desta espécie muito rara de borbo­
leta, e pousaram todos sobre a folha de papel branco.
Nem um único notou a fêmea que estava próxima, sob a
campânula de vidro. Que espécie de acção física ou quí­
mica se devesse atribuir ao papel, eis o que Fabre não
pôde averiguar.
A este respeito são muito elucidativas as experiên­
cias, que a fig. 25 ilustra, feitas com saltões-do-feno e
grilos.
Num quarto, diante de um microfone receptor, colo-
ca-se um exemplar vivo a fretenir, uma fêmea, por exem­
plo. Se num outro quarto se puserem machos próximos

Fig. 24 Acção de um som alto sobre borboletas nocturnas


(') J. Henri Fabre (1823-1915), entomólogo francês. (Nota
da ed. alemã.)

[ 82 ]
[ 83 ]
de um outro telefone, estes, ao ouvirem o fretenir da
fêmea, aproximam-se do telefone, sem darem atenção a
uma outra fêmea que fretene sob uma campânula de
vidro, para fora da qual o som não pode passar. A imagem
óptica não exerce qualquer acção.
As duas experiências provam o mesmo. Em nenhum
dos casos se trata de atingir um fim. O comportamento
aparentemente estranho dos machos explica-se, porém,
sem dificuldade, se o estudarmos na sua conformidade
com um plano. Nos dois casos efectua-se, através_de um
sinal característico, um ciclo-de-função, mas com a ausên­
cia do objecto normal nada se dá quanto à produção do
sinal-de-acção apropriado, que era necessário para o can­
celamento do primitivo sinal característico. No lugar
deste devia, normalmente, surgir um outro sinal caracte­
rístico e desencadear-se o ciclo-de-função seguinte. Seja
qual for este segundo sinal característico, deve, em
ambos os casos, ser estudado mais detidamente. Em qual­
quer caso, ele é um elo necessário na cadeia dos ciclos-
-de-função que servem o acasalamento.
Para quê, dir-se-á, atribuir finalidade aos insectos?
Eles são determinados imediatamente pelo plano natural,
que estabelece os seus sinais característicos, como já
vimos na carraça. Mas quem já reparou no que se passa
numa capoeira, como a galinha se apressa a socorrer os
seus pintainhos, não poderá duvidar de que há no seu
comportamento uma verdadeira finalidade. Exactamente
sobre este caso realizámos com todo o rigor curiosas
expriências.
A fig. 26 ilustra os resultados nelas obtidos. Quando
se prende um pintainho por uma perna, ele começa a
piar, o que faz que a galinha se dirija de penas eriçadas
na direcção de que os pios partem, mesmo que não veja
o pintainho. Logo que o avista começa a dar bicadas num
inimigo imaginário.
Se, porém, se puser o pintainho, que se prendeu, sob

[ 84 ] [ 85 ]
uma campânula, de modo que ela o possa veF mas sem
o ouvir, a galinha conserva-se perfeitamente calma
perante o espectáculo.
Também aqui se não trata de finalidade, mas sim,
ainda, de uma cadeia de ciclos-de-função. O sinal de piar
provém normalmente, de forma indirecta, de um inimigo
que prende o pintainho.
Este sinal característico será eliminado pelo sinal-
-de-acção da picada que porá o inimigo em fuga. O pintai-

Fig. 2 7 — Galinha e pinto preto

nho que se debate, mas não se ouve piar, não é um sinal


característico que produza qualquer efeito particular;
além de ser completamente fútil, pois que a galinha não
tem condições para desfazer um laço.
Ainda mais singular e desprovida de fim foi a
maneira como a galinha, representada na fig. 27, se com­
portou. Esta galinha chocara uma postura de ovos de
Fig. 26 — Galinha e pintos
galinhas brancas, mas em que havia um da sua própria
raça negra. A forma como ela se comportou com o pin-

[ 86 ] [ 87 ]
tainho preto que saiu deste ovo foi perfeitamente e nos entregamos ao acaso. Porque, nesse caso, batemos
absurda. Quando o ouvia piar, a galinha acorria imediata­ com o martelo nos dedos.
mente ao sinal, mas se o via entre os brancos, corria-o Sem plano, isto é, sem o todo-poderoso poder de
às bicadas. Os sinais acústico e óptico característicos, ordenação que tudo domina na natureza, não há qualquer
do mesmo objecto, provocavam nela o desencadear de espécie de natureza ordenada, mas apenas um caos. Todo
dois ciclos-de-função opostos. Manifestamente os dois o cristal é o fruto de um plano natural, e quando os
sinais, no mundo-próprio da galinha, não se fundiam físicos apresentam o mais belo modelo do átomo, como
numa só unidade. é o de Bohr, revelam os planos da natureza inanimada
que buscam desvendar.
Assim, também, o poder dos planos da natureza viva
7. IMAGEM-PERCEPTIVA E IMAGEM-EFECTORA recebe do estudo dos mundos-próprios a interpretação
mais clara que é possível. Estudá-los, eis a mais interes­
A oposição entre finalidade do sujeito e plano da sante das tarefas. Por isso não queremos deixar-nos per­
natureza dispensa-nos também de considerar a questão turbar, e tranquilamente prosseguimos a nossa rota atra­
do instinto, em que ninguém ainda deu os primeiros pas­ vés dos mundos-próprios.
sos certos. Os casos ilustrados na estampa superior a cores,
Será necessário à bolota qualquer instinto para vir entre as páginas 128 e 129, representam um resumo dos
a ser um carvalho, ou trabalha instintivamente uma mul­ resultados obtidos nos estudos do crustáceo, casa-rou-
tidão de células ósseas para formar um osso? Se se bada. Verificou-se que o casa-roubada necessita, como
responde a isto negativamente e, em vez de instinto imagem-perceptiva, um esquema espacial extremamente
se postula como factor ordenador um plano de natureza, simples. Cada objecto de uma certa ordem de grandeza,
então há que reconhecer no tecer da teia de aranha, ou com um contorno de entre um cilindro e um cone, pode
na construção do ninho das aves a intervenção do plano te r para ele significado. Como se traduz nas figuras, o
da natureza, pois em ambos os casos não é de um fim mesmo objecto de aspecto cilíndrico, como é o caso da
particular que se trata. anémona-do-mar, muda de significado no mundo-próprio
In s tin to é apenas um termo que resulta da perplexi­ do casa-roubada, conforme as circunstâncias (a disposi­
dade a que se expõe quem contesta o plano da natureza, ção) em que o casa-roubada se encontra. Nós vemos sem­
super-individual. E este é contestado porque dele, que é pre o mesmo casa-roubada e a mesma anémona-do-mar.
um plano, não se pode formar qualquer ideia adequada, Ora, no primeiro caso representado, tinha-se destacado
pois não é uma substância nem uma força. esta da concha, em que aquele se alojara. No segundo,
E no entanto não é difícil, partindo do conceito de tinha-se tirado o casa-roubada de dentro da concha, e
plano, ficar com uma ideia acerca da questão, quando no terceiro tinha-se feito jejuar um casa-roubada insta­
nos apoiamos num exemplo intuitivo. lado dentro de uma concha, a que estavam fixadas ané-
Para pregar um prego não basta o mais belo dos pla­ monas-do-mar. Isto basta para pôr o casa-roubada em
nos, se não se tem um martelo. Mas também não basta três circunstâncias diferentes. Conforme as diferentes
o mais btelo dos martelos se se não tem qualquer plano disposições, o significado da anémona-do-mar em rela­

[ 88 ] [ 89 ]
ção ao crustáceo, varia. No primeiro caso, em que à Mas o problema já mesmo nos homens pode ser
concha que alojava o crustáceo faltava a protecção que acentuado. Como vemos nós, no caso da cadeira, o sen­
a anémona-do-mar lhe prestava contra o choco, a imagem tar, no da chávena, o beber, no da escada, o trepar, fun­
perçeptiva da anémona-do-mar assume um «teor de pro- ções que em caso nenhum nos são denunciadas pelos
Isto manifesta-se no comportamento do casa- sentidos? Nós vemos em todos os objectos que apren­
-roubada, qup põe ao alto a concha que lhe serve de demos a utilizar, o préstimo que deles aproveitamos,
abrigo, Se privamos desta o mesmo casa-roubada, a ima- justamente com a mesma certeza que a sua forma e a
S®DX-P§I5®PlLY.3 da anémona-do-mar assume um «teor de sua cor.
habitação», o ^que se manifesta em o ele tentar, ainda Tive um negro, originário do interior da África, de
que sem êxito,\ entrar para dentro dela. No terceiro caso, perto de Dar-es-Salam, rapaz ainda novo, muito inteligente
em que o crustáceo está esfomeado, aquela-im agem e hábil, a quem a única coisa que faltava era o saber
passa a ter um «teor de alimento» e este começa a devo­ como se utilizavam os objectos europeus. Um dia que
rar a anémona-do-mar. lhe disse para subir a uma pequena escada de mão, ele
Estas experiências têm, por isso, particular impor­ perguntou-me: «Como é que o posso fazer se só vejo
tância, pois mostram que já nos mundos-próprios dos travessas separadas por intervalos?» Logo, porém, que
artrópodes a imagem-perceptiva. fornecida pelos órgãos outro negro lhe explicou como devia proceder, nada mais
dos sentidos, pode ser substituída por uma imagem-efec> foi preciso. Daí por diante os dados dos sentidos «tra­
Í 91âjjdejgendejite. da jfun ç ã o .q ue..nela _se_fíímté m. vessas e intervalos» assumiram o teor de «subir» e pas­
As investigações tendentes a interpretar este sin­ saram a ser considerados como uma escada.^A Jm agsm :
gular estado de coisas têm-se realizado com cães. ■perçeptiva das travessas e intervalos foi completada
A maneira como se pôs a questão foi muito simples e as pela im agem -efectora_da sua própria utilização, adquiriu
respostas dos cães, unívocas. Ensinou-se um cão a saltar um novo significado, e este revelou-se como uma nova
para cima de uma cadeira colocada em frente dele, qualidade, como teor de utilização ou «teor-efector». Por
quando se dava a voz de «cadeira». Depois, tirou-se a esta experiência com o negro somos levados a notar que
cadeira e repetia-se, «cadeira». O resultado foi o cão nós elaboramos para todas as utilizações que aproveita-
comportar-se com todos os objectos que julgava poderem mos no nosso mundo-próprio uma imagem-efectora que
servir de assento, como se comportara com a cadeira,
necessariamente fundimos tão intimamente cõm i ima-
e saltar para cima deles. Todos eles, pois nos queremos
gem-perceptiva fornecida pelos nossos órgãos dos sen­
referir a objectos como arcas, étagères, bancos volta­
tidos, que elas adquirem por esse mejo uma nova quali­
dos, tinham um certo «teor de assento», e, de facto, um
dade que nos torna corflTecídcT o seu significado, e que
teor de assento-de-cão, e não de assento-de-homem. Por­
logo pretendemos caracterizar como seu teor-efector.
que certas destas cadelras-de-cão não eram absoluta­
0~Trüsmo objecto pode, se tiver "diferentes présti­
mente nada próprias para serem como tal utilizadas pelo
mos, possuir várias imagens-efectoras, que então empres­
homem. Podia ainda mostrar-se que também «mesa» e
tam à mesma imagem-perceptiva, outros tantos teores
«cestinho» possuíam para o cão um teor especial, que
correspondentes. Uma cadeira pode, ocasionalmente, ser
dependia dos serviços que lhe prestavam.
aproveitada como arma de arremesso, e possui então

[ 90 ] [ 91 ]
uma nova imagem-efectora que se revela como «teor de Quando uma libelinha voa para um ramo para nele
aaressao». TambenTneste caso, bem humano, a situação pousar, o ramo existe no seu, mundo-próprio, não apenas
do sujeito é, por isso, como no exemplo do casa-roubada, como imagem-perceptiva, mas também se denota por
tendente a escolher que imagem-efectora atribui teor à meio de um teor de «assento», que a distingue de todas
imagem-perceptiva. Só se podem pressupor imagens-efec- as outras hastes.
toras onde existirem orgaos .efectores que comandem Só quando t omamos em consideração os teoresjf e c -
os comportamentos do anima^ Todos os animais que fun­ toresTse compreende a alta eficiência que o
cionam de forma puramente reflexa, como o ouriço-do- r e c r a o r r m lffiã ís T ^ ■ Devemos
-mar, são, por consequência, excluídos dessa possibili­ dizer: j j m animal pode~íéalizar tanto malox„nuniero_-dfi-
dade. Mas, como o casa-roubada mostra, a sua impor­ utilizações quanto maior for o n ú m e r o de^objectos que
tância é muito profunda no reino animal. ehTpode distTnguir no seu mundo-próprio. Se ele dispoe
Se queremos aproveitar o conceito de imagens-efec- 3e p o ü c ã ^ m ã ^ ^ p ê ir ^ p ii v ã s corri pòucas utilizações,
toras na interpretação dos mundos-próprios, mesmo nos então também o seu mundo-próprio se reduz a poucos
animais muito diferentes de nós, nunca devemos esque­ objectos. Ele é, por esse facto, realmente mais pobre,
cer que ejas são utilizações dos animais projectadas nos mas, proporcionalmente, goza de maior segurança. Por­
mundos-próprios, que, por intermédio dos teores-efecto- que é muito mais fácil orientar-se entre poucos objectos
res, comerem às Imagens perceptivas~~ãpenas o seu do que entre muitos. Se a paramécia possuísse uma ima­
sígnificadò T Sê quisermos representar o que no mundo- gem-efectora de utilidade para ela, todo o seu mundo-
-próprio de um animal é vital, proveremos de um teor- -próprio se comporia de objectos todos iguais que teriam
-éfector a imagem-perceptiva que lhe é dada pelos órgãos todos o mesmo teor de obstáculo. Seja como for, um tal
daS"sentidos, para que possamos compreender completa­ mundo-próprio nada deixaria a desejar.
mente o seu significado. M esmo nos casos em que não Com o número de capacidades de um animal
se trata de uma imagem espacialmente organizada, como aumenta o número de objectos que povoam o seu mundo-
na carraça, deveremos dizer que nos três estímulos que -próprio. Elas elevam-se no decorrer da vida individual
nela incidem como únicos denunciadores da sua presa, de cada animal, que pôde acumular experiências. Porque
0 significado"dosTeores-efantnrpfi (nnm pIpc cada experiência nova implica o assumir o sujeito nova
dos) resulta da queda sobre ela—da_Q- correr sobre ela posição perante novas sensações. Além disso . adquj".
de um para o outro larin e He n-nBla.pftnfitrar. Certamente rem-s_e_„novas, imaqens-perceptivas, com novos teores-
a actividade selectiva dos receptores, que representam -efectores.
as portas de entrada dos estímulos, desempenha o papej IstcTobserva-se principalmente nos cães que apren­
dominante, mas só o teor-efector, que está relacionado dem a manejar certos objectos usados pelo homem e
com os estímulos- lhfis~cnnfflrf»..a c.p.rtp.7a infalível. que eles, por sua vez, utilizam também.
Como as imagens efectoras se podem deduzir das No entanto o número de objectos no mundo-próprio
utilizações pelos animais, facilmente reconhecíveis, as do cão é sempre inferior aos do nosso mundo-próprio.
coisas no mundo-próprio de cada novo sujeito tornam-se Isto é ilustrado com clareza nos três desenhos coloridos
muitíssimo evidentes. idênticos, 2, 3, 4 (entre páginas 128 e 129). Representa-se

[ 92 ] [ 93 ]
neles o mesmo aposento. Mas os objectos que nele se 8. O CAMINHO APRENDIDO
encontram têm cores diferentes conforme os teores-efec-
tores que correspondem respectivamente ao homem, ao A melhor maneira de nos convencermos da varie­
cão e à mosca doméstica. dade de mundos-próprios do homem é seguir um guia
No mundo-próprio do homem os teores-efectores são num caminho que desconhecemos (1). O guia segue com
representados, na cadeira pelo teor de assento (acasta­
nhado) na rrçesa pelo teor de refeição (amarelo) e nos
pratos e copos por outros teores-efectores (castanho-
-claro, teor de comer, e vermelho, teor de beber). O soalho
possui o teor-de-marchar, ao passo que a estante de
livros (lilás) teltn o teor de ler, e a escrevaninha um teor
de escrever (azul). A parede tem um teor-de-obstáculo
í(verde) e o candeeiro, o teor de iluminação (branco).
No mundo-próprio do cão os mesmos teores são
representados pelas mesmas cores; nele só existem os
de comer, de sentar, etc. Tudo o mais tem uma tonali­
dade de obstáculo. O banco giratório, em virtude do seu
polimento, não tem para o cão teor de assento.
Finalmente vê-se como, para a mosca, tudo possui
somente um teor de movimento, sobre cujo significado
já se falou.
Gom que segurança a mosca se orienta no mundo
ambiente do nosso aposento, mais pormenorizadamente
se esclarecerá por meio da fig. 28. Logo que a cafeteira
com café quente se coloca sobre a mesa, as moscas jun-
tam-se em volta dela, porque o calor constitui para elas
um estímulo. Deslocam-se sobre o tampo da mesa porque
esta tem para elas um teor de movimento. E como as
moscas_ t êm nas patas órgãos do gosto, cuja irritação
d esencadeia o desenvaginãF ^
ng_a|imento de que se utijjzam. ao passo que todos os
outr° s objectos ..determinam o prosseguirem nas suas
segurança um caminho que nós próprios não discernimos.
deambulações. Neste caso é fácil distinguir o mundo-
Entre todas as numerosas rochas e árvores que nos
-próprio da mosca do seu mundo ambiente.
(') Sobre o problema dos «mundos-próprios» dos homens
comp. as págs. 11 e 13. (Nota da ed. alemã.)

[ 94 ] [ 95 ]
rodeiam, há, no mundo-próprio do guia, algumas que se senta o problema do caminho aprendido no mundo-próprio
sucedem, distinguindo-se de todas as outras como bali­ dos animais; sem dúvida, que, no mundo-próprio de vários
zas, apesar de, aos olhos de quem não conhece o cami­ animais, desempenham um papel importante na recons­
nho, elas se não singularizarem por nenhuma indicação. tituição do caminho aprendido sinais olfactivgs e sinais,
O caminho aprendido é-o apenas para determinado tácteis.
indivíduo, e é, por isso, um problema típico do mundor Numerosos investigadores americanos procuraram,
-próprio. É um problema de espaço, e diz respeito tanto durante dezenas de anos, estabelecer, em milhares de
ao espaço visual como ao espaço-de-acção do sujeito, e sentidos em que os mais diferentes animais tinham de
resulta imediatamente de como se caracteriza um espaço se orientar num labirinto, com que rapidez cada animal
conhecido — o que se faz pouco mais ou menos assim: podia reconhecer um determinado caminho. O problema
voltar à direita por trás da casa vermelha, depois andar do caminho aprendido de que aqui se trata passou-lhes
a direito duzentos passos e então voltar à esquerda. Utili­ despercebido. Também não estudaram os sinais visuais,
zamos três caracteres para marcar um caminho: 1.° um tácteis ou olfactivos, nem se lembraram do aproveita­
carácter óptico, 2.° os planos de orientação, 3.° o número mento pelo animal, dos sistemas de coordenadas: que a
de passos. Neste caso não recorremos ao número de pas­ questão de d ire ita ou de esquerda é um problema inde­
sadas elementares, isto é, à mínima possível unidade de pendente, nunca os impressionou. Também nunca dis­
passos, mas sim à soma dos impulsos elementares que cutiram a questão do número de passadas, porque não
nos é habitual e que são necessários para constituir um viam que também entre os animais a passada pode ser
passo normal. O passo, ou passada, em que uma perna' utilizada como medida de distância.
se desloca com uniformidade para trás e para diante, é Em resumo; o problema do caminho conhecido, ape­
em alguns indivíduos tão bem determinada, e em muitos sar da vastidão do material de trabalho já acumulado,
mede tão aproximadamente o mesmo comprimento, que deve ser reconsiderado. A descoberta do caminho já
mesmo ainda hoje serve de medida vulgar. trilhado, no mundo-próprio do cão, a par do seu interesse
Quando se diz a alguém que deve andar cem passos, teórico, tem também um grande alcance prático, quando
quer-se com isto significar que deve imprimir cem vezes se tomam em consideração as questões que o cão-guia
às suas pernas o mesmo impulso de movimento. O resul­ dos cegos tem de resolver.
tado obtido será sempre aproximadamente a mesma A fig. 29 representa um cego a ser guiado por um cão.
extensão percorrida. O mundo-próprio do cego é muito limitado; só na medida
Quando percorremos repetidas vezes um certo em que pode tactear o seu caminho com a bengala e com
espaço, ficam-nos na memória os impulsos comunicados os pés, toma dele conhecimento. A rua que atravessa está
à marcha, como indicação de direcção, de modo que para­ mergulhada em trevas. O seu cão, porém, é quem o guia
mos maquinalmente no mesmo lugar, mesmo quando não até casa, seguindo um caminho determinado. A dificuldade
actuamos recorrendo às indicações ópticas. Os sinais de do adestramento de um cão está, por isso, em fazer entrar
orientação desempenham, pois um papel saliente no cami­ no seu mundo-próprio certos sinais que são de interesse
nho aprendido. para o cego mas não para o cão. Assim, o caminho ao
Tinha grande interesse determinar como se apre­ longo do qual ele guia o cego terá de rodear obstáculos

[96] 1 - A . HOMENS [97]


em que o cego podia tropeçar. É particularmente difícil
eido, para voltar a entrar por onde tinha saído, pois que,
insinuar no cão um sinal de um marco do correio ou de
vindo no outro sentido não podia ter reconhecido a
uma janela aberta, pelos quais, aliás, ele passaria indi­
entrada.
ferente. Mas também a margem do passeio, em que o Recentemente averiguou-se que as ratazanas con­
cego podia dar um passo em falso, é difícil de fazer entrar tinuam a utilizar por muito tempo o mesmo rodeio, mesmo
quando o caminho directo esteja livre.
Pôs-se então novamente o problema do caminho

aprendido, no caso dos peixes-lutadoreg, e chegou-se


Fig. 29 — O cego e o seu cão aos seguintes resultados: em primeiro lugar estabele-
ceu-se que o_desconhecido exerce sobre eles uma acção
repulsiva. Introduziu-se no aquário uma placa de vidro
no mundo-próprio do cão, como sinal característico, pois
em que se tinham feito dois pequenos orifícios, pelos
que normalmente mal se apercebe dele quando corre
quais os peixes podiam passar com facilidade. Quando se
à solta.
oferecia comida a um peixe-lutador do outro lado do ori­
A fig. 30 representa uma experiência feita com gra-
fício decorria algum tempo antes de ele se introduzir,
lhas-de-bico-vermelho. Como nela se vê, a gralha voa
hesitante, pelo orifício, para a apanhar. Então mostrava-
em volta da casa, dá-lhe de novo volta em sentido con­
-se-lhe a comida lateralmente em relação ao orifício e o
trário e utiliza no regresso o caminho que lhe é conhe-
peixe logo lhe seguia no encalce. Finalmente mantinha-se

[ 98 ]
[ 99 ]
9. LAR E PÁTRIA
a comida em frente do seaundo orifício: pois apesar disso
n peixe passava sempre pelo primeiro orifício, que já O problema do lar e da pátria está intimamente rela­
sabia utilizar, sem se utiíizar.. d a que até aí não t i n h a cionado com o caminho aprendido.
usa^o. Como ponto de partida o melhor é escolherem-se os
Colocou-se, então, como o representa a fig. 31, um estudos feitos sobre os esgana-gatas (1). O macho da
tabique do lado da placa de vidro com orifícios, donde se espécie constrói um ninho cuja entrada prima em marcar
mostrava o engodo ao peixe. Mostrava-se este agora do com alguns fios de várias cores — sinal visual de direc­
lado que o tabique ocultava; o peixe nadava ao longo do ção para a criação. No ninho, os filhos crescem sob a
vigilância do pai. Este ninho é o seu lar. Mas cá fora
abre-se a sua pátria. A fig. 32 representa um aquário em

Fig. 31 — O caminho aprendido do peixe-lutador cujos cantos opostos dois esgana-gatas construíram os
seus ninhos. No aquário existe uma fronteira invisível
que o divide em duas zonas, cada uma das quais corres­
caminho aprendido, mesmo quando o tabique estava ponde a um ninho. Cada zona correspondente a um dos
colocado de modo que ele podia ter alcançado o engodo ninhos, é a pátria de um dos esgana-gatas, que ele
directamente passando a nadar entre a placa perfurada defende vigorosa e tenazmente, mesmo contra esgana-
e o tabique. No caminho aprendido entraram, assim, -gatas maiores. Na sua pátria o esgana-gata é rei.
sinais visuais e sinais-de-orientação. A pátria é uma pura questão de mundo-próprio, por­
Resumindo pode dizer-se que o caminho aprendido que representa uma produção puramente subjectiva, para
funcionou como um curso de um meio muito fluido atra­ cuja existência nem o mais estrito conhecimento do
vés de uma massa viscosa. mundo ambiente oferece o mínimo ponto de apoio.

(') Pequenos peixes de águas salobras, doces ou marinhas, com


espinhos muito fortes anteriores à barbatana dorsal e às pélvicas.

[ 101]
[10 0]
Pergunta-se, então, quais os animais que possuem chegam. Este coincide com a sua pátria, que ela defende,
uma pátria e quais os que a não possuem? Uma mosca para a vida ou para a morte, de qualquer toupeira vizinha.
doméstica que em voos sucessivos, para um lado e para É admirável a destreza com que a toupeira, cega
o outro, abrange uma certa porção de espaço em volta de como é, se orienta, sem nunca se enganar, num terreno
um lustre não possui o que se chama uma pátria. para nós perfeitamente uniforme. Se se lhe ensinar qual
o lugar em que conserva os seus alimentos, ela acerta
Pelo contrário, uma aranha que constrói o seu ninho,
com ele, mesmo quando se obstruam todos os caminhos
em que permanentemente vive, possui um lar que é igual­
mente a sua pátria.
O mesmo se passa com a toupeira (fig. 33). Também
ela constrái a sua habitação e estabelece a sua pátria.
Sob o solo W tende-se um sistema de túneis como uma
teia de aranha. Mas não são só os seus caminhos indi­
viduais que formam o âmbito do seu domínio, mas ainda
toda a área dentro da qual exerce a sua actividade.
Quando cativa, a toupeira esboça os seus caminhos de tal
modo que parece formarem uma teia. Podíamos provar
que a toupeira, graças aos seus órgãos olfactivos, muito
desenvolvidos, é capaz de procurar os seus alimentos
dentro de um raio de cerca de cinco a seis centímetros.
Num sistema de caminhos apertados, como o que ela
constrói, quando cativa, as zonas situadas entre eles
são ainda dominadas pelos seus órgãos dos sentidos, ao
passo que na natureza, onde a toupeira estabelece os
seus túneis mais afastados uns dos outros, ela pode ainda
controlar, pelo olfacto, o solo, num certo raio em volta
de cada galeria. Como uma aranha, a toupeira percorre
muitas vezes esta rede de galerias, e reúne tudo o que
ali ficou disperso como despojo. No centro deste sistema
de galerias a toupeira constrói uma cova forrada de
que a ele conduzem. O que demonstra que a toupeira
folhas secas — o seu lar individual, no qual passa as
pode ser guiada por sinais olfactivos.
horas de repouso. Para ela todos os corredores subterrâ­
O seu espaço é um puro espaço-de-acção. Temos de
neos são caminhos aprendidos que é capaz de percorrer
admitir que a toupeira é capaz de redescobrir um caminho
sempre com a mesma rapidez e facilidade em qualquer uma vez utilizado, à custa da reprodução dos passos-de-
sentido. O seu campo de rapina chega até onde eles -orientação. Além disso, os sinais tácteis, que se rela­

[10 2 ] [ 103]
cionam com os passos-de-orientação, nela como em todos neutra do campo defeso passa o seu tempo em segurança.
os animais cegos, desempenharão um papel importante. O campo defeso é utilizado por muitas aves canoras
É de admitir que sinais de orientação e passos de orien­ para aninhar e chocar, podendo aí criar os seus filhos ao
tação se combinam como base de um esquema espacial. abrigo do ataque das grandes rapaces.
Destrua-se o seu sistema de caminhos, ou parte dele, A forma e os meios utilizados pelos cães para darem
e ela será capaz de restabelecer, com o auxílio de um facilmente a conhecer aos indivíduos da sua espécie a
sua pátria, merecem atenção especial. A fig. 34 repre­
esquema adequado, um novo sistema que se assemelha
ao antigo.
As abelhas também constroem um lar, mas a zona,
em volta da colmeia, em que buscam o alimento é, com
efeito,' o seu campo de caça, sem, no entanto, constituir
uma pátria que seja defesa aos intrusos. No caso das
pegas, ao contrário, pode falar-se de lar e de pátria, pois
que elas constroem o seu ninho dentro de uma zona
em que não consentem quaisquer pegas atrevidas.
Provavelmente far-se-á em muitos animais a expe­
riência de ver se eles defendem o seu campo de caça
contra os seus semelhantes e fazem dele a sua pátria.
Uma zona preferida por cada espécie animal asseme-
lhar-se-á, quando nela se quiser traçar o âmbito da pátria,
a uma como que carta política dessa espécie, cujo limite
será estabelecido por meio do ataque e da defesa. Em
muitos casos também se verificará que já quase não
existe qualquer espaço disponível, mas que por toda a
parte uma pátria colide com outra pátria, é muito notável
a observação que mostra que entre o ninho de muitas
aves de rapina e o seu campo de caça se estende circular­
mente uma zona neutra em que elas não abatem qualquer senta a carta do Jardim Zoológico de Hamburgo, com os
presa. Os ornitólogos julgam, com razão, que esta cons- arruamentos em que estão marcados os sítios em que nos
tituição do mundo-próprio tem sido aceite pela natureza seus dois passeios diários à trela os cães urinavam.
para impedir que as aves de rapina destruam a própria Eram sempre os sítios, também especialmente no­
criação. .uuando o nTrTHegõ~de~falcão abandona o ninho tados pela vista do homem, que eles impregnavam com
para passar o dia a saltar, de ramo em ramo, na proximi­ o cheiro que os denunciava. Se dois cães eram condu­
dade dele, correria facilmente o perigo de, por lapso, ser zidos juntos, ordinariamente urinavam ao mesmo tempo.
atacado pelos próprios pais. De modo que, assim, na zona Um cão ladino manifesta sempre tendência para,

[ 104] [ 105]
quando um outro cão estranho o encontra, deixar o seu de um pinheiro isolado, visível de longe. Isto indica aos
cartão-de-visita no objecto mais próximo que lhe salta à outros ursos que devem passar ao largo do pinheiro,
vista. Por seu turno, quando entra na pátria de outro cão, evitando assim toda a zona em que um urso delimita a
denunciada por essas marcas alheias, farejará sucessi­ sua pátria.
vamente esses vestígios alheios e esgaravatará cuida­
dosamente os pontos onde eles existem. Mas um cão de 10. O COMPANHEIRO
fraca qualidade passará com medo por tais vestígios e
Tenho bem presente na minha memória a imagem
de um pobre patinho, chocado juntamente com uma ni-
nhada deperu s e^que vivia tão ligado à família adoptiva,
que nunca entrara na água e que evitava escrupulosa­
mente os outros animaizinhos da sua espécie, que saíam
da água frescos e limpos. Por essa ocasião ofereceram-me
um pato-bravo que me seguia por toda a parte. Quando eu
me sentava, encostava a cabeça aos meus pés. Eu tinha a
impressão que eram as minhas botas que exerciam essa
atracção, pois que também corria atrás dos baixotes
pretos. Daí concluí que qualquer coisa preta em movi­
mento bastava para lhe sugerir a imagem da mãe e
mandei-o largar próximo do ninho materno para recuperar
as ligações familiares que tinha perdido. Hoje duvido que
fosse essa a explicação, porque a este respeito fui infor­
mado de que para que certas crias de ganso-cinzento aca­
badas de nascer se juntem espontaneamente a uma famí­
lia de gansos e a sigam, devemos metê-los logo que
nascem numa bolsa de caça e largá-los junto dela. Se
vivem durante algum tempo na companhia do homem não
aceitam, depois, associar-se com os seus semelhantes.
Em todos estes casos trata-se de uma mudança de ima­
gens perceptivas, que frequentemente se dá. em parti-
não denunciará a sua presença por nenhum sinal cular, no mlmdó-próprícr das avêsTD que se sabe das
olfactivo. percepções das aves é ainda insuficiente para se pode­
A delimitação da pátria é também, como o mostra rem tirar conclusões seguras a esse respeito.
a fig. 35, empregada pelos grandes ursos da América do Na fig. 20 já nos foi dado ver a gralha-de-bico-verme-
Norte. Para isso o urso ergue-se nas patas traseiras a Iho caçando o gafanhoto, e ficámos com a impressão que,
toda a sua altura e esfrega o dorso e o focinho na casca essencialmente, ela não tinha qualquer percepção do

[ 106] [ 107]
gafanhoto em repouso, e por isso este não existia no seu gato que não traga na boca uma presa. Só quando o
mundo-próprio. perigo dos dentes afiados do gato está afastado, como
As figs. 36 a e 36 b representam-nos uma outra expe­ sucede quando estes estão ocupados em abocar a presa,
riência respeitante às percepções das gralhas. Nela vê-se ele passa a ser objecto de ataque da parte da gralha.
uma gralha em atitude agressiva perante um gato que Isto parece ser um comportamento altamente prático
traz na boca outra gralha. Uma gralha nunca ataca um da parte da gralha. Mas, na realidade, não passa de uma
reacção perfeitamente de acordo com um plano que flui
com absoluta independência de qualquer espécie de
inteligência da gralha. Porque ela assumiria a mesma ati­
tude se se lhe acenasse com uns calções de banho. E ela
também não atacaria o gato se em vez de uma gralha
preta trouxesse nos dentes uma gralha branca.
A percepção de um objecto preto que se mova diante
do animal desencadeia só por si a atitude agressiva.
Uma percepção de valor tão geral pode prestar-se
sempre a confusões, como já pudemos verificar a pro­
pósito do ouriço-do-mar, em cujo mundo-próprio nuvens
e navios são confundidos com o peixe, seu inimigo, pois
que o ouriço-do-mar reage sempre da mesma maneira
Flg. 36 a — Gralha em atitude agressiva perante um gato contraio obscurecimento do horizonte.
Nas aves, porém, não nos subtraímos à dificuldade
recorrendo a uma explicação tão simples.
Sobre o que se passa com as aves que vivem em
sociedade há uma multidão de experiências contraditórias
acerca de mudanças de imagens-perceptivas. Só recente­
mente se conseguiu pôr em relevo num caso típico
de uma gralha domesticada, chamada Tschock, o ponto
de vista mais importante.
As gralhas que vivem em sociedade têm durante a
vida um com panheiro próprio, com que se comportam
das mais diversas maneiras. Se se educa isoladamente
uma gralha, ela de maneira nenhuma renuncia ao com­
panheiro, e quando não dispõe de um da sua espécie
Fig. 36 b — Gralha em atitude agressiva perante uns calções
adopta um «companheiro substituto», e, de facto, pode,
de banho
para cada nova demonstração, surgir «um companheiro

[ 108]
[ 109]
substituto» ,novo. Lorenz (1) teve a amabilidade de me escolheu como companheiro preferido a criada dos quar­
enviar as figs. 37 a e 37 b, em que se podem, de um golpe, tos, diante de quem executava os seus característicos
ver as relações para com o companheiro. bailados-de-amor. Mais tarde adoptou como companheiro
A gralha Tschock teve, quando jovem, como compa- uma gralha muito jovem a que ela própria dava de comer.
Quando Tschock se preparava para mais largos voos
tentou levar o próprio Lorenz a voar em sua companhia à
maneira das gralhas, quando arrancava para o voo mesmo
por trás das costas dele. Como isto não desse resultado,
juntou-se com as gralhas que voavam, as quais passaram
a ser os seus companheiros de voo.
Como se vê não existe no mundo-próprio da gralha
nenhuma imagem-perceptiva uríica~de compánfíéirõ7~TãT~
nao é também possível, porque o papel do companheiro.
muda constantemente. A imagem-perceptiva do compa-
nheiro-maternal parece, na maior parte dos casos, que não
se estabelece logo ao nascer, no que respeita à forma
e à cor. O contrário se dá com a VQZ_tnaíama^
Lorenz escreve: «Devia, em cada caso especial de
companheiro-maternal, pôr-se em relevo quais os carac­
teres maternais que são inatamente apercebidos, quais
os que são percepções adquiridas pelo indivíduo. A difi­
culdade está, precisamente, em os aspectos maternais
adquiridos logo após alguns, poucos, dias, e mesmo
só algumas horas (ganso-cinzento, v. Heinroth) ficarem
tão profundamente gravados que, quando se separam os
filhos das mães, dir-se-ia que são inatos.
O mesmo se passa na escolha do companheiro-di-
Figs. 37 a e b — A gralha Tschock e os seus quatro companheiros lecto. Também aqui os caracteres do companheiro substi
tuto que passam a ser apercebidos pelo indivíduo, se
gravam tão fortemente que do facto resulta a aquisiçãc
nheiro maternal o próprio Lorenz.'Seguia-o por toda a
por ele de uma percepção definitiva depois de se ter efec­
parte, gralhava para que lhe desse a comida no bico.
tuado a primeira mudança. Donde, até os animais da
Quando já aprendera a buscar por si os alimentos,
mesma espécie serem rejeitados como companheiros-
-dilectos.
(') Konrad Lorenz (1903). Zoólogo e zoopsicólogo. (Nota da
ed. alemã.) Isto foi posto em evidência por um incidente curioso.

[ 110] [ 111]
Havia no Jardim Zoológico de Amsterdão um casal de deve tornar impossível o aparecimento posterior de um
abetouros jovens cujo macho se tinha enamorado do companheiro verdadeiro.
director do Jardim. Para não prejudicar o acasalamento, Depois de a imagem-perceptiva da criada de quarto
este não apareceu ao macho durante muito tempo. De ter adquirido no mundo-próprio de Tschock o «teor de
modo que o macho afeiçoou-se à fêmea, e o facto surtiu afeição» exclusivo, todas as outras imagens-perceptivas
efeito; e como a fêmea caísse no choco, o director re­ perderam eficácia.
Quando consideramos que nos mundos-próprios da
solveu voltar a aparecer. O que sucedeu? Muito simples­
gralha todo o ser vivo, isto é, aquelas coisas que são
mente que, mal o macho avistou o seu companheiro-
capazes de movimento próprio, se reduzem a gralhas e
-dilecto, escorraçou a fêmea do ninho, e por meio de repe­
não gralhas (o que não deixa de ter analogia com o que
tidos sinais parecia dar a entender que o director podia
se passa com os homens primitivos), e quando, depois,
ocupar o lugar a que tinha direito e continuar a chocar
e já de acordo com a experiência pessoal, a maneira de
os ovos. fazer a distinção passou a ser outra, então compreende-se
A percepção, pelo indivíduo, do companheiro-de-infân- que se possam cometer erros tão ridículos como os que
cia parece ser, a maior parte das vezes, a que mais incisi­ acabámos de referir. Não é só a percepção que decide se
vamente fica gravada. Provavelmente, o grande apetite se trata de gralhas ou não gralhas, mas também a ima-
que faz escancarar as goelas aos jovens desempenha gem-efectora dó próprio ajustamento. Só esta decide
aqui o papel determinante. Mas também neste caso se qual a imagem-perceptiva que mantém o respectivo, teor.-
prova que em raças muito apuradas, como as galinhas -d e-companheiro.
O rpington, estas, quando chocas, adoptam gatos e cãès
jovens como filhos.
11. IMAGEM-PRETENDIDA E TEOR-PRETENDIDO
O companheiro-substituto para os voos livres é, por
seu turno adoptado mais largamente, como o caso de
Volto a duas experiências pessoais que explicarão
Tschock mostra.
melhor que tudo o que, como factor importante para o
Quando se considera que os calções de banho apre­ mundo-próprio, se deve entender por imagem pretendida.
sentados à gralha passaram a ser para ela um inimigo Quando, por largo tempo, fui hóspede de certo amigo
a atacar, isto é, passaram a ter para ela o teor-efector de meu, todos os dias ao almoço colocavam diante do meu
«inimigo», poderá dizer-se que se trata aqui de um ini­ lugar à mesa um jarro com água. Um dia o criado partiu
migo substituto. Como no mundo-próprio das gralhas há o jarro, e a substituí-lo pôs no lugar por ele habitualmente
muitos inimigos, o aparecimento do inimigo-substituto, ocupado, uma garrafa de vidro com água. Durante a refei­
especialmente quando se deu uma só vez, não teve ção procurei com a vista o jarro e não notei a garrafa de
qualquer influência sobre a imagem-perceptiva do verda­ vidro. Só quando o meu amigo me assegurou que a água
deiro inimigo. No caso do companheiro a coisa é outra. estava no seu lugar habitual é que subitamente certos
Este é o único que existe de cada vez no mundo-próprio, clarões oue incidiam sobre facas e garfos através do ar
e a atribuição do teor-efector a um companheiro substituto se combinaram e formaram a garrafa de vidro. A fig. 38

[ 112] 8 - A. HOMENS [113]


tinho, pegou na nota e apalpou-a com todo o cuidado, não
deve exprirpir esta experiência. A imagem procurada
fosse ela esvair-se de novo no ar. Também neste caso,
é manifesto, a imagem-pretendida elim inaraa..im ageau_
A outra experiência foi a seguinte: entrei um dia em
um estabelecimento em que tinha a liquidar uma conta, -perceptiva,__
e tirei da carteira uma nota de cem marcos. A nota era Todos os leitores terão passado por casos como
absolutamente nova e estava pouco amarrotada, e em estes que parece serem bruxarias.
Na minha doutrina-da-vida publiquei a fig. 39, aqui
reproduzida, que explica os diferentes processos que se
\’

Fig. 39 — Os processos perceptivos

Fig. 38 — A imagem pretendida elimina a imagem perceptiva

entrelaçam nas nossas percepções. Quando colocamos


vez de ficar aberta e estendida sobre o balcão, ficou ao diante de qualquer pessoa uma campainha, e a fazemos
alto apoiada sobre as margens em ângulo. Pedi à caixeira soar, ela entra no seu mundo ambiente como fonte de
para me dar o troco e ela respondeu-me que eu ainda lhe um estímulo, que penetra no seu ouvido transportado por
não dera o dinheiro. Disse-lhe que o tinha na sua frente, ondas do ar (processo físico). Dentro dele as ondas
mas ela, agastada, repetiu que, se queria o troco, desse sonoras transportadas pelo ar transformam-se em estí­
primeiro o dinheiro. Toquei èntão com úm dedo na nota, mulos nervosos, que atingem o órgão-de-percepção do
que caiu e ficou.bem visível. A pequena soltou um gri­ cérebro (processo fisiológico). Aí as células de percepção

[ 114] [ 115]
reagem por meio de percepções e transferem para o
mundo-próprio do sujeito um sinal-característico (pro­
cesso fisiológico).
Se a par de ondas sonoras transportadas pelo ar até
ao ouvido, entram nos olhos ondas de éter, que, seme­
lhantemente, determinam no órgão-de-percepção excita­
ções, então, os seus sinais perceptivos de sons e de
cores constituem-se segundo um certo esquema num
conjunto unitário, que é projectado no mundo-próprio do
sujeito como imagem-perceptiva.
A mesma representação gráfica pode aplicar-se à
explicação do chamado teor-pretendido. Neste caso a
campainha deve encontrar-se fora do campo de visão.
As percepções sonoras são, só elas, transportadas para o
mundo-próprio do sujeito. Ligadas com elas há, porém,
uma imagem perceptiva óptica invisível, que funciona
como imagem-pretendida. Se a campainha depois de pro­
curada entra no campo de visão, então a imagem-percep-
tiva associa-se com a imagem-pretendida. Afastadas ex-,
cessivamente uma da outra, pode suceder que a imagerh-
-pretendida anule a imagem-perceptiva, como resulta dos
exemplos dados.
No mundo-próprio do cão há imagens-pretendidas
perfeitamente determinadas. Quando o dono manda o cão
buscar uma bengala, o cão dispõe de uma imagem-preten­
dida bem determinada da bengala, como o mostram as
figs. 40 a e 40 b. Também aqui há oportunidade de verifi­
car até que ponto a imagem-pretendida corresponde à
imagem-perceptiva.
O sapo fornece algumas informações neste sentido:
um sapo que, depois de um prolongado jejum, comeu uma
minhoca, lançou-se igualmente sobre um fósforo, que
tem certa semelhança de forma com uma minhoca. Daqui
se conclui que a minhoca que ele acabara de devorar

[ 116] [ 117]
lhe serviu de imagem-pretendida como se traduz na para caso, podemos agora designar, com mais proprie­
fig. 41. dade, por teor-pretendido, diferente de caso para caso,
Se o sapo tivesse primeiro comido uma aranha, a com que o casa-roubada aborda a mesma imagem-percep­
imagem-pretendida seria diferente, porque então lançar- tiva e lhe atribui ora um teor-de-agressão, ora um teor-
-se-ia porventura sobre um fragmento de um musgo ou -de-protecção, ora ainda um teor-de-alimento.
sobre uma formiga, o que |he assentaria muito mal. O sapo esfomeado começa por partir para a busca
Ora nós nem sempre buscamos determinada coisa à dos alimentos dispondo apenas de vago teor-de-saciar-a-
custa de uma Imagem-perceptiva. mas muito mais fre- -fome, e só depois de ele devorar uma minhoca ou um
guéntementje buscamos um objecto que corresponde a fósforo se constitui determinada imagem-pretendida.

12. OS MUNDOS-PRÓPRIOS IMAGINÁRIOS

Sem dúvida existe, dominando tudo, uma oposição


entre o mundo ambiente que nós, homens, vemos abrir-se
em torno dos animais, e os nossos mundos-próprios, que
eles próprios construíram, e que preencheram com as
coisas de que tiveram percepção, Até aqui os mundos-
-próprios eram, em regra, o resultado das percepções
cféspêrtadas porest7mOT^j^rtéi:i.Q.i:ês.. Ã essa regra fize­
'""uní
ram já excepção a. imagem-pretendida, assini, como a de-v
Fig. 41 — Imagem-pretendida do sapo terminação do caminho aprendido e a delimitação, da
pátria, que não resultam de qualquer es,pécie.de estímulo
exterior mas são produtos autónomos f
de ' ^"iiiwjBiiriiiiiwiiii
actividades .......
ÜUiaJmageiri-efectora. Assim não buscamos, olhando em subjectivas.....
volta de 'nos","Fmà ’determinada cadeira, mas sim um Estes produtos subjectivos constituíram-se à custa
móvel que sirva para nos sentarmos, isto é, uma coisa da reunião de repetidas experiências pessoais do sujeito.
a que corresponde determinado tp.nr-de-utilização. Neste Se agora prosseguirmos neste caminho, deparamos
caso pode tratar-se não de uma imagem-pretendida mas com mundos-próprios em que surgem aspectos de grande
de um teor-pretenriiHn. eficácia, mas que só são apercebidos pelo sujeito ,e ,que
Quão importante é o papel desempenhado pelo teor- não estão ligados a quaisquer experiências, ou, quando
-pretendido no mundo-próprio de cada animal ressalta do muito se relacionam com um acontecimento excepcional.
exemplo citado a respeito do casa-roubada e da anémona- Tais mundos-próprios designamo-los por mundos-imaqi-
-do-mar. Aquilo a que então chamámos a condição, ou n á rio s.
disposição, do casa-roubada, que era diferente de caso Para ver até que ponto muitas-crianças vivem em

[ 118 ] [119]
mundos-próprios-imaginários pode servir o seguinte exem­ Quem reparar melhor verá que o mesmo se dá em
plo: Frobenius (1) refere-se no' seu Paideuma a uma rapari- muitos mundos-próprios de europeus cultos.
guinha que com uma caixa de fósforos e três fósforos Ora pode perguntar-se se os animais também vivem
representou às escondidas, só para si, a história da casi­ em mundos-próprios imaginários. A propósito de cães
nha feita de bolo que Hansel e Gretei (2) encontraram na contam-se muitos casos de imaginação. Mas tais relatos
floresta, e da bruxa má, e que inesperadamente se pôs a não foram até hoje analisados com suficiente sentido
crítico. De uma maneira geral, porém, e aproximadamente,
deve-se admitir que os cães associam as suas experiên­
cias umas com as outras de uma maneira que tem mais
um carácter imaginativo que lógico. O papel desempe­
nhado pelo dono no mundo-próprio do cão compreende-se
como fenómeno de imaginação do cão, não se explica em
termos de causa e de consequência.
Um investigador meu amigo relata, a respeito de um
aspecto sem dúvida imaginário no mundo-próprio de uma
ave: tinha criado em casa um estorninho que, por isso,
nunca tivera ensejo de ver uma mosca, muito menos de
a apanhar. Ora o meu amigo observou (fig. 43) que uma
Flg. 4 2 — O aspecto imaginário da bruxa
vez o estorninho se lançara subitamente sobre qualquer
coisa invisível, «apanhara-a» no ar e «trouxera-a» para o

gritar: «Levem-me daqui a bruxa; já não posso ver a sua


face horrenda.»
Este caso, tipicamente do campo da imaginação, está
representado na fig. 42.
Seja como for, a bruxa má entrou em pessoa no
mundo-próprio da rapariguinha.
Casos como este apresentam-se muitas vezes pe­
rante os exploradores de povos primitivos. Afirma-se que
estes vivem em um mundo de imaginação, em que aos
aspectos captados pelos sentidos se misturam no seu'
mundo aspectos imaginários.

(') Leo Frobenius (1873-1938). Etnólogo e explorador em


África (Nota da ed. alemã.)
(J) Personagens de um conto dos Irmãos Grimm.

[ 120] [ 121 ]
sítio em que costumava estar pousado, «dando-lhe» bica­ no momento próprio, abre uma galeria na polpa ainda mole
das, como todos os estorninhos fazem às moscas que do grão da ervilha, até àjsuperfície, e que aquela só utiliza
caçam, e acabando por «engoli-la». Não pode haver dúvida depois de chegar a gorgulho adulto para sair de^dentro da
que o estorninho visionara no seu mundo-próprio uma ervilha entretanto jsndurecjda. Está perfeitamente averi­
mosca imaginária. Evidentemente todo o seu mundo- guado que se trata de uma conduta exactamente planeada,
-próprio estava tão ocupado pelo teor comestível, que, ainda que, do ponto de vista da larva do gorgulho, com­
pletamente independente do ioao dos sentidos, pois que
nenhum estím ulo sensorial do futuro qoraulhp_p,ode jnc[dir
sobre a sua larva. Nenhum sinal-perceptivo indica à larva
o cãmínho, que ela nunca seguira e que, no entanto, tem
de seguir, de modo que, depois da sua transformação
em gorgulho adulto, não venha a perecer miseravelmente.
Ãs figs. 45 e 46 mostram dois outros exemplos U í
caminho inato. A fêmea do enrolador-de-folhas começa a
cortar, em determinado ponto da folha da bétula (que
talvez lhe seja denunciado pelo seu gosto), uma linha
curva de forma predeterminada, que lhe permite depois
enrolar a folha em forma de funil, dentro do qual o insecto
fará a sua postura. Este, apesar de nunca antes ter
seguido esse expediente e de a folha da bétula não ofe­
recer dele qualquer indicação, apresenta-se à imaginação
do insecto de uma maneira perfeitamente nítida.
O mesmo se passa com a rota de voo das aves
migradoras. Os continentes só às aves revelam o cami­
nho inato. Isto é válido, certamente, para aquelas aves
Fig. 44 — O caminho imaginário da larva do gorgulho-da-ervilha jovens que se aventuram ao caminho não guiadas pelos
pais, pois que, para as outras, não se exclui a possibili­
ajnda mesmo na ausência do estímulo sensorial, a ima- dade da utilização de um caminho aprendido.
gem-efectora preparatória da caça da mosca extraíra a Como o caminho aprendido, de que já tratámos, tam­
aparição da imagem-perceptiva, o que provocou o desen­ bém o caminho inato é seguido tanto à custa do espaço-
cadear de toda a série de actos correspondentes. -visual como do espaço-de-acção.
Esta experiência dá-nos uma indicação que nos ex­ A única diferença entre os dois reside em que no
plica, aliás, atitudes enigmáticas de vários animais. caminho aprendido se desenrola uma série de sinais per-
A fig. 44 representa o modo de comportamento, já ceptivos e de impulso que saem uns dos outros, os quais
estudado por Fabre, d a-larg a d o go rg ulh o:da-ervi lha, que foram retidos por experiências anteriores, ao passo que

[12 2] [ 123]
Fig. 45 — 0 caminho
imaginário do enrola-
no caminho inato a mesma série de representações é
dor-de-folhas dado imediato da imaginação.
Para o observador que está de fora, o caminho apren­
dido num mundo-próprio de outro animal é quase tão
indiscernível como o inato. E quando se admite que o
caminho aprendido surge no mundo-próprio do sujeito
estranho — do que não há que duvidar — então não há
qualquer razão para negar o aparecimento do caminho
inato, pois que ele se organiza à custa dos mesmos ele­
mentos — sinais-perceptivos e impulsos exteriorizados.
Num caso originaram-se em estímulos sensoriais, no
outro soarão em conjunto como uma melodia inata. Se
deteFmmádÕ~*cÍTi^h^~foi^se7-numa pessoa, inato, poder-
-se-ia descrever como o caminho-aprendido: cem passos
até à casa vermelha, depois voltar à direita, etc.
Se se chamar^sensoria jjs ó àquilo que é dado ao
sujeito p elasjéx p e riências dos sentidos, então s ó _ jd
procedimento aprendido se deverá chamar sensorial, não
o inato. Mas é por isso que este se mantém em alto grau
de acordo com um plano.
Que os aspectos imaginários desempenham no
mundo animal um papel muito mais vasto do que se supõe
di-lo uma experiência notável relatada por um investi­
gador recente. Este costumava dar de comer a uma
galinha num certo estábulo, e enquanto ela debicava nos
grãos introduziu no estábulo um porquinho-do-mar. A gali­
nha perdeu a cabeça e começou a esvoaçar de um lado
para o outro. A partir de então nunca mais conseguiu que
a galinha comesse no estábulo. Entre os mais apetitosos
grãos, era capaz de morrer de fome. É evidente que a
Fig. 46 — O cami­ cena do incidente anterior pairava como sombra fantás­
nho imaginário tica, o que a fig. 47 pretende representar.
das aves migra­ Isto faz supor que, quando a galinha acorre para
do ras
junto dos pintainhos que piam, e afugenta um inimigo às

[1 2 4 ]
[12 5]
bicadas, é porque no seu mundo-próprio entrou uma apa­ Somos pois levados, finalmente, a aceitar o fenó­
rência imaginária. meno de imaginação do caminho inato que desdenha de
Quanto mais tivermos aprofundado o estudo dos qualquer objectividade e que, no entanto, intervém no
mundos-próprios, mais nos devemos ir convencendo de mundo-próprio de acordo.,com um plano.
que neles se introduzem factores actuantes a que não se, Há ainda nos mundos-próprios puras realidadessub-
pod e atribuir qualquer realidade objectiva. A começar .pelo jectivas. Mas também as realidades objectivas do mundõ
mosaico de lugares que a v ista introduz nas coisas do ambiente, como tais, nunca entram nos mun9õs:pr5prlòs.
São sempre .transformadas em sinais-característicos ou
imàgens-perceptivas e providas de um t eor-efector, que
aà transforma em objectos reais, apesar de nos estímulos
nada existir que seja teor-efector.
E, finalmente, o simples ciclo de função ensina-nos
que tanto sinais-característicos como marcas-de-acção,
são exteriores ao sujeito, e que as propriedades dò
objecto, que o ciclo-de-função inclui,-só podem ser consi­
deradas como seus veículos.
Ássim, pois, chegamos à conclusão que cada sujeito
vive num mundo em que só existem realidades subjec­
tivas e que até os mundos-próprios, eles mesmos, só
apresentam realidades subjectivas.
Quem nega a existência de realidades subjectivas é
porque não reconheceu os fundamentos do seu mundo-
-próprio.

Fig. 4 7 — A sombra imaginária

13. O MESMO SUJEITO COMO OBJECTO


EM DIFERENTES MUNDOS-PRÓPRIOS
mundo-próprio e que não existem no mundo ambiente,
cõmóTãmEem ali não existem os dador,-de-orientação que Os capítulos anteriores referiram-se a digressões
cõnt£m'o" espaço dd”rn"undo-próprio. Do mesmo modo, foi •singulares em diferentes direcções, na terra desconhe­
impossível encõrítrã7” no mund6 'a m biente um factor que cida do mundo-próprio. Ordenaram-se conforme os pro­
corresponda ao procedimento aprendido do sujeito. A dis­ blemas, para em cada caso se conseguir uma maneira de
tinção de pátria e campo de caça não existe no mundo tratamento uniforme.
ambiente. Não existem no mundo ambiente quaisquer ves- Ainda que alguns problemas fundamentais tenham
tfqiQS-jJaJmPQrtante.. imaaem-pretendlda.' •assim sido tratados, nunca se chegou, nem se pretende

[1 2 6 ] [1 2 7 ]
ter-se chegado a qualquer resultado completo. Muitos
problemas aguardam interpretação reflectida, e outros
ainda não passaram da fase de formulação. De modo que
ignoramos ainda que parcela do próprio corpo do sujeito
passou a fazer parte do seu mundo-próprio. Nem uma só
vez a questão do significado da própria sombra no
mundo visual foi experimentalmente abordada.

líip
O tratamento de problemas particulares é tão impor­
tante para o estudo do mundo-próprio, como insuficiente
para se chegar a uma visão de conjunto das interdepen­
dências dos mundos-próprios.
Uma tal visão é talvez possível, quando abranja
apenas um campo restrito, se explorarmos a questão:
como é que em diferentes mundos-próprios em que ele
desempenha um papel importante, o próprio sujeito passa
a ser objecto?
Como exemolo escolho um carvalho em que vivem A anémona-do-mar e o casa-roubada
diferentes sujeitos do reino animal, e que em cada
mundo-próprio vem, além disso, a desemoenhar um
papel diferente. Como o carvalho também faz parte de
vários mundos-próprios humanos, conforme o observador,
comeco por estes (’).
As fiçjs. 48 e 49 são reproduções de dois desenhos
que devemos ao talento do artista Franz Huths.
(Fiq. 48). No mundo-próprio perfeitamente razoável do
velho couteiro, que resolveu quais as árvores da sua
coutada que estão boas para o corte, o carvalho destinado
ao machado não passa de umas braças de madeira que
ele mede com todo o cuidado. Por isso as rugosidades da
casca que, acidentalmente, parece representarem um
rosto humano, não são por ele notadas como tal. A fig. 49
representa o mesmo carvalho no mundo-próprio imagi-

(') Comp., porém, o que se notou nas págs. 11 e segs. da In­


trodução. (N. do A.)
O quarto, para o homem

T128]
Fig. 48 — O couteiro e o carvalho
O quarto, para o cão

Fig. 49 — A rapariguinha e o carvalho

O quarto, para a mosca

9 -A . HOMENS [129]
nário de uma rapariguinha para quem a coutada ainda é
povoada de gnomos e fantasmas, e que fica muito assus­
tada como se o carvalho a olhasse com o seu mau cariz.
Todo o carvalho, para ela, passou a ser um perigoso de­
mónio.
Na coutada de um primo meu, da Estónia, há uma
velha macieira sobre que se desenvolveu um grande
cogumelo que apresentava uma vaga semelhança com
um clow n, o que até certa altura ninguém tinha notado.
Um dia meu primo contratou uns doze trabalhadores
russos para fazerem a colheita, os quais descobriram a
macieira e passaram a reunir-se todos os dias em volta
dela para cumprir uma cerimónia em que rezavam e se
benziam. Explicavam eles que o cogumelo devia ser uma
figura maravilhosa, pois não era obra do homem.
Para eles, acontecimentos maravilhosos naturais
Fig. 50 — A raposa e o carvalho
eram coisas evidentes em si.
Mas, voltemos ao carvalho e aos seus habitantes.
Fig. 5 1 — O mocho e o carvalho
Para a raposa (fig. 50) que construíra a sua cova entre as
raízes do carvalho, este passou a ser um abrigo seguro
que a protegia das intempéries, a ela e à sua família.
Para ela o carvalho não possuía o mesmo teor de utilidade
prática que tinha para o couteiro, nem o teor de ameaça
que tinha para a rapariguinha, mas sim, é evidente, um
teor de abrigo e nada mais.
Semelhantemente, no mundo-próprio do mocho o car­
valho tem um teor de refúgio (fig. 51). Somente, agora,
não são as raízes, completamente fora do mundo
ambiente, mas os troncos vigorosos, que constituem
para ele uma como que muralha defensiva.
Para o esquilozinho o carvalho adquire, com as suas
numerosas frondes, que lhe proporcionam trampolins
apropriados para saltarem, um teor de trepar, e para as
aves canoras, que constroem os seus ninhos nas rarhà-
rias, o teor de suporte necessário.

[1 3 0 ] [13 1]
Correspondentemente aos diferentes teores de utili­
zação, diferem umas das outras~ãs imagens-perceptivas. Por baixo da casca, que ele destaca, o longicórneo
Cada mundo-próprio aproveita do carvalho uma certa (fig. 53) procura o seu alimento e aí põe também os seus
parte das suas propriedades, adequada à formação tanto ovos. As larvas que deles resultam abrem no lenho
dos veículos de sinais-característicos como dos de mar-
cas-de-acção dos seus ciclos-de-função. No mundo-próprio
da formiga (fig. 52) tudo que não é a casca com as suas
anfractuosidades desaparece, tornando-se aquelas o seu
campo de pilhagem.

Fig. 53 — O longicórneo e o carvalho

galerias, e abrigadas nelas dos perigos do mundo exte­


Fig. 5 2 — A formiga e o carvalho
rior, banqueteiam-se em segurança. Mas a sua protecção
não é absoluta. Porque não é só o picapau que com as
[132]
[13 3]
suas fortes bicadas fende a casca e as persegue, mas 14. CONCLUSÃO
também o icnêumon (fig. 54), que, com o seu fino ovopo-
sitor perfura o duro lenho do carvalho como se ele fosse O que, em ponto pequeno, reconhecemos no carvalho,
manteiga, e as aniquila, introduzindo-lhes no corpo os passa-se, ampliado, na árvore da vida da natureza.
seus ovos, dos quais virão a resultar larvas, que, por seu Dos milhões de mundos-próprios, cujo número nos
turno, engordam à custa daquelas outras. confundiria, só escolhemos aqueles que se destinam
Em todas as centenas de mundos-próprios diferentes, ao estudo da natureza— , os mundos-próprios do natu­
o carvalho desempenha, como objecto, um papel alta­ ralista.
mente variado, ora com uma ora com outra das suas A fig. 55 representa o mundo-próprio dos astrónomos,
de todos o mais facilmente representávei. Em uma torre
muito elevada, possivelmente muito afastada da super­
fície da Terra, senta-se um ser humano que, por meio de
dispositivos ópticos, apropriados, transformou a sua vista,
capaz de penetrar o universo até às últimas estrelas.
No seu mundo-próprio giram sóis e planetas em feérico
movimento. A luz, rapidíssima, leva milhões de anos a
atravessar este universo.
E contudo todo o mundo-próprio em volta não passa
de uma insignificante secção da natureza, feita de acordo
com as possibilidades de um sujeito humano. Com dimi­
nutas modificações pode-se aproveitar o quadro do astró­
nomo para obter uma representação do mundo-próprio
de um investigador das profundidades marinhas. Somente,
Fig. 54 — O Icnôuinon e o carvalho agora, o que se move em volta do seu observatório não
são astros, mas formas fantásticas de peixes das profun­
didades, com as suas fauces horrendas, as suas longas
partes. Umas destas são extensas, outras, reduzidas. antenas e os seus órgãos luminosos brilhantes como
Umas vezes, a madeira é dura, outras, mole. Uma vezes estrelas. Também aqui nós relanceamos um mundo real
serve de protecção, outras de campo de ataque. que representa uma pequena secção da natureza.
Se quiséssemos resumir as particularidades opostas O mundo-próprio de um químico, que, a partir dos
que, como objecto, o carvalho apresenta, o que resultaria elementos químicos, como se fossem noventa e duas
seria um caos. E, no entanto, todas elas são apenas letras, tentasse ler e escrever as enigmáticas correlações
partes de um sujeito estritamente ordenado, que contém das substâncias da natureza, é difícil de traduzir inteligi­
todos os mundos-próprios — nem conhecidos nem conhe- velmente.
cíveis por todos os sujeitos destes mundos-próprios,. É mais fácil de descrever o mundo-próprio de um

[1 3 4 ] [13 5]
físico-atómico. porque assim como as estrelas dos astró­ Quando um outro físico estuda no seu mundo-próprio
nomos giram, assim também, para ele, giram os electrões as ondas do éter, recorre ainda a meios auxiliares com­
Somente aqui reina, não a calma universal, mas uma agi- pletamente diferentes que lhe revelam uma imagem das
ondas. Agora ele pode afirmar que ondas luminosas que
afectam os nossos órgãos da visão se assemelham às
outras ondas sem manifestarem quaisquer diferenças.
s São ondas e nada mais.
No mundo-próprio dos fisiólogos dos sentidos, as
ondas luminosas desempenham um papel compfètãmente
diferente. Agora passam a ser cores, que têm as suas
leis próprias. Vermelho e verde associam-se e dão branco,
e as sombras projectando-se num fundo amarelo dão azul.
Fenómenos, que, nas ondas, elas próprias, não se passam;
e contudo as cores são tão perfeitamente positivas como
as ondas do éter.
Os mesmos contrastes se revelam nos mundos-pró-
prios de um investigador das ondas do ar e de um inves­
tigador da música. Num, só há ondas, no outro só há
sons. Ambas as coisas são porém igualmente reais.
E assim por diante. No mundo-próprio da natureza, dos
beavioristas, o corpo cria o espírito, e no do psicólogo
é o espírito que cria o corpo.
O papel que a natureza como objecto desempenha
nos diferentes mundos-próprios do naturalista é eminente­
mente contraditório. Se se quisessem resumir as suas
particularidades objectivas caía-se no caos. E no entanto
todos éstes diferentes mundos-próprios estão incluídos
e arrastados num uno que se conserva eternamente
vedado a todes os mundos-próprios. Por trás de todos os
mundos por ele criados, oculta-se eternamente o sujeito
Fig. 55 — O mundo-próprio dos astrónomos
inatingível — a Natureza.

tação frenética das partículas materiais mínimas, que o


físico se propõe fazer explodir bombardeando-as com
pequeníssimos projécteis.

[1 3 6 ] [13 7]
DOUTRINA DO SIGNIFICADO
POR

JAKOB v. UEXKÜLL

A os m eus adversários em Ciência,


para que usem de am igável atenção

1. OBJECTOS SIGNIFICANTES (')

Um golpe de vista pelos insectos voadores, como as


abelhas, os zangãos e as libélulas, que se agitam num
prado florido, desperta sempre em nós a impressão de
que o mundo inteiro se mantém aberto a estes seres tão
invejáveis.
Até os animais adstritos à terra, como as rãs, os
ratos, os caracóis e os vermes parecem mover-se livre­
mente na Natureza livre.
Esta impressão, porém, é enganadora. Na verdade,

(') A breve introdução à «doutrina do significado», polémica


getiial de Jacob von Uexküll com o seu grande adversário científico
Max Hartmann, só para o especialista pode ter interesse e talvez
até causasse confusão ao leigo no assunto. Por outro lado, estas pala­
vras introdutórias dão um retrato tão relevante e impressivo do

[139]
ela era o mesmo objecto «pedra» que fora levantada do
cada um destes animais, que se movem livremente, está
pavimento e atirada depois ao cão.
preso a um determinado mundo que ele habita e cujos
limites compete aos ecólogos pesquisar. Nem a forma, nem o peso, nem as outras proprie­
A p rio ri, não temos a menor dúvida de que existe um dades físicas e químicas da pedra se alteraram. A cor,
mundo imenso que se desdobra ante os nossos olhos e a dureza, as formações cristalinas conservaram-se as
do qual cada animal destaca o mundo que habita. Aparen­ mesmas e, todavia, operou-se nela uma transformação
fundamental: mudou de significação, ou melhor, de sig­
temente, cada animal dentro do mundo em que vive,
depara com grande número de objectos, com os quais nificado.
mantém relações mais ou menos estreitas. Daqui parece Enquanto a pedra fazia parte do pavimento da estrada,
resultar automaticamente, para cada biólogo experimen­ servia de apoio ao pé do viandante. O seu significado
tal, que a sua missão é colocar diferentes animais perante estava na parte que lhe cabia na função do caminho.
o mesmo objecto, a fim de estudar as relações entre Tinha, para assim dizer, um sentido ou «teor de caminho».
animal e objecto, operação em que o mesmo objecto Tudo se modificou radicalmente quando apanhei a
serve de padrão em todas as experiências com animais. pedra para a atirar ao cão. Ela transformou-se então num
Assim, os investigadores americanos, em milhares projéctil: foi-lhe atribuído um novo significado. A mesma
de experiências, iniciadas com ratos brancos, têm pro­ pedra recebeu um «teor de arremesso».
curado incansavelmente examinar os mais diversos ani­ A pedra que, como objecto neutro, está na mão do
mais, nas suas relações com um labirinto. observador, transforma-se num objecto significante logo
A mediocridade dos resultados obtidos com estes que entra em relação com um sujeito. Como os animais
trabalhos, executados, aliás, segundo os mais rigorosos nunca se apresentam como observadores, pode afirmar-se
métodos quantitativos e os cálculos mais perfeitos, podia que nenhum animal pode entrar em relação com um
tê-la previsto quem se desse conta de que é falsa a objecto. Só pela relacionação, o objecto se transforma
pressuposição implícita de que um animal pode alguma em qualquer coisa com um significado, que lhe é atri­
vez entrar em relação com um objecto. buído por um sujeito.
É fácil apresentar, por meio de um exemplo simples, a Dois outros exemplos podem esclarecer-nos acerca
prova desta afirmação, talvez surpreendente. Na estrada, da influência que a mudança de significado exerce nas
um cão ladra furiosamente contra mim. Para me libertar propriedades dos objectos. Eu pego numa concha larga
dele, pego numa pedra do caminho e atiro-a ao assaltante, de vidro, que pode considerar-se um mero objecto, por
num golpe certeiro. Ninguém, que tivesse observado a isso que não entrou em qualquer espécie de relação com
cena e apanhasse depois a pedra, duvidaria então de que uma actividade humana. Encaixo-a depois na parede exte­
rior da minha casa, transformando-a, desta maneira, numa
naturalista combativo e original que é Von Uexküll, que não queremos janela que deixa penetrar a luz do Sol mas que, devido
privar dela os nossos leitores. Por isso a oferecemos a seguir à aos-seus reflexos, faz desviar a vista às pessoas que pas­
doutrina do significado, como epílogo.
sam. Posso ainda colocar a concha em cima da mesa e
A controvérsia, aliás, significativa em si, mesmo que tenha per­
dido actualidade, não está encerrada. (Nota da ed. alemã.)
enchê-la de água, para a utilizar como vaso de flores.

[1 4 0 ] [1 4 1 ]
As propriedades do objecto não se alteram com isso. plesmente por objectos, como se de meros objectos
Mas logo que ele se transformou num objecto significante autónomos se tratasse. Com efeito, não é raro tratarmos
«janela» ou «vaso», reconhece-se uma diferenciação das uma casa, com tudo que nela se encontra, como se ela
suas propriedades, consoante a função que passa a de­ existisse objectivamente, sem considerarmos as pessoas
sempenhar. P a ra ^ ja n d a jj^ a tra n s g a rê n c ia a propriedade que habitam essa casa e utilizam as coisas nela contidas.
essencial, ao passo que a curvatura representa a proprie­ Verificaremos imediatamente quanto é errada esta
dade acessória. maneira de ver se, em lugar de uma pessoa, imaginarmos
Este exemplo permite compreender melhor por que um cão como habitante da casa e atentarmos nas suas
razões os escolásticos classificavam as propriedades dos relações com as coisas.
objectos em essentia e accidentia. Ao fazerem esta classi­ Sabemos, pela experiência de Sarris ('), que um cão
ficação, eles só tinham em mente objectos significantes, que aprendeu a sentar-se numa cadeira quando lhe dão
pois as propriedades de objectos sem significado não a ordem «cadeira!» procura outra coisa para se sentar,
admitem qualquer ordenação hierárquica. Só a ligação se aquela lhe tiver sido retirada, e até outra coisa que
mais ou menos estreita do objecto significante com o possa servir-lhe de assento a ele, sem que tenha de ser,
sujeito permite dividir as propriedades em essenciais necessariamente, assento próprio para pessoas.
[essentia) e acessórias (accidentia). As coisas que podem ser aproveitadas para assento
Como, terceiro exemplo, tomemos um objecto cons­ contêm todas um significado comum, possuem todas o
tituído por duas barras compridas e várias outras mais mesmo teor de assento, pois podem substituir-se arbitra­
curtas que, com intervalos regulares, liguem as duas riamente umas pelas outras que o cão servir-se-á delas,
primeiras. A este objecto pode atribuir-se o teor de sem distinção, à voz de comando «cadeira!».
«trepar», de uma escada, quando se encostam ao alto, a Se imaginarmos, pois, o cão como habitante da casa,
uma parede, as duas barras compridas; mas também poderemos verificar a existência de um grande número
posso atribuir-lhe o teor correspondente à sua utilidade de coisas com o teor de «assento». Haverá, do mesmo
como vedarão, se fixar no solo, horizontalmente, uma modo, muitas coisas que apresentam um teor de «comida»
das barras maiores. ou um teor de «bebida» de cães. A escada tem, por certo,
uma espécie de teor de «trepar»; mas a maioria dos
Imediatamente se verifica que o afastamento entre si
móveis têm, para o cão, apenas um teor de «estorvo»,
das barras tVansversais desempenha papel secundário
no caso da vèdação mas que, no caso da escada, esse mesmo quando cheios de livros ou roupas. Todos os
intervalo deve corresponder a um passo. Já se reconhece, pequenos utensílios domésticos, como colheres, garfos,
assim, no objecto significante «escada», um plano simples fósforos, deixam, por inúteis, de existir para o cão.
de construção geométrica que torna possível a acção de Ninguém contestará que a impressão deixada pela
trepar. casa, com todas as coisas que só ao cão podem inte-

Em linguagem pouco rigorosa, nós designamos todas "V


(’) E.J3^S am s. colaborador de Uexküll, que, desde 1931, se
as coisas que nos são úteis (embora elas comportem,
tem dedicado ao estudo do comportamento e ao ensino de cães
colectiva e individualmente, significação humana) sim­ e também ao treino de cães de cego. (N. da ed. alemã.)

[1 4 2 ] [14 3]
ressar, é extremamente desoladora e não corresponde, de larva de aphrophora spum aria, que perfura os vasos con­
modo algum, ao seu verdadeiro significado. dutores da seiva do pedúnculo e o utiliza como fonte de
Não poderemos daí concluir que, por exemplo, a flo­ material emulsionável com que constrói o seu abrigo
resta, cantada pelos poetas como a mais bela estância aéreo; 4) o de uma vaca que ceifa, com a língua, o
para o homem, não é, de forma alguma, concebida no seu pedúnculo e a flor e os mete na enorme boca, para os
verdadeiro sentido, quando a relacionamos só connosco? utilizar como alimento.
Antes de desenvolvermos esta ideia, seja-nos permi­ O mesmo pedúnculo de uma flor desempenha, con­
tido citar aqui uma frase do capítulo sobre o mundo-pró­
forme o cenário do mundo-próprio em que se encontra, o
prio, no livro de SombartC) A cerca do Hom em : «Não papel de adorno, de passagem, de reservatório ou, final­
existe nenhuma flo re s ta como mundo-próprio objectiva­
mente, de bocado de comida.
mente bem determinado, mas sim uma floresta do cou­
Isto é verdadeiramente espantoso. O pedúnculo da
teiro, do caçador, do botânico, do passeante, do amante
flor, em si próprio, como parte de uma planta viva, é
da Natureza, do homem que vai à lenha ou do que anda
formado por elementos dispostos segundo um plano, uns
às bagas, ou a floresta da fábula em que Hansel e Gretei
em relação aos outros, que constituem um mecanismo
se perdem.»
mais perfeito que todas as máquinas feitas pelo homem.
Os significados da floresta contam-se por milhares,
Os mesmo elementos que no pedúnculo da flor estão
se nos não limitarmos às suas relações com sujeitos
submetidos a um acertado plano de construção_gão sepa­
humanos e se também tomarmos em consideração os
rados uns dos outros, levados para os quatro mundos-pró­
animais.
prios e perfeitamente ajustados, com igual certeza, a
É, todavia, inútil extasiar-nos com o número extraor­
dinário de mundos-próprios que se contêm na floresta. outros plajoos de construção.
Será muito mais elucidativo tomar um caso típico, para Logo que cada componente de um objecto orgânico
então lançarmos um golpe de vista pela teia de relações ou inorgânico surge, como óbjecto significante, no cenário
dos mundos-próprios. da vida de um sujeito animal, esse componente é posto
Observemos, por exemplo, o pedúnculo de uma flor em contacto com um, digamos, «complemento.», sjtujdo
dos prados, que desáErõcfíãT^é procuremos verificar que no corpo do sujeito que intervém como. utilizadot-do.
papéis lhe são atribuídos nestes quatro mundos-pró­ significado.
prios: 1) o de uma rapariga que anda a colher flores e, "É ste facto chama a nossa atenção para um aparente
com algumas delas, de várias cores, faz um ramo que contraste nos caracteres fundamentais da natureza viva.
depois põe, como adorno, na cintura do corpete; 2) o de A concordância com um piano na estrutura do corpo e a
uma formiga que utiliza o desenho regular da superfície concordância com um plano na estrutura do mundo-pró­
superior do pedúnculo como piso ideal para atingir a zona prio situam-se frente a frente e parecem contradizer-se.
rica de alimento, dentro das pétalas da flor; 3} o de uma E ilusória seria a impressão de que a concordância
com um plano na estrutura do mundo-próprio é, de algum
(') W em er Sombart, sociólogo alemão (1863-1941). (N. da ed. modo, menos rigorosa do que na estrutura do corpo.
alemã.)
Cada mundo-próprio é, em si, uma unidade fechada,

[144] 1 0 -A . HOMENS [145]


que em todas as suas partes é dominada pelo significado portadoras de sinais-característicos e outras como por­
que o sujeito lhe atribui. Consoante o significado que tem tadoras de sinais-de-impulso ou acção.
para o animal, o cenário da vida abrange um espaço amplo A cor das flores actua como nota (ou sinal) visual no
ou limitado, cujos lugares dependem inteiramente, em mundo-próprio da rapariga do exemplo dado; o estria-
número e grandeza, da capacidade de diferenciação do mento da superfície superior do pedúnculo como nota
órgão sensorial do respectivo sujeito. O espaço visual da táctil, no mundo-próprio da formiga, e o ponto em que a
rapariga, no exemplo anterior, assemelha-se ao nosso; o aphrophora o perfura denuncia-se-lhe, talvez, como nota
espaço visual da vaca estende-se para além da planície olfativa; e no mundo-próprio da vaca, a seiva do pedún­
em que o prado está situado, ao passo que o seu diâmetro culo dá a nota gustativa. A maior parte das vezes, os
no mundo da formiga não vai além de meio metro e será sinais de acção são atribuídos pelo sujeito a outras
de alguns centímetros apenas no da aphrophora. propriedades do objecto significante. É quebrando-a pela
região mais delgada do pedúnculo que a rapariga colhe
Em cada espaço, é diferente a distribuição dos luga­
a flor.
res. O piso macio que a formiga tateia, ao passar pelo
O estriamento da superfície superior do pedúnculo
pedúnculo da flor, não existe para as mãos da rapariga
serve à formiga para provocar não só o sinal táctil das
e ainda menos para a boca da vaca.
suas antenas mas também o da acção das suas pernas.
O esquema estrutural do pedúnculo da flor e a sua
O reservatório de seiva, denunciado pelo cheiro, é
constituição química não desempenham qualquer papel perfurado pela aphrophora e a seiva que dele brota serve,
no cenário da vida da rapariga ou no da formiga. A diges- como material, para a construção do seu ninho espumoso.
tibilidade dos colmos, pelo contrário, é essencial para a A nota gustativa do pedúnculo faz que a vaca, ao
vaca. Dos vasos condutores, delicadamente estruturados, pastar, vá ceifando sempre mais colmos com a língua.
do pecíolo, a aphrophora extrai a seiva que lhe convém. Como, em cada caso, o sinal-de-impulso aplicado
Com efeito, ela é capaz, segundo Fabre, de obter, à custa sobre o objecto significante anula o sinal-perceptivo que
do leite yenenoso da erva-leiteira, um suco inofensivo provoca o comportamento, sucede que, com esse sinal-
para a sua habitação de espuma. -de-impulso, termina todo o comportamento, qualquer que
Tudo qyanto cai na esfera de um mundo-próprio, ou ele seja.
desaparece totalmente ou é adaptado e transformado O colher a flor transforma esta num adorno, no
até se converter num objecto com significado útil. Os mundo-próprio da rapariga; a passagem ao longo do pe­
elementos iniciais são então muitas vezes separados uns dúnculo transforma este num caminho, no mundo-próprio
dos outros, sem atender ao plano de construção que até da formiga, e a picada da larva transforma-o numa fonte
aí os regulava. de material de construção, que ela utiliza. Finalmente, ao
Dentro dos vários mundos-próprios, os objectos sig- ser comido pela vaca, o pedúnculo da flor passa a ser um
nificantes são tão diferentes pelo seu conteúdojquanto se alimento próprio do gado.
assemelham pela natureza da sua estrutura. A lgumas das Assim, cada acto de comportamento, constituído por
sinais-perceptivos e impulsos, imprime ao objecto neutro
suas propriedades apresentam-se sempre ao sujeito como
o seu significado e transforma-o, com isso, num objecto

[1 4 6 ]
[1 4 7 ]
significante, relacionado com o sujeito, no seu respec­ O comando de cada niclo-rje-função, tal como ele se
tivo mundo-próprio. exerce no corpo de um animal é o sjstema nervoso que,
Como cada acto de comportamento se inicia pela começando pelos receptores (os órgãos dos seirtTHos)
produção de um sinal-perceptivo e termina com a «cunha­ e passando, pelos órgãos centrais da percepção e da
gem» de um sinal-de-impulso no mesmo objecto signifi­ acção, conduz a corrente de excitação^ até os efectores.
cante, é possível falar de um ciclo-de-função que rela­ O revestimento das plantas carece ide sistemiTner-
ciona o objecto significante com o sujeito. voso; faltam-lhe os órgãos da percepção e da acção e,
Os ciclos-de-função mais importantes, pelo seu consequentemente, não há, para as plantas, nem objectos
significado, que se nos deparam na maior parte dos mun- significantes, nem ciclos-de-função nem sinais-caracte-
dos-próprios são: o ciclo do habitat, o da nutrição, o do rísticos, nem sinais-de-acção.
inimigo e o do sexo. O exterior dos animais é capaz de se mover e, com
Graças à sua integração num ciclo-de-função, cada auxílio dos músculos, pode pôr em movimento os seus
objecto significante torna-se complemento do sujeito ani­ receptores em todos os sentidos.
mal e por isso certas propriedades individuais, conside­ O das plantas não dispõe de mobilidade própria,
radas portadoras de sinais-característicos e efectores pois não possui nem órgãos receptores nem efectores
desempenham então um papel essencial, enquanto outras, com que elas possam construir e regular o seu mundo-
pelo contrário, têm apenas papel secundário. Frequente­ -próprio.
mente, a maior parte do corpo de um objecto significante, A planta não possui órgãosjespeciais de mundo-pró-
como estrutura não diferenciada, serve apenas para arti­ prio: vive solitária, dentro do mundo que habita. As rela­
cular entre si as partes portadoras de sinal-perceptivo ções das plantas com esse mundo são totalmente dife­
com as partes portadoras de sinal-de-acção. (Comp. rentes das que ligam os animais ao seu mundo-próprio.
pág. 36, fig. 3.)
Apenas _num ponto coincidem os planos de organização
dosjanimais e das plantas: ambos conseguem fazer uma
rigorosa selecção , d as. acções que. o - mundo exterior
2. MUNDO-PRÓPRIO
exerce sobre eles.
E REVESTIMENTO PROTECTOR
Apenas uma parte das acções do exterior é captada
Tanto os animais como as plantas dotam o corpo de pelos órgãos dos sentidos dos animais e tratada como
protecções vivas, ao abrigo das quais passam a sua estímulos. Estes estímulos são convertidos em excitações
existência. nervosas que são, por sua vez, transmitidas aos órgãos
São todas construídas rigorosamente segundo um centrais de percepção. Nos órgãos de percepção soam
plano, mas distinguem-se, todavia, em pontos essenciais. então os correspondentes sinais-perceptivos que são
Em volta do revestimento animal há um espaço mais ou depois transferidos para o exterior como notas e transfor­
menos amplo, em que abundam os objectos significantes mados em propriedades dos objectos significantes.
do sujeito, todos, porém, ligados a este, por meio dos No órgão de percepção, os sinais-perceptivos indu­
ciclos-de-função. zem, digamos assim, no órgão central da acção, os im-

[1 4 8 ] [1 4 9 ]
pulsos correspondentes, os quais se tornam fontes dos tido e noutro. Falhará qualquer tentativa para, de outro
fluxos de excitação que acorrem aos efectores. modo qualquer, fazer tocar o sino: nem o aquecimento,
Quando se fala de uma indução de impulsos, pelos nem o arrefecimento, nem a acção de ácidos ou alcalinos,
sinais-perceptivos, não deve, de maneira nenhuma, enten­ nem os efeitos magnéticos, nem a produção de correntes
der-se uma indução eléctrica entre dois condutores para­ eléctricas — nada tem influência, de qualquer natureza,
lelos, mas a indução que se dá na sequência de uma sobre a função do sino, que permanece mudo. Pelo con­
melodia, de nota para nota. trário, um músculo vivo cuja função vital é a contracção
Também para as plantas não existem estímulos de será levado a contrair-se, por meio de todas as acções
importância vital que se salientem, como factores signifi- exteriores, desde que estas sejam próprias para, de modo
cantes, do conjunto de acções que de todos os lados geral, actuar sobre ele.J3 sino comporta-se como objecto
incidem sobre elas. inanimado que recebe apenas acções, enquanto õ mús­
culo vivcTsè^comporta como sujeítcfqWTFSTns^
A planta não defronta as acções exteriores por meio
as acções .exteriores no mesmo estímulo, o qual, por
de órgãos receptores ou efectores; mas, graças a uma
suçLvezr provoca o seu funcionamento.
camada de células vivas, ela, de dentro do seu revesti­
mento, é capaz de seleccionar estímulos. Se possuíssemos um certo número de sinos vivos
Nós sabemos, desde Joh. Müller, que é falsa a ideia que produzissem, todos eles, sons diferentes uns dos
do fluir mecânico dõsTenómenos vitais. O próprio reflexo, outros, poderíamos formar com eles urri carrilhão quê
tão simples, de uma pálpebra que se agita, à aproximação funcionasse por meios mecânicos, eléctricos ou químicos,
de um c orp cTe str ãnfrcT, não é o efeito de uma cadeia de pois cada sino teria de responder cóm o seu Som próprio,
causas e ereittte'físicos mas^'iW”cicló:di-função simplifi; especial, a qualquer espécie de estimulação.
cádòTqu"e~comecá cóm a pércepcão e acaba com .a acçlQ. Mas isto não seria ainda um carrilhão vivo, pois tam­
O facto de, neste caso, o ciclo-de-função não atingir o bém este, afinal — fosse ele movido eléctrica ou quimica­
cérebro e abrir caminho através dos centros inferiores m en te— , continuaria a ser um simples mecanismo, pro­
nada altera quanto à sua essência. O reflexo mais simples vido de sons individuais e inúteis.
é também._fundamentalmente. um acto do tipo percep- Um carrilhão constituído por sinos vivos deveria
ção-acção, mesmo que o arco reflexo devesse implicar possuir a faculdade de executar a sua^música, não só
apenas~ümá cadeia de células individuais. movida por impulso mecânico mas também regulada por
Podemoà estar absolutamente seguros desta afirma­ unia simples melodia. ...
ção, desde que Joh. M üller mostrou que qualquer estru­ Ora é isto exactamente que se passa em todo o
tura viva se distingue de todos os mecanismos inani- corpo vivo. Sem dúvida, poderá mostrar-se que em todos
mados por possuir, além da energia física, uma energia os casos — e particularmente na transmissão da exci­
vital «específíca■>.~Pá ra~ficarmos ihteiramente eIucidados, tação do nervo ao músculo — o jogo vivo da sucessão
comparemos um músculo vivo com um sino. Verifica-se dos sons diferentes passa a ser substituído por um enca­
então que só se consegue que o sino exerça a sua função deamento químico-mecânico. Mas esse facto continua
— tocar — fazendo-o oscilar, de certa maneira, num sen­ a ser, essencialmente, a consequência de uma mecani-

[1 5 0 ] [1 5 1 ]
zação acessória. Na origem, todos os germes do orga­ A demonstração de Arndt é tão particularmente im­
nismo se compõem de células de protoplasma livres, que portante, por se tratar aqui de um organismo que, no pri­
só obedecem à indução melódica dos seus sons indivi­ meiro período da sua existência, pelos seus movimentos
duais. e pelo seu modo de alimentação, se comporta como ani­
A prova concludente deu-a Arndt H . ng iilr ne em que mal e depois, no segundo período, se converte em planta.
faz passar~inte os nossos olhos o desenvolvimento do Não é para iludir que nós atribuímos às células ami­
bolor-viscoso._Os germes deste tipo de fungos são, inicial­ bóides do bolor-viscoso um mundo-próprio que, embora
mente, células que se movem em liberdade, com movi­ limitado, é comum a todas e no qual as bactérias são des­
mentos amibóides (m ixam ibas) em busca da flora bac- tacadas do ambiente como objectos significantes e como
teriana de que se alimentam, sem se importarem umas tais são notadas e tratadas. Mas o ser adulto é uma
com as outras. Essas células amibóides multiplicam-se planta, que não possui qualquer mundo-próprio de animal:
produzindo uma massa de protoplasma multinucleado é simplesmente envolvida por um revestimento protector,
(plasmódio). Quanto mais alimento existe, mais rapida­ constituído por factores significantes.
mente progride a reprodução. Daí resulta que os alimen­ O factor significante que tudo domina no organismo
tos começam a faltar em toda a parte ao mesmo tempo. adulto é o vento, contando com o qual ele se desen­
Verifica-se então um facto espantoso: todos os ele­ volve com admirável segurança. Embora não sejam tão
mentos dessa massa se isolam uns dos outros, em for­ engenhosamente construídas como os capítulos do dente-
mações equivalentes, e, dentro de cada formação, todos -de-leão, as cápsulas de esporos do bolor-viscoso são
eles se dirigem para um ponto central comum. Chegados presa fácil do vento que, assim, garante uma larga disse­
aí, arrastam-se uns sobre os outros e, então, os que che­ minação.
garam primeiro transformam-se em células fixas de su­
porte, que servem de escada aos que vêm depois. Logo
que é atingida a altura definitiva do talo, ainda fino como 3. A UTILIZAÇÃO DO SIGNIFICADO
um cabelo, as células que se apresentam em último lugar
transformam-se num corpo frutífero em cujas cápsulas
O mundo que um animal habita e que nós vemos
se contôm os esporos vivos. As cápsulas sSo depois
abrir-se à sua volta transforma-se, quando observado pelo
espalhadas pelo vento, que as transporta a novos locais
sujeito animal, no seu mundo-próprio, um mundo em que
de nutrição.
se agitam os mais variados objectos significantes.
Ninguém põe em dúvida, neste caso, que a mecânica
O mundo habitado por uma planta e que nós podemos
subtilmente trabalhada do corpo do bolor-viscoso é um
delimitar à volta do lugar em que ela cresce, transfor­
produto de células livres, que só obedecem a uma me­
ma-se, quando observado pelo sujeito-planta, num reves­
lodia ordenadora dos seus sons individuais.
timento protector que se compõe de diversos factores
significantes, submetidos a uma mudança regular.
(') W alter Arndt (1891-1944), zoólogo e médico, conservador
do Museu de Zoologia de Berlim, fez, na década de trinta, um filme A função vital do animal e da planta consiste em
notável sobre o desenvolvimento do bolor-viscoso. (N. da ed. alemã.) utilizar, consoante o seu plano subjectivo de organização,

[1 5 2 ] [1 5 3 ]
os objectos significantes, no primeiro caso, e os factores constituição das formas, como no caso das nuvens: as
significantes, no segundo. formas é que se insinuam no factor significante «vento»,
Falamos correntemente da utilização de alimentos que elas utilizam diversamente para a disseminação das
mas, a maior parte das vezes, damos a este conceito sementes.
demasiada estreiteza. Por utilização significante dos ali­ Há, porém, quem prefira considerar o vento como
mentos deve entender-se, não só a trituração com os causa determinante das formas porque, durante milhões
dentes e a preparação química operada no estômago e de anos, ele actuou sobre o objecto planta. Ora há
nos intestinos mas também o reconhecimento dos ali- mais tempo ainda que o vento actua nas nuvens, sem
mentos por meio dos olhos, do nariz e do paladar. que dessa acção tenha resultado qualquer forma defi­
Com efeito, no mundo-próprio dos animais, cada • nitiva.
objecto significante é utilizado por meio da percepção A fotrna significante permanente é sempre o pro-
e da acção. Em cada ciclo-de-função, repete-se o mesmo duto da acção de um sujeito e nunca o de um objecto^
processo percepção-acção. Podemos, na verdade, consi­ trabalTiac(o seTn"'plano ~m~esmo durante tanto tem jm ^
derar os ciclos-de-função cóTi^cícIõs^dé-significado, cuja " O que se~díz do vento, pode também dizer-se dos
missão se completa na utilização dos objectos signifi­ outros factores significantes das plantas. A chuva é apa­
cantes. ' rada pelas goteiras das folhas da copa e desce até às
Não faz sentido falar de ciclos-de-função nas plantas finas extremidades da raiz, debaixo da terra. A luz do
e, todavia, o significado dos seus órgãos, igualmente Sol é absorvida pelas células providas de clorofila e utili­
constituídos por células vivas, reside na utilização dos zada na execução de um processo químico complicado.
factores significantes do seu revestimento protector. Elas A clorofila não é fabricada pelo Sol como a goteira o não
realizam esta função graças à sua forma organizada se­ é pela chuva.
gundo um plano e à ordenação, levada aos últimos por­ Todos os órgãos — os das plantas e os dos animais
menores, da sua substância. — devem a forma e a distribuição da substância ao seu
Quando contemplamos o espectáculo das nuvens ao significado como utilizadores dos factores significantes
sabor do vento, podemos atribuir significados diferentes que até eles chegam do exterior.
às diferefites formas que as nuvens tomam. Isto, porém, Em todos os organism os, portanto, o problem a p ri­
não passa de um jogo da fantasia, pois as diferentes m acial é o do sig n ifica d o e só depois dele resolvido
formas das nuvens são simplesmente o resultado de faz sentido investigar os processos causais, que são sem­
ventos variáveis e obedecem rigorosamente à lei da causa pre extremamente limitados, visto a actividade das células
e do efeitol vivas ser dirigida pelos seus teores individuais.
Quadro totalmente diverso é o que se nos oferece Pode falar-se de uma melodia de crescimento ou de
quando acompanhamos o pairar, ao sabor do vento, do uma determinação do crescimento, que regula os teores
gracioso pára-quedas do fruto do dente--de-!eão, ou a individuais dos esporos. Esta determinação do cresci­
rotação em espiral, do fruto das aceríneas ou das tílias. mento é, como já vimos no filme de Arndt, em primeiro
Aqui, não é o vento, de modo nenhum, a causa da lugar, uma determinação da constituição de formas que

[1 5 4 ] [15 5]
articula as partes e estabelece depois em cada uma delas quena fracção da camada exterior e implantar, no seu
um centro para que tendem todas as células. O que lugar, uma fracção idêntica de outro embrião.
deriva das células germinais individualmente depende Verifica-se então que o novo enxerto se desenvolve,
apenas do lugar que elas tomaram na forma em organi­ não de acordo com a sua origem mas segundo o lugar
zação. onde se enxertou. Com efeito, a estrutura do enxerto,
A equivalência original das células germinais indivi­ que foi transplantado para a região cerebral e que, nor­
duais, demonstrada com toda a evidência no film e de malmente, se teria transformado em epiderme, trans­
Arndt, já tinha sido descoberta por Driesch (1), nas suas forma-se agora em cérebro e vice-versa.
famosas experiências em germes do ouriço-do-mar. O determinismo morfogenético segue as directrizes
As células germinais da maior parte dos animais de um plano que já é reconhecível no estádio de gástrula.
tomam primeiro a forma de uma amora, depois a de uma Neste estádio, é possível enxertar pedaços de tecido de
bola oca, a qual se invagina num pólo e passa, simultanea­ embriões de espécies diferentes. Esta experiência notá­
mente, a ser constituída por três folhetos. Surge, assim, vel dá também resultado quando se trocam fragmentos
a «gástrula» que, com os três folhetos iniciais, constitui de tecido de embriões de outra espécie.
a forma original da maioria dos animais. Com esta simples Interessam-nos aqui, em especial, as enxertias na
sequência de tons se inicia toda a vida animal mais região oral dos girinos de rã e das larvas do tritão.
elevada. Spemann escreve sobre este assunto: «A larva do
Existem animais, como as hidras de água doce que tritão, como se sabe, tem na boca verdadeiros dentículos,
arrastam a sua vida simples com a forma simples da da mesma origem e constituição que os dentes de todos
gástrula. Tal como no bolor-viscoso, também neste caso os vertebrados: a boca do girino de rã, pelo contrário, é
se colhe a impressão de que basta a realização do deter­ provida de maxilas e pontas córneas que são absoluta­
minismo morfogenético para que se estabeleçam as suas mente diferentes, quanto à forma e à constituição, dos
relações de significado. dentes verdadeiros.
Não tivemos razão até aqui, para, além do determi­ Ora resolveu-se fazer uma enxertia de tecido de um
nismo morfogenético, aceitarmos também um determi­ girino de rã na região oral da larva do tritão.
nismo de significado. «Num caso» — prossegue Spemann (’) — «em que o
Mas aprendemos alguma coisa de melhor com as enxerto cobria toda a região oral surgiu, exactamente
experiências de Spemann e dos seus discípulos. Estas no lugar próprio, uma típica boca de girino de rã, com
experiências foram executadas pelo método de enxertia, maxilas córneas, armadas de pontas córneas. Noutro
elaborado por Spemann, que consiste em tirar a um caso, porventura ainda mais interessante, metade da
embrião, no seu primeiro estádio de gástrula, uma pe- boca desenvolveu-se, sem alterações, numa boca de
tritão, com dentículos verdadeiros.»
Daí conclui Spemann: «De uma maneira geral, já
(') Hans Driesch (1867-1941), filósofo e biólogo alemão, discí­
pulo e depois opositor de Ernst Haeckel. Ligou a experimentação
biológica à biologia teórica e à filosofia natural. (N. da ed. alemã.) (') Hans Spemann (1869-1941), zoólogo. Prémio Nobel de Medi­
cina. (N. da ed. alemã.)

[1 5 6 ]
[15 7]
podemos afirmar afoitamente, acerca do estímulo indutor, Se trocarmos os esboços de diferentes espécies
que, quanto àquilo que sucede, deve ser de natureza per­ animais, cada um deles recebe, na sua nova posição, um
feitamente específica mas quanto ao modo como sucede, determinismo de significado correspondente ao lugar que
deve ser de natureza perfeitamente geral. Tudo se passa tem no plano de organização: «torna-te boca, olho,
como se, em sentido figurado, a deixa fosse entendida no ouvido, etc.»
significado perfeitamente genérico de «armadura bucal» O esboço transplantado obedece ao determinismo
e esta fosse então fornecida pela ectoderme, na realiza­ de significado do hospedeiro, e mesmo que fosse enxer­
ção de um plano já contido na hereditariedade da sua tado noutro lugar, dentro do corpo maternal, teria rece­
espécie. bido outro determinismo de significado, correspondente
Haveria, por certo, grande surpresa num teatro se, à sua nova posição. Mas, neste último caso, segue a melo­
durante uma representação do G uilherm e Tell, na cena de dia morfogenética materna e torna-se, na verdade, boca,
Küssnacht, o intérprete de Tell fosse substituído pelo mas boca de girino de rã e não boca de tritão.
intérprete do H a m le t e este, à deixa «monólogo», come­ Como resultado final temos uma deformidade, pois
çasse, não com as palavras. «Aqui executarei o meu um animal carnívoro com boca de herbívoro é um absurdo.
plano. A ocasião é favorável», mas com o conhecido «Ser Nós ficamos tão desorientados com esta deformidade
ou não ser, eis a questão». que resulta do desacerto entre o determinismo de signi­
Seria, do mesmo modo, grande surpresa, se um ani­ ficado, de carácter geral, e o determinismo morfogenético,
mal carnívoro, que é constituído para cravar os dentes porque essa desarmonia não nos é familiar na nossa vida
aguçados na presa estrebuchante, possuísse boca de corrente. Ninguém se lembraria de encomendar, de uma
herbívoro, com palatino córneo, próprio apenas para maneira imprecisa, numa marcenaria, «um móvel que ser­
arrancar as partes brandas das plantas. visse de assento», pois correria o risco de lhe trazerem,
Como é tal permuta possível? Não esqueçamos que para a sala, um banco para mungir vacas no estábulo ou,
o tecido celular implantado representa um carrilhão vivo, para o estábulo, uma poltrona.
em que os sons de cada sino estavam antecipadamente Mas, aqui, estamos em presença de um fenómeno
introduzidos na melodia «boca de herbívoro», quando re­ natural, em que se ordena, de uma maneira perfeitamente
ceberam a determinação do significado «boca». geral, um «dispositivo para comer», a um tecido celular
Donde \se conclui que d e te rm in ism o de significado heterogéneo, cujo significado ainda não está determinado
e determ inism o m orfogené tico não são a mesma coisa. e se vê depois surgir um dispositivo para comer absoluta­
No desenvolvimento normal, o material celular que mente inadequado.
era, primitivamente, da mesma natureza, articula-se em Todo aquele que, por exemplo, já tenha reflectido
esboços, que Recebem o seu determinismo de significado nas razões por que os peixes achatados, como as raias
consoante o plano original — pois que o organismo se e as solhas, cujas condições de vida se assemelham
compõe de utilizadores de significado. Só então a melodia tanto, são construídas segundo princípios totalmente
específica dos esboços começa a soar e constitui a forma diferentes, terá de admitir que_a determinação do signifi-
dos utilizadores de significado. cado não coincide com a determinação morfogenética.

[1 5 8 ] [15 9]
O fim é igual mas o meio é diferente. As raias são acha­ Todas as espécies de ouriço-do-mar (com excepção
tadas do dorso para o ventre e os olhos ficam, assim, na de uma) resolvem este problema por meio de um reflexo
parte superior. As solhas são achatadas lateralmente, em que, ao abrirem-se, estendem um tentáculo ao inimigo.
daf resultando que um dos lados toma a função do dorso. Logo que o inimigo toca este tentáculo, dá-se a captura
Desse modo, um dos olhos ficaria na parte inferior, onde automaticamente.
não teria função; desloca-se, porém, devido a uma torção Só uma espécie de ouriço-do-mar procede de outro
da cabeça que lhe permite também ficar a ver na parte modo. Ao abrirem-se, as três pontas da pinça retroflec-
superior. tem-se tanto, que ficam tensas como o arco de uma besta
Os meios morfológicos usados para permitir que os e não precisam, portanto, de nenhum reflexo para se
diferentes animais possam subir por uma parede lisa são fecharem abruptamente à mais pequena pressão.
variadíssimos, embora conduzam todos ao mesmo fim: Ambos os processos, afinal, conduzem ao mesmo fim,
utilizar como caminho o objecto significante — a parede raois em qualquer deles o objecto significante «inimigc»
lisa. é assaltado e envenenado pelo órgão utilizador do signi-
As moscas domésticas têm, nas plantas das patas, ricado,
membranas marginais que, espalmando-se durante a mar­ determinação de significado é sempre a mesma,
cha, com o peso do corpo, formam ventosas que fixam só muda radicalmente a determinação morfogenética,
as moscas aos vidros das janelas. A magnífica descoberta de Spemann encontra confir­
As lagartas das borboletas movem-se, como as san­ mação em todos os casos em que acções semelhantes,
guessugas com auxílio de duas ventosas e os caracóis praticadas pelos animais, são executadas por processos
arrastam-se, sempre colados, indiferentes à inclinação da diferentes e pode servir ainda para uma melhor compreen
pista. Em todos os casos, a função é a mesma e só difere sáo da diferença fundamental entre a construção de um
inteiramente o modo de a exercer. mecanismo e a estruturação de um organismo.
O exemplo mais flagrante deste facto fornecem-no-lo O mecanismo de uma máquina qualquer, diqamos,
as pinças venenosas dos ouriços-do-mar de espinhos de um relógio de algibeira, é sempre constituído «centri-
curtos que têm todas a mesma função: atacar com as petamente», quer dizer, as peças do relógio — os pon­
suas pinças venenosas o objecto significante «Inimigo», teiros, n corda, as rodas—-têm de ser aprontadas pri­
seja ele uma estrela-do-mar ou qualquer molusco secretor meiro, individualmente, antes que sejam ligadas a uma
de ácidos. peça central.
Em todos eles, o inimigo caracteriza-se por, ao apro­ A estruturação de um animal, pelo contrário, faz-se
ximar-se, em itir um estímulo de natureza química e sempre «centrifugamente», a partir do germe, que assume
depois, ao estabelecer contacto, um estímulo mecânico. primeiro a forma de gástrula e continua depois a adicio­
Pela acção do estímulo químico, abrem-se as pinças ve­ nar novos esboços de órgãos.
nenosas dos ouriços-do-mar de todas as espécies; pela Em ambos os casos, há um plano que preside à trans­
acção do segundo — o estímulo mecânico — fecham-se formação: o plano do relógio dirige um fenómeno centrí­
e expelem o seu veneno. peto, o plano do tritão dirige um fenómeno centrífugo.

[ 160] 11 - A. HOMENS [ 161]


Segundo parece, as partes ajustam-se umas às outras, O mecanismo material pode continuar a funcionar durante
de harmonia com princípios diametralmente opostos. mais algum tempo, graças à sobrevivência de alguns
Como, porém, todos nós sabemos — embora com órgãos.
muita facilidade o esqueçamos também — o organismo. É evidente que a concepção geral da Natureza com
ao contrário de todos os mecanismos, não consiste de base no significado exige uma investigação rigorosa. No
peças, mas de órgãos, e um órgão é sempre uma estru­ entanto, o cérebro, que deve possuir um teor de pensar,
tura, formada de células vivas, todas com o seu teor não nos pode servir de muito. Mas também aqui o signi-
individual. O órgão, como um todo, possui o seu teor ficado lança a ponte que liga os fenómenos materiais
orgânico, que é o seu teor significante. É este teor e imateriais, tal como já o fizera entre a partitura e a
orgânico que dirige, como se pode concluir das afirma­ melodia.
ções de Spemann, os teores particulares das células do
órgão — semelhantemente ao plano significante do bolor-
4. A INTERPRETAÇÃO DA TEIA DE ARANHA
-viscoso de Arndt, que leva células amibóides a construí­
rem o corpo do bolor. O teor significante estabelece-se
Quando quero mandar fazer um fato, dirijo-me ao
subitamente e liberta a determinação morfogenética nos
alfaiate, que me tira as medidas e exprime em centíme­
teores individuais dos elementos celulares, até então
tros as dimensões mais importantes do meu corpo. Feito
semelhantes, que agora se dividem em vários teores
isto, transporta as medidas para um papel ou, se está
harmonizados uns com os outros e dão jn íc io à constitui­
bem seguro do seu ofício, directamente para a fazenda,
ção da forma, segundo uma melodia previamente estabe­
que ele agora talha conforme os números que tomou.
lecida.
Depois, cose as partes cortadas da fazenda e, após a
Com a experiência de Spemann, aprendemos que os
prova, entrega finalmente o fato, que traduz o retrato
órgãos do organismo, ao contrário do que sucede com
mais ou menos perfeito das formas do meu corpo.
as partes de uma máquina, possuem um teor significante
Muito surpreendido ficaria, se um alfaiate me fizesse
original e que, portanto, não podem constituir-se senão
um fato que assentasse bem, sem previamente me ter
centrifugamente. É necessário que se passem as três
tirado medidas e feito a prova. Poderia, contudo, admitir
fases do desenvolvimento do germe, para que comece a
que ele tivesse conseguido as medidas exactas no seu
formação dos esboços e cada esboço deve ter recebido
próprio corpo, visto que todos os corpos humanos, de
o seu teor orèjânico, antes que as suas células se dividam
certo modo, se assemelham.
e se transformem.
Por isso podem também usar-se fatos feitos, que
A cust a dos teores orgânicos constitukse, finaIm ente, reproduzem, em vários tamanhos, as proporções humanas
o teor vital do animal completo. O animal é, na verdade, normais. Assim, cada loja de fanqueiro apresenta uma
mais do que~o seujne.çanismo-material,-.canstruído pelas galeria de modelos vazios do corpo humano.
células orgânicas, de harmonia çom_a_determinação mor- Nem .todas estas condições preliminares se aplicam
fogenéticã.
à aranha e. todavia, ela consegue oferecer, na sua reda.
Quando se extingue o teor vital, o animal morre. um pa d r ã o e f i c i e n t e * de uma.mosCja._Ela utiliza-o,

[1 6 2 ] [1 6 3 ]
encontrado qualquer mosca; logo a teia não pode ser o
não no intere.aaa.da_jnosca, mas com o jirru d e ..a_deairu 1r.
retrato de uma mosca real. Ela apresenta, pelo contrário,
A teia de aranha f unciona como utilizador do signjficado
o desenho de um modelo de mosca que não existe em
do objecto significante «vítima» no_ mundg:próprio da
aranha. parte nenhuma.
«Ora vamos» — já eu estou ouvindo os mecanistas
Este utilizador de significado é tão rigorosamente
clam ar.— «_Aqui a doutrjna dos mundos-próprios denun­
adequado ao objecto significante, que nós podemos des­
cia-se comn tfifir i a -metafísica, pois é metafísico todo
crever a teia da aranha como réplica fiel da mosca.
aquele que procura os factores actuantes para além do
A aranha-alfaiate, que cria esta réplica fiel da mosca,
está privada de todos os meios auxiliares de que o alfaiate mundo material».
Pois bem. Mas nesse caso, logo depois da teologia,
de homens dispõe. Não pode tomar medidas no próprio
é a física moderna a mais pura das metafísicas.
corpo, que possui formas totalmente diferentes das do
Eddington (1) declara abertamente que possui duas
corpo da mosca. Apesar disso, determ ina as dimensões
secretárias: uma que utiliza normalmente e que pertence
das malhas segundo as dimensões do corpo desta. Cal-
ao seu mundo dos sentidos; outra, uma secretária fisica,
cula a capacidade de resistência dos fios, que tece se-
gundo a força viva do corpo da mosca em movimento. cuja substância constitui apenas a bilionésima parte da
Retesa mais os fiòs da rede do que os fios circuiares, secretária material, pois não é, de modo nenhum, feita
para que a presa no embate, seja envolvida por estes, de madeira, mas de um número imensamente grande de
mais elásticos, e fique imobilizada nas suas gotinhas elementos pequenísimos, dos quais se não sabe ao certo
viscosas. Os fios radiais nãò são tão glutinosos e servem se são partículas ou movimentos e que circulam à volta
^ aranha como trajecto mais curto para chegar junto da uns dos outros com inconcebível velocidade. Estes ele­
vítima aprisionada, que então é envolvida e reduzida à mentos não são substâncias mas as suas actividades
impotência. simulam, no mundo dos sentidos, a existência de substân­
As teias de aranha encontram-se, as mais das vezes, cias. Eles prosseguem na sua agitação numa extensão
em lugares que podemos designar por lugares de trânsito espaço-tempo tetradimensional, que deve possuir uma
das moscas. curvatura e é simultaneamente infinita e limitada.
A biologia não reivindica uma metafísica tão auda­
O mais extraordinário é que os fios da teia são teci-
ciosa. Pretende apenas aludir a factores que existem no
dos tão finos, que os olhos da mosca, com os seus im­
sujeito, deste lado da aparência sensorial e que hão-de
perfeitos elementos visuais, não podem distinguir a rede
servir para tornar intelegíveis as conexões dó mundo dos
e o insecto voa inadvertidamente para a morte, exacta­
sentidos^ Nãò pensa, de modo algum, em revolucionar o
mente como nós, desprevenidos, bebemos a água infes­
mundo dos sentidos, como a nova física se esforça por
tada de bacilos da cólera, invisíveis aos nossos olhos.
fazer.
Já é um modelo requintado da mosca o que a aranha
esboça na sua teia.
(') Sir Arthur Stanley Eddington (1882-1944), astrónomo e
Mas alto lá! Não é nada disso o que ela realmente físico inglês, adepto e pioneiro da teoria da relatividade. (N. da ed.
faz. Na verdade, ela constrói a sua teia antes de ter alemã.)

[1 6 4 ] [16 5]
A biologia parte do facto da formação dos germes, ainda não encontraram solução e que só com auxílio
segundo um plano, que começa em todos os animâis dessa nova linha directiva poderão ser resolvidos.
multicelulares com os três compassos de uma simples A um desses problemas se referiu j3_prande mestre
QieTõcfia: mórula, biástula, gástrula. Depois, como sabe­ da biologia dos insectos, Jules Fabre. A pequena fêmea
mos, vem a formação dos esboços dos órgãos que é, em do gorgulho-da-ervilha põe os ovos sobre as vagens da
cada espécie animal, previamente determinada. ervilha nova. As larvas que daí resultam perfuram a pa­
rede da vagem e introduzem-se na ervilha, ainda tenra.
Este facto mostra-nos que a sequência morfogenética
A larva que se aninhou mais perto do ponto central da
não é, na verdade, reconhecível pelos sentidos mas que
ervilha é a que cresce mais rapidamente. As outras que,
possui uma partitura em harmonia com o mundo sensorial.
com ela, ali se introduziram, em breve renunciam à com­
A mesma partitura dirige também o crescimento espacial
petição, deixam de se alimentar e morrem. A única sobre­
e temporal do seu equipamento celular, assim como as
vivente mina, primeiro, o centro do grão mas abre, depois,
suas propriedades.
um túnel até à superfície superior da ervilha e, à saída
Existe, pois, uma partitura inicial para a mosca, tal dele, faz uma incisão circular no tegumento, de modo a
como existe uma partitura inicial para ajjran h a. Ora eu abrir uma porta. Em seguida, a larva arrasta-se novamente
afirmo que a partitura inicial da mosca (que tam bém para a sua câmara de alimentação e continua a crescer,
podemos designar por protótipoLaatua_Raj?a rtjtura inicial até que a ervilha, depois de ter atingido o tamanho defini­
da aranha, de modo que a te ia .teclda„por. esta resulta tivo, endurece. Este endurecimento seria fatal para o
«própria para capturar moscas». novo escaravelho, resultante da larva, pois a ervilha
Oculta sob a cortina das aparências, realiza-se a endurecida forma à sua volta uma camada protectora que,
conexão'dos vários protótipos ou melodias iniciais, se­ por outro lado, se converteria em sepultura, se a larva
gundo um vasto plano significante^ não se tivesse encarregado de abrir o túnel e a porta.
No caso particular, basta procurar os utilizadores Neste caso, não pode intervir qualquer experiência
correspondentes aos objectos significantes, para obter de tentativa e erro, transmitida pelos antepassados. Seria
uma visão da c ont e xt úrã^dõ s~mlfndos-p roprlos^ frustrada qualquer tentativa para sair da ervilha endure­
A ^ e s trila orientadora pela quãl a biologia sé tem cida. Não: o dispositivo túnel-porta deve já e x is tir .g n g li
guiado é o significado e não a insuficiente lei da causa­ nalmente, no planojriorfogenético de cada Iarv3_e.ro_.cies-
lidade, què não consegue ver mais do que um passo para nimento. Deve t e r -s e dado, portanto, uma transmissão
diante ou para trás e deixa inteiramente ocultas as dêT significado do protótipo do gorgulho-da-ervilha, de
grandes correlações. modo a estabelecer um ajustamento entre o gorgulho e a
Quem p^de aos naturalistas investigadores que sigam ervilha.
uma nova linha directiva, não se obriga só a convencê-los A construção, pela larva, do túnel e da saída, que são
de que essa orientação abre novos caminhos, capazes de necessários à vida do gorgulho é, em muitos casos, o
levarem o nosso conhecimento mais longe do que os aniquilamento deste. Com efeito, há um pequeno icnêu-
actuais. Deve também indicar-lhes os problemas que mon que, utilizando o seu fino aguilhão, ataca com pre-

[1 6 6 ] [1 6 7 ]
cisão mortal a porta e o túnel, para introduzir o ovo na a conformação geral das plantas, a qual deve a sua cons­
larva indefesa do gorgulho-da-ervilha. Deste ovo irrompe tituição à acção, segundo um plano, dos impulsos cLe.
uma pequena larva de icnêumon, que vai devorando, de su jeitoscelularesvivos.
dentro para fora, a sua nutrida hospedeira, cresce até se Nas plantas, não há, evidentemente, órgãos de sen­
tornar adulto e alcança a liberdade utilizando o caminho tidos nem nervos, de modo que toda a sua existência
aberto pela sua vítima. parece decorrer num mundo-de-acção.
A teoria de Loeb consistia em também reconhecer
Neste caso, podemos falar de um trio de conexões
no mundo animal apenas o mundo-de-acção, ignorando ..a
de significado destas partituras iniciais.
mundo-de-percepção. Isto passava-se devido a uma sim­
ples habilidade.
Por muito complicado que se apresente o comporta­
5. LEI MORFOGENÉTICA E LEI DO SIGNIFICADO
mento de um animal, este acabará sempre por se apro­
ximar ou por se afastar do objecto actuante. Esta compo-
Não será fácil adaptar as ideias metafísicas recente­ nente espacial, tão simples,_de todo o comportamento
mente desenvolvidas às dos biólogos actuais. interpretou-a Loeb como o próprio comportamento e divi­
A influência principal na biologia mais recente exer­ diu, assim, todos os comportamentos em actos de apro­
ceu-a a teoria dos tropismos ('), de Jacques Loeb (2). ximação e actos de afastamento. ...
Loeb era um físico inator que só reconheci a a acção Em lugar dos comportam entos, surgiram então os
recíproca entre objectos e nada sabia da influência de t ropismos, por meio dos quais Loeb transformou todos
um sujeito sobre os fenómenos naturais. Segundo ele, só os sujeitos animais vivos em máquinas inertes que se
havia um mundó^fe^ácçãõ erri que se" passam todos os devem também explicar espacialmente. Até o magneto
fenómenos físicos e químicos. Um objecto actua sobre simples, que atrai o ferro, se comporta como ferrótropo
outro como o martelo sobre a bigorna ou como a faúlha positivo e a agulha magnética como polótropo negativo,
no barril de pólvora. A reacção depende da energia actual relativamente ao positivo.
transportada Del o objecto actu ante. e da ene rg i a pote ncl a I Esta doutrina tornou-se decisiva para a conceacão
armazenada no objecto actuado. geral do mundo de toda uma geração de biólogos.
Nas plantas, a reacção surge consoante a forma e a Quando nos detemos om fronlo do um prado, onde
ordenação dos tecidos nos órgãos. Basta que pensemos as flores abundam e as abelhas zunem em todas as direc­
has goteiras das fõTfiãs e riòs grãos de amido do germe ções; onde as borboletas se recreiam e as libélulas
do trigo, que também podem incluir-se no conceito de fogem, frementes; em cujas ervas dá os seus grandes
energia potencial. Sem dúvida, desprezamos, neste caso, saltos o gafanhoto, os ratos se esgueiram e os caracóis
rastejam lentamente — insensivelmente fazemos a nós
próprios esta pergunta: o prado oferecerá aos olhos de
(') Tropismos — movimentos orientados segundo leis, nas
plantas e animais inferiores, como reacções a determinados estí­
tão diversos animais o mesmo aspecto que apresenta
mulos. (N. da ed. alemã.) aos nossos?
H Biólogo germano-americano (1859-1924). (N. da ed. alemã.) A esta pergunta responderá quem for ingénuo, sem

[16 8] [1 6 9 ]
hesitação: «Evidentemente, é sempre o mesmo o prado guimos. Nesta faixa, as cores simples seguem-se uma
que todos vêem!» após outra: vermelho-amarelo-verde-azul, com as cores
Responderá, porém, de modo totalmente diverso o mistas que entre elas se intercalam.
adepto convicto de Loeb. Ao contrário da escala das ondas de éter, de estru-
Como todos os animais são simples mecanismos, tura~Tinear, õ e s p ectro das cores forma, em si, um círculo
dirigidos por acções físicas ou químicas, o prado con­ fechado, pois a cor mista entre o vermelho e o azul —
siste num entrelaçamento de ondas de éter e vibrações o violeta — une as duas extremidades do espectro.
de ar, de nuvens de substância subtilmente dividida e de Aliás, o espectro das cores apresenta particulari­
contactos mecânicos que actuam entre uns e outros dades notáveis de observância à lei, que faltam na escala
objectos. das ondas de éter. Assim, as cores contíguas no espec­
Contra ambas as concepções do prado, ergue-se a tro não se misturam, produzem a impressão de branco.
doutrina dos mundos-próprios, pois, para salientar um Estas cores complementares não se evocam recipro­
só exemplo, a abelha que suga o néctar não vê o prado camente, como não é raro acontecer com as sensações
com olhos humanos nem é insensível como uma máquina. opostas, facto que contradiz todas as experiências mecâ­
As cores são ondas de éter captadas pelo s.Aeritidos, nicas. Nas cores, como dissemos, não se trata de acções
quer dizer, não são excitações eléctricas das células do materiais mútuas das células cerebrais vivas, mas de
nosso cérebro, mas os teores individuais destas mesmas relações de sensibilidade dos seus tons individuais que,
célu la^ . " todavia, são igualmente fixados segundo leis.
A prova disto dá-no-la a fisiologia dos sentidos. Nós Assim como as cores são as energias específicas
sabemos, desde Goethe e Hering (') que as cores (tons individuais) das células cerebrais que estão sob a
seguem as suas leis próprias, leis que são totalmente influência do órgão da visão, o qual, por sua vez, selec­
diferentes das leis físicas das o n d a s d e éter. ciona as ondas de éter e as envia ao cérebro, transfor­
As ondas de éter que, por meio de um prisma, são madas em excitações nervosas, assim também os sons
forçadas a decompor-se segundo o seu comprimento de são as energias específicas das células cerebrais que
onda, constituem então uma espécie de escada, por estão sob a influência do ouvido, que capta certas vibra­
ordem decrescente da largura dos seus degraus. Os ções do ar.
degraus mais curtos encontram-se numa extremidade da As leis dos sons estão submetidas à teoria da
escada, enquanto os mais largos ficam na extremidade música. As consonâncias, dissonâncias, oitavas, quartas,
oposta. quintasTcíevem todas a sua existência às sensações sono­
Nesta escala, a nossa vista separa uma curta secção ras e não têm materialidade. Tentemos reconduzir a
que as nossas células cerebrais transformam numa faixa, sequência dos sons de uma melodia à lei da causalidade,
constituída pelâs sensações das cores que nós distin- que é válida para todos os fenómenos materiais.
Os nossos órgãos dos sentidos — os olhos, os ouvi­
(') Ewald Hering (1834-1918), fisiólogo alemão que se dedi­ dos, o nariz, o palato e a pele — são construídos segundo
cou em particular ao sentido espacial da visão e à percepção das o princípio da caixa de fósforos sueca, cujos fósforos só
cores. (N. da ed. alemã.) respondem a determinadas acções do mundo exterior.

[1 7 0 ] [17 1]
Estas acções produzem, nos nervos, ondas de excitação rentes estímulos do mundo exterior, consoante a sua
que são conduzidas ao cérebro. Até aqui, tudo se passa natureza específica, com as partes correspondentes do
mecanicamente, segundo a lei da causa e do efeito. Mas cérebro.
no cérebro encontra-se a face interior dos órgãos dos São os órgãos dos sentidos a expressão de varios
sentidos, com a forma de um carrilhão vivo, cujas célii- ciclos sensoriais ou, como órgãos de recepção, serão
las individuais — os sinos — tocam com diferentes sons apenas a expressão de várias espécies de acção fisico-
individuais. -química do mundo exterior? O órgão da visão foi cons­
Em que medida existe também este género de estru­ truído pelas ondas de éter ou pelas cores? O da audiçao
tura nos animais? Da analogia da parte mecânica dos foi construído pelas vibrações do ar, ou pelos sons? E o
órgãos dos sentidos ninguém duvida. São por isso órgão do olfacto um produto do ar saturado, em certas
designados órgãos-de-recepção. Mas quanto à face proporções, de gases e partículas olfactivas ou um pro­
interior? duto dos sinais olfactivos do sujeito? O órgao do gosto
Embora não conheçamos as sensações dos nossos deve a sua origem à substância química dissolvida em
semelhantes, não duvidamos, no entanto, de que, por água ou aos sinais gustativos do sujeito? _
meio dos olhos, eles recebem sinais visuais a que cha­ Os órgãos receptores dos animais são produtos da
mamos cores e tão-pouco duvidamos de que, por meio face corpórea exterior ou da face sensível, incorpórea
dos ouvidos, recebem sinais auditivos a que chamamos e interior?
sons. Do mesmo modo, atribuímos ao seu nariz a facul­ Como os órgãos dos sentidos, no homem, represen-,
dade de despertar sinais olfactivos; ao seu palato, a de tam órgãos que ligam a face exterior à interior, é possí­
despertar sinais gustativos, e à sua pele a de despertar vel que, também nos animais, tenham de exercer a
sinais tácteis, todos eles, sem excepção, constituídos mesma função e que, portanto, devam a sua construção
por teores individuais. tanto à face exterior como à interior.
Nós reunimos todas as impressões dos sentidos — Que os órgãos de recepção dos animais não devem
qualitativamente diferentes — sob a designação geral de considerar-se apenas como produto da face exterior,
sinais-perceptivos, que, projectados no exterior, são provam-no, sem sombra de dúvida, os peixes, que, embora
transformados em notas-características das coisas. só entrem em contacto com substâncias solúveis na água,
Vejamos agora: aparecem também entre os animais, possuem, não obstante, um nítido órgão de audição, além
na excitação dos seus órgãos-de-recepção, os sinais do órgão do olfacto. As aves, pelo contrário, que teriam
correspondentes às energias sensoriais específicas das as melhores condições para aperfeiçoar ambos os órgãos,
suas células dos centros cerebrais, sinais-perceptivos não têm o órgão do olfacto.
que eles igualmente trasladam e utilizam como notas- Só quando tivermos reconhecido claramente a função
-características, na construção das propriedades de todas dos órgãos dos sentidos, poderemos compreender a
as coisas que intervêm no seu cenário da vida? estrutura de todo o organismo.
Os mecanistas puros negam esta hipótese e susten­ Frente_ à face exterior, eles servem _de crivo às
tam que os órgãos dos animais não possuem face inte­ acções f ísico-quírnicag do mundo exterior^.Só as acções
rior e servem apenas para pôr em comunicação os dife­ que têm significado para o sujeito serão convertidas em

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excitações nervosas. Estas, por seu lado, evocam no Eggers rvostrou, estes animais possuem, no seu órgão
cérebro os sinais-perceptivos da face interior. Deste de audição, apenas dois filetes retesados, como ressona-
modo, a face exterior influi também na interior e deter­ dores. Com este dispositivo, é-lhes possível reconhecer
mina o número de sinais visuais, auditivos, olfactiyps, vibrações do ar que representam, para o nosso ouvido,
tácteis e gustativos que podem entrar nos ciclos sen- o limite superior da audição. Estes sons correspondem
soriais do respectivo animal. ao «pio» do morcego, que é o principal inimigo das bor­
Assim se distingue, ao mesmo tempo, o tipo de boletas. Só os sons emitidos pelo seu inimigo específico
construção dos mundos-próprios, pois cada sujeito só são captados por elas. Afora esses sons, o mundo é,
pode transformar em características do seu mundo-pró- para elas, silencioso.
prio, os sinais-perceptivos que são postos à sua dispo­ No mundo-próprio dos morcegos o pio serve de sinal
sição. de reconhecimento na escuridão.
Depois de observarmos um grande número de qua­ O mesmo som atinge umas vezes o órgão auditivo
dros do mesmo pintor, nós falamos da «sua paleta», de um morcego, outras vezes o de uma borboleta noc­
significando com isso aquelas cores de que o artista dis­ turna. Nos dois casos, o morcego que «pia» aparece como
punha para executar os seus quadros. objecto significante, ora como amigo ora como inimigo,
Estas relações tornam-se, porventura, ainda mais conforme o utilizador de significado que se lhe depara.
ciaras, se imaginarmos que cada célula sensitiva do cére­ Como a paleta de percepções do morcego, é rica, o
bro faz soar, graças ao seu teor individual, um determi­ som agudo captado é apenas um entre muitos. Mas a
nado sinal perceptivo. Cada um destes sinos vivos está paleta da borboleta nocturna é muito limitada e no seu
agora ligado, por meio de um cordão nervoso, à frente mundo-próprio existe apenas um teor — o teor de ini­
exterior e aqui se decide quais os estímulos exteriores migo. O «pio» do morcego é um produto simples do mor­
que são admitidos ao «toque» e quais os que não são. cego, a teia de aranha é um produto muito engenhoso da
Os teores individuais dos sinos celulares ligam-se aranha. Mas em ambos existe alguma coisa de comum.
uns aos outros por ritmos e melodias e são estes que os Nenhum deles é moldado sobre uma forma individual
fazem soar no mundo-próprio. determinada, materialmente presente, mas sobre a estru­
Depois das investigações de Mathilde Hertz, pode­ tura comum a todos os animais da mesma espécie.
mos admitir que a faixa de cores do espectro, nas abe­ Como se realiza então, na estrutura da borboleta, um
lhas, quando referida à mesma escala das ondas de éter dispositivo para captar os sons emitidos pelo morcego?
que serviu para o homem, se desloca uns degraus para A lei morfogenética das borboletas já implica a determi­
o lado da cor violeta. A face exterior do olho da abelha nação de construir um órgão auditivo adequado ao pio
não se ajüsta perfeitamente à do homem, ao passo que dos morcegos. Não pode restar dúvida de que é esta a
as duas faces interiores parecem corresponder-se. Acerca lei do significado que actua na lei morfogenética, de
do significado deste desvio, não se foi, até agora, além modo que ao portador do significado corresponda o seuj
de meras hipóteses. utilizador e vice-versa.
Não defxa dúvidas, pelo contrário, o significado da A lei morfogenética, como vimos, dota o girino de
paleta de percepções das borboletas nocturnas. Como rã, que é herbívoro, de uma boca com maxilares córneos

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e o tritão, que é carnívoro, de uma boca com verdadeiros de guarda-chuva, que encaminha para as finas extremi­
dentes. A lei do significado intervém sempre na forma­ dades da raiz, debaixo da terra, a preciosa humidade do
ção do germe dê~nTÕdcTdeterminante e promove a urdi­ céu. As folhas contêm a clorofila, substância maravilhosa,
dura de um órgão da nutrição que, no lugar convenientç, que utiliza os raios solares para transformar energia em
se desenvolve em correspondência com o conveniente matéria.
objecto portador do significado: o alimento vegetal ou A copa desaparece no Inverno, quando o solo gelado
animal. Se, todavia, a lei morfogenética é orientada num impede as raízes de fazerem subir até às folhas a
caminho falso, por meio de uma enxertia, não há lei de corrente fluida saturada dos sais da terra.
significado que a faça recuar. Nenhuma destas futuras acções sobre o futuro car­
Assim, não é a própria morfogénese que é influen­ valho é capaz de, sob o ponto de vista causal, influenciar
ciada pelo significado: a lei morfogenética — e só ela-— a morfogénese do carvalho. Igualmente inoperantes são
é que fica na integral dependência da lei do significado. também outras acções semelhantes do mundo exterior
antes exercidas sobre a árvore-mãe, pois nessa altura
ainda a glande não existia.
6 . A LEI DO SIGNIFICADO COMO ELO Assim, em presença da glande se nos depara o
DE LIGAÇÃO ENTRE DUAS LEIS ELEMENTARES mesmo enigma que já tínhamos encontrado ao obser­
var o germe de qualquer planta ou o ovo de qualquer
Quando, num passeio pela floresta, apanhamos uma animal. Em caso algum podemos falar de um encadea­
glande que caiu de um frondoso carvalho e escapou, tal­ mento causal de acções exteriores sobre um objecto, na
vez, a algum esquilo, nós sabemos que deste germe preexistência ou pós-existência deste. Só é possível
vegetal resultarão células de diferentes tecidos que for­ considerar uma conexão causal, quando causa e efeito
marão, em parte, o raizame subterrâneo e em parte o concorrem, temporal e espacialmente.
tronco, com a sua copa, segundo uma lei morfogenética Também não é de prever a solução do problema,
característica do carvalho. quando ela se procura nas circunstâncias mais remotas.
Sabemos que na glande se oculta o esboço dos Uma glande apresenta à nossa compreensão, desde há
órgãos que permitirão ao carvalho travar a luta pela vida um milhão de anos, as mesmas dificuldades que apresen­
contra centenas de acções do mundo exterior. Mental­ tará daqui a cem mil anos.
mente, nós vemos o futuro carvalho defrontando a futura Daí se conclui que tínhamos caído num beco sem
chuva, a futura tempestade, o futuro sol. Vêmo-Io sobre­ saída, quando julgávamos poder estabelecer, por meio de
viver a futuros verões e a futuros invernos. construções engenhosas, uma cadeia causal entre o
Para se desenvolverem sob todas as influências do embrião da glande e as acções exteriores de natureza
mundo exterior, as vicejantes células do carvalho têm físico-química. Com efeito, não estamos aqui em pre­
de diferenciar-se na raiz, no caule e na copa, que inter­ sença de um problema susceptível de solução mecânica,
cepta os raios do Sol e cujas folhas, ténues como ban­ a que a história genealógica possa fornecer a chave.
deiras, se inclinam ao vento, a que os ramos nodosos Temos, portanto, de abordar o problema por outro
oferecem resistência. Ao mesmo tempo, a copa serve lado.

[176] 12 - A. HOMENS [177]


Se nós, como observadores humanos da situação do ras células germinais, resultam, por divisão, numerosas
carvalho, examinarmos as acções do mundo exterior células amibóides independentes que, à semelhança das
sobre ele, logo descobriremos que elas estão submetidas
suas irmãs livres, se apropriam, como sujeitos autóno­
a uma lei natural de carácter geral.
mos, dos alimentos que se lhes apresentam. Só depois
O Sol, a Lua e as estrelas seguem, no céu, caminhos*»
de esgotados os alimentos, se estabelece a formação de
fixõs sobre o carvalho. Sob a influência deles, suce­
um novo indivíduo. As células amibóides que se agrupa­
dem-se as estações do ano. Calmarias, tempestades, a
ram para formarem um novo indivíduo homogéneo, um
chuva e a neve alternam-se no decorrer das estações.
novo sujeito, deixam de ser adequadas ao objecto por­
O ar, que se tinha impregnado dos aromas da Primavera,
tador do significado «alimento», passando a sê-lo ao fac­
em breve exala os cheiros acres do Outono. Em cada Pri­
mavera, a floresta ressoa com o canto das aves. O pró­ tor significante «vento», para enfrentar o qual se desen­
prio carvalho oferece, na copa, como na casca, asilo volveram. O carrilhão do estádio amibóide, que se
infinitamente variado às centenas de animais (aves e manifesta por um soar desordenado das células-sinos,
outros) que a ele se acolhem, no Verão e no Inverno. segue subitamente uma melodia una, uma nova lei de
A esta lei natural, tão velha como Noé, também o significado, que reúne as leis elementares do vento, por
carvalho está submetido, embora muitos dos factores um lado, e as da livre formação de células, por outro,
naturais que nos são familiares não o penetrem. A Lua, conduzindo assim a uma nova unidade subjectiva.
as estrelas, e a esfera solar não se encontrarão no Nunca será possível produzir um bolor-viscoso pela
número dos factores significantes que formam o reves­ acção directa da pressão do vento, por muito rigorosa-j
timento protector do carvalho, mas, por outro lado, certos mente doseada que seja, sobre as células amibóides^
raios luminosos quimicamente activos chegam até à clo­ móveis.
rofila das folhas e certos raios caloríficos promovem, pela Ao contrário do bolor-viscoso, que une as suas célu­
sua acção sobre os novos rebentos, o seu crescimento. las protoplásmicas móveis num só talo que, por sua vez,
A queda das gotas de chuva é convenientemente desviada depois da constituição completa da sua forma, representa
e a tempestade encontra, da parte dele, a mais deses­ um indivíduo, constituído por um único sujeito orgânico, a
perada resistência. Nem os aromas, nem as ondas sono­ glande desenvolve numerosos botões, cada um dos quais
ras, todavia, têm qualquer influência sobre o carvalho. dá origem a um sujeito orgânico, que está ajustado a um
É sempre a mesma lei do significado que, hoje como ou mais factores significantes — e, deste modo, a folha
há milhões de anos, realiza a selecção dos factores natu­
do carvalho não serve apenas de goteira para a chuva
rais elementares e os faz soar, em melodia própria, no
mas também de receptor dos raios luminosos, graças
carrilhão vivo das células do carvalho e, por fim, faz sur­
às suas células clorofilinas.
gir das células protoplásmicas do germe os órgãos res­
pectivos. Todos os sujeitos orgânicos, com as suas melodias
orgânicas, se integram na sinfonia do organismo «carva­
Graças ao film e de Arndt, não temos de limitar-nos
lho», sinfonia que podemos também designar por protó­
a meras hipóteses. Podemos observar como, das primei­
tipo do carvalho.

[1 7 8 ]
[1 7 9 ]
/ O processo da subjectivação sublimada, de teor celu­ sários, pelo menos, dois sons para formar uma harmonia.
lar, em melodia do órgão, em melodia do organismo, está NaTõmposição de um dueto, as duas partes que se devem
lem directa oposição com todo o processo mecânico, que fundir numa harmonia são compostas nota por nota, ponto
postula a acção de objecto sobre objecto. por ponto, uma para a outra. Nisso se baseia a teoria do
Ele encontra-se, pelo contrário, no mesmo nível de contraponto, na música.
qualquer composição musical. A relação de factores Em todos os exemplos extraídos da Natureza temos, i
significantes, nas plantas, e de objectos significantes, igualmente, de procurar dois factores que, juntos, cons­
nos animais, para com os respectivos utilizadores de tituam uma unidade. Portanto, partimos sempre de um
significado, constitui prova particularmente clara do que sujeito, situado no seu mundo-próprio e examinamos
se afirma. Assim como na composição de um dueto, as suas relações harmónicas com os objectos parti­
as duas partes têm de ser compostas uma para a outra, culares que, como objectos significantes, convergem no
nota por nota, ponto por ponto, assim também na Natu­
sujeito.
reza os factores significantes devem estar para os
O organismo do sujeito representa o utilizador do
utilizadores numa relação de contraponto. Só podere­
significado ou, pelo menos, o seu receptor. Se estes dois
mos compreender melhor a constituição da forma do
factores se reúnem no mesmo significado é porque .foram
organismo se, a partir dela, nos for possível construir
compostos simultâneamènte pela Natureza. Saber que
uma doutrina da com posição da Natureza.
lèTs áPse Tévélám, eis õ assunto da doutrina da com posi­
ção da Natureza.
Sempre que dois organismos se encontram, um para
7. A DOUTRINA DA «COMPOSIÇÃO» o outro, numa relação harmónica de significado, é neces­
DA NATUREZA sário averiguar qual dos dois devemos considerar como
sujeito ou como utilizador do significado e a qual cabe o
A expressão «doutrina da com posição da Natureza» papel de portador do significado (objecto significante).
pode induzir em erro, visto que, de uma maneira geral, a Em seguida, procuraremos as propriedades recíprocas
Natureza não oferece doutrinas. Assim, por doutrina, que se encontram relacionadas duas a duas, como ponto
deve apenas entender-se uma generalização das regras e contraponto. Se possuirmos, no caso em questão, um
que julgamos descobrir no estudo da com posição da conhecimento suficiente dos ciclos-de-função, que ligam
Natureza. o respectivo sujeito com o seu objecto significante e que
Está, portanto, indicado que partamos de exemplos podem tomar-se como ciclos significantes, encontramo-
particulares e que estabeleçamos as suas leis para, deste -nos então em condições de procurar os contrapontos,
modo, chegarmos a uma doutrina da com posição da tanto no campo da percepção, como no campo da acção,
Natureza. para, finalmente, concluirmos acerca da lei do significado
Como modelo, podem servir-nos as regras da compo­ específica que presidiu à composição.
sição musical, que parte do princípio clê~qljiê~são_neces­ Para me referir ao exemplo, já citado, da glande,

[1 8 0 ] [1 8 1 ]
começo por apresentar a formulação esquemática do pro­ compressores do saco actuam mecanicamente sobre a
blema da com posição da glande e um dos seus factores água incompressível e impelem o animal para trás. A lei
significantes — a chuva. da constituição da água do mar intervém, como composi­
tor, no carrilhão vivo das células protoplásmicas do em­
Folhagem do carvalho Chuva brião do polvo gigante e impõe à melodia morfogenética
Receptor de significado Factor de significado os contrapontos que correspondem às propriedades da
água. Em primeiro lugar, forma-se o órgão, cujas paredes
Ponto Contraponto musculosas admitem e expelem a água, incompressível.
A lei do significado, que neste caso liga ponto e contra­
Disposição em forma de G o ta s de c h u v a qu e
ponto, torna possível o acto de nadar.
telhado das folhas com caem
goteira A mesma lei do significado, sob numerosas varian­
tes, preside à construção da forma de todos os animais
Lei m orfogenética Lei física da form açãó nadadores. Nadam para diante, para trás ou para o lado,
da glande das gotas executam movimentos ondulantes com a cauda, são impe­
lidos através da água pelas barbatanas ou pelas pernas,
mas sempre as propriedades do organismo se harmonizam
Lei com um do sig n ifica d o :
com as propriedades da água e subsistem como o ponto
Captação do fluido e sua distribuição pelas extremidades para o contraponto. Em todos os casos é reconhecível
da raiz uma composição orientada no sentido de um significado
comum.
O mesmo pode dizer-se de todos os vários ciclos
A folhagem do carvalho actua mecanicamente na dis­
do habitat, quer se trate de animais aquáticos, terrestres
tribuição das gotas de chuva, ao passo que a lei da for­
mação das gotas intervém como compositor na melodia ou aéreos. Sempre os órgãos efectores, destinados a
do carrilhão vivo das células do carvalho. correr, saltar, trepar, planar, voar e velejar, são construí­
Se nos voltarmos para os animais e procurarmos dos em contraponto com as propriedades do respectivo
discernir cada um dos ciclos de significado, toparemos habitat. Com efeito, em muitos insectos, que começam
no ciclo do h a b itat relações semelhantes às que encon­ por viver na água e mais tarde vivem no ar, podemos
trámos no carvalho e na chuva. verificar com que facilidade, no segundo estádio larvar, a
Tomemos para primeiro exemplo o p olvo gigante, lei da constituição elimina os órgãos velhos e faz surgir
como sujeito, nas suas relações com a água do mar, os novos.
com o objhcto s ig n ific a n te e imediatamente encontra­ Mas também o exame das relações receptivas entre
remos relações do tipo contrapontal. A incompressibili- sujeito e h a bitat confirma o facto. Para cada obstáculo
dade da água constitui a condição necessária para a cons­ que se levante ao sujeito, existe sempre um órgão sen-
trução de um saco natatório musculoso. Os movimentos sorial construído em contraponto. Quando à luz, é o órgão

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da vista, quando às escuras, o órgão do tacto ou o do Fabre que a fêmea executa movimentos de vaivém com
ouvido. o abdómen, de modo a comprimir contra o solo as glân­
Desde o início, o morcego, tal como a andorinha, está dulas odoríferas. O cheiro que então jorra para o chão é
adaptado, por outros meios, à percepção dos obstáculos tão activo no mundo-próprio dos machos, que estes
que encontra no voo. acorrem, voando de todos os lados, ao local de onde o
Mas isso — dir-me-ão — são puras vulgaridades. E, na cheiro provém, sem serem desviados por outros cheiros,
verdade, são experiências de todos os dias, que podem que se perdem, abaixo do limiar de percepção.
fazer-se em toda a parte. Mas por que motivo não have­ O poder de atracção desta nota olfactiva é tão forte
mos nós de tirar destas experiências a única conclusão que os machos, na sua ânsia de atingirem o solo odoroso
possível — a de que, na Natureza, nada é deixado ao — o objecto significante— não modificarão o seu itine­
acaso, mas, pelo contrário, em todas as circunstâncias, rário, ainda que lhe coloquemos no caminho uma fêmea,
uma lei intrínseca do significado liga o animal e o seu metida em gaiola de vidro, de modo que seja visível, mas
meio, une os dois num dueto, em que as propriedades imperceptível pelo cheiro.
de ambas as partes são compostas uma para a outra, Infelizmente, não se fez ainda a mesma experiência
em contraponto? com cadelas no período do cio; mas é possível que os
Só quem negue obstinadamente o significado como cães se comportem exactamente como as borboletas
factor natural ousará contestar, no ciclo-de-função do machos.
sexo, que macho e fêmea são constituídos, quanto ao sig­ Num caso muito interessante relatado por Wunder (1),
nificado, um para o outro e sustentar que o dueto de amor o parceiro sexual não intervém como objecto significante
que, em mil variações, entrelaça todo o mundo vivo, directo: insere-se, no ciclo do sexo, um segundo objectoj
surgiu independentemente de qualquer plano. significante.
O macho da carpa-pequena, peixe de água doce,
No dueto de amor dos animais e das pessoas enfren­
reveste-se, na época das núpcias, de um brilhante traje
tam-se dois parceiros equivalentes, um dos quais, no seu
nupcial. Isso, porém, não acontece quando avista a fêmea,
mundo-próprio, domina como sujeito e intervém como
mas sim quando avista o mexilhão dos tanques e princi­
receptor de significado, enquanto ao outro cabe o papel
palmente quando sente as correntes de água aspiradas
de portador de significado, isto é, de objecto significante.
e expelidas por esse mexilhão.
Tanto os órgãos de percepção como os órgãos de
Ao mesmo estímulo, a fêmea desdobra o seu longo
acção estão, nos dois parceiros, coordenados em con­
traponto. ovipositor. Enquanto o macho lança o seu esperma na
água, a fêmea fixa o ovo fecundado na guelra do mexilhão,
A primeira condição que deve pôr-se numa com posi­
onde a larva pode crescer dentro de uma corrente alimen­
ção natural bem sucedida é que o objecto significante se
tar e protegida de todos os perigos. O significado do traje
distinga nitidamente no mundo-próprio do receptor de
nupcial do macho não está relacionado naturalmente com
significado. Para isso, podem utilizar-se os mais variados
sinais-característicos.
(') W. Wunder (* 1898), zoólogo especialista em ictiologia
J^cerca da borboleta nocturna chamada pavão, conta geral e piscicultura. (N. da ed. alemã.)

[1 8 4 ] [1 8 5 ]
o mexilhão; ele serve, sim, para afugentar as outras ganso, a pessoa assinalada como «mãe»? — eis a questão
carpas.
que principalmente preocupou Lorenz.
i Que nós temos no significado a verdadeira chave Não devíamos esquecer, creio eu, que até no mundo-
para a compreensão das com posições naturais da vida -próprio do nosso cachorrinho não é como «mãe» que nós
sexual, provam-no aqueles exemplos em que o objetítò aparecemos e somos farejados mas sim cómô portadores
sigiiiiicante em nada se modifica e, todavia, experimenta do significado «aquilo ou aquele que traz o leite» e isto
da parte do sujeito o tratamento oposto, só porque este slmTqiiê, por tal mòtivo, assumamos, pãrã ele,'“a forma
sujeito se transformou quando recolheu um significado de cão.
diferente.
Von Korff fala de um bufo que tinha chocado dois
Ao falar da vida dos escaravelhos, diz Fabre que, ao ovos de pata e tratava os patinhos como se fossem pe­
princípio, machos e fêmeas saem juntos para a caça, quenos bufos. Tentara alimentá-los, pelo bico, com carne
mas que depois se unem sexualmente. Concluída a cópula, crua, sem resultado, e observava-os durante o dia, pou­
e embora a conduta dos machos para com as fêmeas sado num ramo que se estendia por cima do tanque.
não se modifique absolutamente nada, estas lançam-se À noite, regressava com eles para a sua gaiola. Quando
com verdadeira fúria devoradora sobre eles e despeda­ outros patinhos se lhes juntavam, eram imediatamente
çam-nos, sem que eles, mais fracos, possam evitá-lo. mortos e devorados pelo bufo. Neste caso, os filhos adop­
O objecto significante «amigo» transforma-se, no mundo- tivos do bufo distinguiam-se dos seus semelhantes apenas
-próprio das fêmeas, no objecto significante «alimento», pelo significado que o bufo lhes atribuía. Ao passo que
sem que, no resto, a constituição deste se tenha alterado todos os outros patinhos entravam como portadores do
em qualquer pormenor. É exactamente o que se passa significado «vítima» no mundo-próprio do bufo, os dois
com a pedra do caminho que, sem se modificar, se des­ que ele tinha chocado desempenhavam o papel de bufo-
poja, afinal, do seu significado de «elemento do caminho» zinhos.
para se converter em «projéctil» quando varia a disposi­
A amplitude da lei que tem de harmonizar as dife­
ção íntimá do sujeito «homem» que imprime então à
renças entre o portador de significado e o receptor de
pedra um significado diferente.
significado é muito pequena no ciclo sexual ou no da
O misterioso comportamento, descrito por Lorenz (1), infância, visto que se trata, na maior parte dos casos,
dos jovens gansos cinzentos, consiste igualmente numa de indivíduos da mesma espécie. A observação dos ciclos-
«cunhagem» de significado. O gansozinho cinzento assi­ -de-função «inimigo» e «alimento», pelo contrário, mos­
nala na expressão do próprio Lorenz — para «compa­
tra-nos que essa amplitude não conhece limites e que as
nheira maternal», que ele segue constantemente, o pri­
qualidades das coisas mais remotas podem ser ligadas
meiro ser vfvo que os seus olhos descobrem, ao sair do
umas às outras, em contraponto.
ovo. Neste caso, o próprio homem fica tendo, para o
Já falei da harmonização da lei da constituição do
ganso, o significado de «mãe». «Que aspecto terá, para o
morcego com a lei da constituição das borloetas, por meio
da lei do significado.
(’) V. pãgs) 110 a 113.
De um lado, temos o morcego, como objecto signifi-

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[18 7]
cante, que só produz um som; do outro lado, a borboleta 4. Um ferrão próprio para 4. Todos os m a m í f e r o s
nocturna, que em virtude do seu órgão auditivo muito perfurar a pele de qual­ possuem pele branda,
especializado, só pode captar um som. Este som é, nos quer mamífero e que bem irrigada pelo san­
s e r v e , ao m e s m o gue.
dois animais, o mesmo. A lei do significado.^segunskL^
qual esta correspondência surgiu, reside na relação entre tempo, de bomba pro­
o ataque do inimigo e a defesa davítinaa*- O som que, pulsora de fluidos.
como smàl de^reconhecimento, se estabelece, passando
de morcego para morcego, serve, ao mesmo tempo, às Lei de sig n ifica d o geral
borboletas nocturnas, de sinal para a fuga. No mundo-
Reconhecimento da vítima, ataque e absorção do sangue
-próprlo do morcego, é um sinal de amigo; no da borboleta
por parte da carraça
nocturna é um sinal de inimigo. O mesmo som torna-se,
consoante o seu diferente significado, criador de dois
órgãos auditivos totalmente diferentes. Como o morcego A carraça põe-se imóvel na ponta de um ramo, até
é capaz de ouvir muitos sons, o seu órgão auditivo dispõe que um mamífero passe por baixo dela. É então desper­
de uma ressonância de larga extensão. Mas só pode, por tada pelo cheiro do ácido butírico e deixa-se cair. Fica
outro lado, produzir este único som. suspensa no pêlo da sua vítima e tem de abrir caminho
É igualmente interessante seguir a adaptação da através dele, para chegar à pele quente, na qual introduz
carraça ao mamífero pela lei do significado. o ferrão, para absorver o sangue. Não existe nela um
órgão do gosto.
Carraça Qualquer mamífero A observância desta lei de significado, tão simples,
Receptor de significado Portador de significado ocupa quase a vida inteira da carraça.
A constituição desta, que é cega e surda, .está d eji-
Pontos C ontrapontos
neada sjmplesmente no sentido de permitir que no seu
1. O órgão olfactivo está 1. O único cheiro que é mundo-própriõ7qualquer mamífero surja sempre como por­
a d a p t a d o a um só comum a todos os ma­ tador do mesmo significado. Podemos considerar este
cheiro — o do ácido bu- míferos é o ácido bu- cõmõ um mamífero extremamente simplificado que não
tírico. tírico do suor. possua nenhuma das propriedades visuais ou auditivas,
2. Existe um órgão táctil 2. To d os os mamíferos pelas quais se distinguem as diferentes espécies de ma­
que permite à carraça têm pêlos. míferos. Este objecto significante da carraça tem um único
evitar os pêlos da sua cheiro: o que provém do suor dos mamíferos e é comum
vítima. a todos. Além disso, é táctil, quente e deixa-se perfurar,
3. Um órgão sensível à 3. To d os os mamíferos de modo que a carraça lhe sugue o sangue. Assim, todos
temperatura, que faz têm pele quente. os mamíferos — tão diferenciados entre si pela forma,
soar os sinais percepti- pela cor, pelos sons que emitem ou pelo cheiro que exa­
vos do calor. lam, tal como se apresentam no nosso mundo-próprio.

[18 8] [1 8 9 ]
podem agora ser reduzidos a um mesmo denominador, conformação (G e sta lt) a um maior poder de estimulação
cujas características, à aproximação de cada um deles — das formas abertas e temos de admiti-lo: mas que é que
seja homem, cão, corça ou rato — surgem em contraponto isto significa? A resposta acorre imediatamente: todos os
e denunciam a lei vital da carraça. botões impenetráveis que as abelhas desprezam apre­
No nosso mundo-próprio — o humano — não existe- sentam formas fechadas. Pelo contrário, as flores desa­
nenhum mamífero em si próprio, isto é, como objecto real; brochadas, que oferecem o seu néctar, têm formas
existe, sim, como abstracção mental, como conceito taxo- abertas.
nómico que nunca encontramos na vida. Na lei da conformação das abelhas incluem-se dois
É completamente diferente o que sucede com a car­ esquemas espaciais de percepção para flores e botões,
raça: no seu mundo-próprio existe um mamífero composto graças à lei do significado, segundo a qual se faz a
de poucas propriedades mas perfeitamente real, que cor­ colheita do néctar. Assim, os dois esquemas encon­
responde exactamente às necessidades da carraça, pois tram-se em estreita relação de contraponto com as duas
estas poucas propriedades servem, em contraponto, as formas principais das flores.
suas capacidades. Mas como é que a natureza procede, se um sujeito
O acomodamento do casa-roubada na concha do búzio, animal, no seu comportamento, tem de distinguir formas
fenómeno que não pode explicar-se como qualquer modi­ mas possui, por outro lado, um sistema nervoso central
ficação anatómica por adaptação gradual, parecer-nos-á absolutamente primitivo, incapaz de criar esquemas de
forma?
particularmente estranho, enquanto insistirmos na procura
de explicações mecânicas. A minhoca, que arrasta para a sua estreita galeria
Mas se abstrairmos dessas tentativas inúteis e nos folhas de tília e de cerejeira (que lhe servem, simultanea­
limitarmos a verificar que o casa-roubada não utiliza a mente, de alimento e protecção), tem de tomar as folhas
cauda como órgão natatório, como fazem os caranguejos pelo vértice, para que estas possam enrolar-se com faci­
de cauda comprida, mas sim como órgão de preensão para lidade. Se ela tentasse segurar as folhas pela base, estas
as conchas'de búzio, já a cauda preensora do casa-roubada embaraçar-se-iam na entrada e não obedeceriam à força
não parecerá mais enigmática do que a cauda natatória do que as puxava. Pela sua constituição geral, a minhoca
caranguejo-do-rio. A cauda preensora está tão harmonica- não está em condições de criar esquemas de forma; mas
mente construída para as conchas do búzio como a cauda possui, em compensação, um órgão sensorial particular­
natatória para a água. mente apurado para o gosto.
Mathilde Hertz fez esta interessante descoberta: as Devemos a Mangold (1) a descoberta de que, até nas
abelhas que colhem o néctar só são capazes de descobríT folhas partidas em pequenos pedaços, a minhoca con­
duas formãíTUe f lo re s T fõrmas decomponíveis ou com tinua a ser capaz de distinguir os pedaços que pertencem
recortes, e fôrmas fechadas ou íntegras. As formas estre­
ladas e poligonais de qualquer espécie atraem as abelhas, H Otto August Mangold (* 1891), zoólogo, discípulo de Spe-
mann, chefe de departamento do Instituto Max-Planck, de Heidelberqa
enquanto as formas fechadas, como os círculos e os qua­
desde 1946. Trabalhou em células embrionárias e ainda noutros
drados, as repelem. Este facto atribuem-no os teóricos da campos. (N. da ed. alemã.)

[1 9 0 ] [1 9 1 ]
à base daqueles que pertencem ao vértice. Com efeito, de pequenos animais caçadores, põem-se imediatamente
os vértices das folhas e as s u a s bases ..têm, para as mi­ em fuga.
nhocas, sabores diferentes. E isso basta para serem Nem o lophius sabe que aspecto tem a presa no
Tratados diferentemente. Em vez de esquemas de forma, mundo-próprio do peixe voraz que ele apanha, nem a
surgem, pois, em contraponto, notas gustativas que tor­ borboleta sabe que o pardal foge, diante dos olhos do
nam possível o acto de armazenamento de folhas, tão gato. Mas o Autor destas composições dos mundos-pró-
importante para a vida das minhocas. prios deve sabê-lo.
Com razão se pode aqui falar de uma requintada Não se trata de conhecimento humano, que possa
com posição natural. ser adquirido pela experiência. Sobre este ponto, já nos
elucidou a abertura do túnel pela larva do gorgulho-da-
O pescador humano sabe, por experiência, que para
-ervilha. Essa larva executa, como vimos, um comporta-
apanhar peixes particularmente vorazes não precisa de
mento que é determinado por um saber supersensorial,
iscar o anzol com uma representação perfeita da sua
independente do tempo. Graças a este saber, é possível
vítima e que lhe basta apresentar ao lúcio, como Isca,
ao compositor fazer da futura necessidade vital de um
uma simples amostra de prata, isto é, a imitação muito
gorgulho que ainda não nasceu, a causa do comporta­
genérica de uma carpa pequena.
mento da larva desse gorgulho.
Ora a Natureza não precisa destas experiências.
O Lophius p isca to riu s — o tamboril — é um peixe de
grande boca que, próximo do lábio superior, tem um apên­
8 . A TOLERÂNCIA DO SIGNIFICADO
dice ósseo, comprido e móvel, que ele faz ondular, como
se fosse uma fita prateada.
No exemplo do pedúnculo da flor, cuja diferenciação
Tanto basta para atrair peixes vorazes, mais peque­ conhecemos já nos quatro mundos-próprios da rapariga,
nos, que, ao abocarem a isca, são precipitados nas pro­ da formiga, da larva da aphrophora e da vaca, aquele,
fundidades da enorme boca pelo redemoinho que subita­ como objecto significante, encontrava-se, em cada caso,
mente se forma. perante um novo receptor de significado que podemos
A amplitude da lei do significado alarga-se, neste também designar por utilizador do significado, visto que
caso, ainda mais, pois liga a lei da conformação do lophius o pedúnculo é utilizado como adorno, como caminho,
não com a figura da presa perseguida pelo peixe voraz como fonte de material de construção ou como bocado
mas com a imagem muito simplificada dessa presa no de alimento, consoante o caso.
mundo-próprio daquele que vem a ser apanhado pelo Mas este exemplo oferece ainda outro aspecto, que
lophius. se manifesta quando nós, em vez do pedúnculo, introdu­
Exemplo semelhante oferecem as borboletas, orna­ zimos, como sujeito, toda a planta a que ele pertence e
mentadas com manchas ocelares brilhantes, as quais, ao lhe juntamos os quatro sujeitos anteriores como factores
abrirem as asas, afugentam as pequenas aves que as significantes.
perseguem, pois estas, quando se lhes deparam os olhos Não se trata então de uma utilização do significado

[192] 1 3 -A . HOMENS [193]


por parte da planta. Receber o significado só pode, neste maneiras muito diversas. Na maior parte das espécies,
caso, equiparar-se a sofrê-lo. Esta tolerância apresenta a longevidade dos indivíduos é determinada pela mudança
várias graduações. A diferenciação do pedúnculo em ca­ das estações. É evidente que todos os indivíduos que
minho de formigas é fácil de tolerar. Também a extracção vivem um só ano todos os anos cedem o seu lugar a
do suco para a construção da casa da larva da aphrophora nova geração.
se traduz apenas por um ligeiro dano. Mas o corte dai Extinguem-se assim completamente as sociedades de
flor, por parte da rapariga, e a ceifa da mesma flor por vespas, todos os Outonos, com os seus milhares e mi­
parte da vaca, podem, pelo contrário, ser prejudiciais à lhares de indivíduos e apenas algumas fêmeas sobrevi­
planta. vem ao Inverno para, no próximo ano, fundarem o mesmo
Em nenhum dos quatro casos se descobre uma lei do número de novos enxames.
significado adequada ao interesse da planta. No Outono, morrem tantas das nossas moscas do­
Do mesmo modo, o papel significante que a teia de mésticas, que nós poderíamos considerá-las extintas e
aranha desempenha na vida da mosca não é, por forma todavia, logo no princípio do ano seguinte, elas aparecem
nenhuma, aproveitada no interesse da mosca e opõe-se, de novo e em número igual. O número de moscas que
até, a este interesse. A mosca que se enreda na teia de prematuramente encontram a morte na teia da sua ini­
aranha não pode, de modo nenhum, utilizar este objecto mi ga— a aranha — desempenha neste balanço um papel
significante, mas apenas tolerá-lo, sofrê-lo. insignificante.
Da mesma maneira, a larva do gorgulho-da-ervilha A migração das aves aniquila, ano após ano, os
que, cuidando do futuro, abriu o seu túnel através desta, indivíduos excedentes que não estão à altura do enorme
em devido tempo, isto é, antes de esta endurecer, fica esforço por ela requerido.
indefesa perante o objecto significante «icnêumon» e só Não é só o número de indivíduos que conta para a
lhe resta suportar o causador da sua morte. espécie mas também a sua capacidade de resistência.
O sentido destes aparentes antagonismos de signifi­ Nisto reconhecemos o alto significado que tem a inci­
cado torna-se imediatamente claro, quando nós abstraímos dência, nos indivíduos, de danos que sucessivamente
do indivíduo em particular e consideramos a unidade excluem os mais fracos, da procriação de descendentes
superior da espécie. menos bem dotados.
O princípio de tudo o que é vivo estabelece na Ao arrebatarem as suas débeis presas, os açores e
espécie, que é duradoira, a existência de indivíduos, que as raposas tornam-se beneficiadores das espécies que
são transitórios. Os indivíduos de cada geração empare­ perseguem. Nos lugares onde as raposas são aniquiladas,
lham-se, para produzirem uma nova geração e o número as lebres sucumbem às epidemias, porque os animais
dos filhos excede sempre o dos pais. Para que a espécie atacados de doença não são eliminados a tempo.
mantenha a mesmo número de indivíduos, têm de su­ Os animais a que a doença tolheu os movimentos
cumbir os excedentes. Junta-se assim, na nova geração, têm sobre os seus inimigos uma atracção especial. Disso
o mesmo núryero de progenitores para a manutenção da tiram partido muitas aves. Assim, o abibe cuja postura é
espécie. A exterminação dos excedentes opera-se de ameaçada pela aproximação de um inimigo não se limita

[194] [1 9 5 ]
a fugir; finge também manquear e, com esta aparente
uma pequena lagarta, do grupo das traças, que se alimenta
incapacidade para o voo, atrai a si o inimigo, até se encon­
exclusivamente dos tecidos daquela planta.
trar suficientemente afastado do ninho e só então voa
e se põe a salvo. Depois de experiências que duraram anos, culti­
varam-se milhões de ovos deste inimigo do cacto, que se
O icnêumon, que ataca traiçoeiramente a larva do
espalharam pelas regiões ermas onde este se desenvolve
gorguJho-da-ervilha, é, ele próprio, o protector das ervi­
e, em poucos anos, foi possível destruir os cactos devas­
lhas, que, se não fora ele, seriam sacrificadas ao exce:
tadores e conquistar novamente o solo para a cultura.
dente dos seus inimigos.
É altamente apaixonante seguir as com posições da
A Austrália oferece-nos um exemplo notável de como Natureza e averiguar que significado convém a cada tole­
é importante para a vida vegetal e animal a intervenção rância de significado.
desses inimigos específicos.
Dois pontos de vista importa então considerar: ou o
Há cem anos, uma camponesa que emigrou da Amé­ excesso de indivíduos é eliminado pela tolerância do
rica do Sul para a Austrália levou consigo uma estaca significado, no interesse da própria espécie — e, neste
de figueira-da-índia, que se deu admiravelmente na nova caso, todos os indivíduos doentes e de limitada resis­
pátria. Em breve se reconheceu a grande utilidade desta tência são segregados— , ou então a eliminação dos Indi­
planta, eriçada de picos, para a vedação de jardins e víduos em excesso faz-se no interesse da economia da
fazendas. Plantaram-se então figueiras-da-índia por toda Natureza.
a parte. Assim, segundo K. E. Baer ('), o excedente das larvas
Ora esta planta, que começou por ser tão útil, acabou de mosquito serve de alimento aos peixes e o mesmo
por se transformar numa praga. Invadiu os jardins e os parece poder dizer-se do excedente de girinos de rã.
campos que devia proteger. Espalhou-se pelas florestas, Foi um erro basilar de Herbert Spencer (2) interpretar
e onde quer que chegava destruía toda a vegetação. o aniquilamento dos descendentes em excesso como
Quando já vastas áreas se encontravam devastadas, «sobrevivência dos mais aptos» para, sobre essa ideia,
intervieram as autoridades, que mandaram atacar o novo fundamentar o progresso na evolução dos organismos.
inimigo a machado e por meio do fogo. Como o processo Não se trata, de modo algum, de uma «sobrevivência dos
não surtisse efeito, mandaram-se aviões espargir tóxicos mais aptos» mas de uma sobrevivência dos indivíduos
sobre as florestas atingidas pelo cacto. O resultado foi normais, em benefício da subsistência imutável da
que todas as outras plantas morreram e o cacto continuou espécie.
a prosperar.
No seu desespero, as autoridades dirigiram-se então
aos institutos botânicos das Universidades. E estes en­
viaram um grupo de investigadores qualificados à pátria
de origem da figueira-da-índia, na América do Sul. Foi (’) V. n. 1 pág. 62.
possível a estes observadores experimentados descobrir H Herbert Spencer (1820-1903), filósofo inglês, adepto do
conceito de evolução. (N. da ed. alemã.)

[196]
[1 9 7 ]
9. A TÉCNICA DA NATUREZA da flor veio assim a entrar num dueto de amor. A formiga
que utilizava o pedúnculo como passagem, corria ao longo
Era, se bem me lembro, uma sinfonia de Mahler, que dele, até ao ovário da flor e aí mungia as suas «vacas
Mengelberg dirigia, de forma arrebatadora, no Conzert- leiteiras» — os pulgões. Quanto à vaca, essa transfor­
gebouw, de Amsterdão. A grande orquestra, reforçada mava, finalmente, em leite o pasto de que o pedúnculo
por coros masculinos e femininos elevava-se irresistir fazia parte. A larva da aphrophora crescia no seu abrigo,
velmente, em esplendor e magnificência. feito do suco que o pedúnculo lhe tinha fornecido e em
Perto de mim, estava sentado um jovem, completa­ breve enchia o prado com o seu doce canto de amor.
mente mergulhado na partitura, a qual fechou, com um Outros mundos-próprios se vieram juntar a estes.
suspiro de satisfação, quando se ouviu o último acorde; As abelhas, que estavam associadas, em contrapronto,
Na minha falta de preparação musical, perguntei-lhe çom o aroma, a cor e a forma das flores, acorriam a elas
que prazer podia sentir em acompanhar com os olhos, na e, depois de se terem saciado de néctar, comunicavanri
partitura, o que os ouvidos podiam captar directamente. ás companheiras a nova fonte descoberta, por meio de
Todo ardendo em zelo, assegurou-me então que só quem danças impressionantes, que Von Frisch (1) descreve por­
segue a partitura pode atingir a visão integral de uma menorizadamente.
obra de arte musical. Cada voz, de pessoa ou instrumento, Na verdade, a cor das flores não é, para as abelhas,
representava um ser em si próprio que, todavia, se a mesma que é para nós; serve-lhes, no entanto, de certa
fundia, em ponto e contraponto, com outras vozes, numa característica, pois a flor e a abelha estão compostas
forma superior que, por seu lado, se ampliava, ganhava uma para a outra em contraponto.
em riqueza e beleza, para nos dar, por fim, no seu con­ Trata-se, evidentemente, de uma tentativa modesta,
junto, a própria alma do compositor.
mas, de qualquer modo, de uma tentativa, para resolver o
Lendo a partitura, podia acompanhar-se o crescendo problema que uma partitura da Natureza põe perante nós.
e o decrescendo das vozes individuais que, como as Nós podemos reduzir a um mesmo denominador todos
colunas de uma catedral, suportam a abóbada omnipo­ os instrumentos musicais, se dispusermos, como num
tente. Só assim se podia ter uma perspectiva da complexa
carrilhão, os sons que eles produzem. Teremos então,
formação da obra de arte executada.
para o violino, um jogo de sons riquíssimo, constituído
Esta dissertação, feita em termos muito convincen­ exclusivamente por sons de violino; para os sons da
tes, despertou em mim um problema: se, porventura, será harpa, estabeleceremos um jogo diferente e mais sim­
missão da biologia escrever a partitura da Natureza. ples, que, no caso dos ferrinhos, desce até ao mínimo
■Já então me eram familiares as relações harmónicas, indispensável.
em contraponto, de mundo-próprio para mundo-próprio e A cada composição musical é posto o problema de
retomei o exemplo do pedúnculo da flor, nas suas rela­
ções com os quatro mundos-próprios mencionados.
(') Karl von Frich (1886), zoólogo que fez importantes inves­
O ramo^de flores que a rapariga ofereceu ao namo­ tigações sobre a fisiologia dos sentidos nas abelhas e nos peixes.
rado era agora usado por este como adorno e o pedúnculo Ver também n. 1, pág. 55. (N. da ed. alemã.)

[1 9 8 ] r199]
escolher, do jogo de sons de cada instrumento, aqueles para relações musicais e falar de tons ou teores percep­
que formam uma sequência melódica e, ao mesmo tempo, tivos e de tons ou teores efectores dos vários sujeitos
ligá-los harmonicamente com os sons dos «repiques» de animais que se ligam uns aos outros em contraponto.
outros instrumentos. Só então podemos chegar a uma partitura da Natureza.
Tudo isto se passa segundo a teoria do contraponto, Na Natureza, os teores perceptivos de vários animais
que estabelece as regras, de acordo com as quais se podem ser utilizados em contraponto. Assim o som de
podem combinar numa partitura os sons de várias vozes. chamamento emitido pelo morcego no seu mundo-próprio
Mas ao compositor fica a liberdade de ligar, em contra­ é, simultaneamente, um som de aviso no mundo-próprio
ponto, os sons de um instrumento com os de qualquer da borboleta.
outro. A concha que o búzio transporta tem, para ele, um
Para pôr em paralelo o que se passa com os animais teor de habitação; mas depois de morto o búzio, a sua
e o que se passa com os instrumentos musicais, bastará concha esvaziada passa a te r para o casa-roubada, um
considerar o sistema nervoso central como um carrilhão. novo teor de habitação. Esta identidade de teores é apro­
Chamaremos então «sons perceptivos» aos sinais per- veitada na composição búzio-casa-roubada.
ceptivos das suas células vivas que são projectados no Tal como ao compositor de uma sinfonia não são
exterior como notas características e designaremos por postos limites na escolha de instrumentos, também a
«sons efectores» os impulsos que provocam a execução Natureza é completamente livre na escolha dos animais
de movimentos. que pretende ligar em contraponto. O apêndice pescador
Cada animal é capaz, como qualquer instrumento, de do lophius está constituído em contraponto com o teor
um determinado número de sons, que entram em relação de preensão do esquema que deve atrair o peixe, sua
contrapontal com os sons de outros animais. presa. As designações de teor de preensão e teor de
Não basta, como os mecanistas faziam, tratar os ins­ habitação mostram que, na aplicação da comparação
trumentos dé música como simples produtores de ondas musical ao caso dos animais, nós abandonámos, de vez,
de ar. Com essas ondas, ninguém pode criar uma melodia a pura teoria da música, pois segundo esta, pode falar-se,
ou uma harmonia, nem compor com elas uma partitura. de um som de violino ou de um som de harpa mas nunca
Só a relação das ondas do ar com o órgão auditivo do de um teor de «preensão da vítima» ou de um teor de
homem, onde estas se transformam em sons, pode tornar «habitação» de uma casa, ou do teor de «beber» de uma
possível a produção de melodias e harmonias e a com­ taça ou do teor de «assento» de uma cadeira. E todavia,
posição de partituras. a grande aplicabilidade da comparação musical ao campo
Também não basta atribuir aos animais e às plantas biológico reside na extensão do conceito «som», do sim­
de um prado a função de espalhar no espaço as cores, ples som audível ao teor significante dos objectos que
os sons e os odores que lhes são particulares e que, aparecem como portadores de significado no mundo-pró­
afinal, só nos mundos-próprios de outros animais são prio de um sujeito.
captados e depois transformados em percepções. Quando dizemos que o teor de habitação da concha,
Podemos, então, transpor as relações dos organismos no mundo-próprio do búzio, pode representar-se em con­

[200] [201]
traponto com o teor de habitação, no mundo-próprio do Mas quem já tenha ouvido palhaços-músicos, que se
casa-roubada, queremos dizer com isso que cada um dos servem de instrumentos para, com eles, produzirem
dois teores, sem se identificar com o outro, pode, no ruídos (pentes, chocalhos, etc.) convencer-se-á de que é
entanto, ser transferido para esse outro, pela composição possível, sim, com tal orquestra, executar uma cacofonia,
da Natureza, visto terem ambos o mesmo significado. mas nunca uma sinfonia.
Em lugar da harmonia, na partitura musical, intervém o Os instrumentos de uma verdadeira orquestra, se os
significado, na partitura da Natureza, que serve de elo' observarmos com mais rigor, apresentam, logo na sua
de ligação, ou melhor, de ponte, para ligar dois factores estrutura, uma relação em contraponto.
naturais. Isto revela-se-nos ainda com mais clareza numa
Com efeito, tal como uma ponte tem, em cada mar­ orquestra natural, como um prado no-la apresenta. Basta
gem do rio, os seus apoios, que ela liga em ponto e con­ que pensemos na flor integrada nos quatro mundos-pró-
traponto, assim também são estes ligados na música, prios. Essa relação revela-se-nos ainda majs flagrante­
pela harmonia, e na Natureza, pelo mesmo significado. mente entre a estrutura da flor e a da abelha e dela se
Ern numerosos exemplos, que podem até ter fatigado pode dizer:
o leitor, já demonstrei que, neste caso, se trata de ver­
dadeiros factores naturais e não apenas de conceitos Se na flo r não houvesse qualquer coisa de abelha
biológicos.. E ha abelha não houvesse qualquer coisa de flor,
Nós fomos já tão longe, que podemos considerar Nunca o acorde seria possível.
a partitura do significado como interpretação da Natureza,
a qual pode pôr-se a par de uma interpretação, em música, Nestes versos se exprime o princípio fundamental
por meio da partitura traduzida em notas. de toda a técnica da Natureza. Nele reconhecemos, mais
Se agora atentarmos numa orquestra, veremos, em uma vez, a sabedoria de Goethe:
cada um dos papéis que se encontram nas estantes indi­
Se nos olhos não houvesse qualquer coisa de Sol,
viduais, em escrita musical, as partes dos diferentes
Nunca eles poderiam vê-lo.
naipes, enquanto a partitura total repousa na estante do
regente. IVIas vemos também os próprios instrumentos
Mas nós podemos agora completar a sentença de
e perguntamo-nos se estes, porventura, não se ajustarão
Goethe, dizendo:
uns com os outros, não só pelo som que cada um produz
mas também por toda a sua estrutura, isto é, se não
Se no S ol não houvesse qualquer coisa de olho,
constituirão uma unidade, não só musical como tecnica­
Em nenhum céu ele e m itiria raios.
mente.
Como a maior parte dos instrumentos da orquestra O Sol é uma luz celestial. Mas o céu é um produto
são, por si jbróprios, capazes de produções musicais, não dos olhos, que dele fazem o seu horizonte mais distante
se pode responder afirmativamente a essa pergunta sem — aquele que envolve o espaço do seu mundo-próprio.
hesitações. Os organismos sem olhos não conhecem o céu nem o Sol.

[202] [2 0 3 ]
da chávena consiste em conter café e, mais ainda, que
10. O CONTRAPONTO, CAUSA DETERMINANTE
essa função foi o motivo do seu fabrico.
DA CONSTITUIÇÃO DA FORMA
A doutrina do significado culmina na revelação desta
correlação.
Podemos agora aplicar também aos outros exemplos
O significado do nosso objecto de utilidade reside,
aduzidos a regra técnica fundamental que se exprime na
para nós, na sua função, que é sempre possível fazer
conformidade da abelha com a flor e na conformidade da
remontar a uma ligação do contraponto existente nesse
flor com a abelha. objecto com o homem. Essa ligação cria simultaneamente
É claro que a teia de aranha é de estrutura ajustável o motivo para o seu próprio lançamento.
à mosca, porque a própria aranha já o é também. Ser A cadeira, no seu significado de dispositivo que se
ajustável à mosca significa, neste caso, que, na sua ergue acima do solo para servir de assento, é constituída
estrutura, a aranha adoptou certos elementos da mosca. por claros meios de ligação com vários contrapontos no
Não de uma determinada mosca mas do seu protótipo. corpo do homem. O assento propriamente dito, as costas
Para nos exprimirmos melhor: quando dizemos que a e os braços encontram no corpo humano os elementos
aranha é ajustável à mosca, queremos significar que, na
correspondentes com que estão relacionados, enquanto
sua constituição corpórea, aquela adoptou para si certos os pés da cadeira formam nítidas Iigaçõe6 com o con­
motivos ou determinismos da melodia da mosca. traponto solo. Por sua vez, todos estes contrapontos são,
É muito nítida a interferência dos determinismos par­ para o marceneiro, causas determinantes da construção
ticulares de certos mamíferos no plano somático da
da cadeira.
carraça. Mais nítido que em qualquer caso é a acção do
Levar-nos-ia demasiado longe, aduzir mais exemplos
determinismo do morcego na estrutura do órgão auditivo
como este. Deve ser bastante a indicação de que, com
da borboleta nocturna.
todos os objectos que utilizamos, lançamos pontes que
Em toda a parte, é o contraponto que se manifesta,
ligam a nossa pessoa com a Natureza, da qual, todavia,
como causa determinante da constituição das formas,
não nos aproximámos mas, pelo contrário, nos afastámos
o que, aliás, já nos devia ser fam iliar a partir da estru­
cada vez mais. Começámos então, em ritmo cada vez
tura dos objectos úteis ao homem.
mais lesto, a lançar pontes para outras pontes que, já na
Uma chávena de café, com a sua asa, mostra-nos
construção de máquinas simples não são ignoradas pelo
imediatamente as relações em contraponto, por um lado,
homem ainda próximo da Natureza. Na grande cidade, nós
com o café e, por outro lado, com a mão do homem.
vivemos rodeados só de coisas artificiais, pois as próprias
Estes contrapontos influenciam, em primeiro lugar, as
árvores e flores dos nossos jardins, que nós arrancamos
causas determinantes no fabrico da chávena. Até são,
e transplantamos a nosso bel-prazer, foram arrebatadas
na verdade, mais importantes do que o material de que
ao conjunto da Natureza e transformadas por nós em
a chávena é feita.
objectos úteis ao homem.
Parece de uma evidência vulgar o dizer-se a frase: a
chávena de café é constituída para o café. A frase, toda­ A tão prezada técnica do homem perdeu, para a Natu­
reza, todo sentido, pois propõe-se resolver os mais pro-
via, significa mais do que parece. Ela diz que a função

[2 0 5 ]
[2 0 4 ]
fundos problemas da vida, como as relações do homem Logo no princípio, começamos por pôr, ainda entre os
para com a natureza de Deus, com a sua matemática vertebrados, o que respeita às questões técnicas. Pode­
insuficiente. mos relacionar o despontar dos órgãos que estão sujeitos
Tudo isto é secundário. Muito mais importante é a um plano elementar com o facto de o significado de
obter uma ideia dos caminhos que a Natureza segue para cada esboço de órgão ser fixado pela sua situação no
derivar, do germe não diferenciado, as suas criaturas, todo, de modo que não pode dar-se qualquer erro de signi­
que ela, ao contrário de nós, não estrutura separada*, ficado ou qualquer duplicação.
mente. Esta fixação é tão segura que, como Spemann mos­
O film e de Arndt, acerca do bolor-viscoso, mostrou- trou, um enxerto de epiderme de girino de rã feito no
-nos, como primeira fase da vida, uma acumulação cada germe do tritão, no lugar da futura boca deste, trans­
vez maior de formas amibóides autónomas, que são cons­ forma-se realmente em boca, mas numa boca de girino
tituídas em contraponto com a sua alimentação de bacté­ de rã, porque a partitura de formação da boca da rã foi
rias. Esgotados os alimentos, intervém subitamente um transmitida simultaneamente com as células desta.
novo contraponto, como causa determinante, que trans­ Se arrancássemos uma folha ao caderno com a parte
forma as células amibóides que se acumularam umas do primeiro violino e a colocássemos no lugar corres­
sobre as outras, em células, unidas em tecido, de uma pondente ao papel do violoncelo, produzir-se-ia uma dis­
planta exposta ao vento. crepância semelhante àquela.
Se olharmos para o pequeno mundo do bolor-viscoso Para o caso das partituras da estruturação de formas
que, como ténue cabeleira encima um montículo de é muito elucidativa a abertura do túnel pela larva do
estrume seco de cavalo, nós descobrimos que, além do gorgulho-da-ervilha. Aqui, o contraponto, que se torna
corpo do bolor, portador de germes, só existe outro causa determinante da abertura do túnel, é a verdadeira
factor natural actuante: o vento que dispersa esses forma, que só mais tarde aparece, do gorgulho adulto,
germes. o qual, sem a saída preparada pela larva, teria de sucum­
O portador e o dispersador de germes fundiram-se bir. Pode, pois, a forma futura desempenhar um papel,
num dueto. São, antes de mais nada, as formas amibóides como causa determinante, na metamorfose?
livres que,'com os seus teores individuais semelhantes, Isto abre outras possibilidades. Se a forma futura
constituem um carrilhão vivo. que estabelece o objectivo da conformação pode, ela
A Natureza joga com elas, transforma-as em células própria, tornar-se a causa determinante, então tem razão
constitutivas de tecido, segundo novo determinismo, e K. E. von Baer, quando fala de um finalismo na formação
constrói com elas uma forma portadora de germes que se dos organismos. Simplesmente, ele não abrange, com
expõe ao vento. isso, a totalidade dos factos.
Este fenómeno é, para nós, tão inconcebível como a Quando a aranha tece a sua teia, as várias fases da
mudança de emotivo numa sonata de Beethoven. A nossa construção da rede e a sua disposição em forma radiada
missão, porém, não é compor uma sonata da Natureza podem considerar-se, simultaneamente, como objectivo
mas somente p c re v e r a sua partitura. e causa determinante da moldagem da rede. Pode, talvez,

[2 0 6 ] [2 0 7 ]
designar-se a\rede, mas nunca a mosca, como objectivo pela técnica da Natureza, que foi substituído por espe­
da construção. Esta última, porém, serve, possivelmente, culações sobre a influência dos antepassados, principal­
de contraponto e causa determinante para essa cons­ mente por iniciativa de Haeckel ('). Ninguém poderá re­
trução. conhecer uma actividade técnica na afirmação de que os
O exemplo dos tortricídeos mostra-nos eloquente­ anfíbios derivaram dos peixes. Particularmente as con­
mente quantos enigmas ainda nos guardará a técnica da cepções acerca dos chamados órgãos «rudimentares»
Natureza. Situam-se frente a frente dois concorrentes encarregaram-se de desviar as atenções dos verdadeiros
constituídos em contraponto: o pequeno rinóptero, pro­ problemas técnicos.
vido de uma serra, que utiliza como ferrão, e a folha Só a demonstração, feita por Driesch, de que, de um
grande da bétula, que há-de ser serrada. O percurso germe de ouriço-do-mar cortado ao meio resultam, não
seguido pela serra deve ser tal que, em seguida, o duas metades de ouriço mas dois ouriços inteiros, com
coleóptero possa enrolar, sem dificuldade, a parte infe­ metade do tamanho do primitivo, veio abrir caminho para
rior da folha, em forma de funil alongado, onde põe uma compreensão mais profunda da técnica da Natureza.
os ovos. Tudo que é material se deixa cortar com uma faca. Mas
Este percurso, que apresenta uma curvatura carac­ uma melodia é diferente. A melodia de uma canção, que
terística, tem extensão constante para todos os tortricí­ é executada por um carrilhão autónomo de sinos vivos,
deos, embora não exista na folha da bétula qualquer ves­ permanecerá invariável, mesmo que ela dirija apenas
tígio de um traçado indicativo do caminho a percorrer. metade do número inicial de sinos.
Será o próprio «percurso constante» a causa determinante
do seu estabelecimento?
Isso faz parte dos segredos de composição natural 11. O PROGRESSO
que nós, no estudo da técnica da Natureza, encontramos
a cada passo. Desta vez foi na bonita igreja de S. Miguel, em Ham­
O primeiro investigador que se ocupou dos problemas burgo, ao ouvir a Paixão de S. M ateus que se me revelou
da técnica da Natureza parece ter sido Lamarck H . De novamente o paralelo, no campo da biologia. Esta obra
qualquer modo, a tentativa que empreendeu para harmo­ sublime, entretecida dos mais belos cânticos, desenvol­
nizar o desenvolvimento do longo pescoço da girafa com via-se em ritmo fatal, irresistível. Mas não se tratava,
o alto tronco das acácias, constitui a primeira indicação certamente, do progresso que os investigadores julgaram
de um comportamento contrapontal. descobrir no desenrolar, no tempo, do fenómeno natural.
Perdeu-se, mais tarde, completamente, o interesse Por que razão é que o grandioso drama da Natureza,
que se desenrola desde o aparecimento da vida na Terra,
O Jean Baptiste Antoine Pierre de Monet de Lamarck (1744- não havia de ser, em sublimidade e profundeza, uma única
1829), zoólogo francês, introduziu um novo Sistema do Reino Animal, com posição, como a Paixão?
elaborou a primeira doutrina da descendência dos organismos, seguiu
o ponto de vista da transmissão hereditária dos caracteres adqui­
(f) Ernst Haeckel (1834-1919), zoólogo alemão, renovador da
ridos. (N. da ed. alemã.)
Biologia, adepto de Darwin. (N. da ed. alemã.)

[208] 11 - A. HOMENS [209]


A evolução, tão altamente encarecida, que devia con­ tido ao significado e este adoptava órgãos diferentes ao
duzir os organismos, de início tão imperfeitos, à organiza­ habitat variável. O significado ligava o alimento e aquele
ção cada vez mais perfeita não passava então de uma que o devora, o inimigo e a presa, e principalmente o
especulação mesquinha sobre as imposições prementes macho e a fêmea em assombrosa diversidade. Em todos
do próprio problema? os casos se nota uma progressão mas nunca um pro­
A mim, nunca se me deparou, nem mesmo nos ani­ gresso, no sentido da sobrevivência da adaptado, nunca
mais mais simples, o mais pequeno vestígio de imper­ uma selecção do mais dotado, por meio de uma furiosa
feição. Tanto quanto eu podia julgar, o material disponível luta pela existência, desprovida de um plano. Em vez
disso, reinava uma melodia em que vida e morte se entre­
para a construção tinha sido utilizado da melhor maneira.
Cada animal tinha provido o seu Cenário de vida com laçavam.
todas as coisas e todos os outros animais que, para a sua Decidi apresentar ao nosso maior historiador esta
vida, tinham significado. questão: póderá falar-se de um progresso na história
As propriedades do anima} e as propriedades dos da humanidade?
seus comparsas ajustavam-se perfeitamente, em todas as Leopoldo von Ranke, nas suas Épocas da H istó ria
circunstâncias, como pontos e contrapontos de um coro M oderna, escreve: «Se admitíssemos que este progresso
de muitas vozes. consistia apenas em a vida da humanidade se elevar, em
cada época, a um nível mais alto, em que, portanto, cada
Era como se a mesma mão de mestre corresse, desde
geração ultrapassa inteiramente a anterior e a última é
tempos imemoriais, por sobre as teclas da vida. As com­
sempre a preferida, em prejuízo das outras, que se limi­
posições seguiam-se umas às outras, em número infinito,
graves e ligeiras, esplêndidas e horríveis. tam a trazer, em si, a geração seguinte, admitiríamos,
Nas ondas do mar primitivo, moviam-se crustáceos, Implicitamente, uma injustiça da divindade. Uma tal gera­
simples, sim, mas de organização perfeita. Decorreram ção, esporádica, descontínua, não teria significado nem
grandes períodos e chegaram os dias do reinado dos em si nem por si pois só significaria alguma coisa na
cefalópodes que os tubarões fizeram desaparecer. Dos medida em que fosse degrau de acesso para a geração
pântanos quentes da terra firme, surgiram os sáurios, seguinte e não estaria em relação directa com a divin­
que, com as suas dimensões gigantescas, elevaram a vida dade. Todavia, eu afirmo: cada época está im ediatam ente
até ao major grotesco. Mas a mão do M estre continuou a em Deus e o seu valor não reside, de modo algum, naquilo
correr sobre os seres. Do antigo tronco, surgem, em que produz mas na sua própria existência, no seu pró­
novas melodias de vida, novas formas que se desenrolam prio ser.»
em centenas de variações, sem nunca revelarem a passa­ Ranke rejeita o progresso na história da humanidade,
gem do incompleto para o mais completo. porque todas as épocas remontam directamente a Deus
É certo que os mundos-próprios foram, no princípio e, consequentemente, nenhuma pode ser mais perfeita
do drama universal, mais simples do que haviam de ser que a outra.
mais tarde; mas sempre neles se opunha um receptor de Que podemos nós entender por uma época, no sen­
significado Vo objecto significante. Tudo estava subme­ tido que Ranke lhe atribuiu, senão um grupo homogéneo

[210] [211]
de mundos-pYóprios do homem dentro de um limitado diferentes das do homem. A própria escala de dureza
espaço de tempo? deve ser totalmente diferente para os icnêumones que
Daí se conclui que cada mundo-próprio deste grupo perfuram, como se fosse manteiga, a mais rija madeira
remonta directamente a Deus, visto que todos eles per­ de pinho.
tencem à mesma composição, cujo autor é Deus, na ex­ Nem uma única propriedade da matéria se conserva
pressão de Ranke. a mesma quando percorremos a série de mundos-próprios
Ora a palavra Deus é exactamente aquilo com que das diferentes espécies. De mundo para mundo, em cada
investe todo o materialista, o qual admitiria uma compo­ um dos objectos que observamos muda, não só o teor
sição ao acaso, no decurso de larguíssimos espaços de significante mas também o arranjo de todas as suas pro­
tempos, se lhe quiséssemos conceder que a força e a priedades, tanto materiais como formais.
matéria se mantiveram as mesmas desde o princípio do A matéria é, no mundo-próprio do homem, o rocher
mundo e que a lei da conservação da energia tem valor de bronze sobre o qual parece assentar todo o universo
eterno e universal. quando, afinal, ele se volatiliza de um mundo para outro.
No princípio da minha discussão, mostrei que o Não! A imutabilidade da matéria, em que os materia­
estudo dos mundos-próprios prova, em primeiro lugar, a listas se entrincheiram não constitui base sólida para uma
inconstância dos objectos, que dentro de cada mundo- concepção geral do mundo.
-próprio, mudam também de conformação, sempre que Muito mais bem fundamentada que a imutabilidade
mudam de significado. O mesmo pedúnculo da flor passou da matéria é a imutabilidade dos sujeitos. Mas os sujeitos
a ser, nos quatro mundos-próprios, quatro objectos também se compõem de matéria — objectarão os mate­
diferentes. rialistas. É certo. Mas a matéria dos corpos, que é pró­
Só resta agora mostrar, com auxílio dos exemplos já pria dos sujeitos, tem de ser reconstituída em cada
mencionados, que também a constância da matéria é uma geração.
ilusão. As propriedades da substância de um objecto Aquilo que cada indivíduo, em particular, recebe de
dependem das escalas sensoriais do sujeito, cujo mundo- seus pais sob a forma de matéria, é extremamente insig­
-próprio estamos a analisar. nificante: reduz-se a uma célula germinal divisível e a um
Se observarmos a cor, aos nossos olhos amarela, «teclado» de corpúsculos estimulantes chamados genes
de uma flor em que certa abelha poisou, podemos dizer que, no acto da divisão da célula é recebido por cada
afoitamente que, no mundo-próprio da abelha, a flor não uma das células filhas. Com efeito, esse «teclado» torna
é amarela (é talvez o que nós chamamos vermelha) pois possível às melodias morfogenéticas fazê-lo soar, como
a escala das cores nos olhos da abelha corresponde a nas teclas de um piano e deste modo realizar a estrutu­
uma escala de ondas de éter que é diferente da dos ração das formas. Cada corpúsculo estimulante que é
nossos olhos. Sabemos também que a escala de sons posto em acção insinua-se, como impulso diferenciado,
na borboleta nocturna, a escala de odores numa carraça, no protoplasma da sua célula, para promover a estrutura
a escala de gostos de uma minhoca e as escalas de forma correspondente.
da maior parte dos invertebrados são completamente As melodias morfogenéticas que, deste modo, se

[212] [2 1 3 ]
estruturam, vão buscar os seus motivos às melodias da Lua para o olho de um animal, mais importante é o
morfogenéticas de outros sujeitos que elas encontrarão seu significado, como motivo, na estruturação do olho.
nos seus cenários de vida: Quanto mais amplo é o significado dos mamíferos
no mundo-próprio da carraça, mais importante é também
a participação da melodia morfogenética dos mamíferos
Se na flo r não houvesse qualquer coisa de abelha
como determinante da estruturação da carraça, nomeada­
Se na abelha não houvesse qualquer coisa de flor,
mente como cheiro do ácido butírico, como resistência
Nunca o acorde se ria possível.
dos cabelos, como calor e penetrabilidade da pele.
À carraça é totalmente indiferente que os mamíferos
Os motivos são tirados, ora do ciclo da nutrição, ora possuam milhares de outras propriedades. Só aquelas que
do ciclo da defesa, ora do ciclo do sexo. É do ciclo do são comuns a todos os mamíferos intervêm como causas
h a b ita t que a melodia morfogenética tira a maior parte determinantes na estruturação da carraça, tanto no que
dos seus motivos e por isso a estrutura dos nossos olhos respeita aos seus órgãos-de-percepção como aos seus
é ajustada à luz do Sol, e a da folha do bordo, com as órgãos-de-impulso.
suas goteiras, é ajustada à chuva. Seríamos constantemente induzidos em erro, se qui­
séssemos introduzir a medida-padrão deste nosso mundo
Graças à captação de motivos exteriores, o corpo
na apreciação dos mundos dos animais. Poderia, no
de cada sujeito constitui-se receptor de significado da­
entanto, afirmar que toda a Natureza participa, como
queles objectos significantes cujas melodias estrutura-
motivo, na formação da minha personalidade, no que res­
doras adquiriram, como motivos, conformação no seu
peita ao meu corpo e ao meu espírito — pois se não
corpo.
fosse assim, faltar-me-iam os órgãos para reconhecer a
A flor actua, portanto, sobre a abelha como um feixe
Natureza. Posso, porém, exprimir-me mais modestamente,
de contrapontos, porque a sua melodia estruturadora,
dizendo: «Eu participarei da Natureza, na medida em que
rica de motivos, intervém na estruturação da abelha e
ela me tenha feito intervir numa das suas composições.
vice-versa.
Eu não serei então exactamente um produto da Natureza
O Sol, das alturas do céu, emite os seus raios sobre toda, mas apenas o produto da natureza humana, para
mim, simplesmente porque ele, o nosso mais importante além da qual me não é dado possuir qualquer conheci­
com ponente,da Natureza, entra, como motivo principal, mento. Tal como a carraça é apenas um produto da natu­
na estruturação dos meus olhos. reza da carraça, assim também o homem permanece
O Sol parece tanto maior e mais radiante no céu do ligado à sua natureza humana, da qual cada indivíduo vem,
mundo-próprio de um olho, quanto maior é a sua influên­ por sua vez, a resultar.
cia na estruturação deste; e parece tanto menor e mais A nossa vantagem sobre os animais está em que
insignificante quanto menor e mais insignificante é a podemos ampliar os limites da natureza inata do homem.
parte que tomou nessa estruturação (como na toupeira). É certo que não nos é possível criar novos órgãos; pode­
Se considerar-mos agora a Lua, em vez do Sol, pode­ mos, no entanto, muni-los de meios auxiliares. Criámos
mos igualmente afirmar que, quanto maior é o significado instrumentos de percepção e trabalho que oferecem,

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àqueles de nós que saibam utilizá-los, a possibilidade de dão para o jardim: a janela da luz, a janela do som, a
aprofundar e ampliar o seu mundo-próprio. Mas os limites janela do cheiro, a janela do gosto e um grande número
desse mundo-próprio ninguém os ultrapassa. de janelas do tacto.
Só o reconhecimento de que tudo na Natureza é Visto de casa, o jardim muda de aspecto consoante
criado segundo o seu significado e que todos os mundos- a estrutura da janela. Não se apresenta, de modo nenhum,
-próprios são inseridos, como vozes, na partitura do como simples parcela de um mundo maior, mas como um
mundo nos abre o caminho para a evasão da estreiteza mundo único, particular à casa: o seu mundo-próprio.
do nosso mundo-próprio. O jardim que os nossos olhos vêem é fundamental­
Não é a dilatação do espaço do nosso mundo-próprio mente diferente daquele que se oferece aos habitantes
em milhões de anos-luz que nos eleva acima de nós da casa, em especial no que respeita às coisas que
próprios mas o reconhecer que, além do nosso mundo nele se encontram.
pessoal, também os mundos-próprios dos nossos irmãos Enquanto nós distinguimos no jardim milhares de
humanos e irracionais estão contidos num plano que pedras, plantas e animais diversos, os olhos do habitante
tudo abrange. da casa só enxergam um número limitado de coisas no
seu jardim — só aquelas, na verdade, que têm significado
para o sujeito que habita a casa. Esse número pode redu-
12. RESUMO E CONCLUSÃO zir-se a um mínimo, como no mundo-próprio da carraça,
no qual surge sempre o mesmo mamífero com um número
Se compararmos o corpo de um animal com uma perfeitamente limitado de propriedades. De todas as coi­
casa, diremos que, até hoje, os anatomistas e os fisiólo- sas que nós descobrimos em volta da carraça — flores
gos têm estudado, com rigor, respectivamente, o tipo odorosas e coloridas, folhas que ramalham, aves canoras
de estrutura e as possibilidades de funcionamento da — nem uma só existe no mundo-próprio da carraça.
casa. Mostrei como o mesmo objecto, transferido para
Mas os ecólogos sempre têm descrito o jardim como quatro mundos-próprios diferentes, adquire quatro signi­
ele se apresenta aos nossos olhos — os olhos humanos ficados diferentes e como, em cada caso, as suas pro­
— sem descrever também o aspecto que ele oferece priedades mudam radicalmente.
quando observado pelo sujeito que habita a casa. O facto só pode ser explicado deste modo: funda­
E, todavia, este aspecto tem mais largo alcance do mentalmente, as propriedades das coisas não são mais
que pode parecer. O jardim da casa não se confina, como do que notas-características, atribuídas a essas coisas
a nossos olhos se afigura, a um mundo que tudo abrange pelo sujeito com que elas entraram em relação.
mas do qual nos mostra apenas uma pequena parte; é, Para compreender isto, devemos recordar-nos de que
antes, circundado por um horizonte que tem a casa como cada corpo de um organismo é constituído por células
centro. Cada casa tem a sua própria abóbada celeste, vivas que, no seu conjunto, formam um carrilhão vivo.
onde se movem o Sol, a Lua e as estrelas, que também A célula viva possui uma energia específica que lhe per­
directamente lhe pertencem. mite responder, com o seu teor individual, a toda a acção
Cada casa tem um certo número de janelas, que exterior que com ela entra em contacto. Os teores indi-

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viduais podem ligar-se entre si, por meio de melodias e Ora essa estrutura nunca existe logo desde o prin­
não precisam da conexão mecânica dos seus corpos celu­ cípio. Pelo contrário, cada corpo inicia o seu arranjo
lares para actuarem uns sobre os outros. como «sino» celular especial que se liberta e se integra
Nos seus traços essenciais, os corpos da maior parte num carrilhão, segundo uma determinada melodia de
dos animais assemelham-se neste aspecto: possuem, estrutura.
como peças basilares, órgãos que servem para a trans­ Como é possível que duas coisas de origem tão dife­
formação de substância e que fornecem à actividade vital rente, como são, por exemplo, o abelhão e a flor da boca-
a energia proveniente dos alimentos. A actividade vital -de-lobo, sejam constituídas de modo que, em todos os
do sujeito animal, como receptor de significado, consiste pormenores, se ajustem uma à outra? Sem dúvida porque
na percepção e na acção ou impulso. as duas melodias de estrutura se influenciaram recipro­
A percepção obtém-se através dos órgãos sensoriais camente: a melodia da boca-de-lobo interveio como
que servem para seleccionar os estímulos vindos de toda motivo na melodia do abelhão e vice-versa. O que se
a parte, para eliminar os estímulos inúteis e transfor­ disse do abelhão, pode também dizer-se da abelha vul­
mar os que são úteis ao corpo em correntes nervosas gar: se o seu corpo não estivesse ajustado à flor, a sua.
que, ao atingirem o centro, fazem tocar o carrilhão vivo estrutura seria inviável.
das células cerebrais. Os teores individuais que então Com a aceitação deste princípio basilar da técnica
foram evocados actuam como sinais-perceptivos do fenó­ da Natureza, fica já resolvida em sentido negativo a ques­
meno exterior e conforme são auditivos, visuais, gusta­ tão da existência de um progresso do mais simples para
tivos, etc., assim são «gravados» como notas-caracterís- o mais complexo. Com efeito, se são motivos de signifi­
ticas da correspondente fonte de estímulo. cados adventícios, intervindo em vários sentidos que
Ao mesmo tempo, os «sinos» celulares, que soam modelam a estrutura dos animais, não se concebe o que
no órgão de percepção, induzem os «sinos» do órgão nela poderia alterar uma série, mesmo tão grande, de
central-de-acção que enviam os seus teores individuais gerações.
como impulsos os quais, por sua vez, desencadeiam e Se pusermos de parte as especulações sobre os
dirigem os movimentos dos músculos efectores. Temos, antepassados, entramos no terreno firme da técnica da
assim, uma espécie de fenómeno musical que, provindo Natureza. Mas aqui espera-nos grande decepção. Os
inicialmente das propriedades do objecto significante, a sucessos da técnica da Natureza estão patentes à nossa
este revérte novamente. É legítimo, portanto, tratar como vista mas a sua elaboração de melodias é para nós per­
contrapontos, tanto os órgãos receptores como os órgãos feitamente impenetrável.
efectores do receptor de significado, em relação com as A técnica da Natureza tem isso de comum com a
correspondentes propriedades do objecto significante. produção de qualquer obra de arte. Nós vemos muito bem
Como em quaisquer circunstâncias se pode verificar, como a mão do pintor distribui na tela manchas de cor,
a condição prévia para que na maior parte dos animais o umas após as outras até que o quadro se nos apresenta
sujeito se ajuste perfeitamente ao seu objecto signifi­ pronto: mas a melodia da composição, a melodia que
cante é ® existência de uma estrutura corpórea muito move a mão, escapa-nos absolutamente.
complexa. Compreendemos perfeitamente como a caixa de

[2 1 8 ] [21 9]
música executa as suas melodias mas nunca compreen­ nos esquecemos do pintor e julgamos estar a ver uma
deremos como uma melodia preside à construção da pequena maravilha da Natureza. Neste caso, o germe do
caixa de música. significado é «Madona». Dele provém tudo o mais, espon­
Sucede exactamente o mesmo com a estruturação taneamente, como numa melodiosa cristalização. Ao
de cada organismo. Em cada célula germinal existe o mesmo tempo, julgamos observar um mundo-próprio puro,
material, como nos germes também existe o «teclado». em que não existem coisas estranhas e supérfluas. Todos
Falta apenas a melodia para realizar a sua estruturação. os elementos se ajustam reciprocamente, em ponto e
Donde deriva ela? contraponto.
Encontra-se em cada caixa de música de um relógio O material utilizado foi escasso mas apropriado —
um tambor provido de pontas. Quando se põe o tambor um pedaço de tela e algumas cores discretas foram bas­
a rodar, essas pontas fazem vibrar palhetas de metal de tantes para plasmar esta pequena obra de arte. A quanti­
comprimentos diferentes e as vibrações de ar assim pro­ dade de material desempenha um papel muito secundá­
duzidas são captadas pelo nosso ouvido como sons. rio. Com mais ou menos material, em maiores ou meno­
Qualquer músico reconhecerá com facilidade, pela res dimensões, o artista poderia ter obtido o mesmo
posição das pontas no tambor, a partitura da melodia que resultado.
é executada pela caixa de música. Mas outro artista, com o mesmo material, teria feito
Esqueçamos agora, por um momento, a pessoa que surgir do mesmo germe de significado — Madona — um
construiu a caixa de música e admitamos que esta é um quadro de Madona inteiramente diferente.
produto da Natureza. Poderemos então dizer que estamos Ora utilizemos a criação de uma obra de arte para
em presença de uma partitura materialmente tridimen­ mostrar até que ponto a estruturação de um organismo
sional que é a concretização da própria melodia, por Isso se realiza de modo semelhante.
que a melodia representa o germ e de s ig n ifica d o da caixa Não resta dúvida de que podemos considerar a
de música em que entroncam todas as partes desta, glande como o germe de significado de carvalho e um
supondo que existe material suficiente e dúctil. ovo como germe de significado da galinha. O material é,
No Museu Nacional de Estocolmo encontra-se um em ambos os casos, o mais plástico de que a Natureza
pequeno quadro de Ivar Arosenius, chamado Jul (Natal), dispõe, isto é, o protoplasma vivo que admite qualquer
que mostra uma mãe ainda jovem, irradiando ternura, sen­ estruturação, quando ela sai dos teores individuais e está
tada, com um filho ao colo. Por cima da cabeça da mãe, em condições de manter qualquer forma em que se
paira a claridade suave e ténue que aureola os santos. modele.
A cena passa-se numa pequena mansarda. Tudo, em volta O carvalho realiza-se a partir do germe significante
da madonazinha, é tirado da vida diária mas todos os da glande exactamente como a galinha a partir do ovo;
objectos que se encontram à frente dela, em cima da mas como é que isso acontece?
mesa, o candeeiro, o cortinado, a prateleira com a louça, Surgem sempre, como já vimos, novos esboços de
actuam como motivos sugestivos, que realçam a santi­ órgãos, que se completam exclusivamente por si. Em
dade humilde e comovedora. cada um desses esboços, encontra-se um germe de signi­
O quadro está composto com tal perfeição, que nós ficado que, do material que lhe é dado, faz que se desen-

[220] [221]
volva completamente o órgão definitivo. Se o privarmos
assim é, conclui-se flagrantemente de uma experiência
de uma parte do material de construção, o órgão estrutu- de Nissl ('). O crânio dos mamíferos tem, sem dúvida
rar-se-á, porventura, em todos os seus pormenores mas nenhuma, o significado de «sólida protecção do cérebro»
apresentará menores proporções que os órgãos normais. que debaixo dele se abriga. O crânio também em breve
Braus (') mostrou que a cabeça do úmero deixa de se se regenera nos coelhos novos, desde que o cérebro não
ajustar à cavidade cotilóide, se esta, por falta de material tenha sido atingido. Se, pelo contrário, uma operação
de construção, não atinge o tamanho normal. extrair metade do cérebro, o crânio que a cobria já não
E Spemann, como já vimos, demonstrou que um se regenerará em virtude de ter perdido o seu significado.
enxerto de outra espécie animal toma, sim, o germe de* Neste caso, verifica-se apenas uma simples cicatrização.
significado correspondente à posição no corpo que o Como se vê, o significado intervém sempre como fac­
recebe, mas desenvolverá um órgão inteiramente dife­ tor natural decisivo, sob aspectos sempre novos e sur­
rente, que talvez possa ter utilização no animal de que preendentes.
provém mas não no que o recebe, pois os dois animais
Se passarmos em revista, mentalmente, os mundos-
executam a mesma função de maneira totalmente diversa.
-próprios, encontraremos nos jardins, que circundam as
Em ambos os casos, o germe de significado era «inges­ casas «corpóreas» dos sujeitos, as mais maravilhosas
tão de alimentos»; a rã, todavia, tem um tipo de alimen­ estruturas, que se comportam como objectos significan-
tação diferente do do tritão.
tes e cuja interpretação oferece, muitas vezes, grandes
Do mesmo modo, dois quadros que representem uma dificuldades. Tem-se então a impressão de que os objec­
madona, se são obra de dois pintores diferentes, terão, tos significantes apresentam aspectos misteriosos, sím­
é certo, o mesmo germe de significado mas serão dife­ bolos, que só pelos indivíduos da mesma espécie são
rentes um do outro. apreendidos, ficando absolutamente indiscerníveis para
Logo que os órgãos tenham concorrido no sentido de os componentes de outras espécies.
uma função colectiva do corpo, deixarão de surgir forma­ O contorno do mexilhão dos tanques e as correntes
ções defeituosas por falta de material de construção, de água por ele produzidas oferecem à carpa pequena o
como Braus as identificou. Wessely conseguiu mostrar símbolo da amizade. A diferença de gosto do vértice e do
que, em coelhos novos, que regeneram o cristalino, em pecíolo das folhas passa a ser o símbolo de forma para
maior ou menor escala, todos os órgãos que tomam parte a minhoca.
na função da visão aumentam ou diminuem na mesma O mesmo som torna-se símbolo de familiaridade para
proporçãõ, de modo que, em todos os casos, aquela con­ o morcego e símbolo de perigo para a borboleta nocturna
tinua a exercer-se, sem ser perturbada. Também aqui, é e assim por diante, indefinidamente.
o significado que dirige a regeneração. Que na verdade Se em face do enorme número de exerriDÍos, acaba­
mos por nos convencer de que, fundamentalmente, cada
(') Hermann Braus (1868-1924), naturalista e médico, profes­
sor da Universidade de Heidelberga, um dos fundadores da mecânica
(') Franz Nissl (1860-1919), psiquiatra. Estudou as modificações
da evolução, aytor de uma anatomia muito considerada. (N. da ed.
patologicas, particularmente das células ganglionares. (N da ed
alemã.) alema.)

[222] [2 2 3 ]
mundo-próprio está preenchido apenas por símbolos de nicação com o símbolo do perigo. Isto quer dizer que o
significado, iihpõe-se-nos um segundo facto ainda mais símbolo intervém como causa determinante no plano de
surpreendente: cada símbolo de significado relativo a um construção.
sujeito é, ao mesmo tempo, motivo de significado para a
contiguraçáo corpórea do sujeito. Se na borboleta nocturna não houvesse qualquer coisa
A casa «corpórea» é, por um lado, criadora dos sím­ [d e morcego,
bolos que povoam o jardim e, por outro lado, o produto A sua vida pouco duraria.
dos mesmos símbolos, os quais intervêm como motivos
na estrutura da casa. Podemos muito bem pensar que a carraça apareceu
À janela «visual» da casa deve o Sol o seu brilho é para preencher uma lacuna no «teclado» da Natureza.
a sua configuração nas alturas do céu que é como que Neste caso, o objecto significante, constituído pelas pro­
abóbada do jardim. Mas ele é também a causa determi­ priedades gerais dos mamíferos, seria, ao mesmo tempo,
nante na estruturação dessa janela. símbolo para a vítima e causa determinante no plano
Isto que se passa com os animais, passa-se igual­ estrutural da carraça.
mente com o homem e só pode resultar de o factor natu­ Para terminar, procuremos agora observar, de fora,
ral que se manifesta em ambos os casos ser o mesmo. a nossa própria casa corpórea, com o seu jardim. Sabe­
Admitamos que, por qualquer fenómeno da Natureza, mos já que o nosso sol, o nosso céu, juntamente com o
tinham morrido todas as borboletas nocturnas e que nos jardim cheio de plantas, animais e pessoas, são apenas
incumbiam da missão de preencher esta lacuna no símbolos de uma composição natural que tudo abrange
«teclado» da vida. Como procederíamos em tal emer­ e tudo ordena, segundo a categoria e o significado.
gência?
Com esta noção, nós adquirimos também o conheci­
Tomaríamos, possivelmente, um lepidóptero diurno mento dos limites do nosso mundo. Podemos, com efeito,
e habituá-lo-íamos às flores que abrem à noite, pelo que aproximar-nos de todas as coisas ou penetrar nelas, com
teríamos de dar à constituição das antenas maior impor­ auxílio de aparelhos cada vez mais perfeitos, mas nem
tância que à constituição dos olhos. por isso passamos a ter algum novo órgão sensorial e,
Como, porém, as novas borboletas nocturnas fica­ por muito que desdobremos as propriedades das coisas
riam à mercê dos morcegos, de voo tão rápido, ter-se-ia nos seus últimos elementos — em átomos, em electrões
de criar, para este inimigo, um sinal de reconhecimento — elas nunca deixarão de ser simples notas particulares
que permitisse à maioria das borboletas escaparem-se dos nossos sentidos e das nossas representações.
a tempo. Sabemos que este Sol, este Céu e esta Terra desa­
Como símbolo de perigo, de inimigo, o melhor seria parecerão com a nossa morte; continuarão, porém, a exis­
utilizar o pio do morcego, que o próprio morcego usa sem­ tir, em formas semelhantes, nos mundos-próprios das
pre como símbolo de familiaridade. Para poder captar o gerações futuras.
pio do morcego, a borboleta teria de ser reconstruída Não existem só as multiplicidades de espaço e
e dotada de um órgão auditivo que a pusesse em comu­ tempo, em que as coisas podem alargar-se; existe tam-

[2 2 4 ] 1 5 - A . HOMENS
[2 2 5 ]
bém a multiplicidade dos mundos-próprios, em que as
coisas subsistem sob formas sempre novas.
Nesta terceira multiplicidade, todos os mundos-pró­
prios oferecem o «teclado» em que a Natureza executa
a sua supertemporal e superespacial sinfonia de signi­
ficados.
A nós, durante toda a nossa vida, cabe-nos a missão
de, com o nosso mundo-próprio, constituir uma tecla, no
gigantesco teclado que mão invisível percorre.
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO ORIGINAL
Epígrafe: Uns — os m a te rialistas — tudo
arrastam do céu e do mundo do in v is ív e l
para a terra, como se quisessem apertar
nas mãos fechadas rochedos e carvalhos.
Depois pegam em tudo e sustentam a todo
o transe que só e xiste o que é palpável e
in te lig íve l. Tomam a existência m a te ria l
com o a única existência e olham com des­
dém para os outros, os que além do m ate­
ria l adm item ainda outro dom ínio do ser,
e não querem dar ouvidos a qualquer opi­
nião d ife re n te da sua, seja ela qual for.

(PLATÃO, Sofistas. Traduzido para


alemão por Karl Kindt, Platão, Antolo­
gia. Karl Rauch Verlag.)

Max Hartmann (1) é , sem dúvida, um investigador emi­


nente, que goza merecidamente de grande reputação. Por
esse motivo não deve ignorar-se, de ânimo leve, um
reparo que dele venha. Ora Hartmann, num escrito muito
divulgado, acusou-me de induzir o público em erro. Se
eu o entendo bem, a sua censura resulta de eu, com a

(') Zoólogo e filósofo. Director, desde 1914, do Instituto Max-


Planck de Biologia.

[2 2 6 ]
[2 2 7 ]
teoria da obediência da Natureza a um plano, ter desper­ encarregar um químico, em vez de um historiador de arte,
tado esperanças vãs em círculos de leigos. de criticar um quadro; segundo, confiar a apreciação de
Esta acusação de eu ter induzido em erro já uma uma sinfonia a um físico, em vez de a confiar a um
vez me fora feita, embora noutras circunstâncias. músico; terceiro, em vez de chamar um biólogo, con­
Na ilha de ísquia, onde passei uns belos dias de Pri­ ceder a um mecanista o direito de apreciar a realidlde
mavera, encontrei um velho conhecido que me pediu indi­ dos comportamentos de todos os organismos, apenas na
cações sobre o caminho. Dei-lhe a informação de que no medida em que elas obedecem à lei da conservação da
energia.
ponto onde havia uma roseira em flor, devia voltar à
Os comportamentos não são simples movimentos ou
esquerda. Mais tarde, encontrámo-nos, por acaso, junto
tropismos: consistem em aperceber e actuar e são regu­
da mesma roseira e o meu conhecido recriminou-me por
lados não apenas mecanicamente mas também segundo
tê-lo enganado, visto que a roseira não tinha rosas nenhu­
o significado.
mas. Daí se concluiu que sofria da cegueira das cores e
não podia distinguir as rosas vermelhas que sobressaíam Esta concepção contraria, evidentemente, a «lei da
economia mental» com que os mecanistas tornaram tão
de entre a verdura das folhas.
A censura que Hartmann me dirigiu parece-me assen­ fácil a investigação. Mas ladear problemas não é resol­
vê-los.
tar numa deficiência constitucional semelhante à do meu
conhecido de (squia. Este era cego para as cores, Hart- Se considerarmos os progressos realizados durante
mann é cego para o sig n ificado . Ele contempla a face da as últimas décadas da investigação da vida, na medida
Natureza como o químico contempla a Madona Sistina. em que eles obedecem à senha do beaviorismo e dos
Vê as cores, sim, mas não vê o quadro. O químico pode, reflexos condicionados, bem podemos dizer que o expe­
sem dúvida, ir muito longe na análise das cores mas isso rimentar se tornou cada vez mais complicado ao passo
nada tem que ver com o quadro. Apesar de ser citólogo que o pensar se tornou cada vez mais simplista e mais
distinto e químico, os seus trabalhos nada têm que ver fácil.
com a biologia considerada doutrina da vida. Só é bió­ O pensar fácil actua como doença contagiosa e afoga
logo quem investiga o plano a que obedecem os fenóme­ todas as iniciativas de uma concepção autónoma do
nos vitais. mundo, no grande público: «Deus é espírito e espírito
é nada» diz a sabedoria barata com que hoje em dia o
Perdeu-se quase por completo esta concepção da
homem simplista se dá por satisfeito.
biologia e, principalmente, a obediência das relações dos
Esta sabedoria é de tão baixo preço que bem lhe
significados à lei é «terra incógnita» para a maioria dos
podemos chamar pura ignorância.
investigadores.
Eu pergunto a Max Hartmann, se é este o objectivo
Vejo-me, assim, obrigado a começar com os exem­
a que ele pretende conduzir o público.
plos mais simples, para oferecer ao leitor apenas uma
ideia do que se entende por sig n ifica d o e, finalmente,
para mostrar que tudo que é vivo só pode ser compreen­ J. von U exküii
dido se lhe tivermos descoberto o significado.
Devo principalmente observar que é erro: primeiro,

[2 2 8 ] [2 2 9 ]
EXPLANAÇÃO ENCICLOPÉDICA

«BIOLOGIA E DOUTRINA DO MUNDO - PRÓPRIO»

Jacob von Uexküll foi o próprio a afirmar um dia que


a tradução do termo «Biologia» por «Lebenslehre» (ciên­
cia da vida) pode induzir em erro, se se tomar esta última
expressão na acepção de «conhecimento da essência da
vida». Disse ele: «A vida é um fenómeno irredutível,
como o peso. Nada sabemos do que venha a ser o peso
mas apenas alguma coisa a respeito do peso dos corpos.
Também nada sabemos do que venha a ser a vida mas
apenas alguma coisa a respeito dos seres vivos. A ciên­
cia dos seres vivos é uma pura ciência natural e tem um
único objectivo: o estudo da organização do corpo dos
seres vivos, da sua origem e do seu funcionamento.»
CõrrTcT despertar do espírito humano, vidã è morte7cõrnb
fenómenos irredutíveis, passaram a ser para o homem
os acontecimentos de máxima importância nas suas rela­
ções com a natureza. Por isso a biologia deve também
ser considerada, nas suas origens, como a primeira ten­
tativa feita pelo homem para chegar a adquirir um conhe­
cimento da natureza. A descrição dos seres vivos e a
sua anatomia aparece já nas elevadas culturas pré-cristãs

[2 3 1 ]
dos Babilónios, Egípcios e Chineses. Os primórdios de contribuíram para uma expansão e intensificação do
uma Zoologia científica surgem pela primeira vez na conhecimento dos animais e das plantas. As novas des­
Grécia antiga) Um dos seus mais notáveis cultores foi cobertas no campo da Astronomia, da Matemática e da
Aristóteles (384-322 a. C.), discípulo de Platão e futuro Física tiveram importantes consequências, tanto de mé­
mestre de Alexandre, o Grande. Aristóteles fundou uma todo como teóricas, no posterior desenvolvimento das
escola própria e é considerado o pai da Ciência Natural. ciências naturais exactas; a representação teocêntrica
A par dele deve citar-se como primeiro enciclopedista do mundo foi orientada num sentido físico-matemático,
nesse campo Plínio (23-79 d. C.), sem se ter notabilizado em que forças cientificamente determináveis regulam o
como investigador, compilou as descrições feitas por que se passa no macrocosmos. Más também nos aspec­
outros, na sua N a tu ra lis H is to ria em trinta e sete volu­ tos relativos ao microcosmos se iniciou análoga trans­
formação, tornada viável em virtude dos aperfeiçoamen­
mes. Os seus escritos e os de Aristóteles exerceram até
tos dos métodos ópticos de investigação e pela invenção
ao século XVIII decidida influência sobre as descrições
do microscópio e sua aplicação áõs estudos biológicos.
da natureza. As investigações de médicos notáveis da
As descobertas de Malpighi, Swammerdam e Loewen-
Antiguidade alargaram-se muitas vezes até aos campos
hoek, nos séculos XVII e XVIII, marcam o início de uma
da anatomia e da fisiologia dos animais. Em primeiro
nova época. A interpretação da natureza começara por se
lugar devem citar-se Hipócrates (século V a. C.) e, mais
fundamentar nos aspectos imediatos, sem intervenção
tarde, Galeno (130-200 d. C.), cujos escritos foram toma­
de instrumentos auxiliares. O mundo, tal como os senti­
dos em consideração ainda para aquém da Idade Média.
dos dele tomavam conhecimento, e a sua representação
Com o fim da Antiguidade a Biologia entrou em deca­
eram idênticos. A visão, agora enormemente reforçada
dência. No princípio da Idade Média o saber ocidental
p^los~metasr73uxÍliares que a física punha ao serviço da
toma de novo contacto com os escritos dos autores clás­
ciência, revelava-se agora um mundo novo, micro e
sicos gregos, por intermédio dos Árabes (Avicena, 980-
macrofísico que constituía uma nova realidade, a par da
1037, e Averróis, 1126-1198), passando aqueles a cons­
até aí apercebida. Isto não quer de modo nenhum signi­
titu ir matéria de estudo nas escolas e universidades.
ficar que se pudessem muito simplesmente reduzir todos
A ciência então dominante, a Escolástica, limitava-se, os fenómenos manifestados nos seres vivos a processos
aliás, à reprodução e ao comentário dos escritos trans­ físicos e químicos. Contudo, já no século XVII se revelou
mitidos, ordenados num sistema de ideias de acordo a tendência para interpretar os processos da vida em
com as doutrinas religiosas dominantes. Tomás de Aquino termos exclusivamente físico-químicos. Tal concepção
é um dos escolásticos mais representativos (1225-1274) revela-se também na filosofia desse século, principal­
e comentou os ensinamentos de Aristóteles. Deve mente em René Descartes (1596-1650), cuja explicação
citar-se ainda, como um dos mais notáveis representan­ mecanista dos processos que se passam nos seres vivos
tes da sua época, Alberto Magnus (c.a 1193-1280), que, influiu nitidamente nos estudos do seu tempo. A orien­
como o seu discípulo Tomás de Aquino, pertencia à ordem tação da explicação muito largamente espalhada no.
dos Dominicanos. século XVIII e as tentativas de considerar os seres vivos
As Universidades, fundadas a partir do século XII, de um modo puramente mecanista são características

[2 3 2 ] [2 3 3 ]
desta tendência. Simultaneamente estabelece-se nessa mática, a anatomia comparada e o estudo da hereditarie­
época uma especialização cada vez maior da biologia, dade, disciplinas em que se buscaram provas em favor
que dificultou cada vez mais uma visão de conjunto. Cari da teoria da evolução. Desencadeou-se, então, uma bata­
von Linné (1707-1778) estabelece no seu System der lha p ró e contra o darwinismo, batalha que ainda hoje
N a tur uma ordenação de alto significado e fundamental dura. Um dos mais ardentes adeptos da teoria foi o zoó­
no reino animal e vegetal, pelo que é considerado o pai logo Emst Haeckel (1834-1919), o qual, no que se refere
da sistemática moderna. Buffon (1707-1788), ao contrário às suas consequências, foi muito mais longe do que Dar­
de Linné, considera que os problemas dos estudos da win, e que no seu trabalho capital D ie W e ltrã ts e l (Os
natureza consistem antes numa vasta caracterização des­ Enigmas do Universo) procurou explicar a origem do
critiva dos seus aspectos, como se conclui da sua enci­ mundo a partir de partículas elementares dotadas de vida.
clopédia, a H is to ire N aturelle. No século XVIII, a par de As consideráveis consequências que Haeckel e os seus
uma biologia mais sistemática, comparada e descritiva, adeptos deduziram da teoria de Darwin encontraram, em
desenvolve-se uma série de especulações sobre a origem parte, uma acerada crítica. Ao número destes críticos de
das espécies, que exerceram sobre a orientação dos estu­ Darwin pertenceu, entre outros, August Weissmann
dos biológicos uma influência muito importante. Cuvier (1834-1914)), que rejeitou a teoria da hereditariedade dos
(1769-1832), um dos mais notáveis zoólogos do seu caracteres adquiridos e em seu lugar propôs uma teoria
tempo e um dos criadores da anatomia comparada, própria, chamada teoria do plasm a germ inativo, com que
defende o ponto de vista da invariabilidade das espécies. procurou explicar o aparecimento de novos caracteres.
Foram seus antagonistas os adeptos do chamado evolu- Nem esta nem a teoria das m utações, formulada mais
cionismo, Lamarck (1744-1829) e St. Hilaire (1772-1884), tarde e que admite o aparecimento brusco e constante
que se podem considerar precursores de Darwin.
de espécies novas, puderam explicar a evolução das espé­
Darwin (1809-1882), o mais notável defensor do Evo-
cies, a sua multiplicidade e a sua integração num plano
lu cio n ism o nos tempos modernos, viu principalmente na
natural, pois que, em organismos em luta de concorrên­
selecção natural, que através da luta pela existência
cia, oportunidade e plano ordenado constituem o pressu­
deveria ser a causa tanto da hereditariedade dos carac­
posto da viabilidade e, deste modo, de estarem em con­
teres adquiridos como da variabilidade das espécies, a
dições de tomar parte numa luta pela existência e
origem da diferenciação destas. O princípio em que se
baseia a hipótese de Darwin é o aparecimento ocasional numa selecção.
de variações de diferente natureza nos seres vivos, varia­ Ao passo que na física, na química e na matemática
ções que são depois submetidas à selecção natural. tudo, ab in itio , é interpretado por um princípio geral de
O aparecimento dessas variações era atribuído a factores massa, número e lei, em biologia a interpretação dos
de natureza causal; pelo contrário, a evolução propria­ aspectos da vida foi-se tornando, com o decorrer do
mente dita não obedeceria a nenhuma lei, de sorte que tempo, cada vez mais difícil. Desde que se descobriu a
é o acaso que desencadeia a selecção natural, determi­ célula e os elementos que a constituíam, o interesse
nando assim a formação de espécies novas. O curso das especial dos biólogos fixou-se no seu estudo. Da c ito ­
ideias de Darwin exerceu forte influência sobre a siste­ logia, ou estudo da célula, derivou um grande número de

[2 3 4 ] [23 5]
1
campos de investigação, cujo fim comum era o conheci­
mento da sua função e da sua estrutura. animais e das plantas, recorrendo à influência das forças
Procurou-se decompor o que se passa na célula, e químicas e físicas do ambiente dos organismos. O anim al
também o què se passa na totalidade do organismo, em era concebido como um m ecanism o que as energias que
processos cada vez mais simples. Para isso recorreu-se afectavam os órgãos dos sentidos punham em acção. As
aos mais modernos métodos da técnica de determinações designações «positiva» e «negativa» estabelecidas para
quantitativas químicas e físicas (métodos bioquímicos, as diferentes formas de energia, como luz, gravidade,
emprego dos isótopos na pesquisa do modo como as etc., deviam explicar o comportamento perante os estí­
substâncias se transformam nos organismos, técnica mulos do ambiente, como mais tarde se julgou conse­
electrofisiológica, etc.). Recorrendo aos raios X e a requin­ quente na teoria dos tropism os de Jacques Loeb (1859-
tados métodos ópticos, e ao microscópio electrónico, 1924). Como essa teoria não fosse suficiente para expli­
estudou-se a estrutura fina da célula, e atingiu-se o nível car o comportamento dos animais, foi posteriormente
macromolecular, progresso não desprovido de perigo pois completada e ampliada por outros, por exemplo, Von
que ameaça fazer da biologia uma química e uma física Kühn (n. 1885), que interpretava o comportamento animal
aplicadas, e esgotar energias na formulação dos seus como essencialmente resultante de actos reflexos.
problemas. O problema da inquirição das causas em bio­ O fisiólogo russo Pavlov (1849-1936), desenvolveu de
logia não pode, porém, ser a redução dos processos vitais uma forma pronunciadamente mecanista uma concepção
a processos físico-químicos. Estes só nos podem fornecer semelhante no âmbito dos reflexos condicionados. Wat-
o conhecimento dos elementos cuja ordenação e mútua son (n. 1878), pretendeu encontrar uma solução para as
dependência determinam apenas o que há de específico dificuldades destas explicações unilateralmente mecanis-
nos processos vitais. Quando se procura reduzir o sis­ tas, no seu beaviorism o, em que elevou à categoria de
tema altamente complicado dos fenómenos biológicos a princípio fundamental a pura descrição do comporta­
acontecimentos causais, fica, no fim, sempre alguma
mento animal. Os pontos de vista intuitivos defendidos
coisa não analisável. Foi isso que se deu com as funções
mais tarde por Jacob von Uexküll passam a compreen­
específicas da célula, assim como com os fenómenos
der-se se se toma em consideração a situação em que a
morfológicos e de desenvolvimento, e ainda com as cor­
biologia se encontrava no dobrar do século. O darw inism o
relações mútuas dos seres vivos.
P^di,a-se_em largas especulações, enquanto a fisiolõgíâ,
Que outro tanto se passou na fisiologia, que trata
Hõminada. pelos mecanistas. se afundava cada vez mais
das correlações dos órgãos no corpo, afirmou-o clara­
mente um dos seus fundadores, Johannes M üller (1801- nos..problemas das transformações da substância e da
1858). Os seus discípulos, Du Bois-Reymond (1818-1896) er!2llSÍB--_Jacob von Uexküll sentiu-se particularmente
e Helmhollz (1821-1894), foram, pelo contrário, adeptos átraído por Johannes M üller (1801-1858) e Karl Ernst von
da explicação mecano-física. Baer (1729-1786), cujas ideias tinham afinidades com as
suas próprias. Karl E. von Baer fundando-se nos seus estu­
Já nessa altura se revelava na fisiologia dos sentidos
dos de embriologia chegara a conclusões diferentes das
a tendência não só para explicar os processos vitais e
de Darwin. Admitia uma diferenciação gradual no reino
de desenvolvimento mas também o comportamento dos
animal, que, porém, devia ter-se dado apenas em alguns

[2 3 6 ]
[2 3 7 ]
tipos, não segundo uma ininterrompida cadeia de evo­ A peça prescreveu, os personagens obedecem. Em varian­
lução. tes e exemplos sempre novos, fez entrar esta interpreta­
Jacob von Uexküll opôs à concepção da época, que ção e justificou-a. Pela natureza da sua atitude teórica e
considerava os seres vivos como máquinas com reflexos, metodológica, o estudo do mundo-próprio abrange não só
uma nova teoria. Partindo da afirmacão-de—Kant^- que o campo da fisiologia dos nêrvòs e dos sentidos mas tàm-"
tempo e espaco são conceitos subieetivos. chegou à con­ bóm._a_gg/ço/ogia an im a l e o e studo do com portam ento.
vicção de que cada ser vivo possui o seu próprio espaço Deve por isso acrescentar-se ainda em que relação está”
subjectivo e o seu próprio tempo subjectivo. Partindo exactamente o estudo do mundo-próprio com estes últi­
desta ideia^jo-comportamento dos animais pode_expii-_ mos capítulos da biologia.
car-se não pelas acções físicas e'quím icas jicidentais Uexküll, Beer e Bethe tomaram, no dobrar do século,
"êxercidãspéló mundo exterior, mas apenas pelos fenó- ,., posição contra uma psicologia animal que confere aos
animais sentimentos humanos e emprega expressões
EslS~sópode ser formado pelos fenómenos que o ani­ como «uma formiga desesperada» e «um cão acobar­
mal pode «aperceber» a partir dos seus órgãos dos sen­ dado». Por essa altura a psicologia animal ainda não cons-
tidos, que possuem qualquer significado específico para «íy.fc- uma . ciência independente, e eram relativamente
a sua vida e que são ordenados segundo as escalas do Poucas as observações experimentais.
seu espaço e do seu tempo subjectivos. Segundo Jiexküll Entretanto, no intervalo de alguns anos estas passa­
a tarefa ja_b io lo q ia deve, por isso, consistir antes de ram a constituir uma massa inaudita de dados. As novas
tudo- na exploração dos mundos-própr[os subjectivos dos investigações colocaram a psicologia animal perante cir­
“Seres vivõs. Ã d o utrin a do m undo-próprio, por ele pro­ cunstâncias diferentes, com o que se demonstrou que. os
posta, é a mais vasta de todas as concepções até aqui conceitos usádos pelos teóricos dos tropismos e os fisió-_
apresentadas sobre o animal e as suas funções, porque, ^90®„d°s reflexos, assim como as interpretações meca-
baseando-se na ideia da conformidade com um plano, !l!§ íã id o ^ n c fi,Íp .d a e c o n o m ia de pensamento eram insa­
procura considerar o animal como sujeito, e apresentar tisfatórias na explicação do comportamento dos animais.
este correlacionado com o seu mundo-próprio. Esta teo­ Chegou-se ao estabelecimento de uma série de orienta­
ria serve para explicar os processos jciiojóqicos no qua­ ções e de escolas, que, fundando-se em diferentes postu­
dro de um acontecer totalm ente hioíóginn, e, por isso, lados teóricos, prosseguiam na busca do seu objectivo,
veio a ser a doutrina do «significado». Jacob von Uexküll como, por exemplo, as que admitiam no primeiro plano
tem muitas vezes chamado aos seus antagonistas, cegos- das suas considerações o problema da «totalidade» o
-ao-significado, porque se comportam perante a natureza qual também desempenha um papel primacial na psicolo­
como alguém que num livro estudasse a forma do tipo gia geral. O princípio da totalidade já fora introduzido por
em que está impresso e a tinta usada em vez de procurar Driesch nos conceitos biológicos. A sua ideia fundamen­
compreender o que ele quer significar. A natureza é para tal foi, alem disso, mais tarde elaborada em diferentes
ele uma peça teatral em que cada um dos actores tem direcções por Alverdes, Jordan, Haldane e Köhler.
o seu papel e em que tudo está mutuamente ligado com O moderno estudo do com portam ento abriu um novo
vista a um resultado rico de sentido e de significado. caminho metodológico para estes problemas, e primeiro

[2 3 8 ] [2 3 9 ]
mundo-próprio numerosos estímulos e conceitos práticos
que tudo forneceu valiosos pontos de vista relativos à e teóricos.
natureza do'instinto nos animais. Os instintos dos ani­ A importância dos métodos de investigação fisioló­
mais semprá tinham despertado o interesse dos zoó­ gica, já acentuada por Uexküll, conduziu, em vários sen­
logos. Os estudos de Wasmann (1859-1931) e Fabre tidos, as investigações sobre o comportamento a insisti­
(1823-1915) já haviam mostrado quão multiarticulada- rem nos aspectos fisiológicos, o que, de facto, fornece
mente são construídos os instintos dos insectos. As dados de grande valor, mas resultou do problema central
investigações sobre factores ambientais levaram tam­ do estudo do com portam ento. Este é, e continua a ser
bém ao conhecimento de grande número de factos impor­ o papel do animal como sujeito que se «comporta»
tantes, como, entre outros, os estudos feitos sobre a perante o meio ambiente. O actual estudo do com porta­
vida das abelhas, devidos a Frischs. Actualmente estão m ento situa-se na linha divisória entre os métodos de
em curso estudos pormenorizados sobre o comporta­ trabalho seguidos em fisiologia e aqueles que procuram
mento dos vertebrados e os seus instintos, o processo a consolidação de uma forma de investigação indepen­
de aprendizagem, o adestramento, a orientação, etc., com dente, e com isso se esforçam com o mesmo interesse
resultados que demonstram uma singular obediência a por evitar os perigos da redução de tudo ao ponto de
leis e uma variedade até aqui não igualada, como se con­ vista humano do antropocentrismo, e os perigos igual­
clui dos trabalhos de TinbergenjJajrenzT+tedjíjer e Port- mente grandes da redução do animal à categoria de um
mann. Deve-se principalmente a Konrad Lorenj^e Nikolaus complicado mecanismo.
Tinbergen, o terem compreendido õ'estudo dos estímulos
necessários pãrã o desencadear dõ_ .comportamento-ins­ Dr. Georg Kriszat, Estocolm o
tintivo, e terem analisado pormenorizadamente o papel
do instinto no quadro da vida comunitária dos animais,
em especial por meio dos seus estudos sobre o compor­
tamento social e individual das aves umas em relação
às outras. Mostram eles que os comportamentos instin­
tivos são tão específicos para cada espécie animal como
a sua estrutura física, e que entre espécies semelhantes
se manifesta certa afinidade de instintos. J5ó__agora_sa
revela em toda a sua extensão a obra-de pioneiro reali­
zada por Jacob von U e x k ü lL não só no campo da biologia
geral como no caso especial da psicologia animal, em
que estabeleceu os alicerces teóricos e práticos de uma
ciência que actualmente, com o material de factos carrea­
dos pelo estudo do com portam ento, adquire constante­
mente novos elementos para a sua estruturação. O mo­
derno estudo do com portam ento foi buscar à doutrina do

1 6 -A . HOMENS [241]
[240]
A C E R C A DO A U T O R

Jacob von Uexküll nasceu na herdade de Keblas, na


Estónia, em 8 de Setembro de 1864. Depois de frequentar
o liceu em Coburgo e, depois, em Reval, estudou zoologia
na Universidade de Dorpat e aí terminou os seus estudos
fazendo as provas então habituais. No instituto do conhe­
cido fisiólogo Kühne, em Heidelberga, começou a tra­
balhar no estudo do aparelho locomotor dos animais.
Desenvolveu então noções novas sobre a actividade do
músculo e o fluxo do estímulo no sistema nervoso.
Apoiado nos seus estudos, erigiu uma nova fisiologia
comparada dos invertebrados. Esta fisiologia biológica
de novo tipo simultaneamente apresentava o animal
como um organismo ligado segundo um plano ao seu
mundo-próprio e lançava os alicerces para o estudo-do-
-mundo-próprio, mais tarde por ele elaborado com os con­
ceitos de Plano, Ciclo-de-Função e Mundo-Próprio. Os
notáveis resultados dos seus trabalhos realizados"del892
a 1909 estão reunidos em Leitfaden in das Studium der
E xperim entellen B iologie der W assertiere (Guia do Estudo
da Biologia Experimental dos Animais Aquáticos) e na
obra U m w e lt und In n e n w e lt der Tiere (Mundo-Próprio e
Mundo-Interior dos Animais). Depois da morte de Kühne
romperam-se os laços que ligavam Uexküll ao Instituto

[2 4 3 ]
de Heidelbe^ga, e, pouco depois, com a Estação Zoológica forte originalidade e a sua riqueza de ideias, e a profusão
de Nápoles, em que trabalhara regularmente até 1903. de problemas científicos que o ocupavam, não tardaram
Desde então passou a trabalhar como investigador pri­ a atrair um círculo de discípulos que ele soube reunir
vado livre e escolheu os seus próprios problemas e cola­ numa comunidade de trabalhadores que constituía como
boradores, independentemente de qualquer instituto. Em que uma família. Quando o «Instituto para o Estudo do
1909 empreendeu uma viagem mais longa pela África, Mundo-Próprio» festejou, em 8 de Setembro de 1934, o
que foi para ele rica de ensinamentos histórico-naturais septuagésimo aniversário de Jacob von Uexküll, pôde-se
e nele deixou sugestões e vestígios de alta importância fazer um balanço de uma preparação, em menos de dez
que viriam a revelar-se nos seus trabalhos posteriores. anos, de setenta trabalhos, em um terço dos quais Von
Outras viagens de estudo o levaram a Nápoles, a Beau- Uexküll aparecia como autor. A Universidade de Kiel
lieu, Berck-sur-Mer, Mónaco, Roskoff e Biarritz. galardoou-o nesse dia com o título de Doutor em Filosofia
Por essa ocasião, a teoria do mundo-próprio, já por honoris causa. Alguns anos mais tarde recebeu da Uni­
Uexküll apresentada nos seus fundamentos no seu livro' versidade de Utreque o diploma de honra de Doutor em
U m w e lt und In n e n w e lt d er Tiere, foi desenvolvida numa Ciências Naturais. As várias distinções sob a forma do
série de trabalhos concludentes. Nos Bausteinen zu einer grau de Doutor honorário, que recebeu em vida, mostram
biologisch en W elt (Fundamentos para Um Mundo Bioló­ bem significativa e simbolicamente o seu valor em três
gico) e nas B iologischen B riefen an eine Dame (Cartas ramos da ciência que serviu, tanto por um trabalho indi­
sobre Biologia a Uma Senhora) expõem-se as suas ideias" vidual notável como também por uma visão cada vez
essenciais, que têm na sua obra capital Theoretische Bio- mais precisa do que é sig nificante . Nessa época publicou
lo g ie (Biologia Teórica) a formulação definitiva. Em 1907 também as suas memórias, das quais se conclui quanto
recebeu a honra do grau de Doutor em Medicina honoris era activo o intercâmbio espiritual em que intervinha,
causa pela Universidade de Heidelberga. Mas continuou para além do círculo dos seus colegas de profissão, e
a ser-lhe negado o reconhecimento oficial de qualquer com que profunda penetração ele compreendia os mun-
instância superior, sob a forma de uma cátedra de pro­ dos-próprios dos seus semelhantes.
fessor. Se, por um lado, não lhe foi possível ascender Os seus últimos anos passou-os Jacob von Uexküll
ao professorado, as consequências da Primeira Guerra com sua esposa em Capri. Aí concluiu com perfeita fres­
Mundial anularam a possibilidade de fazer progredir a cura de espírito e incansável energia os seus últimos tra­
ciência com a sua dedicação de trabalhador privado, em balhos, em que ainda uma vez mais fez uma recapitula­
virtude da perda dos seus meios de fortuna. Só em 1926 ção e revisão da sua obra. Em 25 de Julho de 1944, antes
foi criado para ele um lugar de professor honorário na de completar oitenta anos, a morte arrancou-lhe a pena
Universidade de Hamburgo, onde, em condições extraor­ da mão.
dinariamente modestas, foi organizado o In s titu t fü r
U m w eltforschung (Instituto para o Estudo do Mundo-Pró- Dr. Georg Kriszat, Estocolm o
prio). Em condições primitivas e com grandes dificulda­
des, conseguiu elevar o Instituto a uma categoria de
instituto de investigação científica digna de nota. A sua

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UM PRECURSOR DA NOVA BIOLOGIA ........................................ 5

DIGRESSÕES PELOS MUNDOS-PRÓPRIOS DO HOMEM E DOS

ANIM AIS ......................................................................................... 23

INTRODUÇÃO ......................................................................................... 29

DOUTRINA DO SIGNIFICADO .......................................................... 139

INTRODUÇÃO À EDIÇÃO ORIGINAL .............................................. 227

EXPLANAÇÃO ENCICLOPÉDICA........................................................ 231

ACERCA DO AUTOR ............................................................................. 243

LISTA DOS ESCRITOS E LIVROS DE JAKOB UEXKÜLL ......... 247

ÍNDICE DE ASSUNTOS ....................................................................... 251