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DIREITO PENAL – PARTE ESPECIAL

Crimes Contra a Paz Pública

Associação Criminosa

Art. 288. Associarem-se 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico de cometer

crimes: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.


2
Parágrafo único. A pena aumenta-se até a metade se a associação é armada ou se houver a participação de
criança ou adolescente.

A Lei nº 12.850/2013 modificou o art. 288 do Código Penal em alguns aspectos.

Inicialmente, o nomem iuris passou de quadrilha ou bando para associação criminosa. Além disso,
alterou-se o número mínimo de agentes que deve se associar para caracterizar o crime, isso para
diferencia-lo da organização criminosa, agora definida e tipificada nos artigos 1º e 2º da Lei nº
12.850/2013, e que exige o número mínimo de quatro agentes.

A novel lei 12850/13 alterou o CP, modificando o nomen iures do crime de formação de quadrilha ou bando
para Associação Criminosa, além de reduzir o quantitativo mínimo para fins de caracterização do crime de
4 para 3 integrantes, caracterizando novatio legis in pejus. Ademais, adicionou como causa de aumento de
pena a presença de criança ou adolescente na associação criminosa.

Esquematizando

O bem jurídico tutelado é a paz pública.


O sujeito ativo, por sua vez, pode ser praticado por qualquer pessoa (crime comum). Além disso,
trata-se de crime plurissubjetivo, de concurso necessário e de condutas paralelas (uma conduta
auxiliando a outra).

Atenção! No nº mínimo de três associados, são computados inimputáveis e eventuais agentes não

identificados. O sujeito passivo, por sua vez, é a coletividade. Trata-se de delito vago.

Nesse sentido, Rogério Sanches (Manual de Direito Penal Parte Especial, 2016):

Qualquer pessoa pode praticar o delito em estudo, não exigindo a lei qualidade especial do204 seu
agente. Aliás, o crime é coletivo, plurissubjetivo (ou de concurso necessário), de condutas paralelas
(umas auxiliando as outras), estabelecendo o tipo incriminador a presença de, no mínimo, três
associados (computando-se eventuais inimputáveis ou pessoas não identificadas. Aliás, tratando-se de
inimputável criança ou adolescente, a pena é aumentada até a metade). Sujeito passivo será a
coletividade.

Conduta: pune-se a associação entre três ou mais pessoas para o fim específico de cometer crimes.
Refere-se a uma série indeterminada de crimes.

1. Elementos estruturais do art. 288 do Código Penal


a. associação:

Associar-se significa reunir-se em sociedade para determinado fim (tornar-se sócio), havendo uma
vinculação sólida, quanto à estrutura, e durável, quanto ao tempo (que não significa perpertuidade).

Obs.1: é muito mais do que uma mera reunião ocasional, típica de concurso de pessoas.

Obs.2: é possível o agente pertencer a mais de uma associação criminosa. No caso, se o agente integra
mais de uma associação criminosa, praticou mais de uma vez o núcleo do tipo, respondendo pelas duas
associações em concurso material.

Se o agente integra diversas associações criminosas viola, por diversas vezes, a lei, caracterizando
concurso material de delitos. O que a lei pune é associar-se e se ele mais de uma vez se associa,
caracteriza pluralidade de crimes.

b. com pluralidade de agentes;

Dispensa ordem hierárquica. Dispensa, ainda, divisão de tarefas.

Cuidado: a organização criminosa pressupõe hierarquia e divisão de tarefas.

Os seus membros não precisam se conhecer, tampouco viver no mesmo local. Mas devem saber sobre
a existência dos demais. Basta que o sujeito esteja consciente em formar parte de uma associação cuja
existência e finalidades lhe sejam conhecidas.
Obs.1: O menor de 18 anos, desde que tenha discernimento para entender o que está fazendo, pode
integrar a associação criminosa, sendo contabilizado como integrante. Assim, podemos ter dois
maiores de idade e um menor de 17 anos, por exemplo. O que não se admite para fins de cômputo é a
criança que nem mesmo tem discernimento, como crianças de 4 ou 5 anos, pois não há qualquer liame
associativo nessas situações.

Pergunta: O agente infiltrado poderá ser computado no nº mínimo de 3 pessoas?

1ª corrente - Nucci entende que sim, pois do mesmo modo que se admite a formação de quadrilha com
inserção de
205
menor de 18 anos, embora não seja este culpável, é de se considerar válida, para o mesmo fim, a
presença do agente
infiltrado.

2ª corrente – o policial não pode ser computado, pois não age com o necessário ânimo associativo, pois
a sua finalidade, aliás, é diametralmente oposta, qual seja, desmantelar a sociedade criminosa. Se ele
for coagido a matar alguém, recairá sobre ele inexigibilidade de conduta diversa.

a. com o fim de cometer uma série indeterminada de crimes;

Cumpre destacar que a associação criminosa exige a finalidade de praticar CRIMES. Não há
associação criminosa para prática de um único crime. Deve ser para a prática de CRIMES
DOLOSOS.

Cuidado! Não existe associação criminosa com o fim de praticar série indeterminada de
contravenções penais.

Já a organização criminosa pode existir para fins de praticar crimes ou contravenções, desde que a
pena máxima supere 4 anos.

Observação: Concurso de Pessoas X art. 288 do Código Penal

É imprescindível que a reunião seja efetiva ANTES da deliberação dos delitos.

Concurso de Pessoas Art. 288 do CP

Reunião de pessoas Reunião de pessoas sem


com crimes já
haver deliberação de
deliberados.
crimes.
Crimes determinados. Crimes
indeterminados.

2. Voluntariedade: dolo + fim especial (cometer crimes)


- Exige finalidade de lucro? A busca por lucro é dispensável.
3. Consumação

Em relação aos fundadores, o crime se consuma no momento em que aperfeiçoada a convergência de


vontades entre 3 ou mais pessoas.

Em relação aos agentes que integram a associação já formada, o crime se consumada com a adesão
de cada qual.

Cuidado! O art. 288 se consuma independentemente da prática de qualquer crime pela associação.
Ademais, se ocorrer algum crime pela associação haverá o concurso material de crimes.

O art. 288 é crime permanente, se prolonga no tempo. Assim, enquanto não cessada a associação a
consumação206 persiste.

No tocante ao crime permanente, recordar do art. 303 do CPP (o flagrante pode acontecer a qualquer
tempo enquanto durar a permanência) e o art. 111, III do Código Penal descreve que a prescrição só
começa a correr depois de cessada a permanência. Por fim, cumpre recordarmos o teor da Súmula 711

Súmula 711, STF. A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência
é anterior à cessação da continuidade ou da permanência.
do STF.

Por fim, a doutrina não tem admitido a tentativa (a associação criminosa não admite tentativa, ou ela
está formada ou não está).

Pergunta: A manutenção da associação criminosa após a condenação ou mesmo da denúncia


configura novo crime?

De acordo com a doutrina, constitui novo crime, não se cogitando do “bis in idem”. A associação
criminosa cessa com o recebimento da denúncia, hipótese em que a associação posterior para o
cometimento de crimes deve ser considerada como um novo delito, não se cogitando bis in idem (sob
pena de impunidade, intervenção insuficiente/deficiente do Estado).

4. Causa de Aumento
Parágrafo único. A pena aumenta-se até a metade se a associação é armada ou se houver a
participação de criança ou adolescente.

O parágrafo único determina o aumento de pena até metade se a associação criminosa é armada ou se
houver participação de criança ou adolescente.

Quantos membros devem estar armados para incidir a majorante?

1ª Corrente (Hungria): basta um integrante armado.


2ª Corrente (Bento de Faria): a maioria dos membros deve estar armada.

3ª Corrente (Fragoso): Considerando a quantidade de membros e a quantidade de armas, o juiz,


analisando o caso concreto, decide se a associação é mais perigosa.

Por fim, e não menos importante, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente:

Quem é criança? Quem é adolescente?

A pessoa com 12 anos É aquele que conta com


incompletos, ou seja, 12 anos completos e 18
aquela que ainda não anos incompletos. Ao
completou seus doze completar 18 anos, a
anos. pessoa deixa de ser
considerada
adolescente.

5. Associação Criminosa X Organização Criminosa


É de extrema importância não confundirmos os crimes de associação criminosa com organização
criminosa. Nessa esteira, vejamos o quadro esquematizado abaixo que sintetiza as diferenças.

Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente


ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta
ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas
máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional.

6. Observações finais
Obs.1: Abandono de integrante da associação criminosa e reflexos jurídicos: Imaginemos uma
associação criminosa já constituída e composta por três membros, o número mínimo exigido pelo art.
288 do Código Penal. Se um deles retirar-se do agrupamento ilícito, estará excluído o delito? A resposta
é negativa, pois o crime já havia se consumado no momento da efetiva associação, razão pela qual não
se pode falar em desistência voluntária ou arrependimento eficaz (CP, art. 15).

Obs.2: Para STF e STJ, não configura bis in idem a condenação por crime de associação criminosa
armada e roubo majorado pelo emprego de arma, em virtude da autonomia e independência dos delitos.
(RHC 102984 / STJ HC 91129).

Obs.3: Associação criminosa para o tráfico de drogas (artigo 35 da Lei 11.343/2006), que se caracteriza
pela
208 participação de no mínimo, 2 (dois) agentes. Tipo penal específico.

Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes
previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34 desta Lei:

Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.200 (mil e duzentos) dias-multa.

Obs.4: A associação criminosa é classificada como crime de obstáculo!

Lembre-se!

 A doutrina classifica esse crime de plurissubetivos de condutas paralelas (quando as ações dos sujeitos
se desenvolvem em colaboração, havendo um auxílio mútuo).
 É necessária a presença de no mínimo 3 (três) agentes, sendo que um deles tem que ser imputado (pode-
se ter associação criminosa com crianças ou adolescentes e até inimputáveis). A pena aumenta-se até
a metade se a associação é armada ou houver a participação de criança ou adolescente.
 Tal crime se consuma com a mera associação entre as pessoas, o vínculo tem que ser estável e
permanente, caso seja vinculo esporádico ou eventual temos apenas o concurso de agentes do art. 29
do Código Penal.
 A tentativa não é possível, porque a associação criminosa já é um ato preparatório para outros crimes,
porém o legislador o considerou um crime autônomo, já tipificando o ato preparatório.
 A pena também será aumentada de metade se a associação é armada, pode ser arma própria ou
imprópria, sendo desnecessário que todos os associados a portem. Em verdade, basta que a arma esteja
a disposição da associação criminosa.
 Crimes obstáculo são aqueles em que o legislador antecipou a tutela penal, incriminando de forma
autônoma atos que representam a mera preparação de outros delitos. Ex.: incitação ao crime (CP, art.
286), associação criminosa (CP, art. 288) e petrechos para a falsificação de moeda (CP, art.291), entre
outros
Constituição de Milícia Privada

Art. 288-A. Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia particular, grupo ou
esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos neste Código:
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos. As

condutas típicas são:

 Constituir; criar;
 Organizar, estruturar;
 Integrar, fazer parte da milícia;
 Manter, após a constituição da milícia privada, colabora para que prossiga em suas atividades;
 Custear, colaborar financeiramente para a existência da organização.
A constituição da milícia privada pressupõe a associação para a prática de crimes do CÓDIGO

PENAL. Exige-se estabilidade e também é um crime permanente, tal como o de associação

criminosa.

O crime é punido com pena de 4 a 8 anos, trata-se de infração de maior potencial ofensivo.

Obs.1: O art. 288-A não é crime hediondo, será hediondo o homicídio que for praticado em atividade
tipifica de grupo de extermínio.

1. Bem jurídico tutelado: paz pública.


Obs.: tem como fundamento a Lei 12.720/2012, baseada na Resolução 44/62 baseada na Assembleia
Geral das Nações Unidas.

2. Sujeitos
Sujeito Ativo: trata-se de crime comum. Crime plurissubjetivo (de concurso necessário), de condutas

paralelas. Sujeito Passivo: coletividade. Trata-se de crime vago.

3. Conduta
Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia partícula, grupo ou
esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos neste Código.

Atenção! Temos doutrina, por exemplo, Bitencourt lecionando que o novo dispositivo viola o princípio
da taxa idade, desdobramento lógico do princípio da legalidade, isso porque não é perceptível a
distinção entre milícia privada, organização paramilitar e grupo de extermínio da simples leitura do
Código.

Segundo Rogério Sanches, organização paramilitar são associações civis, armadas e com estruturas
semelhantes à militar. Possuem as características de uma força militar, tem a mesma estrutura e a
organização de uma tropa ou exército, sem sê-lo. Ex.: Forças revolucionárias colombianas (FARC).
Por outro lado, milícia particular pode ser compreendida como grupo de pessoas, civis ou não, tendo
como finalidade devolver a segurança retirada das comunidades mais carentes. Para tanto, mediante
coação, os agente ocupam determinado monopólio estatal de controle social, valendo-se de violência
e grave ameaça. Ex.: Máfia.

Por fim, grupo de extermínio, reunião de pessoas, matadores, justiceiros que atuam na ausência ou
inércia do poder público, tendo como finalidade a matança generalizada, chacina de pessoas
suspostamente rotuladas como marginais ou perigosas.

Ex.: Esquadrão da morte.

Esquematizando
Milícia Organiz Grupo de
privada ação extermínio
paramili
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o é uma a associação
agrupame associaç de
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empresári
os e pelas
pessoas
em geral.

Quantas pessoas devem integrar a organização paramilitar, milícia, grupo de extermínio?

1ª Corrente: defende que o art. 288-A deve ter o mesmo número do art. 288, ou seja, 3 ou mais pessoas.

2ª Corrente: defende que deve ter o mesmo número de uma organização criminosa, ou seja, 4 ou mais
pessoas

4. Voluntariedade: dolo + fim especial (praticar qualquer dos crimes previstos no Código Penal).
Obs.1: deve visar série indeterminada de crimes. Obs.2: somente crimes previstos no Código Penal.

Obs.3: os crimes devem ter nexo com a finalidade do grupo.

5. Consumação e Tentativa
Consuma-se o crime com a prática de qualquer um dos núcleos previstos no art. 288-A do Código

Penal. O crime do art. 288-A do Código Penal é permanente.

A doutrina não tem admitido a tentativa.

Cuida-se de infração autônoma, que não depende da prática de delitos pela associação.

Pergunta: suponhamos que um grupo de extermínio (art. 288-A) executa um menor infrator (art. 121,
§6º do CP). Os executores respondem por quais crimes?

1ª Corrente: defende que o agente responde somente pelo art. 121, §6º do Código Penal. Para esta
corrente puni-lo também pelo art. 288-A seria bis in idem.

2ª Corrente: argumenta que o agente deve responder pelo delito do art. 121, §6º e art. 288-A, sem que
isso signifique bis in idem. São infrações autônomas e defendem bens jurídicos distintos.

JÁ CAIU CESPE:

 TJ-PB 2015 – Juiz Substituto: No crime de associação criminosa, incide causa de aumento de pena o
fato de a associação ser armada ou haver participação de criança ou de adolescente.

DIREITO PENAL – PARTE ESPECIAL

Crimes Contra a Fé Pública

Segundo Cleber Masson (Código Penal Comentado) a fé pública constitui-se em realidade e


interesse que a lei
deve proteger, pois sem ela seria impossível a vida em sociedade. De fato, o homem necessita
acreditar na veracidade ou na genuinidade de certos atos, documentos, sinais e símbolos
empregados na multiplicidade das212
relações diárias, nas quais intervém.

Moeda Falsa

Art. 289 - Falsificar, fabricando-a ou alterando-a, moeda metálica ou papel-moeda de curso legal no país
ou no estrangeiro:

Pena - reclusão, de três a doze anos, e multa.

§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem, por conta própria ou alheia, importa ou exporta, adquire, vende,
troca, cede, empresta, guarda ou introduz na circulação moeda falsa.

§ 2º - Quem, tendo recebido de boa-fé, como verdadeira, moeda falsa ou alterada, a restitui à circulação,
depois de conhecer a falsidade, é punido com detenção, de seis meses a dois anos, e multa.

§ 3º - É punido com reclusão, de três a quinze anos, e multa, o funcionário público ou diretor, gerente, ou
fiscal de banco de emissão que fabrica, emite ou autoriza a fabricação ou emissão:

I - de moeda com título ou peso inferior ao determinado em lei;

II - de papel-moeda em quantidade superior à autorizada.

§ 4º - Nas mesmas penas incorre quem desvia e faz circular moeda, cuja circulação não estava ainda
autorizada.

1. Bem jurídico tutelado


O bem jurídico tutelado neste dispositivo é a fé pública no que tange à emissão de moeda, sendo que a
proteção recai não só sobre o interesse dos particulares, como também do Estado, enquanto titular do
direito de emitir e fazer circular a moeda.

2. Sujeitos
Qualquer pessoa pode praticar o crime em estudo.

Sujeito passivo será a coletividade, bem como, secundariamente, eventual lesado pela conduta do
agente.

3. Conduta
Segundo Rogério Sanches, o tipo básico (caput) pune aquele que falsificar, fabricando-a ou alterando-
a, moeda metálica ou papel-moeda de curso legal no país ou no estrangeiro. Falsificar significa conferir
aparência enganadora, recaindo a conduta sobre moeda metálica ou papel-moeda (nacional ou
estrangeira).

Cumpre destacar que há duas formas de se praticar o delito: fabricando a moeda (manufaturando,
fazendo a cunhagem) ou alterando (modificando, adulterando). Na primeira, o próprio agente produz
(cria) a moeda,
enquanto na segunda, utilizando moeda verdadeira (autêntica), a altera (por exemplo, diante de uma
cédula de213
R$ 1,00 ou de R$ 10,00, a transforma em R$ 100,00).

4. Voluntariedade
É o dolo, consistente na vontade consciente de falsificar moeda, fabricando-a ou alterando-a. Não se
exige finalidade especial por parte do agente, nem mesmo que pretenda colocar a moeda falsificada
em circulação.

5. Consumação e Tentativa
O crime se consuma no momento da fabricação ou da alteração da moeda, desde que seja idônea a
iludir. A tentativa é perfeitamente possível.

6. Forma equiparada
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem, por conta própria ou alheia, importa ou exporta, adquire, vende,
troca, cede, empresta, guarda ou introduz na circulação moeda falsa.

Conforme ensina Rogério Sanches, o § 1º traz figura equiparada ao caput ao prever a mesma pena para
quem, por conta própria ou alheia, importar (trazer de fora do país), exportar (remeter para fora do
país), adquirir (conseguir de forma onerosa ou gratuita), vender (transferir a título oneroso), trocar
(entregar a alguém mediante o recebimento de outra coisa), ceder (transferir a título gratuito) emprestar
(entregar a outrem para receber de volta posteriormente), guardar (preservar), introduzir em circulação
(fazer com que a moeda circule como legítima) moeda falsa.

Somente poderá ter sua conduta subsumida ao disposto neste parágrafo o agente que não concorreu, de
qualquer modo, para a falsificação (do contrário, este comportamento caracteriza post factum
impunível).

Ao § 1º aplicam-se os mesmos comentários a respeito da potencialidade lesiva da moeda falsificada,


que, se for grosseira, não configurará o crime.

O dolo é consubstanciado na vontade consciente de praticar uma das condutas típicas previstas, sabendo
o agente que a moeda em seu poder é falsa (sem esse conhecimento prévio, deixa de existir o dolo).

A consumação ocorre com a prática dos núcleos, sendo possível a ocorrência do conatus, ante a
possibilidade de fracionamento da conduta.
7. Privilégio
§ 2º - Quem, tendo recebido de boa-fé, como verdadeira, moeda falsa ou alterada, a restitui à circulação,
depois de conhecer a falsidade, é punido com detenção, de seis meses a dois anos, e multa.
2

O §2º prevê uma espécie privilegiada de colocação da moeda falsa em circulação. É a hipótese daquele
que tendo recebido de boa-fé, como verdadeira, moeda falsa ou alterada, a restitui à circulação, depois
de conhecer a falsidade.

8. Falsificação Funcional
O § 3° não trata de circunstância qualificadora das condutas anteriores, mas de figura delituosa diversa
(e mais grave, punida com reclusão, de três a quinze anos, e multa).

Nesta modalidade o crime é próprio, aparecendo como sujeito ativo (razão do maior rigorismo na
punição) o funcionário público (art. 327 do CP) ou diretor, gerente, ou fiscal de banco de emissão que
fabrica, emite ou autoriza a fabricação ou emissão

§ 3º - É punido com reclusão, de três a quinze anos, e multa, o funcionário público ou diretor, gerente, ou fiscal
de banco de emissão que fabrica, emite ou autoriza a fabricação ou emissão:

I - de moeda com título ou peso inferior ao determinado em lei;

II - de papel-moeda em quantidade superior à autorizada. 215


9. Desvio e Circulação Antecipada
§ 4º - Nas mesmas penas incorre quem desvia e faz circular moeda, cuja circulação não estava ainda
autorizada.

10. Informativos sobre o crime de moeda falsa

O STJ entende que não se aplica o instituto do arrependimento posterior ao crime de moeda falsa. No
crime de moeda falsa a vítima é a coletividade como um todo, e o bem jurídico tutelado é a fé pública.
Logo, não se trata de um crime patrimonial. Tanto isso é verdade que a consumação desse delito
ocorre com a falsificação ou com a introdução da moeda falsa em circulação, sendo irrelevante que
tenha ocorrido dano patrimonial imposto a terceiros. Os crimes contra a fé pública, assim como os
demais crimes não patrimoniais, são incompatíveis com o instituto do arrependimento posterior,
dada a impossibilidade material de haver reparação do dano causado ou a restituição da coisa
subtraída.
Segundo a doutrina, no delito de moeda falsa o “sujeito passivo é o Estado, representando a coletividade,
bem como a pessoa lesada.(...)” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. Parte
Especial. Vol. 4.8ªed., São Paulo: Saraiva, 2014, p. 484).

Inaplicabilidade do princípio da insignificância ao crime de moeda falsa

JÁ CAIU CESPE:
 PC CE: Se um indivíduo adquirir, gratuitamente, maquinismo para falsificar moedas e alcançar o seu
intento, então, nesse caso, ele responderá pelo crime de moeda falsa em concurso com o delito de
petrechos para falsificação de moeda. Errado, por incidência do princípio da consunção, devendo o
agente responder somente pelo delito de moeda falsa.
 PC-ES: Em crimes de moeda falsa, a jurisprudência predominante do STF é no sentido de reconhecer
como bem penal tutelado não somente o valor correspondente à expressão monetária contida nas
cédulas ou moedas falsas, mas a fé pública, a qual pode ser definida como bem intangível, que
corresponde, exatamente, à confiança que a população deposita em sua moeda. Correto.
Falsificação de Documento Público

Art. 297 - Falsificar, no todo ou em parte, documento público, ou alterar documento público
verdadeiro:

Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa.

§ 1º - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do cargo, aumenta-se


a pena de sexta parte.

§ 2º - Para os efeitos penais, equiparam-se a documento público o emanado de entidade


paraestatal, o título ao portador ou transmissível por endosso, as ações de sociedade comercial,
os livros mercantis e o testamento particular.

§ 3o Nas mesmas penas incorre quem insere ou faz inserir: (Incluído pela Lei nº 9.983, de 2000)

I – na folha de pagamento ou em documento de informações que seja destinado a fazer prova


perante a previdência social, pessoa que não possua a qualidade de segurado
obrigatório;(Incluído pela Lei nº 9.983, de 2000)

II – na Carteira de Trabalho e Previdência Social do empregado ou em documento que deva


produzir efeito perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que deveria ter sido
escrita; (Incluído pela Lei nº 9.983, de 2000)

III – em documento contábil ou em qualquer outro documento relacionado com as obrigações da


empresa perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que deveria ter constado.
(Incluído pela Lei nº 9.983, de 2000)

§ 4o Nas mesmas penas incorre quem omite, nos documentos mencionados no § 3 o, nome do
segurado e seus dados pessoais, a remuneração, a vigência do contrato de trabalho ou de
prestação de serviços.(Incluído pela Lei nº 9.983, de 2000)

Trata-se de infração penal de maior potencial ofensivo (pena de dois a seis anos), não admitindo as
medidas despenalizadoras da Lei nº 9.099, salvo se tentando por incidência da causa de diminuição.

1. Bem jurídico tutelado


O bem jurídico tutelado é a fé pública, no que tange a autenticidade dos documentos emanados da
Administração217 Pública (ou equiparados).
Nessa esteira, temos que o bem jurídico protegido é a fé pública, tendo como titular a coletividade,
crime vago. A fé publica deve ser compreendida como a crença na legitimidade, veracidade e lealdade
para com os documentos que materializam a vida de cada ser humano. (presunção de
legitimidade/veracidade).

Falsidade material: documento falso, armazenando ideia verdade ou falsa. Falsidade ideológica:

documento verdadeiro, armazenando ideia falsa.

Esquematizando

Falsidade material Falsidade ideológica

também conhecida como é aquela em que o documento é


falsidade externa, é a que incide materialmente verdadeiro, ou
materialmente sobre a coisa. A seja, há autenticidade em seus
imitação da verdade se dá requisitos extrínsecos, mas seu
mediante contrafação, alteração conteúdo é falso. Sua
ou supressão (Cleber Masson). característica primordial é a
genuinidade formal do escrito,
mas não existe veracidade
intelectual do conteúdo. Não há
contrafação, alteração ou
supressão de natureza material.

A imitação da verdade é
viabilizada unicamente pela
simulação. (Cleber Masson).

2. Sujeitos
Sujeito ativo: trata-se de crime comum, pode ser praticado por qualquer pessoa.

Atenção: se o agente é funcionário público, prevalecendo-se do cargo, incide a causa de aumento do


§1º. Não é suficiente que o agente seja funcionário público para que haja incidência da majorante, é
necessário que este

atue prevalecendo-se do cargo, “Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se
do cargo, aumenta-se a pena de sexta parte”.

Sujeito passivo: o sujeito passivo primário é o Estado, e o secundário será eventual pessoa
prejudicada com a infração. Ademais, a coletividade configura sujeito imediato.
3. Conduta
O delito em comento pune a falsificação (em sentido amplo) material
de documento. 2
1
8
 Falsificar: pode se dá de duas formas no todo ou em parte. No todo, o documento é inteiramente
criado. Na falsificação em parte, a falsificação aproveita os espaços em branco de documento
verdadeiro.
 Alterar: o agente modifica documento existente, substituindo ou alterando dizeres.

4. Objeto Material
O objeto material do delito em comento é o documento público.

Por documento, entende-se a peça escrita que condensa graficamente o pensamento de alguém,
podend provar um fato ou a realização de algo ato dotado de relevância jurídica.

Público:

a) documento formal e substancialmente público: emanado da Administração Pública (formal) ou


com questões de interesse público (substancialmente público).

Exemplo: documentos do Legislativo, Executivo, Judiciário, MP, etc.

b) documento formalmente público, mas substancialmente privado: aquele emanado da


Administração Pública mas com questões de interesse privado.

Exemplo: documentos emanados de tabelião/registrador.

Obs.: Info 539 – art.297 §4º do CP e a necessidade de ser demonstrado o dolo de falso.

Pergunta: cópias reprográficas de documento público são objetos do art. 297 do Código Penal?

1ª Corrente: não são documentos as cópias reprográficas, pois não possuem a natureza jurídica de
documento, sendo meras reproduções.

2ª Corrente: quando autenticadas por oficial público ou conferidas em cartório, com os respectivos
originais, assumem a condição de documento, podendo provar determinada situação jurídica.

Atenção! A falsidade deve ser apta a iludir. A conclusão que chegamos é que é indispensável a

perícia. Exceção: a perícia será dispensável quando se trata de substituição de fotografias em

documentos.
5. Documentos Públicos por Equiparação

§ 2º - Para os efeitos penais, equiparam-se a documento público o emanado de entidade paraestatal, o título
ao portador ou transmissível por endosso, as ações de sociedade comercial, os livros mercantis e o
testamento particular.

O §2º do art. 297 do Código Penal contempla hipótese de documento equiparado “para os efeitos
penais, equiparam-se a documento público o emanado de entidade paraestatal, o título ao portador ou
transmissível por endosso, as ações de sociedade comercial, os livros mercantis e o testamento
particular”.

a) Documento emanado de entidade paraestatal (terceiro setor);

b) Título ao portador ou transmissível por endosso (se o título não puder ser transmissível por
endosso por conta do decurso do prazo legal, esse documento não é mais público por equiparação);

c) Ações de sociedade comercial; preferencial ou não.

d) Livros Mercantis; obrigatórios ou facultativos

e) Testamento particular; não abrange o codicilo.

Pergunta: cartão de crédito e débito, a falsificação deste cartão, configura a falsificação de


documento público ou particular?

O cartão de crédito NÃO é documento público, sequer por equiparação. A Lei nº 12.737 equiparou o
cartão de crédito e débito a documento particular.

6. Voluntariedade: dolo (não exige fim especial animando o agente). Atenção: a depender
da finalidade especial, outro pode ser o crime.

7. Consumação e tentativa
O crime consuma-se com a falsificação ou adulteração potencialmente lesiva (apta a ilidir).

Dispensa-se o efetivo uso do documento.

Caso faça uso, configura o crime do art. 304 do Código Penal (uso de documento falso)? Se
quem usao documento é o próprio falsificador, o crime do art. 304 do CP é um pós fato impunível. Porem,
se tiver uma pessoa que falsifica e outra que não concorreu para a falsificação, o falsificador
responderá pelo delito ora em estudo e o que faz uso pelo delito do art. 304 do CP.

Esquematizando

Quem usa é o próprio Quem usa é pessoa que não concorreu para a
falsificador do documento
falsificação
Responde apenas pelo art. 297 O falsificador responde pelo
do Código Penal, ficando o art. 297 do CP e quem usa
art. 304 do CP absolvido (pós pelo art. 304 do CP.
fato impunível).

Atenção! Súmula editada recentemente – Súmula 546 do STJ.

Para o STJ, no caso do crime de uso de documento falso, a qualificação do órgão expedidor do
documento público é irrelevante para determinar a competência. No uso de documento falso, o critério
a ser utilizado para definir a competência é analisar a natureza do órgão ou da entidade a quem o
documento foi apresentado, considerando que são estes quem efetivamente sofrem os prejuízos em
seus bens ou serviços.

Assim, se o documento falso é apresentado perante um órgão ou entidade federal, a vítima é este órgão
ou entidade que teve seu serviço ludibriado. Nesse sentido, a súmula 546 do STJ. Vejamos.

Súmula 546, STJ: A competência para processar e julgar o crime de uso de documento falso é firmada em razão
da entidade ou órgão ao qual foi apresentado o documento público, não importando a qualificação do órgão
expedidor.

Apesar de a súmula tratar do crime do art. 304 do CP, seu espirito é no sentido de que a circunstancia
de ser o documento falsificado emanado de órgão federal (ex, carteira de trabalho) não é bastante para
determinar a competência federal. A jurisprudência do STJ tem exigido que a falsidade atinja bens,
serviços ou interesses da união.

Por fim, não trocar as referidas competências:

 Competência para julgar a FALSIFICAÇÃO do documento: definida em razão do órgão expedidor.


 Competência para julgar o USO do documento falso: definida em razão do órgão a quem é
apresentado.
Súmulas importantes!

Súmula 62, STJ: Compete à Justiça Estadual processar e julgar crime de falsa anotação na Carteira de
Trabalho e Previdência Social, atribuído à empresa privada.

Súmula 104, STJ: Compete à Justiça Estadual o processo e julgamento dos crimes de falsificação e uso
de documento falso relativo a estabelecimento de ensino.

Súmula 107, STJ: Compete a Justiça Comum Estadual processar e julgar crime de estelionato
praticado mediante falsificação das guias de recolhimento das contribuições previdenciárias, quando
não ocorrente lesão à autarquia
221
federal.

8. “Falsidade ideológica”

§ 3o Nas mesmas penas incorre quem insere ou faz inserir: (Incluído pela Lei nº 9.983, de 2000)

I – na folha de pagamento ou em documento de informações que seja destinado a fazer prova perante a
previdência social, pessoa que não possua a qualidade de segurado obrigatório;(Incluído pela Lei nº 9.983, de
2000)

II – na Carteira de Trabalho e Previdência Social do empregado ou em documento que deva produzir efeito
perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que deveria ter sido escrita; (Incluído pela Lei nº
9.983, de 2000)

III – em documento contábil ou em qualquer outro documento relacionado com as obrigações da empresa
perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que deveria ter constado. (Incluído pela Lei nº
9.983, de 2000)

§ 4o Nas mesmas penas incorre quem omite, nos documentos mencionados no § 3o, nome do segurado e seus
dados pessoais, a remuneração, a vigência do contrato de trabalho ou de prestação de serviços.(Incluído pela
Lei nº 9.983, de 2000)

Os §3º e 4º trata da falsidade ideológica, que corresponde a falsa ideia em documento autentico
(perícia é dispensável).

Esquematizando

Informativo 539, STJ.

9. Princípio da especialidade
Há na legislação penal extravagante tipos especiais de falsidade de documento público.

a) Art. 348 do Código Eleitoral

Art. 348. Falsificar, no todo ou em parte, documento público, ou alterar documento público
verdadeiro, para fins eleitorais:

Pena - reclusão de dois a seis anos e pagamento de 15 a 30 dias-multa.

§ 1º Se o agente é funcionário público e comete o crime prevalecendo-se do cargo, a pena é agravada.

§ 2º Para os efeitos penais, equipara-se a documento público o emanado de entidade paraestatal


inclusive Fundação do Estado.
Para fins eleitorais  esta especializante faz com que a norma especial derrogue a norma
geral.

b) Art. 311 do Código Penal Militar

Art. 311. Falsificar, no todo ou em parte, documento público ou particular, ou alterar documento
verdadeiro, desde que o fato atente contra a administração ou o serviço militar:

Pena - sendo documento público, reclusão, de dois a seis anos; sendo documento particular, reclusão,
até cinco anos.

Exemplo: falsificar carteira de reservista para tomar posse em concurso público – não atenta contra a
administração militar (a competência não é da Justiça Militar). Exemplo: Falsificar documento público
para ser dispensado do serviço militar – é da competência da Justiça Militar.

Falsificação de documento particular

Art. 298 - Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento particular verdadeiro:

Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa.

Falsificação de cartão

Parágrafo único. Para fins do disposto no caput, equipara-se a documento particular o cartão de crédito ou débito.

1. Noções Gerais

Trata-se de infração penal de médio potencial ofensivo. Logo, admite a suspensão condicional do
processo.

Segundo Rogério Sanches, as condutas nucleares típicas são idênticas às do art. 297, aplicando-se aqui
os mesmos comentários dispensados àquele dispositivo. A diferença reside no objeto material (lá - art.
297 -, documento público; aqui -art. 298 -, particular).

Esquematizando

No delito do art. 298 do Código do Penal o OBJETO MATERIAL é o documento particular.

2. Conceito de documento Particular


No que concerne ao conceito de documento particular esse se extrai por exclusão, isto é, todo aquele
não compreendido como público ou equiparado a público. É a peça escrita confeccionada sem a
intervenção de funcionário público, mas que, em razão de sua natureza e relevância, deve ser objeto da
tutela penal.

A falsificação deve ser apta a iludir. Mostra-se indispensável a perícia.

3. Documento Particular por equiparação


Conforme já destacado acima, a Lei 12.737/12 acrescentou um parágrafo ao art. 298, anunciando
equiparar-se a documento particular o cartão de crédito ou débito.

Falsificação de cartão

Parágrafo único. Para fins do disposto no caput, equipara-se a documento particular o cartão de crédito ou débito.
4. Sujeitos
Sujeito Ativo: é crime comum, pode ser praticado por qualquer pessoa.

Obs.1: o art. 298 não tem majorante no caso do agente ser funcionário público. Assim, o fato de o
agente ser funcionário público não majora a pena. No entanto, o juiz pode fixar pena base mais severa
para este agente, em decorrência da maior reprovabilidade do comportamento.

Sujeito Passivo: o sujeito passivo primário é o Estado lesado no bem jurídico fé pública, já o secundário
é o terceiro
224
prejudicado com a falsificação.

5. Voluntariedade - dolo
O crime é punido a titulo de dolo, sem fim especial. Porém a depender da finalidade especial, outro
será o crime.

Pergunta: Se o agente falsifica documento público, mesmo por equiparação, imaginando tratar-se de
documento particular, qual a consequência jurídica?

Exemplo: Renato falsifica cheque do banco privado X, pensando tratar-se de documento particular.

Segundo Rogério Sanches, não caracteriza erro de tipo e nem erro de proibição, pois Renato conhece
a ilicitude de seu comportamento (valoração paralela na esfera do profano).

O caso retrata erro de subsunção (interpretação jurídica equivocada).

6. Consumação e Tentativa
Consuma-se o delito no momento em que ocorre a contrafação, total ou parcial, ou alteração do
documento particular. Dispensa o efetivo uso do documento falso.

Tratando-se de crime cuja conduta pode ser fracionada, é perfeitamente possível a tentativa.

7. Princípio da Especialidade
a) Art. 349 do Código Eleitoral

Art. 349. Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento particular
verdadeiro, para fins eleitorais:

Pena - reclusão até cinco anos e pagamento de 3 a 10 dias-multa.

b) Art. 311 do Código Penal Militar

Art. 311. Falsificar, no todo ou em parte, documento público ou particular, ou alterar documento
verdadeiro, desde que o fato atente contra a administração ou o serviço militar:

Pena - sendo documento público, reclusão, de dois a seis anos; sendo documento particular, reclusão,
até cinco anos.
c) Lei da Copa

Dispõe sobre as medidas relativas à Copa das Confederações FIFA 2013, à Copa do Mundo FIFA 2014
e à Jornada Mundial da Juventude -2013, que serão realizadas no Brasil): o art. 30 da Lei 12.663/12
pune com detenção de 3 meses a 1 ano ou multa reproduzir, imitar, falsificar ou modificar
indevidamente quaisquer Símbolos Oficiais de titularidade da FIFA. Trata-se de lei penal temporária
(art. 3° do CP), com vigência até 31 de dezembro de 2014, dependendo o início do processo de expressa
representação da FIFA.
225
Art. 30. Reproduzir, imitar, falsificar ou modificar indevidamente quaisquer Símbolos Oficiais de
titularidade da
FIFA:

Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano ou multa.

Art. 34. Nos crimes previstos neste Capítulo, somente se procede mediante representação da FIFA.

Art. 36. Os tipos penais previstos neste Capítulo terão vigência até o dia 31 de dezembro de 2014.
(Crime temporário).

Falsidade Ideológica

Art. 299 - Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer
inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar
a verdade sobre fato juridicamente relevante:

Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um a três anos, e multa, se o
documento é particular.

Parágrafo único - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do cargo, ou se a falsificação
ou alteração é de assentamento de registro civil, aumenta-se a pena de sexta parte.

A pena mínima é de 1 ano, trata-se de infração penal de médio potencial ofensivo, admite suspensão
condicional do processo.

O bem jurídico tutela permanece sendo a fé pública, porém preocupa-se com a ideia do documento e
não com a sua parte externa.

Arts. 297/298 do Código Penal Art. 299 do Código Penal

Falsidade material Falsidade ideológica


Envolve a forma do documento (sua parte Envolve o conteúdo do documento. Isso é, sua
exterior) ideia.

1. Sujeitos Sujeito ativo: crime comum.

Atenção! O crime pode ser praticado por qualquer pessoa que tenha o dever jurídico de declarar a
verdade.

E se o sujeito ativo for funcionário público? Se funcionário público, prevalecendo-se do cargo, incide
a majorante do parágrafo único e o crime, nessa hipótese, não mais admitirá a suspensão condicional
do processo.

Esquematizando: funcionário público prevalecendo-se do cargo

Art. 297 Art. 298 Art. 299

Configura Circunstância Configura


causa de judicial causa de
aumento de desfavorável aumento de
pena (§1º) – art. 59 do pena
Cód. Penal – (parágrafo
maior único)
reprovabilida
de do
comportament
o do agente.

Sujeito passivo:

- primário: Estado.

- secundário: eventual prejudicado.

2. Conduta
Pune-se quem omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele
inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar
direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.

Trata-se de crime de ação múltipla, que prevê cinco ações nucleares:

a. omitir declaração: o agente ao confeccionar o documento (público ou particular) deixa de mencionar


informação que nele deveria constar (crime omissivo puro);
Obs.1: é possível praticar o delito do art. 299 por omissão própria.

b. inserir declaração falsa: o agente introduz ideia falsa no documento (público ou particular) que redige;

c. inserir declaração diversa da que deveria ser escrita: o agente substitui o conteúdo verdadeiro por outro
que, embora contenha informações diversas, tem a mesma natureza;
d. fazer inserir declaração diversa da que devia constar: trata-se também de falsidade mediata, em que o
agente induz terceiro a substituir uma informação verdadeira por outra da mesma natureza.
e. fazer inserir declaração falsa: aqui a falsidade é mediata, pois o agente induz terceiro a inserir
informação falsa no documento (público ou particular). Aquele que foi induzido pelo agente somente
irá responder pela falsificação se tinha consciência do conteúdo inverídico da informação;
A falsidade ideológica também deve ser apta a iludir. Dispensa a perícia, pois a falsidade é intrínseca.

Obs.2: Temos jurisprudência no sentido de que não existe o crime quando a falsa ideia recai sobre
documento cujo conteúdo está sujeito a fiscalização da autoridade (tese para Defensoria). Nesse caso,
estaria patente a impossibilidade de lesão ao bem jurídico.

Obs.3: Abuso do papel em branco assinado? Depende da natureza da posse do documento.

Se o papel tiver sido confiado ao agente falsificador, é o art. 299 do CP. Porém, se o agente se
apossou a revelia do signatário (art. 297 ou 298, a depender se é documento público ou particular).

Súmula 387, STF: A cambial emitida ou aceita com omissões, ou em branco, pode ser completada pelo credor de
boa-fé antes da cobrança ou do protesto.

Obs.: De acordo com o STJ, o ato de firmar declaração de pobreza inverídica não constitui falsidade
ideológica, pois está sujeita a impugnação da parte contrária. Nesse sentido, o Info 546 do STJ.
Vejamos:

Segundo a jurisprudência do STJ, a conduta de apresentar, em juízo uma declaração de pobreza


ideologicamente falsa (com informações falsas em seu conteúdo), por si só, não caracteriza o crime do
art. 299 do CP considerando que essa “declaração de pobreza” ainda poderá ser impugnada pela outra
parte e será analisada pelo juiz, não se enquadrando, portanto, no conceito de documento para fins
penais.

6. Voluntaridade

O crime é punido à titulo de dolo, porém com dolo específico (especial). Só é crie quando o agente o
faz “com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre o fato juridicamente
relevante”.

7. Consumação e tentativa
Consuma-se com a prática de qualquer uma das ações nucleares, é crime formal. Ademais, o tipo
penal admite tentativa nas formas comissivas.

8. Majorantes de Pena
Parágrafo único - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do cargo, ou se a falsificação
ou alteração é de assentamento de registro civil, aumenta-se a pena de sexta parte.

a) Funcionário público prevalecendo-se da função;

b) Falsificação ou alteração de assentamento de registro civil;

Obs.1: Atenção para os tipos penais especializantes do art. 241 e 242 do Código Penal. Registro de

nascimento inexistente

Art. 241 - Promover no registro civil a inscrição de nascimento inexistente: Pena - reclusão, de dois a

seis anos.

Parto suposto. Supressão ou alteração de direito inerente ao estado civil de recém-nascido

Art. 242 - Dar parto alheio como próprio; registrar como seu o filho de outrem; ocultar recém-
nascido ou substituí- lo, suprimindo ou alterando direito inerente ao estado civil: (Redação dada pela
Lei nº 6.898, de 1981)

Pena - reclusão, de dois a seis anos. (Redação dada pela Lei nº 6.898, de 1981)

Parágrafo único - Se o crime é praticado por motivo de reconhecida nobreza: (Redação dada pela Lei
nº 6.898, de 1981)

Pena - detenção, de um a dois anos, podendo o juiz deixar de aplicar a pena.

9. Princípio da Especialidade

a) Código Penal x Lei n° 11.101105: pune-se, no art. 171 da Lei de Falências, com reclusão de dois a
quatros e multa, sonegar ou omitir informações ou prestar informações falsas no processo de falência,
de recuperação judicial ou de recuperação extrajudicial, com o fim de induzir a erro o juiz, o

Ministério Público, os credores, a assembleia-geral de credores, o Comitê ou o administrador judicial.


Rogério Sanches, Manual de Direito Penal Parte Especial, 2016).
b) Código Penal x Lei 9.605/98: o art. 66 da Lei 9.605/98 pune com 1 (um) a 3 (três) anos de reclusão
fazer o funcionário público afirmação falsa ou enganosa, omitir a verdade, sonegar informações ou
dados técnico-científicos em procedimentos de autorização ou de licenciamento ambiental. Rogério
Sanches, Manual de Direito Penal Parte Especial, 2016).
c) Código Penal x Lei 8.137/90: nos termos do art. 1° da Lei 8.137/90, constitui crime contra a
ordem229 tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante
as seguintes condutas: I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; II
- fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer
natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal. O art. 2°, I, da mesma Lei pune fazer
declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para
eximir-se, total ou parcialmente, de pagamento de tributo. Rogério Sanches, Manual de Direito Penal
Parte Especial, 2016).
d) Código Penal x Lei 7.492/86: o art. 9° da Lei 7.492/86 pune com reclusão de 1 (um) a 5 (cinco) anos
quem fraudar a fiscalização ou o investidor, inserindo ou fazendo inserir, em documento comprobatório
de investimento em títulos ou valores mobiliários, declaração falsa ou diversa da que dele deveria
constar. Rogério Sanches, Manual de Direito Penal Parte Especial, 2016).
e) Código Penal x Código Eleitoral: é crime previsto no art. 350 do Código Eleitoral: "Omitir, em
documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir
declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, para fins eleitorais: Pena- reclusão até 5 (cinco)
anos e pagamento de 5 (cinco) a 15 (quinze) dias-multa, se o documento é público, e reclusão até três
anos e pagamento de 3 (três) a 1 O (dez) dias-multa se o documento é particular. Parágrafo único. Se o
agente da falsidade documental é funcionário público e comete o crime prevalecendo-se do cargo ou
se a falsificação ou alteração é de assentamentos de registro civil, a pena é agravada.". Rogério Sanches,
Manual de Direito Penal Parte Especial, 2016).
f) Código Penal x Código Penal Militar: o art. 312 do Decreto-lei 1.001/69 pune a falsidade ideológica,
que atente contra a administração ou o serviço militar, praticada na forma do art. 9° daquele diploma.
(Rogério Sanches, Manual de Direito Penal Parte Especial, 2016).

Inserir informação falsa em currículo Lattes não configura crime de falsidade ideológica
230

Não é típica a conduta de inserir, em currículo Lattes, dado que não condiz com a realidade. Isso não configura
falsidade ideológica (art. 299 do CP). STJ. 6ª Turma. RHC 81.451-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura,
#Momento Dizer o Direito
julgado em 22/8/2017 (Info 610).
Imagine a seguinte situação adaptada:
João é professor de uma Universidade Federal. Ele inseriu seu currículo pessoal na plataforma digital Lattes, mantida
pelo CNPq. Ocorre que João colocou que seu regime de trabalho na Universidade era de 40 horas semanais, quando,2
na verdade, era de apenas 20 horas. Essa inexatidão foi descoberta e João foi denunciado, pelo MPF, pela prática do

crime de falsidade ideológica, delito previsto no art. 299 do Código Penal:

Art. 299. Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir
ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito,
criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante: Pena - reclusão, de um a cinco
anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um a três anos, e multa, se o documento é
particular.
Parágrafo único - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do cargo, ou se
a falsificação ou alteração é de assentamento de registro civil, aumenta-se a pena de sexta parte.

A denúncia narrou o seguinte:


“Conforme restou demonstrado nos autos, JOÃO, de forma livre e consciente, inseriu dados falsos na
plataforma Lattes (sistema informático da CAPES), com o objetivo de obter uma melhor avaliação do
curso de mestrado da Universidade Federal do XXX, do qual seria o coordenador. No dia 22 de
fevereiro de 2010, o denunciado inseriu na plataforma mencionada informação inverídica, afirmando
que trabalhava como Professor Adjunto Efetivo da XXX num regime de 40 horas semanais, quando,
na verdade, seriam 20 horas.
As informações lançadas na plataforma Lattes têm relevância no sentido de subsidiarem a atuação do
CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico no que diz respeito
especialmente à avaliação de cursos que podem se beneficiar dos recursos de programas desenvolvidos
pela autarquia.
Ao inserir na plataforma informações não condizentes com a verdade no que concerne à carga horária
que cumpria como professor da XXX, o denunciado pretendeu ludibriar o CNPq nas avaliações trienais
sobre o Programa de Pós- Graduação da universidade.
Assim agindo, JOÃO praticou o delito previsto no art. 299 do Código Penal.”

O STJ concordou com a tese do MPF? A conduta narrada configura crime?


NÃO.
231

Não é típica a conduta de inserir, em currículo Lattes, dado que não condiz com a realidade.
Isso não configura falsidade ideológica (art. 299 do CP).
STJ. 6ª Turma. RHC 81.451-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 22/8/2017 (Info 610).

Plataforma Lattes não é considerada documento

Conforme vimos acima, o crime de falsidade ideológica consiste em “omitir, em documento


público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração
falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a
2
verdade sobre fato juridicamente relevante”.

Na situação narrada envolvendo João, não há o objeto material do tipo. Isso porque não há
“documento” no qual tenha sido inserida declaração falsa.
A plataforma Lattes, como se sabe, é virtual e nela o usuário, após colocar seu "login" e senha, insere as
informações desejadas. Não se trata, portanto, de um escrito palpável, ou seja, um papel do mundo real,
mas sim de uma página em um sítio eletrônico.

Para que seja documento eletrônico, é necessária assinatura digital


Embora possa existir "documento eletrônico", não está ele presente no caso concreto. Isso porque
somente pode ser considerado “documento eletrônico” aquele que consta em site que possa ter sua
autenticidade aferida por assinatura digital. Nesse sentido, a MP 2.200-2/2001, que instituiu a
Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil), dispõe no seu art. 1º:
Art. 1º Fica instituída a Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil, para garantir a
autenticidade, a integridade e a validade jurídica de documentos em forma eletrônica, das aplicações
de suporte e das aplicações habilitadas que utilizem certificados digitais, bem como a realização de
transações eletrônicas seguras.

No Brasil, a infraestrutura de chaves públicas é de responsabilidade de uma Autarquia Federal, o ITI -


Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, ligado à Presidência da República.
Para que pudesse ser considerado documento eletrônico, a plataforma Lattes teria que ter a sua validade
jurídica atestada por meio da assinatura digital.
Logo, não se pode ter como documento o currículo inserido na plataforma virtual do Lattes do CNPq,
porque desprovido de assinatura digital e, portanto, sem validade jurídica.

Currículo Lattes é passível de averiguação e, portanto, não é objeto material de falsidade


ideológica
O STJ foi além e disse o seguinte: ainda que o currículo Lattes pudesse ser considerado um documento
digital válido para fins penais, mesmo assim não teria havido crime. Isso porque, como qualquer
currículo, seja clássico (papel escrito) ou digital, o currículo Lattes é passível de averiguação, ou seja,
as informações nele contidas deverão ser
objeto de aferição por quem nelas tenha interesse.
Quando o documento é passível de averiguação, o STJ entende que não há crime de falsidade
ideológica, mesmo que o agente tenha inserido nele informações falsas. Nesse sentido:
(...) Já se sedimentou na doutrina e na jurisprudência o entendimento de que a petição apresentada em
Juízo não
caracteriza documento para fins penais, uma vez que não é capaz de produzir prova por si mesma, dependendo de
outras verificações para que sua fidelidade seja atestada. (...)
STJ. 5ª Turma. RHC 70.596/MS, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 01/09/2016. 2

(...) somente se configura o crime de falsidade ideológica se a declaração prestada não estiver sujeita a
confirmação pela parte interessada, gozando, portanto, de presunção absoluta de veracidade. (...) STJ.
6ª Turma. RHC 46.569/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 28/04/2015.

É a opinião também da doutrina:


"(...) havendo necessidade de comprovação - objetiva e concomitante -, pela autoridade, da
autenticidade da declaração, não se configura o crime, caso ela seja falsa ou, de algum modo, dissociada
da realidade." (NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 13ª ed., São Paulo: RT, 2013,
p. 1.138)

Falsa Identidade

Art. 307 - Atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou
para causar dano a outrem:

Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa, se o fato não constitui elemento de crime mais grave.

Trata-se de infração de menor potencial ofensivo, sendo da competência do JECRIM (Lei nº 9.099). Só
será aplicado o delito do art. 307 se o fato não constituir crime mais grave.

1. Bem jurídico tutelado


Tutela-se a fé pública no que diz respeito à identidade das pessoas (individualidade apresentada por
cada um).

2. Sujeitos
Qualquer pessoa pode praticar o delito em estudo.

Sujeito passivo será o Estado e, secundariamente, eventual lesado pela ação criminosa.

3. Conduta
Segundo Rogério Sanches, a conduta delituosa consiste em atribuir-se (imputar-se) ou atribuir a
terceiro, falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou para causar dano a
outrem Assim, haverá o crime
quando o agente, por escrito ou verbalmente: a) se faz passar por terceira pessoa, existente ou fictícia;
h) faz com que terceiro se passe por outro indivíduo, real ou não.

Obs.1: Da simples leitura do verbo nuclear (atribuir), conclui-se que o crime é comissivo (praticado
por ação), não ocorrendo na hipótese em que o agente silencia acerca da identidade equivocada que
lhe atribuem.

O que se entende por identidade?

1ª Corrente: Identidade é o conjunto de características peculiares de uma pessoa determinada, que


permite233 reconhecê-la e individualizá-la, envolvendo o nome, a idade, o estado civil, a filiação, o
sexo, entre outros dados.

2ª Corrente: A falsa identidade reúne os elementos que possam induzir ao erro sobre a pessoa física, e
não sobre seu estado ou suas qualidades. Quem alega, pois, um estado civil diverso, ou qualidades que
não tem, não cometerá o questionado delito, se não se inculcar como pessoa diversa ou não atribuir a
outrem falsa personalidade.

Prevalece a 1ª corrente.

Se o agente se irroga falsa identidade para afastar de si a responsabilidade por eventual prática
criminosa, comete o crime do art. 307 do CP? A questão atualmente encontra-se pacificada,
inclusive, sumulado.

Nesse sentido, a Súmula 522 do STJ.

O princípio constitucional da autodefesa (art. 5º, inciso LXIII, da CF/88) não alcança aquele que atribui
falsa identidade perante autoridade policial com o intento de ocultar maus antecedentes, sendo,
portanto, típica a conduta praticada pelo agente (art. 307 do CP). O tema possui densidade
constitucional e extrapola os limites subjetivos das partes. STF. Plenário. RE 640139 RG, Rel. Min.
Dias Toffoli, julgado em 22/09/2011.

Corroborando ao exposto ainda, o Info 533 do STJ.


4. Voluntariedade
Dolo + o fim de obter vantagem de qualquer natureza.

5. Consumação e Tentativa
A consumação ocorre no momento em que o agente atribui a si ou a terceiro a identidade falsa, ainda
que a vantagem visada não seja alcançada, trata-se de crime formal. Por fim, a tentativa é possível.

6. Principio da
2
Especialidade 3
4
Código Penal x Lei de Contravenções Penais: o art. 45 da Lei de Contravenções Penais pune com
prisão simples de 1 a 3 meses ou multa fingir-se funcionário público. O art. 46 da mesma lei pune
com multa usar, publicamente, de uniforme ou distintivo de função pública que não exercer; usar,
indevidamente, de sinal, distintivo ou denominação cujo emprego seja regulado por lei.

Adulteração de sinal identificador de veículo automotor

Art. 311 - Adulterar ou remarcar número de chassi ou qualquer sinal identificador de veículo automotor, de seu
componente ou equipamento:

Pena - reclusão, de três a seis anos, e multa.

§ 1º - Se o agente comete o crime no exercício da função pública ou em razão dela, a pena é aumentada de um terço.
(Incluído pela Lei nº 9.426, de 1996)

§ 2º - Incorre nas mesmas penas o funcionário público que contribui para o licenciamento ou registro do veículo
remarcado ou adulterado, fornecendo indevidamente material ou informação oficial.

Em que consiste o crime?

 O agente
 Adultera (modifica) ou
 Remarca (coloca uma nova marca)
 O número de chassi (numeração que fica sobre a estrutura de aço da carroceria) ou
 Qualquer sinal identificador do veículo automotor (ex: placas),
 Sinal identificador de um componente do veículo (ex: sinal identificador que esteja no vidro, no
motor) ou
 Sinal identificador de um equipamento do veículo (ex: sinal identificador que esteja no para-choque
de um veículo).
Bem jurídico

O tipo penal tem por objetivo proteger a autenticidade dos sinais que identificam os veículos
automotores (esse é um dos aspectos relacionados com a “fé pública”).
A norma contida no art. 311 do Código Penal busca resguardar a autenticidade dos sinais identificadores
dos veículos automotores, sendo, pois, típica a simples conduta de alterar, com fita adesiva, a placa do
automóvel, ainda que não caracterizada a finalidade específica de fraudar a fé pública. STJ, 5ª Turma,
AgRg no REsp 1327888SP.

Veículo automotor

A definição do que seja veículo automotor é dada pelo CTB e representa “todo veículo a motor de
propulsão que circule por seus próprios meios, e que serve normalmente para o transporte viário de
pessoas e coisas, ou para a
235
tração viária de veículos utilizados para o transporte de pessoas e coisas. O termo compreende os
veículos conectados
a uma linha elétrica e que não circulam sobre trilhos (ônibus elétrico).” Vejamos o Info 715 do STF.

Fraudes em certames de interesse público

Art. 311-A. Utilizar ou divulgar, indevidamente, com o fim de beneficiar a si ou a outrem, ou de


comprometer a credibilidade do certame, conteúdo sigiloso de: (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

I - concurso público; (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

II - avaliação ou exame públicos; (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

III - processo seletivo para ingresso no ensino superior; ou (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

IV - exame ou processo seletivo previstos em lei: (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

§ 1o Nas mesmas penas incorre quem permite ou facilita, por qualquer meio, o acesso de pessoas não
autorizadas às informações mencionadas no caput. (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

§ 2o Se da ação ou omissão resulta dano à administração pública: (Incluído pela Lei 12.550. de
2011)

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa. (Incluído pela Lei 12.550. de 2011)

§ 3o Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) se o fato é cometido por funcionário público.

1. Bem jurídico tutelado


O novo tipo penal incluído ela Lei 12.550 de 2011 foi inserido no Título X, que trata dos “crimes contra
a fé pública”. Desse modo, segundo a posição topográfica, o bem jurídico protegido é a fé pública.
Apesar disso, quando o certame for promovido pelo Poder Público, tenho que o bem jurídico protegido
será também a própria Administração Pública.

2. Sujeitos
a) Sujeito ativo: qualquer pessoa (crime comum). O conteúdo sigiloso, a que se refere o caput do
dispositivo, não precisa ter sido obtido por pessoa com características especiais.
236
Vale ressaltar, no entanto, que se o fato é cometido por funcionário público a pena é aumentada de
1/3 (um terço),
conforme previsto no § 3º do art. 311-A do CP:

§ 3º Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) se o fato é cometido por funcionário público.

Cumpre recordamos que se equipara a funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função em
entidade paraestatal, e quem trabalha para empresa prestadora de serviço contratada ou conveniada
para a execução de atividade típica da Administração Pública (§ 1º do art. 327 do CP).

b) Sujeito passivo: a coletividade. Secundariamente, tem-se que também são vítimas:

b.1) o ente público ou privado que deflagrou o certame (exs: União, Estado, Município, a
entidade privada, como o SEBRAE, SESI, a universidade
privada, entre outros);
b.2) os demais candidatos prejudicados pela conduta do agente.

3. Conduta

Segundo Rogério Sanches, é punida a conduta de quem utiliza (emprega, aplica) ou divulga (efeito de
tornar público, propagar), indevidamente (sem justo motivo), com o fim de beneficiar a si ou a outrem,
ou de comprometer a credibilidade do certame, conteúdo sigiloso (abrangendo não apenas as perguntas
e respostas, mas também outros dados secretos que, se utilizados indevidamente, geram desigualdade
na disputa) de:

a) Concurso público (instrumento de acesso a cargos e empregos públicos);


b) Avaliação ou exame públicos (qualquer espécie de avaliação do conhecimento promovida pela
Administração Pública ou entidade conveniada, abrangendo, por exemplo, o exame escrito no processo
de habilitação de motorista);
c) Processo seletivo para ingresso no ensino superior (englobando vestibulares e demais formas de
avaliação seletiva para ingresso no ensino superior, como, por exemplo, a prova do ENEM);
d) Exame ou processo seletivo previstos em lei (compreendendo, por. exemplo, o exame da OAB, previsto
na Lei 8.906/94).

Obs.1: Antes da novel Lei, a "cola eletrônica" (utilização de aparelho transmissor e receptor em prova),
uma das formas mais corriqueiras de fraudar os certames de interesse público, foi julgada atípica pelos
Tribunais Superiores (Rogério Sanches).

4. Tipo Objetivo

 Utilizar: está empregado no sentido genérico de “fazer uso”.


 Divulgar: significa “tornar público ou conhecido”, ainda que apenas para uma única pessoa, um

conteúdo237 que ostenta o caráter de sigiloso.


 Indevidamente: isto é, fora das hipóteses permitidas por lei, edital, contrato ou demais regras
inerentes ao certame.
 Com o fim de beneficiar a si ou a outrem, ou de comprometer a credibilidade do certame: trata-se de
um especial fim de agir (o que a doutrina clássica denomina de dolo específico).
 Conteúdo sigiloso: é aquele conhecido por poucos e que não pode ser revelado.
Não há uma lei ou outro ato normativo que defina o que seja sigiloso, não sendo o tipo em comento
uma norma penal em branco.

Desse modo, “conteúdo sigiloso” é um elemento normativo do tipo, ou seja, depende de um juízo de
valor a ser feito pelo magistrado, no caso concreto. O conteúdo sigiloso de um concurso ou seleção
envolve não apenas as perguntas e repostas das provas a serem aplicadas, podendo abranger toda e
qualquer informação que não seja de conhecimento público e que, se divulgada, tenha potencial para
beneficiar alguém ou comprometer a credibilidade do certame.

Assim, configura o crime em estudo a conduta de divulgar, antes das provas, de forma não pública, isto
é, para uma ou algumas pessoas, a quantidade de questões que serão cobradas por disciplina, os nomes
dos examinadores, a abordagem metodológica que prevalecerá na prova (doutrina, jurisprudência ou
texto de lei), enfim, informações que beneficiem, ainda que em tese, determinados candidatos, por
gerarem tratamento diferenciado.

A pedra de toque, portanto, é o resguardo ao princípio da impessoalidade, no seu sentido de igualdade,


ou seja, não se permite que determinados candidatos tenham informações privilegiadas (não acessíveis
a todos indistintamente).

Obs.1: Não importa o meio pelo qual o agente tenha obtido a informação de conteúdo sigiloso:
como dito, o crime é comum, de sorte que não se exige que o sujeito ativo seja funcionário da
Instituição organizadora do concurso, da empresa promotora da seleção etc.
4.1 Espécies de certame: o tipo penal trata da fraude em quatro espécies de certame, que não se
constituem em meros sinônimos, possuindo, cada um deles, sentido
próprio.

a) Concurso público: consiste no procedimento administrativo utilizado pela Administração Pública


para selecionar, por meio de provas ou de provas e títulos, os servidores, em sentido amplo, que irão
ocupar cargos ou empregos públicos. O conceito de concurso público é restrito, portanto, à
Administração Pública.
b) Avaliação ou exame públicos: trata-se de um procedimento por intermédio do qual o Poder

Público, ou mesmo238 entidades privadas, por meio de provas, currículos ou outros instrumentos
impessoais de aferição do mérito, fazem
a seleção de pessoas para o desempenho de funções, para que tenham direito de acesso a cursos de
vagas limitadas ou para o gozo de outros benefícios decorrentes do êxito no certame. Aqui se
enquadram, por exemplo, i) os processos seletivos públicos para contratação de profissionais para o
SEBRAE; ii) as seleções para ingresso nos colégios militares e nas escolas técnicas; iii) o exame
público de habilitação na função de agente da propriedade industrial do INPI; iv) o exame público de
qualificação de Mestrados e Doutorados; v) seleção de candidatos à residência médica ou odontológica.

c) Processo seletivo para ingresso no ensino superior: além do tradicional vestibular, existem outras
formas de processo seletivo para ingresso no ensino superior, como é o caso das avaliações seriadas
(que englobam provas em todos os anos do ensino médio) e do Exame Nacional do Ensino Médio
(ENEM).

d) Exame ou processo seletivo previstos em lei: nesse inciso podem ser incluídos, por exemplo, o
exame da ordem (art. 8º, IV, da Lei 8.906/94) ou o processo seletivo simplificado para contratação por
tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público (art. 3º, da

FONTE: CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Comentários ao novo art. 311-A do CP - Fraude em certames de
interesse público. Portal Dizer o Direito. Disponível em:
<http://www.dizerodireito.com.br/2011/12/comentarios-ao-novo-art-311-do-cp.html>. Acesso em:
27.12.2016.
Lei 8.745/93).

5. Voluntariedade
É o dolo, consistente na vontade de praticar uma das condutas previstas no tipo, com o fim de
beneficiar a si ou a outrem, ou de comprometer a credibilidade do certame. Não há previsão da
modalidade culposa.

Na hipótese do§ 1°, basta o dolo, dispensando fim especial do agente. A modalidade culposa é
atípica.

6. Consumação e Tentativa

Consuma-se com a simples prática dos núcleos (divulgar, utilizar, permitir ou facilitar o acesso ao
conteúdo sigiloso) dispensando a obtenção da vantagem particular buscada pelo agente ou mesmo
eventual dano à credibilidade do certame (crime formal ou de consumação antecipada). Aliás, se da
ação ou omissão resulta dano (material ou não) à administração pública, o crime será qualificado, com
pena de 2 a 6 anos de reclusão, e multa.

A tentativa é admissível, por exemplo, no esquema da “cola eletrônica”, o especialista que respondeu a
prova, digitou todas as respostas no transmissor eletrônico, no entanto, por uma falha no aparelho, a
comunicação com o candidato
que ainda estava respondendo a prova não se concretizou. Frise-se, mais uma vez, que, se houve a
comunicação de239
uma única questão, o crime restou consumado.

7. Ação Penal
Segue a regra geral, assim, a ação penal será pública incondicionada.

8. “Cola Eletrônica”
Antes da novel Lei, a "cola eletrônica" (utilização de aparelho transmissor e receptor em prova), uma
das formas mais corriqueiras de fraudar os certames de interesse público, foi julgada atípica pelos
Tribunais Superiores (Rogério Sanches).

Nesse contexto, questiona-se:

 A “cola eletrônica” passou a ser incriminada com esse novo dispositivo?


Ficou conhecida como “cola eletrônica” o procedimento fraudulento utilizado por alguns candidatos que
respondiam as provas de vestibulares ou de concursos públicos com a ajuda de um “ponto eletrônico”
(como os de apresentadores de TV) ou com outras formas de comunicação escondida (celulares, p. ex.).
Uma ou algumas pessoas contratadas, especialistas nos temas do vestibular ou do concurso faziam a
prova e, já do lado de fora da sala, passavam as respostas corretas por meio dessas tecnologias ao
candidato mancomunado que, com tal auxílio, respondia a prova. Situação como essa relatada chegou
até o Supremo Tribunal Federal no Inquérito Policial 1.145/PB. Durante o julgamento, surgiram
duas teses entre os Ministros: para uns, a “cola eletrônica” seria estelionato; para outros, essa conduta
não atenderia aos requisitos do art. 171 do CP. Prevaleceu a segunda posição, isto é, entendeu- se que:
a) não seria estelionato porque não haveria obtenção de vantagem patrimonial (econômica); b) também
não seria falsidade ideológica porque as respostas dadas pelos candidatos, por mais que obtidas
fraudulentamente, corresponderiam à
realidade. Enfim, o STF entendeu que a conduta descrita nos autos como “cola eletrônica” era
atípica e que não haveria nenhum tipo penal no direito brasileiro
incriminandoesse procedimento. (Inq 1145, Relator(a): Min. Maurício Corrêa, Tribunal
Pleno, julgado em 19/12/2006, DJe-060 DIVULG 03-04- 2008).

Com a previsão do art. 311-A do CP, não tenho dúvidas de que a “cola eletrônica” passou a ser
criminalizada. O especialista contratado que faz o vestibular ou o concurso e, antes de terminar o
prazo de duração das provas, transmite, por meio eletrônico, as respostas corretas ao candidato que se
encontra fazendo ainda a prova pratica a conduta de divulgar, indevidamente, com o fim de beneficiar
a outrem, conteúdo sigiloso do certame. Por outro lado, quem recebe os dados utiliza indevidamente o
conteúdo sigiloso com o fim de beneficiar-se, de sorte que é coautor.
Com efeito, antes de terminar o prazo de duração da prova, as respostas que um candidato deu são
sigilosas com relação aos demais candidatos que ainda se encontram fazendo a prova. Ao divulgá-las, a
pessoa pratica os elementos240 descritivos e normativos do tipo penal do art. 311-A do CP. Não há,
portanto, mais espaço para a alegação de atipicidade na prática da
chamada “cola eletrônica”.
Vale ressaltar, à obviedade, que a Lei 12.550/2011 somente pode ser aplicada aos fatos ocorridos
após 16/12/2011,
não podendo ter efeitos retroativos por representar novatio legis in pejus.

9. Suspensão condicional do processo


Se o acusado for denunciado pelo art. 311-A, caput ou § 1º, do CP, isto é, sem a incidência do § 2º,
terá direito à suspensão condicional do processo (art. 89 da Lei 9.099/95).

10. Inadmissibilidade de decretação da prisão preventiva


Se o acusado estiver indiciado ou for denunciado pela forma simples do delito do art. 311-A do CP,
não caberá a decretação de prisão preventiva, em virtude de a pena máxima ser inferior a 4 anos (art.
313, I, do CPP).

JÁ CAIU CESPE:

 TCE PA - Julgue o próximo item, de acordo com a jurisprudência e a legislação brasileira em vigor. A
conduta de atribuir-se falsa identidade perante autoridade policial é típica, ainda que em situação de
alegada autodefesa. Correto, conforme a súmula 522 do STJ.
 Polícia Científica PE 2016 - No que se refere aos crimes contra a fé pública, assinale a opção correta.
E) O agente que faz uso indevido de marcas, logotipos, siglas ou símbolos identificadores de órgãos
da administração pública comete crime de falsificação de selo ou sinal público. Fundamento: art. 293 do
Código Penal.

DIREITO PENAL – PARTE ESPECIAL


Conteúdo 07: Crimes Contra a Administração Pública

Os crimes contra a Administração Pública encontram-se previsto no Título XI do Código Penal: o


Capítulo I consagra os crimes praticados por funcionários públicos, são chamados de delitos
funcionais. Em sequência, o capítulo II contempla os crimes praticados contra a administração por
particulares. O capítulo III expõe os crimes contra a Administração da Justiça, e por fim, no capítulo
IV estão os crimes contra a ordem fiscal (crimes de241 responsabilidade fiscal).

1. Crimes contra a Administração Pública praticados por Funcionário Público (crimes funcionais)

Observações iniciais

Obs.1: Os crimes praticados contra a Administração Pública por funcionário público estão sujeitos a
extraterritorialidade incondicionada da lei penal (art. 7º, I, “c”, do Código Penal).

Obs.2: A progressão de regime nos crimes contra a Administração Pública está condicionada a
reparação do dano ou a devolução do produto do ilícito (art. 33, §4º do Código Penal).

Obs.3: Todo crime funcional corresponde a ato de improbidade. Porém, nem todo ato de improbidade
configura crime funcional.

Obs.4: Aplica-se o princípio da insignificância nos crimes contra a Administração Pública praticados
por funcionário público?

STF e STJ divergem em seu entendimento!

Para o STF, admite-se a aplicação do Princípio da Insignificância.

O STJ, por sua vez, divergindo compreende que não se aplica o princípio da insignificância.

Por outro lado, nos crimes praticados por particulares, STF e STJ admitem a aplicação do princípio
da insignificância.

Crimes Contra Administração Pública praticados por funcionário público

STF STJ

Admite NÃO admite

Crimes Contra Administração Pública praticados por particulares


STF e o STJ admitem o princípio da insignificância nos crimes praticado contra Administração
Pública por particulares
Assim:

O STF admite princípio da insignificância nos crimes funcionais.

O STJ não admite!

No STJ prevalece o entendimento de que não se aplica, em regra, o princípio da insignificância aos
crimes contra Administração Pública, ainda que o valor da lesão possa ser considerado ínfimo, uma
vez que a norma visa resguardar não apenas o aspecto patrimonial, mas, principalmente, a moral
administrativa.

Cuidado! Isso vale para os crimes funcionais, pois nos crimes praticados por particulares contra a
Administração Pública, tanto o STJ quanto o STF admitem a insignificância.

2. Crimes Funcionais – Espécies

Os delitos funcionais são divididos em duas espécies: próprios e impróprios.

Nos crimes funcionais próprios (puros ou propriamente ditos) faltando a qualidade de funcionário
público ao autor, o fato passa a ser tratado como um indiferente penal, não se subsumindo a nenhum
outro tipo incriminador – atipicidade absoluta, por exemplo, prevaricação.

Por outro lado, os crimes funcionais impróprios (impuros ou impropriamente ditos) desaparecendo a
qualidade de servidor do agente, desaparece também o crime funcional, operando-se, porém, a
desclassificação da conduta para outro delito, de natureza diversa – atipicidade relativa – peculato furto
(art. 312, §1º).

Esquematizando

Próprio Impróprio

Faltando a qualidade de Faltando a qualidade de


servidor, o fato passa a ser um servidor, o fato deixa de
insignificante penal. configurar crime funcional,
mas permanece como crime
comum.
Atipicidade Absoluta Atipicidade Relativa

3. Funcionário Público

O art. 327 realiza o que a doutrina denomina de interpretação autêntica.


Nos termos do art. 327 do Código Penal: Considera-se funcionário público, para os efeitos penais,
quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública.

- Funcionário público típico ou propriamente dito: quem exerce cargo público (estatutário), emprego
público (celetista) e quem exerce função publica, ainda que transitoriamente e sem remuneração, por
exemplo, jurados e mesários.

A função pública não pode ser confundida com encargo públicos


(múnus público).

Nas lições do Professor Rogério Sanches “não se pode confundir função pública com encargo
público (munus publicum), hipótese esta não abrangida pela expressão funcionário publico”.

Não se esqueça!

Não se pode confundir função pública com múnus público, isto é, os encargos públicos atribuídos por lei a
algumas pessoas, como tutores, curadores, administrador judicial, testamenteiro, depositário judicial, defensor
dativo e inventariantes judiciais, pois a condição de funcionário público não abarca quem detém múnus público.
(STF, RHC 8856/RS).

Atenção!

Os titulares de cartórios de notas e de registro são considerados servidores públicos para fins penais,
pois, por meio de concurso público, recebem a delegação do poder público para atuação na esfera
cartorária. Além disso, o art. 24 da Lei 8.935/94 estabelece que à responsabilidade criminal se aplicam,
no que couber, as disposições relativas aos crimes contra a Administração Pública. O mesmo não ocorre,
todavia, com os funcionários dos respectivos cartórios, que são contratados livremente e não ocupam
cargo público, ainda que se sujeitem, em certas aspectos, à legislação que regula a organização
judiciária.

- Funcionário Público atípico (ou por equiparação):

O §1º do art. 327 expõe que “equipara-se a funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função
em entidade paraestatal, e quem trabalha para empresa prestadora de serviço contratada ou
conveniada para a execução de atividade típica da Administração Pública”.

Desse modo, é também considerado funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função em
paraestatal, empresa conveniada, empresa contratada – para a execução de atividade típica da
Administração, por exemplo, concessionárias.
 Já caiu: A prova do MPE/PR - Promotor de Justiça de 2008, considerou correta a alternativa que
afirmava “a) considera-se equiparado a funcionário público para efeitos penais quem trabalha para
empresa prestadora de serviço contratada ou conveniada para a execução de atividade típica da

Administração Pública”.

4. Causa de Aumento

Nos termos do §2º do art. 327 do Código Penal, “A pena será aumentada da terça parte quando os autores
dos crimes previstos neste Capítulo forem ocupantes de cargos em comissão ou de função de direção
ou assessoramento de órgão da administração direta, sociedade de economia mista, empresa pública
ou fundação instituída pelo poder público”.

Esquematizando

Abrange quem exerce: De:

Cargo em comissão; Função Órgão da administração

de direção; Função de direta; Sociedade de

assessoramento. economia mista; Empresa

pública;

Fundação instituída pelo


poder público;

E as Autarquias?

Denota-se da análise do dispositivo legal que o legislador não fez menção as Autarquias.

As autarquias estão fora desse rol!


Nesse contexto indaga-se: seria possível a aplicação da causa de aumento na hipótese das Autarquia?
A resposta é negativa, não é possível, pois isso constituir-se-á em verdadeira analogia in malam partem,
vedada pelo Ordenamento Jurídico.

5. Crimes em Espécie

5.1 Peculato

Existem várias espécies de peculato: 245

a) peculato apropriação (art. 312, caput, 1ª parte, do Código Penal).

b) peculato desvio (art. 312, caput, 2ª parte, do Código Penal).

O peculato apropriação e o peculato desvio são espécies do peculato PRÓPRIO.

c) peculato furto (art. 312, §1º, do Código Penal), tratando-se de espécie de peculato IMPRÓPRIO.

d) peculato culposo (art. 312, §2º, do Código Penal).

No tocante ao peculato culposo, importante destacarmos que é o único tipo penal dos crimes contra a
administração praticado na modalidade culposa, todos os demais tipos exigem o elemento subjetivo
dolo.

Lembre-se!

Em regra, os crimes contra a Administração Pública são crimes dolosos. Só há um crime funcional culposo, que é o
peculato culposo.

e) peculato estelionato (art. 313, do Código Penal).

f) peculato eletrônico (art. 313, A e B do Código Penal).

- Peculato Apropriação e Peculato Desvio

Art. 312. Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular,
de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo em proveito próprio ou alheio:

Pena- reclusão, de 2 (dois) anos a 12 (doze) anos, e multa.

Trata-se de infração de MAIOR potencial ofensivo, não admite suspensão condicional do processo,
salvo se o crime for tentado, pois nesta hipótese incide a redução.

Sujeito Ativo

- Funcionário Público, no sentido amplo do art. 327 do Código Penal.


Trata-se o crime de peculato de crime próprio. Entende-se por crime próprio aquele em que é exigida
uma qualidade especial do agente.

Obs.1: Admite o concurso de pessoas estranhas aos quadros da Administração?

Apesar de ser crime próprio, o crime do art. 312 do Código Penal admite o concurso de pessoas, sendo
imprescindível, no entanto que a condição pessoal do autor ingresse na esfera de conhecimento do
concorrente particular.

Lembre-se!
O particular, para responder em concurso por crime funcional de peculato, deve conhecer a condição pessoal do
servidor, caso contrário, responderá por apropriação indébita.

Nesse sentido, imaginemos a seguinte situação hipotética: André, particular, auxilia o servidor em
crime de peculato. André responde por peculato? Depende.

Tem conhecimento da Desconhece a qualidade de


condição de Servidor Servidor
Se André conhece a qualidade Se André desconhece a
de servidor do agente o qual qualidade de servidor do
está auxiliando, será participe agente o qual esta auxiliando,
do crime de peculato. responderá por apropriação
indébita.

Nos termos do art. 30 do Código Penal, não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter
pessoal, SALVO quando elementares do crime. A condição de funcionário público é elementar do tipo,
logo, comunica-se ao seu participe.

Obs.: Diretor do Sindicato pode praticar peculato? Cuidado!

O art. 552 da CLT prevê que “os atos que importem em malversação ou dilapidação do patrimônio das
associações ou entidades sindicais ficam equiparados ao crime de peculato, julgado e punido na
conformidade da legislação penal”.

Conclusão: Apesar de seus diretores não serem considerados funcionários públicos, sequer por
equiparação, os atos por eles praticados ficam igualados ao peculato.

O STJ já se manifestou no sentido de que o art. 552 da CLT fora recepcionado pela CF.

Sujeito Passivo

a) Estado-Administração;

b) Se o bem apropriado ou desviado for de propriedade particular, o proprietário também será vítima.
Conduta

Peculato Apropriação

Na primeira parte – apropriação –, o agente apodera-se de dinheiro, valor ou qualquer outro bem
móvel que tem sob sua posse legítima, passando, arbitrariamente, a comportar-se como se dono fosse
(uti dominus).

 Apropriar-se o funcionário público. O funcionário público inverte o animus da posse, agindo


arbitrariamente como se dono fosse;
 De dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel. Desse modo, não abrange serviço público. Não
existe crime na apropriação de mão de obra;
 De que tem a posse (para a maioria, está abrangida a mera detenção – posição do STJ).
 Em razão do cargo.
Peculato Desvio

No peculato desvio, o funcionário dá destinação diversa à coisa em benefício próprio ou de outrem,


podendo o proveito ser material ou moral, auferido vantagem outra que não necessariamente a de
natureza econômica.

Voluntariedade

Pune-se a conduta dolosa, expressada pela vontade consciente do agente em transformar a posse da
coisa em domínio (peculato apropriação) ou desviá-la em proveito próprio ou de terceiro (peculato
desvio).

Obs.: E se houver intenção apenas de uso? “Peculato de Uso”

Tratando-se de coisa consumível, existe crime e ato de improbidade (art. 9º, IV, da Lei nº 8.429/92).

Por outro lado, tratando de coisa não consumível, o fato será atípico, mas permanece sendo ato de
improbidade.

Ressalta-se, porém que, no caso do Prefeito Municipal, existe crime, não importando se a coisa é
consumível ou não consumível, configurando o art. 1º, II, do Decreto Lei 201/67.

Lembre-se!

Se o agente é prefeito, haverá crime porque existe expressa previsão legal nesse sentido no art. 1º, II, do Decreto-
Lei n.º 201/67: Art. 1º São crimes de responsabilidade dos Prefeitos Municipal, sujeitos ao julgamento do Poder
Judiciário, independentemente do pronunciamento da Câmara dos Vereadores: II - utilizar-se, indevidamente, em
proveito próprio ou alheio, de bens, rendas ou serviços públicos.
248

Cumpre ainda, vermos com mais detalhes a explicação no quadro abaixo:

Consumação e Tentativa

O peculato apropria-se consuma-se no momento em que o funcionário público se apropria do dinheiro,


valor ou bem móvel de que tem a posse em razão do cargo, emprego ou função, dispondo do objeto
como se dono fosse.

Admite a tentativa.

O peculato desvio, por sua vez, consuma-se quando o agente altera o destino normal da coisa,
empregando-a em fins outros.

Admite a tentativa.
Peculato Furto

O peculato furto é espécie de peculato impróprio e encontra-se previsto ao teor do §1º do art. 312 do
Código Penal.

§1º. Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público, embora não tendo a posse do dinheiro, valor ou bem, o
subtrai, ou concorre para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo-se de facilidade de que lhe
proporciona a qualidade de funcionário público.

No peculato furto, o funcionário embora não tenha a posse do dinheiro, valor ou bem, o agente
subtrai, ou concorre249
para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe proporciona
a qualidade de funcionário.

Nesse sentido, é pressuposto do crime que o agente se valha, para galgar a subtração, de alguma
facilidade proporcionada pelo seu cargo, emprego ou função. Sem esse requisito, haverá apenas furto
(art. 155, do Código Penal).

Peculato Culposo

§2º. Se o funcionário público concorre culposamente para o crime de outrem.

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano.

Trata-se de único crime funcional culposo.

Refere-se a infração de menor potencial ofensivo, da competência do JECRIM (Lei nº. 9.099/95).

Obs.: haverá crime culposo se o agente público negligente concorre par a prática de delito não
funcional, como, por exemplo, um furto?

1ª Corrente: só configura peculato culposo quando o crime praticado por outrem for um peculato
doloso (peculato apropriação/desvio/furto).

2ª Corrente: configura peculato culposo quando presente crime praticado por outrem, mesmo que não

funcional. Prevalece a 1ª corrente.

Esquematizando

O que se entende por “crime de outrem”? Esse crime pode ser qualquer crime ou necessariamente
tem que ser uma das demais modalidades de peculato? Há duas correntes:

1ª Corrente 2ª Corrente
Numa interpretação topográfica, “crime de “Crime de outrem” abrange qualquer delito que
outrem” abrange somente o peculato doloso do viola a Administração Pública, direta ou
art. 312, caput e §1º, do CP. Para essa corrente, indiretamente, como, por exemplo, um furto.
por exemplo, se a negligência favoreceu um
furto, não haveria o peculato culposo.

Consumação e Tentativa

O crime de peculato culposo se consuma quando aperfeiçoado o crime de outrem, e não admite
tentativa.

A consumação se dá no momento em que o crime praticado por outrem se consuma. O crime

culposo é incompatível com o instituto da tentativa.

Reparação do dano e ação penal

§3º. No caso do parágrafo anterior (peculato culposo), a reparação do dano se precede à sentença irrecorrível,
extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a pena imposta.

Desse modo, no caso de peculato culposo – art. 312,3º - se houver reparação do dano até a sentença
irrecorrível teremos extinção da punibilidade; Se posterior a sentença irrecorrível, reduz de ½ a pena
imposta.

Esquematizando

Sentença irrecorrível

Antes da Sentença Depois da Sentença

Extinção da punibilidade Diminuição de pena

Informativos

a) Peculato Desvio
251

O STF entendeu que ficou configurado o crime de peculato-desvio, uma vez que o Município era mero
depositário dos recursos, que não eram receita pública, e deu destinação diversa a essa quantia.

A 2ª Turma do STF rejeitou a alegação de prática de peculato, uma vez que os recursos desviados foram
incorporados ao Tesouro estadual, não havendo utilização em proveito próprio ou alheio. O STF
reconheceu que a conduta da Secretária amolda-se, em tese, ao crime do art. 315 do CP (emprego
irregular de verbas ou rendas públicas).

5.2 Concussão

Art. 316. Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la,
mas em razão dela, vantagem indevida.

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.

Sujeitos do Crime Sujeito Ativo

O funcionário público, no exercício da função, ou ainda, o funcionário público fora da função, mas
em razão dela, por exemplo, funcionário de férias, suspenso, etc.

Por fim, cumpre observar que pode praticar ainda o crime de concussão o particular na iminência de
assumir a função pública, por exemplo, aguardando a data da posse.
Não se esqueça!

Trata-se de hipótese excepcional de o particular poder praticar esse crime sem estar associado a um funcionário
público. Nessa hipótese, o particular está na iminência de assumir a função pública, faltando apenas etapas
burocráticas (ex. faltando a data da posse, da diplomação, exames de rotina, etc).

Obs.1: Tratando-se de fiscal de rendas, o crime será o do art. 3º, II, da Lei 8.137/90 (crime funcional
contra a ordem tributária).

Obs.2: Tratando-se de militar, o crime será o do art. 305 do CPM (Competência da Justiça Militar).

Sujeito Passivo

Primário: Estado-Administração

Secundário: Pessoa constrangida pela ação do agente.

Conduta

A conduta típica consiste em exigir o agente, por interposta pessoa, explicita ou implicitamente,
vantagem indevida, abusando da sua autoridade pública como meio de coação.

1) Exigir o funcionário público (não se confunde com solicitar – mero pedido).

Exigir tem algo de coercitivo, intimidativo.

2) Para si ou para outrem;

3) Direta ou indiretamente;

4) Explicita ou implicitamente;

5) Vantagem indevida (de qualquer natureza, não necessariamente econômica);

Lembre-se!

A vantagem não precisa ser necessariamente uma vantagem econômica, desde que indevida.

6) Prevalecendo o agente da sua autoridade.

Deve o agente deter competência para a prática do mal prometido. Faltando-lhe poderes para tanto,
mesmo que servidor, outro será o crime (extorsão).

Voluntariedade

O delito é punido à titulo de dolo, acrescido do fim especial – buscar vantagem para si ou para
outrem.
Haverá o crime de concussão quando a indevida vantagem exigida é para a própria administração

pública? Ou seja, admite-se concussão exigindo vantagem em proveito da própria Administração

Pública?

Prevalece que sim, pois a moralidade administrativa é violada da mesma forma.

Exemplos da Jurisprudência nesse sentido: Um Delegado exigiu vantagem para reformar a


Delegacia; Uma juíza exigiu vantagem para informatizar o Juizado.

Consumação e Tentativa

O crime de concussão é crime formal, consumando-se com a mera exigência da vantagem indevida,
dispensando a obtenção da vantagem.

Caracteriza-se como um crime formal, consumando-se no momento da exigência.Admite a

tentativa na forma escrita (por exemplo, por meio de carta).

Momento do Flagrante

O momento consumativo do delito é o da exigência, sendo este o marco para fins de caracterização do
flagrante. A apreensão do indivíduo no momento do recebimento da quantia caracteriza flagrante ilegal,
pois esvaziado o estado de flagrância. (STF HC 72168).

INFORMATIVO 564, STJ

No crime de concussão, a situação de flagrante delito configura-se no momento da exigência da vantagem indevida
(e não no instante da entrega). Isso porque a concussão é crime formal que se consuma com a exigência da vantagem
indevida. Assim, a entrega da vantagem indevida representa mero exaurimento do crime que já se consumou
anteriormente.

Ex.: funcionário público exige, em razão da função, vantagem indevida da vítima; dois dias depois, quando a vítima
entrega a vantagem exigida, não há mais situação de flagrância considerando que o crime se consumou no momento
da exigência, ou seja, dois dias antes.

INFORMATIVO 722, STF


Em caso de condenação do réu por concussão, na dosimetria da pena o juiz pode (e deve) aumentar a pena-base
pelo fato de o réu ser policial. Para cometer o crime, basta ser funcionário público, mas o grau de reprovabilidade
do réu é maior, tendo em vista que se trata de policial, agente público responsável pelo combate à criminalidade.
Assim, não é possível nivelar a concussão de um funcionário público comum com a de um policial,
de um parlamentar, de um juiz etc. (Info 722).

INFORMATIVO 835, STF

Aumento da pena-base pelo fato de a concussão ter sido praticada por policial: É legítima a utilização da condição
pessoal de policial civil como circunstância judicial desfavorável para fins de exasperação da pena-base aplicada a
acusado pela prática de crime de concussão. 54 2
Aquele que está investido de parcela de autoridade pública – como é o caso de um juiz, um membro
do Ministério Público ou uma autoridade policial – deve ser avaliado, no desempenho de sua função,
com maior rigor do que as demais pessoas não ocupantes de tais cargos. (Info 835).

Desse modo, temos que o fato de o juiz aumentar a pena em razão de o réu ser policial não caracteriza
bis in idem. A condição de servidor público é elementar do tipo de concussão. No entanto, o fato de o
réu ser policial pode ser considerado negativamente no juízo de culpabilidade.

5.3 Corrupção Passiva

Art. 317. Solicitar ou receber para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes
mesmo de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar a promessa de tal vantagem.

Pena- reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

Trata-se de infração de maior potencial ofensivo, não se admitindo sequer a suspensão condicional do
processo, salvo se praticada na modalidade tentada (com a incidência da redução máxima).

No art. 317 do CP pune-se o corrupto, ao passo que o art. 333 do Código Penal pune o corruptor, trata-
se de exceção a teoria monista, pois os agentes responderão por tipos penais distintos.

Trata-se de exceção pluralista à teoria monista de que trata o art. 29 do CP. Isso porque o corruptor responderá pelo
art. 333 do CP e o corrupto pelo crime do art. 317 do CP.

Sujeitos Sujeito Ativo

- funcionário púbico, no exercício da função;

- funcionário público, fora da função, mas em razão dela (por exemplo, aprovado aguardando
apenas a data da posse).
Trata-se de caso excepcional de particular poder praticar crime funcional sozinho, ou seja, sem está em
assessorando um servidor.

Obs.1: Se o agente for fiscal de renda, o delito praticado é do art. 3º, II, da Lei n. 8.137/90. Obs.2: Se

o agente for militar, o crime é do art. 308 do Código Penal Militar.

Sujeito Passivo

Primário: Estado-Administração

Secundário: É a pessoa constrangida pelo agente público, desde que, é claro, não tenha praticado o
crime de corrupção ativa.

A corrupção passiva não pressupõe o corrupção ativa. Conduta

São três as condutas típicas do crime de concussão:

1. Solicitar;
2. Receber;
3. Aceitar Promessa
As referidas condutas acabam por enfocar a mercancia do agente com a função pública.

Art. 317 Art. 333

Corrupção Passiva Corrupção Ativa

Corrupto Corruptor

Solicitar DAR

Receber OFERECER

Aceitar Promessa PROMETER

O art. 333 do CP não pune a conduta de dar (pagamento da vantagem indevida solicitada). Assim é
possível plenamente que tenhamos o delito do art. 317, sem que isso configure necessariamente o do

Assim, temos que se o funcionário público solicita e o particular paga a vantagem indevida (dar), em virtude da
ausência de verbo correspondente no crime de corrupção ativa, somente restará configurada a corrupção passiva,
mas não a corrupção ativa, posição da doutrina majoritária.
art. 333 do CP.
Obs.: O art. 333 do Código Penal é uma corrupção ativa geral, porém o Ordenamento contempla formas
especiais de corrupção ativa (art. 344, CP; corrupção ativa no Código Eleitoral e no Estatuto do
Torcedor), e esses últimos pune a conduta dar a vantagem indevida solicitada, sendo a corrupção ativa
prevista no Código Penal a única que não prevê o núcleo “dar”.

É possível ainda a configuração do delito de corrupção ativa sem a corrupção passiva, por exemplo, se
não houver aceitação ou recebimento por parte do funcionário público diante do “oferecimento ou
promessa de vantagem
indevida” do corruptor, ocasião em que teremos apenas consumado o crime de corrupção

ativa. Corrupção passiva e classificações

Segundo Rogério Sanches, a corrupção passiva pode ser classificada em corrupção passiva
própria e imprópria.
Classifica-se como imprópria a corrupção que visa a prática de ato legítimo, e, como própria, a que
tiver finalidade a realização de ato injusto.

Corrupção Passiva Corrupção Passiva Própria


Imprópria
O funcionário público O funcionário público
negocia um ato devido negocia um ato indevido
(legítimo). (injusto).
Exemplo: Oficial de justiça Exemplo: Agente
solicita vantagem para penitenciário solicita
realizar citação. vantagem para favorecer
fuga de preso.

Se a vantagem ou recompensa é dada ou prometida em vista de uma ação, positiva ou negativa, futura,
a corrupção denomina-se antecedente; se é dada ou prometida por uma ação, positiva ou negativa, já
realizada, chama-se subsequente.

Antecedente Subsequente

Tem a pretensão de ação Tem a pretensão de uma


futura
vantagem por conduta já
realizada.
Agente penitenciário solicita Agente penitenciário solicita
vantagem para favorecer a vantagem por ter facilitado
fuga, que nesse caso é a fuga. Nessa segunda
futura. hipótese, a facilitação da
fuga já aconteceu.

Voluntariedade

A conduta é punida à titulo de dolo.

Momento da consumação: nas modalidades solicitar e aceitar promessa, é crime formal, consumando-
se ainda que a gratificação não se concretize. No verbo receber, por sua vez, o crime é material, exigindo
efetivo enriquecimento ilícito do agente.

Esquematizando

 Solicitar Crime Formal

 Aceitar promessa Crime Formal


 Receber Crime Material

A doutrina admite a tentativa na modalidade solicitar, quando praticado por escrito.

§1ºA pena é aumentada de 1/3, se, em consequência da vantagem ou promessa, o funcionário público retarda ou
deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcionar.

Trata-se de causa de aumento que considera da efetiva realização do ato comercializado pelo agente.

A causa de aumento é aplicável quando o funcionário público, em virtude da vantagem indevida


auferida, ainda afronta a dever funcional.

Obs.1: O que seria mero exaurimento do crime, passou a ser considerado causa de aumento de pena.
Aqui, o agente cumpre o prometido realizando a pretensão do corruptor.

Obs.2: Se a violação comercializada e praticada pelo agente público constitui, por si só, um novo crime,
haverá concurso material entre corrupção passiva e o novo crime, não incidindo o §1º do art. 317 do
CP, para evitar bis in idem.

Exemplo:

Servidor solicita dinheiro para facilitar fuga de preso. Ele solicitou dinheiro e nesse momento, o delito
do art. 317, do CP já está consumado.

Depois, o servidor efetivamente facilita a fuga: nesse caso, não se aumenta a pena do art. 317, do CP,
pois facilitar fuga configura o art. 351, do CP. Então, o agente responderá pelo art. 317, do CP c/c art.
351, do CP, na forma do art. 69, do CP. E não haverá a majoração do art. 317, do CP, para se evitar o

§2º Se o funcionário, pratica, deixa de praticar ou retarda ato de ofício, com infração do dever funcional, cedendo a
pedido ou influência de outrem:

Pena – de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.


bis in idem.

Trata-se de crime de menor potencial ofensivo, sendo da competência do JECRIM.

No §2º pune os famigerados favores administrativos. Nesta figura criminal, o agente, sem visar
satisfazer interesse próprio (auri sacra fomes), cede a pedido, pressão ou influência de outrem.

Rogério Sanches explica que NÃO há qualquer vantagem auferida pelo funcionário nesse caso, mas
sim mero pedido
ou influência para a prática dos verbos núcleos deste parágrafo. Este é o caso dos famigerados
favores administrativos. Pune-se o funcionário “quebra-galho”.
258
O sujeito desse crime não solicita, não recebe, nem aceita promessa de vantagem, mas cede diante de
pedido ou influência de outrem.

Qual a diferença entre a corrupção passiva privilegiada e crime de prevaricação?

Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de oficio, ou praticá-lo contra disposição expressa de
lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal.

Na corrupção passiva, o funcionário cede diante de um pedido ou influência de outrem. Não visa
interesse ou satisfação pessoal - o funcionário não quer vantagem pessoal, trata-se de favor
administrativo.

Por outro lado, na prevaricação, o funcionário que age sem influência ou pedido de outrem, buscando
satisfazer interesse ou sentimento pessoal.

Esquematizando

Art. 317, §2º Art. 319

O agente é provocado O agente age


diante de um pedido ou espontaneamente, não há pedido
influência de outrem. ou influencia.

O agente não busca O agente busca


satisfaze interesse ou satisfazer interesse ou
sentimento pessoal. sentimento pessoal.

1. Crimes contra a Administração da Justiça

6.1 Falso Testemunho e Falsa Perícia

Art. 342. Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade, como testemunha, perito, contador, tradutor ou
interprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral.

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.


259

Trata-se de infração penal de maior potencial ofensivo, não admite suspensão condicional do
processo, salvo, na
modalidade tentada.

O bem jurídico que busca-se tutelar é o prestígio da Justiça.

- Alteração da Pena

O legislador aproveitou a Lei 12.850/13 (Organização Criminosa) para alterar a pena do crime de falso
testemunho
e falsa perícia, antes punido com reclusão de 1 a 3 anos, agora com 2 a 4 anos (mudança, obviamente,
irretroativa),259
posto que a pena anterior sendo infração de menor potencial ofensivo, admitia os institutos
despenalizadores da Lei 9.099/95.

Obs.1: O tipo penal é crime próprio, além de crime de mão própria. Assim, além de exigir qualidade
especial do agente (crime próprio), o agente deve ser o executor direto.

Sujeitos do delito Sujeito ativo

Nesse sentido, Rogério Sanches ensina “estamos diante de um crime de mão própria (ou de atuação
pessoal ou conduta infungível), só podendo ser praticado por quem, reunindo qualidade especiais,
esteja em condições de realizar imediata e corporalmente a conduta típica dentro de um processo
judicial ou administrativo, inquérito policial ou juízo arbitral.

Dessa forma, autor imediato do delito do art. 342 do CP será somente testemunha, perito, contador,
tradutor e interprete.

Testemunha

Discute-se se a testemunha informante (não compromissada, arts. 206 e 207 do CPP pratica o crime
em questão):

1ª Corrente: pode praticar crime, pois a prestação do compromisso ao é elementar do tipo. Qualquer
pessoa que se dispuser a prestar depoimento na condição de testemunha, se faltar com a verdade, pratica
o crime do art. 342, CP. Ademais, inobstante não tenho o compromisso, o juiz não estará isento de ser
influenciado pelo seu depoimento.

2ª Corrente: se a lei não as submete ao compromisso de dizer a verdade, as testemunhas informantes


não podem cometer o crime do art. 342 do CP.

O informante (testemunha não compromissada) pratica falso testemunho?

Esquematizando
260

1ª corrente - sim, pois o art. 342 não pressupõe 2ª corrente - não, pois se a lei não as submete ao
prestação de compromisso. compromisso de dizer a verdade, não podem
cometer o delito de falso testemunho (doutrina
majoritária).
Outro argumento é que o informante pode
interferir na convicção do juiz; (STF)

Obs.1: A Vítima não sendo testemunha, não prática o crime do art. 342 do CP, podendo,
eventualmente, ser autora do crime de denunciação caluniosa (art. 339, CP)

O delito de Falso Testemunho e Falsa Perícia admite concurso de agentes?

Inicialmente, cumpre lembrarmos que nos crimes de mão própria, o tipo exige qualidade ou condição
especial do agente, só admitindo participação (induzindo, instigando ou auxiliando), não admitindo
co-autoria.

Assim, no que tange ao falso testemunho, possível se mostra o concurso de agentes, limitado, porém,
a participação (induzimento ou auxílio).

Obs.1: O STF, adotando a teoria do domínio do fato, admitiu coautoria do advogado que instrui
testemunha.

Assim, segundo o STJ e STF, o advogado que instrui a testemunha a mentir atua como coautor do
delito, sob a teoria do domínio do fato. (STF RHC 81327 e HC 75037 e STJ REsp 402.783/SP)

Já com relação à falsa perícia, parece clara a possibilidade do concurso de agentes, nas suas duas
modalidades (coautoria e participação), em especial nos laudos que exigem a subscrição de um
número plural de experts.

Sujeitos Sujeito Ativo

 Testemunha
 Tradutor
 Perito
 Contador
 Interprete Sujeito Passivo

Primário/imediato: Estado-Administração

Secundário: o indivíduo eventualmente prejudicado pelo falso testemunho e pela falsa perícia.
Conduta

Trata-se de crime de ação múltipla, que comporta as seguintes ações nucleares:

a) fazer afirmação falsa: o agente distorce a verdade com o intuito de beneficiar ou prejudicar
alguém. É a chamada falsidade positiva.

b) negar a verdade: o agente sabe a verdade real dos fatos, mas, quando indagado nega saber.

c) calar a verdade (reticência): diferentemente das condutas anteriores, aqui, o agente, sabendo da
verdade, não261
inventa e nem nega, apenas sobre ela se pronuncia.

Observação

A falta com a verdade pode decorrer, de um lado, de um defeito de percepção; de outro, da própria
intenção de enganar.

No primeiro caso (defeito de percepção), demonstrado que a afirmação falsa decorreu de erro ou
ignorância, estará afastada a voluntariedade da ação.

No segundo, porém – e aqui já se passa ao exame do elemento psíquico -, evidenciado que o agente
era conhecedor da existência de um fato que posteriormente omitiu ou deturpou ou da inexistência
daquilo que forjou, o dolo aparece configurado com nitidez.

Conclusão

A falsidade, portanto, não se extrai da comparação do depoimento da testemunha e a realidade dos


fatos, mas sim do contraste do depoimento da testemunha e a sua ciência.

Como expressamente enumerado no tipo, é imprescindível que a conduta do agente se dê em processo


judicial (penal ou civil, contencioso ou voluntário) ou administrativo (abrangendo o inquérito civil e,
de acordo com a maioria, a sindicância, RT 61/304), em inquérito policial ou em juízo arbitral.

Obs.1: Havendo o falso testemunho perante Comissão Parlamentar de Inquérito, a conduta é tipificada
de acordo com o disposto no art. 4°, II, da Lei 1.579/52, que a regulamenta.

Ocorre o crime quando a testemunha falta com a verdade a respeito da sua identidade?

1ª Corrente: a identidade (qualificação) da testemunha é formalidade substancial que influi no mérito


e valor que serão dados ao depoimento.

Exemplo: Mentiu informando que não era esposa do réu. Assim, a 1ª C entende caracterizar o crime
do art. 342 do Código Penal.
2ª Corrente: não se tratando de falsidade sobre fatos da causa, mas sobre a condição penal da
testemunha, temos apenas o crime do art. 307 do Código Penal.

Cuidado!

Ensina a maioria da doutrina que somente restará caracterizado o crime se a falsidade incidir sobre
episódio relevante, que possa influenciar no momento decisório, o que não significa que o falso se
caracteriza somente quando exerça influência sobre qualquer decisão.

Observação

Como corolário natural da autodefesa, decorre o princípio de que ninguém é obrigado a declarar a verdade se
assumir, com essa declaração, o risco de ser incriminado.

Trata-se de reação de autodefesa – que pode ser compreendida tanto como exercício regular de
direito ou inexigibilidade de conduta diversa.

Voluntariedade

O falso testemunho (ou falsa pericia) unicamente é punível se houver dolo.

Obs.: É fundamental a vontade consciente de fazer afirmação falsa, negar ou calar a verdade. O agente
deve ter plena consciência de que prática um dos núcleos do tipo, buscando abalar o curso normal do
procedimento em que presta depoimento.

Consumação e Tentativa

O falso testemunho (ou perícia) é delito formal ou de consumação antecipada, não exigindo para a sua
caracterização ato ou evento posterior.

Desse modo, consuma-se o delito no momento em que a testemunha, tradutor ou interprete termina
seu depoimento, lavrando sua assinatura.

No caso da perícia, testemunha, tradução, contagem ou interpretação por ESCRITO (parlamentares,


por exemplo, possuem a garantia de prestar depoimento por escrito), nesse caso, o delito consuma-se
no instante da entrega do documento a autoridade competente.

Observação

De acordo com a maioria, não desnatura a unidade do crime (crime permanece único), o fato de o agente prestar
dois depoimentos (ou duas perícias), uma no civil e outra no juízo criminal. Tal circunstância, no entanto, deve ser
considerada pelo juiz na fixação da pena.
Tentativa

É controversa a admissão da tentativa nos casos de falso testemunho.

Em regra, é inadmissível. O delito é unissubsistente. Porém, é possível a tentativa no falso


testemunho prestado por escrito, caso em que o crime passa a ser plurissubsistente.

Cuidado!

1) O falso testemunho se consuma no local em que foi prestado o depoimento. Em carta precatória, o
crime se263 consuma no juízo deprecado (ou seja, no juízo em que foi ouvido a testemunha mentir).

Excepcionando a regra de competência do art. 70 do CPP, o STJ decidiu que é competente para o
julgamento o local do juízo deprecante, isso porque é nele que a prova vai ser analisada, podendo
influenciar no julgamento.

2) Sendo o falso testemunho ou a falsa perícia praticado em reclamação trabalhista, o processo e


julgamento do crime do art. 342 do CP é da Justiça Federal Comum.

Majorantes da Pena

A pena do falso testemunho será majorada e um sexto a um terço quando o agente age mediante suborno
ou com a finalidade especial de obter prova destinada a produzir efeito em processo penal ou em
processo civil em que for parte da entidade administração pública direta ou indireta (§1º).

Obs.: A pena do falso seja majorada: 1º. Caso de suborno;

2º. Obter prova destinada a produzir efeito: a) processo penal; b) processo civil em que for parte
entidade da administração pública direta ou indireta).

Obs.1: Abrange inquérito policial. Extinção da Punibilidade

O §2º prevê extinção de punibilidade nas hipóteses em que o agente se retrata do conteúdo declarado antes de
proferida a sentença.

A natureza jurídica deste instituto é causa de extinção de punibilidade.

Retratação extintiva da punibilidade.

Retratar-se não significa confessar (por exemplo, pratiquei falso testemunho), mas escusar-se, retirar
do mundo o que afirmou, retroceder na mentira, revelar o que ocultou.
A retratação só extingue a punibilidade se ocorrida antes da prolação da sentença.

Obs.1: A retratação pode ser feita nos próprios autos do feito que abriga a mentira ou fora dele, mas
sempre ANTES DE PROLATADA sentença no processo do falso.

Obs.2: Em processo de competência do Júri, é possível retratação extintiva da punibilidade mesmo


após a decisão de pronúncia, desde que anterior a sentença de mérito.

Atenção!

A retratação formulada pelo autor deve comunicar-se aos partícipes do delito, pois o artigo não diz
que “o agente deixa de ser punível”, mas sim que “o fato deixa de ser punível”, não subsistindo,
portanto, o crime para os partícipes.

 O partícipe também se beneficia da retratação que extingue a punibilidade, pois o dispositivo


afirma que o “fatodeixa de ser punível” e não o agente.

Ação Penal

O crime é de ação penal pública incondicionada.

Em que pese ficar esta ação norteada pelos princípios da obrigatoriedade e indisponibilidade,
encontramos decisões várias não admitindo o início inquérito policial ou ação penal contra a
testemunha (ou perito) mendaz enquanto não ultimado o processo em que o depoimento tachado de
falso foi prestado, fundamentando, em síntese, na possibilidade de retratação.

Não é o que prevalece, pois a retratação é causa resolutiva e não suspensiva.