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R[VI£TA-riEri2Ab

DC»ARJC»E-
CUbTURA-

dsm^.
MANIFESTO DO GRUPO VERDE
DE C A T A G U A Z E S
Este manifesto não é uma explicação. Uma ex- A falta de publicações, casas editoras e dinhei-
aplicação nossa não seria compreeendida pelos criti- ro—tinha feK^jcom que ficássemos á espera do mo-
ticos da terra, pelos innumeraveis conselheiros b. b. mento propiíãfc para apparecer.
que dogmatizam empoleirados nas columnas preten- Mas VERDE sahiu. VERDE venceu. Podemos dar
sas importantes dos jornaes mirins do interior. E seria pancadas ou tomar. Não esperamos applausos ou va-
inútil para os que já nos compreenderam e estão nos ias publicas, porque aquillo que provoca verdadeiro
apoiando. escândalo põe o brasileiro indifferente, na apparen-
Nem é uma limitação dos nossos fins e proces- cia... com medo ou com vergonha de entrar no ba-
sos, porque o moderno é innumeravel. rulho.
Mas é uma limitação entre o que temos feito e o Sim. Não esperamos applausos eu vaias pu-
monte do que os outros fizeram. blicas. Os applausos de certos públicos envergonham
Uma separação entre nós e a rabada dos nos- a quem os recebe, porque nivelam a obra applau-
sos adesistas de ultima hora, cuja adesão é um des- dida com aquelles que o compreenderam.
conforto. ' Não fica atraz a vaia. A vaia é as vezes ain-
Pretendemos também focalisar a linha divisória da uma simulada expressão de reconhecimento de va-
que nos põe do lado oposto ao outro lado dos demais lores . . .
modernistas brasileiros e extrangeiros. Porisso preferimos a indifferença. Esta será a
Nós não sóffremos a influencia directa extran- mais bella homenagem que nos prestarão os que não
geira. Todos nós fizemos questão de esquecer o no* compreendem. Porque atacar VERDE? Somos
francês. o que queremos ser e não o que os outros querem
Mas não pense ninguém que pretendemos dizer que sejamos. Isto parece complicado, mas é simples.
que somos—os daqui—todos iguaes. Exemplo: os outros querem que escrevamos
Somos differentes. Diversissimos até. Mais mui- sonetos líricos e acrosticos portuguezes com nomes
to mais differentes do pessoai das casas visinhas. e sobrenomes.
Nossa situação topographica faz com que te- Nós preferimos deixar o soneto na sua cova,
nhamos, é facto, uma visão semelhante do conjucto com os seus quatorze cyprestes importados, e can-
brasileiro e americano e da hora que passou, passa e tar simplesmente a terra brasileira. Não gostam?
que está para passar. Pouco importa.
Dahi a união do grupo "VERDE". Sem prejuiso, O que importa, de verdade, é a gloria de VER-
entretanto, da liberdade pessoal, processos e iiodo DE, a victoria de VERDE. Esta já ganhou terreno
de cada um de nós. nas mais cultas cidades do paiz.
Um dos muitos particulares característicos do Considera-nos, a grande imprensa, os únicos
nosso grupo 6 o objectivismo. literatos que teem coragem inaudita de manter uma
Todos somos objectivistas quasi. Explicação? revistr. moderna no Brasil, emquanto o publico de
Não precisa. Basta mettei' a mão na cabeça, pensar, nossa terra, o respeitável publico, nos têm em conta
comparar e... concordar. de uns simples malucos creadores de coisas absoluta-
mente incríveis.
O logar que é hoje bem nosso no Brasil intelle- E' positivamente engraçado. E foi para dizer
ctual foi conquistado tão somente ao dionisíaco em- estas coisas que lançamos o manifesto de hoje, que
preendimento do forte grupo de Bello Horizonte, ten- apesar de tão encrencado nada tem de manifesto,
do á frente o enthusiasmo moço de Carlos Drum- apenas um ligeiro rodeo em torno da nossa gente,
mond, Martins de Almeida e Emílio Moura, com a funda- nosso meio.
ção da A REVISTA, que embora não tendo tido vida
longa, marcou época naMstojria da ianovação mo- RESUMINDO:
derna em Minas. (*) o
Apesar de citarmos os nomes dos rapazes de I .) Trabalhamos independentemente de qual-
Bello Horisonte, não temos, absolutamente, nenhuma quer outro grupo literário.
ligação com o estilo e vida literária delles. 2o.) Temos perfeitamente focalisada a linha di-
Somes nós. Somos VERDES. E este manifosto visória que nos separa dos demais modernistas brasi-
foi feito especialmente para provocar um gosíossimo leiros e estrangeiros.
escândalo interior e até vaias intimas.
Não faz mal, não. E' isso mesmo. 3o.) Nossos processos literários são perfeitamen-
Acompanhamos S. Paulo e Rio em todas as suas te definidos.
innovações e renovações estéticas, quer na littoratura 4o.) Somos òbjectivistas, embora diversissimos,
como em todas as arte-! bellas, não fomos e nem so- uns dos outros.
mos influenciados por elles, como querem alguns. 5o.) Não temos ligação de espécie nenhuma com
Não temos pães espiritaaes. Ao passo que ou- o estilo e o modo literário de outras rodas.
tros grupos, apesar de ^gritos e protestos e . o diabo
no sentido do abrasileiramento de nossos motivos e de G°.) Queremos deixar bem frisado a nossa inde-
nessa fala, vivem por ahi a pastichar O "modus" bár- pendência no sentido "e&colastico".
baro do sr. Cendrars e outros franceses escovados ou 7 .) Não damos a mínima importância á critica
pacatíssimos. dos que não nos compreendem.
Não temos'pretenção alguma de escanchar os
nossos amigos. Não. Absolutamente. E é só isso.
Queremos é demonstrar apenas a nossa inde-
pendência no sentido escolastico, ou melhor, «parti- Henrique de Resende Chrislophoro Fonfe-Bôa
parlo».
O nosso movimento VERDE nasceu de um sim- Ascenio Lopes Marfins Mendes
ples jomaleco da terra—JAZZ BAND. Rosário Fusco Oswafdo Abrifta
um pequeno jornalsinho com tendências mo-
derriisías que logo escandalizaram os pacatíssimos Guilhermino César Camillo Soares
habitantes desta Meia-Pataca. Chegou-se mesmo a fa- Francisco J. Peixofo.
lar em bengaladas...
E dahi nasceu a nossa vontade firme de mos- (*) Elles é que primeiro catechizaram os na-
trar a esta gente toda oue. embora morando em uma turaes de Minas e nos animaram com o exemplo
cidadesinha do interior," temos coragem de competir para a publicação de Verde.
com o pessoal lá de cima.
:. : DIRECTOR : : N U I V I B R O X

1
HENRIQUE I E IESEIIE
• ••••>••••••
• ••••••••«•*
:: :: REDACÇÃO :: ::
: REDACTORES :
FI
•• •• •• XJ •• •• •• ••
MARTINS MENDES
ADMINISTRAÇÃO
:: :: :: :: E :: :: :: ::
REVl&TA-riEri2Ab RUA CEL. VIEIRA, 53
ROSÁRIO FUSCO
DC-ARJC-E» CATAGUAZES -- MINAS

CUbTURA-
B

NUMERO DA "VERDE":
CARLOS D. DE ANDRADE SIGNAL DE APITO
EDMUNDO LYS VIAGEM SENTIMENTAL
T. DE MIRANDA SANTOS BLOCO
ASCANIO LOPES SERÃO DO MENINO POBRE
EMÍLIO MOURA INQUIETAÇÃO
MARTINS DE OLIVEIRA FUNCÇÃO
ROBERTO THEODORO SAMBA
GUILHERMINO CÉSAR SANTINHA DA ENCARNAÇÂO (conto)
NOCTURNO (poema)
CAMILLO SOARES O ESTRANHO CASO DE MATIAS
HENRIQUE DE RESENDE A CIDADE E ALGUNS POETAS
PRELÚDIOS
FRANCISCO I. PEIXOTO TERNURA
MARTINS MENDES PARADOXO
OSWALDO ABRITTA UM POEMA
FONTE BOA UM POEMA
ROSÁRIO FUSCO E' PRECISO PAZ NA ARTE MODERNA

NOTAS DE ARTE E OUTRAS NOTAS

L
FADIGA DE MACARRÃO
M A S S A S ALIMENTÍCIAS

REFINAÇÃO DE A S S U C A R

SALGADO & C.
Premiada na grande Exposição Internacional do Centenário de 1922 e com
Medalha de Ouro pelo Instituto Agrícola Brasileiro.

Massa refinada de puro trigo escolhido


Esta massa sendo fabricada com semolina de superior qualidade, constitue um
alimento são e nutritivo, possue um gosto agradável e apresenta tal augmento
ao consinhar-se, que se pôde usar umterçD menos das de outras semelhantes.

Premiada com medalha de ouro na


Exposição de Bello Horizonte em 1927
Recommenda-se aos Srs. consumidores a preferencia sobre as outras massas
:: :: não só pela confecção como pelo systema de acondicionamento :: :;
N. B. — Para a conservação da massa é necessário guardal-a em logar enxuto.

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todos os lombrigueiros, expelliu mais de 500 lombrigas, ficando alegresi-
nho, sadio e forte como se vê.
8 VERDE Setembro 1927

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VERDE
ANNO 1 CATAGUAZES — SETEMBRO-1927 NU/AERO 1

Somos novos. E viemos pregar as ideas-


novas da Nova-Arte.
E só.
Signal de Apito — Carlos D. de Andrade. E está acabado.
Viagem Sentimental — Edmundo Lys. E não precisa mais.
Bloco — T. de Miranda Santos.
Serão-do Menino Pobre — Ascanio Lopes.
Inquietação — Emílio Moura. Abrasileirar o Brasil—é o nosso risco.
Funcção — Martins de Oliveira. P'ra isso é que a VERDE nasceu.
Samba — Roberto Theodoro Por isso é que a VERDE vae viver.
E por isso, ainda, é que a VERDE vae morrer.
Santinha da Encarnaçâo (Conto) e Nocturno
(Poema) — Guilhermino César.
O Estranho caso de Matias — Camillo Soares.
Ponto. Leitor camarada: muita honra e
A Cidade e Alguns Poetas e Prelúdios — Hen- muito prazer em conhecel-o. Disponha.
rique de Resende.
Ternura — Francisco I. Peixoto
Paradoxo — Martins Mendes.
Um Poema — Oswaldo Abritta.
Um Poema — Fonte Bôa. A CIDADE E ALGUNS
É Preciso Paz na Arte Moderna — Rosá- POETAS
rio Fusco.
Notas de Arte e Outras Notas. Eis aqui uma coisa velhíssima: nós, os
poetas brasileiros, com excepção minima dê
alguns senhores de avariado gosto, já nos
cançámos de receber o que nos tem chega-
do, em matéria de arte, pelo correio de Paris.
APRESENTAÇÃO Mas, apezar dessa coisa velhíssima, até
agora poeta nacional ainda não houve, so-
bretudo de ha uns vinte annos para cá, que
I?m EMY DE ÜOURMONT costumava dizer não imitasse, decalcasse ou mesmo copiasse
ff\i que se as discussões literárias interes- o sr. Albert Samain — este melancólico fran-
sassem ao povo, haveria tantas guerras mor- cez que vem regando ininterruptamente,
tíferas — entre intellectuaes, quanto as guer- com os seus inevitáveis repuxos, os desola-
raá civis e religiosas. Interessante, não acha dos jardins da poesia brasileira.
você? Pois é. A principio parece paradoxo. Se não foi Samain, com os seus repuxos
Más não é paradoxo nem cousa nenhuma. e respectivos tanques, quase sempre de már-
É, simplesmente, uma verdade. Sim, senhor, more polido, foi Rodenbach, debruçado, a
uma grande verdade! choramingar, sobre os canaes de Bruges, ou
Mallarmé, com o bimbalhar dos seus carri-
lhões de bronze antigo.
E quando saíssemos de Mallarmé, Ro-
Esse nogocio occorreu-nos á memória denbach, ou de Samain, esbarrar-nos-iamos,
a propósito do apparecimento deste primeiro por força, com o sr. Paulo Verlaine, a des-
numero da nossa revista, VERDE. fiar o seu rosário nos fundos de uma igreja
«Apparecemos para um publico que não qualquer de Paris.
existe». Vamos ser incompreendidos e criti- Todo mundo sabe disso, mas convém
cados. E' certo. Mas, que esse publico ainda repisar.
virá a existir, é certo também. É certo e é Passada e repassada a dita turma, sem
um consolo... Portanto, conversar muito é falarmos siquer nos respeitáveis macetões
bobagem! do parnasianismo, tão do agrado do sr. aca-
10 VERDE Setembro 1927

demico pharmaceutico Alberto de Oliveira, E com a liberdade veio o amor a todas


veio a wildemania. as coisas bellas.
Sim. E tudo que é nosso irrompeu no nthmo
Oscar Wilde abriu na feira literária do novo de uma geração nova.
Brasil um sortido armazém de Salomés. O Já não pensamos em Bruges-la-Morte
maravilhoso autor de De Profundis e tantas com os seus carrilhões e os seus canaes.
outras obras de inconcebível relevo, não po- Já não sonhamos Veneza com as suas
deria nunca imaginar que profundo sentimen- gondolas e os seus passadiços. Já não cobi-
to de belleza viria despertar no coração çamos a nudez de Salomé. E nem tampouco
dos jovens brasileiros o seu immortal poema — oh Deus misericordioso ! — já não nos em-
hebraico da Salomé. bebeda o macetissimo luar de Verona.
Mas desse profundo sentimento de bel- Hoje contamos o que é nosso com pala-
leza nasceu — para desgraça nossa — uma vras nossas. O verde das nossas mattas e o
deplorável preoccupação de decalque. mysterio das nossas selvas. O esplendor dos
Todos nós sonhámos com Salomé. nossos campos e a força bruta das nossas
Todos nós tentámos crear a nossa águas. A fartura das nossas lavouras e o ouro
Salomé. dos nossos garimpos. O brilho matálico das
E a cabeça de Yokanaan rolou, por nossas montanhas e o trabalho das nossas
varias vezes, decepada pelo game fino de fabricas rangendo.
nossa penna. Os modernistas vivem, não ha duvida,
E não houve joven da geração citada numa desordem ensurdecedora.
que não contemplasse a Lua — essa pobre e Mas não importa.
indefesa victima dos nossos abusos líricos — O que importa é o triumpho da reação,
dansando a dansa mágica dos sete véos no que se faz patente em todos os recantos
tablado xadrez da abobada celeste. do paiz.
Ahi estávamos quando veio a moder- Entre nós, em Bello-Horisonte, ahi estão
nissima geração. João Alphonsus, Abgar Renault, Emilio Mou-
E com ella vieram os legítimos, os ver- ra, Pedro Nava, Carlos Drummond de An-
dadeiros reacionários. drade e outros — líderes de um movimento
Oswald, a acreditamos em Paulo Prado, sorpreendente — e, em Juiz de Fora, Lage
«numa viagem a Paris, do alto de um atelier Filho, Edmundo Lys, Theobaldo de Miranda,
da Place Clichy — umbigo do mundo — des- Rubem Moreyra etc.
cobriu, deslumbrado, a sua própria terra». Minas acompanha S. Paulo e Rio em
Voltou e aqui fundou esta coisa engra- todas as suas modernas manifestações esthe-
çada que se Chama poesia modern;sfa brasileira ticas, não desmentindo, assim, que sempre
E enquanto, depois delle, recebíamos foi, é, e ha d3 sempre ser o berço dos que
Blaise Cendrars no Rio e em S. Paulo, Oswald, se degladiam pelas supremas aspirações, —
Mario, Graça, Ronald, Guilherme, Ribeiro hontem, a liberdade politica, hoje, a liber-
Couto e outros confirmaram a existência des- dade de pensamento.
sa nova literatura, artigo nacionalissimo, e Mas o movimento modernista em Minas
pediram a Cendrars que berrasse, em Paris, não se limita ao de Bello-Horisonte e Juiz
do alto do mesmo atelier da Place Clichy, de Fora.
para que toda a França ouvisse, que tam- Também aqui, nesta pequenina cidade
bém nós já temos matéria prima para a fa- de algumas milalmas, cresce a flor maravi-
bricação de uma literatura nossa, completa- lhosa do espirito moderno.
mente libertada do pesado jugo de outras li- Vindo de um centro de intellectuaes
teraturas. aqui vivi dois annos e meio na mais completa
De como se vê, a reação brasileira nas- ignorância de que em Cataguazes, minha ci-
ceu de um remorso :— o remorso de haver- dade natal, também se cultivava «a vagabun-
mos imitado, copiado e decalcado sem pre- dagem lírica do espirito...»
cisão, durante tantos annos, quando devera- E eis que uma bella tarde me appareceu
mos ser o modelo novo de uma literatu- Rosário Fusco — poeta de uma sensibilidade
ra nova. estranhíssima, cujos versos cheirando ás mais
De entre os muitos bens que nos trouxe profundas raizes que se afincam no seio mo-
o modernismo, sobresáe, é certo, a liberda- reno da terra brasileira, souberam abrir na
de com que sonhávamos. minha sympathia um lugar que é hoje
Dahi o abandonarmos tudo que pudes- bem seu.
se subjugar-nos o espirito, — como são os Depois, pelas mãos de Fusco, veio Ca-
cânones de toda espécie. millo Soares Filho — intelligencia revoltada,
Setembro 1927 VERDE 11

espirito desalinhavado, cheio de grandes completam o quadrado luminoso dos que hoje
exageros, é certo, mais não menos brilhante apparecem em VERDE, a mostrar á intele-
que o primeiro. ctualidade do Brasil que tambein em Cata-
E agora, pelas mãos de Camillo, veio guazes, pequenina cidade do interior de Mi-
vindo Francisco Ignacio Peixoto — poeta dos nas, o espirito moderno içou a bandeira ver-
poemas simples, que naturalmente escreveria damarella do reacionismo, formando ao lado
a Cosfureirínha se Ribeiro Couto já a não hou- daquelles que se esforçam pelo triumpho da
vesse escripto. mais linda cruzada intellectual de nos-
Formado este pequeno grupo, a que se sa terra.
juntou, uma bclla noite, Renato Gama — joven E foi para falar sobr oestes poetas no-
de requintados talentos pianisticos — outros vos, literatos de literatura essencialmente
mais apareceram, dois delles conhecedissi- brasileira, que alinhavei tanta coisa velha,
nios entre nós: Antônio Martins Mendes e com estylo passadista e ridícula citação de
Guilhermino César. alguns francezes sovadissimos...
Finalisando a citação juntaremos os no-
mes de Fonte Bôa e Oswaldo Abritta, creado-
res de coisas commoventes e bellas, que e HENRIQUE DE RESENDE.

E' PRECISO PAZ NA ARTE MODERNA


Começo por confessar que não enten- dizer que o gajo parece com o poeta tal,
do nada desse banze damnado que a gente que está influenciado por esse poeta—ain-
de peso na Arte Moderna vem fazendo actu- da v á . . . Mas chamar o outro de bobo, isso
ahnente. é que não! Quem chamar outro de bobo é
Por exemplo: o sr. Prudente de Mora- mais bobo do que elle (o outro...) Porque
es, neto, escancha com o sr. Plinio Salgado na Arte Moderna a gente segue a emoção
—o maravilhoso romancista de O Exfrangeiro. pura e espontânea de cada um. Se o poeta
O sr. Augusto F. Schmith, de outro lado, escan- Affonso Arinos, sobrinho, por exemplo, não
cha com o sr. Prudente, neto, porque elle faz versos tão bons como os do sr. Ribeiro
escanchou com o Plinio Salgado! O sr. Bu- Couto, é porque a sensibilidade delle não
arquo de Hollanda, por sua vez, estrilla com dá prá isso. Ou por outra, não é egual a do
o trio Renato Almeida—Graça Aranha—Ro- sr. Ribeiro Couto. Portanto, nos versos de
nald de Carvalho! O sr. Esmeraldino Olym- cada um está á amostra a sensibilidade do
pio—sabendo disso—dada a admiração que poeta. Si elle escreve mal, acompanha a
elle tem pelo trio, escancha com o sr. Sér- emoção que sentio quando escreveu. Por-
gio Buarque de Hollanda, com o Prudente tanto, foi livre. Foi expontâneo. Fez o que
Neto, e até com o coitado do Alcântara Ma- sentio. E, se escreve bem—a mesmissa coi-
chado que nada tem com isso! Por ahi se sa! Por isso combater os outros é besteira.
vê que a gente está navegando numa in- Principalmente besteira.
certeza damnada. Ninguém sabe o que quer!
Mas todo mundo quer uma coisa. E dahi é
que nasce esse banze de cuia.
Nada de encrencas. E' preciso acabar
com isso! Mas acabar de verdade mesmo!
E' preciso acabar com isso. Preciso
mesmo! Na Arte Moderna não ha escolas.
nem nada. Portanto, cada um prá si. Cada
um é o lider de si mesmo (conforme me Cada um que rompa o mattagal com o
disse numa carta a intelligencia magnífica seu machado !—,como-disse num grito de
de Martins de Almeida.) Tem que ser assim enthusiasmo o sr. Austen Amaro. Esse é o
e está acabado! Esse negocio de torcida é melhor processo de paz na Arte Moderna.
só no futebol. Nada de politica! Nada de Bom. Sincero. E pratico, por emquanto. E'
partidos! Nada de polemicas! Nada. Nada. o que eu adopto... até que appareça ou-
Nada! tro melhor.
Na Arte Moderna criticar outro moder-
no é besteira. Besteira e da grande. A gente ROSÁRIO FUSCO
12 VERDE Setembro 1927

FUNCÇÃO

ROYALINO é o sapo.humano.
Salta, espantado, galga a mesa.
A multidão do vasto circo está silenciosa, mastigan-
do apenas.
Espanto num momento.
O bombo explode, surdo, em surdo som.
ROYALINO rola.
E ri.
E se desloca em movimentos rápidos.
(As pernas estão voltadas para o ar, e as
mãos curvadas para baixo.)
ROYALINO vê o mundo então virado para cima.
Depois... muda de posição, e vira finalmente
num montão de membros tortos sobre o peito.
A multidão, como se fosse um olho só, move-se contente.
Vem o palhaço, dá uma gargalhada, e leva aquillo
tudo para a barraquinha.
A musica rebenta num dobrado chula, e o povo diz que
tudo é velho, sim, senhor.

MARTINS DE OLIVEIRA.

Do livro Pátria Morena, a sahir.


Setembro 1927 VERDE 13
ii&ssssaaiü&iJ^is. i*.-^-j r & : ^, fci-iL£;

S E R Ã O DO MENINO P O B R E

Na sala pobre da casa da roça


Papae lia os jornaes atrazados!1
Mamãe cerzia minhas meias rasgadas.
A luz fraca do lampeão illuminava a mesa
e deixava nas paredes um bordado de sombras.
Eu ficava a ler um livro de historias impossíveis
—desde creança fascinou-me o maravilhoso.
A's veses, Mamãe parava de costurar
—a vista estava cansada, a luz era fraca,
e passava de leve a mão pelos meus cabellos,
numa caricia muda e silenciosa.

Quando Mamãe morreu


o serão ficou triste, a sala vazia.
Papae já não lia os jornaes
e ficava a olhar-nos silencioso.
A luz do lampeão ficou mais fraca
e havia muito mais sombra pelas paredes.

E, dentro em nós, uma sombra infinitamente maior

ASCANIO LOPES

K ^
14 VERDE Setembro 1927

INQUIETAÇÃO

As horas passam lentas como beijos,


ou rápidas como settas.

Nem desejo de continuar, nem vontade de parar.


Eu só queria que minha vida fosse uma pagina em branco,
sem dizeres que não dizem nada,
porque sempre é a mesma inutilidade,
é sempre o mesmo espectaculo.

(Não é covardia, não: covardia é fingir um estado de alma que não existe,
só para dizer que se libertou pela intelligencia... ou pela burrice.)
Eu só me liberto pela sinceridade.

Quando estou alegre—canto;


si estou triste, a minha voz tem outro rythmo:
vem molhada de sereno,
do sereno da minha agonia, do meu êxtase, do meu tédio!..

Mas o tempo não para:


As horas passam lentas como beijos,
ou rápidas como settas...

927.
EMÍLIO MOURA.
Setembro 1927 VERDE 15
KHMBBWBMMBWBBWilMM—WB——«•MBM«á5ía^i

SIGNAL DE APITO

Um silvo breve: Attenção, siga.


Dois silvos breves: Pare.
Um silvo breve á noite: Accenda a lanterna.
Um silvo longo: Diminua a marcha.
Um silvo longo e breve: Transito impedido em
todas as direcções.
Três silvos longos: Motoristas a postos.

(A este signal todos os conductores tomam logar


nos seus vehiculos para movimen-
tal-os immediatamente.)

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.


16 VERDE Setembro 1927

SANTINHA DA ENCARNAÇÂO

Como os jornaes macetissimos da mi- cartaz enganador. Os olhos delia—annuncio


nha terça, a mocidade de Tancredo Celes- luminoso promettendo mil caricias. Caricias
tino passou quasi despercebida. (E' que a que duraram, tão somente, os três annos
existência de muita gente não passa, ás ve- de noivado.
zes, de um folhetim de jornal. De um ar- Depois...
tigo que se não lê.)
Assim COmo O órgão liüerarío. político e
noticioso, collaborador effíciente do progresso mu- E Tancredo, tendo nas mãos seu an-
nicipal, o Tancredo considerava-se turuna e tigo rosário de contas grossas, rezava e mal-
tinha uns ares de conquéranf irresistível. A dizia a sina. Em casa, só rezando conse-
folha era caprichada. Columnas abertas por guia analysar socegadamente as trabalhei-
qualquer coisa. Títulos pomposos. — Appa- ras da vida. Fora disto, vinham os filhos. E
rencias... as filhas queixosas. E a mulher—aquella
Ao hebdomadário, a politica empres- Santinha que discutia e gesticulava como
tou uma vida logar-commum. Ao Tancredo, um italiano.
a mulher deu a subserviência de um titere.

As meninas do cel. Mottinha (a folha


—No meu tempo... ah! no meu tempo... chamava a todo o mundo de coronel) anda-
Via-se capaz de concentrar, num gesto, vam bem vestidas. Por quê razão o Tancre-
toda a sua sympathia. Era uma attitude mal do, que trouxera algumas pillas de dote,
photographada. Uma attitude que nem todos não dava o mesmo conforto aos filhos?
compreendem.
Acreditava no tempo longínquo da mo- —Lerdeza! Jogo de bicho!
cidade. E vinha sobre o inoffensivo escriptu-
Inteirava-se, ainda mais, desta coisa rario uma série de descomposturas...
perigosa: soubera viver os seus momentos. Também, elle remoia em silencio o seu
Amara. Fora amado. E figurão nos bailes. ódio. Não era senhor de pensar em voz
Com que enternecimento Tancredo re- alta. Si dava um passo, vinha em seguida
cordava ! —com a freqüência das listas para isto as-
sim-assim—a critica impiedosa da esposa.
A mulher — que o destino collocara, co-
mo um conductor impertinente, no bonde Entretanto, gostava da Santinha da En-
rotineiro da sua vida—não era, por certo, carnaçâo. Apezar das rusgas. das brigui-
a companheira entresonhada. nhas—que eram como que o pão nosso de
Gorda. Quasi redonda. Feições mas- cada dia...
culinizadas.
Agora, a Santinha apparecia bem ves-
Entretanto, gostava da Santinha da En- tida.
carnaçâo. Apezar das rusgas, das brigui- Tancredo, absorvido pela azafama do
nhas—que eram como que o pão nosso de escriptorio, passava a maior parte do dia
cada dia... Apezar da mulher ter sido um fora de casa. Não soube explicar a proce-
Setembro 1927 VERDE 17
dencia daquelle vestido de crepon de seda. contas do rosário: sim, não, sim, não... sim!
Temeu indagal-o da mulher. O rosário respondeu que sim.
Entretanto, deixou-se vencer pela es-
Engoliu o almoço ás pressas. Para fi- posa: Pela criatura violenta que era um ro-
car livre daquelle inferno. Lá dentro, no tulo falso—doirado de meiguice—dissimu-
quarto da filha mais velha, o Paulinho—ulti- lando a intensidade do veneno.
mo rebento daquelle casal—fazia um ber-
reiro dos diabos.
Queria um tomovinho como aquelle do 12 horas estafantes. Um carrinho de
Ignacio do dr. Domingos. sorvete passa ringindo... O negro que o
Tancredo Celestino não se despediu conduz faz lembrar a enxada. Alto. Gordo.
das filhas com o té logo costumeiro. Des- Suando pelos sete poros, transporta a sor-
ceu a ladeira sem se voltar. Carregando veteira naquelle navio que é a alegria da
uma revolta e os callos. Os callos fieis que criançada. O Minas Geraes vende sorvete
o não deixavam. tão barato!

—Mulher infiel! —Dá um tostão ao menino.


—E você? Um pamonha, um desaver- —Não tenho trocado.
gonhado que não cuida dos filhos! Que dei- — Um tulão só, Papae.
xa a mulher em casa trabalhando e sof- Tancredo Celestino consulta, de novo,
frendo! as algibeiras. Nem um nickel. O diabo!
Todo aquelle destampatorio por causa E a mulher:
do chofer que conduzia a baratinha do dou- —Coitado do Paulinho... Você, Tan-
tor. Aquelle encontro arruinou ainda mais credo, é um pae pamonha!...
a infelicidade do marido.
—A Santinha... Ora, a Santinha era
deshonesta, além de ter um coração dam- Entretanto, elle gostava da mulher. Ape-
nado de jararaca! zar das rusgas, das briguinhas—que eram
como que o pão nosso de cada dia...
Pensou em deixar a mulher. Assum-
ptou. Commetteu o ridículo de consultar as GUILHERMINO CÉSAR.

V ^

VERDE Publicará no próximo numero collabo-


ração inédita de: ABGAR RENAULT,
ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO, RIBEIRO COUTO e outros
:: .: nomes em evidencia na Moderna Literatura Brasileira ::
18 VERDE Setembro_1927

ESWS

VIAGEM SENTIMENTAL
Tremzinho de brinquedo
brincando de viagem no meio da paysagem
Pastos colunas roças collinas collinas MINAS
choças de sapé beirando os brejos
choças de sapé na ponta dos trilhos
moleques nús trepados nos barrancos
samambaias cafés bananas milhos
Cachorros magros correm atraz do trem
Caixa dágua
café com brôa
laranjas
bananas
pasteis queentinhos um por um tostão
O trem remexe atrapalhando os trocos
estrala os truques
range a engrenagem e sai chiando des-
filando serra abaixo pega a
reta desgalhado até que chega
guinchando na estação
Ella entra no trem de repente
ella talvez nunca tenha estado num soneto
comtudo é
ELLA
Traz uma valise
um sujeito de perneiras
um perfume e uma cestinha de laranjas
O sujeito arranja o banco e dá o fora
por ellipse
o trem também
A paysagem continua como um filme em serie
Monotonia de eschola literária
Tem outras estações
e não parece
parecem com as outras
cafesinho de rapadura
a venda amarella
a moça na janella
E ella fica sendo uma opportunidade
e a paysagem vai ficando fechada na valise delia
e debaixo do banco
e debaixo do banco
e debaixo do banco
como diz a machambomba estralando os trilhos na chispada
Meias de seda muito finas esculpem pernas cinzentas
o chapéo importantifica os cabellos louros
os olhos verdes ficam muito bem
bem bonitinha
Setembro 1927 VERDE 19

pequeninmha
toda em inha
todinha
e devia ter pregado nella o aviso FRÁGIL
fragilima é que é
Vê todos os olhares pendurados aos seus gestos
Não tem nenhuma cara de gatuno no carro
e as pérolas do collar são falsas mesmo
também o conductor pôz os bigodes de Mefistofeles atoa
e ella não acredita no diabo e elle picóta os bilhetes
O que sabe é que uma aventura talvez banal
cabe em toda parte e naquelle trem
que o desejo dos homens viaja também
Annuncios derivantes da tentação
distração
Gets-it Urudonal Kafy Tosse Bromil
o Brasil é um vasto hospital
Não se pôde ter certeza si é fidelidade ou fraqueza
quando ella se debruça na vertigem da paysagem
porque tem um tenente bem decente no banco em frente
parecido com a vizinha da modinha
e uma gentileza unanime de emprestas canivetes
si ella fôr chupar uma laranja
Ella vê tudo isso num olhar
e nos taes olhares pendurados
melhor pregados
aparafusados
da estróphe lá de cima
vai não chupa laranja nenhuma
evita a occasião da sabedoria popular
tira uma alliança das luvas
e foge prum livro amarrello cheirando pó-de-arroz
A respeito dos outros
só faltava citar a raposa das uvas
Mr. Paul Bourget é que faz ella innocente
ninguém diria mas é
O Idyllo Trágico
traducção livre
tapando as greladas dos conquistadores ferro-viarios
impedindo flerte em cadernetas kilometricas

Na ultima estação do ramal


entre carregadores hotéis taxis jornaes
ella desembarca casta e pula depressa
Chavinha GOLDF1LLED
pro beijo e pro FORD onde o marido espera
dentro do CÓDIGO CIVIL
EDMUNDO LYS
A
20 VERDE Setembro 1927

O 7 DE SETEMBRO E O
CORONEL JOSÉ VIEIRA DE RESENDE E SILVA

Commemorou-se, nesta cidade, no dia Provindo dos campos de Lagoa Dou-


7 do corrente mez, a passagem do quin- rada aqui aportou em 1842 uma estranha
quagesimo anniversario do Municipio de Ca- figura de homem. Sabedor da fertilidade de
taguazes—fundado pelo saudoso e eminen- nossas terras, e talvez já aborrecendo a sua
te Coronel José Vieira de Resende e Silva. vida instável e andeja, consumida durante
Algumas palavras sobre a alta perso- alguns annos pelos sertões de Minas e Goy-
nalidade do creador e fundador da Villa de az, na acquisição de gado, o major José Vi-
Cataguazes é encargo que se nos impõe, eira da Silva Pinto, pae do cel. Vieira, ru-
na data de hoje, ao sair o primeiro nume- mou para Santa Rita do Meio Pataca, ad-
ro de Verde. quirindo aqui immensas propriedades terri-
Tanto mais quanto neste longo decurso toriaes. Homem rico, senhor de grande leva
de tempo ainda não surgiu homem, entre de escravos e três mil alqueires de terra,
nós, cataguazenses, que eguaes serviços o major José Vieira da Silva Pinto instal-
nos prestasse—seja no terreno politico, seja lou-se desde logo, como um antigo feudal,
no terreno administrativo propriamente dito, a duas e meia léguas do povoado, cons-
dada a especialissima circumstancia de ha- truindo ali a tradicional Fazenda da Gloria,
ver sido o cel. Vieira de Resende o alicer- hoje, em ruinas, na estação do mesmo nome,
çador da grande obra realisada, que é hoje da Estrada de Ferro Leopoldina.
o Municipio de Cataguazes. Homem igual De elevada estatura, trazendo inteira-
ainda não surgiu, na verdade. mente rapaios a barba e o bigode, o olhar
Não que nos tenham faltado espiritos duro, affeito ao dominio e ao mando,—a esse
do alevantamento moral do de José Vieira verdadeiro typo varonil, a essa máscula e
de Resende e Silva,—filhos de nossa terra sorpreeniente figura de bandeirante audaz,
ou estranhos que a ella vêem servir. E' que, que penetrou os nossos sertões abrindo pi-
desses poucos, alguns se recolheram desde cadas no seio verde e hostil da matta vir-
cedo á vida privada, por inconfessáveis gem, deve o rico e florescente municipio
motivos superiores, e outros buscaram ma- de Cataguazes o inicio da sua éra de lou-
iores centros onde mais fácil e brilhante- ros e prosperidades.
mente poderiam vencer a contra-corrente
da luta pela vida. Nenhum, porém, dos ho- Não foi, porém, tão somente, o seu typo
mens públicos de nossa terra siquer se ap- phisico, altamente dominador, ou a sua for-
proximou desse varão illustre que encheu tuna, a causa do illimitado prestigio exer-
de luzidos galardãos o nosso passado, des- cido desde logo pelo major Vieira em toda
cortinando-nos o mais claro dos futuros. a extensa zona da matta. Mais do que
A' geração de hoje, que é a nossa isso, o que o tornava esse invejável condu-
geração, incumbe conhecer um pouco mais ctor de homens era a rija tempera de seu
de perto essa attrahente e singular figura caracter inquebrantavel, e, bem assim, a
de hontem. Sim. Faz-se mister, agora, quan- notável agudeza da sua intelligencia, embo-
do soffremos de um modo geral a bancarrota ra lhe não sobrasse a necessária cultura
dos caracteres, o conhecimento de homens para maiores realces desses seus attributos.
da estatura do cel. José Vieira de Resen- Aqui creou-se e cresceu a numerosa
de e Silva. familia do major Vieira e com ella o pres-
Setembro 1927 VERDE 21

tigioso poder de seu chefe, cognominado Como administrador, o cel. Vieira, pri-
mais tarde O Leão da Malta. meiro presidente da Câmara Municipal, com-
pletou a fundação, consolidando o terreno
onde se construíram os sólidos alicerces
desse edifício maravilhoso, que é hoje o
E de entre os seus filhos illustres, um, municipio de Cataguazes. Fácil seria, depois
sobretodos, se destacou, herdando plenamen- de assentados os alicerces, o levantamento
te os dotes moraes de seu progenitor, mas da obra,—cabendo, porisso mesmo, ao seu
acrescendo-se-lhe ainda mais largos conhe- iniciador o melhor quinhão de glorias, pois
cimentos culturaes, e, talvez oriunda dessa que a elle se devem, na verdade, a estabi-
mesma razão, maior affabilidade no trato e lidade das bases, delineado ainda por es-
uma mais fácil compreensão dos direitos de tas o plano geral do monumento em pers-
conquista no terreno social... pectiva. Presidente da Câmara em dois qua-
Era o Coronel José Vieira de Resen- drienios successivos, ahi veio encontrá-lo
de e Silva. a morte aos 12 de Setembro de 1881.
Considerada a sua filiação, e, bem as- Comtudo Cataguazes venceu a sua ca-
sim, a integral herança dos attributos moraes minhada esplendida. Teve, é certo, a sua
de seu illustre ascendente, não poderia dei- idade .media, conforme ficou patenteado na
xar de caber, porisso mesmo, ao cel. José obra altamente meritoria de Arthur e As-
Vieira de Resende e Silva o desempenho tolpho de Resende. Noite escura de duas
das mais altas funcções na administração e décadas approximadamente, sob a direcção
na politica de sua terra. politica do sr. Astolpho Dutra Nicacio. Nada
fez o eminente político pelo desenvolvimen-
E assim foi. to de sua terra, apparecendo apenas, em
Aos 33 annos de idade ingressou na todo esse decurso,—diga-se a verdade sem
politica, militando nas fileiras do Partido resentimentos ou paixões—o que ficou do
Conservador. Eleito deputado provincial em patriótico esforço de João Duarte Ferreira.
1861, em substituição ao barão de Ayuruoca, Actualmente encontra-se á frente do
deu brilhante desempenho ao mandato, ca- executivo municipal o dr. Antônio Lobo de
bendo-lhe no biennio seguinte, com a sua Resende Filho. Moço culto e empreendedor,
reeleição, a secretaria da Mesa. o dr. Lobo Filho vem remodelando a cidade,
Dentro ou fora da Assembléa teve sem- melhorando as condições geraes do muni-
pre em mente, o cel. Vieira, a grandeza e cipio, que é hoje, sem favor, um dos mais
a prosperidade de sua terra. Mais tarde, em florescentes do Estado.
1875, taes e tantos foram os seus esforços, De entre as homenagens prestadas pela
o Governo da Província, com a promulga- Câmara Mnnicipal, no dia 7 do corrente, ao
ção da lei n° 2180 de 25 de Novembro, cre- cel. José Vieira de Resende e Silva, cumpre
ou o Municipio de Cataguazes. Entretanto, salientar a do levantamento de uma herma,
somente a 7 de Setembro de 1877 era so- que perpeturá a memória do fundador do
lennemente installada a Villa. Com a pre- municipio,—feliz lembrança do sr. Luiz Soa-
sença de pessoas de alta representação, res dos Santos, redactor do nosso presado
entre as quaes os eminentes brasileiros drs. collega "Cataguazes"
Carlos Peixoto de Mello e Diogo de Vascon- A todas essas homenagens, embora tar-
cellos, ficou, também, nesse mesmo dia, diamente, Verde se associa—saudando os
constituída a primeira Câmara, da qual foi grandes vultos que enobreceram e ainda hoje
eleito presidente o Coronel José Vieira de enobrecem as nossas velhas tradições de
Resende e Silva. gente culta e progressista.

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22 VERDE Setembro 1927

BLOCO

Então aparece o balisa


Moleque sestroso vestido de rei
De leque em punho
Dansando faceiro
Rodeiando o estandarte de seios agudos
Depois a baiana batuta de chinelo e meia
Com os braços nuszinhos da silva
Sacudindo colares de 500 réis
Girandóla os quadris esféricos
Só prá pôr buscapés nos sentidos dagente
E o Chico da Venda todo de principe
Cabra sarado no samba
Surge num passo dengoso
E um bando de mulatas caso-sério
Numa geometria gostosa
Vem vindo cantando
Tocando tambor

Filho da lira é o meu amô


Branco encarnado é o vencedô

THEOBALDO DE MIRANDA SANTOS.


Setembro 1927 VERDE 2]

NOCTURNO
A Henrique de Resende.

Noite de maio.
Noite fina de gaze e de legenda.
As arvores têm recortes macabros
na tela escura da treva.

Anda no espaço um cheiro bom de angélica,


um cheiro forte de cravos e glycineas.

E nessas noites de maio emquanto a gente reza baixinho,


o silencio conta muita historia,
muita coisa linda para adormecer...

E' quando a gente fecha os olhos.


E' quando a gente sorri e fecha os olhos a sonhar ..

GUILHERMINO CÉSAR.

HbS&ataMMBI

PARADOXO

Quanta alegria veio trazer-me


a tristeza da tua ausência..

Longe de mim,
longe dos outros
que sempre julguei
mais pertos do teu coração ...

Tenho certeza que de longe


longe estás do coração dos outros
e perto do meu coração.

Alegria de seres esquecida..


Alegria de pensar
na tristeza da tua ausência...

MARTINS MENDES.
24 VERDE Setembro 1927

O ESTRANHO CASO DE MATIAS QUALQUER

Pequeno. Olhou pra Xixi.


Magro. Olhou mais.
Feio. Xixi ficou danada da vida.
Olhos grandes cinzentos.
Boca rasgada. Coitado do Matias!
Dentes de rato. Vae a gente ser feio!
Nariz a Ia creoula.
Cabello quasi castanho. Xixi.
Quasi russo. Xixi.
Cara chata. Xixi.
Um terno preto. Coitado do Matias!
Um chapéo preto.
Uma gravata preta.
Uns óculos sem gráo: Xixi foi pra uma pensão da rua Ria-
MATIAS-QUALQUER chuelo.
Lá se foi seu Matias acompanhando.
Xixi xingou elle.
Chamou elle de feio.
Vae o tio major chefe político arran- Bobo.
jou pro Matias com o compadre senador Mineiro.
uma mamata em um ministério qualquer.
E lá se foi o Matias pra aquelJe peda- —Intervallo para o autor pensar no íim
ço de terra sem dono—o Rio de Janeiro. que ha de dar ao Matias có a Xixi etc.—

Uma pensão. Xixi adoeceu.


A viuva de quarenta annos com uma Um quinto annista de medicina ban-
cara de bons amigos. cou o medico.
E camarada. Veio o dr. lá da esquina.
Não teve geito.
Xixi. Xixi morreu serenamente com a mes-
Quinze annos morenos de vestidos cur- ma calma com que divertia os namorados
tos pernas a mostra e olhar de convite. nos cantos escuros dos cinemas.
Uma carioca. Mudou de mundo como mudava de na-
Mãe viuva. morado.
Mamata no ministério.
O pae de Xixi mandara pro inferno —Esse negocio da gente vigiar os
meia dúzia de ladrões de cavallo. mortos!
Vae: —Eu é que não sou besta.
Uma medalha de folha-de-Flandres. Vou dormir.
Honra ao mérito.
A viuva do bravo capitão Estacio No-
ronha Machado Alves de Andrade vivia e Xixi ficou dormindo só-zinha lá na me-
mais a filha e mais um filho duma mamata sa rodeada de velas e de seus pecados.
que lhe deixara a valentia do marido.
O irmão da Xixi veio duma farra e en-
Xixi tinha um irmão. contra seu Matias numa cena de amor com
O irmão de Xixi—secretario de qual- o cadáver da Xixi.
quer coisa. Tava armado.
Com promessas de subir.
Tranzição entre o moço do Rio e o E um fio de sangue sinuoso e delica-
cangaceiro do Ceará. do manchava o collarinho delle como se ti-
Bam—Bam—Bam. vesse a pretensão de escrever a historia de
um Matias Qualquer.
Matias achou que Xixi devia ser uma
noite bem dormida acordada. CAMILLO SOARES.
Setembro 1927 VERDE 25

íMHHisifikiicwgi
" • " i i.-' • : , ? •, i ' :.•* ••-• -_;'!

TERNURA
r PRANCISCO Para o João Martins de Oliveira.
No silencio do meu quarto vasio
IGNACIO ha um momento irreparável
De lassidão.
PEIXOTO
A noite cáe sobre a tristeza das coisas,
f/CREVtÜ* e eu sinto que ella cáe sobre mim também!
E eu a esperar, á esperar inutilmente...
Quando você morreu, mamãesinha, todos me diziam
que eu não chorasse porque você viria todas as noites
lá do outro—mundo
acalentar o somno do seu filhinho.
E até hoje você não veio...
Será porque eu deixo sempre accesa a luz do meu quarto ?
Olhe: vou apagal-a e irei depois ficar na janella
para ver si vejo você chegar.
Mas os meus olhos não vêm n a d a . . .
Elles estão cançados de chorar!
Não encontrar na paisagem distante
um motivo de alegria para os meus olhos.
RO/A R i O . Somente lá longe aquellas luzinhas veladas.
—Serão luzes do quarto de um doente ?
FU^CCD*
DES De repente
uma apagou-se:
E NHOÜ é a Morte que faz ronda na solidão da noite.
FRANCISCO IGNACIO PEIXOTO.
26 VERDE Setembro 1927

SAMBA

Gyram e regyram corpos pretos á luz das chamas...


Longe...
Vozes murmurejantes, vozes raseantes rondam a preta
Arriba—arriba—seri—ganguê!
O cabinda: bate—bate—bate
o caxambú redondo que estronda e regonga tonto.
O ventre impinando todo
estica o umbigo um corpo
—bumba!
Em volteios de serpente
rouco
louco
bole—bole—bole.
E se desconjunta,
e se desengonça,
e se desarticula.
Cajueiro—cajuá!
... na sombra da sanzala onde faúlhas são estrellas...
O caxambú redondo, estoando zabumba e rola
re—tum—ban—te...
(seri ganguê)
longe, na sombra da sanzala...

ROBERTO THEODORO.
Setembro 1927 VERDE 27

w Egsr^-^;;^

PRELÚDIOS

Para Abgar Renault

Um
Escreve pouco.
Mas sempre tenha um rithmo de belleza o teu trabalho.
Olha:
Cáe um pingo de orvalho numa pétala de rosa.
E, no entretanto, um céo-de-inverno, inteiro, se reflecte
nessa gôtta de orvalho...
Dois
Enguirlandas teus versos com as papoulas e as framboezas
com que Samain coroara as suas illusôes.
Poeta Americano!
Porque esquecer o verde-claro
que ha nas folhas polidas dos inhames brabos,
e a ardencia tropical dos tinhorões?

Três
Todo-mundo fala mal de você.
Das mulheres que você tem, dos automóveis
que você collecciona sem saber para que.
—Um perdulário, um sem-moral, um quase louco...
E eu fico pensando no desejo que todo-mundo tem
de ser você..

hh tiàXii£íKS£BL.:&SS2&J3at~..Z:-
28 VERDE Setembro 1927

LITERATURA
SÃO FRANCISCO DE ASSIS E AS AVES. creaturas que se localisaram entre um amo-
MARIO CASASANTA. roso bucolismo e uma beatitude lyrica no
«Gazeta de Pouso Alegre» —1926. isolamento.
Não sei si o sr. Mario Casasanta seria Náo será este ultimo o caso do sr.
capaz de seguir o exemplo daquelle tortu- Mario Casasanta? Parece que sim. No autor
rado inglez D. H. Lavrence, que se foi met- dessa conferência sobre aquelle que foi a
ter entre os índios mexicanos para fugir á maior figura do século XIII, não se verifi-
civilisação. A idéa é extravagante, mas não cam aquelles conflictos Íntimos entre razão
é absurda. O sr. Mario Casasanta achou a é sentimento, conflictos que provocavam em
solução para o seu caso refugiando-se no Pascal, por exemplo, verdadeiros estados de
interior de Minas. Fugindo também á civi- relâmpagos em sua tragédia espiritual. O
lisação? Acho pouco provável essa hypo- sr. Casasanta é um seguro espirito de re-
these. Não vejo de onde possa vir o motivo ligiosidade. Um seguro e suave espirito. Crê
dessa repulsa dos temperamentos religiosos sem complicações e sem exigências. E' um
para com os meios intensos de civilisação. feliz, portanto. Nelle o espirito religioso é
O próprio sr. D. H. Lavrence havia de che- o próprio fundo de sua intelligencia. Com
gar á conclusão de que isso de viver entre que graça amorosa e com que fundo sen-
creaturas de um detestável primitivismo é timento de lyrismo a sua alma se desen-
muito bom para os reporters e para os in- volve, atira-se e borboleteia em torno de
glezes. Só. seus motivos, a que elle empresta a doçura
Parece existir, mesmo, uma necessida- mansa de seu estylo!
de absoluta desse contacto do nosso espi- Si a gente fosse procurar nas litera-
rito religioso com a humanidade em syn- turas de todos os paizes um irmão mais
these, com a humanidade, viva, absurda e velho do sr. Mario Casasanta, é bem pos-
contradictoria, que é a humanidade das gran- sivel que o nome de Francis James se apre-
des urbs. Só ha vida interior, vida dymna- sentasse logo ao nosso espirito critico. O
mica e necessária, nesse vae-vem eterno Francis James do "Le denil des Primevé-
de appellos e de repulsas entre o nosso es- res". E do "Les Géorgiques Chrétiennes"
pirito e a realidade. Nessa reacção e accei- Um Francis James que houvesse voltado
tação permanente, em que as camadas mais do convívio disciplinador, mas também as-
fundas do nosso ser constróem as bases hu- fixiante dos clássicos. Porque o sr. M. Casa-
manas de sua estructura espiritual. santa, que é senhor incontestável de sua
De onde nasceram as grandes e avas- lingua, soffreu um convívio longo com os ve-
saladoras correntes de reação espiritual dos lhos escriptores da lingua, convívio de on-
nossos dias—o espiritualismo catholico, e o de elle trouxe uma riqueza luxuosa de re-
revolucionário, spinozista desabusado, sinão cursos expressionaes, se bem que ainda não
desse contacto desesperado entre o tumul- se tenha libertado bem dos peccados e pre-
to e a febre, a ânsia e as inconsequencias juízos desse convívio.
de uma civilisação extrema e o espirito do- Nós preferíamos ver menos ordem, me-
loroso e vigilante de uma elite do século? nos syntaxe lusa na sua linguagem. Sentir,
Mas, falo aqui quanto a um certo es- ali, em um estylo mais nosso, a sua força
pirito religioso o inquieto e expeculativo. O intellectual, a força de sua alma e de sua
que vive em acção. O que não se fixou ain- intelligencia brasileiras, palpitantes de vida
da, nem ainda adormeceu, tranquillo e so- e de verdade psychologica.
lido, sobre os dados puros com que o sen- Si eu me occupo mais demoradamente
timento, em estado de imperativo cathego- e a propósito dessa conferência do sr. Ma-
rico, abafa a nossa necessidade especulati- rio Casasanta, não é só pelo que ella me
va. Porque ha espirito religioso, e espirito suggeriu ou me fez pensar. E' pelo que me
religioso—Maritain e Claudel. Inquietação, faz pensar e me suggere a figura curiosa
tortura, duvida; e posse absoluta, sereni- desse beneditino de Pouso Alegre, grande
dade. Um é caminho; o outro fim, repouso. alma e grande intelligencia, de quem as le-
Si no primeiro se resolve a tragédia de to- tras pátrias muito têm a esperar. Porque o
dos os grandes espíritos, no segundo se de- sr. Mario Casasanta é uma expressão mo-
senvolve aquella religiosidade evangélica, ral e intellectual com quem se deve contar.
que a gente vae encontrar nos mysticos
abandonados. Entre esses últimos,—aquellas EMÍLIO MOURA.
Setembro 1927 VERDE 29

«VERDE» Seus versos teem a caricia do vento


ROSÁRIO FUSCO. leve, a tepidez do sol-poente, o colorido bi-
zarro das flores-tropicaes, o sabor dos fru-
Rosário Fusco vae publicar 20 e 4 poe- ctos maduros. São brasileiros da gemma,
mas modernos. Vae publicar o "VERDE" "brasileiros de Minas Geraes"
Livro bom, verdadeiramente bom. O poeta
delicado do "VERDE", de uma sensibilidade O "VERDE" não é verde —é amarello
extranha e fina, vae apparecer. Cataguazes porque é todo pó-de-ouro, ouro que a batea
ainda não o conhece intellectualmente. Sabe da sensibilidade do poeta-garimpeiro tirou
que o poeta é pobre. Nada mais sabe. Pobre! da terra das minas geraes.
que pobre-rico o extraordinário poeta-verde! Do "VERDE" este delicado poema:

JANEIRO
Na transpiração abrazadora dos caminhos
—onde as arvores são como gestos cançados, cançados,
frutos caem amarellecidos de s o l . . .

No velludo eriçado das cabelludas,


no vermelho brunido dos joás,
na adstringencia morena das mangueiras,
e na eterna pallidez das goiabeiras,
e na vibração dos frutos que balangam,
dos frutos que balangam como missangas penduradas

Ha em tudo um desejo que treme ...


Um desejo de água que molhe as folhagens ásperas,
nas arvores ríspidas...

—Os teus lábios são frutos brabos


amarellecidos de sol..

E ha uma longa promessa de beijos,


uma longa promessa de beijos ácidos
em teu olhar..

(Quando virá a chuva que molhe, a chuva que satisfaça o desejo


dos frutos que tombam das arvores ríspidas?!)

—O meu beijo é como a chuva em que os teus lábios vão molhar

Este poema basta. Elle define bem o fructos maduros e saborosos. Fructos bra-
poeta que ainda é creança. 10 e 7 annos sileiros.
apenas. Já é muita cousa. Promette muito. MARTINS MENDES.
Esperamos o "VERDE" que é cheio de Cataguazes—Agosto—1927.
30 VERDE Setembro 1927

SÔNIA
A noite caiu lenta e lenta
como um enorme pano de boca,
fechando o palco do dia...
E o meu quarto ficou cheio da tristeza
de tua ausência.
De tua longa ausência
que desenrolou na minha vida
o silencio pesado dos homens lyricos ...
(No meu quarto
a lâmpada, ha pouco accesa
e agora apagada,
era a lagrima de oiro suspensa
no vazio.)
O silencio é um beijo longo, molle, silencioso..
FONTE BOA.

O P O E M A DO M E U PRIMEIRO A M O R
Ha um sussurro vago dentro da tarde vaga.
Um sussurro leve como um sonho
e breve como a felicidade...
Ao longe
vae se accendendo aos poucos a cidade..
a cidade pequenina do meu sonho,
do meu sonho de Poeta...
A cidade pequenina onde ella vive..
E esse sussurro vago
Vem me trazer a lembrança delia
que ficou do outro lado do meu desejo...
A lembrança delia
que vive no meu pensamento..
E eu nunca poderei esquecel-a
porque se eu a esquecer
eu terei um grande remorso...
e eu não me quero afastar
da felicidade...
Ao longe
Vae se accendendo aos poucos a cidade
e ella está tão distante! tão distante!..

b- OSWALDO ABRITTA.
31 VERDE Setembro 1927

N T O A S DE A R T E
FIUS1CJ1 E C I N E M A
THESOURO PERDIDO nematographia deve assistir a este film onde o sr.
Humberto Mauro revelou-se um director de peso! Tal-
Quando o sr. Humberto Mauro abandonou tudo vez o melhor do Brasil!
pra explorar a industria cinematographica,—todo o
mundo rio do sr. Humberto Mauro. Agora quem pôde C O N C E R T O RENATO G A M A
rir de todo mundo é o sr. Humberto Mauro.
THESOURO PERDIDO a segunda producçâo da O pianista mineiro sr. Renato Gama realisará
PHEBO-FILM de Cataguazes é—sem exagero algum— brevemente no salão nobre do Commercial Club um
uma pellicula maravilhosa. recital interessantíssimo (novidade pra essa terra atra-
O sr. Humberto Mauro demonstrou nessa fita zadissima em coisas de arte!) de musicas clássicas
que entende mesmo da difficil arte de filmar. escolhidas.
A photographia é bôa. O enredo bom. A dire- Assim é que ouviremos, dentre outras composi-
ção magnífica! ções de autores consagrados—o CARNAVAL de Schu-
Gostei formidavelmente! mam—peça predilecta da phantastica pianista patrí-
Pena que os interiores sejam tão mal filmados. cia Çenhora Guiomar Novaes.
Os trucs são bons também. E onde o sr. Humberto Pena que o sr. Renato Gama, moderno e moço
Mauro salientou-se de facto profundo conhecedor des- como êle é—não execute musicas brasileiras, tipi-
se negocio é na visualização Esse trabalho tá per- camente brasileiras, como—A JANGADA de Nepu-
feito ! E não tem nada a desejar em comparação muceno e a melodia sobre versos de Olegario Ma-
com o que vemos nos films americanos. riano—ZE' REIMUNDINHO,—de Jayme Ovalle,-com-
Não gostei—no film—da escolha dos tipos. Aquel- positor moderno queridissimo nos centros musicaes
le gajo de bigodinho, por exemplo. Em todo o film a do Rio de Janeiro,
gente toma uma raiva damnada do vilão. Nessa fita Tahi uma coisa: este é o único defeito do sr.
o negocio é differente: o sujeito tem uma cara tão Renato Gama!
boba que a gente tem dó dele... Porque execução êle tem.
Bruno Mauro vae bem. Bem Nil revelou-se um Expressão êle tem.
artistazinho interessante. Tudo quanto é preciso pra um bom tocador
O sr. Humberto com esse film cataguazense-bra- de piano—êle tem! (Ah! descobri outro gravíssimo
sileiro-mineiro retratou quasi fielmente as coisas de defeito em Renato:—ser modesto...)
nossa terra. Já é actuar pela brasilidade! (coisa ra- Esse negocio de Modéstia já tá fora de moda. E
rissima entre os brasileiros!) Aquella scena do sapo si o sr. Renato Gama continuar assim tá ruim....
e das garruchinhas, por exemplo, tá bôa pra burro! Eu como admirador e amigo da sua arte luz-
Aquelle negro tá gozadissimo! E outras coisas mais sombra (perdoe o passadismo da imagem...) acon-
que só a gente assistindo a fita mesmo. selho-o pra que largue esse negocio de banda.—Se
E' a primeira fita nacional! Fita genuinamente não não vae.
cataguazense-brasileira-mineira. O sr. Humberto Mau-
ro tá de parabéns!
Olha aqui:
—no próximo numero o programa do concerto.
O Brasil é dos brasileiros. E todo o fan que
acompanha com interesse o progresso da nossa ci- R. F.

W3m

VERDE Publicará no próximo numero trabalhos


inéditos de: Carlos Drumond de Andra-
de, João Alphonsus, Lage Filho, Edmundo Lys, Theobaldo de Miran-
da Santos, Roberto Theodoro, Ascanio Lopes, Martins de Oliveira,
Emilio Moura, Martins de Almeida, Pedro Nava, Sérgio Milliet e ou-
:: :: tros nomes em evidencia na Moderna Literatura Brasileira. :: ::

L m «Ml
32 VERDE Setembro 1927

PIRAMIDAL!

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q u e a JARDINEIRA v e n d e d e i n d o e a
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BANCO HYPOTHEGARIO E AGRÍCOLA DO ESTADO DE MINAS GERAES
FUNDADO EM 1911
(FISCALIZADO PELO GOVERNO DO ESTADO DE MINAS)
S e d e Central: BELLO HORISOHTE - Succursaes: RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO
A G E N C I A S : Alfenas, Araguary, Aymorés, Barbacena, Campos, Cataguazes, Conquista,
Curvello, Dores de Indayá, Formiga, Guaxupé, Juiz de Fora, Lavras Manhuassú, Mar de Hespa-
nha, Montes Claros, Oliveira, Palmyra, Passa Quatro, Passos, Ponte Nova, Porto Novo do Cunha,
Pouso Alegre, Santa Luzia do Carangola, Santo Antônio do Jacutinga, Santos, São Paulo do
Muriahé, São Sebastião de Paraíso, Ubá, Uberabinha, Varginha e Victoria.
Dispõe o BANCO HYPOTHECARIO E AGRÍCOLA DO ESTADO DE MINAS GERAES de uma
completa e bem organizada rede de correspondentes, quer no paiz, quer no Extrangeiro, estan-
do portanto, habilitado a attender com toda a presteza os seus clientes, mediante uma com-
missão módica.
P a g a J u r o s : Em c/c LIMITADA — limite de rs. 20:000$000 6 °/0 ao anno, capitalisados
de 6 em 6 mezes. Esta conta pode ser iniciada com rs. 20$000 e começa a render juros de rs.
50$000 para cima. Em c/c Movimento—sem limite— 3 °/0 ao anno, capitalizados de 6 em 6 mezes.
D e p o s i t o a p r a z o o u leílras a p r a z o
Em 3 mezes 6 °/n ao anno; em 6 mezes 7 *•/„ ao anno; em 12 mezes ou mais 8 °/„ ao anno.
(Estes deposites só são acceitos de reis 100$000 para cima.)
O Banco não cobra Cadernetas, nem os sellos de depósitos. — Faz todas as operações bancarias.
Para melhores informações, que serão prestadas com o maior prazer e devida attenção,
:: :: :: dirigir-se a agencia desta cidade, á :: :: ::
P r a ç a Ruy B a r b o s a — Edifício d a C i a . F o r ç a e L u z
ENDEREÇO TELEGRAPHICO: — MINASBANK — CÓDIGO MASCOTrE E RIBEIRO
OtTRGU/IZES — F^iM^S

STOW
A HONROSA CARTA DO «INSTITUTO TECHNICO INDUSTRIAL*
Rio de Janeiro, 13 / 8 / 1927.
IUmos. Srs. Salgado & Cia.
Saudações.
Sem resposta ao nosso officio proclamatorio remettido em Maio de 1927, to-
mamos a liberdade de voltar ao assumpto, para saber si auetorisaes a remessa do «GRANDE
DIPLOMA DE HONRA DE PRIMEIRA CLASSE E A MEDALHA DE OURO DO MÉRITO, com
que foi vossa firma premiada, por este Instituto, ante o brilhantismo com que vos houvestes na
EXPOSIÇÃO DE AGRICULTURA, INDUSTRIA E COMMERCIO DE BELLO HORIZONTE.
Vossos mostruarios deixaram entrever a excellencia da elaboração dos pro-
ductos nelle contidos. RESULTANTE DO RIGOROSO CRITÉRIO TECHNICO QUE A D I R E C Ç A O
DE VOSSO ESTABELECIMENTO MANTÉM.
No Patrimônio industrial de nossa Pátria, vossa empreza acha-se em posição
destacada, e, por tal merece todo o apoio das classes consumidoras.
Alem da homenagem acima referida, este Instituto houve por bem:
—acclamar vossa firma MEMBRO TITULAR deste Instituto, (vide art. 8 de nossos Estatutos)
ante os serviços extraordinários que tendes prestado ao progresso fabril brasileiro.
Aguardamos vossa resposta para a sequente remessa dos laureis, bastando para tal o
retorno do BOLETIM DE ADHESÃO PREENCHIDO.
INSTITUTO TECHNICO INDUSTRIAL
Eng. Júlio A Barboza
Director Secretario
tzâa ^eneitm
(rUNDADA E[*I 1910Í

f?IM®3* Ü I®I J I » p , f Ji

Jornaes, Revistas, Figurinos e Musicas

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CATAGUAZES - ESTADO DE MINAS
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t : DIRECTOR : : NUTMCEUO . a
A N N O . . . 1
K I H Q I E IE IESENDE
:: :: REDACÇÃO :: ::
: REDACTORES :
:: :: :: E :: :: :: ::
MARTINS MENDES ADMINISTRAÇÃO
:: :: :: :: E :: :: :: :: Pi VKTMKfíUb RUA CEL. VIEIRA, 53
ROSÁRIO FUSCO CATAGUAZES - MINAS
CUbTURA'
1C

f V
NESTE NUMERO DA "VERDE":

ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO 0 AVENTUREIRO ULISSES


MARIO DE ANDRADE RONDO DO BRIGADEIRO
A. C. COUTO DE BARROS A PROPÓSITO DO BRÁS, BEXIGA E
BARRA FUNDA
SÉRGIO MILLIET ELEGIA
ASCANIO LOPES A HORA PRESENTE
HENRIQUE DE RESENDE 0 CANTO DA TERRA VERDE
RIBEIRO COUTO DELICIA DA CONFUSÃO
OSWALDO ABRITTA JARDIM
ABGAR RENAULT FELICIDADE
ROSÁRIO FUSCO POEMAS CODAQUE
CAMILLO SOARES PEDROMALAZARTE
ROBERTO THEODORO POEMAS DE BELLO-HORIZONTE
MARTINS DE OLIVEIRA MELANCOLIA
EMÍLIO MOURA SERENIDADE NO BAIRRO POBRE
FRANCISCO IGNACIO PEIXOTO BERCEUSE
MARTINS MENDES 1NSOMNIA

N O T H S P O R x YAN DE ALMEIDA PRADO, HENRIQUE DE RESENDE,


CAMILLO SOARES, EDMUNDO LYS E ROSÁRIO FUSCO.

S
NUMERO 1$000 ASSIGNATURA — 11$000

M II II H H
FABRICA DE MACACÃO
M A S S A S ALIMENTÍCIAS
: : E : :
REFINAÇÃO DE A S S U C A R

SALGADO & C.
Premiada na grande Exposição Internacional do Centenário de 1922 e com
Medalha de Ouro pelo Instituto Agrícola Brasileiro.

Massa refinada de puro trigo escolhido


Esta massa sendo fabricada com semolina de superior qualidade, constitue um
alimento são e nutritivo, possue um gosto agradável e apresenta tal augmento
ao consinhar-se, que se pôde usar um terço menos das de outras semelhantes.

Premiada com medaha de ouro na


Exposição de Bello Horizonte em 1927
Recommenda-se aos Srs. consumidores a preferencia sobre as outras massas
:: :: não só pela confecção como pelo systema de acondicionamento :: :.
N. B. — Para a conservação da massa é necessário guardal-a em logar enxuto:

CAIXA DO CORREIO, 6 - E. F L.

C M M M I E S - E,
Outubro 1927 VERDE

João Duarte Ferreira & Cia,


CFITÊSCBUTIZES — I&IIM7SS QERFSES — ¥ E L . E P f l © N E , W

BANCO DE C A T A G U A Z E S
Descontos — Cobranças e outras operações
Remessa de numerário para o Rio — isenta de despezas
Tabeliã de depósitos
C/C AVISO PRÉVIO 6 /J AO ANNO
C/C MOVIMENTO (retiradas livres) 4 % AO ANNO
Depósitos et praso fixo
EM 3 MEZES 6 % AO ANNO
EM 6 MEZES 7 7 0 AO ANNO
EM 12 MEZES 8 % AO ANNO
F o r n e c e cadernetas e t a l ã o d e cheques—Nâo cobra sellos d e depósitos

0 cheque proporciona um meio de pagamento seguro, fácil e inteligente

S E C Ç Ã O INDUSTRIAL
Grande deposito de madeiras de todas as qualidades. Esquadrias e quaesquer
outros trabalhos pelos menores preços. Grande e bem apparelhada officina
mechanica e de fundição. Deposito de ferragens, fogões e artigos de electri-
cidade: motores electricos de 3 a 25 H. P., ferros de engommar, apparelhos
para aquecer água, café, chá, etc. Grande deposito de correias de sola e bor-
:: :: :: :: racha, para machinas, de 1/2 a 20 :: :: ::
Únicos representantes nesta z o n a d a
Cia. Brasileira de Electricidade Siemens SchucHert S. A. e
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VERDE
ANNOl CATAGUAZES — OUTUBRO 1927 I NUAVERO 2

LITERATURA D E BRINQUEDO
Verde constituiu um delicioso escândalo Mas depois vieram as noticias dos gran-
na sua cidadesinha—de—interior. E não era des jornaes do paiz. Verde recebida com al-
para menos. Ninguém esperava que a an- tas honradas. Outros nomes, que ha muito
nunciada revista surgisse como surgiu. Que! si impuzeram no mundo das letras, offere-
Revista sem photographias dos políticos da cem hoje a Verde o labor da sua penna. To-
terra. Sem instantâneos das melindrosas, á dos se admiram, boquiabertos. Ha um natu-
saida da missa, ou melancolicamente espa- ral embaraço. O commentario affrouxa. Por
lhadas pelos jardins da urbs. Sem uma vis- vezes se modifica.
ta siquer do Novo Hospital. Sem isto. Sem Já somos nós agora que sorrimos.
aquillo. Qual revista qual coisa nenhuma!
Um mero folheto com sonetos futuristas, E que fazer? Não será este ainda o
como o do sr. Carlos Drummond de Andrade, nosso publico. A mordacidade, resultante, no
que não passa de um ridículo plagio do Re- caso, de um principio rotineiro e bolorento,
gulamento Interno da Inspectoria de Ve- passará. Virá o silencio condescendente. Mas
hiculos. o applauso ainda não. Talvez mesmo nunca.
E a Viagem Sentimental do sr. Edmundo
Lys ? Uma bambochata, com mistura de ca- E' que nós não precisamos apenas de
nivetes, Código Civil, tenentes e laranjas. De- Theatro de Brinquedo. Necessitamos tam-
pois o sr. Martins de Oliveira, com uns ne- bém de Literatura de Brinquedo. Literatura
gócios complicados de palhaço de circo,— infantiL Sim. Urge começar tudo de novo. Ao
tudo sem rima e de pé quebrado. publico incumbe esquecer o que já apren-
E o sr. Theobaldo! Cruz credo! Um deu. Esquecer sobretudo os clássicos, esses
verdadeiro escândalo é que é. Todos ma- cacetissimos senhores de antanho, e toda a
lucos. Todos com macaquinhos no sóto. E' sua verbosa descendência, até chegar mais
o sr. Fusco fingindo que não sabe graphar ou menos ahi pela altura dos srs. Alberto de
direito. O sr. Camillo com um Xixi incom- Oliveira e Coelho Netto. E recomeçar a apren-
preensível. O sr. Peixoto, o sr. Ascanio. Etc. der. Mas recomeçar pela Literatura de Brin-
Etc. Uma bôa corja com tendências para quedo. Desta é que nascerão os primeiros es-
o 70 Sul. criptores do Brasil, como do Theatro de
E triumphantemente o respeitável publico Brinquedo ha-de nascer um dia o primeiro
se delicia: ora, os futuristas... autor do mundo contemporâneo, na phrase
do sr. Renato Vianna.
Outros leitores, um pouco mais con- E porque?
descendentes, limitam-se a dizer que o sr. O sr. Renato explica: "Da tradição é
Henrique de Resende vem fazendo blague. que não poderemos esperar mais nada, abso-
Nada mais. Não é crivei que um moço casa- lutamente nada mais.'"
do, pae de um pimpolhinho de seis mezes, Ora, já que é assim, é enveredarmo-nos
autor de um livro passadista, perfeitamente por outros atalhos.
equilibrado, com bonita epigraphe latina, se Mas para tal é mister que se aprenda a
associasse aos srs. Rosário Fusco e Martins esquecer a tradição e a amar um pouco mais
Mendes para a realisação de semelhante ab- a renovação das coisas.
surdo literário. E' o que tentamos. E se isso não se dér
E a cidadesinha culfa e progressista—co- o publico continuará a ter esta mesma pena
mo o são, no geral, as cidadeílas do inte- de nós e nós continuaremos a ter esta mes-
rior, segundo os seus hebdomadários,—en- ma immensa piedade pela ignorância do
rubeceu todinha com a publicação de Verde. publico.

HENRIQUE DE RESENDE
8 VERDE Outubro 1927

O AVENTUREIRO ULISSES

Ainda tinha duzentos réis. E como eram —S. PAULO-JORNAL!


sua única fortuna meteu a mão no bolso e Quási derrubou o homem na esquina.
segurou a moeda. Ficou com ela na mão O italiano perguntou logo:
fechada. —Qual é ?
Nesse instante estava na avenida Celso Atrapalhou-se todo:
Garcia. E sentia no peito todo o frio da —Eu não sei não senhor.
manhã. —Estão leva O ESTADO!
Duzentão. Quer dizer: dois sorvetes de Pegou o jornal. Ficou com êle na mão
casquinha. Pouco. feito bobo.
Ah! muito sofre quem padece. Muito —Duzentos réis!
sofre quem padece? E' uma canção de So- Quási chorou. O homem arrancou-lhe a
rocaba. Não. Não é. Então o que é ? Mui-to moeda dos dedos que tremiam. E êle conti-
so-fre quem pa-de-ce. Alguém dizia isso nuou a andar. Com o jornal debaixo do
sempre. Etelvina? Seu Cosme? Um dos dois. braço. Mas sua vontade era voltar, chamar o
Com certeza Etelvina que vivia amando homem, devolver o jornal, readquirir o du-
toda a gente. Até êle. Sujeitinha impossível.
Só vendo o geito de olhar dela. zentão. Mas não podia. Porque não podia?
Bobagens. O melhor é ir andando. Não sabia. Continuou andando. Mas sua von-
tade era voltar. Mas não podia. Não podia.
Foi. Não podia. Continuou andando.
Pé no chão é bom na roça. Na cidade Que remédio senão se conformar ? Não
é uma porcaria. Toda a gente estranha. E' tomava o sorvete. Dois sorvetes. Dois. Mas
verdade. Agora é que êle reparava direito: tinha O ESTADO. O ESTADO DE S. PAU-
ninguém andava descalço. Sentiu um mal LO. Pois é. O jornal ficava com êle. Mas
estar horrível. As mãos a gente ainda es- para quê, meu Deus? Enguliu um soluço e
conde nos bolsos. Mas os pés? Cousa hor- sentiu vergonha.
rorosa. Desafogou a cintura. Puxou as cal- Nesse instante já estava em frente do
ças para baixo. Encolheu os artelhos. Deu Instituto Disciplinar.
dez passos assim. Pipocas. Não dava geito
mesmo. Pipocas. A gente da cidade que vá Abaixou-se. Catou uma pedra. Pá! Na
bugiar no inferno. Ajustou a cintura. Levan- árvore. Bem no meio do tronco. Catou outra.
tou as calças acima dos tornozelos. Acintosa- Pá! No cachorro. Bem no meio da barriga.
mente. E muito vermelho foi jogando os pés Direcção assim nem a do cabo Zulmiro. Fi-
na calçada. Andando duro. Como se estives- cou muito, mas muito satisfeito consigo mes-
se calçado. mo. Cabra bom. E isso não era nada. Há dois
anos na Fazenda Sinhá Moça depois de cin-
—ESTADO! COME'RCIO! A FOLHA! co pedradas certeiras o doutor delegado (o
Sem querer procurou o vendedor. que bebia) lhe dissera: Desse geito você po-
Olhou de um lado. Olhou de outro. derá fazer bonito até no estrangeiro !
—FANFULLA! A FOLHA! Eta topada. A gente vai assim pensan-
Virou-se para trás. do em cousas e nem repara onde mete o pé.
—ESTADO! COME'RCIO! E' topada na certa. Eh! Eh! Topada certeira
Olhou para cima Olhou longe. Olhou também. Puxa. Tudo certeiro.
perto. Agora não é nada mau descansar aqui
Diacho. Parece impossível. á sombra do muro.
Outubro 1927 VERDE
O automóvel passou com poeira atrás. Então êle levou a mão ao queixo. Es-
Diabo. Pegou num pauzinho e dezenhou um fregou. Esfregou bastante. Levantou-se. Foi
quadrado no chão vermelho. Depois escre- andando devagarinho. Viu um sujeito a cin-
veu dentro do quadrado em diagonal: SAU- coenta metros. Começou a tremer. O sujei-
DADE-1927. Desmanchou tudo com o pé. Tra- to veiu vindo. Sempre na sua direcção. Quiz
çou um círculo. Dentro do círculo outro me- assobiar. Não pôde. Nunca se viu ninguém
nor. Mais outro. Outro. Ainda outro bem pe- assobiar de mão no queixo. O sujeito estava
quetitito. Ainda outro: um pontinho só. Não pertinho já. Pensou: Quando êle for se che-
achou mais geito. Ficou pensando, pensan- gando eu cuspo de lado e pronto. Começou a
do, pensando. Com a ponta do cavaco furan- preparar a saliva. Mas cuspir é ofensa. En-
do o pontinho. Deu um risco nervoso cor- guliu a saliva. O sujeito passou com o dedo
tando os círculos e escreveu fora deles sem no nariz. Arre. Tirou a mão do queixo. En-
levantar a ponta: FIM. Só que escreveu com direitou o corpo. Apressou o passo. Foi fican-
n. E afundou numa tristeza sem conta. do mais calmo. Até corajoso.
Cinco minutos banzados. Parou bem juntinho dos operários da
E abriu o jornal. Pulou de coluna em Ligth.
coluna. Até os olhos da Teda Bara nos ro. O»Oportuguês
mulato segurava no pedaço de fer-
anúncios de cinema. Boniteza de olhos. Com pan! E o ferro iadescia o malho: pan! pan!
o fura-bolos rasgou a boca, rasgou a testa. Nem o mulato nem o portuguêsno levantaram
afundando dormente.
Ficaram só os olhos. Deu um soco: não ficou os olhos. Ele ficou ali guardando as pan-
nada. Jogou o jornal. Ergueu-o novamente. cadas nos ouvidos.
Abriu na quarta página. E leu logo de cara: O mulato cuspiu o cigarro e começou:
ULISSES SERAPIÃO RODRIGUES-No dia 13
do corrente desapareceu do Sítio Capivara, muni- Mulher, a Penha está ai,
cípio de Sorocaba, um rapas de nome Ulisses Sera- Eu lá não posso ..
pião Rodrigues tomando rumo ignorado. Tem 22 Que é que deu nele de repente ?
anos. é baixo, moreno carregado e magro. Pode —Seu moço! Seu moço!
ser reconhecido facilmenfe por uma cicafriz que A canção parou.
tem no queixo em forma de estrela. Na ocasião de —Faz favor de dizer onde é que fica a
Penha?
seu desaparecimento estava descalço, sem colarinho
e vestia um terno de brim azul-pa\ão. Quem souberO mulato ergueu a mão:
de seu paradeiro queira ter a bondaae de escrevei—Siga os trilhos do bonde!
para a Caixa Postal 00 naquela cidade que será Então êle deu um puxão nos músculos.
bem gratificado E seguiu firme com os olhos bem abertos e
Cousas assim a gente lê duas vezes. mão no peito apertando os bentinhos.
Leu. Depois arrancou a notícia do jornal. E —S. Paulo, agosto de 927—
foi picando, picando, picando até não poder
mais. O vento correu com os pedacinhos. ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO.

g®j3
B
10 VERDE Outubro 1927

FELICIDADE
A HENRIQUE DE RESENDE.

Felicidade — o titulo tão comprido deste poema tão

pequeno!

Felicidade — substantivo commum, feminino, singular,

polysyllabico.

Tão polysyllabico. Tão singular. Tão feminino. E

tão pouco commum.

Substantivo complicado, metaphysico,

que cabe todinho

na bondade simples de alguém que eu sei

e no sorriso sem dentes de meu filho.

1927.
ABGAR RENAULT.
Outubro 1927 VERDE 11

r.vtliJJ2T.^-.».'¥ •j-U ;»=

RONDO DO BRIGADEIRO
(dos Poemas de Campos do Jordão)

O brigadeiro Jordão
Possuiu estes latifúndios
Dos quais o metro quadrado
Vale hoje uns nove mil r e i s . . .
Puxa! que homem felizardo
O brigadeiro Jordão...
Tinha casa tinha pão
Roupa lavada e engomada
E terras... Qual terras! Mundos
De pastos e pinheirais!...
Que troças em perspectiva...
Nem pensava em serrarias
Nem fundava sanatórios
Nem gado apascentaria!
Vendia tudo por oito
E com a bolada no bolso
Ia no largo do Arouche
Comprar aquelas pequenas
Que moram numa pensão...

Mas não são minhas as terras


Do brigadeiro Jordão..

MARIO DE ANDRADE

A
12 VERDE Outubro 1927

A PROPÓSITO DO
(<
BRÁS, BEXIGA E BARRA FUNDA"
S. Paulo, 22 de março de 1927.

Alcântara: tem uma significação especial, um valor pró-


Li seu livro com immenso prazer. De prio. E' um todo. Para o leitor é differente.
uma só vez. Um homem está num plano in- Para o leitor, raramente acontece coincidir
clinado e, num dado momento, quer deter- o valor que elle dá com o valor 100 pre-
se. Não pode. E escorrega até o fim. Seu supposto. Ou não chega a loo, ou ultrapassa.
livro igual ao plano inclinado. E tanto num, como noutro caso, o livro perde.
Domingo, em casa de Paulo Prado, eu Anatole France disse que um dia se surpre-
dizia para os da roda que só quem conhece hendeu descobrindo profundidades que nun-
S. Paulo podia compreender integralmente ca existiram não sei mais em que autor gre-
Brás. Bexiga e Barra Funda. N e s s e s e n t i d o , e r a go. Estava "ultrapassando..."
uma obra regionalista. Houve protestos.— Essa cousa pode acontecer mesmo nos
Não, disse Mario de Andrade.—Não, disse livros descriptivos. Todo o mundo "compre-
Paulo Prado. Chegou-se mesmo affirmar que hende" uma descripçâo do Japão, sem nunca
era preciso acabar com essa "historia de ter ido lá, lendo Loti, Lafcadio Hearn ou
regionalismo" Si os ânimos estivessem um Horacio Scrosoppi. Entretanto, essa descri-
pouco mais exaltados e Mr. Bacharach en- pçâo tem muito mais interesse para aquelle
trasse na discussão, acabava-se concluindo que viu. Mas, mesmo para "aquelle que viu",
que o regionalismo não existe. o livro já é differente, em relação á idea
Não era possivel demonstrar a minha que delle faz o próprio autor. Sim, porque
these. Por mais bem educados que sejam os foi debaixo de certo estado psychico, sob
interlocutores, ha sempre tanto barulho e certa pressão emocional que o actor presen-
tanta cousa alheia em volta de uma dis- ciou certas scenas, annotou certos aspectos,
cussão, que ninguém pode distinguir o ponto fixou certos typos. E é impossível transplan-
essencial, que está no meio, como ninguém tar para o espirito do leitor esse ambiente
vê o poste de parada, quando a multidão se psychologico, que é por assim dizer uma in-
acotovela em volta. Entretanto, o poste está venção do autor, propriedade sua e que só
lá, visível: é só levantar a vista para o c é o . . . elle pode usufruir. Sob este ponto de vista,
Mas, alli, naquelle terraço em que es- todo livro é hermético. O regionalismo é uma
távamos reunidos, uma formiga no corrimão espécie de hermetismo. Hermetismo obje-
da escada; o suicídio de uma nuvem no céo; ctivo.
a côr do licor: o mercúrio do thermometro; Você conhece o caso doméstico da
a fraze latina na parede; um pouco de esta- receita de doce. A receita está alli escripta,
tua e aquella enorme figa preta, que parece direitinha, não falta nada. Mas vá alguém
um punho de boxeur ameaçador contra tentar fazer! Doce é mágica. Precisa geito.
o azar, tudo atrapalhava, tudo desviava, tudo Lêr, o mesmo. As palavras estão alli, o sen-
perturbava o pensamento. Mas, agora, a vo- tido gramatical também. Mas que dê o outro
cê eu faço questão. sentido, o sentido que "vale"?
Um livro mathematicamente falando é Em arte, a questão não está tanto em
um X. Para o autor, X tem um valor defi- comprehender, mas em reconhecer. A fun-
nido, digamos 100. Só o autor sabe intima- cção do reconhecimento é tão importante
mente o livro. Dentro das suas paginas, tudo que, exagerada, deu naquella theoria de
Outubro 1927 VERDE 13

"imitação da natureza". William Blake pro- mo você gosta dos bês, seu Alcântara, desde
testou energicamente: 'a man puts a model o Pathc-BabyX), eu digo que aquelle que não
before him and he paints it so neat as to conhece S. Paulo, como nós conhecemos, não
make it a deception. Now I ask any man of pode gostar delle como nós gostamos. Um
sense is that art?" estranho estará muito longe daquelle valor
Todos gostam de reconhecer, porque 100 convencional. Seu livro exije, pelo me-
reconhecer é viver de novo, é bisar a vida, nos nos contos mais característicos, como
é tornar reversível o tempo linha recta de Gaetaninho, Carmela, Liselta. O Monstro de Rodas
Bergson. etc, uma bagagem de conhecimentos empí-
Eu citei o exemplo da receita de doce. ricos sobre o nosso meio, usos e costumes
Vou citar o do mappa. Mappa, criança com- para poder ser apreciado. Quem não tiver
prehende. Mas um mappa da cidade de S. essa bagagem não passa. Fica nos 'humbra-
Paulo para quem reside aqui tem outra si- es" do livro. Poderá apreciar as Notas bio-
gnificação. Além do simples valor utilitário, graphkas do novo deputado, mas nunca poderá
topographico, o mappa torna-se uma cousa penetrar o valor de um conto como os acima
rica, cresce por alluvião de ideas e senti- citados. E' que falta a esse leitor a "funcção
mentos. Esparrama-se. Innunda, principal- do reconhecimento" Será para sempre um
mente si o paulista está fora no extrangeiro. livro secco. Dry. Extra-dry, como você. De-
Tem a Estação da Luz, tem a rua onde elle pois, ha muito dialogo no /'rás, Bexiga e I arra
mora, tem a casa da namorada. Funda, o que agrava o seu hermetismo.
Eu podia em vez de mappa falar em Si fizessem um concurso entre os es-
retrato, falar em bandeira, falar em tudo que criptores nacionaes e propuzessem como
implique reconhecimento e produza atropelo thema os enredos dos seus contos, você ga-
de reprezentações mentaes. Mas você está nharia o prêmio. Ganharia longe.
farto de saber tudo isso. E' ou não é ? Agora, escute. Lembra-se do jogo do
Estou dizendo todas essas cousas para "diavolo"?
mostrar que um livro só é comprehendido E' preciso saber imprimir uma certa
integralmente quando é "sentido", e só pode velocidade ao carretei, para que elle, atira-
ser sentido quando o leitor começa a refa- do ao ar, volte direitinho ao barbante que
zer as experiências vitaes que constituem o equilibra. Sem essa velocidade, não vae.
a matéria prima do livro, quer essas expe- Ora, muitos livros não "vão" por falta dessa
riências sejam objectivas (como na descri- velocidade espiritual, por parte do leitor.
pçâo), quer subjectivas (como num caso de Falta-lhe a experiência objectiva ou subje-
amor, por exemplo). ctiva e, faltando isso, falta tudo. Você pode
As analyses de Sthendal ou de Proust contar a mais bella historia de amor a um
só interessam quando a gente diz "é isso homem que nunca soffreu casos amorosos,
mesmo" ou "tal e qual" Ora, "isso mesmo" e elle chamará você de bobo. Com toda
ou "tal e qual" que é senão o próprio "re- a razão.
conhecimento" ?
Quanto ao Brás, Bexiga e Parra Funda (CO- A. C. COUTO DE BARROS.

nr
14 VERDE Outubro 1927

P O E M A S DE BELLO HORIZONTE

Pra Rosário Fusco.

Coração de jardins.
Flores em festa.
— Poema.

II

Calma azul.
Desfile de magnolias.
Mangueiras.
Manacás.
Frescura de folhagens.
Sombras.
— Romance.

IH

Crepúsculo.
Festa de cores.
Fascinação.
Cidade
do ouro
do verde
do azul.
—Bailada.

ROBERTO THEODORO.

L
Outubro 1927 VERDE 15

DELICIA DA CONFUSÃO

Ninguém disse ainda, a respeito do mo- A confusão mais salubre se estabeleceu.


vimento vanguardista em nossa literatura, Emfim, basta que saibamos todos o que
uma coisa mais saborosa que o sr. Annibaí não queremos. O sr. Annibal Machado, por
Machado: por emquanto, não sabemos ainda exemplo, é dos que sabem. Mas nem todos
o que queremos—sabemos tão só o que não sabemos...
queremos. Ao fim de sete ou oito annos de rea-
Tão saborosa e tão verdadeira. Porque, cção combativa, estamos na situação do sol-
apezar de ensaios, de polemicas, de livros, dado em guerra: vai marchando porque o
ainda não se definiram de modo inilludivel comraando geral (força invisível) manda
as grandes linhas de um systema. Nem nun- marchar.
ca se definirão talvez. A liberdade de meio Para onde ? Insisto: não tem importân-
expressivo e a definição da terra são duas cia conhecer.
características, ou talvez duas preoccupa- Façamos a campanha. E' delicioso ca-
ções, porém não podem constituir uma es- minhar. Escrevamos os nossos livros.
thetica. O symbolismo francez, no ultimo De tudo ficará alguma coisa. Essa algu-
quartel do século XX, foi uma reacção do ma coisa ninguém é capaz de saber qual
subjecíivismo contra o objectivismo. Era por- seja. Muito livro que hoje faz o nosso respei-
tanto um movimento nítido na sua estructu- to pode desapparecer, resíduo insignificante
ra. Entre nós, isto a que todos chamamos que a mão do tempo (critica Filtro Fiel) irá
(e realmente existe) poesia modernista, não deixando sumir nas vallas communs do si-
se pode dizer que tenha uma tendência para lencio.
um polo ou para outro. Ha poetas moder- Filhos de um século esportivo, sabemos
nistas de construcção óbjectiva, como os bem que não é essencial ganhar o pareô,
ha de construcção subjectiva. Sentimos que mas fortificar os músculos.
todos são modernos, apezar das oppostas at- E gosamos com a confusão, uma con-
titudes interiores. fusão maior do que a outra, a terrível, aquel-
Essa tendência para explicar, que faz la que reina no estylo do senhor... (Aos
a gloria dos caixeiros viajantes nos hotéis maliciosos concluir.)
do interior, fica perplexa diante do proble-
ma. Em que consiste a modernidade ? RIBEIRO COUTO.

VERDE publicará nos seus próximos números


collaborações inéditas d e : ALCÂNTA-
RA MACHADO, CARLOS DRUMMOND, PRUDENTE, neto, ABGAR
RENAULT, ASCANIO LOPES,. ROBERTO THEODORO, MARIO DE
ANDRADE, SÉRGIO MILLIET, YANDE ALMEIDA PRADO, EDMUNDO
LYS, MARTINS DE OLIVEIRA, PIMENTA VELOSO, GASTÃO DE
ALMEIDA e outros.
16 VERDE Outubro 1927
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« Byrtg^-sd&areMw^r.a^'rasg^

POEMAS CODAQUE

Juiz d e Fora
Pro Antônio de Alcântara Machado.

Manchester das minas gerais.


O crepúsculo escorrega violentamente
e cai
na paisagem de cartão-postal
e nos olhos espantados do Christo-do-Môrro.

P a i s a g e m n. Z
Pro Carlos Drummond de Andrade.

Uma hora.
O dia parou com o meu relógio.
Nem uma folha só planta ruídos.
Nada.
E eu fico pensando na ingenuidade daquelle homem alto
que falia muito rouco
tosse
tosse
tosse
e vive a vida átôa
quentando sol o dia inteiro.

Rio d e J a n e i r o
Pro Roberto Theodoro

Os meus sentidos são um menino


que veste um vestido novo.
972
ROSÁRIO FUSCO.

« • ^ H B T ^ I , ^
Outubro 1927 VERDE 17

A HORA PRESENTE

A palavra estrangeiro, na sua origem, tuberancias que, como Canudos, assomam


significava o inimigo. E essa significação á pelle da nacionalidade. Porque uma nação
não se perdera, estava latente em todos os só o é de facto, sem medo de separatis-
espíritos. A grande guerra, despertando os mos e desuniões, quando ha uma affinidade
sentimentos nativistas dos povos, acordando profunda ou uma egualdade de raça entre
as forças que prendem o homem á sua ter- os elementos que formam o povo; quando a
ra e á sua gente, reviveu o velho sentido lingua, os costumes, a literatura, o passado,
do vocábulo; creou uma athmosphera de o ideal futuro, prendem, enlaçam esses ele-
revolta contra o estrangeiro, contra as ins- mentos para um destino commum.
tituições e costumes alheios; creou, emfim, Trata-se, pois, da unificação da raça;
um estado de rebcllião permanente contra da unificação da lingua, já differenciada da
as outras nacionalidades. Mais, ainda: fez portuguesa por uma força subconsciente,
com que todos voltassem os olhos para sua incorporando-se ao patrimônio delia os le-
terra .e sua gente. Não para um idealismo gítimos modismos e palavras da generali-
romântico, porque o momento era de acção; dade do povo brasileiro; tenta-se a forma-
não para uin pessimismo doentio, porque o ção duma literatura própria, quer quanto
momento, que era de exaltação de cada ás fontes de inspiração, quer quanto á for-
nacionalidade, não o comportava. Mas, para ma; trata-se da creação duma legislação bra-
um exame melhor das coisas, para a nacio- sileira, que proteja mais os nacionaes e me-
nalização das instituições, para a formação lhor se accomode ao nosso meio e á nossa
dum espirito nacional, para a creação, apu- gente; procura-se entrelaçar as diversas
ração ou consolidação de uma nacionalida- unidades da federação pelas rodovias, que
de, isenta e fora do circulo da influencia são outro tantos elos de união entre ellas;
directa dos elementos estrangeiros. E nos prende-se o interesse de um ao interesse de
paizes novos e de immigração, como o Bra- todos, para que todos se interessem pela
sil, onde o espirito e as coisas nacionaes conservação da collectividade.
não estão estabilizadas, passado o primeiro Hora de analyse profunda das coisas
instante de choque com essa corrente de a hora presente, em que a ânsia de brasi-
ideas de nacionalização, que foi de um com- lidade invade todos os corações, preocupa
bate violento, mais de barulho que de re- todos os cérebros, porque todos que sentem
sultado, trata-se, na hora presente, de for- e pensam compreenderam que o problema,
mar um espirito nacional, um critério na- longe de encerrar um mesquinho sentimento
cional, para a solução dos problemas nacio- bairrista, é o problema mesmo da nossa exis-
naes; luta-se pela formação da nacionalida- tência e duração, como povo e como nação.
de, pela conservação em estado de pureza Hora de inquietação, de estudo, de luta,
ou pela creação dos elementos que são in- de plasmação, em que a congerie dos pro-
dispensáveis a ella; trata-se de absorver o blemas diversos é separada systematica-
estrangeiro, sem ser absorvido por elle. mente e systematicamente estudada, sobre
o fito de um ideal commum a abrasileira-
Entre nós, para que exista de facto a ção, a perduração do Brasil.
nação brasileira, trata-se de formar o povo Hora momento—brasileiro, a mais bella
dentro da unidade de raça, para que seja da nossa gente; hora incerta, obscura, ne-
possivel a coesão dos elementos dispersos bulosa, em que se trata da eternidade, no
na vastidão do território, quer encaminhan- espaço e no tempo, de uma sociedade.
do intelligentemente a immigração, quer es-
tudando os nossos núcleos raciaes e as pre- ASCANIO LOPES.
18 VERDE Outubro 1927

ELEGIA
(Encontrada no Leão da Estrada,)
espetada na almofada.
Desde do instante que te vi
fiquei loucamente apaixonada.
Não me desprezes
Amo-te és meu, ou serás?
O numero de meu telephone é cid.
3584, chamando pelo a Odette, que
tanto te ama.
Uns beijinho
Ao jovem dus bigodinho.
Copiada por SÉRGIO MILLIET.
ssassasEsaasürasBí^E^Ears::

O C A N T O D A TERRA VERDE
Leva de negros.
Fuzila o sol tinindo nas cacundas nuas.
No ar o lampejo metálico das enxadas e das picaretas.
(A quando e quando
estrala a dynamite, estrondando e rebom-
bando no seio bruto
da pedreira bruta.)
E as estradas de rodagem, a custo, lentamente,
se entrelaçam,
como um cordame de veias,
no corpo adusto
da terra inhospita.
HENRIQUE DE RESENDE.

BERCEUSE
Ha uma caricia subtil
no meu quarto...
A chuva indiscreta
vae contando .
na melancolia ingênua de uma goteira
a tristeza que ha lá fora.
—Alegria de pensar que a vida ê bôa!
FRANCISCO IGNACIO PEIXOTO.
A
Outubro 1297 VERDE 19

' ^

PEDROMALAZARTE
Para Ribeiro Couto

A minha professora
magra
magrinha
gostava muito de mim.

E eu era o pedromalazarte
da classe.

Um dia na hora do recreio


eu vi a minha professora
magra
magrinha
tossir
tossir
tossir
e tingir o seu lencinho branco
de vermelho.

Hoje Deus levou a minha professora


e eu sinto um remorso danado
de ter sido
o pedromalazarte da minha classe.

CAMILLO SOARES

Btt9i g^aaKMB . r » i i i . m » l . n « n « « t . J J / J i C J i ; yVfriatf w "'—*•"• T B i r - ' ' - ™ . » — - . - . ' . -a.---^ . ' " « >••-••• l ••• i W . T W . . . . ^ .. •.• - . - j
20 VERDE Outubro 1927

RICARDO PINTO E UM LIVRO


Ha na ironia canalha de Ricardo Pinto es- Eu fui sempre um revoltado, e encontrei
sa atrevida sinceridade que nos faz reconhe- em Ricardo este sentimento consolador, esse
cer os seus escritos, mesmo sem assinatura. despreso piedoso e irônico de um homem—
Tem uma personalidade definida, um parte—isolada—da—humanidade, uma exce-
modo muito seu, de espressar o seu profun- pção no redemoinho desenfreado da luta
do despreso pelos industriaes pansudos da da vida.
politicagem rasteira. Esse modo maravilhoso da sinceridade
E' na vida como na literatura: um sin- e ironia que o conteur admirável põe nos
cero. Hão de chamal-o de escandaloso, é seus escritos é a melhor recommendação
certo, porem os seus livros são e hão de para os seus livros.
sempre ser lidos com interesse, porque fa- Não faz essa sátira pesada e enjôativa
lam livremente á alma desse povo tão moço dos revoltados violentos, dos desilludidos la-
e tão sem coragem de reprimir a miséria ge- crimosos.
ral que os politiqueiros safados provocam. Os seus contos agradam a todo o paladar.
A literatura desse moço não é a de um A todos não!
despeitado, de um fantoche. Os pães—da—pátria hão de ver nos se-
Muito pelo contrario. us livros o espelho para as suas figuras gro-
Ha nos seus livros esse traço que o ca- tescas, ratazanas encasacadas, verdadeiras
racterisa, definitivamente diferente dos ou- sanquesugas dessa caixa de maribondos que
tros, que fazem da pena o ganha-pão amar- a raiva de Deus poz no caminho de um povo
go de cada dia, mascarando as próprias opi- mais que medíocre.
nião, para regalo da gentinha miúda que já ***
se acostumou aos bernardes e aos suicídios
i n v o l u n t á r i o s dOS mergulhos nas calcadas Mas... espera!
Leio Ricardo Pinto como quem lê no Ia me esquecendo do novo livro de Ri-
campo invisível de uma alma, a superiorida- cardo Pinto.
de dos homens superiores. GENTE RUIM é um livro que deve ser lido.
Ricardo Pinto é um caso excepcional. A construcção psychica da nossa alma
E me orgulho immensamente da ami- de caboclo e de mestiço achará nas suas
zade desse jovem escritor. paginas um verdadeiro poema de sinceridade.
Hão de dizer que faço propaganda do E não ha negar: da sinceridade aleijada
meu amigo. Muito embora! de que viemos, ficou nos esse gosto invencí-
Conheci os livros de Ricardo Pinto an- vel pela ironia, ironia tropical, ironia cana-
tes de conhecer Ricardo Pinto. lha, ironia de Ricardo Pinto.
Foi uma casualidade o nosso encontro. Setembro de 1927.
Uma das pouquíssimas boas casualida-
des na minha vida. CAMILLO SOARES

A ESMERALDA

Aristobulo de ©liveira
é a ouviresaria e relojoaria chie por excellencia. Bijouterie, Relógios, brilhan-
tes, artigos para presente, pulseiras, anéis, allianças, etc.
Esta casa é depositaria das afamadas canetas-tinteiros — ECLYPSE
RUA CORONEL JOÃO DUARTE
CATAGUAZES -- MINAS
Outubro 1297 VERDE 21

MELANCOLIA

«—Bocca de forno!
—Forno!»
Ficou no fundo de minh'alma o sonho dos meus sonhos,
uma coisa que a gente tem na vida como se fora sombra..
«—Bocca de forno!
—Forno!»
Gritos, corridas, brincadeiras...
«—Tirae um bolo!
—Bolo!»
Choros, brigas e luctas...
Jangadas pelo rio abaixo, e banho ás escondidas...
Tudo era alegria, era prazer.
Joanna, pobre velha, andava a rir um riso humilde,
um riso de caricia,
e nos contava a historia do sacy cincoenta vezes..
E a meninada ria estrepitosamente . . .
Vinha o Maneco, o filho de Sá Rita, um caboclinho mal-
creado e perigoso, e nos dizia:
— V a m o s ao Orço Americano !
E' muito fácil lá entrar,
porque não tem cercado em roda, e o panno é muito alto,
e o Pachoía um palhaço muito bom.
«—Bocca de forno!
—Forno!»
Folguedos, e fogueiras... Novenas, theatrinhos.
Curral do J u d a s . . .
Todas as tardes, pela rua Nova, e morro do Rosário, e o
largo da Estação, ouvíamos o grito altíssimo
de Osório:
—Vamos brincar de guerra, agora!
Nós somos Japoneses e vocês são Russos...
Depois de muita lucta, vinham nossas mães a procurar-nos:
—Sáe do sereno, gente!
«—Bocca de forno !
—Forno!»
Ficou no fundo de minh'alma o sonho dos meus sonhos,
como o Vago indeciso da Distancia,
como a illusão de quem perdeu na vida a própria vida.

MARTINS DE OLIVEIRA

Do livro Pátria Morena a sahir.

k
22 VERDE putubro 1927

V ^
INSOMNIA
Noite de luz accesa no meu quarto...
de espiraes do fumo do meu cigarro.
Noite de cinza
de luz accesa
de inquietitude e de incerteza...
Noite perfumada
pelas flores mortas
guardadas no fundo da gaveta
de minha mesa.
Noite de debuxo do teu perfil
esguio e esbelto
no meu cérebro de doente...
Noite da dansa original
e espiritual
da tua silhueta
na espiral
do fumo do meu cigarro.
Noite de leituras lidas:
—as tuas cartas...
os meus versos...
(noite de luz accesa no meu quarto..

MARTINS MENDES.

JARDIM

Monotonia estranha dentro da tarde.


E o meu jardim?
O meu jardim
deixou de ser jardim
para ser perfume...

OSWALDO ABRITTA.
Outubro 1927 VERDE 23

S E R E N I D A D E NO BAIRRO P O B R E

A tarde é ruído nas avenidas,


a tarde é calma nos arrabaldes.

No ceu de bronze as aves pairam.


Depois, rápidas, num risco recto, ellas descem como
areoplanos de briquedo,
equilibram-se tremulas, tremulas,
e de novo pairam no ceu de bronze.

Infinita, a cidade vive...

Ha luzes florindo, correndo nas ruas,


ha luzes paradas.

A noite é calma nos arrabaldes

O silencio sobe da terra magoada,


o silencio desce do ceu luminoso,
tão luminoso e tão alto que ninguém pensa nelle

Pelos jardins de trepadeiras muito calmas,


de eras e rosas,
uma inútil melancolia
planta um refugio desconsolado.

Infinita, vaga serenidade...

925
EMÍLIO MOURA
24 VERDE Outubro 1927

LITERATURA
E d m u n d o Lys a manifestou-se mais livremente á nossa syni-
HENRIQUE DE RESENDE, pathia. Sentimo-lo mais próximo da nossa
O Poeta das emoções suavíssimas sensibilidade, ferindo, com mais segurança,
a emoção experimentada, commovendo-nos
Esse Henrique de Resende que so- com mais força, liberto do canon que Jou-
nhou, um dia isolar-se, como um principe bert inaugurou (1810), quando desejou «ex-
de lenda, na «torre de marfim» da sua arte, pressar os pensamentos por meio de signa-
fazendo versos com a piedade de um Fra es musicaes»—canon, aliás, muitas vezes,
Angélico, de joelhos diante da arte, como mais imperioso, mal grado a liberdade ri-
diante das illuminuras de um in fólio sagrado, thmica, que o dos parnaseanos formalistas.
a alma em transbordamentos mysticos, é, Temos, até aqui, encontrado duas ver-
de facto, um poeta de valor. dades, a propósito do primeiro livro de ver-
O seu modus primitivo, um pouco de ca- sos de Henrique de Resende, Turrís Ebumea.
da um dos symbolistas maiores, de Viéle- (Monteiro Lobato & Cia., ed. 1923) onde o
Griffin a Samain, caldeados na sensibilidade titulo, remanescente das tendências primi-
mágica de Alphonsus, esse que foi a pri- tivas do poeta, difficilmente se justifica de-
meira suggestão imperiosa na esthetica de pois que, sob elle, foram incluídos os seus
Henrique—a sua maneira inicial, no entre- poemas mais modernos.
choque das correntes, das tendências e das Desse modo é que verificámos, o que é
fórmulas modernas, de arte, atenuou-se, per- fácil, que Henrique de Resende:
deu os seus traços fundamentaes, moderni-
zou-se, fez-se mais nova, de expressão, mais a) é um poeta modemisado que
recente, de rithmo, na necessidade inevi- b) foi symbolista
tável de incluir-se no dogmatismo de Zgou- Ahi estão as duas verdades.
ridi, quando fala na «poesia galopante» da Alguns críticos (?), falando do livro de
nossa época, conseqüência magnífica do NÃO Henrique, por um prejudicial excesso do-
HA TEMPO—que é a verdade maior da arte gmático, asseguram, uns, que elle é mystico,
actual, revelada pelo estheta de Le sable outros, que elle é intimista (v. Geraldy, Gui-
sur Vescalier. lherme de Almeida, etc).
Qualquer de nós, lendo os versos de Mas Henrique não tem culpa de nada
Henrique, vê logo esse caso seu, particular, do disso. E, alem do mais, elle já foi chamado
temperamento que se procura, da individua- até de futurista!...
lidade que ainda não encontrou a sua equa- Positivamente, os cabraes do futurismo
ção definitiva, que já se emancipou da «for- de Henrique nunca leram aquella deliciosa
ma fixa» de Wundit, mas que ainda não está CANZONE DEL PNEU MICHELIN, de Guido
segura da sua potencialidade de expressão. Da verona, nem aquelles maravilhosos CAR-
Si o symbolismo—algumas vezes levado TÕES POSTAES, de Serge Milliet..
a um mysticismo que não chega a lembrar O symbolismo intutivo ou cultural, de
Mallarmé—tivesse exprimido a tendência Henrique, do qual o poeta se libertou, com
exacta da sua poesia, Henrique teria falhado. intelligencia, serviu-lhe, entretanto, para fa-
Felizmente, como todos os artistas que miliariza-lo com as imagens raras, com os
se iniciam, longe disso, esse symbolismo, entre-tons e com os smorzando, pontos de re-
aceordando maravilhosamente com a sua ferencia precisos, dessa escola.
delicadeza emocional, não foi, nunca, mais Henrique nunca poderá abandonar—o
que um processo- que vae marcar a sua individualidade, com
Em alguns dos seus poemas—a maioria, um traço forte—essa maneira que lhe é fami-
no seu livro de estréa—o traço fundamental liar e é, mesmo, a sua feição definitiva: essa
é o symbolismo. Percebe-se, mesmo, neste «poesia da penumbra», descoberta por Ro-
caso, o quanto pesaram, na sua poesia, as nald de Carvalho na arte de Ribeiro Couto.
impressões fortes e directas de Alphonsus Apezar das modalidades que, porventu-
de Guimarãens. ra, tome o seu talento, Henrique de Resende
Mas, mesmo nesse livro, ja vemos ou- ha de ser, sempre, o poeta das emoções sua-
tros poemas, onde a emancipação definitiva víssimas, esse poeta que fez os seus poemas
se delinea, auspiciosa. Nesses versos, já não mais lindos.
ha symbolismo.
Conseguindo esse facto, quer quanto á EDMUNDO LYS.
technica, quer quanto ao motivo, o poeta Abril, 925.
Outubro 1927 VERDE 25
ANTÔNIO CONSTANTINO BUBUIAM os aguapés no ventre da lagoa,
suspiros que brotaram na epiderme
Este é o canto da minha terra! visguenta das águas remansosas.
Editorial Helios. S. Paulo —1927 E na catalepsia do crepúsculo
as crianças cirandam:
Mais um moderno poeta, verdamarello.
Bravos. —O ei nvo brigou co'a rosa,
debaixo de uma .'atada ..
Que sirva de lição a nós, mineiros, es-
sa coragem americanamente americana que Na água parada de teus olhos
caracteriza o homem paulista de hoje. Co- bubuiam os aguapés rutilos das lagrimas...
ragem paulista do sr. Antônio Constantino, — ... o cravo ficou ferido,
por exemplo, mandando imprimir naquella e a rosa, despedaçada . ..
faixa que envolve o seu livro estas mui he-
róicas palavras: E os suspiros sobem e vêem bubuiar
á flor de nossos lábios...
Esfe livro é todo um poema da nova Poesia
Brasileira, liberto de exóticas influencias e de foras- — Roseira, minha roseira,
teiros modelos. Alvorada de um Brasil inleUectual- roseira sem um botão .. .
mente redimido, em que vivem os anseios das nossas
Lembramo-nos: na tarde quieta de maio...
cousas, a belleza das nossas tradições, a tortura aos primeiros arrepios do frio
da nossa saudade. que chegava... tu me prendeste
E não faltou nem a saudade. E nem as na enrediça de teus braços...
vírgulas acadêmicas nos logares direitinho. — Menina, minha menina .. .
Muito bem. Pra outros. Pra mim foi muito
mal. Não gostei disto. Como também não gos- Somos hoje como esses aguapés que fluetuam
tei daquellas notas espli cativas no final do na pelle elástica da lagoa,
livro. Dá u m a i d é a do Assombrações e duendes impellidos atoa,
sem destino,
da livraria Quaresma. Tal e qual. Compli- pelo vento...
cado. Esquisito. Cheios de notas. E o diabo.
— . . . menina do coração . ..

Quê delicadeza de figura simples e


O livro do sr. Antônio Constantino ao envolvente! Frescura...
primeiro aspecto assusta. Pelo menos eu as- E seria um feio peccado mesmo—se a
sustei. Porque depois daquelle destampato- gente deixasse de transcrever este mara-
1'ÍO todo a i n d a v e m O Clássico peliminarmente. vilhoso epigramma que vem de collocar o
E basta isso, minha Nossa Senhora, e basta poeta á altura dos nossos maiores:
isso n'um livro moderno pra assustar a gente.
O sr. Antônio Constantino ainda gosta CANÇÃO DA MINHA VIDA
de esplicações. Defeito naturalissimo em
quem ainda não se libertou de facto. Aliás Se eu te contasse a minha vida!...
o mesmissimo defeito em que nós, da Verde, decerto chorarias commovida
á historia da minha d ô r . . .
estamos enraizados.
Comtudo o sr. Antônio Constantino é Se eu te contasse a minha v Ma!
um delicioso aquarellista. Imaginem um Ro-
que Gamero na moderna poesia brasileira! Mas tu bem sabes todo o meu amor...
Pois é assim mesmo o admirável autor de
Este é o canto da minha ferra ! Pureza de linhas. Apuro de pensamento
Amostra de um pedaço da estupenda são. Delicadeza e finura de alma. Sim,
ALVORADA: senhor!
E destas coisas todas é que está cheio
No templo da gameleira umbrosa, Este é o canto da minha ferra !
na escura ábside das franças dormentes, Antônio Constantino veio nos propor-
óra nos oratórios de crystal dos ninhos cionar uma hora de verdadeira Belleza em
o coro dos pássaros cantores. contacto com a sua sensibilidade estranha
E o órgão psalmodia
e fina.
nos ramos sonorento, Este é o canto da minha terra! é um livro
langoroso e lento, de verdade.
tocado pelo soturno monge —o vento.
Não é pra agradar o seu autor não.
Ou este quadro, AGUAPE'S: ROSÁRIO FUSCO.
26 VERDE Outubro 1927

SÉRGIO MILLIET Francamente, achei pau, bem pausinho


esse negocio. Hoje em dia a gente não tem
Poemas análogos mais tempo de ter saudades. Nem de nin-
São Paulo 1927 guém nem de coisa nenhuma. E outra: não
ha um só livro em lingua portugueza que
Sérgio Milliet acaba de dar um baita não tenha a saudade mettida no meio. E
rabo de arraia nas letras nacionaes com a notem que João de Barros foi quem disse is-
publicação do seu quasi maravilhoso Poe- to. Um portuguez!
mas-analogos. Se Sérgio Milliet desse o fora redondo
Alegre e vivo, como aliás aquella gen- nessa sujeita evitaria assim um logar-com-
te toda da Paulicéa, Sérgio Milliet é um bi- mum—COMMUNISSIMO na arte de escrever.
cho na melange. (*) Blague x sinceridade = Os versos de Milliet são alegres. Ale-
poesia lírica gostosa. Porque Sérgio Milliet gres mesmo. Contraste. Em todo o caso um
é um lirista-lirico. Digo lirista-lirico pra dif- pouco de melancolia de vez em quando é bom pra
ferencial-o de muita gente por aí que de lí- não perder o costume. J o ã o A l p h o n s u s p e n s o u
rico só tem o nome. bem pensado esse negocio. Mas não dá pra
A maneira, o geito constructor de Mil- convencer ainda. Pelos menos não me con-
liet é formidável. Formidabilissimo. Poemas- venceu.
analogos é uma grande reviravolta na poesia Ha poemas nos Poemas de uma gosto-
moderna brasileira. Repito. Apesar de Sér- sura que só vendo. Tem dois poemas até
gio Milliet bancar a codaque-autographica que dão uma vontade horrível da gente os
de vez em quando e retratar aquellas coi- calssificar entre os melhores poemas da lin-
sas que elle viu na Estranja: moinhos de gua portugueza. Não chego a tanto, porem.
vento, hollandezes de tamanco etc. Dese- Pra terminar: Poemas análogos é um dos
nhos bem coloridos e bem trabalhados mas melhores livros do nosso modernismo. Um
que não agradam muito. livro que vem de abrir um caminho novo.
Porquê motivos estranhos? Pra ser trilhado com proveito por quem o
Prompto. Chegou a hora das citações. compreender. E' um livro que depois de
Mas eu não vou citar coisa nenhuma. Quem sua leitura dá vontade da gente exclamar
quizer que leia os Poemas. Comprado ou em- que só a gente deveria escrever coisa tão
prestado. Não por minhas mãos. bôa assim.
O quasi de Sérgio Milliet (dito aí pra traz) Eu, pelo menos, tive essa vontade.
é aquelle gosto sem gosto de botar a ma- ROSÁRIO FUSCO.
cêtissima senhora roxa nos seus poemas. Pra
mim essa coisa insignificante é imperdoável (*) Thioréma. Formula erradíssima. No
e significa muita coisa. fim dá certo.

ARTE E ARTIFICIO
Na realisação estética não sabemos quando repetida porque a produção lite-
traduzir ezatamente com palavras onde co- rária está compreendida no triângulo for-
meça a arte e onde termina o artificio. En- mado pela arte, artificio e assunto. São per-
tretanto sentimos os valores do poema, da feitos os triângulos que possuem os três ân-
musica e demais elementos do que se con- gulos na mesma dimensão. Em algumas re-
vencionou chamar "arte productora do be- giões do mundo certo angulo é sempre ma-
lo" Assim, vemos na literatura dois estre- is aberto. Na França, por ezemplo, ha eces-
me0: a literatura e a literatice. Parece su- so de artificio na sua actual literatura, de-
btil a diferença. Em realidade não é porque vido á imensa produção do passado que es-
atingimos perfeitamente os mais leves ma- gotou os assuntos ao alcance do francez.
tizes que medeiam entre ambos. O que não Na America ainda ha muito que descobrir.
raro acontece é só querermos ver o que Serão os descobrimentos facilitados pelo
nos convém, provindo daí as modas, mol- americano si conseguir desviar os olhos da
des, escolas, etc, onde só predomina a li- Europa. Conservando as qualidades e os
teratice. Nem sempre todavia são nocivos defeitos que o Destino lhe deu, encontrará
os agrupamentos literários em que os com- mais sabor no seu trabalho. O ezito está
ponentes se ligam pelo mesmo gosto ou apenas na felicidade com que souber deli-
gênero no feitio da composição. Agrada a near triângulos com arte, assunto e artificio.
literatice quando bem feita, agrada e diver-
te autor e leitor em partes iguaes. Cansa YAN DE ALMEIDA PRADO.
Outubro 1297 VERDE 27

CASA LIGEIRO
C» I N C O N T C S I A V E L N E N T E H M E L H O R C & PflHãOl
CffiSH D C S T R C I D A D E
DIARIAMENTE G R A N D E S EXPOSIÇÕES DE SEDAS
E NOVIDADES RECEBIDAS DIRECTAMENTE

TODOS A CFiSH LIGEIRO


(Em frente ao Banco do Brasil)

Antônio da Silva Ligeiro


Cataguazes — íelepli. 60 — Minas

4r

o • o e 9 o
o « o © o o
Interessante filhinho do sr. João Ferreira Vargas e d. Maria das Dores Lisboa Vargas, resi-
dentes em Leopoldina, no Estado de Minas.
Com uma dose do V e m i i c i d a C é s a r , que é o melhor de
todos os lombrigueiros, expelliu mais de 500 lombrígas, ficando alegresi-
nho, sadio e forte como se vê.
28 VERDE Outubro 1927

Acceita encommendas para o Rio de Janeiro cobrando somente 10 °/c 96


de commissão. Viaja nos primeiros e terceiros domingos de cada 09
mez, regressando ás quintas-feiras. São pagas adiantadamente as OI
encommendas inferiores a 50$000 e 50 7„ as maiores dessa quantia.
9o

í=0C3áÊOS5^OOM
9o 69
09
o9
69
o9
9o
Joaquim de S o u z a Carvalho
09 Armarinho, calçados, fazendas, etc.

Cataguazes — Rua Cel. João Duarte — Telephone, 2 5

è©ç3á>C>èOí
^^^^^^cgg^c^^o^^o^o^^g^g^o^
Ô9 90
69 cc 90
96 Analysado e approvado pela Directoria Geral de Saúde Publica, sob o
ío n. 1223, em 7 de Janeiro de 1920. Registrado na Junta Commercial do Rio de
90 Janeiro. — Premiado com Medalha de Prata na Exposição do "Centenário" 9c
69 Tônico geral cie origem "Vegetal
o9
09 Empregado com vantagem, nas tosses, defluxos, constipações, influenzas,
69 asthma, bronchite, pneumonia e fraqueza pulmonar. Faz engordar e dá um
gênio alegre aos que delle uzam.

Francisco dos Santos Loures


90 BARBEIRO E CABELLEIRO
90
90 ATTENDE A CHAAVADOS A QUALQUER HORA
69
90 Elegância máxima no corte
90
90 Rua Cel. Vieira (defronte a Câmara Municipal)
;è6o°K g£&& m
>^°a^õÇo«^( m&mm
Outubro 1927 VERDE 29

CASA CARCACENA
DE

Domingues, Cortes & C.


ri?»
•t aw» 4.C-I a O.

B' a que mellior serve e mais


: : : barato vende : : :
re*; Bsaxãzssasíi

SH3SSE?aJElSíSS5e£!>:CÍ!^HVaES3 F;-.^-..ji^m;iaaa^igaa.'j- -SSJJ

ALFAIATARIA SUCASAS

JOSÉ' F. SUCASAS
TEM SEMPRE UM VARIADO
SORTIMENTO DE CASEMIRA NACIONAL E EXTRANGEIRA

Não teme rivalidade pela elegância do corte


e pontualidade nos serviços

P r a ç a Ru3^ B a r b o s a , IO ~~ T e L n . 7 5
CATAGUAZES — MINAS
ísaassüsiasESis^Eüi nae!ygK?raK
30 VERDE Outubro 1927

0 maior valor pelo menor preço


Pense bem antes de comprar o seu automóvel. Examine, primeiramente, o
valor que cada um offerece. Experimente-os. Pese-os na balança da economia,
pondo, de um lado, o seu dinheiro, e de outro o carro que pretende adquirir.
Prova mais eloqüente do inegualavel valor de Buick não pode existir do
que o seu formidável recorde de vendas, que vem sendo galhardamente man-
tido nos últimos nove annos. Experimente, pois, um Buick antes de comprar
o seu automóvel.
Preços em São Paulo (com pneu sobresalente)
TURISMO ESPECIAL (5 lugares) 16:500$000
TURISMO (7 lugares) 17:850$000
TURISMO MASTER (7 lugares) 22:400$000
TURISMO SPORT MASTER (5 lugares) 21:400$000
General Motors of Brazil, S. A.
Agentes autorisados
iEMOl

glixip de Qambará M a * a
(IMPROVISO)
Se você tem a bronchite Deixou a asthma de existir
A receita é para já: E nem mais existirá,
Basta um vidro... Não hesite... Se esse Maia persistir
—ELIXIR DE CAMBARA'. No ELIXIR DE CAMBARA'.
Se é asthmatico não caia Hoje espirra só quem quer,
Na tolice de ingerir Dizem todos a sorrir,
Outras drogas... Diz o Maia —Tome um vidro... Uma colher,
Que para a asthma é o ELIXIR. De hora em hora, do ELIXIR.
Também digo: Quem tossir Outra droga está por vir,
Bom remédio encontrará Mas por certo não virá,
Nas pharmacias,—O ELIXIR Emquanto aqui existir
DE CAMBARA'. A botica do ELIXIR
—Tal de Maia CAMBARA'...
Cataguazes, Novembro de 1924 H. R.
Fabrica: "Pharmacia Alaia" — Cataguazes — Minas
96
%Q$® ^
A HONROSA CARTA DO «INSTITUTO TECHNICO INDUSTRIAL- <fò
?6
96

Rio de Janeiro, 13 / 8 / 1927.


Ilimos. Srs. Salgado & Cia.
Saudações. 96
69 Sem resposta ao nosso officio proclamatorio remettido em Maio de 1927, to- 6?
mamos a liberdade de voltar ao assumpto, para saber si auctorisaes a remessa do «GRANDE
DIPLOMA DE HONRA DE PRIMEIRA CLASSE E A MEDALHA DE OURO DO MÉRITO, com
69 que foi vossa firma premiada, por este Iastituto, ante o brilhantismo com que vos houvestes na
EXPOSIÇÃO DE AGRICULTURA, INDUSTRIA E COMMERCIO DE BELLO HORIZONTE. 69
Vossos mostruarios deixaram entrever a excelle ícia da elaborarão dos pro-
ductos nelle contidos, RESULTANTE DO RIGOROSO CRITÉRIO TECHNICO QUE A DIRECÇAO 69
DE VOSSO ESTABELECIMENTO MANTÉM.
No Patrimônio industrial de nossa Pátria, vossa empreza acha-se em posição
69
destacada, e, por tal merece todo o apoio das classes consumidoras. 69
69 Alem da homenagem acima referida, este Iastituto houve por bem:
—acclamar vossa firma MEMBRO TITULAR deste Instituto, (vide art. 8 de nossos Estatutos)
96
96 ante os serviços extraordinários que tendes prestado ao progresso fabril brasileiro.
69 Aguardamos vossa resposta para a sequente remessa dos laureis, bastando para tal o
69 retorno do BOLETIM DE ADHESÃO PREENCHIDO.
INSTITUTO TECHNICO INDUSTRIAL
69 Ene. Júlio A Barbo?a
69
69 Director Secretario OS
96

8 Agencia Chevrolet e Oakland


96 96
55 M e c h a n i c a e officina d e c o n c e r t o s 69
69
%
Gazolina, oléo e graxa. Pneumaticos, câmaras de ar e outros artigos 69
96
69 96
69 Carregam-se accumuladores 69
96 96
96 SORTIMENTO COMPLETO DE PEÇAS PARA AUTO EM GERAL 96
96 96
96 69
CIODARO & FILHO 69
69
A v e n i d a A s l o l p h o Dutra ~~ P h o n e , 95
CATAGUAZES — MINAS
)§a
áóo€ é/íeiâ

C L A R E A A PELLE, F I X A O P Ó D E A R -
ROZ E R E A L Ç A A B E L L E Z A !

Os mais notáveis professores da Faculdade de


Medicina do Rio de Janeiro, at-
testam a sua efjrcacia no tratamento da cutis

Não confundir com nomes parecidos !

Vende-se e m todas a s
pharmacias e períumarias do Brasil

Araújo, Freitas & Companhia


n,»,r1!&?ll?!E^
tiyKifa9 a ©€
ggffi- -Tra^ay—- T-—>.-r^rt«
3
: : DIRECÇÃO : :
1
:: :: :: :: DE:: ::

:: :: REDACÇÃO :: ::
HENRIQUE DE RESEMOE
:: :: :: E :: :: ::
MARTINS MENDES
ADMINISTRAÇÃO
:: :: :: :: E :: :: :: ::
Pivi&TA-ntn^b RUA CEL. VIEIRA, 53

ROSÁRIO FUSCO DC»ARJC»E- CATAGUAZES -- MINAS

CU bT URA-
f?

r MARIO DE ANDRADE
OSWALDO DE ANDRADE
CASO DA CASCATA
OS ESPLENDORES DO ORIENTE
PRUDENTE DE MORAES, NETO AVENTURA
JOÃO ALPHONSUS OXYCYANURETO DE MERCÚRIO
ILDEFONSO PEREDA VALDÉS A GERMANA BITTENCOURT
BLAISE CENDRARS AUX JEUNES GENS DE CATACAZES
MARTINS DE OLIVEIRA MODERNISMO
SÉRGIO MILLIET RELIGIÃO
GODOFRÊDO RANGEL A SYNCOPE
WELLINGTON BRANDÃO CANTOS MUNICIPAES
ABGAR RENAULT MATINAL
ASCENSO FERREIRA CAMELOTS
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE QUADRILHA
ASCANIO LOPES DESCOBRIMENTO DO BRASIL
ROSÁRIO FUSCO FESTA DA BANDEIRA
EMÍLIO MOURA CHROMO
HENRIQUE DE RESENDE CANTO DA TERRA VERDE (2)
PEDRO NA VA VENTANIA
ILDEFONSO FALCÃO SINGERMAM, STOLEK E ETC.
CAMILLO SOARES DESCOBERTA
««
FIGURA1 ROSÁRIO FUSCO
H O T / S S DEs YAN DE ALMEIDA PRADO, HENRIQUE DE RESENDE,
ROSÁRIO FUSCO E ASCANIO LOPES

NUMERO — 1$000 ASSIGNATURA — 11$000

:*....**».
nmmmam

FABRICA DE MACARRÃO
M A S S A S ALIMENTÍCIAS
: : E : :
REFINAÇÃO D E A S S U C A R

SALGADO & C.
Premiada na grande Exposição Internacional do Centenário de 1922 e com
Medalha de Ouro pelo Instituto Agrícola Brasileiro.

Massa refinada de puro trigo escolhido


Esta massa sendo fabricada com semolina de superior qualidade, constitue um
alimento são e nutritivo, possue um gosto agradável e apresenta tal augmento
ao consinhar-se, que se pôde usar um terço menos das de outras semelhantes.

Premiada com medalha de ouro na


Exposição de Bello Horizonte em 1927
Recommenda-se aos Srs. consumidores a preferencia sobre as outras massas
:: :: não só pela confecção como pelo systema de acondicionamento :: ::
N. B. — Para a conservação da massa é necessário guardal-a em logar enxuto.

CAIXA DO CORREIO, 6 -- E. F L.
Novembro 1927 VERDE

João Duarte Ferreira & Cia,


BANCO DE CATAGUAZES
Descontos — Cobranças e outrss operações
Remessa de numerário para o Rio — isenta de despezas
Tabeliã de depósitos
C/C AVISO PRÉVIO 6 7 o AO ANNO
C/C MOVIMENTO (retiradas livres) 4 % AO ANNO
Depósitos a fn-etso fisco
EM 3 MEZES 6 7'0 AO ANNO
EM 6 MEZES 7 °L AO ANNO
EM 12 MEZES 8 7o AO ANNO
Fornece cadernetas e talào d e c h e q u e s - N ã o cobra sellos d e depósitos
O cheque proporciona ura melo de pagamento seguro, fácil e ioíelligente

SECÇÃO INDUSTRIAL
Grande deposito de madeiras de todas as qualidades. Esquadrias e quaesquer
outros trabalhos pelos menores preços. Grande e bem apparelhada officina
mechanica e de fundição. Deposito de ferragens, fogões e artigos de electri-
cidade: motores electricos de 3 a 25 H. P., ferros de engommar, apparelhos
para aquecer água, café, chá, etc. Grande deposito de correias de sola e bor-
:: :: :: :: racha, para machinas, de 1/2 a 20 :: :: :: ::
Únicos r e p r e s e n t a n t e s n e s t a z o n a d a
Cia. Brasileira de Eíecfricidade Siemens SchucKert S. A. e
U N B T E O STMTÊES Ü £ ) B K E Ü E 1 P O R I C O f ^ P M Y
Secção de Café
Perfeito beneficiamento deste artigo por meio das machinas mais modernas.
COMPRAM QUALQUER QUANTIDADE POR P R E Ç O S VANTAJOSOS

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VENDEM QUALQUER QUANTIDADE DE ASSUCAR DA MELHOR QUALIDADE

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Novembro 1927 VERDE

Gymnasio Municipal de Cataguazes


(FUNDADO EM 1910)

Com fiscalisação prévia para equiparação ao Pedro II.


Exames processados pelo professorado do Gymnasio,
sob a inspecção do Fiscal nomeado pelo Director
Geral do Departamento Nacional do Ensino. Exames de
2a época, em Março, para admissão ao Io anno do cur-
so seriado e para os alumnos reprovados em 1" época.

Cursos de admissão, seriado e de preparatórios.

Internato -- Pensinato - Externato

ANNO LECT1VO DE 1 DE ABRIL A 15 DE DEZEMBRO

Director - Antônio Amaro M. Costa.

Pedidos de estatutos e outras informações devem ser dirigidos ao secretario


ANTÔNIO MARTINS MENDES, que promptamente attenderá.

€ â i â € i â i i s - MiMâ'

1 E. F L. — Telephone, 13
VERDE Novembro 1927

A' BRASILEIRA
Esta casa tem tudo o que V S. precisar
e os seus preços não têm competidores.

Rua Cel. João Duarte Ferreira, 16 e 22


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| t ARA serem bem servidos neste gênero exijam as
caixas da LEITERIA evitando assim pagarem o colossal
peso das latinhas, que levam menos 30 grammas.
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Entrega-se a domicilio
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N O T A — A LEITERIA DÁ COPOS DE CRISTAL AOS FRE-
GUEZES DE SORVETE, A TITULO DE RECLAME.
III' I IIIMIIIIIII lllll if^iuujiinnu
VERDE
• • « i ^ i B M . m v . jiiy.^jgi^j.iiMi^iijiu.-^ minai " — m M
~ ° r
« — • "• «mw"™"""

ANNO 1 I CATAGUAZES — NOVEMBRO 1927 | NUAERO 3


EiXSEaBSTLi

(foa/u>o IJSJIS*
IU4
VERDE Novembro 1927
8

OXYCYANURETO DE MERCÚRIO

Parecia botequim de bafon londrino fa- intromettera na conversa. E não sorria não.
bricado nos estúdios da Paramount. Parecia Os trez se interrogaram baixinho :
um pouquinho. Quasi nada. Postado num can- —Quem é ?
to um homem de boné exhibia, na fachada —Sei não.
tôrva, immensa raiva concentrada. Uma re- —Nunca vi elle. Um besta qualquer.
solução perfeitamente cinemática de quem Houve um silencio cacete. Mas o Aman-
quer matar ou morrer. Mas não era cinema cio trazia nos olhos, na bocca nos 20 annos
não. Porem verdade. A orchestra chegava uma inquieta elegria de viver. Comtudo lí-
de fora, pelo cano do corredor, valsando vido e gordo e a gordura dando impressão
mollenga ou foxtrotando espertinha ou ma- de flácida na lividez doentia. E agora fala-
xixando cotuba. Tinha vozes, gluglús, gudes, va falava:
grunhidos, até gritos de vez em quando,
sonoridades escorregando no tecto gorduroso. —Pois é isso, meninos. A gente ganha
Ondas longas de sons se quebravam contra um baita amor prá vida depois que enxerga
ondas de íamos e cheiros ruins. O garçon a morte pertinho. Vou contar pra vocês como
servia o décimo duplo pro homem de cara foi. Como me curei.
carregada. —Curou-se nada. A sua cara é de doen-
—O senhor bebe um pedaço. ça. Não engane-se.
—Bebo chôpe e cerveja e cachaça e O homem ríspido e intratável se inter-
tudo. Beber um pedaço é burrice. Não diz punha novamente. O falador enguliu secco a
nada (1). repentina amargura. Calou-se uns minutos
Adolescente franzino o garçon exage- de olhos até meio molhados. Depois murmu-
rou a pallidez soffredora e afastou-se castel- rou prós companheiros:
lando vinganças impossíveis. O homem bru- —Si elle continuar, eu reajo.
to era um bruto homem. Se collocara no seu —Não vale a pena.
canto magneticamente contra os outros be- —Teve uma outra mudez paulificante.
bedores. Os outros eram um boche com duas Os allemãs depois do quinto chôpe disseram
bochas lourissimas, trez silêncios prá inges- trez palavras. Deviam ser trez palavras. A
tão mais gostada dos chôpes. Caixeiros, fun- loura mais moça, mocinha, tinha a bocca em
ccionários públicos, operários, desvios, huma- forma de beijo. Minto, em forma de desejo.
nidade. Tinha dois rapazes na mesa próxi- Tirava uma linhas internacionaes com o cai-
ma do homem terrível que não tirava os xeiro mais próximo, elegante moreno. Domi-
olhos delles. Nem os ouvidos. Neste momen- nando os outros ruidos começou hesitou e
to chegou o terceiro rapaz coitado. Parou cresceu um ronco. Um sujeito de fraque dor-
na porta olhando. mia sobre o copo servindo de travesseiro.
—Amancio velho! Aliás travesseiro mais do que incommodo.
—Olá!
Veio. Teve um abraço entre elle que —Quem é aquelle sujeito, hein ?
chegara e o rapaz que o tinha chamado fes- —Sei não.
tivo. E foi apresentado pro outro. —Eu sei. E' um talento. Um talento des-
—O Amancio é um camaradão. perdiçado coitado.
—Exagero. Um creado de você. —Ah.
—Creado qual o que. Manda elle fazer —Que talento que nada! Basta um su-
alguma coisa pra ver si obedece. jeito qualquer ser paudagua pra virar talen-
Era o visinho, o homem terrível, que se to. Ora essa.
Novembro 1927 VERDE

O homem terrível interrompera ainda a parada, um desprendimento... (O homem ter-


conversa delles. Decididamente não podiam rível esquecera o papel fuchicado e escutava
continuar. Não poderiam. agora com um leve sorriso, meio amargura
—Vamos dar o fora ? prá vida, meio deboche pra Amancio).
—Absolutamente. Dar mostras de medo... O ruido da água fervendo na pequeni-
Vamos ficar. na caixa de metal immenso era immenso. A
Amancio falou e olhou nos olhos longa- serrinha que serrava o bico da ampôla ser-
mente o homem terrível, desafiando. O ho- rava talvez a vida delle. A picada doía agu-
mem pareceu não reparar no desafio delle e damente nos nervos da alma como ferro em
tirou do bolso o papel fuchicado. Amancio brasa.—A morte está entrando talvez no meu
continuou: corpo...
—Vou contar como me curei. COMO Porem a morte não entrava. Mais dois
ME CUREI. O Chico aqui sabe como é que dias e o medico outra vez, risonho e sadio.
eu estava, magro, anciado, dores no estôma- Dispunha a caixa sabre a mesa, accendia
go, pernas bambas. Um caco. Fui consultar um phósphoro, a chamma azulava e crescia.
um médico. Soffri um exame prolongado pau- A água em breve borbulhava e o ruido ia
lificante. Depois ainda foi preciso raio xiz. enchendo o quarto, ia enchendo a casa tran-
E quando afinal de contas elle disse que era,' quilla, ia enchendo o mundo tão bom mas que
tinha quasi certeza, uma úlcera syphilítica era preciso largar miseravelmente. — Você
no estômago, vi a morte pertinho de mim. pode sahir. Passear de vez em quando. Des-
—E' a morte certa, não é, doutor? —Não. de que seja sem excesso. Pode até ir ao ci-
Um tratamento intenso e methodico pode tal- nema. Hontem passou no Odeon uma fita ba-
vez cural-o. tuta de Loh Chaney. Elle morreu no fim dum
Elle se animou na narrativa. Talvez. modo horrível. Estraçalhado.
Principiou o tratamento. Injecções intramus-
culares de cyanureto de mercúrio combina- Ouvia a morte fingida de Lon Chaney
das com endovenosas de neosalvarsan, isto emquanta a morte real entrava talvez na car-
é, 914. Fastio e dieta. Magreza e tristeza. E a ne delle doendo feito ferro em brasa, feito
vida linda linda. O sol vinha sempre pintar uma fogueira, feito o mais cruel dos marty-
de branco luminoso as paredes brancas do rios... A morte comtudo não entrou mesmo
quarto. O carroceiro passava sempre na rua não. Restava uma ampôla única. A última...
entoando cebolas com frangos. O piano da Fechou os olhos, a face contrafeita parada,
frente sonorizava sempre o crepúsculo com um desprendimento... O cheiro do álcool
um tango sentimental. Sempre. Entretanto queimado era o ultimo perfume que leva-
elle magreza tristeza. A morte cada vez mais va da vida... A água borbulhando era o úl-
perto. Mais. O homem terrível guardara de timo ruido, a seringa agitada batendo con-
novo o papel fuchicado mais nem estava ali. tra o metal da pequenina caixa... Não, era
Erminia... a serra serrando o vidro... Ainda não, era
Desanimara então, pois melhor morrer a voz do médico, uma fita de Harold Lloyd...
duma vez do que aos boccados, não era ? A —A cabelleira do Harold arrepiou quando,
idéa engenhosa veio por acaso lendo no jor- ao procurar a mão da pequena, achou uma
nal a morte de uma moça, em que um estu- pata de leão. Imagina você...
dante de medicina injectara enganadamente O medico se approximou rindo da lem-
oxycyanureto de mercúrio. Nem ninguém brança da fita e trazendo a morte liberta-
saberia que elle morrera porque tinha queri- dora dentro da seringa. Elle estendeu o
do não. Collocou entre as ampôlas de mer- braço prompto pra morrer. Morrer... O braço
cúrio curativo—curativo!—o mercúrio mor- como machinalmente se ergueu de arranco
tal. Cyanureto. Oxycyanureto. A coisa lhe e a seringa se espatifou no soalho.—Que
dera trabalho, isso lhe dera. Cortou a ponti- isso!—Nada não. Vou acabar com esta ge-
nha da ampôía do remédio, esvasiou-a, en- ringonça de tratamento. Si tenho de mor-
cheu outra vez ella com o veneno, fechou a rer mesmo ha de ser gosando a vida.—Lou-
pontinha na chamma do álcool. Prompto. Nin- cura!
guém botaria reparo na extremidade um Loucura ou não ali estava elle. Trez
pouco menor. As injecções intramusculares mezes e tanto já e não sentia nada. Não
eram de dois em dois dias. soffria de nada. Um sorriso victorioso de
—Você tem melhorado ? — Tenho um dono da vida terminou a narrativa. Bebeu
pouquinho...—A coisa vae devagar mas vae meio chôpe dum golo.
indo.—E'. Vae. Ha de ir... Elle não queria ver —Gostei do invento. Você tem muita
nunca a ampôla que a mão despreoccupada imaginação. O homem terrível commenta-
escolhia. Fechava os olhos, face contrafeita va sarcástico. Amancio mandou pra elle
10 VERDE Novembro 1927

um olhar rápido de cólera que já não po- As paredes tremeram com o mesmo
dia conter-se. brado de revolta:
—Imaginação é a mãe! —Lyncha elle! Lyncha elle !
O homem se tornou a fera dum salto
a navalha rebrilhando faiscando na mão. —Mas que falta de grammatica!—Dis-
Amancio recuou num pavor empurrando a se o sujeito de fraque despertando quei-
mesa até na parede, quasi deitado de cos- mado.
tas sobre ella, os braços sacudidos num
desespero: 24—12—926.
—Não deixem elle me matar! Pelo amor
de Deus não deixem elle me matar! JOÃO ALPHONSUS.
Mas a fera forte desvencilhou-se o fio
(1) Pra melhor entendimento avisamos que es-
frio riscou fundo o pescoço o sangue es- te personagem tinha no bolso do palito um papel
guichou sobre o atoalhado encardido. O as- perfumado e fuchicado: "Besta Até a volta, vou sim-
sassino cambaleou como também ferido de bora pra bem longe, nunca mais me verás! Antes
morte: não gostar da gente do que gostar como você me
—Minha Nossa Senhora, eu matei elle! gosta com esta animaleza estúpida assim sem in-
ducação nem nadas, te deixo sem Saudade! nunca
Um medico pra salvar elle! Um padre pra mais você me beijará não, é bobagem percurar quan-
salvar a alma delle! do receberes já vou longe ... Adeus de tua Erminia".

§=s€<^e^gs#â^#

D O B R A
PARA CARLOS DRUMMOND

O homem enfeitado
chegou debaixo do sapé seco
e olhou lá dentro da casa.

Vio uma moça bonita


de seios maravilha
de carne carne.

E ficou.

E plantou na terra roxa


a bandeira irônica da conquista.

Tava descoberto o fim do mundo.

C A M I L L O S O A R E S .
Novembro 1927 VERDE 11
FKHffiZXHIIKra&ranKZSZESBK

AUX JEUNES G E N S DE C A T A C A Z E S

Tango vient de tanguer


Et jazz vient de jaser
Qui importe l'etymologie
Si ce petit klaxon m'amuse?

BLAISE CENDRARS.

Rio—9—11—927.

t zaaagszs^gEriMBSBBgEja^zia^EKaKgKg .vü.v^ft-s.v.rsrr aS
12 VERDE Novembro 1927

CASO DA CASCATA
DO LIVRO «MACUNAÍMA»

... E a cascata contou o que tinha su- Depois que brincámos feito doidos en-
cedido pra ela. Assim: tre sangue escorrendo e as florzinhas de
Não vê que chamo Naipí e sou filha ipê, meu vencedor me carregou no ombro,
do tuxaua Mexô-Mexoitiquí nome que na me jogou na ipêigara abicada num escon-
minha fala quer dizer Engatinha-Engatinha. derijo de aturiás e frechou por largo rio
Eu era uma boniteza de cunhatã e todos Zangado, fugindo da boiúna.
os tuxauas vizinhos desejavam dormir na No outro dia quando o pagé velho guar-
minha rede e enlaçar meu corpo mais mo- dou a noite no buraco outra vez Capei foi
lengo que embirossú. Porém quando alguém me buscar e encontrou a rede sangrando
vinha eu dava dentadas e contapés por amor vazia. Deu um urro e deitou correndo em
de experimentar a força dele. E todos não busca nossa. Vinha vindo vinha vindo, a
agüentavam e partiam sorumbaticos. gente escutava urro dela perto, mais perto
Minha tribu era escrava da boiúna Ca- pertinho e afinal as águas do rio Zangado
pei que morava num covão em companhia empinaram com o corpo da boiúna ali.
das saúvas. Sempre no tempo em que os Titçatê não podia mais remar desfale-
ipês de beira-rio se amarelavam de flores cido sangrando sempre com a mordida na
a boiúna vinha na taba escolher a cunha munheca. Por isso que não pudemos fugir.
virgem que ia dormir com ela na socava Capei me prendeu, me revirou fez a sorte
cheia de esqueletos. do ovo em mim, deu certo e a boiúna viu
Quando meu corpo chorou sangue pe- que eu já servira Titçatê.
dindo força de homem pra servir, a suinara Quis acabar com o mundo de raiva ta-
cantou manhãzinha nas jarinas de meu te- manha, não s e i . . . me virou nesta pedra e
jupá, veio Capei e me escolheu. Os ipês atirou Titçatê na praia do rio, transformado
de beira-rio relampeavam de amarelo e to- numa planta. E' aquela uma que está lá em
das as flores cairam nos ombros soluçando baixo, lá! E' aquele mururé tão lindo que
do moço Titçatê, guerreiro de meu pai. A se enxerga bracejando nagua pra mim. As
tristura talqualmente correição de sacassaia flores roxas dele são os pingos de sangue
viera na taba e devorara até o silencio. da mordida que meu frio de cascata regelou.
Quando o pagé velho tirou a noite do Capei mora em baixo de mim, exami-
buraco outra vez, Titçatê ajuntou as florzi- nando sempre na gruta si fui mesmo brin-
nhas junto dele e veio com elas prá rede da cada pelo moço. Fui sim e passarei choran-
minha ultima noite livre. Então mordi Titçatê. do nesta pedra até o fim do que não tem
O sangue espirrou na munheca mor- fim, maguas de não servir mais o meu guer-
dida porém o moço não fez caso não, ge- reiro Titçatê.
meu de raiva amando, me encheu a boca de
flores que não pude mais morder. Titçatê
pulou na rede e Naipí serviu Titçatê. MARIO DE ANDRADE.

Poemas cronológicos DE HENRIQUE DE RESENDE, RO-


SÁRIO FUSCO, ASCANIO LOPES.
VERDE — EDITORA A APARECER BREVEMENTE
Novembro 1927 VERDE 13

I N É D I T O S D O S C A N T O S MUNICI-

ESTAÇÃOSINHA

Lá vem
o trem
bufando
fumarando
—xá—xá—xá—rrrooon...
E este porquinho
que não sai da linha!...
Isque!...
TAGORE
Ó Rabindraná,
estou olhando a lua crecente
no ceu azul deste Brasil indiano
com uma vontade doida de ser creança
pra adormecer no teu carinho de Pai.
O JORNALISTA
O jornalista
oposicionista
do Briquités
pensa que o governo em Belorizonte
lê o seu jornal de cabo a rabo.
Quasi todos os seus artigos
acabam mais ou menos assim:
"Pondere o honrado governo do Estado..."
UM SALOMÃO
O Capitão Orozimbo Cândido da Silva,
juiz municipal de Capivaras,
me disse que, si fosse Salomão,
teria decidido a causa das duas mães
de modo bem mais pratico:
poria a creança a mamar nas duas mulheres.
Porque (teoria dele)
filho mama com mais prazer
na maminha da mãe.
O AGRÔNOMO
Apareceu um doutor em Capivaras
ensinando a agricultura pelos processos
modernos.
Reuniu os fazendeiros na sala do Paço,
mas antes de pedir a palavra
foi lá fora pitar um cigarro goiano.

WELLINGTON BRANDÃO.
14 VERDE Novembro 1927

AVENTURA
Aurora, voz de estranhos céos, aurora, vida não tive duvida em contemplar pes-
que amargor naquele gesto largo das mon- soalmente as nuvens face a face. De todos
tanhas! As casas desse momento, tão iso- os lados protestos intrínsecos faziam que
ladas, imagine que davam para uma grande sim com as mãos, os pés e algumas orelhas.
pedra multiforme. Ruas e mais ruas pre- Isso porem nunca seria motivo bastante
cipitavam-se em torno do succedido. E os para eu não florir ou amortecer.
últimos acontecimentos eram de natureza Ao contrario. Bem me parecia que a
principalmente calcarea como se diz. Eis que intransigência daquela pobre gente signifi-
de repente o povo irrompe em enthusias- cava alguma coisa mais do que um simples
mo. Foi quando silenciosamente as horas compasso. Compasso? Desses assim eu vi
uma a uma se puseram a fugir. muitos. Quantas vezes calaram-se os gansos,
Daí a uma tentativa compreende-se que não, pergunte só quantas vezes calaram-se
havia um passo ou dois. Assim sendo a se- antes dele ser isso. Azul marinho, dirão
gunda hipótese reconhecidamente mais sau- vocês. Mas nem sempre. Ouírora sim, reco-
dável teve a audácia de desaparecer por nheço e como negar que assim fosse por
um caminho desses que a gente não per- um espaço superior ao capitão? Franqueza
correrá jamais. A um certo signal, e como das franquezas e que milhor coisa ha que
si todos estivessem ligados a uma idéa fixa não dure o tempo necessário a tais emana-
todos os homens tremeram, emquanto as ções? Não. Eu vi. Depois de mim que vieram
mulheres e as palavras mais hábeis riam as estrelas. Oh! sem aquele sabor de anti-
riam perdidamente. A scena se repetiu três gamente, que as fazia tão altas e vacilan-
vezes. E por absurdo que pareça, nem todo tes nos seus cantares. Assim como quem diz
mundo desistiu de conciliar o sono. O so- que a vida está fora de discussão.
no ao contrario é que tomou maior numero
de iniciativas. Percebendo a manobra atre- PRUDENTE DE MORAES, NETO.

OS ESPLENDORES DO ORÍENTE
"Amar sem gemer"
do Diário nocturno de Caridad Claridad

Na madrugada pé—de nimpha, o binó- inglesas com ehapeos da rainha Victoria.


culo desenhou a testa do céu amarello no Populações envolviam-se de vermelho até
esquadro fumegante da esquadra abandona- o mar diccionario e no vinho dos hotéis
da pelos persas nas usinas do Pireu. girls colonizavam ladeando steacks de tennis
De volta das noites bogarins, o por- nas escadas, dedilhando as ruas que esplen-
teiro de Alí-Babá fixou o cadeado do or- diam sem barulho. O Nilo ficou frente a fren-
questrão gordo que costumava electrocutar te com steamers e muralhas.
os silêncios de Pera. Ora Caridad Claridad era um tomate na
O bar Bristol entre cindros e cadeiras cachoeira dos lençoes.
syrias era um paralytico innocente atraves- Mas ainda carretas empurraram trilhos
sado de um cão policial onde um principe por dezenas ágeis nos espirros do rio preso
negro preparava o crenel nômade dos cru- e o gala-gala de olho no bolso tirou pintos
zados globe-troters e polyglotas. Por isso os vivos dos fogaréus.
soldados kurdos negavam a essência dos Camellos, espanadores, martellos, mu-
copos lithurgicos dos armênios candelabros. lheres e felahs fugiam para as photographias.
As alfândegas do tourismo attingiam
desertos pederastas nas pyramides onde OSWALD DE ANDRADE.
se massacravam conductores millionarios e De 'Serafim Ponte Grande'
Novembro 1927 VERDE lõ
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QUADRILHA
João amava Thereza que amava Raymundo
que amava Maria que amava Joaquim que
amava Lili
que não amava ninguém,
João foi prós Estados Unidos, Thereza foi pro convento,
Raymundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com Brederodes
que não tinha entrado na historia.

CARLOS DRtJMMOND DE ANDRADE.

<•* »•

CAMELOTS

«Eita senhores! o kagadozinho


Não come, não bebe, não fuma,
Não gasta dinheiro em casa
E custa apenas 500 reis!
500 reis!»
—CAMELOT!
«Senhores! para defender o nome do Brasil
Do caudulheismo mesquinho
Que de attentar contra o poder não perde vasa,
Para defender nossas tradições de povo varonil, em suma,
E' que eu neste porto estou!»
—CAMELOT!
«Independência ou Morte!
Foi o brado guerreiro, impetuoso e forte,
Que do Rio Grande ao Pará echoou!»
—CAMELOT!
«Nunca reclames contra tua sorte!
Dá sempre o bem a quem o mal te dá,
Que em paga o Reino de meu Pai te dou...»
—CAMELOT!
«Dos restos do meu sonho
Estes versos gentis que ao teu valor componho
A minha alma formou...
—CAMELOT!... CAMELOT!...
ASCENSO FERREIRA
(Pernambuco)

A
16 VERDE Novembro 1927

MODERNISMO

E' PRECISO DISTINGUIR Não se conclue, porem, que devamos defor-


mar a nossa, plasmando-a pelo modelo es-
Muita gente ha que confunde modemis- tranho. E' um contrasenso. Um absurdo. Seria
no com futurismo. Ora... é preciso distinguir, engraçado que fizéssemos, por exemplo, dan-
Modernismo é uma coisa, e futurismo—outra. sar a Carmen, typo rigorosamente espanhol,
Ambos differem, fundamentalmente. Confe- ao som da chorada modinha brasileira... Ca-
rem, apenas, no sentido da renovação. Mo- da qual no seu logar...
dernismo no Brasil é um movimento largo e
fecundo de idéas novas. Futurismo foi a fan- MOVIMENTO DE ASPIRAÇÃO
tasia ingênua do ingênuo Marinetti, que, afi-
nal, andou um século atrasado nas próprias Nós, que nunca tivemos livros-padrões,
idéas, e acabou por desistir. livros da raça; que não temos forma nem fi-
Modernismo brasileiro tem significação pro-gura de civilisação própria, e por isso vi-
funda: abrange todos os ramos da actividade vemos á mercê da influencia estrangeira,
humana. Quer a renovação em tudo: reno- devemos reagir. Dahi o sentido brasileiro de
vação lenta, gradual, persistente. Nada fixou nossa corrente. Movimento de aspiração, en-
ainda, é verdade. Mas a grita tem sido tão tre a inquietude improductiva dos passadis-
grande que muita gente agora já presta a tas e o pasmo dos últimos abencerragens
devida attenção ao seu programma. O in- de classicismo.
sulto que ouve a cada instante, a risada as- O modernismo ha de ser qualquer coisa,
carninha, o remogue solerte, tudo tem gran- por que tem a sua historia, desde o grito do
de significação para a corrente. snr. Graça Aranha (a quem não conhecemos
pessoalmente e a cujo admirável talento
OS TRÊS P P P sempre rendemos o nosso apreço, embora
em certa época tivéssemos combatido algu-
E' formidável o nosso ideal: queremos mas de suas idéas), desde o famoso appa-
ser nós mesmos. Queremos a lingua brasi- recimento dos Epigmmmas do fulgurante Ro-
leira, a raça brasileira, a substancia brasi- nald, até o movimento indisciplinado da Pau-
leira, a vida brasileira, em summa. Nada de licéa e dos a quem chamamos, um dia, horí-
improvisação, de copia, de arremedo. Com- zontinos. com Martins de Almeida á frente.
batemos os três P P P, de que falava Remy O movimento persiste. Ha um zum-zum
de Gourmont. Para que plagio? Para que na colmeia, zum-zum crescente, insopitavel.
parodia? Para que pasfiche? O modernismo
tem agora mais do que nunca uma lucta OS COMBATENTES DA HORA
cruenta: lucta de vida, ou de morte.
Quem fez a Itália, isto é, quem creou o Nomes? Vejam se não ha brilhos eston-
seníimento italiano? Não foram os próprios ha- teantes num Ronald de Carvalho, num Ma-
bitantes da península do Mediterrano ? Claro. nuel Bandeira, num Graça Aranha, num Ma-
E Portugal? Não foram os portugueses? E rio de Andrade, num Ribeiro Couto, num Me-
a França? Ora... porque é que nós agora, a notti dei Picchia, num Cassiano Ricardo, num
pretexto de crearmos a civilisação brasilei- Oswaldo de Andrade, num Martins de Al-
ra, havemos de decorar D'Annunzio, ou reler meida, num Buarque de Hollanda, num Ed-
Eça de Queiroz, ou mastigar Anatole France ? mundo Lys, num Raul Bopp, num Henrique
Podemos, é evidente, conhecer a fundo a li- de Resende, num Sérgio Milliet, num Alcân-
teratura portuguesa, ou italiana, ou francesa. tara Machado, num Affonso Arinos Sobrinho,
Novembro 1927 VERDE 17

num Prudente Netto, num Paulo Prado, num variados movimentos estheticos em todos os
Yan de Almeida. Vejam, mais, se não ha tempos: uma coisa a ser contada amanhã
fulgores nas tendências modernizantes de pela historia. Os livros estão apparecendo.
um Guilherme de Almeida, um Wellin- A discussão augmenta. Ha gritos, ha chin-
gton Brandão, de um Abgar Renault, de um frins. Tudo é combate. O que é certissimo
Murillo de Araújo, de um Couto de Barros! é que, amanhã, pelas cartilhas de historia
E os novíssimos? Que constellação ruidosa de da literatura, leremos qualquer coisa pare-
artistas brabos, cheios de experanças e ale- cida com o capitulo que segue: «O Brasil
grias? Um Rosário Fusco, um Carlos Drum- commemorou seu centenário com grandes e
mond de Andrade, um Camillo Soares, um extraordinárias lesta. Emquanto as grandes
Francisco Ignacio Peixoto, um Tostes Malta, associações litero — scientiíicas tormavam
um Emilio Moura, um Ary Gonçalves, um champanha francesa e o legitimo e capitoso
Antônio Constantino, um Martins Mendes, um Burgogne, entre leituras insipidas, fastidio-
Corrêa Filho, um Caio de Freitas, um Evagrio sas de intermináveis monographias e rela-
Rodrigues, um Guilhermino César, um Asca- tórios,—os modernos humildes á roda das
nio Lopes, um Roberto Theodoro. E quantos m e s a s , n o Tavares, n o Lamas, do Rio, e Bar do
não conhecemos, quantas formosíssimas intel- Ponto, em Bello Horizonte, discutiam, entre
Iigencias escondidas no silencio de si mesmas? golesMe café e guaraná-espumante, as pos-
Os críticos da corrente... São poucos sibilidades de um Brasil grandioso, desse
ainda, mas são grandes. Quem não conhece Brasil postiço que anda a querer enxugar o
o magistral Tristão de Athayde? E o vigo- nariz no lenço d'alcobaça de Camillo e re-
roso e inexcedivel Aggripino Grieco? E o petir os motivos de Lamartine ou de Fla-
forte Rodrigo M. Franco de Andrade. E os ubert.»
que se vão revelando aos poucos? Um Gas- Não! O Brasil está sendo descoberto
táo de Almeida, cheio de modéstia e cheio aos poucos. Havemos de levar directamente
de talento? Um Augusto Schmidt? ao sentimento brasileiro, que se vae aden-
Quem nunca ouvi falar no historiador sando, o contingente do nosso esforço. E
de nossa musica, o vibrante Renato Almei- toda a nossa lucta não ha de consistir em
da? E que se ha do dizer cia maravilhante discursos—hymno nacional e poemas—pátria ama-
cerebração artística de Vila-Lobos? da-genfil. Tudo o que fizermos será substan-
cia verdadeira, material legitimo para a for-
A GRANDE TOLICE mação de nossos ideaes de brasilidade.
Ora... negar o modernismo por meio de
gargalhadas e palavrazinhas ocas é uma MARTINS DE OLIVEIRA.
grande tolice. O modernismo existe: está ahi,
á vista de todos. Será como têm sido os (Especial para Verde.)

** »• *« •• •• ** •*•»
•*

A SYNCOPE
E elle de repente sentiu-se mal. Cem braços procuravam reanimal-o...
Na rua refervia a multidão dos tran- Passado algum tempo o rythmo desfal-
seuntes. lecido do coração do enfermo voltou a nor-
Tinham todos expressão de indifferen- malizar-se.
ça, egoísmo, quasi hostilidade. Abriu os olhos, procurou comprehender.
Elle estacou, em agonia, sentindo no Comprehendeu.
cérebro como um esguicho gelado. E vendo a piedade dos homens encheu-
Torvellinhou-lhe a razão. se de terror e soltou um grito rouco:
Tacteou o espaço num desespero de —A carteira!
naufrago, rodopiou sobre si mesmo e estirou- Levou, num gesto insano, a mão ao
se na calçada. bolso...
A humanidade vibrou no coração dos Mas era tarde. A carteira havia des-
homens que passavam indifferentes, hostis apparecido.
e todos, piedosos, acudiram.
Cercaram o homem cahido. GODOFREDO RANGEL
18 VERDE Novembro 1927

MATINAL 1
O ar da manhã beija as minhas faces.
A minha alma beija o ar leve da manhã,
e olha a paisagem longínqua da cidade,
que branqueja alegremente, ao longe;
que sorri humanamente
um sorriso claro no caiado das casas,
que montam os flancos das collinas azues e distantes,
e espiam pelos olhos escancarados das janellas.
7 horas. Vae começar a funcção.
O despertador das sirenas fura, lyricamente, o silencio doirado da manhã.
Parece que a vida acorda agora pela primeira vez,
e esfrega os olhos deslumbradamente...
Meu "Ford" fordeja dentro da manhã,
e sobe a rua velha do meu bairro,
arquejando, bufando, fumando gasolina.
Meu "Ford" a cabriolar nos buracos da rua descalça
é um cabrito todo preto a cabriolar, prodigioso.
O ar leve da manhã beija o radiador,
e beija as minhas faces.
A meninice de todo o meu sêr
na névoa dourada desta manhã!
926. ABGAR RENAULT.

F E S T A DA BANDEIRA
PRO MARIO
Depois que os meninos cantaram
o "salve lindo pendão da esperança"
o professor doutor Arlindo França
descobriu o retrato de Camões e disse
que êle foi um grande poeta português
autor do URUGUAY—o mais belo
poema da lingua portuguesa
Meninos bateram palmas e o coronel Sinfrônio
elogiou o "estilo quente" do orador...
Seu Nicólas farmacêutico falou com titio
que o seu França é um homem "preparado"
—a mais viva esperança do Brasil...
ROSÁRIO FUSCO.
Novembro 1927 VERDE 19

BILHETES
PRO ANTÔNIO D E A L C Â N T A R A MACHADO — S A O PAULO

Depois de ter lido a carta do Couto pra Mas a coisa mais interessante que encontrei
você—Alcântara—resolvi reler bem devaga- em sua obra.
rinho o BRÁS BEXIGA E BARRA FUNDA. E' isso o que Couto de Barros deveria
Como v. deve saber, pois já lhe escrevi a ter frisado bem—num estudinho tão bonito
esse respeito, não gostei nada de certas coi- como aquele. Isso é o que ha de mais impor-
sinhas daquela carta. tante na "separação" de sua personalidade.
O que notei no BRÁS BEXIGA—e que Carmela e Lisefa—puxa! São a s c o i s a s
também o Couto devia ter notado—é a bai- mais bonitas que eu já li na minha vida.
ta "visão cinematográfica" de que v. é Estas sim. São comoventes de fato. Não
dono, uma baita falta de movimento. Estou pelo sentimentalismo lirico—repito!—que v.
pra dizer até que os seus contos são "ciné- se tem não parece ter (basta dizer que v.
ticos". não é fazedor de versos) mas pela escanda-
Você é deshumano quasi. Sua sensibi- losa simplicidade espontânea que brota do
lidade é fortíssima, sem duvida, mas v. não seu geito de contar.
se preocupa e acho mesmo que nem se in- E v. é isso tudo—Alcântara—bom e
comoda de transmitil-a. máu, humano e deshumano, discutido e pas-
O seu "caso" é narrado tal como foi. tichado—porquê v. é ÚNICO!
E' documento. V. abandona aqueles detalhes No mundo não ha outro Alcântara Ma-
líricos todos que só servem pra aporrinhar. chado. Não ha um sujeito que escreva co-
Não é isso?—Pois é. mo você.
A gente "sente" o seu conto. Mas po- Juro que não ha!
rém não sente o contacto de sua sensibili- Espera lá, estou pregando mentira: tem
dade que declancharia (1) um bruto lirismo o Mario...
no leitor. E essa, talvez, seja a sua maior ROSÁRIO FUSCO.
virtude. Ou o seu maior defeito. V comove
sem artificialismo. Lembranças ao Couto, Yan e Milliet.
Se Ribeiro Couto—por ezemplo, que é Um abraço do tamanho dum bonde—
sem duvida o nosso Casimiro de Abreu, o no Mario, por minha conta.
poeta POETA, o homem mais sentimental
que eu conheço, pois bem—se Ribeiro Couto N o t a — Este bilhete já estava escrito quando
contasse aquela historia do GAETANINHO o Ascanio apareceu na redacção da VERDE cem o
você até chorava! Aposto. Com v. o caso é seu bilhete delle pro Couto. Nem o Ascanio conhecia
diferente. Você vai contando. Quem qui- minhas ideas. Nem eu conhecia as dele.
ser que se comova... Você não tem nada damente Ele hontem veio da fazenda (estava profun-
lirico por causa da namorada) e ha muito tem-
com isso! po não conversávamos. Este aviso é pra evitar pos-
Bem. Cheguei onde eu queria chegar. síveis encrencas.
Estai o miolo do meu bilhete. Coisa atoa. (1) Perdão Mario...

PARA COUTO DE BARROS — S A O PAULO

V. disse na "Verde" que só quem co- fica penalizado. O livro do Alcântara é uma
nhece S. Paulo compreenderia integralmente fita sem letreiros e sem apreciações de pro-
Brás, Bexiga e Barra Funda. Demonstrou paganda da vida paulista: scenas! Ora, para
isso com theorema e receita de doce. entender uma fita desse geito, não é pre-
Mas me parece que v. está enganado. ciso nem ter visto S. Paulo. A gente fica
é conhecendo S. Paulo atravez do livro do
Ninguém percebeu ainda hermetismo Alcântara. E' ou não é?
no livro tão claro do Alcântara. Este é pu- Entretanto, quem sabe se o livro tem
ramente um sujeito de scenas seguidas gos- mesmo o tal valor 100 de que fala v.?
tosas. Nenhuma apreciação. Nenhuma sensi- Eu então fiquei no 1. Mas, mesmo as-
bilidade. Aquillo que o Alcântara escreveu sim gostei immenso. Calcula si eu não tives-
sobre a roupa vermelha do italianinho dava se ficado na unidade, cá na superfície.
um poema para chorar de Ribeiro Couto;
mas por elle a gente gosta, apenas; ninguém ASCANIO LOPES.
20 VERDE Novembro 1927

RELIGIÃO
Você sabe meu Deus
o que são essas cousas...
A gente fica sem geito depois de tanto tempo!
Ja não sei mais rezar...
Quando eu passava por frente de sua casa
eu ouvia sua queixa em mim
e fugia...
Eu não queria te encontrar!
Hoje
não sei o que me impelliu
para dentro de sua egreja
ENTREI
Teria rezado se soubesse
Teria me confessado
Teria dito assim
como pr'um amigo de peito
"Eu sou um sujeito muito safado!"
E si você insistisse um pouquinho
eu teria contado tudo
até essa cousa que eu não conto pr'a ninguém...
SÉRGIO MILLIET

C A N T O S DA TERRA VERDE
(2)
Desce o rio, lento, pesadão, mollengo.
Mas, de repente,
se despenha no desespero do despenhadeiro.
E' a cachoeira, a acachoar, zoando e retum-
bando, no seio vir-
jem da floresta virjem.
E, além, são as águas, que se refreiam, que se
represam,
e é a luta esplendida de mil cavallos imaginários
nos canos grossos,
nos tubos longos,
pelas turbinas a dentro — num turbilhão.
E, então, lá no alto, á luz do dia, apotheoticamente,
as fabricas gemem,
os teares cantam,
a serras guincham,

L
— e, á noite, como que num milagre, é a cidadella
toda esplendente de alampadarios.
HENRIQUE DE RESENDE.
Novembro 1927 VERDE 21

A GERMANA BITTENCOURT

Todo ei Brasil en tu sonrisa cabocla.


Todo ei Brasil en tu amistad clara.
Las noches dei Brasil con luna sobre ei Corcovado
ei reflector que ilumina ei lomo dei gigante dormido.
RIO JANEIRO —SAN PAULO —RECIFE
El norte — ei sur — ei sertão de Euclydes.
Todo ei Brasil que yo he sonado para mis noches sin tropicalismo.
Una naturaleza de aduanero Rousseau.
Piraguas cruzando ei Amazonas
y Matto Grosso inexplorado y hondo.
Tu me diste ei Brasil anticipadamente,
Bandeira y los amigos que estrecharán mi mano,
los buenos amigos brasilenos olorosos a café tostado,
con esa sonrisa tuya de nina enferma,
tan magrinha, tan magrinha,
en Ia boca pequena y fruncida
que sabe cantar ei tremendo canto de los negros.

ILDEFONSO PEREDA VALDÉS.

ã
22 VERDE Novembro 1927

SINGERMAN, STOLEK, ETC. ETC.


Buenos-Aires, Out. 10 de 1927.

Esse caso Singerman em que me vi ticos, attentariam, depressa, para a minha


envolvido, mau grado meu, veio outra vez, insuspeição. Indo á casa da sra. Singerman
demonstrar esta coisa dolorosa: que conti- para convidal-a em nome daquella institui-
nua a viçar no Brazil uma faunazinha muito ção americanista, lembrei-me de que, mo-
safada, sem sensibilidade moral e até phy- destamente, poderia ser-lhe útil, com escre-
sica, recebendo o coice como caricia gos- ver duas palavras sobre os seus próximos
tosa e a injuria a modo de galardão. Como recitaes em S. Paulo e no Rio. Desfarte*
aquelle typo do Eça que não tinha a noção puz-lhe na boca expressões amáveis paa o
das gallinholas, essa gentezinha desfibrada, Brazil que ella não proferiu, mas que de-
sem argúcia psychologica que confunde o veria proferir se soubessse ser agradecida
sorriso hypocritarrão dos interesseiros com a um paiz e a um publico que a receberam
o bom sorriso affectivo das almas saudá- carinhosamente, a impuzeram e—o melhor
veis, desconhece o brio que, no fim de con- —lhe recheiaram a bolsa vasia. Com o inde-
tas, é a espinha dorsal do caracter dos in- fectível retrato que me offereceu e que
divíduos. pedi dedicasse a Álvaro Moreyra, seu ami-
Eu, quebrando o rythmo dos meus la- go enthusiasta, mandei a chròniqueta—re-
bores, já disse e redisse, com o melhor es- portagem para "Para todos" que a publicou,
pirito de verdade, o que occorreu: a sra. mais tarde. Se me não engano, interpretei
Berta Singerman, atravez do russo seu com- á maravilha o "camelot", sem chá e sem
patriota, marido e empresário, recusou-se torradas. O interesse pessoal que me attri-
pura e simplesmente a collaborar em uma buem nesse gesto tão brazileiro é uma mi-
homenagem que o Ateneo Ibero-Americano seriazinha desprezível. Não tive nunca em-
organizara em honra ao nosso paiz na noite bocadura para cabotino, o que lamento, e
de 7 de setembro ultimo. Se houvesse isen- jamais pretendi que a sra. Singerman espe-
ção de animo por parte dos que arremette- ctaculasse fantasmagoricamente os meus po-
ram contra mim, de mangas arregaçadas, bres versos com tregeitos pernósticos e gri-
subornados baratamente por eházinhos com tinhos maiores e menores.
torradas, para cumprirem ordens da geren-
cia empresa Viggiani e agradarem a estran- ILDEFONSO FALCÃO
geiros que nos exploram os mercados artís- (Contínua)

D E S C O B E R T A DO B R A S I L
Programma:
1) Foguetões.
2) Alvorada pela Banda Musical 3 de maio.
3) Missa com sermão obrigatório e leilão no final
para as obras da egreja.
4) Passeata do batalhão escolar e sessão cívica
no grupo local.
5) A' noite, na sede do Grêmio Literário Cultores das
Letras, o sr. Pacifico Montes discorrerá erudita-
mente sobre o acaso da descoberta.
6) Fogos de artificio. Nota: Haverá foguetes de lagrimas

A N O O E S
Novembro 1927 VERDE 23

CHROMO
A neblina roeu a paisagem.
Mas o sol, com cuidado
pintou ella de novo—
e ficou—todo—importante !...
EMÍLIO MOURA.

VENTANIA
PRO MARIO
O vento veio maluco lá do alto do Bomfim
e veio chorando da tristura do cimiterio.
Zunio na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das arvores
poeira assungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida afonso pena,
O obelisco cortou êle pelo meio
mas êle foi avuando
e os fios da C. E. V. U. como cordas de violas
vibraram dum som longo que cobrio Bélorizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saio pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada para na parede serra do curral
e o bicho stópa mas sapeca no morro um supapo
que estrala que nem jinipapo
que mão raivoza
chispasse num muro duro.
Co — nhe — ceu papudo?

1926
PEDRO NAVA.
24 VERDE Novembro 1927

LITERATURA
ERÓES DE CINEMA ria aquilo. Comtudo o livro é moço, vivo,
inteligente. E, como em geral acontece: bom
Reina crise no cinema, ou melhor, en- e ruim.
tre as estrelas e os estrelos. Figuras que Juiz de Fora não é uma coisa difinitiva-
tiveram estraordinario êzito na estréa, hoje Austém se quizesse poderia dar pra gente
decaíram e aborrecem o publico. Ninguém lêr coisa muito milhor.
mais suporta Thomas Meighan que teve mo- Desenhos bonitos de Nava sujam os
mento deveras glorioso com "Macho e Fê- olhos da gente de preto.—R. F
mea". Igualmente Barthlemess que nos en-
levou no "Lyrio Partido" e no (*) "Chaile de O HOMEM INQUIETO
Manilha", agora não mais consegue enthu-
siasmar. O mesmo acontece com John Bar-
rymore, Milton Sills, e com todos figurões Na geração moderna brasileira Wellin-
ou figurinos que antecederam ou succede- gton Brandão é um NOME. O cinzelador de
ram a Rodolfo Valentino. Outros nomes nun- Deslumbramento de um triste, Seara da Emoção,
ca justificaram o resplendor que desfrutam, Bonecos de Pano e outras paginas bonitas e
por ezemplo, o insuportável Menjou. Nunca centilantes é o autor de O homem inquieto.
pude compreender a causa da fama deste O livro todo é uma farandola de asso-
insignificante francez. Podemos estender ás nancias admiráveis e imagens belíssimas, re-
damas o mesmo defeito, que aflige os ho- passadas, não raro—de acentuado fundo fi-
mens do cinema, não cito nomes porque se- losófico. Cocteau: a influencia é um conta-
ria impertinencia, porém o leitor facilmente gio. E é mesmo. E acho que é porisso, tal-
suprirá a falta com seu esclarecido critério vez, que a gente encontre pontos de con-
e bom gosto. tacto entre Welligton e Tasso. Principal'
A origem deste enfado geral, provém mente o Tasso desses últimos tempos. Lei-
da monotonia dos astros na espressão dos am, por ezemplo, OS poemas: O homem so-
seus olhos e lábios e nos gestos que fazem. brenatural, A Verdade Inútil e O Pregador. ISSO
Dão o que têm no primeiro film, depois é pra citar os mais fortes
repetição do que veio a principio. Ha ece- O Homem Inquieto é Um livro cheio de
ções naturalmente, Carlito, o grande, é uma, altos e baixos, não ha negar. Um livro qua-
mas não basta para compensar a multidão si antigo. Mas agrada e comove bem.
que fica no lado oposto. O peor da crise, O que achei interessante—e coisa ra-
é que até os filmes cômicos passaram a rissima!—o titulo justifica brilhantemente os
sofrer do mesmo mal. Fujo de Harold Lloid, poemas contidos no pequenino volume.
Buster Keaton, e principalmente de certos Todo o livro canta, vibra, grita de en-
indivíduos gênero Reginald Denny, como si tusiasmo e de vida—cheio da alegria con-
fossem escritos do sr. Renato de Almeida. tagiosa do poeta moço que fez da inteligên-
Conclusão, chegará o dia em que iremos ao cia "um trapo inútil de seda sobre a cha-
cinema somente para ver films em que não ma mais alta do coração"
houver eróes de cinema.
FUSCO.
YAN DE ALMEIDA PRADO
(*) O famoso filme de Barthlemess, eze- OSWALDO ABRITTA—«Crepusculares.
cutado em Cuba, poderia também significar Só o titulo já é uma coisa lamentável.
um episódio brasileiro pela semelhança no Livro fora de época é milhor calar.
senario. Designei-o sob o titulo "Chaile de Em todo o caso, no tempo dele—pra falar a
Manilha" porque ignoro como foi batizado verdade—o livro não é muito mau não.
nos cinemas nacionaes. Os seus defeitos são justificados com
a pouca idade do poeta que vive até agora—
enterrado no fundo de um quarto com figuras
AUSTÉM AMARO—«Juiz de Fora» de Bilac e Raimundo Corrêa, pelas paredes,
Um poema lirico — moderno cheio de quarto de ginasiano farrista...
rastros parnasianos e uma bruta influencia Vamos a vêr que tal o seu novo livro
do Mario. modernissimo, anunciado pra breve.
Acho até que se Austém Amaro não les-
se O Noturno de Belo Horizonte não escreve- R. F.
Novembro 1927 VERDE

A ILLUMINAÇÃO D A VIDA vae ficando pra trás até se perder de vista


MURILLO ARAÚJO e ás vezes de memória. E Murillo Ara-
Rio 927. újo, com a iluminação da Vida, tem o seu ma-
chado conforme. Mas uma coisa elle ter.:
Murillo Araújo tem pra mim duas boas também: é muito mato pra cortar.
qualidades: a de haver creado um ritmo pró-
prio e a de haver conseguido a rara vito- HENRIQUE DE RESENDE.
ria de ser imitado por algum tempo. Crear
na época de hoje não é das peores Coisas—
e, ainda mais, crear coisa que mereça cópia. B O N E C O S D E PANO
Na A Cidade de Ouro, livro de amplo suces-
so, editado em 1922, Murillo Araújo deixou WELLINGTON BRANDÃO
bem frisada a sua maneira, a sua expres- Ed. Helios —S. Paulo —Í926.
são poética—e o seu ritmo passou a ser pas-
tichado por muita gente bôa. Creou vulto, Wellington Brandão é um triste e um
em seguida, a renovação literária. O bri- descontente que não chega a ser um re-
lhante autor da A Cidade de Ouro, embora voltado. No seu livro—Bonecos de Pano—
mais moço que os velhos passadistas e um nãô ha ódio, ha pesar e muita ternura des-
tanto mais velho que os primeiros iniciado- confiada e disfarçada. Sem intenção de sa-
res, continuou a iiteratejar pelas revistas, tyra. Porque a satyra tem o fim de corrigir
esquecido do movimento, com aquelle seu apontando defeitos e Wellington não expõe
mesmo ritmo, a sua mesma maneira. Resul- a crú as magellas e nem ensina pomadas
tado: foi ficando pra trás. Os modernos, avan- ou emplastros.
çando sempre, largaram um dia de lado o Seu processo é outro, o de envolver o
sr. Graça e o sr. Ronald, dois admiráveis facto numa rede de acontecimento taes que
dos grandes precursores. Desembestaram o facto quasi desapparece. Só quem tiver a
uns tempos sem um cabeça, sempre mais intenção de ver, verá.
novos, mais outros, mais differentes, se bem Wellington crê, possivelmente, no aper-
que mais desorientados. Depois aceitaram feiçoamento das instituições, na regenera-
à verdadeira espressão: Mario de Andrade, ção dos homens. Não pela moralização e
que é, no dizer de não sei quem, "a re- melhoramento evolutivo dos dirigentes e
ceita que não falha nunca". Por essa época das coisas. Mas pelo cansaço do proibido,
o ritmo de Murillo Araújo já não interessa- pelo exagerado emprego da força e da as-
va tanto. tucia, acredita no obsoletismo futuro dellas,
pelo abuso do uso. Quanto a elle, contenta-
Uns preferiram novos ritmos. Outros se em narrar os factos, reclamando como
não preferiram coisa nenhuma. Mas todos bom brasileiro. Pena é isso, que estraga su-
íôram-se renovando. E distanciaram-se mui- as melhores coisas: reclamar e discutir não
to de Murillo. Eis quando aparece .4 Ifium - traz proveito, sobre ser inútil. A discussão
nação da Vida. Livro novo, não ha negar. não convence ninguém. A reclamação só
Conservação dos mesmos processos, porém, serve pra irritar.
com maior liberdade, maior alegria creado- Estou a aconselhar ao Wellington que
ra. E Murillo reconquista, com a nova pu- se refugie naquella deliciosa ironia de que
blicação, o seu antigo lugar. E' novamente já nos deu amostra no poema "Emboscada"
um bom poeta no eito claro dos modernistas. (v. "Diário de Minas") e no ingênuo primi-
Não ha duvida que Murillo, no eito dos poe- tivismo dos "Cantos Municipaes".
tas modernos, é bem differente de todos os Evite as discussões dialogadas, as re-
poetas modernos do Brasil. Mas isto longe clamações cansativas, as explicações pes-
de ser um defeito é uma terceira qualidade soaes e geraes. E então nos dará tudo aquil-
que lhe reconheço. Ninguém tem obrigação lo que esperamos de seu talento.
de ser igual aos outros. De afinar a sua
viola pela prima dos demais violeiros. Aliás
o Grupo Escolar do Modernismo é a sala ASCANIO.
mais democrata e camarada de todas as
salas: não se excluem sexos nem raças nem
classes. Venham todos. Mulheres ou homens
Pretos ou brancos. Ricos ou pobres. LEIAM:
PÁTRIA MORENA — versos brasileiros
A única ferramenta que se exige é o :: :: :: de Martins de Oliveira :: ::
tal machado pra cortar o mato. Aquelle que A SAIR EM DEZEMBRO PRÓXIMO
o não tiver bem afiadinho e bem encabado
VERDE Novembro 1927
26

FESTA La Guitarra de los negros - C r u z dei Sur


(Rio — n°. 2) Atlântico — (jornal) director Marques
Tasso da Silveira concorre com boas Rebello
coisas para o n°. 2 dessa revista. Carátula—(jornal) ed. Cruz dei Sur—
Abre até um concurso afim de se es-
colher o melhor símbolo para o movimento Buenos Ayres
nacionalista. Combate o carrapato e a anta. Martin Fierro (jornal) ed. Cruz dei Sur
Estou apostando como Fusco vae ganhar o —Buenos Ayres
pareô com a araponga.
Lacerda Pinto apresenta-se com um
poema excellente, prejudicado com a pro- Por absoluta falta de espaço deixamos
ximidade dum outro intitulado "Sinceridade". de publicar poemas de: Murillo Araújo, Pi-
Di Cavalcanti — um desenho que não menta Velloso, Francisco Peixoto, Oswaldo
dá para commover, apesar do titulo. Abritta, Roberto Theodóro, Guilhermino Cé-
Barreto Filho continua a ter 14 annos sar, Albano de Moraes, Martins de Oliveira
incompletos. e outros.
Abgar Renault —um poema velho, dis- No próximo numero, além de outras
tanciado do delicioso "Felicidade" (v. "Ver- collaborações e notas—publicaremos traba-
de". n° 2). lhos inéditos de: Mario de Andrade, Alcân-
O melhor da revista é o titulo que tara Machado, Ildefonso Pereda Valdes, Pru-
occupa uma pagina inteirinha, livrando-nos dente de Moraes, neto, Oswaldo de Andrade,
de muita prosa macête do snr. Andrade Marques Rebello, Sérgio Milliet, Couto de
Muricy. Barros, Yan de Almeida, Godofrêdo Rangel,
Carlos Drummond, Pedro Nava, Ildefonso
A. L. Falcão, Emilio Moura, Abgar Renault, Wel-
lington Brandão, Martins de Oliveira, João
Alphonsus, Ascenso Ferreira, Affonso Ari-
nos Sobrinho, Paulo Prado e muitos outros.
No próximo numero daremos noticias * * *
sobre os seguintes livros, revistas e jornais
recebidos: Os dois gostosíssimos poemas de Ildefonso Pe-
Ildefonso Pereda Valdes reda Valdes e Blaise Cendrars que ofíerecemos hoje
Antologia de Ia moderna poesia Uruguava. aos leitores de VERDE, foram escriptos especialmente
Ed. El Ateneo—Buenos Ayres—1927. para esta revista e constituem o inicio duma serie
de colaborações inéditas dos maiores artistas estran-
Ildefonso Pereda Valdes geiros da actualidade—que iremos publicar, e que
Cinq poemes negres—Cmz dei Sur—1927 constituirá, decerto, uma das partes mais interessan-
Ildefonso Pereda Valdes tes de VERDE.

EEnmam«E

ESMERALDA
:: :: DE :: ::

Hristobulo de ©liveira
é a ouviresaria e relojoaria chie por excellencia. Bijouterie, Relógios, brilhan-
tes, artigos para presente, pulseiras, anéis, allianças, etc.
Esta casa é depositaria das afamadas canetas-tinteiros — ECLYPSE
RUA CORONEL JOÃO DUARTE

ZES mas
Novembro 1927 VERDE 27

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JOSÉ' F. SUCASAS 8
T e m sempre u m variado on
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%
Não teme rivalidade pela elegância do corte &
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|2 n? 1223, e m 7 d e J a n e i r o d e 1920. Registrado n a J u n t a Commercial do Rio d e gff
oV Janeirov—Premiado com Medalha de P r a t a n a Exposição do "Centenário". Vo
PQ PQ
jjo Tônico geral de origem 'vegetal XS
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95) Empregado c o m vantagem, n a s tosses, defluxos, constipações, influenzas, Ç^
BC asthma, bronchite, pneumonia e fraqueza pulmonar. Faz engordar e dá um no
no gênio alegre aos que delle uzam. §1

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condições de bygiene e conforto, ambos os educandarios estão sob a direcção das Irmãs Carme-
litas da Divina Providencia

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Internato e Externato Primário e Escola Materna,
para alumnos de 3 a 7 annos

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As Internas do Curso Normal 1:000$000$000 por anno lectivo
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Externas do Curso Normal 300$000 « « «
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Curso de dactylographia 25$000 mensaes
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acto da matricula, a 2» a 15 de Junho e a 3» em Setembro.
A lavagem de roupa sendo feita no Collegio 60$000 annuaes
Normal m ^ ç o ° C U r S ° ^ ^ ^ c o m e c a m * 3 de Fevereiro e as do Curso
O Corpo Docente que é da máxima competência conta elPmPntn e l e m e n t Rs
conspicuos entre os intellectuaes da sociedade Catag^azense °
tUd qUe Se r e f e r e a a d m i
dirijamieTlr^ ° ° ^ ° de alumnos

T$I$phoiié 8 5 - Cataguazes
M I D A S GERAES
5d?
&

SWW
96
69 9õ
£9
69 96
96 A HONROSA CARTA DO «INSTITUTO TECHNICO INDUSTRIAL -
Rio de Janeiro, 13 / 8 / 1927.
96 IUmos. Srs. Salgado & Cia. 6V
69 Saudações. 96
96 Sem resposta ao nosso officio proclamatorio remettido em Maio de 1927, to- 96
mamos a liberdade de voltar ao assumpto, para saber si auctorisaes a remessa do "GRANDE
69 DIPLOMA DE HONRA DE PRIMAIRA CLASSE E A MEDALHA DE OURO DO MRITO, com
que foi vossa íirma premiada, por este Instituto, ante o brilhantismo com que vos houvestes na
EXPOSIÇÃO DE AGRICULTURA, INDUSTRIA E COMMERCIO DE BELLO HORIZONTE.
Vossos mostruarios deixaram entrever a excellencia da elaboração dos pro-
ductos nelle contidos, RESULTANTE DO RIGOROSO CRITÉRIO TECHNICO QUE A DIRECÇÃO
DE VOSSO ESTABELECIMENTO MANTÉM.
No Patrimônio industrial de nossa Pátria, vossa empreza acha-se em posição
destacada, e, por tal merece todo o apoio das classes consumidoras.
Alem da homenagem acima reíerida, este Instituto houve por bem :
—acclamar vossa íirma MEMBRO TITULAR deste Instituto, (vide art. 8 de nossos Estatutos)
69 ante os serviços extraordinários que tendes prestado ao progresso fabril brasileiro.
96 Aguardamos vossa resposta para a sequente remessa dos laureis, bastando para tal o
retorno do BOLETIM DE ADHESÃO PREENCHIDO.
INSTITUTO TECHNICO INDUSTRIAL
Eng. Júlio A Barboza
Director Secretario

69
Agencia Chevrolet e Oakland 96
96
Mechamca e oífíclua de concertos 69
96
69
Gazolina, oléo e graxa. Pneumaticos, câmaras de ar e outros artigos 96
69
96
Carregam-se accumulaclores 96
96
SORTIMENTO COMPLETO DE PEÇAS PARA AUrO EM GERAL 96
96
69
CIODARO <& FILHO 96
69
A v e n i d a Aslolpfoo D u í r a ~~ P l i o n e , 9 5 96
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96 APARECIDOS 96
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96 PRIMEIRO ANDAR, AMAR, VERBO INTRANSITIVO, CLAN
69
95 DO JABOTÍ—de Mario de Andrade. gr
96 BRÁS, BEXIGA E BARRA-FUNDA-de Antônio de Alcân- Qfl
96 tara Machado. 88
69 PRIMEIRO CADERNO DE POESIAS-de Oswaldo de Andrade £0
69
96 96
çí
69 A SAÍR :
96 O DIREITO DA FAMÍLIA SOBRE O CADAVER-de Ascanio 96
69 Lopes (no prelo). 96
96 CATIMBÓ—poemas de Ascenso Ferreira. &9
96
69 POEMAS CRONOLOGICOS-de Henrique de Resende, As- $(
96 canio Lopes, Rosário Fusco.
96 CODAQUE—livro de vistas—de Rosário Fusco.
96
69
96 BAMBU IMPERIAL-de Achiles Vivacqua 69

E^SKBlEüaKBiEEiraKEZniI
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DIRECÇÁO 3>j-xT3vi:i3n.c> . -a=


^A.2NT3NTO . . . 1
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CULTURA'
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FRANCISCO I. PEIXOTO PEDREIRA
ROSÁRIO FUSCO MADRIGAL
ASCANIO LOPES PEDRO ALVARES CABRAL
AFFONSO ARINOS (sobrinho) TRÊS ESTÂNCIAS OPTIMISTAS
PIMENTA VELOSO HISTORIA SEM PALAVRAS
ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO O FILÓSOFO PLATÃO
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE CONVITE AO SUICÍDIO
ILDEFONSO FALCÃO SINGERMAN STOLEK, ETC. (II)
ALBANO DE MORAES PATRIOTISMO
GUILHERME DE ALMEIDA L'OISEAU BLEU
HENRIQUE DE RESENDE SENZALA
GUILHERMINO CÉSAR CRÔNICA QUASI POLICIAL
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VERDE
ANNOl CATAGUAZES — DEZEMBRO 1927
HUM II • l l l l I II II lllllllllllllllll ! • I I MIBIIIII • II • • • ! ! ! IWIIM ! • ! • • •! I NU/AERO 4

VERDE, POEMAS CRONOLÓ-


GICOS E OUTROS POEMAS
Foi em maio deste ano que conheci é ridicularisar a gente. E danamos a pro-
Rosário Fusco, e, logo em seguida, todos curar o nome do Cendrars nos jornais. Es-
aqueles que hoje fazem parte do grupo távamos abatidos com a desconfiança. Seria
verde. Autor, que sou, de um livro de poe- uma vergonha. No dia seguinte veio o Ro-
mas (Turris eburnea, M. Lobato & Comp. sário, com as suas pernas quilométricas, tra-
1923 — edição esquecida) entendeu Rosário zendo uma pagina do Correio da Manhã, on-
de mandar-me, porisso, alguns versos seua> de vermelhava um traço marcando a noti-
acompanhados de uma carta interessan- cia. Cendrars no Rio! Que alivio! Acredi-
tíssima. támos então na autenticidade do verso do
Saí imediatamente á procura do poeta francez, no bilhete do Sérgio e retirámos
pelas poucas ruas da cidade pequenina, a em seguida o adjetivo com que ultrajámos
perguntar a uns e a outros onde era a sua este ultimo.
casa, onde trabalhava, etc. Não trabalhava Sai o terceiro numero. Alguns críticos,
nem tinha casa. Mesmo assim, com pouco o que ainda mais nos embaraçou, conside-
sacrifício, topámos logo. Depois desse dia ram Verde a melhor revista literária moder-
vieram outras cartas de Rosário e outros na no Brasil, pelo facto de haver congre-
poetas. Resultado: em Junho éramos nove, grado num só grupo todos os grupos moder-
dos quaes oito escritores e o pianista Re- nistas de valor do Paiz.
nato Gama. Cataguazes, a pobre cidadela, que tem
Foi um pasmo. sido vitima da pena de muitas pennas, sem
Rosário levantou a idéa do Jazz band. intuito nenhum de trocadilho, é promovida
jornaleco safado e inelegível. Propuz então a centro intelectual. Mario e Alcântara, os
uma revista. Quatorze dias depois saía o bichões,. escrevem-nos pedindo para que
primeiro numero da Verde. Saiu porque não Verde não morra.
pensámos na responsabilidade. Nem pro- Aí por esta altura ficámos impor-
grama. Nem dinheiro. Nem colaboração. Nem tantes ...
nada. Juntámos umas coisas e mandámos Pensámos mesmo num livro. Ascanio,
imprimir. Colaboração, dinheiro, programa e Fusco e eu. Chamámos á parte o Daniel,
responsabilidade viriam depois. chefe das oficinas emprestadas da Verde.
Boas noticias. De jornaes que não es- Tudo combinado. Coisa barata e bôa. E em
perávamos. Resolvemos então a pedir co- breve, ou melhor, por estes dias, os leitores
laboração, mas na quasi certeza de que tudo t e r ã o OS Poemas CronoJog-cos Depois VÍrá O
ia ser negado. Pois quê! Colaborar, gente livro de Francisco Peixoto. E logo em se-
grossa de S. Paulo, Rio, Belo Horizonte e guida Martins Mendes e Guilhermino César,
Juiz de Fora, numa revista de Cataguazes, conjuntamente, editarão vinte poemas. E'
cafundó dos diabos? que em Minas o espirito moderno se tem
Mas, com sorpresa nossa, vieram vindo demonstrado apenas por meio de revistas
as comidas. E no dia em que chegaram as efêmeras e jornaes de diminuta procura.
do Mario e do Alcântara, o rondo do bri- Embora partindo de nós, achamos que o
gadeiro e o aventureiro Úlysses, foi um sa- ezemplo merece consideração especial.
rilho na redação emprestada da Verde. E
veio vindo a canalha grossa. Belo Horisonte, com um grupo brilhan-
Eis que um dia, porém, houve uma des- tissimo, sem jornal e sem revista, precisa
confiança. Foi quando recebemos coisa de lançar mão do livro. E Juiz de Fora tam-
Blaise Cendrars e um bilhetinho sujo do Mil- bém. E esses intelectuaes levarão sobre
liet. Eu falei pro Fusco: isto é trote. Trote nós uma grande vantagem: a vantagem de
do Alcântara, do Mario, de todos. O Cen- haver entre eles bons prosadores—coisa que
drars não está no Rio, e, mesmo que esti- anda em crise por cá.
vesse, não nos mandaria verso. Quanto ao
Milliet é um safadão de marca. Eles querem HENRIQUE DE RESENDE.
8 VERDE Dezembro 1927

JOSEFINA BAKER

De tanto arder
te volviste negra,
Josefina Baker.
Aprendiste a bailar
para quitarte
Ia pereza sensual
de tus noches africanas.

Insurreccionaste
los tablados
dei cansancio oecidental
con ei dinamismo
de tu cuerpo mercurial.

Toda tú, eres


Ia cálida metáfora
de los charlestones mágicos.

MARCOS FINGERIT
(Do livro inédito Antena)

Poeta da moderna geração argentina, cora


23 anos, Marcos Fingerit com as Canciones Mí-
nimas, alcançou um posto singular na literatura
viva da Argentina. Diante do tumulto espaven-
tado da época moderna de primeiro a mocida-
de dele reagiu. O moço se voltou e se protegeu.
Provêm d'aí as Canciones Mínimas, livro de lar,
delicioso, duma doçura excepcional. Agora, mais
fortificado êle se pôs respirando a vida moderna
das ruas. Surgiu então o livro Antena, já no
prelo e que trará ilustrações do universalmente
conhecido pintor moderno argentino, Pettoruti.
«Verde» se sente feliz de unir ao eanto brasileiro
uma nota pura da Argentina.
Dezembro 1927 VERDE 9

HOAENAGEA
aos Homens que Agem

Tarsila não pinta mais


Com verde Paris
Pinta com Verde
Cataguazes

Os Andrades
Não escrevem mais
Com terra roxa
NÃO!
Escrevem
Com tinta Verde
Cataguazes
Brecheret
Não esculpe mais
Com plastilina
Modela o Brasil
Com barro Verde
Cataguazes

Villa Lobos
Não compõe mais
Com dissonâncias
De estravinsquí
NUNCA!
Ele é a mina Verde
Cataguazes

Todos nós
Somos rapazes
Muito capazes
De ir ver de
Forde Verde
Os azes
De Cataguazes

Poema de MARIOSWALD
(do livro inédito "Oswaldario dos Andrades")
10 VERDE Dezembro 1927

APRESENTAÇÃO
que Mario de Andrade escreveu pro livro de Rosário
Fusco — CODAQUE — a sair brevemente.

O costume de mais velho apresentar do negocio não sofrendo amor pelo que a
mais moço é uma das tais organisações gente fez, revela afobado e não deixa seca?
pernósticas da sociedade. Não se acomoda direito. Nem bem passam oito meses a foto
bem com a minha curiosidade religiosa da vai descolorindo, as imagens ficam desmere-
vicia pela qual pra mim é só o futuro que cidas, perdem a força no papel.
pode milhorar o presente. Não sei de ne- Ou por outra: O livro de Rosário Fusco
nhuma religião que se baseie no presente marca sim mas tem dois geitos dum livro
ou no passado... E é por isso que toda es- marcar. Uma obra-de-arte marca feito via-
perança possui muito de redenção e é um gem ou feito mapa geográfico. Si a gente
estado franco de religiosidade. vai numa cidade e ela é batuta nunca mais
Me sugeitando por pedido de Rosário esquece a tal. Si a gente assunta uma carta
Fusco, mineirinho de 17 annos, a essa praxe geográfica feito eu antes de ir no Amazonas,
de apresentar o livro dele, confesso que isso já se comove bem imagiaando nos gostos
me deslumbra como a chegada da velhice. que terá na viagem. O íivro de Rosário Fus-
Hoje aliás não tenho medo mais não da ve- co é assim um mapa caridoso e sugestivo.
lhice e acho bobagem tudo o que andámos Que gostosura! que iluminações que agente
falando mal dela por aí. Um tempo isso até vai ter passeando por esses rincões nomea-
virou cacoete: tudo o que a gente não gos- dos no papel de cores vivas!... Muita gos-
tava punha na velhice e tudo o que era tosura.
boniteza punha na mocidade. Foi uma espé-
cie de despeito pela aurora com que a gen- quê oIsso já se percebe principalmente por-
mapa de Rosário Fusco não é que
te, os iniciadores da nossa literatura mo- nem os de agora,
derna, procurámos escapolir daquela com- mes de pagos não.sóE'linhas, que
só cores, só no-
nem aqueles ma-
panhia de passado que pagara absinto pra pas de dantes. Dum lado ou mesmo no meio
nós nos primeiros tempos de literatura. Pra da geografia está vivendo um elefante uma
mim tudo isso tem valor mais não e já pus palmeirinha um templo ilustre. Poemas como
reparo que a boca-da-noite com menos vi- Rio de Janeiro, Madrigal, Jornal de Interior,
bração e mais serenidade é talequal a ar- Baía, não indicam apenas ideologicamente
raiada. a margem que o futuro reserva prós nossos
Não tenho duvida em apresentar estes prazeres.
instantâneos de Rosário Fusco embora não se enxergaJáinda é principio de viagem. O que
não é coisa propriamente
seja livro que marque. E' o defeito das fo- nova não. Mas é fecunda e já comove bem.
tografias de codaque mandadas revelar na
cidade... Só quinhentos reis cada filme, cada
cópia duzentão. Sucede que o pessoal lá MARIO DE ANDRADE.

I N T E R I O R N U M E R O 1
Sob a lâmpada cariciosa...
Sob a paz adormecida e amiga..
o bom sorriso
a ceia do Senhor
o socego...
e o sapo jururú
para adormecer a criança.

M r <j u R lio.
Dezembro 1927 VERDE 11

PEDREIRA
PRA ROSÁRIO FUSCO
Dependurados no espaço
eles ficam ali o dia inteiro
arrancando faíscas
furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
as suas sombras primitivas.
A' tarde ouve-se um estrondo
e o éco repete a gargalhada das pedras
que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
descem então dos seus esconderijos
e caminham pras suas casas
vagarosamente
decepcionados
segurando com as mãos cheias de calos
as ferramentas com que procuram
ha uma porção de anos
o segredo que lhes dê uma nova revelação da vida

FRANCISCO IGNACIO PEIXOTO

MADRIGAL
Vista n. 8 do CODAQUE—a sair

Meu brinquedinho de papel DENNISON


lindo brinquedinho inglez
brasileiramente fabricado
em Cataguazes mesmo
Lindo brinquedinho de dois mil reis
que a gente compra por uns minutos
e acha bem bom ainda
Você não fica muito caro não
Duas chispadas é pouco
e não gasta 1 litro de gazolina!
A Bébé Daniels, a Pola Negri,
A Nita Naldi, a Margarida Max (êta patriotismo!)
elas todas, todas elas moram dentro de você...
A questão é a gente querer
Meu amorzinho barato meu carro Forde
ultimo modelo
Minha linda francezinha, ingleza, americana ou suissa
segundo a luz quebrada do abajur...
ROSÁRIO FUSCO.
12 VERDE Dezembro 1927

PEDRO ALVARES CABRAL DESCOBRIDOR


Depois calças compridas cortei difini- Esqueci vida própria menino mudando
tivamente relações infância. Uzei gravatas fala. Declanchou nova crize lírica profunda
berrantemente panorâmicas. Mas nunca pen- me dizendo eles tinha jeito para filozofo
sara olhar pra mim mesmo. Lirismo espa- quando inteirei 20 anos.
nejava meus vertiginozos 17 anos. Percebi era senhor muitos sistemas mas
Porém soube ela disera feios são sem- nenhum me agradou orgulhozo nada fiz prós
pre rapazes modelos. Presentimento brutal outros. Só gostei intimo me chamasem pen-
nunca ser Brummel branqueou minha cara sador criticando coizas profundas com ci-
quando olhando espelho choquei de frente tações orijinaes compridas. Dezanimos cons-
perto minha barbara fotografia. trutivos me descambaram pra poezia. Re-
Arquitetei vinganças tremendas des- colhido me fizera idiotamente tímido pu-
compuz natureza em berros Íntimos que fri- dorozo.
sonavam pele e cabelos aterrorizados. Pro- Mas vida tinha brotar. Brotou.
curei outra solução adimitindo como falhado Maria Eugenia sentou perto no sofá.
outra forma aparecer bancando o Cezar Idiota me deixaram sozinho.
venci. Primeiro ezame introspequitivo me Feio mas forte agradei com asombros
dera certeza pozar com suceso pintor caras musculozos gritadinhos. A carne morena asa-
idiotas sujeitos musculozos. Segundo ezame nhada bolinada cinemas bailes espreitando
me deu pretensão ser artista. Ideiei coizas minha virjindade encostou caprichozamente.
profundas livros profundos 12 15 tomos em- Minhas mãos virjens colosaes puxaram brus-
pilhados profeticamente convidando inteli- cas corpinho camiza por cima da carne co-
jencias repastos fartos. Ambicionei meu no- rada quente cheiroza. Meus músculos tre-
me citado jornais pezados chamando aten- meram. Meus nervos tremeram. Brazileira-
ção ela que me tornara Pedro Alvares Ca- mente. Percebi confuzamente que eu de no-
bral sim senhor com descoberta minha in- vo Pedro Alvares Cabral sim senhor desco-
tima tendência. brira uma delicia que devia ser o mundo
ímpetos eroicos cruzaram meu cérebro FA-TAL-MEN-TE.
mas cantei poetamente fealdade superes de-
pois comer teorias alemães indijestamente De Maria Eugenia (novela)
traduzidas. Uzei óculos escandalizando tia
Joaquina pacatisima. ASCANIO LOPES.

TRÊS ESTÂNCIAS OPTIMISTAS PRA


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Você disse que esta vida não presta.
Mas, pra firmar esse juizo,
Carlos Drummond de Andrade,
com que outra vida você comparou esta vida?
Você disse que ninguém tem nada.
Mas você está enganado,
Carlos Drummond de Andrade.
Si eu não tenho nada, então de quem é o mundo?
Você disse que não se deve. esperar nada.
Mas eu não sigo o seu conselho,
Carlos Drummond de Andrade.
Eu deito de costas na terra,
eu deito nú na terra núa
e olho pro céo e espero,
espero tudo que eu quero,
espero até que desça a lua
pra me servir de travesseiro.

A f f o n s o A r i n o s (sobrinho)
Dezembro 1927 VERDE 13

CARTA-TELEGRAMA PRA
MARTINS DE OLIVEIRA
Martins amigo meu cotuba. tância bobages. Pra que viver esplicando
Quando fiquei conhecendo você aí "é formidável o nosso ideal"? Não chega-
por meiados junho julho me pareceu logo rão nunca compreender. Não temos tam-
você apegado preconceitos tolos bancando bém necessidade essa compreensão. Poris-
verdadeira pose intelectual. E não me en- so inutilidade artigos esplicativos tendên-
ganei. Mais tarde tive confirmação disso. cias modernizantes. Porisso inutilidade com-
Pela sua conversa longas cartas suas que pletissima seu artigo bocó. Só descobri nele
recebíamos aqui. Notei também sua mania um fim: provar você é medroso. Você pas-
esplicar sempre sempre o que é moder- sadista inveterado que chegou quasi até pu-
nismo salientando sua diferença futurismo. blicar complicadissimas sestilhas português
Ainda numero passado VERDE você veiu tempo da onça teve medo sendo moderno
lenga-lenga compridissima artigo intitulado sua reputação literária ficasse abaladissima
MODERNISMO. Misturando alhos com buga- pra pessoas admiradoras você passadista.
lhos comparei você esses meninos inicia- Porisso toca esplicar vantagens modernis-
dos estudos matéria nova querendo mostrar mo dizendo não é como pensam. Medo pu-
grande compreensão fazem salada batatas. ro. Tolice muita como disse.
Não são necessárias provas. Elas estão lá Fusco sempre me fala grande arre-
berrando referido artigo. pendimento imensa vergonha que êle tem
Agora eu nacido e criado dentro ter publicado certas coisas VERDE. Fala tem
modernismo não compreendo motivo grita dias êle quasi não dorme pensando escre-
gente de que fala você. Porque esse "insul- veu besteiras como E' PRECISO PAZ NA
to que ouve a cada instante" essa "risada ARTE MODERNA e certas noticias sobre
escarninha" esse "remoque solerte"? Por- livros. Tenho também esperança danada vo-
que esse sangê todo? Atoa atoa. Acho. cê terá vergonha ter escrito MODERNISMO
Em Cataguazes acontece mesma coisa. como tenho também de muitas coisas que
Meia dúzia supostos entendidos moraliza- escrevi. E' verdade sempre falo: besteiras são
dores nossa literatura vivem mexendo com necessárias. Assim me desculpo muitas ve-
a gente. Não sabem onde têm o narís. Nós le- zes. Porisso desculpo você também.
vamos nomes feios todos dias. Emquanto Aporrinhação vai longe. Preciso parar.
isso turma lá fora pensa nacemos ambien- Adeuzinho. Não fique zangado comigo
te favorável. Uma pilula ! Deus sabe com não sim ?
que custo estamos fazendo meio. Mas gente
criança não desanima não. Nem dá impor- Francisco IGNACIO PEIXOTO

H I S T O R I A S E M P A L A V R A S
Emfim, tudo o que pensa o filisteu
termina fatalmente em ADE.
Não é que elle seja, afinal, pessoa
sem posição social
sem gravidade
sem idéias com i grande
pra bem da humanidade com h grande.
Mas sempre chega á resultante
dum conceito
em ADE. E' fatal.
Muita coisa e pouco effeito
Moral:
Ventre livre não é purgante.

m n 1 1 o s o
14 VERDE Dezembro 1927

O FILÓSOFO PLATÃO

Fechou a porta da rua. Deu dois pas- to de victoria. Na cabeça, seus cretinos. Es-
sos. E se lembrou de que havia fechado fregou a sola do sapato na calçada e re-
com uma volta só. Voltou. Deu outra volta. solveu ir esperar em outro poste. Chegou
Então se lembrou de que havia esquecido com os olhos no chão.
a carta de apresentação para o director do —Boa tarde, Platão.
Serviço Sanitário de São Paulo. Deu uma —O mesmo, Argemiro, como vai você ?
volta na chave. Nada. E' verdade: deu ma- —Aqui neste solão esperando o mal-
is uma. dito w.
—Nhana! Nhana! Nhana! Platão cavou um arzinho risonho. Acen-
Nhana apareceu sem meias no alto da deu um cigarro. Disse sem olhar:
escada. —Eu espero o ônibus da Light.
—Estou vendo tudo. —Milionário é assim.
—Ora vá amolar o boi! Que é que Primeiro deu um puxão nos punhos pos-
você quer? tiços. Depois respondeu:
—Na gaveta do criado-mudo tem uma —Homem! Nem tanto...
carta. Dentro de um envelope da Câmara O 19 passou abarrotado. Argemiro não
dos Deputados. Você me traga por favor. falava de ódio. Platão sim de vez em quando:
Não. Eu mesmo vou buscar. Prefiro. —Esse é um dos motivos por que eu
—Como queira. prefiro o ônibus da Light apesar do preço.
E foi buscar. Saiu do quarto parou na É um Pateck.
sala de jantar. Mas era só para moer.
—Ainda tem gelea aí, Nhana? Argemiro deu um adeuzinho e abole-
—No armário debaixo de uma folha tou-se á larga num 19 vasio. Então Platão
de papel. soltou um suspiro e pongou o 13 que vinha
—Obrigado. atrás. Ficou no estribo. Agarrado no balaus-
Escolheu cuidadosamente o cálice. Lim- tre. Imaginando desastres medonhos. Por
pou a colherinha no lenço. Nhana ia passan- exemplo: cabeçada no primeiro poste. Im-
do com o ferro de engomar. Mas não se possível escapar. Era fatal. Uma sacudidela
conteve. do bonde e pronto. Miolos á mostra. E será
—Platão, Platão, você não vai falar com que a Nhana casaria de novo?
o homem, Platão? —O senhor dá licença?
—Calma. Muita calma. Glorinha entre- —Toda.
gou o ordenado? Não tinha visto o lugar vasio. Pois a
Nhana sacudiu a cabeça: mocinha viu. Que danada. Toda a gente
—Sim senhor! passava na frente dele. Triste sina. Tomava
Fingiu que não compreendeu. Raspado cocaína. Ora bolas.
o fundo do cálice lavou meticulosamente —ó seu Platãozinho!
as mãos. E enxugou sem pressa. Dedo por A voz do Argemiro. Enfiou o rosto den-
dedo. Abriu a porta. Fechou. Vinha vindo tro do bonde.
um automóvel a duzentos metros. Esperou. —Ó seu pândego!
Agora o ônibus da Light. Esperou. Agora
um bonde do lado contrário. Esperou. Olhou O cavalheiro de balaustre foi amável:
bem de um lado. Olhou bem de outro. Cer- —Parece que é com o senhor.
tificou-se das condições atmosféricas de na- —Olá, Argemiro, como vai você ?
riz para o ar. Marcialmente atravessou a rua. —Te gozando, Platãozinho!
O poste cintado esperava os bondes Resolveu a situação apeando.
com gente em volta. Platão quando ia che- —Não tem nada de extraordinário, Ar-
gando escorregou numa casca de laranja. gemiro. Não precisava fazer tanto escânda-
Todos olharam. Platão equilibrou-se que nem lo. Homessa! Então eu sou obrigado a an-
japonês. Encarou os presentes com um gei- dar de ônibus só? E ainda por cima da
Dezembro 1927 VERDE 15

Light? E não tendo dinheiro trocado no O cabeça-chata papou uma pastilha de


bolso ? Homessa agora! Homessa agora! hortelã-pimenta para depois exclamar:
—Até outra vez, seu bocó! —Agora é que eu estou reparando... o
—Hein? seu Platão Soares... Sim senhor, seu Platão.
Profunda humilhação com o sol assan- Desta vez o senhor teve sorte mesmo: en-
do as costas. controu o homem. Vá se sentando que o
Mas não é que tinha de descer ali mes- bicho hoje atende.
mo? Praça da República, rua do Ipiranga, Platão deu uma espiada na sala.
Serviço Sanitário. E' muitíssimo bôa: Arge- —Chi! Tem uns dez antes de mim.
miro fez um favor. Um grande ? Um gran- —Paciência, não é ?
dérrimo. Platão se abanava com o chapéu coco.
Para a satisfação consigo mesmo ser Triste. Triste. Triste.
completa só faltava abrir o guarda-sol. Por- — Que é que você está chupando?
caria de guardasol. Você não quer abrir, — Eu ? Nãoestouchupandonadanãose-
desgraçado? Você abre, desgraçado, amal- nhor!
diçoado, excomungado. Abre nada. Nunca Platão deu um balanço na cabeça.
viu, seu italianinho de borra? Guardasol, —Sabe de uma cousa? Aaü... Eu volto
guardasol, não me provoque que é peor. Des- amanhã...
graçado, amaldiçoado, excomungado. Platão —O senhor dá licença de um aparte,
heroicamente fez mais três tentativas. Qual seu Platão? Eu se fosse o senhor não dei-
o quê. Foi caminhando. Batia duro com a xava pra amanhã não. O senhor já não veiu
ponteira na calçada de quadrados. De vin- aqui uma dez vezes?
gança. Se duvidarem muito as costas já es- —Não tem importância. Eu volto amanhã.
tão fumegando. Depois asfalto foi feito ES- —Admiro o senhor, seu Platão. O se-
PE-CI-AL-MEN-TE para aumentar o calor nhor é um FI-LÓ-SO-FO, seu Platão, um
da gente. Platão parou. Concentrou toda a grande FI-LÓ-SO-FO!
sua habilidade na ponta dos dedos. É agora. —Até amanhã.
Não é não. Vamos ver se vai com geito. —Se Deus quizer.
Guardasolzinho de meu coração, abra, sim Desceu a escada devagarzinho. Tirando
meu bem? Com delicadeza se faz tudo. Você a sorte. Pé direito: volto. Pé esquerdo: não
não quer mesmo abrir, meu aroorzinho? Es- volto. Foi descendo. Volto, não volto, volto,
tá bem. Está bem. Fica para outra vez. Você não volto, vol...to, não vol...to, VOL...TO! Pa-
volta pro cabide. Cabide é o braço. Que rou. Virou-se. Mediu a escada. Virou-se.
cousa mais engraçada. Olhou a rua. E' verdade: e o degrau da
Rua do Ipiranga. Eta zona perigosa. soleira da porta? Mais um não-volto. Mais
Platão não tirava os olhos das venezianas. um. Porém para chegar até êle justamente
Só mulatas. Eta zona estragada. um passo: não-volto. Depois o último: volto.
—Entra, cheiroso! Aí está. Azar. O que se chama azar. Platão
—Sai, fedida! retezou os músculos armando o pulo. Deu.
Que resposta mais na hora, Nossa Se- De costas na calçada. A mocinha que ia
nhora. É longe como o diabo esse tal de chegando com a velhinha suspendeu o cha-
Serviço Sanitário. Pensando bem. péu coco. A velhinha suspendeu o guarda-
—Boa tarde, seu Platão, como vai o sol. O chofer do outro lado da rua suspen-
senhor? deu o olhar. Platão Soares finalmente sus-
—ó dona Euridice, como está passando pendeu o corpo. Ficou tudo suspenso. Até
a senho...ora que se fomente! que Platão muito digno pegou o chapéu coco.
Olhou para trás. Não ouviu. Que ou- Agradeceu. Ia pegando o guardasol. A ve-
visse. Parou deante da placa dourada. Sem lhinha quiz fecha-lo primeiro.
saber se entrava ou não. Não será melhor —Não, minha senhora! Prefiro assim
não? Tanta escada para subir, meu Deus. mesmo aberto, por favor. Muito obrigado.
O tição fardado chegou na porta con- Muito obrigado.
tando dinheiro. De guardasol em punho deu uns tapi-
—O doutor director já terá chegado? nhas nas calças. Depois atravessou a rua.
—Parece que ainda não chegou, não Parou deante do chofer. Cousa mais interes-
senhor. sante ver mudar um pneumático.
Aí resolveu subir. E não demorou muito:
—O doutor director ainda não chegou? —Eu se fosse o senhor levantava um
O cabeça-chata custou para responder. pouquinho mais o macaco. Não acredita?
-Chegou, sim senhor. Quer falar com êle? (do Laranja da China.)
--Ah, chegou? ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO.
16 VERDE Dezembro 1927

C O N V I T E A O S U I C Í D I O
A MARIO DE ANDRADE

Vamos dar o tiro no ouvido,


Vamos ?
Largar essa vida
largar esse mundo
comprar o ultimo bilhete
e desembarcar na estação central do Infinito pe-
rante a commissão importante de archan-
jos bem-aventurados prophetas—vivôôôô !
Vamos acabar com isso,
dar o fora nas aporrinhações.
Adeus contrariedades.
Nunca mais desastres
nem callos
nem desejos
nem percevejos nem nada.
Só um gesto
PUM PUM
Acabou-se.
Já estou cansado da Metro, da Paramount,
de todas as marcas inclusive a barbante.
O fita pau.
Repetir é casar dobrado.
Me dá o braço,
vamos s'embora.
A vida foi feita prós trouxas
que esperdiçam as riquezas do coração
nessa lenga lenga infindável
e depois vão dormir o somno abençoado dos burros
justos pra recomeçar no dia
seguinte cedinho.
Vida que não é vida...
(Suspirei
foi pra abrir o peito,
soltar o ultimo desgosto.)
Estou prompto pra sahir.
Vamos sahir juntos ?
E' mais divertido
e enche mais os jornaes: um suicídio duplo, hein ?
que mina prós repórteres e prós
cidadãos que gostam de misturar
o café matinal com historias
de Smith and Wess.
Dezembro 1927 VERDE 17

A noite está fria.


Noite indifferente.
Vamos morrer daqui a um minuto
(si você não roer a corda)
e no entanto o Cruzeiro do Sul parece dizer: que m'importa,
E astros águas e terras repetem machinalmente: que
m'importa.

Elles têm razão.


Nós também temos.
Dois contribuintes de menos,
que perderá o Brasil com isso.
No frio da noite os amorosos multiplicam a espécie.
O Brasil é tão grande.
Mais grande que o mundo inteiro.
Estamos caceteados, vamos s'embora
»

Adeus minha terra


terra bonita
pintada de verde
com bichos exquesitos e moleques treteiros,
abençoada pelo Deus brasileiro das felicidades e descarrilamentos.
Meu povo
amigos inimigos
canalha miúda
me despéço de todos sem excepção.
Apezar de ser inútil,
se lembrem de mim nas suas orações.

Está na hora.
Agora vamos.
Me acompanhe nesse passo
tão complicado.
Me ajude a morrer,
morre com a gente,
irmãosinho.

Vamos fazer a grande besteira:


rebentar os miolos
e ir receber no céo o castigo de nossos amores
e o prêmio de nossas devassidões.

Carlos Drummond de Andrade

ÁLBUM DE VISTAS DA CIDADE DE CATAGUAZES - de Francisco Peixoto - a sair


POEMAS CRONOLÓGICOS—de Henrique de Resende, Ascanio Lopes e Rosário Fusco—a sair
CODAQUE — livro de vistas — de Rosário Fusco — muito breve.
18 VERDE Dezembro 1927

SINGERMAN, STOLEK, ETC. ETC.


(CONTINUAÇÃO)
Mas, ao caso: transmitti-lhe o convite, Ateneo, foi que determinou a minha atti-
roguei-lhe que emprestasse o seu concurso tude, isto é, de levar esse caso ao conheci-
á festa do Ateneo, declamando uns poucos mento dos amigos—"camelots" da Empresa
versos de poetas brazileiros. A sra. Sin- Singerman no Brazil para que elles, ao me-
german, como eu ingenuamente cuidava, não nos, applicassem barbicaches ao gongoris-
me respondeu de prompto que accederia mo de suas tiradas ridículas. A acquiescen-
com satisfação. Prometteu. Que não sabia, cia, o "enthusiasmo brazileiro" e a "boa
que aguardava telegrammas do seu empre- vontade" da declamadora russa e do seu
sário, etc, etc. Achei razoável toda essa can- marido derivaram da noticia que lealmente
tilena, tanto que, no dia immediato, pela ma- lhes dei: de que ia narrar o occorrido aos
nhã, escrevi a chroniqueta para "Para to- meus amigos de imprensa no Rio e em S.
dos" Logo, tomou a palavra o seu marido Paulo. E assim o fiz, com a responsabili-
que depois de muita parolagem sem futuro, dade do meu nome. Uns, não puzeram em
disse responder-me-ia em tempo. O dialogo duvida a minha palavra de homem que não
telephonico foi o que repeti na explicação mente; outros, semvergonhamente, teimaram
já publicada. A sra. Singerman, como con- em proclamar "genial" "única", "sobrena-
cluirá, aliás, desde o primeiro momento, re- tural" e disparates do mesmo jaez a sra.
Singerman.
cusava-se a collaborar na homenagem ao
Brazil. Estaria em Buenos-Aires a 7 de Se- Repontaram os commentarios na im-
tembro, declamaria ás 5 1/2 no "Cervantes" prensa do Rio, alguns realmente adultera-
(o que foi uma rotunda mentira) mas não ás dos. O sr. Stolek não teve, por exemplo, o
9 1/2 da noite não poderia preencher um cynismo de confessar-me as razões "pode-
numero siquer do programma da festa do rosas" da recusa. Eu é que as adivinhei por-
que, graças a Deus, não sou imbecil. A re-
Ateneo. Esse foi o facto, nú e crú. Se houves- cusa não foi tampouco de declamar versos
se accedido, que desejaria eu mais para fi- de poetas brazileiros, que isso quasi nada
car satisfeito? Assombrei-me, pois, do des- significaria, mas de collaborar na homena-
plante com que se mentiu em torno disso, gem, dizendo versos russos, chinezes ou
na ânsia de rehabilitar-se a sra. Singerman turcos. A recusa foi, assim, fundamental.
perante o nosso publico.
A recusa que me surprehendeu, como ILDEFONSO FALCÃO
as frágeis razões apresentadas e que, como
me cumpria, communiquei aos directores do (Continua)

R O I S M O
Pro Achilles Vivaqua:
O inspector escolar mulato e pernóstico
tomou a palavra.
Fez despregar da parede um retrato
a carvão do marechal Floriano Peixoto,
e o depoz em uma cadeira de palhinha.
Deitou a falação pra creançada.
Disse isto, isso e aquillo.
(a creançada quasi que chorava com medo de perder a hora do recreio.)
quando elle acabou
o Zézé se riu de alegria e ficou preso na sala.
Mas quando a turma voltou
o Marechal Floriano Peixoto tinha dois pares de bigodes.
A 1 b n d e M o r a e s
Dezembro 1927 VERDE 19

«L OISEAU BLEU»
A Henrique de Resende e Rosário Fusco

Este retrato velho...


(Oh! os dias de roupa nova na cidade pequenininha do Interior!)
...deste menino gordo e sério...
(Roupas de Pariz: cheiro de Louvre no domingo brasileiro moreno de calor!)
...de pé, segurando a bengalinha de junco...
(Tudo vinha de Pariz, porque a gente ainda tinha uns tios solteirões...)
...olhando a objectiva e a familia junto...
(«Faça uma cara alegre!» De roupa nova e sapato apertado? Pinhões!)
...com uns olhos de quem não está sósinho...
(«Attenção! VAE SAHIR DAQUI DE DENTRO UM PASSARINHO! Attenção!)

Este retrato...

Até agora estou esperando o passarinho.

(Que bom! Como eu acredito naquelle photographo—philosopho allemão!)

GUILHERME DE ALMEIDA
S. Paulo, 26—11—926.

í-aoa>ajHÊJim^Muin.lliiunp^ TTlW^Jf^VX/aVHtUL&wxtzzmSKW
20
VERDE Dezembro 1927
re* —«wvjuaiiè—ifAW^nmy»'.1».^^ JrAWjjj»]^—!

SENZALA
A MARIO DE ANDRADE

Senzala da fazenda dos meus avós...


Vão-se desmoronando pouco a pouco
as tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares.

Mas ainda és, no teu desmoronamento,


a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós.

Senzala da fazenda...
As tuas ruinas ainda estão impregnadas do sangue machucado
dos negros que gemeram nos teus troncos,
sob o chicote ameaçador dos homens brancos—feitores da fazenda.
Mas tudo isso ha de desaparecer um dia.

As tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares,


—ruinas ainda impregnadas do sangue e do suor dos escravos—
lembram os gemidos que se perderam pelos teus cubículos de tabique;
e as lagrimas que rolaram pelo teu chão de terra socada;
e o relho de treis trancas dos algozes feitores da fazenda;
e os gritos lancinantes que vararam o horror das tuas trevas;
e a mancha apagada que ficou na braúna dos teus troncos.

Mas—bendito seja Deus!—as tuas ruinas desaparecerão um dia


na bruma longínqua da historia dos tempos.

E então se apagará também, esse dia, na minha memória


a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós...

(Poemas cronológicos) HENRIQUE DE RESENDE

_ j _ _ _ _ _ _ _ _ 5 _ _ _ _ t _ _ 3 g _ _ _ _ ~ Z 4J-'H4kiL.«||i » < w m f t ^M^rcvMMi^ra~wP«'_-»«^<^^


Dezembro 1927 VERDE 21

AUTORIA DA ARTE DE FURTAR


Sendo-nos obtemperado darmos a lume vo das vieireanas peças. A seguir se nos de-
desvaliosa contribuição nossa com o fito de para precária tal magna pretensão, ao aspe-
esclarecer a debatida questão preza á auto- cto só do despauterio nolla conteúdo e in-
ria da «Arte de Furtar» desta feita hemos gente.
por avisado abordar tão relevante assumpto. Para pouparmo-nos delongas estéreis
Dá-se que, por novo, o erudito philolo- em matéria que demanda esclarecida ape-
go e professor, Dr. João Ribeiro, á baila traz nas, que não recursos supérfluos de inflam-
a supra mencionada obra apocrypha, origi- mada dialectica, abordamos afoitos o seu
nando o feito memorável perlenga que, aos theor, calando nosso animo, á authenticidade
leigos parecer podendo mera questiunculad da «Arte», contrario e averso.
e lana caprina, a nós se nos afigura de impor- Fora de certo repudiar o saber humano
tância não pequena tal a benemerencia da não nos ser outorgado, á luz das doutrinas
empresa. Nosso obscuro alvitre sempre ha trabalhadas secularmente, deixarmos de ini-
sido por considerar falaz a autoria do Padre dentificaveis os clássicos lavores e os mo-
Vieira na «Arte de Furtar», o que nem nos numentos da lingua. Tal devera ser o oppro-
apraz assacar por dicterio, que não de alvi- bio e o desaire dos fecundos mestres eter-
çaras tão pauco, certeza havendo não nos nos, contra elles pelos posteros arvorados.
arrogarmos prioridade revelatriz, mas tão Tal seria o teníamen vesanico de deslembrar
somente obrando fieis e rigoroso apodo da o estylo, estalão seguro, dedo do gigante ao
obra dieta á face daquella pelo magno orador qual auferir se pôde sua hercúlea força!
sacro mui lavorada e opima. Jorge Luiz Leclerc, o notável conde de
Para poupar de audaces arguidos ser- Buffon, autor da «Historia natural» e doutras
mos ante o que nos presa relato, exame e jul- primorosas obras do humano e intellectual
gado, buscaremos justificar este comesinho penhor, no seu celebrado «Discurso sobre o
e parco arrazoado servindo-nos no que o sa- estylo», em primeiro assegurou que «o estylo
ber sozinho sóe autorizar. é o homem».
Ab initio nos não parece de preceito opinar O famoso escriptor Hypolito Taine, por
pela autoria do reverendo Padre Antônio seu turno, abonou a mesma immortal verda-
Vieira Ravasco na «Arte de Furtar», obra de, facto que, si bem alguns conduza tomar
clássica attribuida de muitos ao notável ser- por Juno a nuvem, imputando a esse o quan-
vo da «Companhia de Jesus», do que prova ca- to aquelle se deveu, em nada lhe diminue o
bal se não ha feito. Assalta-nos dês logo asem mérito, que mais l'ho avigora e acerta.
razão do dislate, ao superficial cotejo que (Continua),
se opere entre a «Arte» e o venerando acer- A. FONSECA LOBO.

C R Ô N I C A QUASI POLICIAL DA B A R R O C A
Maria de Jesus fecha a janella sem taramela
indo pra tarimba descançar.
Mas é noite de lua e caboclos malandros
gemem nos pinhos.
O Joaquim da Raymunda é mulato escovado
e começa cantando modinhas sentimentaes
debaixo da janella da Maria.
Ella vae abre de-vagar e fica debruçada
ouvindo o Catullo de arrabalde.
Elle fez um pedido singular
porque Maria de Jesus mexe com os hombros
e diz toda dengosa quasi querendo
—Tem graça! o que os outro ha de dizer!

(Do Crônicas sentimentaes e outras crônicas)

G u i l h e r m i n o C é s a r .
22 VERDE Dezembro 1927

TEORIA ARTÍSTICA DA FARINHA


"Vivll s u b p e c l o r e
vulmis"—Virgílio
Fiz o menininho pobre
pobrinho
de gravura
pé no chão calça rasgada na bunda manga
de camisa etc.
colorido á vontade
Peguei elle mandei vender empadinha
assoviações
discussões sobre papagaios pipas combucas
pra mãi viuva
gorda originalmente
Levei elle pra rua gritando
não precisam incomodar-se porque elle não fica
tísico
sou incapaz de fazer isso
também não adiantava nada mais essa desgraça
e não gosto de atribular as minhas personagens
com muitos infortúnios
de uma vez
deixa o garoto apregoar as empadinhas
Construcção
montagem de um poeira na esquina
esquina—attenção ao empresário abstracto
pendurei o cartaz
litographia em inglez safada de diiicil
e um bruto buquejonis soccando
convém não esquecer do lenço vermelho no
pescoço delle
porque é um detalhe imprescindível
Segue-se a compra das empadinhas
2S000
o menino chispa pra casa delle
de existência necessária
Ghega o menino
levanta 2 dedos
contentamento igual fita mais dinheiro
dá 2 pulos
questão de predileção toda particular minha
pelo 2 mas po-
dem pôr outro
numero
e gritou
DOIS PILA
Sem S e a bandeja vasia da lógica
que não erra nem
que a banana rache
Demonstracção absoluta
não tinha farinha pro jantar
sem tempo pra reflectir sobre o caso
interroga
SERÁ' VAIDADE de invenção
vaidade minha
Não tinha farinha
não tenho certeza si era pro jantar mesmo
fui fiquei arrependidissimo de ter posto
logo hoje
fita de buquejonis
EDMUNDO LYS
Dezembro 1927 VERDE 23

NOTICIAS SOBRE LIVROS


E OUTRAS NOTICIAS

A S C E N S O FERREIRA - C a t i m b ó dona fulaninha ou dona sicraninha realisou


Off. da «Revista do Norte» — Recife —1927 ou vai realisar alguns desses lamentáveis
espetáculos da arte de dizer.
Ascenso Ferreira deve ter sido um Me parece até que essas vindas de
apaixonado cantador de desafios. E porisso Berta Singerman ao Brasil só servem pra
mesmo que êle trouxe pra sua nova ten- assanhar mais as nossas dizedoras de versos
dência poética aquela melodia gostosa que alheios. Todas elas querem ficar iguaezi-
ha nas trovas populares sertanejas, aquilo nhas á Berta. Declamar como a Berta. Ter
que Tristão de Athayde costuma chamar «a a mesma voz de Berta. Pra isso se colocam
ilusão do poeta—canario», a monotonia rítmica diante de espelhos e tocam a estudar ges-
dos versos por meio de métricas artificiais tos. A vêr si são perfeitas as contrações dos
e rimas mais ou menos premeditadas. lábios e das faces. Si interpretam com mais
alma os versos. Esperimentam enrolar no
Raramente o poeta se esquece da ri- pescoço com a máxima elegância o véu in-
ma. Ou muito me engano ou somente um dispensável a toda mocinha que se presa ser
poema do livro (Gênio da Raça) escapuliu, bôa declamadora. Não se esquecem nem de
ficou livre desse truque passadista. aprender a cruzar as mãos retorcendo antes
Livro brabo, movimentado, de um pro- os braços e estendendo eles abandonada-
nunciado sentimento nativista de brasileiris- mente pra baixo.
mo, Catimbó vem concorrer magnificamente
pra o maior desenvolvimento de nosso folk- Depois que já ezecutam tudo isso com
lore. A poesia inteira de Ascenso é uma muita perfeição pegam a fazer ezibições
toada cabocla. publicas de contorcionismo barato com es-
Suas poesias foram feitas pro ouvido. plosões assustadoras de tremeliques vocaes.
Cantantes. Pena que assim, toda igualzinha, E' assim que interpretam péssimos versos
toda direitinha, se torne monótona, ás vezes, ou tornam péssimos os bons versos.
caindo numa vulgaridade intolerável. As- Essas mocinhas sem que fazer deviam
censo é um poeta simples que felizmente escolher uma profissão que não espuzessem
não se deixou levar ainda pela luminosidade elas a um ridículo tamanho. E' verdade que
falsa do fraseado bombástico, paulificante. si procedessem assim não ganhariam tanto
Muito terno, muito delicado—e sobretudo— dinheiro. E' verdade também que deixariam
como todo bom pernambucano que se presa de fazer jús á amizade de meia dúzia de
—um vivo pintor de cores berrantes—, fa- poetas descabelados. Mas em compensação
lando de sua terra. não seriam tão ridicularizadas. Porque por
Rico de imagens nota-se no seu estilo ezemplo não ficam em casa cerzindo meias
claro, limpo, uma baita espontaneidade cri- do papai? Garanto que lucrariam mais.
adora. Não posso negar que não temos boas
Poeta quasi desconhecido hontem—As- declamadoras. Entre elas posso até citar
censo Ferreira, com a publicação de Ca- Francesca Noziéres. Tem uma outra também
timbó—ficará sendo, de hoje em diante, uma que não é de todo má. De facto Nenê Bar-
das figuras mais reprezentativas do actual rouquel — embora principiante ainda — não
«partido», cabra batuta de quem a gente declama mal não. E' até uma das que tem
deve esperar muita coisa bôa que marque um pouquinho de sensibilidade.
difinitivamente. Em Zita Coelho Netto só se encontra
muito bôa vontade em agradar os outros e o
F. desejo de patentear que é filha de Coelho
Netto. E a gente perdoa a mania que éla
DECLAMAÇÀO tem em querer ser declamadora. E'la é tão
boasinha... Basta dizer que eu fico até com
A febre de declamação que tem grassa- raiva quando topo com éla em meio de sa-
do nesses últimos tempos no Rio é um facto. lões dizendo versos. Fazendo papel chato.
Não ha um só dia em que não vemos De dona Angela Vargas nem é bom
espalhadas pelos jornais as noticias de que falar E' lamentabilissima. Bilac dis'se ou por
24 VERDE Dezembro 1927

ironia ou num desses momentos de bom hu- instável. Instabilidade originada da cultura.
mor ecepcionaes qúe éla era a própria O tipo do homem que podendo esplo-
poesia—a má poesia talvez. rar qualquer assunto, fala discretamente so-
Eterna assassina do «Corvo» de Põe e bre poucos. Modestamente. Um deses João
da «Marcha triumfal» de Ruben Dario-éla não Ribeiro que se não entram no gosto da gen-
contente com isso—fundou uma escola de te pelo que escreveu, entram pelo lado da
declamação dando de vez em quando—a dez simpatia, pelo que pensam.
mil reis a cadeira péssimas demonstrações E quanto um espirito como Paulo Pra-
do bom aproveitamento das suas alunas. do resolve enfrentar um asunto, uma ques-
Ai então é que é pena se \rer essas po- tão, não sai nunca coisa igual a dos outros.
brezinhas inconcientes orgulho de seus pais Paulistica é a prova. Paulo Prado estudando
a berrar e a gesticular pálidas de comoção nossa ístoria não o fez á moda dos colecio-
os mais horríveis versos. Em todo caso ain- nadores de datas e de nomes, nem a manei-
da se contentam por emquanto com as pal- ra dos que procuram atrair com o escânda-
mas que lhes dão algumas pessoas de co- lo de teorias e descobertas novisimas (Asis
ração bem formado. Antra) nem como os romanceadores dos fatos
Pra que falar mais ? (Paulo Setúbal), obiservador frio e imparcial
que muitas vezes espõe o fato, sem dar sua
F. PEIXOTO. apreciação. Paulo Prado não avança ideas
violentamente Mas discretia com elegância.
MARTIM FIERRO Mas espõe coisas para que nós mesmos seja-
mos forçados â conclusão. Sem atacar as ideas
Buenos Ayres — ano IV — n° 43 constituídas. Sem o fetichismo por elas. Em
Paulistica é felicisimo, sobretudo nos pon-
Além de algumas notas ligeiras sobre tos em que estuda o despejo das povoações
Irene Lagut, Marinetti e Dona Berta Singer- paulistas motivadas pelo caça ao indio.
mam, este n°. da conhecidissima revista mo- Piratininga despovoada em 1626 "pelos
derna argentina publica um esplendido ar- moradores serem ido ao Sertão". E quando
tigo de Eduardo Gomzalez Lanuza—estudan- fala na grandeza, decadência e fejeneração
do as revoluções, ou por outra, a politica de São Paulo. E sóbria, um pouco discreta
na literatura. a descrição do movimento bandeirante. In-
Nota de critica sobre a esposição «Ami- fluencia de Capistrano? Não creio que Paulo
gos dei arte: Ildefonso Pereda Valdes. Prado acompanhe seu mestre nese ponto.
Reprodução de alguns admiráveis bai- Mesmo porque os documentos e os fatos pro-
xos relevos de Fioravanti. vam que o caso das descidas de gentio foi
Paul Eluard publica uns poeminhos for- uma conseqüência do espirito do século. Era
çados (ua imagem e um titulo...) coisa que o tempo em que a escravidão chegara á
o Mario tem uma raiva danada. E eu tam- perfeição.
bém... Poesia, estudos, notas de arte e outras A África já circumnavegada. E as cor-
notas bem interessantes. rerias do próprio gentio e a sua indomabi-
F. lidade. E a falta de braços. E o ezemplo ale-
mão na Venezuela. E o ezemplo espanhol no
PAULO PRADO, PAULIS-
México. E os sábios e os justos da época que
julgaram a força a única coisa deciziva. An-
TICA E V A R I A S C O I S A S chieta dizendo que para os indígenas me-
lhor pregação não havia que a espada e a
Martins de Oliveira chamou Paulo Pra- vara de ferro. Mas nos paulistas, ececional-
do de moderno. Não concordo. Para mim mente, predominou o espirito da aventura, a
Paalo Prado não tem esa ânsia do novo, inquietude, a procura. Nos espanhóis a am-
esa procura e esas tendências gerais que bição. Garbolion: Los paulistas no hacem
caraterizam o moderno. E' apenas um espi- mucho caso dei oro, y preferem maloquear
rito equilibrado, um obiservador curioso do indios. O fato é que as bandeiras—preadoras
movimento geral das ideas novas. O sujeito de indios, descobridas de ouro devasaram o
simpático e inteligente que observa elegan- Brasil, aumentaram prodigiosamente os ser-
temente a grita comtemporanea, sem entrar tões.
nela, sem combate-la. Uma inteligência á Eu continuo por iso a adimirar os ban-
parte, uma cultura, uma pena que ainda não deirantes. E pelo que passaram também.
fixou a sua maneira de ser, nem ainda se
decidiu por uma afirmação ou por uma ne- As bandeiras diversas, de caça dos in-
gativa. Alguém que pouco escreve por ser dios, de procura de ouro e pedras, de aventura
Dezembro 1927 VERDE 25
devasamento. O movimento de prosperidade Cinq P o é m e s Négres—Ildefonso P e r e d a
que marca os logares de mineração. A aris- V a l d é s - C r u z d e i Sur-927-Buenos A y r e s
tocracia de então. A contradança da civiliza-
ção que brilha momentaneamente nos loga- Ildefonso Pereda Valdes veiu até Verde
res ricos, e onde chega o café. Rezende. Pa- numa quadrilha. Mas é preciso não confun-
raíba. As grandes familias cafezistas. Os Bre- dir: numa quadrilha-dança, essa montoeira
ves. Os Teixeira Leite. O periodo de civili- de gente que foi o gozo ingênuo dos nossos
zação Olandeza. Ese br_xolear de civiliza- avós.
çõis que nacem e morrem com a prosperi- Esplicação: O Fusco escreveu pro Il-
dade dos logares. Tudo demonstra que nosa ís- defonso (cônsul). O cônsul escreveu pro Il-
toría não está cheia de frazes e frazes boni- defonso (Pereda). E nesse vae-vem o Pereda
tas só. Nos fugimos nese ponto ao gosto mandou os troços pro cônsul, e, num passo
latino de declamação nas oras solenes. So- directo, o cônsul mandou pra Verde os refe-
mos diversos. Temos muita coiza feita, mui- ridos. Entre os volumes da bagagem chegou
ta coiza nobre mesmo, pouca palavra. E será também o Cinq Poemas Nègres. Os poemas, se-
com estudos bonitos como Paulistica sobre gundo uma nota constante do livro, foram
eses e outros pontos de nosa ístoria que traduzidos por Maria Clemência, que é além
perderemos a cisma com a pobreza e pou- de escritora uma admirável desenhista, e por
co interese de noso pasado. E ficaremos sa- Eduardo Debrenil.
bendo que somos grandes porque decende-
mos de gigantes. E porque os egualamos e Sempre tive uma grande inclinação pe-
porque os superamos. E nos olhos inquietos los livros pequenos. Dahi talvez a minha sim-
do homem dagora brilhará a certeza do pró- patia pelos Cinq Poemas Nègres. E é tão gran-
prio valor. de essa minha inclinação que resumi os cin-
co poemas de Valdes em três apenas: Le
candombe, Le bateau ncgrier. Le lambour des nc-
ASCANIO LOPES gres. Não é que eu não tenha gostado dos
outros dois. E' que gostei mais dos outros
FESTA N- 3 treis.
Indefonso, muito mais normal e equili-
Rio—Novembro 927. brado, em comparação com os modernistas
brasileiros, não deixa porisso de ser encan-
Nota importante: este terceiro numero tador na sua modernidade. Ha nos Cinq
é dedicado a José de Alencar. Peémes Négres, tal como num outro livro seu
Nota sem importância: este n° é dedi- —La guitarra de los negros toda a relembrança
cado a José de Alencar, o admirável ro- dos tempos bárbaros da escravatura. E' um
mancista brasileiro. livro evocativo das senzalas, com os seus
Palavra como eu nunca fui a missa do brocotós e os seus gingos de sensualidade
senhor Brasilio Itiberê. Agora, não sei por africana. A brutalidade do comercio e con-
quê, fiquei gostando dele. Quem escreve seqüente pega dos negros. O sofrimento
coisas como «Oh! os meninos!» merece mais inaudito das travessias. O trabalho forçado
do que a nossa admiração. Merece a ami- nas lavouras. O chicote trançado dos verdu-
sade da gente também. gos. A pena é que Ildefonso tenha parado
Andrade Muricy assina umas notinhas aí. O tema bem que merece maior assunta-
bem interessantes. Dona Cecília Meirelles ção. Mas, na verdade, tudo o que o poeta
publica Canto da Jandaia admirável como do- assuntou ficou bem assuntado. Com felicida-
cumento de emotividade criadora. de de pensamento e técnica. E basta isto
Gostei dos carvões de Tasso. para que se registe o Cinq Poemas Négres. E
Verde o faz com a mesma alegria intele-
Festa veio bem milhorsinha desta vez. ctual com que tem recebido—e naturalmente
Noto porem nos escrivinhadores da revista continuará a receber—a colaboração de Il-
aquela preocupação velhíssima de mostrar defonso Pereda Valdes.
que já leram muitos senhores de nomes en-
crencados. A eterna mania de arrotar cul- H. R.
tura, com citações paulificantes de sujeitos
mais paulificantes ainda. ATLÂNTICO — director M a r q u e s R e b e l l o
A milhor coisa do n°. é aquele gostosí- (Rio)
ssimo interior de Carlos Drummond de An-
drade, SWEET HOME. Pena que Marques Rebello deixe fula-
nos como o autor de Fevereiro figurarem na
F. lista dos colaboradores do Atlântico.
26 VERDE Dezembro 1927

Charles Lucifer e Manoel Bandeira apre- Tem horas que o poeta descamba para
sentam bôa coisas. um terreno perigoso. Torna-se ridiculamen-
Dos trabalhos saídos nos n°s. chega- te intolerável. Intoleravelmente ridículo. O
dados ultimamente, destaco: Cunhatã — de poema Bêbados é um ezemplo.
Manoel Bandeira e A estrelinha Mentirosa Aí êle arranca a todo momento ais pro-
claro poema de Marques Rebello). Tam- fundos do fundo do peito.
bém é só! Parece mentira. Masinão é men- Faz até pena quando ouvimos êle es-
tira não. clamar compungido:
Ila Macedo: Kangerê. Um desenho muito «Ai! que saudades dos bêbados de fim de feira.»
vivo e muito interessante. Um trecho pra ser cantado com o «Fa-
Notas mundanas, notas de critica (Wal- do português»:
ter Benevides) e outras notas de interes- «Ai! que melancolia nas vendas fechadas!
se geral. Que tristeza scientifica nas vendas fechadas!
F. Que saudades dos bêbados de fim de feira!»
Tristeza cientifica nas vendas fecha-
ASCENSO FERREIRA — C a í i m b ó das? Isso está desfrutavel. Contra-a-mão.
Officinas da "Revista do Norte"—Recife 1927. Infantil. Bocó.
A' primeira vista o livro causa má im- poesia Apezar desses e de outros deslises é a
pressão na gente com aquela chusma de topéias. de De
Ascenso forte. Cheia de onoma-
aliterações. De brilhos. Com vo-
florinhas roxas no lado de fora da capa. gaes que estrondam nos nossos ouvidos.
Parece até que êle esconde dentro versos
de sesta-feira-da-paixão. Ficaria bem melhor lares que tornam éla mais de
Poesia entremeiada cantigas popu-
si o autor em vez da roxura das flores bo- prova disto? Basta citar um pedaço sóUma
orquestrada.
do
tasse bem estampadinha pra todo mundo
vêr a negrura daquele negro tão preto que admirável SERTÃO:
está fumarando gostosamente o seu cachim- Sertão!—Jatobá!
bo escondidinho dentro do livro. Sertão!—Cabrobó!
—Cabrobó!
Ascenso Ferreira—de Pernambuco—fez —Ouricury!
em Catimbó uma poesia que por um triz que —Exú!
eu chamo de original. Não se serviu dela —Exú!
pra falar em jaboticabas. Nem em mara- Lá vem o vaqueiro, pelos atalhos,
cujás. Nem tão pouco parou bestificado di- tangendo as rezes para os curraes...
ante de pomares cheios de arvores carre- Blem... Blem... Blem... Cantam os chocalhos
gadinhas de frutos vermelhos. Não teve so- dos tristes bodes patriarchaes.
frimento pra isso. Fez coisa muito melhor. E os guizos fininhos das ovelhinhas ternas:
Pegou e foi para o meio das ruas de Recife dlin... dlin... dlin...
e s p i a r a p a s s a g e m do Maracalü. do Bumba- E o sino da Igreja velha:
meu-boi. se entusiasmando infantilmente em bão... bão... bão...
cavalhadas onde ha sempre uma porção de —O Sol é vermelho como um tição.
fitas e de bandeirinhas de todas as cores que
bolem no vento. Acho que não era preciso aquela nota no final
do livro ensinando a musica em que devem ser canta-
Quando chegou o carnaval êle quiz lá dos certos trechos de alguns poemas. Por ezemplo
saber de acompanhar o corso? De jogar neste
lança-perfume ? De dansar em salões alinha- «E' lamp... é lamp... é lamp...
dos? Qual! Preferiu dansar «de barriguinha» é Virgulino Lampeão...
no meio da poeira dando umbigadas gosto- a musica está entrando pelos ouvidos da gente a den-
tro. Sôa como uma lambada. E' intuitiva.
sas nas mulatas e se espantando quando viu Catimbó com pequenos reparos pôde figurar co-
«... aquela mulatinha chocolate mo um dos melhores livros da moderna literatura bra-
fasendo o passo do sirycongado sileira. Ilustram o livro belíssimos desenhos de Jua-
na 3a feira de carnaval.» quim Cardozo.
F. PEIXOTO
afirmando que éla era o gênio da raça. Por
tudo isso é que êle não teve medo de de- LIVROS RECEBIDOS:
clarar bem alto que o carnaval de Recife é Tristão de Athayde:
Estudos. Ed. Terra de Sol—Rio—927
o carnaval melhor do mundo. É é mesmo! Mario de Aadrade:
Sem ser um poeta interior Ascenso Ferreira Amar, verbo intranzitivo—1927—S. Paulo
cáe algumas vezes num pieguismo que fica Clan do Jaboti—1927—S. Paulo
até bem pra variar num livro como o seu A Escrava que não é Izaura—1925—S. Paulo
Losango Caqui—1926—S. Paulo
sadio e alegre. Minha escola realisa esse mi- Ha uma gota de sangue em cada poema—1917
lagre de contraste. Feira Literária—Novembro (n°, XI) 1927—S. Paulo
Dezembro 1927 VERDE 27

g^^_^_^^^^_^^i^^S6i^^e^^^^_^^^^B

9 9 9
O 9 9 9 9
Interessante filhinho do sr. João Ferreira Vargas e d. Maria das Dores Lisboa Vargas, resi-
dentes em Leopoldina, no Estado de Minas.
Com uma dose do V e r m i c i d a C é s a r , que é o melhor de
todos os lombrigueiros, expelliu mais de 500 lombrigas, ficando alegresi-
nho, sadio e forte como se vê.

C / f T / M i U P I Z E S , TECÍ<
09
09
28 VERDE Dezembro 1927

963*3 & $ $ $ $ f è i&£5m &%_2$%d&$d23£ «5_2É


96
96 ELIXIR DE CnNBHRA 1 M/IBA &
Analysado e approvado pela Directoria Geral de Saúde Publica, sob o 96
n? 123, em 7 de Janeiro de 1920. Registrado na Junta Commercial do Rio de
Janeiro, premiado com Medalha de Prata na exposição do "Centenário"
T o n i o o g o r a i cie» o r i g e m v e g e t a l
Empregado com vantagem, nas tosses, defluxos, constipações, influenzas, 96
asthma, bronchite, pneumonia e fraqueza pulmonar. Faz engordar e dá um 96
gênio alegre aos que delle uzam.
FABRICA — CATAGUAZES — MINAS
m 53* Í52353R m
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_S£6_5_5g2g2S
96
flft P ® P i I | 96
96
Aviam-se receitas a qualquer hora, com promptidão, zelo e modicidade em preços 69
Nesle estabelecimento encontra-se
variado sortimenio d e Drogas e Productos Pharmaceuiicos 96
«? 96
J. V. de Souza & e . 96
69
! Oaígauzaes—Praça Ruy Barbosa—Tel. n. 2--Estado de Minas 96

0
96
96
é a melhor revista literária moderna de Brasil 69

ASSIGNATURA 11SOOO
NUMERO 1$000
tf
96 HNNUHCIOS 96
% POR VEZ: 96
69 96
96 Capa (lada de fora) 100$000 69
96 Capa (lado de dentro) 80$000
96 Texto—1 pagina 60$000
1/2 « 40$000
1/4 « 30$000
96 69
Por 3 vezes: abatimento de 10 °/s O pagamento deverá ser feito no acto
da entrega do original.

5SWS2*
Dezembro 1927 VERDE 29

_2____a_____~~

Gymnasio Municipal de Cataguazes


(FUNDADO EM 1910)

Com fiscalisação prévia para equiparação ao Pedro II.


Exames processados pelo professorado do Gymnasio,
sob a inspecção do Fiscal nomeado pelo Director
Geral do Departamento Nacional .do Ensino. Exames de
2a época, em Março, para admissão ao 1* anno do cur-
so seriado e para os alumnos reprovados em 1* época.

Cursos de admissão, seriado e de preparatórios.


rrxr/j—í&—m-n«arai

Iriternato - Pensinato - Externato

ANNO LECT1VO DE 1 DE ABRIL A 15 DE DEZEMBRO

Director - Antônio Amaro M. Costa.

Pedidos de estatutos e outras informações devem ser dirigidos ao secretario


ANTÔNIO MARTINS MENDES, que promptamente attenderá.

iilt'
E. F L. — Telephone, 13
30 VERDE Dezembro 1927

96
69 ULTRA FORMIDÁVEL
96 DISTRIBUIÇÃO DE DINHEIRO 69
96 A Loteria do Ceará acaba de lançar os seus novos planos com extracções as Segundas,
96
Of Quintas e Sabbados respectivamente 15, 50 e 100 contos por semana 69
96 BILHETE INTEIRO 15 CONTOS POR 5$000
96
69 « « 50 « « 15$000 69
100 « « 25$000 69
96 69
96
= t_?_BiLiTEPf-Se 96

69 96
69 ALFAIATARIA CRUZEIRO DO SUL 69
96
96 69
ÃQ Elegância naaxirrasa. n o e o r t e — í^r&çscus módicos &Ç
69 96
96
Sebastião Pedro da Silva 96
96 CATAGUAZES — PRAÇA SANTA RITA — E- F- L. — MINAS 96
96 96
no

"Cantando espalharei por ioda a parte"


A Casa Peixoto é a única que vende barato e tem sempre artigos novos 96

69
96 J. Peixoto Ramos 96
96
96 96
69 Cataguazes — Rua Cel. João Duarte Ferreira — Minas 69
69 96
Qfl

69 Rosário Fusco 96

69
96
Livro de Vistas
;#ÍI!H! 59a > imitia

Escola formal de Cataguazes


Installados no mesmo prédio espaçoso, que reúne todas as
condições de hygiene e conforto, ambos os educandarios estão sob a direcção das Irmãs Carme-
litas da Divina Providencia

O COLLEGIO N. S. DO CARMO comprehende:


Internato e Exiernato Primário e Escola Materna.
para alumnos de 3 a 7 annos

CONTRIBUIÇÕES
As Internas do Curso Normal 1:000$000$000 por anno lectivo
« « « « Fundamental 1:000$000$000 «
« « « « Primário l:000$000$000 «
Externas do Curso Normal 300$000 « «
« « « Fundamental 200$000 «
100$000 «
« « « Primário 3 a e 4o 80$000 « «
« « « « _. e i

Jóia de entrada para alumnos internos 40$000


Curso de dactylographia , 25$000 mensaes
As pensões serão pagas em 3 prestações adeantadas, sendo a 1 no
acto da matricula, a 2a a 15 de Junho e a 3 a em Setembro.
A lavagem de roupa sendo feita no Collegio 60$000 annuaes.
As aulas do Curso Primário começam a 3 de Fevereiro e as do Curso
Normal em Março.
O Corpo Docente que é da máxima competência, conta elementos
conspicuos entre os intellectuaes da sociedade Cataguazense.
Para informações sobre tudo o que se refere a admissão de alumnos
dirijam-se a Irmã Directora.

Teleplíone, 85 - €atagB3_es
i n a s GERAES
___BgBfJüJMit~3

Í6_5^_áe2^_252^_2^^c2gâ_â*^^^^5c^
69 69
69 ^ ,. 96
96
8 Livros que os leitores •£•»
96
69
| de VERDE devem lê 96
5?
69
96
96 APARECIDOS 96
96 96
96 ESTE E' O CANTO DA MINHA TERRA — de Antônio Cons- 96
69 tantino. 69
69 POEMAS ANÁLOGOS-de Sérgio Milliet. 69
69 PRIMEIRO ANDAR, AMAR-VERBO INTRANZITIVO, CLAN 96
96 DO JABOTÍ - de Mario de Andrade. 96
BRÁS BEXIGA E BARRA FUNDA, PATHÉ BABY de 69
69 Antônio de Alcântara Machado. 69
96 PRIMEIRO CADERNO DE POESIAS - de Oswaldo do Andrade 96
69 FEIRA LITERÁRIA—o mensario de maior circulação no 69
69 Brasil. Colaborado pelos milhores escritores mo- 69
69 dernos em evidencia. 69
69 CATIMBÓ—poemas de Ascenso Ferreira. 96 yj
69 96
69 A SÂÍR 69
69 69
9Í O DIREITO DA FAMÍLIA SOBRE O CADÁVER-de Ascanio 96
69 Lopes (no prelo). 96
69 POEMAS CRONOLOGICOS-de Henrique de Resende, As- 69
96 canio Lopes, Rosário Fusco (no prelo). 96
69 CODAQUE livro de vistas—de Rosário Fusco. 96
69 LARANJA DA CHINA—contos brasileiros de—Antônio de 96
96 Alcântara Machado. 96
69 BAMBU IMPERIAL, SERENIDADE - de Achilles Vivaqua. 95>
95 ÁLBUM DE VISTAS DA CIDADE DE CATAGUAZES de 69
96 Francisco Ignacio Peixoto. 96
96 96
96 69

'EB
DIREÇÃO
A N N O . . . 1
de REDAÇÃO
HENRIQUE D! RESENDE
c
MARTINS MENDES
ADMINISTRAÇÃO
C REVIoTA-f1_n2Ab RUA CEL. VIEIRA, 53
ROSÁRIO FUSCO DC-ARJ _>E- CATAGUAZES - MINAS
CUbTURA-

S U A A R I O
NICOLÁS FUSCO SANSONE EL NOCTURNO DE LOS CUERPOS
ASCENSO FERREIRA MULA-DE-PADRE
RIBEIRO COUTO A DESCOBERTA DE CATAGUAZES
GUILHERMINO CÉSAR BALADA DO ARCO-ÍRIS DA GENTE
MARIO DE ANDRADE PRÉSENTATION DE LA JEUNE FILLE
(DOLOUR)
ASCANIO LOPES PAPEL DO INSTINTO NO MUNDO ATUAL
A. FONSECA LOBO AUTORIA DA ARTE DE FURTAR (CONC.)
JÃO DORNAS FILHO MEUS OITO ANNOS
PEREGRINO JÚNIOR EL VANGUARDISMO EM EL BRASIL
ILDEFONSO FALCÃO SINGERMAN, STOLEK, ETC. (CONCLUSÃO)
JORGE FERNANDES CANÇÃO AO SOL
FRANCISCO INÁCIO PEIXOTO MARIA LAVADEIRA
MARIA CLEMÊNCIA: F I G U R A

ffiPOBDl/SFSEOTOS DE
UBYRATAN VALMONT, FRANCISCO INÁCIO PEIXOTO, AFFONSO ARINOS SOBRINHO,
F., GUILHERMINO CÉSAR, PEIXOTO e R. F.

com um suplement0 relativo aos


Numero esnecinl-
1 H U U 1 U VJ COJ/CUUl. mezes de Fev., Março, Abril e Maio

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ESTE NUMERO — 1$500 ASSINATURA 11$000


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é a melhor revista literária moderna de Brasil


96 ASS1GN ATURA USOOO 69
1$000
96
NUMERO 69
flHNüHCIOS 69
POR VEZ: 96
69
Capa (lada de fora) 100$000 a?
Capa (lado de dentro) 80$000 96
Texto—1 pagina 60$000
1/2 « 40$000
1/4 « 30$000 96

Por 3 vezes: abatimento de 10 °/0. O pagamento deverá ser feito no acto


da entrega do original.

E L I X I R DE CAP1BARA 9 M A I A
Analysado e approvado pela Directoria Geral de Saúde Publica, sob o
n" 123, em 7 de Janeiro de 1920. Registrado na Junta Commercial do Rio de
Janeiro, premiado com Medalha de Prata na exposição do "Centenário".
1*or_ioo g e r a l <3Le o r i g e m v e g e t a l
Empregado com vantagem, nas tosses, defluxos, constipações, iníluenzas,
asthma, bronchite, pneumonia e fraqueza pulmonar. Faz engordar e dá um
gênio alegre aos que delle uzam.
FABRICA — Pharm. Maia — CATAGUAZES

Rosário Fusco

Livro d e vistas
Juneiro 1928 VERDE

^^!Q^9^^^^_M_5^gW^95^^^^^

$ 0 garoto de um anno de idade u tf


96
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A %
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95>
96 o Escoteiro on o atirador 69
96 tf
96
69
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69 A
1 3L
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A senhorita mais elegante L tf


96
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jft A senhora mais exigente O 69
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96
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Í6
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0 cavalheiro mais distincto O 96
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69
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95)
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0 ancião mais commodista R 96

$ ÚNICOS VENDEDORES DESTA PRAÇA g

1
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Henriques Felippe & £ I
%
95 M A R I O DE ANDRADE %
VERDE Janeiro 1928

96 96
69
"SUh ÃMERIGA" 96
69
96

96 Cia. Nacional de Seguros de Vida

96 Representante nesta cidade 96


69
96
96
Oi/
69 €0t
96

69 O melhor creme para a pelle


96
69
96 Tira m a n c h a s de quaesquer espécies
tf
tf 96
96 Amacia e formoseia a cutis tf
96 96
tf tf
96
tf L i c e n c i a d o p e l o D e p a r t a m e n t o N a -
tf cional d e S a ú d e Publica
69
69
Janeiro 1928 VERDE

tf 95)
I OFFICINA D E 1
«
Galdeireiro, punileiro, goinbeiro
(Casa fundada em 1901)

Francisco Rossi
Installações d'agua e esgoto pelo systema mo-
derno. Serviço garantido. Pessoal competente
: : : e preços módicos :

Deposito de materiaes de primeira qualidade


Cannos de. ferro, chumho e de barro
RAPIDEZ E SEGURANÇA

Tçlephone numero 4 &


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Rua Coronel Vieira, ns. 32 e 34, 8

Cataguazes - Mirças tf

>^_2^^_2^^^^^^_2__^^^^^^^^
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Serraria, (iarpintaria e ©fficina J
%
Mechanica _
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QB
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$ TELEPHONE, 94 96

| €ft$MMIE8 - - I W i S g
69 69

NIANÍEICA DE I 96
96
96
SEMPRE NOVA E GELADA §
|C ARA serem bem servidos neste gênero exijam as oí
caixas da LEITERIA evitando assim pegarem o colossal 69
peso das latinhas, que levam menos 30 grammas. 69
tf
Entrega-se a domicilio g
oV
P H O N C , 122 8
96
Cataguazes - - Estado de Minas 96
tf
N O T A - A LEITERIA DÁ COPOS DE CRISTAL AOS FRE- OA
GUEZES DE SORVETE, A TITULO DE RECLAME. Jn

,è6c2c2cã_2
VERDE
ANNO 1 JANEIRO 1928 E NUMERO 5
F~~C^

Suínas AMf*
"14'* cn~ic.~-c.tA.

M A R I A . C L E M E R T O l A .

gente, é a pintora do sol, dos pampas e das


palmeiras, por écelencia. Dona dum dos
mais belos lápis da férvida Argentina dagora.
Pra nós, verdes, é uma baita felicidade iniciar-
mos com este interessantíssimo díbujo uma
serie de colaborações de pequeninos motivos
de Maria Clemência, fixados e marcados com
aquelle seu geitinho de simplicidade admirável.
Brevemente publicamos duas evocações
biblicas d e s u a autoria: Los Reys Magos e Moysés
salbado de Ias águas. Desenhos magníficos duma
encantadora, profunda penetração psicológica
do motivo impresso.
8 VERDE Janeiro 1928

BBü

EL N O C T U R N O DE L O S
CUERPOS A N H E L A N T E S
Del próximo libro EL VIENTO DEL MAR

Hasta ei silencio de tu frente


llegaron mis lábios con sus besos.
En Ia vida de tus ojos
estaba tendido ei camino de los suenos.
(La noche de tu cuerpo anbelante
sentia Ia solitária maravilla
de mi corazón abierto
en los cantos dei mar)
En ei reposo de tus pechos
mi cabeza tuvo un refugio sereno.
i Me esperaba tu cuerpo anhelante!
(El Uamado de las águas lejanas
queria quitamos
ei camino de los suenos)
Nuestros cuerpos habían desplegado
ei gritos de los viajes largos!
Tu agitaste sobre ei afan dei mar
Ia solitária maravilla de mi corazón.
Yo eleve hasta las estrellas dei cielo
ei silencio de tu frente.
i Entonces ia noche tuvo
dos cuerpos anhelantes
corriendo
en ei camino de los suenos!
NICOLÁS Fusco Sansone

Nicolás Fusco Sansone—jovem poe-


ta uruguayo é o autor de La Trompeta de
las vocês alegres—poemas 1925. Um delicio-
so livro de estréa que foi uma revelação e
um ezito.—{Antologia de Ia moderna poe-
sia uruguya — I. Pereda Valdes). Fundou
em 1920 a revista de combate El camino.
Colabora em Martin Fierro, Proa, Cará-
tula e etc. Tem vinte anos apenas e reside
actualmente em Montevideo, sua cidade
natal
Janeiro 1928 VERDE

MULA ~ DE - PADRE
PRA MARIO DE ANDRADE
Um dia no engenho
Já tarde da noite,
Que estava tão preta
Como carvão...
A gente falava de assombração:
—O tio de Pinga-Fogo appareceu morto na matta com o peito
varado pela canella de Pé-de-Espeto!
—O cachorro de Brabo-Manso levou na sexta-feira uma surra das
Caiporas!
—A Mula-de-Padre quiz beber o sangue da mulher de Chico Lolão:
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração !
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almajarra,
Gemia e rangia
Que o engenho Alegria
E' bom moedor...
—Êh Andorinha!
—Êh Moça branca !
—Êh Beija Flor!
Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão...
E a gente falava de assombração!
Foi quando se deu a coisa esquesita:
Mordendo, rinchando, ás popas e aos pulos
Se pondo de pé com artes do Cão,
Surgiu uma Besta sem ser dali não..,
—Atalha a bicha, Barauna!
—Sustenta o laço, Maracanã!
E a Besta agarrada
Entrou na Almanjarra
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã...
E depois que ella foi solta entupiu no ôco do mundo!
Num abrir e fechar d'olhos a maldita se encantou !
De tardinha,
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a Ama
De seu Padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causava compaixão...
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração!
Do «Canna Caiana». ASCENSO FERREIRA.
10 VERDE Janeiro 1928

A D E S C O B E R T A DE C A T A G U A Z E S

Todo o Brasil está surpreso: existe Ca- lo é poesia. Como é bom ter vinte annos !—
taguazes ! digo-lhes eu que faço 30 no próximo 12 de
A contingência das enormissimas dis- março. Essa fé, esse impulso, essa v/rginda-
tancias criou entre nós o habito dandy, de- de criança de todos os appetites!
uma pose um pouco Anatole France (um pou- —«O Brasil tem que saber de nós. E'
co 1910), de duvidarmos mutuamente da urgente».
existência das nossas cidades. Podemos ir a O' 'jeunes gens de Catacazes*! O grande
Petrogado e voltar em menos tempo do que poeta Blaise Cendrars, evidentemente, não
um habitante de Porto Alegre terá de gas- podia escrever certo: Cataguazes.
tar para ir a Manaus. (Sem fallar em que a
viagem á Rússia é mais commoda). Por isso Não se trata de um cidadão francez ?
o brasileiro da rua do Ouvidor (principal- Aliás, como ficou saborosa aquella corru-
mente o brasileiro da rua do Ouvidor), dian- pção cacophonicada palavra!
te do mal irremediável, criou esta defensiva E todo mundo ficou acreditando. Todo
para a sua indifferença: Manaus não existe, mundo foi ao mappa, roçou o dedo pela
Cuyabá não existe, Goyaz não existe, superficie, procurando, apertando os olhos,
etc. João do Rio tem numa comedia um per- até achar: Cataguazes. E todo mundo sen-
personagem que duvida da existência real tiu ternura. Os jornaes falam. O sr. Tristão
de Goyaz. Parece que é na «Eva». E esse per- de Athayde escreve. O sr. Blaise Cendrars
sonagem, que habilmente preparara um ma- provavelmente estará compondo um poema:
drigal atacante, exclama num rasgo para a
moça bonita da peça: «—O' meu Goyaz és Catacazes
tu!» Entretanto, o exagero, na razão directa Je voudrais bien y aller.
das nossas descuidosas indifferenças pátrias, Ce n'esf pas três loin, peuí-êfre.
chega ao ponto de, em pleno Districto Fede- Ma pefite ronde insoucianfe et
ral, haver quem duvide de Cascadura. Ape- Jcgere de jeunes poetes
zar dos bondes com as taboletas insophis- Que faime
maveis: «Cascadura» Apezar da minha pre- Comme faimerais un ananasl
zada amiga d. Gilka Machado já ter morado
lá e garantir que Cascadura existe. E' atre- A commoção nacional augmenta, che-
vimento duvidar da palavra de uma pessoa ga ao desespero, descabella-se, quando se
tão seductora. verificou esta coisa grande: «Verde» appa-
Assim, Cataguazes. Em vão Astolpho receu quando não existia nenhuma revista
Dutra foi presidente da Câmara dos Depu- exclusivamente de literatura no Brasil!
tados Federaes. Em vão Astolpho Resende (Aqui, é inadiável intercalar um poema:
é uma das figuras mais formosas do direito
brasileiro: a par da bondade pessoal, a luz POLÍTICA (*)
claríssima da cultura e da intelligencia rica. Trinta e cinco milhões
Nasceram em Cataguazes? Mas onde é Ca- O maior paiz do mundo em recur-
taguazes ? sos naturaes na opinião
Subitamente, "Verde": um bofetão na de diversos viajantes
atonia literária nacional. Poesia. Escrevem não subvencionados pelo
prosa também, mas tudo aquillo (a capa, os Governo
annuncios de sapatarias, a provável divida A estatística do sr. Bulhões Carvalho
crescente para com o typographo, umas pho- Me enche de fundas melancolias cí-
tographias muito cheias de borrões, uns ra- vicas.
pazes a escrever para todo mundo que não Deixa estar jacaré que a lagoa ha
conhece «tu prá cá», tu prá lá»), tudo aquil- de seccar)
Janeiro 1928 VERDE 11

Ah! Cataguazes! que sensibilidade, que tegrou Cataguazes na realidade nacional


doçura, que cheiro bom de matto humido attingivel.
de manhã cedo! E jamais—oh! jamais!—um comedio-
Como ha vida nessas paginas da tua re- grapho petulante poderá pôr agora na boc-
vista ! Não sei qual é a opinião do teu pre- ca de um personagem esta declaração de
sidente da Câmara Municipal, nem sei tam- amor:
bém si as outras pessoas sensatas da loca- «—O' meu Cataguazes és tu!»
lidade acreditam em «Verde»! Talvez lhes RIBEIRO COUTO
succeda como com a neblina: aão a vemos
quando estamos dentro delia. Nós, porém, (*) Este poema, apezar do sarcasmo áci-
que vivemos pela vastidão annexa do paiz do, não é do meu amigo Carlos Drummond de
(residindo em outros ramaes ferroviários) Andrade, nem de nenhum outro membro
nós sabemos—em segredo—que «Verde» in- do Partido Democrático da Poesia Nacional.

BALADA DO
ARCO ~ ÍRIS
DA GENTE
PARA ROSÁRIO FUSCO

Sempre que vejo o arco-íris


me vêm á lembrança muitas coisas passadas
—muitas coisas lindas e muitas coisas tristes
que eu tenho gravadas dentro de mim.

Vermelho da minha ira


Anilado da minha infantilidade
Roxo do meu pezar
Laranja do meu desejo
Azul do meu ideal
Amarelo da minha desesperança.

Fica faltando a côr verde


no meu arco-iris interior.

Eu quizera ter o meu arco-iris completo


mas você me tirou a côr verde
e eu fiquei com as outras cores todas
dansando confusas
dentro de mim.

Guiüiermino
C é s a r
8
12 VERDE Janeiro

PRÉSENTATION DE LA JEUNE FILLE

En introduisant dans notre boite-à-sur- glez jamais les chevelures! Vous resterez
prise les primeurs d'un chansonnier inédit entomologiste. Rêves, larmes, courages, re-
je tiens à affirmer d'abord que je n'invite voltes, Dolour les a réalisés dans un sur-
personne à faire le voyage de cette jeune- texte ailé. Cest de Ia poussière. Mais une
fille. II y a dans certaines manifestations de poussière d'or.
notre époque un médievalisme subtil. Plai-
sons nous à imaginer les femmes enfermées MARIO DE ANDRADE
toute leur vie dans une chambre. Ou bien ces
barons qu'ayant rate le loup, s'amputaient I
Ia main coupable. Dans Ia parade des sports
humains il faut faire place àTéquipe des ges- Faire le canton en êxtase, faire le
tes d'orgueil dont Ia secrète beauté n'est centaure en Chamounix, faire le quasi en
qu'une reconnaissance de lumière. Est-ce évantail cache tout, une seule loupe augmen-
que 1'ombre peut bifurquer les êtres verti- terá l'eau de Javel comme fortin de tes fon-
caux sans Ia premisse du soleil? Et je plains ctions d'amadou. La douche d'automne a
les homens dont 1'amour est tellement ma- fait sa carrière presque veuve d'une amar-
trimonial qu'ils croint à 1'inutilité de lombre. re sure et délicate. C'est presque mieux de
J'ai choisi pour vous révéler Ia musi- glisser, de picoter, de réduire, rotir, protes-
que rafinée de Dolour, deux morceaux ex- ter, clamer Ia futilité diminutive, que d'anni-
traits de 1'Exercice ou Pretexte Surréaliste hiler les conventions célestines. Sans inter-
ou Surtexte Réaliste. Surtexte Réaliste... vention des ciseaux rithmiques, se plonger
Voici des mots qui ont des valeurs de trom- sans fatuité dans 1'horloge à concurence
pette. Ils sont si métalliques qu'ils me don- concentrique. Pour les roses de midi on doit
nent Ia saveur de 1'exactitude. Dolour a s'efforcer à une conclusion liberticide.
frappé juste. Son Exercice, d'une si psycho- Á 1'aliquot pour toujours!
logique intensité, d'un si haut lyrisme, d'une
homogénéité qu'on de peut comparer qu'à II
celle de Ia banane, est un monoplan fidèle Les ballets font fureur, ainsi les hippo-
dans lequel Dolour survole ses passes ima- campes sautent comme des rames en atten-
ginaires. II lui fallait choisir entre le ruisseau dant 1'ondine iris. Tout un monde de radio-
et le confessional... Dolour choisit le ruis- laires viendra s'exercer dans un triomphe
seau. Même si l'on écarte Wagner de Ia quinconce. Les valérianes feront cent á l'heu-
route, peut-on nier les murmures de Ia forêt? re espérant un calme absolu pour sur-
Aprés ses denières vacances, Dolour prendre les ballets des syngnathes. Hippo-
muscla son visage dans les traits d'une Mi- campes—vous qui fütes Ia lutte des flots et
nerve et se mit à écrire. Je n'attends pas le qui maintenant maintenez une revolution
second acte. Je ne crois même pas á sa agenda, semez les argonautes qui comptent
possibilite. Dès que le passe commence parmis vous en - m'envoyent quelques cypri-
réellement d'exister Ia musique se tait à nes en coquille Laissez les littorines som-
Ia cruche des violons rimbaldiens. meiller sept années rampantes. Hippocam-
Car j'insiste sur Ia musicalité de ces pes—vous qui attendez les étoiles astéries
morceaux. Essayez de les qualifier. Ils peu- des cieux lointains, qui supplantez les ma-
vent se festonner seulement de ces vagues drépores féroces, qui maintenez une amitié
qualificatifs psychologiques propres à l'art absolue avec les syngnathes compagnes
musical. On peut dire qu'ils sont intenses, d'enfance, vous qui jusqu'à présent avez
ou gracieux, ou calms, ou dramatiques. Mais soutenu votre race intacte sans évolution,
personne n'arrivera à déceler Ia réalité in- cherchez maintenant à soutenir cette dance
telectuelle qui se cache, ou n'existe même hippique dont vous connaissez si bien les
pas, derrière les vagues d'harmonie. vérités au fond d'une mer de legumes.
Mais faut-il bien savoir qu'un inconnu
commanda à Mozart son Requiem? N'épin- DOLOUR (D. A.)
Janeiro 1928 VERDE 13

PAPEL DO INSTINTO NO MUNDO ATUAL. FREUD.

i A imperioza necesidade de satisfação


dos instintos os reuniu. No principio, a obe-
Antes de entrar no estudo da impor- diência do omem ás forças da natureza era
tante teze que epigrafa este artigo, será cega e abisoluta.
necesaria uma analize do papel do instinto Mas, si disermos que simultaneamente
na formação da sociedade e na organização apareceram no planeta vários ou muitos
do Estado. A simples observação do mundo, omens e mulheres, teremos de adimitir a
na sua situação politica atual, força-nos a vida. deles em estado de sociedade, pela
concluir que o estado de organização vi- força do instincto de conservação. E porquê,
gente foi producto duma elaboração de- no planeta, no principio da vida, as condi-
morada. ções de ezistencia asim o ezijiam. Basta um
Por outro lado, a istoria da umanidade simples raciocínio, ou antes, as ousadas dos
nos ensina que o mundo, como o vemos, mastodontes diso nos convencem...
assim não foi sempre.
Os Estados, como os entendemos mo- Periodo do Estado. Os omens, reunidos
dernamente e sobi o ponto de vista jurídico, em sociedade, pelos instintos, e imperioza
não ezistiram desde o inicio da vida no necessidade de satisfação deles, pela nece-
planeta. sidade de defeza contra o meio ambiente,
A' sua formação antecedeu o periodo envolveram-se então em lutas em si. A sa-
da vida coletiva, sem o vinculo jurídico do tisfação integral dos instintos os levou a iso.
Estado, o periodo da sociedade, emfim, to- As paixões nacidas deles, os atirou em con-
mando-se esa palavra no seu sentido em flito. Daí a organização do Estado, rezultan-
direito. te da necesidade de limitação dos direitos
Não tendo veriguado a teoria de Rous- e dos deveres de cada um, na coletividade,
seau, não podemos crer na ezistencia dum para a posibilidade da coezistencia deles.
periodo de estado natural, antecedente á so- O omem, não por livre vontade, mas forçado,
ciedade. deixa o periodo de cega obediência aos ins-
A' razão repuguina a idéa do contrato tintos para entrar no periodo das limitações
social e seria inútil argumentar contra uma ás forças da natureza. Os instintos querem
teoria que, como a de Saviguy referente á ser satisfeitos integralmente; na imposibilida-
posse, deveria ser relegada ao sol das de diso, por causa da vida em comum, e não
curiozidades arcaicas, no dizer de Meu- devendo ser disólvida a sociedade, pelos
lenaere. perigos que a todos iso acarretaria, resolvem
Donde, concluímos: os omens sempre os omens limitar as raias de ação dos instin-
viveram em estado de sociedade. tos, para garantia da satisfação deles, ao
Esa vida coletiva pode ser dividida em menos em parte.
dois períodos: o periodo da sociedade e o Donde poderemos concluir que os ins-
periodo do Estado. tintos foram as forças jiradoras do espirito
A sociedade primitiva O ornem, o zoon asociativo umano.
politicus de Aristóteles, é o animal esencial- Mas tarde cream eles a necesidade de
mente gregario. sua limitação, para que posam ser satisfei-
Donde naceu, porém, ese sentimento de tos, ao menos em parte; estabelecem-se en-
sociabilidade ? tão as regras nas sociedades, surji o Estado.
Vejo no instinto a força giradora. Sinão, Mas, o embrião, a força jeradora das
ezaminemos. Si acazo disermos que, no ini- mudanças sucesivas da sociedade umana é
cio, só ezistiam um ornem e uma mulher (e e será sempre a mesma: a satisfação dos
temos de adimitir a coezistencia dos dois instintos.
sexos, em face da reprodução), teremos de,
ipso facto, adimitir a doutrina de que a sua ASCANIO LOPES
reunião naceu, primariamente, da força do
instinto sexual. (Continua).
14 VERDE Janeiro 1928

AUTORIA DA ARTE DE FURTAR


(Continuação) Outras autoridades outrosim, acataveis
quanto as procedentes, cabem ser invocadas
Aliás, como disse o real senhor e filho no mesmo propósito. Entre tantas, inclusive
do David: nihil noví sub sole; pois si ao grande as mais illustres, a senhora marqueza Maria
Seneca articular já approuvera e bastos sé- de Rabution-Chantal (mme. de Sevigne, cha-
culos antes do letrado francez aristocrata: mada) que com elevado saber e descortino
•orafío vultus animi est»—e tales hominibus amplíssimo brindou-nos do lapidar conceito:
fuit oratis, qualis vita» «Cada um possue seu estylo». Demais, o no-
Faz-se mister aqui ligeira esplanatoria tável coryoheu do romantismo, vinconde de
digressão: querem alguns eruditos que com Chateaubriand, do qual se diz em justiça ha-
sua sentença:—«o estylo é o homem—haja ver enchido o século de seu nome, algures
aventado o conde a hypothese de as idéas assevera, com autoridade de que se não ou-
serem um patrimônio da humanidade, em- saria diminuir em tão elevado engenho: «Não
quanto que o estlyo, só, seria privada pro se vive senão pelo estylo.
priedade do autor, do «homem». Com maior
copia de augmentos, somos pela doutrina da
equivalente entre o áureo conceito de Se- (Continua)
neca e aquelle, não de menor quilate; pelo
fidalgo proferido. A. FONSECA LOBO

AEUS OITO ANNOS


i
A lua branda e redonda
Surge atraz do cruseiro e vae abrindo
O cofre de jóias das estrellas...
No Largo as creanças rodam em roda
e vão abrindo o porta-joias da garganta:
O' ciranda, cirandinha,
Vamos todos ciranda...
Vamos dá a meia volta,
Volta e meia vamos d á . . ,
II
Sob o olhar pisca-pisca das estrellas,
Na velha e torta rua Direita,
Onde mora o Chico Franco e o padre João
—Bico será!
—Será pega!
—Si não pega!
—Arrume-se lá!
—Tatu tá no munho?
—Moendo fubá!
—Fininho ou grosso ?
—Fininho só!
—Fiau! Ajunta no pé, negrada!...

O D o r n a s F i l h o
Janeiro 1928 VERDE 15

EL VANGUARDISMO EN EL BRASIL
El movimiento moderno en ei Brasil, fue un grito «O Jornal» y en Ia «Manhã», con asidua regularidad,
de alegria y entusiasmo. Fue ei grito íuerte de Ia gen- sus ensayon literários.
te nueva. Un grito necesario, que encontro reper- Habiendo comentado en estúdios de notable
cusión en todos los rincones de Ia tierra brasilena. agudeza critica, las figuras más curiosas de Ia van-
La reacción modernista, entre nosotros, nació guardia brasilena, no quizo hasta ahora transformar
de una fatiga unânime. La gente moza de esta tierra en libro essa páginas fragmentárias de historia de
libre y joven estaba cansada de contemplar ei espe- nuestra literatura.
ctáculo inmutable de Ia literatura parnasiana. El se-
nor Alberto de Oliveira, con Ia perpétua parada de Estúdios d e i s e n o r Tristan d e A i H a y d e .
gala de sus alejandrinos disciplinados, comenzaba a
poner bostezos de tédio en los espiritus nuevos. Y Ia
gente moza dei Brasil, teniendo ai frente a los Sres. Diferente en todo y por todo dei Sr. Agripino
Graça Aranha, Mario de Andrade, Ronald de Carvalho, Griecco, mas no menos interessante, ei senor Tristán
Villa Lobos, Guillermo de Almeida. Osvaldo de An- de Athayde, (cuyo nombre verdadeiro es Alceu de
drade y otros veinte, delibera um dia, de repente, para Amoroso Lima), acaba de publicar un volúmen de
implantar Ia indisciplina entre los irreprochables sol- «Estúdios», (segunda serie en ei que se encuentra por
dados de los batallones parnasianos de Ia Academia así decirlo, toda Ia historia de las últimas reacciones
Brasilena. de vanguardia dei Brasil.
Cotado de seria y compleja cultura, el senor
La conspiración se hizo en Rio, pero Ia subleva- Tristan de Athayde, es un crítico de agudas cualidades.
ción estalló en San Paulo, con Ia «Semana de Arte Estudiando los indivíduos y las obras en um sentido
Moderna». vertical, él penetra hondo en el alma de nuestros mo-
Nuestros poetas jóvenes, que siempre habían vimientos literários, agitándolos, discutiéndolos, co-
tenido ei grado lO ea conportamiento. subitamente sil- mentándolos con una clarividencia que desconcierta.
varon a los ceremoniosõs maes.ros de Ia Academia, Espíritu graVe, reflexivo, de Índole conservado-
colocándose con resuelto coraje ai iado de los re- ra, tuvo, empero, el paradojal coraje de colocarse
volucionários de Ia liberación. con simpatia, sino con entusiasmo en el «frente» de
Ém seguida, vino ei segundo episódio sensacio- Ia literatura brasilena, entrando resueltamente en las
nal de Ia campana: Ia conferência dei senor Graça filas de los vanguardistas más extremos, para com-
Aranha en Ia Academia, contra ia A cademia. prenderlos mejor, para jugarlos con más acierto.
Fue Ia victoria definitiva. En Ia confusión inci- Esto no impedió, todavia, que su actitud haya
tante dei combate se definieron las actitudes. Y en sido tildada de insincera, pues hay muchos que duden,
todos los Estados dei Brasil él movimento tuvo eco: aún entre las gentes de vanguardia, de los sentimien-
Aparecieron focos metastáskos de vanguardia en todo tos modernistas dei senor Tristán de Athayde...
ei organismo brasileno. En Pará. en Pernambuco, en En todo caso, no se puede negar que él es uno
Bahia, en San Paulo, en Rio Grande dei Sur. etc... de los críticos y ensayistas más notable que el Brasil
Después, ei bloch moderno se diferencio: Grupo tuvo en todos lostiempos.
de Rio, grupo de San Paulo. Más tarde nuevas esci- Por otra parto, los vanguardistas brasilenos, le
ciones y ei grupo de San Paulo se subdividió: «verde deben un servicio inestimable: Ia crítica dei movi-
amarillo». «revolución de Anta», «paubrasil». En Mi- miento.
nas surgió otro grupo ei de los muchachos de Ia «Re- En Ia segunda serie de los «Estúdios» dei senor
vista» de Bello Horizonte. La muchachada de Rio, a Tristán de Athayde, están incontestablcmente los me-
sua vez, se escindió. Per esta fragmentación, que en jores ensayos ylos más sérios que se han publicado
verdad era apenas aparente, en lugar de debilitar ei entre nosotros sobre Ia gente de vanguardia dei Bra-
movimiento.lo consolido. No hubo propiamente divi- sil. Quien quiera conocer Ia curva dei movimento mo-
siones: hubo multiplicaciones. Hoy, en ei Brasil, nadie derno brasileno no podrá desechar este libro, que es
quiere estar ya dei «otro lado». Toda Ia gente quiere un bello y gran libro.
formar en Ia «vanguardia». Y Ia vanguardia regi-
menta Ia indisciplina de todas las gentes jóvenes y li-
bres, sin jefes, sin comandantes, sin gerarquias La t e r c e r a c o r r i e n l e
inútiles. Hubo, también, un joven crítico brasileno, el
La hora actual, en ei Brasil, es de inquietud senor Tasso da Silveira, que escrebió sobre los «Estú-
renovadora inquietud de todos, los espiritus. Como dios dei senor Tristán de Athayde, un palpitante ar-
dice muy bien ei senor Aníbal Machado, «nosotros tal tículo, lleno de graves restrieciones, de comentários
voz no sabemos todavia Io que queremos, pero sabe- recriminatorios, de irreverentes censuras. Explique-
mos perfectamente Io que no queremos». Y se inaugu- mos el origen de Ia actitud de este crítico con respe-
ro así un ritmo nuevo en Ia vida intelectual dei Brasil. cto dei libro dei senor Tristán de Athayde.
El senor Tasso da Silveira, poeta ensayista de
La C r i t i c a «de I a V a n g u a i d i a Brasilcn. ideas modernas, fundo recientemente en Rio, con el
Sr. Andrade Muricy y outros camaradas literários,
La vanguardia literária dei Brasil encontro en una curiosa revista de pensamiento y arte FEE^TA.
los senores Agripino Griecco y Tristán de Athayde, Este semanário de vanguardia, fue recibido com
sus críticos más considerados. natural simpatia en Io principales centros de cultura
El senor Griecco, uno de los espiritus más inte- dei país, vino a integrar en el movimiento moderno
ressantes dei momento brasileno, estilista de una vi- algunas interessantes figuras.
bración sorprendente, esgrimiendo, con agilidade de Aunque hecho com muena gravidad y sin Ia
malabarista las chispeantes armas de una contunden- alegria que marca el ritmo de todos los gestos de
te ironia, no quizo todavia escribir un libro sobre los vanguardia en el Brasil. FIE^TA representaba una
modernos escritores brasilenos. Después de haber pu- actitud altamente simpática, incorporando ai movimi-
blicado dos excelentes obras—«Fetiches y Fantoches» ento de libcracién que se operaba en todo el país al-
y «Cazadores de símbolos», entregóse de lleno a las gunas inteligências vivas, curiosas, Uenas de vibraci-
dispersas actividades de Ia prensa, publicando en ón, llenas de entusiasmo.
16 VERDE Janeiro

Y el senor Tasso da Silveira, se disgustó con En tanto que en Ia FIESTA se siente nítidamen
el senor Tristan de Athayde exactamente porque este te Ia preocupación partidária dei "grupo", los mucha-
crítico en sus «Estúdios», (segunda serie), haciendo Ia chos de Ia VERDE hacen cuestión de proclamar su in-
historia de nuestro movimiento de vanguardia, olvido dependência, garantizando que no tienen ligazon de
el grupo de FIESTA. espécie alguna con otras ruedas literárias dei país o
El grupo de FIESTA, que el senor Tasso d*» dei extrangero.
Silveira convino liamar "Ia tercera corriente", (Ia pri- Sin embargo, ya hubo quien observase, - y no
mera seria Ia de Rio, con los senores Ronald de Car- sin alguna razón—que los muchachos de Cataguazes
valho, Renato Almeida, Graça Aranha, etc, y Ia se- son tributários de los modernistas de San Paulo, (gru-
gunda Ia de San Paulo, con los senores Osvaldo e po dei senor Mario de Andrade).
Mario de Andrade, Prudente Moraes Netto, Sérgio Bu- El grupo «verde», sin embargo en su manifiesto
arque, Alcântara Machado, etc, o vice versa,) no po- declara com gravidad y convicción:
dia conformarse com el olvido dei seõor Tristan de 1"—Trabajamos independientemente de cual-
Athayde. Realmente el olvido dei senor de Athayde quier outro grupo literário.
fue injusto, mas fue hasta cierto punto explicable, 2"_Tenemos perfectamente demarcada Ia linea
por cuanto solo ahora los muchachos de Ia tercera divisória que nos separa de los demas modernistas
corriente se diferencian com nitidez e se organizan, brasilenos y extrangeros.
constituyendo um grupo aparte, com programas e 3o—Nuestros procederes literários son perfecta-
ideas próprias. mente definidos.
4»_somos objectivistas pero diversísimos unos
El "Grupo V e r d e " de los otros.
6o—No tenemos ligazón de espécie ninguoa con
Empero, quien quisiera aceptar Ia «tercera cor- el estiloo y el modo literário de otras ruedas.
riente dei senor Tasso da Silveira, para ser justo, 6 —Queremos dejar bien sentada nuestra inde-
tendrá que inconporar a nuestro movimiento de van- petdencia eu el sentido «escolástico».
guardia una corriente más: Ia «cuarta corriente», que 7o—No damos Ia más mínima importância a Ia
estaria constituiada por el grupo de Ia VERDE, de crítica de los que no nos comprenden y es solo eso.
Cataguazes (Minas). Ahi está, en esa rápida noticia, una síntesis cla-
Este grupo es, de suyo, interesantísimo, y surge ra dei actual movimiento de las ideas en el Brasil.
con una de las revistas mejores que el modernisno
ha conocido en el Brasil. Después hablaremos más detenidamente sobre
El personal de Ia VERDE está dotado de más esas diversas comentes en que Ia actualidad literária
alegria, de más vivacidad, de más entusiasmo que el de nuestra gente de vanguardia, mostrando Ia signi-
grupo de Ia FIESTA. ficación de sus ideas, de sus programmas y de sus
Habiendo nacido en una remota ciudad dei in- obras. Desde ya, por otra parte, debo decir, para ser
terior dei Estado de Minas, esta revista as una deli- exacto y honesto, que ninguna generacion, en ningún
ciosa revelación, poniendo a gente moderna dei país tiempo, realizo en el Brasil una obra tan bella y tan
en contacto con una generacion sorprendente de poe- fascinante, como Ia que están reaUzando en esta hora
tas y prosadores de vanguardia. los modernistas.
Después de esto, los muchachos de Cataguazes PEREGRINO JÚNIOR
tienen, sobre los de Ia FIESTA, una ventaja aprecia-
ble: se encuentran menos atados a los prejuicios par-
tidários. (Artigo a sair em Martin-Fierro).

SÃO PAULO NA FEDERAÇÃO, de SOUSA LOBO


Da phrase primeira de seu estudo so- E' sua idéa fundamental: como entre os
ciológico genial inicia Sousa Lobo o fio ló- indivíduos, as desigualdades econômicas es-
gico de suas ideas fundamentadas em profu- tabelecem jerarchias entre nações e povos.
sa, autorisada, preciosa documentação esta- Haja depois procurar nessa colíocação nessa
tistica. jerarchia da potencialidade. E em seguida
Dissecador de phenomenos nos expõe qual deveríamos ter ante o vulto de reser-
o cyclo, a marcha seguida no caldeamento vas dynamicas da natureza fornecida e qual
de nossa nacionalidade. Depois de sentir de que teremos no futuro, attenta nossa defi-
perto o borbulhar daquellas energias deter- ciente actividade e energia.
minantes da evolução factorando-se, scin- Culpa disso tudo ?—a mestiçagem de-
dindo-se, eliminando-se, reunindo-se, para a sordenada da raça, sem critério scientifico
synthese final—Brasil,—convence-se a gen- algum. Não vou discutir o problema: dis-
te que depois de Sousa Lobo nada mais se cutam-no com Sousa Lobo, mas leiam antes
pode dizer sinão asneira. do protesto sua obra, exijo eu. Se depois
Defeitos, falhas, inferioridade de novo tiverem coragem falem.
Brasil nos são expostos irretorquivelmente. Souza Lobo não é o demolidor. Não se
O autor justifica sua invensibilidade scienti- limita a diagnosticar. Tampouco nos medica-
fica: «são verdades duras mas não são do menta panacéas. Equacionado o problema
numero das que se não devem dizer». básico—crise racial—a analyse regida so-
Suplemento relativo aos
meses de Fevereiro, Mar-
ço, Abril e Maio do ano
de 1928
o
&

SÉRGIO MILLIET, AUGUSTO FREDERICO SCHIMIDT,


MARQUES REBELLO, MARTINS MENDES, HENRIQUE DE
RESENDE, SAÚL DE NAVARRO E ROSÁRIO FUSCO.

o
o

P A U L O P R A D O
O g r u p o VERDE e o s o u t r o s
NOTICIAS SOBRE LIVROS E OUTRAS NOTICIAS

O artigo S. PAULO NA FEDERA-


ÇÃO continua depois do suplemento
VERDE Janeiro 1928

DO " R E T R A T O DO B R A S I L "
«ENSAIO SOBRE A TRISTEZA BRASILEIRA»
( E s p e c i a l para. VERDE)

... Ao findar o século do ouro Minas


era uma ruina. 0 viajante que se aventurava
por essas regiões devia levar provisões por-
que em parte alguma as poderia comprar:
ao contrario, o próprio habitante da casa a
cuja porta batesse, talvez lhe supplicasse,
pelo amor de Deus, a esmola de um punha-
do de farinha.
Hoje, após o deslumbramento e o buli-
cio aíanoso de tanta ambição e loucura—e
como para attestar a perennidade do espiri-
to creador libertado dos interesses e acci-
dentes humanos — de todo esse passado ape-
nas resta uma quasi ruina que é uma obra-
de-arte, a obra do Aleijadinho, esculptor e
architecto. Nasceu em Ouro-Preto em 1730;
era pardo escuro, filho de um portuguez e
de uma africana; sabia ler e escrever, mas
parece não ter freqüentado outra aula alem
da de primeiras lettras. Padecia de uma ter-
rível moléstia incurável, em que perdeu to-
dos os dedos dos pés, só andando de joe-
lhos; das mãos apenas lhe restavam os pol-
legares e os Índices. Atormentado por do-
res cruciantes, narravam que elle próprio,
servindo-se do formão, cortava com uma
pancada de macete o membro que o fazia
soffrer. Esse monstro physico, asqueroso,
de face atormentada e disforme, de palpe-
bras cahidas e bocca estuporada, escondia-
se debaixo de uma tolda para trabalhar nas
igrejas. Não lhe perturbava o gênio inculto
nenhum ensinamento de academias ou de
mestres. A sua obra surgiu e viveu na es-
pontaneidade da imaginação creadora, sem
nenhuma deformação. Trabalhou nas capei-
las de S. Francisco de Assis, de Nossa Se-
nhora do Carmo e nas das Almas, em Ouro
Preto; nas matrizes de S. João do Morro
Grande e de Sabará; nas de Marianna e San-
ta Luzia. Destacam-se na sua obra a matriz
e capella de S. Francisco, em São João d'El-
rei, e os templos e estatuas de Congonhas
do Campo.
Foi o maior artista que durante sécu-
los produzio o Brasil. E é o que resta do
maravilhoso potosi das Minas Geraes que
por tanto tempo assombraram o mundo.

janeiro de 1928.

P A U L O PR ADO
Janeiro 1928 VERDE 3

P O E M A S B R A S I L E I R O S

Para Antônio de Alcântara Machado

A serra é toda um clarão dentro da noite.

Tranqüilo,
no alto,
o bambual assiste aos destroços da queimada
crepitando perto.

E eis que uma labareda, ainda tremula e indecisa,


vem dansar em torno dele—e dansa
entre as taquaras secas que o circundam...
Outras mais vão se erguendo...

Ora avançam,
ora recuam,
—sarabanda
de salamandras rútilas e vivas,
dentro da noite enluarada,
em torno ao emaranhado da touceira.
Depois,
vertiginosamente,
é um fogaréo que sobe,
e se avoluma,
e cresce,
e, numa fúria, ganha
o circulo em cheio do bambual tranqüilo.
(Amanhã, com certeza,
um poeta qualquer, um poeta simbolista,
irá dizer que aquela fumarada,
dentro da noite enluarada,
—sem ter visto, sequer, o espetáculo di-
nâmico do fogo
estralando os gomos verdes dos bambus
recurvos—
é simplesmente
a alma sofredora e ingênua das queimadas...)

HENRIQUE DE RESENDE

N E S T A REDAÇÃO:
POEMAS CRONOLÓGICOS, de Henrique de Resende, Rosário Fusco e Asca-
nio Lopes. Preço (livre de porte) 5$000. Em São Paulo na _,g<yRRi-
Rlft GrlRRAUX.
VERDE Janeiro 1928

Cataguazes, o cinema, a Phebo, a lei de menores, etc.


Outrora não se comprehendia a vida Digam os moralistas o que quizerem.
em qualquer cidadezinha do interior, por Que o cinema não presta; que o cinema cor-
mais novo que fosse, sem uma banda de mu- rompe; que o cinema traz a sedução do
sica e sem fogueteiro. Qualquer aconteci- luxo; que o cinema ensina o mal junto com
mento no logar: a chegada do seu vigário, o o bem. O cinema é como o mundo: tem de
anniversario do coroné Trindade, a festa do tudo um pouquinho. Cada um que tire o bom
Divino, tudo era motivo para que o fogueto- pedaço.
rio espocasse nos ares e se ouvisse o tara- Depois, a fita sempre tem um castigo
ta-tchim-, tara-ta-tchim-bum d'«Os Amantes para os máos. E faz uma grande defesa da
da Lyra». Festa sem musica e sem foguetes, familia. Haja vista que todo enredo termina
só no meio da semana santa, Hoje. ha uma com o casamento, como si nisto estivesse a
cousa imprescindivel, que veio substituir o maior felicidade que o homem pode conquis-
circo de cavallinhos. Este só apparecia de tar neste mundo terráqueo...
tempos em tempos. E, quando apparecia, era Pois bem. Porque o cinema é um Índi-
mathematica e astronomicamente certo: S. ce de civilização, applaudimos muito gosto-
Pedro mandava chuva. Agora veio o cinema. samente os nossos conterrâneos, que se em-
O caboclo que estava acostumado a assistir, penham na vantagem de uma grande fabri-
boquiaberto, ás scenas estapafúrdias do «O ca cinematographica em nossa terra.
bandido da Serra Morena,» já conhece o Rol- Entre parenthesis: Não es-
leaux e o Tom Mix. E, alem disso, o prédio tou fazendo propaganda da
onde funcciona o cinema, de vez em quando, Phebo. Nem ella precisa dis-
serve para uma representação do grupo dra- so, Sou muito camarada do
mático local. E' um «successo»... Humberto, mais isso não vem
Este progresso nas cidadezinhas, nos ao caso.
arraiaes, é reflexo do que se passa nas gran- Continuemos. Não esmoreçam os actua-
des cidades. Nestas, o jazz-band e o automó- es organizadores da promissora fabrica. Te-
vel são as instituições novas. Muito breve, rão que luctar muito contra a rotina, contra
encontraremos nas villazinhas a victoria do a má vontade. Mas não se importem com isso.
jazz O Ford já vem chegando, aos poucos. Mãos à obra. E' preciso explorar motivos
outros, que o gênio latino possue, sem cahir
* * no logar commum das scenas indecentes,
*
que nos chegam do país de Tio Sam.
Em Cataguazes, hoje centro adiantado, A lei de menores poderá ficar, até, ina-
não mais soffremos o pipocar dos foguetes, plicavel. E' só produzir com o que é nosso,
nem o pam-pam-pam-pum, das bandas de sem ir buscar na irresistível attracção da
musica. malícia o enredo das scenas.
Tudo passou, e ha muito tempo. Ficou- Mais tarde, quando Cataguazes se trans-
nos o cinema. Mas um cinema de verdade, formar em uma Holywood-mirim, as recom-
onde se exhibem os melhores trabalhos da pensas virão. E podem ficar certos que irão
industria americana. Ali, espairecendo o cé- obter muito mais do que—triumphos, glorias,
rebro, a gente encontra lenitivo para muita honrarias, títulos, elogios, etc, etc. Alem
magoa. destas cousas vasias, que não enchem a
Emquanto na tela os factos se desenro- barriga da gente, virão as moedas, os cruzei-
lam, inverosimeis ou não, cada um de nós ros, as pelegas.
fica pensando que o mundo também não pas-
sa de uma tela, onde cada qual, como bone- E, destas, que boladas...
co, representa uma farça, e prompto. J. MARTINS

I M P O R T A N T E
VERDE é a revista mais livre de preconceitos, do mundo. VERDE nada tem que vêr com
as idéias de seus colaboradores, esteriorizados em artigos devidamente assinados.
VERDE é uma alegre revista, divulgadora de valores novos. Está bem satisfeita com isso.
E mais não deseja não, podem crer.
Janeiro 1928 VERDE

O QUE SOU MOVIMENTO


para MARIA CLEMÊNCIA
Sou bohemio,
Sou vagabundo,
RPaz,reção
ecebemos uma coleçãozinha de Proa (di-
de Jorge Luis Borges, Pablo Rojas
Brandán Carrafa e Ricardo Güiraldes).
Sonhador e apaixonado Proa é uma magnífica publicação mo-
eu sou. dernista argentina que, infelizmente—a ezem-
plo de nossas revistas de arte nova, não lo-
Sou quasi um louco. grou alcançar o seu terceiro âno de ezis-
Tudo por causa do meu amor... tencia. Comtudo foi brilhantíssima. Como
prova aí estão seus 24 volumes—primorosa-
(Assim dizem aquelles que não sabem mente impressos—erecheiados de coisas ma-
que, por causa do meu amor, gníficas que muito contribuirão, decerto, pra
eu sou um estudinho mais ou menos completo e per-
—simplesmente feliz). feito sobre a interessante literatura do paiz
visinho.
Janeiro 1928. Na primeira oportunidade falaremos so-
MARTINS MENDES. bre ós valiosos ezemplares recebidos, cari-
nhosa homenagem de Norah Borges—á gente
de «verde.»
D u a s a m o s t r a s d o " M e l a - P a t a c a " , a sair
* *
Tio Santana
a ROSÁRIO FUSCO Pta, róximo número: um desenho de Norah Bor-
ges—feito especialmente pra nossa revis-
poemas de Jayme Griz, Willy Levin, As-
No fim do espigão abanquei-me cansado. censo Ferreira e Sebastião Lopes.
A roça mofina
com medo do sol * *
estava amarela da gente ter dó.
Ouvi vozerío prós lados da grota
«Anda nego ! pra riba.
Psinalmos
or causa da grande pressa que nós tinha-
de botar prá fora VERDE n. 5, que por
já anda vermelhinha de vergonha, nos
Diabo ! você não comeu ? esquecemos de incluir os nomes de Willy Le-
Olha o mato ficando pra traz! vin e J. Martins na capa da revista e do su-
Anda nego! que falta de força» plemento, respectivamente.
—S. Paulo na Federação, d e S o u s a LÔbO.
Tio Santana falava sosinho no eito. Na revisão deste artigo escaparam-nos os se-
Se assustando ao me vêr derepente guintes erros:
esplicouna linguagem cabinda
que a perna vergava ... 'vulto </e reservas dynamicas de naturezas pos-
o braço pedia descanço... suídas»—em v e z de 'fornecida*.
então tio velho espantava a fraqueza ...'Não me consta que França entenda Gallia*—
lembrando direito em vez de 'Itália*.
a fala do antigo feitor. ... 'em mãos de povos que delles não carecem
nem os utilizam para o bem commum* — e m v e z d e
GUILHERMINO CÉSAR. 'não carecem nem assiste ligam* e t c .
* *
UIÁRA
Si você visse os olhos de'la
Tão bonitos brilhando
Ivideo
ldefonso Pereda Valdes, o poeta de «La
Guitarra de los negros», disse em Monte-
duas conferências: uma na Universi-
Você tinha coragem dade (em homenagem á Embaixada dos es-
Fernão Dias Paes Leme tudantes brasileiros que estava lá), outra no
De manda-los ezaminar «Curso Vigil».
Pelo ourives d'El-Rey D. Afonso, Estudando os nossos poetas, desde o
Tinha Fernão Dias? Brasil colônia até agora, Ildefonso incluiu
Tinha não... entre eles o nome dos rapazes que fizeram
FRANCISCO I. PEIXOTO «Poemas cionologicos».
6 VERDE Janeiro 1928

Bailado Russo Passa Quatro


Para ROSÁRIO FUSCO de RICARDO MARTINS
Eu sempre ouvia falar deste moço de
Núa, Passa Quatro com muita simpatia, carinho-
deserta, samente.
indefinida, Porquê Ricardo Martins já possúia minha
silenciosamente, admiração de ha muito tempo. Desde quêu
se estende, alonga-se a estepe... li—si não me engano—alguns poeminhos seus
E' noite de luar transcritos numa crônica bonita de Heitor
e de inverno bravio, branco e bronco, Alves. Portanto não foi mais pra mim uma
agasalhando o somno e os amores das feras. surpresa a sua poesia que é que nem uma
A neve, crescendo, crescendo, anunciação...
como treva branca, («Sabbado,
vae, fria e fantasmal, no caixote de lixo á porta da rua,
apagando a paisagem tristonha cascas de fructas, flores apodrecidas,
sujeira amontoada,
e nivelando tudo, moscas voejando gulosas
de modo que só ha lua e gelo, neve e céo... e um retalho de carta bem visível:
Mas, de súbito, mil beijinhos de tua
um ritmo bárbaro Adelaide.
salta, galopa, ziguezagueia, —INTIMIDADE»)
desloca o ar, tudo anima e estremece, Aliás toda a rapaziada nova de Itanhan-
numa lufada de asas e de sons! dú, tendo a frente o entusiasmo contagioso
de Heitor Alves, já não era pra nós somente
SAÚL DE NAVARRO uma promessa não—depois do vitorioso apa-
recimento de ELÉTRICA—porém sim uma
realidade moça na qual a gente poderia bo-
tar—sem susto nenhum—a maior das con-
COMIDA fianças.
Ha gente que trabalha para comer «(Dizem que foram os bandeirantes
que a descobriram.
Ha gente que se levanta cedo para ir trabalhar Verdade ou não,
Ha gente que come nas pensões tristes bandeirantes ou outra pessoa qualquer,
Ha gente que come sosinha nas mesas dos quem a descobriu
[hotéis teve bom gosto.
até no dia de anno bom O DESCOBRIMENTO»)
Ha gente que as vezes não come. Ricardo Martins me deu a idéia de ser
um rapazinho muito simples, magrinho—de
COMER COMIDA PÃO ALIMENTO óculos—macambuzio dentro do seu terno pre-
to e do seu geito moleque de gôsador calado,
não sei... Só sei que êle é o milhor poeta de
Ha gente que toma media na hora do almoço minas gerais. E que sou seu admirador e sou
Elle tomava leite porque tinha os cobres seu amigo.
[curtos. R. F.
E tinha rugas na testa. LIVROS RECEBIDOS:

Minha avó me disse que era máo coração Bruno de Martino:


botar bolachas caras fora, porque tinha muitos Brazas ed. do autor—1926.
meninos com vontade de comer e eram po- Pedaços de Jornal—Paulo Pongetti & Cia.
[bres. Rio 1928.
Mas eu tinha bons sentimentos e então fiquei Ruy Cirne Lima:
chorando. Colônia Z e outros poemas. Liv. do Globo.
Porto Alegre—1928.
Elétrica direção de Heitor Alves (n. 2 se-
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT gunda serie).
A Época (dos rapazes da Faculdade de
(do livro «Poemas ao portador» a sair) Direito—Rio—maio 1928).
Janeiro 1928 VERDE

escrito nestes oito.anos para cá. Preferimos


Noticia sobre os estudos" dizer nestes cinco ou seis anos. Pois que
de TRISTÃO DE ATHAYDE houve naturalmente um periodo de incuba-
ção desse germe transformador da nossa psi-
Depois da barulhada, desse grande rebo- ché. Só em 1921 foi que se iniciou de facto,
liço, que foi até ha pouco o movimento mo- entre nós, o traçado da curva representativa
dernista no Brasil, estamos passando agora do movimento moderno brasileiro.
por uma fase dj decantação. Vão-se assen- E é discorrendo sobre as resultantes da
tando pouco a pouco os valores que rodopi- guerra em face do novo periodo das letras
avam nos círculos da peleja, e procurando nacionaes que o sr. Tristão de Athayde abre
adquirir, no seu começo de equilíbrio, esse a primeira série dos seus Estudos com as ma-
traço de serenidade tão característico da- gníficas paginas das Tendências—o dinamismo
queles que já encontraram a sua directriz. do Sr. Graça e o primitiviòmo do famoso gru-
Até ha pouco ao movimento literário mo- po de S. Paulo.
derno do Brasil muito bem se enquadrava E o critico, sob esses aspectos, vae co-
aquela conhecida frase com que um critico mentando, com penetrante agudeza, as obras
mordaz definiu o nosso Paiz: «o Brasil é uma mais interessantes dos últimos tempos. Mas o
nação onde todo mundo manda, ninguém obe- sr. Tfistão de Athayde não se limita ao estu-
dece e vae tudo muito bem». do das tendências modernas da inteligência
Essa desordem, essa falta de orientação, brasileira. Critico, na mais clara acepção da
contudo, já vae desaparecendo. Era a luta palavra, o autor dos Eslud.is, com a mesma
sem meditação. Agora que está se dando facilidade com que trata a inactualidade dos
justamente o inverso, vamos entrando numa romances da sra. Albertina Bertha, com to-
época verdadeiramente frutuosa de realisa- dos os seus danunzianismos, aríificialismos e
ções. Obras de vulto vem aparecendo, não gongorismos, comenta, com erudição e gra-
só na poesia, como no romance e na critica, vidade, os quarenta volumes de Hilaire
em que o Brasil novo já se entremostra Belloc.
bem diverso do Brasil de antes da guerra. Passa da literatura infantil para as mais
E um dos grandes selecionadores, um secas e sensaboronas questões sociaes, reli-
dos que vêm assistindo a essa lenta mais be- giosas ou políticas.
néfica decantação dos nossos valores, com a E finalmente escreve dois magníficos es-
argúcia do verdadeiro critico e os cuidados tudos sobre Tobias Barr3to e a estética de
do verdadeiro patriota, é inquestionavelmen- Farias Brito, tudo isso naquela linguagem
te o sr. Tristão de Athayde. esplendida que só êle possue.
Colecionando em volume alguns dos seus «Estudo» é um livro que envaidece a
estudos publicados no O Jornal o sr. Tristão gente como brasileiro consciente do papel
de Athayde vem de trazer sobretudo á lite- do Brasil moderno, dentro do mundo.
ratura moderna do Brasil um livro.v de clara H. de R.
orientação que, não só demonstra a solida
cultura do um estudioso, mas também a am- Este verso vai molhado
pla visão critica de um moço, que se guin-
dou, de um momento para outro, ao primado a ASCANIO LOPES
da critica nacional. Aquella nuvem grandona, lá é um pedaço do céu
Comenta o sr. Tristão de Athayde que o que caiu na montanha. É.
grande mal que foi a guerra nos trouxe O vento sopra brábo no morro
esse grande bem—que é o espanejamento da e os gados, com medo. correm berrando.
inércia, do anacronismo, da mediocridade Todo mundo ja fechou as janelas
em que já se iam afundando os nossos me- porquê vento de Deus —depressa
não é brinquedo.
lhores espíritos. Aliás, todas as grandes re-
formas mundiaes—intelectuaes ou não—têm Lá em cima avuando—a nuvem grandona num átimo
vira chóvechnva choverá pra quando papai chegá...
sido oriundas das grandes guerras. A catás-
trofe de 1914 golpeou o mundo civilisado nas Frescura...
suas raizes mais profundas, sacudiu violenta- Da varandinha da casa a gente gósa tudo, na folga.
mente nos seus galhos e nos seus troncos ca- Agora abri a boca —suspirei fundo...
runchosos a velha arvore gasta da civilisação O corpo meu pesando
européa—e d'aí os novos frutos de que nos —homem que gosta suspira asim...
fala o sr. Tristão de Athayde. Chamando o Essa gôteira pingando
homem á íealidade, a guerra deu cabo dos Êta frio! —sôdades de você...
cânones, das convenções, dos formalismos,
diz o autor. E acrescenta que muito se tem 1928 ROSÁRIO FUSCO
8 VERDE Janeiro 1928

LEÃO DE VASCONCELOS—Parmile soir ficou sendo um livro—e um livro bom pra


indéfini, poémes. s e l e r baixinho quand 'Ia nuit baisse Ia paupiére
Traduction et préface de Charles Lucifer. lenfemenf* ef fon 'ferme les yeux pcur ne pas
Chez Elbehnon et Sceurs. Paris. MCMXXVII. pleurer
Por causa dessa tradução pro francês de PEIXOTO.
alguns versos do livro de Leão de Vascon-
cellos apareceram algumas dúvidas. Uns di-
zem que o tradutor é o próprio autor dos
POEMAS PARA ESQUECER... Já Tristão de GENTE:
Athayde numa de suas crônicas publicadas
no O JORNAL, afirma que Charles Lucifer porquê VERDE já passou pelo susto de mor-
nada mais é que o pseudônimo de um outro rer, e nós porisso quasi que morremos de
poeta nosso: Tavares Bastos. Sobre esse as- susto, resolvemos que, deste numero em
sunto me escreveu ha tempos um amigo, des- diante, a nossa revistinha ficasse menor,
mentindo taes asserções e provando-me com mais barata prá gente e pra vocês também.
muita convicção que Charles Lucifer é mes- Aproveitando a ocasião, lembramos a vo-
mo pessoa real distinta verdadeira. Com cês que VERDE precisa de assinantes. Sem
quem a razão ? isso éla morrerá NECESSARIAMENTE !
Embora Tristão de Athayde tenha visto VERDE quer também correspondentes
influência pronunciada (efeito da tradução ?) representantes em todas as cidades do Bra-
do autor de CHARIOT D'OR e de mais dois sil. Sem isso éla morrerá NECESSARIA-
poetas, nos versos de Leão de Vanconcellos MENTE !
sente-se perfeitamente que PARMI LE SOIR VERDE precisa também da camaradagem
INDÉFINI tem todo êle um sabor especial, de toda a gente moça. Sem isso éla morrerá
que é por assim dizer O frade marck: O foefor NECESSARIAMENTE!
brasilicus. VERDE quer, quando nada, ser uma re-
vista de divulgação.
«Monotone *
Ia brume descend le long du ciei d'automne. * *
Un étrange souvenir ému VERDE custará daqui por diante:
qui s'est épandu dans 1'ambiant Numero avulso—500 reis
vient ajouter encore plus a ia tristesse de Numero atrazado—800 reis
[vivre Assignatura anual 6000 reis
et à mon dégoüt de convalescent.
(Pourquoim'a-t-ilDieufait un poetamalade?)»

Poesia assim toda leve, cheia de uma sen- Seja, desde já, um assinante de VERDE:
sibilidade muitas vezes doentia e que porisso (Pedidos, acompanhados da respectiva
mesmo quando pega a gente de geito faz importância, prá nossa direção).
tanto bem...
Como ficaram bem no francês os titulos
dos poeminhas!
Rêve final Porquoi ?. Desèspoir. A Ia louange
de fes mains brumales. Nos dão até a impres-
Casa Fenelon
são de que são nomes de valsas zingaras, BATE O RECORD NA DISTRIBUIÇÃO DE
molengas feitas pra se adormecer... SORTES GRANDES

«Las de silence et de tristesse


je me rapelle ta voix et ta caresse
Só nestes últimos dias
à 1'exaltation enfiévrée de mes sens. Mais de 50:000$000 contos distribuídos com
Et je subis en peine ce long désespoir seus freguezes.
de ne pas pouvoir reprendre dans ton souvenir
tous ces mots de tendresse, de foi et de BILHETES DE TODAS AS LOTERIAS DO
[croyance, BRASIL!
—ces mots d'amour que je t'ai dits jour.»
Diariamente planos magníficos!
Essa tradução tão bonita que Charles Lu-
cifer fez dos POEMAS PARA ESQUECER HABIcrrAE-VOS !
Janeiro 1928 VERDE

Segunda conversa Achilles Vivacqua (Roberto Theodoro)


é o mesmissimo que escreveu aqueles boni-
Você está muito enganado tissimos versos do Samba que esta revistinha
de vocês publicou no seu numero de estréa.
E' verdade que eu vou ás vezes ao cabaret Pra mim este poeminho só marcou bem
que bebo bem e como melhor Achilles Vivacqua enchendo a gente de con-
que gosto de jogar fiança bastante prás suas coisas futuras.
que a volúpia quente de certa bocca Por emquanto já se pode falar que Se-
me traz prazer e alegria... renidade é um livro de POETA. Mais, acho que
o Achilles não deseja não.
E' verdade que eu dou demasiada importância
a essa vida material Martim Cererê
que você condemna de CASSIANO RICARDO
Tenho automóvel O mesmo Cassiano Ricardo de dantes,
Vou ao cinema do tempo do vamos caçar papagaios Simpáti-
Leio livros immoraes co como quê. O homem ao que parece não
demudou não porém não piorou nada graças
Tenho gana de infringir todos os manda- a Deus—e a gente continua gostando bem
mentos... dele.
Mas no fundo meu Deus Marfim Cererê (o Brasil dos meninos, dos
eu sou familia. poetas e dos heroes): titulo pamparra, enqui-
silativo. Francamente isso fala muito grosso
SÉRGIO MILLIET e você acaba assuntando mesmo antes de
abrir o livrão dessa idade cheinho de boni-
Poema Primitivo tos desenhos verdes de Di Cavalcanti...
Muita coisa bôa. Muita coisa que poderia
De vez em quando eu sinto ser ótima. Muita coisa regular e muita coisa
cousas inexplicáveis. ruízinha até.
Das coisas boas pra mostrar que guar-
Esqueço a côr dos teus cabellos... dei, destaco: a minha chicara de café (já minha
C o n h e c i d a d o vfimos caçar), os três brinquedos
com a lua, a uíára de cabelos vermelhos, piraquára.
Não me lembro da tua voz..
o manduca e a gíuseppina (dum sabor de terra
Procuro tolamente a razão braba muito nosso) e o matuto, que transcrevo
porque os teus cabellos pra vocês:
são cortados «Disseram pra ele
ou a tua bocca é quente...
que beijo de mulher era fruto escondido
De vez em quando eu fico Êlè andou muito tempo pensando
perguntado a mim mesmo: que beijo de mulherfaz ia mal...
não fez não.
«—Porque tu te chamas Maria?...» Lhe disseram também que quando a gente
morde a uivaia é doce mas depois é amarga,
MARQUES REBELLO não é não.

SERENIDADE Lhe disseram também que todo amor é tempe-


rado com veneno e mel pra refrescar o
de ACHILLES VIVACQUA coração mas que depois...
Os versos são do principio da vida diz—que perde a razão.
literária do poeta e quasi que a gente já Não perde não».
conhecia todos.
Um punhado de críticos (?) escreveram Acho isto simplesmente gostoso. Aliás
sobre uma tal de influencias flagrantes de quetodo o livro é mais ou menos assim impre-
se resente encharcado (dizem eles) o livri- gnado dum sentimento de brasilidade muito
nho Serenidade. Graças a Deus não entendo profundo.
critica, nem críticos—e não dou valor ne- Marfim Cererê é uma festa de poesia bra-
nhum mesmo pra alguns deles. Porisso é sileira dentro do Brasil dos meninos, dos
quêu acho que falar em influencias é boba- poetas e dos heroes.
gem. Esplicar porquê seria cansar. R. F.
10 VERDE Janeiro 1928

O GRUPO D E " V E R D E " E O S O U T R O S


De Álvaro Moreyra: De Mario de Andrade.
«Rosário Fusco, Henrique de Resende, «Os rapazes da "Verde" tiveram o bom
Ascanio Lopes. Tenho aqui os três poetas gosto de se fazerem em livro.
de Cataguazes num livro só: Poemas Chronolo-
gícos. Chronologicos é horrível. Os poemas Hoje quem quizer pôde atacal-os, elogi-
são lindos. Os três amigos vivem dentro da al-os, etc, e citar por onde.
mesma paysagem. Não é por escola que es- Essa historia da gente ficar poeta bom
crevem parecido. Quasi meninos, perderam nas revistas é tão vago, tão diluído, tão sem
a fé no soneto. Descobriram que não preci- corpo!... E um beneficio enorme de exemplo
sava rimar e medir syllabas. Ficaram poetas já veio dos «Poemas Chronologicos» pois ou-
simplesmente. E simplesmente contam rea- tros poetas mineiros do grupo de Bello Ho
lidades ou lembranças, cada qual c >m a sua rizonte já estão annunciando uma Antologia
musica, com as palavras que pertencem a também.
todos e que vêm delles como os pássaros
das arvores quando o sói acorda... Uma coisa em que não sei se já puze-
A difíercnça entre a poesia de hoje e a ram reparo... Hoje eu cito um livro do Para-
de antes-de-hontem, eu vejo, todas as noites, ná, outro de Minas, outro do Rio Grande do
em Copacabana. Uma é a Avenida Atlântica, Norte. D'uns tempos pra cá o despretigio li-
aclarada pelos focos elétricos, postos em terário do Rio de Janeiro está se tornando
distancias eguaes desde o Leme até á Igre- muito grande. Já o. modernismo nasceu em
jinha. A outra é o céo de Nosso Senhor, São Paulo, agora os livros apparecem por ahi
esparramado de estrellas e a lua cae-não-cea tudo sem baptismo da Corte... Não me parece
por sobre o mar. que o simptoma seja bom não. sob o ponto de
Estas coisas não são fáceis de explicar. vista da nossa unidade politica porem como
Porque ha pessoas que acham sublime a illu- essa unidade pouco me incomoda nas minhas
nação da Avenida Atlântica e nunca olharam idéas e sentimentos humanos, essa decen-
para o céo. tralisação me dá o gosto alegre d'uma bata-
O mal do movimento chamado modernis- lha de flores: recebo manacás, flores de ipé,
ta foi o desaforo do começo. Numa terra que de mumurê, de maracujá, de todos os lados.
usa tanto de revoluções, ninguém sabe para E isso é bom que dóe.
que, um motim intelligente, de fins esclare- E' extraordinário como o livro define
cidos, provocou rppulsa... uma pessoa. Embora a maioria das peças de
Graça Aranha quasi que destruiu a «Poemas Chronologicos» já fosse conhecida
Academia. Protestos quasi geraes. O ge- minha, assim unidas essas poesias me deram
neral Isidoro quasi destruiu S. Paulo. Applau- uma impressão de força actual maior das
sos quasi geraes. Negam Oswaldo de Andra- que eu pensava. Sei bem que sobretudo Ro-
de que botou lança-perfume nos olhos de vá- sário Fusco e Ascanio Lopes são ainda espe-
rios inimigos. Affirmam tenentes que deram ranças, porem é incontestável que já sahi-
tiros contra muitos cidadãos inoffensivos. ram da sombra materna do viveiro, já espi-
Luis Carlos Prestes atravessou o Brasil. Ma- garam pra cima da cova e já sustentam nas
rio de Andrade também. Entretanto, Luís folhas o bafejo bravo do sói. Isso não pare-
Carlos Prestes tem maior prestigio nacional cia quando a gente topava com elles virando
do que Mario de Andrade. a esquina das revistas. Essa apresentação de
O livro e a espada... força actual seria me parece a melhor gran-
Anedocta... A espada aqui está por cima. deza dos «Poemas Chronologicos».
Mas o livro corta muito mais. Vocês vão vêr...»
(Aquário—Para todos de 14—4—928.) Dos três poetas do livro, o mais com-
pleto, o mais poeta é incontestavelmente
Henrique de Resende. Também esse, embo-
ra novo, já tem passado. Os outros dois ain-
BREVEMENTE: da são mais líricos que poetas, quero dizer,
ainda não estão igualados, não. E a impulsão'
lirica vale mais que a factura.
Henrique de Resende ex-parnasiano, já
POESIA de Guilhermino César e Francisco tem mais arte. E também mais artificio
I. Peixoto Quando se não quando lhe escapam da au-
Janeiro 1928 VERDE 11

tocrit'ca certos processos fáceis de sonori- E também o «Ambiente de Infância» de


dade e de expressão: Ascanio Lopes é um banal burguez quasi
subtil c bem apanhado na notação final:
"no seio brulo da pedreira bruta"
ou "Mamãe quasi deixou que eu brincasse de
"se despenha no desespeiro do despenha- navio,
deiro" Mas a titia velha e rabujenta
Também pela seriação dos poetas a gen- Disse que eu não estava chorando
te percebe que a poesia delle sae um bo- E que a vidraça estava pingada d'agua da
cado encomendada. Assim como quem diz: chuva"
Acho que devo fazer uns poemas sobre os
simptomas do progresso de Minas. Os três poetas manifestam as tendências
Então escreve sobre as Estradas de Ro- tão variadas com que está se inriquecendo
dagem, as Minas, as Lavouras, as Cidades. a literatura moderna do Brasil. Não tem ne-
Isso me enquizila como um despeito. Dese- nhum que manifeste porém imitação servií,
jei damnadamente fazer uma «Meditação no graças a Deus. Seguem preferencias, pro-
Amazonas» pra contrabalançar com o No- vam que possuem poetas de cabeceira. Coi-
cturno e o Carnaval no «Clan». Não houve sas que não ha razão que me faça conside-
meios de sair. Parecia... Mas empregando rar defeito embora eu considere que de ca-
os processos de Henrique de Resende, pala- beceira só possam se legitimar Hermes Fon-
vra que saía. tes, Ruy Barbosa e o «Secretario dos Aman-
Só que Henrique de Resende não só prati- tes
ca bem os processos delle como vae além Henrique do Resende mais tradicional,
delles. No "Solar que foi dos meus avós" Ascanio Lopes, mais familiar, Rosário Fusco,
principalmente, a nobreza ondulante dos mais desabusado, inquieto, botando o pé na
versos, uma simplicidade objectiva muito fogueira pra poder affirmar depois que fogo
discreta e até enérgica ("a lembrança queima de verdade. Nessa mão de três de-
angustiosa das atrocidades dos meus avós') dos dos «Poemas Chronologicos», Henrique
na discripção na evocação dá por vezes de Resende é o pai-de-todos, Ascanio Lopes
uma força impressionante pra os versos. é omata-piolhos, Rosário Fusco é o fura-bo-
Reunindo todas as qualidades em "Senza- los. Os três: gente que subirão muito si quan-
la", Henrique de Resende apresenta o me- do a força do homem chegar, não barganha-
lhor poema do livro. rem o lirismo disponível da flor pelos cara-
Quanto a Ascanio Lopes e Rosário Fus- minguás da vida curta nossa".
co, estão seus vinte annos na experiência. ("Diário Nacional"—S. Paulo—15-4-928).
A experiência delles é a infância de que
os desintocou a inquietação do lirismo. Vi-
vem machinando com a infância e com o
passado. Aliás carece dizer de passagem De Tasso da Silveira.
por emquanto que esses poetas mineiros
em geral estão adquirindo um cacoete que «Três poetas unidos num mesmo abraço
por ser cacoete fatiga bem: a evocação da fraterno. Cada um differente dos outros, não
infância. Um saudosismo desses é perigo- obstante. Valores desiguaes (aliás tão difficil,
so, gente. A banalidade infantil é muito im- por emquanto, apreciar o que propriamente se
portante pra o indivíduo já feito não tem chama "valor" em poetas modernistas, tanto
duvida. Nós todos teremos que soffrer nos- mais aos que ainda estão encordoando a lyra
sas infâncias por toda a vida. Só que essa nova...)
formalidade, que cada um soffre por si, diffi- Poemas cronológicos, não sei bem por-
cilmente comove os outros em arte quando que. Alguns são poemas da «realidade pre-
é assim discripta objectivamente. Ou a gente sente», e são os que mais me satisfazem: a ca-
inventa lorotas trágicas que nem as de pacidade de sentir a "realidade presente"
Copperfield ou por • sistema de claro-escuro marca o poeta. Outros são cantigas de sau-
disfarça a banalidade do real e deforma que dade. E de saudade saudosista : não me agra-
nem no Ateneu, no João Miramar ou no dam.
Dedalus. Em todo caso o Poema de Minha Henrique de Resende é o que vem com
Tristeza de Rosário Fusco tem notações que mais virilidade espiritual. Tem visões fortes
por serem verdadeiras me commovem muito. e traços de buril. E a complexidade tão ca-
"Nunca mais vi vovô lendo jornaes na varan- racterística do poeta de hoje, que não é mais
da... só instincto, mas também intelligencia. Gos-
Só elle, coitado, trabalhava..." to do reflexo metálico das suas gravuras em
12 VERDE Janeiro 1928

cobre : "as estradas de rodagem" as "lavou- Os defeitos de Rosário Fusco são defei-
ras" as "minas". tos de quem tem dezesete anos. Em geral
Rosário Fusco é mais lyrico. Não são porque há alguns mais graves que podem vi-
as linhas firmes, os volumes, as expressões rar crônicos se não forem curados logo: lin-
de energia que o impressionam no ambiente guagem meio cá meio lá, quedazinha para o
em torno. São os silêncios e os perfumes evo- logar comum, imagem de efeito, final arran-
cativos, as sombras, as cores perdidas na dis- dinho. E outros mais. Porem eu já disse e
tancia. O seu poema da "rua do porão" já repito : que em Rosário Fusco a gente pode
representa uma victoria. ter sem medo muitíssima confiança.
Ascanio Lopes é mais uni penumbrista Ascanio Lopes também é menino: me-
que um modernista. Dá-me a impressão de nino malicioso, gozador, cheio de subenten-
ser o mais moço dos três, e o menos expe- didos. O principal defeito dele é o mesmo
riente. Effeito da collocação no volume ? de Rosário Fusco: a idade que tem.
Sertão Mineiro e Cataguazes comtudo, Daí apesar dele ser brincalhão, certas
são mais do que simples indícios. Reli-os com puerilidades sentimentais, o desejo criança
prazer." de ser acarinhado e o tema tristeza soando
(Festa n° 8-15 de Março de 1928-Rio) falso nas poesias dele.
*
A MATA É GRANDE DEMAIS PARA O
FOGO QUEIMAR caracteriza bem a sua ma-
De Antônio de Alcântara Machado : neira bôa:
É a gente simpática da verde de Ca- Na modorra enorme do sertão
taguazes. os empregados trabalhavam no eito da roça
Livro naturalmente desigual puxado pa- cantando cantigas ingênuas
ra três lados. Mas do lado da serra lá longe, começou a subir a
Henrique de Resende é o mais velho da f fumaça
turma. Engenheiro rodoviário vai anotando e as chamas tamparam as arvores da mala.
nas margens do caderno de medições e cál- O feitor disse que era uma queimada que saltara o
culos os aspetos dos caminhos que êle abre aceiro.
Ninguém pensou em apagar o fogo
como um cordame de veias No ceu os gaviões grifavam assustados.
no corpo aduslo
da ferra inhospifa
Ascanio Lopes não deve abandonar o
Não sei si como engenheiro é bom poe- seu feitio de gosador a seco.
ta. Mas sei que como poeta é bom engenheiro. O pessoal de «verde» é portanto uma sur-
Seus versos são solidamente construídos so- presa excelente, e cuja excelência de hoje
bre leito bem empedrado. Nem falta o rolo em diante não mais. surpreenderá ninguém.»
compressor de uma auto-critica severa. (Revista de Antropofagia —maio de 1928—
E esses caminhos têm sombras para a S. Paulo).
gente repousar a vista tonta da luz das paisa-
gens. A "ermida" por exemplo : tão como-
vente e tão bonita.
Rosário Fusco é um menino. Está dito Dr Edison Resende
tudo : mistura timidez com audácia, brutali-
dade com ternura, larga o estilingue para Diplomado pela Faculdade de Medicina do Rio, com
longa pratica.
choramingar no colo de um afecto bom. Tem
talento. Quanto a isso não pôde haver duvida. Cirurgia geral — Doenças do apparelho
Tem talento, vontade de acertar e uma des- genito-urinario no homem e na mulher.
envoltura ótima na qual a gente não pode Diathermia—Alta freqüência e Raios ul-
deixar de por a maior das confianças. Eu tra-violeta. Endoscopia exploradora de ope-
gosto muito deste poeminha SALA DE GEN- ratoria das vias urinarias — Cura radical da
TE POBRE do qual tomo a liberdade de su- Blenorrhagia pela diathermia.
primir o ultimo verso:
Um banco
CONSULTÓRIO:
Uma mesa
Um quadro: Nossa Senhora ..
Outro quadro: São José... (Próximo ao Grupo Escolar)
Um lampeão.
Nem ambição de mais coisas TELEPHONE 110 CATAGUAZES
Janeiro 1928 VERDE 17

luciona o X: sangue novo, moral nova, vida guerra, renovação de valores, da ordem ar-
em rumo novo. chaica das coisas, nos esqueceu.
Graça Aranha objectar-nos-ia: «o futuro não No quinhão da lucta vital não nos cou-
entenderá o passado». E eu lhe retrucarei: beram duros combates nem duras victorias,
pois que não entenda,—entendamos-nos o apanágio dos fortes. No repouso destempe-
presente, entendam os vindouros seu pre- rare a alma bellica dos luctadores. Para ser-
sente. Não me consta que França entenda mos grandes precisamos muito luctar, ser-
Itália nem Itália commungue com etruscos mos hércules, athletisar-nos. Ou então: rua.
ou ligurios. Brasil não compreende Confede-
ração Tymbirica. Nação é lingua, arte, civi- O Salisbury, aquelle velhaco lorde in-
lisação, riqueza, força. Nada tem com povo e glez foi camarada e prevenio: «tempo virá
raça. que as nações cultas da terra não poderão
O destino geographico do Brasil, máxi- permittirque vastas zonas do globo perma-
mo no globo, será cumprido por gente forte neçam inaproveitadas em mãos de povos que
de mãos férreas e almas graniticas. Boas ar- dellas não careceu nem assiste ligam para
mas só valem á braços robustos, almas in- o bem commum».
trépidas. Ouçamos pois Souza Lobo o propheta
Soffremos pouco e não compreendemos dynainico da nossa verde nacionalidade.
a vida. Não chegamos ainda ao nivel do dia.
O banho lustrai sangue faltou no berço. A UBYRATAN VALMONT.

MOVIMENTO Recebemos: O cenaculo, Revista da Cida-


de de Recife, Pernambuco. Essa negra fulô
Do próximo numero em diante «Ver- (poema) de Jorge de Lima—Maceió—Ala-
de» jogará suas paginas quadradas pra goas, Kismef (poemas) de Zolachio Diniz—
riba do Brasil inteirinho vestidas noutro Rio, La gacefa literária—Madrid (oferta de Ma-
formato, melhormente* impressa, melhor- ria Clemência), O espirito libero americano de
Saúl de Navarro—Rio, Festa (mensario de
mente colaborada e com menos anúncios arte e pensamento) números 7 e 8—Rio.
que tanto enfeiam as edições anteriores.
* *

A sensivel demora do aparecimento Os rapazes de Belorizonte estão anun-


do presente numero foi devida especial- ciando pra breve a Antologia de 4 (poesia).
mente a uma completa transformação nas
oficinas em que verde é impressa.
*
* *
Deverá se inaugurar por todo mês de
junho, em Montevideo, uma elegante es-
posição de grabados e debujos de Maria Cle- INFÂNCIA
mência, Norah Borges, (irman do festejado
poeta c escritor argentino Jorge Luiz Bor- Tu eras naquele tempo dos meus dez anos
ges) e Xul Solar, patrocinada pelo poeta e A malicia perturbadora
critico de arte uruguayo—Ildefonso Pereda Da minha ingenuidade supersticiosa.
Valdez, amigo de Verde e amigo do Brasil.
E' uma noticia lindamente bonita esta,
prova do entusiasmo moço que anima os Hoje lembro sorrindo
fogosos jovens vanguardistas do paiz irmão. O beijo que arrancáste á força dos meus lá-
bios inesperientes.
Gimenéz Caballero e Guillermo de Surgiste na minha vida de menino amedron-
Torre, respectivamente director e secre- tado e timido
tario de «La Gaceta Literária» que se pu- como a tentação pecaminosa
blica em Madrid, promoveram em setembro Que rouba as almas pro inferno
deste ano, a primeira festa do livro em
Espanha.
Durante mais de um mês estiveram á Recife—Pernambuco.
venda autógrafos de escritores vários, es-
panhoes e americanos. WILLY LEVIN
18 VERDE Janeiro 1928

MESTRE TASSO, OTIMISTA IMPENITEIMTE


MESTRE: FESTA numero 2, diz que êle não passa de um mero
Me dirigindo a você neste momento, não o faço pastichador de coisas européias e passadas e de um
em nome dos meus 4528 colegas que foram alvos das suposto renovador da nossa literatura. Entretanto, no
suas inomináveis sandices. Falo, tão somente, por mi- numero 4 de sua revista, você o intitula verdadeiro
nha conta e risco. Faz-se mister que eu acentue pri- renovador de nossa arte, referindo-se ainda á sua
meiramente: não quero me arvorar em professor. Não. ação dinâmica e á sua individualidade desbordante.
Absolutamente não. Desejo, sim, incutir nas subter- Quasi a mesma coisa você disse a respeito do Oswal-
râneas galerias do seu espirito de critico joven uma do. Interessante tudo isso, não acha ?
idéia, sumamente perfunctoria, acerca da enxurra- Como você, naturalmente, será incapaz de se
da de bestices empoladinhas que você, talvez sob a esplicar, prefiro passar adiante.
ação de influxos deletérios, condensou nas colunas Vejamos a agora a minha antologii, que levará
do seu artigo, publicado no 4o numero de FESTA. sobre a sua vantagem de ser acompahada de algu-
Não se pôde negar que, si você escreveu esse artigo mas notas elucidativas. Ficará bôa. Vai ver...
foi para se colocar em evidencia, chamando sobre si
a atenção dos outros, e para passar também um ba-
ratissimo elogio na gente da sua turma, na sua pane- ANTOLOGIA
linha literária.
Si você possuísse profunda e virginal sensibili- Ah! quem foi que passou pelo meu pomar colorido
dade, si fosse possivel a você se habituar a distinguir e arrebatou os meus frutos maduros ! (1)
melhor os valores e a meditar um pouquinho, deixan-
do também de ser tão tolamente convencido, eu seria Ah ! já vae Dedéco para os seus quarenta...
capaz de acreditar que cumprindo o seu destino de (2)
critico joven, você pudesse orientar o publico ignaro
e dar-lhe uma verdadeira noção de arte, para que Dentro do vagão, uma paizagem árida de caixeiros
desfarte chegasse ele a compreender e a apreciar
algum dia alguns dos genuínos cantores da realidade viajante s,
brasileira. Creio que a maioria (a composta dos ar- devorando cousas. Orgia de bananas e ovos duros. (3)
tistas-Artistas) dispensaria de bom grado os taes re-
vigorantes contactos com a alma popular, de que fala
você. Com todo o seu pedantismo bocó, você tem co- Dentro do meu coração,
ragem de deixar que o seu ilustre nome figure na lis- dansou-se a dansa silenciosa da renuncia. (4)
ta dos colaboradores de ELECTRÍCA (orgam de pro-
paganda das lâmpadas Osram-Mazda) revista que
tem como director o pomposo poeta Heitor Alves, au- Na noite longa-longa, florestal, demente umbrosa—
tor da VIDA EM MOVIMENTO, livro que é uma ma- uma virgem dourada erguia uma lanterna. (5)
ravilha de teteiazinhas. ELECTRÍCA é uma revista
batuta que publica coisas assim:
Que eu fique mudo, envolto na grave sinceridade do
MICROSCOMO meu silencio... (6)
Achilles Alves define nestas estrophes
singelas e suaves, de um tom lyrico, co- (Torna-se necessária uma esplicação: incluindo
mo compreende a vida. (N. da R.) na minha antologia esses trechos em prosa e em poe-
sia, não é meu intuito depreciar os seus autores. Pelo
O nosso mundo se resume contrario admiro alguns deles).
numa esperança unicamente Vê você, MESTRE que essa historia de ridi-
feita de sonho e de perfume. cularizar as produções dos outros é facilima. Princi-
palmente quando empregamos o seu processo nada
O nosso mundo ! Quanta gente decente e ainda por cima temos a ventura de encon-
o julga espira de fumaça, trar leitores incautos e ingênuos.
que se evapora de repente... Terminerei agora, meu insigne critico joven.
De você nada mais direi. Basta que eu fale somente
Mas que illusão! O tempo passa isto: você é o T da FESTA. Procure no dicionário e
e o nosso mundo pequenino veja quantas palavras bonitinhas começam por essa
gyra, impellido pela graça letra. Por ezemplo: tolo, trouxa, tabaréo, e edicétera.
do Deus Cupido-o Deus Menino.
Janeiro de 1928.
Nota importante: o autor deste negocio é irmão
do diretor Alves.
Mas deixemos isso de parte. FRANCISCO I. PEIXOTO.
Em vez de ezaminar, tim-tim por tim-tim, todas
as bestidadezinhas que saíram da sua penna, prefiro
mostrar a você que eu também possuo notáveis NOTAS—(1) Barreto Filho, poeta das vegetaes, telúri-
qualidades antologhticas. Fazendo assim pouparei cas nostalgias e das interrogações ousadas; (2) Adeli-
mais tempo e não me cançarei muito. Não sei si você no Magalhães, escritor das adivinhações supreenden-
atingirá o alcance desse minha atitude. Garanto, po- tes; (3) Brasilio Itiberê, burilador de paginas jograles-
rém, que éla é eminentemente pratica. cas, de uma alegria de sol amanhecente; (4) Cecília
Antes que me esqueça, quero fazer uma per- Meirelles. poetiza das estranhas cadências universalis-
gunta: é por medo ou por que é que você se mantém ticas; (5) Murillo Araújo, poeta das iluminações aglorno-
numa situação tão duvidosa em face do Mario ? (6) Lacerda Pinto, vate de uma espiritualidade deli-
Me lembro disto porque você, na pagina 7 de cadíssima.
Janeiro 1928 VERDE 19

SINGERMAN- STOLEK, E T C , ETC.


A sra. Singerman poderia não declamar adulterações e, com a lisura de que sou ca-
um só verso brasileiro e não tolerar um úni- paz, adeantei o que fizera: que escrevera car-
co poeta nosso, pensando que todos fossem tas a alguns amigos de imprensa, narrando-
cheirozinhos engommadinhos e irisupporta- lhes o caso e pedindo-lhes que agissem como
veizinhos como o morubixaba Osvaldo Ori- se lhes afigurasse melhor. E mais: que era
co, e ser muito amiga do Brasil. Não enxer- desejo meu escrever, eu próprio, esses com-
guei também, em qualquer minuto, no gesto metarios e remettel-os pelo correio, mas
ingratíssimo da sra. Singerman offensa ao que, por falta absuluta de tempo, não o
Brasil. Ora bolas. Quem é a sra. Singerman, conseguira. Isso foi, porventura, protestar
com todo o seu orgulho e mais a recua dos innocencia? E, por acaso, já nasceu o ho-
que a praclamam genial, como se o gênio, mem que me possa atemorisar?
ao envez de ser o que é, fosse um phenome- Disse-lhe ainda qne, assim como não
nozinho vulgar? O caso limitou-se a isto: á me considerava culpado pelo incêndio de
ingratidão de quem tanto devia ser grata ao Roma, quando Nero foi Imperador, não. po-
Brasil e aos brasileiros. deria ter a culpa daquillo que entendessem
Pretenderam até intrigar-me com o sr. escrever taes ou quaes diários, dentro de
Ministro do Exterior, como se s. ex. não ti- sua autonomia. Continuava a declarar-lhe
vesse o que fazer. A argentinidade da sra. que a snra. Singerman, ao contrario do gran-
Singerman—deixem que accentue—é só para de violinista David Bolia e da admirável
os effeitos de bilheteria na nossa Idiotolan- declamadora Wally Zenner, recusara o seu
dia. A minha intenção declarada foi esta: concurso á festa do Ateneo. O snr. Stolek,
que se soubesse disso ahi e que os meus pa- com o seu palafratorio de vendedor de mo-
trícios e patrícias, por castigo merecido não veis a prestações, sem entender de psycho-
lhe levassem mais acontribuição do seu applau logia, não lendo o que sou na minha face
so e do seu dinheiro, que não mais se aper- máscula, insinuou, então, a remota possibi-
cebessem delia e de sua arte «unica»(..) que lidade de desafiar-me para um duello. Ahi.
imitassem, ao menos, os argentinos que até esquecido de que o tinha em minha casa,
hoje não a «llevaron el apunte». Os «êxitos approximei-me mais e gritei-lhe:
imperecedouros» «aqui em Buenos Aires e a —"O snr. tem o topete de vir pertur-
que se referiu o marido e empresário na car- bar-me o trabalho, cuidando que me aco-
ta á «A Tribuna», de Santos, ainda que fos- vardo com duello?"
sem authenticos, seriam uma conseqüência Sem esperar que me respondesse,
da reclame atordoante que faz. Mas esse prosegui, talvez um pouco exaltado pela
mesmo «êxito», por effeito dessa mesma cus- insolencia desse indivíduo:
tosa reclame dependurada nos muros vadios. —"Duello? Acceito-o já e já, mas sob a
da cidade, obtém os bichos amestrados do condição de que seja á brasileira. Nada
Parque Japonez, os xaropes e as pululas da comedia de padrinhos, phrases protocol-
purgativas de qualquer boticário inexperío. lares, médicos e... lavadeira á distancia.
A virtude está apenas no cartaz. Homem a homem"
Os commentarios que ahi se publiraram, Exaltação momentânea porque se re-
o sr. Viggiani, matreiramente, transmittiu-os flectisse como costumo reflectir, teria cha-
para aqui, pelo cabo. Uma manha (e este mado o meu criado Francisco e ordenado:
ponto desejo aclarar bem para esmigalhar «Ponha esse sujeito na rua com um
a injuria que o «Diário da Noite» e a «Folha pontapé no rabo!
da Manhã», de S. Paulo, acolheram) depois Só isso, para continuar a trabalhar.
de ha ver rechassado systhematicamente o Fil-o, porém, engulir a ameaça, mesmo
sr. Stolek e não acceitar a sua tardia «Boa longínqua, e romantizar a vóz. Os meus ami-
vontade», fui por elle, de novo, importunado gos no Rio ou na Conchinchina, os que, de
em minha casa. Estava escrevendo a confe- facto, me conhecem, sabem que esse episó-
rência para a «noche brasilena», de 10 de Se- dio só podia ser assim como estou contando.
tembro, em «La Pena». Mandei que o meu Eu, na vida, e na idade em que estou, apenas
criado o trouxesse até mim. Educadamente, me arreceiei de uma coisa: de poder, um
offereci-lhe assento e perguntei-lhe a que vi- dia, chegar a ter medo. Mas esse dia não
nha. Desentranhou do bolso, com ar de com- chegou, nem chegará porque, muito cedo,
puncção, um maço de telegrammas e alludiu eduquei a minha vontade, que é inquebran-
aos commentarios de certos jornaes, no Rio. tavel. Não bravateio, nem interpreto o es-
Falei-lhe com franqueza: que lamentava as padachim. Eu amo é a paz. que me permitte
20 VERDE Janeiro 1928

trabalhar. Em horas perfeitamente opportu- espediçarmos mais tempo com o caso, afinal
nas, e sempre por motivos justos, appliquei sem importadcia para a rotação do planeta.
uns pares de pescoções em determinados Pois bem, depois disso, dessa acção pie-
patifes. Repetirei a dose, se for preciso... dosa, esse sujeito, ao envez de desembarcar
Como já expliquei também, o meu tele- ahi de rabinho entre as pernas e caçar os
gramma ao sr. Viggiani passei-o por genero- seus nicheis, desandou a bravaterar, apoia-
sidade, antes as supplicas do sr. Stolek. Quan- do na poltronice criminosa de alguns patrí-
cios meus. Peor para elles que, em publico,
do esse indivíduo, pela centésima vez, na se revelaram o que são.
tarde desse dia (o do duello...) me importu- Uns anatolezinhos de bobagem, edição
nou, choramingando, medroso do fracasso Quaresma, com a sua displicenciazinha pre-
dos recitaes de sua mulher e esporeado pe- tenciosa, como o sr. Mucio Leão, que pensam
los telegrammas repetidos daquelle empre- que a Grécia é Cascadura, atiraram-me pe-
sário, ainda me oppuz a qualquer remendo. dras. Achei graça na bravura. De um mo-
Consultei, no entanto, alguns brasileiros que, mento para outro, sacudirei convenientemen-
no momento, estavam commigo e, um delles, te esses escribazinhos medíocres que se
o dr. Ezequiel Ubatuba, foi até quem redigiu acreditam intangíveis porque, á mingua de
o telegramma. Eu modifiquei o texto para occupação mais séria, andam a cocar a base
«brasileiros resentidos etc.» «resolvemos» ac- do ventre illustre desses graves senhores do
ceitar explicações etc. Com isso quiz dizer «Petit Trianon». Não perderão por esperar.
que, «resolvíamos» acceitar as explicações,
não por nellas acreditarmos, mas para não ILDEFONSO FALCÃO.

C A N Ç Ã O O O

Ergue a enxada...
Nú da cintura pra cima...
Brilham as costas recurvadas...
Não tem arado nem charrúa...
Vae trabalhando ao deus-dará...
Numa sombra balança a borracha com água fria...
Põe na boca uma isca de fumo pra mascar...
Aperta a fome
Consulta o sol com a cara pro ar...
Ainda está cedo pra comer...
Toca de novo fazendo a limpa do roçado:
—Palito de negro é peia,
Gravata de boi é canga...
—Chite! (sopra cansado).
Consulta de novo o sol...
De enxada ao hombro... Borracha ao lado...
Vae terminar a canção no terreiro depois da janta.

(Rio Grande do Norte)

JORGE FERNANDES (Autor do LIVRO DE POEMAS)


Janeiro 1928 VERDE 21
E__tg:jpt~~~t-qa—~:

MARIA LAVADEIRA
Maria Lavadeira
da beira do córgo
estende roupa no varal
bate roupa na pedra
lava roupa dia inteiro
semana inteira
sem descançar!
Ah! vida escomungada...
Um dilúvio de filhos remelentos...
O marido levado da breca...
A casa toda escorada
com a imagem suja
de
Nossa
Senhora
do
Perpetuo
Socorro
do lado de fora da porta...
Bendita Nossa Senhora
do
Perpetuo Socorro
que não deixa a casa
da gente
cair!
Antigamente
Maria Lavadeira inda passava
o tempo melhor.
Veiu a danada da bexiga
estragou com éla
não dando mais gosto prós outros
de enganar o marido dela...
Ah! Maria Lavadeira, assunga a saia
atola os pés
no barro preto
da
beira
do
córgo
estende roupa no varal
bate roupa na pedra
lava roupa dia inteiro
semana inteira
sem descançar
sinão teu marido te xinga
te bate
no lombo...
FRANCISCO I. PEIXOTO
22 VERDE Janeiro

NOTICIAS SOBRE LIVROS


E OUTRAS NOTICIAS

TRISTÃO DA CUNHA 'A* Beira do E não é porque elle não sinta o drama, ou
S l y x " — 1927. não o entenda. E' porque o teme.
Do sr. Tristão da Cunha diz o sr. Idem
Ao sr. Tristão da Cunha se poderia fa- de Athayde:
zer a mesma restricção que Montherlant faz ra».—Acho que «é um espirito anterior á guer-
a Barres. E talvez com mais justiça. E' um homem que procura é antes um sensivel. Um
homem que, voluntariamente, poz-se á mar- de adaptação á vida. paz numa philosophia
Tranquillo por razão,
gem da vida e olha a corrente que passa. não por indole. Um cerebral.
Olha e sorri.
Attitude prudente e sabia. A alguns pa- um dosE é por isso que o sr. Tristão da Cunha,
recerá indifferença ou scepticismo. A mim, poz-se á homens mais intelligentes do Brasil,
que conheço o homem, parece-me que essa é por isso também da
margem
que
corrente que passa. E
se afastou da esthe-
posição é antes de fuga do que de observa- tica nova, que elle apprehende
ção. Antes desgosto do que indifferença. An- lucidez e perfeito sentimento, mas com com
rara
que
tes certeza do que duvida. não communga. Foge do tumulto. Receia a
A vida, considerada de maneira abso- vida e escreve coisas claras e suaves.
luta, só nos pode offerecer a sua profunda
inanidade. A maior parte dos homens, por Melancolicamente.
via da razão, decidem que o melhor é to-
ma-la a sério e marcam um objectivo, para AFFONSO ARINOS (sobrinho)
onde caminham, embora convencidos da sua
inutilidade. Outros, porém, e poucos, não AUTORIA DA ARTE DE FURTAR
sentem essa necessidade de agir. Afastam- ( C o n c l u s ã o ) .
se. Os românticos soluçam. Os se3pticos Como si á carência pouca suprisse e não
perdoam e sorriem.—Scepticismo não é vo- excedera já a recolta valerosa, também
lúpia, é destino. E, por lúcido e solitário, José Maria Latino Coelho, do passo que as-
talvez mais infeliz do que os outros. segura ser o gênio o estylo, capaz se diz
Convencido da situação vagamente gro- de saber Vieira ou Bernardes ou Camões, á
tesca do literato na America Tropical, o sr. simples audiência em seus legados memo-
Tristão da Cunha escreve pouco. Mais para randos, sem que delles a autoria antes lh'a
si do que para os outros. Constata factos, dissessem.
anota impressões, emitte conceitos. Por isso Mal grado tudo isso, mal grado versa-
tem fama de cultivar a preguiça. dos na Rhetorica imperecida, ainda hoje nos
De vez em quando reúne esse material arrogamos o desaire de confessarmo-nos dú-
e o distribüe entre alguns amigos. Agora, bios ante a autoria de certa «Arte de Fur-
por exemplo, anda passeiando «A' beira tar»! Dir-se-ia avassalado todo o clássico
do Styx». saber pelo arremesso incontido' da futurista
A paizagem, que pela localisação se cohorte! E' diante de tal sandice que asado
esperava torturada, apparece antes amena. se nos assiste o repetir com o grande Cíce-
Existem mesmo remansos da mais umbrosa ro: «o têmpora! o mores!»
frescura. O turista trabalha para transfor- Deveras, ao Padre Vieira em dia de
mar o tumulto e motivo em fonte de belleza. hoje não cabe imputada autoria tal, sem gra-
Daquella belleza abstracta, idéa geral, con- ve literário erro, do mesmo passo que irre-
ceito absoluto. Daquella que só visita os toc- verente sacrilégio: 'tales hominibus fuif oratio.
cados pela graça divina. Os que acreditam qualis vifa*.
nella... Vejamos alfim os mesmos sabores de
Um amigo commum disse-me um dia estylo do escorreito seiscentista, pondo que,
que o sr. Tristão da Cunha é o único ho- na classificação ciceronica (Orator, V. 20)
mem que, dentro do torvelinho de uma gran- reportando-se ao «excessivo gosto de Viei-
de cidade, consegue se preoecupar com ra ás antitheses», facultamo-nos consideral-o
idéias geraes entre meio dia e cinco horas incorrido no «estylo sublime»; já nos amplos
da tarde. Imagina elegías na hora do drama. graus do inolvidavel Aristóteles (Rhetorica,
Janeiro 1928 VERDE 23

III, 12; apud. «Praxes estylisticas» do dr. João Pra maior documentação do que seja o
Pedro de Assis Magalhães) hemos considera- «por dentro» de suas personagens Oswald
la na pratica do «estylo sermonyco» ou estylo de Andrade não hesita em fornecer-nos de-
pulpitico». talhes da vida passada deles. A meninice de
Ora, como de publico dominio, a «Arte de Jorge no inesplorado Amazonas. Os bone-
Furtar» escapa a taes gêneros sendo, por quinhos de lama. Primeiros indícios de sua
maior e em espécie, na essência, âmago e fôr- patente vocação prá escultura.
ma, uma daquellas cathegorias de estylo de- «Ele era como os rapazes da região que,
nominadas pelo profundo Silvestre Pinheiro: estalada a puberdade, migram, deixando o
seja «extravagante», pela abundância de cata- mulherio ficar n'uma prévia viuvez, de co-
chréses, seja «alambicado», ou seja «incha- xas ardentes e semi—abertas, sonhando ca-
do», de par com ser «pesado» e «prolixo»; samentos absurdos e prostituições impos-
vez que possivel nos não é nomeal-o, a es- síveis.»
se estylo, de «acadêmico», pela prioridade
delle aos illustres cenaculos, mesmo ao gran- Temperamento ultra - sensual (Freud...)
de Alembert, autor da designação em ultimo. de onanista insaciável. Etc. Decadência mo-
Como vêm os leitores amigos, sobram ral, objectivada pelo ecesso de «caricias
razões em nosso abono. Relevem-nos ajun- hajbituaes». Esgotamento histérico. Nevrose
tar-lhes mais as que se vão seguir, deduzi- etc, e—daí, a descoberta de um novo mundo
das ainda de methodico exame. nos seios «em pêra», pequenininhos, de Al-
Por estylo se tem comprehendido a ma- ma. Elástica. Serpentina. Flexuosa. Pequena
neira peculiar de exprssarem os escriptores, «escolada» enfim, como se diz. Ás vezes
isto é, e attendendo ao sublime Bossuet, o Oswald de Andrade abandona de lado o pes-
modo privado porque representamos nós, da soal e cai, de prancha, num estado passa-
alma os movimentos. Ora, esse «privado mo- geiro de lirismo sub-consciente. E faz poesia
do» tanto se opera pela estylistica, ou syn- da bôa, quasi. Mal de prosador poeta. (Plínio
taxe literária, quando pela syntaxe propria- Salgado, por ezemplo). Como naquelle pe-
mente dieta. Do primeiro caso demos ante- daço da romaria em Pirapóra. Negros dan-
rior irretorquivel argumentar e do segundo çando. Caracaxás. Pandeiros.
ora o intentaremos. Um pouquinho de tristura brasileira^
Pra não perder o geito de ser triste. Poesia?
A. FONSECA LOBO. «E o coral empolgante, religioso, gri-
tava de toda parte, por cem peitos metáili-
cos de fêmeas e de machos, num desfal-
OSWALD DE ANDRADE lecido estreitamento de ancas e de sexos».
Gosei á bessa com este pedaço. Oswald
A ESTRELLA DE ABSINTHO de Andrade não escreve por escrever, como
Ed. Helios — S. Paulo —1927 qualquer sujeito interessante não. Escreve
afirmando tudo muito direitinho. Suas ideas
A coisa mais característica neste ro- e conceitos emitidos. Sem titubear. Com fir-
mance de Oswald de Andrade é a visivel meza. Porquê sempre foi assim que êle fez.
inteireza do homem na obra. Oswald de Ha pedaços fertissimos no livro em que
Andrade vive em seus bonecos. Se parece Oswald de Andrade se revela um psicólogo
com eles. Essa constatação não é propria- formidável! Puro Rafael Lopéz de Haro (com
mente «incondicional», victoriosa. Mas é, em perdão dos senhores que não vão á missa
parte, muito verdadeira e de fácil poder do já celebre romancista hespanhol).
observativo pro leitor agudo, perspicaz. Bas- A linguagem empregada no estrella de
ta tomarmos como prova a figura simpática absíntho é, sem duvida, admirável.
de Jorge d'Alvellos, moço escultor, elegante, E aí o autor se afirma mesmo um dos
libertino etc. milhores prosadores nacionais. Entre anti-
Auto-biografia ? Não. Não chego a tan- gos e modernos.
to. Mas a figura é escandalosamente im-
pressionante, viva. Tão viva e tão verdadei- Um livro como este vale por duas ve-
ra que a gente quasi desconfia que ela é zes. Pela originalidade única do seu autor.
a encarnaçâo do próprio autor. Oswald vai E pelo traço forte com que elle marcará,
seguindo, com um admirável geito penetra- prás gerações vindouras, a espaventada ati-
tivo de anotador, o desenrolar dos fatos e tude de ousada independência espiritual de
das coisas. Sem enfarar. Deliciosamente. Sem Oswald de Andrade.
se preocupar muito com o final da historia.
Como quem diz: «no fim dá certo...»
24 VERDE Janeiro

Baianlnha e outras mulheres Não sei quem duma feita escreveu que
Guilherme de Almeida é um sujeito em cada
A sensibilidade do sr. Ribeiro Couto livro. Não concordo com isso. E inda outro
é um caso á parte nas letras brasileiras. Por- dia conversando com o Ascanio sobre o pes-
que o seu caso é típico como o seu estilo. soal paulista discutimos muito a esse respeito.
Nesse livro de contos êle é o mesmo Guilherme muda de roupa, só. No fundo
homem irônico e piedoso das produções an- é o mesmo «parnasiano quebrado», o mesmo
teriores. Não variou na maneira de vêr e imutável e, comtudo, delicioso—digamos (pra
de sentir. Felizmente. A ironia e a piedade não haver mal entendidos), Guilherme de
são as tintas mais características desse Almeida. Amigo da fôrma, estética, escola
grande enamorado de ambientes discretos. e tudo o mais. Mario de Andrade, muito pelo
Nada de quadros berrantes: todos leves contrario, sempre novo. Sempre diferente.
e comunicativos. Nunca molhando o pincel Sempre inédito. Sempre «desmaneirado», es-
de todo... Quando o observador principia quisito.
traçando forte surge o coração do poeta e E é—justamente, essa falta de «ma-
suaviza o colorido. neira» que o caracteriza, distinguindo-o dos
11 contos. Alguns publicados anterior- outros modernos como um super-espirito á
mente. Todos sem ênfase. Sem tiradas de parte. A mais clara inteligência da moderna
efeito. Mas a gente percebe naqueles perío- geração brasileira.
dos simples e despretenciosos um profundo O autor de Escrava está ficando, a meu
desencanto. Desencanto e alguma tristeza. ver, um caso muito sério na ordem—das coi-
Uma tristeza mansa que até nos faz bem... sas. E é pena que não se tenha feito ainda
Que delicioso recolhimento intimo tem sobre ele um pequenino ensaio de fixação.
a sua prosa! Entretanto as palavras vêm Mas um ensaio de «fixação» fixo. Como o
claras e precisas. Eis a sua qualidade mais belissimo trabalho do Tristão de Atíayde,
simpática: sinceridade de expressão. Aífonso Arinos.
O fixador de Baianinha e outras mulheres Mario não improvisa. Não repete. Não
avançou bastante. O adorável Ribeiro Couto decalca. Transforma. Brinca. Modela a sub-
quasi tímido de hontem passou agora—ape- stancia plástica dos motivos modificando-a,
gar da confusão do momento — a trilhar reduzindo-a, simplificando-a pra milhor ada-
que O Crime do Estudante Batista e outros li- ptar-se a ela, emfim.
vros deixaram entrever. Diante dele surge Si a primeira fase poética dele, o «tes-
uma linda clareira. E' fincar barraca e es- vairismo», se terminou com a publicação
perar a caça. Esta não faltará. de Paulicéa, como ele próprio o diz clara-
Tudo nos diz que o autor de tanta coi- mente no prefacio dessa obra, Clan do Jabo-
sa bela pôde trabalhar confiante. Tendo a ti—enfeixando poemas Como: Brigadeiro Jor-
certeza de ser o mais simpático intelectual dão, Coco do Major, Toada do pai do mafo. Lenda
da sua geração. do ceu. Moda dos quatro rapazes Moda da cama
de Gonçalo Pires e etc. marca o inicio de sua
GUILHERMINO CÉSAR. terceira fase. Fase esta que chamaremos,
mais por «comodisno» que por outra coisa,
Notas sobre Clan d o jaboti (poesia). de «regionalista» mesmo.
O pequeno volume que Mario de An-
drade acaba de publicar não é—propriamen- Quem se der a um estudo balanceado
te, um livro regionalista. Porém um livro nas ultimas produções do poeta, de fins de
de inspiração regional. Principalmente. 1926 até agora, verá que ele hoje está mais
E como todo livro desse poeta, traz a seguro de si (no sentido de «firme», porquê
sua nova marca—de—fabrica, resultado de Mario de Andrade nunca andou fora de si),
sua constante procura. Não sabemos bem si mais equilibrado e que a sua nova «marca»
Mario de Andrade perdeu alguma coisa. Mas... se acomoda muito bem com o seu geito fer-
calemo-nos, por emquanto. vido-fogoso de poetar. E vai indo «tudo bra-
O «regionalismo» de Mario não é uma sileiramente •.
preocupação, tomada a palavra no seu pri- O «pau—brasileirismo» de Losango caqui
mitivo sentido de significação verdadeira. risca o traço que une sua fase primitiva
Porém sim uma conseqüência. Espanto ma- á actual.
ravilhado do poeta pelas coisas ingênuas da O que não ha duvida porém, apesar de
terra. Espanto este motivido pelo espirito tudo o que se tem tido de mau contraele, é
terra-a-terra—e, portanto, uma conseqüente que Mario de Andrade continua a ser conta-
influencia dele, na razão directa do geito ou do como o sujeito mais interessante do mo-
sentido com que o encaro e compreendo. mento. O sujeito que não acha geito na ma-
Janeiro 1928 VERDE 25

dureza, por ecelencia. E ha-de ser sempre FESTA VERDE—Caio de Freitas—Ed.


novo. Sempre moço. Porém muito, muitíssimo Benedito Souza—Rio, 1928.
diferente daquela figura de Walter Scott que O autor ainda não está com o barco
aos oitenta anos brincava de gude só pra ablcado á margem de cá. Vem pondo força
dar aos outros uma aparente visão de ale- nos remos para chegar. Tanto assim que esse
gria jovial. Infantilmente. volume corresponde a um avanço considerá-
A «alegria esportiva» em Mario é uma vel. Só o que sentimos é o poeta deixar quasi
seqüência lógica da sua maneira de viver sempre os remos pela beleza do poente; vi-
pela qual tudo pra ele é muito bom e coisa rar-se com olhos enomarados para a noi-
nenhuma implica «desinfelicidade». te que vem caindo e se esquecer do brilho
inquieto da cidade nova. Cidade nova que
Não é da gente se espantar, portanto, que fica perto—cheia t
de sons e cores vivas—e
Clan do Jabotí seja uma coisa simplesmente onde os novos vêm realizando o mais lindo
admirável, visto brotar dum espirito mais ideal de brasilidade no espaço e no tempo.
admirarei ainda. Caio de Freitas ainda fala em tanques, ala-
meda adormecida, lascivo perfume de mu-
F lher e outras espressões já muito esploradas.
São versos interessantes, não ha duvida. Mas
ARRAIADA MINEIRA o poeta de Festa Verde não andou bem inse-
rindo tanta coisa velha numa obra por um
A propósito de FESTA VERDE pouco essencialmente integrada no momen-
Os poetas mineiros da moderna corren- to atual.
te vão aparecendo pouco a pouco. O senso O fixador dos encantos de Ponte-Nova
de modernidade preocupa seriamente a ge- possue qualidades apreciáveis de penetração.
ração moça. Essa geração que vive agora Porém o seu modo ressente-se do habito de
de olhos voltados para a nossa alegria cria- rimar. O que traz certa monotonia ás suas
dora. E o ambiente da vida americana surge p r o d u ç õ e s , como e m A caricia da tarde. Minha
nas inteligências de hoje como resultante carta fríorenfa e até Caixa de brinquedos. Todas
lógica desse instante de inquietação e pro- influenciadas pelo senhor Guilherme de Al-
cura. meida. Aliás no Brasil não ha ninguém que
Em Minas o modernismo tem sido enca- não tenha sido influenciado—ao menos em
rado de modo mais frio. Resultado da distan- essência—pelo poeta paulista. E' principal-
cia que vae das montanhas ao mar. Distan- mente tributo de mocidade. Da mocidade en-
cia que dificulta a ação civilizadora do ho- tusiasta que nasceu nos braços dos néo—
mem do litoral sobre o homem do interior. parnasianos.
Olhemos Rio e São Paulo: por lá o trabalho Temos esperança que a feição artística
moço tem sido mais serio. (Convenhamos: de Caio de Freitas venha de hoje em diante
essa distancia dá ao mineiro certa serenida- mais original. Não é possivel que o poeta
de na discussão dos assuntos). de Minha Terra Mineira fique satisfeito COm O
Até hontem vínhamos fazendo poesia de que até agora tem realizado. A procura con-
continuação. Sem a procura incessante do stante fará dele ecelente trabalhador dos
original que caracteriza as produções supre- nossos anseios de modernidade. Mesmo por-
endentes dos Andrades. Razões: muitas. Uma que a gente percebe que a ultima parte do
delas: o pudor natural de parecer estrava- livro está animada dessa inclinação espontâ-
gante aventurando fôrmas e concepções no- nea para os nossos motivos.
vas. Assim tem sido. Não sei si para forta- Por enquanto basta dizer que Festa Ver-
lecer ou atrofiar as nossas letras. de—livro de estréa e de transição—revela
Não se pode determinar ao certo a re- um legitimo poeta. E já é muito para quem,
sultante de tantas forças contrarias. Pode-se como Caio de Freitas, conta pouco mais de
dizer—todos estamos vendo—que a coisa 18 annos.
está tomando outro caminho. Nos últimos dois GUILHERMINO CÉSAR
anos a corrente tem se avolumado. E por toda
a parte vão brotando as idéas novas. Apoi- JORGE DE LIMA
adas em espeques de cultura variada e fra-
gmentaria. Cultura que se metodiza vaga- P OEMAS
rosamente. E que tende ao definitivo. Defi- Ed. casa Trigueiros—1927
nitivo só admissível para classificação. Maceió—Alagoas
Vem-nos agora de Ponte-Nova, a «cida- Em Jorge de Lima a poesia não eziste
dezinha triste escondida entre montanhas», somente no enfileiramento de imagens mais
o livro ou menos líricas formando parelhas nfto.
26 VERDE Janeiro

Eziste em «todo seu corpo». Em tudo o que é Palavra de honra que fiquei gostando
seu. Desde o arranjo do livro á justificação d a s d u a s a m o s t r a s d o s Rythmos da ferra encan-
da tiragem. Daí José Lins do Rego escrever tada! , _, .
nas «notas sobre um caderno» que a poesia é O I o faciculo da 2a serie de Elecfnca
o órgão da sua vida interior, o caminho na- ainda transcreveu uma poesia de Ribeiro
tural de seus sentidos tomarem palavra». Couto e um pedaço da Enxurrada do Tasso
Pode haver um pouco de ezagêro na frase. que annuncia o fervor claro do autor da A
Mas não deixa de ser verdadeira e concordo vida em movimento. B a t u t a !
com éla. «(?) Manuel Bandeira» vai colaborar no
próximo numero. Pra quê essa interrogação
ORAÇÃO nas costas do homem, gente ?
— *Ave Maria cheia de graça...* O serviço tipográfico de Elecfrica obriga
A tarde era tão bella, a vida era tão pura, o leitor a dar cambalhotas. Que fará o pobre
as mãos de minha mãe eram tão doces,
havia lá no azul um crepúsculo de ouro... tão longe... do tipographo ?
— 'cheia de graça, o Senhor ê convosco, bendita ! PEIXOTO.
Bendita !
Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos, me-
nores, meus brinquedos, a casaria branca de minha CARATULA
terra, a burrinha do vigário pastando junto á ca-
pella... AnoIII n°. 114
—«Ave cheia de graça*
bendita sois entre as mulheres, bendito é o
fruto do vosso ventre... Hebdomadário de teatro cinema, belas-
E as mãos do somno sobre os meus olhos,
artes e literatura. Muito vivo e muito bem
e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho. escrito Carãtula se impõe principalmente pela
E as estampas do meu cathecismo feitura grafica e capricho na colaboração.
Sahindo das paginas bonitas Neste n°. destacamos um poema de
para o meu sonho de ave! Marcelle Ancluir, Embriaguez, muito bonito
E isso tudo tão longe... tão longe...
e muito bem pensado.
Poesia fluída. Impálpavel. Metafísica. Notas de critica, cinema, teatro e etc.
Jorge de Lima é, inegavelmente, um poeta
de valor. É bem aquele homem que faz da F.
realidade das coisas duras, um milagre lindo
de beleza interior. LIVROS RECEBIDOS:
Não é um revoltado não. Mas uma alma
bôa que espera. Com um sorriso irônico nos Paulo Mendes de Almeida— Cartaz—S.
lábios. Mas de desapontamento que de ma- Paulo—1928.
lícia. Forçando pra não chorar. «Fazendo de Charles Lucifer—Parmi le soir indefíni—
conta»... Paris—1927.
Poeta do Norte Jorge de Lima botou Achiles Vivacqua—(Roberto Theodoro)
muito de sua terra nos seus versos. (E essa —Serenidade—1928.
é outra grande, granderrima qualidade que
lhe reconheço). Não o sertão dos jagunços e Aconcagua—revista continental—Buenos
bandoleiros safados. Não o sertão perigoso Aires n. Setembro—1927.
das secas e pragas de gafanhotos. Mas oser- Heitor Alves—Vida em movimento—Passa
tão lendário do «moço do ponche-pala». Quatro—1928.
Terra de poetas batutas como êle só! Fesfa—mensario de arte e pensamento—
F. Rio—ns. 4/5 6.
Raça—revista moderna — S. Carlos —S.
ELECTRÍCA—2a serie n. 1—Revista do Paulo—Fevereiro 1928.
sul de Minas. Cheia de infantilidades. E de Nicolás Fusco Sangone—La frompefa de
muitos reclames. Na maior parte deles mal las vocês alegres Montevideo—1925.
feitos.
Christovão de Camargo—O Enigma Mu-
Por ezemplo aquele que Heitor Alves lher-1927.
fez do belo livrinho de Ricardo Martins. Em
todo caso tem outros bons. Como o do Regu- La Sierra—organo de Ia juventud reno-
lador Gesíeira.- vadora andina, n. especial—Janeiro, Feve-
No meio desses reclames se encontram reiro, 1928—Peru—Lima.
algumas poesias de Ricardo Martins. De Mu- Illusfroção Paranense—Curytiba—Feverei-
rillo Araújo. De Heitor Alves. Só. ro 1928, etc.
Janeiro 1928 VERDE 27

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ss

f^scola N o r m a l de (Cataguazes
• m • ••

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condições de hygiene e conforto, ambos os educandarios estão sob a direcção das Irmãs Carme-
litas da Divina Providencia

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« « « « Fundamental 1:000$000 «
« « « « Primário 1:000$000 «
Externas do Curso Normal 300$000 « « «
« « « Fundamental . 200$000 « «• «
« « « Primário 3 o e 4 o 100$000 « « «
« « « « 2? e I o 80$000 « « «

Jóia de entrada para alumnos internos 40$000


Curso de dactylographia 25$000 mensaes

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acto da matricula, a 2 a a 15 de Junho e a 3 a em Setembro.
A lavagem de roupa sendo feita no Collegio 60$000 annuaes.
As aulas do Curso Primário começam a 3 de Fevereiro e as do Curso
Normal em Março.
O Corpo Docente que é da máxima competência, conta elementos
conspicuos entre os intellectuaes da sociedade Cataguazense.
Para informações sobre tudo o que se refere a admissão de alumnos
dirijám-se a Irmã Directora.

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D- i
Revista de Antropofagia
DIREÇÃO DE ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO
G E R E N C I A DE R A U L B O P P
B E N J A M I N C O N S T A N T , 13 — S.PAULO

M A C U N A I M A
D E M A R I O DE A N D R A D E

L A R A N J A DA C H I N A
DE A L C Â N T A R A M A C H A D O

A B o n e c a v e s t i d a d e Arlequim
D E Á L V A R O M O R E I R A

A E S T R E L L A DE A B S I N T H O
DE O S W A L D O DE A N D R A D E

POEMAS CRONOLÓGICOS
DE HENRIQUE, ROSÁRIO E ASCANIO

C a n a C a í a n a
DE A S C E N Ç O F E R R E I R A

*
verde H E N R I Q U E DE R E S E N D E
M A R T I N S
GUILHERMINO CÉSAR
Fc°. I N Á C I O
M E N D E S

PEIXOTO
R O S Á R I O F U S C O

ASCANIO
(1907-1928)

Mario de Andrade Vitoria Regia


Maria Clemência Linoleum
José Américo de Almeida Mensagem ao Grupo Verde
Carlos Drummond de Andrade Ascanio Lopes na Rua da Bahia
Norah Borges Desenho
Rosário Fusco Ascanio Lopes
Antônio de Alcântara Machado Indirecta
Peregrino Júnior O espritado
Murillo Mendes Canto Novo
Ascenso Ferreira O Verde
Ildefonso Pereda Valdez Elogio de Voronoff
Martins Mendes Ascanio Lopes
Guilhermino César Ascanio
Ascanio Lopes Inéditos
Francisco Inácio Peixoto Ascanio
Walter Renevides Aspiração
Henrique de Resende Poema para Manoel Bandeira
Carlos Chiacchio O mal do parnasianismo
TÓPICOS E NOTICIAS

EZEMPLAR 1*200 MAIO DE 1929 CATAGUAZES


GUILHERM1XO CÉSAR ÁLVARO
TRISTÃO DE
E MO R E Y RA
ATHAYDE
Fco. I. PEIXOTO

estudos me i a CIRCO
( poesia )
pataca
( poesia )

ed. PIMENTA
Terra de Sol verde DE MELLO E Cia.
1928 1928 1929

ROSÁRIO ANTÔNIO DE MARIO


FUSCO ALCÂNTARA MACHADO DF.
AN D R AD E

fruta LARANJA ENSAIO SO-


DA BRE A MUSI-
de conde CHINA CA BRAS1LEI
( poesia )
( coutos )
RA

verde S. Paulo S. Paulo


19 2 9 1928 1928
NUMERO I WmmÊ ^^^ WA ___rfl __f^ segunda
ANO • # ^ ^ J L WLK ^ C fase
redação
coronel vieira, 53
cataguazes

ASCANIO

Esíe é o numero de Ascanio Lopes.


Lonje de ser um numero de tristeza piegas é de uma como-
vedora alegria para nós. Alegria comovedora de ainda se poder
prestar ao amigo e ao poeta uma homenajem de fina lntell|encla.
Tardia ou não aí está a homenajem.
Não seria o atraso de sessenta ou noventa dias que viesse
deslustrar o nosso prelto àquele que Já se Integrou na eter-
nidade das cousas.
Ascanio sente, neste numero, em derredor do seu nome, os
mais brilhantes nomes da Intelljenda nova do Brasil.
Todos aí estão com um grande e alto pensamento para ele,
para a sua memória — tão grata a quantos o poderam sentir na
sua arte Ingênua de menlno-e-moço.
Ele vive nestas paginas — mais vivo do que nunca—sentin-
do a comovedora alegria dos seus Irmãos, que, hoje, finalmen-
te, lhe dedicam um numero da revista que ele tanto amou
—a noivinha imaginaria do poeta distante...

HENRIQUE DE RESENDE
VERDE
»-*-•-*•*:•.«».*-*:*

Afinal numa arraiada o bo-


tão da vitoria-regia arreganha os
espinhos, se fende e a flor enor-
me principia branquejando a cal-
ma da lagoa. Pétalas pétalas vão
aparecendo brancas brancas era
porção, em pouco tempo do dia
a flor enorme abre um mundo de
pétalas pétalas brancas, pétalas
brancas e perfuma os ares indo-
lentes. Um cheiro encantado le-
viano balança, um cheiro chaman-
do, que deve de enebriar senti-
do'forte. A gente rema e pega
a flor. Pois então as sepalas es-
pinhentas mordem danadas e o
sangue escorre em vossa mão. O
caule também espinhento ninguém
não pode pegar, carece corta-lo
com a pageií e enquanto a flor
boia nagua agarrar pelas pétalas
puras porém já estragando um bo-
cado.
Então a gente limpa o cau-
le dos espinhos e pode cheirar a
flor. Mas aquele aroma gostoso
que encantava bem, de longe, não
sendo forte de perto, é fugitivo
e dá náuseas, cheiro ruim.
Já então a vitoria-regia prin-
cipia roseando toda. Rosea rosea
fica toda cor-de-rosa, chamando
de longe com o cheiro gostoso,
bonita cada vez mais. E' assim.
Vive o dia inteiro e sempre mu-
"MOYSÉS SALBADO DE LAS ÁGUAS" dando de cor. De rosea vira en-
carnada e ali pela boca-da noite
Linóleum de MARIA CLEMÊNCIA ela amolece envelhecida as car-
reiras de pétalas roxas.
Em todas essas cores a vitoria-regia, a gran-
VITORIA-REGIA de flor, é a flor mais peifeita do mundo, mais
RlO NEGRO, 7 DE JUNHO bonita e mais nobre, é sublime. E' bem a forma
Ás vezes a água do Amazonas se retira por suprema dentro do aspeto |de flor.
detrás das embaúbas e nos rincões do silêncio Noite chegando a vitoria-regia roxa toda ro
forma lagoas tão serenas que até a bulha dos xa já quasi no memento de fechar outra feita e
cacauês despenca do ar e afunda nela. Pois é morrer, abre afinal com um arranco de velha as
nessas lagoas que as vitorias-regias param, cal- pétalas do centro, fechadas ainda, fechadinhas
mas, tão calmas! desterradas na felicidade. desde o tempo <ie botão. Pois abre e lá do co-
Eu vi as vitorias-regias da lagoa do Ama- ração nupeiol da grande flor, inda estonteado
nium.. pelo ar vivo, mexemexe remelento de polem, no-
Feito bolas de cáucho engruvinhadas es- jento, um bando repugnante de bezouros cor-de-chá.
pinbentas as folhas novas chofram do espelho E' a ultima contradição da flor sublime...
imóvel, porem as adultas sabidas, abrindo a placa Os nojentos partem num zumbido mundo
redonda se apoiam nagua e escondem nela a mal- fora, manchando de agouro a calma da lagoa ador-
vadeza dos espinhos. Tempo chegado os botões mecida. E a grande fSor da Amazônia, mais bo-
chofram também pra fora dágua. São ouriços es- nita que a rosa e que o lotus, encerra na noite
pinhentos em que nem inseto pousa. E assim vi- enorme o seu destino de flor.
vem e espigam esperando a manhã de serem flor. MARIO DE ANDRADE
— 2
VERDE
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MENSAGEM AO "GRUPO VERDE"


(Em prosa)

Eu sonhei com vocês: todo o Brasil espiando pra Cataguazes


e Cataguazes dando as costas a vocês.
Cidade pequena é assim mesmo. Tem raiva de quem fica
maior do que ella dentro delia.
Vocês, poetas de cidade pequena (grupo n. 4) fizeram de
Cataguazes uma cidade grande. Porque é grande tudo que se
vê de longe, Inclusive certas coisas pequenas.
Queiram bem a Cataguazes que não quer bem a vocês. Ca-
taguazes é pequena, mas vocês só são grandes porque são
poetas de Cataguazes.

J o s é A m é r i c o d e A l m e i d a

Parahyba do Norte

— 3 —
VEfcDE

ASCANIO LOPES CLlM_Vbr\

NA RUA DA BAHIA

A passagem de Ascanio Lopes pela rua da Bahia


é o único capitulo da sua vida que eu conheço e este
capitulo me enche de saudade.
Uma noite Martins de Almeida contou-me que des-
cobrira um poeta na pensão onde morava : era de Ca-
taguazes e escrevera um poema excellente sobre a sua
terra natal. Logo depois Emilio Moura levava o poema
ao "Diário de Minas", publicando-o com palavras de
admiração.
Foi esta a primeira coisa de Ascanio Lopes que
se publicou ( 6 de março de 1927) e é das melhores que
ha nos "Poemas Cronológicos."
Apresentado a Ascanio, elle sorriu para mim com
timidez, disse duas ou três palavras só. Fiquei gostando
desse moço com quem seria incapaz de manter uma
longa conversa ( e dahi, para que uma longa conversa )
mas em quem enxergava uma alma finamente colorida,
meiga, séria e encharcada de poesia. Não pretendo en-
tender muito de almas; julgo porém ter encontrado des-
de o primeiro dia a chave desta, qne por pudor nunca
cheguei a abrir. Deste modo, distante mas realmente
perto de Ascanio, eu fui dos seus amigos mais certos. 4,Ay.>fcU.8<n}*í
Era ainda naquelle tempo (bom tempo) em que se
tomava cerveja e até mesmo café com leite na Confei-
taria Estrella. Entre dez e onze horas o pessoal ia appa- MARIA CLEMÊNCIA, por Norah Borges
recendo e distribuindo-se pelas mesinhas de mármore.
Discutia-se politica e literatura, contavam-se historias
pornograpbicas e diziam-se besteiras, puras e simples
besteiras, angelicamente, até se fechar a ultima porta
(você se lembra, Emilio? Almeida? Nava?). Ascanio
chegou quando o Estrella já entrara em decadência e Dizem também que máo estudante, ou por outra,
nas melancólicas mesinhas o mosquito comia o assucar estudante displicente, mas isso só serve para augmen-
derramado sobre as ultimas caricaturas de Pedro Nava.
Cada vez se bebia menos cerveja e diziam ?e pouquís- tal-o na minha estima. A nossa Escola de Direito não
simas besteiras sinceras. Não chegou a conhecer alguns é melhor nem peor do que a commum das escolas, de
dos typos mais curiosos da fauna desse café histórico, direito ou não, que não dão gosto nenhum de serem
como por exemplo o sargento João Carlos, gordo, poeta freqüentadas. Mesmo assim Ascanio teve pachorra (ou
e káki, collaborador assiduo do "Trabalho*' de Espirito malícia) bastante para imaginar uma these, "O direito
Santo do Pinhal, que não podia comprehender porque da familia sobre o cadáver," cujo titulo suspeito dá idéa
motivo eu nunca lhe dera bôa noite (nós nunca fomos antes de uma blague juridico-literaria, um pouco fúnebre,
apresentados um ao outro, meu bravo sargento). Co- Bom funccionario, máo estudante, bom poeta...
nheceu apenas os últimos abencerragens e como não era A rua da Bahia não conheceu bem Ascanio Lopes, que
homem de grande commercio verbal, nem sempre par- passou por ella como um automóvel. Eu mesmo já tive
ticipava dessas farras ingênuas. O que não quer dizer occasião de dizer, ha annos, num poema que provocou
que não fosse bohemio e soube depois que o era muito. geral indignação, apezar de ser perfeitamente insignifi-
Passava tempos sem vel-o. Era esquivo e filtra- cante: ha os qne sobem e ha os que descem a outrora
va-se entre as arvores da rua. Dizem que optimo tra- famosa via publica. Os que sobem gloriosos e applau-
balhador. Na Secretaria do Interior, 6* secção, fala-se didos e os que descem obscuros e silenciosos. O auto
muito bem do funccionario Ascanio Lopes. "Deve ser de Ascanio desceu com o pharol apagado, sem businar,
computado para aposentadoria o tempo em que a pro- e desceu para sempre.
fessora serviu como interina ou provisória," concluía elle
numa informação que o chefe achou útil publicar, por-
que bem feita e esclarecedora do assumpto. Na Inspe-
ctoria da Instrucção há a caneta com que elle escrevia, 18 março 1929
papeis que guardam a sua letra, recordações diversas de
Ascanio, funccionario que deixava a poesia no cabide,
com o chapéo, ao contrario de outros que só deixam o
chapéo e fazem poesia na hora do expediente. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
- 4
VERDE

ASCANIO LOPES
Magro c comprido. Os olhos pretos cavados entre olheiras funereas-quasi enormes, a cabeleira
crespa e revolta, jaquetão azul escuro, chapéu na mão, bengala e pasta, a passos lentos um moço
desce a rua do Sóbe-desce, caminho da Praça de Santa Rita.
Este moço é o novo fiscal da Escola Normal, Ascanio Lopes.
—Hoje estou bem triste, Fusco. Fui obrigado a reprovar duas meninas no ultimo uno do curso !
Você si o conhecesse, Antônio de Alcântara Machado, não adivinharia melhor.
Êle era, antes de tudo, um Bom. Aliás todo mundo que dele se aproximasse adivinhal-o-ia ime-
diatamente.
Humilde e modesto, como os modestos e humildes, facilmente se entregava.
Porquê sua maior virtude era a sinceridade.
Sinceridade, coitadinho, até no sofrimento.
Um dia olhando prá mesinha cheia de vidros ainda por abrir, perguntei:
—Não toma remédio não ?
Não respondeu. Porém me olhou tão fundo que naquele momento daria tudo pra não ter me olha-
do assim.
E que êle já sabia.
"Eu sei... Eu sei
Mas, não choro.
—O pranto é amargo e inútil
e em vão nosso clamor tenta alcançar os cêos.
Nem desespero,
—de nada vale o desespero ante as coisas
irremediáveis."
Nas minhas varias visitas á sua casa onde raramente chegava um ou outro cartão de seus ami-
gos de fora, jamais teve uma palavra de rancor pra esses amigos. Pelo contrario.
Com estas palavras, de uma comovedora serenidade, começava o discurso que escrevera pra para-
ninfagem das normalistas de 1928 :
"Feliz quem como eu tem forças para na amargura alegrar-se com a alegria alheia."
Mas nós também sofremos com você, Ascanio. Não acredita ?
ROSÁRIO FUSCO

INDIRECTA
Vocês pode ser que não tenham medo, que pouco e ver se a estrada não tem rastos. Eu acho
estejam muito sossegados. Mas eu ? Eu tenho pa- que tem e bem antigos. Haverá quem discorde. Náo
vor. Eu estou vendo o perigo. Eu sinto o desas- custa ver.
tre sem remédio. Será preciso começar de novo. A laranja é bonita, viva a laranja, a laranja
Começar mais uma vez. Não pela primeira ouse- amarela a árvore verde: ai Brasil, tudo isso já
gunda. Então a lembrança do erro poderá ser uma se disse e se repetiu tantas vezes, tantas vezes,
lição mas será fatalmente uma carga a mais para Bonito para nós é não discursar e chupar
deitar fora. Sem contar o desânimo de quem de- a laranja.
pois de andar muito percebe que andou errado. Cito palavras do meu amigo e cliente Ber-
E se o certo estava no fim de outro caminho e o nardo De Bernardi:
princípio dos caminhos é o mesmo com que cara —Meu filho está estudando pra futurista,
suada e desconcertada a gente fará meia-volta?
E a vaia das galerias ? E o gozo dos contrários ?
Por isso é que eu digo : é bom parar um ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO
— 5—
*• • * • - • - » - • „ • . • . * . • . • . • . * . « . » . * . • - • . • : * . •;*:*_;•:*.*•-*:*.*.•*»;•:>.-*.*-'»-•-•--».»-•-«
VERDE

AS 7 TROMBETAS MISTERIOSAS

Aquilo foi apertando meu peito enfermo e meus pobres pul-


mões carunchados. O ar faltava. De repente, percebi que eu esta-
va diminuindo, diminuindo, até que ficara apenas uma rodllha de
dores.
O quarto e o leito lavrado desapareceram e eu ficara Imó-
vel no ar, onde ia adormecer para sempre. Súbito soaram sete trom-
betas a arrebentarem meus ouvidos com o seu clangor misterioso.
Olhei para o alto e sete bruxas de mãos dadas brincavam uma ci-
randa infernal. E do meio da roda foi crescendo, terrivelmente, um
esqueleto branco, todo branco. As bruxas asquerosas desligaram
as mãos findando a ciranda e então vi perfeitamente que o esque-
leto era a Norte. E ela vinha vindo de foice como nas gravuras,
lentamente para mim. A minhalma ficou pequenina. Gritei covar-
demente :
Não! não quero morrer! Não posso morrer! Tenho ainda mui-
ta coisa a escrever!
As bruxas riram grotescamente e uma delas sentenciou alvarmen-
te: a gloria é lllusão!
Eu ainda não vi a vida, covardes! gritei.
Mas a Morte inexorável já me alcançara. E as bruxas rodeavam-
me. Seus braços viscosos e nojentos ansiavam tocar-me.
Mas a foice do esqueleto Já ia dar-me o golpe.
Gritei no ultimo desespero:
Não! não me leves! Eu não posso deixai-A!
E gritei o nome do meu amor. Imediatamente fia mão branca que
eu conhecia bem afugentou as bruxas que foram praguejando hor-
rivelmente. A morte sumlu-se. Acordei tremendo. Alguém enxuga-
va o suor frio da minha testa.
E perguntou-me:
—V. estava sonhando comigo, meu amor?

A S C A N I O L O P E S

6 —
wmvjm-wmmmrjBm.WMummawmmwM
VERDE
Bi ! * • : • . • : ••.•. # ,v.» * * * • • ' • * • • : * * * ' • • «

RECORDAÇÕES DA TERRA VERDE


(Rio Anabijú, Março, 28, do 1918.)

aO ESPRITADO"

- P'ra donde tu vaes, Zeferino ? céo, no labirintho do matto verde, como esqueletos si-
—Vóu alli já volto. nistros.
—Hoje não é dia de trabalho não, menino! N'aquelle scenario aterrador, Zeferino experimen-
—Não vou trabalhar não, minha mãe! Vou só ao tou uma sensação estranha. Medo! Mas um medo que
varador preparar a armadilha. elle nunca sentiu, um medo não sabia de que. Cerrou
—Sexta-feira da paixão! Virgem Nossa Senhora! os olhos, transido de terror. O pica-pau martelava no
—Amanhã é sabbado da Alleluia e nós precizamos quiriri da noite. Uma gargalhada estraçalhante de coruja
quebrar o jejum... abalou tragicamente o silencio negro da floresta. Zefe-
rino deu um grito e desembestou na carreira, n'uma
A montaria escorregou macia no tijuco, banzou de allucinação, para a beira do igarapé, onde amarrou a
bobuia em cima d'agua. Zeferino pulou p'ra dentro, n'uin montaria.
salto ágil, com o leque do jacuman na mão. Deu um
empurrão na caiçara, afastou-se ligeiro para o perau do
rio e, com remadas rápidas, sumiu-se no meio do "fu- Na precipitação da fuga, tocou no cipó destendi-
ro"-chuá-chuá-chuá... do da armadilha-
—Trac-pum!
Um grito damnado de dor. Um bruto baque no
D. Marocas ficou em casa mattutando. Sexta-feira chão. E Zeferino cahiu, a carga de chumbo na perna
Santa não era dia de se caçar não. Era pecado matar direita, estrebuchando na lama viscosa da matta. Cahiu
bichos na Sexta-feira Santa. N'aquelle dia os judeus ha- que nem palmeira torada pelo corisco.
viam matado Nosso Senhor... Quando seu Valentim E a noite negra, cheia de assombrações, veio en-
chegou da matta, com caichos de assahy ás costas, es- contrai-o sem sentidos, atolado na lama, sob a illumi-
tacou de espanto. nação pisca-pisca dos vagalumes.
—Apois, Zeferino teve coragem de ir caçar no dia
de hojel
—Se teve!... Em casa de seu Valentim foi uma noite movi-
—E' capaz de topar com o Curupira. mentada de attribulação. Com fachos nas mãos, mette-
—Ainda, outro dia, nha Fulô me contou o "causo" ram-se todos dentro d'uma montaria e foram procurar
d'um moço que foi pescar na sexta-feira da paixão e Valentim na floresta. Rezando a "Salve Rainha" até
topou com a mãe d'agua. "nos mostrai", erraram a noite toda por "furos" e vara-
douros, por veredas e atoleiros, e só de madrugada, com
—AbusOes ! os primeiros clarões do sol, foi que, caminhando por
uma cafeperra na direcção d'um longínquo gemido, fo-
ram encontrar Zeferino n'uma poça de sangue, atolado
Quando a montaria abicou no tijuco, de outro la- na tijuco, ao lado do mundé.
do do iguape, Zeferino pulou para um pau grande, dei- —Castigo de Deus !
tado na barranca, que servia de ponte. Subiu para a
matta, atolando-se na lama, agarrando-se nos mattos, com
o rifle nas costas. Entregou a Alma a Deus, e penetrou —Seu Valentim está p'ra dár café!
no mattão fechado. Desde aquelle dia Zeferino estava á morte.
Não estava com medo não. Mas caminhava hesi- Não houve mezinha que lhe desse geito. Nem o
tante, com sobroço. As sombras do crepúsculo esma- pagé que chamaram conseguiu curar-lhe a ferida. Não
gavam a floresta. O canto sinistro das aves nocturnas havia mais esperança. Os parentes se reuniram todos
povoava a solidão de assombrações e agouros. em casa de seu Valentim. Fatalistas instinctivos, quando
Sem olhar para traz, com o coração aos pulos, ouviram o ferido ardendo em febre e a ferida resistir aos
escolheu uma bôa forquilha de pau e preparou a ar- primeiros remédios, o abandonaram aos azares do Des-
madilha, sapecando na espingarda uma grossa carga de tino.
"escumilha". Ao menor estalido de folha arrepiavam-se- —Se tiver de morrer, ninguém o salva !
Ihe os cebellos, e um frio estranho corria-lhe pela es-
pinha.
Medo? Mas elle nunca tivera medo de nada!... Resolveram então esperar. O que tivesse de acon-
tecer, aconteceria. E com resignação e serenidade espe-
raram a morte de Zeferino.
A luz hesitante da lua cheia escorria pelos galhos
espessos da matta, sem clarear o chão. Os troncos sec-
Os caboclos, escorados no portal ou sentados pe-
cos, emtraçados de cipó e embiras, erguiam-se para o los recantos da casa, "faziam quarto" ao moribundo.
_»*.•.•.•.•.•:*.•.«».•;•;*-•:•:_*••:»;• • • * • * • • » - • . # :• - • - • . * . » - • . « •
VERDE
fc.fc«*_*«<»i«».««««»*».»-«»^««^»-««««^-*'«r*w»-»»«:«"^^

Uma vez por outra, o café corria a roda. O silencio mys singelo de despedida. Depois, apertou a mão enregela-
terioso das solidóes amazônicas apagava os ruídos tristes da do defunto e exclamou a phrase clássica d'aquella
da casa humilde. De quando em vez, a dor de um ge- cerimonia cabocla:
mido arquejante dava balanços raotonos na rede do mo- —Adeus, Zeferino! até á outra vida!
ribundo. Não havia mais duvida; Zeferino ia mesmo Os demais parentes repetiram, com exactidão li-
morrer. thurgica, a despedida selvagem, dizendo as mesmas phra-
ses sacramentaes.
—Adeus, Zeferino t Até á outra vida !
— Xincuan já cantou no terreiro
O enterro partiu.
Ha muito o pássaro presago cantava horas a fio Os que ficaram em casa, contentes de ficar!- ven-
o seu canto de alegria:— Têtê-têtê... No dia em que do a montaria que levava o caixão sumir-se na curva
Zeferino adoeceu, porém, o bicho cantou como um agou- verde do igarapé grande, atiravam-lhe de longe mãos
ro o seu canto de morte. cheias de terra. E a supeitição de todos gritava como
—Xi-cu-an... uma só bocca :
—Tescunjuro ! —Adeus, Zeferino! fica-te por lá mil annos e dei-
Xicuan vera avisar. Zeferino ia morrer. xa a gente em paz!

Morreu. — E de que morreu o Zeferino, Malaquias ?


— Apois, o "muço" não sabe não?
— Dis que... um tiro de armadilha?
Entre velas de carnaúba, o moito jazia no meio —Achi! qual armadilha, qual nada, meu branco !
da sala estreita. O velho Valentim approximou-se, com Foi mau espirito! Zeferino desde que foi caçar na sex-
uma lentidão pesaroza, levantou o lenço de alcobaça que ta-feira santa, ficou possuído d'um mau espirito! Sabe
cobria o rosto livido do filho e articulou um palavriado como é ? Espritado, patrão !

PEREGRINO JÚNIOR

CANTO NOVO
O espirito suspende a lâmpada do encanto
no terraço do mundo.
Formas dormindo
carnes na rfua verdadeira atitude
quem definirá a estrela da manhã
sem a influencia de corpos multiplicados
tapando a vista dos problemas celestiaes ?
Luz eterna sobre a matéria
noite sobre o espirito
nacimento de idéias múltiplas
na arquitetura do previsto,
menina que vira flor
substancia que vira abstração
canto que vira dança
deus que morre numa cruz pra variar de essência
tudo me invoca pra ultrapassar minhas dimensões
ó elasticidade da minha memória
ó eternidade!

M U R I L L O M E N D E S
— 8
VERDE

O "VERDE > >

Meu boi surubim a serra está cachimbando !


Iuda hoDtem de tardinha sabiá estava cantando
Aquella moda que parece uma cantiga de ninar!

—Aquella moda que parece uma cantiga de ninar:

—Chove chuva
pra nascer capim,
prô Jíoi cumer,
prô boi sujar,
pra sabiá ciscar,
pra fazer seu ninho,
pru pôr seus ovos,
pra crias seus filhos,
chove chú. . v á á á á !

No peito das vacas mansas o leite estava minguando !


Os meninos lá por casa, coitados, se lastimando,
todos elles á mãe delles só pedindo pra mamar!

—Todos elles á mãe delles só pedindo pra mamar !

O Riacho-do-Navio torrado estava ficando !


No cercado palmatória depressinha se acabando !
Daqui a trez-15-dias grande era nosso penar

—Daqui a trez-lõ-dias grande era nosso penar !


Porem meu boi surubim a serra está cachimbando!
O "Verde" ja vem ahi pois sabiá estava cantando
aquella moda que parece uma cantiga de ninar !

- Aquella moda qne parece uma cantiga de ninar !

—Chove chuva
pra nascer capim,
prô boi cumer,
prô boi sujar,
pra sabiá ciscar,
pra fazer seu ninho,
pra por seus ovos,
pra. criar seus filhos,
chove c h ú . . . v á á á á !

A S C E N S O FERREIRA
ac«:_:A:*:«:*-»-*-»:*'*:*-*'*-»-*r«-***-*.-4aí. *:•:•:«:*;«.*.•,•.« u
VERDE _W*'WCT_3_.'W_.-_3_3_>V

ELOGIO DE VORONOFF
Si Voronoff y Fausto se hubieran conecido, to, le causaria tanta pena! No tanto Ia vejez,
gran amistad entre ambos naciera. Como sá- como su lascívia de viejo. Lo miraria como a
bios, y colegas, ai principio, muy cerimoniosa- un sarmiento reseco. Pero, Ia tentaciòn entraria
mente, platicarían de problemas de rejuvenici- funcionar, lentamente, en el alma de Voronoff, y
miento; luego irian a beber unas copas juntos como quien esta seguro de su êxito le empezaria
a Ia taberna de Auerbacb, y alli muy melancó- a hablar de Ia vejez y Ia juventud, en una es-
licamente, Fausto le contaria a Voronoff, sus pécie de sermón, lleno de comparaciones y pa-
apetitos insatisfechos de sábio libresco, que pasé ralleos. Luego. de Ia conciliación de ambas cosas:
toda su vida entre libros de magia y astrologia, se puede ser viejo de cuerpo, y joven de espi-
sin haber gozado nunca, dei placer de acariciar ritu, y por ultimo, se puede llegar a rejuvenecer
entre sus manos unos senos frechos de mucha- el cuerpo, tratando Ia atrophia de las células, y
chita en flor, Fausto, sonando con una margarita Ia arterio esclorosis, con Ia misma terapêutica,
no deshojada, se asemejaria bastante a um mono que um simple resfrié. Al final, Voronoff, llegaría
melancólico y lascivo, cuyos ademanes pornográ- de lleno a Ia cuestiòn, le habalaría de las glân-
ficos causan asco. Y seria, de contemplar, como dulas de mono, de sus excelências de rejuvene-
el grave Doctor Fausto, iba perdiendo su se- cimiento, y Voronoff, que se embarca en nm
riedad doctoral para pláticar, como um sim pie trasatlantico, en compafiía de viente monos, no
inozo de mulas, ante el apetito que le provoca tendría inconveniente, en embarcarlo ai Dr. Faus-
unas piernas regordotas de campesina. to, para rejuvenecerlo.
Hasta tanto llega Ia pobreza vital, dei doctor Momento final: el Dr Voronoff, le hace
Fausto, que dejó transcurrir su existência, entre firmar un vale con su sangre ai Dr. Fausto, co-
lecturas astrológicas y cálculos matemáticos ! bran dele cien francos por cada dia de vida que
Voronoff, ante el doctor Fausto se sentiria le proporcione.
un poço Mefistofele8. El Dr Fausto, no es sino un banquero en-
Al principio vacilaria en hacerle una prn- riquecido.
posición deshonesta. La vejez dei pobre Dr Faus- ILDEFONSO PEREDA VALDES
Montevideo

ASCANIO LOPES
Nos últimos dias do meu grande amigo eu fugia dele. E porque fugia ? Fugia pra não
chorar e pra não vêl-o chorar.
Poucas vezes fui visital-o. E como êle me recebia triste! Zangava-se comigo porque eu
andava sumido. Não aparecia pra jogar o xadrez... Eu me desculpava como podia. A distancia.
As minhas ocupações.. Mas não era nada disso não, Ascanio, que me fazia andar sumido. Era
a dôr que eu sentia vendo Você magro, ardendo em febre, deitado na sua cama branquinha como
a sua alma bôa, sem poder vir comigo pra cidade, pra passear. Eu imaginava, Ascanio, qne
Você, intimamente, devia sofrer muito quando nòs, os seus companheiros, iamos á sua casa visi-
tal-o. Depois que nòs saiamos o seu pensamento vinha conosco e com Você ficava uma tristeza
grande, não era assim, Ascanio? Era assim que eu pensava, e não podia deixar de ser assim.
Era assim mesmo porque Você gostava muito de nòs. Um dia sua mãesinha (que bôa que ela
é!) reparou a minha ausência e me censurou. E você me defendeu, não foi, Ascanio ? Ela mes-
ma foi quem me contou. E eu sei que a sua defesa foi sincera, porque Você nunca deixou
de ser sincero e bom. E como eu agradeço a sua bondade, meu amigo, meu bom amigo, meu
grande amigo.

M A R T I N S M E N D E S
10 —
VERDE

ASCANIO

Durante a caminhada eu vim pensando na ultima viagem que fize-


mos juntos. O meu companheiro estava alegre. Alegria sem barulho que se
demorava um tempão a perceber nele. Continuava sorrindo nas mãos da
leitura.
Agora olho pro jornal azaranzado. Precisa-se de tudo. Os pequenos
anúncios estão recheiados. E eu quasi gritei: careço de um amigo como
você, Ascanio, pra viajar, viajar...
Este carro deve conhecer muita historia triste. Desde os que vieram
procurar o clima benigno, como você fez, até os que vieram buscar reser-
vas de serenidade, feição marcante da sua vida. Serenidade nascida em ou-
tra terra. Armou um contraste com éla pra dar tempo de se desenvolver
mais cedo, que o corpo não queria. Nesse carro Ascanio pensou amarga-
mente um punhado de vezes. E me lembro: aqui mesmo você me contou
uma enfieira de coisas bonitas, caminheiras antigas do seu espirito. Não
poude levar todas até lá. Também a vida passou na ligeireza.
íamos pro meio do mundo daquela crônica sentida. Estranhei os ver-
sos ditos pela sua própria boca. Desde catatauzinho tínhamos as nossas
conversas. Não gostava de lêr coisa alguma pra se ouvir. Pois nesse dia
leu e até com ternura. Fiquei sem compreender.
Amigo: sua viagem se não foi demorada como esta ao menos dei-
xou na gente imagens bem vivas.
Não quero me lembrar dessas coisas agora. Tenho medo. E aqueles
olhos de além vida, como você me viu no dia da sua ultima viagem, não
me largaram até hoje. Pouco antes de amortecer a espressão deles você
me falou :
—Tenho muita coisa pra te dizer... mas não posso.
Eu não posso também. Vou lêr devagarinho como você gostava um
pedaço do Sanatório escrito com a mão cançada.
"Estes olhos angustiados que me rodeam
— olhos de pae, de mãe, de irmão,
estão cansados da vigília noturna
e anseiam pela manhã que tarde...
...pela manhã que tarda como o milagre
que eles esperam, mas não virá..."

A gente adivinha que éla foi obrigada a obedecer.

G u i l h i e r m i n o C é s a r
— 11 —
VE1
t *._.».O.•-«.»-to-».».* fc_.».».--.«--J-J»-«J--«'«*--:--~-*' ^»-•-«-•-«

I N É D
SANATÓRIO
Logo, quando os corredores ficarem vazios,
e todo o Sanatório adormecer,
a febre dos físicos entrará no meu quarto
trazida de manso pela mão da noite.
Então minha testa começará a arder,
todo meu corpo magro sofrerá.
E eu rolarei ansiado no leito
com o peito opresso e de garganta seca.
Lá fora haverá um vento máo
e as arvores sacudidas darão medo.
Ah! os meus olhos brilharão, procurando
a Morte que quer entrar no meu quarto.
Os meus olhos brilharão como os da fera
que defende a entrada de seu fofo.

O M
Senhor, acreditei nos deusi
de bronze e descri de Vós,
E Vossa Omnisciencia não
Senhor, dirigi meus passa
e minhas mãos se macula
E Vossa Omnipotencia nâf

Senhor, como quereis agibr

A C A N I O
ííDE

I T O S
AS ESTRELAS
Ele enamorou-se das estrelas e quiz possuil-as.
E começou a construir uma torre para alcançal-as.
Mas quanto mais a torre crecia no ar
mais longe ficava o céo inatingível
e as estrelas cada vez brilhavam mais.
Um dia, quando a torre estava enorme, fina, alta
e o céo tão longe e as estrelas tão altas
elle desanimou e poz-se a chorar.
E debruçou-se no alto da torre alta.
Mas deu um grito de dor
porque, lá embaixo, embaixo, as estrelas brilhavam mais
no espelho das águas paradas.

1AO
ses de ouro e
s.
i me iluminou.
fs para o mal
am no sangue e no furto,
Í me deteve.
ra condemnar-me ?

L O P K
• . ' . * . * : • _ . » : » ' » . * . * * r _•.»:••*••-*•«•_-* • . » • _ . _ - * » • * * _ * _ ! • , • • • ' • • * • • . » - » •
VERDE
i:*:».*.«.«.«.«ji.<i_aa:»

ASCANIO
Nós tínhamos precisão de levantar cedo pra assistir ás primeiras
aulas. O encontro se dava quasi sempre na Avenida e então a gente ia
proseando e chutando distraidamente tudo quanto era de chutar pelo cami-
nho afora.
Ascanio não carregava livros e ficava calado, escutando zombador
as converas ou mexendo com os outros, de vez em quando. E ria muito,
que êle gostava muito de rir.
„Eu tinha inveja das suas pernas ligeiramente cambotas—indício cer-
to de ^notáveis qualidades futebolescas—e, sem que ninguém desse por isso,
entortava um pouquinho as minhas gâmbias também, olhando sempre com
sofreguidão prá bolinha de pano que empinava o bolso dele. Nesse tempo
eu chocava uma partida de futebol, acho que por causa de Ascanio. Mas
nem eu nem êle nunca demos direito prá coisa. Principalmente eu que so-
fria como uma besta, chegando em casa todos os dias arranhado, escala-
vrado, cheio de caneladas, porém glorioso por todo mundo se admirar da.
minha falta de medo. Ninguém avançava no dono da bola, lá muito posu-
do na sua posição de béque. A única coisa que lhe acontecia era bater o
sinal e êle entrar na aula afoqueado, passando o lenço no rosto, um pouco
atrazado por causa de ter custado a parar com o joguinho.
Então Ascanio se sentava, espichando o pescoço prá acompanhar a
leitura no livro do visinho.
—Seu Ascanio Lopes, adiante.
Cruzava as pernas, tirava uma linhada em volta e depois, fincando
o dedão grande debaixo do queixo e alisando com os outros dedos a testa
e a sombrancelha cerrada, lia com uma voz de quem está sendo chatiado:

D. Diègue

O ragef ô desespoir! ô vieitlese ennemiel


Wai-je donc tant vêcu que pour cette infamie ?
Et ne suis-je blanchi dans les travaux guerriers
Que pour voir en un jour flétrir tant de lauriers ?

—Seu Peixoto não está prestando atenção, não é? Adiante! Já não


falei que não quero conversas aqui dentro?
Ascanio lá na cadeira dele fungava, segurando o riso com o lenço,
gosando como um perdido a bruta chamada.

P E I X O T O
— 14 —
VERDE

A S P I R A Ç Ã O

DE tardinha, assim pelo crepúsculo,


os cotovellos esfolando o parapeito,
o polegar direito entre as paginas rabiscadas
do romance tão triste emprestado por elle,
os olhos sem pupillas virados pro infinito,
ella pensa, com medo de assumptar,
que pensando bem não éra máu
que elle, aliás tão bonzinho,
mudasse de repente,
e egualzinho ao Octavio do livro,
ficasse capaz de fazer ella soffrer
todas aquellas desgraças dolorosas também.

WALTER BENEVIDES

POEMA PARA MANOEL BANDEIRA

No terreiro daquela casa,


daquela casa isolada, perdida no mato,
só tem roupa preta estendida, secando:
palitósinhos de meninos que não com-
preenderam bem o que
aconteceu,
miniaturas de vestidos,
lenços de tarja,
e umas roupas grandes, de serviço, do
dono da casa.

E' que um urubu, Manoel Bandeira, pou-


sou na cumieira daque-
la casa...

H e n r i q u e de R e s e n d e
— 15 —
VERDE

O MAL DO PARNASIANISMO
TRES POETAS

Bem pensado, o mal dos parnasianos, do ponto raes do sentimento commum. Aquella é a poesia dos ra-
de vista psychologico, foi um mal de cansaço. Fadiga ros. Essa, a poesia de todos. Em nome dessa é que
de themas explorados. Enfaro de rimas selectas. Esgo- pleiteiam os estilizadores de assumptos populares. Sobre-
tamento do esforço em prol de uma belleza que, sem tudo, os modernistas que repellem os acurados tons aris-
ser a Belleza, tinha todos os visos da approximação... tocráticos da forma parnasiana, para adoptar, mais ou
Luiz Delphino, Raymundo Correia, Luiz Murat, Alberto menos modificadas, as formas symbolisticas, de que de-
de Oliveira, Olavo Bilac, sem hierarchias classificatorias, rivam, como em artigo mais largo, já tive opportunida-
padeceram desse mal que lavrou, como escola, longo de de apontar. Para exemplificação do que fica dito,
tempo, na cadeia de nossa evolução litteraria. Cansa- tratemos, hoje, de três poetas que, differentes nos seus
ram todos. Olavo Bilac, então, chegou, nos seus últi- temperamentos e distanciados nas suas technicas, com-
mos arrancos lyricos do "Tarde" a confessar, estarreci- provam o estado evolucional da poesia dos exímios ver-
do, em frente da cidade inviolável do perfeito. sejadores para a dos simples poetas espontâneos. São
elles Roberto Gil, com o "Verbo das Sombras", Ernesto
Nunca entrarei jamais o teu recinto : de Albuquerque, com o "Intermundios''. e Rosário Fusco,
com o "Fruta de Conde"

ROBERTO OIL (Rio)


E, á noite, á luz dos astros, a horas mortas,
Rondo-te, e arquejo, e choro, ó cidadella ! Com o chamar de exímio versejador a um pceta
Como um bárbaro uivando ás tuas portas ! que tem os méritos intellectuaes de Roberto Gil, não
desprimoro em nada a natureza dos seus cantos. Não é
Se não era um grito sonoro de renuncia aos mol- traçar categorias nomear os poetas por mero desejo de
des exhaustos do parnasianismo que começava agonizar, methodo. Bellos, podem ser beilos, todos os versos, a
era, tacitamente, um appello á "delicia das coisas im- cada consideração do seu tempo. "Verbo das Sombras",
perfeitas", como aquelle de Ulysses, de Eça, em face de por exemplo: poemas de Roberto G 1, publicados na épo-
Calipsos. Mais humano, portanto. De outra parte, o v e - ca dos parnasianos, estudados á luz dos credos vigentes
zo do rebuscamento emphatico entrou por dissiminar-se da escola, são bellos, por que não? São até perfeitos. Não
entre os eternos imitadores de todos os corypheus. Da- ha, desse ponto de vista, que censura-los no rigor da
quelles mestres, que marcaram época, surdiu uma fami- métrica, no aprumo das linhas, na excellencia dos moti-
lia innumeravel de perfeicionantes do verso, com tanta vos. E, ainda, sobre trabalhados a buril, revestem cores
e tamanha fúria copista, que tornou mais intolerável, pe- estranhas de uma aspiração pouco achadiça entre os pró-
la monotonia rithmica, o typo das estrophes equilibra- prios cultores da mesma esthetica Apenas não excedem,
das em alexandrinos solennes, com arrastamentos melo posto que não raro igualham, aos primores artísticos dos
dicos de realejo de cegos. Não era possivel durar a mestres do gênero entre nós. Esta desvantagem que col-
monomania da perfeição. Tinha que falhar o culto ex- loca os discípulos em situação de nunca ultrapassarem
tremo da palavra rara. Tanto mais quanto, a titulo des- os mestres, pesa no destino dos que, por inadvertencia
se culto, aliás perdoavel, nos grandes, pavonearam as ou incompreensão da nossa hora, ainda queiram revi-
gralhas do parnaso, matraqueando tropos que não pas- ver formas extinctas da arte do verso. Tudo evoluciona.
savam de ecos daquellas tubas magestosas. Se alguns, E aquellas "bellezas" pararam em attitudes de estatuaria
por índole sincera de enamorados da arte pela arte, ven- de museu. Sobre immoveis, são inimitáveis. Sobre fixadas,
ceram louros, não quer isto dizer que valham ainda os são inexcediveis. Para que então insistir na copia das cur-
processos creadcs pelos iniciadores, que fizeram o seu vas divinas? Os grandes "achados" não se repetem. Princi-
possivel, encheram o seu mundo, lavraram o seu tento. palmente, em arte. Ficam sós,.únicos, solitários. Roberto
Não é mais para ser seguidos, nem imitados. Creio mes Gil, porém, tem uma grande hypoihese a seu favor. E' que
mo que não ha no momento quem escreva versos com os seus versos, conquanto editados agora, não parece fo-
propósitos de perfeição. Está provado que a poesia não ram agora escriptos. O desaccordo apparente de sua sen-
está ahi. Não está propriamente no verso. E não é ver- sibilidade com o gosto dominante da poesia actual, está,
dade de hoje. Já Ramalho Ortigão, estudando Casimiro portanto, num retrato do tempo de publicação. Causa ma-
de Abreu, no afan de justificar um poeta inferior a cer- terial. Insignificante causa, que é bem possivel desappare-
tas razões e, por outras, superior, teve evasivas que va- ça com uma nova colheita de versos feitos a moderna, o
lem verdades irrefutáveis. Dizia o critico, discernindo o que não é improvável pela força creadora do seu engenho
capricho e a espontaneidade do trabalho mental: "A cre- poético, certamente capaz, e com grandes vantagens da
ação intellectual pôde em tal conjectura não ser rigoro- experiência lyrica, de producções que valham os louvo-
samente métrica, mas poética ha de ser, por força. E an- res coherentes da nossa época de transição. São os nos-
tes isso: antes a poesia sem o verso do que o verso sem sos votos.
a poesia; antes verdadeiramente poeta pelo coração do
que exímio versejador pela cabeça." O facto é que ha ERNESTO DE ALBUQUERQUE
poesia também no capricho das formas intellectuaes. E (Pernambuco)
não foi outra a poesia parnasiana. Mas poesia que cedo
se esgotou, como tudo que não colhe das fontes natu- Ernesto de Albuquerque, figura exemplar de pen

10 —
VERDE
_P»» «_•••-• ••••--•--TT-r*r*«*i—-T-——-—--•—•—-—•—•-•--•—------

sador em versos, também claudica do mesmo atrazo es- ROSÁRIO FUSCO (Minas)
thetico de Roberto Gil. E o mesmo se disse de Rober-
to, quando á belleza á luz do seu tempo, se pôde dizer Ora, vejam que alegrlo confortável de rilhmos
de Ernesto. Ambos, parnasianos. Ambos, adoradores da liberrimos nesses versos de Rosário Fusco, o menino de
forma impeccavel. Iguaes em escola, mas diversificados oiro da poesia nova de Cataguazes :
em planos de inspiração. Pois enquanto Roberto esco-
lhe as "sombras" para os seus motivos, Ernesto prefere De derredor os matos cochilavam no sereno
os "astros" para os seus vôos. Ha nisso um mérito de com a madrugada de coqueiros altos abanando.
distincção, que muito as honra. Nem as "sombras" con- Nem um pio de caboré. Só um ventinho do norte
seguiram abafar os brilhos de talento de Roberto, nem acalentava o sono dos biguás.
os "astros" chegaram a cegar os sentidos de Ernesto.
Sem trocadilho, podemos concluir pelo fulgor das "som- W a paisagem brasileira num traço. Cheira a fo-
bras" de um contrastando, com as sombras dos "astros" lhas verdes molhadas de orvalho nocturno. Cheira bem
do outro. Porque Roberto é ágil, é crente, é optimista, como os recantos tranquillos de fazenda. Rosário Fusco
e Ernesto é moroso, melancolco, pessimista. Não sei interioriza no verso um mundo de emoções nativas. Bom,
dos dois quem mais tem razão no paradoxo das coisas. como poucos. Para evocar o mato, o rio, a serra, a gen-
Se Roberto, quando "sombrio" descreve alegrias, se Er- te, a villa, todo o nosso lindo bocado de terra florida,
nesto, quando "astral" descreve "tristezas". Sei que am- corre, salta, vôa por cima de cânones estheticos, estilis-
bos valem como interpretes de antinomias irreconcilia- mos e canceiras theoricas, bolindo nas águas que can-
veis, ora de ordem subjectiva, quanto ás preferencias de tam, assombrando os ninhos, solapando as arvores, des-
formulas anachronicas de versejar, ora de ordem obje- pencando os frutos. Sae agora com uma "Fruta de Con-
ctiva quanto á escolha de rumos oppostos de plastieiza- de" em punho, ainda fresca e nova dos ramos piolados
ção poética. Ernesto é um altanado sonhador de mun- da selva. Um prazer essa "fruta":
dos. Chamarn-se-lhes os versos de "Intermundios", Titulo
bem adequado. Nem mais, nem menos que a moldura
exacta de um observador do "universo astronômico", que Você se lembra. Rosa,
chega a nomear, alto, num dos seus lyricos arroubos: da casa da gente em São Geraldo ?
(o terreiro limpinho.. •
Nos sidereos confins inaecessiveis a. gangorra... o araçá-..)
Pervagam nebulosas verdadeiras
E falsas nebulosas redi/ctiveis, Você se lembra, Rosa,
Como bando de nevoas forasteiras. dos brinquedos engraçados de nós dois ?
(eu era o marido
Mas aquém, os esphericos planetas você a mulher...)
Entre as alternativas dos ecli/pses,
Delineiam nas orbitas secretas Você se lembra, Rosa,
O traçado invisível das ellipses- do dia do casamento da boneca
de você
Como um throno vasto, soberano, na. casa de vovô, perto do rio ?
Em sen percurso natural dititurno,
Estão Marte, Neptuno, Terra, Urano,
Mercúrio, Venus. Júpiter, Saturno. Você se lembra. Rosa,
do circo que fizemos no terreiro ?
Nem sempre, porém, fica a sua arte nessa singela Naquella noite de frio
enumeração "astral" O poeta possue a nevrose das al- você vestiu meu palito
turas, mas não deixa de ser introspectivo ; e desandou a rir átôa !

Mas o meu ser nesta razão se encerra : Eu sei muito bem, Rosa,
— Ter vagando no espaço o pensamento que você se lembra disso tudo.
Subordinado ao coração na terra. Que bom — não é Rosai—
a gente se lembrar. •.
Está-se vendo que ha na poesia de Ernesto de
Albuquerque intenção philosophica. E sobrasse espaço,
teria gosto em demonstrar que philosophia de bom qui- Para que maior naturalidade em poesias evocati-
late. Porque inspirada da dôr humana, de que seu es- vas da infância ? Ha, ainda, outras, como "Maria Estra-
tro se faz interprete em varias das suas melhores pro» deira", "Poema", "Lyrica" e as duas "Fazendas", que
ducçOes. Sinceridade que captiva pelo sabor de pureza são trechos flagrantes da natureza em fôrma de arte
em que se expande existe a valer na maioria dos poe- moderna. Rosário Fusco, dia a dia, cresce no prestigio
mas de "Intermundios", "Phantasia", "Diva", "Scismas", mágico de surpreender novos aspectos da lyrica ensai-
"Anathema,'l "Do Alto'', "O Problema", são títulos de ante do momento. "Fruta de Conde" é mesmo um dos
honra para um poeta parnasiano. Para um modernista, melhores e mais saborosos frutos dessa renovação Ty-
não. Questões do tempo... picamente brasileira. Brasileiríssima.

a 1 o C n a n i o

— 17 -
VERDE » » . w - V * * . • . * . » * - • - • . • * . * • • - • » •* «»-«*

FEIRA DE AMOSTRAS

POESIA o sorriso, quando tudo é grave em volta.. E lam-


bem que só se sente grave quando tndo ri em
torno delia. A poesia, que... nenhum poeta sabe
o que é, que foje qnando tentamos definil-a, que
Sim, a delicia da vida, apesar de tudo, é nos persegue quando não pensamos nella e esca-
sempre a infância. E a infância vive em nós, por pa de nossas mãos qnando justamente pensava-
toda a vida. Não é só aos dez annos qne temos mos captural-a. Que é um momento feliz do es-
dez annos. Em todas as idades podemos ter dez pirito, uma aza capturada ou livre ou ferida. E
annos. Porque a infância continda a viver em sempre, no fundo, a janella que abrimos no quar-
nós. Não é o tempo que a consome. Somos nós, to em que dorme a criança interior. E que tan-
muitas vezes, somos nós quasi sempre qne a não tas vezes é silenciosa. E tantas vezes se fecha
sabemos preservar. E que matamos em nós a cri- entre rede subtis, em laços que só alguns raros
ança que vive na sombra. A criança que só pe- sabem desatar, e que a maioria não vê, e que a
de ura pouco de liberdade, um pouco de esqueci- maioria não sente e nega a pés juntos que um
mento do adulto, para voltar a sacudir a arvore laço tão cego possa esconder alguma coisa de
dos frutos pecos, com que os annos cobrem a tão luminoso.. (Ler é muitas vezes a arte de
nossa vida. Á criança que deixamos viver tran- desfazer nós cegos).
cada em nós, entre as quatro paredes das coisas E a poesia é também, quasi sempre a arte
ásperas, das coisas tristes, das coisas frias, com de refazer o roysterio que a vida desfez. Porque
que vamos murando lentamente a nossa infância, ella é sempre qualquer coisa de avesso ao senti-
reclnsa, sim, mas não perdida. do da vida. Não ao senso da vida. Mas ao sen-
O homem é uma criança que se ignora. E tido, isto é, á direcção da vida. A poesia não é
dahi o que ha de immenso nesse immenso para- uma cessação da vida. Ao contrario. O poeta não
doxo christão de adorar ua Criança a suprema faz parar a vida. Accelera a vida. Mas accelera,
verdade. Nós mesmos, inúteis pesquisadores de remontando o curso da vida. A poesia não se-
verdades parciaes, capturadores de raios esquivos gue a direcção do tempo. Ella é justamente a
de belleza, que vivemos a distillar essências raras fôrma mais subtil de voltar ao arrepio do tempo.
á procura de perfumes estranhos de outros ares De subir a corrente. De refluir para a fonte. De
ou então, pelo contrario, a mutilar dia a dia as negar, portanto, essa unanimidade intima com que
azas que pedem espaço, e vento, e azul,—nós ve- caminhamos para o prosaismo, para o envelheci-
mos quando muito na infância a belleza encon- mento, para a chrystalização.
trada, ou a doçura perdida ou a saudade ou um
eonsolo.
Mas quando subimos, quando forçamos os
círculos de limitação quando chegamos á plenitu- TIRANDELLO
de christã—qne para tantos que não querem ver
é uma restricção de realidade — sentimos como
ainda é pouco o que sozinhos conseguíramos e Pirandello é o mais inhumano dos homens.
que ha na criança, na claridade infantil, qualquer Para Pirandello o homem não existe. Não no
coisa de mais alto que o simples encanto da gra- sentido em que não existia para Joseph de Ma-
ça e da belleza; o encanto da verdade. is tre. De Maistre, como também Gobineau, dizia
Mas a poesia, que é em nós a preservação ter encontrado em sua vida muitos francezes, mui-
da infância, a poesia o que procura é justamente tos allemães, muitos russos, mas nunca ter en-
esse milagre de renovação pela graça e pela fres- contrado—o homem.
cura. Pirandello vae além. Não encontrou nem
A poesia, que é o inútil em nós, quando mesmo esse homera-nação :—francez, russo ou al-
tndo nos fala da ntilidade de tudo... A poesia, lemão; nem mesmo o homem-profissão :—pedrei-
que é a necessidade do supérfluo, quando só pen- ro, banqueiro ou estadista; nem mesmo o homem-
samos em coisas necessárias... A poesia, que é caracter:—intellectual, affectivo ou artista. Piran-
o tempo perdido quando vivemos a roer o tempo dello nunca encontrou homem de espécie alguma.
do somno para ganhar tempo. A poesia, que é O homem para elle é um mytho. O homem

18 —
* : • , • ; » **:«•-•:•.'!»-*.«•.•«
VERDE

é uma abstracção. 0 homem não existe para Pi- são. Elle assiste á sua própria desarticulação,
randello. Só existem os estados de espirito. mas não se submette a ella.
E nisso está, talvez, a maior originalidade E dahi a tragédia do homem pirandelliano.
do seu theatro, e de toda a sua obra, em geral. Pois queiram on não os seus detractores, como
Toda a tragédia antiga, todos os mysterios me- os detractores de Proust,—já se pode hoje falar
dievaes, todo o drama clássico, todo o theatro de um ser proustiano, ou de um ser pirandelliano,
shakespeareano, todas as peças românticas, natu- como se falava de um caracter corneliano ou de
talistas ou symbolistas são fundadas sobre a exis- uma heroina raciniana.
rencia do homem. Escravo da Fatalidade, na Gré- Se o homem pirandelliano não é todo o ho-
cia; servo de Deus, na Idade Media; dilacerado mem moderno, longe disso,—é uma parte do ho-
de paixões, no século XVII; na plenitude de sua mem moderno, o mesmo que Proust dissecou im-
haroanidadc complexa, com Shakespeare; alando- piedosamente, o mesmo que Freud revelou em
se na hypertrophia do seu «eu», com o theatro suas sondagens. O erro, como sempre, é tomar a
romântico; reduzido a ura elo na cadeia do deter- parte pelo todo. É generalizar logo. Como hoje
minismo da natureza mais. sórdida com o natura- em dia se faz a torto e a direito.
lismo; pairando em imagens e reticências subje- Um dos caracteres de nossa época é justa-
ctivas com o symbolismo;—sempre, ao longo da mente a facilidade com que se universalizam to-
historia literária, o homem existiu no centro, na das as coisas. Um homem atravessa voando o
base, ou no segundo plano da obra de arte. Mas Atlântico. Logo se precipitam cem outros para
sempre existiu. Foi sempre—o homem. Foi mais fazer o mesmo. E é a hecatombe.
ou menos homem, mas nunca deixou de o ser. Outr'ora, nos tempos em que não havia Liga
Com Pirandello a coisa mudou. O homem das Nações, nem pactos de não aggressão, nem
desapparece. Não para que os homens desappa- promessaa lyricas de paz universal, nem radio-te-
reçara. Não para que appareça, como na pintura, lephonia,—as guerras se faziam entre exércitos
uma natureza morta ou o mundo de outros seres. profissionaes como um jogo de xadrez quasi po-
Rostand,—o «art-nouveau» do theatro de ha vin- lido, sem que os homens alheios ás armas se im-
te annos, ephemero e vasio como o «art-nouveau» portassem muito com as vicissitudes da guerra
da architectura dessa época sem personalidade quasi permanentes. Hoje, quando os homens se
com que se abriu este nosso alluciuante século amam lyricamente, quando toda a sorte de con-
XX,—Rostand também fez uma peça só de ani gressos approxima dia a dia toda a sorte de ho-
mães. Como Maeterlinck, de seres irreaes. Como mens, e vivemos todos em familia nesta terrazi-
Gil Vicente punha em scena Virtudes e Vicios. nha de distancias insignificantes,—as guerras são
O que Santo Anchieta transportou para as nos- cataclysmas universaes. E o ultimo projecto de
sas selvas. conscripção militar do partido socialista francez,
Sim. Podemos encontrar ao longo de todo o partido da religião do progresso, propõe a mo-
o theatro humano esse apparecimento de outros bilização total, inclusive mulheres e crianças!
seres, de outras encarnações de qualidades mo- Suppõe-se acabar com as guerras pelo excesso do
raes, de outras espécies animaes em scena. seu horror. Assim como quem cortasse a cabeça
para curar uma dor de dentes.
Mas o que Pirandello fez não foi isso. Elle
anniquilou o homem, não por abolir os homens, O que se dá hoje com o sport, ou com a
mas desarticulando de todo o ser humano. Todos politica internacional, dá-se também com as idéas.
os romances de Piraudello, todas essas suas admi- Freud, por exemplo, faz analyses interessantíssi-
ráveis novellas curtas, que constituem a estructu- mas do sub-consciente. E revelou a predominân-
ra fundamental de sua obra, todo o seu theatro cia sensível do instincto sexnal, coisa aliás que
assentam nessa completa desarticulação do ho- a Igreja sabia ha muitos séculos, pois nos con-
mem. O homem desapparece para apparecerem fissionarios de uma capella passam diariamente
em seu logar os fragmentos do homem. O homem mais revelações da alma humana, que em todas
passa a ser um mosaico. Desapparece o ser or- as experiências psycho-analyticas publicadas pela
gânico e funccional; desapparece o ser composto «Imago», desde a sua fundação.
de alma e corpo, desapparece a unidade, a fusão, Frend, porém, só via as novas verdades que
a concatenação, para surgirem apenas os blocos descobrira e passou de um jacto do sexualismo
do mosaico humano. ou pansexualismo. Pois, desde que o Grande-Pan
Seria, porém, muito simples e muito ingê- merreu, começaram a pullular os pequenos p a n s . . .
nuo se apenas fosse isso. Mas o homem, que Pi- O que se deu com Frend dá-se diariamente
randello anuiqnila não se resigna a essa suppres- com todas as idéas que suigem, a cada minuto,

— 19 —
VERDE
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neste nosso mundo exasperado, que de tantas pensamento e ao sentimento. E converter em


idéas qne tem já não sabe como pensar. «acção» o pensamento,—applicar a um objecto,
Tal e qual os homens de Pirandello. a um ser, a uma «essência», emfim o sentimento.
O erro de Pirandello será o de todos nós. Pirandello, portanto, está no limite do «pon-
Querer fazer de nosso canto todo um universo. cif». A's vezes em pleno. Todas as verdades
De nossa verdade, toda a verdade. E' Pirandello parciaes se convertem em «poncif» ao pretende-
voltando-se contra si mesmo. E' Pirandello anni- rem converter-se em verdades totaes. Assim o
quilando-se pelo próprio extremo de sua obser- relativismo psychologico de Pirandello. A sua ne-
vação. Prova demais e portanto prova contra as gação da immanencia e da transcedencia. A sua
próprias provas. delectação na apparencia.
O relativismo do homem-mosaico, do ho- Digo mal, aliás, delectação. Todo o thea-
mem-raomento, do homem-estado de alma, que- tro, toda a humanidade pirandelliana, é perfeita-
rendo generalizar-se, querendo converter-se em mente, é essencialmente—trágica. Não ha prazer
absoluto, nega-se a si mesmo. algum nessa permanência no desarticulado. Nessa
!Se os homens fossem apenas aquelles seres vertigem dos limites da razão. Ha sempre a con-
contingentes, contradictorios, inattingiveis que sciência terrível de uma terrível tragédia interior.
Pirandello nos revela, se «o homem» realmente O mundo pirandelliano,—e talvez por isso
não existisse como um universo dentro do uni- é que o sinto tão profundamente, é que hoje co-
verso, como um todo dentro de outro todo, e não mo ha quatro annos repito que nada, no palco,
simplesmente como parte desse todo exterior,— despertou em mim um tal sentimento de angustia
então Pirandello não teria originalidade alguma. como esses «Seis Personagens em busca de Au-
Errando é que Pirandello acerta. E' porque os tor», que marcam ura momento capital no theatro
homens não são apenas o que Pirandello nos diz de todos os tempos e de todos os povos,—o mun-
do homem, é porque o homem pirandelliano não do pirandelliano é um mundo abandonado.
é «todo» o homem, e sim a excepção, por isso Não um mundo que se abandona. O homem
mesmo é que a arte de Pirandello tem razão. quotidiano, o homem despreoccupado, o homem
E dahi deriva, como disse, a tragédia do pae de familia honrado ou filho de familia desa-
homem pirandelliano. trelado, o homem que ainda hoje em dia pode
E* porque mesmo no theatro ou no roman- rir-se, sem sentir no fundo do espirito um ranger
ce pirandelliano, o homem guarda a consciência de caveiras,—esse homem bemaventurado sim é
de si mesmo, que não ha apenas paradoxo e ar- o homem que se abandona, que se deixa ir, que
tificio nessa arte de artifícios e paradoxos. vive, como dizem as personagens de Valery Lar-
O homem é a um tempo unidade e multi- baud, «a godersela».
plicidade. Desde que o homem medita sobre si,
que procura resolver esse insoluvel. Discutem os Não é de fôrma alguma o homem pirandel-
philosophos hoje em dia em torno do «Parmeni- liano.
des» de Platão como o próprio Platão discutiu o Este não, não se resigna ao abandono. «Sen-
problena do Uno ou do Múltiplo. te-se abandonado», o que é coisa muito diversa.
Supprimir qualquer desses dois pólos huma- E a tragédia é muito maior. Vê a contingência
nos seria mutilar o homem. em todas as coisas, mas não se resigna á con-
O que hoje em dia se faz, o que ha na tingência. Vê o accaso, como um louco inconsci-
arte de hoje muitas vezes, como se vê em Proust, ente, distribuindo golpes ás cegas e não acredita
em Joyce, em Fargue ou nesse mesmo Pirandel- no accaso-Accaso. Vê a obliqüidade fatal dos
lo, é a observação mais attenta do múltiplo, quan- instinctos, mordendo todo o «puro» do universo
do até hoje se pensou mais vivamente em obser- como um ácido morde o mais puro dos aços, e
var o uno. O homem não desapparece nem se não se submette ao instincto. Vê a alegria ma-
artificializa, por se conhecer. Embora seja certo culada de dissolução, vê os ímpetos mais desin-
que começamos a nos conhecer demais, ou a pen- teressados em perpetua dilaceração reciproca, vê
sar que começamos a nos conhecer demais. E as- os homens fechados entre si, fechados em si mes-
sim por deante. O homem de hoje pensa demais. mos, incomprehendidos e incomprehensiveis, vê
Ou pelo menos, ha um homem, hoje em dia, que tudo isso, vê todo esse abandono, e no entanto
pensa demais e que acaba descobrindo que o não pode mais entreabir se num sorriso de des-
pensamento puro é uma cadeia sem fim. É que, prendimento e quando ri, é de esquecimento ou
se o que faz a liberdade do homem é justamente de sarcasmo.
essa possibilidade de pensar e seutir sem fim, o O homem pirandelliano é esse ser que se
que faz a sua grandeza é descobrir um fira ao sente abandonado. E dahi o que ha de terrivel-

— 20
VERDE

mente trágico no fundo de todo esse fogo de ar- cultura. O século XIX acreditou no progresso in-
tificio . definido «do homem» e da «sua» civilização. Ho-
Sim, a arte moderna, no que ella tem de je ainda ha muito quem acredite no progresso
menos intecionalmente moderno, isto é,. a arte indefinido do «homem» e da «civilização». Mas
que nasce realmente do nosso tempo, desta época não ha, ao menos entre os que pensam e os que
assombrosa que vivemos,— essa arte que é um vivem, quem acredite no progresso indefinido do
romance de ÃValdo Frank ou uma peça de Piran- homem e da civilização «do século XIX».
dello, um poema de Léon Paul Fargue ou uma E da mesma fôrma que Spengler quebrou
pagina de Joyce, um conto de Virgínia Wolf ou essa illusão da linha recta em que vivia a super-
uma novella de Julien Green, toda essa arte ani- cultura do século passado, Pirandello quebrou a
mada, como bem disse Robert Honnert «de re- illusão da estabilidade do super-homem desse sé-
volte et de pureté», desde o dogmatismo mais culo. Um desmontou o orgulho de todo um mun-
orthodoxo de Maritain, até as imprecações mais do de idéas, o outro desarticulou a prentensão
blasphematorias de Louis Aragon, no «Paysan de toda uma architectura humana.
de Paris» ou de Henri Lefebvre nas paginas re- E não ha arbítrio algum em approximar o
volucionárias do «Espirit»—todo esse pensamento propheta da decadência da super cultura oeciden-
toda essa arte moderna, que os críticos superfi- tal do propheta da decadência do super-homem
ciaes chamam de exgotada, ou de falsa, ou de Occidental, pois ambos, além do mais, professam
insensível, reflecte esse ttrrivel sentimento de a mesma philosophia da contingência, como diz
abandono que nos mata. E' uma arte profunda- Spengler:—«A humanidade náo tem nenhum obje-
mente grave. Urna arte profundamente trágica. ctivo, nenhuma idéa, nenhum plano, como não o
Os mais fracos, toda a mésse dos inquietos têm as espécies das borboletas ou das orchydeas.
ou dos delicados, bem como toda a fauna dos A humanidade é uma palavra vasia» (Die Unt.
personagens pirandellescos, ficam na angustia in- des Abendl. I, 28). Tal e qual Pirandello.
cessante desse isolamento, dessa dilaceração, des- Terão ambos ido além do seu objectivo, e
se abandono. Os mais fortes reagem, triturando- errado profundamente, por excesso, sou o primei-
se ou triturando os demais. Mas nenhum deixa ro a reconhecer. Terão ambos levado ao extremo
de sentir em si essa onda que parece por vezes a mania da generalização, tão nossa, tão sécu-
asphyxiar o homem moderno. lo XX.
Pirandello, portanto, não é o artificio, não Mas o incontestável é que tanto um como
é o paradoxo. Pirandello, como disse admiravel- outro quebraram uma estruetura que parecia eter-
mente o seu melhor biographo, o «melhor» no na, e nos deixaram perplexos, desesperados mas,
dizer do próprio Pirandello em entrevista que talvez, quem sabe, mais humanizados pela sup-
dava aqui ha poucos dias («Walter Starkie» — pressão de uma fé excessiva no «Homem» e na
Luigi Pirandello. Londres, 1926, pgs. 229 e segs.) «Cultura». Estaremos talvez mais próximos do
ó—«a Saliência do super-homem». Starkie mostra homem culto, depois que deixamos de crer no
como a analogia que geralmente se encontra en- dogma intangível do Super-Homem e da Super-
tre Pirandello e Shaw pode ser apenas uma ana- Cultura. E, sobretudo, mais próximos talvez da
logia de contrários. Shaw c um homem que acre- Verdade.
dita na natureza, no homem, no mundo, no pro-
gresso,— «his wit is Puritan, for it is paiufully TRISTÃO DE ATHAYDE
conscious of the final fact in the universe». Ao
passo que Pirandello só vê a inconsistência por
todos os lados,—seu mundo é formado pela deusa Fica, com a transcrição que hoje ofere-
do accaso. E Starkie lembra, para applicar aos cemos aos nossos leitores dos capítulos "Poesia"
dois dramaturgos, a comparação feita por Ches- e ''Pirandello" extraídos dos "estudos" (2?. se-
rie) de Tristão de Athayde, inaugurada a nos-
terton no seu livro sobre Shaw : «O homem que sa feira mensal de amostras dos melhores livros
vê a consistência em todas as coisas é um ho- de autores nacionais que nos forem remetidos,
mem de espirito («is a wit») e um Calvinista. O além da apreciação que deles taremos na com-
homem que vê a inconsistência nas coisas é um petente seção.
humorista e um Catholico». Pretendemos, com isso, contribuir— embora
modestamente, para a mais intensa propagan-
da do livro brasileiro; não só entre nós, mas
também—e principalmente, em todos os demais
paizes sul-amei-icanos onde ''verde" circula.
Pirandello é a fallencia do super-homem, no
século XX, como Spengler é a fallencia da super- N. da R.

oi
a.:»-»--^B^;_ ••:»:»•-•:••••*•:• *;••«.•**-•:••*••-•••-*:*•.(•-•:*:*
VERDE
K«#H-#*.t.«.««.«*.>i:*«:»:fl:«'.f^u.«.t.*.fA«;f.««.«.*fi«:«t.f:«.«.t.*.t.^^

o A Í N A 1 0 J A . 1 0 —poemas inéditos de Ascanio Lopes- aparecerá bre-


vemente em primoroso volume, editado por "verde" e acrescido (além das pa-
ginas de saudade que ora publicamos em homenagem ao morto querido)
de um pequeno estudo sobre o poeta, notas biográficas etc.

JOSÉ DE ALENCAR JACKSON


Passou a 2 de maio o centenário ... Jackson de Figueiredo possuía
do nascimento do grande romancista a suprema alegria de admirar. Este
brasileiro, José Martiniano de Alencar. prodígio de emoções jamais teve a
Para nós outros que alentamos a mes-
ma inquietação natural, a mesma ân- mesquinhez de negar o testemunho da
sia de brasilidade que foi a constante sua admiração aos escriptores e artis-
obsessão do maravilhoso poeta de Ira- tas, de que estava separado pelos idé-
cema, não poderia passar despercebido
esse grande acontecimento. aes. Entendia-se com elles em uma inef-
Paisagista abominável, mas sem- favel zona de sensibilidade esthetica.
pre imaginoso, Alencar foi um esban- Tal homem, tal pensador, tal escri-
jador de pensamentos adimiraveis em
péssimo estilo de comparações quasi ptor, faz uma falta considerável á in-
sempre infelizes, como era o seu. E telligencia brasileira. Era um extraor-
si, pela força de poetar, perderam suas dinário estimulante intellectual. Os
personagens muito da realidade, ga- seus proselytos perderam um chefe
nharam, de outro modo pela facilida-
de com que as retemos na memória. maravilhoso, incomparavel no fervor
Pery, Cecy, Iracema são typos da acção. Os seus antagonistas não
imortaes, que valem por si sós, sem terão mais o encanto quotidiano dos
ezagero, toda uma literatura. seus escriptos de circumstancia, em
Não fosse, porem, Alencar o ani-
mador dessas figuras e, talvez, a essa que se consubstanciava uma doutrina
hora—já o teríamos esquecido... dogmática, forte, esplendidamente or-
ganisada, a provocar a replica e o per-
petuo debate.
Para os seus amigos que melan-
colia na saudade de tanta mocidade,
de tanto fulgor, de tanto coração.

GRAÇA ARANHA

- 22 -
VERDE
r.*.».* «í.»,».*.»ii.».i.»».**j

M O V I M E N T O
dos os moços do mundo, têm que sofrer a lei
A propósito das notas de Cataguazes, publica-
das por Henrique de Resende em n° d' O Jornal de
da espera. Si continuarem influenciados toda a
vida, serão nulidades. Si fizerem originalidade á
7—4-929, Mario de Andrade escreveu no Diário força, se cabotinisaráo. Talvez movimentem um
Nacional de São Paulo (n? de 9—4—929) as se- bocado a túnica da nossa Musa porém náo será
guintes palavras que achamos oportuno trans- por isso que lhe darão um pensamento a mais.
crever : Têm que esperar que nem eu mesmo esperei me
debatendo num estreitíssimo Primeiro Andar. E
«Henrique de Resende, pelo numero de do- outros cabiculos inda mais inconfessáveis..
mingo d* "O Jornal", teve um geitinho de per-
guntar si eu estava de acordo com ele a respeito
da possivel influência exercida por um escritor MARIO DE ANDRADE»
paulista sobre os poetas modernos de Catagua-
zes. Estou.
O que eu censuro é Henrique de Resende
estar perdendo tempo com mesquinharia tamanha.
Isso não é assunto com que a gente se amole E,«stá no prelo
o Compêndio da Historia da
em jornal. Simplesmente porquê náo tem impor- Música, de Mario de Andrade.
tância nenhuma. Não é possivel a gente conce-
ber a formação dum espirito sem influências, fru-
to unicamente de Cataguazes como existe influ-
ência dos moços de Cataguazes leis de psicolo-
gia. Quanto á originalidade, si historicamente ela
é duma importância capital na evolução das artes,
A,
llvaro Moreyra anuncia para já o apareci-
mento de Circo (poemas), edição Pimenta de Melo.
ela não tem nenhum valor conceituai na verifica-
ção da obra-prima. E pensando no dilúvio de es-
píritos que nem bem surgiram, desapareceram já,
sem dar o que prometiam ao movimento moder-
no brasileiro, tenho certeza que pra muitos foi a
vaidade pifia de originalidade que os desarmou.
I or todo fim de julho ou principio de agos-
to sairá Poesias de Henrique de Resende.
Se calaram por uma deficiência que era falsa! O volume virá acompanhado de uma noticia
Existe influência do tal escritor paulista so- histórica sobre o movimento verde de Catagua-
bre os moços de Cataguazes como existe influ- zes—por Renato de Almeida, um dos mais ilus-
ência dos moços de Cataguazes sobre esse escri- tres escritores da moderna geração brasileira.
tor paulista. Maior do que imaginam, muito maior.
E mais elevada principalmente, não se resumindo
a uma simples e desimportante aceitação de ca-
coetes gramaticais. Essa influência reciproca foi
a bonita das amizades sinceras, carteadeiras, che-
ias de sinceridades, até brutas certas feitas. Isso
I lelativo aos mêzes de dezembro e janeiro
acaba de sair o n° especial (2 e 3) de arco e
foi o que o mundo não poude ver e não gosou. flecha—a revista dos novos da Bahia.
Porém o que o mundo náo viu e podia ver Publica: um esplendido artigo de Chiacchio,
é que também o escritor paulista andou muito es- poesias de Carvalho Filho, Eugênio Gomes, Pinto
tudando os criadores de "Verde'' Catou neles de Águia, ( deste também um magnifico estúdio),
os boleios sintéticos e as vozes populares que es- noticiário etc.
sa rapaziada foi a primeira a registrar, e quando
ocasião chegou, andou tudo empregando nos es-
critos dele.
E si um ou dois moços de Cataguazes nu-
ma ou noutra poesia ficaram exatinhamente o es-
critor paulista escrevendo, quero saber só que
A revista de antropofagia aparece agora ás
quartas-feira como suplemento literário do Diário
importância tem isso ! Esses moços tal-e-qual to- de S. Paulo.

23
VERDE

Perillo Gomes, é em homenagem a memória de

_ , A<Io Hque soubemos a Phebo Brasil Filme de


..,
Cataguazes ja iniciou os preparativos para a fil-
seu fundador-Jakson d e , F i g ° e i r ^ d ° ; ... T p m p
Traz colaboração de D. Sebastião Leme,
C o n t r e i r a 8 R o d r i g u e 8 * R o n a i d , Graça Aranha, Peril-
magem de bangue Novo, sob a direção de Hum- lo G o _ e g ^ . ^ d e A t h a y d e > c l a u d i o Qans, Au-
berto Mauro. gusto Schmidt, Tristão da Cunha, Tasso da Silveira,
Luís Soroa que fez o galan de Braza Dor- * • Q B e de Hüllanda> A!ra.
J 5
mtda terá papel secundário neste filme. QJO P e i x o t o e outr OS-

(| n° de março d' A Ordem a esplendida re- Movimento Brasileiro já está no seu 5° n"
vista de cultura religiosa que se publica no Rio de y a m o 8 i
Janeiro sob as vistas de Tristão de Athayde e

B I B L I O G R A F I A
RECEBIDOS

Tristão de Athayde: "estudos" Edição Terra de Humberto Zarrilii—: "Libro de Imagens" Edição
Sol—Rio—928. do Autor. Montevideo—928

Mario de Andrade : "Ensaio Sobre Música Brasi- A a t o n i o d e Alcântara Machado : "Laranja da Chi-
leira" Edição Chiarato—S. Paulo —928. na»> 3 Paulo 928.
Paulo Prado: "Retrato do Brasil" Edição May-
enca g Paulo 9 9 8 Ascenso Ferreira: "Catimbó 2. edição. Recue—
V
" 928.
Tasso da Silveira : "Alegria Criadora'' Edição Ter-
ra de Sol—Rio—928. Mario de Andrade : "Macunaíma"—S. Paulo—928
Rosário Fusco : "Fruta de Conde'' Edição de
Alba de Mello: "Espelho de Loja" Edição Tisi— Verde-Cataguazes—929.
S. Paulo—929.
Guilhermino César e Fco. Inácio Peixoto: "Meia Carvalho Filho: " R o n d a s " - B a h i a - 9 2 8 .
pataca'' Edição Verde—Cataguazes—928.
Manoel Maia Júnior.: "da tristeza resignada"—
Martins de Oliveira: "Pátria Morena"—S. Paulo Anta—Edição Rio—929.
—928.

VERDE TEM AS SUAS PAGINAS ABERTAS A


TODOS OS NOVOS DO BRASIL E DO MUNDO.

- 24
RENATO DE
ALMEIDA

- ANUNCIE -
AQUI O PRÓXIMO MOVIMENTO V E R D E aparece
APARECIMENTO todos os meses
BRASILEIRO
DE S E U L I V R O
REVISTA. ANO- 11 $000
DE CRITICA EX.— 1$000
E
INFORMAÇÃO
Toda e qualquer cor-
respondência d e v e r á
CONDE
DE IRA.IA, 1 17
ser dirigida a Rosário
RIO Fusco cel. vieira, 53.

ALCEU AMOROSO A LBA DE CARLOS CHIACCHIO


LIMA (T. de A.) MELLO CARVALHO FILHO
e
TINTO DE AGUIAR
P E R I L L O (i O M K S

A ORDEM ESPELHO ARCO E


REVISTA DE FLEXA
DE CULTURA LOJA REVISTA
RELIGIOSA
CRÔNICAS DE ARTE NOVA

RODRKiO SILVA, 7 s. PAfr.o BARRIS, 5fi

RIO 1929 BU1IA


Quando V S. precisar de
impressos feitos a capri-
cho, lembre-se da
A BRASILEIRA
de

CATAGUAZES
M
( editora de verde " )

FONE
55
Rua cel. João Duarte, 16 a 22