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VERDE, Cesário. Manias. In . Poesias completas de Cesário Verde.

Rio de
Janeiro: Ediouro, 1987.1
Gong Li Cheng2

José Joaquim Cesário Verde (1855–1886) foi um dos poetas mais


proeminentes da literatura portuguesa do século XIX, situado pela crítica como
pertencente à estética modernista, precursora dos romancistas realistas,
especialmente Eça de Queiroz. Cabe destacar a capacidade deste poeta em
materializar percepções subjetivas em objetivas, através de uma “literatura
panorâmica”, Cesário consegue encontrar símiles da derrocada do povo lusitano em
imagens da urbe e de personae, que nos remetem ao processo de transição da
modernidade europeia (industrialização e abertura de monopólios), basta recordar
“O sentimento dum ocidental”. Mesmo que não tenha escrito em prosa, o poeta
conseguiu capitar aspectos psicológicos da sociedade em seus versos. Como
comenta Helder Macedo em Nós: uma leitura de Cesário Verde,

Com efeito, é a própria natureza do que habitualmente é entendido como


poético que Cesário revoluciona num discurso que, ao transpor a tradicional
subjectividade do lirismo na expressão objectivada de um ‘eu’ funcional
(como o das personagens do romance realista), torna a poesia lírica num
instrumento tão capaz de observação concreta e de comentário social
quanto a prosa realista sua contemporânea (1999, p. 20).

Nesta resenha, pretendemos analisar o poema “Manias”, com o intuito de


ressaltar as técnicas narrativas incorporadas em seu fazer poético. Técnicas estas
que ratificam sua capacidade descritivo-imagética, que o aproximam da escrita
alegórica.

O mundo é velha cena ensangüentada.


Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, – hoje uma ossada –,


Que amava certa dama pedantesca,

1
Resenha crítica elaborada para a disciplina de Literatura Portuguesa II, ministrada pelo Prof. MSc. Jorge
Augusto Balestero (UEMS-UUCG).
2
Graduanda de Licenciatura em Letras – Português, Espanhol e suas Literaturas, da UEMS-UUCG.
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância, quixotesca.

Aos domingos a déia, já rugosa,


Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,


Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
(Cesário Verde, 1987).

Em sua raiz grega, manía, traz a noção de loucura ou obsessão por alguma
coisa, que faz com que as pessoas repitam uma ação incessantemente. E, se
pensarmos no mito de Sísifo, alegorizado por Albert Camus, a repetição pode ser
caracterizada como um castigo, ou uma imposição. No Hades, Sísifo tem de
carregar uma pedra gigantesca até o monte para, imediatamente, voltar à planície e
repetir todo o trajeto. A modernidade em Cesário apresenta o mesmo teor de
inadequação e incapacidade de sair do automatismo do cotidiano.
Desta forma, a primeira estrofe do poema contextualiza o mundo e a vida nos
quais “um bom rapaz”, “na sujeição canina mais submissa”, enamora-se de uma
velhaca, perversa e, no entanto, beata fervorosa. A ironia do narrador evidencia as
condições desta sociedade mesquinha, de valores burgueses. Que se quer “cheia
de jactância, quixotesca” como um véu que encobre a avareza de suas atitudes
receosas para com o Outro. Além disso, a semântica grotesca de seus adjetivos
corrobora para capturarmos estas figuras.

Os elementos grotescos ou surreais na imagística de Cesário podem


também ser explicados por uma preocupação de captar modulações de
uma realidade dinâmica, mesmo para além dos limites naturais da
percepção imediata, já que a distorção produzida pelas imagens grotescas
e surreais revela aspectos da realidade inacessíveis à consciência normal
(MACEDO, 1999, p. 22).

Observa-se, dessa forma, que a imagem do casal grotesco, de “selvagem


tragédia romanesca” chama atenção para uma problemática que passa
despercebida pela suposta limitação das consciências alheias. Encontrando motivos
objetivos na caracterização dessas personae para revelar a banalização ética, que
uma sociedade corroída engendra.

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