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A PERIODIZAÇÃO LITERÁRIA

- A literatura situa-se forçosamente no devir temporal e no transcurso histórico. As obras


literárias, porém, não se inserem no discurso temporal de modo fortuito, nem como uma
gigantesca coleção de indivíduos absolutamente alheios uns aos outros.

- É lógico que os historiadores e os estudiosos do fenômeno literário, movidos por


autênticas exigências críticas, ou, algumas vezes, por razões meramente didáticas, tenham
procurado estabelecer determinadas divisões e batizadas no domínio vastíssimo da
literatura.

- Tem de reconhecer-se, todavia, que as tentativas levadas a efeito no campo da


periodização literária apresentam, muitas vezes, acentuada heterogeneidade e carência de
fundamentação.

- O século é uma unidade estritamente cronológica, cujo início e cujo término não
determinam forçosamente a eclosão ou a morte de movimentos artísticos, de estruturas
literárias, de idéias estéticas, etc.

- Tão inconsistente como a divisão em séculos da história literária, revela-se a fixação dos
períodos literários segundo acontecimentos políticos ou sociais: “literatura do reinado de
Luís XIV”, “literatura elisabetana” ou “vitoriana”, etc. Este enfeudamento da história literária
à história geral, política ou social – enfeudamento que já durou muitos anos e que ainda
persiste –, radical numa concepção viciada do fenômeno literário: este é entendido como
uma espécie de epifenômeno dos fatores políticos e sociais, e portanto como um elemento
carecente de autonomia e desenvolvimento próprio.

- A atitude nominalista é uma atitude cética que reduz a história literária a um acervo
assignificativo, desconhecendo um aspecto essencial da atividade literária: a existência de
estruturas genéricas que, sob múltiplos pontos de vista, possibilitam a obra individualizada.

- Paul Valéry, exprimindo este ceticismo, escreveu (Mauvaises pensées) que é impossível
pensar seriamente com vocábulos como “classicismo”, “romantismo”, “humanismo” e
“realismo”, pois que ninguém mata a sede ou se embriaga com os rótulos das garrafas.

- O ceticismo de uma concepção nominalista dos períodos literários é compreensível, dada


a licenciosa utilização que tem sido feita de palavras como “classicismo”, “romantismo”,
“realismo”, etc. Quando muitos críticos falam do movimento romântico introduzido por S.
Paulo no pensamento grego, ou na textura e na essência românticas da Odisséia, ou
quando afirmam que o romantismo “nasceu no jardim do Éden” e que “a serpente foi o
primeiro romântico”, é compreensível que um estudioso como o Prof. Arthur Lovejoy
escreva que “a palavra romântico chegou a significar tantas coisas que, por si própria, não
significa nada. Deixou de realizar a função de um signo verbal”.

- É necessário escolher critérios literários para fundamentar e definir os períodos literários,


evitando a intromissão perturbadora de esquemas e classificações originários da política,
da sociologia, da religião, etc. O ponto de partida terá de ser a própria realidade histórica
da literatura, as doutrinas, as experiências e as obras literárias, para não se tombar,
precisamente, no nominalismo ou no metafisicismo.

- Parece-nos que o Prof. René Wellek encontrou o caminho justo, ao definir o período
literário como “uma seção de tempo dominada por um sistema de normas, convenções e
padrões literários, cuja introdução, difusão, diversificação, integração e desaparecimento
podem ser seguidos por nós”. Esta definição apresenta o período literário como uma
“categoria histórica” ou como uma “idéia reguladora”, excluindo quer a tendência
nominalista, quer a tendência metafísica, pois os caracteres distintivos de cada período
estão enraizados na própria realidade literária e são indissociáveis de um determinado
processo histórico.

- Assim fundamentada, a periodização literária não se confunde com qualquer espécie de


tipologia literária, de teor psicológico ou filosófico, visto que os esquemas tipológicos
desconhecem a historicidade dos valores literários.

- Na definição proposta por René Wellek, o período é definido por um “sistema de normas,
convenções e padrões literários”, isto é, por uma convergência organizada de elementos, e
não por um único elemento. O romantismo, por exemplo, é constituído por uma
constelação de traços – hipertrofia do eu, conceito de imaginação criadora, irracionalismo,
pessimismo, anseio de evasão, etc, - e não por um único traço.

- Cada um dos elementos formativos da estética romântica pode ter existido anteriormente,
isolado ou integrado noutro sistema de valores estéticos, sem que tal fato implique a
existência de romantismo nos séculos XVI ou XVII, por exemplo.

- Falar de romantismo a propósito de Eurípedes, Shakespeare, etc., representa um asserto


desprovido de sentido histórico e de rigor crítico, mesmo quando se acrescenta ao
vocábulo “romantismo” uma expressão como avant la lettre ou outra semelhante.

- A definição de Wellek claramente demonstra que o conceito de período literário não se


identifica com uma mera divisão cronológica, pois cada período se define pelo predomínio,
e não pela vigência absoluta e exclusivista, de determinados valores.

- Um período não se caracteriza por uma perfeita homogeneidade estilística, mas pela
prevalência de um determinado estilo.

- O historiador italiano Eugenio Battisti diz que “a possibilidade de reduzir tudo a poucos e
simples conceitos é um mito metodológico, somente fruto da ignorância ou da preguiça”.

- Na França, por exemplo, durante o século XVII, coexistem um estilo barroco e um estilo
clássico, com caracteres diferentes e até opostos, mas apresentando freqüentes
interferências mútuas.

- O conceito de período literário, tal como o entendemos, implica ainda outra consequência
muito importante: os períodos não se sucedem de modo rígido e linear, como se fossem
entidades discretas, blocos monolíticos justapostos, mas sucedem-se através de zonas
difusas de imbricação e de interpenetração.
- O processo de formação e desenvolvimento de um período literário é vagaroso e
complexo, subsistindo em cada período novo, em grau variável, elementos do período
anterior. No romantismo persistem elementos neoclássicos, como persistem no realismo
elementos românticos.

- A utilização de datas precisas para assinalar o fim de um período e o início de outro,


como se tratasse de marcos a separar dois terrenos contíguos, não possui valor crítico,
apenas lhe podendo ser atribuída uma simples função de balizagem, como que a indicar
um momento particularmente representativo na aparição de um período.

- O estudo da periodização literária exige uma perspectiva comparativa, pois os grandes


períodos literários, como a Renascença, o maneirismo, o barroco, o classicismo, o
romantismo, etc., não são exclusivos de uma determinada literatura nacional, abrangendo
antes as diferentes literaturas européias e americanas, embora não se manifestem em
cada uma delas na mesma data e do mesmo modo.