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O Impulso de Carneiro!

Hoje dá-se o Equinócio da Primavera, e é aqui que tudo começa, com Carneiro!
Começar é precisamente a tarefa deste signo. E para começar algo é necessário ousadia, coragem,
determinação. Carneiro simboliza o impulso primordial da manifestação, a vontade de existir, o desejo
irresistível que leva a semente a brotar do seu estado de plenitude e união e a lançar-se na aventura da
vida.

A energia de Carneiro é explosiva e inelutável. É


como o fósforo que ao ser friccionado se inflama e
liberta toda a sua energia num momento apoteótico.
É o big-bang da criação. Este é um processo que, uma
vez iniciado, não pode ser parado, contido, negado.
Daí o “não” ser uma palavra proibida para Carneiro.
Negar a expressão da sua vontade é negar a sua
própria essência, o seu propósito de existir.

A impulsividade irreflectida de Carneiro tem a sua


razão de ser. Pensar demasiado nas consequências
das nossas acções pode impedir-nos de agir
livremente, de forma espontânea e clara. No entanto,
avançar cegamente, sem olhar onde pisamos e para
onde nos dirigimos, pode conduzir à destruição e ao
sofrimento, é verdade… Mas Carneiro não se pode
permitir a imprudência da hesitação. Seja de que
maneira for, Carneiro seguirá em frente. Levantar-se-á quantas vezes cair, com a mesma pureza no
olhar, com o mesmo entusiasmo da primeira vez. Porque essa é a sua função: lutar e vencer. Porque a
vida não pode parar e do seu impulso inicial tudo depende.

A agressividade é um elemento essencial à vida. Não poderá existir evolução nem individuação sem
luta, sem conflito. O corpo que habitamos é fruto de incontáveis ciclos de aperfeiçoamento, de tentativa
e erro. Existir é uma dádiva conquistada. E a nossa vida neste mundo começa desde logo com uma
corrida, onde apenas o primeiro tem a oportunidade de Ser.
Vivemos numa sociedade bipolarizada no que respeita à agressividade. De um lado vemos a
competição levada ao limite, numa cultura de supremacia dos mais fortes, em que assistimos
diariamente ao espectáculo da violência, nas suas mais requintadas formas; e de outro lado surge uma
condenação moral e ética que parece idealizar a erradicação de tudo o que possa significar conflito,
como se Civilização implicasse a castração de todo o impulso de
afirmação do Ego. É o eterno tema da integração dos opostos…
O Ego, que desponta em Carneiro, atinge a sua maturação
em Leão e se transmuta em Sagitário, é necessariamente o
centro agregador que permite a manifestação de uma
personalidade funcional e sã, que possa ser um adequado
veículo para o Espírito.

Marte é o planeta regente de Carneiro. Deus da guerra, era


pouco considerado pelos gregos (Ares) que o tinham
essencialmente como símbolo da violência, da força bruta
desprovida de razão, sendo retratado nos mitos em episódios
humilhantes, devido ao seu carácter primitivo. É com os romanos que Marte adquire um papel mais
dignificante e civilizado, aparecendo ligado também à agricultura. Devido à sua cultura militar, os
romanos viam neste deus uma personificação construtiva da agressividade, como protecção, defesa,
assertividade e virilidade. Assim, astrologicamente este planeta simboliza a nossa faculdade de
afirmação pessoal, a nossa libido, a energia que nos impulsiona a agir, a conquistarmos os nossos
objectivos e a defendermo-nos daquilo que nos ameaça. Este aspecto da nossa psique está intimamente
associado ao arquétipo de Carneiro e por isso presente em todos nós.

Este início de Primavera promete ser intenso e desafiante, já que a entrada do Sol em Carneiro irá
activar Úrano, presente nos primeiros graus deste signo. Úrano em Carneiro traz-nos uma inquietação
individual crescente face a uma sociedade despersonalizada e estandardizada.
Necessitamos urgentemente de encontrar formas criativas de afirmar a nossa individualidade, pois é
o impulso particular de cada um de nós, na sua especificidade única, que constitui o agente fecundador
do colectivo.

No início de mais um ciclo astrológico anual, celebremos o despontar da vida, a força, a coragem e a
luz pura de Carneiro.

Touro: A Arte de Sentir / O Prazer de Ser

Segundo Leonardo da Vinci, os sentidos


são os guias da Alma. Palavras de um
Artista, palavras de um Touro.
Ver, tocar, ouvir, cheirar, saborear… e
talvez ainda um outro sexto sentido: eis o
território de Touro.

É através dos sentidos que nos


relacionamos com o mundo. Eles são os
portais que permitem a comunicação entre
o espírito e a matéria. E o papel de Touro é
estabelecer e aprimorar essa ponte.
O prazer que as sensações físicas nos
devolvem tem como propósito ancorar o
espírito na matéria. Não se trata de um
engodo, de um artifício diabólico destinado
a obscurecer o espírito numa eterna prisão
de separatividade.
O prazer é o grande incentivo à vida, um propulsor que nos lança na aventura da experiência, da
evolução, da criação. E se o prazer assume as mais variadas formas de complexidade e subtileza, o
prazer dos sentidos é a sua manifestação primordial. As primeiras sensações de prazer físico que
experimentamos, muito presentes no acto da amamentação, imprimem em nós valores estruturais,
como a segurança, a abundância, a relação. E é precisamente a questão dos valores estruturais da
personalidade que está na essência do arquétipo de Touro, de um ponto de vista psicológico.
Viver plenamente este arquétipo, requer abraçar totalmente a experiência material sem perdermos
a ligação à nossa essência transcendente. Implica amar a encarnação, celebrar a vida terrena e usufruir
dos prazeres que ela nos proporciona, saborear boa comida, cuidar do corpo e da aparência, estimular a
sensualidade, refinar o toque, o beijo, o abraço… E nesse caminho descobrir o potencial criativo da
matéria, descobrir a Arte, quer como fruidor quer mesmo como criador.
Mas este é um percurso de fácil perdição. O prazer, tornado culto, vira indulgência. A inércia pode
tomar o lugar da actividade criativa. E a segurança não vir a ser mais que uma teimosa desculpa para
fincar pé, recusando os desafios, resistindo ao fluxo da vida.
Perante a dificuldade de percorrer este caminho pejado de atractivos logros, surge muitas vezes a
culpa e a negação dos prazeres materiais como algo indigno e desprovido de luz, tornando assim a vida
num fardo de castigo.
Como em tudo nesta realidade dual, o segredo está no arquétipo do signo oposto: Escorpião. Em
doses homeopáticas mas consistentes, Touro deve aceitar a crise e a ruptura em momentos chave,
abrindo espaço a transformações que permitirão manter sã a estrutura, por vezes bem pesada, que
sustenta.

O planeta Vénus é regente de Touro. Nada menos que a


deusa do amor e do prazer sensual. Casada com Vulcano, o
ferreiro dos deuses olímpicos, o mito deste improvável casal
ilustra profundamente o arquétipo de Touro.
Vénus nasceu da espuma do falo castrado de Úrano. Trazida
pelas ondas do mar deu à costa, bela e incomparável. Por sua
vez, feio e deformado, Vulcano desenvolveu talentos de
suprema mestria na procura de compensar os seus fracos
atributos de nascença. Como tal, os objectos que fabricava,
com extrema perfeição e requinte, eram cobiçados por todos
os seus pares.
Enquanto Vénus representa o reconhecimento e usufruto dos dons naturais e inatos, Vulcano ilustra
o trabalho interno na conquista do auto-valor e na exteriorização das capacidades criativas. Ou seja,
ambas as dimensões do processo de desenvolvimento Taurino.

Para Touro é extremamente importante a concretização material, seja pela construção ou pela
aquisição. Rodear-se daquilo que valoriza é para este signo um meio de consolidar a sua identidade. As
coisas que possuímos, as roupas que usamos, os Cd’s e os livros que coleccionamos nas prateleiras,
falam de nós. O que gostamos e valorizamos está directamente ligado ao que somos. E Touro gosta de
manter próximo de si tudo o que a si está ligado.

Muitas vezes tido como “materialista”, o papel deste signo prende-se de facto com a necessidade de
concretizar, em forma palpável, os desígnios do espírito. Assim, a visão espiritual de Touro não está
focada num ideal projectado numa realidade subtil e incorpórea. Mais do que sonhar com o Paraíso,
Touro está investido em materializa-lo, aqui, agora.

Gémeos: o Um que é Dois, que são o Três…

Estamos no terceiro mês de Primavera e o Sol entra no terceiro signo do Zodíaco: Gémeos. E
tratando-se de Gémeos, era imperativo nomear este artigo com um trocadilho. O jogo das palavras é o
deleite deste signo…
Como o nome indica, Gémeos são dois. Na mitologia
clássica, são dois irmãos, Castor e Pólux, seres idênticos,
espelho um do outro. Um é filho de Tíndaro, rei de Esparta, e
outro de Zeus, soberano dos deuses. Um é mortal, filho do
Homem, e o outro imortal de divina paternidade.
Esta dualidade simbólica é presente em todos nós: somos
Um, mas divididos entre o Céu e a Terra. Somos filhos da
matéria enquanto corpo mas a nossa essência é espiritual.
Mas, tal como no mito dos dois irmãos, é a ascendência divina
que prevalece, resgatando da morte a sua contraparte terrena
(perante a morte de Castor, Pólux partilha com este a sua
imortalidade).

Da interacção entre dois princípios, surge um terceiro. E


aqui temos esta sagrada matemática: o Um, que se
desmultiplica no Dois, que produz o Três. O princípio espiritual
de Carneiro, reflectido na materialidade concreta de Touro,
encontra em Gémeos a síntese através da Mente. Gémeos é
portanto o nascimento da Mente, uma mente ainda superficial, centrada no fluxo da informação.
É aqui a alvorada da Palavra. E com ela podemos nomear, falar, aprender… Gémeos tem fome de
informação e sede de comunicar. Quer tudo saber, tudo abarcar. A sua mente é uma biblioteca de
factos, de curiosidades, de pequenos apontamentos enciclopédicos. O seu saber é pouco profundo,
naturalmente, mas extraordinariamente abrangente. E assim deve ser, neste estágio inicial, em que é
preciso experimentar, testar, deixar a curiosidade tomar o leme da descoberta.

Mercúrio (Hermes) é o planeta regente de Gémeos. Deus das


trocas e do comércio, das rotas e das viagens, ele é o mensageiro
dos deuses. A sua função é estabelecer pontes e engendrar
soluções nas quais a sua inteligência astuta e engenhosa
sobressai. Mercúrio é extremamente multifacetado e versátil, ao
ponto do mimetismo. Ele simboliza a mente geminiana, capaz de
tomar a forma de tudo aquilo que toca. A forma, mas não a
essência…
Apesar do imenso poder que a sua inteligência lhe concede,
Mercúrio revela um carácter algo infantil nas suas motivações
próprias, que não vão muito além da curiosidade e do gozo lúdico
do puzzle mental. Ele está sempre presente, cumprindo tarefas essenciais, mas invariavelmente ao
serviço de directivas superiores. E é de facto este o papel da mente racional/prática que todos
possuímos: estar ao serviço da vontade superior do Eu, executando tarefas, estabelecendo ligações,
comunicando, aprendendo. E quando digo do Eu, digo também do Projecto Colectivo.

O estágio de Gémeos concede ao Homem esta extraordinária ferramenta que é a mente. E o desafio,
mais uma vez, é a integração: desenvolver o intelecto sem nos perdermos na sua engenhosa teia de
simulacros.
A Verdade não é do domínio da mente mercuriana. Chegar à verdade requer silêncio… para ouvir. E
o silêncio é a maior conquista de Gémeos. Nas palavras de Pessoa, Gémeos ele próprio: “Há tanta
suavidade em nada se dizer e tudo se entender…”
A água e o Caranguejo

É chegado o Verão e o Sol ingressa em


Caranguejo. Sendo a primeira água do zodíaco, este
signo simboliza o despontar das emoções e é desta
forma que o espírito se liga completamente à
matéria, através do vínculo emocional. Caranguejo é
o último dos signos pessoais e representa a etapa
final na construção da personalidade, onde tem
origem o corpo emocional.
Se em Gémeos a mente nos permite produzir
informação acerca da experiência, é o corpo
emocional que nos vincula a essa informação através
de uma qualidade subjectiva – o sentimento.
A etapa de Caranguejo é um momento crítico no
percurso zodiacal. A partir do grau zero de Carneiro
até ao grau zero de Caranguejo percorremos
noventa graus, formando aquilo que em Astrologia se chama uma quadratura (derivada da divisão do
círculo em quatro), um aspecto de grande tensão dinâmica. É uma fase crítica, pois é aqui, no colo das
águas de Caranguejo, que a encarnação se consuma e o parto acontece. Recordo o filme “City of Angels”
(1998) em que um anjo se torna humano e encarna ao ligar-se emocionalmente a uma mulher – o
espírito “cai” definitivamente na matéria, mas ingressa num novo caminho de consciência pelo
despertar dos sentimentos.
Caranguejo está assim profundamente associado ao mistério do nascimento. Se pensarmos
simbolicamente no cordão umbilical, é ele que nos liga à mãe, é através dele que somos nutridos. Da
mesma forma, é a capacidade emocional que se estabelece em Caranguejo, que nos liga às nossas
origens, ao passado das nossas experiências, das nossas vivências anteriores, constituindo uma memória
individual.
Assim, é a introdução do elemento água no processo de desenvolvimento que possibilita o registo
biográfico da experiência individual. Sem ela não poderia existir continuidade, não haveria crescimento
ou evolução, nem seria possível a criação de uma identidade própria e única – precisamente o que o
signo seguinte, Leão, representa.
E se é nestas águas primordiais de Caranguejo que estabelecemos a ligação emocional à existência, é
depois no oceano de Peixes que dissolvemos este vínculo individual à memória das nossas experiências,
entregando-as totalmente ao arquivo colectivo e abdicando da identidade pessoal para mergulharmos
uma vez mais na unidade transcendente.

O regente de Caranguejo é a Lua. Nela vemos reflectida a luz


do Sol de forma mutável e periódica. O seu ciclo simboliza o
processo de crescimento em si, dividindo em quatro fases:
absorção, expansão, assimilação e libertação. Começando na
Lua Nova, assistimos progressivamente a um incremento de luz
e aumento de forma até ao culminar da Lua Cheia, e depois
verificamos o movimento inverso.
Como nos descreve Rudhyar (1967) no seu livro “O ciclo de
Lunação”, este é o processo inato de desenvolvimento da
consciência. Sendo que o Sol representa o poder criativo total
da consciência, este não pode ser por nós directamente
abordado de forma natural. É através do seu reflexo, no espelho
lunar, que podemos progressivamente conhecer a sua potência, ciclicamente, deixando-nos impregnar e
fecundar pela experiência, absorvendo-a como parte de nós, sentindo-a por dentro, assimilando a sua
qualidade subjectiva para de seguida nos esvaziarmos, libertando todo o excedente do processo. Tal
como uma esponja, que mergulhamos na água e em seguida esprememos para conservar apenas a
humidade funcional, também a cada ciclo lunar vamos incorporando em nós a luz da consciência na
medida certa em que estamos naturalmente preparados para a assimilar.
E é em Caranguejo que nos comprometemos definitivamente com este processo de crescimento
através da relação com o exterior. Sem a água, que surge em Caranguejo, não poderia existir um
reconhecimento do outro, nem de nós próprios como indivíduos autónomos.

Como anteriormente falei, esta etapa de Caranguejo representa um ponto de extrema delicadeza no
percurso da existência. A aprendizagem dos processos do sentir e o estabelecimento da ligação
emocional umbilical, leva-nos necessariamente a experienciar a dependência e a frágil vulnerabilidade
que a condição de separatividade implica, necessitando de constante alimento para sustentarmos a
nossa existência.
É aqui que podem surgir feridas bem profundas, que talvez só poderemos libertar no fim da nossa
história pessoal, pois são elas que nos fazem entender o valor e a necessidade de cuidar e proteger.
A água de Caranguejo obriga-nos a abrir e a fluir, a carecer e a alimentar, a receber e a dar…

O Poder Real do Leão

Entramos no auge do Verão e é chegada a hora do Leão! É a altura do ano em que o Sol brilha com
mais intensidade e irradia o seu máximo calor (no hemisfério norte).
Leão é o segundo signo de Fogo, e representa
simbolicamente a consolidação da personalidade
individual e a manifestação do poder divino
através do Eu.
Os signos do zodíaco são na sua maioria
representados por animais e verifica-se uma clara
correspondência entre a natureza do animal e o
respectivo arquétipo que representam. O caso
mais evidente é talvez o do Leão. Este
extraordinário animal encerra em si a pura
essência do signo que designa: magnânimo,
nobre, ele é o rei da selva, o superpredador no
topo da cadeia, o macho alfa em pleno domínio
do seu território. O seu poder é aterradoramente
feroz e simultaneamente pacificante na hipnótica
serenidade interior que emana da sua
indisputável primazia. Mesmo face à derrota
nunca perde a sua nobreza, e como vencedor sempre respeita a dignidade do vencido. O Leão não
abriga insegurança, não conhece hesitação, é puro brilho, e a única sombra que reconhece é a que se
projecta dos outros face à sua imponência.
Partindo deste retrato do grande felino de juba, remetemo-nos então para o que o arquétipo
leonino representa ao nível da personalidade humana e do seu desenvolvimento. No estágio anterior,
de Caranguejo, o espírito liga-se intimamente à matéria através do vínculo emocional, possibilitando o
nascimento, em Leão, de uma experiência existencial plenamente individual. É aqui que se consolida a
agregação do Eu. Se Caranguejo é o cordão umbilical que nos liga às nossas origens, Leão é o umbigo - a
marca do corte que nos inicia neste mundo como seres individuais. E é centrando-nos no nosso
“umbigo”, que é como quem diz, na nossa própria vontade, que vamos desenvolvendo um campo
gravitacional em torno do qual a personalidade se vai formando, amadurecendo e a partir do qual
poderá funcionar como veiculo do Espírito e agente da Alma. Este centro é o que reconhecemos como o
Eu, ou Ego.

Leão é regido pelo Sol, precisamente o centro do nosso


sistema; a estrela em torno da qual todos os outros astros
revolvem. É o seu poder gravitacional que sustenta a
orbita dos planetas, qual rei que em torno de si mantém a
corte de seus súbditos. Como uma fonte de inesgotável
potência, o Sol é o coração pulsante que dissemina a luz e
o calor essenciais à vida. Ele é o criador e o alimento. Olhá-
lo directamente não é humanamente possível, o seu brilho
fulgurante é demasiado intenso - como o Fogo do Espírito,
que vamos conhecendo passo a passo através da luz
reflectida na matéria das nossas vivências.
Por vezes, no nosso fascínio, somos tentados a voar
demasiado perto do Sol, como Ícaro. Ou Faetonte, filho de
Hélio, o deus do solar, que ao ter descoberto a sua divina paternidade se dirige ao palácio celeste de seu
pai. Incrédulo a princípio, é tomado pelo orgulho e pede a seu pai que lhe deixe conduzir a carruagem
do Sol através dos céus. Hélio é o único capaz de tal tarefa, mas é obrigado por juramento a conceder o
imprudente pedido a seu filho. Faetonte não consegue dominar o poder dos quatro cavalos que puxam
a carruagem e manter o rumo preciso, causando extraordinária devastação. É Júpiter que intervém,
fulminando com o seu poderoso raio a carruagem, precipitando o jovem incauto para uma queda fatal.
Todos somos filhos do espírito divino e carregamos dentro a sua potência solar, criativa, esplendorosa,
capaz de trazer vida e alimento, mas para tal é necessário entender que o verdadeiro propósito da
individualidade não é a autocracia, a arrogância, o orgulho, a ostentação. Para conduzirmos a carruagem
de Hélio teremos que desenvolver um Coração de Leão e aceitar conscientemente o nosso papel na
engrenagem maior da ordem universal. Só assim é possível reclamar a nossa herança divina de
Criadores.

Virgem: a matéria perfeita

Quando penso no signo de Virgem as imagens que se formam no meu pensamento transportam-me para o
ambiente bucólico das pinturas de Millet: os pastores e os respigadores, humildemente laborando em paisagens de
pós colheita.
Finda a ceifa é necessário separar o trigo do joio, moer os grãos para produzir a farinha, amassar e depois cozer,
para finalmente obter o pão. Estes processos alquímicos, que permitem transformar a abundância natural num
produto que podemos consumir e armazenar, são dádiva de Virgem.
Este é o terceiro signo de Terra na sequência de modos (cardinal, fixo, mutável), e a sua função está associada à
capacidade de análise, selecção e refinamento da matéria. Com Capricórnio planeamos, lançamos as fundações e
construímos macro-estruturas de sustentação, que depois em Touro procuramos consolidar e fazer perdurar,
focando-nos na produtividade e na abundância, para então, com Virgem, trabalharmos no sentido da eficiência e da
utilidade. Assim, é na atenção ao pequeno detalhe, na criteriosa inventariação da realidade concreta que vamos
encontrar a Virgem. A técnica e o método são o produto do esforço virginiano em dominar a manifestação material,
rumo à perfeição.
Em Leão descobrimos o esplendoroso fulgor do Eu, em Virgem aprendemos a humildade do serviço,
preenchendo o nosso apelo de individualidade na medida em que nos sentimos úteis e capazes.
Após a inspiração que infunde em nós a vontade de nos
exprimirmos livremente, espontaneamente, dramaticamente,
apaixonadamente - características do signo anterior de Leão - eis que
surge o momento do confronto com a necessidade de apurar, refinar,
aperfeiçoar. Em Virgem trata-se de medir e avaliar resultados e
sintetizar respostas com vista à sustentabilidade e eficácia da nossa
acção.
Neste signo a mente casa-se com o corpo: a racionalidade e a
materialidade entram em íntima relação. A preocupação com a
saúde, a higiene e a alimentação assume bastante relevo, podendo
inclusive originar somatizações, derivadas do stress em procurar
manter o máximo controlo sobre o fluxo dos acontecimentos.
Lembrando a canção de António Variações: “Quando a cabeça não
tem juízo… o corpo é que paga!”
A regência de Virgem pertence a Mercúrio, criador da escrita e
da numeração e pai do pensamento científico, que incide no
conhecimento objectivo da realidade e na criação de tecnologias e
métodos numa perspectiva de utilidade prática e de resolução de
problemas. As qualidades inventivas e o engenho de Hermes /
Mercúrio encontram a sua manifestação no signo de Virgem, que
Jean-François Millet - Pastora, 1860
procura entender o funcionamento mecânico das coisas e encontrar
um sentido lógico para os fenómenos.
Para evitar cair no cepticismo de uma existência meramente factual e materialista, será necessário integrar o
arquétipo oposto de Peixes, aprendendo a fluir, a render a mente perante o que não se pode compreender
racionalmente e a reconhecer a evidência e o valor da subjectividade, da realização poética, do carácter simbólico
da existência, ligando-se à sua essência espiritual.
O signo de Virgem encerra em si um profundo significado esotérico: sendo o polo oposto ao último signo do
zodíaco, é nele que reside a chave última da transcendência. Virgem é o símbolo da perfeição na forma humana.

O Fiel da Balança

Com o equinócio do Outono o Sol ingressa no signo de


Balança e os dias equilibram-se na sua proporção de luz e
sombra.
Balança é o segundo signo de Ar na sequência zodiacal.
A mente, que tem a sua origem em Gémeos, manifesta em
Balança a necessidade de encontrar a justa medida do
equilíbrio, harmonizando os dois extremos.
A relação é de primordial importância para Balança,
sempre estendendo um dos seus pratos para que o outro
nele deposite as suas opiniões, valores, perspectivas, como
contrapeso das suas, permitindo o ajuste certo.
No percurso zodiacal do desenvolvimento da
consciência, Balança representa o meio-ciclo. É o signo que
se opõe a Carneiro, o início, representando o extremo
oposto - a máxima amplitude da polarização. Se em
Carneiro o Eu se centra totalmente em si próprio,
buscando a individualidade separativa, em Balança o Eu encontra o Outro e com ele se procura
identificar, estabelecendo pontes de ligação através da partilha.
Caracteriza-se geralmente a Balança com o estigma da indecisão, pois para esta decidir implica
avaliar correctamente as implicações de cada acção, o que a leva por vezes a impasses quando não
consegue estabelecer consensos, dentro ou fora de si.
Ao contrário do seu oposto Carneiro, que busca a distinção pela afirmação, Balança procura a
identificação pela harmonização. A diplomacia, o diálogo e alguma ou muita sedução, são as armas de
que se faz valer.

Apesar do tamanho foco na questão da harmonia e equilíbrio, não é de todo estranho encontrar, na
vibração de Balança, um carácter determinado, assertivo e até militante, principalmente quando esta se
depara com situações que considera injustas ou abusivas.

Vénus rege o signo de Balança e vemo-la


muitas vezes representada com um espelho na
mão, contemplando o seu reflexo. Além da
evidente alusão à beleza e ao refinamento
estético, muito característicos de Balança, esta
alusão ao espelho é extremamente simbólica
da dinâmica intrínseca deste signo, que
precisa de um espelho, onde se possa reflectir
e avaliar, medir, compor, ajustar. E é
sobretudo o outro que nos devolve essa Natale Schiavoni - Vénus ao Espelho, 1841
imagem reflexa, no confronto com a qual
vamos descobrirmos o que gostamos, o que queremos, o que somos. Será esta a razão que leva Balança
a interessar-se pela relação, pela interacção social, pela troca de ideias e pontos de vista, por conhecer
aquilo que o outro pensa e sente.
Nesta atracção na direcção do outro será importante não nos perdermos de nós próprios. Aliás, o
que Balança procura não é mais do que, como Vénus que se olha no espelho, obter uma imagem de si
própria que a leve ao reconhecimento da sua individualidade. Neste sentido, o outro é um meio de
chegarmos ao nosso próprio centro, e esta é uma questão fundamental para o equilíbrio de Balança:
projectarmo-nos demasiado na relação, vivendo em função do outro, só nos fará perder num jogo de
espelhos, enovelados em opiniões, argumentos e perspectivas múltiplas sem que daí possamos retirar
sentido, clareza e alinhamento.
O Amor, temática tão central para Balança, só será alcançado plenamente se nos permitirmos ir para
além do plano mental, das soluções diplomáticas, das regras de etiqueta, das éticas, dos acordos, e
deixarmos o coração falar e ligar-se ao outro em total abertura e aceitação.

O Poder do Escorpião!

O signo de Escorpião é talvez o signo mais "mal-afamado" do zodíaco. A intensa profundidade


emocional da vibração escorpiónica inspira-nos receio e cautela e não é sem razão. O Escorpião não
opera à superfície, mas antes mergulha profundamente nos recantos mais sombrios da nossa alma, em
busca do que está escondido, do que não é revelado ou assumido.
Receamos o Escorpião pois ele expõe e revela a nossa sombra - o seu faro instintivo depara-se
facilmente com os esqueletos que enterrámos no armário mais profundo do nosso inconsciente. Tudo
aquilo que negamos acerca de nós próprios, os nossos medos e inseguranças, tudo aquilo que
classificamos como mau ou impróprio, toda a culpa e remorso, constituem o território do Escorpião. Daí
portanto a sua má-fama, de signo perigoso e maléfico.
Mas outro facto inegável acerca da vibração
escorpiónica é a atracção magnética e o fascínio que
suscita. Esta capacidade de aceder ao inconsciente, ao
reino do oculto, manifesta um tremendo poder. E é fácil
sermos seduzidos pela ideia de que, controlando esse
poder, seremos capazes de obter domínio sobre tudo
aquilo que poderá ameaçar a nossa segurança.
O poder do Escorpião é o poder da transformação e
transformar é um processo difícil e quase sempre
doloroso - é uma verdadeira experiência de morte.
Queremos controlar este poder para evitarmos o seu
efeito transformador e mantermos a estabilidade e
segurança da nossa zona de conforto. E é precisamente
aqui que surge a raiz do mal: na procura de usar este
imenso poder de transformação para, ao invés, resistir ao
desenvolvimento natural da vida, por medo do
desconhecido, por apego ao que possuímos e
construímos, por dificuldade em aceitar a separação daqueles a quem estamos ligados… Já dizia um
grande mestre: "Fear is the path to the dark side. Fear leads to anger. Anger leads to hate. Hate leads to
suffering." (Yoda, 1980).

Assim como o Escorpião, o mal atrai, seduz, fascina… pois, como referimos, o mal surge daquilo que
negamos e reprimimos em nós próprios e que secretamente perverte os nossos pensamentos e acções.
E somos atraídos por ele para que o enfrentemos, para que iluminemos estes recantos sombrios da
nossa psíque e nos libertemos dos monstros que se alimentam dos nossos medos e inseguranças e que
são tão mais poderosos quanto a nossa resistência em olhá-los nos olhos…
É o poder de Escorpião que nos permite empreender este
desafio, de destapar o que está infamemente enterrado, de
abrir os baús escondidos e os armários assombrados e trazer
os fantasmas para a luz do dia. Este é o processo de
transformação que Escorpião nos propõe: uma libertação
através da morte - a morte daquilo que nos prende ao
passado e nos impede de progredir e fluir com a vida. E
através desta prova iniciática, renasceremos das cinzas, tal
como a fénix.
O escorpião transforma-se em águia, trocando as
profundezas do submundo, onde vivia prisioneiro no lodo do
inconsciente, pela altitude dos céus de onde pode observar,
com precisão cirúrgica, o desenrolar dos seus processos
internos. E assim, cooperando sabiamente com as dinâmicas de transformação, a personalidade
entrega-se ao desígnio da alma e ao seu percurso de evolução.
É interessante notar que, no zodíaco, o signo que sucede a Escorpião é Sagitário, um signo de fogo
associado à sabedoria e à lei cósmica.

Todos temos acesso a esta vibração de Escorpião. Independentemente de termos, ou não, planetas
colocados neste signo, algures no nosso mapa natal Escorpião ocupa uma casa, manifestando-se nas
áreas de vida representadas por essa zona do mapa. A colocação de Plutão, co-regente de Escorpião
conjuntamente com Marte, indica também onde teremos que lidar com esta proposta de transformação,
aceitando alterar formas de pensar e agir, eliminando padrões obsoletos, abrindo caminho a novas
vivências.
Se Plutão estiver ligado por aspecto a planetas natais, este processo alquímico de transformação
torna-se imperioso e vital para a evolução do individuo naquilo que respeita às funções psicológicas
simbolizadas por esses planetas. Para dar alguns exemplos, se Plutão estiver associado à Lua a proposta
de transformação é ao nível emocional, se em aspecto a Mercúrio é ao nível do pensamento e da
comunicação, se ligado a Marte, ao nível da acção e da afirmação do ego, ou, tratando-se de Vénus, ao
nível das relações e dos valores pessoais.

Nesta altura, em que o Sol entra no signo de Escorpião, a meio do Outono, é sempre uma boa altura
para libertarmos bagagens que já não nos servem e que só nos atrasam no caminho com o seu peso. É
um bom momento para deitar fora velharias e arejar os armários, à medida que trocamos as roupas de
verão pelas de inverno…

A Seta do Sagitário

O Sol fez a sua entrada no


signo de Sagitário no passado dia
22 de Novembro. Depois da
viagem às profundezas,
simbolizada pelo signo de
Escorpião, purificando o Ego,
entramos numa dimensão mais
abrangente do espectro cósmico.
A partir de Sagitário, e até Peixes,
os signos invocam qualidades
mais colectivas, comunitárias,
universais. Em Sagitário
encontramos o refinamento do
elemento Fogo, em que o
impulso espiritual se manifesta
em formas de conhecimento que
direccionam a vontade na busca de um ideal; em Capricórnio, a Terra assumirá uma estrutura material e
social capaz de sustentar o ideal; em Aquário, a comunicação e as inter-relações características do
elemento Ar elevar-se-ão à dimensão comunitária, integrando a diversidade do individuo na globalidade
do colectivo; em Peixes, os rios isolados, que canalizam a Água emocional de cada um, são convidados a
reunirem-se no oceano cósmico indiferenciado da Compaixão e do Amor Universal.
Assim, com o signo de Sagitário, o percurso vibratório zodiacal eleva-se à dimensão colectiva. O ego,
renascido em Escorpião, encontra o mestre interno e recebe a visão do plano geral da criação.

O signo de Sagitário tem como símbolo a figura mítica do centauro, armado de arco e flecha. Esta
figura, com o seu carácter híbrido – meio homem, meio animal – simboliza a transcendência dos
instintos e o nascimento da consciência espiritual.
Sagitário representa o entendimento de que a vida tem um significado e um propósito que vai muito
além dos limites da esfera pessoal. Aqui a consciência expande-se, descobrindo um universo de infinitas
possibilidades criativas. Esta visão espiritual de uma ordem maior infunde no individuo uma profunda e
urgente necessidade de alinhamento com a lei intuída.

É de notar que o Centro Galáctico situa-se no signo de Sagitário (actualmente a 26º do zodíaco
tropical). É portanto em Sagitário que encontramos a direcção deste alinhamento com a lei cósmica,
simbolizado pelo eixo do movimento espiral da galáxia. O CG é o ponto de referência maior: se os
planetas orbitam em torno do Sol, este progride em torno do CG, conjuntamente com todos os outros
sistemas solares. Ele representa o coração da Via Láctea; o centro da mandala galáctica de que fazemos
parte. E é nessa direcção que a seta de Sagitário aponta, firmando a atenção no plano maior, na
perspectiva abrangente, na visão global.
Júpiter é o planeta regente de Sagitário,
nada menos que o deus supremo do
Olimpo, que governa deuses e homens. A
grande revolução mitológica liderada por
Jupiter/Zeus, contra a tirania cega do seu
pai Saturno/Cronos, instituiu um universo
regido pela lei e pela justiça. Senhor dos
céus, Júpiter/Zeus apresenta-se como uma
força benéfica, benevolente e generosa,
mas absolutamente implacável quando
contrariado nos seus propósitos. E esta
duplicidade arquetípica manifesta-se
também na personalidade daqueles que nasceram sob forte influência de Sagitário (Sol, Lua ou
Ascendente em Sagitário, ou com aspectos a Júpiter; Casa 9 forte no mapa). Há uma tendência para
encarar a vida com extremo optimismo e fé, promovendo a ordem e a justiça, cultivando o saber e o
ensino, mas a intolerância aos obstáculos que se entrepõem à consecução da suas visões e ideais,
podem degenerar em prepotência e fanatismo ou desânimo e depressão.

Para Sagitário, a vida é repleta de significado. Os acontecimentos e circunstâncias são encarados


como oportunidades de aprendizagem e crescimento e há muitas vezes a sensação de se ser guiado por
uma foça maior, que encaminha o individuo no seu percurso evolutivo. Esta força maior, que muitas
vezes é projectada na figura de um parente, de um professor, de um mestre, ou de uma personificação
divina, surge da vontade interna do próprio individuo em se alinhar com o propósito evolutivo do
cosmos, da necessidade de apontar a seta da sua consciência na direcção da Verdade.

E no momento actual em que vivemos, sob o rotulo da “crise”, será importante entender a lição de
Sagitário, que nos propõe estabelecer o foco das nossas prioridades, distinguir o supérfluo do essencial,
desmascarar a mentira e a propaganda investigando conscientemente e reflectindo autonomamente,
mantendo-nos fiéis aos valores de igualdade e justiça, sem cair no fanatismo, na cegueira, e na
intolerância.

A Montanha de Capricórnio

Seguindo o trajeto do Sol em torno do zodíaco, eis que chegámos ao signo de Capricórnio. Este é um
momento muito especial nesta viagem: a entrada do Sol em Capricórnio assinala o Solstício de Inverno
(no hemisfério Norte). Precisamente às 5:30 do dia 22 de Dezembro teve início a estação do Inverno.
Até aqui os dias tinham vindo a diminuir em relação às noites, e o dia 22 foi o dia do ano em que o Sol
reinou durante menos tempo no céu. É como se as trevas dominassem o poder criativo da luz e o Sol
experimentasse uma morte simbólica. A partir do Solstício os dias começarão a crescer, e o Sol renasce
como força vivificante, ganhando terreno às trevas. Este evento cósmico é celebrado desde tempos
imemoriais, personificado em divindades, ilustrado em mitos e rituais e representado em
surpreendentes construções megalíticas como Stonehenge.
Celebra-se o momento em que o Sol
inicia a sua reconquista celeste, como
quem sobe a encosta de uma montanha,
aparecendo a cada dia mais alto no céu. E
por aqui poderemos começar a desvendar
o simbolismo associado ao signo de
Capricórnio, que é representado pela
figura de um animal híbrido, um caprino
com cauda de peixe.

O arquétipo de Capricórnio está


associado à conquista de sucesso e
realização através do esforço e da
perseverança. Sendo um signo do
elemento Terra, por tal orientado para a
dimensão prática e material, e do modo cardinal, que indica estímulo e iniciativa, poderemos afirmar
que a função de Capricórnio é ser o impulsionador de estruturas concretas, é tomar a iniciativa e liderar
no plano material. Como o elemento Terra é de todos o mais denso, comandar neste território implica o
desenvolvimento de grandes capacidades de organização e disciplina, assim como de suportar o peso
das estruturas que desta forma se vão criando. Não é por isso de estranhar a seriedade austera que
vulgarmente se atribui a Capricórnio: a sua tarefa é de facto árdua e implica bastante encargo.

A personalidade daqueles que têm forte influência capricorniana no seu mapa natal (Sol, Lua ou
Ascendente em Capricórnio, planetas na casa 10 ou grande domínio de Saturno) terá tendência para
colocar bem alta a sua fasquia de realização pessoal, o que habitualmente se traduz por um grande
investimento na carreira profissional. E Capricórnio ambiciona de facto realizar todo o seu potencial e
alcançar o cume da montanha; traduza-se isto em reconhecimento por parte do colectivo, status social,
poder económico, autoridade intelectual ou espiritual. Aliás, o ponto mais elevado do mapa natal, o
Meio-do-Céu, assinala precisamente o início da casa 10, que é atribuída a Capricórnio, e representa a
máxima visibilidade do Eu face ao colectivo.
Mas para que se possa crescer em altura é necessário dispor de raízes sólidas que estruturem e
suportem esse desenvolvimento, caso contrário não existe sustentação que permita a mínima solidez e
estabilidade. É por isso que a personalidade capricorniana, apesar de bastante focada nos objectivos de
realização profissional e externa, valoriza muito a família, o lar, ou outras manifestações de solidez
emocional. Habitualmente as relações íntimas são abordadas com bastante seriedade e sentido de
compromisso; a estabilidade e a durabilidade são adjetivos importantes para Capricórnio no que toca a
relacionamentos (uma das manifestações mais evidentes será, por exemplo, o caso de alguém com
Vénus em Capricórnio).

E aqui seria importante falar um pouco de


Saturno, o planeta regente deste signo. Na
Astrologia clássica Saturno simboliza limitação
e contração, que no aspecto mais negativo
pode indicar bloqueio e inibição, e no mais
positivo estruturação e solidez. Se pensarmos
que Saturno é o mais distante dos planetas
clássicos (não contando portanto com Úrano,
Neptuno e Plutão), a nível psicológico ele
representa os limites da ação da personalidade,
ideia tão distintamente simbolizada pelos anéis que o rodeiam.
Nesta linha de pensamento poderemos também associar Saturno ao conceito de Super-Ego da
psicanálise freudiana, uma instância da personalidade que se opõe à livre expressão dos instintos
inconscientes, censurando e limitando aquilo que não é aceitável do ponto de vista da integração social.
Muito embora as regras e restrições impostas pela educação possam limitar e inibir a personalidade,
estas são essenciais para que possamos funcionar em sociedade e relacionarmo-nos com os outros de
forma responsável e produtiva.
Estas são as lições de Saturno: a aceitação dos limites; a responsabilização perante os nossos actos; a
consciencialização do Eu como ser social inserido numa estrutura colectiva.

Actualmente o arquétipo capricorniano enfrenta um grande desafio de transformação pela


passagem de Plutão neste signo. Desde o início de 2008, quando Plutão entrou em Capricórnio, que
assistimos ao colapso de estruturas disfuncionais, seja ao nível do poder político, económico, social,
religioso, científico, etc.
Até 2024, altura em que Plutão entrará em Aquário, serão trazidos à superfície todo o género de
corrupções, manipulações e abusos de poder, para que possamos desenvolver estruturas de
organização mais eficientes, mais responsáveis e mais alinhadas com um propósito colectivo de
prosperidade, assente na igualdade e na justiça.

Aquário e a nova Era

Depois da passagem por Capricórnio, o Sol


ingressa no signo de Aquário. Apesar da
designação deste signo nos remeter para um
universo aquático, estamos antes perante um
signo do elemento Ar. E o Ar é o elemento
significador do plano mental. Aquário é o
arquétipo da mente cósmica, abstrata, intuitiva,
criativa. Não é por acaso que encontramos forte
influência aquariana em muitas personalidades
que se destacam pela sua genialidade inventiva.
Após a etapa de Capricórnio, destinada a
providenciar estruturas funcionais que constituem
as fundações de uma sociedade organizada,
Aquário pretende fomentar a cultura, as artes, a
ciência, a tecnologia, ou seja, o desenvolvimento
máximo das potencialidades da mente humana.
Aquário está intimamente ligado às
transformações que a sociedade encara neste momento: o fenómeno da globalização, a crescente
pressão no sentido da democratização, a defesa dos direitos humanos, a preservação da natureza, a
construção de uma civilização assente em princípios de liberdade e igualdade. As tecnologias da
informação e da comunicação, que tão radicalmente transformaram a realidade humana, entretecem
uma rede neuronal que serve de suporte à construção de uma mente coletiva - é a “Era de Aquário” que
nos bate à porta.

A regência tradicional de Aquário pertence ao planeta Saturno, mas a astrologia moderna atribui a
Úrano uma co-regência. Úrano foi oficialmente identificado como planeta em 1783, precisamente no
ano em que os Estados Unidos vêm reconhecida a sua independência pelo tratado de Paris. O seu
simbolismo ficou assim associado ao autodeterminismo, à revolução, à liberdade. Assim como as
colónias americanas se rebelaram contra os grilhões do império, conquistando a sua independência,
também no universo psicológico individual, somos impelidos pelo arquétipo uraniano a destruir as
amarras que obstruem o caminho da livre realização do nosso potencial criativo. Úrano representa este
impulso para a individuação, e é extraordinário constatar que o movimento de rotação deste planeta
apresenta uma inclinação de 98º face ao plano da eclíptica, tornando-o radicalmente diferente de todos
os outros no sistema solar - é realmente uma excentricidade, adjetivo bem ao jeito de Aquário.
Na mitologia grega encontramos mais matéria
simbólica que nos ilumina acerca do planeta Úrano e do
porquê da sua associação moderna com o signo de Aquário:
Úrano é a força criativa original, que insemina
incessantemente Gaia, não permitindo sequer intervalo
para que as suas criações brotem do útero materno, até ao
momento em que é castrado pelo seu filho, Saturno
precisamente. Poderemos então afirmar que em Aquário
se encena este conflito primordial entre a criatividade sem
limites (Úrano) e a necessidade de estruturação e norma
(Saturno). Criar sem finalidade, sem regra,
inconsequentemente, é um processo caótico. É necessário
estabelecer um propósito para a criação, que
forçosamente irá definir limites, mas que proporcionará
um sentido, uma estrutura organizada e coerente - um cosmos.
Portanto, trazendo esta simbologia para o campo do desenvolvimento social e psicológico, em
Aquário assistimos ao progresso da liberdade criativa individual dentro dos limites estruturantes do
coletivo, sempre num jogo de forças dinâmico, muitas vezes imprevisível, e com episódios destrutivos,
no sentido em que por vezes é necessário quebrar os obstáculos que barram o caminho. No entanto, ao
mesmo tempo que rompemos radicalmente com modelos obsoletos e retrógrados, devemos estar
conscientes da necessidade de reconstruir novas estruturas que assimilem as lições do passado. Caso
contrário assistiremos ao reverso da história: o rebelde vira ditador, o novo mundo da liberdade torna-
se opressivamente autoritário…

Nos tempos de hoje, é muito importante compreender que a inovação e o progresso tecnológico não
implicam necessariamente evolução humana, se destes fizermos apenas instrumentos de controlo e
manipulação. O desenvolvimento do conhecimento científico não é sinónimo de maior inteligência se
dele nos servirmos apenas para viabilizar a exploração económica da massa humana e habilmente
perpetuar a depredação viral dos recursos naturais.
Isto porque falar de Aquário, é refletir acerca do conceito de civilização humana que pretendemos
edificar através do nosso contributo individual. Aquário é o arquétipo que anima o mito da nova era, e o
mito é desde sempre o motor da realidade.

A Poesia de Peixes

Por onde começar com Peixes? Que dizer do vasto oceano onde acaba de mergulhar o Sol na sua
viagem celeste?

Mais do que uma dissertação erudita, ou um receituário prático, talvez se ajuste mais o devaneio
poético… Ou uma carta de amor, especialmente se dirigida a uma sereia, fada ou outra encantadora
figura do fantástico mundo da imaginação, a verdadeira realidade dos Peixes.
A água é o elemento de Peixes que, neste signo, se
manifesta como um oceano de emoções. Mergulhados nesta
vastidão de diluídas fronteiras, sem referências de escala ou
posição, tudo se funde connosco.

A palavra de ordem é fluir, como um cardume que dança


na corrente invisível, ligado pelo mesmo movimento, sem
diferenciação e sem liderança, em total união.
Assim são os Peixes, símbolos da comunhão com o todo.
Nadam na imensidão, muitas vezes sem conseguirem
distinguir o seu Eu dos demais, a dor dos outros da sua.

A Compaixão e o Amor Incondicional são a sua razão e a


missão que tomam para si.

Vítimas ou Salvadores, muitas vezes se deixam aprisionar


pela dependência, quer emocional quer física. Com
tendência para a penitência e o martírio, o Sacrifício purifica-
os e ilumina-os, quando é consciente e alinhado com um
propósito elevado (entenda-se: ao serviço da evolução dos
demais).

Alheados da realidade exterior, por vezes passam acidentalmente por distantes e antipáticos a
algumas mentes mais racionais, mas do coração são instrutores bem entendidos. Mais que ouvir os
outros sentem-nos por dentro, dentro de si.

A sua imensa vulnerabilidade pode ser a sua maior força. Com ela também seduzem, tão
subtilmente quanto perdidamente. E curam… fundo, a quem lhes abre o coração.

A Entrega não receiam, mas sim a separação. Esta é uma ferida que demoram longo tempo a
processar. E fecundados pela dor, à luz dão pérolas.

Poetas, músicos, místicos, terapeutas... o amor e a criatividade ao serviço da Vida são a sua vocação.
Guerreiros sim, mas ao serviço da Paz. Outrora cruzados, agora enfermeiros.

Em todos nós Peixes está presente, e neste momento, em que Neptuno acaba de ingressar neste
signo, o colectivo da humanidade é desafiado a mergulhar neste oceano, nesta vastidão energética e a
aprender a fluir na sua corrente: a juntar-se à poesia dançada dos Peixes.

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