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O DIREITO FUNDAMENTAL AO TRABALHO SOB A PERSPECTIVA DO CORPO ACESSÓRIO:

DESAFIOS E OBSTÁCULOS ENFRENTADOS POR TRAVESTIS E TRANSEXUAIS NA COLOCAÇÃO


NO MERCADO DE TRABALHO FORMAL

MENDES, Guilherme Alves de Moura. Graduando em Direito pela Universidade Estadual da


Paraíba. Email: guimouram11@gmail.com
LIMA, Luana Guimaraes. Graduanda em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba.
Email: luana-guimaraes-lima@hotmail.com

INTRODUÇÃO

O presente estudo tem como ponto de partida a análise dos entraves e desafios
enfrentados por travestis e transexuais na inserção no mercado de trabalho formal,
levando-se em consideração a perspectiva do corpo acessório trazida por David Le Breton
em sua obra ​Adeus ao corpo: Antropologia e sociedade​ (2003).

Para iniciar o estudo, é importante destacar que a identidade de gênero refere-se a


uma experiência de cunho puramente individual do gênero de cada pessoa, podendo ou não
coadunar-se com o sexo atribuído no nascimento. Esse fenômeno inclui um senso pessoal
em relação a corporeidade, ocasiões em que, por livre escolha, ocorrerá a modificação da
aparência, seja por meio de procedimento estéticos ou cirúrgicos, seja por específicas
performances de gênero.

Apesar das previsões, tanto internacionais quanto constitucionais, em matéria de


direitos humanos, e o princípio da dignidade da pessoa humana como núcleo axiológico, as
minorias sociais são vítimas de violência estrutural, com a constante negativa dos seus
direitos fundamentais.

Dentre os quais, o direito ao trabalho, na sociedade e no sistema econômico que


vivemos, destaca-se como um dos principais indicadores de viver dignamente. Assim, é
cristalino que esse direito possui, além de tudo, uma dimensão social, indispensável na
consecução do princípio da dignidade humana na sociedade em geral.
O objetivo deste estudo, portanto, é realizar uma abordagem sociológica e jurídica
das questões que envolvem a população LGBT, em especial as travestis e transexuais, bem
como analisar os desafios e obstáculos enfrentados na tentativa de colocação no mercado
de trabalho formal.

Para o desenvolvimento, fez-se uso unicamente da perspectiva metodológica


dedutiva, utilizando-se, para tal, de bibliografia pertinente à temática tratada, com o auxílio
de material publicado em livros, revistas, artigos jornais e redes eletrônicas​, ​assim como
análise das disposições constitucionais relativas à garantia fundamental ao trabalho.

1 O CORPO ACESSÓRIO: TRANSFORMAÇÕES CORPORAIS DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS

Le Breton (2003), em sua obra ​Adeus ao corpo: Antropologia e sociedade,​ dedica


um capítulo ao que ele chama de corpo acessório. Ao abordar a perspectiva contemporânea
do corpo, ele destaca que a maleabilidade e a plasticidade corporal fizeram com o indivíduo
pudesse manipular a si mesmo, a fim de tornar seu invólucro como uma forma de afirmação
pessoal.

Nesse sentido, afirma que “o corpo torna-se emblema do ​self​. A interioridade do


sujeito é um constante esforço de exteriorizar-se, reduz-se à sua superfície. É preciso se
colocar fora de si para se tornar si mesmo” (LE BRETON, 2003, p.29).

As mudanças corporais, enquanto formas de representação de um imperativo


pessoal e interno, são regidos, além das típicas buscas pela melhor aparência e irresignação
aos efeitos do tempo sob o outrora corpo juvenil, por situações de crise. Nesse sentido, o
autor acrescenta que

Além dos imperativos de aparência e juventude que regem nossas sociedades,


muitas vezes os que usam da cirurgia estética são indivíduos em crise (por divórcio,
desemprego, envelhecimento, morte de um próximo, ruptura com a família etc.)
que encontram nesse recurso a possibilidade de romper de uma vez com a
orientação de sua existência, modificando os traços do seu rosto ou o aspecto do
seu corpo. A vontade está na preocupação de modificar o olhar sobre si e o olhar
dos outros a fim de sentir-se plenamente. Ao mudar o corpo, o indivíduo pretende
mudar sua vida, modificar seu sentimento de identidade.​ ​ (LE BRETON, 2003, p.30).

São sob esses parâmetros que é possível entender os corpos transexuais e


travestis. Nesse sentido, a carta de “Princípios sobre a aplicação da legislação internacional
de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero”, os chamados
Princípios de Yogyakarta, definiu identidade de gênero da seguinte forma:

Compreendemos identidade de gênero a profundamente sentida experiência


interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao
sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode
envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios
médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive
vestimenta, modo de falar e maneirismos.

Dessa forma, a experiência travesti e transexual é identitária, que caracteriza-se


pela observância de conflitos com as normas de gênero (BENTO,2008, p. 18), mormente
pela conformação ou não com o sexo atribuído ao nascimento.
Tendo em vista o conflito entre sexo biológico e a forma como se sentem e
pensam, o indivíduo transexual é acometido de profundo sofrimento e repulsa pelo próprio
corpo (LOPES, 2009), uma vez que não é uma representação fidedigna do seu eu interior,
razão pela qual valem-se do uso de roupas, cosméticos, hormonioterapias e até
procedimento cirúrgicos na tentativa adequar sua corporeidade ao gênero que sentem
(JESUS, 2012, p. 15).
Quanto às travestis, são pessoas que vivenciam os papéis de gênero feminino,
através de roupas, cosméticos e tratamentos estéticos, sem, contudo, se reconhecerem
como homens ou mulheres, mas sim como integrantes de um terceiro gênero ou de um
não-gênero (JESUS, 2010, p.17).
Le Breton (2003, p. 32), ao tratar do corpo transexual, considerações estas
plenamente aplicáveis às pessoas travestis, chega às seguintes conclusões:

O corpo transexual é um artefato tecnológico, uma construção cirúrgica e


hormonal, uma produção plástica sustentada por uma vontade firme. Brinca com
sua existência, o transexual entende assumir por um momento uma aparência
sexual de acordo com seu sentimento pessoal. É ele próprio, e não um destino
anatômico, quem decide seu sexo de eleição; ele vive por meio de uma vontade
deliberada de provocação ou de jogo. O transexual suprime os aspectos demasiado
significativos de sua antiga corporeidade para abordar os sinais inequívocos de sua
nova aparência.

Partindo das considerações feitas, pessoas travestis e transexuais enxergam na


modificação corporal um ​outlet​, um meio de representação e afirmação de suas identidades
de gênero. Seus corpos tornam-se um emblema de si mesmas, inequívoco e,
principalmente, visível forma de afirmação pessoal.

2 O DIREITO FUNDAMENTAL AO TRABALHO

Os direitos fundamentais, constitucionalmente elencados, tratam de condições


mínimas para que qualquer pessoa possa viver de maneira digna. A partir de tal
caracterização, devem ser priorizados, com a devida relevância e consistência.

Considerado fundamento basilar e, em sua consistência, o centro axiológico da


Constituição da República Federativa do Brasil, o princípio da dignidade humana é
amplamente discutido e compreender o alcance de sua expressão tornou-se um encargo
para qualquer pesquisador do direito.

Dada a sociedade em que vivemos, bem como o sistema econômico ao qual estamos
sujeitos, pode-se afirmar que o trabalho, em seu fundamento principal, tornou-se um dos
mais relevantes aspectos que compõem o sentido de viver dignamente.

Como é sabido, no meio capitalista, a produtividade econômica tornou-se um dos


principais critérios de valorização e de alcance das condições e recursos inerentes ao ser
humano, de modo que possa viver para além do mínimo existencial.

Desse modo, o direito ao trabalho possui vasta e necessária importância na


dimensão social, bem como na afirmação e projeção do princípio da dignidade humana na
sociedade em geral.

A partir disso, concebe-se, no texto constitucional, em diversos de seus títulos, o


direito ao trabalho como um direito fundamental. Nota-se, de pronto, o direito trabalho
como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos


Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de
Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político (grifos do autor).

Conforme afirma Delgado (2004), o exercício do trabalho, em qualquer que seja a


sua atribuição, centraliza-se na vida pessoal e comunitária de todas as pessoas e é percebida
com notável projeção social e ética, de tal modo que transformou-se em um pilar da
estruturação da ordem econômica e social.

Ainda no Título dos Direitos e Garantias Fundamentais, ao tratar dos direitos sociais,
a Constituição Federal aduz, em seu artigo 6º:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a


moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição.

Não restam dúvidas ao fato de que o direito ao trabalho, enquanto direito


fundamental, deve ser garantido e assegurado, uma vez que é por esse meio que o homem
se afirma e se insere na sociedade capitalista.

Ainda em referência à Constituição de 1988, é sabido que possui com um de seus


objetivos fundamentais, a promoção do bem de todos, sem preconceitos de raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Passa-se a questionar, então, os entraves encontrados pela população LGBTQ+ na


formalização de qualquer encargo no mercado de trabalho, principalmente quando se trata
de travestis e transexuais. De acordo com dados levantados pela Associação Nacional de
Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% da população de Travestis e Transexuais utilizam a
prostituição como fonte de renda, e possibilidade de subsistência, devido a dificuldade de
inserção no mercado formal de trabalho e a deficiência na qualificação profissional causada
pela exclusão social, familiar e escolar

Nesse cenário, e considerando o trabalho como um dos principais meios de


afirmação da dignidade social, no sistema capitalista, pode-se compreender como essa
população possui a sua dignidade lesada.
[...] a ideia de dignidade não se reduz, hoje, a uma dimensão estritamente
particular, atada a valores imanentes à personalidade e que não se projetam
socialmente. Ao contrário, o que se concebe inerente à dignidade da pessoa
humana é também, ao lado dessa dimensão estritamente privada de valores, a
afirmação social do ser humano. ​A dignidade da pessoa fica, pois, lesada caso ela
se encontre em uma situação de completa privação de instrumentos de mínima
afirmação social. Enquanto ser necessariamente integrante de uma comunidade,
o indivíduo tem assegurado por este princípio não apenas a intangibilidade de
valores individuais básicos, como também um mínimo de possibilidade de
afirmação no plano social circundante​. Na medida desta afirmação social é que
desponta o trabalho, notadamente o trabalho regulado, em sua modalidade mais
bem elaborada, o emprego (DELGADO, 2004, p. 43).

Com isso, não pode-se olvidar em afirmar que negar esse direito a qualquer pessoa,
baseado em suas condições pessoais, sejam de raça, religião ou sexualidade, configura-se
em uma forte violação ao desenvolvimento pleno e digno da vida humana, bem como de
sua participação na sociedade.

3 TRAVESTIS, TRANSEXUAIS E MERCADO DE TRABALHO FORMAL

O ordenamento jurídico pátrio, em consonância com os tratados internacionais em


matéria de direitos humanos, consagrou a dignidade da pessoa humana como núcleo
axiológico da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Além disso, prevê no
artigo 3º, incisos III e IV, ser objetivos da República Federativa do Brasil: a redução das
desigualdades sociais e a promoção do bem estar de todos, independente de origem, raça,
sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Ainda, é positivado no texto constitucional os chamados direitos e garantias


fundamentais e os direitos sociais, que garante, entre outras coisas, o direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança, à propriedade, bem como educação, a saúde, a
alimentação, ​o trabalho​, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social,
a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados.

Entretanto, mesmo com todas essas garantias, as minorias sociais são vítimas de
uma violência tida como estrutural, das quais são espécies a omissão dos poderes públicos,
o estigma social e a invisibilidade de suas demandas, muitas vezes consideradas como
desnecessárias ou tratadas como formas de conseguir privilégios.
O que se percebe é uma forte repressão a essa parcela da população, fortemente
marcada por questões religiosas, culturais e ideológicas. Dessa forma, o discurso
homogêneo de titularidade da classe dominante, extremamente conservador e pautado em
uma ótica cristã, reforça o estigma sobre essas determinadas classes, fazendo com que elas
tenham maior dificuldade em se inserir em diversos âmbitos sociais, dentre os quais, o
mercado de trabalho.

Nadir (2007, p. 72) esclarece que as manifestações da homofobia, incluídas todas


as formas de violência direcionadas a tudo que ousar transgredir a heteronomatividade,
estão fortemente presentes no ambiente de trabalho, uma vez que a norma que estabelece
a compulsoriedade heterossexual e a binariedade reage fortemente a qualquer coisa que
ameace a construção social da identidade sexual e de gênero.

As dificuldades para as travestis e transexuais no mercado de trabalho começam


ainda antes da efetiva procura por emprego, notadamente pelos fracassos de suas
experiências na escola, na medida em que esta falha no acolhimento e oferecimento de
condições de permanência às pessoas travestis e transexuais, desde o não reconhecimento
do uso ao nome social, acesso ao banheiro, o combate às violências cotidianas no âmbito
escolar (BONASSI ET AL., 2015).

Corroborando com a influência do ambiente escolar nos insucessos posteriores,


Nadir (2007, P. 73) acrescenta:

Esta é uma marcação que se inicia certamente na escola, cujas portas se fecham na
violência dos modelos binários e hierarquizados apresentados como modelos de
exercício profissional para homens e mulheres. A escola expulsa a performance
que perturba, o mercado de trabalho reitera esta exclusão.

Ultrapassada a fase que antecede a procura por empregos, Medeiros (2007, p.83),
estabelece que a discriminação contra trabalhadores homossexuais pode ocorrer em 4
momentos: a. fase pré-contratual, por meio de questionamentos e investigações sobre a
vida privada do empregado, buscando saber se o trabalhador é ou não homossexual; b. Fase
contratual, nos casos em que a sexualidade do empregado é descoberta durante o vigência
do contrato, passando, por vezes, a ser submetido a situações de exclusão pelos outros
trabalhadores até serem vítimas de assédio moral, piadas, ofensas; c. Durante o
desligamento do empregado, quando a homofobia se apresenta como causa única para
exclusão de seu posto de trabalho; d. Pós-contrato, extrapolando a relação contratual
extinta, quando os empregadores elaboram listas discriminatórias visando a
não-contratação de determinados trabalhadores.
Conforme Menezes ​et al.​ (2018), no que tange especificamente à fase
pré-contratual, apesar dessa realidade se fazer muito presente na vida de todo que
pertencem ao grupo LBGT, em relação aos transexuais e travestis a situação é ainda mais
complicada, uma vez que a identidade de gênero desses sujeitos não é omitida, mas
apresentam-se de forma expressa, tanto no comportamento, quanto na aparência física.
Nesse sentido, Louro (2001, p. 551) apregoa que esse espaço cada vez marcado
pela exclusão acentua-se em relação aos transgêneros, tendo em vista ostentarem em seus
corpos marcas que incomodam a sociedade heteronormatizada. Assim, as possibilidades
(...) de inserção no mercado de trabalho para as transgêneros são mínimas; mesmo
nas situações em que estas executem atividades tidas como femininas, não são
consideradas mulheres e pela ambiguidade são alvos de preconceitos por parte da
sociedade. Considera-se que a questão da diversidade é colocada a dupla
dificuldade enfrentada pelas transgêneros, pois é difícil para a mulher entrar no
mercado de trabalho, e ter as mesmas condições trabalhistas e salariais do
homem, o desafio aumenta para a travesti. (NASCIMENTO, 2003, p.37).

Assim, além das dificuldades inerentes a todos os membros do grupo LGBT, as


pessoas que possuem identidade de gênero diferente do seu sexo biológico e que utilizam e
modificam seus corpos como emblemas de sua interioridade possuem dificuldades
adicionais, não sendo-lhes facultado o trágico e distorcido privilégio de esconder-se.
Dessa forma, os entraves enfrentados para sua colocação e permanência no
mercado de trabalho, as condena

à visibilidade noturna da cidade no exercício da prostituição ou o confinamento ao


pólo das profissões ligadas à beleza (usualmente o salão de beleza na periferia,
uma vez que no jogo das hierarquias, é o cabeleireiro homossexual que é
proprietário do salão chique) (NADIR, 2007, p. 73).

Tanto o é que a maioria das políticas públicas direcionadas a travestis e transexuais


é direcionada para a prevenção de doenças e o combate à exploração sexual, e não para
políticas de inclusão na escola e no trabalho (ANDRADE, 2012, p. 226).
Quando se impede que pessoas LGBT, em especial travestis e transexuais, de
trabalharem, o que se opera é uma nova condenação, além das tantas outras, uma que
remete à morte, pois na contemporaneidade apenas o trabalho tem o condão de inserir o
sujeito na vida (digna) em sociedade (NARDI, 2007, P. 72).

Excluídas socialmente, estigmatizadas, a transgressão da norma heterossexual e a


reiterada performance de gênero dissociada do seu sexo biológico são lembretes constantes
da negação de uma vida digna através do trabalho na vida das travestis e pessoas
transexuais.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ordem jurídica, tanto internacional, quanto pátria, possui uma série de


disposições quanto à essencialidade do direito ao trabalho, inclusive como indissociável da
dignidade da pessoa humana.

Em um sistema capitalista, a necessidade de colocação no mercado de trabalho


assume posição primordial, cujos aqueles que não fazem parte dele fadados a uma morte
simbólica (e, às vezes, real), impedidos de participar plenamente do seio social em que
estão introduzidos.

Historicamente, o que se observa é que determinados grupos, como as mulheres,


os negros e os membros do grupo LGBT, foram sobremaneira estigmatizados, sendo vítima
de uma violência dita estrutural.

Uma das formas de violência que aflige a esses grupos, em especial às travestis e
transexuais, diz respeito a falta de oportunidade de colocar-se no mercado de trabalho
formal. A sociedade, pautada em uma ótica cristã, conservadora e heteronormativa, reage
fortemente a todos que ameacem a construção social da identidade sexual e de gênero.

Dessa forma, desde o convívio escolar, até a efetiva procura por postos de
trabalho, as travestis e transexuais, por ostentarem marcas visíveis e claras da transgressão
às normas heterossexuais, por utilizarem seus corpos como acessórios representativos de
sua interioridade, são excluídas diariamente do mercado formal, sendo obrigadas a verem
suas práticas laborativas a trabalhos informais, prostituição e, em muitos casos, o
desemprego.

Ademais, quando se leva em consideração a importância do direito ao trabalho, fica


claro que quando se impede essas pessoas de laborarem, na verdade o que se está fazendo
é condenando-as a uma morte simbólica, por inúmeras real, minando quase por completo
seu direito a viver dignamente.

O reconhecimento da dignidade humana e da essencialidade do direito ao trabalho


é essencialmente para que as travestis e transexuais possam efetivamente fazer parte do
seio social, com todos seus direitos fundamentais respeitados e devidamente tutelados.
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