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“Deus, que deu o mundo aos homens em comum, deu-lhes também a razão, a fim de que dela fizessem uso

para maior
benefício e conveniência da vida. A Terra, e tudo quanto nela há, é dada aos homens para o sustento e o conforto de sua
existência. E embora todos os frutos que ela naturalmente produz e os animais que alimenta pertençam à humanidade em
comum, produzidos que são pela mão espontânea da natureza, e ninguém tenha originalmente um domínio particular sobre
eles à exclusão de todo o resto da humanidade, por assim estarem todos em seu estado natural, é, contudo, necessário, por
terem sido essas coisas dadas para uso dos homens, haver um meio de apropriar parte delas de um modo ou de outro para
que possam ser de alguma utilidade ou benefício para qualquer homem em particular. O frutou ou a caça que alimenta o
índio selvagem, que desconhece o que seja um lote e é ainda possuidor em comum, deve ser dele, e de tal modo dele, ou
seja, parte dele, que outro não tenha direito algum a tais alimentos, para que lhe possam ser de qualquer utilidade no sustento
de sua vida.
Embora a Terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, cada homem tem uma propriedade em sua
própria pessoa. A esta ninguém tem direito além dele mesmo. O trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos, pode-se
dizer, são propriamente dele. Qualquer coisa que ele então retire do estado com que a natureza a proveu e deixou, mistura-
a ele com o seu trabalho e junta-lhe algo que é seu, transformando-a em sua propriedade. Sendo por ele retirada do estado
comum em que a natureza a deixou, a ela agregou, com esse trabalho, algo que a exclui do direito comum dos demais
homens. Por ser esse trabalho propriedade inquestionável do trabalhador, homem nenhum além dele pode ter direito àquilo
que a esse trabalho foi agregado, pelo menos enquanto houver bastante e de igual qualidade deixada em comum para os
demais.
Aquele que se alimenta das bolotas que apanha debaixo de um carvalho ou das maçãs que colhe nas árvores do bosque com
certeza delas apropriou-se para si mesmo. Ninguém pode negar que o alimento lhe pertença. Pergunto então quando passou
a pertencer-lhe: Quando o digeriu? Quando o comeu? Quando o ferveu? Quando o levou para casa? Ou quando o apanhou?
Fica claro que, se o fato de colher o alimento não o fez dele, nada mais o faria. Aquele trabalho imprimiu uma distinção
entre esses frutos e o comum, acrescentando-lhes algo mais do que a natureza, mãe comum de todos, fizera; desse modo,
tornaram-se direito particular dele. E poderá alguém dizer que não tinha direito algum a essas bolotas ou maçãs, de que
assim se apropriou, por não ter tido o consentimento de toda a humanidade para fazê-las suas? Terá sido um roubo tomar
desse modo para si o que pertencia a todos em comum? Fosse tal consentimento necessário, o homem teria morrido de
fome, não obstante a abundância com que Deus o proveu. Vemos nas terras comuns, que assim permanecem em virtude de
um pacto, que é o tomar qualquer parte daquilo que é comum retirá-la do estado em que a deixa a natureza que dá início à
propriedade, sem isso, o comum não tem utilidade alguma. E o tomar esta parte ou aquela não depende do consentimento
expresso de todos os membros da comunidade. Desse modo, o pasto que meu cavalo comeu, a relva que meu servidor
cortou e o minério que retirei da terra em qualquer lugar onde eu tenha um direito a ele em comum com outros homens
tornam-se minha propriedade, sem a cessão ou o consentimento de quem quer que seja. O trabalho que tive em retirar
essas coisas do estado comum em que estavam fixou a minha propriedade sobre elas.
Se se tornar o consentimento explícito de todo membro da comunidade necessário para qualquer um que se aproprie de
qualquer parte daquilo que é dado em comum, os filhos ou os servidores não poderiam cortar a carne que seu pai ou senhor
lhes concedeu, em comum, sem atribuir a cada um seu pedaço particular. Embora a água que corre da fonte seja de todos,
quem poderia duvidar que a que está no jarro é daquele que a retirou? O trabalho dele tomou-a das mãos da natureza, onde
era comum e pertencia igualmente a todos os seus filhos, e, com isso, dela apropriou-se.
Assim essa lei da razão torna o cervo propriedade do índio que o abateu; permite-se que os bens pertençam àqueles que
lhes dedicou seu trabalho, mesmo que antes fossem direito comum de todos. E entre aqueles que se consideram a parte
civilizada da humanidade, que fizeram e multiplicaram leis positivas para determinar a propriedade, essa lei original da
natureza que determina o início da propriedade sobre aquilo que era antes comum continua em vigor. E, em virtude dela,
qualquer peixe que alguém pesque no oceano, esse grande bem comum ainda remanescente da humanidade, ou qualquer
âmbar que alguém nele apanhe, é, pelo trabalho que o retira desse estado comum em que o deixou a natureza, transformado
em propriedade daquele que para tal dedicou seus esforços. E mesmo entre nós, a lebre que alguém caça é considerada
propriedade daquele que a está perseguindo. Pois, sendo um animal ainda tido por comum, que não é propriedade particular
de homem algum, quem quer que tenha o trabalho de encontrá-lo e persegui-lo, revomeu-o, com isso, do estado de natureza,
no qual era comum, e dá início a uma propriedade.
Talvez a isso se objete que, se o ato de colher uma bolota ou outros frutos da terra etc. dá direito a eles, qualquer um poderá
açambarcar tanto quanto queira. Ao que eu respondo que não. A mesma lei da natureza que por este meio nos concede a
propriedade, também limita essa propriedade. Deus deu-nos de tudo em abundância (1Tm 6,17) é a voz da razão
confirmada pela revelação. Mas até que ponto ele no-lo deu? Para usufruirmos. Tanto quanto qualquer pessoa possa fazer
uso de qualquer vantagem da vida antes que se estrague, disso pode, por seu trabalho, fixar a propriedade. O que quer que
esteja além disso excede sua parte e pertence aos outros. Nada foi feito por Deus para que o homem estrague ou destrua. E
assim, considerando-se a abundância de provisões naturais que por muito tempo houve no mundo e quão poucos havia para
gastá-las, e a que pequena parte dessa provisão o esforço de um único homem poderia estender-se e açambarcá-la para
prejuízo dos demais, especialmente mantendo-se nos limites fixados pela razão do que poderia servir para seu uso, pouco
espaço poderia haver para querelas ou contendas acerca da propriedade assim estabelecida.
Mas, sendo agora a principal questão da propriedade não os frutos da terra e os animais que destes subsistem, e sim a
própria terra, como aquilo que tem em si e carrega consigo todo o resto, creio que está claro que, também neste caso, a
propriedade é adquirida como no caso anterior. A extensão de terra que um homem pode arar, plantar, melhorar e cultivar
e os produtos dela que é capaz de usar constituem sua propriedade. Mediante o seu trabalho, ele, por assim dizer, delimita
para si parte do bem comum. Nem lhe invalidará o direito dizer que todos têm a ela igual título e que, portanto, ele não
pode apropriar-se, não pode delimitar sem o consentimento de todos os membros da comunidade, de toda a humanidade.
Quando deu o mundo em comum para toda a humanidade, Deus ordenou também que o homem trabalhasse, e a penúria de
sua condição assim o exigia. Deus e sua razão ordenaram-lhe que dominasse a Terra, isto é, que a melhorasse para benefício
da vida, e que, dessa forma, depusesse sobre ela algo que lhe pertencesse, o seu trabalho. Aquele que, em obediência a essa
ordem de Deus, dominou, arou e semeou qualquer parte dela, acrescentou-lhe com isso algo que era de sua propriedade,
ao que os demais não tinham qualquer título, nem poderiam tomar-lhe sem causar-lhe injúria.
Tampouco seria essa apropriação de qualquer parcela de terra, mediante a melhoria desta, prejudicial a qualquer outro
homem, uma vez que restaria ainda bastante e de boa qualidade, e mais do que poderiam usar os que ainda não possuíam
um lote. De modo que, na verdade, nunca houve menos para os outros pelo fato de ter ele delimitado parte para si, pois
aquele que deixa para outro tanto quanto este possa usar faz como se não houvesse tomado absolutamente nada. Ninguém
poderia julgar-se prejudicado pelo fato de outro homem beber, mesmo que tenha tomado um bom gole, se houvesse todo
um rio da mesma água sobrando para saciar sua sede. E o caso da terra e da água, quando há bastante de ambos, é
perfeitamente o mesmo.
Deus deu o mundo aos homens em comum; mas uma vez que lhes deu o mundo para benefício deles e para a maior
conveniência da vida que dele fossem capazes de extrair, não se pode supor que tivesse Ele a intenção de que permanecesse
comum e inculto para sempre. Deu-o para o uso dos diligentes e racionais (e o trabalho haveria de ser o seu título de
propriedade), e não para a fantasia e a cobiça dos rixentos e litigiosos. Aquele que tivesse para melhorar terra tão boa quanto
aquela que já estivesse tomada não precisaria queixar-se nem deveria meter-se com a que já estivesse melhorada pelo
trabalho alheio; caso o fizesse, ficaria claro que desejava o benefício dos esforços alheios, ao qual não tem direito, e não ao
solo que Deus lhe dera em comum com outros para trabalhar e do qual haveria tanto sobrando quanto o que já fosse
possuído, e mais do que ele poderia usar ou do que seu esforço poderia abarcar”.

LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Trad. Julio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.406-414.

Preservar os benefícios daquilo que se chama de vida civilizada e ao mesmo tempo remediar o mal que ela produziu deveria
ser considerado um dos primeiros objetivos da legislação reformada.
Se este estado chamado com orgulho, e talvez erradamente, de civilização trouxe mais benefícios ou prejuízos à felicidade
geral do ser humano, é uma questão que pode ser fortemente contestada. Por um lado, o espectador fica fascinado pelas
aparências esplêndidas; por outro, ele fica chocado com os extremos de miséria, sendo que ambos foram criados por ele. O
mais afluente e o mais miserável da raça humana são encontrados nos países chamados de civilizados.
Para entender o que deve ser o estado da sociedade, é necessário ter alguma noção do estado natural e primitivo do homem,
tal como ele é hoje em dia entre os índios da América do Norte. Não há naquela sociedade nenhum daqueles espetáculos
de miséria humana que a pobreza e a necessidade apresentam aos nossos olhos em todas as cidades e ruas da Europa.
A pobreza é, portanto, uma coisa criada por aquilo que se chama de vida civilizada. Ela não existe em estado natural. Por
outro lado, o estado natural não possui aquelas vantagens que provêm da agricultura, das artes, da ciência e das manufaturas.
A vida de um índio são férias permanentes, se comparada à dos pobres da Europa. Por outro lado, parece ser abjeta se
comparada à dos ricos. Portanto a civilização, ou aquilo que se chama de civilização, tem operado de duas maneiras: tornou
uma parte da sociedade mais rica e a outra mais pobre do que cada uma delas teria se tornado em um estado natural.
Sempre é possível ir do estado natural para o civilizado, mas nunca é possível ir do estado civilizado para o estado natural.
O motivo para isso é que o homem em um estado natural, subsistindo por meio da caça, exige uma extensão de terra dez
vezes maior para explorar a fim de obter o seu sustento do que aquela que seria necessária em um estado civilizado, no qual
a terra é cultivada.
Portanto, quando um país se torna populoso por meio dos recursos adicionais do cultivo, das artes e ciências, há uma
necessidade de preservar as coisas nesse estado, pois sem ele não pode haver sustento para mais do que, talvez, uma décima
parte de seus habitantes. Por conseguinte, o que deve ser feito agora é remediar os males e preservar os benefícios da
sociedade decorrentes da passagem do estado natural para aquele chamado de estado civilizado.
Assim sendo, o primeiro princípio de civilização deveria ter sido, e ainda deve ser, o de que a condição de toda pessoa
nascida no mundo, depois de ter início um estado de civilização, não deverá ser pior do que seria se ela tivesse nascido
antes daquele período.
Mas o fato é que a condição de milhões de pessoas, em todos os países da Europa, é muito pior do que se elas tivessem
nascido antes do início da civilização, ou se tivessem nascido entre os índios da América do Norte nos dias atuais. Mostrarei
como se deu este fato.
Não se pode negar que a terra, em seu estado natural, não cultivado, era e teria continuado a ser sempre propriedade comum
da raça humana. Naquele estado todo homem teria nascido com direito à propriedade. Ele teria sido um coproprietário
vitalício, juntamente com o resto [da humanidade], do solo e de todos os seus produtos naturais, vegetais e animais.
Mas a terra em seu estado natural, como já foi dito, é capaz de sustentar apenas um pequeno número de seus habitantes, em
comparação com o que ela é capaz de sustentar em estado cultivado. E como é impossível separar da terra as benfeitorias
proporcionadas pelo seu cultivo, o conceito de propriedade fundiária surgiu dessa conexão inseparável. Entretanto é verdade
que somente o valor das benfeitorias, e não a terra em si, é propriedade individual.
Portanto, todo proprietário de terras cultivadas deve à comunidade um aluguel de solo [ground-rent] (pois não conheço
nenhum termo melhor para expressar esta ideia) pela terra que detém; e é esse aluguel de solo que deve compor o fundo
proposto neste plano.
Pode-se deduzir, tanto da natureza das coisas quanto de todas as histórias que nos foram transmitidas, que a ideia de
propriedade fundiária teve início com o cultivo e que não existia tal coisa antes daquela época. Ela não poderia existir no
estágio primitivo do homem, o de caçador. Não existia no seu segundo estágio, o de pastores: nem Abraão, nem Isaac, nem
Jacó, nem Jó, desde que se possa dar crédito à história da Bíblia em coisas prováveis, eram proprietários de terra.
Como sempre se conta, a propriedade deles consistia em rebanhos que viajavam com eles de um lugar para outro. Os
conflitos frequentes naquela época em torno do uso de um poço nas terras secas da Arábia, onde aqueles povos viviam,
também demonstram que não existia a propriedade de terras. Não se admitia que a terra pudesse ser reivindicada como
propriedade.
Não poderia haver propriedade fundiária originalmente. A Terra não foi feita pelo homem, e, embora possuísse um direito
natural de ocupá-la, ele não tinha o direito de delimitar como sua propriedade perpétua qualquer parte dela. Tampouco o
Criador da Terra abriu um escritório imobiliário onde deveriam ser emitidos os primeiros títulos de posse. De onde então
surgiu a ideia de propriedade fundiária? Respondo, como o fiz anteriormente, que, quando teve início o cultivo, a ideia de
propriedade da terra surgiu com ele da impossibilidade de separar da terra as benfeitorias trazidas pelo seu cultivo.
Naquela época, o valor das benfeitorias era tão superior ao da terra nua que chegava a absorvê-la, até que, por fim, o direito
comum de todos confundiu-se com o direito individual ao cultivo. Porém há espécies distintas de direitos, e sempre haverá
enquanto a Terra existir.
É somente investigando as coisas até as suas origens que podemos obter noções justas a respeito delas, e é obtendo tais
noções que descobrimos a fronteira que divide o certo do errado e ensina cada homem a conhecer a si mesmo. Dei a este
tratado o título de ‘Justiça Agrária’ para distingui-lo de ‘Direito Agrário’.
Nada poderia ser mais injusto do que Direito Agrário em um país aperfeiçoado pelo cultivo, pois embora todo homem,
como habitante da Terra, seja coproprietário dela em seu estado natural, isso não significa que ele seja coproprietário da
terra cultivada. O valor agregado pelo cultivo, depois que o sistema foi aceito, tornou-se propriedade daqueles que o
realizaram, que o herdaram ou que o compraram. Originalmente ele não tinha dono. Portanto, enquanto advogo o direito e
me interesso pelo caso de todos aqueles que foram excluídos da sua herança natural por meio da introdução do sistema de
propriedade fundiária, defendo da mesma forma o direito do proprietário à parte que lhe pertence.
O cultivo é, no mínimo, um dos maiores progressos naturais já feitos pela invenção humana. Ele decuplicou o valor da
Terra criada, mas o monopólio fundiário que surgiu com ele produziu o maior dos males. Ele expropriou mais da metade
dos habitantes de cada nação de sua herança natural, sem conceder-lhes, como deveria ter sido feito, uma indenização por
essa perda, criando assim uma espécie de miséria que antes não existia.
Ao advogar o caso das pessoas expropriadas dessa maneira, é um direito e não uma caridade que estou pleiteando. Mas é o
tipo de direito que, tendo sido negligenciado a princípio, não poderia ter sido alegado mais tarde, até que os céus tivessem
aberto o caminho por meio de uma revolução no sistema de governo. Vamos então honrar as revoluções por justiça e
propagar seus princípios por meio de bênçãos.
Tendo assim aberto o mérito do caso em poucas palavras, procederei agora ao plano que tenho a propor, que é:
Criar um fundo nacional, do qual deverá ser paga a toda pessoa, ao atingir a idade de vinte e um anos, a quantia de quinze
libras esterlinas, como uma compensação parcial pela perda de sua herança natural resultante da implantação do sistema de
propriedade fundiária.
E também a quantia de dez libras por ano, em caráter vitalício, para toda pessoa que tenha atualmente a idade de cinquenta
anos e para todas as demais quando atingirem essa idade.

PAINE, Thomas. Justiça agrária. Disponível em: https://filosofianaescola.com/textos-de-filosofia/renda-basica-segundo-


paine/ . Último acesso em: 21/08/2019.