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A Psicologia Jurídica em Casos de

Abuso Sexual
Avaliação Psicológica em Suspeita de
Abuso Sexual
• O contexto pericial

• Definição de Abuso

• Abuso em Casos de Vara de Família

• Literatura e estatísticas

• Problemáticas ligadas à investigação de abuso

• Proposta de avaliação X tratamento a longo prazo


O Contexto Pericial
• Atuação na fase investigatória

• Mesmo que haja um histórico do réu ou ré, isto não


caracteriza como culpa
• Mesmo que o réu (ou ré) tenha características em comum com
abusadores e a vítima tenha características em comum com crianças
abusadas, isto não implica que este réu (ou ré) tenha perpetrado a
transgressão específica da qual ele ou ela é acusado ou acusada.
A Definição de Abuso Sexual
• Todos têm alguma idéia do que pode ser um “abuso
sexual”, o termo é por si bastante expressivo. Mas, ao
contrário do que pode parecer, tentar concluir se uma
determinada situação de relacionamento interpessoal se
constitui ou não em abuso sexual pode gerar
controvérsias, e elucidar no que consiste e quais são os
efeitos de um abuso é bastante difícil (FAIMAN, 2004).
Tetelbom, Quinalha, Defavery e
Zavaschi (1991)
• Psiquiatras e pediatras

• Definem abuso sexual como “exposição de uma


criança a estímulos sexuais inapropriados para sua
idade, seu nível de desenvolvimento psicossocial e
seu papel na família” (cf. Luther e Price, 1980 e
Ellerstein e Canavan, 1980).
Lucia Fuks (1998)
• Psicanalista paulista
• Afirma que “o abuso sexual infantil supõe uma
relação de poder sobre as crianças para a gratificação
sexual de um adulto ou de outra criança
significativamente maior.
• O fator que o define é a relação de poder e a
incapacidade das crianças em dar um consentimento
informado” (p. 121).
Renata Cromberg (2001)
• Psicanalista paulista

• Fala em “cena incestuosa” referindo-se a ocorrência de


violência sexual contra meninas e mulheres por membros do
sexo masculino.

• “Por violência sexual entendo uma situação complexa,


desencadeada por um ato sexual, não necessariamente o
coito, no qual uma pessoa estranha ou familiar utiliza-se do
corpo de uma outra pessoa, ou ameaça fazê-lo, sem seu
consentimento consciente” (p. 53).
Azevedo e Guerra (1988)
• Preferem utilizar o termo vitimização sexual

• Argumentando que o termo abuso coloca ênfase


no pólo adulto. Elas utilizam tal termo para
designar o fenômeno “da participação de uma
criança em práticas eróticas mediante coerção
(física ou psicológica) de um adulto” (p. 12).
• O que gostaríamos de ressaltar é que os
critérios pelos quais os profissionais vão se
pautar são subjetivos e passíveis de
questionamento:
• “estímulos sexuais inadequados”
• “gratificação sexual de um adulto”
• “consentimento consciente”
• “coerção”
Abuso em Casos de Vara de Família

• Abuso intra-familiar

• Queixa feita dentro de um contexto de litígio


familiar

• Possibilidade de abarcar todos os elementos


do grupo familiar
Literatura e Estatísticas
• No contexto norte-americano, Thoennes e
Tjaden (1990) investigaram 9.000 famílias
em disputa de guarda e/ou visita.

• Os casos que envolviam a alegação de abuso


chegavam a menos de 2% (169 casos).
• Dos 169 casos, quase a metade eram de
alegações de abuso feitas pelas mães
contra os pais.
• As supostas vítimas eram em sua
maioria meninas
• quase sempre, tratava-se de episódios
recentes e múltiplos.
Laudos conclusivos X não conclusivos

• Do total de 169 casos:

• a metade foi considerada envolvendo abusos


(85 famílias)

• 33% não envolveriam abusos (56 famílias)

• 17% não houve um consenso (28 famílias)


Idade X indeterminação do abuso

• três anos ou menos: quase 40%

• entre quatro a seis anos: 15%

• acima de sete anos: 15%


Falsas alegações: intencionais ou más-
interpretações
• Faller e DeVoe (apud Schuman) investigaram uma
amostra de 215 casos com alegações de abuso no
contexto do divórcio
• encontraram 21% de falsas alegações:
• 16% (34 casos) foram de má-interpretação
(misinterpretions)
• 5% (11 casos) de alegações falsas intencionais
• SCHUMAN, T.M. “Allegations of sexual abuse”. In: STAHL, P.M. Complex issues in child
custody evaluations. California, Sage Publications, p. 43-68, 1999.
Divórcio e Abuso Sexual
• Ainda de acordo com Faller e DeVoe:
• a descoberta do abuso sexual foi seguida de
divórcio em 14%
• abuso durante o casamento e descoberto após a
separação em 25%
• abuso se iniciou durante ou logo após a
separação em 27% dos casos
Realidade psíquica X realidade exterior
• O psicanalista só trabalha na realidade psíquica. Postula, portanto, a
igualdade da fantasia e da realidade, no que se encontra, evidentemente,
desqualificado para legislar fora, dar conselhos fora do seu consultório.

• Um homem mata outro, de automóvel, na estrada. Para o psicanalista,


quaisquer que sejam as circunstâncias, a questão do assassinato está aberta e
assim deve continuar; nossa função é mesmo abri-la imediatamente.

• Tanto assim que, no momento em que se passa à realidade efetiva, o


psicanalista só pode emitir opiniões parciais, opiniões completamente
conjecturais sobre as articulações do seu domínio e o da justiça.
Dilema profissional
• Cohen (1993) afirma que os profissionais que
tomam conhecimento de um ato incestuoso no
exercício de sua função preferem,
frequentemente, não fazer uma denúncia à
justiça com temor de prejudicar a coesão
familiar, escondendo-se atrás do direito ao
segredo profissional.
Awad & McDonough na Family Court Clinic
de Toronto (Canadá)
• A proposta se baseia na experiência de que na
maioria dos casos com crianças abaixo de seis anos,
as avaliações breves geralmente falhavam em
consubstanciar ou negar a alegações de abuso.

• Ao invés deste tipo de avaliação, eles propõem um


modelo de tratamento a longo prazo, utilizando uma
equipe de profissionais.
• Família com uma menina de 4 anos de idade que
morava com a mãe de 29 anos. O pai de 31 anos
morava com seu pai de 67 e sua mãe de 65 anos.
O caso veio à instituição em meados de 1988,
dois anos depois da separação do casal.

• A família foi atendida de setembro de 88 a janeiro


de 89, quando a menina revela o abuso e
continuou até abril do mesmo ano.
• Utilizadas entrevistas conjuntas com os pais, de cada pai
com a menina, da menina individualmente, além de
entrevistas com pessoas consideradas significativas por
ambos os pais.
• Participação dos advogados que eram informados da
estratégia de investigação e seus achados.
• Trabalho em equipe, apoiada pelo Tribunal no sentido de
conceder plenos poderes de modelar o esquema de
visitação a cada passo da avaliação (dar a visita,
aumentar ou diminuir).
Breese et. al. Califórnia (EUA).
• Proposta de um grupo de advogados e psicólogos

• Esta ênfase subjacente na criança impõe o dever sobre os terapeutas de ir


além da mera descoberta de se uma alegação de abuso é procedente ou
não. Se ela é improcedente, só o fato de uma alegação como esta ser feita
é evidência de que a família necessita de algum tipo de ajuda individual ou
familiar para todos ou alguns de seus membros.

• Se procedente, pelo menos uma instância judiciária estará envolvida para


resolução última do caso, havendo a responsabilidade dos terapeutas de
considerar cuidadosamente a capacidade da criança de descrever
experiências pessoais, o impacto emocional na criança se ela tiver que
testemunhar e o melhor enfoque terapêutico.
Clínica de Tavistock em Londres
• No Reino Unido, a Clínica de Tavistock em Londres - um marco
de referência no provimento de serviços ligados à saúde
mental. A experiência de Furniss (1993) foi forjada lá.

• Enfoque grupal na equipe forense - avaliações especialmente


solicitadas para instruir os mais diversos processos judiciais.

• A co-participação no desenho da avaliação e sua implantação


trazem um respaldo muito maior aos vários sentimentos
contratransferenciais eliciados por este tipo de trabalho
(Bichard e Shine, 1995).
O perfil da vítima
• Tal perfil permitiria a partir realizar um
diagnóstico diferencial nos casos de suspeita

• Ou seja, dada as características da criança em


particular, ela apresentaria as mesmas
condições que me permitem supor a
ocorrência de um abuso sexual como causa
destas mesmas condições?
• Uma resposta afirmativa apontaria com maior
segurança a ocorrência do abuso.

• Portanto, ao psicanalista perito importaria tomar


conhecimento do desenvolvimento médio de uma
criança e do desvio de tal desenvolvimento
ocasionado por um fato específico (o abuso sexual)
que poderia ser pensado como estando na base de
uma conduta diferencial e confirmadora do
diagnóstico.
Perfil do abusador
• Por esta mesma lógica se pensa no perfil do abusador na
tentativa de configurar se o sujeito em questão se
enquadraria ou não em tal perfil (apesar que isto, por si só,
não pode ser usado como definidor da questão).
• Schuman (1999) afirma, porém, que não existe um perfil do
abusador. Eles podem ser encontrados em todas as classes
sociais, podendo ter até uma intimidade maior com a criança
que o outro genitor. É uma falsa pressuposição achar que a
criança abusada por um dos pais não tenha sentimentos
positivos e vínculos com o abusador.
Credibilidade do testemunho infantil
• Uma vez que é o testemunho da vítima aliado a evidências
físicas o que vai determinar a validade ou não da alegação.

• Muitas formas de abuso não deixam marcas físicas e as


evidências médicas raramente são suficientes para identificar
um abusador em específico (LAMB, 1994).

• Portanto, a solicitação da participação dos profissionais psi se


volta para a melhor forma de eliciar um relato o mais acurado
e menos viesado das crianças (DERDEYN; POEHAILOS; SEIGLE,
1994; FURNISS, 1993; LAMB; STERNBERG, 1998).
Bonecos anatômicos
• Em consonância com esta preocupação está a utilização de técnicas especialmente
criadas para abordar questões sexuais como o uso de bonecos anatomicamente
corretos (com os órgãos genitais) (BOAT; EVERSON, 1998)

• Há ainda muita discussão sobre o quanto a utilização de bonecos anatômicos é


mais eficiente do que a sua não utilização. Neste sentido, cabe lembrar que a
utilização de bonecos anatômicos em entrevistas não tem demonstrado evidência
científica de benefício se comparada com entrevistas que não utilizam esses
bonecos.
9.2.2 Incesto – TJPR

• “Crime contra os costumes – Crime contra a liberdade sexual – Pai e

filha – Limite da imputação – inexistência de violência ou grave

ameaça – temor reverencial – crime inexistente – absolvição.

• 1. Se a imputação não descreve ameaça ou violência, mas enquadra

o fato no estupro apenas pelo temor reverencial, é esse o quadro

fático que a sentença deve valorar.

• 2. A relação sexual entre pai e filha, esta com mais de 14 anos, sem

violência (real ou presumida) ou ameaça, não constitui estupro.


• 3. O simples relato do congresso carnal entre parentes, sem violência

ou ameaça, descreveria fato típico se a lei penal punisse o incesto.

• 4. As presunções, em Direito Penal, são odiosas e revelam deficiência

da investigação científica e da elaboração da lei. A existirem, hão de

ser estrita aplicação, vedada a ampliação analógica. O artigo 224, do

Código Penal, não contempla o temor reverencial.

• 5. O legislador brasileiro há muito tempo optou por não considerar o

ato sexual entre parentes, só por isso, crime, prevendo apenas que a

ação penal se torna sempre pública (artigo 225, parágrafo 1, II), em

certas hipóteses, e o agravamento penal (artigo 226, II).


• 6. É admissível o estupro quando o pai, por exemplo, age
costumeiramente de modo brutal, mantendo a todos em
permanente estado de terror. Mas será esse medo, ameaça, fazer o
ato diretamente típico, e não o temor reverencial, o pudor de
desgostar, desobedecer.

• Decisão: Acordam os desembargadores integrantes da Segunda


Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por
unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso para absolver
o apelante”.

• (TJPR, Apelação Criminal, Acórdão n.º 8072, Segunda Câmara


Criminal, Desembargador Luiz Viel, publ. 18.09.1995) (p. 77-78).