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Módulo 5
O Liberalismo - ideologia e
revolução, modelos e práüicas
nos séculos )fflll e XIX
1. A Flevolução Americana, uma revolução
fundadora
2. A Flevolução Francesa - paradigma das
revoluÇões liberais e burguesas
3. A geografia dos movimentos revolucionários
na primeira metade do século XIX: as vagas
revolucionárias liberais e nacionais
4. A implantaÇão do Liberalismo em Portugal
5. O legado do Liberatismo na primeira metade
do século XIX
M5, o Liberalismo - ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVlll e XÍX

Sistematizar conhecimentos
1. A Revolução Americana, uma revolução fundadora

1.1. Nascimento de uma Nação sob a égide dos ideais ituministas

0bjectivo 1. Reconhecer a diversidade e a unidade das cotónias ingtesas da América do Norte


No século XVlll, a Inglaterra possuía 13 colonias na costa oriental da America do Norte. Estas
colónias estavam unidas:
- por uma mesma lÍngua - o inglês;
- pela religião * predominantemente protestante;

- pela luta contra os Índios e Franceses;


- pela submissão à coroa britânica (rei Jorge lll) e ao Parlamento inglês.
Porém, também existiam factores de diversidade:
- as colónias do Norte e do Centro tinham como base económica a agricultura complemen-
tada pela pesca, criação de gado, comércio e indústria. Eram, também, constituídas por
comunidades mais tolerantes;
- as colónias do Sul especializaram-se na plantação do tabaco e do algodão assente na
exploração de mão-de-obra escrava.
Se, por um lado, os factores de união podem ter favorecido a criação, em 1776, de um paÍs
novo e independente (os Estados Unidos da America), por outro lado, os factores de diversida-
de podem ajudar-nos a compreender as hesitaçÕes na escolha de um modelo político após a
independência: dever-se-ia escolher um governo central forte ou uma federação descentraliza-
da? A formação, ainda que lenta, de uma consciência nacional levaria os Amerjcanos a optar
pela existência de um governo geral.

Objectivo 2. Expticar o conflito económico surgido entre a lnglaterra e as suas cotónias da


América após 17ó3
Os principais motivos de descontentamento dos colonos americanos prendiam-se com ques-
tÕes económicas:
1. A Guerra dos Sete Anos, que estendera ao território americano os conflitos entre Franceses
e lngleses, terminou com a vitória inglesa (Tratado de Paris). No entanto, em troca da pro-
tecção concedida aos colonos, a lnglaterra sobrecarregou-os com impostos, de maneira a
recuperar do esforço de guerra. Entre'1764 e 1767, o Parlamento britânico decretou taxas
aduaneiras sobre a importação de certos produtos (papel, vidro, chumbo, melaço, chá) e
criou um imposto de selo.
2. A região que os colonos reivindicavam, a oeste, para se expandirem territorial e economi-
camente, foi considerada propriedade dos índios pelo governo britânico.
3. Os colonos americanos tinham falta de liberdade comercial: só podiam exportar os seus
produtos para lnglaterra ou para outras colónias inglesas e só podiam importar mercado-
rias europeias por intermédio de Londres (teoria do exclusivo comercial).

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/À HevoluÕao AmeÍ 'evoluÇão fundado ft
0bjectivo 3. Mostrar como esse conftito adquiriu um carácter potítico
O conflito económico ganhou contornos políticos quando os colonos americanos tomaram
consciência de que, apesar de serem cidadãos britânicos, não estavam representados no
Parlamento de Londres. Como tal, não consideravam legais os impostos votados. Os aconteci-
mentos que se seguiram agravaram a controvérsia entre as colónias e a metrópole. Eis as prin-
cipais etapas do processo de independência americana:
- em 1765, realizou-se um congresso em Nova lorque contra a imposição de leis;
- em 1770, face aos protestos, os impostos foram abolidos, à excepção daqueles que diziam
respeito ao chá, cujo monopólio de venda era entregue à Companhia das Índias;
- em 1773, em Boston, os colonos revoltaram-se contra o imposto sobre o chá, atirando ao mar
os carregamentos da Companhia das Índias (BostonTea Party). O rei Jorge lll reagiu com
medidas repressivas;
- em 1774, no primeiro congresso de Filadélfia, os colonos ainda tentaram uma solução nego-
cial; porém, nas ruas, organizava-se um movimento revolucionário armado;
- em I775, em Lexington, defrontaram-se em combate as tropas inglesas e os milicianos ame-
ricanos: este recontro violento marcou o fim da possibilidade de negociação, o que levou
Thomas Paine a escrever "A palavra está nas armas. [...] O sangue dos nossos mortos e a
própria natureza gritam-nos "abaixo a lnglaterra"";
- a 4 de Julho de 1776 (dala oficial da independência dos EUA), os delegados de todas as
colónias aprovaram a Declaração de lndependência no segundo Congresso de Filadélfia.

Objectivo 4. Justificar o apoio da França à causa da independência das cotónias inglesas da


América do Norte
Apesar da aprovação da Declaração de lndependência (redigida por Thomas Jefferson) pelas
colónias, os conflitos prosseguiram, sob o comando de George Washington (que viria a ser o pri-
meiro presidente dos Estados Unidos da América). O apoio francês (em armas, soldados,
dinheiro e barcos) surgiu em 1778 e justifica-se pela vontade de desforra deste país em relação
à derrota na Guerra dos Sete Anos.
Foi graças ao apoio da França, da Espanha (aliada da França na Guerra dos Sete Anos) e à
acção diplomática na Europa (em especial, por Benjamin Franklin) que a vitória sobre os
lngleses se tornou possível.
Em 1783, colonos e lngleses assinaram o Tratado de Versalhes, no qual a lnglaterra reconhe-
cia a independência das '13 colónias. Nesse momento os Franceses puderam, também, sentir o
sabor da vitória, recuperando alguns dos territórios perdidos em 1763.

Objectivo 5. Retacionar os princípios contidos na Dectaração de lndependência de 177ó e na


Constituicão de 1787 com a apticacão dos ideais ituministas
A Declaração de lndependência de 1776 justifica a ruptura relativamente à lnglaterra com
base nos pressupostos iluministas:
- defende o direito à igualdade e à independência como "Lei da Natureza";
- proclama, como direitos "inalienáveis" (isto é, que não se podem retirar nem transmitir a
outrem) e concedidos por Deus, "a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade";
- institui a soberania popular com base em "governos, cujo justo poder emana do consenti-
mento dos governados";
- prevê o direito de os povos deporem um governo que não os represente e de "instituir um
novo governo";
- rejeita o "despotismo absoluto".
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ft M5, O Liberalismo - ideologia e revoluÇão, modelos e práticas nos séculos XVlll e XIX

Em 1787, a Constituição definiu o modelo político do novo estado independente: foi instituída
a República dos Estados Unidos da América, um conjunto de Estados federados com alguma
autonomia mas obedientes a um Estado Central forte.
Neste diploma Íoram aplicados, na prática, pela primeira vez, os ideais iluministas.
- A divisão tripartida dos poderes, pensada pelo filósofo iluminista Montesquieu, foi aplicada
da seguinte forma: o poder legislativo foi entregue ao Congresso, composto pela Câmara
dos Representantes e pelo Senado (que reunem no edifÍcio do Capitólio, em Washington);
o poder executivo coube ao Presidente dos Estados Unidos da América (residente na Casa
Branca, em Washrngton, desde 1800) e o poder judicial passou a pertencer a um Tribunal
Supremo e a tribunais inferiores;
- foram consignadas as liberdades e garantias dos cidadãos;
- foi consagrada a soberania nacional, nomeadamente pela possibilidade de exercer o direito
de voto.
Em resumo, a Revolução Americana deu início a uma vaga de revoluções liberais que ocorre-
ram entre os séculos XVlll e XIX e que puseram fim ao sistema de Antigo Regime baseado no
absolutismo e na sociedade de ordens. Estes movimentos instituíram a soberania popular, a
separação de poderes, a livre iniciativa económica, a tolerância religiosa e a descolonizaçáo.

Flelaxar fazendo História


Passear nos trilhos da memória

Sabia que, na cidade de Boston, as ruas do centro histórico foram assinaladas através de uma
linha, pintada no chão, que percorre os principais lugares da luta pela independência? Esse
percurso, que o turista ou o habitante da cidade podem visitar, é denominado por The Freedom
Trail (o trilho da liberdade).

E se pudesse pintar uma linha que unisse os principais pontos de referência do espaço onde
vive? Por onde passaria? Onde sugeriria que o visitante se detivesse? Depois de uma breve
pesquisa e de, em função desta e dos seus interesses, delimitar um período cronológico, tente
delinear o seu próprio trilho. Assinale-o, em seguida, num mapa da sua terra, com a respectiva
legenda. Descobrirá que uma boa caminhada também pode significar Íazer História!

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Í. A Revolução Amer"icana, uma revolução fundadona a?
Esquema

13 COLONIAS
NA AMERICA DO NORTE

. Língua Iingtesa) . Norte e Centro: pesca


. Retigião Iprotestante) comércio, construção
navaI
. 0posiÇão aos índios
. Sut: tabaco, atgodão
. 0oosicão aos franceses Imão-de-obra êscrava)
tçjueria dos sete anosl

Contestacão à metrópote / confLito económico

. Sobrecarga fiscaI
. Desejo de expansão para território índio
. Fa[ta de [iberdade comercia[ [teoria do exctusivo cotoniaL]
. Ausência de representatividade no Parlamento britânico

Etapas do processo de independência [conf[ito potítico)

.1765 - Congresso de Nova lorque [contra a imposição de teis]


.1773 - BostonTea Party [revotta dos cotonos contra o imposto sobre o chá)
. 1774 - Primeiro Congresso de Fitadélfia
. 1775 - Envio de tropas ingtesas contra os co[onos
.04.07.177ó - Segundo Congresso de Fitadétfia: aprovação da Dectaracão de lndependência
dos Estados Unidos da América [Thomas JeÍferson)
. 1777 - Batatha de Saratoga [comandante: George Washington)
. 1778 - Apoio da França à causa da independência
. 1781 - Derrota ingtesa em Yorktown
. 1783 - Tratado de Versathes Ilngtaterra reconhece a independência)

Nascimento de uma Nação: primeira apLicação prática das ideias ituministas

.1787 - Constituição dos Estados Unidos da América:


- Repúbtica federat [estados Íederados sob um governo geraU
- Divisão dos poderes [egistativo [Congresso), executivo [presidente da Repúbtical,
judiciat [Tribunat Supremo, tribunais inferiores]
- Defesa dos direitos dos cidadãos
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M5, O Liberalismo - ideologia e revoluÇão, modelos e práticas nos séculos XVlll e XIX

Sisüematizar conhecimentos

2. A Revolução Francesa - paradigma das revotuções [ibe-


rais e burguesas

2.1. A França nas vésperas da Revotucão

Objectivo 1. Mostrar o anacronismo das estruturas sociais Írancesas nas vésperas da


Revotucão
Estamos perante um anacronismo quando, numa determinada época, existem caracterÍsticas
que deveriam pertencer a outra: era o caso da sociedade Írancesa do século XVlll, ainda muito
ligada às estruturas de Antigo Regime. Persistiam, assim, as seguintes características sociais:
- a alta burguesia era superior às ordens tradicionalmente privilegiadas (clero e nobreza) em
riqueza e instrução, contudo, não tinha acesso aos altos cargos da administração pública,
do exército e da hierarquia religiosa, para os quais se exigia prova de nobreza;
- os camponeses, apesar de constituírem a maioria da população (cerca de 80%) continua-
vam na miséria, pois não eram detentores das terras que trabalhavam e ainda tinham de
pagar impostos;
- os trabalhadores das cidades recebiam baixos salários;
- a nobreza mantinha um estilo de vida ocioso e frívolo; porém, detinha a maior parte da pro-
priedade fundiária, os postos mais importantes e estava isenta do pagamento de impostos;
-o clero possuÍa terras, recebia rendas e a dÍzima (1/10 de toda a produção agrícola), no
entanto, tal como a nobreza, não pagava impostos.
Esta situação de profunda injustiça social Íoi, então, uma das causas da Revolução Francesa.

Objectivo 2. Anatisar a crise económico-financeira


Nas vésperas da Revolução, a França era afectada por uma crise económica motivada pelos
seguintes factores:
- o aumento do preço do pão, em virtude de maus anos agrÍcolas,
- a quebra de produção têxtil, não só devido ao aumento do preço do pão (que limitava a
capacidade de aquisição de outros produtos pelas famílias), mas também por causa do
Tratado de Eden, de 1786 (que previa a livre-troca do vinho francês pelos têxteis ingleses);
- as despesas do Estado com o exército, as obras públicas, a dívida pública e o luxo da corte,
que originavam um défice constante, já que o clero e a nobreza não contribuíam para as
receitas do Estado (pois não pagavam impostos).
Podemos considerar a crise económico-financeira como o segundo factor que conduziu à
Revolução.

0bjectivo 3. Expticar o fracasso das tentativas potíticas de reforma


Perante a crise económico-financeira, o poder político tinha de agir. O rer Luís XVl, monarca
absoluto, rodeou-se de ministros para o auxiliarem: Turgot, Necker, Calonne e Brienne propuse-
ram, sucessivamente, reformas no intuito de solucionar a crise. Porém, a conclusão a que che-
gavam era sempre a mesma: a única maneira de obter mais receitas para o Estado passaria por
fazer com que as ordens privilegiadas também pagassem impostos. Ora, o clero e a nobreza
opuseram-se termínantemente às tentativas de redução dos seus privilegios.
A própria rainha Maria Antonieta, chamada pelo povo "Madame DeÍice" devido às suas des-
pesas com a corte, contribuiu para que os minÍstros fossem despedidos.

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@

Foi num clima de agitação popular e de oposição polÍtica das ordens privilegiadas que Luís XVI
resolveu convocar os Estados Gerais (reunião dos representantes das diversas ordens sociais),
enquanto se elaboravam os Cadernos de Queixas (registo dos anseios da sociedade francesa).

2.2. Da nacão soberana ao triunfo da Revotucão burguesa

Objectivo 4. lnterpretar a transformação dos Estados Gerais em Assembleia Naciona[


Constituinte
A reunião dos Estados Gerais, em Maio de 1789, iniciou-se, desde logo, com uma questão
controversa: a votação das propostas deveria fazer-se por cabeça (cada deputado, um voto) ou
por ordem (cada grupo social, um voto)?
Se a votação por cabeça ganhasse, os deputados do Terceiro Estado, maioritários, fariam
valer as suas propostas; porém, se a votação se fizesse por ordem, as duas ordens privilegia-
das (clero e nobreza) poderiam unir-se, dado que tinham interesses convergentes, na defesa do
seu estatuto.
Perante este impasse e a indecisão de Luís XVl, os deputados do Terceiro Estado (juntamen-
te com alguns deputados do clero e da nobreza que partilhavam das mesmas ideias) reuniram-
se à parte, na sala do Jogo da Péla, onde juraram, em Junho de 1789, não se separarem até
que estivesse pronta uma Constituição. Devido a este acto revolucionário (conhecido por
"Juramento da sala do Jogo da Péla"), os Estados Gerais transformaram-se em Assembleia
Nacional Constituinte (uma assembleia destinada a redigir uma Constituição): era o fim do abso-
lutismo e o início da Nação soberana.

Objectivo 5. Retacionar a aboticão dos direitos feudais com a destruicão da sociedade de


Antigo Regime
Entretanto, nas ruas, o povo realizava a sua revolução: a 14 de Julho de 1789, em Paris, a
Bastilha (Íorlaleza para os presos políticos do absolutismo) foi destruída pelo povo e pela
Guarda Nacional (milícia composta por burgueses). A tomada da Bastilha ficaria, para sempre,
conhecida como o símbolo máximo da Revolução Francesa, acontecimento comemorado todos
os anos, em França, no dia 14 de Julho.
Por toda a França, os camponeses revoltavam-se violentamente contra os senhores das terras
e contra os encargos feudais (movimento denominado por "Grande Medo").
Face ao descontentamento popular, a Assembleia Nacional Constituinte produziu, em Agosto
de 1789, diplomas legais que aboliam os direitos feudais (como adízima à lgreja e o trabalho
gratuito- corveias - prestado aos nobres) "aclamando o povo" para atingir a "tranquiildade
pública", como dizia, então, o presidente da Assembleia. Ao instaurarem a igualdade de todos
perante a lei, nomeadamente no livre acesso aos empregos públicos, estes decretos destruíram
a sociedade de ordens, assente nos privilégios da nobreza e do clero.
No ano seguinte (1790)a Assembleia aprovou um documento polémico - a Constituição Civil
do Clero - que transformava os membros do clero secular em funcionários do Estado, extinguia
o clero regular e procurava salvar a economia francesa com os bens confiscados à lgreja, que
constituíam a garantia dos novos títulos de papel-moeda (os assrnados).

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a?

0bjectivo ó. Subtinhar o significado da Dectaração dos Direitos do Homem e do Cidadão


Ainda durante a etapa da Assembleia Constituinte (1789-1791), os deputados elaboraram a
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, um documento de inspiração iluminista,
fundamental, não só para a Revolução Francesa mas também para todos os movimentos revo-
lucionários que esta inspirou. Os aspectos mais importantes da Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão são:
- a proclamação do f im da sociedade de ordens ( Os homens nascem e são livres e iguais em
direitos");
- a salvaguarda dos direitos naturais do homem ("4 liberdade, a propriedade, a segurança e
a resistência à opressão");
- a defesa da soberania popular contra o absolutrsmo (O prindpio de toda a soberania resi-
de essencialmente na Nação")',
- a protecção dos crdadãos pela lei ("Tudo aquilo que não e proibido pela lei não pode ser
impedido [...]. Ninguem pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados
pela lel');
- a tolerância religiosa ( Ninguem pode ser inquietado pelas suas opiniões, incluindo opiniões
religiosas")',
- a liberdade de expressão (Todo o cidadão pode, portanto, falar escrever, imprimir livremente)"',
- a defesa da burguesia e do direito à propriedade privada ("A propriedade é um direito invio-
lável e sagrado").
Pela alteração profunda que este documento provocou nas estruturas sociais e políticas de
Antigo Regime, podemos relacioná-lo com o início de um novo período histórico: a Época
Contemporânea.

Objectivo 7. Caracterizar a monarquia constitucionaI


Em Setembro de 1791 foi aprovada a Constituição. O reitinha de obedecer a este documen-
to fundamental, pelo que designamos a nova etapa (1791-92) por monarquia constitucional. Esta
caracterizou-se por:
- separação dos poderes: o poder legislativo era entregue à Assembleia Nacional Legislativa
(composta por 745 deputados), o poder executivo pertencia ao rei (que podia vetar as leis
durante dois anos: veto suspensivo) e o poder judicial cabia a juízes eleitos e a um Tribunal
Superior;
- instituição da soberania nacional (é a Nação quem escolhe os governantes, através do
voto - sistema representativo),
- consagraÇão dos Direitos do Homem e do Cidadão;
- manutenÇão da distinção pela riqueza (o processo de eleição dos deputados da Assembleia
Legislativa era indirecto e realizado através do sufrágio censitário: apenas os homens mais
- -
ricos, que pagavam um imposto ou censo igual ou superior a três dias de trabalho,
podiam votar; eram estes cidadãos activos quem podia escolher os verdadeiros eleitores, os
quais, por sua vez, eram aqueles que tinham riqueza suficiente para pagar um rmposto igual
ou superior a dez dias de trabalho).

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Objectivo 8. Descrever a passagem da monarquia à repúbtica
A República foi proclamada em Setembro de 1792. Dois factores, em especial, precipitaram o
fim do regime monárquico na França:
- a tentativa de fuga do rei, em 1791, com o objectivo de ser acolhido no estrangeiro por um
país de regime absoluto, e o seu regresso humilhante a Paris, apenas serviram para acele-
rar a instituição da República, forma de governo que, até, então, não fora defendida;
- a guerra da França, em Abril de 1792, contra os estados absolutistas que queriam restituir o
poder a Luís XVI (Austria, Prússia) agravou os problemas económicos e contribuiu para o
radicalismo polÍtico: os federados (milícias defensoras da Revolução) acorreram a Paris,
assaltaram as Tulherias e o rei foi suspenso pela Assembleía Legislativa em Agosto de 1792,
terminando, assim, a monarquia constitucional.
O fim da monarquia virra a consumar-se em 1793 quando, após um julgamento de 26 horas,
Luís XVI foi condenado à morte na guilhotina (pena aplicada, também, à rainha Maria Antonieta,
no mesmo ano).

Objectivo 9. Retacionar a obra da Convencão com a força do movimento "sans-cutotte" e o


triunfo dos ideais jacobinos
A etapa da Convenção republicana(1792-1795)foi marcada pela divisão entre duas facções
polÍticas: por um lado os Girondinos, por outro lado os Montanheses (estes últimos liderados
por Marat, Danton e Robespierre). Apesar de todos terem ligaçÕes ao Clube dos Jacobinos
(clube de burgueses revolucionários), os Montanheses eram mais radicais. Eram apoiados
pelos chamados sans-culoÍÍes. Estes eram membros das classes populares, artesãos, lojistas
e operários que não tinham rendimentos suficientes para se tornarem cidadãos activos (pois
vigorava o sufrágio censitário) mas exprimiam as suas reivindicaçÕes em clubes, debates e
através de petições (propostas aos poderes públicos). Tratavam a todos por tu e vestiam-se de
maneira característica.
Foi devido à pressão dos sans-culoÍÍes que os Girondinos (e os burgueses, seus apoiantes)
foram afastados do poder em 1793 e o rei foi condenado à morte, sentenÇa que Robespierre
considerava "uma medida de salvação pública". Os Montanheses estavam, então, livres para
instaurar medidas que agradavam aos sans-culottes, tais como:
- a Lei do Máximo (que fixava preÇos e salários);
- a abolição total do feudalismo;
- a instrução gratuita e obrigatória;
- a partilha, pelos mendigos, de bens retirados aos "suspeitos" de oposição à Revolução;
- as leis de assistência social (por exemplo, abonos de famÍlia);
- a abolição da escravatura nas colónias (1794),
Objectivo 10. Expticar o Terror
O Terror designa a fase mais radical e violenta da Revolução Francesa, ocorrida em 1793-1794.
A Convenção, que desempenhava o poder legislativo, criou um governo centralizado e ditato-
rial: o poder executivo pertencia a dois Comités - o Comité de Segurança Geral e o Comite de
Salvação Pública, cujos membros dependiam da aprovação mensal da Convenção para se
manterem em funções.
O Comité de Segurança Geral prendia os suspeitos de contra-revolução e entregava-os a um
Tribunal Revolucionário. Na verdade, a Lei dos SuspeiÍos, de 1793, traduziu-se pela legalização
da violência: todos podiam ser suspeitos, quer "pelas suas conversas ou escritos", quer por não

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@ modêlos e práticas nos séculos XVlll e XIX

possuírem "o certificado de civismo", por serem "familiares dos nobres" ou porque haviam eml-
grado. Após um julgamento sumário (breve e sem hipótese de defesa, uma vez que nem sequer
eram inquiridas testemunhas) as vÍtimas do Terror eram encarceradas e, na maior parte das
vezes, executadas pela guilhotina (inventada em 1789).
Uma outra faceta do Terror consistiu na política de descristianização (movimento anti-religio-
so). O governo revolucionário instituiu um Estado lalco (não religioso). As marcas do cristianis-
mo foram apagadas: o poeta Fabre Eglantine criou um novo calendário, que situava o ano I na
data da proclamação da República pela Convenção (1792) e criava novos nomes para os meses
do ano; a hierarquia religiosa era ridicularizada, os padres refractários eram perseguidos, o culto
dos santos foi substituído pelo culto aos mártires da revolução (por exemplo, a Marat, herói dos
sans-culottes, assassinado no banho por uma jovem girondina), o casamento religioso passou a
acto civil, o divórcio foi autorizado (através da Lei do Casamento e do Divórcio).
Para compensar a aniquilação do cristianismo, Robespierre criou um culto ao Ser Supremo,
porém, uma boa parte da população francesa, fiel à religião católica, afastou-se da revolução.
Os confrontos fizeram-se sentir, em 1793, na região da Vendeia, onde monárquicos e católicos
tentaram a contra-revolução (sem sucesso).

0bjectivo 11. Justificar o fim da repúbtica jacobina


A república jacobina teve o seu fim em Julho de 1794 quando Robespierre, responsável por
inúmeras condenaçÕes à morte foi, ele mesmo, guilhotinado em resultado de uma conspiração
da Convenção. O extremismo desta etapa foi responsável pelo seu fracasso.

Objectivo 12. Avatiar a acção do Directório


A etapa do Directório (1795-1799) já foi descrita como a "anti-convenção", no sentido em que
o novo regime se opôs à ditadura de Robespierre e procurou restabelecer a concórdia social.
Assim, de acordo com a nova Constituição de 1795:
- o poder executivo era entregue a cinco directores (o Directorio);
- o poder legislativo pertencia a duas assembleias interdependentes - o Conselho dos
Anciãos (que propunha as leis) e o Conselho dos Quinhentos (que votava as leis);
- o sufrágio censitário indirecto era restabelecido.
Em termos sociais, o fim do Terror jacobino e de todas as suas institurções exprimiu-se atra-
vés de um ambiente de festas e de luxo (apesar dos problemas económicos decorrentes da
guerra contra a Europa), bem como da adopção de uma moda extravagante.

Objectivo 13. Expticar a ascensão de Napoleão Bonaparte


O golpe do 18 de Brumário do Ano Vlll (09.11.1799), por Napoleão Bonaparte, acabou com o
Directório, dando início à etapa do Consulado (1799-'1804). Uma nova Constituição (de 1799),
entregou o poder a Napoleão, que exercia o cargo de primeiro-cônsul.
A obra do Consulado assentou nas seguintes medidas:
- centralização adminrstrativa e judicial (os juízes e os funcionários locais eram nomeados pelo
governo; o Código Civil de 1804 unificava a França em termos legais);
-recuperaÇão financeira (criação do Banco de França, em 1800, e emissão de uma nova
moeda - o franco germinaf);
- reconciliação nacional (Íim das perseguiçÕes polÍticas; Concordata com a Santa Sé, em 1801).

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ã, A Bevolucão Fnancesa - paradigrna das nevoluÇÕes liberais e burguesas
')ft
No entanto, Napoleão não abandonou o cargo de primeiro-cônsul ao fim de dez anos, como
estava prevlsto; conseguiu que a Constituição de 1802 o tornasse cônsul vitalício e, em 1804, foi
proclamado lmperador, autocoroando-se na lgreja de Notre-Dame, em Paris. lniciava-se, então,
a etapa do lmpério Napoleónico (1804-1815).
Figura de contornos míticos na historia mundial, Napoleão teve um percurso polÍtico pautado
por vitórias militares (destacando-se as campanhas da ltália, em 1796197 e do Egipto, em
1798), e derrotas sucessivas (1812-1815), acabando por se retirar da cena política e exilar-se
de França.

Objectivo 14. Subtinhar a consotidacão da revolucão burguesa


A Revolução Francesa comeÇou por ser uma revolta do Terceiro Estado que, nas palavras
do contemporâneo Abade Sieyes, queria ser "tudo". A Bastilha, símbolo da prepotência do
regime absolutista, foi tomada pelo povo e por burgueses, as estruturas do Antigo Regime
Íoram desmanteladas, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão exprimia o ideal
político burguês.
Durante a época da Convenção, o poder passou, efectivamente, para as mãos do povo: os
sans-culottes conseguiram que o sufrágio directo fosse lnstaurado e a política de condenação
de todos os suspeitos, encarnada por Robespierre, representou a vingança extremada do povo
contra os séculos de repressão das ordens privilegiadas.
Assim, para defender a revolução, a Convenção impôs o despotismo, o Terror.
Seguiu-se-lhe o Directório que, preocupado em impedir uma nova tirania, instituiu a renovação
periódica dos cargos e a distribuição dos poderes. Nesse processo, restituiu a chefia da nação
aos burgueses.
Finalmente, Napoleão Bonaparte, para além de ser considerado um militar brilhante, desta-
cou-se como legislador activo, consolidando os direitos da burguesia, nomeadamente através:
- do Código Civil de 1804, que assegurava a protecção a propriedade privada;
- da criação dos liceus, em 1802, que permitia preparar os filhos dos burgueses para os car-
gos do Estado.

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Flelax ar fazendo Hisüória
Vamos "arrumar" as ideias? O léxico habitualmente associado à Revolução Francesa é exten-
so e vai sentir-se mais relaxado(a) se o dominar. Eis um pôqueno exercício de correspondência
entre os conceitos e as suas definiçÕes.

Conceitos:
1. Federados a) Milícia criada pela burguesia.
b) Sistema em que o povo delega a sua soberania numa
2. Assinados assembleia de deputados.
c) Milícias, que incluíam as Guardas Nacionais de Paris e
3. Guarda Nacional da províncra, criadas para defender a revolução dos
invasores prussianos.
4. Cadernos de Queixas d) Queixas das ordens sociais ao rei sobre o estado da
Nação.
5. Monarquia Constitucional
e) Canção entoada pelos federados de Marselha que se
tornou o hino nacional de França desde 1795.
6. Estados Gerais
0 Forlaleza parisiense para os presos políticos.
7. Bastilha s) Reunião dos representantes das ordens sociais.
h) Direito de voto reservado, apenas, a quem paga um
8. Sufrágio censitário certo montante de impostos.
Deputados mais moderados da Convenção, maiorita-
9. Constituição riamente oriundos do departamento da Gironda.
i) Títulos de papel-moeda cuja garantia eram os bens do
1 0. Sistema representativo clero, postos à disposição da Nação.
Reunião da elite burguesa revolucionária com o objec-
11. Convenção tivo de discutir a polÍtica.
m) Membros das classes populares urbanas que obtive-
12. Sans-culottes
ram o protagonismo durante a etapa da Convenção.
n) Deputados mais radicais da Convenção, que se senta-
13. Clube dos Jacobinos
vam no ponto mais elevado da sala.
14. Girondinos o) Documento fundamental de um Estado que define os
direitos e os deveres dos cidadãos.
15. Montanheses p) Nova assembleia que sucede à assembleia legislativa;
etapa mais radical da revolução francesa.
í6. Marselhesa q) Sistema político em que o rei tem a sua autoridade limi-
tada por uma Constituiçào.

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48
2. A Revolucão Francesa - paradigma das revolucões liberais e burguesas

Esquema

Sociedade de Antigo Regime


. Manutenção dos privitégios do CLero e da Nobreza
. BLoqueio à ascensão sociaI da burguesia
. Miséria do campesinato e dos trabaLhadores urbanos

Crise económico-financeira
. Maus anos agrícolas
. Quebra da produção têxtiI
. Défice nas receitas do Estado

AssembLeia Constituinte Í178q -179 1l . Reunião dos Estados Gerais


. Juramento da Sa[a do Jogo da Péta
. Tomada da Bastitha
Revo[ução Burguesa . Dectaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
/ fim do Antigo Regime . Constituicão CiviI do CLero

Assembleia Legisl.ativa (1 791 -921 . Fuga e detenção de Luís XVI


. Guerra dos "federados" contra os Estados absoLutos
Monarquia ConstitucionaI
. Suspensão do rei e da Assembleia Legistativa

Convenção Í1792-1795ll . Proc[amação da RepúbIica (ano l]


. Execução de Luís XVI
. Governo ditatoriaL da Convençào
Revotução Poputar . Preponderância dos sans-culottes
/ fim da monarquia . Lega[ização da viotência Io Terror]

Directório [1 795- 1 799] . Constituiçào de 1795


. Cinco directores Ipoder executivo]
Revo[ução Burguesa
. Concórdia social

Consutado [1799-1804) . Constituição de 1799


. Concentração de poderes em Napoleão [1.0 CônsuLJ
Consotidacão da . Reorganização administrativa, judiciat, financeira
Revolução BLrguesa
. ReconciLiação nacionaL

lmpério [1804-1815]
. Conquistas miLitares
. Derrotas e abdicação de NapoLeão t1812-18151
Europa napoteónica

49
M5. O Liberalismo - ideologia e revoluÇào, modelos e práticas nos séculos )$lll e XIX

Sistematizar conhecimentos
3. A geografia dos movimentos revotucionários na
primeira metade do século XIX: as yagas revolucionárias
liberais e nacionais

3.1. A Europa e a Revotução Francesa

Objectivo 1. Reconhecer o papel da Revotução Francesa na expansão das ideias liberais


A Revolução Francesa contribuiu para a expansão das ideias liberais na Europa por duas vias:
uma, não-intencional, pela aplicação prática, na legislação francesa, das ideias iluministas,
numa sucessão de actos revolucionários cujos ecos chegavam ao resto da Europa; outra, inten-
cional, pela guerra iniciada em 1792, que levou à "exportação" dos ideais revolucionários para
os territórios conquistados.

Objectivo 2. Retacionar o Congresso de Viena com a criação de condicões favoráveis à ecto-


são de revotuções [iberais e nacionais
Em 1815, após a abdicação de Napoleão Bonaparte, o Congresso de Viena estabelecia um
novo mapa político da Europa. O novo desenho de fronteiras restituía ou, simplesmente, entre-
gava territórios aos estados absolutistas da Rússia, da Áustria e da Prússia (que constituíam a
Santa Aliança), à custa da independência de vários povos. O principal objectivo era impedir o
regresso da revolução jacobina; porém, os efeitos foram opostos, pois as naçÕes oprimidas e
fragmentadas viriam a desencadear, ao longo do século XlX, uma série de revoluções liberais.

3.2. As "Revotucões em cadeia" da era pós-napoteónica

0bjectivo 3. DÍstinguir as vagas revolucionárias da era pós-napoteónica


Podemos distinguir três vagas de revoluçÕes liberais:
1."-'1820-1824: abrangeu a Espanha, Portugal, Nápoles e a Grécia, bem como as respecti-
vas colónias do continente americano.
2.' - 1829-1839: atingiu a França (revolução de 1830 que deu o trono a Luís Filipe de Orleães),
a Bélgica (revolta, bem sucedida, contra o domínio da Holanda), a Polónia (revolta Íracas-
sada contra o domínio russo), a ltália, a Alemanha, a Espanha e Portugal (perÍodo de agi-
tação polÍtica e social).
3."- 1848: ocorreu na França (implantação da Segunda República), no lmpério Austro-
-Húngaro, na Alemanha e na ltália (revoltas liberais e nacionalistas).

50
3. A geografia dos movimentos revolucionários na primeira metade do seculo XIX:
âs vãgas revolucionárias liberais e nacionais

Flelax ar fazendo História


Se puder, veja o filme de cinema de animação O cão, o general e os pássaros, realizado por
Francis Nielsen com argumento de Tonino Guerra e narração de Philippe Noiret: é uma bela his-
tória sobre os remorsos de um antigo combatente napoleónico que, afinal, se redime da culpa
salvando os pássaros da sua cidade com a ajuda de um cão muito teimoso...

Esquema

REVOLUÇÃO FRANCESA

Expansão das ideias [iberais ReÍorço das monarquias abso[utas

. lmpério Napoteónico (1804-181 5):


. 81 5: Congresso de Viena
1

"exportação" da Revolução para a Europa . Desrespeito pelo princípio das nacionatidades


. Sécu[o XIX: movimentos Iiberais . Criacão da Santa A[ianca e da Quádrupla
e nacionatistas ["revo[ucões em cadeia") Atiaríça Icontra os ideaís Liberais]

5'l
M§ I O Liberalismo * idaologia e revolüçâo, motlaloe e práticês nos sêculoe )(Vlll a XIX

§istematizar conhecimentCI§
4. implantação do Liberatismo em Portugat
^
4.1. Antecedentes e conjuntura í1807-1820!

Objectivo 1. Mostrar a coexistência do Antigo Regime com forças predispostas à inovação no


PortugaI de inícios de 0itocentos
Nos inícios de Oitocentos (século XIX), Portugal era, ainda, um país onde permaneciam vivas
as estruturas de Antigo Regime (sistema social, económico e polÍtico que vigorou na Europa,
aproximadamente, entre os séculos XV e XVlll, correspondendo, cronologicamente, à ldade
Moderna). Persistiam, assim, as seguintes caracterÍsticas:
- uma sociedade de ordens, fortemente hierarquizada, em que prevaleciam os privilégios da
nobreza e do clero;
- uma economia agrÍcola, de fraco rendimento, em que os camponeses viviam na dependên-
cia dos senhores das terras;
- um sistema polÍtico absolutista, submetido à regência do príncipe D. João (futuro rei D. João Vl)
e à repressão ditada pela lnquisição, pela Real Mesa Censória e pela Intendência-Geral
da Polícia.
Contudo, simultaneamente, criava-se um clima propÍcio à mudança. As principais forças de
inovação eram:
- a Maçonaria (organização secreta que deÍendia os valores iluministas);
- a burguesia comercial, desejosa de se impor socialmente.

0bjectivo 2. Explicar a invasão de PortugaI petas tropas napoleónicas


Em 1806, Napoleão Bonaparte decretou o Bloqueio Continental, que proibia as nações euro-
peias de comerciar com a lnglaterra. Portugal, aliado historico da lnglaterra, desrespeitou o
Bloqueio e, em consequência, sofreu três invasões francesas:
1." - liderada pelo general Junot em 1807-1808 (chega até Lisboa);
2."- comandada pelo marechal Soult em 1809 (chega até ao Porto, cujo bispo recusa a ren-
diÇão; a tomada violenta da cidade redunda na fuga da população pela ponte das
Barcas, que desabou. Soult retira-se após o envio de reÍorços de lnglaterra);
3." - cheÍiada pelo marechal Massena em 1810-1811 (graças às linhas de Torres Vedras, for-
tificações construÍdas por iniciativa de Wellington, a passagem do exército de Massena
é interceptada, retirando-se em 1811).

Objectivo 3. Retacionar a conjuntura potítica, económica e socia[ resuttante das lnvasões


Francesas com a Revotucão Liberat de 1820
As invasÕes francesas podem ser consideradas como uma causa indirecta da Revolução
Liberal portuguesa de 1820, na medida em que criaram uma conjuntura propícia à mudança, a
vários nÍveis:
1. Conjuntura política:
a) A famÍlia real, juntamente com todos os que representavam a monarquia e os súbditos
que quisessem acompanhar a viagem em navios privados (cerca de 15 000 pessoas, no
total), embarcou para o Brasil (1807). A ideia não era nova, pois já em épocas anteriores
(por exemplo, aquando da invasão espanhola, em '1580) se havia pensado nessa possi-
bilidade. Porém, a mudança da Corte para o Brasil, apesar de justificada, então, pela
52
4. A implantaÇâo do Libenafismo em Pontugal.

necessidade de preservar a independência de Portugal e de evitar a dissolução da


dinastia de Bragança, foi entendida, pelos súbditos comuns, como uma verdadeira Íuga,
contribuindo, assim, para o descrédito da monarquia absoluta.
b) Na ausência de D. João Vl (que apenas regressaria em 1821), Portugal f icou sob o domí-
nio do marechal inglês William Beresford, tornado presidente da Junta Governativa.
Beresford organizou a defesa contra os Franceses, controlou a economia e exerceu a
repressão contra o Liberalismo nascente. Conquistou o ódio dos militares, que perdiam
os postos de comando para os lngleses, e da generalidade dos Portugueses que o viam
como prepotente (tendo-se salientado o episódio da execução do general Gomes Freire
de Andrade por envolvimento na conspiração liberalde 1817). A Revolução de 1820 viria
a ser desencadeada aproveitando a ausência de BeresÍord, que se havia deslocado ao
Brasil no intuito de solicitar ao rei poderes acrescidos.
c) A permanêncra dos Franceses no territorio português (apesar de serem os invasores mal-
quistos), bem como o exemplo da revolução liberal espanhola de 1820, contribuÍram
para disseminar as ideias liberais entre os Portugueses.
2. Conjuntura económica:
a) As invasÕes francesas, para além de responsáveis pela destruição material à passagem
dos soldados, provocaram a desorganizaçáo em todos os sectores económicos e o déÍi-
ce financeiro.
b) A situação do Brasil como sede do reino (em consequência das invasÕes francesas)
valeu-lhe a atenção do regente que, durante a sua estadia, tomou medidas favoráveis
à economia brasileira, porém, muito contestadas pela burguesia da metrópole, desta-
cando-se:
- em 1808, a abertura dos portos do Brasil, obrigando a burguesia portuguesa a compe-
tir com os estrangeiros pelo mercado brasileiro,
- em 1810, o tratado de comércio com a lnglaterra, que favorecia a entrada de manuÍac-
turas inglesas no Brasil.
3. Conjuntura social:
a) A burguesia, sendo o grupo mais afectado pela crise no comércio e na indústria decor-
rente das invasões francesas, era também o mais descontente, logo, mais inclinado à
preparação da revolta. A tomada de consciência política traduziu-se na constituição do
Sinedrio (associação secreta fundada por Manuel Fernandes Tomás, ligada à Maçonaria)
que planificou a rebelião.

t+.2. A Revolução de 1820 e as dificutdades de imptantacão da ordem


Liberat t1820-18341

0bjectivo 4. Anatisar a acção do Vintismo


A24 de Agosto de 1820, no Porto, saiu vitoriosa a Fevolução Liberal portuguesa. Os oblecti-
vos da revolução, presentes no "ManiÍesto aos Portugueses", de Manuel Fernandes Tomás,
eram, essencialmente, três: a convocação de Cortes, a elaboração de uma Constituição e uma
governação justa, que recuperasse o paÍs da crise em que se encontrava.
Formou-se, então, a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, que governou o paÍs
durante quatro meses e organizou eleiçÕes para as Cortes Constituintes (Cortes Gerais
Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa).
Da reunião das Cortes (1821-1822) resultou a Constituição de 1822, elaborada de acordo com
a vontade da ala mais radical dos deputados. O Vintismo é, assim, identiÍicado com um
53
f i'r'..
M5 O Liberalisrno - ideologia e revolução, n"rodelos e prátieas nos séculos XVlll e XIX

Liberalismo de tipo radicalista, que vigorou em Portugal através da Constituição, entre 1822 e
1826, muito embora ameaçado por golpes absolutistas desde 1823. A acção do Vintismo carac-
terizou-se, no essencial, pelas seguintes medidas:
- elaboração da Constituiçáo de 1822 e instituição do parlamentarismo;
- instituição da liberdade de expressão: a lnquisição acabou, a censura foi abolida (com efei-
tos importantes sobre a imprensa e o ensino),
- eliminação de privilégios do clero e da nobreza: foram abolidos o pagamento da dÍzima à lgreja
e os privilégios de julgamento; a reforma dos forais (1821) libertou os camponeses da presta-
ção de um grande número de direitos senhoriais; a "Lei dos Forais" (1822) reduziu (mas não
eliminou) as rendas e pensões que os camponeses tinham de pagar aos senhores das terras.

0bjectivo 5. Reconhecer no processo de independência do Brasit uma das razões do Íracas-


so do Vintismo
O Vintismo fracassou por vários motivos:
1. Pela oposição constante das ordens privilegiadas, que não queriam perder os seus direitos.
2. Pelo descontentamento das classes populares, as quais pretendiam uma reforma sócio-
-económica mais profunda, que anulasse as estruturas de Antigo Regime; ao invés, a actua-
ção vintista defendeu os interesses da burguesia rural em detrimento do pequeno campe-
sinato, pois os deputados das Cortes eram, também, proprietários de terras. A Lei dos
Forais, nomeadamente, não surtiu o efeito desejado porque não se aplicava a todas as ter-
ras e porque convertia as rendas (habitualmente pagas em géneros) em prestaçÕes pagas
em dinheiro, sem um critério de conversão uniforme.
3. Pela actuação antibrasileira das Cortes; apesar de o Brasil ter o estatuto de reino desde
1815, toda a actuação das Cortes se orientou no sentido de lhe retirar autonomia e de
refrear o progresso económico:
- o regresso de D. João Vl a Portugal em 1821, onde veio a assinar a Constituiçáo de 1822,
interrompeu a obra de desenvolvimento que este monarca havia iniciado no Brasil (por
exemplo, permitindo a criação de indústrias, ordenando a criação de um banco, de uma
biblioteca, de um teatro, de uma imprensa local). Ficou no Brasil, como regente, o seu
filho Pedro.
- as Cortes, compostas por deputados que dependiam do comércio colonial, aprovaram
várias leis que tornavam o Brasil directamente dependente de Lisboa (por exemplo, os
poderes judicial e militar eram submetidos directamente a Lisboa) e que retiravam a liber-
dade de comércio à colónia (nomeadamente, só os navios portugueses podiam fazer o
comércio de porto em porto em todas as possessÕes do lmpério).
- o prÍncipe regente D. Pedro foi chamado a Portugal com o argumento (pouco convincen-
te) de ser educado na Europa.
Esta tentativa, por parte das Cortes, de retirar direitos que os colonos sentiam como adquiridos
resultou, em 1822, na independência do Brasil proclamada pelo próprio D. Pedro, coroado
lmperador do Brasil(foi D. Pedro I do Brasil, enlre 1822 e 1831, e D. Pedro lV de Portugal, duran-
te uma semana apenas, em 1826, antes de abdicar do trono português em favor da sua filha).
A perda da colónia americana foi um dos factores de fracasso do Vintismo, pois retirou impor-
tantes fontes de rendimento a Portugal, o que provocou o descontentamento social. A indepen-
dência do Brasil só viria a ser reconhecida pela metrópole portuguesa em 1825.

54
4. A implantaÇôo do Liberalismo em Portugal, @

Objectivo ó. Comparar a Carta Constitucionat de 182ó com a Constituicão de 1822


A Constituiçáo de 1822 é um diploma arrojado para o seu tempo. Eis as suas principais deli-
beraçÕes:
1. Os direitos dos cidadãos foram assegurados (art.'l.'- "A Constituição política da Nação
Portuguesa tem por objectivo manter a liberdade, seguranÇa e propriedade de todos os
Portugueses."). Porém, a ausência de representação das classes populares nas Cortes (os
deputados eram, maioritariamente, magistrados, proprietários e comerciantes) repercutiu-
-se na afirmação do sufrágio não-universal (Título lll, Capítulo l, item 33 - "Na eleição dos
deputados têm voto os portugueses que estiverem no exercício dos direitos de cidadão [...].
Da presente disposição se exceptuam t l")
2. O poder real foi limitado: o rei, a quem cabia o poder executivo, tinha direito de veto sus-
pensivo sobre as Cortes, isto é, podia remeter uma lei já aprovada às Cortes Legislativas,
mas teria de acatar o resultado dessa segunda votação. Assim, o absolutismo foi abolido,
pois a soberania residia nas Cortes e não no rei (Título ll, item 26 - "A soberania reside
essencialmente em a Nação").
3. A sociedade de ordens foi abolida, pois não se reconheciam quaisquer privilégios à nobre-
za e ao clero (TÍtulo I - item 9 * "A lei e igual para todos"). Esta determinação motivou, aliás,
a oposição cerrada das ordens privilegiadas ao radicalismo vintista.
4. A responsabilidade de elaboração das leis Íoi entregue a uma Câmara única (Cortes
Legislativas), o que retirava às ordens superiores a possibilidade de terem um órgão de
representação próprio (TÍtulo lll, Capítulo V item 105 - "A iniciativa directa das leis somen-
te compete aos representantes da Nação juntos em Cortes.").
5. A religião católica era aceite como religião oficial dos Portugueses.
A Carta Constitucional de 1826, ao contrário da Constituição de 1822, é um documento de tipo
.1826
moderado. A Carta foi outorgada por D. Pedro, após a morte do pai, D. João Vl, em ("Faço
saber a todos os meus súbditos portugueses que sou servido decretar, dar e mandar jurar ime-
diatamente pelas três Ordens do Estado a Carta Constitucional [. ]" Procurava conciliar o
Antigo Regime e o liberalismo, através das segujntes medidas:
1. O poder real foi ampliado: graças ao poder moderador de que passava a usuÍruir (Título V
Art." 71 - "O poder moderador é a chave de toda a organizaçáo política e compete privati-
vamente ao rei [...]") , o monarca podia nomear os Pares, convocar as Cortes e dissolver a
Câmara dos Deputados, nomear e demitir o governo, vetar a título definitivo as resoluções
das Cortes (Título lll, Art.'59- "O rei dará, ou negará, a sanção em cada decreto t l')e
suspender os magistrados.
2. Os privilegios da nobreza foram recuperados (TÍtulo Vlll, Art.' 45, item 31 - "Garante a
nobreza hereditária e suas regalias.")
3. As Cortes Legislativas passaram a ser compostas por duas Câmaras: a Câmara dos
Deputados, eleita por sufrágio indirecto e censitário, e a Câmara dos Pares, reservada a ele-
mentos das ordens superiores nomeados a título vitalÍcio e hereditário (Título lll, Art.' 14 -
"as Cortes compÕem-se de duas Câmaras [...]".
4. A liberdade religiosa não era admitida.
5. Os direitos do indivíduo só aparecem no fim do documento (Título Vlll, Art. 45 '-
"[.. ] a liber-
dade, a seguranÇa individual e a propriedade [...]" e o sufrágio era censitário e indirecto.
A Carta Constitucional teve três períodos diferentes de vigência:
1.o - entre 1826 e 1828.
2.o - entre 1834 e 1836.
3.'- entre 1842 e 1910 (embora sujeita a alterações desde 1851).
55
fu '.:.'.r''''
M5l O Liberaiismo - ideologie e reveluÇão, rnodeios e práticâs nos séculss XVlll e XIX

0bjectivo 7. Relacionar a guerra civit de 1832-3lr com a resistência ao Liberatismo


O Liberalismo português sofreu várias ameaças:
- as primeiras reacçÕes absolutistas lideradas pelo infante D. Miguel foram apoiadas pela sua
mãe, a rainha D. Carlota Joaquina, pela nobreza e pelo clero. Beneficiando de uma conjuntura
externa Íavorável ao retorno das monarquias absolutas, D. Miguel pôs em prática dois movi-
mentos militares: a Vilafrancada, em 1823 e a Abrilada, em 1824. Apesar de fracassados
(D. Miguel é exilado em Viena de Austria) puseram termo ao projecto progressista do Vintismo.
D. João Vl remodelou o governo, que passou a integrar liberais moderados, e muitos dos libe-
rais (ou "malhados", como lhes chamavam os partidários de D. Miguel) fugiram do país;
-em 1828, Portugal tornou-se, de novo, um paÍs absolutista. Perante o problema da sucessào
ao trono apos a morte de D. João Vl, D. Pedro, então imperador do Brasil, confirmou a regên-
cia de Portugal pela sua irmã, a infanta D. lsabel Maria e abdicou dos seus direitos à Coroa
em favor da filha D. Maria da Glória (rainha D. Maria ll). Porem, como a sua filha tinha apenas
sete anos, Íicaria como regente D. Miguel, o qual casaria com a sobrinha e juraria a Carta
Constitucional. O casamento não se chegaria arealizar pois D. Miguel, após ter regressado do
exílio, convocou Cortes onde se Íezaclamar rei absoluto. Assim, entre -1828 e 1834, Portugal
viveu sob o regime absolutista, o que conduziu à fuga de um grande número de liberais;
-entre 1832 e 1834 desenrolou-se a guerra civil entre os liberais (chefiados por D. Pedro
desde 1831) e os absolutistas (liderados por D. Miguel). A implantação definitiva do Libera-
lismo revelou-se muito difícil, pois D. Pedro apenas dispunha de um pequeno exército (de
cerca de 7500 homens). Foi a partir da ilha Terceira dos Açores (que já se havia insurgido
.1828
militarmente contra o absolutismo em e em 1829) que D. Pedro organizou a resistência.
Em 1832 desembarcou em Pampelido (Mindelo), dirigindo-se para a cidade do Porto, onde
Íoi cercado, durante dois anos, pelas forças absolutistas (Cerco do Porto). A vitoria liberal só
aconteceu em 1834, e foi selada pela Convenção de Evora-Monte. D. Pedro morreu, pouco
tempo depois, de tuberculose, enquanto o seu irmão D. Miguel foi exilado para o resto da
sua vida. D. Maria ll, rainha desde os sete anos de idade, só então, com quinze anos, pôde
sentar-se no trono português.

4.3. 0 novo ordenamento potítico e socioeconómico {"183213tr-1851)

Objectivo 8. Anatisar o pape[ da tegistacão de Mouzinho da Sitveira e outros na tiquidacão


do Antigo Regime

José Xavier Mouzinho da Silveira, ministro da Fazenda (finanças) e da Justiça durante a regên-
cia de D. Pedro (1832-1833), promulgou decretos fundamentais para a consolidação do Libera-
lismo, atacando as estruturas de Antigo Regime:
- na agricultura, aboliu os dízimos, os morgadios e os forais, libertando os camponeses das
dependências tradicionais;
- no comércio, extinguiu as portagens internas e reduziu os impostos sobre a exportação, de
maneira a retirar os entraves à actividade comercial;
- na indústria, acabou com os monopólios, nomeadamente o da Companhia das Vinhas do
Alto Douro;
- na administração, dividiu o país em províncias, comarcas e concelhos; também instituiu o
Registo Civil para todos os recém-nascidos, retirando a questão do nascimento da alçada
da lgrela;
- na justiça, organizou o país segundo uma hierarquia de circunscriçÕes (divisÕes territoriais),
submetendo todos os cidadãos à mesma lei;
56
;.:,
at

- nas Íinanças, criou um sistema de tributaÇão nacional, eliminando a tributação local que
revertia, em grande parte, a favor do clero e da nobreza; substituiu o Erário Regio (criado
pelo Marquês de Pombal) pelo Tribunal do Tesouro Público para controlar a arrecadação de
impostos;
- na cultura, mandou abrir aulas e instituiu a Biblioteca Pública do Porto.
Ferreira Borges desempenhou, igualmente, um papel importante na liquidação do Antigo
Regime em Portugal, ao elaborar o Codigo Comercialde 1833, onde se aplicava o princÍpio Íun-
damental do liberalismo económico: o livre-câmbio, ou seja, a livre circulação de produtos (por
oposição ao proteccionismo), através da abolição de monopólios e de privilegios, bem como da
eliminação do pagamento de portagens e de sisas.
Joaquim António de Aguiar, ministro da Justiça, mereceu o epíteto de "mata-frades" pela sua
intervenção legislativa (1834-1835) contra os privilégios do clero, em particular do clero regular,
identificado com o projecto miguelista:
-aboliu o clero regular, através do Decreto de Extinção das Ordens Religiosas que acabava
com "todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer casas de religiosos de
todas as Ordens Regulares" masculinas; as ordens religiosas femininas eram, indirectamen-
te, aniquiladas por meio da extinção dos noviciados (preparação para o ingresso numa
ordem religiosa);
- os bens das ordens religiosas foram confiscados e nacionalizados,
-em 1834-1835, esses bens, juntamente com bens da Coroa, das Rainhas e do lnfantado,
foram vendidos em hasta pública - beneficiando a alta burguesia - e o produto da venda foi
utilizado, pelo ministro da Fazenda (Silva Carvalho), para pagar dívidas do Estado.

0bjectivo 9. Caracterizar o Setembrismo


O reinado de D. Maria ll (1826-1853) correspondeu a um período conturbado da história polí-
tica portuguesa de Oitocentos. Começou a reinar, efectivamente, em 1834, sob a vigência da
Carta Constitucional redigida pelo seu pai, D. Pedro (1834-1836: etapa designada por
Cartismo). Porém, em Setembro de 1836, uma revolução de carácter civil obrigou a rainha a
revogar a Carta e a jurar a Constituição de 1822.
O Setembrismo (1836-1842)foi um projecto político da pequena e média burguesias, com o
apoio das camadas populares (contra o predomínio da alta burguesia, que havia sido favoreci-
da pelo Cartismo). Os mentores do Setembrismo, que integravam o novo governo, eram Sá da
Bandeira e Passos Manuel.
A política setembrista, apoiada na nova Constituição de 1838, caracterizou-se, essencialmen-
te, pelas seguintes medidas:
- o rei (neste caso, a rainha) perdeu o poder moderador (embora mantivesse o direito de veto
definitivo sobre as leis saídas das Cortes);
- a soberania da Nação foi reforçada;
- adoptou-se o proteccionismo económico, sobrecarregando com impostos as importaçÕes,
de modo a tornar mais competitivos os produtos industriais nacionais (sem grande sucesso);
- investiram-se capitais em Africa, como alternativa à perda do mercado brasileiro;
- reformou-se o ensino primário, secundário e superior, com destaque para a criação dos
liceus, por Passos Manuel, onde os filhos da burguesia se preparavam para o ensino supe-
rior que lhes permitiria exercer cargos de relevo;
- as taxas Íiscais aplicadas aos pequenos agricultores não foram abolidas, o que contribuiu
para o fracasso económico do Setembrismo.

57
0bjectivo 10. Mostrar que o Cabratismo se identificava com o projecto cartista da atta
burguesia
Entre 1842 e 1851, vigorou a ditadura de António Bernardo da Costa Cabral. O país enveredou,
novamente, pela via mais conservadora: enquanto o Setembrismo se inspirava na Constituição de
1822, o Cabralismo repôs em vigor a Carta Constitucional de 1826, identificando-se, assim, com o
período do Cartismo (1834-1836). E, tal como aconteceu com o Cartismo, as medidas tomadas
durante o período do Cabralismo favoreceram, em primeiro lugar, a alta burguesia. Destacam-se,
nomeadamente:
- o fomento industrial (fundação da Companhia Nacional dos Tabacos, difusão da energia a
vapor);
- o desenvolvimento de obras públicas (criação da Companhia das Obras Públicas de Portugal
para a construção e reparação de estradas; construção da ponte pênsil sobre o rio Douro);

- a reforma fiscal e administrativa (publicação do Codigo Administrativo de 1842, criação do


Tribunal de Contas para fiscalização das receitas e despesas do Estado).
No entanto, as Leis da Saúde Pública, em especial a proibição do enterramento dentro das
igrejas, a par do desconlentamento com o acréscimo de burocracia e com o autoritarismo de
Costa Cabral, despoletaram duas movimentaçÕes de cariz popular - a revolta da "Maria da
Fonte" e a "Patuleia" - que se transformaram em guerra civil (1846/47) e acabaram por condu-
zir à queda de Costa Cabral, em 1847. Este regressaria ao poder em 1849, sendo afastado defi-
nitivamente em 1851, pelo golpe do marechal-duque de Saldanha.
Depois de uma prlmeira metade de século extremamente agitada, nos últimos 50 anos de
Oitocentos, Portugal iria gozar a paz e o progresso material do período da Regeneração.

58
4. A implantaÇão do Liberalismo em Portugal.

Relaxar fazendo História


Duas sugestões de leitura

Relacionados com o tema da implantação do Liberalismo em Portugal, não deve deixar de ler
dois livros apaixonantes: De corpo e alma - o Porto no coração de D. Pedro, de Maria do Carmo
Seren (lCEP, 1998), sobre D. Pedro lV e O Filho da Rainha Gorda (Quetzal Editores, 2004) de
Maria Filomena Mónica, sobre D. Maria ll, a tal "rainha gorda" e o seu filho D. Pedro V

Conseguirá, assim, perceber a(s) história(s) de três reinados, contadas com muita argúcia e
sentido de humor.

E, só para "aguÇar o apetite", aqui fica um pequeno excerto de cada um destes livros:

"Com o envio de instruçÕes casamenteiras e da Carta Constitucional D. Pedro julgara ter resol-
vido os problemas dos Portugueses e resgatado a dívida moral que tinha para com o seu país
de origem. Dourara também o seu ego romântico e procedera como um Simão Bolívar, oferecen-
do a liberdade a um povo faminto dela.
As coisas não correram aÍinal como esperava; nem podiam, sequer, correr bem. Os grupos de
dominância, antagónicos e inflexíveis, eram os mesmos; o povo, na sua aparente pacatez, pre-
feria a gloria de uma monarquia distante e, por isso mesmo, dourada, a um bando irreconhecÊ
vel e sempre em movimento, de maçÕes sem Deus; era o que o padre da freguesia esclarecia
com fervor."
in De corpo e alma - o Porto no coração de D. Pedro, pp.31-32.

'Tinha D. Maria 9 anos quando o pai lhe disse: "Eu sei que es muito novinha, mas vais ter de
casar com o teu tio D. Miguel.. ElaÍez uma careta, ao que o pai respondeu: "Está bem, é velho,
Íeio e mau, mas como eu tenho de ficar aqui, no Rio de Janeiro, aÍazer de lmperador, alguém
terá de ir governar Portugal e vais tu, mais ele, casados um com o outro." A mãe de D. Maria já
tinha morrido, de maneira que ela não tinha ninguém que a deÍendesse nem que lhe explicasse
o que se estava a passar, desde o dia em que, de Lisboa, lhe tinham chegado notÍcias, em 1820,
de uma coisa chamada Revolução Liberal, e, logo a seguir, em 1822, quando lhe disseram que
o Brasil já não era uma colónia, mas um país independente."
in O Filho da Rainha Gorda, p.7.

59
Esquema

. 180ó: BLoqueio ContinentaL . Embarque da famítia reaI


. 1808: abertura dos portos do . para o BrasiL
lnvasões francesas .
Brasi[ às nações estrangeiras Presença ing[esa IBeresford)
. [1807, 1809, '1811J .
1810: tratado de comércio Destruiçào / desorganizaçào
com a Inglaterra da economia

. Descontentamento da burguesia
comercia[, macónica, intetectuaL

. 1817: Sinédrio . Porto, 24.08.1820 - Revotucão


ÍManueI Fernandes Tomásj LiberaI Portuguesa

. Junta ProvisionaI do Supremo


Governo do Reino

. lndependência do BrasiL / opo-


. PoLítica anti-brasi[eira sicão da burguesia comerciaI
e industriaL
. Cortes Constituintes
. 0posição do pequeno
cam pesi nato

. Constituicão de 1822 . Libera[ismo radicaLista . Oposição das ordens privilegiadas

ffi. anriL.o.
[ taza, I

. Carta Constituciona[ {tiberaLismo moderado]


. 182ó: crise de sucessão
. Abdicação de D. Pedro [em favor de D. Maria da Gtória)

. 1828; restauração do absoLutismo ID. Miguet); repressão dos Iiberais e da Carta ConstitucionaI
. 1832: desembarque de D. Pedro em Pampetido IMindeLoJ
. 1832-34: Cerco do Porto petas forças absotutistas
. 1834: Convenção de Evora-Monte; vitória dos Liberais; restauração da Carta ConstitucionaL

. Reformas . Regresso aos ideais do vintismo


. Mouzinho da SiLveira . Chefia de Sá da Bandeira e Passos Manuet
. Ferreira Borges . Constituição de 1838

GoLpe do duque de Satdanha ['1851): Regeneração

. Restauração da Carta ConstitucíonaI .


. Fomento industriaI Convenção do Gramido [18/,7]
.0bras púbLicas
. Reforma da saúde
. Reforma f iscaL e administrativa . Motins poputares camponeses / guerra civilÍ1846-47)
60
5. O legado do Liberalismo na pnimeira metade do século XIX

Sisüematizar conhecimentos

5. O legado do Liberalismo na primeira metade do século XIX

5.1. Uma ideotogia centrada na defesa dos direitos do indivíduo

Objectivo 1. lnterpretar o conceito de Liberatismo


O Liberalismo é uma forma de organização social, polÍtica e económica que vigorou na Europa
Ocidental nos séculos XVlll e XlX.
A nível político, o Liberalismo defende a representatividade popular, contra o regime absolu-
tista; a nível económico, é a favor da liberdade de iniciativa privada, contra o intervencionismo
do Estado; a nível social, coloca a burguesia no topo da escala social, contra os privilegios da
nobreza e do clero.
A implantação do Liberalismo correspondeu à queda do Antigo Regime e influenciou, de
forma marcante, grande parte dos regimes actuais.

0bjectivo 2. Mostrar que o Liberatismo defende os direitos individuais


O Liberalismo defende os direitos individuais porque considera que esses direitos são natu-
rais, isto é, derivam da própria condição do ser humano e, como tal, nascem com o indivíduo.
São eles:
1. O direito à liberdade (que dá o nome ao Liberalismo): e o direito mais abrangente, pois
engloba todos os outros direitos - podemos referir, nomeadamente, a liberdade de seguir
apenas a ler, rejeitando qualquer autoridade arbitrária, a liberdade de expressão, a liberda-
de de exercer uma profissão, de possuir bens, de reunião, a liberdade religiosa, a liberda-
de de participar na vida polÍtica.
2. O direito à igualdade: todos os cidadãos passavam a ser considerados iguais perante a lei;
porém, nas formas de liberalismo moderado eram aceites e, até fomentadas as distinçÕes
sociais, nomeadamente com base na riqueza. A questão dos direitos a liberdade e à igual-
dade levantou, em vários países, a polémica sobre a permanência da escravatura, conside-
rada contraditória com os direitos naturais; nos EUA, nomeadamente, a escravatura esteve
na base da guerra civilentre o Norte liberale o Sulesclavagista, entre 1861 e 1865.
3. O direito à segurança e à propriedade: a importância concedida à posse de bens explica-
-se pela preponderância da burguesia (grupo social que baseou a sua ascensão social nos
lucros do comércio e na aquisição de propriedades). Defendia-se, abertamente, que as
assembleias representativas deveriam ser compostas por proprietários, os únicos que
seriam capazes de representar os interesses dos seus eleitores (também eles, proprietários)
e de manter a ordem e a seguranÇa necessárias à preservação dos bens.
A defesa do direito à propriedade explica porque e que, na maioria dos países que adop-
taram o Liberalismo, só podia escolher os seus representantes quem atingisse um determi-
nado patamar de rendimentos - sufrágio censitário - apesar de este tipo de sufrágio intro-
duzir um Íactor evidente de desigualdade entre os cidadãos. Os mais ricos eram também,
na opinião dos liberais, os mais instruídos e, portanto, os mais capazes de votar.
4. O direito a intervir na governaÇão: o súbdito do Antigo Regime é substituÍdo pelo cidadão
do Liberalismo, indivíduo que é convidado a participar na vida política de múltiplas manei-
ras - como eleitor e detentor de cargos (se tivesse os meios económicos de se tornar cida-
dão activo), mas também participando nos diversos clubes (por exemplo, no Clube dos
Jacobinos, em França), assistindo às assembleias legislativas, onde intervinha na discus-
são, escrevendo para jornais ou apresentando petiçÕes (reivindicaçÕes escritas). Basta
lembrar a importância dos sans-culottes na etapa da Convenção da Revolução Francesa
61
fsGl
L--J M5

para nos apercebermos de como os cidadãos ditos "passivos" podiam inÍluenciar de Íorma
determinante o rumo da governação.
Pela sua importância, estes direitos apareceram consignados nos diplomas fundamentais do
Lrberalismo:
- a Declaração de lndependência dos Estados Unidos da América(1776) apresenta como jus-
tificação para romper os laços polÍticos com a lnglaterra os "Direitos inalienáveis, entre os
quais a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade";
- a Constituição dos Estados Unidos da Ameilca (1787) tem como objectivo assegurar "os
beneÍícios da liberdade';
- a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França, 1789) refere, no seu artigo 1.",
que "Os homens nascem e são livres e iguais em direitos" e, no artigo 2.' que os direitos natu-
rais do homem "são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressâo",
- a Carta Constitucional de 1814 esclarece, no Artigo 1.o, que "Os Franceses são iguais peran-
te a lei [...]", embora apresente, seguidamente, todas as nuances a esse direito característi-
cas de um liberalismo moderado (bicameralismo, sufrágio censitário, autoridade real refor-
çada, liberdade de expressão e de religião relativizadas);
- a primeira Constituição Portuguesa (1822) explicita, logo no seu artigo 1.o, que "tem por
objectivo manter a liberdade, a seguranÇa e a propriedade de todos os Portugueses.",
-a Carta Constitucional portuguesa (1826), partidária de um liberalismo mais moderado,
remete a enunciação dos direitos para o fim do diploma constitucional, referindo, no artigo
45.' que "A inviolabilidade dos direitos civis e polÍticos dos cidadãos portugueses, que tem
por base a liberdade, a seguranÇa individual e a propriedade, é garantida pela constituição
do Reino".

0bjectivo 3. Subtinhar os Íundamentos do [iberatismo potítico, a saber: constitucionatismo;


separação dos poderes; soberania da Nação, representada em assembteias
Em todos os países onde o Liberalismo se aÍirmou, foi necessário criar os mecanismos legais
para impedir o retorno ao Absolutismo. Deste modo, os princípios liberais eram salvaguardados
pelas seguintes medidas:
- elaboração de um documento onde eram explicitados os direitos e os deveres dos cidadãos
e o funcionamento do Estado: esse documento podia ser chamado Constituição, quando era
elaborado e votado pelos representantes do povo (deputados) ou Carta Constitucional,
quando era outorgado por um monarca, nos regimes liberais mais conservadores;
- separação dos poderes legislativo, executivo e ludicial, entregues a diÍerentes representan-
tes de Íorma a que um déspota não pudesse concentrar em si todos os poderes.
Habitualmente, o poder executivo pertencia ao rei (pois o Liberalismo não signiÍicou o fim
das monarquias) e aos ministros do Governo, enquanto o poder legislativo pertencia a
assembleias eleitas pelos cidadãos e o poder ludicial cabia a juízes eleitos;
- direito dos cidadãos da Nação a fazerem-se representar em assembleias (soberania nacio-
nal). As assembleias, que elaboravam as leis, podiam assumir a forma de uma Câmara única
que representava os cidadãos (nos regimes liberais mais progressistas) ou de um sistema
bicameral (no Liberalismo moderado ou conservador) em que ainda se permitia que os
representantes das ordens sociais superiores - clero, nobreza - se reunissem à parte, depois
de nomeados pelo rei.
A soberania nacional não deve ser confundrda com a soberania popular, característica dos
regimes democráticos pois, devido às restrições impostas ao direito de voto com base na Íortu-
na (sufrágio censitário), a população não era representada na sua globalidade.

62
5. 0 legado do Lrbena|smo na pnimeira nletade do século XIX @

Objectivo /.. Retacionar a secularização das instituicões com a defesa, peto Estado, dos
direitos individuais
Um dos aspectos mais polémicos da implantação do Liberalismo foi a questâo religiosa.
A defesa dos direitos individuais dos cidadãos previa o direito à liberdade religiosa; porém, na
maior parte dos países que adoptaram o Liberalismo, as estruturas da lgreja católica Íoram
declaradamente atacadas por serem consideradas coniventes com o regime absolutista depos-
to. Em França, por exemplo, subordinou-se o clero ao Estado através da Constituição Civil do
Clero, procedeu-se a uma campanha de descristianizaçâo e à promulgação da Lei do
Casamento e do Divorcio que substituía o sacramento do matrimónio por um contrato civil, pas-
sível de dissolução. A laicização do Estado (emancipação do Estado da influência religiosa)
passou, também, pelas seguintes medidas:
- instituição do registo civil para os nascimentos, casamentos e obitos, substituindo os regis-
tos paroquiais;
- criação de escolas e hospitais públicos;
-exproprração e nacionalizaçáo dos bens das ordens religiosas, muitas das vezes extintas.
Devido à secularização (sujeição às leis civis) das instituiçÕes, o clero viu perder, num curto
espaÇo de tempo, os privilegios de que havia beneÍiciado desde a ldade Média; o anticlerica-
lismo chocou uma parte da sociedade civil, a qual chegou mesmo, por vezes, a identificar-se,
de novo, com o Absolutismo - foi o que aconteceu em França, na revolta da Vendeia, ou em
Portugal, na adesão popular a D. Miguel.

Objectivo 5. Caracterizar o [iberatismo económico


Ao contrário daquilo que defendia o mercantilismo, o liberalismo económico opunha-se à inter-
venção do Estado na economia. De acordo com o valor iluminista do individualismo, devia dar-
-se total liberdade à iniciativa privada, pois a procura individual do lucro resultaria, naturalmen-
te, na riqueza e progresso de toda a sociedade. Destacaram-se vários pensadores na formula-
ção dos princípios do liberalismo económico:
- Adam Smith defende a inteira liberdade de iniciativa dos indivíduos para produzir e comer-
ciar; o Estado não precisa de se imiscuir na economia pois esta rege-se por leis próprias,
em particular a lei da oferta e da procura e a livre concorrência;
- Quesnay advoga o fisiocratismo, doutrina económica segundo a qual a base da riqueza de
cada paÍs está na agricultura, pelo que se deve incentivar todos os cidadãos a serem agri-
cultores e a comercializarem, em regime de livre concorrência, os seus produtos agrÍcolas;
o fisiocratismo serviu de base ideológica à revolução agrícola inglesa do século XVlll;
- Gournay exprimiu o ideal de livre concorrência na famosa expressão "laissez faire, laissez
passer" ("deixai produzir, deixai comercializar").

Objectivo ó. ldentificar as características do Romantismo


No final do século XVlll e durante o século XlX, percorreu a Europa uma corrente estética com
origem na Alemanha: o Romantismo. As principais características deste movimento cultural
devem ser enquadradas no seu contexto histórico:
- culto do eu: num tempo marcado por revoluçÕes constantes, quer a nível polÍtico (revoluçÕes
liberais), quer a nível económico (revolução industrial), torna-se compreensível que uma das
características mais importantes do Romantismo seja a recusa do racionalismo e da harmo-
nia: o indivíduo centra-se nas suas sensaçÕes subjectivas, deixa que os sentimentos o domi-
nem e procura paisagens dramáticas em consonância com o seu estado de espírito instável.
O heroi romântico experimenta, assim, uma insatisfação inexplicável - o "mal do século";
63
M5 O Liberalismo - ideologia e revoluÇão, modelos e práticas nos séculos Xvlll e Xlx

- exaltaÇão da liberdade - o Romantismo exprimiu, na arte, o desejo de liberdade social e polí-


tica enquanto, na prática, se envolvia nas lutas políticas e sociais da sua época. Várias figu-
ras do Romantismo, nacionais e estrangeiras, combateram, na arte e na vida, pela liberda-
de dos povos. O Romantismo tornou-se, assim, sustentáculo do Liberalismo, o que levava
Victor Hugo a afirmar: "O Romantismo [...] é afinal de contas [...] o Liberalismo na literatura".

0bjectivo 7. Retacionar o nacionatismo romântico com o interesse peta ldade Média


A preocupação romântica em defender as minorias étnicas da sujeição aos estados autoritá-
rios (defesa do prindfio das nacionalidades) e o apoio dos românticos aos movimentos de uni-
ficação nacional (quer a ltália, quer a Alemanha apenas se tornaram estados uniÍicados no sécu-
lo XIX) alicerçaram-se no interesse pela ldade Média: nesse período historico os românticos
encontraram a origem das naçÕes da Europa Ocidental. O Romantismo recuperou, da ldade
Media, as tradições, a arte gótica, a literatura, em suma, tudo o que pudesse legitimar o seu
desejo de liberdade através da busca das "origens".
Além do mais, os românticos identificavam a ldade Media com a sua própria sensibilidade,
encarando-a como um período apaixonante e de profundo dramatismo.

0bjectivo 8. Distinguir os princípios estéticos do Romantismo nas artes ptásticas, na litera-


tura e na música
Desde o final do século XVlll, a literatura registou uma assinalável democralizaçáo graÇas ao
avanço da técnica industrial, que tornou a impressão dos livros e jornais mais barata. As obras
literárias românticas difundiram-se, assim, a um corpo de leitores mais alargado, que acompa-
nhava com entusiasmo o novo estilo, baseado nos seguintes pressupostos:
- reacção ao classicismo;
-valorizaçáo do sujeito e das suas intuições;
- busca do pitoresco e do exótico;
- produção de romances com base em factos históricos, sobretudo medievais (por exemplo,
os romances de Walter Scott e de Victor Hugo);
- poesia emotiva (por exemplo, com Goethe e o movimento Sturm und Drang - "tempestade
e paixão");
- culto das emoçÕes extremas;
- culto das literaturas nacionais.
Nas artes plásticas, o Romantismo operou, também, uma revolução assinalável em relação
aos paradigmas do racionalismo neoclássico:
- captação de atmosferas através da cor e da luminosidade (por exemplo, na pintura de
William Turner);
- valorização da expressividade e do movimento (por exemplo, nas telas de Delacroix);
- inspiração na Natureza;
-nostalgia de um mundo desaparecido (Oriente, ldade Media).
Na música, o Romantismo é emoção pura, caracterizando-se por:
- apuramento da melodia;
- desenvolvimento da sinfonia (destacando-se as sinfonias de Beethoven);
- virtuosismo instrumental (como o demonstram as obras para violino de Paganini ou para
piano, de Chopin);
- inspiração na poesia (por exemplo, em Schubert);

64
5. O legado do Liberalismo na primeira metade do sêculo XIX ft
- revivalismo do folclore musical (nomeadamente, com Grieg e Sibelius);
- afirmação da ópera (graças aos exemplos incontornáveis de Puccini, Verdi e Wagner).

0bjectivo 9. Exemptif icar manifestações [iterárias e artísticas do Romantismo em Portugat


Embora com atraso cronológico (segundo quartel do século XIX), o Romantismo português
acompanha de perto as características gerais do movimento romântico europeu: a par da idea-
lizaçáo das personagens, as obras românticas integram, geralmente, a ideia de um destino fatal
(a morte é, muitas vezes, a solução para o conflito), a salvação pela religião, a valorização do
pitoresco e das raÍzes medievais. Tal como acontece no resto da Europa, o escritor romântico
compromete-se com a ideologia política do Liberalismo.
Sâo exemplos marcantes do movimento literário romântico em Portugal:
Almeida Garrett:
- é, geralmente, considerado o introdutor do Romantismo em Portugal (com os poemas
Camões e D. Branca);
- renovou o teatro português, como o testemunha a obra dramática Frei Luís de Sousa',
- aplicou-se na pesquisa das raízes populares da literatura nacional (de que resultaram o
Cancioneiro e o Romanceiro);
- inspirou-se na Historia, que fez reviver nos seus escritos (por exemplo, nas Viagens na Minha
Terra e n'O Arco de Sant'Ana)',

- abraçou a ideologia liberal, o que lhe valeu o exílio na lnglaterra e na França.


Alexandre Herculano:
- marcou a historiografia nacional com a sua História de Portugal',
- inspirou-se na ldade Media para os seus romances históricos (por exemplo, em Eurico, o
Presbítero)',
- tal como Almeida Garrett, esteve exilado em França e desembarcou juntamente com
D. Pedro lV e os liberais na praia de Pampelido.
Camilo Castelo Branco:
- o Romantismo literário encontrou-se com o dramatismo na vida real (Camilo experimentou o
encarceramento, no Porto, devido à sua relação adúltera com Ana Plácido);
- conduziu ao clímax o espírito romântico na sua obra Amor de Perdição.

O Romantismo, movimento que exarcebava o fervor dramático, continuou a cultivar-se a par


de uma nova corrente que a ele se opunha: o Realismo, movimento que desponta, em Portugal,
no último quartel do século XlX.
Na arqurtectura, o Romantismo evidenciou-se na mistura de vários estilos como o manuelino,
o gótico e os elementos exóticos árabes e indianos; este eclectismo teve um resultado feliz na
construção do Palácio da Pena, em Sintra, ou da Estação do Rossio, em Lisboa.
Na escultura destacaram-se de um panorama algo pobre Soares dos Beis (é famosa a sua
obra O Desterrado) e o seu discÍpulo António Teixeira Lopes.
Na pintura, devem salientar-se as obras de Domingos António Sequeira, Tomás da Anun-
ciação, Francisco Pereira Meneses e Francisco Metrass.

65
GUEHAl 1-05
Relaxar fazendo História
Cinco atitudes românticas

Já deve ter concluído, por esta altura, que não basta oferecer um ramo de flores para se ser
romântico. Da seguinte lista, assinale com um V (verdadeira) as afirmações que lhe parecem
próprias do movimento romântico e com um F (falsa) aquelas que não identifica com o
Romantismo:

1- Decorar toda uma divisão da casa (paredes, móveis, etc.) com as iniciais da mulher amada.
2 - Combater numa revolução pelos direitos do povo.
3 - Ser preso por envolvimento com uma mulher casada.
4 - lr viver para o Taiti para fugir da civilização europeia e pintar telas de cores garridas.
5 - Gostar de História.

Erp?y\ epepl eled erelc ercugrelerd eurn ral o^êp %OOL


e o3rluguror utn ras ered sen iEpoLU eu ardures glsê ê erlglsrH ap telsoô ocrlugu.ro.r êluêuteuJoJlxê , -A- g
'ecrlueLrol
ê]uê.rJoc eu enerôelur os oEru seu 't68L ap oLlunf êp B e lllqe1 uê noclequlosep urnôneg ;ne6 tolurd O - J -,
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uorÁg ap so;durexe sou resued elseq :êluouiecrirlod llereleluorduloc es enb socrlugruoJ so LlJeroJ soug1 - -Z
'sued urê ErcugprsêJ ens eu ol-g] o6ng ro1crl - 1^ -1-

:selsodsaU
66
5. O legado ds Libenalisrns na primeira melade do século XX

Esquema

. Romantismo:
- Va[orização do
. sujeito emotivo
Constituição /
Carta Consti-
- Busca das
raízes nacionais
tucionaI . . Livre-cambis-
. DeÍesa dos . Íinteresse peta
Separação Secu[arização
direitos naturais mo; iniciativê ldade Médial
tripartida dos das instituições
poderes
do cidadão privada - Comprometi-
. mento político
Soberania
do artista
nacional
- Gosto pe[o
foLc[ore e peto
exótico

67
Teste de Avaliacão
coNJUNTo 1 - REVoLUcÃo aMERrcaNA E REVoLuÇÃo rnarucESA: A IDEoLoGIA LIBERAL EM
acçÃo

Documento 1:

"Nós temos estas verdades por evidentes por si mesmâs:


- que todos os homens nascem iguais;
- que o seu Criador os dotou de certos Direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a
Liberdade e a procura da Felicidade;
- que, para garantir esses direitos, os homens instituem entre eles governos, cujo justo
poder emana do consentimento dos governados;
Em consequência, nós, os representantes dos Estados Unidos da América [...] publicamos
e declaramos solenemente [...] que estas colónias são, e têm o direito de ser, Estados livres
e independentes.

Declaração de Indepenüncia dos EUA aprovada no Congresso de Filadélfia, em 4 de Julho de 1776

Documento 2:

"Artigo I - Secção I - Todos os poderes legislativos concedidos pela presente lei serão
confiados a um Congresso dos Estados Unidos, que se comporá de um Senado e de uma
Câmara de Representantes [...].
Artigo II - Secção I - O poder executivo é conferido a um presidente dos Estados Unidos
da América. Ficará em funções durante um período de quatro anos [...].
Artigo III - Secção I - O poder judicial dos Estados Unidos será confiado a um Tribunal
Supremo e aos tribunais inferiores que o Congresso julgue necessário criar e estabelecer [...].
Constituição dos EUA aprovada na Convenção de Filadélfia, em 7787

Documento 3:

"Artigo 1.": - Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só
podem fundar-se na utilidade comum.
Artigo 2."- O fim de toda a associação política é a conservação dos direitos naturais e
imprescindíveis do Homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a
resistência à opressão.
Artigo 3.'- O princípio de toda a soberania reside essencialmente na Nação. [...]
Artigo 6." - A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de con-
correr, pessoalmente ou através dos seus representantes, para a sua formação. Ela deve
ser a mesma para todos, quer se destine a proteger quer a punir. Todos os cidadãos são
iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos
públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes
e dos seus talentos [...].
Artigo 17." - Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode
ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir evi-
dentemente e sob a condição de justa e prévia indemnização."
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, Agosto de 1789

68