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Porto Alegre, v.15, n.1, jan./jun. 2012.

INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO: teoria & prática


ISSN impresso 1516-084X ISSN digital 1982-1654

Corpos Associados:
a arte e o ato de experienciar de acordo com Gilbert Simondon

Associated Bodies:
art and the act of experience according to Gilbert Simondon 

Resumo
O presente artigo parte de alguns preceitos da filosofia
técnica de Gilbert Simondon para se entender a expe-
Andréia Machado Oliveira
riência na obra de arte, tais como: a obra pertence a
um meio associado, a obra é um objeto tecno-estético Universidade Federal de Santa Maria
produzido por certa tecnologia e aporta tecnicidades, e
a obra somente pode ser entendida a partir do sistema
metaestável obra-humano-meio. Apreende-se a experi-
ência na obra de arte como um modo de individuação e
não uma experiência pessoal, direcionando-se para uma
ontogênese que vai além da obra ou do humano em si.
Coloca-se, ainda, a pertinência de uma abordagem tec-
nológica sobre as tecnicidades da obra como um modo
de se compreender os processos de individuação da arte

I
a partir de relações transdutivas no sistema metaestável
humano-obra-meio em constante transformação. nicia-se este artigo a partir de alguns ques-
Palavras-chave: Experiência. Arte. Meio associado.
Tecnicidade. Sistema metaestável.
tionamentos sobre aspectos constitutivos
da arte a fim de se entender a própria ex-
Abstract
periência na obra de arte, tais como: a obra
This paper uses a variety of concepts and ideas from
the technical philosophy of Gilbert Simondon as a means pertence a um meio associado, a obra é um
of understanding the act of experiencing the artwork— objeto tecno-estético produzido por certa tec-
namely: the artwork as belonging to an associated mi-
lieu; the artwork as a techno-aesthetic object produced nologia e aporta tecnicidades, e a obra so-
by technology entraining a particular technicity; and the mente pode ser entendida a partir do siste-
artwork as being able to be understood only through the
artwork-human-milieu meta-stable system. The experi- ma obra-humano-meio. Deste modo, visa-se
ence of the artwork is understood as a mode of individu- investigar uma ontologia da experiência com
ation and not as personal experience—as an ontogenesis
which goes beyond the artwork or the human as such.
a obra, ou melhor, na obra de arte, com su-
We examine the relevance of a technological approach porte na filosofia técnica de Gilbert Simondon
to the technicity of the artwork as a means of coming
(1924-1989). Para tal, esta investigação traz
to terms with its process of individuation through the
transductive relations of the continuously-transforming para o campo da Arte alguns conceitos-chave
meta-stable human-artwork-milieu system. simondonianos, como: meio associado, indivi-
Key-word: Experience. Art. Associeted milieu. Technic-
ity. Meta-stable system. duação, tecnicidade, elemento, sistema meta-
estável e transdução.

1 Meio Associado e Individuação


OLIVEIRA, Andréia Machado. Corpos associados: a arte e o
ato de experienciar de acordo com Gilbert Simondon. Infor- Entende-se que não se pode fazer uma
mática na Educação: teoria & prática, Porto Alegre, v. 15, n.
1, p. 101-114, jan./jun. 2012. analise da obra de arte como um objeto isola-

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do com regras próprias, uma vez que esta per- meios. Tal causalidade entre os meios tecnoló-
tence ao meio ao qual está associada. O con- gicos e geográficos, Gilbert Simondon (1989)
ceito simondoniano de meio associado é caro denomina meio associado. O meio associado é
para a Arte, uma vez que aporta um pensa- mediador da relação entre os elementos téc-
mento processual da obra em constante fazer- nicos fabricados e os elementos naturais no
se com o meio em que se associa. Ressalta-se seio dos quais funciona o ser tecno-estético,
a importância de se considerar que há meios ou seja, o meio associado diz respeito ao meio
associados que abrigam obras e espectadores, tecnológico pelo qual a obra foi produzida e o
os produzindo e sendo produzidos por eles. meio geográfico em que ela se encontra – no
Em Simondon (1989), corpos e meios se momento de produção e da difusão -, sendo
adaptam e constroem-se, mutuamente, no tais meios mediados pelo humano e resultan-
ato de experienciar. Pode-se dizer que ocorre do na obra de arte como um objeto tecno-
uma associação entre corpos e meios nas ex- estético.
periências da vida. O corpo necessita daquele A obra não pode ser desvinculada do seu
meio associado e este, daquele corpo1. O meio meio associado, somente existe naquele es-
constitui, sustenta, une, comunica os corpos. pecífico meio, como por exemplo, a obra “A
O meio permite a coesão, aglutinação, é onde Última Ceia” (1495-1497) de Leonardo da Vinci
as coisas podem se condicionar e formar algo. produzida e apreciada em sua época e atual-
Se é produzido pelo meio e, simultaneamen- mente. Pode-se afirmar que a mesma tela são
te, produz-se o meio, bem como cada corpo duas obras distintas, uma vez que se encon-
traz seu próprio meio associado, ou seja, a tram em distintos meios, ou seja, os códigos
separação corpo e meio associado, figura e simbólicos e processos perceptivos sobre a
fundo, apresenta-se desprovida de qualquer mesma tela são absolutamente diferenciados
sustentação. O meio atravessa os corpos, es- em épocas distintas. Sabe-se que o ilusionis-
tando dentro e fora, como o ar que se respira, mo da perspectiva no renascimento era mais
a água que constitui os corpos, a terra que os evidente do que atualmente, uma vez que a
fecunda e nutre. Na arte, pensar sobre o meio perspectiva foi sendo naturalizada pelo olhar.
é pensar sobre a produção dos corpos obra Também, reconhece-se a representação de
e espectador, seus modos de funcionar, suas objetos, cenas, contudo sua significação é ou-
conexões e associações estabelecidas. tra atualmente, uma vez que os códigos sim-
Usualmente, a terminologia meio, na língua bólicos sofreram modificações.
portuguesa, pode se referir ao meio pelo qual Deste modo, a obra é resultado de seu
a obra foi constituída – meio pictórico, meio meio associado. Cecília Almeida Salles (2006),
digital, meio sonoro –, bem como ao meio aborda os processos que envolvem a criação
em que a obra se encontra – meio urbano, da obra de arte, uma criação em rede que re-
meio comercial, meio rural. O meio tecnoló- cebe influências diversas como o espaço ge-
gico diz respeito ao uso da tecnologia em si e ográfico e cultural onde a obra é criada. Ou
o meio geográfico ao lugar de pertencimento ainda, o meio associado pode ser a própria
deste uso, existindo uma causalidade entre os obra, como nos mostra a instalação do artis-
ta brasileiro Paulo Bruscky2. Ele trouxe seu
próprio atelier (quatro salas, dois banheiros
1 Os filósofos Gilbert Simondon e Gilles Deleuze enfatizam,
em vários momentos de suas obras, essa relação construcio-
nista entre corpo e meio associado. 2 Exibida na 26a Bienal de São Paulo, 2004.

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e uma cozinha) de Recife e reconstruiu como Experiências entre corpos e meios em que
um atelier-instalação com todos os livros, não se visa reconhecimento de identidades
obras antigas, materiais, papéis e objetos na representativas ou certas taxionomias, toda-
26a Bienal de São Paulo (2004). Outro exem- via direciona-se ao que se pode se tornar com
plo sobre a relação obra e meio é a instalação a obra de arte, bem como o que a obra se
“The Empty Museum” (2004) das artistas rus- torna. Almeja-se abarcar certa experiência na
sas Ilya e Emilia Kabakov3. A obra recria uma obra que “só pode ser preenchida à custa de
sala de um museu tradicional com todos os uma reversão categórica mais geral, segundo
detalhes da decoração – móveis e iluminação a qual o ser se diz do devir, a identidade se
são reproduzidos-, exceto que as paredes en- diz do diferente, o uno se diz do múltiplo etc.”
contram-se vazias. Entretanto, mesmo com as (DELEUZE, 1988, p. 83). Corpos em rel(ações)
paredes vazias, os espectadores apresentam de individuação em que o Ser se apresenta
as mesmas atitudes de contemplação diante como união de indivíduo e meio, estando sem-
da “obra”, ficando a observar as paredes va- pre se tornando algo ao se diferenciar de si.
zias iluminadas. Esta obra mostra que aquela Tal corte com uma referência unitária, com
obra necessita daquele espaço e vice-versa. uma necessidade de coerência com um Todo,
Obra e meio criam-se no mesmo processo. de certa originalidade e autenticidade no fa-
Nas obras de instalação, o meio associado zer, nos remete à ideia de reprodutibilidade
é explícito, pois o meio suporta, forma e atua- da obra de Arte. A arte, desde então, tende
liza o objeto tecno-estético. O meio associado se circunscrever mais em função da reprodu-
de obras de instalação é composto por dissi- tibilidade e menos em relação à obra original,
milares meios e elementos, como: projeção de única e autêntica. Sobre este aspecto, Walter
imagens, amplificação do som, dimensão da Benjamin (1994) aborda que a obra de arte,
sala, luminosidade, movimento dos especta- após os meios tecnológicos de reprodução,
dores, a vontade, ou não, de interagir com a não pode mais ser vista como um produto
obra. Por exemplo, a performance imersiva do acabado e aferido pela áurea. A arte na era da
austríaco Kurt Hentschläger, “FEED”4 (2005- reprodutibilidade questiona alguns conceitos
06), onde obra e meio tornam-se um. Durante tradicionais como criatividade e gênio, valida-
a performance, a sala é totalmente preenchi- de eterna e estilo, forma e conteúdo. O concei-
da com fumaça e as imagens são projetadas to de autenticidade escapa à reprodutibilida-
nela, acompanhadas com um som intenso. O de técnica ao perder a referência ao original,
espectador encontra-se dentro do meio tecno- àquele objeto igual e idêntico a si mesmo, a
geográfico, sendo que obra e meio se fundem. uma autoridade que o legitime como verda-
O meio associado torna-se o espaço-tempo deiro, à tradição imposta a ele, à sua áurea.
que abriga as relações dinâmicas entre obra e A unidade e durabilidade dão lugar à transi-
humano a partir de uma recorrência de causa- toriedade e repetibilidade. A sacralização da
lidade num meio que a obra criou em torno de obra, ritual secularizado, impõe uma relação
si mesma e que a condiciona da maneira como de poder; enquanto a reprodução aproxima a
ela é condicionada (SIMONDON, 1989). obra do espectador. Ao retirar seu invólucro e
destruir sua aura, lhe dá autonomia e substitui
a existência única por uma serial, aumentando
3 Exibida na 5a Bienal do MERCOSUL, 2007.
sua exponibilidade, uma vez que elas são pro-
4 Exibida no ELEKTRA Festival Montreal, 2009. duzidas para atingir uma maior visibilidade.

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Neste sentido, espectador e obra podem mais é do que a produção de indivíduos e meios
compartilhar a mesma experiência. Hélio Oi- em um mesmo processo que denomina-se indi-
ticica coloca que “a palavra “experimental” é viduação. Os corpos, indivíduos, existentes são
apropriada, não para ser entendida como des- imanentes ao meio onde se experienciam. Gil-
critiva de um ato a ser julgado posteriormente bert Simondon (1964) concebe que indivíduos e
em termos de sucesso ou fracasso, mas como meios são duas fases distintas de um processo
um ato cujo resultado é desconhecido” (OI- de individuação e ambos definem o Ser. Tam-
TICICA In OITICICA, COHN & VIEIRA, 2009, bém o Ser não é a substância, esta é resultado
p.109). Oiticica almeja “[...] criar novas condi- de um sistema matéria, forma e energia, isto
ções experimentais, em que o artista assume é, o que se produz na experiência. O estudo
o papel de “proposicionista”, ou “empresário” da individuação “nos convida a perguntarmos
ou mesmo “educador” (OITICICA, 1989, p. como se cumpre a ontogêneses, a partir de um
97). Na obra “Penetráveis” (1960), visa que sistema que comporta potenciais energéticos e
a imagem absorva o observador a partir de germens estruturais; não é substância senão
uma experiência sensorial, “de um exercício um sistema que tem individuação, e essa in-
experimental da imagem”. Foca-se sobre a dividuação é a que engendra o que se chama
experiência, já que a “experiência é aquele uma substância, a partir de uma singularidade
meio que provém a capacidade de afectar e inicial” (SIMONDON, 2005, p.97). A substância
ser afectado; ela é a-subjetiva e impessoal. apresenta-se como resultado das relações de
Experiência não é uma propriedade individu- um sistema metaestável simondoniano. Assim,
al; mas subjetividades que são constituídas a substância se produz no sistema, e, pode-se
em relação com a própria experiência, isto dizer que ela resulta da experiência. Como nos
é, por meio da individuação via hecceidades” objetos sensoriais de Lygia Clark (1920-1988),
(SEMETSKY In PARR, 2005, p. 89). não se apreende o objeto em si, como uma
Deste modo, os corpos obra e espectador pedra, ou o sujeito espectador mais a pedra,
se fazem na experiência com o meio. A experi- contudo há o que é produzido no encontro dos
ência que a obra de arte propõe não pertence indivíduos pedra e participante em um deter-
ao artista nem ao espectador, ela é impessoal minado meio em processo de individuação. In-
no sentido que ela produz um modo de indi- viável conhecer a obra de arte como um indiví-
viduação, de subjetivação, naquele meio que duo isolado, deve-se “conhecer o indivíduo pela
associa os indivíduos – obra, artista e espec- individuação muito mais do que a individuação
tador – que ali se encontram. Apreende-se a a partir do indivíduo” (SIMONDON, 1964, p.
experiência como um modo de individuação 100) a partir de uma ontologia que pondera o
e não uma experiência pessoal. São algumas ser como algo que está sempre se tornando.
partes do espectador, do artista que resta na Fala-se em um processo dinâmico que não
obra, da obra, da tecnologia que entram em permite o congelamento da forma, do corpo
individuação. Quando se fala em experiências, fixo, uma vez que este se satura e se transfor-
não são experiências de indivíduos, mas um ma continuamente, estando em permanente
processo de individuação que não se foca so- diferenciação de si mesmo. Tal processo nos
mente no que se é, mas, principalmente, no faz perceber que o indivíduo contém e está
que se torna. Fala-se em uma ontogênese que contido em uma dimensão pré-individual que o
vai além da obra ou do humano. antecede. Simondon (1964) diferencia o ser do
Entende-se, aqui, que a experiência nada indivíduo, na tentativa de não restringi-lo, o ser

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“transborda o indivíduo e não se esgota nele. tista australiano Stelarc trabalha radicalmente
Apenas um ser pré-individual se atualizando na incorporação de tecnologias no corpo hu-
em indivíduos pode estar na gênese do indiví- mano. Ele busca a evolução do corpo huma-
duo. O indivíduo não passa de uma fase do ser, no via sua artificialização, colocando que este
de seus potenciais energéticos pré-individuais, corpo que temos tornou-se obsoleto diante da
uma resolução que não esgota o campo de realidade tecnológica contemporânea. Na obra
onde emerge” (PELPART, 1998, p. 47). “Ear on Arm”, ele implanta um ouvido em seu
Neste processo de individuação, o indivíduo braço esquerdo que, com futuras cirurgias,
é devolvido à sua dimensão pré-individual, terá um micro-microfone que vai habilitar o
provocado a sair do uno e a entrar no múltiplo. ouvido ao acesso à internet, tornando-se um
Assim, “[...] a individuação deve ser apreendi- órgão com acesso público a outros lugares,
da como devir do ser e não como modelo do ser não somente escutando mas também trans-
que esgotaria sua significação” (SIMONDON, mitindo sons. O ouvido no braço se torna um
2003, p.106). Ela não pré-existe ao indivíduo e órgão da internet. Deste modo, assim como
nem vice-versa, ambos são contemporâneos, Simondon, Stelarc busca uma evolução bioló-
“na realidade, o indivíduo só pode ser contem- gica e tecnológica em sua obra, sem separar
porâneo de sua individuação e, a individuação, natureza e tecnologia. Tecnologias são agen-
contemporânea do princípio: o princípio deve ciamentos entre instrumentos e máquinas,
ser verdadeiramente genético, não simples- máquinas e pessoas, pessoas e meio, pessoas
mente princípio de reflexão” (DELEUZE, 2006, e ideias, integrando distintos meios em pro-
p. 117). Assim como não se pode entender o cessos de individuação.
humano a partir somente dos referenciais hu-
manos, isolando-o como um sistema à parte, 2 Tecnicidades da obra
também não se consegue compreender a obra
de arte estudando-a desvinculada do homem Na perspectiva de evolução biológica e tec-
e do mundo. É a existência de diversas gêne- nológica, Gilbert Simondon (1989) resgata a
ses que constitui a complexidade do mundo; relação homem e técnica, buscando a existên-
a gênese como um processo de individuação cia humana a partir da realidade técnica que
que extrapola o humano, processo de indivi- circunda suas criações. A arte resgata as téc-
duação coletiva que engloba individuação físi- nicas e tecnologias do seu contexto cultural
ca, individuação vital e individuação psíquica
a fim de transgredir sua finalidade e função
(SIMONDON, 1964).
inicial e promover outras formas de sentir e
Ainda, o conceito de individuação coletiva
pensar. Pode-se dizer que o artista, mas não
em Simondon extrapola qualquer visão que
exclusivamente, entra na gênese dos objetos
separa homem e máquina, natural e artificial.
a fim de incorporá-los e reconfigurá-los com
Tal abordagem vem ao encontro do campo da
o seu fazer tecno-estético. Isso se torna pos-
Arte e Tecnologia, já que “arte e natureza tem
sível não por um mergulho do artista em sua
se mesclado, dobrando-se uma sobre a outra
subjetividade ou inspiração transcendental,
e formando um continuous sensorium”5. O ar-
mas pelas condições que o próprio fazer traz
em si por sua heterogeneidade, isto é, uma
5 LATOUR, Bruno. Air. In: JONES, Caroline (org.). Senso- abordagem sobre a tecnologia nos leva aos
rium: embodied experience, technology, and contemporary
art. Cambridge: MIT Press, 2006, p. 107. modos de produção da própria obra.

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Há um específico uso lançado de antemão tuem formas de subjetividade, determinam


em cada técnica e tecnologia; contudo, tal uso maneiras de pensar, agir e sentir, bem como os
não a reduz, isto é, ela é mais ampla e comple- próprios sujeitos criam tecnologias de acordo
xa para quem não se restringe a um contato com suas necessidades e desejos, isto é, não
primeiro e almeja sua indeterminação. Há cer- há como separar sujeito e máquina, uma vez
ta exigência da relação de uso para se pene- que se produz um processo de subjetivação no
trar nas questões de gênese do vivo e do não qual se constituem simultaneamente sujeitos/
vivo: “o uso reúne estruturas e funcionamen- máquinas a partir de agenciamentos sociais.
tos heterogêneos sob gêneros e espécies que A tecnologia somente pode ser incorporada
retiram sua significação da relação entre este à cultura se a relação homem e máquina não
funcionamento e um outro funcionamento, estabelecer padrões de inferioridade e de su-
aquele do ser humano em ação” (SIMONDON, perioridade cada um em relação ao outro, isto
1964, p. 19). Haraway coloca que “Don Ihde in- é, uma relação de reciprocidade social. De um
siste que os corpos humanos e as tecnologias certo modo, para que ocorra tal relação, faz-se
coabitam um com outro em relação a projetos imprescindível um sentido de universalidade
particulares ou vida real. “ Na medida que eu material e intelectual disponível e aberto a to-
uso uma tecnologia, eu também sou usado por dos. Procura-se entender esta universalidade
ela” (HARAWAY In JONES, 2010, p. 123). não como algo homogeneizante, mas como um
Ao se voltar à tecnologia, direciona-se para meio de retirar o mito da tecnologia inaces-
uma ontologia do vivo e dos objetos tecno-es- sível à humanidade, isto é, que a tecnologia
téticos6, compreendendo seus modos de exis- traz em si conhecimentos disponíveis e aber-
tência a partir das condições de suas gêneses tos para serem apreendidos e reconfigurados.
resultante da relação humano-máquina e meio Não há de forma restrita uma passividade de
associado. Coloca-se, aqui, a pertinência de uso e uma finalidade fechada na máquina.
uma abordagem tecnológica como um modo O artista transgride a utilidade inicial tec-
de se compreender os processos de individua- nológica entrando em sintonia com a evolução
ção da arte, a experiência na obra, entenden- técnica ao provocar novas relações de causa-
do que tais processos ocorrem em relações lidade. O artista trabalha na multiplicidade de
humano-máquina-obra-meio inseridos em forças de um objeto tecno-estético. Consta-
uma cultura técnica que visa ir contra a ig- ta-se que há uma tensão entre a intenção de
norância da natureza das máquinas no mundo quem produz e o que lhe escapa, sendo função
das significações. Busca-se pensar o modo de do artista captar as forças que se desviam,
existência dos objetos tecno-estéticos em ní- “talvez até se possa dizer que um dos papéis
vel filosófico, comportando esquemas de fun- mais importantes da arte numa sociedade tec-
cionamento das máquinas e dos valores que nocrática seja justamente a recusa sistemáti-
eles implicam, devolvendo à cultura seu papel ca de submeter-se à lógica dos instrumentos
ao problematizar relações entre o humano e a de trabalho, ou de cumprir o projeto industrial
máquina. Coloca-se que há uma dupla cons- das máquinas ou aparelhos, reinventando, em
trução nos agenciamentos entre tecnologia e contrapartida, as suas funções e finalidades”
sociedade: as interfaces tecnológicas consti- (MACHADO, 2006, p. 26).
Deste modo, além de buscar trazer a tec-
6 Considera-se, aqui, a obra de arte como um objeto tecno-
nologia para uma reflexão em nível filosófico,
estético. interessa-se sobre esses modos, pelas varia-

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ções de uso das tecnologias na relação obra luções sucessivas das tensões de um sistema
de arte e humano (artista e espectador). As metaestável em constante transformação. Ela
obras se constroem através de cortes, ferra- resulta de uma defasagem do ser, inserindo-
mentas, aparelhos, técnicas, tecnologias de se em um pensamento processual constituído
modos muito particulares, bem como também de diversas fases, de estabilidades momentâ-
o ser humano se constitui nas particularidades neas em um sistema dinâmico.
das tecnologias que utiliza. As tecnologias têm As tecnicidades do fazer vida é o que se
características gerais, mas a forma de uso passa no entre dos encontros e os sustentam
tem aspectos específicos que possibilitam o em um processo inventivo sempre se resol-
surgimento de singularidades. Foca-se sobre vendo. São resoluções que ocorrem em nível
o modo como um corpo se constitui a partir das singularidades, dos afectos e perceptos
do agenciamento de certos elementos de um dos corpos, sem ter a finalidade como meta,
meio associado, como se dão as maneiras de já que se encontra em um equilíbrio metaes-
incorporação via uma tecnologia e como tais tável que possibilita transpor as finalidades
tecnologias são processadas. O modo especí- previstas via novas problematizações. Isto é,
fico como os elementos são compostos e como na tecnicidade há um devir genético que abre
expressam suas qualidades a partir do uso de a novos rearranjos e acoplamentos, sempre
certa tecnologia, Gilbert Simondon denomina provisórios. A tecnicidade faz parte de um sis-
tecnicidade (1989). A experiência na obra de tema, sendo, simultaneamente, resultado de
arte implica tanto sua produção como fruição, uma evolução e potencial de um poder evolu-
direcionando-se às qualidades expressas via tivo, mediando o homem e o mundo. “Assim,
às tecnicidades da obra. o sistema formado pelo sujeito e pelo mundo
A tecnicidade é tendência, potência, capa- é reinventado toda vez que se cria um objeto,
cidade de produzir ou padecer um efeito de estabelecendo uma nova dinâmica no campo
maneira determinada, ela não se encontra em de subjetivação individual e coletiva” (ES-
um indivíduo, mas na combinação dos ele- CÓSSIA, 1999, p.55), entendendo esse objeto
mentos pré-individuais de diversos meios. Ela como material ou imaterial.
também não diz sobre o elemento em si, en- A tecnicidade é o que permite a evolução
tretanto sobre a organização dos elementos, técnica e tecnológica. Mesmo que não se pos-
o que se passa entre os elementos, o que se sa falar em evolução na arte ou em técnicas
produz no encontro de determinados elemen- melhores ou piores, constata-se que há des-
tos, isto é, diz sobre a intimidade do encon- dobramentos na história da arte com proces-
tro dos corpos e suas composições. Na arte, sos abertos em etapas sucessivas. O aperfei-
a tecnologia diz sobre o modo como os artis- çoamento técnico não consiste em dominar
tas dão forma aos elementos que retiram dos a técnica, mas abri-la à sua indeterminação,
meios por onde circulam, e a tecnicidade como questioná-la em sua função. Na arte, as tec-
tais elementos aceitam, ou não, conjurarem nologias e técnicas são os modos de produção
um novo meio associado, como copulam entre dos corpos, podendo ser pintura, escultura,
si, como suportam conviver inventando a si gravura, fotografia, escritas, ações, pensa-
próprios. A tecnicidade situa-se como um mo- mentos, dígitos. Há criação de novas tecno-
mento da evolução que rompe com um sentido logias, como os happenings nos anos 60 ou a
de adaptação estável e busca de equilíbrio no artemídia atualmente; bem como variação em
mundo; situando-se, ao contrário, nas reso- cada técnica em si, como a pintura, escultura,

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gravura e outras, em cada época. A pintura zendo possíveis isolamentos do pensamento


não foi negada pelos artistas dos anos 60/70, em relação a ele mesmo, isto é, promovendo
mas sim forçada a se aperfeiçoar enquanto uma totalidade, nunca em um domínio limita-
pintura em sua qualidade prática. A tecnicida- do ou de espécie determinada. De acordo com
de é o momento da resolução de uma proces- Simondon,
sualidade do objeto tecno-estético na indeter-
minação, uma vez que está constantemente por transdução entendemos uma operação física,
biológica, mental, social, por que uma atividade
se adaptando ao meio em que se associa, isto
se propaga gradativamente no interior de um
é, se o meio e os materiais mudam a técnica domínio, fundando esta propagação sobre uma
também precisa mudar já que carrega poten- estrutura do domínio operada de região em re-
cialidades de vir a ser, de devir. gião: cada região de estrutura constituída serve
de princípio de constituição à região seguinte, de
Instaura-se um processo coletivo cons- modo que uma modificação se estende progres-
truído por diversas partes que não se somam sivamente ao mesmo tempo que esta operação
para formar um todo, mas que se atraem e/ estruturante (SIMONDON, 2003, p. 112).
ou repelem em ressonância e compõem um
espaço-tempo da experiência, isto é, uma in- A transdução é essa propagação que se
dividuação coletiva que vai além do humano move sempre em duplo sentido, alterando
que somos (OLIVEIRA, 2010). quem propaga e quem é propagado. Ela é uma
transformação em cadeia entre os participan-
3 Sistema obra-humano-meio tes de um mesmo sistema, de um mesmo meio
associado, ocorrendo em nível micromolecu-
Uma abordagem sobre a experiência em lar e macromolecular. Como os participantes,
nível não humano, direciona-nos ao que está previamente, se encontram conectados em
antes do humano, aos elementos que consti- um sistema, as transformações que ocorrem
tuem cada indivíduo. Os indivíduos são efeitos se propagam pelo todo sistema, modificando
da relação meio associado e seus elementos. os participantes e o próprio sistema. Assim,
Cada indivíduo, com seu meio associado, em tal transformação em cadeia é estruturante e
relações de causalidade pode gerar um con- se constitui como um modo de operação do
junto composto por uma heterogeneidade de sistema. Transdução, contágio, propagação,
meios associados. Um indivíduo sem meio as- algo em formação contínua em uma operação
sociado é um utensílio que não gera conjun- coletiva.
to transdutivo (Simondon, 1989). Explicita-se Quando há transdução entre meios asso-
que quando ocorre certa experiência na obra ciados dissimilares, há invenção dos próprios
de arte corre relações transdutivas entre ele- meios ao receberem elementos novos. Para
mentos, indivíduos e conjuntos. que ocorra a transdução, é indispensável a
O processo de transdução necessita de um presença do meio associado; entretanto so-
meio associado que permita a transmissão, mente isso não garante a transdução, pois a
o atravessamento de informações. Coloca-se propriedade transdutiva está no elemento que
a transdução como passagem, como trans- precisa se adaptar ao novo meio associado. A
formação de um tipo de sinal em outro, uma presença de dois corpos com seus meios as-
energia em outra, uma fusão. De uma fase do sociados não assegura a transdução, pois ela
desdobramento, ela chama outra fase com- tem que atingir do elemento ao indivíduo ou
plementar numa relação de analogia, desfa- conjunto. Se o elemento de um corpo não se

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adapta ao meio associado de outro corpo, tor- estrutura, permite compreender as condições
na-se inviável a transdução entre os corpos, sistemáticas da individuação, seguir o ser em
ou seja, quando há transdução pelos elemen- sua gênese.
tos que se adaptam, há invenção de novos Nas fotografias “InCorpORaÇõEs” (2010)
meios associados em ambos os corpos. de Andréia Oliveira, ao trabalhar os elementos
A transdução se efetua na ação estrutural dos corpos das modelos fotografadas surgem
e funcional, extrapolando a unidade fechada qualidades que já estavam potencializadas e
em si e a identidade. Ela está na ordem da que passam transdutivamente para a nova
invenção, já que não é indutiva (mantém o forma construída. O processo de criação é
que é comum a todos os termos, eliminando essencialmente transdutivo, já que “a ordem
suas singularidades) nem dedutiva (busca um transdutiva é aquela segundo a qual um esca-
princípio universal para resolver um proble- lonamento qualitativo ou intensivo se estabe-
ma), se direcionando a “descobrir dimensões” lece de uma parte e da outra a partir de um
de uma problemática ao ser definida. Ao se centro no qual culmina o ser qualitativo ou in-
buscar entender a constituição transdutiva tenso” (SIMONDON, 1964, p.145). Na referida
dos objetos tecno-estéticos (obra de arte) do obra, cada modelo desencadeia uma série de
elemento ao conjunto, se revela o si próprio e fotografias a partir de seus elementos e formas
o meio que o formou, um modo de produção implícitas, sendo que cada série é constituída
que está no indivíduo ao atualizar no pré-indi- por séries de heterogeneidade de elementos.
vidual dos elementos. A arte propõe um não- A imagem visível, o indivíduo manifestado é
modo determinado, como se no entorno do in- somente uma fase dessas séries que, por sua
divíduo restasse uma realidade pré-individual vez, se desdobra a partir de um centro, “ten-
associada a ele, permitindo-lhe a comunica- dências a partir do centro para os extremos,
ção para instituir o coletivo. Simondon coloca tendências já contidas no centro como dentro
que a transdução “aplica-se à ontogênese e da série” (Ibidem). A obra é composta pelas
é a própria ontogênese” (SIMONDON, 2003, séries transdutivas dos elementos.
p. 113) que comporta objeto tecno-estético e O elemento não pode ser apreendido e
meio associado. classificado a priori, bem como não pode ser
Portanto, o meio associado torna-se im- visto isoladamente, sempre há heterogenei-
prescindível porque ele contém os elemen- dade de elementos organizados em séries e
tos que apresentam propriedade transdutiva. que fazem associações no meio ao qual en-
Na tecnicidade, a qualidade do elemento se contram-se associados, ele é associativo. Por
transporta a novos conjuntos, há uma pro- isso, visa-se compreender o elemento não em
pagação dinâmica do elemento ao conjunto e sua materialidade, mas em sua organização
vice-versa em constante e recíproca mutação. (OLIVEIRA, 2010). Quando o elemento tran-
A tecnicidade somente existe inteira ao nível sita em meios tecnológicos dissimilares, ele
do elemento, sendo assim, nos interessa, em aporta suas qualidades para a organização no
especial, os elementos, pois se compreende novo meio tecnológico e constituição de no-
que eles detém a tecnicidade em seu estado vos indivíduos e conjuntos. Pode-se dizer que
de potência. Quando se fala que a transdu- a forma de operação da individuação consiste
ção é um escalonamento qualitativo de uma em: primeiro existe o elemento pré-individual;
parte a outra em um meio associado, ela é posteriormente, o indivíduo como uma fase da
ampliação o domínio inicial que adquire mais a individuação em que os elementos se concre-

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tizam; por fim, o conjunto que os indivíduos novos elementos podem ser produzidos pela
constituem e a abertura para novos elemen- particularidade deste encontro. A arte atribui
tos. De acordo com Simondon: expressividade às qualidades da matéria.
Como, por exemplo, no elemento cor ver-
O elemento transmite a realidade técnica concre- melho que por si só não tem qualquer signi-
tizada, enquanto o indivíduo e o conjunto contêm
ficação, apenas no meio em que se encontra,
essa realidade técnica sem poder veiculá-la ou
transmiti-la; eles não podem mais que produzir podendo estar relacionado às paixões, à guer-
ou se conservar, sem transmitir; os elementos ra, ao movimento, à morte, dependendo do
têm uma propriedade transdutiva que faz deles
meio composicional e do meio cultural em que
os verdadeiros portadores da tecnicidade, como
os grãos que veiculam as propriedades da es- faz parte. Como Deleuze (1992) tem mostrado,
pécie e vão refazendo indivíduos novos (SIMON- existem diferenças entre a qualidade da cor
DON, 1989, p. 73).
compreendida pela percepção e o sentido da
cor compreendida pelo sentido da percepção
Não temos como explicar porque um ele- ou pela percepção na percepção. Nas árvores
mento se adapta ou não, ou mesmo como ele existem a qualidade verde e muitos modos de
se move. Eles não se fixam permanentemente capturar esse verde pela percepção; mas tem
em um meio definido nem em uma época. Eles o verdejar da árvore, o tornar-se verde da ár-
saltam entre os meios associados distintos,
vore que está sempre mudando e nos fala da
em campos, épocas ou tecnologias diferentes;
constituição da árvore, de seus elementos.
gerando em cada novo meio associado, novos
Quando se fala que a árvore é verde, fala-se
indivíduos e conjuntos. Também a dinâmica do
sobre uma das suas qualidades, mas ao falar-
conjunto produz novos elementos. O elemento
mos que a árvore verdeja, expressa-se o sen-
é a-significante antes do encontro, ganha sig-
tido de existência da árvore, isto é, a árvore
nificação na adaptação ao meio e composição
vive para verdejar, para expressar seu atribu-
e relação com outros elementos.
to, ou melhor, tornar-se verde pelas tecnicida-
des de seus elementos. O verdejar, o sentido
Elementos, então, não são objetos ou coisas,
mas o potencial ou as restrições não-atuais da cor compreendida pelo sentido da percep-
que poderiam definir uma multiplicidade... As- ção, é a tecnicidade da árvore, sua tecnologia
sim, não somente os elementos estão diferen-
de sobrevivência que permite expressar suas
temente mudando, mas as relações entre esses
elementos, estão elas próprias mudando. Final- qualidades em ação, seus atributos. Verdejar
mente, eles são singularidades, que, através dos como tecnicidade seria o que pode um corpo,
elementos e das relações (ambos direfenciais),
as potências de um corpo, sua tecnologia de
realmente encarnam termos, formas, qualidades
e espécies (coisas, objetos, organismos) (Tha- existência. A tecnicidade, o modo de verdejar
cker In: POSTER & SAVAT, 2009, p. 174). daquela árvore, o modo de ser daquele indi-
víduo, amplia a noção do elemento cor verde
Cada elemento tem sua forma implícita que e, mais ainda, amplia a noção de qualidade do
constrói as singularidades do meio associado. elemento que torna-se efeito de ações intensi-
É na organização que os elementos adquirem vas. Assim, inquire-se experiências em obras
qualidades e transportam tecnicidades. Quan- que nos levem a verdejar, marejar, levejar,
to mais aguçada for a sensibilidade intuitiva do durar, bravejar, criançar, maquinar, nos devi-
artista para essas qualidades, mais elementos res humanos e não humanos em processos de
associativos penetram no novo meio e mais individuação na arte e na vida.

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A qualidade também aparece como efeito prio, no seu funcionamento e nas reações de
de trabalho sobre as formas implícitas, uma seu funcionamento sobre a utilização, aberto
vez que “a forma implícita é real e existe ob- a processos inventivos.
jetivamente; a qualidade resulta frequente- A invenção pensada dentro do processo de
mente de eleições que a elaboração técnica individuação é uma ação do futuro no presen-
faz das formas implícitas” (SIMONDON, 1964, te. Como se sabe, a obra de arte não é uma
p.32), isto é, a qualidade é um efeito da ope- soma dos elementos dados a priori, tudo ocor-
ração técnica sobre as formas implícitas da re no momento da composição. Todavia, ainda
matéria. Neste sentido, o elemento corres- se observa certa tendência de se pensar que
ponde à operação técnica e não ao objeto, algo do passado produz a obra do presente,
sendo o potencial de transformação no pro- como uma ideia do artista empregada em cer-
cesso de criação. ta tecnologia, uma linearidade causa-efeito,
passado-presente. Contudo, coloca-se, aqui,
Diz-se, neste sentido, que o pintor é pintor, e outra abordagem sobre o tempo na produção
nada além de um pintor, “com a cor captada
da obra de arte em que o futuro se encaminha
como sai fora do tubo, com a marca, um depois
do outro, dos pêlos do pincel”, com este azul que para o presente, algo que só pode vir a ser
não é um azul de água mas “um azul de pintura quando se torna realidade no encontro entre
líquida (Deleuze & guatarri, 1992, p. 216). dois ou mais fatores no momento presente.
“O momento da invenção é quando dois
Não é um sujeito que observa a realidade conjuntos de potências conectam juntos, co-
exterior, um espectador que observa a obra ou pulando em um único sistema contínuo”...
um artista que dá forma à matéria inerte; há “Um novo “regime de funcionamento” que, de
um sistema que se opera em nível molecular. repente, saltou para a existência” (MASSUMI,
Corpos não antropomórficos; matéria e forma 2009, p. 39). Algo novo, da ordem da inven-
não dissociadas. Tal perspectiva vai contra o ção, se cria, um sistema contínuo que se auto-
esquema hilemórfico7 que separa forma e ma- mantém através das diferenças. Ao se escutar
téria e que compreende o ser como algo já in- o som e ver as imagens em uma videoinsta-
dividuado. Afirma-se, aqui, outra maneira de lação , algo surge que não é nem mais o som
compreensão da obra que a considera como e nem mais as imagens, mas algo novo que
um sistema obra-homem-meio. se produz no entre som e imagem, no meio
A obra de arte não é uma coisa dada aqui associado que cria um sistema indissolúvel e
e agora, é uma dinâmica dos seus caracteres metaestável. Som + imagem + espaço + es-
de consistência e de convergência de sua gê- pectador + + +, não é a obra, pois algo da
nese; o que faz ela se tornar o que é e não ordem da invenção se produz, sendo potên-
outra coisa. Ela consiste em uma unidade de cias do futuro que podem, ou não, se atua-
devir que se concretiza em cada etapa e não lizarem no presente. Há uma disparação de
anterior a ela. O princípio deste progresso algo que não existia nos elementos no passa-
encontra-se, portanto, na maneira pela qual do, que é trazido do futuro, isto é, informação
o objeto se causa e se condiciona a si pró- ou singularidades da obra. Não há uma causa
no passado8 e sim uma disparação de algo no
7 O esquema hilemórfico ocorre quando tomamos o indiví-
duo depois da individuação como realidade completa, como
um termo fechado, considerando apenas visíveis e dissocia- 8 Esclarece-se que o passado referido diz respeito a um tem-
dos os aspectos de forma e matéria. po cronológico linear, diferente de um passado bergsoniamo

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presente que pode vir a ter novas qualidades e suas potencializações podem produzir a in-
na operação. Assim, a causa se dá dentro da venção. O artista é um mediador que contribui
própria operação quando os elementos exis- com seus próprios elementos nesse sistema,
tentes se misturam, entrando numa relação não mais um sujeito-autor individual com sua
dinâmica. intenção. De acordo com Oiticica, o estado de
A mistura não está anterior ao encontro invenção é profundamente solitário, mas ele
dos elementos heterogêneos e os próprios é profundamente coletivo (OITICICA, 2009, p.
elementos não são os mesmos antes e du- 234). A invenção ocorre em uma operação au-
rante a mistura, deste modo, não podendo to-solidária em que o efeito futuro toma lugar.
ser encontrado no passado. “Se a potência Há relações dinâmicas em constante alteração
não estava efetivamente no passado, existe entre elementos da obra, do artista, dos parti-
somente um lugar de onde ela pode vir: do cipantes e do meio.
futuro” (Ibidem, p. 40). O artista traz os ele- Finalizando, questiona-se que pensamento
mentos, mas o modo como eles vão se au- pode sustentar tal experiência na obra de arte
to-condicionar formando um sistema depen- que lida, diretamente, com sua constituição?
de da potência dos elementos se comporem Simondon, ao aportar uma filosofia técnica, se
formando corpo, enfim, dependo do que pode volta a um pensamento processual em cons-
um corpo. Não se sabe o que pode um corpo tante individuação e direcionado a uma onto-
antes de ocorrer o encontro, pois o “corpo é gênese do ser (indivíduo e meio) humano e
surpreendente”, como já disse Spinoza. Pode- não humano, ou seja, preocupa-se com como
se falar de elementos ou corpos, dependendo as coisas se tornam o que são, e não suas con-
da escala de análise. O artista tem uma ideia figurações finais. Pensamento esse que pode
sobre os possíveis dos elementos e uma in- sustentar uma abordagem sobre a experiên-
tuição sobre suas potências, todavia, somente cia na obra de arte, já que esta se modifica ao
a causalidade recorrente entre os elementos longo do tempo e ganha existência justamen-
te em seu processo de construção matéria-
tomando-forma a partir de individuações do
em que o passado é um reservatório do tempo em que coe-
xiste passado/presente/futuro. sistema humano-obra-meio.

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Recebido em: 02 de outubro de 2011


Aprovado para publicação em: 12 de novembro de 2011

Apoio: FAPERGS/Brasil.

Andréia Machado Oliveira


Professora Adjunta I do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais no Centro de Artes e Letras; professora
pesquisadora I da Universidade Aberta do Brasil e Coordenadora do curso de Especialização de TIC aplicadas
à Educação da Universidade Federal de Santa Maria/NTE/UAB/UFSM-Brasil, Santa Maria/RS, Brasil. E-mail:
andreiaoliveira.br@gmail.com

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